terça-feira, 11 de agosto de 2026

A volta por cima dos irmãos Batista: como donos da JBS saíram da Lava Jato e voltaram aos holofotes

É 2017. Um advogado está sentado em frente ao computador em um escritório digno de um consultor jurídico de dois dos homens mais ricos e poderosos do Brasil. Ele termina de digitar, clica em "enviar" e se dirige à porta. Mas algo o incomoda, uma sensação persistente que não consegue ignorar. Ele se vira, volta à sua mesa e abre a pasta de e-mails enviados. Seu sangue gela. Para seu desespero, ele percebe que anexou o arquivo de áudio errado ao e-mail, uma mensagem destinada diretamente ao Ministério Público Federal (MPF). O anexo deveria salvar seus clientes. Em vez disso, seu erro os levará para a prisão.

Esta é a história de dois dos mais famosos irmãos brasileiros: Wesley e Joesley Batista, de 54 e 53 anos, respectivamente, cada um com uma fortuna atualmente estimada em US$ 5,7 bilhões (R$ 29 bi). A história da família Batista está ligada ao crescimento econômico do Brasil e ao sucesso da JBS, a maior produtora de carne do mundo. Ao mesmo tempo, seu passado também remete a um dos maiores escândalos de corrupção da história do país. E apesar de serem lembrados no Brasil e no mundo por sua associação aos escândalos revelados pela Operação Lava Jato, os irmãos Batista passaram por uma espécie de "volta por cima" nos último anos.

Após uma temporada fora dos holofotes, hoje eles estão mais ricos do que nunca, com suas ações negociadas na Bolsa de Valores de Nova York e participando até mesmo de reuniões na Casa Branca.

>>> Relembre, a seguir, a história da queda e da ascensão de Wesley e Joesley Batista, contada no programa Good Bad Billionaire (O bom e mau bilionário, em tradução literal), do BBC World Service.

<><> O pai

Tudo começou com o pai de Wesley e Joesley, José Batista Sobrinho. Em 1953, ele abriu um açougue em Anápolis, no interior de Goiás. O Brasil passava por uma rápida modernização naquela época, e José se mudou para a recém-construída capital Brasília, atraído por uma isenção fiscal de quatro anos. Ele começou vendendo carne nas cantinas dos canteiros de obras da nova cidade e, alguns anos depois, comprou seu primeiro frigorífico, também em Goiás.

Em 1972, ele renomeou a empresa para Friboi e teve dois filhos, Wesley e Joesley, que nasceram com apenas dez meses de diferença. Eles tinham um irmão mais velho e três irmãs. Naquele momento, o Brasil possuía vastas áreas de pastagem e 105 milhões de cabeças de gado. O país era o quarto maior produtor mundial de carne, atrás da Índia, da União Soviética (URSS) e dos Estados Unidos. O problema era a taxa de abate: apenas 12% do rebanho era abatido anualmente, em comparação com 24% na Argentina e 40% nos Estados Unidos. As pastagens eram pobres, e o gado demorava mais para engordar: cinco anos, em comparação com 30 meses na Argentina ou 16 meses nos EUA.

O governo brasileiro decidiu então transformar a carne bovina em um negócio de exportação. Transferiu a pecuária para o estado de Mato Grosso e financiou a modernização dos frigoríficos. Tudo isso bem ao lado de Goiás, sede dos negócios de Batista. A terra e os salários eram baratos, então o Brasil rapidamente começou a competir com os EUA em carne enlatada, hambúrgueres e ração para animais de estimação.

<><> Os irmãos

Wesley e Joesley cresceram no ramo. Ainda adolescentes, já compravam e vendiam gado e lidavam com os clientes. Wesley certa vez disse que ele e o irmão não tinham formação acadêmica, mas aprenderam o ofício na prática. Aos 17 anos, ambos abandonaram a escola para administrar os matadouros da família. Durante as décadas de 1980 e 1990, o irmão mais velho, José Junior, liderou a Friboi. O pai foi se afastando gradualmente dos negócios. Wesley e Joesley ficaram responsáveis pela expansão da empresa. "Crescimento está no nosso DNA", diz Wesley.

Entre 1993 e 2005, a Friboi adquiriu 12 matadouros e unidades de processamento. O crescimento da empresa estava ligado ao crescimento dos supermercados, que substituíam os açougues de bairro em várias partes do país. Como os supermercados exigiam volumes maiores e controles sanitários mais rigorosos, os matadouros menores não conseguiam acompanhar a demanda e acabaram batendo à porta da família Batista para vender seus produtos. Com o aumento da urbanização e da renda, o mundo também passou a consumir cada vez mais carne. E, graças ao melhor acesso à refrigeração, as exportações começaram a crescer.

Em 2004, a empresa transferiu sua sede para São Paulo. Em 2005, José Júnior entrou para a política — sem muito sucesso — e deixou os negócios nas mãos de Wesley e Joesley. Naquela época, o faturamento da Friboi era de quase US$ 2 bilhões: aos 33 anos, os irmãos já eram milionários.

<><> Do Brasil para o mundo

Chegou a hora de expandir para além do Brasil, e o vento estava a seu favor.

O Brasil fazia parte do grupo Bric (mais tarde Brics), as economias emergentes que estavam mudando o cenário econômico global. E o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) havia lançado um programa para transformar empresas brasileiras em gigantes multinacionais. O país estava se desenvolvendo a passos largos, e os irmãos Batista acompanhavam o ritmo.

Eles compraram a Swift-Armour, a maior exportadora de carne da Argentina, por US$ 200 milhões em 2005, com um empréstimo de US$ 80 milhões do BNDES. Em 2006, já operavam 21 unidades de processamento no Brasil e cinco na Argentina, processando 20 mil cabeças de gado por dia. Seu próximo alvo eram os Estados Unidos, mas as normas sanitárias daquele país não permitiam a importação de carne bovina brasileira. Eles precisavam comprar acesso a esse mercado.

Para financiar a expansão, abriram o capital da empresa. Em março de 2007, a JBS teve a melhor estreia na bolsa de valores da história do Brasil até então. A Friboi ficou conhecida como JBS, em homenagem às iniciais do pai. Alguns meses depois, fizeram sua maior aquisição: a Swift & Co., a terceira maior processadora de carne dos EUA, com vendas anuais de US$ 9 bilhões. A aquisição custou US$ 1,4 bilhão. O BNDES contribuiu com a compra de US$ 500 milhões em novas ações da JBS. A Swift proporcionou à empresa uma marca global e acesso a muitos novos mercados. "Com essa aquisição, nos tornamos a maior empresa de carne do mundo", anunciou Joesley.

<><> Um apetite insaciável

Na década seguinte, a JBS adquiriu mais de 40 empresas em quatro continentes. Quando o dólar se desvalorizou, eles compraram mais nos EUA, como a divisão de carnes da Smithfield Foods, por US$ 500 milhões. Mas quando tentaram adquirir a National Beef, o Departamento de Justiça americano bloqueou a transação devido a preocupações com monopólio. Temiam que um gigante daquele porte definisse os preços, pagando menos aos pecuaristas e cobrando mais dos consumidores. Segundo o próprio Wesley, foi essa tentativa fracassada que permitiu à JBS investir em outras áreas.

Os irmãos diversificaram para o setor de frango e adquiriram uma participação majoritária na empresa americana Pilgrim's Pride, que estava em falência, por US$ 800 milhões. Em 2011, os irmãos controlavam 22% do fornecimento de carne bovina dos EUA. Mas, embora estivessem vendendo muito e ampliando rapidamente sua presença internacional, os lucros ainda não eram suficientes para financiar sozinhos uma maratona global de aquisições.

Entre 2005 e 2014, a empresa comprou dezenas de concorrentes no Brasil, nos Estados Unidos, na Austrália e na Europa, numa expansão avaliada em cerca de US$ 20 bilhões. Como financiar uma operação dessa magnitude? A resposta passou pelo BNDES, que fez aportes bilionários no negócio. Em 2014, o Estado brasileiro, por meio do banco de desenvolvimento, era o maior acionista individual da companhia, controlando quase 35% de suas ações. Na prática, um banco público de desenvolvimento havia se tornado dono de cerca de um terço de uma multinacional privada que já faturava bilhões e expandia operações em vários continentes. Algo não fazia sentido.

