Gilberto
Lopes: Venezuela, Cuba, Oriente Médio – a desordem do mundo
Saio de
casa de manhã e encontro-o ao dobrar a esquina. O menino dorme à beira da
calçada. Um cobertor vermelho separa-o do chão de cimento. A mãe, enrolada na
bandeira da Venezuela, pede ajuda aos carros parados no semáforo. Como esse
menino verá o mundo quando acordar no chão da calçada? O que pensará? Não seria
de estranhar que tenha sonhado em ter algo para comer. Talvez algo saboroso.
No dia
1º. de maio do ano passado, Valentina Oropeza publicou, no BBC Mundo,
uma entrevista com o economista Omar Zambrano sobre as conclusões do estudo
intitulado “Crise econômica e o colapso do acervo de capital humano
venezuelano”. Omar Zambrano afirma que o pior da crise foi a hiperinflação.
Entre 2015 e 2017, ninguém queria trabalhar porque o salário não valia nada.
Os
dados são avassaladores; a desordem, enorme: “A Venezuela perdeu 75% do tamanho
de sua economia entre 2013 e 2021. Uma das contrações econômicas mais severas
registradas na história moderna. Pelo menos 7,7 milhões de pessoas emigraram na
última década”, afirma.
“A
desvalorização dos salários e a onda migratória levaram mais de 4 milhões de
pessoas em idade ativa a abandonar o mercado de trabalho, incluindo os
trabalhadores mais jovens, mais qualificados e com maior experiência”.
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Venezuela – a desordem do mundo
Será
parte desse grupo a família que agora pede ajuda nas ruas de San José? Na
entrevista, não há uma única palavra sobre as causas desta desordem. A
jornalista também não pergunta. É preciso procurar a informação em outras
fontes. Por sorte, elas são abundantes. Quem quiser saber tem à sua disposição
todo tipo de informação, das mais diversas fontes.
“Desde
o início, o governo de Hugo Chávez enfrentou ações imperialistas destinadas a
destituí-lo. O governo dos Estados Unidos sempre apoiou política e
financeiramente as tentativas da direita venezuelana de derrubá-lo, começando
pelo golpe de Estado de abril de 2002 e pelo bloqueio empresarial do petróleo
que praticamente paralisou o país durante dois meses entre 2002 e 2003”,
afirmou o sociólogo venezuelano Edgardo Lander. Chavista no início do processo,
hoje está mais próximo da oposição liderada por María Corina Machado.
Como
pode um país ter um desenvolvimento político “normal”, em que cada setor tenha
a representação que lhe corresponde, se um setor é subjugado pelas pressões de
Washington, enquanto o outro conta com todo seu apoio? É impossível.
O
desequilíbrio que isso gera distorce o cenário político, provocando, como no
caso da Venezuela, todo tipo de desordem. Primeiro, a econômica, com suas
repercussões dramáticas, incluindo a migração, de que tanto se queixa Donald
Trump. Mas também a política. Como se pode pretender a realização de “eleições
livres” com um setor submetido às maiores pressões econômicas e políticas, que
lhe tornam impossível governar? E se a oposição vence, essa vitória não
representa um equilíbrio político interno, mas o resultado do desequilíbrio
provocado pela intervenção estrangeira.
A
intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem sido permanente. Desde o final
do século passado, como já vimos. Em 2017, pouco antes de deixar o poder, o
presidente Barack Obama renovou a declaração abusiva de que a Venezuela
constitui uma “ameaça inusual e extraordinária à segurança nacional e à
política externa dos Estados Unidos”. Posteriormente, Donald Trump, em seu
primeiro mandato, ampliou o bloqueio financeiro à Venezuela, estendendo-o para
além dos Estados Unidos.
Em
fevereiro de 2021, a relatora especial das Nações Unidas sobre os efeitos das
sanções à Venezuela, Alena Douhan, apresentou um relatório detalhado sobre os
efeitos dessas medidas: “As sanções unilaterais impostas cada vez com maior
frequência pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por outros países
agravaram os problemas”, afirma. As receitas do governo “diminuíram 99%, e
atualmente o país vive com apenas 1% das receitas anteriores às sanções”.
Este
não é um trabalho sobre a economia venezuelana e não pretende, portanto,
debater as diversas interpretações sobre as causas e as origens de seus
problemas. Nosso interesse é outro: mostrar a desordem que a intervenção
estrangeira – principalmente norte-americana e europeia – provoca na vida dos
venezuelanos e no funcionamento das instituições do país.
