sexta-feira, 28 de agosto de 2026

Por que a direita é mais forte quando não precisa defender sua própria agenda

Na matéria publicada na quarta (25) pela RED, apresentamos os resultados da pesquisa Percepções sobre a Economia Brasileira, realizada pela Ipsos para o Global Fund for a New Economy (GFNE). O levantamento revelou um dado particularmente importante para compreender a disputa política no Brasil: parte expressiva do eleitorado que vota ou pode votar na direita não necessariamente concorda com sua agenda econômica.

Isso fica evidente quando os pesquisadores retiram da comparação os nomes de partidos e candidatos e apresentam apenas diferentes propostas de governo. Uma plataforma denominada “Nova Economia” — baseada na valorização dos salários, contenção de preços abusivos, ampliação de direitos dos trabalhadores, tributação dos muito ricos e proteção social — vence a plataforma de direita por 59% a 27%.

O resultado é ainda mais revelador entre os eleitores que desaprovam Lula. Quando a alternativa é uma plataforma tradicional de centro-esquerda, a direita vence nesse grupo por 65% a 23%. Mas, quando o confronto se dá com a “Nova Economia”, sua vantagem praticamente desaparece: 45% a 40%.

Surge daí o paradoxo que esta análise procura compreender: se uma parcela do eleitorado que rejeita Lula prefere políticas econômicas mais próximas da centro-esquerda do que da direita, por que continua votando — ou disposta a votar — em candidatos de direita?

<><> A direita eleitoral é maior que a direita econômica

Os demais resultados da Ipsos reforçam o paradoxo.

73% apoiam o fim da escala 6×1, com jornada de 40 horas sem redução salarial.

66% defendem a atuação do governo e da Petrobras para manter os combustíveis acessíveis e 59% querem empresas estratégicas sob controle estatal.

Além disso, 56% preferem que o governo priorize aquilo que considera melhor para os brasileiros mesmo diante de reações negativas dos mercados financeiros, e 53% apoiam a tributação das grandes fortunas para financiar investimentos públicos.

A pesquisa encontra ainda convergência entre quem aprova e quem desaprova Lula sobre a necessidade de um Estado forte capaz de impulsionar o desenvolvimento.

Isso não significa que o brasileiro seja “de esquerda”. Significa algo mais interessante: o voto na direita não implica necessariamente adesão ao liberalismo econômico.

Parte de seu eleitorado quer proteção social, empresa pública, salário maior, redução da jornada e presença ativa do Estado. A direita eleitoral brasileira é, portanto, maior que a direita econômica.

<><> O bolso também explica essas preferências

A própria pesquisa ajuda a entender por quê.

Entre aqueles que avaliam negativamente a economia, 63% apontam preços e custo de vida elevados, 57% mencionam impostos e 47% dizem que salários e renda familiar são insuficientes para cobrir as despesas.

E 65% associam a dificuldade dos brasileiros para quitar suas dívidas às altas taxas de juros. Essa percepção praticamente atravessa as divisões partidárias.

São preocupações muito concretas. O eleitor pode discutir ideologia na política, mas experimenta a economia no supermercado, na conta de luz, no preço do combustível, no salário, na prestação e nos juros.

É justamente por isso que a plataforma chamada pela Ipsos de Nova Economia tem um desempenho tão superior ao da centro-esquerda tradicional: ela traduz a disputa econômica para problemas imediatamente reconhecíveis na vida cotidiana.

<><> Conservador na moral, intervencionista na economia

Mas economia não determina sozinha o voto.

O Índice de Conservadorismo Brasileiro 2025, do Ipsos-Ipec, colocou o Brasil em 0,652 numa escala que vai de zero, totalmente progressista, a 1, totalmente conservador. Quase metade da população, 49%, foi classificada no grupo de alto conservadorismo.

É perfeitamente possível, portanto, encontrar um eleitor intervencionista na economia e conservador nos costumes.

Ele pode defender Petrobras estatal, programas sociais, salário maior e redução da jornada e, simultaneamente, opor-se ao aborto ou a pautas progressistas relacionadas a gênero, sexualidade e família.

É nesse espaço que ganha importância a atuação política de setores evangélicos conservadores, particularmente de lideranças neopentecostais.

Importantes pastores, denominações e redes religiosas transformaram a defesa da chamada família tradicional e o combate às pautas progressistas nos costumes em instrumentos permanentes de mobilização contra a esquerda. A teologia da prosperidade acrescenta, em algumas denominações, a valorização da prosperidade material, do empreendedorismo e da iniciativa individual.

Assim, o mesmo trabalhador que concorda com a centro-esquerda sobre salário, Petrobras ou jornada pode votar na direita porque religião, família e costumes pesam mais em sua decisão eleitoral.

<><> A outra grande chave é a corrupção

Existe um segundo instrumento capaz de deslocar a eleição do confronto entre programas econômicos: a associação entre Lula, PT e corrupção.

Ela foi construída durante mais de duas décadas, desde o chamado Mensalão e, sobretudo, durante a Operação Lava Jato, quando denúncias, delações, investigações e processos envolvendo o PT e Lula receberam cobertura contínua e extraordinariamente intensa da grande mídia corporativa.

As condenações que impediram Lula de disputar a eleição de 2018 foram posteriormente anuladas, e o STF reconheceu a parcialidade de Sergio Moro no processo do triplex. Mas decisões judiciais podem ser revertidas muito mais rapidamente do que representações políticas sedimentadas durante anos.

Para uma parcela do eleitorado, corrupção deixou de ser uma acusação contra determinados dirigentes e transformou-se numa característica atribuída ao próprio PT.

<><> O combate à corrupção também foi uma estratégia bolsonarista

Isso torna inevitável outra pergunta: por que fatos e denúncias envolvendo Jair Bolsonaro e sua família não produziram associação semelhante?

Jair Bolsonaro fez do “combate à corrupção” um dos pilares de sua estratégia de conquista do poder. Em 2018, apropriou-se politicamente do ambiente criado pela Lava Jato e apresentou-se como adversário do sistema.

Essa identidade convive, entretanto, com fatos que justificam escrutínio.

Uma investigação jornalística do UOL identificou 107 imóveis negociados por Jair Bolsonaro e familiares ao longo de três décadas, dos quais pelo menos 51 foram adquiridos total ou parcialmente com dinheiro em espécie.

Comprar imóveis com dinheiro em espécie não é crime. Mas operações de grande magnitude justificam perguntas sobre a origem dos recursos e sua compatibilidade com os rendimentos conhecidos dos envolvidos.

