O
plano para derrotar Lula
Durante
semanas, a política brasileira foi apresentada como uma sucessão de episódios
aparentemente desconexos. A conversa entre Valdemar Costa Neto e o presidente
do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin. A tentativa do Partido Liberal de
reverter a situação jurídica de Jair Bolsonaro. O enfraquecimento da
candidatura de Flávio Bolsonaro. O rompimento com Michelle Bolsonaro. A perda
de protagonismo de Tarcísio de Freitas. O bloqueio de R$ 119 milhões em bens de
Valdemar determinado pelo ministro Flávio Dino. Ao mesmo tempo, a escalada das
pressões comerciais dos Estados Unidos contra o Brasil, a atuação internacional
da família Bolsonaro e a intensificação da disputa em torno da política externa
do governo Lula. Separados, esses fatos parecem obedecer a lógicas distintas.
Observados em conjunto, revelam algo muito maior: o início da reorganização do
tabuleiro político para a eleição presidencial de 2026.
O maior
erro das análises produzidas até aqui foi tratar cada movimento como uma reação
circunstancial. Não é assim que grandes disputas de poder são construídas.
Eleições contemporâneas começam muito antes da abertura oficial da campanha.
São preparadas pela reorganização das alianças, pela disputa de narrativas,
pela pressão sobre as instituições, pela construção de crises econômicas e pela
tentativa de moldar o ambiente cognitivo em que milhões de pessoas formarão sua
percepção da realidade. Antes de disputar o voto, disputa-se o terreno sobre o
qual o voto será formado.
É
exatamente isso que começa a acontecer no Brasil. A extrema direita ainda não
resolveu quem enfrentará o presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 2026. A
disputa entre Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro permanece aberta, enquanto
Jair Bolsonaro continua exercendo influência decisiva mesmo condenado e
impedido de disputar eleições. A aparente indefinição, porém, esconde um
movimento mais profundo. Antes de escolher um candidato, esse campo político
precisa reconstruir sua própria unidade, reorganizar sua base social, reduzir
suas divisões internas e criar um ambiente favorável para transformar a próxima
eleição em um julgamento permanente do governo Lula.
Essa
reorganização não ocorre apenas dentro dos partidos. Ela atravessa o sistema
político, alcança setores da elite econômica, mobiliza redes digitais, dialoga
com interesses internacionais e se projeta sobre instituições estratégicas do
Estado brasileiro. É nesse ponto que acontecimentos aparentemente independentes
começam a adquirir coerência. A pergunta central já não é quem será o candidato
da extrema direita. A pergunta decisiva é outra: qual estratégia está sendo
construída para alterar a correlação de forças antes que os brasileiros cheguem
às urnas? É essa arquitetura, ainda em formação, que este artigo se propõe a
reconstruir.
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Bolsonaro continua no centro do jogo
À
primeira vista, a insistência do Partido Liberal em tentar reverter a situação
jurídica de Jair Bolsonaro parece contraditória. O ex-presidente foi condenado,
está preso e enfrenta obstáculos jurídicos de enorme complexidade para voltar a
disputar eleições. Ao mesmo tempo, a própria direita já possui nomes colocados
para a sucessão, como Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Tarcísio de
Freitas. Se existem alternativas, por que insistir em Bolsonaro?
A
resposta é menos jurídica do que política. Jair Bolsonaro continua sendo o
único elemento capaz de manter unidas as diferentes correntes que hoje disputam
o comando da direita brasileira. Flávio carrega o sobrenome, mas enfrenta
desgaste político e dificuldades para ampliar sua candidatura além do núcleo
bolsonarista. Michelle possui forte capacidade de mobilização entre segmentos
religiosos e parte do eleitorado feminino, mas sua ascensão altera o equilíbrio
de poder dentro da própria família. Valdemar Costa Neto, por sua vez, domina a
máquina partidária, mas depende do capital político da família para preservar a
força eleitoral do PL.
É nesse
contexto que a movimentação recente do partido ganha outro significado. A
conversa de Valdemar com o presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson
Fachin, e a tentativa de reabrir a discussão sobre a situação jurídica de
Bolsonaro não devem ser analisadas apenas como iniciativas processuais. Elas
cumprem também uma função política: manter Bolsonaro no centro da disputa
enquanto a direita reorganiza suas próprias forças. Mesmo que a reversão da
condenação não se concretize, a simples manutenção dessa possibilidade adia a
definição do candidato, reduz o espaço para disputas internas e preserva
Bolsonaro como referência política e emocional de todo esse campo.
Esse
movimento produz ainda outro efeito estratégico. Enquanto Bolsonaro permanece
como candidato potencial, qualquer decisão judicial contrária pode ser
convertida em argumento de perseguição política, fortalecendo a narrativa de
que a direita estaria sendo impedida de disputar eleições em igualdade de
condições. Se, ao final, Bolsonaro não puder concorrer, a transferência de
apoio para um sucessor ocorrerá sobre uma base já mobilizada pela ideia de
injustiça e vitimização. Em outras palavras, a candidatura de Bolsonaro pode
cumprir uma função decisiva mesmo que jamais chegue às urnas. Mais do que
disputar a Presidência, ela organiza o tempo, a unidade e a narrativa da
extrema direita para 2026.
