terça-feira, 24 de março de 2026

Capitalismo superindustrial e os limites da crítica reformista

“Chegamos a um momento em que a crítica do capitalismo deixou de ser apenas um exercício teórico e se tornou uma questão de sobrevivência histórica. Ela tem que ser precisa”. O artigo é de Arlindenor Pedro, ex-preso político e anistiado, professor de história, filosofia e sociologia, além de editor do Blogue Utopias Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários, publicado por Agenda do Poder

Segundo ele, "o capitalismo não é apenas injusto. Ele se tornou historicamente perigoso para a própria continuidade da vida civilizada. É por isso que a tarefa do pensamento crítico, hoje, não pode limitar se a imaginar remédios para a administração de um sistema agonizante. Ela precisa ousar pensar, com toda a radicalidade que o momento exige, as formas de vida que possam nascer para além dele".

>>>>> Eis o artigo. 

Quando me detenho sobre “Capitalismo Superindustrial” o mais recente livro de Fernando Haddad, vejo diante de mim um esforço sério e intelectualmente ambicioso de decifrar as mutações do capitalismo no nosso tempo. Não se trata de um livro menor, nem de uma reflexão passageira. Haddad quer compreender o modo como o capitalismo se reorganiza numa época em que ciência, tecnologia e inovação deixaram de ocupar um lugar apenas auxiliar e passaram a instalar se no próprio coração do processo de acumulação.

Seu argumento central é este: o capitalismo contemporâneo já não pode ser descrito apenas como industrial. Ele teria ingressado numa etapa nova, em que o conhecimento organizado, a pesquisa científica e a capacidade de inovar se transformam diretamente em forças produtivas.

Ao acompanhar o debate público que cercou o lançamento da obra, sobretudo a conversa de Haddad com Lilia Moritz Schwarcz e Celso Rocha de Barros, essa formulação se torna ainda mais nítida. O que ele chama de capitalismo superindustrial não é apenas uma economia digital, nem tampouco uma etapa vaga do chamado pós-industrialismo. Trata se, mais exatamente, de um momento histórico em que o conhecimento deixa de ser simples apoio da produção e se converte ao mesmo tempo em mercadoria e em meio de produção. Ciência, tecnologia e informação entram de forma direta no circuito da valorização e passam a reorganizar o funcionamento da economia global.

Se sigo esse fio, percebo que Haddad não está interessado apenas em descrever inovações técnicas. Ele procura mostrar que essa mutação atinge também a estrutura social do capitalismo. O mundo do trabalho, segundo ele, tornou se mais fragmentado. Ao lado do proletariado tradicional, emerge o chamado cognitariado, composto por trabalhadores do conhecimento, pesquisadores, engenheiros, técnicos e profissionais ligados aos setores de ponta da inovação. Ao mesmo tempo, cresce o precariado, isto é, uma massa de trabalhadores submetidos à instabilidade, à informalidade e à insegurança permanente. A consequência política desse quadro, como o próprio Haddad sublinha, é bastante grave: a fragmentação da classe trabalhadora dificulta a constituição de sujeitos coletivos capazes de agir politicamente com força transformadora.

Há ainda outro eixo do livro que merece atenção. Refiro me à releitura que Haddad faz das experiências socialistas do século XX. Para ele, regimes como a União Soviética e a China maoísta não configuraram uma ruptura efetiva com o capitalismo. No debate público, essa ideia aparece de maneira ainda mais direta e despojada. Segundo Haddad, essas experiências funcionaram como formas de industrialização acelerada organizadas pelo Estado. Em vez de constituírem sistemas realmente alternativos, teriam operado historicamente como mecanismos de acumulação primitiva aptos a retirar países atrasados da condição agrária e inseri-los no universo industrial moderno.

Nesse movimento, Haddad também reconhece o papel decisivo de formas de exploração brutal, como o escravismo, na constituição do capitalismo moderno. O tráfico atlântico, as plantations e a ordem colonial aparecem como componentes centrais dos processos de acumulação que acompanharam a expansão inicial do sistema. A escravidão, portanto, não surge em sua análise como algo exterior ao capitalismo, mas como parte constitutiva das formas históricas que alimentaram sua formação.

Se reúno esses elementos, a imagem que o livro produz diante de mim é a de um capitalismo dotado de notável elasticidade histórica. Trajetórias muito distintas, experiências nacionais diversas, regimes ideologicamente antagônicos, tudo isso teria podido convergir para um mesmo destino estrutural. Capitalismos clássicos, socialismos de Estado e economias periféricas em modernização acabariam, cada qual a seu modo, integrando se à lógica global da acumulação. O capitalismo aparece, assim, como um sistema extraordinariamente adaptável, capaz de metabolizar diferenças históricas profundas e reconduzi-las à sua própria dinâmica de expansão.

Haddad faz aqui uma crítica ao conceito mecanicista do chamado materialismo histórico que analisa a história humana num continuum do mais primitivo para o mais complexo, tal como a leitura de modos de produção que se sucedem como sociedades primitivas, escravismo, feudalismo, capitalismo e finalmente o socialismo, que abriria as portas da humanidade para o comunismo.

Eu reconheço sem hesitar a força dessa leitura. Haddad identifica algo que muitas interpretações envelhecidas do capitalismo ainda custam a admitir: a ciência e a tecnologia deixaram de ser simples acessórios do desenvolvimento e passaram a ocupar posição decisiva na reprodução ampliada do sistema. Ao insistir que o conhecimento se converteu em força produtiva central, ele toca num dos nervos mais expostos do presente. Mas é justamente nesse ponto que, a meu ver, começam também os limites mais profundos de sua análise.

Quando leio o livro de Haddad à luz da crítica do valor dissociação, ferramenta analítica de autores como Robert Kurz, Moishe Postone, Anselm Jappe, Roswitha Scholz, entre outros, percebo que o problema não está no que Haddad vê, mas no modo como enquadra teoricamente aquilo que vê.

Sua leitura continua tratando o capitalismo, em grande medida, como um sistema econômico definido pela industrialização, pela inovação tecnológica e pela expansão da produtividade. O que me incomoda nisso é que tal definição acaba aproximando demais capitalismo e progresso técnico, capitalismo e desenvolvimento das forças produtivas, como se o essencial do sistema estivesse na potência de seu aparato produtivo.

A crítica do valor parte de outro ponto. Para ela, o núcleo do capitalismo não reside nem na indústria, nem na tecnologia, nem mesmo no mercado entendido em sentido vulgar. O núcleo do capitalismo está numa forma social específica, baseada na produção de valor. Dito de outro modo: o capitalismo não se define apenas porque existem mercadorias, dinheiro ou propriedade privada, mas porque o trabalho abstrato se tornou o mediador central da vida social. Mercadoria, dinheiro, capital e Estado não são apenas instrumentos econômicos ou instituições políticas. São formas sociais historicamente determinadas que organizam a reprodução da sociedade como um todo.

É aqui, leitor, que a diferença de perspectiva se torna decisiva. Quando esse ponto de partida se perde, a crítica do capitalismo muda de natureza. Em vez de questionar a própria forma social da produção mercantil, passamos a discutir apenas modelos mais ou menos eficientes de desenvolvimento, formas mais ou menos equilibradas de gestão econômica, modalidades mais ou menos inclusivas de administração do sistema. O horizonte deixa de ser a superação da ordem social do capital e passa a ser o seu aperfeiçoamento institucional. Insisto neste ponto: a abordagem teórica tem então que ser precisa e dotada de elementos que nos permitam entender a real natureza do capitalismo, e como ele se apresenta no mundo contemporâneo! Se isto não ocorrer ingressamos em caminhos tortuosos que nos levarão a um beco sem saídas.

