quinta-feira, 30 de julho de 2026

O que explica as vitórias da extrema direita na América do Sul?

Nos últimos anos, sete dos doze países da América do Sul passaram a ser governados pela direita ou pela extrema direita. Os casos mais recentes foram as vitórias eleitorais de Abelardo De la Espriella, na Colômbia, e Keiko Fujimori, no Peru. Além disso, temos os governos do caricato presidente argentino Javier Milei, ultraliberal na economia e negacionista da última ditadura militar no país, e de José Antonio Kast, o presidente chileno saudoso dos tempos do ditador Augusto Pinochet. Alguns venceram com folga, em países como o Equador e o Chile. Outros se impuseram com vantagem mínima, como no Peru e na Colômbia. De uma forma ou de outra, os políticos de direita da América Latina vivem uma onda de vitórias eleitorais que alterou o mapa de poder do continente.

No campo da economia, os presidentes Rodrigo Paz, da Bolívia, Santiago Peña, do Paraguai, e Daniel Noboa, que preside o Equador, se apresentam como gestores, defensores do livre mercado e do neoliberalismo, aplicando uma agenda de austeridade econômica e um alinhamento automático com os EUA no âmbito da política externa.

Na terça-feira (28/7), a peruana Keiko Fujimori se tornou o caso mais recente de uma figura de direita latino-americana a assumir a presidência do seu país pelo voto. Ela venceu as eleições na sua quarta tentativa. Já o presidente eleito da Colômbia, Abelardo de la Espriella, tomará posse no dia 7 de agosto. Com isso, a América Latina somará 12 chefes de Estado com posicionamento à direita no espectro político. Este número contrasta com o verificado no continente no início de 2023, quando havia 11 países administrados por governos de esquerda de diferentes tipos.

É verdade que as duas maiores democracias latino-americanas em número de eleitores — o Brasil e o México — mantêm governos de esquerda. Mas o Brasil irá às urnas em outubro e tudo indica que a eleição será um duelo entre o presidente Lula e o senador de direita Flávio Bolsonaro. Também é verdade que existem diferenças entre os diversos presidentes latino-americanos de direita. Alguns são mais radicais do que outros, com tendências populistas ou autoritárias. Mas, de forma geral, eles próprios costumam se mostrar como parte de uma mesma família ideológica, expressando seu apoio eleitoral mútuo ou copiando símbolos polêmicos, como a megaprisão de Nayib Bukele, em El Salvador.

O Brasil e Fato ouviu intelectuais, pesquisadores e dirigentes políticos desses sete países para tentar entender o que explica a ascensão da extrema direita nos territórios e quais os impactos para a vida dos povos da região.

<><> Argentina

O cientista político argentino Sergio Morresi, do Consejo Nacional de Investigaciones Científicas y Técnicas (Conicet), começa com uma ressalva: há quem interprete a sequência de vitórias eleitorais não tanto como uma onda propriamente ideológica, mas como uma espécie de “cansaço da sociedade diante da falta de respostas das democracias na América Latina”. O próprio Morresi recomenda cautela no trato dessa hipótese. “Quase sempre esse movimento, na verdade, vai para a direita”, diz. Há que se pesar, também, uma marca própria da extrema direita sul-americana da atualidade. Se ela não professa tamanho nacionalismo, como a maior parte da direita radical europeia, é na insatisfação econômica que o discurso ganha força. “É um dos motores das direitas na América Latina”, explica. 

Javier Milei é um caso peculiar. A sua chegada ao poder, em 2023, representou uma espécie de grito de insatisfação contra a sempre cambaleante economia argentina, desgastada pela inflação nas alturas dos anos anteriores. Para Morresi, Milei funciona como uma espécie de agregador de duas dimensões da direita argentina: a nacionalista e a liberal-conservadora. “Essa base social efetivamente demandava medidas mais à direita, e Milei veio representar isso. Agora, essa fusão é anterior ao próprio Milei. Produziu-se nas bases sociais antes de Milei surgir como fenômeno político”. Mieli também escancara uma faceta da extrema direita atual notada, de alguma maneira, na manutenção do movimento bolsonarista no Brasil: o fato de que o apoio ao representante se mantém, quase que independentemente das melhorias nas condições materiais de vida da população. “A capacidade de resiliência que Milei tem, apesar de se poder dizer que seu governo não está dando todas as respostas, se explica porque essa base social permanece e se mantém, apesar de o governo Milei não ter levado a uma melhoria econômica, em termos gerais”, diz o cientista político argentino. Em outras palavras, a situação econômica anterior era tão complicada que o pouco entregue por Milei tem sido, à sua maneira, suficiente para a manutenção da governabilidade. Exemplo disso é a queda na inflação, que aterroriza os argentinos há décadas. 

A plataforma política também se sustenta no alinhamento com os Estados Unidos. Na Argentina, os exemplos são diversos e vão além do campo simbólico. Mais do que as frases de apoio ao presidente Donald Trump, Milei naturalizou um regime de investimentos que permite que, em casos contratuais, empresas estrangeiras que atuem na Argentina adotem a arbitragem internacional, com tribunais em Nova York, em vez do sistema de Justiça argentino. Outro exemplo é a nova lei de terras, que libera a compra massiva de território argentino por capital estrangeiro. “Isso, obviamente, terá – não apenas agora, mas também no médio prazo –, muita influência na forma como leis, decretos e normativas que implicam uma perda de soberania”, avalia Morresi.  De algum modo, o presidente argentino vem colhendo o saldo político do estreitamento de laços com a Casa Branca. “Milei não é alguém que não obtenha nada dos EUA”, diz Morresi, lembrando as eleições de meio de mandato de outubro de 2025, quando a influência direta de Trump ajudou o governo de extrema direita argentino a manter sua base no Congresso. A realidade vai além das fronteiras do país: “As vitórias da direita no Chile, na Colômbia, no Peru, e a intervenção direta no caso venezuelano anunciam uma nova forma de intervenção dos EUA na América Latina”, explica. 

<><> Chile

O presidente José Antonio Kast substituiu Gabriel Boric, mas, para o economista e cientista político Ignacio Bustos, ex-presidente do Partido Progressista (PRO), põe em xeque a capacidade de governar. “Kast é um político que teve sucesso eleitoral, mas é um político medíocre no cenário nacional. Ele não é reconhecido nem mesmo pelo próprio campo político como alguém de grande capacidade”, diz Bustos. Segundo ele, a base de sustentação vem de setores da economia. No Chile, o que se passa é como uma espécie de coalizão entre o conservadorismo tradicional e o empresariado. Por essa razão, nomes de peso do governo têm relação direta com a elite econômica chilena: o chanceler Pérez Maquena, ligado à poderosa família Luksic; o ministro da Fazenda, Jorge Quiroz, com trânsito entre o capital internacional; e a presença de representantes de gigantes da tecnologia no gabinete de governo.  “Os interesses do governo não são ideológicos, mas corporativos”, sintetiza Bustos. “Está muito alinhado com a doutrina de Peter Thiel [fundador da Palantir] e com esse neotrumpismo que possui um desenvolvimento muito mais filosófico do que propriamente político”. 

A respeito da derrota do campo progressista no Chile, Bustos faz uma provocação. “Eu diria que eles foram mais inteligentes do que nós. E nós fomos mais ingênuos do que eles.” Parte dessa inteligência estratégica passa pela capacidade que a direita chilena teve de interligar algumas contradições sociais no país, transformando-as em discurso político. Entre elas, estão a criminalidade, a imigração e a própria economia.

