quinta-feira, 4 de junho de 2026

João dos Reis Silva Júnior: Brasil, forma subordinada

Afirmar que o Brasil possui a dependência em sua forma acabada não significa dizer que seja o país mais pobre, mais atrasado ou mais frágil da América Latina. Exige outro nível de análise. O Brasil é forma acabada porque nele a modernização não aparece como ausência, mas como realização subordinada; não se manifesta apenas pela carência, mas pela combinação entre potência histórica e bloqueio estrutural; não se apresenta como simples atraso, mas como modernidade própria, intensa, desigual e continuamente impedida de converter começos em duração histórica. A dependência brasileira integra Estado, economia, fundo público, educação, universidade, ciência, cultura política, território, linguagem e subjetividade numa mesma arquitetura de subordinação.

A dependência, no Brasil, não é exterior à formação nacional. Não chega depois, como influência estrangeira sobre sociedade previamente constituída. Participa da própria gênese do país. O Estado brasileiro se formou antes da sociedade civil plena, da cidadania universal, da integração nacional democrática e da constituição de um povo politicamente reconhecido como sujeito de sua história. A sociedade nasceu dentro de uma forma estatal orientada para fora, organizada pela administração colonial, pela exploração do território, pela escravidão, pela apropriação privada do público e pela obediência ao comando externo. Por isso, desde o início, a dependência foi econômica, política, jurídica, simbólica, cognitiva e moral.

Essa anterioridade do Estado sobre a sociedade é decisiva. Em outras experiências latino-americanas, a dependência também produziu Estados frágeis, elites internacionalizadas, economias primário-exportadoras, golpes, endividamento e subordinação tecnológica. Mas, no Brasil, a forma estatal alcançou capacidade particular de organizar a desigualdade como normalidade. O Estado não apenas administrou a dependência; traduziu-a em ordem. A escravidão tornou-se fundamento econômico; o patrimonialismo, prática administrativa; a conciliação, método político; a modernização conservadora, ideologia nacional; a educação, pedagogia da adaptação; a universidade, promessa crítica atravessada por precarização; e o fundo público, campo de disputa entre direitos sociais e reprodução do capital.

O Brasil é a dependência em sua forma acabada porque sua modernização jamais eliminou o arcaico. Ao contrário, reorganizou-o. Esse é o ponto decisivo herdado de Francisco de Oliveira: o arcaico não é resíduo exterior ao moderno; é funcional à modernização dependente. O país industrializou-se sem democratizar plenamente a terra, urbanizou-se sem universalizar direitos, expandiu a escola sem superar a desigualdade educacional, criou universidades públicas de excelência sem garantir permanência para todos, produziu ciência avançada sem consolidar soberania tecnológica e construiu uma Constituição cidadã sem proteger o fundo público da captura financeira. A forma brasileira da dependência consiste em produzir avanço e interrupção dentro do mesmo movimento.

A dependência brasileira é acabada porque não se apresenta como paralisia. O país se move muito. Produz instituições, universidades, políticas públicas, indústria, agronegócio, pesquisa, cultura crítica, literatura, música, movimentos sociais, sistemas públicos complexos e pensamento original. Mas esse movimento é submetido a interrupções, ajustes, golpes, contingenciamentos, endividamentos, avaliações externas, instabilidade institucional e captura financeira do futuro. O Brasil começa muitas coisas; sua tragédia histórica está em não proteger a duração dos processos que inicia. A dependência brasileira não é incapacidade de começar. É dificuldade estrutural de sustentar.

Por isso, o conceito de duração é indispensável. Duração não é lentidão, nostalgia ou recusa da modernidade. É o tempo social necessário para que a experiência amadureça em instituição, o conhecimento encontre linguagem, a política pública produza continuidade, a universidade forme gerações, a ciência crie escola, o território desenvolva projeto e o povo transforme presença em poder histórico. A dependência brasileira é acabada porque expropria essa duração em múltiplas escalas. O estudante entra na universidade, mas nem sempre encontra permanência. A universidade produz conhecimento, mas precisa provar produtividade antes que a pesquisa amadureça. O Estado reconhece direitos, mas os subordina ao ajuste fiscal. O futuro aparece, mas chega como cobrança.

É nesse ponto que o Brasil se torna forma-limite da modernidade dependente. Ele concentra, em grau elevado, a tensão entre potência e bloqueio. Não é periferia simples, país marginal sem instituições ou sociedade incapaz de pensamento próprio. Ao contrário, sua dependência se torna complexa exatamente porque há potência histórica real. O país possui massa territorial, população numerosa, diversidade regional, universidades públicas, sistema de pós-graduação, SUS, agricultura poderosa, indústria parcial, cultura de alcance mundial, tradição crítica e capacidade de formular projetos nacionais. Mas essa potência é continuamente reabsorvida por uma estrutura que a converte em promessa incompleta. O Brasil não é fraco porque nada produz; é dependente porque produz muito sem controlar plenamente as condições históricas de continuidade do que produz.

A forma mais visível dessa contradição está no Estado. O Estado brasileiro aparece como mediador entre promessas universais e limites estruturais. Afirma direitos, mas administra escassez; proclama cidadania, mas regula desigualdade; sustenta universidades, mas as submete à precariedade; financia ciência, mas a interrompe em ciclos; reconhece a educação como direito, mas trata sua expansão como gasto; invoca soberania, mas adota parâmetros externos de legitimidade. A dependência torna-se acabada quando o próprio Estado nacional passa a operar como gestor interno de uma racionalidade que não controla.

Essa é a força do Dual da Dependência. O Brasil sustenta internamente fundo público, trabalho, riqueza social, produção cultural, território e inteligência nacional; mas legitima parte de suas decisões segundo parâmetros externos, financeiros, tecnológicos, epistêmicos e geopolíticos. De um lado, há energia social interna; de outro, racionalidade subordinada. De um lado, povo, território, universidade, ciência, cultura e trabalho; de outro, dívida, juros, metas, rankings, indicadores, agências, mercados e validações externas. A dependência brasileira é acabada porque essa contradição aparece como funcionamento normal do país.

O fundo público ocupa lugar central nessa arquitetura. Ele é o ponto em que a sociedade decide, materialmente, que futuro deseja sustentar. Quando financia educação, saúde, ciência, permanência estudantil, cultura, infraestrutura e direitos sociais, cria duração histórica. Quando é capturado por juros, dívida, renúncias regressivas, austeridade permanente e garantias ao capital fictício, antecipa o futuro e o entrega como rendimento. No Brasil, a disputa pelo fundo público revela a forma madura da dependência: a sociedade produz riqueza suficiente para imaginar outro destino, mas parte decisiva dessa riqueza garante uma ordem que limita esse destino.

