A
parte maldita da economia política
Na
costa da Ilha, distante de qualquer panóptico, um templo branco pintado com
linhas horizontais azuis é adornado pelo símbolo estatuário de Poseidon. Esse
monumento inspirado na Hammam Yalbugha, semioticamente, estabelece as raízes
ocidentais naquilo que seria um espaço neutro, sem história, uma ilha. Ao
adentrar em seu interior, os objetos revelam uma outra lógica, outro valor, que
não aparece nas grandes teorias clássicas do capitalismo.
Não se
sabe ao certo se no centro do vultoso templo marítimo, encontra-se a caixa de
pandora da riqueza humana, ou o segredo do rentismo do capitalismo
contemporâneo. Os objetos em meio ao templo representam o valor simbólico, esse
diferente valor, que implode ao menos as teorias que entendem as elites
econômicas como condição sine qua non para a produção de
valor.
Este
outro valor é o que talvez revele neste espaço mágico, em que todos desejos de
consumo são atendidos, a incógnita da sinestesia das novas classes
capitalistas, por ser, senão, um niilismo total. O mais escabroso niilismo das
classes ociosas, de maneira que, ainda que tudo possa ser consumido, impera-se
a falta.
Quais
instrumentos teóricos são necessários para desvendar esse mistério? O caminho
mais sólido parece ser compreender como as classes se constituíram
historicamente, e nisso a crítica marxista nos auxilia. Ela mostra que o modo
de produção capitalista se formou por meio da expropriação e espoliação tanto
no centro quanto na periferia. Ademais, que se deve precaver com a tese da
emergência virtuosa da acumulação primitiva, não só como fábula genealógica mas
também como atual descrição da acumulação e centralização de capital.
É
errôneo também considerar que a guerra, sob esse modo de produção, seria
temporária ou derivada de incompetência administrativa e diplomática, por
conseguinte que o atual estágio – globalizado e financeirizado – preveniria
tais ações belicosas. A expansão do capital é senão o mercado da guerra e
colonização, as atuais associações com a gestão de políticas genocidas e regime
change reforçam essa tese.
A
dinâmica global da sociedade capitalista é delimitada pelo valor, que é sua
característica particular. Ela se desenvolveu para um sistema financeiro
monopolista que, junto ao aperfeiçoamento técnico do último século, diluiu a
categoria de produtividade, descolando a produção do mais-valia e valor. Duas
coisas se sucedem desse processo: a ampliação do que pode ser transformado em
mercadoria, e uma intensa expansão e centralização mundial do poder.
Assim,
as análises que dissociam o global do local não explicam as grandes lutas
internas e externas das nações, mas resta a dúvida do que “…actualmente pode
tornar a captar a análise de Marx a um nível global?” (p. 145) senão a análise
do consumo através dos seus signos particulares?
Alguns
fenômenos pressionam a teoria ao ponto de evidenciar fissuras no campo que,
dificilmente serão reparadas na antiga crítica da economia política. O atual
escândalo é um exemplo que não pode ser colocado como um simples esquema de
poder da alta sociedade. A conexão com complexas redes criminosas – envolvendo
setores distintos da sociedade civil – e as questões raciais dominantes no
pensamento dessa elite não podem mais ser colocados como aspectos secundários.
Elas não estão ligadas às classes, mas estão no que integra as classes.
A
teoria marxista descreve parcialmente as leis do valor na sociedade
capitalista, e em consequência, somente algumas das condições materiais de
reprodução das classes. É válido que elas sejam determinadas com relação a sua
posição na relação de produção e apropriação do excedente da riqueza. Não
obstante, é preciso compreender suas formas de diferenciação para explicar
algumas dessas insuficiências descritivas.
Outras
ausências dependem que as aporias da economia política sejam reformulados no
que concerne às contradições inerentes e os conflitos das classes. Portanto, é
preciso superar as antigas categorias, aprofundando-a com suas outras
determinações. Um possível modo iniciar a primeira tarefa – a saber, da
diferenciação – é por meio da inquirição da linguagem das únicas testemunhas
restantes, os objetos.
