sábado, 15 de agosto de 2026

Política: seria exagerada a crítica ao lulismo?

O debate público brasileiro costuma se organizar em torno de duas perguntas.

A primeira é a pergunta da manchete: o que aconteceu? Quem subiu na pesquisa, quem perdeu uma votação, quem foi denunciado, qual declaração dominou as redes, qual crise substituirá a anterior até o fim da semana.

A segunda é a pergunta do horizonte: o que deveria acontecer? Qual é o programa correto, o horizonte ideal, o modelo de desenvolvimento adequado, a sociedade desejável, a forma política capaz de superar as contradições do presente.

As duas perguntas são indispensáveis. Sem acompanhar o que acontece, perde-se a disputa concreta. Sem formular um horizonte, a política se reduz à administração do que existe.

O problema começa quando o debate se acomoda entre essas duas pontas. De um lado, a espuma da conjuntura. Do outro, o conforto da abstração. Entre ambas, desaparece aquilo que deveria funcionar como princípio balizador: a vida real das pessoas.

É nesse intervalo que alguém pega um ônibus lotado antes do dia nascer. Que uma pessoa vai à feira contando quanto pode gastar. Que um trabalhador precisa pagar a carenagem da moto que o leva ao emprego. Que uma família tenta fazer o aniversário de uma criança sem transformar a festa numa dívida de seis meses. Que um jovem entra na escola ou na universidade e ainda precisa descobrir se terá condições de permanecer.

A abstração não paga o aniversário do filho. Não encurta o caminho até o trabalho. Não segura o fim do mês.

Isso não significa reduzir a política à administração imediata da necessidade. Significa reconhecer que nenhuma transformação digna desse nome pode tratar a vida concreta como assunto secundário, a ser resolvido depois que a teoria finalmente encontrar sua forma perfeita.

Não basta perguntar o que aconteceu, nem apenas o que deveria acontecer. A pergunta decisiva é outra: o que mudou de mãos na vida real — e o que ainda precisa mudar para que a transformação deixe de ser promessa e se torne poder concreto na vida das pessoas?

<><> Uma pergunta que muda o debate

Essa pergunta muda o debate porque desloca o centro da intenção declarada para a distribuição efetiva do poder. Em vez de perguntar primeiro a qual tradição um projeto pertence ou quão radical é a linguagem que utiliza, ela pergunta o que acontece com as capacidades de viver, produzir, criar e decidir.

Qualquer proposta que se apresente como transformadora precisa mostrar onde o poder efetivamente se moveu. Quem passou a decidir? Quem controla o que foi criado? Que capacidades permaneceram depois da intervenção? Que dependência foi reduzida? Que força existe para defender a conquista e exigir a seguinte?

A mesma exigência vale para os horizontes mais ambiciosos. Nomear a estrutura que precisa desaparecer não demonstra, por si só, como o poder será deslocado. É preciso tornar visíveis os sujeitos, os meios, as transições e as capacidades capazes de converter uma direção histórica em experiência social efetiva.

Por isso, partir da ponta não significa abandonar a estrutura. Significa obrigar a estrutura a chegar ao chão. Uma estrutura econômica organiza quem precisa vender quase todas as horas do dia para sobreviver. Uma estrutura educacional define quem pode produzir conhecimento. Uma estrutura cultural separa quem cria de quem retém o valor da criação. Uma estrutura tecnológica distribui entre países o fornecimento de recursos e o controle do comando.

A vida concreta não é o contrário da estrutura. É o lugar onde a estrutura exerce seu poder — e onde uma transformação precisa demonstrar que alterou alguma coisa além do discurso.

<><> O que significa mudar de mãos

Mudar de mãos não significa apenas transferir dinheiro ou propriedade, embora dinheiro e propriedade sejam decisivos. Significa redistribuir e acumular capacidades reais de viver, produzir, criar e decidir.

Pode mudar de mãos o tempo. O acesso ao conhecimento. O controle sobre uma tecnologia. O valor produzido por uma obra. A possibilidade de recusar uma relação degradante. A capacidade de uma sociedade interpretar a si mesma. A força necessária para defender uma conquista e exigir a seguinte.

A pergunta funciona como uma régua porque obriga a observar, ao mesmo tempo, três dimensões: a melhora imediata, a dependência preservada e a capacidade que permanece depois da intervenção.

Quem passou a dispor de mais escolhas? Que instituição ficou instalada? Que conhecimento foi produzido? Quem controla o que passou a existir? O que se tornou possível para a rodada seguinte?

Essa lente impede confusões recorrentes. Vitória eleitoral não é necessariamente poder social. Crescimento não é necessariamente desenvolvimento. Acesso não é controle. Reconhecimento não é distribuição de valor. Investimento não é soberania. Radicalidade verbal não é capacidade de transformação.

Impede também o erro inverso: considerar irrelevante toda melhora que não realize, de uma só vez, a transformação completa da sociedade. O fato de uma mudança não ser suficiente não a torna irreal. O fato de ser real não elimina seus limites.

<><> Política: vencer não é ainda governar a vida social

Uma eleição muda quem ocupa o governo. Pode alterar orçamento, prioridades, direitos e políticas públicas. Mas a vitória institucional não transfere automaticamente a capacidade de organizar a experiência cotidiana.

Um campo político pode vencer nas urnas e continuar ausente dos bairros, das redes de solidariedade, dos locais de trabalho, das igrejas, das plataformas e dos circuitos culturais nos quais as pessoas interpretam o mundo. Nesse caso, o governo muda de mãos, mas parte importante da vida social permanece sob o comando do adversário.

A pergunta, portanto, não é apenas quem venceu. É quem produz pertencimento, linguagem, proteção, mediação e horizonte no cotidiano. Que organizações ficaram mais fortes? Que vínculos se formaram? Que sujeitos passaram a participar da definição das decisões? Que conquista deixou base social capaz de defendê-la?

Essa régua evita tanto o fetiche eleitoral quanto o desprezo pela eleição. Vencer importa porque governos distribuem recursos, reconhecem direitos e criam instituições. Mas uma vitória adquire densidade histórica quando deixa, além do mandato, capacidade social organizada.

<><> Educação: acesso que deixa capacidade

Uma transformação educacional não se limita ao número de estudantes matriculados.

A expansão das universidades e dos institutos federais, o Reuni, o ProUni, a assistência estudantil e as políticas de cotas ampliaram o acesso de grupos historicamente afastados do ensino superior. Mas também deixaram prédios, bibliotecas, laboratórios, cursos, servidores, grupos de pesquisa e relações com os territórios.

Formaram profissionais, cientistas, professores, escritores, artistas e intelectuais. Ampliaram a produção de ciência e tecnologia e a capacidade de uma sociedade pensar sistematicamente sua história, sua cultura, seus conflitos e suas possibilidades.