O capital fictício intensifica essa forma. Ele não captura apenas dinheiro; captura tempo. Ao transformar expectativas futuras em ativos presentes, reorganiza política, universidade, pesquisa, orçamento e subjetividade. O Estado deve credibilidade; a universidade deve impacto; o pesquisador deve produtividade; o estudante deve desempenho; a política pública deve eficiência; o território deve rentabilidade; a vida deve justificar sua continuidade. O futuro deixa de ser horizonte e passa a funcionar como credor. Por isso o Brasil expressa a dependência em sua forma acabada: nele a financeirização se articula à escravidão não superada, ao patrimonialismo, à modernização conservadora, à desigualdade regional, à colonialidade do saber e à instabilidade democrática.

A educação mostra essa totalidade em escala sensível. Desde a formação colonial, a escola brasileira foi frequentemente organizada menos como emancipação do que como adaptação à ordem. A expansão educacional ocorreu, mas dentro de uma sociedade que naturalizou desigualdades profundas. A escola prometeu cidadania, mas muitas vezes ensinou obediência; prometeu mobilidade, mas selecionou segundo desigualdades anteriores; prometeu universalidade, mas distribuiu desigualmente as condições de apropriação da linguagem, da ciência e da cultura. A dependência se reproduz quando a educação oferece a forma do direito sem garantir sua duração material.

A universidade pública radicaliza essa contradição. Ela é uma das maiores criações do Brasil contemporâneo. Nela se produziram ciência, crítica social, formação docente, pensamento latino-americano, políticas públicas, tecnologia, arte, extensão, memória nacional e intelecto social. Mas ela vive sob tensão: depende do fundo público, sofre cortes, responde a avaliações, busca reconhecimento internacional e enfrenta produtivismo, precarização e instabilidade orçamentária. É, ao mesmo tempo, lugar da crítica e forma atravessada pela dependência. Nela se vê o país que poderia formar seu futuro e o país que exige prova de valor antes que o futuro amadureça.

A dependência brasileira também é cognitiva. O país aprendeu a validar parte de sua inteligência pela semelhança com o exterior. A universidade, a ciência e as políticas de avaliação frequentemente reconhecem como superior aquilo que se aproxima dos centros hegemônicos. Isso não nega a importância da circulação internacional do conhecimento. O problema surge quando a internacionalização deixa de ser diálogo e se torna critério de subordinação. Então o país passa a pensar-se com lentes que não produziu. A dependência cognitiva é forma refinada da dependência porque coloniza a linguagem: define o que conta como teoria, método, excelência, impacto, inovação e relevância. Quando uma sociedade perde o direito de nomear sua experiência, perde parte do poder de organizar seu futuro.

O Brasil é forma-limite porque condensa essa dependência cognitiva com produção intelectual fortíssima. Produziu Florestan Fernandes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro, Caio Prado Júnior, Raymundo Faoro, Sérgio Buarque de Holanda, Francisco de Oliveira, Ruy Mauro Marini, Lélia Gonzalez, Milton Santos, Antonio Candido, Paulo Freire, Dermeval Saviani e tantos outros. Não falta pensamento. Falta transformar essa inteligência em direção histórica dominante. A dependência brasileira é acabada porque convive com crítica poderosa sem permitir que ela reorganize plenamente o Estado. O país sabe muito sobre suas contradições, mas sua estrutura de poder absorve, neutraliza ou adia as consequências desse saber.

A dimensão territorial aprofunda o argumento. O Brasil não é apenas sociedade desigual; é totalidade de temporalidades desiguais. O Nordeste expressa longa história de futuro adiado e força cultural extraordinária. A Amazônia revela a duração longa da natureza e dos povos ameaçada pela aceleração extrativa. O Centro-Oeste mostra a modernização logística, agroexportadora e financeira do território. O Sudeste concentra indústria, finança, universidades, urbanização e compressão extrema do tempo social. O Sul apresenta densidade institucional relativa, também subordinada às dinâmicas nacionais e globais. O país inteiro é moderno, mas não da mesma maneira. Cada região expressa uma forma específica de dependência temporal.

Essa desigualdade regional ajuda a explicar por que o Brasil é mais acabado do que outros casos latino-americanos. O país reúne, dentro de si, quase uma síntese continental. Tem fronteira agrícola, metrópoles financeiras, Amazônia estratégica, universidades de ponta, periferias urbanas massivas, agronegócio globalizado, indústria incompleta, povos originários sob ameaça, capitalismo de plataforma, informalidade estrutural, Estado complexo, sistema jurídico sofisticado, democracia instável e cultura crítica vigorosa. O Brasil é quase uma América Latina condensada em escala nacional. Nele, as formas colonial, escravista, patrimonial, industrial, financeira, tecnológica, epistêmica, territorial e temporal da dependência aparecem justapostas, combinadas e integradas.

A democracia brasileira também revela essa forma acabada. O país produziu uma das Constituições mais generosas da região em direitos sociais, mas a realizou sob tutela fiscal, chantagem financeira, coalizões conservadoras e bloqueios institucionais. A democracia brasileira é chamada a funcionar dentro de limites que impedem a soberania popular de transformar plenamente a estrutura social. O voto existe, as instituições existem, os direitos existem, mas a capacidade de realizá-los historicamente é continuamente disputada. A dependência torna-se constitucional quando a igualdade é proclamada como princípio e administrada como exceção.

A conciliação é o método político dessa forma. O Brasil raramente rompe; acomoda escravidão e liberalismo, república e oligarquia, indústria e latifúndio, democracia e tutela militar, direitos sociais e austeridade, universidade pública e produtivismo, ciência e precarização, inclusão e endividamento. Essa capacidade de conciliar o inconciliável não é virtude nacional; é técnica histórica de conservação. A conciliação impede que as contradições cheguem ao ponto de ruptura transformadora. Preserva a ordem incorporando parcialmente aquilo que poderia negá-la. Por isso a dependência brasileira é tão resistente: ela se moderniza para continuar.

A escravidão está no centro dessa permanência. Não como passado encerrado, mas como forma social que organizou trabalho, propriedade, corpo, autoridade, violência e imaginação nacional. A abolição sem reforma agrária, integração social, reparação estrutural e democratização profunda produziu liberdade sem duração histórica suficiente. O ex-escravizado foi formalmente livre, mas não recebeu condições materiais para transformar liberdade jurídica em futuro social. Essa é uma matriz da dependência temporal brasileira: o direito aparece, mas sua duração é bloqueada; a promessa é proclamada, mas seu solo histórico é negado.

A mesma lógica reaparece na educação superior. O acesso se amplia, mas a permanência é insuficiente. O estudante entra, mas precisa trabalhar; matricula-se, mas ainda não domina a linguagem acadêmica; chega à universidade, mas não possui o mesmo tempo social acumulado que os grupos historicamente protegidos. A democratização, sem duração, corre o risco de virar estatística. A permanência estudantil não é política auxiliar; é a forma concreta da duração democratizada. Ela diz se a sociedade apenas abre a porta ou se sustenta a travessia.

Por isso, o Brasil tem a dependência em sua forma acabada: porque nele a interrupção não destrói a promessa; convive com ela. O país não é uma ruína simples. É uma promessa administrada. A universidade continua formando; a ciência continua produzindo; a cultura continua criando; os movimentos sociais continuam resistindo; a escola continua sendo disputada; a democracia continua reaparecendo; o pensamento crítico continua nomeando a totalidade. Mas tudo isso ocorre sob pressão de um regime que exige resultados antes da raiz, impacto antes do conhecimento, produtividade antes da formação, ajuste antes do direito e credibilidade antes da soberania.

