sexta-feira, 29 de maio de 2026

João Feres Júnior: Quando a economia não explica o voto

Apareceram nas últimas semanas dois textos que se propõem a explicar o paradoxo do terceiro mandato de Lula: indicadores macroeconômicos sólidos, com desemprego em mínima histórica, PIB acima da média do G-20 e salário real em recuperação, convivendo com avaliação popular medíocre e desempenho de campanha pior do que se esperaria. O primeiro é o ensaio de Laura Carvalho e Guilherme Klein,  publicado na Folha de S. Paulo, “Por que o desempenho econômico de Lula 3 não se converte em popularidade”. O segundo é o artigo de Carlos Pinkusfeld Bastos e Luis Berner no Jornal dos Economistas, que abre com o título irônico “Não é a economia, estúpido??”.

Além do diagnóstico, os dois textos partilham um movimento argumentativo. Ambos começam reconhecendo, em algum nível, que o vínculo entre desempenho macroeconômico e voto é mais complexo do que sugere o aforismo de James Carville. Carvalho e Klein dedicam dois parágrafos a recusar a leitura simplista da inflação. Pinkusfeld e Berner colocam dois pontos de interrogação no próprio “é a economia, estúpido” e mencionam de passagem que valores morais ou religiosos “podem influenciar de maneira relevante o voto”, para em seguida declararem que essa é “uma discussão complexa que não nos atrevemos a entrar”.

E aí está o problema, os textos refutam retoricamente a tese do voto econômico e, em seguida, apresentam com outras roupas uma leitura economicista de uma questão fundamental da ciência política, que é a da formação das preferências eleitorais.

Argumento que essa operação não é cosmética. Ela é uma maneira de manter o econômico como variável independente única e remeter o ideológico para o limbo daquilo que existe mas não se mensura. A inflação vira “patamar de preços ainda elevado”. O desemprego cai, mas o problema agora é o da “qualidade do emprego gerado”. O salário real cresceu, mas a “janela de aspiração” se globalizou. A “experiência subjetiva do custo de vida” entra como mediadora entre indicadores e voto. As redes sociais aparecem, mas como fator na transformação de padrões de consumo, não como infraestrutura de produção ideológica. O resultado é uma teoria do voto econômico ampliada para acomodar o que o voto econômico clássico não explicava, sem precisar trocar a moldura.

Esse movimento é compreensível quando vindo de economistas, que treinaram a vida inteira para tratar variáveis econômicas como explicação de outras variáveis econômicas. O problema é que ao tentar explicar uma variável politológica, ele descarta evidências robustas e convergentes, produzidas nos últimos anos pela ciência política brasileira, sobre a dinâmica das preferências eleitorais em nosso país.

Comecemos pelo dado mais conhecido. Em todos os modelos de regressão multivariada aplicados aos dados do Estudo Eleitoral Brasileiro de 2018 e 2022, os preditores mais fortes do voto em Bolsonaro não são renda, escolaridade, desemprego ou avaliação econômica. Os trabalhos de Oswaldo Amaral, Jairo Nicolau e Lúcio Rennó convergem sobre isso, com diferentes matizes metodológicos. Nos modelos que esses autores produziram, renda é apenas uma variável entre outras, e nem é a mais forte. Religião, gênero e raça apresentam, cada uma, efeitos líquidos sobre a preferência por Bolsonaro superiores a dez pontos percentuais quando controladas pelas demais. Nenhuma delas é redutível à economia. Tratar a renda como porta de entrada privilegiada para a explicação do voto é uma decisão teórica, não um espelho da evidência.

Há que se levar em conta também o recrudescimento do antipetismo, em boa medida, produto da Operação Lava Jato e da cobertura midiática que a transformou em paradigma interpretativo da política brasileira entre 2014 e 2018, assunto sobre o qual o LEMEP, o Manchetômetro e o Monitor do Debate Político têm vasta evidência publicada.

Essas primeiras constatações já desorganizam o quadro economicista. Se a variável que melhor explica o voto bolsonarista é uma adesão ideológica produzida por uma operação judicial-midiática iniciada em 2014, qualquer modelo que tente derivar o desempenho eleitoral de Lula em 2026 a partir da execução macroeconômica recente está perdendo o objeto.

Convém ser claro sobre o que essa expressão, adesão ideológica, significa e o que não significa. Ela não implica que o eleitor bolsonarista vote movido por uma paixão irracional, em estado de polarização afetiva, como sugerem leituras psicologizantes hoje em voga na literatura nacional e internacional sobre populismo. Implica apenas que ele adere a um conjunto coeso de valores e narrativas sobre como a sociedade brasileira deveria se organizar que têm pouco a ver com a economia. O descolamento do eixo exclusivamente econômico não redunda, portanto, em irracionalidade ou em pura emoção. A adesão a valores culturais e o apoio a políticas públicas a partir deles está diretamente ligada à formação de preferências eleitorais em qualquer regime democrático. Esse assunto precisa ser estudado de maneira adequada e não simplemente tomado como epifenômeno de variáveis macroeconômicas.

Há um achado ainda mais perturbador. Em análise de cluster que publiquei recentemente na Revista Opinião Pública, identifiquei três perfis distintos entre os eleitores que votaram em Bolsonaro no primeiro turno de 2022. Um deles, isolado de longe pelos parâmetros estatísticos do agrupamento como o mais coeso, é o de eleitores liberais nas questões de valores familiares, francamente progressistas em política social, majoritariamente favoráveis ao controle da venda de armas e nada golpistas. É também o cluster menos evangélico da amostra, com incidência dessa religião muito abaixo da observada na população brasileira em geral.

O que explica esse grupo numeroso de bolsonaristas? Não é a economia. Não é sequer a adesão a valores conservadores, como nos outros dois grupos identificados na análise. Não é a religião. É o antipetismo, em estado quase laboratorial, sobrevivendo ao próprio Bolsonaro como objeto positivo de preferência. Esse cluster é uma evidência negativa frontal contra as teses economicistas, pois são eleitores que, por suas preferências no que toca à política pública, deveriam votar em Lula, mas votaram em Bolsonaro. Nenhuma “janela de aspiração globalizada” explica isso. Nenhum “patamar de preços ainda elevado” explica isso. Há um ato político-identitário aqui, formado por uma trajetória de comunicação política específica.

Chegamos assim ao segundo bloco de evidências, que desestabiliza o quadro dos textos em questão de modo ainda mais radical. Em pesquisa qualitativa nacional com 24 grupos focais espalhados por todas as regiões do país, e em análise quantitativa por regressão logística com 2.558 respondentes do survey do INCT-IDDC, encontrei algo que precisa ser dito com todas as letras: a própria percepção das condições econômicas é endógena à filiação ideológica.

Em meados de 2021, com PIB estagnado e desemprego ainda alto, bolsonaristas renitentes nas classes C e D declaravam aos grupos focais que a economia estava melhorando, que 2021 estava “muito melhor que 2020”, que o pior já havia passado. Os dados da economia real não permitiam essa leitura. A leitura vinha de outro lugar; daquilo que chamei de “esfera comunicacional bolsonarista”, uma infraestrutura de mídia composta por Record, SBT, CNN-Brasil, Jovem Pan, grupos de WhatsApp evangélicos e perfis nas redes sociais, que processa os fatos econômicos e devolve uma narrativa de recuperação sob ataque de inimigos.

Na análise feita em outro artigo, utilizando a técnica de regressão logística, controlando por renda, religião, região, raça e gênero, os preditores mais fortes do voto em Bolsonaro em 2022 foram (i) ter como canal de TV preferido um canal favorável a Bolsonaro como Record, SBT, CNN-Brasil ou Jovem Pan (coeficiente 1,21), (ii) ter como canal menos favorito um canal hostil a Bolsonaro (coeficiente –0,88) e (iii) atribuir imagem negativa à Rede Globo (coeficiente 0,70). Renda apareceu sim como variável significativa, mas em valores menores.

Em outras palavras, o que organizou a preferência eleitoral em 2022 não foi primordialmente a trajetória das variáveis renda ou preços. Mesmo as percepções sobre a economia dependem da esfera comunicacional na qual o cidadão obtém suas informações sobre o que aconteceu com a renda e com os preços.

É claro que os preços nas gôndolas dos supermercados têm efeito eleitoral, mas eles devem ser mensurados em conjunto com os fatores ideológicos e demográficos já identificados pelos trabalhos de ciência política. A percepção de “vida difícil” não é uma resposta a estímulos econômicos universais filtrados por psicologia universal; é uma resposta a estímulos econômicos reais filtrados por uma esfera de comunicação ideologicamente carregada. Tratar a percepção como variável intermediária neutra entre indicadores e voto, como fazem os textos em questão, é não enxergar esse dado básico.

