segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O futuro da esquerda: se reinventar ou sucumbir

cenário político brasileiro de 2026 é marcado por muitas incertezas. Tudo nos leva a crer que a disputa presidencial que se inicia no dia 4 de outubro será ainda mais acirrada do que foi em 2022. Obviamente, impedir o retorno do bolsonarismo ao poder do executivo é uma tarefa histórica imprescindível, pois sabemos que a candidatura de Flávio Bolsonaro nada mais é do que uma filial dos interesses neocoloniais do imperialismo estadunidense em nosso continente de mãos dadas com o Estado genocida de Israel. No entanto, mesmo dentro de um cenário otimista de derrota do bolsonarismo, há uma pergunta indigesta da qual parte da esquerda insiste em se esquivar: o que nos espera no day after do lulismo?

Sejamos duplamente honestos com duas avaliações breves: 1) a figura do Lula é a única trincheira que nos separa da vitória da extrema direita fascista; 2) e isso é trágico!

É desolador que a esquerda em pleno 2026 se veja dependente de uma única figura política que está claramente se despedindo deste cenário. É desolador que a esquerda hoje não se mostre capaz de conquistar corações e mentes da classe trabalhadora em torno de um projeto político-ideológico, mas sim em torno do alto índice de rejeição do adversário.

Neste sentido, quero refletir sobre o futuro da esquerda a partir de uma perspectiva incrivelmente otimista (digo incrivelmente porque me parece que atualmente o otimismo tem sido cada vez mais um luxo dos ingênuos). E esse otimismo se dá pelo seguinte motivo: todo cenário de crise do capitalismo e de sua democracia liberal abre portas. A esquerda precisará decidir se a atravessará ou não. Caso optemos por não atravessar esta porta, é bem possível que em 2030 vislumbremos duas candidaturas da extrema direita no segundo turno.

<><> Marx sempre esteve certo, mas parece que esquecemos

Quando na célebre A ideologia alemã Marx e Engels afirmam que “o Estado nada mais é do que um comitê a serviço da burguesia” parece que os dois estão fazendo uma síntese do caso Banco Master. As promíscuas relações entre Daniel Vorcaro, membros do STF e diversos políticos nos mostram todo o poder de ingerência sobre o Estado brasileiro que a nossa burguesia possui. E vejam: Vorcaro pode ser considerado um banqueiro de quinta categoria. Se ele conseguiu colocar dentro do bolso uma parte considerável de nossa República, imaginem o que figuras do sistema financeiro muito mais poderosas não conseguem fazer.

No entanto, vejam só a sinuca de bico na qual a esquerda se meteu: na conjuntura do julgamento dos golpistas, grande parte da esquerda simplesmente terceirizou para o STF – especificamente Alexandre de Moraes – a luta contra o golpismo e a defesa da nossa (pobre, fraca e em grande medida inexistente, dependendo da cor de sua pele e do seu CEP) democracia. Houve uma defesa acrítica das instituições democrático-liberais como se estas fossem nossas aliadas. Definitivamente esquecemos o que Marx e Engels haviam escrito!

Não sejamos ingênuos: o STF naquele momento defendeu esta parca democracia única e exclusivamente porque se viu acuado pela trama golpista. Lembremos que havia plano para matar ministros do Supremo. Diferentemente de 2016, não havia ali “um grande acordo nacional com o Supremo com tudo”. Talvez se houvesse, a postura dos ministros seria a mesma que daquela fatídica ocasião.

Vorcaro provavelmente nunca leu Marx, mas como um bom burguês entendeu muito bem que o Estado democrático-liberal é uma espécie de mercadoria que possui valor de uso, mas também um valor de troca. E aí neste cenário, como fica a esquerda já que tomamos para nós a responsabilidade de defender acriticamente essas instituições? Maus lençóis, não?

<><> A extrema direita e o monopólio dos discurso antissistema

Quando Renan Santos, numa sabatina da Globo, diz com todas as letras que, caso seja eleito presidente, não irá respeitar decisões do STF que ele julga ilegais (e sabe-se lá o que ele considera ser ilegal ou não), nós sabemos que por trás desta fala existe uma ameaça autoritária típica de um regime de exceção aos moldes de Nayib Bukele. Porém, me arrisco a dizer que grande parte da classe trabalhadora brasileira não acompanha o que Bukele tem feito em El Salvador, mas certamente tem acompanhado as aventuras do STF com Vorcaro. Neste cenário, atacar o STF pode soar muito mais como uma empreitada heroica antissistema do que um delírio golpista.

Sejamos honestos novamente: em certa medida, a extrema direita conseguiu para si o monopólio do discurso antissistema. E quero frisar a expressão “monopólio” para deixar claro que grande parte da esquerda brasileira acabou se tornando refém do polo oposto: a defesa do sistema. Atualmente a esquerda é muito mais lida como uma gestora da ordem social do que uma força política capaz de romper com esta ordem. Pura fantasia? A meu ver, de modo algum!

A esquerda abdicou há muito tempo de pautar um discurso antissistema e optou por tentar gerenciar de uma forma minimamente humana este mesmo sistema. A grande questão é: quando nos limitamos a gerenciar de forma humana um sistema essencialmente desumano, nós perdemos a capacidade de dar respostas concretas e satisfatórias para o conjunto dos principais dilemas da classe trabalhadora contemporânea. E, como sabemos, não existe espaço vazio na política. A esquerda deixou uma lacuna; a extrema direita sabiamente viu e ocupou este lugar.

Olhem que curioso: a esquerda foi moderando o seu discurso sob a tutela da chamada governabilidade enquanto a ascensão da extrema direita colocou na ordem do dia um discurso nada moderado e acabou enterrando a direita tradicional enquanto força política nacionalmente relevante. Aliás, por questões de sobrevivência política, muitos desta direita tradicional vieram compor a Frente Ampla e – vide Simone Tebet em São Paulo – retornaram ao centro do embate político. Só nos faltava essa: a esquerda contribuindo para o renascimento da direita viúva de FHC. Será? A ver…

Peço desculpas pelo humor satírico, mas pensem comigo: o bolsonarismo, liderado pelo presidiário Jair Bolsonaro, conseguiu fazer algo que a esquerda infelizmente nunca conseguiu, apesar de muito tentar: convencer uma parte razoável da população de que a Rede Globo é uma inimiga. Obviamente sob a narrativa fantasiosa de que se trata de um órgão midiático comunista, mas, mesmo assim, inimiga! Quanta ironia: o bolsonarismo atacando “o sistema” em sua forma midiática enquanto muitos de nós do campo progressista aplaudíamos as análises desta mesma mídia quando ela tinha um mínimo de razoabilidade contrária a extrema direita. Mas talvez esqueçamos que foi através desta mesma mídia que se capilarizou na sociedade em 2018 a lógica da “escolha muito difícil”.

De conciliação em conciliação, me parece que boa parte da esquerda foi perdendo um bocado de sua identidade, originalidade e ousadia. A questão é que a classe trabalhadora pode ser muita coisa, mas não é cega, nem burra. Ela percebe as contradições. Temos que ser honestos uma terceira vez: o antipetismo não foi apenas uma construção midiática alienante; foi também atravessado por sentimentos legítimos de uma classe desesperançosa com a uma esquerda que, repito, perdera identidade, originalidade e ousadia.

<><> Temos medo de sermos radicais?

No primeiro turno das eleições presidenciais de 2018 atuei de forma incansável na campanha de Guilherme Boulos.

Numa panfletagem noturna pelo centro do Rio de Janeiro fui distribuir material de campanha numa mesa onde 2 trabalhadores tomavam uma cerveja após um expediente de trabalho. Um deles pegou o panfleto, olhou e disse: “Eu gosto desse Boulos, mas votarei no Bolsonaro!”. Não esperava uma fala como esta. Disse que os 2 representavam campos político-ideológicos muito distintos e perguntei quais eram os motivos dessa fala. A resposta que esse trabalhador me deu ecoou em minha cabeça durante muito tempo. Ele disse: “Para mim o Brasil precisa de soluções radicais. O Boulos tem um discurso radical e eu gosto disso! Mas eu acho que o Bolsonaro tem mais!”.

Nunca mais tive contato com esse trabalhador, mas, caso ele tenha acompanhado a trajetória de Boulos pós-2018, certamente está frustrado.

