sábado, 18 de abril de 2026

O trabalho feminino é desvalorizado no capitalismo

Poucas questões assombraram a teoria feminista e o movimento feminista com tanta persistência quanto a aparentemente simples: o que é uma mulher? Algumas pessoas tentaram respondê-la diretamente. Outras argumentaram que a própria pergunta é uma forma de exclusão, uma exigência de definição que inevitavelmente deixa alguém de fora. Outras ainda rejeitaram a pergunta por completo, insistindo que o feminismo não deve partir da busca por uma essência universal.

Diferentes respostas refletiram diferentes momentos políticos. Na década de 1970, feministas influenciadas pelo marxismo abordaram a questão em termos estruturais, perguntando qual o papel das mulheres, como grupo, na manutenção da ordem social vigente. Na década de 1980, abordagens psicanalíticas e pós-estruturalistas deslocaram o foco para a subjetividade: o que significa viver como mulher, como a feminilidade molda a relação de uma pessoa com o corpo, com a linguagem, com a sexualidade e com os outros. Nessas perspectivas, o sujeito feminino nunca foi estável, mas sim fragmentado e historicamente construído.

Nas últimas décadas, o debate tem assumido cada vez mais a forma de uma disputa sobre identidade. A questão não é mais apenas o que é uma mulher, mas quem é considerado como tal e como essa categoria se cruza com raça, classe, sexualidade, deficiência e nacionalidade. Essa mudança é frequentemente associada ao feminismo interseccional, embora a interseccionalidade em si seja mais ampla do que a versão centrada na identidade que domina o debate público. Dentro dessa estrutura, não há uma única resposta para a pergunta “o que é uma mulher?”. As vidas das mulheres são moldadas por múltiplas estruturas de poder que não podem ser separadas umas das outras.

Essa ênfase na diferença é frequentemente apresentada como uma ruptura com a compreensão feminista anteriormente estabelecida. Mas a ideia de que a opressão das mulheres é moldada por classe e raça não começou com a interseccionalidade. Feministas negras já defendiam esse argumento muito antes de o termo existir, e feministas marxistas criticavam o feminismo liberal por isolar a “questão da mulher” da questão de classe décadas antes. Como apontou a pesquisadora sueca de gênero Lena Gunnarsson, a alegação de que a teoria feminista anterior tratava as mulheres como um grupo homogêneo muitas vezes se baseia em caricaturas das gerações anteriores sobre o feminismo.

Uma das tradições mais frequentemente descartadas dessa forma é o feminismo marxista. No entanto, essa tradição oferece algumas das ferramentas mais úteis que temos para responder à pergunta: O que é uma mulher? A resposta não será encontrada buscando uma definição eterna, mas sim questionando qual o papel que as mulheres desempenham na reprodução da sociedade capitalista.

A teoria feminista marxista da reprodução social possibilita compreender tanto as diferenças entre as mulheres quanto as condições que compartilham. Permite-nos ver como as vidas das mulheres são moldadas pela mesma ordem econômica, mesmo quando suas experiências estão longe de serem idênticas. A questão não é como apagar as diferenças, mas como a própria diferença é produzida dentro de um sistema comum. Como perguntou certa vez a teórica feminista pós-colonial Chandra Talpade Mohanty: O que significa vivermos todos dentro de uma ordem capitalista global? E como essa ordem cria condições compartilhadas que podem formar a base para a solidariedade entre a maioria das mulheres, apesar das divisões entre elas?

O que é a teoria da reprodução social?

Acrítica de Karl Marx ao capitalismo focava-se sobretudo na produção: como os trabalhadores criam valor, como as mercadorias circulam e como as crises emergem das contradições do sistema. Mas Marx tinha plena consciência de que a produção não existe isoladamente. O capitalismo depende de processos sociais que não controla totalmente. A força de trabalho é a única mercadoria que o capitalismo não consegue produzir por si só, embora dela dependa completamente. Marx planejou escrever mais sobre o Estado, o colonialismo e o sistema de crédito, mas não concluiu o projeto. Sua obra não deve ser tratada como uma doutrina fechada. É um ponto de partida.

Como argumentou a filósofa Nancy Holmstrom, o feminismo marxista não precisa abandonar Marx para compreender a opressão de gênero. Ele precisa ampliar sua análise.