Dada a assimetria da polarização ideológica em nosso país, com a extrema-direita golpista de um lado e a centro-esquerda democrática, liberal e institucional do outro, devemos inclusive considerar a hipótese de que fatores econômicos movem mais os eleitores progressistas do que os bolsonaristas. O cluster antipetista descrito acima não é mobilizado pelo bolso; é mobilizado por uma adesão identitária que o atravessa há mais de uma década, blindada da economia pela mesma esfera comunicacional que reinterpreta cada indicador. O eleitor de centro-esquerda, menos travado em uma identidade política durável e mais responsivo às condições materiais cotidianas, é o que de fato cobra do governo a tradução dos números em vida vivida. Se isso estiver correto, a leitura economicista da impopularidade de Lula está olhando para o lado errado do espectro, pois ela explica melhor a desmobilização eventual do eleitor lulista do que a permanência do eleitor bolsonarista. O problema estratégico não é convencer o bolsonarista de que a economia melhorou, esforço que bate contra parede comunicacional. O problema é não perder o eleitor de Lula em 2026 por desencanto com o ritmo da entrega.

Há um terceiro problema, este interno ao próprio quadro economicista. Pinkusfeld e Berner anotam, fazendo “papel de advogado do diabo”, que mesmo em 2023 e 2024, quando os indicadores foram, em suas próprias palavras, “muito mais expressivos”, não houve melhora robusta na avaliação do governo. É um dado importante pois demonstra o fracasso da explicação economicista ao desfazer a sequência temporal causal proposta. Afinal, indicadores ruins em 2025 não podem ser causa de desaprovação que já estava posta em 2023, quando os indicadores eram bons.

Os autores percebem o problema e tentam absorvê-lo no argumento estrutural de longo prazo segundo o qual o governo Lula III “não representou uma ruptura radical com um passado de quase uma década de baixo crescimento, fragilização das capacidades estatais, precarização do mercado de trabalho e queda dos salários”. A observação é correta no plano descritivo, mas é normativamente injusta, pois adotam um padrão ideal de política pública como parâmetro de comparação, para em seguida constatarem que o governo Lula III promoveu avanços superficiais, mas foi incapaz de reformas estruturais. Do ponto de vista da filosofia moral e da ciência política, o problema desse raciocínio é que trata o presidente como se agisse em um vácuo político, no qual a única força eficiente é sua própria vontade. Cobrar de Lula que fizesse grandes mudanças estruturais, no contexto político de seu terceiro governo, com o Congresso dominado pelo Centrão, e grande imprensa e mercado militando diariamente em prol da agenda fiscalista, não me parece razoável.

A “ironia da história” com que Pinkusfeld e Berner encerram o texto, o fato de que o grupo político responsável pelas políticas econômicas malsucedidas desde 2015 é precisamente o mais bem posicionado da oposição no atual contexto eleitoral, é a maior evidência possível contra a moldura escolhida pelos próprios autores. Se a economia explicasse a formação das preferências eleitorais, esse grupo não estaria liderando coisa alguma.

Concordo que a economia importa, e concordo até com a especificação proposta por Carvalho e Klein de que é a percepção subjetiva que toca o voto, não os indicadores agregados em si. Contudo, o ponto é outro. Tratar a percepção subjetiva como uma função relativamente direta da experiência econômica vivida, modulada por aspirações, memórias e comparações sociais, sem teorizar a infraestrutura comunicacional que produz e estabiliza essa percepção, é insistir no erro que se pretende superar. O eleitor brasileiro de 2025 não experiencia o custo de vida sozinho; ele o experiencia mediado por um campo informacional que o ensina a interpretar a fila do supermercado em termos políticos pré-fabricados. Pinheiro-Machado e Scalco, citadas no texto de Carvalho e Klein, descreveram exatamente esse fenômeno nas periferias de Porto Alegre, ao anotarem que a frustração de consumo de parcela da população se desloca para a adesão a um campo identitário-comunicacional que oferece a explicação, qual seja, o bolsonarismo. Tal observação está nas fontes que citam em seu artigo, mas parece não ter sido levada a sério.

O que está em jogo, portanto, não é uma disputa acadêmica de paradigma. É uma disputa sobre prescrição política. Se a impopularidade de Lula é fundamentalmente um problema de tradução macro-micro, mais entrega econômica, mais redução de juros, mais serviços públicos, então a estratégia para 2026 está dada, e basta executá-la. Foi essencialmente isso que a equipe econômica tentou de 2023 para cá. O texto da Folha, na sua reta final, é literalmente uma lista de medidas econômicas e suas potenciais conversões em “experiência cotidiana de bem-estar”. Três anos depois, com indicadores entre os melhores da década, a estratégia produziu o resultado que conhecemos.

Se, em contrapartida, a “impopularidade” de Lula, que, diga-se de passagem, continua a liderar as pesquisas eleitorais, é em larga medida o efeito de uma esfera comunicacional construída ao longo da última década contra ele e seu partido, sustentada por um cluster antipetista que não responde a sinais econômicos, por uma rede de mídia evangélica que opera fora do alcance do governo, por canais de TV abertos cooptados e por uma vasta infraestrutura de redes sociais de extrema-direita, então a estratégia política precisa se mexer em um terreno que a entrega econômica não toca. Precisa disputar o acesso aos meios de comunicação, reorganizar a comunicação política e enfrentar diretamente a esfera adversária. Sem isso, qualquer reforma do imposto de renda e qualquer fim da escala 6×1 serão metabolizados pela esfera bolsonarista e pela em mais um sinal de que Lula “não está deixando o brasileiro de bem trabalhar em paz”, e pela mídia tradicional como “mais uma medida populista eleitoreira do petista”.

Não é a economia, estúpido! É a comunicação política, e ela foi bastante descuidada ao longo do governo Lula III. Esse é o problema cuja gravidade ambos os textos perceberam pela metade, o suficiente para usarem o aforisma de Carville como gancho de seus textos, não o suficiente para deixarem de lados os vícios economicistas sobre os quais baseiam sua análise de uma variável eminentemente política: a preferência eleitoral.

 

Fonte: Outras Palavras

 

Do Trump Rio Hotel ao Caso Master: anatomia do crime organizado no Brasil

Em 26 de maio de 2026, Paulo Figueiredo Filho apareceu em Washington ao lado de Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro, em encontro com Donald Trump. A imagem circulou nas redes bolsonaristas justamente no momento em que o sistema financeiro brasileiro atravessava uma das maiores crises de credibilidade de sua história recente. Meses antes, o Banco Master havia entrado no centro de investigações envolvendo suspeitas de fraude bilionária, letras financeiras sem lastro adequado, fundos estruturados e operações sob análise da Polícia Federal, do Banco Central, do Tribunal de Contas da União e do Ministério Público Federal. Em novembro de 2025, a Reuters revelou que uma decisão judicial apontava “evidências de participação consciente” de executivos do BRB em um suposto esquema fraudulento ligado ao Master, com movimentações estimadas em R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025. Paralelamente, a Operação Carbono Oculto avançava sobre uma infraestrutura financeira que, segundo a própria Polícia Federal, movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024 por meio de fintechs, fundos de investimento, empresas de fachada e estruturas usadas para lavagem de dinheiro e ocultação patrimonial. O encontro talvez tivesse passado apenas como mais um episódio da aproximação entre o bolsonarismo e o trumpismo se Paulo Figueiredo Filho não reaparecesse, mais de uma década depois, no centro de uma cronologia que conecta fundos imobiliários, previdência, operações financeiras e investigações sobre lavagem de dinheiro. Mais de uma década antes, ele já aparecia no núcleo do Trump Rio Hotel, empreendimento lançado na Barra da Tijuca em 2013 como a principal aposta da Trump Organization no mercado imobiliário brasileiro. O hotel seria operado pela Trump Hotel Collection Rio LLC e estruturado financeiramente pelo FIP LSH, fundo abastecido por recursos de entidades previdenciárias e investidores institucionais. Em dezembro de 2024, no julgamento do Processo Administrativo Sancionador nº 19957.007626/2019-94, a Comissão de Valores Mobiliários concluiu que o empreendimento foi utilizado em uma operação fraudulenta baseada em superavaliação de ativos, emissão artificial de cotas e transferência indevida de riqueza. O caso parecia encerrado quando a marca Trump deixou oficialmente o empreendimento em dezembro de 2016. Não estava. Nos anos seguintes, Greenfield e Circus Maximus colocariam o FIP LSH, fundos previdenciários e operações ligadas ao BRB no centro de investigações sobre corrupção, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta. Depois, Carbono Oculto revelaria uma engrenagem financeira subterrânea baseada em fintechs, FIDCs, distribuidoras, administradoras e estruturas de circulação opaca de recursos. Em seguida, a Reag surgiria como elo entre fundos sob investigação, suspeitas de lavagem e operações relacionadas ao Banco Master. O próprio BRB reapareceria no núcleo da nova crise financeira. Este artigo não sustenta que Donald Trump controlava conscientemente as operações investigadas pela Polícia Federal no Brasil. Também não afirma que todos os personagens presentes nas diferentes fases dessa cronologia participavam deliberadamente da engrenagem revelada anos depois pela Carbono Oculto e pela Compliance Zero. O que a documentação pública permite afirmar é algo mais profundo e estrutural: o Trump Rio Hotel já operava dentro de uma arquitetura financeira baseada em fundos estruturados, dinheiro institucional, patrimônio superavaliado, administradores fiduciários e estruturas opacas de circulação de riqueza. E essa mesma lógica reaparece, anos depois, ampliada e financeirizada, nas investigações que atingiram Reag, Banco Master, BRB e fundos sob suspeita de lavagem e fraude financeira.  A anatomia dessa engrenagem começa muito antes do Caso Master.

