Maria
Luiza Falcão: A guerra anunciada - o fim da conciliação e o Brasil que entra em
sua eleição mais decisiva
Ao
declarar que a próxima disputa presidencial será uma “guerra” e que a política
brasileira está “mercantilizada” e “apodrecida”, Lula não radicaliza — apenas
reconhece a profundidade da crise do sistema. O verdadeiro problema não está na
fala, mas na estrutura de poder que limita a própria democracia.
As
frases pronunciadas por Luiz Inácio Lula da Silva durante a celebração dos 46
anos do Partido dos Trabalhadores não devem ser lidas como arroubos retóricos
nem como uma guinada inesperada de estilo. Ao afirmar que a próxima eleição
será uma guerra — e, mais ainda, que a política brasileira está mercantilizada
e “apodreceu” —, o presidente fez algo politicamente raro: descreveu o país
como ele de fato se apresenta hoje. O Brasil aproxima-se de 2026 menos como uma
democracia pacificada e mais como um sistema tensionado, onde forças
antagônicas disputam não apenas o governo, mas as próprias regras do jogo.
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O fim de um personagem histórico
Durante
décadas, a trajetória política de Lula esteve associada à ideia de conciliação.
O chamado “Lulinha paz e amor”, consolidado sobretudo na campanha de 2002, não
era apenas uma estratégia eleitoral — era uma leitura precisa de época. O
Brasil buscava previsibilidade, o conflito distributivo podia ser amortecido
pelo crescimento e ainda parecia possível compatibilizar inclusão social com
acomodação dos interesses das elites econômicas.
A
conciliação não era fraqueza; era método. Esse método funcionou enquanto havia
algum grau de racionalidade nas elites políticas, enquanto a democracia liberal
preservava legitimidade e enquanto os atores mais radicais permaneciam nas
margens do sistema.
Nada
disso permanece intacto.
O
Brasil — como boa parte do mundo — atravessou uma mutação profunda na última
década. A polarização deixou de ser episódica e tornou-se estrutural. O
extremismo foi normalizado. A desinformação converteu-se em instrumento
permanente de poder. E setores relevantes da vida pública passaram a operar não
mais dentro do pacto democrático, mas nas suas bordas.
Nesse
contexto, insistir na estética da conciliação seria menos virtude do que
cegueira histórica.
Quando
Lula fala em guerra, portanto, não rompe com sua trajetória — ele reconhece que
o terreno mudou.
O
atraso talvez não esteja na radicalização do discurso, mas no tempo que levamos
para admitir que o conflito já estava em curso.
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Não é metáfora — é diagnóstico
Parte
da reação ao discurso buscou enquadrá-lo como exagero ou como gesto
contraditório para alguém que governa por meio de amplas alianças. Essa leitura
erra o alvo.
A
palavra “guerra”, no caso brasileiro, não precisa ser entendida literalmente
para ser politicamente precisa. Ela descreve um ambiente em que o Congresso
exerce poder crescente sobre o orçamento, a sabotagem legislativa tornou-se
rotina, a extrema direita mantém mobilização permanente e a esfera pública foi
fragmentada por ecossistemas digitais impermeáveis ao debate racional.
Trata-se
de um conflito difuso, institucional e contínuo. Não reconhecer essa realidade
seria muito mais perigoso do que nomeá-la.
Há
ainda um elemento adicional que torna o diagnóstico particularmente relevante:
a eleição de 2026 tende a ocorrer em um ambiente internacional mais instável,
marcado pela erosão da hegemonia americana, pelo avanço dos nacionalismos
econômicos e pela crescente instrumentalização da política doméstica para fins
geopolíticos. Democracias sob tensão raramente produzem eleições previsíveis.
O
Brasil não será exceção.
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O nó central: governar com quem não quer ser governado
Se a
fala de Lula foi um diagnóstico correto, ela também ilumina a principal
fragilidade do arranjo político atual: a dependência estrutural de um Congresso
cada vez mais autônomo e menos comprometido com qualquer projeto nacional.
