terça-feira, 3 de março de 2026

João dos Reis Silva Júnior: Futuro escasso

2008 não chegou como data; chegou como ruptura de atmosfera. Primeiro veio o rumor, depois a queda, depois a sensação difusa de que algo havia mudado de lugar no mundo – não os edifícios, não as cidades, não os mercados em si, mas o modo como o futuro se apoiava sobre o presente. O colapso dos mercados hipotecários norte-americanos, a sequência de falências que atravessou o Atlântico e a propagação quase instantânea da instabilidade pela economia mundial foram vistos, descritos e medidos.

Ainda assim, algo escapava. O que ruía não era apenas riqueza; era a duração que sustentava a expectativa de crescimento (Harvey, 2011; Chesnais, 2016). Ruía a confiança silenciosa de que o tempo econômico seguiria avançando de forma previsível, como se a expansão fosse a condição natural do capitalismo (Arrighi, 1994).

Durante décadas, acreditou-se que crises eram interrupções: falhas momentâneas numa engrenagem orientada para a expansão. Um tropeço, uma queda, um ajuste – e o movimento seguiria adiante. Depois de 2008, essa narrativa começou a perder aderência. A instabilidade deixou de parecer acidente; tornou-se clima. O capitalismo não havia entrado em crise: passava a funcionar através dela (Streeck, 2016; Tooze, 2018).

Nos anos anteriores, a expansão parecia contínua. Capitais atravessavam fronteiras com velocidade crescente, cadeias produtivas se alongavam pelo planeta, mercadorias viajavam, moedas circulavam, expectativas se ampliavam (Guttmann, 2008; Rey, 2015). Para muitos países dependentes, aquele período foi vivido como um intervalo respirável. A China crescia, as commodities valorizavam-se, a liquidez internacional parecia inesgotável (Ocampo, 2017). Programas sociais expandiam-se, o consumo avançava e tornou-se plausível imaginar que o crescimento poderia adquirir estabilidade.

Então o intervalo se fechou.

Depois de 2008, o crescimento tornou-se mais lento, irregular e incerto (Tooze, 2018). O comércio desacelerou, os preços das commodities oscilaram, os fluxos de capitais tornaram-se mais sensíveis ao medo do que à esperança (Bresser-Pereira, 2016; Rey, 2015). O endividamento público cresceu como resposta à crise e passou a exigir disciplina permanente (Streeck, 2018). Surgia um novo ambiente histórico: menos promessa, mais vigilância; menos horizonte, mais gestão de riscos.

A austeridade deixou de ser exceção e tornou-se princípio permanente de governo (Blyth, 2015). O fundo público reorganizou-se em torno da confiança dos mercados e da solvência da dívida (Chesnais, 2016; Gabor, 2021). Aquilo que depende de continuidade – ciência, educação, políticas sociais, planejamento – passou a viver sob a lógica da intermitência (Streeck, 2018).

<><> O tempo das políticas públicas começou a encolher

Projetos que exigem décadas passaram a conviver com ciclos curtos. A instabilidade tornou-se ambiente. A industrialização perdeu fôlego e a reprimarização ganhou espaço (Palma, 2019; Marini, 1973; Bambirra, 1978). A pandemia de 2020 não inaugurou nova época; acelerou a anterior (Tooze, 2021). A dependência passou a revelar nova dimensão: tornou-se experiência histórica do tempo (Rosa, 2019).

No México, o futuro chega sempre sob a forma de contrato. No Chile, o futuro oscila permanentemente ao ritmo dos ciclos. No Brasil, o futuro permanece visível, porém continuamente adiado. Na Argentina, o futuro chega comprimido pela urgência do presente.

No México, a integração produtiva com os Estados Unidos transformou o crescimento em sincronização externa (Gallagher, 2017; Blecker, 2014). A economia mexicana respira em compasso estreito com o mercado norte-americano. A reorganização recente das cadeias globais e o nearshoring reforçaram essa posição (Dussel Peters, 2022). O horizonte econômico passou a depender de negociações comerciais recorrentes. O futuro existe – mas chega sob a forma de contrato.

No Chile, a estabilidade institucional convive com a volatilidade dos preços do cobre e do lítio (Ffrench-Davis, 2010; Bridge, 2014; Svampa, 2019). A economia oscila entre expansão e ajuste. A disciplina fiscal protege, mas limita a transformação produtiva (Palma, 2019). O futuro move-se em ciclos pendulares.

No Brasil, o futuro permanece promessa recorrente. O país continua a acreditar no crescimento, mas encontra dificuldade em sustentar continuidade (Ocampo, 2017; Palma, 2019). A reprimarização reaparece como tendência estrutural (Marini, 1973). O futuro não desaparece; torna-se mais distante.

Na Argentina, inflação e restrição externa comprimem o horizonte econômico (Prebisch, 1949; Chesnais, 2016). O tempo acelera. O futuro é continuamente adiado.

No Uruguai, a estabilidade institucional convive com forte dependência do ambiente externo (Rey, 2015). A dependência manifesta-se sobretudo como dependência econômica.

A América Latina não sofre da ausência de oportunidades, mas da dificuldade de sustentar continuidade (Ocampo, 2017). Entre abundância de recursos e escassez de duração, surge a pergunta decisiva: será possível transformar oportunidades recorrentes em trajetórias persistentes?

A dependência do século XXI tornou-se disputa pelo tempo. Projetos estruturais exigem décadas; políticas econômicas operam em ciclos curtos (Streeck, 2018). A desigualdade global tornou-se desigualdade na capacidade de sustentar o longo prazo.

A questão decisiva não é se haverá crescimento. A questão é se haverá tempo suficiente para transformá-lo em trajetória.

<><> Chile – o futuro que oscila

O Chile costuma aparecer nas comparações regionais como sinônimo de estabilidade. Durante décadas, a palavra foi repetida quase automaticamente: disciplina fiscal, metas de inflação, previsibilidade institucional. Um país que parecia ter aprendido a atravessar crises sem grandes rupturas (Ffrench-Davis, 2010).

E, de fato, atravessou. A crise de 2008 atingiu o país, mas não o derrubou. Houve queda da demanda externa, volatilidade nos preços das commodities, desaceleração do crescimento — nada inesperado para uma economia aberta. A recuperação veio relativamente rápido e reforçou a imagem de resiliência. A ideia de “modelo chileno” ganhou fôlego outra vez.

Mas a estabilidade não eliminou a dependência. Apenas a tornou menos dramática. A economia chilena continua profundamente ligada ao que acontece fora de suas fronteiras. O cobre nunca deixou de ser central, e nos últimos anos o lítio passou a ocupar lugar semelhante. A transição energética global devolveu ao subsolo chileno uma importância estratégica inesperada. Baterias, mobilidade elétrica, armazenamento de energia — parte do futuro tecnológico do capitalismo depende desses minerais (Bridge, 2014; Svampa, 2019).

Isso trouxe novas expectativas. Mais investimento, mais interesse internacional, mais projeções otimistas. Outra vez a sensação de oportunidade. E, outra vez, a ambiguidade. Porque o Chile permanece concentrado nas etapas iniciais das cadeias produtivas. Extrai, exporta, abastece. As fases de maior valor agregado continuam concentradas nas economias centrais. O país ocupa posição essencial, mas não decisiva.

O resultado é um movimento pendular bastante conhecido. Quando os preços das commodities sobem, surgem crescimento, expansão fiscal, sensação de abertura de possibilidades. Quando caem, retornam o ajuste, a cautela, a contenção do gasto público (Palma, 2019). A disciplina macroeconômica ajuda a amortecer esses ciclos. Mas não consegue eliminá-los.

Talvez por isso as mobilizações sociais de 2019 tenham causado surpresa fora do país. Para quem observava apenas os indicadores macroeconômicos, parecia improvável que tensões tão profundas estivessem se acumulando. Crescimento não havia faltado. Estabilidade também não. Mas estabilidade não resolve tudo.

O Chile segue sendo exemplo de previsibilidade institucional. Ao mesmo tempo, continua profundamente sensível às oscilações do mercado mundial de minerais. Entre regras estáveis e preços instáveis, o país vive num equilíbrio delicado. O futuro existe. Mas, no Chile, ele oscila.

<><> Brasil –  o futuro que se adia

O Brasil tem uma relação antiga com o futuro. Não apenas econômica; quase afetiva. Durante décadas repetiu-se, com uma mistura de esperança e ironia, que o país era “o país do futuro”. A frase atravessou gerações, crises, planos econômicos, mudanças de moeda. O futuro parecia sempre atrasado, mas nunca cancelado.

