segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Um retorno a 1964?

Dormimos em 2026, acordamos em 1964 e, no dia 25, mesmo uma improvável virada apenas adiará um novo 22 de abril de 1500. Será uma inovação e tanto: um povo escolher voltar a ser colônia.

Vendida como algo revolucionário, vivemos uma ruptura reacionária da extrema direita com o fantasma moribundo da democracia liberal. Mas estamos tratando tudo como normal. Em nenhum momento reagimos à altura dessa ruptura, acreditando numa institucionalidade que já está morta.

Sim, a mídia corporativa, de forma escandalosa e calculada, deu muito menos destaque do que deveria aos fatos e denúncias sobre a trajetória de Flávio Bolsonaro, enquanto ele se apresenta claramente como administrador de colônia. Sim, as redes sociais criaram um mundo em que a verdade factual perde relevância e as fake news se tornaram uma realidade normalizada.

Sim, enfrentamos uma conjuntura geopolítica internacional marcada pela ascensão da extrema direita, com elites latino-americanas sabendo trabalhar para se tornarem suas representantes locais. Sim, a sociedade brasileira, com seu crescente neopentecostalismo que sequestrou boa parte do cristianismo, assim como os diversos projetos de guerra cultural, simbolizados por iniciativas como o Brasil Paralelo, além do cinturão do agronegócio que se expandiu para novas regiões do país, tornou-se cada vez mais conservadora.

Mas também é verdade que a política econômica liderada por Fernando Haddad foi de uma ineptidão política colossal. Um erro desde o começo; uma tragédia anunciada: como ter tido como principal projeto de governo, no início do mandato com toda a força de uma nova gestão com o fôlego recente das urnas, uma reforma tributária cujos frutos, como a redução dos impostos da cesta básica, só apareceriam em 2027, podendo ser politicamente colhidos por Flávio Bolsonaro?

Como negociar a queda de um quase criminoso teto de gastos em prol de um arcabouço fiscal menos pior, capitulando mansamente diante da restrição da capacidade de investimento público? Como entrar em brigas totalmente impopulares, como a taxa das blusinhas? Como não encarar, sob o pretexto de manter o controle inflacionário, a desastrosa manutenção da política de juros do Banco Central sob Gabriel Galípolo, tornando o crédito inviável e incrementando de forma dramática o endividamento do consumidor e do pequeno e médio empreendedor?

E, sobretudo, como não olhar para 2022 e se dar conta de que as mulheres beneficiárias do BPC foram, de muitas maneiras, decisivas para evitar nossa derrota e a reeleição de Jair Bolsonaro? Em nome da redução do déficit fiscal e de uma tal “responsabilidade econômica” a ser vendida para um tal “mercado”, o governo fez questão de economizar bilhões, justamente prejudicando aquelas mulheres, chefes de família, que nos salvaram em 2022? Quem não conhece alguém que deixou de conseguir sacar esses benefícios abruptamente ou que, depois de uma doença, deficiência ou situação de extrema vulnerabilidade, encontrou todo tipo de dificuldade para receber um benefício?

Antes de ser eleito em 2022, Lula prometeu travar as boas batalhas. Prometeu governar “do seu jeito”. Pautar projetos de interesse nacional, como enfrentar o criminoso orçamento secreto.

Não se tratava de dizer que seria fácil ou que dependia apenas de sua vontade, mas de assumir, percebendo os novos tempos, a necessidade de mobilizar uma narrativa em defesa de um projeto de nação. As prováveis derrotas no Congresso não significariam uma derrota para o seu governo. Significariam demonstrar claramente que, ao menos, assumia sem medo a disputa pelos interesses populares.

Nem sequer uma política ousada de democratização do acesso à terra e à moradia foi pautada, algo que poderia ter sido feito de forma bem menos traumática do que imaginamos se houvesse disposição para avançar além da covardia diante da deturpação de seu significado material.

Mas, como em 2004 ou 2009, tentou-se uma composição. Dessa vez, porém, com um Congresso que sequestrou uma parcela mais que expressiva do orçamento e que, em boa parte, já não representava apenas interesses fisiológicos: havia ali um inequívoco projeto ideológico de extrema direita claramente antidemocrático.

Lula tentou conciliar com quem já não queria conciliação. Lula não se deu conta de que os tempos mudaram e de que teria de abraçar aquilo que, pejorativamente, se chama de “populismo”. Falhou em ter lutado por um projeto de apelo popular que respondesse ao anseio pela diminuição da criminalidade. Combater a lavagem de dinheiro enfrentando determinados agentes e setores do mercado financeiro é necessário e louvável, mas nada ressoa para quem vive com o medo da violência na rua. A cegueira da esquerda quanto à acusação de que compactuamos com o crime não deveria ser tão mansamente aceita, o que está longe de significar qualquer demagogia penal ou assassina.

Talvez Lula tivesse perdido em todas essas empreitadas. Mas perderia de uma maneira que não legitimaria propagarmos, com tanta cegueira e prepotência, que há um pobre de direita burro e ignorante.

Mas, se não fomos nós que pautamos o debate público, se desistimos de lutar por um projeto nacional assumidamente nosso, não sejamos nós os ignorantes incapazes de compreender os fatos. Repitamos isso em voz alta.

A verdade é que a extrema direita capta, com cinismo, um diagnóstico verdadeiro: para milhões de pessoas, alguma coisa precisa romper com “tudo que está aí”. Ela percebe que a ordem existente já não consegue oferecer a promessa de integração, prosperidade e segurança que legitimava o capitalismo e a democracia liberal.

E é justamente aí que ocorre uma inversão extraordinária e reveladora: a extrema direita passa a ocupar o lugar da ruptura, enquanto a esquerda passa a assumir um imaginário conservador e envelhecido. Eles são, nesse sentido, mais sinceros no diagnóstico, não na solução. Assumem que nesse modelo de sociedade não há lugar para todos, que o Estado atrapalha, que os direitos sociais são falhos, que os conflitos não serão resolvidos pela conciliação e que, de uma forma ou outra, alguém terá de perder.A solução que oferecem para a crise é destruidora, por isso se apresenta como ruptura.

Enquanto isso, a esquerda liberal responde defendendo uma institucionalidade falida prometendo, com grande dose de derrotismo e até prepotência, administrá-la com maior humanismo, sem acusar seus inequívocos limites e contradições. Diante disso, quem hoje parece radical e quem é visto como conservador?

É nesse sentido que a extrema direita vence por parecer mais sincera: não porque revela qualquer solução viável para o mundo, mas porque explicita, sem qualquer verniz, um antagonismo que nós abdicamos de enfrentar.

Não por acaso, esse discurso encontra terreno fértil porque o cidadão comum, desgostoso com qualquer apelo a um corpo social – visto como armadilha para a letargia corruptora – e identificado com um conceito altamente neoliberal de liberdade, quer apenas não ser atrapalhado para poder “cuidar do próprio nariz em paz”.

É aí que o conservadorismo moral e o discurso individualista conseguem acomodar uma aparente contradição funcional: de um lado, a exigência de valores pétreos e sagrados na vida privada como refúgio diante da crueldade competitiva de um mundo corrompido; de outro, a legitimação de que, na selva da disputa capitalista, cada um possa ser implacável ao lutar pelos próprios interesses, sem que o Estado ou aqueles considerados culpados pela própria miséria o atrapalhem.

O reacionarismo moral e o individualismo oferecem, assim, refúgios normativos que validam a conduta de um indivíduo ainda mais perverso, pois ele percebe, sem qualquer filtro, que vive no estado de natureza hobbesiano, sem que o Estado hobbesiano se ofereça para protegê-lo.

