sábado, 19 de setembro de 2026

“Deus não morreu. Ele tornou-se Dinheiro”, afirma Giorgio Agamben

“O capitalismo é uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro”, afirma Giorgio Agamben.

Giorgio Agamben é um dos maiores filósofos vivos. Amigo de Pasolini e de Heidegger, foi definido pelo Times e pelo Le Monde como uma das dez mais importantes cabeças pensantes do mundo. Pelo segundo ano consecutivo ele transcorreu um longo período de férias em Scicli, na Sicília, Itália, onde concedeu a entrevista.

Segundo ele, “a nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governabilidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas”. Assim, “a tarefa que nos espera consiste em pensar integralmente, de cabo a cabo,  aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”, afima Agamben.

LEIA A ENTREVISTA:

  • O governo Monti invoca a crise e o estado de necessidade, e parece ser a única saída tanto da catástrofe  financeira quanto das formas indecentes que o poder havia assumido na Itália. A convocação de Monti era a única saída, ou poderia, pelo contrário, servir de pretexto para impor uma séria limitação às liberdades democráticas?

“Crise” e “economia” atualmente não são usadas como conceitos, mas como palavras de ordem, que servem para impor e para fazer com que se aceitem medidas e restrições que as pessoas não têm motivo algum para aceitar. “Crise” hoje em dia significa simplesmente “você deve obedecer!”. Creio que seja evidente para todos que a chamada “crise” já dura decênios e nada mais é senão o modo normal como funciona o capitalismo em nosso tempo. E se trata de um funcionamento que nada tem de racional.

Para entendermos o que está acontecendo, é preciso tomar ao pé da letra a ideia de Walter Benjamin, segundo o qual o capitalismo é, realmente, uma religião, e a mais feroz, implacável e irracional religião que jamais existiu, porque não conhece nem redenção nem trégua. Ela celebra um culto ininterrupto cuja liturgia é o trabalho e cujo objeto é o dinheiro.  Deus não morreu, ele se tornou Dinheiro.  O Banco – com os seus cinzentos funcionários e especialistas – assumiu  o lugar da Igreja e dos seus padres e, governando o crédito (até mesmo o crédito dos Estados, que docilmente abdicaram de sua soberania), manipula e gere a fé – a escassa, incerta confiança – que o nosso tempo ainda traz consigo. Além disso, o fato de o capitalismo ser hoje uma religião, nada o mostra melhor do que o titulo de um grande jornal nacional (italiano) de alguns dias atrás: “salvar o euro a qualquer preço”. Isso mesmo, “salvar” é um termo religioso, mas o que significa “a qualquer preço”? Até ao preço de “sacrificar” vidas humanas? Só numa perspectiva religiosa (ou melhor, pseudo-religiosa) podem ser feitas afirmações tão evidentemente absurdas e desumanas.

  • A crise econômica que ameaça levar consigo parte dos Estados europeus pode ser vista como condição de crise de toda a modernidade?

A crise atravessada pela Europa não é apenas um problema econômico, como se gostaria que fosse vista, mas é antes de mais nada uma crise da relação com o passado. O conhecimento do passado é o único caminho de acesso ao presente. É procurando compreender o presente que os seres humanos – pelo menos nós, europeus – são obrigados a interrogar o passado.  Eu disse “nós, europeus”, pois me parece que, se admitirmos que a palavra “Europa” tenha um sentido, ele, como hoje aparece como evidente, não pode ser nem político, nem religioso e menos ainda econômico, mas talvez consista nisso, no fato de que o homem europeu – à diferença, por exemplo, dos asiáticos e dos americanos, para quem a história e o passado têm um significado completamente diferente – pode ter acesso à sua verdade unicamente através de um confronto com o passado, unicamente fazendo as contas com a sua história.

O passado não é, pois, apenas um patrimônio de bens e de tradições, de memórias e de saberes, mas também e sobretudo um componente antropológico essencial do homem europeu, que só pode ter acesso ao presente olhando, de cada vez, para o que ele foi. Daí nasce a relação especial que os países europeus (a Itália, ou melhor, a Sicília, sob este ponto de vista é exemplar) têm com relação às suas cidades, às suas obras de arte, à sua paisagem: não se trata de conservar bens mais ou menos preciosos, entretanto exteriores e disponíveis; trata-se, isso sim, da própria realidade da Europa, da sua indisponível sobrevivência. Neste sentido, ao destruírem, com o cimento, com  as autopistas e a Alta Velocidade, a paisagem italiana, os especuladores não nos privam apenas de um bem, mas destroem a nossa própria identidade. A própria expressão “bens culturais” é enganadora, pois sugere que se trata de bens entre outros bens, que podem ser desfrutados economicamente e talvez vendidos, como se fosse possível liquidar e por à venda a própria identidade.

Há muitos anos, um filósofo que também era um alto funcionário da Europa nascente, Alexandre Kojève, afirmava que o homo sapiens havia chegado  ao fim de sua história e já não tinha nada diante de si a não ser duas possibilidades: o acesso a uma animalidade pós-histórica (encarnado pela american way of life) ou o esnobismo (encarnado pelos japoneses, que continuavam a celebrar as suas cerimônias do chá, esvaziadas, porém, de qualquer significado histórico). Entre uma América do Norte integralmente re-animalizada e um Japão que só se mantém humano ao preço de renunciar a todo conteúdo histórico, a Europa poderia oferecer a alternativa de uma cultura que continua sendo humana e vital, mesmo depois do fim da história, porque é capaz de confrontar-se com a sua própria história na sua totalidade e capaz de alcançar, a partir deste confronto, uma nova vida.

  • A sua obra mais conhecida, Homo Sacer, pergunta pela relação entre poder político e vida nua, e evidencia as dificuldades presentes nos dois termos. Qual é o ponto de mediação possível entre os dois pólos?

Minhas investigações mostraram que o poder soberano se fundamenta, desde a sua origem, na separação entre vida nua (a vida biológica, que, na Grécia, encontrava seu lugar na casa) e vida politicamente qualificada (que tinha seu lugar na cidade). A vida nua foi excluída da política e, ao mesmo tempo, foi incluída e capturada através da sua exclusão. Neste sentido, a vida nua é o fundamento negativo do poder. Tal separação atinge sua forma extrema na biopolítica moderna, na qual o cuidado e a decisão sobre a vida nua se tornam aquilo que está em jogo na política. O que aconteceu nos estados totalitários do século XX reside no fato de que é o poder (também na forma  da ciência) que decide, em última análise, sobre o que é uma vida humana e sobre o que ela não é. Contra isso, se trata de pensar numa política das formas de vida, a saber, de uma vida que nunca seja separável da sua forma, que jamais seja vida nua. 

  • O mal-estar, para usar um eufemismo, com que  o ser humano comum se põe frente ao mundo da política tem a ver especificamente com a  condição italiana ou é de algum modo inevitável?

