terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

Alysson Mascaro: "o desafio da esquerda é oferecer um novo horizonte de esperança"

Alysson Leandro Mascaro afirmou que a política brasileira vive um momento de esgotamento e transição, com sinais de encerramento de um ciclo histórico marcado pela centralidade de Luiz Inácio Lula da Silva, ao mesmo tempo em que a disputa pública passa a ser cada vez mais moldada pela lógica do espetáculo e da captura de atenção.

A avaliação foi feita em entrevista à TV 247, na qual Mascaro discutiu com o jornalista Leonardo Attuch, editor-responsável pelo Brasil 247, os dilemas do campo progressista, a reorganização da direita e a necessidade de que a esquerda ofereça “um novo horizonte de esperança” para além de respostas imediatistas e de comunicação performática.

<><> Um ciclo histórico que se encerra com troca de gerações

Mascaro enquadrou o presente como parte de movimentos largos da história brasileira. Ele argumentou que períodos políticos não se explicam por “fatos isolados”, mas por eras e inflexões que atravessam gerações. Nesse sentido, sugeriu que o ciclo aberto com a redemocratização, em 1985, pode estar chegando ao seu limite, inclusive por mudança geracional.

Para o filósofo, Lula foi o “elemento simbólico chave” desse período. A possibilidade de uma última eleição presidencial do líder petista, mencionada pelo entrevistador, surge então como marco de encerramento. Mascaro também vinculou esse processo a uma transformação global: junto ao “fim de um ciclo do Brasil”, haveria o esgotamento de “uma velha forma de fazer política” no mundo inteiro.

<><> Redes, algoritmo e política como performance

Um dos eixos centrais da conversa foi a crítica à forma contemporânea de fazer política, atravessada pelo imediatismo das redes e pela competição por atenção. Mascaro observou que a política atual assume “outra forma de espetáculo”, mais dependente de mídia digital e menos conectada a um sentido de futuro.

Ele resumiu esse deslocamento ao enfatizar a lógica performática: “É uma característica do capitalismo contemporâneo que as estruturas sociais e políticas se esgotem em performance.” Na leitura do filósofo, isso também explica por que lideranças tendem a ser mais descartáveis: “Não há nesse espectro das performances praticamente nenhuma liderança política do mundo performática que fique por 20, 30 anos.”

A discussão avançou para a transição dos antigos filtros — partidos e grandes meios — para uma centralização global nas plataformas. Mascaro citou a passagem de um modelo em que “bastava uma edição do Jornal Nacional” para produzir consensos, para outro em que a atenção é “customizada”, disputada no celular, sob influência direta dos algoritmos das big techs.

<><> Direita com discurso “realista” e esquerda com fala “adoçada”

Ao analisar a disputa ideológica, Mascaro rejeitou uma leitura moralista segundo a qual “o povo piorou”. Pelo contrário, disse ver maior politização social em comparação ao início dos anos 1990: “O nosso povo de hoje é mais politizado do que o povo do tempo do Collor.” Ele apontou que influenciadores e correntes da direita operam com jargões e referências políticas mais presentes no cotidiano, ainda que, em sua avaliação, isso venha acompanhado de ideias frágeis e simplificações.

Na outra ponta, criticou o que chamou de despolitização do discurso de esquerda ao longo das últimas décadas. Para ele, a direita busca organizar afetos e indignação com mais força narrativa, enquanto a esquerda frequentemente recua para um discurso de gestão e melhora incremental. Esse contraste aparece quando Mascaro compara a contundência de uma direita que “fala grosso” com uma esquerda que fala de forma “educada”, em termos como “vamos todos nos unir” e “respeito ao próximo”, num mundo social estruturado pela competição.

Ele também formulou uma oposição central da entrevista: “O modelo de fala ideológica da direita tem mais impregnação na realidade, ainda que estruturalmente falseado. O da esquerda… está impregnado na falsidade.” A crítica se dirige ao modo como promessas de proteção e solidariedade entram em choque com experiências comuns de precariedade e abandono.

<><> Pós-Lula, medo do vazio e “melancia na cabeça”

Provocado por Attuch sobre a ansiedade em relação ao pós-Lula, Mascaro afirmou que o horizonte futuro pode ser ainda mais dominado pela disputa performática. Em tom irônico, discutiu a ideia de que vencerá quem conseguir chamar mais atenção — metáfora que atravessa a conversa com a imagem da “melancia na cabeça”.

Ao avaliar um eventual quarto mandato de Lula, Mascaro argumentou que o governo atual teria sido organizado por uma bandeira “em negativo”, centrada na oposição ao bolsonarismo e na reconstrução institucional. Mas sustentou que um próximo ciclo exigiria algo “em positivo”, uma marca capaz de articular sentido histórico e não apenas contraste com o adversário.

<><> A crise como nó do capitalismo e o poder do mercado financeiro

No trecho mais estrutural da entrevista, Mascaro insistiu que a crise do capitalismo contemporâneo tem um núcleo decisivo: a finança. Ele defendeu que, quando eclodem crises profundas, o Estado costuma agir para salvar bancos e o mercado financeiro — e que a disputa política fundamental está em quem controla esse processo.

O filósofo citou exemplos históricos para sustentar que momentos críticos podem abrir janelas de transformação, mas apenas se houver preparação ideológica e mobilização social. Evocou inclusive a frase atribuída ao papa Francisco — “Acabou o carnaval” — como imagem de uma ruptura simbólica: a possibilidade de um governo, em contexto de colapso financeiro, recusar o salvamento privado e reorganizar o sistema sob controle público.

<><> Trump, extrema direita e o risco da “solução fascista” na crise

Ao discutir a dinâmica internacional, Mascaro mencionou Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, como exemplo de política contemporânea marcada por espetáculo e radicalização. O filósofo argumentou que, em crises severas, a extrema direita tende a oferecer uma saída baseada em violência social, repressão e privatização.

Ele descreveu esse caminho como “solução fascista”, associando-o a políticas que empurram o custo da crise para os mais vulneráveis. No debate, Mascaro também indicou que uma esquerda sem capacidade de enfrentamento econômico pode se limitar a respostas redistributivas estreitas, incapazes de alterar o eixo de poder do sistema financeiro.

<><> Quem pode construir a esperança: massa, linguagem e horizonte

O ponto de chegada da entrevista foi a ideia de esperança como tarefa política concreta — e não como slogan. Mascaro disse que a reconstrução de horizonte depende de organização, disputa de linguagem e conexão real com os setores populares que hoje são capturados pela extrema direita.

Ele argumentou que a transformação não virá automaticamente das estruturas já acomodadas, criticando uma esquerda que se prende ao “presente melhorado” e tende a ser conservadora em momentos-limite. Ao contrário, afirmou que a energia social para agir muitas vezes está justamente nas periferias e no trabalho precarizado — “motoboy”, “entregador de aplicativo” — grupos que carregam urgência e disposição, mas podem ser canalizados para projetos regressivos.

A síntese proposta por Mascaro, ao final, mira o coração do problema: disputar a vontade de agir e transformá-la em projeto coletivo. É nesse ponto que, para ele, se coloca o desafio central do campo progressista — oferecer um novo horizonte de esperança que não se esgote em performance, nem em remendos, mas que seja capaz de reorganizar forças sociais diante da crise e do risco de barbárie política.