Comparado a outros países latino-americanos, o Brasil não é necessariamente o mais dramático em cada indicador isolado. Há países com crises mais agudas, Estados mais frágeis, economias mais dolarizadas, rupturas institucionais mais explícitas ou dependência externa mais imediata. Mas o Brasil é a forma mais acabada porque combina escala, complexidade, potência e bloqueio. Sua dependência não é rudimentar; é sofisticada. Não se limita à exportação primária; atravessa indústria, finança, universidade, cultura, Estado, subjetividade e tempo. Não se reduz à dominação externa; articula elites internas, racionalidades importadas, fundo público nacional e subordinação global. Produz uma modernidade dependente em alta intensidade.

A categoria forma-limite permite compreender que o Brasil leva a dependência a um ponto extremo de inteligibilidade. Ele mostra aquilo que, em outros lugares, aparece de modo mais parcial. Mostra que a dependência pode conviver com instituições modernas; que a universidade pode ser crítica e subordinada; que a democracia pode existir e ser impedida; que o Estado pode reconhecer direitos e financiar sua própria limitação; que o futuro pode ser anunciado e sequestrado; que a modernização pode avançar enquanto conserva a desigualdade que deveria superar. O Brasil é forma-limite porque nele a dependência revela sua capacidade máxima de adaptação.

A resposta à pergunta inicial pode ser formulada com precisão: o Brasil tem a dependência em sua forma acabada porque nele a subordinação histórica se tornou arquitetura completa de organização da vida social. Essa arquitetura articula Estado anterior à sociedade, escravidão não superada em seus efeitos estruturais, modernização conservadora, patrimonialismo, conciliação política, fundo público capturado, capital fictício, dependência tecnológica, colonialidade do saber, universidade tensionada, desigualdade regional, democracia impedida e expropriação da duração. O resultado é uma sociedade de enorme potência histórica, mas pressionada a entregar frutos antes que suas raízes tenham tempo social suficiente para sustentar a árvore inteira.

A tragédia brasileira, contudo, não está apenas no bloqueio. Está também na consciência do bloqueio. O Brasil sabe que poderia ser outro. Sua literatura sabe, sua música sabe, sua universidade sabe, seus movimentos sociais sabem, sua ciência sabe, sua juventude sabe, seus professores sabem, seus povos originários sabem, sua população negra sabe, suas periferias sabem. A dependência brasileira é acabada porque o país não é ignorante de si mesmo; é impedido de realizar plenamente aquilo que já compreendeu. Essa distância entre consciência crítica e transformação histórica é uma das formas mais dolorosas da dependência.

Mas é também nessa distância que se abre a possibilidade crítica. Se o Brasil é a forma acabada da dependência, pode ser um dos lugares decisivos para pensar sua superação. Nele a dependência aparece em totalidade: econômica, política, social, epistêmica, territorial, institucional e temporal. O país permite ver que emancipar não é apenas crescer; é sustentar duração; não é apenas incluir; é garantir permanência; não é apenas financiar; é disputar o fundo público; não é apenas avaliar; é proteger o tempo do conhecimento; não é apenas produzir futuro; é impedir que ele seja capturado antes de nascer.

A dependência em sua forma acabada, portanto, não é destino. É diagnóstico. E diagnóstico rigoroso não paralisa; nomeia o ponto exato da luta. No caso brasileiro, a luta central é pelo direito histórico à duração: da escola pública, da universidade, da ciência, da cultura, da política social, da democracia, da linguagem crítica, da permanência estudantil, da soberania tecnológica, da imaginação popular e da vida comum. Enquanto o Brasil não conquistar duração para seus próprios processos, continuará sendo sociedade capaz de começar mundos que não consegue proteger até o amadurecimento.

O Brasil é a forma-limite da dependência latino-americana: não porque lhe falte futuro, mas porque seu futuro é antecipado, cobrado, administrado, endividado e interrompido. A sua grandeza está em seguir começando. Sua dependência está em não sustentar a continuidade de seus começos. A tarefa crítica é transformar começo em duração, duração em conhecimento, conhecimento em linguagem, linguagem em projeto histórico e projeto em futuro comum.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

'O Pix não sofre nenhuma ameaça', diz ex-diretor da OMC sobre relatório dos EUA

O anúncio de que o governo dos Estados Unidos pode retomar a imposição de tarifas sobre produtos brasileiros, ocorrido nos últimos dois dias, detonou uma disputa política entre os dois principais pré-candidatos à Presidência da República, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). Lula acusa Flávio de ter pedido a imposição de tarifas ao Brasil durante visita a Donald Trump, nos Estados Unidos, na semana passada. Do outro lado, Flávio Bolsonaro acusa o governo brasileiro de não ter conseguido negociar com os Estados Unidos de forma satisfatória. Mas embora a medida, caso implementada, possa afetar pelo menos 20% de todos os produtos exportados aos Estados Unidos, parte dos embates políticos tem se dado em torno de um ponto: o Pix. Lula vem usando o argumento de que os Estados Unidos seriam contra o Pix, mecanismo criado pelo Banco Central que permite transações financeiras instantâneas e gratuitas. Flávio, por outro lado, usa como argumento o fato de que o Pix foi lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro.

O documento divulgado pelo Escritório de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) na segunda-feira como resultado de uma investigação comercial fez diversas menções ao Pix, classifica o mecanismo como um "campeão nacional" e diz que ele representaria uma ameaça à atuação de empresas norte-americanas que atuam no segmento de meios de pagamento.

>>>> Confira os principais trechos da entrevista:

·        Qual é o impacto imediato desse anúncio em relação às tarifas para a economia brasileira?

Roberto Azevêdo - Voltamos à situação que vivíamos antes de a Suprema Corte norte-americana derrubar as tarifas em janeiro deste ano. O que está acontecendo agora é que aquelas tarifas estão sendo reintroduzidas em um patamar mais baixo. Até janeiro, as tarifas estavam num patamar de 40%. Agora, estão sendo reintroduzidas a 25%. Antes, era exorbitante, mas ainda é muito alto.

·        Quão prejudiciais essas tarifas podem ser para a economia brasileira?

Azevêdo - Já eram bastante prejudiciais e continuarão sendo por vários motivos. Não apenas por fechar o mercado americano, mas por impedir a integração de determinados segmentos da cadeia produtiva brasileira nas cadeias de valor globais que passam pelos Estados Unidos. Os Estados Unidos são um mercado no qual o Brasil consegue vender produtos de alto valor agregado, ao contrário das nossas exportações para a China, para onde nós vendemos muitas commodities. Nos Estados Unidos, vendemos máquinas, equipamentos, produtos acabados e semimanufaturados. É um mercado muito especial e esse mercado vai se fechando progressivamente.

