sábado, 29 de agosto de 2026

A pobreza não pode esperar

O recém-lançado relatório The Roadmap for Eradicating Poverty Beyond Growth [Um roteiro para a erradicar a pobreza para além do crescimento] coordenado por Olivier De Schutter, submete a questão da pobreza a um exame rigoroso. Fruto de dezoito meses de consultas com especialistas, universidades, organismos internacionais, movimentos sociais e representantes de governos, o documento parte de uma proposição tão simples quanto poderosa: o combate à pobreza não pode permanecer refém do ritmo de crescimento da economia.

Por décadas, enraizou-se a crença de que a pobreza diminuiria naturalmente à medida que a economia crescesse. No Brasil, essa lógica encontrou expressão máxima no lema “É preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”, amplamente difundido durante a ditadura militar. A lógica parecia simples. A expansão da produção estimularia investimentos, ampliaria o emprego, elevaria a arrecadação do Estado e, com o tempo, criaria as condições necessárias para reduzir as desigualdades. Aos poucos, essa hipótese mítica sobre o funcionamento da economia acabou moldando o imaginário coletivo acerca do desenvolvimento.

Em muitos países, a expansão econômica esteve, de fato, associada à melhora das condições de vida de milhões de pessoas. O equívoco nasceu em outro momento, quando uma trajetória histórica e geograficamente bem localizada passou a valer como lei geral. O crescimento, que era um caminho possível para enfrentar a pobreza, foi promovido à condição indispensável para que ela pudesse ser reduzida. A erradicação da pobreza deixou, assim, de constituir um compromisso permanente da sociedade para transformar-se numa consequência esperada, fruto do bom desempenho da economia, a ser colhida tardiamente. A dignidade humana ficou, ainda que ninguém o diga em voz alta, umbilicalmente amarrada aos ciclos de expansão econômica.

Nenhuma sociedade cogitaria suspender a liberdade de expressão, o acesso à Justiça ou à educação básica até que o Produto Interno Bruto atingisse determinado patamar. Esses direitos nascem da própria dignidade humana e vinculam o Estado em qualquer circunstância, sem esperar autorização da economia. Diante da pobreza, porém, o raciocínio muda de rota: em vez de perguntar como assegurar a todos uma existência compatível com essa dignidade, pergunta-se quanto a economia ainda precisa crescer antes que esse direito possa ser efetivamente garantido. Num caso, a economia permanece instrumento; no outro, torna-se pré-requisito para que um direito sequer seja reconhecido.

<><> É hora de discutir o compartilhamento da riqueza

Aforça dessa mudança não está apenas nas respostas que o relatório propõe, mas na pergunta que devolve ao centro do debate. Por décadas, discutiu-se qual taxa de crescimento seria necessária para reduzir a pobreza. Raramente se perguntou por que a efetivação de um direito humano haveria de depender do desempenho econômico. Na prática, essa mudança reconfigura o horizonte do problema: já não basta discutir quanto produzir, é preciso discutir como a riqueza é produzida, apropriada e distribuída.

Nada disso diminui a importância do crescimento econômico. Nenhuma sociedade prescinde da produção de riqueza, da inovação, do investimento, da ampliação de sua capacidade produtiva, e nos países de baixa renda sobretudo, a expansão da economia continua indispensável para garantir infraestrutura, alimentação, energia, saneamento e serviços públicos essenciais. O que o crescimento não faz, contudo, é responder às perguntas decisivas. Quem se apropria da riqueza produzida? Quem fica de fora de seus benefícios? A que custo social e ambiental ela é obtida? Sobre isso, o indicador continua mudo.

E aqui a resposta do relatório merece nome próprio. Nas últimas três décadas, o patrimônio de bilionários cresceu a um ritmo próximo de oito por cento ao ano, quase o dobro da taxa observada entre a metade mais pobre da população mundial. O um por cento do topo da distribuição capturou, sozinho, mais de um terço de toda a riqueza mundial acumulada entre 1995 e 2025, enquanto a metade mais pobre da humanidade ficou com uma fração ínfima desse total. Não é imprecisão estatística nem efeito colateral de um sistema ainda em ajuste: é o resultado esperado de regras tributárias regressivas no topo, de mercados financeiros liberalizados o bastante para absorver sem atrito fortunas cada vez maiores, e de uma arquitetura jurídica que protege a acumulação de capital com mais rigor do que protege o trabalho que a viabiliza.

Some-se a isso outro duto de absorção da riqueza, menos visível ainda: a que atravessa fronteiras. O relatório estima que, apenas em 2015, uma fração considerável do produto das economias ricas foi apropriada, por meio de trocas comerciais estruturalmente desiguais, de matérias-primas, energia e trabalho originados no Sul Global; somado o período entre 1990 e 2015, o valor drenado supera em muitas vezes toda a ajuda internacional ao desenvolvimento concedida no mesmo intervalo. Não é desvio ocasional do comércio internacional, mas sua lógica estrutural: extração no Sul, processamento e captura de valor no Norte, com o excedente convertido em patrimônio financeiro que circula por sistemas tributários desenhados, propositalmente, para não o alcançar.

Economias que ampliaram de forma consistente sua produção conviveram, lado a lado, com concentração patrimonial elevada, precarização do trabalho e pobreza persistente, como duas curvas que sobem juntas sem nunca se tocar. Ao mesmo tempo, a crise climática revelou que um modelo dependente da expansão contínua da produção material esbarra em limites ecológicos que já não podem ser tratados como hipótese distante. O planeta está a um palmo da exaustão.

É nesse ponto que reside a contribuição mais relevante do relatório: pobreza, desigualdade e degradação ambiental deixam de ser tratadas como fenômenos isolados e passam a ser lidas como expressões de uma mesma arquitetura econômica. Se a pobreza resultasse apenas da escassez de riqueza, bastaria produzir mais para superá-la. Ocorre que ela nasce também da forma como riqueza, poder e oportunidades são distribuídos — e é aí que sua permanência deixa de parecer inevitável. Ela passa a ser vista como resultado de escolhas institucionais e prioridades políticas: formas específicas de organizar a economia que beneficiam justamente quem já a controla.

Essa nova perspectiva transforma a própria definição de pobreza. Por muito tempo, prevaleceu uma concepção quase exclusivamente monetária: pobre era quem vivia abaixo de determinado patamar de renda. O critério, embora indispensável para dimensionar a privação extrema, jamais foi suficiente para descrever a realidade que pretendia medir. Entre a insuficiência de renda e a experiência concreta da pobreza existe um território inteiro de vulnerabilidades: insegurança permanente, discriminação, invisibilidade institucional, restrições ao exercício de direitos, escassa capacidade de influir nas decisões que moldam a própria existência.

A renda continua importante; apenas perde o monopólio da explicação. O centro da análise migra para os mecanismos que distribuem oportunidades, concentram patrimônio e reproduzem vulnerabilidades ao longo do tempo, e a pobreza revela-se, antes de tudo, como processo contínuo de fabricação de desvantagens. Combatê-la exige mais do que ampliar a renda disponível ou aperfeiçoar políticas compensatórias: exige intervir sobre as próprias estruturas que produzem, acumulam e perpetuam desigualdades, a começar por quem detém o capital produtivo e financeiro, e pelas regras que lhe permitem crescer mais rápido do que qualquer outra fatia da renda nacional.

<><> A pobreza não é crise, mas projeto

Nesse novo olhar, desaparece a imagem do pobre como destinatário passivo da assistência estatal, e em seu lugar surge uma compreensão mais lúcida: a pobreza como expressão de relações econômicas, políticas e jurídicas que limitam, de forma recorrente, o acesso equitativo à riqueza socialmente produzida. A pergunta decisiva não é mais quanto a economia precisa crescer, mas quais instituições continuam permitindo que a exclusão se reproduza mesmo quando a riqueza aumenta, de que modo o fazem, e a favor de quem foram desenhadas.

