quarta-feira, 8 de julho de 2026

O enigma de Lula 3 (Parte III)

Foi assim que a estratégia social-desenvolvimentista foi apresentada no programa de governo de Lula na campanha presidencial de 2002:

“…nosso programa econômico está estruturado a partir de duas dimensões: a social e a nacional. A dimensão social será o principal eixo do novo modelo de desenvolvimento, assegurado o seu caráter democrático e nacional… O motor básico do sistema é a ampliação do emprego e da renda per capita e consequentemente da massa salarial que conformará o assim chamado mercado interno de massas. O crescimento sustentado a médio e longo prazo resultará da ampliação dos investimentos na infraestrutura econômica e social e nos setores capazes de reduzir a vulnerabilidade externa, junto com [sic] políticas de distribuição de renda… São três os mecanismos principais que se somam na elevação de produtividade engendrada por esse modelo de crescimento: ganhos de escala, progresso técnico e absorção de trabalhadores subempregados pelos setores modernos. A partir desses ganhos de produtividade poderá se estabelecer o seguinte círculo virtuoso: aumento de rendimentos das famílias trabalhadoras, levando à ampliação do consumo popular, que reforça, por sua vez, os investimentos, com aumento de produtividade, fechando-se o ciclo com a elevação do rendimento das famílias trabalhadoras … Ao conduzir ao aumento da produtividade, o modelo também estimula as exportações e a substituição de importações. No entanto, nada disso elimina a necessidade de políticas setoriais especiais, verticais, como a de ampliar mais que proporcionalmente as atividades da ponta tecnológica, por sua função geradora de divisas e deflagradora de processos de aprendizagem e capacitação” (Silva, 2002, p. 30-35).

Em suma, a estratégia articula desenvolvimento econômico e autonomia nacional à reindustrialização de uma economia que sofreu regressão estrutural provocada pelas reformas neoliberais, associando-a tanto à demanda gerada pela incorporação de contingentes antes excluídos do consumo moderno quanto a um padrão de emprego e renda capaz de formalizar trabalhadores precarizados e informais (Bastos, 2012; Moreira & Bastos, 2023). Por isso não reitera o desenvolvimentismo excludente brasileiro para o tempo pós-neoliberal: é crítica simultânea do desenvolvimentismo excludente e do neoliberalismo.

Daí ser equivocado reduzir o programa socialdesenvolvimentista a uma máscara que apenas legitima demandas particularistas da burguesia industrial, de serviços ou da construção, como fazem alguns intérpretes da esquerda antipetista. Ele não se esgota na proteção corporativa que esses setores pedem ao Estado: busca organizá-los desde cima, levando-os a empreender inclusive o que não têm ambição nem interesse de realizar. É esse o sentido da autonomia relativa dos gestores de Estado, que não são meros porta-vozes de interesses empresariais, mas se pretendem portadores de um projeto que dirige os próprios empresários em direções que não tomariam por conta própria. Tal autonomia orienta iniciativas econômicas e sociais em função de uma ideologia geral, traduzida em programas particulares dotados de alguma coerência, mas frequentemente sujeitos a contradições insolúveis. Eis por que a ideologia não pode ser tratada apenas como legitimação a posteriori de práticas já dadas: ela seleciona, organiza e transforma as próprias práticas — e é essa eficácia prática que escapa às leituras que enxergam nas ideologias um mero verniz justificador. As ideologias não servem apenas para reproduzir o capitalismo; também moldam e legitimam práticas de resistência e de transformação (reformista ou revolucionária).

Desde a década de 1990, o nome do reformismo no Brasil é socialdesenvolvimentismo: a ideologia que busca integrar a política distributiva como condição e, ao mesmo tempo, efeito de uma política de transformação produtiva. Nessa ideologia, a inclusão de grupos excluídos na demanda efetiva estimularia os investimentos; os investimentos levariam ao crescimento e a empregos de maior produtividade, que sustentariam, no tempo, a política distributiva. Os governos do PT não foram desenvolvimentistas apenas por atenderem demandas de empresários afetados pela concorrência internacional, mas por organizá-los — com fundos de pensão, bancos públicos e, eventualmente, financiamento externo — para empreendimentos coletivos que, sozinhos e dado seu conservadorismo, não realizariam.

Acontece que, desde o início, o projeto socialdesenvolvimentista conviveu na prática com uma conciliação com o neoliberalismo que privilegiava estruturalmente o capital bancário e o capital estrangeiro, materializada na Carta ao Povo Brasileiro de 2002 cujo árbitro era nada menos do que o próprio presidente Lula. A própria gênese dessa síntese mostra que o socialdesenvolvimentismo se exerceu, desde a origem, em subordinação ao neoliberalismo, embora a subordinação fosse ressentida e às vezes rebelde. Na campanha de 2002, Fernando Henrique Cardoso desafiou Lula a enfrentar a crise de hegemonia do neoliberalismo executando o programa que parte importante do PT apoiara em plebiscito nacional que, em 2000, indagava aos cidadãos se a dívida interna e a dívida externa deveriam ser pagas, enquanto o mercado financeiro promovia um ataque especulativo contra posições em real à medida que Lula avançava nas pesquisas eleitorais. O PT sempre foi crítico do controle disciplinar do FMI sobre a política econômica dos países periféricos, mas Lula respondeu ao desafio de FHC recusando repudiar a dívida pública e aceitando assinar o acordo de refinanciamento da dívida com o FMI, publicando a Carta ao Povo Brasileiro. Tal Carta acoplava a promessa de uma política social includente ao programa neoliberal de gestão macroeconômica e abertura financeira e comercial, ou seja, subordinava o socialdesenvolvimentismo ao neoliberalismo. Do projeto socialdesenvolvimentista sobrou, de início, o gasto social; a reorientação mais ambiciosa da economia foi contida — um cavalo de pau nas posições do PT para evitar um cavalo de pau na execução das políticas neoliberais. Desde 2002-2003, portanto, as promessas socialdesenvolvimentistas nasceram subordinadas ao neoliberalismo, e a queda de Palocci, em 2005, não desfez a amarra, porque o Banco Central seguiu sob gestão neoliberal e as metas fiscais continuaram estreitas, embora muito menos do que sob o novo arcabouço fiscal.

Em suma, dada a escolha de não romper com o modelo neoliberal e suas políticas macroeconômico, o governo Lula ficou preso, de início, às políticas necessárias à reprodução do modelo; só a melhora das condições internacionais a partir de meados da década abriu espaço para as políticas que atendiam à sua base social, e que sempre fizeram parte do programa socialdesenvolvimentista: elevação do salário mínimo, elevação das transferências de renda para eliminar a pobreza extrema, expansão do acesso à educação pública e, em ritmo mais lento, à saúde pública, formalização de contratos de trabalho, recuperação do investimento público, subsídios crescente à competitividade dos empresários locais etc.

Contudo, os congêneres de Pallocci reapareceram a cada inflexão: a reabilitação do próprio Palocci na Casa Civil de Dilma Rousseff, a indicação de Joaquim Levy em 2015, o arcabouço fiscal de 2023, a incorporação de Simone Tebet e Geraldo Alckmin à frente antifascista de 2022. A grande frente ampla constituída para vencer o neofascismo em 2022 induziu um reforço do neoliberalismo dentro do governo que, por sua vez, dificulta a tarefa de continuar vencendo o neofascismo em 2026. É essa unidade contraditória — um neoliberalismo restrito pela base social do governo, que bloqueia os ataques mais ostensivos a direitos; um social-desenvolvimentismo contido pela disciplina fiscal-monetária herdada e preservada — que as leituras dualistas não conseguem apreender. Cada face limita o alcance da outra, e o balanço entre elas muda com a correlação de forças: foi a face social-desenvolvimentista que cresceu depois de 2006, com o crescimento acelerado e o enfraquecimento do polo neoliberal na Fazenda, a ponto de levar uma intelectual social-desenvolvimentista, Dilma Rousseff, à presidência — e de provocar a reação que conhecemos. Como entender Dilma Rousseff?

