sexta-feira, 18 de setembro de 2026

Brasil e EUA em rumos opostos: 2 economias, 2 inflações e 1 disputa política

a mesma quarta-feira (16), os bancos centrais das duas maiores economias das Américas apertaram botões opostos. Nos Estados Unidos, o Federal Reserve (FED) elevou sua taxa básica em 0,25 ponto percentual, para a faixa de 3,75% a 4% ao ano. No Brasil, o Comitê de Política Monetária reduziu a Selic também em 0,25 ponto, de 14% para 13,75%.

A coincidência numérica não poderia esconder diferenças mais profundas. De um lado, uma economia que volta a apertar a política monetária porque a inflação persiste, alimentada também pelas escolhas de Donald Trump. De outro, um país que começa, com excessiva lentidão, a retirar o pé de um freio monetário acionado por tempo demais.

Os movimentos em direções contrárias contam uma história que vai muito além das decisões técnicas de dois bancos centrais. Falam sobre inflação, crescimento, conflitos internacionais, tarifas, distribuição de renda e poder político. Mostram ainda como a mesma variação de 0,25 ponto pode representar coisas muito diferentes: nos Estados Unidos, a confirmação de um novo aperto; no Brasil, um alívio ainda insuficiente diante de uma das taxas reais de juros mais elevadas do mundo.

<><> Trump exige juros baixos, mas fabrica inflação

O FED elevou os juros pela primeira vez desde 2023, contrariando as pressões reiteradas de Donald Trump por uma política monetária mais frouxa. O presidente norte-americano quer crédito barato, valorização dos ativos, crescimento acelerado e uma economia aquecida às vésperas das eleições legislativas. Mas pretende alcançar tudo isso ao mesmo tempo em que adota medidas que pressionam os preços: tarifas de importação, guerra comercial, estímulos fiscais seletivos, hostilidade contra parceiros tradicionais e uma política externa que amplia a instabilidade geopolítica e os riscos sobre o preço do petróleo.

Há uma contradição evidente. Trump exige que o banco central reduza o custo do dinheiro, mas sua política econômica aumenta os custos de produção e de importação. Tarifa é imposto cobrado na fronteira e, em grande medida, repassado aos preços internos. Quando o governo norte-americano encarece produtos estrangeiros, desorganiza cadeias produtivas e ameaça países com sucessivas retaliações comerciais, não está apenas protegendo determinados setores da indústria. Está introduzindo novas pressões inflacionárias na economia.

A guerra e as tensões no Oriente Médio acrescentam outro componente. Petróleo e energia mais caros atravessam praticamente toda a estrutura de custos: transporte, produção industrial, agricultura e serviços. O FED não produz petróleo, não reorganiza cadeias internacionais e não revoga tarifas. Sua ferramenta é a taxa de juros. Diante de uma inflação que permanece acima da meta de 2%, respondeu como bancos centrais costumam responder: encareceu o crédito para conter a demanda e impedir que aumentos localizados contaminem o conjunto dos preços e salários.

Isso não significa que a alta seja socialmente neutra ou economicamente indolor. Juros maiores encarecem hipotecas, cartões, financiamentos empresariais e a própria dívida pública. Podem desacelerar o emprego e o consumo sem eliminar as causas originais de uma inflação provocada por tarifas, energia e choques de oferta. A política monetária, nesse caso, tenta combater com redução da demanda um problema que não nasceu de excesso de demanda, mas de aumento de custo.

O episódio revela também uma ironia política. Kevin Warsh chegou à presidência do FED como escolhido de Trump. Ainda assim, comandou uma decisão unânime de elevação dos juros e reafirmou que a inflação continua elevada. O presidente que queria controlar o banco central encontra agora resistência dentro da instituição que imaginava tornar mais dócil. Pode atacar o FED, mas não consegue abolir por decreto as consequências de sua própria política.

<><> O Brasil começa a retirar o freio

No Brasil, o movimento é inverso. A inflação corrente perdeu força, a atividade econômica mostra sinais de desaceleração e os efeitos acumulados de uma política monetária extremamente restritiva tornaram possível a continuidade do ciclo de cortes. O Copom reduziu a Selic de 14% para 13,75% ao ano.

A direção está correta. Seria difícil justificar a manutenção de juros tão elevados quando o crescimento perde impulso, o consumo das famílias recua e a inflação dá sinais de acomodação. A política monetária atua com defasagem: os juros cobrados hoje repercutem sobre crédito, investimento, emprego e preços durante muitos meses. Insistir indefinidamente numa Selic excepcionalmente alta significaria aprofundar uma desaceleração que já está em curso.

É importante registrar também o significado institucional da decisão. Gabriel Galípolo foi recebido pela ortodoxia financeira com desconfiança antes mesmo de assumir a presidência do Banco Central. Previam que, por ter sido indicado por Lula, se curvaria às conveniências do governo, abandonaria o controle da inflação e conduziria uma política monetária irresponsável. Nada disso aconteceu. Os cortes vêm sendo graduais, cautelosos e sustentados pelos dados. O Banco Central não se lançou numa aventura expansionista; move-se, ao contrário, com uma prudência que chega a ser excessiva.

Galípolo demonstrou que responsabilidade monetária não exige submissão automática às preferências do mercado financeiro. É possível reconhecer riscos inflacionários e, ao mesmo tempo, considerar os custos econômicos e sociais de juros mantidos em patamares desproporcionais. A estabilidade de preços é indispensável, mas não pode ser transformada em justificativa permanente para paralisar o investimento, sufocar o crédito produtivo e transferir renda para os detentores de riqueza financeira.

O corte brasileiro também desmonta, na prática, a campanha dos que tentaram transformar qualquer redução da Selic em sinal de fraqueza técnica ou interferência política. Se houve cautela de sobra, não faltou responsabilidade. O que faltou, durante muito tempo, foi maior atenção aos efeitos destrutivos da política monetária sobre a produção, o emprego, as pequenas empresas e as contas públicas.

<><> Uma queda correta, mas ainda muito pequena

Seria um erro, contudo, interpretar a decisão como se o Brasil tivesse finalmente ingressado numa era de juros baixos. A Selic de 13,75% continua escorchante. Mesmo depois da alta norte-americana e do corte brasileiro, a diferença entre as taxas dos dois países permanece próxima de dez pontos percentuais. Os Estados Unidos elevam os juros para perto de 4% e chamam isso de aperto. O Brasil os reduz para 13,75% e setores do mercado ainda descrevem o movimento como ousadia.

Essa comparação expõe a anomalia brasileira. Naturalmente, as duas taxas nominais não podem ser confrontadas mecanicamente. Brasil e Estados Unidos possuem histórias inflacionárias, moedas, estruturas financeiras, riscos e posições internacionais muito diferentes. O dólar é a principal moeda de reserva do sistema mundial, o que concede aos Estados Unidos uma margem que nenhuma economia periférica possui. Ainda assim, nenhuma dessas diferenças explica sozinha a persistência de um juro real tão elevado no Brasil.

Os efeitos distributivos são profundos. A taxa básica remunera títulos públicos, eleva o custo de rolagem da dívida e amplia a parcela do orçamento absorvida pelas despesas financeiras. O mesmo discurso que exige cortes em saúde, educação, infraestrutura e políticas sociais costuma silenciar diante do custo fiscal dos juros. A austeridade é rigorosa quando se trata dos pobres e surpreendentemente tolerante quando remunera o rentismo.

