terça-feira, 3 de novembro de 2026

Três ciclos e três desafios

No futuro, a história analisará com a devida profundidade o curto período entre os dias 5 e 25 de outubro de 2026. Em poucos dias a população brasileira viu nascer e se entregou com a alma a uma verdade revolução democrática, uma revolução cujo objetivo principal era a defesa da nossa ainda frágil democracia pós-1988.

A noite anterior ao dia 5 havia se escurecido de tal forma que não víamos nenhum horizonte possível. O fascismo venceu o primeiro turno com práticas políticas clássicas: ódio, violência e mentiras. O amanhecer do dia 5 de outubro foi doloroso e desesperançoso. No entanto, a longa e amarga noite do dia 4 de outubro de 2026 fez ressurgir algo que havíamos perdido para o ódio e a violência do pensamento bolsonarista.

Ela será lembrada com um daqueles momentos típicos na história da humanidade nos quais as placas tectônicas sociais começam a se movimentar. E foi exatamente nesse dia que essas placas começaram a se movimentar com uma potência profunda e crescente. Uma revolução democrática começou a ser construída e de lá se propagou por todo o território nacional como uma “onda tsunâmica” carregada de energia afetiva e esperançosa.

Essa onda tomou conta do país e se espalhou por ruas, praças, avenidas, parques, esplanadas, todos e todas vestidos/as de vermelho, verde, amarelo e as infinitas outras cores que tão bem representam a nossa dimensão popular, festiva e carnavalesca. O Brasil estava renascendo e o povo brasileiro estava ali assumindo seu protagonismo em defesa do nosso direito de vivermos em um país livre do ódio e da violência que essa família miliciana e fascista de sobrenome Bolsonaro tentava, novamente, impor ao país.

Chegamos no dia 25 de outubro, o nosso dia D, o dia no qual responderíamos para nós mesmos que povo somos e que país queremos. Milhares de brasileiros/as cruzaram cidades, estados e até países para se juntarem à grande batalha democrática do segundo turno das eleições. Esse dia foi tenso e intenso, mas a despeito de todos os desafios e improbidades durante o período de votação, terminamos o dia novamente nas ruas, agora para celebrar e gritar com muita força que vencemos o projeto autoritário.

O que virá não será fácil, a luta política, desde agora, deve ser diária, cotidiana, em todos os ambientes possíveis. É preciso reconectar o mundo político-partidário com o mundo social, o mundo das ruas, recuperar as relações e articulações com a população trabalhadora, ou seja, conosco, todos/as os/as trabalhadores/as. Como compreender históricamente a atual conjuntura política do Brasil? Em que momento o país entrou nessa roda gigante totalmente descontrolada e distópica?

Como exercício interpretativo eu proponho pensar o Brasil em três ciclos políticos distintos, mas totalmente associados: o primeiro período se inicia no governo FHC e vai até o impeachment de Dilma Rousseff, na realidade um golpe parlamentar; o segundo ciclo se inicia com a apropriação do poder, “com supremo e com tudo”, pelo “mesócliso” Michel Temer e termina com o intento de Golpe de Estado de 8 de janeiro. O terceiro ciclo se abre com o terceiro mandato presidencial de Luis Inácio Lula da Silva e se fecha no dia 25 de outubro, ao vencer as eleições, resultado que deixaria o candidato miliciano desprotegido juridicamente. Fez o que sempre fizeram os fascistas bolsonaristas: fugiu.

O primeiro ciclo histórico contém três importantes inflexões. As duas primeiras inflexões estão associadas os governos de FHC e Lula entre 1995 e 2010. A terceira inflexão passa pela eleição da primeira mulher, Dilma Rousseff, como Presidenta do Brasil em 2010. O pressuposto da análise desse primeiro ciclo está baseado no entendimento de que constituiu-se por contradições, que são inúmeras, e especificidades históricas que vislumbravam a construção e o desenvolvimento de um novo Brasil.

Nesta análise, o Brasil em desenvolvimento não é aquele restrito às ações de um ou outro partido político, mas fundamentalmente produto da sociedade brasileira em todas as suas aproximações e distanciamentos, sejam econômicas, políticas, sociais e culturais. E mais, as trajetórias pessoais e profissionais de FHC, Lula e Dilma Rousseff oferecem matéria prima para análise do Brasil como espelho e reflexo de si mesmo, do seu povo.

Suas escolhas, democraticamente implementadas pelo resultado das urnas, explicitvam os movimentos da sociedade brasileira. A cada processo histórico-eleitoral, os desejos da população (ainda que contraditórios) enunciavam o amadurecimento político para aceitar os encaminhamentos deliberados pela maioria, sem que isso representasse o silêncio daquelas que, também democraticamente, mantiveram suas posições e reivindicações.

De FHC, passando por Lula, e depois Dilma, não se configurou um processo aleatório ou algo equivalente a uma “evolução natural”. O que vimos foram processos em contínua construção, constituídos por conflitos e pelo que a democracia apresentava de mais rico, que é o direito à expressão, o direito à oposição. É fato, contudo, como nesse período, a despeito da melhora nas condições de vida, avançamos pouco contra as permanentes injustiças nacionais. Parte importante da população seguia e segue sem direito à existência mínima digna de moradia, trabalho, saúde e educação.

O governo de FHC abriu o primeiro ciclo. Intelectual e acadêmico, assumiu papel importante na estabilização monetária e na contenção da histórica e degradante inflação da economia nacional, ainda que ao custo social da recessão e inibição da economia interna, pois pautou seu governo pela articulação internacionalista e exportadora da produção, demarcando a dimensão característicamente neoliberal desse período. Essa foi a primeira inflexão no primeiro ciclo.

O segundo, Luís Inácio Lula da Silva, nordestino e retirante, seguiu em seu retiro o caminho da concentração espacial do capital produtivo na região sudeste do Brasil, particularmente a Região Metropolitana de São Paulo. Por óbvio, esse movimento migratório se deslocou em direção à base locacional central da industrialização da economia pós-1930.

Sua inserção profissional, igual a muitos milhares de brasileiros/as que enfrentaram a migração para as áreas urbanas em industrialização, foi justamente na atividade produtiva secundária, como operário, construindo aí sua trajetória política inicialmente sindical, até ocupar a cadeira da Presidência da República. Essa foi a segunda inflexão da histórica política nacional.

Por fim, uma mulher, Dilma Rousseff, cuja vida pessoal esteve atrelada aos movimentos sociais e políticos que se opuseram bravamente à Ditadura Militar. Sua eleição representou importante indicativo de que aos processos políticos e de governança não cabiam mais à unicidade masculina dos coronéis que sempre caracterizou a vida pública e política brasileira. Eleita em 2010, seu governo foi iniciado em 2011 com um importante corte orçamentário e a aprovação de um valor do salário-mínimo que, no fundo, contribuiu (apenas) para a reforçar a desigualdade entre a renda do capital e a renda do trabalho.

A eleição de Dilma Rousseff foi a terceira e mais importante inflexão desse ciclo, pela potente simbologia que representava uma mulher na Presidência da República. A despeito de todas as críticas possíveis às decisões governamentais e aos muitos problemas de sua gestão, nada se pode dizer em relação à honestidade e ao caráter ético e republicano de Dilma Rousseff. Sua destituição nas tais “pedaladas fiscais” foi apenas a estratégia ardilosamente inventada pelos coronéis do Congresso Nacional com a conivência covarde e silenciosa do vice-presidente.