<><> Então veio a Lava Jato...

Até então, essa era a história que os irmãos, sua família e a empresa contavam. Mas depois descobriu-se que nem tudo era verdade.

Então veio a Operação Lava Jato e suas revelações sobre um esquema de corrupção gigantesco, no qual grandes empresas pagavam propinas a políticos em troca de contratos e favores políticos. Em 2016, os irmãos já eram suspeitos formais. O risco para eles era enorme: o presidente de outra empresa bilionária, Marcelo Odebrecht, havia sido condenado a 19 anos de prisão. Em 2017, Wesley e Joesley Batista fizeram um acordo com o Ministério Público para entregar todas as provas que possuíam em troca de imunidade parlamentar.

Eles contaram tudo. Subornos a funcionários para resolver pendências fiscais e para liberar empréstimos — eles confessaram ter subornado três presidentes brasileiros, algo que todos negam. No total, cerca de US$ 200 milhões foram distribuídos entre quase 1,9 mil políticos. Joesley chegou a afirmar que, sem essas propinas, a empresa não teria crescido tão rápido. Ele também revelou que o esquema com o BNDES começou em uma reunião em 2005 com Guido Mantega, então presidente do banco e posteriormente Ministro da Economia.

Para o primeiro empréstimo para a compra da Swift-Armour na Argentina, Joesley disse que subornaram um associado de Mantega com US$ 3,2 milhões, continuando a pagá-lo até 2009, quando alegaram ter começado a negociar diretamente com Mantega. O BNDES negou tudo. Mantega foi preso e libertado quase imediatamente.

Entre os subornados, segundo seu depoimento, estava o então presidente do Brasil, Michel Temer, que teria recebido US$ 4,6 milhões. Joesley chegou a gravar uma conversa com ele, usando um microfone escondido, na qual, segundo a Procuradoria-Geral da República, Temer aprovou o pagamento para comprar o silêncio do ex-presidente da Câmara dos Deputados Eduardo Cunha, que estava preso e poderia incriminar importantes líderes políticos. O ex-presidente nega as acusações e, embora tenha sido investigado e posteriormente preso em um desdobramento da Lava Jato, Temer não foi condenado nos principais processos relacionados a esse caso.

<><> Reviravoltas inesperadas

O acordo dos irmãos com o MPF lhes garantiu imunidade contra processos por corrupção. A empresa, no entanto, pagou uma multa recorde de US$ 3,2 bilhões, distribuída ao longo de 25 anos. Mas houve duas reviravoltas inesperadas.

Você se lembra do advogado do início do texto?

Em vez de enviar a gravação do diálogo com Temer ao MPF , ele enviou os áudios de outra conversa, entre Joesley e um executivo da empresa, Ricardo Saud. Na gravação, Joesley parecia admitir que havia ocultado informações cruciais dos promotores, e discutia como influenciar o Procurador-Geral da República para melhorar o acordo de delação premiada. Ambos pareciam relaxados, estavam até rindo. Em um dado momento, Joesley pode ser ouvido dizendo: "Somos a joia da coroa. Vamos sair dessa numa boa com todo mundo, e eles não vão nos impedir."

Dias após o erro monumental do advogado, os dois se entregaram à polícia. Mas o golpe final para os irmãos Batista foi financeiro: dias antes da notícia sobre a existência de uma gravação secreta com o presidente Temer se tornar pública, os irmãos venderam US$ 90 milhões em ações da JBS. Quando o escândalo estourou, a bolsa de valores brasileira despencou e teve que suspender temporariamente as negociações após uma queda de quase 9%, a maior em nove anos.

Wesley e Joesley foram presos sob suspeitas de insider trading (uso de informação privilegiada) e manipulação de mercado. Eles sempre negaram as acusações. Após cerca de seis meses em prisão preventiva, eles receberam autorização para seguir em prisão domiciliar à noite e nos fins de semana. Medidas cautelares, porém, os proibiam de deixar o país e de ocupar cargos na JBS.

<><> A volta por cima

E a empresa? Em vez de afundar, ela prosperou. Quando Joesley foi libertado da prisão, em março de 2018, as ações da JBS subiram cerca de 3,6%. Pouco depois, um aumento na demanda por carne da China impulsionou os lucros no Brasil em quase 116% no início de 2019. Naquele mesmo ano, Wesley e Joesley estrearam na lista de bilionários da Forbes com US$ 1,3 bilhão cada. A prisão não prejudicou os negócios: pelo contrário, os impulsionou.

Com a chegada da pandemia de covid-19, a Justiça suspendeu a proibição de que eles ocupassem cargos executivos. Na época, a JBS fornecia 25% do mercado alimentício brasileiro e empregava 260 mil pessoas. Aparentemente, eles eram importantes demais para serem punidos. Em 2023, a Comissão de Valores Mobiliários do Brasil os absolveu das acusações de uso de informação privilegiada. No ano seguinte, eles retornaram oficialmente ao conselho de administração da JBS, que havia consolidado sua posição como a maior empresa de carnes do mundo, com mais de US$ 77 bilhões em receita anual. Era, e ainda é, um bom momento para estar no ramo de carnes.

Após anos de boom vegano no Ocidente, esse produto teve um forte retorno, impulsionado pela divulgação massiva dos benefícios da proteína. Em 2025, Wesley indicou que o aumento dos medicamentos para perda de peso do tipo GLP-1 (as canetas emagrecedoras) estava impulsionando a demanda por proteína para prevenir a perda muscular. "Antes, os médicos diziam para não comer tantos ovos ou tanta proteína. Agora é o contrário", observou ele. No entanto, a JBS ainda tinha um obstáculo a superar: a abertura de capital na Bolsa de Valores de Nova York.

O órgão regulador americano havia negado repetidamente o pedido da empresa para entrar na bolsa devido à forte oposição bipartidária no Congresso, onde havia se formado um grupo chamado de "Ban the Batistas" (Proíbam os Batistas). Tudo mudou com o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

A abertura de capital ocorreu em 2025, apenas dois dias depois de ser revelado que o maior doador para o comitê de posse de Trump havia sido a Pilgrim's Pride, uma subsidiária da JBS, com uma contribuição de US$ 5 milhões. Era uma quantia astronômica: cinco vezes maior do que a doada por gigantes da tecnologia como Amazon, Meta, Uber, Nvidia ou Microsoft, que contribuíram com um milhão de dólares cada. A JBS negou qualquer tratamento preferencial.

Sua estreia em Wall Street foi um sucesso estrondoso. Naquele dia, a fortuna de cada um dos irmãos aumentou em US$ 200 milhões. Hoje, a fortuna de cada um deles chega a US$ 5,7 bilhões.

<><> A escuridão

Não se trata apenas de carne e dinheiro. Em 2025, a JBS pagou uma multa de US$ 4 milhões após a descoberta de que crianças da América Central trabalhavam à noite limpando fábricas da empresa nos Estados americanos de Colorado, Minnesota e Nebraska. Elas manuseavam produtos químicos e algumas chegavam à escola com queimaduras. Em 2017, outra investigação revelou que a JBS comprava carne de uma fazenda suspeita de usar mão de obra em condições de escravidão moderna.

Também houve alegações de maus-tratos a animais. Em 2017, a Humane Society divulgou imagens de galinhas sendo espancadas em uma fazenda da Pilgrim's Pride. Em 2018, outro vídeo mostrou trabalhadores espancando e mutilando leitões sem anestesia. A JBS afirmou, em ambos os casos, que abriu investigações e rompeu relações com os fornecedores envolvidos.

As acusações de desmatamento também persistiram. Em 2017, a empresa pagou uma multa de US$ 7,7 milhões e, em 2024, foi novamente sancionada pelas autoridades brasileiras em uma operação contra a compra de gado proveniente de áreas desmatadas ilegalmente na Amazônia, embora a empresa tenha negado qualquer irregularidade. No mesmo ano, o Procurador-Geral de Nova York processou a JBS por supostamente ter descumprido suas promessas de atingir emissões líquidas zero até 2040, acusação que a empresa também rejeitou.

