quinta-feira, 18 de junho de 2026

Entre farpas e diplomacia: o saldo de Lula no G7 com Trump, UE e Ucrânia

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou nesta quarta-feira (17/06) sua décima participação em uma cúpula do G7, o fórum que reúne sete das maiores economias industrializadas do planeta e do qual o Brasil participa como convidado ao lado de outros países em desenvolvimento.

O evento deste ano foi realizado em território francês, em Évian-les-Bains. Durante sua passagem pela pequena cidade localizada às margens do Lago de Genebra, Lula se reuniu em privado com as lideranças de Japão, Egito, Ucrânia, França e União Europeia (UE).

O presidente brasileiro também teve reuniões privadas com o presidente da Confederação Suíça, Guy Parmelin, e com o secretário-geral da Interpol, o brasileiro Valdecy Urquiza.

Nos corredores e reuniões ampliadas do evento, Lula também cruzou com todos os líderes participantes, inclusive com Donald Trump.

A expectativa para a interação com o presidente americano era grande com o tensionamento das relações diante da possibilidade da aplicação de novas tarifas e da classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas.

Ambos disseram ter conversado, mas após o término do fórum, durante coletivas de imprensa separadas, trocaram farpas, com Trump dizendo que o Brasil se tornou "perigoso do ponto de vista político" e Lula endossando sua visão de que o contraparte age como um "imperador".

Lula respondeu dizendo que é direito de Trump gostar de Bolsonaro, mas que ele não pode interferir nas eleições no Brasil.

Na França, o Brasil ainda encerrou sua participação no fórum endossando apenas três das oito declarações publicadas pelos países membros do G7 (Canadá, Estados Unidos, Reino Unido, França, Itália, Alemanha e Japão).

de dentro do próprio governo brasileiro, esse saldo diplomático evidencia distância entre Brasília e o grupo das sete principais economias do mundo.

<><> Do 'bom trabalho' à defesa da soberania

Em uma de suas primeiras interações registradas durante a reunião de cúpula de três dias, Trump e Lula se cruzaram nos corredores do hotel que hospeda a cúpula.

Em um vídeo obtido pelo portal ICL Notícias, o americano, ao ver o brasileiro, aponta em sua direção e caminha para saudá-lo. Trump então dá um tapinha nas costas de Lula e diz, em inglês: 'Tudo bem? Bom trabalho'.

O petista, que havia acabado de fazer um discurso sobre os desequilíbrios da economia mundial, responde olhando em direção a Trump.

No dia anterior, na sessão de fotos oficial, Lula e Trump apareceram próximos, mas não houve cumprimento, conversa pública ou interação registrada entre os dois presidentes.

Ao final da cúpula, porém, as divergências políticas entre os dois líderes ficaram evidentes, com troca de acusações durante coletivas de imprensa simultâneas.

Em Évian-les-Bains, Trump foi questionado sobre sua relação com o brasileiro e respondeu dizendo que o Brasil se tornou "perigoso do ponto de vista político" e citando de forma atrapalhada a condenação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro na terça-feira (16/06), dizendo se tratar da prisão de candidato para as eleições.

Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo STF por coação no curso do processo, um crime que ocorre quando alguém tenta intimidar, pressionar ou interferir em investigações ou ações judiciais.

Ele foi acusado de articular nos Estados Unidos retaliações do governo Trump contra o Brasil e autoridades brasileiras para tentar impedir o julgamento do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-SP).

Lula teve a chance de rebater enquanto respondia a perguntas de jornalistas em uma coletiva de imprensa realizada em Genebra, que fica a cerca de 45 quilômetros da cidade francesa onde acontecia a cúpula.

"Eu só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania. Só espero isso", disse o petista.

"Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema — é um problema dele afinal de contas, gosto não se discute. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil".

O Palácio do Planalto afirmou, porém, que continua negociando com Washington após o governo americano anunciar a possibilidade de aplicar uma taxação extra de 25% sobre parte das importações brasileiras.

Segundo Lula, sua equipe sequer chegou a pedir uma reunião bilateral com Donald Trump, pois os assuntos que precisam ser tratados já estão sendo discutidos por diplomatas e técnicos nos bastidores.

"A hora que terminar a negociação, se não der nada, eu não tenho nenhum problema de pegar o telefone e ligar para o Trump outra vez e marcar outra conversa", disse o presidente brasileiro.

<><> Socorro à Ucrânia?

Também no último dia de cúpula, antes de viajar a Genebra para seu retorno ao Brasil, Lula se reuniu a portas fechadas com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky.

Segundo Lula, este foi o melhor encontro que já teve com o ucraniano e, pela primeira vez, o sentiu "com disposição de encontrar solução" para o atual conflito com a Ucrânia.

"Pela primeira vez, senti Zelensky com disposição de encontrar solução. Ajudarei no que puder", destacou.

O presidente brasileiro afirmou ainda que reforçou para o ucraniano a importância dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU agirem de forma mais efetiva para acabar com a guerra. "São eles que têm o poder de veto. São eles que podem tomar a decisão para guerra ou para paz", afirmou.

Lula disse ainda que assumiu o compromisso de ligar para todos os cinco membros (China, Rússia, EUA, França e Reino Unido) para reforçar a necessidade de eles tomarem as rédeas do problema.

Em suas redes sociais, Zelensky disse que teve "uma boa reunião" com Lula e que ambos concordaram em fazer "novos contatos" sobre o tema.

<><> Um apelo à UE

Outro ponto alto da participação do Brasil no fórum foi a reunião bilateral entre Lula e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu.

Pouco mais de uma semana antes do início do G7, a UE oficializou sua decisão de proibir a importação de carnes, tripas, peixe e mel produzidos em território brasileiro, com um veto que deve entrar em vigor a partir do próximo dia 3 de setembro.

Segundo a Comissão Europeia, o Brasil não conseguiu comprovar que seus produtores atendem a algumas das exigências sanitárias europeias.

O tema foi o foco principal da reunião fechada entre os líderes.

O veto não foi suspenso após as conversas, mas foi estabelecido que um acompanhamento mais próximo das negociações sobre padrões fitossanitários seria implementado a partir de agora.

O entendimento é de que uma relação apenas baseada no diálogo entre funcionários técnicos da UE e do governo brasileiro poderia estar dificultando o andamento das negociações e, por isso, uma visão mais "política" seria necessária para acelerar o processo.

Esse mesmo acompanhamento também será implementado nas tratativas sobre a exportação de produtos siderúrgicos.

Em abril deste ano, o bloco chegou a um acordo político para elevar de 25% para 50% as tarifas sobre importações de aço acima de cotas e reduzir significativamente os volumes isentos, em uma tentativa de proteger o setor diante da dominância chinesa.

Em suas redes sociais, Von der Leyen disse ainda que a Europa e o Brasil "olham para o mundo com os mesmos olhos" e que o acordo entre União Europeia e Mercosul, que entrou em vigor de forma provisória em maio, "é apenas o começo" da parceria.

