sábado, 18 de abril de 2026

Trump declara guerra contra privadas e chuveiros eficientes

Quando um americano dá descarga num vaso sanitário dos Estados Unidos, ele ouve um som característico de sucção. Um jato de água enche a bacia e depois puxa o conteúdo para baixo com um grande "golpe" final.

Na Europa, por outro lado, o processo é bem diferente. Quase sempre existe a opção de uma descarga mais leve ou mais forte, dependendo do que você precisa. E não há sucção — em vez disso, a água simplesmente empurra os dejetos para baixo.

Para um contraste ainda maior, na Alemanha e na Holanda, às vezes os dejetos caem sobre uma espécie de prateleira de cerâmica que fica diretamente acima de uma poça de água.

O presidente dos EUA, Donald Trump, está infeliz com o modelo americano e, agora, quer desfazer a regulamentação que o sustenta, com base em padrões de uso eficiente da água estabelecidos em 1992.

Há anos, o republicano reclama de vasos sanitários e chuveiros supostamente fracos. Ele adotou, inclusive, o lema "tornar os chuveiros grandiosos de novo" — em inglês, "Make Showers Great Again", que se parece com o slogan trumpista "Make America Great Again" ("tornar os EUA grandiosos de novo", ou Maga, na sigla original).

A expressão deu nome a uma ordem executiva assinada por Trump no ano passado, a fim de "desfazer a guerra da esquerda" contra "a pressão da água", conforme escreveu a Casa Branca. A medida desfazia regulamentações dos últimos dois governos democratas.

"Há muitos lugares onde há água, tanta água que nem sabem o que fazer com ela. Mas as pessoas compram uma casa, abrem a torneira e a água mal sai. Tomam banho e a água mal sai,” disse, à época, o presidente.

<><> Problema ambiental

A forma como os vasos sanitários dão descarga tem implicações significativas para o abastecimento de água. Esta é uma questão cada vez mais urgente nos EUA, à medida que as mudanças climáticas agravam as secas e muitas comunidades enfrentam escassez hídrica em todo o país, especialmente nos estados do oeste.

O design de sifão, único nos Estados Unidos, antes exigia vários galões de água a cada descarga para criar o efeito de sucção. Mas, em 1992, a lei de eficiência hídrica, que está agora na mira de Trump, reformulou as normas de encanamento, restringindo o uso de água em vasos sanitários novos. 

A legislação economizou cerca de 18,2 trilhões de galões (68,9 trilhões de litros) ao longo de duas décadas. Engenheiros ambientais afirmam que a reversão iria na direção oposta do que é necessário para reforçar a segurança do abastecimento de água dos EUA.

"Levou muito tempo para conseguirmos, de fato, causar um pequeno impacto na mentalidade americana de economizar água", disse à DW Samuel Sandoval Solis, especialista em recursos hídricos da Universidade da Califórnia, em Davis. Ele vê a proposta como um "passo para trás".

O presidente quer revogar "padrões inúteis de pressão da água" que ele considera "onerosos". Metin Duran, engenheiro ambiental da Universidade de Villanova, na Pensilvânia, vê a medida como parte de uma longa tradição americana de oposição à regulação ambiental.

"Culturalmente, as pessoas nos EUA simplesmente não gostam de regulamentações", afirma. "Na Europa, as pessoas são mais abertas a esse tipo de regra se for para o bem maior."

<><> "Não Mexa com Meus Eletrodomésticos"

Em maio de 2025, o governo Trump publicou uma diretriz suspendendo a aplicação dos limites de água para descargas previstos na lei de eficiência hídrica de 1992. Ele também recomendou que o Congresso tentasse revogar a lei, o que criaria uma mudança mais permanente, sobrevivendo a qualquer presidente.

Os republicanos na Câmara abraçaram a causa, aprovando a lei de nome pitoresco "Não Mexa com Meus Eletrodomésticos" ("Don't Mess With My Home Appliances Act", em inglês), que tornaria mais fácil para o Departamento de Energia enfraquecer os padrões de conservação de energia. É improvável que ela passe no Senado.

"As pessoas estão dando descarga 10 vezes, 15 vezes, em vez de uma só", disse Trump em 2019. "Você entra em um prédio novo ou em uma casa nova e não sai água, você praticamente não consegue lavar as mãos, é tão pouca água (que) sai da torneira."

Especialistas em engenharia dizem que a reclamação é ultrapassada. Embora o redesenho dos vasos sanitários nos anos 1990 tenha gerado indignação pública por causa do chamado "baixo fluxo", muita coisa mudou desde então.

"Quando o presidente reclama que os vasos sanitários dele não dão descarga direito, isso é coisa do passado. Talvez houvesse alguns vasos antigos que realmente não funcionavam bem muito tempo atrás. É possível. Mas os vasos de hoje passam por testes rigorosos”, disse Ron Burke, que dirige a organização sem fins lucrativos Aliança para Eficiência da Água (Alliance for Water Efficiency), sediada em Chicago.

<><> Vasos ainda defasados

Ainda assim, os vasos sanitários nos EUA continuam usando muita água. A lei de 1992 determinou que qualquer vaso sanitário novo utilizasse apenas 1,6 galão por descarga.

Na Europa, esse é o padrão para uma descarga mais forte, mas muitos vasos no continente também oferecem a opção de descarga dupla, com menos de um galão por descarga para resíduos líquidos. A descarga dupla nunca realmente se popularizou nos EUA, apesar de ser uma opção eficiente em termos de água.

Além disso, modelos antigos, que desperdiçam mais, ainda são comuns em todo o país. Mais de um em cada cinco vasos sanitários ainda usa 3,5 galões por descarga ou mais, segundo um estudo de 2019 da Associação Internacional de Fabricantes de Produtos Hidráulicos (PMI, na sigla em inglês). Alguns usam 5 galões ou mais, se tiverem sido fabricados antes de 1980.

Na Califórnia, castigada pela seca, o PMI estima que cerca de 2,4 milhões desses chamados vasos ainda estejam em uso. "O que o governo Trump está propondo entra realmente em conflito direto com os desafios que muitas comunidades nos Estados Unidos enfrentam para manter um abastecimento de água confiável e acessível", disse Burke.

Os californianos se veem diante da perspectiva de futuras grandes secas, enquanto sofre com escassez no rio Colorado. Os dois maiores reservatórios do país, localizados no estado, operam com cerca de um terço de sua capacidade normal, e o estado busca economizar água onde for possível.

 

Fonte: DW Brasil

 

5 formas simples de perder gordura abdominal

Muitas pessoas vão à academia para perder gordura abdominal, mas algumas delas não prestam muita atenção.

A gordura abdominal é uma preocupação comum entre os jovens que cuidam do seu aspecto físico e da sua saúde. E, com a gordura acumulada na região central do corpo, eles já não podem usar roupas confortáveis e com bom caimento.

Este problema não se limita ao simples ato de vestir roupas que se adaptem aos nossos gostos pessoais.

