sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Francisco Teixeira: A produção social do atraso

Em A revolução brasileira, Caio Prado Júnior recusa, logo de saída, a concepção – corrente na esquerda marxista – de revolução como um conceito a priori, a partir do qual a realidade brasileira deveria ser moldada. Essa perspectiva atribui a Karl Marx uma pretensa filosofia da história. Segundo ela, os desígnios do processo histórico se imporiam fatalmente a todos os povos, independentemente das circunstâncias concretas em que se encontrassem. O resultado seria, em última instância, a convergência necessária para uma mesma formação social, capaz de assegurar, com o máximo desenvolvimento das forças produtivas do trabalho social, o pleno desenvolvimento do homem: o socialismo. Ora, protesta Caio Prado Júnior, tal presunção não conta sequer com o argumento da autoridade. É o próprio Marx quem a rejeita. Se o autor de O capital fosse adepto de uma teodiceia hegeliana do Espírito, a história dos homens se apresentaria como o relato das etapas de uma marcha inexorável. Essa marcha seria imposta à humanidade por meio de uma sucessão linear e ininterrupta de modos de produção, culminando nas portas do paraíso, em cujo umbral estaria inscrita a palavra comunismo.

Longe disso. As correspondências de Karl Marx com leitores russos de O capital desmentem categoricamente essa visão linear da história. Em 1881, ao escrever a Vera Zasulitch, Marx afirmava que, em virtude de uma combinação de circunstâncias históricas específicas da Rússia, “a comuna rural […] poderia desembaraçar-se gradualmente de seus caracteres primitivos e desenvolver-se diretamente como elemento da produção coletiva em escala nacional” (Marx, 1982, p. 176), sem a necessidade de atravessar as dores do desenvolvimento capitalista.

Para que não subsista qualquer dúvida quanto à concepção de história em Marx, basta considerar as observações que dirige ao populista N. K. Mikhailóvski. Este interpreta o capítulo XXIV de O capital – no qual Marx analisa a passagem histórica do feudalismo ao capitalismo na Europa Ocidental – como um esboço de uma filosofia da história válida para todos os povos e tempos. Marx, porém, rejeita explicitamente essa leitura. Insiste no caráter historicamente determinado de sua análise e na impossibilidade de convertê-la em um esquema universal do desenvolvimento histórico.

Polemizando com o crítico russo que transformara seu “esboço histórico da gênese do capitalismo na Europa Ocidental em uma teoria histórico-filosófica da marcha geral fatalmente imposta a todos os povos”, Marx observa, com ironia, que tal interpretação “ao mesmo tempo, muito me honra e muito me envergonha” (Marx, 1982, p. 167-168). O que vale para a Europa Ocidental, insiste Karl Marx, não se aplica necessariamente a outras formações sociais. Caio Prado Júnior tem plena consciência do estatuto da história em Marx. Ele sabe que é inteiramente estranha a Karl Marx e a Friedrich Engels a ideia de que a evolução histórica da humanidade se realize por meio de etapas invariáveis e predeterminadas. Ao investigarem a gênese do capitalismo, os fundadores do materialismo histórico ocuparam-se de realidades historicamente determinadas – os países da Europa Ocidental – e jamais pretenderam converter essa análise em um modelo geral aplicável a todos os povos.

Como corretamente apreendeu Caio Prado Júnior, Marx, em particular, não projetou para além da Europa Ocidental sua interpretação da origem do capitalismo no seio da economia feudal, com a consequente e paralela decadência e destruição do Antigo Regime. Marx e Engels, insiste o autor de A revolução brasileira, tampouco estenderam essa análise a outras formações sociais. “Tratava-se de fatos específicos da evolução histórica dos países europeus. E assim foram considerados” (p. 32-33).

É precisamente aí que reside, para Caio Prado Júnior, o erro capital da esquerda brasileira. Ao converter a concepção marxiana de história em uma teodiceia universal, essa esquerda passou a tratar como necessárias e invariáveis trajetórias que Marx jamais concebeu como tais. Foi essa leitura dogmática que a levou a aplicar mecanicamente ao Brasil o mesmo esboço analítico elaborado por Marx para compreender a transição do feudalismo ao capitalismo na Europa.

Contra esse procedimento, a crítica de Caio Prado Júnior é frontal e intransigente. Não há qualquer razão teórica ou histórica, sustenta ele, para admitir a priori que os fatos ocorridos na Europa possam ser transplantados para “quaisquer outros lugares e, portanto, [para] o Brasil também”. Tal forma “de abordar a consideração dos fatos históricos […] é inteiramente descabida”. Ao proceder desse modo, a esquerda marxista brasileira não apenas falseia a realidade nacional, como também ressuscita uma filosofia da história que Marx havia rejeitado explicitamente, tanto em sua crítica a Hegel quanto em suas polêmicas com certos marxistas russos. Esses pseudomarxistas, como assim os denomina Caio Prado Júnior, “que pretendem balizar a evolução histórica de todos os povos e países segundo um modelo inspirado no que ocorreu em um grupo deles, não estão muito longe, mas, pelo contrário, muito próximos daquelas anacrônicas concepções” que reduzem a história a uma sucessão linear e cronológica de modos de produção (p. 33-34). É a partir dessa crítica de método que Caio Prado Júnior irá enfrentar a tese, dominante na esquerda brasileira, de um passado feudal no Brasil. Ao rejeitar a aplicação automática do esquema europeu, ele abre caminho para uma análise da formação econômica brasileira em seus próprios termos históricos, na qual a questão agrária, longe de remeter a sobrevivências feudais, será compreendida como momento constitutivo do capitalismo dependente e do padrão específico de acumulação que nele se afirma.

<><> O sentido da colonização e a especificidade do capitalismo brasileiro

Essa crítica ao teleologismo e ao etapismo encontra seu fundamento mais profundo na interpretação histórica desenvolvida por Caio Prado Júnior em Formação do Brasil contemporâneo. Nessa obra, o autor demonstra que a sociedade brasileira não resulta da persistência de formas feudais nem de um desenvolvimento capitalista bloqueado por entraves externos, mas se constitui, desde a colonização, como uma economia voltada para o mercado mundial. A colônia organizou-se como uma grande empresa comercial, orientada para a produção de mercadorias destinadas à exportação e regida, desde a origem, pela lógica do lucro. É esse o sentido da colonização. No seu conjunto, e considerada no plano mundial e internacional, afirma Caio Prado Júnior, “a colonização dos trópicos toma o aspecto de uma vasta empresa comercial, mais completa que a antiga feitoria, mas sempre com o mesmo caráter que ela, destinada a explorar os recursos naturais de um território virgem em proveito do comércio europeu. É esse o verdadeiro sentido da colonização tropical, de que o Brasil é uma das resultantes; e ele explicará os elementos fundamentais, tanto no econômico como no social, da formação e evolução históricas dos trópicos americanos” (p. 31).