É exatamente esse deslocamento que encontro em Capitalismo Superindustrial. Ao descrever o capitalismo principalmente como um regime de inovação tecnológica e acumulação produtiva, Haddad desloca a questão fundamental. O problema histórico do capitalismo deixa de ser a lógica social do valor e passa a ser a busca de formas institucionais capazes de regular o crescimento econômico, conter desigualdades excessivas e administrar os conflitos produzidos pelo próprio sistema. E, convenhamos: isto não nos apresenta uma saída real.

Esse mesmo deslocamento ajuda a entender a maneira como ele interpreta o socialismo do século XX. Quando Haddad sustenta que a União Soviética e a China foram apenas caminhos distintos de industrialização, ele acerta ao afirmar que essas experiências não superaram o capitalismo. Mas a crítica do valor chega a essa conclusão por razões mais profundas. Para Robert Kurz, por exemplo, o fracasso do socialismo estatal não decorreu apenas de autoritarismo político, deformação burocrática ou atraso econômico. Ele decorreu do fato de que tais experiências conservaram intocadas as categorias centrais da sociedade da mercadoria. O trabalho continuou sendo o mediador social supremo. A produção permaneceu organizada por metas quantitativas de acumulação. O Estado assumiu o lugar de administrador geral de um sistema ainda subordinado ao imperativo fetichista do valor.

E é nesse ponto que emerge uma questão central do livro e das falas públicas de Haddad: o papel da política. Haddad insiste, e com razão, que o capitalismo contemporâneo gera desigualdades profundas, tensões sociais explosivas e formas cada vez mais duras de fragmentação social. Mas, ao mesmo tempo, ele aposta que a política democrática pode atuar como força corretiva dessas distorções, seja por meio da regulação estatal, da redistribuição de renda, do fortalecimento institucional ou da reconstrução de pactos inclusivos.

Confesso ao leitor que entendo o apelo dessa aposta. Em tempos de sofrimento social agudo, ela parece oferecer um chão mínimo, um caminho de contenção da catástrofe, um esforço de civilização diante da brutalidade do mercado. No entanto, a análise feita à luz da crítica do valor me obriga a olhar para essa esperança com muito mais cautela. Para os autores que aqui citei a política moderna não nasce fora da sociedade da mercadoria, como se fosse uma instância soberana pairando acima da economia. Ela nasce no interior da própria forma social capitalista e como seu complemento necessário. Estado e política são momentos internos da reprodução fetichista, não forças exteriores capazes de reorganizá-la livremente.

Isso significa que a autonomia da política é sempre relativa. O Estado pode regular, amortecer, conter, disciplinar, redistribuir parcialmente e administrar crises. Pode até, em determinadas conjunturas históricas, construir sistemas de proteção social, ampliar direitos e limitar momentaneamente os efeitos mais destrutivos da concorrência e da acumulação. O século XX forneceu exemplos eloquentes disso. Mas todas essas conquistas se deram dentro dos limites permitidos pela própria valorização do capital. Onde havia expansão econômica e base fiscal sólida, as reformas eram viáveis. Quando a crise estrutural se aprofundava, o que antes parecia conquista histórica tornava-se alvo de desmonte. E estes são os contornos da sociedade em que vivemos na atualidade!

É por isso que eu vejo a política moderna aprisionada num paradoxo severo. Ela é indispensável para administrar as crises do capitalismo, mas é incapaz de suprimir as categorias que geram essas crises. Enquanto mercadoria, trabalho abstrato, dinheiro e capital continuarem sendo os mediadores centrais da reprodução social, a política seguirá reduzida ao papel de gestão dessas formas. Isso vale também para a experiência do chamado socialismo real. A estatização da economia não aboliu a lógica da mercadoria. Apenas a administrou burocraticamente, subordinando a sociedade inteira a um regime de acumulação quantitativa comandado pelo Estado.

Esse problema retorna quando observo como Haddad trata questões candentes do presente, como racismo estrutural, patriarcalismo e violência social. Ele reconhece, e corretamente, a persistência dessas formas de dominação. Relaciona-as ao escravismo, ao colonialismo e às desigualdades históricas que marcaram a formação das sociedades modernas, especialmente no Brasil. O racismo aparece como herança estrutural do passado escravista. O patriarcalismo, como dimensão histórica que atravessa a organização do trabalho e da reprodução da vida.

Mas aqui também percebo um limite. Essas questões aparecem sobretudo como camadas históricas e sociológicas que acompanham o desenvolvimento do capitalismo, e não como dimensões internas à própria lógica de sua forma social. A crítica do valor dissociação vai além. Roswitha Scholz, por exemplo, mostra que o patriarcado moderno não pode ser tratado apenas como resíduo de épocas pretéritas. Ele está articulado à própria forma valor. A sociedade da mercadoria organiza-se pela dissociação entre a esfera da produção de valor, vinculada historicamente ao trabalho abstrato e à visibilidade pública, e a esfera da reprodução social, atribuída às mulheres e rebaixada à condição de suporte invisível do sistema.

O mesmo pode ser dito, com as mediações necessárias, do racismo moderno. A expansão colonial do capitalismo e os sistemas de escravidão atlântica não foram simples anexos brutais de uma história econômica neutra. Eles ajudaram a construir hierarquias raciais que organizaram a divisão global do trabalho e a própria arquitetura social do mundo moderno. O racismo não é apenas herança externa ao capitalismo. Ele participa de sua constituição histórica.

Vejo ainda outro limite importante no livro. Ao acentuar o papel da tecnologia e da ciência, Haddad tende a tratar a transformação tecnológica como motor relativamente autônomo da história. Automação, digitalização e inovação científica aparecem como processos que reorganizam a economia e transformam a estrutura social. A crítica do valor, no entanto, exige um passo além. A tecnologia não é neutra, nem paira acima das relações sociais. Ela é desenvolvida sob a coerção da valorização. O capital não inova para libertar a humanidade do trabalho penoso ou para universalizar o florescimento humano. Ele inova para elevar a produtividade do trabalho e ampliar a produção de valor.

Mas aí está a contradição fatal. Quanto mais a tecnologia expulsa trabalho vivo do processo produtivo, mais enfraquece a própria substância social do valor. A automação generalizada corrói o fundamento da acumulação ao mesmo tempo em que parece aperfeiçoá-lo. O capitalismo torna se mais produtivo e, por isso mesmo, mais incapaz de sustentar sua própria lógica. A crise contemporânea não é mero problema distributivo, nem simples falha institucional. Ela expressa a contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas e a permanência de uma forma social que depende do trabalho abstrato como medida de riqueza.

Sob esse ângulo, o chamado capitalismo superindustrial pode ser visto menos como novo ciclo estável de expansão e mais como forma avançada da crise estrutural do capital. A centralidade da ciência, da automação e da tecnologia não revela apenas a incrível plasticidade do sistema. Revela também o esgotamento histórico de sua base social.