Acredito que atualmente estamos frente a um fenômeno novo que vai além do desencanto e da desconfiança recíproca entre os cidadãos e o poder e tem a ver com o planeta inteiro. O que está acontecendo é uma transformação radical das categorias com que estávamos acostumados a pensar a política. A nova ordem do poder mundial funda-se sobre um modelo de governamentalidade que se define como democrática, mas que nada tem a ver com o que este termo significava em Atenas. E que este modelo seja, do ponto de vista do poder, mais  econômico e funcional é provado pelo fato de que foi adotado também por aqueles regimes que até poucos anos atrás eram ditaduras. É mais simples manipular a opinião das pessoas através da mídia e da televisão do que dever impor em cada oportunidade as próprias decisões com a violência. As formas da política por nós conhecidas – o Estado nacional, a soberania, a participação democrática, os partidos políticos, o direito internacional – já chegaram ao fim da sua história. Elas continuam vivas como formas vazias, mas a política tem hoje a forma de uma “economia”, a saber, de um governo das coisas e dos seres humanos. A tarefa que nos espera consiste, portanto, em pensar integralmente, de cabo a cabo, aquilo que até agora havíamos definido com a expressão, de resto pouco clara em si mesma, “vida política”.

  • O estado de exceção, que o senhor vinculou ao conceito de soberania, hoje em dia parece assumir o caráter de normalidade, mas os cidadãos ficam perdidos perante a incerteza na qual vivem cotidianamente. É possível atenuar esta sensação?

Vivemos há decênios num estado de exceção que se tornou regra, exatamente assim como acontece na economia  em que a crise se tornou a condição normal. O estado de exceção – que deveria sempre ser limitado no tempo – é, pelo contrário, o modelo normal de governo, e isso precisamente nos estados que se dizem democráticos. Poucos  sabem que as normas introduzidas, em matéria de segurança, depois do 11 de setembro (na Itália já se havia começado a partir dos anos de chumbo) são piores do que aquelas que vigoravam sob o fascismo. E os crimes contra a humanidade cometidos durante o nazismo foram possibilitados exatamente pelo fato de Hitler, logo depois que assumiu o poder, ter proclamado um estado de exceção que nunca foi revogado. E certamente ele não dispunha das possibilidades de controle (dados biométricos, videocâmeras, celulares, cartões de crédito) próprias dos estados contemporâneos. Poder-se-ia afirmar hoje que o Estado considera todo cidadão um terrorista virtual. Isso não pode senão piorar e tornar impossível  aquela participação na política que deveria definir a democracia. Uma cidade cujas praças e cujas estradas são controladas por videocâmeras não é mais um lugar público: é uma prisão.

  • A  grande autoridade que muitos atribuem a estudiosos que, como o senhor, investigam a natureza do poder político poderá trazer-nos esperanças de que, dizendo-o de forma banal,  o futuro será melhor do que o presente?

Otimismo e pessimismo não são categorias úteis para pensar. Como escrevia Marx em carta a Ruge: “a situação desesperada da época em que vivo me enche de esperança”.

  • Podemos fazer-lhe uma pergunta sobre a aula que o senhor deu em Scicli? Houve quem lesse a conclusão que se refere a Piero Guccione como se fosse uma homenagem devida a uma amizade enraizada no tempo, enquanto outros viram nela uma indicação  de como sair do xeque-mate no qual a arte contemporânea está envolvida.

Trata-se de uma homenagem a Piero Guccione e a Scicli, pequena cidade em que moram alguns dos mais importantes pintores vivos. A situação da arte hoje em dia é talvez o lugar exemplar para compreendermos a crise na relação com o passado, de que acabamos de falar. O único lugar em que o passado pode viver é o presente, e se o presente não sente mais o próprio passado como vivo, o museu e a arte, que daquele passado é a figura eminente, se tornam lugares problemáticos. Em uma sociedade  que já não sabe o que fazer do seu passado, a arte se encontra premida entre a Cila do museu e a Caribdis da mercantilização. E muitas vezes, como acontece nos templos do absurdo que são os museus de arte contemporânea, as duas coisas coincidem.

Duchamp talvez tenha sido o primeiro a dar-se conta do beco sem saída em que a arte se meteu. O que faz Duchamp quando inventa o ready-made? Ele toma um objeto de uso qualquer, por exemplo, um vaso sanitário, e, introduzindo-o num museu, o força a apresentar-se como obra de arte. Naturalmente – a não ser o breve instante que dura o efeito do estranhamento e da surpresa – na realidade nada alcança aqui a presença: nem a obra, pois se trata de um  objeto de uso qualquer, produzido industrialmente, nem a operação artística, porque não há de forma alguma uma poiesis, produção – e nem sequer o artista, porque aquele que assina com um irônico nome falso o vaso sanitário não age como artista, mas, se muito, como filósofo ou crítico, ou, conforme gostava de dizer Duchamp, como “alguém que respira”, um simples ser vivo.

Em todo caso, certamente ele não queria produzir uma obra de arte, mas desobstruir o caminhar da arte, fechada entre o museu e a mercantilização.  Vocês sabem: o que de fato aconteceu é que um conluio, infelizmente ainda ativo, de hábeis especuladores e de “vivos” transformou o ready-made em obra de arte. E a chamada arte contemporânea nada mais faz do que repetir o gesto de Duchamp, enchendo com não-obras e performances em museus, que são meros organismos do mercado, destinados a acelerar a circulação de mercadorias, que, assim como o dinheiro, já alcançaram o estado de liquidez e querem ainda valer como obras. Esta é a contradição da arte contemporânea: abolir a obra e ao mesmo tempo estipular seu preço.

 

Fonte: Entrevista para Peppe Salvà, em Ragusa News - Tradução de Selvino  J. Assmann, para o site do Instituto Humanitas Unisinos

 

Jean Marc von der Weid: Vitórias de Pirro

Todo mundo conhece a expressão do título deste artigo, significando uma vitória de curto prazo cujo preço é a derrota final. Sua origem é uma batalha travada entre a os exércitos da república romana no século dois antes da era dita (no ocidente) cristã e os do reino do Épiro, localizado nos atuais Balcãs. Os epirotas bateram o exército romano, mas com tal custo em vidas de seus soldados que o rei Pirro declarou, profeticamente, “mais uma vitória como essa e estaremos derrotados”. Este artigo procura mostrar que o exemplo histórico se reproduz neste contexto do enfrentamento no STF.

Como a opinião pública, medida em manifestações nas redes e em pesquisas de opinião, reagiu ao espetáculo da reunião do pleno do STF em 16/9? Segundo a pesquisa Atlas/Intel 49,5% dos entrevistados consideram que Lula foi o maior prejudicado, com 20,9 apontando para Flávio e 14,4 apontando para ambos.

O grupo constituído por Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes conseguiu evitar que o primeiro fosse submetido a uma investigação sobre a possível colaboração com o banqueiro Daniel Vorcaro contra o pagamento de 130 milhões de reais ao escritório de advocacia de sua esposa. Frente à certeza de que o presidente da Corte usaria o voto de Minerva para desempatar o voto do próprio Edson Fachin, Carmem Lúcia, Luiz Fux e André Mendonça, o ministro Flávio Dino retirou o seu voto e pediu vistas do processo com prazo de 90 dias para voltar a emiti-lo.

