sábado, 17 de outubro de 2026

Carlos Veiner: Nove teses em busca da vitória

Onda gigante de mobilizações superou desânimo pós-1ºturno. Há chance real de virada, mas obstáculo: existem duas esquerdas, nenhuma delas portadora de um projeto de transformação do país. Oxalá as lutas de agora ajudem a superar o déficit...

>>>> Tese 1 – Um fantasma ronda a América… e o Brasil

Parte inferior do formulário

As eleições brasileiras de 2026 estão sendo disputadas num cenário marcado pelas vitórias recentes da direita e extrema direita na América Latina, sendo México e Uruguai as duas únicas exceções dignas de nota. A agressiva política de Donald Trump para o continente aponta para uma crescente pressão direta do grande irmão do norte – econômica e política, mas não apenas. A Venezuela foi vítima de uma intervenção militar aberta e Cuba padece de um absurdo enrijecimento do bloqueio econômico. A política do porrete (big stick policy) ficou consagrada em uma frase do presidente estadunidense Theodor Rossevelt (1901-1909): “Fale suavemente e carregue um grande porrete; você irá longe”. Trump parece inovador apenas pelo fato de não falar suavemente.

Muitos são os que afirmam estarmos assistindo a uma crise inexorável e irreversível do imperialismo ianque; outros avaliam que se trata de uma perda parcial e relativa de poder, num processo de reequilíbrio geopolítico que reposiciona as grandes potências, redefinindo suas esferas de influência e suas relações mútuas. Seja lá qual for a análise mais pertinente acerca do sentido e natureza das mudanças em curso na economia e geopolítica internacionais, o fato inegável é que os EUA (ainda) detêm um extraordinário poder econômico, militar, tecnológico e cultural, capaz de congelar esforços e derrotar lutas que apontem na direção da democracia, da paz e da justiça social.

De outro lado, há que considerar que embora a onda direitista seja continental, e mesmo mundial, não se podem desconhecer as realidades nacionais particulares, que são econômicas, sociais, políticas e culturais, remetendo tanto às configurações de classe de cada país quanto à cultura política e tradições de luta de seus povos e suas classes trabalhadoras. Como diziam Marx e Engels, no Manifesto Comunista: “Embora não ponham de lado, em absoluto, os resultados da luta internacional dos proletários, os comunistas concentram sua atenção, sobretudo, na luta que se trava em cada país, pois é aí que se desenvolve imediatamente a luta contra a burguesia”. (Marx & Engels, 1848).

>>>> Tese 2 – Impedir a vitória do bolsonarismo

A vitória de Flavio Bolsonaro no 1º turno pegou de surpresa institutos de pesquisa, mídia corporativa e as campanhas de Flavio Bolsonaro e Lula. É verdade que as pesquisas apontavam um resultado muito apertado para o 1º turno e um crescimento progressivo de Bolsonaro nas semanas anteriores. As pesquisas traziam também uma outra e igualmente relevante sinalização relacionada às dificuldades de Lula: as simulações de 2º turno nas quais Flavio Bolsonaro era substituído por algum outro representante da direita e extrema direita, mostravam consistência e densidade políticas e eleitorais destas forças.

Isso não obstante, não há como esconder o choque, a decepção, o desânimo e, em alguns casos, o desespero que atingiu muitos eleitores e parcelas importantes da militância, tanto mais que os resultados das eleições parlamentares e para governador confirmavam as expectativas mais pessimistas, de uma ampla vitória da do bolsonarismo.

A primeira semana da campanha para o 2º turno, porém, parece ter sido suficiente para reverter o Estado de espírito e o moral dos militantes. Embora os atos dos dias que antecederam o 4 de outubro tenham sido expressivos, nada se compara à amplitude, abrangência, combatividade e dimensão das manifestações desta última semana, com milhões de pessoas indo às ruas, com destaque para estudantes e jovens em geral. Também a militância digital e a atuação liderada pelo deputado André Janones parecem render frutos não desprezíveis, como evidencia a contumaz violação do direito de expressão da parte de Kassio Nunes Marques e André Mendonça, juízes que perderam todo e qualquer pudor e não se preocupam nem mesmo em disfarçar seu comprometimento político com o candidato da extrema direita.

Neste novo ambiente, o 2º turno se apresenta como uma nova eleição e a expectativa de vitória renasce fortalecida. Neste contexto, as tarefas políticas são claras para todas e todos que se alinham no campo de defesa da democracia: engajar-se de fato, na prática, nas conversas com vizinhos, colegas de trabalho e conhecidos, nas ruas e nas redes digitais, disputando de votos para assegurar a vitória de Lula no 2o turno.

>>>> Tese 3 – “Não é a economia, estúpido!”

Além da relativa recuperação do PIB, as estatísticas indicam que Lula 3 trouxe alguns ganhos econômicos não desprezíveis para a população, em particular para as classes trabalhadoras e camadas mais pobres: aumento real do salário-mínimo, redução das taxas de desemprego aos níveis historicamente mais baixos, elevação da renda média, entre outros. Ainda assim, apesar de importantes variações por região, sexo, nível de renda e cor, têm se mantido baixos os índices de intenções de voto e alta a reprovação do governo.

Tudo indica que não tem sido a economia o fator decisivo, mas a forma como os eleitores experimentam e percebem os eventos de natureza econômica que afetam seu quotidiano. A opção eleitoral pelo bolsonarismo estaria ancorada numa “adesão ideológica”, entendida como adoção de um “conjunto coeso de valores e narrativas sobre como a sociedade brasileira deveria se organizar”, pois é “a percepção subjetiva que toca o voto, não os indicadores agregados econômicos em si” (Feres Junior, 2026).

>>>> Tese 4 – Um novo senso comum?

Há 16 anos Lula completava 8 anos de presidência com a aprovação recorde de 83% dos eleitores (DataFolha, 2010). Hoje um pervasivo anti-lulismo e a alta rejeição são apontados por muitos como uma das origens das dificuldades encontradas por Lula nesta campanha eleitoral. Mais além do reconhecimento da efetiva dimensão e pregnância do anti-lulismo e/ou do anti-petismo, no entanto, o que mereceria análise e discussão cuidadosas, que escapam ao escopo deste texto, seriam as origens e o significado de uma mudança tão importante em tão pouco tempo.

Na Ideologia Alemã, Marx e Engels escreveram: “As ideias da classe dominante são, em todas as épocas, as ideias dominantes, ou seja, a classe que é o poder material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, o seu poder espiritual dominante”. Ou ainda: “A classe que tem à sua disposição os meios para a produção material dispõe assim, ao mesmo tempo, dos meios para a produção espiritual”. (Marx & Engels, 1932, capítulo I-III.1). Gramsci avançou na mesma direção com o conceito de hegemonia, que remeteria às formas de subjetivação, pelos dominados, de visão de mundo, de um senso comum que representa/concebe/percebe a realidade vigente como natural, inevitável, legítima. E se poderia, aqui, lembrar também Bourdieu, que falou do “realismo das classes dominadas”, para quem é fechado o universo de possibilidades e expectativas.

Isso não obstante, a ideologia dominante pode assumir vários formatos. Um exemplo: uma coisa é a tradição católica, que vê a riqueza com certa suspeição e promete aos pobres o reino dos céus; outra coisa, bastante diversa, é a tradição protestante (calvinista) que vê no sucesso e na riqueza terrenos um sinal da graça, concepção que fornece um fundamento tanto para a teologia da prosperidade quanto para o individualismo empreendedorista.

Caberia, então, interrogar se, em que medida e em que sentido, teria ocorrido uma mudança na conformação e difusão do “senso comum”, no sentido que confere Gramsci a essa ideia: concepção de mundo difusa, historicamente formada, não raro contraditória, em que se misturam, de forma fragmentária mas integrada, valores, costumes, religião, experiências individuais e coletivas. Estaríamos diante de uma progressiva reconfiguração das formas de subjetivação da dominação?

>>>> Tese 5 – Os partidos da esquerda e centro-esquerda do espectro institucional perdem representatividade eleitoral

PT, PCdoB, PSOL, PSB, PDT, REDE, com algumas idas e vindas e diferenças entre eles, de 2002 a 2010, avançaram em conjunto de 46 a 168 deputados federais eleitos. Caíram progressivamente nas eleições seguintes, ficando em 2022, apesar da eleição de Lula, com apenas 119 cadeiras. Importante chamar a atenção para o fato de que a queda se iniciou em 2014, antes portanto da emergência do fenômeno Bolsonaro. Nas eleições de 2026, o mesmo bloco teve uma pequena perda, caindo para 117 deputados federais.