Nos anos que antecederam 2008, essa sensação voltou a ganhar força. O crescimento chinês elevava a demanda por minério de ferro, soja, petróleo. O emprego crescia, o consumo se expandia, o crédito se ampliava. Havia um certo entusiasmo discreto no cotidiano: aeroportos cheios, universidades ampliando vagas, famílias fazendo planos mais longos (Ocampo, 2017).

Não era euforia. Era algo mais silencioso: a sensação de que, desta vez, talvez desse. E então o ritmo começou a mudar. Primeiro veio a desaceleração, quase imperceptível. Depois a instabilidade política, a queda do crescimento, a sensação difusa de que o tempo havia encurtado. Planos começaram a ficar mais curtos. Projetos passaram a ser feitos com cautela. A política econômica reorganizou-se em torno de uma preocupação permanente com dívida pública, inflação e confiança dos mercados (Streeck, 2018; Chesnais, 2016).

O tema deixou de ser o que construir e passou a ser o que preservar. A linguagem econômica invadiu o cotidiano. Juros, déficit, teto de gastos, credibilidade fiscal. Expressões técnicas começaram a aparecer nas conversas comuns. O orçamento público passou a ser tratado como limite antes de ser tratado como possibilidade.

Isso mudou o tempo das políticas públicas. Programas de infraestrutura, ciência, tecnologia e educação passaram a conviver com interrupções frequentes. Iniciativas surgiam, eram revistas, redesenhadas, suspensas. O planejamento de longo prazo tornou-se difícil de sustentar.

Ao mesmo tempo, a estrutura produtiva mudava silenciosamente. A indústria perdia espaço relativo, enquanto a exportação de commodities ganhava centralidade (Palma, 2019). O país que havia sonhado com fábricas e tecnologia voltava a depender, em grande medida, daquilo que nasce da terra (Marini, 1973).

Há algo de profundamente ambivalente nisso. O Brasil possui alguns dos maiores estoques de recursos naturais do planeta. Ferro, bauxita, petróleo, nióbio. A abundância é evidente. Mas abundância não garante continuidade. A pandemia intensificou essa sensação de encurtamento. O gasto público cresceu para enfrentar a emergência sanitária e, logo depois, retornaram as pressões por ajuste. A recuperação econômica apoiou-se novamente nas exportações de commodities. O ciclo recomeçou.

O país continuou a esperar. O futuro não desapareceu. Apenas passou a chegar mais devagar.

<><> Argentina – o futuro que chega com pressa

Se o Brasil aprendeu a esperar, a Argentina aprendeu a viver com pressa. É uma diferença de ritmo que aparece rápido para quem observa a região. Há países que planejam décadas; a experiência argentina, muitas vezes, parece organizada em torno de meses. Não por escolha. Por necessidade.

A relação com a moeda ajuda a entender esse ritmo. Em contextos de inflação elevada e volatilidade cambial, o futuro deixa de ser um espaço confortável de planejamento e passa a ser território de risco. Poupar torna-se difícil, projetar torna-se incerto, prometer torna-se perigoso. O tempo econômico encurta-se (Kindleberger; Aliber, 2011; Streeck, 2018).

A crise de 2008 chegou a um país que ainda carregava a memória recente do colapso de 2001. O boom das commodities trouxe algum alívio, alguma recomposição de reservas, uma sensação breve de respiro (Ocampo, 2017). Mas o núcleo do problema permaneceu: a necessidade constante de dólares.

Dólares para estabilizar preços. Dólares para financiar importações. Dólares para sustentar crescimento. Quando o cenário internacional deixou de ser favorável, a velha tensão voltou. A economia reencontrou seus limites no balanço de pagamentos. O tempo das políticas passou a ser medido pela disponibilidade de divisas. O horizonte encurtou de novo (Prebisch, 1949; Marini, 1973).

Em ambientes de inflação elevada, o presente ganha peso. Decisões tornam-se mais imediatas, mais defensivas. Contratos tornam-se difíceis de sustentar. Investimentos recuam. A preferência pela liquidez cresce. O tempo acelera.

Nos últimos anos, o setor energético passou a aparecer como promessa de alívio. Reservas relevantes de gás e petróleo não convencionais reacenderam expectativas. Exportações poderiam crescer. Divisas poderiam entrar. O país poderia ganhar tempo.

Mas ganhar tempo não é o mesmo que mudar o ritmo da história. Sem coordenação produtiva consistente, o excedente energético tende a funcionar como respiro temporário. A dependência muda de base material, mas preserva sua forma estrutural (Palma, 2019). A pandemia aprofundou essa compressão temporal. A necessidade de proteção social ampliou o gasto público, enquanto a volatilidade financeira global reforçou a seletividade dos fluxos de capital (Gabor, 2021).

O dilema tornou-se claro: estabilizar com custo social elevado ou proteger socialmente sob risco de ampliar desequilíbrios monetários. A economia segue em movimento. Mas o relógio parece sempre correr mais rápido do que os planos.

<><> O peculiar Uruguai – a dependência sobretudo econômica

Se a Argentina vive com pressa e o Brasil vive de expectativa, o Uruguai vive de atenção. É uma diferença sutil, mas importante. Em economias pequenas, o mundo nunca está longe. Uma mudança no comércio internacional, uma oscilação cambial nos países vizinhos, uma alteração no custo global do dinheiro – tudo chega cedo demais e quase ao mesmo tempo (Ocampo, 2017; Rey, 2015).

Talvez por isso o país tenha desenvolvido uma espécie de prudência estrutural. Ao longo das últimas décadas, construiu reputação de previsibilidade institucional rara na região: disciplina fiscal, estabilidade monetária, baixa volatilidade política. Nada disso elimina a dependência. Apenas muda sua forma.

Diferentemente de boa parte da região, o Uruguai não atravessa ciclos recorrentes de crises monetárias nem rupturas institucionais profundas. Estado e sociedade amadureceram lado a lado, quase no mesmo compasso, o que favoreceu a construção de políticas públicas mais estáveis, contínuas e previsíveis.

É justamente aí que reside sua peculiaridade. A dependência uruguaia não se manifesta principalmente como instabilidade política ou desorganização macroeconômica. Manifesta-se, sobretudo, como dependência econômica externa.

O país permanece fortemente vinculado ao comércio internacional, ao desempenho dos parceiros regionais e às condições financeiras globais. O mercado interno é pequeno, a escala produtiva é limitada e a margem para políticas industriais de grande porte é reduzida. O crescimento ocorre, mas tende a ser cauteloso, condicionado e sensível ao ambiente externo.

A política econômica organiza-se como gestão permanente de vulnerabilidades. Preservar a confiança internacional torna-se prioridade constante. Em economias pequenas, credibilidade funciona quase como um ativo estratégico: difícil de construir, fácil de perder, essencial de proteger (Streeck, 2018).

O tempo econômico uruguaio parece dividido em dois ritmos. Um ritmo longo, institucional, feito de regras estáveis e previsibilidade. E um ritmo curto, externo, marcado por preços internacionais, juros globais e ciclos regionais. O primeiro tenta amortecer o segundo – mas não consegue eliminá-lo.

O Uruguai tornou-se especialista em atravessar ondas. Não porque as ondas deixaram de existir, mas porque aprendeu a conviver com elas. Sua dependência é menos dramática. Mas não é menor. É, sobretudo, econômica.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Episódio da história oculta da Copa do Mundo de 1970

A Netflix divulgou as primeiras imagens de "Brasil 70 – A Saga do Tri", minissérie de ficção sobre a seleção brasileira de futebol na Copa do Mundo de 1970. O teaser é "Brasil 70: A Saga do Tri | Teaser oficial | Netflix Brasil - YouTube".

Na mídia, as notícias sobre a minissérie afirmam que “a produção também vai abordar o período político do país na época”, o que é um modo suave de mencionar a ditadura brasileira em sua fase mais sangrenta.

O fato é que, na esquerda brasileira da época, havia o dilema de torcer contra ou a favor da Seleção Brasileira! Sim, isso aconteceu porque o ditador Médici capitalizava para si o sucesso do futebol. Esse dilema gerou episódios tragicômicos, como o que narro a seguir, que não estará na minissérie. Como João Saldanha iniciava os seus comentários, “meus amigos...”, assim foi.

No jogo da grande final da Copa do Mundo, em 21 de junho de 1970, o clima não era bom. Para os que andavam de mal com a ditadura, o tempo não estava bom, apesar de cair em um domingo.

