quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

Maria Luiza Falcão: A guerra anunciada - o fim da conciliação e o Brasil que entra em sua eleição mais decisiva

Ao declarar que a próxima disputa presidencial será uma “guerra” e que a política brasileira está “mercantilizada” e “apodrecida”, Lula não radicaliza — apenas reconhece a profundidade da crise do sistema. O verdadeiro problema não está na fala, mas na estrutura de poder que limita a própria democracia.

As frases pronunciadas por Luiz Inácio Lula da Silva durante a celebração dos 46 anos do Partido dos Trabalhadores não devem ser lidas como arroubos retóricos nem como uma guinada inesperada de estilo. Ao afirmar que a próxima eleição será uma guerra — e, mais ainda, que a política brasileira está mercantilizada e “apodreceu” —, o presidente fez algo politicamente raro: descreveu o país como ele de fato se apresenta hoje. O Brasil aproxima-se de 2026 menos como uma democracia pacificada e mais como um sistema tensionado, onde forças antagônicas disputam não apenas o governo, mas as próprias regras do jogo.

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<><> O fim de um personagem histórico

Durante décadas, a trajetória política de Lula esteve associada à ideia de conciliação. O chamado “Lulinha paz e amor”, consolidado sobretudo na campanha de 2002, não era apenas uma estratégia eleitoral — era uma leitura precisa de época. O Brasil buscava previsibilidade, o conflito distributivo podia ser amortecido pelo crescimento e ainda parecia possível compatibilizar inclusão social com acomodação dos interesses das elites econômicas.

A conciliação não era fraqueza; era método. Esse método funcionou enquanto havia algum grau de racionalidade nas elites políticas, enquanto a democracia liberal preservava legitimidade e enquanto os atores mais radicais permaneciam nas margens do sistema.

Nada disso permanece intacto.

O Brasil — como boa parte do mundo — atravessou uma mutação profunda na última década. A polarização deixou de ser episódica e tornou-se estrutural. O extremismo foi normalizado. A desinformação converteu-se em instrumento permanente de poder. E setores relevantes da vida pública passaram a operar não mais dentro do pacto democrático, mas nas suas bordas.

Nesse contexto, insistir na estética da conciliação seria menos virtude do que cegueira histórica.

Quando Lula fala em guerra, portanto, não rompe com sua trajetória — ele reconhece que o terreno mudou.

O atraso talvez não esteja na radicalização do discurso, mas no tempo que levamos para admitir que o conflito já estava em curso.

<><> Não é metáfora — é diagnóstico

Parte da reação ao discurso buscou enquadrá-lo como exagero ou como gesto contraditório para alguém que governa por meio de amplas alianças. Essa leitura erra o alvo.

A palavra “guerra”, no caso brasileiro, não precisa ser entendida literalmente para ser politicamente precisa. Ela descreve um ambiente em que o Congresso exerce poder crescente sobre o orçamento, a sabotagem legislativa tornou-se rotina, a extrema direita mantém mobilização permanente e a esfera pública foi fragmentada por ecossistemas digitais impermeáveis ao debate racional.

Trata-se de um conflito difuso, institucional e contínuo. Não reconhecer essa realidade seria muito mais perigoso do que nomeá-la.

Há ainda um elemento adicional que torna o diagnóstico particularmente relevante: a eleição de 2026 tende a ocorrer em um ambiente internacional mais instável, marcado pela erosão da hegemonia americana, pelo avanço dos nacionalismos econômicos e pela crescente instrumentalização da política doméstica para fins geopolíticos. Democracias sob tensão raramente produzem eleições previsíveis.

O Brasil não será exceção.

<><> O nó central: governar com quem não quer ser governado

Se a fala de Lula foi um diagnóstico correto, ela também ilumina a principal fragilidade do arranjo político atual: a dependência estrutural de um Congresso cada vez mais autônomo e menos comprometido com qualquer projeto nacional.

O chamado Centrão já não pode ser descrito apenas como um bloco pragmático. Ele se tornou um polo de poder. Controla parcelas expressivas do orçamento, condiciona agendas e redefine, na prática, o equilíbrio entre Executivo e Legislativo.

O governo não negocia apenas governabilidade — negocia capacidade de agir.

O paradoxo é evidente: enquanto o presidente reconhece a existência de uma guerra política, o próprio sistema impõe ao Executivo alianças que frequentemente funcionam como forças de contenção.

Evitar essas alianças poderia produzir paralisia institucional. Mas aceitá-las impõe limites claros à transformação.

A contradição não é moral; é estrutural.

E é precisamente aqui que as outras duas frases de Lula — talvez ainda mais importantes — ganham densidade analítica.

<><> A política mercantilizada — quando o poder vira ativo

Se, ao afirmar que a eleição será uma guerra, Lula descreve o ambiente, ao dizer que “a política está mercantilizada” ele toca em algo ainda mais perturbador: a transformação do próprio sistema político em um mercado.

Não se trata apenas de fisiologismo, prática antiga na República brasileira. O que emerge nas últimas décadas é um salto qualitativo: mandatos tornam-se ativos, apoio parlamentar converte-se em moeda e parcelas crescentes do orçamento passam a funcionar como instrumentos de negociação.

A política deixa de ser espaço de mediação de interesses sociais para operar segundo uma lógica quase contratual.

Maiorias não se constroem — precificam-se.

Coalizões não se formam — negociam-se como portfólios.

Quando Lula afirma que “a política apodreceu”, a frase pode soar dura. Na realidade, ela nomeia um processo de deterioração institucional que atravessa governos, partidos e legislaturas. O problema não é apenas moral. É sistêmico.

Um Congresso que controla volumes inéditos de recursos públicos sem a correspondente responsabilidade executiva altera silenciosamente o equilíbrio entre os Poderes. O presidencialismo de coalizão transforma-se, pouco a pouco, em um presidencialismo tutelado.

Governar passa a significar administrar um condomínio de interesses fragmentados — frequentemente incompatíveis com qualquer estratégia nacional de longo prazo.

Nesse contexto, a guerra eleitoral mencionada por Lula deixa de ser apenas um confronto entre projetos ideológicos. Torna-se também uma disputa contra a própria degradação da política como esfera pública.

E aqui reside o dilema mais difícil de resolver: para governar, é preciso negociar com o sistema tal como ele é; para transformá-lo, seria necessário enfrentá-lo.

Poucas lideranças escapam dessa armadilha. Nenhuma o faz sem custo.

O maior risco para uma democracia não é o conflito — é quando a política deixa de organizar conflitos e passa a ser organizada pelo dinheiro.

<><> A reorganização silenciosa da direita

Enquanto parte do debate público se concentra na retórica presidencial, movimentos estratégicos ocorrem no campo conservador. A possível candidatura de Flávio Bolsonaro ilustra um processo mais amplo de reorganização da direita brasileira.

Após anos de radicalização, segmentos desse campo parecem compreender que projetos duradouros exigem maior previsibilidade institucional e menor volatilidade discursiva. A aposta em perfis percebidos como mais moderados — ainda que comprometidos com agendas semelhantes — pode ampliar pontes com o mercado e reduzir resistências no centro político.

Seria um erro interpretar esse movimento como moderação substantiva. Muitas vezes, trata-se apenas de mudança de forma, não de conteúdo.

Projetos políticos aprendem. Adaptam-se. Refinam sua linguagem.

A eleição de 2026 poderá revelar uma direita menos estridente — mas não necessariamente menos assertiva.

<><> A falsa nostalgia da estabilidade

Há, em certos círculos, uma saudade implícita de um tempo em que a política brasileira parecia menos conflitiva. Essa memória é, em grande medida, seletiva.

