quinta-feira, 28 de maio de 2026

“No socialismo, quem ‘manda’ é a política”, afirma Roberto Sáenz

O argentino Roberto Sáenz, lançou neste sábado, 23 de maio, sua obra O marxismo e a transição socialista: Estado, poder e burocracia na Festa de Aniversário do Marx em São Paulo. O evento aconteceu a partir de 10h no Espaço Cultural Elza Soares. Aproveitando a ocasião, realizamos uma entrevista com o autor argentino.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Para começar, quem é Roberto Sáenz?

Sou militante socialista revolucionário desde 1983 e, atualmente, dirigente da Corrente Internacional Socialismo ou Barbárie. Tenho uma vasta experiência militante junto ao movimento operário e, posteriormente, à juventude. Além disso, sou apaixonado pelos problemas da perspectiva socialista autêntica, marcado pelas questões abertas pela queda do Muro de Berlim e pela necessidade de interpretar esses acontecimentos.

Depois de dedicar muitos esforços para extrair as conclusões das experiências não capitalistas do século XX – isto é, de seu caráter progressivo, mas também de sua burocratização e posterior degeneração –, combinado com a experiência militante e um profundo esforço de investigação, comecei a escrever esssa obra, que trata do processo de transição ao socialismo, de seus matizes, de seus desenvolvimentos desiguais e combinados, e que, ainda que inclua elementos de balanço do stalinismo, é dedicada particularmente a compreender a dialética do que significa a passagem de uma sociedade capitalista para uma sociedade comunista.

Nesta ocasião, estamos apresentando o tomo I da obra, que é dedicado ao problema do Estado, do poder, da burocracia e do poder da classe operária, da democracia socialista. Já está em preparação um segundo tomo, que será dedicado às leis da economia da transição.

·        Qual é a ideia geral de O marxismo e a transição socialista?

A ideia da obra é que a revolução socialista não se resume apenas à mudança da forma de propriedade, mas significa a tomada do poder pela classe operária, com suas organizações e seus programas. Aquilo que Marx denominou como ditadura do proletariado, isto é, a forma política finalmente descoberta para iniciar a passagem do capitalismo ao socialismo e, posteriormente, ao comunismo.

O primeiro tomo procura demonstrar que, após a tomada do poder pela classe operária, coloca-se, com maior ou menor urgência, a expropriação da propriedade burguesa. Porém, a marca central da sociedade de transição é a capacidade do proletariado e de suas organizações de se manterem à frente do poder, garantindo que a propriedade e a produção social estejam realmente nas mãos da classe trabalhadora e de seus aliados.

Somente assim a produção do sobreproduto social não será utilizada para gerar novas formas de desigualdade e o enriquecimento de uma camada privilegiada. Foi isso o que ocorreu nos Estados burocráticos, nos quais uma camada se elevou acima da classe trabalhadora, apropriou-se do sobreproduto social e, dessa forma, distorceu o processo de transição ao socialismo.

A transição é um processo que também requer uma expansão internacional e, além disso, tempo, porque não se pode abolir a exploração do trabalho de um dia para o outro, já que ainda não existe um excedente de forças produtivas. Por esse motivo, não é a mesma coisa se o excedente que continua sendo gerado pelo trabalho humano é controlado pela classe operária, com suas organizações e partidos, ou se, ao contrário, é controlado por uma burocracia.

Diante do que foi exposto, há um ponto nodal nas sociedades de transição, dado que o problema do poder adquire uma dimensão de sobredeterminação sobre os processos. Como dizia Trótski, a transição ao socialismo é um processo consciente, isto é, que não ocorre espontaneamente. A transição ao socialismo é um processo que deve se impor por meio da luta de classes em nível internacional e, em certo sentido, nacional, apresentando uma dinâmica entre economia e política distinta daquela que conhecemos no capitalismo.

No capitalismo, por assim dizer, a economia manda e todo o restante do edifício social se organiza em torno disso. Na transição ao socialismo, embora a economia imponha limites e possibilidades que clamam pela revolução mundial, quem “manda” é a política (mais exatamente, o poder proletário).

·        No livro, problematiza-se a categoria de Estado operário, particularmente em referência ao conceito de ditadura do proletariado. Em que reside a diferença entre ambas as categorias?

A categoria de Estado operário é uma abstração. Na tradição clássica do marxismo, inclusive do trotskismo, ela é muito genérica. Supõe-se que exista uma classe dominante – a classe trabalhadora. Porém, trata-se de uma definição excessivamente geral, que incorre em uma equiparação equivocada, pois pouco esclarece sobre quem realmente detém o poder do Estado. De fato, é uma categoria
que Marx não utilizou. Em contrapartida, o conceito de ditadura do proletariado é mais claro, já que indica de forma muito mais direta quem realmente possui o poder.

Além disso, remete muito mais à definição de Marx na Crítica do Programa de Gotha, na qual ele assinala que o momento político é negativo (a revolução, a tomada do poder e o exercício do poder pelo proletariado) e antecede o processo de transformação social, que requer tempo, porque obviamente não pode se reduzir a um mero fato político, mas constitui um processo econômico-social que não se produz de um dia para o outro.

Em outras palavras, não há mágica, porque a exploração não se extingue por decreto. A riqueza humana continua dependendo do esforço do trabalho humano, além da natureza (logicamente, no marco de relações metabólicas saudáveis). Dessa forma, faz toda a diferença se o sobreproduto social é apropriado por uma burocracia ou pela classe trabalhadora à frente de seu Estado, com seus partidos e seu governo. István Mészáros, bastante conhecido no Brasil, falava em extração política do mais-valor. Eu desenvolvo outra formulação, a da autoexploração, proposta por Pierre Naville (embora exista proximidade entre ambos os conceitos).

Por isso, sustento que o conceito de Estado operário é demasiado difuso e genérico, e deu margem a interpretações nas quais se qualificaram como “operários” Estados que já não o eram. Foi o caso da URSS na década de 1930 que, naquele momento, já não estava sob o comando do proletariado, pois havia se produzido uma contrarrevolução econômico-social.

O conceito de ditadura proletária, ao contrário, remete muito mais ao domínio efetivo da classe operária sobre o poder político, condição necessária para que os elementos de autoexploração do trabalho que subsistem após a revolução socialista revertam em uma melhoria das condições de vida das massas, e não em sua exploração.

Logicamente, há um elemento clássico da análise do marxismo revolucionário e do trotskismo que permanece. As condições materiais para a transformação social continuam exigindo a expansão internacional da revolução e a apropriação das alavancas econômicas alcançadas pela humanidade sob a forma do capitalismo, que constituem as condições materiais para pôr fim à exploração e para a transformação do trabalho humano em “atividade” (um conceito que estará presente no tomo II da obra, e que não nega o metabolismo material entre a humanidade e a natureza).

