quarta-feira, 12 de agosto de 2026

Descobrir o diabetes tipo 1 antes da cetoacidose pode mudar a experiência do diagnóstico, diz psicóloga

Descobrir o diabetes tipo 1 antes do surgimento da cetoacidose pode mudar a forma como a pessoa e a família enfrentam o diagnóstico. A identificação antecipada permite acompanhar a evolução da condição e organizar os cuidados antes de uma situação de emergência.

A psicóloga Priscila Pecoli, coordenadora do Departamento de Psicologia da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e integrante do IBTED, explica que o diagnóstico em uma situação de cetoacidose pode envolver trauma, medo e sofrimento para toda a família.

Segundo ela, o rastreio também pode gerar ansiedade. No entanto, a experiência ocorre de forma diferente quando a família recebe informações antes da emergência e conta com acompanhamento durante o processo.

<>< Cetoacidose pode tornar o diagnóstico uma experiência traumática

A cetoacidose diabética representa uma situação de emergência relacionada ao diabetes. No diagnóstico do tipo 1, ela pode acontecer antes que a família saiba que a criança ou o adolescente tem a condição.

Priscila compara essa situação à chegada de um tornado sem aviso. Nesse cenário, a família precisa lidar primeiro com aquilo que ameaça a sobrevivência e a estabilidade da criança.

Além disso, a internação pode aumentar o impacto emocional. Crianças e adolescentes podem passar por exames e cuidados durante uma situação de emergência, enquanto os familiares acompanham todo o processo.

A psicóloga também cita possíveis impactos relacionados à atenção e à memória durante um quadro de cetoacidose. Essas funções fazem parte do processo necessário para o manejo do diabetes ao longo da vida.

<><> Rastreio permite preparação antes do diagnóstico

No rastreio, a identificação de anticorpos relacionados ao diabetes tipo 1 pode acontecer antes dos sintomas. Dessa forma, a família passa a acompanhar uma possível evolução da condição.

Priscila explica que essa situação também pode provocar sofrimento. A principal questão envolve a ansiedade diante da possibilidade de desenvolver diabetes tipo 1 e da dúvida sobre quando isso acontecerá.

No entanto, existe uma diferença em relação ao diagnóstico feito durante uma emergência. A família pode receber informações, buscar orientação e se preparar para o momento em que o diabetes aparecer.

A psicóloga compara esse processo a uma casa que recebe um alerta sobre a chegada de um tornado. A família não consegue impedir o fenômeno, mas pode se preparar para enfrentá-lo.

Nesse contexto, o tempo permite organizar informações, buscar suporte e entender como será o cuidado.

<><> Ansiedade aparece em diferentes momentos do rastreio

A ansiedade pode surgir desde o momento em que a família decide participar do rastreio. Ela também pode aumentar após a identificação de um anticorpo.

Quando aparecem dois ou mais anticorpos, a preocupação pode aumentar. A família sabe que existe uma possibilidade maior de evolução para o diabetes tipo 1, mas não sabe exatamente quando isso acontecerá.

Essa incerteza temporal aparece como uma das fontes de sofrimento citadas por Priscila.

Por outro lado, o acompanhamento durante o rastreio pode ajudar a família a lidar com esse período. Ter uma equipe para acompanhar o processo permite esclarecer dúvidas e oferecer suporte.

Com o tempo, segundo a psicóloga, os níveis de ansiedade podem retornar a patamares anteriores.

<><> Diagnóstico antes da cetoacidose pode mudar a experiência da família

Durante a entrevista, Tom Bueno relatou o caso de uma família que teve dois filhos diagnosticados com diabetes tipo 1 em momentos diferentes.

A filha mais velha passou oito dias em uma UTI durante o diagnóstico. Um ano depois, a mãe começou a perceber mudanças no comportamento do filho mais novo.

Mesmo após receber inicialmente a informação de que a hemoglobina glicada estava dentro de uma faixa considerada adequada, a mãe decidiu acompanhar o filho com exames.

A hemoglobina glicada passou de 4,8 para 5,2 e depois para 5,6 e 5,8. Com a evolução dos resultados, a equipe realizou a testagem de anticorpos.

O resultado indicou que o menino já estava entrando no estágio 2 do diabetes tipo 1.

A família não conseguiu impedir a evolução da condição. No entanto, a mãe relatou uma experiência diferente daquela vivida com a filha mais velha.

Segundo o relato apresentado na entrevista, o filho não precisou passar pela UTI e o controle da glicose parecia mais tranquilo. A mãe também relatou que sentiu ansiedade, mas considerou o processo mais calmo.

Priscila ressaltou que esse caso não permite afirmar que todos terão a mesma experiência. A ciência ainda busca entender os efeitos desse acompanhamento na evolução da condição.

<><> Trauma da cetoacidose pode acompanhar a família depois do diagnóstico

A experiência de uma cetoacidose pode influenciar a forma como a família toma decisões depois do diagnóstico.

Priscila explica que algumas decisões podem partir da memória daquela emergência. A família pode permanecer em estado de alerta e temer que a situação volte a acontecer.

Esse medo também pode aparecer quando outro familiar apresenta anticorpos relacionados ao diabetes tipo 1.

A psicóloga relata que algumas famílias imaginam que um novo diagnóstico seguirá o mesmo caminho do primeiro. Entretanto, o acompanhamento antecipado pode criar uma situação diferente.

Nesse contexto, a família pode usar o tempo para buscar informações, aprender sobre o cuidado e receber acompanhamento profissional.

<><> Rastreio do diabetes tipo 1 não é pré-diabetes

A identificação antecipada do diabetes tipo 1 não deve ser chamada de pré-diabetes.

Priscila explica que o termo pré-diabetes pertence a outro contexto, relacionado ao diabetes tipo 2. Usar a mesma expressão para o diabetes tipo 1 pode criar uma interpretação incorreta sobre o que a pessoa pode fazer para impedir a evolução da condição.

No diabetes tipo 1, a presença de anticorpos indica um processo relacionado à condição autoimune. A pessoa não desenvolve a condição por uma simples escolha alimentar ou pela falta de atividade física.

Por isso, a psicóloga defende o uso de expressões como estágio inicial ou detecção precoce.

A diferença também evita que famílias adotem medidas sem indicação para tentar impedir a evolução do diabetes tipo 1.

<><> Restrição de carboidratos pode aumentar o sofrimento da família

A ansiedade após um resultado positivo pode levar alguns familiares a tentar controlar aquilo que acreditam estar ao alcance deles.

Priscila relata situações em que pais começam a reduzir carboidratos e açúcares da alimentação dos filhos após a identificação de anticorpos.

A mudança pode criar uma dinâmica de restrição dentro da família. Além disso, a criança ainda não apresenta o diagnóstico clínico do diabetes tipo 1 naquele momento.

Segundo a psicóloga, essa tentativa não resolve a situação relacionada aos anticorpos. Ela também pode aumentar o sofrimento familiar.

Por isso, entender o que o rastreio significa ajuda a evitar interpretações equivocadas sobre alimentação e comportamento.

<><> Comunicação também interfere na forma de lidar com o diabetes

A maneira como profissionais de saúde comunicam o resultado pode influenciar a forma como a família enfrenta o processo.

Priscila considera a linguagem uma ferramenta de engajamento no cuidado. Segundo ela, algumas palavras podem aumentar o estado de alerta de quem recebe a informação.

Ela cita a diferença entre falar em “risco” e falar em “chance”. A escolha das palavras pode interferir na maneira como a pessoa interpreta a situação.

Nesse contexto, uma comunicação que explique o processo de forma clara pode ajudar a família a entender o que está acontecendo e quais são as possibilidades de acompanhamento.

<><> Mães podem assumir maior parte da responsabilidade

O impacto psicológico do rastreio também pode variar entre os familiares.

Priscila afirma que estudos citados durante a entrevista mostram diferenças entre homens e mulheres. Segundo ela, mães apresentam mais ansiedade do que pais durante esse processo.

A psicóloga relaciona essa diferença ao maior envolvimento das mulheres nas consultas e nos cuidados.

Muitas mães assumem a responsabilidade por acompanhar exames, consultas e decisões relacionadas aos filhos. Com isso, elas podem concentrar uma parte maior da carga emocional e prática do processo.