O que existia era um sistema capaz de absorver tensões sem que elas se convertessem em rupturas abertas. Esse sistema foi sendo corroído pela crise de representação, pela desigualdade persistente e pela crescente distância entre instituições e sociedade.

A estabilidade não desapareceu por causa de um discurso mais duro. Ela já vinha se desfazendo.

Nesse sentido, a fala de Lula tem também uma dimensão pedagógica: prepara o eleitorado para uma disputa mais áspera e menos previsível. Lideranças políticas não apenas descrevem a realidade — ajudam a moldar as expectativas coletivas sobre ela.

Ignorar o conflito não o elimina. Apenas o torna mais perigoso.

<><> Entre sobreviver e transformar

Todo governo reformista enfrenta uma tensão clássica: a diferença entre sobreviver politicamente e alterar estruturas de poder.

Sobreviver exige alianças amplas, moderação tática e capacidade de negociação. Transformar pressupõe conflito, definição de adversários e disposição para correr riscos. Equilibrar essas dimensões é uma das tarefas mais difíceis da liderança política.

O discurso da guerra sugere que o governo percebe a necessidade de deslocar gradualmente esse equilíbrio — de uma postura predominantemente defensiva para outra mais afirmativa. Mas discursos não reorganizam correlações de força.

Se a eleição será de fato uma guerra, ela não será vencida apenas no plano institucional. Dependerá da capacidade de reconstruir vínculos sociais, mobilizar expectativas e oferecer um horizonte de futuro que vá além da mera contenção do adversário.

Transformar uma coalizão eleitoral em base social ativa talvez seja o maior desafio do ciclo político que se aproxima.

<><> O risco da guerra apenas retórica

Há, contudo, um perigo evidente. Se a linguagem do confronto não vier acompanhada de mudanças políticas consistentes, ela pode produzir apenas temperatura — não direção.

Guerras políticas são vencidas por estratégia, não por vocabulário.

Isso implica maior clareza programática, comunicação direta com a sociedade, redução de ambiguidades nas alianças e disposição para disputar narrativas econômicas e sociais.

Caso contrário, o país pode entrar em uma eleição marcada por alta intensidade discursiva e baixa definição de projetos — um cenário historicamente propício à instabilidade.

<><> Uma eleição que decidirá mais do que um governo

O que está em jogo em 2026 provavelmente ultrapassa a alternância tradicional de poder. A disputa tende a envolver concepções distintas sobre o papel do Estado, o lugar do Brasil no mundo, os limites da democracia e a própria ideia de desenvolvimento.

Em momentos assim, a moderação excessiva pode ser tão arriscada quanto a radicalização irresponsável.

Ao declarar que a eleição será uma guerra e que a política se degradou, Lula parece abandonar a ilusão de que ainda seria possível conduzir o país apenas pela lógica da acomodação. O ciclo histórico que permitiu essa estratégia ficou para trás.

Isso não significa transformar a política em campo de batalha permanente. Significa reconhecer que democracias também exigem defesa — e que a neutralidade raramente protege aqueles que pretendem transformá-las.

<><> O que essas frases realmente revelam

Mais do que um gesto de dureza, as declarações presidenciais revelam uma percepção crescente nas democracias contemporâneas: entramos em uma era de disputas prolongadas, nas quais consensos mínimos se tornam raros e vitórias eleitorais deixam de encerrar conflitos.

O Brasil chega a esse momento carregando suas desigualdades históricas, sua fragmentação partidária e um sistema institucional que combina resiliência com vulnerabilidades.

Talvez a maior contribuição dessas falas tenha sido retirar o debate do terreno confortável das ficções moderadoras.

O país não caminha para uma eleição rotineira. Caminha para uma disputa que testará a capacidade das instituições, a maturidade do eleitorado e a habilidade das lideranças de oferecer mais do que medo — oferecer direção.

Se haverá guerra, como disse o presidente, ela não começou agora. Apenas deixou de ser sussurrada para ser nomeada.

E, na política, dar nome aos conflitos costuma ser o primeiro passo para enfrentá-los.

 

Fonte: Brasil 247

 

Revolta: Reajustes abusivos do Planserv são denunciados ao TCE-BA

Uma denúncia contra o aumento de mensalidades do Planserv, o plano de saúde dos servidores estaduais, foi protocolada no Tribunal de Contas do Estado da Bahia (TCE-BA). Além dos reajustes considerados abusivos, a denúncia encaminhada ao órgão aponta para a falta de transparência na gestão do Estado e ausência de informações sobre melhorias no sistema de saúde.

O documento foi enviado ao TCE na última quinta-feira (5) pelo deputado estadual Hilton Coelho (PSOL). A representação questiona os efeitos da Lei Estadual nº 15.034/2025, aprovada em dezembro do ano passado, que alterou as regras de custeio do Planserv. Segundo o parlamentar, a legislação aumentou significativamente a contribuição dos beneficiários sem a apresentação de dados financeiros, estudos ou plano claro de aplicação dos novos recursos.

Uma reportagem do CORREIO mostrou que beneficiários chegam a pagar valores 130% mais altos desde que foi estipulado um percentual fixo de 5,5% para as mensalidades. Antes disso, as contribuições variavam conforme faixas salariais e respeitavam o teto de R$ 721. Previsões do próprio governo já apontavam que apenas 30% dos beneficiários teriam redução nos valores pagos mensalmente.

Reajustes de mensalidades do Planserv

A reestruturação do Planserv também trouxe mudanças para as cobranças de dependentes. Cônjuge e companheiro(a) pagam o valor correspondente ao percentual de 50% da contribuição do titular. Enquanto os demais tipos de dependentes pagam o equivalente a 22%.

Na denúncia encaminhada ao TCE, o deputado afirma que a qualidade do Planserv vem se deteriorando desde 2015, período em que a contribuição patronal do Estado, hoje em 3,25%, foi reduzida progressivamente.  O documento cita ainda relatos de desassistência, demora no atendimento e descredenciamento de profissionais e unidades de saúde.

A denúncia solicita a realização de auditoria no Planserv, divulgação da real situação financeira do sistema, apresentação de um plano de melhorias e apuração dos valores que teriam deixado de ser repassados ao plano desde a redução da contribuição estadual. Enquanto isso, professores das quatro universidades estaduais da Bahia se mobilizam para ingressar com ações judiciais contra os reajustes considerados abusivos.

O movimento é conduzido pelo Fórum das Associações Docentes das Universidades do Estado da Bahia (FAD), que reúne professores da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

De acordo com Karina Lima Sales, coordenadora do Fórum, o grupo está em fase de coleta de documentos para ingressar com ao menos quatro ações judiciais coletivas, sendo uma para cada universidade estadual.

<><> Professores de universidades estaduais vão entrar na Justiça contra reajustes abusivos do Planserv

As mudanças no formato de cobrança das mensalidades do Planserv, a assistência em saúde dos servidores estaduais baianos, têm provocado reações em diversas categorias. Dessa vez, professores das quatro universidades estaduais da Bahia se mobilizam para ingressar com ações judiciais contra os reajustes considerados abusivos.

O movimento é conduzido pelo Fórum das Associações Docentes das Universidades do Estado da Bahia (FAD), que reúne professores da Universidade Estadual de Feira de Santana (Uefs), Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia (Uesb), Universidade Estadual de Santa Cruz (Uesc) e Universidade do Estado da Bahia (Uneb).

De acordo com Karina Lima Sales, coordenadora do Fórum, o grupo está em fase de coleta de documentos para ingressar com ao menos quatro ações judiciais coletivas, sendo uma para cada universidade estadual. Entre os itens colhidos pela entidade estão contracheques de professores que comprovam aumentos de até 147% nas mensalidades do Planserv. Documentos serão aceitos até o dia 23 de fevereiro.