“Nós precisamos voltar a viver como vive a população para compreender quais são seus problemas. Se não sabemos quais são, por exemplo, as dificuldades relacionadas ao aquecimento das casas neste momento no Chile, onde faz muito frio durante o inverno, como poderemos falar sobre o sofrimento das pessoas com frio?”, pergunta. Segundo ele, parte da esquerda chilena absorveu culturalmente a dinâmica neoliberal, afastando quadros que tinham maior capacidade de representação diante das demandas populares.

<><> Bolívia

Rodrigo Paz, atual presidente boliviano, chegou ao Palácio Quemado sem partido, sem programa definido de governo e sem uma explicação muito cristalina da sua própria linha ideológica. Em resumo, segundo o analista político boliviano Manoel Mercado, Paz ainda não decidiu o que é, politicamente. “Eu classificaria o governo de Rodrigo Paz como um típico populismo de direita. Vamos ver se ele vai acentuar mais seus traços populistas ou se caminhará cada vez mais para características de direita. É um governo que está flutuando no vazio. O que o mantém no poder não é seu caráter político nem sua gestão, mas, sim, a ausência de outras referências políticas na Bolívia”, aponta. Uma das principais referências nas últimas décadas foi a do ex-presidente Evo Morales, que, atualmente, tem uma ordem de prisão não executada. Mercado provoca: “O que fazemos depois de prendê-lo?” Segundo ele, uma eventual prisão de Evo levaria milhares de pessoas à frente da cadeia em poucos dias. Com essa tensão política praticamente incessante, o governo Paz tenta produzir mudanças estruturais, apostando na liberalização do câmbio, na marginalização dos setores populares indígenas e no desmonte parcial de áreas do Estado Plurianual. 

<><> Colômbia

Na Colômbia, a crise do governo eleito de Abelardo de La Espriella já começa no processo de transição. “Nunca um cenário de transição foi tão desastroso, tão complexo, mas é, em parte, porque a forma de Abelardo de la Espriella é a forma de mentir”, contesta Erika Prieto Jaime, dirigente do movimento social Congreso de los Pueblos. Ela afirma que a denúncia feita por Abelardo de que o processo de transição deveria ser suspenso em razão da descoberta de casos de corrupção no governo Petro não se sustenta.  Antes mesmo de chegar ao poder, Abelardo vem anunciando medidas que devem afetar a estrutura social da Colômbia. Seu governo promete uma severa reforma fiscal e quer se alinhar estrategicamente a Washington. “O presidente eleito anunciou o desmonte do gabinete do Alto Comissário para a Paz, uma construção que não é da esquerda do país”, explica. 

Abelardo, de cidadania estadunidense – além de colombiana –, já prometeu fazer o país aderir ao Escudo das Américas, o projeto de aliança militar costurado por Trump e pelo secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio. Erika Jaime cita com preocupação a base militar estadunidense em construção nas ilhas Gorgona, estimada em cerca de US$ 10 milhões. “O que se vê é que, com ampla preocupação, a Colômbia retome esse cenário nefasto de ser a ponta de lança do imperialismo estadunidense no nosso continente. Nessa expressão do Escudo das Américas, nós [a oposição] somos um inimigo interno a destruir”, recorda Prieto.  Gustavo Petro não reconhece o resultado do pleito e fala em “desobediência civil pacífica”. O argumento principal é que, dos cerca de 250 mil votos de diferença, cerca de 170 mil vieram do exterior e não passaram pelo escrutínio, um procedimento que valida legalmente a contagem. O partido de esquerda Pacto Histórico, porém, terá a maior bancada do Congresso, embora não seja maioria. 

<><> Equador

O sobrenome Noboa não é qualquer um no Equador. Ligado a alguns dos grupos empresariais mais influentes do país, ele fez fortuna na administração de portos, no setor de mineração e na exportação de bananas. Daniel Noboa chegou à presidência, catapultando o sobrenome ao principal cargo político equatoriano. O cenário político do Equador não se explica sem a influência dos casos de violência. Há não muito tempo, o país era um dos mais seguros da América Latina e do Caribe. A mudança na realidade trouxe a pauta da criminalidade e do tráfico de drogas para o centro da pauta política. “Como país, passamos a ser um lugar onde existe um caos organizado. Ou seja, é um caos que não é produzido da própria situação endógena do país nem das relações entre seus grupos sociais, mas um caos que foi induzido de diferentes maneiras”, explica a socióloga equatoriana Irene León. A indução, diz ela, tem dois vetores: a implantação de um crime organizado que não existia e uma militarização que tem a ver com a geoestratégica dos Estados Unidos para o Pacífico Sul. Três acordos militares com Washington deram ao parceiro capacidade de ação “praticamente sem fronteiras”, de modo que a guerra total aprovada em junho por Noboa prevê a atuação de forças armadas estrangeiras e de civis. Ou seja, grupos paramilitares, a exemplo de corporações estadunidenses. Para León, a soberania perdeu sentido prático, enquanto a Constituição do Bem Viver (aprovada em 2008) parece cada vez mais um documento do passado.

<><> Paraguai

No país governado por Santiago Peña, os ditames de Washington são ouvidos com apreço. Exemplo disso é a assinatura de um acordo do tipo SOFA pelo governo Peña, que estabelece o marco legal para a presença de militares e civis do Pentágono em território paraguaio. “Trata-se de uma entrega total. Assim como Milei está fazendo na Argentina, aqui isso também acontece, só que de forma mais lenta e tentando esconder melhor o processo”, denuncia o jornalista paraguaio Andres Leopoldo Caballero.  Uma figura-chave é a de Horacio Cartes, ex-presidente paraguaio (2013-2018), classificado pelos EUA como “significativamente corrupto”. Alvo de sanções pessoais vindas de Washington, Cartes cumpre um papel tensionador na relação entre Peña e Trump. “Peña precisa fazer tudo o que os Estados Unidos exigem, porque, caso contrário, Washington poderá extraditar Cartes. É por aí que passa a questão. Na minha opinião, esses governantes já não são presidentes de verdade, mas marionetes dos EUA”, avalia Caballero. 

<><> Peru

Héctor Bejar, ex-chanceler do único governo de esquerda do século 21 no Peru, do agora preso Pedro Castillo, é crítico com a esquerda peruana durante o processo eleitoral. Segundo ele, os setores populares demoraram a denunciar que a extrema direita tentava aparelhar instituições eleitorais em benefício próprio. “Um exemplo: as leis eleitorais no Peru foram alteradas para reduzir de modo substancial o coeficiente de apoio que um candidato precisa ter para se candidatar. Isso fez com que tivéssemos 35 candidatos presidenciais no primeiro turno. Com isso, a ideia era forçar um segundo turno entre dois candidatos da direita, mas eles não conseguiram”, disse. Roberto Sánchez despontou como elemento surpresa para ameaçar a hegemonia da direita e disputou voto a voto a presidência. Literalmente. Foram apenas 50 mil votos que impediram que o progressista se tornasse o próximo mandatário. “A extrema direita perdeu no Peru”, explica Bejar. “Se analisamos os dados, Keiko Fujimori só venceu com o voto no exterior. Isso porque não foram considerados os peruanos na Venezuela, na Nicarágua e em Cuba, onde não houve mesas de votação porque o atual governo não mantém relações diplomáticas com esses países”. Se contabilizados apenas os votos em território peruano, Sánchez venceria com 50,08%, contra 49,91% de Keiko.