A teoria da reprodução social faz exatamente isso. Ela questiona o que precisa acontecer, dia após dia, para que o capitalismo continue funcionando. Os trabalhadores precisam nascer, ser criados, alimentados, educados, cuidados e mantidos saudáveis o suficiente para trabalhar. As famílias precisam funcionar. Escolas e hospitais precisam operar. Sistemas inteiros de cuidado e manutenção precisam estar em funcionamento antes que uma única mercadoria possa ser produzida.

Essas atividades não estão fora do capitalismo. Elas estão entre seus fundamentos ocultos.

Nancy Fraser descreve-as como as condições de fundo do capitalismo — formas de trabalho e vida social das quais o sistema depende, mas que se recusa a reconhecer como parte de si mesmo. Grande parte desse trabalho ocorre na esfera privada, especialmente na família. É ali que os trabalhadores são produzidos e reproduzidos, não apenas biologicamente, mas também social e emocionalmente. Sem essa esfera, o capitalismo não poderia sobreviver. No entanto, o capitalismo constantemente corrói as próprias condições das quais depende, expandindo-se para novas áreas da vida em busca de lucro, incorporando o cuidado, a família e as relações sociais ao mercado.

“Sem trabalho não remunerado, o trabalho remunerado seria impossível.”

As feministas marxistas argumentam há muito tempo que às mulheres, como grupo, foi atribuído um papel específico nesse processo. Às mulheres cabe a principal responsabilidade pelo trabalho doméstico, pelos cuidados e pelo apoio emocional. Como demonstrou a socióloga marxista Lise Vogel, o capitalismo se baseia na interação entre a exploração econômica e as relações sociais de gênero. Patriarcado e capitalismo não são idênticos, mas se reforçam mutuamente.

Silvia Federici argumentou, de forma notável, que o trabalho doméstico e o cuidado devem ser compreendidos como trabalho, e não como expressões de puro amor. As mulheres sustentam os homens emocional e fisicamente, e os homens, por sua vez, vendem sua força de trabalho ao capital. A teórica política Anna Jónasdóttir descreveu o cuidado feminino como uma forma de “poder do amor”, comparável à força de trabalho, que sustenta o senso de autonomia dos homens.

A teoria da reprodução social frequentemente distingue entre exploração e expropriação. Exploração refere-se ao trabalho assalariado, em que os trabalhadores recebem menos do que o valor que produzem. Expropriação refere-se ao trabalho necessário, mas não remunerado, como o trabalho doméstico e o cuidado. O capitalismo depende de ambos. Sem trabalho não remunerado, o trabalho remunerado seria impossível.

Teóricos posteriores expandiram o conceito para incluir instituições públicas como escolas, sistemas de bem-estar social e saúde, bem como processos globais como migração e escravidão. Todos esses elementos fazem parte da reprodução da força de trabalho. O capitalismo exige não apenas trabalhadores, mas trabalhadores vivos, capacitados, com moradia e aptos a comparecer ao trabalho diariamente.

Como as mulheres se concentram nessas atividades, elas são afetadas de maneiras específicas pelo desenvolvimento capitalista. A maioria das mulheres pertence à classe trabalhadora. Muitas trabalham em cuidados, educação, serviços e trabalho doméstico — empregos essenciais para a sociedade, mas sistematicamente subvalorizados. Esses setores estão sob constante pressão, já que o capital busca reduzir o custo de manutenção da força de trabalho. A luta pelo lucro é, portanto, também uma luta sobre quanto a sociedade está disposta a gastar com cuidados, educação e bem-estar. É uma luta pelas próprias condições de vida.

<><> Neoliberalismo, trabalho de cuidado e a divisão global da reprodução

Essas pressões se intensificaram. Os serviços públicos foram privatizados, os sistemas de bem-estar social foram reduzidos e o trabalho de cuidado se tornou cada vez mais uma mercadoria. Espera-se que escolas, hospitais e lares de idosos não apenas sustentem a sociedade, mas também gerem lucro. Os trabalhadores desses setores enfrentam condições cada vez piores, enquanto aqueles que precisam de cuidados são tratados como clientes.

Quando o Estado se retira, o fardo recai sobre a família — e, dentro da família, sobre as mulheres. Espera-se que as mulheres trabalhem por um salário, enquanto continuam a arcar com a principal responsabilidade pelos cuidados não remunerados. O resultado é a já conhecida dupla jornada, agravada pelas condições de austeridade. Nem todas as mulheres vivenciam isso da mesma forma. Mulheres de classe média muitas vezes conseguem se livrar do trabalho doméstico contratando outras pessoas para realizá-lo. A emancipação se torna uma mercadoria. Aquelas com recursos podem pagar por creches, cuidados com idosos e serviços de saúde particulares. Aquelas sem recursos precisam fazer o trabalho elas mesmas.