Já se demonstrou que a gordura abdominal pode colocar a saúde em risco. Ela pode causar inúmeros problemas graves de saúde, como hipertensão arterial, altos níveis de açúcar no sangue e problemas relacionados ao colesterol.

Estas condições são consequência da gordura localizada na região abdominal, que também aumenta o risco de diabetes tipo 2 e doenças cardíacas.

Uma pesquisa publicada pela Universidade Harvard, nos Estados Unidos, revela que uma espécie de proteína, denominada citocina, é produzida em maior quantidade quando há acúmulo de gordura na região abdominal. Esta proteína causa inflamações no organismo.

A gordura abdominal também produz outra proteína chamada angiotensina, que pode provocar estreitamento dos vasos sanguíneos e hipertensão arterial. Com isso, aumenta o risco de demência, asma e certos tipos de câncer.

O cardiologista Shiv Kumar Choudhry, do Hospital Fortis Escorts de Nova Déli, na Índia, afirma que a gordura abdominal é mais perigosa que a gordura armazenada em outras partes do corpo.

"Quando as células de gordura abdominal se rompem, elas liberam inúmeras substâncias tóxicas", explica ele.

"Estas substâncias causam inflamação dos vasos sanguíneos do coração, o que aumenta o risco de doenças cardíacas. E também geram resistência à insulina, o que eleva o risco de diabetes."

Especialistas indicam que diversos fatores podem levar ao acúmulo de gordura abdominal, como a genética, alterações hormonais, idade, excesso de peso e a menopausa.

Manter estilo de vida desequilibrado e dieta inadequada também contribuem para este fenômeno.

Os especialistas em saúde afirmam que é possível reduzir a gordura abdominal adotando uma dieta equilibrada, fazendo atividade física diariamente e mantendo hábitos de vida saudáveis.

Para reduzir a gordura abdominal, é importante se concentrar em certos pontos importantes. Aqui estão cinco recomendações a respeito.

1. Evite jantar pouco antes da hora de dormir

Não é recomendável comer entre duas e três horas antes de dormir.

As calorias provenientes dos alimentos consumidos ao longo do dia se transformam em energia para as atividades diárias. Mas os alimentos consumidos à noite não funcionam da mesma forma.

Por isso, eles começam a se armazenar no corpo, levando ao aumento de peso.

2. Adote uma dieta equilibrada

Se você consumir alimentos ricos em fibras, não sentirá fome rapidamente após as refeições.

Quando a dieta inclui fibras, o trânsito dos alimentos do estômago para o intestino se desacelera. Por isso, você sentirá saciedade por mais tempo.

Incorpore proteínas à sua alimentação. Elas ajudam você a sentir saciedade por mais tempo e reduzem o desejo por alimentos.

Elas reduzem os níveis de grelina (o hormônio estimulante da fome), o que evita os desejos.

As proteínas também fortalecem os músculos, aceleram o metabolismo e aumentam a capacidade de queimar calorias.

Acrescente à sua alimentação diária alimentos ricos em proteínas, como ovos, lentilhas, leite, queijo, iogurte, peixe, aves e soja.

3. Evite os alimentos ricos em carboidratos altamente processados e refinados

Alimentos como o pão comum, batatas fritas e aperitivos salgados têm teor de fibras baixo ou muito baixo. Nosso organismo os digere rapidamente e eles podem causar aumento repentino dos níveis de açúcar no sangue.

Quando os níveis de açúcar variam de forma tão drástica, a fome aumenta e cresce o risco de aumento de peso e diabetes tipo 2.

Em vez desses alimentos processados, prefira opções saudáveis, como pão integral e aperitivos assados ou ligeiramente fritos, além de frutas frescas e secas.

Evite alimentos ricos em açúcar e calorias, reduza o consumo de álcool e pare de fumar.

4. Durma o suficiente

A falta de sono suficiente pode afetar os hormônios da fome e fazer com que você deseje comer mais.

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em Los Angeles, nos Estados Unidos, indicam que a grelina (um hormônio produzido pelo estômago, que estimula a fome) aumenta quando a qualidade do sono é deficiente.

Costuma-se dizer que é preciso evitar e gerenciar o estresse. Quando estamos estressados, os níveis de cortisol (o hormônio do estresse) aumentam na corrente sanguínea.

E, quando estamos estressados, não prestamos atenção no que comemos. Nossa tendência é comer qualquer alimento que esteja à mão para nos distrairmos do estresse.

5. Faça exercício

Manter a atividade com exercícios físicos ou qualquer tipo de treino ajuda a queimar calorias. Isso promove a redução da gordura corporal, particularmente a acumulada em volta da região central do corpo.

Atividades diárias, como caminhadas rápidas, correr, andar de bicicleta, nadar ou praticar ioga não só ajudam a reduzir a gordura corporal, como também aceleram o metabolismo.

O exercício fortalece os músculos e preserva a saúde do coração. E, ao reduzir a gordura abdominal, também diminui o risco de diabetes, hipertensão arterial e doenças cardíacas.

 

Fonte: BBC News

 

Quem está por trás da mineração em terras indígenas no Brasil?

Há conflitos que dizem respeito a um país. Outros revelam um tempo histórico. A disputa em torno da mineração em terras indígenas no Brasil se insere nesse segundo caso. O que está em jogo vai além de uma controvérsia entre crescimento econômico e ações de proteção dos direitos territoriais e do meio ambiente. Trata-se da possibilidade de que a transição energética global, apresentada como resposta à crise climática, se converta em justificativa para uma nova rodada de roubos e invasões territoriais, agora revestida de linguagem técnica, alinhada com ambição geopolítica e promessas de futuro.

No Brasil, essa mudança já aparece com força. Impulsionada pela corrida por minerais como lítio, níquel, cobre, cobalto e terras raras, usados em baterias, eletrificação e outras tecnologias, a mineração passou a se apresentar como setor central para um futuro não mais dependente de combustíveis fósseis. Em nome da transição energética e da descarbonização, o setor procura se afirmar como estratégico para o país e para sua posição no cenário global. Esse movimento amplia sua presença dentro do Estado e fortalece uma rede de influência que articula interesses econômicos com decisões políticas. O relatório “Desmascarando o lobby mineral em terras indígenas no Brasil”, produzido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em parceria com a cosmopolíticas e lançado durante o ATL 2026, no dia 8 de abril, mostra que o avanço da mineração em terras indígenas não acontece apenas por demanda de mercado, mas por meio de uma engrenagem de financiamento, lobby e captura institucional que alcança os três poderes da República.

Os dados reunidos no relatório mostram que esse cerco não é abstrato. Apenas na Amazônia, há mais de 5 mil requerimentos minerários em aberto. Mais de 1.300 atingem terras indígenas, seja por sobreposição direta, seja por extrema proximidade. Em 2024, centenas desses pedidos continuavam ativos, aguardando nova brecha política ou jurídica para avançar com a exploração dos chamados minerais críticos que cercam mais de 45 povos. O lobby se articula muito antes de qualquer autorização formal e se instala como frente permanente de ameaça sobre os territórios.