•        Brasil 2050: Mascaro defende “palavra positiva” para mobilizar contra o imperialismo

A entrevista do professor Alysson Leandro Mascaro à TV 247 saiu do terreno estritamente geopolítico para mirar um ponto que ele considera decisivo para o futuro do Brasil: a batalha ideológica e a falta de um projeto afirmativo capaz de mobilizar a sociedade. No diálogo, Mascaro sustentou que, sem um horizonte claro de longo prazo, o país tende a permanecer preso a soluções curtas e a “migalhas”, mesmo diante de um cenário internacional cada vez mais tenso.

A conversa, exibida na TV 247, foi conduzida por Leonardo Attuch e percorreu a relação do Brasil com o imperialismo, os dilemas de industrialização e o papel das narrativas na organização política. Ao comentar o momento global, Mascaro também citou Donald Trump, o presidente dos Estados Unidos, como expressão de um ciclo de conflito e instabilidade, mas insistiu que o centro do debate precisa ir além de personagens e governos.

<><> “O ideológico é o imediato”, diz professor

Ao longo da entrevista, Mascaro defendeu que transformações profundas não se produzem apenas por alternância eleitoral, e que o primeiro bloqueio para qualquer mudança é a forma como a sociedade enxerga — ou deixa de enxergar — sua própria posição no mundo.

Em um dos trechos centrais, ele afirmou: “Antes disso tem um problema imediato e o problema imediato é o ideológico.” Na mesma linha, completou que a disputa de ideias não seria “o centro final” das contradições sociais, mas o ponto sem o qual não se começa sequer a formular hipóteses sobre o que fazer.

<><> A pergunta que antecede todas as outras

Na avaliação do professor, debates sobre parcerias internacionais e rotas econômicas esbarram numa questão anterior, que raramente é colocada com franqueza. “A pergunta básica é: o Brasil quer se industrializar?”, disse, ao sustentar que só depois dessa decisão é que entrariam os cálculos e as estratégias.

Mascaro criticou a trajetória de desindustrialização associada ao neoliberalismo e apontou que o país teria acumulado estrutura e mercado consumidor suficientes para ser “um peso no mundo”, mas sem um arranjo político voltado a esse objetivo.

<><> “Não” não mobiliza: a defesa de uma narrativa afirmativa

O professor argumentou que campanhas e discursos baseados principalmente em negações têm baixa capacidade de mobilização social. Ele foi direto: “A mobilização de uma sociedade em termos de transformação ideológica deve ser algum sim.”Na sequência, Mascaro explicou por que, segundo sua leitura, o apelo ao “não” tende a fracassar: “Toda vez que nós operamos simplesmente para dizer, nós não devemos ser neoliberais, nós enxugamos gelo.” Para ele, a construção de um projeto nacional exige uma identidade política positiva — algo que “dê orgulho” e organize um rumo de futuro.

<><> Plano de décadas, não de quatro anos

O debate avançou para a necessidade de horizonte temporal mais longo do que o ciclo eleitoral. Mascaro defendeu que a disputa presidencial não deveria se limitar a promessas imediatas: “O grande elemento organizador da eleição presidencial de 2026 não deveria ser um plano pros próximos 4 anos, deveria ser um plano pelo menos para os próximos 20 ou 30 anos.”Ele sintetizou essa exigência com uma fórmula: “É um Brasil 2050.” A ideia, segundo o professor, é oferecer uma visão que atravesse gerações e funcione como eixo de mobilização coletiva.

<><> Direita fala “prosperidade”; esquerda fala em negativo

Na parte final, Mascaro fez uma comparação sobre quais palavras hoje conseguem ativar afetos sociais e mover pessoas. Ele observou que “por enquanto” quem tem falado com mais eficácia ao desejo popular é a direita, ainda que, na sua avaliação, com conteúdos equivocados. “Somente algo que nos dê orgulho” e apresente uma possibilidade concreta de futuro poderia reorganizar o campo progressista, disse, ao defender que a disputa não é apenas de diagnóstico, mas de capacidade de produzir esperança e sentido.

Sem encerrar com previsões, o professor deixou uma orientação de método: decompor as peças do jogo global e, ao mesmo tempo, construir no plano interno uma linguagem afirmativa capaz de sustentar mudanças estruturais — porque, como insistiu, sem esse “sim” mobilizador, o país tende a continuar preso à lógica do curto prazo.

•        Crise do império e novo eixo global: Mascaro analisa cenário mundial

Em entrevista concedida à TV 247, o professor Alysson Leandro Mascaro traçou um amplo panorama sobre as transformações da geopolítica mundial, abordando o que considera ser um processo de declínio relativo dos Estados Unidos e a consolidação da China como novo polo de acumulação econômica global. A conversa, conduzida pelo jornalista Leonardo Attuch, editor-responsável pelo Brasil 247, partiu dos acontecimentos recentes no cenário internacional para discutir tendências estruturais do capitalismo nos últimos dois séculos.

Ao longo da entrevista, Mascaro defendeu que o momento atual não pode ser compreendido apenas por eventos isolados ou lideranças específicas, mas sim por mudanças profundas no eixo da acumulação capitalista.

<><> Capitalismo, acumulação e mudança de hegemonia

Para Mascaro, o capitalismo moderno tem cerca de 200 anos e nasce com a Revolução Industrial. Desde então, afirma, a lógica da acumulação é o elemento estruturante da política e da geopolítica global. “Quem acumula mais ganha mais poder”, resumiu.

No século XIX, segundo ele, o centro da acumulação esteve concentrado na Inglaterra e, em menor medida, na França. Esse poder econômico sustentou a expansão colonial europeia. Já no século XX, a liderança foi transferida para os Estados Unidos, que, após as duas guerras mundiais, assumiram a posição de potência hegemônica.

Mascaro observa que essa transição foi relativamente suave porque se deu dentro de um mesmo universo cultural e linguístico. “O capitalismo falava inglês”, afirmou, destacando que a hegemonia apenas mudou de polo dentro do mundo anglófono.

<><> China e a aposta na produção

A novidade das últimas décadas, segundo o professor, está na ascensão chinesa. Ele argumenta que, ao contrário dos Estados Unidos, que desde os anos 1970 aprofundaram um modelo de financeirização, a China optou por reinvestir na produção industrial.

“A estratégia de acumulação da China é capitalista: produzir por X, vender por mais que X e entesourar a partir daí”, explicou. No entanto, a diferença estaria no foco estrutural: enquanto os EUA teriam privilegiado a hiperacumulação financeira, baseada em títulos e ativos, a China consolidou sua base industrial e tecnológica.

Mascaro critica a leitura que reduz a disputa a produtos específicos, como semicondutores. “Não se trata de ter um chip melhor. Trata-se de uma estratégia geral de sustentação da produção e da acumulação”, afirmou, rejeitando o que chamou de “fetichismo do objeto”.

Ele sintetizou a diferença com uma imagem provocativa: de um lado, uma sociedade voltada às engenharias e às ciências exatas; de outro, um ambiente dominado por financeirização e cultura de celebridades.

<><> Declínio relativo e poder militar

Na avaliação do professor, os Estados Unidos mantêm enorme capacidade econômica, mas enfrentam declínio relativo diante do crescimento chinês. Esse cenário produziria tensões crescentes.

“Quanto mais declina, mais redundará em violência, em exército, em guerra”, disse, ao analisar o peso do poder militar norte-americano. Para ele, a sustentação da hegemonia estadunidense tem recorrido com maior intensidade à dimensão militar, enquanto a China priorizaria expansão econômica e influência comercial.

