sexta-feira, 30 de outubro de 2026

Gustavo Tapioca: O traidor de 60 milhões também fugiu

A partida repentina de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos — realizada à revelia de sua própria base e em aberto descumprimento de decisões judiciais no Brasil — intrigou observadores da política nacional e internacional. 

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À primeira vista, o movimento foi interpretado no debate público como um ato de desespero diante do cerco jurídico. 

No entanto, uma análise mais apurada das engrenagens de Washington sugere uma inversão fundamental de premissas: 

quem mais precisava de Flávio Bolsonaro em solo americano neste exato momento não era ele próprio, mas sim o Secretário de Estado e estrategista conservador Marco Rubio.

<><> Álibi geopolítico e o Senado 

A operação ocorre em um momento crítico para a política externa e interna dos Estados Unidos. 

Sob a sombra das disputas eleitorais e diante de uma correlação de forças acirrada no Senado americano, lideranças neoconservadoras encontram-se sob forte pressão. 

Trazer Flávio Bolsonaro para os EUA sob a salvaguarda de setores influentes em Washington atende a um duplo propósito utilitário para Marco Rubio. Instrumentalizar a pauta sul-americana para alimentar a base republicana com o discurso de “perseguição política” à extrema-direita no continente.

Afirmar-se como o principal formulador e articulador da política externa para a América Latina sob a doutrina de segurança e influência hemisférica.

 (“This is our hemisphere”) (“Este hemisfério é nosso”), a frase de Marco Rubio consolida sua projeção interna como o sucessor natural de Donald Trump.

<><> Bastidores de Washington

A tese de que a ida do senador brasileiro atende primordialmente aos interesses táticos de Washington encontra respaldo em reportagens e análises veiculadas pela imprensa brasileira e internacional. 

Interlocutores e veículos de comunicação registraram que a acolhida e a facilitação da fuga e da estadia do parlamentar contaram com articulações diretas sob o guarda-chuva de Marco Rubio e do Departamento de Estado que ele comanda.  

Analistas internacionais destacam que o movimento busca fixar uma referência de “oposição no exílio” a partir da Flórida para exercer pressão diplomática sobre o governo brasileiro. 

Ao mesmo tempo, o movimento provocou reações no meio político em Washington: parlamentares democratas repudiam o uso de estruturas diplomáticas para abrigar aliados políticos estrangeiros. 

O episódio elevou o tom do debate diplomático, expondo a tentativa republicana de transformar fricções institucionais sul-americanas em ativos para a disputa política doméstica nos Estados Unidos.

<><> O bolsonarismo desidrata 

Enquanto em Washington a presença de outro Bolsonaro fugitivo atende a uma necessidade tática de Rubio, no Brasil o efeito imediato foi o atordoamento e a orfandade do campo bolsonarista raiz.

Ao trocar o mandato em Brasília pela tutela de gabinetes e dos encantos da Flórida, Flávio Bolsonaro não protagoniza um ato de bravura ou resistência, mas a capitulação definitiva e covarde da sua própria relevância. 

É a amarga ironia do discurso ultranacionalista: o patriotismo de brado que inflamou praças e telas no Brasil termina no silêncio acomodado sob a guarida de burocratas estrangeiros. 

Ao fugir do país e entregar o próprio destino às conveniências de Marco Rubio, o senador comete a maior das afrontas: traiu abertamente os seus 60 milhões de eleitores, virando as costas para a metade do Brasil que acreditou em suas promessas e em suas mentiras.

Abandonando lideranças atônitas e militantes órfãos à própria sorte, o senador desidrata o bolsonarismo e entrega de bandeja o controle da oposição ao pragmatismo fisiológico do Centrão. 

De pretenso líder de um movimento nacional a ativo conveniente na diplomacia de Washington, Flávio assina sua própria irrelevância ao trocar a altivez do mandato parlamentar pelo triste papel de figura secundária no teatro de sombras norte-americano.

No afã de escapar do escrutínio judicial e servir de álibi retórico para o projeto de poder de Marco Rubio, ele descobre a lição mais dura do pragmatismo internacional: na geopolítica das superpotências, quem desonra o próprio povo para virar peça no jogo alheio não é tratado como aliado de primeira hora — é usado até o limite da conveniência e descartado como mero peão assim que o vento político muda.

<><> De pai para filho desde 2022

Seu pai, Flávio, abandonou o país em 2022, traindo milhões de pessoas que acreditaram nele — muitas das quais foram levadas a lutar em um golpe fracassado para mantê-lo no poder. Hoje cumprem penas severas de prisão.   O destino de pai Jair também foi a prisão, condenado a uma pena de 27 anos e três meses de reclusão.

Seguindo os mesmos passos, você também fugiu para os Estados Unidos de Trump e Rubio, consumando a traição a 60 milhões de eleitores — a metade do Brasil que agora assiste, perplexa, à repetição da história e da farsa da dinastia Bolsonaro.

•        Fujão vira tóxico e derruba políticos que o apoiaram até o último minuto. Por Marco Damiani

A carta em que o fujão se declarou presidente e, em seguida, líder do Brasil fez um verdadeiro strike entre os políticos que o apoiaram, com toda ênfase e pelos piores motivos, derrubando, como pinos de boliche, o moral de cada um deles. A foto em que bolsonaristas empedernidos aparecem à volta do derrotado que abandonaria a todos já na noite seguinte ao que viram na TV agora é um retrato pronto e acabado da escória da política brasileira.

Tarcísio de Freitas estava lá. O governador de São Paulo, com dois senadores eleitos pelo estado, arriscou diante da forte possibilidade de ser isolado por Flávio Bolsonaro na montagem do governo para firmar pé na campanha e pregar pelo filho de seu mentor político, o pai Jair. Perdeu a aposta pelos dois lados. Nem haverá governo para servir de teste de retribuição nem há mais a menor condição de o governador manter apoio político ao 01. Estar ao lado do candidato derrotado que não aceitou o resultado virou algo tóxico, mas Tarcísio já tem essa marca em si. Agora a questão é se limpar, o que ele está tentando fazer, afastando-se e projetando um futuro em que já se declara candidato à Presidência em 2030. A pressa nunca foi uma boa estratégia política.

Rogério Marinho, sentado ao ladinho de Flávio, parece ainda não ter acordado do impacto da fuga. Ele foi um dos responsáveis pela retomada do ânimo das bases lulistas quando começou a falar como grande articulador do futuro governo de extrema-direita, logo após o 1º turno. Já se via com os poderes de chefe da Casa Civil com o luxo de ainda escolher a alternativa de ser presidente do Senado. Ferrou-se. Marinho não vai passar nem pela calçada do Palácio do Planalto, e o senador eleito Arthur Lira é favorito para tomar para si a chefia da chamada Câmara Alta. Mentor do mal, o potiguar ficou na mão sem mentorado.

O piá Nikolas Ferreira não deu uma dentro durante toda a campanha, e ali naquela sala cometeu sua última gafe. Ele carrega contra si o videozinho cochichando ao pé do ouvido do candidato derrotado, garantindo que ele chegaria aos 64 milhões de votos. Errou na mosca. Lula chegou, mas Flávio ficou mais de 4 milhões de eleitores aquém. Parte desse carreamento para o presidente reeleito atribuiu-se à montagem de fake news que Nikolas comandou na Bahia, mentindo sobre as condições de vida da população nordestina. Ele pode perder o mandato pela divulgação de um relatório falso da PF sobre o caso Master. Deve sair de circulação nos próximos tempos, desmoralizado e tendo de cuidar da própria sobrevivência política.

