Frei
Betto: Feminicídio e Igreja Católica - como discursos e doutrinas legitimam a
violência contra a mulher
O
Brasil segue entre os países que registra o maior número de
assassinatos de mulheres no mundo. A cada dia, em média, quatro
são mortas em razão do gênero, segundo dados do Fórum Brasileiro de
Segurança Pública. O feminicídio — crime tipificado em 2015 — é o estágio final
de um ciclo de violências sustentado por desigualdades históricas, culturais e
simbólicas.
Embora
as causas sejam múltiplas, especialistas afirmam que estruturas
patriarcais profundamente enraizadas continuam a legitimar a
subordinação feminina, tanto no espaço privado quanto no público. Nesse
contexto, instituições sociais de grande influência, como a Igreja Católica,
tornam-se parte fundamental do debate.
A Igreja
Católica tem papel central na formação cultural do país desde o período
colonial. Sua presença vai além da esfera religiosa. Alcança a
educação, a política e a moral social. Ao mesmo tempo em que desenvolve ações
relevantes de assistência social e defesa da vida, mantém uma posição rígida
quanto ao papel das mulheres em sua hierarquia: elas são oficialmente impedidas
de exercer o sacerdócio. A justificativa teológica se baseia na tradição e na
interpretação de que Jesus teria escolhido apenas homens como apóstolos,
argumento reiterado pelo Vaticano ao longo dos séculos.
Para os
críticos, essa exclusão não é apenas simbólica. Ao impedir mulheres de ocupar
posições de autoridade espiritual, a Igreja reforça uma lógica da
hierarquia de gênero que ecoa para além dos muros do templo.
“Quando
uma instituição que prega valores morais universais sustenta a ideia de que
mulheres não podem liderar espiritualmente, contribui para a naturalização da
desigualdade”, avalia a socióloga Maria Clara
Azevedo, pesquisadora das questões de gênero. Segundo ela, não
se trata de responsabilizar diretamente a Igreja pelo feminicídio, mas de
reconhecer como discursos e práticas institucionais moldam mentalidades.
O
feminicídio, em grande parte dos casos, ocorre no ambiente doméstico e é
cometido por parceiros ou ex-parceiros. Antes da morte, há quase sempre um
histórico de violência psicológica, física ou simbólica. Nesse percurso, a
ideia de posse sobre o corpo e a vida da mulher aparece como elemento
recorrente. É justamente nesse ponto que a crítica feminista se conecta ao
debate religioso: a persistência de narrativas que associam a mulher à
obediência, ao sacrifício e ao silêncio pode dificultar a ruptura de relações
abusivas.
A Igreja
Católica vive hoje tensões internas sobre o papel feminino. Embora mulheres
sejam maioria entre fiéis e responsáveis por grande parte do trabalho pastoral,
continuam afastadas das decisões centrais. O papa Francisco deu sinais de
abertura ao permitir maior participação feminina em cargos administrativos no
Vaticano, mas manteve intacta a proibição da ordenação sacerdotal. Para
teólogas feministas, trata-se de um limite estrutural. “Enquanto o poder
sacramental for exclusivamente masculino, a igualdade será sempre parcial”,
afirma a teóloga Ivone Gebara.
Representantes
da Igreja argumentam, porém, que a doutrina não implica
inferioridade. Em documentos oficiais, o Vaticano sustenta que homens e
mulheres têm “dignidade igual, mas funções diferentes”. Essa
distinção é questionada por setores da sociedade civil que veem nela uma
forma sofisticada de segregação. Em um país onde mulheres ainda lutam por igualdade salarial, segurança e
representação política, a manutenção de espaços exclusivamente masculinos em
instituições de grande influência simbólica é questionável e reprovável.
O
enfrentamento do feminicídio exige políticas públicas
eficazes, educação sobre igualdade de gênero e transformação
cultural profunda. Nesse processo, o diálogo com instituições religiosas
é essencial. Reconhecer sua influência não significa negar sua importância
social, mas convocá-las à reflexão crítica sobre seus limites. Em um
Brasil marcado por cruzes nos altares e o número cada vez maior de
mulheres nas estatísticas de mortes violentas, a pergunta que permanece é até
que ponto tradições podem ser preservadas quando colidem com o direito
fundamental à vida e à dignidade.
