EUA
x Irã: quatro cenários possíveis do que vem pela frente no conflito
O
presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse que o Irã concordou em entregar seu
estoque de urânio enriquecido, uma das questões-chave nas possíveis negociações
para encerrar a guerra.
Segundo
Trump, as negociações entre os dois países podem ser retomadas no fim de
semana, com os governos americano e iraniano "muito próximos" de um
acordo, segundo ele.
O Irã
não comentou as declarações de Trump.
Trump
disse ainda acreditar que uma extensão do cessar-fogo com o Irã, que deve expirar no começo
da próxima semana, não seria necessária por conta da proximidade de um possível
acordo.
Um
diálogo inicial entre os dois países, no fim de semana passado no Paquistão,
foi encerrado no domingo sem avanços.
Diante
desse cenário, quais os possíveis rumos para o conflito?
A
seguir, quatro cenários possíveis para o que pode acontecer.
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1. Cessar-fogo frágil como pausa 'estratégica'
Após
semanas de ataques, o cessar-fogo entre EUA e Irã pareceu sinalizar uma
disposição para conter a crise. No entanto, desde o início, essa trégua vem
sendo marcada por imprecisões.
Diferenças
na interpretação dos seus termos — incluindo o alcance geográfico, os tipos de
alvos incluídos e até mesmo a definição de uma "violação do
cessar-fogo" — levaram alguns analistas a enxergar o acordo mais como uma
pausa estratégica do que como uma solução duradoura.
"As
chances de se chegar a um acordo eram próximas de zero desde o início",
afirmou Behnam Ben Taleblu, pesquisador sênior do think tank Foundation for
Defense of Democracies, com sede em Washington.
"Há
um conjunto de princípios, posições e políticas sobre os quais os EUA e a
República Islâmica divergem há anos. No curto prazo, a guerra não só não
reduziu essas diferenças, como as intensificou", disse ele à BBC News
Persa.
Ao
mesmo tempo, declarações contraditórias de autoridades de ambos os lados
aumentaram a fragilidade da situação.
Enquanto
autoridades do Irã falam em violações recorrentes do cessar-fogo, os EUA e
Israel adotam uma interpretação mais limitada do que foi acordado.
Essa
divergência de narrativas aprofundou a desconfiança e lançou dúvidas sobre a
durabilidade do acordo.
Se as
tentativas de retomar as negociações não trouxerem resultados, o cessar-fogo
tende a se tornar pouco mais do que uma forma de ganhar tempo — permitindo que
as partes façam uma pausa, se recuperem e se reorganizem, reavaliem suas
posições e se preparem para a próxima fase.
Esse
cenário se torna mais provável caso um dos lados conclua que está ganhando
muito pouco com a situação atual, e que é necessário aumentar a pressão de
forma significativa.
Os
Estados Unidos, por exemplo, poderiam considerar atacar infraestruturas
críticas no Irã — como usinas de energia, pontes ou instalações energéticas —
como uma possível opção.
Embora
esse tipo de ação possa gerar pressão no curto prazo, também traria amplas
consequências humanitárias e econômicas, além de poder provocar uma resposta
mais firme do Irã.
Ao
mesmo tempo, Israel, que mantém forte ceticismo em relação às negociações,
tende a se tornar um ator ainda mais influente.
"Israel
pode recorrer a ações como assassinatos de indivíduos e autoridades iranianas,
incluindo aqueles envolvidos nas negociações", afirmou Hamidreza Azizi,
pesquisador em relações internacionais.
"A
política declarada por Donald Trump de bloquear o Estreito de Ormuz aumenta o
risco de confronto, mesmo que as partes não desejem isso diretamente",
acrescentou.
Embora
a possibilidade de escalada não possa ser descartada, seus custos
potencialmente elevados — como o risco de um conflito regional mais amplo e
impactos na economia global — podem tornar esse cenário menos provável, ao
menos no curto prazo.
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2. 'Guerra nas sombras'
Um dos
cenários — talvez um dos mais prováveis — é o retorno a um tipo de confronto
que pode ser descrito como uma "escalada controlada".
Isso
significa que o conflito não chegaria ao nível de uma guerra em larga escala,
mas também não haveria uma interrupção total das ações militares. Nesse
contexto, poderiam continuar ataques limitados a infraestruturas, alvos
militares ou até mesmo linhas de abastecimento.