Para as famílias, juros altos significam crédito caro e endividamento prolongado. Para pequenas e médias empresas, representam dificuldade de financiar estoques, modernizar equipamentos e ampliar a produção. Para a indústria, reduzem a competitividade e tornam mais atraente aplicar recursos no mercado financeiro do que investir em capacidade produtiva. Para o Estado, consomem recursos que poderiam apoiar infraestrutura, inovação, transição energética e desenvolvimento social.

Há ainda o efeito cambial. A alta dos juros norte-americanos tende a fortalecer o dólar e a atrair capitais para os Estados Unidos, enquanto a redução brasileira diminui, ainda que marginalmente, o diferencial que sustenta operações de arbitragem financeira. Isso recomenda cautela, mas não imobilismo. O Brasil continua oferecendo remuneração extraordinariamente elevada, possui reservas internacionais expressivas e não pode organizar toda a sua política econômica para preservar indefinidamente o conforto dos investidores de curto prazo.

O chamado carry trade não é uma política nacional de desenvolvimento. Um país não pode se conformar em atrair capitais exclusivamente porque paga juros muito superiores aos do restante do mundo. A verdadeira segurança econômica nasce de crescimento, capacidade produtiva, estabilidade institucional, reservas, mercado interno e perspectivas de longo prazo — não da promessa de remuneração excepcional ao dinheiro financeiro.

<><> Dois projetos diante do espelho

A “Super Quarta” colocou Brasil e Estados Unidos diante de um espelho. Nos Estados Unidos, o governo Trump produz instabilidade comercial e geopolítica, alimenta pressões inflacionárias e depois exige que o Federal Reserve ignore suas consequências. No Brasil, o governo Lula combina expansão da renda, valorização do salário mínimo, políticas sociais, investimentos públicos e maior justiça tributária, enquanto o Banco Central inicia uma redução muito gradual do aperto monetário.

Não se trata de afirmar que todos os problemas brasileiros estejam resolvidos. A inflação exige vigilância, o ambiente externo tornou-se mais adverso e o choque do petróleo pode alcançar o país. A economia brasileira também precisa elevar o investimento, superar gargalos de produtividade, ampliar a infraestrutura e recuperar sua capacidade industrial. Mas nada disso será alcançado mantendo o custo do dinheiro em níveis proibitivos.

Também não se deve confundir prudência com paralisia. O corte de 0,25 ponto é correto, mas insuficiente diante da desaceleração da atividade e da distância que ainda separa a Selic de um patamar compatível com o desenvolvimento. A continuidade do movimento dependerá dos dados, mas o debate não pode permanecer prisioneiro das ameaças automáticas de sempre: fuga de capitais, explosão do dólar, descontrole inflacionário e colapso da confiança. Essas previsões são repetidas cada vez que se propõe reduzir, ainda que modestamente, os privilégios do rentismo.

A decisão do Copom não é uma concessão ao governo nem um presente às vésperas das eleições. É uma resposta tardia e moderada aos sinais da economia real. O verdadeiro risco seria ignorar a perda de dinamismo, sacrificar emprego e investimento e transformar a defesa da moeda numa guerra permanente contra a produção.

Brasil e Estados Unidos tomam, portanto, rumos opostos. Mas a simetria termina no 0,25 ponto percentual. Nos Estados Unidos, a alta para até 4% procura conter uma inflação agravada pelas escolhas de Trump. No Brasil, a queda para 13,75% apenas começa a desmontar uma muralha de juros que separa o país de seu potencial de crescimento.

O Brasil iniciou o caminho correto, mas não chegou ao destino. Enquanto uma taxa próxima de 4% é tratada como severo aperto na maior economia do mundo, 13,75% continua sendo apresentado por aqui como preço natural da prudência. Não é. É o retrato de uma correlação de forças na qual o rentismo fala mais alto do que a produção. Reduzir essa distância será uma das condições para que o país deixe de administrar a escassez e volte, finalmente, a organizar sua economia em torno do desenvolvimento.

¨      A ingerência dos Estados Unidos no Brasil é escancarada e hoje o Brasil é principal contrapeso de Trump na região. Por Marcia Carmo

A poucos dias do primeiro turno da eleição presidencial brasileira, as atenções da América Latina estão voltadas para o destino do Brasil. “O Brasil é hoje o contrapeso contra a hegemonia buscada pelo presidente Trump na região”, disse o cientista político Juan Olmeda, professor do Colégio do México e integrante do Conversatório Latino-americano (Conlat). Em entrevista ao Brasil 247, falando do México, ele ressaltou que esta é uma eleição importante para o Brasil, mas também para toda a região. “E diria que é uma das mais importantes dos últimos tempos”, disse Olmeda.

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<><> ‘Soberania x subordinação’

Para ele, com o presidente Lula o Brasil mantém sua soberania e, no caso de uma eventual eleição do senador Flávio Bolsonaro, a “subordinação” seria a base do vínculo com os Estados Unidos, envolvendo a possível inclusão do nosso país no chamado Escudo das Américas. O Escudo das Américas reúne os governos da América Latina e Caribe sintonizados com a administração Trump e seu principal foco é a segurança, incluindo as forças militares. No encontro em março deste ano para o lançamento do Escudo, os poucos ausentes foram o Brasil, o México e a Colômbia que era liderada por Gustavo Petro, mas que deu uma guinada à extrema-direita com a chegada de Abelardo de la Espriella à Presidência do país, no mês de agosto deste ano.

<><>Lula, ‘democracia e soberania’

Doutor em Ciência Política, Olmeda é um estudioso das democracias na América Latina e com seus colegas do Conlat, que reúne acadêmicos prestigiados do Brasil, da Argentina, da Colômbia e do México, analisam, atualmente, o tópico “Democracia e soberania”.

Para ele, as recentes interferências de Trump no processo eleitoral brasileiro e a postura de Lula diante desta atitude do norte-americano acabaram beneficiando (a popularidade) do presidente do Brasil. “Nas últimas vezes que Trump buscou ingerências no Brasil, com aumento de tarifas, Lula acabou beneficiado (com aumento de popularidade)”, observou.

<><> “Ingerências e ameaças”

Além das ingerências, Trump faz ameaças contra os países, na busca de impor sua visão, disse Olmeda durante a entrevista ao Brasil 247, nesta quarta-feira. “É interferência em um país soberano.”, disse. A entrevista foi realizada pouco depois de o governo Trump declarar que o “Brasil falhou em confrontar as organizações terroristas” Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) e ainda atacar o governo do presidente Lula, argumentando que a atuação destas facções criminosas supostamente transformou o país em um “centro de distribuição global de cocaína.”

<><> “EUA, democracia e Venezuela”

Olmeda entende que os Estados Unidos “deixaram de ser referência de democracia”, nestes tempos de Trump. Neste conjunto que envolve a saúde das democracias, as interferências de Trump e a soberania dos países, ele recorda dois exemplos recentes, inesperados e que fogem dos trilhos das relações tradicionais entre os países. Um deles foi a decisão dos Estados Unidos, recordou, de indultar o ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, que cumpria pena de 45 anos nos EUA por tráfico de drogas e que foi liberado por ser aliado do então candidato da direita Nasry Asfura. Asfura foi eleito presidente hondurenho com apoio explícito de Trump. O presidente dos Estados Unidos também se envolveu na campanha presidencial na Colômbia, apoiando De la Espriella, da extrema-direita, e ainda socorreu o governo Milei com um salva-vidas financeiro de US$ 20 bilhões às vésperas das eleições legislativas do ano passado. Milei acabou ampliando a presença do seu partido no Congresso Nacional. Para o analista mexicano, o mais inesperado ainda foi como o governo Trump excluiu Nicolas Maduro da presidência da Venezuela e como a relação seguiu, depois, com Delcy Rodríguez (e o interesse dos EUA no petróleo venezuelano).

