O
que explica as vitórias da extrema direita na América do Sul?
Nos
últimos anos, sete dos doze países da América do Sul passaram a ser governados
pela direita ou pela extrema direita. Os casos mais recentes foram as vitórias
eleitorais de Abelardo De la Espriella, na
Colômbia, e Keiko Fujimori, no Peru. Além disso, temos os governos do caricato
presidente argentino Javier Milei, ultraliberal na economia e negacionista da
última ditadura militar no país, e de José Antonio Kast, o presidente chileno
saudoso dos tempos do ditador Augusto Pinochet. Alguns venceram com folga, em
países como o Equador e o Chile. Outros se impuseram com vantagem mínima, como
no Peru e na Colômbia. De uma forma ou de outra, os políticos de direita
da América Latina vivem uma onda
de vitórias eleitorais que alterou o mapa de poder do continente.
No
campo da economia, os presidentes Rodrigo Paz, da Bolívia, Santiago Peña, do
Paraguai, e Daniel Noboa, que preside o Equador, se apresentam como gestores,
defensores do livre mercado e do neoliberalismo, aplicando uma agenda de
austeridade econômica e um alinhamento automático com os EUA no âmbito da
política externa.
Na
terça-feira (28/7), a peruana Keiko Fujimori se tornou o
caso mais recente de uma figura de direita latino-americana a assumir a
presidência do seu país pelo voto. Ela venceu as eleições na sua quarta
tentativa. Já o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, tomará posse no dia
7 de agosto. Com isso, a América Latina somará 12 chefes de Estado com
posicionamento à direita no espectro político. Este número contrasta com o
verificado no continente no início de 2023, quando havia 11 países
administrados por governos de esquerda de diferentes tipos.
É
verdade que as duas maiores democracias latino-americanas em número de
eleitores — o Brasil e o México — mantêm governos de esquerda. Mas o Brasil irá às urnas em outubro e tudo indica
que a eleição será um duelo entre o presidente Lula e o senador de direita
Flávio Bolsonaro. Também é verdade que existem diferenças entre os diversos
presidentes latino-americanos de direita. Alguns são mais radicais do que
outros, com tendências populistas ou autoritárias. Mas, de forma geral, eles próprios
costumam se mostrar como parte de uma mesma família ideológica, expressando seu
apoio eleitoral mútuo ou copiando símbolos polêmicos, como a megaprisão de
Nayib Bukele, em El Salvador.
O Brasil
e Fato ouviu intelectuais, pesquisadores e dirigentes políticos desses
sete países para tentar entender o que explica a ascensão da extrema direita
nos territórios e quais os impactos para a vida dos povos da região.
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Argentina
O
cientista político argentino Sergio Morresi, do Consejo Nacional de
Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), começa com uma ressalva: há
quem interprete a sequência de vitórias eleitorais não tanto como uma onda
propriamente ideológica, mas como uma espécie de “cansaço da sociedade diante
da falta de respostas das democracias na América Latina”. O próprio Morresi
recomenda cautela no trato dessa hipótese. “Quase sempre esse movimento, na
verdade, vai para a direita”, diz. Há que se pesar, também, uma marca própria
da extrema direita sul-americana da atualidade. Se ela não professa tamanho
nacionalismo, como a maior parte da direita radical europeia, é na insatisfação
econômica que o discurso ganha força. “É um dos motores das direitas na América
Latina”, explica.
Javier
Milei é um caso peculiar. A sua chegada ao poder, em 2023, representou uma
espécie de grito de insatisfação contra a sempre cambaleante economia
argentina, desgastada pela inflação nas alturas dos anos anteriores. Para
Morresi, Milei funciona como uma espécie de agregador de duas dimensões da
direita argentina: a nacionalista e a liberal-conservadora. “Essa base social
efetivamente demandava medidas mais à direita, e Milei veio representar isso.
Agora, essa fusão é anterior ao próprio Milei. Produziu-se nas bases sociais
antes de Milei surgir como fenômeno político”. Mieli também escancara uma
faceta da extrema direita atual notada, de alguma maneira, na manutenção do
movimento bolsonarista no Brasil: o fato de que o apoio ao representante se
mantém, quase que independentemente das melhorias nas condições materiais de
vida da população. “A capacidade de resiliência que Milei tem, apesar de se
poder dizer que seu governo não está dando todas as respostas, se explica
porque essa base social permanece e se mantém, apesar de o governo Milei não ter levado a uma
melhoria econômica,
em termos gerais”, diz o cientista político argentino. Em outras palavras, a
situação econômica anterior era tão complicada que o pouco entregue por Milei
tem sido, à sua maneira, suficiente para a manutenção da governabilidade.
