A
crítica cultural em tempos de redes sociais
A
reflexão sobre o papel da crítica na contemporaneidade exige, antes de mais
nada, que se abandone qualquer pretensão de neutralidade. Como nos mostra
Theodor Adorno no ensaio Crítica cultural e sociedade, a própria existência do
crítico cultural é marcada por uma contradição fundamental: ele não está
satisfeito com a cultura, mas deve unicamente a ela esse seu mal-estar.
O
crítico fala como se fosse o representante de uma natureza imaculada ou de um
estágio histórico superior, mas é necessariamente da mesma essência daquilo que
pensa ter a seus pés. Essa ambiguidade, longe de ser um defeito a ser
corrigido, constitui o terreno fértil a partir do qual qualquer juízo crítico
pode, quando bem conduzido, escapar à dupla armadilha da mera celebração ou do
linchamento gratuito.
Nos
últimos dias, dois episódios reacenderam essa discussão ruidosamente. O
primeiro ocorreu às vésperas da cerimônia do Oscar, quando o colunista Gustavo
Alonso, em um gesto que contrariava o coro quase unânime da crítica e do
público, ousou questionar a consagração de O agente secreto, de Kleber Mendonça
Filho, apontando uma suposta limitação do diretor como roteirista, o que
desencadeou um debate sobre os limites entre a análise crítica e a expectativa
de adesão ao sucesso nacional.
Dias
depois, foi a vez de o jornalista João Perassolo publicar uma avaliação
negativa do novo álbum da cantora Marina Lima, intitulado Ópera Grunkie. A
crítica gerou expressivo desconforto, levando a própria artista a se manifestar
em suas redes sociais, não apenas para discordar da avaliação, mas também para
questionar a própria natureza e a pertinência da análise realizada.
Diante
desses dois acontecimentos, que rapidamente se transformaram em combustível
para discussões que ultrapassaram os méritos do filme ou do disco, coloca-se
uma questão central para a reflexão sobre o papel da crítica na atualidade.
Qual é, afinal, a sua função em um ecossistema cultural profundamente marcado
pela lógica do engajamento, pela cultura do cancelamento e pela diluição das
fronteiras entre opinião e análise especializada?
Mais do
que avaliar acertos ou equívocos nas ponderações de Gustavo Alonso ou João
Perassolo, o que esses episódios escancaram é uma espécie de mal-estar em torno
da própria crítica especializada. Em um momento em que as redes sociais
funcionam como uma câmara que amplifica tanto a consagração quanto a rejeição.
A crítica, historicamente concebida como um espaço de mediação, estranhamento e
formação de repertório, parece oscilar entre a irrelevância e o linchamento,
sem conseguir encontrar um lugar estável no debate público.
É essa
tensão, entre a necessidade de um pensamento que se coloque contra a corrente
quando necessário e a pressão por uma adesão afetiva imediata à obra ou ao seu
autor, que buscaremos explorar.
Para
compreender os contornos desse mal-estar, é necessário recuar um pouco e
examinar as transformações pelas quais a própria crítica passou nas últimas
décadas. Como assinalam Rosana de Lima Soares e Gislene da Silva, desde o
estabelecimento do lugar da crítica como campo teórico, a partir do surgimento
de diversos circuitos culturais de produções artísticas, discute-se muito sobre
quem deve e pode fazer a crítica, quais são os juízos e valores em jogo e, mais
especialmente, qual é a sua finalidade em relação à formação de público.
No caso
específico da crítica cultural, essas questões se colocam com particular
acuidade, na medida em que os objetos analisados (filmes, discos, séries,
exposições) circulam em um ambiente saturado de opiniões pré-fabricadas e de
expectativas de consumo que antecedem e, muitas vezes, substituem a própria
experiência estética.
Em
Cenas da vida pós-moderna, a escritora e ensaísta Beatriz Sarlo identifica
aspectos centrais desse fenômeno ao destacar que a crise da educação, o
enfraquecimento das instituições tradicionais e o predomínio dos meios de
comunicação de massa enquanto mediadores culturais contribuíram para a
desestabilização das identidades nacionais. Nesse quadro, evidencia-se a
crescente centralidade do consumo na organização da vida cultural, o que tende
a reconfigurar também o lugar do próprio cidadão, e em consequência do
consumidor da arte e aquele a quem está dada a tarefa de avaliá-la.