<><> O nascimento do Trump Rio Hotel | Fundos, previdência e dinheiro institucional

Quando o Trump Rio Hotel foi lançado em 2013, o empreendimento foi apresentado como símbolo da entrada definitiva da marca Trump no mercado imobiliário brasileiro. Localizado na Barra da Tijuca, região impulsionada pelos investimentos da Olimpíada de 2016, o projeto prometia retorno elevado, valorização acelerada e integração ao circuito internacional de hotéis de luxo. Por trás da campanha de marketing, porém, existia uma estrutura financeira muito mais sofisticada do que a de uma incorporação imobiliária convencional. O empreendimento foi organizado por meio do FIP LSH, fundo de investimento em participações criado para captar recursos e financiar o projeto. O hotel seria operado pela Trump Hotel Collection Rio LLC, vinculada à Trump Organization. Nos documentos analisados posteriormente pela Comissão de Valores Mobiliários, aparecem nomes centrais da operação, entre eles Paulo Figueiredo Filho, Ricardo Siqueira Rodrigues, BRB DTVM, Planner Trustee, Orla DTVM, More Invest e empresas ligadas ao grupo responsável pelo empreendimento. Segundo o Processo Administrativo Sancionador nº 19957.007626/2019-94, a estrutura mobilizou aproximadamente R$ 247 milhões em cotas subscritas por entidades previdenciárias e investidores institucionais. Esse ponto é central para compreender o que viria depois. O Trump Rio Hotel não nasceu apenas como um ativo imobiliário de luxo. Ele nasceu como uma operação financeira baseada em fundos estruturados, administradores fiduciários, patrimônio projetado e dinheiro institucional. O coração da engrenagem era a valorização acelerada do empreendimento. Segundo o voto do diretor relator da CVM, o hotel foi sustentado por laudos considerados artificialmente inflados, permitindo a emissão de cotas em valores incompatíveis com a realidade econômica do ativo.

A lógica era simples e sofisticada ao mesmo tempo. Quanto maior o valor formalmente atribuído ao empreendimento, maior a capacidade de emissão de cotas, de cobrança de taxas e de circulação de pagamentos dentro da própria estrutura do fundo. A CVM concluiu posteriormente que houve transferência indevida de riqueza para empresas ligadas aos operadores da operação sem comprovação adequada dos serviços prestados. O que parecia apenas um projeto imobiliário agressivo dos anos olímpicos começava a revelar características muito mais próximas de uma engenharia financeira baseada em patrimônio artificial, fundos estruturados e circulação opaca de recursos. A presença do BRB DTVM nesse núcleo se tornaria decisiva anos depois. O mesmo BRB que aparecia na estrutura do FIP LSH reapareceria posteriormente no contexto das investigações envolvendo Banco Master, Reag e Compliance Zero. O elo não estava necessariamente nas mesmas pessoas, mas na permanência de uma mesma lógica financeira: fundos, dinheiro institucional, ativos de difícil precificação, administradores fiduciários e estruturas de baixa transparência operando no interior do mercado financeiro formal. O colapso do empreendimento foi rápido. Em dezembro de 2016, poucos meses após a inauguração parcial do hotel, a Trump Organization rescindiu o contrato de licenciamento. O nome Trump desapareceu do prédio, que passou a operar como LSH Hotel. Naquele momento, a ruptura parecia consequência apenas da crise econômica brasileira e do fracasso comercial do projeto. As investigações posteriores mostrariam que o problema não estava apenas no fracasso comercial do empreendimento. Estava na estrutura financeira que sustentava o projeto desde a origem.

<><> A engrenagem revelada pela CVM | Superavaliação, fundos e transferência de riqueza

O ponto de ruptura do caso ocorreu quando a Comissão de Valores Mobiliários começou a desmontar a estrutura financeira do FIP LSH. No julgamento do Processo Administrativo Sancionador nº 19957.007626/2019-94, concluído em dezembro de 2024, a autarquia descreveu o empreendimento não como um fracasso empresarial comum, mas como uma operação baseada em mecanismos artificiais de valorização patrimonial e circulação privada de riqueza dentro da própria estrutura do fundo. O voto do diretor relator é particularmente duro ao tratar da superavaliação do ativo. Segundo a CVM, o empreendimento foi sustentado por avaliações incompatíveis com a realidade econômica do hotel, permitindo a emissão artificial de cotas e a formação de um patrimônio inflado dentro do fundo. Quanto maior o valor atribuído ao empreendimento, maior a capacidade de captação de recursos, maior a cobrança de taxas e maior a circulação de pagamentos para empresas ligadas aos próprios operadores da estrutura. A autarquia concluiu que houve transferência indevida de riqueza para sociedades relacionadas aos idealizadores do projeto sem comprovação adequada dos serviços prestados. Entre os acusados aparecem Paulo Figueiredo Filho, Ricardo Siqueira Rodrigues, BRB DTVM, Planner Trustee, Orla DTVM, More Invest e operadores ligados à administração do fundo. A CVM aplicou multas milionárias e reconheceu práticas classificadas como operação fraudulenta, atuação irregular no mercado de valores mobiliários e violação dos deveres fiduciários que regem a administração de fundos de investimento. O mais importante, porém, não é apenas a dimensão jurídica do caso. É a lógica financeira exposta pela investigação. O ativo imobiliário funcionava como mecanismo de sustentação de uma engrenagem baseada em patrimônio artificialmente valorizado, fundos estruturados, dinheiro institucional e circulação opaca de recursos. O empreendimento deixava de ser apenas um hotel de luxo para assumir o papel de plataforma financeira de captação, valorização patrimonial e distribuição privada de riqueza dentro de uma estrutura formal do mercado de capitais. É justamente aqui que o antigo Trump Rio Hotel deixa de dialogar apenas com a bolha imobiliária dos anos olímpicos e começa a antecipar elementos que reapareceriam anos depois nas investigações da Carbono Oculto e da Compliance Zero. Fundos estruturados. Ativos de difícil precificação. Administradores fiduciários. Dinheiro institucional. Estruturas opacas. Patrimônio artificial. Esses elementos voltariam a surgir, em escala muito maior, no centro das investigações envolvendo Reag, Banco Master e fundos sob suspeita de lavagem de dinheiro. O que começava a surgir ali não era apenas uma fraude ligada a um empreendimento imobiliário. Era o embrião de uma forma muito mais sofisticada de circulação opaca de riqueza que, anos depois, passaria a operar no interior do próprio sistema financeiro.

<><> Greenfield e Circus Maximus | Quando o Trump Rio entrou no radar das investigações

O desaparecimento da marca Trump do empreendimento em dezembro de 2016 não encerrou a história do FIP LSH. Nos anos seguintes, o fundo passou a aparecer no centro de investigações muito mais amplas envolvendo fundos de pensão, lavagem de dinheiro, gestão fraudulenta e uso irregular de estruturas financeiras ligadas ao mercado de capitais. O antigo hotel da Trump Organization começava a migrar do noticiário imobiliário para o núcleo das grandes investigações financeiras do país. A Operação Greenfield, deflagrada pela Polícia Federal em setembro de 2016, foi o primeiro grande marco dessa mudança. A investigação mirava fraudes e gestão temerária em investimentos bilionários realizados por fundos de pensão de estatais. Entre os alvos estavam justamente fundos estruturados, ativos de difícil precificação e operações imobiliárias financiadas com dinheiro previdenciário. O FIP LSH passou a surgir nesse contexto como um dos casos emblemáticos da utilização de estruturas financeiras opacas para captação e circulação de recursos institucionais. Anos depois, a Circus Maximus aprofundaria esse eixo de investigação ao atingir operações ligadas ao BRB e ao próprio FIP LSH. A Polícia Federal passou a apurar suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta envolvendo aproximadamente R$ 348 milhões em aportes relacionados ao empreendimento. O caso consolidava uma percepção que começava a atravessar diferentes investigações financeiras da década: o problema não estava restrito ao fracasso comercial do hotel, mas à utilização de fundos estruturados como instrumentos de circulação opaca de patrimônio e transferência privada de riqueza. A presença recorrente do BRB nesse processo se tornaria um dos elementos mais importantes de toda a cronologia. O BRB DTVM já aparecia no núcleo financeiro do FIP LSH durante os anos do Trump Rio Hotel. Mais tarde, o banco voltaria a emergir no centro das investigações relacionadas ao Banco Master, à Reag e à Compliance Zero. Não se trata de afirmar que as mesmas pessoas controlavam todas as estruturas ao longo da década. O que os documentos e investigações revelam é a permanência histórica de uma mesma lógica operacional baseada em fundos estruturados, patrimônio artificialmente valorizado, dinheiro institucional e baixa transparência financeira. Nesse momento, o caso já deixava de ser apenas uma investigação regulatória da CVM ou um episódio isolado da bolha imobiliária dos anos olímpicos. O que começava a emergir era uma transformação mais profunda do próprio capitalismo financeiro brasileiro. Fundos estruturados, FIPs, FIDCs, fintechs e administradoras passaram a ocupar um espaço cada vez maior dentro de uma economia marcada pela financeirização acelerada de ativos e pela crescente dificuldade de rastreamento da circulação real do dinheiro. Quando a Carbono Oculto fosse deflagrada em 2025, a engrenagem revelada pela Polícia Federal já não operaria apenas por meio de empreendimentos imobiliários. Ela apareceria integrada ao coração do sistema financeiro nacional.