E ainda que travestivo de “processo legal”, o que se deu, como todos sabemos, foi um golpe parlamentar. Golpe esse que começou a se construir quando o PSDB e Aécio Neves se recusaram a reconher a vitória de Dilma Rousseff. Esse foi o movimento decisivo na direção da instabilidade que até hoje transtorna a vida nacional. A atual insignificância de Aécio Neves e do PSDB no quadro governamental e político nacional diz muitas coisas, nem é preciso gastar nenhuma linha escrita com ambos.

O segundo ciclo se inicia com a infame articulação golpista “com supremo e com tudo” tal qual profetizada por Romero Jucá. A destituição de Dilma Rousseff alçou o seu “mesócliso” vice-presidente, aquele que jamais seria presidente se se apresentasse como candidato, ao cargo de Presidente da República. Da gestão do Presidente “mesócliso” restou apenas a famosa, segundo FHC, “pinguela para o futuro”, pois de “Ponte” não tinha nada. A “Ponte para o Futuro” produziu uma passagem direta para o governo fascista-militar-religioso do Inominável. E o “futuro” foi implacável com o Brasil: 700 mil mortos durante o descalabro governamental na pandemia Covid-19 e um intento de golpe de Estado no dia 8 de janeiro de 2023.

“O caminho foi duro” até a vitória de Lula da Silva em 2022. O Brasil resistiu e não aceitou pactuar com um novo governo inominável. A memorável e histórica subida da rampa do Palácio do Planalto com o Presidente eleito acompanhado de pessoas representativas do povo brasileiro eral o sinal simbólico de uma retomada da necessária reconstrução social, institucional econômica e política do país que fora perdida na ruptura provocada por Aécio Neves.

Um simbologia que seria rompida pouco tempo depois: uma manada ensandecida de fanáticos bolsonaristas, após semanas acampados no Quartel General em Brasília com a conivência criminosa das Forças Armadas, deu início a uma destruição dos espaços públicos e edificados representativos dos Três Poderes na Esplanada. Essa era a face visível e imagética do intento golpista, pois os verdadeiros mentores e intelectuais desse Golpe vinham operando de dentro dos palácios em Brasília. O tal “Punhal Verde e Amarelo” seria a face mortal e secreta desse projeto, cujo objetivo era assassinar Lula, Geraldo Alckmin e o Ministro do STF Alexandre de Morais.

Os golpistas foram julgados e condenados. Generais truculentos, saudosos dos porões da Ditadura Militar e dos torturadores Ustras, o covarde e misógino inominável, aquele que fez piada com pessoas mortas na Pandemia ao dizer “e daí, não sou coveiro, tá?”, e tantos outros da manada de fanáticos/as bolsonaristas compartilham entre si uma qualidade imposta nos termos da lei e do devido processo legal: presidiários.

Esse terceito ciclo foi todo consumido não apenas pelas incertezas e instabilidades do longo processo judicial que responsabilizou e condenou esses golpistas, mas por dificuldades internas e externas que ainda caractertizam o terceiro mandato do Presidente Lula, especialmente os tensionamentos com o imperialismo dos EUA. Foram quatro anos difíceis em todos os aspectos, não apenas na dimensão nacional, mas, sobretudo, internacional. As guerras entre Ucrânia e Rússia, entre os EUA e o Irã e suas implicações nos custos do petróleo, a criminosa aniquilação da Faixa de Gaza promovido por Benjamin Netanyahu, entre outros eventos potencializam as fortes turbulência do período.

A despeito dessas dificuldades, o atual governo Lula conseguiu, novamente, tirar o Brasil do mapa da fome. Essas dificuldades também não impediram que o país tivesse uma melhora nos seus índices econômicos. Já no contexto das eleições de 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu a resistência e projeções positivas para a economia brasileira no relatório “Perspectivas da Economia Mundial”, divulgado em outubro de 2026.

O terceiro governo Lula segue sendo um governo do possível. As inerentes contradições da Frente Ampla construída para vencer o inominável nas eleições de 2022 terminou esvaizada. Para muitos críticos, um governo que ao longo dos anos perdeu ou abandonou a força simbólica da histórica subida da rampa do Plalácio do Planalto na posse em janeiro de 2023, pois se autarquizou e se fechou nos gabinetes palacianos.

O fato de a sala presidencial no Palácio do Planalto estar voltada para os fundos, com o horizonte idílico do Lago Paranoá e do Cerrado, e não de frente para a Praça dos Três Poderes, espaço público simbólico das manifestações políticas do povo brasileiro, é algo que explica, como metáfora, a “desconexão” do governo, qualquer governo, com a realidade social.

O período final desse terceiro ciclo ultrapassou todos os limites imagináveis. O terceiro governo Lula entrou no atual ciclo eleitoral com os olhos no passado, com estratégias analógicas e desconectadas da população, esquecendo-se de que era preciso apresentar projetos para o futuro a serem politizados não apenas nas ruas, mas nas esferas digitais.

O inominável, mesmo preso, conduziu e orientou a escolha daquele que o representaria como candidato: seu filho, um fascista igual ao pai. Mais, numa estratégia inteligente, é preciso reconhecer, articulou a construção de candidaturas de Senadores/as e Deputados/as Federais por todo o país para controlar o Congresso Nacional. Estretégia que alcançou seu objetivo e elegeu partidários do golpismo e do fascismo bolsonaristas.

A esquerda brasileira, por sua vez, seguiu atada ao “messianismo presidencial”, ainda que avanços eleitorais importantes ocorreram no Congresso, especialmente com a eleição de jovens como Ana Elisa do PT. A esgotada estratégia messiânico-presidencialista foi construída sem ponderação de um aspecto hoje estrutural da realidade social e política do país: o antipetismo. Era (e é) imprescindível compreender o antipetismo para que possamos (re)começar, mas a opção pela construção de alternativas políticas havia sido simbolicamente descartada pelo próprio Lula ainda no início do seu terceiro mandato: ele seria o candidato. Quem ousaria a formular qualquer contraponto a essa premissa?

A vitória do candidato fascista no primeiro turno das eleições provocou um “choque de realidade”. O horizonte de vitória desse candidato no segundo turno das eleições, o domínio do Congresso Nacional  por idelogias fascistas e autoritárias e uma futura composição do STF por juristas ideologicamente alinhados com o bolsonarista teriam potencial para jogar o país num ciclo obscuro e autoritário sem predecentes.

Esse “choque de realidade” fez com que as placas tectônicas sociais iniciassem um movimento profundo e intenso de reação popular contra o fascismo logo após o primeiro turno. Foi, portanto, uma grande ruptura em relação ao imobilismo político-partidário da campanha eleitoral do campo progressista. O povo brasileiro assumiu para si a responsabilidade de se contrapor ao fascismo. As ruas ocupadas e os espaços digitais operados com maestria pelo deputado André Janones promoveram a “onda tsunâmica carregada de energia afetiva e esperançosa”. A vitória de Lula e Geraldo Alckmin só foi possível porque o povo brasileiro a fez possível.