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A guerra dentro da direita
O
conflito que hoje atravessa a extrema direita brasileira não pode ser reduzido
à disputa entre Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro ou Valdemar Costa Neto.
Esses personagens expressam uma tensão muito mais profunda, que atravessa parte
significativa das elites econômicas e políticas do país. Pela primeira vez
desde a ascensão do bolsonarismo, parcelas importantes da direita passaram a
divergir não apenas sobre quem deve liderar esse campo, mas sobre qual projeto
de Brasil melhor preserva seus próprios interesses.
Essa
divisão nasce de uma contradição objetiva. Durante décadas, setores expressivos
da elite econômica defenderam um alinhamento quase automático aos Estados
Unidos como eixo da política externa brasileira. A realidade econômica do
século XXI, porém, modificou profundamente essa equação. O agronegócio depende
do mercado chinês, a mineração ampliou sua integração com a Ásia, a indústria
necessita de estabilidade para investir, e grandes projetos de infraestrutura
passaram a estar vinculados à expansão dos BRICS e à reorganização da economia
multipolar. Em outras palavras, uma parcela importante do empresariado continua
rejeitando o PT, mas também compreende que uma ruptura permanente com China,
BRICS e outros parceiros estratégicos produziria custos econômicos difíceis de
sustentar.
É
justamente nesse ponto que Tarcísio de Freitas ocupava uma posição singular.
Para setores empresariais, ele representava a possibilidade de preservar o
legado eleitoral do bolsonarismo sem aprofundar o isolamento internacional do
Brasil nem ampliar o conflito permanente com as instituições. Sua permanência
em São Paulo, entretanto, abriu espaço para que a família Bolsonaro retomasse o
controle da sucessão e recolocasse Jair Bolsonaro no centro da disputa. O
resultado foi o aprofundamento de uma crise que já não é apenas eleitoral. É
uma crise sobre qual estratégia permitirá à direita preservar poder sem romper
os interesses materiais de parte da própria elite que historicamente a
sustentou.
Essa
contradição ajuda a explicar por que o debate político brasileiro se tornou
muito mais complexo do que a tradicional polarização entre esquerda e direita.
Hoje coexistem, dentro do mesmo campo conservador, projetos que disputam o
futuro econômico, diplomático e institucional do país. De um lado, grupos que
continuam apostando no alinhamento estratégico com Washington como caminho para
reorganizar o poder interno. De outro, setores que permanecem conservadores e
frequentemente antipetistas, mas passaram a perceber que a estabilidade
institucional, a diversificação dos mercados e a preservação da autonomia
internacional do Brasil são condições indispensáveis para proteger seus
próprios negócios. A eleição de 2026 será atravessada por essa disputa silenciosa.
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A pressão externa e o preço da soberania
Seria
um erro interpretar a eleição presidencial de 2026 apenas como uma disputa
doméstica. Nos últimos meses, política interna, comércio internacional,
tecnologia, sistema financeiro e relações diplomáticas passaram a se entrelaçar
de maneira inédita. As tarifas impostas pelos Estados Unidos contra produtos
brasileiros, os questionamentos ao Pix, a ofensiva contra os BRICS, as pressões
sobre a política de regulação das plataformas digitais e as declarações
públicas envolvendo o governo brasileiro deixaram de ser episódios isolados.
Passaram a compor um ambiente de crescente tensão geopolítica que
inevitavelmente produz efeitos sobre a disputa eleitoral.
Essa
pressão não precisa assumir a forma de uma intervenção direta para alterar a
política brasileira. Em um mundo profundamente integrado por cadeias
financeiras, fluxos tecnológicos e mercados globais, o simples aumento dos
custos econômicos da autonomia já produz consequências políticas relevantes.
Tarifas afetam exportações, incertezas reduzem investimentos, conflitos
diplomáticos alteram expectativas dos mercados e disputas tecnológicas alcançam
empresas, plataformas digitais e sistemas de pagamento. Em seguida, esses
efeitos retornam ao debate político interno sob a forma de inflação,
instabilidade, queda de confiança ou percepção de crise.
É
justamente nesse ponto que interesses externos e disputas domésticas passam a
convergir. Para a extrema direita brasileira, a deterioração do ambiente
econômico pode ser convertida em argumento contra o governo Lula. Para setores
que defendem maior alinhamento estratégico aos Estados Unidos, a normalização
das relações diplomáticas passa a ser apresentada como solução para problemas
cuja origem, muitas vezes, decorre da própria pressão internacional. Cria-se,
assim, um ciclo político no qual a coerção externa é transformada em
instrumento de disputa eleitoral interna.
Essa
dinâmica ajuda a compreender por que temas aparentemente técnicos, como
comércio exterior, plataformas digitais, minerais estratégicos, infraestrutura,
inteligência artificial ou sistemas nacionais de pagamento, passaram a ocupar
posição central no debate político. A disputa deixou de ocorrer apenas em torno
de programas de governo. Ela passou a envolver o lugar que o Brasil ocupará na
reorganização da economia mundial nas próximas décadas. É nesse contexto que
soberania deixa de ser uma palavra abstrata para se tornar uma variável
concreta da disputa pelo poder.