A redistribuição da riqueza, como a conhecemos, foi concebida como etapa posterior ao funcionamento dos mercados — um reparo aplicado depois do estrago. O relatório propõe outra lógica: reformular o próprio processo de geração da riqueza, não apenas corrigir seus resultados. Nessa leitura mais ampla, a distribuição não começa quando o Estado arrecada tributos e financia políticas sociais; começa antes, na definição das regras que organizam a própria atividade econômica. As escolhas institucionais que disciplinam o trabalho, a concorrência, a tributação, a propriedade e o crédito decidem, desde a origem, como renda e patrimônio serão repartidos entre quem trabalha e quem detém o capital.

Rompe-se, com isso, uma das dicotomias mais persistentes do pensamento econômico contemporâneo: a de que os mercados produzem riqueza segundo lógica própria, cabendo ao Estado apenas redistribuir, depois, parte dos resultados. Mercados não existem à margem das instituições que lhes dão forma. Direitos de propriedade, contratos, sistemas tributários, políticas monetárias, normas regulatórias e regras de concorrência não corrigem um mercado preexistente; são a condição de sua própria existência, e foram, historicamente, moldados por quem já concentrava capital suficiente para influenciar sua redação. A distribuição da riqueza está gravada nas regras que definem o funcionamento do mercado, como uma marca d’água que só se revela quando se olha o papel contra a luz.

A implicação ultrapassa a economia. Se as instituições moldam continuamente a distribuição das oportunidades, combater a pobreza deixa de ser tarefa periférica das políticas públicas e passa a integrar o próprio desenho da ordem econômica: não apenas reparar injustiças produzidas pelo mercado, mas impedir que a expropriação da riqueza coletivamente criada se consolide como resultado previsível de seu funcionamento.

Ganha sentido, nesse contexto, a ideia de uma economia orientada pelos direitos humanos. Os direitos civis e políticos sempre foram tratados como garantias imediatamente exigíveis; os direitos sociais, ao contrário, ficaram subordinados às restrições orçamentárias e às prioridades de cada governo. O relatório recusa essa assimetria: alimentação, moradia, saúde, educação e proteção social não são metas programáticas condicionadas à prosperidade, são exigências permanentes da dignidade humana e, por isso, critérios de organização da própria economia. Enquanto a superação da pobreza for tratada como uma política pública entre tantas outras, sua realização continuará à mercê das oscilações da conjuntura, das restrições fiscais e da resistência de quem se beneficia da manutenção do arranjo atual. Ancorada nos direitos humanos, ela muda de estatuto, não apenas de prioridade.

Essa conclusão não apaga a diversidade das realidades nacionais. Países de baixa renda continuam precisando ampliar sua capacidade produtiva para assegurar infraestrutura, alimentação, energia e saneamento. Nas economias mais desenvolvidas, o desafio é outro: reduzir a dependência de um modelo assentado na expansão permanente do consumo material, cujos custos ambientais já não cabem dentro da estabilidade dos ecossistemas. Em ambos os casos, permanece o mesmo ponto decisivo: o crescimento pode continuar sendo necessário; o que deixa de ser aceitável é transformá-lo em condição para o reconhecimento de direitos fundamentais, ou em álibi para adiar a discussão sobre quem concentra seus frutos.

A mudança de foco também expõe os limites do principal indicador da vida econômica contemporânea, o PIB: ele mede a riqueza produzida, mas nada diz sobre como ela é distribuída, quem participou de sua produção ou quem foi excluído dela. Por isso não basta substituir um indicador por outro: pouco mudará se a estrutura institucional continuar tratando o crescimento como finalidade superior, sem perguntar quem decide como a riqueza circula. Indicadores descrevem prioridades; não as criam.

Aí reside a contribuição mais profunda do relatório: a pobreza deixa de ser lida como efeito colateral de uma economia ainda insuficiente e passa a expor os limites da própria arquitetura institucional que organiza a produção e a apropriação da riqueza — e os interesses que essa arquitetura protege. Enquanto a pobreza for interpretada como consequência inevitável da escassez, a sociedade seguirá esperando que o crescimento produza, algum dia, os recursos para combatê-la — uma espera sem prazo, porque sem causa reconhecida. Reconhecer que ela resulta também das regras que disciplinam a economia, e de quem se beneficia delas, faz essa espera perder sentido.

A história recente sustenta essa virada: a economia mundial atingiu níveis inéditos de produtividade e riqueza, mas, enquanto o patrimônio dos mais ricos cresce a taxas sem precedentes, a renda do trabalho perde participação relativa, empurrada por décadas de desregulamentação e enfraquecimento sindical. A permanência da pobreza em meio a essa abundância não é prova de que falta riqueza — é prova de que essa riqueza tem dono, e esse dono raramente é quem a produz.

O relatório é um convite ao abandono da premissa de que os direitos humanos dependem da expansão contínua da economia. A distinção pode parecer apenas conceitual, mas não é — dela depende o próprio sentido que damos ao desenvolvimento. Uma economia capaz de produzir cada vez mais, mas incapaz de repartir de forma minimamente equitativa os frutos dessa produção, fracassa no propósito que justifica sua existência: como uma colheita farta que apodrece no paiol enquanto, ao lado, falta pão, porque alguém decidiu, antes da colheita, quem teria a chave.

A pobreza não espera o crescimento. Ela espera justiça. E a justiça começa por perguntar quem decide o destino da riqueza que ainda não foi repartida.

 

Fonte: Por Edward Magro, para Jacobin Brasil

 

Os socialistas não são ingênuos em relação à natureza humana

Muitos criticam a esquerda, há um bom tempo, por sua suposta ingenuidade em relação à natureza humana. Para esses críticos, a esquerda acredita que os seres humanos são bons por natureza. É claro que os esquerdistas de todas as matizes reconhecem que existem muitos males no mundo — caso contrário, não estariam na esquerda. Mas, segundo a crítica, os esquerdistas se recusam a atribuir esses males à natureza humana, culpando, em vez disso, instituições e cultura falhas. Remova essas fontes sociais de corrupção humana, e o domínio de classe e a competitividade egoísta darão lugar à nossa benevolência natural. Alguns projetam esperanças ainda mais deslumbrantes, imaginando uma humanidade futura operando em um nível intelectual e estético muito superior ao atual.

Os críticos da esquerda argumentam que essa ideia revela uma compreensão empobrecida da natureza humana. A verdade, dizem eles, é que somos seres imperfeitos e pecadores desde o princípio, e que é utópico imaginar que qualquer intervenção social possa corrigir isso.

Os conservadores frequentemente usam esse tipo de argumento. Em seu livro Os intelectuais e a sociedade, o economista de centro-direita Thomas Sowell postula que a principal diferença entre esquerda e direita se resume a um “conflito de visões”. Segundo Sowell, a esquerda sustenta que o sofrimento humano é em grande parte culpa da sociedade: “Opressão, pobreza, injustiça e guerra são todos problemas das instituições vigentes — problemas cujas soluções exigem a mudança dessas instituições, o que, por sua vez, exige a mudança das ideias que as sustentam”. Sowell contrapõe isso à “visão trágica”, predominantemente conservadora, que reconhece que “as falhas inerentes aos seres humanos são o problema fundamental, e os mecanismos sociais são simplesmente meios imperfeitos de tentar lidar com essas falhas — sendo as imperfeições desses mecanismos produtos das deficiências inerentes aos seres humanos”.

Comentaristas mais de centro também fizeram acusações semelhantes. Em sua popular publicação recente no Substack, “Sobre se tornar menos de esquerda”, o filósofo Dan Williams atribui sua guinada ao centro, em parte, a um maior pessimismo em relação à natureza humana. Williams cita Sowell com aprovação nesse ponto e adverte que

Devemos desconfiar muito de pessoas e movimentos que se apresentam como escapando dos instintos egoístas e competitivos da natureza humana, ou que propõem transformações sociais que dependem da nossa capacidade coletiva de escapar deles. E, de modo mais geral, devemos ser céticos em relação a qualquer narrativa endossada por aqueles à esquerda ou à direita que descreva as motivações de um movimento político como enraizadas em uma preocupação puramente altruísta com a justiça ou a virtude.

