terça-feira, 14 de julho de 2026

Duas teses sobre o fascismo

Nesse pequeno artigo pretende-se fazer uma comparação de duas teses que buscaram compreender o fascismo como fenômeno político inerente ao capitalismo, ambas de modo rigoroso. Das lavras de Vladimir Safatle e Ruy Fausto, cada uma delas o ilumina a seu modo. A do primeiro autor veio de algum modo do estruturalismo francês e a do outro veio da dialética marxiana. A questão que move este escrito, no entanto, não se resume à aludida comparação, já que se orienta também por uma dúvida crucial: o extremismo de direita contemporâneo pode ser tomado como uma variante de fascismo?

Com esse objetivo se examina dois textos em particular: a Introdução do livro A ameaça interna, recém-publicado, do primeiro autor e o capítulo “Sobre o Estado” do tomo segundo de Marx: lógica e política, saído no final do século passado, do segundo autor acima mencionado. Como a comparação se dá no campo metodológico, o exame se vale fortemente de um escrito de Ruy Fausto intitulado Dialética, estruturalismo, pré(pós)-estruturalismo, que se ousou apresentar didaticamente em “Ruy Fausto: dialética e estruturalismo”.

Como o tema é difícil, que fique registrado já aqui que toda crítica séria é bem-vinda pois se deseja apenas continuar uma discussão. Numa primeira seção que se segue, procura-se compreender a tese de Vladimir Safatle como uma emanação da psicanálise estruturalista. Em sequência, tenta-se expor como o fascismo clássico pode ser pensado, por meio do texto de Ruy Fausto, a partir da lógica expositiva de O capital. Finalmente, faz-se um esforço próprio para entender o extremismo neoliberal por meio de uma extensão dessa lógica que se apresenta como dialética.

<><> Fascismo segundo Vladimir Safatle

Esse autor parte do fato iniludível de que, no correr do século XXI, vem ocorrendo uma ascensão de movimentos de extrema direita num grande número de países. Ora, ele quer compreendê-los como variantes de fascismo. Para abarcar esse fenômeno em sua variedade, optou por abordá-lo como libidinal, ou seja, da perspectiva da psicanálise, tal como foi feito, por exemplo, pela teoria crítica.

Um conjunto grande de autores que cita considera, segundo diz, o fascismo não apenas como evento histórico, mas como determinação estrutural, como uma “latência sempre presente nas formas hegemônicas de vida no interior das sociedades liberais”.

Segundo Vladimir Safatle não se deve definir o fascismo por meio de uma lista de características constitutiva e que são eventualmente verificáveis em distintos casos históricos. Eis que se deve compreendê-lo, “não como um feixe de atributos, mas como uma estrutura maleável”. Para referendar essa posição, ele invoca o conteúdo do capítulo sobre “A percepção” do livro Fenomenologia do espírito. Aí, como se sabe, Hegel diz que o saber de um objeto exige que ele seja tomado como uno, mas a percepção o apresenta, contraditoriamente, como algo que possui uma série aberta de características. Sugere, portanto, que se deve evitar esse procedimento para não cair em contradição.

Está-se, segundo entende, na presença de um gênero, pois se pode usar o termo fascismo para designar vários regimes políticos distintos que existiram na Itália, no Japão, na Alemanha etc., assim como se pode usar o termo “república” – o exemplo é dele – para se referir às repúblicas romana, francesa e até brasileira. Mas, então, como defini-lo adequadamente, como “operar de forma analítica com o termo” – indaga? Ora, sem explicitar o método que emprega, ele o faz por meio de uma totalização, isto é, de uma resolução de manifestações individuais e sociais que se repetem, ainda que com variações, numa normatividade implícita que permanece inconsciente.

O fascismo não é – diz – “apenas um modo específico de ordem político-econômica, mas “uma forma específica de violência e dessensibilização social” assentada na expressão aberta e generalizada de traços fundamentais da estrutura própria à personalidade da individualidade moderna”.

Reproduzindo e ampliando a tese central de Theodor Adorno e Max Horkheimer na obra Dialética do esclarecimento, Vladimir Safatle pensa o extremismo de direita em geral como uma consequência necessária da racionalidade dominadora de mundo que caracteriza o projeto social do iluminismo. Para ele, o fascismo é um fenômeno de ordem política fundado numa “estrutura psicológica” competitiva e violenta.

“O fascismo é a realização possível de uma estrutura psicológica que nasceu como se fosse a condição subjetiva para a implementação de exigências normativas de liberdade, mas que se inverteu necessariamente em seu contrário.”

Veja-se: é bem claro que Vladimir Safatle não pensa o fascismo, em primeiro lugar, como uma “ordem política econômica” – concebe-o por meio de uma totalização para mostrá-lo, depois, em particular no capítulo “Crises finitas e guerras infinitas”, em diversas situações históricas marcadas pela violência do Estado. Admite, no entanto, que há uma tese que se caracteriza por identificá-lo com o estatismo, que rejeita in limine. E o faz por meio do seguinte argumento: como “estatismo e liberalismo [são] apenas momentos de um mesmo processo de acumulação, nada obriga que o fascismo seja necessariamente estatista”.

Contudo, como se verá na exposição que se segue, não se trata de definir o fascismo por meio do estatismo. De qualquer modo, numa nota de rodapé que se segue à citação acima feita, ele rejeita uma tese de Marilena Chaui que distingue fascismo e totalitarismo neoliberal. O adjetivo “forte” não parece bem adequado para definir nem o fascismo pelo Estado nem o neoliberalismo pelo mercado, mas o seu argumento segue assim:

“O papel de instância suprapolítica, pairando acima dos conflitos sociais, que o fascismo delega ao poder soberano, continua nessa nova versão neoliberal, apenas sendo substituído pelo mercado. (…) No lugar do Estado forte, [o neoliberalismo põe] o mercado forte”.

Contudo, o fascismo, tal como caracterizado por Marilena Chaui em sua versão integralista brasileira, define-se por buscar constituir uma comunidade mítica por meio do Estado, integrando os indivíduos de modo espiritual, moral, político e econômico, de tal modo a organizar harmonicamente sociedade.

Para que isso aconteça, a família tem de ser patriarcal, a empresa tem de ser corporativa, a sociedade deve ser subsumida ao Estado e tudo à Deus. O fascismo assim posto é antiliberal, anticomunista, contrário à socialdemocracia ou ao socialismo democrático, mas não anticapitalista, desde que o capital e o trabalho se consolidem corporativamente.

<><> Fascismo segundo Ruy Fausto

A compreensão do fascismo na perspectiva desse autor requer que se faça previamente a apresentação do Estado a partir da lógica interna de O capital, de tal modo que ele apareça como uma forma. Para tanto, o primeiro movimento consiste, segundo ele, em derivar o Estado em sua forma clássica a partir do questionamento formulado por Evgeni Pasukanis: por que a dominação de classe não se dá diretamente, sem mediação, mas requer uma ordenação superior, o Estado? Por que, ademais, o Estado não é simplesmente um instrumento da classe dominante, mas assume a forma de um aparelho de poder imparcial e acima da sociedade?

Ora, o modo de produção capitalista é constituído por uma duplicidade contraditória: aparece por meio da circulação de mercadoria, formada pelos mercados, mas a sua essência se encontra na produção de mercadorias que se realiza em fazendas, fábricas etc. A aparência é constituída por meras relações sociais de mercadoria e dinheiro; nela comparecem indivíduos livres e iguais contratantes que buscam os seus interesses. A sua essência é constituída por relações sociais de capital, as quais definem posições de classe: trabalhadores assalariados e donos dos meios de produção, capitalistas.

