Como
reabertura do Estreito de Ormuz e queda no valor do petróleo podem afetar o
Brasil
Os
preços do petróleo despencaram em todo o mundo nesta sexta-feira (17/04) após o
Irã anunciar a reabertura do Estreito de Ormuz durante o cessar-fogo acordado
com os Estados Unidos.
O preço
do petróleo Brent, referência internacional, caiu cerca de 10%, para US$ 89,43
(R$444,04) o barril nesta manhã.
Os
preços ainda permanecem mais altos do que antes do início do conflito, em 28 de
fevereiro — na época, o barril era negociado a cerca de US$ 70 (R$ 360,97) —,
mas a queda atual é considerada bastante significativa.
O
Estreito de Ormuz é uma rota marítima crucial por onde passam cerca de 20% do
petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo.
Os EUA
chegaram a anunciar que iniciariam um bloqueio naval no local no início desta
semana, depois de o Irã ter efetivamente fechado o canal de transporte por
semanas, em resposta ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em fevereiro.
Nesta
sexta, entretanto, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi,
disse que o estreito seria "declarado completamente aberto" pelo
"período restante do cessar-fogo".
"Em
consonância com o cessar-fogo no Líbano, a passagem de todas as embarcações
comerciais pelo Estreito de Ormuz está declarada completamente aberta pelo
período restante do cessar-fogo, na rota coordenada já anunciada pela
Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã",
disse Araghchi em um comunicado divulgado pela rede social X (antigo Twitter).
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Como isso afeta o Brasil?
O
Brasil pode se beneficiar desse novo cenário, já que a baixa do petróleo Brent
invariavelmente deve atingir o mercado nacional, que contava, até então, com
ajuda apenas de um pacote do governo federal para segurar o encarecimento dos
combustíveis no país e o impacto da alta do querosene de aviação no preço das
passagens aéreas.
O
diesel preocupa o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por ser
o principal combustível que alimenta o transporte de mercadorias e da safra
agrícola do Brasil. O Palácio do Planalto já havia anunciado, em 12 de março,
R$ 30 bilhões para mitigar seu encarecimento.
O
objetivo era garantir um desconto de R$ 0,64 por litro no preço na bomba, ao
aliar redução de impostos e uma subvenção de R$ 0,32 por litro produzido no
Brasil ou importado.
A
subvenção é um incentivo dado diretamente às empresas pelo governo. Em um
segundo conjunto de ações anunciado em abril, a gestão Lula ampliou esse
subsídio, que chegará a R$ 1,12 para o litro produzido no país.
Há
ainda a isenção dos impostos federais (PIS e Cofins) para o querosene de
aviação (QAV) — gerando economia de R$ 0,07 por litro de combustível —, duas
linhas de crédito no valor de R$ 9 bilhões para o setor e a prorrogação para
dezembro das tarifas de navegação da Força Aérea Brasileira referentes a abril,
maio e junho.
O
problema é que este pacote se vê ameaçado, principalmente as medidas ligadas ao
diesel, que demoram a chegar integralmente aos consumidores por limitações na
implementação da subvenção.
Isso
porque duas grandes empresas do setor (Ipiranga e Raízen), responsáveis por
grande parte das importações privadas de diesel, se recusaram a aderir à
política em um primeiro momento.
A falta
de adesão estaria relacionada à obrigação de seguir limites para o preço do
diesel estabelecidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e
Biocombustíveis (ANP) a partir de valores de mercado.
A Vibra
— a antiga BR Distribuidora — também não participou da primeira fase do
projeto, mas mudou de ideia em decisão tomada no último dia 9.
Nesse
sentido, portanto, uma queda dos preços globais pode ajudar a contornar a falta
de adesão do pacote governamental.
Mas o
efeito da queda mundial do preço do barril de petróleo pode levar semanas para
chegar às bombas.
Ao
mesmo tempo, a bolsa e o real exibem apreciação nesta sexta diante do alívio na
percepção de risco global com a reabertura do Estreito de Ormuz e a expectativa
pelo fim dos embates no Oriente Médio.