Entre o
altar, que ainda exclui, e o túmulo, que se multiplica, está o desafio de
romper estruturas que, direta ou indiretamente, continuam a dizer às
mulheres qual é e qual não deve ser o lugar delas.
A
escolha da bispa Sarah Mullally, de 63 anos, para chefiar a Igreja Anglicana no
Reino Unido, em outubro de 2025, representa um dos momentos mais significativos
da história recente do cristianismo ocidental. Mais do que uma decisão
administrativa ou espiritual, esse gesto simboliza uma ruptura com séculos de
tradição patriarcal que associaram liderança religiosa exclusivamente à figura
masculina. A presença feminina no mais alto cargo da Igreja confronta não
apenas estruturas internas, mas também valores culturais profundamente
enraizados na sociedade britânica.
Desde a
autorização para a ordenação de mulheres como sacerdotes e, posteriormente,
como bispas, a Igreja Anglicana
vive tensões constantes. Setores conservadores aceitaram essas mudanças de
forma relutante, muitas vezes criando mecanismos paralelos para evitar a
autoridade feminina. Agora, a eleição de uma mulher como líder máxima, contudo,
ultrapassou qualquer possibilidade de acomodação simbólica. Para grupos
abertamente machistas, isso foi visto como uma “traição” à tradição, provocando
reações intensas, que vão desde boicotes internos até ameaças de ruptura
institucional.
Essas
reações não se limitaram ao campo religioso. Parlamentares conservadores,
comentaristas e formadores de opinião alinhados a visões patriarcais tendem a
explorar o tema como sinal de decadência moral ou submissão da Igreja a pautas
progressistas. Ao mesmo tempo, a eleição fortalece movimentos feministas e
setores reformistas, que enxergam no gesto um avanço histórico na luta por
igualdade de gênero.
A
ruptura causada pelos machistas na Igreja Anglicana, embora barulhenta, também
revela um paradoxo: ao resistirem à liderança feminina, esses grupos
expõem a fragilidade de uma fé sustentada mais por hierarquias de poder do
que por princípios espirituais. A eleição de uma mulher divide a Igreja
Anglicana, mas obriga o Reino Unido a rever seu atual conservadorismo político.
¨ Além das Flores: a
luta das mulheres na Rússia e na América Latina
O Dia
Internacional da Mulher, celebrado anualmente em 8 de março, transcende a mera
formalidade de uma data comemorativa e se consolida como um símbolo da luta
histórica por direitos, equidade e respeito. As raízes da data estão
profundamente ligadas aos movimentos trabalhistas e feministas do final do
século 19 e início do século 20, desde a marcha de 15 mil mulheres em Nova
York, em 1908, até a greve histórica das trabalhadoras russas em 1917. Naquele
momento, uma série de protestos denunciou as precárias condições de trabalho, a
escassez de alimentos e o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial,
sob o lema “Pão e Paz”, marcando um ponto crucial na história das mulheres.
É
importante lembrar que, de acordo com o calendário juliano então vigente na
Rússia, a greve teve início em 23 de fevereiro — data que corresponde ao 8 de
março no calendário gregoriano, hoje adotado internacionalmente como o Dia
Internacional da Mulher. Décadas depois, em 1975, a data foi oficialmente
reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, o 8 de março
permanece como um lembrete de que cada direito conquistado pelas mulheres foi
fruto de mobilização e resistência — um marco que deve ser lembrado não apenas
uma vez ao ano, mas de forma permanente.
<><>
Brasil
O
Brasil carrega uma marcante trajetória de luta. O país viu avanços fundamentais
como a conquista do voto feminino em 1932 e os avanços da Constituição de 1988,
que garantiu a igualdade de gênero perante a lei. Mais recentemente, em 2006, a
sanção da Lei Maria da Penha tornou-se um pilar no combate à violência
doméstica. Por isso, o 8M brasileiro mantém a perspectiva de reconhecimento e
valorização das mulheres.