<><> Um estranho no ninho?

Ao todo, os líderes do G7 adotaram nove declarações durante o fórum. Dessas, oito poderiam ser endossadas pelos países parceiros convidados, que é o caso do Brasil.

O país, porém, concordou apenas com três.

Os textos assinados pelo país tratavam do combate ao câncer, da garantia de um espaço digital seguro para crianças e adolescentes e da luta contra o tráfico de drogas.

As demais declarações discutiam soluções para os desequilíbrios macroeconômicos mundiais, o combate ao ebola, minerais críticos, parcerias internacionais para o desenvolvimento e combate ao contrabando de migrantes.

Segundo uma fonte ligada à diplomacia brasileira, esse cenário é reflexo da dissonância entre o Brasil e as potências do G7 em muitos tópicos.

O texto que trata de mineração, por exemplo, foi classificado por um interlocutor do governo como de "visão extrativista" e "anti-China".

No caso específico da edição de 2026 do fórum, o governo brasileiro admitiu que muito do que foi discutido ou assinado foi moldado para que os Estados Unidos de Donald Trump pudessem participar do evento sem muitos desconfortos.

Na edição passada, sediada pelo Canadá, o presidente americano deixou a cúpula mais cedo, causando desconforto entre os demais participantes.

"Está ficando quase que um samba de uma nota só. Quando os convidados chegam à reunião, o G7 já aprovou seus documentos", afirmou Lula em entrevista à imprensa em Genebra.

O brasileiro também mencionou as críticas dos Estados Unidos e da União Europeia à China e disse que o Brasil não pretende entrar na briga dos dois com os chineses.

Ele também defendeu a parceria dos países do Sul Global com o gigante asiático, dizendo que Pequim tem investido muito mais em desenvolvimento, e com taxas mais justas, do que os países do ocidente.

"Não podem se queixar que a China está ocupando espaço se o espaço estava vazio", disse.

<><> Negociações com o Japão

Às margens da cúpula do G7, Lula também se reuniu com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi. Após o encontro, o Mercosul e o Japão anunciaram o lançamento formal das negociações de um acordo de parceria econômica.

Segundo a nota oficial, a inauguração das negociações ocorrerá na 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul e Estados Associados, prevista para o final de junho em Assunção, no Paraguai.

Os dois lados "trocaram informações relativas a áreas de interesse e sensibilidades mútuas", segundo o documento, e expressaram "satisfação com o progresso alcançado".

A iniciativa reflete uma estratégia de diversificação comercial do Japão. Em maio, Tóquio sinalizou a intenção de abrir negociações com o Mercosul ainda neste verão, diante das barreiras comerciais adotadas por Donald Trump e das restrições impostas pela China às exportações de terras raras.

Nesse contexto, o Mercosul desponta como um parceiro relevante: trata-se de um dos poucos grandes mercados globais com os quais o Japão ainda não possui um acordo de livre comércio.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Ricardo Amaral: Lula no G7 fala pelos excluídos do mundo e reage à ofensiva de Trump e Bolsonaro

O presidente Lula não precisou pronunciar o nome de Donald Trump para responder à mais nova ofensiva do governo dos Estados Unidos contra o Brasil e criticar abertamente o unilateralismo da política externa dos Estados Unidos na reunião do G7, na manhã desta terça. Lula estava lá, na sofisticada estância francesa de Evian, no papel de consciência crítica do planeta, fazendo a voz dos excluídos. Era o convidado talvez inconveniente na reunião dos países ricos que orbitam em torno dos interesses econômicos e geopolíticos dos EUA: Reino Unido, França, Alemanha, Itália, Canadá e Japão, e que hoje enfrentam as consequências de sua prolongada submissão.

 Num tom acima de anteriores participações em palcos globais, Lula foi contundente na crítica ao neoliberalismo e à financeirização da economia global. Afirmou que o primeiro “agravou a desigualdade econômica e a crise política que hoje assolam as democracias” e que a cada vez maior concentração de riquezas “decorre de décadas de políticas pró-bilionários”. No momento em que apenas um trilionário tem mais dinheiro do que toda a soma de recursos dos 46% mais pobres, Lula denunciou “um sistema que produz riqueza em abundância, mas que distribui oportunidades de forma profundamente assimétrica.”

 É no mínimo improvável que aquele conjunto de chefes de estado de países capitalistas concedam ao discurso de Lula algo além de um silêncio constrangido ou palavras de aprovação envergonhada e inútil. O próprio Lula iniciou seu discurso lembrando as inúmeras reuniões desse tipo de que participou e não levaram a nenhum resultado prático. Os debates que ele propôs teriam mais consequência num encontro de países do sul global, com participação da China e da Rússia, da Índia e de países asiáticos, da África do Sul e outros do continente africano.

 Mas Lula não deixou de incluir, ao longo de seu discurso no G7, recados diretos à ingerência do governo Trump em assuntos que tocam mais imediatamente ao Brasil. A primeira foi a menção ao unilateralismo e ao protecionismo, que chamou de “respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”. Nada mais unilateral e protecionista que as tarifas extraordinárias e outras sanções previstas na mal afamada Seção 301 da legislação de comércio externo estadunidense, que Trump vem de impor ao Brasil. Da mesma forma, veio a defesa do respeito à soberania dos países na cooperação para o combate ao crime e ao narcotráfico.

 Não menos importante foi a abordagem de Lula aos temas da inteligência digital e da exploração de terras raras, apresentada no final do discurso: “As transições energética e digital não podem reproduzir padrões históricos que concentram benefícios econômicos em poucos atores. Os países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia, por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades, conforme suas necessidades nacionais.”

 Lula nem precisou falar do Pix para reagir ao conjunto de ofensas dos EUA à soberania brasileira, especificamente, num discurso de abrangência global. E para o público interno, ficou ainda mais claro o recado: as eleições de outubro serão uma escolha entre Lula, o candidato do Brasil, e Flávio Bolsonaro, o candidato dos Estados Unidos da América e da curriola global da extrema-direita.

¨      No G7 e na presença de Trump, Lula critica "protecionismo e unilateralismo"

Em discurso no G7 e na presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o presidente Lula (PT) criticou nesta terça-feira (16), em Évian, na França, o avanço do “protecionismo e unilateralismo” como respostas à crise internacional, ao afirmar que essas saídas “ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”.

A declaração foi feita durante a reunião ampliada do G7, no segmento dedicado ao tema “Firmar novas parcerias e reconstruir a solidariedade internacional”. Lula agradeceu ao presidente Emmanuel Macron pelo convite e lembrou que, em 2003, uma de suas primeiras agendas internacionais como presidente do Brasil foi justamente a participação na Cúpula do então G8, também realizada em Évian.

Lula afirmou que, desde então, participou de outras nove cúpulas do G8 ou do G7, sempre em meio a crises e desafios com impacto sobre milhões de pessoas em diferentes regiões do mundo. Segundo ele, apesar da repetição desses encontros, a comunidade internacional não conseguiu construir respostas coletivas e duradouras.

