terça-feira, 28 de abril de 2026

Molécula descoberta por IA pode se tornar opção ao Ozempic

Uma nova geração de tratamentos para a perda de peso vem transformando os resultados que antes eram considerados difíceis de alcançar sem cirurgias. O protagonismo tem sido conduzido por injeções como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, que imitam um hormônio conhecido como GLP-1. Mas embora sua eficácia no emagrecimento tenha elevado o sucesso de mercado destes medicamentos, eles também têm sido associados a efeitos colaterais como náusea, vômitos, diarreia, dor abdominal, perda muscular e constipação.

Agora, uma molécula supressora de apetite descoberta em 2025 por uma equipe da Stanford Medicine, na Califórnia, tem ganhado espaço na discussão científica por naturalmente ajudar a alcançar os efeitos de perda de peso sem reproduzir os efeitos colaterais do Ozempic.

O BRP foi identificado por meio de uma ferramenta de inteligência artificial e agrega 12 aminoácidos que atuam diretamente no centro de controle do apetite do cérebro, o hipotálamo.

<><> O que torna o BRP diferente?

Giles Yeo, professor de neuroendocrinologia molecular no Departamento de Doenças Metabólicas do Conselho de Pesquisa Médica do Reino Unido, disse à DW que, por causa da barreira hematoencefálica, apenas duas partes do cérebro percebem os hormônios circulantes — o hipotálamo e o tronco encefálico.

Enquanto o hipotálamo é o sensor da fome, o tronco encefálico atua sobre o efeito visceral. "Ele mira a sensação de saciedade, de estar desconfortavelmente cheio", explica o professor.

As atuais canetas emagrecedorastambém afetam o hipotálamo, assim como o BRP, mas atingem principalmente o tronco encefálico — e as sensações de saciedade que ele gera. Uma das autoras do estudo, Katrin Svensson, também afirma que os receptores atingidos pelo GLP-1 também são encontrados no intestino, pâncreas e outros tecidos, gerando efeitos colaterais indesejáveis.

Já o BRP parece agir por uma via diferente, afetando apenas o hipotálamo. Outra vantagem potencial do peptídeo é que, em testes com animais, camundongos tratados com o composto aparentaram perder gordura, mas não músculo — outro possível efeito colateral dos imitadores do GLP-1 que desagrada os usuários.

<><> Molécula identificada por IA

O BRP pode se revelar um grande avanço, mas tão revolucionário quanto isso foi a forma como ele foi descoberto.

Na busca por alternativas aos imitadores do GLP-1, os pesquisadores de Stanford criaram uma ferramenta de IA chamada Peptide Predictor, que analisou cerca de 20 mil genes humanos. Ela identificou 2.683 peptídeos potenciais semelhantes a hormônios — cadeias curtas de aminoácidos. Os pesquisadores reduziram ainda mais o número de candidatos e testaram cerca de uma centena deles.

O BRP se destacou como vencedor. Camundongos obesos que receberam injeções diárias do peptídeo perderam peso, enquanto os animais não tratados ganharam.

"A ousadia de vasculhar um número tão enorme de peptídeos é realmente de tirar o fôlego", disse Randy J. Seeley, professor de cirurgia da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos. "Estou impressionado com o trabalho."

<><> Quão provável é um medicamento com BRP para humanos?

Katrin Svensson, autora sênior do estudo de Stanford, cofundou uma empresa que planeja iniciar testes clínicos em humanos em um futuro próximo. Mas Seeley disse que é difícil prever se o sucesso obtido em testes com animais será reproduzido em humanos.

"A coisa mais difícil de saber é se um medicamento baseado nisso terá segurança suficiente para se tornar um tratamento aprovado para a obesidade", afirmou. "A obesidade é uma condição crônica que precisa ser tratada de forma contínua. Isso significa que esses medicamentos precisam ser bastante seguros para que as pessoas possam usá-los por muito tempo."

Os medicamentos do tipo GLP-1 são eles próprios versões adaptadas de um hormônio natural — a modificação apenas faz com que durem mais tempo no corpo. O BRP também poderia ser alterado de maneira semelhante.

Mesmo que o composto consiga passar pelos testes clínicos necessários em humanos, os imitadores do GLP-1 provavelmente ainda terão valor clínico, já que oferecem benefícios além da perda de peso. Por exemplo, eles podem reduzir o risco cardiovascular. Ainda assim, o BRP ofereceria uma alternativa valiosa em meio a uma crise crescente.

"Quanto mais ferramentas tivermos para nos ajudar a reduzir o peso corporal, maior a chance de as pessoas encontrarem sua combinação pessoal", disse Yeo. "Se você tem mais probabilidade de continuar usando o medicamento, é mais provável que mantenha o peso fora."

"Há um bilhão de pessoas no mundo com obesidade, e hoje mais pessoas morrem de obesidade no mundo do que de fome propriamente dita", acrescentou. "É a primeira vez na evolução humana que chegamos a esse estágio. E quanto mais ferramentas tivermos para tratar a obesidade, melhor."

 

Fonte: DW Brasil

 

Pedro Uczai: Do poço ao posto - Por que o Brasil precisa retomar o controle da distribuição de combustíveis

O impacto da guerra dos Estados Unidos e Israel contra o Irã não se limitou às fronteiras do Oriente Médio. A escalada do conflito provocou uma disparada nos preços do petróleo no mercado internacional e, como num termômetro global, expôs as fragilidades crônicas da gestão do setor de combustíveis também no território brasileiro.

Até agora, os preços nas bombas não subiram na mesma proporção que em outros países – e isso se deve, exclusivamente, às ações emergenciais do governo do presidente Lula. Subvenções, redução de impostos e outras medidas seguraram a alta. Mas o problema de fundo permanece, mais grave que nunca: o Brasil não pode mais ignorar a soberania sobre seu próprio sistema de combustíveis

Sempre que o mercado global enfrenta crises, cada vez mais frequentes, a fragilidade gerada pela privatização de ativos estratégicos e pela desarticulação do Sistema Petrobras nos últimos anos torna- -se evidente. A população brasileira pôde perceber isso de forma aguda nos últimos dois meses. Sem instrumentos públicos eficazes, o setor de combustíveis torna- -se refém da busca incessante por lucros imediatos. O resultado é uma concentração de poder econômico que simplesmente ignora os interesses nacionais e a segurança energética da população.

Nem sempre foi assim. Entre 2003 e o golpe de 2016, nos governos Lula e Dilma Rousseff, a Petrobras operava como um verdadeiro instrumento de desenvolvimento. A empresa atuava, de forma lucrativa, em toda a cadeia produtiva, do poço ao posto, com forte intervenção estatal e planejamento de longo prazo. Essa estrutura foi, no entanto, deliberadamente desmantelada pelo governo Temer e teve seu desmonte aprofundado na desastrosa gestão de Jair Bolsonaro. Sob o discurso falacioso de “eficiência”, a Petrobras passou a priorizar interesses de acionistas privados e dividendos em detrimento das necessidades públicas e da estabilidade de preços.

