sábado, 18 de abril de 2026

EUA x Irã: quatro cenários possíveis do que vem pela frente no conflito

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, disse que o Irã concordou em entregar seu estoque de urânio enriquecido, uma das questões-chave nas possíveis negociações para encerrar a guerra.

Segundo Trump, as negociações entre os dois países podem ser retomadas no fim de semana, com os governos americano e iraniano "muito próximos" de um acordo, segundo ele.

O Irã não comentou as declarações de Trump.

Trump disse ainda acreditar que uma extensão do cessar-fogo com o Irã, que deve expirar no começo da próxima semana, não seria necessária por conta da proximidade de um possível acordo.

Um diálogo inicial entre os dois países, no fim de semana passado no Paquistão, foi encerrado no domingo sem avanços.

Diante desse cenário, quais os possíveis rumos para o conflito?

A seguir, quatro cenários possíveis para o que pode acontecer.

<><> 1. Cessar-fogo frágil como pausa 'estratégica'

Após semanas de ataques, o cessar-fogo entre EUA e Irã pareceu sinalizar uma disposição para conter a crise. No entanto, desde o início, essa trégua vem sendo marcada por imprecisões.

Diferenças na interpretação dos seus termos — incluindo o alcance geográfico, os tipos de alvos incluídos e até mesmo a definição de uma "violação do cessar-fogo" — levaram alguns analistas a enxergar o acordo mais como uma pausa estratégica do que como uma solução duradoura.

"As chances de se chegar a um acordo eram próximas de zero desde o início", afirmou Behnam Ben Taleblu, pesquisador sênior do think tank Foundation for Defense of Democracies, com sede em Washington.

"Há um conjunto de princípios, posições e políticas sobre os quais os EUA e a República Islâmica divergem há anos. No curto prazo, a guerra não só não reduziu essas diferenças, como as intensificou", disse ele à BBC News Persa.

Ao mesmo tempo, declarações contraditórias de autoridades de ambos os lados aumentaram a fragilidade da situação.

Enquanto autoridades do Irã falam em violações recorrentes do cessar-fogo, os EUA e Israel adotam uma interpretação mais limitada do que foi acordado.

Essa divergência de narrativas aprofundou a desconfiança e lançou dúvidas sobre a durabilidade do acordo.

Se as tentativas de retomar as negociações não trouxerem resultados, o cessar-fogo tende a se tornar pouco mais do que uma forma de ganhar tempo — permitindo que as partes façam uma pausa, se recuperem e se reorganizem, reavaliem suas posições e se preparem para a próxima fase.

Esse cenário se torna mais provável caso um dos lados conclua que está ganhando muito pouco com a situação atual, e que é necessário aumentar a pressão de forma significativa.

Os Estados Unidos, por exemplo, poderiam considerar atacar infraestruturas críticas no Irã — como usinas de energia, pontes ou instalações energéticas — como uma possível opção.

Embora esse tipo de ação possa gerar pressão no curto prazo, também traria amplas consequências humanitárias e econômicas, além de poder provocar uma resposta mais firme do Irã.

Ao mesmo tempo, Israel, que mantém forte ceticismo em relação às negociações, tende a se tornar um ator ainda mais influente.

"Israel pode recorrer a ações como assassinatos de indivíduos e autoridades iranianas, incluindo aqueles envolvidos nas negociações", afirmou Hamidreza Azizi, pesquisador em relações internacionais.

"A política declarada por Donald Trump de bloquear o Estreito de Ormuz aumenta o risco de confronto, mesmo que as partes não desejem isso diretamente", acrescentou.

Embora a possibilidade de escalada não possa ser descartada, seus custos potencialmente elevados — como o risco de um conflito regional mais amplo e impactos na economia global — podem tornar esse cenário menos provável, ao menos no curto prazo.

<><> 2. 'Guerra nas sombras'

Um dos cenários — talvez um dos mais prováveis — é o retorno a um tipo de confronto que pode ser descrito como uma "escalada controlada".

Isso significa que o conflito não chegaria ao nível de uma guerra em larga escala, mas também não haveria uma interrupção total das ações militares. Nesse contexto, poderiam continuar ataques limitados a infraestruturas, alvos militares ou até mesmo linhas de abastecimento.

