Quem é quem nas mensagens que desencadearam a
maior crise da história do STF
O Supremo Tribunal Federal (STF) mergulhou em
sua crise mais grave desde que mensagens extraídas do celular do banqueiro
Daniel Vorcaro foram divulgadas, em 1º de setembro de 2026.
Ex-controlador do Banco Master, Vorcaro foi
preso em novembro de 2025. Ele é investigado por suspeita de cometer fraudes
financeiras estimadas em R$ 12,2 bilhões.
As mensagens — tornadas públicas após uma
decisão do ministro André Mendonça — foram enviadas por Vorcaro a um contato
salvo com o nome Alexandre de Moraes. Há também conversas de Vorcaro com
funcionários do Master e pessoas ligadas à família de Moraes.
Ao tornar as mensagens públicas, Mendonça,
relator do inquérito sobre o Master no Supremo, pediu que o plenário do STF
decida sobre a abertura de uma investigação contra Moraes. O pedido é algo
inédito, já que nenhum ministro da Corte jamais foi formalmente investigado por
atos no exercício do cargo.
A guerra aberta entre os dois ministros
escalou: Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, autorização para
investigar Mendonça por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime
de responsabilidade na condução das operações que envolvem o Master e o INSS.
Presidente do Supremo, Fachin convocou uma
sessão do plenário para a próxima terça-feira (15/9), quando os ministros vão
decidir sobre o caso.
Em um novo capítulo desta história, na
terça-feira (8/9), André Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues
da chefia da Polícia Federal. Andrei é um dos nomes que aparecem nas mensagens
de Vorcaro que desencadearam a crise.
No dia seguinte (9/9), Andrei foi reconduzido
à chefia da PF por ordem do também ministro do STF, Flávio Dino, que
considerou, entre outros pontos listados em sua decisão, que Mendonça não
poderia ter decidido sozinho sobre o afastamento, por ser um dos interessados
no caso.
No mesmo dia, a crise ganhou mais um
capítulo: Fachin retirou Moraes da relatoria do inquérito das Fake News — que
ele conduzia desde a abertura, em 2019 — e assumiu o caso, alegando que os
episódios recentes reforçavam a necessidade de concluir a investigação.
Na quinta-feira (10/9), Fachin pediu e
Mendonça aceitou retirar o sigilo de do caso Master — a expectativa é de que os
documento se tornem públicos nesta sexta-feira (11/9).
Abaixo, a BBC News Brasil explica e lista
quem são as pessoas que aparecem nas mensagens de Vorcaro que desencadearam a
crise.
DANIEL VORCARO
É do celular de Daniel Vorcaro,
ex-controlador do Banco Master, que a PF extraiu todas as mensagens. A polícia
conseguiu recuperar prints — que o banqueiro escrevia e enviava via WhatsApp
usando o recurso de visualização única — mesmo depois de esses arquivos terem
sido apagados.
Nas mensagens, Vorcaro cobra da equipe do
banco que o pagamento ao escritório da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane
Barci de Moraes, nunca atrase. O contrato, da ordem de R$ 131 milhões, não teve
seu conteúdo divulgado no inquérito da PF.
Também nas mensagens, o ex-controlador do
Master autoriza a emissão de cartões de crédito para os filhos do ministro, no
limite de R$ 300 mil cada.
As mensagens mostram ainda que, ao longo de
13 dias, em novembro de 2025, Vorcaro intensificou os apelos a Moraes para
tentar impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações.
No dia 15 de novembro, dois dias antes de ser
preso, Vorcaro perguntou a Moraes: "Acha que segunda já tenho que estar
fora?". Também questionou se era "aquele mesmo juiz Ricardo" —
referência a Ricardo Augusto Soares Leite, que viria a mandar prendê-lo — e se
Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, "tá sabendo". Em outra
mensagem, pediu ajuda para marcar um encontro com Galípolo.
No dia 16 de novembro, ele ainda perguntou ao
contato atribuído a Moraes: "Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar
pra não deixar acontecer? Qual a sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá
pra segurar". Na interpretação da PF, essas mensagens seriam uma tentativa
de pedir a intervenção do ministro junto ao diretor-geral da PF, Andrei
Rodrigues.
No próprio dia da prisão, 17 de novembro,
Vorcaro insistiu por "novidade": "Conseguiu ter notícia ou
bloquear?". Poucas horas depois, foi preso no Aeroporto Internacional de
Guarulhos, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.