<><> “Redes sociais levam a repensar a soberania”

Com a recente prisão do empresário e marqueteiro político da extrema-direita Fernando Cerimedo, foi intensificado o debate sobre a soberania. Cerimedo foi acusado, no mês passado, de tentativa de homicídio na Bolívia e o fato contribuiu para revelar uma série de denúncias em vários países do uso do discurso de ódio e notícias falsas, com fazendas de bots, que atrapalharam a natureza democrática. Na atualidade, com as redes sociais, o poderio de empresas que têm mais recursos até do que as reservas de bancos centrais de nações, as interferências nos processos eleitorais (e além dele) ficaram escancaradas. “Devemos repensar e ampliar o conceito de soberania. Estamos também diante de atores não estatais que influenciam o debate, os rumos. Há muito a ser debatido”, disse o estudioso mexicano. E tudo isso ocorre quando levantamentos sérios, notou, registram que a democracia, que tanto demorou a ser conquistada e reconquistada em nossos países, tem sido desvalorizada por setores das populações da América Latina. “Estão os que pensam que se sua vida vai bem, a democracia não é o principal. Mas não que defendam golpes ou o retorno militar’, disse. Ou seja, os desafios são permanentes e gigantes. E é preciso estar atento.

 

Fonte: Por Maria Luiza Falcão, na Fórum/Brasil 247

 

O que Lula e Flávio prometem para a política externa

Candidatos têm visões completamente opostas em temas de política externa. Lula propõe aposta em multilateralismo e reforço do Brics. Já Flávio fala em aliança com EUA de Trump e se "libertar das amarras do Mercosul"...

Em uma eleição presidencial que ocorre à sombra de tensões internacionais, os programas de governo dos dois candidatos mais bem posicionados nas pesquisas, Lula (PT) e Flávio Bolsonaro(PL), apresentam propostas e visões diametralmente opostas em temas de política externa.

As diferenças de visão de mundo são explícitas quando se trata de temas como relações com os Estados Unidos, a participação do Brasil no Mercosul e no Brics, e até relações com Israel.

Os programas de governo dos dois candidatos protocolados junto à Justiça Eleitoral são vagos em vários temas específicos de política externa que vêm dominando o noticiário, muitas vezes sem detalhar propostas ou metas. Temas como relações com a União Europeia e as guerras no Oriente Médio e na Ucrânia, por exemplo, estão completamente ausentes das propostas.

Mas falas e ações de Lula e Flávio Bolsonaro nos últimos meses permitem preencher algumas lacunas e apontar que direção os dois candidatos pretendem dar à diplomacia brasileira nos próximos quatro anos.

>>> Lula: "soberania" como tema prevalente

Em seu programa de governo, Lula deu preferência em listar realizações de política externa do seu atual mandato, mas há diretrizes sobre como a administração pretende continuar a se portar. Em linha com a atual postura do Planalto, o programa menciona várias vezes a importância de reafirmar a "soberania" e a "independência" do Brasil.

O plano ainda abraça o multilateralismo e aponta que a "integração sul-americana é o primeiro círculo de projeção estratégica do Brasil".  Lula também fala em uma maior aproximação com a Ásia, a África, o Oriente Médio "para ampliar a cooperação política, econômica, tecnológica e cultural".

Lula ainda voltou a bandeiras tradicionais do seu governo, como a defesa do Conselho de Segurança da ONU e de organismos como Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Banco Mundial OMC.

No atual mandato de Lula, o Itamaraty é comandado pelo ministro Mauro Vieira, um diplomata de carreira, que já havia ocupado o posto no governo Dilma Rousseff. Lula ainda conta com Celso Amorim, outro veterano, no cargo de assessor especial da Presidência da República para assuntos internacionais.

>>> Flávio Bolsonaro: política externa "anti Lula"

O plano de diretrizes de governo de Flávio Bolsonaro é bastante breve em política externa, dedicando apenas duas páginas ao assunto, com boa parte dos parágrafos sendo usados para criticar a diplomacia da administração Lula em temas como Venezuela e Irã, argumentando que "política externa brasileira trocou o interesse nacional pela ideologia, protegendo regimes propensos ao terror e seus criminosos".

"Nossa proposta é o oposto: uma diplomacia guiada pelo profissionalismo e pelo pragmatismo, não pela ideologia", disse Flávio Bolsonaro, que é alinhado com os governos de ultradireita dos EUA, Argentina e Israel.

De específico, o programa de Flávio menciona que seu governo pretende retomar a inserção do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). E, de maneira mais genérica, o plano fala em aumentar a abertura comercial e ampliar acordos que abram novos mercados para o Brasil.

Flávio não divulgou oficialmente nomes que podem comandar o Itamaraty sob sua gestão. Em janeiro, ele chegou a dizer que o irmão Eduardo Bolsonaro, que foi condenado à prisão e hoje vive nos EUA sob a proteção do governo de Donald Trump, poderia comandar a pasta do exterior. No entanto, Flávio passou a desconversar sobre o tema após reação negativa de empresários e políticos aliados.

<><> Brics

>>> Lula: fortalecimento do bloco e defesa de alternativa ao dólar

O programa de Lula menciona o Brics três vezes. Atualmente, o Brics é formado por dez países: Brasil, Rússia, China, Índia, África do Sul, Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos, Irã e Indonésia. Foi no segundo governo Lula que o bloco foi formado, com o Brasil entre seus fundadores.

No seu programa, Lula defende o aprofundamento das relações entre países do Brics e o fortalecimento de mecanismos financeiros do bloco – uma medida que é vista com hostilidade pelos EUA de Trump, que temem que o Brics possa minar a hegemonia do dólar no comércio mundial.

Desde que voltou ao Planalto, em 2023, Lula também defendeu publicamente que o bloco deveria adotar uma moeda de referência alternativa ao dólar para trocas comerciais entre países do Brics ou que os países usem suas próprias moedas locais. Em fevereiro, por exemplo, Lula mencionou essa possibilidade em entrevista a uma rádio da Índia. "Não é necessário que um acordo comercial entre Brasil e Índia precise ser feito em dólares americanos. O que eu defendo é que podemos usar nossas próprias moedas", disse.

>>> Flávio Bolsonaro: retirar o Brasil do Brics?

O programa de Flávio não menciona o Brics uma vez sequer. Mas o candidato, que é alinhado com Trump, já deu declarações sinalizando que pode ser hostil ao bloco, que costuma ser alvo de críticas e ameaças por parte da Casa Branca.

Flávio, por exemplo, afirmou num podcast em junho que seu governo pode vir a retirar o Brasil do Brics. "No primeiro dia que eu me sentar na cadeira de presidente, vou reavaliar se o Brasil deve ficar em um bloco que é muito ideológico, usado para provocar os Estados Unidos", disse.

Ao mesmo tempo, Flávio Bolsonaro, novamente alinhado com os EUA, disse ser contra a possibilidade de redução de dependência do dólar americano em transações internacionais, refutando propostas de Lula e da Rússia nesse sentido, que já provocaram ameaças de retaliação por parte de Trump no passado.

