Paulo
Freire, 102 anos: por que a extrema direita odeia tanto seu legado?
“Em
primeiro lugar, eu sou Paulo Freire, nasci no Recife há muito, muito tempo
atrás”. É assim que o homem que, anos mais tarde, se tornaria o patrono da
Educação do Brasil, se apresentou em 1985 em uma gravação para a Universidade
Estadual de Campinas (Unicamp). Não que precisasse. Paulo Freire, nascido há
exatos 102 anos, já era um dos rostos mais conhecidos do mundo acadêmico não só
no Brasil, mas em todo o mundo. Mesmo tendo desenvolvido um trabalho pioneiro
na alfabetização de adultos, são comuns os ataques da extrema-direita à sua
figura. Mas por que será que, anos após sua morte (em 2 de maio de 1997), a
obra de Paulo Freire ainda recebe tantas críticas (infundadas, diga-se de
passagem) e é alvo de mentiras? “Essa demonização ocorre porque tem uma conscientização
[no trabalho de Freire]. E a extrema-direita confunde essa conscientização com
doutrinação”, avalia a professora Claudia Regina Vieira, educadora e
pró-reitora de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da Universidade
Federal do ABC (UFBAC). “O fato de Paulo Freire conscientizar os oprimidos
criou um enorme incômodo nesses setores [da elite]”, diz o escritor Frei Betto,
que foi amigo de Paulo Freire e escreveu com ele o livro “Essa Escola Chamada
Vida”.
Basicamente,
a metodologia Paulo Freire consiste na valorização do saber e do conhecimento
adquirido fora da sala de aula, até mesmo de pessoas que nunca sentaram em um
banco escolar. “As construções e os textos das cartilhas eram montados para
decodificar letras. O conceito de Freire é usar textos trazidos das
experiências das pessoas”, explica Claudia Regina. Embora especule-se (e
minta-se) muito sobre o impacto de Paulo Freire na educação infantil, o foco de
seu trabalho era na alfabetização de adultos. Em 1963, liderou uma iniciativa
em Angicos, no Rio Grande do Norte, que alfabetizou cerca de 300 adultos com 40
horas/aula. Até o presidente João Goulart simpatizou com a ideia, mas a
proposta foi interrompida pelo golpe militar de 1964.
Na
ditadura, Paulo Freire foi preso e acabou se exilando no exterior por quase 16
anos. “Vem toda uma vida de andarilhagem que eu experimentei. Trabalhei
primeiro no Chile, depois nos Estados Unidos e, depois, morando em Genebra, na
Suíça, mas me estendendo mundo afora”, contou Freire na palestra na Unicamp em
1985.
Em uma
palestra na USP em 1994, Paulo Freire fez uma reflexão de sua trajetória: “Se
vocês me perguntarem: ‘Paulo, se você tivesse agora 30 anos, começaria tudo de
novo?’ [Começaria] tudo de novo! Se na reencarnação eu me lembrasse do meu
passado, da minha vida anterior, eu seria mais radical na minha compreensão da
liberdade. No meu respeito à liberdade. Não à licenciosidade, mas a essa
liberdade que se sabe liberdade.”
¨ O homem que ensinava
e queria transformar o mundo
Você já
se perguntou por que o nome de Paulo Freire aparece com tanta frequência nos
debates sobre educação, política e ideologia? Não é à toa. O educador
brasileiro, nascido em 1921 no Recife, é uma das figuras mais estudadas,
reverenciadas e atacadas da história recente do país. Não pela pedagogia em si,
mas pelas consequências políticas da prática que ele propôs. Quando você ouve
falar em “educação libertadora”, “conscientização” ou “leitura do mundo”, há
ali um traço direto da pedagogia freiriana. O incômodo que ele ainda causa
revela o alcance das suas ideias. Neste artigo, você vai entender quem foi
Paulo Freire, por que seu trabalho ultrapassou a sala de aula e por que seus
livros continuam em alta mesmo décadas depois da sua morte.
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O que você precisa saber para entender Paulo Freire?