<><> O acesso ao conhecimento mudou de mãos.

Não porque o Estado determine aquilo que as pessoas deverão pensar. Uma universidade ampliada pode formar marxistas, liberais, conservadores ou críticos radicais do governo que expandiu o sistema. Essa abertura é parte da transformação: o Estado amplia a capacidade de pensar; a sociedade disputa o sentido do pensamento produzido.

A educação mostra uma mudança que acumula capacidades. O efeito permanece em instituições, conhecimentos, redes e gerações seguintes. Mostra também um limite: conhecimento não se converte automaticamente em organização ou força política. Entre capacidade intelectual e poder coletivo existe o trabalho da política.

<><> Cultura: reconhecimento sem controle do valor

Na cultura, a pergunta revela um movimento diferente.

Políticas de acesso e reconhecimento permitiram que agentes antes excluídos recebessem recursos, circulassem e fossem reconhecidos como produtores de cultura. Algo mudou: a visibilidade, a legitimidade, a possibilidade de entrar.

Mas a periferia produz música, dança, estética e linguagem antes de possuir empresas, catálogos, contratos ou estruturas de distribuição. Quando uma criação alcança escala, o valor costuma ser capturado por quem já controla esses ativos.

<><> O criador recebe reconhecimento. Outro retém a propriedade.

A pergunta permite distinguir uma política que abre a porta daquela que altera a capacidade de possuir, negociar e decidir. Não basta abrir a porta da frente se o valor continua escapando pela janela dos fundos.

Mudar de mãos, nesse campo, significa ampliar não apenas a presença do artista, mas sua capacidade de controlar catálogo, dados, direitos, distribuição, negociação e continuidade da própria obra. Visibilidade sem propriedade pode produzir consagração e dependência ao mesmo tempo.

<>< Tecnologia: infraestrutura sem comando

A mesma lente precisa orientar o debate sobre reindustrialização e tecnologia.

Um data center não é automaticamente símbolo de modernização. Se o país fornece energia, água, terra, incentivos fiscais e infraestrutura, enquanto o controle dos dados, dos contratos e das decisões permanece no exterior, aquilo que parece avanço pode ser atraso com aparência de futuro.

<><> A máquina está aqui. O comando está fora.

A infraestrutura mudou de endereço, mas não mudou de mãos. A pergunta relevante não é apenas quanto foi investido. É que custos o país assume, que conhecimento produz, que propriedade conserva e que capacidade nacional permanece depois.

O mesmo vale para minerais críticos, inteligência artificial, energia e plataformas digitais. Tecnologia avançada pode operar sobre uma relação subordinada. Modernização se mede menos pela aparência das máquinas do que pelo poder que uma sociedade conserva sobre elas.

Uma política tecnológica transforma quando cria pesquisadores, fornecedores, patentes, instituições, capacidade regulatória e poder público de orientar o desenvolvimento. Sem isso, o país pode hospedar o futuro dos outros enquanto terceiriza o próprio.

<><> Tempo e vida material

A pergunta também precisa alcançar mudanças que parecem pequenas quando observadas de cima, mas reorganizam uma vida quando vistas da ponta.

Uma dívida renegociada não elimina o poder do sistema financeiro, mas pode devolver a alguém a possibilidade de planejar o mês. Uma moto comprada quando a renda melhora não supera a sociedade de consumo, mas pode devolver horas antes perdidas no transporte. Uma máquina de lavar não rompe a divisão sexual do trabalho, mas reduz uma carga concreta que recai sobretudo sobre mulheres. Uma redução da jornada não reorganiza sozinha o sistema de propriedade, mas transfere tempo do trabalho para a vida.

Essas mudanças não devem ser apresentadas como suficientes. Devem ser compreendidas pelo que efetivamente alteram e pelo que ainda preservam.

A questão é saber se a melhora termina como alívio individual ou deixa capacidade material, institucional, intelectual, produtiva ou política para que outras mudanças se tornem possíveis.

É aí que uma mudança ganha densidade histórica: quando deixa capacidade para avançar. O critério não é o rótulo da intervenção, mas a capacidade que ela acumula e o poder que efetivamente desloca.

<><> Capacidade não se acumula sozinha

Nenhuma capacidade se converte automaticamente em poder. Renda amplia escolhas, mas não cria organização por si só. Educação produz conhecimento, mas não determina seu uso político. Reconhecimento cultural pode abrir circulação sem transferir propriedade. Investimento pode instalar infraestrutura sem produzir soberania.

Entre uma mudança e a capacidade de sustentá-la existe um trabalho de ligação: partidos, sindicatos, movimentos, organizações territoriais, intelectuais e instituições capazes de transformar experiências dispersas em força comum.

Esse trabalho não é uma etapa secundária, acrescentada depois que a política verdadeira acontece. É justamente o processo pelo qual uma melhora deixa de ser episódio isolado, ganha duração, produz sujeitos e passa a alterar a correlação de forças.

O espaço que ele não ocupa não permanece vazio. O capitalismo forma sujeitos todos os dias por meio da competição, do endividamento, do mérito individual e da responsabilização pessoal por problemas coletivos. Plataformas, igrejas, empresas e redes políticas também disputam o sentido da experiência social.

Por isso, a pergunta sobre o que muda de mãos mede também o que uma intervenção deixa organizado: quem aprendeu a decidir, que vínculos foram criados, que instituições permaneceram e que capacidade coletiva existe para proteger a conquista e avançar além dela.

<><> A vida não pode esperar no rodapé

Há formas de pensamento que reconhecem corretamente a força das estruturas, mas perdem contato com a diferença concreta entre viver de uma forma ou de outra. Quando isso acontece, a vida real aparece como detalhe provisório diante de uma transformação sempre adiada para o horizonte.

Quem vive no aperto não mora no rodapé de um livro. Mora no aluguel que vence, no ônibus lotado, na parcela atrasada, na carenagem da moto que precisa ser substituída e no aniversário do filho que não pode esperar que a história encontre sua fórmula perfeita.

O problema não é escolher entre aliviar a vida e transformar as estruturas. É perguntar se uma mudança reduz dependências, amplia capacidades e abre condições para que novas decisões deixem de ser tomadas sobre as pessoas e passem a ser tomadas também por elas.

A crítica relevante não diminui uma conquista para preservar a superioridade do crítico, nem transforma qualquer melhora em prova de transformação concluída. Ela mostra o que mudou, o que permaneceu concentrado e qual poder ainda precisa mudar de mãos.

Essa exigência vale para liberais que chamam qualquer investimento de modernização, para gestores que confundem edital com política cultural completa, para desenvolvimentistas que medem apenas crescimento e infraestrutura, para eleitoralistas que confundem vitória institucional com base social e para discursos de transformação que não explicitam os sujeitos e os meios capazes de realizá-la.

