quarta-feira, 28 de outubro de 2026

Edgar Silva dos Anjos: A vitória que não encerra a disputa

Na véspera da votação, a última rodada do PoderData, feita em 23 e 24 de outubro, dava 51% a 49% para Flávio Bolsonaro. Quaest e Datafolha falavam em empate técnico, e um estudo do BTG havia examinado 27 cenários para o segundo turno sem encontrar um único em que Lula passasse à frente. No domingo, as urnas devolveram 64,3 milhões de votos a Lula, 51,79% dos válidos, contra 59,8 milhões de Flávio, 48,21%. Uma diferença de 4,4 milhões de votos que a maior parte das pesquisas não viu chegar.

Entre um turno e outro, Lula somou 10,4 milhões de votos, e Flávio, 3,7 milhões. O presidente venceu nos nove estados do Nordeste, em 13 unidades da federação ao todo, e virou Minas Gerais, onde terminou com 50,43% dos válidos depois de ter perdido o estado no primeiro turno. Flávio levou outros 13 estados e o Distrito Federal, entre eles São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo, e manteve o domínio no Sul e no Centro-Oeste.

O alívio é legítimo, e a vitória tem consequências concretas. Impede o retorno do bolsonarismo à Presidência, preserva direitos, mantém aberto o espaço institucional das políticas públicas e mostra que ainda existe força popular capaz de reagir quando a democracia é ameaçada. O risco está em transformar o alívio em explicação, e o resultado deixa sem resposta como chegamos, mais uma vez, à beira de uma derrota evitável.

No primeiro turno, Flávio teve 56,1 milhões de votos, 47,03% dos válidos, contra 53,9 milhões de Lula, 45,16%. Lula perdeu cerca de 3,38 milhões de votos em relação a 2022, viu Minas escapar e encontrou no Nordeste uma sustentação que já não bastava para compensar a força conservadora do resto do país. Sem Jair Bolsonaro na urna, o bolsonarismo continuava capaz de organizar uma maioria relativa.

A campanha de Flávio entendeu cedo algo que a do governo demorou a entender. Não precisava explicar o país, bastava reunir insatisfações dispersas numa narrativa que qualquer eleitor pudesse repetir no almoço de domingo: o salário não rende, a cidade dá medo, o pequeno negócio afunda em dívida, os filhos não veem saída. E oferecia um responsável identificável, Lula, o PT, o governo. O eleitor de Flávio tinha uma frase pronta. O de Lula, muitas vezes, precisava de um seminário.

Essa diferença tem nome na tradição que vem de Gramsci. Trata-se da disputa pelo senso comum, o conjunto de explicações que circula na família, no trabalho, na igreja, no ônibus, no balcão do comércio e na tela do celular, a linguagem com que a população interpreta a própria vida. O governo podia exibir números de emprego, renda e investimento. O trabalhador que segue enfrentando jornada exaustiva, transporte precário, aluguel alto e conta que não fecha precisava reconhecer nesses números alguma coisa da sua semana. Onde a melhora não chegava ou permanecia insuficiente, nenhuma síntese de campanha poderia substituí-la. Logo depois do primeiro turno, em “Lula, Flávio e a disputa pelo senso comum”, publicado no GGN, descrevi esse conflito como o de um projeto político contra uma senha de circulação popular.

Em março, em “2026: por que não basta apenas vencer eleições”, publicado em Outras Palavras, sustentei que vitórias eleitorais, sozinhas, não reorganizam a base social do país nem desfazem a presença material do adversário na vida cotidiana. A vitória de 2022 havia interrompido um projeto de poder sem desmontar as estruturas políticas, culturais e econômicas que o sustentavam. O primeiro turno de 2026 mostrou o tamanho dessa distância.

Mostrou também o ritual que a esquerda transformou em álibi. A cada derrota municipal, a cada avanço da extrema direita, reaparece o diagnóstico de que é preciso voltar às bases, aos bairros, aos trabalhadores, aos espaços de convivência, e a repetição do diagnóstico passa a ocupar o lugar de sua execução. As bases são relações construídas todos os dias, com presença, escuta, conflito e resposta. Um partido que só aparece no território para pedir voto encontra pessoas que aprenderam a organizar a vida sem ele.

O choque de outubro teve ainda um componente silencioso. Parte dos eleitores que as pesquisas associavam a outras candidaturas conservadoras terminou em Flávio, num voto útil que não precisou de ato, camiseta ou postagem para existir. Foi a soma desse voto discreto com a força social conservadora e a dificuldade de comunicação do governo que produziu a derrota no primeiro turno.

A reação veio depois, com uma intensidade que expôs o quanto havia sido desperdiçado antes. Os estudantes saíram na frente. Em 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno, a UNE lançou a campanha Estudantes com Lula, e no dia 8 houve atos em ao menos 13 estados e no Distrito Federal, Minas inclusive. As manifestações chegaram a 11 capitais, e na Avenida Paulista o ato ocupou 12 quarteirões, com bandeiras que cabiam numa faixa: ensino público, Pé-de-Meia, universidades e institutos federais, fim da escala 6×1. Militantes voltaram às ruas, setores da esquerda que mantinham críticas duras ao governo entraram na campanha, e a campanha institucional, fria e distante do primeiro turno, cedeu lugar à volta de Lula aos atos presenciais e a uma mobilização que tomou as ruas e as redes ao mesmo tempo.

A leitura que já circula atribui a virada ao fato de a esquerda ter, enfim, aprendido a usar as redes. Trata-se de uma leitura que confunde o instrumento com o problema. O que o segundo turno exigiu foi a capacidade de traduzir conteúdo político em síntese, numa disputa de narrativa que o algoritmo comprime em um minuto e meio, sob pena de perder a retenção de quem assiste. Essa compressão tem dois gumes. Favorece narrativas pobres, baratas e fáceis de falsificar, e ao mesmo tempo oferece ao eleitor comum a chance de se apropriar de um debate que a linguagem institucional mantinha à distância.

É precisamente aqui que a questão das redes reencontra a disputa pelo senso comum. A síntese exigida pela tela do celular é a mesma que o trabalhador exige na conversa do ônibus, no balcão do comércio, na fila do posto de saúde: explicar a política pela vida concreta, em palavras que o outro reconheça como suas. A volta às bases, tantas vezes anunciada e tão pouco executada, tem esse conteúdo material. Ela se mede pela capacidade de conversar com o pobre e com o cidadão comum sobre a jornada, a dívida, o aluguel e o medo, e pouco tem a ver com o volume de postagens.