É por isso que, no fim das contas, o limite mais profundo do livro me parece político e histórico ao mesmo tempo. Haddad reconhece com clareza que o capitalismo produz desigualdades explosivas. Vê que a desorganização do trabalho, a financeirização, a revolução tecnológica e a fragmentação social aprofundam tensões que podem corroer a própria vida democrática. No entanto, sua resposta continua inscrita no horizonte da administração do capitalismo. A política, em sua perspectiva, aparece como motor de regulação, redistribuição e contenção dos excessos sistêmicos. Em vez de colocar no centro a extinção histórica do capitalismo, o livro permanece apostando em sua reforma civilizada.

É aqui que sinto a insuficiência dessa obra diante do tempo em que vivemos. E isto tem um caráter fundamental: uma obra deste tipo deve refletir os tempos que vivemos, na sua totalidade. A intervenção teórica, sobretudo em um intelectual que tem uma inegável inserção política no país, não nos deve conduzir a caminhos tortuosos, impossíveis de serem percorridos. Chegamos a um momento, em que a crítica do capitalismo deixou de ser apenas um exercício teórico e se tornou uma de sobrevivência histórica. Ela tem que ser precisa!

E digo isso sem qualquer prazer apocalíptico. A realidade é que o capitalismo parece ter atingido suas fronteiras históricas. Suas bases de reprodução são corroídas pela substituição estrutural do trabalho vivo, enquanto sua expansão ilimitada devasta os próprios fundamentos naturais da vida. A crise climática, a devastação ambiental, a guerra disseminada, o avanço de formas autoritárias de poder, o colapso dos vínculos sociais e a produção massiva de populações descartáveis indicam que já não estamos diante de uma crise cíclica qualquer. Estamos diante de um processo histórico que pode desembocar em formas cada vez mais profundas de barbárie.

Quando digo barbárie, não falo em figura retórica. Falo de um mundo em que vastas regiões se tornam inabitáveis, em que guerras permanentes normalizam o extermínio, em que multidões são relegadas à inutilidade econômica, em que a devastação ecológica corrói as condições elementares da vida e em que a técnica, submetida à lógica cega da valorização, já não emancipa, mas ameaça. O risco extremo, hoje, não é apenas o de uma sociedade mais injusta. É o de uma humanidade incapaz de sobreviver aos resultados da própria forma social que produziu.

Por isso, a alternativa já não me parece situar-se entre modelos distintos de gestão do capitalismo. O verdadeiro dilema se desenha de maneira mais nua e mais dura: ou ultrapassamos a lógica da mercadoria, do valor e do trabalho abstrato como princípios de organização da vida social, ou continuaremos avançando por uma trilha em que a barbárie deixa de ser ameaça e se converte em horizonte. A essa altura da história, talvez a questão central já não seja saber como administrar melhor o capitalismo, mas se ainda haverá tempo histórico para superá-lo antes que ele arraste consigo as bases materiais, sociais e simbólicas da existência humana.

Esse, para mim, é o ponto em que a crítica reformista revela seus limites. E é também o ponto em que a crítica do valor dissociação, com toda a sua dureza, nos obriga a encarar o presente sem ilusões. O capitalismo não é apenas injusto. Ele se tornou historicamente perigoso para a própria continuidade da vida civilizada. É por isso que a tarefa do pensamento crítico, hoje, não pode limitar se a imaginar remédios para a administração de um sistema agonizante. Ela precisa ousar pensar, com toda a radicalidade que o momento exige, as formas de vida que possam nascer para além dele.

 

Fonte: IHU

 


 

Mulheres no Brasil trabalharam "de graça" até agora em 2026

Se as mulheres recebessem salários equivalentes aos dos homens no Brasil, elas não precisariam ter trabalhado desde 1° de janeiro até este sábado (21/03) para fechar o ano de 2026 com a mesma renda que eles.

É o que revela um cálculo a partir da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc) do último trimestre de 2025, realizado a pedido da DW. A pesquisa é do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Segundo Thaís Barcellos, estudiosa dos dados sobre desigualdade de gênero, as brasileiras ganham em média 22% a menos do que os pares do sexo masculino. O índice é uma comparação de quanto ganham por hora trabalhadoras e trabalhadores nas mesmas faixas de escolaridade, idade, estado, setor de ocupação e posição hierárquica.

"Quando olhamos para estes grupos parecidos, vemos que, se as mulheres ganhassem o mesmo que os homens, elas poderiam começar a trabalhar em 22 de março," explica Barcellos, autora do cálculo no contexto brasileiro. "Até então, elas poderiam ter estado 'de férias' e, a partir daí, teriam o mesmo rendimento que os homens para o ano."

Seria o mesmo dizer que, para obterem o ganho anual dos homens, as mulheres precisam trabalhar, a cada 365 dias, outros 80 a mais em média. Isto é, apenas neste sábado elas conseguiriam inteirar a diferença entre o valor que chegou aos seus bolsos e aos deles em 2025.

As mulheres também participam menos do mercado e estão mais expostas ao trabalho precarizado, destaca a secretária-executiva do Ministério das Mulheres, Eutália Barbosa. "Estes fatores, combinados, traduzem uma grande desigualdade de gênero no mundo do trabalho, com uma condição de maior vulnerabilidade para as mulheres," afirmou à DW.

<><> Marco internacional

A data anual em que as mulheres deixam de trabalhar "de graça" leva o nome de "Dia da Igualdade Salarial" (Equal Pay Day, em inglês) em outros lugares do mundo. Cada país tem o seu dia-marco, que é móvel de acordo com a variação da desigualdade salarial entre os gêneros ao longo dos anos.

Esta matemática já virou tradição na Europa. Na Alemanha, por exemplo, a data caiu neste ano em 27 de fevereiro, refletindo a disparidade média de 16%, sem ajuste para atividades, qualificações e volume de trabalho comparáveis. No cálculo ajustado, a diferença cai para 6%, em comparação aos 22% do Brasil, onde o Equal Pay Day é 21 de março.

Já no Reino Unido, as mulheres trabalharam "de graça" pelos primeiros 47 dias deste ano, até a metade de fevereiro, estimou o Trades Union Congress (TUC). O órgão sindical calculou a desigualdade britânica média em 12,8%, com base em dados do governo. "No ritmo atual, serão necessários 30 anos – até 2056 – para eliminar a diferença salarial entre homens e mulheres."

Outros países jogam os dias excedentes de expediente das mulheres para o fim do ano. Para toda a União Europeia (UE), o Equal Pay Day foi 25 de novembro em 2025. Ou seja, foi quando as mulheres "pararam" de receber em comparação aos homens naquele ano, acumulando um mês e meio a mais de trabalho.

<><> Brasil: 118º lugar em ranking mundial

No Brasil, a disparidade salarial entre gêneros se alinha à média global – estimada pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) em 20% para homens e mulheres nas mesmas funções. Ainda assim, o país ficou na 118ª posição num ranking do Fórum Econômico Mundial que, no ano passado, comparou a percepção de equidade salarial entre os gêneros entre 148 economias.

"O problema não é de qualificação. O gargalo está na remuneração e ascensão a cargos de liderança," diz Gallianne Palayret, Representante da ONU Mulheres no Brasil. Dados do IBGE confirmam que as mulheres tendem a ser mais escolarizadas do que os homens.

Menos da metade (40%) dos cargos de diretores e dirigentes nas empresas são ocupados por mulheres, complementa Lorena Hakak, professora da Fundação Getúlio Vargas (FGV), com base em dados da PNADc de 2012 a 2024.