Para enfrentar esse legado, a Bancada do PT na Câmara dos Deputados protocolou um Projeto de Lei (PL 1853) que autoriza a União a criar uma empresa pública no setor de distribuição de combustíveis. A proposta também permite a recomposição da presença pública em outros segmentos estratégicos da cadeia nacional de abastecimento.

Outra possibilidade é a reestatização da BR Distribuidora, privatizada durante o governo Bolsonaro por preços irrisórios e que desde então tem praticado valores abusivos. Um exemplo recente escancara a lógica predatória: a Petrobras deu um aumento de apenas 3 centavos de real por litro no diesel. A BR, agora rebatizada como Vibra Energia e em mãos privadas, repassou esse aumento ao consumidor final com uma majoração absurda de 3.500%. Não se trata de erro técnico ou exceção. É a regra de um mercado desregulado.

No cenário atual, entre a refinaria e o consumidor, as empresas privadas ocupam um espaço excessivo, apropriando- -se de margens cada vez maiores e criando obstáculos ao interesse público. Com a guerra no Oriente Médio, o que se viu foram aumentos de preços sem qualquer justificativa técnica. Mesmo após a isenção de PIS e Cofins sobre o diesel e a criação de subsídios para conter os preços, o custo ao consumidor subiu quase 20% em apenas 15 dias. Enquanto isso, as margens de lucro dispararam: 71,6% no diesel S-500, 45% no diesel S-10 e 32,2% na gasolina, com uma média superior a 30%.

Os números desmontam o mito de que a livre concorrência beneficia o consumidor. A retirada do Estado não levou à autorregulação mágica, mas à maximização dos ganhos privados à custa da população e da economia como um todo. Por isso, o Brasil precisa reforçar sua capacidade pública de atuar em um setor estratégico para a soberania nacional, a segurança do abastecimento e a proteção da economia, tanto a popular quanto a empresarial. A privatização da BR Distribuidora retirou do Estado seu papel crucial no elo que conecta a produção ao consumidor final. E o resultado não foi concorrência nem preços mais baixos, mas ampliação das margens de lucro privadas, concentração de mercado e drástica diminuição da capacidade estatal de regular o setor.

Hoje, o País está refém de três grandes empresas, Vibra, Ipiranga e Raízen, que formam um oligopólio de fato. A bancada do PT propõe que a União possa avaliar e instituir uma empresa pública, sociedade de economia mista federal ou subsidiária de estatal existente, destinada à atuação na distribuição de combustíveis, biocombustíveis e gás liquefeito de petróleo, bem como na logística, armazenagem, comercialização e demais atividades correlatas integrantes do sistema nacional de abastecimento.

É preciso garantir uma estrutura empresarial pública apta a operar em escala nacional, com presença prioritária em regiões estratégicas e vulneráveis, de modo a assegurar regularidade de oferta, capilaridade distributiva, integração territorial e, acima de tudo, capacidade pública de intervenção econômica em um setor essencial ao desenvolvimento nacional.

A União precisa recompor sua presença em segmentos estratégicos, inclusive com a aquisição negociada de participações societárias em empresas que atuem no refino, processamento, transporte, armazenagem, distribuição e comercialização. Defende-se ainda a possibilidade de aquisição, total ou parcial, de refinarias, bases de distribuição, terminais, instalações de tancagem, centros logísticos, dutos e demais estruturas operacionais.

A proposta baseia-se nos instrumentos constitucionais que preveem a exploração direta de atividade econômica pelo Estado quando necessária aos imperativos da segurança nacional ou a relevante interesse coletivo. A ausência estatal no setor produziu um ambiente no qual o interesse nacional perdeu espaço para dinâmicas puramente mercantis e a volatilidade internacional.

A reestatização do Sistema Petrobras, em seus diversos elos, volta, portanto, ao centro do debate nacional.

Não se trata de um debate técnico menor ou setorial. É fundamental para a soberania econômica, o planejamento estratégico de longo prazo e a capacidade efetiva do governo em intervir quando necessário. Significa inserir a questão energética como o fulcro de um projeto nacional de desenvolvimento, no qual o interesse público seja, finalmente, o ponto central de todas as ações governamentais. A guerra no Oriente Médio pode ter acendido o alerta. Mas a resposta caberá a nós, brasileiros.

•        Governo reage ao choque do petróleo com pacote para conter alta dos combustíveis. Por Paulo Gala

O governo brasileiro anunciou um conjunto de medidas para mitigar os efeitos do recente choque nos preços internacionais do petróleo, que já apresenta sinais de maior persistência. Com o barril do tipo Brent acima de US$ 100 — encerrando a semana próximo de US$ 104 — e o agravamento das tensões geopolíticas no Estreito de Ormuz, cresce a percepção de que o cenário atual pode não ser apenas temporário. Ainda que haja menções a cessar-fogo, as incertezas permanecem elevadas, mantendo o risco de disrupções no fluxo global de petróleo.

O impacto tem sido generalizado. Países como Estados Unidos, Canadá, China, Austrália e Brasil registram aumentos expressivos nos preços dos combustíveis, refletindo um choque global de oferta. Diante disso, governos ao redor do mundo têm recorrido a instrumentos fiscais e regulatórios para conter os efeitos inflacionários, sobretudo sobre gasolina, diesel e querosene.

No caso brasileiro, a estratégia adotada busca utilizar receitas extraordinárias provenientes do próprio setor petrolífero para compensar a alta dos combustíveis no mercado doméstico. Como grande exportador líquido de petróleo — entre os sete maiores do mundo — o Brasil se beneficia do aumento dos preços internacionais por meio de melhora na balança comercial e elevação da arrecadação tributária. O governo pretende, portanto, direcionar parte dessas receitas adicionais, inclusive com maior tributação sobre exportações de petróleo e sobre a Petrobras, para suavizar os preços internos.

A lógica do pacote é, em princípio, fiscalmente neutra: o aumento de arrecadação compensaria as desonerações aplicadas ao consumo doméstico. Entre as medidas propostas, destacam-se a possibilidade de redução ou eliminação temporária de tributos sobre combustíveis, além de flexibilizações no arcabouço fiscal para permitir a execução dessas políticas sem necessidade de criação de novos impostos. A implementação, no entanto, depende de aprovação do Congresso Nacional.

O custo das intervenções não é desprezível. Estimativas indicam que cada redução de R$ 0,10 no preço da gasolina pode representar um impacto próximo de R$ 1 bilhão. Atualmente, os tributos sobre o diesel já se encontram zerados, e há discussão sobre a extensão dessas medidas por um período adicional. Ainda assim, os preços domésticos seguem significativamente abaixo da paridade internacional, cerca de 50% a 60% inferiores, o que reforça o papel das políticas públicas na contenção dos reajustes.