A participação acompanhou a mobilização. A abstenção do segundo turno ficou em 19,22%, a menor num segundo turno presidencial desde 2006. Quase 3 milhões de eleitores a mais compareceram em relação ao primeiro turno, e brancos e nulos somaram 1,8 milhão de votos a menos.

A escolha dos temas seguiu a mesma gramática. O fim da escala 6×1 dispensa mediação, e quem trabalha seis dias para descansar um sabe o que significa ter tempo para os filhos, para estudar, para a família, para viver. Pressionado, Flávio mudou de posição e anunciou voto favorável quando o Senado votou o fim da escala, em 14 de outubro, e a direita teve de responder a uma agenda que não havia escolhido. O Prospera MEI, lançado em 13 de outubro, a 12 dias da votação, propôs perdoar R$ 12,6 bilhões em dívidas tributárias de cerca de 3,6 milhões de microempreendedores, comprar dívidas bancárias com descontos acima de 90%, criar um Pix MEI de até R$ 5 mil e elevar o teto de faturamento para R$ 140 mil até 2028. Eram medidas que o governo poderia ter tomado muito antes e que só chegaram quando a derrota se tornou possível.

A 6×1 fala ao assalariado esmagado pela jornada. A agenda dos MEIs fala a quem trabalha por conta própria sob a pressão permanente da dívida, um universo que a direita soube associar à autonomia individual e à desconfiança do Estado. As duas pautas se encontram no mesmo ponto, uma linguagem política organizada em torno da vida material.

Em maio, ao escrever sobre a guerra de imposição de custos a partir do áudio em que Flávio cobrava dinheiro de Daniel Vorcaro, sustentei que, numa eleição de bases consolidadas, o escândalo deixa de ser instrumento de queda e passa a ser instrumento de atrito, e que a vantagem seria do campo capaz de manter o adversário mais tempo na defensiva. O segundo turno confirmou essa tese. A Polícia Federal apura se Flávio solicitou e intermediou repasses de Vorcaro, dono do Banco Master, para financiar o filme biográfico do pai, e a investigação fala em R$ 61 milhões. Em outubro, em plena campanha, a PF apontou o senador como “usuário master”, com acesso e gerenciamento, da conta de uma offshore ligada ao banqueiro, preso ao tentar deixar o país sob acusação de um esquema que causou um rombo de R$ 47 bilhões no Fundo Garantidor de Créditos. O desgaste não derrubou a candidatura, nem precisava. Consumiu tempo, empurrou a campanha para a defesa e produziu hesitação justamente entre os eleitores menos comprometidos.

O medo entrou na mesma conta. Flávio falou em mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, referindo-se ao Judiciário, à maioridade penal e ao fim da reeleição, e repetiu referências à soltura do pai, condenado a 27 anos de prisão por tentativa de golpe. A campanha de Lula, do seu lado, falou da perda de benefícios e de políticas públicas que mexem na mesa de cada família. A redução da maioridade penal, prevista no plano de governo para 16 anos, ganhou vídeo de Flávio em 14 de outubro, no mesmo dia em que o Senado votava a 6×1, e foi esticada para 14 anos em crimes hediondos no debate da Band, em 18 de outubro. Era a tentativa de recuperar o terreno da segurança no momento em que cedia no terreno do trabalho, e seu efeito em votos ainda está por medir.

A virada não se explica só pelo acerto de um lado. O outro errou, e errou no centro da própria estratégia.

No primeiro turno, Flávio venceu oferecendo ao eleitor um responsável. No segundo, trocou o alvo pelo espelho. Passou a conduzir a campanha como se a eleição fosse sobre ele e a administrar os votos que julgava garantidos, como quem faz a manutenção de um patrimônio, enquanto os próprios aliados temiam que o resultado de 4 de outubro tivesse alimentado uma confiança excessiva. Só na última semana a campanha tentou sair da defensiva e intensificar os ataques a Lula. Em 18 de outubro, na Avenida Paulista, diante de cerca de 71 mil apoiadores, Flávio projetou a própria vitória e prometeu que o pai, condenado por tentativa de golpe e cumprindo pena, estaria na posse. Numa eleição decidida pela rejeição, quem passa a falar de si coloca um alvo nas próprias costas. A guerra de imposição de custos tem essa face pouco observada, em que o custo pode ser imposto pelo adversário ou autoimposto por quem se oferece como alvo.

O Nordeste expôs o mesmo erro em outra escala. Para disputar a principal base de Lula, a campanha apostou numa série de vídeos do deputado Nikolas Ferreira, entre eles “O Nordeste que foi esquecido”, questionada por encenação e pelo uso de estrutura profissional para retratar a pobreza da região, e aliados de Flávio admitiram depois que a aposta foi um erro. Lula somou cerca de 2,95 milhões de votos no Nordeste entre os turnos, e Flávio, 397 mil. Em Luís Eduardo Magalhães, na Bahia, onde um dos vídeos foi gravado, a votação de Lula cresceu 22%, e a de Flávio, 3%. Do outro lado, Lula havia entregado a articulação, a agenda e a comunicação da campanha a Camilo Santana, Rui Costa e Rafael Fonteles, três nomes da região. O Nordeste devolveu a encenação com voto.

O debate da TV Globo, em 23 de outubro, condensou o erro numa cena. Lula perguntou por que Flávio havia atuado na defesa do policial militar acusado pelo Ministério Público de matar Ana Clara, menina de 5 anos atingida por um tiro de fuzil quando brincava na porta de casa, em Niterói, em 2021. A mãe, Cristiane, estava na plateia. Flávio se dirigiu a ela chamando-a pelo nome da filha morta, ofereceu solidariedade e, na mesma fala, disse confiar que o tiro não partira do policial que ele próprio ajudara a defender. Cristiane gritou da plateia que a menina estava morta. Nenhuma propaganda adversária produziria aquele custo, imposto pelo próprio candidato, ao vivo, a dois dias da votação.