A questão é: há bastante tempo, uma parte considerável da esquerda vem nutrindo certo receio com a questão da radicalidade. Há uma perspectiva hegemônica na esquerda brasileira de que “subir o sarrafo” da luta de classes e partir para a ofensiva no discurso e nas ações provocaria dois malefícios:

1)   a governabilidade estaria arruinada;

 a população se afastaria da esquerda.

Sobre a questão da governabilidade, podemos dizer que grande parte da esquerda tem adotado 2 caminhos: moderação e conciliação. E qual foi o resultado disso? Um golpe que retirou a presidenta Dilma da presidência e abriu as portas para a ascensão do bolsonarismo. Sobre a questão da população: penso que a esquerda tem subestimado demais a capacidade crítica da classe trabalhadora. E me parece também que tem subestimado a própria realidade! Sabemos que em cenários de crise social, política, econômica e ambiental abre-se uma brecha considerável para que discursos mais radicais sejam ouvidos com maior atenção. Principalmente pela juventude.

Sejamos honestos uma quarta vez: a esquerda tem perdido cada vez mais a juventude. E perdendo para a extrema direita, a força política que, como dito antes, tem exercido o monopólio do discurso antissistema. Mas vejam que curioso: hoje, nas redes sociais, os comunicadores de esquerda que mais conseguem se conectar com os jovens são justamente aqueles do campo da esquerda radical. Falar em marxismo, socialismo, comunismo e revolução tem cumprido um papel fundamental nas redes na disputa ideológica pelos jovens para que estes não caiam no colo do fascismo. O fato é: o campo da esquerda que tem conseguido apresentar aos jovens alguma perspectiva de futuro fundamentada num discurso antissistema é o campo da esquerda radical.

<><> A porta está aberta: entre ou sucumba

Estou convencido que se abriu uma porta para a esquerda brasileira. Esta porta aponta um caminho: sua renovação e reconstrução sob um novo (ou velho!) paradigma: o paradigma da radicalidade antissistema. Creio que após as eleições – independentemente do resultado – todo o campo da esquerda que ainda tem sido norteada pela lógica conciliatória e pela tática das alianças como um fim em si mesmas e não como uma mediação sob o horizonte estratégico da luta de classes, deveria se olhar no espelho de forma humilde e sincera.

Ao se olhar, se perguntar: será que esta visível ascensão do fascismo no mundo, dentre tantos motivos, não se deu também por que uma parte considerável da esquerda mundial abdicou de sua radicalidade socialista e comunista? Caso este olhar a si mesmo não seja pautado pela tão constante terceirização dos problemas e sim movido por um irresistível apego às provas que a história recente nos dá, certamente essa esquerda poderá acordar de um sono profundo e iniciar um processo de renovação e reconstrução sob a perspectiva da luta anticapitalista.

No cenário brasileiro, acredito que o primeiro teste de fogo no plano imediato seria assumir duas ofensivas classistas de enfrentamento à barbárie neoliberal: a revogação do Arcabouço Fiscal e a revogação da autonomia do Banco Central (BC). Não há nenhuma chance da esquerda oferecer respostas efetivas aos principais dilemas da classe trabalhadora brasileira nos marcos de uma política econômica neoliberal que nos impõe uma limitação absurda de gastos públicos e um BC aparelhado pelos interesses do capital financeiro cujos objetivos se alinham com a taxa de juros criminosa que se pratica no Brasil e que assola a vida de milhões de brasileiros endividados. Porém, para fazer este enfrentamento, a esquerda precisa de uma vez por todas jogar na lata de lixo da história o famigerado mito da austeridade fiscal, cujas raízes remontam a um projeto da burguesia dos países capitalistas centrais no intuito de aprofundar a submissão do trabalho ao capital.

O tempo dos moderados e conciliadores se esgotou. A conjuntura atual nos coloca frente a uma tarefa histórica plenamente factível: nossa reinvenção pela via radical. Caso optemos por não ultrapassar esta porta, talvez levemos um golpe tão duro da conjuntura que será difícil levantar.

Está na hora de decifrarmos essa esfinge da necessária reconstrução da esquerda. Ou deciframos pela via radical, ou seremos devorados pela história.

 

Fonte: Por Sandro Justo, em Jacobin Brasil

 

O pânico antes do voto: a máquina do medo já está ligada

A poucos dias da eleição, o medo voltou a ser matéria-prima da disputa política. Pânico moral, religião, sexualidade e desinformação se combinam numa engrenagem de disputa psicológica sobre o eleitorado. O que está em jogo já não é apenas o voto, mas o ambiente emocional em que ele será decidido.

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<><> O lixo que chegou antes do voto

A mensagem é grotesca. Talvez por isso seja tão fácil subestimá-la. Fala em fezes, esperma, cromossomos, crianças doentes, abuso sexual, violência e morte. Afirma que determinadas práticas sexuais contaminariam o sangue, alterariam a genética e adoeceriam bebês. Tudo aparece como orientação de saúde, com a segurança de quem acredita estar revelando uma verdade escondida. A poucos dias da eleição, esse material voltou a circular em grupos bolsonaristas. A reação mais confortável seria rir, chamar de delírio e seguir adiante. Foi exatamente por isso que resolvi abrir a mensagem.

O que apareceu do outro lado não nasceu nesta eleição. Em setembro de 2016, Gutemberg Pacheco Lopes já havia levado uma versão da mesma teoria a um órgão do governo federal. O texto ficou preservado numa decisão da Comissão Mista de Reavaliação de Informações da Presidência da República. Ali já estavam a expressão “pandemia de sodomia”, a associação entre sexo anal, fezes, esperma, doenças infectocontagiosas e microcefalia, além da convocação para que o público procurasse conteúdos relacionados no YouTube. Meses depois, o mesmo repertório apareceria em vídeos publicados em seu nome.

A primeira conclusão impede qualquer atalho. A peça que reaparece agora não foi criada para a eleição de 2026. Não temos prova de que tenha sido produzida por uma campanha, financiada por partido ou lançada por uma operação centralizada. Ela é mais velha. E justamente por isso interessa. Durante quase dez anos, ficou disponível para ser encontrada, copiada, deformada, transformada em meme e devolvida à circulação quando encontrasse um ambiente receptivo. A internet conserva um estoque quase inesgotável de ressentimentos, teorias conspiratórias, medos religiosos, pseudociência e fantasias de contaminação. A política digital aprendeu a trabalhar com esse estoque.

É aqui que a mensagem deixa de ser apenas uma coleção de absurdos médicos. Ela reúne sexo, nojo, doença, crianças, culpa, família e degeneração numa mesma sequência emocional. Não é necessário compreender genética nem acreditar literalmente em cada relação causal apresentada. A força do material está em comprimir medos diferentes até fazê-los parecer partes de uma única ameaça. O sexo vira risco biológico. A diferença vira contaminação. Quando a criança aparece no fim da cadeia, o medo ganha sua justificativa mais poderosa. A pergunta, então, já não é apenas se a mensagem é verdadeira. Ela não é. A pergunta que importa é o que uma mensagem como essa tenta fazer com quem a recebe.

<><> Não é a mentira. É o estado psicológico

Essa pergunta muda o terreno. Quando deixamos de olhar apenas para o conteúdo e passamos a observar o efeito buscado sobre percepção, emoção e comportamento, entramos no campo das operações psicológicas. A doutrina militar brasileira é objetiva. Operações psicológicas são procedimentos sistematizados destinados a levar públicos específicos a manifestar comportamentos desejáveis em favor de objetivos previamente estabelecidos. O centro da operação não é a mentira. É o efeito.

Isso exige precisão. Fake news não é sinônimo de operação psicológica. Uma mentira pode nascer espontaneamente, circular sem comando e desaparecer sem produzir efeito relevante. Pânico moral também não é, por definição, uma PsyOp. Nem toda pregação religiosa, propaganda eleitoral ou conteúdo radicalizado pertence ao mesmo fenômeno. Para falar seriamente em operação é preciso encontrar método, público, objetivo, repetição, canais e algum grau de intencionalidade. Sem isso, a expressão deixa de explicar e vira rótulo.

Mas uma peça não precisa integrar uma operação formal para cumprir funções compatíveis com uma. A mensagem sobre “sodomia” mobiliza emoções elementares. Nojo diante da contaminação. Medo da doença. Proteção da criança. Ameaça à família. Culpa sexual. Ela não oferece apenas uma informação falsa. Oferece uma posição diante do mundo. Há algo degradando a sociedade, há inocentes em perigo, há um mal a reconhecer. Quando esse mecanismo se repete, o adversário político pode deixar de ser alguém com quem se discorda e passar a aparecer como agente de uma destruição que precisa ser interrompida.