O que estamos deixando de compreender quando parcelas expressivas dos mais jovens caminham para a extrema direita em diferentes partes do mundo? Quando os líderes mais boçais e mitômanos são justamente jovens que angariam apoio justamente por assumirem um tom que acomoda tão bem terrorismo moral, autoritarismo e aparente insubordinação ao sistema?

Por que insistimos em destacar a hipocrisia de tais discursos e não nos questionamos por que somos vistos como sendo o tal do “sistema”? Para o jovem sufocado por uma realidade sem horizontes do capitalismo digital, a extrema direita encarna a ousadia da recusa.

Enquanto isso, a esquerda, engessada em sua defesa mansa de uma institucionalidade, é percebida como delirante ou cínica, pois defende um horizonte social sem definir claramente o que almeja.

Quanto às elites econômicas nacionais, todo o projeto da extrema direita representa, com novas roupagens de velhos projetos, os compromissos com a mesma elite econômica que Florestan Fernandes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Caio Prado Jr., cada um a seu modo, já haviam identificado: uma pequeníssima minoria interessada na preservação de seus próprios privilégios, incapaz de converter desenvolvimento econômico e industrialização em um projeto autônomo de nação, sendo historicamente disposta a associar seus interesses aos do capital externo em vez de confrontar a posição dependente do país na ordem internacional.

Isso não é novidade e sempre contou com o apoio das mídias tradicionais, que, em grande medida, trabalharam em favor desses interesses. O que é novo é assumirem tão escancaradamente a disposição de entregar tudo o que é do Brasil, resignando-se criminosamente a que uma família assuma tal projeto.

Enquanto nos preocupávamos em denunciar a hipocrisia e as associações autoritárias do lema “Deus, pátria, família e liberdade”, apontando a contradição entre a defesa de um modelo autoritário e a hipocrisia moral, subestimamos sua contradição mais profunda: o ódio profundo ao Brasil. O suposto patriotismo dessa extrema direita é o que despreza o próprio povo, não reconhece suas conquistas históricas e desvaloriza sua cultura e sabota qualquer possibilidade de construir um futuro soberano. É o patriotismo de quem sonha viver em Miami.

Nesse aspecto, nossa extrema direita consegue ser pior que suas congêneres estrangeiras: além de autoritária e excludente, é entreguista e profundamente patética. Sequer admite qualquer projeto de desenvolvimento nacional. Sua pátria é uma abstração; o Brasil real e seu povo são obstáculos a serem superados. Por isso, a derrota nas eleições legislativas e na disputa pelo Executivo, já no primeiro turno, pode se revelar o maior revés da nossa história.

Vamos ser realistas, sabendo dimensioná-la para poder enfrentá-la com as armas certas, pois foi nada menos que catastrófica. Pois, dessa vez, a extrema direita não terá qualquer pudor de destruir os ganhos sociais, econômicos e civilizatórios do país. Michel Temer, ainda com a cínica retórica de quem sempre representou, já produziu estragos catastróficos nos direitos sociais, na Petrobras e na indústria da construção civil, sob o impulso do lavajatismo.

Jair Bolsonaro tentou ir além, promovendo não apenas a corrosão de direitos e da nossa infraestrutura econômica e social, mas também a degradação moral da sociedade brasileira, simbolizada pela pandemia e pelas imagens de fome e adoecimento dos povos Yanomami. Se Jair Bolsonaro não avançou mais, foi apenas por sua inaptidão, preguiça e incompetência.

Mas agora não há qualquer razão para supor que esta jovem e motivada extrema direita que chega ao poder tenha a mesma timidez. As mangas já estão arregaçadas. Eles tentarão destruir e colocar sob seu controle, sem qualquer constrangimento, o STF; corroer a Polícia Federal; aparelhar joias nacionais como o IBGE; desidratar ainda mais as agências reguladoras submetendo-as aos interesses financeiros; dinamitar os direitos conquistados pelas mulheres ao longo de décadas; perseguir, sem qualquer verniz, toda a elite intelectual representada pelas universidades.

Política ambiental, apoio aos indígenas ou proteção às populações mais vulneráveis? Esqueçamos. Eles não serão covardes como em 2022. Aprenderam bem as lições. Não subestimemos sua inteligência ou habilidade. Não subestimemos quem, ao vivo, no Jornal Nacional, soube explorar o peso de anunciar quem será seu ministro. Eles sabem para quem trabalham e, com o apoio – e a chantagem – de quem quer nos recolonizar, não hesitarão em passar a boiada sobre nós.

Por isso, devemos compreender, de uma vez por todas, que, historicamente, o limite da extrema direita foram os tanques soviéticos em Berlim. No século XXI emergiu uma extrema direita que assumiu o desejo de enterrar os compromissos sociais que o capitalismo foi obrigado a assumir no pós-segunda grande guerra graças à concorrência ideológica do estado soviético.

Mas agora, já não há espaço ou barreira, em seu projeto, sequer para a social-democracia, um mínimo Estado de bem-estar social ou para políticas keynesianas. Eles não mais admitem conceder nada. Sua hipocrisia acabou; suas intenções estão escancaradas. E nós, iremos nos resignar? A luta de classes, como luta entre dois lados, nunca foi pretendida dentro da institucionalidade petista. Até então, poderia ser compreensível.

Mas agora a realidade nos massacra. Nós devemos explicitá-la, e é nossa culpa se não o fizermos. Pois, para que exista uma luta, é preciso que haja quem resista. Senão, é apenas um massacre.

Pois, devemos saber que a tudo isso se soma a pós-verdade, que é muito mais sutil do que a simples mentira. É a decadência completa da relevância da verdade factual. O mundo informacional foi segmentado, sobretudo pelos algoritmos, em realidades que quase não precisam mais se encontrar.

Parte da população não toma conhecimento de determinados fatos da forma como eles realmente se apresentam – algo que, de outra maneira, já ocorria sob a mídia tradicional. Mas agora há algo mais sutil e perverso: mesmo quando o fato chega, pode chegar recortado, deslocado de contexto, reinterpretado ou inteiramente reorganizado dentro de uma narrativa que lhe dá outro sentido. Basta o uso de boa retórica e verossimilhança, vide o sucesso de Nikolas.

E disso não pode se subtrair uma sociedade cada vez mais conservadora, na qual parcelas significativas da população passaram a se mobilizar muito mais intensamente por pautas morais e de costumes do que pela conquista de ganhos materiais concretos para suas próprias vidas. Isso não aconteceu espontaneamente. Foi resultado também de uma longa disputa pela formação do senso comum, pela linguagem e pelos valores através dos quais a realidade passa a ser interpretada.

O diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é nossa. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos. Mas será que devemos continuar tentando disputar o discurso da extrema direita em seus próprios termos, ajustando o nosso ao deles? Ou devemos pautar, sem meias palavras nem pudor, de forma atualizada e sem anacronismos, a nossa própria gramática, o nosso discurso?

Há nisso uma ironia histórica: a extrema direita, sob influência olavista de quem caçoávamos com presunção, parece ter compreendido muito bem uma lição gramsciana que parte da esquerda teve medo de colocar em prática por fleuma – o poder não se disputa apenas nas eleições ou dentro do Estado; disputa-se também na cultura, nas instituições, no humanismo do que é sagrado e religioso, na profundidade politizadora da mídia e na própria produção cotidiana do senso comum.