O presidente criticou o que chamou de dogmas baseados na desregulamentação dos mercados, no Estado mínimo e na austeridade fiscal como objetivos em si mesmos. Para Lula, o neoliberalismo agravou a desigualdade econômica e a crise política que atingem as democracias. “Agora, o protecionismo e o unilateralismo ressurgem como respostas falaciosas para a complexidade dos nossos problemas”, afirmou.

Lula também destacou que a distância entre a prosperidade de Évian e a realidade vivida por bilhões de pessoas no Sul Global não está diminuindo. Segundo ele, nos últimos anos, a desigualdade entre países ricos e pobres aumentou, enquanto a concentração extrema de riqueza reflete décadas de políticas favoráveis aos bilionários.

O presidente afirmou que o mundo caminha na contramão da Agenda 2030. De acordo com ele, faltam US$ 4 trilhões por ano para cumprir os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, enquanto a COP-30 voltou a evidenciar a distância entre os compromissos assumidos pelos países desenvolvidos e os recursos efetivamente mobilizados.

Para Lula, a implementação do Acordo de Paris exige a ampliação do financiamento climático para, pelo menos, US$ 1,3 trilhão. Ele disse ainda que, enquanto os desafios globais se multiplicam, a solidariedade internacional encolhe.

O presidente citou a queda histórica de 23% na Ajuda Oficial ao Desenvolvimento no ano passado, além da perda de cerca de 40% do financiamento do Programa Mundial de Alimentos. Também mencionou reduções superiores a 20% nos orçamentos da Organização Mundial da Saúde e do UNICEF.

“Não são cifras abstratas”, disse Lula. Ele afirmou que esses cortes afetam diretamente o cotidiano de pessoas em países em desenvolvimento, com impacto sobre o acesso à alimentação, à educação, à proteção de mulheres e à prevenção de doenças em comunidades vulneráveis.

Lula também criticou o peso das guerras e conflitos na agenda internacional. Segundo ele, os gastos militares anuais chegam a quase US$ 3 trilhões, enquanto o mundo em desenvolvimento transfere US$ 1,4 trilhão por ano em serviço da dívida, valor sete vezes superior à ajuda recebida dos países ricos.

O presidente defendeu a correção das desigualdades de um sistema que produz riqueza em abundância, mas distribui oportunidades de forma assimétrica. Para ele, a Conferência de Sevilha sobre Financiamento para o Desenvolvimento apontou uma direção adequada, embora a Ajuda Oficial ao Desenvolvimento continue sendo responsabilidade primordial dos Estados.

“Precisamos de um sistema financeiro no qual os países não sejam obrigados a escolher entre pagar credores e alimentar suas crianças”, afirmou.

Lula disse que o problema central não é a escassez, mas a falta de implementação e de vontade política. Ele citou mecanismos como a troca de dívida por ação climática ou por investimentos sociais como instrumentos capazes de ampliar o espaço fiscal dos países mais vulneráveis.

O presidente também apresentou iniciativas defendidas pelo Brasil. Entre elas, mencionou o Fundo Florestas Tropicais para Sempre, voltado a canalizar investimentos para a conservação do bioma e de seus habitantes, e a Aliança Global contra a Fome, criada para compartilhar experiências e apoiar políticas públicas de redução das desigualdades.

Lula ainda citou o Painel Internacional sobre Desigualdade, proposto pela presidência sul-africana do G20, como ferramenta para apoiar, com dados e evidências, a formulação de respostas coordenadas ao problema.

Na área de segurança, o presidente afirmou que crimes transnacionais também devem integrar a agenda de desenvolvimento. Ele destacou o crime organizado, que, segundo ele, aterroriza comunidades e desvia recursos públicos que deveriam ser usados na construção de escolas, hospitais e estradas.

Lula defendeu que esse enfrentamento respeite a soberania dos Estados. Segundo ele, a Declaração de Líderes do G7 sobre o Combate ao Tráfico de Drogas é um passo positivo, mas o combate ao narcotráfico não pode ser separado de outros ilícitos, como lavagem de dinheiro e tráfico de armas.

O presidente também defendeu o fortalecimento do diálogo e da cooperação institucional, inclusive por meio da INTERPOL, para localizar ativos e indivíduos vinculados a atividades criminosas.

No fim do discurso, Lula afirmou que o acesso a tecnologias de ponta, como a Inteligência Artificial, também precisa fazer parte do debate sobre desenvolvimento. Ele disse que as transições energética e digital não podem repetir padrões históricos de concentração de benefícios econômicos em poucos atores.

Segundo o presidente, países detentores de minerais críticos devem participar das etapas de maior valor agregado da cadeia produtiva, por meio da industrialização, da transferência de tecnologia e da formação de capacidades, conforme suas necessidades nacionais.

¨      Lula diz a Trump para não se meter nas eleições do Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva rebateu nesta quarta-feira (17) declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, sobre a política brasileira e afirmou que o líder norte-americano não deve interferir nos assuntos internos do país, especialmente nas eleições. As declarações ocorreram durante a participação de ambos na cúpula do G7, realizada em Évian-les-Bains, na França.

Segundo informações divulgadas pelo g1, Lula também explicou que não solicitou uma reunião bilateral com Trump durante o encontro internacional, argumentando que Brasil e Estados Unidos já mantêm negociações em andamento sobre temas comerciais e de segurança. O presidente brasileiro ainda classificou como inadequadas algumas das recentes manifestações do mandatário norte-americano sobre o Brasil.

Ao comentar a relação entre os dois países, Lula criticou a postura adotada por Trump e afirmou que o presidente dos Estados Unidos tem falado mais do que escutado durante as discussões envolvendo o Brasil.

<><> Lula critica declarações de Trump

Ao abordar as recentes falas do líder norte-americano, Lula disse que a posição de Trump não contribui para o diálogo entre as duas nações.

"Não pedi bilateral com Trump porque estamos em negociação. O que ele fez foi uma coisa desaforada. Nós estamos negociando. Entreguei documento. Se quiser combater crime organizado, Brasil está muito disposto. Inclusive dizendo que todas as armas que PF apreende são de Miami. Entreguei por escrito e não quero só falar. Trump fala muito e ouve pouco."

O presidente brasileiro também indicou que as críticas feitas por Trump revelam desconhecimento sobre a realidade política e institucional do Brasil. Segundo Lula, a soberania nacional deve ser respeitada por qualquer governo estrangeiro.

As declarações ocorreram em meio ao aumento das tensões diplomáticas após manifestações públicas de Trump sobre a situação política brasileira e decisões recentes da Justiça do país.

<><> Trump diz que situação política do Brasil é "perigosa"

Mais cedo, durante uma coletiva de imprensa após compromissos da cúpula do G7, Trump afirmou que o cenário político brasileiro se tornou preocupante. De acordo com a CNN Brasil, o presidente dos Estados Unidos foi questionado sobre sua conversa com Lula e sobre temas como as novas tarifas comerciais impostas por Washington ao Brasil e a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas pelo governo norte-americano.

