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que ditadura teria assassinado Juscelino Kubitschek, segundo comissão
Às
vésperas do cinquentenário da morte de Juscelino Kubitschek
(1902-1976),
um documento pode finalmente dar destino aos mistérios que sempre rondaram a
morte do ex-presidente.
Um
relatório elaborado pela Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos
(CEMDP) chegou a uma conclusão com potencial para se tornar "a mais
importante ação ilegal perpetrada pela ditadura".
Com 5
mil páginas, o documento deve confirmar que o acidente sofrido por Kubitschek a bordo de um
Opala na rodovia Presidente Dutra teria sido, na verdade, um assassinato,
planejado e executado por agentes do regime ditatorial que comandava o país
desde o golpe de 1964.
A
revelação é a principal conclusão do documento elaborado pela CEMDP,
instituição vinculada ao Ministério dos Direitos Humanos, após análises
realizadas nos últimos dois anos. E foi divulgada pelo jornal Folha de S. Paulo
na sexta-feira (8/5) e confirmada pela BBC News Brasil.
O teor
do relatório, que ainda precisa ser aprovado em uma reunião a ser agendada em
breve pela CEMDP, dá uma nova dimensão à violência com que o regime de exceção
tratava seus opositores no período.
"Um
ex-presidente assassinado não é pouca coisa. Ele se tornaria a vítima mais
célebre da ditadura", diz o historiador Rodrigo Patto Sá Motta, professor
na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), ex-presidente da Associação
Nacional de História (ANPUH) e autor de, entre outros livros, Passados
Presentes: O Golpe de 1964 e a Ditadura Militar (Zahar). "Não há
precedente nem paralelo na História do Brasil."
Conforme
a reportagem apurou, caso o relatório da CEMDP seja aprovado, o passo seguinte
deve ser a retificação da certidão de óbito do
ex-presidente, a exemplo do que já ocorreu com outras figuras notáveis que, nos
últimos anos, tiveram suas mortes confirmadas como execuções causadas pelo
Estado brasileiro, casos da estilista Zuzu Angel (1921-1976) e do engenheiro e
político Rubens Paiva (1928-1971).
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Figura popular
Além do
peso simbólico e institucional representado pelo assassinato de um ex-chefe de
Estado, historiadores avaliam que há duas características a serem observadas
sobre o provável assassinato de Kubitschek. Em primeiro lugar, o fato de que
ele não era um militante de esquerda, muito menos um extremista — contrariando,
portanto, a narrativa de que a ditadura só teria sido letal contra seus mais
violentos detratores.
"Ele
não era radical, não era comunista. Isso amplia o leque de uma visão sobre o
passado que, no momento atual, ganha outra dimensão", afirma o historiador
Victor Missiato, pesquisador no Instituto Presbiteriano Mackenzie — o
pesquisador estudou as relações civis-militares no governo e a atuação de
movimentos comunistas em seu mestrado e em seu doutorado, ambos defendidos na
Universidade Estadual Paulista (Unesp).
O outro
ponto seria o papel que Kubitschek desempenhava na época — e por que o
ex-presidente era visto como um inimigo a ser combatido pela ditadura.
Presidente
do Brasil de 1956 a 1961, ele ocupava uma cadeira no Senado e era visto como um
nome forte para voltar a ocupar a presidência da República quando o golpe de
1964 alçou os militares ao poder. Naquele momento, foi um dos que apoiou o
processo.
Logo em
seguida, contudo, passou a ser acusado pelos militares de corrupção e de ter
ligação com comunistas. Teve seus direitos políticos cassados. Voluntariamente
exilou-se e, por dois anos, percorreu Estados Unidos e Europa. No retorno ao
Brasil, em 1967, tornou-se uma voz pública contra o regime autoritário que
comandava o país.
"Por
ser uma figura de apelo popular, [os militares entendiam que ele] poderia
atrair apoio de parte da população contra a própria ditadura", explica o
cientista político Paulo Nicolli Ramirez, professor na Fundação Escola de
Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP).
Ramirez
acrescenta que, "caso o Brasil retornasse à democracia", o
ex-presidente seria "um nome muito forte".
"Tratou-se
primeiro de cassar seus direitos políticos e depois, matar. Porque a ditadura
estava de olho em figura que pudessem representar qualquer ameaça ao regime,
seja durante a vigência desse, seja após o seu fim", avalia o cientista
político.
"Matá-lo
seria uma forma de afastá-lo desse processo [de futura redemocratização]",
explica Sá Motta.
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Um acidente mal-explicado
Kubitschek
morreu em acidente automobilístico em 22 de agosto de 1976 quando o Opala
conduzido por seu motorista, Geraldo Ribeiro, se desgovernou, atravessou o
canteiro central da Rodovia Presidente Dutra, na altura do quilômetro 165, e,
na contramão, se chocou com uma carreta. O motorista também morreu.
Na
ocasião, as investigações apontaram para um acidente normal de trânsito, em que
Ribeiro teria perdido o controle do carro depois de tentar ultrapassar um
ônibus. Em 2014, quando a Comissão Nacional da Verdade analisou o episódio, a
conclusão foi semelhante.