Quem nunca se assustou, por exemplo, ao descobrir que um prestador de serviço comum se informa a partir de documentários como os do Brasil Paralelo, que lhe revelariam a verdade secreta de um Brasil dominado pela esquerda? Ou com o fato de soar cada vez mais comum, sobretudo entre os mais jovens, dizer que o nazismo é de esquerda? Será que não percebemos o quanto isso ajuda a produzir uma sociedade progressivamente cega e alheia à própria relevância factual? Será que continuaremos debochando da ignorância alheia, ignorando que isso se torna cada vez mais um fato?

Enquanto a extrema direita trava essa guerra sem pudor, instituindo despudoradamente colégios militares ou instrumentalizando a religião, parte da esquerda recua até mesmo diante da possibilidade de realizar, em sentido verdadeiramente emancipador, aquilo que o tão atacado e incompreendido Paulo Freire propunha: formar sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo em que vivem.

Para além do ProUni, do Pé-de-Meia e das políticas de cotas, iniciativas legítimas e importantes para a inclusão social, o PT termina seus governos sem deixar ao país um legado de formação crítica e emancipadora à altura de um partido que se diz de esquerda. Sem propor um projeto nacional de educação de base verdadeiramente transformador, capaz de elevar o patamar educacional brasileiro.

O resultado está diante de nós: uma sociedade em que parcelas da população podem se mobilizar apaixonadamente por uma guerra cultural mesmo quando dela não resulta qualquer melhoria concreta em sua renda, seu trabalho, sua segurança ou sua qualidade de vida.

E é por isso que a experiência da pandemia funcionou como marco estruturante desse processo. Pode parecer contraintuitivo que governos de extrema direita tenham embarcado no negacionismo sanitário, mas tal retórica legitimou profundamente um ideal de feroz liberdade individualista, capaz de romper com qualquer concepção de liberdade fundamentada em um corpo social coletivo. A mensagem deixada foi clara: absolutamente nada poderia impedir a economia de continuar funcionando, mesmo que isso significasse que o próprio indivíduo ou os outros ao seu redor morressem.

Foi a consagração da ideia de que essa liberdade não carrega mais nenhuma obrigação coletiva, apenas direitos absolutos sobre si mesmo. É o caráter fatalista do capitalismo levado às últimas consequências, em uma lógica que remete ao realismo capitalista de Mark Fisher ou à concepção do capitalismo como religião em Walter Benjamin.

Foi o golpe final contra qualquer ideia de corpo social. O erro do nosso discurso? Tratar o temor pela própria sobrevivência econômica dos cidadãos comuns como expressão dos interesses mesquinhos do empresário “malvado”, ignorando que todos, dos mais pobres à classe média, sofriam com os efeitos da paralisação econômica.

A retórica conta. Por isso, devemos compreender que a pandemia e o negacionismo das vacinas não representaram apenas um crime contra a população, mas também um profundo ataque ao espírito crítico do corpo social, de cujo alcance simbólico não nos demos conta.

E tamanha perda jamais será recuperada apenas pela apresentação racional dos fatos. O que se atacou durante a pandemia também foi a legitimidade da ciência, da razão e do bom senso, em prol de um discurso messiânico e altamente individualista que beirou o darwinismo social. A Dialética do Esclarecimento não nos ensinou que a própria racionalidade tem suas contradições? Nosso erro não pode ser achar que basta demonstrar os fatos para que a verdade se imponha. A razão não vence simplesmente porque dispõe dos fatos.

Pois o que há de mais explícito nos fascismos – e que torna toda essa conjuntura tão próxima do neofascismo, do qual a extrema direita sabe se utilizar tão bem – não é apenas a linguagem ou qualquer outra característica forçosamente comparada com aquilo que se viu na Europa. É também a construção permanente de conflitos internos, de inimigos e de uma sensação de perigo iminente, crise contínua e decadência moral.

Nada disso precisa ser materialmente experimentado por cada indivíduo para produzir efeitos políticos. As pessoas não precisam presenciar a ameaça em suas próprias vidas; basta que sejam mantidas sob a sensação permanente de que ela está em toda parte e pode alcançá-las a qualquer momento. E isso eles sabem fazer muito bem.

Se dormimos em 2026 e acordamos, no dia 4 de outubro, em 1964, apenas um enfrentamento claro e incansável, a partir de agora e pelos próximos anos, poderá impedir que, no dia 25, despertemos novamente em 22 de abril de 1500, retrocedendo mais de cinco séculos em nossa história.

 

Fonte: Por Sérgio Atieh, em A Terra é Redonda

 

O que falta para tornar a virada possível

Flávio Bolsonaro terminou o primeiro turno com 47,03% dos votos válidos; Lula, com 45,16%. A distância de aproximadamente 2,22 milhões de votos é suficientemente pequena para manter a disputa aberta e suficientemente concreta para exigir uma mudança de rumo. Outros 33,47 milhões de eleitores não compareceram às urnas. Não constituem uma reserva automática de nenhuma candidatura, mas lembram que o resultado ainda pode mudar. A questão decisiva, entretanto, ultrapassa a aritmética: Lula conseguirá apresentar uma razão para o futuro que seja mais forte do que o desejo de encerrar seu ciclo?

O Datafolha realizado em 2 e 3 de outubro oferecia uma fotografia anterior à votação: na simulação de segundo turno, Lula tinha 47%, contra 46% de Flávio, em empate técnico. Esse levantamento não descreve a disputa depois das urnas e tampouco pode ser comparado diretamente ao resultado de primeiro turno, que envolvia outros candidatos e outra base de cálculo. Sua contribuição mais interessante está nos recortes sociais: eles permitem questionar explicações fáceis sobre quem deseja mudança e por quê. Uma dessas explicações é a de que a esquerda envelheceu e perdeu os jovens. Suas principais lideranças nacionais, de fato, carregam a experiência da ditadura, das lutas sindicais e da redemocratização. Lula é a expressão mais evidente dessa longevidade. Mas a idade das lideranças não determina a idade de seus eleitores. A pesquisa da véspera mostrava precisamente o contrário da hipótese de abandono juvenil: o presidente tinha vantagem entre os mais jovens, assim como entre os mais velhos. O problema geracional é mais complexo do que uma oposição entre juventude conservadora e velhice progressista.

Na simulação direta, Lula registrava 52% contra 40% entre os eleitores de 16 a 24 anos e 51% contra 42% entre aqueles com 60 anos ou mais. Flávio liderava entre 25 e 34 anos, por 51% a 41%, e aparecia numericamente à frente entre 35 e 44 anos, por 50% a 42%, neste caso no limite do empate técnico. Entre 45 e 59 anos, havia praticamente igualdade: 47% a 46% para Lula. A curva era aproximadamente um U: o presidente mais forte nos extremos, o adversário no miolo da vida adulta. Esse desenho localiza uma dificuldade; não explica sozinho sua origem. A idade precisa ser relacionada às condições materiais. Em entrevista à BBC News Brasil, publicada pela Folha em janeiro de 2025, André Singer chamava atenção para a queda do apoio ao governo na passagem da renda familiar de até dois salários mínimos para a faixa de dois a cinco. Sua interpretação relacionava a insatisfação ao custo de vida e à fragmentação do trabalho: plataformas, informalidade e formas precárias de empreendedorismo enfraqueciam a experiência coletiva que havia dado origem ao PT. Essa hipótese ajuda a formular a pergunta correta: que expectativas de segurança e ascensão foram frustradas na vida de parte desses trabalhadores?⁠

Também mudou a relação com a história. Para quem não viveu politicamente a ditadura, a democracia é uma condição de partida, mesmo quando ameaçada. Direitos que precisaram ser conquistados por uma geração podem aparecer à seguinte como obrigações elementares do Estado. Isso não significa desprezar eleições livres, saúde ou educação; significa exigir que funcionem e que permitam avançar. A defesa da Constituição perde potência quando se resume à preservação institucional e deixa de expressar suas promessas de igualdade, desenvolvimento e bem-estar. Uma conquista histórica não pode transformar-se em justificativa para baixar as expectativas de quem veio depois.