"Esse aumento configurou-se como abusivo para docentes, totalmente em discrepância com o reajuste salarial que o movimento docente conquistou. Não apoiamos a reestruturação e seguimos considerando-a inaceitável, já que as servidoras e servidores e suas famílias assumiram mais custos, sem termos garantias reais de mudanças", afirma Karina Lima.

<><> Mudanças

Se antes a cobrança das mensalidades era feita com base em faixas salariais e tinha como teto o valor de R$ 721, desde janeiro deste ano o valor pago pelos servidores passou a ser 5,5% da remuneração bruta de cada beneficiário. A mudança foi implementada por uma lei de governo do estado, aprovada pela Assembleia Legislativa da Bahia (Alba) em dezembro.

Antes de o PL ser apresentado aos deputados estaduais, integrantes do fórum que reúne docentes das universidades baianas participaram de reuniões com representantes do governo estadual. Os professores demonstraram indignação com as mudanças e cobraram propostas efetivas para a melhora do serviço. Previsões do próprio governo já apontavam que apenas 30% dos beneficiários teriam redução de mensalidade.

"Apontamos que não seria possível aprovar uma alíquota de aumento da contribuição sem que pudéssemos ouvir as nossas bases, apresentar dados concretos da realidade do Planserv e a crise vivenciada, mas principalmente contar com um planejamento consistente do governo, para a requalificação dos serviços de assistência à saúde", diz Karina Lima.

<><> Reajustes de mensalidades do Planserv

"O Planserv enfrenta um encolhimento da rede credenciada e dificuldades crescentes para realização de exames, procedimentos e consultas, sobretudo no interior", acrescenta a coordenadora. A reportagem entrou em contato com o Planserv e com a Secretaria da Administração do Estado da Bahia (Saeb), que não responderam sobre as críticas dos professores sobre os aumentos de mensalidades.

A reestruturação do Planserv também trouxe mudanças para as cobranças de dependentes. A partir deste ano, cônjuge e companheiro(a) deverão pagar o valor correspondente ao percentual de 50% da contribuição do titular. Os demais tipos de dependentes pagarão o equivalente a 22%. O aumento da contribuição do Estado saiu de 2,5% para 3,25%.

Karina Lima orienta que professores de universidades estaduais, em atividade ou aposentados, interessados em integrar as ações judiciais coletivas, procurem sua associação docente e verifiquem os endereços de e-mail para envio de documentos.

•        Beneficiários do Planserv denunciam internação em enfermaria mesmo com plano especial

Não é novidade que os beneficiários do Planserv enfrentam o sucateamento do plano de saúde dos servidores estaduais, projeto iniciado no mal fadado governo de Rui Costa e com a continuidade no desgoverno d Je rônimo Rodrigues. Entre os principais problemas denunciados estão o descredenciamento de hospitais e a dificuldade para agendar exames e consultas. Mas pacientes que procuram a emergência do Hospital de Brotas, exclusivo do Planserv, têm enfrentado mais uma dificuldade.

Os beneficiários têm sido orientados a assinar, na recepção da unidade de saúde, um termo que autoriza o internamento em uma acomodação inferior à contratada. Isso aconteceu nesta semana com uma paciente, que prefere não se identificar. Após ser diagnosticada com um trauma e fazer uma tomografia, recebeu o Termo de Anuência para Permanência em Acomodação Diferente da Contratada.

Servidores realizam protesto contra sucateamento do Planserv em Salvador

Na prática, mesmo pagando o plano especial, a paciente precisaria ficar acomodada na enfermaria. O motivo? Falta de vaga. O termo diz que a transferência para o quarto seria feita quando houvesse disponibilidade - sem que um prazo fosse estabelecido. O acompanhante da paciente denunciou o caso à reportagem.

"Fomos orientados, no hospital, a assinar o documento para internação na enfermaria. O problema é que nós não temos hospitais atendendo os servidores do Estado e, os poucos que atendem, ficam lotados", reclama o acompanhante. Após o exame, a paciente não assinou o documento e foi para casa.

"É uma situação absurda. Se você paga mais caro por apartamento, não deveria ficar na enfermaria. O Planserv não tem rede de atendimento suficiente porque o plano foi sucateado e nós precisamos ficar nessa situação", acrescenta. Reportagens passadas feitas pelo CORREIO já revelaram as dificuldades enfrentadas pelos beneficiários do plano para acessar emergências de hospitais credenciados na capital baiana.

Com a negativa de atendimento em outros hospitais, a demanda pelo Hospital de Brotas aumenta. O hospital de uso exclusivo de beneficiários do Planserv foi inaugurado em junho de 2024, com 51 leitos, três salas de centro cirúrgico (03 salas) e centro médico. A unidade tem sido alvo de críticas dos servidores, que chegaram a apelidar a unidade de 'matadouro de servidor', como foi dito em um protesto em frente ao hospital, em novembro do ano passado.

<><> Plano especial

Segundo informações publicadas no site do Planserv, os beneficiários têm a opção de escolher entre duas modalidades de assistência: básica, com acomodação em enfermaria, e especial, com acomodação em apartamento. A assistência especial implica acréscimo na contribuição mensal no valor de R$ 120 por beneficiário inscrito nessa modalidade. Em caso de mudança para o plano mais caro, a carência é de 12 meses.

O advogado Pedro Sampaio Falcão, especialista em Direito à Saúde, explica que o plano de saúde - mantido pelo Estado ou particular - tem a obrigação legal de cumprir o contrato e acomodar o paciente na categoria contratada. "Com a sobrecarga da rede conveniada, os planos aproveitam o estado de urgência e tentam sugerir uma acomodação inferior, porém não é o correto. Se não há vagas na acomodação contratada, o plano deverá cobrir em hospital particular não-conveniado", explica.

Pedro Sampaio Falcão ressalta ainda que o termo de concordância pode ser anulado em caso de processos judiciais. "Recomenda-se abrir uma reclamação na ouvidoria do Estado, ou — caso não surta efeito — até mesmo uma medida judicial contra o Estado para reparação dos danos ou pedido de urgência para que acomode conforme seu plano", indica o advogado.

A reportagem entrou em contato com o Planserv, através da assessoria de imprensa, mas o plano não se manifestou sobre a falta de acomodações para pacientes que pagam o plano especial. O CORREIO perguntou ainda de que forma as mudanças na cobrança de mensalidades, que entram em vigor neste ano, deverão melhorar a assistência prestada. A reportagem será atualizada assim que houver posicionamento.

<><> Novidades

A lei que determina mudanças na forma de cobrança de mensalidade do Planserv foi sancionada no dia 12 de dezembro pelo governador Jerônimo Rodrigues (PT). De acordo com cálculos do Governo do Estado, 130 mil beneficiários terão redução das mensalidades, o que representa 26% do total de beneficiários, que é de 500 mil. O aumento da contribuição de servidores e do Estado tenta conter a crise do Planserv, que fechou 2024 com déficit de R$ 198 milhões.

Projeto de Lei para reestruturação do Planserv

A Lei 15.032/2025 estabelece um percentual fixo de 5,5% para todos os usuários. A partir de 2027, a contribuição aumenta para 6% do salário a partir de 2027. A cobrança atualmente é feita com base em faixas salariais. O aumento da contribuição do Estado também será escalonado, saindo dos atuais 2,5% para 3,25% a partir do ano que vem. Já em 2027, a participação estatal será de 4%.

