Haddad
atribui baixa popularidade de Lula a redes sociais
O ex-ministro da Fazenda Fernando
Haddad (PT-SP)
está em uma difícil campanha para o governo do Estado de São Paulo, mas, fiel a
seu estilo e orgulhoso de sua coerência, não teme seguir abraçando um tema impopular como a chamada
"taxa das blusinhas", a cobrança de imposto federal sobre compras
internacionais de até US$ 50. Fazia poucos dias que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tinha dito, no
programa Sem Censura, da TV Brasil, que Haddad acreditava que a taxa, criada em
2024 e revogada agora em ano eleitoral, "realmente era uma coisa
boa", "para proteger a indústria nacional", e que havia
transmitido a ele essa "convicção".
Haddad
tinha errado na avaliação lá atrás, então? "Não mudei de opinião",
disse ele em entrevista à BBC News Brasil nesta quarta-feira (27/5). "Uma
loja aberta não pode pagar mais imposto do que uma loja virtual", diz, em
consonância com a Confederação Nacional da Indústria (CNI) — que afirmou, em
abril, quando a medida ainda estava valendo, que foram preservados 135 mil
empregos graças a ela — e com os governos estaduais, que mantiveram os impostos
estaduais, o ICMS, sobre essas compras internacionais. "Os governadores
estão cobrando taxa de blusinha e ninguém vai perguntar para o Tarcísio [de Freitas, governador de
São Paulo]
se ele é contra ou a favor do ICMS que ele está cobrando."
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Leia os principais trechos da entrevista.
·
Estamos quase em junho e três pessoas ainda disputam a
candidatura ao Senado em São Paulo, no campo da centro-esquerda: Simone Tebet,
Marina Silva e Marcio França. O que falta para decidir? Falta a palavra de
quem?
Fernando
Haddad - Eu
vejo com uma certa naturalidade essa situação, até porque, se você for ver do
outro lado, também tem mais de dois
candidatos.
E é natural que haja um processo de decantação. Nós estamos falando de três
pessoas com uma trajetória incrível. Simone foi prefeita da cidade dela,
senadora da República, ministra do Planejamento, Márcio França foi governador
de São Paulo, ministro da Micro e Pequena Empresa, de Portos e Aeroportos. A
Marina tem uma trajetória internacional incrível, foi senadora da República,
candidata a presidente. Nós estamos falando de três pessoas muito valorosas e é
normal que isso aconteça. Imaginar que, arbitrariamente, alguém vai decidir uma
composição em uma conversa... O presidente Lula está muito envolvido no tema,
mas ninguém está preocupado porque é um problema bom para resolver. Seria ruim
se ele não tivesse figuras de tanta expressão política como eles são.
·
Mas esse impasse envolve também a discussão do seu vice,
por exemplo. Qual seria uma chapa dos sonhos?
Haddad
- Eu
não vou dizer isso pelo seguinte: eu não quero arbitrar, não quero ser parte de
uma atitude desrespeitosa em relação a nenhum dos três. São meus colegas de
ministério, são parceiros, são amigos, além de termos uma visão de mundo comum
em relação à democracia, à justiça social. São pessoas de altíssima
respeitabilidade e sobre as quais não paira dúvida sobre conduta ética.
·
Mas a campanha já começou, não?
Haddad
- Até
dia dez, dia 15 de junho, a gente resolve. Eu fui resolver isso em 2022, era
final de julho. Nós vamos resolver muito antes do que resolvemos em 2022, na
minha opinião.
·
Agora falando da sua pré-candidatura ao governo de São
Paulo: por que um produtor de Barretos ou de Jaguariúna deveria votar no senhor
e não no Tarcísio?
Haddad
- Infelizmente,
eu me deparei com uma realidade em São Paulo que eu não esperava. Eu discuti
longamente com o presidente [Lula] qual deveria ser minha função em 2026.