Qual o argumento usado por Alexandre de Moraes e seus aliados para não abrir a investigação? O grupo advogou a necessidade de isonomia entre Alexandre de Moraes e André Mendonça e, portanto, a discussão simultânea da abertura de investigação sobre Alexandre de Moraes e a abertura de investigação de André Mendonça por abuso de poder ao pedir à Polícia Federal as conversas de Daniel Vorcaro com Alexandre de Moraes contidas no celular do banqueiro. Os abusos de André Mendonça se estenderam ao abrir o dossier da PF ao público com clara intenção político eleitoral, antes mesmo de encaminhá-lo para o presidente da Corte.

Há forte indício de que André Mendonça atuou com interesse político para servir ao seu “patrono”, Jair Bolsonaro, e seu filho candidato à presidente e que ele, de fato, abusou de sua prerrogativa de relator do processo do banco Master. Se o pleno do STF concordasse com esta denúncia, cuja discussão estava marcada por Edson Fachin para a próxima terça feira, o pedido de investigação contra Alexandre de Moraes estaria automaticamente anulado por um vício processual. Entretanto, se a abertura do processo contra Alexandre de Moraes fosse votada antes do debate e voto sobre os vícios processuais, seria necessário a anulação desta decisão na reunião seguinte.

O pedido de juntar as duas discussões em uma só reunião foi uma fórmula bizarra para alcançar o objetivo de impedir o processo contra Alexandre de Moraes. O grupo poderia ter defendido um debate preliminar sobre a validade do pedido da abertura de investigação de André Mendonça sobre Alexandre de Moraes indicando o vício processual de origem da proposta. Lembremos que este vício de origem é a necessidade de uma decisão do pleno e não uma decisão monocrática do relator para que um ministro seja investigado.

Ora, se o plenário estava reunido para deliberar exatamente sobre a decisão de investigar Alexandre de Moraes, como justificar a anulação? O pleno do STF poderia ter tomado a decisão processualmente correta de abrir a investigação e na reunião seguinte punir Mendonça por seus abusos ao tentar fazê-lo por iniciativa própria.

Se as iniciativas do grupo pró Alexandre de Moraes fossem bem-sucedidas e anulado o pedido de investigação por vício processual, Edson Fachin poderia pedir uma nova reunião para votar a mesma proposta, agora processualmente correta. Tudo que o grupo ganharia seria tempo pois, a não ser que a PF tivesse forjado provas contra Alexandre de Moraes, não haveria como escapar da necessidade de se investigar o ministro.

A percepção do público, que não conhece nem se interessa por meandros processualísticos, é que Alexandre de Moraes tem que se explicar pelo contrato de sua esposa e pelas 52 mensagens trocadas pelo ministro com Daniel Vorcaro que sugerem uma colaboração nada republicana, para dizer o mínimo.

O público também entende que Alexandre de Moraes e o seu grupo de apoio tem vínculos com o presidente Lula, não só porque Flávio Dino e Cristiano Zanin foram indicados por ele, mas porque Alexandre de Moraes tornou-se um agente político até para restabelecer o entendimento entre o presidente do Senado, Davi Alcolumbre e Lula há umas poucas semanas atrás. Neste tiroteio ninguém parece lembrar que Edson Fachin e Carmen Lúcia também foram indicados por Lula, mas o fato de que Cristiano Zanin foi advogado de Lula e Flávio Dino seu ministro da Justiça nunca é esquecido.

Por outro lado, Alexandre de Moraes foi o mais importante ministro no processo contra a tentativa de golpe que levou o patriarca do clã Bolsonaro para a prisão. Como Lula é o símbolo mais importante do anti golpismo, o público, insuflado pelo bolsonarismo, vê os dois como cúmplices. Esta percepção de identidade se fortaleceu com o longo silêncio de Lula sobre o pedido de investigação de Alexandre de Moraes e pela feroz defesa do ministro por uma parte da esquerda.

O duelo no OK Curral serviu para o bolsonarismo explorar uma narrativa apontando para um grupo pró Lula no STF buscando encobrir malfeitos de um dos seus enquanto o “herói do povo” e “guardião da moralidade pública” André Mendonça, o “ungido do senhor”, nas palavras de madame Bolsonaro, vem se batendo sozinho como Davi contra Golias e os filisteus (Alexandre de Moraes e seu grupo). Por enquanto esta mensagem vem jogando uma bomba no colo do Lula e fazendo esquecer aquilo que o Mendonça escondeu cuidadosamente no seu processo: o fato de que Flávio Bolsonaro está sendo investigado por várias suspeitas de crime nas suas relações com Daniel Vorcaro.

Este último fato já vinha sendo apontado pela imprensa, mas até o próprio André Mendonça abriu uma investigação (mantida sob sigilo máximo) sobre os malfeitos de Flávio Bolsonaro sugerindo que o celular de Daniel Vorcaro contém mais fatos comprometedores. Parece contraditório com a militância de André Mendonça a favor de Flávio na denúncia pública de Alexandre de Moraes? O mais provável é que André Mendonça não pôde deixar de fazer este gesto, confiando que uma vez eleito ele ficaria isento de processos anteriores ao exercício do seu mandato e que estaria protegido até lá pelo sigilo sob seu controle.

O único bom resultado do faroeste caboclo da última quarta-feira – foi a abertura de todo o conteúdo do celular de Daniel Vorcaro, apesar das resistências de André Mendonça.

Apesar da publicidade maior das acusações contra Flávio Bolsonaro com a abertura do arquivo do celular de Daniel Vorcaro, o foco em Alexandre de Moraes permitiu que a repercussão ainda seja muito menor do que poderia ser. E a paralisia do caso Moraes impede que se faça a tempo uma redistribuição do processo do Master para outro relator que poderia pedir a já muito protelada quebra de sigilos telefônico e financeiro de Flávio Bolsonaro que poderia ser fatal para o candidato.

No frigir dos ovos a estratégia de André Mendonça a favor de Flávio Bolsonaro está funcionando, apesar dos percalços e derrotas do relator na sua tentativa de encobrir seu candidato. E isto tem a ver com a defesa feroz da não investigação de Alexandre de Moraes.

Para André Mendonça, estas derrotas são de somenos importância se Flávio Bolsonaro for eleito. Na presidência, o bolsonarinho poderá alterar a relação de forças no STF, garantindo de cara um voto a mais no lugar vago de Luiz Roberto Barroso, isto sem falar em processos de impeachment no Senado contra Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, os mais expostos no caso Vorcaro. Com um Senado com maioria bolsonarista não seria difícil ampliar a degola e impichar também Flávio Dino e Cristiano Zanin, dando à extrema direita a maioria no STF.

E não se espantem se esta nova conjuntura levar a anulação da totalidade do processo contra Daniel Vorcaro, mais uma vez, como na Lava Jato, por razões processuais. O próprio Vorcaro está apostando nisso, ao manter Flávio Bolsonaro cuidadosamente ausente de suas várias tentativas de delação premiada.

Alexandre de Moraes ganhou o primeiro round do duelo por sua sobrevivência, mas, como Pirro, tende a ser aniquilado depois das eleições.

A esquerda que se levantou em armas para defender Alexandre de Moraes esquece como é difícil justificar a posição de acusados pegos com a boca na botija apenas com argumentos processuais. O público não se deixa enganar com tecnicalidades, mesmo que juridicamente elas prevaleçam. É por isso que a anulação das condenações da Lava Jato não convenceu o eleitorado e seguem assombrando as candidaturas de Lula e do PT. Como dizia Salazar em sua única frase que merece ser recordada: “em política, o que parece, é”.