Enquanto a esquerda encontrava o tom, a direita errava a mão. A campanha que havia imposto sua narrativa no primeiro turno passou o segundo respondendo, e quando não respondia, falava de si.

Esse erro ilumina a tese que formulei em abril, em “O perigo não é a repetição de Bolsonaro, é sua adaptação”, também publicado em Outras Palavras. A hipótese era que a extrema direita poderia mudar a forma de apresentação sem abandonar o projeto de poder, e que Flávio seria a figura capaz de tornar esse projeto mais funcional, oferecendo ao sistema uma superfície menos ameaçadora que a do pai. Em agosto, em “Eleições e a ameaça do bolsonarismo adaptável”, observei que a imposição de custos explicava por que Flávio havia sobrevivido aos escândalos, e a adaptação explicava o que ele fez com a sobrevivência: reconstruiu a equipe econômica com quadros da era Guedes, trocou o marketing, afastou os parentes mais custosos e concentrou a campanha em segurança e custo de vida. A aproximação com o Centrão e a distribuição antecipada de ministérios, com a disputa ainda aberta, fizeram parte do mesmo movimento.

O segundo turno mostrou o limite dessa plasticidade. Quando a pressão subiu, a superfície rachou e o núcleo reapareceu, com o pai no centro do palanque, a Constituição na mira e a defesa do policial acusado diante da mãe da vítima. A tentativa de ampliar a aceitação da candidatura entrou em conflito com os compromissos que sustentavam sua base. Confrontada com a vida concreta da população, a campanha teve de escolher entre defender posições anteriores, assumir contradições ou incorporar a agenda adversária, e fez as três coisas ao mesmo tempo.

O texto de abril já apontava a dimensão internacional da adaptação, a passagem de um populismo doméstico para a integração em redes globais de poder, com os minerais críticos no centro. Em 28 de março, na CPAC, no Texas, Flávio havia dito que o Brasil era “a solução dos Estados Unidos para romper a dependência da China em relação a minerais críticos, especialmente terras raras”, e em maio se reuniu com Donald Trump para prometer uma parceria estratégica de longo prazo. O Brasil tem a segunda maior reserva mundial desses minerais, decisivos para a indústria tecnológica, a transição energética e a produção militar. Estava em jogo, além de quem governaria o país, quem decidiria o destino de recursos estratégicos e em benefício de quem.

Os jovens ajudam a entender o que as pesquisas não viram. Em junho, em “A eleição congelada e a juventude que ainda se move”, também em Outras Palavras, observei que a margem da eleição era jovem: com as bases consolidadas, o resultado se decidiria no eleitorado que menos havia se fixado, e esse eleitorado tinha idade. No segundo turno, o PoderData dava 53% a 42% para Lula entre os eleitores de 16 a 24 anos, mas era também a faixa com menor certeza de comparecer, 88%. No primeiro turno, a abstenção entre os eleitores de 16 e 17 anos já havia caído de 17,1%, em 2022, para 12,7%. Se os jovens compareceram acima do previsto no dia 25, ali está parte da onda que escapou aos institutos, e a confirmação depende dos dados por faixa etária que o TSE ainda não divulgou.

Os mais velhos também ampliaram sua presença. No primeiro turno, a abstenção entre quem tem mais de 70 anos, para quem o voto é facultativo, caiu de 58,86% em 2022 para 49,19%. As pesquisas, porém, davam vantagem a Flávio entre os eleitores de 60 anos ou mais, e o comparecimento dessa faixa não pode ser lido como voto em Lula sem os números do segundo turno. Os agregados mostram três fontes possíveis da virada, o comparecimento maior, a queda dos brancos e nulos e a migração de eleitores das candidaturas eliminadas, num cenário em que Caiado, Zema e Augusto Cury apoiaram Flávio. O peso de cada uma segue em aberto.

A juventude disputada nesta eleição cresceu num país já transformado pelos primeiros governos petistas e quer saber outra coisa. Quer saber por que estuda e não encontra emprego à altura da formação, por que trabalha e não sai da casa dos pais, por que o transporte come horas do dia e a cidade oferece tão pouca cultura, lazer e convivência. A memória das conquistas passadas não substitui uma perspectiva de futuro, e nenhuma geração nasce devendo fidelidade política a quem governou antes dela.

Nas periferias, essa juventude faz política fora dos partidos e sindicatos, no hip-hop, no funk, nos coletivos culturais, no esporte, nas igrejas, com destaque para as evangélicas, nas redes de amizade e nos modos de ocupar a cidade. São sujeitos que já produzem linguagem, organização e interpretação sobre o país, e onde a esquerda não está de forma continuada, outras forças disputam esses sentidos. A cultura entra aí como dimensão da organização política, e cabe mal no papel de decoração de comício ou de influenciador contratado para a reta final. É ali que o senso comum se forma, muito antes de chegar ao algoritmo.

A unidade do segundo turno também recolocou uma divergência que a urgência eleitoral não resolve. Setores comunistas e organizações da esquerda radical participaram da mobilização contra Flávio sem abandonar suas críticas ao lulismo. Parte dessa crítica atribui as dificuldades do governo à moderação e cobra maior disposição de enfrentamento. Há razões para essa cobrança. A acomodação pode frustrar expectativas, preservar interesses dominantes e enfraquecer a capacidade de mobilização. Mas a disposição de enfrentar, por si só, não explica como vencer a resistência nem como sustentar as mudanças depois dela.

Em “Como reformas acumulam futuro”, propus avaliar a profundidade de uma reforma também pelas capacidades que ela deixa para a transformação seguinte. Renda, educação, cultura, instituições e desenvolvimento produtivo ampliam possibilidades reais, mas não se convertem automaticamente em organização e poder político. Essas conquistas têm valor próprio, mesmo quando não produzem adesão ao governo. Sua continuidade e ampliação, porém, dependem de uma força que precisa ser construída. O confronto pode fazer parte dessa construção, formando sujeitos, revelando interesses e ampliando apoio. Também pode consumir uma força que não encontra meios de sustentar o que conquistou. A conciliação, por sua vez, precisa ser julgada pelo que permite acumular e pelos interesses que continua protegendo.