No Congresso Nacional, essa engrenagem aparece de forma especialmente visível. Segundo a Apib, o Legislativo funciona como máquina de reapresentação contínua da mesma agenda: quando uma proposta encontra resistência, outra reaparece com nova redação, novos argumentos e os mesmos interesses. A isso se soma o Mandado de Injunção nº 7490, em que o Supremo referendou, em junho de 2025, liminar do ministro Flávio Dino dando prazo de 24 meses para o Congresso regulamentar a exploração mineral nos territórios. O atual Grupo de Trabalho sobre mineração em terras indígenas (GTMTI) no Senado não é, portanto, um espaço técnico neutro. Criado por iniciativa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil/AP) a partir da demanda do Supremo, o GT foi instalado para elaborar, em seis meses, um projeto de lei de regulamentação da pesquisa e da lavra mineral em terras indígenas. Sua coordenação ficou com a senadora Tereza Cristina (PP/MS), ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro e liderança da Frente Parlamentar Agropecuária, enquanto a relatoria foi atribuída ao senador Rogério Carvalho (PT/SE). Os PLs nº 1331/2022 e nº 6050/2023, ambos favoráveis à ampliação de atividades econômicas e minerais em terras indígenas, foram indicados para análise do colegiado. Em vez de encerrar a pauta, o GT a reorganiza e lhe dá novo fôlego institucional.

O alerta da Apib é que esse GT inaugura uma nova etapa de discussão que pode abrir caminho para a legalização da mineração em terras indígenas, com impacto direto sobre direitos garantidos na Constituição e sobre a proteção dos territórios. Esse movimento acontece dentro de um ambiente político já marcado por iniciativas que avançam nessa direção, com apoio de setores ligados à mineração, ao agronegócio e a grupos conservadores, que atuam para apresentar interesses privados como se fossem de interesse nacional.

Nesse cenário, o relatório também destaca o papel do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram). Com mais de 210 associados, responsáveis por grande parte da produção mineral do país segundo dados do próprio instituto, o Ibram atua como articulador dessa agenda dentro do Estado, com presença junto ao Executivo, ao Legislativo e ao Judiciário, além da participação em conselhos estratégicos, acesso a ministérios e atuação em eventos internacionais do setor, como a canadense PDAC (sigla em inglês para Prospectores e Desenvolvedores do Canadá). Essa atuação fortalece a transformação de interesses empresariais em posições institucionais.

No Executivo, o avanço da mineração aparece de forma contínua e atravessa diferentes governos. O relatório mostra que, ao mesmo tempo em que o Congresso discutia regras sobre o tema, políticas e marcos foram sendo construídos em diálogo direto com o setor minerário. Ainda nos governos Lula e Dilma, a formulação do Novo Código Mineral contou com participação do Ibram, e o Plano Nacional de Mineração 2030 consolidou a atividade como prioridade para o país, associando áreas com reservas minerais à lógica da exploração.

A partir de 2016, essa direção se intensificou. No governo Temer, o Decreto nº 9.406/2018 regulamentou o Código de Mineração e autorizou o uso de títulos minerários como garantia financeira, ampliando o acesso a crédito e estimulando a especulação. No governo Bolsonaro, a mineração foi classificada como atividade essencial durante a pandemia, mantendo operações mesmo em áreas sensíveis. Em 2020, o Programa Mineração e Desenvolvimento buscou acelerar a exploração e reduzir regras, e, em 2021, o Programa Pró-Minerais Estratégicos colocou dezenas de projetos como prioridade nacional em nome da transição energética, incluindo áreas em conflito com comunidades indígenas. Esse conjunto de medidas evidencia o envolvimento de diferentes correntes políticas na construção de um ambiente institucional que favorece a expansão da mineração no país.

No Judiciário, a ofensiva assume formas menos visíveis, mas igualmente graves. O relatório afirma ter identificado intensa presença de representantes do lobby mineral e de argumentos favoráveis ao setor nas audiências da Câmara de Conciliação do Marco Temporal, além de disputas interpretativas no STF que indicam a Corte como novo campo de atuação para uma regulamentação indireta da mineração em terras indígenas. O risco apontado pelas lideranças indígenas é nítido: uma mudança dessa dimensão pode avançar sem participação efetiva dos povos e sem direito de veto.

<><> Incidência jurídica

A Apib, junto ao lançamento do relatório durante o 4º Seminário de Mineração e Terras Raras no Congresso Nacional, aproveitando as mobilizações do ATL, protocolou, no dia 8 de abril, uma manifestação no STF dentro de uma ação que trata da mineração na área do povo Cinta Larga, entre Rondônia e Mato Grosso. Essa ação acontece depois de uma decisão do ministro Flávio Dino que reconheceu a demora do Congresso em criar uma lei sobre mineração em terras indígenas e levantou a possibilidade de avançar nesse tema por outros caminhos. Para a Apib, esse movimento abre um risco concreto de liberar a exploração sem garantir os direitos dos povos.

Na manifestação, a Apib sustenta que a Constituição não permite mineração em terras indígenas sem uma lei específica aprovada pelo Congresso e sem consulta livre, prévia e informada aos povos afetados. O documento também chama atenção para o fato de que essa consulta não pode ser tratada como um simples procedimento formal. Ela precisa respeitar o tempo, a decisão coletiva, os modos de organização de cada povo e, principalmente, o direito ao veto à lei. A Apib alerta que avançar nesse tema sem essas garantias pode agravar violências e ampliar a destruição de formas de vida que já vêm sendo impactadas por garimpo e outras atividades ilegais.

Outro ponto central da ação é o questionamento da ideia de que a mineração pode ser tratada como interesse nacional e público acima dos direitos indígenas. A Apib argumenta que esse tipo de leitura ignora o papel dos povos na proteção dos biomas e no enfrentamento da crise climática. Também aponta que abrir esse caminho pode beneficiar interesses privados e estrangeiros, sem retorno real para os povos e para o país.

Ao levar essa disputa ao STF durante o ATL, a Apib conecta a mobilização nas ruas com a atuação no campo jurídico e reforça que as denúncias do relatório sobre as pressões feitas em diferentes instâncias de poder pelas mineração não acontece só nos territórios, mas também dentro das decisões do Estado. O que está em jogo é quem define o uso dessas áreas e quais interesses orientam essas decisões.

<><> Mobilizações e ameaças

Nos territórios, são os povos indígenas que vêm puxando essa denúncia para o centro da cena e enfrentando, na prática, o avanço da mineração. Em Altamira, no Pará, mulheres indígenas ocuparam a sede da Funai para denunciar os impactos do projeto da mineradora canadense Belo Sun, na Volta Grande do Xingu, e exigir a cassação da licença de instalação da empresa. A mobilização também cobra a retirada de invasores da Terra Indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, e da Terra Indígena Trincheira Bacajá, do povo Mebêngôkre-Xikrin. Mais do que reagir a um empreendimento, essas mulheres estão enfrentando uma nova camada de pressão sobre um território já violentado por grandes obras, pela invasão e pela presença continuada de interesses minerários.