Ao comentar o encontro com o presidente brasileiro, Trump afirmou:

"A verdade é que passei bastante tempo com ele [Lula]. E o Brasil se tornou um país um pouco complicado, não é? Politicamente. A situação política ficou um pouco perigosa. Você está falando do Brasil, certo? Tem sido algo desagradável. Ouvi dizer que prenderam hoje uma pessoa que estava concorrendo a um cargo público. Fiquei sabendo disso depois que saí de lá."

A fala foi interpretada como uma referência ao ambiente político brasileiro e a decisões judiciais recentes envolvendo integrantes do campo político ligado ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

<><> Menção a Eduardo Bolsonaro e críticas ao Judiciário

Durante a mesma entrevista, Trump mencionou o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), a quem chamou de "Bolsonaro Jr.". O presidente dos Estados Unidos afirmou ter tomado conhecimento do caso após sua reunião com Lula.

"Ele estava indo bem nas pesquisas e o prenderam porque fez uma declaração no Texas. Prenderam, ou querem prendê-lo, para ter algo contra ele."

A declaração reforça a postura que Trump vem adotando em defesa de aliados políticos de Jair Bolsonaro. Na terça-feira (16), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal votou pela condenação de Eduardo Bolsonaro. Segundo a Procuradoria-Geral da República, o ex-parlamentar atuou junto a autoridades dos Estados Unidos para buscar a imposição de sanções contra integrantes do Judiciário brasileiro e contra o próprio Brasil, o que fundamentou a acusação de coação judicial.

O episódio ampliou a repercussão internacional das disputas políticas envolvendo o campo bolsonarista e gerou novas manifestações de autoridades brasileiras em defesa da autonomia das instituições nacionais.

<><> Lula questiona dinâmica do G7

Além das críticas a Trump, Lula aproveitou sua participação no encontro para questionar a dinâmica de funcionamento do G7. Segundo o presidente brasileiro, os países convidados para a cúpula têm pouca influência sobre os documentos e decisões produzidos pelos membros permanentes do grupo.

Na avaliação do presidente, quando as delegações convidadas chegam ao evento, as principais resoluções já estão praticamente definidas, limitando a possibilidade de contribuições adicionais.

"Esse debate está virando um samba de uma nota só."

A declaração reflete uma crítica recorrente do governo brasileiro aos fóruns internacionais dominados pelas grandes potências econômicas. Lula defende uma maior participação dos países em desenvolvimento nas decisões globais e tem utilizado espaços multilaterais para cobrar reformas na governança internacional.

 

Fonte: Brasil 247

 

A eleição congelada e a juventude que ainda se move

A pesquisa Genial/Quaest divulgada nesta semana vai produzir, nas próximas horas, um conjunto previsível de leituras. Que Lula recuperou aprovação e abriu vantagem no segundo turno, que o caso Vorcaro corroeu a candidatura de Flávio Bolsonaro, que o tarifaço de Donald Trump devolveu ao campo progressista um vocabulário de soberania e de patriotismo que a direita tratava como propriedade sua. Essas leituras são corretas. Mas a pesquisa permite enxergar outro ponto, menos evidente e mais decisivo: o lugar exato em que uma eleição aparentemente congelada ainda pode se mover.

Trata-se de partir de um fato que os próprios números confirmam. Numa polarização aguda, com eleitorados consolidados em torno de dois polos, o escândalo deixou de operar como instrumento de queda e passou a operar como instrumento de atrito, consumindo o tempo, a atenção e o oxigênio narrativo do campo atingido sem converter automaticamente o eleitor do outro lado. Flávio Bolsonaro recuou de um empate técnico no segundo turno, em abril, para os atuais 38 por cento contra 44 de Lula, viu a própria rejeição subir ao teto do quadro e gastou a rodada inteira na defensiva, a julgar pela bateria de perguntas que a pesquisa reservou apenas a ele e ao banqueiro. Recuou sem cair, e segue com 29 por cento no primeiro turno, consolidado em segundo lugar, com a base preservada. O atrito impõe desgaste sem demolir.

O congelamento tem medida. A rejeição a Lula, de 53 por cento, e a de Flávio, de 56, prendem os dois ao teto de seus próprios campos. O medo, distribuído de forma quase simétrica, com 44 por cento temendo o retorno da família Bolsonaro e 40 temendo mais um mandato de Lula, mantém cada base atada ao seu polo pela repulsa ao outro. A própria bateria sobre Vorcaro reforça esse desenho: entre os que já não votariam em Flávio, o caso confirma a rejeição; entre os bolsonaristas, o efeito dominante é a defesa ou a neutralização do dano. Num quadro assim, a conversão é rara e a fixação é alta, de modo que o desfecho passa a depender de quem se desloca na franja.

É justamente daí que decorre o ponto decisivo. Se as bases estão consolidadas e o escândalo não as converte, o resultado de outubro não se definirá no núcleo de cada campo, que já está dado, mas na faixa que permanece fora dele, entre os indecisos, os que declaram voto branco ou nulo, os que afirmam que não vão votar, a zona cinzenta que nenhuma das duas candidaturas conseguiu fixar. A dianteira de Lula, de 39 a 29 no primeiro turno e de 44 a 38 no segundo, está erguida sobre blocos que mal se movem. O que ainda se move é a margem, e a pesquisa mostra, com nitidez incômoda, onde ela aparece com mais força.

A margem aparece com mais nitidez entre os jovens. Na faixa de 16 a 34 anos, Lula registra a menor vantagem entre todas as idades, 36 a 30, contra os 41 a 29 que mantém entre os eleitores de 60 anos ou mais. É também a faixa que mais desaprova o governo, com 50 por cento de desaprovação ante 43 de aprovação, ao passo que entre os mais velhos a relação se inverte e a aprovação alcança 51. E é a faixa mais dispersa, com indecisos e voto branco ou nulo somando perto de um quinto do eleitorado jovem, num patamar em que a nova direita de quadros recentes, como o nome ligado à Missão, exibe seu melhor desempenho. A leitura de atrito, levada às últimas consequências, desemboca neste ponto. A disputa de 2026 tende a se resolver no eleitorado que menos se fixou, e esse eleitorado tem idade.

Aqui começa o que a conjuntura, sozinha, não explica, porque essa mesma juventude, observada pela renda, devolve uma imagem oposta. Entre os eleitores de até dois salários mínimos, o coração social da periferia, Lula tem 50 por cento das intenções de voto contra 23 de Flávio, e aprovação de 59 contra 36, ao passo que, entre os de mais de cinco salários, a relação se inverte por inteiro, com Flávio à frente e a desaprovação do governo chegando a 60. O voto popular de baixa renda é, hoje, a base mais firme do campo progressista. A hipótese mais relevante está no cruzamento entre classe, geração e território: a juventude negra das periferias, que pela renda tende a se aproximar do governo, é também a juventude que pela experiência geracional, digital e cultural tende a se dispersar. É nesse atravessamento, entre uma força e outra, que a eleição pode de fato se mover.

