sábado, 18 de abril de 2026

Harrison Stetler: Criminalizando o “Do rio ao mar”

Não faltam motivos para ter dúvidas sobre o atual esforço da França para combater as “formas renovadas” de antissemitismo — tema de um projeto de lei que será debatido na Assembleia Nacional em meados de abril.

Neste inverno, o mesmo parlamento fez um minuto de silêncio em homenagem ao militante neofascista Quentin Deranque, que morreu em decorrência dos ferimentos sofridos em um confronto de rua em 12 de fevereiro entre ativistas de extrema-direita e antifascistas em Lyon. Graças a uma exaustiva análise das redes sociais do militante assassinado feita pelo Mediapart, Deranque pode ser considerado um exemplo clássico do passado e do presente antissemita da França.

“Temos que obrigar todos os alunos do ensino médio a lê-lo”, escreveu Deranque sobre Mein Kampf, de Adolf Hitler, em uma postagem no X. Ele professou admiração por fascistas franceses como Lucien Rebatet, autor de Les décombres [Os escombros], um infame tratado antissemita da era Vichy, de colaboração com os nazistas. Ele chamou Simone Veil, sobrevivente do Holocausto e ex-ministra da Saúde, a quem se atribui a legalização do aborto na França em 1975, de “vadia assassina”.

Esse tipo de antissemitismo não é o alvo da chamada Lei Yadan, que está sendo debatida pelos parlamentares. Em vez disso, esse projeto de lei é uma tentativa descarada de silenciar o movimento de solidariedade à Palestina na França. Batizado em homenagem à sua principal defensora, Caroline Yadan, deputada alinhada ao presidente Emmanuel Macron, o projeto de lei deverá ser discutido no parlamento a partir de 16 de abril.

Tem suas raízes na controversa definição de antissemitismo da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA), que abrange críticas ao Estado de Israel. Sua adoção poderia levar a França a seguir os passos da Alemanha, que em 2024 aprovou legislação para impor a adesão pública à definição da IHRA. A IHRA agora conta com trinta e cinco “países membros”, segundo sua própria contagem, em sua grande maioria na Europa e na América do Norte.

A principal inovação da lei Yadan, que classificaria como crime os apelos à “destruição” de qualquer Estado reconhecido pela França — com Israel mencionado como exemplo no preâmbulo da lei, é, para os opositores, uma forma indireta de criminalizar as críticas ao sionismo e o apoio do Estado francês e da indústria armamentista a Israel desde o início da mais recente crise no Oriente Médio, em outubro de 2023.

A lei também ameaça ampliar o alcance da “apologia ao terrorismo”, um item do código penal que já foi usado para reprimir ativistas pró-Palestina, políticos de esquerda e sindicalistas. Com o texto reformulado apresentado no novo projeto de lei, a apologia ao terrorismo poderia se estender a formas de discurso que resultem na “desvalorização” ou “trivialização” de ataques terroristas. Juristas alertam que isso representa uma ampliação significativa da infração, que poderia inclusive ser usada para restringir a cobertura jornalística.

<><> Liberdade de expressão

“Esta lei representa uma ameaça clássica à liberdade de expressão”, disse Nathalie Téhio, presidente da Liga dos Direitos Humanos, sobre o projeto de lei Yadan. “O alvo é deliberadamente amplo. Estamos falando de pessoas que protestam ou se manifestam publicamente, seja oralmente ou por escrito na imprensa. Jornalistas e pesquisadores também devem estar seriamente preocupados. É a liberdade de expressão em seu sentido mais amplo que está sob ataque quando se estabelece a correlação entre críticas ao Estado de Israel e o antissemitismo.”

Para Elie Leibovitch, porta-voz do Coletivo Kessem — um grupo judaico feminista e decolonial — a lei Yadan abre as portas para a repressão estatal. “Considere, por exemplo, um cartaz com o slogan ‘Do rio ao mar’ — isso corre o risco de ser criminalizado”, disse Leibovitch à revista Jacobin. “Os inquéritos policiais contra protestos [pró-Palestina] terão uma nova justificativa legal. Palestras universitárias sobre o conflito Israel-Palestina serão silenciadas.”