Mascaro sustenta que o modelo estadunidense, baseado na financeirização, carrega fragilidades estruturais. Em uma crise de liquidez mais profunda, argumenta, a desconexão entre ativos financeiros e base produtiva poderia gerar instabilidade sistêmica.

<><> Brasil entre dependência e potencial

Ao abordar o Brasil, Mascaro diferenciou o enfrentamento a governos específicos do enfrentamento a uma estrutura geopolítica mais ampla. Ele considera que o país possui base produtiva, mercado interno e recursos estratégicos suficientes para desempenhar papel relevante no cenário internacional.

Contudo, avalia que há um entrave ideológico e estrutural. “A pergunta básica é: o Brasil quer se industrializar?”, questionou. Para ele, sem uma decisão estratégica de longo prazo, qualquer debate sobre alinhamentos internacionais torna-se superficial.

Mascaro também criticou o que considera submissão ideológica ao imperialismo e ao neoliberalismo, defendendo que transformações estruturais não ocorrem apenas por alternância eleitoral. “Uma sociedade muda quando altera sua estrutura produtiva e de acumulação”, afirmou.

<><> A disputa ideológica e a “palavra positiva”

Na parte final da entrevista, o professor concentrou-se na dimensão ideológica. Segundo ele, projetos políticos que se organizam apenas em torno de negações — “não ao imperialismo”, “não ao neoliberalismo” — têm pouca capacidade mobilizadora.

“A mobilização de uma sociedade deve ser um ‘sim’”, afirmou. Ele argumenta que as transformações exigem um horizonte positivo, capaz de gerar identificação coletiva e perspectiva de futuro.

Mascaro defendeu que um projeto nacional precisa oferecer uma visão concreta de prosperidade, soberania e desenvolvimento de longo prazo. “Somente algo que nos dê orgulho, que nos dê vontade de poder ser um país no mundo positivo, soberano, com pujança, consegue mobilizar”, declarou.

Ao concluir, destacou que o desafio brasileiro não é apenas resistir a pressões externas, mas formular um projeto afirmativo capaz de reorganizar a estrutura produtiva e ideológica do país diante da reconfiguração do poder global.

 

Fonte: Brasil 247

 

O programa de Lula à reeleição deve conduzir Brasil à revolução digital soberana

A assinatura da "Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro" em Nova Délhi deveria não limitar-se a ser apenas mais um protocolo de intenções entre dois países do Sul Global. Deve representar um divisor de águas na forma como o Brasil enxerga seu lugar no mundo da tecnologia e, mais importante, como projeta seu futuro econômico e social. A declaração conjunta, fruto do encontro entre os líderes de duas democracias do Sul, acende um sinal verde para que o Brasil abandone definitivamente o papel de mero consumidor de inovação alheia e assuma o protagonismo na construção de um modelo próprio de desenvolvimento digital, consciente do poder e dos interesses geopolíticos que comandam as chamadas big techs.

É imperativo, portanto, que o país transforme essa visão em um projeto estratégico de Estado, buscando se tornar uma potência em Inteligência Artificial (IA) alicerçada no conceito de soberania digital.

O presidente Lula afirmou recentemente não desejar ser apenas o presidente do Bolsa Família. O momento em que se elabora o seu programa eleitoral oferece a oportunidade para que se reflita sobre as grandes linhas e projetos estruturantes que poderão projetar o país ao padrão de nação desenvolvida.

O cerne desse novo país está no reconhecimento de que as infraestruturas públicas digitais, a inteligência artificial e as tecnologias emergentes são os novos motores da transformação econômica, da inclusão social e do desenvolvimento sustentável. Não se trata apenas de modernizar a máquina pública ou facilitar a vida do cidadão com pagamentos digitais, como já demonstram as experiências do Pix brasileiro. O salto qualitativo proposto pela parceria é a criação de um centro conjunto de excelência no Brasil e o lançamento de uma rede de inteligência comum, que integra transformação digital e ação climática. É a materialização da ideia de que a tecnologia, quando pensada como bem público e com governança compartilhada, pode ser a ferramenta mais poderosa para o enfrentamento de desafios planetários, da desigualdade à emergência climática, sem dependência de monopólios tecnológicos estrangeiros.

Para o Brasil, apostar na soberania digital significa mais do que um exercício de autossuficiência; é uma estratégia de inteligência competitiva. A declaração comum de Brasil e Índia explicita a intenção de colaborar em áreas nevrálgicas como computação de alto desempenho, tecnologias quânticas, semicondutores e blockchain. São exatamente esses os alicerces sobre os quais a próxima geração da IA será construída. Ignorar essa corrida tecnológica é condenar a economia brasileira a um papel secundário e subordinado no cenário global, pagando caro por soluções desenvolvidas em outros contextos e para outras realidades, sempre expostas a sanções e à espionagem. Ao contrário, ao estabelecer pontes com a Índia — um país que tem demonstrado notável capacidade de inovação em tecnologia de baixo custo e em larga escala —, o Brasil pode acelerar seu aprendizado, compartilhar riscos e custos de pesquisa e, sobretudo, garantir que as aplicações de IA sejam treinadas com dados brasileiros, respeitem a diversidade cultural e linguística e atendam às prioridades nacionais, como a melhoria da saúde pública, da educação e da produtividade.

A defesa de um desenvolvimento ético, inclusivo e centrado no ser humano, presente no texto da declaração, é a bússola moral que deve guiar essa jornada. Soberania digital não é sinônimo de isolacionismo ou apenas de criação de uma internet sob controle nacional, mas sim a capacidade de definir as próprias regras sobre dados, governança e uso da tecnologia. Em um mundo onde o valor é cada vez mais extraído da informação, controlar as infraestruturas digitais é uma questão de segurança nacional e de garantia de direitos. A parceria com a Índia fortalece a posição do Brasil em fóruns multilaterais, permitindo que o Sul Global tenha voz ativa na regulação da inteligência artificial e na definição de padrões éticos que contraponham os interesses puramente comerciais das grandes corporações do Norte.

O caminho está traçado e a janela de oportunidade está aberta. A declaração conjunta não é um ponto de chegada, mas o ponto de partida para uma mobilização nacional que envolva governo, setor privado, academia e sociedade civil. Transformar o Brasil em uma potência em inteligência artificial com base na soberania digital é um projeto de nação para as próximas décadas. É a certeza de que não queremos apenas um futuro digital, mas sim um futuro digital que seja construído e controlado com mãos e cérebros brasileiros, para o benefício dos brasileiros e como contribuição original a um mundo mais equilibrado e sustentável. A hora de agir é agora, transformando a visão de Nova Déli em realidade nos trópicos.

¨      Em declaração conjunta, Brasil e Índia lançam a 'Parceria Digital para o Futuro'

Brasil e Índia decidiram lançar a “Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro” como novo eixo estratégico da relação bilateral, com foco em ciência, tecnologia e inovação. A iniciativa reconhece o papel central da agenda digital — incluindo Infraestruturas Públicas Digitais (DPI), Inteligência Artificial e tecnologias emergentes — como motor de transformação econômica, inclusão social e desenvolvimento sustentável. Os dois países defendem que essas ferramentas sejam desenvolvidas e aplicadas de forma ética, inclusiva e centrada no ser humano.

