Luís
Fernando Vitagliano: A extrema direita, a ciência, o cavalo e a política
Sabemos
que a psicologia comportamentalista contradiz e superou o ditado popular: “Você
pode até levar um cavalo até a água, mas não pode obriga-lo a beber”. Ou
seja, segundo o conhecimento popular, qualquer pessoa não é capaz de gerar em outro
ser humano desejo, ou mesmo gerar uma relação de obediência plena porque entre
o mando e o controle está a vontade.
Mas as
estratégias de controle do comportamento dizem que não é preciso forçar o ato,
é possível influenciar e gerar a ação de modo indireto. Você pode subir neste
cavalo, cavalgar, cavalgar e cavalgar, até a exaustão, conduzi-lo a beira do
rio mesmo rio e mostrar a agua. Ele vai decidir beber sozinho. A decisão, que
aparentemente é dele, é exatamente a que você quer que aconteça. Não forcei
obediência, não criei a vontade, mas induzi através do comportamento que sou
capaz de motivar com estratégia.
Essa
lição foi incorporada aos estudos do marketing contemporâneo,
especificamente nas estratégias de consumo. O que significou para a área tirar
o foco do produto (água) para o foco no cliente (cavalo)? E a principal
ferramenta para gerar no cavalo a motivação para beber a água, conduzindo-o a
cavalgada e a beira do rio? As tecnologias digitais, as plataformas e
especificamente as redes sociais.
Agora
traga a mesma metáfora para as eleições. Eu não posso forçar uma pessoa a votar
no candidato que eu quero, até mesmo dizer em quem ele deve votar é pouco
eficiente. Mas, esta pessoa estará diante das urnas no dia determinado de
outubro. E o trabalho não é sobre o candidato, mas sobre o eleitor.
Muita
gente questiona por que a extrema direita tem tanto espaço no Brasil ou porque
figuras irrelevantes do cenário político ganharam espaço e demonstram força
desbancando políticos tradicionais. Porque o foco das redes sociais é o
eleitor. Ele é quem tem que ser induzido em outubro. E as redes sociais são os
principais instrumentos dessa manipulação. Ela ocorre porque a extrema direita
tem um projeto político de enfraquecimento das instituições políticas. Não
precisamos nos perguntar quem é o candidato da extrema direita, mas em que
medida ele consegue representar o antissistema?
A
lógica é bastante simples: cansar o eleitor a respeito de política. No momento
de votar, ele tem algumas poucas opções. Vai escolher a que menos se desgasta
na cabeça dele já que não tem esperança que a política seja algo que ajude na
sua vida. Se a campanha conseguiu despertar ódio em algum dos candidatos,
melhor porque ele deixa de ser opção, restringindo a escolha.
Então,
as eleições deixam de ser sobre o melhor caminho coletivo do país para se
tornar uma disputa entre aqueles que o eleitor identifica como algo tolerável.
O presidente deixa de ser algo que ele não quer para ser uma campanha contra
aquele que ele não quer. Isso gera mais engajamento do que simplesmente
defender alguns ideais.
Para
demonstrar como as redes sociais mudaram a perspectiva eleitoral e deram
vantagem a extrema direita, vamos apresentar três elementos que explicam a
perspectiva que ainda deixa muita gente perplexa com os resultados das enquetes
eleitorais.
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Primeiro: foco no eleitor e não no candidato
A
primeira grande vitória da extrema direita no mundo ocorre com a campanha
do Brexit na Inglaterra em 2016. Quando o plebiscito é
apresentado, nenhuma figura política de relevância na Inglaterra se colocava em
favor da saída (Leave). Ali, surge a empresa Cambridge Analytics que,
mais que dados, seu utilizou da estratégia de conversar com o britânico
despolitizado que vivia no sofá de controle remoto na mão. E sua estratégia foi
de como fazer essa figura sair de casa para votar no referendo?
O foco
no eleitor deu certo. Não foi necessária uma grande estrutura política para
fazer esse movimento. As redes sociais e a campanha foram estruturadas em torno
de necessidades concretas dos eleitores e a manipulação de mensagens e
sentimentos antipolítica.
Não era
necessária uma figura política de peso para defender os ideais. As redes
sociais reverberavam mais do que qualquer voz humana a mensagem que queriam
passar. Assim, é melhor um político excêntrico que alguém que inspire para
difundir a mensagem que dizia que a política atrapalha. Seria um contrassenso
dizer que a política atrapalha com um bom político. Por isso, os políticos de
direita são tão medíocres, porque para defender a não política é preciso
menosprezar a política.
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Segundo: provocar engajamento de rede
As
redes sociais são muito melhores para destruir do que para construir. As boas
notícias têm dificuldades para serem disseminadas nas redes sociais, por que em
geral elas geram acomodação e não engajamento. Saber que a inflação não vai
subir não gera preocupação. Saber que a inflação pode subir gera atenção e
busca a respeito do impacto que isso pode ter na minha vida, na vida da minha
família, no meu emprego etc.
Ou
seja, é a má noticia e a polêmica que geram mais interações nas plataformas.
Quando a vida vai bem, a mensagem implícita é: saía da rede e vá aproveitar. A
internet perde engajamento. Quando a preocupação bate, aumenta o uso da
internet para buscar respostas e as redes sociais tem papel importante. Imagine
em que sentimentos as plataformas impulsionam.
