sábado, 20 de junho de 2026

A experiência chinesa pode servir para o Brasil?

Em vez de emular a corrida tecnológica chinesa, a superação da dependência brasileira exige um projeto autônomo alicerçado na economia solidária e na autogestão popular...

Esse texto se refere a continuidade de um debate, que se inicia com a publicação do artigo, “Economia Solidária: uma caminhada para além da utopia da escassez”, que suscitou entre pesquisadores e militantes de esquerda e que resultou numa resposta sob a forma de um texto que inicia um diálogo publicado no site A Terra é Redonda .

Nesse contexto, o presente artigo busca apresentar a hipótese de que “por não reconhecer a relevância do movimento de economia solidária e das tecnologias sociais (ES/TS), que poderia estar inserido como um dos elementos centrais em um grande projeto de desenvolvimento socioeconômico, parte da esquerda brasileira busca substituir em seu lugar a experiência chinesa na tentativa de emular políticas de ciência, tecnologia e inovação a partir de uma realidade muito distinta da nossa”.

A saída para esse dilema pode começar por reconhecer as especificidades de um contexto muito particular como o brasileiro, marcado por características sociais, econômicas e culturais muito próprias.

O segundo passo para essa saída seria reconhecer, de forma mais incisiva, o campo da economia solidária e das tecnologias sociais, como uma das alternativas possíveis sem, no entanto, colocá-lo para simplesmente preencher as lacunas de um capitalismo periférico.

Além disso, como componente fundamental, que está ficando cada vez mais óbvio, é necessário valorizar a organização do trabalho por meio de coletivos autogestionários e os bens comuns – não apenas em si mesmos – como saída necessária ao estado de policrise, principalmente como uma alternativa real ao capitalismo.

O tema adquire importância especialmente quando o debate da tecnologia social é subordinado ou relegado a um plano secundário em relação à agenda inovacionista existente no Brasil (Oliveira, 2011; Dagnino, 2020). A participação social e a democracia são temas muito caros para a economia solidária, especialmente quando se considera a centralidade da organização autogestionária dos trabalhadores.

<><> Algumas experiências do Brasil e de seus vizinhos latino-americanos

Aqui começa o alicerce da hipótese apresentada inicialmente neste texto que se pretende destrinchar, começando por uma caracterização das experiências de países periféricos, especialmente o caso brasileiro.

A história dos países da América Latina resulta da formação de Estados-nações, profundamente marcados pela confluência de diferentes matrizes culturais — indígenas, africanas e europeias. Suas elites optaram por economias de baixa complexidade econômica, notadamente agroindustriais, e seguem exercendo forte influência sobre seus rumos políticos, encontrando expressão sobretudo em setores da direita e da extrema direita. Movidas por interesses restritos, promoveram, uma industrialização “trunca” de baixo dinamismo econômico, sem indicar disposição para impulsionar um processo industrial robusto, inovador e socialmente inclusivo.

Seja na literatura especializada no tema, ou nos meios sociais de debate e elaboração das políticas, a inovação costuma ser tratada como um processo irrefreável e indispensável ao progresso, frequentemente a partir de uma visão excessivamente otimista. Que as inovações fazem parte de um processo capitalista dinâmico, irreversível, e que possui um papel inquestionável no “progresso moderno” não há dúvidas. Entretanto há um paradoxo nesse conceito de “progresso”, que não é único, e precisa ser problematizado, o qual tem sido frequentemente negligenciado. Ele reside na sua capacidade de gerar riqueza sem precedentes, enquanto simultaneamente produz desigualdade social, miséria e degradação ambiental.

Na América Latina, contudo, a inovação aparece mais como elemento de discurso na política explícita do que como prática efetiva na política implícita. Se por um lado, as políticas de ciência, tecnologia e inovação tendem a se mostrar descontextualizadas em relação às especificidades da região; por outro, revelam limitações na capacidade de enfrentar seus principais desafios sociais e econômicos.

No âmbito das universidades e das demais instituições de ciência e tecnologia, observa-se a predominância de um discurso voltado à disseminação do que se convencionou chamar de “cultura da inovação”, e consequentemente, também do “patenteamento”. Em especial, este último tem levado a uma frivolização do tema, como se em tudo pudesse ter vantagens econômicas quando se trata de patentes. De acordo com muitos estudos, a realidade indica algo bem distinto, sendo que a massiva maioria das patentes não se tornam uma inovação, ou a maioria das inovações não estão necessariamente associadas a patentes.

A grande maioria das patentes são melhorias em produtos ou processos já existentes. O fenômeno é até muito conhecido, como “vale da morte” até que a patente ou invenção consiga um capital de risco. Acontece que esses temas são frequentemente pouco aderentes às demandas concretas da maior parte da população.

Na prática, para um coletivo de trabalhadores e trabalhadoras organizados de forma autogestionária, não cabe falar em patentes. A patente, sendo a forma mais comum de apropriação privada – monopólio do conhecimento tecnológico, trata-se de um ativo econômico com fins de evitar que terceiros não explorem determinada tecnologia – por consequência lógica, não possui aderência ao campo da economia solidária e das tecnologias sociais.

Ela somente serviria para ferir aqueles aspectos que são constituintes da sua formação, da sua estruturação enquanto alternativa, em sua base organizacional. Isso ocorre principalmente pelo fato de que os coletivos autogestionários operam por meio da cooperação e não da competição, enquanto a cooperação exige sistemas de compartilhamento de conhecimento, a competição exige sistemas de apropriação privada por indivíduos ou por corporações, mesmo que estejam associados a processos de open innovation.

Embora essa perspectiva inovacionista se apresente como intrinsecamente benéfica ao desenvolvimento, ela tende a reproduzir a concentração de riqueza e, quando associada ao crescimento econômico, nem sempre resulta na geração de empregos; ao contrário, contribui, em muitos casos, para a ampliação de formas de trabalho cada vez mais precarizadas. Nesse sentido, no livro Privilégio da servidão, Ricardo Antunes evidencia que a precarização do trabalho não se restringe aos países periféricos, estando também fortemente presente em economias centrais, como as da Europa e dos Estados Unidos. István Mészáros apresenta uma análise ainda mais profunda, que considera a existência de uma crise estrutural do capital, irreversível e contínua.

No Brasil, ainda se recorre à noção de catching up tecnológico a partir de visões frequentemente dissociadas das demandas da maior parte da população. Tal abordagem se materializa em iniciativas de alcance limitado, que tendem a desconsiderar a necessidade de uma governança de longo prazo voltada ao fortalecimento de capacidades tecnológicas competitivas em setores industriais estratégicos para o país.

Ademais, negligencia-se a importância de uma articulação consistente entre indústria, governo, universidades e movimentos sociais, elemento que deveria ser fundamental para a construção de um sistema de inovação mais robusto e socialmente orientado.