O papel de atores indiretos ganharia ainda mais relevância. O aumento da atividade de grupos alinhados ao Irã no Iraque ou no Mar Vermelho, junto com maior pressão dos Estados Unidos sobre essas redes, poderia ampliar o alcance geográfico do conflito sem necessariamente elevar sua intensidade. Alguns analistas descrevem esse cenário como uma "guerra nas sombras".

"Ambos os lados querem usar suas opções e instrumentos de pressão para influenciar o outro sem entrar em uma guerra em larga escala", disse Hamidreza Azizi.

"Se o cessar-fogo for violado, a probabilidade de o Irã adotar novas ações por meio de suas forças aliadas — especialmente no Iêmen — é considerada alta", acrescentou.

No entanto, esse cenário não está isento de riscos. À medida que as tensões aumentam, cresce também o risco de erros de cálculo. E, mesmo sem a intenção de escalar o conflito, um único equívoco pode levá-lo a um nível incontrolável.

<><> 3. Diplomacia discreta continua

Apesar do fracasso das negociações no Paquistão, ainda não é possível concluir que a diplomacia se esgotou ou que as conversas estejam fora de cogitação.

O Paquistão, como anfitrião desses encontros, deve continuar seus esforços nos próximos dias para incentivar Teerã e Washington a chegarem a um acordo, atuando como intermediário na troca de mensagens entre os dois lados.

Ao mesmo tempo, mediadores tradicionais — como Catar, Omã e até mesmo Arábia Saudita e Egito — podem se tornar mais ativos diante do temor de que o conflito saia do controle, funcionando como canais de comunicação e tentando evitar uma escalada repentina da crise.

Contudo, qualquer avanço nesse sentido depende da diminuição das divergências entre EUA e Irã.

A proposta de 15 pontos dos Estados Unidos e a contraproposta de 10 pontos do Irã indicam que ambos ainda priorizam impor seus próprios termos, em vez de buscar um meio-termo.

Assim, embora uma nova rodada de negociações seja possível, esperar um acordo rápido e abrangente parece pouco realista — pelo menos no curto prazo.

<><> 4. Bloqueio naval prolongado

O presidente dos Estados Unidos anunciou que a Marinha americana pretende impor um bloqueio marítimo ao Irã, impedindo a passagem de navios e petroleiros pelo Estreito de Ormuz.

Ele também ameaçou interceptar, em águas internacionais, qualquer embarcação que pague taxas de trânsito ao Irã para atravessar o estreito — uma estratégia que parece ter como objetivo privar o país de receitas do petróleo, sufocar sua economia e, ao mesmo tempo, atingir o principal rival dos EUA, a China, maior compradora de petróleo iraniano.

"Um bloqueio marítimo dos portos do Irã pode ser altamente eficaz se houver alocação suficiente de recursos de inteligência, vigilância e reconhecimento", afirmou Behnam Ben Taleblu, destacando a extensa costa iraniana.

"O resultado prático de uma medida como essa seria privar o governo de sua capacidade de exportar sua principal commodity."

Mas outros analistas apontam para os custos significativos que essa política poderia impor aos Estados Unidos, ao aproximar suas forças militares do Irã e torná-las mais vulneráveis a ataques.

Além disso, para que o plano seja eficaz, forças navais precisariam permanecer mobilizadas próximas às fronteiras iranianas por um período prolongado, o que implicaria custos elevados.

A manutenção dessa estratégia também poderia provocar a alta dos preços globais de petróleo e energia, além de aumentar a probabilidade de uma intervenção dos houthis para bloquear o tráfego no Estreito de Bab el-Mandeb, o que poderia pressionar ainda mais os preços do petróleo.

<><> Instabilidade estrutural: uma nova ordem na região?

No fim das contas, o que esses cenários indicam é que a região entrou em uma fase em que a fronteira entre guerra e paz está mais nebulosa do que nunca.

O fracasso das negociações no Paquistão não sinaliza o fim da diplomacia, nem marca o início definitivo de uma guerra mais ampla. Em vez disso, aponta para a continuidade de uma situação de "zona cinzenta".