As mudanças ainda acabaram com o teto de contribuição do servidor, que atualmente é de R$ 721. A Associação dos Gestores Governamentais do Estado da Bahia (AGGEB) afirma que os servidores públicos com maiores salários poderão ter aumento de até 200% no valor das mensalidades.

 

Fonte: Correio 

 

O que o colonialismo tem a ver com o cuidado?

O primeiro dia de debates do 18º Congresso Paulista de Saúde Pública, que acontece na USP até a próxima quarta (11), suscitou um tema que tem andado aquecido: a descolonização – conceito grafado com “S”, mesmo, na programação do evento. Coube a Deivison Faustino, professor da Faculdade de Saúde Pública (USP) e autor de livros que debatem a teoria de Frantz Fanon, adentrar o cerne da questão – e expor a atualidade e urgência de pensar o colonialismo e suas reverberações na saúde hoje.

O colonialismo, frisa Deivison, não representa apenas um momento histórico já superado. Ele continua operando de forma simbólica e ideológica, mas também objetivamente como “uma forma de exploração e organização do mundo”. Em uma operação dupla, “enquanto o colonialismo é genocídio, ocupação, violência e escravização, ele também é a construção de uma ideia de humano em que uma parte da humanidade aparece como expressão universal dela toda”.

A questão da humanidade – e a quem ela é historicamente conferida – esteve no centro de toda a fala de Deivison. Como buscar uma universalidade real, que abarque as múltiplas determinações?, questiona o professor. Conseguiremos fazê-lo, ou “estamos tão imersos nesse país, que passou mais tempo na escravidão do que livre, que também somos parte da reprodução dessas violências, mesmo quando nos vestimos de crítica?”

“A rigor”, define o professor, “o colonialismo é parte incontornável do sistema capitalista. Para Marx, não haveria capitalismo, democracia ou industrialização sem colonialismo: o saque, genocídio, violência, expropriação de terras e estupro coletivo foram o  que permitiu à Europa acumular capital para desenvolver-se. O colonialismo permitiu universalizar o capital, convertendo toda a humanidade em produtora de valor”.

E o que estas considerações têm a ver com a Saúde Coletiva? Transformações como a Política Nacional de Saúde Integral da População Negra (PNSIPN), pensa Deivison, foram pensadas “com e para o SUS, como caminho para a universalidade”. Mas são compreendidas muitas vezes, inclusive entre os sanitaristas, como um movimento pela fragmentação. Isso é falso, explica ele, e reflete justamente esse colonialismo que confere humanidade – e universalidade – apenas ao homem branco e europeu.

Deivison faz uma recuperação histórica para explicar o racismo sanitário no Brasil. Por um lado, a saúde das pessoas escravizadas era pensada em termos veterinários – uma vez que eram consideradas propriedade de seus senhores. Por outro, foram os seus saberes e de outros grupos marginalizados (indígenas e populares europeus) que predominaram no período colonial para o cuidado à saúde de todos.

Quando a medicina começa a se institucionalizar no país, no começo do século XX, remonta Deivison, ela vem carregada de eugenia. “Esses saberes passam a ser perseguidos como charlatanismo, vistos como ameaça, não como possibilidade. Esses mesmos saberes que produziram cuidado – e ainda produzem em muitos lugares onde a saúde dita universal e moderna não chega – são marginalizados.”

Deivison destaca que o movimento negro esteve organizado junto à Reforma Sanitária Brasileira para a construção do SUS, por perceber que tal luta também beneficiaria o povo negro. Mas, desde então, “muitas vezes, a discussão sobre racismo foi vista com desconfiança, quando não barrada, dentro do próprio SUS. Havia a ideia de que falar de negro, de indígena, de racismo, poderia ameaçar a noção de universalidade”.

Ainda hoje, lembra ele, é preciso lutar pelo básico no SUS – como a inserção do quesito raça/cor nos serviços de saúde, para que se possa compreender as necessidades específicas dessa população. “Mas o básico implica perguntar qual o lugar dessas discussões em nossas reflexões sobre saúde”, provoca o professor.

Deivison encerra: “Essa é uma oportunidade, mas ela exige assumir como tarefa de todas as pessoas o enfrentamento a esse modelo colonial. Um modelo que não produziu só o negro, o indígena, a pessoa em situação de rua como ‘o outro’. Produziu a nós todos como uma coisa colonial que reproduz violência, muitas vezes a despeito de nossas vontades e intenções”.

<><> Colonialismo e direitos humanos

Na mesma manhã, a conferência de Deivison Faustino foi seguida por quatro mesas de debate simultâneas, com temas ligados à Descolonização, Cuidado e Poder Comunitário, eixo do dia. Uma delas foi Direitos Humanos e Saúde: perspectivas descoloniais, com os debatedores Alexandre Silva (Ministério dos Direitos Humanos), Juarez Tadeu de Paula Xavier (UNESP Bauru) e Fernando Aith (FSP/USP).

Alexandre frisou, em toda a sua fala, como os direitos às pessoas idosas são negados, assim como seu reconhecimento. Ele exibiu alguns mapas que mostravam como o envelhecimento é desigual: pessoas negras vivem menos e a desigualdade regional é marcante. Ele questiona o fato de que, no Brasil, pessoas empobrecidas pagam proporcionalmente mais impostos e contribuem por mais tempo com o INSS – e não lhes é dado o direito nem a usufruir de fato de sua aposentadoria.

Juarez deu um passo além: o massacre de jovens negros ainda não é tratado como um problema central no Brasil. A sociedade não discute de fato alternativas que levem essa população a ter o direito à vida. O Brasil está repleto de “microlaboratórios de experiências nazifascistas de extermínio das populações indesejáveis”.

E embora o acesso de pessoas negras à universidade esteja se ampliando e haja diversos estudos buscando compreender a violência policial, falta avançar de fato. Os indicadores não estão reduzindo, as pesquisas não estão se traduzindo em diminuição da letalidade. Para Juarez, a banalidade da morte avança no país de forma assustadora – “e nós convivemos bem com isso!”, indigna-se.

O tema da universalidade foi trazido novamente à tona por Fernando Aith, que traçou um histórico da elaboração dos direitos humanos universais, do século 19 em diante. O professor apresentou as noções de direitos individuais e direitos sociais, em tensionamento desde então, e concluiu: é preciso buscar um modelo multicultural de proteção aos direitos humanos – que aprenda também com a ancestralidade dos povos. Para ele, há um “potencial enorme” na construção descolonizada de direitos humanos, “que nasça da nossa história de democracia, dos movimentos sociais, dos mecanismos de participação democrática e do livre pensar”.

 

Fonte: Por Gabriela Leite, Outra Saúde

 

'Herançocracia': por que gerações atuais dependem mais do patrimônio dos pais para seu sucesso financeiro

A historiadora britânica Eliza Filby conta que, sempre que uma empresa a convida para dar uma palestra, ela começa explicando aos empregadores um ponto que ela acredita ser fundamental para entender a dinâmica dos ambientes de trabalho modernos.

"Você percebe que, agora, seus empregados com menos de 45 anos têm mais possibilidade de comprar uma casa sendo leais aos seus pais e não ao seu chefe?"

Filby é autora de Inheritocracy: It's Time to Talk About the Bank of Mum and Dad ("'Herançocracia': está na hora de falar do banco da mamãe e do papai", em tradução livre).

O livro é best-seller no Reino Unido e analisa como a fortuna acumulada por uma geração específica (os baby boomers, nascidos entre 1946 e 1964) modelou o sistema econômico no qual as gerações posteriores precisaram se desenvolver.