Guerrilheiro nos anos 1960 e uma das figuras mais proeminentes da esquerda peruana, Bejar conecta a ascensão da extrema direita na América Latina com o cenário de instabilidade global. “Há o perigo real de uma terceira guerra mundial”, pontuou. “Nós temos que fazer um balanço e reconhecer que o que chamamos de progressismo não tocou — ou não pôde tocar — nos pontos chaves e profundos da dominação colonial e oligárquica na América Latina.” Bejar cita reformas feitas em governos como os de Lula e dos Kirchner, na Argentina, mas que não puderam “tirar o poder dos poderosos”. “Somente tivemos verdadeiras revoluções em Cuba, uma meia revolução na Nicarágua, que foi fruto de um acordo, e na Venezuela, onde, mesmo assim, o setor privado permanece intacto, apesar de ser a experiência mais radical dos últimos tempos”, disse. “Apesar de o povo ter informações, o balanço e o resultado não são precisamente favoráveis à esquerda e, por isso, o povo opta pelo voto de castigo. Isso afetou o progressismo na Argentina, no Brasil, no Chile”, afirmou. “Há um fenômeno de moderação que vai bem se pensarmos na violência. Mas o que temos que pensar realmente é: ‘até que ponto o progressismo conseguiu refletir a verdadeira vontade das massas populares na América Latina?’ Eu francamente sinto falta de um debate sereno e frutífero no seio da própria esquerda”, completou.

<><> Como a direita expandiu seu poder na América Latina — e o que explica essa tendência

O que há por trás deste fenômeno? E do que depende a sua continuidade?

>>> 'Problema estrutural'

Um dos motivos da ascensão da direita latino-americana é a ampla reivindicação popular por uma luta mais eficaz contra a criminalidade. A segurança pública, atualmente, é uma das maiores preocupações dos cidadãos do continente. Esta questão se seguiu, em alguns casos, a consideráveis aumentos dos casos de violência e extorsão, verificados em países como o Equador e o Peru. Mas o medo da criminalidade também disparou no Chile. Pesquisas realizadas no ano passado demonstraram que a população chilena está mais preocupada com o crime e a violência que a do México e da Colômbia, que têm índices de homicídios muito mais altos.

De qualquer forma, os candidatos de direita parecem personificar melhor essa demanda por segurança, quando não a impulsionam. Keiko Fujimori, no Peru; Abelardo de la Espriella, na Colômbia; Daniel Noboa, no Equador; José Antonio Kast, no Chile; e Nasry Asfura, em Honduras, chegaram à presidência com promessas de "ordem" e "braço forte" contra o crime. Já Nayib Bukele é um dos líderes latino-americanos mais valorizados do continente. O presidente de El Salvador se tornou um expoente da direita regional, ao reduzir a violência das gangues do país com um estado de exceção que concentrou o poder e suspendeu garantias constitucionais, gerando denúncias de graves abusos.

Atualmente, a América Latina tem "governos majoritariamente de direita, que estão pegando muito pesado com a questão da segurança pública", segundo a professora de relações internacionais Regiane Bressan, da Universidade Federal de São Paulo, especializada na região. "Isso porque a violência está grande, mas ela também é fruto de um problema estrutural da região, que é a pobreza e a desigualdade. E os governos de esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente", declarou Bressan.

<><> O fator Trump

Além da maior ênfase em políticas duras em relação à segurança, existem outros aspectos que diferenciam esta nova direita que ganhou terreno na América Latina, em relação aos conservadores tradicionais. Um deles é o uso mais eficaz das redes sociais como instrumento de proselitismo, segundo especialistas. Outro é a maior agressividade verbal contra seus adversários, particularmente contra a esquerda e a chamada cultura woke — em alguns casos, sem respeitar as normas básicas de convivência democrática liberal. Este estilo combativo coincide com o do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Seu governo procurou se alinhar a líderes latino-americanos de direita para recuperar a influência regional e neutralizar a China. "Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação do México. E, é claro, a gente tem que estar muito atento a esses governos extremistas, porque são governos extremistas que rompem com a democracia", segundo Bressan.

A pesquisa regional Latinobarómetro destacou que as mudanças políticas começaram a ocorrer no continente a partir de 2020, quando os latino-americanos passaram a se classificar levemente mais à direita, ano após ano. A diretora da Latinobarómetro, Marta Lagos, vincula o fenômeno à pandemia de coronavírus, que "acaba convencendo as pessoas vulneráveis de que não irão sair do buraco em que se encontram". "Esta queda de expectativas para o futuro gera esta demanda populista e de extrema direita", explica Lagos. "É como se as pessoas dissessem: 'Chega, é preciso vir algo muito duro e drástico para que as coisas mudem'", segundo ela.

A mesma pesquisa também indicou que o apoio à economia de mercado na América Latina aumentou de 58%, em 2020, para 66%, em 2024. Isso também pode explicar por que a ideia de reduzir o Estado, simbolizada pela motosserra na campanha que levou Javier Milei à presidência da Argentina em 2023, também foi apresentada por outros candidatos de sucesso no continente.

<><>  Fenômeno duradouro?

Mas os latino-americanos parecem votar há anos para punir seus governos no poder, mais do que por ideologia. Na última década, os candidatos de oposição do continente venceram cerca do dobro das eleições, em relação aos de situação. Atualmente, os presidentes de direita que governam a América Latina enfrentam diversos desafios de gestão.

Milei ainda tenta fazer com que a economia argentina melhore de forma perceptível para as pessoas, embora tenha reduzido a inflação e aplicado um ajuste drástico no país. O Equador, em 2025, registrou um dos maiores índices de homicídios do mundo. Foram mais de 9,2 mil assassinatos, segundo dados oficiais, mesmo com as políticas de "braço forte" e a mobilização militar ordenada por Noboa nos últimos dois anos.

E, no Chile, os índices de aprovação de José Antonio Kast caíram desde que o presidente tomou posse em março. Isso se deve à estagnação econômica, ao desemprego que aumentou para 9,4% entre março e maio e à criminalidade, que permanece uma das maiores preocupações da população do país. "É um erro pensar que a direita veio para ficar", alerta Lagos.

Mas ele destaca que, antes do retorno da esquerda ao continente, poderão surgir "novos tipos de populismo". "Se a direita não conseguir controlar a segurança, será o equivalente funcional à incapacidade da esquerda de eliminar a pobreza", explica Lagos. "São promessas não cumpridas, com sinais ideológicos distintos. Quem será eleito depois?"

 

Fonte: Brasil de Fato/BBC News

 

O Brasil abrirá, enfim, os olhos para a China?

Poderão China e Brasil — os dois maiores e mais relevantes países do Sul Global, em seus respectivos hemisférios — estabelecer colaboração mais intensa e construir alternativas, num mundo em crise civilizatória profunda? Esta possibilidade, que tem sido desperdiçada há anos, apesar dos acenos chineses, voltou a tornar-se possível no último domingo (26/7). Acossado por pressões crescentes dos EUA, Lula tomou a iniciativa de abrir diálogo com o presidente chinês, Xi Jinping.

Ambos conversaram, ao telefone, por cerca de uma hora. Nenhum dos lados revelou o teor completo da conversa. Mas, dado o contexto em que se deu o diálogo, é possível ter esperanças de que o governo brasileiro supere, ao menos em parte, a frieza com que tem tratado as possibilidades de uma colaboração de alto nível — de governo a governo — entre Brasília e Beijing.

Significaria ir muito além da relação atual, que se dá essencialmente no terreno do comércio. Neste terreno, a China é, há mais de uma década, a principal parceira do Brasil. As trocas bilaterais entre os dois países superaram, em 2025, os 171 bilhões de dólares, com superávit de US$ 29 bi para o Brasil. Os EUA, nosso segundo maior parceiro, movimentaram US$ 82 bilhões, menos da metade. Mas por trás deste aparente sucesso, há uma assimetria.