Talvez exista um certo tipo de esquerdista radical que pense que, se nacionalizássemos a Tesla e elegêssemos Jill Stein para a Casa Branca, a paz mundial seria declarada e Boots Riley poderia começar a dirigir comédias românticas para agradar ao público. Mas não há necessariamente nenhuma relação entre defender uma ideia ingenuamente benigna da natureza humana e apoiar ideias de esquerda. Aliás, se você acredita, como eu, que somos criaturas imperfeitas e potencialmente corruptíveis, o argumento a favor do socialismo se torna ainda mais forte.

O perfeccionismo e a esquerda

Um dos críticos mais sutis da esquerda nesse ponto foi Patrick Deneen, em seu livro inicial, Democratic faith [Fé democrática]. Deneen e outros pós-liberais são hoje mais conhecidos por suas críticas generalizadas ao liberalismo, que muitas vezes erram o alvo. Mas, em contraste com seus trabalhos mais recentes e polêmicos, Democratic faith oferece uma análise paciente e cuidadosa da história do pensamento político e das aspirações ambiciosas demais, por vezes atribuídas à busca por maior democracia e igualdade. Ele chega a descrevê-lo como uma crítica “amigável” a posições amplamente progressistas.

Deneen argumenta que os progressistas modernos abandonaram a antiga sabedoria que reconhecia a natureza decaída e imperfeita dos seres humanos. Ecoando Sowell, enquanto escritores clássicos como Santo Agostinho atribuíam as falhas sociais à natureza humana, a essência da moderna “fé democrática” seria atribuir as falhas da natureza humana às falhas sociais. Isso abre caminho para a afirmação de que, se apenas implementarmos as instituições e práticas sociais corretas, os seres humanos poderão ser aperfeiçoados.

“Não há necessariamente nenhuma relação entre defender uma ideia ingenuamente benigna da natureza humana e apoiar ideias de esquerda.”

Deneen reconhece que filósofos como Jean-Jacques Rousseau e John Dewey não eram ingênuos e idealistas em relação ao futuro. Eles frequentemente apontavam as muitas maneiras pelas quais os seres humanos ficavam muito aquém do ideal em suas relações uns com os outros e até demonstravam uma profunda compreensão psicológica da natureza do desejo, do ressentimento e da inveja humanos. Mas enquanto os conservadores tendiam a aceitar esses aspectos como constantes imutáveis ​​que precisavam ser reestruturadas a cada geração, os progressistas acreditavam que o progresso era possível. Para os pensadores esquerdistas, esse progresso não seria apenas material ou institucional, mas também moral e transformador. A educação, instituições mais justas e a tutela proporcionada pela vida democrática tornariam gradualmente os seres humanos melhores do que eram. Isso era um dogma para Deneen, já que a aspiração por uma maior perfeição humana sempre precisava ser projetada em um futuro incerto.

Deneen contrastou o otimismo dessa fé perfeccionista com aqueles que “enxergam nossa condição como a de criaturas parciais, frágeis, incompletas e insuficientes” e, portanto, desconfiam da crença no progresso. Deneen sugeriu aos defensores da igualdade que a aceitação de nossa natureza permanentemente decaída ainda poderia ser uma “ética democrática, dada sua origem no reconhecimento da parcialidade e fragilidade humanas”. Poderia até ser uma “ética fortemente igualitária — particularmente com sua ênfase em nossa insuficiência comum”, mas resistiria às reivindicações igualitárias daqueles que imaginavam uma futura igualdade de fraternidade desprovida de vulgaridade humana e das tentações de praticar o mal.

Deneen está inegavelmente certo ao afirmar que alguns atribuíram esperanças irrealistas ao que a mudança socialista poderia alcançar. Ocasionalmente, pensadores de esquerda anteciparam melhorias significativas em nosso ser intelectual e moral que nenhum sistema social, por si só, seria capaz de proporcionar. Um exemplo emblemático são as reflexões de Leon Trotsky, em 1924, sobre o homem comunista do futuro. Respondendo ao temor nietzschiano de que o comunismo levaria a uma homogeneização em massa, Trotsky projetou grandes esperanças sobre o potencial humano que o comunismo libertaria:

A estrutura que abrigará a construção cultural e a autoeducação do homem comunista desenvolverá todos os elementos vitais da arte contemporânea ao seu ápice. O homem se tornará imensamente mais forte, mais sábio e mais sutil; seu corpo se tornará mais harmonioso, seus movimentos mais rítmicos, sua voz mais musical… O ser humano médio alcançará a estatura de um Aristóteles, um Goethe ou um Marx. E acima dessa crista, novos picos se erguerão.

Trotsky hipotetizou que o homem socialista seria estética e intelectualmente perfeito. Mas muitos também cogitaram a possibilidade de aperfeiçoar moralmente as pessoas. Um bom exemplo dessa última tendência pode ser visto no recente livro de Vanessa Christina Wills, Marx’s Ethical vision [A visão ética de Marx]. Wills interpreta Karl Marx como (potencialmente) prevendo que a própria moralidade seria abolida em uma “sociedade comunista plenamente desenvolvida”. Isso porque os seres humanos teriam internalizado atitudes pró-sociais de forma tão completa que qualquer comportamento inadequado simplesmente deixaria de ser aceitável. Os seres humanos em uma sociedade comunista plenamente desenvolvida “não teriam mais obrigação moral de se comportar de maneira pró-social do que têm de ser primatas”, escreve ela.

Discordo da interpretação de Wills sobre Marx neste ponto, mas ela reflete uma visão ponderada do otimismo trotskista. Segundo essa perspectiva, na era do comunismo, a moralidade desaparecerá como o Estado. Os seres humanos se tornarão tão pró-sociais que não haverá mais necessidade de uma moral explícita; faremos o que é certo não porque seja o certo, mas porque jamais nos sentiríamos inclinados a fazer o contrário.

<><> Socialismo para realistas

Os críticos conservadores têm razão ao afirmar que alguns na esquerda alimentaram esperanças excessivas sobre as melhorias intelectuais e, sobretudo, morais que o socialismo traria para as pessoas comuns. Mas seus argumentos são exagerados ao sugerir que todos, ou mesmo a maioria, dos socialistas são excessivamente ingênuos quanto à natureza humana. Na verdade, um dos melhores argumentos a favor do socialismo é justamente que, ao desmantelar as concentrações de poder e proteger os vulneráveis ​​da dominação e da exploração, ele poderia ser mais eficaz no combate às falhas inerentes à humanidade. Isso ocorre ao mesmo tempo em que impõe maiores exigências éticas às instituições sociais, mesmo reconhecendo que os indivíduos frequentemente não conseguirão atendê-las.

“Um dos melhores argumentos a favor do socialismo é justamente que, ao desmantelar as concentrações de poder e proteger os vulneráveis ​​da dominação e da exploração, ele poderia ser mais eficaz no combate às falhas inerentes à humanidade.

O pensamento do teólogo Reinhold Niebuhr oferece reflexões a esse respeito. Inicialmente um marxista radical, Niebuhr posteriormente gravitou em direção a um liberalismo mais moderado, antes de se tornar cada vez mais crítico da política externa estadunidense. Durante seu período socialista, ele publicou um livro clássico, The children of light and the children of darkness [Os filhos da luz e os filhos das trevas], que defendeu profundamente o otimismo da esquerda em relação à vontade e o pessimismo em relação ao intelecto. Foi escrito no auge da Segunda Guerra Mundial, depois que Niebuhr e seus camaradas haviam acabado de testemunhar as mais terríveis barbaridades de que os seres humanos eram capazes.