Em suma, a transição é um processo longo, no qual é preciso evitar que a extração de mais-valor derive no desenvolvimento de novas formas de exploração nas mãos da burocracia. Por este motivo, István Mészáros insistia, em Para além do capital, que a transição exige que o trabalho morto não domine o trabalho vivo, isto é, que as trabalhadoras e os trabalhadores dirijam efetivamente os meios de produção.

·        Há um elemento inovador na obra, pois você recupera a elaboração de Christian Rakovsky para aprofundar a reflexão sobre a natureza social da burocracia nos Estados burocráticos. A partir disso, você formula o conceito de classe política. O que isso significa e qual é sua utilidade para compreender a burocracia stalinista?

Há uma ideia equivocada na elaboração clássica do trotskismo (não tanto em Trótski, em A revolução traída, de 1936), segundo a qual a burocracia stalinista seria uma mera burocracia, um elemento parasitário no organismo saudável do Estado operário.

Leon Trótski, por sua vez, dizia que a burocracia stalinista era muito mais do que uma mera burocracia, mas menos do que uma classe orgânica. Definição que, como tal, é correta, e que nós articulamos com a ideia de classe política de Christian Rakovsky.

Junto a isso, houve uma série de definições sobre as sociedades de transição abortadas ou burocratizadas. Diferentes correntes assimilaram mecanicamente as sociedades de transição — ou a própria Revolução Russa — a formas de capitalismo de Estado, o que é ridículo. No caso da Revolução Russa e da experiência bolchevique, é absurdo considerar que ela não tenha sido proletária e socialista, pois destruiu o Estado burguês e expropriou a burguesia.

Da mesma forma, é mecânico considerar os Estados não capitalistas como “capitalismos de Estado”. Também constitui um abuso dos termos caracterizar a burocracia como uma classe capitalista forjada a partir da economia. Precisamente retomando a análise de Christian Rakovsky, a burocracia é antes uma classe política, porque se trata de uma camada social privilegiada que se forma a partir do Estado e não surge diretamente da economia.

É mais do que uma mera burocracia. Trata-se de uma camada que se constitui a partir do domínio do aparelho de Estado, apropriando-se do mais-valor gerado na produção e alterando o caráter do próprio Estado. Este deixa de ser operário porque a classe operária perde o poder e, consequentemente, transforma-se em um Estado burocrático, já que subsistem relações de autoexploração ou de extração política do mais-valor, mas agora sob um Estado que passa a estar sob o domínio da burocracia.

Então, há um jogo conceitual em torno da ideia de classe política que retomamos de Christian Rakovsky, que, por sua vez, a retoma da Crítica da filosofia do direito de Hegel, escrita por Karl Marx em 1843, na qual afirma que a burocracia é um tecido de ilusões práticas, o Estado como duplicação da sociedade e como papelada.

Nós sustentamos que, no caso da ex-URSS e dos Estados burocráticos, a burocracia não foi uma mera duplicação da realidade, mas passou a constituir um dos polos da relação de exploração entre o trabalho vivo e o trabalho morto. Assim, aquilo que era um tecido de ilusões práticas transformou-se em um tecido real.

Christian Rakovsky é quem afirma que, de um Estado operário com deformações burocráticas, a URSS passou a se transformar em um Estado burocrático com resquícios operários. Parece-nos que essa definição de Rakovsky lança mais luz sobre o que ocorreu na experiência do stalinismo do que a conceitualização clássica de Estado operário burocratizado, segundo a qual o Estado operário seguiria sendo “saudável” e a burocracia parasitária seria vista como uma “verruga” no rosto que produzia problemas.

A nosso ver, o Estado mudou de caráter e se transformou em um Estado não capitalista que, embora devesse ser defendido enquanto país não capitalista diante das potências imperialistas – ou dos nazistas, no caso da Segunda Guerra Mundial –, deixou de ser um Estado operário já nos anos 1930 e, após um longo processo de decadência, culminou na queda do Muro de Berlim. Mas não é que tenha existido um Estado operário até o final dos anos 1980; já fazia várias décadas que a URSS havia deixado de ser soviética ou operária, transformando-se em um Estado burocrático com restos das conquistas da revolução.

Isso foi mais do que uma mera burocracia, mas menos do que uma classe orgânica, como dizia Leon Trótski. É justamente aí que incorporamos o conceito de classe política de Christian Rakovsky, isto é, o fato de uma classe privilegiada que se constitui a partir do comando do Estado, e não da economia, mas que posteriormente se introduz nas relações econômicas como um dos polos da equação, dando lugar a uma exploração de novo tipo, embora não capitalista. Assim, não se pode identificar automaticamente como Estados operários todos os países onde o capitalismo foi expropriado.

·        Para concluir, qual é a diferença entre propriedade estatizada e propriedade social? E qual é sua relevância na hora de fazer um balanço das experiências do século XX?

Isso é muito importante, porque houve uma tendência a definir o Estado pelo caráter da propriedade, que é uma relação derivada, como já assinalava Karl Marx nas cartas a Annenkov, de 1846.

A propriedade estatizada com base na expropriação da burguesia é, evidentemente, uma propriedade não capitalista, mas isso não quer dizer que seja uma propriedade operária. A reapropriação da propriedade pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores é um processo de socialização da produção, que confere todo o conteúdo às formas de propriedade estatizadas. A propriedade estatal, como tal, pode ter um caráter anticapitalista sem ser operário, porque a questão central é em quais mãos está a propriedade.

Há uma passagem muito bonita em A revolução traída, na qual Trótski diz que, se um navio é declarado propriedade de todo o povo, mas os dirigentes navegam na primeira classe enquanto os trabalhadores e camponeses viajam na quarta classe, para os dirigentes a transformação da propriedade será tudo, mas para os operários e camponeses ela não será nada. Por isso, ele afirma que a transformação jurídica da forma de propriedade não resolve o problema da reapropriação real dos meios de vida e de produção pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores.

A perspectiva do comunismo real é a reapropriação dos meios de produção e da propriedade pelas trabalhadoras e pelos trabalhadores, e isso significa que efetivamente existe um processo de passagem da estatização (do comando superestrutural da produção) à socialização da produção, o que denota uma gestão mais coletiva (isso não quer dizer federalismo ou descentralização).

Atribuir à propriedade estatizada um caráter operário em si foi um erro, porque a questão central está em quais mãos se encontra a propriedade, e isso encobre todo um processo mais profundo, que não remete à propriedade em si, mas às relações sociais metabólicas reais, as quais precisam ser emancipatórias e se traduzir em uma elevação do nível de vida das massas, logicamente em correspondência com o contexto internacional.