O Brasil exporta para a China, essencialmente, bens primários — com destaque para soja, petróleo e minério de ferro. Importa produtos e serviços de alta tecnologia. O caso da soja é o mais emblemático. Metade das 180 milhões de toneladas colhidas no país — como se sabe, com ataque permanente aos biomas do Cerrado, Caatinga e Amazônia — é destinada a compradores chineses.

Nesse caso, quem determina a colonialidade da relação é a vítima — ou, melhor dizendo, suas classes dominantes. O governo chinês tem insistido há anos numa relação mais complexa e mutuamente favorável. O Brasil foi convidado por diversas vezes a participar da Iniciativa do Cinturão e Rota (“Novas Rotas da Seda”). A adesão não compromete de nenhum modo a independência do país, e abre portas para colaboração não-mercantil. Amplia as possibilidades de investimentos maciços em infraestrutura e políticas públicas.

Os chineses não estabelecem a relação por benevolência. Têm sofrido ataques alfandegários crescentes nos EUA e Europa. Temem que os mercados do Ocidente possam se fechar, em breve, a seus produtos. Querem ter alternativas no Sul Global. E se dizem abertos à colaboração de mútuo benefício.

A amplitude que este movimento poderia alcançar foi desenhada em outro artigo. Reindustrialização brasileira, com transferência de tecnologia. Ultrapassagem do modelo do agronegócio, aproveitando a experiência chinesa de estímulo às pequenas e micropropriedades. Uso de automação e IA soberana na Saúde. Desmatamento zero na Amazônia, com aproveitamento da floresta em pé, de sua biodiversidade e saberes dos povos tradicionais. Alternativa às big techs norte-americanas. Livrar as forças armadas brasileiras da dependência tecnológica diante dos EUA (navios e aviões orientados pelos radares norte-americanos…). Superação da dependência em relação ao dólar, nas transações internacionais. Etc etc etc. A agenda é ampla.

[A China tem lançado sucessivos apelos a uma parceria política. O Brasil os rejeitou até agora. Em 2023, ao visitar Beijing, Lula evitou comprometer-se com a Iniciativa do Cinturão e Rota. É possível que os compromissos firmados com o então presidente dos EUA, Joe Biden, nos preparativos para as eleições brasileiras de 2022, tenham limitado seus movimentos.

O cenário agora é outro, e os atos e pressões de Trump contra o Brasil podem estimular uma virada. Nas últimas semanas, o governo brasileiro permaneceu firme, diante de um novo tarifaço da Casa Branca (contrariando, por exemplo, a posição da Federação das Indústrias de São Paulo – Fiesp –, que propunha recuos). Adotou postura ainda mais confrontativa ao não conceder vistos de entrada a dois integrantes do governo norte-americano que desejavam entrar no país para “averiguar a lisura do voto eletrônico”.

Falta ainda um passo mais decidido. Nesta segunda-feira, após o diálogo Lula-Xi ao telefone, o jornal Global Times, ligado ao Partido Comunista Chinês, destacou a conversa em sua manchete central. Frisou que seu país “permanece pronto a fortalecer a coordenação estratégica com o Brasil”. A imprensa brasileira foi mais discreta e defensiva. Preferiu destacar a oposição dos dois governantes a interferências estrangeiras – como se lhes bastasse emitir declarações retóricas contra os ataques dos EUA.

Ainda assim, registrou a novidade. Acossados pelas contradições do país, e pela força das classes dominantes, a diplomacia e o governo brasileiro são muito lentos em dar-se conta do novo e suas oportunidades, na cena internacional. Em sua biografia de Getúlio Vargas, o jornalista Lira Neto relata as hesitações do então presidente diante de Hitler e Mussolini. Partidários dos dois regimes fascistas estavam presentes e atuantes no próprio ministério de Getúlio. Até que a ruptura tornou-se inevitável, em 1942, e o Brasil aliou-se aos EUA de Franklin Roosevelt, que liderava, no Ocidente, a luta contra a ultradireita.

Oxalá o telefonema de Lula indique que, assim como Getúlio em relação à Alemanha e Itália, o presidente tenha percebido que é preciso afastar-se dos EUA — e enxergue as possibilidades de uma relação autônoma e construtiva com a China.

¨      Como os EUA usam a lei sobre trabalho forçado para pressionar o Brasil e isolar a China

Em política internacional, os fatos que emergem na superfície, como tarifas, sanções ou declarações oficiais, raramente se explicam por si mesmos. A conjuntura, embora visível e imediata, só se torna compreensível quando articulada às disputas históricas, econômicas e geopolíticas que moldam o cenário global.

É nesse entrelaçamento que instrumentos aparentemente técnicos passam a operar como dispositivos de poder. As recentes tarifas de 12,5% impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros exemplificam esse movimento, inserindo-se em uma estratégia mais ampla que combina a securitização, ao transformar cadeias produtivas em ameaças à ordem internacional, e o lawfare, caracterizado pela aplicação de leis estadunidenses para além de suas fronteiras, a fim de controlar o comportamento de outras nações em função de objetivos geopolíticos.

Nesse contexto, a questão do trabalho forçado em Xinjiang, pivô de denúncias internacionais sobre a sujeição da minoria uigur e rebatida por Pequim como uma narrativa política (O Globo, 2021), converteu-se em um vetor central de fricção global. A legislação estadunidense direcionada à região não atua como um mero mecanismo de regulação ética ou humanitária, mas como uma ferramenta geopolítica.

Ao restringir o acesso ao mercado e penalizar países que mantêm vínculos com insumos chineses, Washington desloca o debate do terreno puramente moral e redesenha as hierarquias de produção, pressionando economias como a brasileira a redefinir suas alianças em meio a uma disputa sobre quem dita as regras do jogo e lidera a economia mundial.

Essa pressão dos Estados Unidos torna-se ainda mais incoerente quando observamos a realidade do Brasil. O país é reconhecido pela Organização Internacional do Trabalho (OIT) e pela Organização das Nações Unidas (ONU) como uma referência mundial no combate ao trabalho escravo contemporâneo.

A legislação brasileira é considerada uma das mais avançadas do mundo por adotar um conceito moderno no Código Penal (artigo 149), que pune não apenas a privação de liberdade, mas também a jornada exaustiva e as condições degradantes de trabalho. Isso não significa que o problema tenha desaparecido no país, mas demonstra a existência de um sistema público rigoroso.

Por esse motivo, a imposição das tarifas ignora esse esforço institucional e desconsidera essas especificidades, revelando que a pauta moral é mobilizada como instrumento de pressão comercial e geopolítica.

Sob essa lógica, a medida imposta pelos EUA opera como um instrumento de coerção indireta voltado à reorganização das cadeias globais. Ancorada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, que visa combater práticas estrangeiras desleais que afetam o comércio dos EUA (USTR, 2026), ela não acusa diretamente o Brasil de produzir bens com trabalho escravo, mas transforma a ausência de dispositivos legais que proíbam a importação de mercadorias associadas ao trabalho forçado em uma vulnerabilidade passível de penalização.

Ao agir assim, Washington trata a questão como uma ameaça ao funcionamento do mercado internacional, erguendo uma barreira em torno da China ao encarecer e tornar mais arriscado o comércio com insumos de Xinjiang, induzindo empresas e governos a reconfigurar suas cadeias produtivas e a adaptar seus marcos regulatórios ao padrão estadunidense.