Não se pode derivar o Estado, por isso, imediatamente da contradição entre o proletariado e a burguesia como faz o marxismo vulgar, pois se deve fazê-lo da contradição entre a aparência, em que não há classes, e a essência, em que elas estão presentes como opostas. “Ele deriva” – como diz Ruy Fausto – “da contradição entre a identidade [pessoas iguais] e a contradição [pessoas desiguais pertencem a classes opostas]”.

Eis que a sua função primaria é selar a contradição entre o proletariado e burguesia, pondo a unidade do sistema, freando a interversão da aparência na essência, o estalar da luta de classes. Como a sociedade civil contém desigualdade e violência, mas se apresenta como domínio da igualdade e da vida pacífica, ela não pode ser deixada a si mesma; há de existir o Estado. Pois bem, “o Estado [clássico] guarda apenas o momento da igualdade dos contratantes negando a desigualdade das classes para que, contraditoriamente, a igualdade dos contratantes seja negada e a desigualdade das classes seja posta”.

Essa identidade dos contratantes é afirmada tanto pela ideologia quanto pelo Estado já que ambos têm a função explicita de impedir a interversão acima mencionada, mantendo a luta de classe como implícita. Se a ideologia opera no âmbito das ideias, o Estado opera como força material, reservando para si o uso a violência sob o manto da lei. Sobre isso, Fausto diz que “o Estado é o revelador da sociedade capitalista. A violência oculta na sociedade civil [e inerente à relação de capital] aparece (…) não como tal, mas como contraviolência”.

Perante o Estado, os indivíduos aparecem duplamente na aparência do modo de produção, como pessoas econômicas portadoras de direito civil e como pessoas políticas que tem cidadania. Se o conjunto dos átomos contratantes, participantes dos mercados e elementos do sistema, formam uma universalidade abstrata, o conjunto dos cidadãos, acobertados pela nação, forma uma universalidade concreta.

Se o sistema econômico (sociedade civil) advém da soma dos indivíduos contratantes, a comunidade ou nação põe os indivíduos como seus membros. Eis, pois, que subsiste comunidade no capitalismo, ainda que ela seja ilusória.

O Estado assim pensado fica nos limites do Estado liberal clássico do século XIX que, em sua relação com a sociedade civil, permanece grosso modo como árbitro dos contratos. O Estado do século XX em diante assumiu novas formas que, segundo Fausto, se caracterizam sempre por uma atuação social que vai além da função clássica. Eis que ele se torna interventor: regula a concorrência e atua nas crises; administra as relações entre os capitalistas e o trabalho assalariado; atua como agente econômico.

Para compreender o fascismo, mas também a social-democracia, é preciso se concentrar no modo como o Estado pós-clássico passa a gerenciar as relações entre as classes. Se antes o contrato de trabalho consolidava uma relação entre partes supostamente iguais, agora essas partes passam a ser tratadas como desiguais – não como opostas, mas como diferentes.

Ou seja, a mistificação muda de feitio. “Progressivamente” – diz Ruy Fausto – “a aparência (…) da igualdade das partes no contrato [de trabalho] foi questionada pelo próprio sistema”, no interesse – claro – de seu próprio desenvolvimento.

Portanto, no capitalismo contemporâneo, a contradição entre as classes deixa de ser ocultada pela admissão da identidade dos contratantes, demandantes e ofertantes de força de trabalho, pois passa a ser dissimulada pela admissão da diferença entre eles. A forma pela qual o Estado vem intervir na efetivação dessa relação por meio do contrato, dito social agora, define doravante a sua forma. Na variante socialdemocrática, ele protege a parte mais fraca buscando atenuar as diferenças, na variante corporativa e fascista ele integra toda as partes na comunidade nacional concebida agora de forma mítica.

“O nazismo [assim como o fascismo em geral] partia também da impossibilidade de salvar a aparência da igualdade no contrato de trabalho; de forma mais geral, [partia] da impossibilidade de salvar a generalidade abstrata [dos contratantes]. Mas a sua ‘solução’ consistiu menos em substituir a igualdade abstrata pela [admissão das] diferenças, do que em substituir a generalidade abstrata pela generalidade concreta na forma da comunidade mítica” constituída pela nação, pelo “estado nacional”.

<><> O extremismo neoliberal

É preciso notar neste ponto, seguindo o autor que aqui se estuda, que tanto o Estado clássico quanto o pós-clássico guardam uma mesma contradição, pois têm de manter a unidade da sociedade dos átomos e garantir as condições da vida comunitária. Se na primeira impera a competição mercantil e a coerção nos ambientes de trabalho, na segunda se exige dos indivíduos que ajam voluntária e cooperativamente em prol da nação.

O Estado tem de fornecer as condições do bom desenvolvimento do sistema econômico em que se produzem os bens privados como mercadorias, assim como prover os bens públicos necessários à manutenção comunidade nacional. Ora, nas formas social-democrática e fascista de Estado, essas funções e provimentos se ampliam, mas em sentidos distintos. No primeiro caso, trata-se de realizar um estado de bem-estar, no segundo trata-se de pôr um estado orgânico e militarizado, que faz da sociedade um corpo.

Por outro lado, a sociedade como um todo fundada no capitalismo tem de ser pensada como unidade contraditória entre a sua base socioeconômica e a sua forma política, ou seja, entre o sistema produtivo e o Estado. Ao responder pela constituição da unidade nacional, o Estado pode se apresentar como mais ou menos democrático – e até mesmo como ditatorial. Ora, se a democracia capitalista se realiza sempre com certo grau de falsidade, ela não é puramente ilusória. E não o é porque pode haver ou não garantias para o exercício da cidadania, caução de direitos e espaço para a expressão da liberdade política.

No primeiro caso, tem-se as formas de governo que se apresentam sob os rótulos de liberal-democráticas e social-democráticas e, no segundo, tem-se as formas fascistas, incluindo aqui o nazismo. Isso é tudo? Ora, é preciso considerar agora, também, distintamente, essa forma de liberalismo (social-darwinista) que é o neoliberalismo. Tal como as outras, ela se apresenta como um espectro – não como algo cujos contornos são bem definidos.

De qualquer modo, mesmo se não tem por propósito suprimir a democracia e instalar uma ditadura, busca sempre limitá-la porque a sua prioridade é promover ao máximo a lógica concorrência e a expansão inerentes ao processo econômico baseado na relação de capital.

Parece bem claro que o neoliberalismo se tornou extremista em muitos países após a crise de 2008. Se até esse momento, aceitou – ainda que não sempre – governar sob as condições da democracia liberal, após essa data ele se tornou mais intransigente e se apresentou francamente como iliberal, autoritário e economicista.

Como se sabe, o neoliberalismo – diz Stathis Kouvelakis – “nunca significou ‘menos Estado’, mas sim a desdemocratização do Estado e sua subordinação mais direta às necessidades da acumulação”. A recente radicalização da direita pode ser vista tanto como consequência do fracasso das correntes moderadas que o acolheram até certo ponto quanto da pretenção política de aprofundar o desmantelamento da proteção social em nome da liberdade econômica.

Se o fascismo enfrenta as crises do sistema construindo uma comunidade mítica, o extremismo neoliberal o faz privilegiando ao máximo a lógica competitiva da sociedade civil. Para tanto, nega a comunidade pressuposta, ou melhor, a deixa à mingua o mais que pode. E é por isso que se deve distinguir essas duas formas de Estado tendencialmente totalitárias: se o primeiro, como diz Ruy Fausto, substitui a generalidade abstrata dos contratantes pela concreção da hierarquia corporativa, o segundo busca repor a generalidade abstrata dos contratantes, assumindo que eles se diferenciam pela posse de mais ou menos “capital humano”.