Exemplo disso é a queda na inflação, que aterroriza os argentinos há décadas.
A
plataforma política também se sustenta no alinhamento com os Estados Unidos. Na
Argentina, os exemplos são diversos e vão além do campo simbólico. Mais do que
as frases de apoio ao presidente Donald Trump, Milei naturalizou
um regime de investimentos que permite que, em casos contratuais, empresas
estrangeiras que atuem na Argentina adotem a arbitragem internacional, com
tribunais em Nova York, em vez do sistema de Justiça argentino. Outro exemplo é
a nova lei de terras, que libera a compra massiva de território argentino por
capital estrangeiro. “Isso, obviamente, terá – não apenas agora, mas também no
médio prazo –, muita influência na forma como leis, decretos e normativas que
implicam uma perda de soberania”, avalia Morresi. De algum modo, o
presidente argentino vem colhendo o saldo político do estreitamento de laços
com a Casa Branca. “Milei não é alguém que não obtenha nada dos EUA”, diz
Morresi, lembrando as eleições de meio de mandato de outubro de 2025, quando a
influência direta de Trump ajudou o governo de extrema direita argentino
a manter sua base no Congresso. A realidade vai
além das fronteiras do país: “As vitórias da direita no Chile, na Colômbia, no
Peru, e a intervenção direta no caso venezuelano anunciam uma nova forma de
intervenção dos EUA na América Latina”, explica.
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Chile
O
presidente José Antonio Kast substituiu Gabriel Boric, mas, para o economista e
cientista político Ignacio Bustos, ex-presidente do Partido Progressista (PRO),
põe em xeque a capacidade de governar. “Kast é um político que teve sucesso
eleitoral, mas é um político medíocre no cenário nacional. Ele não é
reconhecido nem mesmo pelo próprio campo político como alguém de grande
capacidade”, diz Bustos. Segundo ele, a base de sustentação vem de setores da economia. No Chile, o que se
passa é como uma espécie de coalizão entre o conservadorismo tradicional e o
empresariado. Por essa razão, nomes de peso do governo têm relação direta com a
elite econômica chilena: o chanceler Pérez Maquena, ligado à poderosa família
Luksic; o ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, com trânsito entre o capital
internacional; e a presença de representantes de gigantes da tecnologia no
gabinete de governo. “Os interesses do governo não são ideológicos, mas
corporativos”, sintetiza Bustos. “Está muito alinhado com a doutrina de Peter Thiel [fundador da
Palantir] e com esse neotrumpismo que possui um desenvolvimento muito mais
filosófico do que propriamente político”.
A
respeito da derrota do campo progressista no Chile,
Bustos faz uma provocação. “Eu diria que eles foram mais inteligentes do que
nós. E nós fomos mais ingênuos do que eles.” Parte dessa inteligência
estratégica passa pela capacidade que a direita chilena teve de interligar
algumas contradições sociais no país, transformando-as em discurso político.
Entre elas, estão a criminalidade, a imigração e a própria economia.
“Nós
precisamos voltar a viver como vive a população para compreender quais são seus
problemas. Se não sabemos quais são, por exemplo, as dificuldades relacionadas
ao aquecimento das casas neste momento no Chile, onde faz muito frio durante o
inverno, como poderemos falar sobre o sofrimento das pessoas com frio?”,
pergunta. Segundo ele, parte da esquerda chilena absorveu culturalmente a
dinâmica neoliberal, afastando quadros que tinham maior capacidade de
representação diante das demandas populares.
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Bolívia
Rodrigo
Paz, atual presidente boliviano, chegou ao Palácio Quemado sem partido, sem
programa definido de governo e sem uma explicação muito cristalina da sua
própria linha ideológica. Em resumo, segundo o analista político boliviano
Manoel Mercado, Paz ainda não decidiu o que é, politicamente. “Eu classificaria
o governo de Rodrigo Paz como um típico populismo de direita. Vamos ver se ele
vai acentuar mais seus traços populistas ou se caminhará cada vez mais para
características de direita. É um governo que está flutuando no vazio. O que o
mantém no poder não é seu caráter político nem sua gestão, mas, sim, a ausência
de outras referências políticas na Bolívia”, aponta. Uma das principais
referências nas últimas décadas foi a do ex-presidente Evo Morales, que,
atualmente, tem uma ordem de prisão não executada. Mercado provoca: “O que
fazemos depois de prendê-lo?” Segundo ele, uma eventual prisão de Evo levaria
milhares de pessoas à frente da cadeia em poucos dias. Com essa tensão política praticamente
incessante, o governo Paz tenta produzir mudanças estruturais, apostando na
liberalização do câmbio, na marginalização dos setores populares indígenas e no
desmonte parcial de áreas do Estado Plurianual.