O papel
de atores indiretos ganharia ainda mais relevância. O aumento da atividade de
grupos alinhados ao Irã no Iraque ou no Mar Vermelho, junto com maior pressão
dos Estados Unidos sobre essas redes, poderia ampliar o alcance geográfico do
conflito sem necessariamente elevar sua intensidade. Alguns analistas descrevem
esse cenário como uma "guerra nas sombras".
"Ambos
os lados querem usar suas opções e instrumentos de pressão para influenciar o
outro sem entrar em uma guerra em larga escala", disse Hamidreza Azizi.
"Se
o cessar-fogo for violado, a probabilidade de o Irã adotar novas ações por meio
de suas forças aliadas — especialmente no Iêmen — é considerada alta",
acrescentou.
No
entanto, esse cenário não está isento de riscos. À medida que as tensões
aumentam, cresce também o risco de erros de cálculo. E, mesmo sem a intenção de
escalar o conflito, um único equívoco pode levá-lo a um nível incontrolável.
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3. Diplomacia discreta continua
Apesar
do fracasso das negociações no Paquistão, ainda não é possível concluir que a
diplomacia se esgotou ou que as conversas estejam fora de cogitação.
O
Paquistão, como anfitrião desses encontros, deve continuar seus esforços nos
próximos dias para incentivar Teerã e Washington a chegarem a um acordo,
atuando como intermediário na troca de mensagens entre os dois lados.
Ao
mesmo tempo, mediadores tradicionais — como Catar, Omã e até mesmo Arábia
Saudita e Egito — podem se tornar mais ativos diante do temor de que o conflito
saia do controle, funcionando como canais de comunicação e tentando evitar uma
escalada repentina da crise.
Contudo,
qualquer avanço nesse sentido depende da diminuição das divergências entre EUA
e Irã.
A
proposta de 15 pontos dos Estados Unidos e a contraproposta de 10 pontos do Irã
indicam que ambos ainda priorizam impor seus próprios termos, em vez de buscar
um meio-termo.
Assim,
embora uma nova rodada de negociações seja possível, esperar um acordo rápido e
abrangente parece pouco realista — pelo menos no curto prazo.
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4. Bloqueio naval prolongado
O
presidente dos Estados Unidos anunciou que a Marinha americana pretende impor
um bloqueio marítimo ao Irã, impedindo a passagem de navios e petroleiros pelo
Estreito de Ormuz.
Ele
também ameaçou interceptar, em águas internacionais, qualquer embarcação que
pague taxas de trânsito ao Irã para atravessar o estreito — uma estratégia que
parece ter como objetivo privar o país de receitas do petróleo, sufocar sua
economia e, ao mesmo tempo, atingir o principal rival dos EUA, a China, maior
compradora de petróleo iraniano.
"Um
bloqueio marítimo dos portos do Irã pode ser altamente eficaz se houver
alocação suficiente de recursos de inteligência, vigilância e
reconhecimento", afirmou Behnam Ben Taleblu, destacando a extensa costa
iraniana.
"O
resultado prático de uma medida como essa seria privar o governo de sua
capacidade de exportar sua principal commodity."
Mas
outros analistas apontam para os custos significativos que essa política
poderia impor aos Estados Unidos, ao aproximar suas forças militares do Irã e
torná-las mais vulneráveis a ataques.
Além
disso, para que o plano seja eficaz, forças navais precisariam permanecer
mobilizadas próximas às fronteiras iranianas por um período prolongado, o que
implicaria custos elevados.
A
manutenção dessa estratégia também poderia provocar a alta dos preços globais
de petróleo e energia, além de aumentar a probabilidade de uma intervenção dos
houthis para bloquear o tráfego no Estreito de Bab
el-Mandeb,
o que poderia pressionar ainda mais os preços do petróleo.
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Instabilidade estrutural: uma nova ordem na região?
No fim
das contas, o que esses cenários indicam é que a região entrou em uma fase em
que a fronteira entre guerra e paz está mais nebulosa do que nunca.
O
fracasso das negociações no Paquistão não sinaliza o fim da diplomacia, nem
marca o início definitivo de uma guerra mais ampla. Em vez disso, aponta para a
continuidade de uma situação de "zona cinzenta".
"Embora
ambos os lados queiram que esse conflito chegue ao fim, isso não parece
provável no curto prazo", afirmou Hamidreza Azizi.
