Biofobia:
quando a natureza nos causa medo
Experiências
em meio à natureza costumam ser consideradas um bálsamo para a alma. Existe até
um termo específico para isso: biofilia - ou o amor das pessoas pela natureza.
A ideia vem da psicologia evolutiva e afirma que os seres humanos se sentem
atraídos por ambientes naturais que, ao longo da evolução, ofereceram boas
chances de sobrevivência.
O
contraponto disso é a biofobia, ou seja, o medo da natureza. Exemplos incluem o
medo de grandes predadores ou fobias de aranhas ou cobras — animais que podem
ser venenosos.
No
entanto, pesquisadores observam cada vez mais uma forma de medo da natureza que
vai muito além desses receios concretos e originalmente protetores da vida.
Essa é a conclusão de um estudo de revisão da Universidade de Lund, na Suécia.
A equipe de pesquisa analisou ao todo 196 estudos de diferentes áreas, todos
voltados para a relação entre seres humanos e natureza.
O
resultado: a relação de nós, humanos, com a natureza parece estar se
deteriorando de forma acentuada.
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Perdemos o contato cotidiano com a natureza
O
principal motivo dessa piora, segundo a maioria dos estudos, é que cada vez
mais pessoas têm cada vez menos contato com a natureza, relata Johan Kjellberg
Jensen, da Universidade de Lund, que coordenou o estudo de revisão. Uma das
causas desse relacionamento negativo com a natureza estaria no fato de que um
número crescente de pessoas vive em cidades.
"Hoje,
a maior parte da população mundial vive em cidades, o que significa que as
futuras gerações podem estar expostas a um risco maior de biofobia”, afirma
Jensen, cientista ambiental e climático, à DW.
A
ciência já observa, desde o fim da década de 1970, um afastamento das pessoas
da natureza, diz também o psicólogo berlinense Dirk Stemper, que trabalha,
entre outros temas, com gestão da ansiedade e desenvolvimento da personalidade.
Isso vale sobretudo para os países industrializados.
"Crianças
crescem cada vez mais em ambientes altamente impermeabilizados, afastados da
natureza, e passam seu tempo principalmente em espaços fechados e em ambientes
digitais. Faltam aí as experiências corporais e sensoriais, como escalar, se
sujar ou observar animais.”
Mas são
justamente essas experiências que constroem familiaridade com a natureza.
Quando elas faltam, a natureza passa a parecer estranha.
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O que acontece quando a natureza se torna estranha?
Aquilo
que não conhecemos também não nos interessa. E isso pode se tornar um problema
sério em tempos de mudança climática e extinção de espécies.
"A
disposição para se engajar na proteção do meio ambiente, da natureza e do clima
é maior quando nos percebemos como parte da natureza”, enfatiza Lea Dohm. A
psicóloga é membro da Aliança Alemã de Clima e Saúde (KLUG) e estuda as
consequências psicológicas das crises ecológicas.
Em
outras palavras: aquilo que não nos interessa, também não queremos proteger.
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Quando a terra é "suja" e minhocas são "nojentas”
Essa
postura também é transmitida, por exemplo, pelos pais. "Atitudes negativas
dos pais em relação à natureza podem influenciar a relação de seus filhos com
ela — levando a uma espiral descendente de conexão com a natureza”, diz Jensen,
líder do estudo.
Quando
crianças ouvem repetidamente frases como "cuidado com os carrapatos” ou
"não encosta nisso”, passam a vivenciar a natureza como algo perigoso,
ressalta o psicólogo Stemper.
Essa
experiência também é compartilhada pela educadora ambiental Susanne Sigl. Ela
trabalha na Querwaldein, uma organização sem fins lucrativos em Colônia que
busca transmitir às crianças uma relação positiva com a natureza.
"Quando
pedimos às crianças, na floresta, que procurem galhos longos, algumas os
seguram apenas com a ponta dos dedos; outras chegam a usar um lenço de papel; e
outras nem trazem nada”, conta a pedagoga. Muitas crianças já nem pensam mais
em pegar castanhas ou avelãs com as mãos, em vez de apenas olhar — e muito
menos minhocas ou insetos inofensivos, como pequenos besouros, diz Sigl.
Ela
relata ainda que, com frequência, os pais mandam os filhos com roupas
totalmente inadequadas para um passeio na floresta: muitas vezes pouco
agasalhados ou com tênis brancos que não devem sujar. "A terra costuma ser
vista apenas como sujeira — inclusive pelas crianças.”