No Espírito Santo, o povo Tupinikim sustenta há meses uma mobilização prolongada contra a Vale, a Samarco e a BHP, cobrando reparação pelos danos do rompimento da barragem de Fundão, em Mariana. Mais de dez anos depois, cerca de 1.600 indígenas seguem fora dos processos de reparação, enquanto a presença da ferrovia dentro da terra indígena, somada à vigilância constante e às restrições de circulação, é denunciada como forma permanente de controle do território.

Essas lutas ganharam projeção nacional durante o ATL 2026, em Brasília, onde lideranças de diferentes regiões se somaram para afirmar uma mesma denúncia: a mineração não é uma promessa abstrata de desenvolvimento, mas uma ameaça concreta à vida, à autonomia e ao futuro dos povos indígenas. Nesse contexto, o lançamento do relatório da Apib fortaleceu a incidência política do movimento ao conectar as violências vividas nos territórios à engrenagem institucional que as sustenta.

O que o relatório revela é que a mineração em terras indígenas não avança apenas porque há empresas interessadas. Ela avança porque se organiza simultaneamente nos três poderes e porque passa a se apresentar, sob a retórica da transição energética, como se fosse solução climática e de interesse nacional e público. Em nome do futuro, tenta-se normalizar a destruição. No entanto, a extração de minérios ameaça justamente a segurança climática do planeta ao condenar territórios e povos indígenas em zonas de sacrifício para atender interesses, principalmente, do Norte Global. A resposta dos povos indígenas, porém, já está colocada nas ruas e nos territórios: nosso futuro não está à venda.

 

Fonte: Por Midori Hamada, no Le Monde

 

EUA x Irã: quatro cenários possíveis do que vem pela frente no conflito

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, disse que o Irã concordou em entregar seu estoque de urânio enriquecido, uma das questões-chave nas possíveis negociações para encerrar a guerra.

Segundo Trump, as negociações entre os dois países podem ser retomadas no fim de semana, com os governos americano e iraniano "muito próximos" de um acordo, segundo ele.

O Irã não comentou as declarações de Trump.

Trump disse ainda acreditar que uma extensão do cessar-fogo com o Irã, que deve expirar no começo da próxima semana, não seria necessária por conta da proximidade de um possível acordo.

Um diálogo inicial entre os dois países, no fim de semana passado no Paquistão, foi encerrado no domingo sem avanços.

Diante desse cenário, quais os possíveis rumos para o conflito?

A seguir, quatro cenários possíveis para o que pode acontecer.

<><> 1. Cessar-fogo frágil como pausa 'estratégica'

Após semanas de ataques, o cessar-fogo entre EUA e Irã pareceu sinalizar uma disposição para conter a crise. No entanto, desde o início, essa trégua vem sendo marcada por imprecisões.

Diferenças na interpretação dos seus termos — incluindo o alcance geográfico, os tipos de alvos incluídos e até mesmo a definição de uma "violação do cessar-fogo" — levaram alguns analistas a enxergar o acordo mais como uma pausa estratégica do que como uma solução duradoura.

"As chances de se chegar a um acordo eram próximas de zero desde o início", afirmou Behnam Ben Taleblu, pesquisador sênior do think tank Foundation for Defense of Democracies, com sede em Washington.

"Há um conjunto de princípios, posições e políticas sobre os quais os EUA e a República Islâmica divergem há anos. No curto prazo, a guerra não só não reduziu essas diferenças, como as intensificou", disse ele à BBC News Persa.

Ao mesmo tempo, declarações contraditórias de autoridades de ambos os lados aumentaram a fragilidade da situação.

Enquanto autoridades do Irã falam em violações recorrentes do cessar-fogo, os EUA e Israel adotam uma interpretação mais limitada do que foi acordado.

Essa divergência de narrativas aprofundou a desconfiança e lançou dúvidas sobre a durabilidade do acordo.

Se as tentativas de retomar as negociações não trouxerem resultados, o cessar-fogo tende a se tornar pouco mais do que uma forma de ganhar tempo — permitindo que as partes façam uma pausa, se recuperem e se reorganizem, reavaliem suas posições e se preparem para a próxima fase.

Esse cenário se torna mais provável caso um dos lados conclua que está ganhando muito pouco com a situação atual, e que é necessário aumentar a pressão de forma significativa.

Os Estados Unidos, por exemplo, poderiam considerar atacar infraestruturas críticas no Irã — como usinas de energia, pontes ou instalações energéticas — como uma possível opção.

Embora esse tipo de ação possa gerar pressão no curto prazo, também traria amplas consequências humanitárias e econômicas, além de poder provocar uma resposta mais firme do Irã.

Ao mesmo tempo, Israel, que mantém forte ceticismo em relação às negociações, tende a se tornar um ator ainda mais influente.

"Israel pode recorrer a ações como assassinatos de indivíduos e autoridades iranianas, incluindo aqueles envolvidos nas negociações", afirmou Hamidreza Azizi, pesquisador em relações internacionais.

"A política declarada por Donald Trump de bloquear o Estreito de Ormuz aumenta o risco de confronto, mesmo que as partes não desejem isso diretamente", acrescentou.

Embora a possibilidade de escalada não possa ser descartada, seus custos potencialmente elevados — como o risco de um conflito regional mais amplo e impactos na economia global — podem tornar esse cenário menos provável, ao menos no curto prazo.

<><> 2. 'Guerra nas sombras'

Um dos cenários — talvez um dos mais prováveis — é o retorno a um tipo de confronto que pode ser descrito como uma "escalada controlada".

Isso significa que o conflito não chegaria ao nível de uma guerra em larga escala, mas também não haveria uma interrupção total das ações militares. Nesse contexto, poderiam continuar ataques limitados a infraestruturas, alvos militares ou até mesmo linhas de abastecimento.

O papel de atores indiretos ganharia ainda mais relevância. O aumento da atividade de grupos alinhados ao Irã no Iraque ou no Mar Vermelho, junto com maior pressão dos Estados Unidos sobre essas redes, poderia ampliar o alcance geográfico do conflito sem necessariamente elevar sua intensidade. Alguns analistas descrevem esse cenário como uma "guerra nas sombras".

"Ambos os lados querem usar suas opções e instrumentos de pressão para influenciar o outro sem entrar em uma guerra em larga escala", disse Hamidreza Azizi.

"Se o cessar-fogo for violado, a probabilidade de o Irã adotar novas ações por meio de suas forças aliadas — especialmente no Iêmen — é considerada alta", acrescentou.

No entanto, esse cenário não está isento de riscos. À medida que as tensões aumentam, cresce também o risco de erros de cálculo. E, mesmo sem a intenção de escalar o conflito, um único equívoco pode levá-lo a um nível incontrolável.

<><> 3. Diplomacia discreta continua

Apesar do fracasso das negociações no Paquistão, ainda não é possível concluir que a diplomacia se esgotou ou que as conversas estejam fora de cogitação.

O Paquistão, como anfitrião desses encontros, deve continuar seus esforços nos próximos dias para incentivar Teerã e Washington a chegarem a um acordo, atuando como intermediário na troca de mensagens entre os dois lados.