Os primeiros governos Lula ficaram associados à experiência concreta de ascensão: entre 2003 e 2009, quase 30 milhões de pessoas ingressaram no estrato de renda então chamado de classe média. Essa classificação não eliminava vulnerabilidades nem convertia trabalhadores em proprietários, mas registrava uma mudança material importante. Em 2022, segundo o Diretor da FGV Social, passados 7 anos desde a crise econômica de 2015-2016, a situação desse extrato da população era sofrida e havia uma nova geração da classe C que não viveu uma escassez, o que faz com que ela se ressinta mais. No terceiro mandato, a melhora também aparece nos indicadores: segundo a Tendências Consultoria, em 2024 as classes A, B e C voltaram a reunir mais da metade dos domicílios brasileiros — 50,1%, marca que não era alcançada desde 2015. Esse retorno, porém, pode carregar um significado psicológico diferente. Para quem perdeu posição nos ciclos de recessão e estagnação, recuperar renda e capacidade de consumo pode ser vivido como restituição de condições que já considerava um direito conquistado, e não como chegada a um novo patamar de vida. Recuperar o que se perdeu importa, mas não necessariamente desperta a mesma percepção de transformação que experimentar uma conquista pela primeira vez. Essa memória ajuda a entender a força do lulismo e também o tamanho da cobrança que recai sobre ele: quem simbolizou a possibilidade de melhorar de vida passa a ser julgado pela capacidade de reabrir esse caminho.

O paradoxo já havia sido percebido em 2014. Uma análise de dirigentes do Datafolha descrevia os “filhos da inclusão” como um eleitorado mais escolarizado e exigente, cujas transformações não encontravam correspondência suficiente nas instituições e nos serviços. A inclusão não produz gratidão eleitoral permanente. Produz cidadãos com novas necessidades, capacidade de comparação e disposição para cobrar. Parte da frustração pode nascer justamente do sucesso anterior: depois de entrar na universidade, consumir mais ou melhorar a moradia, é razoável esperar trabalho compatível, serviços melhores e uma vida menos insegura. Ocorre que a trajetória posterior interrompeu muitas dessas expectativas. Uma parcela dos adultos de hoje conheceu, na infância ou na juventude, a promessa de ascensão e chegou à maturidade sob condições muito menos favoráveis. Diploma, esforço e jornadas extensas deixaram de parecer suficientes para construir patrimônio ou obter estabilidade. Não se trata de atribuir uma consciência única a milhões de pessoas, mas de reconhecer que a lembrança das conquistas passadas não garante ao PT eterna gratidão da classe trabalhadora. A direita radical encontrou espaço nessa distância entre promessa e experiência. Sua narrativa oferece responsáveis identificáveis: impostos, burocracia, corrupção, esquerda, judiciário politizado e com privilégios, bem como um “Estado burocrático” apresentado como obstáculo à prosperidade. Alguns desses problemas são reais; a operação política consiste em reuni-los numa explicação que promete libertar o indivíduo eliminando controles e proteções coletivas. O trabalhador submetido a relações econômicas desiguais é convidado a acreditar que vencerá sozinho se o poder público deixar de atrapalhá-lo. Uma esquerda que responda apenas com a celebração de seu passado deixa sem resposta a insegurança que torna essa promessa atraente.

A economia de 2026 contém essa contradição. A reportagem da Folha publicada na véspera da eleição descreveu avanços no emprego e na renda convivendo com dívidas elevadas. Em agosto, 82% das famílias tinham compromissos financeiros a vencer; 29,9% estavam inadimplentes. São conceitos diferentes: ter uma prestação não equivale a não conseguir pagá-la. Ainda assim, o quadro mostra por que um mercado de trabalho melhor não se traduz automaticamente em tranquilidade doméstica. Uma parte da renda que aumenta já chega comprometida com obrigações anteriores.⁠ Para quem enfrenta crédito caro, aluguel e prestações, a prosperidade se mede pelo que sobra e pelo que se consegue planejar. Um indicador nacional favorável não paga uma dívida individual. Isso não invalida os resultados do governo, mas nos obriga a compreender seus limites. Flávio explorou o endividamento e o custo de vida enquanto Lula destacou os recordes de emprego e renda. Assim a oposição conseguiu dar expressão política a contradições reais, apresentando-as como esgotamento do governo. Combatê-la exige enfrentar essas contradições, sem tratar a insatisfação como simples erro de percepção. O desgaste institucional acrescentou outra camada ao mal-estar. No Datafolha de setembro, 48% afirmavam não confiar no STF, contra 43% em março, recorde da série iniciada em 2012. Outros 14% confiavam muito e 35%, um pouco. A desconfiança atingia 69% entre os que declaravam voto em Flávio e 22% entre os de Lula. A pesquisa mostra a associação entre polarização e credibilidade da Corte, sem demonstrar qual fenômeno causou o outro. Defender a democracia, nesse contexto, exige também defender transparência, apuração de suspeitas e prevenção de conflitos de interesses. Porém, ao mesmo tempo que Lula defendeu a investigação de todos ministros envolvidos, fez questão de deixar claro que não é Delegado de Polícia, nem Juiz. Seu aliado político, Flavio Dino pediu vista do processo na famigerada sessão que decidiria a abertura ou não de inquérito contra Alexandre de Moraes. Defendeu genericamente mudanças na nomeação de ministros da Corte, mas não apresentou uma proposta concreta de reforma política ou do Judiciário. Essa postura vacilante contribuiu com a desconfiança do eleitor “independente”, que pendeu para aquele que fazia ataques mais veementes à corte e a ministros específicos.

⁠As bets aprofundam o encontro entre insegurança econômica e descrença. Sua trajetória atravessa três governos: a autorização das apostas esportivas de quota fixa foi aprovada pelo Congresso e sancionada por Temer em 2018; Bolsonaro encerrou o mandato sem concluir a regulamentação; Lula sancionou a Lei 14.790/2023, estruturando controles e incluindo também jogos online de quota fixa. É impreciso atribuir a Lula a origem de todo o mercado, assim como seria incorreto desconsiderar sua responsabilidade por consolidar o espaço legal da atividade. Fiscalização e arrecadação foram combinadas com a aceitação de um negócio cujos custos sociais já exigiam atenção.⁠ A promessa de dinheiro rápido encontra terreno fértil onde o trabalho parece incapaz de atender aos anseios materiais. Para parte dos apostadores, as perdas levam à tentativa de recuperação, a novas dívidas e ao sofrimento que passa a atingir a família. Acesso permanente pelo celular e ciclos rápidos dos cassinos online aumentam a exposição, que causa endividamento, vergonha e associação com ansiedade e depressão, que podem anteceder ou acompanhar a dependência. Não é necessário supor que todo apostador tenha um transtorno para reconhecer o problema: a exploração comercial da esperança pode agravar justamente a sensação de fracasso da qual promete oferecer uma saída. Dessa maneira, as bets, na conjuntura, ajudaram a aumentar o mal-estar econômico, com aumento do endividamento e desviando recursos de setores que poderiam ajudar no crescimento da economia.