"'Herançocracia' é um título intencionalmente provocador", declarou a autora ao apresentador do podcast Radical, da BBC Rádio 4, Amol Rajan. "É o oposto da meritocracia, a crença de que o trabalho árduo resultará em sucesso e oportunidades."

"A herançocracia é uma sociedade na qual o importante não é o quanto você ganha, nem o que você aprendeu", prossegue ela, "mas sim se você tem acesso ao banco da mamãe e do papai, que é o que define suas oportunidades, sua rede de segurança e sua plataforma para a vida adulta."

Filby garante que este fenômeno tem imenso impacto sobre a vida da geração X (os nascidos entre 1965 e 1980) e os millennials (entre 1981 e 1986). E poderá continuar se expandindo no futuro para a geração Z (1997 a 2012) e alfa (2013 a 2024).

<><> Meritocracia

Filby destaca que o conceito de meritocracia nasceu como uma advertência. O sociólogo britânico Michael Young (1915-2002) cunhou o termo em 1958 como uma sátira, não como um ideal.

No seu livro The Rise of the Meritocracy ("A ascensão da meritocracia", em tradução livre), Young descreveu uma sociedade em que o sucesso era moralmente justificado pelo talento e pelo esforço, enquanto o fracasso era culpa exclusiva do indivíduo.

Com o passar do tempo, a ironia se perdeu e a palavra passou a ser usada como elogio.

Para Filby, este mal-entendido é fundamental para entendermos a frustração da geração atual.

"A ideia de que o trabalho árduo deveria trazer recompensas é fundamental para qualquer democracia", declarou ela à BBC. "O problema é que reduzimos o mérito a passar nos exames, acumular credenciais e seguir um único caminho educacional."

A escritora explica que, em parte, a ideia do mérito se popularizou entre os baby boomers porque foi um conceito que serviu bem a muitos deles.

Foi uma época em que se tornaram comuns as histórias de pessoas que conseguiram sair de casa com pouca idade e, pelo caminho da educação superior, construíram seu próprio futuro.

Mas Filby recorda que os reais motivos que fizeram com que este caminho funcionasse tão bem para os baby boomers estão menos concentrados no mérito e mais nas características sem precedentes do mundo do pós-guerra, com crescimento econômico sustentado, impulsionado pela "paz" frágil, mas consistente, oferecida ao mundo pela Guerra Fria (1947-1991).

Com maiores receitas, os governos buscaram formas de democratizar as oportunidades para os jovens da zona rural ou da classe trabalhadora e encontraram um caminho para isso, com a educação superior.

Filby reconhece que a intenção foi boa e que, em termos sociais e culturais, o envio de mais pessoas para a universidade trouxe benefícios reais.

Mas ela também defende que, a partir dos anos 1990, este impulso ajudou a consolidar uma narrativa única do significado do sucesso: estudar, ir para a universidade, conseguir um diploma e atingir uma carreira profissional estável.

Ocorre que o sistema não tinha condições de garantir este mesmo sucesso para todos os que ingressassem na universidade.

Para a autora, "o problema é que construímos um sistema em que 50% das pessoas não tinham uma forma alternativa clara rumo a uma vida segura".

Para muitos jovens, não ir para a universidade deixou de ser uma opção legítima. E, para os que cursaram o ensino superior, o valor monetário de um título universitário começou a cair, enquanto os custos para consegui-lo disparavam.

O resultado foi uma geração que se endividou para ter acesso a uma promessa que não garantia mais a estabilidade.

Em muitos casos, os mais afetados foram jovens de famílias mais modestas, motivados pelo desejo de ganhar mais dinheiro para ajudar em casa.

Filby explica que o sistema não fracassou apenas por motivos econômicos, mas pela sua rigidez.

Ele foi construído em torno de uma ideia limitada do que constitui inteligência e sucesso, herdada do século 19, uma época em que a economia e a tecnologia viviam uma transformação radical.

A autora afirma que essa rigidez se torna ainda mais problemática em uma época em que a inteligência artificial ameaça até mesmo as funções de escritório.

"A educação não pode terminar aos 21 anos", orienta ela. "E não pode recair apenas sobre as pessoas."

"Durante décadas, as empresas terceirizaram a formação universitária. Antes, se aprendia no trabalho. Hoje, as empresas esperam empregados 'prontos' e investem muito pouco no seu treinamento."

<><> O banco da mamãe e do papai

Nas condições atuais, Filby afirma que o "banco da mamãe e do papai" se transformou em uma fonte de estabilidade maior do que o próprio trabalho. Isso está alterando a dinâmica em diferentes áreas da sociedade.

Mas a autora destaca que, na maioria dos casos, o que ocorre não são atos de avareza ou irresponsabilidade juvenil, mas sim de adaptação.

"A família está intervindo porque o Estado se retirou e o mercado ficou disfuncional em áreas fundamentais", explica ela. "Em muitos sentidos, é uma história de amor parental."

Filby conta que a expressão "banco da mamãe e do papai" começou a surgir no Reino Unido perto de 2013. Ela descreve o fenômeno cada vez mais comum que leva pais e avós a usarem seu patrimônio para ajudar seus filhos e netos a pagar estudos, aluguel, hipotecas, creches ou simplesmente para poderem chegar ao final do mês.

Depois da crise financeira de 2008, o panorama econômico para as pessoas que entravam na idade adulta mudou repentinamente.

Algumas coisas passaram a ser mais baratas, como a tecnologia, viagens e alguns luxos do dia a dia. Mas outras começaram a subir, como a moradia, educação, o cuidado com as crianças e, em alguns países, a assistência médica.

Neste panorama, muitos jovens passaram a se concentrar nos gastos pequenos e visíveis, como o café, uma viagem ou o telefone celular. Já os grandes feitos da vida adulta começaram a ficar inatingíveis sem a ajuda da família.

É daí, segundo a autora, que nasce o estereótipo do millennial que gasta em "torradas com abacate", uma caricatura que ignora o contexto estrutural por trás daquela imagem.

Filby também afirma que o banco da mamãe e do papai não é um conceito válido apenas para a classe média acomodada.

Ela explica que, na verdade, a maioria dos jovens que moram com seus pais com perto de 30 anos de idade vem de famílias da classe trabalhadora.

Nestes casos, o apoio não se traduz em depósitos para financiamento imobiliário, mas sim em teto, comida e cuidados mútuos.

"A solidariedade familiar aumentou em todos os níveis de renda", segundo Filby.

São os avós que cuidam dos netos para que seus filhos possam trabalhar. Pais que abrigam filhos adultos para que eles economizem. Famílias que funcionam como redes de segurança frente a um sistema cada vez mais frágil.

O problema, segundo a autora, é que nem todas as famílias podem fazer isso. Ela destaca que, em uma sociedade em que a estabilidade depende da família, o nascimento passa a ser decisivo.

O divórcio, as famílias misturadas, os conflitos familiares ou simplesmente a pobreza estrutural se transformam em profundas desvantagens.

O resultado é uma economia em que a lealdade à família é mais importante que a lealdade ao empregador e a riqueza não se acumula pelo salário, mas principalmente pelos bens, explica Filby.

E o trabalho, mesmo que bem remunerado, não consegue garantir o acesso aos pilares básicos da vida adulta.

<><> Sociedade herdada

Em um fenômeno tão profundo como a herançocracia, seus efeitos se estendem além do dinheiro.

Filby afirma que a herançocracia está reconfigurando a forma como as pessoas escolhem parceiros, planejam sua vida e entendem a segurança.

Ela cita como exemplo a escolha seletiva de parceiros, que é a tendência a formar casais entre pessoas com origens e recursos similares.

Durante o século 20, grande parte da mobilidade social feminina ocorreu pelo casamento. Hoje em dia, o padrão é diferente.