"Embora ambos os lados queiram que esse conflito chegue ao fim, isso não parece provável no curto prazo", afirmou Hamidreza Azizi.

No contexto atual, decisões estratégicas, questões de segurança e até mesmo pequenos desdobramentos no local do conflito podem ter impactos desproporcionais sobre o rumo da crise.

Isso tem levado muitos analistas a falar em "instabilidade estrutural" na região — uma condição em que as regras do jogo não estão completamente definidas e cujo desfecho é imprevisível.

Nesse cenário, talvez a descrição mais precisa seja a de que Irã e Estados Unidos entraram em uma fase em que guerra e negociação ocorrem simultaneamente. Ambos continuam a recorrer a ferramentas militares, ao mesmo tempo em que mantêm canais diplomáticos parcialmente abertos.

¨      O que se sabe sobre o cessar-fogo entre Líbano e Israel

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que os líderes de Israel e do Líbano concordaram com um cessar-fogo de 10 dias, que entrou em vigor às 18h (horário de Brasília) de quinta-feira (16/4).

Não houve menção no comunicado de Trump ao Hezbollah, o grupo militante apoiado pelo Irã no Líbano, com o qual Israel vem trocando tiros nas últimas seis semanas.

Mas, em uma publicação posterior na rede Truth Social, Trump pediu ao grupo que respeitasse o cessar-fogo, dizendo: "Espero que o Hezbollah se comporte bem e de forma adequada durante este importante período".

Após o anúncio, o presidente dos EUA também convidou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente libanês, Joseph Aoun, à Casa Branca para novas conversas.

A seguir, o que se sabe até agora sobre a trégua.

<><> O que diz o acordo?

Os termos do acordo especificam que o cessar-fogo deve durar 10 dias, com a possibilidade de ser "prorrogado por mútuo acordo" caso as negociações mostrem sinais de progresso.

De acordo com mais detalhes fornecidos pelo Departamento de Estado dos EUA:

  • Israel mantém seu "direito de tomar todas as medidas necessárias em autodefesa, a qualquer momento, contra ataques planejados, iminentes ou em andamento";
  • O Líbano deve tomar "medidas significativas" para impedir que o Hezbollah e todos os outros "grupos armados não estatais rebeldes" realizem ataques contra alvos israelenses;
  • Os envolvidos reconhecem que as forças de segurança do Líbano têm responsabilidade exclusiva pela segurança do Líbano;
  • Israel e o Líbano solicitaram que os EUA continuem a facilitar novas conversas diretas com o objetivo de "resolver todas as questões pendentes";

A declaração acrescentou que a trégua foi um "gesto de boa vontade" de Israel destinado a possibilitar "negociações de boa-fé para um acordo permanente de segurança e paz" entre as duas partes.

<><> O que disseram os diferentes lados?

Os líderes de Israel e do Líbano saudaram a trégua, com Netanyahu classificando o entendimento como "uma oportunidade para firmar um acordo de paz histórico".

O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, disse esperar que o acordo permita que aqueles que foram deslocados pelo conflito retornem às suas casas.

O Hezbollah também sinalizou disposição para participar do cessar-fogo, mas afirmou que ele deve incluir "uma suspensão completa dos ataques" em todo o Líbano e "nenhuma liberdade de movimento para as forças israelenses".

O grupo apoiado pelo Irã, embora profundamente enraizado no Líbano, não faz parte do aparato de segurança do governo libanês.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã saudou o cessar-fogo, com o porta-voz Esmail Baghaei expressando sua "solidariedade" ao Líbano. Teerã insistiu que seu próprio cessar-fogo de duas semanas com os EUA deveria incluir o Líbano, enquanto os EUA e Israel afirmaram que não.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou o papel dos EUA na facilitação do cessar-fogo e instou todas as partes a "respeitarem plenamente" e "cumprirem o direito internacional em todos os momentos".

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou o acordo um "alívio", afirmando que a Europa continuará a "exigir o pleno respeito à soberania e à integridade territorial do Líbano".

A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, acrescentou que o cessar-fogo deve ser usado para "recuar da violência" e criar espaço para negociações visando "uma paz mais duradoura".