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Alienação da natureza gera medo e hostilidade
Quando
a natureza nos é tão estranha a ponto de sentirmos medo, esse medo pode se
transformar em hostilidade — e a equipe da Universidade de Lund também
encontrou evidências disso. Estudos mostram que pessoas biofóbicas evitam
ativamente a natureza e, em alguns casos, defendem a matança de certos animais,
como ursos, lobos ou tubarões.
Não são
apenas fatores externos, como a falta de contato com a natureza, que
influenciam nossa postura diante dela, diz Jensen. Fatores internos também
contam: pessoas que se sentem fracas ou doentes tendem a ter mais medo, por
exemplo, de predadores — como mostram muitos estudos.
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Como a cultura molda nossa relação com a natureza
A
relação com a natureza também é fortemente moldada pela cultura.
"Antigamente, na Europa Central, a floresta era vista como um lugar de
perigo — de animais selvagens, de fome, de ladrões, de ameaças mágicas”, lembra
o psicólogo Dirk Stemper. Somente com o movimento cultural do Romantismo a
floresta passou a ser, na Alemanha, uma paisagem idealizada.
Típica
do período romântico (1795 a 1848) foi a busca pelo mágico, pelo sobrenatural e
pelo maravilhoso — uma reação ao rápido avanço tecnológico da época.
"Hoje,
vivemos de certo modo um retorno do medo da natureza — não mais diante de
predadores e animais selvagens, mas por causa do afastamento, dos
enquadramentos midiáticos e da distração digital.”
Pesquisas
sobre a cultura pop de língua inglesa também apontam para uma mudança cultural
que se afasta da natureza, relata Jensen. "Desde os anos 1950, as
referências à natureza em romances, letras de músicas e enredos de filmes vêm
diminuindo continuamente.”
Enquanto
isso, à medida que a experiência pessoal com a natureza diminui, os meios de
comunicação frequentemente apresentam uma imagem negativa dela — seja por
filmes como Tubarão, seja pela cobertura de catástrofes naturais.
Ao
mesmo tempo, muitas mídias digitais mostram uma imagem distorcida da natureza,
diz Stemper. Essa "hiper-realidade” faz com que as fronteiras entre o
original e a reprodução — muitas vezes filtrada — se tornem difusas.
Como
consequência, experiências virtuais de natureza, como feeds do Instagram ou
jogos de computador, parecem mais intensas e "reais” do que o encontro
efetivo com florestas, campos ou animais.
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Pouca natureza faz mal à saúde
Por
que, então, ir à floresta de verdade, se a floresta "inofensiva” do
Instagram parece muito mais bonita?
Porque
ela nos faz bem, simples assim. "Estar na natureza promove nossa saúde
mental — e muitas pessoas se sentem frequentemente tensas e sobrecarregadas”,
afirma a psicóloga Lea Dohm. "Estudos mostram que florestas e ambientes
naturais amenizam sintomas de TDAH, melhoram a atenção e a concentração,
reduzem problemas sensoriais e favorecem a regulação emocional”, acrescenta
Stemper.
Como
pessoas biofóbicas evitam a natureza, elas perdem todos esses benefícios à
saúde. Então, o que fazer?
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Como resgatar a conexão com a natureza
Conhecimento
ajuda — e muitos estudos mostram isso, diz Jensen. Quando conhecemos muitas
plantas e animais e entendemos como a natureza funciona, conseguimos
valorizá-la melhor — "o risco de uma relação negativa diminui”. E quando o
medo de perigos naturais é de fato justificado, ajuda evitar conflitos, por
exemplo, protegendo animais domésticos de predadores.
"Quando
não existe um perigo real por trás de um medo, a melhor forma de superá-lo é
por meio da exposição gradual”, diz Dohm. As pessoas podem, sim, ser orientadas
a retomar, passo a passo, o contato com a natureza.
Com
crianças, isso funciona melhor por meio da brincadeira espontânea, afirma a
educadora ambiental Sigl. "Quando crianças brincam de pega-pega na
floresta, caem, se escondem atrás de uma árvore ou se agacham em um arbusto,
tocar em galhos depois disso geralmente deixa de ser um problema.”
Fonte:
DW Brasil

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