O
chamado Centrão já não pode ser descrito apenas como um bloco pragmático. Ele
se tornou um polo de poder. Controla parcelas expressivas do orçamento,
condiciona agendas e redefine, na prática, o equilíbrio entre Executivo e
Legislativo.
O
governo não negocia apenas governabilidade — negocia capacidade de agir.
O
paradoxo é evidente: enquanto o presidente reconhece a existência de uma guerra
política, o próprio sistema impõe ao Executivo alianças que frequentemente
funcionam como forças de contenção.
Evitar
essas alianças poderia produzir paralisia institucional. Mas aceitá-las impõe
limites claros à transformação.
A
contradição não é moral; é estrutural.
E é
precisamente aqui que as outras duas frases de Lula — talvez ainda mais
importantes — ganham densidade analítica.
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A política mercantilizada — quando o poder vira ativo
Se, ao
afirmar que a eleição será uma guerra, Lula descreve o ambiente, ao dizer que
“a política está mercantilizada” ele toca em algo ainda mais perturbador: a
transformação do próprio sistema político em um mercado.
Não se
trata apenas de fisiologismo, prática antiga na República brasileira. O que
emerge nas últimas décadas é um salto qualitativo: mandatos tornam-se ativos,
apoio parlamentar converte-se em moeda e parcelas crescentes do orçamento
passam a funcionar como instrumentos de negociação.
A
política deixa de ser espaço de mediação de interesses sociais para operar
segundo uma lógica quase contratual.
Maiorias
não se constroem — precificam-se.
Coalizões
não se formam — negociam-se como portfólios.
Quando
Lula afirma que “a política apodreceu”, a frase pode soar dura. Na realidade,
ela nomeia um processo de deterioração institucional que atravessa governos,
partidos e legislaturas. O problema não é apenas moral. É sistêmico.
Um
Congresso que controla volumes inéditos de recursos públicos sem a
correspondente responsabilidade executiva altera silenciosamente o equilíbrio
entre os Poderes. O presidencialismo de coalizão transforma-se, pouco a pouco,
em um presidencialismo tutelado.
Governar
passa a significar administrar um condomínio de interesses fragmentados —
frequentemente incompatíveis com qualquer estratégia nacional de longo prazo.
Nesse
contexto, a guerra eleitoral mencionada por Lula deixa de ser apenas um
confronto entre projetos ideológicos. Torna-se também uma disputa contra a
própria degradação da política como esfera pública.
E aqui
reside o dilema mais difícil de resolver: para governar, é preciso negociar com
o sistema tal como ele é; para transformá-lo, seria necessário enfrentá-lo.
Poucas
lideranças escapam dessa armadilha. Nenhuma o faz sem custo.
O maior
risco para uma democracia não é o conflito — é quando a política deixa de
organizar conflitos e passa a ser organizada pelo dinheiro.
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A reorganização silenciosa da direita
Enquanto
parte do debate público se concentra na retórica presidencial, movimentos
estratégicos ocorrem no campo conservador. A possível candidatura de Flávio
Bolsonaro ilustra um processo mais amplo de reorganização da direita
brasileira.
Após
anos de radicalização, segmentos desse campo parecem compreender que projetos
duradouros exigem maior previsibilidade institucional e menor volatilidade
discursiva. A aposta em perfis percebidos como mais moderados — ainda que
comprometidos com agendas semelhantes — pode ampliar pontes com o mercado e
reduzir resistências no centro político.
Seria
um erro interpretar esse movimento como moderação substantiva. Muitas vezes,
trata-se apenas de mudança de forma, não de conteúdo.
Projetos
políticos aprendem. Adaptam-se. Refinam sua linguagem.
A
eleição de 2026 poderá revelar uma direita menos estridente — mas não
necessariamente menos assertiva.
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A falsa nostalgia da estabilidade
Há, em
certos círculos, uma saudade implícita de um tempo em que a política brasileira
parecia menos conflitiva. Essa memória é, em grande medida, seletiva.
O que
existia era um sistema capaz de absorver tensões sem que elas se convertessem
em rupturas abertas. Esse sistema foi sendo corroído pela crise de
representação, pela desigualdade persistente e pela crescente distância entre
instituições e sociedade.
