sexta-feira, 1 de maio de 2026

Banco Master, Estado capturado e o medo do poder constituinte

Há uma pedagogia silenciosa operando no interior do capitalismo contemporâneo. Não se trata de uma pedagogia formal, mas de um processo histórico reiterado: o erro não apenas é tolerado – ele é incorporado como método. Crises deixam de ser desvios para se tornarem engrenagens. E, nesse mecanismo, a fronteira entre o público e o privado deixa de ser um limite normativo para se transformar em um campo de captura.

A crise do subprime, detonada a partir de 2007, não foi um acidente. Foi a materialização de uma racionalidade financeira estruturada sobre ativos de alto risco, convertidos em produtos sofisticados que mascaravam sua fragilidade. A ficção da solvência sustentou uma bolha global até o momento em que o sistema revelou sua verdade: o risco não havia sido eliminado – havia sido redistribuído.

Quando a estrutura colapsou, o Estado assumiu o papel de garantidor de última instância. Instituições foram socorridas; populações foram sacrificadas. Não se tratou de um episódio isolado, mas de um padrão: a privatização dos lucros e a socialização das perdas.

Essa lógica não desapareceu. Ela se reproduz, com variações, em diferentes contextos nacionais. No Brasil, o episódio envolvendo o Banco Master emerge como expressão concreta dessa contradição estrutural.

Mais do que um caso isolado, o Banco Master revela a permissividade sistêmica diante de operações de elevado risco, a circulação de ativos de baixa qualidade sob aparente normalidade e a formação de expectativas de suporte estatal indireto. A dinâmica observada – com influxos de capital atraídos por promessas de rentabilidade elevada, associados a riscos subestimados – remete, em chave local, à lógica descrita nas grandes crises financeiras internacionais.

O problema não reside apenas na existência do risco, mas na forma como ele é tolerado, incentivado e, posteriormente, potencialmente absorvido pelo sistema. A justificativa de continuidade administrativa – de que tais dinâmicas foram iniciadas em gestões anteriores – não se sustenta. Governar é escolher. E a escolha pela inação regulatória, diante de sinais evidentes de fragilidade, é uma forma ativa de decisão política.

É nesse ponto que a contribuição de Hyman Minsky se torna incontornável. Para ele, a estabilidade é o germe da instabilidade. O sistema evolui de estruturas financeiras sustentáveis para formas especulativas e, por fim, para esquemas “ponzi”, nos quais a própria lógica de funcionamento depende da continuidade da valorização artificial dos ativos.

A crise, portanto, não é um erro do sistema. É a sua consequência lógica. O verdadeiro problema está na forma como ela é administrada: ao invés de produzir reorganizações estruturais, mobilizam-se mecanismos para conter seus efeitos sem alterar suas causas.

É nesse momento que o direito entra em cena – não como mero aplicador de normas, mas como instrumento de estabilização.

Para Pierre Bourdieu, o campo jurídico é um espaço de disputa simbólica que, embora dotado de autonomia relativa, reproduz as estruturas de poder que o atravessam. O direito universaliza interesses particulares sob a aparência de neutralidade.

Quando o Judiciário atua como mecanismo anticíclico – modulando decisões, evitando rupturas abruptas e preservando equilíbrios institucionais – ele passa a operar como um gestor indireto de riscos sistêmicos. A questão central, porém, não é a existência dessa função, mas o seu direcionamento: qual estabilidade está sendo protegida – e para quem?

A tradição marxista do direito aprofunda essa análise ao demonstrar que as superestruturas jurídicas não apenas refletem a base econômica, mas atuam ativamente na sua reprodução. Em determinadas contextos, o direito deixa de ser instrumento de mediação para se tornar obstáculo à mudança. É nesse ponto que emerge a dimensão constituinte da crise.

Como ensina Paulo Bonavides, “o poder constituinte é a expressão suprema da soberania popular, sendo ilimitado, incondicionado e permanente, pois reside no povo como titular originário de toda a ordem jurídica”.

No entanto, o que se observa, reiteradamente – inclusive em episódios como o do Banco Master – é a contenção dessa potência constituinte. A crise, ao invés de abrir espaço para reconfiguração democrática, é administrada de modo a preservar as estruturas existentes.

Forma-se, assim, um triângulo funcional de contenção:

1.       a) A governabilidade, submetida a um centro político degenerado, contém o Executivo; b) Os compromissos corporativos e a intermediação de interesses contêm o Legislativo;

2.       c) A estabilidade institucional contém o Judiciário. E, no ponto de convergência dessas contenções, encontra-se o povo – fonte originária de todo o poder – convertido em elemento a ser

A atuação do Executivo, ao ceder à lógica da governabilidade baseada em trocas e concessões, abre espaço para a perpetuação de elites financeiras e estruturais. O Legislativo, ao operar como arena de negociação de interesses organizados, distancia-se da representação efetiva da vontade popular. O Judiciário, ao priorizar a estabilidade sobre a transformação, consolida esse arranjo.

O resultado é um sistema que não apenas administra crises – ele impede que elas se convertam em transformação. E isso se reflete, de forma dramática, na alocação de recursos públicos.

Enquanto estruturas financeiras de alto risco encontram caminhos de estabilização, setores como saúde, educação e infraestrutura permanecem subfinanciados. Não por falta de recursos, mas por escolha política.

Um país que pretende se afirmar como potência tecnológica e protagonista global não pode sustentar uma lógica em que o risco privado é protegido pelo erário público, enquanto os investimentos estruturantes são continuamente adiados. A crise, portanto, não deve ser apenas contida. Ela deve ser enfrentada como aquilo que é: um momento de decisão histórica.

Ou se mantém o ciclo – estabilidade, euforia, colapso, resgate – sob a tutela de instituições que operam para preservar a ordem existente, ou se abre espaço para uma reorganização profunda, na qual o direito deixa de ser instrumento de contenção e passa a ser vetor de transformação.

Porque, no fim, a questão não é apenas econômica. Nem apenas jurídica. É sobre quem controla o futuro e quem continua sendo impedido de construí-lo.

•        Se achassem uma mala endereçada a Flávio Bolsonaro. Por Moisés Mendes

Se numa tarde de domingo, no meio da Avenida Paulista, encontrassem uma mala com o nome de Flávio Bolsonaro, em letras graúdas, como destinatário. Se abrissem a mala e achassem US$ 1 milhão, com um recado de Daniel Vorcaro dirigido a Flávio.

Se a Polícia Federal recolhesse a mala e a grande imprensa passasse a especular sobre as possíveis relações de Vorcaro com Flávio, os jornais dariam a seguinte manchete no dia seguinte: Flávio joga mala de Vorcaro com US$ 1 milhão no colo de Lula.

E a partir daí seriam feitas especulações esdrúxulas sobre a mala que tem o nome de Vorcaro como remetente e tem Flávio como destinatário, mas não seria de Flávio porque acabou caindo no colo de Lula. Porque Flávio pode dizer, como diz a respeito de qualquer suspeita, que não tem relação com a mala, mas que Lula pode ter.

É o que os jornais têm feito com outras malas. No domingo, o Globo deixou em chamada de capa durante boa parte do dia esse título de coluna de Lauro Jardim: “Flávio bate em Lula, ligando-o ao Master; Haddad reage”.

O Globo e Jardim se prestam à tarefa de passar adiante os ataques de Flávio a Lula, mesmo sabendo que 99% dos relacionamentos de Vorcaro são com o pai de Flávio (que recebeu R$ 3 milhões do banqueiro), com os cúmplices de Bolsonaro, o centrão e a direita em geral, a velha e a nova.

Nessa quarta-feira, o mesmo Lauro Jardim expôs durante todo o dia em sua coluna, com chamada no alto da capa do Globo online: “As 'vacinas' jurídicas de Flávio Bolsonaro contra ofensiva do PT no Master”.