É, portanto, por meio do conceito de “sentido da colonização” que o autor de Formação do Brasil contemporâneo demonstra a inexistência de feudalismo no Brasil. Tal argumento, contudo, dificilmente bastaria para levar a esquerda marxista brasileira a abdicar de seus dogmas, pois esta poderia sustentar que, mesmo inexistindo feudalismo stricto sensu, persistiriam relações pré-capitalistas na agricultura – expediente teórico frequentemente mobilizado para preservar a tese de um passado feudal. Nessa perspectiva, invocar-se-iam a parceria e outras formas de relações de produção no campo, consideradas de natureza não capitalista. Ora, para Caio Prado Júnior, a parceria não tem nada de semifeudal. Ela não corresponde à parceria clássica europeia (métayage ou mezzadria); antes, constitui uma relação de trabalho capitalista, na qual o trabalhador é remunerado com uma parte do produto, funcionando como uma forma de assalariamento in natura. Como observa Caio Prado Júnior, “a nossa parceria assimila-se assim antes ao salariado, e constitui, pois, em essência, uma forma capitalista de relação de trabalho […]. É nesses termos que se situa ou deve situar-se a questão quando considerada em seu aspecto político e revolucionário” (p. 40-41). Tampouco se deve compreender a parceria como um obstáculo estrutural ao desenvolvimento das forças produtivas. Contra tal interpretação, Caio Prado Júnior argumenta, apoiado em uma leitura rigorosa de O capital, que “o que caracteriza essencialmente o capitalismo não é a tecnologia empregada […], mas as relações humanas de produção e trabalho, isto é, o complexo de direitos e obrigações que se estabelecem entre indivíduos participantes das atividades produtivas e que definem e determinam a posição respectiva desses indivíduos uns em relação aos outros […]. Onde ocorrem essa categoria e esse tipo de relações de produção e trabalho – e é esse o caso da maior e melhor parte da agropecuária brasileira – temos capitalismo, ainda que um capitalismo rudimentar, incipiente e de baixo nível tecnológico e de desenvolvimento, como de fato se verifica, de modo generalizado e com poucas exceções, na agropecuária brasileira” (p. 106-107).

O capitalismo caracteriza-se, portanto, como corretamente compreendeu Caio Prado Júnior, como uma forma social historicamente determinada, e não pelo conteúdo material dessa forma. Como observa Marx, “onde a necessidade de vestir-se o obrigou, o homem costurou por milênios, e desde muito antes que houvesse qualquer alfaiate” (Marx, 2017, p. 120). Em termos ainda mais diretos, escreve Marx: “um negro é um negro. Somente sob determinadas condições ele se torna escravo. Uma máquina de fiar algodão é uma máquina de fiar algodão. Apenas sob determinadas condições ela se torna capital. Arrancada dessas condições, ela é tão pouco capital quanto o ouro é, em si mesmo, dinheiro […]. O capital é uma relação social de produção. É uma relação histórica de produção” (Marx, 2017, p. 836, nota 256). Assim como o escravo não se torna escravo simplesmente em razão da cor de sua pele, e uma máquina de fiar algodão só se transforma em capital sob determinadas condições sociais, segue-se que o capital apenas se constitui quando essas condições estão historicamente presentes. Em outras palavras, o capital “só surge quando o possuidor dos meios de produção e de subsistência encontra no mercado o trabalhador livre como vendedor de sua força de trabalho; e essa condição histórica compreende toda uma história mundial. O capital anuncia, portanto, desde o seu primeiro surgimento, uma nova época no processo social de produção” (Marx, 2017, p. 245).

O erro da esquerda revolucionária consistiu, portanto, em não apreender adequadamente a concepção marxiana de capitalismo e em reproduzir suas categorias de forma acrítica, sem atenção às especificidades da sociedade brasileira. Em decorrência disso, confundiu capitalismo com desenvolvimento tecnológico. Ora, como o capitalismo não se define pela tecnologia empregada, seus diferentes níveis de desenvolvimento não dependem necessariamente do progresso técnico. Prova disso é oferecida por Caio Prado Júnior ao analisar a forma como o capital, na agropecuária brasileira, responde às pressões de custo. Nesse setor, observa o autor, “as reduzidas aspirações e o baixo nível ideológico e de consciência de classe dos trabalhadores rurais” contribuíram para retardar a introdução de técnicas avançadas na produção. Por essa razão, afirma Caio Prado Júnior, “tem faltado […] à produção agropecuária brasileira este fator essencial de estímulo à introdução de melhorias e aperfeiçoamentos técnicos, que consiste, em primeiro e principal lugar – como toda a história do desenvolvimento capitalista demonstra –, na necessidade de compensar o acréscimo de custos provocado pelo aumento da remuneração do trabalho, aumento esse que resulta da agressividade e da combatividade do trabalhador, com o crescimento da produtividade por meio da introdução de técnicas aperfeiçoadas” (Caio Prado Júnior, 2004, p. 106-107).

Vale dizer: a agropecuária brasileira não é tecnicamente atrasada porque preservaria relações arcaicas de produção herdadas da escravidão; ela é atrasada porque tais relações permitem aos proprietários auferir ganhos sem investir, mediante a exploração intensiva de trabalhadores que, por longo período, dispuseram de reduzida capacidade de impor reivindicações. Nesse sentido, o atraso é funcional. Não se trata de um simples resíduo do passado a ser superado pela “marcha natural” do capitalismo, mas de um elemento estrutural do capitalismo dependente brasileiro.

Caio Prado Júnior compreendia, assim, o desenvolvimento do capitalismo no Brasil como uma forma específica de acumulação, na qual o avanço das forças produtivas dependia da reprodução de formas de produção herdadas da colonização. Por isso, afirma o autor, as reminiscências das relações escravistas de produção, “longe de constituírem obstáculos ao progresso e ao desenvolvimento do capitalismo, lhe têm sido altamente favoráveis, pois contribuem para a compressão da remuneração do trabalho, ampliando, com isso, a parte da mais-valia e favorecendo, por conseguinte, a acumulação capitalista. O que sobra do escravismo representa, assim, um elemento de que o capitalismo se prevalece e em que frequentemente se apoia, uma vez que o baixo custo da mão de obra torna possível, em muitos casos, a sobrevivência de empreendimentos de outra forma deficitários. É, assim, errado – e da maior gravidade para os efeitos da revolução brasileira – supor que tais remanescentes escravistas poderão ser eliminados e, com isso, algumas das formas mais brutais de exploração do trabalho suprimidas, pelo simples progresso e maior difusão das relações capitalistas de trabalho e produção” (Caio Prado Júnior, 2004, p. 97). Nesse sentido, longe de constituírem obstáculos ao desenvolvimento do capitalismo no Brasil, as relações pré-capitalistas de produção são preservadas e reproduzidas pelo próprio processo de acumulação de capital. Nessa imbricação dialética, o “negócio da agricultura – base sobre a qual se estrutura a maior e principal parte da economia rural brasileira – muitas vezes só se mantém precisamente graças aos baixos padrões de vida dos trabalhadores e, portanto, ao reduzido custo da mão de obra que emprega” (Caio Prado Júnior, 2004, p. 97).

<><> A razão dualista e a produção social do atraso

É nessa mesma perspectiva que se inscreve a Crítica à razão dualista de Francisco de Oliveira. Com efeito, tanto Francisco de Oliveira quanto Caio Prado Júnior convergem na crítica ao dualismo entre atraso e modernidade, ao demonstrar que a pobreza, a informalidade e as formas tidas como “arcaicas” não constituem resíduos do passado, mas elementos funcionais do capitalismo brasileiro, estruturalmente integrado ao sistema mundial. Se, em Caio Prado Júnior, o atraso aparece como dimensão constitutiva da acumulação capitalista dependente, em Oliveira ele é radicalizado como resultado histórico da própria dinâmica de sua reprodução, isto é, como produção social do atraso. Essa convergência, contudo, não elimina as especificidades de cada autor. Diferentemente de Caio Prado Júnior, cujo interlocutor direto é a teoria da revolução brasileira elaborada pela esquerda marxista, Francisco de Oliveira elege como objetivo central de sua análise “contribuir para a revisão do modo de pensar a economia brasileira, na etapa em que a industrialização passa a ser o setor-chave para a dinâmica do sistema, isto é, para efeitos práticos, após a Revolução de 1930” (Oliveira, 2003, p. 20).