·        O governo alega que havia uma negociação em curso, com um prazo de 30 dias que ainda não havia esgotado. Houve uma quebra de confiança na negociação?

Azevêdo - Essa negociação vinha acontecendo de maneira muito incipiente. Todas as informações que eu tenho são de que houve um ou dois contatos muito superficiais. Foram contatos em alto nível, entre o Jamiesson Greer (secretário de Comércio dos EUA) e nosso ministro da Indústria e Comércio (Márcio Elias Rosa). Mas é muito difícil chegar a resultados que alterem o contexto da decisão que foi proposta com negociações nesse estágio de tratativa. Precisaríamos ter algo mais avançado, uma coisa mais palpável e isso não estava presente. A proposta de adoção de medidas da forma que foi formulada não surpreende.

·        O que resta ao governo brasileiro fazer para evitar que essas sanções sejam de fato impostas?

Azevêdo - Sobretudo, negociar, que é o que todos os outros países estão fazendo. Eu vejo algumas pessoas no Brasil falando em retaliação, em usar a lei de reciprocidade. Até podemos fazer, mas, francamente, nenhum outro país fez isso até hoje. Só a China. Mas a gente não pode comparar o poder de fogo da China com o brasileiro. A China fez isso e conseguiu fazer com que os Estados Unidos repensassem muito do que eles vinham fazendo. Mas a China é um mercado que é fundamental para os Estados Unidos. O Brasil não é. O Brasil não terá nenhuma capacidade de fazer os Estados Unidos reverem as suas estratégias por meio de retaliações ou medidas de reciprocidade. A gente tem que tomar cuidado para não deixar o discurso eleitoral ganhar o jogo e prevalecer sobre os interesses concretos e os interesses comerciais da economia brasileira [...] O importante é ter a cabeça fria, negociar e procurar reduzir o impacto econômico, comercial e social no Brasil da melhor maneira possível e não criar animosidade e um clima de polêmica ou de guerra com fins estritamente eleitorais.

·        Na sua avaliação, é isso que o presidente Lula tem feito?

Azevêdo - Não sou eu que vou julgar qual é o impacto. Estou apenas dizendo que é necessário que nós tenhamos muito presente o fato de que quem vai pagar a conta desse atrito e dessa não convergência serão as empresas brasileiras, os trabalhadores brasileiros que estão empregados e que vão, possivelmente, perder o emprego ou ter seus salários afetados por essa situação de embate com os Estados Unidos.

·        O presidente Lula tem atribuído esse anúncio à atuação política do senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro. Qual é a sua avaliação em relação a isso? Qual é a responsabilidade que ele teve nisso?

Azevêdo - Acho que na parte política os políticos que se entendam. Haverá acusações de parte a parte. Um lado vai dizer que o outro não quer negociar. O outro vai dizer que o outro lado foi quem provocou isso. Essas acusações, para mim, não resolvem o problema e não vão levar adiante medidas e ações que possam reduzir o impacto contra a nossa economia.

·        O Brasil tem negociado bem com o governo dos Estados Unidos ou o anúncio dessas tarifas mostra que não e que o governo falhou em tentar uma negociação?

Azevêdo - A negociação depende de dois lados. É preciso que os dois lados queiram negociar e eu não tenho muita certeza de que os dois lados tenham feito o necessário para engatar, efetivamente, uma negociação que levasse a um desfecho positivo ou mutuamente satisfatório. As negociações poderiam ter sido encaminhadas de uma maneira mais assertiva, mais construtiva, mais inovadora, mais criativa. Não acho que isso tenha acontecido e não vai ser agora, na reta final, que nós vamos conseguir mudar esse quadro de uma maneira muito significativa. Eu, particularmente, não acredito que isso vá acontecer.

·        Mas, embaixador, objetivamente, houve falha do governo brasileiro nesse processo? E se sim, qual?

Azevêdo - Acho que os dois governos não demonstraram o empenho necessário para resolver esse problema de forma negociada.

·        E por que motivo o governo brasileiro faria isso?

Azevêdo - Aí você deve perguntar para o governo brasileiro, não para mim.

·        Há uma disputa de narrativas para saber quem foi o responsável por isso. Na sua avaliação, o senador Flávio Bolsonaro tem responsabilidade sobre isso ou quem tem responsabilidade sobre isso é o presidente Lula?

Azevêdo - Quem tem mais responsabilidade sobre isso é o presidente Trump. Foi ele quem tomou a decisão de adotar essas medidas para reindustrializar os Estados Unidos, para trazer investimentos para dentro dos Estados Unidos, para arrecadar recursos e arrecadar fundos para viabilizar programas de incentive fiscal que ele vem adotando em outras áreas. É uma decisão que não afetou apenas o Brasil, mas também outros vários países.

·        O relatório que foi divulgado pelo escritório comercial dos Estados Unidos faz muitas menções ao Pix. Por que é que há essa ênfase tão grande na ferramenta Pix?

Azevêdo - Não tem uma ênfase diferente das demais. São seis temas que eles levantam. No relatório tem corrupção, desmatamento, etanol, tem propriedade intelectual, plataformas digitais. O Pix é uma delas. Não vejo nada de excepcional no tratamento que eles dão ao Pix. Pelo contrário, eles alegam que o problema do Pix não é o Pix em si, mas a forma como o Pix é administrado, porque ele é administrado pelo próprio órgão regulador que é o Banco Central. O questionamento é sobre o fato de que é o órgão central que impõe as regras sobre os concorrentes do Pix, que vêm a ser, por exemplo, Visa, Mastercard, etc. No Brasil, está se fazendo muito alarde em torno do Pix, mas não acho que o Pix vai sofrer nenhuma alteração. Eles (os EUA) não vão pedir nada disso. O que eles gostariam é que o Pix fosse administrado de forma diferente e o pedido pode ser ou não atendido pelo Brasil.

·        Na sua avaliação, o Pix sofre algum tipo de ameaças?

Azevêdo - Não, a meu ver, não. O Pix em si não sofre nenhuma ameaça.

·        Mas qual é o interesse dessas grandes empresas em relação ao Pix?

Azevêdo - O Pix aumentou a capacidade do consumidor brasileiro participar nas plataformas digitais nacionais. Nós, no comércio eletrônico e várias outras formas de engajamento econômico. Eles próprios reconhecem isso. O que eu ouço com frequência é o fato de que o Pix é operado pelo Banco Central e o Banco Central é o agente regulador. Portanto, seria desleal com os competidores do Pix o fato de que o Pix é operado pelo próprio agente regulador. Essa é a queixa que eu ouço e é isso que eu entendo que está sobre a mesa.

·        A questão do Pix vem sendo utilizada de forma política?

Azevêdo - Eu acho que tudo está sendo explorado de forma política, por um lado ou pelo outro lado. É inevitável. Estamos em um ano eleitoral. É claro que essas coisas vão ser exploradas do ponto de vista eleitoral. Seria absolutamente impensável que não fossem exploradas. O que nós não podemos é perder a perspectiva do impacto real sobre a economia.

·        Há possibilidade de o governo recorrer à OMC, ser contra essas tarifas e qual a capacidade da OMC de resolver uma disputa como essa hoje?