A coluna fala das decisões de um juiz favoráveis a Flávio, porque o inocentam preliminarmente de envolvimento com o mafioso. O corpo do filho é fechado, e é isso que o colunismo dos jornalões repete, porque as corporações de mídia ajudam a fechá-lo. Nada mais cola em Flávio, nem sob o ponto de vista criminal, nem moral.

Um relatório paralelo da CPMI do INSS concluiu que, entre 62 pessoas acusadas pelos crimes contra os aposentados, está Flávio Bolsonaro. Alguém pode dizer que não deveria estar, mas não é essa a questão.

O que interessa é que poucos sabem que Flávio foi citado no relatório como participante de organização criminosa. Todas as notícias sobre Flávio, a respeito das rachadinhas, das suas relações com milicianos, da fantástica loja de chocolate e da compra de imóveis com dinheiro vivo viraram paisagens.

Tanto que, apesar de citado no relatório da CPMI, Flávio tentou encurralar Jorge Messias na sabatina no Senado, ao sugerir que ele teria, como advogado-geral da União, sido omisso em relação aos crimes no INSS. E todas as fraudes foram iniciadas no governo do pai dele e ele mesmo foi citado por ter vínculos com os criminosos.

Se, durante o depoimento de Messias no Senado, e enquanto fazia perguntas, Flávio Bolsonaro recebesse no colo a mala com US$ 1 milhão de Daniel Vorcaro, teríamos versões diversas sobre o presente, mas nenhuma que o vinculasse à mala.

Não interessa à metade da população que faz escolhas no voto, e vota sempre contra Lula, se Flávio tem desprezo por valores éticos e morais e se pensa e deverá agir como o pai no poder. Querem que Flávio derrube Lula a qualquer custo.

Flávio tem, como disse o Globo, vacinas contra quase tudo, mesmo que ninguém esteja interessado em saber do que ele foi vacinado. Para insistir no clichê da frase que sempre se repete com novas versões, pode-se dizer: é o fascismo, estúpido.

O fascismo é a única força eleitoral e golpista capaz de enfrentar Lula, desde que ficou provado que nenhuma outra alternativa irá prosperar. É o fascismo que passa ao antilulismo a certeza de que Lula ainda pode ser derrotado.

As outras alternativas somente serão consideradas, como mostram as pesquisas, se o representante legítimo do pai e do bolsonarismo estiver fora do jogo. A direita antiga fechou o corpo do filho ungido, com a ajuda da grande imprensa.

Flávio foi blindado e seu único desconforto é com gente descontente da própria extrema direita. O resto está dominado sob a anestesia da repetição. Ninguém mais se preocupa com crimes que viraram banalidades.

 

Fonte: Por Flaviano Cardoso, no Le Monde/Brasil 247

 

O MUNDO ESTÁ MAIS PRÓXIMO DO COLAPSO: O alerta ignorado do Super El Niño

O Oceano Pacífico vai aquecer este ano acima do normal. É o que afirma a Organização Meteorológica Mundial (OMM) das Nações Unidas. Os dados apontam para o retorno do El Niño, fenômeno que vem se intensificando ano após ano.

O agravante é que será o mais intenso em 140 anos. Segundo os especialistas da OMM, o fenômeno tem 90% de chance de estabelecer, a partir do segundo semestre de 2026, um regime extremo e intenso de calor e chuvas. Será um Super El Niño.

O fenômeno já é conhecido, mas vem se intensificando com as mudanças climáticas. Com maior periodicidade e intensidade, cada vez que o oceano Pacífico aquece, o mundo fica mais próximo do colapso.

O agravante é que o Brasil insiste em tratar o clima como estatística – até que ele se transforme em desastre. Assim, o chamado Super El Niño, versão intensificada do fenômeno El Niño, não é um episódio exótico do Pacífico distante. É um mecanismo direto de desorganização do território brasileiro.

Quando as águas do Pacífico aquecem além do normal, o efeito não se limita ao oceano. Ele reorganiza a atmosfera, desloca chuvas, intensifica secas e empurra o país para extremos simultâneos: enquanto uma região afunda, outra queima.

O resultado não é apenas climático. É político.

O Brasil se torna país dos extremos simultâneos. É um divisor geográfico de crises potencializadas.

No Sul, a água sobra – e destrói. Cidades alagam, encostas cedem, infraestruturas colapsam. O que estamos aprendendo é que, os danos à população, advém não apenas do excesso de chuva, mas da ausência de planejamento.

Na Amazônia, falta água – e o que resta vira fogo. Rios secam, a floresta perde resiliência e as queimadas avançam. O que deveria ser um dos maiores reguladores climáticos do planeta passa a emitir carbono, agravando o problema que deveria conter.

No Nordeste, a seca deixa de ser ciclo e se torna condição permanente. A insegurança hídrica deixa de ser vulnerabilidade e passa a ser regra.

No Sudeste, onde está o centro econômico do país, instala-se a ilusão mais perigosa: a da normalidade. Reservatórios oscilam, a crise hídrica já instalada se aprofunda, ondas de calor aumentam e a irregularidade climática se intensifica – mas a resposta continua sendo reativa, nunca estrutural. Enquanto a SABESP constrói algumas caixas d’água, os ecossistemas naturais de produção hídrica continuam abandonados.

Os sinais de colapso trazidos pelo El Niño não são naturais, são potencializados pelas mudanças climáticas e construídos pela falta de planejamento.

A narrativa dominante trata o El Niño como um fenômeno inevitável – e é. Mas seus impactos não são. Segundo o IPCC (2023), eventos climáticos extremos estão se tornando mais intensos em um planeta aquecido. Isso significa que o “Super El Niño” de hoje não é o mesmo de décadas atrás: ele atua sobre um sistema já tensionado.

O problema é que o Brasil responde a esse cenário com estruturas do passado. A cada evento extremo, repete-se o roteiro: emergência, resposta tardia, reconstrução parcial e… esquecimento…

Não há ruptura com o ciclo climático inevitável. Há apenas administração do colapso, que se agrava mais e mais. A ilusão da resiliência brasileira é um fato evidente diante de uma análise criteriosa. O Brasil vem se acostumando a celebrar reduções marginais – menos desmatamento em um ano, menos impacto em outro – como se fossem solução. Mas o “Super El Niño” revela o contrário: não existe resiliência onde não há estrutura.

A Floresta Amazônica vem se aproximando de um ponto de não retorno. O sistema hídrico nacional, que depende da umidade gerada pela própria floresta, está entrando em desequilíbrio. Ou seja: o impacto não é regional. É sistêmico. E ainda assim, o país insiste em tratar eventos extremos como exceções, quando já são a nova regra.

Avaliações da Controladoria Geral da União (CGU) na região do semiárido constataram fragmentação nas diversas políticas que deveriam estar contendo processos de desertificação. Da mesma forma manifestou-se o Ministério Público sobre as queimadas da Amazônia, apontando insuficiência de medidas para a contenção das queimadas que sufocaram Manaus. Recentemente o STF instou o Ministério do Meio Ambiente para uma atuação mais eficaz, sob pena de não obter sucesso para contenção efetiva do desmatamento da Amazônia até 2030.

Quando o processo de governança é fragmentado, o risco é ampliado. O “Super El Niño”, este que se avizinha e outros que já ocorreram, expõe uma falha central na governança ambiental do Brasil:  o Brasil reage ao El Niño, mas não se prepara estruturalmente para ele.

A fragmentação institucional impede respostas integradas. Política ambiental, gestão hídrica, planejamento urbano e proteção territorial operam como ilhas desconectadas.

O resultado é previsível: enchentes sem prevenção, secas sem adaptação, incêndios sem controle, territórios vulneráveis sem proteção. Como aponta Johan Rockström, do Instituto de Resiliência de Estocolmo, ultrapassar limites ambientais não gera impactos lineares, mas sim instabilidades abruptas. O Brasil já entrou nesse território – mas ainda age como se estivesse em equilíbrio.