Filby explica que, inicialmente, a formação de casais se dava entre formandos universitários. Mas, desde a crise de 2008, a variável decisiva passou a ser outra: o acesso ao patrimônio familiar.

"Não é que as pessoas se casem pelo salário do outro", afirma ela. "É que duas pessoas com banco de mamãe e papai tendem a se encontrar e se unir."

A autora menciona pesquisas que indicam que mais da metade dos jovens da geração Z consideram a compatibilidade financeira um fator central em uma relação. Esta é uma proporção muito maior do que nas gerações anteriores.

Some-se a este panorama a pressão sobre a classe média.

Filby indica que, embora a riqueza extrema tenha aumentado, a maior parte do patrimônio privado permanece concentrada em amplos setores da população mais idosa.

Paralelamente, ela descreve uma "classe média espremida", especialmente na geração X, entre o apoio aos filhos adultos e o cuidado com os pais envelhecidos.

Para Filby, este fenômeno está levando as gerações atuais a perder a fé na ideia de que o Estado moderno pode proporcionar um sistema em que eles e seus filhos possam ter uma vida melhor no futuro, rompendo a promessa básica inculcada pelos seus pais.

Isso faz com que o mundo viva um período similar à década de 1970, ou seja, uma etapa de desilusão, que obriga as pessoas a reformular as bases do contrato social.

"Escrevi este livro porque precisamos falar disso", afirma ela. "Não se trata de 'bebês nepotistas'. Trata-se de como as oportunidades são distribuídas."

Filby deixa claro que entender como a herançocracia funciona não garante que iremos escapar dela, mas permite tomar decisões pessoais e coletivas mais bem informadas.

Ela adverte que o risco é não o fazer. Afinal, quando uma sociedade deixa de acreditar que o esforço vale a pena, algo mais profundo que a economia começa a desmoronar.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

Oliveiros Marques: O fim da democracia norte-americana

A democracia não costuma morrer de uma vez. Ela vai sendo tensionada, corroída, esvaziada por dentro. O que se observa nos Estados Unidos sob o governo Trump é justamente esse processo: uma sequência de decisões e gestos políticos que, somados, desenham um preocupante enfraquecimento das bases democráticas.

A atuação do ICE tornou-se um dos símbolos mais visíveis dessa escalada. A política de perseguição agressiva a imigrantes, com operações espetaculosas e detenções em massa, ultrapassa o debate legítimo sobre controle migratório e assume contornos de intimidação social, inclusive naturalizando a morte de cidadãos norte-americanos por esses agentes. Mais grave ainda é o envio de agentes federais para atuar de maneira ostensiva em estados e cidades governados por democratas, muitas vezes à revelia das autoridades locais, tensionando o pacto federativo e criando uma espécie de intervenção política indireta.

A democracia também se enfraquece nos gestos simbólicos. A exclusão de governadores democratas de eventos tradicionais que historicamente reuniam lideranças de ambos os partidos com o presidente — inclusive a ausência de convite ao único governador negro do país — não é mero detalhe protocolar. É sinalização política de que o diálogo institucional deixa de ser regra para dar lugar à lógica da exclusão e do adversário como inimigo. Há ainda o uso do orçamento como instrumento de pressão. O corte ou bloqueio de verbas destinadas a áreas sensíveis, como saúde pública, em estados governados pela oposição, não se enquadra apenas como divergência administrativa. Trata-se de uma prática que instrumentaliza políticas públicas para punir o povo em nome de divergências políticas, ferindo o princípio de que o Estado deve servir à população independentemente da cor partidária de seus governantes.

A retórica constante de deslegitimação de eleições, ataques à imprensa, confrontos com o Judiciário e estímulo à polarização permanente completam esse quadro. Democracias vivem do respeito às regras do jogo, da alternância de poder e da confiança nas instituições. Quando o próprio chefe do Executivo coloca esses pilares sob suspeita contínua, o sistema passa a operar sob tensão permanente.

Não por acaso, manifestações de rua e mobilizações da sociedade civil têm se multiplicado nos Estados Unidos. Parte significativa da população percebe que a normalização de práticas autoritárias corrói silenciosamente o regime democrático. A história mostra que erosões institucionais nem sempre são abruptas; muitas vezes acontecem sob o manto da legalidade formal.

Esse modelo não é distante da realidade brasileira. Foi exatamente esse tipo de projeto que a família Bolsonaro tentou implementar no Brasil, seja pela via eleitoral, seja pela tentativa de ruptura institucional entre 2022 e 2023. A afinidade política e discursiva não era coincidência. Documentos já tornados públicos indicam, inclusive, a circulação de recursos e articulações internacionais que levantam questionamentos sobre financiamentos e conexões transnacionais de grupos extremistas. Parte dos documentos do caso Epstein que vieram a público confirma o repasse de milhões de dólares a pessoas no Brasil.

O Brasil escapou de um processo mais profundo de deterioração democrática graças à resistência institucional e à reação da sociedade. Mas o alerta permanece. O que se observa nos Estados Unidos não pode ser tratado como modelo a ser seguido. Ao contrário, deve servir de advertência. A democracia norte-americana, com sua tradição e seus freios institucionais, certamente reagirá. As manifestações nas ruas indicam que parte expressiva da sociedade não aceita a substituição do diálogo pelo confronto permanente. Muito provavelmente, essa inflexão autoritária será rechaçada pelos próprios eleitores. O fim da democracia não é inevitável — e, por isso, exige vigilância constante. Essa é uma lição que vale tanto para os Estados Unidos quanto para o Brasil.

¨      Jesuíta Reese sobre Trump: Um desastre para os Estados Unidos e para o mundo inteiro

"Donald Trump é uma dádiva para cartunistas políticos, editorialistas e entusiastas das redes sociais, mas eu o considero paralisante"; "Eu o considero psicologicamente exaustivo"; "ele age como uma criança mimada e descontrolada, só que maior, mais cruel e mais forte do que todos ao seu redor." O padre jesuíta americano Thomas J. Reese, ex-editor da revista jesuíta americana America Magazine, não poupa palavras em um editorial dedicado ao presidente dos EUA, Donald Trump: “Se ele fosse um cidadão comum, poderíamos rir dele e chamá-lo de mentiroso, um narcisista egocêntrico, mas ele é o presidente dos Estados Unidos”, escreve Reese. “Como presidente, Trump está destruindo os Estados Unidos. Ele envenenou nossa cultura política, colocando cidadãos uns contra os outros, celebrando conflitos e até mesmo a violência. Ele une sua base alimentando o ódio contra aqueles que ele percebe como inimigos. Seu partidarismo exacerbado tornou impossível uma discussão política calma, mesmo entre amigos e vizinhos. Como presidente, ele está enriquecendo a si mesmo, sua família e seus amigos. Ele até corrompeu a religião, a ponto de pastores poderem perder seus púlpitos se não forem seus apoiadores entusiasmados, alienando aqueles que desejam suas igrejas livres da política partidária.”

Trump, continua o padre Reese, "minou o sistema de justiça ao conceder indultos aos insurgentes que invadiram o Capitólio e atacaram violentamente a polícia. Indultos também estão sendo concedidos a apoiadores políticos e doadores. Ele usou o Departamento de Justiça para atacar seus oponentes políticos com investigações criminais forjadas. Ele também transformou o Departamento de Segurança Interna em uma ferramenta de vingança partidária. Ele desviou agentes do FBI de investigações sobre crime organizado, corrupção e ameaças à segurança nacional para usá-los contra políticos e áreas do país que não o apoiam. Ele invadiu cidades e estados democratas com agentes mal treinados do Serviço de Imigração e Alfândega (ICE) e da Patrulha de Fronteira (CBP), que agiram implacavelmente contra imigrantes e cidadãos, resultando em dois assassinatos cometidos por agentes federais em Minneapolis."

