Brasil,
um país suspenso entre a memória do caos e a paralisia das escolhas cansadas
A
corrida presidencial de 2026 entra em uma fase de ebulição com a consolidação
de Flávio Bolsonaro como o herdeiro direto do capital político de seu pai, Jair
Bolsonaro. Pesquisas divulgadas em abril de 2026, da Quaest e Datafolha,
indicam um cenário de empate técnico no segundo turno, com o senador
numericamente à frente do presidente Lula.
O
governo federal enfrenta um desgaste acentuado pela percepção econômica
negativa, onde 50% dos brasileiros sentem uma piora no custo de vida,
refletindo um eleitorado cético diante dos indicadores oficiais positivos que
não chegam ao cidadão comum. “Isso não é traduzido em um sentimento de
pertencimento da população, pois grande parte dela está afastada, mesmo os que
declaram apoio ao Lula – eles declaram apoio ao Lula movidos por esse cenário
de ter medo do outro lado, hoje, cristalizado por Flávio Bolsonaro”, explica.
Nesse
contexto de “paralisia” e “expectativa de inércia existencial”, o sociólogo e
cientista político Paulo Baía analisa as forças que moldam o Brasil atual. Para
ele, o país vive um momento de “escolhas cansadas” e “imprevisíveis”, onde o
afeto e o medo superam o debate sobre projetos nacionais. “Ficamos em uma
superfície existencial e emocional que tem conduzido o país a uma disputa
complicada que se consolidou em 2018 e que se projeta até os dias de hoje”,
afirma o professor, destacando que a memória do ex-presidente permanece como o
eixo central de disputa da oposição.
O
pesquisador chama a atenção para a mudança na configuração dos valores sociais,
onde a religiosidade e as “comunidades cívicas” em torno de templos redesenham
o mapa eleitoral. “Quando 97% da população brasileira prefere a religião ao
Estado, é evidente que isso provoca uma subjetividade, um sentimento emocional
que se traduz em voto”, salienta.
Segundo
Baía, a política brasileira foi capturada e alimentada por emendas
parlamentares que fortalecem ilegalidades territoriais. Lembrando Pierre
Bourdieu, ele alerta que a sociologia precisa retomar seu papel de “esporte de
combate para rasgar as máscaras sociais” que encobrem o controle do dinheiro
público por emendas parlamentares que beneficiam o que o professor chama de
“ilegalidades territoriais”. Nesta entrevista, concedida por telefone ao
Instituto Humanitas Unisinos – IHU, Paulo Baía faz um diagnóstico de um Brasil
que oscila perigosamente entre a memória do caos e a frustração com o presente.
Paulo
Rogério dos Santos Baía é professor aposentado do Departamento de Sociologia da
Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), ex-coordenador do Núcleo de
Sociologia do Poder e Assuntos Estratégicos, pesquisador associado sênior do
Laboratório Cidade e Poder da Universidade Federal Fluminense (UFF), do
Laboratório de Estudos de Gênero do IFCS/UFRJ e do Núcleo de Inclusão Social
(NIS) da UFRJ. Graduado em Ciências Sociais pela UFRJ, mestre em Ciência
Política pela UFF e doutor em Ciências Sociais pela Universidade Federal Rural
do Rio de Janeiro (UFRRJ), realizou estágio pós-doutoral em História Social
pelo PPGHIS/UFF. Pesquisador da Rede Fluminense de Pesquisas em Segurança
Pública, Violência e Direitos Humanos.
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Confira a entrevista.
• Em artigo, o senhor descreve o Brasil
como um “país suspenso”, oscilando entre a memória do caos e o desejo de
mudança. Como essa paralisia impacta o pleito de 2026?
Paulo
Baía – Essa paralisia impacta o pleito deste ano por um certo cansaço no
eleitor. Mesmo o eleitor que já escolheu um candidato ou que já escolheu um dos
lados dessa contenda. É uma escolha cansada. E por haver cansaço, há uma
imprevisibilidade grande. Porque, com cansaço, podemos ter alterações de
humores daqui até outubro.
• De que maneira as ações e omissões do
governo Lula e da oposição bolsonarista nos últimos anos cristalizaram as
expectativas e os medos do eleitorado para 2026?
