sábado, 18 de abril de 2026

Como reabertura do Estreito de Ormuz e queda no valor do petróleo podem afetar o Brasil

Os preços do petróleo despencaram em todo o mundo nesta sexta-feira (17/04) após o Irã anunciar a reabertura do Estreito de Ormuz durante o cessar-fogo acordado com os Estados Unidos.

O preço do petróleo Brent, referência internacional, caiu cerca de 10%, para US$ 89,43 (R$444,04) o barril nesta manhã.

Os preços ainda permanecem mais altos do que antes do início do conflito, em 28 de fevereiro — na época, o barril era negociado a cerca de US$ 70 (R$ 360,97) —, mas a queda atual é considerada bastante significativa.

O Estreito de Ormuz é uma rota marítima crucial por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo.

Os EUA chegaram a anunciar que iniciariam um bloqueio naval no local no início desta semana, depois de o Irã ter efetivamente fechado o canal de transporte por semanas, em resposta ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em fevereiro.

Nesta sexta, entretanto, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, disse que o estreito seria "declarado completamente aberto" pelo "período restante do cessar-fogo".

"Em consonância com o cessar-fogo no Líbano, a passagem de todas as embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz está declarada completamente aberta pelo período restante do cessar-fogo, na rota coordenada já anunciada pela Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã", disse Araghchi em um comunicado divulgado pela rede social X (antigo Twitter).

<><> Como isso afeta o Brasil?

O Brasil pode se beneficiar desse novo cenário, já que a baixa do petróleo Brent invariavelmente deve atingir o mercado nacional, que contava, até então, com ajuda apenas de um pacote do governo federal para segurar o encarecimento dos combustíveis no país e o impacto da alta do querosene de aviação no preço das passagens aéreas.

O diesel preocupa o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por ser o principal combustível que alimenta o transporte de mercadorias e da safra agrícola do Brasil. O Palácio do Planalto já havia anunciado, em 12 de março, R$ 30 bilhões para mitigar seu encarecimento.

O objetivo era garantir um desconto de R$ 0,64 por litro no preço na bomba, ao aliar redução de impostos e uma subvenção de R$ 0,32 por litro produzido no Brasil ou importado.

A subvenção é um incentivo dado diretamente às empresas pelo governo. Em um segundo conjunto de ações anunciado em abril, a gestão Lula ampliou esse subsídio, que chegará a R$ 1,12 para o litro produzido no país.

Há ainda a isenção dos impostos federais (PIS e Cofins) para o querosene de aviação (QAV) — gerando economia de R$ 0,07 por litro de combustível —, duas linhas de crédito no valor de R$ 9 bilhões para o setor e a prorrogação para dezembro das tarifas de navegação da Força Aérea Brasileira referentes a abril, maio e junho.

O problema é que este pacote se vê ameaçado, principalmente as medidas ligadas ao diesel, que demoram a chegar integralmente aos consumidores por limitações na implementação da subvenção.

Isso porque duas grandes empresas do setor (Ipiranga e Raízen), responsáveis por grande parte das importações privadas de diesel, se recusaram a aderir à política em um primeiro momento.

A falta de adesão estaria relacionada à obrigação de seguir limites para o preço do diesel estabelecidos pela Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) a partir de valores de mercado.

A Vibra — a antiga BR Distribuidora — também não participou da primeira fase do projeto, mas mudou de ideia em decisão tomada no último dia 9.

Nesse sentido, portanto, uma queda dos preços globais pode ajudar a contornar a falta de adesão do pacote governamental.

Mas o efeito da queda mundial do preço do barril de petróleo pode levar semanas para chegar às bombas.

Ao mesmo tempo, a bolsa e o real exibem apreciação nesta sexta diante do alívio na percepção de risco global com a reabertura do Estreito de Ormuz e a expectativa pelo fim dos embates no Oriente Médio.