É nesse ponto que a insuficiência dos governos petistas precisa ser discutida. A correlação de forças limita a ação, mas também é modificada pelas escolhas realizadas durante o mandato. Cobrar mudanças mais profundas exige perguntar que organização social, capacidade estatal e sustentação parlamentar poderiam realizá-las. Defender as conquistas exige perguntar o que foi feito para ampliar essa força. A crítica alcança tanto o governo que administra seus limites sem trabalhar para alterá-los quanto as organizações que cobram ruptura sem construir os meios de sustentá-la. O governo pode ampliar condições de participação e abrir disputas; partidos, sindicatos e movimentos precisam construir organização e autonomia. Nenhuma dessas responsabilidades se resolve esperando que o outro faça sua parte.

Essa força também precisa alcançar os lugares onde as decisões se tornam leis, orçamento e capacidade de execução. O país que sai das urnas entrega a Lula um Congresso mais à direita. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido desde 1988, e terá 28 senadores a partir de 2027, também um recorde. A direita ocupará 303 das 513 cadeiras da Câmara, e a esquerda, 124. Lula terá sete governadores aliados, e Minas Gerais, onde ele virou a disputa presidencial, entregou o governo do estado a Cleitinho, do Republicanos, com 55,40% dos votos. Flávio perdeu com 59,8 milhões de votos, e o movimento que ele representa segue no Congresso, nos estados, nos municípios, nas igrejas e nas plataformas, em estruturas que não dependem do calendário eleitoral.

A vitória de outubro devolve o campo progressista a um problema que não se resolveu em quatro anos. Depois de 2022, havia tempo para transformar a conquista do governo em presença social duradoura. O governo realizou políticas importantes, mas o bolsonarismo preservou suas redes, renovou suas alianças e preparou uma candidatura capaz de terminar o primeiro turno à frente de Lula. Governo, partidos e organizações populares não conseguiram converter o conjunto dessas conquistas numa força duradoura capaz de ampliar sua sustentação. A mobilização do segundo turno mostrou que havia capacidade de reação, mas ela só ganhou aquela escala quando a derrota já batia à porta.

Não basta apenas vencer eleições porque as condições de uma derrota futura continuam sendo produzidas entre uma eleição e outra. Estão no bairro onde o partido desaparece, no trabalhador que recebe uma política pública sem encontrar espaço para participar de sua construção, no jovem que ouve falar das conquistas do passado enquanto procura alguma perspectiva para a própria vida. É nesse cotidiano que a direita organiza pertencimento, oferece explicações e prepara seus próximos candidatos.

A urna decide quem governa. Não decide, sozinha, quem organiza a sociedade. Uma política pública pode melhorar a vida de milhões sem que seus beneficiários encontrem meios de participar, defender sua continuidade e disputar sua ampliação. A realização administrativa precisa deixar também capacidade coletiva: gente organizada, lideranças formadas, espaços de decisão e força para enfrentar os interesses que resistem à mudança. Sem isso, as conquistas ficam mais vulneráveis às mudanças de governo. Os próximos quatro anos serão avaliados também pela capacidade de transformar a força de outubro em participação, organização e poder de decisão depois da campanha.

O bolsonarismo não precisou vencer esta eleição para mostrar sua força, e a esquerda não precisou perdê-la para conhecer suas fraquezas. Em março, escrevi que não bastava vencer eleições. Outubro mostrou o custo de conquistar o governo sem construir a força social necessária para sustentar e ampliar suas mudanças.

 

Fonte: Outras Palavras

 

Lula precisará transformar partidos bolsonaristas em aliados para conseguir governar, aponta Sérgio Abranches

Passada a euforia da sua reeleição, no domingo (25/10), Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve começar a se preparar para o seu último mandato como presidente do Brasil, que, para muitos, pode ser o mais difícil de todos.

Para conseguir construir maiorias significativas dentro de um Legislativo com uma oposição fortalecida, Lula precisará contornar a rivalidade acirrada que se formou na eleição para atrair legendas bolsonaristas, como parte do próprio PL, e montar uma coalizão funcional junto com o PT.

Essa é a análise do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, autor de Presidencialismo de coalizão: Raízes e evolução do modelo político brasileiro (Companhia das Letras, 2018), livro que carrega o nome do conceito que ele criou, nos anos 1980, para descrever as relações institucionais entre Executivo e Legislativo no desenho político brasileiro.

"Lula vai precisar colocar mais os partidos que elegeram poucos deputados [na sua coalizão] e ainda transformar alguns partidos bolsonaristas em aliados ao governo no Centrão, porque, se não, ele não conseguirá governar", diz Abranches em entrevista à BBC News Brasil.

O próprio Lula indicou que pretende seguir esse caminho. "Eu não escolhi o Congresso. Foi o povo que escolheu e é com ele que eu vou votar, vou trabalhar e vou aprovar as coisas", disse em seu discurso após a oficialização do resultado, em um hotel de São Paulo.

Abranches prevê que boa parte dos congressistas dos partidos de direita, como o próprio PL, por exemplo, tenderão a aceitar se integrar à coalizão governista.

"O PL ficou muito forte no Congresso: fez a maior bancada da Câmara [com 121 deputados] e fez vários senadores [19]. Isso deu uma sobrevida parlamentar à extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão do Lula, e é aí que ela poderá usar as suas lideranças democráticas para fazer um contraponto conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB", argumenta.

"Eles ainda querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda querem dirigir certas organizações, etc", completa. Será nessa relação institucional que, acredita o cientista político, uma "direita democrática" pode se impor sobre a direita radical.

Na entrevista que concedeu à BBC News Brasil, Sérgio Abranches também discutiu os motivos que levaram o petista à segunda reeleição da sua história política e a continuidade do bolsonarismo, como força política, depois da sua segunda derrota seguida nas urnas.

<><> Leia trechos da conversa a seguir.

·        Nunca havia acontecido uma virada do primeiro para o segundo turno. Como Lula conseguiu fazer isso?

Sérgio Abranches – O fator fundamental foi a mudança do tom da campanha dele, que foi muito gelada no primeiro turno. Flávio Bolsonaro teve uma presença mais intensa nas ruas.

·        Por que isso aconteceu?

Abranches – Lula achou que ia ganhar já no primeiro turno. Inclusive, parte da abstenção ali [de 21,08%] se deveu a isso. Os idosos pensaram que ele já estava reeleito e sequer se preocuparam em ir votar. Daí, quando viram a ameaça da derrota, compareceram [às urnas no segundo turno]. A redução da abstenção também foi fundamental para a reeleição.