Pablo Marçal, uma das figuras mais perigosas da atual política brasileira, viu em Flávio um veículo para devolvê-lo ao centro da cena, depois de sua frustrada candidatura à Prefeitura de São Paulo. Oportunista, tornou-se o puxa-saco mais determinado, e deu com os burros n’água quando seus pitacos para Flávio no primeiro debate do segundo turno, na Band, resultaram em reforço da imagem de arrogante e despreparado do ex-candidato extremista.

Douglas Ruas, eleito governador do Rio de Janeiro, talvez seja quem menos perde com a fuga de Flávio para os Estados Unidos. O campo do bolsonarismo no estado ficará livre com a ausência do país do miliciano referencial. Ruas pode deitar e rolar, sem precisar dar justificativas e explicações a ninguém.

Quem não estava lá, mas passou recibo foi a ex-senadora Kátia Abreu, ligada ao agronegócio. Ela é mais uma que ficou desmoralizada com o abandono de seu líder ideológico. Mostrou indignação. “Deixa de ser mole”, esbravejou pela mídia com o fugitivo. “Homem não pode vestir calça só até meio-dia, Flávio Bolsonaro. Homem tem que vestir calça de manhã, de tarde e de noite”. Os bolsonaristas que adularam Flávio até o último minuto antes da fuga carregarão para sempre o peso da má escolha.

 

Fonte: Brasil 247

 

Tarcísio de Freitas tenta “higienizar” o bolsonarismo

A mídia hegemônica e outros setores da sociedade brasileira têm insistido em apresentar o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, como representante de uma suposta direita tradicional, moderada, pragmática, quase asséptica em suas convicções ideológicas. Como se estivéssemos diante de um político que, embora situado à direita do espectro político, preservasse uma distância considerável dos radicalismos que marcaram o bolsonarismo. Mas será mesmo?

Não estaríamos diante de mais uma operação discursiva destinada a tornar “palatável”, para parcelas do eleitorado, um projeto político cujas raízes e compromissos não são tão diferentes daqueles que se pretende, agora, suavizar?

Chamar Tarcísio de Freitas de representante da direita tradicional não é um gesto que mereça passar despercebido, como se não tivesse significados importantes. É sobre isso que quero falar neste texto.

<><> “Sou bolsonarista, vou continuar sendo bolsonarista”

Primeiramente, a leitura que faço é que essa classificação contribui para separar Tarcísio do campo bolsonarista, que lhe ofereceu sustentação política. Uma leitura óbvia, logicamente. Mas o que realmente precisamos entender é quais interesses são contemplados quando um político forjado no interior desse movimento extremista passa a ser apresentado como uma alternativa moderada, tecnicamente qualificada e supostamente desvinculada dos excessos de seu próprio campo.

Tarcísio não surgiu na política como uma liderança autônoma. Foi ministro da Infraestrutura de Jair Bolsonaro, disputou o governo paulista com o apoio decisivo do então presidente e, por fim, conquistou o Palácio dos Bandeirantes mobilizando uma base eleitoral fortemente identificada com aquele projeto.

Ao longo de sua trajetória, fez declarações públicas de apoio a Bolsonaro, incorporou símbolos e palavras de ordem do movimento e defendeu pautas que integram a agenda ideológica desse espectro político.

Durante a campanha de 2022, Tarcísio de Freitas defendeu a revisão do uso de câmeras corporais pelos policiais, argumentando que elas poderiam inibir decisões em situações de risco. Ele reproduziu o lema “Deus, pátria e família”, associado ao conservadorismo bolsonarista. E, durante uma manifestação na Avenida Paulista, em fevereiro de 2024, afirmou que Bolsonaro representava um movimento, e não apenas uma pessoa.

No campo dos costumes, Tarcísio incorporou à sua agenda eleitoral críticas à chamada “ideologia de gênero”. Na educação, seu governo propôs a implantação de escolas cívico-militares em São Paulo, uma bandeira também defendida por Bolsonaro. Além disso, sua gestão revogou uma resolução da Secretaria Estadual da Saúde voltada à população LGBTQIA+ após críticas de setores bolsonaristas, evidenciando como as pressões ideológicas desse campo também influenciam decisões administrativas.

E não parou por aí. Em março de 2024, diante de denúncias de abusos durante a Operação Verão, declarou que não estava “nem aí” para possíveis denúncias levadas à Organização das Nações Unidas (ONU), referentes à atuação de suas forças policiais. Creio que vale a pena reproduzir na íntegra a fala do governador, divulgada pela mídia nacional: “Sinceramente, nós temos muita tranquilidade com o que está sendo feito. E aí o pessoal pode ir na ONU, pode ir na Liga da Justiça, no raio que o parta, que eu não tô nem aí”.

Naquele mesmo ano, Tarcísio voltou a recorrer ao lema “Deus, pátria e família”, bem como manifestou solidariedade política ao ex-presidente em um momento de crescente pressão judicial. Ao ser questionado sobre sua posição política, declarou: “Sou bolsonarista, vou continuar sendo bolsonarista”.

Esses fatos não desaparecem simplesmente porque, em determinadas circunstâncias, o governador adota uma linguagem “mais técnica” ou evita confrontos públicos. Tampouco desaparecem pelo fato de ter acatado publicamente o resultado das eleições presidenciais que reconduziram o presidente Lula ao Palácio do Planalto.

A direita tradicional, em suas diferentes expressões, não se confunde automaticamente com a extrema-direita. Existem diferenças históricas, institucionais e ideológicas entre correntes conservadoras que atuam dentro dos parâmetros democráticos e movimentos que flertam com o autoritarismo, mobilizam antagonismos permanentes e tensionam os limites das instituições. Portanto, não basta identificar Tarcísio como um político de direita para encerrar o debate. É preciso examinar suas alianças, suas posições e suas práticas de governo.

<><> “Embalagem” política com conteúdo inalterado

E, quando se observam sua vinculação orgânica ao bolsonarismo, a defesa de suas principais lideranças e a incorporação de pautas características desse campo, a imagem de uma direita tradicional, moderada e distante da radicalização torna-se, no mínimo, questionável.

Na segurança pública paulista, por exemplo, essa contradição é evidente. Sob a administração de Tarcísio, Guilherme Derrite ocupou a Secretaria de Segurança Pública e se tornou uma das figuras mais representativas de uma concepção de combate à criminalidade assentada na ênfase punitiva e no endurecimento policial, em uma gestão marcada por controvérsias envolvendo operações com elevado número de mortes, declarações públicas do secretário e questionamentos sobre a responsabilização de agentes do Estado.

Em dezembro de 2024, o jornal Folha de S.Paulo publicou reportagem na qual policiais ouvidos pela publicação associaram o perfil e as declarações de Derrite a uma percepção de maior tolerância com abusos na corporação. Não se trata de atribuir automaticamente ao governador a responsabilidade por cada ocorrência policial, mas é necessário reconhecer que a escolha de seus auxiliares, a orientação política da Secretaria e a resposta institucional às denúncias são elementos incontornáveis na avaliação de um governo.