No
contexto atual, decisões estratégicas, questões de segurança e até mesmo
pequenos desdobramentos no local do conflito podem ter impactos
desproporcionais sobre o rumo da crise.
Isso
tem levado muitos analistas a falar em "instabilidade estrutural" na
região — uma condição em que as regras do jogo não estão completamente
definidas e cujo desfecho é imprevisível.
Nesse
cenário, talvez a descrição mais precisa seja a de que Irã e Estados Unidos
entraram em uma fase em que guerra e negociação ocorrem simultaneamente. Ambos
continuam a recorrer a ferramentas militares, ao mesmo tempo em que mantêm
canais diplomáticos parcialmente abertos.
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O que se sabe sobre o cessar-fogo entre Líbano e Israel
O
presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que os
líderes de Israel e do Líbano concordaram com um cessar-fogo de 10
dias,
que entrou em vigor às 18h (horário de Brasília) de quinta-feira (16/4).
Não
houve menção no comunicado de Trump ao Hezbollah, o grupo militante
apoiado pelo Irã no Líbano, com o qual Israel vem
trocando tiros nas últimas seis semanas.
Mas, em
uma publicação posterior na rede Truth Social, Trump pediu ao grupo que
respeitasse o cessar-fogo, dizendo: "Espero que o Hezbollah se comporte
bem e de forma adequada durante este importante período".
Após o
anúncio, o presidente dos EUA também convidou o primeiro-ministro israelense,
Benjamin Netanyahu, e o presidente libanês, Joseph Aoun, à Casa Branca para
novas conversas.
A
seguir, o que se sabe até agora sobre a trégua.
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O que diz o acordo?
Os
termos do acordo especificam que o cessar-fogo deve durar 10 dias, com a
possibilidade de ser "prorrogado por mútuo acordo" caso as
negociações mostrem sinais de progresso.
De
acordo com mais detalhes fornecidos pelo Departamento de Estado dos EUA:
- Israel mantém
seu "direito de tomar todas as medidas necessárias em autodefesa, a
qualquer momento, contra ataques planejados, iminentes ou em
andamento";
- O Líbano deve
tomar "medidas significativas" para impedir que o Hezbollah e
todos os outros "grupos armados não estatais rebeldes" realizem
ataques contra alvos israelenses;
- Os envolvidos
reconhecem que as forças de segurança do Líbano têm responsabilidade
exclusiva pela segurança do Líbano;
- Israel e o
Líbano solicitaram que os EUA continuem a facilitar novas conversas
diretas com o objetivo de "resolver todas as questões
pendentes";
A
declaração acrescentou que a trégua foi um "gesto de boa vontade" de
Israel destinado a possibilitar "negociações de boa-fé para um acordo
permanente de segurança e paz" entre as duas partes.
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O que disseram os diferentes lados?
Os
líderes de Israel e do Líbano saudaram a trégua, com Netanyahu classificando o
entendimento como "uma oportunidade para firmar um acordo de paz
histórico".
O
primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, disse esperar que o acordo permita que
aqueles que foram deslocados pelo conflito retornem às suas casas.
O
Hezbollah também sinalizou disposição para participar do cessar-fogo, mas
afirmou que ele deve incluir "uma suspensão completa dos ataques" em
todo o Líbano e "nenhuma liberdade de movimento para as forças
israelenses".
O grupo
apoiado pelo Irã, embora profundamente enraizado no Líbano, não faz parte do
aparato de segurança do governo libanês.
O
Ministério das Relações Exteriores do Irã saudou o cessar-fogo, com o porta-voz
Esmail Baghaei expressando sua "solidariedade" ao Líbano. Teerã
insistiu que seu próprio cessar-fogo de duas semanas com os EUA deveria incluir
o Líbano, enquanto os EUA e Israel afirmaram que não.
O
secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou o papel dos EUA na
facilitação do cessar-fogo e instou todas as partes a "respeitarem
plenamente" e "cumprirem o direito internacional em todos os
momentos".
A
presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou o acordo um
"alívio", afirmando que a Europa continuará a "exigir o pleno
respeito à soberania e à integridade territorial do Líbano".
A chefe
da diplomacia da UE, Kaja Kallas, acrescentou que o cessar-fogo deve ser usado
para "recuar da violência" e criar espaço para negociações visando
"uma paz mais duradoura".