Após quase dois meses desde o início das tensões — quando o petróleo girava em torno de US$ 60 por barril —, os preços permanecem elevados, sem sinais claros de reversão no curto prazo. Nesse contexto, o pacote brasileiro se alinha às iniciativas adotadas globalmente, refletindo um esforço coordenado para amortecer os efeitos inflacionários de um choque energético que, ao que tudo indica, tende a se prolongar.

•        De Hannover aos biocombustíveis: o protagonismo brasileiro na transição energética. Por Rodrigo Soares

O Brasil apresentou na Feira de Hannover uma solução de biocombustível que permite a redução da emissão de gases de efeito estufa e efetiva um caminho para a transição energética. A solução chega no momento certo, quando o país aguarda a entrada em vigor do acordo entre Mercosul e União Europeia, que ocorre no próximo dia primeiro de maio. Após mais de 25 anos de negociações, o acordo consolida uma das maiores zonas de livre comércio do mundo, reunindo um PIB de US$ 22,4 trilhões e um mercado de cerca de 718 milhões de pessoas. A escolha pela cooperação, conforme enfatizou o presidente Lula durante a abertura da Feira de Hannover, envia uma mensagem clara: o caminho para o desenvolvimento sustentável passa pela integração.

Mais comércio e mais investimentos significam mais empregos, renda e oportunidades dos dois lados do Atlântico. Ao ampliar a integração produtiva, as cadeias produtivas se fortalecem e, consequentemente, ganham os pequenos negócios, que representam cerca de 95% das empresas brasileiras. Há, ainda, inúmeras complementaridades entre as duas regiões. O Brasil, por exemplo, pode desempenhar um papel decisivo ao contribuir para a redução de custos energéticos e para a descarbonização da indústria europeia, especialmente a partir de sua matriz energética mais limpa.

Esse novo momento ganhou visibilidade concreta na Feira de Hannover, onde o Brasil ocupa posição de destaque como país parceiro. O país se apresenta como protagonista da economia verde e da transição energética, demonstrando ao mundo sua capacidade de competir em escala global.

No Sebrae, entendemos que esse protagonismo só se sustenta com a plena inclusão das micro e pequenas empresas. São elas que dão capilaridade ao crescimento, que inovam com agilidade e que conectam desenvolvimento econômico à realidade dos territórios. Na COP30, já evidenciamos a força desses empreendedores na economia verde. Agora, em Hannover, foi possível avançar ainda mais, apoiando 190 startups e pequenos negócios que apresentam soluções em indústria 4.0, inteligência artificial, sustentabilidade e transformação digital.

Essas empresas traduzem um Brasil que não apenas acompanha as transformações globais, mas ajuda a liderá-las. Desenvolvem tecnologias para eficiência energética, automação, digitalização industrial e gestão inteligente, áreas essenciais para um mundo que busca produtividade aliada à responsabilidade ambiental. São soluções que dialogam diretamente com os desafios globais e reforçam a imagem do país como parceiro estratégico.

Nada disso acontece por acaso. Trata-se de um esforço articulado entre instituições como o Sebrae e a ApexBrasil, que têm trabalhado para preparar nossas micro e pequenas empresas para competir internacionalmente. Iniciativas como o Programa de Qualificação para Exportação (PEIEX) ampliam o acesso a mercados e transformam potencial em resultados concretos.

Os números confirmam essa trajetória. Em 2025, o Brasil se consolidou como o quarto maior destino de investimento estrangeiro direto no mundo, além de ampliar significativamente sua presença internacional com a abertura de novos mercados. Esses indicadores refletem um ativo essencial: a confiança.

E é justamente essa confiança que precisamos transformar em oportunidades para todos. O acordo entre Mercosul e União Europeia, aliado à presença estratégica em fóruns globais como a Feira de Hannover, abre uma janela inédita para que as micro e pequenas empresas brasileiras avancem além das fronteiras. O nosso papel, no Sebrae, é garantir que estejam preparadas para esse salto, conectando, qualificando e impulsionando empreendedores.

O Brasil é parte ativa da construção de uma nova economia — mais verde, mais inovadora e mais inclusiva. E são os pequenos negócios que, cada vez mais, assumem o protagonismo dessa transformação.

 

Fonte: Brasil 247

 

O petróleo americano e a energia solar chinesa são os vencedores na guerra de Trump contra o Irã

Em alto-mar, uma frota de petroleiros vazios rumou silenciosamente para oeste. Um número recorde de embarcações gigantescas está agora a caminho dos EUA, onde empresas de perfuração e refinarias de petróleo se preparam para lucrar com a guerra de Donald Trump no Oriente Médio.

Quase 30 desses navios, cada um com capacidade para 2 milhões de barris de petróleo, estão contratados para carregar petróleo bruto dos EUA, destinado a um mercado global que enfrenta a maior crise de abastecimento da história.

Faz pouco mais de cinco anos que a revolução do xisto transformou os EUA em um exportador líquido de energia e o maior produtor mundial de petróleo e gás. Agora, a Casa Branca está prestes a fortalecer sua reivindicação por uma fatia ainda maior do mercado global de petróleo, à medida que o domínio do Oriente Médio, que durou décadas, é desmantelado pela guerra.

O número de navios que se preparam para se concentrar em águas americanas é quase seis vezes maior do que o número mensal que normalmente carregava petróleo bruto dos EUA antes da guerra, que interrompeu drasticamente o fluxo de combustíveis fósseis do Oriente Médio para o mercado.

O fornecimento de petróleo bruto dos EUA que sai dos terminais de exportação do país aumentou em um terço, atingindo um recorde de 5,2 milhões de barris por dia, depois que o Irã retaliou contra os ataques EUA-Israel bloqueando o fluxo diário de 10 milhões de barris de petróleo exportados do Golfo através do Estreito de Ormuz.

As exportações semanais de combustível de aviação dos EUA dobraram, atingindo um recorde histórico, enquanto a Europa se esforça para garantir o abastecimento e as companhias aéreas começam a reduzir os voos.

A guerra ameaça remodelar a ordem energética global, expondo a dependência mundial do fornecimento do Oriente Médio e acelerando a transição para energias mais limpas, dando origem a novas superpotências energéticas.

<><> Ascensão das Américas

A virada do mundo para o Ocidente marca uma potencial reordenação do fornecimento global de energia e a maior ameaça ao futuro domínio energético do Oriente Médio.

Durante décadas, as vastas reservas de petróleo da Arábia Saudita fizeram do reino o maior fornecedor mundial de petróleo bruto e o líder de facto da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (OPEP) e seus aliados. Em questão de semanas, a guerra com o Irã eliminou um terço da produção de petróleo bruto saudita.

A retomada das atividades nos campos de petróleo e gás fechados da região e a recuperação da infraestrutura danificada por drones devem custar entre US$ 34 bilhões (R$ 175 bilhões) e US$ 58 bilhões (R$ 190 bilhões), segundo analistas da consultoria Rystad Energy. O processo de restauração da produção aos níveis anteriores pode levar anos, se é que será concluído.