Perto das 10h50, o dólar à vista era negociado em queda de 0,52%, a R$ 4,9667, depois de ter batido na mínima de R$ 4,9502, o menor patamar ao longo do próprio dia de negociação desde março de 2024.

<><> Impacto no cenário externo

Análise do banco BTG Pactual assinado pela economista Iana Ferrão, porém, afirma que nos últimos 10 anos o Brasil passa por uma mudança estrutural que fez com que o choque do petróleo reforçasse o cenário externo do Brasil.

"No início dos anos 2000, o país ainda se caracterizava, do ponto de vista do setor externo, como importador líquido de petróleo e derivados. Nesse contexto, altas no Brent deterioravam a balança comercial e ampliavam o déficit em transações correntes", diz Ferrão em sua análise.

"A partir de 2016, contudo, observa-se uma inflexão estrutural. O saldo da balança de petróleo e derivados torna-se consistentemente positivo e crescente, e os choques altistas no Brent passam a exercer efeito favorável sobre as contas externas, refletindo a transição do Brasil para exportador líquido de petróleo."

Ou seja, a alta no preço do petróleo nas ultimas semanas estava reforçando, em vez de prejudicar, o cenário externo brasileiro, com melhora nas projeções de balança comercial e transações correntes.

Segundo o relatório do BTG, no início dos anos 2000, um aumento de 10% no preço do barril de petróleo Brent ampliava o déficit nas transações correntes do Brasil — resultado das trocas comerciais, de serviços e rendas entre residentes e não residentes no país — em 0,05 ponto percentual (p.p.) do PIB. Em 2026, no entanto, esse mesmo choque reduz o déficit em conta corrente em 0,16 p.p. do PIB.

No caso da balança comercial, enquanto um aumento de 10% do petróleo diminuiu o saldo da balança comercial do Brasil em US$ 300 milhões no início dos anos 2000, hoje esse movimento engorda o saldo em US$ 3,7 bilhões.

"O Brasil hoje se beneficia de uma alta do preço do petróleo porque a exposição positiva em petróleo bruto exportado domina a exposição negativa via derivados importados", diz. A alta recente do Brent reforçava essa tendência, segundo ela.

O relatório do BTG, publicado em 13 de abril, ainda apontava que se o preço do petróleo Brent se mantivesse em torno de US$100 até o fim do próximo ano, sem grandes mudanças no cenário, o saldo da balança comercial total do Brasil subiria para algo próximo de US$93 bilhões.

No oposto, uma volta rápida do Brent para US$70 reduziria o saldo para perto de US$80 bilhões em 2026 e US$85 bilhões em 2027.

•        Irã reabre Estreito de Ormuz durante cessar-fogo, mas Trump diz que bloqueio naval dos EUA seguirá

O Estreito de Ormuz foi "declarado completamente aberto" pelo "período restante do cessar-fogo", afirmou nesta sexta-feira (17/4) o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi.

"Em consonância com o cessar-fogo no Líbano, a passagem de todas as embarcações comerciais pelo Estreito de Ormuz está declarada completamente aberta pelo período restante do cessar-fogo, na rota coordenada já anunciada pela Organização de Portos e Assuntos Marítimos da República Islâmica do Irã", disse Araghchi em um comunicado divulgado pela rede social X (antigo Twitter).

"O Irã concordou em nunca mais fechar o Estreito de Ormuz. Ele não será mais usado como arma contra o mundo!", escreveu o presidente americano Donald Trump em sua rede Truth Social, após o anúncio.

Donald Trump celebrou o anúncio na rede Truth Social. "Obrigado!", postou o presidente americano, acrescentando que o estreito está "completamente aberto e pronto para negócios".

Porém, Trump também anunciou que o bloqueio naval dos Estados Unidos aos portos do Irã e ao Estreito de Ormuz seguirá em vigor até que os dois países cheguem a um acordo de paz.

"O bloqueio naval seguirá com força e efeito total no que diz respeito ao Irã, até que nossa transação com o Irã esteja 100% concluída", disse o presidente americano.