As mulheres que tornam esse arranjo possível são frequentemente migrantes e trabalhadoras racializadas. Como Arlie Russell Hochschild demonstrou, nossas vidas são sustentadas por uma cadeia global de cuidados na qual mulheres de países mais pobres realizam o trabalho reprodutivo que mulheres mais ricas precisam para poder competir no mercado de trabalho. O cuidado não desapareceu. Ele foi terceirizado. Essa lógica se estende ainda mais no crescente mercado de barriga de aluguel, onde o próprio trabalho reprodutivo se torna uma mercadoria. Mulheres mais pobres carregam gestações para clientes mais ricos, muitas vezes cruzando fronteiras nacionais. A cadeia global de cuidados revela o quão profundamente o capitalismo depende da organização desigual da reprodução social.

<><> Reprodução social e interseccionalidade

Teóricas contemporâneas da reprodução social, como Fraser, Tithi Bhattacharya e Cinzia Arruzza, argumentam que o feminismo não pode representar a maioria das mulheres a menos que confronte o próprio capitalismo. O fato de a libertação de algumas mulheres depender da subordinação de outras torna isso inevitável.

Apesar disso, raramente descrevem sua abordagem como interseccional, embora as duas perspectivas compartilhem preocupações importantes. Ambas analisam múltiplas formas de opressão. Ambas rejeitam a ideia de que gênero possa ser compreendido isoladamente. Ambas insistem que classe, raça, sexualidade e gênero interagem.

“A solidariedade não se baseia na igualdade, mas em condições compartilhadas.”

A diferença reside na ênfase. A teoria interseccional, especialmente em suas formas mais centradas na identidade, frequentemente trata diferentes estruturas de poder como igualmente fundamentais. O foco tende a recair sobre a experiência vivida e sobre as maneiras pelas quais os indivíduos habitam múltiplas identidades simultaneamente.

A teoria da reprodução social levanta uma questão diferente: como essas formas de opressão se organizam dentro de um sistema social específico? O objetivo não é hierarquizar as injustiças, mas sim compreender como elas estão interligadas. Como argumentou Susan Ferguson, a análise interseccional por vezes descreve múltiplas formas de opressão sem explicar as relações sociais que as produzem.

Para a teoria da reprodução social, o capitalismo fornece o contexto histórico no qual essas relações se moldam. Isso não significa que toda injustiça possa ser reduzida à classe social. Mas significa que a organização da produção e da reprodução influencia o funcionamento de outras hierarquias. O objetivo não é negar a diferença, mas compreendê-la como parte de uma totalidade maior. As mulheres não compartilham experiências idênticas, mas suas vidas estão conectadas pela mesma ordem econômica. A solidariedade não se baseia na homogeneidade, mas em condições compartilhadas.

<><> Por que a teoria da reprodução social é importante hoje?

Aideia de um movimento feminista unificado é frequentemente descartada como ultrapassada, partindo-se do pressuposto de que as mulheres são muito diferentes entre si para agirem em conjunto. Há verdade nisso. As vidas das mulheres são extremamente diversas. Raça, classe social, sexualidade e nacionalidade importam.

Mas o erro oposto é igualmente enganoso. A maioria das mulheres, independentemente de suas diferenças, vive sob um sistema capitalista que depende do seu trabalho de maneiras específicas. As mulheres são sobrerrepresentadas em trabalhos mal remunerados, em trabalhos de cuidado e em trabalho não remunerado. Seu tempo, seus corpos e sua energia emocional continuam sendo recursos para o capital. Isso não significa que as mulheres devam se organizar apenas como mulheres. Mas significa que o feminismo não pode ter sucesso sem confrontar o sistema econômico que estrutura essas desigualdades.

A teoria da reprodução social oferece uma maneira de pensar tanto a diferença quanto a comunhão simultaneamente. Ela mostra como a própria produção da vida se organiza sob o capitalismo, como algumas vidas são sustentadas enquanto outras são negligenciadas e como as lutas por cuidado, trabalho e sobrevivência são inseparáveis das lutas por lucro. Ao questionarmos quem realiza o trabalho que sustenta a sociedade — e sob quais condições — podemos vislumbrar os contornos de uma política que fala não apenas por algumas, mas por muitas.

 

Fonte: Por Evelina Johansson Wilén - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

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