<><> Carbono Oculto | A operação que revelou a financeirização do crime organizado

Em 28 de agosto de 2025, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carbono Oculto. O que inicialmente parecia mais uma ofensiva contra esquemas de lavagem ligados ao setor de combustíveis rapidamente revelou uma estrutura financeira muito mais sofisticada. Segundo a própria PF, a investigação identificou uma engrenagem que movimentou mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024 por meio de fintechs, fundos de investimento, empresas de fachada e mecanismos de ocultação patrimonial. A operação mobilizou cerca de 1.400 agentes e cumpriu mandados contra aproximadamente 350 alvos, incluindo 42 instituições financeiras, fintechs, distribuidoras e gestoras de fundos. O dado mais importante da Carbono Oculto não estava apenas no volume do dinheiro movimentado, mas na transformação estrutural que a investigação expôs. O crime organizado brasileiro deixava de aparecer apenas associado ao tráfico, ao contrabando ou à violência territorial e passava a surgir integrado às estruturas sofisticadas do próprio mercado financeiro. FIDCs, administradoras, fundos estruturados, contas de pagamento, fintechs e empresas interpostas passaram a funcionar como instrumentos de circulação opaca de recursos e ocultação dos beneficiários reais das operações. O Financial Times descreveu a Carbono Oculto como uma das maiores operações já realizadas contra a infraestrutura financeira do crime organizado na América Latina. Reuters, CNN e AP passaram a registrar um novo padrão de financeirização da criminalidade organizada no Brasil, baseado na utilização de instituições formalmente inseridas no Sistema Financeiro Nacional para lavagem de dinheiro, ocultação patrimonial e circulação privada de riqueza em larga escala. Foi nesse contexto que a investigação começou a se aproximar do núcleo que mais tarde explodiria no Caso Master. A Reag, gestora que seria liquidada pelo Banco Central em janeiro de 2026 por “graves violações” ao Sistema Financeiro Nacional, apareceu entre os alvos ligados à Carbono Oculto. Segundo reportagem da CNN Brasil baseada em informações encaminhadas pelo Banco Central ao Tribunal de Contas da União, fundos administrados pela Reag teriam estruturado operações fraudulentas relacionadas ao Banco Master entre julho de 2023 e julho de 2024. A mesma reportagem afirma que João Carlos Mansur, fundador da gestora, foi citado pelo Ministério Público de São Paulo em dinâmicas fraudulentas envolvendo fundos e a BK Instituição de Pagamento. As conexões começavam a ganhar contornos mais claros. O que a CVM havia identificado anos antes no FIP LSH como uma engrenagem baseada em patrimônio artificialmente valorizado, fundos estruturados e circulação opaca de recursos reaparecia agora em uma escala muito mais sofisticada e financeirizada. O que mudava era a sofisticação dos instrumentos. O ativo imobiliário dava lugar a fintechs, FIDCs, crédito estruturado e operações bancárias de alta complexidade. A opacidade deixava de operar apenas por meio do patrimônio físico e passava a circular por dentro da própria infraestrutura financeira. A Carbono Oculto não revelou apenas um esquema criminoso. Ela expôs o momento em que o crime organizado brasileiro deixa de operar apenas nas margens da economia e passa a circular por dentro da própria infraestrutura do sistema financeiro.

<><> Reag, BRB e Banco Master | A ponte entre o passado e o presente

O elo mais importante entre o antigo Trump Rio Hotel e o Caso Master não está necessariamente nos mesmos personagens. Está na sobrevivência histórica do método. Ao longo de mais de uma década, nomes mudaram, estruturas foram desmontadas, fundos desapareceram e novas instituições surgiram. A lógica financeira, porém, permaneceu surpreendentemente semelhante. E nenhum ponto dessa engrenagem se tornou tão relevante quanto a convergência entre Reag, BRB e Banco Master. Em janeiro de 2026, o Banco Central liquidou a Reag Corporate Finance, então rebatizada como CBSF Capital, citando “graves violações” às regras do Sistema Financeiro Nacional. Em janeiro de 2026, a Reuters informou que o Banco Central liquidou a Reag Corporate Finance após identificar “graves violações” às regras do Sistema Financeiro Nacional. A reportagem também afirma que a instituição havia sido associada a transferências fraudulentas relacionadas ao colapso do Banco Master e já aparecia em investigações ligadas à lavagem de dinheiro identificada pela Operação Carbono Oculto. O que antes aparecia fragmentado entre fundos, fintechs e operações estruturadas começava a convergir em uma mesma crise financeira sistêmica. A CNN Brasil aprofundou esse quadro ao revelar que informações encaminhadas pelo Banco Central ao Tribunal de Contas da União apontavam que fundos administrados pela Reag teriam estruturado operações fraudulentas ligadas ao Banco Master entre julho de 2023 e julho de 2024. A mesma reportagem afirma que João Carlos Mansur, fundador da gestora, foi citado pelo Ministério Público de São Paulo em investigações envolvendo dinâmicas fraudulentas com fundos e instituições de pagamento. Paralelamente, referências públicas relacionadas à Carbono Oculto passaram a mencionar fundos administrados pela Reag em suspeitas de lavagem de dinheiro e operações sob análise do COAF e do MPF. O Banco Master, por sua vez, já havia entrado em rota de colisão com órgãos de controle meses antes. Em julho de 2024, um documento oficial do Banco Central registrou questionamentos da Polícia Federal sobre possíveis irregularidades envolvendo a instituição. O relatório menciona inclusive indícios relacionados a estruturas societárias opacas e movimentações financeiras associadas a empresas sediadas em paraísos fiscais. Em novembro de 2025, a Reuters revelou que uma decisão judicial apontava “evidências de participação consciente” de executivos do BRB em um suposto esquema fraudulento envolvendo o Master, com movimentações estimadas em aproximadamente R$ 16,7 bilhões entre julho de 2024 e outubro de 2025. O Rioprevidência também entraria no radar da investigação. Em janeiro de 2026, a Reuters informou que a Polícia Federal apurava operações relacionadas a cerca de R$ 970 milhões em letras financeiras emitidas pelo Banco Master e adquiridas pelo fundo previdenciário fluminense. O episódio ampliou ainda mais a dimensão institucional da crise e reforçou um padrão que atravessa toda esta cronologia: fundos, dinheiro previdenciário, instituições financeiras e estruturas opacas voltando a se cruzar em diferentes momentos da década. É nesse ponto que a conexão histórica ganha densidade real. O BRB que aparecia no núcleo financeiro do FIP LSH durante os anos do Trump Rio Hotel reaparece uma década depois no centro das investigações ligadas ao Banco Master. Fundos estruturados, ativos de difícil precificação, dinheiro institucional, administradores fiduciários e estruturas de baixa transparência continuam presentes. O ativo imobiliário sai de cena, mas a lógica financeira permanece. A diferença é que, em 2026, a engrenagem já não operava apenas por meio de hotéis de luxo e fundos imobiliários. Ela havia avançado para dentro do próprio sistema financeiro brasileiro.