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Colômbia
Na
Colômbia, a crise do governo eleito de Abelardo de La Espriella já começa
no processo de transição. “Nunca um cenário
de transição foi tão desastroso, tão complexo, mas é, em parte, porque a forma
de Abelardo de la Espriella é a forma de mentir”, contesta Erika Prieto Jaime,
dirigente do movimento social Congreso de los Pueblos. Ela afirma que a denúncia
feita por Abelardo de que o processo de transição deveria ser suspenso em razão
da descoberta de casos de corrupção no governo Petro não se sustenta. Antes
mesmo de chegar ao poder, Abelardo vem anunciando medidas que devem
afetar a estrutura social da Colômbia. Seu governo promete uma severa reforma
fiscal e quer se alinhar estrategicamente a Washington. “O presidente eleito
anunciou o desmonte do gabinete do Alto Comissário para a Paz, uma construção
que não é da esquerda do país”, explica.
Abelardo,
de cidadania estadunidense – além de colombiana –, já prometeu fazer o país
aderir ao Escudo das Américas, o projeto de
aliança militar costurado por Trump e pelo secretário de Estado dos EUA,
Marco Rubio. Erika Jaime cita com preocupação a base militar estadunidense em
construção nas ilhas Gorgona, estimada em cerca de US$ 10 milhões. “O que se vê
é que, com ampla preocupação, a Colômbia retome esse cenário nefasto de ser a
ponta de lança do imperialismo estadunidense no nosso continente. Nessa
expressão do Escudo das Américas, nós [a oposição] somos um inimigo interno a
destruir”, recorda Prieto. Gustavo Petro não reconhece o resultado do
pleito e fala em “desobediência civil pacífica”. O argumento
principal é que, dos cerca de 250 mil votos de diferença, cerca de 170 mil
vieram do exterior e não passaram pelo escrutínio, um procedimento que valida
legalmente a contagem. O partido de esquerda Pacto Histórico, porém, terá a
maior bancada do Congresso, embora não seja maioria.
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Equador
O
sobrenome Noboa não é qualquer um no Equador. Ligado a alguns dos grupos
empresariais mais influentes do país, ele fez fortuna na administração de
portos, no setor de mineração e na exportação de bananas. Daniel Noboa chegou à
presidência, catapultando o sobrenome ao principal cargo político equatoriano. O
cenário político do Equador não se explica sem a influência dos casos de
violência. Há não muito tempo, o país era um dos mais seguros da América Latina
e do Caribe. A mudança na realidade trouxe a pauta da criminalidade e do
tráfico de drogas para o centro da pauta política. “Como país, passamos a ser
um lugar onde existe um caos organizado. Ou seja, é um caos que não é produzido
da própria situação endógena do país nem das relações entre seus grupos sociais,
mas um caos que foi induzido de diferentes maneiras”, explica a socióloga
equatoriana Irene León. A indução, diz ela, tem dois vetores: a implantação de
um crime organizado que não existia e uma militarização que tem a ver com a
geoestratégica dos Estados Unidos para o Pacífico Sul. Três acordos militares com Washington
deram ao parceiro capacidade de ação “praticamente sem fronteiras”, de modo que
a guerra total aprovada em junho por Noboa prevê a atuação de forças armadas
estrangeiras e de civis. Ou seja, grupos paramilitares, a exemplo de corporações
estadunidenses. Para León, a soberania perdeu sentido prático, enquanto a
Constituição do Bem Viver (aprovada em 2008) parece cada vez mais um documento
do passado.
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Paraguai
No país
governado por Santiago Peña, os ditames de Washington são ouvidos com apreço.
Exemplo disso é a assinatura de um acordo do tipo SOFA
pelo governo Peña, que estabelece o marco legal para a presença de militares e
civis do Pentágono em território paraguaio. “Trata-se de uma entrega total.
