quarta-feira, 17 de junho de 2026

Washington Araújo: O debate público sequestrado pela mentira

Brasília descobriu uma nova forma de fazer política: substituir dados por slogans, estudos por vídeos virais e problemas complexos por soluções instantâneas. O resultado dessa escolha já está à vista. Setores do Parlamento brasileiro correm o risco de trocar a função histórica de produzir consensos pela tentação de fabricar indignação permanente.

Não se trata de um episódio isolado. Tampouco de divergências ideológicas, que são parte natural da democracia. O problema é outro. A mentira, a meia-verdade e a manipulação do medo deixaram de ser acidentes ocasionais e passaram a integrar a estratégia de grupos parlamentares interessados em transformar a política em espetáculo permanente. A prioridade deixa de ser resolver problemas nacionais. O objetivo passa a ser produzir engajamento, constranger adversários e alimentar as redes sociais.

A aprovação, em 10 de junho de 2026, da admissibilidade da PEC 32/2015 pela Comissão de Constituição e Justiça da Câmara tornou visível esse fenômeno. Por 44 votos favoráveis e 18 contrários, os deputados autorizaram o prosseguimento da proposta que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. O tema é legítimo e merece discussão. O que causa perplexidade é a facilidade com que um assunto de enorme complexidade jurídica, social e educacional foi apresentado à população como solução quase automática para a violência.

Décadas de estudos nacionais e internacionais mostram que criminalidade e encarceramento não mantêm relação tão simples quanto sugerem discursos inflamados. Mesmo assim, o marketing do medo continua rendendo dividendos eleitorais. Quanto maior a indignação produzida, menor parece ser o interesse em ouvir pesquisadores, especialistas em segurança pública, educadores e entidades ligadas à proteção da infância.

A mesma lógica apareceu na discussão sobre a jornada de trabalho. Em 27 de maio de 2026, a comissão especial da Câmara aprovou a PEC 221/2019, que propõe o fim da escala seis por um, por 34 votos a 4. Antes mesmo de qualquer deliberação final do Congresso, uma avalanche de previsões catastróficas tomou conta do debate. Multiplicaram-se afirmações sobre destruição em massa de empregos, colapso econômico e fechamento generalizado de empresas, quase sempre sem números, sem estudos comparativos e sem evidências apresentadas ao público.

A mentira contemporânea raramente surge sob a forma de uma falsidade absoluta. Seu mecanismo é mais sofisticado. Seleciona-se um fragmento da realidade, amplifica-se o medo e escondem-se as informações que poderiam oferecer equilíbrio ao debate. O resultado é uma população emocionalmente mobilizada e intelectualmente desarmada.

As chamadas pautas-bomba completam esse ambiente de degradação. Em junho, cálculos do Ministério da Fazenda apontaram impacto potencial de R$ 111 bilhões anuais em nove propostas em tramitação no Congresso. Uma delas, relacionada à renegociação de dívidas rurais, poderia produzir um custo de R$ 140 bilhões em treze anos. São números gigantescos. Ainda assim, grande parte das discussões públicas concentra-se apenas nos benefícios imediatos, enquanto os custos acabam empurrados para as futuras gerações.

Nenhum Parlamento existe para funcionar como agência de publicidade do medo. Deputados e senadores recebem mandatos para legislar, fiscalizar e construir soluções. Quando parte dessa energia é desviada para a produção deliberada de confusão, a sociedade perde sua capacidade de decidir racionalmente.

A mentira produz manchetes, aplausos e curtidas. Produz também vídeos virais e carreiras políticas construídas sobre a exploração permanente da indignação. Mas existe uma conta que sempre chega. Ela aparece na erosão da confiança pública, na radicalização da sociedade e na destruição gradual da capacidade de diálogo.

As democracias não morrem apenas pelas mãos de aventureiros ou por meio de golpes espetaculares. Muitas vezes, elas adoecem lentamente, corroídas pela banalização da mentira, pela substituição dos fatos pelas emoções e pela transformação da tribuna parlamentar em palco de manipulação coletiva. Nenhuma sociedade consegue construir o futuro quando seus representantes preferem administrar ressentimentos em vez de enfrentar a realidade.

¨      O voto do ressentido. Por Inez Lemos

As reflexões sobre ressentimento me conduziram à conexão com o machismo e, por sua vez, ao bolsonarismo.

Quase todo taxista, motorista de Uber, como empresário do agro, me revelou "não gostar do Lula". Tentam mudar de assunto quando questiono os motivos. Um fazendeiro bem-sucedido confessou que foi nos governos Lula que mais ganhou dinheiro. Contudo, algo o impede de simpatizar com ele. Considera injusto que um nordestino tenha maior relevância e prestígio do que ele, que trabalhou a vida toda, testemunhando ressentimento, incômodo de classe.

O machismo circula em torno de preconceitos, na lógica da disputa. A dificuldade em aceitar que o outro, o diferente, possa suplantá-lo, é da ordem do insuportável. Como posso me distanciar do tripé: poder, sexo e dinheiro sem me angustiar? O ressentido procura alguém para atacar, derrubar, jorrar sua ira. No fundo, precisa se livrar do sofrimento, transferindo-o a um outro, tipo: sofra no meu lugar, por favor?

O ressentido não consegue se livrar do sentimento de fracassado, humilhado, cultivando apego ao sofrimento, eternizando-se no gozo — dor que se apresenta na antessala do sono, na penumbra do tormento.

Ocorre quando o sujeito se sente oprimido, sufocado e perdido entre práticas sociais que lhe ensinaram e que não funcionam mais. Experiências das quais não consegue se separar subjetivamente. Como bancar o macho sem esconder a frustração? Como submeter sem se envergonhar?

Eis a conexão entre ressentimento, machismo, misoginia e feminicídio.

O homem que cresceu acreditando na superioridade do macho, cultivando a fantasia de que "ser homem bastaria", não está bem dentro da própria pele.

Sofre ao se recusar a rever conceitos e posturas, crenças e valores. Como reconhecer que aceitar fracassos e frustrações não é confissão de humilhação, mas de maturidade emocional, dignidade diante de revisão — retificação subjetiva, contradição que cerca a condição humana.

Acredito que a saída para avançarmos rumo a uma vida amorosa, familiar e cidadã menos violenta, conturbada, com menos feminicídios, esteja na educação que ensine os homens a lidar com os sentimentos, aceitar as frustrações, respeitando os limites impostos pela convivência. Sem noção de alteridade, não há respeito pelo diferente, pelo contraditório.

O ressentido vai sempre votar no candidato que melhor compactue com seu sentimento de fracassado, incentivando-o a apelar, a se impor pela força — atos de covardia e insensatez.

O ressentimento social é sentido como uma injustiça diante da ordem simbólica fundada na meritocracia, quando o melhor nascido merece ser reconhecido e agraciado. O ressentido é um revoltado, um inconformado.

¨      A profissionalização do conservadorismo feminino. Por Jamille Narciso Bezerra

Não era uma sala de aula.

Não havia quadro, apostilas ou professores diante de uma turma. A formação acontecia no celular.

Durante meses, acompanhei um grupo de WhatsApp que reunia centenas de mulheres interessadas em disputar cargos eletivos em diferentes regiões do país. Ali circulavam orientações jurídicas, estratégias de campanha, dicas de comunicação, vídeos motivacionais e informações sobre gestão pública. O grupo funcionava como uma espécie de sala de aula distribuída, conectando mulheres de trajetórias distintas em torno de um mesmo objetivo: preparar-se para ocupar espaços de poder.

A cena ajuda a compreender um fenômeno que ainda recebe pouca atenção. O crescimento da representação feminina conservadora precisa ser pensado além dos resultados das urnas, da expansão das igrejas evangélicas ou do fortalecimento eleitoral da direita. Ele depende também de um trabalho contínuo de formação política.

Quando uma nova vereadora, deputada ou liderança conservadora ganha visibilidade, costuma-se atribuir sua trajetória à força da religião, ao conservadorismo dos costumes ou à influência das redes sociais. Essas explicações são cabíveis. Mas deixam escapar uma pergunta fundamental: o que acontece antes da candidatura?