As amplas condenações à lei Yadan, vindas de defensores dos direitos civis e ativistas judeus de esquerda, começam a surtir efeito na opinião pública. No início de abril, uma petição pela rejeição do projeto de lei ultrapassou meio milhão de assinaturas.

Mas não está claro se isso será suficiente para romper a ampla convergência política em favor da legislação. Embora não seja formalmente patrocinado pelo governo, o projeto de lei Yadan conta com o apoio de aliados importantes do presidente Macron, como a ministra da Igualdade de Gênero, Aurore Bergé. Em janeiro, o projeto foi aprovado pela Comissão de Legislação da Câmara dos Deputados com o apoio do grupo de Macron, juntamente com o partido conservador Os Republicanos e o partido de extrema-direita Rassemblement National, de Marine Le Pen. Embora haja alguns sinais de hesitação entre os deputados centristas diante da crescente oposição pública, isso pode se mostrar insignificante em comparação com a pressão para a aprovação do projeto.

Em um discurso proferido em 19 de fevereiro no evento de gala anual do CRIF (Conselho Representativo das Instituições Judaicas Francesas, um influente grupo pró-Israel), o primeiro-ministro Sébastien Lecornu prometeu apoiar a legislação proposta e levá-la à votação nesta primavera. “Não podemos mais tolerar apelos à aniquilação de um Estado”, afirmou o premiê francês.

<><> A armadilha montada

Téhio se referiu à lei Yadan como uma “armadilha” política para os parlamentares: “Receio que muitos representantes simplesmente vejam a ideia [da lei] e pensem: ‘Se eu votar contra, serei atacado por pessoas que dirão que não quero lutar contra o antissemitismo’”.

Ela prosseguiu: “Todos nós entendemos a importância de confrontar o antissemitismo. O problema hoje é a instrumentalização político-partidária da questão do antissemitismo.”

Esse contexto preocupa os observadores, que temem que as salvaguardas constitucionais da França não sejam suficientes para resistir a essa clara ameaça à liberdade de expressão. Caso seja aprovada pelo parlamento, a lei Yadan será submetida à apreciação do Conselho Constitucional, cujo atual presidente, Richard Ferrand, aliado próximo de Macron, foi indicado pelo presidente para 2025.

Ferrand já havia atuado como presidente da Assembleia Nacional entre 2018 e 2022, período em que o órgão adotou uma resolução não vinculativa que endossava a definição de antissemitismo da IHRA. Em seus pontos mais incisivos, a IHRA condena como antissemitas as alegações de que o Estado de Israel é um “empreendimento racista” — basta pensar nas crescentes acusações de apartheid ou genocídio — os “dois pesos e duas medidas” que exigem de Israel “um comportamento não esperado […] de qualquer outra nação democrática”.

Embora a resolução da Assembleia Nacional de 2019 mencionasse uma “ferramenta de orientação” para identificar atos antissemitas, esta poderá em breve transformar-se numa poderosa arma jurídica. Para uma ampla gama de forças representadas no parlamento francês, que, de resto, se encontra dividido, confrontar o chamado “novo antissemitismo” é, em última análise, uma forma de deslegitimar o movimento pró-Palestina na França.

<><> Uma esquerda dividida

A ofensiva também está acirrando as divisões na esquerda. Figuras importantes do Partido Socialista, incluindo o ex-presidente François Hollande (hoje deputado), são inclusive co-signatários da proposta legislativa. Em janeiro, a abstenção do Partido Socialista foi crucial para a aprovação do projeto pela Comissão de Legislação da Assembleia Nacional, contrariando a oposição dos representantes dos Verdes, dos Comunistas e da França Insubmissa. O líder do Partido Socialista, Olivier Faure, afirmou posteriormente que o partido se oporia à legislação, embora, na realidade, alguns deputados possam romper com a linha partidária.