A parceria prevê cooperação em áreas como identidade digital, pagamentos digitais e compartilhamento de dados, além da criação de um centro conjunto de excelência em DPI no Brasil. Também contempla o lançamento da Rede de Inteligência Planetária Aberta (OPIN), voltada a integrar a transformação digital e ação climática, alinhada ao Acordo de Paris e à Agenda 2030. O acordo inclui ainda colaboração em inteligência artificial, computação de alto desempenho, tecnologias quânticas, semicondutores, blockchain, telecomunicações avançadas e outras inovações estratégicas.

O entendimento estabelece diálogo sobre governança digital, proteção de dados e políticas públicas, além de incentivar inovação, empreendedorismo, cooperação acadêmica e aplicação de tecnologias digitais em setores como saúde, educação e agricultura. A coordenação ficará sob responsabilidade dos Ministérios das Relações Exteriores dos dois países, com participação de governos, setor privado, academia e sociedade civil. A declaração entra em vigor na data de sua assinatura, em 21 de fevereiro de 2026, em Nova Délhi.

Leia a declaração na íntegra:

Os Governos da República Federativa do Brasil e da República da Índia, 

Reconhecendo a importância da colaboração contínua entre Brasil e Índia nas áreas de ciência, tecnologia e inovação, 

Reconhecendo que a agenda digital, incluindo as Infraestruturas Públicas Digitais (Digital Public Infrastructures – DPI), a Inteligência Artificial (IA) e outras tecnologias emergentes são fatores cruciais de transformação econômica e de inclusão social, 

Concordando quanto à necessidade de promover o desenvolvimento e o uso dessas tecnologias de maneira inclusiva, ética e centrada no ser humano, com foco no desenvolvimento sustentável e na melhoria da qualidade de vida dos povos do Brasil e da Índia, 

Reconhecendo a importância de adaptar ambas as sociedades e economias às oportunidades e aos impactos da transformação digital, 

Enfatizando o potencial transformador da cooperação Sul-Sul para enfrentar os desafios críticos que moldam o nosso futuro, 

Determinados a explorar mecanismos eficazes de trabalho conjunto e de intercâmbio de informações e experiências no campo digital, 

Decidem lançar a “Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro” como um novo e estratégico capítulo da relação bilateral, que incorpora uma visão compartilhada de um futuro digitalmente fortalecido, a ser construído com base na confiança mútua e no progresso colaborativo. 

A Parceria Digital Brasil–Índia para o Futuro pretende fomentar a cooperação bilateral em uma ampla gama de áreas críticas, incluindo: 

  • Cooperação em Infraestruturas Públicas Digitais (DPI) por meio de iniciativas conjuntas, instituições e projetos baseados em nossas respectivas experiências, potencialmente explorando a colaboração em componentes de DPI, tais como identidade digital, pagamentos digitais e compartilhamento de dados, com vistas a impulsionar o crescimento econômico inclusivo, aprimorar a prestação de serviços públicos, fomentar a inovação e contribuir para o desenvolvimento sustentável e para os esforços de combate à mudança do clima. 
  • Implementação do centro conjunto de excelência em DPI estabelecido no Brasil entre instituições brasileiras e indianas pertinentes, com foco na prestação de serviços de assessoria, capacitação e apoio à execução de projetos-piloto de DPI em áreas como, entre outras, mudança do clima, qualificação profissional, educação e agricultura. 
  • Lançamento da Rede de Inteligência Planetária Aberta (Open Planetary Intelligence Network – OPIN), iniciativa destinada a aproveitar as Infraestruturas Públicas Digitais (DPI) para acelerar o desenvolvimento sustentável e fortalecer a ação climática nos países em desenvolvimento, buscando integrar as transformações digital e climática em uma agenda planetária unificada, em consonância com os objetivos de longo prazo do Acordo de Paris e da Agenda 2030 para o Desenvolvimento Sustentável, apoiada nos resultados da Cúpula do G20 em 2023, na Índia, e da COP30 em 2025, no Brasil. 
  • Colaboração na adoção, no desenvolvimento e na implementação da Inteligência Artificial, incluindo discussões sobre estratégias nacionais, modelos de linguagem de grande porte, aplicações e a exploração de projetos conjuntos tais como arcabouços de treinamento de modelos e proteção de dados, por meio do engajamento de nossos ecossistemas e centros de excelência. 
  • Cooperação em tecnologias emergentes, como computação de alto desempenho, tecnologias quânticas, semicondutores, blockchain, telecomunicações de próxima geração e tecnologias imersivas, entre outras. 
  • Diálogo sobre governança digital e formulação de políticas públicas, com intercâmbio de boas práticas em proteção de dados, governança da Internet e promoção de um ambiente favorável à inovação responsável e com respeito aos direitos autorais. Promoção da inovação e do empreendedorismo, incentivando a colaboração entre empresas de tecnologia, startups e nossos ecossistemas de inovação. 
  • Incentivo à cooperação acadêmica e científica por meio de pesquisas conjuntas, desenvolvimento tecnológico e intercâmbios. 
  • Aplicação de tecnologias digitais em setores-chave, como saúde, educação, agricultura, finanças e mudança do clima, entre outros. 
  • Coordenação e apoio mútuo nas Nações Unidas e em fóruns internacionais relevantes que tratem de questões digitais. 
  • Colaboração sobre mitigação de riscos decorrentes da evolução tecnológica, tanto no nível individual quanto social, tendo presente o imperativo de avançar na consecução dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS). 

O Ministério das Relações Exteriores do Brasil e o Ministério dos Assuntos Exteriores da Índia serão responsáveis por supervisionar as iniciativas da Parceria Digital para o Futuro, em estreita coordenação com os atores competentes de ambos os governos. Esse esforço também envolverá, quando for apropriado, o engajamento com o setor privado, a sociedade civil, a academia e a comunidade técnica. 

A cooperação em segurança cibernética continuará a ser conduzida no âmbito do Diálogo Bilateral sobre Segurança Cibernética e do Memorando de Entendimento entre a Equipe de Resposta Imediata a Incidentes de Computação da Índia (Indian Computer Emergency Response Team), do Ministério de Eletrônicos e Tecnologia da Informação, e a Coordenação-Geral do Centro de Tratamento de Incidentes de Redes do Gabinete de Segurança Institucional da Presidência da República Federativa do Brasil. 

A presente Declaração Conjunta entrará em vigor na data de sua assinatura. 

Feita em Nova Délhi, em 21 de fevereiro de 2026. 

 

Fonte: Brasil 247

 

Pinochet: quem foi e como sua ditadura marcou o Chile

Poucas figuras da história latino-americana concentram tamanha carga simbólica quanto Augusto Pinochet. Responsável por governar o Chile entre 1973 e 1990, Pinochet liderou um regime marcado pela repressão sistemática, pela supressão das liberdades democráticas e pela implementação de um modelo econômico neoliberal radical. Sua trajetória pessoal e política confunde-se com um dos períodos mais traumáticos da história chilena.

Nascido em 1915, em Valparaíso, Augusto Pinochet construiu toda sua vida profissional dentro do Exército chileno. De perfil discreto e pouco conhecido do grande público até o início dos anos 1970, era visto como um militar técnico, legalista e sem projeção política. Essa imagem contribuiu para que fosse nomeado comandante-em-chefe do Exército em agosto de 1973 pelo então presidente Salvador Allende, poucas semanas antes do golpe.