A política costuma voltar seus olhos para as eleitas. Pouco se observa os espaços que as formam.

Nos últimos anos, partidos, movimentos religiosos, organizações da sociedade civil e plataformas digitais passaram a investir na formação de mulheres interessadas em ingressar na vida pública. O grupo de WhatsApp é apenas uma das peças desse processo. Cursos, mentorias, encontros presenciais, grupos digitais e treinamentos especializados compõem uma rede distribuída de formação política que opera muito antes das campanhas eleitorais.

O aspecto mais interessante desse processo é que não se ensina apenas política. Ensina-se também comunicação, presença pública, ocupação institucional e construção de autoridade. As participantes aprendem a falar em público, lidar com entrevistas, utilizar redes sociais, estruturar campanhas e apresentar-se como lideranças legítimas diante de suas comunidades.

Esse movimento revela uma transformação importante. Durante muito tempo, a participação feminina conservadora esteve associada principalmente a trajetórias comunitárias, religiosas ou familiares. Muitas lideranças emergiam do trabalho voluntário, das atividades desenvolvidas em igrejas, associações e projetos sociais. Embora esses espaços continuem relevantes, eles já não são suficientes para explicar o cenário atual.

O que está em curso é um processo de profissionalização.

A autoridade política deixa de depender exclusivamente do reconhecimento religioso ou comunitário e passa a incorporar competências técnicas, estratégias de comunicação, conhecimento institucional e formas mais sofisticadas de atuação pública. Em outras palavras, a participação política feminina conservadora está se tornando cada vez mais organizada, planejada e profissionalizada.

Em muitos casos as convicções religiosas continuam sendo o principal ponto de partida dessas trajetórias. A diferença é que a experiência religiosa passa a ser articulada com instrumentos de formação política capazes de transformar engajamento em representação e pertencimento em atuação institucional.

Talvez por isso seja insuficiente explicar a ascensão dessas lideranças apenas pelo crescimento demográfico dos evangélicos ou pelo avanço eleitoral da direita. Esses fatores ajudam a compreender o contexto, mas não explicam o mecanismo.

Ao concentrar a atenção apenas nos resultados eleitorais, corremos o risco de ignorar um aspecto decisivo da política contemporânea: representação é produzida por processos contínuos de formação, capacitação e organização. Quem investe nesses processos disputa as condições de produção das futuras lideranças.

Lideranças são formadas. E compreender quem está formando as mulheres que chegam à política talvez seja uma das chaves para entender uma transformação silenciosa que atravessa a democracia brasileira. Enquanto o debate público continua concentrado nas disputas eleitorais e nos nomes que já ocupam cargos de poder, uma nova geração de lideranças está sendo preparada muito antes da campanha, do voto e do mandato.

A eleição é apenas a etapa mais visível de um processo muito mais longo. Antes do voto existem redes, pedagogias, treinamentos, encontros e formas de produção da autoridade.

Olhar para esses espaços de formação é também olhar para o futuro da política.

 

Fonte: Brasil 247/Le Monde

 

É improvável que brasileiro preso pelo governo Trump seja chefe do PCC e do CV

O Departamento de Segurança Interna dos Estados Unidos (DHS, na sigla em inglês) afirmou que prendeu o brasileiro Felipe Linares de Oliveira Dell Aquilla e o apontou como comandante tanto do Primeiro Comando da Capital (PCC) quanto do Comando Vermelho (CV).

Dell Aquilla foi preso por agentes do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. Ele entrou ilegalmente nos EUA em data e local desconhecidos.

A detenção ocorreu em 5 de junho na Carolina do Norte, após uma perseguição, mas só veio a público na noite de segunda-feira (15/6).

Em nota, as autoridades americanas afirmam que "Aquilla já havia sido comandante do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), ambos classificados [pelos Estados Unidos] como organizações terroristas estrangeiras".

No entanto, investigadores da Polícia Federal (PF) que atuam no combate ao crime organizado disseram à BBC News Brasil, em caráter reservado, que a indicação de que Dell Aquila teria exercido cargos de liderança no PCC e no CV é considerada inusitada por dois motivos.

O primeiro é pelo fato de que, historicamente, PCC e CV são facções rivais que disputam mercados e rotas de escoamento de drogas há décadas. Por isso, uma "mudança de lado" entre integrantes com cargo de direção é considerada uma possibilidade remota.

O segundo motivo é o fato de que Dell Aquilla, segundo dados de inteligência, não constaria como membro nem do PCC nem do CV até o momento.

De acordo com os investigadores com quem a BBC News Brasil conversou, Dell Aquilla teria um histórico de crimes de extorsão e até poderia ter prestado algum serviço para facções, mas não haveria indícios de que ele exerceria cargos de lideranças nestas organizações.

Em São Paulo, uma autoridade que atua há décadas no combate ao crime organizado disse à BBC News Brasil, em caráter reservado, que duvida que Dell Aquilla seja membro de alguma das duas facções.

Por outro lado, segundo o sociólogo Gabriel Feltran, diretor de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e professor titular da Sciences Po, em Paris, já não é possível falar em chefes ou líderes das organizações criminosas modernas.

De acordo com ele, que é autor de Irmãos: Uma História do PCC, as facções se organizam de uma maneira que "existem posições ocupadas por pessoas que têm responsabilidades com os grupos", mas que não necessariamente "mandam" neles.

"Não conheço esse preso e nunca tive informação de que fosse integrante ou líder do PCC. Duvido muito que seja integrante das duas facções", diz Feltran.

As autoridades americanas disseram que havia um mandado internacional emitido pelo Brasil contra Dell Aquilla por acusações de associação criminosa e extorsão. Mas, até o fim da manhã de terça-feira (16/6), seu nome constava na lista vermelha pública da Interpol.

No Brasil, há dois mandados nacionais de prisão — por coação no curso do processo e extorsão agravada.

A BBC News Brasil pediu informações sobre o brasileiro ao Ministério da Justiça e ao Itamaraty, mas não obteve resposta.

<><> PCC e CV classificados como terroristas

Recentemente, o Departamento de Estado dos Estados Unidos classificou as PCC e o CV como organizações terroristas.

Em comunicado publicado no último dia 28, o secretário de Estado, Marco Rubio, afirmou que ambas as facções "são duas das organizações criminosas mais violentas do Brasil" e que elas serão designadas como Organizações Terroristas Estrangeiras a partir do dia 5 de junho.

"A Administração Trump continuará a usar todas as ferramentas disponíveis para proteger nossa nação e nossos interesses de segurança nacional, mantendo drogas ilícitas fora de nossas ruas e interrompendo os fluxos de receita que financiam narcoterroristas violentos", afirmou.

A medida também possibilita que pessoas ligadas ao PCC e CV tenham bens e ativos que estejam sob jurisdição dos EUA congelados sem aviso prévio.

Também proíbe transações financeiras entre pessoas ou empresas americanas e essas organizações e prevê sanções contra indivíduos ou entidades que forneçam apoio material, financeiro ou logístico a esses grupos.

O anúncio ocorreu um dia após o senador e pré-candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se reunir com Marco Rubio, e na mesma em que ele pediu que o presidente Donald Trump designasse as facções brasileiras como organizações terroristas, durante encontro na Casa Branca.

A decisão do governo americano foi comemorada pelo senador nas redes sociais. "Grande dia", escreveu Flávio no X, compartilhando o comunicado de Rubio.

A decisão do governo Trump confere às facções brasileiras o mesmo status jurídico de grupos que são alvo, há mais de um ano, de duras intervenções de Washington na América Latina, como os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração, no México, o Tren de Arágua, na Venezuela, e o Clã do Golfo, na Colômbia.

Segundo especialistas consultados pela BBC News Brasil, com exceção do caso venezuelano, a designação como terrorista não levou, pelo menos até o momento, ao enfraquecimento dessas organizações ou a uma diminuição da criminalidade.

Mas a classificação significou, em alguns casos, penas mais duras para criminosos capturados e extraditados para os Estados Unidos e, principalmente, sanções econômicas específicas e um monitoramento muito mais rigoroso das transações financeiras dos grupos nos EUA e com empresas que possuem laços em território americano.