A
estabilidade não desapareceu por causa de um discurso mais duro. Ela já vinha
se desfazendo.
Nesse
sentido, a fala de Lula tem também uma dimensão pedagógica: prepara o
eleitorado para uma disputa mais áspera e menos previsível. Lideranças
políticas não apenas descrevem a realidade — ajudam a moldar as expectativas
coletivas sobre ela.
Ignorar
o conflito não o elimina. Apenas o torna mais perigoso.
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Entre sobreviver e transformar
Todo
governo reformista enfrenta uma tensão clássica: a diferença entre sobreviver
politicamente e alterar estruturas de poder.
Sobreviver
exige alianças amplas, moderação tática e capacidade de negociação. Transformar
pressupõe conflito, definição de adversários e disposição para correr riscos.
Equilibrar essas dimensões é uma das tarefas mais difíceis da liderança
política.
O
discurso da guerra sugere que o governo percebe a necessidade de deslocar
gradualmente esse equilíbrio — de uma postura predominantemente defensiva para
outra mais afirmativa. Mas discursos não reorganizam correlações de força.
Se a
eleição será de fato uma guerra, ela não será vencida apenas no plano
institucional. Dependerá da capacidade de reconstruir vínculos sociais,
mobilizar expectativas e oferecer um horizonte de futuro que vá além da mera
contenção do adversário.
Transformar
uma coalizão eleitoral em base social ativa talvez seja o maior desafio do
ciclo político que se aproxima.
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O risco da guerra apenas retórica
Há,
contudo, um perigo evidente. Se a linguagem do confronto não vier acompanhada
de mudanças políticas consistentes, ela pode produzir apenas temperatura — não
direção.
Guerras
políticas são vencidas por estratégia, não por vocabulário.
Isso
implica maior clareza programática, comunicação direta com a sociedade, redução
de ambiguidades nas alianças e disposição para disputar narrativas econômicas e
sociais.
Caso
contrário, o país pode entrar em uma eleição marcada por alta intensidade
discursiva e baixa definição de projetos — um cenário historicamente propício à
instabilidade.
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Uma eleição que decidirá mais do que um governo
O que
está em jogo em 2026 provavelmente ultrapassa a alternância tradicional de
poder. A disputa tende a envolver concepções distintas sobre o papel do Estado,
o lugar do Brasil no mundo, os limites da democracia e a própria ideia de
desenvolvimento.
Em
momentos assim, a moderação excessiva pode ser tão arriscada quanto a
radicalização irresponsável.
Ao
declarar que a eleição será uma guerra e que a política se degradou, Lula
parece abandonar a ilusão de que ainda seria possível conduzir o país apenas
pela lógica da acomodação. O ciclo histórico que permitiu essa estratégia ficou
para trás.
Isso
não significa transformar a política em campo de batalha permanente. Significa
reconhecer que democracias também exigem defesa — e que a neutralidade
raramente protege aqueles que pretendem transformá-las.
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O que essas frases realmente revelam
Mais do
que um gesto de dureza, as declarações presidenciais revelam uma percepção
crescente nas democracias contemporâneas: entramos em uma era de disputas
prolongadas, nas quais consensos mínimos se tornam raros e vitórias eleitorais
deixam de encerrar conflitos.
O
Brasil chega a esse momento carregando suas desigualdades históricas, sua
fragmentação partidária e um sistema institucional que combina resiliência com
vulnerabilidades.
Talvez
a maior contribuição dessas falas tenha sido retirar o debate do terreno
confortável das ficções moderadoras.
O país
não caminha para uma eleição rotineira. Caminha para uma disputa que testará a
capacidade das instituições, a maturidade do eleitorado e a habilidade das
lideranças de oferecer mais do que medo — oferecer direção.
Se
haverá guerra, como disse o presidente, ela não começou agora. Apenas deixou de
ser sussurrada para ser nomeada.
E, na
política, dar nome aos conflitos costuma ser o primeiro passo para
enfrentá-los.
Fonte:
Brasil 247




