América
latina – de semicolônia a protetorado?
Os
abalos na transição entre os séculos XVIII e XIX, a “era mundial das
revoluções”, foram o pano de fundo e o condicionante da emergência das Américas
independentes. Francisco de Miranda, precursor da independência
latino-americana, argumentou em sua obra Colombeia que seu
meio deveria ser uma monarquia constitucional com contrapesos republicanos,
enquanto seu amigo Simón Bolívar defendia uma independência republicana que
abriria caminho para a união de repúblicas independentes sob uma Constituição
comum, com autoridade centralizada, na antevisão do que viria a ser a
Grã-Colômbia.
A
independência dos países latino-americanos foi o produto de levantamentos
contra as potências coloniais que se estenderam entre 1804 (independência do
Haiti) e 1824 (vitória patriota na batalha de Ayacucho), no esteio da crise
mundial provocada pela “dupla revolução” (política e econômica) na Europa.
As
guerrilhas sul-americanas na luta independentista foram inspiradas pelas guerrillas espanholas
contra os exércitos napoleônicos que invadiram a Península Ibérica em 1808, das
quais tomaram emprestado o nome para hostilizar as tropas espanholas que
defendiam seu império colonial nas Américas. No Alto Peru, as guerrilhas ou
republiquetas, entre 1815 e 1824, foram formadas após o fracasso dos exércitos
do Rio da Prata contra as tropas espanholas. Elas operavam em zonas rurais com
táticas de ataque rápido e dispersão, e criaram a base da vitória dos novos
exércitos patriotas contra as tropas coloniais.
Vitoriosa,
a revolução da independência criou uma nova sociedade política na América
Latina. As limitações das lideranças da luta pela independência se originaram
na classe (proprietária latifundiária ou intermediária comercial) da qual
emergiram, ou seja, na inexistência de uma burguesia revolucionária. Daí o
vazio político no qual caíram os projetos que sonhavam criar um Estado
americano.
Simón
Bolívar propunha quatro ou cinco países de bom tamanho: quando começou a
elaborar o projeto de uma confederação americana para substituir a dominação
colonial espanhola, chegou à conclusão de que, para alcançar a independência,
os espanhóis deviam ser totalmente derrotados (para impedir suas tentativas de
reconquista), unificando os esforços dispersos dos caudilhos regionais e
criando uma república para enfrentar qualquer potência imperial. E
simultaneamente agitou, contra os espanhóis, o fantasma da “revolução das
cores”, a “anarquia bárbara” que provocaria uma revolução com direção e em
benefício das classes despossuídas da sociedade.
Não
havia, na “Nossa América”, uma classe social que propusesse a criação de um
grande Estado moderno na agenda política, com vistas a um amplo desenvolvimento
econômico interno, em que pese a Inglaterra, maior potência mundial à época,
não manifestar hostilidade explícita a esse projeto. Daí o drama, frustração e
solidão final das vidas dos libertadores (José de San Martin no exílio francês,
onde morreu em 1850; Simón Bolívar no seu “labirinto” de solidão, na metáfora
de Gabriel Garcia Márquez).
E daí
também o caráter não democrático (monárquico – San Martín –, ou ditatorial –
Simón Bolívar) dos seus projetos políticos, que foi criticado por Karl Marx no
caso de Simón Bolívar (a quem qualificou de “separatista sim, democrata não”, e
de caricatura colonial do bonapartismo). Marx desprezou a tentativa bolivariana
de reunir um “congresso americano”.
A
aristocracia criolla se tornou “independentista” no quadro de
uma crise mundial, passou para o partido da independência só quando correu o
risco de receber da Espanha ordens demasiado liberais, suscetíveis de trazer
mudanças, devido ao início de uma revolução democrática na metrópole (as juntas espanholas)
contra a invasão napoleônica.
O
conservador e politicamente limitado Congresso Continental do Panamá, o Congresso
Anfictiónico, de 1826, convocado por Simón Bolívar, ao qual poucos países
compareceram, não convocou nem o Paraguai do Dr. Francia, nem a perigosa
“república negra” do Haiti, e sequer colocou a questão da independência das
sobrevivências coloniais de Cuba e Porto Rico. Os processos independentistas
tinham sido dirigidos por intelectuais do escalão baixo da administração
colonial (no Alto Peru), pela aristocracia criolla (em Quito e
na Venezuela), ou pelas classes urbanas vinculadas a atividades mercantis (no
Chile e no Rio da Prata). Só o México mostrou a particularidade de uma rebelião
popular protagonizada pelas massas mestiças cimentando a luta pela
independência.
Resumindo
opiniões estendidas na Europa, Hegel afirmava (nas suas Lições de
filosofia da história) que “na América do Sul e no México, os habitantes
que possuem o sentimento da independência, os criollos, nasceram da
mistura com espanhóis e portugueses. Somente estes atingiram o alto sentimento
e desejo de independência. Há poucas tribos indígenas que sintam o mesmo.