A dispersão dessa juventude se explica menos pela economia isolada do que pela formação simbólica. A juventude brasileira, e em especial a periférica, organiza-se em torno de campos de pertencimento que a política institucional raramente compreende. O primeiro é o campo religioso de preponderância evangélica, um dos grandes agregadores juvenis nas periferias urbanas, com capilaridade territorial, infraestrutura de comunicação e capacidade cotidiana de mobilizar afeto, disciplina e interpretação do mundo. Nenhum partido reproduz essa oferta de pertencimento por meio de programa e panfleto. O segundo é o campo estudantil e das juventudes partidárias, com presença real nas universidades e em certas capitais, capaz de formar quadros e de consolidar quem já chegou, mas estruturalmente limitado a quem já partilha os códigos do campo. O terceiro é o dos coletivos culturais periféricos, com o hip-hop no eixo, ao lado do funk, do slam, do break e da batalha de rima, um dos fenômenos juvenis de massa de maior densidade política no país e, ao mesmo tempo, um dos mais subestimados pela esquerda que dele depende.

Posto o mapa, a contradição dos números ganha mecanismo. A juventude periférica tende a desaprovar mais e a se dispersar mais, inclusive onde a renda a aproximaria do governo, porque uma parte relevante de sua formação cotidiana passa por campos de pertencimento que não estão sob direção progressista. O campo evangélico, em larga medida, está alinhado contra o governo ou, no mínimo, fora da gramática da esquerda. E o campo capaz de carregar uma leitura de mundo alternativa, a cultura periférica, é exatamente aquele que a esquerda subfinancia, frequenta como plateia e raramente ocupa como política pública.

A esse desencontro acrescenta-se o terreno em que a direita disputa essa juventude com mais método, o da segurança. A maior preocupação dos brasileiros, na pesquisa, é a violência, à frente da corrupção e dos problemas sociais, e é justamente a periferia que a vive na carne. O discurso punitivista, reforçado pela nomeação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas, oferece a essa juventude uma explicação simples, um inimigo já nomeado e uma promessa de ordem. A direita oferece proteção, ainda que essa proteção mire, na ponta, o corpo do jovem periférico que diz defender. A esquerda oferece diagnóstico, e diagnóstico sem proteção parece distância moral para quem vive a violência todos os dias. Ela chega tarde a esse debate, e quase sempre sem terreno próprio.

Resta a ponte. Se a juventude periférica aparece como a margem decisiva, e se ela se forma na cultura e circula no ambiente digital, um caminho decisivo até ela passa por ali, e a própria pesquisa registra a virada. Pela primeira vez na série histórica, as redes sociais superaram a televisão como principal fonte de informação política dos brasileiros, 36 por cento contra 34, com as curvas se cruzando no fim de 2025. O canal dominante da política deixou de ser o aparelho que o campo progressista aprendeu a operar ao longo de décadas e passou a ser a plataforma.

E a plataforma, convém lembrar, é infraestrutura estrangeira, governada por regras estrangeiras, na qual a soberania que Lula recuperou no plano simbólico, ao aparecer com 47 por cento contra 37 como o nome que melhor defende os interesses do Brasil, e ao ver 46 por cento dos brasileiros lerem o tarifaço como retaliação ao Pix, só desce ao território concreto se atravessar um meio que o campo não controla nem ocupa. A esquerda tem a periferia pela renda e corre o risco de perder a juventude pelo abandono do campo cultural. Enquanto tratar a cultura como vitrine de campanha, em vez de política de Estado capaz de sustentar quem produz sentido no território, seguirá disputando a margem decisiva com as mãos atadas. Disputar essa juventude exige ocupar o terreno cultural sem domesticar quem o habita, fomentar sem capturar, abrir a porta sem exigir que quem entra deixe de ser quem é.

A eleição está congelada no centro e quente nas bordas. Ela não se decidirá apenas no núcleo duro de cada campo, mas na margem que ainda se move: a juventude periférica que a esquerda conhece de longe e ocupa de menos, num terreno que é cultural e sobre uma infraestrutura que não é soberana.

 

Fonte: Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

 

Brasil e Índia: duas vias para a soberania sanitária

Um artigo recente publicado no jornal digital JOTA faz uma análise crítica à proposta do Ministério da Saúde (MS) expressa no PL 2583/2020, ora tramitando no Congresso. A iniciativa do ministério respondeu a uma recomendação da Advocacia Geral da União com vistas a fortalecer a segurança jurídica da Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP). Essa política vem orientando a relação do SUS com o Complexo Industrial da Saúde desde 2008 e atualmente compõe a missão 2 da política industrial brasileira, a Nova Indústria Brasil.

A atuação do MS nos 17 anos em que essa política vem se desenvolvendo não é imune a críticas que, de resto, têm sido feitas por grupos governamentais (IPEA, por exemplo) e acadêmicos (UFRJ, por exemplo) e que têm tido a virtude de procurar aperfeiçoá-la. Vale observar que entre 2017 e 2022 a política foi bastante prejudicada, chegando mesmo a ser paralisada com a extinção do departamento que a gerenciava e do principal colegiado que orientava o diálogo entre o MS e os demais atores que dela participavam. Mas, a despeito de tudo, ouso apontar um vetor permanente desse processo de aperfeiçoamento que foi o de sua institucionalização. Sua atual presença na NIB expressa isso com clareza.

No artigo que aqui comento são elencadas várias críticas ao PL que, essencialmente, dizem respeito às relações das empresas farmacêuticas de capital estrangeiro no Brasil com a PDP e, por outro lado, o lugar dos laboratórios oficiais nessa política. Com maior precisão, críticas ao modo leniente como as empresas multinacionais são recebidas na política e a subestimação do papel da rede de laboratórios oficiais na mesma.

Nos primeiros anos em que a PDP se desenvolveu, a ferramenta que a fazia funcionar, as Parcerias de Desenvolvimento Produtivo, envolviam exclusivamente empresas privadas de capital nacional e laboratórios oficiais. Em 2012 foi dado um passo importante no processo de melhoria de sua institucionalidade. Por determinação dos órgãos de controle do governo federal, houve a necessidade de levar em conta na PDP o dispositivo constante na Emenda Constitucional no 6, de 1995 (Governo FHC), que revogou o artigo 171 da Constituição de 1988. Essa emenda eliminou a distinção constitucional entre ‘empresa brasileira’ e ‘empresa brasileira de capital nacional’. Daí, as empresas multinacionais entraram nas parcerias.

Na minuta atual do PL 2583/2020 está presente uma não diferenciação entre as empresas farmacêuticas de capital nacional e as multinacionais na constituição do elenco de “empresas estratégicas de saúde” (EES). Penso que deveriam estar mais claros no texto do PL alguns critérios de diferenciação de modo a reforçar o papel das empresas de capital nacional. Mas eu entendo que esses critérios mais nítidos poderão (e na minha opinião, deveriam) estar presentes nos debates congressuais que imagino que vão ocorrer. E no caso desse ponto de vista ser derrotado no Congresso Nacional, poderá ainda (e espero que venha a ser) estar no decreto que regulamentará a lei, caso o PL vire lei.