A luta interna da esquerda sobre o antissemitismo e as críticas a Israel voltou à tona nos últimos meses. Em fevereiro, o líder do France Insoumise, Jean-Luc Mélenchon, provocou uma onda de indignação na mídia ao fazer uma piada sobre a pronúncia do nome de Jeffrey Epstein durante um evento de campanha em Toulouse. Em 2 de abril, a eurodeputada Rima Hassan, também do France Insoumise, foi novamente detida sob a acusação de “apologia ao terrorismo”. O inquérito policial foi motivado por uma postagem, já apagada, da eurodeputada no X, em apoio a Kozo Okamoto, um militante japonês envolvido no atentado ao aeroporto de Lod, em Israel, em 1972. Este é o mais recente de uma série de processos criminais contra a eurodeputada franco-palestina, uma crítica ferrenha do consenso entre o establishment francês e da União Europeia em relação a Israel.

Para Leibovitch, do Coletivo Kessem, a eterna disputa sobre o antissemitismo de esquerda é uma frente fundamental na tentativa do centro de marginalizar seus concorrentes da esquerda radical. É também uma expressão do medo nos círculos do establishment, provocado pela rejeição do apoio do Estado francês a Israel, posição para a qual a France Insoumise se tornou um dos principais veículos políticos.

Como todas as formas de intolerância, o antissemitismo é um problema na França, e Leibovitch destaca que “o antissemitismo na esquerda persiste, assim como a misoginia ou a homofobia”, acrescentando que “resistir a ele é uma batalha constante”. Mas essa luta está muito longe da legislação punitiva que está sendo proposta, cujo único propósito é silenciar um setor da sociedade francesa que se manifesta cada vez mais.

¨      A busca no Brasil por uma definição de antissemitismo

Bandeira levantada por um recente projeto de lei (PL) da deputada federal Tabata Amaral (PSB-SP), a adoção de uma definição internacional de antissemitismo no Brasil orbita há tempos na pauta política. Desde 2022, o país se aproximou e afastou da Aliança Internacional para a Memória do Holocausto (IHRA, na sigla em inglês), cuja contestada descrição é defendida pela parlamentar para instruir políticas públicas, com apoio de organizações da comunidade judaica brasileira. Na contramão, críticos dentro e fora de Israel argumentam contra o emprego político do texto para silenciar críticas, inclusive quanto aos territórios palestinos. O principal motivo para esta perspectiva é que a definição da IHRA elenca algumas percepções e comportamentos sobre o Estado de Israel como antissemitismo.

Segundo o PL, "a iniciativa não pretende limitar a liberdade de expressão", mas distinguir o debate público legítimo das manifestações de ódio e discriminação contra judeus. A incidência delas vem crescendo nas estatísticas disponíveis, bem como na percepção de membros da comunidade judaica no Brasil. Para a Confederação Israelita do Brasil (Conib), o projeto é "passo importante" para fortalecer o combate ao antissemitismo como pauta de Estado. Já a Federação Israelita do Estado de São Paulo (Fisesp) vê "avanço significativo de combater o ódio com instrumentos concretos".  Em contrapartida, diferentes estudiosos defendem a busca por uma definição própria do Brasil, em diálogo com o governo federal. Essa definição poderia ser formatada, inclusive, para educar contra o que chamam de uma "gramática antissemita" em partes da sociedade, sem concorrer com o debate político aberto.  

"É fundamental uma definição que reconheça especificidades (do Brasil) e delimite o que é ou não é antissemitismo," afirma Michel Gherman, coordenador do Núcleo Interdisciplinar de Estudos Judaicos da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), apontando a alternativas à adoção de uma declaração internacional. 

<><> Doze estados se alinham à IHRA

Organizado pelo Itamaraty, um seminário dedicado ao tópico reunirá uma pluralidade de intelectuais, membros da comunidade judaica e diplomatas em Brasília nesta quinta-feira (16/04), Dia Nacional da Lembrança do Holocausto. Deverão ser discutidas as correntes definições de antissemitismo, uma possível versão brasileira, bem como estratégias de monitoramento e combate.  "O Brasil tem a oportunidade histórica de estabelecer uma definição local, que possa servir de modelo para outros países", prosseguiu Gherman. Ele argumenta que o país tem experiência na definição de outras violências ligadas à temática da diversidade, como o racismo e o feminicídio. Em paralelo, entidades judaicas no Brasil promovem a adoção da definição da IHRA a nível local, e governos estaduais decidem por conta própria. Pelo menos 12 adotaram a definição da IHRA desde 2024, incluindo Rio de Janeiro, São Paulo, Mato Grosso, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Minas Gerais, Goiás, Roraima, Rondônia e Amazonas, além de no mínimo três capitais: a paraibana, a paulistana e a fluminense.