¨      Uma crítica estética do STF. Por Eugênio Bucci

No dia 15 de setembro, a sessão extraordinária do Supremo Tribunal Federal mereceu transmissão ao vivo em canais diversos, da GloboNews à CNN Brasil, da Band News ao UOL. Todo mundo acompanhou. Até você, na certa. Mais uma vez, a TV Justiça viveu horas de campeã de audiência, apesar de suas câmeras mortiças. Quando surge uma altercação, as objetivas insistem em não mostrar o ministro divergente que, dando-se por ofendido, interpela o colega que tem a palavra. Para o telespectador, é muito aflitivo. Ele que adivinhe quem é o dono da voz que está ali reclamando.

Mas não importa. O show não pode parar. Ainda que mal enquadradas, as jus-celebridades arrebatam os olhos de plateias, mesmo quando seus prolegômenos enveredam por trilhas indecifráveis, mesmo quando a heurística, a hermenêutica, dogmática e a zetética se rebaixam a insultos vis entre pares. Suas excelências, grossas e cascudas, já se acostumaram ao estrelato.

É curioso constatar como essas personalidades acabaram por se amoldar ao showbiz, projetando seu “eu ideal” e sua subjetividade pública segundo as leis do entretenimento – e, em menor grau, da República. Elas cintilaram quando examinaram o vulgo “mensalão”. Depois, quando se debruçaram sobre o dito “petrolão”, ganharam mais aplausos. Finamente, atingiram o auge do “estado de celebridade de direito” por ocasião do julgamento da tentativa de golpe de Estado perpetrada em 8 de janeiro de 2023. Por pouco não desfilaram em cima de trios elétricos pelas capitais.

No nosso país, as estrelas da corte suprema são incomparavelmente mais famosas do que John Lennon (aquele que disse ser mais famoso do que Jesus Cristo) e sobejamente mais conhecidas do que os jogadores de futebol do escrete canarinho. Pode-se dizer que, antes de compor um colegiado, elas compõem um elenco.

Desta vez, entretanto, os holofotes que se acenderam em torno do vistoso casting têm motivos menos heroicos. As razões da atual temporada são espinhosas, nauseantes. O roteiro do espetáculo não passa mais por julgar suspeitos de corrupção nos poderes Executivo e Legislativo; a trama não envolve processos contra delinquentes que atentaram contra o Estado de Direito. Na sessão de anteontem, tratava-se de saber se integrantes do pleno mais pleno do planeta, o mais cheio de si, o mais em plenitude, podem ou não podem ser investigados. A pauta era grave, quase um vexame.

O pleno pleníssimo deveria dar uma resposta. Não poderia tardar – esse é um dos casos em que a Justiça, quando tarda, falha. Em todos os auditórios, uma desconfiança se avoluma sobre a credibilidade do tribunal e qualquer protelação seria perigosa. Não obstante, no final do dia, em lugar da resposta veio a protelação. O que era ruim ficou muito pior. Aquilo que tinha de ser sabido não foi sabido. O esclarecimento não se fez. A explicação sobre os fatos não se ouviu. O insustentável se perenizou e a dúvida ética assumiu a consistência de um abismo sombrio, cujo fim não se divisa.

Hoje, três dias depois da lúgubre terça-feira, ninguém mais sabe de mais nada. E por quê? Muito simples: um dos magistrados “pediu vista” (é o que eles dizem quando levam o processo para ler em casa e suspendem o julgamento) e, com o “pedido de vista”, o país perdeu de vista qualquer esperança de resolver sua dúvida legítima. Afinal, um juiz da corte ou mesmo dois podem – ou devem – ser investigados?

Entrementes (o advérbio soa como convém ao nosso objeto), há uma campanha eleitoral agitando as ruas e as telas do País. A campanha, como de costume, se desenrola em formato de reality show, como um circo meio carnavalesco a céu aberto que recobre, ou envelopa, as paisagens urbanas e rurais. Por ser o centro de gravidade da agenda nestas semanas, a corrida eleitoral acaba se apropriando do malogro estético do STF, o que produz os resultados mais escabrosos.

O que se passa na cúpula do Judiciário é assimilado pelas plateias como um acessório narrativo das eleições presidenciais. Com um detalhe: esse acessório reforça o fanatismo dos que prometiam fechar a corte com um cabo e um soldado. É um contrassenso, um curto-circuito: a indefinição que imobilizou o Supremo ajuda os que atacam o Supremo e joga combustível dramático no discurso do candidato Flavio Bolsonaro.

A tortuosa manobra processual que transformou uma pergunta que o país inteiro tinha o direito de fazer numa não-resposta arrogante abastece a pregação da extrema direita decidida a neutralizar a Justiça. Por descuido, o STF entra em cena como coadjuvante a favor das forças que tramam para destruí-lo.

No livro Como as democracias morrem, de 2018, Steven Levitsky e Daniel Ziblatt mostraram que, valendo-se de eleições livres, os adeptos do autoritarismo se apossam do Estado para destroçar, por dentro, os direitos e as garantias da vida democrática. Hoje, com o Supremo agindo como vem agindo, esse cenário fica mais provável. Fica mais constrangedor. Steven Levitsky e Daniel Ziblatt se esqueceram de avisar que as democracias também morrem quando são torturadas por esse insuportável sentimento de vergonha.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Eleições 2026: As propostas econômicas dos candidatos

O Brasil segue no pódio das economias com os maiores juros reais do mundo. Desde o início de 2022, a taxa básica de juros (Selic) permanece em dois dígitos — agora em 13,75% —, exercendo forte pressão sobre a trajetória das contas públicas. O nível elevado se reflete nas altas taxas de inadimplência das famílias, no aperto financeiro do setor produtivo e na estagnação dos investimentos. Diante desse cenário, a agenda econômica virou tema central nas campanhas para a Presidência em 2026.

A preocupação com as contas públicas é reforçada pelos indicadores: a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) alcançou 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB) em julho de 2026, somando R$ 10,9 trilhões, em um momento em que uma pesquisa recente do instituto BTG/Nexus mostrou que 53% dos eleitores entrevistados classificam a situação econômica do país como ruim.

Mas além do equilíbrio fiscal, os programas de governo também se debruçam sobre vetores de crescimento de longo prazo: exploração de minerais críticos, produtividade, reforma tributária, parcerias comerciais e inserção do país no comércio global.

>>>>>>>>>Confira as principais propostas de quatro eixos econômicos:

<><> Contas públicas e ajuste fiscal

>>> Ronaldo Caiado (PSD): Propõe o "Orçamento da Verdade", um diagnóstico de despesas obrigatórias, passivos, subsídios, benefícios tributários e riscos fiscais. Estabelece estratégia fiscal plurianual para limitar o crescimento de gastos obrigatórios abaixo do PIB nominal, além de prever a revisão de subsídios, subvenções e benefícios tributários e o combate aos supersalários.

>>> Flávio Bolsonaro (PL): Defende o corte de no mínimo 10 ministérios, redução de cargos comissionados e o fim de penduricalhos e supersalários. Propõe reformular as regras fiscais com foco na redução da relação Dívida/PIB para reconduzir os juros à média internacional.