O mesmo vale para as suspeitas de rachadinhas no antigo gabinete de Flávio Bolsonaro e para suas relações com pessoas posteriormente associadas ao mundo do crime. Relação não significa participação em crime, mas quem constrói sua identidade pública em torno do combate à corrupção e à criminalidade deve estar submetido a um padrão especialmente elevado de transparência e explicação.

Mais de 60 dias depois de prometer prestar contas dos recursos destinados ao filme sobre a vida de seu pai — produção para a qual Daniel Vorcaro, personagem central do escândalo do Banco Master, foi procurado para aportar recursos —, Flávio Bolsonaro ainda não apresentou publicamente os esclarecimentos prometidos. Persistem questionamentos sobre a origem, a destinação e a utilização do dinheiro e suspeitas de apropriação indevida de parte dos recursos. Apesar disso, o episódio não produziu, até agora, queda significativa em suas intenções de voto.

A questão política está justamente aí: o discurso anticorrupção dos Bolsonaro não deve ser confundido com descrição objetiva de sua trajetória. Foi também uma estratégia de construção de identidade.

<><> Corrupção precisa virar identidade

Uma nova denúncia envolvendo Lula chega a uma parcela do eleitorado que já possui uma narrativa pronta para recebê-la. Ela pode ser interpretada simplesmente como confirmação: “é o PT novamente”.

Com Bolsonaro acontece algo diferente.

Seu movimento construiu a identidade inversa: Bolsonaro seria justamente o adversário do PT, da “corrupção” e do “sistema”.

Uma acusação contra Lula pode, portanto, confirmar uma crença existente. Uma acusação contra Bolsonaro precisa primeiro romper uma crença existente.

Além disso, o bolsonarismo dispõe de um ecossistema próprio de comunicação capaz de reinterpretar acusações como perseguição da imprensa, do STF, da esquerda ou do “sistema”.

Corrupção, portanto, não produz automaticamente uma identidade eleitoral. Essa identidade é politicamente construída.

<><> Collor: moralização antes de liberalização

A história eleitoral brasileira oferece pistas importantes sobre esse mecanismo.

Em 1989, Fernando Collor não escondeu inteiramente sua agenda econômica. Sua campanha defendia a modernização econômica e a redução da presença do Estado. Mas seu personagem político de maior apelo foi outro: o “caçador de marajás”, adversário dos privilégios do funcionalismo e da corrupção do governo Sarney.

A eleição terminou ainda marcada por ataques pessoais e morais a Lula e pela edição manipulatória feita pela Rede Globo do último debate entre os dois candidatos.

Collor oferecia uma agenda liberalizante, mas chegou ao eleitor principalmente como personagem “moralizador” e “antissistema”.

A diferença é importante.

<><> FHC: a estabilidade antes das privatizações

Em 1994, o mecanismo foi diferente.

Fernando Henrique Cardoso tinha, sim, um programa que incluía privatizações, abertura ao capital estrangeiro e reformas do Estado.

Mas o grande ativo eleitoral de FHC foi o Plano Real.

Lula liderava as pesquisas até meados de 1994. Com a implantação da nova moeda, a queda da inflação e a recuperação imediata do poder de compra, Fernando Henrique avançou rapidamente e venceu no primeiro turno, com 54,3% dos votos válidos contra 27% de Lula.

Em 1998, voltou a derrotá-lo no primeiro turno apresentando-se, em meio à instabilidade internacional, como o candidato capaz de preservar a estabilidade conquistada pelo Real.

As privatizações foram parte importante dos governos FHC. Mas sua extraordinária vantagem eleitoral foi construída inicialmente sobre uma experiência econômica imediatamente compreensível para milhões de brasileiros: o fim da hiperinflação. Estudos sobre seu governo também distinguem a estabilização monetária, que estruturou seu primeiro mandato, das reformas e privatizações implementadas a partir dela.

<><> Bolsonaro: antipetismo antes de Paulo Guedes

Em 2018, a lógica voltou a mudar.

O país chegou à eleição depois do Mensalão, da Lava Jato, do impeachment de Dilma Rousseff e da prisão de Lula, então impedido de concorrer.

Nesse ambiente, Bolsonaro apropriou-se da bandeira anticorrupção e combinou-a com antipetismo, segurança pública, conservadorismo moral e discurso antissistema. Pesquisas acadêmicas sobre aquele período destacam justamente a combinação entre Lava Jato, antipetismo e desconfiança nas instituições políticas na ascensão bolsonarista.

Seu programa econômico liberal, personificado por Paulo Guedes, estava presente. Mas é difícil sustentar que milhões de brasileiros tenham aderido a Bolsonaro principalmente porque desejavam privatizações, redução do Estado ou uma reforma econômica liberal.

A coalizão eleitoral era muito mais ampla do que isso.

E os resultados atuais da Ipsos ajudam a compreender por quê: é perfeitamente possível votar na direita e continuar querendo Estado forte, Petrobras pública e proteção social.

<><> Três vitórias, três caminhos

Collor, FHC e Bolsonaro chegaram ao Planalto por caminhos diferentes.

Collor explorou principalmente a moralização da política e o combate aos privilégios.

FHC teve como força extraordinária a estabilidade monetária e o fim da inflação.

Bolsonaro reuniu antipetismo, corrupção, conservadorismo moral, segurança e rejeição ao sistema político.

Nenhum desses casos demonstra que propostas liberais sejam eleitoralmente irrelevantes. Collor e FHC efetivamente as defenderam, e Bolsonaro possuía um programa econômico claramente liberal.

O ponto é outro.

Não foi necessário transformar o liberalismo econômico em paixão majoritária para construir maiorias eleitorais de direita.

<><> A questão decisiva é sobre o que será a eleição

É aí que a pesquisa econômica da Ipsos apresentada pela RED ganha significado político maior.

Ela mostra que parcelas majoritárias da população defendem Estado forte, Petrobras pública, proteção social, melhores salários, redução da jornada e limites ao poder dos mercados.

Mas parte desse mesmo eleitorado é conservadora nos costumes. E sobre ela atua ainda uma associação entre PT e corrupção sedimentada durante duas décadas.

É nessa combinação que a direita encontra seu terreno mais favorável.

Ela não precisa convencer o trabalhador a privatizar a Petrobras, preservar a escala 6×1 ou entregar mais poder ao mercado financeiro se conseguir convencê-lo de que votar contra Lula significa combater a corrupção e defender sua religião, sua família e seus valores.

Esse é um dos principais desafios de Lula em 2026.

