Brasil
de 2027: mesma armadilha - orçamento sequestrado pelo Congresso e uma sociedade
exausta de esperar
As
eleições presidenciais de 2026 não podem ser compreendidas apenas como disputa
entre candidatos, partidos ou programas. Elas condensam um processo histórico
mais longo, no qual se encontram a formação peculiar do Estado brasileiro, a
permanência das elites políticas e econômicas, a transformação recente do
capitalismo, a crise da representação, o crescimento da extrema direita e a
crescente dificuldade do Estado nacional de controlar as condições materiais
sobre as quais pretende governar. O presidente eleito em outubro de 2026
assumirá em 1º de janeiro de 2027 não simplesmente a administração federal, mas
um país submetido a restrições econômicas, políticas e internacionais que
reduzem sua margem de autonomia.
Quem
vencer encontrará um Congresso fortalecido, orçamento mais disputado pelas
emendas parlamentares, dívida pública elevada, juros reais altos, demandas
sociais reprimidas, estrutura produtiva vinculada à exportação de commodities,
pressões ambientais crescentes, organizações criminosas que ultrapassaram os
limites tradicionais da segurança pública e uma sociedade politicamente
dividida. Governará também em um mundo mais instável do que aquele encontrado
pelos governos brasileiros no início deste século. Por isso, a pergunta
fundamental de 2026 não é apenas quem vencerá as eleições, mas o que ainda
significa vencer uma eleição presidencial no Brasil.
<><>
Uma independência que preservou a ordem
O
Estado brasileiro nasceu de uma transição política profundamente distinta das
rupturas que produziram boa parte das repúblicas hispano-americanas. A
Independência de 1822 preservou a monarquia, manteve a escravidão, conservou
estruturas econômicas coloniais e acomodou os interesses das elites
proprietárias. Mudou-se a relação formal com Portugal sem que se produzisse
transformação equivalente nas estruturas sociais.
Essa
característica marcou profundamente a história brasileira. A Abolição extinguiu
juridicamente a escravidão sem realizar reforma agrária nem integrar a
população negra à cidadania econômica. A República derrubou a monarquia sem
democratizar profundamente a sociedade. A Revolução de 1930 modernizou o Estado
e impulsionou a industrialização, mas preservou estruturas oligárquicas. O
golpe de 1964 interrompeu um processo de reformas sociais quando a modernização
econômica produzia pressões por transformações estruturais.
Há,
portanto, uma continuidade importante: o Estado brasileiro modernizou-se
inúmeras vezes sem romper integralmente com as estruturas de poder que o
sustentavam. O país tornou-se moderno sem deixar de ser dependente.
A
Constituição de 1988 representou a maior tentativa histórica de construir uma
cidadania social universal no Brasil. O Sistema Único de Saúde, a seguridade, a
educação pública e a ampliação dos direitos políticos estabeleceram um pacto
constitucional de enorme alcance. Entretanto, esse pacto nasceu quando o
capitalismo mundial caminhava para a financeirização, a liberalização dos
fluxos de capital e a crescente subordinação dos Estados às expectativas dos
mercados financeiros. Essa tensão atravessou toda a Nova República.
Os
governos Lula, iniciados em 2003, operaram dentro dessa estrutura
institucional, mas encontraram condições internacionais favoráveis. A expansão
chinesa elevou a demanda por commodities, ampliou as exportações brasileiras e
permitiu combinar crescimento, políticas sociais, valorização real do salário
mínimo e ampliação do consumo. Milhões de brasileiros foram incorporados ao
mercado consumidor; universidades federais expandiram-se; programas de
transferência de renda produziram resultados sociais relevantes; o desemprego
diminuiu.
A crise
internacional de 2008 marcou transformação mais profunda. A expansão
extraordinária da liquidez financeira, o crescimento do capital fictício, a
ascensão dos fundos de investimento, das plataformas digitais e dos grandes
conglomerados tecnológicos alteraram a própria temporalidade do capitalismo.
Empresas, governos, universidades e indivíduos passaram a organizar decisões
mediante expectativas permanentemente atualizadas. O futuro tornou-se objeto de
apropriação no presente.
Para
países dependentes como o Brasil, essa transformação produz efeitos
particulares. A política econômica precisa considerar expectativas de
investidores, taxas internacionais, movimentos cambiais e fluxos de capitais
capazes de se deslocar em segundos. A soberania política formal permanece, mas
a capacidade de controlar o próprio tempo econômico diminui.