Jean
Baudrillard apostava no desentranhamento da crítica da economia política em
novos sistemas e modos de produção. Para ele a mass production exauriu
o valor de uso e de troca. Os objetos por meio da semiologia dão acesso aos
códigos de uma subdimensão dessas classes, cuja análise subsequente não poderá
ser realizada através da psicologização dos indivíduos, tampouco numa
investigação dos desejos exóticos de um segmento da elite.
O
primeiro método restringe a análise ao discurso do patológico, enquadrando como
individual aquilo que é somente uma parte da estrutura; no segundo, seríamos
levados a entender o fenômeno como somente um distúrbio, um desvio moral.
Para
não reduzir o entendimento ao subconsciente de cada integrante, o fenômeno deve
ser explorado, na semiótica, por meio do consumo; isto porque o consumo
enquanto uma instituição social coercitiva e não uma gratificação social,
adentra a substância psicológica, mas não se limita a ela. Ademais, deve-se
abstrair da cena todas as figuras, pois apenas quando “os objetos se encontram
autônomos, que surgem diferenças e assim se tornam (relativamente)
sistematizáveis, que se pode falar de consumo e de objetos substituíveis” (p.
62).
É
absurdo, à primeira vista, entender os objetos enquanto independentes da
agência humana, como se as leis que a economia política descreve lhe fossem
inerentes, tal como as propriedades da matéria, mas é exatamente essa abstração
da “pura relação” autônoma que eles são. Vivemos sob relações de objetos.
Inversamente do que possa parecer, são eles que também “discursam” sobre as
classes.
A
classe dominante dos crimes é um entrecruzamento de grupos que se estende dos
resquícios das antigas aristocracias europeias até os investidores dos novos
setores emergentes do capital, que já não estão diretamente conectados à
produção de valor e mais-valia. A completeza da avaliação requer compreender a
formação desses variados grupos (genealogia e reprodução do seu poder global),
e assim identificar seus conflitos e associações. O tratamento é mais complexo
do que pode ser feito neste ensaio; não impedindo, porém, que sejam traçadas
suas similitudes, que para o propósito é o suficiente.
Essas
elites apresentam uma característica em comum, dependem do dispêndio
(destruição) do valor para se constituir; como na teoria das classes ociosas de
Theodor Veblen em que elas “têm primeiramente como função trabalhar e produzir,
têm simultaneamente como função (e, quando mantidas na ociosidade, como única
função) ostentar o standing do Senhor” (p. 13).
É nessa
relação entre os objetos que o dispêndio excêntrico e excessivo não pode ser
percebido como um evento particular. A prodigalidade compõe aquilo que
discrimina a classe, cujo entendimento requer uma análise da lógica dos
objetos. Nesse sentido, cabe a pergunta “o valor de uso ainda teria sentido
tendo em vista que os objetos não possuem mais necessidade, i.e, são usados
para preencher um vazio e satisfazer uma pulsão?” (p. 67).
Não se
trata, como faz Jean Baudrillard, de subverter a noção de necessidade como
abstrata, mas um reposicionamento diante das unilateralidades de ambas as
críticas com relação ao conceito. É neste vínculo comum entre rentismo, poder
hereditário e dispêndio simbólico que essas classes se encontram para decidir o
futuro e concretizar suas hiperstições geopolíticas mundiais, seja na produção
de dossiês das classes burocráticas, quanto na construção de redes de capital
social para especulação financista contra o terceiro mundo.
Diante
da contradição da necessidade, surgem diversas teses que tentam restabelecer
uma relação racional entre os atos hediondos e a finalidade dos agentes. Essa
simulação funcional somente nos distancia da compreensão do fenômeno. Há uma
finalidade e necessidade.
Contudo,
elas atuam como um álibi naquilo que a ontogênese dos objetos pode nos revelar;
que é na função social distintiva dos objetos que está associada a substância
psicológica, em que o ócio dessas classes opera “como material de troca e de
significação. Tal como acontece com a parte maldita de Georges Bataille, ele [o
objeto] ganha valor na própria troca ou na destruição; e o lazer é o lugar
desta operação simbólica” (p.76).
O
cardápio de mulheres, pianos, esculturas, estofados, o quadro preto e as obras
de arte, não fazem outra coisa senão significar a transcendência do êxito
econômico. Os artigos polidos e envernizados comprimem num mesmo espaço a
contradição moral de dois ethos em conflito, um do mérito
puritano e outro da pura prodigalidade aristocrática. Eles são uma duplicidade,
uma redundância estatutária da conspicuous morality.