Em julho, num ofício encaminhado ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), Flávio também propôs que o Brasil deve impedir que o Pix seja integrado a mecanismos internacionais de compensação financeira fora da esfera ocidental – ou seja, fora do alcance dos EUA.

<><> Estados Unidos

>>> Lula: "reafirmar soberania"

Desde a volta de Donald Trump ao poder nos EUA, em 2025, o Brasil sob Lula passou a ser alvo de repetidas rodadas de tarifas por parte da Casa Branca. Algumas com objetivos comerciais, outras foram encaradas como tática de pressão para beneficiar a família Bolsonaro, aliada de Trump.

O programa de governo de Lula não menciona os Estados Unidos nominalmente, mas faz várias referências veladas à posição de confronto da Casa Branca, defendendo que o Brasil determine suas políticas sem interferência externa e com autonomia. O texto parece seguir a postura do Planalto nos últimos meses, que tem criticado a interferência de Trump no Brasil, mas sem romper completamente com os EUA ou direcionar animosidade diretamente ao presidente americano, buscando uma solução negociada.

"Em um cenário de tensões geopolíticas crescentes e quebras das regras de convivência internacional, o Brasil deve reafirmar sua soberania e preservar sua capacidade de fazer escolhas políticas e econômicas de forma independente, à luz de seus interesses, sem qualquer tipo de subordinação estratégica", diz o texto.

Em outro trecho, o programa diz que o governo fará "firme oposição a qualquer tentativa de subordinar o Brasil a interesses estrangeiros ou de reduzir nosso país a uma posição de dependência geopolítica".

Na sequência, o texto parece fazer uma referência velada a Flávio Bolsonaro e seu alinhamento com os EUA: "Rejeitamos a visão daqueles que aceitam, com servilismo, a renúncia à soberania nacional em nome de alinhamentos automáticos e ideologias fracassadas".

>>> Flávio Bolsonaro: "aliança conservadora"

Apesar do alinhamento de Flávio Bolsonaro com o governo Trump, a relação estreita não é mencionada no programa de diretrizes do candidato. Referências aos EUA são poucas. Em um dos trechos, o programa fala em "reverter" o distanciamento entre Brasília e Washington e em buscar "soluções diplomáticas" contra as "sanções" dos EUA a produtos brasileiros.

No entanto, em falas nos últimos meses, Flávio foi mais explícito em como enxerga como seria a relação entre o Brasil e os EUA sob seu eventual governo. Em março, num discurso nos EUA, Flávio falou em formalizar uma aliança com o país de Trump. "No próximo ano, quando eu retornar a este palco como presidente do Brasil, não estaremos apenas celebrando mais uma vitória eleitoral. Estaremos celebrando o nascimento da aliança conservadora mais forte da história do Hemisfério Ocidental", disse.

Em julho, ele também sugeriu que o Brasil firmasse um acordo de livre comércio com os EUA nos moldes da antiga Nafta, o bloco econômico de livre-comércio formado pelos americanos, o Canadá e o México, que foi esvaziado por Trump em 2020. O plano do candidato, porém, não menciona como seu governo pretende lidar com o tarifaço de Trump, que, em parte, foi inicialmente incentivado por Flávio e seu irmão, Eduardo Bolsonaro.

Ainda em seu plano de governo, Flávio fez menções genéricas a minerais críticos. Em falas nos últimos meses, no entanto, ele foi explícito em afirmar que deseja que os EUA explorem os minerais no Brasil, para reduzir sua dependência da China. "O Brasil é a solução para que os Estados Unidos não dependam mais da China em terras raras e minerais críticos", disse o entãopré-candidato a presidente, em evento no Texas.

<><> Mercosul

>>> Lula: aprofundamento do bloco

O programa de Lula propõe continuar a fortalecer o Mercosul, especialmente como plataforma para a ampliação de iniciativas de integração econômica, como no acordo de livre-comércio firmado com a União Europeia, que passou a vigorar em maio.

"Seguiremos aprofundando o Mercosul e os espaços de integração regional, especialmente nas áreas de infraestrutura, defesa, segurança pública, energia e saúde. Consolidaremos o Mercosul como principal plataforma de integração econômica, produtiva, política e social da América do Sul", diz o programa.

>>> Flávio Bolsonaro: "se libertar das amarras" do Mercosul

O programa de Flávio Bolsonaro não menciona o Mercosul. Mas o candidato já indicou que, ao contrário de Lula, vê o bloco como um empecilho para iniciativas de política externa unilaterais. Em julho, num documento enviado ao governo americano, ele propôs que o Brasil se "liberte das amarras" do bloco sul-americano para uma "busca agressiva" de novos acordos comerciais, sinalizando que pode adotar uma postura como a do presidente argentino Javier Milei, que buscou um acordo comercial com os EUA sem participação de parceiros do Mercosul nas negociações.

<><> Israel e questão palestina

>>> Lula: tema ausente em propostas, relações tensas 

Os planos de governo de Lula não mencionam Israel e a questão palestina diretamente, mas a postura da atual administração é bem explícita sobre o conflito no Oriente Médio.

Em 7 de outubro de 2023, na esteira do ataque do Hamas que deixou mais de 1.000 mortos em Israel, Lula condenou as ações do grupo palestino e manifestou "repúdio ao terrorismo". Ao mesmo tempo, ele defendeu negociações para a existência "de um Estado Palestino viável".

Posteriormente, com a ampliação das ações militares em Gaza, Lula passou a criticar ações israelenses. Em 2025, Lula disse que "em Gaza não tem uma guerra, tem um genocídio". Antes disso, em 2024, declarações de Lula comparando a situação da população de Gaza com o Holocausto provocaram tensão entre Israel e Brasil. Os israelenses acabaram declarando Lula "ersona non grata (alguém que não é bem-vindo).

Após outros incidentes diplomáticos, o governo Lula retirou o embaixador brasileiro de Tel Aviv. Em 2025, foi a vez de o governo do israelense Benjamin Netanyahu rebaixar sua relação diplomática com o Brasil. Israel também segue sem embaixador no Brasil. Sob Lula, o Brasil também apoia a ação apresentada pela África do Sul contra Israel por acusações de genocídio na Faixa de Gaza.

>>> Flávio Bolsonaro: transferência de embaixada para Jerusalém

O plano de governo de Flávio não menciona Israel ou a questão palestina. Mas falas e ações do candidato vem seguindo o mesmo roteiro do seu pai, Jair Bolsonaro, que estreitou as relações do Brasil com Israel, e, especialmente, com o premiê Netanyahu.

Em janeiro, Flávio Bolsonaro, escolheu Israel como destino da sua primeira viagem ao exterior na condição de pré-candidato. No país, foi recebido em um jantar de gala por Netanyahu. Em julho, foi a vez de o premiê participar, via mensagem em vídeo, do lançamento oficial da campanha de Flávio, chamando o brasileiro de "meu amigo".

De propostas práticas, Flávio mencionou que no seu primeiro dia como presidente pretende receber um novo embaixador israelense no Brasil. Flávio também contemplou publicamente transferir a embaixada brasileira em Israel de Tel Aviv para Jerusalém, seguindo o exemplo dos EUA de Donald Trump. "Em 2027, o Brasil não apenas voltará a ter embaixador em Israel, como dará o passo de transferir sua embaixada para a capital de Israel: Jerusalém", disse Flávio.