A
eleição de 2022 mostrou até onde essa dinâmica poderia chegar. A vitória de
Lula encerrou eleitoralmente o governo Bolsonaro, mas não eliminou o
bolsonarismo. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 demonstraram que uma
parcela radicalizada da sociedade deixara de considerar a alternância eleitoral
como mecanismo suficiente de legitimidade política. A democracia sobreviveu,
mas não voltou ao ponto anterior.
<><>
O que está em disputa em 2026
A
eleição de 2026 não será mera repetição de 2022. Jair Bolsonaro não está
pessoalmente na urna, mas sua força política permanece organizada e procura
transferência eleitoral para seu campo. Lula chega à disputa carregando
simultaneamente a força histórica de sua liderança e o desgaste inevitável de
quem governa.
As
pesquisas divulgadas no início de agosto confirmam uma disputa competitiva e
mostram que a polarização continua organizando o sistema eleitoral. Mas há uma
diferença substantiva. Em 2022, a defesa das instituições democráticas teve
papel central na construção da frente que sustentou Lula. Em 2026, a democracia
continua importante, porém o cotidiano econômico, a segurança pública, o custo
de vida e a capacidade de oferecer perspectivas de futuro ganham peso maior.
Não basta defender a democracia. Será necessário responder à pergunta sobre o
que a democracia consegue entregar socialmente.
O
vencedor receberá uma economia contraditória. O mercado de trabalho permanece
forte e as projeções para 2026 indicam crescimento positivo e moderado. Não
será necessariamente uma economia em recessão que chegará às mãos do novo
governo.
Mas os
obstáculos aparecem quando se observa a estrutura fiscal. A dívida bruta
encontra-se em patamar elevado e deverá continuar pressionando o governo
seguinte. O resultado nominal permanece negativo e a despesa com juros absorve
parcela expressiva da riqueza produzida no país. O novo presidente terá de
investir em infraestrutura, saúde, educação, ciência, defesa, transição
energética e segurança pública ao mesmo tempo que enfrentará pressão permanente
pela estabilização da dívida.
O
problema não é apenas contábil. Uma dívida elevada numa economia que opera por
períodos prolongados com juros reais altos transfere quantidade extraordinária
de recursos ao circuito financeiro. Mesmo com eventual redução da Selic, os
juros continuarão condicionando investimento e orçamento.
Parte
importante das decisões do próximo governo dependerá, portanto, de variável que
o presidente não controla diretamente: a política monetária conduzida por um
Banco Central autônomo. Temos aqui uma transformação fundamental do poder
presidencial. O presidente será eleito por dezenas de milhões de cidadãos, mas
parcela decisiva das condições econômicas de seu governo será determinada por
estruturas institucionais e expectativas financeiras que não estão submetidas
ao mesmo ciclo eleitoral.
Indicadores
macroeconômicos e experiência social não são equivalentes. A inflação pode
diminuir sem que os preços retornem ao patamar anterior. O cidadão não compara
apenas índices; compara o dinheiro que recebe com aquilo que consegue comprar.
Moradia, alimentação, planos de saúde, medicamentos, transporte e serviços
constituem a experiência cotidiana da economia.
Por
isso, um país pode apresentar desemprego relativamente baixo e,
simultaneamente, produzir percepção de insegurança econômica. Essa será uma das
heranças de 2027: uma sociedade empregada em proporção relativamente elevada,
mas insegura quanto ao futuro.
A
expansão do trabalho por plataformas, a informalidade, a automação e a
inteligência artificial tornarão ainda mais importante discutir a qualidade do
trabalho, não apenas a quantidade de empregos. O próximo governo precisará
enfrentar uma pergunta que vai além dos indicadores conjunturais: como
organizar proteção social numa economia em que as fronteiras entre emprego,
trabalho autônomo e prestação de serviços digitais tornam-se cada vez mais
instáveis?
<><>
O Congresso não será coadjuvante
O
presidente eleito receberá uma Presidência distinta daquela dos anos 1990 ou do
início dos anos 2000. O Palácio do Planalto continua poderoso, mas perdeu parte
da centralidade sobre a execução do orçamento. O presidencialismo de coalizão
não desapareceu; foi reorganizado em bases mais favoráveis ao Legislativo.
Há
nisso um paradoxo. A sociedade continuará atribuindo ao presidente
responsabilidade quase absoluta pelo desempenho do governo. Entretanto, parcela
crescente dos recursos estará submetida a negociações com um Congresso que
possui agenda própria e interesses territoriais. O presidente de 2027 poderá
vencer a eleição nacional e, ainda assim, começar o mandato politicamente
minoritário.