Soma-se a isso a digitalização da campanha. No primeiro turno, uma parte da campanha do Flávio foi digital, enquanto a do Lula foi quase nada [digital]. No segundo, ele foi totalmente para o digital. Um dos problemas das pesquisas [de intenção de voto em acertar os resultados], inclusive, é que elas não veem o digital.

É que estamos em um sistema híbrido: o digital está avançando muito rápido, enquanto alguns aspectos da velha sociedade analógica continuam funcionando. Não é à toa que o fator rua foi muito fundamental também. A ausência de Lula nas ruas no primeiro turno foi o que o fez perder. Da mesma forma, a ida da campanha para a rua no segundo turno, do jeito que foi — com entusiasmo, com empolgação — fez toda a diferença.

Essas duas coisas foram decisivas: a digitalização da campanha e a rua.

·        O cientista político Marcos Nobre disse à BBC, há alguns dias, que essa digitalização da campanha do Lula, sobretudo no WhatsApp, com o André Janones, não tem o mesmo tamanho do "partido digital bolsonarista". Como essa digitalização tardia conseguiu competir com essa estrutura consolidada?

Abranches – Na verdade, ele (Lula) conseguiu neutralizar o partido digital bolsonarista, principalmente quando ganhou alguns políticos digitais, como a Ana Elisa [segunda deputada mais votada em Minas Gerais, pelo PT, com 524.219 votos] ou o próprio Janones. Imagine 10 milhões de pessoas seguindo as recomendações dele e indo para o digital? O efeito multiplicador disso é muito grande. Há um conjunto desses políticos digitais que se elegeram, gente da nova geração, que ganhou votos predominantemente no digital.

A Ana Elisa, por exemplo, fez campanha séria mesmo em apenas dois municípios de Minas Gerais, e mesmo assim foi eleita. Esse partido digital que está se formando dentro do PT — e que também vai se formar em outros partidos da centro-direita — fica 24 horas no ar, não só no período eleitoral. Isso faz uma grande diferença.

·        Lula melhorou seu desempenho nos Estados de São Paulo e do Rio de Janeiro, justamente os dois colégios eleitorais onde ele e Flávio Bolsonaro fizeram mais atos de rua nos últimos dias. Essa presença foi mais importante do que a digitalização?

Abranches – Sim, foi fundamental. Mais do que isso: quando Lula percebeu que perdeu [no primeiro turno], ele formou uma equipe melhor que resolveu fazer uma campanha mais focada no Rio, em São Paulo e em Minas e na expansão no Nordeste — onde ele precisava compensar os votos que não já teria no Rio e em São Paulo. Essa combinação das estratégias de levar a campanha para a rua e ir para o digital ao mesmo tempo fez a diferença. Nós costumamos dizer que o segundo turno é outra eleição, mas, dessa vez, foi uma novíssima eleição.

·        Por quê?

Abranches – Porque houve um comportamento totalmente diferente do candidato incumbente no segundo turno, enquanto Flávio, o candidato opositor, manteve o mesmo tom da campanha do primeiro turno, apenas melhorando algumas ênfases aqui e ali.

·        A campanha de Flávio cometeu algum erro decisivo?

Abranches – Sim. Um erro grave: ele achou que já estava eleito e, aí, entrou no segundo turno muito arrogante. Já estava distribuindo ministérios... Esse foi o erro do Lula no primeiro turno, inclusive, e que o Flávio reproduziu no segundo. Eles empataram nesse erro.

·        As denúncias que ele enfrenta no STF e em inquéritos da Polícia Federal colaboraram com isso em algum sentido?

Abranches – O Flávio era um candidato muito vulnerável por conta dessas acusações, que são de processos judiciais em andamento, muito lesivos, que contrariam até o que ele diz sobre si. Era natural que saíssem mais informações [conforme a campanha seguisse]. Lula foi muito leal, inclusive, porque não usou o poder que tem para pegar mais informações com a Polícia Federal e vazá-las. Ele se comportou como um estadista.

·        Foi a segunda derrota seguida de um Bolsonaro. Como fica o bolsonarismo, agora, a nível institucional?

Abranches – Flávio perdeu a eleição e o mandato. Ficará ao relento. Por outro lado, o mais radical da família [Bolsonaro], Carlos, foi eleito senador [por Santa Catarina, com cerca de 1,9 milhão de votos], além da Michele [Bolsonaro, ex-primeira dama e eleita para o Senado pelo Distrito Federal]. Embora eles não se gostem muito, são polos que podem tentar manter o bolsonarismo vivo, embora ele fique mais fraco agora. Isso vai dar espaço para a direita democrática crescer.

É que, no governo [de Jair] Bolsonaro [entre 2019 e 2022] e depois, ao longo desse atual governo Lula, com a oposição bolsonarista e o crescimento do Flávio como candidato, eles engoliram a direita democrática. O PSD, por exemplo, é um partido com várias lideranças democráticas que ficou vendido para a extrema-direita. O [Gilberto] Kassab [presidente do PSD] cometeu um erro grave ao decidir ficar do lado do Tarcísio [de Freitas, governador de São Paulo] e do Flávio.

O avanço da extrema-direita sobre a direita democrática prejudicou o processo democrático brasileiro, porque se o Brasil tem uma população de direita importante, significativa, ela precisa ser absorvida pelos partidos da direita democrática — o PSD, o MDB...

·        Mas existe chance de isso acontecer agora?

Abranches – Agora sim, porque eles terão que fazer uma coalizão com o Lula. O PL ficou muito forte no Congresso: fez a maior bancada da Câmara [com 121 deputados] e fez vários senadores [19]. Isso deu uma sobrevida parlamentar à extrema-direita, mas a centro-direita vai migrar para a coalizão do Lula, e é aí que ela poderá usar suas lideranças democráticas para fazer um contraponto conservador, de centro-direita, ao PT e ao PSB.

·        Mas, depois dessa eleição tão acirrada, o PL migraria para a coalizão do governo?

