segunda-feira, 20 de abril de 2026

Lula pede regulação global das redes sociais: 'Muito ódio, promiscuidade, sexo e jogatina'

Ao participar de um fórum com líderes mundiais de esquerda neste sábado (18/4), em Barcelona, na Espanha, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou que as redes sociais precisam ser reguladas em âmbito global.

"Vamos ser cada vez mais duros porque, se o Estado não agir, a gente não controla as chamadas plataformas digitais, que, de rede social, não tem nada. Pouco social e muito ódio, muita promiscuidade, muito sexo, muita jogatina e muito pouco social", afirmou Lula, ao lado do primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, anfitrião do evento.

Também participaram do encontro, que se estende até o fim da tarde deste sábado, cerca de 20 líderes e chefes de Estado, entre eles Gustavo Petro, presidente da Colômbia; Claudia Sheinbaum, presidente do México; e Gabriel Boric, ex-presidente do Chile.

A declaração de Lula ocorre após outra crítica às redes sociais, feita na sexta-feira (17/4), quando foi questionado sobre a regulação que países da Europa e a Austrália têm adotado para estabelecer uma idade mínima para uso das plataformas.

"Precisamos regular tudo o que for digital, para que a gente dê soberania ao nosso país e não permita intromissão de fora, sobretudo em um ano eleitoral", afirmou.

"Não é possível tratar como normal e como liberdade de expressão a indústria da mentira, da violência verbal, da desinformação, como tem acontecido no planeta."

Na sexta-feira, Lula citou o pleito brasileiro, marcado para outubro, mas agora ampliou o debate e disse que este não é um problema específico do Brasil.

"Controlar as plataformas digitais e pôr regras democráticas é uma questão mundial. No Brasil, estamos tentando fazer nossa parte, porque a verdade nua e crua é que a mentira ganhou da verdade. Para mentir, você não tem que explicar, para se justificar você tem, e muitas vezes não consegue. Esse é um desafio para nós, chefes de Estado."

<><> Lula chama China, EUA, França, Inglaterra e Rússia de 'senhores da guerra'

Na sexta-feira, em encontro com empresários, Lula afirmou que não quer guerra com o líder chinês, Xi Jinping, o presidente russo, Vladimir Putin, e o presidente americano, Donald Trump, ou qualquer outro líder.

Neste sábado, Lula repetiu esse discurso e criticou novamente o que chamou de ineficiência das Organização das Nações Unidas (ONU).

"Hoje, a ONU não representa aquilo para a qual ela foi criada. Os membros permanentes do Conselho de Segurança, que era para garantir a paz do mundo, viraram os senhores da guerra."

Essa ineficácia, acrescentou, se deve à atuação dos membros permanentes de seu Conselho de Segurança (China, Estados Unidos, França, Reino Unido e Rússia).

"Eles tomam decisões sem consultar a ONU. Para quem [George W.] Bush pediu para invadir o Iraque? Para ninguém. Para quem a França e a Inglaterra pediram para invadir a Líbia? Ninguém. Que mal [Muamar] Khadafi causava ao mundo? Nenhum. Para quem a Rússia pediu para invadir a Ucrânia? Para ninguém. São decisões unilaterais que não respeitam o fórum do qual essas pessoas participam", disse Lula.

O presidente brasileiro também criticou o funcionamento do Conselho de Segurança, com a possibilidade de representação por embaixadores — e não pelos próprios líderes —, além do poder de veto dos membros permanentes sobre decisões aprovadas.

"Há quantos anos estamos tentando mudar a representação? Cadê a representação africana? Cadê a participação do México, do Brasil, da Argentina, da Colômbia? Cadê a participação da Índia? Tantos países importantes, como o Japão, poderiam participar. E por que não participam?", questionou.

Lula citou por fim a situação de Cuba, que, sob pressão após a prisão de Nicolás Maduro por Trump e sem apoio da Venezuela, enfrenta uma crise sem precedentes.