>>> Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Sustenta a execução do arcabouço fiscal aprovado em sua gestão, buscando controlar despesas sem comprometer investimentos e políticas sociais, com meta de aproximar o déficit primário do equilíbrio fiscal.

>>> Romeu Zema (Novo): Defende um "choque fiscal" pautado na privatização de estatais e no enxugamento da máquina pública por meio de uma reforma administrativa. Também propõe uma nova Reforma da Previdência abrangendo estados, municípios, rural e militares, com mecanismo de reajuste automático da idade mínima para aposentadoria com base na expectativa de vida, além de eliminar supersalários.

>>> Renan Santos (Missão): Propõe a "PEC do Equilíbrio Fiscal", estimando economia acumulada de até R$ 1,1 trilhão até 2031. A medida prevê a desindexação de benefícios previdenciários do salário mínimo (com correção apenas pela inflação), a desvinculação dos pisos de saúde e educação da receita.

>>> Augusto Cury (Avante): Estabelece meta de déficit público próximo de zero e redução gradativa da dívida pública mediante controle de custos ministeriais e metas de eficiência nas pastas. Também defende o uso de Inteligência Artificial (IA) para isso, com cruzamento de dados para combate a fraudes, evitar desperdícios e ineficiências administrativas.

<><> Reindustrialização e minerais críticos

>>> Ronaldo Caiado (PSD): Defende a reindustrialização a partir de vantagens brasileiras, como nas áreas de segurança energética, defesa, bioeconomia e minerais críticos. Propõe negociar o acesso do investimento estrangeiro a recursos em troca de valor agregado, tecnologia, qualificação e fornecedores locais.

>>> Flávio Bolsonaro (PL): Propõe atuação do Estado como regulador no setor de terras raras através de marcos regulatórios estáveis, licenciamento ágil e atração de investimentos privados. Também propõe transformar o país em polo global de data centers sustentáveis aproveitando a matriz elétrica renovável.

>>> Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Defende o fortalecimento industrial com foco em digitalização, modernização de maquinários e uso de IA. Também propõe política específica para minerais críticos e terras raras com uma estratégia regional de mapeamento, beneficiamento e agregação de valor, para inserir o país de forma soberana nas cadeias globais de valor desses recursos. 

>>> Romeu Zema (Novo): Defende a atração de investimentos privados internacionais para a exploração e processamento sustentável de terras raras e minerais de alto valor e propõe a retomada do levantamento geológico do território nacional com dados abertos e padrão internacional.

>>> Renan Santos (Missão): Defende a criação de Zonas Econômicas Especiais (ZEEs), que contarão com um regime tributário próprio. O plano também prevê uma ZEE específica para terras raras, além de uma PEC para declarar o setor matéria de segurança nacional e previsão de aporte de R$ 20 bilhões em 10 anos via BNDES e parceiros internacionais para financiar o segmento de minerais críticos.

>>> Augusto Cury (Avante): Defende o Programa Nacional para implantação de 10 mil novas indústrias e uma política de atração de investimentos para a produção de chips e componentes elétricos. No projeto Petra BR, focado em terras raras e minerais estratégicos, propõe o incentivo de cadeias produtivas completas em território nacional, desde a extração até a fabricação de componentes tecnológicos de alto valor agregado.

<><> Tributação e impostos

>>> Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Defende a consolidação da reforma tributária, além de condicionar a oferta de crédito público, assistência técnica, incentivos fiscais e a política de compras governamentais a compromissos com a geração de empregos de qualidade. Para autônomos e pequenos empreendedores, também propõe a simplificação tributária.

>>> Flávio Bolsonaro (PL): Propõe a revisão e o redimensionamento da Reforma Tributária aprovada para reduzir a carga sobre a produção e o consumo. Além disso, propõe desoneração das exportações e dos investimentos e redução das exceções, para que grupos parecidos paguem impostos parecidos.

>>> Ronaldo Caiado (PSD): Defende realizar uma revisão ampla de subsídios, subvenções e benefícios tributários, eliminando incentivos que não comprovem contrapartidas econômicas ou sociais.

>>> Romeu Zema (Novo): Propõe fixar metas progressivas de redução da carga tributária e a reformulação da tributação sobre empresas (como Imposto de Renda das Empresas), adotando cálculo automatizado pela Receita Federal via Nota Fiscal Eletrônica.

>>> Renan Santos (Missão): Propõe a redução de R$ 104 bilhões em isenções e gastos tributários (renúncias fiscais) como parte da PEC para equilibrar as contas públicas e a suspensão de direitos aduaneiros e de regime específico de IBS/CBS para as Zonas Econômicas Especiais.

>>> Augusto Cury (Avante): Defende a revisão do atual formato de divisão federativa dos tributos para transferir maior fatia da arrecadação aos municípios, acompanhada de avaliação permanente dos impactos da reforma tributária sobre micro e pequenas empresas, para evitar distorções.

<><> Acordos internacionais e exportação 

>>> Augusto Cury (Avante): Defende a expansão das exportações com redução da dependência de commodities e aumento de bens industrializados e de alto valor agregado. Também propõe o Embaixada 4.0, fixando metas de abertura de mercados, atração de investimentos e apoio a exportadores e remanejando 20% do pessoal alocado nos EUA para reforçar a presença do Brasil na Índia e em emergentes da Ásia.

>>> Luiz Inácio Lula da Silva (PT): Propõe a diversificação de mercados exportadores de maior valor agregado, a ampliação de acordos  comerciais e o aprofundamento das alianças geopolíticas e econômicas no âmbito do BRICS e do Sul Global.

>>> Ronaldo Caiado (PSD): Defende a ampliação de acordos comerciais focados na inserção em cadeias globais de valor, diversificando pautas de exportação para o Sudeste Asiático, Oriente Médio e África, além da fixação de metas de exportação, investimento, tecnologia e abertura de mercados para embaixadas e representações.

>>> Romeu Zema (Novo): Propõe a saída do Brasil do Brics (mantendo as relações comerciais com os países membros) e defende o ingresso do país na OCDE, além da flexibilização do Mercosul para permitir acordos bilaterais diretos (em que os países negociam sozinhos).

>>> Renan Santos (Missão): Propõe uso pragmático do Brics, plano de desdolarização do comércio na América do Sul por meio de uma cesta de moedas liderada pelo real e criação de uma rede de cooperação econômica com países da comunidade Lusófona.

 

Fonte: DW Brasil

 


 

Paulo Freire, 102 anos: por que a extrema direita odeia tanto seu legado?

“Em primeiro lugar, eu sou Paulo Freire, nasci no Recife há muito, muito tempo atrás”. É assim que o homem que, anos mais tarde, se tornaria o patrono da Educação do Brasil, se apresentou em 1985 em uma gravação para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Não que precisasse. Paulo Freire, nascido há exatos 102 anos, já era um dos rostos mais conhecidos do mundo acadêmico não só no Brasil, mas em todo o mundo. Mesmo tendo desenvolvido um trabalho pioneiro na alfabetização de adultos, são comuns os ataques da extrema-direita à sua figura. Mas por que será que, anos após sua morte (em 2 de maio de 1997), a obra de Paulo Freire ainda recebe tantas críticas (infundadas, diga-se de passagem) e é alvo de mentiras? “Essa demonização ocorre porque tem uma conscientização [no trabalho de Freire]. E a extrema-direita confunde essa conscientização com doutrinação”, avalia a professora Claudia Regina Vieira, educadora e pró-reitora de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da Universidade Federal do ABC (UFBAC). “O fato de Paulo Freire conscientizar os oprimidos criou um enorme incômodo nesses setores [da elite]”, diz o escritor Frei Betto, que foi amigo de Paulo Freire e escreveu com ele o livro “Essa Escola Chamada Vida”.