Jean
Baudrillard estabelece ironicamente, citando a teoria da comunicação two-step-flow,
essa relação de equivalência entre objetos de consumo (necessidade) e padrões
de condutas morais. Os objetos não só sinalizam o status, mas
também validam a moralidade do grupo. Como a figura da dona de casa que aparece
na mass production representando essa relação essencial entre
o interior do lar e o feminino. Assim, a identidade é moldada sob a sociedade
de consumo e seus papéis.
A
ironia da cibercultura diante do caso está na diluição total do real, de modo
que os crimes executados, ainda que escancarados em carne crua ou leiloada,
incidem nos tokens viraisda cibercultura; O moletom azul
marinho, os relógios falsos, a moda e a própria conspiração. Das máquinas
estatais, são os segredos de Estado e tão somente eles que importam. E a
crítica da economia política? Se esvazia em um espaço-tempo constituído pela
parte maldita, em que “a exploração econômica e a dominação “de classe” não
sejam mais, no fundo, que uma variante “histórica” e um desvio na imensa
genealogia das formas da dominação social” (p. 138).
O
leilão é senão Wall Street e seus juros derivados, a Ilha, o desmembramento do
espaço-tempo da velha fábrica, “não: não se trata aqui da reprodução alargada
do capital e da classe capitalista; trata-se da produção de uma casta pela
graça colectiva de um jogo de signos e da produção desses signos pela
destruição do valor econômico” (p. 137).
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O leilão de carne humana
O
capitalismo possui pilares essenciais além da expropriação e privatização das
terras, que inauguram uma relação social baseada na troca de mercadorias, como
a economia sexual de gênero e raça. Todavia, a questão do parentesco foi
dissociada das trocas enquanto campos distintos que não deveriam se
interpenetrar, constituindo posteriormente o discurso da identidade e do
Estado.
O
sujeito moderno como categoria baseou-se em duas formulações: a filosofia
kantiana e a aristotélica, isto é, genealogia e lógica; e o que Claude
Lévi-Strauss definiu como tabu do incesto foi elevado a uma das lógicas do
Estado-nação, sendo a prática política colonial regida através da endogamia
patrilinear.
A
modernidade constituiu a dinâmica de exportação de instabilidade social da
metrópole para o terceiro mundo, de forma que a internacionalização econômica
ocorria paralelamente ao fortalecimento de práticas xenofóbicas (de cunho
nacionalista) baseadas em laços de parentesco, preservando a concentração do
poder político e econômico em um grupo étnico fechado e sedentário. Reavaliando
as leis com base nesses fatos nota-se um dilema na compreensão da dinâmica da
expansão do capital, que não altera somente os modos das relações da produção
da riqueza e partição do excedente, mas também compreende uma expansão
exogâmica do outro, absorvendo-o e excluindo-o.
A
teoria marxista compreende dialeticamente como essas classes metropolitanas se
constituíram e se reproduziram materialmente, e nisso avança consideravelmente.
Todavia, ela leva somente a metade do percurso, já que a endogamia fica
eclipsada pela exogamia das trocas.
Além
disso, utilizando-a como instrumento entenderíamos a ilha como somente um
espaço de fruição ao lado de uma ordem racial, o que argumentamos ser
inadequado. É preciso chegar mais próximo. Avançamos ainda mais quando
identificamos que a crítica à economia política do signo desvenda
características dos objetos como valor-signo, mas tampouco esgota sua
totalidade.
A
ausência explicativa na articulação dos objetos reside no fato que, na
interação há também um corpo antropomórfico que, contraditoriamente, deveria
cindir a relação, e ainda assim a sustenta. Quais juízos podem ser feitos sobre
o corpo que é o objeto privilegiado, que funciona como o postulado dos
sujeitos, e que mesmo não possuindo um equivalente é consumido e trocado numa
economia da morte? Esse corpo genérico está submetido a uma extração total que
não se encerra nem no simbólico nem na troca; portanto, ainda que intimamente
relacionado ao valor, não é descrito por essas leis.