Ele reconheceu que, para combater tal barbárie, um realista sobre a natureza humana precisava ser, em certa medida, radical na política. Afinal, liberais e conservadores pró-capitalistas haviam feito vista grossa à Grande Depressão e ao mergulho no fascismo. Entre outras reformas, a proteção contra os males de que os seres humanos eram capazes exigiria o questionamento da propriedade privada e da posse privada dos meios de produção. Niebuhr criticava duramente a “pressuposição predominante do pensamento liberal de que a propriedade representa, primordialmente, um poder ordenado e defensivo a ser usado contra a inclinação dos indivíduos a se aproveitarem dos outros”. A realidade era que “a propriedade, como qualquer outra forma de poder, não pode ser limitada ao propósito defensivo. Se se torna suficientemente forte, transforma-se em um instrumento de agressão e usurpação”. Nesse aspecto, “o marxismo está mais próximo da verdade do que o liberalismo na questão da propriedade”, por ter uma compreensão mais clara dos perigos que a propriedade privada dos meios de produção representa para todos — mesmo que os marxistas às vezes fossem excessivamente otimistas ao presumir que a socialização da propriedade poderia eliminar o comportamento predatório de uma vez por todas.

Numa era que coroou o primeiro trilionário do mundo, a análise de Niebuhr ressoa mais do que nunca. Um dos méritos da teoria liberal tem sido reconhecer que o poder corrompe, e que o poder absoluto corrompe absolutamente. Por essas razões, os liberais sempre entenderam que a concentração de poder é perigosa e, portanto, o poder deve ser disperso o mais amplamente possível. Mas, com exceção dos socialistas liberais, a maioria dos liberais tem sido, na melhor das hipóteses, cautelosa ao aplicar esse raciocínio à economia.

Este é um erro muito grave, pois é na esfera econômica que vemos com mais clareza como a concentração de riqueza leva à concentração de poder — e, a partir daí, aos comportamentos mais corruptos e dominadores de que os seres humanos são capazes. Em The children of light and the children of darkness, Niebuhr afirmou que a “capacidade do homem para a justiça torna a democracia possível, mas a inclinação do homem para a injustiça torna a democracia necessária”. Já passou da hora de os liberais reconhecerem a percepção socialista de que a inclinação humana para a injustiça torna a democracia econômica tão necessária quanto a democracia política.

Nesse sentido, em uma sociedade socialista liberal e democrática, as pessoas estariam mais seguras do que sob o capitalismo, e as vulgaridades da natureza humana seriam melhor atenuadas. Mas também acredito que o socialismo seria uma sociedade mais ética do que as alternativas, embora não de uma forma irrealista ou perfeccionista.

“É na esfera econômica que vemos com mais clareza como a concentração de riqueza leva à concentração de poder — e, a partir daí, aos comportamentos mais corruptos e dominadores de que os seres humanos são capazes.”

Em seu livro recente, Cosmic connections [Conexões cósmicas], o filósofo católico Charles Taylor defende o igualitarismo enfatizando que ele é mais exigente eticamente do que as visões conservadoras e hierárquicas. Estas últimas restringem nosso leque de obrigações éticas, insinuando que certos grupos privilegiados têm direito a uma atenção especial que outros não têm. Muitos dos pensadores antigos que Sowell e Deneen tanto apreciam citar não hesitariam em insistir que o povo ateniense poderia priorizar Atenas, mesmo que isso significasse escravizar o povo de Milo. Em contrapartida, a ética moderna exige que tratemos todos os seres humanos como iguais em termos morais — uma visão tão exigente que ainda não conseguimos estabelecer sociedades que a concretizem plenamente. Mas Taylor não é ingênuo ao pensar que, só porque o igualitarismo é uma ética mais exigente, somos, ou mesmo nos tornaremos, pessoas melhores. Em vez disso, ele acredita que nossos padrões éticos — por exemplo, aqueles defendidos na Declaração Universal dos Direitos Humanos — são mais elevados do que os da antiguidade e dos populistas do movimento “America First”. Taylor reconhece que as instituições igualitárias tentam, ainda que de forma imperfeita, estar à altura desses ambiciosos princípios universais e igualitários.

O socialismo seria mais eficaz em tentar instituir o respeito por esses princípios através da extensão da democracia à esfera econômica, eliminando assim certas tentações de dominação. Isso não levará necessariamente a maioria das pessoas a se tornarem versões melhores de si mesmas. O socialismo democrático não pode impedir que seu cônjuge a traia com seu melhor amigo. Mas pode garantir que, quando o processo de divórcio acontecer, você não fique completamente falida e que seus filhos não vejam suas próprias oportunidades de vida prejudicadas por causa da consequente dificuldade financeira. O socialismo democrático também não transformará seu vizinho egoísta em um bom samaritano. Mas criaria um sistema em que os impostos dele ajudariam a pagar por assistência médica de qualidade quando você ficar doente.

Um dos méritos do socialismo democrático seria alcançar altos padrões de justiça sem exigir perfeição moral, ou mesmo grande virtude, dos cidadãos comuns. Suspeito que, com o tempo, um espírito mais solidário emergiria e que a maioria dos cidadãos consideraria edificante o senso de comunidade ampliado. Mas o sistema funcionaria de qualquer forma. Nesse sentido, um socialismo viável atenderia aos apelos de Deneen por uma ética igualitária que reconheça nossa natureza imperfeita.

Hoje, não é a esquerda que é ingênua em relação ao mundo. Há cada vez mais evidências de que as instituições existentes enfrentam uma crise de legitimidade, com as pessoas comuns demonstrando crescente desprezo pelas concentrações oligárquicas de riqueza e poder que sustentam o status quo. No entanto, analistas de centro-direita e conservadores seguem insistindo que é ingenuidade exigir melhores cuidados de saúde e salários para todos. A verdadeira ingenuidade reside na ideia de que as coisas devem continuar como estão.

 

Fonte: Por Matt McManus - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

Como escolher um candidato

Em 4 de outubro próximo, cada eleitor brasileiro terá oportunidade de dar seis votos: para presidente, para governador, para dois senadores, para deputado federal e para deputado estadual (aqui em Brasília, distrital).

Temos três sistemas eleitorais diferentes nestas eleições. Presidente e governador são eleições majoritárias em dois turnos. Isto significa que, caso nenhum candidato obtenha 50%+1 dos votos válidos, isto é, de todos os votos, excluídos os brancos e nulos, os mais votados serão submetidos a uma segunda rodada de sufrágios. Os senadores são definidos de forma majoritária em turno único: os dois mais votados estão eleitos e pronto. São eleições mais simples, do ponto de vista da escolha do eleitor.

Há menos opções e muitas delas, na verdade a grande maioria, podem ser descartadas de antemão. O processo seletivo é mais simples e há apenas decisões de caráter estratégico a serem tomadas (como, eventualmente, votar num candidato menos preferido para evitar a vitória de outro, mais despreferido).

As eleições para deputado são as mais complicadas. O Brasil opera com o sistema de representação proporcional em distritos multinominais com listas abertas. Isto significa que em cada distrito elegemos vários deputados (as unidades da federação são os distritos). Assim, temos centenas de opções para votar em deputado federal ou deputado estadual/distrital.

As vagas são distribuídas proporcionalmente, de acordo com a votação obtida por cada partido ou federação partidária. A primeira distribuição das vagas corresponde aos números inteiros da regra de três. Isto é, se nós temos 10 vagas de deputados e o partido ou federação ficou com 13% dos votos válidos, ele teria 1,3 cadeira. Garantiu sua primeira vaga.

Como em geral são muitos partidos disputando, há muita quebra (o que fica depois da vírgula da regra de três). Não é incomum, nos estados menores, que metade ou até mais das vagas fiquem em aberto depois da primeira distribuição. Então, são feitas novas distribuições, seguindo o critério das maiores médias, que é simples, mas eu não vou me dar ao trabalho explicar aqui.

Detalhe importante: só os partidos ou federações partidárias que fizeram votação igual ou superior a 80% da primeira vaga (o “quociente eleitoral”) disputam as sobras. Os outros são excluídos, numa espécie de cláusula de barreira variável, que é muito alta nas unidades da federação menores e muito baixa nas maiores (10% dos votos válidos onde se elegem apenas 8 deputados federais, como Amapá ou o Distrito Federal, mas apenas 1,1% para a bancada federal de São Paulo).

Pronto: está feita a divisão de vagas por partidos e federações. Mas quais são os candidatos efetivamente eleitos? Aí entra a característica final de nosso sistema, o fato que as listas são abertas. Enquanto em outros países que adotam a representação proporcional são os partidos que definem previamente quais são os candidatos prioritários, que preencherão as vagas de representantes conforme elas sejam conquistadas (e portanto os eleitores votam apenas no partido), no Brasil os eleitores votam em candidatos individuais e é a quantidade de votos populares obtidos que hierarquiza a lista. É isso que gera complexidade maior para a escolha eleitoral.

Formalmente, meu voto é primeiro do partido e depois do candidato. Na prática, os candidatos fazem campanhas altamente personalizadas e é isso que orienta o voto do eleitor. Os candidatos ficam numa posição paradoxal: precisam que seus companheiros de partido façam boas votações, para garantir mais vagas para a lista, mas ao mesmo tempo esses correligionários não podem fazer tantos votos assim, a ponto de ficarem com as melhores posições. Mas o nosso sistema tem o mérito de conceder mais poder para o eleitor e menos para as burocracias partidárias.

Para complicar, mudanças recentes na legislação eleitoral, na verdade em contradição patente com a lógica do sistema, estabeleceram também exigências de votação individual. Havia casos de candidatos com baixíssima votação pessoal, mas que se elegiam porque a lista era beneficiada pela presença de um grande puxador de votos – como Miguel Arraes, em Pernambuco, em 1990, ou Enéas Carneiro, em São Paulo, em 2002. Tudo bem, porque o eleitor escolheu primeiro o partido, certo?

Não para o legislador brasileiro, que introduziu uma votação mínima equivalente a 10% do quociente eleitoral para que um candidato possa ser eleito. Este mínimo sobe para 20% no caso de disputa de sobras. Como, com isso, é possível que ainda restem cadeiras não preenchidas depois da distribuição das sobras, há agora uma terceira etapa, na qual, por decisão do STF, todas as cláusulas de barreiras caem por terra.

Dito isso, como escolher um candidato? Eu tendo a seguir um roteiro com cinco critérios.

Primeiro, não pertencer a um partido que abomino. Tenho que lembrar que, mesmo que a dona Maria ou o seu João sejam muito bonzinhos e bem intencionados, cada voto neles é um voto para sua lista partidária.

Segundo, o compromisso com uma agenda prioritária. Se eu pudesse, faria uma lista de pautas prioritárias que meu candidato deveria defender, incluindo a descriminalização do aborto, o reforço da laicidade do Estado, a ruptura de relações com o Estado genocida de Israel, o combate ao colapso climático, a garantia do financiamento da pesquisa científica, a proibição das apostas online, a taxação das grandes fortunas e, claro, a obrigatoriedade da disponibilização de cardápios físicos em restaurantes, lanchonetes e bares.

Mas tenho clareza de que seria pedir demais. Nem que eu mesmo me candidatasse – não apenas porque eu não levo jeito para a coisa e porque certamente não seria eleito (ver, abaixo, o quinto critério), mas também porque um único deputado não seria capaz de atuar em todas essas frentes.

Eu também gostaria de um candidato que não fizesse teatrinho nas redes sociais. Acho incrivelmente constrangedor ver um pretenso representante do povo – meu representante! – tentando fazer graça em palhaçadas mal ensaiadas, para “engajar” o público. Talvez seja uma batalha perdida.

Então, eu priorizo uma agenda minimalista. Com dois pontos. Um é a pauta para qual a esquerda não encontra com a simpatia dos liberais “autênticos”, da mídia “avançadinha” ou do centro “civilizado”: minha candidata ou meu candidato precisa ter compromisso com a defesa dos direitos da classe trabalhadora, os direitos que mais recuam por todo o mundo (segundo a pesquisa recente da Confederação Sindical Internacional) e recuaram também significativamente no Brasil nos últimos anos.

O outro é a defesa efetiva da democracia e dos direitos individuais, diante da visibilidade crescente de discursos que querem colonizar a esquerda a partir de perspectivas autoritárias, quer em chave stalinista, quer em chave identitarista.

Estamos em um momento em que boa parte da esquerda parece resumir a questão da representação à dimensão da representatividade. Não que esta última seja irrelevante, de forma nenhuma. Mas a escolha de representantes com compromisso programático claro e valores ético-políticos bem definidos é fundamental.

Daí meu terceiro critério: ninguém se ilude achando que teremos um poder legislativo muito diferente daquilo que é hoje. Continuaremos a ter uma extrema-direita muito forte e belicosa. As bancadas de esquerda serão minoritárias, muito minoritárias.

Por isso precisamos de representantes experimentados na luta popular. Gente que vem do sindicalismo, dos movimentos sociais, de alguma forma de militância e de construção coletiva – em vez de influenciadores criados no burburinho das redes. O embate discursivo é apenas um dos aspectos da atividade parlamentar. É necessária também competência para formular políticas, negociar, fiscalizar o exercício do poder, apoiar as mobilizações da sociedade civil.

Meu quarto critério é quase redundante com esse terceiro. Quero escolher candidatos que tenham disposição para o trabalho coletivo e resistam às tentações do personalismo. A busca desenfreada por visibilidade pessoal é uma das características que fazem com que, em algum momento, o sujeito acabe costeando o alambrado, como diria Leonel Brizola. Os exemplos não faltam.

É uma das coisas que me incomodam nessa campanha por uma “bancada da esquerda radical”. Não estou falando dos nomes – tem gente ali que eu respeito muito, outros que conheço pouco e também alguns que desprezo profundamente, não é esta a questão. Mas a pregação por uma “bancada” leva a crer que precisamos de parlamentares individuais alinhados com determinada posição.

Mas precisamos é de um partido de esquerda radical (o que não quer dizer dogmático, nem de longe). Esse, porém, ninguém quer construir. Não à custa de seus projetos personalistas.

A outra característica que leva o mesmo resultado – costear o alambrado – é o dinheirismo. Em suma, parece que temos aqui mais um critério que desestimula o voto em influencer.

Por fim, eu espero votar em gente com chance se eleger. Na situação em que nos encontramos, não podemos nos dar ao luxo de votar para marcar posição.

 

Fonte: Por Luis Felipe Miguel, em A Terra é Redonda

 

Duas pessoas não vacinadas na Pensilvânia morrem de sarampo nos EUA

A Pensilvânia registrou duas mortes relacionadas ao sarampo, enquanto o surto no estado se aproxima de 400 casos, informou o Departamento de Saúde estadual. Ambas as vítimas não haviam sido vacinadas.

Estas são as primeiras mortes relacionadas ao sarampo relatadas nos EUA em 2026 e as primeiras na Pensilvânia em 35 anos.

“Meus mais profundos sentimentos estão com os entes queridos que enfrentam essa perda inimaginável”, disse a Secretária de Saúde, Dra. Debra Bogen, em um comunicado. “Como médica, quero garantir que as pessoas entendam que a vacina MMR é segura e oferece a melhor proteção que temos contra o sarampo.”

As mortes ocorrem em um momento em que o Secretário de Saúde e Serviços Humanos dos EUA, Robert F. Kennedy Jr., lidera os esforços para implementar mudanças drásticas nas recomendações federais de vacinação, incluindo a vacina contra sarampo, caxumba e rubéola (SCR). Durante o mandato de Kennedy, as taxas de vacinação continuaram a cair em todo o país, deixando mais crianças vulneráveis ​​a doenças evitáveis.

Em 2021, Kennedy – que na época liderava a organização antivacina Children's Health Defense – visitou o condado de Lancaster, onde minimizou seu próprio caso de sarampo na infância e alimentou o medo das vacinas, sugerindo que elas causavam autismo e doenças autoimunes.

Na terça-feira, Kennedy ligou para o governador da Pensilvânia, Josh Shapiro, para oferecer ajuda de funcionários federais no combate ao sarampo, mas Shapiro disse que recusou porque acreditava que o estado poderia lidar com a situação com seus próprios recursos. Ele também afirmou ter dito a Kennedy que a desinformação que ele espalhou sobre as vacinas estava tendo repercussões.

“Espalhar desinformação tem consequências reais. Assustar as pessoas e não confiar em médicos e profissionais de saúde qualificados para fornecer informações imparciais aos pais, para que possamos tomar decisões sensatas para nossos filhos, também tem consequências reais”, disse Shapiro em uma coletiva de imprensa.

“Compartilhar teorias da conspiração e desinformação não ajuda a causa da saúde pública, e deixa as pessoas menos saudáveis ​​e menos seguras, além de colocar os pais em uma posição em que fica mais difícil para nós cumprirmos nosso papel de proteger nossos filhos, acrescentou.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC) afirmaram nas redes sociais que “estão trabalhando em estreita colaboração com os departamentos de saúde estaduais e locais para fortalecer os esforços de resposta, apoiar rapidamente as comunidades afetadas em todo o estado e comunicar as medidas que as pessoas podem tomar para retardar a propagação do sarampo. A vacina tríplice viral (MMR) oferece a proteção mais eficaz contra o sarampo e ajuda a prevenir sua disseminação. O CDC continuará seguindo o exemplo da Pensilvânia e fornecerá recursos para apoiar a resposta do estado.”

As duas mortes na Pensilvânia ocorreram em residentes do Condado de Lancaster. Autoridades de saúde informaram que não divulgarão mais detalhes.

A Pensilvânia confirmou 393 casos de sarampo em 28 condados em 2026, disse Bogen em uma coletiva de imprensa na terça-feira. Aproximadamente metade deles ocorreu no condado de Lancaster, afirmou ela.

Cerca de 20% dos casos na Pensilvânia este ano exigiram hospitalização. Entre os casos de sarampo confirmados pelo departamento de saúde, nenhum ocorreu em pessoas que receberam as duas doses recomendadas da vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola), acrescentou ela.

O vírus altamente contagioso continuou seu ressurgimento histórico nos EUA este ano, com um segundo ano consecutivo de recordes. O país registrou mais de 2.700 casos este ano, mais do que em qualquer outro ano desde 1991 – ultrapassando uma marca sombria que havia sido superada apenas no ano passado.

A doença foi declarada eliminada nos EUA em 2000, mas mais casos foram registrados no último ano e meio do que nos 25 anos anteriores juntos. Especialistas preveem que os EUA em breve perderão seu status de país eliminado, o reconhecimento da Organização Mundial da Saúde de que o sarampo não se transmite mais regularmente dentro do país.

Os primeiros sintomas do sarampo incluem febre, tosse, coriza e olhos vermelhos e lacrimejantes, disseram autoridades de saúde da Pensilvânia, e uma erupção cutânea surge alguns dias depois, começando na cabeça e se espalhando para baixo. Os sintomas podem começar de sete a 21 dias após a exposição.

O sarampo pode se espalhar quando uma pessoa infectada respira, tosse ou espirra, e o vírus permanece infeccioso no ar e em superfícies por até duas horas após a pessoa infectada deixar o local.

O sarampo pode causar problemas de saúde graves a curto e longo prazo, incluindo pneumonia e inchaço cerebral. Mortes relacionadas ao sarampo são raras, mas ocorrem em 1 a 3 pacientes a cada 1.000 casos.

“As pessoas se esqueceram da gravidade da situação, especialmente para os muito jovens, as grávidas e os muito idosos”, disse Bogen.

Duas doses da vacina MMR são 97% eficazes contra o sarampo. Autoridades de saúde da Pensilvânia recomendam doses precoces ou de reforço da vacina MMR para pessoas a partir de 6 meses de idade que não estejam totalmente protegidas.

“Essas mortes são totalmente evitáveis”, disse o Dr. Paul Offit, diretor do Centro de Educação sobre Vacinas e médico infectologista do Hospital Infantil da Filadélfia.

No ano passado, os EUA registraram as primeiras mortes por sarampo em décadas, incluindo duas crianças não vacinadas no Texas.

<><> Sobe para 26 o número de casos de sarampo confirmados em SP

A SES-SP (Secretaria de Estado da Saúde de São Paulo) informou, nesta quarta-feira (26), que registrou mais três casos de sarampo no estado, totalizando 26 pacientes diagnosticados em 2026. Segundo a pasta, os três infectados são da capital e não possuem histórico de vacinação.

Ainda de acordo com a secretaria, os casos foram registrados em um menino e uma menina, ambos menores de um ano, e em uma mulher de 30 anos.

Não há informações sobre o estado de saúde dos pacientes.

Dos casos de sarampo confirmados no estado paulista, 23 deles foram registrados na capital – alcançando 88% do total. Outros dois foram em São Bernardo do Campo e um em Guarulhos, ambos na Região Metropolitana de São Paulo.

Dezenove desses pacientes infectados não se vacinaram ou possuíam um esquema vacinal incompleto.

<><> A prevenção é a vacinação

O Governo de São Paulo ampliou a cobertura vacinal nos 645 municípios até 1º de setembro para atualizar a caderneta de vacinação de crianças e adolescentes até 15 anos. Crianças menores de 2 anos foram o grupo mais atingido pela doença.

Nas três cidades mais afetadas – São Paulo, São Bernardo do Campo e Guarulhos – a vacinação foi reforçada para pessoas de 6 meses a 59 anos.

Crianças de 6 meses a 11 meses e 29 dias recebem dose zero que é adicional e não substitui as previstas no calendário – 1ª dose com 1 ano e 2ª dose com 1 ano e três meses.

Há três tipos de vacina utilizadas para se proteger do sarampo. São elas:

  • Dupla viral: protege do vírus do sarampo e da rubéola. Pode ser utilizada para o bloqueio vacinal em situação de surto;
  • Tríplice viral: protege do vírus do sarampo, caxumba e rubéola;
  • Tetra viral: protege do vírus do sarampo, caxumba, rubéola e varicela (catapora).

<><> Contraindicações

Leia as recomendações abaixo para entender as contraindicações e as particularidades da vacinação:

  • Gestantes: a vacina tríplice viral é contraindicada para gestantes por ser produzida com vírus atenuados (enfraquecidos). Lactantes, no entanto, podem receber a vacina normalmente.
  • Imunodeficiência ou alergia: pessoas com imunodeficiência grave ou indivíduos com histórico de alergia grave (anafilaxia) a algum componente da fórmula também não devem tomar o imunizante.
  • Vacinas recentes: quem recebeu, nos últimos 30 dias, outra vacina de vírus atenuado, como as vacinas contra febre amarela ou varicela, deve aguardar um intervalo recomendado antes de tomar a tríplice viral. Verifique a data adequada em uma unidade de saúde.

<><> Sintomas

Os principais sintomas da doença são manifestados por manchas vermelhas pelo corpo e febre alta acima de 38,5º. Podem surgir também sinais de tosse seca, irritação nos olhos e mal-estar intenso.

 

Fonte: CNN Brasil

 

“A esquerda precisa fazer mais para imaginar o futuro”

A apropriação crítica dos impactos da tecnologia sobre o trabalho e as possibilidades de reorganização econômica pós-capitalista têm sido debates centrais das ciências sociais contemporâneas. Nesse contexto, a obra de Aaron Benanav emerge como uma das contribuições mais originais e provocadoras da última década. Professor do Departamento de Global Development na Universidade Cornell, Benanav combina história econômica, teoria social e análise empírica para questionar narrativas dominantes sobre automação, desemprego e o futuro do trabalho. Sua pesquisa percorre temas que vão desde a estagnação econômica e a desindustrialização até as disputas em torno de tecnologia, classe trabalhadora e democracia econômica.

Ao longo de sua trajetória acadêmica, que inclui um doutorado em História pela Universidade da Califórnia, Los Angeles, posições em instituições como a Universidade Humboldt e a Universidade de Chicago, além de contribuições em revistas e jornais acadêmicos e de grande circulação, como The New York Times, The Guardian, The Nation e New Left Review, Benanav consolidou-se como uma voz crítica que conecta passado e futuro do capitalismo global.

A chegada ao Brasil de seu livro Automação e o futuro do trabalho representa um marco significativo, já que a obra tem ocupado lugar de destaque no debate contemporâneo sobre tecnologia, emprego e dinâmica econômica global. Publicado originalmente em inglês em 2020 sob o título Automation and the Future of Work, o livro ganha agora uma edição em português pela Boitempo, oferecendo ao público brasileiro uma análise crítica robusta dos mitos e realidades que cercam a automação e o seu impacto sobre o mundo do trabalho.

Em vez de aceitar as narrativas dominantes que atribuem a crise do emprego à tecnologia em ascensão, Benanav reorienta a discussão para as contradições estruturais do capitalismo moderno – em especial a estagnação econômica de longo prazo, a desindustrialização e a incapacidade dos setores de serviços de absorver plenamente a força de trabalho – e propõe reflexões profundas sobre alternativas emancipatórias à lógica capitalista vigente.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Aaron, quais questões você está tentando responder no seu livro e por que ele é relevante para os leitores brasileiros?

O livro trata de como vivemos nesta era em que todos falam sobre automação e, agora, sobre inteligência artificial, e da ideia de que estamos vivendo um período em que tudo está se acelerando e ficando mais rápido – e como vamos acompanhar todas essas mudanças. E o que eu escrevo no livro é que, na verdade, muitos aspectos da nossa economia estão desacelerando e, de fato, estão estagnados. A economia não está tanto destruindo muitos empregos, mas sim deixando de criar muitos empregos.

Então, no livro, eu tento entender essa tensão entre essas duas perspectivas, que você também consegue perceber andando pelo Rio aqui. Essa sensação de que tudo deveria estar mudando dinamicamente, mas que, de várias maneiras, parece muito mais estagnado. E eu acho que o livro é muito relevante para o Brasil, que é um país onde, me parece, a economia está tendo muita dificuldade para encontrar esse motor de crescimento, e muito do livro é sobre isso.

·        O argumento central do livro desafia diretamente a perspectiva que atribui um enorme poder social à automação na destruição de empregos, embora ainda reconheça que a automação tem um impacto real. Você poderia elaborar um pouco mais sobre isso, destacando quais setores são realmente afetados e quais não são?

Quando você lê sobre isso na mídia, parece que todos os empregos correm o risco de serem eliminados pela automação e pela inteligência artificial. Mas, na prática, muito poucos empregos estão sendo eliminados. E quando você pergunta: “Bem, quais empregos estão desaparecendo?”, na verdade, muito poucas ocupações, como categorias inteiras, estão desaparecendo. O que está acontecendo mais concretamente é que os empregos estão mudando. Então, se você pensar na transição dos taxistas para Uber e outros tipos de trabalhadores de plataforma, os empregos ainda existem, mas o trabalho muda de caráter. Então, acho que vemos muito dessa transformação digital do trabalho e, em muitos casos, ela está tornando o trabalho pior.

E avalio que, quando o Vale do Silício nos diz que esses empregos estão todos desaparecendo, parcialmente isso serve para nos fazer sentir que não deveríamos lutar para tornar esses empregos melhores. Mas, na verdade, precisamos, sim, lutar para melhorá-los.

·        No livro, você argumenta sobre a ambiguidade das propostas de renda básica universal, que atravessam todo o espectro político. No Brasil, essa demanda certamente é vista como uma posição de esquerda, talvez até de esquerda radical. Você poderia elaborar sobre essa ambiguidade política que o livro aponta?

No livro, eu explico que não devemos tratar a renda básica e programas como o Bolsa Família como uma bala de prata, como uma solução definitiva para os problemas. Mas isso não significa que esses programas não tenham um papel importante. Na verdade, eu acho que, muitas vezes, o Estado de bem-estar social – especialmente nos Estados Unidos – é muito punitivo. Ele faz com que as pessoas pobres precisem se esforçar muito para conseguir acesso à ajuda. Então, acho que há algo muito positivo na ideia de tornar os programas sociais mais universais e de fazer com que ajudem mais as pessoas pobres e aquelas que precisam de assistência imediata.

Não acho que haja necessariamente algo ruim nisso. De fato, existe algo bastante positivo em defender uma ampliação da ajuda aos pobres e seu acesso à renda básica universal. Mas o problema é que isso não vai resolver nossos problemas. E, como imagino que vocês já vejam aqui no Brasil, se a economia mais ampla não estiver crescendo rapidamente, então até mesmo esses programas passam a enfrentar muitas pressões por austeridade e redução da assistência. Então, apenas ter uma renda básica, por si só, não vai resolver os problemas maiores da economia.

·        Em seu livro, você utiliza a expressão “greve do capital” para se referir ao fato de que, nas últimas décadas, o capital tende a permanecer ocioso ou a ser direcionado para aplicações financeiras, compra de ações, aquisição de ativos e outras formas de valorização que não implicam a criação de novos postos de trabalho. Esse tema nos pareceu particularmente difícil de resolver politicamente. Que caminho você sugeriria para superar essa verdadeira trincheira do poder de classe?

Diria que esse é um bom exemplo, porque se você tem uma renda básica, ela pode ajudar a aliviar parte da pobreza e da privação, mas não consegue resolver o problema de que, numa economia como esta, os capitalistas simplesmente não estão investindo. E eles usam sua capacidade de reter investimentos para dizer ao governo: “Vocês precisam criar um ambiente de negócios melhor para nós. Precisam reduzir proteções trabalhistas. Precisam remover regulações ambientais e assim por diante, para que fiquemos mais encorajados a investir.”

E eu penso que esse é um problema realmente difícil. A solução, na minha visão, é aumentar fortemente o investimento público e deslocar o investimento privado lucrativo em direção a essa forma mais pública de investimento. E aí você pode investir na construção da infraestrutura de que as pessoas realmente precisam para viver boas vidas. Acho que pode haver uma luta real entre o setor privado e o setor público. Mas isso é muito difícil de fazer, porque o Estado está majoritariamente a serviço do capital, então ele só quer melhorar as coisas para os ricos, em vez de enfrentar o poder deles.

·        Uma seção incomum em livros críticos sobre o capitalismo que o seu livro oferece é o capítulo seis, “Necessidade e liberdade”, no qual você delineia os contornos de uma sociedade pós-escassez. Qual foi sua intenção ao incluir esse capítulo no livro?

Uma das razões pelas quais fiquei muito interessado no debate sobre automação e IA é que as pessoas que falam sobre isso oferecem alguma visão de futuro que deveríamos tentar alcançar. Elas dizem: “Olhem, não deveríamos nos opor a essas tecnologias que podem acabar com empregos, porque talvez um dia possamos viver num mundo em que não precisemos trabalhar e possamos aproveitar a vida e encontrar sentido nela de outra forma.”

E acredito que há algo muito bonito nessa ideia, nessa tentativa de imaginar um futuro melhor. Eu só acho que o futuro que eles oferecem está errado. Não é um futuro em direção ao qual estamos caminhando nem um futuro que faça sentido tentar construir. Mas podemos imaginar outros futuros que não exigem que a inteligência artificial elimine todos os empregos e planeje toda a economia para nós. Podemos imaginar outros futuros que ainda sejam muito bons sem precisar disso.

Assim, no livro, tento explicar o que significaria viver num mundo no qual usamos a tecnologia para nos ajudar a viver vidas com dignidade e segurança, vidas numa economia ecologicamente mais sustentável, em que todos trabalhem menos e tenham acesso ao que precisam. Mas esse também é um mundo em que compartilhamos tanto os fardos do trabalho quanto os frutos desse trabalho.

Então, sim, no meu ponto de vista, a esquerda precisa fazer mais para imaginar esse futuro, especialmente depois do fracasso do socialismo de Estado no século XX. Acho que precisamos fazer mais para imaginar e apresentar às pessoas uma visão positiva do que poderia vir a seguir.

·        Existe uma crítica implícita aos marxistas contemporâneos nessa seção, como se você estivesse sugerindo que o pensamento revolucionário carece de criatividade e precisa sonhar mais? Está correto?

Penso que isso é verdade. Acho que realmente precisamos sonhar mais. Marx disse algo como: quando o movimento da classe trabalhadora estiver mais desenvolvido, não precisaremos mais de utopias. Mas, na verdade, depois da morte de Marx, no final do século XIX, justamente quando o movimento operário estava ficando muito forte, foi quando surgiram todas essas imaginações utópicas.