Basicamente, a metodologia Paulo Freire consiste na valorização do saber e do conhecimento adquirido fora da sala de aula, até mesmo de pessoas que nunca sentaram em um banco escolar. “As construções e os textos das cartilhas eram montados para decodificar letras. O conceito de Freire é usar textos trazidos das experiências das pessoas”, explica Claudia Regina. Embora especule-se (e minta-se) muito sobre o impacto de Paulo Freire na educação infantil, o foco de seu trabalho era na alfabetização de adultos. Em 1963, liderou uma iniciativa em Angicos, no Rio Grande do Norte, que alfabetizou cerca de 300 adultos com 40 horas/aula. Até o presidente João Goulart simpatizou com a ideia, mas a proposta foi interrompida pelo golpe militar de 1964.

Na ditadura, Paulo Freire foi preso e acabou se exilando no exterior por quase 16 anos. “Vem toda uma vida de andarilhagem que eu experimentei. Trabalhei primeiro no Chile, depois nos Estados Unidos e, depois, morando em Genebra, na Suíça, mas me estendendo mundo afora”, contou Freire na palestra na Unicamp em 1985.

Em uma palestra na USP em 1994, Paulo Freire fez uma reflexão de sua trajetória: “Se vocês me perguntarem: ‘Paulo, se você tivesse agora 30 anos, começaria tudo de novo?’ [Começaria] tudo de novo! Se na reencarnação eu me lembrasse do meu passado, da minha vida anterior, eu seria mais radical na minha compreensão da liberdade. No meu respeito à liberdade. Não à licenciosidade, mas a essa liberdade que se sabe liberdade.”

¨      O homem que ensinava e queria transformar o mundo

Você já se perguntou por que o nome de Paulo Freire aparece com tanta frequência nos debates sobre educação, política e ideologia? Não é à toa. O educador brasileiro, nascido em 1921 no Recife, é uma das figuras mais estudadas, reverenciadas e atacadas da história recente do país. Não pela pedagogia em si, mas pelas consequências políticas da prática que ele propôs. Quando você ouve falar em “educação libertadora”, “conscientização” ou “leitura do mundo”, há ali um traço direto da pedagogia freiriana. O incômodo que ele ainda causa revela o alcance das suas ideias. Neste artigo, você vai entender quem foi Paulo Freire, por que seu trabalho ultrapassou a sala de aula e por que seus livros continuam em alta mesmo décadas depois da sua morte.

<><> O que você precisa saber para entender Paulo Freire?

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 1921, no Recife. Era filho de uma família de classe média que sofreu com a instabilidade econômica depois da crise de 1929. A experiência precoce com a fome, a insegurança e a desigualdade social virou o ponto de partida para uma vida voltada à educação como prática política. Paulo Freire estudou Direito, mas nunca advogou. A primeira e única causa que assumiu foi também a última: perdeu, viu o cliente quebrar e decidiu que aquele não era o seu lugar. Preferiu ensinar. Começou dando aulas de português e logo passou a ocupar cargos ligados à educação no SESI e em universidades de Pernambuco. Desde cedo, entendeu que ensinar era mais do que repassar conteúdos. Era escutar, observar e pensar a realidade junto com quem está em sala. Freire não tratava alunos como massa de modelagem. Considerava que toda pessoa tem bagagem — mesmo que não tenha diploma. Foi com essa percepção que surgiu sua proposta de alfabetização.

<><> Primeiras experiências com alfabetização

Nos anos 1940, o Brasil ainda carregava índices altíssimos de analfabetismo entre adultos, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. As campanhas de alfabetização oficiais apostavam em cartilhas genéricas, com letras soltas e frases que pouco ou nada diziam ao cotidiano de quem vivia no campo ou em periferias urbanas. A estratégia era repetir fonemas — não formar leitores. Freire começou a atuar com educação popular nesse contexto. Ele entendia que métodos pensados para crianças da classe média urbana não funcionavam com trabalhadores rurais, operários ou domésticas. Não se tratava apenas de ensinar a ler. Era preciso conversar com essas pessoas a partir do que elas já sabiam — e esse saber não estava nos livros.

Foi aí que nasceu a ideia de trabalhar com palavras geradoras. Em vez de começar com o B-A = BÁ, o processo de alfabetização partia de palavras como “terra”, “enxada”, “trabalho” ou “sede”. Termos familiares, carregados de significados, que permitiam aos alunos reconhecer sons, letras e também refletir sobre sua própria condição social. Essa abordagem estava longe de ser assistencialista. Ela ia à raiz. Ao propor que o alfabetizando refletisse sobre sua experiência, Paulo Freire estava abrindo espaço para um tipo de aprendizado que mexia com a consciência de classe, o sentimento de pertencimento e a percepção crítica do mundo.

<><> Educação como prática de liberdade

Paulo Freire dizia que a educação nunca é neutra. Ou ela forma sujeitos capazes de intervir na realidade, ou reforça a lógica da obediência. Isso não é metáfora. É uma leitura da função social da escola num país como o Brasil. A pedagogia tradicional, baseada na repetição e na autoridade, cumpre um papel: manter o estudante em posição passiva. O professor fala, o aluno escuta. O conteúdo é imposto, não discutido. O resultado disso é a reprodução das hierarquias de fora da escola — entre classes, raças, gêneros e territórios.

Freire propôs uma inversão: colocar o educando como protagonista. Reconhecer seus saberes, suas vivências, suas perguntas. Usar o diálogo como método. A escola, nesse modelo, deixa de ser um espaço de adestramento e passa a ser espaço de disputa simbólica e política. Não se trata apenas de ensinar a ler e escrever. Trata-se de formar consciência crítica. Ao propor uma pedagogia baseada na escuta e na participação, Freire coloca em xeque o autoritarismo que sempre marcou o sistema educacional brasileiro. Ele entende que aprender é também aprender a se posicionar no mundo. E isso, para muita gente, é perigoso.

<><> O método Paulo Freire de alfabetização

Dizer que o “método Paulo Freire” fracassou porque a educação brasileira vai mal é repetir uma distorção. O método nunca foi aplicado em escala nacional. O que existe são experiências pontuais, geralmente vinculadas a políticas locais ou a movimentos sociais. E isso tem uma explicação: o método não foi desenhado para escolas formais ou ensino infantil. Era uma proposta de alfabetização de adultos em contextos de exclusão, estruturada em três pilares:

>> 1. O aluno não é um recipiente vazio

A metáfora que Freire combateu com mais força foi a da “educação bancária”. Nela, o professor deposita conhecimento e o aluno recebe passivamente. Freire propôs outra lógica: todo educando já tem vivências, saberes e formas de interpretar o mundo. O papel do educador é dialogar com isso — não impor uma visão.

