terça-feira, 18 de agosto de 2026

Soberania sem projeto

A eleição presidencial de 2026 devolve ao debate brasileiro uma palavra que nunca desapareceu completamente, embora durante muitos anos tenha sido tratada como pertencente a outro tempo histórico: soberania. Ela reaparece na economia, na política externa, na discussão sobre a Amazônia, na energia, na tecnologia, na inteligência artificial, na defesa e na segurança nacional. Não reaparece por acaso.

O mundo já não é o mesmo daquele que se formou depois do fim da União Soviética. A competição entre as grandes potências voltou a organizar a política internacional, a guerra recuperou centralidade e cadeias produtivas, semicondutores, energia, dados e infraestrutura tecnológica tornaram-se instrumentos diretos de poder.

Para um país como o Brasil, a questão não é nova, mas aparece agora sob outra forma. O problema continua sendo a dependência, embora já não seja suficiente compreendê-la apenas pelos mecanismos clássicos da transferência de valor, da desigualdade comercial ou da subordinação financeira. A dependência penetrou profundamente nas condições que permitem a um país formular seu próprio futuro. Tecnologia, plataformas digitais, crédito, ciência, infraestrutura de dados, capacidade industrial e planejamento estatal passaram a constituir dimensões decisivas da soberania.

Eu havia escrito um artigo chamado “Eleição e dependência”. Estava pronto. Não o publiquei. Antes de encaminhá-lo, li no site A Terra é Redonda “A igreja e o submarino”, de Renato Dagnino. A leitura mudou a direção do texto. Não porque o argumento anterior estivesse errado, mas porque Renato Dagnino abriu uma questão que eu não havia desenvolvido suficientemente: a relação entre soberania, política de defesa, tecnologia militar e poder institucional das Forças Armadas.

Por isso, este artigo nasceu de outro. A pergunta inicial permanece: quanto do próprio futuro o Brasil ainda consegue governar? Mas a leitura de Renato Dagnino introduz imediatamente outra pergunta, muito mais incômoda: quem decide, dentro do Estado brasileiro, o que deve ser defendido, de quem deve ser defendido e por quais meios?

Esse deslocamento é importante porque existe uma identificação quase espontânea, inclusive em setores progressistas, entre investimento militar, desenvolvimento tecnológico e soberania. A existência de um submarino nuclear, de caças modernos, de sistemas de vigilância, satélites, drones ou mísseis tende a ser apresentada como demonstração material da autonomia de um país. Renato Dagnino põe em dúvida justamente essa passagem automática. O ponto merece atenção.

Um equipamento tecnologicamente sofisticado não contém em si mesmo a política que o produziu. Pode concentrar ciência avançada, engenharia, trabalho altamente qualificado, universidades, institutos de pesquisa e empresas. Ainda assim, nada disso responde à questão principal: qual estratégia nacional justifica sua existência?

A tecnologia militar pode fazer parte de um projeto soberano. Mas pode também funcionar como um enclave de modernização dentro de uma estrutura dependente.

O Brasil conhece bem esse tipo de contradição. Nossa história nunca foi uma história de ausência de modernização. Ao contrário. Construímos siderurgia, indústria automobilística, empresas estatais de grande porte, universidades, centros de pesquisa, uma das mais sofisticadas indústrias aeronáuticas do mundo, agricultura intensiva em tecnologia e um sistema financeiro extremamente desenvolvido. Nada disso eliminou a dependência.

Durante muito tempo tratou-se o moderno e o atrasado como momentos sucessivos. Primeiro viria o atraso, depois a modernização e, finalmente, o desenvolvimento. A história brasileira não confirmou essa sequência. O moderno cresceu ao lado da dependência e, frequentemente, dentro dela.

É justamente por isso que a crítica de Renato Dagnino aos chamados spin-offs militares ganha importância. Existe uma ideia bastante difundida de que o investimento em tecnologia de defesa não se limita ao setor militar. Tecnologias desenvolvidas para fins estratégicos podem encontrar usos civis, abrir novos campos de produção e contribuir para ganhos de produtividade. Desse movimento poderiam surgir novas indústrias, novos processos produtivos e uma difusão mais ampla do conhecimento tecnológico pela economia.

Não é. Nos países centrais, determinados programas militares efetivamente produziram tecnologias posteriormente incorporadas à economia civil. Mas não se pode simplesmente transportar essa experiência para uma formação econômica dependente. A existência de pesquisa militar avançada não significa necessariamente que se forme um sistema nacional autônomo de inovação.

A questão real está nas mediações. É preciso saber onde está o conhecimento produzido, quem se apropria dele, que empresas participam das cadeias tecnológicas, quais componentes precisam ser importados, que patentes estão envolvidas, que capacidade industrial permanece depois do programa e qual relação se estabelece com universidades e institutos públicos.

Sem essa investigação, o spin-off corre o risco de transformar-se mais em argumento legitimador do investimento do que em resultado comprovado. O caso brasileiro torna essa prudência indispensável. É perfeitamente possível produzir um artefato militar sofisticado utilizando sistemas, componentes, softwares ou tecnologias cuja continuidade depende de fornecedores estrangeiros. Nesse caso, a aparência de autonomia convive com uma dependência situada no interior da própria tecnologia.

A sofisticação do produto final pode esconder a vulnerabilidade da cadeia que o sustenta. Há outro argumento de Renato Dagnino ainda mais perturbador. Alguns grandes projetos militares podem ser compreendidos como políticas simbólicas. Isso não significa que sejam imaginários ou que não produzam equipamentos reais. A questão é outra. Uma política pode apresentar determinado objetivo público e cumprir simultaneamente funções institucionais diferentes daquelas declaradas.

Um programa pode ser justificado pela defesa nacional e, ao mesmo tempo, garantir continuidade orçamentária, reproduzir estruturas burocráticas, ampliar prestígio institucional, preservar áreas de poder e fortalecer a capacidade política da organização que o administra.

Não há novidade sociológica nisso. Instituições também procuram reproduzir-se. O problema aparece quando esse movimento é ocultado pela linguagem da necessidade estratégica. Quanto mais um programa se apresenta como questão de segurança nacional, mais difícil torna-se submetê-lo ao debate público ordinário. A crítica pode ser desqualificada como irresponsabilidade, desconhecimento técnico ou desinteresse pela soberania.

Nesse terreno, a expressão utilizada por Renato Dagnino – “ambição de poder militar” – possui enorme força analítica. Seria pobre reduzi-la a uma intenção subjetiva de oficiais ou comandantes. A questão é institucional. Uma corporação pode ampliar progressivamente sua capacidade de estabelecer o que conta como ameaça, quais riscos devem ser enfrentados, que tecnologias devem ser desenvolvidas e quais recursos precisam ser reservados para isso.

O poder militar não se exerce apenas quando tanques ocupam ruas. Ele também pode aparecer na capacidade de transformar determinados temas em assuntos sobre os quais a sociedade civil possui pouco poder de decisão.