O que diz Vorcaro: A defesa do banqueiro já
tentou reverter a prisão por habeas corpus, alegando ausência de "fatos
concretos".
ALEXANDRE DE MORAES
Alexandre de Moares assumiu como ministro do
STF em 2017, após ser indicado pelo então presidente Michel Temer (MDB).
Assumiu protagonismo na Corte nos últimos anos, principalmente por ter sido o
relator do inquérito das Fake News e por conduzir o processo que levou à
condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado.
Presidiu o TSE na última eleição presidencial, em 2022.
Segundo o relatório da PF, as mensagens de
Vorcaro foram enviadas a um contato salvo com variações do nome do ministro —
"Alexandre de Moraes BRASÍLIA", "Novo", "STF TSE
NOVO" e "Eu STF".
Como eram enviadas por recurso de
visualização única, não é possível saber se Moraes respondeu a Vorcaro nem o
que o ministro teria dito. O contato entre os dois aparece em episódios
espaçados ao longo de dois anos.
Em 30 de dezembro de 2023, Vorcaro organizou
um almoço em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, do qual Moraes teria
participado — funcionários do banqueiro relataram, por mensagem, que "o
ministro" estava lá e havia tirado uma foto com um deles. Não há, porém,
confirmação nominal direta no relatório, só a associação feita pela PF a partir
do contexto das mensagens.
Em 30 de outubro de 2025, dizendo ter
recebido de "pessoas de dentro do Banco Central" a informação de que
a PF e o Ministério Público pressionavam a instituição contra ele, Vorcaro
escreve diretamente ao número atribuído a Moraes: "É importante reforçar
com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí
vai tudo pro saco. Estou disponível pra tratar e explicar qualquer coisa, só
não pode ter sacanagem" —, em referência a Andrei Rodrigues, diretor-geral
da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.
Na mesma mensagem, envia os nomes de quatro
delegados e três procuradores envolvidos nas apurações preliminares contra o
banco.
Em 15 de novembro de 2025, já às vésperas da
prisão, Vorcaro pergunta: "Acha que segunda já tenho que estar fora?"
e "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de
manhã?".
O que diz Moraes: O magistrado não comentou
publicamente o conteúdo das mensagens. Dois dias depois da divulgação das
mensagens, reagiu à crise pedindo a Fachin a abertura de investigação contra
Mendonça. Um dia depois de ter sido retirado da relatoria do inquérito das Fake
News, chegou a anunciar que falaria à imprensa, mas, apenas uma hora depois,
cancelou o pronunciamento.
PAULO GONET
Segundo o relatório da PF, não há nenhum
contato salvo no celular de Vorcaro com o nome de Paulo Gonet, o
procurador-geral da República (PGR). A PF identifica apenas referências
indiretas, em conversas do banqueiro com o advogado do Master, Ciro Soares, que
teria intermediado o contato entre Vorcaro e o Procurador-geral da República em
2025.
Entre os indícios, estão uma selfie de Ciro
ao lado de Gonet, um pedido para custear a viagem do filho de Gonet,
identificado como Pedro Gonet, a um evento em Londres, e mensagens que Ciro
atribui a Gonet, como "Gonet é firme" e "PG confirmou a ida para
Londres".
O relatório da PF não confirma que
"PG" seja Gonet, mas outras menções no documento, como a referência
ao filho Pedro, reforçam essa leitura.
Como PGR, Gonet é a autoridade que deveria
conduzir uma eventual investigação contra Moraes. Mas na noite de 1º de
setembro — mesmo dia em que o relatório veio a público — ele pediu a Mendonça a
anulação de toda a apuração da PF, alegando que o ministro excedeu seus poderes
ao mandar a polícia investigar um colega da Corte sem aval prévio do plenário e
que, pelo Código de Processo Penal, não cabe a um juiz conduzir investigações
pré-processuais — papel que seria da Polícia Judiciária e do próprio Ministério
Público, que é chefiado pelo PGR.
O que diz Gonet: O procurador-geral não
comentou o fato de ele próprio aparecer no relatório da PF.
ANDREI RODRIGUES
Andrei Rodrigues é o diretor-geral da Polícia
Federal. Não aparece em troca de mensagens diretas com Vorcaro, mas é citado
como destinatário do pedido do banqueiro a Moraes, em 30 de outubro de 2025,
quando o banqueiro pede que o ministro "reforçasse" com "Andrei
e Paulo" para que ninguém "de baixo" atrapalhasse seus
interesses — a PF interpreta que "Andrei" seria Andrei Rodrigues, e
"Paulo", o procurador-geral Paulo Gonet.