Então, a propriedade em si não define o caráter do Estado e, quando falamos de propriedade social, estamos falando efetivamente de uma reapropriação dos meios de produção e de vida pelas grandes massas. Pierre Naville afirma que o conceito de propriedade sempre se estabelece em oposição a alguém. Na transição da passagem ao comunismo, a própria ideia de propriedade deveria tender a se dissolver.

À luz disso, o conceito de propriedade social pode servir para explicar que o processo de socialização da propriedade e da produção consiste na reapropriação real dos meios de produção e de vida por setores crescentes das massas exploradas e oprimidas.

A propriedade estatal não define, em si mesma, o caráter operário da propriedade. Trata-se de um debate muito apaixonante, e o importante é compreender as relações econômicas reais subjacentes à propriedade, isto é, se a propriedade estatal é operária na medida em que dê lugar à melhoria das condições de vida das massas.

O conceito de propriedade social está profundamente vinculado ao poder do proletariado: se os meios de produção estiverem realmente nas mãos da classe trabalhadora, isso irá no sentido da transição ao socialismo. Se ocorrer o contrário, tenderá a gerar índices crescentes de desigualdade e o relançamento de novas formas de exploração não orgânicas, como consideramos ter ocorrido, em última instância, nos Estados não capitalistas. No caso da Revolução Russa, há uma sequência que passa por um Estado operário autêntico, ainda que marcado por inúmeros problemas e desigualdades; pela passagem a um Estado burocrático com resquícios operários; e, por fim, pela restauração capitalista.

 

Fonte: Por Por Víctor Artavia - Tradução de Mariah Sinem, no Blog da Boitempo

 

A passagem da Coluna Prestes pelo Maranhão

No dia 11 de novembro de 1925, a Coluna Prestes partindo de Porto Nacional (hoje Tocantins) adentra o Maranhão e é recebida em Carolina, Grajau e outras localidades do sul do estado com festa e cortejo. Ao contrário do que acontecia em outras partes do país, onde a Coluna era apresentada como medo, no Maranhão (e Piauí) a Coluna era um símbolo de esperança.

A saga da Coluna, que começara na junção da 1ª. Coluna da Revolução Paulista e da Rebelião Gaúcha de Santo Ângelo, funde-se em Catanduvas (PR) em fins de 1924 e dá-se início a sua gloriosa epopeia, que percorreu cerca de 25 mil quilômetros, treze estados, dois países, contou com um contingente inicial de 1.500 homens e um pouco mais de 4 dezenas de mulheres (as vivandeiras) e algumas crianças, participou de mais de 600 combates contra forças regulares do exército, polícias estaduais, jagunços e cangaceiros, saindo de todas vencedora , invicta!

Tornando-se um dos feitos militares e políticos mais importantes da história do Brasil e do mundo, referência a “Grande Marcha” de Mao Tse Tung e a muitos movimentos de libertação nacional.

<>< Conjuntura mundial e nacional

O mundo vivenciou entre 1914 e 1919 a Primeira Guerra Mundial, foi um espetáculo dantesco de destruição em massa. Durante a guerra os países europeus giraram a indústria a produção bélica e reduziram a produção de bens de consumo e alimentos; por sua vez, os países produtores como o Brasil viram suas receitas aumentarem em larga escala, a produção cresceu em mais de 50% e os lucros bem que dobraram (BANDEIRA, 1980. p.49) levando o importante líder político e empresarial Achilles Lisboa a propor em palestra, na poderosa Sociedade Agrícola Maranhense, que o trabalho deveria ser compulsório, para atender as demandas externas (LISBOA, 1918).

O término do conflito é acompanhado por uma crise geral do sistema capitalista, em especial, pela eclosão da Revolução Russa que pôs fim ao monopólio da produção capitalista, com isso aprofundou as contradições internas abrindo uma nova etapa na organização mundial.

Os países capitalistas centrais, vitoriosos ou não, conheceram movimentos sociais revolucionários influenciados pelo regime soviético, o que aterrorizou a burguesia mundial (SODRE, 1978).

Por seu lado, os países dependentes, que tiveram razoável saldo comercial durante o período bélico, veem a sua balança comercial comprimir, o Brasil segue a mesma toada, o fim da guerra vem acompanhado por uma grande crise econômica na década de 1920, com a redução do preço do café e a necessidade de contrair empréstimos estrangeiros para equilibrar a balança interna, isso vem acompanhado do aumento das importações e como consequência aumento da inflação e do custo de vida, levando a inquietações sociais.

A monocultura cafeeira via seus preços caírem e parte dos cafeicultores drenaram seus capitais para a nascente indústria. Este processo desencadeia e reforça os elementos deletérios dentro da estrutura do “Pacto dos Governadores” e a política do “Café com Leite”, levando ao fortalecimento da nascente burguesa industrial e a exigência de mudanças sociais.

<><> Eleições de 1922 e o nascimento do tenentismo

Os questionamentos se avolumam e convergem para eleições de 1922, o presidente Epitácio Pessoa, mesmo sendo paraibano, fora uma escolha das oligarquias paulistas e mineiras, fez um governo autoritário, uma ditadura disfarçada, que teve que enfrentar as greves operárias, a organização do proletariado no nascente PCB, o descontentamento das classes médias urbanas, a busca de espaços da nascente burguesia industrial, a inquietude dos artistas e produtores de cultura, a inconformidade dos militares e a dissidência e oposição de vários estados provinciais.

O núcleo do questionamento era a corrupção, o voto de cabresto e as fraudes eleitorais, a falta de um planejamento de desenvolvimento e reinvindicações de melhoria no ensino. O núcleo ideológico é um liberalismo radical. O ano de 1922, ano do centenário da independência, é um ano de expectativas de mudanças. (PRESTES, 1995)

A indicação Café com Leite do mineiro Arthur Bernardes para a sucessão de Epitácio Pessoa é contraposta pelas dissidências (gaúcha, fluminense, baiana e pernambucana) com Nilo Peçanha, compondo a chamada Reação Republicana. A campanha é marcada por forte tensão tendo como o centro a questão das Cartas Falsas.

Em 9 de outubro de 1921, no diário carioca oposicionista Correio da Manhã, são publicadas duas cartas supostamente escritas por Bernardes com ofensas a honra do Marechal Hermes da Fonseca e das Forças Armadas, os militares que estavam indispostos com o governo Pessoa, por conta do baixo soldo, subiram o tom com reuniões no Clube Militar e se engajaram na candidatura de Nilo Peçanha. Mesmo tendo sido provado que as cartas eram falsas, o estrago já estava feito.