"Esse processo deverá ser muito rápido, já que a maioria dos pontos já foi negociada."

Os EUA instituíram o bloqueio no início desta semana, depois que o Irã fechou efetivamente o canal de transporte de petróleo mais movimentado do mundo por semanas, em resposta ao ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã em fevereiro.

O cessar-fogo de duas semanas entre Irã e EUA deve expirar em 22 de abril.

Trump ironizou ainda uma oferta de ajuda da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan, a aliança militar ocidental) para assegurar o tráfego em Ormuz.

"Agora que a situação no Estreito de Ormuz está resolvida, recebi um telefonema da Otan perguntando se precisaríamos de ajuda. Eu disse para eles ficarem longe, a menos que só queiram abastecer seus navios com petróleo", escreveu Trump.

"Eles foram inúteis quando precisamos deles, um tigre de papel!", disse.

Ele agradeceu à Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Catar pela ajuda e disse que o Irã, com a ajuda dos EUA, está removendo todas as minas marítimas do estreito.

O republicano também afirmou que os EUA trabalharão com o Líbano para lidar com a "situação do Hezbollah" de maneira apropriada e que Israel não bombardeará mais o Líbano. "Eles estão PROIBIDOS de fazer isso pelos EUA. Chega!", escreveu, acrescentando que os EUA "tornarão o Líbano grande novamente", numa recriação de seu famoso slogan "tornar a América grande novamente".

<><> Declaração do chanceler repercute mal no Irã

A publicação do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, nas redes sociais gerou forte reação negativa da imprensa iraniana, relata Ghoncheh Habibiazad, repórter sênior do serviço persa da BBC.

A TV estatal iraniana deu mais ênfase às "rotas coordenadas" e ignorou em grande medida a parte da mensagem de Araghchi que afirma que a passagem de todas as embarcações comerciais pelo estreito estará "totalmente aberta" durante o restante do cessar-fogo.

A agência de notícias Tasnim, afiliada à Guarda Revolucionária Islâmica, classificou a publicação como "ruim e incompleta", afirmando que tal passagem seria considerada "inválida" caso o bloqueio naval dos EUA continue.

"O próprio Ministério das Relações Exteriores deveria reconsiderar esse tipo de comunicação", declarou a Tasnim.

A Rede de Notícias Estudantis (SNN), ligada à Organização Estudantil Basij, grupo paramilitar da Guarda Revolucionária Islâmica, pediu um "esclarecimento" por parte das autoridades iranianas para que a "interpretação" da "vitória" de Donald Trump em relação a esse assunto seja "contestada e desmantelada".

A agência de notícias Fars – também afiliada à IRGC – pediu que as autoridades "esclareçam" o assunto, afirmando que "declarações curtas e concisas" sobre o assunto não são adequadas para persuadir a "opinião pública interna" dos iranianos.

Os iranianos "apelam às autoridades para que não permitam que a narrativa do inimigo e a mídia hostil preencham o vácuo narrativo", afirmou a Fars.

<><> Petróleo vai a menos de US$ 90

Após o anúncio, o preço do barril de petróleo do tipo Brent, referência para o mercado internacional, caiu mais de 10%, para menos de US$ 90, tendo chegado a ultrapassar os US$ 98 no início do dia.

Antes do conflito, o petróleo Brent era negociado a pouco menos de US$ 70 o barril. Chegou a ultrapassar os US$ 100 no início de março e atingiu o pico de mais de US$ 119 no final daquele mês.

No fechamento do mercado europeu, o índice pan-europeu Stoxx 600 teve alta de 1,56%. O FTSE 100, da Bolsa de Londres, avançou 0,73%, e o DAX, de Frankfurt, subiu 2,27%. O CAC 40, de Paris, teve ganho de 1,97%, segundo informações do jornal Valor Econômico.

Nos EUA, por volta de 13h25, o índice Dow Jones subia 2,21%, o S&P 500 avançava 1,39%; e o Nasdaq tinha alta de 1,65%.