No Brasil, esse problema não pode ser separado da história. As Forças Armadas brasileiras jamais se ocuparam exclusivamente da defesa contra inimigos externos. Ao longo da República, participaram diretamente da reorganização do poder político. A ideia do inimigo interno atravessou diferentes momentos históricos e encontrou sua formulação mais acabada durante a Guerra Fria, quando a doutrina de segurança nacional colocou a própria sociedade no campo da suspeita.

Esse passado não é um detalhe. Instituições possuem memória. Possuem tradições, linguagens, escolas, doutrinas, sistemas de formação e formas próprias de interpretar a realidade. Uma mudança de regime político não apaga automaticamente essas continuidades. Daí a necessidade de interrogar a política de defesa brasileira a partir de sua história concreta, e não apenas daquilo que ela declara ser.

A frase do ministro da Defesa José Múcio Monteiro, lembrada por Renato Dagnino, segundo a qual diante de uma invasão norte-americana seria preciso “abrir o portão”, pode ter sido dita de maneira jocosa. Ainda assim, é reveladora.

Se a principal potência militar do continente está fora da escala possível de enfrentamento brasileiro, torna-se legítimo perguntar quais cenários organizam efetivamente nossa política de defesa. Isso não conduz à conclusão de que o Brasil não deva possuir Forças Armadas ou sistemas modernos de defesa. Uma conclusão desse tipo seria simplista.

O Brasil reúne condições territoriais e naturais pouco comuns: mais de oito milhões de quilômetros quadrados, vastas reservas de água doce, a Amazônia, petróleo, enorme biodiversidade, longas fronteiras terrestres e marítimas e uma capacidade de produção de alimentos que lhe confere peso próprio no mundo. A isso se soma sua posição no Atlântico Sul, decisiva do ponto de vista econômico, político e estratégico.

Defesa nacional exige coerência entre ameaça, estratégia, ciência, indústria, política externa, tecnologia e capacidade produtiva. Sem essa articulação, equipamentos sofisticados podem coexistir com vulnerabilidades elementares.

Um país pode possuir caças modernos e depender de tecnologias estrangeiras para sistemas essenciais de comunicação. Pode construir um submarino nuclear e não dominar parcelas decisivas da indústria de semicondutores. Pode desenvolver sistemas militares altamente sofisticados e manter universidades públicas submetidas à escassez permanente.

Esse contraste deveria estar no centro do debate brasileiro. Não existe soberania militar duradoura sem soberania científica. A tecnologia contemporânea tornou essa relação ainda mais estreita. Inteligência artificial, criptografia, sensores, computação de alto desempenho, satélites, processamento de dados, sistemas autônomos e cibersegurança dissolveram a antiga fronteira entre tecnologia civil e tecnologia militar.

O país que não possui autonomia relativa nessas áreas possui também uma defesa limitada. Por isso é contraditório imaginar que seja possível produzir soberania financiando alguns programas militares enquanto se mantém o sistema científico nacional sob intermitência.

Ciência exige tempo. Um laboratório não se consolida em dois anos. Um grupo de pesquisa não se forma entre um edital e outro. Uma geração de cientistas leva décadas para ser constituída. Uma universidade precisa acumular conhecimento, formar pesquisadores, errar, corrigir, transmitir saber e criar tradições intelectuais. Não existe soberania científica submetida permanentemente ao tempo curto do ajuste fiscal.

Aqui o problema da defesa encontra outro que venho procurando formular: a dependência como controle do tempo histórico. Depois de 2008, o capital fictício aumentou extraordinariamente sua capacidade de antecipar a apropriação de rendas futuras. Estados passaram a governar sob constrangimentos fiscais permanentes. Dívidas, metas, regras fiscais, expectativas financeiras e compromissos futuros reduzem o espaço do planejamento.

O futuro torna-se antecipadamente comprometido. Essa transformação não elimina o Estado. Ela altera sua temporalidade. As políticas públicas passam a viver sob urgência contínua. Corta-se, recompõe-se, contingencia-se, renegocia-se. O planejamento é substituído pela administração do imediato.

Entretanto, alguns programas conseguem escapar dessa temporalidade curta. Apresentados como estratégicos, reivindicam recursos durante vinte, trinta ou quarenta anos. É nesse ponto que a metáfora de Renato Dagnino sobre a igreja e o submarino ganha força.

A igreja continua sendo construída e, exatamente porque nunca está pronta, continua justificando a contribuição de seus fiéis. Alguns grandes programas podem desenvolver dinâmica semelhante: sua longa duração deixa de ser apenas condição técnica e transforma-se também em justificativa de sua própria continuidade.

Não se trata de defender programas curtos. Um programa científico importante pode exigir décadas. Uma política energética também. O mesmo vale para educação, infraestrutura e defesa. A questão está em saber quem avalia essa duração. Duração sem avaliação pode transformar-se em captura.

Capturar o futuro significa comprometer recursos e possibilidades antes que a sociedade possa deliberar novamente sobre eles. A dívida pública pode capturar receitas futuras. Uma plataforma digital pode capturar infraestrutura e dados. Uma dependência tecnológica condiciona escolhas que ainda nem foram feitas.

Programas estatais também podem adquirir essa característica quando passam a organizar de forma quase irreversível parcelas futuras do orçamento. Por isso, a questão temporal não está separada da soberania. Soberania é capacidade de manter abertas possibilidades históricas. Um país dependente não é simplesmente aquele que recebe decisões estrangeiras. É também aquele cuja margem de escolha futura vai sendo progressivamente estreitada.

Essa captura pode ser externa e interna ao mesmo tempo. Grandes potências, conglomerados financeiros, monopólios tecnológicos e plataformas possuem capacidade de impor condições aos Estados periféricos. Mas estruturas internas também podem disputar o poder de comprometer o futuro segundo seus próprios interesses.

A dependência nunca foi apenas exterior ao Brasil. Ela se reproduz aqui dentro. Classes, frações de classe, empresas, instituições, burocracias e organizações estatais participam da forma concreta pela qual o país se insere na ordem internacional. Uma política pode apresentar-se como nacionalista e, ao mesmo tempo, aprofundar relações de dependência.

Essa é talvez uma das contribuições mais importantes que a leitura de Renato Dagnino permite desenvolver. A política de defesa não é automaticamente soberana porque é política de Estado. O Estado de uma sociedade dependente é também atravessado pelas contradições dessa dependência.

Não basta, portanto, opor Estado e mercado, imaginando que o primeiro represente necessariamente a soberania e o segundo a subordinação. Também não basta realizar o movimento inverso. A questão é saber que Estado, controlado por quais forças, orientado para que objetivos e submetido a quais formas de controle social.

A eleição de 2026 recoloca esse problema de maneira particular. Os campos políticos em disputa não são equivalentes. O bolsonarismo recuperou abertamente a memória da ditadura, ampliou a presença militar na administração federal e voltou a utilizar a linguagem do inimigo interno como instrumento de disputa política.

Defender a democracia contra esse campo é indispensável. Mas derrotá-lo eleitoralmente não resolve a dependência brasileira. Um governo democrático continuará enfrentando restrições financeiras, tecnológicas, científicas e geopolíticas que não desaparecem com a troca do presidente. É justamente por isso que não considero suficiente tratar a eleição como escolha entre pessoas.

