quinta-feira, 24 de setembro de 2026

A Anatomia do Caos: como se fabrica a percepção política nas eleições brasileiras

A batalha eleitoral já não acontece apenas nos palanques, debates ou programas de governo. Ela atravessa sistemas de recomendação, redes de influência, operações coordenadas, conteúdos sintéticos e mecanismos capazes de selecionar o que milhões de pessoas veem, repetem, temem e consideram verdadeiro. Esta investigação disseca a infraestrutura política do caos e revela como a disputa pelo poder passou também a ser uma disputa pela fabricação da percepção.

<><> O fato não precisa ser falso

O vídeo era verdadeiro. A voz era verdadeira. Alexandre de Moraes havia pronunciado aquelas palavras. O que era falso era o acontecimento construído ao redor delas. Em setembro de 2026, imagens antigas do ministro circularam como se registrassem uma reação à crise envolvendo o Banco Master e um agradecimento a Flávio Dino. A gravação era de agosto e tratava de outro assunto. Ninguém precisou alterar o rosto de Moraes, clonar sua voz ou fabricar uma imagem. Bastou arrancar um fragmento verdadeiro de seu tempo e encaixá-lo em outra história.

Esse deslocamento expõe um dos problemas centrais das eleições contemporâneas. Durante anos, aprendemos a procurar manipulação na mentira evidente: fotografia adulterada, número inventado, frase nunca pronunciada. Tudo isso continua existindo. Só que a fabricação da percepção pode ser mais simples. Um vídeo autêntico muda de data; uma estatística correta recebe uma causalidade que não demonstra; uma declaração sobrevive ao corte enquanto desaparecem o contexto e a sequência que lhe davam sentido. O fato continua verdadeiro. O que foi reconstruído é a relação entre os fatos.

Reduzir essa disputa a uma guerra entre verdade e fake news já não basta. A realidade também pode ser matéria-prima da manipulação. Recortada, deslocada, emocionalizada e repetida, uma parte começa a ocupar o lugar do todo. A questão deixa de ser apenas quem mente e alcança algo mais difícil de enxergar: quem consegue selecionar quais pedaços da realidade serão vistos, em que ordem aparecerão e quantas vezes voltarão diante dos mesmos olhos. Fabricar percepção, nesse ponto, deixa de ser apenas um problema de conteúdo. Torna-se um problema de poder.

<><> A máquina que organiza o visível

Na tela de um celular, quase nada chega em estado bruto. Entre um acontecimento e os olhos de quem o recebe existe uma infraestrutura que classifica, recomenda, repete e descarta. O feed não é uma fila neutra de fatos. É uma seleção contínua, refeita a cada gesto do usuário. Modelos calculam quais conteúdos têm maior chance de prender atenção, gerar interação ou prolongar a permanência na plataforma. O poder começa antes do convencimento, na disputa pelo que será visto.

Jornais, rádios e televisões sempre selecionaram a realidade, mas essa escolha era relativamente estável e reconhecível: havia uma primeira página, uma grade, um editor. Nas plataformas, a hierarquia é personalizada e móvel. Duas pessoas no mesmo país, no mesmo dia, podem atravessar sequências profundamente diferentes de acontecimentos. O que aparece dez vezes para uma talvez nunca chegue à outra.

Em 2026, William J. Brady e colegas publicaram na Nature um experimento realizado durante a eleição presidencial norte-americana de 2024. Ao comparar feeds ordenados por engajamento com feeds cronológicos, encontraram maior exposição a conteúdo político marcado por indignação moral, conflito entre grupos, emoção e toxicidade. Os participantes também passaram a perceber maior animosidade entre os campos políticos. O algoritmo não precisou mandar ninguém odiar ninguém. Bastou alterar a amostra da sociedade que aparecia diante de seus olhos.

A tecnologia encontra a psicologia social justamente nesse terreno. Ninguém mede objetivamente a frequência de tudo o que acontece ao redor. O mundo também é julgado pelo que está disponível, pelo que reaparece, pelo que ocupa espaço. Se os exemplos mais agressivos de um grupo são justamente os mais visíveis, eles podem acabar servindo como retrato do grupo inteiro. Não é preciso imaginar um engenheiro escolhendo a cada minuto quem favorecer. Sistemas de recomendação trabalham com objetivos, métricas e probabilidades. Isso não torna seus efeitos neutros.

A infraestrutura importa tanto quanto a mensagem. Uma narrativa só convence depois de ser encontrada; o medo ganha força quando reaparece; um adversário parece maior quando seus traços mais ameaçadores ocupam continuamente o campo de visão. A disputa eleitoral começa, portanto, antes da escolha entre candidatos. Começa na disputa material pelo que uma sociedade consegue ver.

<><> O medo chega antes do argumento

Ver muitas vezes não é o mesmo que acreditar, mas muda o terreno sobre o qual a crença se forma. Em 2023, Valentina Vellani, Sarah Zheng, Dilay Ercelik e Tali Sharot mostraram, em experimentos com informações de saúde e conhecimento geral, que uma exposição anterior podia aumentar a percepção de precisão de uma afirmação e, por essa via, sua chance de ser compartilhada. A repetição não transformava mentira em verdade. Tornava a informação familiar, e familiaridade pesa quando julgamos rapidamente aquilo que vemos.

Nas redes, essa familiaridade encontra emoção. Medo, raiva e indignação não são ruídos laterais da política; funcionam como sinais de prioridade. Aquilo que ameaça exige atenção, aquilo que revolta pede resposta e aquilo que confirma um perigo já imaginado encaixa-se com facilidade em narrativas disponíveis. Um crime pode deixar de ser apenas um crime para virar prova de que ninguém está seguro. Uma decisão judicial pode ser lida como sinal de perseguição. Uma declaração isolada, repetida no enquadramento certo, passa a representar um grupo inteiro.

O conflito também muda de escala quando é visto por esse filtro. Se os episódios mais agressivos são os que recebem maior circulação, o adversário começa a parecer mais hostil e mais onipresente do que a experiência cotidiana sugeriria. A rede não precisa inventar a divisão. Basta concentrar o olhar sobre aquilo que melhor a dramatiza.

Repetição, emoção e identidade acabam então se reforçando. A mensagem volta até perder parte do estranhamento; a emoção seleciona o que merece atenção; o pertencimento ajuda a decidir de quem desconfiar. A eleição pode começar muito antes da pergunta sobre em quem votar. Começa quando se estabilizam respostas para perguntas mais primitivas: quem deve ser temido, quem merece confiança, quem é percebido como parte do grupo e quem passa a representar ameaça. Quando esse mapa emocional já está montado, o argumento chega tarde.

<><> Quando a propaganda aprende a conversar

Durante grande parte do século XX, propaganda política significava produzir uma mensagem e lançá-la sobre uma população. Rádio, televisão, outdoor, comício. Mesmo quando públicos diferentes recebiam discursos diferentes, a lógica era industrial: poucos emissores falando para muitos receptores. As plataformas digitais quebraram parte desse modelo ao transformar comportamento em dados e públicos em segmentos. A inteligência artificial acrescentou outra mudança. A mensagem já pode ser produzida, modificada e respondida durante a própria interação.

Em 2025, Hause Lin, Gabriela Czarnek, David Rand e uma equipe internacional testaram essa possibilidade nas eleições dos Estados Unidos, do Canadá e da Polônia. Participantes conversaram com sistemas de inteligência artificial instruídos a defender candidatos. O experimento, publicado na Nature, encontrou mudanças mensuráveis nas preferências declaradas, maiores do que os efeitos normalmente observados em anúncios políticos tradicionais em vídeo. O estudo não mediu votos depositados em urnas, e esse limite importa. Mostrou, porém, que uma máquina capaz de responder argumentos individualmente pode produzir persuasão política observável.

A mudança decisiva talvez esteja menos na fantasia de uma inteligência artificial irresistível do que na economia dessa persuasão. Os sistemas recorreram sobretudo a argumentos, fatos e evidências adaptados à conversa, alguns deles inexatos. A novidade material é poder produzir variações, responder objeções e sustentar interações persuasivas em escala por um custo muito menor. Isso não transforma cada eleitor numa fechadura para a qual os dados oferecem a chave. Persuasão continua sendo probabilística, desigual e dependente do contexto. O que mudou foi a capacidade de multiplicá-la.

A propaganda não ganhou poderes sobrenaturais. Ganhou capacidade industrial para falar como se não fosse industrial.