<><> Quem é o brasileiro preso nos EUA

Autoridades americanas disseram na segunda-feira (15/06) que prenderam um brasileiro que teria sido comandante do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV).

Segundo o departamento de Segurança Interna dos EUA (DHS), a detenção de Felipe Linares De Oliveira Dell Aquilla aconteceu no dia 5 de junho na Carolina do Norte, após uma perseguição.

Ele foi preso por agentes do ICE, o Serviço de Imigração e Alfândega dos Estados Unidos. Aquilla entrou ilegalmente nos EUA em data e local desconhecidos.

As autoridades americanas disseram que informações da polícia indicavam que ele mantinha a própria esposa em cárcere privado enquanto se preparava para fugir para o México.

O DHS disse que Aquilla tentou fugir da abordagem policial em seu veículo, dando início a uma perseguição que terminou com ele colidindo com outros carros parados.

"Ele então tentou fugir a pé, mas foi preso logo em seguida. Uma busca em seu veículo resultou na apreensão de diversos celulares, laptops, dinheiro e uma pistola 9mm. Durante um interrogatório, a esposa de Aquilla confirmou que havia sido mantida em cárcere privado", diz a nota.

Segundo as autoridades americanas, ele era conhecido como "Don" e possuía um mandado de prisão internacional no Brasil por acusações de associação criminosa e extorsão.

Até o momento, o nome de Aquilla não consta na lista vermelha pública de procurados da Interpol, a organização internacional de cooperação policial.

Ele possui dois mandados nacionais de prisão no Banco Nacional de Mandados de Prisão do Conselho Nacional de Justiça, ambos expedidos pela 3ª Vara Criminal Central do Tribunal de Justiça de São Paulo.

Um deles é de 2019 para prisão preventiva por coação no curso de processo. O outro, de 2024, é por extorsão agravada — crime para o qual foi condenado em primeira instância a nove anos e sete meses de prisão em regime fechado. Crime de extorsão é obrigar alguém, com ameaça ou violência, a entregar dinheiro ou vantagem indevida.

As autoridades americanas dizem em sua nota que "Aquilla já havia sido comandante do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV), ambos classificados [pelos Estados Unidos] como organizações terroristas estrangeiras".

Mas segundo o sociólogo Gabriel Feltran, diretor de pesquisa no Centre National de la Recherche Scientifique (CNRS) e professor titular da Sciences Po, em Paris, já não é possível falar em chefes ou líderes das organizações criminosas modernas.

Segundo ele, que é autor de Irmãos: Uma História do PCC, as facções se organizam de uma maneira que "existem posições ocupadas por pessoas que têm responsabilidades com os grupos," mas que não necesariamente "mandam" neles.

Desde o dia 5 de junho — mesmo dia da prisão de Aquilla — o PCC e o CV passaram a ser considerados organizações terroristas pelo governo dos EUA, em decisão que havia sido anunciada no mês passado.

A medida americana desagradou o governo brasileiro, que diz que ela pode colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares dos EUA sob o pretexto de combate ao terrorismo. O governo brasileiro também alega que a medida vai contra a legislação brasileira que faz uma distinção entre as atividades praticadas por facções criminosas e o terrorismo.

"Esta prisão demonstra o compromisso inabalável do HSI em proteger nossas comunidades de criminosos internacionais perigosos", disse Mark M. Zito, agente especial do departamento de Investigações de Segurança Interna nos Estados da Carolina do Norte e do Sul.

"Ao prender um líder conhecido de organizações terroristas estrangeiras violentas — procurado por crimes graves, incluindo associação criminosa e extorsão — evitamos maiores danos a pessoas inocentes aqui e no exterior."

Aquilla foi levado para uma prisão local e deverá ser indiciado por fuga para evitar prisão, porte ilegal de arma de fogo e sequestro.

 

Fonte: BBC News

 

Febre dos peptídeos: entenda o que são e quais os riscos

Um anjo chega ao céu e informa Deus sobre a onda de peptídeos que está se popularizando na Terra.

"O que tá rolando em story de influencer e clínica de estética são peptídeos antienvelhecimento, pra pele, ganho de massa... e esses aí não são aprovados nem pela Anvisa", diz o anjo.

A conversa é parte de um vídeo de humor publicado no Instagram por Mari Krüger, divulgadora científica e criadora de conteúdo. A publicação já teve mais de 5,6 milhões de visualizações e soma quase sete mil comentários.

A ironia usada por Krüger em seu vídeo não é à toa. Os peptídeos se transformaram em uma das palavras mais populares do mercado de estética, longevidade e performance física nos últimos anos.

Divulgados em redes sociais, grupos de conversas e clínicas de estética, eles são apresentados como substâncias capazes de acelerar a recuperação muscular, estimular a produção de colágeno, melhorar a composição corporal e até retardar o envelhecimento.

No entanto, especialistas fazem um alerta: apesar das promessas, muitos dos benefícios atribuídos aos peptídeos não têm nenhuma comprovação científica e grande parte dessas substâncias não possui aprovação regulatória para uso clínico.

"Eu fiz o vídeo em um formato que já é conhecido no meu perfil que é o dos Anjos e Deus, em que eu mostro em tom de humor como as notícias, os absurdos da Terra chegam ao céu. A repercussão desse vídeo foi completamente inesperada. Não é uma bobagem, é um assunto muito sério. A gente trouxe o humor sem tirar a seriedade do assunto para conseguir explicar isso melhor para as pessoas. Esse perigo [do uso indiscriminado] e o quão urgente é falar sobre isso", diz Mari.

<><> O que são os peptídeos?

Peptídeos são moléculas produzidas e formadas pelo nosso organismo. Eles são pequenas cadeias de aminoácidos, que são os mesmos componentes que formam as proteínas. A diferença está no tamanho: enquanto proteínas costumam ser estruturas maiores e mais complexas, os peptídeos possuem cadeias menores.

Essas moléculas desempenham funções importantes no organismo. Algumas atuam como hormônios, outras participam da comunicação entre células ou regulam processos biológicos como crescimento, metabolismo, cicatrização e resposta imunológica.

"Esses peptídeos, resumindo, funcionam como mensageiros biológicos e enviam uma mensagem para a célula realizar determinada função", explica Elisa Minami, cirurgiã plástica e membro titular da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP).

Nas últimas décadas, pesquisadores passaram a estudar versões sintéticas desses compostos, ou seja, desenvolvidas em laboratório para reproduzir ou potencializar determinadas funções naturais do corpo.

Um dos peptídeos mais conhecidos é a insulina. Ela foi o primeiro peptídeo a ser descoberto e ajuda as pessoas com diabetes do tipo 1 e algumas do tipo 2 a administrar o nível de açúcar no sangue, controlando a doença.

Outros peptídeos que ganharam espaço são os GLP-1s, como a semaglutida e tirzepatida, que são medicamentos que imitam o hormônio peptídeo similar a glucagon-1, que produzimos naturalmente no corpo e ajuda a regular o nível de saciedade.

Tanto a insulina quanto os análogos do GLP-1 são peptídeos da classe dos medicamentos e passaram por extensos e robustos testes em humanos até serem aprovados por órgãos regulamentadores, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

A existência desses medicamentos aprovados, porém, não significa que todos os peptídeos disponíveis no mercado apresentem o mesmo nível de segurança ou eficácia.

No Brasil, os peptídeos aprovados pela Anvisa e com circulação autorizada incluem apenas medicamentos injetáveis como a insulina, os para obesidade com semaglutida (Ozempic, Wegovy) liraglutida (Saxenda) e tirzepatida (Mounjaro), e cremes com peptídeos.

Há um mercado paralelo de outros peptídeos, injetáveis ou comercializados como suplementos alimentares com foco na beleza e estética e que não possuem comprovação científica e nem regulamentação.

Em 2024, por exemplo, a Anvisa também baniu a comercialização e manipulação dos chamados "chips da beleza", implantes hormonais que poderiam conter peptídeos e eram colocados sob a pele.

<><> Quais são os principais tipos de peptídeos?