Inicialmente, nós divergimos sobre o que seria o melhor a fazer. E uma das
razões pelas quais eu topei foi que ele começou a me expor o que estava se
passando em São Paulo, pelos dados que ele recebia. Efetivamente, nós estamos
diante de um governo muito precário, em várias áreas. Na área de finanças, como
há muito tempo não se vê. O crescimento do Estado é medíocre. No ano passado,
São Paulo ficou para trás num patamar inaceitável. A situação das escolas
públicas paulistas é muito precária. O que se tornou a Sabesp é um escândalo.
Desde o começo, foi tudo mal feito: a venda de uma das maiores companhias de
saneamento do mundo com um único interessado, aquela venda de ações, a chamada
segunda tranche, a preços muito abaixo do mercado, o envolvimento do complexo
[do Banco] Master na compra da Emae [Empresa Metropolitana de Águas e Energia],
depois na compra de títulos de CDBs do próprio Banco Master... Tudo muito mal
explicado. A própria doação de campanha [de R$ 2 milhões feita à campanha de
Tarcísio de Freitas em 2022 por Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e
também preso no âmbito das investigações do Banco Master]...
[Nota
da redação: Em julho de 2024, o governo de São Paulo vendeu cerca de 32% das
ações da Sabesp na bolsa, passando o comando à privada Equatorial.
Paralelamente, o governo estadual também privatizou a Emae em abril de 2024,
vendendo o controle ao fundo Phoenix, cujo principal investidor apontado pela
imprensa é o empresário Nelson Tanure, apontado pela Polícia Federal e pelo
Ministério Público Federal como sócio oculto do Banco Master. Pouco mais de um
ano depois, já privatizada, a própria Sabesp comprou cerca de 70% da EMAE.
Procurada,
a Sabesp afirmou que a desestatização seguiu a lei e foi conduzida com
transparência. Destacou que a Justiça de São Paulo julgou improcedente a ação
que questionava a venda de ações. Disse ainda que a compra da EMAE atende a
critérios técnicos e classifica de "leviana e irresponsável" qualquer
ligação com o caso Master.]
·
Mas tudo isso chega na realidade do produtor de Barretos?
Haddad
– Não,
na realidade do produtor de Barretos chega que nós estamos no terceiro recorde
de produção agrícola da história do Brasil, porque o Ministério da Fazenda fez
os três maiores Planos Safra da história. Nunca o agro foi tão atendido por um
governo. Aliás, não é a primeira vez que o presidente Lula faz isso. Quantos
mercados nós abrimos para os produtos de São Paulo? Quantos mercados o
Bolsonaro e Tarcísio abriram? Nenhum. Como foi o enfrentamento do tarifaço do Trump? Como nós lidamos
com o suco de laranja, com a carne? Com os produtos de São Paulo que são
vendidos fora, com o café? Enquanto Eduardo Bolsonaro estava do lado dos
Estados Unidos, defendendo a retaliação ao Brasil em virtude do julgamento do
pai, nós estávamos lutando pelos interesses nacionais. Aí me aparece o Tarcísio
dizendo "vamos entregar alguma coisa para satisfazer o presidente
americano". E nós ali, muito sobriamente, com a melhor diplomacia do
mundo, ganhando o terreno nas negociações até a rendição dos Estados Unidos.
Se
deixar o preconceito de lado, se a pessoa se debruçar sobre números, sobre
política pública, inclusive sobre o desbaratamento dessas quadrilhas todas que
a nossa Polícia Federal está fazendo... O caso Master é todo ligado ao
bolsonarismo. Quatro ex-ministros do Bolsonaro envolvidos, o presidente do
Banco Central do Bolsonaro [Roberto Campos Neto] foi totalmente leniente com a
escalada de emissões de CDBs impagáveis. Qualquer criança sabe que aquilo era
insustentável e o BC do Bolsonaro soltando a rédea para o banco crescer. É a
maior fraude bancária da história. E poderia ter sido evitada com muita
facilidade. Corromperam diretores do Banco Central que hoje estão com
tornozeleira eletrônica. Quando você vai imaginar um diretor do Banco Central
ser corrompido? Falta ali, uma boa apuração, que não será feita, na minha
opinião, infelizmente.