Afinal, de que moderação estamos falando quando a força do Estado se torna o principal argumento diante de problemas sociais complexos? Que ideia de democracia se consolida quando a segurança pública é debatida quase exclusivamente sob a perspectiva do confronto, enquanto as garantias individuais, a transparência e o controle da atividade policial são tratados como obstáculos por determinados setores do discurso punitivista? Onde fica o Estado de direito?

Segurança pública é um direito fundamental. E a população tem todo o direito de exigir proteção contra a violência. No entanto, esse direito não autoriza o Estado a relativizar a legalidade, tampouco a transformar a truculência em sinônimo de eficiência. Uma política de segurança deve ser examinada por seus resultados, pela legalidade de seus procedimentos e, sobretudo, pela capacidade de proteger vidas, inclusive as de pessoas submetidas à ação policial.

Por isso, a meu ver, a tentativa de dissociar Tarcísio do bolsonarismo pode atender a interesses políticos e econômicos bastante identificáveis, ainda que não disponhamos de provas da existência de uma estratégia coordenada entre todos os veículos de comunicação e grupos empresariais.

Para setores do chamado “mercado”, bem como para lideranças partidárias e parcelas do empresariado, pode ser conveniente projetar uma liderança que preserve aspectos centrais da agenda econômica conservadora, mas seja apresentada como “mais previsível”, “institucional” e “capaz de dialogar” com diferentes segmentos da sociedade.

Essa imagem do governador Tarcísio como um “gestor técnico” pode funcionar como uma espécie de “embalagem” política, mas cujo conteúdo permanece inalterado.

<><> A política não se resume a temperamento

A recente disputa em torno da sucessão presidencial explicita outra dimensão dessa tentativa de “suavizar” o governador de São Paulo. Com o ex-presidente presidiário impedido de disputar eleições, o nome de Tarcísio passou a ser considerado por setores da direita e do Centrão como uma possível alternativa nacional para 2026. Entretanto, Bolsonaro optou por projetar o próprio filho para a disputa presidencial, escolha que contrariou as expectativas de setores que viam no governador paulista uma alternativa capaz de ampliar o alcance eleitoral do campo conservador.

Segundo reportagem da Folha de S.Paulo, Tarcísio cancelou uma visita ao ex-presidente depois de saber que seria informado sobre a escolha do filho, atitude interpretada como sinal de descontentamento com o rumo da sucessão. Não é possível afirmar como fato um sentimento íntimo do governador, mas o episódio expõe uma disputa política concreta: a diferença entre ser considerado um nome competitivo por aliados e ser escolhido pelo principal líder do movimento como seu herdeiro eleitoral.

É irônico o fato de que a mesma identidade política que ajudou a projetar Tarcísio também constitui um limite à sua autonomia. O capital político do governador de São Paulo não pode ser compreendido sem a força eleitoral do bolsonarismo. Porém, sua eventual ambição nacional exige dialogar com setores que podem rejeitar a radicalização associada a esse campo. Daí a importância da disputa em torno dos rótulos.

Apresentar-se — ou ser apresentado — como direita tradicional pode ampliar o espaço de interlocução sem exigir, necessariamente, uma ruptura efetiva com as bases políticas que sustentaram sua ascensão. Mas sabemos: um político não deixa de pertencer a determinado campo ideológico apenas porque “fala mais baixo”, “administra com linguagem técnica” ou adota uma postura pública menos explosiva que a de seu principal aliado. A política não se resume ao temperamento. É muito mais complexa. Envolve projetos, decisões administrativas e concepções de sociedade.

Por isso, nós, enquanto sociedade, antes de assimilarmos esse discurso que está sendo construído sobre o governador de São Paulo, devemos nos fazer várias perguntas.

Quais continuidades ideológicas seriam preservadas? Quais práticas de governo seriam normalizadas? Que aspectos do bolsonarismo seriam incorporados sem carregar o mesmo estigma público? E quem se beneficiaria de uma operação discursiva capaz de separar a imagem do governante das consequências concretas de suas escolhas?

A democracia (ainda que burguesa) exige que os nomes sejam confrontados com os fatos, e não que os fatos sejam acomodados às necessidades de construção de um nome. Se Tarcísio de Freitas pretende ocupar um espaço político distinto daquele de Bolsonaro, cabe a ele demonstrar essa diferença por meio de posições, decisões e compromissos verificáveis. Ele tem um mandato a terminar e lhe foi concedido, pelas urnas, um segundo. Terá quatro anos para provar se é realmente verdade o que estão tentando lhe atribuir.

Eu duvido.

<><> Após o fim do bolsonarismo, Tarcísio se lança a presidente como o nome da direita

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), revelou ter aconselhado o senador Flávio Bolsonaro (PL) a permanecer no Brasil após a vitória eleitoral do presidente Lula (PT) e, em entrevista ao O Estado de São Paulo, admitiu pela primeira vez a possibilidade de concorrer à Presidência da República no pleito de 2030. “O que está no horizonte agora é honrar meu compromisso com São Paulo (…) 2030 é outra conversa. A gente tem que ver qual é o cenário de momento e, claro, vou estar terminando o segundo mandato aqui. Terminando o segundo mandato e terminando bem, obviamente abre uma possibilidade. Mas isso é uma coisa que você avalia em grupo, não sozinho”, afirmou Tarcísio.

Durante a conversa, o governador defendeu uma maior presença das Forças Armadas nas ações de combate ao crime e declarou apoio à aprovação da PEC da Segurança Pública, além de se posicionar a favor da redução da maioridade penal para 16 anos. Tarcísio também se colocou abertamente favorável à reforma do Poder Judiciário e ao impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que venham a cometer crimes de responsabilidade.

<><> Para conter Tarcísio e Michelle, Flávio Bolsonaro quer se lançar candidato para 2030

O senador Flávio Bolsonaro (PL) prepara o anúncio de sua candidatura ao Palácio do Planalto nas eleições de 2030 para os próximos dias. A movimentação articulada pela ala radical do partido visa frear a consolidação do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), e o crescimento da ex-primeira-dama e senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL) como alternativas do campo conservador para a Presidência, informa Mônica Bergamo, da Folha de São Paulo.

O momento exato da oficialização do projeto presidencial vem sendo debatido diretamente entre Flávio, seu irmão Eduardo Bolsonaro (PL) e aliados desse grupo que se encontram nos Estados Unidos. A articulação visa demonstrar que a família não pretende ceder espaço no comando da base eleitoral.

Sinais dessa ofensiva ficaram nítidos na carta golpista divulgada na quarta-feira (28). Inicialmente, o senador se autodeclarou “presidente eleito do Brasil”, mas depois alterou a redação para “líder” do país. De acordo com um aliado próximo ao ex-candidato, o ajuste teve objetivo bem definido: deixar claro que “não haverá outra liderança na direita que não seja o Flávio”.

No próprio documento, Flávio dirigiu-se “aos senadores, deputados e governadores que ajudei a eleger”, justificando que assumirá a cabeça da oposição porque esses aliados “não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política”.

Paralelamente à articulação de bastidor, o grupo ligado ao senador deflagrou ofensivas contra o governador de São Paulo. Tarcísio virou alvo de ataques intensos em redes digitais após conceder entrevista ao jornal O Estado de São Paulo, nesta quinta-feira (29), na qual admitiu a possibilidade de disputar a presidência em 2030.

