Descobrir
o diabetes tipo 1 antes da cetoacidose pode mudar a experiência do diagnóstico,
diz psicóloga
Descobrir
o diabetes tipo 1 antes do surgimento da cetoacidose pode mudar a forma como a
pessoa e a família enfrentam o diagnóstico. A identificação antecipada permite
acompanhar a evolução da condição e organizar os cuidados antes de uma situação
de emergência.
A
psicóloga Priscila Pecoli, coordenadora do Departamento de Psicologia da
Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e integrante do IBTED, explica que o
diagnóstico em uma situação de cetoacidose pode envolver trauma, medo e
sofrimento para toda a família.
Segundo
ela, o rastreio também pode gerar ansiedade. No entanto, a experiência ocorre
de forma diferente quando a família recebe informações antes da emergência e
conta com acompanhamento durante o processo.
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Cetoacidose pode tornar o diagnóstico uma experiência traumática
A
cetoacidose diabética representa uma situação de emergência relacionada ao
diabetes. No diagnóstico do tipo 1, ela pode acontecer antes que a família
saiba que a criança ou o adolescente tem a condição.
Priscila
compara essa situação à chegada de um tornado sem aviso. Nesse cenário, a
família precisa lidar primeiro com aquilo que ameaça a sobrevivência e a
estabilidade da criança.
Além
disso, a internação pode aumentar o impacto emocional. Crianças e adolescentes
podem passar por exames e cuidados durante uma situação de emergência, enquanto
os familiares acompanham todo o processo.
A
psicóloga também cita possíveis impactos relacionados à atenção e à memória
durante um quadro de cetoacidose. Essas funções fazem parte do processo
necessário para o manejo do diabetes ao longo da vida.
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Rastreio permite preparação antes do diagnóstico
No
rastreio, a identificação de anticorpos relacionados ao diabetes tipo 1 pode
acontecer antes dos sintomas. Dessa forma, a família passa a acompanhar uma
possível evolução da condição.
Priscila
explica que essa situação também pode provocar sofrimento. A principal questão
envolve a ansiedade diante da possibilidade de desenvolver diabetes tipo 1 e da
dúvida sobre quando isso acontecerá.
No
entanto, existe uma diferença em relação ao diagnóstico feito durante uma
emergência. A família pode receber informações, buscar orientação e se preparar
para o momento em que o diabetes aparecer.
A
psicóloga compara esse processo a uma casa que recebe um alerta sobre a chegada
de um tornado. A família não consegue impedir o fenômeno, mas pode se preparar
para enfrentá-lo.
Nesse
contexto, o tempo permite organizar informações, buscar suporte e entender como
será o cuidado.
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Ansiedade aparece em diferentes momentos do rastreio
A
ansiedade pode surgir desde o momento em que a família decide participar do
rastreio. Ela também pode aumentar após a identificação de um anticorpo.
Quando
aparecem dois ou mais anticorpos, a preocupação pode aumentar. A família sabe
que existe uma possibilidade maior de evolução para o diabetes tipo 1, mas não
sabe exatamente quando isso acontecerá.
Essa
incerteza temporal aparece como uma das fontes de sofrimento citadas por
Priscila.
Por
outro lado, o acompanhamento durante o rastreio pode ajudar a família a lidar
com esse período. Ter uma equipe para acompanhar o processo permite esclarecer
dúvidas e oferecer suporte.
Com o
tempo, segundo a psicóloga, os níveis de ansiedade podem retornar a patamares
anteriores.
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Diagnóstico antes da cetoacidose pode mudar a experiência da família
Durante
a entrevista, Tom Bueno relatou o caso de uma família que teve dois filhos
diagnosticados com diabetes tipo 1 em momentos diferentes.
A filha
mais velha passou oito dias em uma UTI durante o diagnóstico. Um ano depois, a
mãe começou a perceber mudanças no comportamento do filho mais novo.
Mesmo
após receber inicialmente a informação de que a hemoglobina glicada estava
dentro de uma faixa considerada adequada, a mãe decidiu acompanhar o filho com
exames.
A
hemoglobina glicada passou de 4,8 para 5,2 e depois para 5,6 e 5,8. Com a
evolução dos resultados, a equipe realizou a testagem de anticorpos.
O
resultado indicou que o menino já estava entrando no estágio 2 do diabetes tipo
1.
A
família não conseguiu impedir a evolução da condição. No entanto, a mãe relatou
uma experiência diferente daquela vivida com a filha mais velha.
Segundo
o relato apresentado na entrevista, o filho não precisou passar pela UTI e o
controle da glicose parecia mais tranquilo. A mãe também relatou que sentiu
ansiedade, mas considerou o processo mais calmo.
Priscila
ressaltou que esse caso não permite afirmar que todos terão a mesma
experiência. A ciência ainda busca entender os efeitos desse acompanhamento na
evolução da condição.