·
Não?
Haddad
- Acho
que o foco está fora do BC, e na minha opinião o foco deveria ser o BC. O que
aconteceu para um Banco Central, qualquer que seja, não só ser corrompido, mas
não ter mecanismo de reação? Foram feitas várias reuniões de alerta com o
Roberto Campos Neto e com o diretor da área. Houve muitos alertas feitos pela
Febraban [Federação Brasileira de Bancos], grandes bancos, FGC, e esses alertas
foram ignorados. A minha equipe do Tesouro descobriu em duas semanas, sendo que
não é competência do Tesouro ver isso, algo que o Banco Central não viu em seis
anos.
·
O senhor acabou de lançar um livro que trata das classes
sociais e relações de trabalho. O governo não conseguiu aprovar um projeto
para regulamentar a situação dos entregadores de aplicativo, encontrando
resistência, inclusive, da própria categoria. O PT perdeu a linguagem de falar
com essa classe trabalhadora, o precariado, como o senhor diz no seu livro?
Haddad
– O
PT é um partido da classe operária tradicional, chão de fábrica, nascido no ABC
industrializado... É muito interessante que a tua pergunta tenha sido precedida
de um comentário sobre o meu livro, porque um dos recados do meu livro é o
seguinte: não existe uma classe social que represente os interesses de toda a
humanidade, como se pensou no século 19. O marxismo, por exemplo, pensava que a
classe operária era portadora dos interesses emancipatórios de toda a
humanidade.
Hoje
você tem, dentre os não proprietários do meio de produção, um conjunto de
cientistas e técnicos e programadores e formuladores que são contratados pelo
capital como força criativa. Você tem o velho proletariado, que é contratado
como força produtiva, e você tem muita força destrutiva das relações e da
proteção social.
Um
partido que se pretenda representante de um projeto emancipatório, com uma
dimensão utópica, um horizonte mais generoso, tem que partir do pressuposto de
que isso mudou e ele tem que se abrir para esses novos segmentos sociais.
·
O PT está aberto a esses novos segmentos?
Haddad
- Eu
acredito que está, pelo fato de ter voltado ao poder agora e ter se deparado
com uma realidade muito diferente da sua origem. Por exemplo, a última
iniciativa teve uma adesão da categoria muito legal, a ponto de subirem no
palanque para defender o presidente. Nós estamos tateando. Não tenho a menor
dúvida de que o PT quer entender essa categoria, ajudar. E não vai aparecer um
[outro] partido, na minha opinião, com essa preocupação. Só que o PT precisa dominar uma
tecnologia que ele não domina hoje. Ele precisa aprender. A melhor coisa que
nós podemos fazer é aprender com esses novos atores, chamados na literatura de
precariado, que são essas pessoas que não têm relações estabelecidas de uma
maneira tradicional, são novas relações que estão surgindo de vínculo de
trabalho e que não têm a cabeça do proletariado tradicional.
Se eles
não forem convidados a participar da política, não vão construir uma visão de
sociedade mais interessante.
·
Críticos dizem que a segurança pública é um dos
calcanhares de Aquiles da esquerda. Ceará e a Bahia têm índices muito ruins
nessa área. E São Paulo é um Estado totalmente infiltrado pelo crime
organizado, de acordo com os próprias autoridades. Se o senhor for eleito, qual
seria a medida número um 1 para a segurança pública?
Haddad
- Eu
comecei a ouvir muito as pessoas para entender quais são as prioridades do
Estado. E o que eu posso te assegurar é que a segurança pública vai estar no
alto das minhas prioridades. E eu vou dizer, nas próximas semanas, o que eu vou
fazer, com começo, meio e fim. Eu já tenho um plano muito adiantado de
segurança pública que faz um balanço crítico da atual gestão, que desmontou uma
série de mecanismos e não colocou nada no lugar. Meu plano de trabalho tem uma
dimensão que é o andar de cima, que é muito desassistido pelo governador. São
Paulo tem uma deficiência muito grande no combate ao andar de cima. Modéstia à
parte, eu acho que aprendi muito com a Receita Federal atual, que começou a
desbaratar os grandes esquemas de corrupção, que foram desbaratados pelo
governo federal, Polícia Federal, Receita Federal e Coaf [Conselho de Controle
de Atividades Financeiras].