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Fabricar o ambiente da derrota
As
eleições contemporâneas deixaram de ser disputas centradas apenas na conquista
de votos. Antes de convencer o eleitor, tornou-se necessário construir o
ambiente em que esse eleitor interpretará a realidade. A política passou a
disputar algo mais profundo do que preferências partidárias: disputa a
percepção dos fatos, a hierarquia dos problemas e a própria capacidade da
sociedade de distinguir acontecimentos estruturais de crises fabricadas. Quem
controla esse ambiente chega à campanha em vantagem antes mesmo da primeira
propaganda eleitoral.
É por
isso que a extrema direita não precisa demonstrar que o governo fracassou em
todas as áreas. Basta deslocar permanentemente o centro do debate. Enquanto o
governo procura discutir crescimento econômico, emprego, investimentos,
política industrial ou inserção internacional, o ambiente informacional pode
ser ocupado por uma sucessão de crises envolvendo violência urbana, corrupção,
conflitos institucionais, ataques religiosos, insegurança pública, escândalos
políticos ou disputas morais. O objetivo não é provar uma tese. É impedir que
outra consiga se consolidar.
As
plataformas digitais ampliaram essa capacidade de maneira inédita. Redes
coordenadas, sistemas automatizados, produção massiva de conteúdo por
inteligência artificial e segmentação algorítmica permitem que diferentes
públicos recebam versões distintas da realidade ao mesmo tempo. Policiais,
evangélicos, empresários, caminhoneiros, agricultores, investidores ou
servidores públicos podem ser expostos diariamente a narrativas produzidas
especificamente para suas preocupações, medos e expectativas. A guerra informacional
deixa de operar como propaganda de massa e passa a funcionar como uma sucessão
de operações cirúrgicas dirigidas a comunidades específicas.
Nesse
ambiente, a fraude mais eficiente já não é necessariamente aquela que tenta
alterar o resultado da votação. É a que procura alterar a percepção do eleitor
antes que ele vote. Documentos falsificados, vídeos sintéticos, pesquisas
manipuladas, perfis artificiais, campanhas coordenadas de desinformação e
episódios reais reinterpretados de forma estratégica passam a integrar uma
mesma arquitetura de influência. O objetivo não é convencer toda a sociedade da
mesma narrativa. É produzir dúvida suficiente para fragmentar a confiança
coletiva e impedir a formação de uma compreensão compartilhada da realidade.
É
justamente nesse ponto que a disputa eleitoral se transforma em disputa
cognitiva. A eleição deixa de ser decidida apenas pelo desempenho dos
candidatos e passa a depender da capacidade de organizar o ambiente psicológico
no qual milhões de pessoas formarão suas escolhas. Antes da urna, disputa-se a
percepção. Antes da percepção, disputa-se a realidade que chegará à tela de
cada cidadão. Quem conseguir fabricar esse ambiente não controlará apenas a
narrativa da campanha. Controlará as condições sob as quais a própria
democracia será percebida.
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A batalha decisiva começa depois da batalha
Existe
um equívoco recorrente na forma como costumamos interpretar eleições.
Imagina-se que toda a estratégia política converge para o dia da votação. Na
realidade, para movimentos que disputam hegemonia, o objetivo não é apenas
vencer eleições. É preservar capacidade de poder antes, durante e depois delas.
Sob essa perspectiva, a reorganização da extrema direita para 2026 revela uma
característica importante: ela precisa funcionar em diferentes cenários,
inclusive na derrota.
Se Jair
Bolsonaro recuperar condições jurídicas para disputar, a direita preserva sua
principal liderança política e emocional. Se isso não ocorrer, sua candidatura
continua cumprindo outra função: manter unido um campo político fragmentado até
o momento da escolha do sucessor. Se Flávio Bolsonaro se consolidar, o capital
político da família permanece concentrado. Se Michelle Bolsonaro demonstrar
maior competitividade, sua candidatura poderá ser incorporada como alternativa.
As alternativas mudam. A estratégia permanece.
O mesmo
raciocínio vale para o ambiente político. Caso a extrema direita vença a
eleição, encontrará um cenário previamente preparado por anos de mobilização
social, guerra informacional e reconstrução de alianças. Se perder, a
estratégia não necessariamente se encerra. A contestação das instituições, a
pressão internacional, a radicalização do conflito político, a mobilização
permanente das redes digitais e a obstrução parlamentar podem prolongar a
disputa para além das urnas. O objetivo deixa de ser apenas conquistar o
governo. Passa a ser limitar a capacidade de governar de quem vencer.
É
justamente por isso que reduzir a eleição de 2026 à escolha entre dois
candidatos significa observar apenas a superfície do problema. O que está em
disputa é a capacidade do Estado brasileiro de preservar estabilidade
institucional, autonomia econômica e soberania política diante de uma disputa
que ultrapassa os calendários eleitorais. A campanha terminará. A disputa
estratégica continuará.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247