Historicamente, o Brasil foi marcado pela emulação de políticas oriundas dos países centrais, traço característico de formações sociais de matriz colonial. Essa condição de dependência, presente na América Latina desde o século XVI, revelou-se insuficiente para a constituição de um capitalismo avançado nos moldes dessas economias.

De maneira semelhante, os demais países latino-americanos foram estruturados sob a lógica de Estados coloniais, nos quais a espoliação se consolidou como regra. O epistemicídio – entendido como a destruição dos saberes populares – operou como mecanismo de legitimação da apropriação de riquezas naturais, enquanto o capitalismo se desenvolveu de forma particular: periférica, tecnologicamente dependente e conduzida por “elites do atraso”.

As classes proprietárias da região, por sua vez, abandonaram – ou nunca assumiram de fato – a construção de um projeto nacional, bem como a perspectiva de uma industrialização nos moldes do ideário nacional desenvolvimentista dos anos 1950. Nesse sentido, o Brasil pode ser compreendido como resultado de uma escolha de suas elites por um modelo assentado em uma tecnociência dependente, articulado a uma economia agroexportadora baseada na produção de matérias-primas.

A diferença aqui está no fato de que não estamos tratando de países do Norte Global quando se fala da China, mas bem provavelmente é passível de ser emulado. Portanto, a crítica que tem aparecido ao Ocidente, também pode valer, em boa medida, para o novo eixo dinâmico econômico asiático.

<><> A experiência chinesa

Diferentemente do que se observa no Brasil, a trajetória chinesa foi marcada por processos históricos singulares, que se estenderam desde a Revolução de 1949 ao Grande Salto Adiante e à Revolução Cultural, seguidos por profundas transformações ao longo das décadas subsequentes, até os primeiros anos do século XXI. Nesse percurso, a sociedade chinesa vivenciou longas experiências socialistas, muitas delas com resultados dramáticos, incluindo períodos de fome generalizada e intensos conflitos internos. Tais processos, embora marcados por graves custos sociais, contribuíram para a formação das bases que sustentam, em grande medida, sua atual condição de avanço tecnocientífico e crescimento econômico.

Diferentemente do contexto brasileiro, a China conta com um partido que centraliza as decisões políticas e econômicas e que parece buscar se contrapor ao imperialismo norte-americano, operando, em grande medida, com os próprios instrumentos do capitalismo. Inicialmente caracterizada como “socialismo com características chinesas”, posteriormente descrita como “capitalismo de Estado” e, mais recentemente, como “socialismo schumpeteriano”, em alguns meios acadêmicos brasileiros, a experiência chinesa ainda desafia classificações definitivas. Trata-se, na verdade, de um processo histórico singular, resultante de décadas de transformações profundas em múltiplas dimensões da sociedade.

Valendo-se de outras experiências do chamado socialismo real – aqui preferencialmente denominadas “estatistas”, e frequentemente associadas a um pseudomarxismo por autores como Nildo Viana —, observa-se que tais processos evidenciaram fragilidades estruturais relevantes, além de limites concretos em seu potencial emancipatório. Nesse sentido, embora a experiência chinesa contemporânea apresente indicadores expressivos de dinamismo econômico e social, não há garantias de que esse desempenho se sustente de maneira contínua ao longo do tempo, sendo plausível considerar que tal trajetória possa assumir um caráter cíclico.

Uma coisa é certa, um planeta Terra somente não será suficiente para ser devorado por toda a população mundial, caso os países passem a admitir o mesmo ritmo de desenvolvimento chinês.

Retomando o tema central deste texto – a questão da inovação, tecnociência solidária e tecnologias sociais –, busco evidenciar algumas contradições presentes no discurso do texto do companheiro Dayvid que parece defender uma certa reprodução de políticas chinesas em outros países do Sul Global, especialmente no campo da ciência, tecnologia e inovação, mas com a peculiaridade, um tanto estranha, de envolver o tema da economia solidária.

Como afirma o companheiro, em seu texto “Karl Marx nos Grundrisse, ” defenderia que “a tecnologia – inclusive em suas formas mais avançadas – expressa o estágio mais desenvolvido das relações sociais. ” Em outros escritos, contudo, Marx também destaca que ela é uma forma mais sofisticada de exploração do trabalho, ao potencializar a extração de valor sob forma de mais-valia relativa.

A crítica marxista nos conduz a compreender que mais do que reconhecer os limites conjunturais de um inovacionismo orientado pelo crescimento, é preciso explicitar que o núcleo do problema reside na permanência da forma-valor como princípio organizador da vida social.

Enquanto a produção seguir subordinada à valorização do valor, à competição sistêmica, à extração de mais-valia e à necessidade de expansão permanente da acumulação, mesmo os avanços tecnológicos mais sofisticados tenderão a reproduzir alienação, desigualdade, devastação ambiental e novas formas de dominação. Por isso, um horizonte efetivamente emancipatório não pode se limitar à disputa sobre quem controla mais eficientemente os instrumentos do capitalismo, mas exige a superação da centralidade do valor de troca em direção ao valor de uso, à autogestão, aos bens comuns e a formas de tecnociência orientadas pelas necessidades reais da sociedade.

Não se pode afirmar que a China conseguiu superar as contradições do capitalismo tal como preconizou Marx, pois não se pode ainda afirmar categoricamente que a China é sequer um país socialista. Em grande medida isso ocorre pelo fato de que essa crença está fundamentada em um otimismo excessivo nos resultados da inovação tecnológica, principalmente em se resolver os grandes problemas sociais e ambientais do século XXI, em especial no que se refere a impossibilidade termodinâmica de crescimento infinito do capitalismo, muito bem fundamentada na literatura científica desde a década de 1970 até estudos mais recentes que antecipam as catástrofes associadas às mudanças climáticas.

Nesse grupo de “otimistas da inovação”, destaca-se também a ideia, muito contestável, de que lá “a inovação é tratada como bem público e como expressão de soberania”. O fato de que a China busca afirmar sua soberania em múltiplas dimensões é amplamente reconhecido em análises sobre o tema. No entanto, a noção de que a inovação é efetivamente tratada como um bem público se revela imprecisa.

Isso porque a concentração de poder político em um sistema de partido único faz com que a propriedade estatal se confunda, em grande medida, com o controle exercido por esse partido sobre bens, serviços, tecnologias e processos inovadores. Assim, o caráter “público” da inovação torna-se questionável, na medida em que não há uma separação clara entre o interesse coletivo e os mecanismos de controle político.

Nesse sentido, a China se apresenta como um país de partido praticamente único, já que considera fortes limitações às oposições políticas, apresentando a possibilidade de existência de 8 partidos menores, mas que são obrigados a aceitar a primazia do PCC.