Abranches – Um pedaço dele pode, sim. O pedaço não bolsonarista, isto é, o pedaço adesista. O Centrão que migrou para dentro do PL. Esses deputados já têm algumas divisões importantes entre eles que provavelmente vão se acentuar, segundo informações que eu tenho. Não ficaria tão surpreso, inclusive, se alguns parlamentares do PL migrassem para outros partidos de centro-direita em meio à janela de mudanças de legendas no Senado e na Câmara.

·        Nos últimos dias da campanha, o Senado aprovou uma série de medidas que beneficiou Lula — a maioria por intermédio de Davi Alcolumbre (União-AP). Por que ele resolveu apoiar o governo depois de entrar em colisão com ele por diversas vezes?

Abranches – O Alcolumbre perdeu a eleição no Estado dele [seus aliados candidatos a governador e senador no Amapá não foram eleitos]. Ficou fraco lá e precisa do Lula para se fortalecer. Se, de um lado, ele tem o trunfo de já ser o presidente do Senado e, portanto, ter condições de se reeleger, de outro ele terá que se contrapor à bancada bolsonarista, que vai querer fazer seu presidente — provavelmente o Rogério Marinho (PL-RN). Alcolumbre tem toda a razão em continuar apoiando o Lula, porque é a única saída dele.

Na Câmara dos Deputados, porém, a sucessão do presidente [Hugo Motta, do Republicanos-PB] é mais complicada, porque a bancada do PL é muito forte e muito grande. A gente vai ver como tudo se organizará agora no final do Lula 3.

·        Quais são as condições de governabilidade desse novo governo?

Abranches – Vai ter que ser um governo muito diferente do Lula 3. Ele terá que construir uma coalizão mais líquida — principalmente em relação aos dois primeiros governos dele [entre 2003 e 2010] — e em um Congresso mais adverso. Ele já teve uma coalizão líquida nesse mandato atual, com muita dificuldade em aprovar coisas, inclusive no Supremo Tribunal Federal. Agora, terá que dar mais espaço para a centro-direita e, por isso, será um governo mais pluralista, mais mitigado, com menos PT.

·        Mas isso não vai gerar uma reação de quem foi à rua defendê-lo neste segundo turno e que demandava, em paralelo, um governo "mais PT" caso Lula vencesse?

Abranches – Não sei se a rua estava querendo um governo mais à esquerda, Dessa vez, a rua não foi comandada pelo PT e pelas centrais sindicais, mas, sim, pelos movimentos sociais mais independentes, como os estudantes, e aquelas pessoas mais democratas que não queriam o Flávio de jeito nenhum. O antibolsonarismo não petista e não-esquerda também foi às ruas apoiá-lo.

A demanda, na verdade, é que Lula preserve a democracia. Para isso, ele terá que fazer uma aliança mais forte com os partidos de representação no Congresso.

·        O novo governo, embora legitimado pelas urnas, terá condições de fazer isso?

Abranches – Se você pegar os principais partidos do Congresso, o PL fez 121 deputados — um aumento de 88 parlamentares na sua bancada que o transformou em uma força respeitável. Ele dificulta qualquer formação de maioria que não seja firme o suficiente. Isso significa que, para qualquer maioria do Lula 4 ser forte, terá que colocar mais gente dentro dela. Isso significa ceder mais aos partidos de centro-direita. Ele vai ter que conversar seriamente com o Kassab, sobretudo.

O PSDB não existe mais: fez 11 deputados. Está fora do jogo. O MDB fez 36 deputados. É muito pequeno. O PSD fez 43 e o PT, 70 parlamentares. Então, para construir maioria, Lula vai precisar colocar mais partidos que elegeram poucos deputados [na sua coalizão] e ainda transformar alguns partidos bolsonaristas em aliados ao governo no Centrão, porque, se não, ele não conseguirá governar

O problema do presidencialismo de coalizão é que um presidente sem maioria, sem coalizão majoritária, não passa nada no Congresso. É por isso que eu presumo que Lula vá tentar tomar algumas medidas importantes já agora, logo depois da eleição, assim que o velho Congresso voltar a funcionar, negociando com o Alcolumbre e com o presidente da Câmara.

·        O quê, por exemplo?

Abranches – Ele vai indicar logo o ministro do Supremo que está faltando desse mandato, por exemplo, para ficar mais tranquilo no STF. Também vai aprovar algumas questões que ele vai querer manter no Lula 4. Na verdade, ele vai ter que antecipar parte da agenda do seu quarto mandato para agora, no fim desse terceiro, aproveitando a força da reeleição, porque terá mais dificuldades no governo seguinte com o Congresso mais à direita.

O quarto mandato vai ser mais complicado do que o terceiro. É fato.

·        Mas é possível construir essa relação com os partidos bolsonaristas?

Abranches – De cara, não, mas quando o novo Congresso vier, o PL terá necessidade de ter apoio do governo. A parte mais moderada do PL, que não é bolsonarista fanática, poderá até migrar do PL para outros partidos justamente para ajudar o governo Lula.

É preciso entender que a política funciona com base em duas coisas: uma é [quem está] no poder do momento — porque ele (o presidente) tem o Tesouro, ou seja, poder para alocar verbas, por exemplo. O Congresso até ficou mais independente do Executivo nos últimos tempos por causa das emendas, que cresceram muito, mas ele continua precisando [de uma relação saudável com o Executivo]. Continua precisando de alguns cargos estratégicos para influenciar seus colégios eleitorais contra opositores, por exemplo. Eles ainda querem ir para o governo, ainda querem ser ministros, ainda querem dirigir certas organizações, etc. Então, o poder de agora conta.

A outra coisa é a expectativa de poder futuro — e, agora [com a derrota de Flávio], o PL perdeu sua expectativa de poder futuro. Com [Jair] Bolsonaro doente e preso, sem a possibilidade de um indulto, com Flávio derrotado e sem mandato e um Bolsonaro muito menos hábil e mais radical no Congresso, o Carlos, além da Michele — uma populista religiosa da qual não sabemos a real capacidade de fazer política, mas que deve ser um canal de condução do Jair —, a expectativa futura de poder está vazia.

Provavelmente surgirão lideranças com capacidade de disputar as eleições em 2030 que, ao se mostrarem interessadas, vendo crescer a sua influência nacionalmente, provavelmente até vão viajar mais pelo Brasil, vão fazer mais campanha digital. Essa expectativa de poder construirá lideranças que servirão como polos. Podemos até ver o surgimento de uma liderança mais significativa de oposição.