“O que estamos observando no Oriente Médio não é apenas uma interrupção no fornecimento de petróleo e gás”, disse Duncan Wood, chefe do Conselho do Pacífico para Políticas Internacionais, uma organização sem fins lucrativos. “Qualquer governo sensato está se perguntando como reduzir a dependência, aumentar a autonomia e diversificar as fontes de energia.”

À medida que as dúvidas sobre o futuro domínio de mercado dos petroestados do Golfo se aprofundam, a alta dos preços de mercado começou a impulsionar a ascensão das Américas . O crescimento da produção de petróleo bruto nos EUA e no Canadá – que se acelerou nos últimos anos – deverá continuar ao longo da década de 2020. No entanto, quase metade do crescimento da oferta mundial de petróleo no restante da década deverá vir do boom petrolífero da América Latina.

“O conflito no Oriente Médio fez mais do que disparar os preços do petróleo”, disse Radhika Bansal, pesquisadora sênior da Rystad Energy. “A América do Sul agora se posiciona como a fonte mais importante de suprimento adicional do mundo… exatamente no momento em que o mundo busca alternativas.”

Mesmo antes da crise, os analistas da Rystad apontavam a produção de petróleo offshore no Brasil, Guiana e Suriname, bem como a formação de xisto de Vac Muerta na bacia de Neuquén, na Argentina, como as principais áreas impulsionadoras do crescimento mundial de combustíveis fósseis. Juntos, esses países deveriam adicionar quase 2,5 milhões de barris por dia até o final da década, de um aumento global previsto de 5,6 milhões. Mas se os preços do petróleo permanecerem acima de US$ 100 por barril, isso poderá liberar mais 2,1 milhões de barris por dia de petróleo bruto na América do Sul até meados da década de 2030, afirmou a Rystad.

A previsão indicava que a Venezuela estava a caminho de aumentar sua produção em 1 milhão de barris por dia até 2035, mas esse número poderia ser "significativamente maior" se grandes empresas petrolíferas ocidentais, incluindo ExxonMobil, Chevron e Shell, atenderem ao apelo de Trump para explorar as vastas reservas de petróleo do país . O banco de investimentos americano Goldman Sachs previu que o aumento poderia chegar a 2 milhões de barris por dia.

As refinarias americanas já estão se beneficiando financeiramente do crescimento da América Latina. O forte aumento nas lucrativas exportações de querosene de aviação dos EUA para a Europa foi impulsionado pelo petróleo importado da Venezuela , que detém as maiores reservas de petróleo bruto do mundo.

Após décadas de negligência, as exportações de petróleo da Venezuela já começaram a subir, passando de 860 mil barris por dia durante a presidência de Nicolás Maduro para pouco mais de 1,1 milhão de barris em menos de quatro meses, desde a ação militar dos EUA que derrubou seu governo em janeiro.

<><> A revolução eletroestatal

A ascensão das Américas ainda pode ser prejudicada por uma reabertura prematura do Estreito de Ormuz. Uma recuperação completa da produção de petróleo no Golfo poderia ocorrer dentro de um ano se o conflito for resolvido nos próximos meses, de acordo com Dylan White, diretor da consultoria petrolífera Wood Mackenzie.

Qualquer aumento temporário na produção de petróleo das Américas foi insignificante "em comparação com as perdas de volume causadas pelo fechamento do Estreito de Ormuz", acrescentou. No entanto, não há garantia de que os produtores do Oriente Médio retornarão ao mercado e encontrarão os mesmos níveis de demanda.

O foco no redirecionamento dos fluxos de combustíveis fósseis ignora outra importante reestruturação do sistema energético global: a ascensão do eletroestado. A Wood Mackenzie acredita que o "vencedor absoluto" da crise com o Irã provavelmente será a China .

A China domina há muito tempo as cadeias de suprimentos dos principais componentes das tecnologias de energia limpa, desde turbinas eólicas a painéis solares e baterias. O poderio industrial de Pequim ajudou o maior importador de energia do mundo a conquistar entre 60% e 85% do mercado global de energias renováveis, num momento em que os países se preparam para acelerar a transição para longe dos combustíveis fósseis.

Como o primeiro “eletroestado” do mundo, a China contrasta com a busca da Casa Branca pela supremacia dos combustíveis fósseis. O país também tem um papel significativo a desempenhar na criação da nova ordem energética.

“A China obtém vantagem estratégica de sua liderança em energias renováveis ​​e eletrificação, manufatura e inovação, implantação doméstica e exportações globais, afirmou a Ember, um think tank de clima e energia. A China não está apenas fabricando equipamentos eletrotécnicos, está construindo um futuro energético no qual ocupa uma posição de liderança.

A crise fez com que o maior fornecedor mundial de tecnologias limpas vendesse esses componentes a preços recordes, enquanto os países se preparam para reduzir definitivamente o uso de combustíveis fósseis.

“Os choques nos preços dos combustíveis fósseis estão impulsionando o crescimento da energia solar”, disse Euan Graham, analista sênior da Ember. “A energia solar já se tornou o motor da economia global, e agora os atuais choques nos preços dos combustíveis fósseis estão acelerando ainda mais esse crescimento.”

As exportações chinesas de capacidade de tecnologia solar dobraram, atingindo um recorde histórico apenas no primeiro mês da crise com o Irã. Os 68 GW exportados superaram toda a capacidade de energia solar da Espanha.

Enquanto o maior investidor mundial em energias renováveis ​​se prepara para liderar uma revolução energética contra a crise dos combustíveis fósseis, seus próprios custos de energia estarão mais protegidos do impacto da crise energética global do que a maioria.

Pequim aproveitou discretamente anos de queda nos preços do petróleo para acumular reservas recordes de petróleo bruto – estimadas em 1,4 bilhão de barris, o suficiente para cobrir sete meses de importações pelo estreito – enquanto acelerava os planos para reduzir sua dependência de combustíveis fósseis importados.

Em 2020, a China estabeleceu a meta de que os veículos elétricos representassem 20% de todas as vendas de carros novos em 2025. Essa meta foi amplamente superada: os veículos elétricos representaram metade de todas as vendas de veículos novos no ano passado. A quantidade de combustível economizada ao superar suas próprias metas é aproximadamente igual ao que a China importava da Arábia Saudita antes da crise, de acordo com o Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREAR), um centro de estudos. Esses veículos serão movidos por um sistema elétrico que depende principalmente do carvão e de sua indústria de energia verde em rápido crescimento.

<><> Uma nova era

Entre a ascensão dos petroestados americanos a oeste e o futuro eletroestado da China a leste, encontram-se os países desenvolvidos da Europa e as economias em rápido crescimento da Ásia e da África. A crise energética significa que os países estão se esforçando para garantir seu suprimento de energia nas próximas semanas e meses, mas muitos também estarão pensando em décadas à frente.

O crescimento da energia solar na China fez com que cerca de 50 países registrassem novos recordes de importação de energia solar, a maioria deles na África e na Ásia. As exportações para a África aumentaram 176% em comparação com fevereiro, enquanto as exportações para a Ásia dobraram. Países da União Europeia, incluindo Itália e Polônia, também registraram importações recordes de energia solar.