<><> Grande demais para cair

O retorno dos irmãos Batista não se limitou ao setor financeiro. Foi acompanhado por uma enorme influência política. No Brasil de hoje, eles são fotografados com frequência ao lado do presidente Lula (PT) em eventos públicos. No cenário internacional, os irmãos também começaram a circular nos altos círculos diplomáticos. Um exemplo disso foi o encontro particular de Joesley com Donald Trump em 2025, pouco depois de os EUA imporem uma tarifa de 50% sobre a maioria das importações brasileiras, medida que Washington acabou eliminando por completo. A influência dos irmãos nessa decisão foi tamanha que um empresário brasileiro chegou a afirmar que a remoção da tarifa se deveu em 99% aos Batista.

Joesley também ajudou a aproximar Trump e Lula e desempenhou um papel importante na operação dos EUA na Venezuela, viajando entre Washington e Caracas para tentar amenizar as tensões com o governo venezuelano. Talvez esse retorno à cena política não seja uma surpresa. Os irmãos Batista revolucionaram a indústria alimentícia brasileira, transformando-a em uma potência global na exportação de carne. No mundo dos negócios, alguns os veem como heróis empreendedores por levarem o orgulho brasileiro a Wall Street. Em última análise, a lição incômoda é de puro realismo financeiro: você pode estar envolvido nos piores escândalos, mas se sua fortuna for grande o suficiente, o sistema sempre manterá uma porta aberta.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Maria da Penha, 20 anos: Alta de feminicídios revela fracasso estatal em proteger mulheres

O Brasil segue sendo um país violento, especialmente para as pessoas negras e para as mulheres. Pelo quarto ano consecutivo, o país registra índices recordes de feminicídios e tentativas de feminicídio, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública 2026. Apenas no ano passado, foram 1.571 vítimas desse crime, a maioria mulheres negras, assassinadas dentro de casa. A Lei Maria da Penha completa 20 anos, mas a violência contra as mulheres permanece como um dos principais desafios na segurança pública.

Nesta semana, o Pauta Pública recebe Juliana Brandão, advogada e coordenadora de Gênero e Raça do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Em entrevista a Andrea Dip, ela analisa os dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, o impacto do racismo nas taxas de violência, e defende a importância de políticas públicas voltadas à prevenção e ao fortalecimento da rede de proteção às vítimas. “Quando a gente se abstém de pensar em saídas preventivas, a gente está consentindo com essa escalada”, afirma.

Leia os principais pontos da conversa:

•        Segundo dados do último Anuário Brasileiro de Segurança Pública, em 2025, o Brasil registrou o maior número de feminicídios da série histórica iniciada em 2015, quando a tipificação do crime foi criada no país. De que tipo de violência de gênero estamos falando?

Estamos falando de uma violência que interrompe a vida das mulheres, uma violência que pode ser evitada. Porque o feminicídio, na verdade, é o ápice de um ciclo de violência que se inicia com um empurrão, um tapa, uma humilhação, com a violência psicológica, patrimonial e perseguição. Essas violências acabam sendo naturalizadas e desconsideradas como tal. Com isso, a mulher vai se sentindo cada vez mais enredada nesse ciclo, muitas vezes envergonhada e até se sentindo culpada por estar nessa situação.

Porque estamos falando de uma violência que é cometida por alguém que é do círculo muito próximo dessa mulher. Essa violência do feminicídio, que os dados do anuário trazem agora, é uma violência que acontece na maior parte das vezes dentro de casa, entre quatro paredes. Então, o problema está no ambiente doméstico. O problema está naquilo que acontece quando ninguém vê, quando a porta está fechada.

Quando falamos da violência que atinge também crianças e adolescentes, é também praticada por alguém que é do círculo muito próximo delas e a maior parte das vítimas são meninas negras, que repetem também o perfil das vítimas de feminicídio. Então, temos um endereçamento muito certo dessa violência, que já devia ser um sinal pra gente, um farol para onde a gente tem que olhar se a gente quer de fato mudar essa essa situação que a gente está vivendo.

•        Houve também um número alto de tentativas de feminicídio. Quer dizer que há falhas na prevenção?

Olhando para os dados, a gente vê uma escalada. Então, um recrudescimento da violência contra as mulheres, que não se explica tão só por uma melhora de enquadramento penal, mas por uma situação mais geral. Um caldo mesmo de violência que é expresso por um Brasil que é muito inseguro para as mulheres.

É muito difícil ser mulher no Brasil, porque as mulheres são vítimas de ameaça, as mulheres são vítimas de agressão, as mulheres são vítimas de perseguição. E se a gente levar em conta que essa mulher tem denunciado esses preditores de feminicídio, significa que ela vai e faz um boletim de ocorrência. Ali, por exemplo, já seria um momento de a gente dizer: “Olha, essa mulher aqui a gente tem que olhar com mais cuidado, porque ela conseguiu vencer essa barreira, ela conseguiu entender que não é culpada, ela conseguiu entender que não está sozinha. E o que acontece dentro do lar dela é algo que importa para o nosso coletivo. Vamos trazê-la para mais perto, vamos olhar o que está acontecendo, que rotina é essa, que autonomia ela tem, como é que ela sai desse enredo”, que é um enredo que vai, de alguma forma, dizimando as possibilidades de a mulher, de fato, encontrar uma saída.

Mas o que o direito penal oferece hoje? Oferece a responsabilização do agressor. A gente não volta ao estado anterior. Um agressor, um feminicida que é condenado, não traz de volta aquela mulher, não restabelece os laços sociais daqueles que são também os órfãos do feminicídio, se essa mulher tinha filhos. Não restabelece as relações das vítimas indiretas, porque essa mulher era mãe, era avó, era tia. Ela tinha todo um entorno ao lado dela que não vai ser restabelecido pela chancela da lei penal.

Então, quando a gente se abstém de pensar em saídas preventivas, a gente está consentindo com essa escalada. A gente está dando de ombros e está jogando, muitas vezes, no colo das próprias mulheres a responsabilidade pela proteção delas, porque significa que elas só viram cidadãs, só começam a importar para o Estado quando registram um boletim de ocorrência de uma violência que já estão sofrendo.

•        Mas a violência dá sinais. Essa mulher é assistida por um sistema de saúde, é assistida por um sistema de assistência social, está imersa em um coletivo. Ninguém viu? Ninguém percebeu um relato dela dizendo: “Olha, não consegui chegar aqui naquele espaço porque, na verdade, o meu companheiro embaraçou a minha saída”?

Isso já é um sinal de alerta. “Olha, não estou conseguindo usar minhas redes sociais”; “Olha, não estou conseguindo procurar trabalho”; “Olha, não tem quem fique com os meus filhos”. É muita pista que vai sendo deixada no meio do caminho e a gente fica, de alguma forma, esperando o pior acontecer para agir.

Então, acho, sim, que a gente está muito hesitante, de fato, em abraçar um compromisso maior com estratégias de proteção e de prevenção à violência.

•        Tendo em vista que 65,1% das mulheres que sofreram feminicídio eram negras, por que as políticas de enfrentamento a esse tipo de violência também precisam considerar os efeitos do racismo?

Quando a gente olha para os dados, e isso é sempre importante, toda oportunidade que eu tenho de problematizar isso, eu coloco que o sentimento de insegurança e de desproteção atinge todas as mulheres brasileiras. Mas, no cotidiano, as mulheres negras são as que estão na ponta dessa violência.

O endereçamento da violência é muito certo. E, enquanto a gente não reconhecer esse atravessamento do racismo, que, de fato, coloca a população negra em uma condição de subalternidade, em uma condição de não acesso a direitos, a gente vai continuar vendo esses números se recrudescendo.

Então, eu preciso, sim, pensar em políticas que sejam mais focalizadas, que levem em conta a nossa herança, o nosso contexto brasileiro, de um país que foi forjado na escravização. O lugar da mulher negra sempre foi esse lugar de menosprezo, esse lugar de desprestígio, esse lugar daquela mulher que pode suportar qualquer tipo de dor, qualquer tipo de violência, sem que haja qualquer tipo de interdição quanto a isso.

Então, quando a gente despreza esse atravessamento do racismo, a gente está, de fato, consentindo com uma leitura em que não se vê dignidade nessas mulheres. Os dados são evidências. Eles mostram para a gente como essa ferida do racismo ainda é uma ferida muito aberta. A gente acha que ela já está cicatrizada, mas não está.