O outro ponto abordado no artigo que comento diz respeito a uma subestimação do papel dos laboratórios oficiais na PDP. Penso que é necessário contextualizar realisticamente esse papel. A rede de laboratórios oficiais reunidos na Associação dos Laboratórios Oficiais do Brasil (ALFOB) vem cumprindo um papel relevante no apoio a uma trajetória de aumento da capacitação tecnológica e produtiva de seus 24 associados, produtores de medicamentos (a maioria deles) e vacinas. A despeito do esforço, é necessário reconhecer a existência de grandes diferenças entre eles no que se refere à atual condição dessas capacidades.

A experiência indiana

Não tem sido incomum no debate sobre o Complexo Econômico-Industrial da Saúde comparações sobre as semelhanças e diferenças das trajetórias do Brasil e da Índia. A “farmácia do mundo“, que é como a Índia vem sendo apelidada nos últimos anos, quase sempre é apresentada como um exemplo a ser seguido pelo Brasil, o que em algumas dimensões me parece correto.  No entanto, pondero que essas comparações devem ser matizadas, pois há diferenças imensas entre suas história, geografia e população, bem como sua cultura e sua realidade política. As comparações devem ser lidas com cuidado, sempre levando em conta essas diferenças.

Em números redondos e estimados*, os mercados de medicamentos e vacinas na Índia valem atualmente, respectivamente US$ 60 bilhões e US$ 2,7 bilhões. Os valores correspondentes no Brasil são US$ 30 bilhões e US$ 2 bilhões. Os valores per capita desses mercados são, para o Brasil, US$ 143 em medicamentos e US$ 13 para vacinas. Na Índia são, respectivamente US$ 41 e US$ 1,8.

Além dos valores brutos, a diferença fundamental entre Brasil e Índia na composição desses mercados é o destino da produção.  Na Índia, entre 50 e 55% da produção local é exportada, enquanto no Brasil nossa exportação é, ainda e infelizmente, marginal. A indústria brasileira de capital nacional neste século se estruturou no atendimento das necessidades autóctones, inspirada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e com um grande peso nas suas compras. Não há nada parecido com o SUS na Índia. Em 2017 aquele país construiu um sistema público inspirado na proposta da Universal Coverage defendida pela OMS em 2005. Quase totalmente atenção primária, mix de recursos públicos e privados (seguro saúde) e com maior penetração nas grandes cidades. As práticas que por aqui chamamos de integrativas e complementares têm ainda um peso muito maior na Índia (medicina Ayurvédica e outras vertentes sancionadas culturalmente), principalmente no interior.

Atualmente (2025), na Índia, cerca de 85% do mercado em valor e cerca de 90% em unidades farmacêuticas provêm de empresas indianas. Algumas empresas multinacionais fizeram joint ventures com empresas de capital indiano. No Brasil, em valor, a participação das empresas de capital nacional é de 58%. Em unidades farmacêuticas, o número correspondente é de cerca de 80%.

O papel dos laboratórios públicos na Índia é ínfimo, tendendo à extinção. Aqueles vinculados ao governo central, ou foram extintos ou estão em vias de sê-lo. Existem alguns vinculados aos estados, onde as práticas culturalmente sancionadas têm presença mais forte. Há uma exceção importante no estado de Kerala que durante várias décadas foi governado por um partido socialista de orientação marxista. No entanto, em 2026, perdeu as eleições para um partido social-democrata de centro-esquerda. Atualmente a produção pública de medicamentos na Índia em unidades farmacêuticas ocupa cerca de 2% do mercado. Em valor, cerca da metade disso. No Brasil, a cifra correspondente em valor é de cerca de 4,5%.

Mas a maior distinção entre as políticas industriais voltadas a medicamentos e vacinas no Brasil e na Índia está fora do ambiente estritamente industrial. Ela reside no campo regulatório, mais especificamente na política de propriedade intelectual (PI). A trajetória da regulação da PI na Índia se desenvolveu ao longo das transformações decorrentes da sua independência do império britânico, em 1947. A primeira lei indiana data de 1970 e deixou de reconhecer patentes de produtos farmacêuticos. Apenas processos continuavam protegidos e a exclusividade durava no máximo sete anos; em outros termos, qualquer um poderia produzir um medicamento protegido por patente desde que obtido por um processo diferente.

Entre 1970 e 1994, quando foi inaugurada a Organização Mundial do Comércio (OMC) e assinado o acordo Trips, a indústria indiana de princípios ativos e de genéricos cresceu exponencialmente. Depois do Trips, a Índia aproveitou integralmente o período de graça de 10 anos e só em 2005 ajustou a sua lei de patentes às regras da Trips. Foram, portanto, 35 anos (1970 -2005) de uma política industrial voltada a medicamentos, vacinas e princípios ativos sob um espírito de desenvolvimento tecnológico com produção local (mas não com ampliação de acesso). Essa adesão ao Trips não foi capaz de comover a justiça da Índia, que deu ganho de causa aos oponentes da extensão de patentes, atuou contra a exclusividade de dados e apoiou o licenciamento compulsório de um medicamento em 2012 (Sorafenib, Bayer). Essa duradoura orientação político-jurídica da Índia levou a sua inclusão na Priority Watch List do Escritório de Representação Comercial dos Estados Unidos (USTR), cujo objetivo é penalizar os países que não cumprem integralmente as regras de Trips. Entretanto, isso não parece ser suficiente para uma alteração importante dessa altiva trajetória.

<><> Os percalços de ser um late late-comer

No Brasil o caminho não poderia ter sido mais oposto ao indiano. Até 1995 o país também não reconhecia patentes de medicamentos. Aderiu à OMC e apenas dois anos depois aprovou uma lei de patentes que adotou todas as amarras da Trips e mais algumas chamadas Trips-plus. Além disso, com a exceção do licenciamento compulsório do antirretroviral Efavirenz em 2007, os tribunais brasileiros têm tido uma posição fortemente inclinada às empresas multinacionais de medicamentos. No meu ponto de vista, essa disposição dos tribunais brasileiros, tendo à frente o Supremo Tribunal Federal, vem contribuindo para dificultar o controle da epidemia de judicializações que começou em 1995 e não para de crescer. Vale ainda notar que na Índia não há um fenômeno similar porque lá não há esse grande comprador público de medicamentos e vacinas que entre nós é o SUS.

Essa abordagem comparada das trajetórias da Índia e do Brasil no campo regulatório me parece mais promissora para um posicionamento político em relação à defesa do desenvolvimento tecnológico e da produção locais para a ampliação do acesso relacionado a medicamentos e vacinas. No âmbito do poder executivo, nossa política de PI é formulada por um órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) e executada por uma agência federal que é o Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI). Na minha visão, o órgão formulador, o Grupo Interministerial de Propriedade Intelectual (GIPI) é inteiramente penetrado por representantes de proprietários de patentes e nele a representação governamental costuma ser de nível hierárquico muito baixo para a relevância da política que lhe cabe formular. 