O número de governadores eleitos pelo bloco, após subir de 8 a 13 entre 2002 e 2010, caiu para 7 em 2022. Em 2026, nova queda: 4 governadores eleitos.

As eleições municipais apresentam um interesse particular, pois, de uma maneira ou outra, constituem um indicador do grau de enraizamento social das legendas, ou, se se prefere a linguagem usada pelas esquerdas, da proximidade com as bases: houve uma não desprezível queda dos prefeitos e vereadores eleitos pelos partidos de esquerda e centro esquerda.

>>>> Tese 6 – As “esquerdas de Estado” perdem vitalidade e capacidade convocatória

Os partidos, sindicatos, muitas organizações populares que emergiram das lutas do final dos anos 1970 e início dos 1980, progressivamente se transformaram no que se poderia chamar de “esquerdas de Estado”, movendo-se nos marcos da institucionalidade e tendo como horizonte político-ideológico e motivação quase absoluta a conquista e/ou conservação de cargos e posições no aparelho estatal. Estas forças passaram a olhar a sociedade a partir do Estado, e não o Estado a partir da sociedade.

Encerradas nas batalhas intestinas dos palácios, dos partidos e dos sindicatos, as “esquerdas de Estado” não apenas perderam força eleitoral, mas, mais importante que tudo, viram embotada sua capacidade de (re)conhecer, entender, enunciar, expressar e transformar em linguagem e prática políticas os sentimentos e anseios nascidos do quotidiano de expressiva parcela dos trabalhadores, dos oprimidos e discriminados. Incorporadas à ordem política e social, transformadas em gestores da ordem neoliberal e, mesmo, da crise do neoliberalismo, “não surpreende agora que o outro lado se apresente com antissistema” (Luis Inácio Lula da Silva, 2026).

Como indicadores deste processo, poder-se-iam citar as grandes manifestações de junho e julho de 2013, quando milhões foram às ruas em mais de 500 cidades brasileiras, numa mobilização ocorrida à margem, quando não à revelia ou com a contrariedade, de partidos e organizações tradicionais. Ou ainda, a fragilidade da resistência ao golpe midiático-judicial-parlamentar contra Dilma Roussef ou à reforma trabalhista de Temer.

>>>> Tese 7 – As “esquerdas sociais” resistem de forma fragmentada e dispersa

Em uma esfera muito diferente, e quase sempre distante, estão as “esquerdas sociais”, isto é, aqueles coletivos, grupos, militantes populares, organizações culturais variadas cuja dinâmica e prática se desenvolvem no tecido social. Grupos de hip-hop, coletivos de jovens negras e negros, saraus e grupos culturais, grupos de mulheres, movimentos LGBTQIA+, redes de solidariedade, como as que se estenderam sobretudo durante a pandemia, promovem e difundem práticas coletivas que fazem frente à crescente maré de individualismo, moralismo reacionário, empreendedorismo competitivo e diferentes versões da teologia da prosperidade.

Muitas vezes desqualificados como manifestações de “identitarismo” e acusados de serem despolitizados e, mesmo, de dividir enfraquecer a luta de classes, a maioria destes coletivos constitui, ao contrário, o gérmen de práticas e linguagens que apontam para novas formas de construção de sujeitos coletivos e novos modos de luta política e cultural. Apesar de seu potencial contra-hegemônico e das enormes possibilidades de convergência com as lutas tradicionalmente reconhecidas como “lutas de classe”, são (ainda? até quando?) frágeis por sua fragmentação, dispersão e enormes dificuldades para elaboração de pautas e projetos societários mais abrangentes.

>>>> Tese 8 – Das dificuldades para encontros e convergências entre esquerda de Estado e esquerdas sociais

Não existe uma muralha da China entre as “esquerdas de Estado” e as “esquerdas sociais”. Muitos e muitas militantes das bases dos partidos e sindicatos tradicionais atuam e lutam no tecido social. Inversamente, não é raro que jovens e combativos militantes, formados nas lutas concretas, sejam atraídos e incorporados pelo establishment político-institucional. Quase sempre acabam abandonando as práticas em que vida quotidiana e política estão imbricadas, transformados em assessores profissionais, candidatos a isso ou aquilo. “Esquerdas de Estado”, “esquerdas sociais”, estas duas expressões remetem menos a dois grupos fixos e mais a dinâmicas, práticas, agências político-culturais e linguagens que estão presentes nas lutas políticas e sociais.

Se não há muralha da China, existiria a possibilidade de diálogos e convergências. E, de fato, isto pode ocorrer, e ocorre em determinadas circunstâncias, quando setores das “esquerdas de Estado” abandonam sua pretensão dirigista, sua arrogância de “vanguarda” ou de “legítimos representantes” dos trabalhadores. O diálogo exigiria que escutassem mais e falassem menos, aprendessem mais e ensinassem menos. Mas, também do outro lado, seria necessário que setores crescentes das “esquerdas sociais” aceitassem e reconhecessem que segmentos das “esquerdas de Estado” guardam parte da herança das lutas revolucionárias de dois séculos e poderiam, em certas circunstâncias e contextos, ajudar a socializar teorias e experiências, vitoriosas e derrotadas.

Este diálogo, porém, não é fácil, pois quase sempre se falam linguagens distintas. A convergência não é fácil também porque são diversas as relações com o território e com as lutas locais ou setoriais. Não é fácil, mas não é impossível. E o que é mais importante: este encontro, estas convergências, mesmo que circunstanciais, localizadas, temporárias, podem propiciar a reinvenção de caminhos para disputar a hegemonia na sociedade, no tecido social, que é onde, em última instância, se viabilizará, ou não, a possibilidade, ou não, de uma transformação radical da sociedade.

>>>> Tese 9 – As Alianças enlaçam

Os riscos que representaria para a democracia e para as lutas populares de modo geral a eleição de Flavio Bolsonaro colocam as esquerdas diante de um verdadeiro impasse. A busca de alianças no centro e mesmo junto a segmentos das elites burguesas e da direita que rejeitam o bolsonarismo tem como custo o rebaixamento do programa de governo. É como se a vitória contra a extrema direita impusesse uma direitização ainda mais acentuada das plataformas e compromissos eleitorais das “esquerdas de Estado”.

Certamente haveria a alternativa de que Lula adotasse um programa e fizesse uma campanha em que o enfrentamento da direita e do neoliberalismo resgatasse os projetos originais dos anos 1980 e apontasse para um governo que, mesmo não sendo revolucionário, viesse a ser realmente reformista. O fato que se impõe reconhecer é que, hoje, as “esquerdas de Estado” e Lula não têm hoje vocação, capacidade ou vontade políticas para romper com o pacto com o centro e o que resta de direita democrática no país. E, por outro lado, as “esquerdas sociais” não têm unidade, nem projeto, que possam oferecer uma alternativa às escolhas que encadeiam qualquer vitória eleitoral em 2026 a compromissos com os grupos economicamente dominantes. Nem com os partidos e correntes partidárias firmemente voltados à ocupação e partilha de um Estado cujos recursos públicos são distribuídos, qual verdadeiro butim, através de redes de patronagem-clientela e cada vez mais vulnerável à penetração e influência das variadas modalidades de criminalidade organizada.

<><> À guisa de conclusão: Nem Revolução, nem Reforma, vamos à luta para derrotar o bolsonarismo

Considerado o contexto internacional e a realidade nacional, após os resultados das eleições em geral, do 1º turno da eleição presidencial em particular, a melhor das perspectivas é muito pobre e desanimadora, uma vez que parece condicionar a vitória sobre a extrema direita a um abandono (definitivo? no médio e longo prazos?) de qualquer projeto nacional comprometido, de um lado, politicamente, com a construção de uma república democrática, e, de outro lado, econômica e socialmente, com a superação do neoliberalismo e a promoção de reformas econômicas e sociais que lancem os fundamentos de uma sociedade justa e igualitária.

Se as esquerdas durante mais de um século se debateram em torno à oposição reforma x revolução, a situação parece nos oferecer uma alternativa muito mais pobre e pouco inspiradora de paixões: ou vitória da extrema direita ou vitória de uma esquerda desencarnada de utopias e projetos.