No Brasil, perto das 13h30, o dólar à vista caía 0,22%, cotado a R$ 4,98, depois de ter batido mais cedo na mínima de R$ 4,95, menor patamar registrado durante o dia desde março de 2024.

Na bolsa de valores, o Ibovespa caía 0,30%, pressionado pela forte queda das ações da Petrobras, em meio à fraqueza dos preços do petróleo.

<><> Como isso afeta o Brasil

O Brasil pode se beneficiar desse novo cenário, já que a baixa do petróleo Brent deve atingir o mercado nacional, que contava, até então, com ajuda apenas de um pacote do governo federal para segurar o encarecimento dos combustíveis no país e o impacto da alta do querosene no preço das passagens aéreas.

O diesel preocupa o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT), por ser o principal combustível que alimenta o transporte de mercadorias e da safra agrícola do Brasil.

O Palácio do Planalto já havia anunciado, em 12 de março, um pacote de R$ 30 bilhões para mitigar o encarecimento do combustível.

Em 6 de abril, novas medidas foram anunciadas, incluindo a ampliação da subvenção ao diesel, a criação de um subsídio para a importação de gás de cozinha e a isenção de impostos (PIS e Cofins) sobre o biodiesel e o querosene de aviação.

Considerando os dois pacotes, o subsídio total ficou em R$ 1,52 por litro de diesel importado e R$ 1,12 para o produto nacional. Com as medidas, o governo visou conter uma aceleração da inflação em pleno ano eleitoral.

<><> 'Volta à normalidade pode demorar'

À primeira vista, a reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã é uma boa notícia, mas a realidade pode ser mais complexa, avalia Jonathan Josephs, repórter de negócios da BBC.

As principais companhias de navegação têm enfatizado repetidamente que a segurança de suas tripulações e embarcações é sua principal prioridade.

"É provável que elas queiram ver uma cessação sustentada das hostilidades antes de se sentirem seguras para retornar àquela que era uma rota importante para o transporte marítimo global", observa Josephs.

Apesar da morte de 10 marinheiros, as companhias de navegação menores têm se mostrado mais dispostas a assumir esses riscos.

"A comparação mais próxima é a situação em que os navios evitaram a rota pelo Mar Vermelho e Canal de Suez após os rebeldes houthis começarem a atacar embarcações em dezembro de 2023", lembra o jornalista.

Levou mais de dois anos para que um retorno limitado começasse, o que só aconteceu após meses sem ataques.

No entanto, existem duas diferenças fundamentais quando se trata do Estreito de Ormuz, afirma Josephs.

Primeiro, não há rota alternativa e, segundo, o transporte de grandes quantidades de petróleo e gás é vital para a economia global, o que significa que há maiores incentivos para o retorno.

<><> O que é o Estreito de Ormuz e por que é importante?

O Estreito de Ormuz é uma rota marítima crucial por onde passam cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo.

A geografia do estreito permitiu que o Irã o utilizasse como moeda de troca durante toda a guerra, impedindo seletivamente a passagem de navios pela estreita passagem e, consequentemente, elevando os preços do petróleo.

Limitado ao norte pelo Irã e ao sul por Omã e pelos Emirados Árabes Unidos, o corredor – com apenas cerca de 50 km de largura na entrada e na saída, e cerca de 33 km em seu ponto mais estreito – conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico.

O estreito é profundo o suficiente para permitir a passagem dos maiores petroleiros do mundo e é utilizado pelos principais produtores de petróleo e GNL do Oriente Médio, bem como por seus clientes.

Em 2025, cerca de 20 milhões de barris de petróleo e derivados passaram pela passagem por dia, segundo estimativas da Administração de Informação Energética dos EUA (EIA). Isso representa quase US$ 600 bilhões (R$ 2,98 trilhões) em comércio de energia por ano.

O petróleo não vem apenas do Irã, mas também de outros países do Golfo, como Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

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