Existem notícias de populações do interior que aderiram aos esforços para
formar Estados independentes, mas é provável que entre elas não haja muitos
indígenas puros”.
Hegel
ignorava que a condição disso havia sido o esmagamento sangrento pelas
autoridades coloniais da revolta camponesa-indígena do último quartel do século
XVIII (Túpac Amaru), que tinha colocado abertamente a reivindicação da
independência da América (as revoltas escravas e os quilombos africanos no
Brasil e na América Central e Caribe eram praticamente desconhecidos dos
iluministas europeus). Nessas condições, prevaleceram no século XIX os
interesses localistas da aristocracia latino-americana, voltados para a
monocultura agrário-mineira exportadora, sem interesse na constituição de
fortes unidades nacionais baseadas num mercado interno.
A
fragmentação política, no entanto, foi um fator de crise das novas nações. Era
do interesse dos novos senhores do mercado mundial, como já ocorrera no
passado, obter dinheiro líquido, e não simplesmente produtos. A fragmentação do
antigo império colonial isolara regiões inteiras de suas fontes de metal
precioso. Nas zonas de produção, o ritmo de exportação era mais rápido do que o
ciclo produtivo: assim ocorreu no Chile depois da independência do país. O novo
Estado, produtor de prata e de ouro, não conseguia conservar o volume de
dinheiro líquido de que necessitava para seu comércio interno.
Os
novos países americanos fracassaram na tentativa de desenvolver economias
capitalistas independentes: emergiram de um processo de rápida independência,
em comparação com Ásia e África, mas tiveram acesso tarde demais aos métodos da
acumulação primitiva de capital e a massas de trabalhadores livres –
precondições para o desenvolvimento capitalista. A ausência de uma “burguesia
industrial empreendedora” foi sua consequência. Os produtos industriais viriam
do exterior.
Segundo
Tulio Halperin Donghi: “A Inglaterra é a herdeira de Espanha, e desfruta de uma
situação de monopólio, defendida mais por meios econômicos que jurídicos, ao
obter o melhor e os maiores lucros de um tráfico marítimo mantido em nível
relativamente estável. A América espanhola de 1825 não é igual àquela anterior
a 1810, a expansão do comércio ultramarino promoveu o consumo, e a indústria
exterior infligiu graves golpes ao artesanato local”.
A
emancipação política ibero-americana combinou a proclamação da independência
pelas próprias autoridades coloniais (como aconteceu na Guatemala ou no Brasil)
até a mobilização de massas com métodos de guerra revolucionária, como no
esvaziamento das cidades argentinas de Salta e Tucumán pelos patriotas em
guerra contra a Espanha; na luta de Artigas e do “sistema de povos livres” no
Uruguai e na mesopotâmia argentina; na luta dos gauchos de
Martin Miguel de Güemes no Norte do mesmo país, ou nos revolucionários de La
Paz (encabeçados por Murillo) no Alto Peru, em 1809.
Os
homens que vieram depois deles não tiveram a mesma estatura. A guerra da
independência foi socialmente heterogênea: houve, no seu bojo, rebeliões
camponesas contra as elites criollas com fraco apoio entre os
setores populares, especialmente entre negros e índios urbanos que, por vezes,
tenderam a se alinhar com os espanhóis. As oligarquias conseguiram controlar o
processo revolucionário, evitando um confronto paralelo entre pobres e ricos.
A
classe dirigente da independência experimentava um temor paralisante em relação
à potencial repetição da revolta indígena-camponesa do século XVIII, ou da
bem-sucedida revolução negra do Haiti. Chegada ao poder, a oligarquia aboliu as
instituições de trabalho forçado dos indígenas, para neutralizar a
possibilidade de uma revolta dos setores mais explorados da colônia; assim como
iniciou a abolição da escravidão e da tortura do Santo Ofício.
A
vertente plebeia, ou “jacobina”, do processo independentista, no entanto,
presente em diversos locais, foi derrotada nos processos de normalização
política hegemonizados pelas classes economicamente dominantes das antigas
sociedades coloniais (a oligarquia agrária e a burguesia comercial das
capitais), sobre a base dos quais surgiram as modernas nações
latino-americanas.
O
jacobinismo latino-americano foi derrotado em seu nascedouro, como aconteceu
com Toussaint L’Ouverture ou Dessalines no Haiti, ou Mariano Moreno nas
Províncias Unidas do Sul, mas, sem sua presença e ação decidida, a
independência política do continente teria sido comprometida ou simplesmente
inviabilizada. Em 1825, após as guerras de independência da América espanhola,
apenas as ilhas de Cuba e Porto Rico permaneceram sob o domínio espanhol.