Se a eleição for sobre salário, custo de vida, jornada, juros, Petrobras, programas sociais e tributação dos muito ricos, os dados da Ipsos indicam um terreno difícil para a direita.

Se for transformada novamente num julgamento moral de Lula e do PT, a disputa ocorre em condições completamente diferentes.

A experiência de 1989, 1994, 1998 e 2018 sugere ainda uma conclusão adicional: eleições não são necessariamente vencidas pelo programa que será executado no governo, mas pela questão que consegue organizar a escolha do eleitor naquele momento.

Collor teve os marajás. FHC, o Real. Bolsonaro, o antipetismo, a corrupção e o conservadorismo.

Em 2026, portanto, a questão decisiva talvez não seja apenas quem possui as propostas mais populares.

Será quem conseguirá definir sobre o que o eleitor estará votando.

 

Fonte: Por Benedito Tadeu César, em Brasil 247

 

Ativo político da credibilidade e da soberania com reflexo eleitoral

O presidente Lula está em meio a uma metamorfose político-eleitoral gerada pela sua atuação internacional ao longo do terceiro mandato (2022-2026); nesse período, conquistou a confiança e a credibilidade em escala global que tendem a refletir positivamente em resultado eleitoral.

Play Video

Pode-se dizer que Lula, nessa altura do campeonato, é o Pelé da política; a fama dele é mundial; foi com esse ativo de defesa da soberania nacional que conseguiu, nesta terça-feira, Dia do Soldado, apoio do senador bolsonarista general Mourão(Republicanos-RGS), para aprovação do projeto nacionalista de minerais críticos.

Trata-se ou não se sintoma de atração política de Lula relativamente aos militares na disputa com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, aliado do bolsonarismo?

Essa aproximação com Mourão representaria ou não triunfo político de Lula nos quarteis, suplantando a visão bolsonarista de ultradireita vendilhã da pátria, de viés entreguista, anti-nacionalista, anti-soberania?

Lula conquista ou não apoio militar com a defesa da soberania nacional que o governo Trump desdenha na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos no contexto do tarifaço protecionista imperialista?

CREDIBILIDADE E CONFIANÇA NACIONAL E INTERNACIONAL

O Fato é que a credibilidade alcançada por Lula no plano econômico e internacional está contribuindo para atrair os militares para o discurso lulista de defesa da defesa e soberania nacional como importante ativo político eleitoral.

De uma fase vergonhosa, com Bolsonaro pai, em que o Brasil virou pária mundial, com espetáculos ridículos de subdesenvolvimento político, nos salões dos palácios mundiais, nos cinco continentes, a situação, com Lula, mudou da água para o vinho.

Por que o presidente Donald Trump passou a tratar Lula com deferência, abrindo-se para conferências entre os dois presidentes sem intermediários em meios às tensões políticas, especialmente, na América Latina, sob Doutrina Monroe, de caráter imperialista?

Trata-se ou não do peso geopolítico relativo brasileiro no continente sul-americano e em toda a América latina, como o mais poderoso sócio do BRICS, ao lado da China e da Rússia, potencias comercial e nuclear, aliadas, com as quais Lula transita extrovertidamente na crise capitalista que os Estados Unidos enfrentam, perdendo espaço para os adversários?

LULA ENTRE ÁSIA E ESTADOS UNIDOS

O presidente Lula está em meio a uma metamorfose político-eleitoral gerada pela sua atuação internacional ao longo do terceiro mandato (2022-2026); nesse período, conquistou a confiança e a credibilidade em escala global que tendem a refletir positivamente em resultado eleitoral.

Pode-se dizer que Lula, nessa altura do campeonato, é o Pelé da política; a fama dele é mundial; foi com esse ativo de defesa da soberania nacional que conseguiu, nesta terça-feira, Dia do Soldado, apoio do senador bolsonarista general Mourão (Republicanos-RS), para aprovação do projeto nacionalista de minerais críticos.

Trata-se, ou não, de sintoma de atração política de Lula relativamente aos militares na disputa com o presidente Donald Trump, dos Estados Unidos, aliado do bolsonarismo?

Essa aproximação com Mourão representaria ou não triunfo político de Lula nos quartéis, suplantando a visão bolsonarista de ultradireita vendilhã da pátria, de viés entreguista, antinacionalista, antissoberania?

Lula conquista ou não apoio militar com a defesa da soberania nacional que o governo Trump desdenha na disputa comercial entre Brasil e Estados Unidos no contexto do tarifaço protecionista imperialista?

CREDIBILIDADE E CONFIANÇA NACIONAL E INTERNACIONAL

O fato é que a credibilidade alcançada por Lula no plano econômico e internacional está contribuindo para atrair os militares para o discurso lulista de defesa da soberania nacional como importante ativo político eleitoral.

De uma fase vergonhosa, com Bolsonaro pai, em que o Brasil virou pária mundial, com espetáculos ridículos de subdesenvolvimento político, nos salões dos palácios mundiais, nos cinco continentes, a situação, com Lula, mudou da água para o vinho.

Por que o presidente Donald Trump passou a tratar Lula com deferência, abrindo-se para conferências entre os dois presidentes sem intermediários em meio às tensões políticas, especialmente na América Latina, sob a Doutrina Monroe, de caráter imperialista?

Trata-se ou não do peso geopolítico relativo brasileiro no continente sul-americano e em toda a América Latina, como o mais poderoso sócio do BRICS, ao lado da China e da Rússia, potências comercial e nuclear, aliadas, com as quais Lula transita extrovertidamente na crise capitalista que os Estados Unidos enfrentam, perdendo espaço para os adversários?

LULA ENTRE ÁSIA E ESTADOS UNIDOS

Lula está no vértice dos interesses das maiores potências em conflitos geopolíticos permanentes, responsáveis pela instabilidade mundial, graças às relações explosivamente instáveis que mantêm entre si, quanto ao comportamento do império americano.

É claro que o assentimento político do general Mourão à política de defesa lulista para se proteger do tarifaço trumpista se baseia na Realpolitik que recomenda o Brasil seguir o caminho da multipolaridade defendida pelo presidente Lula.

O multilateralismo que Lula defende decorre, justamente, das incertezas disseminadas pelo unilateralismo imperialista trumpista, que deixa incerta toda liderança nacional e internacional instável no relacionamento com o trumpismo, que não vende credibilidade.

Nesse sentido, aconselhar-se com o ocidente americano em crise ou com o oriente asiático, chinês-russo, para tomadas de decisões soberanas, no cenário global, passa a ser o grande dilema dos governos nas periferias capitalistas, como a latino-americana, sob guarda-chuva da Doutrina Monroe.