·
O senhor já pensa em nomes para uma eventual secretaria?
Haddad
- Eu
diria para você que eu já até tenho nome. Mas não posso dar pista nenhuma
ainda. Talvez eu antecipe o lançamento do plano de segurança, porque, como vai
ser uma prioridade absoluta, talvez eu antecipe o anúncio dele.
·
Acha que o Brasil caminha para ser um narcoestado?
Haddad
- Se
a gente não fizer nada...
Uma das
coisas mais erradas que o Tarcísio fez foi boicotar a PEC de Segurança Pública
do presidente Lula. O constituinte de 88 falhou no capítulo sobre segurança
pública, porque só tem um artigo ali na Constituição, o 144. E nada mudou de 88
para cá. O presidente Lula foi o único presidente que teve a coragem de
reconhecer que a Constituição tem uma falha genética, que ele queria corrigir. O
objetivo da PEC era fazer da cooperação entre os órgãos de inteligência a
regra, e não a exceção. Compartilhamento de dados, compartilhamento de
informações, acesso a sistemas de informação, isso tem que ser a regra, senão
você não combate crime nenhum.
[Tarcísio]
manda o secretário da Segurança Pública [deputado federal e ex-secretário de
Segurança Pública de São Paulo, Guilherme Derrite (PP-SP)] desfigurar
a Lei Antifacção justamente no capítulo da cooperação, que era o mais
importante, eu diria. Todo o resto era mais do mesmo. Mas o eixo da ação é a
cooperação, não pode ser outro. Porque o crime está organizado e o Estado não.
É isso que está acontecendo. O que o presidente Lula fez foi de muita coragem.
Tanto é que ele não criou o Ministério da Segurança Pública porque o ministro
da Segurança vai fazer o quê se ele não tiver os dados? Se ele não tiver uma
inteligência? O PCC, que nasceu e cresceu em São Paulo, está internacional
hoje.
·
O PCC cresceu durante o governo de Geraldo Alckmin (PSB)
em São Paulo. Ele falhou nisso?
Haddad
- Nós
não tínhamos um diagnóstico preciso sobre por qual razão a segurança pública
não andava bem no Brasil. Foi isso que o governo Lula fez. O diagnóstico não
anda por falta de integração, então vamos fazer uma PEC para integrar.
·
Sim, mas que o crime organizado estava avançando, esse
diagnóstico já existia há muito.
Haddad
- Mas
qual era o antídoto para isso? Com essa experiência que nós acumulamos, eu
estou muito seguro de que se eu for eleito governador, eu vou fazer o oposto do
que o Tarcísio fez, que é buscar a cooperação com a Polícia Federal, com a
Receita Federal, com o Coaf, entregar informações, receber informações, montar
um núcleo duro de combate ao crime organizado. O governo de São Paulo não
realiza essa cooperação.
·
Analistas consideram que a gente está num momento de
rombo fiscal, com o maior déficit nominal da série histórica, de R$ 1,2
trilhão. Se Lula for reeleito, ele vai ter que fazer um ajuste fiscal, como a
Dilma fez em 2015?
Haddad
- Ele
fez o ajuste fiscal.
·
E por que o rombo?
Haddad
- Porque
nós estamos com o juro muito elevado, incompatível com a situação do país. Eu
recebi um projeto de lei orçamentária com mais de R$ 60 bilhões de rombo,
desconsiderado o reajuste do Bolsa Família, que era de R$ 52 bilhões,
desconsiderado o calote dos precatórios, que era de R$ 44 bilhões,
desconsiderando a indenização dos governadores por conta do ICMS de
combustível, que era de R$ 45 bilhões, e eu fiz acordo para baixar para R$ 27
bilhões. Você soma isso, dá R$ 200 bilhões, fora a inflação de quatro anos.