Também aparece em tratativas, articuladas
pelo ex-ministro Fábio Faria, sobre um convite para um evento jurídico em
Londres, com despesas bancadas por um grupo ligado ao Master.
A situação de Andrei virou um pingue-pongue
dentro do próprio STF em menos de 24 horas. Na terça-feira (8/9), Mendonça
determinou seu afastamento preventivo da direção-geral da PF, cinco dias depois
de Moraes ter pedido a Fachin a investigação contra o colega de Corte — segundo
Mendonça, Andrei e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa,
também afastado, teriam produzido ao menos seis "relatórios de
inteligência" sigilosos entre 3 e 31 de agosto de 2026, monitorando de
forma ilegal o próprio Mendonça e o advogado-geral da União, Jorge Messias.
O julgamento virtual que referendaria o
afastamento tinha maioria formada na Segunda Turma do STF, mas foi suspenso por
um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.
Já na quarta-feira (9/9), o ministro Flávio
Dino reverteu a decisão de Mendonça e determinou a reintegração imediata de
Andrei e Leandro Almada aos cargos, atendendo a um recurso apresentado pelo
próprio Andrei.
Dino apontou dois problemas principais na
decisão de Mendonça: o partido Novo, que provocou o caso, não teria
legitimidade para pedir o afastamento de uma autoridade em um processo penal, e
a definição sobre quem comanda a PF seria prerrogativa exclusiva do presidente
da República, não de um ministro do STF.
Dino também proibiu novas medidas cautelares
contra os dois por atos praticados no exercício regular de suas funções e
determinou que a controvérsia sobre os relatórios de inteligência seja levada
ao plenário do STF.
Antes da decisão de Dino, a AGU já havia
recorrido a Fachin, presidente da Corte, pedindo a suspensão da medida de
Mendonça, pelo mesmo argumento sobre a prerrogativa presidencial.
O que diz Andrei: O diretor-geral da PF não
se manifestou publicamente até a publicação desta reportagem.
VIVIANE BARCI DE MORAES
Viviane Barci de Moraes é esposa de Alexandre
de Moraes e sócia-diretora do escritório de advocacia que leva os sobrenomes do
casal.
O contrato de R$ 131 milhões entre o
escritório e o Master é o fio condutor de boa parte da história: Viviane enviou
a Vorcaro a primeira minuta do documento em 11 de janeiro de 2024. A edição
final do arquivo, segundo a PF, foi feita por um usuário identificado como
"Ministro Alexandre de Moraes", em 15 de janeiro. O contrato foi
assinado ainda naquele mês, no valor de por volta de R$ 3 milhões mensais, por
três anos.
Ao longo de 2024 e 2025, Vorcaro pressionou
repetidamente sua equipe para que os pagamentos ao escritório nunca atrasassem,
chegando a transferir R$ 3,4 milhões de uma vez em fevereiro de 2024.
O que diz Viviane e o escritório: o
escritório afirmou que seu setor de compliance consultou o próprio Moraes sobre
eventuais impedimentos antes de fechar o contrato — para verificar se havia
alguma restrição, como processos sob relatoria dele no STF ou julgamentos de
interesse do banco —, mas concluiu que não havia problema, já que o ministro
nunca havia atuado em causas do Master.
Em março de 2026, o escritório detalhou os
serviços prestados: uma equipe de 15 advogados, com mais três escritórios
terceirizados, 94 reuniões de trabalho com o banco entre fevereiro de 2024 e
novembro de 2025, e a produção de 36 pareceres jurídicos sobre temas como
direito previdenciário, direito trabalhista e compliance.
CIRO SOARES
Ciro Soares, advogado que integrou a defesa
de Vorcaro no STJ, aparece no relatório da PF como intermediário dos contatos
entre o banqueiro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Em 14 de abril de 2024, escreveu a Vorcaro
"amizade é tudo, viu irmão" e "Gonet é firme". Quase um ano
depois, em 15 de março de 2025, enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet, com
a mensagem "liga aqui, ele quer falar com você" — na sequência, houve
quatro ligações entre os dois, cujo conteúdo a PF não revelou.