Atrair Mourão para esse realismo político vira grande triunfo eleitoral lulista, dada sua influência nos quartéis, como seu representante político.

CHINA OU ESTADOS UNIDOS: QUAL A ORIENTAÇÃO?

Os conselheiros econômicos de viés americano, na linha neoliberal, ainda conduzem a política econômica brasileira, que não deixa um gigante econômico como o Brasil crescer mais de 2% sob arcabouço fiscal superrestritivo.

Um desastre.

O resultado prático do neoliberalismo de Tio Sam piora a qualidade de vida da população latino-americana e passa a ser alvo de repúdio popular; não entrega satisfatória qualidade de vida: saúde, educação, infraestrutura, investimento, emprego, renda, salários valorizados pela industrialização, exportações de alto valor agregado a partir de manufatura das matérias-primas etc.

O conselho de Washington, que predomina sobre elites subordinadas ao seu receituário sob neoliberalismo, deixou de ser funcional: trata-se de enxugamento econômico draconiano por meio de juros elevados que barram investimento, industrialização e sonho das gerações futuras, com mais qualidade de vida.

Nesse contexto econômico ocidentalizante, altamente tóxico pelo aprofundamento da desigualdade, impulsionado pelo imperialismo neoliberal, Lula se mostra em metamorfose com sua relação com o oriente, o norte maior das relações econômicas atuais do Brasil.

QUAL CAMINHO A SEGUIR NO QUARTO MANDATO?

Lula deve ou não se acercar dos conceitos asiáticos de política econômica desenvolvimentista ou se manter prisioneiro do Consenso de Washington, que se esgotou como orientação funcional?

No Brasil, os conselheiros do presidente, sob o modelo neoliberal, são formados na escola americana de negócios.

Só que os chineses, em matéria de economia, de desenvolvimento sustentável, de abertura de expectativas e perspectivas desenvolvimentistas, estão dando banho nos americanos.

Trump tenta reverter o prejuízo com guerras, aprofundando expectativas negativas, gerando medo e incertezas globais.

A despeito disso, as empresas chinesas ganham a concorrência global, dominam as tendências de consumo, sendo cada vez mais competitivas; ninguém pode com a China soberana, com o domínio científico e tecnológico a serviço da produção e da produtividade, em tempo de IA.

Em todas as cadeias produtivas, a marca China ganha em preço e qualidade, nos setores primário, secundário e terciário.

A China explora bem o ego consumidor capitalista que gosta de novidade de consumo todo o ano a preço competitivo.

Enfim, os chineses viram sonho de consumo no ocidente que vive a crise capitalista americana, afetada pela guerra do petróleo no Oriente Médio.

DECADÊNCIA DA AMÉRICA WAY OF LIFE

A potência de outrora está perdendo para o modus vivendi asiático puxado pela China.

China Way of Life ultrapassa América Way of Life.

Em matéria de distribuição da riqueza nacional, expressa em oferta de serviços públicos de qualidade – água, esgoto, saneamento básico, saúde, educação, transporte –, o imperialismo americano, com sua proposta política fascista, virou a pior opção.

O receituário econômico neoliberal que aprofunda desestruturação social, na era do juro alto, como bloqueio central do desenvolvimento, para favorecer o rentismo financeirizado especulativo, transforma a China, que é o oposto disso, em sonho de consumo mundial.

Por isso, o quarto mandato em eventual vitória lulista tende a transformar a China em atrativo irresistível das forças produtivas latino-americanas, tratadas, nesse momento, por Donald Trump, pelo viés colonial, sob tacão do neoliberalismo escravocrata, sob domínio do medo e da força.

LULA É A CONFIANÇA; TRUMP, A INCERTEZA

Os Estados Unidos, no cenário da guerra, perdem confiança do investidor, que foge para outros mercados.

No Brasil, os investidores, pragmáticos, querem colocar dinheiro em ambiente geopoliticamente estável.

A segurança e a credibilidade política alcançadas por Lula, com sua diplomacia internacional, viraram receptoras de grandes investimentos internacionais como ativo raro num mundo em guerra imperialista.

Credibilidade econômica e política internacional é, sem dúvida, talvez a maior obra política do presidente Lula no cenário da guerra imperialista que o coloca como peão entre ocidente e oriente, tendo o Brasil como escudo, com o qual exercita influência global.

É aqui que entra a relação Lula-Trump, sujeita a chuvas e trovoadas quanto a um equilíbrio satisfatório; a primeira pergunta que o mundo está fazendo é: onde é seguro enfiar o dinheiro excedente que está nas bolsas mundiais, candidato a virar pó, se Wall Street cuida, apenas, de erguer, por todo o mundo, a Armadilha Ponzi, a construção da riqueza fictícia, especulativa, sem lastro da realidade, como diz John Perkins em “Confissões de um Assassino Econômico”?

O Brasil, como diz o economista José Koubori, especialista em finanças internacionais, é o porto cambial que o capitalismo está vendo como relativamente seguro.

¨      Nunca o voto consciente foi tão importante. Por Mauro Passos

O que está em jogo na eleição de 2026, só não vê quem não quer: de um lado, um Brasil soberano, senhor do seu destino, inclusivo e democrático; já a outra opção, uma republiqueta controlada à distância, sem alma e sem futuro. A escolha é nossa, sem fraude, através de um sistema eleitoral consolidado e reconhecido no mundo todo. Por que, então, tanto confronto e pouco debate? Para os distraídos, a resposta seria “são os novos tempos”. Para os mais atentos, fica evidente que os dois principais postulantes ganham em não se expor. Um por ser alvo de todos e o outro pelo despreparo, sua visível insegurança e uma história de vida obscura.

Play Video

O debate no primeiro turno, com todos, dificilmente vai acontecer. O que, para nós, cidadãos e eleitores, é muito ruim. Se isso se confirmar, o bate-boca nas redes sociais vai tomar conta da eleição. A esperada renovação da Câmara e do Senado ficará muito aquém das nossas expectativas; todos perdem. O nosso país está passando por um momento histórico único e não pode perder essa oportunidade. Não é hora de aventurar, é tempo de avançar. Pensem nisso. VOTE CONSCIENTE!

 

Fonte: Por César Fonseca, em Brasil 247

 

Como a religião dividiu o voto no Brasil e por que a esquerda perde espaço entre evangélicos

Nas últimas décadas, a religião se consolidou como um tema obrigatório na agenda política. Seja pelo apoio público de lideranças religiosas ou pelo aceno aos segmentos cristãos em programas de governo, atualmente nenhum candidato à Presidência ignora o voto religioso.