Além disso, eu recebi um BPC [Benefício de Prestação Continuada] desorganizado,
e um Fundeb [Fundo de Manutenção e Desenvolvimento da Educação Básica e de
Valorização dos Profissionais da Educação] que foi multiplicado por três. Soma
tudo isso. Qualquer que seja o presidente eleito, ele vai receber uma situação
fiscal infinitamente melhor.
·
Mas é só o juro? Não teve muito gasto?
Haddad
– É
só ver as contas públicas. Pega a despesa primária como proporção do PIB. É
assim no mundo inteiro. Qual foi a despesa primária como proporção do PIB?
Cresceu ou caiu no governo Lula?
·
E por que os juros não baixam, na sua opinião?
Haddad
- Aí
tem que perguntar para a autoridade monetária.
·
Mas o senhor tinha uma boa relação com Gabriel Galípolo.
O que aconteceu?
Haddad
– Não
aconteceu nada. Eu tenho uma relação de independência. Não existe no Brasil, há
muito tempo, sintonia entre a Fazenda e o Banco Central. São visões diferentes
sobre como lidar com o problema. Poucas vezes na história do Real, você teve
momentos de sintonia fina entre a política monetária e a política fiscal.
·
Eu volto à pergunta inicial então: Lula vai ter que fazer
um ajuste no ano que vem se ele for reeleito?
Haddad
- Todo
ministro da Fazenda tem que entrar com o plano de trabalho. Eu recebi o
orçamento com R$ 200 bi de déficit, conforme eu relatei aqui para você, e já me
coloquei à disposição para conversar com qualquer ex-ministro da Fazenda, do
[Pedro] Malan para cá, para bater esses dados, porque não é possível a gente
discordar sobre um número. O próximo presidente, seja quem for, e eu espero que
seja o presidente Lula, vai receber um Brasil muito melhor do ponto de vista
das finanças. O que está fora do lugar é a taxa de juro. Agora teve a guerra no
Irã, que, na minha opinião, atrapalhou muito o ciclo de corte. Mexeu com o
mundo inteiro essa bobagem que foi atacar o Irã. Mas talvez a gente pudesse ter
chegado num patamar de juros menor do que os 15%. Talvez a gente pudesse ter
começado a cortar antes. Mas enfim, está contratado o ciclo de corte, que eu
acho que vai ser um ciclo longo, e o corte do juro vai acertar o déficit
nominal, porque o déficit primário também depende da queda do déficit nominal.
Porque se você quer rotear o crescimento econômico, você vai ter impacto fiscal
também.
·
Apesar dos bons indicativos econômicos, a alta do PIB,
inflação controlada...
Haddad
– Não
só econômicos, sociais também, né?
·
Mas então, por que a popularidade do presidente Lula não
melhora?
Haddad
- Essa
questão da rede social.... Quando você faz uma pessoa tomar detergente, você
está lidando com um universo novo. Estou falando de uma pessoa, um adulto, que,
por fidelidade canina, uma seita, se filma tomando detergente porque a Anvisa
preveniu a população sobre um lote de um produto que poderia estar contaminado.
Nós estamos numa situação grave. Quando pessoas agem dessa maneira, elas não
estão mais se importando com nada. E a atuação dessas pessoas na rede social
confunde a opinião pública. Nunca se vendeu tanto apartamento e casa, nunca se
vendeu tanto carro, nunca se vendeu tanta moto. O IDH do Brasil é o maior da
história, a distribuição de renda é a maior da história, o desemprego está na
mínima histórica, a inflação de quatro anos é a menor do Plano Real.
·
Mas as pessoas não conseguem ligar uma coisa à outra?