Nesse
contexto, a crítica, quando não se reduz a uma espécie velada de marketing,
passa a ser percebida como uma intrusão indesejada, um resquício de um tempo em
que se acreditava na possibilidade de um juízo fundamentado capaz de orientar o
gosto e o debate público.
No
entanto, essa ampliação do escopo da crítica também gerou reações. Por um lado,
ela foi celebrada por promover uma renovação nos estudos literários e
artísticos. Por outro lado, foi acusada de relegar o estético a um segundo
plano em suas discussões e de preocupar-se demasiadamente com questões que
extrapolam o âmbito da obra em si.
O que
essa controvérsia demonstra, como observa o sociólogo José Luiz Braga, é que a
crítica se tornou, em determinados casos, um dispositivo social de
enfrentamento da mídia, mas ainda carece de gêneros e dispositivos críticos
estáveis que permitam uma sistematização aberta e uma percepção explícita de
seus enfoques, objetivos e resultados concretos, tanto para o conhecimento do
objeto escrutinado quanto para a capacidade interpretativa dos receptores.
É nesse
cenário de indefinição e disputa que os episódios envolvendo Gustavo Alonso e
João Perassolo adquirem uma dimensão que vai além da contenda entre crítico e
público. Subjacente a ambos está a própria legitimidade do ato crítico em um
ambiente cultural que, como aponta Nelly Richard, tende a funcionar por meio de
uma gramática de circulação das mensagens dominantes que dificilmente deixa
espaço para o estranhamento, para as “obliquidades da linguagem” e para as
“rupturas de plano” que caracterizam o pensamento crítico.
A
crítica de Gustavo Alonso ao filme O agente secreto e ao seu diretor não foi
contestada apenas por seu conteúdo, mas pelo gesto em si: questionar a
unanimidade em torno de um filme que, por sua temática, por seu diretor e pelo
momento de sua estreia e a expectativa em torno da premiação internacional,
parecia ter se tornado um objeto de veneração quase intocável.
Algo
semelhante ocorreu com a avaliação negativa de João Perassolo sobre o álbum de
Marina Lima. A cantora, ao manifestar seu desconforto nas redes sociais, não
apenas discordou da análise, mas colocou em xeque o próprio direito do crítico
de avaliar sua obra. Esse tipo de reação, que se tornou cada vez mais comum nos
últimos anos, nos mostra uma transformação significativa na relação entre
artistas, críticos e público.
Como
observa Roberto Henrique Seidel, a crítica cultural contemporânea precisa ser
compreendida como “criticar o desenho do presente”. Trata-se, portanto, de um
exercício que não se limita a julgar a qualidade de um filme ou de um disco,
mas que busca interrogar as condições de produção, circulação e recepção das
obras, os valores que as consagram e os silêncios que as cercam. Nesse sentido,
a crítica não pode se furtar ao confronto com as hierarquias estabelecidas, com
os consensos artificiais que tomam muitas vezes o lugar da reflexão e com a
lógica do mercado que tende a reduzir a arte a um produto de entretenimento.
Pensando
ainda no debate conceitual, outra contribuição importante para refletir sobre o
papel da crítica na sociedade contemporânea foi apresentada por Jürgen
Habermas, a partir de sua teoria da esfera pública. Em Mudança estrutural da
esfera pública, o autor concebe a esfera pública como um espaço de mediação
entre a sociedade civil e o Estado, no qual indivíduos privados se reúnem para
discutir assuntos de interesse comum e formar uma opinião pública capaz de
legitimar ou contestar o poder político.
No
entanto, conforme destaca Cristiana Losekann, a formulação habermasiana
original estava vinculada a uma categoria histórica específica, a burguesia do
século XVIII, além de se apoiar em pressupostos que foram amplamente criticados
por autoras como Nancy Fraser, Seyla Benhabib e Iris Marion Young. Fraser, em
particular, questiona algumas das premissas basilares desse modelo, a saber: a
possibilidade de igualdade plena entre interlocutores em uma sociedade
estratificada; a defesa de uma esfera pública única; a exclusão de questões
consideradas “privadas” do debate público; e a separação rígida entre sociedade
civil e Estado.