Por outro lado, Priscila destaca que o pai não deve ser visto como alguém que “ajuda” a mãe. Ele também tem responsabilidade pelo cuidado da criança.

Dividir as responsabilidades pode reduzir a sobrecarga e ampliar a participação da família no acompanhamento.

<><> O cuidado também precisa considerar a saúde emocional

Para Priscila, o acompanhamento do diabetes tipo 1 precisa considerar os aspectos físicos e emocionais.

Quando a família recebe informações antes de uma emergência, existe tempo para compreender o processo e buscar apoio. Além disso, a preparação pode ajudar a reduzir o impacto de uma mudança que fará parte da rotina.

A psicóloga resume essa ideia com outra comparação usada durante a entrevista. Se o diagnóstico do diabetes tipo 1 representa uma aterrissagem, o acompanhamento anterior pode permitir um “pouso suave”.

A proposta não é impedir que o diabetes tipo 1 aconteça. O objetivo é permitir que a família atravesse esse processo com informação, acompanhamento e preparação.

 

Fonte: Um Diabético

 

Big techs reduzem medidas para eleição e encaram novas regras judiciais no Brasil

 A eleição de 2026 traz um cenário inédito para as big techs no Brasil: terão de cumprir novas regras judiciais, ao mesmo tempo em que seguem as orientações de suas matrizes nos Estados Unidos para tirar o foco da moderação de conteúdo e priorizar a liberdade de expressão.

Em maior e menor grau, Meta, X e Google vêm se alinhando à bandeira do governo Trump de reduzir a interferência nas publicações que circulam em redes sociais e plataformas de vídeo. No Brasil, também houve redução em medidas específicas para a eleição.

Aqui, no entanto, as big techs terão de cumprir novas exigências jurídicas no combate à desinformação eleitoral. As empresas terão o desafio de equilibrar o respeito às leis locais e o novo direcionamento que vem dos EUA, após o que consideram ter sido excessos na moderação de conteúdo durante a pandemia da Covid e os ataques contra o Capitólio em 2021.

O TikTok, de origem chinesa, é a única das plataformas que está indo na contramão -aumentando a aposta em moderação de conteúdo e programas para a eleição brasileira.

Em 2022, a principal “regulação” de conteúdo político digital era a caneta do então presidente do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) Alexandre de Moraes, mandando remover conteúdos, além da resolução da corte logo após o primeiro turno que endureceu as medidas e os prazos para remoção de conteúdos desinformativos.

Em 2024, nas eleições municipais, a resolução de propaganda relatada pela ministra Carmen Lúcia, então na vice-presidência do TSE, instituiu a exigência de rótulos para conteúdo feito com inteligência artificial e proibiu deepfakes. Mas, naquele pleito, ao contrário do que se previa, não houve a enxurrada de desinformação de IA.

Neste ano, desenha-se um cenário em que a desinformação por IA será muito mais prevalente. Além disso, há novas regras. A resolução de propaganda publicada em março introduz proibição total de conteúdo político com IA nas 72 horas anteriores e 24 horas posteriores ao pleito. O texto proibiu chatbots de inteligência artificial como ChatGPT, Gemini e Grok de recomendar voto ou privilegiar candidatos em consultas de usuários.

Pela primeira vez, as plataformas são obrigadas a apresentar planos de conformidade detalhando como pretendem cumprir a resolução do TSE com metas e métricas de alcance e relatórios documentando os resultados. As empresas têm prazo até 16 de agosto para submeter seus planos ao TSE.

Prevendo aumento recorde de judicialização, uma das big techs, por exemplo, aumentou em 30% o número de advogados externos que atuarão nas eleições para lidar com pedidos de remoção de conteúdo e outras determinações judiciais.

No início do ano, executivos dessa big tech projetavam um aumento de 30% no número de ações judiciais em relação a 2022 -agora, a estimativa é alta entre 50% e 60%.

Além disso, houve a decisão do STF que alterou o Marco Civil da Internet, aumentando a responsabilidade das empresas por conteúdo de usuários, e o decreto do Executivo que designa a ANPD (Agência Nacional de Proteção de Dados) como autoridade reguladora para redes. As mudanças não tratam diretamente de conteúdo eleitoral, mas podem tangenciá-lo em alguns casos.

Ao mesmo tempo, as plataformas de internet terão menos medidas voltadas para combate à desinformação eleitoral no Brasil do que em 2022.

“Há dois vetores, em direções opostas. De um lado, nos últimos dois anos parte das plataformas adotou uma abordagem mais liberal em relação a discurso, o que criou condições para menos moderação de conteúdo. De outro, no último ano o Brasil instituiu regras que criam incentivos para mais intervenção. A síntese desses dois movimentos é o que estará em jogo durante a eleição”, diz Fernando Gallo, sócio-diretor da consultoria Input.

Em janeiro de 2025, pouco antes da posse de Trump nos EUA, o fundador da Meta, Mark Zuckerberg, anunciou que a empresa iria “se livrar” da checagem de fatos. A medida ainda não foi implementada no Brasil, onde a Meta mantém parceria com seis agências de checagem. No entanto, ela reduziu a quantidade das publicações verificadas.

Segundo a reportagem apurou, a Meta cortou em cerca de 20% o volume máximo de checagens das agências, o que resulta em redução de conteúdos verificados. Todo ano eleitoral, a empresa costuma aumentar a meta de conteúdos checados, mas ainda não fez isso este ano.

A Meta também descontinuou alguns dos programas de combate à desinformação eleitoral que tinha em 2022. Os posts sobre eleições deixaram de ter rótulos com links que direcionavam a informações do TSE. Segundo a empresa, houve a avaliação de que esses rótulos perdiam a eficácia ao longo do tempo. Neste ano, não haverá chatbot no Instagram para usuários acessarem informações eleitorais. E a empresa não publicou uma versão atualizada do guia de mulheres na política, ao contrário de 2022 e 2024.

Mas foi mantida a ferramenta Megafone, que fornece aos eleitores lembretes de fontes eleitorais oficiais antes da eleição, como datas para cadastramento para votar e informações sobre locais de votação.

Ao contrário de 2022, o Brasil não foi designado local temporário de alto risco. Mas, segundo a Meta, isso pode acontecer, caso se julgue necessário.

Para coibir deepfakes, a Meta fornece ferramentas para que os usuários autodeclarem conteúdo gerado por IA. “Durante o período de campanha e o período legalmente obrigatório de silêncio de IA, restrições adicionais de geração de conteúdo, medidas de detecção e aplicação podem ser implementadas”, diz a empresa.

A Meta, tal como todas as outras empresas, assinou memorando de entendimento com o TSE com medidas genéricas de combate à desinformação eleitoral. Em seus termos de uso, todas se comprometem a remover conteúdo que incite à violência, desinforme sobre datas e locais de votação ou leve à supressão de votos.

No Google, houve duas mudanças em medidas específicas para eleições. Em março de 2022, o YouTube anunciou que passaria a remover conteúdo alegando fraude na eleição de 2018.

Neste ano, no entanto, o YouTube não se comprometeu a remover conteúdo alegando fraude na eleição de 2022, que também se tornou uma desinformação eleitoral muito frequente.

No pleito de 2022, a empresa incluiu em seus termos de uso proibição de “alegar incorretamente que as urnas eletrônicas de votação brasileiras foram invadidas por hackers no passado para mudar o voto de pessoas”. A proibição não consta mais dos termos de uso do YouTube.

A empresa manteve, no entanto, seus painéis eleitorais, que incluem informações sobre candidatos, processo eleitoral e votação em vídeos relacionados a eleições.

Em relação a seu chatbot de IA, o Google afirmou que o Gemini gera respostas a partir dos prompts dos usuários, com base em conteúdo disponível na web e de acordo com as políticas da empresa.

“Essas respostas não necessariamente refletem a opinião do Google. Trabalhamos constantemente para melhorar a utilidade e precisão da ferramenta.”

Para esta eleição, o Google vai oferecer a ferramenta Likeness ID, que busca a aparência de um participante (um político, por exemplo) em conteúdos gerados por IA e, se uma correspondência for encontrada -como um deepfake de seu rosto- ele pode revisar o conteúdo e solicitar a remoção.

