Juventude,
sofrimento e política: o futuro em disputa no Brasil
Após
governarem Brasil por quase duas décadas, PT e aliados estão mais afastados dos
jovens do que nunca. O que isso revela sobre acomodação a uma ordem injusta e
perda de horizontes políticos? Como tramar um reencontro?
O
artigo recente de Márcio Pochmann, “A insegurança estrutural da juventude
brasileira”, publicado em Outras Palavras, oferece um diagnóstico acurado ao
deslocar o sofrimento psíquico juvenil do plano individual para o social. Mas
há um ponto em sua análise que precisa ser tensionado: a ideia de que esse
sofrimento ainda não se traduziu em organização coletiva. Talvez o problema não seja a ausência de
organização, mas o fato de que ela já está ocorrendo — em direção oposta àquela
esperada pela esquerda.
Baseado
na pesquisa PeNSE do IBGE, o autor identifica um aumento consistente de
sentimentos de ansiedade, tristeza e solidão entre os jovens, associando esse
fenômeno às transformações estruturais provocadas pelo neoliberalismo no
Brasil: perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de
mobilidade social e reconfiguração das formas de poder e socialização.
Com
ênfase na relação entre mundo do trabalho e subjetividade, Pochmann observa
que, embora componha uma geração mais escolarizada do que as anteriores, “a
juventude passou a encontrar um mercado de trabalho mais precário, instável e
fragmentado”. Nesse sentido, a “educação continua sendo apresentada como
caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se
enfraqueceu”.
O
aumento desse vão produz, inevitavelmente, um profundo sentimento de
insegurança e frustração. No entanto, como o próprio autor destaca, esse quadro
não pode ser reduzido a uma leitura superficial sobre os efeitos das redes
sociais. A ansiedade juvenil “não nasce apenas da hiperconectividade, mas da
experiência concreta de um mundo que pouco acolhe”, marcado pela escassez de
oportunidades, pela fragilidade dos vínculos e pelo bloqueio do futuro.
Nesse
contexto, o neoliberalismo não opera apenas como política econômica, mas como
forma de experiência social. “Ele dissemina a sensação de que não há
alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são
coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem
que poucas portas realmente se abrem”. O resultado, segundo o autor, é uma
geração marcada pela “incerteza estrutural”.
No
campo da política, porém, Pochmann sustenta que esse mal-estar “ainda não se
traduziu em revolta organizada”, manifestando-se de forma “difusa, íntima e
silenciosa”. É aqui que o diagnóstico precisa ser tensionado.
Isso
porque a questão central talvez não seja a ausência de organização, mas a sua
direção política.
Os
dados recentes indicam um deslocamento nessa direção. A pesquisa “Juventudes:
Tarefa Pendente” (2025), da Fundação Friedrich-Ebert-Stiftung, mostra que o
Brasil apresenta um dos mais altos níveis de identificação da juventude com a
direita: 38% dos jovens se posicionam nesse campo, sendo 17% na extrema-direita
— o maior percentual em toda a América Latina. Em comparação, apenas 18% se
identificam com a esquerda.
Quando
observados em perspectiva histórica, esses números revelam uma transformação
profunda. No início dos anos 2000, levantamentos como o “Perfil da Juventude
Brasileira” (Fundação Perseu Abramo) indicavam maior presença da esquerda e uma
extrema-direita ainda marginal. Duas décadas mais tarde, o quadro se inverte: a
extrema-direita praticamente triplicou sua presença entre os jovens (de 6% para
17%), enquanto a esquerda perdeu cerca de um terço (de 27% para 18%).
Esse
deslocamento também se expressa no plano eleitoral. Dados recentes da Atlas
Intel indicam que cerca de 72% dos jovens desaprovam o governo federal. Ao
mesmo tempo, candidaturas associadas à direita liberal e à extrema-direita
apresentam desempenho desproporcional nesse segmento. Nomes como Renan Santos,
candidato do Partido Missão/MBL, alcançam patamares de intenção de voto entre
jovens muito superiores à sua média geral, chegando a disputar com Flávio
Bolsonaro e Lula entre os eleitores 16 e 24 anos.
O que
os dados indicam, portanto, é que a revolta da juventude não está
necessariamente difusa. Ela encontrou novas formas de expressão política —
ainda que por meio de canais, linguagens e repertórios distintos daqueles das
gerações anteriores.
A
questão que se impõe, então, é mais incômoda: por que, diante de um cenário de
precarização, insegurança e bloqueio de futuro — cujas causas estão
estruturalmente associadas ao neoliberalismo — a juventude tem encontrado
respostas mais convincentes justamente em plataformas políticas que tendem a
aprofundar essas mesmas condições?
Parte
da resposta passa por uma autocrítica da esquerda institucional. Ao longo das
últimas décadas, a esquerda, incapaz de formular uma alternativa programática
ao neoliberalismo, acabou reduzindo-se ao pragmatismo eleitoral, oferecendo
melhorias pontuais enquanto mantinha, no essencial, um sistema político
submetido ao capital financeiro — com representação popular forte na forma, mas
precária no conteúdo.
Ao
estreitar o horizonte da imaginação política para o campo do possível, a
esquerda assumiu para si a tarefa histórica de se tornar uma espécie de
defensora — ainda que crítica — da ordem social existente. Foi nesse movimento
que se abriu uma avenida para que grupos da ultradireita atravessassem, sem
dificuldade, as massas de pessoas revoltadas e indignadas com o sistema,
oferecendo a elas não apenas respostas simples (e, em geral, enganosas) aos
seus problemas, mas também novos imaginários coletivos pelos quais pudessem
acreditar, sonhar e lutar.
É nesse
terreno que se articula uma combinação estranha, mas politicamente eficaz entre
fundamentalismos religiosos, reacionarismos conservadores, extremismos
antidemocráticos, influenciadores digitais e oportunistas financeiros. Apesar
de sua heterogeneidade, todos compartilham uma mesma gramática: a esquerda e a
ordem neoliberal passam a ser percebidas como partes de um mesmo sistema —
velho, disfuncional, demagogo, injusto e excludente. Incapaz, portanto, de
oferecer futuro.
A
questão que se coloca, então, é menos sobre o diagnóstico do presente e mais
sobre a capacidade de intervenção sobre o futuro. Como reconstruir um projeto
de transformação social capaz de articular desenvolvimento material e sentido
coletivo? Como disputar o imaginário em um contexto em que o neoliberalismo não
apenas organiza a economia, mas coloniza a própria ideia de possibilidade? E
como dialogar com uma juventude que já não reconhece a esquerda como força
política indutora de futuro? É nesse deslocamento, entre diagnóstico e
imaginação, que se encontra um dos principais desafios do nosso tempo.
Fonte:
Por Rafael Rodrigues da Costa, em Outras Palavras

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