Ao mesmo tempo, mediadores tradicionais — como Catar, Omã e até mesmo Arábia Saudita e Egito — podem se tornar mais ativos diante do temor de que o conflito saia do controle, funcionando como canais de comunicação e tentando evitar uma escalada repentina da crise.

Contudo, qualquer avanço nesse sentido depende da diminuição das divergências entre EUA e Irã.

A proposta de 15 pontos dos Estados Unidos e a contraproposta de 10 pontos do Irã indicam que ambos ainda priorizam impor seus próprios termos, em vez de buscar um meio-termo.

Assim, embora uma nova rodada de negociações seja possível, esperar um acordo rápido e abrangente parece pouco realista — pelo menos no curto prazo.

<><> 4. Bloqueio naval prolongado

O presidente dos Estados Unidos anunciou que a Marinha americana pretende impor um bloqueio marítimo ao Irã, impedindo a passagem de navios e petroleiros pelo Estreito de Ormuz.

Ele também ameaçou interceptar, em águas internacionais, qualquer embarcação que pague taxas de trânsito ao Irã para atravessar o estreito — uma estratégia que parece ter como objetivo privar o país de receitas do petróleo, sufocar sua economia e, ao mesmo tempo, atingir o principal rival dos EUA, a China, maior compradora de petróleo iraniano.

"Um bloqueio marítimo dos portos do Irã pode ser altamente eficaz se houver alocação suficiente de recursos de inteligência, vigilância e reconhecimento", afirmou Behnam Ben Taleblu, destacando a extensa costa iraniana.

"O resultado prático de uma medida como essa seria privar o governo de sua capacidade de exportar sua principal commodity."

Mas outros analistas apontam para os custos significativos que essa política poderia impor aos Estados Unidos, ao aproximar suas forças militares do Irã e torná-las mais vulneráveis a ataques.

Além disso, para que o plano seja eficaz, forças navais precisariam permanecer mobilizadas próximas às fronteiras iranianas por um período prolongado, o que implicaria custos elevados.

A manutenção dessa estratégia também poderia provocar a alta dos preços globais de petróleo e energia, além de aumentar a probabilidade de uma intervenção dos houthis para bloquear o tráfego no Estreito de Bab el-Mandeb, o que poderia pressionar ainda mais os preços do petróleo.

<><> Instabilidade estrutural: uma nova ordem na região?

No fim das contas, o que esses cenários indicam é que a região entrou em uma fase em que a fronteira entre guerra e paz está mais nebulosa do que nunca.

O fracasso das negociações no Paquistão não sinaliza o fim da diplomacia, nem marca o início definitivo de uma guerra mais ampla. Em vez disso, aponta para a continuidade de uma situação de "zona cinzenta".

"Embora ambos os lados queiram que esse conflito chegue ao fim, isso não parece provável no curto prazo", afirmou Hamidreza Azizi.

No contexto atual, decisões estratégicas, questões de segurança e até mesmo pequenos desdobramentos no local do conflito podem ter impactos desproporcionais sobre o rumo da crise.

Isso tem levado muitos analistas a falar em "instabilidade estrutural" na região — uma condição em que as regras do jogo não estão completamente definidas e cujo desfecho é imprevisível.

Nesse cenário, talvez a descrição mais precisa seja a de que Irã e Estados Unidos entraram em uma fase em que guerra e negociação ocorrem simultaneamente. Ambos continuam a recorrer a ferramentas militares, ao mesmo tempo em que mantêm canais diplomáticos parcialmente abertos.

¨      O que se sabe sobre o cessar-fogo entre Líbano e Israel

O presidente dos EUA, Donald Trump, anunciou que os líderes de Israel e do Líbano concordaram com um cessar-fogo de 10 dias, que entrou em vigor às 18h (horário de Brasília) de quinta-feira (16/4).

Não houve menção no comunicado de Trump ao Hezbollah, o grupo militante apoiado pelo Irã no Líbano, com o qual Israel vem trocando tiros nas últimas seis semanas.

Mas, em uma publicação posterior na rede Truth Social, Trump pediu ao grupo que respeitasse o cessar-fogo, dizendo: "Espero que o Hezbollah se comporte bem e de forma adequada durante este importante período".

Após o anúncio, o presidente dos EUA também convidou o primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu, e o presidente libanês, Joseph Aoun, à Casa Branca para novas conversas.

A seguir, o que se sabe até agora sobre a trégua.

<><> O que diz o acordo?

Os termos do acordo especificam que o cessar-fogo deve durar 10 dias, com a possibilidade de ser "prorrogado por mútuo acordo" caso as negociações mostrem sinais de progresso.

De acordo com mais detalhes fornecidos pelo Departamento de Estado dos EUA:

  • Israel mantém seu "direito de tomar todas as medidas necessárias em autodefesa, a qualquer momento, contra ataques planejados, iminentes ou em andamento";
  • O Líbano deve tomar "medidas significativas" para impedir que o Hezbollah e todos os outros "grupos armados não estatais rebeldes" realizem ataques contra alvos israelenses;
  • Os envolvidos reconhecem que as forças de segurança do Líbano têm responsabilidade exclusiva pela segurança do Líbano;
  • Israel e o Líbano solicitaram que os EUA continuem a facilitar novas conversas diretas com o objetivo de "resolver todas as questões pendentes";

A declaração acrescentou que a trégua foi um "gesto de boa vontade" de Israel destinado a possibilitar "negociações de boa-fé para um acordo permanente de segurança e paz" entre as duas partes.

<><> O que disseram os diferentes lados?

Os líderes de Israel e do Líbano saudaram a trégua, com Netanyahu classificando o entendimento como "uma oportunidade para firmar um acordo de paz histórico".

O primeiro-ministro libanês, Nawaf Salam, disse esperar que o acordo permita que aqueles que foram deslocados pelo conflito retornem às suas casas.

O Hezbollah também sinalizou disposição para participar do cessar-fogo, mas afirmou que ele deve incluir "uma suspensão completa dos ataques" em todo o Líbano e "nenhuma liberdade de movimento para as forças israelenses".

O grupo apoiado pelo Irã, embora profundamente enraizado no Líbano, não faz parte do aparato de segurança do governo libanês.

O Ministério das Relações Exteriores do Irã saudou o cessar-fogo, com o porta-voz Esmail Baghaei expressando sua "solidariedade" ao Líbano. Teerã insistiu que seu próprio cessar-fogo de duas semanas com os EUA deveria incluir o Líbano, enquanto os EUA e Israel afirmaram que não.

O secretário-geral da ONU, António Guterres, elogiou o papel dos EUA na facilitação do cessar-fogo e instou todas as partes a "respeitarem plenamente" e "cumprirem o direito internacional em todos os momentos".

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, considerou o acordo um "alívio", afirmando que a Europa continuará a "exigir o pleno respeito à soberania e à integridade territorial do Líbano".

A chefe da diplomacia da UE, Kaja Kallas, acrescentou que o cessar-fogo deve ser usado para "recuar da violência" e criar espaço para negociações visando "uma paz mais duradoura".