Na Índia, a PI está sob a responsabilidade do Conselho Nacional sobre Propriedade Intelectual, subordinado ao Ministério para Promoção da Indústria e Comércio Interno. Na China, as grandes linhas da política de PI estão a cargo de seu Conselho de Estado que se reporta ao Comitê Central do Partido Comunista. Na Coreia do Sul a formulação das estratégias está sob a responsabilidade do Conselho Presidencial de Propriedade Intelectual (PCIP) em nível de ministério e que responde ao Presidente da República. No Japão a formulação da política está a cargo de um órgão chamado de Sede Estratégica para a Propriedade Intelectual, presidida pelo primeiro ministro do país.

Estes são exemplos de instâncias formuladoras das políticas nacionais de PI em países chamados de late comers e late late comers, que é onde está o Brasil. Quando comparamos com a nossa frágil estrutura de formulação, pode-se notar o tamanho do nosso problema. E não devemos esquecer que medicamentos e vacinas estão em segundo lugar nas disputas judiciais mundiais sobre patentes, sendo superadas apenas pelo campo das tecnologias de informação e comunicação.

 

Fonte: Por Reinaldo Guimarães, em Outra Saúde

 

1994: A Copa que o Brasil foi tetra — e que mudou tudo

A única liga profissional de futebol dos Estados Unidos havia sido desfeita apenas nove anos antes da Copa. Foi o fim de uma década de glamour, iniciada em 1975, quando a equipe do New York Cosmos tirou da aposentadoria o rei Pelé (1940-2022), pagando o maior salário do mundo na época. Os craques Franz Beckenbauer (1945-2024), Carlos Alberto Torres (1944-2016) e Johan Neeskens (1951-2024) acompanharam Pelé no Giants Stadium de Nova Jersey, completamente lotado. Ali, o mascote era o coelho Pernalonga e era possível ver jogadores e presidentes se misturando com astros e estrelas, como Barbra Streisand, Mick Jagger e Muhammad Ali (1942-2016). George Best (1946-2005), Johan Cruyff (1947-2016), Gerd Müller (1945-2021). Grandes jogadores de futebol atravessaram o Atlântico até o fim desta era dourada, causado pela expansão desmedida, excesso de gastos e diminuição do público, além do fracasso dos Estados Unidos por não ter conseguido promover a Copa de 1986, realizada no México. Mas aquela fase deixou no país a chama da paixão pelo esporte. E esta chama foi suficiente para convencer a Fifa de que os Estados Unidos ainda eram um campo fértil para fazer crescer a popularidade do futebol. Foi assim que os Estados Unidos Unidos se tornaram o primeiro país, fora da Europa e da América Latina, a promover o maior torneio futebolístico do mundo. Mas, para isso, havia uma condição: criar uma nova liga de futebol profissional. O desejo da Fifa era que a Major League Soccer iniciasse em conjunto com a Copa do Mundo. Rothenberg tinha diversas ideias para americanizar o jogo. Uma delas era permitir que os jogadores dessem voltas em torno das traves, como no hóquei sobre o gelo. Ele prometeu ao então secretário-geral da Fifa, Sepp Blatter, que lançaria a liga se a Copa fosse bem sucedida. Os primeiros sinais do brilho que os Estados Unidos queriam trazer para a Copa do Mundo surgiram durante o sorteio dos grupos, realizado no Caesars Palace, em Las Vegas. Os cantores James Brown (1933-2006) e Smokey Robinson se apresentaram no evento. O comediante Robin Williams (1951-2014) usou uma luva cirúrgica para sortear as equipes e ainda brincou com Blatter na ocasião. Houve uma semana de shows musicais no icônico Hollywood Bowl, em Los Angeles, que reuniu desde a Orquestra Sinfônica de Moscou até a banda Red Hot Chili Peppers. Celebridades surgiam em todos os eventos possíveis, como os cantores Stevie Wonder, Enrique Iglesias, Barry Manilow, Liza Minnelli e Bryan Adams. Até os pugilistas Evander Holyfield e Oscar De La Hoya participaram da turnê promocional. "Não acho que houvesse muito conhecimento ou interesse pela Copa do Mundo nos Estados Unidos", conta Rothenberg à BBC Sport. "O que sabíamos é que os americanos adoram um grande evento. Por isso, reunimos artistas e celebridades. Muito do que fizemos nunca havia sido feito antes", prossegue ele. "E funcionou."

<><> Sonho americano que começou em um trailer

Quando Rothenberg assumiu a presidência da US Soccer, acabou também por se tornar presidente do Comitê Organizador da Copa do Mundo. A Copa pode ter sido marcada pelo brilho, mas Rothenberg encontrou uma pequena organização dirigida por voluntários, "sem estrutura futebolística". Ela operava em um trailer cedido de graça pelo Comitê Olímpico americano na sua sede, em Colorado Springs. Eles usaram o poder da Copa do Mundo para conseguir patrocínio e melhores instalações. E também convocaram as cidades-sede a oferecer serviços de primeira, em termos de transporte e segurança, além de estádios prontos e acabados para receber o público. Chicago, por exemplo, havia recebido o papa João Paulo 2° (1920-2005) no ano anterior. Rothenberg se lembra de ter dito ao prefeito da cidade que "mais pessoas se preocupam com a Copa do Mundo e, por isso, espero o mesmo tratamento".

Mas os Estados Unidos precisavam melhorar também dentro de campo. A seleção do país havia se classificado para a Copa de 1990, na Itália, pela primeira vez depois de 40 anos. E perdeu os três jogos da fase de grupos. "Aquela amostra foi simplesmente um desastre", relembra Rothenberg. "Precisávamos encontrar uma forma de dar credibilidade ao time, pois, se déssemos vexame, aumentariam os descrentes. Havia muito desrespeito em relação à nossa capacidade." Dos jogadores que compuseram a seleção americana de 1994, sete jogavam no exterior. Os demais eram jogadores universitários ou disputavam ligas regionais, contratados pela US Soccer. Eles ficaram sob a orientação do experiente técnico sérvio Bora Milutinovic, ex-treinador do México e da Costa Rica em Copas do Mundo. Milutinovic realmente trabalhou para conseguir o cargo. Ele encontrou em San José, na Califórnia, o assistente de Rothenberg, Steve Sampson, e insistiu para ser contratado. O zagueiro Alexi Lalas chamava o técnico sérvio de mistura de "Zé Colmeia e Yoda". Ainda assim, em 1991, Milutinovic venceu o holandês Rinus Michels (1928-2005) e o português Carlos Queiroz, e se tornou o treinador da seleção americana.