A disputa real diz respeito à capacidade de reconstruir um horizonte nacional. Sem isso, soberania permanece como palavra. Um projeto soberano exigiria integrar política industrial, ciência, universidade pública, energia, defesa, infraestrutura, tecnologia digital, alimentação, meio ambiente e política externa.

Não se trata de autarquia. Nenhum país moderno é autossuficiente. A questão é outra: qual grau de dependência torna impossível tomar decisões sem autorização material de terceiros? A soberania é sempre relativa, mas essa relatividade não elimina diferenças profundas entre quem produz regras e quem apenas se adapta a elas.

A política de defesa deve ocupar um lugar dentro desse projeto. Não pode substituí-lo. Uma sociedade democrática define o que pretende preservar e organiza suas capacidades militares a partir dessa decisão. Quando o movimento se inverte e a corporação militar passa a formular autonomamente o significado da soberania, surge um problema político.

A defesa deixa de ser instrumento e começa a reivindicar para si o poder de definir o interesse nacional. Esse é o ponto em que a pergunta com que eu havia terminado “Eleição e Dependência” precisa ser modificada. Eu perguntava se o Brasil ainda seria capaz de governar o próprio futuro. Depois de ler Renato Dagnino, é necessário acrescentar: quem pretende governá-lo?

A questão parece simples, mas muda o problema inteiro. Não existe soberania sem capacidade de defesa. Também não existe soberania democrática se a definição da defesa escapa à sociedade. O desafio brasileiro não está entre desarmar o país ou militarizá-lo. Essa alternativa é pobre.

O Brasil precisa defender-se. Mas deve começar por discutir o que está sendo defendido. A soberania de um país não reside somente em seu território. Está também em suas universidades, laboratórios, infraestrutura digital, bancos de dados, capacidade energética, indústria, água, florestas, alimentos e conhecimento.

Um país pode proteger suas fronteiras e perder o controle sobre seus dados. Pode possuir mísseis e depender de plataformas estrangeiras para sua infraestrutura de comunicação. Pode construir armas avançadas e destruir lentamente sua universidade pública. Nada disso é soberania completa.

O problema de fundo é que o Brasil construiu capacidades extraordinárias ao longo do século XX e do início do XXI, mas raramente conseguiu articulá-las durante tempo suficiente em torno de um mesmo projeto.

Essa descontinuidade não é acidental. Ela constitui parte da própria forma da dependência brasileira. Cada ciclo de construção é seguido por uma interrupção, uma reforma, uma abertura, um ajuste, uma privatização ou uma mudança de prioridade que dissolve parte do que havia sido acumulado. O país continua recomeçando. E quem recomeça continuamente perde tempo histórico.

Talvez seja esse o ponto em que a discussão sobre defesa encontra sua forma mais ampla. Soberania é poder sobre o tempo. Não porque seja possível controlar o futuro, mas porque uma sociedade soberana precisa conservar a possibilidade de escolhê-lo.

Quando decisões tomadas hoje fecham antecipadamente as alternativas de amanhã, a soberania diminui. Quando ciência, tecnologia, crédito, infraestrutura e defesa são organizados de maneira que a sociedade não possa alterar sua direção, o futuro deixa de ser espaço político e torna-se herança obrigatória.

A leitura de Renato Dagnino impede que se tome o submarino, o caça, o míssil ou o drone como provas suficientes de soberania. Eles são instrumentos. Seu sentido depende da totalidade na qual estão inscritos. Podem ampliar autonomia. Podem também constituir formas altamente sofisticadas de uma modernização dependente.

Esse é o problema brasileiro. Não nos falta modernidade. Falta-nos capacidade de subordiná-la a um projeto histórico próprio. E talvez seja justamente essa a questão que a eleição de 2026 deveria colocar diante do país: não apenas quem governará o Brasil nos próximos quatro anos, mas se ainda somos capazes de construir instituições que permitam ao Brasil governar o seu próprio tempo.

 

Fonte: Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda 

 

Do Lula do Velho Testamento ao Lula conciliador: o que restou do programa de 1989

Havia um outro Lula antes do Lula. 

Trinta e sete anos depois de disputar pela primeira vez a Presidência, Luiz Inácio Lula da Silva lançou neste domingo sua campanha em busca de um quarto mandato no Palácio do Planalto. O ato ocorreu em São Bernardo do Campo, onde começou sua trajetória política.

A ocasião permite olhar para o ponto de partida. Em 1989, a campanha Lula-Bisol apresentou um programa econômico que, relido hoje, parece em alguns trechos pertencer a outro personagem – e a outro Brasil.

Lula defendia suspender o pagamento da dívida externa e os acordos com o Fundo Monetário Internacional, fortalecer estatais e bancos públicos, combater a “ciranda financeira” e duplicar o valor real do salário mínimo no primeiro ano.

Era, por assim dizer, o Lula do Velho Testamento: mais confrontador, com adversários econômicos claramente identificados e convencido de que o desenvolvimento exigia uma mudança profunda nas relações entre Estado, capital e trabalho.

Boa parte daquele receituário desapareceu. Mas não tudo.

Política industrial, estatais estratégicas, valorização salarial, segurança energética, soberania tecnológica e um Estado capaz de orientar investimentos atravessaram as décadas e estão novamente no programa com que Lula pretende disputar seu quarto mandato.

Entre o Lula do Velho Testamento e o Lula conciliador, sobreviveram mais os objetivos do que os métodos.

<><> De romper com o FMI a reformar o FMI

Talvez nenhuma proposta mostre melhor a transformação de Lula do que a dívida externa. Em 1989, o programa defendia suspender os pagamentos e os acordos com o FMI. A dívida era tratada como restrição à soberania e à capacidade do Estado de investir.

Quando chegou ao poder, Lula tomou o caminho inverso. O Brasil honrou os compromissos, acumulou reservas de cerca de US$ 300 bilhões e, em 2005, quitou antecipadamente suas obrigações com o FMI. A busca por autonomia externa permaneceu. O instrumento mudou: em vez de moratória, reservas; em vez de romper com o Fundo, pagar a dívida.

O contraste chega ao programa atual. Agora, Lula propõe reformar e democratizar o FMI e o Banco Mundial, ao mesmo tempo em que fortalece instituições como o banco dos BRICS.

<><> “Precisamos delas”

O programa de 1989 reservava às empresas públicas um capítulo com título inequívoco: “Precisamos delas.” A ideia era preservar sob controle estatal empresas consideradas essenciais ao desenvolvimento e recuperar a capacidade de planejamento econômico de longo prazo.

Essa visão sobreviveu, embora dentro de outra estrutura econômica.O programa atual atribui novamente papel estratégico à Petrobras. Defende mais investimentos em exploração, refino, gás e transição energética, conteúdo local e até o retorno da companhia à distribuição de combustíveis. Mas a Petrobras de hoje é uma empresa de capital aberto, submetida à governança corporativa e com acionistas privados. O Estado estratégico permaneceu. A estatização como horizonte, não.