A escolha revelou-se um erro fatal. Pinochet aderiu à conspiração militar em curso e rapidamente assumiu a liderança do movimento golpista.

<><> O golpe e a ascensão ao poder

Em 11 de setembro de 1973, Pinochet comandou o golpe de Estado que derrubou Allende. Após o bombardeio do Palácio de La Moneda e a morte do presidente, formou-se uma junta militar com os chefes das Forças Armadas. Em pouco tempo, Pinochet concentrou o poder em suas mãos, tornando-se chefe supremo do regime.

O Congresso Nacional foi dissolvido, a Constituição suspensa e toda atividade política proibida. O Chile entrava em um regime de exceção que duraria 17 anos.

Pinochet governou por meio da força e do medo. Seu regime baseou-se na Doutrina de Segurança Nacional, que redefinia opositores políticos como “inimigos internos”. Para operacionalizar essa repressão, criou-se um aparato de inteligência e terror de Estado.

O principal órgão repressivo foi a DINA, comandada pelo coronel Manuel Contreras. A DINA atuava com poderes absolutos: sequestrava, torturava, assassinava e fazia desaparecer opositores do regime. Posteriormente, foi substituída pela CNI, que manteve a mesma lógica repressiva.

Centros clandestinos de detenção, como Villa Grimaldi, o Estádio Nacional e a Colônia Dignidade, tornaram-se símbolos da brutalidade do regime. Relatórios oficiais posteriores apontaram mais de 3 mil mortos e desaparecidos e mais de 38 mil vítimas de tortura e prisão política. Apesar dos dados oficiais, é difícil dizer com certeza a quantidade de mortos e desaparecidos.

A repressão comandada por Pinochet não se limitou às fronteiras chilenas. O ditador foi um dos principais articuladores da Operação Condor, aliança entre ditaduras do Cone Sul destinada a perseguir e eliminar opositores no exterior.

O caso mais emblemático foi o assassinato do ex-ministro Orlando Letelier, em 1976, em Washington, por meio de um carro-bomba — um atentado que expôs ao mundo o alcance internacional do terrorismo de Estado chileno.

<><> O experimento neoliberal

Paralelamente à repressão política, Pinochet promoveu uma transformação profunda na economia chilena. Sob sua autorização direta, um grupo de economistas conhecidos como “Chicago Boys” implementou um modelo neoliberal radical, baseado em privatizações, abertura comercial, desregulamentação financeira e redução do papel do Estado.

Embora o modelo tenha gerado estabilidade macroeconômica e crescimento exportador, também provocou desemprego, precarização do trabalho e aumento significativo da desigualdade social. Um dos pilares desse sistema foi a privatização da previdência em 1981, cujos efeitos negativos se tornariam evidentes décadas depois.

Para garantir a continuidade de seu projeto mesmo após o fim do regime, Pinochet promulgou a Constituição de 1980. O texto criou mecanismos de tutela militar sobre a democracia, como senadores indicados, limitações à soberania popular e proteção institucional às Forças Armadas.

Essa Constituição permitiu que Pinochet permanecesse como comandante do Exército mesmo após deixar a presidência e influenciasse a política chilena por anos.

<><> O fim do regime e o julgamento da história

Em 1988, pressionado por protestos internos e mudanças no cenário internacional, Pinochet aceitou um plebiscito para decidir sua permanência no poder. Derrotado nas urnas, deixou a presidência em 1990, mas jamais foi plenamente responsabilizado judicialmente pelos crimes cometidos durante a ditadura.

Sua prisão em Londres, em 1998, por crimes contra a humanidade, representou um marco simbólico, ainda que ele tenha retornado ao Chile sem condenação definitiva.

Augusto Pinochet deixou um legado profundamente controverso. Para alguns setores conservadores, é lembrado como o responsável pela estabilidade econômica do Chile. Para a maioria da sociedade chilena e da comunidade internacional, permanece como símbolo de repressão, violência estatal e ruptura democrática.

Mais de cinquenta anos após o golpe, o Chile ainda convive com as marcas deixadas por Pinochet — na política, na economia e, sobretudo, na memória de milhares de vítimas que seguem exigindo verdade, justiça e reparação que nunca chegam.

 

Fonte: Por Penelope Nogueira, para Fórum

 

Glifosato, condenado nos EUA por relação com câncer, é o agrotóxico mais presente em ultraprocessados no Brasil

A Bayer apresentou nos Estados Unidos uma proposta de acordo que pode chegar a US$ 7,25 bilhões (cerca de R$ 37 bilhões) para encerrar processos judiciais relacionados ao herbicida Roundup. O produto é alvo de milhares de ações movidas por pessoas e é considerado um provável carcinógeno pela Agência Internacional para Pesquisa sobre Câncer, da Organização Mundial da Saúde (OMS).

O plano foi protocolado em um tribunal estadual do Missouri e prevê a criação de um fundo de indenização, com pagamentos distribuídos ao longo de até 21 anos. Para que o acordo seja validado, é necessária a adesão de um número mínimo de autores das ações. Caso a participação seja considerada insuficiente, a empresa poderá retirar a proposta.

A empresa adquiriu a Monsanto em 2018 por US$ 63 bilhões, empresa responsável por produzir o glifosato. A Bayer mantém a posição de que a substância é segura e afirma que o acordo não representa admissão de culpa. Segundo a companhia, a iniciativa busca reduzir a insegurança jurídica gerada pelo volume de processos em curso. Desde 2015, cerca de 200 mil ações foram movidas contra a empresa. A Bayer já desembolsou aproximadamente US$ 10 bilhões para resolver parte dos casos anteriores.

No Brasil, o glifosato se tornou ao longo dos anos o herbicida mais usado nas lavouras, principalmente em cultivos de soja transgênica, e o consumo de herbicidas no país mais que dobrou na última década, impulsionado pela expansão agrícola e pela resistência de plantas daninhas, o que consolidou a substância como base da agricultura química nacional.

Entre os anos de 2010 e 2020, o volume de herbicidas ativos comercializados saltou de 157,5 mil para 329,7 mil toneladas por ano, um crescimento de 128%, segundo um estudo realizado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), realizado em parceria com a Universidade de Rio Verde e publicado na revista científica Agriculture.

Estudos indicam o surgimento de impactos ambientais e potenciais riscos à saúde em áreas de aplicação intensiva, como aumento de mortalidade infantil em localidades próximas a lavouras, e debates sobre limites mais permissivos de resíduos em água potável em comparação com países europeus. No governo de Jair Bolsonaro, a política agrícola foi marcada pela aprovação acelerada de agrotóxicos, e também do glifosato, favorável a sua base eleitoral, o agronegócio, com autoridades defendendo a liberação técnica do uso desses químicos e registrando recordes de novos pesticidas autorizados em poucos anos, muitos dos quais são proibidos ou restritos em outras regiões.

<><> Glifosato em ultraprocessados e água

Resíduos de glifosato foram identificados em alimentos ultraprocessados no Brasil pelo Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor (Idec).  Foi identificada na pesquisa “Tem Veneno Nesse Pacote” a presença de agrotóxicos em metade das amostras: das 24 avaliadas, 12 apresentaram resíduos dessas substâncias, sendo o glifosato o mais recorrente, detectado em 7 produtos.