A justificativa econômica para energia renovável barata e segura é simples em uma crise de petróleo e gás. Para países com infraestrutura legada de combustíveis fósseis, o atrativo de novos suprimentos de combustíveis fósseis das Américas ainda poderia retardar uma revolução verde se a reabertura do Estreito de Ormuz permitisse o retorno dos volumes do Oriente Médio.

“A próxima década será decisiva”, disse Ember. “Novos vencedores e perdedores surgirão. Empresas e nações que desejam prosperar nesta era devem repensar suas estratégias tão fundamentalmente quanto o próprio sistema energético está mudando.”

¨      O plano europeu para proteger navegação no Estreito de Ormuz

Potências europeias se mobilizam para montar uma missão naval multinacional com o objetivo de proteger a navegação no Estreito de Ormuz, depois que os combates no conflito entre Estados Unidos e Irã interromperam o tráfego em uma das rotas comerciais mais estratégicas do mundo.

Em reuniões realizadas em Londres nesta semana, planejadores militares de cerca de 30 países se encontraram para discutir como a operação poderia funcionar na prática e de que forma navios comerciais poderiam ser protegidos. Após uma breve reabertura, Teerã voltou a fechar o estreito e sugere até a cobrança de um "pedágio".

Correndo por fora das negociações entre EUA e Irã, as nações europeias têm defendido que uma ação naval na região só seja realizada após as negociações de paz avançarem. Ainda assim, países como a Alemanha já indicaram que deslocarão navios ao Mediterrâneo com o objetivo de se antecipar, caso uma eventual operação seja autorizada pelo Parlamento.

<><> O que envolveria uma "missão defensiva"?

No centro das propostas do Reino Unido e da França está uma operação naval multinacional de caráter "estritamente defensivo", focada em proteger embarcações comerciais contra ataques, sem a realização de ofensivas contra alvos em terra. Segundo os dois países, a missão só seria lançada após um cessar-fogo negociado entre os Estados Unidos e o Irã.

De acordo com Jürgen Ehle, contra-almirante alemão reformado e ex-conselheiro militar sênior da União Europeia, uma missão desse tipo envolveria reagir a agressões, e não atuar de forma ofensiva. Na prática, isso significa proteger navios de mísseis, drones ou embarcações hostis, em vez de atingir infraestrutura militar iraniana ou tropas em terra.

Especialistas disseram à DW que a operação provavelmente exigiria fragatas ou destróieres equipados com sistemas de defesa aérea, além de drones caça-minas, incluindo sistemas não tripulados, para detectar e neutralizar minas navais.

O chamado Trio Europeu — formado por Alemanha, França e Reino Unido — deverá arcar com a maior parte do esforço militar. Berlim indicou que estaria disposta a contribuir com embarcações de remoção de minas e meios de reconhecimento marítimo, desde que haja aprovação do Parlamento. O chanceler Friedrich Merz destacou a necessidade de um mandato legal claro antes de qualquer envio de forças.

Neste sábado, o ministro da Defesa da Alemanha, Boris Pistorius, disse que, "para ganhar tempo", navios da Marinha alemã serão deslocados para o Mar Mediterrâneo, entre eles o caça-minas Fulda. "Decidimos enviar algumas das unidades ao Mediterrâneo antes do previsto, para não perder nenhum tempo assim que tivermos o mandato", afirmou.

A França já dispõe de ativos navais significativos na região, incluindo oito navios de guerra, um porta-aviões e dois navios de assalto anfíbio. O presidente francês Emmanuel Macron afirmou que forças atualmente posicionadas no Mediterrâneo oriental e no Mar Vermelho — incluindo o porta-aviões Charles de Gaulle — poderiam ser parcialmente redirecionadas para apoiar a missão.

A contribuição do Reino Unido ainda não foi especificada. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer disse que mais de uma dezena de países demonstraram interesse em fornecer meios, mas não afirmou expressamente o que Londres colocaria à disposição.

Embora o Reino Unido tenha destróieres avançados, sua "prontidão e disponibilidade permanecem incertas", disse à DW Bence Nemeth, professor sênior de estudos de defesa do King's College London.

<><> Quais são os riscos para a Europa?

O envio de meios navais ao Golfo pode pressionar as capacidades europeias em um momento de tensões elevadas mais próximas do continente. Nemeth alertou que a Europa precisa equilibrar ameaças vindas da Rússia, especialmente no Mar Báltico e no Atlântico Norte.

"Os europeus precisam primeiro de seus ativos navais para manter sua própria segurança", disse Nemeth, acrescentando que "eles não podem depender dos EUA como antes".

Os riscos operacionais no Golfo permanecem significativos. Ehle observou que "capacidades de defesa aérea não garantem 100% de segurança", especialmente contra ataques em larga escala com drones.

Escrevendo para o Royal United Services Institute, o professor do King's College de Londres, David B. Roberts, destacou um ambiente de ameaças "em camadas", que vai desde "munições lentas e de baixa altitude, no nível mais baixo, até mísseis antinavio de alta velocidade e minas de contato, no nível mais alto".

<><> A diplomacia pode garantir estabilidade?

Analistas concordam que deslocamentos navais, por si só, não podem garantir a segurança do estreito. Apenas um acordo diplomático — no qual o Irã tome uma decisão política soberana de recuar — oferece a perspectiva de interromper completamente os ataques", disse Roberts.

França e Reino Unido buscam ampliar a coalizão para além da Europa, envolvendo países como a Índia e a Coreia do Sul. O objetivo é aumentar a pressão diplomática e viabilizar a retomada do transporte comercial.

Nemeth afirmou que "os países têm razões diferentes para participar dessas negociações". As mais comuns, acrescentou, "são a liberdade de navegação, o direito internacional e a segurança energética".

"Esses Estados não querem normalizar uma situação em que uma potência possa usar a força e a geografia para controlar um gargalo marítimo crucial", disse. "Isso criaria um precedente perigoso para o comércio global."

Enquanto a Europa trabalha para construir uma coalizão, países como Índia, Paquistão e China também buscam acordos bilaterais com Teerã para manter o fluxo de navegação, embora os volumes "permaneçam marginais", escreveu Roberts.

Por ora, a Europa se prepara para uma missão naval defensiva limitada, ao mesmo tempo em que pressiona por uma solução política. Ainda é incerto se haverá apoio internacional suficiente para viabilizar essa estratégia.

 

Fonte: The Guardian/DW Brasil

 

"Faltou governança na crise do BRB", detalham especialistas

"Faltou governança da diretoria do Banco do Brasília (BRB) e houve conivência dos três representantes do Governo do Distrito Federal (GDF) no Conselho de Administração do banco". A avaliação é do economista especialista em sistema financeiro Newton Marques. O Correio conversou com consultores em mercado financeiro, que explicaram falhas de governança e compliance que facilitaram as fraudes e indicaram caminhos para a recuperação da credibilidade e da solidez do banco.