Marx disse: “Os homens fazem a sua própria história, mas não a fazem como querem; não a fazem sob circunstâncias de sua escolha e sim sob aquelas com que se defrontam diretamente, legadas e transmitidas pelo passado”(Marx, 1852). Nas circunstâncias com que nos defrontamos impõe-se reunir todas as forças para derrotar o bolsonarismo, vencer o 2º turno e eleger Lula presidente. Vamos, pois, uma vez mais, à luta política, que hoje é luta eleitoral.

 

Fonte: Outras Palavras

 

José Reinaldo Carvalho: Somente a reeleição de Lula garante o Brasil soberano e altivo

É preciso dizer com todas as letras e sem qualquer meia-palavra: a reeleição do presidente Lula é uma questão de salvação nacional.

Uma eventual vitória da extrema-direita pró-imperialista, personificada em Flávio Bolsonaro em 25 de outubro, desferiria um golpe letal na soberania do Brasil, com desdobramentos devastadores para toda a América Latina e o Caribe. O alinhamento subserviente anunciado pelo candidato do PL aos Estados Unidos é a renúncia deliberada e indecorosa à autonomia indispensável para resguardar as riquezas e os interesses do povo brasileiro. A oferta escandalosa de colocar sua própria equipe de transição à disposição direta de Washington constitui o sinal mais eloquente e vergonhoso desse projeto de vassalagem.

Na carta enviada ao secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, Flávio Bolsonaro explicitou a barganha no bojo das negociações de um acordo bilateral de comércio e investimentos. O senador escreveu, sem qualquer pudor patriótico, estar pronto para colocar a equipe “imediatamente à sua disposição”. A roupagem comercial jamais apagará a gravidade política inédita dessa atitude: a transição presidencial do Brasil deve render contas unicamente ao povo brasileiro e às suas instituições soberanas. Entregá-la de bandeja a uma potência estrangeira revela uma concepção de poder indigna, mesquinha e absolutamente incompatível com a independência de uma nação livre.

Essa prontidão serviçal de Flávio Bolsonaro se encaixa com perfeição na sanha tutelar de Rubio sobre o nosso continente. Em audiência no Senado estadunidense, em 2 de junho, o secretário rotulou o Brasil como uma incômoda exceção em um hemisfério que Washington quer ver totalmente dobrado aos seus ditames, fazendo referência explícita ao nosso ciclo eleitoral. Ao arvorar-se no direito de dividir governos entre “amigos” e “hostis” aos interesses norte-americanos, Rubio escancarou a lógica imperialista: para a Casa Branca, a autodeterminação dos povos latino-americanos é encarada como um “problema” a ser suprimido.

O sentido político dessa ofensiva é cristalino. Um Brasil altivo, que dialoga de cabeça erguida com múltiplos polos de poder, negocia sem aceitar sujeição ou exclusividades e sustenta posições firmes e independentes no cenário internacional causa profundo incômodo aos guardiões da hegemonia estadunidense. A alusão de Rubio às eleições brasileiras deixa evidente a aposta da potência imperialista: a expectativa de que uma virada de governo dissipe a altiva resistência do Brasil e escancare as portas para o alinhamento cego pretendido por Washington.

A promessa de adesão ao chamado “Escudo das Américas” dá a face militar e operacional a essa rendição. Flávio Bolsonaro já declarou publicamente a intenção de atrelar o Brasil à coalizão liderada por Donald Trump. Anunciou também que proporá alterações legais para carimbar organizações criminosas brasileiras como grupos “terroristas internacionais”, subordinando-se à chancela unilateral de Trump. Trata-se de uma capitulação na política externa e de defesa que ameaça diretamente o comando e a jurisdição do Estado brasileiro sobre o seu próprio território.

É óbvio que o combate às facções criminosas é um dever constitucional indeclinável do Estado. Todavia, isso exige inteligência de ponta, asfixia financeira do crime organizado, rigoroso controle de armas e cooperação técnica — jamais a cessão da nossa soberania. Instrumentalizar esse desafio interno para converter o Brasil em praça de armas de uma estratégia militar ditada por uma potência estrangeira cruza uma linha vermelha inaceitável: a internacionalização e a entrega do controle das nossas forças e da nossa segurança nacional a decisões tomadas fora do país.

Esse enquadramento de facções como entidades terroristas guarda armadilhas letais. O Itamaraty alertou para o risco real de Washington converter essa rotulagem em pretexto para incursões militares e intervenções em solo brasileiro. Uma designação unilateral norte-americana não possui validade jurídica internacional para violar territórios alheios; contudo, o perigo reside na construção de uma narrativa político-militar agressiva para emparedar governos, atropelar fronteiras e violar a soberania dos países da região.

A trágica experiência da América Latina demonstra que esse perigo não é uma mera abstração teórica. Em março, Estados Unidos e Equador anunciaram operações militares conjuntas sob o pretexto de combater o “terrorismo”. Em setembro, a chancelaria equatoriana confirmou a integração irrestrita ao Escudo das Américas, entrelaçando inteligência, capacidade operacional e coordenação política com Washington. A pretexto do combate ao narcotráfico, a presença militar estadunidense ganha contornos concretos de ocupação estratégica.

Com o vizinho Paraguai foi firmado um acordo que praticamente transforma o país Guarani em uma base militar estadunidense na América do Sul. 

A ostensiva visita do comandante do Comando Sul dos EUA, general Francis L. Donovan, à cidade de Iquitos, na Amazônia peruana, realizada nos últimos dias, escancara essa engrenagem. Encontrando-se com a cúpula militar do Peru, o general norte-americano manteve conversações sobre a realização de operações militares contra grupos rotulados como narcoterroristas e sobre o pertencimento do país andino no Escudo das Américas. A presença militar norte-americana nas barbas da Amazônia é um sinal de alerta estrondoso para a defesa nacional e para o equilíbrio regional.

Essa marcha de cooptação utiliza múltiplos braços. Na Argentina, o governo anunciou em junho acordos com Washington que incluem suporte logístico, reabastecimento recíproco em operações militares e acesso a tecnologias de defesa dos EUA. 

Na Colômbia, a cooperação militar com os EUA avançou para patamares ainda mais gravosos de operações conjuntas sob a bandeira do Escudo das Américas, consolidando a integração de inteligência e logística nas faixas de fronteira.

Tudo isso constitui uma teia bem articulada que busca submeter as estruturas estratégicas dos países latino-americanos às diretrizes do Pentágono. Vê-se, em pleno curso, uma perigosa militarização da região, sob a hegemonia estadunidense.

É justamente essa escalada que torna criminosa e inadmissível a simples hipótese de capitulação do Brasil. Pela dimensão gigantesca de sua economia, pela extensão de seu território e por suas fronteiras estratégicas, o Brasil é o escudo e o fiador da independência da nossa região. Sua submissão a uma coalizão sob comando norte-americano esmagaria a autonomia de toda a América Latina e do Caribe, deixando os países vizinhos expostos a um ambiente ainda mais brutal de ingerência e chantagem hegemonista.

O biombo da “proteção continental” não passa da roupagem atualizada da nefasta Doutrina Monroe, que insiste em tratar a nossa região como o “quintal” e área de influência exclusiva do império. Sob uma perspectiva anti-imperialista consequente, a questão de fundo é o poder inalienável de decidir: quem define nossas ameaças, quem maneja as inteligências, quem dita os limites da atuação militar em nosso solo? Quando a caneta e o comando do destino nacional são transferidos para fora, a dita “cooperação” nada mais é do que dependência colonialista.

A antítese dessa vergonha é a política externa altiva, soberana e destemida conduzida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O pilar inabalável dessa orientação reside no artigo 4º da Carta Magna de 1988: independência nacional, autodeterminação dos povos, não intervenção, igualdade soberana entre os Estados, defesa intransigente da paz e solução pacífica dos conflitos. Mais do que imperativo legal, a Constituição manda o Brasil perseguir a integração profunda dos povos da América Latina. São esses princípios que nos armam ideologicamente para repelir a tutela estrangeira e edificar uma segurança autêntica fundada na solidariedade entre nações livres.

O engajamento vibrante de Lula com o multilateralismo, o protagonismo inconteste do Brasil no Sul Global e o fortalecimento ousado do BRICS são os pilares de um país que se recusa a se curvar. À frente da presidência do BRICS em 2025, o Brasil colocou a cooperação soberana e o desenvolvimento dos povos como prioridades absolutas. É essa coragem diplomática que amplia a voz do Brasil e constrói, na prática, uma ordem multipolar justa.