Paulo
Reglus Neves Freire nasceu em 1921, no Recife. Era filho de uma família de
classe média que sofreu com a instabilidade econômica depois da crise de 1929. A experiência
precoce com a fome, a insegurança e a desigualdade social virou o ponto de
partida para uma vida voltada à educação como prática política. Paulo Freire
estudou Direito, mas nunca advogou. A primeira e única causa que assumiu foi
também a última: perdeu, viu o cliente quebrar e decidiu que aquele não era o
seu lugar. Preferiu ensinar. Começou dando aulas de português e logo passou a
ocupar cargos ligados à educação no SESI e em universidades
de Pernambuco. Desde cedo, entendeu que ensinar era mais do que repassar
conteúdos. Era escutar, observar e pensar a realidade junto com quem está em
sala. Freire não tratava alunos como massa de modelagem. Considerava que toda
pessoa tem bagagem — mesmo que não tenha diploma. Foi com essa percepção que
surgiu sua proposta de alfabetização.
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Primeiras experiências com alfabetização
Nos
anos 1940, o Brasil ainda carregava índices altíssimos de analfabetismo entre
adultos, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. As campanhas de
alfabetização oficiais apostavam em cartilhas genéricas, com letras soltas e
frases que pouco ou nada diziam ao cotidiano de quem vivia no campo ou em
periferias urbanas. A estratégia era repetir fonemas — não formar leitores. Freire começou a
atuar com educação popular nesse contexto. Ele entendia que métodos pensados
para crianças da classe média urbana não funcionavam com trabalhadores rurais,
operários ou domésticas. Não se tratava apenas de ensinar a ler. Era preciso
conversar com essas pessoas a partir do que elas já sabiam — e esse saber não
estava nos livros.
Foi aí
que nasceu a ideia de trabalhar com palavras geradoras. Em vez de começar com o
B-A = BÁ, o processo de alfabetização partia de palavras como “terra”,
“enxada”, “trabalho” ou “sede”. Termos familiares, carregados de significados,
que permitiam aos alunos reconhecer sons, letras e também refletir sobre sua
própria condição social. Essa abordagem estava longe de ser assistencialista.
Ela ia à raiz. Ao propor que o alfabetizando refletisse sobre sua experiência,
Paulo Freire estava abrindo espaço para um tipo de aprendizado que mexia com a
consciência de classe, o sentimento de pertencimento e a percepção crítica do
mundo.
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Educação como prática de liberdade
Paulo
Freire dizia que a educação nunca é neutra. Ou ela forma sujeitos capazes de
intervir na realidade, ou reforça a lógica da obediência. Isso não é metáfora.
É uma leitura da função social da escola num país como o Brasil. A pedagogia
tradicional, baseada na repetição e na autoridade, cumpre um papel: manter o
estudante em posição passiva. O professor fala, o aluno escuta. O conteúdo é
imposto, não discutido. O resultado disso é a reprodução das hierarquias de
fora da escola — entre classes, raças, gêneros e territórios.
Freire
propôs uma inversão: colocar o educando como protagonista. Reconhecer seus
saberes, suas vivências, suas perguntas. Usar o diálogo como método. A escola,
nesse modelo, deixa de ser um espaço de adestramento e passa a ser espaço de
disputa simbólica e política. Não se trata apenas de ensinar a ler e escrever.
Trata-se de formar consciência crítica. Ao propor uma pedagogia baseada na
escuta e na participação, Freire coloca em xeque o autoritarismo que sempre
marcou o sistema educacional brasileiro. Ele entende que aprender é também
aprender a se posicionar no mundo. E isso, para muita gente, é perigoso.