>> 2. O ponto de partida é o cotidiano

A alfabetização, para Freire, começa com palavras que fazem parte do dia a dia de quem está aprendendo. Isso não é só uma estratégia pedagógica. É também política: dizer que o mundo vivido pelo oprimido importa. Que a vida real não é um obstáculo para aprender, mas o próprio terreno de aprendizado.

>> 3. A alfabetização precisa gerar consciência

Não basta decodificar palavras. A leitura da palavra tem que vir junto com a leitura do mundo. O objetivo não era apenas formar leitores funcionais. Era formar sujeitos conscientes, capazes de identificar as estruturas que limitam suas vidas — e dispostos a transformá-las.

<><> O caso de Angicos (RN)

A experiência mais conhecida do método foi em 1963, na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte. Ali, 300 trabalhadores foram alfabetizados em apenas 40 horas de aula. Parece milagre, mas era organização. O projeto tinha apoio do governo federal, articulação com universidades e engajamento da comunidade local. A eficácia do método incomodou setores conservadores. Quando trabalhadores começaram a reivindicar direitos depois de aprender a ler, o alarme soou nas elites locais. Pouco tempo depois, o golpe militar de 1964 desmobilizou o Plano Nacional de Alfabetização — que já contava com apoio de João Goulart e previa a criação de milhares de círculos de cultura baseados nas ideias de Freire. O método freiriano foi interrompido no Brasil antes de começar. Enquanto isso, seria adotado — e adaptado — em países da África, da América Latina e até da Escandinávia, com resultados reconhecidos por organizações como a Unesco.

<><> Exílio e repercussão internacional

Paulo Freire passou de preso político a referência global em menos de uma década. Depois do golpe de 1964, foi detido em Recife e passou 70 dias na prisão. Acusado de subversão, acabou exilado. Primeiro na Bolívia, depois no Chile. Nos anos seguintes, passou por Genebra, nos bastidores das Nações Unidas, e lecionou em Harvard, nos Estados Unidos. Enquanto era silenciado no Brasil, suas ideias ganhavam corpo e adesão em vários continentes. A repressão não interrompeu sua produção. Pelo contrário. O exílio forçou Freire a pensar sua pedagogia em diálogo com outras culturas e outras lutas. E o mundo respondeu.

<><> A trajetória internacional de Paulo Freire

No Chile, logo após deixar o Brasil, Freire trabalhou com programas de alfabetização de camponeses. Era um país em transformação, com forte presença dos movimentos populares. Foi ali que ele sistematizou a base de sua teoria e escreveu Educação como Prática da Liberdade. Em 1969, foi convidado para dar aulas na Universidade de Harvard. Em seguida, estabeleceu residência em Genebra, onde atuou como consultor do Conselho Mundial de Igrejas. Nesse papel, viajou por dezenas de países da Ásia, América Latina e África. Participou diretamente da formulação de políticas educacionais em contextos de descolonização. Era uma pedagogia em movimento.

<><> Traduções e circulação global

Pedagogia do Oprimido saiu em 1968, no Chile. Foi escrito em português, publicado em espanhol e só depois traduzido para o inglês. Desde então, nunca parou de circular. Já são mais de 40 idiomas. O livro se tornou leitura obrigatória em programas de formação docente e cursos de ciências sociais, especialmente nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e países africanos de língua portuguesa. Segundo o Google Scholar, é o terceiro livro mais citado no mundo nas áreas de humanidades e ciências sociais. Nenhum outro autor latino-americano chegou tão longe. A pedagogia de Paulo Freire influenciou sindicatos, igrejas progressistas, ONGs, movimentos estudantis e experiências educativas de base popular. Ela se tornou referência para quem entende a educação como instrumento de transformação social.

<><> Paulo Freire e a África

Na África, o encontro com a pedagogia freiriana foi direto. Países recém-independentes como Guiné-Bissau, Angola e Moçambique precisavam reconstruir seus sistemas educacionais a partir do zero — depois de séculos de colonização portuguesa. Paulo Freire foi chamado para ajudar. Freire trabalhou com educadores locais. Levou sua abordagem dialógica, baseada na escuta e no contexto, e a colocou a serviço de lutas verdadeiras: alfabetizar camponeses, formar quadros técnicos, construir identidades nacionais. Em vez de repetir o padrão europeu de ensino, os países africanos que contaram com Freire criaram propostas próprias, com base na realidade local. Na África do Sul, Paulo Freire também foi lido e discutido dentro do movimento da Consciência Negra. Steve Biko, referência do antirracismo no país, viu na pedagogia freiriana uma ferramenta de resistência cultural e afirmação política. Não à toa, o nome de Freire circulava em universidades e igrejas negras mesmo durante o regime do apartheid.

<><> Docência e gestão pública

Com a anistia, Paulo Freire voltou ao Brasil em 1980. Já reconhecido internacionalmente, escolheu se reaproximar da realidade brasileira por dentro da política e da universidade. Passou a lecionar na PUC-SP e na Unicamp, onde participou da formação de professores, educadores populares e militantes. Também ajudou a estruturar os programas de alfabetização do Partido dos Trabalhadores, ao qual se filiou. Em 1989, assumiu a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, convidado por Luiza Erundina, recém-eleita prefeita da capital. Era a primeira vez que Freire ocupava um cargo executivo em uma grande cidade. Ali, precisou lidar com a máquina pública, a burocracia e as disputas políticas internas — sem abandonar seus princípios.

<><> Políticas públicas com base freiriana

Durante sua gestão, foram implementadas ações voltadas à valorização da carreira docente: concursos públicos, ampliação de vagas na formação continuada e maior autonomia pedagógica nas escolas. Freire também priorizou a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Criou o MOVA — Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos — como proposta descentralizada, enraizada nos territórios e baseada no diálogo com comunidades locais. Até hoje, o MOVA inspira projetos em outras capitais e municípios do país. O enfrentamento à evasão escolar, o incentivo à escuta dos estudantes e a defesa da escola pública como espaço de cidadania foram algumas das marcas do período. Mas nem tudo correu em paz.

<><> Ataques e resistência

Freire foi alvo de críticas constantes por parte de setores conservadores, inclusive dentro da imprensa. Questionava-se sua atuação como gestor, sua influência ideológica e sua associação com o PT. O debate sempre esteve carregado de disputas sobre o papel da escola na sociedade. Mesmo assim, sua passagem pela gestão pública deixou um legado: políticas educacionais que dialogam com a realidade dos estudantes e professores, sem recorrer a fórmulas importadas ou imposições verticais.

<><> Patrono da educação brasileira

Paulo Freire morreu em 2 de maio de 1997, em São Paulo, aos 75 anos. Até o fim da vida, manteve-se ativo como professor, palestrante e escritor. Deixou uma obra extensa, composta por livros, artigos, cartas e entrevistas, além de uma base sólida para quem pensa a educação como prática social e política. Em 2012, por iniciativa da deputada Luiza Erundina, o Congresso aprovou a lei que o declarou Patrono da Educação Brasileira. A sanção presidencial foi mais do que simbólica: foi o reconhecimento do Estado brasileiro ao educador que havia sido preso, exilado e perseguido por seus ideais.