E aqui é preciso citar a tese modelar de Pierre Dardot e Christian Laval: “O neoliberalismo, antes de ser uma ideologia ou uma política econômica, é em primeiro lugar e fundamentalmente uma racionalidade e, como tal, tende a estruturar e organizar não apenas a ação dos governantes, mas até a própria conduta dos governados. Tem como característica principal a generalização como norma de conduta e da empresa como modelo de subjetivação”.

Se, como foi visto, o fascismo clássico se orienta sobretudo pela realização de um Estado mítico que suprime a liberdade econômica e política, o neoliberalismo guia-se pela realização de uma sociedade civil mítica em que não há obstáculos para a “livre iniciativa” e a lógica da concorrência. Daí decorre imediatamente que ambos criam um meio social excludente em que se descartam – e até mesmo se mata ou deixar morrer – aqueles que não se adaptam ou são considerados fracos ou estranhos ao corpo social.

Vladimir Safatle julga que os comportamentos extremistas em geral “seriam expressões possíveis de estruturas latentes da personalidade produzidas pelos processos normais de socialização e individuação” inerentes à sociedade moderna. De fato, Theodor Adorno, bem antes dele, viu já os indivíduos modernos como “filhos de uma sociedade liberal, competitiva e individualista, condicionados a se manterem como unidades independentes e autossustentadas (…) robustos e prevenidos contra à rendição”.

Ora, assim se mostra como os indivíduos estão dispostos ao extremismo de direita, mas não se mostra ainda para que posição eles podem ser levados. Ora, aceita-se aqui a tese de que “a sociologia e a economia têm primazia na explicação de processos e tendências sociais”. Se o que se expôs acima é correto, tal personalidade predisposta e/ou sujeitável, centrada na dinâmica pulsional individual, pode ser solicitada pela sociabilidade competitiva ou pela sociabilidade corporativa. Por isso mesmo, os seus portadores podem ser conduzidos, dependendo das circunstâncias e diante de alternativas, no sentido de comporem a massa fascista ou de aderirem à corrida social neoliberal.

Em ambos os casos, tais “sujeitos” estariam então dispostos à violência, ao autoritarismo, à discriminação, ao desprezo contra os mais fracos etc. devido a um processo de “dessensibilização social”. Subsiste, no entanto, uma distinção crucial entre essas duas formas de extremismo e isso deveria ser – crê-se – observado. Subsiste também, por isso mesmo, a dúvida se vem a ser uma boa solução chamar o extremismo neoliberal de neofascismo, mesmo se há certas afinidades entre elas, mesmo se ambas são igualmente desastrosas.

Mas, como encontrar um termo capaz de sintetizar o significado histórico desse momento necropolítico do capitalismo?

 

Fonte: Por Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda 

 

Lula, Antonio Conselheiro e a história que precisa ser recontada

Há presos e presos. Jair Bolsonaro, por exemplo, condenado por tentar destruir a democracia brasileira, passa seus dias a comer pão com leite condensado, a choramingar pela triste condição atual, a ampliar os efeitos de seus males de saúde e a dar conselhos políticos estapafúrdios ao filho candidato. Está em casa, imóvel bastante confortável, como se sabe, e ainda desfruta da companhia da bela e abnegada esposa Michelle, que vez ou outra esboça voos autônomos, para seu desespero.

Lula, condenado sem provas numa armação política hoje totalmente desmascarada, não fez dos 580 dias que passou num cubículo da Polícia Federal em Curitiba um hiato de vitimização. Coragem e persistência foram suas marcas, mediante um otimismo proativo que o torna uma figura única na História do Brasil. Entre outras atividades que o livraram da depressão comum aos apenados, o presidente estudou a vida de Antonio Conselheiro, o líder carismático protagonista da Guerra de Canudos que a literatura consagrada pintou como um messiânico lunático. A despeito de inegáveis qualidades descritivas do conflito civil, resultante de um grandioso esforço de reportagem, “Os Sertões”, de Euclides da Cunha, pespega essa mentira histórica.

O Brasil ganha agora uma obra dotada de nova perspectiva sobre Antonio Conselheiro, fruto de investigação profunda do jornalista Alexandre Sammogini. “Antonio, O Peregrino do Amor”, editado pela Scortecci, será lançado em São Paulo no dia 12 de setembro, na Bienal do Livro. O prefácio é da ministra da Cultura, Margareth Menezes. A fonte de inspiração do autor é o guia espiritual Silo – Sammogini é um dos “mensageiros de Silo”, coletividade humanista de intensa atividade social nascida aos pés do Aconcágua em 1969, hoje com irradiação mundial.

“O livro se baseia em pesquisas que fiz para contar a saga do Conselheiro antes de Canudos. É uma história pouco conhecida – o que as pessoas conhecem é a Guerra da Canudos. É uma releitura da vida do Conselheiro passada numa região entre Bahia e Sergipe, tendo ele nascido no Ceará e vivido até o início da fase adulta na região de Quixeramobim”, relatou Sammogini à coluna.

Após desilusões e fracassos, Antonio Vicente Mendes Maciel tornara-se um peregrino. Ele próprio dizia: “eu sou Antonio, o Peregrino”. Nessa condição, chega à região onde hoje está Tobias Barreto, em Sergipe, e depara com uma população em miséria absoluta, escravizada. Era o final Império, época pré-Abolição. O peregrino toma como missão construir cemitérios – muitas vezes, as pessoas morriam e não eram enterradas -, tanques de água e capelas. Organiza a população local em mutirões para reformar igrejas.

“O primeiro lugar em que ele se estabelece se chama Rainha dos Anjos, onde estamos fazendo um movimento de preservação de uma das primeiras capelas que ele construiu, se não a primeira”, conta Sammogini.

Quem leu “Os Sertões” não sabe que, antes de se tornar conhecido como Antonio Conselheiro, nosso personagem já se tornara uma pessoa idolatrada. As pessoas pediam para que ele lhes batizasse os filhos. Com suas orações e organizando o povo, ele se torna de fato o Conselheiro. “É aí que ele começa a formar seus seguidores. Ele era um beato, não era um padre, mas os padres o respeitavam porque ele reformava igrejas, organizava o povo para reformá-las”, diz o autor.

O movimento liderado por Antonio foi crescendo, o número de seus seguidores aumentou exponencialmente, o que incomodou os latifundiários, os donos da terra na época. Inicia-se, de modo orquestrado pela elite agrária, uma campanha de difamação do Conselheiro, calcada em mentiras forjadas que não deviam nada às fake news de hoje. “Espalharam que ele tinha matado a própria mãe. O Conselheiro foi preso, foi levado primeiro a Salvador, depois para o Ceará, então descobriram que a mãe dele tinha morrido quando ele tinha 4 ou 5 anos de idade”, destaca Sammogini.

De volta a Itapicuru e Campos, antiga denominação de Tobias Barreto, Antonio Conselheiro viu-se perseguido ainda mais intensamente. Sofre agressões físicas e prisões sucessivas por motivações falsas. Decide, então, sair da região e instalar-se em Canudos, a mais de 200 quilômetros dali. O povo vai atrás dele.