Nessa investigação, o alvo principal de sua crítica é o conceito de “modo de produção subdesenvolvido”, formulado no âmbito da Cepal, que concebia a periferia capitalista – em particular a América Latina – como uma sociedade marcada por dualidades estruturadas em torno da oposição formal entre um setor atrasado e um setor moderno. Para Francisco de Oliveira, essa oposição meramente formal não se sustenta, uma vez que o processo real de expansão do capitalismo “mostra uma simbiose e uma organicidade, uma unidade de contrários, em que o chamado ‘moderno’ cresce e se alimenta da existência do ‘atrasado’, se se quer manter a terminologia” (Oliveira, 2003, p. 21-22). É a partir dos fatores que presidiram a inflexão do padrão de acumulação agrário-exportador em direção a uma acumulação de base urbano-industrial que se pode apreender o alcance da imbricação orgânica a que se refere Francisco de Oliveira. O primeiro desses fatores insere-se no processo de regulamentação da oferta e da demanda dos fatores de produção no conjunto da economia. No interior dessa regulação, Francisco de Oliveira destaca o enquadramento jurídico das relações entre capital e trabalho, em particular a instituição do salário mínimo, decisiva para impedir que o preço da força de trabalho se elevasse a um patamar capaz de comprometer a continuidade da acumulação de capital. Com efeito, o salário mínimo proporcionava, por um lado, “o horizonte médio para o cálculo econômico empresarial, liberto do pesadelo de um mercado de concorrência perfeita, no qual fosse necessário competir pelo uso dos fatores”; de outro, a legislação trabalhista igualava – reduzindo, antes que ampliando – o preço da força de trabalho (Oliveira, 2003, p. 25–26).

A legislação trabalhista aparece, assim, menos como resultado da luta política, sindical ou dos conflitos de classe da época do que como expressão das exigências estruturais da acumulação, articuladas à importação de tecnologia e à compressão salarial. Trata-se, portanto, de uma leitura marcadamente economicista, na qual a política e as ações dos trabalhadores tendem a ser funcionalizadas e reabsorvidas pela lógica sistêmica do desenvolvimento capitalista. Além da regulação do trabalho, Francisco de Oliveira aponta a intervenção do Estado na esfera econômica como outro fator decisivo para a consolidação do novo padrão emergente de acumulação urbano-industrial. Essa intervenção incidia sobre a fixação de preços, a distribuição de ganhos e perdas entre distintos estratos das classes capitalistas, bem como sobre a adoção de uma política fiscal agressiva no âmbito da produção, orientada ao subsídio de outras atividades produtivas. Assiste-se, assim, à ampliação das funções do Estado, em um período que se estende até os anos Kubitschek, com investimentos em infraestrutura, a imposição do confisco cambial sobre o café para “redistribuir ganhos entre frações das classes capitalistas”, o rebaixamento do custo do capital por meio do subsídio cambial às importações de equipamentos industriais e da expansão do crédito a taxas reais de juros negativas, além do investimento direto na produção – como nos casos de Volta Redonda e da Petrobras. Por meio desses mecanismos, o Estado opera continuamente a transferência de recursos para a empresa industrial, convertendo-a no centro do sistema (Oliveira, 2003, p. 26–27).

À regulação das relações entre capital e trabalho e à intervenção do Estado na economia soma-se a agricultura como o terceiro fator decisivo para a consolidação do novo padrão de acumulação urbano-industrial. A partir dos anos 1930, a agricultura deixa de constituir um setor autônomo ou meramente residual e passa a integrar-se de forma subordinada à dinâmica da industrialização. Essa integração, contudo, não se realiza pela superação de suas formas atrasadas, mas justamente por sua reprodução.

De um lado, as divisas geradas pelas exportações agrícolas financiam a importação de bens de capital e de insumos intermediários; de outro, a baixa produtividade e a permanência de relações regressivas no campo garantem o abastecimento urbano a custos reduzidos, comprimindo o preço dos alimentos e, por essa via, os salários reais. Tal como já indicara Caio Prado Júnior, o “atraso” agrícola, longe de representar um entrave externo ao desenvolvimento industrial, converte-se em condição interna de sua viabilização, ao evitar pressões sobre a acumulação urbano-industrial e assegurar sua reprodução ampliada (Oliveira, 2003, p. 28). Nessa condição de setor destinado ao abastecimento do mercado interno, a agricultura converte-se, segundo Francisco de Oliveira, em um mecanismo permanente de acumulação primitiva, ao viabilizar a apropriação de excedentes que sustentam a expansão do capital urbano-industrial. Ao contrário de Caio Prado Júnior – para quem a classe camponesa no Brasil constituía uma exceção, quando comparada à sua congênere europeia –, Oliveira pressupõe a existência de um campesinato socialmente expressivo como elemento explicativo central desse processo. Admitida essa pressuposição, Francisco de Oliveira recorre a Marx para redefinir o conceito de acumulação primitiva. Não se trata aqui, em primeiro lugar, da expropriação direta da propriedade da terra – embora tal processo também tenha ocorrido em larga escala –, mas da expropriação do excedente produzido sob a posse transitória da terra.

Em segundo lugar, a acumulação primitiva não se limita à gênese histórica do capitalismo: em determinadas condições, sobretudo quando este se expande por meio da incorporação de periferias, ela assume um caráter estrutural. Assim, tanto na abertura de fronteiras “externas” quanto “internas”, o processo é análogo: “o trabalhador rural ou o morador ocupa a terra, desmata, destoca e cultiva lavouras temporárias chamadas de ‘subsistência’; nesse processo, prepara a terra para lavouras permanentes ou para a formação de pastagens, que não são dele, mas do proprietário. Há, portanto, uma transferência de ‘trabalho morto’, de acumulação, para o valor das culturas ou atividades do proprietário” (Oliveira, 2003, p. 28-29).

É nesse ponto que se ancora um dos núcleos mais consistentes da crítica de Francisco de Oliveira à razão dualista da Cepal. Ao postular uma oposição entre uma agricultura supostamente atrasada, concebida como resíduo histórico a ser eliminado, e uma indústria erigida como encarnação do moderno, o pensamento cepalino transforma em problema aquilo que é, na realidade, uma solução funcional do capitalismo periférico. O “atraso” agrícola revela-se, assim, como produto histórico da própria industrialização e componente estrutural da reprodução da acumulação urbano-industrial. O outro pilar da crítica à razão dualista centra-se na negação do suposto “inchaço” do setor terciário. Para a Cepal, esse setor seria um resíduo destinado a desaparecer com o avanço da industrialização. Contra essa tese, Oliveira sustenta que “o crescimento do Terciário, na forma em que se dá, absorvendo crescentemente a força de trabalho, tanto em termos absolutos quanto relativos, faz parte do modo de acumulação urbano adequado à expansão do sistema capitalista no Brasil; não se está em presença de nenhuma ‘inchação’, nem de nenhum segmento ‘marginal’ da economia” (Oliveira, 2003, p. 36).