<><> O Brasil dentro da máquina

O Brasil não chegou a 2026 de repente. O ecossistema distribuído entre plataformas foi sendo construído eleitoralmente ao longo de quase uma década. Em 2018, Victor Piaia e Marcelo Alves examinaram 194.710 mensagens de 21 grupos de apoio a Jair Bolsonaro no WhatsApp. Encontraram forte concentração das postagens em poucos participantes, circulação constante de links para YouTube e Facebook e ações centralizadas para reagir a danos à imagem do candidato e coordenar votos para sua base parlamentar. O dado decisivo era outro: o WhatsApp não funcionava como ilha. Era uma estação dentro de um circuito.

Esse circuito importa porque plataformas diferentes oferecem possibilidades diferentes de ação. Grupos de mensagens favorecem recorrência e circulação por relações de confiança. Redes abertas projetam narrativas para fora desses círculos. O vídeo comprime argumento em imagem, gesto e emoção. Influenciadores emprestam rosto, linguagem e autoridade. Uma narrativa pode nascer num espaço, ganhar escala em outro e voltar ao grupo privado carregada da impressão de que todo mundo está falando daquilo.

Nas disputas seguintes, esse trânsito ficou ainda mais visível. Conteúdos saltam de grupos fechados para redes abertas, reaparecem em vídeos, cortes, memes e transmissões, recebem novas legendas e retornam aos mesmos círculos com aparência de confirmação. Nem toda convergência significa coordenação, e coordenação localizada não prova a existência de um comando único. O que a circulação multiplataforma oferece é outra coisa: velocidade para transformar uma narrativa particular em presença recorrente.

Há ainda uma dimensão que os números de alcance quase nunca capturam. Uma mensagem encontrada numa timeline chega como conteúdo. A mesma mensagem enviada por parentes, amigos, lideranças ou integrantes de uma comunidade política chega acompanhada de confiança, pertencimento e validação. O conteúdo não circula sozinho; viaja dentro de relações sociais. Por isso a mesma frase pode produzir efeitos diferentes conforme o caminho que percorre até encontrar alguém.

Em 2026, essa infraestrutura já havia entrado no próprio desenho da governança eleitoral brasileira. As regras passaram a alcançar recomendação, impulsionamento, monetização, mensageria pública e inteligência artificial generativa. Isso não demonstra que as medidas sejam suficientes, nem prova a existência de uma operação centralizada sobre a eleição. Mostra que circulação algorítmica e conteúdo sintético deixaram de ser questões laterais e passaram a integrar formalmente o problema eleitoral.

O que amadureceu entre 2018 e 2026 não foi apenas uma técnica de propaganda. Foi um ambiente no qual mensagens privadas e redes públicas, algoritmos, vídeos, comunidades, influenciadores e sistemas generativos podem formar circuitos de visibilidade, repetição, confiança e conflito. Quando a política começa a trabalhar deliberadamente sobre atenção, percepção, emoção, identidade e comportamento, seu vocabulário se aproxima de um campo bem mais antigo: o da guerra psicológica.

<><> Quando a política encontra a linguagem da guerra

Atenção, percepção, emoção, identidade, comportamento, vulnerabilidade cognitiva. As palavras que atravessam a política digital também ocupam hoje um lugar explícito no pensamento militar. Em janeiro de 2026, Marek Havlík e Jiří Horáček escreveram, em estudo publicado pelo NATO Defense College, que a guerra cognitiva envolve a instrumentalização da informação para explorar vulnerabilidades da cognição e interferir na percepção da realidade. A formulação é recente; a ambição, não. Propaganda, engano e operações psicológicas acompanham conflitos há séculos. O que mudou foi a capacidade técnica de alcançar grandes populações, observar respostas e recalibrar mensagens em velocidade muito maior.

A engrenagem é reconhecível: conhecer uma audiência, identificar vulnerabilidades, escolher estímulos, observar respostas e adaptar a ação seguinte. As tecnologias digitais tornaram esse ciclo mais rápido e mais barato, além de aproximar ferramentas comerciais de capacidades antes associadas a estruturas especializadas de influência. A fronteira conceitual, porém, precisa permanecer nítida.

Uma campanha eleitoral que utiliza segmentação, emoções ou persuasão não se transforma automaticamente numa operação psicológica militar. Encontrar nas redes mecanismos estudados pela guerra cognitiva também não prova a existência de um comando clandestino por trás deles. Confundir semelhança de método com identidade de operação destruiria o critério de prova que sustenta esta investigação.

O problema é bem concreto. Dados comportamentais, redes de relações, sistemas de recomendação, geração automática de mensagens e monitoramento de reação já fazem parte do cotidiano comercial das plataformas. Capacidades úteis para disputar atenção e percepção não pertencem exclusivamente a forças armadas. Estão embutidas em infraestruturas privadas que intermedeiam comunicação, consumo e política.

Para países do Sul Global, essa disputa carrega uma assimetria adicional. A UNCTAD mostrou em 2025 que as cinco maiores multinacionais digitais passaram de 21% para 48% das vendas globais do setor entre 2017 e 2025, enquanto sete das dez empresas mais valiosas do mundo já eram gigantes digitais. O poder de organizar fluxos informacionais repousa sobre propriedade, capital, centros de dados, modelos e regras de distribuição concretas. Antes da batalha pelas ideias existem os meios de produção, processamento e circulação dessas ideias, e eles estão longe de ser distribuídos igualmente.

<><> O poder de organizar a realidade

No início deste artigo havia apenas um vídeo verdadeiro colocado no tempo errado. Nenhuma tecnologia extraordinária, nenhuma máquina capaz de controlar uma mente. Bastava deslocar um acontecimento de seu contexto para alterar aquilo que ele parecia significar. Depois de algoritmos, repetição, medo, identidade, inteligência artificial, redes de influência e guerra cognitiva, aquele gesto simples ganha outra dimensão: disputar percepção não exige controlar tudo o que uma sociedade pensa. Basta conquistar algum poder sobre aquilo que ela consegue ver, sobre a frequência com que algo retorna e sobre as relações que passam a ligá-lo a fatos, personagens e emoções.

Esse poder não nasce apenas do discurso. Tem infraestrutura, proprietários, modelos de negócio e centros de decisão. Isso não significa que plataformas determinem resultados eleitorais ou que algoritmos fabriquem automaticamente eleitores. A evidência disponível não autoriza uma conclusão desse tipo. Os efeitos são desiguais e dependem do contexto. Ainda assim, definir critérios de recomendação altera distribuição; estabelecer regras de moderação muda circulação; reduzir o custo de produzir variações persuasivas modifica as condições materiais da disputa. Poder não precisa ser absoluto para produzir consequências.

A questão central ultrapassa, portanto, a tecnologia. A democracia representativa se acostumou a perguntar quem governa, quem financia, quem possui os meios de produção, quem controla instituições e quem decide sobre recursos. A sociedade algorítmica acrescentou outra pergunta: quem organiza o ambiente dentro do qual milhões de pessoas decidem o que está acontecendo?

A disputa pela percepção não substitui salário, classe, propriedade, território, interesses econômicos ou relações de força. Ela atravessa essas estruturas e interfere na maneira como chegam à experiência política, convertidas em medo, esperança, ressentimento, confiança ou adesão.

A anatomia do caos se completa nesse terreno. Caos não precisa ser ausência de ordem. Pode ser uma ordem difícil de enxergar por quem vive dentro dela: decisões contínuas de seleção, recomendação, segmentação e circulação construindo ambientes informacionais distintos para pessoas que continuam habitando a mesma sociedade. Nenhuma narrativa apaga a realidade material. Mas a realidade política nunca chega às pessoas sem mediação. Quando essa mediação passa por estruturas capazes de decidir o que aparece, o que desaparece, o que volta e o que parece estar em toda parte, disputar o poder significa também disputar as condições pelas quais uma sociedade consegue enxergar a própria realidade.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

O golpe começa antes das urnas: fabricar fraude, atacar instituições e buscar respaldo de Trump contra Lula

A trama que culminou no 8 de janeiro previa assassinar Lula, Alckmin e Moraes. Agora, redes coordenadas, grupos extremistas, inteligência artificial e Donald Trump criam as condições para contestar uma possível vitória de Lula e tentar de novo impedir sua posse. 

Ninguém imaginava que uma multidão invadiria o Capitólio para impedir que o Congresso dos Estados Unidos confirmasse a vitória de Joe Biden. Aconteceu em 6 de janeiro de 2021, no país que se apresenta como a maior democracia do mundo. 

Ninguém imaginava que uma multidão atravessaria livremente a Praça dos Três Poderes, invadiria o Congresso, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal e destruiria o patrimônio público para tentar reverter a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Aconteceu em 8 de janeiro de 2023, em Brasília. 

Não foi uma manifestação que escapou ao controle. Foi uma tentativa de golpe de Estado contra Lula, empossado presidente exatamente uma semana antes, em 1º de janeiro.