⁠Em que pese a calcificação do perfil ideológico do eleitorado, como bem demonstrado por Felime Nunes e Thomas Traumann no seu livro “A Biografia do Abismo”, a força eleitoral do candidato não demonstra que todos os seus votantes compartilhem integralmente o projeto bolsonarista. É plausível, portanto, que o que tenha decidido o resultado do primeiro turno tenha sido um voto de punição daqueles eleitores independentes, que em 2022 acreditaram que com a volta de Lula, regressaríamos a uma nova era de bonança e mobilidade social acelerada, como foi nos seus primeiros governos. Assim, seria um equívoco político presumir que toda insatisfação pertence definitivamente à extrema-direita, bem como imaginar que ela se desfará apenas porque se relembrem os riscos do adversário. No entanto, o desejo pela mudança com Flávio contém contradição inescapável: representa, na verdade, o retorno de uma família que já governou o país e tem um projeto claro de desmonte democrático. João Moreira Salles reúne, na Piauí de outubro deste ano, declarações em que o candidato promete honrar o legado do pai e lhe reservar espaço num eventual governo. Não é preciso presumir que Jair controlará cada decisão do filho para reconhecer o conteúdo restaurador dessa candidatura. O desejo de sair do presente não informa, por si só, a direção da mudança. O mesmo texto de Salles oferece uma crítica que o campo progressista deveria levar a sério. Após expor os riscos do bolsonarismo, ele reconhece conquistas de Lula, mas aponta a ausência de um projeto de futuro. A força desse diagnóstico está em recusar a falsa escolha entre fazer autocrítica e defender a democracia. É possível considerar a candidatura de Flávio perigosa e, ao mesmo tempo, julgar insuficiente o horizonte oferecido pelo terceiro mandato. A segunda avaliação ajuda a explicar por que a primeira, isoladamente, já não convence como antes.⁠

Lula não precisa de um quarto mandato para assegurar seu lugar na história. Sua biografia já está inscrita na experiência política brasileira. O que precisa justificar é a utilidade de mais quatro anos para quem não deseja apenas recordar o que viveu ou conhecer o que aconteceu antes de nascer. Uma eleição não deveria funcionar como cerimônia de coroação. A memória de um governo só se transforma em promessa convincente quando permite imaginar o próximo passo. A pergunta central deixou de ser quanto o Brasil deve a Lula: passou a ser que país ele ainda se dispõe a ajudar a construir. É nesse sentido que cabe desejar o retorno do “Lula do Velho Testamento”: menos acomodado à administração dos limites, mais disposto a explicitar os conflitos que os produzem. Não se trata de abandonar negociação ou garantias democráticas. Trata-se de dizer quem ganha e quem perde com escolhas econômicas apresentadas como inevitáveis. A política recupera sentido quando torna esses conflitos inteligíveis e assume compromissos sobre como enfrentá-los. A luta de classes, nessa perspectiva, tem expressões bastante concretas: tempo de trabalho, custo do crédito, tributação do consumo, proteção patrimonial e distribuição do orçamento. Nesse sentido, é pedagógico quando Salles relatou o contraste entre a indignação empresarial com benefícios sociais e a observação do próprio André Esteves (BTG Pactual) sobre subsídios recebidos pelo próprio mercado financeiro. Um projeto de desenvolvimento nacional precisa distinguir a remuneração do investimento produtivo da proteção de ganhos que pouco contribuem para ampliar emprego, capacidade tecnológica e bem-estar.

⁠Há espaço social para essa discussão, mas não uma fórmula retórica infalível. Na Quaest de julho de 2025, 63% apoiavam aumentar impostos dos mais ricos para reduzir os dos mais pobres; ao mesmo tempo, 53% rejeitavam o discurso de “ricos contra pobres” por associá-lo à ampliação dos conflitos. A pesquisa também registrou oscilação favorável a Lula após o tarifaço de Trump, sem isolar suas causas. O recado é mais exigente do que a defesa de elevar o tom: propostas distributivas podem obter apoio mesmo entre pessoas que recusam a linguagem escolhida para apresentá-las. O confronto, portanto, precisa ter objeto, finalidade e resultado compreensíveis. Um projeto de futuro deve dar unidade a essa disputa. Reindustrialização, produtividade, ciência, inteligência artificial, soberania digital, transição energética, infraestrutura, ampliação massiva da malha metroferroviária e do Programa Minha Casa Minha Vida não podem aparecer como uma lista de anúncios. Precisam responder a uma pergunta comum: como o país produzirá mais riqueza, dominará tecnologias e converterá esses ganhos em melhores condições de vida? A Constituição já associa a ordem econômica à valorização do trabalho, à soberania nacional e à redução das desigualdades. Transformar esses objetivos em direção efetiva do Estado seria uma maneira de ligar a defesa democrática à transformação material que parte da sociedade reclama. Isso exige também disputar a reforma das instituições. Defender sua independência não significa considerá-las imunes a aperfeiçoamento ou indiferentes aos interesses que representam. Transparência, controle do poder econômico, responsabilização e participação social pertencem a uma agenda democrática. A alternativa à captura autoritária não pode ser a preservação de todos os arranjos existentes. O campo progressista precisa demonstrar que há mudanças institucionais capazes de ampliar direitos e outras capazes de concentrar poder, embora ambas possam ser apresentadas ao público com o mesmo vocabulário de renovação.

O primeiro turno tornou essa distinção mais urgente. O PL terá 28 das 81 cadeiras do Senado. A Folha identificou ao menos 49 senadores favoráveis ao impeachment de ministros do STF, ainda que com ressalvas, cinco abaixo dos 54 necessários à condenação. Esse conjunto não constitui uma bancada homogênea nem assegura votos em processos concretos. Ainda assim, mostra que a possibilidade de afastamentos deixou de ser apenas uma palavra de ordem distante. Sua execução dependeria de alianças, da condução do Senado e das circunstâncias de cada caso, num ambiente de pressão sobre a Corte. A renovação ordinária do Supremo amplia o alcance da eleição. À vaga deixada por Barroso somam-se as aposentadorias compulsórias de Fux, em 2028, e Cármen Lúcia, em 2029. Gilmar Mendes alcança a idade-limite em 30 de dezembro de 2030, o que deixa incerteza sobre o momento de sua substituição. A Folha apontou a possibilidade de quatro indicações. Cada nome depende de aprovação do Senado e a nomeação não garante fidelidade futura. Mas a autonomia formal não dispensa o exame das condutas: o comportamento dos atuais indicados por Bolsonaro fornece razões concretas para levar a sério o risco de alinhamento político.

⁠No caso de André Mendonça, a divulgação do relatório sobre Vorcaro e Moraes no início de setembro colocou o colega sob forte pressão às vésperas do 7 de Setembro, em plena campanha. Reinaldo Azevedo interpretou a atuação como intervenção orientada pelo calendário eleitoral; Igor Gielow, na Folha, também identificou benefício político para Flávio no momento da divulgação. Considero o episódio um indício relevante de convergência com o projeto bolsonarista. Isso não transforma intenção partidária em fato judicialmente provado nem dispensa apuração das suspeitas contra Moraes. Obriga, porém, a examinar a atuação de quem investiga com o mesmo rigor aplicado a quem é investigado. Nunes Marques oferece outro exemplo. Segundo a reportagem da Folha de 5 de outubro, ele pretende julgar a revisão criminal de Bolsonaro depois do segundo turno, independentemente do vencedor, e avalia libertá-lo por liminar. A matéria ressalva que levar o caso ao plenário é o cenário mais provável. Flávio conta com uma decisão favorável para subir a rampa acompanhado do pai; a PGR, por sua vez, pediu a rejeição da revisão. Há, portanto, uma intenção clara do ministro e uma expectativa política explicitada pela família. Somadas ao histórico de Mendonça, vê-se uma clara convergência política de setores do STF alinhados com o projeto bolsonarista de poder, deixando, portanto, de ser preocupação meramente abstrata.