Haddad
- Mas
aí você está jogando uma responsabilidade em cima das pessoas também, que eu
não acho justo. Há falhas de percepção, falhas de comunicação, fatores sociais
que não estão sendo considerados. Não pense você que o vício em jogos online
afeta pouco a vida das famílias. Oficialmente, os cassinos online estão levando
R$ 50 bilhões em apostas. Fora o universo digital não oficial, que, dizem, leva
outros R$ 50 bilhões. Estou falando de perto de 1% do PIB. Outra coisa é a
educação financeira. Nós ainda temos uma cultura de crédito que precisa ser
muito aperfeiçoada. Não é porque a prestação cabe no seu bolso que você tem que
tomar o crédito. O mundo digital envolve muita coisa. Envolve crédito, compra
online, jogos, envolve quase que um universo paralelo. Nós vamos ter que fazer
um trabalho de educação. E eu não estou falando assim "ah, o pobre não
sabe". É todo mundo. Eu sou do tempo em que você entrava em dez lojas
antes de comprar uma camisa para saber qual era a mais barata.
·
Pois, falando em camisa, vamos falar da taxa das
blusinhas. O presidente Lula disse nesta semana que o senhor acreditou que a
taxa das blusinhas era uma coisa boa.
Haddad
- Eu,
o Tarcísio, o Zema, o Caiado, o Eduardo Leite e todos os líderes partidários.
·
E foi um erro?
Haddad
- Você
acha que todas essas pessoas erraram? Sabe o que é interessante? Nenhum órgão
de imprensa escreveu um editorial sobre o tema. Nem contra, nem a favor. O que
está por trás disso? Por que ninguém se manifestou sobre isso? Afinal de
contas, o certo é o comércio eletrônico pagar o mesmo imposto do comércio
presencial, ou não? Do meu ponto de vista, deveria ser uma regra só. Uma loja
aberta não pode pagar mais imposto do que uma loja virtual.
·
Mas o discurso virou uma guerra de rico contra pobre. O
rico pode viajar e comprar lá fora, enquanto o pobre não pode comprar.
Haddad
- Mas
estou falando de um conceito. Uma loja aberta tem que pagar mais ou menos
impostos que uma loja virtual? O Confaz [Conselho Nacional de Política
Fazendária, responsável, dentre outras coisas, pelo Imposto sobre Circulação de
Mercadorias e Serviços, o ICMS] está cobrando o ICMS até hoje. Não revogou a
taxa das blusinhas. Os governadores estão cobrando taxa de blusinha e ninguém
vai perguntar para o Tarcísio se ele é contra ou a favor o ICMS que ele está
cobrando. Porque há, efetivamente, uma coisa que está por trás disso. Como isso
não ficou na conta dos governadores, nem do Congresso, nas redes sociais estava
ficando na conta do presidente, que foi levado a revogar, porque ele é o único
que não queria [a taxa das blusinhas]. A única pessoa que não queria era ele.
·
Aí ele jogou na sua conta, dizendo que "o Haddad
acreditava que era uma coisa boa".
Haddad
- E
eu não mudei de opinião. Eu não mudei de opinião porque eu ouvi todos os
governadores, todos os líderes partidários, a indústria, o comércio e cheguei a
essa conclusão.
·
Sobre a redução da jornada 6x1, alguns críticos dizem que
é uma mudança muito brusca, que a proposta é que seja feita a redução de
jornada de um jeito muito rápido. Qual é a opinião do senhor?
Haddad
- A
redução da jornada de trabalho é uma demanda histórica, que ganhou tração
social agora, e é natural que as pessoas queiram uma regra de transição. E quem
tem que estabelecer essa regra de transição é o Congresso Nacional. Agora, o
que a direita está pedindo? O Tarcísio, o Flávio? Dez anos de transição. Aí é
um pouco demais.
·
Nesta semana a oposição pediu a redução para 4x3.