Para demonstrar essa hipótese, o autor investiga a disputa entre os setores da economia pelos fundos de acumulação. Observa que a intensidade do crescimento industrial não permite uma capitalização simultânea dos serviços, sob pena de concorrência direta pelos recursos escassos. Tal contradição é resolvida por meio do crescimento não capitalístico do setor terciário. A prova encontra-se na simbiose entre a agricultura “moderna” e o comércio ambulante, na multiplicação de oficinas de reparação, nos serviços pessoais e na expansão de atividades informais, que, longe de constituírem excrescências, ajustam-se perfeitamente às exigências da acumulação global e reforçam a concentração da renda (Oliveira, 2003, p. 37-38). Assim, longe de constituir um obstáculo ao crescimento industrial, a expansão aparentemente desproporcional do setor terciário está inteiramente vinculada à dinâmica da acumulação urbano-industrial nas economias periféricas. Sua aparência caótica expressa não um desvio patológico, mas um resultado necessário da forma historicamente assumida pela acumulação capitalista na periferia. A legislação trabalhista, a intervenção do Estado, a agricultura operando como mecanismo estrutural de acumulação primitiva e o crescimento do setor informal somam-se, assim, como fatores que criaram as condições da industrialização brasileira. Ao alcançar os anos 1980, esse processo insere o Brasil no rol das economias industrializadas. Trata-se, contudo, de uma industrialização que, embora incorpore algumas conquistas da revolução técnico-científica, permanece significativamente aquém daquela observada nos países centrais.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Como o islamismo influenciou religiões de matriz africana no Brasil

Roupas brancas às sextas-feiras, o som dos atabaques, patuás junto ao corpo, a cabeça no chão como gesto de respeito.

Esses são alguns rituais praticados em terreiros de candomblé, umbanda e quimbanda — religiões de matriz africana que surgidas no Brasil com a vinda forçada de povos escravizados.

Mas o que muita gente não sabe — e muitos livros de história não registram — é que estes rituais têm influência do islamismo africano, já que parte dos escravizados que vieram ao Brasil seguiam esta fé.

Os malês, como ficaram conhecidos os africanos muçulmanos escravizados, vieram da região do Golfo do Benim e desembarcaram no Brasil entre os séculos 18 e 19.

De acordo com a antropóloga Francirosy Campos Barbosa, docente do departamento de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP), o termo malê tem origem no iorubá e está associado a muçulmano, mestre ou sábio — refletindo o reconhecimento social que esses africanos possuíam em suas regiões de origem, sobretudo no atual sudoeste da Nigéria e Benim.

Vivendo principalmente em Salvador, eles dominavam a leitura e a escrita em árabe, conheciam o Alcorão e mantinham práticas religiosas regulares — como orações, jejum e ensino religioso estruturado.

No Brasil, os malês se destacaram pelo alto grau de organização religiosa, política e intelectual.

"Por serem muçulmanos, eles se reconheciam entre si, mesmo não tendo vindo todos da mesma região. A religião criava um vínculo que facilitava a organização coletiva", explica Barbosa.

Mas essas práticas eram reprimidas pelas autoridades coloniais e depois imperiais do Brasil — onde por séculos o catolicismo foi a religião oficial e outras crenças, inclusive as de africanos não-islâmicos, foram fortemente reprimidas.

Até que, em 1835, os malês protagonizaram um dos levantes regenciais (revoltas ocorridas no Brasil durante o Período Regencial, entre 1831 e 1840) mais importantes do século 19 e uma das principais rebeliões de africanos escravizados em áreas urbanas do Brasil.

A Revolta dos Malês ocorreu em 25 de janeiro de 1835, em Salvador.

Segundo o historiador Wilher Freitas Guimarães, mestre em educação pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), o movimento foi protagonizado por cerca de 600 africanos escravizados, em sua maioria muçulmanos.

Vestidos com abadás brancos e portando amuletos considerados protetores, os participantes se organizaram para enfrentar as forças do poder colonial.

O levante foi rapidamente reprimido pelas autoridades, mas é apontado por pesquisadores como um marco da resistência negra no período regencial e da presença islâmica africana na história do Brasil.

Após a revolta, o Islã passou a ser ainda mais associado ao risco de insurreição.

Segundo o antropólogo e historiador Vitor Queiroz, o episódio gerou pânico entre autoridades e parlamentares, que temiam que o Brasil seguisse o caminho do Haiti.

A Revolução Haitiana, iniciada em 1791 na então colônia francesa de Saint-Domingue, foi a única revolta de pessoas escravizadas nas Américas que resultou na criação de um Estado independente, governado por ex-escravizados.

"Esse medo levou à perseguição dos muçulmanos, a tentativas de deportação e ao fortalecimento do controle sobre suas práticas religiosas, o que acabou reforçando o apagamento de sua presença na história oficial", explica Queiroz, coordenador do Núcleo de Antropologia das Sociedades Indígenas e Tradicionais da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Outra explicação para o pouco conhecimento sobre a história dos malês no Brasil era o próprio desinteresse das elites da época nesse povo escravizado, acrescenta o antropólogo e historiador.

Fatores demográficos também contribuíram para esse silenciamento.

Com a proibição ao tráfico transatlântico de escravizados para o Brasil, em 1850, a entrada de africanos da África Ocidental, região mais islamizada, diminuiu drasticamente.

Sem reposição populacional e sob vigilância constante, essa presença foi se diluindo ao longo da segunda metade do século 19.

Mais tarde, essa herança foi ofuscada pela imigração árabe e pela consolidação de correntes islâmicas mais ortodoxas.

<><> Símbolos islâmicos nos terreiros

O que sobreviveu da cultura islâmica africana no Brasil se perpetuou na memória oral e nas religiões afro-brasileiras, influenciadas por três principais grupos originários: banto (vindo de Angola e Congo), jeje (do antigo Daomé) e nagô (de tradição iorubá).

Entre os exemplos mais visíveis está o uso do branco, especialmente às sextas-feiras.

Barbosa, professora da USP, explica que no Islã a cor está associada à preparação espiritual e à limpeza ritual. Segundo ela, antes da reza, há um ritual de purificação do corpo, que inclui banho e higiene.

"Os muçulmanos usam roupa branca porque era a roupa que o profeta Muhammad usava. É uma roupa que precisa estar limpa, purificada, especialmente para a oração de sexta-feira", afirma.

A presença dessa cor também aparece nos terreiros, mas não como reprodução pura e simples do rito islâmico — uma comparação com a qual é preciso cautela, diz o historiador Wilher Freitas Guimarães.

"Temos que ter o cuidado epistemológico em não associar diretamente a influência islâmica como estruturadora das práticas religiosas de matriz africana", afirma.

Segundo ele, o uso do branco nas religiões de matriz africana resulta de uma formação própria ocorrida no Brasil, na qual a participação dos africanos muçulmanos atuou como um dos componentes, e não origem exclusiva.

Outra convergência, embora Guimarães novamente aponte que não se pode falar em uma influência direta, está no uso de patuás e amuletos.

No Islã tradicional, especialmente no norte da África e Península Arábica, não se usa o termo "patuá" — mas existem as hizbs ou ta'wiz, pequenos pedaços de papel ou couro com versículos do Alcorão escritos à mão, para proteção.

Nas tradições islâmicas africanas, a escrita tem função protetiva — e muitos patuás usados no Brasil também trazem inscrições, reforçando a conexão com as forças espirituais.