Em 2019, seu pai, Jair Bolsonaro, havia tentado essa transferência, mas recuou diante de possíveis retaliações de países árabes que são grandes parceiros comerciais do Brasil.

 

Fonte: Por Jean-Philip Struck, em DW Brasil

 

Trump versus Lula

O processo de redemocratização do Brasil teve início com uma gigantesca mobilização pelas eleições diretas para a presidência da República. O regime ditatorial de 1964, em seu processo de abertura, já autorizara eleições para os governo estaduais (1982) e para as prefeituras das capitais (1985), mas o voto para a Presidência da República teve de esperar um pouco mais: só em 1989, já sob uma nova Constituição, promulgada em 1988, os brasileiros elegeriam um novo presidente.

A história da recente democracia brasileira passa a ser contada, desde então, a partir das eleições presidenciais. E, de 1989 para cá, uma figura foi onipresente: Luiz Inácio Lula da Silva. Sempre pelo Partido dos Trabalhadores, Lula foi ao segundo turno em 1989, quando perdeu para o direitista Fernando Collor de Mello, foi vencido no primeiro turno pelo social-liberal Fernando Henrique Cardoso, mas ficou com a segunda votação, em 1994 e 1998, venceu em 2002 e 2006 os candidatos tucanos (José Serra e Geraldo Alckmin), elegeu a sucessora Dilma Rousseff em 2010 e 2014 novamente contra os tucanos (José Serra e Aécio Neves), foi levado ao cárcere num processo grosseiramente manipulado para que não pudesse disputar em 2018 (e seu candidato, Fernando Haddad, ficou em segundo lugar, atrás do candidato da extrema-direita, Jair Bolsonaro) e venceu novamente em 2022, novamente contra Bolsonaro. Sua firmeza em 2018, quando levou a candidatura até a véspera do encerramento do prazo de confirmação da chapa, e sua volta em 2022 mantiveram viva aquela Constituição de 1988, já bastante desfigurada, mas que ainda a garantidora do pacto político democrático construído na década de 1980.

Este breve resumo mostra o quão forte é a imagem de Lula junto ao eleitorado brasileiro. Lula, em seus 580 dias de prisão (2018-2019), não só cuidou da vida política, como manteve o corpo em forma: ele chega octogenário à disputa em 2026 bastante longe da fragilidade física e intelectual de Joe Biden ou dos boatos de podridão física de Donald Trump. Seu rival Flávio Bolsonaro (PL) produziu recentemente um vídeo com inteligência artificial usando sunga branca e de peito nu sob uma faixa presidencial, numa provável tentativa – sem sentido – de mostrar jovialidade em oposição a Lula. Aparentemente, provocou mais risos do que uma comparação, pelo menos entre eleitores não fanáticos.

Depois de anos de desgoverno e pandemia, Lula assumiu seu terceiro mandato presidencial em 2023 com a economia em frangalhos e um orçamento ficcional: várias despesas obrigatórias não haviam sido incluídas nas contas do governo pelo antecessor Jair Bolsonaro. A gestão econômica, comandada por quatro ministros – Fernando Haddad, da Fazenda, Simone Tebet, do Planejamento, Geraldo Alckmin, agora vice-presidente e chefe da pasta da Indústria e do Comércio, e Esther Dweck, na Gestão e Inovação – produziu resultados bastante positivos: desemprego em queda histórica, distribuição de renda, crescimento econômico sempre acima das previsões, déficit primário em queda. Não por acaso, Haddad, Alckmin e Tebet são candidatos a cargos majoritários e alavancas da campanha de Lula: Haddad disputa o governo do Estado de São Paulo, Alckmin disputa a vice-presidência e Tebet, uma vaga no Senado, também por São Paulo.

Do ponto de vista da economia, o governo não conseguiu mexer, no entanto, num problema crônico e bastante problemático na opinião pública: as altas taxas de juros da dívida pública, que rivalizam com as da Rússia, embora o Brasil não enfrente uma guerra. Isso tem, por sua vez, um impacto eleitoral negativo: os brasileiros estavam já bastante endividados quando o fenômeno das apostas online, as chamadas bets, emagreceu ainda mais o orçamento das famílias. Em julho de 2026, 82% dos consumidores disseram ter algum tipo de dívida a vencer, o maior nível desde o início da série histórica da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

Apesar deste problema, a história de Lula e do Partido dos Trabalhadores, as conquistas dos anos em que governou o país e o discurso sempre moderado de liderança social-democrata com raízes sindicais apontavam para uma reeleição relativamente tranquila. A direita brasileira produziu apenas candidatos extremistas – além de Flávio, herdeiro de Bolsonaro, figuram na lista Ronaldo Caiado, governador de Goiás, Romeu Zema, de Minas Gerais, e Renan Santos, um jovem provocador do Movimento Brasil Livre. Nenhum deles conta com estrutura partidária, carisma e história de vida que rivalize com Lula, que vem liderando as pesquisas eleitorais tanto no primeiro (em que ronda os 40% dos votos) quanto no segundo turno (em que chega a 47% no cenário contra Flávio Bolsonaro, mais provável opositor se houver segundo turno).

Porque, diante deste cenário, não é possível dizer que esta será uma eleição tranquila?

A principal razão é que Lula não disputa com eles, mas com o padrinho destes extremistas: Donald Trump.

O Brasil vive um momento histórico bastante singular. A ascensão da China como potência econômica global reconfigurou o jogo econômico mundial. Diferentemente do que viveu o Japão no século 19, que saiu da posição de país colonizado para a de país imperialista aliando-se a europeus (a ponto de constituir o eixo fascista com Alemanha e Itália na Segunda Guerra Mundial) e aos Estados Unidos, antigos agressores (uma leitura bastante interessante, progressista e latino-americana deste processo foi produzida pelo escritor e diplomata Aluísio Azevedo, autor do clássico nacional O cortiço, de 1890, e também de um livro-reportagem intitulado O Japão, inédito até 1984), a China construiu um sistema complexo de inserção em que as armas não são o recurso prioritário.

No jogo político chinês, o Brasil é país-chave, justamente por se tratar da maior economia da América depois dos Estados Unidos, além de fornecer alimentos e outras commodities que são essenciais para o desenvolvimento chinês, como o minério de ferro. “A China é, desde 2008, o principal mercado das exportações agrícolas brasileiras. Já em 2018, o Brasil se tornou o maior fornecedor de produtos agropecuários para os chineses”, informa uma reportagem da CNN Brasil que leva o sugestivo título de “Brasil e China avançam juntos na segurança alimentar” e que tem como principal fonte o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao.

Além disso, Brasil e China são parceiros diplomáticos, que têm movido de forma coordenada, mas não explícita, suas peças no tabuleiro geopolítico em questões como Guerra da Ucrânia, sequestro do presidente Nicolas Maduro, da Venezuela, genocídio em Gaza e ataques ao Irã, de modo que as diferenças de posição nunca se transformam em críticas ou antagonismo mútuo, mas apresentam opções diferentes de ação e mediação. Mesmo estabelecendo recentemente limites para a importação de alimentos, a China tornou-se destino de mais soja e carne do Brasil depois de meados de 2025, quando os Estados Unidos de Donald Trump iniciaram uma guerra tarifária contra o Brasil de Lula.