Perto
das 10h50, o dólar à vista era negociado em queda de 0,52%, a R$ 4,9667, depois
de ter batido na mínima de R$ 4,9502, o menor patamar ao longo do próprio dia
de negociação desde março de 2024.
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Impacto no cenário externo
Análise
do banco BTG Pactual assinado pela economista Iana Ferrão, porém, afirma que
nos últimos 10 anos o Brasil passa por uma mudança estrutural que fez com que o
choque do petróleo reforçasse o cenário externo do Brasil.
"No
início dos anos 2000, o país ainda se caracterizava, do ponto de vista do setor
externo, como importador líquido de petróleo e derivados. Nesse contexto, altas
no Brent deterioravam a balança comercial e ampliavam o déficit em transações
correntes", diz Ferrão em sua análise.
"A
partir de 2016, contudo, observa-se uma inflexão estrutural. O saldo da balança
de petróleo e derivados torna-se consistentemente positivo e crescente, e os
choques altistas no Brent passam a exercer efeito favorável sobre as contas
externas, refletindo a transição do Brasil para exportador líquido de
petróleo."
Ou
seja, a alta no preço do petróleo nas ultimas semanas estava reforçando, em vez
de prejudicar, o cenário externo brasileiro, com melhora nas projeções de
balança comercial e transações correntes.
Segundo
o relatório do BTG, no início dos anos 2000, um aumento de 10% no preço do
barril de petróleo Brent ampliava o déficit nas transações correntes do Brasil
— resultado das trocas comerciais, de serviços e rendas entre residentes e não
residentes no país — em 0,05 ponto percentual (p.p.) do PIB. Em 2026, no
entanto, esse mesmo choque reduz o déficit em conta corrente em 0,16 p.p. do
PIB.
No caso
da balança comercial, enquanto um aumento de 10% do petróleo diminuiu o saldo
da balança comercial do Brasil em US$ 300 milhões no início dos anos 2000, hoje
esse movimento engorda o saldo em US$ 3,7 bilhões.
"O
Brasil hoje se beneficia de uma alta do preço do petróleo porque a exposição
positiva em petróleo bruto exportado domina a exposição negativa via derivados
importados", diz. A alta recente do Brent reforçava essa tendência,
segundo ela.
O
relatório do BTG, publicado em 13 de abril, ainda apontava que se o preço do
petróleo Brent se mantivesse em torno de US$100 até o fim do próximo ano, sem
grandes mudanças no cenário, o saldo da balança comercial total do Brasil
subiria para algo próximo de US$93 bilhões.
No
oposto, uma volta rápida do Brent para US$70 reduziria o saldo para perto de
US$80 bilhões em 2026 e US$85 bilhões em 2027.
• Irã reabre Estreito de Ormuz durante
cessar-fogo, mas Trump diz que bloqueio naval dos EUA seguirá
O
Estreito de Ormuz foi "declarado completamente aberto" pelo
"período restante do cessar-fogo", afirmou nesta sexta-feira (17/4) o
ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi.
"Em
consonância com o cessar-fogo no Líbano, a passagem de todas as embarcações
comerciais pelo Estreito de Ormuz está declarada completamente aberta pelo
período restante do cessar-fogo, na rota coordenada já anunciada pela
Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã",
disse Araghchi em um comunicado divulgado pela rede social X (antigo Twitter).
"O
Irã concordou em nunca mais fechar o Estreito de Ormuz. Ele não será mais usado
como arma contra o mundo!", escreveu o presidente americano Donald Trump
em sua rede Truth Social, após o anúncio.
Donald
Trump celebrou o anúncio na rede Truth Social. "Obrigado!", postou o
presidente americano, acrescentando que o estreito está "completamente
aberto e pronto para negócios".
Porém,
Trump também anunciou que o bloqueio naval dos Estados Unidos aos portos do Irã
e ao Estreito de Ormuz seguirá em vigor até que os dois países cheguem a um
acordo de paz.
"O
bloqueio naval seguirá com força e efeito total no que diz respeito ao Irã, até
que nossa transação com o Irã esteja 100% concluída", disse o presidente
americano.