"Ao escrever no patuá, [uma pessoa] aumenta o vínculo com as forças espirituais e deixa claro sua intenção, no objeto, com as forças nas quais acredita", explica Guimarães.

Barbosa aponta para outros rituais que revelam esse encontro de heranças, como o encostar a cabeça no chão como gesto de respeito, o uso de pequenas bolsas de couro junto ao corpo e até a organização comunitária dos terreiros.

André Aluize, antropólogo e sacerdote de candomblé (função conhecida também como pai de santo ou babalorixá) da nação ketu (uma das vertentes do candomblé, neste caso de origem iorubá), também pondera que não é possível fazer uma ligação direta entre certos elementos presentes em religiões afro-brasileiras e práticas islâmicas.

Para Aluize, vice-coordenador da Rede Temática Educaxé (grupo de estudos na Universidade Estadual Paulista), é melhor falar em "incorporação" e "ressignificação" desses elementos no Brasil.

O pesquisador destaca a influência islâmica, por exemplo, nas batas e adornos de cabeça utilizados nos terreiros, como os turbantes.

Outro exemplo é o atabaque. Embora o instrumento tenha origem africana, Aluize explica que ele chegou ao Brasil trazido por povos escravizados com forte identidade cultural islâmica.

Nos terreiros, os atabaques não são apenas instrumentos musicais, mas entidades sagradas, indispensáveis para a realização dos rituais, ressalta o antropólogo.

<><> A violência em comum

Mais do que falar em sincretismo, especialistas sugerem olhar para essa convergência como resultado de um diálogo forçado entre tradições submetidas à violência da escravidão.

Aluize propõe que a relação entre o Islã e as religiões afro-brasileiras seja compreendida em dois momentos principais.

O primeiro tem a ver com a ancestralidade africana comum, anterior à formação histórica das religiões organizadas.

"Independentemente do tempo histórico, das convenções, territorialidades, dogmas e doutrinas, a noção de sagrado e as relações com ele têm origem no continente africano", destaca Aluize.

O segundo ocorre com a chegada forçada dos malês ao Brasil, quando suas práticas e concepções religiosas passam a dialogar com outras tradições africanas já presentes no território.

Para a professora Francirosy Campos Barbosa, da USP, o termo "mistura" não contempla a complexidade do encontro de culturas e crenças ocorrido no Brasil.

"Não é uma fusão equilibrada, mas uma aproximação construída por pessoas africanas escravizadas, que precisavam criar estratégias para manter vivas suas crenças", explica.

Assim, elementos do Islã, especialmente aqueles ligados à espiritualidade africana, não sobreviveram como religião organizada, mas foram fragmentados e reinterpretados.

Para Guimarães, não se trata de afirmar a continuidade de um rito islâmico, mas de reconhecer uma adaptação estratégica.

"Talvez seja mais produtivo falar em sobrevivência religiosa. Não foi uma mistura livre, mas uma adaptação calculada para continuar existindo em um ambiente de repressão", afirma.

Sacerdote de candomblé, o antropólogo André Aluize avalia que muitas comunidades de terreiro já veem de forma positiva as influências do islamismo, entendendo-o como parte da formação das religiões afro-brasileiras.

Contribui para isso o crescimento recente de pesquisas acadêmicas sobre religiosidades de matriz africana no Brasil, que ajudam a reconhecer a "plurietnicidade" na origem dessas tradições, ele aponta.

Para o público geral, reconhecer a presença islâmica africana na formação religiosa e cultural do Brasil ajuda a ampliar a leitura sobre a escravidão para além da violência física e do trabalho forçado, dizem os entrevistados.

Segundo Barbosa, há pouco espaço para compreender os africanos escravizados como pessoas letradas e organizadas. A escassez de estudos e a presença limitada da revolta dos Malês nos livros didáticos, segundo a pesquisadora, refletem esse processo de invisibilização.

Para ela, o resgate dessa história ajuda a revelar a contribuição do Islã para a história brasileira.

"Infelizmente, há o estigma de um Islã terrorista, que oprime mulheres. Não há o devido conhecimento sobre os muçulmanos, sua história rica de conhecimento e expansão. Com os africanos, pior ainda, porque vivemos em um país racista. Difícil vermos religiosos negros sendo protagonistas", lamenta a antropóloga.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Câncer no Brasil expõe país dividido entre prevenção e diagnóstico tardio; veja tipos mais letais por região

O Brasil deve registrar cerca de 781 mil novos casos de câncer por ano entre 2026 e 2028, segundo a nova estimativa divulgada pelo Instituto Nacional de Câncer (Inca).

🔴 Mais do que indicar o avanço da doença, o levantamento revela um país profundamente desigual: enquanto parte da população convive com cânceres que estão associados ao envelhecimento e ao estilo de vida urbano, outra ainda enfrenta tumores amplamente preveníveis, diagnosticados tardiamente e concentrados nas regiões mais pobres.

O retrato traçado pelo Inca mostra que o câncer já se consolidou como um dos principais desafios de saúde pública do país. De acordo com o instituto, é possível que em um futuro próximo essa seja a principal causa de morte no Brasil, superando doenças historicamente mais comuns como problemas cardíacos.

Os dados devem servir para o desenvolvimento de políticas públicas que possam ampliar o atendimento onde há desigualdade e melhorar o rastreio onde pessoas ainda morrem por doenças tratáveis. Nesta manhã, durante a apresentação dos dados, o Ministro da Saúde, Alexandre Padilha, reconheceu que essa precisa ser uma prioridade.

<><> Um país, dois padrões de câncer

Os dados da Estimativa 2026 mostram que o perfil do câncer no Brasil varia de forma significativa entre as regiões —reflexo direto de desigualdades no acesso aos serviços de saúde, às ações de prevenção e às condições de vida da população.

>>> NORTE E NORDESTE

Nas regiões, seguem em destaque tumores historicamente associados a falhas estruturais de saúde pública.

➡️ O câncer do colo do útero aparece como a segunda neoplasia mais incidente entre mulheres nessas regiões, apesar de ser amplamente prevenível por vacinação contra o papilomavírus humano (HPV) e rastreamento adequado.

A vacina está disponível no SUS para meninas e meninos de 9 a 14 anos e também para quem faz uso da PrEP.

Já o câncer de estômago ocupa posições de destaque entre os homens, cenário relacionado a fatores socioeconômicos, infecções e diagnóstico tardio.

>>>> SUL E SUDESTE

Nessas regiões, por outro lado, predominam cânceres associados ao envelhecimento populacional e ao estilo de vida urbano.

Tumores de mama, próstata, cólon e reto concentram a maior parte dos casos, padrão semelhante ao observado em países de renda alta.

➡️ Ainda assim, mesmo nessas regiões, o avanço do câncer colorretal preocupa pela combinação de alta incidência e mortalidade ainda elevada, reflexo da ausência de um programa nacional estruturado de rastreamento.

As diferenças regionais aparecem também nas taxas. Confira os dados sobre o câncer de mama:

•        Norte: cerca de 33 casos de câncer de mama/100 mil

•        Sudeste: cerca de 88 casos/100 mil

•        Sul: cerca de 77 casos/100 mil

Oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation, Stephen Stefani afirma que esse contraste reforça a necessidade de um olhar regionalizado.

“Quase todos os tumores chamam atenção pelas taxas de incidência, com diferenças relevantes entre as regiões do país. O câncer de mama é um bom exemplo: no Norte, a taxa gira em torno de 33 casos por 100 mil mulheres, enquanto chega a cerca de 88 no Sudeste e 77 no Sul.”