Trata-se, portanto, de um protecionismo seletivo e estratégico, no qual o discurso sobre ética e regulação não é um mero disfarce, mas a própria ferramenta que impulsiona a contenção da expansão econômica chinesa, inclusive na América Latina.

Essa engrenagem ganha ainda maior inteligibilidade quando observada no âmbito do lawfare. Diferentemente de disputas comerciais tradicionais, que tenderiam a ser mediadas por instâncias multilaterais como a Organização Mundial do Comércio (OMC), esse mecanismo opera por meio da exploração de brechas administrativas e jurídicas que permitem a imposição de restrições sem recorrer aos canais formais de solução de controvérsias.

É nesse ponto que a Seção 301 assume centralidade: ao acioná-la, o governo norte-americano mobiliza uma prerrogativa doméstica unilateral que autoriza a aplicação acelerada de sanções com base em critérios definidos internamente. Constrói-se, assim, uma estrutura jurídica interna com fortes efeitos extraterritoriais.

Dessa forma, mais do que uma simples resposta a práticas consideradas desleais, a tarifa insere-se em uma dinâmica na qual o direito deixa de ser apenas um instrumento regulador e passa a funcionar como uma tecnologia de coerção na reorganização da ordem econômica internacional.

É justamente quando esse arranjo jurídico se projeta sobre economias periféricas que seus efeitos deixam de ser apenas sistêmicos e passam a incidir diretamente sobre casos concretos. No Brasil, essa pressão não se limita às tarifas, mas articula-se a um conjunto mais amplo de frentes, que vão desde questionamentos ao sistema de pagamentos instantâneos (Pix) e disputas em torno do etanol até a crescente centralidade dos minerais críticos nas negociações bilaterais.

Longe de serem temas isolados, esses elementos compõem uma mesma arquitetura de poder, na qual instrumentos financeiros, energéticos e tecnológicos são mobilizados de forma coordenada para condicionar escolhas internas e reposicionar o país na disputa entre Estados Unidos e China. É nesse deslocamento do plano jurídico-comercial para o interior da economia política brasileira que se abre o terreno para compreender como essa estratégia externa passa a reconfigurar não apenas a inserção internacional do Brasil, mas também suas dinâmicas políticas e econômicas internas.

Diante desse quadro, o Brasil deixa de ser um ator periférico para ocupar uma posição central na disputa geopolítica contemporânea, integrando-se ao núcleo das tensões entre Estados Unidos e China. Nesse processo, converte-se em um território estratégico de incidência de pressões externas, no qual a preservação de sua soberania, entendida em termos econômicos, regulatórios e territoriais, surge como condição fundamental para evitar um reposicionamento subordinado na ordem internacional.

 

Fonte: Por Antonio Martins, em Outras Palavras/Diálogos do Sul Global

 

Estudo: 83% das mulheres que tiveram gravidez precoce já perderam emprego

Cerca de oito em cada dez jovens brasileiras (83%) que engravidaram na infância ou adolescência já tiveram que deixar um emprego ou perderam oportunidades profissionais por causa do trabalho de cuidado com os filhos.

O dado é um dos achados centrais do novo estudo "Marcas do Tempo: Gravidez na Infância ou Adolescência e seus Impactos na Vida de Mulheres no Brasil", realizado pela Plan Brasil, que ouviu mais de 1,5 mil jovens mulheres de 19 a 29 anos em todas as regiões do país.

Para entender a experiência da gravidez precoce, a pesquisa comparou jovens mulheres que engravidaram na infância ou adolescência, e aquelas que não passaram por essa experiência. A pesquisa descontou fatores como pobreza ou baixa escolaridade prévia para isolar o impacto exclusivo da gestação.

O resultado mostrou que mesmo partindo de contextos parecidos, as jovens que engravidaram na infância ou adolescência acumulam desvantagens visivelmente maiores ao longo da vida seja na educação, no trabalho, na renda, na saúde e no exercício de seus direitos, quando comparadas às jovens que não viveram essa experiência.

<><> Cadeia de desvantagens começa antes da gravidez

Os impactos não se limitam ao mercado de trabalho. Jovens que engravidaram na infância ou adolescência têm 24 pontos percentuais a mais de chance de não estar estudando e 21 pontos percentuais a mais de chance de não concluir o Ensino Médio, em relação a quem não passou por essa experiência.

O abandono escolar também é muito mais frequente. 61% das que engravidaram precocemente pararam de estudar, contra 33% entre as que não engravidaram.

Entre as jovens que não engravidaram, a evasão escolar costuma ter causas diversas como dificuldades de saúde mental, contexto familiar, qualidade do ensino, desigualdades sociais. Já entre as que engravidaram, o abandono se concentra fortemente em um único fator, a própria gravidez ou o cuidado com os filhos, apontado como motivo direto por uma proporção 49 pontos percentuais maior do que no grupo de comparação.

"A gravidez na infância ou adolescência é um ponto de inflexão que aprofunda desigualdades que já existiam antes mesmo da gestação", afirma Cynthia Betti, CEO da Plan Brasil. A executiva afirma que reverter esse quadro exige implementação, monitoramento e orçamento para políticas públicas integradas e de prevenção, e não respostas isoladas.

<><> Planos de vida interrompidos

Por trás dos números, o estudo reuniu histórias de jovens que viram seus planos de vida mudarem de rumo da noite para o dia. É o caso de uma entrevistada da região Sul do país, hoje com 28 anos, que treinava para uma competição nacional de atletismo quando descobriu a gravidez ainda na adolescência:

“A sociedade não apoia mulheres mães de forma alguma a seguirem suas vidas. A sensação que se tem, que causa até uma angústia, é de que a tua vida acabou quando tu descobre estar grávida. Eu era atleta, estava me preparando para um campeonato brasileiro, no Paraná, e eu descobri a gravidez. E aí foi um choque, simplesmente eu senti que todos os meus planos de vida que eu tinha organizado acabaram”, contou a mulher de forma anônima.

Relatos como esse se repetem ao longo das 50 entrevistas em profundidade realizadas pela pesquisa, revelando um padrão comum: a chegada de uma criança nessa fase da vida frequentemente significa o fim abrupto de um projeto de vida em construção, seja nos estudos, no esporte ou na carreira.

"Essas mulheres não perderam apenas um emprego ou um ano de estudo, perderam a possibilidade de escolher os próprios caminhos no momento em que mais precisavam dessa autonomia", complementa a CEO.

<><> Violações de direitos e estigma

A pesquisa também expõe falhas graves na garantia de direitos sexuais e direitos reprodutivos com relatos de coerção contraceptiva institucional, incluindo a imposição de métodos como DIU sem consentimento pleno no período pós-parto, e de violência obstétrica.

"E aí, induziram meu parto. Na época era o famoso comprimido, não era na veia. Então, era uma coisa que a dor piorava, assim, mil vezes. E aí, eu ficava falando que eu estava sentindo muita dor e aí era tipo 'vai doer mesmo, é assim mesmo, pra fazer não doeu.' (...) Não foi nada agradável. E ainda mais por todas as mães ali, tava com seus companheiros e eu tava ali totalmente vulnerável." (Entrevista com jovem mulher que viveu gravidez na adolescência, negra, da região Centro-Oeste, 23 anos)

Já entre as jovens que engravidaram antes dos 14 anos, idade em que toda gestação é decorrente de estupro de vulnerável segundo a legislação brasileira, 50% não tiveram a possibilidade de interrupção legal da gestação ofertada pelos serviços de saúde.