<><> Da “ciranda” ao capital privado como parceiro

Outro capítulo de 1989 – auge da hiperinflação brasileira – prometia “acabar a ciranda” financeira. O programa criticava a concentração bancária e o peso das aplicações financeiras de curto prazo, ao mesmo tempo em que defendia fortalecer os bancos públicos e direcionar crédito para o investimento produtivo.

É justamente aí que aparece uma das maiores mudanças. O programa atual não pretende substituir o capital privado. Quer mobilizá-lo. Na política industrial, propõe combinar crédito público e privado, compras governamentais, concessões, regulação, conteúdo local e incentivos às empresas brasileiras.

No Novo PAC, celebra um modelo que reúne Orçamento público, estatais, setor privado e financiamentos, além de concessões de infraestrutura. O Estado deixou de aparecer como alternativa ao mercado e passou a ser apresentado como seu indutor.

<><> O salário mínimo: objetivo mantido, método diferente

Em 1989, Lula prometia duplicar o valor real do salário mínimo em apenas um ano. Nunca fez isso. No governo, adotou uma estratégia gradual de ganhos reais do mínimo, combinada com crescimento do emprego, expansão do crédito e transferência de renda. A valorização salarial, porém, permanece no programa atual como elemento explícito da política de redução das desigualdades.É outra constante da trajetória: o objetivo permaneceu; o radicalismo do instrumento diminuiu.

<><> A política industrial foi embora — e voltou

Talvez seja a parte do documento de 1989 que mais surpreenda quando lida hoje. Lula já defendia modernização industrial, desenvolvimento tecnológico, planejamento de longo prazo e menor dependência externa.

Durante anos, parte dessa agenda perdeu espaço com a abertura econômica e a globalização. Nas últimas décadas, porém, política industrial voltou ao centro da disputa internacional, com Estados Unidos, China e Europa investindo pesadamente em tecnologia e cadeias estratégicas.

Lula também voltou a ela. Seu programa atual pretende aprofundar a neoindustrialização com foco em inteligência artificial, minerais críticos, inovação, produtividade e soberania tecnológica. Defende ainda agregar valor aos minerais antes da exportação, verticalizar cadeias e aumentar o conteúdo tecnológico da produção brasileira. Nesse ponto, existe uma linha clara entre 1989 e 2026.

<><> Agora há responsabilidade fiscal

Há, contudo, uma expressão no programa atual que ajuda a medir a distância percorrida: responsabilidade fiscal. O documento promete manter o arcabouço fiscal, controlar o crescimento das despesas, melhorar a qualidade do gasto e buscar juros mais baixos com inflação controlada e política fiscal responsável. É difícil imaginar esse vocabulário ocupando posição semelhante no programa de 1989.

O terceiro mandato também passou a apresentar proteção social e equilíbrio das contas públicas como objetivos simultâneos. A conciliação, portanto, não é apenas política. Virou parte do modelo econômico. O Lula conciliador É isso que distingue mais claramente os dois Lulas. 

Em 1989, o mundo econômico era organizado em campos mais nítidos: trabalhadores e capital, Estado e mercado, produção e especulação, soberania e credores internacionais.

O programa atual combina Estado e mercado: crédito público e privado, estatais e concessões, política industrial e investimento empresarial. A diferença é que o Estado já não aparece como substituto do mercado, mas como agente capaz de orientá-lo. Em 1989, Lula queria redistribuir o poder econômico; em 2026, quer direcionar o capital para os objetivos de seu projeto de desenvolvimento.

¨      Lula: o Brasil está pronto para muito mais

Em um pronunciamento direto e de forte apelo popular, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva convocou a sociedade brasileira a refletir sobre o futuro do país e a importância da soberania do voto popular. Com uma fala direcionada às famílias trabalhadoras, Lula ressaltou que o Brasil alcançou um patamar de maturidade institucional e econômica que permite alçar voos ainda maiores.

“Hoje eu posso dizer para vocês: o Brasil está pronto como nunca esteve para muito mais. E eu quero participar dessa história junto com você, porque é para você que eu quero que o Brasil melhore, não é para mim”, afirmou.

O voto como expressão de soberania popular

O cerne da mensagem de Lula concentrou-se na despersonalização da política em favor do projeto coletivo de nação. Ao abordar a decisão eleitoral, o presidente destacou que a escolha nas urnas não deve ser encarada como uma concessão individual a candidatos, mas como uma aposta consciente no próprio futuro e nas aspirações de cada cidadão.

  • Consciência de classe e projeto: Lula enfatizou que o eleitor deve colocar em primeiro plano suas próprias demandas por dignidade, emprego e bem-estar social.
  • Autonomia do eleitor: “Você não precisa votar em mim. Vote em você, vote no seu desejo, vote no seu sonho, vote na crença que você tem de quem pode fazer as coisas pelo Brasil”, pontuou.
  • Tranquilidade democrática: Para o presidente, o voto consciente garante a paz de espírito necessária para quem constrói o país diariamente.

<><> Antítese do retrocesso

Ao alertar para os riscos da desilusão política e das escolhas contraditórias aos interesses da classe trabalhadora, Lula traçou uma linha clara contra projetos que representem a destruição de direitos e o empobrecimento da população.

“Durma tranquilo. Se você fizer isso, você pode dormir tranquilo. O que você não pode é votar em alguém que pensa exatamente o contrário ao que você sonha”, advertiu.

A declaração reforça a estratégia do governo de conectar a estabilidade socioeconômica à necessidade de continuidade de políticas de inclusão, soberania nacional e justiça distributiva, projetando um horizonte de desenvolvimento sustentável para as próximas gerações.

¨      Reeleição de Lula fortalece a democracia e o desenvolvimento do País, afirma Alckmin

O vice-presidente Geraldo Alckmin defendeu a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o ato de oficialização da candidatura realizado na Vila Euclides, em São Bernardo do Campo, no ABC paulista. Em discurso marcado por referências ao movimento sindical, à redemocratização e à retomada da indústria, Alckmin afirmou que um novo mandato de Lula representaria a continuidade das conquistas sociais, econômicas e ambientais obtidas pelo país.

As declarações foram feitas pelo próprio Alckmin durante a cerimônia de oficialização da candidatura de Lula. Ao lembrar o papel histórico da Vila Euclides nas mobilizações de trabalhadores contra a ditadura, o vice-presidente recorreu a uma metáfora futebolística para relacionar a luta democrática do fim dos anos 1970 ao atual projeto político liderado pelo presidente. “Uma alegria, presidente, estar aqui na Vila Euclides. Aqui quem faz o gol é a democracia.”

Alckmin afirmou que as mobilizações conduzidas pelos trabalhadores mostraram que direitos sociais e justiça tributária dependem da existência de liberdade política. “Foi aqui que os trabalhadores nos ensinaram que justiça tributária só ocorre com liberdade política. Foi aqui que o time entrou não para empatar, porque jogou contra a ditadura, contra a opressão, contra a carestia. Entrou para ganhar, presidente Lula”, declarou.