As críticas ganharam repercussão na fala do influenciador digital Kim Paim: “já está aí se ouriçando”, afirmou. Ele compartilhou mensagens acusando o governador paulista de ter feito “corpo mole” na primeira etapa das eleições deste ano e de se aproximar da “mídia liberal” para se projetar rumo a 2030, escanteando o grupo político de Bolsonaro.

 

Fonte: Por Verbana Córdula em Diálogos do Sul Global

 

Os animais que você pode vencer em uma corrida — e os que são invencíveis

Há alguns anos, eu estava acampando nos Estados Unidos, quando um urso-negro passou por acaso nas proximidades.

Enquanto o observava passeando pelo acampamento, fiquei imaginando: se fosse necessário, eu conseguiria correr mais do que ele?

Pesquisando a velocidade dos ursos posteriormente, a resposta foi clara: certamente, não.

Sair correndo pode despertar uma reação de perseguição e, por isso, não é algo aconselhável. E os ursos-negros podem atingir até 48 km/h.

Desde então, especialmente quando saio para me exercitar em Londres, fico me perguntando: quais animais eu posso vencer em uma corrida? E se eu encontrasse um esquilo ou texugo particularmente agressivo?

Noé teria sido o único que poderia ter promovido uma Olimpíada do reino animal. Mas os cientistas avaliaram os recordes de velocidade de centenas de criaturas, desde esquilos e texugos até aranhas, lagartos, roedores, aves, grandes mamíferos e muitos mais.

Os dados mostram que existem muitas surpresas interessantes.

Qual animal seria o nosso mais ferrenho competidor? E quem dentre eles poderia travar uma boa corrida contra os seres humanos mais rápidos do mundo?

<><> Massa muscular

Ao longo das décadas, os cientistas avaliaram os recordes de velocidade dos animais utilizando diferentes métodos, alguns mais precisos (e éticos) que outros.

Nos anos 1920, um naturalista dirigiu seu carro ao lado de antílopes-americanos, a espécie animal terrestre mais rápida da América do Norte, disparando tiros no ar para que eles continuassem se movendo.

E, na década de 1980, pesquisadores perceberam que poderiam colocar animais menores, como ratos, em esteiras.

Atualmente, tecnologias como o GPS tornam esta tarefa mais fácil, especialmente para registrar animais no seu habitat natural, em velocidades realistas.

Um estudo recente acompanhou guepardos em ambiente selvagem e demonstrou que eles podem atingir 93 km/h.

As avaliações anteriores eram baseadas em filmagens ou, em um dos casos, induzindo-se artificialmente o guepardo a perseguir um pedaço de carne segurado por um operador com cronômetro, dirigindo um veículo 4x4.

Mas, em certos casos, métodos simples também funcionaram bem.

Em outro estudo recente, pesquisadores avaliaram o que pode ser a aranha mais rápida do mundo, a aranha-caçadora australiana, simplesmente cutucando-a e gravando em vídeo ao lado de uma régua.

Sua velocidade média foi de cerca de 7 km/h, mas seu recorde no sprint foi desconcertante. Ela atingiu a marca de 13 km/h.

Ao longo do tempo, pesquisadores compilaram essas medições científicas disparatadas em bancos de dados maiores.

Um destes estudiosos é a bióloga Myriam Hirt, agora no Centro Alemão de Pesquisa da Biodiversidade Integrativa em Leipzig. Ela compilou as velocidades de corrida de cerca de 350 animais terrestres.

Em 2017, Hirt e seus colegas pesquisaram como a massa corporal dos animais afeta sua velocidade. Em princípio, animais maiores, com maior massa muscular, deveriam poder correr mais rápido.

"Faz sentido quando você comece a pensar nisso, mas os dados mostram claramente que não é assim que funciona", segundo ela. "As espécies maiores não são as mais rápidas e ninguém sabia por quê."

Ela e seus colegas concluíram que a massa corporal que eles carregam impede os animais maiores de atingir suas velocidades máximas hipotéticas.

"Você precisa de mais tempo para fazer um corpo grande se mover à mesma velocidade de um pequeno" explica Hirt, da mesma forma que os aviões grandes precisam de pistas de decolagem mais longas. (Qualquer pessoa que já tenha jogado Mario Kart saberá que o minúsculo Toad acelera com mais rapidez que o volumoso Donkey Kong.)

A largada mais lenta significa que os grandes animais começam a se cansar antes de atingirem seu possível limite de velocidade.

"Você só tem uma quantidade limitada de energia disponível para aceleração", prossegue a bióloga. "Em algum momento, você simplesmente desaba, pois não há mais energia nos seus músculos."

A lenta aceleração dos grandes animais também significa que você pode ser capaz de vencer alguns deles em uma corrida, especialmente em distâncias curtas.

Um elefante-africano, por exemplo, pode atingir até 35 km/h, mas eles são inicialmente mais lentos que os seres humanos.

Outro banco de dados de velocidade dos animais, compilado em 2020, integrou estatísticas sobre a aceleração animal. Ele indica que o elefante-africano atingiria sua velocidade máxima em cerca de 7,5 segundos.

Um cálculo rápido sugere, portanto, que ele correria 100 metros em cerca de 14 segundos. Duvido que eu consiga igualar esta marca. Mas, segundo o website de corridas Marathon Handbook, ela poderia ser batida por adultos bem treinados.

O velocista olímpico jamaicano Usain Bolt provavelmente poderia vencer com facilidade o elefante-africano, mas mesmo ele seria batido por muitos outros animais.

Se compararmos simplesmente as velocidades máximas de sprint, sem considerar a variável de massa e aceleração, a maior velocidade atingida por Bolt ao estabelecer seu recorde mundial foi de cerca de 44 km/h.

Este índice é maior que a velocidade máxima de um rinoceronte-branco (40 km/h), mas inferior à do urso-pardo ou polar (48-50 km/h). E muitos outros animais atingem velocidades ainda maiores.

Os corredores de velocidade mais famosos são o guepardo (93 km/h) e o avestruz, que chega a atingir 82,8 km/h. Mas existem outros menos conhecidos.

Sou um corredor magro e esguio. Por isso, imaginei que a girafa pudesse ser meu competidor animal mais próximo.

Mas fiquei surpreso ao saber que ela pode atingir cerca de 57-60 km/h. Em uma corrida de velocidade, ela venceria facilmente a mim e a Bolt.

Outros animais bastante rápidos são o alce (55,4 km/h) e a zebra (70,6 km/h). Já a rena pode atingir velocidades de 80 km/h, o que certamente deixará o Papai Noel muito satisfeito.

<><> Aceleração ou resistência?

E quanto às distâncias maiores?

A corrida de velocidade é uma atividade anaeróbica, que exige as chamadas fibras musculares de contração rápida, segundo o ex-corredor olímpico britânico dos 1,5 mil metros, Andy Baddeley. Ele é um dos fundadores do portal The Running Channel, que oferece conselhos e dicas para corredores.

"As fibras de contração rápida são mais explosivas, mas se cansam muito facilmente", explica ele. "Elas são mais associadas ao levantamento de peso e às corridas de velocidade."

"Já as fibras de contração lenta se restabelecem com menos rapidez e são menos explosivas, mas podem continuar por muito tempo sem sofrer fadiga."