Vale destacar também que 59% das jovens que engravidaram antes dos 19 anos passaram a viver em casamento ou união logo após a primeira gestação, e o estudo identifica um aumento de 19 pontos percentuais na chance de casamento antes dos 16 anos entre essas jovens.

Julgamentos sociais acompanham a gestação precoce. A discriminação é uma experiência entre a maioria das jovens que engravidaram precocemente, já que 73% relatam já ter sido discriminadas por causa da gravidez, seja na família, na escola ou em serviços de saúde.

Esse estigma aparece de forma recorrente nos relatos qualitativos, com jovens descrevendo julgamentos sobre sua capacidade intelectual, moral e profissional.

"Sabe o que eu noto? Sempre que eu ia fazer entrevista, as pessoas perguntam assim... 'Eu vi aqui que você tem filha, né? Mas você tem com quem deixar essa filha?' Sempre perguntam, tipo assim, sempre acham que nossa filha é um empecilho. Que a gente não serve para aquele trabalho." (Entrevista com jovem mulher que viveu gravidez na adolescência, negra, da região Nordeste, 26 anos).

<><> Rompendo o ciclo

A Plan Brasil também aponta um conjunto de recomendações que vão da garantia de educação sexual baseada em direitos e do acesso descomplicado a métodos contraceptivos, até a universalização de creches com horários compatíveis com a rotina de estudo e trabalho, o combate à violência obstétrica e à coerção contraceptiva, e políticas de primeiro emprego voltadas especificamente para jovens mães.

"O objetivo é oferecer ao poder público, às organizações da sociedade civil e à própria sociedade brasileira as evidências necessárias para que essas meninas deixem de ter seus direitos negados antes, durante e depois da gravidez", ressaltou a executiva.

A pesquisa foi realizada pela Akauã Consultoria de Dados com o apoio de organizações parceiras em diferentes regiões do país e contou com comitê externo de ética de pesquisa da Flacso Brasil.

¨      Pré-natal: 1 em cada 5 gestantes não recebe cuidado mínimo no Brasil

Embora quase todas as gestantes brasileiras realizem pelo menos uma consulta de pré-natal, uma em cada cinco não atinge o mínimo de sete consultas recomendadas pelo Ministério da Saúde, desde 2024, para o acompanhamento seguro da gestação.

A diferença na cobertura entre a primeira e a sétima consulta — que cai de 99,4% para 78,1% — atinge desproporcionalmente mulheres sem escolaridade, indígenas, adolescentes e moradoras da Região Norte.

Os dados são de um estudo nacional conduzido por pesquisadores do Centro Internacional de Equidade em Saúde da Universidade Federal de Pelotas (ICEH/UFPel), em parceria com a Umane, organização que atua pelo fortalecimento da saúde pública, e estão disponíveis Observatório da Saúde Pública.

O levantamento se baseia em mais de 2,5 milhões de nascimentos registrados no Sistema de Informações sobre Nascidos Vivos (SINASC) do Ministério da Saúde em 2023.

Segundo os pesquisadores, o sistema de saúde consegue captar quase todas as gestantes, mas ainda falha em garantir a continuidade do cuidado, sobretudo entre os grupos mais vulneráveis.

“O Brasil praticamente universalizou o acesso ao início do pré-natal, mas ainda não consegue garantir que esse cuidado se mantenha até o final da gestação, deixando para trás populações já vulneráveis”, afirma a pesquisadora Luiza Eunice Sá da Silva, do ICEH/UFPel.

Para Evelyn Santos, gerente de investimento e impacto social da Umane, o estudo revela um cenário preocupante, mas também contribui para qualificar o debate público sobre as desigualdades no acesso ao pré-natal.

“Nesse contexto, a sociedade civil tem um papel estratégico como aliada do poder público, tanto no fortalecimento de políticas e iniciativas que promovam a equidade quanto no acompanhamento de sua implementação, contribuindo para que essas soluções alcancem, de fato, quem mais precisa”, afirma.

<><> Principais marcadores da exclusão

A escolaridade é um dos principais fatores que determinam quem consegue completar as sete consultas de pré-natal. Enquanto 86,5% das mulheres com maior nível de instrução (12 anos ou mais) atingem esse patamar, menos da metade das mulheres sem escolaridade (44,2%) consegue alcançar o cuidado mínimo recomendado.

Ao longo das diferentes faixas de escolaridade, a desigualdade acumulada chega a 25 pontos percentuais entre os extremos. No recorte racial, a exclusão indígena é a mais severa. Em comparação com os 84,3% das mulheres brancas que concluem as sete consultas, somente 51,5% das indígenas alcançam o mesmo patamar, seguidas por pretas (75,7%) e pardas (75,3%).

O dado mais crítico é a perda de acompanhamento: entre a primeira e a sétima consulta, a cobertura indígena cai 46,2 pontos percentuais (p.p.). — uma queda três vezes
superior à observada entre mulheres brancas (15,3 p.p.). Na prática, em quase metade dos casos, o acesso inicial da gestante indígena não se converte em acompanhamento adequado.

Na intersecção entre escolaridade e raça/cor da pele, as desigualdades se aprofundam: 19% das indígenas sem escolaridade completam sete consultas, enquanto 88,7% das brancas com 12 anos ou mais concluem o pré-natal.

<><> Desigualdades de região e faixa etária

As disparidades também se refletem no território e na idade materna. A Região Norte tem a cobertura mais baixa, com 63,3% das gestantes chegando às sete consultas. O melhor resultado aparece no Sul (85%), seguido por Sudeste (81,5%), Centro-Oeste (77%) e Nordeste (76,1%).

Entre as adolescentes menores de 20 anos, apenas 67,7% realizam o ciclo completo, índice significativamente inferior aos 82,6% observados entre mulheres acima de 35
anos. Essa diferença de quase 20 pontos percentuais reforça a vulnerabilidade das mães jovens no acesso à saúde integral.

Para o epidemiologista e coautor do estudo, Cesar Victora, os resultados confirmam a Hipótese da Equidade Inversa, segundo a qual novos avanços em saúde tendem a
beneficiar primeiro os grupos mais favorecidos.

“Sete consultas não são um número arbitrário, mas o mínimo necessário para acompanhar o ritmo acelerado da vida intrauterina. Sem esse monitoramento regular, perdemos a oportunidade de tratar precocemente condições como infecções, hipertensão e diabetes gestacional”, explica Victora.

O pesquisador alerta que, ao elevar o padrão de qualidade do cuidado, o país corre o risco de ampliar as desigualdades se não houver estratégias específicas para os
grupos mais distantes da meta. Os dados ganham relevância em um contexto em que o país ainda busca reduzir mortes maternas evitáveis.

Como o pré-natal é a principal estratégia para identificar e prevenir complicações na gestação, quando o acompanhamento é interrompido, aumentam os riscos de parto prematuro, baixo peso ao nascer e outras condições graves, especialmente entre mulheres em situação de vulnerabilidade.

Diante desse cenário, os pesquisadores defendem que a equidade deve ser o eixo central das políticas públicas de saúde. O fortalecimento da busca ativa de gestantes
com baixa escolaridade na atenção primária e a ampliação de estratégias culturalmente adequadas para populações indígenas surgem como prioridades urgentes.

Isso inclui a preparação de equipes multidisciplinares e a melhoria da logística em territórios de difícil acesso. Além disso, o estudo aponta para a necessidade de um acolhimento diferenciado que garanta a permanência de adolescentes no pré-natal, removendo barreiras sociais e geográficas.