É por isso que reduzir o problema a fake news é pouco. A disputa decisiva acontece antes, no campo emocional em que as informações seguintes serão recebidas. Uma população submetida continuamente a mensagens de ameaça não precisa acreditar em todas elas. Basta que algumas deixem resíduos. Desconfiança, repulsa, ansiedade, a sensação de que algo grave está acontecendo e de que as instituições talvez não consigam proteger ninguém. O próximo acontecimento chega a esse terreno. O fato pode ser o mesmo. A leitura disponível para recebê-lo, não.

<><> A velha máquina aprendeu novas técnicas

Nada disso começou agora. O Brasil atravessa há mais de uma década ciclos em que sexualidade, infância, religião e ameaça moral são convertidas em instrumentos de disputa política. O chamado “kit gay” tornou-se um dos casos mais conhecidos. O que nasceu de uma controvérsia concreta em torno do projeto Escola Sem Homofobia foi arrancado de sua origem até reaparecer na eleição de 2018 como símbolo de uma suposta ameaça às crianças e à família. Trotti e Lowenkron mostraram como a proteção da infância contra perigos sexuais articulou cruzadas antipedofilia e antigênero e produziu pânico moral. Quatro anos depois, Cazzamatta e Santos encontraram outro elemento decisivo. Entre 349 verificações analisadas no segundo turno de 2022, a forma mais frequente de falsidade selecionada pelos checadores foi a descontextualização. Quarenta e cinco por cento dos conteúdos desmentidos trabalhavam com falso contexto.

É uma mudança de qualidade. A fotografia pode ser verdadeira. A frase pode ter sido dita. O projeto pode existir. A pessoa pode realmente ter estado naquele lugar. O trabalho começa na montagem. Retira-se a cronologia, apagam-se mediações, aproximam-se fatos de contextos distintos e entrega-se ao público uma conclusão que nenhum deles sustentaria isoladamente. É esse movimento que proponho chamar aqui de desinformação por enxerto. Não como substituto das categorias acadêmicas de falso contexto ou descontextualização, mas como uma maneira simples de enxergar sua potência política. A mentira cresce sobre uma base verdadeira e retira dela parte de sua credibilidade.

No Brasil recente, esse processo ultrapassou o terreno da propaganda. Em outubro de 2025, a Primeira Turma do Supremo condenou os sete réus do chamado Núcleo 4 da tentativa de golpe de Estado. Segundo a denúncia da Procuradoria-Geral da República acolhida pelo tribunal, o grupo disseminou notícias falsas sobre as urnas e atacou instituições e autoridades como parte da articulação golpista. O precedente não transforma cada mentira de 2026 em peça de uma nova conspiração. Impede, porém, que a desinformação política seja tratada como folclore de rede social.

A velha máquina não precisou abandonar seus fantasmas. Aprendeu a montá-los sobre pedaços cada vez mais reconhecíveis da realidade. Por isso, a mentira política mais eficiente pode chegar carregando documentos verdadeiros, imagens autênticas e acontecimentos reais. O engano já não precisa parecer falso. Precisa apenas empurrar a verdade para o lugar errado.

<><> Nossa Senhora e a anatomia da mentira verdadeira

A poucos dias do voto, Nossa Senhora Aparecida entrou no centro da disputa política. Na noite de 24 de setembro, espalhou-se a informação de que Flávio Bolsonaro pretendia retirar da santa o título de Padroeira do Brasil. Não há, até agora, declaração, projeto ou proposta pública do candidato com esse objetivo. Ele negou a história, e veículos que a repercutiram corrigiram a informação. Parar aí, porém, produziria uma leitura tão pobre quanto aceitar o boato.

A falsidade não surgiu num terreno vazio. Em 2007, o então deputado Victório Galli apresentou de fato o Projeto de Lei 2.623, que pretendia substituir a expressão “Padroeira do Brasil” por “Padroeira dos brasileiros católicos apostólicos romanos”. O projeto foi arquivado em 2008. Também é real a história de ataques de atores bolsonaristas a setores da Igreja Católica. Em 2021, depois de Dom Orlando Brandes afirmar em Aparecida que uma “pátria amada” não poderia ser uma “pátria armada”, Frederico d’Avila o chamou de “vagabundo” e “safado”, atacou o papa Francisco e disse que a CNBB era um “câncer”. A Assembleia Legislativa de São Paulo abriu processo ético. Nesta eleição, uma cartilha católica sobre democracia e valores cristãos voltou a provocar ataques de perfis bolsonaristas, com acusações de comunismo contra a Igreja e a CNBB.

É essa combinação que torna o episódio tão revelador. Existiu um projeto para mudar a denominação legal. Existiram ataques violentos contra Dom Orlando e a CNBB. Existem tensões reais entre setores católicos e atores do campo bolsonarista. O salto ocorre quando esses fatos são costurados para sustentar uma afirmação que eles não provam. A mentira chega carregando documentos, personagens e conflitos verdadeiros. A adulteração não precisa esconder a realidade. Basta reorganizá-la.

Há uma lição incômoda aqui. Desinformação não se torna aceitável quando atinge um adversário político que consideramos perigoso. Se a crítica à extrema direita pretende ter valor democrático, precisa recusar os mesmos atalhos que denuncia. Não é necessário atribuir a Flávio Bolsonaro uma proposta que ele não fez. O que está documentado já é grave o bastante. E justamente por ser documentado é mais difícil de desmontar.

<><> A infraestrutura do medo

O medo não circula sozinho. Para sair de uma mensagem marginal e adquirir força política, precisa de meios concretos. Pessoas produzem conteúdo, organizações emprestam confiança, comunidades distribuem, plataformas aceleram alcance e uma economia inteira transforma atenção em ativo. É nesse ponto que a conversa sobre operações psicológicas deixa o terreno abstrato das narrativas e encontra sua materialidade. Toda disputa pela consciência depende de estruturas que pertencem ao mundo real.

O algoritmo não é um controle remoto da mente, e as plataformas não fabricam eleitores apertando botões. Seu poder é menos mágico e mais material. Elas organizam visibilidade, reduzem drasticamente o custo da distribuição, aproximam públicos dispersos, permitem testar linguagens em grande velocidade e convertem comportamento em dados. A influência nasce do encontro entre essa capacidade tecnológica e sociedades que já possuem conflitos, preconceitos, igrejas, partidos, empresários, militantes, desigualdades e medos próprios. Numa sociedade periférica há uma contradição adicional. Parte decisiva da esfera pública funciona sobre infraestruturas privadas cujos centros de decisão estão fora do país.

A mensageria fechada torna o problema ainda mais opaco. Sabemos que a velha mensagem sobre “sodomia” voltou a circular em grupos políticos, mas a pesquisa aberta não permite reconstruir toda a cadeia de encaminhamentos. Quem enviou primeiro, por quais grupos passou, quais contas funcionaram como ponte, quantas pessoas receberam. Essa zona de sombra não prova coordenação. Mostra apenas por que distinguir circulação espontânea de distribuição organizada exige dados que muitas vezes não estão disponíveis ao público.

Nas plataformas abertas, parte da infraestrutura fica visível. Em setembro, o TSE determinou que Facebook e Shopee preservassem e fornecessem informações numa ação que apura possível atuação coordenada de contas no Instagram por meio de publicações em colaboração durante a campanha de Flávio Bolsonaro. A investigação não prova abuso nem coordenação ilegal. Mostra, porém, onde uma parte importante do poder político contemporâneo precisa ser procurada. Não apenas no conteúdo, mas nas relações entre perfis, administração de contas, distribuição, monetização e mecanismos que multiplicam alcance.

É nesse terreno que a expressão máquina do medo deixa de ser metáfora. A máquina não precisa ser uma sala secreta com alguém distribuindo ordens. Pode existir na combinação concreta entre organizações, lideranças políticas, comunidades religiosas, profissionais da influência, empresas de tecnologia e estruturas econômicas que convertem atenção em alcance e alcance em poder. Seus componentes não precisam obedecer ao mesmo comando para produzir efeitos convergentes. Interesses compatíveis, repertórios comuns e a mesma infraestrutura podem fazer muito do trabalho. A psicologia também tem meios de produção.