Em
abril de 2019, Mark Weisbrot e Jeffrey Sachs expuseram, num trabalho sobre “Economic
sanctions as collective punishment: the case of Venezuela”, as
consequências dessas políticas: “Constatamos que as sanções infligiram, e
seguem infligindo cada vez mais, danos muito graves à vida e à saúde humanas,
incluindo uma estimativa de mais de 40 mil mortes entre 2017 e 2018”,
afirmaram.
É
impossível imaginar desordem maior. Não é necessário alongar-nos aqui sobre os
efeitos desastrosos das sanções na vida política e econômica do país, nem sobre
a população venezuelana.
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Cuba – a desordem do mundo
A
desordem mais escandalosa na América Latina é a provocada pelo embargo a que
Cuba está submetida há mais de 60 anos.
Outra
vez, como se pode pretender um desenvolvimento político “normal” – em que cada
força política interna tenha a representação que lhe corresponde – se o governo
está submetido a sanções que, em qualquer outro caso, não teriam permitido a
nenhum governo da região sobreviver mais do que alguns meses?
Não foi
assim no caso de Cuba. Também não vou discutir aqui se o governo acertou
sempre. Mas é evidente que acertou no fundamental, de modo que nem as sanções
norte-americanas, nem o fim do mundo soviético, no qual estava profundamente
inserido, significaram a queda do governo.
É
inútil atribuir isso à repressão. Sabemos muito bem (e os casos
latino-americanos são prova disso) que nenhuma repressão, por si só, explica
essa resistência. Sugiro que as transformações realizadas são a base da
explicação, apesar da desordem monumental que as sanções provocam na vida dos
cubanos.
Em
2024, o governo de Cuba apresentou à Assembleia Geral das Nações Unidas um
relatório sobre os efeitos do bloqueio econômico, comercial e financeiro a que
está submetida, condenado nesse ano por 187 países, com apenas dois votos a
favor: o dos Estados Unidos e o de Israel.
Só
entre março de 2023 e fevereiro de 2024, o bloqueio representou perdas para a
ilha de pouco mais de cinco bilhões de dólares. O relatório cubano estima, em
dólares correntes, em mais de 164 bilhões os danos causados por mais de seis
décadas de sanções. Atualizado, o número é de 1,5 trilhão de dólares. É fácil
imaginar a desordem que sanções como essas causam a qualquer economia.
O
resultado é que o país nem sequer é capaz hoje de manter em funcionamento um
sistema elétrico indispensável para sua economia, hospitais e escolas, e para
que os cubanos possam manter as geladeiras funcionando em suas casas.
A
intervenção estrangeira gera uma desordem extraordinária que torna impossível
um desenvolvimento político interno “normal”, que reflita o peso real de cada
setor na vida política do país.
Se a
oposição conta com o apoio tão formidável de Washington, como pedir ao governo
cubano que jogue como se o campo estivesse nivelado? Como pedir-lhe eleições
“livres”, se durante 60 anos o governo nunca conseguiu desenvolver um projeto
sem sabotagem externa.
<><> A desordem na América Central
A
história da América Central – talvez com exceção da Costa Rica – é um bom
exemplo dos resultados dessas intervenções. Um caso especial é o da Guatemala,
onde um golpe de Estado promovido por Washington, em 1954, fortaleceu os
militares, desarticulou a vida política do país, marginalizou a população
indígena majoritária e interrompeu o desenvolvimento normal de reformas que os
proprietários norte-americanos das plantações de banana no país não estavam
dispostos a aceitar.
A
desordem provocada por esse golpe repercute até hoje. O ministro das relações
exteriores do governo deposto de Jacobo Arbenz, Guillermo Toriello, conta essa
história num livro notável, “A batalha da Guatemala”, texto indispensável, mas
difícil de conseguir hoje em dia. De qualquer forma, um texto mais recente, do
jornalista norte-americano Stephen Kinzer, ex-correspondente do New
York Times na América Central (e em muitos outros países), conta essa
história em “Bitter Fruit: The Story of the American Coup in Guatemala”,
publicado em 2005.