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O que é a zona tampão de Israel?
Apesar
do acordo, Netanyahu afirmou que as tropas israelenses manteriam uma "zona
de segurança" de 10 km no sul do Líbano, dizendo: "Estamos lá e não
vamos sair".
Segundo
o premiê israelense, o controle sobre essa área deve ser mantido para
"bloquear o perigo de invasão".
Israel
entrou novamente no sul do Líbano após ataques do Hezbollah no início de março,
criando uma zona de segurança que, segundo o país, era necessária para proteger
as comunidades no norte de Israel.
Apesar
de um acordo de cessar-fogo anterior entre Israel e o Hezbollah — que pôs fim a
13 meses de conflito — ataques transfronteiriços ainda eram quase diários.
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Como o acordo foi negociado?
Israel
e Líbano realizaram raras conversas diretas em Washington no início desta
semana, com o objetivo de aliviar a guerra, que resultou em ataques aéreos
mortais contra parte da capital libanesa, Beirute, e combates no sul do país.
Segundo
o anúncio de Trump, o acordo foi alcançado após "excelentes
conversas" com Aoun e Netanyahu. Mas o presidente americano não mencionou
se o Hezbollah esteve diretamente envolvido nas negociações.
Mais
tarde, ele instou o Hezbollah a "agir de forma adequada e correta durante
este importante período" nas redes sociais.
Embora
tenha saudado a trégua, Netanyahu também deixou claro que estava fazendo poucas
concessões no terreno.
Ele
disse que o Hezbollah insistiu em duas condições: a retirada das forças
israelenses do Líbano e o princípio de um "pacto por cessar-fogo".
No
entanto, parece que o anúncio do cessar-fogo pegou Israel de surpresa -
supostamente até mesmo dentro do próprio gabinete de segurança do governo.
Segundo
um veículo de notícias israelense amplamente respeitado, Netanyahu teria
convocado uma reunião do gabinete de segurança com apenas cinco minutos de
antecedência, pouco antes do anúncio do cessar-fogo.
Informações
vazadas dessa reunião indicam que os ministros não tiveram a oportunidade de
votar sobre o cessar-fogo.
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O que isso tem a ver com a guerra no Irã?
Quando
o cessar-fogo com o Irã foi anunciado, foram divulgadas mensagens
contraditórias sobre o Líbano estar envolvido ou não na trégua.
Autoridades
paquistanesas, que ajudaram a negociar o acordo, e autoridades iranianas
disseram que sim, mas Israel disse que não.
A
secretária de imprensa do presidente dos EUA, Donald Trump, Karoline Leavitt,
também afirmou posteriormente que o Líbano não fazia parte do acordo.
Israel
lançou ataques contra o Líbano em 2 de março em resposta a ataques lançados
pelo Hezbollah. Isso ocorreu depois que os EUA e Israel lançaram ataques contra
o Irã — provocando retaliação de Teerã contra aliados dos EUA no Golfo e contra
grupos apoiados pelo Irã, incluindo o grupo militante libanês.
Israel
e Hezbollah continuaram a trocar ataques desde então, apesar dos apelos do
primeiro-ministro do Líbano para que ambos os lados parassem.
Mais de
2.100 pessoas foram mortas e outras 7.000 ficaram feridas nos ataques de Israel
ao Líbano desde 2 de março, de acordo com o Ministério da Saúde do país, que
não distingue as vítimas entre combatentes e civis. O número inclui pelo menos
260 mulheres e 172 crianças.
O
Ministério da Saúde afirma que 91 profissionais de saúde foram mortos e outros
208 ficaram feridos na guerra, com mais de 120 ataques israelenses registrados
contra ambulâncias e instalações médicas. Uma análise da BBC Verify constatou
que mais de 1.400 edifícios no Líbano também foram destruídos.
Ataques
do Hezbollah mataram dois civis em Israel no mesmo período, enquanto 13
soldados israelenses foram mortos em combate no Líbano, segundo autoridades
israelenses.
Na
quinta-feira (16/04), o exército israelense destruiu a última ponte que ligava
o sul ao resto do país, isolando ainda mais a região e renovando os temores
entre muitos libaneses de que isso possa levar a uma ocupação de longo prazo de
algumas áreas.
Fonte: Por
Saeed Jafari, Political
analyst da BBC

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