Os invasores pretendiam criar as condições para uma intervenção militar e derrubar o governo constitucional recém-instalado.  

O ataque foi a culminação de uma trama golpista mais ampla. Um de seus documentos mais brutais, o plano Punhal Verde e Amarelo, previa, segundo a investigação, o assassinato do presidente eleito Lula, do vice-presidente eleito Geraldo Alckmin e do ministro Alexandre de Moraes. O plano é anterior à posse e não foi elaborado especificamente para o 8 de janeiro, mas revela até onde a conspiração estava disposta a chegar. 

Depois dos dois ataques, vieram as perguntas: como foi possível? Por que os sinais não foram levados a sério? Por que as instituições não impediram o que estava sendo anunciado diante de todos? 

Agora, a duas semanas da eleição presidencial brasileira de 2026, outra pergunta precisa ser feita: outro 8 de janeiro está sendo preparado? 

Não há, até agora, prova pública de uma operação completa, com comando central, financiadores, ônibus, acampamentos, adesão militar ou policial e um plano para ocupar novamente os Poderes. O primeiro 8 de janeiro não começou em 8 de janeiro. O próximo, se vier, também terá começado antes. É nesse sentido que o golpe já começou: não como uma operação completa e comprovada, mas como a produção das condições políticas, digitais e internacionais que poderiam permitir a ruptura. 

<><> O ataque começa antes da invasão 

O Capitólio foi precedido por meses de acusações de fraude eleitoral sem provas, pressão sobre autoridades estaduais, tentativa de impedir a certificação da vitória de Biden e mobilização permanente dos seguidores de Donald Trump. 

O 8 de janeiro brasileiro também começou muito antes. Jair Bolsonaro atacou as urnas eletrônicas, desacreditou o Tribunal Superior Eleitoral, recusou-se a reconhecer claramente a derrota, estimulou a desconfiança de seus eleitores e deixou atrás de si bloqueios de estradas, acampamentos diante dos quartéis e pedidos de intervenção militar. Antes da invasão, houve até uma tentativa de atentado a bomba no aeroporto de Brasília na véspera do Natal, em 24 de dezembro de 2022. 

O método é conhecido: primeiro se convence uma parcela da população de que a derrota só poderá resultar de uma fraude. Depois, transformam-se os tribunais e as autoridades eleitorais em inimigos. Por fim, apresenta-se a violência como uma reação “legítima” de cidadãos supostamente roubados. 

Em 2026, a preparação da narrativa voltou. 

<><> A fabricação de um juiz-herói 

Levantamento do ICL Notícias identificou uma rede de 19 contas ligadas a páginas de apoio a Jair Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, Michelle Bolsonaro e Nikolas Ferreira. Entre 5 e 9 de setembro, essas contas fizeram 117 publicações para promover um perfil dedicado ao ministro André Mendonça, do STF. 

O perfil saltou de 24 seguidores de Mendonça para 329.722 em menos de dez dias. Em uma das rodadas, 17 contas publicaram em apenas 27 minutos. As postagens somaram mais de 2,5 milhões de interações. Parte dos perfis havia sido construída anteriormente com conteúdo religioso e depois mudou de nome para apoiar personagens da extrema direita. 

Outro levantamento, do Aos Fatos, encontrou pelo menos 24 perfis dedicados a Mendonça, com uma audiência conjunta de 5,6 milhões de seguidores. 

Não há indício de que o ministro tenha participado, autorizado ou sequer conhecido a operação. O fato politicamente relevante é outro: uma máquina digital frenética construiu em torno dele uma popularidade artificial e uma autoridade que mistura religião, Justiça e campanha eleitoral. 

Mendonça passou a ser apresentado como “escolhido de Deus”, enquanto Alexandre de Moraes e outros ministros eram demonizados. Em seguida, um vídeo adulterado por inteligência artificial atribuiu ao Jornal Nacional a notícia falsa de que Mendonça teria tornado Lula inelegível. O TSE precisou desmentir a invenção. 

A rede parecia ensaiar algo maior: utilizar o ministro como fonte de legitimidade para uma decisão que ele nunca tomou. Se Lula vencer, qualquer voto, frase ou silêncio de Mendonça poderá ser recortado, deformado e apresentado como prova de que a eleição foi roubada e o juiz que tentou impedir a fraude acabou silenciado pelo próprio Supremo. 

<><> Da tela para os explosivos 

A radicalização não permaneceu apenas nas plataformas. 

Em 4 de agosto de 2026, a Polícia Civil do Distrito Federal deflagrou a Operação Rede Interrompida contra oito investigados, de 19 a 31 anos, localizados em cinco estados. Segundo a investigação, o grupo discutia ataques durante o período eleitoral, compartilhava plantas de prédios da Esplanada e manuais de fabricação de explosivos. O Palácio do Planalto aparecia como alvo principal. Também se cogitava atacar um local onde seria realizado um debate presidencial. 

Não há prova conhecida de ligação entre esse grupo, a campanha de Flávio Bolsonaro, a rede de apoio a Mendonça ou qualquer governo estrangeiro. É indispensável não fabricar uma conexão que a investigação ainda não demonstrou. 

Mas também é impossível ignorar o que a operação comprovou: havia pessoas, distribuídas por vários estados, discutindo concretamente ataques contra autoridades e prédios públicos durante a campanha eleitoral de 2026. 

<><> As plataformas ficaram mais poderosas 

Mais de cinco anos depois da invasão do Capitólio e quase quatro anos após o ataque à Praça dos Três Poderes, as plataformas digitais estão mais poderosas, concentradas e armadas com inteligência artificial capaz de fabricar vozes, fotografias, vídeos, multidões e acontecimentos inexistentes. 

Em 2021 e 2023, as redes disseminaram mentiras e ajudaram a organizar manifestações. Em 2026, podem criar o próprio acontecimento que servirá de pretexto à mobilização. Um falso anúncio de mudança na data da eleição, uma montagem mostrando urnas destruídas ou um vídeo inexistente de um ministro acusando fraude podem alcançar milhões de pessoas antes que a verdade consiga calçar os sapatos. 

No Brasil, essas máquinas servem ao bolsonarismo. No mundo, alimentam a ultradireita liderada por Donald Trump. Não são apenas instrumentos de propaganda. Organizam seguidores, fabricam maiorias, escolhem inimigos e transformam indignação digital em mobilização de rua. 

<><> O personagem comum 

Há um personagem comum à possibilidade de outro 6 de janeiro em Washington e de outro 8 de janeiro em Brasília: Donald Trump. 

Ele foi o protagonista político da campanha de fraude que culminou na invasão do Capitólio. No Brasil, não há prova de que tenha comandado o 8 de janeiro, mas o método que criou foi reproduzido por Jair Bolsonaro: desacreditar antecipadamente a eleição, recusar a derrota e mobilizar os seguidores contra as instituições. 

Agora Trump está novamente na Casa Branca. Pode voltar a contestar eleições nos Estados Unidos e, ao mesmo tempo, apoiar Flávio Bolsonaro, deslegitimar uma vitória de Lula e oferecer respaldo internacional à extrema direita brasileira. 

Em 2022, Joe Biden reconheceu rapidamente a vitória de Lula e ajudou a fechar a porta externa para a aventura golpista. Em 2026, Trump poderá fazer o contrário: retardar ou negar o reconhecimento, exigir auditorias, impor sanções e repetir para o mundo uma acusação de fraude produzida no Brasil. 

Essa hipótese deixou de ser apenas uma preocupação deste artigo. Em entrevista exclusiva a Jamil Chade, publicada pelo ICL Notícias nesta segunda-feira, 21 de setembro, Steven Levitsky, professor de Harvard e coautor de “Como as democracias morrem”, afirmou que existe uma “boa probabilidade” de Trump não reconhecer uma eventual vitória de Lula.

Segundo ele, a ingerência do governo norte-americano poderá aumentar nas semanas que antecedem a eleição. Levitsky lembra que o Brasil possui uma longa história de eleições limpas e considera implausível sustentar que exista fraude no país. 

A preocupação chegou ao próprio Lula. Parlamentares democratas articulam um encontro com o presidente, em Nova York, para discutir a defesa da legitimidade da eleição brasileira e o reconhecimento internacional do resultado proclamado pela Justiça Eleitoral. A reunião ainda não está confirmada, mas sua preparação revela que Lula trabalha com a possibilidade concreta de Trump contestar sua vitória. 