<><> Políticas hegemônicas e a contenção do socialdesenvolvimentismo

Antes de discutir o desafio ao neoliberalismo colocado por Dilma Rousseff, é preciso mostrar por que as políticas macroeconômicas neoliberais não são mera preferência ideológica, mas uma necessidade estrutural de reprodução do modelo. É claro que é possível ser mais realista do que o rei, mas para abandonar o reino não basta ser um pouco menos realista e mover pontual e temporariamente as políticas macroeconômicas, como procurou fazer o governo Roussef antes de reverter catastroficamente para o neoliberalismo em 2015.

Vimos que o modelo capitalista desenvolvimentista exigia planos coordenados de investimentos públicos e privados, um horizonte de demanda efetiva e proteção comercial para estimular tais investimentos, um suporte de financiamento para assegurá-los, alguma seletividade no uso das reservas cambiais para garantir a importação de bens de capital e insumos essenciais, e alguma forma de regulação do financiamento internacional e de participação do capital estrangeiro, que dominava tecnologias essenciais à reprodução ampliada do capital.

Em escala global, o objetivo político do movimento neoliberal foi reverter as conquistas que o reformismo social-democrata nos países centrais e o nacionalismo econômico nos países periféricos obtiveram depois da Segunda Guerra Mundial – por quaisquer meios. Sua luta ideológica é definir agenda e não-agenda pública, pautando os governos pelo controle do debate público, visando criar um “novo normal” que entende a crise econômica como resultado de excesso de democracia e de intervenção estatal populista e irresponsável que gera inflação e desemprego. Para superar crises, reformas neoliberais atacam o universalismo social-democrata e pregam mais controle capitalista sobre recursos, logo alocação mercantil e não pública de recursos, corte de gasto público, focalização de direitos sociais (em pobres e minorias), precarização trabalhista, privatização e mercantilização de bens públicos e comuns, liberdade de investidores estrangeiros contra estados desenvolvimentistas.

Enquanto os Estados eram pressionados para assegurar pleno emprego antes do ataque neoliberal, os bancos centrais passaram a evitá-lo sob pretexto de controle da inflação, assegurando grande poder de barganha dos capitalistas no mercado de trabalho. Significativamente, documento do Ministério da Fazenda do Brasil em 2025 justifica o limite de expansão do gasto público em 2,5% para evitar pressões salariais inflacionárias, executando-se deliberadamente política fiscal contracionista entre meados de 2024 e fins de 2025 para apoiar o esforço desinflacionista liderado pelo Banco Central.

Com o chamado “Consenso de Washington”, reformas neoliberais tornaram-se condição de acesso a financiamento pelas instituições multilaterais (FMI e Banco Mundial) e critério de avaliação da dívida soberana por agências de classificação de risco e mercados financeiros integrados pela abertura financeira: quanto melhor a classificação, mais barato o financiamento concedida às empresas locais. A criação da Organização Mundial do Comércio (OMC) em 1995 levou as disciplinas neoliberais para o terreno das políticas setoriais e da proteção do monopólio da propriedade intelectual pelas corporações globais. A alegação é que a abertura comercial e a retração de políticas desenvolvimentistas e investimentos estatais asseguraria a especialização “espontânea” dos países na divisão internacional do trabalho, na prática “chutando a escada” dos planos de industrialização na periferia.

O modelo neoliberal aprofunda a dependência e muda sua forma na época da globalização financeira e produtiva, transferindo decisões de investimento e especialização nacional de Estados desenvolvimentistas para mercados financeiros, corporações globais e seus associados locais. No Brasil e outros “mercados emergentes”, a promessa feita aos capitalistas forçados à especialização “correta” é clara: as políticas neoliberais oferecem à imensa maioria das empresas que sobreviveram ao choque da abertura comercial e financeira com apreciação cambial da década de 1990 o acesso barato, no mercado internacional, a insumos intermediários, bens de capital e financiamento. A abertura comercial assegura importações baratas; a abertura financeira promete, às economias administradas por governos “críveis”, financiamento externo barato e abundante que, ao entrar, aprecia o câmbio, barateando ainda mais as importações (pelo menos até um novo ataque especulativo). Uma estrutura produtiva reconfigurada por um choque neoliberal torna-se estruturalmente dependente da importação de bens de produção e da rolagem de dívida externa privada, de modo que a principal ameaça à reprodução do modelo capitalista a ser controlada pela política macroeconômica não é o gasto social, mas a fuga de capitais, a perda de “credibilidade” externa e a depreciação cambial — que encarece o passivo externo privado e se transmite aos preços num surto inflacionário (o pass-through) que nenhuma substituição de importações pode reverter a médio prazo.

Daí a cadeia das políticas econômicas hegemônicas sob o neoliberalismo: câmbio apreciado para baratear importações de bens, serviços e capitais; juros elevados para atrair capitais e gerar apreciação cambial (ou, em momentos de crise, conter a depreciação), ao mesmo tempo em que aumenta a rentabilidade dos credores da dívida pública; e superávits fiscais primários para impedir que o custo desses juros imprima à dívida pública uma trajetória explosiva. Note-se a hierarquia: a dívida cresce não porque o governo gaste demais, mas porque a carga de juros a empurra para cima; a política fiscal existe, em boa medida, para enxugar gelo da política monetária. São políticas que a forma de Estado neoliberal assegura ao preservar a autonomia relativa do Ministério da Fazenda e do Banco Central para executá-las a despeito das pressões da base social dos governos. É por isso que as chamo de hegemônicas: não podem deixar de ser realizadas, em graus variáveis, por qualquer governo que administre o modelo — inclusive os liderados pelo PT (Bastos, 2025b).

Essa dependência tem uma consequência decisiva e mal compreendida. O neoliberalismo não reverteu o Brasil a uma economia primário-exportadora de tipo neocolonial: ao contrário, aprofundou a tendência das filiais estrangeiras que dominam a indústria de transformação a privilegiar o mercado interno, montando localmente bens finais a partir de insumos e componentes importados. E a indústria continuou gerando mais valor agregado para o mercado interno do que a agropecuária exportadora. É por isso que o socialdesenvolvimentismo, ao apostar na expansão do mercado interno pela inclusão de populações antes excluídas desde o primeiro governo Lula, e recuperar o investimento público no segundo, pôde combinar-se dinamicamente com o neoliberalismo em vez de romper com ele: as duas faces convergiam sobre o mesmo mercado interno de massas, ainda que por lógicas opostas. O que a política desenvolvimentista tradicional assegurava — a coordenação, período após período, entre investimentos públicos e privados para aprofundar a estrutura industrial rumo aos bens de produção — é precisamente o que o neoliberalismo desfez, legando ao socialdesenvolvimentismo um mercado interno menos dinâmico, e mais raso, montado sobre importações.

Na década de 2000, o socialdesenvolvimentismo foi combinado e contido pelo neoliberalismo de modo temporariamente virtuoso. A grande liquidez internacional, o boom de commodities e a apreciação cambial permitiram, ao mesmo tempo, superávits fiscais extraordinários, a ampliação do gasto social e do investimento público; o câmbio apreciado barateava a cesta de consumo popular — inclusive a enorme cesta de novos bens transformados pela microeletrônica e importados da Ásia —, e o aumento real do salário mínimo, ao expandir o mercado interno, realimentava a arrecadação tributária a ponto de gerar superávits primários recordes sem estrangular o gasto público crescente. Foi esse círculo virtuoso entre as políticas hegemônicas neoliberais e as políticas socialdesenvolvimentistas, em uma unidade contraditória que parecia harmônica, embora sempre conflituosa, que sustentou a popularidade de Lula (Bastos, 2012).

A crise de 2008 desfez a aparência de harmonia. Ao pôr em fuga o capital especulativo do mercado imobiliário estadunidense e ao acelerar o investimento público na China, ela prolongou o boom de commodities e fez da América Latina, fora da Ásia, a única região em crescimento, atraindo para cá a reação exportadora das indústrias de todo o mundo e agravando a desindustrialização de uma estrutura produtiva já corroída por décadas de enfraquecimento do planejamento estatal, abertura comercial e apreciação cambial. É nesse contexto criado pela crise financeira global de 2008 — a “guerra cambial” de que falava Guido Mantega — que o governo Dilma Rousseff procurou promover uma inflexão limitada nas políticas macroeconômicas neoliberais hegemônicas para criar condições para o avanço do programa social-desenvolvimentista, como veremos no quarto e último artigo desta série.