Essa dinâmica ganhou força na disputa eleitoral de 2010. Na ocasião, José Serra, do PSDB, disputou o pleito contra a candidata Dilma Rousseff, do PT. Diante da dificuldade de combater a popularidade do governo Lula,  que deixava o cargo com recordes de aprovação, o tucano usou a fé como estratégia de diferenciação.

Embora o uso do tema tenha gerado efeito adverso após polêmicas da própria campanha — incluindo a distribuição de santinhos pela campanha de Serra com a frase “Jesus é a verdade e a Justiça” e acusações sobre o tema do aborto —, aquele pleito inaugurou a presença maciça da fé no debate presidencial. Desde então, a pauta religiosa se repete, com maior ou menor intensidade, a cada ciclo eleitoral.

O voto por religião: católicos à esquerda, evangélicos à direita

Os dados das eleições das últimas duas décadas indicam a consolidação de um realinhamento eleitoral: católicos tendem a votar majoritariamente à esquerda, enquanto evangélicos migram de forma consistente para a direita.

De acordo com o Datafolha, a distância entre os dois grupos era pequena nos anos 2000. Em 2006, 62% dos evangélicos votaram em Lula no segundo turno. Contudo, a partir de 2010, o eleitorado evangélico se alinhou de forma majoritária à direita.

Em 2022, a diferença de preferência política entre católicos e evangélicos atingiu 26 pontos percentuais, demonstrando que a religião se tornou um dos fatores centrais para explicar a escolha do eleitorado nas urnas.

Essa constatação pode parecer óbvia diante das várias notícias que associam o bolsonarismo aos evangélicos. Contudo, a questão é mais complexa.

<><> PT perde apoio da base

A mudança no comportamento do eleitorado evangélico impactou diretamente a base histórica do PT, composta por eleitores de menor renda e escolaridade:

•        Em 2006: O PT obteve 75% dos votos no segundo turno entre quem ganhava até dois salários mínimos.

•        Em 2010: O apoio nessa faixa de renda caiu para 56%.

•        Em 2018: Chegou ao patamar de 41%.

•        Em 2022: Registrou recuperação, alcançando 55%.

A análise por segmento religioso revela que a perda de votos do partido entre os mais pobres ocorre principalmente no eleitorado evangélico. Entre os católicos de baixa renda, o PT manteve a vantagem, que se ampliou a cada eleição, inclusive durante o pleito de 2018. Em 2022, a vantagem petista entre católicos de baixa renda foi 32 pontos percentuais superior à registrada entre evangélicos da mesma faixa econômica.

<><> Três fatores que explicam a consolidação da direita entre evangélicos

Três elementos principais podem ajudar a compreender a preferência do eleitorado evangélico por candidaturas de direita:

1.       Rejeição histórica e pauta de costumes: Há décadas, setores evangélicos conservadores associam a esquerda a ameaças à moralidade familiar e à liberdade religiosa. A circulação de informações falsas em redes sociais reforça esses temas em períodos de campanha.

2.       Organização política estruturada: Desde a Assembleia Constituinte de 1988, lideranças evangélicas organizam candidaturas estratégicas, articulam bancadas no Congresso e fundam legendas partidárias para amplificar a representatividade política do segmento.

3.       Crescimento demográfico: O aumento no número de fiéis e igrejas evangélicas no país amplia a escala de mobilização eleitoral promovida por essas redes.

Em contrapartida, no meio católico, a atuação direta do clero nas campanhas é mais contida. A partir de orientações recentes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, busca-se evitar o alinhamento partidário direto de religiosos. A memória das políticas sociais dos governos petistas ainda mantém maior apelo entre a população católica de baixa renda.

<><> Programas sociais e a Teologia da Prosperidade

No segmento evangélico de menor renda, o alcance de programas sociais não garantiu a adesão política às pautas de esquerda. Entre 2006 e 2022, o PT perdeu 33 pontos percentuais de votos entre evangélicos que recebem até dois salários mínimos.

A influência da teologia da prosperidade ajuda a explicar esse cenário. Ao associar a ascensão social, a conquista da casa própria ou a entrada no ensino superior ao esforço individual e à bênção divina, o eleitor tende a desvincular essas conquistas de ações governamentais ou políticas públicas.

Pesquisas do Datafolha apontam que os evangélicos recebem mais pedidos de mudança de candidato dentro das igrejas e cedem às orientações dos líderes.

Diante do crescimento da população evangélica no Brasil, a comunicação com esse eleitorado representa um dos principais desafios estratégicos para o campo da esquerda nas próximas eleições. As iniciativas de criação de células nas legendas para se aproximar dos fiéis evangélicos tem se limitado à divulgação de cartas abertas e ações pouco efetivas.

É preciso compreender que as igrejas têm oferecido a esse público algo que os partidos políticos – em suas rígidas estruturas, pouco convidativas à participação – ainda não alcançaram: o sentimento de pertencimento. Somente quando se perceberem integrados e acolhidos em suas demandas, os evangélicos estarão dispostos a ouvirem e, quem sabe, escolherem os políticos da esquerda.

 

Fonte: Por Alexandre Landim, em The Intercept

 

Terapia experimental com células-tronco do nariz pode ser caminho para tratar lesão na medula

Um trabalho realizado em colaboração em diferentes centros da USP investigou um novo tipo de tratamento para lesões agudas na medula espinhal em ratos. O objetivo foi analisar as respostas e recuperação dos animais após sofrerem contusão quando injetados com células da mucosa olfatória, que no grupo testado mostrou evolução significativa. 

A medula espinhal integra parte do sistema nervoso central. É um tecido frágil e de extrema importância, responsável por transportar estímulos do cérebro para o resto do corpo, ou seja, uma importante peça do sistema neurológico. Em situações como acidentes automobilísticos e quedas de significativas alturas, lesões na medula espinhal são um cenário comum e grave em centros de trauma hospitalares. 

Essas lesões, principalmente em estado grave, são consideradas de difícil tratamento por se tratar de um tecido neurológico considerado de baixa plasticidade. Isso significa que esses tecidos têm baixa capacidade de adaptação e reconstrução após um insulto. Atualmente as principais formas de tratamento recomendadas são estratégias de suporte, como medicamentos e fisioterapia para amenizar a lesão e auxiliar na recuperação do paciente.  