Haddad
- Mas
eles pediram isenção de imposto de renda para quem ganha até R$ 10 mil, quando
a gente apresentou até R$ 5 mil. Isso é um jogo de cena para confundir a
opinião de novo. Se eu estivesse no lugar deles, eu negociaria em vez de ficar
fazendo micagens. Eu negociei durante meses o Imposto de Renda para chegar a um
consenso e todo mundo votar a favor. Todo mundo votou a favor, não teve um voto
contra. Porque houve negociação. A Fazenda aprovou 77 projetos de lei na minha
gestão, sendo que 40 estruturais. Estou fazendo a maior reforma tributária da
história do Brasil. Tudo passou porque foi negociado.
·
Mas para negociar é preciso ter interlocução com o
Congresso. O senhor acha que neste momento, depois que o Senado não aprovou a
indicação do Jorge Messias para o Supremo, há interlocução?
Haddad
- Quando
caiu a medida provisória da desoneração, nós fomos para o Supremo Tribunal
Federal e ganhamos. Quando eles derrubaram o decreto do presidente do IOF, nós
fomos para o Supremo e ganhamos. E todo mundo dizia "agora acabou",
"não tem mais clima para nada". Eu aprovei tudo. Você reconstrói o
clima. Isso depende da sua capacidade de reconstruir a ponte.
·
O presidente Lula está com 80 anos e provavelmente essa é
a última eleição que ele disputa. O senhor está preparado para receber esse
bastão daqui a quatro anos?
Haddad
- Não
existe esse planejamento no Brasil.
·
Não é no Brasil, é no PT.
Haddad
- Mas
não existe isso. Quatro anos no Brasil são 40 anos em qualquer lugar do mundo.
É muito tempo. Quem imaginou que o Flávio Bolsonaro, que até outro dia estava
ameaçado de prisão por rachadinha, por compra de imóvel sem fonte de renda, por
vender chocolate, agora estaria disputando a Presidência da República? Tem como
planejar alguma coisa? Agora, se eu ganhar o governo do Estado, vou trabalhar
bem, vou fazer um bom governo. E aí o destino encaminha. Quando fui ministro da
Educação, eu não pensava em ser candidato. E acabei sendo candidato a prefeito
e ganhando a eleição. Podia ter perdido, mas não dá para planejar desse jeito.
·
Não parece que o PT está trabalhando para a sucessão de
Lula. Quais são os nomes, quem são os quadros que estão sendo preparados?
Haddad
- Não
falta quadro.
·
Quais são então?
Haddad
- Vários
quadros. Vários governadores, ex-governadores.
·
Quais?
Haddad
- Eu
não vou ficar declinando o nome aqui. Você sabe.
·
Não, não sei, estou te perguntando.
Haddad
- O
Rafael Fonteles [governador do Piauí] é um quadro que vai despontar no Brasil,
por exemplo, para citar um. Mas você está pedindo nomes, os outros vão ficar
com ciúmes…
·
Então fala todos
os outros. Temos tempo.
Haddad
- Todo
governador ou ex-governador do Estado pode ser candidato. Todo senador pode ser
candidato.
·
Quem é o favorito
do Lula neste momento?
Haddad
- Pergunta
para ele.
·
O senhor é próximo
dele.
Haddad
- Mas
nem o Lula vai dizer isso, porque o Lula sabe da complexidade do processo. Não
são processos simples. Mas eu acho que pode ser divertido esse processo. Se ele
for arejado, participativo, ele pode ser muito legal. Pode ser uma excelente
oportunidade para o PT de se repensar, se reavaliar, discutir programa,
discutir futuro. Se o PT fizer um processo aberto, menos fechado, pode ser
celebrativo até. Inclusive a militância participar, debater. Imagina se tiver
uma prévia no PT? Seria o máximo. Eu acredito que, se tivesse uma prévia no PT
— e estou te respondendo assim porque nem sei se vai ter —, poderia ser um
negócio muito bonito. Tem gente muito boa no PT com boas ideias, com boas
cabeças. E se você numa prévia envolve a militância, já na escolha do nome você
já dá impulso à campanha. Pode ser uma coisa muito legal.
Fonte: Por
Marina Rossi, da BBC News Brasil em São Paulo