A
celebração brasileira é marcada por uma dualidade entre o caráter festivo
difundido socialmente e o político e reivindicativo. Nas ruas, o movimento 8M
mobiliza multidões em atos organizados por movimentos feministas e sindicatos.
As pautas são urgentes, como o combate ao feminicídio — uma mulher é vítima
a cada seis horas no país —, a luta por igualdade salarial — em média, as
mulheres ganham 22% a menos que os homens em funções semelhantes — e a defesa
dos direitos reprodutivos.
Na
política, as mulheres ocupam apenas 17,7% das cadeiras no Congresso Nacional.
Soma-se a isso a dupla jornada de trabalho, sob a qual elas dedicam cerca de 10
horas semanais a mais do que os homens às tarefas domésticas.
O 8 de
março no Brasil representa a força da resistência de vozes diversas — mulheres
negras, indígenas, periféricas e trabalhadoras rurais — que seguem em busca de
uma sociedade onde a igualdade não seja apenas uma letra morta na lei, mas uma
realidade cotidiana. A data expõe no país as contradições de uma sociedade que
avançou em direitos, mas que ainda convive com desigualdades profundas.
<><>
América Latina
Em
outros países da América Latina, o Dia Internacional da Mulher também é
celebrado no dia 8 de março. Entretanto, a luta pelos direitos das mulheres é
muito mais do que uma data no calendário: cada país possui suas próprias
mobilizações ao longo do ano. Ao impulsionar movimentos feministas, esse dia se
transformou em um poderoso grito por direitos e justiça, onde a cor roxa do
feminismo se faz símbolo onipresente nas ruas.
O
epicentro dessa transformação pode ser apontado na Argentina, berço do
movimento Ni Una Menos (Nem Uma a Menos, em tradução livre), que em 3 de junho
de 2015 deu voz à indignação contra o feminicídio e a violência de gênero na
América Latina. As marchas em Buenos Aires que ocorrem no dia 8 de março são
massivas, unindo gerações na defesa das conquistas feministas e na resistência
a qualquer retrocesso.
O
movimento Marea Verde, também argentino, com seus lenços verdes, simboliza a
luta pela legalização do aborto e pela autonomia reprodutiva, influenciando
fortemente países como o Chile, que se destacou por intervenções artísticas e
performances impactantes, como Um Violador em Teu Caminho, criada
no final de 2019. Já no México, a urgência da luta contra o feminicídio e os
desaparecimentos de mulheres impulsiona manifestações marcadas pela ocupação
simbólica de espaços públicos.
No
Paraguai, o Paro de Mujeres (Greve de Mulheres) reúne mobilizações no 8 de
março para reivindicar direitos e denunciar desigualdades, a violência de
gênero e injustiças sociais. Na Colômbia, marchas são realizadas nas principais
cidades do país, celebrando conquistas e também chamando atenção para a
proteção de líderes sociais e mulheres em zonas de conflito.
É
fundamental reconhecer que o 8 de março na América Latina possui um caráter
profundamente interseccional, abordando não apenas questões de gênero, mas
também a defesa de territórios indígenas e camponeses, a busca por memória e
justiça para vítimas de conflitos e ditaduras e o reconhecimento do trabalho
doméstico não remunerado. Para países com significativas populações
afrodescendentes, como Colômbia, República Dominicana e Honduras, o 25 de julho
— Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha — complementa o 8 de março ao
destacar a luta contra o racismo que atravessa a vida dessas mulheres.
Portanto,
o 8 de março na região é marcado por mobilização, memória e reivindicação. Os
contrastes sociais presentes nos diferentes países revelam que, apesar de
avanços importantes, a América Latina ainda enfrenta índices alarmantes de
violência e desigualdade de gênero. A verdadeira celebração da data está no
compromisso contínuo de transformar as estruturas que ainda impedem as mulheres
de ocupar plenamente todos os espaços da vida social, política e econômica.