Se
Jürgen Habermas nos ajuda a pensar a crítica como um elemento central da esfera
pública democrática, Walter Benjamin oferece instrumentos para compreendê-la
como uma prática de resgate dos elementos marginalizados pela tradição
cultural. Em suas Teses sobre o conceito de história, Benjamin formula uma
contundente crítica à concepção linear da história, que associa às classes
dominantes, ao afirmar que “não há documento de cultura que não seja também
documento de barbárie”.
Essa
perspectiva tem implicações profundas para a crítica cultural, pois, se toda
obra de arte carrega as marcas das relações de dominação que a tornaram
possível, a crítica não pode se restringir a uma análise exclusivamente formal;
é preciso, como propõe o autor, “escovar a história a contrapelo”, isto é,
interrogar a tradição a partir do ponto de vista dos vencidos e resgatar os
elementos sistematicamente apagados ou desqualificados.
Quais
são os critérios que consagram determinadas obras como “inquestionáveis”? Que
interesses estão em jogo na produção de unanimidades em torno de um filme ou de
um disco? E, sobretudo, que vozes e perspectivas são silenciadas nesse
processo? A crítica de Gustavo Alonso ao filme de Kleber Mendonça Filho e a de
João Perassolo ao álbum de Marina Lima podem ser lidas, nessa chave, como
gestos de interrupção de um consenso fabricado, como tentativas de abrir espaço
para o dissenso em um ambiente cultural que tende a sufocá-lo.
No
entanto, é preciso reconhecer que a crítica também carrega consigo uma dimensão
de poder que não pode ser ignorada. Como demonstra Mauro Souza Ventura, as
lutas entre os agentes em um determinado campo ocorrem tanto em função do
controle dos conceitos e das abordagens quanto em relação à escolha de
determinado objeto de estudo em detrimento de outro. Dito de outro modo: quem
critica quem e por quê?
Essa
questão, central para a compreensão do funcionamento da crítica na mídia, nos
remete às reflexões de Pierre Bourdieu sobre o campo da difusão e a hierarquia
das legitimidades. De acordo com o sociólogo francês, há uma relação direta
entre a tomada de posição de um agente e a posição por ele ocupada. Os agentes
de difusão, como jornalistas e críticos, tendem a conservar e reforçar as
hierarquias oriundas do campo da produção, mercadejando a notoriedade que estão
em condições de oferecer em troca da caução que lhes podem dar, com
exclusividade, os membros das instâncias de consagração mais legítimas.
Isso
significa que a crítica, por mais que pretenda ser independente, está sempre
permeada por relações de força simbólica que definem o que pode ou não ser
dito, quais objetos merecem atenção e quais autores são dignos de figurar como
objeto de análise. No caso brasileiro, essa dinâmica adquire contornos
particulares, na medida em que o campo cultural é marcado por uma forte
concentração de meios e por uma tradição de personalismo que muitas vezes
confunde o julgamento crítico com a adesão ou a rejeição pessoal.
Os
episódios envolvendo Gustavo Alonso e João Perassolo podem ser lidos como
momentos de ruptura dessa lógica. Ao contrariarem o consenso, ambos não apenas
exerceram seu ofício, mas colocaram em evidência os mecanismos de consagração e
exclusão que operam no campo cultural. A reação negativa que sofreram,
amplificada pelas redes sociais, revela o quanto a crítica ainda é percebida,
por uma parte significativa do público e até mesmo por artistas, como um gesto
de arrogância ou como uma ameaça a um modelo de relação afetiva com a obra que
não admite mediações.