No documento intitulado “Relatório para o 20º. Congresso Nacional do Partido Comunista da China (16 de outubro de 2022)” a palavra inovação é repetida 34 vezes, enquanto a palavra “ambiental” é repetida 8 vezes apenas e quase sempre acompanhada de expressões ou explicações contendo a ideia de “motor do crescimento”, “crescimento econômico” e “desenvolvimento verde”.

<><> Considerações finais

Como menciona Márcio Pochmann, em um de seus livros mais recentes A grande desistência histórica e o fim da sociedade industrial, há um processo de décadas que culminou em um abandono de elaboração de projeto autônomo para o Brasil. Cabe aqui questionar se a busca continuada por espelhamentos de realidades distantes à nossa não estaria em grande medida relacionada a esse fenômeno de esvaziamento político, descrito por Márcio Pochmann. Esse processo encontra ecos em diversos meios, incluindo a academia, os meios políticos e em especial entre os de diversos segmentos econômicos, os quais possuem influências decisivas nos rumos políticos do país.

De modo quase invisível se apresenta a economia solidária, em conjunto a perspectivas de tecnologia social e tecnociência solidária, que se apresentam como resposta ao estado de policrise. Ela é fincada na autogestão, cooperação, solidariedade, centrada no respeito ao ser humano e natureza, se manifesta de forma a refletir a diversidade de nosso povo de maneira muito singular, cujo potencial é imenso, desde que apoiada por políticas públicas adequadas.

Mesmo que o século XXI não seja o século da economia solidária, ela ainda se apresenta e se apresentará, como sendo uma alternativa a economia convencional, cuja centralidade no lucro desta última somente agravou os problemas que a humanidade enfrenta. A economia solidária oferece uma resposta muito diferente de tudo que se apresenta na experiência chinesa, e talvez seja capaz de ocupar uma parte daquele vácuo apontado por Márcio Pochmann.

Aliás, a economia solidária se encontra presente em muitos países do mundo, porém, ao que parece muito pouco na China, e diferente daqui, onde se limita a reproduzir uma visão em que bastaria aumentar o acesso ao bens e serviços, sem no entanto, aprofundar em temas relevantes como autogestão e propriedade coletiva dos meios de produção, ou mesmo das tecnologias alternativas, desenvolvidas a partir de interesses e valores legítimos da sociedade, descontaminados dos valores e do principal objetivo da empresa privada, que é o lucro, deixando os temas ambientais e sociais como externalidades negativas da empresa.

Diferentemente da experiência chinesa, a economia solidária oferece algumas coisas que as inovações tecnológicas não têm demonstrado capacidade de proporcionar. Trata-se, em síntese, de elementos cada vez mais escassos: modos de vida mais frugais, felicidade individual e coletiva, uma existência livre e ativa, o bem viver e a valorização de culturas tradicionais em harmonia com a natureza, etc.

Nesse sentido, ela evoca a imagem de um peixe consumido à beira de um rio limpo, sem o temor de contaminação por resíduos industriais – não por ausência de técnica, mas porque a produção, organizada de forma autogestionária, reconhece sua dependência dos recursos naturais e, portanto, se orienta pela sua preservação, a partir de conhecimentos tecnocientíficos que são concebidos com base em outros interesses e valores, sem aderência ao lucro, fortemente vinculados às necessidades reais das pessoas, e não de uma corporação ou da empresa privada.

Nessa lógica, os sujeitos não se subordinam integralmente aos ditames do Estado ou de estruturas partidárias centralizadas, pois exercem, em alguma medida, formas de autogoverno. É possível argumentar que Karl Marx, ao refletir sobre a superação do capitalismo, vislumbrava algo mais próximo dessa perspectiva do que propriamente os modelos estatais centralizados. Ao enfatizar a relação entre infraestrutura e superestrutura, sua análise pode ser complementada por meio das contribuições posteriores de Louis Althusser, especialmente no que se refere aos aparelhos repressivos e ideológicos do Estado.

É importante acrescentar aquilo que já temos certeza, que é que já existem indícios suficientes de que as inovações tecnológicas não serão a salvaguarda do estado de policrise que a humanidade enfrenta. Somente haverá a mudança desejada, inclusive na China, a partir de um salto de compreensão que se direcione para além do capital, a partir de processos mais participativos e democráticos.

 

Fonte: Por Marco Antônio Baleeiro Alves, em A Terra é Redonda 

 

Chico Buarque ainda tem uma das melhores sínteses musicais entre amor e política

Francisco Buarque de Hollanda descobriu a sua profissão quando ficou desempregado. No início ser artista era brincadeira. Por volta dos 22 anos, trancou a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, sabendo que poderia voltar caso a música desse errado. Entretanto, no meio do caminho havia um golpe militar.

Dias após a publicação do Ato Institucional nº5, em dezembro de 1968, ele foi detido em casa e levado do Dops ao I Exército, viajando pelas ruas do Rio de Janeiro na companhia de militares trajados como civis. Marieta Severo, então sua esposa, correu atrás e o aguardou ser interrogado por um dia inteiro.

O problema é que àquela altura, no final de 1968 e início de 1969, Francisco já era Chico Buarque, autor d’“A Banda”; o bom moço que havia confundido os desatentos ao participar da passeata dos Cem Mil e ao escrever a peça Roda Viva.

Marieta estava grávida da primeira filha do casal quando uma breve viagem à Itália tornou-se um exílio. Chico só poderia sair do Rio com autorização do Exército, mais precisamente, de um tal coronel Átila. O coronel autorizou e foram à Europa para um compromisso artístico. Mas a família não voltou ao Brasil, sobretudo, por ter recebido um aviso de Caetano Veloso indicando que Chico estava sob o olhar vigilante da ditadura.

Nessa época, quem passava pelas mãos dos militares era interrogado sobre os demais artistas. Se o interesse por um deles se mostrava persistente durante o inquérito, tratava-se de avisá-lo. A solidariedade foi um traço positivo de um tempo tão obscuro. 

Chico foi morar na Itália: o dinheiro acabando; o trabalho rareando. Foi naquele período que ele entendeu que a música botava comida na mesa. Aliás, não estava botando. Então os quatro – Chico, Marieta, a primeira filha, Silvia, e a recém-nascida, Helena – retornaram ao Brasil.

Há um vídeo em preto e branco de Chico, datado de 1968;  consta que foi gravado na Itália. Respondendo ao entrevistador, ele afirma que foi preso, mas que não pode falar sobre isso. Está muito jovem, bonito e fuma bastante. Questionado a respeito de Roda Viva, diz que é uma comédia na qual fotografa a ilusão do ídolo e a mentira da televisão.

De súbito, vejo outro vídeo se materializando. Dessa vez encontro as imagens coloridas no Tik Tok. É uma espécie de meme no qual Chico discorre sobre a bissexualidade. Ele gosta de mulheres e acredita que não vai gostar de um homem e está tudo bem. “Algum tempo depois” – indica a edição – Chico se derrete com um recado de Caetano e lança: “Caetano é engraçado porque desconcerta a gente”.