A plataforma deixou de vender anúncios políticos em 2024, afirmando que seria impossível cumprir as novas exigências de transparências instituídas pelo TSE naquele ano. Com isso, apenas a Meta será fornecedora desse tipo de propaganda eleitoral. O Kwai havia indicado ao TSE que também o faria, mas, procurado pela reportagem, disse que ainda “avalia de forma criteriosa a eventual comercialização de anúncios políticos pagos em sua plataforma”.

O X não respondeu aos questionamentos da reportagem. Ao assumir empresa em 2022, o empresário Elon Musk acabou com as equipes internas de checagem de fatos e as substituiu por notas da comunidade, em que usuários opinam sobre a veracidade de publicações. As notas não acarretam remoções, etiquetas ou redução na distribuição.

Zuckerberg, da Meta, afirmou que sua empresa adotará um sistema semelhante.

Já o TikTok anunciou novas medidas para combate à desinformação eleitoral. A empresa manteve a parceria com checadores de fatos e se compromete, em seus termos de uso, a remover conteúdo considerado falso. Além disso, contratou a Agência Lupa em um trabalho de inteligência pré-eleitoral, para mapear narrativas desinformativas que estão emergindo e viralizando. Também fechou uma parceria com a Internet Lab para monitoramento de conteúdo de violência política de gênero e com a Politize para conteúdos políticos educativos.

A plataforma já foi acusada de permitir influência russa nas eleições da Romênia, que foram canceladas em 2024.

•        Big techs usam PL das Fake News como fantasma contra regulação do mercado digital

As empresas de tecnologia intensificaram o lobby no Congresso Nacional contra o projeto de lei que regula mercados digitais usando como argumento o cerceamento da liberdade de expressão, o mesmo que brecou o chamado PL das Fake News, em 2023.

O texto atual não aborda a responsabilidade sobre a disseminação de conteúdo nas redes sociais, um dos temas da proposta anterior, mas permite ao Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) criar obrigações para as big techs visando assegurar a concorrência nos meios digitais.

A intenção do lobby é convencer os deputados a impedir que o texto seja levado à votação nas próximas duas semanas, antes do recesso parlamentar.

Procuradas, Google, Meta e OpenAI disseram que não comentariam. TikTok e Amazon não responderam. A Alai (Associação Latino-Americana de Internet), que representa diversas big techs, divulgou carta aos líderes partidários pedindo que o texto não seja votado, citando o foco dos congressistas nas eleições.

O projeto de lei em discussão cria a Superintendência Especial de Relevância Sistêmica, Livre Concorrência e Defesa do Consumidor em Mercados Digitais dentro do Cade para identificar empresas e serviços que merecem ser monitorados para evitar práticas anticoncorrenciais.

Entre as medidas propostas estão proibir o favorecimento de produtos próprios e limitar o acesso de concorrentes a usuários e dados, além de ordenar mais transparência no funcionamento dos algoritmos. O Ministério da Fazenda elaborou o texto e é uma das prioridades do governo Lula (PT).

Sob reserva, um líder partidário do centrão disse que o projeto é “complexo”, citou muita resistência dos setores econômicos afetados e afirmou que o mais provável é o adiamento da análise.

Não houve acordo para votação na reunião de líderes desta terça-feira (7), o que confirma o cenário mais provável de adiamento. O relator Aliel Machado (PV-PR), entretanto, segue defendendo que o projeto seja votado antes das eleições e disponibilizará oficialmente a proposta nesta quarta-feira (8).

A Folha acessou três documentos que buscam barrar o projeto de lei e que são distribuídos aos congressistas. A ação se intensificou na última semana, quando Machado apresentou aos líderes uma nova versão do texto.

Um dos folhetos, de autoria do Instituto Livre Mercado, que tem entre os patrocinadores empresas de tecnologia, conecta o projeto de mercados digitais ao PL das Fake News. “O governo falhou ao tentar regular as redes pelo PL 2.630 [de 2023]. Volta como PL 4.675. Projeto mais técnico, desenhado para passar abaixo do radar”, diz o texto.

Na semana anterior, o instituto promoveu evento para debater o projeto com participação de representantes das big techs e congressistas como Bia Kicis (PL-DF), Dr. Fernando Máximo (PL-RO) e Rodrigo Da Zaeli (PL-MT).

A Folha questionou se as empresas que podem ser atingidas pela regulação financiam o instituto, e a entidade afirmou não divulgar informações da base associativa.

“As empresas que se enquadrariam no PL 2.630 [de 2023] também podem se enquadrar no PL 4.675. A liberdade de expressão volta a estar em risco, agora por um projeto altamente técnico tramitando em regime de urgência, sem audiências públicas e sem passar pelas comissões de mérito”, acrescentou.

O Conselho Digital, entidade que tem entre os associados empresas como Meta, Google, Amazon, OpenAI e TikTok, preparou outro folheto, também distribuído a deputados, em que afirma que a proposta prejudica a inovação e representa intervenção direta e contínua sobre plataformas.

Um terceiro documento, apócrifo, afirma que a aprovação do projeto pode prejudicar a relação entre o Brasil e os Estados Unidos ao “impor um regime assimétrico e intervencionista sobre as principais big techs americanas”.

O texto diz, ainda, que a aprovação do texto pode diminuir o papel do Congresso, apesar de não caber aos congressistas, e sim ao Cade, zelar pela livre concorrência no mercado. “Para um parlamentar, votar esse projeto é abrir mão da função precípua do Congresso”, diz o panfleto.

Fontes consultadas pela Folha disseram que o documento apócrifo, apesar de sem autoria explícita, também foi produzido pelo Conselho Digital. A reportagem questionou a entidade, que não respondeu sobre isso.

A organização negou ter disponibilizado novo posicionamento após o último texto enviado a deputados, ainda que permaneçam contra o projeto. “Vemos com preocupação o PL 4.675/2025, sobretudo por prever a imposição de obrigações regulatórias abertas a determinadas empresas, independentemente da demonstração de conduta anticompetitiva ou de seus efeitos concretos”, completa.

“Querem levar para uma discussão política e ideológica que não é verdadeira. Isso não significa que não tem que ter um debate sobre responsabilidade de publicações, mas nesse projeto não tem. Esse projeto trata apenas de regulamentação econômica, designação de empresas que são altamente poderosas”, afirmou o relator Aliel Machado à reportagem.

A opinião é compartilhada por uma pessoa que atua no Cade, que ressaltou a força do lobby nas discussões. Ela avalia que as empresas temem que uma regulação do tipo no Brasil influencie países latino-americanos, e usam o argumento sobre liberdade de expressão por avaliar que traz mais impacto ao gerar polarização política sobre o tema.

A Alai contratou uma consultoria para produzir um estudo que, entre outros, afirma que, além das big techs, bancos e outras empresas digitais estariam sujeitas à regulação.

Em fevereiro, o estudo foi apresentado em evento com a presença de empresários e congressistas. Havia a discussão sobre a possibilidade de tramitação em urgência do projeto.

A urgência do texto foi aprovada em março, com o compromisso de o relator segurar o texto até junho e negociar os setores afetados. Machado afirma que ajustou a redação para tornar mais restritivos os critérios para enquadramento de empresas sujeitas ao monitoramento do Cade, para que o projeto só afetasse grandes plataformas e deixasse de lado outras atividades.

A possibilidade de inclusão dos bancos gerou temor no setor, que chegou a trabalhar por modificações.

A Febraban (Federação Brasileira de Bancos) disse à reportagem que defende o Banco Central como único ente regulador. “O foco de acompanhamento da tramitação do projeto de lei busca pontuar que o novo marco legal coexista com o arcabouço normativo do sistema financeiro” afirmou.

Para Rafael Zanatta, codiretor da organização social Data Privacy Brasil, dizer que o texto permitiria a inclusão de outras empresas, inclusive do setor bancário, foi parte da estratégia de lobby. “O PL está mirando em tipos de agentes econômicos muito específicos, com poder de orquestrar mercados digitais. A gente está falando de Apple, Google, Meta, Amazon, Microsoft e outros grandes players”, diz.

Ele avalia que as novas alterações, na verdade, dificultam a efetividade da medida, pois dificultam incluir uma empresa no âmbito da superintendência.