A gente precisa continuar falando disso. E não como uma forma de polarizar o debate ou de dizer: “Olha, mas tem também as mulheres brancas, as mulheres indígenas”. Sim, isso tudo é muito verdadeiro. Mas os dados nos permitem, de fato, trabalhar com uma política que considere que esse endereçamento da violência contra as mulheres negras é, sim, mais severo.

•        Por que Justiça voltou a prender o ex-marido de Maria da Penha

O ex-marido de Maria da Penha, mulher que inspirou a lei de combate à violência doméstica no Brasil, foi preso neste domingo (9/8), em Natal, no Rio Grande do Norte, por descumprimento de medidas preventivas concedidas em favor de sua ex-esposa e das duas filhas.

O pedido foi feito pelo Ministério Público do Ceará (MPCE) porque Marco Antônio Heredia Viveros deu uma entrevista falando sobre Maria da Penha à TV Record - reportagem que iria ao ar no programa Domingo Espetacular.

A lei completou 20 anos na última sexta-feira (7/8) e tem assegurado direitos a mulheres vítimas de violência doméstica e familiar.

Em 2024, segundo o MP, o Juizado da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher de Fortaleza, no Ceará, expediu uma medida cautelar contra Viveros, o proibindo de divulgar informações sobre o processo e de propagar o nome ou a imagem da ex e filhas em mídias sociais, aplicativos ou qualquer ambiente virtual.

Portanto, o MPCE entendeu que a entrevista violava esta medida. Segundo o órgão, o juiz Cesar Morel Alcantara acolheu o pedido e determinou a prisão de Viveros. Ele foi preso pelo Grupo de Atuação Especial de Combate às Organizações Criminosas (Gaeco) do Ministério Público do Rio Grande do Norte.

A entrevista de Viveros foi anunciada nas redes sociais como parte de uma reportagem que também teria uma entrevista com Maria da Penha. No trecho divulgado, o repórter Roberto Cabrini pergunta a Viveros sobre o crime pelo qual foi condenado. Viveros responde, em trecho editado: "Afirmar é muito fácil".

Segundo o MPCE, as chamadas veiculadas estavam sendo divulgadas em plataformas digitais e redes sociais, caracterizando o descumprimento da determinação judicial.

O órgão informou que "o investigado foi devidamente notificado das restrições impostas e das consequências jurídicas em caso de violação da medida". Além de decretar a prisão preventiva, também foi determinada a retirada imediata do ar de conteúdos relacionados à entrevista e proibida a veiculação da reportagem.

A BBC News Brasil procurou a defesa de Marco Antônio Heredia Viveros, mas até a publicação desta reportagem não havia manifestação oficial. Um de seus advogados, Otacilio de Paula, fez postagens nas redes sociais criticando a prisão: "Por que não podemos ouvir Marcos Heredia? Por que só ela pode falar?", criticou.

<><> O crime que deu origem à lei

Resultado de crescentes demandas por uma forma mais efetiva de combater a violência doméstica e de anos de preparação e estudo por entidades de defesa das mulheres, a lei aprovada em 2006 foi batizada em homenagem à farmacêutica cearense Maria da Penha Fernandes.

Em maio de 1983, Penha despertou com um estampido agudo dentro do quarto. Tentou se mexer e não conseguiu. "Puxa, o Marco me matou", pensou ela, segundo disse em entrevista à BBC News Brasil em 2016.

Viveros contaria à polícia que acordou no meio da noite com barulho em casa, em Fortaleza. E que ao chegar à cozinha, deparou-se com uma gangue de quatro assaltantes. Após uma breve luta, eles teriam lhe acertado um tiro de raspão no ombro e baleado Maria da Penha, que se encontrava em outro quarto, adormecida.

Penha, que passaria os quatro próximos meses no hospital, não tinha como questionar essa versão, mas já tinha dúvidas sobre ela. "Eu raciocinava, como é que um homem luta com quatro pessoas e não morre, não leva um tiro? E eu, dormindo, levei um tiro."

Nos próximos meses, a história de Viveros cairia como um castelo de cartas. Nenhum vizinho, mesmo os vários que se sobressaltaram com os tiros nas primeiras horas da manhã do fatídico dia, viu os supostos assaltantes deixando a casa.

As marcas da entrada na casa da família nunca confirmaram que houve arrombamento. As empregadas acharam uma espingarda no armário de Viveros da qual ninguém jamais havia ouvido falar.

O próprio cairia em contradições ao ser chamado para depor uma segunda vez à polícia.

Ainda retomando os movimentos básicos do corpo e reprendendo a viver em cadeira de rodas, Penha diz que a crueldade continuava. Na volta para casa do hospital, ainda no carro, Viveros lhe ordenou que não recebesse visitas nem de amigos nem de parentes

Mas foi só quando Viveros tentou eletrocutá-la, levando-a para baixo de um chuveiro elétrico, que Penha decidiu que era hora de abandonar o casamento de vez.

Os crimes aconteceram em 1983 e Maria da Penha passou 19 anos apresentando provas à Justiça brasileira que comprovavam a tentativa de homicídio, mas a Justiça Brasileira só condenou seu ex-marido em 2002.

Ele cumpriu apenas 2 anos da pena de 6 anos na prisão.

O caso foi apresentado em 2001 à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) que condenou o estado brasileiro por negligência e fez uma série de recomendações de para evitar que outras brasileiras sofram tragédias como a de Maria da Penha.

Viveros segue até hoje insistindo na versão do assalto. Num recente documentário da produtora Brasil Paralelo, ele alegava que o casal tinha sido vítima de assaltantes, e que a luta corporal com bandidos teria provocado o disparo de tiro em Maria da Penha e lesões no queixo, mão e no pescoço dele.

Segundo o MPCE, essa produção usou um laudo adulterado de um exame de corpo de delito de Vivero e, por isso, entrou com uma denúncia, posteriormente aceita pela Justiça. O órgão argumenta que Viveros segue fazendo uma "campanha de ódio" contra Maria da Penha.

A lei, criada há 20 anos e classificada pelo ONU como pioneira no mundo na defesa da mulher, tem sido alvo de uma campanha de desinformação nos últimos anos, como mostrou reportagem da BBC News Brasil em 2023.

Nos últimos anos, a lei já foi ampliada para além da mulher cis em relações heterossexuais, alcançando casais LGBTs e mulheres trans. Atualmente, o Supremo Tribunal Federal (STF) discute se as medidas protetivas podem ser utilizadas mesmo quando não existe relação doméstica, familiar ou afetiva entre vítima e agressor.

 

Fonte: Por Andrea DiP, Sofia Amaral, Ricardo Terto, Stela Diogo e Natália Alana, da Agencia Pública/BBC News Brasil

 

Brasileiros envelhecem 10 anos mais cedo do que europeus, diz estudo

Um estudo que comparou o envelhecimento funcional de idosos no Brasil e na Europa identificou uma diferença preocupante: no país latino, o declínio da habilidade de realizar tarefas diárias com independência e autonomia começa, em média, cerca de 10 anos antes — por volta dos 80 no Velho Continente e, em média, aos 70 entre os brasileiros. Para especialistas, o resultado do trabalho, publicado nesta quarta-feira (5/8) na revista Plos One, reforça o peso das desigualdades sociais, econômicas e do acesso aos serviços de saúde no passar dos anos e aponta para a necessidade de estratégias específicas de prevenção e cuidado.

A pesquisa, liderada pela Universidade Central da Catalunha, na Espanha, em parceria com a Universidade Nove de Julho, no Brasil, utilizou como base o Icope, um modelo desenvolvido pela Organização Mundial da Saúde (OMS) para avaliar a chamada capacidade intrínseca dos idosos. A ferramenta reúne indicadores relacionados a mobilidade, cognição, vitalidade, saúde mental e funções sensoriais, permitindo uma análise geral da autonomia e da funcionalidade ao longo do envelhecimento.

Além de medir essas capacidades, os pesquisadores investigaram como fatores sociodemográficos e condições de saúde influenciam a realização das atividades básicas da vida diária, como tomar banho e se alimentar, e das tarefas instrumentais, que incluem administrar dinheiro, fazer compras e utilizar transporte. Para a comparação, foram analisados dados de quase 5 mil brasileiros e de 25 mil idosos europeus.