E com qual objetivo? A recusa de Trump não anularia juridicamente a eleição, mas ofereceria respaldo político e propagandístico à denúncia de fraude, estimularia a mobilização das redes extremistas e ajudaria a criar o ambiente para tentar impedir a posse de Lula. Em 2022, o presidente dos Estados Unidos ajudou a isolar os golpistas. Em 2026, está do outro lado. 

Seu fiel escudeiro Marco Rubio transforma esse projeto em política externa. O secretário de Estado apresenta-se como executor de uma nova Doutrina Monroe: afastar a China, subordinar a América Latina e tratar o “Hemisfério Ocidental” como área de controle estratégico dos Estados Unidos. 

Nesse projeto, o Brasil é a joia da coroa. Flávio oferece minerais críticos, terras raras, petróleo e alinhamento político. Em troca, receber de Washington apoio para chegar e se manter no Palácio do Planalto, libertar o pai, anistiar os golpistas e remodelar o Supremo com nomes de sua absoluta confiança. 

<><> Eles já mostraram do que são capazes 

Não é preciso imaginar até onde Trump e Rubio podem ir. Basta observar o que já fizeram. 

Em Gaza, o governo Trump fornece armas a Israel, acusado por uma comissão da ONU de praticar genocídio contra os palestinos. No Irã, uma missão das Nações Unidas encontrou fundamentos para considerar crime de guerra o ataque norte-americano contra uma escola primária em Minab, que matou 156 civis, entre eles 120 crianças. 

Em Cuba, Trump e Rubio impuseram uma asfixia energética que ameaça 9,4 milhões de habitantes. No Caribe e no Pacífico, forças norte-americanas mataram pelo menos 231 pessoas em ataques contra embarcações classificadas unilateralmente como pertencentes a “narcoterroristas”, sem apresentar publicamente as provas em muitos dos casos. Pescadores estavam entre as vítimas. 

Na Venezuela, forças norte-americanas capturaram Nicolás Maduro e Cilia Flores no Palácio de Miraflores e os levaram para uma prisão em Nova York. Ambos se declararam inocentes e aguardam julgamento. A defesa classifica a operação como “sequestro militar”. 

Jeffrey Sachs afirmou que Trump rasgou a Carta das Nações Unidas, chamou os Estados Unidos de “máquina de guerra” e definiu seu governo como um “regime de valentões”. Em outra ocasião, foi ainda mais direto: chamou Trump de louco. 

Se Trump e Rubio sustentaram o massacre de civis, asfixiaram uma ilha, autorizaram execuções no mar e capturaram o presidente de outro país, por que o Brasil deveria considerar impossível uma interferência decisiva na eleição ou o apoio político a outro 8 de janeiro? 

<><>  O que existe — e o que ainda não apareceu 

Outro 6 de Janeiro nos Estados Unidos e outro 8 de janeiro no Brasil não são inevitáveis. Uma repetição literal talvez seja até menos provável porque as instituições conhecem agora o método, reforçaram a segurança e responsabilizaram parte dos envolvidos. 

Também não existe, neste momento, prova pública de comando central, financiamento, deslocamento de multidões, novos acampamentos diante de quartéis ou adesão das Forças Armadas e das polícias a uma ruptura no Brasil.

Mas existem a força das redes digitais e os elementos iniciais: a acusação antecipada de fraude; o cerco ao STF e ao TSE; a fabricação digital de um juiz-herói; redes religiosas e políticas coordenadas; inteligência artificial produzindo acontecimentos falsos; grupos investigados por planejar ataques; um candidato que promete libertar o pai e indicar cinco ministros para um Supremo de onze cadeiras; e um presidente dos Estados Unidos capaz de oferecer à contestação brasileira a legitimidade externa que faltou em 2022. Não sabemos se haverá outro 8 de janeiro. Sabemos que já estão sendo produzidas as condições que poderiam torná-lo possível. 

<><> O processo já começou 

O Capitólio e a Praça dos Três Poderes pareciam invioláveis. Não eram. O primeiro 6 de janeiro, em Washington, e o primeiro 8 de janeiro, em Brasília, começaram muito antes das invasões. 

Outro 8 de janeiro pode não ocorrer. Mas um golpe não começa quando a multidão invade os palácios. Começa quando a fraude é fabricada, as instituições são transformadas em inimigas, a violência passa a ser justificada e uma potência estrangeira oferece respaldo aos que pretendem desconhecer a vontade das urnas. 

Esse processo já começou. 

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, na Fórum

 

Desigualdade também é uma escolha

Mais de 40% de toda a riqueza criada no mundo neste século fluiu para o 1% mais rico da população. À metade mais pobre da humanidade – cerca de 4 bilhões de pessoas – coube apenas 1%. Já no Brasil os dados apontam que 37,3% da riqueza declarada está com o 1% mais rico. 

A desigualdade não é inevitável; ela resulta de escolhas. Escolhas sobre quem paga impostos e quem recebe benefícios fiscais; sobre quanto investimos em saúde, educação, proteção social, transporte, infraestrutura urbana e acesso a direitos; sobre as condições de trabalho; sobre quem participa das decisões e quem permanece à margem delas.

Se escolhas políticas ajudam a produzir desigualdade, elas também podem reduzi-la. Mas fazer escolhas melhores exige, antes de tudo, compreender melhor o problema: sua escala, suas diferentes dimensões, suas causas e as políticas capazes de enfrentá-lo.

É por isso que consideramos tão importante a proposta de criação do Painel Internacional sobre Desigualdade (International Panel on Inequality, IPI, na sigla em inglês), uma iniciativa liderada pelo professor Joseph Stiglitz, que será apresentada às Nações Unidas no próximo dia 23 de setembro. Brasil, África do Sul, Noruega e Espanha estão entre os países que defendem a iniciativa. 

A proposta é criar uma estrutura científica internacional e independente, capaz de sistematizar evidências sobre as desigualdades, acompanhar sua evolução e aproximar a produção de conhecimento das políticas públicas e da governança global. A iniciativa nasce reunindo especialistas de diferentes regiões e disciplinas, vinculados a instituições de referência na produção de conhecimento e no apoio à formulação de políticas públicas.

A experiência da crise climática oferece um precedente importante. Ao reunir e avaliar conhecimento científico produzido em diferentes países, o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas da ONU (IPCC) contribuiu para estabelecer uma base comum de evidências para o debate internacional. A desigualdade, pela dimensão alarmante que alcançou e pelos impactos que produz, também exige uma capacidade permanente e coordenada de diagnóstico.

Mas a importância de um painel dessa natureza dependerá não apenas das perguntas que formular, mas também de quem terá voz na produção das respostas.

O debate global sobre desigualdade precisa refletir muito mais a experiência do Sul Global e das populações mais afetadas por ela. Países que convivem há décadas com desigualdades extremas – e, sobretudo, as pessoas e comunidades que as vivenciam diretamente – não podem ser tratados apenas como objetos de estudo ou fontes de dados. Devem participar da definição das agendas de pesquisa, das metodologias e das interpretações. Incorporar essas perspectivas não é apenas uma questão de representatividade: é condição para compreender como as desigualdades são produzidas, como se manifestam em diferentes contextos e quais respostas têm maior possibilidade de transformá-las.

O Brasil tem uma trajetória importante de políticas de combate à pobreza e à fome, ampliação do acesso a serviços e garantia de direitos. Durante sua presidência do G20, ajudou a colocar a fome, a pobreza e as desigualdades no centro da agenda internacional. Nos últimos anos, políticas públicas contribuíram para que o país saísse novamente do Mapa da Fome e alcançasse os menores níveis de pobreza e desigualdade de renda de suas séries históricas. O país também criou o ODS 18 – Igualdade Étnico-Racial, incorporando explicitamente a mensuração e o enfrentamento das desigualdades raciais à sua implementação da Agenda 2030.

Mas o Brasil e a América Latina continuam profundamente desiguais, e a concentração de riqueza permanece um desafio central. Essa é também uma questão global: em diferentes sociedades, gênero, classe, raça e etnia se combinam com desigualdades territoriais – entre regiões, cidades e zonas rurais, centros e periferias – de maneiras distintas. Incorporar essas dimensões é essencial para entender quem é mais afetado pela desigualdade e quais políticas podem efetivamente reduzi-la.

Avançamos muito na produção de conhecimento capaz de orientar políticas de redução das desigualdades. Ainda assim, persistem lacunas e divergências sobre suas causas, seus efeitos e as respostas mais eficazes. No Brasil, avançar nesse conhecimento significa recorrer também à experiência de gestores públicos, pesquisadoras e pesquisadores, movimentos sociais e organizações que há décadas ajudam a compreender como renda, raça, gênero e território se combinam na produção das desigualdades — inclusive na experiência de mulheres negras, povos indígenas e populações de territórios historicamente marginalizados, sobre os quais diferentes desigualdades frequentemente se sobrepõem.