 

Fonte: ICL Notícias

 

Marco Rubio domina o debate sobre Cuba, mas não convence a maioria dos estadunidenses

Em 28 de julho último, ao divulgar-se uma entrevista de Marco Rubio à Fox News, o secretário de Estado voltou a repetir que Cuba constitui uma ameaça para a segurança nacional dos Estados Unidos. Seu argumento combinou várias ideias conhecidas: a proximidade da Ilha, suas relações com Rússia e China, os casos históricos de espionagem e uma suposta rede cubana de influência sobre manifestações e organizações políticas estadunidenses.

Rubio resumiu a tese com uma formulação projetada para provocar alarme: «Um Estado falido a 90 milhas de nossas costas, alinhado com adversários dos Estados Unidos, é uma ameaça à nossa segurança nacional». Na mesma conversa, qualificou Cuba como uma «superpotência da influência e da espionagem» e vinculou Havana a manifestações contra o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas, manifestações pró-Palestina e movimentos de solidariedade com governos latino-americanos.

Mas uma coisa é o que afirma o governo de Donald Trump e outra o que realmente consegue implantar como convicção própria entre os públicos estadunidenses.

Isso não significa que 73,9% afirmem expressamente que Cuba não representa nenhum risco.

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Significa algo mais preciso e, para avaliar a eficácia do discurso governamental, mais relevante: quase três de cada quatro mensagens distintas não reproduzem como convicção própria a afirmação central de Rubio.

<><> Uma narrativa mais repetida do que assumida

O resultado muda radicalmente quando, em lugar de contar ideias diferentes, contam-se todas as publicações, inclusive as réplicas, as republicações, as reproduções automáticas, as manchetes reproduzidas e as mensagens quase idênticas.

No volume total, 49,6% das publicações afirmam ou reproduzem que Cuba é uma ameaça; 23,3% rejeitam ou questionam essa caracterização, e 27% permanecem ambíguas. Vista dessa maneira, a narrativa governamental parece ocupar quase a metade das opiniões.

No entanto, ao eliminar as repetições, seu peso cai de 49,6% para 26,1%: perde 23,5 pontos percentuais. A conclusão é difícil de ignorar.

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O discurso de ameaça não domina porque seja formulado de maneira independente por uma maioria de usuários, e sim porque existe um sistema de amplificação governamental e partidário que multiplica a agenda de Marco Rubio por meio de declarações oficiais, congressistas aliados, mídia afim, contas políticas e redes de reprodução coordenada.

Este circuito consegue que umas poucas formulações alcancem uma presença desproporcional no debate público e que o volume aparente da mensagem seja muito superior à diversidade real de opiniões que a respaldam.

No entanto, quando se eliminam as repetições e se observam unicamente as mensagens originais ou as formulações distintas, comprova-se que esta narrativa não é acompanhada majoritariamente pelos públicos estadunidenses. A máquina de amplificação consegue impor o tema e aumentar sua visibilidade, mas não consegue transformá-lo em uma convicção social amplamente compartilhada.

A cota da afirmação de ameaça se multiplica por 1,9 quando se passa das formulações únicas ao volume total. Em troca, as posições críticas e ambíguas perdem visibilidade: sua diversidade real é maior que seu peso aparente nas opiniões.

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Neste caso, a diferença entre ambas as métricas permite observar a arquitetura da divulgação. Declarações de Rubio, mensagens de congressistas da Flórida, manchetes de meios de comunicação afins e contas políticas com grande capacidade de reprodução alimentam cascatas de conteúdo. Uma mesma frase pode aparecer centenas ou milhares de vezes sem representar centenas ou milhares de raciocínios distintos.

<><> Que argumentos convencem os 26,1%?

Entre as formulações originais que consideram Cuba uma ameaça aparecem quatro argumentos principais.

>>> Cuba como plataforma de Rússia e China

O argumento mais frequente não atribui a Cuba uma capacidade militar autônoma para atacar os Estados Unidos. Apresenta-a como uma plataforma territorial utilizada por potências rivais para atividades de inteligência, oitiva de sinais ou eventuais deslocamentos militares. A ameaça cubana deriva, portanto, de suas alianças.

  1.  A proximidade geográfica

A expressão “a 90 milhas” que Marco Rubio repete tenta funcionar como uma prova em si mesma. A proximidade substitui com frequência a explicação de uma capacidade operacional concreta. A mensagem implícita é que qualquer vínculo militar ou tecnológico entre Cuba e um adversário de Washington se torna intolerável por sua localização geográfica.

  1. Os antecedentes de espionagem

Os casos de Ana Belén Montes e Manuel Rocha são utilizados para construir uma continuidade entre operações de inteligência documentadas e a afirmação mais ampla de que Cuba dirige uma rede permanente capaz de penetrar as instituições estadunidenses. O salto discursivo consiste em transferir responsabilidades individuais a uma capacidade geral, atual e onipresente, que é totalmente falsa e ignora deliberadamente que Cuba teve que defender-se durante décadas de ações terroristas dos Estados Unidos. E jamais agrediu esse país.

  1. Os protestos nos EUA como operação estrangeira

A atualização mais recente do relato apresenta manifestações contra o Serviço de Imigração e Controle de Alfândegas, movimentos pró-Palestina e organizações de esquerda como peças de uma rede financiada ou coordenada do exterior. Este marco permite deslocar o debate: o descontentamento deixa de ser interpretado como fenômeno social estadunidense e passa a ser descrito como infiltração cubana.

Fora destes núcleos, o material oferece muito pouca evidência de que o público imagine Cuba como uma potência com capacidade própria para provocar um dano militar significativo aos Estados Unidos. A ameaça é predominantemente relacional: Cuba seria perigosa porque abriga, facilita, conecta ou inspira, segundo o discurso do secretário de Estado.

<><> As vozes que questionam Rubio

A rejeição não procede unicamente de cidadãos comuns nos Estados Unidos ou de organizações de solidariedade. Depois da entrevista do secretário de Estado à Fox News, apareceram fortes críticas entre figuras públicas estadunidenses, antigos funcionários e amplos setores dos públicos digitais.

O ex-assessor adjunto de Segurança Nacional de Barack Obama, Ben Rhodes, respondeu diretamente à nova narrativa: «Isso é simplesmente uma mentira e Rubio sabe disso». Rhodes ironizou também a contradição de apresentar como uma superpotência um país que nem mesmo pode manter aceso seu sistema elétrico em meio a um bloqueio energético e financeiro dos Estados Unidos.

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A observação aponta para o principal problema de credibilidade governamental. A Administração Trump descreve simultaneamente Cuba como um Estado à beira do colapso e como uma potência capaz de dirigir, a partir de Havana, uma extensa rede de espionagem, protestos e influência continental.

Pete Buttigieg, ex-secretário de Transportes dos Estados Unidos, em uma entrevista divulgada em várias plataformas, afirmou sobre Rubio que «moralmente, e politicamente, nunca se recuperará de ter vendido sua alma». Isso mostra que uma parte importante do público não recebe as afirmações de Rubio a partir de uma posição de confiança, e sim da suspeita de que adapta os fatos às necessidades políticas da Administração.

O debate gerado em torno deste vídeo — que não constitui uma pesquisa nem pode ser tratado como uma amostra representativa — concentrou-se precisamente na credibilidade, no oportunismo e na subordinação de Rubio a Trump. Este contexto condiciona a recepção de suas afirmações sobre Cuba.

<><> As pesquisas também mostram a distância

Os resultados da análise de escuta social realizada pelo Observatório de Mídia de Cubadebate coincidem com uma pesquisa nacional da YouGov, realizada entre 25 e 27 de fevereiro de 2026 com 1.094 cidadãos adultos estadunidenses.

Só 19% consideraram que Cuba representava uma ameaça imediata e séria ou uma ameaça relativamente séria. 65% definiram-na como uma ameaça menor ou afirmaram que não constituía nenhuma ameaça.

O mesmo estudo registrou que 61% aprovam a existência de relações diplomáticas com Cuba; 46% desaprovam o bloqueio do fornecimento de petróleo por terceiros países, enquanto 28% aprovam; e 61% opõem-se a um ataque militar estadunidense contra a Ilha.

Outra investigação, publicada em maio de 2026 pelo Institute for Global Affairs, concluiu que uma pluralidade de 47% desaprova as sanções contra Cuba.

Também verificou que uma ampla maioria deseja algum tipo de melhoria nas relações diplomáticas.