Ou seja, o corredor de velocidade pode acelerar rapidamente e atingir velocidades mais altas, mas seus músculos corporais treinados para a explosão sofrerão fadiga rapidamente em distâncias maiores.

Baddeley explica esta diferença utilizando sua própria fisiologia de corrida. Ele calcula que, na época em que disputava corridas de média distância nos Jogos Olímpicos, conseguia correr os 100 metros em cerca de 11,7 segundos.

Em comparação com os animais, o tempo de Baddeley é próximo ao de um gorila, mas está abaixo dos corredores de elite da modalidade.

Ainda assim, ele acredita que conseguiria manter uma disputa acirrada com um corredor de velocidade de elite por 500 metros. E certamente venceria qualquer sprinter, incluindo o mais rápido do mundo, na sua especialidade de 1,5 mil metros, devido à capacidade do seu corpo de manter a velocidade por mais tempo.

O mesmo raciocínio se aplica ao reino animal.

O estudo de guepardos com colar de GPS, por exemplo, demonstrou que eles normalmente mantêm sua velocidade máxima por dois segundos e a distância típica de caça é de menos de 200 metros. Ou seja, eles são corredores de velocidade, não atletas de resistência (ou pelo menos não têm a inclinação ou a necessidade de correr por distâncias maiores).

Por outro lado, os antílopes-americanos, que são presas de predadores, foram avaliados correndo por 11 km em 10 minutos, a uma velocidade média de 65 km/h.

Parafraseando Hirt e relembrando um antigo provérbio, "para o predador, é uma refeição, mas, para a presa, é a sua vida. Por isso, a pressão pela rapidez é muito maior sobre a presa que sobre os predadores".

De forma geral, os seres humanos são mais adaptados para corridas de resistência a longa distância do que para o sprint. Isso se deve à nossa biomecânica e ao fato de que temos poucos pelos e suamos.

Biólogos evolutivos especulam que essas adaptações teriam evoluído para nos ajudar a buscar e cansar as presas ao longo de vários quilômetros.

Por isso, será que poderemos algum dia conquistar a medalha de ouro em uma corrida de longa distância contra outros animais? Bem, isso depende.

Por um lado, não existem muitos dados científicos para pesquisar. Afinal, os animais não humanos não têm o mesmo desejo de se esforçar para serem os melhores na maratona (42,2 km).

Em laboratório, poderia ser antiético forçá-los a isso. E, no ambiente selvagem, muitos iriam parar ou reduzir a velocidade antes da linha de chegada.

Para conseguirmos algumas indicações, existem bancos de dados científicos que compilaram as "velocidades de percurso" dos animais: o ritmo aeróbico sustentado que os animais praticam habitualmente e de forma confortável ao longo de distâncias maiores.

O urso-negro, por exemplo, possui velocidade de pico mais alta que a do ser humano, mas sua velocidade de percurso é menor, de 2,6 km/h.

Paralelamente, a velocidade de percurso do tigre é de 3,5 km/h, a do dromedário é de 6,3 km/h e a do lobo-cinzento é de 7,9 km/h.

Esta velocidade é menor do que a média dos corredores da Maratona de Londres, que é de cerca de 9 km/h. E também é muito menor que o recorde mundial de 1h59min30seg, estabelecido este ano pelo atleta queniano Sebastian Sawe, à velocidade média de 21 km/h.

Mas a velocidade de percurso não é necessariamente a maior que os animais podem correr a longa distância. Ela equivale mais ao caminhar do ser humano.

Um urso provavelmente poderá atravessar uma longa distância com mais rapidez que a sua velocidade de percurso, mas é difícil dizer ao certo se ele se superaqueceria e ficaria cansado se corresse uma maratona à mesma velocidade que nós.

Ainda assim, apesar da falta de dados sobre a velocidade dos animais, podemos afirmar com segurança que os seres humanos não seriam os melhores corredores de maratona do reino animal, mesmo com as nossas adaptações para a corrida de resistência e a disposição mental de percorrer aquela distância.

Os cães da raça husky siberiano, por exemplo, podem percorrer distâncias muito grandes em alta velocidade. Considerando os tempos que eles podem atingir em corridas de trenó com a distância da maratona, eles poderiam bater o recorde mundial humano em mais de meia hora. E, sem o peso que carregam, provavelmente seriam ainda mais rápidos.

Um cavalo treinado para corridas de resistência também poderia vencer a maioria das pessoas na maratona. Mas isso também depende do terreno.

Todos os anos, no País de Gales, existe uma corrida entre seres humanos e cavalos em um trajeto montanhoso de cerca de 35 km. O cavalo normalmente é o vencedor, mas, às vezes, os seres humanos chegam em primeiro lugar.

Sabemos ainda menos sobre a nossa posição no ranking dos animais em distâncias realmente longas, como a ultramaratona e além. E, também aqui, os huskies provavelmente nos venceriam.

A Corrida de Cães de Trenó da Trilha de Iditarod, no Estado americano do Alasca, cobre uma distância de 1,6 mil quilômetros.

É uma corrida em equipes, mas alguns cães percorrem a distância completa. E o recorde do percurso é de sete dias e 14 horas.

Em termos de comparação, o recorde da corrida restrita a convidados da trilha de Iditarod (uma competição com comprimento similar nas condições do Alasca que alguns seres humanos completam a pé) é de 19 dias, 9 horas e 38 minutos.

Ainda assim, provavelmente não existem muitos animais capazes (ou mesmo com disposição) de correr ultramaratonas. Além da nossa resistência fisiológica, o cérebro humano é o nosso próprio superpoder nessas distâncias.

Um exemplo é a Corrida da Autotranscendência de 3,1 Mil Milhas, uma prova de 4.989 km em torno de um único quarteirão no Queens, em Nova York (Estados Unidos).

O recordista atual correu por mais de 40 dias para completar a corrida, com intervalos noturnos de seis horas. Ele atingiu a velocidade média de cerca de 6,9 km/h enquanto estava em movimento.

"Em última análise, a corrida de longa distância se resume em saber: Você aceita o desconforto? Está sofrendo?", afirma Baddeley.

"Existe ainda aquela capacidade de ter acesso a outro sistema de energia no final de uma corrida longa, enfrentando a dor e ainda dar um sprint perto da linha de chegada. Não sei se você observaria isso no mundo animal."

Mas, infelizmente, isso não me ajudaria se eu estivesse correndo e encontrasse um esquilo ou texugo particularmente mal humorado.

Será que eu conseguiria vencê-los na corrida, se eles viessem atrás de mim? Provavelmente não.

Ao contrário dos animais maiores, como os elefantes, eles são suficientemente pequenos para atingir seu limite de velocidade em uma ou duas passadas. E esta velocidade (cerca de 30 km/h) já é maior que o meu limite.

Talvez eu precise treinar com um pouco mais de afinco.

<><> Com qual animal você se identifica ao correr?

Muitos corredores podem não saber ao certo sua maior velocidade de corrida, mas talvez saibam seu melhor índice pessoal ao longo de 5 km. Esta é a distância de um parkrun (corridas comunitárias em parques públicos, bastante populares na Europa e nos EUA), evento gratuito que conta com mais de 12 milhões de participantes registrados em todo o mundo.