<><> Trajetórias

Os resultados do trabalho mostram trajetórias distintas de envelhecimento. Enquanto os europeus apresentam uma perda funcional gradual, os brasileiros experimentam um processo mais precoce e acelerado. Segundo o artigo, essa diferença está diretamente relacionada às condições de vida, incluindo escolaridade, renda, acesso aos serviços de saúde e oportunidades para prevenir doenças.

Entre os fatores associados à preservação da funcionalidade, a força de preensão manual — força muscular gerada ao apertar um objeto com a mão — se destacou como um importante indicador de proteção, tanto no Brasil quanto na Europa. A manutenção desse marcador se relacionou a um menor risco de perda de independência, reforçando a importância da prática regular de exercícios físicos e de estratégias voltadas para ganho de massa muscular durante o envelhecimento.

No caso brasileiro, outro marcador ganhou destaque: a velocidade da caminhada. O estudo mostrou que esse indicador é especialmente importante para identificar idosos em maior risco de declínio funcional, podendo servir como uma ferramenta simples e de baixo custo para a identificação precoce de fragilidades.

<><> Cumulativos

Conforme Fabrício da Silva, cardiologista especialista em longevidade da Amplexus Assessoria de Saúde Especializada, em Brasília, o grande destaque do trabalho é mostrar que o envelhecimento funcional é o resultado de uma trajetória de vida inteira. "O fato de o declínio começar, em média, cerca de uma década mais cedo no Brasil sugere a influência de fatores cumulativos, especialmente as desigualdades socioeconômicas, menor acesso à educação, maior carga de doenças crônicas, menos prática de atividade física, alimentação inadequada e acesso desigual aos serviços de saúde."

Segundo ele, do ponto de vista cardiovascular, hipertensão, diabetes, obesidade e sedentarismo aceleram a perda de massa muscular, a redução da capacidade aeróbica e a limitação funcional. "Esses fatores frequentemente coexistem e potencializam o risco de incapacidade. A boa notícia é que muitos deles são modificáveis."

A pesquisa também encontrou diferenças importantes em outros fatores relacionados ao envelhecimento. Na Europa, a perda de peso teve maior impacto sobre o desempenho funcional, enquanto alterações sensoriais, como dificuldades de visão e audição, afetaram de forma distinta os dois continentes. Segundo os cientistas, os resultados sugerem que fatores ambientais, culturais e estruturais influenciam a maneira como essas condições afetam a qualidade de vida dos idosos.

<><> Depressão

A saúde mental também desempenhou papel relevante. A depressão esteve associada a uma redução mais significativa da capacidade funcional entre os europeus. Já a percepção de piora da memória apresentou impacto semelhante nos dois grupos, indicando que esse pode ser um sinal importante para identificar idosos em risco, independentemente do contexto socioeconômico.

Além dos aspectos clínicos, fatores sociodemográficos, como escolaridade e sexo exerceram influência sobre as descobertas. Os autores destacam que os resultados reforçam a necessidade de políticas públicas adaptadas às diferentes realidades.

Segundo eles, no Brasil, a prioridade deve ser investir em ações preventivas desde fases mais precoces da vida, reduzindo desigualdades sociais, ampliando o acesso aos serviços de saúde e fortalecendo redes de apoio à população idosa. Nos países europeus, onde a população envelhece em melhores condições funcionais, as estratégias devem concentrar esforços na manutenção da independência e na prevenção da progressão do declínio.

>>>> Palavra de especialista // Priscilla Guerra, médica geriatra com formação em oncogeriatria e clínica médica, fundadora do Instituto Matera

### Adiar a incapacidade

"O grande desafio do envelhecimento brasileiro é comprimir a incapacidade, ou seja, adiar ao máximo a dependência e concentrá-la, quando ocorrer, em um período mais curto no fim da vida. O estudo também deve ser interpretado com cautela. Trata-se de uma análise transversal, que identifica associações, mas não comprova causalidade. Ainda assim, a mensagem é muito clara: a dependência não é uma consequência inevitável da idade. Muitas vezes, ela é consequência de oportunidades de prevenção que foram perdidas. Precisamos deixar de cuidar apenas da doença instalada e passar a acompanhar, de forma sistemática, aquilo que realmente importa para a pessoa idosa: continuar andando, decidindo, participando e vivendo com autonomia."

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Grupo neonazista planejava explodir o Palácio do Planalto com Lula dentro

Polícia Civil do Distrito Federal (PCDF), em parceria com o Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP), desarticulou na última terça-feira (4) um grupo neonazista que planejava atentados contra o Palácio do Planalto, o Supremo Tribunal Federal (STF) e o edifício onde ocorreria o debate do 2º turno das eleições, em Brasília. Os integrantes se articulavam exclusivamente pela internet, em grupos do Telegram com conteúdo de ódio e instruções para fabricação de explosivos, sem jamais terem se encontrado presencialmente. A operação, batizada de Operação Rede Interrompida, cumpriu oito mandados de busca e apreensão em cinco estados, apreendendo dispositivos eletrônicos, materiais nazistas e armas. O ministro Wellington César Lima e Silva foi categórico: “Não eram práticas inocentes. O que estava ali sendo engendrado eram atentados sérios.”

<><> Plano de atentados em Brasília

O grupo não se limitava a trocar ideias radicais: planejava ataques concretos contra o coração institucional do país. As conversas monitoradas pelas autoridades revelam que o principal objetivo era invadir e explodir prédios públicos em Brasília, com o Palácio do Planalto, sede do governo brasileiro, como alvo prioritário. Os investigadores suspeitam que o objetivo dos criminosos seria assassinar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Entre os planos discutidos, estava também a explosão do edifício onde ocorreria o debate do 2º turno das eleições. A intenção declarada nas mensagens era “mandar a partir de Brasília um recado violento e antidemocrático para todo o país”.

A articulação ocorria em dois grupos do Telegram. O maior reunia mais de 600 integrantes e usava a foto de Adolf Hitler como imagem de perfil. Quem demonstrava maior radicalização era recrutado para um grupo restrito, com 46 integrantes, onde não se trocavam apenas manifestações de apoio à violência, mas instruções operacionais. Os investigados compartilhavam manuais de fabricação de explosivos e coquetéis Molotov, calculavam quantidades de material e estimavam custos dos ataques. Tinham ainda mapas dos ministérios, do Congresso Nacional e do STF. O delegado Maurílio Coelho, coordenador de Inteligência da PCDF, afirmou que o grupo chegou a compartilhar a planta baixa do Palácio do Planalto para discutir rotas de entrada e saída: “A planta deles é assim, a gente pode entrar por aqui, sair por aqui.”

<><> Ação das autoridades e o Ciberlab

A investigação foi conduzida pela PCDF em parceria com o MJSP, por meio do Ciberlab, laboratório especializado em crimes cibernéticos que funciona em uma sala de acesso restrito em Brasília. O laboratório monitorou as comunicações do grupo e produziu um relatório que concluiu pelo elevado grau de periculosidade do conteúdo: planejamento de atos violentos com artefatos explosivos, disseminação de ideologia neonazista, misoginia e incitação à violência. Segundo o Ministério da Justiça, os administradores dos grupos tentavam ativamente identificar integrantes dispostos a matar.

Na terça-feira (4), a polícia cumpriu oito mandados de busca e apreensão em oito cidades de cinco estados: Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Pernambuco e Rio Grande do Sul. Foram apreendidos computadores, celulares, materiais de propaganda nazista, facas e armas de fogo. A prioridade da operação foi recolher dispositivos eletrônicos capazes de indicar o estágio de execução do plano e verificar se os suspeitos já haviam obtido explosivos. O ministro Wellington César Lima e Silva destacou que o caso expõe a dimensão do problema: “A internet representa um número muito expressivo das ocorrências criminais”, afirmou, ressaltando que o Ciberlab existe justamente para monitorar e desarticular esse tipo de ameaça antes que se concretize.