<><> O que é a zona tampão de Israel?

Apesar do acordo, Netanyahu afirmou que as tropas israelenses manteriam uma "zona de segurança" de 10 km no sul do Líbano, dizendo: "Estamos lá e não vamos sair".

Segundo o premiê israelense, o controle sobre essa área deve ser mantido para "bloquear o perigo de invasão".

Israel entrou novamente no sul do Líbano após ataques do Hezbollah no início de março, criando uma zona de segurança que, segundo o país, era necessária para proteger as comunidades no norte de Israel.

Apesar de um acordo de cessar-fogo anterior entre Israel e o Hezbollah — que pôs fim a 13 meses de conflito — ataques transfronteiriços ainda eram quase diários.

<><> Como o acordo foi negociado?

Israel e Líbano realizaram raras conversas diretas em Washington no início desta semana, com o objetivo de aliviar a guerra, que resultou em ataques aéreos mortais contra parte da capital libanesa, Beirute, e combates no sul do país.

Segundo o anúncio de Trump, o acordo foi alcançado após "excelentes conversas" com Aoun e Netanyahu. Mas o presidente americano não mencionou se o Hezbollah esteve diretamente envolvido nas negociações.

Mais tarde, ele instou o Hezbollah a "agir de forma adequada e correta durante este importante período" nas redes sociais.

Embora tenha saudado a trégua, Netanyahu também deixou claro que estava fazendo poucas concessões no terreno.

Ele disse que o Hezbollah insistiu em duas condições: a retirada das forças israelenses do Líbano e o princípio de um "pacto por cessar-fogo".

No entanto, parece que o anúncio do cessar-fogo pegou Israel de surpresa - supostamente até mesmo dentro do próprio gabinete de segurança do governo.

Segundo um veículo de notícias israelense amplamente respeitado, Netanyahu teria convocado uma reunião do gabinete de segurança com apenas cinco minutos de antecedência, pouco antes do anúncio do cessar-fogo.

Informações vazadas dessa reunião indicam que os ministros não tiveram a oportunidade de votar sobre o cessar-fogo.

<><> O que isso tem a ver com a guerra no Irã?

Quando o cessar-fogo com o Irã foi anunciado, foram divulgadas mensagens contraditórias sobre o Líbano estar envolvido ou não na trégua.

Autoridades paquistanesas, que ajudaram a negociar o acordo, e autoridades iranianas disseram que sim, mas Israel disse que não.

A secretária de imprensa do presidente dos EUA, Donald Trump, Karoline Leavitt, também afirmou posteriormente que o Líbano não fazia parte do acordo.

Israel lançou ataques contra o Líbano em 2 de março em resposta a ataques lançados pelo Hezbollah. Isso ocorreu depois que os EUA e Israel lançaram ataques contra o Irã — provocando retaliação de Teerã contra aliados dos EUA no Golfo e contra grupos apoiados pelo Irã, incluindo o grupo militante libanês.

Israel e Hezbollah continuaram a trocar ataques desde então, apesar dos apelos do primeiro-ministro do Líbano para que ambos os lados parassem.

Mais de 2.100 pessoas foram mortas e outras 7.000 ficaram feridas nos ataques de Israel ao Líbano desde 2 de março, de acordo com o Ministério da Saúde do país, que não distingue as vítimas entre combatentes e civis. O número inclui pelo menos 260 mulheres e 172 crianças.

O Ministério da Saúde afirma que 91 profissionais de saúde foram mortos e outros 208 ficaram feridos na guerra, com mais de 120 ataques israelenses registrados contra ambulâncias e instalações médicas. Uma análise da BBC Verify constatou que mais de 1.400 edifícios no Líbano também foram destruídos.

Ataques do Hezbollah mataram dois civis em Israel no mesmo período, enquanto 13 soldados israelenses foram mortos em combate no Líbano, segundo autoridades israelenses.

Na quinta-feira (16/04), o exército israelense destruiu a última ponte que ligava o sul ao resto do país, isolando ainda mais a região e renovando os temores entre muitos libaneses de que isso possa levar a uma ocupação de longo prazo de algumas áreas.

 

Fonte: Por Saeed Jafari, Political analyst da BBC

 

sexta-feira, 17 de abril de 2026

Thiago Toledo Ferreira da Rocha: Ausência de hegemonia

O ano de 2026 chegou e as eleições convocam a crítica retrospectiva e projetiva. Em setores críticos ao governo, consolidou-se o diagnóstico de que o terceiro governo Lula resignou-se a se tornar um gestor da ordem neoliberal, recusando a mobilização popular e o confronto com o capital, desperdiçando, assim, a oportunidade de construir um novo projeto hegemônico capaz de se afirmar como resistência à inércia neoliberal. Ao fazê-lo, abriu espaço ao retorno do fascismo de extrema direita.

Tal diagnóstico está correto. No entanto, a questão inquietante é o porquê disso. O desafio consiste em compreender até que ponto se trata de uma escolha político-eleitoral, de falta de coragem ou desejo, e até onde tal paralisia é fruto de obstáculos sistêmicos impostos tanto pela dinâmica do capitalismo global quanto pelos entraves institucionais brasileiros.

Colocar boas perguntas é difícil; mais difícil ainda é enfrentá-las. Partamos do início, para enquadrar o governo no cenário maior em que está inscrito: o interregno global.

Advém de Antonio Gramsci a ideia de interregno. O conceito foi formulado pelo autor nos Cadernos do cárcere, escritos na prisão entre 1926 e 1936. O contexto foi o da Primeira Guerra Mundial e da avassaladora crise do capitalismo de 1929, que gerou milhões de desempregados e profunda desintegração social na Europa.

Nesse momento, as classes dirigentes capitalistas perderam sua legitimidade, e o projeto capitalista democrático perdeu sua força de adesão e consenso. Isso deixou um vazio que Antonio Gramsci, informado pela teoria da história de Karl Marx, afirmou que o socialismo preencheria por meio de um novo projeto político, econômico e ideológico. Caberia ao proletariado se preparar para isso.

No entanto, sabemos que não foi isso que ocorreu. Apesar das insurreições proletárias que despontaram nesse momento pela Europa e da Revolução Russa comandada por Vladímir Lênin e Leon Trótsky, a hegemonia socialista do proletariado não se consagrou. Mas não apenas o socialismo não se consagrou, como despontaram os fascismos históricos de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Diante disso, Antonio Gramsci afirmou que tais fenômenos mórbidos e regressivos eram resultado da combinação entre o sofrimento social no interregno e a ineficácia da esquerda em se colocar como nova força hegemônica.

Atualmente, o mundo ocidental vive um interregno análogo ao descrito pelo autor. Como mostrou Wolfgang Streeck, em O tempo comprado, depois do colapso financeiro de 2008, a ordem neoliberal perdeu sua legitimidade, mas prossegue em modo zumbi e com frequência de modo abertamente autoritário. Entende-se aqui por neoliberalismo o processo que se inicia na década de 1970, marcado pelo desmonte do Estado de bem-estar social, desregulamentações, privatizações massivas e austeridade fiscal, o que acarretou o fenômeno da financeirização.