Stephen
Kinzer também escreveu sobre a guerra na Nicarágua – “Blood of Brothers”,
publicado em 1991 –, onde a intervenção norte-americana alimentou a guerra
contra a revolução sandinista que, além dos milhares de mortos e da desordem
provocada nos programas de desenvolvimento do país, acabou por se resolver em
eleições nas quais os nicaraguenses foram avisados: se a oposição não ganhasse,
os Estados Unidos manteriam a guerra contra um país já exausto e sangrando.
A
oposição venceu, mas a desordem política criada por essa vitória mantém-se até
hoje, sem que o país tenha conseguido reencontrar um equilíbrio político, nem
um modelo de desenvolvimento adequado. Pelo contrário, como sabemos, hoje
imperam as regras severas com as quais o regime de Ortega devorou até seus
aliados mais antigos e próximos. Que ordem é essa, que regime pode sobreviver
nessas condições?
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A desordem causada pelo genocídio de Gaza e pela guerra contra o Irã
A
desordem no mundo tem outras manifestações mais recentes, avassaladoras, com
repercussões universais.
Uma
delas é o genocídio de Gaza, herança dramática que lembra o genocídio
perpetrado pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. É avassaladora a evidência
da devastação provocada por Israel, principalmente em Gaza, mas também na
Cisjordânia.
Num
artigo sobre a pobreza endêmica em Gaza e na Cisjordânia, publicado em 30 de
dezembro de 2004, a BBC afirmava: “As estatísticas de morte,
destruição e pobreza não conseguem transmitir o verdadeiro sofrimento da
população nos territórios ocupados. Bairros inteiros (…) foram arrasados. Nas
nossas escolas, uma geração inteira cresce num ambiente de violência
aterradora. A maldição da pobreza endêmica atinge agora dois terços da
população”.
Dito em
2004! O que aconteceu desde então? O relatório de Francesca Albanese, relatora
especial das Nações Unidas sobre a “Situação dos Direitos Humanos nos
Territórios Palestinos”, publicado em outubro passado, mostra a dimensão da
desordem causada.
A
tortura estendeu-se muito além das prisões e das salas de interrogatório. “O
território palestino ocupado tornou-se um espaço de castigo coletivo”, afirma.
Ou seja, num campo de concentração.
A
cumplicidade internacional, em particular dos Estados Unidos, contribuiu para o
genocídio em Gaza, assinala o relatório. Só o número de mortos na Faixa de Gaza
já ultrapassava os 75 mil, consequência da ofensiva militar lançada por Israel
há mais de dois anos. À destruição de Gaza, juntou-se o cerco à Cisjordânia,
onde os colonos israelenses têm ocupado território, destruído propriedades e
assassinado antigos habitantes.
Em
dezembro passado, a imprensa noticiou que crianças palestinas congelavam até a
morte nos campos de refugiados, enquanto Israel bloqueava a ajuda humanitária,
sem a qual não conseguem sobreviver. Ao restringir a entrada de alimentos, um
plano meticuloso do governo israelense implantou a fome nos territórios
ocupados desde 1967.
A
desordem imposta no Oriente Médio por Israel e seus aliados é inimaginável. O
que se pretende construir sobre essas ruínas? Poderá o mundo seguir desviando o
olhar por muito mais tempo? É impossível imaginar a solução de qualquer
problema com o genocídio imposto por Israel na Palestina.
Mas as
bombas continuam explodindo. Israel volta a atacar o Líbano. Em 28 de
fevereiro, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Até hoje continuam as
discussões sobre os objetivos dessa guerra, sem que haja clareza sobre quais
são.
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Escolas e hospitais em ruínas, estreito de Ormuz fechado
Em
meados de abril, foi anunciado um cessar-fogo precário na guerra que os Estados
Unidos travam contra o Irã. O New York Times também decidiu
fazer uma pausa na cobertura da guerra e dar uma olhada na destruição provocada
pelos bombardeamentos no Irã: “Iran’s Schools and Hospitals in Ruins, Times
Analysis Shows”, é o título do artigo, publicado em 9 de abril.
É
provável que a escala da devastação seja muito maior do que a estimada
pelo New York Times, afirma a nota. A Sociedade do Crescente
Vermelho declarou, em 2 de abril, que pelo menos 763 escolas e 316 centros de
saúde tinham sido danificados ou destruídos durante a guerra.