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O método Paulo Freire de alfabetização
Dizer
que o “método Paulo Freire” fracassou porque a educação brasileira vai mal é
repetir uma distorção. O método nunca foi aplicado em escala nacional. O que
existe são experiências pontuais, geralmente vinculadas a políticas locais ou a
movimentos sociais. E isso tem uma explicação: o método não foi desenhado para
escolas formais ou ensino infantil. Era uma proposta de alfabetização de
adultos em contextos de exclusão, estruturada em três pilares:
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1. O aluno não é um recipiente vazio
A
metáfora que Freire combateu com mais força foi a da “educação bancária”. Nela,
o professor deposita conhecimento e o aluno recebe passivamente. Freire propôs
outra lógica: todo educando já tem vivências, saberes e formas de interpretar o
mundo. O papel do educador é dialogar com isso — não impor uma visão.
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2. O ponto de partida é o cotidiano
A
alfabetização, para Freire, começa com palavras que fazem parte do dia a dia de
quem está aprendendo. Isso não é só uma estratégia pedagógica. É também
política: dizer que o mundo vivido pelo oprimido importa. Que a vida real não é
um obstáculo para aprender, mas o próprio terreno de aprendizado.
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3. A alfabetização precisa gerar consciência
Não
basta decodificar palavras. A leitura da palavra tem que vir junto com a
leitura do mundo. O objetivo não era apenas formar leitores funcionais. Era
formar sujeitos conscientes, capazes de identificar as estruturas que limitam
suas vidas — e dispostos a transformá-las.
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O caso de Angicos (RN)
A
experiência mais conhecida do método foi em 1963, na cidade de Angicos, no Rio
Grande do Norte. Ali, 300 trabalhadores foram alfabetizados em apenas 40 horas
de aula. Parece milagre, mas era organização. O projeto tinha apoio do governo
federal, articulação com universidades e engajamento da comunidade local. A
eficácia do método incomodou setores conservadores. Quando trabalhadores
começaram a reivindicar direitos depois de aprender a ler, o alarme soou nas
elites locais. Pouco tempo depois, o golpe militar de 1964 desmobilizou o Plano
Nacional de Alfabetização — que já contava com apoio de João Goulart e previa a
criação de milhares de círculos de cultura baseados nas ideias de Freire. O
método freiriano foi interrompido no Brasil antes de começar. Enquanto isso,
seria adotado — e adaptado — em países da África, da América Latina e até da
Escandinávia, com resultados reconhecidos por organizações como a Unesco.
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Exílio e repercussão internacional
Paulo
Freire passou de preso político a referência global em menos de uma década.
Depois do golpe de 1964, foi detido em Recife e passou 70 dias na prisão.
Acusado de subversão, acabou exilado. Primeiro na Bolívia, depois no Chile. Nos
anos seguintes, passou por Genebra, nos bastidores das Nações Unidas, e
lecionou em Harvard, nos Estados Unidos. Enquanto era silenciado no Brasil,
suas ideias ganhavam corpo e adesão em vários continentes. A repressão não
interrompeu sua produção. Pelo contrário. O exílio forçou Freire a pensar sua
pedagogia em diálogo com outras culturas e outras lutas. E o mundo respondeu.
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A trajetória internacional de Paulo Freire
No
Chile, logo após deixar o Brasil, Freire trabalhou com programas de
alfabetização de camponeses. Era um país em transformação, com forte presença
dos movimentos populares. Foi ali que ele sistematizou a base de sua teoria e
escreveu Educação como Prática da Liberdade. Em 1969, foi convidado para dar
aulas na Universidade de Harvard. Em seguida, estabeleceu residência em
Genebra, onde atuou como consultor do Conselho Mundial de Igrejas. Nesse papel,
viajou por dezenas de países da Ásia, América Latina e África. Participou
diretamente da formulação de políticas educacionais em contextos de
descolonização. Era uma pedagogia em movimento.
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Traduções e circulação global
Pedagogia
do Oprimido saiu em 1968, no Chile. Foi escrito em português, publicado em
espanhol e só depois traduzido para o inglês. Desde então, nunca parou de
circular. Já são mais de 40 idiomas. O livro se tornou leitura obrigatória em
programas de formação docente e cursos de ciências sociais, especialmente nos
Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e países africanos de língua portuguesa. Segundo
o Google Scholar, é o terceiro livro mais
citado no mundo
nas áreas de humanidades e ciências sociais. Nenhum outro autor
latino-americano chegou tão longe. A pedagogia de Paulo Freire influenciou
sindicatos, igrejas progressistas, ONGs, movimentos estudantis e experiências
educativas de base popular. Ela se tornou referência para quem entende a
educação como instrumento de transformação social.