Para os autores, o enfrentamento das desigualdades regionais, com reforço na infraestrutura das redes de cuidado nas regiões Norte e Nordeste, é passo fundamental para garantir que o avanço nos parâmetros de saúde chegue, de fato, a todas as brasileiras.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Milei é sórdido e está a serviço de Trump e do bolsonarismo — Argentina como ela é

Antes de iniciar o artigo, afirmo ao leitor que o senador Flávio Bolsonaro (PL/RJ) age como um lacaio do governo de Donald Trump. Seu propósito real não é ser presidente, mas apenas agir e atuar como “vice-rei” encarregado de cuidar dos negócios dos Estados Unidos no Brasil, que voltaria a ser uma rica colônia a entregar suas riquezas exploradas por uma potência mundial, em um retrocesso histórico e escandaloso em pleno século XXI do terceiro milênio.

O candidato a presidente do Brasil, Flávio Bolsonaro, e o presidente da Argentina, Javier Milei, realizaram um show de horrores, breguices e ridicularidades, com direito a dancinhas debochadas e grotescas, bem como ambos se valeram de acusações mentirosas e agressões verbais inaceitáveis para quem se considera minimamente educado e preza pelo que é sensato e civilizado.

Os atos com motosserra e tesourão de poda apresentados pelos dois beócios cercados por uma verdadeira tigrada esfomeada pelo poder ficarão marcados na memória de todo cidadão que despreza patifarias e crimes, porque a verdade é que as declarações de Milei são crimes de calúnia, injúria e difamação, sendo eles ainda mais graves por se tratar de um presidente da República da Argentina em viagem não oficial.

Não foi um encontro partidário sério para apresentar propostas ao País, mas absolutamente leviano. Parecia a reunião da escória travestida de convenção partidária do Partido Liberal (PL) para lançar Flávio Bolsonaro candidato a presidente. A participação do mandatário argentino Javier Milei na reunião do PL, no dia 25 de julho, em São Paulo, gerou uma grave crise política e diplomática sem precedentes entre o Brasil e a Argentina.

A “visita” do político estrangeiro teve o propósito de interferir no processo eleitoral e democrático brasileiro. O presidente argentino de extrema direita e ultraneoliberal se alinha, sem qualquer contestação, aos interesses geopolíticos e econômicos de Donald Trump na América Latina, contrários à soberania dos estados nacionais e de seus povos, com a participação ainda, e por vídeo, do genocida Benjamin Netanyahu.

O premiê israelense é um assassino em massa de milhares de crianças e mulheres palestinas e atual mandatário de Israel, um país pária, de governo bárbaro, isolado do mundo e do que é minimamente civilizado. Para finalizar, durante o encontro dos delinquentes da extrema direita, exibiram a imagem do presidiário Jair Bolsonaro, gerada por inteligência artificial. Por IA, Bolsonaro conseguiu, enfim, expressar palavras inteligíveis, apesar de sua total dificuldade para raciocinar, obedecer e respeitar as leis, desde seu tempo de capitão expulso do Exército por má conduta moral e ambição desmedida por dinheiro.

Voltemos a Milei. Não se trata, que fique claro, de uma atuação política de Javier Milei movida pela emoção e que, com efeito, o leva a passar dos limites. Não, cara-pálida. Milei se juntou ao extremista de direita bolsonarista, Flávio Bolsonaro, já sabedor do roteiro torpe e abjeto antes de viajar para o Brasil, que era o de insultar com total desrespeito o presidente Lula e o ministro do STF Alexandre de Moraes. O magistrado impediu o presidente argentino de visitar o presidiário Jair Bolsonaro, o que lhe causou frustração e ódio no nível da fúria dos bolsonaristas nesses anos todos de agressões verbais pela internet e físicas em espaços públicos e também fechados.

O mandatário argentino veio ao Brasil em uma visita “privada” e fora dos ditames diplomáticos e governamentais. No território brasileiro, Milei insultou gravemente o presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva perante uma claque de políticos brasileiros golpistas, que desejam transformar o Brasil em uma falida Argentina, levada à bancarrota moral e econômica pelo incontrolável e grosseiro Javier Milei, um homem de modos torpes, que se apresenta ao público como se fosse um alucinado.

Entretanto, quando Milei está em seu gabinete, na Casa Rosada, certamente volta-lhe a razão, mas plena de perversidade, no sentido de providenciar a brutal concentração de renda e de riqueza e submeter a soberania da Argentina aos interesses dos Estados Unidos. Milei pode até ser maluco, mas apenas com o povo pobre e remediado da Argentina, de quem recolhe impostos para direcioná-los à rica burguesia nacional e internacional. Este é o ponto central sobre Milei: “Loco sí, pero no tanto”.

Estúpido como uma mula empacada, Milei recebeu aplausos por suas palavras e atos asquerosos e repulsivos, dignos de sua própria baixeza e vileza, porque lhe falta dignidade e honra, a exemplo de sua viagem a São Paulo, a serviço do governo ditatorial de Trump e do bolsonarismo, que tenta emergir de qualquer maneira para poder desesperadamente respirar e assim enfrentar a liderança de Lula nas pesquisas, nem que seja com intervenção estrangeira nos assuntos políticos e eleitorais brasileiros.

Milei, Trump, Netanyahu e Bolsonaro sabem que não adianta a América do Sul ter no poder mandatários de direita e de extrema direita se um país gigante e poderoso como o Brasil eleger Lula pela quarta vez, um mandatário profundamente democrático e comprometido com o desenvolvimento da população brasileira, com a soberania do Brasil, com o multilateralismo e a igualdade entre as nações. Lula é um político de centro-esquerda, um social-democrata autêntico com viés trabalhista, assim como está longe de ser um socialista tradicional.

Porém, mesmo sendo social-democrata, a extrema direita radicaliza e agride o fundador do PT e da CUT de forma permanente, porque luta apenas para controlar o poder central e realizar projetos de privatização e de concentração de renda e de riqueza, bem como excluir da atenção e proteção do Estado as pessoas pobres, as mais carentes, e, com efeito, permitir a realização de negócios com a iniciativa privada brasileira e estrangeira, a dedicar-lhe subservientemente o acesso às estatais, ao crédito dos bancos públicos, ao mercado interno e às riquezas naturais deste País rico de povo pobre.

A verdade é que Milei, para atender aos interesses eleitorais da família Bolsonaro, além de atacar as autoridades e as instituições democráticas brasileiras, cumpriu seu propósito de radicalizar ainda mais a política brasileira e, consequentemente, criar situações político-midiáticas, sem se importar com a severa reação do governo brasileiro, que está tomando as medidas cabíveis, além de rebater publicamente as grosserias de um político pleno de escândalos de ordem moral e governamental em seu lamentável mandato.

O Brasil, por intermédio do Itamaraty, acertou com precisão ao convocar de volta a Brasília o embaixador do Brasil em Buenos Aires, Júlio Bitelli, que, juntamente com o chanceler Mauro Vieira, irá participar de reuniões para avaliar a crise entre Brasil e Argentina e, por seu turno, tomar as medidas necessárias, a exemplo de considerar Milei, um fanfarrão de palavras nojentas, “persona non grata”. Além disso, o embaixador da Argentina no Brasil foi também convocado para dar satisfações e explicações sobre as agressões do presidente argentino de extrema direita.

Além disso, ao desembarcar no Brasil, Milei recebeu todo o apoio do governador aliado da família Bolsonaro, Tarcísio de Freitas, que o recebeu no Palácio dos Bandeirantes. O argentino, mesmo realizando uma viagem não oficial, foi recebido com pompa e circunstância de chefe de Estado, bem como, de forma surreal, recebeu das mãos do governador bolsonarista a principal comenda do Estado de São Paulo. Mas não param por aí as grosserias e patifarias de Milei e seus aliados bolsonaristas. Simplesmente o mandatário argentino não comunicou ao governo federal sua vinda ao Brasil.