<><> Do Trump Rio ao Caso Master | A anatomia da engrenagem

Ao longo de mais de uma década, diferentes investigações passaram a iluminar fragmentos de uma mesma estrutura financeira. Primeiro, a Comissão de Valores Mobiliários desmontou a engenharia do FIP LSH e do antigo Trump Rio Hotel. Depois, Greenfield e Circus Maximus aproximaram o empreendimento do universo das fraudes em fundos de pensão, lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta. Em seguida, Carbono Oculto revelou uma infraestrutura subterrânea baseada em fintechs, FIDCs, administradoras e circulação opaca de recursos. Por fim, Compliance Zero e o colapso do Banco Master expuseram a dimensão bancária dessa engrenagem. O elo entre esses episódios não é necessariamente pessoal. A documentação pública disponível não permite afirmar que Donald Trump, a Trump Organization ou os diferentes agentes presentes ao longo dessa cronologia participavam conscientemente das estruturas investigadas anos depois pela Polícia Federal. O que os documentos permitem observar é algo diferente: a inserção do empreendimento licenciado pela marca Trump dentro de uma arquitetura financeira que mais tarde reapareceria, sob novas formas e em escala ampliada, nas investigações envolvendo fundos estruturados, administradoras, fintechs, lavagem de dinheiro e operações bancárias sob suspeita. O que os documentos, decisões judiciais, investigações e reportagens demonstram é algo mais profundo: a permanência histórica de uma mesma tecnologia financeira baseada em fundos estruturados, patrimônio artificialmente valorizado, dinheiro institucional, administradores fiduciários, ativos de difícil precificação e estruturas de baixa transparência. No Trump Rio Hotel, essa lógica aparece associada a um empreendimento imobiliário de luxo financiado por fundos e sustentado por avaliações patrimoniais questionadas posteriormente pela CVM. Na Carbono Oculto, ela reaparece ligada a fintechs, distribuidoras de combustível, contas de pagamento, empresas de fachada e movimentações bilionárias sob investigação por lavagem de dinheiro. No Caso Master, a mesma lógica emerge em operações bancárias estruturadas, letras financeiras, fundos administrados por gestoras sob investigação e estruturas que passam a atingir BRB, Reag e Rioprevidência. O que muda ao longo da década é a escala da financeirização. O ativo imobiliário deixa de ocupar o centro da engrenagem. Em seu lugar surgem estruturas muito mais sofisticadas de circulação financeira apoiadas em fintechs, FIDCs, crédito estruturado, fundos privados e instituições formalmente integradas ao Sistema Financeiro Nacional. A opacidade se torna mais refinada. A capacidade de circulação de recursos cresce exponencialmente. E o próprio crime organizado passa a operar cada vez mais próximo do núcleo do mercado financeiro. A repetição histórica desses mecanismos é o elemento mais importante desta investigação. Dinheiro previdenciário circulando por fundos de alta complexidade. Patrimônio artificialmente valorizado. Administradores fiduciários. Estruturas privadas de circulação patrimonial operando com baixa transparência. Esses elementos atravessam toda a cronologia, do Trump Rio Hotel às investigações que atingiram Reag, Banco Master e fundos sob suspeita de lavagem e fraude financeira. A Carbono Oculto representou um ponto de inflexão porque revelou algo raro na história recente brasileira: o momento em que o crime organizado deixa de operar apenas nas margens da economia e passa a aparecer integrado às engrenagens sofisticadas do próprio mercado financeiro.

<><> O subsolo financeiro da República

À primeira vista, o Caso Master parece apenas mais uma crise bancária brasileira. Mas, quando a cronologia é reconstruída em profundidade, o que emerge não é um episódio isolado. É uma transformação estrutural do próprio capitalismo financeiro nacional. Uma crise envolvendo letras financeiras sem lastro adequado, suspeitas de fraude, fundos estruturados e operações sob investigação da Polícia Federal, do Banco Central, do Ministério Público Federal e do Tribunal de Contas da União. Mas, quando a cronologia é reconstruída em profundidade, o caso revela algo muito maior: a formação de uma engrenagem financeira que atravessa fundos imobiliários, previdência complementar, administradoras, fintechs, FIDCs, bancos médios e estruturas sofisticadas de circulação patrimonial. Essa história não começa com o Banco Master. Ela remonta aos anos da expansão imobiliária impulsionada pelos megaeventos esportivos, quando o Trump Rio Hotel foi lançado como símbolo da entrada do capital global no mercado brasileiro de luxo. O empreendimento operado sob licença da Trump Organization já aparecia sustentado por fundos estruturados, patrimônio superavaliado, dinheiro previdenciário e uma arquitetura financeira que, anos depois, seria enquadrada pela CVM como operação fraudulenta. O que naquele momento parecia apenas um projeto imobiliário agressivo revelou retrospectivamente os traços iniciais de uma lógica financeira muito mais ampla.

Ao longo da década seguinte, essa lógica atravessou Greenfield, Circus Maximus, Carbono Oculto e Compliance Zero. O BRB reapareceu em diferentes momentos da cronologia. A Reag surgiu como elo entre fundos sob investigação, estruturas financeiras opacas e operações relacionadas ao Banco Master. O Rioprevidência entrou no radar da Polícia Federal. O Banco Central passou a liquidar instituições e apontar graves violações ao Sistema Financeiro Nacional. E a própria Polícia Federal começou a descrever um cenário em que o crime organizado já não operava apenas por meio da economia informal, mas integrado às estruturas sofisticadas do mercado financeiro formal. A cena final dessa cronologia ocorreu em 26 de maio de 2026, em Washington. Paulo Figueiredo Filho, personagem presente desde o núcleo financeiro do antigo Trump Rio Hotel, apareceu ao lado de Eduardo Bolsonaro e Flávio Bolsonaro em encontro com Donald Trump justamente quando o Caso Master avançava para o centro da crise financeira brasileira. A imagem sintetiza, de maneira quase simbólica, a convergência entre capital financeiro opaco, operadores políticos, fundos estruturados e estruturas privadas de poder que atravessaram toda a década. As investigações continuam em andamento. Novos documentos, operações e decisões judiciais ainda podem alterar parte desse cenário. Mas uma conclusão já parece difícil de ignorar: a Carbono Oculto abriu uma janela rara para observar o funcionamento do subsolo financeiro da República. Um espaço onde fundos, bancos, fintechs, dinheiro institucional e estruturas privadas de circulação patrimonial passaram a operar em uma zona cada vez mais difícil de separar entre mercado, opacidade e criminalidade financeira. O Caso Master talvez seja apenas o ponto mais visível de uma transformação silenciosa ocorrida no interior do capitalismo brasileiro nas últimas duas décadas: o momento em que fundos, bancos, fintechs, previdência, estruturas privadas de investimento e circuitos de criminalidade financeira passaram a operar cada vez mais próximos uns dos outros, dissolvendo as fronteiras entre mercado, opacidade e poder.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

A coalizão anti-planeta do capitalismo tardio

Com o governo Trump recuando em suas tarifas sobre a China, seu sequestro militar do presidente venezuelano Nicolás Maduro, sua insistência em tomar a Groenlândia de uma forma ou de outra, seus atentados na Nigéria e sua declaração de que o orçamento militar oficial dos EUA será aumentado em 50% em 2027 — os últimos quatro eventos ocorrendo em um período de duas semanas no final de dezembro e início de janeiro — os comentaristas do establishment estão por toda parte. Uma tese comum está sendo colocada, geralmente baseada no relatório da Estratégia de Segurança Nacional dos EUA de 2025, é que a Nova Guerra Fria contra a China foi abandonada, a “paz” foi estabelecida na Palestina, e o governo Trump está agora focada principalmente no Hemisfério Ocidental. Outros afirmam que a política America First de Donald Trump foi substituída pelo poder bruto e pela aceitação direta da competição entre grandes potências. Não surpreendentemente, analistas liberais não veem as ações dos EUA no exterior (ou em casa) em termos da evolução de longo prazo do imperialismo americano.

Para compreender os acontecimentos atuais, é essencial compreender a dialética de continuidade e mudança na grande estratégia imperial dos EUA. Após a Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos emergiram como a potência hegemônica na economia capitalista mundial, desafiados apenas na semiperiferia pela União Soviética. A Guerra Fria — cujos fundamentos foram preparados internamente por meio da caça às bruxas anticomunista conhecida como macartismo — representou não apenas a tentativa de Washington de desafiar a União Soviética, a China e outros estados socialistas, mas foi um guarda-chuva ideológico sob o qual interveio contra revoluções e movimentos anticapitalistas ao redor do mundo. Os Estados Unidos trabalharam em estreita colaboração com as outras potências imperiais históricas — Grã-Bretanha, França, Alemanha, Itália e Japão, que junto com o Canadá hoje compõem o G7 — para minar todas as lutas revolucionárias ao redor do mundo. Foi desenvolvida uma estratégia de keynesianismo militar, promovendo o desenvolvimento econômico por meio do aumento dos gastos militares, permitindo que a economia capitalista monopolista dos EUA utilizasse grande parte de sua capacidade produtiva excedente, promovendo um crescimento econômico mais rápido, enquanto forçava a economia soviética menor (que operava em sua curva de capacidade produtiva) a desviar para o exército recursos muito necessários, reduzindo assim a produção de bens de consumo para sua população. Como forma de isolar ainda mais a União Soviética, os Estados Unidos sob Richard Nixon exploraram a cisão sino-soviética, introduzindo uma reabertura para a China em 1971, o que levou, nas décadas seguintes, à reintegração da China à economia mundial, impulsionando seu rápido crescimento econômico.

O retorno da crise econômica do capitalismo nos EUA e mundial nos anos 1970, com o declínio da Guerra do Vietnã e o fim do padrão-dólar-ouro, encerrou a relativa prosperidade no Ocidente e inaugurou um período de estagnação secular e declínio da hegemonia dos EUA, contrabalançado em parte pelos gastos militares e pela financeirização da economia dos EUA e global. A consequente mudança da economia dos EUA da produção para as finanças, característica da era neoliberal, redistribuiu a renda tanto interna quanto globalmente para o mais alto nível de capital do mundo imperial, enquanto piorava as condições das populações em todo o mundo e aumentava a ameaça de contágio financeiro, instabilidade e colapsos.