O caso
foi reaberto depois que o Ministério Público Federal (MPF) decidiu investigar
novamente a história. Entre 2013 e 2019, documentos, imagens e laudos foram
analisados mais uma vez. O motorista do tal ônibus prestou depoimento e relevou
ter recebido uma oferta em dinheiro na época para assumir a culpa pelo acidente
— ele foi processado por homicídio culposo (em que não há a intenção de matar)
e absolvido.
Esse
novo inquérito contou com um minucioso laudo preparado pelo engenheiro Sergio
Ejzenberg, perito e especialista em transportes. O documento, ao qual a BBC
News Brasil teve acesso integral, foi conclusivo: o ônibus não trafegava em
excesso de velocidade e não teve qualquer participação causal nos fatos.
"Excluída
a participação do ônibus […] no evento, restou inexplicada pelos laudos […] a
causa da passagem do automóvel Opala para a pista oposta, e também restou
inexplicada a rota de colisão do automóvel, sem frenagem, apontada pelos
peritos criminais […]. Isso tudo ocorreu em trecho retilíneo, após o Opala ter
trafegado sem problema por duas curvas fechadas imediatamente
precedentes", diz o texto de Ejzenberg. "Essa questão central foi
ignorada nos laudos […] de 1976 e 1996".
O
perito concluiu que a investigação sobre possível sabotagem no automóvel acabou
sendo "inviabilizada", já que o veículo foi desmantelado
"enquanto estava guardado no pátio da Delegacia de Polícia de
Resende", para onde foi levado após o acidente -- isso implicou em
"perda das provas relevantes para o estudo dessa questão", pontua.
A
Comissão Sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) decidiu reabrir a
investigação da morte de Kubitschek por causa disso. O pedido foi feito pelo
ex-presidente da Comissão da Verdade Municipal de São Paulo, o político
Gilberto Natalini.
Relatora
do novo documento, a professora no Centro Universitário Claretiano, a
historiadora Maria Cecília Adão foi procurada pela reportagem e disse que não
poderia fazer comentários porque o texto "está em fase de liberação",
sem prazo para ser aprovado pelos pares. A CEMDP é um órgão de Estado criado em
1995 para lidar com os legados da ditadura.
Em
nota, datada de 8 de maio, a comissão informou que o trabalho conduzido por
Adão é resultado de estudo feito "de forma articulada com pesquisadores do
tema" e que o texto foi apresentado aos demais integrantes da CEMDP no dia
1º de abril. A votação ainda não tem data marcada para ocorrer.
"A
CEMDP reforça seu compromisso com o diálogo permanente com as famílias de
vítimas de violência de Estado, que têm sido e serão sempre protagonistas na
busca por memória, verdade e justiça", destaca o texto.
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Revisão jurídica
Professor
na Universidade de São Paulo (USP), o jurista Gilberto Bercovici elaborou um
parecer em 2014 sobre uma possível reviravolta no caso envolvendo a morte de
Kubitschek. Segundo seu entendimento, em casos de graves violações de direitos
humanos praticados pelo Estado deve haver uma inversão do ônus da prova em
favor das vítimas.
No
juridiquês, isso significa que diante de assimetria de poder e da destruição ou
ocultação de provas pelo próprio Estado, não é razoável exigir que as vítimas
ou seus familiares comprovem plenamente os crimes.
Esse
parecer é um dos documentos considerados na avaliação do caso. À reportagem, o
jurista afirmou que soube que seus pontos "foram acolhidos" pela
comissão.
Membro
da comissão de direito eleitoral da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e
diretor do Instituto Luiz Gama, o jurista Renato Ribeiro analisa a importância
do trabalho da CEMDP como de "forte peso institucional, histórico e
político".
"Caso
o relatório seja aprovado formalmente, haverá uma mudança significativa na
narrativa oficial do Estado brasileiro sobre a morte de Kubitschek",
ressalta. "Isso pode gerar desdobramentos como revisão de registros
oficiais, reabertura de procedimentos administrativos e históricos, ampliação
de políticas de reparação e novos pedidos de acesso a arquivos militares."
Ribeiro
atenta para o fato de que essa interpretação, se oficializada, pode
"reforçar a responsabilidade civil e histórica do Estado brasileiro",
não envolvendo apenas "eventual indenização financeira, mas também dever
de memória, preservação documental, reconhecimento público e reparação moral
coletiva".
"No
plano institucional, o impacto é ainda maior porque envolve a figura de um
ex-presidente da República morto em circunstâncias historicamente
controversas", diz o jurista, lembrando que "em tese, crimes contra a
humanidade são imprescritíveis segundo a jurisprudência internacional de
direitos humanos" e esse foi o entendimento adotado pela Comissão Nacional
da Verdade.
No
entanto, Ribeiro lembra que, em casos correlatos, o Supremo Tribunal Federal
(STF) mantém "posição relevante" favorável à validade da Lei da
Anistia de 1979, que perdoou crimes políticos cometidos entre 1961 e 1979,
permitindo o retorno de exilados mas também protegendo agentes que praticaram
tortura.