Esse universo dos peptídeos é amplo e reúne centenas de moléculas diferentes. O corpo produz peptídeos naturalmente. Peptídeos sintéticos são fabricados para imitar ou potencializar essas funções naturais.

Peptídeos como GHK-Cu, BPC-157 e TB-500 estão entre os mais difundidos no Brasil e, apesar de não serem aprovados pela Anvisa, podem ser encontrados em sites, plataformas de vendas e em clínicas de estética.

"Estes produtos não estão regularizados na Anvisa em nenhuma categoria, sendo ilegais para qualquer uso em saúde, inclusive estético. Produtos como estes não têm qualquer garantia de segurança, origem e composição", disse a Anvisa, em nota.

A principal propaganda para a venda desses produtos é de que eles podem aumentar a produção de colágeno, acelerar a reparação da pele, reduzir rugas e até mesmo reverter aspectos do envelhecimento biológico. Eles também são frequentemente promovidos como agentes capazes de acelerar a cicatrização de lesões musculares, tendíneas e articulares.

No entanto, esses peptídeos não possuem evidências científicas de seus efeitos em humanos ou esses resultados ainda são limitados. Alegações de que esses peptídeos citados (GHK-Cu, BPC-157 e TB-500) ajudam a regenerar e reparar tecidos e a reduzir a inflamação baseiam-se em poucos estudos de laboratório feitos em células ou animais.

O GHK-Cu, também conhecido como peptídeo de cobre, é um peptídeo produzido pelo nosso corpo e é responsável pela estimulação da produção de colágeno. Ele pode ser usado topicamente, ou seja, uso externo, em cremes e séruns para a pele para reduzir as linhas finas, e nesse caso é autorizado. A proibição é para a injeção, pois ele não é considerado seguro para ser usado em injetáveis devido à falta de pesquisas científicas e aos riscos de despertar reações imunológicas que podem ser perigosas.

Da mesma forma, algumas pesquisas sugerem que o BPC-157 e o TB-500 podem promover o crescimento de novas células sanguíneas, reduzir a inflamação e cicatrizar tecidos em ratos. Mas não há estudos robustos sobre seus efeitos em humanos e com grupos de controle adequados. Por isso o seu uso como injetável também não é autorizado.

"Embora existam estudos laboratoriais e em animais mostrando resultados interessantes, as evidências clínicas em seres humanos ainda são limitadas. Isso significa que precisamos seguir estudando e informar a nossos pacientes sobre este tipo de medicina sempre com segurança", diz Patricia Erazo, Coordenadora Científica Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e membro da Federação Ibero Latinoamericana de Cirurgia Plástica (FILACP).

Nenhum desses peptídeos citados possui registro na Anvisa para serem comercializados no Brasil.

"Os produtos que se apresentam como 'peptídeos' denominados 'GHK-CU, BPC-157, TB500', que prometem melhoras estéticas, não se encontram registrados perante a Anvisa. Da mesma forma não foram localizados registros de medicamentos contendo estes princípios ativos. Portanto, não há informações sobre a segurança de uso desses supostos produtos", disse o órgão em nota.

"Apesar de suposta finalidade estética, esses produtos também não são cosméticos. Produtos cosméticos são unicamente para uso externo. Não existem cosméticos injetáveis e se o produto for oferecido desta forma, trata-se, com certeza, de produto irregular", acrescentou a nota da Anvisa.

<><> O que é regulamentado?

Uma das principais confusões para consumidores é a diferença entre peptídeos aprovados por agências reguladoras, como a Anvisa, e substâncias comercializadas sem autorização para uso clínico.

Medicamentos peptídicos que passaram por estudos clínicos rigorosos e receberam aprovação de órgãos reguladores podem ser prescritos para indicações específicas. Neste grupo estão alguns hormônios, medicamentos para diabetes, obesidade e algumas terapias voltadas para doenças raras. Todos eles precisam ser prescritos por um médico e o uso é feito apenas com acompanhamento desse profissional.

Outro grupo que pode ser comercializado são os cosméticos que possuem peptídeos em suas fórmulas. Esses podem ser em creme ou séruns, sempre de uso externo na pele, nunca injetável.

Já outros peptídeos divulgados em clínicas de performance ou vendidos pela internet permanecem classificados como substâncias experimentais. No Brasil, não há liberação para nenhum tipo de peptídeo injetável para fins estéticos, de modo que procedimentos que consistem em injetar essas substâncias na pele não são seguros.

Especialistas destacam que a ausência de aprovação regulatória não representa apenas uma questão burocrática. Ela indica que ainda não existem evidências suficientes para garantir que os potenciais benefícios superem os riscos.

"Os riscos dos injetados são muito sérios. Pode haver contaminação, reação inflamatória ou infecção. A pessoa não sabe usar a dose certa, então usa a dose errada e também há ausência de estudos robustos e segurança. Então, por isso eles são ilegais", acrescenta Minami.

<><> Quais são os riscos do uso sem orientação?

A percepção de que peptídeos seriam alternativas "naturais" ou livres de riscos é considerada equivocada pelos médicos.

Como qualquer substância biologicamente ativa, eles podem provocar efeitos colaterais. Entre os problemas relatados estão retenção de líquidos, alterações hormonais, dores articulares, aumento da pressão arterial, alterações metabólicas e reações no local da aplicação.

Outro risco importante está relacionado à procedência dos produtos. Peptídeos não regulamentados podem ser rotulados incorretamente, contaminados ou dosados de forma inadequada.

Também existem riscos biológicos. Peptídeos que influenciam o crescimento, o reparo muscular ou as vias hormonais também podem estimular processos indesejados. Em teoria, isso poderia incluir o crescimento de tumores existentes ou a interrupção da função endócrina normal. Esse risco de câncer é amplificado pela alta presença de metais pesados nos mercados ilícitos de drogas para aprimoramento.

Além disso, quando não regulamentados pela Anvisa, esses peptídeos não passam por controles rigorosos de qualidade, podendo haver concentração incorreta, contaminação microbiológica e até presença de substâncias diferentes das declaradas nos rótulos.

Existe ainda a preocupação com efeitos desconhecidos de longo prazo. Como esses compostos não foram amplamente estudados em humanos, possíveis impactos após anos de uso ainda são incertos.

"Os riscos maiores seriam falsificação e de produtos sem procedência. Pode haver infecção por bactérias, a maneira de fabricação não ser adequada. Além disso, a gente não sabe se mais para frente vai ter algum prejuízo do uso desses produtos de maneira injetável, porque eles não são estudados", acrescenta Alessandra Romiti, dermatologista, assessora do Departamento de Cosmiatria da Sociedade Brasileira de Dermatologia (SBD).

 

Fonte: BBC News

 

Paulo Kliass: PEC 65 - A captura do Banco Central

Os movimentos dos representantes dos interesses do financismo em nosso país são cada vez mais ousados. O pessoal da Febraban e da Faria Lima não descansa enquanto não conseguir completar o processo de implementação extremista do programa do Consenso de Washington em nossas praias. Apesar de as diretrizes desse fundamento do programa do neoliberalismo terem sido abandonadas nos países do centro do capitalismo, as nossas elites sociais e econômicas ainda se agarram aos preceitos do receituário da ortodoxia mais conservadora. Os papagueadores daquilo que preconizavam os dirigentes do sistema financeiro internacionalizado há décadas atrás seguem repetindo as bobagens que os formuladores nos países já abandonaram desde as crises econômico-financeiras de 2008/9 e da covid.

A ideia de reduzir a dimensão do setor público ao Estado mínimo envolve, dentre outras ações, o aprofundamento dos processos de privatização de forma ampla e generalizada. Isso significa não apenas a forma mais simbólica de promover a transferência do patrimônio de empresas estatais para o capital privado. Na verdade, existem inúmeros outros processos de privatização, como é o caso das parceiras público-privadas (PPPs) ou da terceirização ou ainda das concessões. Na verdade, trata-se de recorrer a todos os mecanismos possíveis de se promover a retirada do Estado da atividade econômica. Com isso, permite-se a abertura dos espaços de produção e/ou de comercialização de bens e serviços para o capital privado. Esse processo é tragicamente complementado pela utilização de outro tripé do neoliberalismo, qual seja, a política de austeridade fiscal.