⁠A hipótese formulada por Reinaldo Azevedo é a de que novas indicações, somadas a Mendonça e Nunes Marques, poderiam produzir maioria alinhada no Supremo; eventuais impeachments ampliariam essa possibilidade. Trata-se de um alerta importante no sentido de que uma transformação profunda no regime político pode ocorrer com um alinhamento entre Executivo, Congresso e STF por meio de uma nova correlação de forças altamente favorável para a extrema-direita. A presença formal das instituições, por si só, não assegura que continuem funcionando como limites recíprocos ao poder. As declarações de Flávio dão substância a essa preocupação. Em entrevista à Folha em junho de 2025, ele afirmou que o candidato apoiado pelo pai deveria garantir seu indulto e enfrentar eventual resistência do Supremo, chegando a mencionar o “uso da força”. O problema ultrapassa a influência pessoal de Jair sobre o filho. Está no compromisso de subordinar o funcionamento das instituições à reparação política reivindicada por uma família e por seu grupo.

A dimensão internacional também precisa entrar nessa avaliação. O tarifaço de Trump, associado à pressão em favor de Bolsonaro, já mostrou que interesses familiares podem buscar apoio externo com custos para o país. Nesse sentido, a interferência estrangeira se dá por meio de um grupo político radicado em solo nacional, como uma espécie de “quinta coluna”. Uma aliança política transnacional é capaz, assim, de interferir e ditar os rumos políticos do Brasil a partir de um centro nevrálgico em Washington. Um projeto democrático brasileiro precisa afirmar sua capacidade de decidir soberanamente os próprios rumos, negociar internacionalmente e proteger a sua população de interesses estrangeiros capitaneados por uma potência estrangeira.

A tarefa do campo progressista é, portanto, mostrar que segurança econômica e liberdade política podem avançar juntas. Quando a defesa institucional parece pedir resignação diante do sofrimento, ela se enfraquece. A superação desse impasse requer um programa capaz de dar uma base material ao conceito abstrato de democracia. É por isso que a aprovação e o início da execução de um plano nacional de desenvolvimento são o maior legado estrutural possível de um Lula 4. A Constituição já prevê planejamento estatal e planos nacionais. Falta transformar princípios abstratos em compromisso concreto de longo prazo, com metas produtivas e sociais, financiamento e responsabilidades. O plano deveria organizar a transformação industrial e tecnológica, a transição ambiental e a ampliação dos serviços públicos em torno de ganhos de produtividade distribuídos socialmente.

Do ponto de vista jurídico-institucional, isso exigiria uma agenda articulada de reformas monetárias, cambiais, fiscais e tributárias, com alterações constitucionais e legais específicas, sendo, portanto, dispensável uma nova Constituinte. Crédito de longo prazo, controle eficiente da conta de capitais, proteção do investimento público e tributação mais progressiva precisariam funcionar de modo coordenado, possibilitando, inclusive, com o aumento da produtividade, uma redução estrutural da taxa básica de juros da economia. Superar as amarras neoliberais significa, nessa perspectiva, criar um arcabouço normativo-econômico condizente com objetivos democráticos de desenvolvimento.

O debate sobre o Real ajuda a precisar essa diferença. O fim da hiperinflação foi uma conquista social duradoura, particularmente para quem não conseguia proteger sua renda. Mas os instrumentos usados para sustentar a estabilidade tiveram custos. Uma reportagem histórica da Agência Brasil examinou o peso dos juros elevados sobre a dívida pública, situação que permanece idêntica até os dias atuais, reduzindo, por isso, a margem orçamentária para realização de investimentos públicos, o que reduziu sobremaneira a competitividade nacional. Vencemos a hiperinflação, mas não asseguramos uma trajetória continuada de prosperidade. Estabilidade monetária e elevação da produtividade precisam integrar o mesmo projeto. Um presidente não realiza sozinho essa transformação. Reformas duradouras dependem de maioria parlamentar, coordenação federativa, capacidade administrativa e sustentação social. Precisam envolver trabalhadores, universidades, organizações civis e setores produtivos interessados em ampliar a capacidade do país. O consenso necessário não é unanimidade nem suspensão dos conflitos: é um acordo suficientemente amplo sobre objetivos, instrumentos e responsabilidades. Sem um movimento nacional, o plano corre o risco de tornar-se uma declaração de intenções. Sem metas, orçamento, transparência e avaliação, a mobilização pode perder tração e engajamento. Governo e a base social que o elegeu têm funções distintas, mas precisam atuar de maneira complementar.

A possibilidade eleitoral continua aberta. Os mais de 33 milhões de ausentes e os votos atribuídos a outras candidaturas permitem mudanças relevantes, sem assegurar sua direção. Nenhum desses grupos pertence previamente a Lula. Reconhecer esse espaço não autoriza minimizar o resultado de Flávio, mas impede tratar a derrota do primeiro turno como sentença definitiva. O desafio de Lula é apresentar uma perspectiva de futuro convincente até o dia da votação. A existência de projeto de país consistente importa tanto para conquistar o governo quanto para disputar democraticamente a sociedade caso se esteja fora dele. Mesmo que a virada nas urnas não venha, essa formulação pode transformar uma derrota eleitoral no início de uma vitória política futura. Um bloco democrático e soberano, unido por um projeto de desenvolvimento nacional e social, teria condições de organizar uma oposição coesa durante os quatro anos seguintes. A vitória do projeto bolsonarista implicará necessariamente em um projeto antipopular, com a subordinação dos interesses nacionais aos do centro político da extrema-direita mundial estabelecido em Washington e ao de setores da burguesia brasileira que defendem um ajuste fiscal agressivo com alta capacidade de enfraquecimento das redes de segurança social e econômica, capaz de frustrar a expectativa de prosperidade que o elegeu. Mas o desgaste de um eventual governo Flávio não seria automático: a oposição precisaria demonstrar a correlação entre seus atos e consequências e oferecer alternativas, sem esperar passivamente pelo fracasso adversário. Essa frente não precisa ficar restrita à esquerda. Pode reunir centro e setores democráticos da direita, desde que também eles se disponham a discutir novos marcos econômicos. Uma aliança que exige dos progressistas a revisão de suas posições, mas declara intocáveis as escolhas econômicas dos parceiros, nasce desequilibrada. Amplitude democrática precisa comportar negociação recíproca e compromissos públicos. Defender instituições é um ponto de encontro indispensável; construir um país capaz de oferecer trabalho, segurança e perspectiva de mobilidade social é o passo necessário para dar duração social a esse encontro.

Uma virada é possível, portanto, em dois sentidos. O eleitoral permanece incerto. O político começa quando a defesa de Lula deixa de se limitar ao que seus feitos do passado representam e passa a organizar o que o país pretende realizar. O candidato de 80 anos ainda pode disputar a ideia de futuro contra uma candidatura de restauração. Para isso, precisa vincular democracia, soberania e transformação econômica a um compromisso que ultrapasse sua própria biografia. Ganhar mais uma eleição seria decisivo; deixar uma força social organizada e um projeto nacional capaz de atravessar governos seria um legado mais duradouro. É essa possibilidade que torna a disputa relevante para além de seu resultado imediato.⁠

 

Fonte: Por Gustavo Vilas Boas, em Outras Palavras

 

A batalha das identidades entre petismo e bolsonarismo

Por trás da ostensiva polarização entre socialistas e conservadores, a ciência política e a sociologia identificam um fenômeno surpreendente: ambos os lados abandonaram suas matrizes ideológicas tradicionais para adotar a mesma gramática conceitual de matriz liberal. Em vez de centralizar o debate na luta de classes ou na preservação da ordem comunitária tradicional, a política contemporânea converteu-se em uma disputa em torno de identidades particulares. Essa virada não representa uma ruptura com o establishment, mas sim a consolidação da ideologia liberal, que reduziu o horizonte político à validação moral de grupos atomizados e à busca por reconhecimento individual.