Paulo
Baía – Não há omissão do governo Lula. O governo Lula se instaura, no terceiro
mandato, com uma reação a Jair Bolsonaro. Tem os programáticos anunciados, mas
pouca coisa, foi uma reação que ganhou uma diferença muito pequena, porque o
campo bolsonarista estava muito constante. Então, a vitória de Lula no segundo
turno foi uma diferença mínima. O que faz com que aquele cenário lá atrás, de
2016, 2017, que levou às eleições de 2018, continue. Não há uma mudança nesse
cenário.
Isso
está mais no campo simbólico e afetivo do que propriamente nos indicadores
reais. Porque quando cruzamos os indicadores reais dos últimos três anos, há
indicadores positivos do governo. Não há indicadores negativos na educação, nas
políticas sociais etc. Entretanto, isso não é traduzido em um sentimento de
pertencimento da população, pois grande parte dela está afastada, mesmo os que
declaram apoio ao Lula – eles declaram apoio ao Lula movidos por esse cenário
de ter medo do outro lado, hoje, cristalizado por Flávio Bolsonaro.
Mesmo
que outros nomes surjam, como o governador do Rio Grande do Sul [Eduardo
Leite], como o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, como o Ratinho Júnior no
Paraná ou o [Romeu] Zema de Minas Gerais, há uma memória ainda de Jair
Bolsonaro que está muito presente. Essas memórias – por isso que eu digo que
está “suspenso” – acabam criando uma expectativa de inércia existencial, o que
impede que as pessoas discutam efetivamente um projeto de país, uma negação de
país. Assim, ficamos em uma superfície existencial e emocional que tem
conduzido o país a uma disputa complicada que se consolidou em 2018 e que se
projeta até hoje.
• O “sentimento de país malgovernado”
mencionado pelo senhor parece ser o principal motor da oposição. Como as pautas
econômicas e a sensação de frustração com o presente podem superar as memórias
positivas de mandatos anteriores? Podemos ter uma reviravolta?
Paulo
Baía – Sim. A população tem uma lembrança histórica do primeiro e do segundo
mandato de Lula, mas os novos atores sociais, beneficiados pelos programas
sociais do terceiro mandato, estão distantes dessa memória. Ao mesmo tempo,
surgiram novas demandas: o mundo do trabalho mudou e a [configuração do] dia a
dia mudou. Portanto, há novos setores pobres e novos setores emergentes, há uma
configuração de valores sociais também diferente e a religiosidade múltipla –
eu nunca falo só dos evangélicos, eu falo de uma religiosidade múltipla.
Você
cresceu vivendo em um estado [RS] em que a presença evangélica sempre foi
forte. Ela cresceu, mas o catolicismo romano também, assim como as religiões de
matriz africana, que têm um recorte conservador muito grande. Além disso, o
espiritismo kardecista, os segmentos, mesmo minoritários, como budistas, têm
esse sentimento conservador presente, mesmo aqueles que estão votando em Lula.
Eu
estou muito impactado com o livro do Felipe Nunes, Brasil no espelho: um guia
para entender o Brasil e os brasileiros (Globo Livros, 2025). Trata-se de um
livro muito bem feito, uma pesquisa bem articulada, que mostra exatamente esses
valores: 97% da população acredita mais na religião do que na política. Estão
deslumbrados.
• A vitória de Donald Trump reconfigurou o
xadrez político global. De que maneira o “trumpismo” atua como um catalisador
para a extrema-direita brasileira na organização para 2026?
Paulo
Baía – Vimos isso quando Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo mobilizaram o
governo norte-americano, com suas ligações com os estamentos trumpistas, para o
estabelecimento de tarifas grandes em relação aos produtos brasileiros, às
exportações brasileiras e à punição dos ministros do Supremo Tribunal Federal.
Houve
uma reversão disso, das tarifas um pouco, mas das punições aos ministros
completamente. Mas não podemos desconsiderar uma presença bélica, beligerante
como a de Trump, tão próximo da gente, aqui, em toda a América Latina, que
reafirma uma doutrina tradicional de que a América Latina é um quintal dos
Estados Unidos. E nós o vemos atacando o Irã, a Venezuela, e isso tudo gera um
sentimento que é único, um certo medo, um respeito amedrontado e, ao mesmo
tempo, que faz com que os setores da extrema-direita brasileira tentem pegar
carona, como já tentaram. Até agora, não foram tão bem-sucedidos. Foram
bem-sucedidos e depois houve a diplomacia brasileira no meio, e a própria
relação do Lula com o Trump onde conseguiram desfazer isso.