Os ataques comerciais dos Estados Unidos ao Brasil foram estimulados abertamente pela família Bolsonaro, que chegou a comemorar inúmeras vezes a ação estadunidense que provocava prejuízo econômico para grandes empresas brasileiras. Isto valeu ao grupo a alcunha de “entreguista” e permitiu que Lula colocasse a política externa como um dos eixos centrais de sua campanha.

As dificuldades de exportação de alguns produtos para os Estados Unidos e o crescimento do preço do petróleo criaram, paradoxalmente, um leve freio para a inflação de alimentos e um aumento no recolhimento de impostos, que ajudam a relação de Lula com os eleitores, no primeiro caso, e a gestão do Estado por seu governo, no segundo. Parte dos impostos arrecadados com o petróleo estão sendo usados para manter estáveis os preços dos combustíveis, o que joga também a favor do governo.

As pressões políticas, econômicas e militares de Trump criaram, no entanto, um clima de insegurança bastante grande sobre a estabilidade democrática brasileira e sobre a capacidade de país resistir a uma nova tentativa de golpe ou a uma ação mais explícita – quiçá militar – dos Estados Unidos. Lula, neste cenário, ganha ao poder falar centralmente de política externa, área em que mesmo a mídia mais conservadora em linhas gerais defende as ações do governo, mas perde porque isso o obriga a ser mais cauteloso no discurso econômico e também na prática de suas intervenções.

Diante deste complexo cenário político internacional, com forte impacto local, a mídia tradicional tem feito enorme caso do aumento do endividamento do Estado brasileiro, buscando arrancar de Lula concessões que reduzam sua margem de manobra num eventual quarto mandato. Para solapar sua credibilidade, tentam emplacar denúncias envolvendo um dos filhos do presidente, Fábio Luiz Lula da Silva, tradicional saco de pancadas a cada quatro anos, ou seja, toda vez que Lula disputa uma eleição.

As acusações até o momento são muito frágeis, envolvendo suposto tráfico de influência para negócios que nunca foram concretizados – enquanto isso, denúncias que ligam Flávio Bolsonaro e seu pai a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, instituição responsável por fraudes bilionárias envolvendo a oferta de títulos de investimento com promessas de altos rendimentos sem que a instituição tivesse garantias, vão aos poucos sendo esquecidas.

<><> Cenário 2027

Em linhas gerais, apesar das turbulências, Lula segue sendo o candidato favorito a ganhar a eleição, ficando novamente a dúvida sobre se poderá realizar câmbios econômicos e geopolíticos significativos a partir de 2027.

Lula e os partidos de sua base, especialmente o PT e o PSB, mas também o PSOL e o PCdoB, se preparam desta vez, talvez como nunca nas últimas décadas, para as eleições parlamentares. E isso pode ser o real fiel da balança sobre o que acontecerá num eventual quarto mandato.

Chapas fortes e unificadas ao Senado foram lançadas nos principais Estados dos país, e novas lideranças foram instadas a disputar vagas na Câmara Federal. Atualmente, as bancadas dos partidos lulistas não passam dos 120 cadeiras somadas (das 513), o que exige do governo enorme flexibilidade nas negociações. Em recente entrevista ao canal Fórum, Alberto Cantalice, um importante dirigente petista, entretanto, avaliou que o partido de Lula já considera possível elevar sua bancada para 100 parlamentares (dos atuais 64), e que o conjunto de forças que apoiam Lula talvez atinja 200 nomes na Câmara. Se essa avaliação – considerada otimista, no entanto, por muita gente – se confirmar, ou pelo menos se aproximar da realidade, a centro-esquerda terá, pela primeira vez em muitas décadas, uma força particularmente especial no Parlamento, o que pode ajudar Lula a adotar uma linha mais progressista também na economia, em seu novo mandato, conforme anunciou no discurso da convenção que lançou seu candidatura.

“Eu não quero ser o presidente só do Bolsa Família”, disse. “Agora que as pessoas estão comendo, que as crianças estão na escola, é preciso dar um salto de qualidade.” Entre as prioridades do quarto mandato, Lula listou a educação em tempo integral e maior atenção aos idosos, na área social, mas também investimento pesado em inteligência artificial, minerais críticos e fortalecimento da indústria de Defesa. Sobre este capítulo, Lula foi particularmente explícito: “Este país tem 16.800 quilômetros de fronteira seca. Este país tem 8 mil quilômetros de fronteira marítima. Além da nossa fronteira, nós temos 5,7 milhões de quilômetros quadrados de águas sob a nossa responsabilidade. Este país tem a maior floresta tropical do planeta. Tem 12% da água doce do mundo. Tem uma riqueza mineral que a gente ainda não sabe quanto tem. E este país tem 210 milhões de preciosidades, que são homens, mulheres e crianças que nascem neste país. E nós precisamos investir na defesa. Eu quero estar preparado para que ninguém invada este país para levar o presidente como eles invadiram. Eu quero estar preparado para a paz. Quero estar preparado para a paz. Não para a guerra. Quero estar preparado para que ninguém ousar se fazer de besta conosco.”

Lula 4 teria, em relação a seus outros mandatos, uma vantagem nesta área. Com o enfraquecimento dos acordos de livre comércio, a adoção de políticas industriais pró-ativas está facilitada. Além disso, os investimentos em educação superior nos cinco mandatos petistas desde 2003 criaram uma massa de intelectuais e pesquisadores que pode pensar num desenvolvimento econômico e tecnológico de forma descentralizada, enraizando pelo território nacional transformações de ponta. É uma situação completamente da vivida pelo país até o fim do século 20, em que as tecnologias de ponta e as indústrias ficavam concentradas no eixo Rio-São Paulo – com ênfase em São Paulo. Além disso, parece ter havido, nos últimos anos, uma leve melhora no ambiente das Forças Armadas, com o surgimento de oficiais menos afeitos a aventuras golpistas e a contraditórios discursos patrioteiros de salvação nacional pela adesão incondicional aos interesses estadunidenses.

Os discursos de Lula nesta eleição parecem deixar evidente que, numa eventual quarta vitória de Lula, a questão da soberania brasileira se manterá como um ponto nevrálgico sobre o futuro do país e sua relação com vizinhos americanos, com o presidente brasileiro buscando caminhos diversos e tortuosos para manter unidade nacional, construir uma política de desenvolvimento envolvendo novas tecnologias e buscando relativa independência econômica. A presença de governos extremistas em países como Argentina, Paraguai, Bolívia e agora Colômbia são um desafio especial, já que o alinhamento a uma política comum tornou-se uma utopia – e alguns, como Javier Millei, tornaram-se arietes dos interesses de Donald Trump.

Assim, é difícil dizer o que será do Brasil em 2027, não só pelo que ocorre no país, mas também por conta da incerteza sobre a forma como os Estados Unidos de Donald Trump se comportarão depois das eleições aqui e acolá – as sempre enigmáticas eleições de meio de mandato. Uma eventual derrota ampliaria ou reduziria seu ímpeto imperialista do mandatário dos Estados Unidos? Especulações “realistas” em política externa não parecem funcionar bem diante de Trump neste seus segundo mandato, em que a imprevisibilidade parece ser entendida como um trunfo, não como um problema.

No entanto, se os ataques podem variar na força e na amplitude, o sentido provavelmente será mantido por Donald Trump: tentar afastar o Brasil de um caminho de autonomia e atrapalhar qualquer tipo de aliança com a China. O Brasil, no entanto, com Lula, pode até ceder pontualmente, mas as principais escolhas já estão feitas e dificilmente mudarão – e têm o sentido exatamente oposto.