 

Fonte: Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em A Terra é Redonda

 

Economia Solidária e socialismo real

Entre a utopia europeia e a planificação soviética, a economia solidária encontra na ascensão da China a chance de se tornar tradução popular do socialismo...

<><> 1. Economia Solidária e socialismo real

A relação entre economia solidária e socialismo real é complexa. Porém, ela é incontornável para compreendermos que a essa altura do século 21 não se trata mais de defender uma economia alternativa de modo tímido e marginal, mas de afirmar categoricamente que o capitalismo neoliberal chegou ao fim e que o socialismo é o destino no horizonte da gloriosa marcha dos trabalhadores e trabalhadoras de todos os países.

Anteriormente, economia solidária e socialismo real não combinavam muito bem. Hoje, essa relação precisa ser revisitada. Isso porque já se reconhece que o socialismo real não saiu do palco da história, mas apenas se transformou. O século 21, tendo a China como principal vetor transformativo em escala mundial, cobra no mínimo uma nova contextualização e função para a economia solidária enquanto eixo ideológico de crítica ao capitalismo e de proposição de uma alternativa.

Como este debate já está acontecendo (veja uma primeira troca a partir da corajosa provocação de Dayvid Souza Santos e a reação de Renato Dagnino e colegas no site A Terra é Redonda), quero me somar à conversa.

Meu argumento central é que muito mais do que ser uma linha propositiva de determinado tipo de modelo ou sistema econômico (que precisaria atender por um nome próprio sobre o qual sempre haverá controvérsia), a economia solidária é um dos principais canais de tradução do Marxismo para as condições próprias do povo trabalhador no Brasil e na América Latina.

<><> 2. O antigo contexto

O antigo contexto da economia solidária está profundamente marcado por quatro fatores principais.

>>> 2.1 Eurocentrismo

O primeiro fator é o eurocentrismo. A interpretação dominante da história econômica e política mundial era fortemente centrada na experiência europeia e, por extensão, ocidental. Isso influenciava tanto a crítica ao capitalismo quanto às alternativas imaginadas. A formação histórica do capitalismo levou a uma integração global de nítido domínio das potências europeias ocidentais sobre o restante dos povos, a partir da expansão comercial e colonização. No que tange a fundamentação filosófica da economia solidária como modo de produção alternativo ao capitalismo, é necessário reconhecer que o antigo contexto enquadrava a economia solidária na tradição intelectual dos socialistas europeus.

Tendo como referência intelectual a obra de Paul Singer, por exemplo, a origem histórica da economia solidária estaria no movimento cooperativista revolucionário da primeira metade do século 19, quando surgiram variadas iniciativas de associações e cooperativas de produção e distribuição com pretensão de superar os empreendimentos econômicos capitalistas tradicionais.

Mesmo que a economia solidária tenha se desenvolvido com toda uma linguagem própria e próxima aos povos latinoamericanos, e brasileiro, em particular, a perspectiva eurocêntrica permaneceu latente, o que é demonstrado, por exemplo, pela enorme influência do pensamento humanista crítico francês que é bastante simpático ao universo utopista da economia solidária.

>>> 2.2 A União Soviética (URSS)

O segundo fator é a existência da União Soviética (URSS) como modelo-referência de alternativa ao capitalismo. Ao longo do curto século 20, ela foi não só a principal expressão de socialismo real, como praticamente sinônimo de socialismo no plano mundano da geopolítica. Por isso, com seu desmantelamento no começo dos anos 1990, consolidou-se a percepção de que o projeto socialista como um todo havia fracassado. Isso teve um impacto profundo sobre a imaginação política global.

A insatisfação de muitos militantes em relação à União Soviética já vinha se espalhando por outros canais que antecedem em muito o fim do sistema propriamente dito. No caso da elaboração conceitual de Paul Singer, a planificação central e a campanha anti-stalinista no Ocidente foram elementos de forte afastamento que ensejaram a busca por outro modelo de construção socialista. Mais flexível, menos dogmático e muito mais experimental, este modelo ainda deveria ter orientação teórica em Marx, mas um Marx muito mais aberto e adaptável às circunstâncias locais. Por um lado, este é um aspecto de inovação relevante, porque quebra com o paradigma de que o Marxismo é uma doutrina oficial e o torna mais acessível enquanto ferramenta de educação política. Por outro lado, o antagonismo entre economia solidária e o socialismo real soviético é o que torna o socialismo da economia solidária um socialismo no plano das ideias e a afasta significativamente do jogo duro do poder.

A aversão ao exercício do poder real empurrou a economia solidária para as origens filosóficas do socialismo pré-Marxista, chegando às margens radicais do anarquismo e dos movimentos autogestionários, que tem uma postura fortemente crítica a qualquer molde de organização hierárquica e disciplinar. A utopia se revela uma força importante de casulo protetor, até que uma nova conjuntura apareça e possibilite o seu desabrochar como ciência novamente.

>>> 2.3 O neoliberalismo

O terceiro fator é o neoliberalismo. A partir dos anos 1970, ele se afirma como paradigma dominante de organização econômica, defendendo a redução do papel do Estado, a liberalização dos mercados e a centralidade da iniciativa privada. Nos anos 1990, essa visão atinge seu auge e o desemprego se torna o desafio principal com o desfecho melancólico da brava e contraditória industrialização brasileira.

Nesta seara, a economia solidária não exercia apenas uma crítica negativa ao capitalismo, mas era explicitamente propositiva e construtiva ao estimular iniciativas autônomas populares de formação de associações e cooperativas de trabalho para geração de renda. Contudo, como esses projetos não dependem apenas do esforço de organização do trabalho e de produção, por serem empreendimentos que navegam nas águas turbulentas do mercado capitalista, a política macroeconômica de financiamento e de concatenação tecnológica entre setores para formação de empresas competitivas no cenário internacional acaba travando o seu desenvolvimento. A economia solidária enfrenta um enorme desafio com a desarticulação sindical e com o avanço das novas tecnologias que alteram profundamente o mundo do trabalho. A ideologia do empreendedorismo e da iniciativa privada cria obstáculos significativos para os anseios coletivos e de integração por redes entre empreendimentos econômicos solidários.

>>> 2.4 Unipolaridade

O quarto fator é a ordem geopolítica unipolar. Com o fim da URSS, os Estados Unidos emergem como potência hegemônica, consolidando uma ordem internacional sem concorrentes diretos. Esse cenário reforçava ainda mais a ideia de que o capitalismo neoliberal era o único caminho factível para os países da periferia e colocava em posição defensiva todos os movimentos emancipatórios e progressistas.

A resistência para continuar existindo se tornou a ação por excelência em uma situação extremamente desvantajosa em termos de luta por soberania e autodeterminação. Em situações-limite, a mera sobrevivência é em si um ato revolucionário. Por isso, mesmo que a economia solidária tenha buscado inspiração na sabedoria popular e religiosa local de exaltação da humildade, de defesa do compartilhar o pouco e da redenção espiritual na pobreza, não podemos desvalorizá-la como se fosse uma economia política da escassez por opção. Isso ocorreu por necessidade e sempre guiada pelos valores mais profundos da classe trabalhadora latinoamericana e brasileira.

Nesse sentido, a crítica da economia solidária que contrasta com prepotência a economia de Francisco enquanto um dos vários pilares éticos da economia solidária com a economia política da abundância de Deng Xiaoping (para quem enriquecer é glorioso) não pode ter trânsito livre. A valorização da pobreza, da humildade, dos oprimidos é um recurso estratégico importante que deve ser compreendido em seu contexto, e levado adiante com a devida atualização. Do contrário, corre-se o risco de inverter as coisas e exaltar a riqueza pela riqueza, como se ela não devesse estar servindo aos povos trabalhadores.

No antigo contexto, melhorar minimamente as condições de vida ou simplesmente evitar que elas piorassem estava na ordem do dia. Não havia espaço para grandes pretensões e a comunhão na pequenez era a única forma de guardar forças para seguir lutando.

<><> 3. O novo contexto

No cenário atual observamos transformações profundas que configuram um novo contexto histórico, também estruturado por quatro fatores principais.