Terminado o tumultuado segundo turno e após a declaração de que o povo brasileiro venceu o fascismo bolsonarista, explodimos de emoção e alívio. O roteirista das alegrias e tragédias dessa alucinante, complexa e contraditória nação Brasil não deixou por menos e estamos agora ante uma cena tosca e farsesca protagonizada pela família miliciana Bolsonaro: a fuga, com apoio logístico e ideológico de EUA e Argentina, do candidato derrotado.

Mais, esse candidato se declarou “presidente eleito” assim que chegou no decadente império do norte. A alucinação do miliciano fascista é tão profunda que ele se autoproclamou presidente dos “Estados Unidos do Brasil”, ou seja, um país que não existe. Depois tentou corrigir, mas era tarde, a burrice estrutural e autoritária dessa gente já havia promovido o escárnio.

Isso tudo pode até parecer engraçado, mas é trágico e perigoso. Como já nos alertou outro gênio da canção popular, Belchior, “cuidado, meu bem. Há perigo na esquina”. O problema é que o perigo não está apenas na esquina, mas nos gabinetes dos fascistas eleitos e nas ideias difundidas nas profundezas das redes sociais “viralizadas” com os algorítmos da Inteligência artificial.

Para enfrentar esse perigo, para derrotarmos de uma vez por todas essa familia criminosa, para que a seita de fanáticos/as bolsonaristas possa novamente voltar a ver a luz, se é que isso será possível, vislumbro três importantes desafios. O primeiro é romper com o messianismo presidencialista, o que não significa desconsiderar a importância história do estadista Luis Inácio Lula da Silva e de tudo que ele fez pelo país, especialmente pelos mais pobres.

Isso implica, necessariamente, repensar a já desgastada e burocratizada hegemonia político-partidária do campo progressista, de tal forma que outras lideranças possam assumir o desafio de governar o Brasil com a participação e colaboração de todo a esquerda brasileira.

O segundo desafio tem relação direta com o sistema presidencialista de governo esvaziado e fragilizado pelo orçamento secreto. É urgente construirmos uma estratégia política para recuperarmos e ampliarmos o espaço de representação progressista no Congresso Nacional. Ao recuperamos a relevância estrutural do campo congressista no parlamento nacional, recuperaremos a capacidade de aprovação de projetos e leis que realmente interessam ao desenvolvimento nacional, ao meio ambiente, à saúde pública, educação, à produção da cidade e da habitação, etc.

O terceiro desafio é, talvez, o ponto mais difícil, complexo e aparentemente contraditório de todos, provavelmente impossível. É preciso reconstruir o campo conservador e democrático que se perdeu quando Aécio Neves e o PSDB abriram os esgotos de onde saíram os fascistas que destituíram Dilma Rousseff e que hoje controlam o Congresso Nacional.

Essa reconstrução deve contemplar a eliminação definitiva da familia Bolsonaro da vida pública brasileira para que o país volte a se organizar politicamente de tal forma que as divergências políticas sejam enunciadas numa arena pública civilizada, democrática e respeitosa. A família Bolsonaro transformou essa arena num ring de luta livre cheia de ódio, violência, mentiras e crimes de toda ordem. Um projeto de poder organizando mediante o funcionamento do partido digital bolsonarista.

O risco de não nos empenharmos nessas tarefas é a volta dessa família miliciana ao poder. Não podemos subestimar o fascismo bolsonarista e seus tentáculos nacionais e internacionais. “Há perigo na esquina” e há perigo nas redes sociais controladas pelos braços financeiro e tecnológico do fascismo internacional. Não fosse o povo brasileiro, estaríamos hoje mergulhados/as em uma crise emocial, depressiva e de ansiedade generalizada diante do tenebroso horizonte que nos seria imposto de forma autoritária, violenta e odiosa a partir de janeiro de 2027.

O Brasil precisa reconstruir as tramas e fundamentos da vida pública e democrática que foram rompidas com o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff. Não deixa de ser uma rearticulação com um determinando ponto do nosso passado recente, mas desde que isso não represente uma ideia de “progresso” tal qual formulada pela crítica benjaminiana, que, no fim e ao cabo, culmine numa distopia destrutiva.

A histórica vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, ou melhor, a vitória do povo brasileiro, nas atuais eleições de 2026 é o marco de abertura do quarto ciclo. Ele será construído a partir de 2027. Essa vitória nacional tem potencial para mudar não apenas o Brasil, mas o mundo todo, todos os países que hoje estão mergulhados nas distopias fascistas e financistas.

O “L” de Lula que nós brasileiros/as inventamos é também o “L” de liberdade que vemos se propagar por todos os cantos do planeta como símbolo de oposição radical ao fascismo e ao neoliberalismo do nosso tempo histórico. Uma janela histórica foi aberta e não poderá ser desperdiçada.

 

Fonte: Por Rodrigo de Faria, em A Terra é Redonda

 

Golpe e anistia: a batalha pelo Brasil não acabou

Há muitas formas de manipular uma eleição sem tocar nas urnas eletrônicas, e mais uma vez a logística de transporte dos eleitores foi escolhida para tentar mudar os rumos de uma eleição no Brasil. No dia 30 de outubro de 2022, ainda durante o mandato de Jair e no dia do segundo turno que daria a Lula a primeira vitória sobre um Bolsonaro, a Polícia Rodoviária Federal (PRF) mobilizou seu efetivo para uma série de bloqueios e blitze espalhadas pelo território nacional, especialmente no Nordeste brasileiro. Visando principalmente veículos de transporte coletivo como ônibus ou vans e alegando a garantia da segurança de eleitores “transportados de forma irregular”, a operação na prática foi pensada e funcionou para atrasar ou impedir a chegada desses eleitores nos seus locais de votação. Dois anos depois, já no decurso do terceiro mandato do presidente Lula, uma investigação da Polícia Federal concluiu o esperado: uma “discrepante abstenção” foi observada nas regiões onde as blitze ocorreram. Considerando a apertada diferença do resultado – 50,90% para Lula e 49,10% para Jair Bolsonaro, com uma diferença de pouco mais de 2 milhões de votos entre os candidatos –, não é demais considerar que a artimanha não passou muito longe de dar certo, ainda que no final seu objetivo não tenha sido alcançado.

Dessa vez, sem a máquina do Estado nas mãos, sem tropas a mobilizar e com planejamento mais precário, a tática foi outra: a partir de prefeituras como as de Salvador e São Paulo, casos que mais se destacam e cujos prefeitos Bruno Reis (União Brasil) e Ricardo Nunes (MDB) não deixaram dúvidas quanto seu apoio à candidatura de Flávio Bolsonaro, houve um esforço deliberado para impedir a circulação dos ônibus no dia do segundo turno das eleições presidenciais.

Em Salvador, mais de 500 ônibus foram deixados nas garagens da cidade por ordem expressa da Secretaria de Mobilidade Urbana (SEMOB), que determinou para o dia 25 a circulação de uma frota inferior àquela que circula durante os dias de semana – quando a determinação do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) foi de manter o transporte coletivo urbano “em níveis normais, sem redução específica no domingo das eleições”.