Mário Sapo, Spinelli e Anael bem que procuraram ocupação mais digna do que ver a final da Copa do Mundo. Missão, como o título de um seriado da televisão da época, missão impossível. Havia uma final de Copa do Mundo escrita nas nuvens, no céu, no mar. O selecionado brasileiro de futebol estava em todas as coisas. Nos jornais, na televisão, no cinema, nas escolas, nas ruas, no amor, nas conversas. Aliás, outro assunto não era possível a partir de todo e qualquer tema. — E a seleção? Perguntava-se a troco de nada, e o rumo da conversa mudava.

Para complicar, havia um complicador, se nos permitem a complicação. Havia um complicador para o alheamento dos amigos àquela imensa alienação, àquela estupidez da alienação dos povos, àquele ópio dos ignorantes: a Copa do Mundo de 1970, assim mesmo, em maiúsculas, era a primeira Copa transmitida pela televisão. Ao vivo, como diziam. Do México, com imagens transportadas por um satélite. O que bem poderia ser dito por João Saldanha: “Meus amigos, toda realidade exterior ao futebol hoje está suspensa”.

Missão impossível para Mário, Spinelli, Anael e todos os militantes socialistas do Brasil. Em algum lugar deve haver uma lição da dialética que ensina: se as missões se tornam impossíveis, o melhor é conviver com a sua impossibilidade. Mas não sabíamos disso então. Esta página ainda nos era arrancada, ou devia estar escrita em sânscrito intraduzível. Ninguém nos disse. Mário, o mais velho de nós, teve um primeiro recuo tático.

— Olha, a massa está sendo manipulada. A ditadura está usando esse jogo para sair fortalecida... — Primeira parte do discurso, indispensável para não ser execrado. — ... Agora... — Segunda e problemática parte, a mais importante. — ... Agora, a gente não pode ser contra a massa. A gente não pode ser contra o povo. Se o povo está assistindo...

— Populismo, caralho. Se o povo está assistindo, nós também vamos assistir? É isso?! — cortava Spinelli. — A vanguarda repete a massa, é isso?

— Sim, Lênin — voltava Mário. — Sim, Lênin...

Ao que o magro Anael, sabedor por intuição e experiência de aonde levavam os argumentos de Mário (libação, álcool, que ninguém é de ferro), intervinha como um votante, porque democrático era o processo:

— Eu estou com Mário. O povo é quem sabe o rumo. — E adaptava um refrão: — Ruim com o povo, pior sem ele.

— Sim, mas — sentia-se encurralado Spinelli. — Sim, mas...

Mas, antes que entrassem em discussão as categorias do conhecimento — o que é o povo, o que é a massa, o que é a vanguarda, o tempo histórico e sua urgência e emergência —, Mário, o mais velho, propunha:

— Vamos discutir isso no Savoy.

O Bar Savoy, no Recife, era uma festa, sempre. Foi para ele que Carlos Pena escreveu “são trinta copos de chope / são trinta homens sentados / trezentos desejos presos / trinta mil sonhos frustrados”. Foi lá que a Jomard Muniz de Brito ocorreu que “o Recife é um chope”. Foi para ele que os personagens de Os Corações Futuristas estenderam os olhos mendigos de cerveja, porque ali se podia beber a felicidade em mesinhas de ferro. O Savoy era uma festa.

Os nossos amigos, os nossos, naquelas circunstâncias, heróis, sentaram-se a um canto, um pouco à margem do aglomerado que rodeava um dos televisores no Savoy. Diabo de Copa do Mundo; vieram ali para conversar sobre os próximos rumos do movimento e do Brasil. De costas para a alienação. Acintosamente alienados da alienação. No entanto, Mário, sempre o mais precavido dentre nós, sentou-se de frente para a televisão. Porque ver, o simples ver, não atrapalha, ou não devia atrapalhar, todo e qualquer desenvolvimento da argumentação, da mais reles matéria à metafísica.

— A gente aqui pode falar à vontade. Ninguém nos escuta — dizia Spinelli. E, por isso, retomava: — A Revista da Civilização é a melhor frente de esquerda hoje no Brasil. Vocês viram a deste mês?

— Eu prefiro a fonte. Eu prefiro o original — argumentava Anael, um tanto incômodo e angustiado pelo rumor às costas.

— É, é... — Mário ia respondendo, enquanto movia os olhos, pensativo, mui pensativo, a todo e qualquer encaminhamento da dialética que ouvisse.

— Não, rapaz, em relação a muita coisa, Nelson Werneck Sodré não é reformista, entende?

— Claro... É... — Mário ia respondendo.

Havia uma tensão no ar, uma carga explosiva que ia se acumulando, sem alarde. Um movimento surdo passando, que ninguém percebia, ainda que todos dele participassem. Um coletivo de gozo ou desespero a irromper. Então, de repente, como se por força de um comum desejo, no décimo oitavo minuto da exposição do destino dos povos, o povo mais próximo, no Savoy, explode:

— Gooool! Gol, gol, gol! Goool!

Mário, por estar mais integrado à massa, por esse motivo também se levantou:

— Gool! É gol, é gol...

Spinelli e Anael, como bons subversivos, escolados (“a primeira tarefa do revolucionário é não se denunciar”), por isso também se ergueram:

— Gol! Foi gol, cara... De quem, de quem?

E Mário, o flexível, o flexível atento, anunciou:

— De Pelé. De Pelé, porra!

— Ah, tinha que ser — reconheceu o mais sábio.

Os garçons do Savoy, mais atentos que todos os atentos, comemoravam e, em igual movimento de comemoração, enchiam as mesas de cervejas, e entre as mesas a dos nossos heróis. Que se achavam, à altura dos 20 minutos de jogo, os próprios terroristas disfarçados. Fantasiados de povo, a beber no Savoy, em jogo de Copa do Mundo. Mas não demoraram muito no disfarce, ainda que isto lhes parecesse uma eternidade. A máscara caiu aos 38, ainda no primeiro tempo da fantasia e da defesa.

— Gol... foi gol... Porra, que merda! Presta atenção, seu porra! Manda essa bola pra tua mãe... — ouviu-se, foi-se ouvindo, aqui e ali, às costas, à frente, de lado, do teto e das paredes, do chão e da Avenida Guararapes.

— Gol, foi gol...

Um carrasco de nome Boninsegna havia driblado o nosso goleiro, o verdadeiro herói lá na televisão, e, sem piscar, enfiou o empate da seleção da Itália. Mário, o tático, assumiu então as suas características de sapo, porque inflou as bochechas e mal olhava agora para a pequena tela, como se estivesse na iminência de coaxar. Anael o seguia, com movimentos na bochecha, à sua imagem e semelhança. Na verdade, à direita, à esquerda, acima e abaixo da ditadura, todos no Savoy ficaram meio sapo, de papo inchado, carrancudos, raivosos. Spinelli, ao ver a geografia humana ao redor, susteve a frase na garganta — “futebol é alienação” — e achou mais prudente, e natural, ficar em terra de sapo, de cócoras com ele. Em silêncio, todos danaram-se a beber, que os garçons do Savoy serviam bem na alegria e na desgraça. Mercenários, tiravam partido da pátria em qualquer circunstância.

Acabado o primeiro tempo, quase todos no Savoy tiveram a mesma ideia, porque se aglomeraram no banheiro. Ambiente para lá de carregado, elétrico. Spinelli, magro e desengonçado, entra no círculo ácido do mijo. E até hoje ele não sabe por que razão, e até hoje ele oculta dos seus o momento raro do perigo que passou, e que soubemos depois do abismo. Na volta do banheiro, em um corredor estreito e infernal, ele esbarra em um popular irado, nervoso e tenso. Esbarrou por acaso, por maldito azar, mas o popular, essa categoria ótima para uma tese, mas bem arisca ao vivo, assim não entendeu.

— Tá cego? — e empurrou o nosso amigo contra a parede.

Spinelli, alto para os padrões do Recife, lutador de judô em aulas clandestinas, porque assim faria a segurança nas passeatas, reagiu ao empurrão. Ou seja, empurrou o popular de volta, como quem cumprimenta e vai embora. (Não era sua intenção saber o valor prático das aulas orientais que recebera, naquela hora e em outras.) Que faz, que fez? O popular lhe responde com um mais vigoroso empurrão. Spinelli volta, como se a parede do estreito corredor fosse um elástico que lhe desse um exemplo da terceira lei de Newton. E volta com o impulso de sua pequena massa inercial, somente para dar um instante breve de resposta ao segundo empurrão. Nisso, e como prova insofismável de que a toda desgraça corresponde outra maior, surge um indivíduo tão alto quanto o nosso amigo, porém mais volumoso em carnes, vontade de brigar e músculos. Que vinha a ser o amigo do popular irritado. E lhe diz, a Spinelli:

— Ei, magro, é briga, é?