>>> 3.1 Sul Global

O primeiro é o protagonismo crescente do Sul Global. Países da Ásia, África e América Latina passam a ter maior peso econômico e político, questionando a centralidade histórica do Ocidente e abrindo espaço para múltiplas trajetórias de desenvolvimento. Se durante o período neoliberal a periferia do mundo era sufocada pela imposição das políticas macroeconômicas de austeridade como única via possível, agora, a crise capitalista expressa na completa perda de poder retórico do Norte Global aponta caminhos variados que colocam a questão do desenvolvimento social e econômica na ordem do dia.

É verdade que o Sul Global é um conjunto muito heterogêneo de países com suas respectivas trajetórias históricas, culturas e sistemas políticos. Porém é certo que tal diversidade é um elemento de força contra a unidimensionalidade do Norte Global que alinha todas as potências capitalistas em uma única corrente imperialista que obedece a lógica do capital. A existência do Sul Global como força geopolítica aglutinando a larga maioria da população do mundo torna a economia solidária mais uma entre diversas opções de construção do futuro.

Nesse novo contexto, a economia solidária pode ser reconhecida não apenas como pulverizadas experiências de resistência nos poros da macromalha econômica capitalista, mas como uma extensa rede propositiva popular pela integração e racionalização da economia como suporte da vida e do bem-estar em escala global.

>>> 3.2 A China

O segundo fator é a China enquanto o sistema de maior peso gravitacional dessa nova constelação. Sua ascensão nas últimas décadas representa uma mudança significativa na ordem internacional, mas principalmente na maneira como devemos pensar a transição para o socialismo considerando a totalidade do sistema-mundo capitalista.

A controvérsia sobre o sistema chinês não é um mero passatempo intelectual, mas uma questão fundamental para a movimentação política em todos os cantos do mundo. As diferenças entre o projeto soviético de transição ao socialismo e o projeto chinês são muito significativas e impactam o projeto de transição que subjaz à economia solidária. A experiência chinesa combina planejamento estatal, mercado e um projeto político de longo prazo, que deve ser reconhecido como uma nova forma de socialismo real. A impureza do sistema econômico chinês, por acomodar tanto a era Mao Zedong (1949-1978) como a era Deng Xiaoping (1978-presente) de Reforma e Abertura, precisa ser analisada objetivamente para que a economia solidária incorpore lições importantes sobre contradição e dialética.

A busca pela pureza é um desperdício de energia quando se reconhece que todo empreendimento econômico é uma mistura de formas antagônicas de organização, cujos extremos conformam a autogestão democrática perfeita e heterogestão exploratória máxima.

Uma das orientações mais complexas deixadas por Paul Singer foi justamente aquela sobre como não devemos simplesmente escolher entre uma destas formas, mas compreender que cada uma delas tem a sua função. Certamente o problema da hierarquia de poder e da autoridade é grave, mas não se pode subestimar a força coletiva que emerge da disciplina revolucionária, e que é fundamental para combater o inimigo de forma organizada. Por mais que seja feio, é dessa unidade militar que surge o poder real capaz de repelir o imperialismo. A Revolução Chinesa, tendo o Partido Comunista à frente, ensina que o espontaneísmo pulverizado e descentralizado não tem condições de provocar as mudanças estruturais necessárias.

 >>> 3.3 A economia socialista de mercado

O terceiro fator é a chamada economia socialista de mercado. Esse é o nome oficialmente empregado pelo governo chinês para se referir ao seu próprio sistema econômico.

De forma muito resumida, a economia socialista de mercado é um sistema que articula mecanismos de mercado com objetivos estratégicos nacionais definidos pelo Estado. Ele desafia a antiga perspectiva que opunha cartesianamente capitalismo e socialismo. Em especial, a economia socialista de mercado aponta que o mercado e o socialismo não são entidades incompatíveis, o que gera uma tensão gigantesca em toda a tradição intelectual que reivindica a Economia Política Marxista.

Esse é um fator extremamente relevante para a elaboração conceitual e filosófica da economia solidária, porque ele nos leva de volta à tênue distinção entre mercado e capitalismo. Para os chineses, é perfeitamente possível existir um mercado socialista em distinção a um mercado capitalista.

Um dos principais desafios dos empreendimentos econômicos solidários é justamente o fato deles existirem no e dependerem do mar revolto do mercado, onde precisam interagir com unidades econômicas que operam pela lógica do lucro. Os empreendimentos econômicos solidários precisam competir com empreendimentos econômicos capitalistas, que subvertem as funções socialmente úteis do mercado em proveito exclusivo de si próprias. O mercado é uma entidade extremamente complexa e ambígua, sendo ao mesmo tempo um mecanismo de articulação da divisão social do trabalho em benefício do avanço das forças produtivas e de entrave desse avanço devido ao seu estímulo pelo ganho material privado às custas do coletivo. A interconexão entre o social e o individual promovido pelo mercado deve ser mais bem compreendida, tanto para o fortalecimento da assim chamada economia socialista de mercado como da economia solidária.

>>> 3.4 Multipolaridade

O quarto fator é a multipolaridade. Diferentemente da ordem unipolar que perdurou entre 1990 e os anos 2020, o mundo atual é marcado pela coexistência de múltiplos centros de poder, com diferentes modelos econômicos e políticos.

Aqui existe uma diferença importante em relação ao período bipolar em que a URSS expressava “o” modelo alternativo. Tudo indica que a China não exporta um esquema pré-formatado de modelo econômico de desenvolvimento, e participa do debate estimulando cada país a encontrar o seu próprio caminho. Em outras palavras: a economia solidária, sendo uma característica regional de determinadas formações socioeconômicas, pode se somar à multiplicidade de sistemas de forma sinergética. Nesse sentido, ao invés de se contrapor com o estilo soviético de planificação centralizada, como a economia solidária precisou fazer no antigo contexto, ela pode se somar às variadas tentativas de superação da financeirização exploratória que demarcou a era unipolar.

Em síntese, nesse novo contexto, a ideia de que “não há alternativa” ao neoliberalismo perde sentido. Diversas alternativas passam a coexistir e a disputar legitimidade. Isso coloca um desafio importante para a economia solidária: ela precisa se atualizar, reconhecendo que já não opera em um cenário de ausência de alternativas, mas em um campo plural e em transformação, onde ela é certamente bem-vinda devido ao seu vínculo genuíno com os povos oprimidos do Brasil e da América Latina.

<><> 4. Economia Solidária como Latinoamericanização do Marxismo

Mais do que uma resposta localizada ao desemprego ou à informalidade, a economia solidária precisa se reposicionar como parte de um debate mais amplo sobre modelos de desenvolvimento, formas de organização econômica e possibilidades concretas de transformação que avançam no século 21. Esse reposicionamento, entretanto, precisa levar adiante todo o aprendizado e de inovação criativa durante o duro período de resistência que abarca o arco temporal neoliberal que se estendeu dos anos 1970 até os anos 2020. Não se trata de jogar tudo fora e recomeçar do zero a construção da economia solidária enquanto política econômica de desenvolvimento do Brasil e das nações Latinoamericanas em geral.

Na minha opinião, um dos aspectos mais fundamentais a ser levado adiante é a economia solidária enquanto ferramenta comunicacional e educadora. É nesse âmbito que ela revela o potencial de adaptar o Marxismo para as condições próprias da realidade Latinoamericana.

Precisamos ter serenidade para compreender a turbulência provocada pela China. A complexidade contraditória da Reforma e Abertura que gerou a atual situação de coisas deve ser estudada com paciência e sem apego às cicatrizes do passado no movimento comunista mundial. Considerando o absoluto fracasso do modelo econômico neoliberal, existe uma certa histeria ansiosa em encontrar na China de hoje a receita para o sucesso, sobretudo econômico. Inclusive os polos influenciadores da elite financeira capitalista já propagam a China como um “capitalismo que deu certo”

O que há de mais precioso na experiência chinesa, no entanto, não é um receituário econômico a ser copiado pelos países do chamado Sul Global, mas uma abordagem filosófica que deve ser inspiração para as nações em busca de soberania. O Marxismo precisa encontrar sua expressão popular adequada, de acordo com as características próprias de cada nação. Esse é o fundamento por trás de um socialismo em consonância com os valores culturais mais essenciais do povo chinês, e que se transmuta na noção de socialismo com características chinesas.