"Esse
processo deverá ser muito rápido, já que a maioria dos pontos já foi
negociada."
Os EUA
instituíram o bloqueio no início desta semana, depois que o Irã fechou
efetivamente o canal de transporte de petróleo mais movimentado do mundo por
semanas, em resposta ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em fevereiro.
O
cessar-fogo de duas semanas entre Irã e EUA deve expirar em 22 de abril.
Trump
ironizou ainda uma oferta de ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(Otan, a aliança militar ocidental) para assegurar o tráfego em Ormuz.
"Agora
que a situação no Estreito de Ormuz está resolvida, recebi um telefonema da
Otan perguntando se precisaríamos de ajuda. Eu disse para eles ficarem longe, a
menos que só queiram abastecer seus navios com petróleo", escreveu Trump.
"Eles
foram inúteis quando precisamos deles, um tigre de papel!", disse.
Ele
agradeceu à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar pela ajuda e disse
que o Irã, com a ajuda dos EUA, está removendo todas as minas marítimas do
estreito.
O
republicano também afirmou que os EUA trabalharão com o Líbano para lidar com a
"situação do Hezbollah" de maneira apropriada e que Israel não
bombardeará mais o Líbano. "Eles estão PROIBIDOS de fazer isso pelos EUA.
Chega!", escreveu, acrescentando que os EUA "tornarão o Líbano grande
novamente", numa recriação de seu famoso slogan "tornar a América
grande novamente".
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Declaração do chanceler repercute mal no Irã
A
publicação do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, nas
redes sociais gerou forte reação negativa da imprensa iraniana, relata Ghoncheh
Habibiazad, repórter sênior do serviço persa da BBC.
A TV
estatal iraniana deu mais ênfase às "rotas coordenadas" e ignorou em
grande medida a parte da mensagem de Araghchi que afirma que a passagem de
todas as embarcações comerciais pelo estreito estará "totalmente
aberta" durante o restante do cessar-fogo.
A
agência de notícias Tasnim, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica,
classificou a publicação como "ruim e incompleta", afirmando que tal
passagem seria considerada "inválida" caso o bloqueio naval dos EUA
continue.
"O
próprio Ministério das Relações Exteriores deveria reconsiderar esse tipo de
comunicação", declarou a Tasnim.
A Rede
de Notícias Estudantis (SNN), ligada à Organização Estudantil Basij, grupo
paramilitar da Guarda Revolucionária Islâmica, pediu um
"esclarecimento" por parte das autoridades iranianas para que a
"interpretação" da "vitória" de Donald Trump em relação a
esse assunto seja "contestada e desmantelada".
A
agência de notícias Fars – também afiliada à IRGC – pediu que as autoridades
"esclareçam" o assunto, afirmando que "declarações curtas e
concisas" sobre o assunto não são adequadas para persuadir a "opinião
pública interna" dos iranianos.
Os
iranianos "apelam às autoridades para que não permitam que a narrativa do
inimigo e a mídia hostil preencham o vácuo narrativo", afirmou a Fars.
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Petróleo vai a menos de US$ 90
Após o
anúncio, o preço do barril de petróleo do tipo Brent, referência para o mercado
internacional, caiu mais de 10%, para menos de US$ 90, tendo chegado a
ultrapassar os US$ 98 no início do dia.
Antes
do conflito, o petróleo Brent era negociado a pouco menos de US$ 70 o barril.
Chegou a ultrapassar os US$ 100 no início de março e atingiu o pico de mais de
US$ 119 no final daquele mês.
No
fechamento do mercado europeu, o índice pan-europeu Stoxx 600 teve alta de
1,56%. O FTSE 100, da Bolsa de Londres, avançou 0,73%, e o DAX, de Frankfurt,
subiu 2,27%. O CAC 40, de Paris, teve ganho de 1,97%, segundo informações do
jornal Valor Econômico.
Nos
EUA, por volta de 13h25, o índice Dow Jones subia 2,21%, o S&P 500 avançava
1,39%; e o Nasdaq tinha alta de 1,65%.