O estudo também apontou que a farinha de trigo, ingrediente comum em itens como empanados, biscoitos e macarrão instantâneo. continua sendo uma das principais fontes de contaminação. Entre as categorias analisadas, apenas os produtos do tipo petit suisse não apresentaram resíduos de agrotóxicos em nenhuma das amostras testadas.

Além disso, o Brasil detém a maior reserva de água doce superficial do mundo, representando aproximadamente 12% do total global. Além disso, abriga a maior floresta úmida, a Amazônia, e vastas extensões de áreas continentais alagadas, como o Pantanal e o Araguaia, e extensas bacias hidrográficas espalhadas pelo território. O país figura entre os principais consumidores globais de agrotóxicos.

Isso aponta para o risco de contaminação das principais reservas hídricas do país e um impacto significativo na diversidade biológica. Segundo estatísticas mais recentes, a agricultura irrigada responde por 66,1% do total de águas superficiais e subterrâneas utilizadas no Brasil, totalizando 83 bilhões de litros diários. Considerando também o consumo voltado para a pecuária, a proporção se eleva para 77,7%.

De acordo com um estudo publicado pelo Atlas dos Agrotóxicos em dezembro de 2023, na contaminação das águas, “as substâncias tóxicas podem impactar tanto as águas superficiais quanto as subterrâneas por meio da lixiviação, um processo de ‘lavagem’ do solo no qual nutrientes e elementos químicos são transportados para os corpos hídricos. Além disso, a percolação, que é o movimento da água através do solo, contribui para o fluxo dessas substâncias em direção aos reservatórios subterrâneos”, destaca estudo.

A presença de contaminação é influenciada também por características como o tipo de solo, clima, padrões de uso e ocupação do solo, e as propriedades físico-químicas dos compostos utilizados. Os agrotóxicos podem percorrer  extensas distâncias por meio de processos como a evapotranspiração, que é a conversão da água em vapor da superfície terrestre para a atmosfera, e pela ação dos ventos. A água evaporada é transportada pelos ventos, alimentando as precipitações em diversas regiões, fenômeno conhecido como “rios voadores”.

Apesar do Brasil dispor do Programa Nacional de Vigilância da Qualidade da Água para Consumo Humano (Vigiágua), responsável por investigar a presença de agrotóxicos e outros parâmetros nos municípios do país, a pesquisa ressalta que há uma escassez de estudos analíticos sobre a presença de contaminantes agrotóxicos nas águas, principalmente por dificuldades financeiras e logísticas.

Combinações de agrotóxicos são comumente detectadas em pesquisas científicas e análises do Vigiágua, mas os efeitos da exposição a essas misturas ainda são pouco explorados e inadequadamente incorporados às legislações que estabelecem os parâmetros para o monitoramento de agrotóxicos na água no país. “Além disso, há limitações normativas quanto ao monitoramento de agrotóxicos em água. Uma delas refere-se ao baixo número de parâmetros de agrotóxicos previstos para serem monitorados pelos Ministérios da Saúde (MS) e do Meio Ambiente”, diz trecho do documento.

Entre 2018 e 2021, a análise de 41.780 amostras revelou que em menos de 10% das detecções os resultados ultrapassaram o limite de quantificação. A atrazina, metolacloro, glifosato e 2,4-D foram os agrotóxicos mais frequentemente quantificados. Contudo, um percentual significativamente maior de agrotóxicos foi identificado em níveis não quantificáveis, sugerindo a possibilidade de limitações nas técnicas analíticas em uso, sem necessariamente indicar a ausência de riscos.

Outra pesquisa, realizada pelo Pesticide Atlas em 2022, fez uma comparação da concentração de glifosato em águas potáveis brasileiras e europeias. A substância da Bayer defendida pelos agricultores é de alto risco e foi liberada pelo governo Bolsonaro ainda na pandemia, em 2020, permanecendo em uso por quatro anos.

No estudo, foi constatado que o Brasil permite quantidades de glifosato maiores na água em relação à União Europeia. Enquanto aqui são permitidos 500 microgramas por litro, nos países europeus, por litro, é liberado apenas 0,1 micrograma, o que revela uma quantidade 5 mil vezes maior de autorização da substância tóxica no Brasil.

<><> Quando surgiu o glifosato?

O herbicida foi desenvolvido na década de 1970 pela Monsanto, multinacional norte-americana que se tornou uma das principais referências globais na produção de insumos agrícolas. Antes, a substância foi descoberta em 1950 pelo químico suíço Henri Martin e, inicialmente, era usada como produto de limpeza de metais. A empresa também esteve envolvida na fabricação de produtos químicos militares décadas antes, como na Guerra do Vietña, o que contribuiu para os impactos da indústria química. Com o sucesso comercial do glifosato após sua associação a sementes geneticamente modificadas, o produto se tornou o herbicida mais utilizado no mundo, tamanho que a empresa lançou o produto Roundup.

Em 2018, a Bayer, conglomerado alemão do setor farmacêutico e químico, concluiu a compra da Monsanto por US$ 63 bilhões. Desde então, o glifosato passou a integrar o portfólio da Bayer, que mantém a comercialização do herbicida em diversos países. Ao mesmo tempo, a empresa enfrenta disputas judiciais e pressão de organizações de saúde e ambientais. Parte dessas preocupações decorre de estudos científicos que apontam associação entre a exposição prolongada ao glifosato e maior risco de determinados tipos de câncer, embora o debate científico não seja unânime e haja divergências entre agências regulatórias sobre o grau de risco e a relação causal direta. Além do setor agrícola, o grupo Bayer também atua na produção de medicamentos, incluindo tratamentos oncológicos, fato citado por críticos como exemplo das contradições presentes no modelo de negócios de grandes conglomerados químicos e farmacêuticos.

 

Fonte: Fórum

 

As mentiras por trás do discurso de desenvolvimento de empresários e políticos

Como ainda vivemos o legado colonial de desigualdade, racismo e violência, é natural que o discurso sobre o desenvolvimento seja tão forte no Brasil. Líderes  políticos e empresários justificam suas ações em nome desse ideal. Quando não falam em desenvolvimento, falam em progresso.

Algumas coisas sempre aparecem nos discursos, como a criação de empregos e a ideia de que a economia tem que crescer (geralmente sinônimo de o PIB tem que crescer) para que finalmente alcancemos o tão sonhado desenvolvimento. Curiosamente, quando chegarmos lá, teremos que dobrar a meta: mais empregos, mais valor, e para isso, mais crescimento do PIB.  Algumas outras métricas usadas pelo capitalismo e os economistas liberais são os índices da bolsa de valores e a quantidade de investidores estrangeiros aplicando seu dinheiro no Brasil. Em qualquer dessas métricas o que vale é seguir crescendo, como se em uma soma absoluta. Se o PIB cresce porque reconstruímos após uma enchente é bom, mesmo que o povo tenha sofrido. Se investidores estrangeiros chegam no país porque desfazemos nosso licenciamento ambiental, melhor ainda.   

Há certamente uma equivalência padrão e forçada entre os interesses capitalistas e o que seria desenvolvimento e progresso. Dentro dessa lógica, o que é bom para o capital é bom para o povo.