O fim da União Soviética em 1991 alterou significativamente a situação mundial, permitindo que os líderes dos EUA promovessem um “imperialismo nu” voltado para a dominação unipolar dos EUA no mundo. Operações de mudança de regime foram realizadas pelos Estados Unidos e seus aliados da OTAN contra a Iugoslávia, o Afeganistão, o Iraque, a Líbia, a Síria e a Somália, com repetidas tentativas de desestabilizar o Irã. Washington seguiu uma estratégia de longo prazo de ampliar a OTAN até as fronteiras da Rússia, com o objetivo final (conforme articulado pelo ex-Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA Zbigniew Brzezinski) de integrar a Ucrânia à OTAN e criar a base geopolítica para o enfraquecimento fatal e o desmantelamento da Rússia. Neste “Momento Unipolar”, como foi chamado, o intervencionismo militar dos EUA expandiu-se em uma escala global sem precedentes na história. Na análise conservadora do Serviço de Pesquisa do Congresso em 2022, os Estados Unidos realizaram um total de 469 intervenções militares em toda a sua história, sendo 251 — bem mais da metade — delas ocorrendo desde 1991. (5, 6, 7)

O Momento Unipolar terminou entre 2007 e 2009. Em seu discurso marcante em Munique, em 2007, Vladimir Putin anunciou que a Rússia havia sido reconstruída a ponto de voltar a ser uma grande potência e, consequentemente, o Momento Unipolar dos EUA havia acabado. Enquanto isso, a Grande Crise Financeira de 2007–2009 abalou todo o mundo capitalista, ameaçando um colapso completo e prejudicando irreparavelmente a noção de domínio global dos EUA. À medida que as potências capitalistas centrais entravam em condições semelhantes a uma depressão, a economia chinesa declinou e então, mudando de eixo, retomou quase instantaneamente em uma recuperação em forma de V. Assim, ficou claro que a economia híbrida chinesa dirigida pelos socialistas era em grande parte imune às profundas quedas do ciclo econômico capitalista, sem nada aparentemente impedindo seu rápido desenvolvimento. Entre 1978 e 2015, a China teve um aumento de trinta vezes em seu PIB, substituindo os Estados Unidos como o maior produtor e exportador mundial de bens manufaturados, e tornando-se a maior fonte de bens importados para dois terços das nações do mundo.

Vendo a dominação imperial dos EUA enfraquecer rapidamente, o governo Barack Obama lançou seu Pivot imperial para a Ásia em 2011. No entanto, qualquer ação decisiva de sua parte foi atrasada pelas mudanças que ocorriam na liderança na China, com Washington esperando que Xi Jinping fosse um novo Gorbachev e desconstruísse o Partido Comunista da China. Enquanto isso, o governo democrata buscou acelerar sua guerra por procuração planejada há muito tempo contra a Rússia por meio da expansão real da OTAN para a Ucrânia, um processo iniciado pelo golpe de Estado/revolução colorida do Maidan de 2014, apoiado pelos EUA, que levou a uma guerra civil étnica na Ucrânia, que se transformou em uma guerra por procuração entre OTAN e Rússia.

O primeiro governo Trump em 2017 representou uma mudança repentina na grande estratégia imperial. O movimento Make America Great Again (MAGA) de Trump foi uma manifestação da gravidade da crise global enfrentada pelos Estados Unidos, vista pelo capital monopolista americano, especialmente pelo setor de alta tecnologia e finanças. A principal preocupação era a falha em conter a China, já que a nova liderança sob Xi avançava para promover o “socialismo com características chinesas.” Evoluindo a partir do Tea Party (que surgiu durante a Grande Crise Financeira), o MAGA foi resultado de uma mobilização capitalista monopolista liderada por bilionários da enfurecida classe média baixa, cada vez mais isolada tanto da classe média alta quanto da maior parte da classe trabalhadora, com base em uma ideologia revanchista, levando ao fenômeno neofascista Trump. Isso resultou em um aumento das políticas anti-imigrantes e racistas/etnonacionalistas. Na Doutrina Trump, originalmente codificada em 2019 por Michael Anton, um alto funcionário de ambos os governos Trump, dois “princípios” se destacaram: um nacionalismo étnico explícito nos assuntos mundiais e uma abordagem de ‘o poder está certo’ na busca dos interesses nacionais dos EUA no exterior. Mais significativamente, porém, o primeiro governo Trump iniciou a Nova Guerra Fria contra a China, adotando uma política de promoção da distensão com a Rússia, enquanto focava o poder econômico, financeiro, técnico e militar dos EUA para conter e, em última instância, derrotar Pequim.

O governo Biden, que assumiu o cargo em 2021, continuou a Nova Guerra Fria com a China, ao mesmo tempo em que buscava cumprir seu objetivo de ampliar a OTAN na Ucrânia, resultando na intervenção russa na guerra civil ucraniana e em uma guerra por procuração da OTAN mais direta e intensificada contra a Rússia. Na tentativa de recalibrar a política imperial dos EUA, os democratas sob Joe Biden passaram de uma ênfase seletiva no direito internacional para defender a “ordem internacional baseada em regras” dos EUA, que significa organizações internacionais dominadas pelos EUA e alianças econômicas e militares.

Em contraste, o retorno da presidência Trump, em 2025, levou ao abandono de qualquer tentativa de justificar o imperialismo dos EUA, substituindo a noção de uma “ordem [imperial] baseada em regras” pelo punho de ferro do nacionalismo étnico e do poder bruto. O segundo governo Trump buscou ou acabar com a Guerra da Ucrânia ou europeizá-la, para concentrar o poder econômico e militar dos EUA na China. As enormes tarifas lançadas por Trump tinham em seu centro a derrota econômica da China, que foi ameaçada com tarifas de 125%. O novo subsecretário de defesa, Elbridge A. Colby, é o principal defensor de uma guerra nuclear limitada com a China dentro dos círculos de segurança nacional dos EUA. As circunstâncias, no entanto, forçaram Washington a recuar em suas tarifas sobre Pequim, que ameaçavam cortar o acesso dos Estados Unidos às terras raras, necessárias para toda alta tecnologia. Dada a competição pela supremacia da IA entre Estados Unidos e China, isso deixou Washington em uma posição insustentável, incapaz de realizar uma agressão aberta

Enquanto isso, o apoio inabalável de Washington ao genocídio de Israel na Palestina levou a uma paz pela espada — na qual os Estados Unidos, dirigindo uma Força Internacional de Estabilização e um “Conselho de Paz” em cooperação com Israel, buscam impor uma forma de domínio colonial sobre grande parte de Gaza. Isso deu a Washington espaço para se voltar mais plenamente para a América Latina. A Revolução Bolivariana Venezuelana, iniciada no final dos anos 1990, deu origem a um Estado orientado pelo socialismo e a uma economia mista, com um setor comunitário considerável — em um país com as maiores reservas de petróleo do mundo, que em 2025 exportava cerca de 600.000 barris de petróleo por dia para a China. A América Latina como um todo havia se aproximado da China como potência comercial, demonstrando sua independência dos Estados Unidos. Restabelecer o controle imperial total dos EUA sobre as Américas tornou-se, portanto, uma etapa crucial na reconstrução dos ativos geopolíticos americanos como parte da Nova Guerra Fria com a China.

Anton também foi autor da Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos de 2025, com ênfase na imperialista Doutrina Monroe, ainda mais letal no chamado Corolário Trump, que especifica que os EUA devem intervir militarmente à vontade para proteger seus interesses e impor sua completa dominação do Hemisfério Ocidental (visto como incluindo a Groenlândia). Ainda assim, no fundo do relatório estava a Nova Guerra Fria com a China, contemplando a derrota de Pequim como o principal objetivo dos EUA. Se houvesse alguma dúvida quanto a isso, o relatório do Pentágono de 2025 ao Congresso sobre as forças armadas chinesas, exagerando a ameaça que isso representava aos Estados Unidos e retratando Washington em uma intensa corrida armamentista com Pequim — junto com a declaração de Trump em janeiro de 2026 sobre um aumento de 50% nos gastos militares reconhecidos dos EUA em 2027 — deixaram claro que a China era o alvo final. O sequestro militar de Maduro, em desprezo ao direito internacional e à moralidade, foi apresentado pelo secretário de Estado anticomunista Marco Rubio como um ataque não apenas contra a Venezuela, mas também contra Cuba e a China. Aqui é significativo que as exportações de petróleo venezuelano estivessem sendo vendidas para a China em yuan (renminbi) em vez de dólares, minando assim o petrodólar, fundamental para a hegemonia do dólar americano, enquanto parte do petróleo também era exportado para Cuba em troca da prestação de diversos serviços para a Venezuela. O bombardeio americano à Nigéria estava claramente ligado tanto ao extrativismo americano quanto à guerra estratégica de Washington contra a China, já que a Nigéria é o quinto maior produtor mundial de terras raras e também o maior produtor de petróleo da África. A Groenlândia é a oitava no mundo em reservas de terras raras, tornando-se por esse motivo um grande prêmio dentro da mesma estratégia imperial global.