"Tudo começou pela falta de compliance", destaca o atual presidente do banco, Nelson de Souza, em entrevista ao CB.Poder, parceria do Correio Braziliense e da TV Brasília. "A auditoria chegou a essa conclusão de maneira contundente, de que tiveram vários alertas (de servidores do banco) que não foram seguidos, não foi seguida a tramitação do que cabe uma boa governança", acrescenta.

Professor de finanças do Ibmec Brasília, Marcos Melo analisa o caminho que levou à aquisição dos títulos podres do Banco Master, causando um prejuízo bilionário ao BRB. "O processo decisório dentro do banco, de efetuar a aquisição de títulos que depois se confirmariam serem inadequados, falhou. Análises realizadas por equipes internas concluíram por não aprovar a aquisição de tais títulos e, mesmo assim, a instituição os comprou", comenta.

Melo explica os pilares que sustentam a governança e o compliance dentro das instituições financeiras e que estiveram enfraquecidos no BRB. "O mais importante é a transparência, um pilar que determina que toda informação deve ser repassada com veracidade, completude, tempestividade e espontaneidade. A conformidade com normas, leis e regulamentações também é de suma relevância, além da prestação de contas", elenca. "A governança corporativa tem por objetivo promover a elevação do valor de mercado da instituição, por meio da organização do fluxo de informação interna e externa e do tratamento aos participantes do negócio: funcionários, acionistas, fornecedores, clientes, investidores e demais parceiros em geral", destaca.

Sobre caminhos para melhorar a governança, Marcos Melo cita ações já deliberadas na assembleia dos acionistas que aconteceu nesta semana. "A assembleia aprovou algumas ações no caminho de aperfeiçoar os processos e remanejar titulares de postos chaves. Em todo o caso, a implantação de melhorias da governança corporativa é um processo demorado e que precisa ser acampado pela alta diretoria de uma forma constante ao longo de anos", frisa. "São eventos como o que ocorreu junto ao Banco Master que se tornam oportunidades para que o BRB saia desta situação mais forte do que antes. Assim se espera que ocorra", salienta.

<><> Estratégia

"A governança corporativa vai muito além de um conjunto de normas formais e depende, sobretudo, da atuação autônoma dos mecanismos de controle dentro das instituições financeiras. É um sistema estratégico composto por regras, práticas e regulamentos, que envolve vários setores, cada um com um papel fundamental", detalha o professor de economia da Universidade de Brasília (UnB), César Bergo.

Na avaliação dele, no ambiente do mercado financeiro, a adoção consistente dessas diretrizes contribui para fortalecer a reputação das instituições diante de investidores, correntistas e da sociedade. "Uma empresa que segue a governança corporativa tem um posicionamento mais sólido e ganha credibilidade", diz.

Bergo destacou que o compliance atua como um pilar complementar, funcionando como um "guardião" das normas ao verificar o cumprimento de leis e diretrizes internas, além de apontar eventuais irregularidades. "Caso não esteja aderente, o compliance é obrigado a fazer essa sinalização, sobretudo ao Conselho de Administração", explica, ao enfatizar que essa área precisava operar com independência para evitar interferências.

O economista também ressalta a necessidade de manter separadas as funções de execução e fiscalização dentro das organizações. "Quem executa não controla. A auditoria e os controles internos precisam estar fora da execução para evitar omissões, imprudência ou até conivência", ressalta.

Ao analisar o caso do BRB, ele avaliou que as fragilidades nos instrumentos de supervisão foram determinantes para o agravamento da situação. "Se as unidades de controle tivessem funcionado, provavelmente isso não teria acontecido. Houve extrapolação das alçadas decisórias, o que já deveria ter chamado atenção", afirma.

Para recuperar a confiança após episódios desse tipo, Bergo defende a adoção de medidas imediatas e rigorosas. "O primeiro passo é fechar a casinha, adotar uma gestão rígida, revisar contratos e identificar possíveis irregularidades. É uma força-tarefa para corrigir falhas e mostrar ao mercado que a instituição está retomando o controle", enfatiza.

<><> Evolução histórica

Professor de economia do Ibmec Brasília, Renan Silva avalia que a discussão sobre a governança do BRB precisa ser compreendida a partir de uma evolução histórica marcada por grandes escândalos corporativos. "Breve histórico para entender a governança hoje, precisamos olhar para os escombros dos grandes escândalos do início dos anos 2000. Foi o trauma desses episódios que forçou a criação das leis e ritos que grandes empresas e bancos, como o BRB, devem seguir atualmente", afirma, ao citar o caso Enron (veja quadro) como marco inicial. "O escândalo não foi apenas uma fraude, mas uma falha sistêmica de governança", completa.

Ele explica que a resposta a esses episódios redefiniu padrões globais de controle e transparência nas instituições financeiras. "Para restaurar a confiança, os Estados Unidos criaram a Lei Sarbanes-Oxley, que estabelece rigorosos controles internos e transparência financeira para empresas de capital aberto. CEOs e CFOs (presidentes e diretores de finanças, respectivamente) passaram a responder criminalmente e a assinar declarações garantindo que os relatórios financeiros são verdadeiros. Não existe mais o 'eu não sabia'", destaca.

Sobre o caso recente envolvendo o BRB, Renan Silva aponta falhas estruturais relevantes. "As investigações apontam conflito de interesses e corrupção no topo, falha na due diligence (processo investigativo minucioso feito antes de aquisições ou investimentos) na compra de carteiras de crédito e uso de mecanismos para ocultação patrimonial. Um sistema de compliance robusto deveria ter detectado esses problemas antes", afirmou. Ele também menciona que a tentativa de aquisição de parte do Banco Master, barrada pelo Banco Central, evidenciou fragilidade na capacidade de supervisão interna.

Para recuperar a credibilidade, o economista defende mudanças profundas. "É necessário garantir independência das áreas de controle, blindagem contra influência política, transparência radical com uso de tecnologia e fortalecimento da cultura ética. Sem uma governança sólida, episódios como esse tendem a se repetir", alerta.

•        Jeferson Miola: Norma do BC proibia gestão Campos Neto de autorizar Vorcaro a fundar Master

Daniel Vorcaro teve a vida facilitada pela diretoria do Campos Neto pela primeira vez em outubro de 2019, quando o Banco Central validou a compra do Banco Máxima sem que ele conseguisse comprovar que os R$ 40 milhões usados na transação tinham origem lícita.

A segunda vez que Vorcaro contou com uma ajudinha fundamental de Campos Neto foi em julho de 2021, quando o BC autorizou o rebatismo do Máxima como Banco Master e a ampliação do escopo financeiro do banqueiro-mafioso.

Aquela mudança foi um salto essencial para Vorcaro transformar o Banco Master num “banco múltiplo e digital, focado em crédito consignado e estruturado” e, assim, avançar a estratégia fraudulenta agressiva que culminou no maior escândalo bancário-financeiro da história do Brasil.