Isto,
na visão do especialista, "cria tensão entre a jurisprudência
internacional e o entendimento interno brasileiro".
Mas
punir os envolvidos não seria tarefa fácil. "Há uma dificuldade prática
evidente: quase cinquenta anos se passaram desde a morte do ex-presidente e
muitos dos eventuais envolvidos já faleceram", pontua. "Isso reduz a
possibilidade concreta de responsabilização penal individual. Ainda assim,
investigações históricas, reconhecimento oficial de autoria institucional e
identificação de estruturas repressivas eventualmente envolvidas continuam
juridicamente possíveis."
O caso
entra no escopo do que convencionou se chamar "justiça de transição".
Neste caso, como explica o jurista, a reparação não é apenas patrimonial.
"Muitas vezes, o principal efeito jurídico é simbólico e institucional,
como retificação oficial da causa da morte, reconhecimento público da
responsabilidade estatal e revisão histórica promovida pelo próprio Estado
brasileiro", afirma.
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Repercussões
Um dos
maiores especialistas no período ditatorial, o historiador Daniel Aarão Reis,
professor na Universidade Federal Fluminense e autor de, entre outros Ditadura
Militar, Esquerdas e Sociedade (Zahar), comenta que ainda tem
"dúvidas a respeito da confirmação do suposto assassinato" de
Kubitschek, pois o relatório, em princípio, faz uma "recuperação" de
pareceres "já formulados" — e não "uma nova investigação".
Por
outro lado, ele concorda que, caso a morte do ex-presidente seja
"definitivamente estabelecida como assassinato", esta seria, ao lado
da execução do ex-guerrilheiro Carlos Marighella (1911-1969), "a mais
importante ação ilegal perpetrada pela ditadura".
Reis
argumenta que Kubitschek, assim como o ex-presidente João Goulart (1919-1976) e
o jornalista e político Carlos Lacerda (1914-1977) — também mortos em situações
mal-explicadas —, era um homem que "a rigor não representava perigo nenhum
para a ordem social e política do país".
"Entretanto,
este não era o ponto de vista dos órgãos de segurança", acrescenta ele,
citando o Destacamento de Operações de Informações - Centro de Operações de
Defesa Interna (DOI-CODI), que chama de "sinistro sistema
organizado".
"Para
esses órgãos, os três políticos citados, por serem contrários à permanência
indefinida da ditadura, teriam de sair do caminho. Em outras palavras, deveriam
ser eliminados", aponta o historiador.
Para
Reis, se o assassinato de Kubitschek for comprovado, o passo seguinte seria
descobrir se "houve ordens de cima para baixo" ou se agentes
conduziram a trama de forma autônoma.
"Caso
isso tudo seja comprovado, certamente estaremos diante de um fato gravíssimo e
inédito na história do país", sentencia. "E uma lição a respeito de
que situações podem ser criadas quando o Estado cria instituições desse
tipo."
O
historiador Missiato acredita que essa revisão da historiografia, se
confirmada, "teria um impacto gigantesco", pois a suposta vítima
seria uma das principais lideranças políticas do país no século 20.
Mas ele
é cauteloso porque acredita que seriam necessários depoimentos de envolvidos
para confirmar se houve ou não um assassinato. Do contrário, argumenta
Missiato, o que o relatório trará é uma "reinterpretação baseada na
conjuntura atual", na forma como hoje se olha para esse passado. "De
qualquer forma, passaremos a ver o regime militar de outra forma", diz.
A
provável aprovação do relatório nas próximas semanas será desses episódios com
força para reescrever um capítulo importante da história do país. Para o
cientista político Ramirez, é o que faltava para "comprovar a capacidade
das ditaduras de produzir atos terroristas de Estado contra figuras que
pudessem colocar em risco suas existências".
"E
a descoberta desse assassinato mancha a imagem dos militares brasileiros mais
uma vez", ressalta ele. "É o auge de onde eles chegaram: matar
ex-autoridades públicas, sem nenhum escrúpulo."
Sá
Motta lembra que tal confirmação coloca a ditadura brasileira em posição
semelhante a regimes como o chileno — com a morte do presidente Salvador
Allende (1908-1973) — e o boliviano — com o assassinato do ex-presidente Juan
José Torres Gonzáles (1920-1976).
"Mas
é difícil provar [que houve assassinato]", comenta o historiador. "O
que se prova é que não foi uma trombada contra um ônibus. Mas não se prova que
teria sido uma ação [provocada para causar a morte do ex-presidente
brasileiro]."
"O
que não tenho dúvida é que ele poderia ser assassinado a mando da ditadura,
porque eles faziam muito isso. Em vários casos simularam acidentes para não
configurar assassinato", acrescenta Sá Motta.
Para o
historiador, mesmo após esse relatório, "vale a pena tentar investigar
mais" o caso, em busca de outras evidências. "A única maneira de
esclarecer seria com depoimentos [de potenciais envolvidos]", salienta.
"Mas até hoje não apareceram."
Fonte:
BBC News Brasil