“Sabemos que é um caminho muito difícil a investigação das lesões medulares, porque ainda não temos, do ponto de vista assistencial, validado para aplicação prática, nenhum insumo material ou terapia que consiga fazer uma reversão das lesões”, detalha Brian Coimbra, autor da tese defendida na Faculdade de Medicina da USP (FMUSP) com orientação do professor Alexandre Fogaça. “Então sabíamos que seria difícil conseguir um resultado ultraexpressivo de recuperação neurológica, mas nós obtivemos alguns resultados positivos”, completa o médico.

A pesquisa foi feita a partir da cooperação entre diferentes centros e unidades, entre eles o Laboratório de Genômica Funcional do Instituto de Biociências (IB) da USP, o Laboratório de Estudos de Trauma, Raquimedular e Nervos do Instituto de Ortopedia (Letran) e o Departamento de Patologia da FMUSP, principal responsável pela análise dos espécimes obtidos na pesquisa.

A ideia de utilizar as células-tronco da mucosa nasal ganhou força com a pandemia de covid-19, quando pacientes infectados começaram a perder capacidade olfatória e, tempos depois, recuperavam o sentido. Esse fenômeno permitiu que os cientistas entendessem melhor um tipo celular chamado de célula ectomesenquimal, que atua no processo de regeneração contínua da mucosa olfatória.

“Durante o nosso dia a dia, temos agressões nessa mucosa olfatória pelos poluentes do ar, e algumas dessas células vão morrendo e outras vão se regenerando a partir das células-tronco que são residentes no nosso olfato”, explica Coimbra. Além disso, as mucosas olfativas são de fácil e pouco invasivo acesso, questão que já dificultou o estudo de outras células para o processo de regeneração medular. “Foram testadas células do cordão umbilical e do tecido de medula óssea, por exemplo, mas elas apresentaram dificuldade de obtenção, uma eficácia não tão boa ou restrição de resultado.”  

Dentre as hipóteses iniciais da pesquisa, estava a ideia de que as células ectomesenquimais poderiam ajudar no processo de cicatrização e recuperação do tecido lesionado, tese comprovada pelos testes realizados em laboratório com um grupo de ratos que teve as células injetadas em seu organismo e se recuperou rapidamente. 

<><> Métodos para análise

Para analisar o funcionamento das células ectomesenquimais nos roedores com algum tipo de contusão na medula espinhal, o estudo utilizou um modelo de lesão medular chamado Mass Impactor, no qual é possível programar a queda de um peso em determinada altura causando assim, uma lesão. É possível regular a altura a fim de criar uma lesão mais aguda, ou seja, com maior dano neurológico, ou uma lesão mais superficial.

No caso dos ratos Wistar utilizados para o desenvolvimento da terapia experimental, foi usado o ponto de 12,5 milímetros de queda dessa massa: “O rato sofre uma lesão neurológica que é visível, mas que permite que ele tenha uma função ainda residual nos membros e assim permite a sua sobrevivência”, explica Coimbra. “Precisamos encontrar um jeito de fazer uma lesão que não cause uma perda total no indivíduo [rato], ou seja, que ele se torne inviável para continuar sendo estudado na pesquisa”, detalha. 

As células da mucosa nasal utilizadas na análise foram obtidas a partir do septo nasal dos ratos, por um método cirúrgico desenvolvido por Coimbra para uma extração mais eficiente das células olfatórias, sem hemorragia. “O grande problema de coletar o septo nasal dos ratos é que eles sofriam uma contaminação hemorrágica importante. Então, quando você tirava o septo, o sangramento contaminava esse septo e inviabilizava as células”, explica. 

<><> A aplicação em ratos selecionados

Ao todo, foram 60 ratos acompanhados por seis semanas apenas após a lesão na medula espinhal e divididos em cinco diferentes grupos, sendo dois deles os grupos um e dois, utilizados como grupo de controle e outros três como experimentais. 

Nos dois primeiros grupos foram aplicadas técnicas para facilitar o acesso à medula espinhal dos animais. No grupo um foi realizado um procedimento cirúrgico chamado de laminectomia, com o objetivo de alçar o nervo sem lesá-lo. 

No grupo dois, a técnica foi a associada a outro procedimento, a abertura do saco dural, membrana que protege a medula espinhal e é impermeável para algumas substâncias. O objetivo foi garantir que as células ectomesenquimais atingissem diretamente o nervo, não apenas a membrana. 

As lesões na medula começaram a ser aplicadas nos roedores, juntamente com os procedimentos cirúrgicos, a partir do grupo três. O grupo também foi importante para a definir o dano da contusão padrão que seria aplicada nos outros animais.

O grupo quatro contou com a utilização do matrigel, um composto biológico gelatinoso. Nesse caso, o material foi utilizado como veículo, um meio no qual as células são injetadas e levadas até o local desejado sem que sejam carregadas para outros locais do organismo que não o da lesão tratada. O composto é rico em laminina, uma proteína que possibilita a conexão entre células do sistema nervoso e que foi alvo de atenção com os estudos sobre a polilaminina, uma molécula descoberta recentemente que também passa por testes para translação de tratamento de lesões na medula espinhal humana. 

O grupo cinco foi o que apresentou resultados mais expressivos e contou com a junção dos métodos aplicados anteriormente mais as células ectomesenquimais da mucosa nasal dos roedores. Os ratos voltaram a andar na terceira semana do experimento, indicando o grande potencial de regeneração neurológica das células utilizadas e seu desempenho significativo na recuperação da função motora.

<><> Em escala molecular

A pesquisa revogou a teoria de que se as células-tronco — células com capacidade de renovação — fossem colocadas no local em que a medula sofreu uma lesão, poderiam ocupar o local lesionado e estabelecer um novo canal de condução. Segundo Coimbra, o que ocorre é na verdade uma ação em que as células-tronco recrutam substâncias que favorecem a regeneração neuronal na região, “não é que elas [as células] vão ocupar o lugar da falha do nervo, elas carregam substâncias e atraem substâncias para esse local, geram substâncias ali que vão ajudar justamente a recuperação”, explica. 

Apesar de resultados positivos, a ação em nível molecular da atuação das células ainda precisa de maior investigação. Os próximos passos do estudo estão voltados para a entender melhor o nível molecular da atividade, bem como uma translação do tratamento para humanos pensando em desenvolvimentos de fármacos, por exemplo.

A tese será dividida em seis diferentes artigos submetidos a periódicos, dentre eles o Global Spine Journal. Atualmente, as publicações estão em fase de revisão final. 

¨      Cola biológica ajuda na recuperação do movimento após lesão medular, diz estudo

Uma pesquisa de doutorado que testou o uso de uma cola biológica no reparo cirúrgico de lesões na medula espinhal foi o vencedor na categoria Masters do Prêmio Pio Corrêa de Inovação em Ciências Farmacêuticas da Biodiversidade Brasileira 2021, promovido pela Academia de Ciências Farmacêuticas do Brasil (ACFB).