Em São Paulo, quase 30% dos ônibus ficaram parados nas garagens no domingo das eleições, com uma alegação inicial da SPTrans (empresa municipal responsável pelo gerenciamento e fiscalização do transporte coletivo por ônibus na cidade) que culpava “desafios operacionais” pela redução da frota – o que rapidamente foi contradito pelo prefeito Ricardo Nunes, que sustentou normalidade na circulação e lamentou a “injustiça” cometida pelos aliados de Lula com tais acusações. Fato é que o levantamento de um pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CEBRAP), feito em tempo real com base em dados abertos (incluindo câmeras de monitoramento municipais) foi taxativo: as periferias de São Paulo, onde Lula venceu no primeiro turno, foram as mais afetadas pela falta de transporte, já que nesses locais a circulação de ônibus caiu 20% ou mais em relação ao dia anterior.

Aqui, chegamos a uma constatação que a muitos é dolorosa o suficiente para que não se diga em voz alta e até pensar pareça assustadora demais: o “contrato de cavalheiros” que sustentou a república brasileira de 88 pra cá já não existe mais, e o pacto de classe que acordou permitir que o processo eleitoral transcorresse sob certa tranquilidade formal e institucional foi rasgado, fazendo com que práticas que para alguns pareçam baixas e dignas da Primeira República – ou República Velha –, como a interrupção física do traslado de eleitores de determinadas regiões, passem a ser uma constante. É o caos como tática, o tumulto como meio para um fim constante, em 2022 como em 2026: o golpe.

O que vimos no último domingo foi tão simples quanto engenhoso: a tentativa de tumultuar o processo eleitoral de tal forma que ele pudesse ser questionado em caso de derrota. A nível operacional, a diminuição dos transportes nos locais apontados, por mera coincidência nos redutos eleitorais de Lula, levou à etapa seguinte: o primeiro pedido, por parte do PT – principal afetado – da prorrogação do tempo de votação. Pedido cuja aceitação veio atrasada, depois do fechamento de diversas urnas e liberação de mesários, fazendo com que em apenas alguns poucos locais de votação a ordem de prorrogação até as 19 horas pudesse ser cumprida, já que menos de 25 mil das mais de 473 mil urnas permaneceram abertas depois das 17. Estava amarrada a narrativa oficial do golpe em caso de derrota: as eleições foram fraudadas por meio da decisão de prorrogar até as 19 horas apenas em determinados locais e, portanto, novas eleições seriam necessárias. A partir daí, com o questionamento do resultado, o céu seria o limite e tudo estaria em aberto.

Narrativa perfeita e muito bem embasada, uma vez que de fato criaram as condições para sustentá-la, não fossem dois furos de roteiro, o primeiro deles de responsabilidade do próprio Flávio, já que sua campanha também pediu a extensão do horário de votação e, portanto, não pode-se atribuir ao PT a única iniciativa de mudança nas regras ordinárias. O segundo furo, ainda maior, impede que se atribua a vitória de Lula a essa prorrogação, já que menos de 35 mil votos foram contabilizados entre as 17 e 19 horas, o que corresponde a 0,027% dos votos totais depositados no dia da eleição. Percentual irrisório perto dos quase 4,5 milhões de votos a mais que garantiram a Lula a vitória rumo ao seu quarto mandato – uma diferença de 3,6% à frente.

Isso de fato desorientou os que haviam se preparado para questionar a derrota, e o que vimos nas primeiras horas após o resultado foi uma atuação descoordenada, onde cada uma das figuras de expressão no campo que se reuniu no entorno de Flávio dizia algo diferente. Antes mesmo do fim do prazo das 19 horas e preparando o terreno para o resultado, o senador Rogério Marinho (PL), coordenador da campanha de Flávio Bolsonaro, falou em “golpe judiciário” para descrever a decisão de prorrogação. No dia seguinte (26) Eduardo Bolsonaro apelou à “comunidade internacional” pelo não reconhecimento e pediu a anulação das eleições, mas no mesmo dia lideranças do PL tentaram convencer Flávio a não questionar o resultado – mesma posição de Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo e principal figura da direita a disputar com Flávio a cabeça do campo – e Nikolas Ferreira disse que a “chance de anular eleição é quase nula” e desencoraja seus apoiadores a irem pras ruas. Ainda no mesmo dia 26, Flávio sinaliza a desistência de pedir a anulação e o PL reconhece a derrota, com outras várias manifestações de figuras da direita e extrema direita.

Enquanto no Brasil pareciam bater cabeça sobre que rumo tomar, mundo afora multiplicavam-se as felicitações ao presidente Lula pelo resultado eleitoral, reconhecendo o resultado do pleito brasileiro. Importante destacar a rapidez com que os países da América do Sul se pronunciaram, incluindo uma parte considerável dos países integrantes do Escudo das Américas, a coalizão militar trumpista anti-Brasil no nosso continente – a excessão que destacava-se até então era a Argentina, que logo mostraria até onde estava disposta a envolver-se no assunto. A essa altura do campeonato, o silêncio era a regra na Casa Branca, o que logo foi rompido com uma declaração tanto vaga quanto dúbia: embora não estivesse questionando com todas as letras o resultado do pleito, a eleição brasileira “pareceu fraudada” ao grande patrocinador internacional da jornada do derrotado Flávio Bolsonaro.

E então a fuga. Da noite do dia 27 para o dia 28, depois de uma bem-sucedida campanha de despiste na mídia e nas autoridades brasileiras, Flávio voou da Argentina em direção a Miami, com uma escala no Equador que permitiu-lhe desviar do território e espaço aéreo brasileiros.

Muita coisa ainda há de se esclarecer sobre essa fuga, especialmente como foi possível a Flávio não só manter-se no Brasil por um dia inteiro enquanto a mídia repetia que ele já havia saído do país e os olhares do mundo voltavam-se para esse assunto, para à noite finalmente cruzar a fronteira terrestre pela Ponte Internacional Tancredo Neves que liga Foz do Iguaçu a Puerto Iguazú, na Argentina, acompanhado da esposa e das duas filhas. Além de ser lícito questionar como foi possível atravessar uma ponte que, venhamos e convenhamos, talvez seja uma das vias de trajeto mais fáceis de monitorar e interditar quando há interesse, também é digno de nota que o município de Foz do Iguaçu tem hoje como atual prefeito o general Joaquim Silva e Luna (PL), que foi ministro da Defesa de Jair Bolsonaro. 

Divagações à parte, há um envolvimento nessa fuga que não se questiona: o argentino. Durante todo o dia 27 ficou estacionado em Puerto Iguazú esperando a chegada de Flávio o jato de uma empresa acusada de lavar dinheiro para um aliado do presidente argentino Javier Milei, onde ele finalmente embarcou com a família à noite e partiu em direção a Miami. Embora seus defensores atribuam a fuga à solicitação de entrega dos passaportes, estamos falando de um plano de fuga organizado semanas antes da derrota por Eduardo Bolsonaro junto ao governo Trump; plano quase abortado depois do resultado vantajoso no primeiro turno.