<><>
Rússia
Na
Rússia, cada menina, sem exceção, espera pelo dia 8 de março e sabe exatamente
qual feriado é comemorado nesse dia. Claro, inicialmente essa data tinha a
mesma ideia original que em todo o mundo — a proteção dos direitos, a afirmação
da liderança feminina no desenvolvimento da sociedade e a compreensão de que o
progresso das mulheres é parte do progresso do mundo. Mas na consciência
coletiva russa contemporânea, o 8M se consolidou, antes de tudo, como o “dia da
mulher” no sentido mais amplo e cotidiano. Não é, de forma alguma, um dia de
mobilização em massa e de simbologia de rua, habitual na América Latina. Para
os russos, este é o dia de celebrar a mulher como figura em geral. No centro
estão a beleza, a feminilidade e a ternura, embora por trás dessa suavidade
externa, de uma forma ou de outra, também estejam implícitas a força e a
fortitude de espírito. De forma geral, ainda assim, os traços femininos das
moças é que vêm para o primeiro plano.
Seja
uma menina de três anos, uma estudante, uma mãe cansada ou uma avó de 97 anos,
não há exceção: o 8 de março na nação russa é um feriado para qualquer mulher.
Parece que o país inteiro, neste dia, ajusta o foco nelas, como se o cotidiano
pausasse por um instante suas preocupações para reconhecer publicamente a
existência e a importância de cada representante do sexo feminino. Em Moscou,
essa atenção ganha uma forma especialmente visível num detalhe que se repete
literalmente a cada passo: homens com flores. As flores são, provavelmente, o
principal atributo do feriado, um símbolo quase inevitável. Isso é
particularmente expressivo no metrô: você entra e é como se a cidade inteira
estivesse se deslocando com buquês nas mãos, como se cada vagão transportasse
pequenas declarações e gestos de atenção, para casa, para o trabalho, para um
encontro, para uma visita. Se quiser ver isso, definitivamente procure por
vídeos nas redes sociais, e perceberá a dimensão do que acontece.
Neste
dia, há sempre presentes, surpresas, reservas em restaurantes, promoções e
ofertas especiais. Muitos homens se esforçam para organizar uma homenagem para
suas esposas. Muitas mulheres esperam por este dia com antecipação, porque
sabem que ele traz um tipo especial de atenção, socialmente estabelecido. E
ninguém fica sem homenagem: se não tem marido, namorado ou parceiro, certamente
haverá um pai, colegas, um chefe, um professor, um departamento universitário,
um grupo de estudo. Em algum lugar e de alguém, certamente virão palavras
calorosas, uma flor, um chocolate ou uma mensagem. Para os homens, a regra é se
preparar para este dia com especial cuidado. Não basta apenas parabenizar. É
importante escolher o presente certo, cobrir a mulher de atenção e criar para
ela uma verdadeira festa. Muitos estrangeiros expressam opiniões diferentes
sobre esses “caprichos” da cultura russa, mas o fato é um fato. As moças
eslavas sempre esperam pela festa vinda dos homens neste dia.
Para
muitas pessoas, o 8 de março é um feriado tão importante quanto o aniversário
ou o Ano Novo. E quando as russas precisam explicar aos estrangeiros que dia é
comemorado no 8 de março, acredite, ficam simplesmente perplexas, pois para a
população russa este é um feriado que toda pessoa conhece. Você não encontrará
um único russo que não saiba o que exatamente se comemora nesse dia. Assim, o
8M russo se torna um espelho cultural: por um lado, ele afasta a data das suas
origens mais combativas e, por outro, a transforma num raro consenso social,
num dia em que o reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna
visível e quase impossível de ignorar. Assim, o 8M russo se torna um espelho
cultural: por um lado, ele afasta a data das suas origens mais combativas e,
por outro, a transforma num raro consenso social, num dia em que o
reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna visível e quase
impossível de ignorar.
Fonte:
Diálogos do Sul Global