A Economia Solidária funciona bem como base de comunicação junto aos povos latinoamericanos em geral, e brasileiro em particular. Ao mobilizar uma crítica ao capitalismo de modo intuitivo, fortemente ancorada naquilo que a população trabalhadora julga ser os valores de referência das mulheres e homens de um novo mundo, a Economia Solidária mobiliza, agrega, reúne e organiza. Solidariedade, comunidade, união, coletividade, ancestralidade, saber fazer… Tudo isso gera uma gigantesca riqueza metodológica que precisa estar em sintonia com o legado intelectual e científico do Marxismo, de modo que um socialismo com características brasileiras possa desabrochar e funcionar como guia filosófico de nossa luta adiante no século 21.

 

Fonte: Por Tiago Camarinha Lopes, em A Terra é Redonda

 

Quando o mérito adoece: os custos invisíveis do trabalho docente

O capitalismo sofreu muitas transformações no sentido de um modelo neoliberal financeirizado, processo inédito na história, cuja lógica subordinou todas as esferas da sociedade. Eleva-se o mercado e as “coisas” à condição de sujeitos soberanos, desprezando os direitos humanos e a cidadania. Ademais, caracteriza-se pela defesa de uma visão privatista em contraposição a tudo que é público, com a negação dos direitos sociais e do trabalho. Constata-se o reforço do individualismo em contraposição à ação coletiva; estimula-se a concorrência de todos contra todos no lugar da colaboração e da solidariedade.

A Universidade pública é um lugar de encontro, de convergências e divergências, de aprendizagem, de troca, de produção científica e do conhecimento. É na universidade pública que a educação atinge o nível mais elevado de sua perspectiva emancipatória, com o papel central na construção das sociedades democráticas, sendo um dos principais espaços de resistência. Por essa natureza, que constitui a sua essência, confronta o modelo hegemônico do capitalismo atual.

O neoliberalismo, enquanto um projeto de classe, atinge o Estado de direito adotando um ajuste fiscal permanente – instrumento de destruição das políticas públicas e privatização das finanças. No contexto de aplicação das políticas neoliberais o trabalho é submetido a uma rede de índices de desempenho que desrealiza a atividade concreta, comprometendo a qualidade, gerando um processo de subjetivação permeado pelo sofrimento psíquico e desilusão.

Na visão de Dardot e Laval o neoliberalismo não apenas destrói instituições e direitos mas se torna uma forma de viver no mundo, atinge as relações sociais em geral porque cria uma nova forma de comportamento, configurando uma subjetividade neoliberal, onde a noção de sucesso está precedida pela ideia de uma concorrência permanente até a exaustão pelo sobretrabalho e pela geração de produtos e resultados definidos por critérios conflitantes com o bem viver e com a emancipação dos seres humanos.

O atravessamento do neoliberalismo e a crise nas universidades

Marilena Chaui em seu livro Escritos sobre a Universidade) que apresenta um questionamento relacionado à autonomia da universidade, escreveu: “A heteronomia da universidade autônoma é visível a olho nú: o aumento insano de horas-aula, a diminuição do tempo para mestrados e doutorados, a avaliação pela quantidade de publicações, colóquios e congressos, a multiplicação de comissões e relatórios etc. Virada para seu próprio umbigo, mas sem saber onde este se encontra, a universidade operacional opera e por isso mesmo não age” (p. 7).

A essência da Universidade Pública faz com que ela represente o espaço primordial e de longa duração, atuando no fortalecimento dos valores e princípios civilizatórios de solidariedade e respeito à condição humana, através da pesquisa, ensino e extensão voltados para a produção de conhecimento relevante e útil ao desenvolvimento do país, sendo o lócus do pensamento crítico e criativo. O conjunto das Universidades Federais, públicas, gratuitas, laicas, de qualidade e socialmente referenciadas nas necessidades da maioria da população possuem um papel fundamental na reconstrução da cidadania, da subjetividade e de uma vida digna.

João Carlos Salles, a título de conclusão do seu texto “Educação e cidadania”, escreve: “A tarefa da educação que é especialmente a da Universidade pública é afinal prover cada sujeito das condições de exercício pleno da sua subjetividade e garantir a precedência da palavra, do símbolo, do gesto significativo, sobre todas as formas de poder, de modo que nossa comunicação, sendo desimpedida, expresse uma sociedade na qual sejamos economicamente iguais e nos encontremos de forma democrática”.

As estratégias neoliberais gerencialistas e o sistema acadêmico: repercussões para o trabalho docente e para a vida estudantil.

Hanique e Gaulejac argumentam que o gerencialismo, pelas contradições abrigadas pela sua natureza, impõe em si uma injunção paradoxante que provoca uma tensão psíquica permanente, ao submeter os trabalhadores a exigências conflitantes, como por exemplo, a máxima que “as pessoas podem fazer mais e melhor com menos”. E que para conseguir a realização desse princípio é necessário o estabelecimento de metas e indicadores progressivamente exigentes, capazes de aumentar a competitividade e a “valorização” do processo avaliativo.

O desfinanciamento da universidade simbolicamente nos mostra essa realidade. A despeito da degradação de laboratórios, salas de aula, equipamentos, professores, estudantes e técnicos continuam desenvolvendo suas tarefas com a mesma qualidade, ou mesmo com algum prejuízo dela, a um custo psicológico importante.

Há uma passagem do social ao psíquico, as pessoas são transformadas de agentes sociais em operadores de performance, perdem a sua condição de sujeito. O pensamento binário e o princípio da não contradição da gestão transforma o mundo em um jogo surreal; altamente competitivo onde tudo é produto inclusive o trabalhador em si.

O atravessamento do capitalismo na academia é configurado nas diversas práticas que reproduzem o ideário do mercado e da empresa ao construir indicadores de precarização do trabalho docente, identificando como dimensão central o produtivismo. Esse fenômeno é expresso na quantidade de artigos a serem publicados e qualificados, número de citações e captação de recursos financeiros, gerando a intensificação do trabalho, prioridade para a pesquisa e baixo investimento na docência. Além desses indicadores, e até como consequência deles, uma competição acirrada se instala entre os docentes pelos recursos destinados pelas agências de fomento para realização de projetos de pesquisa, convênios e contratos, mas também pelos recursos administrativos disponibilizados pela universidade como espaço físico e equipamentos.

A própria dinâmica do conhecimento pode se tornar um processo desqualificador da criação pela ascensão da insignificância no excesso de informação e do curto prazo, o que gera uma necessidade de aceleração da vida, com possibilidade de corrosão do vínculo e do caráter. É a efemeridade, a reorganização permanente gerando instabilidade e sensação de crise permanente, o que leva a exaustão e a medicalização da vida para sustentar a ruptura com um equilíbrio entre ritmo, sentido, coerência interna e o mundo externo.

O paradoxo também se apresenta no exercício do papel docente, quando o professor expressa o prazer em dar aula e ver “os olhos brilharem” dos estudantes, se regozija por ter seu projeto de pesquisa aceito por uma agência de fomento, ou é aprovado para receber bolsistas de iniciação científica. Esse docente enfrenta a complexidade de uma relação professor-aluno permeada de conflitos e algumas vezes de processos que envolvem violências pelas questões de gênero, raça, deficiências, neurodivergência, sem ter sido preparado para lidar com essas situações.

Ademais, o papel docente tem se ampliado e diversificado ao longo do tempo, se configurando no exercício de várias profissões em uma só, a de professor, a de pesquisador, escritor, agente social em projetos de extensão comunitária, gestor e captador de recursos. São diferentes atividades que exigem habilidades específicas para o seu exercício com a qualidade requerida. Os programas de mestrado e doutorado formam, fundamentalmente para um deles, o de pesquisador, ficando os demais por conta das habilidades existentes ou não no repertorio do docente. No caso do papel de professor, de ministrar aulas, atividade cada vez mais alvo de contestação pelos estudantes, o docente não recebe treinamento pedagógico e termina à mercê da própria sorte.