Após a eleição de Arthur Bernardes, boa parte da sociedade se posiciona contrária à posse de seu governo, especialmente o baixo oficialato e a soldadesca. (SODRE 1978, PRESTES, 1995).

“Eles eram dezoito…

Os mais partiram

Tanto que a causa, enfim, viram perdida.

Eles – dezoito apenas – preferiram

Ficar, quando ficar custava a vida…(…)

E eles foram lutar em campo aberto

O peito, não de ferro, mas de ralos

Pedaços de bandeira só coberto

Que torpeza insultá-los!”

(Schaffenberg de Quadros).

As conspirações contra a posse, em 5 de julho, correm os quarteis, a intenção era clara: derrubar o governo e impedir a posse de Arthur Bernardes. Em 5 de julho é marcado um grande levante militar, mas na hora H só o Forte de Copacabana se sublevou.

O Forte de Copacabana é cercado por forças legalistas que exigem sua rendição incondicional, o Capitão Euclides Hermes da Fonseca, comandante da cidadela sitiada, é preso quando negociava com o governo. O Tenente Antônio Siqueira Campos, já sub ataque pesado de terra, mar e ar, dá o direito de escolha aos amotinados e declara que resistirá e lutará até o fim pelo ideal. Ficaram 18 que marcharam pela Avenida Atlântica rumo ao Catete, no caminho somou-se o estudante de engenharia Otávio Correa.

As forças legalistas, com mais de 2000 soldados, abrem fogo, só 2 sobreviveram: os tenentes Eduardo Gomes e Siqueira Campos, gravemente feridos. O governo declara estado de sítio e as prisões e a censura à imprensa foram amplamente realizadas.

Na sociedade uma comoção tomou conta do país, “os Dezoitos do Forte”, ganharam as páginas dos jornais e as conversas, sua rebeldia, seu idealismo, suas vidas e honra eram comentados por toda parte. Um pouco depois, em 29 de julho, foi decretada a prisão do presidente do Clube Militar, Marechal Hermes da Fonseca, por seu apoio velado ao levante da guarnição do Pernambuco.

A pose de Bernardes, em 15 de novembro, não refluiu a tensão e seu governo foi feito em estado de sítio e com forte perseguição aos opositores, fortaleceu a inquietação e as conspirações dos tenentes e demais opositores (PRESTES, 1995)

<><> Revolução paulista de 1924

Após a intervenção de Arthur Bernardes nos governos dissidentes do Rio Grade do Sul, Pernambuco e Rio de Janeiro e a perseguição implacável à Reação Republicana, o movimento tenentista trama uma nova rebelião, desta vez em São Paulo, segunda cidade do país, o maior parque industrial. São Paulo vivia a transição de uma pacata cidade para uma metrópole, naquele instante a metade da população era composta por imigrantes que tinham fugido da miséria europeia nos pós Primeira Guerra.

O plano contava com levantes em vários quarteis e a força pública estadual, que seriam acompanhados com sublevações em outros estados. Em 5 de julho acontece o levante, os quarteis militares e da força pública se rebelam, no início esperava-se que a capital fosse tomada em poucas horas, mas a resistência do governador Carlos Campos foi dura e só após quatro dias de combates recuou para a longínqua Penha.

Lourenço Moreira Lima, que saiu do Rio de Janeiro para somar-se com os amotinados, relata o apoio espontâneo da população que comemorava a revolução, movimentos sociais como os sindicalistas e anarquistas pediram armas ao comandante da revolução, General Isidoro Lopes Dias, o que foi recusado.

Porém, conforme o cerco e o bombardeio das forças legalistas se multiplicavam, principalmente sobre os bairros e vilas operárias, e as escassez de alimentos aumentava, foram formados três batalhões estrangeiros recebendo o nome das maiores colônias migradas: o batalhão alemão, húngaro e italiano, que óbvio não eram compostos só por essas nacionalidades, por exemplo o italiano, contava também com portugueses, espanhóis, franceses e brasileiros. Esses batalhões tiveram papel importante nos combates, pois muitos dos seus membros participaram da guerra na Europa, destacando os alemães que tinham aviadores, peritos em artilharia e metralhadoras, mecânicos e operários qualificados.

Outro fator importante é ideológico, alguns eram simpatizantes da social democracia, do anarquismo e do comunismo. O comandante do Batalhão húngaro, Maximiliano Agid, fora capitão na Revolução Húngara de 1918, acusado por setores reacionários da colônia húngara de ser comunista, este fator foi fundamental para desencadear uma campanha antibolchevique por parte dos legalistas e das elites brasileiras e paulistas. Bernardes não poupou críticas e promessa de vingança aos “mercenários” e após 28 dias de intenso bombardeio sistemático à capital paulista, principalmente nos bairros operários, levando ao êxodo de 60% da população, os revolucionários foram obrigados a se retirar. Destaca-se que após a retirada, a repressão às colônias, aos que se renderam e ao proletariado foi intensa e houve um verdadeiro massacre dos amotinados, simpatizantes ou suspeitos.

A Coluna Paulista ruma para o Mato Grosso, mas é detida por imensas forças legais em Três Lagoa (MS), resolvem se reagrupar em Catanduvas (PR), perto do tríplice fronteira, e lá permanecem sem capacidade de mobilidade, cercadas pelas forças legalistas do General Cândido Rondon. (AQUINO, 1998)

<><> A revolta gaúcha

“A coluna marcha

Na frente dos cavalos,

das cidades, dos sertões

Na frente das ondas,

do fogo, das promessas”

(Murilo Mendes)

O cerco dos revolucionários paulistas no meio das florestas paranaenses gerava indignação de toda a oposição e, principalmente, no tenentismo. Várias conspirações e tentativas de revoltas aconteceram no ano de 1924, mas será com a soma dos Maragatos do caudilho Assis Brasil e dos tenentes do Rio Grande do Sul que surge a Coluna Gaúcha, em 29 de outubro de 1924. Seguindo o roteiro de todo levante tenentista, a organização falha e no fim só quatro quarteis de Santo Ângelo e São Borja se insurgem.

Após alguns dias de combate, as forças legalistas conseguem desbaratar a revolução, que só conseguiu sobreviver na região de São Luís Gonzaga, graças à ausência de ferrovia nas proximidades e à liderança de Luiz Carlos Prestes. Somou-se aos insurgentes alguns tenentes importantes, que estavam exilados no Uruguai e Argentina, entre os quais destacam-se: João Alberto, Cordeiro de Faria e o herói dos Dezoito do Forte, Siqueira Campos.