Exemplo disso é o planejamento urbano de São Paulo. O Ministério Público do Estado de São Paulo ajuizou ação contra alterações no zoneamento da cidade, que passaram a permitir a verticalização ao longo dos corredores de tráfego da capital. Sem estudos claros e sem informar devidamente a população — em um processo marcado pela deficiência de informações e de participação social —, a Câmara Municipal alterou o zoneamento de modo a permitir mais áreas concretadas e uma profusão de prédios que acabam por constituir verdadeiros cânions urbanos, impermeabilizando, aquecendo e adensando a cidade. O Poder Executivo anuiu à proposta.

Enquanto cidades como Paris e outras metrópoles globais lideram exemplos de adaptação urbana aos impactos climáticos, a Câmara Municipal de São Paulo simplesmente ignorou riscos e empurrou a cidade para a insustentabilidade. O Ministro Edson Fachin, presidente do STF, surpreendentemente suspendeu a liminar obtida por ação do Ministério Público, alegando insegurança jurídica para os empreendedores. Ora, desde quando o interesse privado pode prevalecer sobre o interesse público?

“O desafio contemporâneo do planejamento urbano não reside apenas em definir quanto a cidade pode crescer, mas, sobretudo, em demonstrar, com base em critérios técnicos e ambientais, sob quais limites físicos e infraestruturais esse crescimento pode ocorrer”, afirma parecer do arquiteto Ivan Maglio, que subsidiou o pedido de ingresso, como amicus curiae, do PROAM-Instituto Brasileiro de Proteção Ambiental.

O que o Super El Niño revela é essa realidade: exemplo mais pungente de como o poder judiciário ainda ignora riscos ambientais inerentes a impactos urbanísticos. Porque ainda se acredita que estamos em estado de equilíbrio, que a defesa da iniciativa privada, sob a justificativa de insegurança jurídica, possa se sobrepor à segurança de milhões de pessoas.

Mais do que um fenômeno climático, o Super El Niño é um diagnóstico. Ele revela que o país não planeja para extremos, que a adaptação climática não é prioridade real, que a proteção ambiental ainda é tratada como variável política, não estrutural. E, sobretudo, mostra que o Brasil continua operando sob uma lógica perigosa: a de que o pior ainda não chegou, e assim o El Niño bate à porta de um país que apenas age diante dos impactos.

O evento climático não é um aviso. É um teste em curso. A diferença entre desastre e resiliência não está na intensidade do fenômeno, mas na capacidade de antecipação. E essa capacidade não se constrói com discursos, mas com estrutura, integração e decisão política. Enquanto o Brasil continuar tratando extremos como episódios isolados, continuará acumulando perdas previsíveis.

Adaptação climática não se faz com retórica, mas com ação. Como o oceano que aquece, como a atmosfera que responde e o território que colapsa. Se o Brasil continuar apenas reagindo irá colher mais e mais impactos, quando já deveria estar governando aquilo que se demonstra inevitável.

 

Fonte: Por Carlos Bocuhy, no Le Monde

 

Os exercícios que mais ajudam o corpo a sair do sedentarismo e funcionar melhor no dia a dia

Passar longos períodos em inatividade reduz o desempenho do corpo e afeta tarefas simples do dia a dia. A prática regular de exercícios ajuda a recuperar energia, melhorar a mobilidade e fortalecer músculos. Pequenas mudanças consistentes tornam o corpo mais ativo e funcional, reduzindo efeitos do sedentarismo progressivamente com impacto positivo na saúde geral e na rotina diária.

<><> Quais exercícios ativam o corpo para sair do sedentarismo?

Exercícios básicos como caminhada e alongamento ativam sistemas musculares importantes e reduzem a rigidez causada pela falta de movimento. Eles melhoram a circulação e ajudam o corpo a responder melhor às atividades diárias, criando uma base funcional para maior disposição ao longo do tempo melhorando desempenho físico e reduzindo o desgaste acumulado diário constante.

A repetição desses exercícios cria adaptação progressiva no organismo e reduz a sensação de fadiga. O corpo passa a economizar energia em tarefas simples, aumentando a eficiência dos movimentos e favorecendo uma rotina mais leve e funcional sem exigir esforço excessivo com efeitos positivos no bem-estar diário de forma contínua progressivamente.

<><> Como exercícios aeróbicos melhoram a energia diária?

Atividades aeróbicas como corrida leve e bicicleta estimulam o sistema cardiovascular e aumentam a capacidade respiratória. Esses exercícios ajudam o corpo a utilizar energia de forma mais eficiente e contribuem para maior disposição durante o dia, especialmente em rotinas sedentárias prolongadas favorecendo melhor resposta metabólica ao esforço físico diário constante.

A prática regular melhora o condicionamento físico geral e reduz o impacto do sedentarismo no metabolismo. Com o tempo, o corpo responde melhor aos esforços diários e mantém níveis mais estáveis de energia ao longo das atividades com adaptação gradual do organismo ao longo do tempo constante.

Quais movimentos simples ajudam a iniciar uma rotina ativa?

Movimentos simples são suficientes para iniciar a transição do sedentarismo para uma rotina mais ativa. Eles não exigem equipamentos e podem ser feitos em qualquer ambiente, facilitando a adesão diária e reduzindo barreiras comuns para quem busca mais movimento no cotidiano melhorando a capacidade funcional do corpo de forma progressiva contínua.

Entre os principais movimentos iniciais estão:

       alongamento cervical leve

       elevação de joelhos

       rotação de ombros

       caminhada curta

       agachamento sem carga

<><> Qual o papel do fortalecimento muscular na rotina diária?

O fortalecimento muscular melhora a sustentação do corpo e reduz dores associadas à fraqueza postural. Exercícios simples com o peso corporal ajudam a estabilizar articulações e aumentam a resistência para atividades do dia a dia, tornando os movimentos mais seguros especialmente em rotinas com pouca atividade física diária constante leve.

Com prática contínua, os músculos passam a trabalhar de forma mais eficiente e equilibrada. Isso diminui o risco de lesões e melhora a capacidade funcional, permitindo maior autonomia em tarefas simples sem sobrecarga física desnecessária gerando melhora funcional significativa no desempenho físico geral constante.

<><> Como manter consistência nos exercícios ao longo da semana?

Manter consistência nos exercícios depende de planejamento simples e metas realistas ao longo da semana. A regularidade é mais importante do que a intensidade inicial, pois o corpo responde melhor a estímulos frequentes e progressivos no cotidiano ativo evitando períodos longos de inatividade no dia a dia constante.

Pequenos hábitos diários fortalecem a adesão e evitam interrupções longas na rotina. A repetição gradual cria adaptação natural, permitindo que o movimento se torne parte estável do estilo de vida reforçando hábitos saudáveis de movimento de forma contínua diária leve.

•        Os exercícios simples que você deve fazer todos os dias para aliviar a tensão de quem passa horas no computador

Passar muitas horas em frente ao computador pode gerar tensão muscular, dores e fadiga ao longo do dia. Exercícios simples realizados de forma consistente ajudam a reduzir esses efeitos e melhorar a postura. A prática diária contribui para mais conforto físico, produtividade e bem-estar durante o trabalho prolongado no ambiente digital de forma consistente e segura.

<><> Quais exercícios ajudam a reduzir a tensão no pescoço após horas no computador?

Exercícios de alongamento cervical são eficazes para reduzir a rigidez causada pela postura prolongada no computador. Movimentos suaves de inclinação e rotação ajudam a relaxar músculos sobrecarregados. A prática deve ser feita de forma lenta, respeitando limites do corpo e evitando movimentos bruscos que possam aumentar o desconforto ao longo do dia progressivamente controlado também.

Manter pausas curtas durante o trabalho contribui para diminuir a sobrecarga na região do pescoço. Pequenas interrupções permitem ajustar a postura e aliviar pontos de tensão acumulados. Esses cuidados reduzem o impacto do uso contínuo do computador e favorecem uma sensação de maior leveza muscular ao longo da jornada diária sem esforço excessivo constante.