No campo progressista, a mudança é nítida. Movimentos que historicamente lutavam por transformações estruturais da economia e pela solidariedade universal de classe passaram a priorizar a representatividade e a diversidade. Conforme sinaliza Nancy Fraser (2013) ao conceituar o “neoliberalismo progressista”, a pauta pela redistribuição de renda acabou eclipsada por demandas morais e de inclusão no próprio mercado capitalista. Já na crítica marxista ortodoxa, autores como Adolph Reed Jr. e Walter Benn Michaels (2020) denunciam que o identitarismo de esquerda funciona como uma ideologia burguesa que fragmenta a classe trabalhadora e debate apenas quem ocupa o topo da hierarquia social, sem jamais questionar a existência da própria estrutura de classes.

A resposta da direita a esse movimento consistiu em mimetizar exatamente a mesma estratégia. Conforme analisam Francis Fukuyama (2018) e Cas Mudde (2019), setores conservadores e de extrema-direita reordenaram suas pautas sob a lógica do ressentimento e da vitimização, posicionando maiorias históricas (como cristãos e populações “nacionais”) como “minorias perseguidas”. Essa “política de identidade de direita”, investigada por Rogers Brubaker (2020), utiliza o conceito de etnopluralismo para fundamentar o “direito à diferença” e a preservação cultural. O pleito pela contenção migratória ou pela rejeição a pautas progressistas passa a ser enunciado não como preconceito, mas como o exercício de um direito liberal de proteção comunitária.

Para compreender a origem dessa convergência, a teoria dos sistemas-mundo fornece um enquadramento histórico indispensável. Em Após o Liberalismo: Em Busca da Reconstrução do Mundo, Immanuel Wallerstein (2003) explica que o liberalismo se consolidou desde o século 19 como a “geocultura” dominante do capitalismo global, capaz de assimilar e domesticar suas principais oposições. Ao ingressarem nas regras do jogo constitucional e institucional, tanto socialistas quanto conservadores renunciaram a projetos sistêmicos de transformação. A ascensão contemporânea dos identitarismos em ambos os polos é o sintoma desse esgotamento: a gramática liberal dos direitos individuais e do reconhecimento moral tornou-se o único vocabulário disponível para a ação política.

No cerne dessa dinâmica está a primazia do sujeito autônomo, pilar do pensamento liberal clássico. Como aponta Charles Taylor (1992) em seus estudos sobre a “política do reconhecimento”, o imperativo da dignidade individual desdobrou-se na exigência de validação pública das identidades de grupo. Seja na afirmação de pautas de gênero e raça pela esquerda, seja na salvaguarda da liberdade de crença e expressão pela direita, a ferramenta empregada é invariavelmente o constitucionalismo de direitos. Do ponto de vista pós-liberal conservador, Patrick Deneen (2018) argumenta em Why Liberalism Failed que esse cenário é o resultado inevitável do triunfo liberal, que atomizou a sociedade e destruiu as mediações comunitárias tradicionais em nome da autossuficiência do indivíduo.

O efeito prático dessa simetria é a formação de uma “guerra cultural em espelho”, na qual cada lado alimenta o radicalismo do outro. Como observa Mark Lilla (2017) em The Once and Future Liberal, a insistência da esquerda em categorizar os cidadãos por pertencimentos de grupo fornece à direita a justificativa ideal para unificar a chamada “maioria silenciosa” em um novo bloco identitário reagente. Essa polarização estimula um ciclo ininterrupto de acusações mútuas que inviabiliza consensos universalistas, enquanto o ecossistema das plataformas digitais e a economia da atenção recompensam o tribalismo moral e a indignação imediata, suprimindo o debate sobre pautas econômicas transversais.

Essa mutação altera profundamente a função do espaço público e a saúde das instituições democráticas. A política deixa de ser uma arena para negociação de bens materiais escassos, como saúde, salários, trabalho e infraestrutura, e converte-se em um tribunal de validações simbólicas sobre a pureza moral dos discursos. Quando os conflitos políticos são enunciados em termos de identidades profundas e inegociáveis, o opositor partidário deixa de ser um concorrente legítimo e passa a ser percebido como uma ameaça existencial. Como alerta Wendy Brown (2019), esse esvaziamento do debate pragmático abre espaço para a proliferação de discursos autoritários que prometem proteger o indivíduo contra a dominação do grupo rival.

Em suma, o que aparenta ser um confronto radical entre esquerda e direita é, na realidade, a confirmação do triunfo e da hegemonia do liberalismo. Ao canalizarem suas energias para disputas morais e de representatividade particularista, tanto progressistas quanto conservadores renunciaram à construção de projetos de nação integradores e à articulação de alternativas reais ao modelo econômico vigente. No fim, a ruidosa batalha das guerras culturais atua como uma cortina de fumaça que oculta o consenso definitivo da política contemporânea: a aceitação do indivíduo atomizado e da busca pelo reconhecimento do seu grupo como o início e o fim de toda a ação pública.

A dinâmica da polarização política brasileira reflete com precisão esse enquadramento teórico, transformando o embate entre o Partido dos Trabalhadores (PT) e o bolsonarismo em uma disputa eminentemente identitária. Ao longo das últimas décadas, o petismo — originalmente gestado na luta sindical e nas pautas distributivas tradicionais — incorporou de forma central a gramática do reconhecimento das minorias, promovendo políticas de diversidade, cotas e representatividade. Embora esses avanços tenham sido cruciais para a inclusão social, a centralidade desse discurso alinhou a esquerda brasileira à tendência do “neoliberalismo progressista” (Fraser, 2013), deslocando o foco da crítica estrutural ao modelo econômico para uma pauta moral e de direitos individuais de grupos historicamente marginalizados.

Em reação direta a esse movimento, o bolsonarismo emergiu não apenas como uma oposição econômica ou partidária, mas como um projeto identitário de direita altamente articulado. Ao mimetizar a linguagem da vitimização (Fukuyama, 2018; Brubaker, 2020), o movimento construiu uma narrativa de resistência na qual a maioria cristã, a família tradicional e o “cidadão de bem” seriam a nova minoria perseguida por uma hegemonia cultural de esquerda. Amparado por um discurso que invoca o “preconceito religioso” e o direito à “liberdade de expressão”, o bolsonarismo apropriou-se da gramática liberal de proteção de direitos para defender valores conservadores, transformando a defesa da tradição em um ato de afirmação identitária reagente.

O resultado dessa espiral é a consolidação de uma “guerra cultural em espelho” que paralisa o debate sobre os grandes projetos de desenvolvimento nacional. A disputa política brasileira foi convertida em um tribunal de validações simbólicas, onde cada polo se retroalimenta do radicalismo do outro para engajar suas bases nas redes sociais. A oposição de valores inegociáveis – como as pautas de gênero e diversidade versus a moral cristã e a ordem tradicional – substituiu a deliberação pragmática sobre reforma tributária, infraestrutura, industrialização e serviços públicos essenciais, reduzindo a ação política à reafirmação de slogans e ao moralismo das bolhas digitais.

Em última análise, o embate entre petistas e bolsonaristas demonstra como a ideologia liberal absorveu o debate político no Brasil contemporâneo. A despeito do tom inflamado de lado a lado, ambas as correntes operam dentro da matriz do individualismo e do direito de pertencimento, renunciando à formulação de alternativas sistêmicas à dependência e à desigualdade estrutural do país. A ruidosa batalha das guerras culturais brasileiras funciona, assim, como uma cortina de fumaça: ao confinar a população na escolha entre duas comunidades morais antagônicas, preservam-se intactas as dinâmicas mais profundas da concentração de renda e do poder econômico.