Defender a continuidade do governo Lula é defender a liberdade suprema do Brasil de dialogar e pactuar com quaisquer países e com todos os povos do mundo a partir dos nossos interesses nacionais, e não sob ordens de impérios. É exigir com altivez a reforma das instituições internacionais, a voz ativa dos países em desenvolvimento e o combate aos grandes dilemas da humanidade sem pedir licença às potências coloniais. O Brasil de Lula é o motor dessa transformação libertadora, e a sua soberania é o bastião inexpugnável para a emancipação de todos os povos latino-americanos e caribenhos.

Portanto, a luta anti-imperialista é a tarefa mais urgente e inescapável do presente. Ela se concretiza no combate diário pela reconquista e proteção do nosso território, dos nossos recursos naturais, da nossa democracia e do direito sagrado do povo brasileiro de trilhar seu próprio caminho. Perante a fúria dominadora do imperialismo e a expansão de suas garras militares no continente, a soberania nacional ergue-se como o centro gravitacional da batalha histórica contemporânea. A vitória de um Brasil independente e protagonista da integração continental e do mundo multipolar é a tradução mais pura do espírito do nosso tempo: a libertação definitiva dos povos e a ruína da hegemonia imperial.

¨      A guerra do segundo turno. Por Emir Sader

A mais longa campanha eleitoral que o Brasil já teve se aproxima do seu final. Esta parte final da campanha se projeta como uma verdadeira guerra, em que cada um usa suas armas.

Lula concentra suas atividades na campanha de massas mais ampla que ele já fez no Brasil. Por todas as regiões, sempre com caminhadas de rua, com concentrações populares, com discursos vibrantes.

Os programas políticos do PT têm uma parte dedicada aos projetos de Lula. Em outra parte, o partido se vê obrigado a dedicar-se ao desmentido da quantidade de fake news divulgadas pela campanha de Bolsonaro. As intervenções de Lula são o ponto alto da programação. Cenas das concentrações ao longo de todo o país percorrem todo o programa.

Lula luta pela politização da campanha. Daí seu diagnóstico das razões das crises enfrentadas pelo Brasil, seguida de como seu governo as enfrentou e de como ele pretende continuar a governar o Brasil.

Bolsonaro, por seu lado, desenvolve uma estratégia completamente diferente. Ele se dá conta de que a comparação entre os dois governos lhe é completamente desfavorável. Que, ao mesmo tempo, a opinião pública — em que a mídia tem um papel importante — rejeita seu estilo de governo.

Essa é a estratégia do discurso sumamente agressivo do próprio Bolsonaro, sua orientação geral. Seu objetivo é o da criminalização do PT, incitando o ódio contra os petistas, que já teve como saldo a morte de cerca de 10 militantes do PT.

O outro elemento são as acusações, totalmente baseadas em fake news, contra Lula e o PT, que contam com a lentidão — quando atua — e a conivência — quando não faz nada — do Judiciário. Bolsonaro constrói um falso adversário, uma síntese dos piores valores, na sua opinião: contra a família, a favor do aborto, entre outros temas afins.

Bolsonaro busca convocar os piores sentimentos da população, atacando as mulheres e suas conquistas, os negros, os pobres, os nordestinos, os meios de comunicação, os movimentos sociais, os organismos internacionais.

Esses métodos, especialmente as fake news contra Lula e o PT, contando com o silêncio do Judiciário, buscam aumentar o nível de rejeição de Lula e diminuir o de Bolsonaro e do seu governo. O que coloca para o PT o dilema de como reagir a esses métodos e seus efeitos.

Há quem proponha que o PT utilize os mesmos métodos do bolsonarismo, incluindo fake news na direção contrária. Alegam a famosa utilização da mamadeira de piroca nas eleições de 2018, que terminou tendo um peso importante na vitória de Bolsonaro.

O que provocou a reação oposta, de quem rejeita frontalmente o uso dos mesmos métodos dos bolsonaristas. Propõe-se o uso dos robôs, mas para divulgar as verdades do PT e inclusive — o que já está sendo feito — no ataque a Bolsonaro, a partir das brutais declarações que tem feito ao longo do tempo e do seu desastroso governo.

O favoritismo é de Lula, o que faz com que o filho de Bolsonaro intensifique os ataques e as fake news, como sua última possibilidade de reverter o resultado das eleições.

Caso Lula realmente ganhe, será o primeiro presidente a ser eleito para quatro mandatos no Brasil. O pouco tempo para a definição do próximo presidente do Brasil — a decisão eleitoral mais importante da história do país — será de tensão e ansiedade, entre as novas pesquisas, as manifestações populares, os debates entre eles e as declarações dos candidatos.

Em um único dia, Lula fez concentração e caminhada na favela do Alemão, na zona norte do Rio de Janeiro. Discursou em vários momentos, abraçou as pessoas, pulou no carro de som como se fosse um menino, ele que na verdade tem 80 anos.

No mesmo dia, Lula foi a Salvador, a cidade mais lulista do Brasil, fazer a mais espetacular caminhada com o povo, com um dos seus discursos mais emocionantes. Em seguida, ele seguiu para o Nordeste — Alagoas, Sergipe, Pernambuco —, região onde ele tem apoio de mais de 70%, livrando uma vantagem enorme em relação a Bolsonaro, que deve lhe garantir a vitória.

Nunca, em um único dia, vamos decidir tanto. Será Civilização ou Barbárie. Entre o 13 e o 22, um mundo nos separa.

No fim deste mês seremos felizes ou infelizes, livres ou escravos, democráticos ou autoritários. Nem tudo estará resolvido, se ganharmos. Mas teremos evitado o pior, o maior retrocesso da nossa história, das nossas vidas.

Agora é deixar tudo de lado e ganhar votos para a democracia, para derrotar o obscurantismo, a alienação, o fanatismo, a extrema-direita.

Vivemos os dias mais importantes das nossas vidas, em que tudo o que conquistamos está em jogo. Vale tudo para derrotarmos a barbárie e resgatarmos a civilização.

¨      O que pode ser feito em uma semana. Por Moisés Mendes

O povo retornou às ruas e o governo aprovou o fim da escala 6X1 e voltou a renegociar as dívidas dos pobres e da classe média. Descobrimos que Flávio Bolsonaro era usuário preferencial, como sócio cotista, de um avião de Vorcaro. E a Polícia Federal continua prendendo gente da extrema direita. 

Nesse ambiente, as pesquisas nos dizem que a situação se alterou um pouco em favor de Lula, como informou o Datafolha desta quinta-feira, com Flávio ainda à frente, com 51%, e Lula agora com 49%% dos votos válidos. Os mesmos números da pesquisa Quaest. 

As duas amostras indicam que é possível virar, considerando-se que, em relação à pesquisa da semana passada do Datafolha (52% a 48%), Lula reduziu a diferença em dois pontos. Parece muito e ao mesmo tempo não parece tanto, diante das expectativas criadas nos últimos dias.

Os menos otimistas se perguntam: se as pautas positivas pró-Lula e os episódios negativos contra Flávio, que se repetem diariamente, não provocam grandes mudanças, o que poderia alterar esse cenário em pouco mais de uma semana até a eleição?

O que teremos nos próximos dias? O debate na Bandeirantes e a manifestação do bolsonarismo na Paulista no domingo e certamente mais revelações sobre as mulheres que Vorcaro contratava para conquistar aliados. Se tivermos novas informações de que Flávio seria sócio de Trump em um resort de Miami, mudaria o quê?

O otimismo militante fala de virada, porque uma eleição vive disso, e as esquerdas precisam sobreviver também de gestos heroicos. Se Lula foi cassado e encarcerado por 580 dias, se saiu da prisão para vencer Bolsonaro, se os golpistas foram condenados e presos, por que agora o roteiro seria diferente, se o mocinho é Lula?

Só Lula, por seu histórico, poderia produzir o milagre de uma virada inédita, nessas circunstâncias, mas é preciso ajudá-lo, porque André Janones não pode tudo sozinho. Os jovens voltaram à ativa, os velhinhos prometem ir votar, o bolsonarismo não sai de casa e a Polícia Federal pode produzir ações de impacto nos próximos dias.

Tudo isso em uma semana a contar do sábado. Nós sabemos o que é possível fazer em uma semana em Roma, no deserto do Atacama ou na Patagônia. Mas o que podemos fazer em uma semana no Brasil para impedir que a extrema direita retorne ao poder, com armas, métodos e ódios amplificados? 