Para Wolfgang Streeck, ainda que o neoliberalismo definhe, o novo – seja um socialismo, seja um novo pacto social-democrata – não consegue nascer, em parte por conta dos entraves sistêmicos legados pelo próprio neoliberalismo, em parte pela ausência de alternativas políticas, econômicas e ideológicas da esquerda mundial. O resultado é um longo período de inércia desordenada, incerteza, degradação e agudização do sofrimento social.

Com efeito, o ponto de Wolfgang Streeck é mostrar como, ao retirar do âmbito democrático grande parte das decisões acerca da política econômica, os governos tornaram-se impotentes para implementar seus programas – algo que Francisco de Oliveira já havia notado ao sublinhar a convergência programática entre PT e PSDB no início dos anos 2000.

À medida que esquerda e direita se tornavam cada vez mais parecidas, a revolta social gerada pela ausência de transformações profundas e pelo aprofundamento da precarização estimulou a adesão a movimentos de extrema-direita. Esse seria, para Wolfgang Streeck, o vínculo entre a crise do capitalismo, datada de 2008, e a crise da democracia, cujo marco é a eleição de Donald Trump em 2016.

Hoje, as possibilidades políticas no interregno oscilam entre uma reconfiguração autoritária do próprio neoliberalismo, à la Donald Trump, Javier Milei e Jair Bolsonaro; um novo modelo capitalista, como o ensaiado pelo governo de Joe Biden; tentativas reformistas corajosas de resistência como o caso de Gustavo Petro; ou manejos que administram a inércia do modelo neoliberal em decadência, como é o caso de Gabriel Boric no Chile e do governo Lula.

A China, por sua vez, desponta na contramão, como nova superpotência mundial, com um arranjo político-econômico surpreendente, candidatando-se à hegemonia mundial, enquanto desaceleram as economias capitalistas dos países da OCDE. Nesse sentido, as atuais guerras no Oriente Médio e as tentativas de subjugação da América Latina por Trump via tarifas, ameaças e violações de soberania nacional assinalam as saídas violentas da decadência da hegemonia estadunidense. Ainda, em meio a inúmeras guerras e disputas de hegemonia, o mundo tem que lidar com um enorme desafio, que exige articulações políticas coordenadas: o colapso ecológico. 

Nesse cenário, governos progressistas, imersos em inúmeras dificuldades, hesitam em se contrapôr à inércia neoliberal, tornando-se gestores dessa situação. A esquerda assumiu, nas duas últimas décadas, a tarefa rebaixada de oferecer avanços – inegociáveis, mas insuficientes – em políticas de reconhecimento social de minorias sociais, abandonando transformações sócio-econômicas profundas. Algo que Nancy Fraser batizou de “neoliberalismo progressista”.

No ano de 1967, quando convidado a falar para estudantes perplexos com o crescimento do partido fascista de extrema direita na Alemanha anos depois do trauma do nazismo, Theodor Adorno insistiu que o fascismo sempre foi o resultado de uma democracia que nunca esteve à altura do seu conceito, que jamais foi capaz de realizar o igualitarismo e o universalismo que prometeu. A democracia liberal capitalista sempre teria guardado o perigo de que a revolta pelo sofrimento social por ela gerada fosse cooptada contra ela mesma.

Teria sido essa a razão para a ascensão de Hitler e Mussolini, a mesma em jogo naquele momento. De forma análoga, o fascismo contemporâneo é fruto da precarização da vida social e do sofrimento social no interior do interregno atual. Ele surge oferecendo respostas desastrosas para problemas muito reais, acolhendo à sua maneira, a revolta social e a rebeldia anti-sistema que outrora fora marca da esquerda.

E o Brasil no meio deste interregno? Pois então. O neoliberalismo penetrou no Brasil nos anos 1980 e se intensificou a partir do governo FHC. A partir de 2016, através dos governos de Michel Temer e sobretudo Jair Bolsonaro, intensifica-se a precarização econômica com um projeto político de extrema direita abertamente autoritário. Sob a retórica de combate à crise fiscal e redução da dívida pública, foi aprovado o teto de gastos em 2017, que atrofiou dramaticamente a capacidade de investimento público.

Na mesma direção, foram aprovadas reformas retrógradas como a reforma trabalhista; além, é claro, de privatizações, ataques a empresas públicas, desmanches de políticas sociais como o Bolsa família, Mais médicos e Minha Casa Minha Vida, redução do investimento em pesquisa, ciência e tecnologia, e a aprovação, em 2021, da independência do Banco Central.

Conforme mostra o livro Brasil no Inferno Global, organizado por André Singer, da perspectiva do interregno, durante os governos do PT, especialmente com Lula, houve um neoliberalismo redutor da pobreza, que se beneficiou do boom das commodities para incluir os mais pobres através de transferências de renda e de crédito. Em 2016, com a crise econômica e o impeachment, entra em cena um neoliberalismo predador, de austeridade fiscal rígida, redução de direitos e reformas antipopulares.

Já com Jair Bolsonaro – nosso fenômeno mórbido – viu-se um projeto autoritário de desmantelamento das instituições democráticas e construção de inimigos internos. Mas, eis que depois de Jair Bolsonaro, Lula vence as eleições. Isso deveria nos lembrar que o interregno explicita um espaço vazio a ser ocupado. Ou seja, ou bem a esquerda se apresenta como esta tendência de futuro, capaz de oferecer um horizonte que resolva o interregno atual, ou a extrema direita o fará – como liás, já o faz.

São duas perguntas que emergem daí. A primeira é: por que Lula não o fez? A segunda pergunta, talvez mais desafiadora, consiste em pensar o que é um projeto hegemônico de esquerda hoje.

Comecemos pela primeira. Tem razão aqueles que denunciam a falta de desejo e coragem política de Lula. A implementação do arcabouço fiscal elaborado por Fernando Haddad mostrou, desde o início, a concessão do governo à política fiscal neoliberal de austeridade fiscal e cortes de gastos sociais. As promessas de campanha de revogação das reformas trabalhista e do ensino médio foram abandonadas, e não houve a tentativa prometida de reestatizar a Eletrobrás.

Foram concedidos enormes subsídios ao agronegócio via plano Safra e postura descompromissada com o meio ambiente; discurso ambíguo e pouco incisivo relativo à diminuição da jornada de trabalho e descompromisso com pautas clássicas da esquerda ligadas à reforma agrária. Novamente, o lulismo mostrou sua face de força despolitizadora e sua estratégia eleitoral de não confrontação ao capital em defesa da classe trabalhadora. Diferente de Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro, por exemplo, as tentativas de mobilização popular a fim de pressionar o congresso por pautas pró-classe trabalhadora foram praticamente nula: quase não se fez pronunciamentos públicos em TV aberta e mobilizações populares.