Neste instante, cercado pelas tropas legalistas, começou a se formar a “Coluna Invicta”. Prestes contava com cerca de 1500 combatentes entre civis e militares e precisou transformar este agrupamento revoltoso num movimento político militar revolucionário, foi necessário o convencimento político de que cada combatente – civil ou militar – estavam lutando contra a tirania de Arthur Bernardes, por melhorias de vida e por um Brasil melhor. Destaca-se que os combatentes não tinham soldo, não tinham qualquer benefício e eram punidos por qualquer saque, pilhagem ou destrato às populações.

Os combatentes lutavam por um ideal político, essas ideias começaram a ser divulgadas através do Jornal Libertador, por onde a Coluna veiculava seus manifestos e programa político, foram feitos ao longo da marcha 10 números que eram distribuídos na sociedade. Destaca-se que o Jornal Libertador era dirigido pelo maranhense José Maria dos Reis Perdigão, que em 1930 foi governador (interventor) indicado pela Revolução de 1930.

Durante o mês de dezembro o governo destinou mais de 14 mil soldados para enfrentar os revoltosos, cercando-os em São Luís Gonzaga, a situação era vista como de derrota certa, a tática do exército brasileiro era de guerra de posição, ou seja, uma formação parada enfrentando outra formação. Luiz Carlos Prestes, ciente de que não tinha como enfrentar um inimigo tão superior em armas e soldados, colocou a tropa em movimento e passam ao largo das colunas do exército sem serem percebido, e ainda venceu em combate às tropas da reserva, onde morreu o comandante geral desta guarnição (PRESTES, 1995).

Ao entrar em Santa Catarina, metade dos combatentes resolvem permanecer no seu Rio Grande enquanto os demais seguiram para se juntar às tropas paulistas de Miguel Couto e de Isidoro Dias. Foram mais 40 dias de marchas forçadas, fazendo picadas em matas fechadas e com frequentes combates às forças legalistas. E num desses combates, na região de Maria Preta, em Santa Catarina, que a Coluna ganhou destaque nacional, duas tropas legalistas objetivaram cercar a Coluna pelos francos, só que ela se retirou e as tropas legalistas ficaram combatendo entre si durante toda a noite, com um saldo de mais de 200 soldados legalistas mortos. (PRESTES 1995, SODRÉ 1978).

Somente em abril de 1925, os revolucionários gaúchos e paulistas se encontraram. Em 12 de abril foi feita a reunião entre os dois comandos, o clima era de derrota entre os paulistas e de ânimo vitorioso entre os gaúchos. Luiz Carlos Prestes fez um discurso enérgico, conclamando a continuidade da luta, boa parte do comando paulista não concordou e se exilou na Argentina. Houve uma reorganização geral, o Marechal Isidoro Dias e outros oficiais idosos e os enfermos foram dispensados da nova marcha e se exilaram na Argentina. A Coluna foi dividida em dois comandos: a Paulista, com sub comando de Juarez Távora e a Gaúcha, com Prestes. O comando geral coube a Miguel Costa.

Entretanto, a situação era dramática, os revolucionários tinham diante de si as tropas legalistas do General Rondon, que se aproximavam para derrotá-los, e noutro franco três rios caudalosos e profundos: Paraná, Iguaçu e o Piquiri. O plano de Prestes consistia em entrar em território paraguaio, marchar 125 km e sair no Mato Grosso. E dessa forma foi feito.

Quando soube da retirada para o Paraguai, o presidente Arthur Bernardes declarou em todos os meios de comunicação a derrota da Coluna, e três dias depois teve que se retratar, ela havia reaparecido no Mato Grosso e atacado as tropas do Major Bertoldo Klinger, daí seguiu realizando ataques e retiradas, até que em 11 de novembro a Coluna Atravessa o rio Tocantins e entra no Maranhão.

 

Fonte: Por John Kennedy Ferreira, em A Terra é Redonda

 

O que sonhos no fim da vida dizem sobre nós

Florence está sentada à mesa da cozinha. O marido está ali, a filha também. Eles riem juntos, jantam — como antigamente. Com uma diferença: os dois — marido e filha — estão mortos há anos.

"Parecia tão real", relembraria Florence mais tarde. "Como se nunca tivéssemos sido separados." Aquilo não era um sonho comum, e sim um encontro, insistiu. E assegurou que nunca teve sonhos tão vívidos assim antes. Não sentiu medo, e sim uma profunda tranquilidade — a certeza de que voltará a ver os dois. Ela morreu cinco dias depois.

Muitas pessoas relatam experiências assim no fim da vida. Na maioria das vezes, elas vêm em sonhos; outras vezes, como visões em estado de vigília. Para quem as vivencia, costumam parecer mais reais do que sonhos comuns; para quem está de fora, podem soar estranhas.

A ciência se refere a essas experiências como "End of Life Dreams and Visions” (ELDVs), ou sonhos e visões do fim da vida. Durante muito tempo, a medicina as tratou sobretudo como manifestação de confusão súbita/delírio ou efeito de medicamentos. Hoje, porém, está claro que essa explicação é insuficiente.

<><> Estudo mostra: nove em cada dez relatam sonhos no fim da vida

O neurobiólogo e médico americano de cuidados paliativos Christopher Kerr estuda sonhos e visões no fim da vida desde o final da década de 1990. Os exemplos descritos neste artigo foram extraídos de relatos documentados por ele em sua pesquisa sobre cuidados paliativos.

Ao longo de cerca de dez anos, ele e sua equipe acompanharam até a morte mais de 1.400 pacientes em unidades de cuidados paliativos — mas os entrevistavam apenas quando estavam lúcidos e sem sinais de delírio.

O resultado: cerca de 90% relataram pelo menos uma vez sonhos ou visões desse tipo — independentemente de idade, origem ou condição social. Kerr descreve essas pessoas como "extraordinariamente lúcidas e atentas". Elas não pareciam confusas, e sim focadas, despertas, introspectivas.

Elisa Rabitti, psicóloga e autora principal de um estudo italiano recente sobre ELDVs, reforça esse ponto: "Os sonhos do fim da vida costumam ocorrer em pessoas capazes de relatar suas experiências de forma coerente — com plena atenção e orientação".

<><> Viagens, reencontros e pertencimento são temas frequentes nos sonhos

Os sonhos são vívidos, carregados de significado — e aumentam em frequência e intensidade à medida que a morte se aproxima. Com frequência, incluem encontros com parentes ou animais de estimação falecidos, que retornam para oferecer conforto.

Muitos sonhos giram em torno de viagens, de preparativos, de um "estar a caminho". Relações são reativadas e conflitos, resolvidos. Culpa e arrependimento vêm à tona. "Quanto mais perto as pessoas chegam da morte, mais esses sonhos envolvem os falecidos", afirma Kerr. Tempo e distância espacial perdem a importância.