O vídeo coloca em dúvida a sexualidade declarada do artista, trazendo-o a uma nova linguagem do humor que é consumida aos montes por novíssimos amantes da MPB. No entanto, é o mesmo Chico, aquele que cristalizou a imagem de grande compositor e porta-voz contra a ditadura. Imagem construída desde os anos 1960 e que perdura até hoje, sobrevivendo e se valendo das ilusões do ídolo; das mentiras da televisão.      

Com isso começo a história de Chico Buarque que gostaria de costurar para vocês; com um breve relato de seu exílio e duas imagens que o reencenam no contemporâneo. No seu aniversário de 82 anos, é interessante notar como ele ainda atualiza o nosso imaginário de juventude. As análises que se seguem indicam a sua contribuição nesse sentido. Vejamos que a geração que inventou o Brasil em plena ditadura, semeando sonhos numa terra erodida, ainda pode nos informar vividamente sobre amor e política.

<><> À flor da terra

Traçar um perfil político de Chico Buarque seria um trabalho eternamente inacabado. Optei por não o fazer, apostando na existência de muitos perfis do artista que provavelmente dão conta do recado. Ao invés disso, quero mostrar como o político jorra de sua obra quando escavamos o não óbvio.

Chico torce o nariz quando pensa numa arte utilitária. O público procurava metáforas nos textos em que elas simplesmente não figuravam e algumas canções versavam apenas sobre o amor (como veremos adiante, não há nada de menor nas músicas de amor). Contudo, o jogo discreto com a política não quer dizer que Chico não se inscreva no regime da fresta de que fala Gilberto Vasconcellos em De olho na fresta.

Vasconcellos, identificando que a MPB se assentava no seio da indústria cultural, propõe a linguagem da fresta como única possibilidade de enunciar um discurso subversivo naquele contexto. Por um lado, a censura; por outro, a cultura de massa. Portanto a fresta seria o ponto, quase saturado, pelo qual alguns cavalos de Tróia conseguiam passar.

Ao contrário do que se pensa, no interior desses cavalos não se escondiam militantes barbudos, com frases de efeito prontas – o que nas décadas de 1960 e 1970 já se chamava de esquerda festiva. Não. Os cavalos de Chico eram, por fora, aqueles de corrida, bem cuidados, com porte e preparo físico. Por dentro, entretanto, as contradições sociais se digladiavam, rebatendo-se em canções que saíam cortando na forma de estilhaços.

A obra política de Chico é violenta. Isso porque nela se impõe a arbitrária violência da linguagem, como diz Silviano Santiago no prefácio do livro de Vasconcellos. A linguagem é caprichosa, convocando outras vozes e, por isso mesmo, fazendo com que o compositor não tenha pele, não tenha corpo e não possa traçar limites entre o “eu” e o “outro” – refiro-me a uma definição que Miúcha faz do irmão, presente no perfil biográfico escrito por Regina Zappa,  Chico Buarque, de 1999.

Ainda com Santiago, o ruído causado pela violência da linguagem insiste na contradição. Algo próprio da arte latino-americana – que Chico Buarque maneja como ninguém – é a exposição de uma realidade incômoda na qual a voz dos desvalidos não pode ser ignorada. Chico viceja um discurso poético que abriga os excluídos, ferindo qualquer presente que se quer “normal”, “normativo” ou “higiênico”.

Junto à convivência entre o hegemônico e o contraditório, vem a proposta utópica de um tempo-espaço radicalmente outro. Adélia Bezerra de Meneses, estudiosa da poética de Chico, afirma que os personagens da música “O que será (À flor da terra)”, como os delirantes, os embriagados e as meretrizes, “não se deixam cercear pela razão e habitam o mundo da fantasia”. Nesse caso, a suspensão da razão e a fantasia não projetam o caos como fim. Antes, querem dialogar com os desejos mais loucos. É na partilha dos sujeitos desejantes que se constrói um terreno em comum.

A utopia política adentra a construção de um espaço comunal, fruto do desejo entre os sujeitos. A fim de habitá-lo, os sujeitos se despem das máscaras sociais e enfrentam a sua alteridade radical. Opondo-se violentamente e nus, um roça no outro, gerando uma faísca mais perigosa do que uma música panfletária. É desse material que se faz boa parte da obra de Chico Buarque.

Se restam dúvidas sobre o êxito dos indomáveis, em “O que será (À flor da terra)”, Chico dá conta delas na terceira estrofe da canção. Como analisa Marcos Napolitano em um artigo na revista História (São Paulo) de 2003, sabendo que para a MPB o “amanhã” configurava-se como um mito iminente, a música rompe com qualquer tipo de ordem e gera um lugar novo tão fantástico que, mesmo o julgando como o inferno, o Padre Eterno vai até lá abençoar.

Insistem as perguntas: o que seria combinado no breu das tocas? O que andaria nas bocas? O que seria sussurrado e gritado, ao mesmo tempo? Napolitano aventa a possibilidade de ser a revolução. Voltemos, assim, a Silviano Santiago, que nos anos 70 apontava para a crise do pensamento revolucionário. Ele denunciava que num contexto cheio de contradições sociais, a luta de classes não explicava uma realidade na qual os signos da diferença irrompiam o tempo todo para desestabilizar as ideias homogêneas do que seriam as classes.

<><> À flor da pele

Darei continuidade, pensando no erotismo de ambas as versões de “O que será?”. Afinal, como já dito, Chico instiga o desejo como o modo de formar partilha entre o sujeito e o outro. Dessa forma, amor e política andam lado a lado na corda bamba, desafiando os limites da arte e da identidade. Arrisco dizer que são esses os índices cuja invocação é profícua para a força utópica; a força revolucionária.

Em “O que será (À flor da pele)”, o eu-lírico narra a si e o foco não está mais numa entidade terceira; alheia. Questiona-se o que o bole por dentro, o que está na própria pele e na própria face.

Vamos utilizar essa noção para meditar um pouco sobre como Chico se coloca na letra, notando que ele emprega um alter ego visto sob a ótica de Alexandre Nodari em A literatura como antropologia especulativa de 2024. O livro analisa as proximidades entre a antropologia e a literatura, concluindo que, resguardadas as distâncias entre os dois campos, a observação do outro requer que o sujeito se torne o que difere de si.

Ou seja, ser sujeito é a possibilidade de transitar entre observador e observado. Só é possível existir sujeito porque existe o outro; porque o sujeito está no mundo em relação aos outros que não são ele. Mas poderiam ser. 

Na segunda estrofe de “O que será (À flor da pele)”, o eu lírico engendra o outro porque diz “a gente”. Seríamos todos nós? Inclusive, os mutilados da outra versão? Ou seriam o amante e o(s) ser(es) amado(s)? De todo modo, o pacto entre “um” e “mais de um” se funda na dúvida, na aflição medonha e na perturbação.