Uma vez nos Estados Unidos, a sequência de acontecimentos pareceria inverossímil se retratada em qualquer peça de ficção: em carta aberta, Flávio Bolsonaro dirige-se “ao povo brasileiro e à comunidade internacional” como “verdadeiro presidente eleito”. No cabeçalho da carta, o brasão dos… Estados Unidos do Brazil, com “z”. Brasão esse inaugurado com a República em 1889 e substituído em 1968 durante a ditadura militar pela versão com brasão e nomes usados até hoje: República Federativa do Brasil. Não suficiente, a carta que foi ao ar às 16:43 teve ainda outras duas versões. Apagada a primeira, a segunda trazia o brasão corrigido e, apagada a segunda, Flávio renunciou à presidência autoproclamada e passou a identificar-se como “líder” do Brasil. Como disse há pouco, em qualquer peça de ficção a trapalhada pareceria demasiado forçada, mas em meio ao realismo mágico latino-americano, uma eleição onde até uma santa manifestou-se em luta contra o diabo e seus representantes, um patético self-made presidente, deposto por si mesmo uma hora depois e então feito líder pode voltar a preocupar no futuro.

Aqui entra a variável Trump, aquele que mexe as cordas dessa família sempre que lhe é interessante. Da mesma forma que outrora aproveitou a súplica de Eduardo Bolsonaro e tarifou o Brasil usando como desculpa a prisão de Jair para, em seguida, colocar o assunto na gaveta e depois voltar a recorrer à família com a promessa de ter um orgulhoso funcionário seu na presidência, Trump agora parece, acima de tudo, esperar. Suas repetidas declarações sobre o resultado das eleições, embora coloque-o sob suspeição, deixam o assunto suficientemente vago para, uma hora ou outra, ser feito dele o que se bem entenda. Ainda que haja indícios (não confirmados!) de que para a Casa Branca o delírio de Flávio seja inviável (agora), é preciso não dar como certas informações vazadas a dedo para a imprensa – afinal de contas, faz poucos dias que vimos toda a mídia brasileira fazer parte, ainda que involuntariamente (ao que pareça), do esforço de fuga do candidato derrotado, repetindo a desinformação que ajudou que ele zarpasse sem grandes incômodos.

Acontece que no próximo dia 3 de novembro Trump encara as suas próprias eleições. Não as eleições presidenciais, mas as conhecidas como eleições de meio de mandato, onde parte considerável do congresso dos EUA é renovado – toda a Câmara dos Representantes, composta de 435 deputados, e cerca de um terço das vagas do Senado (35 das 100 cadeiras). Ao que tudo indica, encarando uma possível derrota de seu partido, Trump agora busca manter-se tão afastado quanto possível da família que ainda é sua melhor cartada para o Brasil, ou pelo menos aquela que lhe oferece tudo. O que virá depois das eleições estadunidenses, só o tempo dirá. Projeta-se, inclusive, a possibilidade de que o próprio Trump não reconheça uma eventual derrota. Fato é que os EUA conspiraram para remover do Brasil o seu candidato derrotado, o que só se explica pelo interesse de mantê-lo, ainda que em banho maria, como uma carta na manga, esperando o momento em que volte a ser útil – o que não seria possível no caso de uma eventual prisão sua aqui no Brasil, e por isso viabilizar a sua fuga foi fundamental.

Fato é que a fuga acaba provocando efeitos dúbios em meio à batalha pela posse: a curto prazo, desmoraliza e desarticula a direita, que parece ter sido (pelo menos em sua maioria) pega de surpresa com o plano de evasão do país. Da mesma forma, abre brechas para o retorno das disputas pela cabeça do campo que vimos antes da definição final de quem concorreria à presidência contra Lula. Outra vez voltam ao primeiro plano Tarcísio Nunes e Michelle Bolsonaro, dois concorrentes fortes anteriormente, que já se aproveitam da ausência de Flávio para se mover com conforto. Em entrevista no dia 28, Tarcísio falou em respeitar o resultado das urnas e seguir em frente e horas depois já se apresenta como possível candidato à presidência em 2030. Michelle, por sua vez, mais discreta, abre caminho para ampliar sua influência no PL e assumir a cabeça da base social mais fiel ao bolsonarismo, visando, quem sabe, em 2030, aquilo que não pôde alcançar dessa vez. A médio e longo prazo, deixa abertas tantas opções quanto as que forem possíveis.

E como na política as coisas mudam rapidamente, nada está garantido enquanto o golpismo não for completamente desarticulado – afinal de contas, menos de uma semana atrás muitos eram, inclusive este que vos escreve, os que davam como praticamente garantida a vitória de quem hoje espera ordens abrigado em Miami, já que governa menos que a si mesmo.

De maneira não pouco irônica, quem melhor nos ajuda a entender em que prateleira podemos colocar a carta golpista é o ex-vice presidente de Jair Bolsonaro, o general Hamilton Mourão. Quando questionado pela Folha de São Paulo sobre sua posição sobre a carta, foi sucinto: “golpe tem de ter apoio, e ele não existe”.

Esse é exatamente o estágio em que nos encontramos: a “tranquilidade” não vem da impossibilidade de um golpe ou da possibilidade de derrotá-lo por nossos próprios meios, mas por que falta apoio. Toma lugar então a pergunta óbvia: e quando não faltar? Ou melhor: quando a organização, audácia e golpe de vista se alinharem na próxima tentativa – porque ela virá – o que impedirá que os golpistas não errem outra vez? De que forças dispomos para fazê-los dobrar os joelhos ou recuar? Ainda que posteriormente julgados e em sua maioria presos, os que entre 2022 e 2023 sonharam alto foram derrotados pela própria incompetência e covardia, não pela reação que veio depois e, em partes, pela via judicial. Ali nós não vencemos, foram eles que perderam sozinhos.

Em meio à impressão de que era certa a vitória de Flávio Bolsonaro, muitas articulações foram iniciadas e agora já aparecem outra vez, recicladas. A mais importante delas diz respeito ao Supremo Tribunal Federal (STF), que diante da nova composição do Senado e de um possível Flávio presidente, começou a mover-se por um acordo que preservasse quem fosse possível do impeachment ou, quiçá, da prisão. Como moeda de troca, a anistia aos condenados pelo 8 de janeiro, incluindo o próprio Jair Bolsonaro. Essa anistia, claro, não poderia ser apenas aos condenados e hoje presos, mas também a quem os prendeu – conciliando assim, no sonho de alguns, o STF e o bolsonarismo. Graças à reviravolta do último domingo não saberemos o fim de tal vontade, mas diante da possibilidade não me restaram dúvidas: para o bolsonarismo, em meio ao cheiro de sangue de um STF enfraquecido pelo resultado eleitoral, não haveria conciliação melhor que a vitória total.

 Mas uma vez trazida à tona, como se saída de uma caixa de Pandora impossível de fechar por completo, a possibilidade de anistia não deixou de circular nos bastidores mesmo com a derrota de Flávio. Atual presidente do Senado em busca do apoio bolsonarista à sua reeleição, quem agora fala no assunto é Davi Alcolumbre, pleiteando uma “pacificação nacional” por meio de um indulto ao Bolsonaro pai e anistia aos demais condenados pela tentativa de golpe. Também entre o Supremo estão os que ainda acham que a anistia é o caminho, mesmo com o bolsonarismo agora em posição de fraqueza – posição que algumas semanas atrás era a do STF.