Seus ataques, afirma o jesuíta, "vão além dos políticos e das cidades democráticas. Ele ataca universidades e a comunidade científica com processos judiciais e cortes unilaterais de verbas. Ele usa os erros de alguns para punir a todos. O dano que ele causou à pesquisa científica atrasará o país por décadas, assim como a China nos alcançou e nos ultrapassou em algumas áreas de pesquisa." Além disso, "Ao fingir defender a liberdade de expressão nos campi universitários, ele intimida o mundo acadêmico, silenciando-o. Ao fingir defender os judeus, ele acolhe os antissemitas, caso estes o apóiem."

Até mesmo a mídia sentiu sua ira: "Jornalistas que desafiam o governo ou fazem perguntas pertinentes são insultados e humilhados. Casas de jornalistas são invadidas; computadores e telefones são confiscados. Veículos de comunicação se veem obrigados a administrar seus negócios em risco devido à fiscalização governamental e à possibilidade de perder financiamento e contratos públicos." Todas as informações são severamente afetadas: "A mídia tornou-se cada vez mais fragmentada, focando em apoiadores de Trump ou em opositores ferrenhos. Tentativas de objetividade na cobertura jornalística são ridicularizadas. Até mesmo os escritórios de advocacia mais prestigiosos foram forçados a se submeter, a ponto de agora relutarem em aceitar clientes que o governo considera inimigos. Em vez de serem defensores ferrenhos da lei, abandonaram seus clientes como o Galinho Chicken Little diante das ameaças do presidente."

Trump também destruiu o Partido Republicano, "transformando-o em um feudo que muda de lado dependendo da direção do tornado que ele provocou". Tanto que, explica Reese, "durante a eleição de 2024, os republicanos prometeram divulgar os documentos de Epstein; agora eles foram enterrados ou censurados para proteger Trump e seus amigos. Como presidente, Joe Biden negou a realidade da inflação; agora, 'acessibilidade' é uma farsa democrata. Os americanos têm o direito incondicional de portar armas, até que um cidadão com porte de arma apareça em um protesto contra o ICE; aí ele pode ser desarmado e morto."

O Partido Republicano não tem mais princípios; segue tudo o que Trump diz como um cachorrinho atrás de um petisco. Isso minou a capacidade do Congresso de exercer controle sobre a presidência imperial. Em resumo, os republicanos "estão se destruindo e destruindo o país no altar de Trump. Se perderem as eleições deste ano por uma grande margem, receberão exatamente o que merecem."

Quanto à economia, Trump também prejudicou a economia americana. Líderes empresariais estão satisfeitos com os cortes de impostos e a desregulamentação, mas o futuro a longo prazo das empresas americanas está em questão. Suas tarifas interromperam as cadeias de suprimentos e alienaram parceiros comerciais. As empresas não conseguem planejar com um ano de antecedência porque suas mudanças na política econômica são imprevisíveis. Planejar com cinco ou dez anos de antecedência é impossível. A agricultura foi prejudicada por retaliações de países importadores que não gostam de nossas tarifas. Agricultores e empresas de processamento de alimentos perderam trabalhadores, expulsos sem nenhum crime além de serem imigrantes ilegais. Trump está destruindo a indústria automobilística americana ao interromper as cadeias de suprimentos e impossibilitar as vendas para o exterior. Enquanto o resto do mundo caminha para os veículos elétricos, os Estados Unidos cederam esse mercado para a China. Enquanto Henry Ford atendia à classe trabalhadora com o Modelo T, Detroit produz SUVs e caminhonetes para uma população cada vez menor. Produzir um carro acessível às massas não é mais a prioridade de Detroit.

A situação é ainda pior com a tecnologia verde, que Trump combate "justamente quando a energia eólica e solar se tornaram mais baratas que a energia proveniente de combustíveis fósseis. O país que inventou essas tecnologias as abandonou à China, que também é líder em tecnologia de baterias, para que a energia eólica e solar possa ser armazenada para quando não houver vento nem sol." Além disso, "a revolução energética demonstra por que a aventura de Trump na Venezuela é tão insensata. Ele está gastando bilhões para ter acesso ao petróleo venezuelano, que as grandes petrolíferas não têm interesse em explorar porque investimentos de longo prazo exigem estabilidade econômica e política. Isso é improvável sob os regimes atuais ou futuros na Venezuela. Além disso, a energia verde mais barata ameaçará os lucros das empresas de combustíveis fósseis. Mesmo no Texas, o mercado está desencadeando uma revolução verde imparável."

Enquanto isso, Trump ameaça a segurança nacional ao enfraquecer a OTAN e alienar aliados em todo o mundo. Ele não se importa com o direito internacional nem com os direitos humanos. A Ucrânia não é problema dele, e ele está praticamente convidando a China a invadir Taiwan antes de deixar o cargo.

Em conclusão, para o jesuíta, "Trump foi um desastre para os Estados Unidos, e ainda faltam três anos. Ele entrará para a história como o pior presidente de todos os tempos. Mas ele não é o único culpado. Nós o elegemos. E permanecemos indiferentes, a menos que suas ações nos afetem pessoalmente. Teremos o governo que merecemos." Nessa situação, "o país precisa se unir e deter a estupidez e a tirania de Trump. As universidades precisam se unir e falar a uma só voz em defesa da liberdade acadêmica. Os cientistas precisam denunciar o uso da má ciência para obter ganhos políticos e econômicos. Os escritórios de advocacia precisam desenvolver uma estrutura sólida. Todas as raças, etnias e grupos religiosos não podem permitir que ele nos divida em facções rivais. Os cristãos precisam afirmar que temos apenas um rei: Jesus. Nas urnas e nas ruas, precisamos demonstrar que a ação coletiva não violenta ainda existe na América. O que está em jogo é a alma da nossa nação."

¨      O Neoliberalismo é uma arma do Imperialismo. Por André Fernandes

Acredito que muitos leitores já estão convencidos de que o neoliberalismo é uma arma letal do imperialismo, um “artefato de destruição em massa” que mata aos poucos e tem quase o mesmo efeito, a longo prazo, das bombas que liquidam milhares de famílias mundo afora em nome da “democracia e da liberdade”. Mas permitam-me fazer uma reflexão sobre este tema que, segundo o eminente geógrafo David Harvey, não se trata de um sistema econômico, mas de um projeto político.

Como muitos sabemos, esta “arma letal” surgiu das mentes inescrupulosas de Margaret Thatcher e Ronald Reagan, inspiradas em arautos da economia como Milton Friedman, Friedrich Hayek e Ludwig von Mises, oriundos da tão “notória” Escola Austríaca que “apedeutas profissionais” da atualidade, seja em solo nacional ou no estrangeiro, ainda insistem em clamar como prova de “conhecimento, inteligência e cultura”.

Em seu livro Neoliberalismo como gestão do sofrimento psíquico, Vladimir Safatle — este sim um grande intelectual nacional — descreve o sofrimento cotidiano na sociedade, assim como o calvário pelo qual passam os excluídos de um sistema econômico injusto e cruel que, apesar dos estragos feitos mundo afora, ainda possui propagandistas na academia e nos meios de comunicação. Um sistema econômico que somente reproduz a disparidade social pela qual vivem os países do Sul Global — e agora, também os do Norte — fragmentando sociedades e destruindo nações sem a necessidade de invasões militares — ou mesmo preparando-as para isso — e, por isso mesmo, semelhante a uma arma de guerra.