Assim como Milei está fazendo na Argentina, aqui isso também acontece, só que
de forma mais lenta e tentando esconder melhor o processo”, denuncia o
jornalista paraguaio Andres Leopoldo Caballero. Uma figura-chave é a de
Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio (2013-2018), classificado pelos EUA
como “significativamente corrupto”. Alvo de sanções pessoais vindas de
Washington, Cartes cumpre um papel tensionador na relação entre Peña e Trump.
“Peña precisa fazer tudo o que os Estados Unidos exigem, porque, caso
contrário, Washington poderá extraditar Cartes. É por aí que passa a questão.
Na minha opinião, esses governantes já não são presidentes de verdade, mas
marionetes dos EUA”, avalia Caballero.
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Peru
Héctor
Bejar, ex-chanceler do único governo de esquerda do século 21 no Peru, do agora
preso Pedro Castillo, é crítico com a esquerda peruana durante o processo
eleitoral. Segundo ele, os setores populares demoraram a denunciar que a
extrema direita tentava aparelhar instituições eleitorais em benefício próprio.
“Um exemplo: as leis eleitorais no Peru foram alteradas para reduzir de modo
substancial o coeficiente de apoio que um candidato precisa ter para se
candidatar. Isso fez com que tivéssemos 35 candidatos presidenciais no primeiro
turno. Com isso, a ideia era forçar um segundo turno entre dois candidatos da
direita, mas eles não conseguiram”, disse. Roberto Sánchez despontou como
elemento surpresa para ameaçar a hegemonia da direita e disputou voto a voto a
presidência. Literalmente. Foram apenas 50 mil votos que impediram
que o progressista se tornasse o próximo mandatário. “A extrema direita perdeu
no Peru”, explica Bejar. “Se analisamos os dados, Keiko Fujimori só venceu com
o voto no exterior. Isso porque não foram considerados os peruanos na
Venezuela, na Nicarágua e em Cuba, onde não houve mesas de votação porque o atual
governo não mantém relações diplomáticas com esses países”. Se contabilizados
apenas os votos em território peruano, Sánchez venceria com 50,08%, contra
49,91% de Keiko.
Guerrilheiro
nos anos 1960 e uma das figuras mais proeminentes da esquerda peruana, Bejar
conecta a ascensão da extrema direita na América Latina com o cenário de
instabilidade global. “Há o perigo real de uma terceira guerra mundial”,
pontuou. “Nós temos que fazer um balanço e reconhecer que o que chamamos de
progressismo não tocou — ou não pôde tocar — nos pontos chaves e profundos da
dominação colonial e oligárquica na América Latina.” Bejar cita reformas feitas
em governos como os de Lula e dos Kirchner, na Argentina, mas que não puderam
“tirar o poder dos poderosos”. “Somente tivemos verdadeiras revoluções em Cuba,
uma meia revolução na Nicarágua, que foi fruto de um acordo, e na Venezuela,
onde, mesmo assim, o setor privado permanece intacto, apesar de ser a
experiência mais radical dos últimos tempos”, disse. “Apesar de o povo ter
informações, o balanço e o resultado não são precisamente favoráveis à esquerda
e, por isso, o povo opta pelo voto de castigo. Isso afetou o progressismo na Argentina,
no Brasil, no Chile”, afirmou. “Há um fenômeno de moderação que vai bem se
pensarmos na violência. Mas o que temos que pensar realmente é: ‘até que ponto
o progressismo conseguiu refletir a verdadeira vontade das massas populares na
América Latina?’ Eu francamente sinto falta de um debate sereno e frutífero no
seio da própria esquerda”, completou.
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Como a direita expandiu seu poder na América Latina — e o que explica essa
tendência
O que
há por trás deste fenômeno? E do que depende a sua continuidade?
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'Problema estrutural'
Um dos
motivos da ascensão da direita latino-americana é a ampla reivindicação popular
por uma luta mais eficaz contra a criminalidade. A segurança pública,
atualmente, é uma das maiores preocupações dos cidadãos do continente. Esta
questão se seguiu, em alguns casos, a consideráveis aumentos dos casos de
violência e extorsão, verificados em países como o Equador e o Peru. Mas o medo
da criminalidade também disparou no Chile. Pesquisas realizadas no ano passado
demonstraram que a população chilena está mais preocupada com o crime e a
violência que a do México e da Colômbia, que têm índices de homicídios muito
mais altos.