O erro político de deixar nas mãos dessa corte a retaliação ao golpismo mantém-se como uma espada sobre nossas cabeças, ameaçando cobrar seu preço. Não se enganem: o golpe de Estado costuma ser uma marcha: às vezes curta e certeira, às vezes longa e sinuosa; sempre com erros e acertos, avanços e recuos, até que o vencedor finalmente se impõe – não sem que muitos fiquem pelo caminho. O grande e muitas vezes único paralelo histórico para muitas pessoas, o golpe de 1964 – com muito mais diferenças que semelhanças quando comparado com os nossos dias –, não foi fruto de um grande movimento certeiro, foi antes o resultado final de mais de uma tentativa fracassada e anistiada em nome da “pacificação nacional”, até que finalmente o esforço deu certo e a paz dos cemitérios se impôs em todo o país. Fica a lição aos que querem ouvi-la: a conciliação com o golpismo lhes garante apenas o tempo de se preparar para não errar outra vez. Porque a luta pelo golpe e a luta contra ele é uma só: a batalha pelo Brasil, e ela ainda não acabou.

 

Fonte: Por Euclides Vasconcelos, em Opera Mundi

 

Empresário é dono do negócio, não do voto do trabalhador, diz chefe do MPT

O PROCURADOR-GERAL DO TRABALHO, Gláucio Araújo de Oliveira, afirmou que empregadores que pressionarem ou punirem funcionários por suas escolhas políticas serão responsabilizados, inclusive com o pagamento de indenizações milionárias. O alerta ocorre em meio a uma onda de publicações em redes sociais que, após a reeleição do presidente Lula (PT) no último domingo (25), passaram a incentivar a demissão de trabalhadores que votaram no petista.

“O empresário é dono do negócio, não dono do voto do trabalhador”, disse Oliveira. “Praticar assédio eleitoral, ou seja, ameaçar trabalhadores para votar em alguém tem levado ao pagamento de indenizações milionárias. Da mesma forma, punir trabalhadores por terem votado em A ou B também tem pesadas consequências pecuniárias.”

Segundo o procurador-geral, o valor das condenações precisa ser elevado para cumprir uma função pedagógica e preventiva, ou seja, para evitar que a conduta se repita.

Oliveira afirma que muitos patrões publicam mensagens em redes sociais e aplicativos sem imaginar as consequências. “Empresários postam nas redes sociais e aplicativos de mensagens sem imaginar que serão responsabilizados por isso. Isto é grave e ilegal, configurando caso de assédio e discriminação por escolhas políticas. Todos os casos serão investigados e, caso seja comprovado, os infratores serão punidos, como já vem acontecendo.”

Da 0h de segunda (26) até as 17h45 de terça (27), o MPT recebeu 530 denúncias de assédio a trabalhadores relacionadas às eleições. Ao longo de todo o processo eleitoral, o órgão ajuizou 59 ações civis públicas para combater o assédio eleitoral, obtendo 52 liminares.

Um dos casos já levou a uma decisão judicial. Reportagem de Carlos Madeiro, no UOL, aponta que, a pedido do MPT do Rio de Janeiro, a Justiça do Trabalho proibiu a deputada estadual India Armelau (PL), a mais votada do estado em 2026, de incentivar empregadores a discriminar, demitir ou perseguir trabalhadores por convicções políticas. Após a derrota de Flávio Bolsonaro (PL), ela havia publicado mensagem sugerindo que empresários verificassem as redes sociais de seus funcionários para saber se eles haviam “feito o L” e questionando a permanência deles nas empresas.

Na decisão, o juiz do Trabalho Leonardo Saggese Fonseca afirmou que, por ser parlamentar, a deputada deve, mais do que qualquer cidadão, respeitar as diferentes opções políticas de trabalhadores e evitar discursos capazes de gerar ódio, perseguição ou discriminação.

<><> Parte inferior do formulário

Não é preciso ser empregador para ser punido

De acordo com o MPT, mesmo quem não é empregador pode ser alvo de ações caso compartilhe conteúdo que estimule a perseguição a trabalhadores, já que a conduta causa dano à coletividade. Nesses casos, o responsável pode ser obrigado a se retratar na mesma rede em que fez a publicação, além de pagar multa e indenização por dano moral coletivo. Denúncias que envolvam suspeita de crimes eleitorais ou comuns são encaminhadas a outros órgãos.

O trabalhador demitido por motivação política pode recorrer à Justiça, que permite pedir a reintegração ao emprego, com ressarcimento integral do período de afastamento, ou optar pelo recebimento em dobro da remuneração referente a esse período, além de eventual indenização por danos morais.

Denúncias podem ser feitas pelo site do Ministério Público do Trabalho, em www.mpt.mp.br. “A denúncia é anônima e vídeos, áudios e mensagens podem ser usados como prova”, afirma Gláucio Araújo de Oliveira.

¨      Justiça do Trabalho proíbe deputada Índia Armelau (PL) de incentivar demissões por escolhas políticas

A Justiça do Trabalho atendeu parcialmente pedido do Ministério Público do Trabalho no Rio de Janeiro (MPT-RJ) e determinou, em decisão liminar, que a deputada estadual India Armelau se abstenha de promover atos que incentivem empregadores a discriminar, demitir ou perseguir trabalhadores por suas convicções políticas.

Nesta terça-feira (27), o MPT-RJ ajuizou ação civil pública contra a parlamentar após ela incentivar empresários a demitir empregados em razão de suas escolhas políticas. Em publicação nas redes sociais, a deputada, que conta com cerca de um milhão de seguidores, publicou a mensagem: “EMPRESÁRIO, OLHA A REDE SOCIAL DO TEU FUNCIONÁRIO AI E CONFERE SE ELE FEZ “L”. ACHO QUE NÃO FAZ SENTIDO NENHUM MANTER NA TUA EMPRESA QUEM ODEIA EMPRESÁRIOS.”

Na decisão, o juiz do Trabalho Leonardo Saggese Fonseca destaca que “sendo a ré uma integrante do parlamento, mais do que qualquer outro cidadão, deve prezar pela liberdade de expressão, desde que respeitosa, deve fomentar a democracia e aceitar as diferentes opções políticas de cidadãos e trabalhadores, sem utilizar de discursos e falas que podem gerar pela sua leitura ou escuta, sentimentos de ódio, perseguição ou discriminação.”

A liminar também determina que a deputada remova as comunicações e publicações que deram origem à ação civil pública dos locais em que foram divulgadas, especialmente sites, perfis em redes sociais e aplicativos de mensagens. Em caso de descumprimento, será aplicada multa diária de R$5 mil, a partir do primeiro dia útil seguinte ao término do prazo de 48 horas para cumprimento da determinação.

Processo nº 0101606-05.2026.5.01.0003

¨      PT de São Paulo cria força-tarefa jurídica contra perseguição a eleitores de Lula

 O diretório do PT no estado de São Paulo articulou uma força-tarefa jurídica para combater a escalada de violência, intimidação, assédio no ambiente de trabalho e retaliações financeiras direcionadas a apoiadores do presidente Lula (PT), informa o Metrópoles.

A iniciativa mobiliza o setor jurídico da legenda, advogados parceiros e o coletivo Grupo Prerrogativas. Por meio de mobilização nas redes digitais, o grupo passou a centralizar os relatos de arbitrariedades para encaminhar o acolhimento legal gratuito a cada um dos afetados.