A pergunta sobre o que muda de mãos não pertence a uma polêmica interna da esquerda. É uma régua para qualquer projeto que se apresente como transformação.

<><> A política acontece no intervalo

Não é preciso escolher entre a manchete e o horizonte.

A conjuntura importa porque decisões imediatas alteram vidas e correlações de força. O projeto de futuro importa porque o presente não fornece sozinho a direção de sua superação.

Mas é no intervalo entre ambos que a política se confirma ou se esvazia.

Ela se confirma quando renda significa mais escolha; quando educação produz conhecimento e instituições; quando uma redução da jornada devolve tempo; quando uma política cultural transforma reconhecimento em propriedade e poder de negociação; quando um investimento tecnológico aumenta o domínio do país sobre seu desenvolvimento; quando uma vitória eleitoral deixa sujeitos e organizações capazes de exigir a seguinte.

Ela se esvazia quando a mudança permanece no anúncio, quando o acesso não se converte em capacidade, quando o reconhecimento não distribui valor, quando a tecnologia não produz soberania e quando a melhora não encontra organização capaz de protegê-la.

Política é disputa sobre quem pode viver de outro modo. Quem controla o próprio tempo. Quem tem condições de produzir conhecimento. Quem fica com o valor do que cria. Quem decide sobre o território e os recursos do país. Quem deixa de ser apenas objeto de uma decisão e passa a participar da definição do futuro.

Não basta, portanto, perguntar o que aconteceu. Também não basta proclamar o que deveria acontecer.

A pergunta que liga o presente ao futuro, a vida concreta às estruturas e a transformação ao poder é outra:

O que mudou de mãos na vida real — e o que ainda precisa mudar para que a transformação deixe de ser promessa e se torne poder concreto na vida das pessoas?

 

Fonte: Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

 

Diatribes contra o PT

Eduardo Luiz Zen publicou no site A Terra é Redonda um texto sobre o PT que gerou bastante debate, dadas as consequências políticas de seus argumentos – resumidamente: o petismo estava fadado ao neoliberalismo por suas origens. O que indica, ao menos, que o tema é candente. Afinal, como foi que o PT, que propunha superar os erros de todas as experiências pretéritas da esquerda, terminou domesticando-se a ponto de protagonizar governos cada vez mais parecidos com qualquer centro-esquerda europeia, sem perspectiva de transformações profundas e puramente reativos à ameaça da extrema-direita? A era dos programas ficou no passado: hoje a política progressista é concebida como freio de contenção contra o ímpeto fascistoide.

Há, contudo, outro motivo para a repercussão: o texto confirma as convicções prévias de quem avalia o surgimento do PT como um erro histórico. Poucas experiências são mais satisfatórias do que ver as próprias crenças corroboradas por outrem. Militantes de organizações concorrentes à época, ao confabularem que a história teria sido outra sem o partido de Lula, deleitam-se com a própria imagem refletida: “é isso! Nós sempre estivemos certos! O PT nos roubou a chance!”.

O problema do contrafactual histórico é dar asas à imaginação. O que permite concluir que, não fosse a hegemonia petista, haveria uma esquerda brasileira muito mais combativa ao neoliberalismo em plena crise do socialismo, desmonte da URSS e embarque da social-democracia na canoa furada da “third way“? Vale lembrar o espírito da época: François Mitterrand, eleito com um programa radical que envolvia até a nacionalização do sistema financeiro, termina responsável pelo avanço do neoliberalismo na França.

Quais outros partidos de massa, em países de importância considerável ao Brasil, tiveram êxito com uma política à esquerda do petismo no pior período do mundo do trabalho desde que este virou força política real? O Brasil estava na contramão da história – não à toa era lido assim pela esquerda europeia em busca de inspirações -, o que explica ter protagonizado iniciativas como o Foro de São Paulo, criação conjunta do PT e de Cuba para resistir àqueles tempos bicudos.

A comparação interna também tem dificuldade em rastrear alternativas superiores. O trabalhismo não produziu frutos muito saudáveis (de Paulinho da Força a Anthony Garotinho): é difícil achar vício vigente no PT atual que esteja ausente no partido fundado por Leonel Brizola, enquanto o mesmo não ocorre com as virtudes. O PCB, nos anos 1980 já uma força muito mais recuada que o petismo (chegou a se opor à greve geral de 1983, um dos estopins para a migração do grupo de David Capistrano Filho rumo ao PT), deu origem ao PPS, dificilmente um exemplo de trajetória positiva. O MR-8 tornou-se um pequeno grupo dentro do radicalíssimo PMDB de Michel Temer, chegando a apoiar a Lava-Jato antes de se integrar ao PCdoB.

Na realidade, não há nada de surpreendente na história do petismo. É a trajetória padrão de partidos socialistas oriundos do movimento operário que concentraram suas energias no crescimento eleitoral e institucional, como notou o historiador Lincoln Secco, em seu importante livro sobre a história do PT, ao compará-lo à social-democracia europeia.

O partido social-democrata alemão, modelo de organização e teoria marxista até para Vladímir Lênin antes de degringolar com o apoio aos créditos de guerra em 1914, é o “pai fundador” prototípico: as pressões adaptativas são inerentes ao parlamento, aos governos executivos e ao próprio sindicalismo, cuja matriz é reivindicativa e integrativa, não revolucionária, como Vladímir Lênin já alertara em Que Fazer diante da experiência das trade-unions britânicas.

Mais tarde, o Partido Comunista Italiano, que tanta admiração suscitou mundo afora (inclusive em Lula), entrou em bancarrota melancólica. O PDS, originado de seu desmantelamento, estava bem à direita do PT nos anos 1990. Ou seja, nem partidos munidos de anticorpos mais sólidos que os do PT, por virem da inspiração da Revolução de 1917 e da III Internacional, preservaram-se dos efeitos corrosivos do jogo eleitoral – e olha que sequer chegaram à chefia do governo nacional! Seria justo responsabilizar Friedrich Engels e Antonio Gramsci pelo desfecho? Se o PT escapasse de tal sina, seria um fenômeno realmente inédito na história mundial.

O texto, contudo, apresenta diagnósticos pertinentes. A “relação profundamente negativa com a história brasileira” é mesmo característica do discurso inicial do PT. Tal arrogância impediu o partido de pensar suas semelhanças e diferenças com a esquerda pretérita: trabalhismo, comunismo reformista do Partidão, nacional-desenvolvimentismo. E há uma lei infalível na história: o que não é pensado volta como sintoma – velhos hábitos e esquemas mentais são repetidos inconscientemente (ao contrário da suposta “superação” autoproclamada) e impede-se o balanço tanto dos limites quanto dos aspectos positivos dessas experiências.