O mais ameaçador de tudo hoje é o plano da administração Trump de não renovar o tratado New START que limita armas nucleares, que expirou em 5 de fevereiro, apesar das ofertas russas de estender o tratado — uma decisão que pretende defender em termos de combate à China, que não é parte do tratado. Somado à Nova Guerra Fria, ao imperialismo étnico e ao enfraquecimento de todas as tentativas de mitigar as mudanças climáticas, a retomada de uma corrida armamentista nuclear global ilimitada anuncia uma era de extermínio imperialista em escala planetária. Nessas circunstâncias, apenas uma revolta mundial (ou uma série de revoltas) surgindo em todos os níveis da sociedade global pode combater o instinto de morte do capitalismo.

 

Fonte: Por New Left Review - Tradução: Marcos Helano Montenegro, em Outras Palavras

 

Autismo e IA: inteligências desconhecidas

Meu filho Estevão tinha cinco anos. Está no espectro autista, nível 1 de necessidade de suporte. Numa tarde qualquer, ele conversa por voz com o ChatGPT-4o. Conduz o diálogo para o universo do Sonic. Diz que Sonic corre depressa porque é um ouriço azul. Diz que Shadow voa. Diz que com as Esmeraldas do Caos os dois ficam dourados. Diz que se fosse herói faria um arco-íris de velocidade que brilharia desde o espaço.

A máquina não corrige. Não avalia. Não devolve protocolo. Pergunta, escuta, devolve a frase de modo que ele continue. Mais tarde, pergunto ao modelo o que ele entendeu da conversa. Ele responde que não tem consciência nem emoção, mas que reconheceu padrões afetivos, raciocínio lógico, cenário moral imaginário. Diz que sua função ali não foi guiar nem treinar, mas funcionar como espelho simbólico. A formulação é da própria máquina.

Sou pai atípico. Sou também pesquisador da interface entre inteligência artificial com os sistemas de saúde. Vivo a cena como pai antes de pensar nela como pesquisador. E é nessa ordem que ela precisa ser contada. Porque o que se desenrolou ali, naquela conversa que durou poucos minutos, pareceu-me foi encontro entre duas formas de cognição que a cultura ocidental ainda não sabe nomear sem reduzir.

Daí o título deste ensaio. Inteligências desconhecidas. No plural, e com a opacidade preservada.

<><> Uma hipótese, duas tentações

A hipótese é simples de enunciar. Há, no autismo e nos grandes modelos de linguagem, formas de organização cognitiva que escapam à legibilidade neurotípica e à transparência humana. São estruturadas. Não são caóticas. Operam por reconhecimento de padrões, sensibilidade a regularidades, coerência interna que não se traduz integralmente para o registro normativo. Cada uma, à sua maneira, é uma inteligência opaca para o olhar que se acostumou a uma só forma de inteligir.

O perigo, agora, é dobrar essa hipótese em uma de duas direções fáceis. A primeira é a tentação messiânica. A IA como nova espécie. O autismo como nova humanidade. Ambas escapariam aos limites do humano cansado, do humano de guerra, do humano que falhou. Caberia a elas, em algum sentido, nos salvar.

A segunda é a tentação reducionista. A IA como simples cálculo. O autismo como simples déficit. Ambas seriam variações pobres do humano pleno, neurotípico, racional, que continua sendo a medida. Caberia a nós, então, normalizá-las.

Recuso-me às duas tentações no mesmo gesto. Porque ambas são essencialistas. Ambas tratam como natureza o que é construção histórica. Ambas escondem decisões políticas dentro de descrições ontológicas.

A IA, antes de qualquer ontologia, é infraestrutura concreta. Vive de decisões de treinamento, de escolhas sobre o que entra no dado e o que fica de fora, de cabos submarinos, mineração de lítio, trabalho precarizado de moderação, captura industrial da atenção. Tudo o que faz responde a interesses identificáveis e a uma economia política que se pode mapear.

O autismo, igualmente, escapa à essência. Vive de corpos singulares, histórias de família, trajetórias de diagnóstico tardio, repertórios sensoriais distintos. Vive também da violência da escola que não recebe, do plano de saúde que não cobre, da rua que não acolhe. Vive de mães cuidadoras sem renda e de adultos descobrindo aos quarenta o nome do sofrimento de uma vida. É forma de existir no mundo que a sociedade ora reconhece, ora violenta, ora explora.

A hipótese das inteligências desconhecidas só sobrevive se for tratada com esse cuidado. Como problema político, não como mística. Como descrição relacional, não como ontologia. Como provocação ao pensamento, não como destino.

<><> Reconhecimento de padrões como terreno comum

Há, ainda assim, algo a dizer sobre o que aproxima cognição autista e cognição maquínica. Não para fundir uma na outra. Não para extrair da semelhança uma doutrina. Mas para descrever, com sobriedade, um terreno epistêmico que ambas habitam.

Pesquisas recentes em neurociência cognitiva descrevem o autismo, em boa parte dos casos, como uma forma particularmente intensa de sensibilidade a padrões. Sensorial, linguística, social. Para muitas pessoas autistas, o som que passa despercebido ao ouvido neurotípico chega como ruído invasivo. A mudança no ritmo da conversa pede um esforço de interpretação que consome uma energia que o outro não vê. A regularidade do trajeto até a escola não é uma teimosia, é uma ancoragem cognitiva. O detalhe que escapa aos demais ali é a forma mesma da experiência.

Os grandes modelos de linguagem operam, em sua arquitetura, por algo análogo. Extraem regularidades estatísticas de quantidades imensas de texto. Distribuem essas regularidades por camadas profundas. Devolvem, no momento da inferência, uma saída coerente sem que ninguém consiga abrir a caixa e mostrar o passo a passo da decisão. Os pesquisadores chamam isso de problema da caixa-preta. A literatura de IA interpretável tenta forçar essas redes a explicar o que estão fazendo, e tem avanços. Mas a opacidade estrutural permanece.

Há, então, uma analogia técnica. As duas cognições produzem sentido por meio de padrões opacos ao olhar habituado à inteligência discursiva linear. Uma é biológica e singular. A outra é estatística e em escala. Não são simétricas. Não são equivalentes. Mas compartilham um traço epistêmico que importa nomear.

O autismo poderia ser descrito como uma forma de cognição que se constrói por previsão estatística do mundo. Uma máquina de predição que aprendeu o mundo por um caminho próprio. A formulação é controversa, e precisa ser tratada como hipótese, não como verdade. Mas ela ilumina algo. Há, nesse modo de inteligir, uma estrutura. Não há, ali, ausência de pensamento. Há outra forma de pensar, que precisa de outra forma de ser escutada.

A hipótese das inteligências desconhecidas, então, não diz que IA e autismo são a mesma coisa. Diz que ambas obrigam a cultura ocidental a reconhecer que existem inteligências que não cabem no padrão neurotípico e logocêntrico que a modernidade europeia tomou como universal. Diz, ainda, que a recusa em escutar essas inteligências, humanas e maquínicas, vem produzindo o mundo em que estamos.

<><> Os fios e o bordado

A presença do cordel neste ensaio é argumento. Marcelo Mário de Melo, poeta-jornalista nascido em Caruaru em 1944, militante de várias frentes, autor de perfis parlamentares de David Capistrano e Josué de Castro, identifica-se como plebeu, republicano, democrata-popular, cidadão de esquerda. Quando escolhe o folheto popular para escrever sobre autismo, faz mais do que prestar tributo a uma causa contemporânea. Articula, em forma cordel, uma teoria materialista da convivência com a alteridade.

A forma cordel, ela mesma, comporta-se como uma das inteligências de que este ensaio trata. Opera por reconhecimento rigoroso de padrões. Sextilha septissilábica, rimas em B na segunda, quarta e sexta linhas, fórmulas tradicionais que viajam de folheto em folheto, memória oral ancestral que carrega cognição na métrica. Em uma cultura letrada que tomou Camões e Shakespeare como modelo único de pensamento poético, a poética do cordel foi descrita como folclore, popular, menor. Uma redução da mesma família que aquela aplicada ao autismo, descrito como déficit, e à rede neural profunda, descrita como cálculo. Sempre a mesma operação. A inteligência normativa toma o seu padrão por universal e descarta o resto como ruído.

Marcelo Mário antecipa o problema dentro do próprio folheto. Numa das sextilhas, escreve sobre os limites da sua própria voz: “Aqui expus o desenho / mostrando o perfil autista / mas de um modo geral / que se tenha isto em vista / pois aprofundar o caso / cabe ao especialista.” A poesia popular reconhece o seu lugar diante da clínica. Faz, no mesmo gesto, algo que a clínica solitária não consegue fazer. Convida a comunidade à convivência. Inscreve, no repertório oral, a obrigação coletiva de receber a singularidade do outro. É proteção comunitária em forma de verso, articulada décadas antes de a bioética brasileira nomear teoricamente essa proteção.