A
composição da Câmara e do Senado será, portanto, tão importante quanto o
resultado presidencial. Governar não será simplesmente executar o programa
legitimado pelas urnas. Será reconstruí-lo permanentemente dentro de uma
correlação parlamentar que poderá ter orientação distinta daquela do
presidente. A velha questão brasileira reaparece sob nova forma: quem governa
efetivamente o Estado?
O
próximo presidente terá de tratar a segurança como política nacional sem
destruir o federalismo. Será necessário integrar inteligência financeira,
Polícia Federal, Receita Federal, forças estaduais, controle de fronteiras e
investigação patrimonial. A resposta exclusivamente repressiva pode produzir
efeitos eleitorais imediatos, mas não desmonta a estrutura econômica das
organizações criminosas.
O país
necessita manter relações estratégicas com Washington sem romper com Pequim,
defender o multilateralismo numa ordem cada vez menos multilateral, participar
dos BRICS sem transformar essa presença em alinhamento automático e recuperar
capacidade de liderança latino-americana num continente politicamente
fragmentado.
<><>
A dependência ganhou nova forma
A
dependência contemporânea já não pode ser compreendida apenas como relação
comercial entre países industrializados e exportadores de matérias-primas. Ela
incorporou dimensões financeiras, tecnológicas, cognitivas e temporais.
O
Brasil exporta alimentos, minérios e energia em escala extraordinária, mas
depende das grandes plataformas internacionais para comunicação, circulação de
informações e processamento de dados. Depende de tecnologias externas em
setores estratégicos e de cadeias internacionais para componentes industriais
complexos. Parcela importante de seu horizonte econômico é condicionada pela
movimentação do capital financeiro internacional.
A
inteligência artificial torna essa questão ainda mais urgente. Nos próximos
quatro anos, sistemas de inteligência artificial deverão alterar profissões,
pesquisa científica, administração pública, indústria, serviços e educação. Um
país que não possuir infraestrutura computacional, energia, formação científica
e domínio sobre seus dados poderá tornar-se consumidor de tecnologias
produzidas em outros centros.
A
dependência, nesse caso, não será apenas econômica. Será dependência sobre a
produção do conhecimento e sobre as condições de imaginar o futuro.
Desenvolvimento, portanto, não significa apenas ampliar o PIB. Significa
possuir capacidade de decisão. Um país pode crescer enquanto perde autonomia
tecnológica, industrial e científica.
A
ciência, entretanto, não obedece ao calendário eleitoral. Uma universidade não
é construída em quatro anos. Um sistema científico não amadurece em uma
legislatura. Um pesquisador leva décadas para formar-se.
Essa é
também uma disputa sobre o tempo. O capitalismo contemporâneo exige retorno
cada vez mais rápido; a ciência exige duração. O mercado financeiro reorganiza
expectativas diariamente; a universidade trabalha com gerações. Se o Estado se
submeter integralmente à temporalidade imediata do mercado, perderá a
capacidade de produzir aquilo que somente pode existir no longo prazo.
O
bolsonarismo demonstrou capacidade de sobreviver à derrota de 2022 e à
impossibilidade de candidatura de Jair Bolsonaro. Isto significa que não se
trata apenas da biografia de um homem. Existe uma base social conservadora que
encontrou representação política duradoura.
Da
mesma maneira, o lulismo não pode ser reduzido ao Partido dos Trabalhadores.
Lula conserva vínculos com parcelas importantes dos trabalhadores, setores
populares, Nordeste, movimentos sociais e segmentos que associam seus governos
à ampliação do consumo e das políticas sociais.
A
eleição ocorrerá entre identidades políticas que possuem memória. O vencedor
assumirá um país no qual dezenas de milhões terão votado contra ele. Se
interpretar maioria eleitoral como autorização para negar a existência política
da minoria, aprofundará a crise. Governar o Brasil exigirá governar também
aqueles que perderam a eleição.
<><>
O país que será entregue em 2027
O
presidente eleito receberá um Brasil economicamente relevante, dotado de enorme
capacidade agrícola, energética e ambiental; uma das maiores democracias
eleitorais do mundo; sistema público de saúde de dimensão continental;
universidades e instituições científicas consolidadas; reservas internacionais
importantes; matriz elétrica relativamente limpa; grande mercado interno e
posição geopolítica singular.