Eis o relato de Sammogini: “Canudos, na verdade, foi uma experiência muito curta, só durou quatro ou cinco anos. Mas foi uma experiência maravilhosa, uma comunidade em que não se precisava de dinheiro, não tinha roubo, não tinha prostituição. Só que no meio do caminho ocorreu a proclamação da República, e os primeiros presidentes começam a mandar os fiscais da Receita para cobrar impostos. O povo fica revoltado. Perguntado, o Conselheiro afirma que o povo não deveria pagar impostos para a República. Ele acaba ficando contra a República e esse é o principal motivo da sua perseguição a partir dali. Depois vem a guerra, quando aniquilam Canudos. A questão dos impostos aconteceu na cidade hoje denominada Nova Soure”.

Alexandre Sammogini começou suas pesquisas em 2020, quando saiu de São Paulo e foi morar em Sergipe. Conversou com descendentes do Conselheiro e de pessoas que conviveram com o beato. O sogro do autor, Seu Zeca Marinho, hoje com 101 anos, foi um dos que lhe contaram histórias fascinantes sobre Antonio Conselheiro.

“Em todo o nordeste havia a crença de que os rios eram de leite e os morros eram de cuscuz – uma narração mítica, mas de fato eles acabaram com a fome num período de muita miséria. Foi, de certo ponto de vista, uma insurgência contra a República, mas no fundo eles nem estavam contra a República – estavam querendo só levar a vida deles em comunidade. E o Exército veio e os massacrou”, indigna-se o autor de “Antonio, O Peregrino do Amor”.

De todo modo, a Guerra de Canudos, especificamente, não é o foco do livro, mas a vida de Antonio Conselheiro. Sobre “Os Sertões”, a visão de Sammogini é a mesma hoje consagrada pelos historiadores mais sérios: o Conselheiro jamais foi um lunático que se aproveitou do fanatismo do povo. Era, isto sim, uma liderança lúcida, e que deixou muitos manuscritos, os quais recentemente foram reproduzidos numa obra valorosa do professor Pedro Lima Vasconcelos, da Universidade Federal de Alagoas, o mesmo cujas vídeo-aulas entretiveram Lula na sela da Polícia Federal em Curitiba.

“Eu considero o Lula uma pessoa que tem essa mística do nordestino, do sertão, que vem dessa linhagem. Ele se inspira no Padre Ibiapina, em Antonio Conselheiro e no Padre Cícero, a grande referência da religiosidade popular. O Lula é um cristão católico, mas carrega essa mística popular que vem desses personagens da nossa História, uma parte da História muito mal contada e pouco preservada”, conclui Alexandre Sammogini.

 

Fonte: Por Paulo Henrique Arantes, em Brasil 247

 

Oxalato: a molécula que liga doença renal a problemas cardíacos

Pessoas com doença renal crônica (DRC) apresentam um risco significativamente maior de morte por doenças cardiovasculares. Elas também convivem com uma inflamação crônica, cujas causas ainda são parcialmente desconhecidas.

Uma pesquisa recente revelou a ligação entre esses problemas: o oxalato. Conhecida por seu papel na formação de cálculos renais, essa molécula é um subproduto do metabolismo que costuma ser eliminado pelos rins. Quando a função renal está comprometida, o oxalato se acumula no corpo e pode promover inflamação.

Um estudo do Hospital Universitário de Würzburg (UKW), na Alemanha, e do Centro de Pesquisa Experimental e Clínica (ECRC) investigou os mecanismos que conectam o dano renal induzido pelo oxalato à inflamação sistêmica e à lesão cardiovascular.

Em um experimento com camundongos, uma dieta rica em oxalato ativou o sistema imunológico em todo o corpo. Segundo o Dr. Hendrik Bartolomaeus, um dos autores, isso causou não apenas danos renais, mas também alterações patológicas no coração que reduziram a função cardíaca.

A molécula que conecta os danos

A equipe identificou a citocina interleucina-17A (IL-17A) como um fator central nesse processo. Produzida por certas células imunológicas, a IL-17A pode amplificar a inflamação. Os pesquisadores descobriram que o oxalato promoveu a produção dessa citocina e interrompeu o metabolismo energético das células imunes.

Níveis elevados de IL-17A também foram detectados em pacientes com hiperoxalúria primária, uma doença metabólica rara em que o fígado produz oxalato em excesso.

A pesquisa, publicada na revista “Cardiovascular Research”, também testou o que acontece quando a IL-17A é bloqueada. No modelo animal, a melhora foi significativa: os rins funcionaram melhor, a inflamação e a fibrose diminuíram e os danos ao coração foram reduzidos. Isso estabeleceu o que os cientistas chamaram de um eixo potencialmente terapêutico: oxalato–IL-17A–lesão cardiorrenal.

Os resultados mostram que o oxalato não apenas danifica os rins localmente, mas representa uma sobrecarga para o sistema imunológico e o metabolismo, contribuindo para doenças cardiovasculares.

A descoberta pode ajudar a identificar pacientes renais com risco cardiovascular elevado e apoiar o desenvolvimento de novas terapias anti-inflamatórias. Estudos anteriores já haviam demonstrado que os níveis de oxalato são frequentemente altos em pessoas com função renal comprometida.

Os pesquisadores agora planejam investigar se esses mecanismos se repetem em grupos maiores de pacientes com DRC. O objetivo é determinar se o eixo inflamatório é específico para o oxalato ou se mecanismos semelhantes podem contribuir para danos cardiovasculares em outras causas de doença renal.

¨      Exames de sangue preveem risco de infarto antes dos primeiros sintomas, aponta estudo

Um novo estudo mostra que três exames de sangue simples podem ajudar médicos a descobrir, com antecedência, quem tem mais chances de sofrer um infarto. A pesquisa, apresentada nas Sessões Científicas da American Heart Association (AHA) de 2025, revelou que a análise conjunta de três biomarcadores, sendo lipoproteína(a), colesterol remanescente e proteína C-reativa de alta sensibilidade, pode indicar um risco elevado de doenças cardíacas mesmo em pessoas sem sintomas.

Os pesquisadores analisaram dados de mais de 300 mil adultos que não tinham doenças do coração no início do estudo. Eles acompanharam esses voluntários por cerca de 15 anos e descobriram um padrão: quem tinha níveis altos dos três biomarcadores apresentava quase três vezes mais risco de ter um ataque cardíaco. Pessoas com dois resultados alterados tinham o dobro do risco, e aquelas com apenas um marcador alto tinham 45% mais chances de sofrer um infarto.

Os biomarcadores sanguíneos são moléculas biológicas, como proteínas e enzimas, que podem ser medidas no sangue e fornecem informações sobre o funcionamento de órgãos e sistemas do corpo. Eles são utilizados para monitorar a saúde e detectar precocemente doenças. No caso da pesquisa, os três biomarcadores avaliados refletem diferentes vias ligadas ao risco cardíaco, como genético, metabolismo do colesterol e inflamação.

A lipoproteína(a), ou Lp(a), é um tipo de colesterol em grande parte hereditário, que pode causar o acúmulo de placas nas artérias. O colesterol remanescente representa partículas de gordura nocivas no sangue que exames convencionais podem não detectar, mas que também contribuem para a obstrução arterial. Já a proteína C-reativa de alta sensibilidade mede a inflamação do corpo e, quando está elevada, indica que o organismo pode estar sob estresse, o que aumenta o risco de danos às artérias.

"Quando olhamos apenas um desses exames, o aumento no risco é pequeno. Mas, quando os três aparecem altos, o perigo é muito maior", explicou o professor Richard Kazibwe, da Universidade Wake Forest, nos Estados Unidos. Segundo ele, esses marcadores funcionam como peças de um quebra-cabeça, que juntos mostram o quadro completo da saúde do coração.

Kazibwe afirma que esse tipo de avaliação pode ser útil para pessoas com histórico familiar de doenças cardíacas, diabetes, pressão alta, obesidade ou colesterol alterado. "Mesmo quem tem colesterol e pressão sob controle pode ter inflamações ocultas ou predisposição genética. Esses exames ajudam a descobrir isso antes que um problema grave aconteça", disse.

Nem todos os biomarcadores podem ser revertidos, mas é possível reduzir o risco total com tratamento e hábitos saudáveis. A lipoproteína(a), por exemplo, tem origem genética e dificilmente é controlada com dieta ou exercícios. Já o colesterol remanescente e a proteína C-reativa podem ser reduzidos com medicamentos.

Apesar dos avanços, o estudo ainda é considerado em fase inicial e precisa ser confirmado por novas pesquisas antes de virar parte da rotina médica. No entanto, os resultados reforçam a importância do acompanhamento regular e da prevenção. "Esses testes ajudam os médicos a identificar cedo quem precisa de mais atenção e podem salvar vidas."

 

Fonte: Correio Braziliense

 

 

Os quinze dias que podem mudar a eleição presidencial

Entre esta sexta-feira, 10 de julho, e a Convenção Nacional do Partido Liberal (PL), marcada para 25 de julho, poderá ser tomada a decisão política mais importante das eleições presidenciais de 2026.

À primeira vista, trata-se apenas da convenção destinada a homologar a candidatura de Flávio Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

Na prática, a convenção decidirá muito mais do que uma candidatura: indicará quem herdará o capital político de Jair Bolsonaro e qual será a estratégia da direita para tentar impedir a reeleição de Lula.

O prazo legal para o registro das candidaturas termina em 15 de agosto. Mas o calendário político corre mais depressa. Depois da convenção dos partidos, marcada de 25 de julho a 5 de agosto, qualquer mudança deixará de ser uma simples negociação partidária para se transformar na substituição pública do candidato escolhido por Jair Bolsonaro. É essa contagem regressiva que dá novo significado aos acontecimentos das últimas semanas. 

Isoladamente, a crise entre Michelle Bolsonaro e Flávio Bolsonaro poderia parecer apenas mais um conflito dos inúmeros conflitos que envolvem a família. Vai muito mais além. Observada em conjunto, pode representar o início de uma ampla reorganização da direita brasileira.

<><> A sucessão deixou de ser um assunto de família

Durante meses, Jair Bolsonaro acreditou que bastaria indicar um dos filhos para preservar automaticamente o capital político construído ao longo de sua trajetória.

A escolha de Jair Bolsonaro recaiu sobre Flávio, o filho 01.

Michelle foi encaminhada para disputar uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal e exercer o papel de principal cabo eleitoral do enteado. A estratégia parecia encerrar qualquer disputa sucessória dentro do bolsonarismo.

A realidade seguiu outro caminho. Flávio não conseguiu unificar o campo conservador. O caso Daniel Vorcaro ampliou o desgaste de sua candidatura. Flávio passou a enfrentar resistências entre setores empresariais, dirigentes partidários e lideranças da direita liberal. A viagem aos Estados Unidos, as controvérsias envolvendo o tarifaço de Donald Trump, o desgaste provocado pelo caso Daniel Vorcaro, as declarações sobre o Pix e, por fim, o rompimento público com Michelle passaram a alimentar dúvidas sobre sua capacidade de ampliar alianças para além do eleitorado bolsonarista.

Ao mesmo tempo, Michelle iniciou um movimento na direção oposta. Primeiro, rompeu publicamente com Flávio. Depois, deixou a presidência do PL Mulher. Em seguida, lançou o movimento ImparáveisMB e passou a apresentar-se como líder de um projeto dirigido a homens e mulheres.”

A reportagem de Andréa Jubé, publicada nesta sexta-feira 10, pelo Valor Econômico chama atenção exatamente para essa mudança. Michelle já não fala apenas como ex-primeira-dama ou dirigente partidária. Procura ocupar o espaço de uma liderança nacional disponível para um projeto político mais amplo.

Sua mensagem parece clara. Ela não aceita mais desempenhar um papel secundário.

<>< O personagem silencioso

Há, porém, outro personagem central nessa história.

Valdemar Costa Neto.

Muito antes de Jair Bolsonaro escolher Flávio como sucessor, foi Valdemar quem começou a construir politicamente Michelle.

Em 2023, entregou-lhe o comando nacional do PL Mulher, colocou à sua disposição a estrutura partidária, incentivou viagens pelo país e declarou publicamente que, se Jair não pudesse disputar a Presidência, Michelle seria uma alternativa natural do partido. Na prática, iniciou a formação de uma liderança nacional.

Valdemar aceitou a escolha de Flávio, mas preservou o espaço político construído para Michelle.

Isso não significa que esteja conspirando contra Flávio. Significa apenas que continua preservando aquele que considera um dos maiores patrimônios políticos do PL.

Essa leitura ganha força quando comparada com a análise publicada por Dora Kramer na Folha de S. Paulo. Segundo a jornalista, Jair Bolsonaro e seus filhos costumam tornar-se prisioneiros das próprias palavras e decisões. Michelle, ao contrário, demonstra “roteiro bem pensado, frieza e, sobretudo, visão estratégica”.

A observação ajuda a compreender a diferença entre os movimentos recentes. Flávio passou boa parte da pré-campanha administrando crises provocadas por suas próprias declarações.

Michelle escolheu outro caminho. Saiu do PL Mulher sem abandonar o partido. Rompeu com Flávio sem romper com o legado político de Jair. Criou um movimento próprio sem anunciar candidatura presidencial. Manteve aberta a possibilidade de disputar o Senado, mas também não fechou outras portas.

Sua estratégia consiste justamente em conservar todas as alternativas disponíveis enquanto os demais personagens são obrigados a definir seus caminhos. É exatamente isso que torna os próximos quinze dias decisivos.

A convenção do PL poderá confirmar a candidatura de Flávio. Ou poderá representar o momento em que a direita começará a discutir, de forma irreversível, outra engenharia política para enfrentar Lula.

<><> A direita liberal entrou no jogo

Enquanto a crise se aprofundava dentro da família Bolsonaro, outra movimentação ocorria no campo conservador. Os principais partidos da direita liberal passaram a discutir não apenas quem seria seu candidato, mas qual seria a melhor fórmula para enfrentar Lula.

As declarações de Ronaldo Caiado marcaram uma mudança importante nesse debate: “Votar em Flávio é eleger Lula”.

O governador de Goiás deixou de tratar a disputa como uma divergência entre dois aliados do PL. Transformou a viabilidade eleitoral de Flávio numa questão estratégica para toda a direita.

Ao mesmo tempo, editoriais de grandes jornais, manifestações de dirigentes partidários e sinais vindos de setores empresariais passaram a demonstrar crescente desconforto com a candidatura de Flávio.

O debate deixou de ser apenas interno ao bolsonarismo. Passou a envolver toda a direita brasileira.

<><> Michelle pode ser a ponte

É nesse contexto que Michelle Bolsonaro ganha importância política. Separadamente, cada campo possui limitações evidentes. A direita liberal reúne governadores, partidos estruturados, maior interlocução com o empresariado e experiência administrativa.

O bolsonarismo conserva um eleitorado fiel, forte presença entre os evangélicos, grande capacidade de mobilização e uma identidade política consolidada. O desafio consiste em reunir esses dois patrimônios eleitorais. Flávio Bolsonaro foi escolhido justamente para cumprir essa missão. Até agora, não conseguiu.

Michelle, ao contrário, passou a oferecer exatamente aquilo que falta para uma eventual composição. Ela pode levar para uma chapa o sobrenome Bolsonaro, parte importante do eleitorado evangélico, o voto feminino conservador e uma parcela significativa da militância bolsonarista.