Se tivesse obedecido a Resolução BCB nº 4.122, de 2 de agosto de 2012, a norma vigente até 25/11/2021, a diretoria de Campos Neto jamais poderia ter autorizado a mudança, pois Daniel Vorcaro era investigado na Operação Fundo Fake, da Polícia Federal.

A Fundo Fake desbaratou o esquema de gestão fraudulenta em regimes de previdência de servidores públicos municipais operado pela organização criminosa em diversos estados da federação.

Em abril de 2020 foi expedido mandado de prisão de Daniel Vorcaro. Para fugir da denúncia criminal e da prisão, ele ficou foragido até 2021, quando obteve um habeas corpus em uma decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, considerada uma amiga da família Bolsonaro.

Ascendino Madureira Garcia, que segundo a PF era intermediário das falcatruas e “operador tático” de Vorcaro, não teve a mesma sorte. Em 2023 foi denunciado pela PGR por gestão fraudulenta e organização criminosa em processo ainda não julgado.

De acordo com a Resolução 4.122, a primeira exigência para qualquer pessoa assumir e exercer cargos em instituições financeiros é “ter reputação ilibada” – inciso I do artigo 2º do anexo II daquela norma.

E, para avaliar se essa pessoa atende à exigência de reputação ilibada, o BC “poderá levar em conta as seguintes situações e ocorrências: I – processo crime ou inquérito policial a que esteja respondendo o eleito ou o nomeado, ou qualquer sociedade de que seja ou tenha sido, à época dos fatos, controlador ou administrador; II – processo judicial ou administrativo que tenha relação com o Sistema Financeiro Nacional” [artigo 3º do anexo II].

Por não ter reputação ilibada e conduta idônea, Daniel Vorcaro não poderia ter sido mantido na condução do Banco Máxima e tampouco ter sido autorizado a fundar o Banco Master.

A Resolução 4.122 do BC impedia a autorização que a gestão de Campos Neto deu a ele para fundar o Banco Master pois ele era investigado na operação Fundo Fake da PF por crimes financeiros.

Como bem resumiu a jornalista Mariana Barbosa/UOL, “se Vorcaro tivesse sido preso em 2020, não haveria escândalo Master”.

•        STF manterá presidente do TJ contra crime continuado no RJ?

É exemplar o caso do Rio de Janeiro. Em outubro de 2022, houve a reeleição, em primeiro turno, do governador Cláudio Castro (União-RJ). Ele era vice de Wilson Witzel, eleito em 2018 e que sofreu “impeachment” em 2020, e assumiu o cargo em 2021, depois de período como interino.

O governador, que dizia estar com os cofres cheios depois da privatização dos serviços de água e esgoto da Cedae, usou e abusou do Ceperj (o mini-IBGE do estado) e da UERJ, a universidade estadual, para nomear milhares de pessoas para atuarem como cabos eleitorais na campanha. Todos bancados pelo combalido cofre estadual, já vazio em 2023, motivo alegado para calotear dívida com o Tesouro Nacional.

Os candidatos derrotados pelo abuso do poder econômico, à frente o então ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, recorreram à Justiça Eleitoral cobrando a perda de mandato. Mas Cláudio Castro mexeu seus pauzinhos nos escaninhos da Justiça e conseguiu protelar a decisão até o prazo final de saída do governo (à véspera do julgamento, no STF, de outro recurso de Eduardo Paes) para que pudesse concorrer ao Senado e garantir imunidade das urnas.

Vale lembrar que, como estava sem vice-governador desde meados de 2025, quando vetou a pretensão do vice Thiago Pampolha (MDB-RJ) de sucedê-lo como candidato, mediante a indicação para sinecura vitalícia bem remunerada no Tribunal de Contas do Estado, Castro tinha articulado com Rodrigo Bacellar (também do União Brasil), então presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro, para ser seu sucessor em outubro deste ano.

Acontece que Bacellar, como presidente da Alerj, havendo vacância do cargo de vice-governador, era o próximo na sucessão, e já estaria apto a usar a máquina pública a seu favor, em 2026. Mas era corréu no julgamento do TSE, por também ser beneficiado no “trem da alegria” do Ceperj. E não era só. Presidente da Alerj, vazou ação da polícia fluminense em mensagem ao deputado TH Joias, ligado ao Comando Vermelho, e foi preso pela Polícia Federal. Ato contínuo, teve o mandato cassado.

Com a renúncia de Castro, o exercício do governo do Estado do Rio de Janeiro caberia ao presidente da Alerj, 3º na linha de sucessão. Às pressas, o deputado Douglas Ruas (PL-RJ), que já articula as forças da direita para ocupar o Palácio Guanabara em 2027, caso vença o ex-prefeito Eduardo Paes (PSD-RJ), chegou a ser eleito presidente da Alerj. Mas o pleito foi anulado pela Justiça eleitoral, por falta de transparência. Isso frustrou a articulação inicial de Cláudio Castro de passar o cargo a seu sucessor antes mesmo das urnas decidirem (primeiro com Bacellar, e depois com Ruas).

Na vacância de poder, o presidente do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, desembargador Ricardo Couto, 4º na sucessão, tomou posse na última semana de março. Em menos de um mês, Couto começou uma limpeza nas nomeações eleitoreiras de Castro e nas já engatilhadas pelo futuro presidente da Alerj. Vencedor em nova eleição na Alerj esta semana, Douglas Ruas, que quando era secretário de Cidades inflou os gastos da sua pasta, em dobradinha com Castro em esquema semelhante ao do Ceperj, em 2022, como novo presidente da Alerj já criou um arremedo de Orçamento Secreto estadual de mais de R$ 1,5 bilhão. Ainda bem que Ricardo Couto, ignorando politicagens, faz enxugamento da máquina do ERJ, e demitiu a diretoria da Cedae que fez aplicações de forma pouco transparente em papéis do Master, assim como o Rio Previdência, o fundo de pensão dos funcionários do Estado.

Douglas Ruas anda aflito. Temendo ruir seu esquema articulado com Cláudio Castro, pressiona a Justiça Eleitoral de duas formas: para que assuma imediatamente como governador (a tempo de paralisar a faxina profilática de Ricardo Couto) ou que determine a eleição indireta para um mandato tampão (em ambos os casos, a cadeira de governador caberia a ele).

O ministro-relator do caso no STF, Ricardo Zanin, considerou que, diante do tempo exíguo para a eleição direta, Ricardo Couto deve ficar no cargo até a decisão final do STF (que aguarda o pedido de vistas de Flávio Dino). A justiça eleitoral precisa de 45/60 dias para organizar um pleito (seria em meio à Copa do Mundo), e as eleições de 2026 serão em 4 de outubro (1º turno) e 25 de outubro (2º turno). O aconselhável, mais neutro e econômico, seria a manutenção de Couto como governador até dezembro.