Se você correr 5 km em 40 minutos, atingirá a velocidade máxima de um rato-do-bosque. E, se completar a mesma distância em 30 minutos, de um rato comum ou hamster.

Com 25 minutos, você igualaria um camundongo doméstico ou uma iguana-marinha. Aos 20 minutos, uma doninha ou uma marmota.

Já o ex-atleta olímpico Andy Baddeley, que já foi recordista da corrida no parque (13 minutos e 48 segundos), se identifica com o Potorous tridactylus, um pequeno marsupial de nariz comprido que vive na Ásia e na Austrália.

A boa notícia para os corredores de competição é que estes são os tempos máximos de sprint dos animais, que eles não conseguiriam manter por muito tempo. Ou seja, você provavelmente os venceria na linha de chegada.

 

Fonte: BBC Future

 

Como se exercitar mais sem nem mesmo tentar

É fácil passar o dia inteiro sentado. Primeiro na sua mesa no trabalho, depois no carro ou no transporte público, seguido de algumas horas no sofá.

Quando você menos espera, está jantando e percebe que não fez nenhum exercício o dia todo.

Diversos estudos globais constatam que um estilo de vida sedentário pode aumentar o risco de problemas de saúde graves.

Tudo o que pudermos fazer para diminuir o tempo sedentário beneficia nossa saúde em geral. Mas pode ser difícil encontrar tempo para isso.

É aí que entra o exercício chamado de '"ncidental". Trata-se da movimentação que fazemos fora das horas de exercício planejadas.

Também conhecido pela sigla NEAT, do inglês non-exercise activity thermogenesis (termogênese por atividade física não associada ao exercício, em tradução livre), o conceito se refere à energia que gastamos em atividades cotidianas que não envolvem dormir, comer ou praticar exercícios físicos deliberadamente, explica Anantha Narayanan, pesquisador da Universidade de Tecnologia de Auckland, na Nova Zelândia.

A atividade física incidental pode ser tão simples quanto balançar a perna enquanto está sentado ou lavar a louça.

"Movimentos menores, como mudar de postura, girar os ombros ou flexionar os pés, também contam", diz Narayanan.

O exercício incidental está se revelando uma ferramenta surpreendentemente poderosa para proteger nossa saúde, ajudando-nos a queimar mais calorias, reduzir o risco de doenças cardiovasculares e até mesmo diminuir o risco de morte.

Uma vez que tenhamos consciência dessa "atividade incidental", podemos incorporá-la mais à nossa rotina diária com alguns ajustes simples no estilo de vida.

Aqui estão alguns que você pode experimentar.

<><> Inquietação

Considere, por exemplo, o movimento inquieto das pernas.

Ao crescermos, somos incentivados a não nos mexermos muito, o que é visto como sinal de tédio e falta de atenção. Há muitos motivos para ignorar esse conselho.

Durante períodos prolongados sentados, os músculos das pernas ficam relativamente inativos.

Isso reduz as contrações musculares regulares que ajudam a eliminar a glicose da corrente sanguínea e a manter uma circulação sanguínea saudável, afirma Narayanan.

Mas, segundo um estudo recente, mexer-se aumenta a atividade muscular e, portanto, ajuda-nos a queimar mais calorias em comparação com quando estamos sentados e parados.

"Algumas pesquisas anteriores sugerem que mexer as pernas pode ajudar a manter a função dos vasos sanguíneos e melhorar o controle do açúcar no sangue", diz Narayanan.

Fazer isso em pé pode potencializar esses benefícios.

Da mesma forma, um pequeno estudo descobriu que o hábito de balançar as pernas, uma forma de inquietação, queima cerca de 16% mais energia em comparação com ficar sentado parado.

Os pesquisadores descobriram que níveis mais altos de atividade física incidental podem compensar os riscos à saúde associados a ficar sentado por mais de 11 horas por dia.

E embora caminhar possa ser melhor, nem sempre é possível, então mexer as pernas pode ser uma opção durante um voo, na sua mesa de trabalho – ou até mesmo agora, se for seguro fazê-lo.

<><> Mova-se com frequência

Ao contrário das atividades estruturadas, o movimento incidental não exige matrícula em academia nem que reservemos um horário específico para nos movimentarmos.

Muitas vezes nos esquecemos de que as atividades domésticas do dia a dia podem diminuir o tempo que passamos sentados. Cozinhar, cuidar do jardim e passar aspirador de pó também são formas de exercício incidental.

Não precisamos passar horas nos movimentando para obter benefícios para a saúde. Apenas quatro minutos por dia de breves e ocasionais explosões de atividade que duram menos de um minuto podem ajudar a compensar o aumento do risco de doenças cardiovasculares associado ao sedentarismo, segundo um amplo estudo de 2024.

No estudo, os pesquisadores analisaram dados de mais de 22 mil participantes do Reino Unido que usavam um dispositivo de rastreamento que registrava o quanto eles se movimentavam ao longo do dia. A amostra foi limitada a indivíduos que não praticavam exercícios físicos regularmente.

Os participantes foram acompanhados durante oito anos. Os pesquisadores descobriram que níveis mais altos de atividade física incidental podem compensar os riscos à saúde associados a ficar sentado por mais de 11 horas por dia.

Pesquisas subsequentes constataram que a atividade física incidental também está ligada a um menor risco de morte prematura.

Nicholas Koemel, pesquisador sênior da Universidade Monash, na Austrália, que liderou a pesquisa, afirma que os tipos de atividades que poderíamos incluir são subir lances de escada, carregar sacolas de compras pesadas ou brincar com crianças.

Ao prestar atenção às oportunidades que nos ajudam a aumentar nossa movimentação ao longo do dia, as pessoas podem ser capazes de aumentar a intensidade dessas atividades, afirma Koemel.

Isso pode incluir caminhar mais rápido do que o seu ritmo normal para chegar ao seu destino ou estacionar mais longe quando for às compras.

Já que você está lá, considere usar uma cesta em vez de um carrinho. Antes que perceba, você pode acabar fortalecendo seus músculos carregando alguns quilos de compras.

<><> Hábito de carona

Grandes objetivos de condicionamento físico podem parecer assustadores, então outra estratégia para introduzir movimento ao longo do dia pode envolver "aproveitar" atividades que você já pratica, diz Amanda Daley, professora de medicina comportamental da Universidade de Loughborough, no Reino Unido.

Isso simplesmente envolve adicionar algum movimento a uma atividade que você já está realizando.

Você pode tentar fazer uma elevação de panturrilha enquanto escova os dentes, uma elevação de perna embaixo da mesa ou dar uma caminhada durante uma chamada em vez de ficar sentado.

Daley conta que em sua casa existe uma regra: qualquer encomenda feita online deve ser entregue em um armário próximo, e não em sua casa.

"Se queremos alguma coisa, temos que ir buscar. Isso também pode ser uma ótima maneira de tirar os adolescentes dos quartos e incentivá-los a caminhar um pouco durante o dia."

Também podemos incorporar novos hábitos ao dia de trabalho. Em um estudo, Daley e seus colegas forneceram mesas de trabalho em pé para médicos. Isso os ajudou a reduzir o tempo que passariam sentados em cerca de duas horas por dia.

A equipe também descobriu que isso incentivou mais conversas com seus pacientes sobre os benefícios da redução do tempo sedentário.