<><> Alckmin relembra papel dos trabalhadores na redemocratização

Ao reconstruir simbolicamente a mobilização de 1979, Alckmin disse que a organização política partiu das fábricas e dos sindicatos e contou com o apoio de diferentes setores da sociedade. “E esse time de 79, quem fez a armação foi dentro das fábricas. Quem escalou o time foram os sindicatos, na defesa, a zaga da legalidade, com a coragem e o senso de justiça de Sobral Pinto e Pere Bandeira de Mello.”

O vice-presidente também citou trabalhadores, artistas, cientistas, estudantes, juristas e organizações da sociedade civil como participantes daquele processo. “A armação e o meio de campo foram os trabalhadores, artistas, cientistas, estudantes, juristas, a sociedade civil organizada, unida. E quem marcou o gol foi o Brasil.”

Na sequência, Alckmin colocou a classe trabalhadora no centro das transformações políticas daquele período e atribuiu a Lula protagonismo na articulação daquele movimento. “O centroavante, presidente, foi a valorosa classe trabalhadora, que rompeu barreiras, que avançou, suou a camisa para a vitória. E quem empolgou a camisa 10, ou melhor, a camisa 13 da esperança, foi ele, ele mesmo, Luiz Inácio Lula da Silva.”

<><> Vice-presidente associa reeleição à continuidade das conquistas

Ao tratar da atual disputa política, Alckmin afirmou que o grupo reunido em torno de Lula está mais amplo e citou nomes como Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet e Marina Silva. “E hoje, presidente, estamos aqui de volta com um time ainda renovado mais ainda em São Paulo, com Fernando Haddad, Márcio França, Simone Tebet, Marina Silva, para garantir o avanço das conquistas.”

Segundo o vice-presidente, a permanência de Lula no Palácio do Planalto teria impacto direto sobre a preservação das instituições democráticas e a expansão das políticas públicas. “A reeleição do presidente Lula, ela fortalece a democracia. Ela faz avançar ainda mais as conquistas da nossa população.”

Alckmin enumerou indicadores e áreas que, segundo ele, apresentaram avanço durante o governo. “Cresceu o emprego, cresceu a renda, cresceu o PIB, cresceu a educação, cresceu a saúde, cresceu a proteção ao meio ambiente”, afirmou, utilizando a sequência para sustentar a defesa da continuidade do projeto governista.

<><> Retomada industrial ganha destaque no discurso

Ao falar no ABC paulista, região historicamente associada à indústria automobilística, Alckmin reservou parte do pronunciamento para destacar a política industrial. “E estando aqui no ABC, nesse centro da indústria, permita, presidente Lula, que fale um minuto da nova Indústria Brasil.”

O vice-presidente comparou o atual cenário industrial com o período do governo anterior e mencionou o encerramento de unidades de diferentes montadoras. “No governo passado, fechou, só para citar a indústria automobilística, fechou a Mercedes-Benz aqui em São Paulo, em Aracemápolis, fechou a Ford na Bahia, fechou a Troller no Ceará.”

Em contraposição, Alckmin citou investimentos e operações industriais instalados em antigas unidades produtivas. “Com o presidente Lula, onde tinha a Mercedes, hoje está a GWM produzindo veículos. E uma segunda fábrica, presidente, no Espírito Santo, começando. Onde estava a Ford, hoje está a BYD produzindo veículos para o Brasil inteiro. Onde estava a Troller, presidente, está a General Motors associada.”

<><> Alckmin cita reabertura de fábrica e avanço das exportações

O vice-presidente mencionou ainda a retomada das atividades de uma unidade industrial em Jacareí, no interior paulista, como exemplo da recuperação do setor. “A Vibraz aqui do lado, em Jacareí, fechou há cinco anos atrás, reabriu mês passado com 480 trabalhadores e vai crescer muito mais.”

Outro ponto destacado foi o desempenho das exportações e a celebração de acordos comerciais. “Cresceu, presidente, a exportação. O presidente Lula fez acordo Mercosul-Singapura, que está alavancando a indústria de máquinas. Mercosul-EFTA, Mercosul-União Europeia, aguardada há 25 anos.”

Alckmin afirmou que os entendimentos comerciais já estariam produzindo resultados para as vendas brasileiras ao exterior. “Em dois meses de vigência, aumentou 4% a exportação brasileira”, declarou, antes de manifestar confiança no resultado da disputa eleitoral e reforçar a unidade da coligação.

<><> Soberania encerra defesa de novo mandato de Lula

Na reta final do pronunciamento, o vice-presidente voltou a citar a importância simbólica da Vila Euclides e afirmou que o grupo político está mobilizado em torno da candidatura. “Tenho confiança absoluta. Nós estamos aqui nessa histórica Vila Euclides, unidos, unidos, unidos, para uma grande vitória, etc, etc, etc.”

Alckmin vinculou a campanha à defesa da soberania nacional, do país e da população. “E é em defesa da soberania, é em defesa do nosso PICS, é em defesa do nosso Brasil, é em defesa do povo, que vamos juntos.”

O vice-presidente encerrou o discurso com uma mensagem de mobilização e defesa da independência nacional. “Terra boa, gente brasileira, vamos juntos. É pátria livre, pátria livre, soberania. Um grande abraço.”

 

Fonte: Por André Vieira, em Brasil 247

 

Assédio eleitoral: o que é, quando acontece e como denunciar?

A liberdade de escolher um candidato faz parte dos direitos políticos garantidos pela Constituição brasileira. O voto deve ser exercido de forma secreta, sem ameaças, constrangimentos ou promessas de vantagens. Ainda assim, os casos de assédio eleitoral no ambiente de trabalho se tornaram motivo de denúncias nos últimos anos.

Empresas, gestores e outras pessoas em posição de autoridade foram investigados por tentar influenciar a escolha política de trabalhadores por meio de pressões, discursos de intimidação e promessas de benefícios. O aumento desses casos levou o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Justiça do Trabalho e a Justiça Eleitoral a ampliar ações de fiscalização e consolidar entendimentos sobre os limites entre a manifestação política e a coação eleitoral.

Nesse cenário, o assédio eleitoral deixou de ser um tema restrito ao direito do trabalho para ocupar espaço no debate sobre democracia, liberdade política e proteção ao voto. Entender como essa prática funciona ajuda a reconhecer situações ilegais, conhecer os mecanismos de denúncia e compreender por que ela passou a receber maior atenção das instituições brasileiras.

<><> O que é assédio eleitoral?

O Ministério Público do Trabalho define o assédio eleitoral como qualquer ato de coação, intimidação, ameaça, humilhação ou constrangimento destinado a influenciar o voto, a orientação política ou a manifestação eleitoral de trabalhadores. A prática pode ocorrer no ambiente físico da empresa, mas também em reuniões, grupos corporativos de mensagens, treinamentos, redes sociais utilizadas para o trabalho e outras situações relacionadas à atividade profissional.