Esse jogo poético é incômodo e violento, pois o sujeito é esgarçado na presença do diferente (Chico não tem pele e não tem corpo, como disse Miúcha). O encontro não é harmônico e, ainda que seja o amor, não será conciliado nem nos dez mandamentos.

Nesse sentido, gostaria de me debruçar sobre uma discussão que sempre ronda a obra de Chico. Um bom exemplo diz respeito à música “Tua cantiga”, de 2017. Quando a letra diz que o apaixonado “largaria mulher e filho” pelo objeto da paixão, muitas mulheres podem ter se ofendido com a promessa irresponsável – o que chamaríamos hoje de falta de responsabilidade emocional.

Sabe-se que não é Chico prometendo, mas acredito que precisamos dar um passo além e ver que a composição é a exploração do alter ego sobre a existência, a realidade e as suas dobras. Afinal, a poesia sacode verdade e mentira, suspendendo-as numa dimensão ambivalente; que é esta aqui, mas que também não é.

Portanto, cobrar que a música seja uma cartilha moral, espelhando-a na realidade, acaba por mortificar a capacidade utópica da arte. O processo artístico alimenta a vida imediata com a matéria recolhida dessa dimensão suspensa, onde se eleva o alter ego ao extremo. 

Vejamos mais uma música que sofre da mesma questão. “Com açúcar, com afeto” é um documento histórico que explica as escolhas artísticas de uma mulher, Nara Leão. Após se emancipar da bossa nova – onde era a “muda” e não a “musa”, como afirmou em entrevistas –, Nara se engaja na sociabilidade fértil da cultura de protesto. É ali que participa ativamente de um encontro promovido pela juventude comunista, o qual reunia diferentes classes sociais, rompendo barreiras culturais e rítmicas antes intransponíveis. O avanço da ditadura e da indústria cultural drena esse projeto, fazendo com que Nara se decepcione com as expectativas revolucionárias propagadas pela MPB. Então, ela mergulha num lirismo nostálgico e, junto a Chico Buarque, mapeia um Brasil arcaico, bucólico e com papéis de gênero inabalados. Não é um endosso, mas a criação de um imaginário que ironizava os estudantes brancos e sudestinos que insistiam em falar pela classe trabalhadora, apesar de estarem cada vez mais distante dela.

Ademais, Chico e Nara dilaceram as suas identidades, indo até o outro – a mulher submissa e recatada – para ser o outro. Não se trata de ser cômodo, mas de entender que o outro é um eu-possível, já que humano. Cabe ao ouvinte também ver o eu lírico como um eu-possível, fazendo da fruição estética um exercício de empatia radical – o que não é o mesmo que conciliar.

Nessa esteira, tornamo-nos o outro e vemos como ele se vê; vemos como ele nos vê. Está aí um movimento animado pela poesia e pelo erótico. No intuito de se fundir ao outro, o sexo vai transbordando o sujeito e o quebrando, fazendo-o exceder e caminhar junto ao que está para além de si. Talvez o contato com a alteridade radical incomode tanto e nos leve a rejeitá-la, por ser incorreta negando-a dentro da cartilha militante, pois é um contato também erótico; trata daquilo que reprimimos.

Finalizando estas palavras, quero remeter a outra música de Chico Buarque. “Mar e lua” versa sobre o amor entre duas mulheres que, banhando-se na água do mar, vão se rasgando e se transmutando em peixes, conchas e areia. Nodari traz a hipótese de que o termo grego ego teria o significado de algo insubstancial. Vou mais a fundo, com Nodari: se há alguma substância ela reside na própria possibilidade de ser outro.

Chico Buarque manifesta esses limites em toda a sua obra com mais de 60 anos registrados na história do Brasil. No cancioneiro de Chico, amor e política; erotismo e revolução são chaves para manter pulsando as veias do processo libertário. Pois, em Chico, até a ruptura mais conclamada encontra a diferença logo ao lado. E precisamos fazer alguma coisa com esse outro indesejado. Chico propõe que o escutemos com o ouvido de dentro – conceito de Tom Jobim que ele gosta de repetir –, não com o de fora. Que os seus 82 anos nos inspirem a ouvir com o ouvido de dentro; a ouvir, com o ouvido do outro, as múltiplas vozes que nos cortam neste país tão desigual.

 

Fonte: Por Taissa Maia, para Jacobin Brasil

 

Enfermagem: vitória contra o ensino mercantilizado

Em maio passado, o Decreto 12.456/2025, assinado pelo presidente Lula, causou polêmica ao definir diretrizes do ensino superior que regulavam as normas para oferta de cursos de graduação presencial, semipresencial e à distância.

O ponto crítico era a manutenção da oferta de cursos remotos em diversas formações profissionais. Algumas delas eram relativas à área da saúde, o que causou protestos de entidades de classe de especialidades onde a “semipresencialidade” segue permitida. Ao mesmo tempo, profissões tradicionais conseguiram manter a obrigatoriedade do ensino exclusivamente presencial.

Em consonância com a medida, o Ministério da Educação (MEC) publicou Resolução que confirma a obrigatoriedade do ensino 100% em Enfermagem, o que representou uma vitória das entidades da categoria e suas lideranças alinhadas à defesa do SUS.

“A adoção de Educação à Distância (EaD) comprometeria a qualidade da formação, fragilizaria a capacidade de resposta do SUS e colocaria em risco a vida da população. As consequências práticas seriam profissionais menos preparados, maior insegurança no cuidado e desvalorização social da profissão”, afirmou Jacinta Sena, presidente da Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), ao Outra Saúde.

As escolas de enfermagem terão até junho de 2028 para se adaptar à regra estabelecida. A medida é comemorada por diversos órgãos de classe da categoria. Seu processo de construção levou mais de uma década junto ao MEC e o Conselho Nacional de Educação, e enfrentou interesses empresariais que se expandiram no país no período.

Como demonstrado em matéria com representante do Conselho de Fisioterapia, a medida do governo ainda têm pontos críticos. A exigência de presencialidade total pareceu refletir a força política de entidades de classe historicamente mais assentadas, a exemplo da Medicina e do Direito.

“A posição do Ministério da Educação tem oscilado diante das pressões de mercado. Sabemos que há um forte lobby de grupos privados interessados em expandir o EàD em todas as áreas, visando ao lucro e não à qualidade”, analisou Jacinta Sena, professora e pesquisadora na UnB e Fiocruz.

Para ela, a decisão de proibir o ensino à distância deveria se estender a todas as profissões da saúde. “Lamentamos que nem todas as profissões da saúde tenham sido contempladas, o que mantém uma diferenciação injustificada”.