<><> Religião quase não tem papel nas visões

O fato de alguém ser religioso ou não parece ter pouca relevância. Nas pesquisas de Kerr, pessoas religiosas e não religiosas relatam vivências semelhantes. No centro delas estão temas universais como amor, vínculo e perdão — não dogmas.

Os ELDVs não devem ser confundidos com experiências de quase morte. Estas costumam surgir de forma abrupta em situações extremas agudas. Já os sonhos do fim da vida se desenvolvem ao longo de dias ou semanas. São menos espetaculares — menos marcados por luzes ou túneis — e mais voltados às relações.

Por isso, Kerr não os descreve como revelações, mas como momentos de ordenação interior: a sensação de, no fim da vida, estar novamente "organizado" ou "recomposto".

<><> Consolo (ou confronto) necessário

A maioria dessas experiências é reconfortante. Nos estudos de Kerr, elas foram descritas predominantemente como calmantes e cheias de sentido. Algumas, porém, também podem ser angustiantes ou perturbadoras.

Justamente esses sonhos, diz Kerr, podem ser especialmente transformadores, porque trazem à tona questões não resolvidas, como sentimentos de culpa ou arrependimento.

Um exemplo é Sierra. Ela tem pouco mais de vinte anos, um filho pequeno e uma doença incurável. Por muito tempo, não consegue aceitar o diagnóstico. As conversas com a equipe médica não a alcançam. Em uma visão, Sierra vê o avô falecido. Ele lhe diz que tem muito orgulho dela, e que está tudo bem. Depois disso, algo muda. Sierra encontra a paz. Uma semana depois, ela morre.

Para Kerr, esses sonhos não são produtos aleatórios do cérebro. "Essas experiências oferecem uma possibilidade terapêutica natural", afirma. Elas alcançam as pessoas onde a linguagem médica muitas vezes esbarra em seus limites.

Rabitti também ressalta: os sonhos são um encontro menos ameaçador com a morte, diferente de conversas diretas sobre o tema, que podem sobrecarregar.

<><> Por que os sonhos ficam mais intensos no fim da vida

Os ELDVs surgem com frequência nos últimos dias ou semanas de vida por razões biológicas. Kerr descreve o processo de morrer como uma fase de sono crescente. "Ninguém morre acordado", observa.

Com ritmos de sono vigília alterados, o olhar se volta mais para dentro. As exigências externas perdem importância. "As pessoas tendem a pensar nas coisas mais importantes, e isso geralmente são nossos relacionamentos", diz Kerr.

Do ponto de vista biológico, é possível explicar por que esses sonhos surgem, afirma ele. Mas processos cerebrais, sozinhos, não explicam por que esses sonhos são reconfortantes, tornam conflitos visíveis ou ajudam a organizar a própria vida.

Quanto ao momento em que ocorrem, Rabitti alerta contra interpretações simplificadas. Sonhos do fim da vida não são prenúncios confiáveis da morte. Sonhos vívidos também podem ser expressão de uma revisão normal da vida — sem relação direta com o processo de morrer.

"Os sonhos não preveem a morte — é mais o contrário: a morte iminente pode estar associada a certos sonhos", diz ela. "Correlação não é prova de causalidade."

<><> O que esses sonhos significam para os familiares

O impacto dos ELDVs não termina com a morte. Estudos mostram que familiares que tomam conhecimento desses sonhos ou os vivenciam junto com o doente muitas vezes lidam melhor com a perda e elaboram o luto de forma mais serena.

É o caso de Jennifer. Seu companheiro gravemente doente, Patrick, sonha com a avó falecida, que lhe revela o ingrediente que faltava em um molho que ele nunca conseguira reproduzir: uma colher de chá de açúcar. Apesar de já estar muito debilitado, ele cozinha a receita mais uma vez junto com Jennifer. Pouco depois, morre.

Para Kerr, é justamente aí que se percebe por que esses sonhos importam. "Quando essas experiências são explicadas corretamente, elas têm valor", diz ele. A morte deixa de ser vista apenas como algo biológico, marcado por decadência e sofrimento, e passa a ser percebida também como algo que pode conter amor e sentido. Transmitir essa perspectiva é fundamental.

Jennifer viveu isso na prática. "Patrick tinha encontrado a paz", diz ela. "E, sinceramente: se o último sonho da sua vida é sobre molho de espaguete, dificilmente existe algo mais reconfortante." Para ela, esse sonho foi um alívio. Ela soube: Patrick estava pronto para partir.

<><> "Esterilizamos o morrer"

Para Kerr, os ELDVs revelam uma dimensão da morte que a medicina moderna negligenciou por muito tempo. "Morrer não é o fracasso de órgãos isolados, mas o encerramento de uma vida", afirma.

Nas gerações passadas, o ato de morrer foi cada vez mais afastado do cotidiano: das casas, das famílias, da comunidade. "Esterilizamos o morrer", diz Kerr.

O resultado é um abismo entre o que as pessoas desejam para o fim da vida — como proximidade e familiaridade — e o que muitas vezes vivenciam: uma medicina que trata o morrer sobretudo como um processo técnico e organizacional.

O fato de sonhos e visões no fim da vida voltarem a receber mais atenção hoje é, para Kerr, uma reação a esse vazio. Talvez esses sonhos falem menos sobre como morremos e mais sobre o que nos sustenta até o fim: relações, proximidade — e a necessidade de que alguém esteja presente.

 

Fonte: DW Brasil

 

IA, polarização e desinformação: os desafios das eleições de 2026 na América Latina

Em 2026, ao menos 58 países realizarão eleições no mundo. Na América Latina, cinco nações irão ou já foram às urnas escolher seus representantes políticos: além do Brasil, integram essa lista Colômbia, Peru, Haiti e Costa Rica.

Na região latinoamericana,  o calendário eleitoral de 2026 se desenrola em um ambiente digital profundamente transformado, marcado pela ampla disseminação de ferramentas de inteligência artificial generativa, por mudanças nas políticas de moderação das grandes plataformas e por níveis elevados de polarização política.

Pesquisadores e organizações que monitoram a integridade informacional na região apontam que o ciclo eleitoral de 2026 tende a intensificar tendências já observadas em pleitos recentes, com destaques para campanhas desinformativas sobre fraude eleitoral, ataques a jornalistas e violência política de gênero agravada por IA.

Especialistas apontam que, apesar de alguns avanços pontuais, muitos países da região ainda operam com marcos eleitorais pouco adaptados às dinâmicas do ambiente digital. 