Esses
limites impõem a emergência de uma nova lente, que justapõe no objeto dimensões
distintas: a classe, o consumo e a raça. Evidentemente, isso não poderá ser
feito sem as ressalvas das contradições internas das metodologias que serão
utilizadas, não impedindo que por ora elas sejam contornadas. Pode-se traçar o
que essa nova compreensão terá em seu horizonte.
A
lógica limiar será nomeada aqui como esse instrumento mais complexo,
pretensamente total, que contém tanto a lógica das trocas como a dos objetos e
quanto a racial. Ela não pode ser uma reunião – um equivalente da combinação
dos seus elementos –, mas uma fusão daquelas lógicas, que as retoma sob um
terreno comum; tem, portanto, finalidade científica similar àquela da ciência
física que uniu o inanimado e animado sob os mesmos princípios naturais.
Deve
possibilitar a organização dos objetos segundo seus códigos de hierarquia
cultural e, negativamente, a hierarquia da violação dos tabus; em alguma medida
deve ser a base para elaboração de uma linguagem que expresse algo acerca
daquele corpo cindido.
Além
disso, tem a seu favor uma contraposição imediata à unilateralização ingênua de
que o capital é somente a lógica da produção e reprodução da riqueza como fim
em si próprio, e nesse sentido impessoal. Implica, portanto, uma urgência na
reavaliação dos fundamentos da crítica da economia política. No entanto,
restringirmos aqui na análise do que essa união nos possibilita, isso porque
essa lógica exigiria adentrar as contradições, o que seria contrário ao
objetivo do texto que é inferir algo sobre o ocidente e suas classes, mesmo que
insuficientemente.
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Ode à falência
Little
Saint James,
sob essa ótica, pode ser considerado a epítome da endogamia, que parece
concentrar toda ideologia da supremacia branca. Sem a junção das três
dimensões, o ponto geográfico seria entendido como sendo somente ocasional, não
obstante sua situação não é acidental, representa o santuário intocado da
fantasia insular da pureza racial. A ilha é um quadro, cujo relevo pincelado
por John Gast guarda no coração da península a doutrina do
Estado-nação. Olhando para essa pintura, vê-se perambular pela ilha o espírito
de uma mulher alva com fraldas e luminárias nas mãos. Ela guia os convidados
aos seus aposentos.
Nas
fraldas geriátricas da “elite esclarecida” está o reavivamento dos sentimentos
da nostalgia sulista, uma volição nacional vinculada às teorias raciais
judaico-cristãs. Essa foi a política externa norte-americana nos últimos anos,
“doutrina Donroe”, que recuperou o destino manifesto em termos mais palatáveis,
aparentemente menos raciais, mas mantendo a aspiração da nação de ser o “next
friend” mundial.
O
capital é assim o modo de superposição da produção da dominação irrestrita à
frustração da expansão gâmica frente a seu princípio “ético”, o tabu do
incesto. Ele é a absorção limitada – legitimada na modernidade pelos dogmas
científicos da superioridade racial – cuja divisão simultaneamente possibilita
a extração do excedente; paradoxalmente, essa expansão pretende ser ilimitada.
As mensagens do arquivo concretizam todos estes fatos: do racismo sistemático
da Trump Management, Inc. ao violar a Fair house acting até as
trocas de emails, a quem “Goym” jamais poderia ser filiado. Disso não há
escândalo.
Os
arquivos são um monumento virtual cujo impacto é comparável somente à queda das
torres gêmeas. Ambos fazem parte do réquiem performático da superioridade
ocidental, juntos explodem o ponto nevrálgico do sistema. Os edifícios
encarnavam uma ordem contável que sublimou a concorrência em prol do monopólio
e do digital, era o “código genético imutável” do poder absoluto. Os registros,
ao contrário, sucedem o acontecimento como uma implosão do próprio digital e
seu genoma, mostrando as entranhas da farsa.
Não é
mais possível pensar a simulação sem ambas, pois são assustadoramente
simétricas. Enquanto as torres desapareceram para dar lugar a um espaço
imaginário que transcende à metrópole nova-iorquina, tornando-se um signo
mundial, diferentemente, os arquivos se separam da rede mundial para tomar a
forma de uma ilha na “U.S Virgin Islands”.
Fonte:
Por Marcel Alentejo da Boa Morte e Lázaro Vasconcelos Oliveira, em A Terra é
Redonda