Ocorre que, mesmo quando capta algo verdadeiro, o autor dissolve o grão de real em um ácido confuso: a demarcação contra essas tradições explica-se muito mais pela necessidade prática de lidar com seus fracassos (afinal, não houve o golpe de 1964?) e de demarcar contra rivais no movimento operário e social (toda força ascendente que busca superar uma tradição sedimentada recorre à polêmica, inevitavelmente injusta) do que pela influência da onipotente “intelectualidade uspiana”, cuja hipóstase indica bem as tendências pouco materialistas de sua análise. Voltaremos a esse método que atribui às ideias papel demiúrgico na história – lembrando os “jovens hegelianos” de A Ideologia Alemã.

O mesmo ocorre com outro aspecto importante visado por Eduardo Luiz Zen: houve, de fato, uma mania “basista”, na falta de termo melhor, na cultura da esquerda dos anos 1980. E não era restrita ao PT: vejam as formulações dos “renovadores” gramscianos do PCB. Nessa visão de mundo, o Estado era o mal e a sociedade civil, o bem. Desse maniqueísmo à promoção do Terceiro Setor como solução da gestão pública há continuidade quase natural.

O culto à descentralização influenciou a Constituição de 1988 – marcada por municipalismo excessivo – e o abandono progressivo, pela esquerda, de qualquer projeto coletivo mais sólido que o mero atendimento de demandas esparsas de movimentos segmentados. Só que um materialismo elementar lembraria a razão comezinha para tal estado de coisas (além da conjuntura internacional: mesmo Estados “nacionalistas” passaram por reformas liberais abrangentes): era necessário enfrentar a ditadura militar e sua cultura centralizadora.

Alguém já viu um movimento popular contra o Estado (em regra é assim que todo movimento popular emerge) desenvolver carinho pelo alvo que combate? É simplificador equiparar a crítica ao Estado vinda dos movimentos populares – afinal, o marxismo não nasce defendendo o definhamento paulatino do Estado? – ao neoliberalismo, mesmo havendo paralelos. Lembra o procedimento, comum entre os guerreiros da Guerra Fria, de igualar comunismo soviético e nazismo pelo rechaço de ambos ao liberalismo político.

Mesmo quando acerta o diagnóstico da doença, portanto, o texto erra profundamente na reconstrução de sua etiologia. A crítica à pouca importância conferida pelo PT à chamada “questão nacional” é pródiga em ilustrar esse mecanismo interpretativo descarrilhado. Um sobrevoo panorâmico sobre o petismo dos anos 1980 pode levar a crer que a “Nação” era mais problema que solução. Para Eduardo Luiz Zen isso decorre de uma espécie de vício sociológico originário: “A dimensão internacional ocupava o lugar da questão nacional. […] O capital podia ser combatido como relação entre patrão e empregado sem ser enfrentado como poder internacional organizado sobre uma economia dependente.”

Vejam como as coisas são simples: essa suposta preponderância da “dimensão internacional” sobre o nacionalismo seria resultado da consciência imediata dos operários das multinacionais do ABC! Se fosse o caso, não caberia celebrar tamanho grau de consciência? Desde quando o internacionalismo virou problema para uma tradição inaugurada por um manifesto que celebra o fato de os proletários não terem pátria? O nosso escriba atribui à consciência sindical uma capacidade política e intelectual muito inflacionada frente a seus objetivos imediatos, o que o aproxima mais dos anarco-sindicalistas que de Vladímir Lênin. E, convenhamos, responsabilizar o sindicalismo pela ausência de uma teoria da dependência (quando isto já ocorreu?) é obviedade que não abre pistas.

Seria mais interessante entender – mas aí seria preciso contextualizar com precisão os debates políticos em voga no período, o que não é do feitio do autor, que não perde tempo com pormenores factuais quando já detém o esquema teleológico de que precisa – as razões desse temor perante o nacionalismo a partir da oposição à estratégia pecebista de apostar fichas na “burguesia nacional” como vetor principal da revolução democrática.

Tal crítica não se origina do operário do ABC: a Polop já nasce, no início dos anos 1960, com essa posição. E, vejam a ironia, por lá passaram alguns dos principais teóricos da dependência, como Ruy Mauro Marini. Era, na verdade, consciência comum de muitas organizações revolucionárias, inclusive algumas marxistas-leninistas (como o PRC ou o MRC, ambos tendências internas do PT).

Quando o PT elabora seu documento estratégico mais importante, no 5º. Encontro de 1987, prefere a fórmula “democrático-popular”, evacuando a nação por essas mesmas razões classistas: o uso do termo “nacional” pelo PCB “indica a participação da burguesia nessa aliança de classes – burguesia que é uma classe que não tem nada a oferecer ao nosso povo”.

Pode-se alegar que essa crítica ao chamado “etapismo” errou na dose ao subestimar a importância das tarefas nacionais num país dependente. Mesmo aceitando a hipótese, é preciso considerar que o PT dava extrema centralidade, já nos anos 1980, ao tema da dívida externa. A campanha de Lula em 1989 se baseava no famoso tripé “anti-imperialista, antilatifundiário, antimonopolista”. Entre as tarefas “anti-imperialistas” constavam a estatização do sistema financeiro, o rompimento com o FMI e o não pagamento da dívida externa.

Para esse fim valia até ampliar o arco de alianças, contra o “obreirismo” purista que caracterizou os primeiros passos do PT, conforme o mesmo documento do 5º. Encontro: “Na defesa da soberania nacional, contra o pagamento da dívida externa e a submissão de nossa economia ao FMI, ao capital estrangeiro e ao Imperialismo, o nosso arco de alianças atinge até mesmo alguns setores burgueses e liberais.”

Nos anos 1990, a centralidade da questão nacional só cresceu, pelas necessidades práticas de enfrentamento aos governos FHC. Até o PSTU passou a falar em defesa da nação. Para alguns petistas, como Valter Pomar em seu importante trabalho historiográfico sobre o partido, tal aggiornamento é sintoma de rebaixamento estratégico, aproximando o PT das formulações do antigo PCB.

Não entraremos nesse mérito, mas é importante indicar que “há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia”, a fim de evitar caricaturas. E filosofia parece a palavra apropriada, pois Eduardo Luiz Zen se entrega à metafísica, no pior sentido, ao deduzir o complexo encadeamento histórico, recheado de contingências, de premissas originárias simples e puramente intelectuais. Louis Althusser e Jacques Derrida viram na busca pela origem que engendra o fim uma marca do pensamento metafísico.

Outra passagem idiossincrática da diatribe contra o PT considera que seu problema foi não ter sido muito reformista! Ao se pautar pela busca da revolução em vez de um projeto reformista coerente, o partido teria abandonado qualquer perspectiva factível de gestão transformadora do Estado: “quem considera as reformas impossíveis sem a revolução acaba, enquanto a revolução não chega, administrando aquilo que existe”.