<><> Da guerra espiritual à disponibilidade para o choque

Nas últimas semanas, essa engrenagem apareceu com especial nitidez em segmentos do ecossistema evangélico alinhado ao bolsonarismo. Um relatório da Casa Galileia em parceria com o Instituto Democracia em Xeque analisou 573 perfis de lideranças religiosas e políticas, igrejas, mídia e influenciadores. Entre 31 de agosto e 13 de setembro, foram 26.762 publicações e pouco mais de 189 milhões de interações no universo monitorado. A crise envolvendo o Supremo foi reinterpretada por parte dessas redes por meio de profecias, orações, referências bíblicas e linguagem de “guerra espiritual”. O mesmo levantamento registrou o reaparecimento do “Modo Nepal” em conteúdos de setores radicalizados à direita.

É preciso cuidado com a escala. Esses números não descrevem todos os evangélicos brasileiros. Revelam um ecossistema específico e sua capacidade de circulação. A diferença é crucial. Religião não é sinônimo de extremismo, assim como evangelicalismo não é sinônimo de bolsonarismo. O problema começa quando a disputa eleitoral é convertida em batalha transcendente. Se o conflito é entre Deus e seus inimigos, a negociação democrática perde sentido. Não se negocia com o demônio. Não se reconhece facilmente a legitimidade de uma derrota para quem foi apresentado como ameaça à própria existência moral da comunidade.

A própria Agência Brasileira de Inteligência trata o tema como risco para 2026. Em seu relatório “Brasil: desafios para a inteligência”, a Abin aponta a polarização social e a instrumentalização de crenças religiosas como fatores capazes de afetar a integridade do processo eleitoral. O documento registra que o adversário pode deixar de ser percebido como competidor legítimo e passar a ser tratado como inimigo a eliminar. Fala também em exploração de diferenças religiosas para mobilização eleitoral dentro de uma lógica de guerra religiosa e alerta para o risco de extremismo violento ideologicamente motivado.

É aqui que o pânico moral encontra sua utilidade estratégica. Ele não precisa dizer ao eleitor em quem votar. Pode fazer algo anterior. Ensina quais fatos devem provocar medo, quais grupos devem despertar repulsa, quais instituições merecem desconfiança e quais palavras funcionam como sinais de emergência. Mensagens sobre crianças ameaçadas, fé perseguida, comunismo, crime, sexualidade, tribunais inimigos e decadência nacional não precisam formar uma crença única. Basta que criem um repertório emocional pronto para uso.

Quando chega uma decisão judicial, uma denúncia, uma violência, uma declaração de bispo ou qualquer acontecimento capaz de concentrar atenção, esse repertório oferece a moldura. O fato pode ser inteiramente verdadeiro. O trabalho político começa na interpretação que corre para ocupá-lo. Antes que se saiba exatamente o que ocorreu, aparecem responsáveis, culpados, beneficiários e uma explicação pronta para o futuro do país. A mentira pura continua existindo, mas deixou de ser indispensável. Primeiro se organiza a ameaça. Depois se tenta capturar o acontecimento.

<><> A democracia não pode chegar atrasada ao acontecimento

É aqui que o campo democrático precisa compreender a natureza do problema sem reproduzir os métodos que denuncia. A resposta não pode ser fabricar uma mentira melhor, organizar um pânico concorrente ou entregar ao público certezas que os fatos ainda não permitem. O caso de Nossa Senhora Aparecida mostrou isso com clareza. Uma acusação politicamente conveniente continuou sendo falsa mesmo quando cresceu sobre um terreno de conflitos verdadeiros. Defender a democracia começa pela recusa de trocar precisão por utilidade.

A primeira defesa parece elementar, mas se tornou difícil numa sociedade organizada pela velocidade. É preciso recuperar o direito de não saber imediatamente. Entre um acontecimento e sua interpretação existe um intervalo. A política digital tenta ocupá-lo em segundos. A investigação séria precisa de tempo. Jornalistas, instituições, pesquisadores e autoridades deveriam tratar esse espaço como território estratégico. Quando uma versão chega pronta antes das evidências, é preciso perguntar sobre quais fatos se apoia, o que deixou de fora e que comportamento procura produzir.

Isso exige capacidade institucional e jornalismo melhor. O TSE entrou em 2026 com instrumentos específicos para lidar com conteúdo manipulado por inteligência artificial e sistemas de denúncia de desinformação. São mecanismos necessários, mas insuficientes diante de um ambiente em que a manipulação pode utilizar material verdadeiro, mensageria fechada e redes distribuídas de influência. A defesa democrática não será apenas tecnológica. Dependerá da capacidade de reconhecer o método antes que o efeito se consolide.

Há ainda uma camada que tecnologia nenhuma resolve sozinha. A extrema direita não inventou a insegurança, a precariedade, o medo da violência, a perda de referências ou a crise de confiança nas instituições. Ela disputa politicamente essas contradições. Converte problemas materiais em inimigos morais, desloca conflitos sociais para guerras culturais e oferece pertencimento onde o Estado muitas vezes ofereceu distância. Combater apenas a narrativa sem tocar o mundo que lhe dá aderência é enxugar o chão com a torneira aberta.

Foi por isso que a velha mensagem sobre “sodomia” mereceu ser levada a sério. Não porque sua pseudociência tenha qualquer valor. Não porque tenhamos descoberto uma central secreta por trás dela. E muito menos porque cada pessoa que a encaminhou faça parte de uma operação organizada. Ela importa porque funciona como um pequeno fóssil de uma tecnologia política maior. Sexo vira contaminação. Diferença vira degeneração. Criança vira justificativa absoluta. Medo vira identidade. Identidade pode virar ação.

A mensagem tem quase dez anos. O ambiente que a torna novamente útil é de agora. A poucos dias do voto, essa é a advertência central. A eleição não acontece apenas quando o cidadão aperta uma tecla na urna. Acontece também antes, quando forças políticas disputam aquilo que ele deve temer, quem deve considerar inimigo e quais fatos estará preparado para enxergar como prova de que sua vida, sua família, sua fé ou seu país estão sob ataque.

A urna vem no fim. O pânico chega antes.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Código Aberto

 

Washington Araújo: O Brasil fecha o cassino que levamos no bolso

O Brasil decidiu nesta sexta-feira, 25 de setembro, fechar o cassino que durante anos ajudou a instalar no bolso de milhões de pessoas. A Medida Provisória 1.394 proíbe a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa em todo o território nacional, alcançando apostas esportivas e jogos on-line.

A mudança começa de imediato. Desde a publicação da medida, novos recursos já não podem ingressar nas plataformas. Em dez dias, sites e aplicativos deverão ficar indisponíveis, e a publicidade e os patrocínios terão de desaparecer. As autorizações existentes serão extintas em 30 dias. O país que abriu esse mercado agora escolheu fechá-lo.

O movimento impressiona menos pela velocidade do que pela extensão da correção de rumo. As apostas esportivas foram autorizadas em 2018, ganharam novo marco legal em 2023 e entraram em regime federal de autorização em 2025. Nesse intervalo, as bets avançaram pelo futebol, pela televisão, pelas redes sociais e, sobretudo, pelos celulares.

Este artigo foi escrito inicialmente em 9 de setembro. Naquele momento, o debate brasileiro girava em torno de limites à propaganda, bloqueio de operadores ilegais, advertências sobre dependência e mecanismos de proteção aos apostadores. Dezesseis dias depois, a discussão mudou de tamanho. O governo escolheu retirar as bets do mercado legal brasileiro.

A decisão merece apoio. Durante anos, o poder público tentou administrar um negócio cuja capacidade de produzir dano crescia mais depressa do que os instrumentos criados para contê-lo. A proibição enfrenta a raiz legal do problema. O desafio seguinte será impedir que a atividade apenas atravesse a fronteira entre o mercado autorizado e a clandestinidade.

<><> A perda tem endereço

Sempre me pareceu pobre reduzir essa discussão à liberdade de adultos escolherem onde gastar dinheiro. O apostador entra numa plataforma com um celular e algum dinheiro. Do outro lado existe uma empresa capaz de registrar acesso, depósitos, perdas, frequência, horários, preferências e reação depois de uma derrota. Cada clique acrescenta uma peça ao retrato comportamental do usuário.

A plataforma aprende quanto alguém arrisca, em que momento volta e como reage ao prejuízo. Para quem aposta, podem ser alguns minutos diante de uma partida de futebol. Para a empresa, os mesmos minutos produzem dados capazes de indicar propensão a continuar, interromper ou tentar recuperar aquilo que acabou de perder.