Azevêdo - Tanto o Brasil quanto outros países já recorreram à OMC, mas como todos nós sabemos, o órgão de solução de controvérsias da OMC está inoperante e, portanto, não vai levar a nenhuma consequência prática. Levar o tema à OMC tem sempre o poder de elevar a visibilidade do assunto e questionar a legitimidade dessas medidas. Mas não podemos esperar um resultado juridicamente efetivo na OMC. Isso seguramente não irá acontecer.

¨      EUA ameaçam taxar Brasil por trabalho forçado na pecuária e governo Lula diz que pode adotar reciprocidade

O governo dos Estados Unidos incluiu o Brasil em uma lista de 59 países, além da União Europeia, que "não conseguiram" proibir a importação de bens produzidos com trabalho forçado — e que, segundo as autoridades americanas, devem ser sujeitos a mais tarifas retaliatórias por causa disso. O Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR, na sigla em inglês) propõe que o Brasil e outros 53 países citados no relatório recebam tarifas adicionais de 12,5%. Outras seis economias devem receber taxação de 10%. Não está claro se essas tarifas se adicionam a outras já em vigor — e como elas se aplicariam em relação a listas de exceções.

O governo brasileiro manifestou "profunda discordância" com a inclusão do país na lista. "É lamentável que tema tão relevante como o da proteção de condições dignas para milhões de trabalhadores e trabalhadoras seja desvirtuado para servir de justificativa a medidas protecionistas unilaterais", afirmou o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em nota publicada na tarde de quarta-feira (3/6). "A Organização Internacional do Trabalho (OIT) reconhece há décadas o Brasil como referência internacional no combate ao trabalho forçado, graças à combinação de fiscalização, responsabilização, cooperação institucional e compromisso político", destacou ainda a pasta.

O MDIC afirmou também que o Brasil pode recorrer à Lei de Reciprocidade para responder a "situações de injustiça contra o Estado brasileiro, sem amparo nas regras do comércio internacional" e reafirmou a expectativa de que as recomendações preliminares do USTR não se convertam em tarifas efetivas. No caso do Brasil, o relatório do USTR destaca o fato de "pesquisas independentes" sugerirem que "pecuaristas brasileiros constam na chamada 'Lista Suja'" (leia abaixo na reportagem). A BBC News Brasil entrou em contato com associações que representam a pecuária brasileira, mas ainda não houve manifestação sobre o novo relatório.

Os EUA ainda estão em fase de consulta sobre essas medidas. O USTR realizará uma audiência pública sobre sua proposta em 7 de julho. "O fracasso dos nossos parceiros comerciais mais importantes em abordar a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado é inaceitável. Isso cria uma dinâmica em que os trabalhadores americanos são forçados a competir globalmente em condições desiguais", disse o representante-geral de Comércio dos EUA, Jamieson Greer. "Não toleraremos mais essa disparidade. Alguns parceiros comerciais já tomaram medidas iniciais para impedir a importação de mercadorias produzidas com trabalho forçado [...]. No entanto, cada um dos nossos parceiros comerciais deve fazer mais para garantir que o comércio não incentive e perpetue o trabalho forçado em nível global."

A investigação foi feita em praticamente todos os parceiros comerciais dos EUA. As 60 economias sob investigação representam mais de 99% da pauta de importações dos EUA. Todas elas foram condenadas pela investigação — e receberam recomendação de imposição de tarifas retaliatórias. Entre os países, estão economias avançadas e aliados tradicionais dos americanos, como União Europeia, Reino Unido, Japão e Israel. Para seis economias — Canadá, União Europeia, Equador, México, Paquistão e Indonésia — a taxação proposta é de 10%, porque no entendimento americano elas possuem mecanismos, mas não realizam a fiscalização contra o trabalho forçado.

O anúncio do governo americano ocorre poucas semanas antes da expiração de uma tarifa de 10% que a Casa Branca havia imposto a dezenas de países após uma derrota na Suprema Corte em fevereiro, que derrubou o tarifaço inicial proposto pelo presidente americano Donald Trump. Essa tarifa fixa se baseava na Seção 122 da Lei de Comércio de 1974, mas tinha validade de apenas 150 dias. Algumas autoridades e especialistas acusam os EUA de buscar novas formas de manter o tarifaço de Trump, usando outros pretextos. "Como o tribunal considerou o regime tarifário [de Trump] ilegal, acho que está claro que os EUA estão buscando outras maneiras de restabelecer essa barreira tarifária, esse regime", disse o ministro do Comércio da Nova Zelândia, Todd McClay, ao jornal Financial Times. "Não estamos envolvidos em nenhuma forma de trabalho forçado".

O anúncio foi feito um dia depois que o mesmo USTR concluiu uma grande investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado — e disse que certas práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA". Na segunda-feira (01/06), o governo americano propôs tarifas retaliatórias de 25% a produtos brasileiros — mas essas medidas ainda não foram definidas e serão discutidas ao longo das próximas semanas até o dia 15 de julho.

<><> O que o relatório fala sobre o Brasil?

O Brasil é um dos 59 países (além da União Europeia) com uma seção específica no relatório. O país é mencionado 19 vezes no relatório de 98 páginas. "O USTR constatou que o Brasil não impôs nem aplicou efetivamente uma proibição de importação de produtos com trabalho forçado", diz o texto, cujas conclusões sobre o Brasil estão resumidas em três parágrafos.

O relatório diz que a falha em impor e aplicar efetivamente uma proibição de importação de produtos com trabalho forçado é "irrazoável" e "onera ou restringe o comércio dos EUA" — os mesmos termos usados na conclusão da investigação do dia anterior que condenou práticas comerciais usadas pelo Brasil e propôs tarifas de 25% aos produtos brasileiros. "Embora o Brasil alegue proibir importações produzidas com trabalho forçado por meio da implementação de seus compromissos em acordos de investimento e acordos de livre comércio, essas disposições não proíbem legalmente a importação de bens produzidos total ou parcialmente por trabalho forçado de outra economia para o mercado interno para venda", diz o texto. Essas conclusões sobre o Brasil são semelhantes às de outros países — com algumas variações no texto para cada um.

O Brasil aparece em outro trecho do relatório em um estudo de caso específico, sobre sua produção de carne bovina — ao lado de outros dois exemplos, sobre importação de arroz de Mianmar e de tabaco do Malauí. "Está bem documentado que o trabalho forçado é utilizado na produção de gado no Brasil", diz o relatório. "A lista TVPRA [uma lista do governo americano de produtos fabricados por meio de trabalho infantil ou trabalho forçado] afirma que há razões para acreditar que existe trabalho forçado na produção de gado no Brasil. Pesquisas independentes sugerem que pecuaristas brasileiros constam na chamada 'Lista Suja'."