Isso sem contar o papel do [Geraldo] Alckmin.

·        O senhor vê ele como um futuro protagonista?

Abranches – Ele mudou para o PSB para ficar mais confortável. Tem 73 anos. Quando terminar o Lula 4, estará com 77 anos, isto é, ainda terá condições de disputar uma eleição. Pode vir a ser uma alternativa. Ele já disputou um pleito presidencial e, embora tenha perdido [em 2006, para Lula], teve uma votação importante [cerca de 39,9 milhões de votos no segundo turno]. Tem ainda um recall nacional de ser o atual vice do Lula, de ter sido ministro, etc. É uma figura para prestar atenção.

·        E a crise do Supremo? É de se esperar que o Congresso mais à direita paute o impeachment de ministros à revelia de Lula?

Abranches – Eu acho que não. Isso já está resolvido. Lula vai nomear rapidamente um novo ministro para STF para garantir uma maioria tranquila. Essa crise vai ser apagada.

·        Esse mandato também será determinante para os sucessores de ambos os movimentos: do PT e do bolsonarismo?

Abranches – Sim. Todos os partidos terão que produzir lideranças para essa nova fase. Estamos vivendo um encerramento do ciclo PT e Lula e, em especial, daqui em diante, o PT não será mais o partido competitivo que vem sendo até hoje. Os outros partidos, que nunca foram tão competitivos nos pleitos presidenciais, precisarão disputar esse espaço com o PL. Isso vai resultar em um processo de busca por lideranças com capacidade eleitoral presidencial. Vai mudar muito a natureza das eleições futuras.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

O hino composto por dom Pedro 1º que Lula transformou em canção da vitória

"Já raiou a liberdade no horizonte do Brasil", cantou uma multidão eufórica na avenida Paulista neste domingo (25/10), após Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pedir para que fosse reproduzido o Hino da Independência durante a comemoração por sua reeleição à presidência.

Trata-se de uma das canções patrióticas oficiais do país, justamente a que exalta a força do povo nacional que não deve ser submisso a interesses estrangeiros e, ao mesmo tempo, celebra o alvorecer de uma liberdade. Foi uma escolha simbólica de Lula, que durante sua campanha exaltou a soberania brasileira.

O Hino da Independência tem uma curiosa história porque sua criação está ligada diretamente à biografia daquele que proclamou o Brasil independente de Portugal: dom Pedro 1º (1798-1834), o nobre lusitano que se tornou o primeiro chefe de Estado do país livre.

Chamada originalmente de Hino Constitucional Brasiliense, a música teve a letra escrita pelo poeta e jornalista Evaristo da Veiga (1799-1837) em agosto de 1822, ou seja, semanas antes do Sete de Setembro que ficaria eternizado como data magna do país. A melodia foi criada pelo compositor erudito luso-brasileiro Marcos Portugal (1762-1830).

Em 1824, quando tomou conhecimento do hino, o próprio imperador dom Pedro decidiu compor para os versos de Veiga uma nova canção.

"Ele tinha conhecimentos musicais e se apropriou da letra de Veiga para, a partir dela, criar uma melodia. E o hino ganhou força no período do seu reinado", afirma o historiador Victor Missiato, pesquisador no Instituto Mackenzie.

De acordo com o historiador Paulo Henrique Martinez, professor na Universidade Estadual Paulista (Unesp), o imperador fez da sua música um hino de "exaltação da nacionalidade". Em 1824, a obra foi rebatizada como Hino Imperial e Constitucional.

"A exaltação da alma, de inspiração romântica e europeia, ganha expressão nos versos que compõem o hino", completa o historiador.

Mais que diletante, o monarca tinha traquejo com a arte.

Autor do livro D. Pedro I: A História Não Contada, o biógrafo Paulo Rezzutti conta que o imperador do Brasil era multi-instrumentista e foi autor de inúmeras obras.

"Foi um músico profícuo, que deixou várias composições, desde sacras, litúrgicas, até canções patrióticas", comenta o biógrafo.

É de dom Pedro a autoria do chamado Hino da Carta, que ele compôs em 1820 e que foi hino oficial do Reino de Portugal de 1834 a 1910.

"Quando soube que ia se casar com a Leopoldina, ele chegou a compor valsas, que era um gênero novo ainda não chegado ao Brasil", conta Rezzutti, lembrando que a valsa era então uma moda austríaca, terra de origem daquela que se tornaria a primeira mulher de Pedro.

<><> A versão romantizada

Mais tarde, propagou-se a versão romantizada — e sem comprovação documental — de que o imperador havia composto o hino no mesmíssimo dia em que havia proclamado a independência às margens do rio Ipiranga.

Por essa versão, disseminada sobretudo a partir de 1909 graças ao advogado, jornalista e escritor Eugênio Egas (1863-1956), a música teria sido partiturada às pressas naquela data pelo então organista da antiga Catedral de São Paulo, o músico André da Silva Gomes (1752-1844), para que fosse executada ainda na mesma noite.

Não são conhecidos, contudo, documentos de época que referendem essa história e tampouco há qualquer menção que uma apresentação musical do tipo tenha acontecido em setembro de 1822 em São Paulo. Com contornos míticos, essa narrativa acabou sendo consolidada nas comemorações do primeiro centenário da Independência, em 1922 — quando o próprio hino, em desuso, acabou resgatado.

De histórico mesmo resta a informação de que a canção era considerada o hino oficial do país nos tempos da monarquia. Martinez explica que a canção assinada por dom Pedro ficou associada "aos tempos do Império".

<><> Os autores originais

Veiga, o autor da letra, foi um escritor nascido no Rio que, filho de um livreiro português, é considerado um dos precursores do romantismo no Brasil. Seu pai chegou a morar um tempo em Minas Gerais e, acredita-se, tenha se aproximado dos chamados inconfidentes que conspiravam contra o reino português.

Já o compositor da primeira melodia, Marcos Portugal, nasceu em Lisboa e fez carreira na Itália. Quando a família real portuguesa já vivia no Rio de Janeiro, depois da transferência da corte ocorrida em 1808, ele foi convocado como um dos músicos a atuar junto à nobreza no Rio.