Spinelli olhou de cima a baixo, e da direita para a esquerda, o homem-guarda-roupa. Sabemos nós, à distância, que os manuais de filosofia ensinam que só se deve correr quando houver possibilidades de espaço e circunstância. Mas o que não se encontra em nenhum manual, nem nos melhores livros, foi a resposta de gênio que achou o nosso amigo naquela hora de angústia, agonia, desespero e aflição. Acreditem e creiam, porque, em pleno intervalo do jogo final da Copa do Mundo, o nosso amigo gritou, com os braços erguidos:

— Viva o Brasil!

O amigo do popular, espantado com aquele golpe baixo, de gênio, reagiu como bom patriota. Abraçou Spinelli como se abraça um companheiro de torcida.

— Viva! Viva o Brasil!

Com as costas ainda a estalar nos ossos, o nosso amigo voltou ao abrigo de nossa mesa. E todos nós assistimos ao final de Brasil e Itália. De frente para a pequena tela, para melhor integração. E comemoramos, e pulamos, e gritamos gol. Sem remorso e sem dor na consciência. E saímos de lá abraçados e bêbados rumo ao Zumbi, onde morava Mário Sapo. Felizes a cantar. Afinal, estávamos todos metidos em nossa face legal. A de patriotas, no país de calções e chuteiras.

 

Fonte: Por Urariano Mota, em Brasil 247

 

Vegetarianos têm risco menor de câncer

A dieta vegetariana, que exclui qualquer tipo de carne e frutos do mar, mas inclui ovos e laticínios, reduz significativamente cinco tipos de câncer, segundo um dos maiores estudos a avaliar a associação entre alimentação e risco de tumores. Publicado no British Journal of Cancer, do grupo editorial Nature, o artigo mostra que, comparado aos carnívoros, os adeptos do padrão alimentar têm uma incidência menor de câncer de pâncreas (-21%), próstata (-12%), mama (-9%), rins (-28%) e mieloma múltiplo (-31%). Juntos, eles contribuíram com 39% da mortalidade por doenças oncológicas no Brasil em 2021, segundo dados do Instituto Nacional do Câncer.

Os pesquisadores, da Universidade de Oxford, no Reino Unido, usaram dados de aproximadamente 1,8 milhão de pessoas, rastreadas por uma média de 16 anos. O mesmo estudo constatou, porém, que os casos de carcinoma escamoso do esôfago são quase duas vezes maiores entre vegetarianos. Já os veganos, que excluem da alimentação qualquer produto de origem animal, apresentaram uma incidência 40% maior de tumor colorretal comparado aos carnívoros. O número absoluto de casos entre aqueles que se abstém de carnes, ovos e laticínios, porém, foi pequeno, ressaltaram os cientistas.

Os pesquisadores lembram que o estudo é observacional, ou seja, não estabelece uma relação de causa e efeito. Algumas pistas, porém, podem explicar as descobertas, dizem. Para Tim Key, professor de epidemiologia da Universidade de Oxford e coautor do estudo, as reduções observadas em cinco tipos de câncer entre os vegetarianos reforçam uma tendência já sugerida por pesquisas epidemiológicas anteriores de que dietas baseadas em plantas podem ter um efeito protetor em relação a certos cânceres, possivelmente por meio de maior ingestão de fibras, fitoquímicos, antioxidantes e menor exposição a compostos potencialmente cancerígenos encontrados em carnes processadas.

O coordenador do Serviço de Oncologia Clínica do Hospital Santa Marcelina (SP), Roberto Odebrecht Rocha, destaca que outras pesquisas têm associado a alimentação saudável com a prevenção do câncer. "Estudos mostram que dietas baseadas no consumo de açúcar, gorduras saturadas, gorduras trans e alimentos ultraprocessados contribuem para o aumento dos índices de câncer de várias formas", ressalta. "Desta forma, recomenda-se a ingestão de uma dieta rica em alimentos nutritivos, como grãos integrais, vegetais, frutas e feijões", diz.

A Organização Mundial da Saúde já alertou que o consumo de carnes processadas, como salsicha, linguiça, presunto e bacon, aumenta significativamente o risco de alguns tipos de câncer. A OMS também destaca que a carne vermelha em excesso é um possível fator cancerígeno.

<><> Micronutrientes

Aurora Pérez-Cornago, principal autora do estudo, disse, em nota, que o risco aumentado de carcinoma escamoso em vegetarianos e de câncer colorretal em veganos pode estar associado a deficiências de micronutrientes, como vitaminas do complexo B e minerais como o zinco. Na população do Reino Unido, um dos países onde a pesquisa foi conduzida, a ingestão de cálcio por adeptos de dietas baseadas em estritamente em vegetais é de 590 mg por dia, quando o valor recomendado é 700 mg. "Mas mais pesquisa é necessária para compreender o que levou a essas diferenças encontradas", afirmou.

O estudo também incluiu categorias intermediárias de dietas: pessoas que comem peixe, mas não carne vermelha, e quem consome apenas aves. Embora menor, também houve redução no risco de câncer de cólon, mama, rim e próstata, em comparação aos carnívoros.

Os pesquisadores alertam, porém, que as descobertas devem ser interpretadas com cautela e que ajustes nutricionais precisam ser feitos com acompanhamento de um profissional de saúde. Dagfinn Aune, professor do Departamento de Epidemiologia e Bioestatística do Imperial College London, na Inglaterra, também reforça que, embora amplo, o estudo pode não ter força estatística suficiente para detectar associações claras em todos os tipos de câncer pesquisados.

"Surpreendentemente, não houve redução no risco de câncer de cólon ou colorretal entre os vegetarianos no estudo, o que diverge de vários estudos anteriores (a maioria relatou reduções no risco de 10% a 40%", pondera Aune.  Os resultados nulos para câncer colorretal também divergem de um grande conjunto de evidências que mostram que a carne vermelha e processada aumenta o risco de câncer colorretal, enquanto uma maior ingestão de fibras e grãos integrais reduz o risco", observa.

>>> Três perguntas para Rayanne Marques, nutricionista em Brasília

•        Quais mecanismos nutricionais ou biológicos podem explicar a associação entre dieta vegetariana e menor risco de alguns cânceres?

Como nutricionista, avaliamos esse tipo de resultado olhando para o padrão alimentar como um todo. Dietas vegetarianas costumam ser naturalmente mais ricas em fibras, antioxidantes, fitoquímicos e compostos anti-inflamatórios presentes em frutas, verduras, leguminosas e grãos integrais. Esses nutrientes ajudam a modular processos metabólicos importantes, como controle glicêmico, microbiota intestinal e inflamação crônica, fatores que sabemos estar relacionados ao desenvolvimento de diversos tipos de câncer. Outro ponto relevante é a menor ingestão de carnes processadas e, muitas vezes, de carnes vermelhas, que estão associadas a compostos potencialmente carcinogênicos formados no processamento e em métodos de cocção em altas temperaturas. Além disso, pessoas vegetarianas frequentemente apresentam menor índice de massa corporal, e o excesso de gordura corporal é um fator de risco conhecido para vários tumores, especialmente os hormonais, como o câncer de mama.

•        O estudo também encontrou maior risco de alguns tumores em vegetarianos e veganos. Isso pode estar ligado a deficiências nutricionais?

Esse é um ponto que precisa ser interpretado com cautela. Em alguns casos específicos, como o carcinoma escamoso de esôfago observado em vegetarianos e o maior risco de câncer intestinal em veganos, os próprios pesquisadores destacam que o número de casos foi pequeno, o que limita conclusões definitivas. Do ponto de vista nutricional, é plausível que dietas restritivas mal planejadas apresentem ingestão insuficiente de certos micronutrientes, como cálcio, vitamina B12, zinco ou riboflavina, que participam de funções importantes para integridade celular, imunidade e manutenção de tecidos. Por exemplo, no caso dos veganos, uma ingestão baixa de cálcio pode ocorrer se não houver consumo adequado de alimentos fortificados ou fontes vegetais ricas nesse mineral. Ou seja, não é a ausência de carne em si que determina risco, mas sim a qualidade e o equilíbrio nutricional da dieta.

•        É possível afirmar que é a alimentação, e não outros hábitos, que explica a diferença de risco em alguns tipos de câncer?