Vamos
ver como vai ser o desdobramento de um provável encontro do Lula com o Trump
adiado para abril.
• Flávio Bolsonaro despontou rapidamente
na corrida presidencial. O que isso significa? Como o bolsonarismo chega à
disputa eleitoral de 2026? Ter alguém da família Bolsonaro nas eleições é um
projeto político ou sobrevivência política da família?
Paulo
Baía – As duas coisas. É um projeto de sobrevivência política e hegemonia
política da família, que não quer compartilhar essa hegemonia com os nomes aqui
que eu já citei. Eles querem ter um nome da família, ao mesmo tempo que trazem
uma memória muito densa ainda, que configurou o bolsonarismo ao longo de 2017,
2018 e do governo Bolsonaro. O Bolsonaro perdeu a eleição. O bolsonarismo não,
ele continuou muito ativo durante todo esse período. E eu fico muito
impressionado.
Eu já
não vou no Rio Grande do Sul há algum tempo, mas ando bastante aqui no meu
estado [Rio de Janeiro], no estado de Minas e no interior de São Paulo. Fico
muito impressionado com a densidade, com o apoio da população, e que não é uma
população pobre, não, é uma população esclarecida. São médicos, engenheiros,
advogados e juízes apoiando o bolsonarismo.
Esse
apoio se traduziu com rapidez em um apoio ao Flávio Bolsonaro. Ele foi
escolhido no fim de dezembro. As pesquisas de janeiro e de fevereiro já
indicaram ele com muita força. [As pesquisas mais recentes] reforçam essa
tendência de que o Flávio Bolsonaro consolidou a herança simbólica e afetiva do
bolsonarismo – eu gosto muito de usar a palavra “afetiva”, porque a herança
emocional do bolsonarismo não se explica por projetos políticos.
• O alinhamento automático de parte da
direita brasileira aos interesses de Trump pode ser um tiro no pé
eleitoralmente, dada a desaprovação da figura de Trump por parte da população
brasileira, ou isso fortalece o núcleo duro conservador?
Paulo
Baía – Olha, há duas discussões da direita, porque a direita também é múltipla,
não é unificada. Existe uma direita muito pragmática, econômica, que tem
preocupação porque pode ter seus negócios afetados, como teve com a questão das
tarifas, e ainda está tendo, porque ficou mais caro vender para os Estados
Unidos, e criar mercados é sempre difícil, não é fácil.
E há
uma direita que é uma direita totalmente passional. Eu não digo que é uma
direita imbecil, ignorante, eu não uso esses termos. Ela é passional. Quando eu
converso com um desembargador, uma pessoa esclarecida, um mestre, doutor em
direito, e que apoia o Flávio Bolsonaro, eu não posso dizer que ele é
ignorante. Tem algo ali mais do que isso. E ele não tem interesses no mundo dos
negócios imediatos. Ele talvez tenha interesse em manter seu salário alto,
privilégios corporativos, mas não entra nesse jogo na pergunta que você me fez.
Pegando
o exemplo do Rio Grande do Sul, enxergamos isso com clareza. Na última eleição
para o governador, que o Eduardo Leite ganhou, ele conseguiu fazer algo
importante: conseguiu não fazer uma escolha. Então ele conseguiu capturar
votos.
E é
curioso, porque aqui no meu estado, o Eduardo Paes, que é um dos principais
candidatos a operador do estado, é o prefeito da cidade, ele está fazendo a
mesma coisa. Ele montou uma chapa, pragmaticamente, em que a vice-governadora
já anunciada apoia o Flávio Bolsonaro e ele vai apoiar o Lula. Sim. De maneira
pública, não é escondido, não. É de maneira pública.
É
diferente de São Paulo. Em São Paulo as coisas estão mais divididas, mas Minas
caminha para algo parecido, assim como Espírito Santo.
• De que modo a religião redesenha o mapa
eleitoral?
Paulo
Baía – A religião redefine o mapa eleitoral porque aconteceu algo muito curioso
nesses últimos anos, sobretudo no embate durante a Assembleia Nacional
Constituinte em 1987 e 1988.