Na versão mais “verde” do desenvolvimento sustentável, o que é bom para o capital também pode até ser bom para a natureza em algum grau, desde que não sacrifiquemos o capital para cuidar de um bioma ou manter o rio que sustenta comunidades ribeirinhas limpo e saudável. Há de se negociar e quem dá os termos da negociação são justamente aqueles políticos, juízes e até figuras técnicas que trabalham diretamente com as empresas e empreendimentos interessados em extrair recursos, dominar a provisão de serviços, construir infraestrutura e estabelecer mercados. Se há confluência suficiente entre políticos eleitos e os empresários, sua decisão raramente pode ser revertida. 

<><> Em nome do desenvolvimento, limitar participação popular

No caso de grandes projetos propostos em nome do desenvolvimento, audiências públicas, outras consultas e processos de licenciamento – o que sobrou deles – não são realizados com poder de veto ou para promover mudanças radicais ao que é apresentado.
Na história da jovem e frágil democracia liberal na maioria da América Latina e do Caribe, essas atividades que deveriam garantir efetivamente a participação popular e ser os pilares do desejo de governar com o povo raramente recebem o apoio e atenção necessários para que o debate inclua perguntas como “que desenvolvimento é esse?” ou “é desenvolvimento para quem?”. E mesmo quando previstas em lei, movimentos sociais e povos atingidos organizados apontam que os ritos de consulta não são seguidos adequadamente.

Essa falta não é acidental. Quando não se permite questionar o modelo de desenvolvimento e suas falhas históricas em entregar o que foi prometido para todos, sem exclusão e sem gerar novas zonas de sacrifício, é muito mais fácil seguir manipulando a opinião pública sobre o que é e o que não é necessário para o bem comum da população. É possível até mesmo vender esquemas danosos e banhados a corrupção como planos de salvação para o país, qualquer que seja o setor.

A consequência é uma democracia frágil, sob governos de esquerda ou de direita, que prioriza interesses privados primeiro, depois tenta alinhá-los com o público, para continuar insistindo em lógica de produção econômica que produz desigualdade na sua raiz. Isso porque quando o estado consegue arrecadar recursos para abastecer políticas públicas voltadas ao combate da desigualdade e da miséria, essas políticas já nascem amarradas e reféns de ceder cada vez mais para o capital privado, que nos é vendido como grande criador de empregos e como excelente gestor da economia.

Contudo, se assim fosse, não estaríamos vivendo no Brasil de 2026 dois grandes exemplos das falhas estruturais do capitalismo em proteger o povo, gerar empregos dignos, garantir melhorias de vida em geral e avançar em termos de sustentabilidade. Embora pareçam casos distintos, ambos envolvem negligência da classe política ou participação ativa em abrir caminhos públicos, e até investir fundos públicos, para facilitar o acúmulo de capital por grandes corporações. Estou falando da expansão do agronegócio através de ferrovias e hidrovias e das relações suspeitas de corrupção que envolvem até Daniel Vorcaro do Banco Master.

<><> Falso desenvolvimento sustentável

Em nome do desenvolvimento, o estado brasileiro permite a destruição de ecossistemas delicados para facilitar o escoamento de mercadorias que, em sua produção, também destroem ecossistemas. É visível que no caso de hidrovias projetadas para aumentar a exportação de commodities do agronegócio e da mineração, qualquer grupo que se oponha é tratado como inimigo do Brasil. Por isso mesmo Helder Barbalho, governador do Pará pelo MDB, se irritou tanto em agosto passado com a mera sugestão de uma audiência pública do ICMBio. O governador, que quer expandir o escoamento de mercadorias por hidrovia, defendeu que a derrocagem do Pedral do Lourenço no Rio Tocantins era estratégica para o “crescimento sustentável” do Pará. Assim, ele “não poderia admitir” a tentativa de criação de uma área de proteção ambiental na região. 

O Ministério Público Federal questionou na justiça o licenciamento da obra, principalmente por falta de consulta adequada e diálogo com as comunidades locais, que não vêem na explosão de rochas no leito do rio um exemplo de desenvolvimento. O projeto da Hidrovia Araguaia-Tocantins é do governo federal e visa aumentar o transporte de cargas e facilitar o corredor de exportação na região. Não se trata de melhorar a integração das comunidades ou mesmo de facilitar o comércio essencial dentro do Brasil e entre países vizinhos. Atualmente, mais de 100 milhões de toneladas de cargas passam pelos rios das bacias hidrográficas da Amazônia e do Tocantins-Araguaia e cerca de metade desse volume é soja e milho.

Sabendo que nós seres humanos não comemos diretamente tanta soja e milho, devemos questionar então que tipo de sistema produtivo de alimentos e de biocombustíveis estamos incentivando quando permitimos o uso de agrotóxicos e fertilizantes químicos em massa e a degradação de solos, além da negligência com o desmatamento criminoso e o “permitido”.

Será que o agronegócio está simplesmente fazendo sua parte para alimentar e abastecer o mundo, ou se trata da manipulação dos nossos sistemas alimentares e energéticos para incentivar a dependência de tanta monocultura? Estamos garantindo a soberania alimentar do povo ou estamos incentivando o consumo exagerado de carnes e ultraprocessados, além de gastos energéticos redundantes, simplesmente para manter a roda do crescimento girando? 

<><> Cargill e o estado como balcão de negócios da elite capitalista

O mesmo se aplica para o embate entre povos indígenas e o governo Lula sobre a dragagem do rio Tapajós, também vinculado a um projeto de hidrovia. O protesto indígena na Cargill em Santarém, no Pará, demonstrou como a luta de classes está viva e forte para os povos do território. Mesmo sem obter licença ambiental, o governo federal selecionou uma empresa para fazer a dragagem. Ministros de Lula prometeram consulta livre, prévia e informada – como orienta a Convenção 169 da Organização Internacional do Trabalho, a OIT – mas como ter consulta realmente prévia se o governo insiste em manter decretos e atos sobre obras na região e se tais projetos constam como estratégicos ao país?

O que interpretamos é que as decisões já foram tomadas e a consulta será apenas um rito de escuta, sem possibilidade de mudar os rumos do modelo de desenvolvimento apresentado. 

Quando o assunto é a Cargill, também temos a Ferrogrão. Defensores do projeto alegam que a ferrovia irá reduzir emissões de gases de efeito estufa, pois tirará o peso do transporte rodoviário dessas commodities. Mas já sabemos que a matemática do “desenvolvimento” não funciona assim.  Em termos de emissões diretas, é melhor transportar carga por trens do que por caminhões. Mas ao facilitar o escoamento dos grãos para o mercado externo, sabemos que a Ferrogrão irá ampliar a fronteira do agronegócio, o que provavelmente contribuiria 60 vezes mais em emissões indiretas do que as emissões poupadas. 

Durante a COP30, a Cargill recebeu um “selo de sustentabilidade” do Ministérios de Portos e Aeroporto. O raciocínio do ministro Silvio Costa Filho é que sustentabilidade significaria promover “desenvolvimento com equilíbrio ambiental, social e econômico“. Parece bonito no papel, mas na realidade capitalista, as empresas campeãs do desenvolvimento sustentável estão na raiz da extrema concentração de renda, se beneficiam da absurda desigualdade fundiária no Brasil, pioram contextos de violência contra comunidades nos campos e florestas, e emitem muitos gases de efeito estufa através do seu modo produtivo. 