Não totalmente. Estudos desse tipo mostram associação, não causalidade direta. Pessoas que seguem dietas vegetarianas muitas vezes também têm outros comportamentos de saúde positivos, como praticar mais atividade física, consumir menos álcool, fumar menos e ter maior cuidado com exames preventivos. Mesmo com ajustes estatísticos, sempre existe a possibilidade de fatores de estilo de vida influenciarem os resultados. Portanto, a principal leitura clínica é que padrões alimentares ricos em vegetais e com menor presença de ultraprocessados tendem a ser protetores. Mas isso não significa que apenas retirar carne seja suficiente, o mais importante continua sendo a qualidade global da alimentação.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Do tarifaço à bolha de IA: os desafios da economia em 2026

A economia global enfrentou uma série de desafios em 2025, incluindo fortes tensões comerciais, crescimento desigual porém moderado e preocupações crescentes com níveis elevados de inflação e dívida em muitas partes do mundo. A expectativa é que vários desses problemas continuem em 2026.

A Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) estima que o crescimento global desacelerará moderadamente, de 3,2% em 2025 para 2,9% em 2026. A entidade afirmou que a economia mundial mostrou resiliência este ano, mas continua frágil.

A administração do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, surpreendeu o mundo em abril ao impor um novo regime abrangente de tarifas , com o objetivo de remodelar os fluxos do comércio global e reduzir os grandes déficits dos EUA. A medida provocou turbulência nos mercados, incerteza nos negócios e ajustes nas cadeias de suprimentos.

Desde então, Washington fechou acordos com muitos de seus parceiros comerciais. Ainda assim, a tarifa média dos EUA passou de 2,5%, quando Trump retornou à Casa Branca em janeiro de 2025, para 17,9%, o nível mais alto desde 1934, segundo cálculos do Laboratório de Orçamento da Universidade de Yale.

<><> Tensões tarifárias entre EUA e China devem persistir

Espera-se que a Suprema Corte dos EUA anuncie sua decisão no próximo ano sobre se o presidente americano pode contornar o Congresso para impor tarifas, invocando uma emergência nacional. Muitos observadores acreditam que o tribunal superior confirmará as conclusões das instâncias inferiores de que as tarifas impostas por Trump são ilegais. Mesmo que os juízes derrubem as tarifas, a administração pode recorrer a outros meios legais para restabelecer parte das taxas. Portanto, as tarifas provavelmente continuarão sendo uma questão importante em 2026.

atrito comercial entre os EUA e a China , as duas maiores economias do mundo, também deve persistir. As tensões diminuíram desde que Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, se encontraram em outubro e concordaram com uma trégua de 12 meses na guerra comercial. Mas a trégua é frágil, e as questões econômicas e estratégicas subjacentes permanecem sem solução.

O acordo comercial entre EUA e China "é semelhante a um cessar-fogo, e não a um acordo de paz duradouro que encerraria a guerra comercial”, disse Rajiv Biswas, diretor executivo da empresa de análise de riscos Asia Pacific Economics, à DW.

"Os EUA e a China continuam presos em uma competição geoestratégica, que impulsiona a rivalidade em áreas-chave como tecnologia de defesa e indústrias avançadas de manufatura, como inteligência artificial (IA), computação quântica e robótica", destacou.

Biswas enfatiza que a luta pela supremacia tecnológica entre EUA e China provavelmente se estenderá no próximo ano.Haverá "uso crescente de tarifas, sanções e outras medidas econômicas em áreas-chave da rivalidade tecnológica, como equipamentos avançados de defesa, chips de IA, computação quântica e robótica", observou.

<><> Desequilíbrio comercial entre a China e o restante do mundo

Ainda assim, espera-se que a economia chinesa permaneça resiliente no próximo ano, expandindo cerca de 5%, em linha com as metas recentes do governo.

Mas os desafios estruturais profundos do país persistem, como "envelhecimento demográfico, declínio da produtividade marginal do capital e excesso de capacidade em muitos setores industriais, como aço, construção naval e produtos químicos", disse Biswas.

Neil Shearing, economista-chefe da Capital Economics, empresa global de pesquisa macroeconômica independente sediada em Londres, afirmou em uma nota que o modelo de crescimento da China "continua priorizando a oferta em detrimento da demanda, resultando em excesso crônico de capacidade e consumo persistentemente fraco".

Para enfrentar esses problemas, os líderes chineses prometeram recentemente impulsionar o consumo interno e estabilizar o vasto e problemático mercado imobiliário, entre outras medidas.

"Os formuladores de políticas estão se comprometendo a resolver o problema, mas o desequilíbrio continuará sendo uma característica marcante da economia chinesa em 2026", observou Shearing.

Alicia Garcia-Herrero, economista-chefe para a Ásia-Pacífico no banco de investimento francês Natixis, disse que as tarifas de Trump afetarão mais as nações asiáticas em 2026. Ela atribuiu isso às tensões geopolíticas contínuas, à crescente fragmentação do comércio e à falta de maior integração regional para compensar as tarifas.

<><> Inflação e o dilema dos bancos centrais

A inflação permaneceu elevada em muitas partes do mundo, incluindo os EUA e a zona do euro, em parte devido às tarifas.

Novos aumentos nas barreiras comerciais ou interrupções nas cadeias de suprimentos podem acelerar a alta dos preços, apresentando um dilema para os bancos centrais: aumentar as taxas de juros para combater a inflação ou mantê-las baixas para apoiar o crescimento.

O aumento das taxas de juros pode prejudicar o crescimento e provocar um salto nos custos de serviço da dívida de países altamente endividados e financeiramente mais frágeis.

Muitas nações da zona do euro, como a França, são particularmente vulneráveis, já que seus governos têm enfrentado dificuldades para implementar cortes de gastos impopulares a fim de conter déficits e dívidas crescentes.

"As tensões fiscais que abalaram os investidores em vários momentos deste ano continuarão a assombrar os mercados em 2026. Agora é amplamente aceito que as finanças públicas de várias grandes economias avançadas estão em um caminho insustentável", escreveu Shearing.

A economia da Alemanha, a maior da União Europeia (UE), mas que luta para sair de uma longa recessão, deve receber um impulso no próximo ano com o aumento dos gastos governamentais em defesa e infraestrutura. Mas o sentimento empresarial continua pessimista. Institutos econômicos líderes reduziram recentemente suas previsões de crescimento para 2026. O instituto Ifo, por exemplo, agora prevê apenas 0,8% de expansão no próximo ano, ante 1,3% na previsão anterior. O governo alemão, no entanto, projeta crescimento de 1,3% em 2026.

<><> A temida bolha da IA

Espera-se que o boom da inteligência artificial (IA) continue no próximo ano. As grandes empresas de tecnologia dos EUA reservaram centenas de bilhões de dólares para construir e expandir a infraestrutura de IA, como centros de dados.

Esses investimentos devem contribuir significativamente para o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) nos EUA, em comparação com outras regiões do mundo, dado o baixo nível de gastos em outros lugares.

Mas os investidores estão cada vez mais preocupados com as avaliações elevadas das empresas de tecnologia dos EUA, já que ainda é incerto se os enormes gastos em infraestrutura de IA serão, no fim das contas, lucrativos. Alguns temem que isso tenha se tornado uma bolha que pode estourar e causar um colapso nos mercados.

Garcia-Herrero disse à DW que a "revolução da IA é estrutural" e que a transformação tecnológica e a adoção continuarão em 2026.

Ela alertou, no entanto, que se essa bolha estourar e os gastos com IA caírem abruptamente, a economia e as famílias dos EUA sofrerão um grande impacto, provavelmente mergulhando a maior economia do mundo em recessão e reduzindo o crescimento global.

¨       A nova ordem internacional, a Venezuela e o Brasil. Por José Maurício Domingues

Estamos, nesta quadra histórica, passando por um processo de transição no seio da modernidade, para uma nova fase. A anterior se baseava em crenças neoliberais de liberdade de mercado e Estados fortes para manter a ordem, inclusive no caso da China, com um liberalismo internacional baseado no livre comércio e no multilateralismo, cristalizado no sistema das Nações Unidas (ONU), bem como, ainda que de forma limitada, no direito internacional. Evidentemente, os Estados Unidos, por um breve tempo excepcional, a única potência mundial após a derrota da União Soviética, se permitia jogar com as regras do sistema internacional, desconsiderando tudo isso quando lhe interessasse.