"A atividade física ocasional também pode ser uma maneira eficiente de se manter fisicamente ativo, porque nem sempre é preciso reservar muito tempo", diz Daley.

"É importante encontrar abordagens que sejam menos intimidantes e mais fáceis de realizar."

O melhor de tudo é que, quanto mais atividades casuais você realiza ao longo do dia, mais significativas elas podem se tornar com o tempo. Isso pode ser motivador, afirma Koemel.

"Quando algo se torna parte integrante do seu estilo de vida, mesmo que incidentalmente, acaba se tornando inerentemente parte do seu estilo de vida."

 

Fonte: BBC News

 

Um ano após chacina, as crianças da Penha precisam voltar a ser crianças

A Praça São Lucas, na Vila Cruzeiro, no Complexo da Penha, amanheceu mais alegre do que de costume. Era 12 de outubro deste ano, Dia de Nossa Senhora Aparecida e também das Crianças. A rua foi tomada por balões, brinquedos infláveis, pula-pulas e até show de mágica.

No meio dela, acontecia uma batalha de barbeiros, uma competição para ver quem fazia os cortes de cabelo mais perfeitos e o melhor “loiro pivete”, estilo descolorido popular entre os jovens das favelas cariocas. A criançada fazia fila para ganhar bolo, pipoca, cachorro-quente e refrigerante. Por toda parte, gritos de alegria e clima de festa.

Em outubro do ano passado, o cenário na mesma praça era bem diferente. “Fazia um ano que eu não pisava aqui”, disse Tauã Brito, de 37 anos, com os olhos cheios de lágrimas. “Quando pintaram a praça na Copa do Mundo, eu queria muito ter vindo, porque foi um amigo meu que fez as pinturas. Mas não consegui. Toda vez que eu via as filmagens do drone, eu dizia: ‘Está lindo o chão, mas eu só consigo olhar e ver o corpo do meu filho estirado nele.’”

Seu filho, Wellington Brito, de 20 anos, foi uma das vítimas da chacina da Penha, chamada oficialmente de “Operação Contenção” pela Polícia Civil. A megaoperação contra o Comando Vermelho foi realizada há um ano, em 28 de outubro de 2025 nos complexos da Penha e do Alemão, na Zona Norte do Rio. Ação do então governador Cláudio Castro (PL), executada pelas polícias Civil e Militar, tornou-se a operação policial mais letal da história do Brasil: 122 mortos, entre eles cinco policiais.

Foi ali, na Praça São Lucas, que os próprios moradores enfileiraram os corpos recolhidos por eles numa área de mata usada como rota de fuga, no dia seguinte ao massacre. Caminhonetes não paravam de chegar com as vítimas empilhadas, mutiladas e com sinais claros de execução. O cheiro de morte impregnava o ar. O silêncio sepulcral só era cortado pelo choro desesperado de mães, esposas e irmãs das vítimas. As imagens dos corpos estendidos no chão rodaram o mundo.

Desde então, os moradores da Penha se mobilizam para tentar superar a tragédia. “Estar aqui hoje é quebrar um tabu, tentar mudar na minha mente um cenário de muita dor. Você não vai ver quase nenhuma mãe das vítimas aqui, porque esse local ficou marcado por muita tristeza”, afirma Brito.

A escolha da Praça São Lucas para o evento do Dia das Crianças, organizada pela associação de moradores, não foi por acaso. Nascida e criada no bairro, Brito precisou deixar a Vila Cruzeiro depois de receber ameaças de policiais nos meses que se seguiram ao massacre. Mesmo assim, fez questão de participar como voluntária naquele dia, e até fez um bolo para colaborar com a festa.

“A gente está fazendo isso para tentar olhar a praça com outros olhos. A favela é vida, é alegria, e a gente quer mostrar isso para o mundo”, disse. “Muitas das nossas crianças viram aquelas cenas de morte. Nós, mães das vítimas, vamos carregar essa dor dentro de nós para sempre. Mas a comunidade precisa seguir a vida aqui dentro de forma mais leve.”

Andressa Ignácio, de 29 anos, moradora da Vila Cruzeiro, também voltava à Praça São Lucas naquele dia pela primeira vez desde a chacina. Veio à festa acompanhada dos dois filhos. “Fico muito feliz, porque as crianças hoje estão vendo um lugar colorido e animado, e não aquela cena de corpo jogado no chão”, disse. Até então, Ignácio evitava passar pelo local. “Para gente que mora aqui, a lembrança ainda é muito recente e dolorosa. O brilho da comunidade se apagou por causa do que aconteceu.”

Um ano depois, moradores dizem que pouco mudou na presença do Estado no bairro. “Não chegou nada de importante na área social, na saúde, na educação”, afirma Gilberto Santiago, advogado criminalista e morador da Vila Cruzeiro. “Quando o Estado entra, só entra pra matar.”

Logo após a chacina, em 2025, a operação foi fortemente aplaudida por políticos dedireita e de extrema direita. Castro a definiu como “um sucesso” e afirmou que as únicas vítimas eram os policiais mortos. Dois dias depois, recebeu no Palácio Guanabara governadores de oposição ao presidente Lula e anunciou a criação de um “Consórcio da Paz” para ações conjuntas contra o crime organizado.

Na época, a Agência Pública mostrou como a maioria dos governadores que integram o consórcio teve um aumento nas mortes causadas por policiais nos respectivos estados durante a sua gestão.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), disse que a ação havia sido realizada “com muita excelência”. A operação também teve respaldo da maioria da população: segundo o Datafolha, 57% dos moradores da capital e da região metropolitana do Rio a avaliaram como um sucesso.

Para a pesquisadora Carolina Grillo, coordenadora do Grupo de Estudos dos Novos Ilegalismos da Universidade Federal Fluminense (GENI/UFF), a operação teve um efeito político imediato, mudando os termos do debate sobre segurança pública no Brasil. Na época, o Planalto defendia a PEC da Segurança Pública e apostava em investigações para asfixiar financeiramente as facções. “O governo federal vinha com propostas de ataque inteligente, de desmantelamento de redes, de seguir o dinheiro”, diz Grillo. “E, naquele momento, a partir do Rio de Janeiro, conseguiu-se deslocar a discussão para ser contra ou a favor do massacre.”

O senador Flávio Bolsonaro (PL), derrotado nas eleições de 2026, já falava em guerra às facções antes mesmo da operação. Cinco dias antes da chacina, ao compartilhar uma publicação do secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, sobre o ataque a uma embarcação no Pacífico, escreveu em inglês, no X: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil com drogas. Você não gostaria de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?”. No dia seguinte, o líder do PT na Câmara, Lindbergh Farias, protocolou no Supremo Tribunal Federal (STF) uma representação criminal contra o senador por afronta à soberania nacional.

Em maio deste ano, depois de um encontro com Donald Trump no Salão Oval da Casa Branca, Flávio disse ter pedido ao presidente norte-americano que o Comando Vermelho e o PCC fossem classificados como organizações terroristas. Disse que, enquanto Lula pedia a Trump que não adotasse a medida, ele fazia “o contrário”. No início daquele mês, Lula havia se reunido com Trump e apresentado argumentos contra a designação: o governo temia que ela abrisse caminho para sanções ou até para uma ação militar dos Estados Unidos em território brasileiro.