"Eu estou preocupado com Cuba, mas o problema é dos cubanos, não é um problema do Lula. Parem com esse maldito bloqueio a Cuba e deixem os cubanos viverem a vida deles."

A declaração sobre Cuba segue o mesmo tom da que o presidente fez sobre a Venezuela em entrevista coletiva na sexta-feira. "Tenho muitas preocupações no Brasil para me preocupar com a Venezuela. O que eu quero é que a Venezuela fique bem e seja feliz, sem tutela de ninguém."

Lula não reconheceu o resultado das eleições venezuelanas depois que Maduro se recusou a enviar às autoridades brasileiras documentos que comprovassem a autenticidade do pleito. Mas o petista afirmou que a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, ocupa o cargo de forma legítima.

"A Venezuela é um destino dos venezuelanos. A presidente Delcy está no poder, legitimamente, porque, na medida em que o presidente caiu, ela era vice e assumiu. Se ela quer ou não convocar eleições, é problema dela, do povo dela, da Venezuela."

No domingo (19/4), o presidente segue para Hannover, na Alemanha, onde participa de uma feira de negócios e tecnologia, e na terça-feira (21/4) visita Lisboa, capital de Portugal, nesta que deve ser a última grande viagem internacional de seu terceiro mandato.

•        Lula diz que não quer briga com Trump

Ao se encontrar com empresários espanhóis e brasileiros em Barcelona na tarde desta sexta-feira (17/4), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) reforçou o tom de comedimento que tem adotado nesta que deve ser sua última grande viagem internacional antes do início da campanha eleitoral.

Exemplo disso foi uma fala que fez ao final do encontro, com o objetivo de tranquilizar os empresários e incentivar negócios às vésperas da entrada em vigor do acordo Mercosul–União Europeia, em 1º de maio, que criará uma das maiores zonas de livre comércio do mundo.

"Eu digo todo dia: eu não quero briga com Xi Jinping, não quero briga com [Vladimir] Putin, não quero briga com [Donald] Trump, não quero briga com a menor ilha que exista no mundo. O que quero é paz, investimento, gerar melhoria nas condições de vida do povo brasileiro."

Lula condenou a guerra no Irã, chamando-a de "desnecessária, inconsequente, sem justificativa", sem mencionar, no entanto, os nomes do presidente americano e do primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, que deram início ao conflito com ataques coordenados contra o Irã.

"Não é possível que alguém resolva fazer guerra quando o mundo precisa de paz, investimento, tranquilidade, educação. Tudo o que não precisamos é de guerra."

Ele também evitou se aprofundar no conflito desencadeado na Venezuela após a prisão de Nicolás Maduro pelos Estados Unidos em janeiro.

"Tenho muitas preocupações no Brasil para me preocupar com a Venezuela. O que eu quero é que a Venezuela fique bem e seja feliz, sem tutela de ninguém", ele disse mais cedo, em entrevista coletiva.

Lula não reconheceu o resultado das eleições venezuelanas depois que Maduro se recusou a enviar às autoridades brasileiras documentos que comprovassem a autenticidade do pleito. Mas o petista afirmou agora que a vice-presidente venezuelana, Delcy Rodríguez, ocupa o cargo de forma legítima.

"A Venezuela é um destino dos venezuelanos. A presidente Delcy está no poder, legitimamente, porque, na medida em que o presidente caiu, ela era vice e assumiu. Se ela quer ou não convocar eleições, é problema dela, do povo dela, da Venezuela", disse.

A declaração foi feita após uma pergunta dirigida ao primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez. Ele foi questionado sobre a possibilidade de um encontro com María Corina Machado, líder da oposição venezuelana, que está em Madri.

A opositora afirma ter vencido as eleições no país no ano passado e acusa Maduro de fraude. Sánchez respondeu que chegou a oferecer uma reunião a Machado, mas ela teria recusado o convite.