Em contrapartida, um candidato da direita liberal ofereceria aquilo que o bolsonarismo ainda não conseguiu construir sozinho: uma ampla coligação partidária, apoio de governadores, maior diálogo com o empresariado e melhores condições de disputar o eleitorado de centro.

Ronaldo Caiado representa hoje o exemplo mais visível dessa possibilidade. Caiado simboliza, hoje, o esforço da direita tradicional para construir uma candidatura capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador. 

Nesse cenário, Michelle poderia funcionar como a ponte entre esse projeto e o eleitorado bolsonarista. Mas porque Caiado simboliza o esforço da direita tradicional para construir uma candidatura nacional capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador.

Michelle poderia tornar-se a ligação entre esse projeto e o eleitorado bolsonarista.

<><> A indefinição já atinge o próprio PL

Outro sinal de que a candidatura presidencial permanece em aberto surgiu nesta sexta-feira.

Segundo informação publicada por Bela Megale, em O Globo, a demora de Flávio Bolsonaro em definir o candidato do PL ao governo do Rio de Janeiro passou a provocar dúvidas, entre dirigentes do partido, sobre a própria candidatura presidencial do senador.

Não se trata de um detalhe regional. O Rio de Janeiro é o principal reduto eleitoral da família Bolsonaro e um dos palanques mais importantes da campanha nacional.

Quando a indefinição sobre o candidato à Presidência começa a atrasar decisões estratégicas no maior Estado do bolsonarismo, o problema deixa de ser apenas presidencial.

Passa a atingir toda a organização eleitoral do partido.

Esse talvez seja o sinal mais eloquente de que a crise entrou numa nova etapa. Já não envolve apenas Jair, Flávio ou Michelle. Começa a interferir diretamente na montagem das chapas estaduais e na estratégia nacional do PL.

<><> A decisão continua nas mãos de Jair

Nada disso significa que Flávio Bolsonaro esteja fora da disputa. Muito menos que Michelle já tenha decidido disputar a eleição ou integrar qualquer chapa, amparada pelo espólio de Jair Bolsonaro, seu marido a quem no momento deles dois chama de “Galego”.

O que mudou foi o ambiente político.

Pela primeira vez desde que Jair anunciou o nome do filho como sucessor, a hipótese de uma reorganização mais ampla da direita deixou de parecer improvável.

Mas essa reorganização depende de uma decisão que somente Jair Bolsonaro poderá tomar. Foi ele quem escolheu Flávio. Foi ele quem definiu a sucessão familiar.

Se concluir que a candidatura do filho não reúne mais condições de unificar a direita, caberá ao próprio Jair decidir se mantém sua escolha ou se autoriza outra composição.

Talvez esteja aí a maior ironia desta campanha.

Depois de impedir que Michelle se tornasse sua sucessora, Jair poderá descobrir que ela é justamente a integrante da família com melhores condições de preservar o patrimônio político construído pelo bolsonarismo.

<><> O relógio começou a correr

Michelle e Flávio ainda possuem uma importante rede de proteção. Ela aparece como favorita à disputa pelo Senado no Distrito Federal. Ele poderá buscar a reeleição para o Senado pelo Rio de Janeiro, caso sua candidatura presidencial não prospere.

Mas essa margem de manobra tem prazo para terminar. Entre 10 e 25 de julho – quando a convenção do PL vai oficializar o candidato a presidente — a direita também precisará decidir seu rumo. Depois da convenção dos partidos, restará apenas o registro formal das candidaturas na Justiça Eleitoral, marcada para próximo dia 25 de julho.

Os próximos quinze dias dirão muito mais do que se Flávio Bolsonaro continuará ou não candidato à Presidência. Dirão quem herdará o capital político de Jair Bolsonaro. Dirão se Michelle permanecerá candidata ao Senado ou passará a ocupar outro espaço na reorganização da direita

Caiado simboliza, hoje, o esforço da direita tradicional para construir uma candidatura capaz de ultrapassar as fronteiras do próprio campo conservador. Nesse cenário, Michelle poderia funcionar como a ponte entre esse projeto e o eleitorado bolsonarista.

Será esta, afinal, a fórmula que a direita procura há quase um quarto de século para tentar derrotar Lula nas urnas?

•        Campanha “Imparáveis”: manobra para esconder a crise do bolsonarismo. Por Ricardo Mezavila

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro lançou antes do previsto a campanha digital “Imparáveis”, apresentada como uma forma de “defender sua imagem” contra o que ela chama de “metralhadora de mentiras”. Mas para quem acompanha de perto o cenário político, essa iniciativa não passa de mais uma jogada de marketing, tentando virar o jogo num momento em que o bolsonarismo perde força, credibilidade e espaço diante de propostas que realmente atendem ao povo.

Usar a Mulher-Maravilha como símbolo é uma tentativa barata e superficial de se passar por vítima ou heroína. Na realidade, o grupo político ao qual pertence acumula problemas, suspeitas e questões sérias que nunca foram explicadas de verdade à população.

O fato de terem antecipado o lançamento já mostra o nervosismo nos bastidores. O motivo principal é o desempenho ruim da candidatura do senador Flávio Bolsonaro: ele cai nas pesquisas, perde apoio e já não representa uma ameaça eleitoral — especialmente aqui no Rio de Janeiro. Os números deixam claro: o eleitorado percebeu que promessas vazias e discurso de confronto, marca registrada da direita conservadora, não resolvem nada. Não geram emprego, não melhoram a saúde, não ampliam a educação e nem garantem direitos sociais.

Com o filho mais velho perdendo terreno nas intenções de voto, a família Bolsonaro aposta na única figura que ainda não tem uma rejeição tão alta — Michelle — para tentar manter sua influência e continuar aparecendo no debate público, mesmo sem apresentar qualquer projeto que beneficie a maioria.

E a pressão só aumenta, ainda mais por causa do contraste com o governo Lula e as propostas da esquerda. Enquanto o governo federal mostra resultados concretos, melhora a vida da população mais pobre, recupera programas sociais destruídos nos anos anteriores e cresce em aprovação, a oposição fica cada vez mais sem argumentos. Para completar, corre nos bastidores a informação de que pode surgir um vídeo comprometedor envolvendo Flávio Bolsonaro — algo que deixa o grupo ainda mais inseguro.

Se for verdade, é mais um capítulo de uma história marcada por suspeitas, falta de transparência e práticas que não têm nada a ver com o que o povo brasileiro precisa. Não é à toa que há tanta apreensão: em cada crise, a resposta nunca é explicar os fatos, assumir erros ou propor soluções. A saída é sempre criar novas campanhas para desviar a atenção e confundir a opinião pública.

Nesse cenário, a campanha “Imparáveis” tem um papel muito claro: tentar limpar a imagem de um grupo em dificuldade, ganhar tempo e manter sua base mobilizada com discursos de perseguição, ao invés de debater ideias sérias e caminhos para o desenvolvimento do país. A versão da assessoria, de que antecipou tudo apenas por “demanda do público”, não convence ninguém: é a mesma desculpa de sempre, usada para esconder as verdadeiras razões. 

Para quem defende projetos que priorizam a maioria, a justiça social e a democracia — como faz a esquerda — essa iniciativa não passa de uma jogada política vazia. Não existe “defesa de imagem” quando o grupo se recusa a responder sobre suas ações passadas e presentes. 