Fenômenos contemporâneos, como a hiperconectividade, o culto à performance ou a dissolução das figuras de autoridade tradicionais, tendem a promover formas de sobreimplicação, onde o sujeito se sente constantemente convocado e responsabilizado, sem um espaço de respiro subjetivo. São os profissionais que se identificam excessivamente com a instituição ou causa, sem a devida análise crítica desse engajamento, o que pode levar a alienação e ao adoecimento. A sobreimplicação, portanto, é vista como um fenômeno onde o sujeito está tão imerso nas dinâmicas institucionais que perde a capacidade de distanciamento e análise, tornando-se instrumento de reprodução das normas e valores institucionais sem questionamento. É o processo de burocratização do papel profissional, com consequente engessamento da criatividade e transformação da instituição.

A sobreimplicação garantiria, de alguma maneira,a permanência do professor, ao mesmo tempo, em que o transformaria num trabalhador “full-time”, com mais de 8 horas de trabalho diário e 7 dias na semana, avançando sobre o período de lazer, mesmo que espacialmente fora dele. O encanto que paira sobre a vida universitária poderia, então, sob este prisma de análise, estar se voltando contra o próprio professor.

A preocupação com a performance, com a pontuação e a visibilidade na comunidade acadêmica termina gerando uma vivência de culpa, ansiedade e fracasso, que quando ocorre de forma exarcebada tem levado ao esgotamento emocional e ao afastamento do trabalho, resultado oposto ao inicialmente pretendido.

Os estudantes seguem esse mesmo caminho na busca por um score excelente, a vida se transforma em dedicação exclusiva a universidade dentro dos seus muros e fora deles, com pouco espaço para lazer e sociabilidade, tão importantes na juventude e nas demais faixas etárias. A medicalização tem sido adotada como uma saída para suportar a sobrecarga das tarefas acadêmicas e a violência social do cotidiano.

No plano da resistência a esse processo, torna-se importante registrar que a maioria dos questionamentos e das lutas, todas elas muito importantes, que vem sendo desenvolvidas ao longo do tempo nas universidades federais se centram em fatores externos como a questão das formas de financiamento e da autonomia universitária ou em questões internas ligadas aos servidores como os reajustes salariais e as carreiras profissionais. Entretanto, o sistema acadêmico, tem sido, com pouca frequência, objeto de análise, debate e principalmente de luta na direção de um repensar da concepção de mérito, de excelência, e dos próprios mecanismos avaliativos e classificatórios das agências de fomento. Como o principal motor da vida acadêmica, termina drenando energia, tempo e trabalho na busca do reconhecimento por instituições externas à própria universidade, reforçando a prioridade para as carreiras individuais em detrimento do desenvolvimento institucional.

A ideologia do mérito e a prática do “ sarrafo progressivo”.

Dentre todas as dimensões que contribuem para a crise histórica vivenciada pela universidade, a que se encontra pouco explorada é a ideologia do mérito que sustenta o modo de vida da academia e a sua missão de busca pela excelência, termo definidor das universidades federais.

A ciência foi tomada por um conjunto de padrões de indicadores avaliativos do mérito que sobe continuamente em exigências sem explicações, sem consenso e sem limites claros, em geral legitimados, ou pouco questionados. Mas, outra natureza de indicadores aponta que chegamos a um patamar que pode colocar em risco a ética científica e a própria ciência. Em outras palavras tudo indica que “a régua quebrou”, porque o seu limite está sendo a fraude em uma competição cada vez mais desenfreada de empoderamento de currículos e obtenção de recursos financeiros.

São várias as dimensões que apontam para um esgotamento da lógica produtivista e quantitativa do sistema acadêmico atual. A revista Pesquisa Fapesp publicou em um artigo intitulado “Expulsos do clube”: “Duas dezenas de revistas científicas – três a mais do que no ano passado – foram excluídas da edição 2025 do Journal Citation Reports (JCR), plataforma da empresa Clarivate Analytics que determina o fator de impacto (FI) de 22.249 periódicos de 111 países e é usada como uma referência de prestígio das publicações. O FI é uma métrica que computa o número de citações recebidas pelo conjunto de artigos de uma revista em determinado período e dá uma medida de sua influência na comunidade científica”.

“Dezesseis revistas foram excluídas por abuso em autocitações. Seus papers citaram de forma exagerada outros trabalhos publicados por ela mesma, o que é considerado um truque para inflar o FI”

Artigos de alto impacto tornaram-se essenciais para obter avaliações satisfatórias das agências de fomento e financiamentos. As editoras acadêmicas responderam criando revistas científicas e todos os incentivos são para que as editoras publiquem cada vez mais, promovendo uma competição entre as revistas por uma boa classificação e por recursos. Amplia-se, assim, a cultura de todos competem com todos, em vários níveis, ao mesmo tempo, estudantes, professores, departamentos, programas de pós-graduação, universidades e áreas geográficas.

Carl Zimmer publicou no jornal The New York Times que uma equipe de pesquisadores encontrou evidências de que espécies de “fábricas de artigos” produzem, em uma escala industrial, estudos falsos ou de baixa qualidade. E essa produção está aumentando rapidamente, ameaçando a integridade do conteúdo gerado em diferentes áreas. Esses artigos são repletos de fraudes, com imagens adulteradas ou trechos plagiados. Para tentar escapar de detectores de plágios, as fábricas de artigos frequentemente usam inteligência artificial para alterar o texto.

Uma análise recente publicada no periódico British Medical Journal (BMJ)informou que cerca de 261 mil artigos sobre câncer publicados entre 1999 e 2024 apresentam sinais de fraude. Esse volume representa 10% de toda a literatura sobre a doença disponível no PubMed, uma das maiores bases de dados biomédicos do mundo.

A CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento do Ensino Superior) inicialmente destinada a desenvolvimento do corpo docente das universidades, se transformou em um instrumento de métrica e avaliação.

A expectativa racional passa a ser o acadêmico alinhar sua pesquisa às agendas dominantes para aumentar a probabilidade de aceitação. O efeito resultante tende também a produzir fragmentação da pesquisa em várias publicações. Salami science (ou “ciência do salame”) é a prática antiética de fragmentar uma grande pesquisa em vários artigos científicos menores e superficiais, em vez de publicar um único estudo robusto. O objetivo é aumentar, artificialmente, o número de publicações do autor, priorizando quantidade sobre qualidade. Há também convergência temática em certas linhas de pensamento filiadas a notórios pensadores. Percebe-se nelas a endogenia de citações. Novatos buscam estratégias de inserção em redes já consolidadas. O sistema premia a previsibilidade metodológica. Inovação radical, como uma teoria alternativa, eleva risco de rejeição. A consequência não é necessariamente mediocridade, mas conformidade – e não a busca de revolução científica.

A produção científica entra em um circuito autorreferencial: cita-se para ser citado, publica-se para manter visibilidade, participa-se de redes para influenciar e ser lembrado. A existência de plateia em um evento é menos importante do que a foto do grupo promotor para ser postada nas redes sociais. A publicação, com frequência, não decorre mais de um processo intenso de pesquisa, e debate, não significa mais o desaguadouro de um processo significativo, ela passa a ser “inventada”, produzida, fruto de bricolagem, repetição ou fatiamento. A publicação ganhou vida própria.

Predomina uma ilusão de progresso, na verdade vemos a destruição de trajetórias, pela exaustão, competitividade predatória, adoecimento que terminam por produzir uma perda de sentido no trabalho docente. Surge em escala institucional a “síndrome do impostor”, ou seja, docentes e estudantes representam um papel que entra em contradição com seu desejo e paz interior. Não se trata apenas de falta de autoconfiança, mas sim de cobrança excessiva com sobrecarga de trabalho e estudo sem acolhimento e muitas vezes com ameaças.

A tabela de classificação dos pesquisadores pelas agências de fomento impõe um “sarrafo” cada vez mais alto, pelo fato das metas que foram cumpridas se tornarem obsoletas. De forma que, quando um pesquisador alcança uma meta ela já mudou, semelhante a racionalidade imposta a gerentes de instituições financeiras. A distorção dessa política de avaliação chegou a tal ponto que um pesquisador de longa trajetória de produção acadêmica e bem-posicionado na escada classificatória pode, de repente, ser rebaixado por não atingir o quantitativo esperado de publicações para aquele período, o que torna provisório o título de “vencedor” e sua respectiva classificação.