No
Brasil, perto das 13h30, o dólar à vista caía 0,22%, cotado a R$ 4,98, depois
de ter batido mais cedo na mínima de R$ 4,95, menor patamar registrado durante
o dia desde março de 2024.
Na
bolsa de valores, o Ibovespa caía 0,30%, pressionado pela forte queda das ações
da Petrobras, em meio à fraqueza dos preços do petróleo.
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Como isso afeta o Brasil
O
Brasil pode se beneficiar desse novo cenário, já que a baixa do petróleo Brent
deve atingir o mercado nacional, que contava, até então, com ajuda apenas de um
pacote do governo federal para segurar o encarecimento dos combustíveis no país
e o impacto da alta do querosene no preço das passagens aéreas.
O
diesel preocupa o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por ser o
principal combustível que alimenta o transporte de mercadorias e da safra
agrícola do Brasil.
O
Palácio do Planalto já havia anunciado, em 12 de março, um pacote de R$ 30
bilhões para mitigar o encarecimento do combustível.
Em 6 de
abril, novas medidas foram anunciadas, incluindo a ampliação da subvenção ao
diesel, a criação de um subsídio para a importação de gás de cozinha e a
isenção de impostos (PIS e Cofins) sobre o biodiesel e o querosene de aviação.
Considerando
os dois pacotes, o subsídio total ficou em R$ 1,52 por litro de diesel
importado e R$ 1,12 para o produto nacional. Com as medidas, o governo visou
conter uma aceleração da inflação em pleno ano eleitoral.
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'Volta à normalidade pode demorar'
À
primeira vista, a reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã é uma boa notícia,
mas a realidade pode ser mais complexa, avalia Jonathan Josephs, repórter de
negócios da BBC.
As
principais companhias de navegação têm enfatizado repetidamente que a segurança
de suas tripulações e embarcações é sua principal prioridade.
"É
provável que elas queiram ver uma cessação sustentada das hostilidades antes de
se sentirem seguras para retornar àquela que era uma rota importante para o
transporte marítimo global", observa Josephs.
Apesar
da morte de 10 marinheiros, as companhias de navegação menores têm se mostrado
mais dispostas a assumir esses riscos.
"A
comparação mais próxima é a situação em que os navios evitaram a rota pelo Mar
Vermelho e Canal de Suez após os rebeldes houthis começarem a atacar
embarcações em dezembro de 2023", lembra o jornalista.
Levou
mais de dois anos para que um retorno limitado começasse, o que só aconteceu
após meses sem ataques.
No
entanto, existem duas diferenças fundamentais quando se trata do Estreito de
Ormuz, afirma Josephs.
Primeiro,
não há rota alternativa e, segundo, o transporte de grandes quantidades de
petróleo e gás é vital para a economia global, o que significa que há maiores
incentivos para o retorno.
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O que é o Estreito de Ormuz e por que é importante?
O
Estreito de Ormuz é uma rota marítima crucial por onde passam cerca de 20% do
petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo.
A
geografia do estreito permitiu que o Irã o utilizasse como moeda de troca
durante toda a guerra, impedindo seletivamente a passagem de navios pela
estreita passagem e, consequentemente, elevando os preços do petróleo.
Limitado
ao norte pelo Irã e ao sul por Omã e pelos Emirados Árabes Unidos, o corredor –
com apenas cerca de 50 km de largura na entrada e na saída, e cerca de 33 km em
seu ponto mais estreito – conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico.
O
estreito é profundo o suficiente para permitir a passagem dos maiores
petroleiros do mundo e é utilizado pelos principais produtores de petróleo e
GNL do Oriente Médio, bem como por seus clientes.
Em
2025, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e derivados passaram pela
passagem por dia, segundo estimativas da Administração de Informação Energética
dos EUA (EIA). Isso representa quase US$ 600 bilhões (R$ 2,98 trilhões) em
comércio de energia por ano.
O
petróleo não vem apenas do Irã, mas também de outros países do Golfo, como
Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.
Fonte:
BBC News Brasil

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