A estratégia é simples: quando os fatos não estão a seu favor, inventa-se uma narrativa para parecer que eles são as vítimas. Mas o povo já aprendeu a diferenciar campanha de marketing de compromisso real. E cada vez mais enxerga essas manobras pelo que realmente são: uma tentativa desesperada de continuar tendo espaço e influência, sem oferecer nada de concreto, enquanto o país segue avançando com políticas que transformam a vida da maioria.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

Café: da bebida 'do diabo' aos best-sellers de autoajuda cristã

Basta uma espiada naquelas estantes cheias de best-sellers das livrarias, bem no ponto em que os livros religiosos tangenciam a autoajuda. Naquele segmento que o jargão editorial costuma classificar como "devocionais", não faltam títulos com a palavra "café".

Na esteira do mega-sucesso editorial Café com Deus Pai — cuja primeira edição, em 2023, colocou o pastor evangélico, teólogo e escritor Junior Rostirola como o autor brasileiro mais vendido daquele ano —, outros escritores miram na mesma fórmula. Nas prateleiras, há títulos como Café com Nossa Senhora, Café com Jesus, Café com os Santos, Café com as Mulheres da Bíblia, Café com Deus, Café com a Virgem Maria — e até mesmo Café com Exu, provando que o conceito transcende o cristianismo.

A ideia, que parte de um conceito simples, funciona. No dia a dia, afinal, "tomar um café" pode ser um sinônimo de encontro intimista entre pessoas que se dão bem. Ao mesmo tempo, para muitos o cafezinho é um ritual, um jeito de começar bem o dia ou aqueles minutinhos reservados para si no meio do corre-corre.

Alguns ainda percebem a palavra "fé" como a segunda sílaba de café. Quase uma brincadeira — fruto da síncope, da contração fonética, da elisão comum na língua coloquial em que "com a fé" vira simplesmente "ca fé".

Mas se a relação entre religiosidade e a bebida quase onipresente nos lares brasileiros — segundo levantamento da Associação Brasileira da Indústria do Café (Abic), o país é o segundo maior consumidor de café, perdendo apenas para os Estados Unidos — nem sempre foi de amizade. O café já foi demonizado por católicos. E até hoje não é bem-visto por algumas denominações cristãs.

<><> Uma breve história do café

Os mais antigos registros escritos sobre o consumo de café são da segunda metade do século 6º, conforme explica a gastrônoma e historiadora Camila Landi, professora e coordenadora do curso de Tecnologia em Gastronomia da Universidade Presbiteriana Mackenzie. Trata-se de um relato, com contornos lendários, de que um pastor de cabras na Etiópia teria notado os efeitos, em seus animais, a partir do consumo da planta.

"Há várias versões, mas a maioria apontando para o estudo do efeito da planta nos animais que a consumiam na região", conta a professora. Segundo artigo sobre a história da bebida publicado pelo Yale Center for the Study of Globalization, o pastor teria notado "um frenesi" atípico no seu rebanho.

Já a torrefação teria sido iniciada bem depois. E já com pitadas de religiosidade. Landi diz que tudo indica que a prática tenha começado no século 14, "quando monges jogaram os frutos no fogo por os acharem muito amargos". Acabaram se surpreendendo com o aroma.

Esses religiosos, ao que tudo indica, seriam da Igreja Ortodoxa Etíope, uma das mais antigas dissidências orientais do cristianismo.

"Assim teria nascido a bebida, resultante desse fruto tostado em contato com água quente", pontua Landi. "Naturalmente que histórias são contadas e lendas têm suas versões, portanto coexistem outras similares."

O cafezinho se espalharia por outras partes da África. No século 15, passou a ser largamente utilizada por muçulmanos sufistas do Iêmen, como um recurso para se manterem acordados durante as longas preces noturnas.

Logo, o mundo islâmico trouxe a bebida para o debate. Os árabes, afinal, já a chamavam de "qahwah" — daí a palavra café, aliás. O termo significa vinho. Justamente porque as propriedades estimulantes do café eram comparadas às de uma bebida alcoólica, cujo consumo é vetado pelos muçulmanos.

Mas os juristas islâmicos daquele tempo entenderam que o café não precisava ser proibido. Porque, ao contrário do álcool, não inebria, não prejudica o discernimento — mantém a clareza mental daquele que o ingere.

Ao que tudo indica apenas no século 16 o café chegaria à Europa, via Turquia — onde os registros mais antigos da presença do café são de 1453. A essa altura, cristãos já viam com maus olhos aquela bebida consumida pelos então adversários de fé do mundo árabe. Se eles a chamavam de vinho, aquilo só poderia ser o "vinho do diabo", a "bebida do satanás", detratavam os europeus.

A bebida teria chegado ao mundo ocidental por volta de 1570, em Veneza, importante entreposto comercial da época. Se alguns cristãos experimentaram aquele "vinho" árabe e gostaram, evidentemente que a questão se tornou tema de debate no outrora poderoso mundo católico.

Em uma história que mistura tanto fatos com lendas, efeitos e fés, destaca-se o que se conta sobre o papa Clemente 8º (1536-1605), que comandava a Igreja na virada do século 16 para o 17. Costuma-se dizer que ele "batizou" a bebida que, com isso, perderia o status de ser algo "do diabo" e então pôde ser consumida sem culpa pelos cristãos.

Outras narrativas enriquecem os detalhes da história: em 1600, teriam levado a ele o café, na esperança de seu veredito sobre ser ou não pecado tomá-lo. O papa teria experimentado e achado tão bom que, resignado, exclamou que aquela maravilha não poderia ficar restrita apenas aos infiéis.

Possivelmente essas versões são anedotas a partir do fato real de que a Igreja Católica parou de se opor ao consumo do café, abrindo as porteiras para sua expansão no mundo ocidental a partir do século 17. O artigo do Yale Center lembra que, em um contexto em que as pessoas consumiam majoritariamente bebidas alcoólicas, o papa aprovar o café era uma maneira de ajudar "a manter a sobriedade da população".

Referência nas sinopses biográficas de sumos pontífices da Igreja, o livro The Oxford Dictionary of Popes, do teólogo britânico John Norman Davidson Kelly (1909-1997), não aborda a querela sacro-cafeeira da gestão de Clemente.

<><> Proibições

Mas em épocas de extremo controle religioso sobre os hábitos sociais, o café despertava mesmo polêmicas no âmbito religioso. "Existem muitos indícios", comenta Landi. "O café foi alvo de muitas polêmicas religiosas. Registros históricos apontam proibições e restrições em diversas sociedades."

"Ainda hoje, existem restrições em algumas religiões ou ocasiões", acrescenta a historiadora.

Na seara cristã, dois casos destacam-se entre os mais emblemáticos. A Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias, conhecida popularmente como igreja dos mórmons, proíbe que seus adeptos bebam café.

A regra consta do livro Doutrina e Convênios, uma espécie de catecismo da denominação, onde estão as chamadas revelações escritas pelo criador da igreja, o norte-americano Joseph Smith (1805-1844).

Em 27 de fevereiro de 1833 ele escreveu, contrariado pelo fato de que membros da igreja mascavam tabaco durante as reuniões: "condena-se o uso de vinho, bebidas fortes, tabaco e bebidas quentes".

De acordo com a interpretação dos religiosos, o café, assim como o chá preto, estava banido. Em 2023 o historiador Keith Erekson, diretor de pesquisas históricas e divulgação da igreja dos mórmons, conversou com a reportagem da BBC News Brasil e explicou que a dita revelação é um incentivo para que "as pessoas cuidem de seu corpo físico, a fim de que possam ser saudáveis e receber recompensas espirituais, como sabedoria e conhecimento". Nesse sentido, o consumo de café estaria dentro de "alguns comportamentos" nocivos à saúde.