O Brasil tem muito a oferecer. Dispõe de instituições públicas de pesquisa reconhecidas, ampla produção acadêmica, sistemas de dados e estatísticas, experiência acumulada em políticas de redução das desigualdades e uma sociedade civil ativa. Ao participar desde o início da construção do IPI, o país tem condições de exercer um papel de liderança em sua consolidação.

Para isso, será importante sustentar um forte apoio brasileiro ao IPI e, ao mesmo tempo, articular governo, universidades, instituições de pesquisa e sociedade civil em torno dessa agenda. O Brasil já conta com iniciativas importantes, como o Pacto Nacional pelo Combate às Desigualdades e seu Observatório Brasileiro das Desigualdades. A construção do IPI pode também servir de impulso para fortalecer os instrumentos domésticos de enfrentamento às desigualdades, estabelecendo metas mais claras, aprimorando sua mensuração e avaliando de forma mais sistemática como as principais políticas públicas contribuem para reduzi-las.

Essa articulação entre as dimensões nacional e internacional é especialmente importante. O Brasil pode trazer para o país conhecimento produzido em outras partes do mundo e, ao mesmo tempo, levar ao debate global perguntas, evidências e experiências que nascem da realidade brasileira.

Evidentemente, nenhum painel científico substituirá a política. Não cabe à ciência decidir quais impostos cobrar, onde investir recursos públicos ou quais direitos uma sociedade deseja assegurar. Mas cabe a ela mostrar, com independência e rigor, as consequências dessas escolhas: quem ganha, quem perde e quais desigualdades são reduzidas ou aprofundadas. O IPI poderá ajudar a construir uma base comum de evidências, identificar onde existem consensos e tornar mais claras as questões sobre as quais ainda há incerteza ou divergência.

A criação do IPI oferece ao mundo uma oportunidade de tratar a desigualdade com a urgência, o rigor científico e a cooperação internacional que sua dimensão exige. O Brasil já está ajudando a construir essa resposta. Agora, pode contribuir decisivamente para sua consolidação e, ao mesmo tempo, avançar na construção de instrumentos nacionais ainda mais robustos para enfrentar suas próprias desigualdades. Ao fazê-lo, leva ao centro do debate global o conhecimento, as experiências e as vozes de uma sociedade que conhece profundamente as consequências da desigualdade – e a possibilidade de transformá-la.

 

Fonte: Por Viviana Santiago, Jayati Ghosh e  Adriana Abdenur , no Le Monde

 

Quem define o que conta como saúde?

Doenças infecciosas emergentes e zoonoses tornaram cada vez mais difícil separar a saúde humana da saúde animal e das condições ambientais. Urbanização acelerada, mudanças no uso da terra, desmatamento, produção agropecuária intensiva, comércio de animais e mudanças climáticas alteram as relações entre pessoas, animais, vetores e ecossistemas. Problemas assim dificilmente cabem dentro de uma única especialidade.

<><> Por que Uma Só Saúde ganhou força?

Essa interdependência também passou a orientar a governança internacional. Em 2021, organizações que hoje compõem a chamada Quadripartite apoiaram uma definição operacional elaborada pelo One Health High-Level Expert Panel (OHHLEP), segundo a qual a Saúde Única – ou Uma Só Saúde – busca integrar de maneira sustentável a saúde de pessoas, animais, plantas e ecossistemas. Em 2022, a entrada do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA) no arranjo que já reunia OMS, FAO e Organização Mundial de Saúde Animal reforçou a dimensão ambiental dessa agenda.

Mas reconhecer essa interdependência não encerra a discussão. A ciência continua organizada por disciplinas, departamentos, fontes de financiamento e critérios próprios de evidência. Por isso, diferentes áreas tendem a formular perguntas distintas sobre a relação entre seres humanos, animais e ambiente, e essas diferenças influenciam aquilo que cada uma entende como prioridade em saúde.

<><> Uma mesma expressão, quatro maneiras de entender saúde

Uma revisão sistemática de 34 artigos publicados, entre 2010 e 2026, localizados nas bases PubMed, SciELO e Google Scholar, buscou identificar quais ideias de saúde orientavam seus argumentos e propostas. A análise qualitativa revelou quatro perspectivas recorrentes.

Essas perspectivas não formam caixas rígidas, mas ajudam a mostrar como diferentes definições de saúde conduzem a diferentes perguntas e respostas:

1.       Saúde como segurança sanitária e controle de riscos. Em 14 dos 34 artigos analisados (41%), saúde aparece principalmente como capacidade de antecipar ameaças, monitorar patógenos e conter surtos antes que se transformem em crises. Vigilância epidemiológica, biologia molecular, sequenciamento genômico e sistemas integrados de informação ocupam lugar central nessa perspectiva. Essas ferramentas são essenciais para respostas rápidas. O risco, quando essa lógica predomina, é tratar a fauna sobretudo como reservatório de patógenos e os ecossistemas como cenários de ameaça, deixando em segundo plano fatores como desmatamento, expansão agrícola e outras pressões ambientais.

2.       Saúde como integridade ecológica. Em 11 dos 34 artigos (32%), o foco se desloca do patógeno para o funcionamento dos ecossistemas. Saúde passa a significar também integridade ambiental, resiliência e capacidade dos sistemas ecológicos de sustentar a vida. A pergunta muda: em vez de apenas “como impedir a transmissão?”, torna-se necessário perguntar “quais transformações do território estão criando as condições para que a transmissão ocorra?”. Mudanças climáticas, perda de biodiversidade, poluição e alteração no uso do solo deixam de ser pano de fundo e passam a integrar o próprio problema de saúde.

3.       Saúde como direito e fenômeno socioambiental. Em 5 dos 34 artigos (15%), o adoecimento é compreendido não apenas como resultado de um agente biológico, mas também de desigualdades, falta de saneamento, precariedade habitacional, acesso desigual aos serviços públicos e formas distintas de ocupação do território. O risco, nessa perspectiva, não é distribuído de maneira igual. Uma inundação, por exemplo, não produz os mesmos efeitos em todas as comunidades: seus impactos dependem da infraestrutura disponível, da proteção social e da capacidade local de resposta. Uma política de Uma Só Saúde que ignore essas diferenças pode ser tecnicamente sofisticada e, ainda assim, socialmente insuficiente.

4.       Saúde como questão crítica e de conhecimento. Em 4 dos 34 artigos (12%), Uma Só Saúde aparece também como ferramenta para questionar quem define os problemas e quais conhecimentos são considerados legítimos. Essa perspectiva amplia a saúde para além da resposta à doença e incorpora dimensões éticas, ecológicas e sociais, além de conhecimentos tradicionais e indígenas. A filósofa Miranda Fricker chama de injustiça epistêmica situações em que determinados sujeitos ou grupos têm seus saberes desvalorizados em razão de relações de poder.1 No campo da Saúde Única/ Uma Só Saúde, essa discussão ajuda a perguntar por que conhecimentos comunitários e indígenas raramente ocupam o mesmo lugar de autoridade que o conhecimento acadêmico.

<><> Não há uma única resposta. E isso muda as políticas

Essas quatro perspectivas não devem ser lidas como estruturas isoladas. Um mesmo campo científico pode abrigar visões diferentes, e um único artigo pode combinar mais de uma delas. O ponto central é outro: diferentes definições de saúde produzem diferentes prioridades, formas de investimento e maneiras de organizar a ação pública.

Se a saúde for compreendida sobretudo como capacidade de detectar patógenos, a prioridade tende a ser o fortalecimento de laboratórios, redes de vigilância e sistemas de alerta. Se for entendida como integridade ecológica, entram também na agenda a conservação, a restauração e a redução de pressões ambientais. Se for tratada como direito, ganham centralidade o saneamento, o enfrentamento das desigualdades e a participação social. E quando a abordagem assume uma perspectiva crítica, surge uma pergunta adicional: quem define as prioridades e quem participa das soluções?

Essas dimensões não precisam competir entre si. Uma das maiores contribuições de Uma Só Saúde é justamente a possibilidade de combinar escalas e conhecimentos para enfrentar problemas complexos. Detectar um vírus é crucial, mas isso, por si só, não explica por que ele emerge em determinado território. Preservar um ecossistema é fundamental, mas não elimina automaticamente as desigualdades no acesso aos serviços de saúde. Da mesma forma, fortalecer a participação comunitária exige diálogo contínuo com evidências epidemiológicas e ecológicas.