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Paulo Freire e a África
Na
África, o encontro com a pedagogia freiriana foi direto. Países
recém-independentes como Guiné-Bissau, Angola e Moçambique precisavam
reconstruir seus sistemas educacionais a partir do zero — depois de séculos de
colonização portuguesa. Paulo Freire foi chamado para ajudar. Freire trabalhou
com educadores locais. Levou sua abordagem dialógica, baseada na escuta e no
contexto, e a colocou a serviço de lutas verdadeiras: alfabetizar camponeses,
formar quadros técnicos, construir identidades nacionais. Em vez de repetir o
padrão europeu de ensino, os países africanos que contaram com Freire criaram
propostas próprias, com base na realidade local. Na África do Sul, Paulo Freire
também foi lido e discutido dentro do movimento da Consciência Negra. Steve
Biko, referência do antirracismo no país, viu na pedagogia freiriana uma
ferramenta de resistência cultural e afirmação política. Não à toa, o nome de
Freire circulava em universidades e igrejas negras mesmo durante o regime do
apartheid.
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Docência e gestão pública
Com a
anistia, Paulo Freire voltou ao Brasil em 1980. Já reconhecido
internacionalmente, escolheu se reaproximar da realidade brasileira por dentro
da política e da universidade. Passou a lecionar na PUC-SP e na Unicamp, onde
participou da formação de professores, educadores populares e militantes.
Também ajudou a estruturar os programas de alfabetização do Partido dos
Trabalhadores, ao qual se filiou. Em 1989, assumiu a Secretaria Municipal de
Educação de São Paulo, convidado por Luiza Erundina, recém-eleita prefeita da
capital. Era a primeira vez que Freire ocupava um cargo executivo em uma grande
cidade. Ali, precisou lidar com a máquina pública, a burocracia e as disputas
políticas internas — sem abandonar seus princípios.
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Políticas públicas com base freiriana
Durante
sua gestão, foram implementadas ações voltadas à valorização da carreira
docente: concursos públicos, ampliação de vagas na formação continuada e maior
autonomia pedagógica nas escolas. Freire também priorizou a Educação de Jovens
e Adultos (EJA). Criou o MOVA — Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos
— como proposta descentralizada, enraizada nos territórios e baseada no diálogo
com comunidades locais. Até hoje, o MOVA inspira projetos em outras capitais e
municípios do país. O enfrentamento à evasão escolar, o incentivo à escuta dos
estudantes e a defesa da escola pública como espaço de cidadania foram algumas
das marcas do período. Mas nem tudo correu em paz.
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Ataques e resistência
Freire
foi alvo de críticas constantes por parte de setores conservadores, inclusive
dentro da imprensa. Questionava-se sua atuação como gestor, sua influência
ideológica e sua associação com o PT. O debate sempre esteve carregado de
disputas sobre o papel da escola na sociedade. Mesmo assim, sua passagem pela
gestão pública deixou um legado: políticas educacionais que dialogam com a
realidade dos estudantes e professores, sem recorrer a fórmulas importadas ou
imposições verticais.
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Patrono da educação brasileira
Paulo
Freire morreu em 2 de maio de 1997, em São Paulo, aos 75 anos. Até o fim da
vida, manteve-se ativo como professor, palestrante e escritor. Deixou uma obra
extensa, composta por livros, artigos, cartas e entrevistas, além de uma base
sólida para quem pensa a educação como prática social e política. Em 2012, por
iniciativa da deputada Luiza Erundina, o Congresso aprovou a lei que o declarou
Patrono da Educação Brasileira. A sanção presidencial foi mais do que
simbólica: foi o reconhecimento do Estado brasileiro ao educador que havia sido
preso, exilado e perseguido por seus ideais.