Portugal
perdeu todas suas posses americanas, enquanto França preservou territórios
importantes (a Guiana, e as ilhas de Guadalupe e Martinica), assim como também
a Holanda e a Inglaterra, em especial no Caribe. O princípio das nacionalidades
atravessou o Oceano Atlântico: o mundo das nações nascia como a forma
político-estatal do mundo do capital. A independência americana deu impulsão a
essa tendência, embora na América Latina as relações capitalistas de produção
fossem só embrionárias e coexistissem durante um longo período com relações
pré-capitalistas e com classes dirigentes não burguesas (no sentido moderno,
industrial) que os “Libertadores” (oriundos dessas classes) não conseguiram
superar politicamente.
Completadas
as independências, a primeira tentativa de união latino-americana, o Congresso
de 1826, concluiu sem nenhum resultado prático e sem nenhuma glória. A nova
elite política das nações americanas fracassou na tarefa de deitar as bases de
uma ou várias grandes nações. A divisão da Grã Colômbia antecipou o fracasso de
outras tentativas unificadoras e a crise final dos projetos bolivarianos: as
forças dispersivas eram muito mais fortes e prementes do que as que
impulsionavam a unidade. Os interesses mais sólidos não se orientavam para o
mercado interno, mas para o mercado mundial, e as classes com interesses
internos eram compostas por pequenos produtores, dispersos, com escassa força
política e submetidos à concorrência das manufaturas externas.
A
independência política da América Latina chegou no momento em que o
desenvolvimento colonial não tinha mais nada a oferecer para nenhuma das
classes das sociedades ibero-americanas. Os projetos mais fortes para a unidade
de regiões, que logo iriam se dividir, foram os que propiciavam coroar
monarquias, com alguma figura de origem europeia ou mesmo indígena, promovidos
por vários líderes da independência.
A ideia
de uma só nação latino-americana tropeçava na ausência de um esboço de
desenvolvimento econômico comum, com alguma tendência para um mercado nacional,
nos vastos territórios das Américas de colonização ibérica. A liderança
político-militar da independência latino-americana sofria das limitações da
aristocracia criolla, ainda que estivesse politicamente um passo à
frente dela: manifestou-se incapaz de apoiar-se em outras classes sociais, que
em diversos momentos da guerra pela independência tentaram dar-lhe um conteúdo
diferenciado, a “república negra” de Haiti, o México indígena, o Paraguai do
Dr. França ou o Uruguai de Artigas.
A ideia
da unidade política da América Latina havia surgido de um “espírito da época”,
que foi se esgotando na Europa durante a expansão militar napoleônica. A
tendência para a fragmentação política se impôs, devido à ausência de uma
burguesia interessada em pôr um fim às formas pré-capitalistas de exploração do
trabalho, e também ao latifúndio, desenvolvendo a indústria e criando um amplo
mercado interno: a revolução nacional e democrática latino-americana
realizou-se de maneira incompleta e inacabada.
Do
ponto de vista econômico, houve continuidade entre o período colonial e a fase
independente. A partir da extração colonial de metais preciosos, seguiu-se a
exploração agrícola e pecuária por meio da qual cada país, articulando-se com o
sistema econômico internacional, se identificou com um determinado produto
comercial.
A
América Central se especializou no fornecimento de frutas tropicais; o Equador,
bananas; Brasil e Colômbia, café; Cuba e Caribe, açúcar; Venezuela, cacau;
Argentina e Uruguai, carne e lã; a Bolívia tornou-se país fornecedor de estanho
e o Peru de peixe, guano e salitre. A crise econômica e financeira
internacional de inícios do século XIX acirrou as disputas internas, o que
facilitou a intervenção, não da exaurida Espanha, mas da dinâmica Inglaterra,
na conformação do mapa político da América Latina.
A
aspiração da Grã-Bretanha não era obter um domínio político direto, que
implicaria em despesas administrativas e a comprometeria nas violentas lutas
das facções locais. Inglaterra se dispôs a impor seus interesses econômicos
adaptando-os à nova situação, afastando seus rivais ou concorrentes europeus. A
firmeza imperial inglesa foi necessária quando se tratou de se opor à
constituição de unidades nacionais fortes e amplas, que pudessem se opor de
igual para igual com as potências europeias.
O indirect
rule, em aliança com os mandantes locais, se transformou em instrumento
político para consolidar a presença de Inglaterra. O modelo colonizador inglês
no istmo centro-americano foi estratégico. Um tratado EUA-Inglaterra
estabeleceu o compromisso de ambas as potências de respeitar a liberdade de
navegação, renunciando a qualquer aspiração de domínio sobre a futura via
interoceânica, a colonizar qualquer zona da América Central e a apoiar
conjuntamente a companhia que assumisse a construção. O chanceler inglês Lorde
Palmerston instou os banqueiros ingleses a apoiar a companhia do ianque
Cornelius Vanderbilt.