Também surgida nos Estados Unidos, a Igreja Adventista do Sétimo Dia tem postura semelhante. Oficialmente, a denominação não proíbe o café — mas orienta que seus adeptos não o bebam.

Diretora associada do departamento de saúde da igreja para a América do Sul, a biomédica Lanny Cristina Burlandy Soares diz que a orientação é clara mas, "para compreendê-la bem" é preciso voltar à Bíblia. Segundo o entendimento religioso, Deus teria criado o ser humano à sua imagem e semelhança, confiando-lhe um propósito. "Nessa visão, o corpo não é um mero recipiente, mas é o templo pelo qual o ser humano exerce sua vocação. Cuidar dele é um ato de fidelidade ao propósito original de Deus", argumenta Soares.

Daí que os adventistas pregam um cuidado integral à saúde. A biomédica explica que, como a cafeína tem propriedades estimulantes e "com o uso regular, pode causar dependência", há a recomendação de evitá-la.

Ela relembra episódios do islã e do catolicismo em que o café também foi discutido. "Em 1511, em Meca, setores mais rigorosos proibiram o café com o argumento de que contrariava os preceitos do Alcorão", contextualiza. "Quando o café chegou à Europa, no século 17, enfrentou resistência semelhante."

"A Igreja Católica via a bebida com desconfiança por sua origem árabe-islâmica e chegou a ser chamada de 'vinho do diabo' por setores do clero", recorda. "A virada veio com o papa Clemente 8º. Segundo a tradição histórica, após provar o café pessoalmente, o pontífice decidiu 'batizá-lo', tornando-o aceitável para os cristãos. Com esse gesto papal, a resistência eclesiástica cedeu rapidamente."

<><> Café com...

O best-seller Junior Rostirola não é muito afeito a conceder entrevistas, segundo informa sua assessora de imprensa. Ele topou responder por escrito às questões da reportagem.

Rostirola já era muito conhecido pelo seu trabalho como pastor da Igreja Reviver, sediada em Itajaí, em Santa Catarina, quando a primeira versão do Café com Deus Pai explodiu. O livro de mensagens devocionais diárias transcendeu o meio evangélico — acabou caindo no gosto de cristãos de todas as denominações.

Ele gosta de café e explica que o título do livro veio da ideia de um espaço na correria para conversar com Deus. "O café simboliza uma pausa, um momento de conversa, acolhimento e proximidade", frisa. "A ideia sempre foi transmitir a mensagem de que Deus quer estar presente em nosso dia a dia, não apenas nos grandes momentos da vida, mas também nas pequenas pausas da rotina."

"Costumo dizer que o sucesso do livro não está na bebida, e sim no que ela representa. O café faz parte da cultura brasileira e geralmente está associado a momentos de conversa, acolhimento e relacionamento. Dentro do projeto, ele se tornou uma metáfora para essa pausa intencional diante de Deus. É um convite para desacelerar por alguns minutos e permitir que Ele fale ao nosso coração. Essa é a essência do Café com Deus Pai", completa Rostirola.

O teólogo diz ver "com naturalidade" o fenômeno cafeeiro-religioso nas capas de livros. "É um símbolo muito presente na vida das pessoas e remete a acolhimento, proximidade e conversa. É compreensível que diferentes autores utilizem essa linguagem para comunicar suas mensagens", pontua.

"Fico feliz em ver mais pessoas incentivando a leitura, a reflexão e a vida devocional. No fim das contas, o mais importante é que vidas sejam alcançadas e que as pessoas se aproximem de Deus", comenta o autor.

Especialista em marketing literário e fundadora de uma agência de divulgação de livros, a jornalista Lilian Cardoso lembra que toda vez que surge um grande best-seller "todo mundo quer saber o segredo, a fórmula". "E o Café com Deus Pai do pastor Junior Rostirola já vendeu mais de 10 milhões de exemplares", salienta ela, autora de O Livro Secreto do Escritor.

Para ela, além "da sacada do título", o sucesso também precisa ser atribuído à fama do autor, "que já tinha sua audiência" e seu público evangélico antes de publicar a obra. Mas ela reconhece que a ênfase no "momento com Deus, essa coisa da leitura diária" constitui a base para que o livro tenha se tornado um sucesso de vendagem.

Os números fizeram com que outros autores e editoras também quisessem abocanhar um naco do segmento. "Outros projetos e outras editoras foram surfando nessa onda dos devocionais. Isso é uma coisa comum no mercado do livro", analisa ela.

E às vezes a menção nem precisa ser direta. Fundadora da Cabana Church, a bispa Jeiza Pontes, por exemplo, acaba de lançar o livro Doses de Cura. Não tem café no título, mas fala em doses, em goles — porque também traz as mensagens bíblicas em forma de pequenos textos, pequenos ensinamentos.

Como o foco da obra é ajudar quem está com depressão, ela lembra que o título alude ao tratamento. "Dificilmente uma pessoa tem êxito com uma dose única. Imaginei exatamente assim. Não uma promessa de 'leia isso e pronto'", explica.

O fenômeno não se restringe ao cristianismo. O psicólogo Rubens Oliveira, por exemplo, buscou nas religiões de matriz africana as reflexões para seu Café com Exu. "A ideia foi preencher uma lacuna editorial: a falta de obras de autoconhecimento e transformação pessoal a partir de referências ligadas a tradições afro-brasileiras", explica.

Ele diz que buscou no título a união de "dois elementos carregados de significado simbólico muito forte". O café seria "o encontro, a conversa, a pausa". Exu, por sua vez, é o orixá associado a "comunicação, caminhos, escolhas, movimento e tomadas de decisão".

"O título não foi pensado como referência religiosa no sentido tradicional, mas metáfora para uma conversa franca sobre a vida", resume.

<><> Cafezinho com fé

O recurso é simbólico, claro. Mas a ideia do café com religião funciona justamente pelo apelo que o momento do cafezinho tem na cultura brasileira.

"O uso da palavra café em livros de espiritualidade não acontece por acaso. Há um significado cultural muito forte que vai além da bebida. Está na socialização, na conversa, na escuta, no encontro e na circulação de ideias", analisa Oliveira.

Para o psicólogo, nos tempos atuais, marcados pela velocidade e pelo excesso de informações, é sedutora a ideia de um momento de pausa no dia com a sugestão de disponibilidade, de ouvir e de refletir.

Mesmo com a restrição ao consumo de café, a adventista Soares diz que não há problemas com livros religiosos com a bebida no título. Para ela, os adventistas veem "com interesse genuíno e admiração" o alcance que tais obras têm atingido.

"Para entender como os adventistas leem esse fenômeno, é útil separar dois planos. O primeiro é o do conteúdo espiritual: a proposta de uma devoção diária, de pausar para refletir e cultivar uma conversa íntima com Deus está completamente alinhada com os valores adventistas", argumenta ela.

"Os adventistas têm sua própria tradição de devocionais diários e valorizam profundamente a espiritualidade integrada ao cotidiano. O segundo plano é o da metáfora cultural. O café no título desses livros não é um endosso da bebida, mas uma imagem poderosa de acolhimento e conversa íntima. No Brasil, tomar café com alguém é um gesto de afeto e proximidade. Usar essa metáfora para falar da relação com Deus é uma escolha comunicativa sensível e criativa, que os adventistas reconhecem sem precisar endossar o uso da bebida."

"Nossa posição é simples: acolhemos com simpatia qualquer iniciativa que aproxime as pessoas de Deus e da leitura bíblica", resume Soares.

 

Fonte: BBC News Brasil