Segundo ele, o próprio relatório alerta que essas variações não têm uma única explicação.

“Essas diferenças são multifatoriais. Envolvem desde melhora na captação de informações e registros mais confiáveis até padrões de diagnóstico mais ágeis e possíveis diferenças genéticas.” — Stephen Stefani, oncologista do grupo Oncoclínicas e da Americas Health Foundation

<><> Mama lidera, mas colo do útero segue como alerta grave

Entre as mulheres, o câncer de mama permanece como o mais incidente no país, com números próximos de 80 mil novos casos por ano —tendência semelhante à observada em países desenvolvidos.

Para o oncologista Gilberto Amorim, da Oncologia D’Or e titular da Sociedade Brasileira de Oncologia Clínica (SBOC), esse movimento já está consolidado.

“O aumento dos casos de câncer de mama segue uma tendência já vista em muitos países e hoje aparece de forma consolidada, com números próximos de 80 mil novos casos.”

O cenário muda radicalmente quando o foco é o câncer do colo do útero. Apesar de ser uma doença amplamente prevenível, ele segue entre os tumores mais incidentes em mulheres de algumas regiões do país e mantém uma mortalidade elevada.

“Trata-se de uma neoplasia que ainda é a mais frequente entre mulheres em algumas regiões do país, com quase 20 mil novos casos por ano. Mais grave: mais de 7 mil brasileiras morrem anualmente por essa doença”, afirma Amorim. "É um número assustador, sobretudo porque o câncer do colo do útero está praticamente desaparecendo em vários países.”

🔴 Mesmo com a existência de vacina contra o HPV, capaz de prevenir a maioria desses tumores, o país segue convivendo com mortes consideradas evitáveis.

<><> Câncer de intestino cresce e expõe falha no rastreamento

Outro ponto de destaque na estimativa é o crescimento do câncer de cólon e reto, hoje entre os mais incidentes em homens e mulheres no Brasil. Esse é o tipo de câncer que matou a cantora Preta Gil.

Em algumas regiões, ele já aparece como o tumor mais frequente entre os homens. Amorim explica que o avanço reflete mudanças no estilo de vida da população.

“Esse crescimento reflete hábitos pouco saudáveis, como sedentarismo e alimentação de baixa qualidade, rica em gorduras e produtos ultraprocessados. É a conta desse estilo de vida chegando, de forma cada vez mais pesada, para a sociedade.”

Além da incidência elevada, especialistas alertam para a mortalidade ainda alta, em grande parte associada à ausência de um programa nacional estruturado de rastreamento, o que faz com que o diagnóstico ocorra, muitas vezes, em fases avançadas da doença.

<><> Pulmão ainda lidera mortes por câncer no Brasil

Embora a Estimativa 2026 trate principalmente dos casos novos, o relatório também traz, ao final da análise de cada tipo de tumor, dados de mortalidade usados para contextualizar o impacto da doença no país. Esses números ajudam a dimensionar o impacto real da doença —e mostram que os cânceres mais frequentes nem sempre são os que mais matam.

Com base nos dados de mortalidade de 2023, os cânceres de traqueia, brônquio e pulmão seguem como a principal causa de morte por câncer no Brasil, considerando homens e mulheres, apesar da queda gradual observada nos últimos anos.

Os dados reforçam um contraste central do cenário oncológico brasileiro: tumores como mama e próstata lideram em incidência, mas não em mortalidade, enquanto cânceres como pulmão e intestino seguem altamente letais, em grande parte por serem diagnosticados em fases avançadas.

“A mortalidade por câncer de pulmão vem caindo, é verdade, mas ainda permanece alta. E, como já se observa em outros países, tanto a incidência quanto a mortalidade por câncer de intestino têm aumentado”, afirma Amorim.

<><> Desigualdade social pesa no risco de morrer

Oncologista e cofundador do Instituto Vencer o Câncer, Fernando Maluf atribui o crescimento do câncer no Brasil a uma combinação de envelhecimento populacional e aumento de fatores de risco.

“Quanto maior a expectativa de vida, maior a vulnerabilidade às doenças crônicas, como o câncer. Mas o que preocupa é que muitos fatores de risco, em vez de diminuírem, estão aumentando: obesidade, sedentarismo, piora da alimentação, consumo de álcool e tabagismo.”

Maluf também chama atenção para o papel das infecções e da baixa cobertura vacinal.

“O Brasil está entre os países com altas incidências de tumores relacionados ao HPV, como os de colo do útero, pênis, vulva, canal anal e cabeça e pescoço. A baixa vacinação contra o HPV e contra a hepatite B ajuda a explicar a relevância desses cânceres.”

Segundo ele, as desigualdades sociais agravam ainda mais o cenário.

“Populações mais pobres recebem o diagnóstico em estágios mais avançados, o que é, por si só, um fator de pior prognóstico. A mortalidade entre grupos menos favorecidos é de duas a três vezes maior do que em países desenvolvidos.”

<><> Um retrato conhecido, mas cada vez mais urgente

Médica sanitarista e CEO da Associação Brasileira de Câncer do Sangue, Catherine Moura reforça que os dados da nova estimativa não trazem surpresas absolutas, mas reforçam a urgência de agir.

“As desigualdades regionais e a distribuição por tipo de câncer não mostram nada desconhecido. No entanto, as estimativas relacionadas ao câncer de colo do útero escancaram a prioridade urgente de intervenção de saúde pública para a erradicação de um câncer evitável.”

Ela também destaca a relevância crescente do câncer colorretal.

“A importância crescente do câncer de cólon e reto no panorama nacional reforça a necessidade de atuação na prevenção e, sobretudo, no rastreamento e diagnóstico precoce.”

Mais do que números, a Estimativa 2026 do Inca revela, segundo os especialistas ouvidos pela reportagem, um retrato claro: o câncer no Brasil avança em ritmo desigual, e a distância entre prevenção eficaz e diagnóstico tardio segue determinando quem adoece —e quem morre.

 

Fonte: g1 

 

João Carlos Loebens: Eleições e a máquina de histeria moral das elites

Um discurso tem se repetido nos momentos de crise política da história brasileira: o combate à corrupção como imperativo moral supremo. Cabe lembrar que o discurso moral sempre é verdadeiro, mas a prática cotidiana pode estar completamente dissociada do discurso, como na famosa hipocrisia dos fariseus descrita na Bíblia. Esse discurso moralista é a ferramenta predileta da elite (na verdade, oligarquia econômica e midiática), para justificar aquilo que ela sempre executou quando perde o jogo democrático eleitoral: o Golpe de Estado.

O combate à corrupção é um valor inquestionável na sociedade. Por outro lado, a corrupção real, sistêmica e estrutural do Brasil, desde as Capitanias Hereditárias, é o sistema onde uma minúscula oligarquia (elite de super ricos), historicamente avessa à meritocracia e à livre concorrência, se apropria do Estado e dos recursos nacionais para manter seus privilégios seculares. Essa oligarquia, acostumada a governar para si, desenvolveu uma narrativa poderosa para camuflar e legitimar seus privilégios e dominação: o discurso moral.