Fazer militância nas ruas e nas redes, e cada vez mais nas redes. Lula, a democracia e todos nós dependemos de um ativismo que não se viu no primeiro turno e que se reapresenta depois de tanto tempo, desde a semana passada, como certeza da possibilidade de virada.

Uma semana é um tempo bíblico, desde a criação do mundo. É o que teremos para fazer o que pode ser feito para a virada. Não é um desafio para quem tem apenas fé, mas capacidade de luta em todas as frentes. Uma semana é o que nos resta.

 

Fonte: Brasil 247

 

O dilema entre democracia/soberania e retrocesso/barbárie

Contrariando a maior parte das sondagens, os resultados das recentes eleições no Brasil, para além de reforço da extrema direita em governadores, senadores/as e deputados/as eleitos/as  evidenciam que Flávio Bolsonaro soma na primeira volta 56.104.503 votos, ou seja, mais 2.224.965 votos sobre a votação em Lula da Silva com 53.879.538 votos (47,03% versus 45,16%).

Considerando a candidatura de Flávio Bolsonaro, este tem um passado de ligação a milícias, de operador de ‘rachadinhas’ apropriando-se da maior parte de salários de contratos fictícios na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro, de abertura de loja de chocolates de fachada para lavagem de dinheiro, de compra, juntamente com familiares do clã Bolsonaro, de mais de 100 imóveis dos quais 50 com dinheiro vivo e uma mansão de 6 milhões de reais – tudo sob proteção do pai-Presidente e da Abin.

Mais, desde agosto de 2025, pôde contar com o juiz André Mendonça do Supremo Tribunal Federal (STF) a ocultar ‘doação’ de 61 milhões de reais do banqueiro corruptor Daniel Vorcaro do Banco Master, alegadamente para um filme designado de Dark Horse relativo à figura do seu pai Jair Bolsonaro, viagens do candidato no jato privado do banqueiro e ‘farras íntimas’!

Não se vislumbra qualquer melhoria socio-econômica para a maioria do povo brasileiro; pelo contrário, subsiste um programa de privatizações de empresas públicas, de entrega de terras raras e da própria soberania brasileira aos Estados Unidos da América (EUA) de Donald Trump, o provável impeachment de juízes do STF no Senado e Decreto de amnistia do pai condenado a 27 anos de prisão por ter liderado uma tentativa de golpe de Estado desde 2021, bem como o assalto vandálico ao Palácio do Planalto, ao Congresso e ao STF a 8 de Janeiro de 2023.

Além disso, é de referir a cumplicidade de Flávio Bolsonaro com a política do pai Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil (2019-2022), com todos os retrocessos socio-políticos para o país e o povo: uso de orçamento secreto e emendas parlamentares para interesses privados; privatização da Electrobras, invasões de terras indígenas e usurpações de terras públicas, madeiras e minérios; devastação ambiental de 2 milhões de hectares com desmatamentos e queimadas predatórias na Amazónia, na Mata Atlântica e no Pantanal; aumento de 4,5 milhões de desempregados; perda de poder de compra; conjunto de 33 milhões de pobres, dos quais 20 milhões de desempregados e desencorajados; cortes no Serviço Único de Saúde (SUS), na Educação, na Investigação e na Cultura, perseguição a Reitores democratas; assassinatos de líderes populares por ‘jagunços’ a mando de fazendeiros sem qualquer punição nem sequer processo judicial.

E, por fim, mas não menos importante, a morte desnecessária de centenas de milhares de brasileiros/as por negacionismo da ciência, publicidade enganosa sobre cloroquina para a Covid19 e consciente rejeição no acesso atempado a vacinas.

Em contrapartida, Lula, originário de família pobre, dirigente sindical e fundador do Partido dos Trabalhadores (PT), candidato presidencial vencido nos anos 1980-90 mas vencedor em 2002 e 2006 – seguido das vitórias do PT com Dilma Rousseff em 2010 e 2014 –, viria a ser objeto da operação Lava Jato, uma armadilha judicial aliciada pela CIA e conduzida pela quadrilha composta pelo Juiz Moro e pelo Procurador Deltan Dellagnol.

Esta operação resultaria no fraudulento processo lawfare para inviabilizar a candidatura de Lula em 2018, aliás precedida duma hedionda prisão com espetáculo mediático e condenação sem provas, vindo mais tarde a ser absolvido deste e doutros processos pelo STF após 580 dias de prisão!

Os governos de Lula da Silva e Dilma Roussef entre 2003 e 2016 e, de novo, neste último de Lula (2023-2026) traduziram-se em diversas políticas públicas: melhor infraestrutura e saneamento; criação de mais de 30 milhões de empregos; aumentos sucessivos do salário mínimo; reforço de direitos laborais;  acesso à alimentação básica por meio do Bolsa-Família; retirada de mais de 30 milhões de brasileiros da pobreza extrema; melhoria do SUS e subsidiação da habitação para famílias carenciadas pelo programa ‘Minha Casa, Minha Vida’; investimento na formação, nomeadamente no Ensino Superior, passando de 3 para 8 milhões de diplomados; reconhecimento dos direitos dos povos indígenas, afro-descendentes e das comunidades tradicionais, defesa do meio ambiente; e, na política externa, diversificação de parceiros comerciais, nomeadamente com os BRICS; relativa diminuição de dependência e afirmação de soberania face aos EUA de Donald Trump, arauto da doutrina Monroe e práticas gangsterianas na América Latina e no Mundo; solidariedade com países e povos agredidos como Cuba, Venezuela, Irã e sobretudo Palestina, vítima de genocídio por Israel e EUA.

Perante uma sociedade perpassada de profundas desigualdades socio-espaciais (de classe, étnico-raciais e de género) e perante estes dois quadros traçados, coloca-se a pertinente questão: como e porquê 58 milhões de brasileiros/as votaram em Jair Bolsonaro em 2018 e em 2022 e agora de novo 56 milhões em 2026 no filho Flávio? Como explicar o problema da discrepância entre as reais condições objetivas de vida degradadas das classes populares e a votação maciça não só das elites e de classes intermédias mas também de parte das classes populares pobres nomeadamente no Centro-Oeste, no Sul e Sudeste do Brasil?

Tal não ocorreu porque o povo brasileiro possua um arquétipo essencialista de passividade ou de sentimento masoquista – pois há exemplos de movimento e luta contra ditadura e por direitos laborais e sociais – nem tão pouco por fruir, na generalidade, de uma vida folgada conducente à acomodação passiva, mas certamente porque pessoas trabalhadoras e pobres, ressentidas e desesperadas mas sem consciência da classe a que objetivamente pertencem.

As pessoas são manipuladas por narrativas dos media hegemónicos (Record, SBT, Band, Globo, corresponsáveis do velho ‘antipetismo’ e favoráveis a Flávio Bolsonaro), por fake news de redes sociais dominadas pelos algoritmos das Big-Techs sediadas nos EUA e sobretudo pelo controle manipulativo e alienante, por parte de caciques, patronos, sobretudo grande parte de pastores evangélicos neopentecostais, que capturam as vidas das famílias pobres a nível não só espiritual como de sobrevivência existencial e, consequentemente, na orientação político-eleitoral.

Se adicionarmos a crescente incorporação institucionalizada da vida político-partidária das esquerdas, nomeadamente do PT, parte considerável da população trabalhadora e pobre, sentindo-se desamparada, socorre-se de pastores evangélicos para não piorar a situação, sobreviver e não morrer de fome em nome da segurança socio-económica mínima (safety first).

Isso converge com a tese sustentada por teóricos da ‘economia moral’ (Thompson, Wolf e Scott), enquanto conjunto de experiências e sentimentos de injustiça enraizados nas suas condições materiais de existência, sem organização e apoio suficiente de forças de esquerda e do próprio Estado social e, ainda por cima, rotulados de ‘gado’ ou, pior, de ‘fascistas’ por certos urbanitas  de esquerda. Que fazer?

Dado estar em causa o dilema entre democracia/soberania e retrocesso/barbárie, há que  aproximar-se com compreensão e respeito junto de eleitores abstencionistas (33 milhões) e inclusive junto de votantes pobres, esclarecendo-os das consequências nefastas da eleição de Flávio Bolsonaro para suas vidas: perda ou destruição de direitos sociais e laborais, alteração da Constituição de 1988, perda de soberania e subjugação face aos EUA, maior insegurança face ao reforço de milícias e crime organizado, total captura das instituições estatais para interesses privados.