De novo o defeito de fabricação do método cobra seu preço: quando o PT se preparou para a revolução? Seu momento mais combativo, no final dos anos 1980, era calcado em reformas que poderiam abrir espaço para um processo revolucionário conforme as circunstâncias – o que explica por que tendências mais “ortodoxas”, como a Convergência Socialista, acusavam a estratégia de reformista. A fórmula do PT era uma espécie de Salvador Allende com final feliz.

Como Lula não venceu, não sabemos se esse caminho era aventura rumo ao desastre ou perspectiva promissora. De todo modo, a ideia de que a busca pela revolução impedia a luta por reformas reais é invenção sem nenhuma corroboração empírica, já que todas as campanhas de Lula foram pautadas por reformas. Impressiona que afirmação tão equivocada circule tão desembaraçadamente.

Fica evidente que tal método teleológico tem pouco apreço pela história efetiva. Se da combinação simples de átomos (as tais “seis matrizes fundadoras”) eu posso engendrar o destino histórico de um fenômeno, para que levar a sério os acontecimentos da história do PT pari passu com o contexto nacional e internacional? É perda de tempo lidar com discussões internas, momentos decisivos, elaborações políticas influentes (como a estratégia do 5º. Encontro), viradas táticas com consequências estratégicas, se é possível derivar o final pela reação entre elementos químicos puros. No entanto, mesmo um químico precisa de experimentos em laboratório.

Podemos classificar as hipóteses históricas em dois quadrantes: umas estimulam a investigação e abrem caminho para novas pesquisas; outras bloqueiam qualquer interesse pela história devido à força do esquema apriorístico. O estilo de Eduardo Luiz Zen é espécime perfeito da segunda (anti)heurística, impedindo que questões decisivas sejam colocadas: como se consolidou a estratégia democrático-popular na segunda metade dos anos 1980, o auge da síntese entre marxismo e estratégia política na história do PT? Por que ela foi abandonada (hipótese de Valter Pomar) ou ajustada (visão de Mauro Iasi)?

Por que a tendência Articulação, principal esteio dirigente do partido na época, se divide após o 1º Congresso do PT em 1991, em um contexto de fim do socialismo soviético? Por que dirigentes da extrema-esquerda partidária, egressos do PRC, tornam-se os principais formuladores da direita petista, pressionando cada vez mais rumo ao social-liberalismo?

Por que Lula se autonomiza cada vez mais das instâncias partidárias, entrando em conflito com a direção na campanha de 1994, quando funda o Instituto da Cidadania a fim de contornar as deliberações emanadas do PT? Por que a direção guiada pelo documento “Hora da Verdade”, marco do enfrentamento à adaptação do partido em tempos de crise do socialismo, não teve continuidade, sendo logo substituída pelo arranjo mais pragmático consolidado no Encontro de Guarapari em 1995?

Tudo isso é matéria de investigação histórica, que deveria interessar a quem busque entender a política petista não a partir de um esquema pré-configurado (leito de Procusto retalhando a realidade para caber no modelo), mas de sua vida real.

Um sintoma dessa incapacidade de lidar com a efetividade histórica é a busca por fantasmas de poder misterioso. Exemplo é a tal “intelectualidade uspiana”, uma das três principais matrizes (!!!) do petismo. Nem o mais fanático ufanista da FFLCH atribuiria tamanha potência à universidade paulista, mas virou moda inflacionar o peso dos intelectuais na determinação de fenômenos complexos. É claro que intelectuais da USP exerceram papel no PT (o caso mais emblemático é o de Francisco Weffort, que sai do partido em 1994), assim como na cultura geral da esquerda do período, mas nada autoriza elevá-los ao plano de reis-filósofos do petismo, já que este era conformado por uma cultura política diversa, incluindo múltiplos trotskismos e variantes de marxismo-leninismo.

Aliás, seriam todos os “uspianos” agentes de uma desforra pseudo-esquerdista contra Getúlio Vargas pela derrota de São Paulo em 1932? Alguns leem a história recente do país a partir do embate entre duas entidades quase cosmológicas, tal como Alexandre Dugin lê a geopolítica a partir do confronto mítico entre terra e mar: São Paulo e o resto do Brasil, geralmente metonimizado na figura do Rio de Janeiro. Um nome como Florestan Fernandes, deputado constituinte pelo PT, se encaixa facilmente nesse figurino?

Tratava-se de um intelectual que celebrava Cuba e defendia o marxismo-leninismo e a ditadura do proletariado em plena Folha de São Paulo, a ponto de alguém como Luiz Carlos Prestes referenciá-lo positivamente… A impressão é que a importância recente de Fernando Haddad (que não emerge dos fóruns internos do PT, jamais exercendo tarefas de direção partidária) fez com que, anacronicamente, alguns descobrissem o “segredo” da história petista: a malévola USP, monolito conspiratório por trás das últimas quatro décadas do país.

Esse quadro de cores saudosistas (ah, o que poderia ter sido!) e reativas (seria melhor que os acontecimentos no ABC paulista não tivessem ocorrido) reflete um desprezo pela luta das massas exploradas como chave explicativa do país. Se a luta operária entra na equação, o esquema não fica tão bonito: o PT possuía posições mais avançadas que as organizações comunistas que não entraram no seu seio.

O PCdoB, não à toa, é obrigado a se reposicionar e passa a seguir o PT a partir de 1987. O niilismo histórico imputado ao PT está, na verdade, entranhado na subjetividade de Eduardo Luiz Zen: toda a história recente do país seria um grande mal-entendido, um véu de maya, uma prisão do demiurgo (chamado Lula) da qual nos livraríamos pela sabedoria dos afortunados que viram a luz.

Ironicamente, não é postura muito diferente da adotada pelo PT em relação a seus adversários à época, repleta de caricaturas. Só que essa vontade de passar borracha no passado se justificaria num contexto de ascensão da luta de massas e disputa política real por hegemonia. A farsa é repetir isso sem tal substrato histórico. A cultura política dos anos 1980 era muito superior à dos tempos que correm, como atestam os documentos das organizações e os aparelhos de formação e circulação de ideias.

Uma olhada nos cursos do Instituto Cajamar, responsável pela formação de inúmeros militantes, bastaria para indicar que o PT – cuja secretaria nacional de formação era comandada por Wladimir Pomar, um marxista-leninista de quatro costados – não era um aglomerado de igrejeiros caridosos e sindicalistas despolitizados. Chegou-se a organizar seminários sobre as experiências socialistas reais (Jacob Gorender sobre a URSS, Pomar sobre a China) e a estratégia socialista. Talvez esse espírito devesse ser recuperado, para organizarmos discussões produtivas em vez de estereótipos manjados.