Até
esse período, as religiões, durante a ditadura militar e no início da
redemocratização, não tinham piso eleitoral. Mas, a partir da eleição de 1986,
que foi a eleição dos constituintes, há uma mobilização de católicos e de
evangélicos que se organizaram para formar bancadas, para defender uma presença
da religião. Não que o Estado seja religioso, mas existe uma presença grande da
religião no dia a dia legislativo e no executivo brasileiro. Então, essa
discussão ganhou um primeiro plano a partir dos anos 1990, que erradamente as
pessoas sempre falam que é o crescimento dos evangélicos e eu sempre digo que
não é só dos evangélicos, é do conjunto das religiões como um todo.
Você
trabalha em uma universidade católica, sabe do ativismo político que tem, e é
um ativismo político que às vezes está junto, às vezes está separado, mas nas
grandes questões estão juntos. A questão do aborto, do casamento entre pessoas
do mesmo sexo, essas questões unificam um segmento muito grande, vários
segmentos religiosos. Como eu falei antes, dos cristãos evangélicos, dos
cristãos católicos, da umbanda, do kardecismo, enfim, arremata para quase tudo
isso. A questão da intolerância religiosa aumenta e não se dá só contra as
religiões de matrizes africanas, mas se dá no conjunto.
É
evidente que as religiões de matrizes africanas são religiões que o perfil
religioso é mais pobre. Então não podemos descartar uma vinculação também com
os segmentos de classe, de estamento social, de posição social e de
regionalidade, de bairros e de corregiões, como raios discriminantes.
Há algo
que eu chamo a atenção: as igrejas passaram a ser, usando um conceito da década
de 1950, de Robert Putnam, comunidades cívicas. As comunidades cívicas são
aquelas que têm demandas vinculadas ao dia a dia da comunidade. O recolhimento
de lixo, o saneamento básico, o ponto de ônibus, o transporte público, a
qualidade da escola, o conteúdo dado na escola. Então, quando um grupo social
se organiza a partir de demandas como essas, forma-se uma comunidade cívica,
portanto uma comunidade política. E isso acontece com as igrejas e com os
templos religiosos, sobretudo a partir da década de 1990.
Quando
97% da população brasileira prefere a religião ao Estado, é evidente que isso
provoca uma subjetividade, um sentimento emocional que se traduz em voto para
vereador, para deputado estadual, para deputado federal, para senador, para
governador. Para deputado estadual, vereador, prefeito, o tempo é muito grande.
E esses agentes são importantes na eleição de governador, senador e presidente
da República.
• A política é, sem dúvida, mobilização
dos afetos. Mas como chegamos a esse espiral em que há pessoas completamente
alienadas do mundo real, defendendo a soberania nacional enquanto se cobrem com
a bandeira dos EUA e pedem intervenção internacional?
Paulo
Baía – Exato. Eu tenho um artigo da década de 1990, que eu apanhei bastante,
onde eu dizia que voto é afeto. Essa é uma visão esquizofrênica da realidade,
precisamos ir para o campo da psiquiatria e da psicanálise. [risos]
A
pessoa fala de uma soberania, mas essa soberania incorpora uma bandeira de
Israel, uma bandeira dos Estados Unidos, uma bandeira da Palestina. Na prática
se descaracteriza a ideia de soberania quando se faz isso. Eu preferia que
usasse a camisa do Flamengo. [risos]
• Quais são as perspectivas para o
parlamento nas próximas eleições? De que forma podemos sair dessa espiral de
ódio, violência e lacração que tomou conta do Congresso?
Paulo
Baía – Eu tenho vontade, quando me fazem essa pergunta, de mudar para o Vietnã,
por exemplo, que era um sonho de garoto, ou de mudar para Tailândia. [risos]
Porque
se temos esse Congresso com esse perfil, esse perfil vai se potencializar,
porque teremos na prática o resultado das emendas parlamentares, que se
traduzem em apoio local. Aí, na sociedade de São Leopoldo, é possível
visualizar as emendas nas obras que a prefeitura municipal apresenta, que o
vereador tal apresenta. E isso se traduz em apoio para os deputados estaduais,
as assembleias legislativas também são muito ruins. E o recorte de um Congresso
é muito complicado para um presidente que vai vencer, sobretudo se o presidente
for o Lula.