A Organização Mundial da Saúde estima que cerca de 1,2% dos adultos sofram de transtorno relacionado ao jogo. Pessoas que apostam em níveis prejudiciais respondem por aproximadamente 60% das perdas que alimentam a receita global do setor. Parte expressiva do dinheiro nasce justamente onde a relação com a aposta já produz sofrimento.

Esses números sempre me levam para dentro das casas. O salário entra, uma aposta parece pequena e logo surge outra. A perda produz desejo de recuperação. Aparecem depósitos sucessivos, empréstimos, faturas adiadas, dívidas escondidas e promessas de parar. O mecanismo mais cruel surge nesse ponto: procurar na aposta seguinte o dinheiro perdido na anterior.

<><> O celular encurtou tudo

A psicologia conhece esse mecanismo. Recompensas imprevisíveis favorecem a repetição, vitórias ocasionais prolongam a expectativa e perdas sucessivas podem empurrar o jogador para a perseguição do dinheiro perdido. O celular eliminou quase todos os intervalos que antes separavam impulso e ação. Entre perder cem reais e tentar recuperá-los podem existir poucos segundos.

A disponibilidade permanente aprofundou o problema. A aposta acompanha a pessoa até a cama, aparece numa madrugada de insônia, depois de uma discussão, durante uma viagem de ônibus ou minutos após o salário cair. O jogo deixou o espaço físico destinado ao jogo e passou a caminhar com o indivíduo durante praticamente todo o dia.

<><> O custo apareceu

Os números brasileiros já permitem enxergar a dimensão da ferida. Levantamento divulgado em 2026 estimou em 10,9 milhões o número de brasileiros com padrão de jogo de risco ou problemático. Outro estudo, citado pelo próprio governo, calculou em R$ 38,8 bilhões por ano os custos sociais e econômicos associados às apostas e aos jogos de azar.

Qualquer discussão séria precisa considerar também as objeções do setor regulado, que contesta metodologias usadas em parte dessas estimativas e sustenta que a proibição pode fortalecer operadores clandestinos. O argumento merece exame. Mas ele também revela o tamanho da tarefa que agora se apresenta ao Estado: proibir sem abandonar a fiscalização.

A Medida Provisória prevê bloqueio de sites, restrição de meios de pagamento, deveres para plataformas digitais e mecanismos de fiscalização contra operadores ilegais. A eficácia da proibição dependerá dessa engrenagem funcionar continuamente. Sem repressão ao mercado clandestino, o país corre o risco de retirar a placa da fachada e deixar a porta dos fundos aberta.

<><> Depois das luzes

Durante anos, clubes carregaram marcas de bets nas camisas, estádios foram cobertos por publicidade e celebridades apresentaram apostas como extensão natural do entretenimento. Crianças aprenderam nomes dessas empresas muito antes de compreender o significado de perder dinheiro. O mercado conquistou espaço econômico, cultural e afetivo antes que o país dimensionasse plenamente suas consequências.

A proibição federal interrompe essa normalização. Esse pode ser seu efeito mais importante no longo prazo: retirar do cotidiano a mensagem insistente de que apostar é parte ordinária da experiência esportiva, um gesto tão banal quanto escolher um time ou assistir a uma partida. Durante anos, essa associação foi construída diante de milhões de brasileiros.

A lei, porém, não desfaz em poucos dias aquilo que o mercado levou anos para instalar. É possível retirar logotipos das camisas, aplicativos das lojas e plataformas da internet. Muito mais difícil será retirar das famílias as dívidas acumuladas, dos dependentes o impulso de apostar e de uma geração a ideia cuidadosamente cultivada de que dinheiro pode nascer de um palpite sobre uma tela.

Em 2018, o Brasil abriu a porta. Em 2026, decidiu fechá-la. Entre uma data e outra, o cassino coube no bolso, atravessou a sala de casa e alcançou o orçamento de milhões de brasileiros. A proibição chega tarde para apagar os danos já produzidos, mas chega a tempo de impedir que continuem sendo tratados como preço inevitável do entretenimento.

¨      Bets e a grita. Por Carol Proner

Novidades nas eleições brasileiras sobre bets. O governo do presidente Lula torna as plataformas digitais de apostas online, as chamadas bets, ilegais a partir de hoje. O mote é: “vamos construir um país livre de bets, com mais oportunidade e futuro”. A grande imprensa – o grande capital – é contra sob argumento de que viola a segurança jurídica da atividade econômica. O que está em jogo é a segurança da vida das pessoas, uma atividade que entra na casa, na vida, destrói famílias, adoece e mata. É corajoso porque entra no debate do grande capital e das armadilhas financeiras em novos arranjos enganosos contra os mais vulneráveis.

Anúncio ao lado de três ministros – Saúde, Justiça e Economia -, em rede nacional, faltando 9 dias para as eleições, com argumentos tão potentes a favor da vida e contra o capitalismo das pirâmides de azar, ousado!

Presidentes de alguns clubes de futebol estão raivosos. Editoriais gritando. Lula resolveu apostar, com o perdão da má palavra, no tudo ou nada. Trucou, all-in, um país livre das bets é palavra de ordem nos comícios do Rio de Janeiro e em outras praças. Não sei se a estratégia vai funcionar, mas é corajoso.

No primeiro trimestre desse ano, os números aproximados mostram que essa turma das bets ganhou R$ 88,5 bilhões, pagou em apostas R$ 68,3 bilhões. Dos R$ 20 bilhões retidos, R$ 10 bilhões rendem em impostos para o governo e os outros R$ 10 bilhões, eles chamam de realização do “business” do “case” de sucesso. R$ 20 bilhões foram surrupiados da classe trabalhadora. A ludopatia, estimulada pelas bets, alcança 50 milhões de pessoas entre as classes mais vulneráveis.

61% dos jogadores dizem que apostam com dinheiro da poupança, deixando de comprar coisas, usam o cartão de crédito, emprestam dinheiro de outros ou vendem alguma coisa. Números do Ministério da Saúde declaram que o governo gasta R$ 30 bilhões por ano para tratar os efeitos da adição, depressão e suicídio.

Lula prova que uma sociedade pode ser bem diferente do que está posto como imutável, ajuda o povo a pensar em transformação, em como começar de novo, sair do vício e dar a volta por cima. Falta tratar o vício do financeiro em ganhar dinheiro fácil.

 

Fonte: Brasil 247

 

Ultraprocessados: estudo aponta maior risco de doenças e morte precoce

A associação entre alimentos ultraprocessados (veja quadro) e doenças crônicas, incluindo alguns tipos de câncer e obesidade, já está bem estabelecida. Agora, porém, pesquisadores da China calcularam o quanto esses produtos podem impactar no risco de sete enfermidades graves, além da chance de morte precoce por qualquer causa. Publicado pelo grupo British Medical Journal, o estudo baseia-se em dados de 8.819.894 adultos de 23 a 77 anos, distribuídos por todos os continentes. 

Financiados pela Fundação Nacional de Ciências Naturais da China, os autores fizeram uma das maiores revisões de pesquisas sobre a associação de ultraprocessados e desfechos de saúde. Incluíram 51 estudos populacionais que acompanharam os participantes por um prazo variando de dois a 32 anos. A análise apontou que o consumo excessivo — acima de 20% da energia diária — dos produtos tem relação com risco mais elevado de eventos cardiovasculares (24%), câncer (12%), obesidade/sobrepeso (23%), síndrome metabólica/diabetes (24%), depressão/ansiedade (27%), doenças digestivas (31%), hipertensão (11%) e morte por qualquer causa. 

Além disso, cada 100g/dia de ultraprocessados adicionais estavam associados a mais eventos cardiovasculares (14%), câncer (4%), síndrome metabólica/diabetes (2%), além de morte por qualquer causa (3%). Segundo os pesquisadores, a análise de dose-resposta foi um dos destaques do estudo, porque permitiu demonstram que, estatisticamente, o risco varia conforme o aumento da quantidade consumida. 

<><> "Quanto menos, melhor"

“Produtos ultraprocessados não são alimentos modificados, mas formulações com alto teor de gorduras não saudáveis (frequentemente com níveis elevados de gorduras saturadas ou trans), açúcares livres e sal —, além de aditivos destinados a intensificar o impacto sensorial”, define Márcio Mancini, endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, Regional São Paulo (Sbem-SP). O médico esclarece que, diferentemente de industrializados minimamente processados, como a massa seca de macarrão, esses produtos contêm pouco ou nenhum alimento em sua forma integral e são escassos em fibras alimentares, compostos bioativos e micronutrientes.