Este último fio conduz à conclusão: por que se aceita tão facilmente esse tipo de visão superficial da história do petismo? O assunto é sério demais para tanta leviandade. Quando se trata do PT, o mínimo de rigor esperado de uma síntese histórica é descartado como floreio desnecessário. Ninguém aceitaria que tratassem o PCB assim, como desiderato de matrizes originais elencadas (sem hierarquia, em justaposição confusa) para revelar o motivo de seus insucessos, elidindo qualquer engajamento com seus documentos, congressos, resoluções e polêmicas internas.

No caso do PT, a ânsia de assassinar o objeto contamina o processo de cognição. Isso não seria um problema caso a ausência de compreensão real da história recente do Brasil (pois é disso que se trata) não prejudicasse a nossa ação futura. Assim como não bastava ser anti-Stalin ou anti-PCB para superar os obstáculos da experiência soviética e dos PCs ligados a ela, não avançaremos um milímetro em nossas tarefas se optarmos pela via mais fácil do gozo da caricatura, através de cacoetes batidos, em vez da investigação precisa e bem periodizada.

 

Fonte: Por Diogo Fagundes, em A Terra é Redonda

 

Fazer falar os ossos: a rotina de quem procura os desaparecidos da ditadura

Sobre uma toalha azul, os ossos ficam dispostos em fileiras, alguns identificados por tiras de fita adesiva branca. São fêmures alinhados por tamanho, vértebras em sequência, alguns crânios. Ao fundo, a parede exibe retratos de pessoas em preto e branco e traz a pergunta: “Onde estão os nossos desaparecidos?”.

O cenário faz parte do dia a dia do laboratório do Centro de Antropologia e Arqueologia Forense (CAAF) da Universidade Federal de São Paulo que, desde 2022, tem filmado essa rotina dos peritos de luva que medem, giram e descrevem em voz alta fragmentos exumados de valas comuns. Agora, o material será parte de uma exposição inédita: “Fazer falar os ossos: engajamentos presentes com o passado”, que abre as portas em 14 de agosto no Centro MariAntônia, da USP, e fica em cartaz até 27 de setembro em São Paulo.

A curadoria é das linguistas Lorenza Mondada, de Basileia, e Fernanda Cruz, da Unifesp, e do filósofo Edson Teles, também da Unifesp. O que eles propõem ao visitante não é olhar para os mortos, mas sim para o trabalho de quem os procura.

“Os ossos nunca são apresentados de forma sensacionalista”, diz Lorenza Mondada à Agência Pública. “Eles só são visíveis indiretamente, por meio de vídeos que mostram esse trabalho.” A violência, argumenta a curadora, está no contexto: “a ditadura brasileira que torturou, matou e desapareceu pessoas”. O manuseio dos ossos pelos peritos é “um trabalho cotidiano, técnico e científico que se conecta com a história de um fragmento de osso, com a busca dos familiares e com o modo de funcionamento da repressão, da produção de falsos laudos, do silêncio do Estado”, explica.

A mostra nasceu do projeto homônimo, o Making Bones Talk, conduzido pela Unifesp e pela Universidade de Basileia, na Suíça, com financiamento da Fapesp e da Swiss National Science Foundation.

<><> Fazer falar os ossos

O método por trás das filmagens tem tradição acadêmica: etnometodologia e análise da conversa, campos que estudam como as pessoas produzem sentido nas interações cotidianas. Aplicada a um laboratório forense, a situação desloca a atenção do resultado (o laudo, a identificação etc.) para o processo. As imagens são transcritas em detalhes, como, por exemplo, o modo como duas pessoas seguram o mesmo osso. É daí que sai a estética da exposição, avalia Mondada: “na possibilidade de olhar o gesto repetido das mãos; no azul contrastante da toalha anatômica que também deixa ver detalhes nos ossos; na leitura em voz alta sobre o desaparecimento sem pistas de um militante em um documento de arquivo”.

A pergunta do cartaz, “Fazer falar os ossos”, organiza a mostra: “É uma pergunta dos familiares, mas não só. Ela passa também a ser uma pergunta nossa, enquanto sociedade que se quer democrática e mais justa”, argumenta Fernanda Cruz.

<><> A dívida impagável

Edson Teles conhece a pergunta por dentro. Filho de militantes presos e torturados, foi levado, ainda criança, ao DOI-Codi de São Paulo com a irmã. Hoje coordena o CAAF, o centro que examina os ossos. Para ele, o que emerge das valas, 40 anos depois, diz mais sobre o presente do que sobre a morte. “Quando uma sociedade não pode se despedir de seus mortos, os corpos ganham uma multiplicidade de sentidos”, afirma à Pública. Os restos que reaparecem agora “dizem muito sobre o quanto o país tem uma dívida histórica com as vítimas da violência de Estado e sobre como esta dívida, praticamente impagável, expõe a baixa qualidade de nossa democracia”.

A comparação com os vizinhos da América do Sul mede o tamanho do buraco. Argentina e Chile julgaram agentes de Estado, criaram programas permanentes de busca e abriram arquivos militares. No Brasil, nenhum agente da ditadura foi condenado, não há programa institucional de busca, os arquivos das Forças Armadas seguem fechados e o estatuto das instituições militares nunca foi revisto. Dos mais de 200 desaparecidos políticos reconhecidos oficialmente, os identificados cabem em uma curta lista.

Foi na ausência do Estado que as famílias construíram os primeiros acervos de prova, explica Teles: “Apesar de todos os bloqueios, conseguiram reunir uma extensa documentação sobre as vítimas, ainda sem a participação dos profissionais das ciências forenses”. Dessa mobilização nasceu o CAAF, instalado numa universidade pública, com estrutura permanente, que investiga e forma pesquisadores ao mesmo tempo — um arranjo que Teles descreve como único na América Latina e que manteve o trabalho de identificação de pé, pela autonomia universitária, mesmo durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, defensor do período de exceção.

<><> Do laboratório às empresas cúmplices da ditadura

O mesmo CAAF produziu outra frente de prova. Com 55 pesquisadores e em parceria com o Ministério Público Federal (MPF), o centro investigou a responsabilidade de empresas por violações de direitos durante o regime. Os resultados foram antecipados pela Pública no especial “Empresas Cúmplices da Ditadura”, que mostrou a sala de interrogatório da Fiat em Betim, o monitoramento de funcionários pela Petrobras e as listas sujas da Mannesmann. Em maio deste ano, as controladoras da Mannesmann e da Belgo-Mineira passaram a negociar um termo de ajustamento de conduta com o MPF e o MPT. O levantamento traz outras empresas, como a Fiat, Companhia Docas de Santos, Itaipu, Josapar, Paranapanema, Cobrasma, Companhia Siderúrgica Nacional (CSN), Aracruz e Folha de S. Paulo.