Em 28 e 29 de março de 2025, também repassou
a Vorcaro mensagens que atribui a Gonet sobre um evento em Londres, perguntando
se o filho do procurador, Pedro Gonet, poderia viajar com despesas pagas pelo
grupo do banco — pedido que Vorcaro autoriza em 11 de abril.
O que diz Ciro Soares: não se manifestou até
a publicação desta reportagem.
GIULIANA E ALEXANDRE BARCI DE MORAES (FILHOS
DE ALEXANDRE DE MORAES)
Giuliana e Alexandre Barci de Moraes atuam
como advogados no escritório da mãe. Segundo o relatório da PF, em 2 de outubro
de 2025, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de
Moraes, procurou Vorcaro para tratar da emissão de cartões de crédito do Master
em nome dos dois.
Uma executiva do banco perguntou se poderia
emitir os cartões com limite de R$ 300 mil para cada filho. Vorcaro respondeu
apenas "OK".
O que dizem Giuliana e Alexandre Barci de
Moraes: não se manifestaram até a publicação desta reportagem.
FÁBIO FARIA
Ex-deputado federal pelo Rio Grande do Norte
e ministro das Comunicações do governo Bolsonaro (2020-2022), Fábio Faria hoje
atua no mercado financeiro, no BTG Pactual. É casado com a apresentadora
Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos.
O contato salvo com seu nome no celular de
Vorcaro aparece em episódios ao longo de mais de um ano, atuando como
intermediário entre o banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes:
• Em
dezembro de 2023, articula os primeiros encontros entre os dois e compartilha
com Vorcaro o contato salvo depois como "Alexandre de Moraes";
• Ao
longo de janeiro de 2024, trata de prazos do contrato entre Vorcaro e o
escritório da mulher de Moraes, e confirma jantares com o ministro;
• Em
março de 2024, cobra Vorcaro dizendo que "o careca não pode atrasar"
— mensagem que antecede, minutos depois, a cobrança do próprio Vorcaro à equipe
do banco para que o pagamento ao escritório de Viviane Barci de Moraes fosse
feito imediatamente;
• Em
abril de 2024, intermedeia o convite do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues,
para um evento jurídico em Londres, organiza encontros na casa de Moraes e na
própria residência de Vorcaro e ainda trata de um suposto veto do ministro a
participantes do evento.
O que diz Fábio Faria: afirma que apenas
"sugeriu o escritório Barci de Moraes para atuação em um caso na Justiça
de São Paulo", que não se reuniu com integrantes do Master e que não teve
conhecimento dos valores do contrato.
FABIANO ZETTEL
Cunhado de Vorcaro, pastor da Igreja Batista
da Lagoinha e CEO da Moriah Asset. Segundo a PF, recebeu de Vorcaro, em 8 de
fevereiro de 2024, o pedido para enviar o "contrato Barci Moraes
assinado" e a pergunta sobre quando seria feito o primeiro pagamento — no
mesmo dia, o Master transferiu R$ 3.422.268,14 ao escritório.
Preso temporariamente em 14 de janeiro de
2026, quando tentava embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes, ele foi solto e
voltou à prisão em março, por ordem de Mendonça, no âmbito da Operação
Compliance Zero.
O que diz Zettel: não se manifestou até a
publicação desta reportagem.
<><> Outros nomes que aparecem no
relatório
• Ângelo
Silva, tesoureiro do Master, também investigado pela PF: foi cobrado por
Vorcaro, irritado, por ter atrasado o pagamento ao escritório Barci de Moraes.
"Contrato mais importante que temos, te pedi pra não falhar", disse
Vorcaro, acrescentando que a situação era "surreal";
• Romy
Goerck Gentina Klenquen, funcionária do Master: foi a ela que Vorcaro reforçou
que os pagamentos ao escritório Barci de Moraes nunca atrasassem, dizendo
"pode pagar sempre, sem nota, do jeito que for";
• Adriana
Solano, superintendente comercial do Master: em outubro de 2025, ela autorizou,
junto a Vorcaro, a emissão de cartões de crédito de R$ 300 mil para os filhos
de Moraes;
• A
filha de Vorcaro, Stella, e a namorada dele, Martha Graeff: Vorcaro mencionou a
essas pessoas que estava "com Alexandre Moraes" em mensagens entre
novembro de 2024 e agosto de 2025 — únicas referências no relatório a encontros
pessoais fora do contexto profissional.
Fonte: BBC News Brasil