Além disso, a densidade energética dos ultraprocessados costuma ser alta — salgadinhos têm 400-500 calorias por 100g, enquanto a mesma porção de barras energéticas pode chegar a 400 calorias. Mancini destaca que, quando formulados como bebidas, geralmente os produtos têm escassez ou ausência de nutrientes. “Essas características tornam a maioria propensa a causar o consumo excessivo de energia, levando a ganho de peso e obesidade. Eles também apresentam altas cargas glicêmicas, o que faz com que desregulem a sinalização de saciedade e controle do apetite, aumentando assim o risco de obesidade e diabetes.” Outro ponto de preocupação é a adição de materiais como ftalatos e bisfenol, incluídos para dar sabor e vida longa aos produtos, que podem ser prejudiciais. 

No estudo, os autores não chegam a definir um limite de consumo acima do qual os ultraprocessados seriam inseguros. Para Márcio Mancini, porém, não há níveis adequados. O médico lembra que, no artigo, os pesquisadores sugerem reduzir a ingestão para 10% a 20% do habitual, mas esse dado é mais adequado para os Estados Unidos e o Reino Unido, onde quase 60% das calorias diárias vêm desses produtos. “Aqui no Brasil, há 40 anos, o percentual era 10%. Hoje, é 23%. A recomendação é: quanto menos, melhor.”

<><> Nova

A pesquisa, publicada ontem, utiliza a classificação Nova, desenvolvida pelo médico epidemiologista brasileiro Carlos Augusto Monteiro, da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Segundo a categorização, não se deve analisar apenas as calorias e nutrientes, mas analisar o grau de processamento dos alimentos, que são divididos em in natura ou minimamente processados; ingredientes culinários, alimentos processados e ultraprocessados. “Esses últimos são formulações industriais feitas com ingredientes como xaropes, amidos modificados, corantes, aromatizantes e emulsificantes, pensadas para serem baratas, práticas e hiperpalatáveis”, explica o médico endocrinologista Márcio Dytz, professor do Ceub. 

Segundo os autores do estudo, uma das hipóteses para explicar a associação encontrada entre a ingestão desses produtos e o risco aumentado de doenças crônicas é a alta densidade energética dos ultraprocessados. Como são produzidos para favorecer o rápido consumo, isso retarda a percepção de saciedade e contribui para uma maior ingestão de alimentos e ganho de peso. 

O artigo também discute possíveis efeitos relacionados à microbiota intestinal, inflamação, estresse oxidativo e resistência à insulina. Além disso, determinados compostos podem se formar durante o processamento térmico, enquanto substâncias presentes em materiais de embalagem podem representar outra possível fonte de exposição. 

Embora não defendam a proibição desses produtos, os autores defendem a redução por alimentos menos processados. “Considerando que as doenças crônicas relacionadas a alimentos ultraprocessados frequentemente se agrupam como multimorbidade, reduzir o consumo desses alimentos e substituí-los por alternativas minimamente processadas pode ser relevante para a prevenção de doenças crônicas e para o manejo na atenção primária”, escreveram, no artigo. 

>>>> Três perguntas para Márcio Garrison, médico endocrinologista e prof titular da Faculdade de Medicina do Ceub

·        O que pode ser considerado um consumo excessivo de ultraprocessados?

Na prática diária, considero excessivo quando o ultraprocessado deixa de ser exceção e passa a ser a base do dia. É o refrigerante ou o suco de caixinha diário, o presunto e o pão de forma no café da manhã, o biscoito ou o salgadinho como lanche fixo e as refeições prontas várias vezes na semana. Nos estudos analisados, quem tinha mais risco chegava a consumir de 30% a 50% das calorias diárias desses produtos. Quando vejo que eles aparecem em quase todas as refeições, principalmente em quem já tem obesidade, pré-diabetes ou diabetes, esse é o sinal de alerta.

·        Os pesquisadores sugerem reduzir os ultraprocessados para cerca de 10% a 20% da energia diária. Essa faixa já pode ser adotada como recomendação médica?

Ainda não como número validado, mas pode ser usada como metapragmática. Os autores reforçam o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados no mundo: nos EUA, eles atingiram um pico de 57% da ingestão calórica, e no Brasil e no México houve um aumento de 10% para 23%. Por isso trato a faixa de 10% a 20% como uma direção, e não como um limite comprovado. O Guia Alimentar para a População Brasileira já dá a orientação mais sólida: fazer da comida de verdade a base da alimentação e evitar ultraprocessados. Na prática, isso significa reduzir de forma gradual a partir do consumo atual de cada paciente, trocando por alternativas minimamente processadas em vez de simplesmente proibir.

·        A cada 100g gramas adicionais de ultraprocessados por dia, o estudo encontrou associação com 14% mais risco de eventos cardiovasculares. Quais mecanismos metabólicos poderiam explicar essa relação?

É um alerta relevante, já que 100g de ultraprocessados cabem facilmente na rotina: basta um pacote de biscoito recheado ou um sanduíche de pão de forma com presunto. O aumento de 14% no risco relativo é expressivo, porque vale para cada 100g a mais por dia e se acumula com o consumo: quanto maior for a quantidade de ultraprocessados na dieta, maior o risco. Os mecanismos fazem sentido do ponto de vista metabólico. Esses produtos são macios, calóricos e muito saborosos, então comemos mais rápido e em maior quantidade antes de sentir saciedade. Tem muito açúcar, sal e gordura de má qualidade e pouca fibra, o que favorece resistência à insulina, gordura abdominal, pressão alta e alterações do colesterol. Há ainda indícios de que aditivos como emulsificantes e adoçantes alteram a microbiota intestinal e aumentam a inflamação e o estresse oxidativo. Além disso, substâncias que se formam no processamento industrial, como a acrilamida, e compostos das embalagens, como os bisfenóis, que interferem no sistema hormonal, se associam a maior risco cardiovascular. 

>>>> Palavra de especialista - Durval Ribas Filho, médico nutrólogo, presidente da Associação Brasileira de Nutrologia (Abran)

# De olho no rótulo

Na classificação de alimentos Nova, o ultraprocessado é considerado o pior. Mas é importante que se diga que nem todo alimento industrializado é ultraprocessado. Talvez seja esse o grande problema, é onde as pessoas efetivamente se confundem, porque existem diferentes graus de processamento. Em tese, são considerados ultraprocessados aqueles cujas formulações têm cinco ou mais ingredientes cheios de aditivos, aromatizantes, espessantes, etc. É o caso de macarrão instantâneo, nuggets, pão de forma industrializados, biscoitos recheados. Falar como se todos industrializados fossem ultraprocessados é um mito: sem dúvida alguma que, se tiver cinco ou mais ingredientes, aí entra nessa categoria. Por isso, é sempre importante ver a rotulagem nutricional. 

<><> Classificação

Proposta pela Faculdade de Saúde Pública da USP (Nupens), a Nova classifica os alimentos em:

  • In natura ou minimamente processados: obtidos diretamente da natureza (plantas ou animais) ou que sofreram alterações mínimas antes da compra (como limpeza, remoção de partes não comestíveis, secagem, moagem, pasteurização ou congelamento). Não contêm adição de sal, açúcar, óleos ou gorduras. Exemplos: Frutas, legumes, verduras, arroz, feijão, carnes frescas ou congeladas, leite pasteurizado e ovos. 
  • Ingredientes culinários processados: substâncias extraídas de alimentos do grupo 1 ou da natureza por meio de processos como prensagem, refino ou moagem. São usados na cozinha para temperar e cozinhar os alimentos in natura. Exemplos: óleos vegetais, manteiga, sal e açúcar. 
  • Processados: produtos fabricados com a adição de sal, açúcar ou outra substância culinária a um alimento in natura. Passam por métodos simples de fabricação para aumentar a durabilidade ou realçar o sabor. Exemplos: legumes em conserva, frutas em calda, queijos e pães artesanais ou simples feitos apenas com farinha, água, sal e fermento.
  • Ultraprocessados: formulações industriais feitas inteiramente ou majoritariamente de substâncias extraídas de alimentos (como amido, óleos, gorduras, açúcar e proteínas isoladas), corantes, aromatizantes, realçadores de sabor e outros aditivos cosméticos. 