A antropologia forense, observa Teles, não serve só ao tribunal: alimenta “diferentes níveis do debate social e político”, do luto das famílias ao dever de memória e ajuda a mostrar o método, não só o desfecho. Durante o período de exposição haverá exibição de filmes, debates sobre a chamada virada forense, um curso aberto e uma mesa-redonda com familiares de desaparecidos. As mesmas pessoas que, há meio século, começaram a juntar as provas.

 

Fonte: Por Thiago Domenici, da Agencia Pública

 

Endometriose é associada a risco 46% maior de diabetes tipo 2, diz estudo

Um estudo publicado na revista científica "Diabetologia" encontrou uma associação entre a endometriose e um risco 46% maior de desenvolver diabetes tipo 2. A pesquisa, conduzida por pesquisadores da George Mason University, da Universidade de Utah e de outras instituições dos Estados Unidos, analisou dados de 2.939.364 pessoas designadas do sexo feminino ao nascer, acompanhadas entre 1996 e 2021.

Entre as participantes, 99.978 receberam diagnóstico de endometriose durante o período analisado. Em média, o acompanhamento durou 10,8 anos. Depois de considerar fatores como idade, ano e local de nascimento, raça/etnia e índice de massa corporal (IMC), os pesquisadores identificaram um risco relativo 46% maior de diabetes tipo 2 entre aquelas com endometriose em comparação com as que não tinham a doença.

O trabalho é o maior estudo realizado até agora a investigar a relação entre endometriose e diabetes tipo 2, segundo os autores. A análise também procurou verificar se a associação variava conforme o tipo de endometriose e características metabólicas das participantes.

Os resultados chamam atenção principalmente porque a relação foi mais forte em grupos que, tradicionalmente, não são considerados os de maior risco metabólico. Entre mulheres na pré-menopausa, por exemplo, a associação correspondeu a um risco 55% maior de diabetes tipo 2. Já entre aquelas com IMC abaixo de 30 kg/m², o risco associado à endometriose foi mais que o dobro.

Apesar dos resultados, os pesquisadores fazem uma ressalva importante: o estudo é observacional e identifica uma associação, mas não demonstra que a endometriose cause diabetes tipo 2. Possíveis fatores não medidos na pesquisa, além de diferenças no acesso e na frequência de utilização dos serviços de saúde, podem influenciar os resultados.

<><> O que a pesquisa encontrou

A endometriose é uma doença inflamatória crônica caracterizada pela presença de tecido semelhante ao endométrio fora do útero. A condição pode atingir diferentes regiões do organismo e apresentar manifestações que vão de quadros assintomáticos a dor intensa e infertilidade.

O estudo analisou diferentes classificações da doença. Entre elas estão a endometriose peritoneal superficial, a endometriose ovariana e a endometriose profunda. Também foram avaliadas a adenomiose e as classificações reunidas pelos pesquisadores como endometriose em “outros sítios”.

A associação com o diabetes variou de acordo com o subtipo. A endometriose ovariana esteve relacionada a um risco 61% maior de diabetes tipo 2, enquanto a endometriose profunda apresentou aumento de 45%. Nos casos de endometriose peritoneal superficial, o risco foi 67% maior.

Os resultados mais expressivos apareceram na categoria denominada “outros sítios”. Entre mulheres com endometriose em local anatomicamente especificado nessa classificação, o risco de diabetes tipo 2 foi de 2,67 vezes o das mulheres sem a doença. Nos casos classificados como “outro sítio não especificado”, a associação correspondeu a um risco de 2,47 vezes.

Essa categoria inclui localizações consideradas atípicas ou extrapélvicas, como trato gastrointestinal, parede abdominal e cavidade torácica. Os próprios pesquisadores, no entanto, alertam que esse grupo é bastante heterogêneo e pode reunir casos mais complexos da doença e situações em que a localização não foi detalhadamente registrada nos códigos utilizados para a análise.

A adenomiose, que atualmente é considerada uma doença distinta da endometriose, embora tenha relação clínica com a condição, também apareceu associada a um risco maior: 34% em comparação com mulheres sem endometriose.

<><> Inflamação pode estar entre as explicações

Uma das hipóteses levantadas pelos pesquisadores envolve a inflamação crônica característica da endometriose.

A doença pode apresentar atividade inflamatória persistente, enquanto processos inflamatórios também participam do desenvolvimento da resistência à insulina e do diabetes tipo 2. Segundo o estudo, mediadores inflamatórios como a interleucina-6 e a proteína C-reativa podem interferir na captação de glicose e na sensibilidade à insulina.

O ginecologista endócrino Igor Trotte explicou à CNN que, em tese, esse processo poderia interferir no funcionamento metabólico do organismo.

“A endometriose é uma doença inflamatória crônica, e existe plausibilidade biológica para que esse processo tenha repercussões metabólicas. Mediadores inflamatórios, como algumas citocinas, podem interferir nas vias de sinalização da insulina e reduzir a capacidade de tecidos como músculo e tecido adiposo de captar adequadamente a glicose”, afirma.

Nesse cenário, o organismo pode precisar produzir mais insulina para manter os níveis de glicose no sangue dentro da normalidade. Em pessoas predispostas, a manutenção desse processo ao longo do tempo pode contribuir para o desenvolvimento do diabetes tipo 2.

Mas o especialista ressalta que essa explicação ainda é uma hipótese. O estudo não mediu diretamente marcadores inflamatórios nas participantes e, portanto, não conseguiu demonstrar que a inflamação provocada pela endometriose seja responsável pelo aumento do risco observado.

“O estudo não mediu diretamente marcadores inflamatórios e, portanto, não demonstrou que a inflamação provocada pela endometriose seja responsável pelo aumento observado no risco. Esse é um mecanismo possível, mas que ainda precisa ser melhor investigado”, diz Trotte.

Os próprios autores fazem a mesma ressalva no artigo. Embora considerem a inflamação sistêmica uma possível explicação para a associação, afirmam que estudos futuros que incorporem biomarcadores serão necessários para esclarecer os mecanismos biológicos envolvidos.

<><> Associação é mais forte antes da menopausa

Outro resultado que chamou a atenção dos pesquisadores foi a diferença observada conforme a fase da vida.

Entre mulheres com menos de 50 anos, utilizadas no estudo como aproximação para o grupo pré-menopausa, a endometriose esteve associada a um risco 55% maior de diabetes tipo 2. Já entre as participantes com 50 anos ou mais, a associação foi muito mais fraca.

De acordo com Trotte, uma possível explicação está no comportamento hormonal e inflamatório da endometriose durante os anos reprodutivos.

“Durante a pré-menopausa, a endometriose tende a apresentar maior atividade hormonal, inflamatória e proliferativa. Já após a menopausa, passam a ganhar importância outros fatores relacionados ao envelhecimento, como aumento da gordura visceral, perda de massa muscular e redução da sensibilidade à insulina”, explica.