Os setores mais díspares são os da administração pública, defesa, seguridade social, educação, saúde humana e serviços sociais, de acordo com o mais recente Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (Raseam), do Ministério das Mulheres. 

Neles, as mulheres ganhavam em média 35% a menos do que os homens em 2024, em comparação a 30% na indústria e 15% na agricultura e pecuária. "Reduzir essa desigualdade é fundamental também para fortalecer o desenvolvimento econômico e social do país", argumenta Barbosa, secretária-executiva da pasta.

<><> O peso sobre as mulheres negras

Era ligeiramente maior a diferença salarial medida pelo Raseam entre brancos e brancas (24%) do que entre negros e negras (20%) – ela tende a ser maior quando o nível salarial é mais alto.

Mas, no fim das contas, as mulheres negras têm os salários mais baixos de todos, seguidas por homens negros, mulheres brancas e homens brancos. "A interseccionalidade entre gênero e raça no mercado de trabalho penaliza mais mulheres negras," destaca Hakak, da FGV.

Na comparação com homens brancos, o salário médio da mulher negra não chega à metade. O Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) estimou em 2024 a remuneração média delas em R$ 2,8 mil, em comparação a R$ 6 mil para não negros do sexo masculino.

Além disso, a vulnerabilidade financeira é maior nos domicílios chefiados por mulheres negras: em 2024, 70% destes lares tinham rendimento domiciliar de até um salário mínimo per capita. Nas casas chefiadas por mulheres brancas, a proporção era de pouco menos de 44%.

Sobre os ombros das mulheres negras também pesa mais a exclusão do mercado de trabalho formal. A informalidade era maior entre pretas ou pardas (41%) que entre brancas (32%), sendo mais acentuada no Norte e Nordeste. Segundo a ONU Mulheres, o índice de informalidade entre as mulheres na América Latina é de 51%.

<><> Cuidado é trabalho

Mesmo sem trabalho remunerado no que foi até agora de 2026, teria sido altamente improvável para uma brasileira desfrutar do descanso. Quando não estão em expediente – por escolha ou não –, elas tradicionalmente acumulam várias outras funções, sobretudo os cuidados da casa e da família.

Em média, as mulheres dedicam quase 10 horas semanais a mais a este tipo de trabalho do que os homens. O tempo gasto pode chegar a 22,4 horas semanais para as mulheres negras, revelou estudo da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e do governo brasileiro do ano passado.

A sobrecarga na vida doméstica é causa para a histórica tendência de menor participação feminina no mercado. Sejam brancas, pardas ou negras, elas costumam entrar no mercado mais tarde e têm maior dificuldade de encontrar emprego.

A representante da ONU Mulheres enxerga este como o principal fator da desigualdade laboral de gênero no Brasil. "Enquanto o cuidado for tratado como responsabilidade exclusiva ou primária das mulheres, elas vão continuar a ter menos tempo e condições de competir no mercado de trabalho," pondera Palayret.

O Raseam, por sua vez, revelou que só 53% das mulheres estavam ocupadas em 2024, contra 72% dos homens. De novo, as nordestinas e nortistas eram as mais afetadas, com menor inserção na força de trabalho (43% e 48% de participação, respectivamente).

<><> Políticas necessárias

Em 2023, entrou em vigor no Brasil a Lei da Igualdade Salarial, estabelecendo que mulheres e homens devem receber o mesmo por funções iguais.

"Se uma mulher identificar diferença salarial injustificada, ela pode procurar o setor de Recursos Humanos da empresa, buscar orientação no sindicato da sua categoria, registrar denúncia no Ministério Público do Trabalho e Emprego ou recorrer à Justiça do Trabalho," orienta Barbosa, do Ministério das Mulheres.

Acompanhada de um plano para o tema, a legislação também determinou que cerca de 50 mil empresas com mais de 100 empregados devem mostrar ações concretas. Elas incluem garantir transparência salarial, fiscalizar práticas discriminatórias, criar canais de denúncia, promover programas de inclusão e incentivar a capacitação das mulheres.

Uma das obrigações dos empregadores é oferecer dados ao governo federal, que alimentam relatórios periódicos sobre a paridade salarial dentro de cada empresa, e divulgar os resultados em canais oficiais. Diferenças salariais injustificáveis podem acarretar penalidade administrativa de até 3% da folha de pagamentos.

Palayret vê um avanço neste tipo de legislação, ausente em quase metade dos países do mundo. Mas ainda é insuficiente. "É preciso que as empresas adotem as medidas necessárias para identificar onde estão as lacunas salariais e as suas causas."

Outros programas em vigor no Brasil focam em garantir a equidade laboral com foco também no fator racial e ampliar serviços e políticas de cuidado, destaca o Ministério das Mulheres. Para pesquisadoras como Hakak, medidas úteis incluem uma nova ampliação da licença-paternidade, a maior oferta de creches, o incentivo a jornadas de trabalho mais flexíveis e a implementação de políticas contra o assédio.

 

Fonte: DW Brasil


Anorexia e bulimia: influencers ‘vendem’ transtornos alimentares como ‘estilo de vida’; médicos alertam para riscos

Se você viveu a internet dos anos 2000, provavelmente se lembra dos blogs “ana” e “mia”. Os nomes eram uma referência direta a dois transtornos alimentares: anorexia e bulimia. Hoje, essas páginas não existem mais e as redes sociais bloqueiam esses termos. Mas quem usa o Instagram e o TikTok pode estar consumindo esse tipo de conteúdo, agora apresentado não mais como doença, mas como um novo “estilo de vida”.

O g1 encontrou dezenas de vídeos em perfis no TikTok e no Instagram que compartilham conteúdos que incentivam comportamentos associados a transtornos alimentares. Vídeos virais ensinam a interromper a alimentação, dão dicas de como permanecer mais horas sem comer e até incentivam sessões de autodepreciação.

Geralmente, quem está por trás desses conteúdos usa roupas de academia e se apresenta como alguém que dá dicas de bem-estar, disciplina alimentar ou conselhos de autocuidado. Muitos desses vídeos são feitos por profissionais de nutrição. O conselho afirma que investiga os casos. (Leia mais abaixo.)

O que especialistas explicam é que estamos diante de uma nova realidade: os transtornos foram transformados em estilo de vida, criando uma comunidade aberta e sem controle nas redes. Segundo eles, isso tem agravado o cenário das doenças: pacientes cada vez mais jovens, com casos de crianças de nove anos em tratamento, e perdas de peso cada vez mais extremas.

Eles também alertam para uma nova fase da anorexia, agora associada ao uso das chamadas “canetas emagrecedoras”. De acordo com médicos, algumas pessoas usam esses medicamentos mesmo sem ter sobrepeso, como forma de restringir a alimentação e buscar metas cada vez menores de peso – sintoma clássico de anorexia.

Abaixo, nesta reportagem, o g1 mostra qual é o cenário atual dessas doenças nas redes sociais, como pessoas ganham engajamento e dinheiro divulgando esse tipo de conteúdo, o envolvimento de profissionais de saúde e o que fazer para identificar os sinais desses transtornos.

As plataformas explicam que não permitem conteúdo que promova transtornos alimentares e práticas perigosas de controle de peso — apesar de tudo isso circular livremente. (Leia abaixo o que dizem o TikTok e o Instagram)

<><> A nova cara dos transtornos alimentares na internet

Na internet dos anos 2000, circulavam em fóruns e blogs, de forma mais discreta, conteúdos sobre anorexia e bulimia. Apesar de serem feitos para não chamar a atenção, eles eram assumidamente espaços para divulgar as doenças.