Exemplos: refrigerantes, salgadinhos de pacote, biscoitos recheados, macarrão instantâneo, "sopa" de pacote e embutidos (como salsicha e presunto)

 

 

Fonte: Correio Braziliense

 

“Classe C”: o que ainda falta ver

Um dirigente petista de alto coturno e muito próximo de Lula disse no início do ano que Lula estava perplexo com a avaliação pouco favorável que parte significativa dos brasileiros fazia de sua gestão. Para ele, este seu terceiro governo era o que mais entregava serviços, obras e otimismo. 

O relato, se fiel ao que ocorre, revela uma dificuldade de percepção da mudança de perfil daqueles que se beneficiaram com as políticas sociais e econômicas dos governos Lula 1 e 2, realizados durante a primeira década deste século. 

O livro escrito por Renato Meirelles “Brasil da Maioria” (Record, 2026) dá a pista para Lula. 

Antes de expor suas principais teses e informações, faço duas observações sobre Lula e o PT de 2026. 

A primeira observação é que possivelmente, o Lula neste final de terceiro mandato presidencial, está sofrendo de um gap geracional. Lula adotou hábitos mais reclusos e, na adjetivação que ouvi de pessoas próximas a ele, mais “imperiais”. É sabido que com o tempo criamos estruturas mentais mais rígidas. Daí a dificuldade, com a idade, de se aprender muitas línguas estrangeiras. Vícios de comportamento e rotinas mais previsíveis povoam a vida dos mais idosos. No caso de Lula, ele passou a tomar decisões sem grandes consultas como fazia no passado. O gap geracional envolve os atuais ministros. Nenhum deles, como disse Fernando Morais quando lançou o segundo volume da biografia de Lula, possui coragem suficiente para dizer “não” ao presidente. Não há quem esteve ombreando Lula quando da criação do PT ou da CUT. Todos, ao seu jeito, o Todos, ao seu jeito, o veneram ou respeitam com certo decoro. 

A segunda observação é o envelhecimento do PT e a ruptura com a dinâmica social das ruas. Nas eleições deste ano, 4% dos candidatos petistas têm menos de 30 anos de idade. No período próximo ao do impeachment da presidente Dilma Rousseff, o número de filiados do PT com até 34 anos de idade despencou. De 2011 a 2015, a proporção desta faixa etária na sigla caiu de 25,7% do total da militância para 19,2%. Durante este terceiro mandato de Lula, voltou a subir, mas permaneceu abaixo de 20% do total. Há, ainda, uma forte desconexão do partido em relação ao cotidiano de quem foi sempre seu eleitor. O partido enrijeceu, ficou mais burocratizado. Seus dirigentes nacionais passaram a receber proventos que os joga na faixa dos 1% mais ricos do país. Lembremos que famílias com renda mensal superior a R$ 33 mil integram o seleto grupo dos 1% mais rico do país.

As estruturas de base perderam poder decisório. A burocratização atingiu o processo de escolha de seus dirigentes, o PED (Processo de Eleição Direta). A cada processo de eleição interna, multiplicam-se as denúncias de práticas de aliciamento o que faz a corrente majoritária atingir percentuais estratosféricos de votos de filiados, mesmo quando seus candidatos não são carismáticos ou conhecidos e reconhecidos pela maioria da militância petista.

Dito isto, vamos aos dados do livro que citei. 

Esses dados são importantes porque são beneficiários das políticas lulistas implementadas no início do século. Muitos saíram de uma vida precária para atingir uma renda intermediária que alavancou seu consumo e segurança familiar. Trata-se do segmento da população com renda familiar mensal per capita entre R$ 610,00 e R$ 2.150,00.

Em 25 anos, este segmento social se tornou mais escolarizado, mais empreendedora (buscando autonomia financeira frente à falta de empregos tradicionais) e mais exigente com o mercado (exige respeito) e com o Estado (exige serviços que funcionem).

Mais de dois terços (68%) da classe C acreditam ter hoje mais acesso a bens materiais do que seus pais tiveram; 75% afirmam ser mais escolarizados, e pouco mais da metade (55%) avalia que sua vida profissional é melhor que a da geração anterior.

O consumo é a chave de compreensão da maneira como este segmento social pensa, age e vota. 

Passou da Era da Euforia para a frustração que se abateu a partir de 2010. O crédito farto do período da euforia se transformou em dívida e perda de poder de compra o que, em consequência, diminuiu falta de perspectiva. É nesta transição que entrou o empreendedorismo como elemento de autoconfiança e esperança de melhoria futura. 

E é desta mudança de perspectiva futura que se consolidou seu comportamento pendular e pragmático. Se já não havia antes identidade ideológica, agora há grande desconfiança de quem se pauta por discursos genéricos. 

Vejamos mais de perto este percurso.

<><> Do crédito farto ao dono do seu nariz

Entre 2003 e 2008, a concessão total de crédito no país para os setores público e privado cresceu cerca de 220%. Só o crédito privado oferecido às pessoas físicas cresceu 372%. O parcelamento passou a ser o canto da sereia para mudança de patamar de vida.

A “década do otimismo” terminou para valer em 2013. O que Lula e parte de seu staff parece desconhecer é que os recém-chegados na classe C, B e A passaram a ter novos gastos, como a escola particular dos filhos ou o plano de saúde. E, a partir de 2013, a conta não fechou mais. 

O Estado que era percebido como garantidor de renda mínimo via programas sociais passa criar incômodos com impostos e regulações impedem o empreendedorismo. 

E, possivelmente, este é o motivo para certo afastamento da juventude em relação ao engajamento petista de antes. Metade das pessoas nesse estrato de renda tem menos de 34 anos. 

A família passou a ser refúgio em meio ao cenário mais inóspito. Renato Meirelles ressalta que as mulheres da classe C dedicam 22 horas semanais às tarefas domésticas e de cuidado. Os preços com supermercado, escolas e investimentos nos filhos são mais presentes nas suas vidas e percepção sobre a economia. 77% da classe C consideram que só é possível ser feliz ao lado de uma família. Basta juntar os pontos: a família é o esteio da classe C que, por sua vez, tem nas mulheres seu pilar de sustentação.

Por este motivo, 54% dos entrevistados mencionam seu papel na família – “sou mãe”, “sou pai de duas meninas”, “sou avó da Juliana” – ao se identificar. A condição financeira aparece em sétimo lugar nesse ranking, atrás de critérios como idade, gênero, profissão, religião e até gosto musical.

De certa maneira, um dos motivos de Lula ser mais popular que petistas é porque seu discurso se conecta o tempo todo com a figura de sua mãe e a defesa de sua família. Isto agrada a Classe C.

<><> O sonho de consumo

Uma característica muito comum dos bairros periféricos brasileiros são casas precárias por fora, com tijolos aparentes porque faltou dinheiro para fazer o revestimento externo, mas impecáveis por dentro, com piso novo, móveis planejados na cozinha, painel de madeira na sala e decoração em cada canto. As mulheres da classe C consideram indispensável manter a casa limpa, bonita e organizada, afirma Meirelles.

Receber vizinhos em sua casa é motivo de orgulho para este segmento: 59% destacam que recebem frequentes vizinhos em sua casa. O índice de quem é classe A é de 44%.

Prosperidade para esses brasileiros é comprar a casa própria para a mãe, é ajudar um parente ou um vizinha na hora do aperto, é receber os amigos com uma mesa farta.

A educação mudou de patamar na escala de importância para a classe C nesses 25 anos. No começo dos anos 2000 ingressar numa faculdade, sobretudo uma instituição de prestígio, era um sonho distante para os brasileiros de renda média e baixa. Em seguida, houve um acesso impressionante de filhos da classe C às universidades. A expectativa era de se obter vantagem econômica e status social. Não era o ensino profissionalizante que traria este objetivo, mas a universidade, segundo respondem nas pesquisas.

Instituto Mobilidade e Desenvolvimento Social (IMDS) revelou que 64% dos “filhos” do Bolsa Família deixaram o programa na vida adulta. O programa rompeu o ciclo de pobreza entre gerações.

Na classe C, 70% dos jovens estudaram mais do que seus pais. Apesar de cada ano a mais de estudo representar um incremento médio de 15% no salário, o diploma não garantiu mais o acesso automático a bons empregos, bons salários e certa estabilidade. Além disso, a distância salarial entre quem tem muita e pouca escolaridade vem diminuindo.

Assim, nos últimos anos, o ensino superior foi sendo entendido pelos jovens de classe C como uma via longa demais para o resultado que entrega.

Meirelles destaca que o Brasil vive um cenário de quase pleno emprego, mas só 4 em 10 brasileiros está realmente satisfeitos com sua vida profissional. 