Um erro
comum é pensar a internet como um emaranhado de manifestações desordenadas ou a
somatória de interesses dispersos. Existe uma ordem nesse aparente caos. É
preciso entender que a internet deixou de ser um espaço de interação espontâneo
para se tornar um experimento controlado. E o controle é dado pelo capital
através do conhecimento e controle do comportamento do consumidor.
O
tráfego normal das redes por si só é enorme. Aproveitar esse tráfego para gerar
valor é o que as empresas estão fazendo. Antigamente a estratégia de abrir uma
loja em uma avenida da cidade com maior circulação de pessoas era importante
para aproveitar o tráfego para gerar vendas. Isso, em geral, tinha impacto
limitado na vida cotidiana.
Ao seu
modo, as marcas desenvolveram estratégias para roubar a atenção dos
consumidores. Colocar um palhaço na frente da loja com um microfone nas mãos é
uma forma de chamar a atenção para um determinado lugar. A econômica
capitalista nos enxerga a todos como consumidores, não como cidadão. A
internet, para além das vendas territoriais, rompeu a fronteira do sofá que a
televisão já tinha alcançado. Atinge o eleitor nos seus momentos de descanso,
quando suas armas de defesa em relação a persuasão estão desligadas e mais que
a TV, as plataformas captam dados, metrificam comportamento e possibilitaram
mudar o foco do produto para o cliente.
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Terceiro: a narrativa da antipolitica
Ao
contrário do que as pessoas pensam, a inteligência de dados não está apenas em
captar informações a partir de plataformas, mas em interpretar essas
informações e segmentar gostos, predisposições, tendências. Ou seja: com as
plataformas digitais se conhece muito mais sobre as pessoas, seus gostos e seus
hábitos que qualquer outro momento da história e é possível transformá-las em
consumidores com muito mais facilidade.
O foco
mudou para o eleitor, conhecer o eleitor e induzi-lo se tornou plausível. Não
importa mais o político. Se aparece uma figura com carisma, boa reputação e
boas intenções, basta ataca-lo nas redes, gerar desconfiança e fazer campanha
negativa contra seu perfil e suas propostas que, se não é possível eliminá-lo,
derrota-lo se torna mais fácil e certamente é possível enfraquece-lo.
Obviamente
que para isso é preciso ter estratégia, não apenas dados. Se a extrema direita
não tem e não se importa com o candidato e a política pra eles se reduz ao uso
das redes para disseminar ódio e sentimentos de repulsa. O que as torna tão
fortes eleitoralmente?
Calígula,
que queria reinar soberano e desprezava o Senado, não lhe cabia legitimar a
política. Então, conta a estória que o imperador de Roma elegeu seu
cavalo Incitatus como Senador para zombar das instituições
romanas. Embora tivesse muita rejeição na aristocracia romana, Calígula era
referenciado entre os plebeus. Provocar o caos para apresentar soluções que se
são tendenciosas como se fossem espontâneas, essa é uma estratégia padrão de
manipulação nas redes sociais.
A
despolitização das campanhas torna possível a presença de outras pautas. Se
todos os políticos são ladrões e a política está no terreno do profano, basta
colocar alguém para personificar a pauta contra a política.
Por
isso, a extrema direita não tem candidato expressivo. Não precisa ter. Melhor
que não tenha. Ou que não tenha alguém de destaque pelo menos. Para ela basta
ter adversário; ou adversários. E os adversários da extrema direita são os
políticos e a política em geral. A construção coletiva de mundo não passa pela
construção da pólis. Não é pouca coisa, contradiz dois mil e
quinhentos anos de construção da política, desde os gregos da ágora.
O que
vale para a extrema direita é a tradição. Não importa se ela existe ou não.
Tradição no Brasil é sinônimo de família. E quem discute a família não é a
política, é a religião. Essa mudança de locus permite aos
arquitetos do marketing da extrema direita dizer o que importa e a política é
deslocada da esfera da vida pública. Numa distinção mais crua, a família e a
religião estão no terreno do sagrado, a política está no campo do profano. Não
há salvação na política, apenas redução de danos.
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Os novos tempos da política
Diante
dessa engenharia e de tantos instrumentos de controle e manipulação social, a
pergunta não é por que a extrema direita consegue emplacar candidatos tão
medíocres, mas como consegue perder em várias situações, mesmo com todo esse
vento a favor?
Assim
como em Walden II, B. F. Skinner não consegue controle total com a
manipulação do comportamento, a extrema direita luta contra uma tradição
segundo a qual a política é o centro das decisões coletivas. Embora tenha agido
no sentido de mudar o centro gravitacional da vida coletiva para instituições
como a família e a religião, o sistema político é um fato consolidado nas
civilizações modernas.
Se os
elementos de força da extrema direita são dados, a força das instituições
políticas e a estrutura de decisão dentro da democracia consolidam a capacidade
de reação do sistema político contra os ataques de retirar a política do centro
gravitacional da vida coletiva.
Isso
torna direita e esquerda representantes do sistema e a direita disruptiva.
Assim, a presença da estrutura política se impõe e passa a ser defendida
segundo outro prisma, não mais de direita e esquerda, mas entre
tradicionalistas e modernos; tornando essa disputa a polarização que vemos na
sociedade hoje.
Muitos
podem olhar para polarização e avaliar como uma disputa de pautas políticas
entre direita e esquerda. Mas para além disso as narrativas dizem outra coisa e
o uso do ódio que permite a manipulação através da negação da política é tão
decisiva quanto a capacidade do sistema político se defender e considerar a
extrema direita como ameaça a república.
Fonte:
A Terra é Redonda

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