<><> Conclusões

A pergunta “Estadunidenses acreditam que Cuba é uma ameaça?” não pode ser respondida contando republicações como se fossem cidadãos nem manchetes reproduzidas como se fossem opiniões independentes.

No material analisado, só 26,1% das formulações originais apoiam claramente a tese governamental. 35,3% a rejeitam ou questionam e 38,6% não adotam uma posição definida.

Em conjunto, 73,9% não expressam uma convicção sólida de que Cuba constitui uma ameaça.

Quando se incluem todas as repetições, a afirmação governamental chega a 49,6% do volume. Essa diferença de 23,5 pontos não demonstra que a opinião pública mudou. Demonstra que o discurso oficial dispõe de uma maior capacidade de reprodução.

A conclusão não é que todos os estadunidenses simpatizem com Cuba, apoiem seu governo ou rejeitem qualquer preocupação de segurança.

A conclusão é mais limitada e verificável: a maioria das vozes diferenciadas não adota por conta própria a caracterização extrema divulgada por Rubio e pela Administração Trump.

O governo conseguiu impor o tema e ocupar uma parte substancial do espaço informativo. Mas ocupar manchetes não equivale a ganhar a opinião.

A narrativa de Cuba como ameaça é mais visível que compartilhada, mais repetida que racionalizada e mais forte como dispositivo de amplificação do que como convicção social autônoma.

¨      Por que Marco Rubio dedica sua carreira a endurecer o bloqueio contra Cuba?

De um escritório no sétimo andar do edifício Harry S. Truman, em Washington, Marco Rubio, secretário de Estado, finge administrar a vida de uma Ilha inteira com a frieza absoluta de alguém que se considera infalível e impune.

Ele não é apenas mais um falcão no belicoso aviário da capital norte-americana; ele é o funcionário eficiente, o relojoeiro meticuloso que ajusta as engrenagens do sofrimento alheio. Não é um burocrata que simplesmente emite ordens; é a mão que aperta os parafusos do estrangulamento econômico, que decreta o genocídio de um povo inteiro.

Ele conhece precisamente as alavancas do poder e o timing da política norte-americana, quer ser presidente e acredita que chegou a sua hora, apoiado pelo lobby pró-Israel e pela máfia anti-cubana de Miami.

Seus laços com o lobby pró-sionista são antigos. Norman Braman, um filantropo judeu de Miami, tem sido o maior doador individual de Rubio; por meio de sua organização Americans for Progress, ele contribuiu com mais de dois milhões de dólares para grupos que apoiaram o político republicano no ciclo eleitoral de 2022.

A Coalizão Judaica Republicana (RJC) chegou a lançar uma campanha publicitária digital de seis dígitos na Flórida em apoio à reeleição de Rubio em 12 de outubro de 2022. Isso para citar apenas alguns exemplos.

Por outro lado, a Fundação Nacional Cubano-Americana (CANF), criada em 1981 por Jorge Mas Canosa, talvez a organização mais influente do exílio radical, é um pilar na carreira de Marco.

Da mesma forma, o US-Cuba Democracy, um comitê de ação política (PAC) criado em 2003 por empresários hostis a Havana, é outro financiador importante de Rubio.

Sem o apoio militante da comunidade de exilados linha-dura, ele não seria ninguém no espectro político dos EUA; em todas as campanhas, a estrutura da CANF, os negócios da família Mas, a mídia contrarrevolucionária e os ativistas exilados funcionaram como um movimento coeso que lhe garante uma base segura e alta participação eleitoral.

Sua identidade política se baseia na defesa de uma linha dura em relação a Cuba, no discurso da «ditadura» e na promessa de nunca normalizar as relações sem uma mudança total de regime.

Lembremos que Al Cárdenas, ex-diretor do Partido Republicano da Flórida e figura histórica do exílio cubano, o “descobriu” quando ele era um jovem advogado, o integrou ao círculo de poder conservador, o apresentou a doadores e pavimentou seu caminho para a presidência da Câmara Estadual e, posteriormente, para o Senado.

Esta lista não estaria completa sem a família Fanjul, Alfonso «Alfy» e José «Pepe», herdeiros de um império açucareiro que teve origem em Cuba antes da Revolução e que, após a expropriação das usinas de açúcar em 1960, reconstruíram sua fortuna na Flórida.

A família não escondeu o desejo de ver suas antigas propriedades na Ilha restauradas, e Rubio fez dessa exigência um ponto central de seu discurso: insistindo que qualquer normalização envolva a compensação pelas propriedades confiscadas, o que beneficiaria diretamente a família Fanjul.

Rubio é a personificação mais completa da aliança entre o lobby anticubano, o poder econômico da comunidade exilada e a direita conservadora. Em troca, ele tem sido o mais fiel servo do bloqueio e da asfixia, fechando qualquer espaço para o entendimento e transformando a política em relação a Cuba em um feudo privado protegido por interesses particulares.

Rubio tem capacidade de decisão, tem orçamento, influência e poder para parar a máquina que ajudou a construir; mas ele escolhe não fazê-lo, escolhe bloquear, escolhe mentir.

¨      Rússia reitera solidariedade a Cuba em evento em homenagem ao centenário de Fidel Castro

Durante a abertura do Primeiro Colóquio Internacional Fidel: Legado e Futuro, em Havana, Cuba, Mikhail Shvydkoi, enviado presidencial especial da Rússia para cooperação cultural internacional, transmitiu duas mensagens do presidente russo, Vladimir Putin, por ocasião do centenário do nascimento de Fidel Castro.

Perante mais de 1.500 delegados, incluindo mais de 900 estrangeiros de 63 países, no Centro de Convenções de Havana, Shvydkoi leu uma primeira carta dedicada ao líder da Revolução, Raúl Castro, na qual reconheceu como a vida de seu irmão, "um grande revolucionário e estadista notável, foi dedicada ao serviço altruísta da pátria".

Da mesma forma, ele afirmou que o nome de Fidel é um símbolo de "liberdade, justiça e patriotismo, tanto para os próprios cubanos quanto para milhões de pessoas em diferentes países do mundo".

Ele lembrou que "na Rússia, honra-se a sagrada memória de Fidel Castro, um amigo fiel e confiável de nosso país, que deu uma imensa contribuição pessoal para a construção das multifacetadas relações de parceria entre Havana e Moscou".

"Tive a sorte de conversar com o irmão dele em diversas ocasiões e guardarei para sempre as melhores lembranças desse homem ilustre. Desejo de todo o coração ao camarada Raúl muita saúde, bem-estar e uma perspectiva positiva", concluiu Shvydkoi, ao ler a carta do presidente russo.

<><> Castro tem muito respeito na Rússia

Da mesma forma, Shvydkoi transmitiu uma mensagem de Putin ao presidente cubano Miguel Díaz-Canel, na qual, além de enviar felicitações pela ocasião do aniversário de Castro, observou que o nome do estadista está intimamente ligado aos eventos mais importantes da história recente da ilha.

"Sob sua liderança, foram alcançados progressos econômicos e sociais extraordinários, e o prestígio de Havana no cenário internacional cresceu significativamente. Na Rússia, Fidel Castro sempre gozou de genuíno respeito", acrescentou.

Ele também reconheceu que o líder revolucionário "deu uma imensa contribuição pessoal ao desenvolvimento de relações amistosas entre nossos países e trabalhou incansavelmente em prol da construção de uma ordem mundial justa e verdadeiramente democrática".

Na mensagem, Putin reiterou também sua longa solidariedade com o povo cubano e desejou a Díaz-Canel, a quem chamou de "meu querido amigo", saúde e sucesso em seu governo.

<><> Salvem a Revolução Cubana

Em seu discurso de abertura, o presidente Díaz-Canel agradeceu aos presentes por superarem as distâncias, as campanhas de desinformação e a pressão dos setores da oposição.

Da mesma forma, ele descreveu a presença dos delegados como um ato de coragem e coerência, "porque visitar Cuba hoje, em meio à intensificação do bloqueio que gera tantas calamidades entre os cubanos, é um gesto inestimável de solidariedade que honra o legado de Fidel Castro".

O presidente afirmou que estudar a dialética de pensamento do herói nacional José Martí e de Fidel é uma necessidade imperativa para aqueles que promovem transformações econômicas e sociais, "que irão deter o processo atroz ao qual a Revolução Cubana está sendo submetida, como parte de uma guerra criminosa que já dura mais de sessenta anos".