<><> Como aliviar dores nos ombros causadas pelo uso prolongado do computador?

Alongamentos específicos para os ombros ajudam a reduzir a tensão gerada pela postura estática diante do computador. Movimentos circulares e elevação controlada dos braços estimulam a circulação local. Esses exercícios devem ser realizados com atenção, evitando sobrecarga e garantindo relaxamento progressivo da musculatura ao longo da rotina de trabalho de forma consistente e leve também.

Fortalecer a mobilidade dos ombros contribui para evitar desconfortos recorrentes associados ao uso prolongado do computador. Exercícios leves realizados em intervalos regulares ajudam a manter a região ativa e menos rígida. A constância desses movimentos melhora a adaptação do corpo às demandas do trabalho digital diário sem esforço excessivo com progressão controlada e segura também.

<><> Quais movimentos simples ajudam a melhorar a circulação durante o trabalho no computador?

Movimentos simples ao longo do dia ajudam a manter a circulação ativa mesmo durante longos períodos sentado no computador. Pequenas ações como levantar-se e movimentar pernas e braços reduzem a sensação de fadiga. Esses exercícios são fáceis de aplicar e não exigem interrupção significativa das tarefas diárias contínuas ao longo da rotina de trabalho remoto.

Algumas práticas rápidas podem ser aplicadas entre tarefas para estimular a circulação:

       levantar-se e alongar pernas

       rotacionar ombros e punhos

<><> Que exercícios podem reduzir o cansaço nos punhos e mãos ao usar o computador?

Exercícios voltados para punhos e mãos ajudam a reduzir a tensão causada pela digitação contínua no computador. Movimentos de flexão e extensão aliviam a rigidez e melhoram a mobilidade. Esses cuidados são importantes para prevenir desconfortos que podem se intensificar com o uso prolongado de teclados e mouses sem causar sobrecarga nas articulações também eficazes.

Manter a regularidade desses exercícios contribui para preservar a saúde das articulações ao longo do tempo. Pequenos movimentos frequentes evitam a rigidez e reduzem a sobrecarga acumulada durante o trabalho. Essa prática auxilia na prevenção de dores associadas ao uso repetitivo de dispositivos digitais no dia a dia de forma consistente e preventiva também eficaz.

<><> Como criar uma rotina diária de alongamentos para quem trabalha no computador?

Construir uma rotina de alongamentos para quem trabalha no computador exige organização e consistência ao longo do dia. Pequenos intervalos programados ajudam a manter o corpo ativo e reduzir tensões acumuladas. A repetição desses hábitos melhora a postura e contribui para maior conforto durante as atividades profissionais contínuas sem necessidade de pausas longas também eficaz.

Uma rotina bem estruturada inclui alongamentos simples para pescoço, ombros, punhos e costas distribuídos ao longo do dia. A execução frequente reduz a rigidez e melhora o bem-estar geral. Com disciplina, esses exercícios tornam-se parte natural da rotina de trabalho e ajudam a manter o corpo mais equilibrado ao longo da jornada diária também eficaz.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Startup americana tenta trazer ao Brasil antibiótico para laranja proibido na União Europeia

EM DEZEMBRO DE 2023, três funcionários do Mapa (Ministério da Agricultura e da Pecuária) fizeram uma viagem a Orlando, nos Estados Unidos, junto com representantes do Fundecitrus, uma fundação privada mantida por citricultores de São Paulo. Na ocasião, realizaram uma visita a pomares da região afetados pela doença chamada “greening dos citros” – o principal vilão da produção de laranja no Brasil e no mundo.

Durante a missão, a comitiva foi apresentada a um novo tratamento para a praga: uma injeção à base da substância cloridrato de oxitetraciclina, conhecida pela sigla OTC. Aplicado diretamente no tronco da árvore, o antibiótico busca salvar as plantas do corte definitivo, a solução mais eficaz para combater a doença.

Na época da visita à Flórida, a Invaio Sciences — uma startup norte-americana de biotecnologia — já se articulava para levar o produto ao Brasil, maior produtor mundial da fruta. A companhia tem como chefe global de desenvolvimento um executivo brasileiro com passagens por Bayer, Syngenta e Monsanto. Desde 2019,  mantém um escritório em São Paulo, por meio do qual tem realizado parcerias com instituições de pesquisa e entidades do agronegócio.

Animada com a viagem dos técnicos do Mapa e com a aparente receptividade dos agricultores em feiras do setor, a Invaio protocolou um pedido de testes experimentais do antibiótico na Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) no final de 2023, de acordo com o Diário Oficial. Um ano depois, solicitou o registro da OTC no Mapa para uso em citros.

A Invaio afirma ter realizado testes com 6 mil árvores no cinturão citrícola entre São Paulo e Minas Gerais, segundo sua newsletter. Mesmo em fase experimental, começou a divulgar o pacote tecnológico, sob o nome de Trecise, aos participantes na ExpoCritros, em Cordeirópolis (SP).

“Estamos trabalhando duro para disponibilizar nossa solução aos produtores brasileiros, e as expectativas do setor estão aumentando rapidamente”, disseAvram Slovic, diretor-geral da Invaio no Brasil, em release publicado no site da empresa.

Por aqui, até o momento, o uso da OTC só é autorizado na medicina veterinária — no tratamento de bovinos de corte, por exemplo. O país seria o segundo a autorizar o medicamento no combate à citros, após os Estados Unidos. Na União Europeia, a OTC está proibida para uso agrícola desde 2002, por preocupações com a saúde pública.

Ainda em 2024, menos de um ano após a viagem e o início dos testes, a companhia solicitou o registro da OTC no Mapa contra o greening nos citros. O bactericida, usado no método Trecise, receberia o nome comercial Stryva.

O pedido, no entanto, foi negado pelo Mapa e pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária). A justificativa oficial foi a de que a empresa tentou registrar o Stryva como equivalente a um produto já existente no mercado nacional, estratégia que acelera o processo e reduz a necessidade de estudos adicionais. Falando sob condição de anonimato, uma fonte especializada em vigilância resumiu: a Invaio Sciences tentou um “atalho” – e se deu mal.

Atualmente, a oxitetraciclina não é aprovada para uso em plantas, de acordo com a base oficial de agrotóxicos do governo, a Agrofit. Segundo a legislação brasileira, a equivalência só é possível quando a empresa comprova a mesma “finalidade e condições de uso” do ingrediente ativo.

Questionada pela Repórter Brasil, a empresa não respondeu se pretende apresentar um novo pedido, seguindo o processo completo de registro de agrotóxicos no país. Mas, na rede social Linkedin, segue apresentando o antibiótico como uma das soluções para as lavouras de laranja e informa que o produto estaria em “processo de registro” – informação que, segundo o Ministério da Agricultura, não corresponde à realidade.

“Se houver interesse do registrante, este deverá realizar novo protocolo em todos os órgãos como um pedido de registro de produto técnico novo. Neste momento, não há pedido de registro em andamento”, informou o Mapa à reportagem por e-mail em 14 de abril.

A despeito da negativa do Mapa e da Anvisa, as redes da empresa no Linkedin seguem incensando os resultados de testes realizados no país. A Invaio sustenta que os achados mostrariam reduções de até 99,9% na carga bacteriana dos pomares, além de uma diminuição significativa no número de plantas doentes. A companhia também afirma ter realizado 12 ensaios de campo em diferentes regiões do cinturão citrícola brasileiro, nos quais o tratamento teria reduzido a queda de frutos em até 31%.

Olavo Bianchi, engenheiro agrônomo do Fundecitrus, afirma que os citricultores precisam de uma solução para a bactéria, mas devem ter cautela com o uso de antibióticos, já que as pesquisas ainda são incipientes. A entidade tem uma parceria estratégica com a Invaio para desenvolver soluções contra o greening, e chegou a testar o produto, mas preferiu não dar detalhes.