A
questão que se coloca, então, é como pensar a crítica em um contexto no qual as
hierarquias tradicionais foram abaladas, mas novas formas de autoridade e
exclusão emergem com força. As redes sociais, ao mesmo tempo em que
democratizaram a possibilidade de emissão de opinião, criaram um ambiente em
que a especialização é frequentemente desqualificada em nome de uma suposta
autenticidade da experiência direta. Nesse cenário, a crítica corre o risco de
se tornar um gênero híbrido, situado entre o jornalismo, o ensaísmo e a
divulgação, sem conseguir definir com clareza seu lugar e sua função.
Aplicada
aos episódios recentes, essa perspectiva nos convida a ir além da polêmica
superficial e a perguntar, com rigor, quais são os critérios que orientaram as
análises de Gustavo Alonso e João Perassolo, em que medida eles foram capazes
de articular esses critérios de forma consistente e qual é a contribuição
efetiva de suas críticas para o debate público sobre as obras em questão.
Não se
trata, evidentemente, de dar razão a um ou a outro, mas de examinar o que suas
intervenções revelam sobre o estado da crítica no Brasil e sobre as
possibilidades de seu exercício em um ambiente cultural cada vez mais marcado
pela lógica do espetáculo e da opinião imediata.
Essa
pluralidade de abordagens, analítica, ensaística, crítica de intervenção, longe
de ser um problema, é condição de vitalidade da crítica. O que os episódios
recentes revelam, no entanto, é uma certa dificuldade do público e dos artistas
em reconhecê-la como legítima, preferindo uma relação de adesão imediata que
dispense a mediação crítica. A reação de Marina Lima à crítica negativa de seu
álbum pode ser lida, nessa chave, como um sintoma: a artista não apenas
discordou da avaliação, mas questionou o próprio direito do crítico de avaliar
sua obra, como se a relação entre criador e público devesse prescindir de
qualquer instância intermediária.
Sob
essa perspectiva, os casos envolvendo Gustavo Alonso e João Perassolo salientam
as tensões que cruzam o campo crítico, a oscilação entre consagração e
dissenso, entre adesão afetiva e julgamento fundamentado, bem como entre a
lógica do mercado e a exigência e necessidade de autonomia crítica e para
aquele que a produz.
Por
fim, convém considerar que a crítica, como lembra Beatriz Resende, constitui
uma prática historicamente situada, construída em diálogo constante com seu
tempo. Em um contexto marcado pela expansão dos meios de comunicação de massa,
pela intensificação dos fluxos culturais globais e pela desestabilização das
identidades nacionais, ela não pode se refugiar em um passado idealizado,
tampouco se submeter de modo acrítico às demandas do mercado.
Os
episódios aqui mencionados apontam, antes de tudo, para a necessidade de uma
reflexão mais aprofundada sobre o lugar da crítica na contemporaneidade. Não se
trata de reivindicar uma autoridade já esvaziada, nem de reduzi-la à
irrelevância sob a premissa de que toda opinião se equivale. Trata-se, antes,
de reconhecer seu caráter socialmente situado, envolto por tensões e
contradições, mas ainda assim capaz de desempenhar uma função decisiva:
interromper a naturalização da cultura, abrir espaço ao estranhamento e
contribuir para a formação de um público que ultrapasse o consumo passivo da
arte.
Como
nos lembra Jacques Rancière, a potência crítica não está apenas no próprio
objeto, mas também fora dele, no contexto e na recepção. A tarefa de
reconfigurar o sensível sob outros modos de percepção e significação não é
exclusividade do crítico, mas uma construção coletiva que envolve artistas,
público e mediadores. Nessa construção, a crítica desempenha um papel
insubstituível: o de manter viva a possibilidade do dissenso em um ambiente
cultural que tende a produzir consensos artificiais.
O que
está em jogo, portanto, não é a defesa de um modelo específico de crítica, mas
a defesa da própria possibilidade do juízo crítico em um ambiente que tende a
confundi-lo com mera expressão de gosto ou com ataque pessoal. Os casos de
Gustavo Alonso e João Perassolo são exemplares desse mal-estar e convidam a
pensar a crítica não como uma forma de escrita ultrapassada ou arrogância, mas
como prática necessária à vitalidade da cultura e à saúde do próprio debate
público.
Fonte:
Por Daniel Costa, em A Terra é Redonda

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