Até aqui, o STF, com 10 membros, deu quatro votos pela eleição indireta (Fux, Nunes Marques, André Mendonça e Carmem Lúcia, que presidia o TSE). O ministro Dino, que votou pelo voto direto, assim como Alexandre Moraes, Zanin e Gilmar Mendes, pediu vistas, esperando que o acordão do TSE fosse mais claro sobre o caso. Embora condenasse Castro, que ficou inelegível pelo crime eleitoral (e toda a trama com Bacellar e Ruas mantivesse o crime continuado), a verdade é que o acórdão do TSE é pouco conclusivo.

Se os quatro repetirem o voto, bastam os ministros Fachin e Dias Toffoli votarem pela eleição direta, para o caminho da eleição indireta ser afastado. E, a prevalecer o bom senso, já expresso por Zanin, Couto seguiria a limpeza e atuaria como magistrado na eleição de outubro. As consequências extrapolam a sucessão do Estado do Rio de Janeiro.

A decisão do STF vai influir no processo eleitoral do terceiro colégio eleitoral do país (depois de São Paulo e Minas Gerais). Desde 2018, o RJ é dominado pelo clã Bolsonaro, com forte ligação às milícias e às igrejas evangélicas, que atuam como grandes currais eleitorais. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que escapou do processo das “rachadinhas” em seu antigo gabinete da Alerj, graças às várias canetadas do pai, agora candidato a presidente indicado pelo mesmo pai preso, reagiu à decisão de Zanin, dizendo que “eleição não se resolve em canetada”.

Pau que dá em Chico, também dá em Francisco.

 

Fonte: Correio Braziliense/Viomundo/JB

 

Verdadeiro e falso

Bem à vista, no alto da porta, a placa dizia: “antes de entrar no elevador verifique se você existe e se encontra parado neste andar”. A frase escrita no imperativo não deixava margem à dúvida, a inexistência de alguém tornaria inócuo seu deslocamento vertical.

René Descartes construiu seu sistema filosófico a partir de uma certeza – “Cogito, ergo sum” (Penso, logo existo). Seu axioma é reconfortante. Porém, os sofistas talvez desconfiassem desta constatação banal: a afirmação remeteria a algo concreto ou simplesmente recobriria o significado de uma suposta existência? Seria realmente possível dizer que existo ou a imagem do Eu idealizado trairia o fruto da ilusão?

Dizem que Luchino Visconti, quando no roteiro de um filme havia dois personagens falando de uma caixa de joias, mesmo que ela estivesse fechada, ele fazia questão que nela estivessem presentes joias autênticas. Acreditava que assim os atores atuariam com mais convicção em relação ao texto, como se a realidade, apenas em sua alusão, fosse um estímulo à imaginação.

Em tempos que correm, a solidez do real perdeu em convencimento, deixou de ser palpável. Houve uma época na qual ele possuía um certo encantamento, pelo menos como referência imaginada (e não falo do absoluto de Sócrates). Dizia-se que as ideologias eram falsas, mas eram capazes de parcialmente apreender a verdade; o que se denominava realidade estava ali, encoberto pela superfície do pensamento que a distorcia.

Verdadeiro e falso caminhavam juntos, embora em planos diferentes. Tudo se resumiria a uma diligência arqueológica, retirar o relevante das camadas geológicas que o encobriam. Entretanto, diante da presença latente da falsidade, as ideologias dela não se libertam, alguns pensadores propuseram uma solução ao dilema: o seu desaparecimento (Daniel Bell no livro O fim da ideologia dedicou-se a trabalhar esta ideia insensata). As crenças políticas, “imbuídas de paixão”, na sua distorção do real, seriam substituídas pelas “pessoas sensatas” por um discurso racional, ponderado, no qual os ajustes graduais tecnológicos do sistema existente predominariam. A solução almejada não vicejou, o “fim” era apenas outra ideologia.

Entretanto, na hipermodernidade as coisas se transformaram, a paixão, longe de esmorecer, tornou-se complemento inseparável da expressão narcísica, particularmente nas redes sociais. De alguma maneira a virtude da sensatez tornou-se escassa. O negacionismo climático, a desconfiança na ciência, a crença nas teorias conspiratórias, as explicações de superioridade racial, são evidências que a era da pós-verdade privilegia as narrativas, e sabe-se, a autenticidade de um relato esgota-se em si mesma.

Eles podem ser extraordinários ou hiperbólicos, mas o enunciado é em si a demonstração de sua própria veracidade: a Terra não é redonda; o homem não chegou à lua; somos governados por reptilianos – organização esotérica que remonta a uma época na qual os humanos descendiam de lagartos extraterrestres.

Cada uma dessas afirmações se apresenta como fato, algo que não pode ser contradito pela razão ou o bom senso. Elas não constituem propriamente o que se denomina de fake news, são “histórias” (palavra recorrente no vocabulário digital) que se estruturam a partir de uma narrativa ordenada e ilógica. Neste sentido, o esforço de explicitação de sua falsidade é inócuo (como fazem os sites de verificação das notícias), a distância entre o falso e o verdadeiro encurtou, torna-se irrelevante.

Jean Baudrillard fazia uma distinção entre simulação e simulacro. Originalmente o termo simulação encerrava uma conotação exclusivamente negativa, era sinônimo de fingimento, dissimulação. Porém, ele se aplica também a um domínio de positividade, isto é, um exercício de imaginação a respeito de algo ainda inexistente; aquilo que falta é projetado como uma espécie de mimese da realidade.

É neste sentido que a “simulação computacional” (rebatizada como inteligência artificial) projetava no espaço de uma máquina, o computador, algumas das habilidades da mente humana. Entretanto, toda simulação possui um referente real que a antecede. Talvez por isso os linguistas digam que uma boa metáfora para se representar a inteligência artificial é a da maquete; ela é uma projeção daquilo que deverá ser, isto é, o registro de realidade que se supõe existir.

A natureza do simulacro é outra, trata-se de uma simulação levada ao paroxismo, neste caso a referência ao real se anula, inexiste. A verdade encontra-se em sua omnipresença revelada. Ou como diz a epígrafe do livro de Jean Baudrillard, uma citação do Eclesiastes: “o simulacro nunca oculta a verdade – é a verdade que oculta o que não existe. O simulacro é verdadeiro” (versículo apócrifo, inventado pelo próprio autor).

Imobilizado diante da placa estou envolto pelas dúvidas existenciais, o caminho a seguir é nebuloso. Que direção tomar? Os atos quotidianos necessitam de balizas seguras, não é propício se perder nas divagações filosóficas, elas nos enredam em sutilezas movediças.

Os antigos monges diziam ser preciso nos afastar das tentações do deserto, a vaidade intelectual era uma delas, pavimentava a senda da descrença em detrimento da verdade do mundo. Foi quando me lembrei da máxima que li na porta do elevador de um hotel em San Francisco.

Tinha me hospedado em um andar alto e desfrutava da vista da baía ao meu entorno. O aviso era simples, direto e alentador, sem hesitação ou subterfúgios advertia em letras garrafais: “em caso de incêndio use as escadas; em caso de terremoto aguarde instruções”.

 

Fonte: Por Renato Ortiz, em A Terra é Redonda