A própria pesquisa considera biologicamente plausível que a relação seja mais evidente antes da menopausa, quando a endometriose apresenta maior atividade hormonal e inflamatória. Após a menopausa, outros processos metabólicos relacionados ao envelhecimento podem ter maior peso sobre o risco de diabetes.

<><> Mulheres sem obesidade tiveram associação ainda maior

O estudo também encontrou uma diferença importante conforme o IMC.

Entre mulheres com IMC abaixo de 30 kg/m², a endometriose esteve associada a um risco de 2,39 vezes o das mulheres sem a doença. Entre aquelas com IMC igual ou superior a 30 kg/m², o risco associado foi de 1,74 vez.

O resultado pode parecer contraintuitivo, já que a obesidade é um fator de risco conhecido para o diabetes tipo 2. Os autores sugerem que, entre mulheres sem obesidade, fatores relacionados à própria endometriose poderiam representar uma parcela proporcionalmente maior do risco metabólico, enquanto, em mulheres com obesidade, o excesso de tecido adiposo poderia ser um fator predominante.

Trotte destaca, porém, que esse dado não deve ser interpretado como uma indicação de que mulheres magras com endometriose necessariamente terão um risco absoluto maior de diabetes do que mulheres com obesidade.

“Nas mulheres sem obesidade, por outro lado, um importante fator de risco metabólico já conhecido não está presente. Por isso, um possível efeito relacionado à própria endometriose pode se tornar proporcionalmente mais evidente. Isso, porém, não significa que uma mulher magra com endometriose necessariamente tenha maior risco absoluto de diabetes do que uma mulher com obesidade”, afirma.

<><> Resultado não significa que endometriose cause diabetes

Apesar da magnitude dos números, a principal cautela na interpretação do trabalho está no desenho da pesquisa.

Trata-se de um estudo de corte retrospectivo, baseado em registros de saúde da população de Utah. Os pesquisadores acompanharam diagnósticos registrados em bancos de dados e utilizaram modelos estatísticos para estimar a associação entre endometriose e o aparecimento de diabetes tipo 2. Isso permite identificar uma relação estatística, mas não estabelecer que uma doença provoque diretamente a outra.

“Como se trata de um estudo observacional, não é possível afirmar que a endometriose seja a causa do diabetes”, explica Trotte. Segundo ele, características metabólicas, estilo de vida, tratamentos utilizados e até o maior contato dessas pacientes com o sistema de saúde podem contribuir para a associação encontrada.

Esse último ponto também aparece entre as limitações reconhecidas pelos próprios pesquisadores. Mulheres com endometriose podem ter contato mais frequente com médicos e serviços de saúde, o que aumenta as oportunidades de identificação de condições que poderiam permanecer sem diagnóstico por mais tempo. Esse chamado viés de detecção é especialmente relevante porque o diabetes tipo 2 pode permanecer assintomático durante anos.

Além disso, os diagnósticos de endometriose foram, em grande parte, identificados por códigos de diagnóstico. Os autores apontam que isso pode gerar erros de classificação, principalmente em determinados subtipos. A categoria “outros sítios”, justamente aquela que apresentou as associações mais fortes, é considerada particularmente heterogênea.

Também não foram avaliados diretamente alguns fatores que podem interferir no risco metabólico, como alimentação, atividade física e uso de tratamentos hormonais para endometriose.

<><> O que muda para mulheres com endometriose

Diante dos resultados, o estudo não estabelece que todas as mulheres com endometriose devam realizar exames para diabetes com maior frequência. A pesquisa sugere uma possibilidade que ainda precisa ser confirmada por outros trabalhos.

“É ainda prematuro recomendar um protocolo específico de rastreamento de diabetes exclusivamente pela presença de endometriose. Um único estudo observacional, mesmo envolvendo quase 3 milhões de mulheres, não é suficiente para modificar as recomendações clínicas, principalmente porque estudos anteriores não encontraram uma associação tão clara entre as duas doenças”, afirma Trotte.

De fato, pesquisas anteriores haviam encontrado resultados diferentes. O próprio artigo cita estudos de coorte que não identificaram associação estatisticamente significativa entre endometriose e diabetes tipo 2. No "Nurses’ Health Study II", por exemplo, a associação geral foi considerada nula, embora análises de subgrupos tenham encontrado relações mais fortes entre mulheres consideradas de menor risco metabólico. Uma coorte francesa também não encontrou associação significativa.

Por isso, o novo trabalho acrescenta uma peça ao debate, mas não encerra a questão.

Para Trotte, a principal contribuição está justamente em ampliar a avaliação das pacientes. “A avaliação não deve se limitar aos sintomas ginecológicos, à dor ou à fertilidade, mas também considerar fatores relacionados à saúde metabólica, como alimentação, atividade física, peso, histórico familiar e outros fatores de risco já conhecidos para diabetes.”

A orientação, portanto, é individualizar a avaliação. A presença de endometriose pode fazer parte do histórico clínico considerado pelo médico, mas a necessidade e a frequência de exames devem levar em conta o conjunto de fatores de risco de cada paciente.

<><> Estudo amplia discussão sobre efeitos sistêmicos da endometriose

A endometriose costuma ser associada principalmente a sintomas ginecológicos, como dor pélvica, alterações relacionadas ao ciclo menstrual e infertilidade. O estudo ARCHES amplia a investigação para possíveis consequências metabólicas de longo prazo.

Os autores destacam que a doença é heterogênea e que seus possíveis efeitos sistêmicos também podem variar conforme a localização das lesões e as características metabólicas de cada paciente. A pesquisa aponta, ainda, que as associações permaneceram presentes em diversas análises de sensibilidade, inclusive quando os pesquisadores consideraram possíveis atrasos no diagnóstico da endometriose e outros fatores.

Para Trotte, esse é um dos principais pontos do trabalho.

“Talvez o principal mérito do estudo seja contribuir para uma mudança na maneira como enxergamos a endometriose. Durante muito tempo, a doença foi tratada predominantemente como uma condição relacionada à dor pélvica, fertilidade e qualidade de vida. Hoje existe um interesse crescente em compreender suas possíveis repercussões sistêmicas e de longo prazo.”

Segundo o médico, o resultado “não significa afirmar que a endometriose cause diabetes”, mas sinaliza uma associação que merece investigação.

“O estudo acrescenta um sinal epidemiológico importante de que saúde reprodutiva, inflamação e saúde metabólica podem estar mais interligadas do que imaginávamos”, afirmou à CNN.

Não obstante, novos estudos são necessários para determinar se a associação é causal, quais grupos de mulheres apresentam maior risco e se estratégias de avaliação ou intervenção metabólica antecipadas poderiam produzir algum benefício.

 

Fonte: CNN Brasil