Evidentemente, toda essa pantomima e palhaçada (no mau sentido) foi planejada, assim como os ataques verbais violentos por parte de um presidente estrangeiro em solo brasileiro contra autoridades federais. Realizar uma viagem privada não isenta uma autoridade estrangeira de avisar oficialmente os poderes constituídos de uma República, ainda mais quando se trata de um país importante como o Brasil.

A verdade e a realidade é que a extrema direita se reuniu para cometer desatinos, desrespeitos e agressões e não para fazer política. Mas é o que ela sabe fazer, porque sempre foi vazia de projetos e programas sociais, econômicos e desenvolvimentistas. Não existem projetos de soberania e independência elaborados por essa corrente política que atua no campo da extrema direita. Apenas tiram tudo de suas populações e lutam para que seus países sejam apenas exportadores de commodities e integrados à zona de influência dos EUA.

Não interessa à extrema direita e às burguesias locais, que financiam suas campanhas e facilitam seus negócios, empoderar seus próprios países perante o concerto das nações. O que interessa a essa gente reacionária e violenta é ter o controle dos Estados nacionais e fazer deles instrumentos para que os ricos e os muito ricos continuem com seus altos padrões de vida, bem como os trabalhadores, os aposentados e as populações em geral apenas sirvam como mão de obra barata e sem emancipação escolar e financeira. O negócio desse tipo malévolo de gente é a mais-valia eterna, meu camarada.

Milei, antes de tudo, é um político mentiroso e administrador fracassado. Institutos de pesquisa, a exemplo de Atlasintel, Opina Argentina e Zuban Córdoba, indicam que Milei é impopular, pois sua rejeição varia entre 58,2%, 63% e 64,5%, respectivamente. Milei, que é um tremendo estúpido, acha que sua péssima educação e suas agressões reverberadas vão lhe dar votos, o que certamente não vai acontecer, bem como o presidente argentino está sendo processado e sob denúncia criminal por suposto desvio de verbas públicas e violação de deveres funcionais.

Esse processo está em tramitação após sua viagem ao Brasil para participar de um evento privado organizado pelo Partido Liberal do presidiário Jair Bolsonaro, com a participação de alguns de seus filhos e aliados, dentre eles o presidente Milei. A ação judicial afirma que o presidente argentino utilizou recursos do Estado para comparecer ao evento partidário de lançamento da candidatura a presidente de Flávio Bolsonaro. Milei usou a estrutura do Estado, a exemplo do avião presidencial, da comitiva oficial, além de recursos financeiros como cartões corporativos. Milei se aproveitou do público para atender a interesse privado, como fazem os grandes empresários com a cumplicidade de políticos para usurpar o Estado e desfalcar o erário público.

A Argentina está desindustrializada e o Estado foi desmontado, com um prejuízo incalculável para o povo argentino — prejuízo moral, econômico e financeiro, diga-se de passagem. Agora, perguntemos: qual é a moral que Milei e seu desastroso desgoverno têm para com os argentinos e o restante da comunidade latino-americana? Então, vamos lá! Para quem não sabe, fique logo a saber das cafajestadas do mandatário argentino contra seu próprio povo.

Javier Milei é disparado o pior presidente civil da história da Argentina e, sem sombra de dúvida, é um político corrupto e determinado a desmontar o Estado argentino para entregá-lo de bandeja ao grande capital privado e monopolizado, bem como as riquezas de seu país, que, como disse anteriormente, está desindustrializado, com alto índice de desemprego, além de ser vítima de uma inflação alta, a serviço do establishment internacional, além de ser menino de recados de Donald Trump.

Milei afundou a Argentina, e seus ataques a autoridades brasileiras seguem o rumo de Donald Trump e Marco Rubio, o radical secretário de Estado dos Estados Unidos. Enquanto isso, a Argentina sofre com a inflação alta, que atinge o patamar de 33,5% ao ano (junho de 2025 a junho de 2026), conforme medição de junho de 2026, sendo que no primeiro semestre deste ano o acumulado foi de 16,8%.

A verdade, como sempre acontece, é que quem é favorecido por políticas econômico-financeiras neoliberais são sempre os ricos e a classe média alta. Como sempre e em qualquer lugar deste pequeno e frágil planeta, Milei favoreceu e beneficiou os ricos, principalmente os dos setores de mineração (petróleo/lítio), agricultura e pecuária e exportações líquidas, geralmente a favor dos grandes exportadores.

Enquanto isso, no governo ultraneoliberal de Milei, os setores da indústria manufatureira, do comércio varejista e o consumo interno das famílias sofrem profunda queda com o aviltamento do mercado interno, a economia real, que gera emprego e renda para milhões de trabalhadores e aposentados, verdadeiros responsáveis pelo consumo de inúmeros setores econômicos e segmentos sociais, que fazem o dinheiro circular e, com efeito, chegar às mãos das famílias e das médias e pequenas empresas.

Em resumo: a política econômica neoliberal imposta aos povos por políticos de direita e de extrema direita tem por propósito fundamental privilegiar os ricos e os muito ricos. São eles os beneficiados pelas riquezas dos países e pela produção dos trabalhadores. Só que essa gente rica é minoria, mas controla os mercados e os meios de comunicação, realidades que acarretam a submissão da população às mentiras e às manipulações, somadas a questões religiosas e outros assuntos de conotações morais e familiares.

Trata-se da corrupção dos costumes por meio de um moralismo sem moral, cuja finalidade é transformar os setores pobres e remediados da sociedade em redutos de pessoas reacionárias e preconceituosas contra sua própria classe e realidade, o que é um disparate, porque a luta de classes requer consciência social e de classe, de forma a, aí sim, ser possível derrotar a burguesia e parte da classe média reacionária por meio do voto, que não é revolucionário, mas sim um meio que as democracias burguesas e ocidentais criaram para evitar revoltas populares mais graves ou violentas.

A verdade em termos de governo Milei é que as reformas fiscais realizadas pelo maluco argentino da motosserra derrubaram a inflação, que ainda continua bastante alta, mas, como todo processo neoliberal, o setor exportador primário sempre se dá bem e enriquece ainda mais. Por sua vez, o consumo doméstico e o mercado formal de trabalho, como sempre, continuam a sofrer impactos muito severos causados pelas medidas de austeridade, que significam congelar os investimentos públicos e os salários, assim como canalizar o dinheiro público para atender aos interesses econômicos da burguesia e de governos de potências estrangeiras.

Milei é tão descaradamente irresponsável e cruel que submeteu novamente a Argentina ao FMI para receber créditos de US$ 20 bilhões, o equivalente a R$ 118 bilhões. O FMI (leia-se EUA) tutelou a Argentina e suga suas riquezas minerais e naturais como se não houvesse amanhã. Milei deveria ser preso por alta traição à pátria, assim como deveria ser barrado se tentasse entrar no Brasil enquanto Lula estiver no poder.

O presidente argentino é carrasco de seu povo, além de causar-lhe humilhações, porque os técnicos do FMI entram na Argentina e determinam o que o governo do país sul-americano tem que fazer. É uma vergonha. Milei vai ser derrotado e, como tem inúmeros esqueletos em seu bestial armário, certamente vai se tornar um presidiário, igual ao seu similar aqui no Brasil. É isso aí.

 

Fonte: Por Davis Sena Filho, em Brasil 247