Não
receberá um país arruinado. Mas receberá um país bloqueado por contradições. A
dívida pública estará elevada. Os juros continuarão pressionando as contas
públicas e o investimento. O Congresso administrará parcela relevante do
orçamento. A sociedade permanecerá polarizada. A criminalidade organizada
exigirá coordenação nacional. A indústria enfrentará problemas de produtividade
e competitividade. A transformação tecnológica pressionará o mercado de
trabalho. E a disputa entre Estados Unidos e China reduzirá as possibilidades
de neutralidade passiva.
Ao
mesmo tempo, inflação, preços e custo de vida continuarão influenciando a
experiência cotidiana da população. O presidente poderá mostrar indicadores
positivos e ainda assim enfrentar descontentamento social. Porque o problema
brasileiro já não pode ser medido apenas pela presença ou ausência de
crescimento. A questão é quem participa desse crescimento, quais serviços
consegue acessar, quanto de sua renda é consumido pela sobrevivência e que
expectativa possui para os filhos.
A
história brasileira demonstra isso de maneira quase pedagógica. A Independência
alterou o centro político sem destruir a estrutura social colonial. A República
mudou o regime sem democratizar imediatamente a sociedade. A industrialização
modificou a economia sem eliminar a dependência. A Constituição de 1988 ampliou
extraordinariamente os direitos sem garantir permanentemente os recursos
necessários para financiá-los.
O risco
de 2026 é repetirmos a mesma forma: uma eleição intensíssima, capaz de
mobilizar milhões de pessoas, seguida por um governo obrigado a negociar dentro
de estruturas que permanecerão essencialmente inalteradas.
Se Lula
vencer, não poderá simplesmente reproduzir 2003. O mundo das commodities em
expansão, da globalização relativamente cooperativa e do crescimento chinês
acelerado não existe mais da mesma forma. Se vencer a oposição, também não
haverá liberdade para uma ruptura simples. Será necessário construir maioria
parlamentar, administrar a dívida, conviver com o Banco Central, preservar
relações internacionais, negociar com governadores, manter políticas públicas
nacionais e responder às instituições de controle.
O
presidente que subir a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2027
encontrará uma sociedade ansiosa por respostas rápidas para problemas
construídos ao longo de décadas. Essa diferença entre o tempo das expectativas
e o tempo necessário às transformações será uma das principais fontes de
instabilidade do novo governo.
A
população exige resultados imediatamente. As redes sociais julgam diariamente.
Os mercados reagem em minutos. O Congresso negocia semanalmente. Pesquisas de
opinião transformam-se rapidamente em avaliação de governo.
Está aí
talvez a questão mais profunda do Brasil contemporâneo: o país perdeu parte da
capacidade de administrar o próprio tempo. Governos tornaram-se gestores de
urgências. Administram orçamento, juros, crises ambientais, preços, conflitos
políticos, redes sociais e emergências sucessivas. Pouco tempo resta para
construir aquilo que ainda não existe.
É nesse
sentido que a dependência contemporânea pode ser compreendida como controle do
tempo histórico. Uma sociedade dependente não é apenas aquela que transfere
riqueza para o centro do sistema. É também aquela cuja capacidade de decidir
sobre o próprio futuro se encontra limitada por estruturas econômicas,
financeiras, tecnológicas e cognitivas que não controla.
A
eleição de 2026 colocará projetos políticos em confronto. Mas, qualquer que
seja o resultado, permanecerá uma pergunta anterior aos candidatos: o Brasil
ainda consegue produzir um projeto histórico próprio?
Essa
pergunta não pode ser respondida apenas por uma eleição. Ela exige recuperar a
capacidade do Estado de planejar, da universidade de pensar, da ciência de
investigar, da sociedade de debater e da política de olhar além da próxima
pesquisa eleitoral.
O
presidente eleito herdará uma democracia resistente, mas tensionada; uma
economia capaz de crescer, mas submetida a severas restrições financeiras; um
país socialmente moderno, mas ainda profundamente desigual; uma potência
ambiental sem pleno domínio tecnológico; e uma sociedade que deseja futuro
enquanto suas instituições são obrigadas a funcionar na temporalidade
permanente da urgência.
Administrar
esse Brasil será difícil. Transformá-lo será ainda mais. O verdadeiro desafio
do governo iniciado em 2027 não será apenas equilibrar orçamento, formar
maioria no Congresso ou produzir crescimento. Será reconstruir a possibilidade
de que decisões tomadas no presente possam produzir efeitos duradouros no
futuro.
Talvez
seja justamente aí que as eleições de 2026 adquiram sua dimensão histórica. Não
estarão em disputa apenas quatro anos de governo. Estará em disputa a
possibilidade de o Brasil recuperar, ainda que parcialmente, o controle sobre
seu próprio tempo histórico.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda