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Reconhecimento fora do país
Antes
mesmo de ser reconhecido oficialmente pelo Brasil, Freire já havia recebido
dezenas de homenagens em universidades ao redor do mundo. São mais de 35 títulos de Doutor
Honoris Causa,
prêmios da Unesco, estátuas em escolas e institutos, e cátedras universitárias
com seu nome em países da América Latina, da Europa, da África e dos Estados
Unidos. Seus livros seguem entre os mais citados na área de ciências sociais,
especialmente Pedagogia do Oprimido, que atravessou fronteiras e chegou a mais de 20 idiomas. Mais do que um pensador, Freire virou referência
prática para experiências pedagógicas voltadas à transformação social.
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A guerra ideológica em torno de Paulo Freire
Nos
últimos anos, Paulo Freire passou a ocupar um lugar central na retórica da
extrema direita brasileira. Tornou-se alvo simbólico de um projeto político que
disputa o sentido da escola, da universidade e da formação crítica. Durante a
campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro afirmou que iria “expurgar Paulo
Freire”
das diretrizes educacionais do país. Seu governo colocou esse plano em prática.
Abraham Weintraub, então ministro da Educação, declarou que o monumento a
Freire em frente ao MEC era uma “lápide da educação
brasileira”.
A frase era parte de uma ofensiva sistemática contra qualquer proposta
educacional que dialogue com desigualdade, direitos ou consciência política. O
ataque a Freire não parte do desconhecimento — parte da estratégia. Ao reduzir
a pedagogia crítica à “doutrinação”, o que se pretende é controlar o espaço da
escola, transformando-a num ambiente de reprodução silenciosa de valores
conservadores.
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Escola Sem Partido e o monitoramento da sala de aula
Criado
nos anos 2000, o movimento Escola Sem Partido ganhou força entre
2015 e 2018, com forte apoio da nova direita nas redes sociais e no Congresso.
A proposta era simples na aparência: defender a “neutralidade” do ensino. Mas,
na prática, os projetos de lei e ações promovidas pelo grupo buscavam censurar
professores, eliminar debates sobre desigualdade e criminalizar qualquer
abordagem crítica no ambiente escolar. Paulo Freire virou o principal alvo. Era
citado como símbolo de tudo o que deveria ser retirado das escolas. Seus livros
foram atacados, seu nome demonizado. Em alguns casos, cartazes com sua imagem
foram arrancados de salas de aula, e educadores que mencionavam suas ideias
eram acusados de “militância”.
A
ironia: Freire sempre defendeu que a escola fosse um espaço de diálogo, escuta
e pensamento autônomo. Não se tratava de ensinar o que pensar, mas de criar as
condições para que o estudante pensasse por conta própria.
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Acusações de doutrinação
Entre
os principais argumentos usados contra Freire, o mais repetido é o da
“doutrinação ideológica”. A acusação também aparece em discursos parlamentares,
programas de TV e postagens de influenciadores ligados à nova direita. Mas ela
não se sustenta diante da obra do autor. Paulo Freire não propõe catequese
política. Sua pedagogia parte do pressuposto de que ninguém educa ninguém: as
pessoas se educam em relação umas com as outras, mediadas pela realidade. O
papel do educador, para Freire, é criar situações de aprendizagem em que o
estudante consiga refletir criticamente sobre o mundo que vive — e não absorver
dogmas prontos.
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O que dizem os livros de Paulo Freire?
Quem
leu Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou A
importância do ato de ler sabe que a proposta freiriana não gira em torno
de partidos, slogans ou ideologias fechadas. A preocupação central está na
formação do sujeito como cidadão consciente de seu lugar no mundo. Freire parte
da realidade do educando, do seu vocabulário, das suas experiências. A
alfabetização, no seu método, começa por palavras que fazem sentido na vida
concreta: “terra”, “trabalho”, “seca”, “injustiça”. O conteúdo vem da escuta,
da experiência e da análise coletiva. Não há doutrinação onde há escuta ativa e
construção compartilhada do conhecimento.