<><> Usurpação de poder pelo financismo

Assim, a compressão da capacidade de despesa e de investimento do Estado termina por esmagar as possibilidades de o setor público cumprir com suas funções constitucionais e institucionais. As demandas sociais por serviços públicos não diminuem e as limitações impostas pela austeridade fiscal terminam por limitar a ação do Estado para viabilizar o atendimento das necessidades da maioria da população. Frente a esse quadro, a narrativa oficial se limita a afirmar que não existe alternativa que não seja recorrer à opção do setor privado como agente ofertante de saúde, educação, previdência social, segurança pública, assistência social, saneamento, transportes, etc.

Esta dificuldade em colocar o setor público como elemento central em qualquer processo de retomada do desenvolvimento continua a ser uma repetição sem limites de nossas elites a respeito de sua visão do processo econômico. Os grandes meios de comunicação reproduzem à exaustão a suposta necessidade de aprofundar o equilíbrio fiscal por meio da austeridade e de buscar a redução do Estado à sua dimensão mínima. Esse é o espaço que serve ao financismo para levar seu programa às últimas consequências.

O próprio presidente Lula reconheceu os equívocos cometidos pelos sucessivos governos progressistas na implementação das políticas públicas, em especial a política econômica. Em uma intervenção recente no Fórum de Mobilização Progressista em Barcelona, ele foi bastante explícito em uma espécie de autocrítica a respeito de dificuldades e equívocos cometidos ao longo dos últimos anos:

(…) “Mas o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, nós sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema. O primeiro mandamento para os progressistas tem que ser a coerência. Não podemos nos eleger com um programa e implementar outro. Não podemos trair a confiança do povo.” (…)

No domínio específico da política monetária e da relação com o Banco Central (BC), a reflexão de Lula é bastante adequada para tudo o que ocorreu ao longo de seus três mandatos e mesmo em grande parte do período em que Dilma Rousseff esteve à frente do Palácio do Planalto. O sistema financeiro nunca deixou de dar as cartas na definição de orientações estratégicas e também na implementação das políticas no cotidiano do mercado bancário e financeiro. No entanto, ao que tudo indica, o financismo não estava satisfeito com a enorme liberdade com que sempre transitou neste circuito. E pressionou Bolsonaro e Paulo Guedes para que encaminhasse um projeto ao Congresso Nacional tratando do BC. A peça se transformou na Lei Complementar 179, em 2021, onde houve um avanço significativo rumo a uma quase independência do órgão em relação ao Poder Executivo.

<><> BC ainda mais dependente da banca privada

Tanto foi assim que Lula teve que conviver durante a primeira metade de seu mandato com a maioria da diretoria do banco indicada pelo seu antecessor, a quem havia derrotado no voto popular em 2022. A principal mudança efetuada à época foi a fixação de mandatos para os dirigentes do BC, de maneira a usurpar a legitimidade de um presidente da República eleito e com legitimidade plena conquistada nas urnas. No entanto, por mais uma vez, o apetite do financismo não havia sido plenamente satisfeito. Assim, eles colocaram nas mãos do então presidente do BC, Roberto Campos Neto, a incumbência de articular um projeto ainda mais audacioso, desta vez envolvendo mudanças na própria Constituição. Daí nasce a PEC 65, formalmente apresentada por uma série de senadores do campo conservador ainda em 2023.

O indicado por Bolsonaro ainda tenta, ao final de seu mandato à frente do BC, angariar apoios à medida, mas a tramitação fica limitada em função de ampla resistência enfrentada em diversos setores de nossa sociedade pelas mudanças sugeridas. Mantendo a vergonhosa tradição da porta giratória entre o setor público e o setor privado na esfera do sistema financeiro, Campos Neto torna-se alto dirigente de uma das principais empresas no novo formato digital bancário, o Nubank. Assim, ao mudar de lado do balcão, ele segue em sua cruzada em prol da aprovação da PEC 65. Surpreendentemente, ele é logo apoiado pelo seu sucessor. Gabriel Galípolo e todos os demais integrantes da diretoria do BC indicados por Lula passam a apoiar também o texto em discussão no Senado Federal.

<><> A PEC 65 e o terrorismo do sistema financeiro

Ao longo da tramitação nas instâncias daquela casa legislativa, algumas mudanças estão sendo operadas no texto originalmente apresentado. Com toda certeza, trata-se de uma estratégia de incorporar algumas modificações de natureza meramente cosmética, com o intuito de remover algumas resistências ainda existentes à aceitação do texto. Assim, por exemplo, o relator na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) no Senado deu nova redação ao dispositivo que caracteriza a natureza jurídica do BC, retirando o conceito de “empresa pública” e introduzindo o conceito de “entidade pública de natureza especial”. No entanto, permanece a ideia central de conferir “autonomia orçamentária, administrativa e financeira” ao órgão.

Neste sentido, o parecer do senador Plínio Valério é muito claro a respeito de suas intenções mais verdadeiras a respeito da entidade que pretende consolidar:

(…) “A literatura econômica e jurídica internacional é clara: a independência financeira é o alicerce que sustenta as demais dimensões da autonomia. Sem o controle de seu próprio orçamento e o custeio por receitas próprias, a autoridade monetária permanece vulnerável a contingenciamentos e a formas indiretas de pressões políticas, o que compromete a credibilidade das metas de longo prazo e a mitigação do problema de inconsistência temporal.” (…) [GN]

O que se pretende é retirar toda e qualquer possibilidade de controle externo do BC no novo formato, além de usurpar a legitimidade do Poder Executivo assegurado pelo voto popular para condução da política monetária, da política cambial e do processo de regulação/fiscalização do sistema financeiro. Assim, o BC torna-se independente do governo e consolida-se como organismo totalmente dependente e subordinado aos interesses do oligopólio da banca privada.

O argumento de que o BC não deve estar sujeito a “pressões políticas” esconde a realidade de todo o tipo de influência a que os dirigentes do órgão estão sofrendo a todo instante. A instituição responsável por aspectos tão relevantes da política econômica é permanentemente bombardeada por propostas e opiniões originadas nos centros formuladores do financismo. Ocorre que tais decisões não são “técnicas” como costumam alardear os escribas que defendem os interesses da Faria Lima e da Febraban. Definir o patamar da Selic, estabelecer parâmetros em torno da taxa de câmbio ou intervir no mercado bancário para reduzir os conhecidos spreads gigantescas são obrigações que cabem ao BC e guardam uma proximidade quase total com a política. Por isso, a legitimidade institucional do órgão é fundamentalmente vinculada à dinâmica do desenho republicano de nosso Estado.

Não existe espaço para qualquer tipo de “independência” da autarquia criada em 1964. Ou bem ela depende do conjunto da sociedade brasileira ou então passa a ser dependente — de fato e de direito — daqueles aos quais deveria regular e fiscalizar. Seria um verdadeiro crime de lesa-pátria aceitar a lógica do terrorismo imposta pelo setor financeiro e entregar o BC de corpo e alma para a banca privada. Resistir é preciso!

¨      PEC 65 transforma Banco Central em balcão de papeis podres de bancos privados. Por Maria Lucia Fattorelli

Inúmeros alertas têm sido publicados acerca da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) nº 65/2023, que tramita no Senado e amplia de forma temerária a autonomia já concedida ao Banco Central, colocando no texto constitucional mecanismos que consolidam sua completa desvinculação da estrutura estatal brasileira e aprofundam a sua submissão aos interesses do mercado financeiro privado. No entanto, pouco tem sido dito acerca do dispositivo da PEC 65 que permite ao Banco Central adquirir papeis podres de bancos sem limite e sem precisar dar satisfação a qualquer poder ou órgão da administração pública. São títulos privados emitidos por instituições financeiras sem qualquer lastro, como por exemplo os CDBs do banco Master. O presente artigo detalha esse golpe inserido na PEC 65/2023.