No começo dos anos 2000, a carteira assinada era um dos grandes sonhos da classe C e da população de baixa renda de forma geral. Isso foi mudando ao longo da década posterior. Há relação com a reforma trabalhista aprovada em 2017, e com a reforma da Previdência de 2019, que eliminaram ou relativizaram algumas das garantias tradicionalmente associadas ao emprego formal. 

Esta mudança de perspectiva é muito importante para compreender o gap geracional de Lula e do PT. Ambos se fizeram politicamente a partir do emprego assalariado, principalmente do setor privado, ofertado por grandes plantas industriais onde milhares de trabalhadores se encontravam diariamente. Esta identidade de massas evaporou a partir da segunda década deste século. Ora, a leitura sobre a classe trabalhadora que os dirigentes históricos do PT fazem é a do século passado. 

Há uma ou duas décadas, o autônomo era vista como um desprestigiado, como aquele que ainda não conseguiu um emprego formal. Hoje ele tem orgulho em dizer que é empreendedor. Esta foi a pergunta que Lula fez a sociólogos quando de sua visita, após sua libertação, à Belo Horizonte, num encontro fechado num hotel próximo do bairro da Savassi. Perguntava o que era, afinal, o empreendedor. Nada mais revelador do gap geracional que estou mencionando. 

Meirelles diz que a briga não é só por salário, é por agenda. “O tempo é a única moeda que não pode ser parcelada”, sustenta. 

O gap geracional petista desconhece que os trabalhadores autônomos são o segundo grupo mais realizado profissionalmente: 41% deles se declaram muito satisfeitos com sua ocupação, à frente dos empregados na indústria (27% de satisfação) e atrás somente dos funcionários públicos (47%). 

<><> Mudou o consumo

Segundo Meirelles, nas classe C, D e E, o consumo é, inicialmente, sinônimo de pertencimento, de afirmação de identidade. Para ele, consumir é uma das maneiras de se garantir dignidade. Nesse sentido, o consumo é um passaporte e um espelhamento das expectativas sociais, do seu vínculo mais íntimo, mas também do que imagina que a sociedade considera digno ou marcador de sucesso.

Não por outro motivo, a “família típica da classe C do período é aquela que financiou o primeiro carro zero, instalou internet de banda larga, comprou uma TV de LCD, reformou a casa ou comprou móveis novos, passou a jantar fora mais vezes, viu o filho entrar na faculdade, talvez até tenha feito sua primeira viagem de avião. A mãe passou a frequentar mais vezes o salão de beleza e teve acesso a produtos cosméticos melhores. O pai experimentou marcas importadas de cerveja que antes não eram encontradas nos supermercados comuns. Nos churrascos e nos aniversários, sobre a mesa agora havia uma garrafa de Coca-Cola, não do refrigerante mais barato” (p. 87)

Após 2010, a renda parou de crescer e as dívidas se acumularam. O filho que fez faculdade está insatisfeito com a carreira porque não conseguiu um bom emprego na área. A maioria (63%) desse público afirma que controla mais seu orçamento pessoal hoje do que há dez ano. Neste segmento consumidor, hoje o pai usa um xampu mais simples, mas compra o melhor para a filha; a mãe lava toalhas e panos de prato com um sabão em pó “tipo B”, mas usa a marca líder para lavar as roupas da família. Por aqui é possível entender uma certa mágoa ou ressentimento em relação ao futuro que se descortinou na primeira década deste século e que não se revelou sustentável no período seguinte. Ora, se o consumo foi uma comprovação de seu sucesso pessoal, a estagnação e o acúmulo de dívidas significa fracasso ou que se precipitou naquele momento. De qualquer maneira, o símbolo social que o consumo trouxe não tem mais a função de passaporte. 

<><> O papel da política na “volta para o futuro”

Mais de um quinto da classe C afirma que nunca teve posição política. Outros 14% afirmam que já tiveram posição política, mas hoje não têm mais. Somente 36% da população declara compreender direito o que é “direita” e “esquerda”.

Num livro publicado em 2013, Walquíria Leão Rego e Alessandro Pinzani registraram opinião similar de mulheres que viviam na pobreza e passaram a receber o Bolsa Família. Em “Vozes do Bolsa Família” aparecem entrevistas realizadas entre 2006 e 2011 com mulheres tão pragmáticas quanto a classe C nos dias de hoje. Naquele momento, afirmavam que todos os políticos são corruptos, mas confessavam que havia votado em Lula para a Presidência da República. Para justificar o voto, diziam que Lula teria apenas uma distinção em relação aos demais: foi pobre e passou fome no passado. Essa identidade existencial ou de classe criaria alguma expectativa positiva, embora frágil. Há uma linha de pensamento que une essas histórias e que a militância partidária parece desconhecer ou classificar de maneira apressada. 

Daí se depreende a relação com a política e com o Estado brasileiro.

A maioria da classe C (65%) considera que cabe ao Estado proteger as liberdades individuais, e 56% também acreditam que o empreendedorismo é o melhor caminho para subir na vida. Mas essa mesma classe C tem uma visão favorável do Estado como regulador da economia: quase metade (45%) defende que o governo deve aumentar investimentos públicos para gerar crescimento. 

As pesquisas realizadas pelo Instituto Locomotiva exibem este mosaico ou bricolagem como Ginsburg revelou com seu livro “O Queijo e os Vermes”. Uma visão de mundo não linear como, ademais, foi sua própria vida. 

A classe C usa e reconhece a importância dos serviços públicos. Ela considera alguns bons, a maioria ruim, mas quase todos necessários.

Nos costumes, também revela um ziguezague em relação a temas polêmicos. A classe C, ao falar de aborto sustenta que deveria ser considerado crime (42%), mas a maioria não é favorável a prender uma mulher que abortou. 47% dizem que não fariam nada se soubessem que uma pessoa conhecida realizou aborto. Em outras palavras, há uma improvável conciliação de sua declaração conservadora com uma postura empática com quem, teoricamente, pratica um pecado ou crime.

A maioria da classe C se diz a favor da família tradicional, formada por um homem, uma mulher e seus descendentes, e 57% declaram ser contrários à educação sexual nas escolas. Contudo, 30% da classe C concordam que mulheres trans devem ter os mesmos direitos que as mulheres cis. 

O otimismo é uma marca de relação com o mundo. Uma afirmação de sua autonomia e capacidade de reinventar a vida. De prosperar a partir de seu esforço. 

Só 2% da classe C dizem ter já alcançado todos os seus objetivos de vida. Outros 20% afirmam ter alcançado a maioria desses objetivos. O sonho de comprar, reformar ou quitar a casa própria, citado por 21% dos entrevistados, continua sendo o símbolo máximo de vitória para a classe C.

Os cinco principais sonhos registrados há dez anos giram em torno dos mesmo temas de hoje: casa própria, estabilidade financeira, carro, bens de consumo, viagens e, o tema onipresente: renda. 

A palavra que explica a leitura atual sobre como conquistar renda e estabilidade é autonomia ou independência em relação aos governos e favores tradicionais. Hoje, quase metade dos brasileiros da classe C (48%) sonha em ter um negócio próprio.

Nada menos que 65% da classe C acreditam que vão realizar seus sonhos nos próximos cinco anos. E conquistarão por esforço próprio, segundo sua avaliação. 

Quando questionados sobre qual pessoa ou instituição é a principal responsável por fazer seus sonhos virarem realidade, a resposta vem na lata: “Eu mesmo”. Uma inusitada confiança pessoal e na rede de apoio mais próximo. 

90% da classe C afirmam que as elites não as escutam. Uma ilustração desta ausência de escuta é descrita por Meirelles a partir de uma conversa entre um política e uma mulher empreendedora da periferia. O político dizia: “criaremos um programa especialmente para vocês, com cursos profissionalizantes para as microempresárias da comunidade”. Eis que a empreendedora retruca: “mas eu não quero um curso profissionalizante. Prefiro uma mentoria com uma empreendedora como eu, alguém que já passou por isso, que sabe o que é segurar o caixa no vermelho e virar o jogo”.

Essa passagem deveria cair como um raio na militância tradicional progressista e, principalmente lulista. Não se trata de conflito ou alienação. Trata-se de uma nova perspectiva de quem não acreditava em política, passou a ter esperança de uma vida melhor com políticas sociais inclusivas e, agora, que continuar progredindo e se vê quase sozinho. Um outro país. Um fosso entre a primeira década e a segunda década deste século.

 

Fonte: Por Rudá Ricci, em Outras Palavras