Lula pousou em Barcelona no fim da noite de quinta-feira (16/4), por volta das 23h no horário local, às 18h em Brasília. A agenda de sexta-feira começou com uma reunião a portas fechadas com Sánchez, seguida de encontros com ministros de Estado espanhóis e brasileiros, no Palácio de Pedrálbes.

Foram assinados 15 acordos entre os dois países, com destaque para as áreas de minerais críticos, economia social e solidária, assuntos consulares, cooperação cultural, ciência e tecnologia, igualdade de gênero e igualdade racial, firmados na presença de jornalistas.

<><> 'Ninguém tomará a riqueza mineral do Brasil'

Um dos principais acordos firmados diz respeito aos chamados minerais críticos — lítio, níquel, cobalto, nióbio, cobre, manganês e grafite.

Eles são essenciais para a produção de componentes tecnológicos, como baterias para veículos elétricos, e também para a indústria bélica, sobretudo a fabricação de aeronaves, drones e armamentos.

Os Estados Unidos têm alta dependência da China para a aquisição desses minerais, enquanto o Brasil dispõe de reservas ainda inexploradas.

Antes da Espanha, o único país com o qual o Brasil havia firmado um acordo sobre o tema era a Índia, durante visita do presidente Lula ao país, em fevereiro.

Mas ambos os documentos não dizem respeito à extração de minérios, e sim à cooperação na área. Isso porque, afirmou Lula, a ideia é que seja criada uma cadeia produtiva para evitar a exportação de matéria-prima bruta.

"O Brasil já deixou passar o ciclo do ouro, em que levaram tudo, enriqueceu vários países, e o Brasil ficou pobre. A América Latina já deixou passar o ciclo do ouro, o ciclo da prata, da pérola e da madeira", disse o presidente.

"Não podemos agora permitir que a riqueza que a natureza nos deu não permita que a gente fique rico. Estamos dispostos a fazer acordo com todos os países que quiserem fazer acordo com o Brasil. Mas ninguém, ninguém a não ser o Brasil, será dono da nossa riqueza mineral."

<><> Lula evita menções a Trump

A passagem pela Espanha, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, é vista como um campo minado caso Lula suba o tom contra Trump.

Para Guilherme Casarões, professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida, Lula deve "tomar cuidado para não apertar os botões errados" e evitar se empolgar nas críticas ao republicano.

Uma declaração em uma ocasião como esta, diante de jornalistas do mundo inteiro, pode ter repercussão mais ampla — e mais rápida, em diferentes idiomas — do que falas feitas no dia a dia no Brasil.

Em outras palavras, afirma o professor, Lula tem de equilibrar eventuais críticas a Trump — para dialogar com sua base e aliados de esquerda — sem elevar o tom a ponto de afastar outra parcela do eleitorado, que considera essencial manter uma boa relação com os Estados Unidos e com o próprio presidente americano.

Esse cálculo ocorre em um cenário eleitoral sensível. O senador Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como o principal adversário de Lula, aparece numericamente à frente em pesquisas de intenção de voto para um eventual segundo turno.

Na pesquisa mais recente da Quaest, divulgada na quarta-feira (15/4), Lula tem 40% das intenções de voto, contra 42% de Flávio.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, deixou o Brasil para viver nos Estados Unidos e se aproximar de figuras-chave do governo Trump.

Esse movimento reforça, entre eleitores que rejeitam Lula, a percepção do filho de Jair Bolsonaro (PL) como uma ponte mais confiável na relação entre Brasil e Estados Unidos, segundo analistas.

No sábado (18/4), Lula participa de um evento promovido por Sánchez que reúne lideranças progressistas diante do avanço da direita radical. Trata-se do Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global, em tradução livre), uma iniciativa que discute temas como ameaças à democracia, desinformação e violência de gênero.

No domingo (19/4), o presidente segue para Hannover, na Alemanha, onde participa de uma feira de negócios e tecnologia.

A viagem será encerrada na terça-feira (21/4), com uma visita a Lisboa, capital de Portugal.