<><> O que é a zona tampão de Israel?

Apesar do acordo, Netanyahu afirmou que as tropas israelenses manteriam uma "zona de segurança" de 10 km no sul do Líbano, dizendo: "Estamos lá e não vamos sair".

Segundo o premiê israelense, o controle sobre essa área deve ser mantido para "bloquear o perigo de invasão".

Israel entrou novamente no sul do Líbano após ataques do Hezbollah no início de março, criando uma zona de segurança que, segundo o país, era necessária para proteger as comunidades no norte de Israel.

Apesar de um acordo de cessar-fogo anterior entre Israel e o Hezbollah — que pôs fim a 13 meses de conflito — ataques transfronteiriços ainda eram quase diários.

<><> Como o acordo foi negociado?

Israel e Líbano realizaram raras conversas diretas em Washington no início desta semana, com o objetivo de aliviar a guerra, que resultou em ataques aéreos mortais contra parte da capital libanesa, Beirute, e combates no sul do país.

Segundo o anúncio de Trump, o acordo foi alcançado após "excelentes conversas" com Aoun e Netanyahu. Mas o presidente americano não mencionou se o Hezbollah esteve diretamente envolvido nas negociações.

Mais tarde, ele instou o Hezbollah a "agir de forma adequada e correta durante este importante período" nas redes sociais.

Embora tenha saudado a trégua, Netanyahu também deixou claro que estava fazendo poucas concessões no terreno.

Ele disse que o Hezbollah insistiu em duas condições: a retirada das forças israelenses do Líbano e o princípio de um "pacto por cessar-fogo".

No entanto, parece que o anúncio do cessar-fogo pegou Israel de surpresa - supostamente até mesmo dentro do próprio gabinete de segurança do governo.

Segundo um veículo de notícias israelense amplamente respeitado, Netanyahu teria convocado uma reunião do gabinete de segurança com apenas cinco minutos de antecedência, pouco antes do anúncio do cessar-fogo.

Informações vazadas dessa reunião indicam que os ministros não tiveram a oportunidade de votar sobre o cessar-fogo.

<><> O que isso tem a ver com a guerra no Irã?

Quando o cessar-fogo com o Irã foi anunciado, foram divulgadas mensagens contraditórias sobre o Líbano estar envolvido ou não na trégua.

Autoridades paquistanesas, que ajudaram a negociar o acordo, e autoridades iranianas disseram que sim, mas Israel disse que não.

A secretária de imprensa do presidente dos EUA, Donald Trump, Karoline Leavitt, também afirmou posteriormente que o Líbano não fazia parte do acordo.

Israel lançou ataques contra o Líbano em 2 de março em resposta a ataques lançados pelo Hezbollah. Isso ocorreu depois que os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã — provocando retaliação de Teerã contra aliados dos EUA no Golfo e contra grupos apoiados pelo Irã, incluindo o grupo militante libanês.

Israel e Hezbollah continuaram a trocar ataques desde então, apesar dos apelos do primeiro-ministro do Líbano para que ambos os lados parassem.

Mais de 2.100 pessoas foram mortas e outras 7.000 ficaram feridas nos ataques de Israel ao Líbano desde 2 de março, de acordo com o Ministério da Saúde do país, que não distingue as vítimas entre combatentes e civis. O número inclui pelo menos 260 mulheres e 172 crianças.

O Ministério da Saúde afirma que 91 profissionais de saúde foram mortos e outros 208 ficaram feridos na guerra, com mais de 120 ataques israelenses registrados contra ambulâncias e instalações médicas. Uma análise da BBC Verify constatou que mais de 1.400 edifícios no Líbano também foram destruídos.

Ataques do Hezbollah mataram dois civis em Israel no mesmo período, enquanto 13 soldados israelenses foram mortos em combate no Líbano, segundo autoridades israelenses.

Na quinta-feira (16/04), o exército israelense destruiu a última ponte que ligava o sul ao resto do país, isolando ainda mais a região e renovando os temores entre muitos libaneses de que isso possa levar a uma ocupação de longo prazo de algumas áreas.

 

Fonte: Por Saeed Jafari, Political analyst da BBC

 

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