Há pesquisas que indicam que a canção, nessa versão original de Veiga e Portugal, tenha alcançado alta repercussão na sociedade carioca logo nas semanas seguintes à publicação.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Médico explica as diferenças entre nutrólogo e nutricionista

Durante a busca por uma alimentação mais saudável, perda de peso, ganho de massa muscular ou melhora do desempenho físico, uma dúvida costuma surgir: é melhor procurar um nutrólogo ou um nutricionista? Embora os dois profissionais atuem diretamente na promoção da saúde por meio da alimentação, existem diferenças importantes na formação, nas atribuições e nos tipos de acompanhamento oferecidos.

Segundo o Dr. Rennan Bertoldi, médico nutrólogo e professor do curso de medicina da Unisul, a principal diferença está na formação e na abordagem de cada profissional.

Enquanto o nutrólogo é formado em medicina e especializado na prevenção, no diagnóstico e no tratamento de doenças relacionadas à nutrição e ao metabolismo, o nutricionista possui formação específica em nutrição, com foco na avaliação nutricional, no planejamento alimentar e na elaboração de estratégias dietéticas individualizadas.

Apesar das particularidades, as duas áreas são complementares e podem atuar juntas no cuidado com o paciente, especialmente em situações que envolvem obesidade, diabetes, deficiências nutricionais e mudanças na composição corporal.

>>>> O especialista ainda esclareceu algumas das principais dúvidas sobre o tema. Confira abaixo:

<><> Qual é a principal diferença entre nutrólogo e nutricionista?

"O nutrólogo é um médico especializado em Nutrologia, área que estuda a relação entre nutrição, metabolismo e saúde. Sua atuação envolve a investigação de alterações clínicas e metabólicas, a prevenção e o tratamento de doenças, além do acompanhamento de pessoas que buscam melhorar a composição corporal e o desempenho físico.

Já o nutricionista é formado em Nutrição e atua na avaliação do estado nutricional, na elaboração de planos alimentares individualizados e no acompanhamento dietético de pessoas saudáveis ou com doenças.

As duas profissões compartilham conhecimentos, mas possuem formações e atribuições específicas."

<><> Quem deseja emagrecer deve procurar qual profissional?

"Depende das necessidades de cada pessoa. Quem deseja reduzir gordura corporal, melhorar os hábitos alimentares e organizar a alimentação pode se beneficiar do acompanhamento nutricional.

Por outro lado, quando há obesidade, alterações metabólicas, doenças associadas ou dificuldade persistente para perder peso, a avaliação médica pode ser especialmente importante para investigar possíveis causas clínicas.

O especialista também ressalta que emagrecer não significa apenas reduzir o número na balança. É importante preservar a massa muscular, melhorar a saúde metabólica e buscar resultados sustentáveis."

<><> O nutrólogo pode prescrever dietas? E o nutricionista pode solicitar exames?

"Sim. Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, a atuação do nutrólogo não se limita à prescrição de medicamentos e suplementos. O médico também pode indicar intervenções alimentares e planos dietoterápicos, considerando as necessidades clínicas e metabólicas do paciente.

O nutricionista, por sua vez, pode solicitar exames laboratoriais necessários ao acompanhamento dietoterápico e utilizar os resultados para avaliar o estado nutricional, identificar inadequações e ajustar o planejamento alimentar.

A diferença está principalmente na finalidade da avaliação: enquanto o nutricionista realiza o diagnóstico nutricional, o médico pode investigar e diagnosticar doenças, além de estabelecer tratamentos clínicos específicos."

<><> Como saber se o médico é realmente especialista em Nutrologia?

"Um ponto importante é verificar se o profissional possui Registro de Qualificação de Especialista (RQE) em Nutrologia. A especialidade é oficialmente reconhecida no Brasil, e o título pode ser obtido por meio de residência médica reconhecida ou pela aprovação em exame de título de especialista, conforme os requisitos exigidos.

Cursos de pós-graduação e capacitações complementares, isoladamente, não conferem o título de especialista. Por isso, antes de agendar uma consulta, o paciente pode verificar a qualificação do médico nos registros públicos dos Conselhos de Medicina."

<><> Nutrólogo e nutricionista podem acompanhar o mesmo paciente?

"Sim, e essa integração pode ser especialmente importante em casos de obesidade, diabetes, doenças cardiovasculares, desnutrição, perda de massa muscular e transtornos alimentares.

No acompanhamento de pessoas que praticam atividades físicas, por exemplo, o nutrólogo pode investigar alterações metabólicas, deficiências nutricionais ou condições clínicas que interfiram no desempenho e na recuperação. Já o nutricionista pode organizar a alimentação de acordo com a intensidade dos treinos, a rotina e os objetivos individuais.

A atuação conjunta permite considerar diferentes aspectos da saúde e estabelecer estratégias de acompanhamento mais completas."

<><> Crianças, gestantes e idosos também podem precisar desses profissionais?

"Sim. As necessidades nutricionais mudam ao longo da vida e exigem cuidados específicos.

Na infância, a alimentação precisa acompanhar o crescimento e o desenvolvimento. Durante a gestação, as mudanças fisiológicas e metabólicas demandam atenção às necessidades nutricionais da mãe e do bebê. Já entre os idosos, a preservação da massa muscular e da força é fundamental para reduzir o risco de fragilidade e perda de capacidade funcional.

Nessas situações, o acompanhamento pode envolver nutricionistas, nutrólogos e outros médicos, como pediatras, obstetras e geriatras, conforme as necessidades individuais."

<><> Quando vale a pena procurar os dois profissionais?

"O acompanhamento conjunto pode ser especialmente indicado quando o paciente apresenta condições clínicas que exigem tratamento médico e, ao mesmo tempo, mudanças importantes na alimentação.

Pessoas com obesidade associada a doenças metabólicas, diabetes, deficiências nutricionais persistentes ou necessidades específicas relacionadas ao desempenho esportivo podem se beneficiar dessa abordagem.

A escolha do acompanhamento deve considerar os objetivos e as condições de saúde de cada paciente. Em muitos casos, a atuação conjunta do nutrólogo e do nutricionista permite identificar necessidades que vão além da alimentação e construir estratégias mais completas, tanto para o tratamento de doenças quanto para a promoção da saúde."

 

Fonte: CNN Brasil