Sem vinculamento jurídico, a IHRA descreve o antissemitismo como "uma determinada percepção dos judeus, que se pode exprimir como ódio em relação aos judeus. Manifestações retóricas e físicas de antissemitismo são orientadas contra indivíduos judeus e não judeus e/ou contra os seus bens, contra as instituições comunitárias e as instalações religiosas judaicas."  Para adeptos, que também incluem Estados Unidos, Argentina, Alemanha e outros 24 países da União Europeia (UE), o texto de 2016 serve de ferramenta para identificar e prevenir o antissemitismo. A Comissão Europeia, braço Executivo do bloco, o enxerga como "ponto de referência para promover uma abordagem baseada nos direitos humanos e centrada nas vítimas".

<><> Redação disputada

Tal como outros especialistas, Karl Schurster, professor de História da Universidade de Pernambuco e assessor do Instituto Brasil-Israel, considera, entretanto, que falar numa "determinada percepção dos judeus" abre espaço a interpretações subjetivas. "Deveríamos ter uma definição, mesmo dentro da própria IHRA, que fosse mais material," afirma. O texto ressalta ainda que "manifestações podem ter como alvo o Estado de Israel, encarado como uma coletividade judaica. No entanto, as críticas a Israel, semelhantes às dirigidas contra qualquer outro país, não podem ser consideradas antissemitas." São elencados onze exemplos de conduta antissemita, dos quais sete são focados no país, no que é tido como um dos pontos mais sensíveis para críticos. Incluem-se aplicar padrões duplos de julgamento em relação a Israel, comparar as políticas do país ao nazismo ou descrever sua existência como um empreendimento racista.  "A definição diz que o Estado de Israel representa o judeu coletivo e, se ele é entendido dessa forma, então uma crítica ao Estado configura antissemitismo", afirma Arlene Clemesha, historiadora e professora do Departamento de Letras Orientais da Universidade de São Paulo. "A pessoa que elaborou esta crítica poderia ser criminalizada e levada às cortes."

O PL em tramitação não tipifica novo crime nem aumenta penas. O antissemitismo já é entendido como forma de racismo pela lei brasileira e, portanto, configura crime imprescritível e inafiançável. "Não é verdade também que ele (o PL) protege Israel de críticas", acrescenta a Conib, em posicionamento oficial. "Ao contrário, reafirma que críticas a políticas e governos de Israel não se confundem com discurso antissemita (...)."

<><> Vai e volta do Brasil

O tema entrou no radar de Jair Bolsonaro, que, durante a sua Presidência (2019 -2022), determinou ao Itamaraty solicitar a entrada do Brasil como membro observador da IHRA em 2020. Obtido no último ano de mandato, o status seria o primeiro passo para o país eventualmente se tornar membro e internalizar a definição da aliança. Mas, em julho de 2025, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva deu um passo atrás, afirmando que a adesão não incluiu consulta ao Congresso Nacional nem previsão orçamentária — e, ainda, que a IHRA afere os casos de antissemitismo no mundo "de forma pouco consensual". Em casos notórios, a definição já foi invocada por autoridades contra uma jornalista, na Alemanha; a Anistia Internacional, no âmbito da UE; e universidades onde houve protestos pró-Gaza, nos Estados Unidos.  

"A total falta de clareza da definição da IHRA quanto aos limites do discurso e da ação política legítima em relação ao Sionismo, a Israel e à Palestina tampouco recomendou a manutenção do Brasil entre os signatários da IHRA," disse o chanceler Mauro Vieira à Comissão de Relações Exteriores e de Defesa Nacional da Câmara dos Deputados.

Em 2023, 104 organizações ligadas à temática dos direitos humanos pediram que a Organização das Nações Unidas (ONU) não adotasse o texto, incluindo B'Tselem, Human Rights Watch, Anistia Internacional e grupos das sociedades civis israelense e palestina.  A coalizão internacional alegou que, na prática, o seu emprego vinha servindo para "erroneamente rotular o criticismo de Israel como antissemita", por vezes inibindo ou suprimindo "protestos não violentos, ativismo e discursos críticos a Israel e/ou ao Sionismo."