Apesar do cenário complicado, se cada um/a, para além do uso das redes sociais, se envolver de modo comprometido na rua, nos locais de trabalho e de residência, poder-se-á ainda virar o jogo e ter de novo Lula como Presidente!

 

Fonte: Por Manuel Carlos Silva, em A Terra é Redonda

 

Os desafios do SUS — e o que crise do sistema de saúde britânico pode ensinar

A médica brasileira Ana Luíza Gibertoni Cruz conhece de perto os dois lados de uma comparação frequente entre sistemas públicos de saúde. Formada no Brasil, fez residência no Instituto de Infectologia Emílio Ribas, em São Paulo, e trabalhou na atenção primária do SUS em postos de saúde de Campinas, no interior do Estado. Em 2012, se mudou para o Reino Unido e, desde então, trabalha no NHS, o sistema público de saúde britânico que serviu como uma das referências para a criação do SUS. Hoje, atua em um hospital de Oxford, em uma unidade que tenta solucionar um dos problemas mais graves enfrentados pelo NHS: como dar atendimento primário adequado à população sem sobrecarregar ainda mais prontos-socorros e hospitais.

O sistema que durante décadas foi motivo de orgulho para os britânicos atravessa uma de suas maiores crises. Em 2025, o governo lançou um plano de dez anos para tentar reformá-lo, baseado em três grandes mudanças: transferir parte do atendimento dos hospitais para as comunidades, acelerar a digitalização e ampliar o foco na prevenção de doenças. Para Ana Luíza, as dificuldades enfrentadas hoje pelo NHS são resultado de uma combinação que também traz alertas para o Brasil: anos de baixo crescimento dos investimentos, aumento da demanda e uma população que vive mais, mas passa mais tempo convivendo com doenças crônicas. "A crise atual me parece o resultado de mais de uma década de restrição de investimentos, em conjunção com o aumento da expectativa de vida, em que temos pessoas vivendo mais, mas não necessariamente anos com saúde", diz a médica.

Os paralelos entre os sistemas britânico e brasileiro têm raízes históricas. Quando o Reino Unido criou o NHS, em 1948, estabeleceu um dos modelos mais conhecidos de saúde universal do mundo. Quatro décadas depois, o Brasil se inspirou em experiências como a britânica para criar o SUS. Especialistas ouvidos BBC News Brasil apontam que alguns dos desafios que hoje pressionam o sistema britânico tendem a ganhar peso também no Brasil. E dizem que tanto os acertos quanto as dificuldades enfrentadas pelo Reino Unido podem oferecer lições sobre como se preparar para eles. Longas esperas por atendimento primário, desigualdades regionais e falta de profissionais são alguns dos obstáculos comuns atravessados por ambos os modelos hoje. O dilema de como obter mais financiamento para a saúde pública ao mesmo tempo em que se gerencia bem os fundos já disponíveis também aproxima realidades que podem parecer bastante distantes à primeira vista. Tudo isso em um momento de profunda mudança demográfica, com um acentuado aumento da demanda puxada pelo envelhecimento da população.

<><> Como reduzir desigualdades?

Apesar de universais, tanto o SUS quanto o NHS enfrentam dificuldades para garantir que todos os pacientes tenham o mesmo acesso e a mesma qualidade de atendimento independentemente de onde vivem. Filas, disponibilidade de profissionais e acesso a exames e tratamentos especializados podem variar significativamente entre diferentes regiões dos dois países.

No Reino Unido, os serviços oferecidos nas quatro nações constituintes — Inglaterra, Escócia, País de Gales e Irlanda do Norte — são distintos devido à natureza descentralizada do NHS, mas também têm hoje diferenças significativas em financiamento e desempenho. Dados mais recentes mostram, por exemplo, que o País de Gales gastava mais por habitante que a Inglaterra, mas apresentava filas maiores. Dentro da Inglaterra também há contrastes significativos. Em setembro de 2025, por exemplo, a lista de espera para tratamento eletivo na Grande Manchester era oito vezes maior do que a registrada na região da Cornualha e Ilhas Scilly, no sudoeste do país.

Ana Luíza Gibertoni Cruz diz vivenciar de perto essa desigualdade em seu dia a dia como médica infectologista e clínica geral no Hospital John Radcliffe, em Oxford, cidade localizada a cerca de 90 quilômetros de Londres. A brasileira reconhece que o município em que trabalha fica em uma região extremamente privilegiada, com mais recursos do que muitas outras pelo país. "A desigualdade não para de crescer e percebemos isso, por exemplo, no tipo de paciente e no tipo de problema que chega no hospital", diz. Ana atua especificamente na Unidade de Avaliação Aguda (ou AAU, na sigla em inglês) do Hospital John Radcliffe. Criada em 2010, esse tipo de clínica se especializa no atendimento rápido de pacientes com condições médicas urgentes.

Um dos pilares do NHS é o sistema de general practitioners (GPs), médicos generalistas que funcionam como a principal porta de entrada do serviço de saúde. Em geral, o paciente precisa procurar primeiro seu GP, responsável por acompanhar seu histórico clínico, oferecer atendimento inicial, monitorar doenças crônicas e decidir se há necessidade de encaminhamento para exames ou especialistas.

As AAUs foram criadas para atuar em parceria com esses médicos, servindo como uma porta de entrada para pacientes encaminhados por eles, além de outros que chegam via ambulância ou são transferidos de pronto-socorros mais lotados. A médica brasileira explica que o serviço oferecido nessas unidades é totalmente voltado para estadias curtas, com o objetivo de poupar leitos em hospitais maiores ou grandes departamentos de emergência. Ali, após uma triagem rápida, realização de exames e estabilização, o paciente recebe alta para casa ou é transferido para uma enfermaria especializada conforme a necessidade de internação prolongada, diz.

"Atendemos de 1.500 a 1.700 pacientes por mês", diz. "O modelo de hospital custa muito caro e acaba sendo ineficiente também."

No Brasil, o SUS implementou as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) em 2007 com um objetivo similar. Mas os as UPAs e as AAUs são um pouco diferentes, diz Maitê Gadelha, outra médica brasileira que acompanha de perto os dois modelos. "A UPA é uma unidade de atendimento aberto, em que qualquer paciente pode chegar para ser atendido", diz. "Já esse modelo britânico é como um departamento. dentro dos hospitais para tratar coisas mais rápidas." Hoje responsável técnica pela UPA (Unidade de Pronto Atendimento) do Rio das Pedras, Maitê Gadelha cursou um Mestrado em Saúde Pública pela Universidade de Edimburgo e comparou NHS e SUS durante seus estudos. Segundo ela, os dois sistemas são muito mais parecidos do que se imagina. A médica ressalta, porém, que o desafio brasileiro diante da desigualdade é muito maior devido à extensão do território, à população — que é aproximadamente três vezes maior — e aos obstáculos criados pelo financiamento deficitário em algumas áreas. Mas ela também aponta muitas congruências. "Tanto no SUS como no NHS existem muitas diferenças em termos do tamanho das filas, por exemplo, mas também dos desafios enfrentados. O que um profissional encontra na Escócia e no País de Gales é muito diferente, assim como é em São Paulo e em Belém do Pará", diz.

Para Walter Cintra, professor de Gestão em Saúde da FGV, um dos maiores desafios do SUS hoje é aprofundar a regionalização para garantir que pacientes do interior tenham acesso a serviços especializados sem precisar enfrentar desigualdades em relação aos grandes centros urbanos. O Brasil já é visto como exemplo para o resto do mundo por sua Estratégia Saúde da Família (ESF). Esse modelo, implantado em boa parte do território nacional, depende do trabalho dos agentes comunitários de saúde, que visitam as casas das famílias e fazem um acompanhamento de sintomas, incômodos, doenças crônicas e outros aspectos que podem impactar a vida e o bem-estar das pessoas. Mas segundo especialistas, a regionalização de verdade, com ampla descentralização e autonomia para gestores locais e contratos de desempenho, ainda precisa ser mais trabalhada.

Essa é justamente uma das bases do plano lançado em 2025 pelo Reino Unido para reformar o NHS: mais investimentos para a criação de uma rede de serviços de bairro e maior oferta de atendimento perto da casa dos pacientes. A ideia é que o grande foco dos atendimentos passem a ser os centros de saúde locais e os GPs, ao invés dos grandes hospitais. O britânico Andy Brooks, presidente da National Association of Primary Care (Associação Nacional de Cuidados Primários, ou NAPC, na sigla em inglês), explica que o país ainda depende muito do trabalho dos grandes hospitais, que acabam recebendo mais financiamento, profissionais capacitados e novas tecnologias do que as clínicas de bairro. Para tornar o acesso mais universal e distribuir melhor as demandas, diz, é preciso aproximar o atendimento dos cidadãos.