Em toda
a América Latina, a conquista da independência política abriu o campo para a
expressão mais livre das contradições sociais no interior das sociedades. No
entanto, fracassaram os projetos que propunham o fim das diferenças de casta e
a divisão das grandes propriedades rurais entre os índios e os mestiços pobres.
A partir deste momento, a oligarquia latino-americana se tornou profundamente
conservadora nas lutas contra os camponeses, junto à Igreja Católica.
Mal
concluída a independência, a situação da América começou a mudar. Em 1823, os
Estados Unidos proclamaram a “Doutrina Monroe”, opondo-se qualquer tentativa de
intervenção militar ou colonial europeia no continente americano. Embora
enclaves coloniais sobrevivessem em vários lugares, as tentativas colonialistas
posteriores (a tentativa da frota anglo francesa no Rio da Prata, em 1846; Luís
Napoleão com seu Segundo Império Mexicano em 1863–1867) fracassaram, rejeitadas
pelas novas nações.
Os
países latino-americanos conheceram na sequência uma série de guerras (como a
do Paraguai, entre 1865 e 1870, ou a Guerra do Pacifico, entre 1879 e 1883) que
definiram suas fronteiras e Estados nacionais, no período que Hobsbawm batizou
como Era do capital (1848-1875) ocupando, porém, um lugar
subordinado na expansão econômica mundial da “era liberal”.
Contra
o pano de fundo do atraso econômico e a fragmentação política, os confrontos da
segunda metade do século XIX consolidaram na América Latina os interesses
comerciais e financeiros externos, especialmente ingleses. Na segunda metade do
século XIX o capitalismo se desenvolveu em alguns polos do subcontinente, menos
pelo desenvolvimento das forças produtivas locais do que por impulsão externa:
Inglaterra tomou a dianteira, para ser, a partir de finais do século XIX e
inícios do século XX, progressivamente substituída pelos EUA como principal
investidor e dominador externo.
A
América Latina foi uma das regiões em que o novo imperialismo financeiro ganhou
rapidamente um peso predominante. Os recursos financeiros oferecidos aos
Estados latino-americanos financiaram seus débitos, assim como as grandes obras
públicas e os sistemas de transporte urbanos e nacionais. A cascata de recursos
via empréstimos ou investimentos diretos sustentou uma onda de desenvolvimento
capitalista, sobretudo nos países mais ricos, como Argentina, Chile, Brasil e
México.
Essas
condições determinaram um ‘desenvolvimento econômico combinado” nesses países,
misturando as formas mais atrasadas da exploração econômica com avanços
tecnológicos e produtivos, nos setores vinculados à exportação e aos interesses
do imperialismo financeiro. Os países latino-americanos foram se transformando
em semicolônias das potências europeias, ou da nova potência emergente do
Norte, ao mesmo tempo em que definiam seus perfis econômico-sociais baseados
nas monoculturas e no predomínio das oligarquias agrárias e comerciais.
Espanha,
que conservara seus domínios coloniais em Cuba e Porto Rico, foi testemunha
impotente da disputa pelas suas antigas colônias. Na antiga metrópole
registrou-se o fracasso da revolução democrática, o que veio a alimentar a
lenda da “inferioridade histórica” dos povos latinos. As tentativas das
burguesias latino-americanas para assentar a sua dominação política em
instituições civis não conseguiriam emancipar o Estado da tutela militar: de
alicerce da construção do Estado, o exército evolucionou quase que naturalmente
até transformar-se no seu árbitro indiscutível, exercendo cada vez mais um
papel relativamente independente das classes dominantes.
No
Brasil o exército marcou como um poder independente todos os episódios que
viabilizaram a transformação política republicana, adotada na América espanhola
desde o começo do período independente. Se a Grã-Bretanha era o principal
investidor nas Américas, no México ela foi superada para 1890 pelos EUA,
anunciando uma tendência continental. As companhias e homens de negócios
estadunidenses invadiram o outro lado do Rio Grande.
Com
isso, entre 1873 e 1910 o comércio exterior mexicano cresceu dez vezes. Em
plena expansão imperial afro-asiática da Europa, os países europeus
compreenderam, pela observação ou pela força, que o “Novo Mundo” era
inacessível em termos coloniais, devido à influência dos EUA, que já concebia a
ideologia do pan-americanismo. Mas era muito acessível em termos comerciais e
financeiros: Brasil e Argentina, principais países da América do Sul, se
transformaram em semicolônias do capital britânico, e América do Sul sofreu um
processo de colonização econômica.
Fonte:
Por Osvaldo Coggiola em A Terra é Redonda

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