A "Lista Suja" é um documento público divulgado pelo Ministério do Trabalho para dar visibilidade a fiscalizações do governo de combate ao trabalho escravo. Segundo o relatório americano, as exportações agrícolas americanas são afetadas por isso, já que tanto Brasil como EUA exportam carne bovina congelada para a China — com o Brasil se distanciando dos americanos na preferência dos chineses. "Durante o período de 2015 a 2025, o volume de exportações de carne bovina congelada do Brasil para as economias investigadas quase dobrou, em comparação com um aumento de 21% no volume exportado pelos EUA", diz o texto. "Como demonstram as importações de carne bovina congelada pela China, os efeitos negativos da concorrência com produtos provenientes de trabalho forçado sobre as exportações dos EUA não se limitam a bens manufaturados, podendo também afetar negativamente as exportações agrícolas americanas. Embora nem todas as importações chinesas de carne bovina congelada do Brasil sejam necessariamente produzidas com trabalho forçado, a prevalência dessa prática na produção pecuária brasileira sugere fortemente que ao menos parte dessas importações foi produzida total ou parcialmente com trabalho forçado."

<><> Tensões entre Brasil e EUA

O anúncio da conclusão americana sobre trabalho forçado aconteceu um dia após outra grande investigação sobre o Brasil, na qual o USTR propôs tarifas retaliatórias de 25% contra produtos brasileiros. As supostas práticas brasileiras condenadas pelo governo americano são relacionadas ao comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, tarifas preferenciais injustas, combate à corrupção, proteção da propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol e desmatamento ilegal. O governo americano ainda está recebendo consultas do público até o dia 1º de julho sobre as medidas. No dia 6 de julho, haverá uma audiência pública.

O representante-geral de Comércio dos EUA, Jamieson Greer, disse que teve "reuniões construtivas" que "se intensificaram nas últimas semanas" com os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump — e que espera dar continuidade a esse diálogo com o governo brasileiro até 15 de julho, antes de adotar qualquer medida de resposta. "No entanto, continuamos enfrentando divergências significativas na resolução das questões identificadas nesta investigação", disse Greer em nota.

No mesmo dia em que anunciou a medida, Trump fez uma publicação com o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Em uma das fotos, também aparece seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. "Foi muito bom ter Flávio Bolsonaro no Salão Oval da Casa Branca — um jovem inteligente que ama muito o seu país, o Brasil!", escreveu Trump na sua rede social Truth Social. Antes da publicação do presidente americano, Flávio afirmou em vídeo publicado nas redes sociais que é contra a imposição de novas tarifas para compra de produtos importados que os EUA planejam adotar contra o Brasil. "Sempre defendi as empresas brasileiras e, em qualquer oportunidade que tiver, vou continuar a defender nosso setor produtivo. Pedi expressamente ao presidente Trump para não taxar nossas empresas. Tarifa não é solução", disse Flávio na terça-feira. "Precisamos sentar de maneira séria na mesa de negociação, não com bravatas, como faz Lula."

Lula, por sua vez, atribuiu a conclusão das investigações americanas à atuação de Flávio e Eduardo Bolsonaro nos EUA.

O petista chamou os filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro de "vendilhões e traidores da pátria" ao reagir à nova ameaça do governo americano."Esses filhos do Bolsonaro conseguem ser pior do que ele. E são, na verdade, vendilhões da pátria. Foram pedir para que um país estrangeiro se intrometesse nas decisões brasileiras. É isso que vocês têm que dizer alto e bom som: são traidores", disse Lula.

O presidente brasileiro comentou que a reunião que ele teve com Trump no início do mês havia sido um "sucesso", mas que as negociações foram atrapalhadas. O presidente argumentou ainda que mostrou a Trump que os EUA não têm déficit comercial com o Brasil e mencionou a celebração da família Bolsonaro no primeiro tarifaço contra o Brasil.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

A língua "secreta" dos mineiros da cidade de Carlos Drummond

Uma cidade, um poeta. O nome de Itabira é quase indissociável de Carlos Drummond de Andrade. O escritor, nascido em 1902, na cidade de 113 mil habitantes na Região Central de Minas Gerais, revolucionou a língua portuguesa ao virar de cabeça para baixo os formalismos da poesia vigente até então. Mas o que pouca gente sabe é que naquele mesmo local surgiu uma outra revolução linguística: a Guinlagem do Camaco.

O surgimento dessa linguagem "secreta" está diretamente ligado ao contexto da exploração do minério na região. Foi dentro das minas itabiranas, no começo do século 20, que os trabalhadores encontraram uma forma de se comunicar sem serem entendidos pelos patrões, em grande parte ingleses. Era também uma maneira de dar um troco nos donos das minas, que falavam no idioma materno quando não queriam ser compreendidos pelos empregados.

À primeira vista, as regras são simples. O princípio do Camaco é inverter os fonemas das sílabas das palavras, embaralhando os sons e tornando as frases praticamente incompreensíveis para quem está de fora. "Sovê lafa guinlagem", por exemplo, é "Você fala linguagem?". "Guinlagem do Camaco" é "Linguagem do Macaco". Assim, famosa introdução do poema E agora, José, de Drummond, viraria "E aroga, Sujé?".

Mas nem tudo é lógica. Algumas palavras mais curtas se transformam em vocábulos que fogem a essa regra. "Não" vira "ônis". "Qualquer", "ualquiquelque".

Essa é a magia da linguagem para o músico Rafael Formiga, um falante do Camaco. "As palavras criam um sentido dentro de um fonema pela inversão. E nos lugares onde você vai falar, mesmo com alguma diferença, todo mundo se entende. Tem uns detalhes muito ricos de linguagem e ao mesmo tempo quem vê de fora não entende e fica meio perdido, porque é normal que a gente procure regra", diz ele.

"Isso demonstra uma capacidade de construção e de resistência incrível", explica o historiador e museólogo Paulo Assuero, também falante do Camaco. "Eram recém-libertos, em grande parte analfabetos. E tinham que dar soluções de como dizer as coisas que eles queriam sem que os ingleses entendessem. Virou uma provocação, expandiu", complementa o professor, também residente em Itabira.

Das minas de ferro, o Camaco tomou as ruas. Virou a língua que os filhos falavam para conversar entre si, sem que os pais entendessem – ou a que os jovens usavam para fazer piada com forasteiros.

"Nos anos 1960, 1970, quando chegava o pessoal de fora, essa coisa de interior, a gente ficava fazendo gozação com eles. Não entendiam nada", brinca Assuero, que também já surpreendeu alguns alunos dentro de sala com a fluência na língua. "Dois deles estavam colando na prova em Guinlagem de Camaco e achando que eu não sabia de nada. Depois que acabou a prova, chamei eles e falei em Camaco. Tomaram o maior susto", diverte-se o professor.

<><> A linguagem da resistência

Na casa de Mauro de Alvarenga, o Camaco já é uma tradição. "Meus pais falavam quando não queriam ser entendidos por mim e pelos meus irmãos – até que nós aprendemos. Mas eles tinham aprendido com meu avô, que era ferreiro e fazia peças para as locomotivas de mineração. Ele trouxe o Camaco para dentro de casa e foi passando de geração para geração", conta.