Em experimentos com camundongos, o procedimento cirúrgico foi associado ao tratamento com um medicamento neuroprotetor e anti-inflamatório, resultando na sobrevivência de 70% dos neurônios afetados e possibilitando aos animais recuperar 50% do movimento no membro afetado.

O projeto foi desenvolvido por Paula Regina Gelinski Kempe, doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Biologia Celular e Estrutural (BCE) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e bolsista da FAPESP.

A pesquisa é orientada pelo professor Alexandre Leite Rodrigues de Oliveira, da Unicamp, e está vinculada ao Projeto Temático “Recuperação sensório-motora após axotomia de raízes medulares: emprego de diferentes abordagens experimentais”.

“Nosso estudo utilizou o biopolímero de fibrina, uma cola biológica derivada do veneno de serpente e de sangue de bubalinos [búfalos], como adjuvante para o reparo cirúrgico de lesões na medula espinhal. O biopolímero de fibrina foi desenvolvido no Centro de Estudos de Venenos e Animais Peçonhentos da Universidade Estadual Paulista em Botucatu [Cevap-Unesp]. Apresenta efeitos neuroprotetores e anti-inflamatórios, permitindo que o reparo da lesão seja mais eficiente, sem a necessidade de suturas”, diz Oliveira à Agência FAPESP.

Segundo o professor, além da cola biológica, o estudo utilizou terapia farmacológica com dimetil fumarato, uma droga já empregada no tratamento de esclerose múltipla e psoríase.

“O dimetil fumarato também apresenta efeitos neuroprotetores e anti-inflamatórios, além de efeitos antioxidantes. Como modelo experimental, a avulsão de raízes motoras em ratos foi utilizada. A avulsão é o arrancamento das raízes nervosas por tração, na interface entre o sistema nervoso central e periférico, interrompendo os comandos motores, gerando paralisia muscular”, explica.

A combinação entre reparo cirúrgico com selante de fibrina e tratamento farmacológico com dimetil fumarato, após três meses da lesão, resultou em sobrevivência neuronal de até 70% dos neurônios motores afetados. Houve importante preservação dos contatos entre esses neurônios (sinapses), diminuição da inflamação tecidual e recuperação de até 50% dos movimentos do membro afetado.

“Tais resultados são promissores e fazem acreditar numa aplicação clínica viável no futuro, melhorando a qualidade de vida dos pacientes, com maior autonomia e produtividade”, afirma Oliveira.

A perda de movimento de membros pode ocorrer após acidentes que causam danos na medula espinhal ou em nervos periféricos, como quedas de moto, atropelamentos, acidentes automobilísticos, quedas e mergulhos em águas rasas. Os sintomas decorrentes da lesão medular se devem à morte neuronal, bem como à desconexão do sistema nervoso central com os músculos, além de grande inflamação local, que gera dor intensa.

Atualmente são limitadas as cirurgias de reparo desse tipo de lesão e tratamentos farmacológicos paliativos são usados para reduzir a dor. No entanto, ainda não existem métodos que promovam melhora tanto em nível celular quanto funcional, levando à perda de qualidade de vida dos indivíduos afetados.

O Prêmio Pio Corrêa de Inovação em Ciências Farmacêuticas da Biodiversidade Brasileira foi instituído pela ACFB com a finalidade de reconhecer publicamente e estimular profissionais que atuam no Brasil nas diversas áreas das ciências farmacêuticas relacionadas à biodiversidade brasileira.

 

Fonte: Por Carolina Mattos – Jornal da USP/Agência FAPESP

 

É possível derrotar o capitalismo?

Há décadas, as narrativas dominantes sobre este sistema em que vivemos o apresentam como o único possível: glorificado pelas direitas ou aceito com resignação por aqueles que se apresentam como seus adversários políticos, mas que apenas propõem introduzir algumas regulações episódicas e limitadas à tirania dos grandes capitalistas. Às maiorias nos é reservado o consumo sob demanda de filmes e séries distópicas em plataformas de streaming monetizadas: ficções povoadas por personagens extravagantes que encarnam os ressentimentos de milhões, vinganças planejadas por heróis solitários ou futuros atrozes que nos convidam a aceitar, com resignação, o presente tal como é. 

Então, é possível saltar o cerco desses sentidos estabelecidos, atravessar a fronteira que nos impõe esse discurso dominante e deixar a imaginação voar de verdade? É possível derrotar esse pessimismo que nos prefere conformistas, céticos ou cínicos e liberar a capacidade de projetar outra vida, outra sociedade, outras relações, que hoje estão enclausuradas?

Podemos desafiar a cosmovisão das classes dominantes que se estabelece como o senso comum de toda a sociedade? Somos capazes de imaginar e fazer outros imaginarem a possibilidade de uma nova hegemonia impulsionada pela classe majoritária que move o mundo, encabeçando uma aliança com os setores das classes médias, com a juventude que se rebela, com os movimentos sociais que lutam contra as opressões e a depredação do planeta, para finalmente derrotar o capitalismo? Em diferentes momentos da história, também artistas, cientistas e até personalidades que vêm das classes acomodadas, mas renegam a ordem social que consideram repugnante, abraçam as revoluções que libertam também a criatividade e sensibilidade humanas. 

Somos de esquerda porque foi assim que a história batizou aqueles que carregam as bandeiras do novo, quando, na grande Revolução Francesa de 1789, a assembleia constituinte debatia calorosamente qual deveria ser o poder do rei Luís XVI. E enquanto os nobres, o clero e os leais à coroa se sentavam à direita de quem presidia a assembleia, os assentos da esquerda eram ocupados pelos representantes do povo, que exigiam uma transformação radical. Uma divisão espacial fortuita, cujo significado continua vigente: entre aqueles que querem conservar os privilégios das classes dominantes e aqueles como nós, que queremos revolucionar tudo.