A Proclamação da Independência, de autoria do herdeiro direto do poder colonial, foi um movimento de afastamento das ameaças liberais e republicanas que poderiam surgir de uma independência popular. Décadas depois, a Proclamação da República, em 1889, longe de ser uma revolução cívica, foi um Golpe Militar de oligarquias agrárias e elites insatisfeitas com o Império, mantendo intactas as estruturas de concentração de riqueza e a consequente desigualdade social geradora da pobreza.

O século XX segue na mesma toada. Getúlio Vargas, ao criar as bases de um Estado social e industrial, tornou-se o maior alvo dessa elite oligárquica. Suas conquistas – a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a criação da Justiça do Trabalho, da Petrobrás, do BNDES, e a instituição do salário-mínimo – representavam uma afronta à ordem oligárquica de concentração de riqueza, pois repartiam renda, direitos e poder simbólico com a classe trabalhadora. Eleito democraticamente em 1951, Getúlio foi perseguido e difamado, sob campanha feroz da “imprensa conservadora” (da oligarquia/elite de sempre), que o acusava de imensa corrupção, criando a expressão “mar de lama”, que desembocou no trágico suicídio em 1954.

O ciclo repetiu-se com os sucessores. Juscelino Kubitschek, com seu plano de metas que industrializou o país e construiu Brasília, foi incessantemente atacado por suposto “esbanjamento” e corrupção, tentando-se desmoralizar a euforia desenvolvimentista. João Goulart, herdeiro político de Vargas, ao propor as Reformas de Base (agrária, urbana, bancária) e ampliar a organização popular, foi pintado como um comunista corrupto e incompetente, um perigo à moralidade e à família, abrindo caminho para o Golpe Militar de 1964. Jango se viu obrigado a fugir para salvar a vida de sua equipe e apoiadores.

O regime ditatorial subsequente se autoproclamou uma “revolução moral” para limpar a corrupção e o comunismo, mas serviu para impor um projeto econômico excludente, manter e reforçar a concentração de renda e riqueza, e reprimir qualquer ameaça à ordem oligárquica existente.

A redemocratização não desmontou essa lógica, com a oligarquia financeirizada e midiática usando o combate à corrupção como arma seletiva. A campanha de Fernando Collor em 1989, com seu discurso moralizante de “caçador de marajás”, foi amplamente beneficiada por uma manipulação grosseira da Rede Globo, que editou o debate decisivo contra Lula e a favor de Collor. No dia da eleição, a Globo transmitiu por horas a fio a cobertura do sequestro encenado do empresário Abílio Diniz, criando um clima de comoção e desestabilização. O ápice foi a exibição da “pasta de denúncias” vazia contra Lula, um teatro midiático mentiroso com profundo impacto eleitoral. Collor, o moralista da Globo, caiu dois anos depois por corrupção, revelando a hipocrisia do uso do discurso moral dissociado da prática. Atualmente Collor encontra-se condenado por corrupção, cumprindo prisão domiciliar em função de enfermidade.

O impeachment da Presidenta Dilma Rousseff em 2016 foi o ápice contemporâneo dessa estratégia moralista e golpista. Sem crime de responsabilidade ou enriquecimento ilícito, com um discurso moral inflamado pela grande mídia e por setores do judiciário, criou-se a atmosfera de “crise ética” necessária para depor um governo democrático e legitimamente eleito, que, apesar de suas alianças contraditórias, ameaçava interesses oligárquicos ao manter políticas de inclusão social e não se curvar totalmente às agendas econômicas mais radicais do capital financeiro.

A Operação Lava Jato foi o aparato técnico e midiático perfeito para essa narrativa moralista e golpista. Ao criminalizar a política e o Estado como um todo, criou a imagem de um país inteiro corrompido, mas direcionou seu fogo para setores específicos do espectro político, destruindo projetos nacionais e deslegitimando a democracia representativa. O verdadeiro alvo nunca foi o combate da corrupção, mas a reconquista total do Estado por uma oligarquia que se vê como a dona do país e é subserviente a interesses externos, especialmente interesses estadunidenses.

O padrão histórico se confirma: após cada golpe, a corrupção não é combatida, direitos são reduzidos, políticas sociais desmontadas e o Estado retorna ao seu papel tradicional de garantidor dos privilégios econômicos da oligarquia do país.

E assim chegamos ao presente. A cada eleição em que se anuncia a derrota do campo político da elite oligárquica, o mesmo roteiro é reativado: a histeria moral com acusações de corrupção seletiva (p.ex. do STF que puniu golpistas), e apelos por intervenção das forças “puras” contra a “bandidagem” no poder. O objetivo real e não declarado é emplacar o campo político preferido e escolhido pela elite oligárquica. 

Portanto, quando se ouve o grito histérico contra a corrupção vindo da tradicional mídia hegemônica e dos púlpitos financeiros, a primeira pergunta a fazer não é sobre a veracidade de eventuais crimes (que devem, em um Estado de Direito sério, ser investigados e punidos), mas sobre a função política desse discurso neste momento. Quem ele beneficia? Quais são as pessoas que representam a “força pura” que irá substituir a “bandidagem” no poder? Que projeto de país ele pretende viabilizar? A Lava e Vaza Jato podem servir de inspiração para as respostas.

Ficou famosa uma frase de campanha do Bill Clinton a presidente dos Estados Unidos: “É a economia, estúpido”. Ela buscava focar no que realmente importava para o eleitor estadunidense, a economia do país. Considero o termo “estúpido” meio forte, mas vem “importado” da frase usada nos Estados Unidos.   No Brasil, o núcleo do conflito está no controle do Estado e dos limites da democracia. A formulação para a situação brasileira, fazendo analogia à frase estadunidense, poderia ser: “Não é a corrupção, é Golpe de Estado, estúpido”.

Sempre foi.

É isso que a elite oligárquica brasileira tenta reacender quando perde no voto. Enquanto o combate à corrupção continuar sendo um discurso moral, distanciado da prática, o Brasil seguirá preso ao seu ciclo histórico mais perverso: o da democracia tolerada apenas quando não ameaça os privilégios oligárquicos internos e externos.

¨      Imperialismo zumbi, produto de um capitalismo senil. Por Rodrigo Lucas Pereira

O retorno de Donald Trump às manchetes globais, vociferando ameaças de invasão a Cuba, orquestrando encenações judiciais contra Nicolás Maduro e mais recentemente falando abertamente em anexação da Groenlândia, evoca, à primeira vista, um forte sentimento de déjà vu. Para o observador apressado, os Estados Unidos parecem estar apenas espanando a poeira da velha Doutrina Monroe. É o mesmo imperialismo de sempre, dizem. Contudo, ao ajustarmos a lente analítica sobre esses eventos de janeiro de 2026, algo fundamental não se encaixa na moldura clássica.

A retórica é agressiva, mas a execução é errática. As sanções e ameaças não vêm acompanhadas daquele planejamento meticuloso de ocupação territorial ou da lógica férrea de exploração produtiva que marcou o século XX. O que vemos são ações espasmódicas, teatrais e desconectadas de qualquer estratégia de longo prazo. Não estamos mais diante do “Imperialismo Clássico”, impulsionado por um projeto de nação. O que enfrentamos hoje é o Imperialismo Zumbi: um corpo de guerra formidável que continua a caminhar e a morder, mas que agora opera desprovido da racionalidade estratégica (o “cérebro”) que um dia o criou.