A cartilha elaborada pelo órgão apresenta situações que ajudam a identificar esse tipo de conduta. Entre elas estão ameaçar demissões, prometer promoções ou benefícios em troca de apoio político, obrigar empregados a participar de atos eleitorais, distribuir propaganda durante o expediente, impor o uso de camisetas ou adesivos de campanha, perseguir trabalhadores por suas posições políticas e exigir que revelem ou comprovem seu voto.

Essas situações não se confundem com a manifestação individual de opinião. A legislação brasileira não impede que empresários, gestores ou trabalhadores expressem suas preferências políticas. O limite aparece quando a posição hierárquica ou o poder econômico passam a ser utilizados para constranger outras pessoas ou influenciar sua escolha eleitoral.

Dependendo da conduta praticada, o assédio eleitoral pode gerar responsabilização trabalhista e eleitoral, com consequências que variam de acordo com o caso.

<><> O que diz a legislação atual?

Essa proteção está presente em diferentes normas. A Lei das Eleições estabelece as regras gerais das campanhas eleitorais e busca assegurar igualdade entre candidaturas e liberdade para os eleitores exercerem seu voto.

A Resolução nº 23.735/2024 do Tribunal Superior Eleitoral disciplina a apuração de ilícitos eleitorais relacionados a abuso de poder, fraude, corrupção eleitoral e outras práticas que possam comprometer a legitimidade da disputa.

A regulamentação eleitoral também passou a incorporar novos mecanismos para proteger a liberdade do voto. A Resolução nº 23.755/2026, que disciplina a propaganda eleitoral, atualizou regras para campanhas na internet e para o uso de conteúdos produzidos com inteligência artificial, ampliando medidas voltadas à integridade do processo eleitoral. Embora não trate especificamente do assédio eleitoral, a norma integra o conjunto de instrumentos adotados pela Justiça Eleitoral para reduzir práticas capazes de interferir na livre formação da vontade do eleitor.

O voto secreto integra esse conjunto de garantias. Ele existe justamente para impedir que relações de poder interfiram na decisão do eleitor. Por isso, pedidos para fotografar a urna, apresentar comprovantes de votação ou informar em quem se votou podem caracterizar práticas investigadas pelos órgãos responsáveis, sobretudo quando associados a ameaças ou promessas de benefícios.

<><> O crescimento das denúncias transformou o assédio eleitoral em prioridade das instituições

Embora o assédio eleitoral não seja um fenômeno recente, foi a partir das eleições de 2022 que o tema ganhou projeção nacional. Naquele ano, o Ministério Público do Trabalho recebeu 3.606 denúncias, número muito superior ao observado em pleitos anteriores e suficiente para colocar a prática entre as prioridades de atuação do órgão. Nas eleições municipais de 2024, ainda durante o primeiro turno, já haviam sido registradas 319 denúncias, mais de quatro vezes o total contabilizado no mesmo período das eleições gerais de 2022.

A tendência permaneceu no pleito de 2026. Até o fim de junho, antes mesmo do início oficial da propaganda eleitoral, o MPT havia contabilizado 71 denúncias. No mesmo período de 2022, haviam sido apenas duas. Os dados mostravam maior concentração de ocorrências na Região Sudeste, seguida por Nordeste, Centro-Oeste, Sul e Norte.

O crescimento das denúncias motivou novas campanhas de conscientização. Em 2026, o Ministério Público do Trabalho lançou uma iniciativa nacional para orientar empregadores e trabalhadores sobre os limites da atuação política nas relações de trabalho. A mobilização buscou prevenir práticas que utilizem relações de dependência econômica ou hierárquica para interferir na liberdade política dos trabalhadores, dinâmica que aproxima o assédio eleitoral de práticas associadas ao voto de cabresto.

O avanço das denúncias também levou outras instituições a reforçar sua atuação. O Tribunal Superior Eleitoral atualizou a regulamentação da propaganda eleitoral para as eleições de 2026, enquanto a Justiça do Trabalho passou a analisar casos envolvendo empregadores acusados de utilizar relações de trabalho para interferir na escolha eleitoral.

<><> Como a Justiça passou a responsabilizar o assédio eleitoral

O crescimento das denúncias foi acompanhado por uma atuação mais intensa da Justiça do Trabalho. Nos últimos anos, processos envolvendo empresas de diferentes setores passaram a delimitar quais condutas extrapolam a manifestação política e configuram utilização da relação de trabalho para interferir na liberdade do voto.

Um dos casos de maior repercussão envolveu três associações empresariais de Santa Catarina. Durante o segundo turno das eleições de 2022, dirigentes organizaram uma reunião na qual empresários foram incentivados a alertar empregados sobre possíveis consequências econômicas caso determinado candidato fosse eleito. Ao analisar o processo, a Sétima Turma do Tribunal Superior do Trabalho concluiu que as entidades estimularam empresários a utilizar sua posição de autoridade para influenciar o comportamento eleitoral dos trabalhadores e manteve a condenação ao pagamento de R$ 600 mil por dano moral coletivo.

Na decisão, o tribunal considerou que a atuação das associações ultrapassou a defesa de posições políticas e representou uma tentativa de interferir na liberdade de escolha dos empregados por meio da relação de trabalho. O entendimento também foi destacado em reportagens que acompanharam o julgamento.

Outro processo reuniu elementos semelhantes. A fabricante de agrotóxicos Ihara foi condenada ao pagamento de R$ 1 milhão por danos morais coletivos após a Justiça reconhecer que gestores promoveram eventos políticos durante o expediente e que trabalhadores relataram pressão para apoiar a candidatura do então presidente Jair Bolsonaro nas eleições de 2022. Segundo a decisão, o ambiente de trabalho foi utilizado para estimular o posicionamento político, criando constrangimento para parte dos empregados.

Empresas de menor porte também passaram a responder por esse tipo de prática. Em um processo julgado pelo Tribunal Superior do Trabalho, o sócio de uma farmácia de manipulação foi condenado ao pagamento de R$ 50 mil por danos morais coletivos após enviar mensagens e áudios de conteúdo político a empregados durante a campanha presidencial. Para o TST, o empregador utilizou sua posição hierárquica para intimidar trabalhadores e influenciar sua manifestação política.

A Havan também teve seu nome envolvido em um caso emblemático de assédio eleitoral no país. Em 2024, o empresário Luciano Hang, dono da rede, foi condenado pela Justiça do Trabalho a pagar mais de R$ 85 milhões por ter intimidado seus funcionários com ameaças para que eles fossem coagidos a votar em seu candidato na eleição presidencial de 2018.

Embora envolvam empresas de portes e segmentos diferentes, esses julgamentos apontam para uma mesma direção: a Justiça tem considerado que a liberdade de manifestação política encontra limites quando o poder econômico ou a relação hierárquica passam a interferir na autonomia do eleitor.

<><> Como denunciar um caso de assédio eleitoral

Quem sofre ou presencia uma situação de assédio eleitoral pode procurar diferentes instituições, de acordo com as características do caso. Nas relações de trabalho, o principal órgão responsável é o Ministério Público do Trabalho, que recebe denúncias, conduz investigações, firma Termos de Ajustamento de Conduta (TACs) e pode ajuizar ações civis públicas quando identifica violações aos direitos dos trabalhadores.