<><> Perfil do grupo e ideologia

Os investigados são homens jovens, com idades entre 19 e 31 anos, que nunca haviam se encontrado pessoalmente e construíram toda a sua articulação no ambiente digital. O relatório do Ciberlab descreveu o conteúdo disseminado nos grupos como de elevado grau de periculosidade, com planejamento de atos violentos, disseminação de ideologia neonazista, misoginia, racismo e homofobia. As mensagens incluíam discursos de ódio contra mulheres e minorias, e os administradores trabalhavam para identificar quais integrantes estariam dispostos a ir além das palavras.

Um delegado envolvido na investigação afirmou que o grupo se dizia “contra o sistema político como um todo”, sem manifestar apoio explícito a partidos ou lideranças específicas. Essa autodefinição, porém, não apaga o que o próprio relatório das autoridades documenta: a ideologia neonazista, o culto à violência e o ódio sistematizado contra grupos vulneráveis são o núcleo organizador dessas redes, não um detalhe periférico. O fato de jovens sem contato presencial chegarem a compartilhar plantas arquitetônicas de prédios públicos e calcular custos de ataques com explosivos é a medida mais concreta da radicalização que o ambiente digital pode produzir quando não há monitoramento e resposta do Estado.

<><> Implicações e próximos passos

Os investigados devem responder por associação criminosa, apologia e distribuição de material nazista e incitação ao crime. Nesta fase da Operação Rede Interrompida, não foram expedidos mandados de prisão: a estratégia das autoridades foi concentrar esforços na coleta de provas digitais para mapear a estrutura completa do grupo e sua capacidade operacional real. Os computadores e celulares apreendidos seguem sob análise para determinar se os suspeitos já haviam avançado da fase de planejamento para a obtenção de explosivos ou outros materiais.

•        Advogado de Filipe Martins diz que Força Delta dos EUA já está no Brasil para invasão do país

advogado bolsonarista Jeffrey Chiquini, defensor do ex-assessor de Jair Bolsonaro Filipe Martins, afirmou em vídeo publicado nas redes sociais que integrantes da Delta Force, unidade de operações especiais do Exército dos Estados Unidos, já estariam em território brasileiro. Ele não apresentou provas nem revelou a origem da suposta informação.

“Ontem eu recebi uma informação quentíssima que forças Delta já estão em território brasileiro com inteligência americana”, afirma Chiquini.

O advogado relacionou a informação que diz ter recebido a uma postagem feita no domingo (9) pelo deputado republicano estadunidense Carlos Gimenez, aliado de Donald Trump. O congressista publicou uma montagem em que o rosto do presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece no lugar do venezuelano Nicolás Maduro em uma fotografia feita após sua sequestro por forças dos Estados Unidos.

“O que o espera… #Brasil”, escreveu Gimenez.

Pouco antes do vídeo, Chiquini já havia escrito nas redes que a postagem reforçava a informação que recebera.

“Agora, vendo essa publicação de um deputado americano fazendo uma montagem do Lula preso, como Maduro foi, faz ainda mais sentido. Não sabemos quando, mas é muito possível que Lula tenha o mesmo fim de Maduro. Não é de se duvidar”, afirmou.

<><> Chiquini fala em repetição do caso Maduro

No vídeo, Chiquini tenta estabelecer uma sequência entre a atuação dos Estados Unidos contra Maduro e o que, segundo ele, estaria começando a ocorrer no Brasil.

“Isso aqui não é teoria da conspiração não, tá? Essa daqui é a mesma cronologia do que aconteceu na Venezuela com o Maduro”, diz.

O advogado cita a decisão do governo Trump de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas e afirma que isso abriria caminho para tropas norte-americanas atuarem em território brasileiro.

“É o que vai começar a acontecer aqui no Brasil. E eu recebi informação que Serviços de Inteligência americanos já estão em território brasileiro”, declara.

Chiquini afirma ainda que Washington passaria a combater diretamente PCC e CV no Brasil e poderia posteriormente agir contra autoridades que, na interpretação dos Estados Unidos, protegessem essas organizações.

“Foi por isso que o Trump declarou o PCC e Comando Vermelho organizações terroristas. Para que pela lei americana ele possa vir com tropas aqui no Brasil, combater aqui dentro PCC e Comando Vermelho. E se o Lula e qualquer autoridade der proteção a essas organizações, vai terminar assim ó, igual Maduro”, afirma.

O advogado também ironiza a defesa da soberania nacional feita pelo governo e pela esquerda diante da pressão dos EUA.

“Por isso que a esquerda está esperneando pela defesa da nossa soberania. Porque eles sabem que o governo americano virá em território brasileiro”, diz.

Assista:

<><>O que é fato e o que não foi comprovado

Um dos elementos citados por Chiquini é que o governo Trump anunciou, em maio, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras, medida formalizada em junho.

Isso, entretanto, não comprova a conclusão apresentada pelo advogado.

A classificação permite aos Estados Unidos adotar medidas como bloqueio de bens, restrições migratórias e punições contra pessoas que forneçam apoio material aos grupos. Não representa, por si só, uma autorização automática para que tropas estadunidenses entrem em outro país.

Chiquini também não apresentou documentos, imagens, nomes, registros oficiais ou qualquer outro elemento verificável que sustente sua afirmação de que integrantes da Delta Force já estejam no Brasil.

A comparação com a Venezuela, porém, ocorre após um precedente recente. Em janeiro deste ano, forças especiais dos EUA realizaram uma operação em Caracas que terminou com o sequestro de Nicolás Maduro e sua retirada da Venezuela. A ação contou com integrantes da Delta Force e provocou forte reação de governos latino-americanos pela violação da soberania venezuelana.

Lula condenou a operação e alertou para o precedente representado pela intervenção militar dos Estados Unidos na América Latina.

<><> Aliado de Trump coloca Lula no lugar de Maduro

Como mostrou a Fórum, o deputado estadunidense Carlos Gimenez utilizou justamente uma imagem da captura de Maduro para ameaçar Lula.

Na montagem publicada no X, o presidente brasileiro aparece vendado no lugar do venezuelano. A publicação provocou um “vampetaço”, com brasileiros inundando as respostas ao deputado com imagens do famoso ensaio nu do ex-jogador Vampeta.

Horas antes, Gimenez já havia chamado Lula de “corrupto e criminoso” e responsabilizado o presidente pela deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos.

O ataque foi compartilhado pelo presidente argentino Javier Milei, aliado do bolsonarismo e apoiador de Flávio Bolsonaro (PL) na eleição presidencial brasileira.

<><> Escalada de Trump contra o Brasil

As declarações de Chiquini surgem no momento de maior tensão entre Brasília e Washington desde a volta de Trump à Casa Branca.

O governo dos EUA vem acumulando medidas políticas, comerciais e diplomáticas contra o Brasil, enquanto Lula colocou a defesa da soberania nacional no centro da reação brasileira.

Trump impôs tarifas de 50% sobre produtos brasileiros e vinculou publicamente parte da ofensiva ao processo contra Jair Bolsonaro. Washington também adotou sanções contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF).

Na última semana, a crise atingiu novamente o terreno diplomático. Os Estados Unidos revogaram o visto da embaixadora brasileira em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

O governo brasileiro rejeitou as justificativas apresentadas pelos EUA e afirmou que dois funcionários norte-americanos que tiveram vistos negados pretendiam atuar para lançar dúvidas sobre o sistema eleitoral brasileiro, o que Brasília classificou como tentativa de interferência no processo político nacional.

 

Fonte: Fórum

 

A série de assassinatos que mostra como influencers viraram alvo do narcotráfico no México

O influencer de 25 anos César Gastélum fazia uma transmissão ao vivo com dois amigos, em frente a um restaurante fast-food em Culiacán, no Estado mexicano de Sinaloa. De repente, dois homens de moto se aproximaram e o mataram, disparando contra sua cabeça.

O ataque ocorreu na terça-feira (4/8) à noite e foi gravado pela sua câmera.

Centenas dos 500 mil seguidores acompanharam ao vivo a morte de "Cesarín", o jovem criador de conteúdo que compartilhava temas como humor, desafios, estilo de vida, viagens, vida noturna e carros.

Gastélum se soma à lista de pelo menos 10 influenciadores executados no Estado, localizado no noroeste do México, desde o início da guerra entre as facções do Cartel de Sinaloa, dois anos atrás.