“Os estudos com antibióticos ainda se encontram em fase inicial, não havendo, até o momento, resultados práticos consistentes de sua aplicação em campo. Portanto, o manejo do greening deve continuar baseado na erradicação de plantas doentes e no controle eficiente do psilídeo, inseto vetor da doença”, diz Bianchi.

Eduardo Augusto Girardi, engenheiro agrônomo e pesquisador da Embrapa (Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária), afirma não haver cura ou tratamento eficaz para a greening dos citros.

“Não existe nenhuma molécula, nenhum remédio, nenhuma droga, nenhum produto químico ou natural até hoje que tenha capaz de curar a planta de citros que tem a bactéria. Não existe, infelizmente”, disse. “A ciência investiu milhões de dólares no mundo todo, mas não encontrou nenhuma cura. Isso não existe, não é uma verdade. As plantas continuam doentes”, resume.

<><> Sem cura, por enquanto

Erradicar o greening é o principal desafio da citricultura. Segundo dados do Fundecitrus, que presta assessoria técnica a produtores rurais paulistas, a bactéria que se aloja na planta foi a principal causa das 49,6 milhões de caixas perdidas da fruta em todo o Brasil durante a safra 2025-2026, superando a quebra causada pela falta de chuvas.

“Hoje, aproximadamente 47,6% das 200 milhões de laranjeiras do cinturão citrícola de São Paulo e Triângulo/Sudoeste Mineiro estão infectadas pela doença, e o cenário está se agravando ano após ano”, afirma Olavo Bianchi, engenheiro agrônomo do Fundecitrus. A maior parte da produção se concentra em São Paulo e no Triângulo Mineiro, as duas regiões mais afetadas pela bactéria.

Segundo dados da Embrapa, a doença alcança até 30% dos pomares em algumas regiões de São Paulo e é quase impossível erradicá-la. A solução tem sido exterminar as plantações e migrar o cultivo para áreas livres da doença, como o Norte e Nordeste do país.

A transmissão ocorre por meio de um pequeno inseto conhecido como psilídio, que espalha o patógeno ao se alimentar dos brotos de árvores doentes. “Atualmente, o manejo da doença baseia-se no controle do inseto vetor por meio do uso de inseticidas, aliado à eliminação das fontes de inóculo da bactéria”, afirma Bianchi.

Mas, nos últimos anos, até mesmo esse método vem se mostrando ineficaz, já que os insetos vetores estariam ficando resilientes aos principais inseticidas utilizados no campo. “A resistência a determinados grupos químicos já está presente em grande parte do cinturão citrícola. Dessa forma, os citricultores devem realizar a rotação dos grupos químicos utilizados nas aplicações”, explica Bianchi. As pulverizações são feitas rotineiramente.

Outra estratégia é investir em prevenção, que começa com a produção de mudas saudáveis. “Começar um plantio com uma muda doente é igual a começar um jogo de futebol perdendo de 5 a 0. É quase impossível conseguir reverter. Quanto menos plantas doentes, menos chance do psilídio se infectar”, descreve Girardi, responsável pela Unidade Mista de Pesquisa e Transferência de Tecnologia do Cinturão Citrícola da Embrapa.

<><> Risco de gerar ‘superbactérias’

Conhecido na medicina humana desde os anos 1950, o antibiótico oxitetraciclina também ganhou espaço na pecuária. É utilizado há décadas para tratar infecções respiratórias e feridas em bovinos, suínos, aves e peixes.

Especialistas, contudo, veem com preocupação o uso expandido para plantas porque algumas bactérias têm desenvolvido resistência ao grupo de substâncias ao qual pertence a oxitetraciclina.

“O uso de antibióticos na agricultura, apesar de representar uma fração relativamente pequena do seu consumo global, pode contribuir para a seleção de bactérias resistentes no ambiente, que podem se disseminar pelo solo, água e até cadeia alimentar”, afirma a professora Adriana Pavesi Arisseto Bragotto, da Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp.

Um levantamento nacional da cadeia de frango no Brasil, publicado em 2021 no periódico Epidemiology & Infection, mostrou como bactérias resistentes se multiplicam. Em 2014, os pesquisadores constataram que 60,3% das amostras de Salmonella coletadas em carne de frango eram resistentes às tetraciclinas. Em 2017, esse percentual já havia aumentado para 82,8%.

Esse processo pode favorecer o surgimento de “superbactérias” em humanos, cujos organismos já não respondem a nenhum tratamento. É o caso da MRSA (Staphylococcus aureus resistente à meticilina), famosa por se alastrar em hospitais e por ser resistente a diversos tipos de antibióticos.

Em um caso ocorrido em 2009, um único bebê contaminado deu origem a um surto que atingiu outros 11 recém-nascidos em uma UTI neonatal no Reino Unido. Outro estudo, que acompanhou o comportamento da infecção ao longo de uma década na região metropolitana de São Paulo, mostra que cresce a disseminação da MRSA de forma comunitária, fora do ambiente hospitalar.

Em resposta ao avanço da “resistência antimicrobiana”, como é conhecido o processo de criação das superbactérias, a Assembleia Geral da ONU lançou em 2024 uma declaração política que incentiva os países a seguir a abordagem de “Saúde Única” (“One Health”).

Ao assinar o documento, os países participantes, incluindo o Brasil, reconhecem que o problema de saúde pública não se limita à medicina humana, mas também está vinculado ao uso de antibióticos na agricultura e à contaminação ambiental.

“Embora o risco direto para o consumidor por meio da ingestão de frutas ainda não esteja totalmente caracterizado, há um consenso crescente de que o uso de antibióticos deve ser cuidadosamente avaliado dentro do conceito de Saúde Única (One Health), justamente para evitar a amplificação da resistência antimicrobiana”, afirma a professora.

No combate à resistência microbiana, já na década de 1990, o Brasil proibiu o uso de tetraciclinas em animais para promover o crescimento. Hoje, existem regras específicas para o uso no tratamento de doenças animais, incluindo a obrigatoriedade de acompanhamento veterinário.

Em 2021, o Mapa também implementou o programa de vigilância da resistência antimicrobiana (AMR), que monitora a presença de bactérias resistentes em animais e na produção de alimentos no Brasil.

A especialista da Unicamp afirma que seria difícil avaliar o impacto da ampliação do uso de oxitetraciclina em árvores cítricas. “Não há dados de monitoramento no Brasil sobre oxitetraciclina em produtos de origem vegetal. Não existe um limite máximo de resíduo definido para produtos agrícolas, pois a Anvisa não possui monografia vigente para oxitetraciclina em alimentos vegetais”, explica. Ou seja, a depender do que a ciência sabe hoje, a aprovação da OTC para cítricos precisa percorrer um longo caminho de testes até se provar viável.

<><> Alertas sobre riscos à saúde pública

Nos Estados Unidos, a aprovação da OTC para citros em 2018 pela agência ambiental dos Estados Unidos (EPA) enfrentou resistência de médicos, ambientalistas e até de membros do Congresso.

Na época, a Flórida havia sido devastada pela bactéria, perdendo mais de 70% da produção de laranja e o lugar de liderança na indústria, e o desespero levou a EPA autorizar, inicialmente, o uso emergencial do antibiótico em forma de spray para aplicação nas folhas. Mais tarde, como injeção, como é o caso do Trecise-Stryvia.

Em 2019, três senadores e quatro deputados americanos enviaram uma carta à agência, expressando apreensão com as decisões da agência de aprovar o uso de OTC em citros.

Apesar do prejuízo econômico na região, os legisladores pediram que a agência reavaliasse a sua decisão devido aos riscos à saúde pública. Questionaram a falta de uma avaliação mais cuidadosa e exigiram provas de que os produtos agrícolas à base de OTC eram seguros para consumo.