Nesses mais de 20 anos que se passaram, o mundo viveu o movimento body positive, uma expansão do debate sobre os padrões de corpos e as coisas pareciam ter mudado, mas o que pesquisas e especialistas explicam é que não mudaram. Pelo contrário: agora, mais do que nunca, crianças e adolescentes estão cada vez mais expostos.

O g1 encontrou dezenas de conteúdos que ensinam explicitamente pessoas a terem comportamentos típicos de anorexia e bulimia. Os vídeos trazem informações sobre como inibir o apetite, duração de jejuns que superam 12 horas, purgar (provocar vômito ou usar laxantes e diuréticos), restringir alimentos básicos e ter dietas com um volume muito baixo de calorias.

•        🔴 Atenção: não há recomendação médica para interrupção da alimentação e nem mesmo jejum de muitas horas. Pelo contrário, pesquisas já mostram que o jejum pode piorar o cenário de emagrecimento, ser gatilho para transtorno alimentar e trazer consequências para o funcionamento do pâncreas.

🔴 Ou seja: há uma roupagem de saúde, mas que, na verdade, esconde os sintomas de uma doença. E é aqui que mora o perigo.

Há perfis em que influenciadoras ensinam mulheres a se ofenderem, criticarem o próprio corpo para ‘expurgar’ a pessoa fora do padrão que há nelas e, finalmente, serem magras.

Nos comentários, uma rede engajada de quem diz aderir a esse tipo de comportamento e que é apoiada por outros comentários e a própria influenciadora.

Para além de todo o engajamento, que se transforma em monetização, essas pessoas ainda vendem cursos com esse tipo de conteúdo, emagrecedores e suplementos vitamínicos.

➡️Quem viveu a internet dos anos 2000 reconhece esse tipo de vídeo, apesar disso não ser uma proteção. Mas a geração Z, grande usuária dessas redes, não viu e tem sido exposta a um padrão de magreza que coloca em risco a saúde com hábitos apresentados como saudáveis, mas que levam à prática de uma doença sem reconhecer.

O psiquiatra Fábio Salzano, que está à frente do Ambulim, centro de tratamento e pesquisa, explica que os transtornos sempre estiveram nas redes, mas que nos últimos anos ganharam uma interface de saúde muito perigosa.

Esse movimento que estamos vendo é um risco à saúde. As pessoas estão naturalizando quadros de doença. A gente tem um terreno em que as pessoas estão muito mais vulneráveis.  — Fábio Salzano, psiquiatra do Ambulim.

O psiquiatra Amilton dos Santos explica que esse tipo de cenário em um ambiente de redes sociais não reguladas, com livre acesso para adolescentes, coloca em risco pessoas vulneráveis.

“As redes sociais criaram comunidades que tratam a anorexia e a bulimia como um estilo de vida, proporcionando um falso, mas poderoso, senso de pertencimento para jovens em sofrimento. Isso é um risco”, explica Amilton dos Santos Júnior, professor Associado do Departamento de Psiquiatria da Faculdade de Ciências Médicas da Unicamp.

<><> Transtornos mudaram de roupagem, mas seguem em alta

De acordo com os especialistas, conteúdos sobre anorexia e bulimia sempre existiram na internet, mas o que acontece agora é que eles não são mais apresentados como uma doença, mas como hábitos de saúde, um novo estilo de vida.

>>>> Antes, para você entender:

•        Os transtornos alimentares são doenças psiquiátricas caracterizadas por uma relação não saudável com a comida.

•        Entre os principais estão a anorexia nervosa, a bulimia nervosa e o transtorno da compulsão alimentar.

•        Essas condições não afetam apenas a quantidade e o tipo de alimento que a pessoa consome. Em muitos casos, também podem interferir na forma como o organismo utiliza e absorve os nutrientes, com impactos diretos na saúde física e mental.

De acordo com o psicólogo Raphael Cangelli, do Ambulim, as pessoas vêm aderindo a comportamentos bulímicos e anoréxicos sem identificar as doenças.

“As pessoas seguem essas dicas, aderem a esse tipo de movimento e nem percebem o comportamento de transtorno alimentar. Ou seja, a pessoa evolui muito nesse ciclo sem se reconhecer doente e isso leva a quadros mais graves da doença”, explica.

O psicólogo, que atende no ambulatório desde os anos 90, acompanha esses cenários desde o início da internet e explica que, agora, o número de pacientes é maior, mais jovem e com uma perda de peso mais extrema.

De acordo com o Ministério da Saúde, no ano passado, a rede pública fez 968 atendimentos a pessoas com quadros de transtorno alimentar, a maior parte deles por anorexia. Desse número, quase 300 pessoas precisaram ser internadas pela gravidade do quadro.

<><> Nutricionistas se promovem através de conteúdos sobre transtorno

Mais da metade dos conteúdos encontrados pelo g1 durante a apuração sobre transtornos alimentares estavam em perfis de profissionais de nutrição.

Eles apresentam informações sobre restrição de alimentação, medidas extremas para evitar a comida e associam a perda de peso à saúde – ainda que sob essas condições.

De acordo com o Conselho Federal de Nutrição (CFN), o número de denúncias desse tipo de caso envolvendo nutricionistas vem crescendo. A nutricionista e membro do comitê de ética, Juliana Pizzol, explica que esses casos configuram infrações graves do código de ética e da publicidade para a profissão.

“Há uma inversão. O profissional da nutrição está para a saúde das pessoas e não por estética. É uma responsabilidade dele. Essas são práticas que comprometem a saúde da população, isso é muito perigoso”, explica.

O g1 denunciou ao Conselho todos os profissionais que apareciam na lista de vídeos. Caso você se depare com um perfil que traga esse tipo de conteúdo, você também pode denunciar. O relato pode ser feito por qualquer pessoa e é anônimo.

<><> A anorexia e as canetas emagrecedoras

A anorexia ganhou uma nova ferramenta com a chegada das canetas emagrecedoras. De acordo com os especialistas, além de ser usada por quem já tem um quadro da doença, o uso indiscriminado desses medicamentos e a dependência que algumas pessoas têm, vem criando novos quadros de anorexia.

“É um comportamento de risco usar esse tipo de medicação para emagrecer e, ao mesmo tempo, evitar comer. Isso pode resultar em anorexia. Muitas pessoas também podem estar em quadros de transtorno alimentar sem perceber, porque entram nesse ciclo sem conhecer o problema e acabam não se reconhecendo nessa condição”, afirma Raphael Cangeli.

Os especialistas relatam que esses medicamentos têm levado a quadros de desnutrição nunca antes vistos, com pacientes cada vez mais magros.

Os médicos alertam que é preciso que equipes médicas acompanhem a saúde mental de pacientes que façam uso de canetas com indicação. E reforçam que o uso sem quadros de obesidade pode ser um sinal de comportamento anoréxico.

<><> Das calças de cintura baixa ao ‘corpo ideal para o feed’

Mirian Bottan, jornalista e influenciadora, viveu o auge da magreza extrema dos anos 2000, com a moda das calças de cintura baixa. Ela passou anos vivendo com bulimia, sessões excessivas de exercícios e compulsão. Nesse processo, chegou a um corpo magro que custava a ela a sua saúde.