Ou seja, se as eleições de 2026 estão quentes, 2027 não promete dias frios.

 

Fonte: Por Haroldo Ceravolo, em Outras Palavras

 

Seu Jair pediu dois soldados e levou uma sogra

Enquanto a Mídia se distrai com o fogaréu no STF, Jair Bolsonaro tenta passar a sua boiada no tribunal, para colocar para dentro da sua residência/prisão domiciliar, os amigos de outros tempos, mas que hoje lhe poderiam ser úteis. Ele já perdeu 10 armas de grosso calibre encontradas em seu poder – sem dar baixa –, e que o ministro Alexandre de Moraes mandou destruir, já ficou sem a norinha “leva-e-traz”, que pretendia atuar como sua “dentista” (a profissão dela é esta, juntaria o útil ao agradável) e tentou ter o cunhado como “cuidador”. Não colou. A última do Jair foi querer como “visitas permanentes”, Sérgio Rocha Cordeiro e Max Guilherme Machado de Moura, seus ex-assessores e auxiliares próximos. Não levou, mas como prêmio de consolação, foi agraciado com a sogra de Flávio Bolsonaro.

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Numa busca rápida no Gemini, fica-se sabendo, ou pelo menos é o que veio como resposta, que Max Guilherme Machado de Moura é ex-sargento do Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro. Ele atuou na segurança pessoal de Bolsonaro desde a época em que este exercia o mandato de deputado federal, acompanhando-o posteriormente para o Palácio do Planalto como assessor especial. 

Nada mal para ser requisitados para prestar serviços (?) semanais ao seu Jair, uma vez por semana. Eles trabalhariam em que mesmo? 

Já Sérgio Rocha Cordeiro é capitão da reserva do Exército Brasileiro. Assim como Max Guilherme, acompanhou Bolsonaro ao longo de sua trajetória parlamentar e atuou no Gabinete Pessoal do Presidente. (Que surpresa!)

Mas os rapazes têm credenciais. Ainda de acordo com a pesquisa no Gemini, ambos ganharam destaque público após serem investigados e alvos de mandados no âmbito do inquérito da Polícia Federal que apurou supostas fraudes nos cartões de vacinação contra a COVID-19. (Começo a desconfiar para que serviriam: “serviços gerais”).

A defesa de Bolsonaro solicitou a inclusão de ambos na lista de profissionais autorizados a integrar sua equipe de apoio e prestação de serviços diários na residência. No entanto, o pedido foi indeferido pelo ministro Alexandre de Moraes. (Será por quê?)

No mesmo pedido feito pela defesa ao ministro relator, Alexandre de Moraes, no âmbito da PET 169, a defesa de Jair pede seja autorizada a presença de mais pessoas. Uma delas, (surpresa!!!) é a sogra do candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, que ganhou “passe-livre” na residência, vejam: 

“A Defesa de JAIR MESSIAS BOLSONARO requer (i) “seja autorizada a inclusão, na relação de servidores que exercem atividade de rotina na residência, dos Srs. Sergio Rocha Cordeiro […] e Max Guilherme Machado de Moura, […] na lista dos profissionais que compõem a equipe de assessoramento do Peticionário”; (ii) seja autorizada a permanência dos seguintes familiares: Vicente de Paulo Reinaldo, Maisa Torres Antunes (sogra de Flávio), Geovanna Kathleen Ferreira Lima, Suyane Lanuze Ferreira Lima e Renato Antônio Bolsonaro”.

 Moraes adverte em sua decisão monocrática: “é excepcional e específica, limitada aos profissionais que exercem o trabalho na residência, aos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas) e aos seguranças ao custodiado, ex-Presidente da República”. 

Para, em seguida, deferir, ou seja, autorizar, “nos termos dos arts. 21 e 341 do Regimento Interno do SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL: 

  1. AUTORIZO o regime de visitas permanentes de Geovanna Kathleen Ferreira Lima (CPF 056.540.291-93), Maisa Torres Antunes (CPF 209.810.581-91), Renato Antônio Documento assinado digitalmente conforme MP n° 2.200-2/2001 de 24/08/2001. O documento pode ser acessado pelo endereço http://www.stf.jus.br/portal/autenticacao/autenticarDocumento.asp sob o código C209-7151-42B5-3119 e senha A11C-3D10-CDD5-5B9F EP 169 / DF 3 Bolsonaro (CPF 074.252.278-43), Suyane Lanuze Ferreira Lima (CPF 041.922.871-37) e Vicente de Paulo Reinaldo (CPF 151.782.851-15), nas mesmas condições legais do estabelecimento prisional, ou seja, às quartas-feiras e sábados, em um dos seguintes horários: 8h às 10h, 11h às 13h e 14h às 16h;

 “Ressalte-se, ainda, que a autorização para a presença de terceiros na residência onde se cumpre a prisão domiciliar é excepcional e específica, limitada aos profissionais que exercem o trabalho na residência, aos profissionais de saúde (médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, fisioterapeutas) e aos seguranças ao custodiado, ex-Presidente da República”. Qual será a atividade da sogrinha do candidato?

Os dois militares e ex-auxiliares de Bolsonaro, no entanto, não tiveram a mesma sorte. Foram barrados:

“(2) INDEFIRO o pedido para que Sérgio Rocha Cordeiro e Max Guilherme Machado de Moura sejam incluídos na lista de profissionais de rotina da residência. 

DETERMINO que o requerimento para autorização de visitas, com exceção das visitas autorizadas de maneira permanente, seja renovado a cada ingresso. Comunique-se, imediatamente, à Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal e ao Diretor do Núcleo de Custódia da Polícia Militar – NCPM para adoção das providências cabíveis. Intimem-se os advogados regularmente constituídos, inclusive por meios eletrônicos”. Seu Jair vai perder os “judantes”. O que vocês acham?

 

Fonte: Por Denise Assis, em Brasil 247

 

Estudo sugere novas estratégias para combater alterações metabólicas da pós-menopausa

Além de regular a reprodução, o estrogênio exerce um papel essencial no controle do metabolismo. A queda dos níveis desse hormônio na pós-menopausa favorece o acúmulo de gordura visceral, altera o controle do metabolismo da glicose e dos lipídios e aumenta o risco de doenças metabólicas. A terapia de reposição hormonal com estradiol pode amenizar parte desses efeitos, mas seu uso não é indicado para mulheres com predisposição a tumores hormônio-dependentes.

Agora, um estudo conduzido por pesquisadores do Centro de Pesquisa em Processos Redox em Biomedicina (Cepid Redoxoma) mostrou que a ativação seletiva do receptor de estrogênio beta, um dos mediadores celulares das ações do hormônio, melhora o equilíbrio do metabolismo de lipídios e glicose e promove uma reprogramação metabólica do fígado. A descoberta aponta uma estratégia promissora para combater as alterações metabólicas da pós-menopausa, sem ativar as vias associadas aos efeitos proliferativos do estrogênio.

“O que eu acho legal nesse trabalho é que focamos no receptor de estrogênio do tipo beta, que ainda é pouco investigado pelo seu papel em metabolismo, e conseguimos mostrar que ele é um potencial alvo de investigação,” afirmou Débora Santos Rocha, principal autora do estudo, publicado na revista Comprehensive Physiology. O trabalho foi desenvolvido durante seu pós-doutorado no Laboratório de Metabolismo Energético do Instituto de Química (IQ) da USP, sob supervisão da professora Alicia Kowaltowski.