<><>O desafio é político, científico e territorial

Interdisciplinaridade não significa apenas colocar profissionais de áreas diferentes em torno da mesma mesa. Significa criar condições para que perguntas, métodos e formas de conhecimento distintas tenham peso real nas decisões. Estudos sobre Uma Só Saúde mostram que esse diálogo ainda encontra barreiras institucionais, orçamentárias e na própria organização da produção científica.

Há ainda uma desigualdade importante na produção e na circulação do conhecimento. A literatura analisada indica que grande parte da pesquisa sobre o tema está concentrada em países com maior disponibilidade de recursos, enquanto territórios mais vulneráveis a zoonoses e emergências socioambientais convivem com limitações de infraestrutura, saneamento e vigilância. Uma estratégia que se pretende global não pode partir da suposição de que todos dispõem das mesmas condições para agir.

No plano internacional, a consolidação da Quadripartite foi um avanço importante para aproximar as agendas de saúde humana, animal, vegetal e ambiental. Mas a integração só ganha força concreta quando se traduz em orçamento, capacidade institucional e definição compartilhada de prioridades nos territórios.

Esse é, talvez, o principal aprendizado da revisão: o desafio de Uma Só Saúde não é apenas conectar três pilares (pessoas, animais e ambiente), mas também colocar em diálogo diferentes maneiras de definir o próprio problema. E isso exige negociação, reconhecimento de conflitos e atenção às desigualdades de poder e de recursos.

<><> Uma Só Saúde antes da próxima crise

A força da abordagem está em evitar que a saúde seja acionada apenas de forma reativa, depois que a crise já está instalada. Prevenir futuras pandemias depende de vigilância contínua, mas também de políticas ambientais consistentes, saneamento básico, sistemas alimentares sustentáveis, proteção da biodiversidade e participação social efetiva.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja “qual é a definição correta de saúde?”, mas outras três: quais dimensões estamos priorizando, quem estabelece essas escolhas e o que permanece invisível quando uma perspectiva se torna dominante?

Uma Só Saúde não precisa se tornar uma nova disciplina nem servir apenas como um novo rótulo para especialidades que continuam trabalhando separadamente. Pode funcionar como uma orientação para decisões diante de problemas que atravessam fronteiras biológicas, sociais e institucionais. Para isso, integrar também precisa significar escutar, negociar e compartilhar poder.

Quando uma enfermidade surge, o patógeno importa. Mas também importam o território, o clima, a fauna, as condições de vida, as políticas públicas e os conhecimentos das populações locais. Se a Saúde Única/Uma Só Saúde pretende ser mais do que um rótulo, precisa tratar essas dimensões como partes do mesmo problema e reconhecer que integrá-las também significa decidir quem tem voz, quais conhecimentos contam e como os recursos são distribuídos.

 

Fonte: Por Gabriel Gonçalves Sebastião e Henrique Sugahara Francisco, no Le Monde 

 

O sufrágio feminino se transformou no fenômeno das eleições brasileiras de 2026?

Não há candidato ou Instituto de Pesquisa nessas eleições que não esteja se ocupando e preocupando com a votação das mulheres. Desde defender a ideia estapafúrdia de que as mulheres não deveriam mais votar, existindo inclusive redes de influencers atacando o voto feminino no país até insistir e buscar dar atenção para o fato delas serem “maioria entre indecisos e cobrarem propostas ligadas ao cotidiano”, a gente quase chega a ficar surpresa com tamanha atenção.

É verdadeiramente um fenômeno político destacável como o voto das mulheres se tornou decisivo em 2026, ganhando proeminência pública, midiática e nas próprias campanhas político-eleitorais. Não há um único meio de comunicação que não esteja chamando atenção para o fato. E toda essa mobilização se deve basicamente a indicadores relativamente simples: segundo o Datafolha, 29% das eleitoras ainda não definiu o voto, contra 16% dos homens. Elas representam quase 53% das pessoas aptas a votar no país e ainda, segundo a mesma fonte (em pesquisa de julho de 2026), seriam menos influenciadas do que homens pelas opiniões de amigos, filhos, líderes religiosos e companheiros. Assim, a decisão de voto delas tenderia a depender mais da avaliação individual a respeito das candidaturas e propostas apresentadas e essa decisão, de uma forma geral, costuma não ser tomada cedo, mas apenas próximo do dia da votação. E vamos ver, ao que tudo indica, essa atenção escalar ainda mais nesses últimos dias de campanha.

Historicamente já sabíamos que as mulheres levam mais tempo para decidir seu voto, pois elas esperam por propostas, costumam aguardar a apresentação detalhada dos projetos e planos de governo antes de definir e, questões práticas como economia, segurança pública, saúde e políticas sociais, pesam bastante na escolha final delas. Além do mais, são elas que estão dragadas pelas múltiplas jornadas, demandas materiais e concretas da vida e dos cuidados, estudos, trabalho (que nunca termina quando se chega em casa), pelo tempo extenso gasto nos transportes e por aí vai.

É preciso olhar de forma mais séria para esse fenômeno porque algo que a princípio poderia sinalizar visibilidade positiva para os direitos políticos das mulheres pode se transformar numa espécie de cilada ou de armadilha. Nas “redes sociais, circulam programas inteiros e ‘cortes’ de vídeos e podcasts que acumulam milhares de curtidas e comentários ao exibir frases como ‘o voto feminino é o erro da democracia ocidental’. Outros trechos responsabilizam o sufrágio feminino por problemas da sociedade e pelas dificuldades da vida do homem moderno” (Reportagem da BBC, 14 setembro de 2026).

Para compreendermos melhor o que se passa hoje, acho que precisamos dar alguns passos históricos para trás e entender que o nosso impasse democrático (senão corrosão e declínio) começou com um ataque violento e misógino a uma mulher. Na perspectiva institucional e da cultura política do golpe contra a democracia brasileira é preciso sempre relembrar a figura emblemática de Dilma Rousseff.

Entre 2014 e 2015, o “impeachment” começou a parecer, especialmente para os insatisfeitos das elites capitalistas e políticas do país que não mais ganhavam as nossas eleições, uma solução plausível para encerrar o governo recém reeleito de Dilma Rousseff e expurgar o PT da arena governamental. Findo o exercício das muitas alternativas de se vencer “no tapetão”, seja pela a) tentativa de impugnação da eleição por fraude, seja pela b) tentativa de cassação da chapa por abuso de poder econômico e, é claro, estelionato eleitoral; o inconformado então candidato derrotado Aécio Neves (o “insatisfeito” e/ou o “ungido”, que almejava a presidência da República, a posição que lhe havia sido “prometida” pelos padrinhos), e que perdeu as eleições em outubro de 2014, sobreveio afinal a ideia do impeachment. Esta “saída” revestiria de alguma institucionalidade a intervenção abrupta no sistema político, com o único objetivo de encerrar o ciclo de vitórias eleitorais do PT.

Se o/a eleitor/a não parecia querer desistir de eleger o PT, a “saída” formulada foi a de substituir o/a eleitor/a pelo Congresso Nacional. Não qualquer Congresso, mas o mais conservador desde 1964 (segundo o DIAPP) e ainda, principalmente, constituído por uma maioria de homens, muitos deles indiciados e acusados de toda a sorte de crimes. Havia institucionalidade suficiente para realizá-lo com o verniz de contestação do argumento da ilegitimidade.

O STF, esse mesmo que hoje “se desmancha no ar”, desempenhou o seu papel de testemunha e de atribuição da legitimidade, com a sua adesão à farsa e com festejo dos meios de comunicação, que após campanhas importantes de rodadas de (de)formação e (des)informação, consolidaram o apoio da maioria da opinião pública. Ao mesmo tempo, passou-se a dar visibilidade máxima à Operação Lava Jato (o braço jurídico-midiático do restante das reiteradas tentativas de aniquilamento do PT e de Lula). Durante algum tempo, a grande maioria dos brasileiros saudou o surgimento da operação Lava Jato como instrumento para fortalecer a democracia brasileira; mas as irregularidades processuais e a seletividade das investigações e dos próprios investigadores começaram a demonstrar que, de fato, não se tratava de combater “a” corrupção, mas de esforços de tentar liquidar, agora pela via judicial e através de lawfare (e não apenas pela via política), as conquistas sociais das últimas décadas no país.

A destituição ilegítima de Dilma Rousseff, a primeira e a única mulher Presidenta da nossa história, foi o primeiro decisivo ato do golpe contra a nossa democracia, aquele golpe que pôs fim à Nova República brasileira, iniciando a organização de uma espécie de estado de exceção no Brasil e abrindo as portas para o ataque autocrático do país.