“Quando eu tinha transtorno, eu aparecia publicamente com um comportamento saudável, pregando certas coisas que, na verdade, faziam parte do transtorno. Quem tem transtorno alimentar muitas vezes não se reconhece como alguém que o possui. Se eu não tivesse falado publicamente sobre meu transtorno, ninguém saberia que, enquanto eu parecia saudável, eu não estava.”

O cenário para Miriam, no entanto, era diferente: nessa época, as redes sociais ainda não existiam e todo esse discurso não era amplificado como se vê hoje, com a alta dos perfis de bem-estar.

“Adolescentes estão sempre em busca de identidade e de padrões. Nem imagino como seria lidar com as redes sociais sendo uma adolescente”, afirma Mirian Bottan.

Hoje, a influenciadora usa as redes sociais para falar sobre sua trajetória com o corpo . “Para uma adolescente que passa por isso, é difícil enxergar que está passando por um transtorno. Tem meninas que adotam isso como identidade. Há também outro lado, em que você não enxerga isso como um problema. Mas de qualquer forma, existe um problema: a pessoa está doente. A melhor forma de agir é acessando quem está ao redor dela”, diz.

<><> Como identificar e pedir ajuda?

Muitas vezes, quem está passando por isso não reconhece os próprios comportamentos. Alguns sinais de transtornos alimentares incluem:

•        longos períodos sem comer;

•        ao consumir algo considerado “não saudável” ou mais calórico, tentativa de compensar as calorias;

•        evitar comer perto de outras pessoas;

•        esconder ou descartar alimentos;

•        obsessão por contar calorias;

•        obsessão com medir ou pesar constantemente.

Caso você perceba esses sinais, a recomendação é buscar ajuda médica e psicológica o quanto antes. O diagnóstico precoce ajuda a evitar prejuízos maiores à saúde e permite iniciar o tratamento mais cedo.

<><>O que dizem as plataformas

O g1 procurou o TikTok e compartilhou exemplos das postagens encontradas. A plataforma informou que os conteúdos foram removidos por violarem as Diretrizes da Comunidade.

Em nota, o TikTok afirmou que suas regras deixam claro que não é permitido mostrar, descrever, promover ou glorificar transtornos alimentares. “Também não permitimos a comercialização, o marketing ou o fornecimento de acesso a produtos e serviços relacionados ao gerenciamento de peso que incluam alegações exageradas ou prejudiciais”, disse a empresa.

A Meta, responsável pelo Instagram, também foi procurada. A empresa disse que reafirma seu compromisso com a proteção da saúde mental e física dos usuários, especialmente em temas sensíveis, como distúrbios alimentares. Segundo a companhia, há proteções adicionais para contas de menores de 18 anos.

 

Fonte: g1

 

O Armagedon no Irã e as confissões de Vorcaro

O ano de 2026 se desenhava relativamente tranquilo para o Brasil e os Estados Unidos no final de 2025. Tanto que os presidentes Lula e Donald Trump tinham pré-agendado um encontro na Casa Branca, ainda no primeiro trimestre. Na pauta da reaproximação diplomática entre as duas maiores democracias das Américas, após o distanciamento provocado pela interferência do clã Bolsonaro, que levou à imposição de alta tarifas de importação aos produtos brasileiros e a sanções da Lei Magnitsky a ministros do Supremo Tribunal Federal e do Ministério do governo Lula, estavam a redução das tarifas e a retirada das sanções, que inclui restrições de vistos a brasileiros e a negociação sobre acesso americano a terras raras.

Na virada do ano, o quadro parecia mais favorável ao Brasil, quando a Suprema Corte Americana derrubou o tarifaço do começo do governo Trump, 2025, por não ter sido submetido a referendo do Congresso. A Suprema Corte fez ver a Trump a existência da interdependência e a fiscalização mútua entre os três Poderes (o princípio de pesos e contrapesos, ou “check and balance”) que rege o funcionamento da democracia americana e que Trump quis afrontar desde o primeiro momento. Na sua fixação por “Make a America Great Again”), Trump pensava em atingir a China, a nação mais beneficiada pela globalização, quando as matrizes americanas saíram pelo mundo – sobretudo a Ásia – para instalar linhas de produção com mão-de-obra, tributos e infraestrutura mais rentáveis. O objetivo imediato era reduzir os déficits comerciais dos EUA. Numa segunda fase, a produção seria “made in USA”.

Mas a interdependência das cadeias produtivas trouxe um impacto inflacionário à produção doméstica, de resto privada de elementos fundamentais nas manufaturas do terceiro milênio: os circuitos eletrônicos. Interrompida a cadeia de suprimentos de “chips”, Trump teve de voltar diversas vezes na imposição de tarifas, até a Suprema Corte derrubá-las ao nível de 10%. Nesse intervalo, procurou cortar o acesso da China a minerais críticos das terras raras, ainda que a ideia de anexação da Groelândia e do Canadá (!) como o 51º estado americano tenha esfriado. Cortar o acesso aos minerais que garantem a produção de “chips” e baterias de lítio para carros elétricos ou para armazenagem da energia solar e eólica era parte da estratégia para atacar um ponto fraco à expansão chinesa: a dependência de energia.

Aí Trump e seus assessores vislumbraram uma oportunidade depois do ataque bem-sucedido em parceria com Israel, de Benjamin Netanyahu, às instalações nucleares do Irã – uma ameaça a Israel desde os tempos do Xá Reza Pahlavi, derrubado pela revolução dos Aiatolás, em 1979. A fraca reação do Irã animou Israel e EUA a um ataque maior. Mas, antes, os Estados Unidos precisavam ter garantias de que ficaria ileso (mesmo sendo um dos maiores produtores de petróleo e gás do mundo) a um conflito demorado e extenso no Oriente Médio. A oportunidade foi a invasão da Venezuela e a captura do ditador Nicolás Maduro, que devolveu, de forma ampla, o acesso das petroleiras americanas às maiores jazidas de petróleo do mundo. Deslocar plataformas do Golfo do México (opps, da América) para o mar de Maracaibo é fácil e tudo está ao rápido alcance da proteção dos “marines” ianques. Assim, Trump acreditou na versão de Israel, que atacar o Irã e destruir a estrutura de comando faria o país se render em guerra breve. Os mísseis estão saindo pela culatra. Trump, cada dia mais errante, adiou os encontros com o primeiro-ministro da China, Xi Jinping, e com o presidente brasileiro, e busca uma saída dos Estados Unidos do centro do palco da guerra, mas cantando vitória americana, claro.

<><> A órbita da gravidade da guerra do Golfo

O site do jornal “The New York Times” fez interessante arte animada para mostrar, numa cópia da órbita de astros celestes, como a guerra entre Estados Unidos e Israel com o Irã está atingindo países que nada têm a ver com o conflito direto. Com a tática do Irã de retaliar as bases americanas nos vizinhos árabes aliados dos EUA, o conflito se espalhou para 13 ou 14 nações do Oriente Médio. Vale considerar que, além do Irã, dono das terceiras maiores reservas de óleo do mundo, foram atingidos o Catar (dono das maiores reservas de gás natural, através do campo de South Pars, dividido com o Irã, atacado por Israel), a Arábia Saudita, o Kuwait, os Emirados Árabes Unidos, o Bahrein, o Iraque e o Azerbaijão. Também foram atingidos os principais países europeus (privados do gás da Rússia desde 2022 e agora do gás e petróleo do Oriente Médio), com exceção de Portugal, e os países escandinavos.