<><> Os receptores de estrogênio

Os receptores hormonais são proteínas presente nas células que se ligam aos hormônios. Quando ativado, o conjunto hormônio-receptor inicia uma cascata de efeitos celulares que resulta em modificações fisiológicas.

Nas células, o hormônio estrogênio atua por meio de três principais tipos de receptores: os receptores nucleares de estrogênio alfa (ERα) e beta (ERβ), que regulam a expressão de genes, e receptores de membrana, responsáveis por respostas rápidas ao hormônio. O estradiol utilizado na terapia de reposição hormonal ativa todos eles.

Durante muitos anos, a maior parte das pesquisas concentrou-se no receptor alfa, responsável pela maioria dos efeitos clássicos do estrogênio. Em estudos anteriores, sua ativação foi associada à melhora do metabolismo energético, ao aumento da sensibilidade à insulina e à redução do acúmulo de gordura no fígado. Por outro lado, também está relacionada aos efeitos proliferativos do hormônio em tecidos como mama, útero e ovários, o que pode favorecer o desenvolvimento de tumores hormônio-dependentes.

O receptor beta, descoberto apenas na década de 1990 pelo grupo do pesquisador sueco Jan-Åke Gustafsson, também está presente em diversos tecidos, e estudos anteriores já sugeriam que sua ativação poderia melhorar a sensibilidade à insulina e reduzir o acúmulo de lipídios, além de exercer efeitos antitumorais, como a inibição da proliferação celular e da formação de novos vasos sanguíneos. No entanto, os mecanismos responsáveis pelos benefícios metabólicos ainda eram pouco conhecidos, assim como sua atuação em condições semelhantes às da pós-menopausa.

Foi para responder a essas questões, explica Débora Rocha, que os pesquisadores avaliaram os efeitos da ativação seletiva do receptor de estrogênio beta em animais, modelos experimentais de deficiência de estrogênio. Para isso, utilizaram o diarylpropionitrile (DPN), uma molécula que também se liga a este receptor. Em ratas submetidas à retirada cirúrgica dos ovários, procedimento que simula a condição observada na pós-menopausa, o composto foi administrado para avaliar seu impacto sobre o metabolismo. Paralelamente, células hepáticas foram expostas à sobrecarga de nutrientes para investigar os mecanismos celulares envolvidos nos efeitos observados nos animais.

Nos animais, a ativação do receptor restaurou os valores da glicose medida em jejum e os níveis de gordura, melhorou a morfologia das ilhotas pancreáticas (células endócrinas localizadas no pâncreas) e reduziu o tecido adiposo branco retroperitoneal, camada de gordura atrás da membrana que envolve alguns órgãos vitais.

Também restabeleceu as concentrações de ácidos graxos livres e de corpos cetônicos, moléculas relacionadas ao metabolismo de gorduras do fígado. Os níveis voltaram aos mesmos observados nos animais controle, indicando uma reorganização deste metabolismo. Além disso, promoveu uma extensa remodelação do lipidoma hepático, conjunto de todas as moléculas de gorduras presentes no fígado, um efeito que os pesquisadores caracterizaram detalhadamente por meio de análises.

“O que vimos no modelo in vivo [ratas], para a nossa surpresa, foi uma reversão do perfil lipídico circulante,” destacou Débora Rocha. Segundo a pesquisadora, os animais castrados apresentavam aumento de triglicerídeos, colesterol e ácidos graxos livres, “tudo que é ruim do metabolismo de lipídios”. Com o tratamento, essas alterações foram revertidas.

A análise detalhada do lipidoma hepático, realizada em colaboração com o grupo de Sayuri Miyamoto, mostrou que a ativação do receptor beta não altera simplesmente a quantidade de gordura presente no fígado, mas modifica sua composição.

“Quando avaliamos o lipidoma, ou seja, as diferentes espécies de lipídios, vimos que o tratamento promove um remodelamento nesses animais castrados. A quantidade total de gordura no fígado não muda, mas o perfil desses lipídios muda. É como se o tratamento favorecesse um perfil de estoque mais protetor, porque a célula consegue armazenar gordura, mas, dependendo do tipo de lipídio que acumula, esse armazenamento pode ser tóxico.”

Para entender como essa remodelação acontece, a equipe reproduziu em cultura de células hepáticas as condições de sobrecarga de nutrientes observadas durante a deficiência de estrogênio. O tratamento com DPN reduziu a produção de corpos cetônicos aos níveis observados nas células controle e favoreceu a oxidação (deterioração) completa dos ácidos graxos nas mitocôndrias.

De acordo com Alicia Kowaltowski, esse mecanismo pode explicar os efeitos metabólicos observados nos animais tratados. “O fígado geralmente usa os ácidos graxos como fonte de energia, mas não os oxida completamente. Ele forma corpos cetônicos, que libera no sangue para servir de fonte de energia para outros órgãos. Mas o que esse trabalho mostra é que, quando se ativa esse receptor beta, o fígado passa a oxidar mais completamente esses ácidos graxos. E talvez seja justamente por isso que ocorre todo esse remodelamento e um acúmulo menor de lipídios ruins para o fígado.”

Os resultados obtidos até agora reforçam o potencial da ativação seletiva do receptor de estrogênio beta como estratégia para o desenvolvimento de novos tratamentos contra as alterações metabólicas associadas à pós-menopausa, especialmente para mulheres que não podem fazer terapia de reposição hormonal.

<><. Saúde da mulher

Embora a terapia de reposição hormonal seja eficaz para muitas pacientes, ela não é indicada em todas as situações clínicas. “A proposta do trabalho é justamente apresentar uma alternativa potencial à terapia de reposição hormonal. Não se indica começar uma terapia de reposição hormonal após os 65 anos, o que faz com que essa população fique desassistida. E também existe outra população, com risco de desenvolver câncer de mama ou outros cânceres ginecológicos, ou que já passou por tratamento desse tipo de câncer, que não pode fazer reposição hormonal. A pós-menopausa dura muito tempo, considerando a expectativa de vida de uma mulher”, ressalta Débora Rocha.

Segundo Alicia Kowaltowski, a dislipidemia observada após a menopausa está associada ao aumento do risco de doenças cardiovasculares, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2 e doenças neurodegenerativas. “É muito importante o controle dos níveis de lipídios, isso tem um potencial terapêutico enorme”, diz a professora, ao destacar que o interesse por pesquisas em saúde da mulher tem crescido

<><> Próximos passos

Em uma nova etapa do trabalho, apoiada por um Projeto Geração da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp), Débora Rocha pretende aprofundar os estudos utilizando um modelo experimental que reproduz de forma mais fiel a transição para a menopausa.

“Agora, no meu grupo, vamos estudar um modelo de menopausa um pouco diferente da castração. Porque, como a gente pode imaginar, a castração de um animal não mimetiza [imita] uma menopausa, que é um processo progressivo. Então vamos fazer um modelo de depleção folicular”, conta. Ao contrário da retirada cirúrgica dos ovários, esse modelo promove uma redução gradual da reserva ovariana.

“Com a queda progressiva do estradiol e o início das alterações, criamos uma janela de possível intervenção terapêutica. Nesse primeiro momento, vamos caracterizar esse modelo em nível macroscópico e molecular, para identificar os alvos terapêuticos tanto durante quanto após a menopausa.”

 

Fonte: Por Maria Celia Wider – Jornal da USP