“As normas ainda estão muito focadas nos formatos analógicos. O que vemos hoje são campanhas digitais com influenciadores e estratégias de monetização que ficam completamente fora das regras eleitorais”, afirma Jamila Venturini, diretora executiva da Derechos Digitales. 

Segundo ela, isso faz com que grande parte das respostas à desinformação dependa da atuação de jornalistas e organizações de checagem, atores que também se tornaram alvos frequentes de ataques políticos.

<><> Mudanças na moderação das plataformas ampliam incertezas

Outro fator que preocupa pesquisadores é a transformação recente nas políticas de moderação das grandes plataformas digitais. Nos últimos anos, empresas reduziram equipes de confiança e segurança, flexibilizaram regras sobre determinados conteúdos e ampliaram discursos centrados na defesa irrestrita da liberdade de expressão, especialmente com a volta de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos.

Segundo Venturini, “a flexibilização da moderação teve um efeito muito visível em plataformas como o X, com aumento de conteúdos de violência e discriminação que acabam sendo explorados por campanhas políticas”, diz.

A especialista também aponta que, em vários países da região, ainda não existem canais claros de cooperação entre plataformas e autoridades eleitorais, o que dificulta respostas rápidas a campanhas coordenadas de desinformação.

Ao cenário se somam as mudanças nos próprios modelos de verificação de informações adotados pelas plataformas. Em alguns casos, empresas têm encerrado programas estruturados de checagem de fatos realizados por organizações jornalísticas independentes e migrado para sistemas baseados em contribuições da comunidade, como mecanismos de notas ou verificações colaborativas entre usuários.

<><> Deslegitimação das eleições como estratégia política regional

A disseminação de narrativas que colocam em dúvida a integridade dos processos eleitorais também aparece como uma tendência mais ampla no debate político latino-americano. Para especialistas, esse tipo de discurso tem sido utilizado como ferramenta de mobilização política e de erosão da confiança pública nas instituições democráticas.

Helena Salvador, coordenadora de Mobilização e Campanhas do Pacto pela Democracia, afirma que o fenômeno está inserido em uma dinâmica global. “A descredibilização do processo eleitoral é um fenômeno associado a dinâmicas de autocratização. Narrativas que colocam em dúvida a lisura das eleições deixam de ser críticas institucionais legítimas e passam a funcionar como instrumentos de desestabilização democrática”, explica.

Segundo ela, episódios recentes ilustram essa tendência. Durante o atual ciclo eleitoral colombiano, por exemplo, declarações do presidente Gustavo Petro questionando o sistema de votação geraram controvérsia pública. Situação semelhante ocorreu no Chile, quando aliados do candidato de extrema direita José Antonio Kast levantaram dúvidas sobre a confiabilidade do processo eleitoral.

Estratégias desse tipo também apareceram este ano na Costa Rica, onde circularam imagens manipuladas envolvendo candidaturas e conteúdos destinados a descredibilizar o tribunal eleitoral, adversários políticos e veículos de imprensa, em alguns casos impulsionados por atores ligados ao campo governista.

<><> Brasil: disputa de 2026 testa preparo institucional contra desinformação

No Brasil, as eleições gerais estão marcadas para 4 de outubro de 2026, com possibilidade de segundo turno presidencial em 25 de outubro. O cenário político indica que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deve disputar a reeleição, enquanto a direita chega ao pleito fragmentada após a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, em setembro, por tentativa de golpe de Estado.

Bolsonaro permanece inelegível e indicou o senador Flávio Bolsonaro como pré-candidato à presidência. A indicação, no entanto, não reúne consenso dentro do campo conservador. Entre os nomes que também aparecem como possíveis candidatos estão os governadores Tarcísio de Freitas (Republicanos), de São Paulo; Ratinho Júnior (PSD), do Paraná; e Romeu Zema (Novo), de Minas Gerais.

Apesar da forte polarização política, especialistas avaliam que o Brasil chega ao novo ciclo eleitoral com maior preparo institucional para lidar com campanhas de desinformação do que em pleitos anteriores. Segundo Helena Salvador, nos últimos anos houve avanços importantes no reconhecimento da necessidade de regular plataformas digitais e fortalecer as regras eleitorais como forma de proteger o ambiente informacional.

“A gente tem hoje um arcabouço eleitoral mais robusto para lidar com a integridade informacional”, afirma. Ela destaca que instrumentos como o Código Eleitoral e as resoluções do Tribunal Superior Eleitoral passaram a ser cada vez mais utilizados como mecanismos de proteção do debate público durante o processo democrático.

Também se observa um esforço do TSE para ampliar a transparência do processo eleitoral e fortalecer a interlocução com a sociedade civil. Para Salvador, esse diálogo tem papel estratégico na construção de confiança nas instituições. “É importante que os canais de diálogo construídos ao longo dos últimos anos sejam preservados, independentemente de mudanças de liderança nas instituições”, diz.

A especialista também ressalta que a própria sociedade civil brasileira chega a este novo ciclo eleitoral mais preparada para enfrentar campanhas de desinformação. “Há hoje mais maturidade institucional e capacidade técnica, resultado da observação dos ciclos eleitorais recentes e do intercâmbio com organizações internacionais”, explica. 

<><> Colômbia: eleição presidencial ocorre em ambiente de forte disputa e desinformação

A Colômbia também terá um calendário eleitoral intenso em 2026. As eleições legislativas estão marcadas para 8 de março, mesma data em que os partidos devem realizar consultas internas para definir seus candidatos presidenciais. O primeiro turno da eleição presidencial ocorre em 31 de maio e, caso nenhum candidato alcance maioria absoluta, um segundo turno está previsto para 21 de junho.

O atual presidente, Gustavo Petro, não poderá disputar a reeleição. Entre os nomes associados ao campo governista aparecem o senador Iván Cepeda, além de Roy Barreras e Camilo Romero. Na oposição, despontam pré-candidatos como Mauricio Cárdenas, Vicky Dávila, Juan Manuel Galán, Aníbal Gaviria, David Luna, Juan Daniel Oviedo e Paloma Valencia.

Para José Sarmiento, diretor da Colombiacheck, o ambiente informacional já demonstra sinais de forte disputa narrativa. Segundo ele, a campanha “está muito carregada de desinformação”, tanto para atacar candidaturas quanto para gerar dúvidas sobre o sistema eleitoral. O especialista aponta que uma das novidades deste ciclo é o uso ampliado de IA generativa para produzir conteúdos manipulados envolvendo candidatos, por exemplo, montagens que os associam a guerrilhas, declarações falsas ou situações destinadas a prejudicar sua imagem pública.