Nas mãos do cineasta Breno Alvarenga, filho de Mauro, a história da linguagem secreta da cidade de Drummond acabou virando tema do documentário Camaco (2022), premiado no Festival de Gramado nas categorias "Melhor Curta Júri da Crítica" e "Melhor Montagem". O filme reconstrói o caráter de resistência da linguagem entre os trabalhadores da mineração.

"O Camaco nasce de um contexto muito politizado, de muita resistência. Funcionava também como forma de organizar greves, pedir aumentos, sem que fossem boicotados desde o começo", explica Breno.

"Foi uma subcultura de sujeitos mais subalternizados, marginalizados e que por isso demorou muito a ser valorizado, porque a elite não vinha uma riqueza naquilo.  Os pobres se comunicavam, mas os poderosos não entendiam. Isso é muito raro, porque geralmente a linguagem aparta as pessoas e são geralmente os mais ricos que conseguem acessar novas linguagens, não os mais pobres. Ela começa dessa inversão", ressalta o diretor de cinema itabirano.

De acordo com o linguista e pesquisador Geuderson Marchiori, que pesquisou o tema na sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), o Camaco pode ser considerado uma linguagem secreta ou até mesmo um jargão técnico.

No entanto, segundo ele, que rastreou falantes até a década de 1920, há uma função similar à de um quilombo. "A linguagem possibilita a convergência dessas populações minorizadas, que utilizam o Camaco como um território de luta e resistência. Embora o senso comum aponte o quilombo como um local de negros escravizados em fuga, o quilombo é um local de reorganização, de segurança, onde essas populações puderam se libertar da exploração e se reorganizar para resistir", complementa.

Marchiori explica também que o termo "macaco" em "Guinlagem do Camaco" pode ter uma conotação racista, mas que há outras interpretações para o nome.

"Tem quem diga que o Camaco é a linguagem relacionada à esperteza que os macacos teriam, a esse jogo de cintura, a essa performance de pular de galho em galho sem ser apanhado, sem cair. Existe ainda uma possibilidade de relacionar o nome da linguagem aos pequenos heróis, que são os pequenos animais muito presentes nas narrativas de origem africana, que são sempre os bichos menores, vistos como mais fracos, que se sobressaem pela esperteza."

<><> Drummond falava Camaco?

Apesar de terem surgido na mesma cidade e no mesmo período, Camaco e Drummond vinham de duas Itabiras diferentes. A linguagem, das minas e dos operários. O poeta, filho de fazendeiros, de uma parte da elite, mesmo que não ligado diretamente à atividade minerária. Talvez por isso, até hoje não foram encontradas citações do Camaco em crônicas ou poemas de Carlos Drummond de Andrade.

"Naquela Itabira, a linguagem do Camaco era muito desvalorizada. Na maioria das vezes, era falada por pessoas negras. Foi uma subcultura de sujeitos mais subalternizados, marginalizados e que por isso demorou muito a ser valorizado, porque a elite não via uma riqueza naquilo", diz Breno de Alvarenga.

Drummond também não ficou muito tempo em Itabira. Aos 18 anos, deixou definitivamente a cidade natal, mudando-se primeiro para Belo Horizonte e, depois, para o Rio. Mas, como ele mesmo dizia em entrevistas, aquele lugar estava sempre presente, como "uma fotografia na parede".

<><> E agora, Itabira?

Atualmente, a cidade mineira – e mineradora – passa por uma crise existencial. Com mais de 80% da economia dependente da atividade, Itabira agora tem que lidar com o fim da exploração do minério cada vez mais perto. De acordo com as estimativas mais recentes, as minas da região serão paralisadas em 2052.

"Fica essa relação. A cidade depende da mineração, do PIB. Mas também de algo além disso, porque tudo acaba. E aí? E aroga, Sujé?", questiona o músico Rafael Formiga, citando o famoso poema de Drummond.

Para a musicista Nana Mendonça, que já trabalhou com oficinas voltadas à linguagem, a cidade precisa preservar o Camaco. "Hoje existem poucos falantes e, com o avanço tecnológico, as coisas vêm e vão embora muito rápido", diz ela. Em 2023, o município de Itabira registrou, em um decreto, a linguagem do Camaco como patrimônio cultural imaterial. No entanto, até agora, ainda não foram tomadas medidas concretas para a preservação.

Mas é justamente na capacidade de sobrevivência e expansão do Camaco que muitos moradores de Itabira veem uma saída para um futuro em que a cidade terá que se reinventar.

"Essa linguagem nos ensina sobre resistência. Ela é resistente ao boicote da elite em relação a ela e ela continua viva. E nos lembra que podemos resistir ao que a mineração nos apresenta hoje em dia. A mineração, claro, foi muito importante para Itabira, mas a gente fica com os prejuízos dela, com a degradação ambiental, com a poluição do ar, com a saúde precarizada por conta disso. Acho que a linguagem também pode nos lembrar com resistir, como podemos nos reinventar para o futuro aqui em Itabira", resume o cineasta Breno Alvarenga.

Segundo Geuderson Marchiori, a chave pode estar não só no Camaco, mas também no próprio Drummond. Ou seja, no potencial cultural de Itabira.

"A cidade continua exercitando a criatividade dela", afirma o linguista, que atesta: atualmente, o Camaco faz muito mais parte do dia a dia da cidade do que da própria mineração. "Os dados que consegui me mostraram que a Linguagem de Camaco é praticamente inexiste no contexto das minas e da atividade minerária. Uma mina, hoje, tem trabalhadores que não falam mais a linguagem – mas a cidade, sim", conclui.

 

Fonte: DW Brasil

 

3 motivos por que as sardinhas são um alimento barato e ideal para sua saúde

As sardinhas, mesmo as enlatadas que encontramos nos supermercados (geralmente a preços acessíveis), podem ser um dos pratos com mais benefícios que você pode acrescentar à sua alimentação atual, especialmente se você pretende ter uma vida longa e saudável.

Os Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos (NIH, na sigla em inglês), por exemplo, indicam que uma única lata de sardinhas pode fornecer todas as nossas necessidades de ácidos ômega-3, um nutriente essencial para o bom funcionamento do cérebro, coração, visão e para reduzir as inflamações.

Mas os especialistas destacam que os ácidos ômega-3 são apenas um dos nutrientes presentes nas sardinhas.

Elas também contêm "componentes conhecidos pelos seus efeitos cardioprotetores, como o cálcio, potássio, magnésio, zinco, ferro, taurina e arginina", segundo um estudo de 2023, que defende o consumo de sardinhas além dos suplementos de ômega-3.

"Esses nutrientes [presentes nas sardinhas], agindo de forma sinérgica, são essenciais para modular as inflamações e o estresse oxidativo relacionados ao sistema cardiovascular, participando também do funcionamento dos cardiomiócitos e da hemodinâmica", prossegue o estudo.

Aqui estão estes e outros benefícios do consumo habitual de sardinhas para a nossa saúde.