Em um intervalo de menos de 48 horas após o lançamento da ação, a representação estadual contabilizou 42 registros formais. O quadro detalha um cenário preocupante: 19 notificações de retaliação motivada por divergência partidária, 17 ocorrências de represália financeira, 15 casos envolvendo intimidações e violência verbal, 14 demissões com viés político e cinco episódios de agressões físicas ou prejuízos patrimoniais, havendo relatórios com mais de uma infração associada. O balanço não contabiliza os dados colhidos durante o fim de semana.

“A história já nos mostrou aonde podem levar a perseguição política, a intolerância e os boicotes motivados por preconceito ou divergências ideológicas. Não podemos naturalizar comportamentos que remetem a períodos sombrios da humanidade. Defender quem sofre perseguição é também defender a democracia”, diz Kiko Celeguim, deputado federal reeleito e presidente do PT de São Paulo.

Fatos graves ilustram o alcance dos ataques no interior paulista. Em uma das ocorrências, o proprietário de um comércio teve o espaço invadido por um indivíduo que arremessou blocos de alvenaria colhidos em uma construção vizinha contra a estrutura do local, além de proferir ameaças de morte contra os eleitores do presidente Lula. Em outra localidade, estabelecimentos voltados ao ensino de dança infantil que figuravam em listas de boicote precisaram acionar esquemas de segurança privada para assegurar a integridade de apresentações com crianças diante da ameaça de atos radicais.

A conduta de agentes públicos também está no radar das medidas judiciais que serão tomadas para reparar as violações coletivas e individuais.

“Tem situações que vai ser necessário entrar com ação judicial por danos morais, até para dano moral coletivo. Um vice-prefeito do interior promovendo um boicote, por exemplo. Temos várias providências jurídicas para serem tomadas nos próximos dias”, diz o advogado Michel Bertoni Soares, que atende o PT-SP.

O cenário em São Paulo reflete uma crise de âmbito nacional. Até a manhã de quinta-feira (29), o Ministério Público do Trabalho computava 3.465 representações relativas a assédio eleitoral em todo o território brasileiro, sendo 297 delações originadas no interior paulista. Na esfera judicial, o MPT obteve liminar para obrigatoriedade de remoção pela Meta de 15 publicações que promoviam a demissão de trabalhadores por razões ideológicas. Entre os canais responsabilizados está o de um parlamentar estadual recém-eleito pelo PP, que divulgou conteúdo em tom de deboche em resposta ao relato de uma mulher que chorava pela demissão do marido.

¨      Governo recebeu em três dias 4.300 denúncias de assédio eleitoral no trabalho

O governo federal recebeu 4.300 denúncias de assédio eleitoral no trabalho em apenas três dias de funcionamento do canal criado para registros de ocorrências do tipo. O dado foi divulgado pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) neste sábado (31).

O MTE criou um canal online para trabalhadores registrarem um formulário para denúncia de assédio eleitoral no ambiente de trabalho. Há opção de anonimato. O MPT (Ministério Público do Trabalho) também oferece um site para registros do tipo.

A plataforma do ministério foi lançada na quarta-feira (28), após campanhas nas redes sociais incentivando a demissão de trabalhadores de esquerda, em reação à vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

De acordo com os dados do MTE, o Sudeste concentra quase metade das denúncias, registrando 2.087 casos. São Paulo lidera o ranking, com 1.325 registros. Em seguida aparece o Rio de Janeiro, com 354, e Minas Gerais, com 345.

A região Sul tem a segunda maior concentração de denúncias. O Paraná teve 268 registros, enquanto Santa Catarina teve 259. Segundo o ministério, todos os casos estão em análise pela Auditoria Fiscal do Trabalho da pasta.

Enquanto isso, o MPT recebeu 2.400 denúncias no ano eleitoral. Segundo o órgão, 530 delas ocorreram após o resultado das eleições de 2026.

“Não podemos admitir que trabalhadores e trabalhadoras sejam ameaçados, constrangidos ou discriminados por suas escolhas políticas. O voto é livre e secreto, e nenhum empregador pode usar sua posição para interferir na decisão de seus empregados”, afirmou o ministro do Trabalho e Emprego, Luiz Marinho.

O assédio eleitoral é crime. Podem se enquadrar nessa prática chefes que ameacem demitir funcionários, fechar a empresa ou tomar outras atitudes a depender de quem vença a eleição. Há também casos mais diretos, como tentativa de indução do voto ou declaração de apoio.

Outros tipos de coações mais sutis também podem se encaixar. A pena para o crime de assédio eleitoral inclui reclusão e multa.

Projetos que endurecem a pena para assédio eleitoral estão parados no Congresso. Uma proposta do líder do governo no Congresso, o senador Randolfe Rodrigues (PT-AP), prevê aplicação de multa de 1% a 20% do faturamento bruto do exercício anterior da empresa, além de proibição de licitar e contratar com o poder público por até cinco anos.

Enquanto isso, o governo federal, junto com o TST (Tribunal Superior do Trabalho), o MPE (Ministério Público Eleitoral) e o Ministério da Justiça e Segurança Pública, tem atuado para retirar da internet os conteúdos que promovem assédio eleitoral.

Na quinta-feira (29), a Justiça do Trabalho determinou que a Meta retire do ar, em até 24 horas, publicações em suas redes que incentivem empresários a vigiar, expor e demitir funcionários por causa do voto nas eleições presidenciais.

A decisão liminar foi assinada pelo juiz Bruno José Perusso, da 77ª Vara do Trabalho de São Paulo, e atendeu pedido feito em ação civil pública do MPT (Ministério Público do Trabalho).

O MPT entrou, também nesta quinta, com a ação contra a dona do Instagram, do Facebook e do WhatsApp na qual pede R$ 50 milhões de indenização por danos morais coletivos.

 

Fonte: Repórter Brasil/Folhapress/Brasil 247/MPT-RJ

 

Veja quais hábitos podem estar ameaçando a sua saúde cardíaca

Sono inadequado, estresse crônico e o consumo excessivo de sódio e ultraprocessados estão entre os hábitos mais subestimados pela população e que podem prejudicar a saúde cardíaca de forma silenciosa.

Um estudo, publicado na revista Plos One em 2024, analisou um grupo de pessoas na Coreia e mostrou que o excesso de sal atinge 95,6% das pessoas em alto risco cardiovascular aterosclerótico, seguido pela privação de sono (49,9%) e pelo sedentarismo (43,8%).

À CNN Brasil, Fernando Rangel, cardiologista do Pró-Cardíaco, da Rede Américas, explicou que esses hábitos podem não dar sinais evidentes no curto prazo, mas que a combinação de noites mal dormidas, ansiedade contínua e má alimentação deteriora os vasos sanguíneos e eleva drasticamente os riscos de infarto, AVC e hipertensão.

<><> Privação de sono

De acordo com o médico, o sono inadequado é um dos hábitos mais prejudiciais e subestimados.

A relação entre as horas dormidas e a saúde do coração funciona em dois extremos: dormir pouco (menos de 6 a 7 horas) ou demais (mais de 9 horas) eleva os riscos de hipertensão, infarto, insuficiência cardíaca e AVC.

"Mecanisticamente, a privação de sono deteriora a estrutura e função vascular — mesmo uma única noite sem dormir já se associa a aumento da rigidez arterial", explica o especialista.