 

Fonte: Por Rafael Cesar Ilha Pinto, em Opera Mundi

 

Vacinação pode evitar mortes por doenças virais; entenda a importância

Quando se fala em vacinação, automaticamente associamos a prática a bebês e crianças que são frequentemente levados pelos pais para se vacinar. Mas a proteção oferecida pelos imunizantes nessa faixa etária precisa se estender por toda a vida, e deixar de lado o calendário vacinal na fase adulta pode impulsionar no surgimento de doenças virais, muitas até perigosas e que podem levar ao óbito.

Um desses exemplos é o aumento do sarampo no Brasil. Segundo o Ministério da Saúde, ao menos 61 casos de sarampo foram registrados até outubro. Das 41 pessoas com a doença, 75% não estavam vacinadas.

Sábado (17), considerado o Dia Nacional de Vacinação, o tema ganhou atenção. Segundo o epidemiologista do Fleury, Dr. José Geraldo Leite Ribeiro, os imunizantes apresentam ao organismo versões enfraquecidas dos agentes causadores de doenças para estimular uma resposta imunológica. Dessa forma, o corpo já está preparado quando entra em contato com o microrganismo de verdade. Por este motivo, a vacinação é importante.

Assim, quando somos infectados, nosso sistema imunológico já está preparado para lidar com esse agente infeccioso. As vacinas podem ser importantes em qualquer idade, dependendo, naturalmente, das doenças.Dr. José Geraldo Leite Ribeiro, epidemiologista do Fleury

Uma fenômeno chamado imunossenescência, ou seja, a deterioração do sistema imunológico a partir dos 50 anos, também mostra a importância do calendário vacinal depois de adulto. Isso porque, com o envelhecimento dessa estrutura, o corpo abre espaço para contrair e deixar de combater uma gama de doenças, especialmente aquelas que podem levar à morte.

Com a imunossenescência, várias doenças se tornam mais graves a partir dos 50 anos, o que torna a vacinação extremamente importante nessa faixa etária.Dr. José Geraldo Leite Ribeiro, epidemiologista do Fleury

<><> Quais vacinas são as mais importantes?

Segundo o especialista, todos os imunizantes que integram o calendário do PNI (Programa Nacional de Imunizações), do Ministério da Saúde, são importantes.

Mas quando olhado por faixa etária, as vacinas contra a meningite e a pneumocócica, em especial a 20-valente são importantes para combater pneumonias graves na infância. Em adolescentes, a prioridade é a vacina contra o HPV, vírus associado a diferentes tipos de câncer.

Por outro lado, o epidemiologista explica que em alguns casos, como a vacinação contra a gripe, a imunização é a prioridade e deve ser mantida em todas as fases da vida. “Tanto as crianças quanto os idosos não devem jamais deixar de se vacinar contra a gripe e influenza, que costuma causar formas graves da doença nos extremos da vida”, reforça.

<><> Cenário climático também influencia

De acordo com a Organização Mundial da Saúde, alterações provocadas pelo El Niño indicam possibilidade de aumento de doenças transmitidas por vetores e pela água, como a dengue.

Segundo o órgão, durante episódios anteriores do El Niño, países das Américas enfrentaram importantes emergências de saúde, entre elas o ressurgimento da cólera na década de 1990, a epidemia de Zika e chikungunya em 2015-2016 e os níveis recordes de transmissão de dengue em 2023 e 2024.

Em 21 de dezembro de 2023, a vacina contra dengue foi incorporada no Sistema Único de Saúde (SUS). A inclusão da vacina da dengue é uma importante ferramenta no SUS para que a dengue seja classificada como mais uma doença imunoprevenível.

“Por isso, é muito importante que todas as pessoas com menos de 60 anos tentem se vacinar contra a dengue”, orienta o epidemiologista.

O imunizante contra a febre amarela também é oferecido pelo sistema público.

A orientação do Ministério da Saúde é que quem continua com doses em atraso deve procurar uma unidade de saúde para atualizar a caderneta.

¨      Incentivar população a se vacinar é um desafio no Brasil, diz especialista

Um dos principais desafios dos programas de vacinação no Brasil é continuar motivando as pessoas a se vacinarem quando elas não se sentem mais sob risco. A constatação foi feita pelo presidente da Câmara Técnica de Eliminação do Sarampo, Renato Kfouri, em entrevista ao CNN Agora, jornal da CNN Brasil, neste sábado (17), considerado o Dia Nacional de Vacinação.

É na natureza do ser humano. Infelizmente a gente busca proteção quando a gente se sente ameaçado. A gente viu isso na Covid-19 e nas campanhas de febre amarela. Quando a doença desaparece, como foi o sarampo, cria aquele ambiente de que eu adio, eu postergo, quando der eu vou tomar vacina. Infelizmente isso cria um terreno fértil para propagação de doenças.Renato Kfouri, Presidente da Câmara Técnica de Eliminação do Sarampo

Considerada erradicada e levando o país a receber um certificado de eliminação em 2016, o sarampo voltou à assombrar a saúde pública brasileira após o retorno da circulação do vírus em 2018. O período de maior concentração foi em 2019, quando foram registrados 21.741 casos da doença.

Em 2026, o sarampo segue em alerta. Até o momento, 61 casos de foram registrados no Brasil, segundo o último informe emitido pelo Ministério da Saúde. Todos são importados, ou seja, foram adquiridos fora do país e a maioria das pessoas não estavam imunizadas.

Além disso, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), a transmissão da doença em países das américas contabilizou o maior número de casos já registrados em mais de duas décadas.

Nos Estados Unidos, por exemplo, mais de cinco mil pessoas morreram por sarampo. "Então a gente precisa trabalhar nesses dois aspectos, e até para isso que nós estamos aqui, o dia das imunizações se presta também a isso. Lembrar que essas doenças estão longe de serem negligenciadas, sarampo mata, nos Estados Unidos vimos isso", conta o especialista.

<><> Vacina é a principal forma de combate ao vírus

O sarampo é uma das doenças infecciosas mais contagiosas do mundo, o diagnóstico pode evoluir para quadros mais graves e levar ao óbito. Por não possuir um tratamento específico, a imunização é uma das principais ações para conter o aumento do vírus.

Segundo o Kfouri, as vacinas são vítimas de "si próprias" e fazem "tanto sucesso" que acabam deixando as pessoas pouco preocupadas com a doença, fazendo um comparativo com medicamentos.

"As pessoas começam a tomar remédio, a fazer um tratamento. Aí meses depois estão ótimas, aí dizem: 'não preciso mais, porque eu já estou ótima'. Quando na verdade você está com a manutenção por causa do tratamento. Enfim, reflexões sobre essa cobertura vacinal e essa sensação de que a doença está distante, mas aí vem esses casos para lembrar pra gente que não", ressalta o especialista.

Os imunizantes apresentam ao organismo versões enfraquecidas dos agentes causadores de doenças para estimular uma resposta imunológica. Dessa forma, o corpo já está preparado quando entra em contato com o microrganismo de verdade. Por este motivo, a vacinação é importante.

Na última semana, a Organização Mundial da Saúde determinou que os países reforçassem sobre a importância do imunizante, visto o grande aumento de circulação da doença na região das Américas. No Brasil, a vacina é gratuita e pode ser adquirida pelo SUS (Sistema Único de Saúde).

 

Fonte: CNN Brasil