<><> Há anos o BC vem tentando adquirir papéis podres

Com o advento da pandemia da covid-19, enquanto diversos países lançavam programas para apoiar as indústrias e empresas em geral, a fim de preservar empregos, no Brasil assistimos a edição de uma série de medidas para favorecer brutalmente os interesses do mercado financeiro: o Banco Central liberou pacote de alguns trilhões de reais em medidas de liquidez, de crédito e outras) — conforme pode ser visto em videoconferência do BC à época — e, adicionalmente, incluiu na Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 10/2020 um dispositivo que permitia a aquisição de ativos privados problemáticos, isto é, papéis podres em poder de bancos.

Na época, o então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, chegou a declarar que o volume desses ativos somava R$ 972,9 bilhões!

A gritaria foi grande, com várias notas técnicas publicadas pela Auditoria Cidadã da Dívida, além de Carta-Aberta, notificação extrajudicial a lideranças partidárias, entre outras iniciativas, mas a PEC 10 chegou a ser aprovada, dando origem à Emenda Constitucional (EC) 106, tendo aquele dispositivo (Artigo 7º) sido questionado junto ao Supremo Tribunal Federal por meio da Ação Direta de Inconstitucionalidade – ADI 6417.

Cabe ressaltar que aquele valor de R$ 972,9 bilhões não incluía a atualização monetária dos títulos acumulados na “carteira podre” de bancos há 15 anos, como revelou levantamento feito pela IVIX Value Creation, publicado pelo Estadão.

Portanto, o golpe financeiro inserido no Art. 7º da EC-106 poderia chegar a vários trilhões de reais, e beneficiaria somente bancos e demais instituições financeiras (fundos), às custas de comprometimento gravíssimo do orçamento público e da geração de dívida pública sem contrapartida alguma, com trilhões de reais gastos para a compra de ativos podres de bancos.

A EC 106 não estabeleceu limite algum para essa temerária operação, que também não teria transparência alguma, como se depreende da notícia publicada no jornal Valor Econômico, O Banco Central avalia comprar cestas de títulos privados, no dia 20 de maio de 2020.

Em resposta a pedidos fundamentados na Lei de Acesso à Informação, o Banco Central informou que não chegou a realizar qualquer operação de compra de títulos privados durante a pandemia, como autorizava a EC-106. Por sua vez, a ADI 6417 foi arquivada sem o julgamento do mérito, por ser medida restrita ao período de calamidade pública da pandemia, que foi encerrado oficialmente em 22 de maio de 2022.

Dessa forma, a autorização para compra de papéis podres de bancos incluída na EC 106 não chegou a produzir os efeitos desejados pelo mercado financeiro e a pauta ficou suspensa até recentemente, quando foi publicado o novo relatório da PEC 65/2023, de autoria do senador Plínio Valério, aprovado na Comissão de Constituição e Justiça do Senado por votação simbólica, apesar de sua flagrante inconstitucionalidade e de seu autor ter declarado não entender nada de mercado financeiro.

<><> PEC 65/2023 permite negócios financeiros escusos

A PEC 65/2023 reinaugura a possibilidade de o Banco Central arrematar papel podre de bancos de forma sorrateira. Inclui, ao artigo 164 da Constituição Federal, um §8º que diz: “o Banco Central poderá́ utilizar seus instrumentos de intervenção para manter níveis adequados de liquidez e a funcionalidade dos mercados, inclusive mediante negócios jurídicos com entidades e fundos que atuem no mercado secundário de títulos de emissão do Tesouro Nacional, observados os parâmetros estabelecidos em lei.”

Uma leitura atenta e ciente dos planos anteriormente frustrados permite perceber o que está por trás dos “negócios jurídicos com entidades e fundos” que essa PEC autoriza. Só não vê quem não quer!

Trata-se exatamente da possibilidade de compra de ativos privados de alto risco — inclusive “papéis podres”, como os papéis fraudulentos emitidos pelo banco Master — transferindo prejuízos privados ao setor público.

Caso essa PEC 65 já tivesse sido aprovada, o Banco Central poderia ter adquirido, na surdina, todos os R$ 52 bilhões de papéis podres que geraram o prejuízo ao Fundo Garantidor de Crédito e mais os R$ 45 bilhões de créditos de carbono falsos emitidos pelo banco Master.

A sociedade sequer ficaria sabendo, pois todas essas operações estariam justificadas sob o argumento de “manter níveis adequados de liquidez e a funcionalidade dos mercados”!

Ademais, a PEC 65/2023 transforma o Banco Central em “entidade pública de natureza especial”, desvinculada de qualquer órgão da Administração Pública, acima de qualquer controle institucional efetivo, ou seja, não terá que dar satisfações e não poderá ser alvo de punição ou controle por qualquer poder constituído, ainda que adquira as dezenas de trilhões de papéis podres de bancos existente em suas respectivas carteiras há anos!

É evidente que a assunção desses papeis podres gerará um prejuízo astronômico ao Banco Central. Sempre que o BC apura prejuízos, ele pode transferí-los para o Tesouro Nacional, como já ocorreu em vários anos. Na prática, essa é uma forma escandalosa de transferir prejuízos gerados por fraudes do setor financeiro privado para o setor público, ou seja, para o povo pagar tanto devido ao aumento da dívida pública como mediante cortes cada vez mais drásticos em investimentos sociais e políticas públicas de interesse da sociedade.

Não podemos aceitar que o órgão responsável pela política monetária, cambial, emissão de moeda, gestão de reservas internacionais e supervisão do sistema financeiro se transforme nessa “coisa” vergonhosa, afundando ainda mais a economia brasileira em falsas “dívidas” criadas para salvar bancos privados de suas falcatruas.

Por isso, pedimos a todas as pessoas que pressionem senadores e senadoras para que votem contra a PEC 65/2023, e enviem a carta preparada pela Auditoria Cidadã da Dívida em formulário eletrônico pré-elaborado para envio.

 

Fonte: Outras Palavras/Extra Classe

 

China adota o PIX para ampliar negócios enquanto EUA atacam soberania financeira do Brasil

A disputa comercial entre Brasil, China e Estados Unidos ganhou um novo capítulo nos sistemas de pagamentos digitais. Enquanto Washington passou a atacar o modelo público do PIX e sua atuação no mercado financeiro brasileiro, Pequim avança na direção oposta: quer ampliar a integração com a infraestrutura criada pelo Banco Central e transformá-la em uma ponte para os negócios entre duas das maiores economias do Sul Global. 

O movimento não acontece por acaso. Em maio de 2025, durante a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à China, o Banco Central do Brasil e o Banco Popular da China assinaram um amplo memorando de cooperação financeira. 

O acordo prevê a integração de sistemas de pagamentos, a interoperabilidade de plataformas digitais, a conexão entre mecanismos de pagamentos instantâneos e até o desenvolvimento de soluções para pagamentos por QR Code entre os dois países. 

A iniciativa foi reforçada pela renovação do acordo bilateral de swap de moedas entre os bancos centrais, no valor de 190 bilhões de yuans — equivalentes a cerca de R$ 157 bilhões —, válido por cinco anos. O objetivo é ampliar o uso de moedas locais no comércio bilateral, reduzir custos financeiros e diminuir a dependência do dólar nas transações internacionais. 

Pouco mais de um ano depois, os resultados começam a aparecer. 

<><> Interesse de gigantes do comércio eletrônico 

No início de junho, o vice-presidente do Bank of China, Hsia Hua Sheng, afirmou que empresas chinesas demonstram interesse em incorporar o PIX às suas plataformas digitais. Segundo ele, companhias como AliExpress, 99 e Keeta já vêm adaptando seus serviços para operar dentro da lógica criada pelo sistema brasileiro. 

A declaração ocorreu em um momento simbólico. Enquanto empresas chinesas buscam formas de integrar o PIX aos seus ecossistemas digitais, os EUA intensificam as críticas ao modelo brasileiro. 

A diferença de postura revela uma disputa maior do que aparenta. 

Para Pequim, o PIX representa uma infraestrutura eficiente capaz de facilitar negócios, reduzir custos e acelerar pagamentos em um dos principais mercados da América Latina. Para setores financeiros estadunidenses, porém, o sistema brasileiro tornou-se um exemplo incômodo de plataforma pública capaz de competir com empresas privadas de pagamentos. 