Segundo as informações divulgadas pelas autoridades até o momento, Gastélum não era ameaçado nem investigado, como ocorreu em outros casos de influencers assassinados.

Ele compartilhava conteúdo sobre luxo e havia publicado material no túmulo de Leobardo Aispuro, o "Gordo Peruci", outro influencer assassinado em 2024.

"Entre as linhas de investigação, encontram-se diversas publicações, algumas delas fazendo alusão a uma facção de um grupo criminoso", segundo o comunicado emitido pela Procuradoria de Sinaloa, sem fornecer maiores detalhes.

A imprensa local atribuiu as alusões a um recente conteúdo de Gastélum sobre "La Mayiza", uma facção do cartel de Sinaloa leal ao capo Ismael "El Mayo" Zambada, condenado nos Estados Unidos, cuja prisão gerou uma guerra interna.

Segundo a presidente do México, Claudia Sheinbaum, os governos local e federal prometeram investigar e identificar os responsáveis materiais e intelectuais pelo ocorrido.

Mas a maioria dos homicídios de criadores de conteúdo continua sem punição e não há registro oficial de uma categoria que os tipifique perante a legislação mexicana.

O certo é que muitos criadores de conteúdo, não apenas em Sinaloa, adquiriram papel de protagonista da vida criminosa do México, o que os transforma cada vez mais em alvos.

"O algoritmo e o narcotráfico promovem o mesmo: chegar rapidamente ao consumo e ao luxo como valores máximos", analisa Claudia Arruñada, especialista em comunicação da Universidade Iberoamericana, no México.

"Quando o modelo do sucesso deixa de ser construir uma carreira metódica, mas sim uma carreira meteórica, as redes sociais e o narcomundo acabam involuntariamente sendo aliados."

<><> Fenômeno opaco

Em janeiro de 2025, caíram de um avião sobre as ruas de Culiacán panfletos acusando 25 influencers e músicos de estarem vinculados à "La Mayiza". Um deles era Peso Pluma, cantor e compositor famoso no país.

Quatro daqueles nomes já haviam sido executados e apareciam nos folhetos com os dizeres "ELIMINADO". Dois outros foram mortos desde então.

Gastélum não estava na lista, nem era investigado pelas autoridades por possíveis ligações com o crime. Mas muitos inevitavelmente interpretarão seu brutal assassinato como parte de uma tendência aparente.

Trata-se da tendência do "narcoinfluenciador", que parte de um fenômeno opaco, cuja magnitude é difícil de se estimar.

Alguns deles realmente trabalham para o narcotráfico, mas outros (talvez a maioria) estão presos neste contexto ou são jornalistas cidadãos que investigam o assunto.

Muito do que se sabe a respeito surgiu depois que os Estados Unidos decidiram investigar e impor sanções a centenas de mexicanos supostamente envolvidos com o narcotráfico.

As indagações estão em curso, e a maioria dos criadores de conteúdo acusados negou qualquer tipo de implicação.

O motivo das mortes talvez não seja, necessariamente, seu envolvimento em práticas ilegais. Simplesmente ser jovem, visível e chamativo em Culiacán, atualmente, pode transformar uma pessoa em alvo.

<><> A nova forma de publicidade do narcotráfico

Os cartéis do México são multinacionais com diversos ramos de negócios. E, como qualquer empresa, eles incluem uma área de publicidade.

Diversos estudos acadêmicos descobriram que os cartéis usam criadores de conteúdo como uma espécie de gerentes de comunidades, para divulgar suas posições e aspirações.

E, quando eles se enfrentam, os ativos de propaganda de uma das facções, como um influenciador, se tornam alvo da outra.

Os cartéis usaram os músicos durante anos para glorificar seus líderes, ou reciclar o mito do bandido social no que se denominou "narcocorridos" (ou seja, corridos, gênero musical típico mexicano, dedicados ao narcotráfico).

Atualmente, alguns influencers ajudam neste trabalho publicitário de forma similar.

"Eles promovem a narcocultura de forma muito mais eficiente que as canções, pois já não o fazem com metáforas, não é uma ficção, mas alguém mostrando aquela que supostamente é a sua própria vida, com seus vínculos a essas estruturas simbólicas do narcotráfico", explica Arruñada.

Um estudo do Colégio do México concluiu que, especialmente no TikTok, onde quase não há moderação, os narcotraficantes tentam recrutar pessoas com vídeos que promovem a vida fácil, a ostentação e o desafio à polícia.

Em Sinaloa, as facções "La Mayiza" e "Los Chapitos", atualmente em confronto, usam hashtags e narrativas típicas das redes sociais como parte da sua batalha recorrente. "La Mayiza" adotou o tradicional chapéu sombrero como símbolo, e "Los Chapitos" transformaram a pizza no seu ícone.

Gastélum, por exemplo, foi visto recentemente com o sombrero símbolo da "La Mayiza". Mas isso, mais do que uma prova, é uma amostra de que a cultura popular também foi cooptada pelo narcotráfico.

<><> Outra forma de lavagem

Além de serem os rostos que normalizam a cultura do narcotráfico, acredita-se que os influenciadores, ainda que em menor medida, também possam participar do trabalho de lavagem de dinheiro.

Em julho de 2025, foi publicada uma lista de 64 criadores de conteúdo de Sinaloa investigados pela Unidade de Inteligência Financeira (UIF), organismo da Secretaria da Fazenda, por supostamente usarem seus perfis para transformar dinheiro sujo em limpo.

Para isso, existem diversos mecanismos, como relata o jornalista Óscar Balderas. Com rifas e sorteios, empreendimentos, patrocínios ou assinaturas, o influencer ganha notoriedade, que é remunerada com o dinheiro obtido na plataforma, por conta do alto número de visualizações.

As plataformas não rejeitaram estas suposições de forma unânime ou contundente. A Meta afirmou não ter encontrado violações às suas políticas nas contas assinaladas, e o YouTube cancelou a conta do influencer e músico "El Makabélico", que é objeto de sanções do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos.

Na verdade, mais do que as plataformas, os influenciadores seriam o mecanismo de lavagem, usando suas atividades e negócios como fachada para lavar o dinheiro.

Mas Gastélum não estava na lista dos investigados pela UIF.

Além de investigar o fenômeno, o governo Sheinbaum pretende romper o vínculo entre a cultura popular e o narcotráfico, intervindo nas letras dos corridos e promovendo outros temas na produção artística mexicana.

Paralelamente, o governo do México deu início à guerra que trouxe mais resultados em anos de combate ao crime, conseguindo reduzir os homicídios em 48% em 2025, segundo os números oficiais.

Mas incidentes como o de Gastélum ou da famosa influenciadora mexicana Valeria Márquez, assassinada a tiros enquanto realizava uma transmissão ao vivo pelo TikTok, dão a impressão de que o narcotráfico continua marcando presença não apenas nas ruas mexicanas, mas também no mundo digital e na cultura.

Claudia Arruñada defende que "os casos de influencers assassinados demonstram que, além da questão do seu possível envolvimento, o conteúdo simbolicamente relacionado ao narcotráfico não irá desaparecer, pelo contrário. Ele irá migrar para o formato seguinte, de forma ainda mais eficiente e massiva."

"Ninguém imaginou que a cultura do narcotráfico encontraria um aliado na cultura do algoritmo, mas é exatamente o que eles são", conclui a professora.

<><> A disputa entre 'Chapitos' e 'Mayos'

O Gabinete de Segurança não detalhou quais seriam as "alusões a uma facção de um grupo criminoso", supostamente feitas por Gastélum em publicações anteriores.

Mas a imprensa local afirma que, no conteúdo recente do influenciador, havia possíveis referências ao grupo de La Mayiza, uma facção do Cartel de Sinaloa, liderada pelo capo condenado Ismael "El Mayo" Zambada.

Esse grupo é conhecido pela sigla MZ ou pelo apelido "Os do sombrero".

Gastélum teria supostamente sido visto em uma publicação recente com as letras MZ e publicado vídeos usando um sombrero, como os adotados pela facção.

Na sua transmissão de terça-feira, o influenciador e os outros participantes do vídeo também portavam sombreros. Mas não há nenhuma informação das autoridades confirmando que esta seja a alusão mencionada.