A pauta dialoga diretamente com a estrutura do SUS e dos conceitos lastreados na Reforma Sanitária, que versam sobre integralidade no cuidado e inserção territorial, ao contrário de um modelo centrado na clínica médica. Complementarmente, determina que conceitos relacionados aos diretos sociais e temas ambientais façam parte da formação.

“O cuidado exige empatia, escuta, trabalho em equipe e tomada de decisões em tempo real – competências que só podem ser desenvolvidas em ambientes presenciais, no contato direto com usuários e com a prática supervisionada”, defendeu a enfermeira sanitarista.

Como explica, não se trata de renegar um instrumental tecnológico contemporâneo, mas combater o que chama de “falsa democratização” da profissão através do Ensino à Distância. “Defendemos a integração de tecnologias educacionais de forma complementar, mas sempre com a centralidade no ensino presencial”, pontuou.

O Decreto define que ao menos 20% da carga de aprendizado deve se dar em serviços práticos de saúde, o que dimensiona a importância do contato humano no exercício da enfermagem. Para Jacinta, o SUS ganha em termos éticos e técnicos.

“Mais do que uma atualização normativa, trata-se da afirmação de um projeto ético, científico, social e político de formação, comprometido com o Sistema Único de Saúde (SUS), com a democracia, a defesa da vida e os direitos da população brasileira”, destacou.

>>>> Leia a entrevista:

•        O que pensa da Resolução CNE/CES nº 1/2026, que institui as novas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCNs), e atualiza a formação profissional da enfermagem?

A homologação das novas Diretrizes Curriculares Nacionais da Graduação em Enfermagem (DCNs/Enf) representa uma das mais importantes conquistas políticas da Enfermagem brasileira nas últimas décadas. Mais do que uma atualização normativa, trata-se da afirmação de um projeto ético, científico, social e político de formação, comprometido com o Sistema Único de Saúde (SUS), com a democracia, a defesa da vida e os direitos da população brasileira.

Essa conquista resulta de um longo processo coletivo, participativo e persistente, construído ao longo de mais de uma década pela Associação Brasileira de Enfermagem (ABEn), diretoras e diretores de Educação, docentes, estudantes, pesquisadoras(es), fóruns de escolas, entidades parceiras e representantes da Enfermagem em todo o país.

•        O que pensa do decreto do governo federal 12.456/2025, editado no ano passado, que limita parcialmente a permissão de ensino à distância em cursos de graduação de especialidades ligadas à saúde?

Consideramos que o Decreto nº 12.456/2025 representa um avanço, pois reconhece a inadequação do Ensino à Distância (para a formação em áreas que lidam diretamente com a vida, como é o caso da Enfermagem. No entanto, entendemos que a decisão ainda não é suficiente, uma vez que flexibiliza a formação em outras profissões da saúde.

A posição da ABEn é clara: todos os cursos de graduação em saúde devem ter formato presencial, pois a qualidade da educação/formação impacta diretamente na segurança do cuidado em saúde oferecido à população.

•        Para a medicina, por exemplo, foi inteiramente vedado o EàD. Considera que a decisão atendeu de forma diferenciada as especialidades em questão, de acordo com a força política e social de suas entidades de classe?

Sim, é possível observar que a decisão do governo foi influenciada pela força política de determinadas categorias profissionais. A medicina, pela sua tradição histórica de influência política, conseguiu assegurar a proibição integral do EàD. Mas, também, passa por questões culturais e socialmente construídas. No caso do campo da enfermagem, há sinais de que a sociedade compreende a importância da essencialidade do cuidado científico da enfermagem como foi fartamente demonstrado durante a pandemia covid-19.

Outras profissões da saúde também vinham denunciando os riscos da modalidade a distância, e somente após intensa mobilização coletiva foi possível incluir a Enfermagem na proibição. No entanto, lamentamos que nem todas as 14 profissões da saúde tenham sido contempladas, o que mantém uma diferenciação injustificada.

•        O que pensa de EàD para formar profissionais de saúde, em especial na Enfermagem? Quais seriam as consequências práticas?

O EàD não é adequado para a formação em saúde, especialmente em Enfermagem. O cuidado exige empatia, escuta, trabalho em equipe e tomada de decisões em tempo real – competências que só podem ser desenvolvidas em ambientes presenciais, no contato direto com usuários e com a prática supervisionada.

A adoção de EàD comprometeria a qualidade da formação, fragilizaria a capacidade de resposta do SUS e colocaria em risco a vida da população. As consequências práticas seriam profissionais menos preparados, maior insegurança no cuidado e desvalorização social da profissão.

Ademais, considero que a presencialidade do ensino no campo de Enfermagem se configura como imperativo ético e direito humano da população, a fim de ter acesso a cuidado de saúde qualificado durante 24 horas.

•        Como essas decisões relativas à formação profissional da área incidem no SUS?

A defesa do SUS e da formação presencial desde o início representam alguns princípios que tornaram-se inegociáveis para a Enfermagem brasileira. O principal deles foi a defesa do SUS como eixo estruturante da formação. As novas diretrizes foram construídas a partir da compreensão de que a formação em Enfermagem deve responder às necessidades reais de saúde da população e fortalecer o sistema público de saúde.

Outro ponto central foi a defesa da presencialidade. A ABEn sustentou, em todos os espaços de debate, que a formação em Enfermagem exige intensa vivência prática, supervisão qualificada e integração ensino-serviço-comunidade.

A defesa da presencialidade sempre foi compreendida como um imperativo ético em defesa da vida. Ao longo dos anos, essa posição enfrentou fortes pressões políticas e econômicas associadas à expansão do ensino mercantilizado e da EàD. Ainda assim, a ABEn manteve firme a defesa de uma formação crítica, ética, humanista e socialmente comprometida.

•        O que pensa da posição do Ministério da Educação frente à EàD em linhas gerais? O governo cede a interesses capitalistas do setor e deixa a qualidade do ensino em segundo plano?

A posição do Ministério da Educação tem oscilado diante das pressões de mercado. Sabemos que há um forte lobby de grupos privados interessados em expandir o EàD em todas as áreas, visando ao lucro e não à qualidade. Nossa preocupação é que, em nome de uma falsa democratização do acesso, esteja sendo priorizado o interesse econômico de conglomerados educacionais em detrimento da qualidade da formação e da segurança do cuidado à saúde da população. A ABEn defende que a formação em saúde seja tratada como uma política de Estado, orientada pelo interesse público e pelo fortalecimento do SUS.

•        Acredita que é cabível usar de tecnologias que permitem ensino à distância em alguma medida?

Sim, é cabível e necessário utilizar tecnologias digitais como ferramentas complementares ao ensino presencial. Recursos virtuais podem enriquecer o processo de aprendizagem, ampliar o acesso a conteúdos e facilitar a comunicação. No entanto, jamais devem substituir o núcleo presencial da formação em saúde.