<><> O incômodo de Washington 

No relatório da Seção 301, o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) classificou políticas brasileiras ligadas a pagamentos eletrônicos como potenciais barreiras ao comércio estadunidense. 

O principal alvo do documento é a lógica pública do PIX. O USTR questiona justamente os elementos que contribuíram para a rápida disseminação do sistema brasileiro: a gratuidade para pessoas físicas, as tarifas limitadas para operações comerciais e o comando estatal sobre uma infraestrutura considerada estratégica. 

Em outras palavras, Washington trata como “barreira comercial” o fato de o Brasil ter construído um sistema barato, eficiente e fora do controle das grandes corporações financeiras dos Estados Unidos. 

O órgão estadunidense também argumenta que o Banco Central acumula simultaneamente as funções de regulador e operador do sistema, o que, na sua avaliação, geraria tratamento preferencial a um modelo estatal. 

Por trás da linguagem técnica, a disputa possui forte conteúdo político. 

Em poucos anos, o sistema tornou-se dominante no Brasil, reduzindo drasticamente a dependência de cartões, boletos e intermediários financeiros privados. Mais do que uma inovação tecnológica, o PIX passou a representar uma infraestrutura estratégica de soberania financeira. 

<><> PIX, QR Code e yuan na nova arquitetura financeira dos Brics 

A aproximação sino-brasileira vai além da integração entre aplicativos. 

Durante a cúpula dos Brics realizada no Rio de Janeiro, em julho de 2025, a UnionPay — gigante chinesa de pagamentos — e o Banco Industrial e Comercial da China (ICBC Brasil) firmaram um memorando para conectar a rede brasileira aos sistemas chineses de pagamentos instantâneos. 

O projeto prevê que usuários de carteiras digitais vinculadas à UnionPay possam realizar pagamentos diretamente em estabelecimentos brasileiros por meio de QR Code, utilizando infraestrutura compatível com o PIX. Ao mesmo tempo, abre caminho para liquidações em yuan e real sem necessidade de conversão prévia para dólares. 

A medida se encaixa em uma estratégia mais ampla defendida por Brasil, China e outros países dos Brics: reduzir a dependência da moeda estadunidense nas transações internacionais e construir mecanismos financeiros menos vulneráveis às pressões geopolíticas de Washington. 

Não se trata de substituir o dólar da noite para o dia. Trata-se de criar alternativas. 

<><> Uma disputa sobre tecnologia e poder 

A controvérsia em torno do PIX expõe uma transformação silenciosa da economia global. 

Durante décadas, os sistemas financeiros internacionais foram organizados sob a predominância de bancos, operadoras de cartões e instituições sediadas nos Estados Unidos e na Europa. O avanço de plataformas públicas de pagamentos instantâneos, especialmente em países emergentes, desafia essa arquitetura. 

O Brasil tornou-se um dos principais laboratórios dessa mudança. 

Se a integração entre PIX, sistemas chineses de pagamento e acordos em moedas locais avançar, o impacto poderá ir muito além do comércio eletrônico. A tendência aponta para a formação de corredores financeiros paralelos, capazes de reduzir custos, acelerar transações e ampliar a autonomia econômica dos países envolvidos. 

Nesse cenário, a disputa em torno do PIX deixa de ser apenas uma questão tecnológica e se transforma em mais um capítulo da disputa entre uma ordem financeira centrada no dólar e um mundo cada vez mais multipolar. 

¨      China ou EUA?: Quem é o verdadeiro “Lobo Mau” da América Latina?

Determinar quem é o “Lobo Mau” que ameaça a soberania dos países latino-americanos é o mais recente ponto de discórdia entre a China e os EUA, após uma série de declarações de seus embaixadores no Peru e na Colômbia. Um editorial do jornal chinês Global Times analisa ambas as posições e questiona como a Casa Branca está tentando manter o controle estratégico sobre todo o continente.

O artigo inclui declarações feitas em 27 de abril pelo embaixador dos EUA no Peru, Bernie Navarro, que traçou um paralelo entre a China e o “Lobo Mau” da história Chapeuzinho Vermelho para ilustrar o tipo de relacionamento e cooperação que existe entre Pequim e Lima.

A resposta de seu homólogo chinês na Colômbia, Zhu Jingyang, foi imediata e tomou a forma de uma pergunta: estabelecer essa relação não seria uma maneira de “olhar no espelho”? “Vocês gritam ‘livre escolha’, mas brandem o porrete das sanções; se fazem de ‘país maduro’, mas recorrem a zombarias baratas. Com isso, vocês só deixam abundantemente claro quem é o verdadeiro ‘Lobo Mau’”, respondeu ele.

Anteriormente, Navarro já havia alertado o Peru sobre possíveis represálias de Washington caso o país não comprasse caças F-16, insinuando interferência no processo decisório do país sul-americano. “Isso não é linguagem diplomática, é coerção direta, crua e pura”, respondeu Zhu.

No início deste ano, os EUA já definiram o Peru como um “importante aliado não pertencente à OTAN”, com planos de venda de equipamentos militares e uma base naval que, segundo a mídia chinesa, ameaçam a soberania peruana e levantam preocupações sobre o controle externo.

<><> Hegemonia regional

Segundo o Global Times, as declarações “arrogantes” de Navarro também revelam claramente a “natureza sinistra da hegemonia dos EUA” e refletem o empenho da Casa Branca em reafirmar seu domínio estratégico em todo o Hemisfério Ocidental, reduzindo a influência chinesa.

Os EUA alertam um país latino-americano de que “não deve permitir” que a China administre seus ativos críticos.

Portanto, o editorial acredita que o embaixador dos EUA representa uma ameaça real à soberania peruana, e não as empresas chinesas que criam empregos e constroem portos, como o porto de Chancay, no qual a estatal chinesa COSCO Shipping investiu aproximadamente US$ 1,3 bilhão. Este porto de águas profundas, localizado a cerca de 95 quilômetros ao norte de Lima, tornou-se um centro logístico para todo o continente.

Além disso, o veículo de comunicação observou que a China é o maior parceiro comercial do Peru, o que interpreta como um sinal de força e da profundidade dos laços entre os dois países, baseados em seus “próprios cálculos estratégicos e interesses nacionais, independentemente de pressões ou influências externas”.

O editorial também destaca que as áreas das quais o capital americano se retirou receberam investimentos e comércio chineses em infraestrutura, concluindo, portanto, que não se trata de uma “infiltração”, mas de uma relação “mutuamente benéfica”. O embaixador Zhu resumiu a situação da seguinte forma: “A amizade entre China e Peru é inabalável. Nenhum conto de fadas a deterá.”

Em conclusão, o editorial afirma que, se os EUA querem saber quem é o “Lobo Mau” da América Latina, devem “olhar no espelho”.

¨      'Reconhecimento às avessas': como críticas dos EUA e interesse chinês pelo Pix destacam o Brasil

Especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil comentam como o interesse da China pelo Pix e os ataques dos Estados Unidos ao sistema demonstram a relevância estratégica da tecnologia brasileira no cenário financeiro global.

Durante uma entrevista ao Brazil Economy, Hsia Hua Sheng, vice-presidente do Bank of China, disse que os chineses têm interesse em implementar o Pix em seu sistema econômico. Na conversa, Hsia citou companhias chinesas, como AliExpress, 99 e Keeta, que já estão se adaptando à realidade da internacionalização, tal qual o Pix. Sua fala, sobretudo, acontece em meio a pressões dos Estados Unidos sobre o sistema de pagamentos brasileiro.

No início de junho, uma investigação comercial do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) acusou o Banco Central do Brasil de cometer "práticas abusivas" ao atuar simultaneamente como regulador e operador do Pix, o que daria uma vantagem indevida sobre os concorrentes – no caso, bandeiras de cartão de crédito estadunidenses.

A investigação propôs uma taxação de 25% sobre produtos brasileiros ao julgar que essas medidas prejudicam o comércio entre os países.