A gigantesca Índia foi indiretamente atingida pelo ataque de submarinos americanos a navio da armada do Irã no Sri Lanka, ao sul do país. Os vizinhos Paquistão, Turquia e Síria, que abrigam parte dos nômades curdos, também foram atingidos. Numa órbita mais distante, por integrarem as forças da Otan, a Austrália e o Canadá foram atingidos (este, como o Brasil, por ser exportador de petróleo, tem o bônus da autossuficiência, mas o ônus da pressão inflacionária). Mas os planos iniciais de Trump de atingir a China no custo da energia do petróleo e gás (era o grande importador do Irã, do Catar, do Iraque, da Arábia Saudita e dos Emirados, todos com escoamento pelo Estreito de Ormuz) estão sendo atropelados pela dura realidade.

Trump acreditou piamente nos conselhos dos assessores (os mesmos que diziam que as tarifas não teriam efeitos colaterais) de que “a economia dos EUA estava protegida dos altos preços do petróleo”. Só que “os americanos não estão”, adverte o “NYT”. A economia em geral tem se mostrado resiliente nos últimos anos, mesmo com muitas famílias enfrentando dificuldades. No desespero para frear a escalada do petróleo – que afeta duramente a China, mas impacta o custo de vida dos americanos no ano de renovação de 100% da Câmara dos Deputados e de parte do Senado –, o governo Trump voltou atrás pela ação do “adulto” de seu Secretariado (Ministério), o experiente secretário do Tesouro, homem de “Wall Street”, Scott Bessent, que isentou de sanções por 30 dias as exportações de petróleo e gás da Rússia, aplicadas há quatro anos, e ainda liberou as exportações equivalentes a 140 milhões de barris de petróleo iraniano, que estão embarcados e retidos na passagem pelo Estreito de Ormuz. Os beneficiados são China, Japão e países asiáticos.

Mas a escalada continua. Neste sábado, detritos de um drone iraniano interceptado atingiram um local de extração de petróleo em Fujairah, Emirados Árabes Unidos. Na sexta-feira, o Irã disparou dois mísseis balísticos de alcance intermediário contra Diego Garcia, uma base militar conjunta entre os EUA e o Reino Unido, no meio do Oceano Índico. Nenhum dos mísseis atingiu a base, mas a ação representou o primeiro uso operacional de mísseis balísticos de alcance intermediário pelo Irã e uma tentativa significativa de atingir alvos muito além do Oriente Médio, ameaçando os interesses dos EUA.

<><> A liberdade de informar

A revista britânica “The Economist” definiu que o conflito que devasta o Oriente Médio pode ser melhor entendido como “duas guerras paralelas”. Uma é a campanha de ataques aéreos americanos e israelenses contra o regime iraniano; a outra é a guerra do Irã contra a economia global. Ambos são em grande parte unilaterais. O Irã não pode repelir os aviões de guerra que patrulham seus céus e os Estados Unidos não têm um caminho fácil para reabrir o Estreito de Ormuz, a estreita via navegável vital para o fluxo de petróleo, gás e outras mercadorias, ou para impedir ataques iranianos a instalações de produção de energia. Eu comungo da segunda hipótese.

A imprensa americana tem sido muito perseguida pelo governo Trump, especialmente pelo Pentágono, por agir de forma independente e não se limitar a oferecer aos leitores e telespectadores a visão oficial do Pentágono ou do governo Netanyahu. Na sexta-feira, o juiz Paul L. Friedman, do Tribunal Distrital Federal, em Washington, defendeu com veemência a liberdade constitucional de reportar de forma independente e sem controle governamental, derrubando as restrições sem precedentes impostas pela administração Trump aos repórteres, que esvaziaram os corredores do Pentágono de jornalistas tradicionais em um momento de guerra crescente. "Um dos principais objetivos da Primeira Emenda é permitir que a imprensa publique o que quiser e que o público leia o que quiser, livre de qualquer proibição oficial", escreveu o juiz.

E ele acrescentou: "Aqueles que redigiram a Primeira Emenda acreditavam que a segurança da Nação exige uma imprensa livre e um povo informado, e que essa segurança está ameaçada pela supressão governamental da liberdade de expressão política", continuou. "Esse princípio preservou a segurança da Nação por quase 250 anos. Não deve ser abandonado agora".

Livre de pressões, o jornal britânico “Financial Times” viu com olhar crítico e até apocalíptico, a escalada da guerra após o ataque de Israel ao campo de gás de South Pars, no Irã, que se liga, por baixo do Mar Vermelho, ao Catar. O jornal comparou a situação ao “Armagedon”, ao revelar a visão do diretor de Agência Internacional de Energia, com sede em Viena, Áustria, o economista turco Fatih Birol. Em entrevista ao “FT”, ele previu demorar mais de seis meses para a normalização do abastecimento mundial de petróleo e gás.

<><> Ficção e realidade

A ficção chega à realidade. Na segunda metade dos anos 70, quando cobria as peripécias do Brasil para enfrentar a primeira crise do petróleo (de setembro de 1973, quando o país produzia apenas 15% o petróleo consumido) e dependia do crédito internacional para construir hidrelétricas e reduzir o consumo fóssil de energia nas fábricas, um livro me impressionou muito – “A Crise de 1979” - , que descrevia uma ameaça ainda pior causada pelo conflito entre o Irã, do Xá Pahlavi, e Israel (os persas são inimigos históricos dos hebreus), e que chegou ao ponto de a explosão de uma bomba de cobalto no aeroporto de Teerã (a fórmula inicial de urânio foi modificada por cientista judeu contratado pela equipe do Xá) deixar o petróleo do Oriente Médio inacessível por 30 anos.

Na época, nem China, nem Índia, nem os “tigres asiáticos e o Brasil pesavam na economia global. Mas as peripécias da dança dos petrodólares, descritas pelo ex-banqueiro Paul E. Erdman, me deixaram fascinado. Indiquei o livro a dois diretores do Banco Central na época (e eles confessaram que ficaram dois dias insones). A guerra entre Irã e Iraque iniciada em 1978, e que levou à ascensão dos aiatolás, mergulhou o mundo na segunda crise do petróleo que gerou a devastadora crise da dívida externa dos países em desenvolvimento, que se endividaram para reciclar a economia da crise de 1973 e quebraram com os juros altos (20% ao ano) do Banco Central dos EUA (hoje em 3,75%).

<><> O Brasil estaria mal sem a Petrobras

A comparação com as duas crises do petróleo que sacudiram o mundo no fim do século passado mostra o Brasil bem mais forte. Além de ser autossuficiente em petróleo (mas não em diesel e GLP, que ainda importa cerca de 30%), o país tem uma economia inscrita entre os “tops ten” e pauta diversificada de exportação, que alcança quase 180 países. O principal produto exportado é o petróleo. Em 1973, o país dependia 70% da receita do café (que teve a produção dizimada no Paraná e São Paulo pela geada de junho de 1975, que atingiu as lavouras de milho, feijão e mandioca cultivadas pelas famílias de colonos “meeiros” nas “ruas” do café). O fim do colonato gerou os bóias-frias e uma forte migração para as periferias das cidades (a maioria virou dependente do Funrural, o que explodiu as finanças do INSS). A inflação de alimentos explodiu o déficit público, com os subsídios dos créditos do BNDE à reciclagem industrial na primeira crise. Com a conquista do cerrado, no final dos anos 80, a produção agrícola se estabilizou e a soja virou o maior produto exportado.