A Enfermagem, por exemplo, exige que mais de 50% da carga horária seja prática, em campo, sob supervisão. Portanto, defendemos a integração de tecnologias educacionais de forma complementar, mas sempre com a centralidade no ensino presencial.

 

Fonte: Por Jacinta Sena em entrevista a Gabriel Brito, em Outra Saúde

 

Trump fez guerra, perdeu controle sobre o Irã e voltou à diplomacia de Lula em 2010

Mais de uma década e meia antes de Donald Trump recorrer à guerra contra o Irã para forçar uma negociação, Luiz Inácio Lula da Silva tentou resolver a mesma crise pela diplomacia.

Trump bombardeou o Irã, ampliou a instabilidade regional, gastou bilhões dos secos cofres estadunidenses, colocou o mundo diante de uma grave crise energética e, ao fim, voltou à mesa com o que Lula já havia defendido quinze anos antes.

Em 2010, o Brasil apostou que a crise nuclear iraniana poderia ser contida por negociação, reconhecimento político e supervisão internacional. Washington recusou esse caminho. Preferiu sanções, sabotagem diplomática e, depois, força militar.

O memorando assinado nesta quinta-feira (18) entre Estados Unidos e Irã escancara essa ironia histórica: depois de destruir o acordo que limitava o programa nuclear iraniano, Trump retorna à negociação em condições piores, obrigado a reconhecer Teerã como interlocutor legítimo, aceitar uma janela de 60 dias e tratar de alívio de sanções, desbloqueio de ativos e supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

<><> 2010: Lula aposta na diplomacia e Washington bloqueia

Em 2009, a proposta apresentada pela AIEA, com apoio dos Estados Unidos, previa que o Irã enviasse urânio pouco enriquecido para fora do país e recebesse, em troca, combustível nuclear para o Reator de Pesquisa de Teerã, usado para fins médicos. A ideia era criar uma medida de confiança sob supervisão internacional.

Em maio de 2010, Lula, Recep Tayyip Erdoğan e Mahmoud Ahmadinejad anunciaram a Declaração de Teerã. O Irã aceitava depositar 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido na Turquia, mantendo a propriedade do material, com possibilidade de monitoramento pela AIEA.

A leitura brasileira foi de que Brasília havia conseguido, pela diplomacia, aquilo que as grandes potências diziam buscar. Afinal, meses antes, o presidente Barack Obama havia enviado uma carta a Lula sinalizando que a transferência de cerca de 1.200 quilos de urânio pouco enriquecido para fora do Irã poderia representar um passo importante para construir confiança.

Mas os EUA rejeitaram a iniciativa.

A justificativa oficial era que o programa nuclear iraniano havia avançado desde 2009, que o estoque de urânio do Irã já era maior e que a Declaração de Teerã não resolvia a continuidade do enriquecimento no país. Poucas semanas depois, Washington impulsionou uma nova rodada de sanções no Conselho de Segurança da ONU.

A controvérsia nasce justamente aí. Para a diplomacia brasileira, a rejeição não foi apenas técnica. O acordo colocava Brasil e Turquia, duas potências médias do Sul Global, como mediadoras bem-sucedidas de uma das crises mais sensíveis da ordem internacional. Era um espaço que Washington e seus aliados não estavam dispostos a ceder.

A rejeição posterior alimentou a percepção de que o problema não estava apenas no conteúdo do acordo, mas na resistência dos Estados Unidos a uma solução conduzida fora de sua tutela.

<><> 2015: o acordo que Washington aceitava

Cinco anos depois, surgiu o Plano de Ação Conjunto Global, o JCPOA, assinado por Irã, Estados Unidos, Rússia, China, França, Reino Unido, Alemanha e União Europeia.

Diferentemente da proposta defendida por Lula, o novo acordo impunha restrições muito mais severas ao programa nuclear iraniano. Teerã reduziu drasticamente seus estoques de urânio enriquecido, limitou o enriquecimento a 3,67%, diminuiu o número de centrífugas em operação e aceitou um dos regimes de inspeção mais rigorosos já estabelecidos pela AIEA.

Em troca, recebeu alívio gradual das sanções econômicas.

Para Washington, aquele era o modelo aceitável: o Irã continuava existindo como potência regional, mas com seu programa nuclear rigidamente controlado.

Para o então chanceler brasileiro, Celso Amorim, a Declaração de Teerã não resolvia sozinha todo o contencioso nuclear iraniano, mas abria uma oportunidade concreta de construção de confiança e de retomada de negociações mais amplas. 

Em artigo publicado com o chanceler turco Ahmet Davutoğlu poucos dias após o acordo, Amorim defendeu que não havia solução viável fora da diplomacia e advertiu que desperdiçar aquela chance poderia ser lamentado por gerações. Anos depois, afirmou que a rejeição da iniciativa Brasil-Turquia representou “três anos perdidos”.

A trajetória posterior reforça essa leitura. Em 2015, os Estados Unidos e seus aliados acabaram assinando um acordo baseado em princípios que já estavam presentes, ainda que de forma mais limitada, na proposta de 2010: negociação direta, supervisão internacional, reconhecimento do direito iraniano ao uso pacífico da energia nuclear e troca entre compromissos nucleares e alívio de sanções.

<><> 2018: Trump destrói o acordo e perde a aposta

A virada veio em 2018.

Trump retirou unilateralmente os Estados Unidos do JCPOA e lançou a política de “pressão máxima” contra o Irã. A ruptura foi apresentada pela Casa Branca como correção estratégica.

O governo dizia que o acordo tinha quatro falhas centrais: permitia que várias restrições expirassem com o tempo, não limitava o programa de mísseis balísticos iraniano, ignorava a atuação regional de Teerã no Líbano, na Síria, no Iraque e no Iêmen, e liberava recursos econômicos que poderiam fortalecer o Estado iraniano.

Para Trump, o acordo “enriquecia” o Irã e apenas adiava sua capacidade nuclear, mas a justificativa técnica escondia uma decisão política.

O JCPOA era uma das maiores marcas diplomáticas de Barack Obama. Trump chegou à Casa Branca prometendo desmontar o legado democrata: abandonou o Acordo de Paris, atacou o Obamacare e transformou o acordo nuclear com o Irã em símbolo daquilo que chamava de fraqueza estadunidense. A política externa servindo à vingança doméstica.

Havia ainda a pressão de Israel e das monarquias do Golfo. Benjamin Netanyahu sempre tratou o JCPOA como ameaça, porque o acordo não eliminava definitivamente a capacidade nuclear iraniana; apenas a limitava por um período.

Já a Arábia Saudita via o alívio das sanções como risco geopolítico. Um Irã menos estrangulado economicamente teria mais força para disputar influência regional.

Foi nesse ambiente que nasceu a doutrina da “pressão máxima”. Trump apostou que sanções devastadoras, isolamento financeiro e ameaça militar obrigariam Teerã a aceitar um acordo mais amplo, incluindo mísseis, política regional, aliados como Hezbollah e os houthis, além de limitações nucleares permanentes.