O famigerado “impeachment” foi ademais permeado de misoginia, ataques violentamente sexistas, revelando a dimensão recolonizadora, neoconservadora e moralmente autoritária e de uma espécie – ainda tímida naqueles tempos – de ofensiva antifeminista e antigênero – de matiz cisheteropatriarcal branco e golpista. Escrevi/relatei sobre isso, juntamente com conjunto extenso de pesquisadoras e ativistas entrevistadas no livro “Mídia, Misoginia e Golpe”, ainda no ano de 2016.

Ao longo de 2015 e 2016, estiveram nas ruas contra o neogolpe basicamente: os próprios petistas (uma parcela deles pelo menos), alguns formalistas políticos/defensores das regras do jogo (acadêmicos/as do direito constitucional e cientistas políticos e/ou sociólogos/as políticos/as com apreço às regras e aos procedimentos democráticos e do Estado de Direito) e, ao lado destes, uma extensa e fundamental rede de mulheres que foi, afinal, a contenção e o amparo para Rousseff quando ela, solitária e abandonada (inclusive pelo próprio PT), sofreu o golpe.

Antes e durante o golpe, no espaço público das classes médias, em efetivo momento de catarse nacional, as mega-manifestações designadas como “coxinhas”, vestidas com camiseta verde amarela da Seleção brasileira e bradando pelo retorno da ditadura militar foi se promovendo o necessário ajuste da opinião pública. Parte das classes médias ressentidas, finalmente, se tornou visível, abertamente apoiada (senão instrumentalizada) pela espetacularização midiática da Lava Jato. Segmentos de classes médias urbanas e metropolitanas, fortemente “mobilizados” pelas panelas e pelas ruas, passaram a se sentir “agentes da transformação” e da “limpeza” ética da política no país, tendo ido “às ruas” para, emblematicamente, “punir” o PT, espumando o seu atávico ódio de classe, bem como o seu temor coletivo (talvez ainda não consciente) de mais “perdas” com a nova redistribuição econômica e do poder político.

E na sequência foram, mais uma vez, as mulheres brasileiras que protagonizaram importante e massiva manifestação pública e política contra a possibilidade, no pós-Temer e da “Bela, Recatada e do Lar”, da ascensão ao poder presidencial do pior dos líderes, gritando a plenos pulmões que “Ele Não!”. E tivemos que escutar, eu cientista política pelo menos (já que um dos escritores a trazerem a público essa “hipótese”, publicando-a em um jornal de circulação nacional, foi colega de meu Departamento), que as mulheres teriam sido “responsáveis” pela eleição de Bolsonaro pois estavam “desfilando sua nudez radical” em momentos inoportunos civicamente.  Lembro que já era prenunciado os ataques sistêmicos de fakenews nas colagens de outras manifestações (como a Marcha das Vadias) como se tivessem sido do #EleNão. E é sempre bom lembrar da presença de uma máquina de ódio bem financiada e promovendo ainda intensos ataques de violência política contra a então candidata à vice-Presidência, Manuela D’Ávila. Foram sequenciados e ininterruptos ataques recheados de mentiras, ameaças de estupro e de morte nas redes sociais durante toda a campanha. Recorrentes as imagens disseminadas pelas plataformas com fotomontagens e dezenas de notícias falsas, quando circulou uma imagem manipulada digitalmente em que Manuela vestida com camiseta preta com a frase “Jesus é travesti” (a foto original exibia, na verdade, a palavra “Rebele-se”).

Ao mesmo tempo, as conexões do novo governo ilegítimo pós-golpe se rearticularam e o processo do golpe, iniciado com o impeachment, se aprofundou para as ações de verdadeiro “estelionato eleitoral” da dupla de governo ilegítimo Temer-Meirelles, que passou (de forma vertiginosamente célere) a lutar para implantar políticas públicas anti-sociais (que rapidamente se transformaram em antigênero), de austeridade fiscal e contendo reformas pró-mercado, com foco na diminuição do Estado. Quase todas elas, não coincidentemente, sucessivamente rejeitadas pelo voto popular nas últimas quatro eleições presidenciais anteriores. Como o mandato presidencial de Temer – o “vampiro ultraneoliberalista”, desfilado pela Paraíso do Tuiuti em 2018 – rigorosamente era sem compromisso com a soberania popular, houve pressa no desmonte estatal, que veio, de fato, de forma galopante contra os direitos e conquistas de uma população já agora aturdida, desorientada e exaurida pela “doutrina do choque”. E foi nesse contexto que emergiu o “mito”.

Os articuladores do golpe, entretanto, subestimaram os cenários políticos possíveis ao pós-golpe contra a democracia. Imaginaram, parece-me, que em 2018 – dois anos depois do golpe – teriam já o cenário eleitoral mais favorável: ou dominado por Aécio, ou por Alckmin, ou por alguma candidatura do MDB de Temer, ou ainda por alguma candidatura do DEM. Mas não foi assim… Com o golpe consumado, o cenário eleitoral de 2018 se abriu em todo o seu potencial desestabilizador da democracia brasileira. O sentimento anti-política, as ações abertas de necropolítica do governo de exceção, fragmentou e polarizou emocionalmente a oferta de representação política, além de despertar as forças fantasmagóricas dos conservadorismos/fascismos da extrema-direita à brasileira. Foi assim que o “mito” chegou à presidência do país – um parlamentar medíocre do baixo clero do Congresso nacional, misógino, truculento que declaradamente “odiava as mulheres”– e governou emplacando uma agenda anti-direitos e antifeminista de dar inveja a líderes autoritários da direita global. O próprio IPEA reconheceu essa face e narrou em Textos de Discussão/TD a construção acelerada das retóricas da ofensiva antigênero e do anti-feminismo de Estado bolsonarista, declarando seu governo como uma fase de “deslegitimação da agenda e desmonte das políticas” (IPEA, TD 2866, Tokarski, Matias, Pinheiro e Correa, 2023). E, mais uma vez, foram as mulheres as atacadas. E os anos de pandemia trouxeram mais terror para o país: trancadas em casa, muitas delas com os próprios agressores, precisavam conseguir sobreviver e fazer sobreviver os seus.

Mas também foram elas resilientes. Especialmente a partir do feminicídio político de Marielle Franco (março de 2018) e das eleições daquele ano, seis fenômenos interconectados afetaram sobremaneira as intenções de voto, a elegibilidade e os ativismos recentes de mulheres no Brasil: metade para enterrá-los e a outra metade revelando a face mais objetiva das formas de resistência feminista. O primeiro deles foi a escalada da violência política, com o especial aumento da violência política contra as mulheres e o agravamento dos casos quando se tem nem perspectiva as dimensões interseccionais. Esse foi e continua sendo o cenário e o pano de fundo de praticamente todas as candidaturas e de todos os mandatos de mulheres neste país (principalmente à esquerda, mas também à direita), pelo menos desde 2016. Essa moldura ganhou contornos inimagináveis com o crescimento da “nova” direita no país – o segundo fenômeno interconectado-, que vem sistematicamente recrutando corpos, inclusive de mulheres, para as suas fileiras: o que tenho chamado de feminização do autoritarismo. Soma-se a esse caldo de horrores, a disseminação e o ativismo publicamente reconhecidos (senão valorizado) dos atores masculinos tóxicos da “machosfera”. Esse terceiro fenômeno tornou possível a articulação e transformação do ódio misógino em lucro do capitalismo de vigilância, que passou a ser promovido, sem freios, pelas plataformas digitais e sua rede de coaches. Violência política em nova escala e magnitude se conecta de forma quase umbilical ao crescimento da nova direita e à aceleração e disseminação da misoginia a partir da “machosfera”.

As resistências das mulheres se apresentaram principalmente a partir da forte presença de estratégias de ação oriundas do que chamo de ativismo interseccional feminista (onde principalmente os movimentos feministas conseguiram aglutinar pautas e ações): sendo este o quarto evento interconectado. Esse formato de ativismo novo para os feminismos brasileiros, teve no assassinato de Marielle Franco uma ancoragem singular: as “sementes de Marielle”. A partir de um renovado movimento feminista negro, por exemplo, ativistas, lideranças sociais e políticas negras, periféricas, todas feministas e defensoras dos direitos humanos, se inspiraram no legado de Marielle para ocupar espaços de poder e continuar a luta de transformação da realidade em suas comunidades. Claramente o termo faz referência simbólica à frase “não nos mataram, plantaram sementes”, usada após o crime bárbaro para indicar que essa morte multiplicaria as lutas das mulheres brasileiras por justiça e igualdade. Inclusive, o Instituto que leva o nome da vereadora, criou em 2021, a Rede de Sementes de Marielle Franco como um espaço de articulação que conecta ativistas, educadoras, mães e juventudes em todo o Brasil.