Carl von Clausewitz dizia que a guerra é a “continuação da política por outros meios”. Com base neste princípio, parece-me justo determinar que os políticos que defendem o neoliberalismo em solo pátrio são agentes e traidores pertencentes a uma “internacional neoliberal” que pretende destruir as nações com a finalidade de espoliar seus recursos naturais. Sendo assim, aqueles políticos que saúdam a bandeira nacional e se autoproclamam zelosos “vigilantes da sociedade” e “defensores da educação”, mas que defendem medidas neoliberais que beneficiam interesses alienígenas e os bancos privados, pertencem a uma força estrangeira para destruir o Brasil e os países do Sul Global, independentemente da sigla e da ideologia que “dizem” pertencer. Aqueles que usam do cargo público para defender o sistema financeiro em detrimento da população são traidores, ponto final.

O neoliberalismo insiste em permanecer nos Estados nacionais, por mais que seja combatido. Como bem descreveu Naomi Klein em sua obra de referência — A Doutrina do Choque —, o sistema neoliberal, muitas vezes, é implantado como “solução” de crises políticas em tempos de “terra arrasada”. Tal qual uma “bomba silenciosa”, destrói famílias e provoca suicídios, pauperização e, finalmente, violência social mundo afora. A “solução”? Repressão policial. E assim cria-se a reação em cadeia de um ciclo vicioso no qual a pobreza e a violência se reproduzem, sociedades são destruídas, e as potências imperialistas e o sistema financeiro ficam livres para exercer a espoliação e o saque. O objetivo final deste “método do caos” é transformar todos os países, inclusive o Brasil, em um “El Salvador”, que se tornou um “exemplo” de administração estatal para aqueles que, em suas vidas medíocres, perderam a esperança de um mundo melhor.

Não é uma coincidência que a agressividade europeia e anglo-saxã se volte para as nações que não adotaram o neoliberalismo como “religião”, tal qual insistem diuturnamente os profetas da mídia corporativa. Pouco importa se os “bárbaros” das estepes russas, os “confucianos marxistas” ou os aiatolás herdeiros dos sassânidas não adotem a fé da democracia liberal. A questão não é a “autocracia eslava”, a suposta opressão sofrida pelos uigures de Xinjiang ou a obrigatoriedade do “hijab”: não se trata disso. Nem as diversas matizes do amplo espectro ideológico importam aqui: um dos grupos terroristas que levaram recentemente o caos às ruas de Teerã eram marxistas curdos, junto com fundamentalistas islâmicos que cortavam cabeças pelas ruas das cidades do Irã, enquanto a mídia internacional os chamava de “manifestantes pacíficos”. Pretensos marxistas e “cortadores de cabeça” de uma seita radical agindo como um aríete de uma invasão internacional, aterrorizando a população e lutando juntos, financiados e treinados pelo imperialismo “turbo capitalista”. Às vezes parece que, de fato, o mundo enlouqueceu. O espectro ideológico não faz a menor diferença na modernidade líquida de Bauman, no ultra-neoliberalismo do turbo capitalismo selvagem que agora perdeu toda a vergonha na figura do Sr. Donald Trump.

Como disse certa vez a grande intelectual Marilena Chauí, é preciso destruir o neoliberalismo para construir algo novo… nem que, para isso, tenhamos que ressuscitar John Maynard Keynes. Karl Polanyi, em sua obra A Grande Transformação, pregava que o socialismo deve ser exercido de forma pontual para combater a miséria deixada pelo sistema capitalista mundial em suas periferias. Eu iria mais longe: o “socialismo” — ou mesmo o “keynesianismo” — deve ser usado como um instrumento de combate ideológico. Estamos todos em um conflito mundial, às vezes nem sempre “silencioso”, que atualmente se transformou em um combate sem trégua pelos recursos naturais do planeta… nem a Groenlândia está a salvo.

Já está mais do que evidente que o destino dos países que adotam o neoliberalismo é perder sua soberania e seus recursos energéticos, afundados no caos social e dominados pelo narcotráfico, tal qual ocorre hoje em um país “andino”, anteriormente pacífico, como o Equador. Uma sociedade desunida e fragmentada é facilmente dominada. Como exemplo maior de resistência, vemos as ruas de Caracas que, mesmo tendo seu presidente sequestrado, foram invadidas por uma multidão clamando o seu retorno: pode-se sequestrar um “rei”, mas não a consciência de seus “súditos” ou de uma nação unida. O mesmo ocorreu em Teerã, onde milhões de iranianos saíram às ruas em defesa da nação de forma espontânea — por mais que a imprensa internacional tente ocultar ou desqualificar este fato. A atomização, resultante da “luta de todos contra todos”, tem como resultado apenas o enfraquecimento das nações, presas fáceis para a “internacional neoliberal”. Já as tradições, a cultura e o conhecimento histórico são os meios pelos quais as sociedades se defendem, muitas vezes de forma inconsciente, deste grande mal.

As palavras de ordem utilizadas pelo neoliberalismo são “liberdade”, “direitos humanos” etc. Mas quantas liberdades e direitos foram usurpados, e quantas vidas foram destruídas, entre os mais de 6 milhões de mortos e refugiados resultantes das “guerras eternas” — como sempre faz questão de lembrar o analista geopolítico Pepe Escobar — que se iniciaram na Primeira Guerra do Golfo Pérsico, no início da década de 1990? Às vezes me questiono: caso os países da América do Sul finalmente resolvessem resistir à “internacional neoliberal”, seguindo o exemplo de Cuba, em quanto tempo as “guerras eternas” não chegariam aqui? E como reagiriam esses países? Hoje vemos, nos protestos das ruas de Minneapolis, as nefastas consequências deste sistema ultra-neoliberal opressor nas entranhas de sua matriz ideológica e material. Tão nefasta e cruel, essa “arma de destruição em massa” foge ao controle e se volta agora até contra seus criadores, como o monstro de Frankenstein. Enquanto isso, o “caso Jeffrey Epstein” e sua “Ilha do Doutor Moreau” no mar do Caribe, visitada por políticos, milionários e “celebridades” em busca de “fantasias” macabras e sexuais, explodem as entranhas da elite neoliberal tal qual o “Alien” do diretor Ridley Scott, implodindo “o sangue e as vísceras” de uma elite atavicamente corrupta que segue em franco declínio moral, material e espiritual. Tudo isso em um período em que esta mesma “elite” global escatológica tenta provocar uma Terceira Guerra Mundial em nome de uma pretensa “superioridade” moral e de uma hegemonia em decomposição.

Como disse certa vez um dos grandes intelectuais de Terra Brasilis, o professor José Luís Fiori, as duas ideologias europeias falharam em sua busca da felicidade do homem: o marxismo, pela busca da igualdade, e o liberalismo, pela busca da prosperidade. O futuro, como diz o eminente professor, é um “futuro ético”, mas a busca desse futuro exigirá grande coragem em um mundo imoral. E não estou falando de qualquer moralidade religiosa ou pequeno-burguesa, mas de uma “moralidade espiritual”. A procura da ética é o primeiro passo do combate à violência neoliberal e imperial. Talvez, quem sabe, a “reencarnação” da busca incessante e sem trégua do “homem novo”, como dizia antigamente um notório revolucionário, seja o caminho: um homem que não luta apenas para obter vantagem pessoal, por sua segurança material ou pela celebridade social. Uma luta inexorável e sem rendição em nome de dois conceitos frequentemente perseguidos, vilipendiados, esquecidos e ignorados: justiça e liberdade.

 

Fonte: Brasil 247/Adista Notizie/IHU