"La Mayiza" mantém conflito, desde 2025, com outra facção do mesmo cartel, "Los Chapitos", liderada pelos filhos do capo condenado Joaquín "El Chapo" Guzmán.

Os dois grupos se enfrentaram em Sinaloa, deixando um saldo de centenas de mortos, devido ao suposto sequestro de "El Mayo" Zambada, realizado por Joaquín Gusmán López, um dos filhos de "El Chapo".

Gusmán López teria se entregado junto com ele às autoridades americanas, em julho do ano passado.

Cerca de 12 influencers foram assassinados nos últimos anos em Sinaloa. Alguns deles estariam supostamente vinculados a grupos criminosos.

<><> Quem era 'Cesarín'?

Criador de conteúdo conhecido entre seus seguidores como "Cesarín", César Gastélum tinha 25 anos.

Nas suas contas nas redes sociais, ele apresentava humor, paródias, falava sobre seu estilo de vida e também mostrava um pouco do que ele chamava de cultura sinaloense.

Há dois anos, Gastélum lançou um podcast no YouTube chamado Al Estilo Culiacán, descrito por ele como o "mais bélico" que havia.

Como outros influencers da sua região, ele fazia constantes alusões ao estilo de vida de luxo e exagero dominante na cultura relacionada ao narcotráfico. Nos seus vídeos, ele mostrava carros de luxo, fazendas e mansões, além de roupas e joias.

Nove meses atrás, ele havia declarado estar se afastando das redes sociais, para um momento de luto pela morte do seu pai e para se dedicar à música. Mas prosseguiu com seus vídeos e transmissões.

Após a sua morte, suas contas começaram a ser invadidas por mensagens de pêsames.

<><> Outra influencer assassinada

O caso de Gastélum foi comparado com o assassinato da influencer de beleza Valeria Márquez, durante uma transmissão ao vivo no ano passado.

Márquez era uma modelo mexicana que, em 2021, começou a ficar conhecida ao vencer o concurso de beleza Miss Rosto.

Pouco depois, ela começou a criar conteúdo nas redes sociais, compartilhando conselhos sobre maquiagem e rotinas de cuidados pessoais. Ela também falava sobre moda e sobre suas viagens.

Durante a transmissão, Márquez contou que estava no interior do seu salão de beleza, na região de Guadalajara, a segunda cidade mais populosa do país. Ela esperava um mensageiro que havia estado no local anteriormente e avisou que voltaria para fazer uma entrega.

As autoridades afirmam que pelo menos dois homens chegaram de moto ao estabelecimento e um deles perguntou à vítima se ela era Valeria. Quando ela respondeu "sim", ele sacou uma arma e disparou pelo menos duas vezes, escapando em seguida.

Na semana passada, o governo mexicano anunciou a captura do líder criminoso Ramón Ángel Álvarez ("R1"), acusado de ser o mandante do assassinato de Márquez a pedido do seu filho, que mantinha uma relação amorosa com a jovem.

"Tudo indica, iremos provar, que o filho pede ao seu pai, o 'R1', que seja cometido o feminicídio", afirmou o secretário nacional de Segurança do México, Omar García Harfuch.

¨      Moradores acusam governo da Cidade do México de falhar no combate à ocupação ilegal de imóveis

Moradores da colônia Del Valle e vítimas de ocupação de outras prefeituras acusaram que depois de um ano da criação do gabinete de ocupações da Cidade do México, não existem resultados visíveis na restituição de imóveis invadidos, razão pela qual disseram que este delito é um câncer que pode fazer metástase.

Acompanhados de Arturo Santana, filho da senhora Carlota, — que assassinou dois ocupantes no Estado do México —, os moradores afirmaram que apresentarão à procuradora Bertha Alcalde e ao secretário de Governo, César Cravioto, uma demanda com sete pontos, entre eles a detenção de Virginia Vázquez García, suposta responsável pela ocupação de um imóvel localizado em Matías Romero.

Os afetados também propuseram levar adiante um projeto de lei com o objetivo de agilizar a restituição de propriedades e fortalecer o marco legal contra este delito, como ocorreu no Estado do México.

Alicia Camps, integrante da Comissão de Participação Comunitária (Copaco) de Valle Centro, explicou que a proposta que buscam permitirá articular a legislação da Cidade do México com a do estado do México.

Por sua vez, Arturo Santana disse que na entidade mexicana conseguiram recuperar mais de dois mil imóveis mediante a Operação Restituição, mas que isto não ocorre na capital.

Garantiram que os invasores chegam com caminhões e serralheiros, esvaziam as casas em questão de horas, mudam placas e até remodelam os imóveis para consolidar a ocupação.

<><> Autoridades do CDMX oferecem combate total às redes de ocupação de imóveis

Depois de uma reunião com moradores e vítimas de ocupação de seis prefeituras, autoridades da capital se comprometeram a restituir os imóveis, a revisão de pelo menos 61 novos casos que foram registrados no dia 29 de julho e a desarticulação de redes que cometem este delito na cidade.

Depois de quatro horas de reunião na Superintendência da Polícia de Investigação, as vítimas também pediram a restruturação do gabinete contra a ocupação, que, denunciaram, não deu resultados depois de um ano de sua implementação; também pediram a incorporação desta instância à Secretaria de Segurança Cidadã e ao Registro Público da Propriedade e do Comércio.

A Promotoria Geral de Justiça informou que receberam 81 pessoas, foram registrados 61 novos casos e 20 por outros delitos, além de comprometerem-se a realizar trabalhos com a Direção de Assuntos Internos para rever outros onde se presuma a participação de servidores públicos.

Na reunião estiveram presentes a procuradora, Bertha Alcalde e o secretário de Governo, César Cravioto, que afirmaram que conduzem 300 casos positivos de restituição de imóveis, cifra que os afetados consideraram baixa para o tamanho do problema.

Entre as solicitações que fizeram está a detenção de Virginia Vázquez García, suposta responsável pela ocupação de um imóvel na rua Matías Romero, colônia Del Valle, assim como a judicialização de todos os expedientes com que conta o gabinete contra a ocupação.

No término da reunião, Alicia Camps, integrante do grupo de moradores da colônia Del Valle, afirmou que confiavam nos protocolos e que conseguiram formar mesas de trabalho para mês a mês verificar os avanços.

O advogado Arturo Santana, filho da senhora Carlota, que assassinou no estado do México dois ocupantes, uniu-se à defesa dos moradores e vítimas, informando que as autoridades asseguraram maior presença em zonas com foco vermelho pela ocorrência deste delito; no entanto, evitaram dizer quais seriam.

Entre os casos apresentados um foi a ocupação de uma casa do muralista Jorge González Camarena, que está há nove semanas invadida.

<><> Realizam-se operações

Elementos da PDI e da SSC e pessoal da Secretaria de Governo implementaram no dia 29 de julho pela manhã cinco operações nas prefeituras de Benito Juárez, Coyoacán, Cuauhtémoc e Iztapalapa para assegurar o mesmo número de imóveis supostamente ocupados, relataram fontes ministeriais.

Tais operações fazem parte das ações imediatas para atender este ilícito em arquivos que já continham avanços significativos.

O primeiro se realizou na rua Galeana 20, colônia Guerrero, em Cuauhtémoc, onde permitiram que uma mulher soltasse seu cachorro para posteriormente assegurar o imóvel e colocar selos.

O segundo foi na avenida Cuauhtémoc 1146, município de Benito Juárez, onde dois indivíduos guardavam o imóvel, mas não foram detidos.

Outro ainda foi realizado na prefeitura de Coyoacán, realizado na madrugada de quarta-feira, como parte de uma investigação por uma suposta ocupação com violência ocorrida em dezembro de 2025.

O advogado do caso, Leonel Rodríguez, afirmou que a ação fez parte de um expediente localizado na Procuradoria de Investigação do Delito de Ocupação e Recuperação de Imóveis.

Relatou que uma das linhas de investigação indica a participação de uma célula delitiva dedicada à ocupação de imóveis, ainda que, disse, as autoridades terão que precisar que tipo de rede participou, quem fez uma dupla venda do imóvel, supostamente realizada por um notário e sua companheira.

 

Fonte: BBC News Mundo/Diálogos do Sul Global