Segundo Brooks, sistemas organizados em torno das necessidades de cada comunidade, e não das estruturas burocráticas de diferentes instituições, tendem a funcionar melhor. Isso permite adaptar melhor os serviços à realidade local e evitar duplicações de atendimento. Um modelo mais próximo das comunidades também ajuda a reduzir as desigualdades entre diferentes regiões do país, permitindo, ao mesmo tempo, a adaptação local, afirma o especialista, que também é pesquisador do The King's Fund, uma instituição de caridade independente que trabalha para melhorar a saúde no Reino Unido.

<><> Mais médicos ou melhor distribuição?

O Brasil também enfrenta um desafio que é específico da realidade local: a quantidade de médicos por habitante. Segundo a edição de 2025 da pesquisa Demografia Médica no Brasil, por exemplo, a região Sudeste possui 3,77 médicos por 1.000 habitantes, enquanto o Norte tem apenas 1,70, menos da metade. Para Maitê Gadelha, o problema não é necessariamente a falta de médicos, mas sua distribuição desigual pelo território e a necessidade de garantir melhor qualificação profissional. "Nós temos muitos profissionais formados, mas não temos tantos profissionais qualificados. Isso é um grande problema", diz. "Houve um aumento muito grande da quantidade de novos profissionais médicos formados no país. O que não acompanhou esse número de formação foi o número de vagas de residência, por exemplo."

No Reino Unido, o NHS sofre especialmente com a redução relativa dos médicos de atenção primária, os chamados GPs, segundo Andy Brooks. Segundo ele, o sistema acabou formando mais especialistas hospitalares do que profissionais voltados para a atenção básica, justamente a área considerada fundamental para prevenir doenças, coordenar cuidados e evitar hospitalizações. "Definitivamente, erramos na distribuição [dos médicos pelo país] e no treinamento", diz Brooks. "Há evidências de que investir em médicos generalistas melhora a qualidade de vida e reduz internações hospitalares." Maitê Gadelha aponta ainda uma dificuldade grande do NHS em reter profissionais devido à grande carga de trabalho e estresse.

Em dezembro de 2025, cerca de 100 mil postos equivalentes a tempo integral estavam vagos no NHS da Inglaterra, o equivalente a aproximadamente 6,7% de todas as vagas. Ao mesmo tempo, entre março de 2024 e março de 2025, quase 152 mil funcionários deixaram o serviço. Para tentar contornar o problema, uma das estratégias observadas é investir no bem-estar das equipes, com iniciativas voltadas para apoio à saúde mental do profissional e organização das agendas para reduzir a sobrecarga. Segundo Gadelha, o sistema britânico tem trabalhado para "conseguir manter o profissional no serviço, pensando na comodidade, benefícios e saúde mental", uma abordagem que considera mais avançada do que a adotada atualmente no Brasil. Para a especialista, o SUS poderia se inspirar nessas políticas de retenção de trabalhadores, sobretudo na atenção primária, onde o desgaste profissional e o burnout também são desafios frequentes.

<><> Longas esperas

Para o Reino Unido, reduzir a dependência dos hospitais e melhorar a distribuição dos profissionais de saúde significa também atacar um dos sintomas mais visíveis da crise: as longas esperas. Ana Luíza convive com elas no dia a dia. "Nos pronto-socorros aqui, casos não muito graves podem ficar a noite inteira para serem atendidos e às vezes nem chegam a ser vistos", afirma. Ela também menciona as esperas por atendimento especializado como um dos problemas do sistema.

Dados da Associação Médica Britânica (BMA), o sindicato e órgão profissional que representa médicos e estudantes de Medicina no país, indicam que, em agosto de 2026, 75% das pessoas que deram entrada em pronto-socorros foram internadas, transferidas ou receberam alta em até 4 horas. Mas segundo a organização, um dos sintomas mais evidentes das longas filas de espera nos serviços de emergência são os chamados 'atendimento de corredor', com pacientes nos departamentos de emergência passando cada vez mais tempo aguardando tratamento ou internação em espaços não clínicos, incluindo salas de espera, depósitos, filas de ambulâncias além dos corredores do hospital. Já em termos de cuidados secundários, como são chamados os serviços médicos de média complexidade prestados por especialistas e unidades especializadas, mais de 6,2 milhões de pacientes individuais estavam na fila aguardando tratamento em julho de 2026, segundo a BMA. O tempo médio de espera é de 12 semanas para o início do tratamento — um aumento significativo em relação ao tempo médio de espera pré-pandemia de covid-19, que era de 7,3 semanas em julho de 2019.

Em seu plano de reforma, o governo estabeleceu uma meta de 18 semanas para que todos os pacientes recebam tratamento especializado após encaminhamento da atenção primária. Mas cerca de 2,53 milhões de pacientes estão na fila de espera há mais do que isso. Para contornar o problema, o NHS tem investido em atendimento digital e virtual — além de em sua estratégia base focada em redes de serviço de bairro. Enfermarias virtuais, triagem remota e telemedicina para casos não urgentes foram implementadas desde 2021. O serviço inglês também conta muito com enfermeiros e farmacêuticos clínicos para cuidados na linha de frente, gerenciando doenças crônicas e prescrevendo medicamentos de forma eficaz.

O Nuffield Trust, um centro de estudos independente sobre saúde e assistência social, calcula que mais de 98 mil profissionais clínicos não médicos em todo o Reino Unido — incluindo enfermeiros, farmacêuticos e diferentes tipos de paramédicos — possuem licença para prescrever medicamentos, o que representa quase um quarto da força de trabalho qualificada para tal função em todo o país. Não é incomum, por exemplo, que um paciente procure o médico generalista atribuído a sua família pelo NHS com um caso simples e seja encaminhado para uma farmácia, onde pode se consultar e receber medicamentos. Remédios tomados de forma continua também são prescritos e ajustados pelos farmacêuticos associados às clínicas locais.

Atendimentos ginecológicos de rotina são conduzidos por enfermeiras especializadas e o acompanhamento pré-natal feito primordialmente por obstetrizes treinadas. A médica brasileira Ana Luíza Cruz cita ainda os fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais, que podem atender pacientes encaminhados diretamente pela triagem. Na atenção especializada, há ainda enfermeiros dedicados, por exemplo, a doenças crônicas específicas, diz. Para ela, contar com outros profissionais de saúde é também uma estratégia para lidar com a falta de mão de obra. Mas faz uma ressalva importante: a ampliação de atribuições só funciona com treinamento adequado, regulamentação e acesso a médicos como retaguarda para casos mais complexos. "A Inglaterra sempre teve o sistema de saúde bastante aberto às outras profissões, com foco muito multidisciplinar", afirma a infectologista. "No Brasil, tudo ainda ainda é muito focado no médico como autoridade final."

A também médica Maitê Gadelha nota que, uma diferença importante é que, no sistema britânico, a triagem inicial pode direcionar o paciente diretamente ao profissional mais adequado, em vez de colocá-lo automaticamente na fila para um médico. Ela vê aí uma lição para o Brasil, onde esses profissionais já existem, mas nem sempre estão disponíveis em todas as unidades e ou têm a mesma autonomia: "Por que um idoso que está com dificuldade para tomar uma medicação precisa ficar numa fila durante duas ou três semanas para uma consulta com o médico, se pode ser muito bem atendido pelo farmacêutico que vai poder explicar de forma didática como proceder?", questiona. Outro ponto importante levantado por Maite Gadelha é a gestão das filas: "qualificar" quem está na espera, em vez de simplesmente seguir a ordem de chegada. Para isso, considera fundamental fortalecer a atenção primária e os GPs como uma espécie de "porteiros" do sistema, responsáveis por avaliar quem são os pacientes que realmente deveriam estar ali.

Nesse sentido, Andy Brooks, do King's Fund, diz que houve recentemente uma redução das listas de espera no NHS que se deve, em parte, a uma revisão para determinar quem ainda precisava realmente estar na fila. "Não é que realizamos mais procedimentos, é que algumas pessoas saíram da fila", explica. Brooks menciona ainda a prática de oferecer incentivos financeiros a hospitais e clínicas que consigam aumentar sua atividade e melhorar os indicadores ao fim de cada ano. Segundo ele, a estratégia tem se mostrado efetiva, mas ainda restam dúvidas sobre a capacidade do NHS de sustentar a melhora dos indicadores em períodos em que não há nenhum tipo de bônus.