Essa nova fase vai se desenhando com uma face retorcida em que o direito internacional e o multilateralismo são postos em xeque e a soberania nacional, sagrada desde o fim da Segunda Guerra Mundial, passa a ser relativizada mediante conquistas territoriais. Destacam-se as grandes potências e a força bruta, desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, o genocídio palestino por Israel e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelos Estados Unidos, sem falar das loucas ameaças de anexação da Groelândia pelo presidente Donald Trump.

O capitalismo é cada vez mais diretamente apoiado pelo Estado e se mostra ainda mais voraz por parte de certas empresas dos EUA. Enquanto isso, bem diferentemente da União Soviética, com seu projeto cosmopolita e internacionalista que rivalizava com o liberalismo de semelhante teor dos EUA, a China segue com sua política fundamentalmente nacionalista.

A modernidade sempre incluiu, do ponto de vista global, uma dualidade entre o Estado nacional, em sua multiplicidade, e uma ordem internacional que desde 1945 se delineou progressivamente, ainda que de modo imperfeito, como multilateral. Hoje o polo dos estados nacionais predomina, com gravíssimas consequências. Se a China se atém a seu nacionalismo (do que a falta de apoio por exemplo a Cuba é testemunho), embora aposte bastante no sistema multilateral de governança global (bloqueando em contrapartida qualquer coisa que se refira aos direitos humanos, em seu território e em outros países como o Irã), a Rússia, pressionada equivocadamente pelos europeus e pelos EUA, iniciou uma custosa aventura na Ucrânia e sonha em vão com retomar tempos de glória.

As grandes modificações se dão, surpreendentemente, por parte dos próprios EUA, o principal criador do sistema ONU no pós-1945. Como recentes documentos de política externa (notadamente o “National Security Strategy of the United States of America”, de novembro de 2025, e o “2026 National Defense Strategy: Restoring Peace Through Strengh for a New Golden Age of America”, de janeiro de 2026, mais claro quanto a intervenções militares) defendem de modo explícito, os polos do sistema internacional são o que importa, a Europa deve ser estabilizada e subordinada, a China contida, o poder dos EUA, ainda inconteste, apesar da ascensão da China, reafirmado. À América Latina reserva-se a definição de zona de direta e quase exclusiva influência. Além disso, segundo a nova doutrina, os EUA, de modo geral, não devem se importar com as características dos regimes políticos dos países com os quais negociam. Este é o caso, inclusive, da Venezuela pós-Maduro, cujos governantes autoritários neochavistas os EUA deixarão em paz desde que se adequem aos desígnios de Trump.

Há muitas questões envolvidas no caso venezuelano. O regime chavista atual, espécie de autocracia de estilo vertical soviético-cubano, com a institucionalização antidemocrática produzida pelo presidente Hugo Chávez, mesmo sendo derrotado em plebiscito que ele próprio convocou sobre o tema, é, ao contrário do que grande parte da esquerda tupiniquim professa, indefensável. Além do mais, adotou em larga medida o neoliberalismo e entregou as zonas mineiras do país, inconstitucionalizadas, à governança direta dos militares. Em contrapartida, o ataque de Trump rompe frontalmente não apenas com o multilateralismo como também com o direito internacional, reafirmando o polo de poder dos EUA, que se crê – e de fato se mostra – como o mais forte do mundo, como as tíbias reações da Rússia, da China e da Europa, mas igualmente dos países latino-americanos, demonstram. Quem poria o guizo no pescoço do gato?

Esse ataque deixa claro que a posição dos países latino-americanos é muito frágil. As tentativas de integração do subcontinente sul-americano, excluindo até o México, eram de cunho político, antes que econômico e social, o que aí sim poderia garantir uma teia de relações sustentável. Somos todos países exportadores de produtos primários, em princípio até mesmo competidores. Sobra o cambaleante Mercosul. A ascensão de governos de direita por toda parte – em larga medida por erros graves e repetidos das esquerdas – rompeu esses processos políticos. O sonho de fazer do Brasil um dos polos do sistema internacional, inclusive com assento no Conselho de Segurança da ONU, se evidencia como uma falácia. Num sistema de polos e grandes poderes, a América Latina cai sob a hegemonia dos EUA, com o Brasil jogando, no máximo, um papel de coadjuvante.

Na verdade, o avanço do Brasil só pode se dar em uma situação de respeito ao multilateralismo e ao direito internacional, por mais frágil que este seja, uma vez que não há força ou agente capaz de garantir seu cumprimento. A esquerda que aposta na política de polos, em geral compartilhando também uma admiração pelo autoritarismo chinês, russo, venezuelano e até mesmo iraniano, está profundamente equivocada. É como se o Brasil fosse tornar-se, juntamente com China e Rússia, em contraposição aos EUA, um novo polo do sistema internacional.

Isso é uma ilusão: o Brasil não consegue influenciar de forma sustentada sequer a América Latina. De todo modo, não deve o Brasil, com um ufanismo defasado, querer-se como hegemônico no continente. Ele deve se apresentar como uma força de colaboração e coesão entre todos, da Argentina ao México, descartando, além do mais, o tipo de políticas calcadas na atuação das Odebrechts da vida.

Assim, a afirmação do multilateralismo e, a despeito de sua fragilidade, do direito internacional – inclusive no sentido de rejeitar qualquer ruptura da soberania nacional, afora em casos extremos de maltrato dos povos por seus Estados ou por outros – deve nortear a política do Brasil no mundo. Isso inclui uma clara postura anti-imperialista, que voltou abertamente com Trump. Essa perspectiva deve ser combinada, sempre, com nossa tradição de política externa independente, sem que nos subordinemos a nenhum polo, ao mesmo tempo em que negociamos avanços para o país e para a ordem planetária. No momento, isso requer ainda uma estratégia cautelosa e defensiva, porém firme, ao menos até o fim do governo Trump, embora quem o suceda, republicano ou democrata, provavelmente não mude a essência da nova estratégia e da nova política externa estadunidense, se bem que possa suavizar seu comportamento.

De todo modo, o multilateralismo não está morto. É o que o Tratado União Europeia-Mercosul, o novo acordo global sobre os oceanos e mesmo a luta contra a mudança climática demonstram, não obstante a ausência e rejeição dos EUA. O Brics pode ser um elemento desse multilateralismo renovado e relevante para o Brasil, embora suas reais potencialidades (econômicas e de governança global) sejam bem menores do que as expectativas e esperanças nele depositadas, inclusive porque é em larga medida parte de um projeto de hegemonia global por parte da China (como sua ampliação – na marra – há não muito tempo deixou claro).

Para o Brasil é ainda mais problemática a situação na medida em que estamos, queiramos ou não, a mitiguemos ou até mesmo a superemos parcialmente, sob o que os EUA consideram como sua zona de influência. Acima de tudo, junto a uma política externa independente, recuperar uma ONU fortalecida – contra a manobra de criação de um Conselho da Paz imperial como proposto por Trump –, contando com seus órgãos auxiliares, entre outros para a saúde, o clima, os direitos humanos – fortalecido e sem compromissos – e o desenvolvimento, com uma governança distinta e ampliada do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, deve ser um projeto da esquerda brasileira e inclusive mundial.

Apesar de deslizes (como ser o único presidente de país democraticamente governado a comparecer extemporaneamente a uma cerimônia na Rússia) e equívocos na perspectiva de alguns formuladores da política externa (que saudaram o fim do multilateralismo e a política de polos de grandes poderes), o governo do presidente Lula da Silva vem se mexendo bem em situação tão delicada. Sem confrontar Trump, reafirma suas perspectivas, aposta no multilateralismo e no direito internacional, dentro de suas possibilidades, e avança em negociações mundo afora.

A situação é difícil, mas não desesperadora. É preciso proteger-se e abrir espaços para virar o jogo e retomar o projeto de uma ordem global cosmopolita e justa, emprestando uma inflexão decisiva a esta nova fase da modernidade.

 

Fonte: DW Brasil/Correio da Cidadania

 

“Talvez seja o momento mais delicado da democracia estadunidense nos últimos dois séculos”, diz embaixador

John Feeley é um ex-diplomata estadunidense. Atende o telefone em Porto Rico e parece calmo, mas a situação em seu país e no mundo o altera um pouco. Feeley se formou em Ciências na Escola de Serviço Exterior da Universidade de Georgetown, em 1983. Serviu no Corpo de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos, de 1983 a 1990, e pilotou helicópteros de assalto anfíbios no Líbano, nãos anos 1980, após o atentado perpetrado em 1983 contra os fuzileiros navais, em Beirute.