A
pedagogia freiriana incomoda porque propõe o oposto da submissão. Ela convida à
pergunta, à investigação e à ação. Em tempos de ataques à educação pública, Freire se tornou um
obstáculo para quem prefere uma escola disciplinadora, sem conflito, sem voz,
sem política. Na prática, chamar Paulo Freire de doutrinador é uma forma de
tentar interditar o debate sobre desigualdade, exclusão e projeto de país. É uma
disputa ideológica, sim — mas não da parte de Freire. A tentativa de expulsar
suas ideias da educação brasileira é uma ação política
concreta, com objetivo claro: manter tudo como está.
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Por que ainda vale a pena ler Paulo Freire?
Freire
escreveu nos anos 1960, mas os dilemas que ele enfrentava continuam por aqui. O
analfabetismo funcional ainda assombra o país. A desigualdade segue marcando o
acesso à educação. A escola, muitas vezes, é tratada como um espaço de
adestramento, não de formação crítica. Freire parte de um ponto: toda educação
é política. Não existe neutralidade. O modo como você ensina revela de que lado
está. Ou a escola forma para a crítica ou forma para a submissão. Fingir que
isso não existe é jogar o debate para debaixo do tapete. Ler Paulo Freire hoje
é disputar o que a escola deve ser. É defender a formação de sujeitos
autônomos, não só de trabalhadores
ajustados ao mercado.
É se posicionar contra o esvaziamento do ensino público, contra a militarização
da educação e contra a censura nas salas de aula.
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Frases de Paulo Freire para pensar
- “Se a educação
sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”
- “A leitura do
mundo precede a leitura da palavra.”
- “Ninguém educa
ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si,
mediatizados pelo mundo.”
- “Ensinar não é
transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção
ou a sua construção.”
- “Não é no
silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na
ação-reflexão.”
- “Educação não
transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.”
Essas
frases não foram escritas para serem repetidas sem pensar. Elas existem para
provocar, para desmontar certezas, para virar do avesso aquilo que foi
normalizado. Freire não suaviza o debate. Ele força o olhar para onde incomoda.
E nesse incômodo, convida você a agir.
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Por que ainda te pedem para esquecer Paulo Freire?
Paulo
Freire incomoda. Incomoda, porque sua pedagogia questiona a estrutura, a
desigualdade e a lógica autoritária da escola tradicional. Não à toa, virou alvo da extrema
direita.
Mas quem leu “Pedagogia do Oprimido” sabe que o que ele propõe é diálogo, não
doutrinação. Ignorar Freire é uma escolha. E quase sempre, essa escolha
favorece quem prefere uma escola disciplinada, calada, voltada para desempenho
— não para a consciência. Entender quem foi Paulo Freire é entender o que está
em disputa quando se fala em educação no Brasil. Seu legado não é uma fórmula
pronta. É uma ferramenta. E para quem vive à margem, a ferramenta é
sobrevivência.
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Paulo Freire não é passado
Freire
não virou símbolo à toa. O que ele escreveu não ficou parado nos anos 1960. Seu
pensamento continua em disputa porque toca em feridas abertas: desigualdade, exclusão,
autoritarismo. Ele falou de um país que ainda existe.
Não é
sobre transformar todo professor em militante. É sobre entender que ensinar é
um ato político. Que a escola pode ser reprodutora de injustiças ou espaço de
formação crítica. E que decidir fingir neutralidade é, no fim, escolher um lado
— mesmo sem admitir. Se hoje há quem queira apagar Freire do debate público,
não é porque ele falhou. É justamente porque ele acerta demais. Por isso, você
ainda precisa ler Paulo Freire. Não para concordar com tudo. Mas para entender
o que está em jogo quando se fala de educação no Brasil. E para lembrar que a
ignorância nunca é só falta de informação. Às vezes, é projeto.
Fonte:
ICL Notícias