O resultado foi o oposto.

Quando Trump abandonou o JCPOA, o Irã ainda operava dentro dos principais limites do acordo. O pacto restringia o enriquecimento a 3,67%, impunha teto de 300 quilos ao estoque de urânio enriquecido e reduzia drasticamente o número de centrífugas. Depois da saída estadunidense, esse sistema começou a desmoronar: o enriquecimento aumentou, o estoque cresceu e o risco de guerra se ampliou.

Em 2018, o Irã estava submetido a limites verificáveis. Em 2026, depois da “pressão máxima” e da guerra, Washington negocia com um Irã que acumulou mais conhecimento, mais estoque e mais capacidade nuclear.

Esse é o paradoxo que expõe a derrota estratégica de Trump: os Estados Unidos abandonaram um acordo que limitava o programa nuclear iraniano para forçar um acordo melhor, mas terminaram diante de um Irã mais avançado e mais capaz de resistir.

<><> 2026: a guerra leva Trump de volta à mesa

É nesse contexto que surge o acordo de 2026.

Depois de anos de sanções, ameaças, confrontos indiretos e nova escalada militar envolvendo o Estreito de Ormuz, Washington voltou à mesa, mas em uma posição muito diferente daquela de 2015.

O memorando negociado agora não reproduz as duras restrições do JCPOA. Em vez de impor limites detalhados sobre estoques, centrífugas e níveis de enriquecimento, estabelece mecanismos transitórios, supervisão internacional e novas negociações para resolver as questões mais sensíveis.

Ao mesmo tempo, abre caminho para alívio de sanções, desbloqueio de ativos e retomada das exportações iranianas de petróleo, além de um fundo de reconstrução e desenvolvimento estimado em US$ 300 bilhões após danos causados pelos ataques israelo-estadunidenses.

Em outras palavras: Trump iniciou uma guerra para alcançar um resultado inferior ao acordo que os Estados Unidos já possuíam em 2015.

O saldo é ainda mais duro porque a guerra não entregou o objetivo que a justificou. Se o pretexto era deter o programa nuclear iraniano, o memorando de 2026 não impôs o desmonte do programa, não estabeleceu enriquecimento zero e não restaurou os controles rígidos do JCPOA.

Ao contrário. Empurrou as questões mais sensíveis para novas negociações e reconheceu, na prática, que qualquer solução dependerá de garantias, supervisão internacional e concessões econômicas a Teerã.

<><> A derrota de Trump e a razão histórica de Lula

A maior ironia é que o desfecho de 2026 se aproxima mais da lógica defendida por Lula em 2010 do que da coerção perseguida por Washington durante mais de uma década e meia.

A Declaração de Teerã partia do princípio de que o Irã não seria derrotado nem humilhado, mas integrado a uma solução negociada.

Os Estados Unidos recusaram esse caminho.

Depois de sanções, isolamento, assassinatos seletivos, crises energéticas e guerra aberta, Washington volta a reconhecer uma realidade que Lula já enxergava: o Irã não pode ser submetido pela força. Trump sai derrotado, não porque aceitou negociar, mas porque precisou incendiar o tabuleiro para retornar à diplomacia que havia desprezado.

¨      Do Afeganistão à Venezuela, bombas dos EUA caíram sobre 10 países no século 21

Desde o início deste século, cinco presidentes dos EUA ocuparam a Casa Branca: Bill Clinton, George W. Bush, Barack Obama, Donald Trump, em seu primeiro e atual mandato, e Joseph Biden. Em cada uma dessas presidências, com governos alternados entre democratas e republicanos, a agressão armada contra nações soberanas tem sido uma constante. 

Se considerarmos o período de 2000 até o presente, Clinton pareceria estar em “melhor situação”. No entanto, levando em conta que seu governo começou em 1993, seu histórico não está isento de bombardeios na Somália (1993), Bósnia (1994 e 1995), Sudão (1998), Afeganistão (1998), Iraque — com a operação “Raposa do Deserto” (1998) —, além do que restou da Iugoslávia, em 1999. 

George W. Bush, por sua vez, também acumulou uma longa lista de agressões militares, muitas delas prolongadas ao longo de todo o seu mandato presidencial. 

Afeganistão e Iraque sofreram agressões e ocupações contínuas, enquanto o Paquistão passou a ser atacado a partir de 2004. O Iêmen foi bombardeado em 2002 e a Somália, entre 2007 e 2008. 

Sob o governo Barack Obama, o cerco aos territórios afegão, iraquiano e paquistanês continuou. A Líbia foi acrescentada à lista de alvos de bombardeios e ataques com drones a partir de 2011, e a Síria, a partir de 2014. Em ambos os casos, quando a tão planejada “mudança de regime” ocorreu, a bandeira nacional foi alterada. 

Da mesma forma, Iêmen e Somália passaram a ser bombardeados não mais de forma isolada, mas sistemática. 

Durante o primeiro mandato de Donald Trump, a partir de 2017, as operações militares dos Estados Unidos continuaram nos países mencionados anteriormente, embora o Paquistão tenha deixado de ser bombardeado em 2018 e a Líbia, em 2019. 

Biden manteve intacta a orientação militar, com a “medalha” de ter retirado as tropas do Afeganistão em 2022, deixando o Talibã no poder. 

O retorno de Donald Trump à Casa Branca, em 2025, foi marcado por um aumento nas áreas de conflito armado com presença e protagonismo dos Estados Unidos, com agressões militares contra a Venezuela, o Irã e bombardeios em solo nigeriano. 

Os territórios atacados militarmente por Israel, seguindo a mesma lógica de poder e influência de Washington, e com seu apoio político, logístico e militar, também não podem ficar fora da contagem: Palestina, Líbano, Catar… 

Os dados apresentados até aqui mostram que, embora cada administração estadunidense tenha suas particularidades, a política externa das canhoneiras — hoje, os porta-aviões — não é uma singularidade pessoal ou partidária, mas uma linha estratégica do Estado profundo, fortemente influenciada por atores em quem ninguém vota, nem dentro nem fora dos Estados Unidos, de empresas de armamento a empresas de tecnologia, passando por petroleiras. 

Nenhuma das agressões militares mencionadas foi um incidente isolado. Elas sempre foram, e continuam sendo, precedidas por intensas campanhas midiáticas, bem como por bloqueios econômicos e políticos. 

Em todos esses casos, a narrativa dos direitos humanos e do combate ao terrorismo foi invocada de formas mais ou menos grosseiras, inclusive a suposta guerra contra as drogas. Em nenhum dos países atacados até o momento há menos drogas, menos “terrorismo” ou mais direitos. Abordaremos esse assunto com mais detalhes em futuras publicações. 

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/Granma