A configuração desse quadro torna evidente a necessidade do tratamento da convivência universitária como dimensão central da vida nas universidades públicas ao lado do ensino, pesquisa e extensão. Significa a criação de uma condição de trabalho docente e aprendizagem discente fortalecedora do respeito aos direitos humanos, liberadora das potencialidades humanas e do protagonismo juvenil, numa trajetória que implique na busca da superação da competição predatória, do modelo dominação-submissão e do individualismo, tão indispensáveis da democracia na ciência.

 

Fonte: Por Denise Vieira da Silva, em A Terra é Redonda

 

Biotônico Fontoura: o remédio alcoólico popularizado por Monteiro Lobato que fez parte da infância brasileira no séc. XX

Há 25 anos o governo federal do Brasil proibiu que tônicos, fortificantes e estimuladores de apetite contivessem álcool em sua fórmula. A medida obrigou um dos mais tradicionais produtos brasileiros, o Biotônico Fontoura, a mudar sua fórmula.

Criado em 1910, o popular fortificante que, ao longo do século passado, se tornou quase onipresente nos lares do país, continha 9,5% de etanol em sua composição. Em média, essa é a graduação alcoólica de um vinho espumante. Uma cerveja comum no Brasil costuma ter a metade desse índice.

Mas a história do Biotônico Fontoura vai muito além dessa peculiaridade etílica. É uma trajetória centenária, que mescla elementos culturais, sabedoria popular e acompanhou, de certa forma, a evolução da saúde pública no Brasil.

Tudo começou em 1910, no interior paulista. Um farmacêutico chamado Cândido Fontoura Silveira (1885-1974) resolveu inventar uma fórmula para ajudar sua mulher, Elvira Siqueira de Castro, que tinha queixas constantes de fraqueza. Ele desenvolveu um produto com fosfatos, sais de ferro e vinho espanhol. Aparentemente, deu certo.

"A maioria dos medicamentos dessa época era manipulada de forma artesanal pelos farmacêuticos, chamados de boticários, nas suas próprias boticas ou em pequenos laboratórios", contextualiza o farmacêutico Eder de Carvalho Pincinato, professor na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp).

Ele conta que os profissionais moíam ervas e minerais, destilavam plantas e preparavam unguentos e fórmulas magistrais ou oficinais. Tudo com o "intuito de acabar com os 'males' mais comuns da população".

Além do Fontoura, também marcaram época produtos como o Elixir de Nogueira, que era feito à base de nogueira e outras plantas medicinais, a Emulsão Scott, feita a partir de óleo de fígado de bacalhau, a pomada Minâncora, que contém zinco e cânfora, entre outros.

<><> Frascos improvisados e sem rótulo

Segundo informações da empresa farmacêutica Hypera Pharma, dona da marca desde 2007, Fontoura passou a comercializar o fortificante em seu estabelecimento e, aos poucos, médicos da região de Bragança Paulista começaram a prescrevê-lo a seus pacientes.

"Eram quase como garrafadas, derivados de plantas fitoterápicas em forma de elixires e tônicos, que representavam a indústria farmacêutica daquele período", define o médico e nutrólogo José Roberto da Costa Pereira — detentor de mais de 30 patentes e com um histórico de participações no desenvolvimento de produtos farmacêuticos. "O fato de depois ter sido direcionado às crianças, mesmo contendo álcool, ocorre porque, naquela época, não havia o entendimento atual. Acreditava-se que, em algumas situações, isso era benéfico e estimulava o apetite das crianças."

Ainda não havia rótulo nem nome para o preparado. Em 1916, Fontoura aproximou-se do escritor e fazendeiro Monteiro Lobato (1882-1948). Na época, ambos eram colaboradores do jornal O Estado de S. Paulo. O escritor teria se queixado ao farmacêutico de cansaço e fadiga. Este prontamente providenciou a ele o fortificante.

Fascinado com o resultado, Lobato passou a ser um entusiasta divulgador do produto. Teria sido dele a ideia do nome: Biotônico, o "tônico da vida", e Fontoura, sobrenome pelo qual o farmacêutico era conhecido.

A essa altura, já havia autorização do Serviço Sanitário do Estado e o fortificante podia ser vendido em todas as praças paulistas. Segundo a Hypera Pharma, ainda reinava o improviso: os frascos não eram padronizados e os rótulos, desenhados à mão por um auxiliar da farmácia.

"Em uma das idas de Cândido Fontoura a São Paulo, levou um frasco e o desenho original dos rótulos à Litografia Ipiranga, pioneira na impressão gráfica em cores na América do Sul. Um mês depois, chegavam a Bragança os rótulos verdes litografados que foram a cara da marca por quase um século: uma trama de floreios em estilo art nouveau enlaçando o nome do produto e, embaixo, em letras maiúsculas, a descrição de suas propriedades", relata a assessoria de imprensa da detentora da marca.

A descrição funcionava quase como um slogan em si. Dizia assim: "Regenera o sangue, tonifica os músculos, fortalece os nervos".

<><> Desnutrição e verminoses

"Tornou-se um marco da indústria nacional", pontua Pereira. "Surgiu no início do século passado, quando a indústria era basicamente baseada em ervas e produtos fitoterápicos, com poucas drogas de síntese disponíveis. Naquela época, quase tudo eram tônicos e elixires."

Nesse sentido, entende-se Fontoura como um dos responsáveis pela transição das antigas boticas para uma indústria farmacêutica mais contemporânea.

Era um contexto de muita desnutrição no Brasil. E uma falta de infraestrutura sanitária básica que fazia de boa parte da população vítima de verminoses que escancaravam sintomas de fraqueza. Lobato chegou a publicar no jornal que acreditava que quase 70% dos brasileiros sofressem com o chamado amarelão, nome popular da ancilostomose. Trata-se de uma verminose intestinal, causada por parasitas. A contaminação ocorre principalmente quando se anda descalço em solos contaminados e a doença causa anemia profunda e palidez.

"O Biotônico surgiu de uma necessidade real daquela época, em que verminoses e desnutrição eram muito comuns no Brasil", afirma a educadora em saúde Cíntia Oliveira, especialista em nutrição funcional e autora do livro Diabetes em Remissão: A Revolução da Alimentação Consciente. "O Biotônico Fontoura conta a história de um Brasil que lutava contra a escassez de tudo."

Cândido Fontoura desenvolveu também um vermicida, o Ankilostomina Fountoura. Era o combo: este eliminava a infecção e o Biotônico, em seguida, atuava para restaurar o vigor e o apetite.

<><> Jeca Tatuzinho

Foi quando ocorreu o casamento entre o medicamento de Fontoura e um personagem clássico da obra lobatiana: o Jeca Tatu, concebido em 1914 como um caipira preguiçoso.

"Embora de origens e carreiras distintas, ambos, Lobato e Fontoura, compartilhavam uma preocupação com as condições de saúde da população brasileira", relata a farmacêutica detentora da marca.

Originalmente, o personagem Jeca Tatu era definido por Lobato como um "funesto parasita da terra", um "homem baldio, inadaptável à civilização". Em outras palavras, um vagabundo, a quem o escritor culpava pelo suposto atraso civilizatório do Brasil.

Ao mergulhar nas teses sanitaristas vigentes sobretudo nos anos 1920, Lobato passou a ver o que chamava de preguiça como na verdade o sinal de problemas de saúde. "O Jeca Tatu não é assim, ele está assim", passaria a afirmar o escritor.

O Jeca Tatu não era "naturalmente apático". Estava, na verdade, doente.

Em 1924, Lobato criou uma nova versão do personagem, Jeca Tatuzinho. Era um caipira que se tratava, e ficava são. De quebra, ensinava noções de higiene e saneamento às crianças. "Foi uma sacada genial a do Lobato", aponta a educadora Oliveira.

Fontoura comprou os direitos do personagem e Jeca Tatuzinho passou a ser o garoto-propaganda do Biotônico. Na trama original, Jeca Tatuzinho é diagnosticado com ancilostomose por um médico e, claro, se recupera. Esta se tornaria uma das mais emblemáticas parcerias da publicidade brasileira.