Por outro lado, a resposta à pergunta “por que Lula não o faz” não pode ser explicada apenas por escolhas políticas ou falta de desejo. É preciso considerar também os entraves estruturais que limitam a ação de governos progressistas hoje. Pois a própria confecção de um projeto hegemônico de esquerda e a viabilidade de sua implementação depende da identificação dessas estruturas bloqueadoras a fim de superá-las. No Brasil, esses obstáculos operam em dois níveis articulados: o nível global, relacionado à dinâmica do capitalismo contemporâneo, e o nível nacional, ligado à configuração institucional e à correlação de forças no sistema político brasileiro.

Em nível global, os dois entraves estruturais são a financeirização vinculada ao processo de descolamento da economia em relação às democracia de massas, e a posição periférica do Brasil na divisão do trabalho internacional.

Conforme argumenta Wolfgang Streck, a autonomia dos Bancos centrais limitam a soberania dos Estados sobre sua política econômica e produzem exigências de austeridade fiscal, enfraquecendo o poder do Estado e pressionando por cortes de gastos e reformas anti-populares. Em países como o Brasil, dependentes de capital estrangeiro e cuja dívida pública é observada por investidores internacionais, as tentativas de ampliação de investimentos sociais são contidas pela pressão dos mercados por equilíbrio fiscal, contenção da dívida pública e austeridade com elevação de juros e pressões por ajustes orçamentários.

Em relação à posição periférica no capitalismo global, sabemos como quase toda África e América Latina são dependentes da exportação de commodities (soja, cana-de-açúcar, minérios e petróleo). No Brasil, a prevalência e força política do agronegócio, bem como a enorme concentração fundiária por ele gerada, bloqueia projetos de reforma agrária e de transição energética voltada ao combate às desigualdades, além, é claro, de provocar danos ambientais brutais e irreversíveis.

A esse respeito, foi Robert Kurz quem mostrou, em O colapso da modernização, como ao longo do século XX, a automação da produção industrial advinda da incorporação da alta tecnologia nos países centrais do capitalismo tornou os países periféricos – que outrora forneciam mão de obra barata às fábricas estrangeiras e competiam com produtos de média complexidade no mercado internacional – simplesmente inúteis e sem competitividade produtiva alguma.

Isso gerou, em países como o Brasil, processos de desindustrialização, por um lado – acarretando em precarização do trabalho e desemprego – e, de outro, endividamento crônico, por conta da dependência de créditos de órgãos como o FMI e Banco Mundial para financiamento de seus próprios gastos públicos. Isso levou Robert Kurz a afirmar, com razão, que, para a periferia, a modernização tão sonhada já foi, a única possível dentro de um sistema onde sua única função possível é a de suporte de expropriação para a exploração e extração do mais-valor no centro do sistema.

À nível nacional, os dois entraves estruturais dizem respeito ao modo de funcionamento do presidencialismo brasileiro e a fragmentação da classe trabalhadora no capitalismo de plataforma. Tais entraves, uma vez articulados, impossibilitam transformações profundas por meio do funcionamento normal das instituições e bloqueia a força popular das ruas.

A cultura política que organiza o sistema político brasileiro desde a redemocratização estrutura-se pela distribuição de recursos políticos, como cargos e emendas parlamentares, e acomodação de alianças e interesses heteróclitos como meio de garantir governabilidade e estabilidade institucional. Essa dinâmica paralisa a implementação de programas políticos e mudanças estruturais mais profundas. A contradição dos governos petistas foi justamente a de utilizar o pemedebismo como estratégia para promover avanços sociais, o que teve como saldo uma regressão política, que naturalizou o pemedebismo e o conservadorismo como mecanismo normal das instituições brasileiras.

No atual governo Lula, formado por uma coalizão amplíssima de partidos ideologicamente distantes, claro está que a estratégia do pemedebismo, para a esquerda, chegou ao seu limite. O que sinaliza a urgência da retomada das articulações entre movimentos sociais e Estado e a luta por uma reforma política capaz de desmantelar a dinâmica conservadora do Estado brasileiro.

Se o sistema político trava mudanças profundas, a solução deveria advir das ruas, de movimentos que, ou criassem alternativas institucionais, ou que pressionassem sistematicamente o Estado por mudanças. No entanto, a desestruturação da classe trabalhadora no contexto do capitalismo de plataforma neoliberal, dificulta as mobilizações populares de esquerda. Estamos diante de outra classe trabalhadora, diferente daquela que elegeu os governos petistas.

O surgimento de capitalismo de plataforma, que produziu os fenômenos da uberização e da pejotização do trabalho, aprofundou esse processo de precarização do trabalho, redução e enfraquecimento dos sindicatos e das identidades coletivas, levando os trabalhadores a uma lógica individualista de sobrevivência, dificultando a construção de projetos políticos e movimentos organizados. Dinâmica que hoje se traveste sob o véu ideológico do empreendedorismo, que foi incorporado pela própria esquerda como maneira de se aproximar das aspirações de parte significativa da população.

Toda teoria crítica comprometida com a realização da justiça social, tenta, à sua maneira, identificar aquilo que bloqueia a emancipação, aquilo impede que os potenciais emancipatórios do presente se realizem. A dificuldade, hoje, talvez seja a de que os obstáculos estejam mais claros que os potenciais. Mas não esqueçamos: enquanto houver sofrimento social, haverá quem sonhe e lute pela emancipação. O compromisso, para aqueles que acreditam em possibilidades, será sempre o de olhar a realidade do ponto de vista do que ela poderia ser, mas ainda não é.

Há casos pelo mundo que mostram como o momento atual – o interregno – exige mais ousadia, radicalização e tentativas de ruptura por parte da esquerda: Zoham Mandami, em NY, Gustavo Petro, na Colômbia, Claudia Sheinbaum, no México, corroboram tal perspectiva. No Brasil, o crescimento político e midiático de um comunista como Jones Manoel, por exemplo, que recoloca no debate público ideias clássicas da esquerda, e que não teme em falar em socialismo brasileiro no século XXI, também é sugestivo nesse sentido.

Pela via inversa, lembremos como inúmeros governos progressistas pouco combativos foram sucedidos por governos fascistas de extrema: Dilma Rousseff sucedida por Michel Temer e Jair Bolsonaro, Alberto Fernandez por Javier Milei, Barack Obama por Donald Trump; além do crescimento alarmante da extrema direita no parlamento francês (Rassemblement Nacional) em meio ao governo Emmanuel Macron e da Afd na Alemanha. No Brasil, Flávio Bolsonaro está despontando nas pesquisas como alguém que pode vencer Lula.

O interregno atual, portanto, não é só um diagnóstico histórico meramente teórico. Ele é o momento em que a esquerda decidirá se continuará administrando o sofrimento social gerado pelas crises contemporâneas, ou se assumirá o desafio de renascer e produzir um novo tempo do mundo. Renascer significa, dentre outras coisas, reconhecer o tamanho do desafio e dos obstáculos a serem enfrentados.

Reconhecer que a inércia neoliberal e o sofrimento social que ela produz não podem ser nosso horizonte de futuro. O interregno é um campo de disputa. Mas, como mostra a experiência histórica, ele não permanece aberto para sempre. E o que a vida quer da gente é coragem.

 

Fonte: A Terra é Redonda