<><> Definições concorrentes

O gesto azedou ainda mais a relação entre Brasil e Israel, marcada pelo antagonismo entre Lula e o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, diante das críticas do Planalto à guerra em Gaza.  O recuo brasileiro da posição de observador poderia ter sido "feito de melhor maneira e mais explicada", na avaliação de Gherman. Já Schurster argumenta que a permanência poderia ser importante para observar o ambiente internacional: "A natureza da diplomacia brasileira é multilateral. Então, escutar e fazer parte de fóruns é fundamental." A parlamentares, Vieira destacou ainda a Declaração de Jerusalém sobre Antissemitismo, uma definição alternativa de 2021, elaborada como contraproposta à IHRA por seus críticos e, hoje, assinada por 370 acadêmicos. 

O "antissemitismo é a discriminação, preconceito, hostilidade ou violência contra judeus enquanto judeus (ou instituições judaicas apenas por serem judaicas)," diz o texto, acompanhado por 15 orientações gerais ou sobre quais aplicações envolvendo Israel e Palestina são ou não, à primeira vista, antissemitas. Pela declaração, é antissemita "negar o direito dos judeus no Estado de Israel de existir e prosperar". Não é antissemita "criticar ou se opor ao Sionismo como forma de nacionalismo" nem "apoiar arranjos que garantam plena igualdade a todos os habitantes 'entre o rio [Jordão] e o mar [Mediterrâneo]'."  Nem esta nem outras definições alternativas, entretanto, desfrutam da adesão entre governos conquistada pela IHRA. 

<><> Prevenção pela educação

Desde que apresentou o seu projeto, inicialmente assinado por mais 44 deputados, Tabata foi acertada por uma enxurrada de ataques nas redes. Em dois dias, nove deputados do Partido dos Trabalhadores (PT), Partido Verde (PV), Rede e Partido Democrático Trabalhista (PDT) retiraram assinaturas. A DW entrou em contato com a equipe da deputada, mas não obteve retorno até o fechamento do texto. O ex-ministro de Bolsonaro e agora deputado federal Eduardo Pazuello (PL-RJ), que permanece coautor do PL, já apresentara proposta semelhante em fevereiro do ano passado, mas a retiraria um mês mais tarde.  Para especialistas ouvidos pela DW, os projetos apresentados até agora falham em ensejar debates sociais mais amplos, que encorajem o letramento da população, desde a educação nas escolas, contra o vocabulário que estereotipa, discrimina ou violenta os judeus.  "O combate ao antissemitismo é comum ao combate a todo e qualquer outro racismo. Uma população que tem liberdade de diálogo pode identificá-lo e não permitir que ele aconteça," afirma Clemesha. "É responsabilidade de todos."

<><> Grupo de trabalho no governo federal

Em paralelo, o Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC) lançou em janeiro um Grupo de Trabalho (GT) para elaborar um Plano Nacional de Combate ao Antissemitismo, com 40 representantes da comunidade judaica, especialistas, pesquisadores, instituições da sociedade civil, além de envolvimento de outras cinco pastas.  O GT deverá avançar na discussão aberta pelo seminário desta quinta-feira, possivelmente levando sugestão sobre a definição de antissemitismo ao "Conselhão", órgão consultivo do governo federal com a sociedade civil. Adotando a definição da IHRA, em 2025, a Conib registrou aumento de 149% de ocorrências de antissemitismo em relação a 2022 — o ano anterior ao início da guerra entre Israel e o Hamas, classificado como organização terrorista pelos EUA, pela UE e diversos países no mundo. De 989 casos, 45,9% (451) caem na classificação de incitação ao ódio, incluindo falas conspiracionistas, ameaças de extermínio e uso de símbolo nazista.  Em nota, o MDHC disse que o antissemitismo é "tema relevante na sua agenda", com ainda outras iniciativas em curso para esta e outras formas de discriminação, incluindo um observatório para enfrentar discursos de ódio, extremismo e o avanço de células neonazistas.

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil/DW Brasil

 

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