Quando os fatos também configuram ilícitos eleitorais, o caso pode ser encaminhado ao Ministério Público Eleitoral e à Justiça Eleitoral, responsáveis pela aplicação da legislação eleitoral. A Resolução nº 23.735/2024 prevê mecanismos para interromper práticas que coloquem em risco a regularidade do processo eleitoral e permite a adoção de medidas urgentes quando houver risco de continuidade da conduta.

Em resposta ao aumento das ocorrências, o combate ao assédio eleitoral também passou a utilizar novas ferramentas. Durante as eleições municipais de 2024, centrais sindicais e o Ministério Público do Trabalho lançaram um aplicativo para facilitar o envio de denúncias anônimas e ampliar o acesso dos trabalhadores aos canais oficiais de atendimento. A iniciativa foi criada justamente para tornar mais rápida a comunicação de situações de coação ocorridas no ambiente de trabalho.

Sempre que possível, é recomendável preservar mensagens, e-mails, áudios, vídeos e outros documentos relacionados ao episódio, além da identificação de testemunhas. Esses elementos podem auxiliar a investigação conduzida pelos órgãos responsáveis.

<><> O combate ao assédio eleitoral fortalece a liberdade do voto

O aumento das denúncias, das campanhas de orientação e das decisões judiciais mostra que o assédio eleitoral deixou de ser tratado como uma situação isolada para se tornar uma preocupação permanente das instituições responsáveis por proteger os direitos políticos e trabalhistas.

Ao mesmo tempo, os julgamentos recentes ajudam a delimitar um aspecto importante desse debate. A legislação brasileira não impede manifestações políticas de empregadores ou trabalhadores, mas estabelece limites quando relações de poder são utilizadas para influenciar a escolha eleitoral de outras pessoas. É justamente nesse ponto que a liberdade de expressão deixa de ser uma questão individual e passa a afetar direitos protegidos pela Constituição e pela legislação eleitoral.

Conhecer o que caracteriza o assédio eleitoral permite identificar situações que ultrapassam o debate político e podem configurar violações de direitos. Também ajuda a compreender por que Ministério Público do Trabalho, Justiça do Trabalho e Justiça Eleitoral passaram a atuar de forma mais coordenada diante do crescimento das denúncias registrado nos últimos processos eleitorais.

 

Fonte: ICL Notícias

 

Diabetes tipo 1 pode ser identificado antes dos sintomas? Pesquisa busca voluntários para estudo clínico

Durante muito tempo, o diabetes tipo 1 era identificado principalmente quando os sintomas apareciam e os exames confirmavam o diagnóstico. Hoje, a ciência reconhece que a doença autoimune pode passar por diferentes estágios antes de chegar ao diagnóstico clínico, permitindo identificar sinais de que o processo da doença já começou.

É nesse contexto que o rastreamento ganha importância. Por meio da pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1, é possível identificar pessoas que apresentam sinais de autoimunidade antes de desenvolverem a hiperglicemia característica do diagnóstico.

Essa mudança de perspectiva também abriu espaço para novas pesquisas clínicas. Uma delas está sendo realizada no CPclin Dasa, em São Paulo, e avalia uma intervenção medicamentosa em pessoas que já apresentam características do chamado estágio 2 do diabetes tipo 1.

A endocrinologista e pesquisadora Denise Franco explicou, em entrevista ao DiabetesCast, que o diagnóstico clínico corresponde a uma fase mais avançada da doença. “O diabetes tipo 1, quando ele é diagnosticado, ele já está no que a gente chama de fase de estágio 3 da doença”, afirmou.

<><> O que acontece antes do diagnóstico?

O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. Nesse processo, o sistema imunológico passa a atacar as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Esse processo pode acontecer de forma progressiva, antes de a pessoa apresentar glicemia compatível com o diagnóstico de diabetes.

Uma das formas de identificar essa atividade autoimune é por meio da pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1. Na entrevista, Denise cita quatro deles: anti-insulina, anti-IA2, anti-GAD e anti-ZnT8.

A presença de dois ou mais autoanticorpos confirmados, sem alterações da glicose e sem sintomas, caracteriza o chamado estágio 1. Já no estágio 2, além dos autoanticorpos, a pessoa apresenta alterações na glicemia, mas ainda não preenche os critérios para o diagnóstico clínico do diabetes.

Entre as alterações que podem caracterizar o estágio 2 estão glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dL, hemoglobina glicada entre 5,7% e 6,4% e determinadas alterações observadas no teste oral de tolerância à glicose. Os critérios precisam ser confirmados de acordo com a avaliação clínica e laboratorial.

No estágio 3, a hiperglicemia já alcança os valores utilizados para caracterizar o diabetes. É a partir dessa divisão em estágios que o rastreamento passa a ter um papel diferente: em vez de esperar pelo diagnóstico, profissionais podem identificar pessoas que estão em fases anteriores e acompanhar sua evolução.

<><> O que é o rastreamento do diabetes tipo 1?

Rastrear significa procurar sinais da doença antes que ela seja diagnosticada clinicamente. No caso do diabetes tipo 1, isso pode envolver a pesquisa de autoanticorpos no sangue.

A estratégia é especialmente relevante para pessoas que têm parentes próximos com diabetes tipo 1, já que esse grupo apresenta maior risco de desenvolver a doença. Denise explica que, no Brasil, o rastreamento vem sendo iniciado principalmente entre familiares diretos de pessoas com diabetes tipo 1.

A identificação de autoanticorpos, entretanto, não significa que a pessoa já tenha diabetes. Ela indica a presença de um processo de autoimunidade associado à doença e, dependendo da combinação de marcadores e alterações metabólicas, pode indicar uma fase de maior risco de progressão.

É justamente essa identificação precoce que permite acompanhar o paciente e avaliar a possibilidade de intervenções estudadas pela ciência.

<><> Por que tentar retardar a evolução do diabetes tipo 1?

A pesquisa clínica realizada no CPclin Dasa está voltada para pessoas no estágio 2 do diabetes tipo 1. Nessa fase, a pessoa já apresenta pelo menos dois autoanticorpos e alguma alteração da glicemia, mas ainda não tem diagnóstico clínico de diabetes.

O estudo busca avaliar se uma intervenção medicamentosa pode modificar a evolução da doença. Entre os objetivos está verificar se o tratamento consegue postergar o aparecimento do diabetes clínico e preservar por mais tempo a capacidade do organismo de produzir insulina.

“Eu sei que tem o estágio 2, eu sei que a glicemia está alterada e o uso dessa medicação, se ela vai postergar o aparecimento do diabetes e se ele vai aumentar a chance de ter uma reserva maior de insulina”, explicou Denise.

Essa reserva de insulina é avaliada por meio da dosagem do peptídeo C, exame citado pela pesquisadora durante a entrevista.

A proposta, portanto, não é afirmar que a intervenção já é capaz de impedir ou retardar o diabetes. A pesquisa existe justamente para avaliar se ela consegue alterar a evolução da doença em pessoas que já estão no estágio 2.