Dois dias após o encontro com Flávio, o Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, designou as duas facções como “terroristas globais especialmente designados” e anunciou sua inclusão na lista de organizações terroristas estrangeiras a partir de 5 de junho. Nos bastidores, aliados da oposição viram a decisão como uma vitória política do senador.

Para Grillo, a classificação foi política, não técnica. “Os Estados Unidos não se basearam na realidade, mas usaram um artifício político”, afirma. Segundo ela, as facções brasileiras não têm projeto ideológico, religioso ou de mudança de regime, características que definem o terrorismo. “São grupos do crime organizado que, como cartéis e máfias, buscam apenas o lucro. É simples assim.”

A pesquisadora não vê risco de intervenção militar norte-americana no curto ou no médio prazo, embora reconheça que a medida cria “uma abertura jurídica” para isso. O impacto mais imediato, diz, seria econômico. “Os Estados Unidos se autorizam a confiscar todos os ativos de qualquer empresa que tenha alguma forma de vínculo com organizações terroristas, mesmo que a empresa não saiba disso. Isso cria insegurança jurídica para todas as empresas que atuam aqui.”

Santiago, que mora no Complexo da Penha há 45 anos, inverte o argumento. “Terrorismo é o que o Estado pratica nas comunidades”, afirma o advogado. “Praticar terrorismo é fechar escolas, creches, aterrorizar crianças, mulheres grávidas, moradores, matar pessoas inocentes, executar pessoas rendidas. Isso é terrorismo.”

Em agosto deste ano, já candidato à Presidência, Flávio levou o tema para o centro da campanha. No lançamento da candidatura de Douglas Ruas (PL) ao governo do Rio, no Maracanãzinho, declarou “guerra aos narcoterroristas” e prometeu que, se eleito, também classificaria o Comando Vermelho e o PCC como organizações terroristas no Brasil.

<><> Mortes viram trampolim eleitoral no Rio de Janeiro

A chacina também serviu de trampolim eleitoral para quem a comandou. O ex-secretário da Polícia Civil Felipe Curi foi eleito deputado federal pelo Progressistas (PP), com mais de 133 mil votos. Ainda à frente da Polícia Civil, dias depois da chacina, Curi defendeu que as facções recebessem “tratamento à altura de terroristas”.

Segundo reportagens, aliados e integrantes da área de segurança associaram, durante a campanha, o número de urna de Curi, 1122, ao total de mortos na operação. O ex-secretário da Polícia Militar Marcelo de Menezes (PL) conquistou uma cadeira na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj), com mais de 46 mil votos. O delegado Bernardo Leal, que também participou da ação, foi eleito deputado estadual com mais de 57 mil votos.

Para Grillo, o termo “narcoterrorismo” dá voto justamente por traduzir uma sensação cada vez mais presente entre os brasileiros: o medo. “É uma forma de mobilizar o medo da população por meio de uma categoria exagerada”, explica. A pesquisadora também afirma que megaoperações como a da Penha não reduzem o poder das facções. “No segundo em que a polícia saiu, aquele território continuou sob controle do Comando Vermelho”, diz.

“Todas as pessoas que foram mortas são insubstituíveis do ponto de vista dos seus familiares, mas perfeitamente substituíveis do ponto de vista das facções.” Operações como esta, segundo ela, não passam de “um método ineficaz e populista. E todo populismo, de alguma forma, mira as eleições”, conclui.

Curi e Menezes chegam ao Legislativo enquanto a operação que comandaram segue sob investigação. Familiares relataram ter sido impedidos de reconhecer os corpos das vítimas. A Polícia Federal (PF) e o Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) abriram investigações, e o MPRJ já denunciou 17 policiais por condutas como invasão de domicílios, apropriação de bens e armamentos, constrangimento de moradores e tentativas de impedir ou prejudicar o registro das câmeras corporais.

A ONG Human Rights Watch apontou que a Polícia Civil não preservou os locais das mortes, comprometendo as perícias. Em abril deste ano, a PF informou ao STF que ainda não havia recebido as imagens das câmeras corporais dos policiais militares que participaram da ação.

Castro tentou surfar a mesma onda. Após a operação, recebeu o aval da cúpula nacional do PL para disputar o Senado, e seu perfil no Instagram ganhou cerca de 1,5 milhão de seguidores. Mas, em março de 2026, um dia depois de renunciar ao governo para concorrer, foi declarado inelegível por oito anos pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), por abuso de poder político e econômico na eleição de 2022.

Coube a Ruas, seu aliado e ex-secretário estadual das Cidades, levar a bandeira adiante. Durante a campanha, Ruas buscou se afastar de Castro e do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, ambos investigados, mas não abandonou a defesa da Operação Contenção em suas falas públicas.

O discurso parece ter colado: em 10 de outubro, depois que o TSE anulou os votos de Anthony Garotinho (Republicanos) e o Tribunal Regional Eleitoral do Rio (TRE-RJ) refez a totalização, Ruas foi declarado eleito em primeiro turno, com 50,88% dos votos válidos, contra 44,16% de Eduardo Paes (PSD).

<><> Depois das eleições, o medo de operações ainda mais letais

Em sua primeira entrevista como governador eleito, à TV Globo, Ruas afirmou que a segurança pública será o foco central de sua gestão. Prometeu convocar logo no início do mandato os aprovados em concursos das forças de segurança e retomar territórios dominados pelo tráfico e pela milícia com operações planejadas, seguidas da ocupação permanente das áreas. Questionado sobre quais comunidades seriam as primeiras, respondeu: “Não vou fazer assessoria para bandidos”.

Na Penha, a promessa é recebida com desconfiança. “Vão entrar para matar mais”, afirma Tauã Brito. “Muita gente aplaudiu o que aconteceu aqui. Então eles entenderam que morte, de certa forma, dá voto.” Para Andressa Ignácio, a eleição de Ruas repete a de Castro. “As próprias pessoas elegeram um segundo Cláudio Castro. Eles são farinha do mesmo saco”, afirmou, antes do segundo turno.

O temor cresceu com a disputa eleitoral. Em 9 de outubro, ao lado de Ruas, na Barra da Tijuca, Flávio, que disputou o segundo turno contra Lula em 25 de outubro, disse que os dois estão alinhados para “declarar guerra” ao crime organizado e mandou um recado “aos narcoterroristas de Comando Vermelho, PCC e milícias”. Nas urnas, Lula foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, contra 48,21% de Flávio, segundo o TSE. A designação das facções como terroristas pelos Estados Unidos, decidida em maio, não depende do resultado eleitoral brasileiro.

Nesta quarta-feira, 28 de outubro, dia em que a chacina completa um ano, os familiares das vítimas organizam um grande ato pacífico na Praça São Lucas. O evento acontece três dias depois do segundo turno, com Ruas eleito no estado e Lula reconduzido ao Planalto.

Perguntada sobre o que pediria a quem vencesse a corrida pela presidência, a mãe de Wellington respondeu: “Eu só peço que olhem para a Penha não como um cenário para tirar vidas, mas de uma forma mais humana. Que lembrem que existem pessoas aqui dentro que precisam ser respeitadas, crianças que precisam crescer num ambiente de paz. As crianças da favela precisam voltar a ser crianças”.

 

Fonte: Por Augusta Lunardi, da Agência Pública