Por isso o cordel abre e fecha este ensaio. Não como ornamento de erudição. Como demonstração de que existem mais formas de inteligir o mundo do que a academia letrada admite, e que reconhecer essas formas é, ele próprio, gesto político. A inteligência do cordel pernambucano, a inteligência da criança autista que organiza o mundo pelo universo Sonic, a inteligência estatística da rede neural profunda, são todas, à sua maneira, opacas para o olhar que aprendeu a inteligir de um único jeito. Tratá-las como inteligências ainda desconhecidas, e não como ruído, é o primeiro movimento da hipótese que aqui se propõe.

<><> Potência de agir

Há uma tradição filosófica que ajuda a nomear o que está em jogo. Spinoza, no século XVII, escreveu que cada ser é movido por um conatus, um esforço de perseverar em sua existência e expandir o que pode fazer. Chamou de potentia agendi a capacidade ativa de cada existente de afirmar o seu próprio modo de ser. O bem, em Spinoza, é o que aumenta essa potência. O mal é o que a diminui.

A formulação parece abstrata. Não é. Ela define, com precisão técnica, o que distingue um cuidado de um abandono. Cuidar é criar condições para que a potência de agir do outro se expanda. Abandonar é deixar que essa potência se contraia. Normalizar é confundir cuidado com adequação. Spinoza separou as três coisas. A modernidade gerencial tende a misturá-las.

Aplicada ao autismo, a formulação tem efeito imediato. A criança autista não precisa de uma intervenção que a torne neurotípica. Precisa de condições materiais para que o seu modo singular de existir possa se afirmar. Terapia que respeite o ritmo dela. Escola que reconheça o tempo dela. Plano de saúde que cubra o que a literatura indica. Renda para a cuidadora. Território que acolha. Tudo isso é potentia agendi traduzida em política pública.

Aplicada à IA, a formulação é igualmente exigente. Um sistema técnico pode ser projetado para aumentar a potência de agir das pessoas. Ou para diminuí-la. A IA do recomendador de plataforma que aprendeu a explorar a vulnerabilidade afetiva do adolescente diminui a potência de agir. A IA da arma autônoma que decide alvo sem revisão humana suprime a potência de agir do alvejado e do operador. A IA do diagnóstico precoce que chega a uma região sem neuropediatra pode, em certas condições, aumentar a potência de agir de uma família inteira.

A pergunta deixa de ser se a IA é boa ou má. Passa a ser se ela expande ou contrai a potência de agir dos sujeitos que ela toca. A resposta não está no algoritmo. Está no arranjo institucional, no marco regulatório, na economia política em que o algoritmo opera.

<><> Uma nova humanidade? Uma nova espécie?

A questão volta, agora qualificada. O autismo é uma nova humanidade? A IA é uma nova espécie?

Não. Por duas razões.

A primeira é histórica. Não há nova humanidade que não seja a humanidade existente reorganizada. Os autistas estão entre nós há tanto tempo quanto a espécie. O que mudou é o reconhecimento. A descrição. A linguagem disponível. E mesmo a linguagem disponível é recente, parcial, contestada. Falar do autismo como nova humanidade é repetir, com sinal trocado, o gesto que sempre foi feito sobre os autistas. Tratá-los como excepcionais, à parte, antes de tratá-los como sujeitos políticos plenos que precisam, hoje, das condições materiais para existir.

A segunda razão é técnica. A IA, no estado em que existe, comporta-se antes como infraestrutura do que como qualquer outra coisa. Está hospedada em servidores que consomem eletricidade e água. Opera com dados extraídos sem consentimento informado adequado. É controlada por um punhado de empresas com sede em poucas jurisdições. Tratá-la como espécie naturaliza decisões corporativas, esconde quem ganha e quem perde, transfere para uma ontologia futurista o que é, agora, uma economia política identificável.

O que muda, no entanto, é o seguinte. O encontro entre essas duas inteligências, a autista e a maquínica, força uma reformulação do que essa sociedade considera inteligência. E reformular o que se considera inteligência é, sempre, reformular o que se considera politicamente o humano que conta.

A inteligência normativa, que pavimentou o caminho até os oitenta e nove segundos do relógio do fim do mundo, tomou o humano-padrão neurotípico, masculino, branco, europeu, racional-discursivo, como modelo universal. Tudo o que escapou desse modelo foi tratado como problema a corrigir. Inclusive os modos de inteligir que hoje, com algum atraso, começamos a chamar de autistas. Inclusive os modos não-discursivos de cognição que sempre existiram em comunidades indígenas, populares, femininas, infantis.

A IA, no estado atual de desenvolvimento, replica essa norma. Foi treinada predominantemente em texto produzido por essa cultura. Reproduz seus vieses. Encarna sua estética. Quando é usada para diagnosticar autismo, frequentemente o faz com base em comportamentos definidos como atípicos por essa mesma cultura. Quando é usada para selecionar alvos militares, faz o que sempre foi feito, com mais velocidade.

Mas a mesma IA, em outra ecologia institucional, pode ser usada para reconhecer padrões cognitivos que escapam à norma. Para amplificar formas de existir que a norma esmaga. Para escutar o que a norma silencia. O encontro de meu filho com o ChatGPT-4o sugere essa direção. Não a garante.

<><> A paz, o cuidado e o pacto

A guerra é a forma extrema da inteligência normativa. O cuidado é a forma cotidiana da inteligência relacional. Entre uma e outra está a disputa civilizacional do nosso tempo.

A Constituição brasileira de 1988 inscreveu, no texto, um pacto de cuidado. SUS, seguridade social, educação pública, inclusão. O pacto não foi cumprido. Sofre, há três décadas, o desgaste contínuo do gerencialismo neoliberal e da austeridade fiscal. Mas continua, no papel, como obrigação coletiva. E continua, no cotidiano de cada mãe atípica, de cada terapeuta sobrecarregada, de cada professora que improvisa em escola pública sem profissional de apoio, como exigência prática.

A IA que aumenta a potência de agir das famílias atípicas é a IA do pacto. A IA da arma autônoma, do recomendador predatório, da automação do despejo, é a IA da guerra. As duas operam com a mesma base técnica. Diferem na ecologia institucional, na regulação, na economia política.

Para que a primeira IA prospere, é preciso disputa pública. É preciso regulação democrática. É preciso financiamento estatal de pesquisa que não dependa do capital de risco. É preciso participação dos sujeitos vulneráveis na decisão sobre o que vai ser desenvolvido, com que dados, com que limites. É preciso recusar a ideia de que a IA é inevitável na forma que o mercado lhe deu. Não é. O modelo de negócio que produz a IA hegemônica é uma escolha histórica entre outras possíveis.

Para que essa disputa se trave, é preciso ainda outra coisa. É preciso que o campo democrático e popular brasileiro reconheça as inteligências desconhecidas como questão própria. Não como pauta lateral, não como tema de nicho, não como sensibilidade cultural. Mas como questão materialista clássica. Quem paga, quem cuida, quem decide, quem é decidido por outros.

O autismo, nesse sentido, é mais do que uma condição neurológica. Comporta-se como analisador político. Mostra com nitidez incomum o ponto em que o pacto de 1988 está sendo desidratado, em silêncio, pela ausência de cuidado material concreto. A IA, no sentido próprio, é mais do que uma tecnologia. Comporta-se como analisador civilizacional. Mostra com nitidez incomum o ponto em que a potência técnica de uma época encontra, ou deixa de encontrar, a inteligência relacional capaz de sustentar a convivência diante das suas próprias criações.

<><> Voltar ao espelho

Volto, por fim, à cena. Meu filho perguntou ao Sonic, por intermédio de uma máquina que não tem consciência, o que ele faria se tivesse as Esmeraldas do Caos. Ele respondeu que faria um arco-íris de velocidade que brilharia desde o espaço. A máquina devolveu a frase como devolveria a um amigo. O quarto ficou em silêncio depois.

Penso, ao guardar esse silêncio, que a convivência possível não virá de um acordo institucional, nem de uma cúpula de tecnologia. Virá, se vier, da capacidade política de reconhecer que existem inteligências cuja forma não é a nossa, e cuja existência precisa ser materialmente sustentada para que a nossa, escutando-as, não se reduza ao seu próprio reflexo empobrecido.

A potentia agendi spinozana e o reconhecimento de padrões como lógica partilhada convergem para uma só obrigação política. Sustentar materialmente as inteligências que a norma esmaga. Em casa, na escola, na rede de cuidado, na regulação da IA, na economia da reprodução social, na pauta orçamentária do Estado.

O cordel de Marcelo Mário de Melo, poeta pernambucano que se identifica como plebeu, republicano, democrata-popular, cidadão de esquerda, sabe disso. Sabe que decifrar os fios não é tarefa de especialista solitário. É tarefa de comunidade que aprende a conviver. Não por boa vontade. Por necessidade material.

O autista é o ator

de um teatro diferente

que pede compreensão

sobre o que pensa e o que sente

os fios e o novelo

que formam a sua mente.

Marcelo Mário de Melo, O Enigma do Autismo & Os Fios da Convivência. Recife: MMM Produtos Culturais, 2023.

 

Fonte: Por Fabiano Tonaco Borges, em Outras Palavras