No entanto, especialistas ouvidos pela Sputnik Brasil comentaram que a tarifa contra o Pix é "sem fundamento", já que se trata de uma inovação tecnológica que altera a dinâmica do mercado, não de um tratamento preferencial. Além disso, apontaram que as pressões têm mais a ver com soberania tecnológica e regulação digital do que com disputas comerciais.

Para Evandro Menezes de Carvalho, professor da Universidade Politécnica de Macau, o interesse chinês no Pix é natural, especialmente por parte de empresas que atuam no Brasil e precisam se adaptar aos hábitos de pagamento dos consumidores locais. A afirmação de Hsia sobre o Pix também mostra uma diferença de abordagem no relacionamento em comparação com os Estados Unidos.

"No caso da China, nota-se claramente uma abordagem respeitosa, do princípio da soberania e de cada país adotar seu próprio sistema econômico, seu próprio sistema político."

"A China procura, de certo modo, se adaptar e dialogar com o Brasil na medida em que sinaliza essa possibilidade de incorporar o Pix."

Por outro lado, a atitude dos Estados Unidos de criticar o sistema de pagamentos seria "claramente uma manifestação protecionista", avalia Menezes, pontuando que o Pix reduziu a dependência dos consumidores e comerciantes brasileiros das grandes bandeiras de cartões de crédito americanas, como Visa e Mastercard, que cobram taxas sobre as transações realizadas.

Segundo ele, ao oferecer pagamentos instantâneos e sem custos, o sistema brasileiro passou a disputar espaço com os modelos de negócios consolidados dessas empresas. Menezes acrescenta que o Pix também tem potencial para se tornar um instrumento de projeção tecnológica do Brasil, especialmente se vier a ser adotado ou servir de inspiração para países vizinhos na América do Sul.

Na avaliação do especialista, as vantagens oferecidas pelo sistema — como rapidez, praticidade e ausência de tarifas — ajudam a explicar seu sucesso. Ele observa ainda que as críticas americanas acabaram fortalecendo a identificação da população brasileira com o Pix, transformando uma ferramenta de pagamentos digitais em um tema de debate político.

"Quando, na verdade, trata-se de uma tecnologia muito útil para a população e para pequenos empreendedores."

No entanto, ele ressalta que ainda não está claro o que significaria, na prática, uma integração operacional entre o sistema brasileiro e os meios de pagamento digitais chineses.

Segundo o especialista, a viabilidade dessa integração dependeria tanto de conhecimentos técnicos quanto da adoção de padrões comuns que permitam a comunicação entre os sistemas. Carvalho lembra que a China já possui plataformas amplamente difundidas, como WeChat Pay e Alipay, que vêm ampliando sua interoperabilidade com cartões de crédito e outros meios de pagamento internacionais.

Para ele, "existe, de certo modo, essa abertura gradual, ou pelo menos um diálogo operacional dos modelos de pagamento digital chineses com os meios de pagamento que são mais comuns fora da China", o que pode facilitar futuras iniciativas de cooperação com modelos como o Pix.

Sobretudo, o professor vê a iniciativa chinesa mais como parte de uma estratégia para reduzir a dependência de infraestruturas financeiras controladas pelo Ocidente do que como uma tentativa de reproduzir o modelo brasileiro. Essa busca ganhou relevância, justifica, diante do uso crescente de instrumentos financeiros, como ferramentas de sanção e pressão geopolítica.

Nesse contexto, tanto o Pix quanto os sistemas chineses de pagamento digital seriam expressões de soberania econômica, capazes de ampliar a autonomia dos países sobre suas próprias transações financeiras.

"Eu acho que, como há uma evolução na direção de meios de pagamento digital, isso abre possibilidades de comunicação digital para essas transações financeiras", afirma. Ainda assim, o especialista avalia que o reconhecimento do Pix por autoridades e instituições chinesas demonstra que o sistema brasileiro já é visto internacionalmente como uma inovação relevante no campo financeiro.

Para o professor, a credibilidade do Pix decorre de sua ampla adoção e do histórico de funcionamento no Brasil. Ele destaca que o sistema foi amplamente testado em um país de dimensões continentais e grande população, sem registros de problemas que comprometessem sua segurança. "O fato de a China perceber o Pix como um meio de pagamento extremamente eficiente criado pelo Brasil, e que de fato já é bastante usado no Brasil, é um reconhecimento da capacidade brasileira de inovação financeira."

Na visão do especialista, até mesmo as críticas feitas pelos Estados Unidos podem ser interpretadas como uma demonstração indireta do sucesso alcançado pelo sistema brasileiro. De certa maneira, o Pix passou a incomodar interesses estabelecidos justamente por oferecer um modelo mais eficiente e sem custos.

"É um reconhecimento às avessas [...]. Estão atacando porque está incomodando, estão atacando porque o Pix está sendo mais eficiente, porque o Pix é melhor para o cidadão brasileiro."

Uma leitura semelhante é feita por Bruno de Conti, economista e professor livre-docente de economia internacional da Unicamp. Para ele, o interesse chinês em mecanismos como o Pix deve ser compreendido dentro de uma disputa mais ampla em torno do controle das infraestruturas financeiras globais.

Segundo o pesquisador, diversos países vêm buscando alternativas à predominância do dólar e dos sistemas de pagamento controlados por empresas e instituições sediadas nos Estados Unidos.

"Não tem dúvida nenhuma que a gente vive um momento de disputa geopolítica intensa, não só em relação à moeda global, com esforços de desdolarização pelo mundo afora, inclusive dos BRICS, mas também em relação aos sistemas de pagamentos", afirma. Na avaliação de De Conti, o avanço de soluções nacionais de pagamento instantâneo está ligado não apenas à busca por eficiência econômica, mas também à redução da vulnerabilidade dos países diante de eventuais sanções e pressões externas.

O economista destaca que essa preocupação não se limita a países como Brasil e China. Segundo ele, até mesmo governos europeus têm demonstrado receio em relação à dependência de empresas norte-americanas como Visa e Mastercard. "Tem sim uma corrida pela criação de infraestruturas alternativas que evitem o dólar e evitem as companhias estadunidenses", observa.

O especialista acrescenta que a disputa também envolve o controle de dados financeiros. Na sua avaliação, os sistemas de pagamento se transformaram em ativos estratégicos porque concentram informações valiosas sobre hábitos de consumo e transações econômicas.

"Quando a gente faz esses pagamentos, isso tudo vai alimentando uma base de dados que pode ficar na mão de empresas privadas ou não", explica. Nesse sentido, argumenta, o Pix reduz a dependência de plataformas privadas estrangeiras e fortalece a capacidade de gestão dos dados financeiros dentro do próprio país.

Sobre uma eventual integração entre o Pix e plataformas chinesas como Alipay e WeChat Pay, De Conti avalia que os benefícios potenciais são significativos, especialmente para as relações econômicas entre os dois maiores parceiros comerciais do Hemisfério Sul.

O professor ressalta que, atualmente, grande parte das operações financeiras internacionais ainda depende de bancos correspondentes e de mecanismos de liquidação vinculados ao sistema financeiro dos Estados Unidos. Como consequência, transações entre empresas brasileiras e chinesas frequentemente passam por instituições norte-americanas e são liquidadas em dólares.

Uma maior interoperabilidade entre os sistemas poderia, segundo ele, simplificar esse processo, reduzindo custos, prazos e riscos cambiais. Hoje, lembra o economista, transferências internacionais costumam levar de dois a três dias úteis para serem concluídas, período em que as oscilações cambiais podem gerar custos adicionais para importadores e exportadores. Uma infraestrutura mais integrada poderia reduzir essas incertezas e tornar as operações comerciais mais eficientes.

"O intuito tem que ser o de pagamento instantâneo, ou quase instantâneo."

Apesar das oportunidades, o especialista pondera que a aproximação entre os sistemas exige cautela regulatória. Para ele, a cooperação não deve significar a abertura irrestrita do mercado brasileiro para grandes plataformas estrangeiras. Na sua avaliação, cabe ao Banco Central garantir que eventuais acordos preservem o controle nacional sobre o Pix e evitem a concentração do mercado doméstico nas mãos de empresas estrangeiras.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Sputnik Brasil