E, de fato, o livro mais popular na Alemanha entre os membros do Partido Social-Democrata no final do século XIX não era O capital, de Marx, mas sim Mulher e socialismo, de August Bebel, que apresentava toda uma visão de futuro que se tornou muito poderosa para as pessoas. Então acho que deveríamos escrever livros sobre “mulheres e socialismo” hoje, mas também livros sobre como esse futuro poderia ser no século XXI. Acho isso importante.

·        Como você responderia à crítica de que seu livro apresenta, assim como os autores que você critica, uma posição utópica e não imanente?

Acredito que, quando vivemos tempos em que a economia está bastante estagnada e há muita luta social que não consegue encontrar um programa coerente e inspirador, a demanda por algo assim corresponde muito ao espírito do momento. E algo que percebi é que, justamente quando comecei a trabalhar nisso, muitas outras pessoas também começaram, porque isso parece uma necessidade do nosso tempo, de uma forma que me parece muito conectada às lutas sociais, e não algo externo a elas.

·        Na sua visão, quais deveriam ser as principais tarefas da reflexão marxista hoje?

Creio ser um pouco difícil para mim dizer o que isso significaria aqui no Brasil. Muitas vezes, essas questões são muito contextuais, e é importante respeitar a autonomia da organização política e as particularidades de cada lugar. Então, eu teria um pouco de cautela com isso.

Mas eu diria que, nos Estados Unidos, minha experiência é que entramos numa era em que ser crítico do Vale do Silício e dos grandes magnatas da tecnologia se tornou algo bastante difundido. As críticas ao capitalismo já são muito conhecidas. E, na verdade, avançar para uma abordagem mais construtiva, em que não apenas dizemos o que está errado na sociedade, mas também o que queremos construir, parece muito importante agora, pelo menos onde eu vivo.

·        As plataformas digitais e os algoritmos representam uma nova fase do capitalismo ou apenas novas formas de gerir o trabalho precário?

Acho que são novas formas de gerir o trabalho precário. Sou muito cético em relação às ideias de que entramos numa fase de tecnofeudalismo ou capitalismo rentista, ou a essas tentativas de nomear a era com um novo termo. Acho apenas que o capitalismo continua existindo num período de baixo crescimento e estagnação.

E, em períodos assim, acredito que as empresas fazem um esforço especial para encontrar tecnologias que aumentem a exploração, retirem renda dos trabalhadores e a transfiram para os capitalistas. Há muito menos espaço para qualquer tipo de pacto social ou negociação e muito mais esforço para introduzir tecnologias que enfraqueçam o trabalho. E não avalio que isso seja algo especial de uma nova era. É apenas uma característica do capitalismo. Agora, as tecnologias digitais se tornaram a principal ferramenta para fazer isso, mas usar novas tecnologias para suprimir as demandas dos trabalhadores acontece há duzentos anos.

·        A expansão do trabalho informal e precário é resultado da tecnologia ou da estagnação econômica?

Creio ser importante dizer que isso decorre de muitas coisas. A expansão do trabalho informal e precário aconteceu ao longo de todo o século XX – obviamente mais na segunda metade do século XX – e continuou até hoje. E muitos fatores estiveram envolvidos. Houve a expulsão do trabalho agrícola do campo, a expansão demográfica das populações urbanas, as falhas da industrialização em empregar muitas pessoas nas áreas urbanas e a desindustrialização precoce, especialmente no Brasil, mas também em toda a América Latina nos anos 1980.

Então, penso que a produção desse tipo de setor de baixos salários, baixa renda, baixo crescimento de produtividade, majoritariamente de serviços e alguma atividade industrial informal e precária já acontece há muito tempo. E acho que a emergência da economia de plataformas apenas apresenta uma nova forma de organizar esse trabalho para o capital, mas não é diretamente responsável pela produção dessas populações.

Na verdade, países que apresentam crescimento econômico mais acelerado veem o setor informal diminuir. Então, isso é realmente um fenômeno de demanda insuficiente por trabalho e crescimento insuficiente.

·        Nesse sentido, como analisar a dinâmica do excedente de trabalho, especificamente na América Latina?

Sabemos que os marxistas latino-americanos vêm analisando isso há muito tempo, desde os anos 1960. Houve, especialmente na Argentina e em outros países da região, diversas teorias marxistas sobre marginalidade e população excedente. Naquela época, muitos analisavam isso em termos de uma espécie de capitalismo monopolista e da teoria da dependência. Hoje existem também as teorias do neoextrativismo, que procuram explicar essa dinâmica especificamente na América Latina.

O que considero útil nessas abordagens é que todas elas ajudam a explicar por que tem sido tão difícil fazer com que as elites empresariais e políticas latino-americanas apoiem até mesmo um programa desenvolvimentista moderado. Existe uma pressão muito forte para manter tudo dentro dessa lógica extrativista.

Então, acho que há uma produção intelectual muito importante vinda da América Latina para explicar esse fenômeno de maneira específica. Talvez o meu trabalho ajude a situar isso dentro de um contexto mais global, porque as pressões que existem aqui também estão ocorrendo em várias partes do mundo.

·        Se o problema central é a estagnação econômica e não simplesmente a automação, quais seriam as respostas políticas mais adequadas?

Como eu disse antes, considero muito importante respeitar a autonomia da política em diferentes regiões. Por isso, não sou a pessoa mais indicada para dizer o que as pessoas deveriam fazer aqui.

Mas, no livro, desenvolvo uma ideia que chamo de “conquista da produção”. Defendo que é importante não apenas lutar por programas de bem-estar social de inspiração social-democrata, mas realmente disputar o controle do Estado e transformar a economia.

Acredito que um amplo programa de investimento público, capaz de construir a infraestrutura necessária para uma economia muito mais orientada para o bem-estar, poderia confrontar de forma séria o poder do capital de moldar a nossa sociedade.

Mas penso que, em última instância, somente quando conseguirmos deslocar plenamente o capital e construir uma economia verdadeiramente pública, haverá potencial para alcançarmos um mundo semelhante ao que descrevo no último capítulo do meu livro.

É um problema difícil, mas considero fundamental que lutemos por essas transformações.

·        Para finalizar, você poderia nos fornecer uma pista, mesmo correndo o risco de dar um spoiler, sobre o que está escrevendo a respeito dos cenários de pós-capitalismo?

O último capítulo do livro sobre a automação serviu como ponto de partida para um trabalho que venho desenvolvendo há cinco anos, com o objetivo de construir uma explicação muito mais completa.

E, na verdade, daqui a algumas semanas será publicado um programa de transição bastante detalhado sobre como passar de uma sociedade capitalista para um futuro socialista. Acredito que esse programa não apenas garantiria às pessoas aquilo de que necessitam, mas também lhes daria condições reais de participar da construção da economia e da sociedade em que vivem, de forma verdadeiramente democrática.

No novo trabalho, apresento esse programa de transformação. Para mim, portanto, não basta ter uma visão de futuro. É preciso mostrar como essa visão pode orientar uma política capaz de nos conduzir efetivamente a esse novo mundo.

Penso que a grande dificuldade na América Latina, e também em muitas outras partes do mundo, é o elevado grau de dependência em relação à economia global. Isso torna muito difícil promover mudanças em um único país, ou mesmo regionalmente, sem transformar também a ordem internacional, especialmente a ordem monetária e financeira internacional, que considero um dos principais obstáculos para que qualquer região consiga romper com essa dependência.

Acho que vimos isso acontecer na América Latina, onde houve diferentes momentos e ondas de governos e movimentos de esquerda que enfrentaram enormes dificuldades para consolidar um caminho alternativo de desenvolvimento.

Portanto, essas são questões extremamente difíceis, mas, justamente por serem as mais importantes, é nelas que devemos concentrar nossa atenção.

 

Fonte: Entrevista com Aaron Benanav, por Marco Aurélio Santana (UFRJ), Tiago Magaldi (Unesp), Alexandre Fraga (Uerj) e Renata Monteiro (UFRJ), no Blog da Boitemp