Mas esse formato de ativismo feminista veio com e foi além de Marielle, conectando lutas de mulheres negras e brancas, cis e trans, periféricas, pobres e de classe média, alta e baixamente escolarizadas, indígenas, quilombolas, ciganas de diferentes regiões do país (e mesmo fora dele). O quinto evento interconectado refere-se ao fato de ter se renovado na ocupação das redes (Blogueiras Feministas, Blogueiras negras etc.), a partir de uma juventude feminista antirracista que transbordou para a ocupação massiva das ruas, através de protestos e grandes manifestações coordenadas por mulheres. Esse fenômeno tornou-se evidente através das ocupações das escolas no Brasil que ocorreram em duas grandes ondas principais entre 2015 e 2016, no movimento que ficou conhecido como Primavera Secundarista. Em que pese tenha sido um movimento misto, foram as jovens estudantes a linha de frente do movimento, coordenando assembleias, a segurança e a rotina diária das escolas ocupadas. Elas eram ademais a porta-vozes e a face pública da visibilidade: meninas como Ana Júlia (estudante curitibana cujo discurso na Assembleia Legislativa do Paraná ganhou projeção nacional) tornaram-se símbolos da resistência estudantil e foram elas que promoveram estratégias de gestão comunitária e cuidado coletivo, organizando uma radical e inovadora forma de divisão sexual de tarefas cotidianas dentro dos prédios, como limpeza, vigília, segurança contra invasões e na preparação de refeições coletivas. Foram elas também que conduziram círculos de estudo, debates sobre política, gênero e sociedade, desafiando a estrutura hierárquica tradicional das escolas e da própria sociedade brasileira.

O sexto e último evento interconectado refere-se ao fenômeno de presença inédita de propostas e de eleição concreta de mandatos/mandatas coletivos/as, quase sempre capitaneados por mulheres negras, periféricas e feministas, que incluíam outras minorias tais como LGBTs, indígenas etc. Estas mandatas foram laboratório vivos de inovação democrática. O modelo ganhou grande visibilidade a partir de 2018 e se multiplicou nas eleições municipais de 2020 por todo o país, desafiando o formato tradicionalmente individualista das campanhas, dos mandatos e da própria política brasileira, quando se passa a dividir o poder e as decisões com um grupo de co-vereadoras ou co-deputadas, – por meio de renovados pactos políticos. Além do mais, houve impulsionamento inédito no país de candidaturas de mulheres negras, jovens, trans, lésbicas e indígenas, pavimentando os esforços de renovação (para além da inovação) democrática.

Os seis eventos descritos brevemente acima se interconectam justamente em função das próprias mulheres que, ora são tratadas como alvos e, exatamente por isso, reagem como agentes da sua própria transformação. Ficando apenas na cena contemporânea política mais recente, que começou com o golpe contra Dilma (em 2016) e chegou até a criação das mandatas coletivas, a política brasileira contemporânea se viu totalmente atravessada pelo protagonismo das mulheres em sua diversidade constitutiva e pelo seu correlato maléfico inverso reativo: o ódio contra elas, os seus direitos, os avanços e as suas pautas.

Não é nem um pouco verdadeiro, portanto, afirmar que é apenas nas eleições de 2026 que a participação, a representação e o voto das mulheres importam neste país. Respondendo à indagação que dá título a este ensaio: para esta autora, o maior fenômeno das eleições brasileiras de 2026 é, justamente, reconhecer a trajetória e o legado recente de pura e necessária resistência democrática feminina neste país. A depender apenas dos homens, o Brasil já teria se transformado numa republiqueta de fachada, a serviço dos interesses do neoimperalismo das direitas globais, a um só tempo rentistas, fundamentalistas e fascistas.

O voto das mulheres importa, as candidaturas das mulheres importam, as mulheres que elegemos importam, as mulheres que continuam ativas e agentes transformadoras da vida importam, são elas que continuam sustentando a vida e a renovação democráticas num cenário de pura desolação cívica, seja nas redes, nas ruas, nas escolas, nas universidades, nas periferias, no campo, nas aldeias, no Estado e em todos os lugares desse país.

Mas igualmente é verdade que não são todas as mulheres, por certo, comprometidas com a sustentação da ainda frágil democracia brasileira e há sim mulheres que participam, votam e lideram movimentos de direita radical por aqui. Mas somos em número suficiente ativas protagonistas da resistência e estrategicamente posicionadas para a urgência política do papel que nos coube no atual cenário da política brasileira: o de continuar a produzir os nossos melhores esforços para retirar o país das garras do autoritarismo, especialmente quando esse avanço autoritário vem acompanhado de pautas antigênero, antifeministas e de restrição de direitos. Assim, quanto mais o gênero (sempre em perspectiva interseccional) é politizado como ameaça pela nova direita, mais os feminismos se tornam espaços centrais de organização e resistência políticas. E os Institutos de Pesquisa, os e as jornalistas, os e as pesquisadoras de Ciência Política que estão nos meios de comunicação de massa fazendo esse debate parecem, nitidamente, que ainda não compreenderam isso.

Se em mais de 25 países europeus já se encontrou associação entre determinadas dimensões da promoção política e socioeconômica das mulheres e mudanças no hiato de gênero relacionado à direita radical (Path, 2022), discutindo justamente mecanismos de backlash de gênero, aqui não é diferente. Estamos em um ciclo de avanços e de reação a eles: e são as mulheres que mais empurram para os resultados políticos de conservação das democracias (aqui e em todo mundo). Esses “analistas” se esquecem que as mulheres já possuíam redes de organização construídas muito antes da atual reação neoconservadora e contam com elas hoje, agora! Essa parte é muito importante. Os feminismos não começaram a se organizar quando a nova direita chegou ao poder. Estamos nesse enfrentamento desde o alvorecer da modernidade, e é esse legado que nos fornece as condições morais e a infraestrutura de habilidades e capacidades necessárias para a resistência. Os detratores dos direitos das mulheres (os antigos e os novos) não podem apagar o que já fomos e tudo de centralmente importante que já fizemos (apenas poderão destruir o que poderemos ser e fazer adiante).  Somos hoje, cada mulher com consciência crítica do momento liminar que estamos vivendo, centrais na luta pelo futuro e pelo futuro das democracias em todo o mundo.

Em que pese como cientista política e acadêmica feminista ainda seja importante estudar e compreender melhor como simultaneamente a participação das mulheres na direita radical e o caráter generificado da própria direita radical vêm colaborando – via feminização do autoritarismo – para os processos de backlash antigênero contemporâneo, esta parcela de mulheres é uma minoria no Brasil. Além do mais elas também são, frequentemente, alvo de violência política contra as mulheres que pode e deve ser analisada não apenas como uma consequência individual de conflitos políticos atuais, mas como parte de uma disputa mais ampla sobre quem pode ocupar o espaço público, falar, representar e exercer, de fato, o poder. E antes, certamente antes de serem políticas de direita, elas são mulheres. E serão tratadas pelos homens de direita desta forma: como mulheres. Há muitas evidências de que mulheres defensoras de direitos humanos enfrentam justamente uma combinação de ameaças físicas, violência online, criminalização e restrição do espaço cívico, incluindo nesse bojo, as próprias mulheres de direita (os casos de Joyce Hasselmann e de Michele Bolsonaro são emblemáticos).

Assim, as mulheres aparecem como as frentes de resistência ao avanço da direita não por uma suposta predisposição feminina à resistência, mas porque a disputa contemporânea em torno da ordem social, dos direitos e da democracia passa indiscutivelmente e fortemente pelo gênero e suas dinâmicas interseccionais. E nem vou repetir aqui o meu rechaço à enxurrada de baboseiras que temos de escutar inclusive dos homens progressistas, que ainda tentam encaixotar e tratar as nossas lutas, profundamente democráticas, como “identitárias”. Resistimos a estes também, sem alianças portanto. Se recusam a compreender que os movimentos feministas (em todos os seus matizes) foram protagonistas de transformações que alteraram relações de poder, e também não conseguem identificar o backlash contra essas transformações como o motor que produz as condições para a mobilização e a resistência feministas. E sempre é bom declarar: não nos interessa, como feministas interseccionais, eliminar a participação feminina no campo da direita. Elas mesmas vão se encontrar, e com a dor inerente, as próprias grades, é apenas uma questão de tempo.

Mas eu acharia bom que os analistas políticos atuais passassem a compreender os feminismos, finalmente, como uma espécie de “infraestrutura social de resistência política” e isso não apenas nos períodos eleitorais e em relação ao voto feminino. Somos uma transformação em movimento, imparável.

 

Fonte: Por Marlise Matos, no Blog da Boitempo