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Trauma da cetoacidose pode acompanhar a família depois do diagnóstico
A
experiência de uma cetoacidose pode influenciar a forma como a família toma
decisões depois do diagnóstico.
Priscila
explica que algumas decisões podem partir da memória daquela emergência. A
família pode permanecer em estado de alerta e temer que a situação volte a
acontecer.
Esse
medo também pode aparecer quando outro familiar apresenta anticorpos
relacionados ao diabetes tipo 1.
A
psicóloga relata que algumas famílias imaginam que um novo diagnóstico seguirá
o mesmo caminho do primeiro. Entretanto, o acompanhamento antecipado pode criar
uma situação diferente.
Nesse
contexto, a família pode usar o tempo para buscar informações, aprender sobre o
cuidado e receber acompanhamento profissional.
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Rastreio do diabetes tipo 1 não é pré-diabetes
A
identificação antecipada do diabetes tipo 1 não deve ser chamada de
pré-diabetes.
Priscila
explica que o termo pré-diabetes pertence a outro contexto, relacionado ao
diabetes tipo 2. Usar a mesma expressão para o diabetes tipo 1 pode criar uma
interpretação incorreta sobre o que a pessoa pode fazer para impedir a evolução
da condição.
No
diabetes tipo 1, a presença de anticorpos indica um processo relacionado à
condição autoimune. A pessoa não desenvolve a condição por uma simples escolha
alimentar ou pela falta de atividade física.
Por
isso, a psicóloga defende o uso de expressões como estágio inicial ou detecção
precoce.
A
diferença também evita que famílias adotem medidas sem indicação para tentar
impedir a evolução do diabetes tipo 1.
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Restrição de carboidratos pode aumentar o sofrimento da família
A
ansiedade após um resultado positivo pode levar alguns familiares a tentar
controlar aquilo que acreditam estar ao alcance deles.
Priscila
relata situações em que pais começam a reduzir carboidratos e açúcares da
alimentação dos filhos após a identificação de anticorpos.
A
mudança pode criar uma dinâmica de restrição dentro da família. Além disso, a
criança ainda não apresenta o diagnóstico clínico do diabetes tipo 1 naquele
momento.
Segundo
a psicóloga, essa tentativa não resolve a situação relacionada aos anticorpos.
Ela também pode aumentar o sofrimento familiar.
Por
isso, entender o que o rastreio significa ajuda a evitar interpretações
equivocadas sobre alimentação e comportamento.
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Comunicação também interfere na forma de lidar com o diabetes
A
maneira como profissionais de saúde comunicam o resultado pode influenciar a
forma como a família enfrenta o processo.
Priscila
considera a linguagem uma ferramenta de engajamento no cuidado. Segundo ela,
algumas palavras podem aumentar o estado de alerta de quem recebe a informação.
Ela
cita a diferença entre falar em “risco” e falar em “chance”. A escolha das
palavras pode interferir na maneira como a pessoa interpreta a situação.
Nesse
contexto, uma comunicação que explique o processo de forma clara pode ajudar a
família a entender o que está acontecendo e quais são as possibilidades de
acompanhamento.
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Mães podem assumir maior parte da responsabilidade
O
impacto psicológico do rastreio também pode variar entre os familiares.
Priscila
afirma que estudos citados durante a entrevista mostram diferenças entre homens
e mulheres. Segundo ela, mães apresentam mais ansiedade do que pais durante
esse processo.
A
psicóloga relaciona essa diferença ao maior envolvimento das mulheres nas
consultas e nos cuidados.
Muitas
mães assumem a responsabilidade por acompanhar exames, consultas e decisões
relacionadas aos filhos. Com isso, elas podem concentrar uma parte maior da
carga emocional e prática do processo.
Por
outro lado, Priscila destaca que o pai não deve ser visto como alguém que
“ajuda” a mãe. Ele também tem responsabilidade pelo cuidado da criança.
Dividir
as responsabilidades pode reduzir a sobrecarga e ampliar a participação da
família no acompanhamento.
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O cuidado também precisa considerar a saúde emocional
Para
Priscila, o acompanhamento do diabetes tipo 1 precisa considerar os aspectos
físicos e emocionais.
Quando
a família recebe informações antes de uma emergência, existe tempo para
compreender o processo e buscar apoio. Além disso, a preparação pode ajudar a
reduzir o impacto de uma mudança que fará parte da rotina.
A
psicóloga resume essa ideia com outra comparação usada durante a entrevista. Se
o diagnóstico do diabetes tipo 1 representa uma aterrissagem, o acompanhamento
anterior pode permitir um “pouso suave”.
A
proposta não é impedir que o diabetes tipo 1 aconteça. O objetivo é permitir
que a família atravesse esse processo com informação, acompanhamento e
preparação.
Fonte:
Um Diabético