No
primeiro dia do ataque, em 28 de fevereiro, a escola primária Shajarah
Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã, foi bombardeada. O ataque deixou
pelo menos 175 mortos, a maioria crianças. Os militares tinham classificado a
escola como um alvo militar, utilizando informações desatualizadas, de pelo
menos dez anos antes, afirma o jornal.
O
direito internacional humanitário obriga os comandantes militares a levar em
consideração os possíveis danos colaterais a civis e a infraestruturas civis
quando planejam um ataque, lembra o New York Times.
O
jornal utilizou imagens aéreas de alta definição para analisar o resultado dos
ataques. As imagens foram revelando o caos provocado: centenas de escolas,
hospitais e centros de saúde destruídos ou danificados. Centenas de crianças
mortas.
Cerca
de metade das escolas e centros de saúde danificados situavam-se em Teerã, uma
cidade densamente povoada, onde os bombardeios têm sido intensos.
Donald
Trump prometeu, em determinado momento, enviar o Irã para a “idade da pedra”.
No domingo, 19 de abril, com as negociações num impasse, ameaça novamente
destruir pontes e centrais elétricas do Irã. Suas forças capturaram um
cargueiro de bandeira iraniana no Golfo de Omã. É difícil imaginar um caos
maior do que o provocado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A China,
particularmente afetada pelo fechamento da via, pediu ao Irã que a reabrisse,
mas indicou que a causa do fechamento é a guerra provocada pelos Estados Unidos
e por Israel.
Em 1 de
abril, o jornal espanhol El país lembrava o caos provocado
pela guerra do Iraque em 2003, com o apoio do espanhol José María Aznar e do
britânico Tony Blair. “O declínio de Bagdá duas décadas após a guerra, um
espelho para Teerã”, afirma o artigo. Um caos semelhante foi provocado pelo
assassinato do líder líbio, Muammar Kadhafi, em outubro de 2011.
Embora
não tenham conseguido derrubar o governo iraniano – algo que já se tentara
antes da guerra através de protestos populares estimulados pelas dificuldades
econômicas criadas no país pelas sanções norte-americanas –, os antecedentes
citados mostram as consequências caóticas dessas guerras e sanções.
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A necessidade de uma nova ordem
Parece-me
que não devemos fechar este percurso pelo caos sem mencionar o mais recente
esforço para criar uma nova ordem internacional, que o primeiro-ministro
espanhol, Pedro Sánchez, convocou, sob o lema “Não à guerra”.
Em 17 e
18 de abril, Pedro Sánchez realizou, em Barcelona, juntamente com os
presidentes do Brasil, México, Colômbia, Uruguai, África do Sul e uma lista de
representantes de diversos países e organizações políticas, uma Cúpula Global
Progressista.
Tem
particular relevância para a América Latina, onde Donald Trump proclamou a
pretensão de um controle renovado sobre seu “quintal”. A América Latina nunca
deixou de ser isso, submetida à pressão permanente de Washington e à submissão
da “quinta coluna” em que se baseia essa dominação.
Mas, se
nunca deixou de ser isso, também nunca deixou de haver resistências. A cúpula
de Barcelona revela o quão persistentes e renovadas elas são. O mundo mudou
muito para que as pretensões anunciadas em 1823 de submeter a América Latina
possam ser renovadas sem problemas hoje.
“Ninguém
deve ter vergonha de ser de esquerda”, afirmou Lula em Barcelona. Donald Trump
está jogando um jogo muito perigoso, pensando que pode ditar suas próprias
regras. Ou, como disse a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum: o México tem
como princípios constitucionais “o respeito pela autodeterminação dos povos, a
não intervenção, a resolução pacífica de controvérsias, a rejeição ao uso da
força, a igualdade jurídica dos estados, a necessidade da cooperação
internacional para o desenvolvimento, o respeito pelos direitos humanos, a luta
permanente pela paz”.
“Os
Estados Unidos estão utilizando armas criadas para combater o narcotráfico como
instrumento de pressão contra os que não compartilham suas políticas na América
Latina”, afirmou, por sua vez, o presidente colombiano, Gustavo Petro. “Qual é
nossa resposta?”, perguntou-se ele: rebelião. É isto que acontecerá se o
governo norte-americano não rever o caos provocado por suas políticas em
relação à América Latina, assegurou.
Dessa
forma, aquele menino, adormecido na calçada em San José, poderá acordar e
descobrir outro mundo, em que tenha uma cama onde dormir.
Fonte:
A Terra é Redonda