Aqui no
Rio de Janeiro são 46 deputados federais. Desse montante, cerca de dez
deputados vão ser do PSOL, do PT, da Rede, que são bons deputados, mas que
desaparecem no Congresso. E seis vão ser nomes que nem sabemos quem são e que
aparecem como vitoriosos. Replicamos esse cenário em São Paulo, Minas Gerais,
Pernambuco…
Nós não
temos [candidatos da envergadura] de Pedro Simon, Nelson Proença, Nilo Teixeira
Campos, Wellington Moreira Franco, que representavam as velhas oligarquia e as
ideias dos velhos grupos locais. Se eu perguntar quais são os deputados
federais que o Rio Grande do Sul tem, você não saberá me responder, porque
mudou, mas não por uma renovação. [O Congresso] Mudou para essa clivagem
territorial que se materializou via emenda parlamentar, o que abre brecha para
o crime organizado, para facções, milícias, isto é, abre espaço para tudo
quanto é grupo que manipula o território. Não gosto de usar o termo controle,
mas são grupos [políticos] que têm uma ascendência sobre uma localidade.
• Qual deve ser o projeto de país para
avançarmos como nação e democracia?
Paulo
Baía – A primeira coisa é enfrentar para valer a questão disso que,
genericamente, chama-se de crime organizado. Eu chamo de “ilegalidades
territoriais”, porque com isso amplio o [espectro]. Esse é o principal entrave
à democracia. O controle dos orçamentos públicos por esses grupos é um caminho
mais perverso do que o da oligarquia da Velha República.
• Que parece não ter acabado ainda.
Paulo
Baía – Não acabou, ela foi reciclada. A oligarquia da Velha República fazia
aliança com o poder estadual e com o poder nacional, mas quem controlava o
orçamento era a União e o poder do Estado, o governador, o presidente da
República.
Hoje
não. Hoje o governador está submetido ao controle orçamentário da Assembleia
Legislativa. O presidente da República está comprometido com a execução
orçamentária pelo Congresso Nacional. Então, não adianta ter um projeto se não
tem como financiá-lo, como colocá-lo no orçamento.
• Diante do quadro de cansaço generalizado
e polarização radical, qual é o papel da sociologia e das ciências humanas, de
forma geral, na reconstrução da “imaginação política” para que a barbárie não
seja o único horizonte?
Paulo
Baía – Eu não vou ser nem um pouco criativo, vou usar o velho Pierre Bourdieu:
a sociologia é um esporte de combate. E, portanto, temos que combater, tem que
tornar público, rasgar as máscaras sociais. Esse é o papel da sociologia, da
antropologia, da filosofia política, da ciência política e da psicologia
social. Temos que rasgar essas máscaras sociais e ter coragem de ir para o
embate apresentando o que efetivamente está no subterrâneo da sociedade, como
Felipe Nunes fez, com uma coragem fantástica.
• Flávio Bolsonaro já sinalizou que vai
dar golpe se assumir para libertar seu pai e os presos de 8 de janeiro. Como o
senhor avalia esse posicionamento?
Paulo
Baía – Se ele ganhar a eleição, vai dar indulto e graça, vai estabelecer o
“Estatuto da Graça”. Não é nem a anistia que está no Congresso. Ele vai usar o
atributo do presidente da República para pregar o que se chama graça, que é um
instituto jurídico da monarquia. O rei tinha o direito de dar graça. E o
Bolsonaro fez isso uma vez com um deputado [Daniel Silveira, condenado pelo
Supremo Tribunal Federal por ameaças aos ministros da Corte e ao Estado
democrático de direito]. Nunca um presidente tinha usado isso. O presidente usa
para dar um indulto no final do ano.
Com
Flávio Bolsonaro ganhando, ele vai usar os indultos, a Lei da Anistia e o
instituto do perdão presidencial. Por isso que eu tenho vontade de ver as
florestas tropicais. [risos]
• Deseja acrescentar algo?
Paulo
Baía – Que a juventude tenha coragem. Eu já sou veterano pesquisador, mas
trabalho muito no sentido de incentivar os jovens professores, os jovens
docentes, os jovens pesquisadores a terem coragem de fazer isto que o Bourdieu
ensinou: usar as ciências humanas como esporte de combate. E esporte de combate
não é de maneira dogmática. É de maneira esclarecedora, de desvendar máscaras
sociais. Talvez seja a expressão mais correta para esse momento.
Fonte:
Entrevista com Paulo Baía, para IHU

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