O que mudou mesmo foi a capacidade da Petrobras de produzir mais óleo e, ao atuar em todo o território nacional, responder ao desafio de uma crise do petróleo. O Brasil estaria perdido, com os planos do governo Bolsonaro de privatizar 50% do parque de refino da estatal. Na vigência do sistema de PPI (paridade de preços internacionais, implantado em setembro de 2016, no governo Temer), os preços estariam nas alturas, subindo diariamente.

Felizmente deu Lula, que abrasileirou os preços dos derivados em maio de 2023. Mas, já tinham sido vendidas as refinarias de Mataripe (BA), que refina 330 mil barris-dia, que o governo Lula quer recomprar, e a pequena refinaria de Manaus (20 mil barris-dia). A Petrobras continua garantindo mais de 80% do abastecimento de combustíveis. A estatal está aproveitando o fato de o petróleo Brent ter superado os US$ 110 (ela extrai no pré-sal 70% do óleo que utiliza em suas refinarias a um custo ao redor de US$ 21) para acelerar os planos de produzir mais diesel e GLP com ampliação das refinarias.

Cabe observar que o noticiário econômico, além de superficial, parece torcer pelas manobras dos especuladores. Se a Petrobras fornece às distribuidoras 75% dos derivados sem aumento (na gasolina) e com impostos federais zerados no diesel, com subsídio do Tesouro, não é a oscilação da parcela importada – sujeita aos reflexos da guerra – que comanda os preços domésticos. A imprensa tem a responsabilidade de informar melhor. E as entidades de classe, dos importadores à rede de postos, têm a obrigação ética de separar o joio do trigo. Mas acabam fazendo o jogo da especulação, que se reflete no mercado financeiro e nos juros, cuja queda foi cortada pela metade pelo clima especulativo. Vale ressaltar que cada ponto a menos de juros economiza em 12 meses mais de R$ 63 bilhões. A previsão, antes da guerra, era de uma queda de três pontos. A Faria Lima não quer perder lucros fáceis.

<><> O efeito Vorcaro

O mercado financeiro, que opera sempre especulativamente – para cima ou para baixo –, aguarda, com grande expectativa, as delações premiadas de Daniel Vorcaro à Polícia Federal. O ex-dono do Banco Master, liquidado pelo Banco Central em 18 de novembro de 2025. O banqueiro era um arrivista recente no mercado (onde entrou na década passada ao comprar o controle do Banco Máxima, de Saul Sabbá, que antes comprou o Banco Stock, de Toni Rocha). O Máxima tinha um histórico de operações irregulares com fundos de investimento, que levou a Comissão de Valores Mobiliários a processar seus dirigentes na virada do milênio. Vorcaro trocou a placa de Máxima por Master, mas manteve o “modus operandi” de usar fundos para inflar o patrimônio, com a alavanca de captação de CBDs e outros papéis protegidos até R$ 250 mil pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), bancado por um pequeno seguro descontado pelas instituições financeiras na captação de recursos.

O ex-cantor gospel mineiro aproveitou as estreitas relações com igrejas evangélicas, a partir da Igreja Lagoinha (do pastor André Valadão, de BH) para atrair os evangélicos e ampliar contatos políticos com a turma do “Centrão”, muito bem avaliada nos meios evangélicos. Seus contatos com o presidente do PP, o senador do Piauí Ciro Nogueira, quase foram bem-sucedidos: em 2024, quando o Master já fazia água ao vender CDBs com rendimento de 140% do CDI (que era a média do mercado), o senador quase emplacou uma emenda que elevava a R$ 1 milhão a garantia do FGC. Os grandes bancos chiaram e a emenda não foi adiante. Daí, mesmo “comprando” os serviços do então diretor de Fiscalização do Banco Central, Paulo Souza, viu-se em apuros quando o mandato de Souza acabou, em 31 de dezembro de 2024, junto com o de Roberto Campos Neto, que facilitou a vida dos pequenos bancos e de instituições de pagamento com o “open finance” e a redução do capital de cada “player”, o que ampliou a alavancagem do sistema. Mesmo assim, o Master estava baleado. E tentou uma associação nebulosa com o Banco Regional de Brasília, que deixou um rombo de mais de R$ 6 bilhões ao banco do governo do Distrito Federal (Ibaneis Rocha), por cessão de “títulos podres”. O Banco Central agora tenta apertar os parafusos deixados soltos por Campos Neto.

Os estilhaços da confissão de Vorcaro deixam em suspense altas figuras do União Brasil (à frente o presidente Antônio Rueda), já que estados e municípios governados pela sigla foram grandes investidores, pelos fundos de pensão dos funcionários públicos, em papéis do Master, bem acima da garantia de R$ 250 do FGC. Estão nesse caso o fundo de pensão do RJ, cujo governador Cláudio Castro (União) pode apresentar sua renúncia nesta segunda (23) e se livrar de condenação na Justiça para ficar leve e solto a concorrer para o Senado, e alcançar imunidade pelos próximos oitos anos. No Amapá, os estilhaços atingem o presidente do Congresso, senador Davi Alcolumbre (União-AP).

Teme-se também os estilhaços no Supremo Tribunal Federal. O ministro José Antônio Dias Toffoli está envolvido em negócios com o Master, através do SPA Tayayá, em Ribeirão Claro (PR). O ministro-relator da trama golpista, Alexandre de Moraes, teve o escritório de sua mulher, Viviani Barci & Filhos, contratado por cifras milionárias pelo Master, em fins de 2023. E o telefone celular de Daniel Vorcaro apresentou troca de mensagens entre o banqueiro e o ministro na véspera de sua prisão e liquidação do banco pelo Banco Central.

<><> Nuvens seguem mudando na política

Ao sabor das nuvens, que a cada hora mudam, o cenário político segue mudando e mostrando, a oito meses da eleição, uma cristalização do embate entre o presidente Lula e o herdeiro 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Os dois dividem as preferências atuais no segundo turno. Mas uma raposa da política, o presidente do PSD, Gilberto Kassab, segue vislumbrando chances para a terceira via, e pretende lançar esta semana a candidatura presidencial do governador Ratinho Júnior (PSD-PR). Ratinho já foi sondado e recusou a vice de Flávio Bolsonaro.

Quem sabe a última fala de Lula sugerindo a candidatura do seu vice, Geraldo Alkimin, a uma das duas vagas de senador por São Paulo, onde Lula precisa reforçar seu cacife eleitoral, ao lado da candidatura do ex-ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a governador, para concorrer com Tarcísio de Freitas, não estaria sinalizando um cortejo ao PSD de Kassab? As candidaturas do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) ao governo mineiro e a do ex-prefeito do Rio, Eduardo Paes (PDS-RJ), ao Palácio Guanabara já estão aliadas a Lula.

Mas o grande fato da semana pode ser a decisão do ministro Alexandre de Moraes de autorizar a mudança da prisão especial do ex-presidente Jair Bolsonaro na sala especial da PM em Brasília, na “Papudinha”, em prisão domiciliar, depois do recente agravamento do estado de saúde do condenado a 27 anos de prisão pela trama golpista. Moraes, fragilizado pelo caso Master, teve uma longa conversa com Flávio Bolsonaro, que pediu a transferência e solicitou pareceres sobre o estado clínico do paciente à junta médica que o atendeu no Copa Star, de Brasília.

 

Fonte: Por Giberto Menezes Côrtes, no JB