Já a insônia crônica prejudica o corpo de três formas principais:

  • Descenso noturno da pressão arterial: Como a pessoa tem dificuldade para dormir, a pressão arterial não cai o suficiente durante a madrugada, deixando o coração e as artérias sob estresse contínuo 24 horas por dia.
  • Disfunção endotelial sistêmica: Os vasos sanguíneos perdem a flexibilidade: A camada interna das artérias (o endotélio) para de funcionar direito, ficando mais rígida e propensa a entupimentos.
  • Resistência à insulina: isso eleva a taxa de açúcar no sangue e favorece o ganho de peso e o diabetes.

A combinação da insônia à menor duração do sono representa um risco cardiovascular ainda maior do que qualquer uma das condições isoladamente.

<><> Ansiedade e estresse crônico

Segundo Fernando, a ansiedade também tem efeito negativos comprovados sobre o sistema cardiovascular.

O cardiologista menciona um metanálise realizada com mais de 2 milhões de participantes de 46 grupos diferentes. A pesquisa mostrou que a ansiedade está associada a maior risco de mortalidade cardiovascular, doença coronariana, AVC e insuficiência cardíaca.

A ansiedade também se relaciona a maior risco de espasmo coronariano, e favorece hipertensão, adiposidade excessiva e tabagismo.

O estresse e a ansiedade constantes ativam o eixo hipotálamo-hipófise-adrenal — que coloca o corpo em estado de alerta ––, elevam catecolaminas (como adrenalina e noradrenalina), e reduzem a variabilidade da frequência cardíaca.

As condições também podem resultar no aumento da pressão arterial e no surgimento de lesões cardiovasculares.

Segundo Rangel, o hábito de "estar sempre conectado" (como uso excessivo de dispositivos ou redes sociais) é um padrão reconhecido como fonte de estresse psicológico crônico.

<><> O que fazer?

O médico alerta que sintomas vagos como fadiga, indigestão ou ansiedade, podem esconder um problema cardíaco grave, como a síndrome coronariana aguda, especialmente em mulheres. 

A recomendação é não ignorar esses sintomas "comuns", para que o atendimento seja realizado o mais rápido possível.

Para evitar consequências graves ou reverter danos já existentes nos vasos sanguíneos, os cinco fatores de risco modificáveis devem ser considerados: IMC elevado, pressão arterial elevada, colesterol elevado, tabagismo e diabetes.

Esses fatores respondem por mais da metade de todas as doenças cardiovasculares no mundo — e a pressão alta lidera essa lista.

Por isso, as recomendações envolvem um controle rigoroso da pressão arterial, o fim do tabagismo, o equilíbrio das taxas de açúcar no sangue e a melhora nos níveis de colesterol. Dormir de 7 a 9 horas por noite de forma regular e adotar práticas para gerenciar o estresse e a ansiedade completam os hábitos saudáveis.

Na alimentação, pequenas substituições do dia a dia podem beneficiar a saúde cardiovascular:

  • Dar preferência a leguminosas (como feijão, lentilha e grão-de-bico) e nozes no lugar da carne vermelha em algumas refeições.
  • Evitar ultraprocessados: Substituir carnes processadas (como linguiça, presunto e salsicha) por peixes, e trocar refrigerantes e sucos industrializados por água, frutas e chás.
  • Gorduras boas: Trocar gorduras saturadas e trans (manteiga, gordura animal) por óleos vegetais saudáveis, como o azeite de oliva.
  • Bebidas: eliminar bebidas açucaradas, ricas em açúcares refinados e xarope de milho, é considerado uma das medidas mais simples e de maior impacto, pois previne o acúmulo de gordura no fígado e a alteração do colesterol.

Fernando Rangel também indica padrões alimentares como o Mediterrâneo, DASH e Prudente, que mostram redução consistente de incidência de doenca cardiovascular em comparação à alimentação habitual.

¨      Álcool faz bem à saúde? Por que a ideia de proteção merece cuidado

Durante muitos anos, a ideia de que uma taça de vinho tinto por dia protegeria o coração ganhou espaço nas conversas e até nas recomendações de saúde. O hábito passou a ser visto por muita gente como uma forma de prevenção. Mas essa interpretação exige cuidado: observar menos doenças entre pessoas que bebem pequenas quantidades não significa comprovar que a bebida seja responsável por essa diferença.

Boa parte das pesquisas sobre o assunto acompanha os hábitos das pessoas e seus desfechos de saúde, sem determinar quem vai beber ou deixar de beber. Alimentação, atividade física, tabagismo e condições de vida podem influenciar os resultados. Por isso, atribuir ao vinho uma proteção observada nesses estudos pode levar a uma conclusão equivocada.

A declaração científica publicada em 2025 pela Associação Americana do Coração reconhece que ainda existem incertezas sobre os efeitos cardiovasculares do consumo baixo a moderado. Alguns estudos sugerem associações favoráveis para determinadas doenças, mas isso não estabelece uma relação de causa e efeito. A entidade não recomenda começar a beber, nem consumir vinho ou outra bebida alcoólica para obter benefícios à saúde.

<><> Os efeitos sobre o coração e o cérebro

Quando o consumo é excessivo, os riscos estão mais bem estabelecidos. Beber muito, tanto de forma habitual quanto em episódios concentrados, está associado a hipertensão, arritmias, enfraquecimento do músculo cardíaco e acidente vascular cerebral, o AVC. A elevação da pressão arterial é um dos caminhos pelos quais o álcool pode contribuir para comprometer a circulação e o cérebro.

Os efeitos cerebrais também podem ocorrer por outros mecanismos. O consumo intenso e prolongado pode causar danos diretos às células nervosas, favorecer deficiências nutricionais e alterar processos metabólicos. Mudanças na resposta imunológica e processos inflamatórios também participam dos danos relacionados ao álcool. Não se trata, portanto, apenas dos efeitos passageiros percebidos durante a embriaguez.

Outros hábitos precisam entrar nessa avaliação. Tabagismo, sedentarismo e alimentação inadequada podem coexistir com o consumo elevado e acrescentar riscos. Isso, porém, não permite afirmar que todas as pessoas que bebem apresentem essas características, nem elimina os efeitos próprios da bebida sobre o organismo.

<><> Existe uma quantidade sem risco?

Não há uma quantidade de álcool que possa ser apresentada como completamente isenta de riscos para a saúde. Isso não significa que beber ocasionalmente represente o mesmo risco que consumir grandes volumes todos os dias. A quantidade, a frequência e os episódios de excesso fazem diferença, assim como as características de cada pessoa. A Organização Mundial da Saúde ressalta que mesmo níveis baixos podem trazer riscos, embora a maior parte dos danos esteja relacionada ao consumo intenso, contínuo ou episódico.

Também é preciso olhar além do coração. O álcool aumenta o risco de diferentes tipos de câncer, incluindo os de mama, fígado, intestino e esôfago. Uma possível associação favorável em determinado desfecho cardiovascular não pode ser interpretada, isoladamente, como benefício para a saúde como um todo.

Para quem não bebe, não existe motivo médico para começar em busca de proteção. Para quem bebe, reduzir a quantidade e evitar episódios de excesso são medidas que ajudam a diminuir os riscos. A prevenção cardiovascular deve se apoiar em cuidados com benefícios comprovados, como controlar a pressão arterial, praticar atividade física, não fumar e manter uma alimentação adequada. A taça de vinho não substitui esses cuidados.

 

Fonte: CNN Brasil