<><> O Cérebro Morto

Para entender a ausência de comando, é preciso voltar à tese central de Paulo Ghiraldelli em Capitalismo 4.0: a hegemonia hoje é do capital financeiro, e ele não tem pátria. A velha burguesia industrial precisava organizar o “burgo” (infraestrutura, escolas, estabilidade social) para lucrar. Já a elite financeira e da infosfera lucra com fluxos globais, volatilidade e algoritmos. Para esses agentes, a “saúde” do território nacional tornou-se irrelevante. Houve um descolamento: quem detém o dinheiro não tem mais interesse em gerir a nação.

É fundamental não confundir a presença de bilionários do Vale do Silício no governo com um “novo projeto de país”. Eles não ocuparam a Casa Branca para atuar como estadistas ou para planejar o futuro da sociedade americana. Eles estão lá apenas para garantir que o Estado não regule seus monopólios e para capturar o orçamento militar em contratos de IA e energia, impulsionados pelo pânico de perder a corrida tecnológica para a China. Eles não operam os botões da política para construir hegemonia, mas para garantir o saque. Ninguém, absolutamente ninguém nesse núcleo de poder que sequestrou a Casa Branca, tem um projeto de nação.

Trump opera, de fato, como um showman, mas seria um erro confundi-lo com um mero bufão inofensivo. Sua performance constante não é uma cortina de fumaça para esconder a política; o espetáculo é a própria política.

Em um Estado que perdeu a capacidade de entregar melhorias materiais, a função do líder deixa de ser administrativa e passa a ser puramente instintiva. Trump não governa para resolver crises, ele as encena para saciar a fome de conflito de sua base neofascista. Ele é o mestre de cerimônias do colapso, cujo único projeto é manter a tensão alta o suficiente para que ninguém perceba que o navio está à deriva. O showman não constrói; ele mantém o público entretido enquanto o teatro pega fogo.

<><> A Mordida

Essa mutação na base econômica alterou a natureza da intervenção externa. No capitalismo industrial clássico, a exportação de capitais exigia a exportação casada da superestrutura: para garantir o lucro fixo da ferrovia ou da mina, o imperialismo precisava transplantar seu aparato jurídico e manter o controle político-militar — a infraestrutura chegava, e a superestrutura vinha junto para garanti-la. Hoje, sob a hegemonia do capital financeiro que entra e sai dos países conforme a conveniência dos algoritmos e das políticas neoliberais, o imperialismo dispensa a custosa administração colonial. Ele não precisa mais governar a periferia; precisa apenas garantir que ela não atrapalhe o fluxo ou gere volatilidade lucrativa.

A recente operação na Venezuela ilustra essa lógica macabra: tratou-se de um sequestro, não de uma ocupação. Mesmo após a prisão de Maduro, quem segue governando em Caracas é sua vice-presidente, enquanto a própria ExxonMobil já declarou a inviabilidade de explorar o petróleo local naquele contexto. O objetivo não era a conquista territorial para a produção, mas o espetáculo punitivo e o caos pontual. O Zumbi morde e segue vagando, sem interesse em gerir as ruínas que deixa para trás.

<><> O Corpo Vivo

Contudo, decretar o fim do imperialismo apenas pela ausência de um projeto seria um erro fatal. Se o cérebro morreu, o corpo do gigante continua funcional. O complexo industrial-militar, a CIA e a hegemonia do dólar são estruturas construídas ao longo de um século. Elas possuem uma inércia própria; não evaporam só porque a elite mudou.

Aqui, a realidade material se impõe. Recorrendo à sabedoria popular: se tem focinho de porco, rabo de porco e pé de porco, é porco. Quando Trump mobiliza frotas ou asfixia economias, ele opera com a materialidade de um Estado imperialista. O aparato está lá, disponível e letal. Para a vítima na ponta final — o venezuelano ou o cubano — a distinção acadêmica entre “projeto” e “prática” é irrelevante. A dor é real. O Zumbi pode não saber para onde vai, mas sua mordida continua sendo mortal.

<><> O Espasmo

Se na América Latina a ação é predatória e performática, no Ártico o comportamento do Zumbi revela outra faceta de sua patologia: o pânico. A recente retórica sobre a anexação da Groenlândia não deve ser lida como um novo ciclo de expansão imperialista clássica, mas como um reflexo defensivo desesperado.

Ali, o objetivo não é “conquistar para desenvolver”, mas “tomar para negar”. Diante da movimentação concreta da Rússia e da China nas novas rotas polares, o sistema nervoso do império dispara um alerta de sobrevivência. O corpo militar se move para o Norte não porque possui um projeto para a região, mas porque teme ser engolido pelas potências que, ao contrário dele, mantêm seus cérebros estratégicos funcionando.

A tentativa de compra ou anexação da ilha funciona como uma barricada de última hora. O Zumbi percebe que seu antigo “mundo unipolar” está encolhendo e, num espasmo de autopreservação, tenta fechar fisicamente as portas do Ocidente. É a geopolítica da negação: ocupar o espaço apenas para garantir que o “outro” não o ocupe. O império não avança para construir o futuro; ele se entrincheira violentamente para tentar impedir que o futuro chegue.

<><> A Fome

Mas se o cérebro morreu, a ocupação acabou e os movimentos externos são apenas reações de pânico, o que mantém esse organismo colossal operando com tanta violência? A resposta reside na anatomia residual do império: o Complexo Industrial-Militar, agora fundido às gigantes da tecnologia.

Mesmo sem direção estratégica, esse corpo possui um estômago insaciável. Com um orçamento anual que ultrapassa os 900 bilhões de dólares, a máquina de guerra americana opera por uma inércia aterrorizante. Para justificar sua existência, o corpo precisa de movimento constante. E aqui entra o novo apetite: as Big Techs não querem apenas vender anúncios; elas disputam ferozmente fatias desse orçamento para contratos de vigilância, drones autônomos e sistemas de IA.

É essa aliança que torna o Zumbi tão perigoso. Diferente do soldado racional, que luta para atingir um objetivo político e depois descansa, a máquina de guerra luta para se alimentar. Sem uma Guerra Fria real, ela fabrica ameaças fantasmas e espetáculos de força para garantir a renovação dos contratos. O Zumbi ataca não porque tem um plano de vitória, mas porque seu metabolismo — agora digital e financeiro — exige a violência contínua para não colapsar.

<><> A Troca de Cérebro

Em última análise, o conceito de “Imperialismo Zumbi” diagnostica uma patologia terminal do Ocidente: a dissolução da Razão de Estado no coração do capitalismo financeiro. Enquanto analistas ainda buscam estratégias ocultas nas ações da Casa Branca, a realidade do Capitalismo 4.0 revela que o comando estratégico está vazio.

A burguesia financeira, ao descolar seus interesses do território nacional, condenou o Estado americano a se tornar uma casca oca. O “cérebro” migrou para a nuvem global, deixando para trás um “corpo” militar colossal, armado até os dentes, mas guiado apenas por instintos primitivos: a fome de audiência interna e a voracidade do saque imediato.

Isso não decreta, contudo, o fim da política, mas o colapso de sua forma liberal-burguesa. Para sobreviver ao século XXI, é preciso olhar além dos escombros. Enquanto o capitalismo financeiro produz zumbis erráticos presos ao curto prazo, o socialismo com capacidade de planejamento estratégico e economia de projetamento — exemplificadas pela China — provam que a Razão de Estado não morreu. No cenário de apocalipse institucional que vivemos, a política capitalista tornou-se um morto-vivo, mas a história continua sendo escrita por aqueles que tiveram a coragem de transplantar o cérebro.

 

Fonte: Outras Palavras