"Foi uma ação pioneira de branded content muito antes desse conceito existir. A publicidade deixou de apenas anunciar um produto e passou a contar uma história de transformação, criando um vínculo emocional com o público", analisa a comunicóloga Karine Karam, professora na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

Entre 1926 e 1973 foram publicadas 35 edições do folheto Jeca Tatuzinho, com tiragens médias de 1 milhão de exemplares. Jeca Tatu se tornou conhecido em todo o Brasil. O Biotônico teve sua marca difundida maciçamente.

Outro golpe certeiro de marketing da empresa foi a criação do Almanaque do Biotônico Fontoura — que acabou sendo chamado apenas de Almanaque Fontoura. Era uma revistinha com edições anuais, distribuição gratuita nas farmácias e conteúdo que ia de pequenos artigos educativos referentes à saúde a curiosidades, horóscopo, piadas, calendário de pesca, histórias em quadrinhos e anedotas variadas. A publicação também foi idealizada por Monteiro Lobato e contava com o personagem Jeca Tatuzinho.

"Era distribuído nas farmácias e, junto com ele, a marca também era divulgada. É interessante notar como isso já representava uma estratégia moderna de marketing de conteúdo", diz o publicitário Fernando Lebbe, autor do livro Full Marketing. O especialista credita a esse tipo de esforço a consolidação do Biotônico no imaginário popular.

As tiragens eram gigantescas. No auge, em 1982, foram impressos 100 milhões de exemplares.

O marketing da empresa sempre foi aguerrido e de forte apelo popular. O jingle "bê a bá, bê é bé, bê i Bi… otônico Fontoura", criado em 1978, virou aquilo que hoje chamamos de meme. Figuras muito conhecidas foram contratadas para publicidade do produto, seja em fotos de revistas, seja em reclames televisivos. Entre esses nomes, estão o futebolista Pelé (1940-2022), a apresentadora Xuxa e a dupla de cantores Sandy & Júnior.

"A propaganda foi a peça fundamental para garantir o sucesso do Biotônico Fontoura", diz Pincinato.

<><> Com ovos de pata e leite condensado

Segundo a detentora da marca, o Biotônico nasceu como um produto indicado para todas as idades, um fortificante para pessoas debilitadas em geral, e acabou se reposicionando cada vez mais para o público infantil, como suplemento nutricional.

Essa conexão com a nutrição infantil e a relação de acessibilidade que foi sendo construída tornou o Biotônico também um ingrediente presente em preparos baseados na chamada sabedoria popular. Muitos se lembram de ter tomado, quando criança, sob argumento de era preciso um suplemento para ganhar peso, uma bomba calórica feita com a mistura de um frasco de Biotônico Fontoura, dois ovos de pata e uma lata de leite condensado. Praticamente um drinque de festa universitária, alguns podem alegar.

"Culturalmente, essas receitas revelam algo muito interessante: o Biotônico ultrapassou a condição de medicamento e passou a integrar práticas familiares e populares", nota Karam.

"Do ponto de vista nutricional e medicamentoso, isso não faz muito sentido hoje", diz o nutrólogo Pereira. "Naquela época, porém, era comum, pois se dependia muito de produtos fitoterápicos, tônicos e elixires, era o que se tinha disponível e o que se acreditava funcionar."

"Popularmente, até faz sentido juntar um fortificante, que era para anemia, ao leite condensado, calórico, que vai dar energia. E os ovos são fonte de proteína", comenta Oliveira. "Mas o risco dessas receitas é muito grande. Há risco de contaminação por causa do ovo cru, por exemplo."

A detentora da marca diz ver essas receitas populares com "carinho e respeito" entendendo que tais preparos caseiros "fazem parte de um patrimônio afetivo que atravessou gerações de famílias brasileiras".

"Esses relatos demonstram como o produto se incorporou não apenas à rotina de muitos lares, mas também à memória e ao imaginário popular do país, tornando-se parte de uma tradição que a marca reconhece com orgulho", afirma a empresa.

Ao mesmo tempo, a companhia ressalta que "a recomendação de uso atual segue estritamente o que consta no rótulo e a orientação de profissionais de saúde" e que as "combinações caseiras pertencem ao campo da memória e da tradição familiar de outras épocas, e não correspondem às orientações contemporâneas de uso do produto".

Pincinato afirma que o produto é um suplemento de "baixa dose de ferro elementar". Ele explica que a concentração da substância na formulação era de menos de 0,16 miligramas por mililitro enquanto a orientação atual das diretrizes para o tratamento de anemia ferropriva em crianças é de 3 a 6 miligramas por dia. "Podendo chegar até a 60 miligramas por dia", esclarece.

Para especialistas, o tônico não deve ser visto como uma panaceia. "Entre outros alimentos, pode-se lembrar que a dieta tradicional brasileira, nosso maravilhoso feijão com arroz, disponibiliza níveis adequados de ferro, entre outros componentes essenciais para a formação das hemácias e hemoglobina, como ácido fólico e vitaminas B", salienta a bióloga Ionara Rodrigues Siqueira, professora na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

"É importante destacar que o produto não atua nos mecanismos fisiológicos da fome e a ideia popular de uso como tônico para abrir o apetite, é derivada da propaganda da época dos almanaques, que informava que o álcool contido na fórmula abria o apetite, além de provocar uma 'sedação leve'", pontua o farmacêutico Pincinato.

"Não há evidências científicas de sua eficácia como estimulador do apetite", crava a farmacêutica Rosane Gomez, coordenadora do da pós-graduação em Farmacologia e Terapêutica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). "O único componente ativo com efeito comprovado é o sulfato ferroso, utilizado nos casos de anemia ferropriva, uma doença causada pela deficiência de ferro no organismo. Contudo, sua deficiência deve ser confirmada por exames laboratoriais, pois o excesso de ferro pode causar náuseas, vômito, hemorragias gástricas, entre outros."

A professora ressalta que "o Biotônico Fontoura foi lançado em uma época em que carências nutricionais, parasitoses e anemia eram comuns". "Ele provavelmente aliviava alguns sintomas com fadiga associada a quadros de anemia, porém não há evidências de que possa aumentar o apetite ou seja um estimulante", completa ela.

"Do ponto de vista do consumo, o mais interessante é observar que, independentemente da discussão científica, gerações inteiras de brasileiros cresceram acreditando na eficácia do produto porque ele fazia parte de um ritual familiar muito presente", comenta a comunicóloga Karam.

<><> Sem álcool

Sobre a mudança da fórmula, ocorrida para atender à determinação da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) há 25 anos, a Hypera Pharma esclarece que a retirada do álcool é uma das alterações ocorridas ao longo da história como parte de "atualizações" para "acompanhar avanços científicos e mudanças regulatórias".

À época, o argumento da Anvisa era que expor crianças diariamente a uma dose de álcool poderia acarretar problemas de saúde e torná-las mais propensas a desenvolver alcoolismo na idade adulta.

De acordo com o farmacêutico Pincinato, ao contrário da crença popular de que o álcool agiria como estimulador do apetite, sua função era como solvente — uma solução famarcotécnica. "Auxiliava na dissolução dos componentes da fórmula pouco solúveis em água, na conservação do produto e na melhora da palatabilidade e estabilidade do produto", explica ele.

O médico e nutrólogo Pereira discorda. "Quando administrava uma colher pequena para a criança, o álcool provocava, inicialmente, uma irritação gástrica, gerando um certo desconforto que se traduzia em vontade de comer", explica. "Era como um aperitivo."

Segundo ele, a eficiência do tônico também é atribuída a outros componentes que "aumentam a secreção gástrica, induzindo a fome".

"Com a mudança da fórmula, outros ingredientes foram ajustados: passaram a incluir canela, mirra e babosa, que possuem ações cicatrizantes e estimulantes gástricas, contribuindo para o aumento da secreção gástrica e, consequentemente, da fome, além de ajudarem na conservação", diz Pereira. "Naquela época, o consumo de álcool por crianças era mais comum, como água com vinho ou outras combinações. Era um reflexo cultural daquele período."

A empresa exemplifica citando que em 2021, a fonte de ferro tradicional da composição também foi alterada: em vez de sulfato ferroso, agora é utilizado o bisglicitano ferroso. Segundo a farmacêutica, o ingrediente atual favorece a absorção no organismo do paciente.

Outra novidade recente são os sabores. Desde 2017, além da versão original, há Biotônico Fontoura com gostinho de uva ou de morango.

 

Fonte: BBC News Brasil