<><> Reconhecimento fora do país

Antes mesmo de ser reconhecido oficialmente pelo Brasil, Freire já havia recebido dezenas de homenagens em universidades ao redor do mundo. São mais de 35 títulos de Doutor Honoris Causa, prêmios da Unesco, estátuas em escolas e institutos, e cátedras universitárias com seu nome em países da América Latina, da Europa, da África e dos Estados Unidos. Seus livros seguem entre os mais citados na área de ciências sociais, especialmente Pedagogia do Oprimido, que atravessou fronteiras e chegou a mais de 20 idiomas. Mais do que um pensador, Freire virou referência prática para experiências pedagógicas voltadas à transformação social.

<><> A guerra ideológica em torno de Paulo Freire

Nos últimos anos, Paulo Freire passou a ocupar um lugar central na retórica da extrema direita brasileira. Tornou-se alvo simbólico de um projeto político que disputa o sentido da escola, da universidade e da formação crítica. Durante a campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro afirmou que iria “expurgar Paulo Freire” das diretrizes educacionais do país. Seu governo colocou esse plano em prática. Abraham Weintraub, então ministro da Educação, declarou que o monumento a Freire em frente ao MEC era uma “lápide da educação brasileira”. A frase era parte de uma ofensiva sistemática contra qualquer proposta educacional que dialogue com desigualdade, direitos ou consciência política. O ataque a Freire não parte do desconhecimento — parte da estratégia. Ao reduzir a pedagogia crítica à “doutrinação”, o que se pretende é controlar o espaço da escola, transformando-a num ambiente de reprodução silenciosa de valores conservadores.

<><> Escola Sem Partido e o monitoramento da sala de aula

Criado nos anos 2000, o movimento Escola Sem Partido ganhou força entre 2015 e 2018, com forte apoio da nova direita nas redes sociais e no Congresso. A proposta era simples na aparência: defender a “neutralidade” do ensino. Mas, na prática, os projetos de lei e ações promovidas pelo grupo buscavam censurar professores, eliminar debates sobre desigualdade e criminalizar qualquer abordagem crítica no ambiente escolar. Paulo Freire virou o principal alvo. Era citado como símbolo de tudo o que deveria ser retirado das escolas. Seus livros foram atacados, seu nome demonizado. Em alguns casos, cartazes com sua imagem foram arrancados de salas de aula, e educadores que mencionavam suas ideias eram acusados de “militância”.

A ironia: Freire sempre defendeu que a escola fosse um espaço de diálogo, escuta e pensamento autônomo. Não se tratava de ensinar o que pensar, mas de criar as condições para que o estudante pensasse por conta própria.

<><> Acusações de doutrinação

Entre os principais argumentos usados contra Freire, o mais repetido é o da “doutrinação ideológica”. A acusação também aparece em discursos parlamentares, programas de TV e postagens de influenciadores ligados à nova direita. Mas ela não se sustenta diante da obra do autor. Paulo Freire não propõe catequese política. Sua pedagogia parte do pressuposto de que ninguém educa ninguém: as pessoas se educam em relação umas com as outras, mediadas pela realidade. O papel do educador, para Freire, é criar situações de aprendizagem em que o estudante consiga refletir criticamente sobre o mundo que vive — e não absorver dogmas prontos.

<><> O que dizem os livros de Paulo Freire?

Quem leu Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou A importância do ato de ler sabe que a proposta freiriana não gira em torno de partidos, slogans ou ideologias fechadas. A preocupação central está na formação do sujeito como cidadão consciente de seu lugar no mundo. Freire parte da realidade do educando, do seu vocabulário, das suas experiências. A alfabetização, no seu método, começa por palavras que fazem sentido na vida concreta: “terra”, “trabalho”, “seca”, “injustiça”. O conteúdo vem da escuta, da experiência e da análise coletiva. Não há doutrinação onde há escuta ativa e construção compartilhada do conhecimento.

A pedagogia freiriana incomoda porque propõe o oposto da submissão. Ela convida à pergunta, à investigação e à ação. Em tempos de ataques à educação pública, Freire se tornou um obstáculo para quem prefere uma escola disciplinadora, sem conflito, sem voz, sem política. Na prática, chamar Paulo Freire de doutrinador é uma forma de tentar interditar o debate sobre desigualdade, exclusão e projeto de país. É uma disputa ideológica, sim — mas não da parte de Freire. A tentativa de expulsar suas ideias da educação brasileira é uma ação política concreta, com objetivo claro: manter tudo como está.

<><> Por que ainda vale a pena ler Paulo Freire?

Freire escreveu nos anos 1960, mas os dilemas que ele enfrentava continuam por aqui. O analfabetismo funcional ainda assombra o país. A desigualdade segue marcando o acesso à educação. A escola, muitas vezes, é tratada como um espaço de adestramento, não de formação crítica. Freire parte de um ponto: toda educação é política. Não existe neutralidade. O modo como você ensina revela de que lado está. Ou a escola forma para a crítica ou forma para a submissão. Fingir que isso não existe é jogar o debate para debaixo do tapete. Ler Paulo Freire hoje é disputar o que a escola deve ser. É defender a formação de sujeitos autônomos, não só de trabalhadores ajustados ao mercado. É se posicionar contra o esvaziamento do ensino público, contra a militarização da educação e contra a censura nas salas de aula.

<><> Frases de Paulo Freire para pensar

  • “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”
  • “A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”
  • “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo.”
  • “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.”
  • “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.”
  • “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.”

Essas frases não foram escritas para serem repetidas sem pensar. Elas existem para provocar, para desmontar certezas, para virar do avesso aquilo que foi normalizado. Freire não suaviza o debate. Ele força o olhar para onde incomoda. E nesse incômodo, convida você a agir.

<><> Por que ainda te pedem para esquecer Paulo Freire?

Paulo Freire incomoda. Incomoda, porque sua pedagogia questiona a estrutura, a desigualdade e a lógica autoritária da escola tradicional. Não à toa, virou alvo da extrema direita. Mas quem leu “Pedagogia do Oprimido” sabe que o que ele propõe é diálogo, não doutrinação. Ignorar Freire é uma escolha. E quase sempre, essa escolha favorece quem prefere uma escola disciplinada, calada, voltada para desempenho — não para a consciência. Entender quem foi Paulo Freire é entender o que está em disputa quando se fala em educação no Brasil. Seu legado não é uma fórmula pronta. É uma ferramenta. E para quem vive à margem, a ferramenta é sobrevivência.

<><> Paulo Freire não é passado

Freire não virou símbolo à toa. O que ele escreveu não ficou parado nos anos 1960. Seu pensamento continua em disputa porque toca em feridas abertas: desigualdade, exclusão, autoritarismo. Ele falou de um país que ainda existe.

Não é sobre transformar todo professor em militante. É sobre entender que ensinar é um ato político. Que a escola pode ser reprodutora de injustiças ou espaço de formação crítica. E que decidir fingir neutralidade é, no fim, escolher um lado — mesmo sem admitir. Se hoje há quem queira apagar Freire do debate público, não é porque ele falhou. É justamente porque ele acerta demais. Por isso, você ainda precisa ler Paulo Freire. Não para concordar com tudo. Mas para entender o que está em jogo quando se fala de educação no Brasil. E para lembrar que a ignorância nunca é só falta de informação. Às vezes, é projeto.

 

Fonte: ICL Notícias