Foi embaixador dos Estados Unidos no Panamá de 2015 até sua renúncia em 9 de março de 2018. É também diretor-executivo do Centro de Integridade de Mídia das Américas: “Nosso objetivo aqui é fortalecer o jornalismo de qualidade em todas as Américas. Diante do avanço do autoritarismo, a ferramenta mais poderosa é a verdade. Como dizia Thomas Jefferson, uma democracia não existe sem jornalistas fortes”.

Feeley é um observador e analista muito ativo na esfera política estadunidense. De Porto Rico, o ex-embaixador opina e aborda a complexa situação de seu país e a intrincada situação política global pendente das decisões e caprichos do presidente dos Estados Unidos.

<><> Eis a entrevista.

·        O senhor fez parte do corpo diplomático dos Estados Unidos em diversos cargos. Como caracterizaria este momento da história das relações internacionais?

Em perspectiva, vemos ciclos que costumam se expressar como momentos revolucionários e contrarrevolucionários. Eu diria que hoje, nos Estados Unidos e em boa parte do mundo, estamos atravessando um momento contrarrevolucionário. Depois de 1945, com os Acordos de Bretton Woods, que regulamentou as relações monetárias, financeiras e comerciais do mundo, a criação da ONU e o estabelecimento de uma ordem liberal – sob a liderança estadunidense – conseguiu-se evitar uma conflagração nuclear por mais de oito décadas.

No entanto, com o tempo, as instituições democráticas deixaram de responder às expectativas de seus cidadãos. Isto ocorreu sobretudo no Sul Global, mas também na Europa e nos Estados Unidos. Após a queda do Muro de Berlim, houve uma espécie de “coma democrático”. Ficamos concentrados na criação de riqueza e descuidamos do trabalho contínuo requerido para sustentar a democracia, como alguém que deixa de cuidar de um jardim.

·        Em sua avaliação, essa crise explica a emergência de figuras que questionam abertamente a democracia, como alguns magnatas da tecnologia?

Estamos, sem dúvida, em um ponto de virada. Talvez este seja o momento mais delicado da democracia estadunidense, nos últimos dois séculos. Embora soe paradoxal, vivemos uma contrarrevolução porque a verdadeira revolução foi construir uma democracia tão estável que a consideramos assentada. Não acredito que a resposta seja simplesmente voltar à democracia de 20 ou 30 anos atrás. Precisamos reforçar um novo conceito democrático, mais atento às reais necessidades das pessoas e menos capturado por corporações, bilionários e os “tech brothers”. A brecha obscena de riqueza entre esses setores e o resto da sociedade é uma profunda fonte de corrupção e, em termos filosóficos, de ganância.

·        Como o senhor enxerga o papel histórico dos Estados Unidos como “ordenador” do mundo, da América Latina ao Oriente Médio, e hoje com casos como o da Venezuela?

Li que alguém havia escrito uma frase em uma peça de roupa: “Roupa, você vai sentir falta da era estadunidense”... É justo dizer que os Estados Unidos sempre pregaram uma “boa nova”: 

“democracia, transparência, anticorrupção, competitividade”. E é verdade que muitas vezes não agiu de acordo com esses princípios. Isso é inegável. Mas também havia - e acredito que ainda existe - uma vocação para a liderança global, não necessariamente para ser o policial do mundo.

Hoje, estamos em um momento diferente. O governo Trump se vê como o novo xerife de um filme de faroeste: o caubói com chapéu e pistolas, onde rege a lei do mais forte. Não acredito que isso beneficie os estadunidenses, nem o resto do mundo. A verdadeira saída deveria ser uma refundação do compromisso cidadão com seu próprio destino: autodeterminação, sim, mas com cidadãos informados. Isto exige um grande investimento em educação cívica.

·        Voltou-se a falar dos Estados Unidos como um império. Isso o incomoda?

Nós, diplomatas estadunidenses, não gostamos dessa palavra, talvez porque às vezes ela descreva a realidade muito bem. O imperialismo clássico envolvia colônias. Os Estados Unidos tiveram bem poucas: Panamá, Porto Rico, Filipinas e Cuba. Mais do que colônias, sempre buscaram influência: comercial, política, estratégica.

Nesse sentido, durante o século XX, praticaram um tipo de neoimperialismo que, no geral, considero majoritariamente benigno. Durante décadas, os Estados Unidos foram o principal provedor mundial de ajuda humanitária, o país que mais recursos dedicou a promover a democracia – também na Argentina – e o maior mercado aberto do mundo.

Nossa história não é totalmente coerente, mas continuo acreditando que, com todos os seus erros, os Estados Unidos foram uma força majoritariamente positiva. Dito isso, estamos apenas a pouco mais de um ano da vitória de Trump, em 2024, e penso que começamos mal, especialmente com políticas como as relacionadas à Venezuela, mais orientadas ao acesso ao petróleo do que a uma verdadeira agenda democrática.

·        Existe algum projeto de divisão do poder global com a Rússia e a China, por meio de suas esferas de influência?

É interessante porque Trump nunca usa esse termo explicitamente, mas tem uma compreensão instintiva das esferas de influência, baseada em um modelo quase mafioso. Sua visão de mundo se formou na Nova York dos anos 60, 70 e 80, onde a máfia organizava a economia ilegal e negociava territórios. Como em O Poderoso Chefão, os chefões se sentavam para dividir as regiões. No entanto, não vejo que Trump tenha feito algo equivalente com Xi Jinping e Vladimir Putin.

Putin age como se a Ucrânia fizesse parte de sua esfera; a China considera o mesmo em relação a Taiwan; e Trump parece assumir que todo o hemisfério ocidental, da Groenlândia à Terra do Fogo, pertence à esfera de influência estadunidense. Existem outros atores relevantes no cenário global: Europa, Japão, Coreia do Sul, Índia. Não são tão poderosos militarmente quanto os Estados Unidos, a Rússia e a China, mas têm voz e voto.

É verdade que esses três líderes podem imaginar o mundo em termos de esferas de influência, mas enquanto não houver um acordo explícito entre eles, como aconteceu em 1945, com Bretton Woods e a criação da ONU, não haverá regras claras para a nova ordem internacional.

·        Que futuro enxerga para o direito internacional e organizações como a ONU, com os Estados Unidos retirando seu financiamento dessas instituições?

As instituições internacionais estão na UTI. Por décadas, muitos países criticaram o intervencionismo estadunidense, algo com o que lidei em toda a minha carreira diplomática. Contudo, agora, o mundo começa a dimensionar quanto dinheiro o povo norte-americano direcionava para que esses sistemas funcionassem. É verdade, os Estados Unidos ajudaram a criar essas instituições em benefício próprio, mas Donald Trump não acredita que essa rede de organismos tenha servido aos interesses do cidadão estadunidense e, em termos históricos muito rápidos, decidiu se retirar de quase todos.

Um caso particularmente trágico é o da USAID. Já existem relatórios preliminares que mostram um aumento das mortes - crianças, gestantes, populações vulneráveis – em consequência direta do desmantelamento da ajuda humanitária. Isto é devastador. No entanto, deve servir de alerta para o resto do mundo: se não quisermos entrar em uma etapa prolongada regida pela lei do mais forte, os países menores deverão se coordenar e pressionar os Estados Unidos a recuperar uma liderança baseada em valores, cooperação e paz internacional.

·        Como o senhor imagina o futuro político de Trump? É possível um impeachment? O que vem pela frente, na linha de sucessão?

Um impeachment depende, em última instância, do eleitorado estadunidense. O procedimento é claro: começa na Câmara dos Representantes e depois segue para o Senado. Isso já aconteceu com Trump duas vezes: a Câmara dos Representantes avançou, mas o Senado o absolveu. As regras constitucionais não vão mudar.

No entanto, a composição do Congresso pode mudar nas eleições de meio de mandato de 2026. Se os democratas recuperarem as duas casas, um impeachment é muito provável. O próprio Trump reconheceu isso. Dito isso, basta que uma das casas permaneça nas mãos republicanas para bloqueá-lo. E é aí que aparece uma brecha: Trump já perdeu apoio dentro de seu próprio partido, como se viu na rejeição de vários senadores republicanos ao uso de poderes de guerra na Venezuela. Esse é um calcanhar de Aquiles sério.

·        O senhor foi embaixador no Panamá até a chegada de Trump ao poder. Por que renunciou?