Somos de esquerda porque, nessa vida que vivemos, imaginamos outra que realmente merece ser vivida e lutamos por ela. Porque rejeitamos a destruição do planeta e que o desperdício de uns poucos se sustente na fome de milhões. Porque nos opomos ao crescimento do racismo, ao machismo que mata, ao trabalho que nos adoece e ao fato de que a solidão e as crises sejam nossos únicos destinos. Porque nos recusamos a naturalizar as injustiças, as desigualdades e iniquidades, e tampouco aceitamos que sejam imutáveis. Porque estamos alertas também contra a maquinaria infernal da (des)informação, que, de tanto nos bombardear com a espetacularização do horror, nos entorpece, adormece e anestesia diante de tanta crueldade inadmissível. Porque não aceitamos de braços cruzados que a desigualdade alcance níveis obscenos, insuportáveis, trágicos; nem que nos convidem a descarregar a angústia e a ira que isso nos provoca em outros mais frágeis e vulneráveis. Porque sentimos repulsa por essa degradação infinita das democracias, com corrupção e negociatas entre a casta política e o empresariado, suas limitações para as maiorias populares, que não mandam nem decidem. Porque lutamos por uma democracia de outro tipo, verdadeiramente radical, que só pode ser alcançada com base na igualdade política e econômica. E porque rejeitamos, também, aqueles que apenas pregam o conformismo, a resignação ou a submissão. 

Somos de esquerda porque tudo isso nos revolta e nos impulsiona a querer transformá-lo. E porque percebemos que é necessário nos organizar para travar as batalhas que nos são impostas, do outro lado, por aqueles que contam seu patrimônio em bilhões de dólares, diamantes, ouro, propriedades, investimentos, grandes extensões de terra e, sobretudo, tempo: o tempo que roubam, cotidianamente, das nossas vidas.

Nós, que somos de esquerda, costumamos ser caricaturados como utópicos, otimistas irrefreáveis, que acreditam que “a revolução virá” e que o futuro socialista da humanidade é inevitável. Para dizer a verdade, algumas vertentes de esquerdas pensaram assim durante o século XX, mas esse não é o nosso caso. Porque, se sustentássemos isso, então sentaríamos placidamente para esperar que os acontecimentos se desenrolassem! Que sentido teria sermos militantes ativos em nossas ideias se o socialismo estivesse inscrito em um devir predeterminado?

Ao contrário, não está definido de antemão como terminarão essas batalhas entre nós e eles. Ainda é preciso travá-las, para honrar a memória das gerações passadas, para legar um mundo melhor às gerações futuras; mas, sobretudo, para defender a alegria em um presente colonizado pelas paixões tristes. Não é verdade que nossas reivindicações sejam impossíveis, como querem nos fazer acreditar. Existem condições materiais para erguer uma sociedade sem exploração nem opressão. Sua concretização dependerá do resultado da luta. Por isso, é preciso ser de esquerda. Além disso, como sustentar a vitalidade do presente senão conspirando coletivamente, todos os dias, para impedir que essa pequena minoria de privilegiados que nos domina consiga o que quer?

¨      Saudade de um país quebrado: tabloide neoliberal não se cansa de louvar Malan e Armínio. Por Paulo Henrique Arantes

O Estadão insiste, em editorial na terça-feira (25), em louvar as figuras de Pedro Malan e Armínio Fraga, respectivamente ministro da Fazenda e presidente do Banco Central nos anos em que a Presidência da República do Brasil foi exercida pelo “Príncipe dos Sociólogos”, Fernando Henrique Cardoso, promovido a “Rei dos Neoliberais” em razão de seu governo. O ex-jornalão do Limão, ora tabloide, reafirma sua devoção aos economistas fernandinos e ironiza o fato de o atual titular da Fazenda, Dario Durigan, procurá-los para uma conversa sobre a situação fiscal. Gesto de cinismo de um governo perdulário, entende o periódico udenista.

Play Video

Explicar a essa turma que existem coisas mais importantes na economia de um país do que o rigor fiscal, a despeito de certas regras que merecem ser cumpridas, é dar murro em ponta de faca. Necessário, contudo, é indagar por que editorialistas adoram tanto certos economistas, os quais deram com os burros n’água, e odeiam outros, cuja atuação resultou em melhora da vida da população. Afinal, para que serve a economia se não para melhorar a vida das pessoas?

A predominância de neoliberais na imprensa brasileira é notória, mas o time não deveria ignorar dados históricos. É preciso salientar que, quando se recorre ao FMI por causa de forte fuga de capitais e crise cambial, tem-se um país quebrado. Foi assim com FHC, Malan e Armínio.

O Estadão mantém-se cego perante a História e recomenda aos seus oráculos: “Malan e Arminio poderiam ensinar a Durigan que os juros são altos porque o mercado cobra cada vez mais caro para financiar um governo que sistematicamente gasta mais do que arrecada e não demonstra compromisso com o equilíbrio fiscal”.

Quando FHC assumiu a Presidência da República, em 1995, a dívida pública era de R$ 153,4 bilhões. Em abril de 2002, no fim do seu governo, era de R$ 684,6 bilhões – um aumento de 346%. Que equilíbrio espetacular!

Durante os governos do “Rei dos Neoliberais”, sob assessoria dos oráculos Malan e Armínio, a média de crescimento do PIB foi de 2%. A falta de investimento em infraestrutura acarretou um monumental apagão elétrico. Para compensar os prejuízos às empresas, o governo baixou uma Medida Provisória transferindo a conta do racionamento de energia aos consumidores.

A partir de questionável tese para evitar o colapso do sistema financeiro, FHC criou o Proer e socorreu os bancos. À época, disse que o custo da filantropia era de 1% do PIB. Posteriormente, os ex-presidentes do Banco Central Gustavo Loyola e Gustavo Franco estimaram a ajuda em 3% do PIB. Já economistas da Cepal apontaram 12,3% do PIB como o custo da benemerência, algo em torno de R$ 111 bilhões. Não se ouviu estridência do Estadão, por talvez não imaginar melhor destino a tamanha imensidão de dinheiro público.

A privatização do Sistema Telebrás foi um capítulo especial da era FHC. Grampos no BNDES flagraram conversas do seu presidente, André Lara Resende, com o então ministro das Comunicações, Luiz Carlos Mendonça de Barros. A dupla articulava apoio da Previ – o fundo de pensão do Banco do Brasil – ao consórcio liderado pelo banco Opportunity, que tinha Pérsio Arida, amigo de ambos, como sócio. Deu em nada, claro, porque privatizar é o objetivo final dos austericidas, custe o que e a quem custar.

Fernando Henrique Cardoso reelegeu-se em 1998 após segurar a paridade real-dólar. Eleição ganha, foi obrigado a desvalorizar a moeda brasileira. Houve indícios de vazamento de informações pelo Banco Central: o então deputado Aloizio Mercadante, do PT, divulgou uma lista com o nome de 24 bancos que obtiveram enormes lucros com a mudança cambial e outros quatro que registraram movimentação especulativa suspeita às vésperas do anúncio da medida.

 

Fonte: Por Myriam Bregman, em The Intercept/Brasil 247