De
qualquer forma, os candidatos de direita parecem personificar melhor essa
demanda por segurança, quando não a impulsionam. Keiko Fujimori, no Peru;
Abelardo de la Espriella, na Colômbia; Daniel Noboa, no Equador; José Antonio Kast, no Chile; e Nasry Asfura,
em Honduras, chegaram à presidência com promessas de "ordem" e
"braço forte" contra o crime. Já Nayib Bukele é um dos
líderes latino-americanos mais valorizados do continente. O presidente de El
Salvador se tornou um expoente da direita regional, ao reduzir a
violência das gangues do país com um estado de exceção que concentrou o poder e
suspendeu garantias constitucionais, gerando denúncias de graves abusos.
Atualmente,
a América Latina tem "governos majoritariamente de direita, que estão
pegando muito pesado com a questão da segurança pública", segundo a
professora de relações internacionais Regiane Bressan, da Universidade Federal
de São Paulo, especializada na região. "Isso porque a violência está
grande, mas ela também é fruto de um problema estrutural da região, que é a
pobreza e a desigualdade. E os governos de esquerda não deram conta de resolver
essa problemática totalmente", declarou Bressan.
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O fator Trump
Além da
maior ênfase em políticas duras em relação à segurança, existem outros aspectos
que diferenciam esta nova direita que ganhou terreno na América Latina, em
relação aos conservadores tradicionais. Um deles é o uso mais eficaz das redes sociais como
instrumento de proselitismo, segundo especialistas. Outro é a maior
agressividade verbal contra seus adversários, particularmente contra a esquerda
e a chamada cultura woke — em alguns
casos, sem respeitar as normas básicas de convivência democrática liberal. Este
estilo combativo coincide com o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Seu governo
procurou se alinhar a líderes latino-americanos de direita para recuperar a
influência regional e neutralizar a China. "Eu acredito que os Estados
Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as
eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação do México. E, é claro,
a gente tem que estar muito atento a esses governos extremistas, porque são
governos extremistas que rompem com a democracia", segundo Bressan.
A
pesquisa regional Latinobarómetro destacou que as mudanças políticas começaram
a ocorrer no continente a partir de 2020, quando os latino-americanos passaram
a se classificar levemente mais à direita, ano após ano. A diretora da
Latinobarómetro, Marta Lagos, vincula o fenômeno à pandemia de coronavírus, que
"acaba convencendo as pessoas vulneráveis de que não irão sair do buraco
em que se encontram". "Esta queda de expectativas para o futuro gera
esta demanda populista e de extrema direita", explica Lagos. "É como
se as pessoas dissessem: 'Chega, é preciso vir algo muito duro e drástico para
que as coisas mudem'", segundo ela.
A mesma
pesquisa também indicou que o apoio à economia de mercado na América Latina
aumentou de 58%, em 2020, para 66%, em 2024. Isso também pode explicar por que
a ideia de reduzir o Estado, simbolizada pela motosserra na campanha que
levou Javier Milei à presidência
da Argentina em 2023, também foi apresentada por outros candidatos de sucesso
no continente.
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Fenômeno duradouro?
Mas os
latino-americanos parecem votar há anos para punir seus governos no poder, mais
do que por ideologia. Na última década, os candidatos de oposição do continente
venceram cerca do dobro das eleições, em relação aos de situação. Atualmente,
os presidentes de direita que governam a América Latina enfrentam diversos
desafios de gestão.
Milei
ainda tenta fazer com que a economia argentina melhore de forma perceptível
para as pessoas, embora tenha reduzido a inflação e aplicado um ajuste drástico
no país. O Equador, em 2025, registrou um dos maiores índices de homicídios do
mundo. Foram mais de 9,2 mil assassinatos, segundo dados oficiais, mesmo com as
políticas de "braço forte" e a mobilização militar ordenada por Noboa
nos últimos dois anos.
E, no
Chile, os índices de aprovação de José Antonio Kast caíram desde que o
presidente tomou posse em março. Isso se deve à estagnação econômica, ao
desemprego que aumentou para 9,4% entre março e maio e à criminalidade, que
permanece uma das maiores preocupações da população do país. "É um erro
pensar que a direita veio para ficar", alerta Lagos.
Mas ele
destaca que, antes do retorno da esquerda ao continente, poderão surgir
"novos tipos de populismo". "Se a direita não conseguir
controlar a segurança, será o equivalente funcional à incapacidade da esquerda
de eliminar a pobreza", explica Lagos. "São promessas não cumpridas,
com sinais ideológicos distintos. Quem será eleito depois?"
Fonte:
Brasil de Fato/BBC News