"Salvar a Revolução Cubana de uma das maiores ameaças que ela enfrentou nestes 65 anos e de agressões de todos os tipos é o maior desafio da nossa geração, e compartilho da sua visão com um senso de urgência", acrescentou.

A este respeito, o presidente enfatizou que atualmente o governo está empenhado em fortalecer a unidade do povo e romper qualquer cerco que procure sufocar a nação, e reconheceu que a primeira homenagem a Fidel significa manter a resistência e a vontade de não se render ao império mais poderoso do mundo.

 

Fonte: Observatorio de Medios de Cubadebate/Sputnik Brasil

 

“O ataque contra pessoas trans aponta para um projeto potencialmente genocida”

Judith Butler é uma das principais acadêmicas e filósofas do mundo sobre gênero, sexualidade e os fenômenos culturais que os envolvem. Ela é autora do livro seminal de 1990, Problemas de Gênero: Feminismo e a Subversão da Identidade, e, mais recentemente, de sua sequência de 2024, Quem Tem Medo do Gênero?. Butler conversou com o editor-chefe da Current Affairs, Nathan J. Robinson, sobre como pessoas ao redor do mundo — principalmente conservadores, mas também alguns que se identificam como de esquerda — passaram a temer e se irritar com o que chamam de “ideologia de gênero”, por que estão errados e o que pode ser feito a respeito.

>>>> Eis a entrevista

•        Gostaria de começar com uma citação do seu livro mais recente, Quem Tem Medo do Gênero?, no qual você diz: “Pelo menos nos Estados Unidos, o gênero deixou de ser uma mera formalidade a ser preenchida em formulários oficiais, e certamente não é uma daquelas obscuras disciplinas acadêmicas sem impacto no mundo em geral. Pelo contrário: tornou-se um fantasma com poderes destrutivos, uma forma de unir e alimentar uma infinidade de pânicos modernos.” Você poderia explicar com mais detalhes o que quer dizer com isso?

Antes de mais nada, devo dizer que não me considero a principal filósofa de gênero, nem me considero ou considero meu trabalho responsável pelo que o discurso popular chama de “ideologia de gênero”. Minha impressão é que a ideologia de gênero não existe. É uma forma de resumir um campo complexo, um conjunto de políticas sociais e decisões legais. É uma abreviação que não consegue explicar verdadeiramente o que está em jogo, mas também cria algo como um inimigo imaginário, ou uma espécie de unidade fictícia que gera muita ansiedade e medo — bem como certo fascínio e confusão. E se eu analisar como o gênero é abordado na mídia e no discurso público, parece abranger toda uma gama de questões, incluindo direitos reprodutivos, igualdade para pessoas transgênero ou mulheres, como abordar o esporte, questões de igualdade, diversidade e inclusão, e as interpretações psicológicas do que acontece com meninos e meninas à medida que crescem e se compreendem.  Há tantos tópicos diferentes agrupados sob um único termo, e suponho que a palavra “fantasma” sugira que existe uma espécie de imagem onírica ou construção fantasmagórica que se enraizou na mente das pessoas, e que chamamos isso de gênero. Mas, na realidade, gênero é muito complexo. As pessoas o estudam há muito tempo, e existem pontos de vista conflitantes. E se adotássemos uma abordagem mais sóbria e intelectual — uma abordagem acadêmica — para esse tema, encontraríamos muitas correntes diferentes, conflitos e aspectos interessantes.

•        Ao escrever este livro, você adquiriu uma melhor compreensão do que significa proibir a “ideologia de gênero”?

Infelizmente, quando a direita usa o termo “ideologia”, tende a pensar em uma postura dogmática imposta por certos indivíduos em posições de poder, por professores ou por meio de políticas sociais, e atribui uma função ideológica ao gênero, referindo-se a ele como dogmático, manipulado e falsificado. Assim, em resposta ao dogmatismo, dizem que devemos manter um debate aberto e livre — que inclua pontos de vista conservadores — sobre família e gênero. Em resposta à falsificação, acreditam que devemos basear todas as nossas opiniões em fatos biológicos, embora às vezes afirmem que devemos baseá-las na doutrina cristã. Portanto, existe uma certa tensão a esse respeito. E há diferentes variações do movimento anti-ideologia de gênero ao redor do mundo. Assim, o que encontramos em Taiwan não é o mesmo que encontramos em Uganda, por exemplo. No entanto, no caso da censura de Platão, o que eles realmente estão fazendo é tomar uma decisão doutrinária. Estão impondo uma doutrina que diz que o debate aberto sobre amor e homossexualidade não deve ser permitido, o que é característico da relação de Sócrates com alguns de seus interlocutores, e não uma representação explicitamente sexual, mas certamente uma representação do amor entre homens. Ora, na Grécia clássica, aceitávamos que isso fazia parte do que acontecia. Não precisamos negar. Não há necessidade de negar. E se negarmos ou rejeitarmos, somos nós, ou eles, que estamos agindo de forma dogmática e doutrinariamente rígida. Assim, a ironia reside no fato de que o gênero é entendido como uma doutrina dogmática, e a forma como é proibido certamente sugere que aqueles que impõem a proibição estão agindo de forma dogmática e doutrinariamente rígida.

•        Grande parte do seu livro se concentra em desvendar ou tentar entender por que o gênero, ou a “ideologia de gênero”, se tornou tão importante para essas pessoas e a razão de seu medo. Se tentássemos articular a posição deles, eles diriam: “Sustentamos que existe uma visão de gênero como algo subjetivo que leva a todos os tipos de preconceitos e à crença de que qualquer pessoa pode mudar de gênero à vontade”. Ela citou casos de crianças recebendo bloqueadores da puberdade, mulheres trans competindo em esportes femininos e mulheres trans sendo autorizadas a compartilhar celas com mulheres cisgênero, etc., tudo como resultado de uma visão que, em essência, considera o gênero como subjetivo — uma visão falha e que nega a realidade. Então, como você responderia a essa afirmação?

Primeiro, gênero não é subjetivo, então essa afirmação está incorreta. Agora, se eu tivesse que responder a essa pergunta, teria que assumir que a afirmação deles é verdadeira, mas não posso fazer isso sem falsificar minha posição. Então, em primeiro lugar, gênero é uma estrutura conceitual que se desenvolveu ao longo das ciências sociais. Uma estrutura conceitual não é subjetiva. Uma estrutura é uma forma de organizar o conhecimento e um modo de investigação. Na medida em que falamos sobre normas de gênero no mundo, perguntamos como o trabalho é dividido de acordo com o gênero: o que as mulheres produzem, em oposição ao que os homens produzem? Estamos falando de gênero como uma diferença de poder. E acho que podemos dizer que sim, existem muitas boas análises sociológicas e econômicas que sugerem que o gênero é um fator na distribuição de riqueza ou na divisão do trabalho. Essas não são dimensões subjetivas do gênero. Às vezes, gênero, que é um conceito muito mais amplo, é confundido com identidade de gênero, que é como diferentes pessoas se identificam. Mas comete-se também um erro adicional, que é afirmar que identificar-se com um gênero específico é um ato meramente subjetivo ou volitivo, escolhido livremente, como: “Ah, acho que hoje serei deste gênero; acho que hoje serei daquele outro.”A razão pela qual a psicanálise continua interessante para nós em 2026 é que muitas vezes acreditamos que estamos escolhendo as coisas deliberadamente, quando na realidade somos movidos por outros motivos; acreditamos que estamos falando racionalmente, mas na realidade podemos estar dominados pelo pânico ou ter desejos que queremos satisfazer. E Freud foi um dos pensadores que nos convidou a refletir sobre o fato de que muito do que acreditamos fazer voluntariamente é afetado por outros tipos de paixões, ansiedades ou mesmo elementos inconscientes que influenciam a motivação humana. Portanto, não acredito em pensamento ilusório. Não acho que as pessoas acordem de manhã e decidam qual será seu gênero naquele dia, mas acredito que temos sido ingênuos quanto à profundidade com que certas noções de gênero estão arraigadas. Por exemplo, quando um homem me diz, como outros já disseram, “Olha, meu gênero faz parte de quem eu sou. Isso é fundamental para mim. Não me diga que isso pode ser mudado. Isso é, sem dúvida, quem eu sou”, a última coisa que vou dizer a essa pessoa é que ela pode mudar isso se quiser. Não. Eu respeito o que ela está me dizendo. Ela está me dizendo algo que está profundamente enraizado. Ela não sabe todos os motivos pelos quais é assim, mas essa é a visão apaixonada e inabalável que ela tem de si mesma. Então, a única coisa que vou dizer é: “Vá em frente. Está tudo bem. Você sabe quem você é e está vivendo no mundo.” Mas pessoas trans também dizem: “Isso está profundamente enraizado. E eu não sei todos os motivos que explicam isso, mas é quem eu sou.” E eu vou dizer: “Eu te respeito. Continue.”