<><> O que já existe para pessoas no estágio 2?

A pesquisa clínica faz parte de um cenário em que a ciência já avalia diferentes formas de intervir antes do diagnóstico clínico do diabetes tipo 1.

No Brasil, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) aprovou, em março de 2026, um tratamento específico para retardar o início do diabetes tipo 1 no estágio 3 em pessoas a partir de 8 anos que já estejam no estágio 2.

Isso não significa, porém, que toda pessoa identificada no estágio 2 tenha indicação automática para esse tratamento. A utilização depende de avaliação médica, dos critérios previstos para a indicação e da disponibilidade do tratamento.

A pesquisa realizada no CPclin Dasa tem outra finalidade: avaliar, dentro de um estudo clínico, se a intervenção investigada pode retardar a progressão da doença em pessoas que apresentam características de maior risco.

<><> O que já se sabe sobre intervenções antes do diagnóstico?

Durante a entrevista, Denise menciona resultados observados em outros estudos, nos quais determinadas intervenções conseguiram retardar o aparecimento do diabetes tipo 1 por alguns anos em pessoas selecionadas.

“Em alguns estudos a gente consegue um retardo de 3 a 5 anos no aparecimento da doença”, afirmou.

Esse dado não deve ser interpretado como resultado do estudo atualmente realizado no CPclin Dasa. A pesquisa em andamento busca justamente produzir evidências sobre a intervenção investigada em seu próprio protocolo.

Por isso, os resultados de pesquisas anteriores não permitem afirmar que a intervenção estudada atualmente terá o mesmo efeito.

<><> Um exemplo de acompanhamento antes do diagnóstico

Durante o podcast, Denise também relatou o caso de uma família em que dois filhos desenvolveram diabetes tipo 1. Depois que a filha mais velha apresentou um quadro de cetoacidose e foi internada, a mãe passou a acompanhar mais de perto o filho mais novo.

Ao observar uma mudança na hemoglobina glicada ao longo do tempo, a família procurou atendimento médico. O rastreamento identificou a presença de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1.

Segundo o relato apresentado pela pesquisadora, o filho mais novo não precisou iniciar insulina imediatamente e teve uma evolução diferente da irmã.

O episódio é apresentado por Denise como um exemplo da importância de reconhecer a doença mais cedo. Não se trata, porém, de um resultado da pesquisa clínica do CPclin Dasa, mas de um relato de acompanhamento de uma família.

<><> Quem pode participar da pesquisa?

De acordo com as informações apresentadas por Denise no DiabetesCast e com o registro do estudo, a pesquisa está recrutando pessoas de 1 a 35 anos, em São Paulo, que apresentem características compatíveis com os critérios definidos pelo protocolo.

Entre os critérios de inclusão estão:

  • ter histórico documentado de pelo menos dois autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1;
  • apresentar confirmação de pelo menos dois desses autoanticorpos durante a triagem ou pré-triagem;
  • estar no estágio 1b ou estágio 2 do diabetes tipo 1;
  • ter peso corporal de pelo menos 8 kg;
  • estar dentro da faixa etária prevista pelo estudo.

Os autoanticorpos citados na entrevista são anti-insulina, anti-GAD, anti-IA2 e anti-ZnT8.

Ter esses critérios não significa inclusão automática na pesquisa. Depois do contato inicial, o voluntário passa por uma avaliação e por exames para que a equipe confirme se ele atende a todas as exigências do protocolo.

<><> Como é a segurança de uma pesquisa clínica?

Antes de chegar aos voluntários, uma pesquisa clínica passa por diferentes etapas de avaliação. Denise explica que o estudo citado no podcast é uma pesquisa global e que houve análise por comitês de ética antes de sua realização.

Durante a pesquisa, os participantes são acompanhados pela equipe responsável e os acontecimentos relacionados ao estudo são monitorados.

“Uma pesquisa clínica para chegar como essa, que é uma pesquisa, ela não veio só no Brasil, ela é uma pesquisa global”, afirmou Denise. Segundo ela, os participantes são acompanhados e os pesquisadores recebem informações sobre o que acontece durante o desenvolvimento do estudo.

A participação em uma pesquisa clínica também não significa obrigação de permanecer no estudo. As condições, riscos, benefícios esperados, procedimentos e direitos do voluntário devem ser apresentados antes da participação, dentro do processo de consentimento informado.

<><> Por que a pesquisa clínica é importante?

Antes de um medicamento chegar aos pacientes, ele precisa passar por etapas de pesquisa que avaliam diferentes aspectos de sua segurança e eficácia. A participação de voluntários permite que os pesquisadores produzam essas evidências.

Durante a entrevista, Denise lembrou que medicamentos utilizados atualmente também passaram por pesquisas clínicas antes de serem disponibilizados.

“Não tem chance de a gente ter uma medicação nova se a gente não passa pela pesquisa clínica”, afirmou.

Os resultados de uma pesquisa também não ficam restritos ao centro onde o estudo foi realizado. Segundo Denise, os dados são compartilhados entre centros de pesquisa e os resultados precisam ser divulgados, incluindo aqueles que não apresentam o efeito esperado.

<><> Uma nova possibilidade de acompanhamento do diabetes tipo 1

A identificação de pessoas em fases anteriores ao diagnóstico muda a maneira como o diabetes tipo 1 pode ser acompanhado. O objetivo do rastreamento é reconhecer sinais de autoimunidade e alterações metabólicas antes do diagnóstico clínico, permitindo que essas pessoas sejam acompanhadas de forma adequada.

Para Denise, essa possibilidade representa uma mudança em relação ao que acontecia anos atrás.

“Hoje eu tenho uma opção pra isso, né? Então eu posso usar o rastreamento justamente porque eu tenho que fazer com o paciente”, afirmou.

A pesquisa clínica realizada no CPclin Dasa faz parte desse cenário. Ao estudar uma intervenção em pessoas que já estão no estágio 2, os pesquisadores buscam responder se é possível modificar a evolução do diabetes tipo 1 antes que o diagnóstico clínico seja estabelecido.

<><> Como saber se posso participar?

Pessoas que acreditam se enquadrar nos critérios apresentados podem procurar o CPclin Dasa para obter informações sobre o recrutamento e passar pela triagem.

A elegibilidade não é determinada apenas pela idade ou pela presença de autoanticorpos. A equipe de pesquisa precisa avaliar cada voluntário e confirmar se todos os critérios previstos no protocolo são atendidos.

Para quem tem um familiar próximo com diabetes tipo 1, a possibilidade de rastreamento também merece atenção. A identificação de autoanticorpos pode permitir que pessoas em fases pré-clínicas sejam reconhecidas e acompanhadas por profissionais especializados.

>>> Importante: os critérios de participação apresentados nesta matéria são baseados nas informações apresentadas pela pesquisadora durante o DiabetesCast e no registro oficial da pesquisa. A confirmação dos critérios atuais, da disponibilidade de vagas e da elegibilidade deve ser feita diretamente com o centro de pesquisa responsável pelo estudo.

 

Fonte: Um Diabético