Na mesma época, o CBD (Centro para a Diversidade Biológica), uma organização ambiental nos Estados Unidos, coletou 45 mil assinaturas em um abaixo-assinado contra o uso do antibiótico no campo.

À Repórter Brasil, Nathan Donley, diretor de Ciências da Saúde Ambiental da CBD, afirmou que a principal preocupação da organização era a disseminação de bactérias resistentes. “O uso excessivo desses medicamentos nas plantas pode levar ao desenvolvimento de resistência em patógenos. E as pessoas podem entrar em contato com esses patógenos nos alimentos que compram no supermercado”, explica.

Para Donley, os trabalhadores rurais que atuam nos pomares seriam os mais atingidos. “Se você sofre um corte no trabalho ou desenvolve uma infecção enquanto trabalha, pode entrar em contato com bactérias mais difíceis de tratar. Isso é um problema enorme para uma população que, em muitos casos aqui, nem tem seguro de saúde”, alerta.

Através da Lei de Acesso à Informação nos Estados Unidos (FOIA), a organização descobriu que até mesmo o CDC (Centro de Controle e Prevenção de Doenças), agência de saúde pública dos Estados Unidos, já havia alertado sobre essa ameaça. Em 2017, a agência enviou um documento para a EPA afirmando que o uso extensivo de oxitetraciclina poderia levar à resistência microbiana.

Em 2021, o CBD e outras organizações ambientais conseguiram, na Justiça, anular a aprovação do uso da estreptomicina, outro antibiótico usado no tratamento para o greening. Os tribunais entenderam que a agência reguladora não teria avaliado adequadamente os riscos do antibiótico para a saúde humana, nem os seus impactos ambientais.

A ONG, no entanto, não chegou a contestar o registro da OTC no prazo previsto pela legislação americana. “Esse processo foi mais confuso porque passou por várias etapas de aprovação emergencial. Mas os argumentos seriam os mesmos e acredito que venceríamos no tribunal”, disse.

Hoje, ele acompanha de perto uma revisão de rotina da EPA sobre o uso de oxitetraciclina em culturas agrícolas. Em 2019, uma decisão inicial indicou que a oxitetraciclina poderia continuar sendo usada, mas com ajustes na bula para mitigar riscos, incluindo a obrigatoriedade de medidas de proteção ao trabalhador e limites na frequência e na dose de aplicação. Uma decisão final está prevista para os próximos dois anos.

<><> Risco a exportações

Na Flórida, os produtores de laranja que têm utilizado injeções de outros produtos registrados têm visto resultados positivos. Um estudo publicado no ano passado encontrou que, em dois anos, a produção de frutos das árvores mais do que dobrou com o medicamento.

A autora principal da pesquisa, Ute Albrecht, afirma que a injeção também é mais segura do que o spray.  “Como não há pulverização, o produto não se dispersa pelo ar nem afeta outros organismos ao redor. Não há escoamento para o solo, o que é importante na Flórida, porque existe um sistema de aquíferos que liga todos os cursos d’água”, explica.

Mesmo assim, a pesquisadora da IFAS (Universidade da Flórida) alerta que, caso a injeção seja mal administrada, há risco do antibiótico deixar resíduos na fruta, o que também contribui para a resistência microbiana. Em um estudo recente, ela constatou que a simples aplicação fora da época indicada pode resultar em níveis acima do permitido pela agência ambiental dos Estados Unidos (EPA).

“Por isso, esse produto é rigorosamente regulamentado na Flórida. Os produtores precisam esperar pelo menos seis meses entre a injeção e a colheita. Quando os frutos já estão grandes, qualquer material que você injete pode acabar indo para eles, o que precisa ser evitado”, exemplifica.

Não está claro quais seriam as diretrizes de uso no Brasil, caso o produto fosse aprovado. Resíduos do antibiótico na fruta ou no suco de laranja podem prejudicar as exportações para a União Europeia (UE), devido às restrições do bloco econômico aos antibióticos em culturas agrícolas.

Questionada pela Repórter Brasil, a CitrusBR, que representa o setor exportador de suco de laranja, afirmou que “a eventual autorização regulatória [do produto] no país não implica a adoção automática na cadeia exportadora.” Também disse que “o setor exportador de suco de laranja adota protocolos públicos e próprios de governança e conformidade, com critérios restritivos para o uso de produtos no campo, em função das exigências dos mercados de destino, especialmente a Europa e os Estados Unidos.”

Outra preocupação é a possibilidade de a própria bactéria que causa o greening desenvolver resistência aos antibióticos. “Todos os produtores aqui na Flórida reconhecem que isso é apenas uma solução temporária e estão aguardando uma solução genética, como uma variedade de laranjeira resistente ao greening. Acho que o consenso é que essa não é uma solução para todo o sempre”, afirma Albrecht.

 

Fonte: Reporter Brasil

 

Como possível ação dos EUA no Irã elevou petróleo ao maior nível desde 2022

Os preços do petróleo atingiram o nível mais alto desde 2022 após a divulgação de um relatório segundo o qual militares dos Estados Unidos devem apresentar ao presidente americano, Donald Trump, novos planos para uma possível ação contra o Irã.

O Comando Central dos EUA (Centcom, na sigla em inglês) preparou um plano para uma série de ataques "breves e contundentes" com o objetivo de destravar as negociações com o Irã, informou o site Axios. A BBC entrou em contato com o Centcom e com a Casa Branca para comentar, mas não recebeu resposta até o momento.

O barril de petróleo do tipo Brent subiu quase 7% e chegou a ultrapassar US$ 126 (cerca de R$ 630), o maior valor desde a invasão em larga escala da Ucrânia pela Rússia, em 2022.

Os preços de energia vêm subindo nesta semana com as negociações de paz estagnadas, com o estratégico estreito de Ormuz ainda, na prática, fechado.

Antes dos ataques dos EUA e de Israel contra o Irã, passavam pelo estreito cerca de 20% do petróleo global, entre outros insumos.

A reportagem do site Axios, com base em fontes anônimas, afirma que a proposta de ataques deve incluir alvos de infraestrutura.

Outro plano envolve assumir o controle de parte do estreito de Ormuz para reabrir a rota ao transporte comercial, o que pode exigir o envio de tropas terrestres, segundo o Axios.

O petróleo West Texas Intermediate, que serve como referência de preço nos EUA, também subiu, com alta de 2,3%, para cerca de US$ 109 (aproximadamente R$ 545) o barril.

O contrato futuro do Brent para entrega em junho vence na quinta-feira (30/4). Já o contrato mais negociado, com entrega em julho, avançava cerca de 2%, para perto de US$ 113 (cerca de R$ 565), nas negociações da manhã na Ásia.

Os contratos futuros são acordos para comprar ou vender um ativo em uma data previamente definida.

Os mercados de petróleo reagiram rapidamente à possibilidade de uma nova ação militar no Golfo, afirmou Yeow Hwee Chua, professor de economia da Universidade Tecnológica de Nanyang, em Singapura.

Ele acrescentou que mesmo uma pequena chance de escalada do conflito pode ter "efeitos desproporcionais" sobre a oferta global de energia.

Os EUA disseram que vão bloquear portos iranianos enquanto o Irã continuar a ameaçar embarcações que tentam usar o estreito de Ormuz, o que pode afetar gravemente o transporte global de energia.

O Irã reagiu aos ataques aéreos dos EUA e de Israel ao ameaçar atacar navios na região, por onde costuma passar cerca de um quinto da energia consumida no mundo.

Os preços do petróleo já haviam subido 6% na quarta-feira (29/4), após relatos de que os EUA se preparavam para um bloqueio "prolongado" ao Irã.

"Há sinais de que uma escalada do conflito voltou ao centro das discussões, seja com os EUA mantendo o bloqueio ao Irã, seja com relatos e rumores de que, para sair desse impasse, o Irã pode voltar a atacar", disse Naveen Das, analista sênior de petróleo da Kpler, empresa de inteligência marítima.