Sou um funcionário de carreira em segurança nacional. Minha lealdade sempre foi à Constituição, não a um presidente. Servi tanto a governos republicanos quanto a democratas. Durante a campanha de 2016, fiquei profundamente preocupado com a retórica de Trump: seu discurso sobre migrantes, sobre alianças como a OTAN, sobre a América Latina. Como servidor público, permaneci em silêncio o máximo que pude. Até que não pude mais.

O ponto de ruptura foi Charlottesville, quando ele disse que havia “pessoas muito boas dos dois lados”. Vi com meus próprios olhos neonazistas e supremacistas brancos (naquela manifestação de 2017, em que um carro dirigido por um supremacista atropelou uma multidão que protestava contra esses grupos extremistas, com uma pessoa morta e 19 feridas). Para mim, foi moralmente impossível continuar representando um presidente a quem não podia servir com honestidade e lealdade, por isso renunciei.

¨      O que Trump quer ao atacar o Irã e o que ele pode conseguir

Pouco após Israel lançar o que chamou de "ataques preventivos" contra o Irã na manhã deste sábado (28/02), o presidente dos Estados UnidosDonald Trump, confirmou que as ações faziam parte de uma ampla ofensiva conjunta israelo-americana.

"Nosso objetivo é defender o povo americano, eliminando ameaças iminentes do regime iraniano", disse Trump num vídeo compartilhado nas redes sociais, prometendo destruir as capacidades nucleares e militares do Irã. "Vamos garantir que o Irã não obtenha uma arma nuclear", disse. Ao definir os objetivos da ofensiva, Trump também disse que os EUA destruiriam o programa de mísseis balísticos do Irã e suas forças navais.

Como a campanha militar dos EUA e de Israel contra o Irã não parece ser de curto prazo e limitada, analistas acreditam que o conflito pode continuar por semanas, se não meses. E em meio à tensão, o resultado dos objetivos que Israel e os EUA esperam alcançar permanece em aberto, e as consequências podem não ser as desejadas.

<><> 1º objetivo: Impedir o Irã de ter armas nucleares

Após a guerra de 12 dias entre o Irã e Israel em junho de 2025, Trump declarou que os EUA haviam "obliterado" as principais instalações nucleares do Irã e que o regime fundamentalista não seria capaz de construir armas nucleares num futuro próximo.

"Os EUA estão conduzindo uma guerra cujo objetivo é, mais uma vez, destruir esse programa, então acho que isso é um pretexto", avalia Marcus Schneider, especialista da Fundação Friedrich Ebert (FES, na sigla em alemão) no Líbano.

"O programa nuclear do Irã sofreu um revés na época devido aos ataques dos EUA; alguns dizem que esse revés foi de alguns meses, outros, de alguns anos", diz. "Mas acredito que ele não pode ser eliminado. É também uma questão de conhecimento técnico, o que significa que, se o Irã tem o conhecimento técnico para construir essas centrífugas e enriquecer [urânio], então isso é algo que você não pode eliminar com a força aérea."

Shahin Modarres, analista de segurança baseado na Itália, afirma que um Irã com armas nucleares sempre será visto por Israel e pelos EUA como inaceitável. "Impedir a militarização nuclear é, portanto, um objetivo estratégico, não apenas uma preferência política", afirma.

Diba Mirzaei, do Instituto Alemão de Estudos Globais e Regionais (Giga), por sua vez, vê um pretexto para justificar a guerra, argumentando que "atualmente não há nenhum perigo prático emanando do Irã".

As negociações entre os EUA e o Irã em Genebra esta semana sobre o programa nuclear de Teerã não produziram resultados concretos antes do início dos ataques.

<><> 2º objetivo: Eliminação do programa de mísseis balísticos do Irã

Alguns especialistas acreditam que os EUA e Israel consideram as capacidades balísticas de Teerã uma ameaça maior do que seu programa nuclear. Na guerra de 12 dias do ano passado, o Irã demonstrou que seus mísseis poderiam causar danos a Israel e às instalações militares dos EUA na região.

"Operacionalmente, instalações de produção, locais de armazenamento e cadeias de aquisição de combustível sólido são alvos possíveis – como demonstraram os recentes ataques a infraestruturas relacionadas a mísseis", destaca Modarres.

"No entanto, o know-how tecnológico não pode ser destruído com bombas", diz ele, acrescentando que a erradicação completa do programa de mísseis do regime iraniano "é improvável, mas uma degradação severa e uma limitação de longo prazo da capacidade são possíveis".

Schneider concorda: "É uma indústria nacional, o que significa que não se trata de mísseis balísticos importados. O Irã está em posição, como provou desde o fim da última guerra, de produzi-los por conta própria. É claro que é possível destruir o arsenal, mas a questão é quanto tempo isso levará e quem será prejudicado no processo".

<><> 3º objetivo: Destruição das forças navais do Irã

Para Schneider, é mais viável para os EUA aniquilar a Marinha do Irã do que suas capacidades de mísseis. "É claro que isso é militarmente possível. Mas é preciso entender que o Irã também têm muitos barcos pequenos – as chamadas lanchas rápidas. Portanto, acho que não é algo que possa ser alcançado em uma semana", diz o analista.

Modarres destaca que há um precedente histórico para esse tipo de operação. "Durante a Operação Louva-a-Deus (1988), os EUA causaram graves danos às capacidades navais do Irã. Se a liberdade de navegação – especialmente no Estreito de Ormuz, que é um ponto crítico para o abastecimento energético global – for ameaçada, os EUA poderão justificar uma ação naval em grande escala. O objetivo estratégico disso seria garantir a abertura das rotas marítimas", enfatiza Modarres.

Sara Kermanian, pesquisadora de relações internacionais da Universidade de Sussex, no Reino Unido, compartilha dessa opinião: "Os Estados Unidos poderiam causar graves danos às forças navais ativas do Irã no curto prazo, degradando significativamente sua capacidade de interromper o tráfego marítimo".

<><> 4º objetivo: Mudança de regime

Não está claro como Trump pretende alcançar esse objetivo por meio de sua mais recente campanha militar, já que Washington não deu indícios de que iniciará operações terrestres dentro do Irã. Mas relatos de ataques aéreos israelenses e americanos contra alvos militares e governamentais dentro do Irã mostram que a campanha visa enfraquecer substancialmente o regime.

"Quando terminarmos, assumam o controle do seu governo. Ele será seu. Esta será provavelmente a sua única chance por gerações", disse Trump em seu discurso neste sábado. "Por muitos anos, vocês pediram a ajuda dos Estados Unidos, mas nunca a receberam."

Modarres diz que novos protestos em massa contra o regime linha-dura do líder supremo Ali Khamenei, semelhantes aos de janeiro, são prováveis, mas exigiriam um evento desencadeador poderoso. "Dada a memória da repressão, é improvável que haja uma revolta espontânea sem que haja um enfraquecimento estrutural do regime. Declarações que sugerem oportunidades podem funcionar mais como sinais estratégicos do que como compromissos firmes", avalia.

Schneider diz que derrubar o regime exigiria tropas terrestres. "Acho bastante fantasioso imaginar que Trump pretenda fazer isso apenas com o poder aéreo e acredite que a população iraniana se levantará em meio a uma guerra e agirá contra esse regime brutal", diz.

"Se o objetivo real é a mudança de regime, então presumo que esta guerra irá durar mais tempo, possivelmente vários meses. E a grande questão que se coloca é a da resiliência do regime", sublinha.

Modarres diz que a oferta de imunidade de Trump aos membros da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC, na sigla em inglês) "é uma estratégia clássica que visa incentivar a deserção da elite e acelerar a fragmentação interna".

"Sua eficácia aumentará se a pressão militar e econômica sustentada enfraquecer a coesão do regime. A rendição institucional da IRGC só seria plausível em condições de um colapso sistêmico profundo", afirma.

<><> E se o objetivo de derrubar o regime não for alcançado?

Kermanian avalia que, se o objetivo de Trump de derrubar o regime não for cumprido, as consequências de curto prazo para os cidadãos podem ser graves.

"Um Estado ferido, mas intacto, pode responder com repressão intensificada, especialmente se perceber que segmentos da sociedade acolheram a pressão externa. Muito dependerá, então, de se a escalada será seguida por um acordo negociado que reestruture as relações e, pelo menos, alivie as sanções, ou se o confronto continuará em ciclos de sanções, conflitos por procuração e ataques periódicos", diz ela, acrescentando que, na ausência de um acordo, o Irã poderia entrar num período prolongado e mais severo de militarização e desgaste econômico.

 

Fonte: Entrevista com John Feeley, para Hector Pavon, em Clarín-Revista Ñ - tradução do Cepat, em IHU/DW Brasil