•        Lula critica paralisia da ONU e defende nova governança democrática em fórum internacional

Lula participou neste sábado (18) da 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre, em Barcelona, encontro que reúne líderes de várias regiões para discutir o fortalecimento das instituições democráticas e os desafios globais à governança.

O fórum, criado em 2024 por iniciativa de dirigentes progressistas como o brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o espanhol Pedro Sánchez, busca ampliar a articulação internacional em defesa da democracia diante do avanço de movimentos que consideram autoritários.

Durante a reunião, Lula criticou novamente a inação da ONU diante das crises internacionais.

"Veja, a ONU que teve força para criar o Estado de Israel não tem força, sequer, para manter o Estado palestino. Aliás, ela não tem força para manter as terras demarcadas, que foram demarcadas na própria ONU. Então a democracia que nós precisamos discutir aqui, entre chefes de Estado, é se o mundo vai continuar do jeito que está ou se nós vamos tentar mudar esse mundo", declarou.

A edição deste ano ocorre em um contexto de tensões internacionais, marcado por conflitos armados, especialmente no Oriente Médio, e por disputas políticas envolvendo grandes potências. O ambiente reforça a necessidade de cooperação entre governos comprometidos com a estabilidade democrática.

"Nenhum presidente de nenhum país do mundo, por maior que seja, tem o direito de ficar impondo regras a outros países. Nenhum", disse Lula ao criticar os membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU.

Além disso, o presidente fez alusão à prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro e aliados, condenados por atentado contra a democracia. De acordo com ele, apesar das prisões e da inelegibilidade de Bolsonaro, o extremisto no Brasil "continua vivo e vai disputar as eleições outra vez".

O presidente brasileiro criticou diversos conflitos ao redor do mundo, dizendo que "decisões unilaterais, que não respeitam os fóruns" dos quais os envolvidos participam não mudam a realidade da democracia. Para Lula, a ONU não pode ficar silenciosa ao ver o que está acontecendo no mundo.

"Trump invadiu o Irã e aumenta o feijão no Brasil, aumenta o milho no México, aumenta a gasolina em outro país. Ou seja, é o pobre que vai pagar a irresponsabilidade de guerras que ninguém quer?", questionou Lula ao afirmar que o mundo não precisa de guerras enquanto ainda tiver pessoas passando fome.

Ainda de acordo com o presidente, os desafios da democracia têm sido ampliados pela ausência de regulação das redes sociais, que transmitem discursos classificados por ele como "mentirosos" e que, muitas vezes, não conseguem ser combatidos a tempo para que a verdade prevaleça.

Lula chamou a atenção para outros organismos multilaterais como o G20, a UNASUL e a CELAC, que sempre funcionaram, mas a falta de institucionalidade, muitas vezes, leva em consideração as lideranças, não seus Estados, daí a importância de se fortalecer a ONU e o multilateralismo.

"Estou preocupado com Cuba, muito preocupado com Cuba. Cuba tem problemas, mas é um problema dos cubanos, não é um problema do Lula, da Cláudia [Sheinbaum] e do [Donald] Trump, é um problema do povo cubano. Parem com esse maldito bloqueio a Cuba e deixem os cubanos viverem a vida deles. Não é possível que a gente fique quieto diante disso", afirmou.

Na véspera do fórum, Lula participou da 1ª Cúpula Brasil-Espanha, dedicada a reforçar a parceria bilateral. O encontro começou com uma reunião restrita entre os chefes de governo, seguida de uma plenária com ministros dos dois países, onde foram discutidas áreas estratégicas de cooperação.

Durante a cúpula, Lula e Sánchez assinaram atos em temas como igualdade de gênero, combate à violência contra as mulheres e economia social, ampliando o escopo da colaboração institucional.

Ambos também fizeram declarações públicas e responderam a perguntas de jornalistas.

 

Fonte: BBC News Brasil/Sputnik Brasil 

 

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