Cargill é a maior empresa privada dos Estados Unidos e está envolvida em negócios ao redor do mundo. Como não tem acionistas públicos, seu grau de transparência é ainda mais baixo do que se espera de uma corporação. Embora tenhamos estudos e relatórios excelentes que documentam a destruição da Cargill no Brasil, a empresa tem acesso privilegiado aos políticos brasileiros. Mesmo sob suspeita de ter adquirido terrenos no país de forma ilegal e outras denúncias de corrupção, a Cargill tem permissão livre para atuar no Brasil, com faturamento acima de 100 bilhões de reais.

<><> Lobby com discurso de desenvolvimento atuando em favor da corrupção 

Para questionarmos esse tipo de desenvolvimento, temos que prestar muita atenção aos esquemas de corrupção que escandalizam o Brasil. Existe uma ideia equivocada de que a corrupção é um problema de políticos apenas, como se o dinheiro corrupto não circulasse entre mãos públicas e privadas justamente para garantir os ganhos dos empresários. Se um político embolsar valor X, pode ter certeza que os empresários ao seu redor embolsaram ao menos o dobro em acordos, contratos, privilégios e acesso a mercados e recursos.

Há quem imagine que quando um pastor rico, ligado a um banqueiro bilionário, faz doações gigantescas para candidatos específicos, essa prática não se relaciona com o estereótipo padrão da corrupção onde o deputado é pego em flagrante com as calças cheias de dinheiro vivo. Todavia, em um sistema em que há tantos penduricalhos na política e onde parlamentares estão cada vez mais livres para acessar o orçamento público e destinar emendas sem prestação adequada de contas, precisamos desconfiar seriamente de como deputados e deputadas fazem uso dessas ferramentas. 

Fabiano Zettel, cunhado de Daniel Vorcaro e pastor da igreja Lagoinha em Belo Horizonte, figurou entre os maiores doadores para campanhas em 2022 e apoiou com R$ 2 milhões a candidatura de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo. Para a campanha de Jair Bolsonaro, a doação foi de R$ 3 milhões. Enquanto poderíamos supor que se trata de mero alinhamento entre ultraconservadores, defensores do fundamentalismo religioso e seus retrocessos no Brasil, é importante lembrar que muitos pastores ricos são também empresários. Zettel, no caso, fundou a Moriah Asset, uma empresa de investimentos de private equity (que investe em empresas privadas que não são negociadas no mercado de ações), e foi diretor da Super Empreendimentos – a mesma empresa que administra imóveis de alto valor de Vorcaro, inclusive o apartamento de R$ 4,3 milhões na Faria Lima doado para a influenciadora Karolina Trainotti. Zettel também doou um apartamento milionário em São Paulo na mesma época, no valor de 2,6 milhões, à nutricionista Gabriela Amaral Rocha.

Parece até apenas mais um caso de negócios espúrios da burguesia brasileira e seu falso moralismo, onde pregam uma coisa aos domingos, mas agem ao contrário nos outros dias. Porém, vale a pena olhar mais a fundo e investigar outros tipos de interesses privados. Em 2024, a Super Empreendimentos comprou um empreendimento de energia eólica da Salina Amarra Negra no Rio Grande do Norte e fez parte do pagamento também com um imóvel de luxo em São Paulo. A Salina Amarra Negra era uma empresa na produção de sal que migrou para o setor de energia renovável, reforçando um modelo de negócios já comum no Brasil, onde grandes latifúndios dão espaço a parques eólicos que reforçam a venda da energia como mercadoria e normalizam comunidades locais como zonas de sacrifício. Os mais de 8 mil hectares de propriedade faziam parte dos negócios da família de Fábio Faria, ex-deputado federal e ex-ministro das Comunicações do governo Bolsonaro. De acordo com matéria de Hamilton Ferrari, Faria foi para a BTG Pactual após o governo, e “aceitou o negócio pelo imóvel de R$ 50 milhões” que foi, no fim das negociações, comprado pelo empreendedor João Camargo, fundador e presidente do conselho de administração da Esfera Brasil.

<><> Privatizar para “combater a corrupção” e continuar lucrando

A Esfera Brasil se promove como um think tank voltado a aproximar empresários e políticos, e que “promove diálogos entre os setores público e privado em prol do desenvolvimento do país.” A primeira parte parece ter funcionado bem, já que se trata em realidade de um grande grupo de lobistas. Foi em um evento da Esfera Brasil que Vorcaro conheceu Faria e depois o apresentou a Zettel. Já a segunda parte, sobre o famigerado desenvolvimento, deixa obviamente a desejar.

Vemos aqui o exemplo vivo do que a classe empresária chama de desenvolvimento: é o uso de iniciativas em setores que são sim estratégicos para o país, como provisão de energia, saneamento básico, transporte público, além de infraestrutura e indústria essenciais para enriquecer mais ainda. Como a métrica de desenvolvimento centrada no aumento do PIB e no desempenho da bolsa é torta, ela permite que a especulação, lavagem de dinheiro e a concentração de riqueza se justifiquem, desde que seja para atender a esses setores.

Aqueles que defendem a participação privilegiada de empresários na política brasileira, junto à primazia de sua propriedade privada, estão cada vez mais envolvidos no discurso do desenvolvimento nacional, porque isso abre portas e oportunidades de ouro. Um exemplo é o empresário da mineração Lucas Kallas, que é do conselho da Esfera Brasil e foi nomeado para o Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável do Governo Federal – o “novo Conselhão – em 2023. Desde 2018, Kallas é presidente do conselho da Cedro Participações, empresa do ramo de mineração, setor imobiliário, de energia e agronegócio. O empresário já foi alvo e mencionado em investigações da Polícia Federal e é atualmente representado pela advogada Viviane Barci de Moraes, esposa do ministro Alexandre de Moraes, em caso que corre sob sigilo no STF. De acordo com a Agência Pública, Kallas já foi representado também por Rueda & Rueda, escritório do presidente da União Brasil, Antonio Rueda, que também frequenta a Esfera Brasil.

Se parece que todos os piores empresários do Brasil, envolvidos em escândalos e negócios suspeitos, se conhecem e andam muito confortáveis em Brasília é porque é isso mesmo. É lógico, então, que não nos surpreendemos que o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha, que tentou “salvar” Vorcaro e o Banco Master causando um rombo no BRB, também participa da Esfera Brasil.

Agravando a situação, quando essas relações e falhas explodem, ainda há aqueles que agem como abutres, buscando privatizar o que resta do estado. Foi por conta das falcatruas do Master e a proteção de Ibaneis que o BRB chegou a esse ponto, mas num país em que políticos e empresários se juntam para explorar e sucatear o patrimônio brasileiro, nada mais normal que sugerirem que a única saída para o BRB será o controle privado.

Vemos que a ideia de desenvolvimento e de economia saudável está presa ao crescimento do capital e até quando pintam algo de sustentável isso não passa de pequenos ajustes mais amigáveis ao meio ambiente. A lógica segue de apropriação e de concentração de propriedade, desde latifúndios a apartamentos de luxo, desde concessões de exploração à influência de fundos financeiros nas decisões do estado. E se algo falha por conta desse tipo de atuação, não se preocupe, o raio privatizador já espera. 

Essas histórias nos contam que, enquanto discursos sobre o desenvolvimento forem usados para esconder seu intuito real, o aumento da participação de empresas privadas na nossa economia, com acesso a nossos recursos, e com poder sobre nossos povos, não teremos a menor chance de construir parâmetros reais e justos sobre melhoria de vida no Brasil.

 

Fonte: Por Sabrina Fernandes, em The Intercept