<><> Envelhecimento da população

Mas talvez uma das liç'oes mais valiosas que o NHS pode dar ao Brasil, segundo os especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, está relacionada à atenção ao envelhecimento da população. É entre os idosos que Ana Luíza observa com mais clareza como a crise da saúde extrapola as paredes dos hospitais no Reino Unido. Ela descreve situações de "internação social": idosos que não necessariamente precisam permanecer no hospital por razões médicas, mas que já não conseguem viver sozinhos ou dependem de um cuidador que também envelheceu e não consegue mais dar conta de suas necessidades.

Na região em que trabalha, parte desses casos é encaminhada para equipes comunitárias formadas inclusive por fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais. Elas podem avaliar o paciente em casa, fazer adaptações e acionar serviços de assistência social. Há ainda pacotes públicos de cuidados que podem prever visitas ao longo do dia para ajudar o idoso a tomar remédios, se alimentar, se limpar ou entrar e sair da cama. Segundo a médica brasileira, a crescente integração entre saúde e assistência social se tornou fundamental no país em que a população de mais de 65 anos cresceu cerca de 69% em 50 anos, chegando a quase 20% da população. Estima-se que até 2050 cerca de 1 em cada 4 pessoas no Reino Unido terá mais de 65 anos

Maitê Gadelha explica que uma população mais envelhecida significa lidar cada vez mais com pacientes que acumulam múltiplas doenças e necessitam de acompanhamento contínuo por diferentes profissionais, o que pressiona o sistema de saúde. "Quanto mais idoso mais probabilidade do paciente se tornar o que chamamos de multimórbido, ou seja, ter mais de um problema de saúde que precisa ser tratado", explica. "E o problema não é apenas a quantidade de problemas, mas a complexidade das patologias, justamente por essa interseção. E isso claramente vai gerar uma sobrecarga no sistema."

Andy Brooks, da NAPC, concorda que a demografia tem impacto sobre o sistema, mas diz que essa é apenas parte da explicação. "Frequentemente se fala sobre o envelhecimento da população, a maior fragilidade da população e o aumento da gravidade dos casos. Há algo disso, mas boa parte [da pressão] é impulsionada por novas tecnologias e tratamentos", afirma. Segundo Brooks, a medicina hoje consegue oferecer a um mesmo paciente uma variedade muito maior de intervenções do que há uma década. "Há 10 anos, as pessoas iam ao hospital e só podíamos fazer os procedimentos A, B ou C. Agora, podemos fazer também D, E e F", diz. "Isso está elevando muito os custos.

O alerta talvez seja ainda maior para o Brasil.

Martha Oliveira, médica que foi diretora da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e atualmente é CEO do Grupo Laços, voltado ao público 60+, ressalta que o país passa pela mesma transformação, mas de forma muito mais acelerada. Entre 2010 e 2022, o número de brasileiros com 65 anos ou mais saltou de 14 milhões para 22,2 milhões, um crescimento de 57,4% em apenas 12 anos. Em termos relativos, enquanto o grupo de mais de 65 anos cresceu cerca de 46% em relação ao total da população no Reino Unido nos últimos 50 anos, no Brasil ele cresceu 173% entre 1980 e 2022. Ou seja, o Brasil está envelhecendo muito mais rapidamente e com menos capacidade financeira e menos tempo para preparar seus sistemas de saúde e proteção social, diz Oliveira. "O NHS sempre foi visto como inspiração de um sistema público que funcionava bem. Só que com o envelhecimento e uma maior carga de custos, nem eles aguentaram", aponta. "E somos um país continental e muito mais pobre."

Por tudo isso, a especialista enxerga a experiência do NHS menos como uma previsão distante e mais como um alerta tardio sobre uma transformação que já começou no Brasil. "Daqui a pouco teremos 30% da população acima de 60 anos. E aí? Não temos estrutura de saúde, estrutura de calçadas, estrutura de transporte, estrutura de socialização, nada disso pronto para esse aumento." Apesar do cenário de pessimismo, Oliveira destaca dois aspectos das mudanças discutidas no Reino Unido que podem servir de exemplo: tecnologia e cuidado fora dos hospitais. "No Brasil seguimos a lógica de hospital para tudo: tive uma emergência, vou para o hospital, tem que fazer um exame, vou para o hospital, estou sentindo uma dor de cabeça, vou para o hospital", diz. "Mas os idosos precisam de cuidado básico e prevenção em casa, sem necessidade de deslocamento."

A brasileira Ana Luiza também vê o modelo de atendimento domiciliar e de assistência social britânico como um caminho. Fisioterapeutas e terapeutas ocupacionais são enviados às casas para análises periódicas e podem providenciar adaptações rápidas ou acionar a assistência social. Os idosos necessitados recebem os chamados "packages of care", pacotes de assistência adaptados ao grau de dependência do paciente. "São cuidadores que vão, a depender da necessidade, de uma a até quatro vezes ao dia atender em casa", diz Ana Luíza Gibertoni Cruz. As visitas podem ser curtas, mas ajudam em atividades essenciais, como medicação, limpeza da casa, higiene pessoal e alimentação. A médica destaca ainda o serviço de "hospital em casa", destinado a pacientes que precisam de cuidados de menor complexidade, como exames de sangue repetidos ou ajustes de medicação, que podem ser realizados na própria residência. Para ela, a articulação entre hospital, atendimento comunitário e assistência social funciona particularmente bem em sua região: "Temos uma rede muito boa já organizada na comunidade".

<><> Financiamento e governança

Mas nenhuma reforma é eficiente sem investimentos adequados e uma boa gestão, afirmam os especialistas. O que a experiência britânica sugere, segundo os especialistas, é que a pergunta não deve ser apenas quanto gastar, mas também como e onde gastar. A melhor forma de comparar Reino Unido e Brasil é olhando os investimentos feitos em saúde por habitante.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), em 2024, o Brasil gastava cerca de US$ 1.898 por pessoa em saúde, contra US$ 6.747 no Reino Unido. O gasto por habitante britânico era, portanto, cerca de 3,6 vezes o do brasileiro. "Seja lá o que formos fazer para reorganizar o SUS, o financiamento tem que ser resolvido primeiro. Não adianta, não tem mágica", diz Walter Cintra, da FGV, sobre a situação brasileira.

Para o especialista, além do SUS ser subfinanciado, administrar os recursos destinados à saúde no Brasil é mais complexo devido à própria estrutura federativa nacional. Municípios, Estados e União, ressalta, são entes federativos "em igualdade de condição": "Não há uma hierarquia, não há uma subordinação". Cintra também chama atenção para uma diferença adicional: no Reino Unido, diz, a maior parcela dos gastos com saúde está no sistema público, enquanto no Brasil boa parte dos recursos é privada e atende uma parcela menor da população.

Mas Andy Brooks também vê problemas no NHS, como as sucessivas reorganizações administrativas e dificuldade em fazer com que dinheiro e profissionais acompanhem as prioridades anunciadas pelos governos. O Reino Unido fala há décadas em transferir o atendimento para as comunidades, por exemplo, sem necessariamente transferir recursos na mesma proporção, diz. "Os hospitais ainda recebem a maior parte do orçamento, apesar das promessas de direcionar para as comunidades", diz.

Para Brooks, uma possível solução seria descentralizar parte das decisões financeiras: "delegar os orçamentos localmente" dentro das prioridades nacionais, aponta. A ideia é que cada região possa aplicar recursos conforme as necessidades da própria população, adaptando as prioridades definidas nacionalmente. Outra lição importante deixadas pela experiência britânica, diz Brooks, é evitar que governos confundam a apresentação de grandes planos com sua execução. Segundo o especialista, governo falham em não planejar a execução das medidas anunciadas em seus planos de reforma. É preciso, diz, reorganizar financiamento, profissionais e treinamento com antecedência para que as mudanças sejam entregues dentro dos mandatos previstos. "O problema não é o conceito da política. O problema é a implementação", diz. E acrescenta: é preciso também paciência para que políticas se transformem em mudanças na prática: "Saúde pública é algo realmente complexo. Não vai ficar tudo pronto em um ano."

 

Fonte: BBC News Brasil