Ele afirmou ao programa Today, da BBC, que um preço do petróleo próximo de US$ 125 (cerca de R$ 625) é o ponto em que empresas e políticos "começam a ficar mais apreensivos".

"Podemos começar a ver mais iniciativas para tentar reduzir a escalada", acrescentou, porque a alta dos preços "tem efeito em cadeia não só sobre o petróleo, mas também sobre produtos derivados, a inflação e praticamente todos os aspectos da vida cotidiana".

A BBC apurou que executivos do setor de energia se reuniram com Trump na terça-feira (28/4) para discutir formas de limitar o impacto da guerra sobre os consumidores americanos, o que aumentou a preocupação do mercado com uma possível interrupção prolongada no fornecimento de energia.

"A grande questão, na minha visão, é por quanto tempo o governo Trump conseguirá suportar a pressão econômica", disse Will Walker-Arnott, gestor de investimentos da Raymond James, ao programa Today.

"As pessoas já começam a se preocupar com o impacto inflacionário da alta do petróleo", acrescentou.

¨      Vantagem do Brasil em biocombustíveis

A guerra, iniciada em 28 de fevereiro, provocou uma crise energética global, com alta do petróleo e risco de desabastecimento, especialmente após o bloqueio do estreito de Ormuz.

Nesse cenário, o Brasil conta com uma vantagem estratégica: os biocombustíveis, avalia a revista britânica The Economist.

A revista publicou um artigo em 26 de março em que afirma que "o Brasil tem uma arma secreta contra choques do petróleo" e que "os biocombustíveis vão ajudar o país a enfrentar os efeitos do conflito no Oriente Médio".

Neste contexto, a The Economist afirma que poucos países estavam preparados para um choque do petróleo, mas "o Brasil estava". Isso porque o país, ao longo de décadas, investiu em alternativas e construiu "a indústria de biocombustíveis mais sofisticada do mundo".

A reportagem destaca ainda o papel estrutural desses combustíveis na economia brasileira. "Eles são misturados à gasolina e ao diesel, com percentuais obrigatórios definidos pelo governo de 30% e 15%, respectivamente, entre os mais altos do mundo", observa a revista.

O artigo também chama atenção para a frota nacional: "três quartos dos veículos leves no Brasil possuem tecnologia que permite rodar com qualquer mistura, desde gasolina pura até etanol 100%".

"Isso reduz a dependência do Brasil de combustíveis fósseis importados e protege o país contra mercados inflacionados. O preço da gasolina nos postos brasileiros subiu 10% desde o início da guerra, e o do diesel, 20%, segundo dados divulgados em 20 de março pelo regulador de energia. É um aumento doloroso, mas muito abaixo dos saltos de 30% a 40% observados nos Estados Unidos."

A The Economist lembra que essa estratégia começou nos anos 1970, após outra crise do petróleo, e desde então se consolidou como base da política energética do país.

"Na época, o Brasil importava 80% do combustível que consumia; o embargo árabe estava sufocando a economia. Transformar o excedente de cana-de-açúcar em etanol foi uma solução óbvia", aponta o texto.

A revista menciona ainda um plano do governo federal, em 2023, para promover o biodiesel, derivado de sementes, principalmente de soja. Hoje, diz a revista, o governo federal mantém essa linha, já que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que como "poucos abraçaram os biocombustíveis com tanta intensidade".

Ainda assim, a revista faz uma ressalva: "os biocombustíveis não podem eliminar totalmente os custos provocados pela alta do petróleo".

Mas a avaliação é que o Brasil entra nessa crise em posição mais favorável. Enquanto grandes economias enfrentam alta mais intensa de preços e risco de escassez, o país consegue amortecer parte do impacto — e até se beneficiar com o aumento da demanda global por alternativas ao petróleo.

A análise aponta também que o modelo começa a chamar atenção internacional, com países como Índia e Japão estudando adaptar a experiência brasileira.

¨      A saída repentina dos Emirados Árabes Unidos da Opep poderia desencadear uma guerra de preços do petróleo

O conflito no Oriente Médio fez da Opep a mais recente vítima da guerra. A saída repentina dos Emirados Árabes Unidos do cartel do petróleo na terça-feira, após 60 anos, deve enfraquecer a aliança que, sob a liderança da Arábia Saudita, ajudou a amenizar a volatilidade do mercado global de petróleo por décadas.

Os preços globais do petróleo atingiram o nível mais alto em quatro anos na quinta-feira, ultrapassando os US$ 126 por barril. Mas, enquanto a região enfrenta o conflito contínuo, uma nova guerra pode estar se formando nos mercados internacionais de petróleo, o que poderia levar a uma maior volatilidade do mercado nos próximos anos.

Por ora, a intenção dos Emirados Árabes Unidos de ignorar as cotas de produção da Opep e bombear todo o petróleo bruto que desejarem é meramente teórica, devido ao bloqueio iraniano ao Estreito de Ormuz. O mesmo se aplica à capacidade de Riad de usar suas vastas reservas de petróleo como arma em resposta.

Mas, em um impasse pós-guerra entre as duas gigantes petrolíferas do Golfo, reside o risco real de uma guerra de preços, na qual os mercados globais de energia poderiam entrar em colapso, com consequências econômicas imprevisíveis.

“A Arábia Saudita vai retaliar com força total”, disse Michael Tamvakis, professor de commodities da Bayes Business School, em Londres. “Essa decisão afronta a autoridade do reino, e os sauditas vão querer dar uma lição neles.”

“Num mundo em que o petróleo volte a fluir pelo Estreito de Ormuz e os preços do petróleo comecem a cair, haverá uma corrida para maximizar os volumes de exportação de petróleo a fim de manter as receitas.”

Nessa corrida, espera-se que o reino saudita "comercialize agressivamente" seu petróleo para compradores asiáticos, que também dependem dos Emirados Árabes Unidos, oferecendo descontos em seu petróleo bruto e combustíveis. Embora os Emirados Árabes Unidos tradicionalmente tenham levado vantagem na comercialização de produtos petrolíferos refinados para a Europa, a Arábia Saudita pode "reagir e tentar conquistar participação de mercado", disse Tamvakis.

A Arábia Saudita é o maior exportador de petróleo do mundo, mas nos Emirados Árabes Unidos enfrenta um concorrente formidável no mercado. O terceiro maior produtor do cartel manteve sua produção abaixo de 3 milhões de barris por dia em 2024 a pedido da Opep, mas poderá aumentá-la para entre 4,5 milhões e 6 milhões de barris por dia assim que o fluxo for retomado pelo Estreito de Ormuz.

Ambos os países têm alguns dos custos de produção mais baixos do mundo e um imperativo fiscal para gerar as receitas estatais necessárias para preparar suas economias para um futuro com baixas emissões de carbono.

Dieter Helm, professor de política econômica na Universidade de Oxford, comparou a iminente guerra de preços às crises do mercado de petróleo das décadas de 1980 e 2014, que levaram à perda de centenas de milhares de empregos e à instabilidade política em economias ricas em petróleo.

“É provável que os preços do petróleo caiam ainda mais e mais rapidamente com o fim da guerra”, disse Helm. “Preços mais altos incentivam uma maior produção, e o mundo está repleto de reservas de petróleo e gás.”

A alta nos preços de mercado, desencadeada pela guerra no Irã, deverá impulsionar o surgimento de novos concorrentes no mercado de petróleo das Américas. Quanto mais tempo as exportações do Golfo forem prejudicadas pelo conflito, maior será a oportunidade para os EUA, o Brasil e a Guiana aumentarem sua participação no mercado global em detrimento do Oriente Médio.

Entretanto, as economias estão acelerando os planos para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis, o que pode acelerar o início do declínio do mercado.

Um mercado pós-guerra definido por novos suprimentos de petróleo e demanda incerta seria menos do que ideal para os países do Golfo, à medida que retomam as exportações. É provável que bombeiem o máximo de petróleo bruto possível para ajudar a recuperar as economias devastadas pela guerra na região e reconquistar seu lugar no mercado, portanto, preços mais baixos a longo prazo são prováveis.