•        Isso se relaciona com o que talvez seja o mal-entendido mais comum sobre o seu trabalho, por estar tão intimamente associado ao termo “performativo”. Às vezes, as pessoas interpretam isso como se significasse que, se o gênero é criado por meio de uma série de ações, então amanhã eu poderia realizar ações diferentes e meu gênero mudaria imediatamente. No livro, você fala muito sobre J.K. Rowling, e ela apresenta o seguinte argumento: “E se um homem se sentisse homem por quarenta anos e, de repente, decidisse amanhã que, na verdade, sempre foi mulher?

Talvez seja possível em Hollywood; é possível se você for um artista performático. Mas a arte performática não é uma escolha radical e livre. Não é como se você pudesse ser o que quiser a qualquer momento. De jeito nenhum. Sou moldada pela cultura, família e religião. Ah, sim, sou, mas não sou totalmente determinada. Sim, venho desta família e deste ambiente; foi isso que me ensinaram, foi assim que vivi, e sou profundamente moldada e formada por normas sociais, circunstâncias históricas e todo tipo de material psíquico que não pude escolher. Ao mesmo tempo, vivo esta vida, faço escolhas sobre ela e decido como minha existência deve ser, com base na minha compreensão mais profunda de quem sou ou de como quero ser no mundo. Portanto, não acho que sejamos totalmente voluntaristas, no sentido de que eu posso ser qualquer coisa, nem acho que sejamos totalmente determinados. E a performatividade é uma forma de nomear esse espaço entre o determinismo filosófico e o voluntarismo. Em outras palavras, a cultura nos afeta, e ainda assim a recriamos. Introduzimos algumas mudanças nela, e isso é difícil, porque existem correntes opostas, e o que chamamos de “escolha” não é radicalmente livre. É uma luta contra um sistema existente. E as pessoas lutam de maneiras diferentes para revisar sua história — não para inventar uma nova, mas para encontrar novas formas de viver dentro daquilo que já as moldou. Isso é performatividade.

•        Você percebe no movimento anti-gênero uma espécie de frustração — ou relutância em confrontar — a possibilidade de que a realidade seja complexa e que categorias de senso comum e linguagem simples não nos forneçam uma descrição precisa dela? Há um documentário de alguns anos atrás, feito por uma dessas pessoas anti-gênero, Matt Walsh, intitulado “O Que É uma Mulher?”. Sua frustração derivava do fato de que as pessoas não aceitam a resposta simples para “O que é uma mulher?”. Ele afirma ter uma resposta simples: “Ela é um ser humano adulto do sexo feminino”. Ele sai por aí fazendo essa pergunta e, se você não lhe dá uma resposta simples, ele insinua que você faz parte dessa ideologia de gênero terrível e destrutiva. Então, a pergunta “O que é uma mulher?” não deveria ter, ou precisar ter, uma resposta simples e de senso comum?

Vou responder à pergunta, mas preciso ressaltar primeiro que as pessoas que batem na mesa dizendo: “É um fato simples; deveríamos ter uma resposta simples!” estão irritadas, insistentes e frustradas. Basta observar a aura emocional da afirmação de que precisamos de uma verdade simples. Por que isso nos deixa tão irritados? Por que precisamos de uma verdade simples? Bem, a complexidade assusta. Observe a endocrinologia humana. Observe como a testosterona é distribuída entre pessoas designadas como mulheres ou homens ao nascer. Se você observar as interações complexas — como faz a biologia do desenvolvimento — entre fatores genéticos e epigenéticos e as diferentes formas de masculinidade e feminilidade que emergem, e depois as diferenças culturais… Nossa! Pessoas que são claramente mulheres em uma cultura não são mulheres em outra. Por que temos diferentes estruturas culturais para entender isso? Ou, por que os profissionais da saúde também precisam pensar em como chamar pessoas com atributos sexuais mistos, pessoas intersexo, que representam uma pequena, mas significativa, porcentagem da população?   Estamos interessados nessa complexidade porque ela é fascinante: tomamos certas ideias como certas, enquanto outros tomam ideias completamente diferentes como certas. Como fazemos a transição entre essas perspectivas ou chegamos a uma compreensão mais abrangente? Como abordamos a biologia do desenvolvimento em relação à antropologia cultural e às humanidades? Não sei; acho interessante. Não me assusta, mas algumas pessoas não querem nenhuma complexidade. No entanto, a vida humana é complexa, e somos uma interação complexa de fatores que se combinam para moldar quem somos. Então, mesmo que sejamos inequivocamente homem ou mulher, a forma como vivemos esse gênero, como o experimentamos, como o expressamos e como o compreendemos será complexa. É por isso que às vezes nos desentendemos ou criamos expectativas mútuas. É como dizer: “Mas você é homem; pensei que você gostaria de X.” E a resposta é: “Bem, eu não gosto de X.” Eu me fiz a mesma pergunta: O que é uma mulher? Freud perguntou: “O que uma mulher quer?”. Mas você também poderia perguntar: “O que é uma mulher?”. Minha própria sensibilidade me diz que é uma ótima pergunta. É maravilhosa. Vamos deixar essa pergunta em aberto, porque haverá muitas maneiras diferentes de respondê-la, e essas respostas nos darão acesso à complexidade humana. Queremos saber mais sobre o mundo e seremos capazes de afirmar a humanidade em toda a sua complexidade, em vez de confiná-la a categorias fixas e martelar esses pregos. Então, para mim, “O que é uma mulher?” é uma ótima pergunta, mas eu a deixaria em aberto.

•        Se um provocador de direita como Walsh levanta a questão: “O que é uma mulher?”, você acha que a resposta apropriada é refutar a pergunta, ou existe uma resposta satisfatória?  Aliás, você conta uma anedota sobre uma pessoa que conheceu e que se aproximou de você depois de uma palestra para dizer que estava rezando por você. Mas quando você perguntou se ela havia lido algo seu, ela respondeu: “Não, eu jamais leria um livro assim”.

Acho que precisamos refletir sobre a proibição de livros. Precisamos pensar na censura, nas novas restrições impostas às universidades, no desfinanciamento ou na mudança de nome de estudos de gênero, estudos de sexualidade, estudos feministas, estudos étnicos, estudos africanos e afro-americanos… Toda essa censura e a crescente incursão autoritária nos sistemas educacionais, do ensino fundamental ao ensino médio e superior. Isso faz parte do movimento contra a ideologia de gênero. É um movimento que busca controlar o conhecimento, suprimir o conhecimento, nos impedir de questionar e atacar Sócrates, que nos ensinou a importância absoluta da investigação aberta. Poderíamos dizer que todo o ensino superior se dedica a Sócrates e à sua maneira de fazer perguntas e de levar as pessoas a reexaminarem suas suposições sobre o que é justiça, o que é beleza e o que é verdade — não para nos transformar em relativistas radicais, mas para permitir uma compreensão complexa e, francamente, um conjunto melhor de julgamentos baseados no conhecimento. Mas o movimento contra a ideologia de gênero é um ataque ao conhecimento e um ataque à investigação aberta.

•        Gostaria agora de perguntar sobre a categoria de críticas frequentemente chamada de “feministas radicais transfóbicas”. Pessoas como Germaine Greer, por exemplo, diriam: “Sou de esquerda. Não sou fascista. Sou alguém que simpatiza com os movimentos de libertação, e meu argumento contra as pessoas trans é que elas negam a verdadeira natureza da feminilidade. Elas minam o movimento pelos direitos das mulheres ao reforçar uma noção estereotipada do que significa ser de um determinado gênero”. E argumentariam que essa é uma crítica feminista bem-intencionada; não é uma crítica no estilo de Viktor Orbán ou Vladimir Putin. Você, obviamente, tem sido muito crítica e sugeriu que esse movimento, essa postura, acaba se alinhando com esses autoritários mais radicais. Como você responde a essas críticas?