>>>> 1. Ácidos graxos ômega-3

Os ácidos graxos essenciais ômega-3 desempenham papel fundamental na composição das membranas celulares de diversos tecidos, mas o nosso corpo não consegue sintetizá-los sozinho. Ou seja, eles precisam ser consumidos na alimentação.

Existem diversos ácidos deste tipo, mas a maioria dos estudos científicos sobre seus efeitos para a saúde se concentra em três deles: o ácido alfa-linoleico (ALA), o ácido eicosapentaenoico (EPA) e o ácido docosa-hexaenoico (DHA).

O ácido graxo ALA é considerado um precursor de EPA e DHA, que são os ácidos úteis para os tecidos humanos.

O corpo pode transformar o ALA consumido em EPA e DHA, mas com muito pouca eficiência: menos de 8% para o EPA e menos de 4% para o DHA.

A grande vantagem de consumir peixes gordurosos, como sardinha e salmão, além de outras fontes de ácidos ômega-3, é que o corpo do peixe já transformou em EPA e DHA uma grande quantidade dos ALA consumidos de algas. Por isso, quando comemos, estamos ingerindo diretamente aqueles dois ácidos.

"As sardinhas são consideradas importantes fontes destas gorduras ômega-3, da mesma forma que o salmão e o arenque", explica à BBC News Mundo (o serviço em espanhol da BBC), o professor Jorge Monserrate, do Departamento de Ciências Naturais, Saúde e Bem-Estar da Faculdade Miami-Dade, no Estado americano da Flórida.

"Trata-se de peixes que vivem em águas frias e produzem este tipo de gorduras para regular sua temperatura."

"O ômega-3 das sardinhas ajuda a reduzir o risco de doenças cardíacas, pois contribui para reduzir os níveis de triglicerídeos", explica o professor.

Além disso, segundo o NIH americano, os ácidos EPA e DHA podem ajudar a reduzir o risco de câncer de mama, câncer colorretal, doença de Alzheimer, degeneração macular senil ou a síndrome do olho seco.

Por este motivo, as autoridades de saúde — incluindo a Associação Americana do Coração (OHA, na sigla em inglês) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) — recomendam o consumo de pelo menos duas porções de peixes gordurosos por semana.

E, embora exista uma grande quantidade de suplementos de ômega-3 no mercado, as informações sobre sua eficácia são limitadas.

"Os diversos estudos aleatórios realizados ao longo das duas últimas décadas não encontraram evidências de benefícios cardíacos derivados dos suplementos de óleo de peixe", segundo um artigo publicado em 2023 pelo portal Harvard Health.

"É verdade que estes suplementos fornecem ácidos graxos ômega-3, mas existem formas melhores de obter essas gorduras essenciais através da alimentação."

>>>> 2. Proteína de alta qualidade

Sabe-se atualmente que uma parte essencial da nossa alimentação deve ser composta de proteínas.

Quando consumimos proteínas, o nosso corpo as decompõe em aminoácidos. Estes podem se recompor posteriormente em qualquer tipo de proteína de que o corpo necessite: a hemoglobina do sangue, enzimas, músculos, a queratina da pele e dos cabelos etc.

Por isso, as proteínas são vitais, mas o professor Monserrate explica que nem todas são da mesma qualidade.

"Quando as pessoas pensam em proteínas, elas geralmente pensam em carne", destaca ele. "Mas a carne tem muitas gorduras saturadas que não são boas para o corpo. Elas aumentam o risco de doenças do coração."

"Já as sardinhas são ricas em nutrientes. Ou seja, elas contêm muitos nutrientes e poucas calorias."

Uma única lata de sardinhas em azeite de oliva pode fornecer até 22,6 gramas de proteína com cerca de 200 calorias, além de nutrientes como cálcio, magnésio, vitamina B12, vitamina D, arginina e taurina.

Além de ajudarem a melhorar a nutrição, as sardinhas podem trazer impactos parecidos para o nosso bolso.

"A conveniência de encontrá-las em latas é incrível", destaca Monserrate. "E o preço, em comparação com outras fontes de proteína, sendo uma fonte ainda melhor, ajuda muito."

Uma recomendação importante do professor é observar o teor de sódio das sardinhas em lata a serem consumidas, o que pode gerar problemas para algumas pessoas.

"É preciso aprender a ler os rótulos", explica ele. "Assim, você pode se dar conta do teor de sódio."

>>>> 3. Fonte de cálcio, magnésio e vitamina D

Aqui, há um dado curioso. Como as sardinhas em lata são muito pequenas, quando as comemos, acabamos ingerindo também suas espinhas, que são uma fonte de cálcio mais rica até que o leite.

"Além disso, este é um dos melhores tipos de cálcio que existem, pois o corpo pode metabolizá-lo com facilidade", explica o professor.

Naturalmente, o cálcio é fundamental para fortalecer os ossos, dentes, a contração dos músculos e a regulagem do ritmo cardíaco. E é absorvido em maior quantidade quando consumido com uma boa fonte de magnésio — que, como você irá imaginar, também está presente nas sardinhas.

Uma lata de sardinhas pode fornecer 330 a 350 mg de cálcio (em comparação com 300 mg de um copo de leite) e 30 a 45 mg de magnésio, formando uma fantástica combinação para um corpo forte.

"Outros nutrientes que podemos mencionar são, por exemplo, a vitamina B12, o selênio e a vitamina D", prossegue Monserrate.

"Precisamos da vitamina D para absorver cálcio e fósforo, que é o principal para que os nossos ossos se fortaleçam."

A vitamina B12 é fundamental para a produção de energia do corpo, além da síntese de DNA e de algo fundamental: proteger a mielina, o componente isolante que recobre os nervos.

É incrível observar que uma lata de sardinhas pode fornecer 343% dos níveis de vitamina B12 de que necessitamos.

E, como se ainda fosse pouco, as sardinhas contêm os aminoácidos taurina e arginina, fundamentais para a saúde cardiovascular. Eles ajudam a regular nossa pressão arterial.

Outra vantagem das sardinhas em comparação com outros peixes é o seu baixo teor de mercúrio.

Por estarem quase no fundo da cadeia alimentar, as sardinhas não contêm mercúrio acumulado no corpo, como costuma ocorrer em animais maiores, como o atum.

"Na verdade, todos podem incluir as sardinhas como parte de uma dieta saudável", prossegue o professor.

"As recomendações afirmam que é preciso ter algum cuidado com o sódio no caso do consumo em lata, mas as sardinhas frescas são diferentes."

Monserrate recomenda consumir cerca de três latas de sardinha por semana, para obter todos os benefícios. Ele reconhece que, para muitas pessoas, o sabor do peixe pode ser "forte", mas explica que vale a pena tentar consumi-las.

"A maioria das pessoas não nasce gostando de sardinhas, é preciso aprender a comê-las", segundo o professor.

"Eu recomendo aos meus alunos que continuem tentando, provando alimentos saudáveis de que, inicialmente, eles não apreciam, pois o nosso paladar evolui com o passar do tempo."

"O segredo, às vezes, está na preparação. Eu gosto diretamente da lata ou refogadas em um pouco de azeite de oliva."

 

Fonte: BBC News Mundo