O cenário representa a antítese da agenda declarada da Opep. Desde a década de 1960, o poder do cartel reside na sua capacidade de responder, como um grupo unido, às oscilações do mercado de petróleo, contribuindo para a estabilização dos preços.

Quando a oferta de petróleo se torna escassa, a Arábia Saudita e seus aliados conseguem aumentar a produção para conter a alta dos preços. Quando o excesso de oferta de petróleo bruto causa uma queda acentuada nos preços, a Opep está pronta para reduzir sua produção e evitar um colapso do mercado.

Mas os sinais de que a aliança estava começando a se desfazer tornaram-se mais evidentes nos últimos anos, à medida que as turbulências no mercado global desafiaram o domínio da Arábia Saudita e levaram a acirradas guerras de preços em retaliação.

Em 2020, a Opep realizou seus maiores cortes de produção meses depois que a pandemia de Covid-19 forçou a economia global a uma paralisação sem precedentes, que eliminou milhões de barris de demanda de petróleo em questão de semanas.

A decisão do grupo de reter 9,7 milhões de barris de petróleo por dia representou um corte de 10% na demanda global de petróleo. Mas o acordo só foi fechado depois que a Arábia Saudita travou uma breve guerra de preços em resposta à recusa da Rússia em reduzir sua própria produção, o que fez com que os preços despencassem para o menor nível em 20 anos e agravou o impacto econômico da pandemia.

Não foi a primeira vez que Riade sacrificou os preços de mercado para restaurar sua dominância. Em 2014, quando o fluxo desenfreado de petróleo proveniente do boom do xisto nos EUA ameaçou saturar o mercado, os ministros sauditas ficaram cada vez mais frustrados com os membros da Opep que desrespeitaram o acordo de conter a produção para estabilizar os preços.

O reino respondeu aumentando sua própria produção, desencadeando uma das maiores e mais longas quedas nos preços do petróleo da história, relegando seus concorrentes de custos mais elevados às margens do mercado. Os membros menores do cartel da Opep foram danos colaterais, e as cicatrizes econômicas podem fazer com que alguns se mostrem cautelosos em relação a quaisquer limites pós-guerra em sua produção.

Kim Fustier, analista sênior da HSBC Investment, afirmou: “A perda de um membro central do Golfo enfraquece a credibilidade da Opep. Se o grupo remanescente não conseguir compensar os volumes dos Emirados Árabes Unidos por meio de disciplina coletiva, a gestão de preços poderá se tornar mais difícil de ser implementada.”

¨      O líder supremo do Irã emite uma declaração desafiadora sobre o Estreito de Ormuz

O líder supremo do Irã quebrou seu recente silêncio com uma declaração desafiadora, exaltando o controle do Irã sobre a navegação no Estreito de Ormuz e prometendo proteger os programas nucleares e de mísseis do país.

“Hoje, dois meses após o maior destacamento militar e agressão perpetrados pelos maiores valentões do mundo na região, e a vergonhosa derrota dos Estados Unidos em seus planos, um novo capítulo se inicia para o Golfo Pérsico e o Estreito de Ormuz”, disse Mojtaba Khamenei em um comunicado lido por um apresentador da televisão estatal.

O comunicado afirmou que Teerã garantiria a segurança da região do Golfo e eliminaria o que descreveu como "os abusos do inimigo na hidrovia", e que "a nova gestão do estreito trará conforto e progresso para o benefício de todas as nações da região, e as bênçãos econômicas trarão alegria aos corações do povo".

O Irã tem procurado cobrar um preço por ser atacado, exercendo controle sobre o estreito, a via navegável estreita por onde normalmente transita cerca de um quinto do petróleo mundial.

Em discurso para marcar o Dia do Golfo Pérsico no Irã, Khamenei também prometeu que o Irã "protegerá suas capacidades tecnológicas modernas – da nanotecnologia à biotecnologia, passando pela energia nuclear e de mísseis – como se fossem sua capital nacional, e as protegerá como protege suas fronteiras marítimas, terrestres e aéreas".

Nenhuma gravação ou imagem de Khamenei foi transmitida desde que ele foi nomeado líder supremo no início de março. Há relatos de que ele ficou gravemente ferido no atentado a bomba que matou seu pai e antecessor, de 86 anos, em 28 de fevereiro. Ele estaria hospitalizado recebendo tratamento para seus ferimentos.

Sua nova declaração sugere que o Irã está determinado a implementar um novo regime de tarifas no estreito, que apresentará como benéfico para toda a região, como uma afirmação tardia de soberania regional.

Desde 13 de abril, os EUA montaram um contra-bloqueio destinado a impedir a entrada e saída de petroleiros nos portos iranianos, paralisando a indústria petrolífera do Irã.

Com as negociações mediadas pelo Paquistão em impasse, há poucos indícios de que qualquer um dos bloqueios será suspenso, o que eleva o preço do petróleo acima de US$ 120 por barril. Os níveis de tráfego marítimo ainda estão extremamente baixos, chegando a apenas três navios por dia em alguns casos, em comparação com 120 a 140 em condições normais.

“Os estrangeiros que cobiçam maliciosamente o estreito a milhares de quilômetros de distância não têm lugar ali, exceto no fundo de suas águas”, afirmou Khamenei em comunicado.

O fechamento do estreito pressionou Trump, já que os preços do petróleo e da gasolina dispararam antes das cruciais eleições de meio de mandato, bem como seus aliados no Golfo, que usam a hidrovia para exportar petróleo e gás.

A admissão de Trump na quarta-feira de que não conhecia uma saída fácil para o impasse fez com que os preços do petróleo chegassem perto de US$ 125 por barril – o mesmo patamar das primeiras semanas da invasão russa em grande escala da Ucrânia em 2022.

O site de notícias Axios informou que os militares dos EUA ainda estavam apresentando opções a Trump para retomar os ataques.

O major-general Mohsen Rezaee, conselheiro militar do líder supremo, escreveu em sua conta no Facebook: “O cenário de cerco fracassará e o Irã jamais perderá o Estreito de Ormuz. A história registrará que a nação iraniana derrotou a superpotência americana no Golfo Pérsico e no Mar de Omã. Tanto o campo de batalha quanto a diplomacia estão avançando com a coordenação do líder da revolução e o apoio do povo.”

O mundo considera o estreito uma via navegável internacional, aberta a todos sem pagamento de pedágio, e as nações árabes do Golfo, principalmente os Emirados Árabes Unidos, denunciaram o controle do estreito pelo Irã como algo semelhante à pirataria.

O Irã propôs que as negociações com os EUA sobre seu programa nuclear sejam suspensas enquanto ambos os lados concordam com os termos para permitir que os navios retomem a passagem pelo estreito. No Irã, o Ministério das Relações Exteriores instou o parlamento a reconhecer que os planos que estão sendo elaborados em conjunto com Omã não exigem nova legislação iraniana. Também está instando o Irã a evitar termos como "pedágios" e, em vez disso, a exercer seu direito preexistente de cobrar taxas por serviços prestados.

O secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio, e a secretária de Relações Exteriores do Reino Unido, Yvette Cooper, realizaram conversas em Washington na quarta-feira sobre o estreito. Um e-mail enviado pelo Departamento de Estado às embaixadas, divulgado pelo Wall Street Journal, sugeriu que os EUA estavam tentando se envolver em planos liderados principalmente pela Europa para a supervisão do estreito após o fim do conflito.

Os EUA estão se oferecendo para coordenar a diplomacia e as comunicações entre os países que utilizam o estreito, revitalizando e ampliando uma estrutura internacional de segurança marítima composta por 12 nações, uma operação naval preexistente criada após ameaças à navegação por parte da marinha iraniana.

 

Fonte: BBC News Brasil/The Guardian