Não tenho dúvidas de que Germaine Greer foi uma grande esquerdista e uma grande feminista. Jamais me ouviriam discordar disso. O que me intriga é por que as feministas de esquerda, em parte — não totalmente —, adotaram posições que se alinham ao autoritarismo de direita, as mesmas formas de autoritarismo que negaram às mulheres a liberdade reprodutiva e as proteções legais. Mulheres trans sempre fizeram parte do movimento feminista. A maioria das mulheres trans que conheço também são feministas, e a categoria “mulher” sempre foi ampla. Uma questão que me surge, especialmente em relação às feministas da segunda onda, é: não aprendemos que as definições do que é ser mulher têm sido muito restritas e, às vezes, biologicamente reducionistas? Por exemplo: “Mulheres se reproduzem”. Bem, nem todas as mulheres se reproduzem. Nem todas podem. Nem todas querem. Ou: “Mulheres têm esses tipos de valores”. Bem, nem todas as mulheres têm esses valores. Ou: “Mulheres pertencem à esfera privada”. Existem, portanto, todas essas definições restritivas do que é ser mulher. E a minha impressão é que o aspecto mais estimulante do feminismo é que ele foi e continua sendo um movimento pela liberdade. Ou seja, as mulheres podem ser de todos os tipos, e devemos permitir que a categoria “mulher” seja ampla. Agora, isso não significa que ela possa incluir tudo. Não quero parecer leviana ao dizer isso, mas pessoas trans — e, de forma mais ampla, pessoas não binárias — estão sujeitas a assédio, discriminação e direitos restritos, o que as torna potenciais e reais aliadas políticas das feministas. E nós sempre fomos aliadas. Sempre lutamos pela igualdade, contra a discriminação, tentando descobrir como viver livremente e como viver e respirar na rua, no local de trabalho e em casa sem medo da violência. É isso que nos une. Por que essa não seria a afiliação e aliança mais convincente? Conhecemos muitas histórias de pessoas trans sendo agredidas na rua. Conhecemos muitas histórias de mulheres sendo atacadas na rua. São as mesmas pessoas que cometem esses ataques. Precisamos nos unir para combater o feminicídio e o assassinato de pessoas trans, não binárias ou com identidade de gênero não conforme. E em toda a América Latina, os movimentos feministas dependem dessas alianças. E fiquei muito surpresa, especialmente no contexto britânico, ao ver essas alianças se desfazerem. Não há nenhuma razão válida para isso.

•        Tenho certeza de que esta é uma pergunta cuja resposta poderia preencher um livro inteiro, mas me intriga o fato de que, em seu livro, você discute seu próprio trabalho anterior em teoria de gênero e afirma que agora o considera “questionável em vários aspectos, especialmente à luz das críticas trans e materialistas”. Gostaria que você nos contasse brevemente como suas próprias visões evoluíram ao longo das décadas.

Há trinta e sete anos, quando escrevi Problemas de Gênero, eu estava profundamente influenciada pelo pós-estruturalismo francês e pela teoria feminista. Eu estava um pouco perdida naquele mundo acadêmico. E ainda é um material muito interessante; eu o leciono e escrevo sobre ele, e isso é ótimo, mas é uma perspectiva limitada. Curiosamente, quando o livro começou a ser traduzido para outros idiomas, comecei a perceber o que estava acontecendo em outras partes do mundo. Então, traduzir Problemas de Gênero me tornou muito mais cosmopolita e me expôs a diferentes tipos de trabalho acadêmico, feminista e ativista. Isso me permitiu entender como o gênero precisava ser concebido em termos de economia e relações de poder geopolíticas — por que o termo às vezes funciona em certas partes do mundo e outras vezes é impossível que funcione em outras. Então, acho que agora tenho uma perspectiva muito mais transnacional. Acho que eu precisava refletir com mais clareza sobre biologia do desenvolvimento e questões relacionadas ao materialismo. Algumas dessas críticas iniciais me levaram a repensar minha posição. Acho que o movimento drag foi um momento crucial na discussão sobre questões de gênero. Muitas pessoas começaram por aí, mas não é a mesma coisa que ser trans. Isso precisa ficar claro. Há muitos trabalhos em estudos trans que considero extremamente interessantes, também nas áreas de direito e medicina. Então, sim, aprendi muito. Acho que sou uma pensadora mais interdisciplinar e transnacional do que era há 37 anos.

•        Os leitores podem se surpreender, ao abrir este livro, ao descobrirem que ele não se concentra exclusivamente ou principalmente no Partido Republicano dos Estados Unidos. O primeiro capítulo intitula-se “O Panorama Global” e aborda a Hungria, Taiwan, Uganda e o Vaticano. Gostaria de concluir aqui indo além da questão de gênero, pois você argumenta que um dos problemas desse movimento anti-gênero é que a ênfase excessiva da direita no gênero desvia a atenção das diversas forças sociais e políticas que estão destruindo o mundo como o conhecemos. E em sua conclusão, você aborda a importância da luta anticapitalista e dos movimentos de libertação mais amplos ao redor do mundo. Você tem se envolvido no ativismo pró-Palestina, e eu já mencionei seu envolvimento no movimento Occupy com seu trabalho anticapitalista. Poderia discutir como esse foco exclusivo no gênero nos distrai de algumas dessas outras áreas cruciais de luta?

Um dos argumentos do movimento contra a ideologia de gênero tem sido o de que o gênero é uma força destrutiva que destruirá a família, o meio ambiente, a civilização, a humanidade e todos os tipos de valores que prezamos. E acredito que esse argumento atrai pessoas que vivem com um medo considerável do que o futuro reserva, incertas sobre se poderão continuar suas vidas. Elas têm consciência de como suas vidas estão sendo destruídas ou como seu bem-estar econômico está ameaçado, senão aniquilado. Diz-se que “gênero”, ou “woke”, ou “DEI” (diversidade, equidade e inclusão) são as coisas que estão destruindo nossas vidas. Mas o que está nos destruindo é a devastação do meio ambiente e a catástrofe ecológica que acompanha as mudanças climáticas. E o que está destruindo nossas vidas é a destruição da democracia, dos bens públicos básicos que permitem às pessoas sentirem que terão moradia, saúde e educação. Sem esses bens básicos e sem a sensação de que o que precisam para viver é acessível, elas viverão com muita ansiedade e medo. Agora, poderíamos perguntar: “Certo, como estamos organizando o sistema de saúde? O que estamos fazendo para salvar o planeta? O que estamos fazendo para criar mais igualdade social e econômica e maior acessibilidade?” Poderíamos fazer essas perguntas mais amplas — que, na minha opinião, são feitas a partir de perspectivas social-democratas e socialistas — e, assim, tentar abordar os medos fundamentais das pessoas. Mas, em vez disso, a direita está praticando uma forma de hipercapitalismo, mercantilização total e destruição da democracia. Estamos testemunhando a ascensão de regimes autoritários. Estamos vendo o número de pessoas pobres no mundo aumentar e a riqueza se concentrar cada vez mais nas mãos dos mais ricos. Essas são as questões sobre as quais devemos refletir sistematicamente para que possamos viver em um mundo onde as pessoas sejam livres para trabalhar e viver com alguma sensação de segurança e esperança. Sabemos que o antissemitismo funciona dessa maneira. O racismo funciona dessa maneira. Encontramos um bode expiatório. Criamos na mente das pessoas esse monstro, essa força destrutiva que faz com que suas vidas pareçam tão inseguras, mas, na realidade, existem razões estruturais pelas quais muitas pessoas sentem que suas vidas são incontrolavelmente precárias. É por isso que devemos abordar essas razões e, talvez, nos reorientar e resgatar nossa humanidade de alguma forma.

>>>> Nota do editor:

Judith Butler se identifica como não-binária e usa os pronomes neutros “elle” (they) y ella (she) e “ella” (ela/dela). Para simplificar a tradução, optamos por manter a forma feminina.

 

Fonte: Entrevista com Judith Butler, na revista Current Affairs e reproduzida por Ctxt/IHU