Outro fator citado é a circulação de supostas pesquisas eleitorais sem metodologia clara, situação semelhante à observada na Bolívia nas eleições presidenciais do ano passado. Após a aprovação de uma nova lei que restringiu a divulgação formal de pesquisas de opinião, parte do debate público passou a ser preenchida por “sondagens informais, dados sem contexto ou cálculos baseados em redes sociais”, muitas vezes difundidos como se fossem pesquisas legítimas.

Sarmiento também alerta para o papel de autoridades políticas na amplificação de dúvidas sobre o processo eleitoral. Segundo ele, “o Executivo – especialmente o presidente – está alimentando suspeitas de fraude com base em informações falsas”, algo que, em sua avaliação, difere de ciclos anteriores.

Do ponto de vista institucional, o diretor da agência de checagem afirma que houve poucos avanços estruturais em relação às eleições passadas. Algumas instituições eleitorais passaram a investir mais em ações de pedagogia pública sobre o funcionamento do sistema de votação, mas o cenário também é marcado pelo enfraquecimento de organizações da sociedade civil que atuam na integridade eleitoral. 

A redução recente de recursos de cooperação internacional afetou iniciativas de monitoramento e checagem de fatos, o que pode limitar a capacidade de resposta à desinformação durante o processo eleitoral.

<><> Haiti, Peru e Costa Rica: eleições em cenários distintos na região

Na Costa Rica, as eleições presidenciais e legislativas ocorreram em 1º de fevereiro. A candidata de direita Laura Fernández foi eleita presidente ainda no primeiro turno. Além do cargo presidencial, também foram escolhidos dois vice-presidentes e os 57 integrantes da Assembleia Legislativa do país.

No Haiti, o calendário prevê a realização de eleições gerais em 30 de agosto, com possibilidade de segundo turno presidencial em 6 de dezembro. Caso ocorram, serão as primeiras eleições no país em quase uma década. O processo acontece em meio a uma grave crise humanitária e à escalada da violência provocada por gangues armadas.

O Conselho Eleitoral Provisório estabeleceu as datas, mas alertou que a realização do pleito depende de garantias mínimas de segurança e da disponibilidade de recursos financeiros. Sem essas condições, há risco de que as eleições sejam novamente adiadas.

Já no Peru, as eleições presidenciais e legislativas estão previstas para 2 de abril, com eventual segundo turno marcado para 7 de junho. O processo ocorre em um cenário de forte fragmentação política: há um número recorde de pelo menos 34 candidatos inscritos, e as pesquisas indicam que nenhum deles deve alcançar mais da metade dos votos na primeira rodada.

Entre os nomes que aparecem com maior visibilidade estão o prefeito de Lima, Rafael López Aliaga, declarado simpatizante de Donald Trump, e a ex-deputada Keiko Fujimori, que disputa pela quarta vez a presidência, cargo que já foi ocupado por seu pai, Alberto Fujimori. O resultado definirá o nono presidente peruano em apenas uma década, em um país marcado por sucessivas crises institucionais e mudanças no comando do Executivo.

<><> Os principais desafios nas eleições da América Latina

De acordo com especialistas, esses são alguns dos principais desafios que os países latinoamericanos deverão enfrentar nas eleições de 2026:

>>>> Uso de dados e estratégias de distribuição digital

  • Uso sofisticado de dados para segmentação eleitoral:

-  campanhas têm ampliado estratégias de extração e uso de dados para direcionamento de mensagens políticas. Autoridades eleitorais e órgãos reguladores tentam responder com orientações e regras sobre proteção de dados, mas a região ainda apresenta forte desigualdade institucional nesse campo. Em vários países, os marcos de proteção de dados são recentes, frágeis ou pouco fiscalizados.

  • Distribuição multiplataforma de desinformação: 

- conteúdos enganosos circulam simultaneamente em diferentes plataformas – de redes abertas como X (antigo Twitter) e TikTok até aplicativos de mensagens privadas. Na América Latina, especialistas destacam o papel central do WhatsApp, onde conteúdos são frequentemente redistribuídos em diferentes formatos, como imagens, vídeos curtos e mensagens encaminhadas em cadeia.

  • Uso combinado de automação e moderação estratégica: 

- redes coordenadas que combinam automação digital e atuação humana têm sido utilizadas para amplificar determinados conteúdos e, ao mesmo tempo, blindar campanhas e candidatos de críticas ou contestação pública.

>>>> Estratégias discursivas e da deslegitimação do debate público

  • Estratégias discursivas para escapar da checagem: 

- uma tática crescente consiste em apresentar alegações enganosas como “opinião política”, e não como afirmação factual. Ao se abrigar sob a proteção da liberdade de expressão, esse tipo de conteúdo busca evitar contestação ou rotulagem por verificadores de fatos. O fenômeno tem sido particularmente visível em narrativas sobre fraude eleitoral e desconfiança no sistema de votação.

  • Campanhas de desprestígio contra jornalistas e checadores: 

- veículos de imprensa, jornalistas e organizações de verificação de fatos tornaram-se alvos recorrentes de campanhas de deslegitimação. Especialistas apontam que essas estratégias buscam enfraquecer intermediários informacionais e reduzir a credibilidade de fontes profissionais de informação.

>>>> Ataques à integridade eleitoral e às instituições democráticas

  • Desinformação sobre fraude eleitoral e ataques institucionais: 

- narrativas que questionam a integridade do processo eleitoral têm aparecido com frequência crescente na região, muitas vezes combinadas à circulação de pesquisas falsas ou manipuladas de intenção de voto. 

>>>> Impacto das novas tecnologias

  • Violência política de gênero amplificada por IA generativa: 

- a desinformação dirigida a mulheres na política – especialmente candidatas e lideranças femininas ou LGBTQIA+ – já era um fenômeno recorrente na região e tem ganhado nova escala com ferramentas de inteligência artificial. Deepfakes, montagens e conteúdos sintéticos têm sido usados para criar imagens e vídeos falsos com teor sexualizado ou difamatório. Casos desse tipo já foram registrados em países como Brasil, Argentina, México e Paraguai.

  • IA generativa amplamente acessível: 

- além de permitir a criação de imagens, textos e vídeos sintéticos, ferramentas de IA também estão sendo usadas por eleitores para consultar ou verificar informações. Em alguns países, aplicativos de IA generativa passaram a integrar programas de zero-rating, ampliando o acesso. Ao mesmo tempo, cresce a preocupação com a opacidade desses sistemas. Na Colômbia, por exemplo, um episódio recente chamou atenção quando o chatbot Grok respondeu a um usuário indicando que votaria em um candidato de extrema-direita e apresentou justificativas políticas para essa escolha, ilustrando as ambiguidades e riscos associados ao uso dessas tecnologias no debate público.

 

Fonte: por Glenda Dantas, em Desinformante.com