<><> Oprah, OJ e a cerimônia de abertura

A apresentadora de TV Oprah Winfrey deu as boas-vindas a um público de 750 milhões de pessoas em todo o mundo, durante a cerimônia de abertura no estádio Soldier Field, em Chicago. Em seguida, ela caiu no palco. Antevendo o desfecho do torneio, a cantora Diana Ross chutou a bola para fora, longe do gol, em uma cobrança de pênalti na cerimônia de abertura. Mas, de qualquer forma, as traves desabaram.

Não fosse o bastante, a vitória da Alemanha sobre a Bolívia por 1x0 no jogo de abertura mereceu apenas uma nota de rodapé nos telejornais da noite, enquanto os carros de polícia perseguiam O. J. Simpson (1947-2024) por quase duas horas pela Califórnia.

O goleiro da Itália, Gianluca Pagliuca, e seus companheiros de equipe acompanharam tudo no Somerset Hills Hotel em Nova Jersey, enquanto se preparavam para a sua estreia no dia seguinte, contra a seleção da Irlanda. "Ficamos chocados, eu me lembro com muita clareza", relembra ele. "Observamos toda a perseguição se desenrolando ao vivo na TV. Era como assistir a um filme, algo quase irreal. Ficamos todos grudados na televisão." A Azzurra teve uma recepção incrível em Nova Jersey, por parte de uma grande diáspora italiana que seguia cada um dos seus movimentos.

"Foi realmente maravilhoso", relembra Pagliuca. "Havia sempre guarda-costas controlando a situação, já que eram muitos italianos morando ali, pedindo fotos e autógrafos." Já os irlandeses não receberam a mesma efusividade do público local, de maioria italiana. E ainda precisaram se adaptar ao clima da região. Alguns jogadores chegaram a perder 3 a 4 kg durante os treinamentos, encharcados pelo suor. Mas o técnico Jack Charlton (1935-2020) e o atacante John Aldridge travariam discussões acaloradas com os bandeirinhas durante o torneio. "No ônibus, a caminho do estádio, só conseguíamos ver camisas e bandeiras da Irlanda, o que nos deu muita esperança", contou o meio-campista Ray Houghton ao Serviço Mundial da BBC.

Entre os torcedores, animada com a Copa do Mundo disputada na porta de casa, estava Heather O'Reilly, futura estrela da seleção feminina dos Estados Unidos. Ela tinha então nove anos de idade. "Com um sobrenome como O'Reilly, é fácil imaginar o entusiasmo para torcer pela Irlanda", ela conta. "Eu me lembro das pessoas fazendo embaixadas no estacionamento, cozinhando, ouvindo os tambores. Tudo aquilo teve enorme influência sobre mim." Um meio-voleio de Houghton selou a surpresa: vitória da seleção irlandesa contra a Itália por 1x0 no Giants Stadium, mesmo tendo quase subido ao gramado com o uniforme errado. Quando as duas equipes se alinharam no túnel, a Itália também estava vestindo camisas brancas. "Nós olhávamos uns para os outros e nos perguntávamos 'bem, um de nós está errado, mas quem será?'", relembra ele. "Descobrimos que éramos nós. Precisamos voltar correndo para o vestiário. Imagine Jack Charlton repreendendo um roupeiro pelo erro! Aquilo simplesmente nos descontraiu. Saímos rindo e sorrindo para os hinos nacionais." No mesmo dia, em Detroit, os Estados Unidos conseguiram um empate contra a Suíça por 1x1. O atacante Eric Wynalda, com sua camisa azul estrelada, marcou o gol americano com um chute direto no canto superior, levado pelos treinos noturnos no estádio coberto Pontiac Silverdome, onde a equipe assistiu a um vídeo motivacional. "Eu pedi ao chefe dos roupeiros que trouxesses minhas chuteiras e duas bolas", relembra Wynalda. "Eu queria ver se conseguiria acertar dois chutes livres. As bolas simplesmente dispararam. Pensei 'uau, a bola age diferente neste estádio'." O barulho da torcida quando seus esforços deram resultado deixaram Wynalda "elétrico". Quando ele voltou para o hotel após o jogo, um dos seus heróis do futebol, atuando como comentarista, o esperava no bar. O ex-jogador inglês Chris Waddle "acena para mim e diz 'você paga as duas próximas rodadas por aqui!".

Depois de eliminado nas oitavas de final em 1990, na Itália, o Brasil chegou à Copa de 1994 com a melhor campanha nas eliminatórias sul-americanas. Foram cinco vitórias em oito jogos disputados, incluindo goleadas contra a também classificada Bolívia (6x0) e a Venezuela (5x1 e 4x0). Mas a campanha também foi marcada pela primeira derrota brasileira em eliminatórias para a Copa do Mundo, para a Bolívia em La Paz, por 2x0. Dirigida por Carlos Alberto Parreira e com Zagallo (1931-2024) como auxiliar técnico, a seleção estreou na Copa vencendo a Rússia por 2x0 em Palo Alto, com gols de Romário e Raí. Foi a primeira Copa disputada pela seleção russa, após a dissolução da União Soviética (1922-1991). Depois de vencer Camarões no mesmo estádio por 3x0 (com gols de Romário, Márcio Santos e Bebeto), o Brasil fechou a fase de grupos empatando por 1x1 com a Suécia e se classificou como primeiro colocado do grupo. Romário marcou contra os suecos, em Detroit. O jornalista Ledio Carmona acompanhava a seleção brasileira e percebeu um "interesse curioso" entre o público americano. "Os olhares eram um tanto exóticos", ele conta. "Algo como 'o que é essa fascinação que cativa tantas pessoas neste esporte?'" Rothenberg conta que os diretores da Fifa ficaram "deslumbrados" com os enormes públicos. "Eu me lembro de Sepp Blatter ligando para mim, era um jogo da rodada de abertura e os ingressos estavam esgotados. Ele ficou simplesmente estupefato."

<><> A saída de Maradona e a tragédia colombiana

A Argentina se classificou para a Copa na repescagem contra a Austrália. Mesmo assim, logo na primeira rodada, o implacável Gabriel Batistuta marcou três gols, levando seu time a uma vitória de 4x0 contra a Grécia, estreante em Copas do Mundo. Mas quem receberia as manchetes seria o jogador que marcou o quarto gol naquele jogo.Diego Maradona (1960-2020) havia sido suspenso por 15 meses, ao testar positivo para cocaína em março de 1991. Ele estava incomodado e acima do peso quando voltou ao futebol, primeiro no Sevilha, da Espanha, e, por um breve período, no Newell’s Old Boys da Argentina. Parecia improvável que ele pudesse disputar a Copa do Mundo sem um rigoroso regime e um programa de treinamento. Mas ele perdeu quase 13 kg e anunciou: "Estou cansado de todos os que disseram que eu estava gordo e não era mais o grande Maradona. Eles irão ver o verdadeiro Diego na Copa do Mundo."

Ele tinha então 33 anos. E seu extraordinário gol contra a Grécia foi um retrato do seu passado glorioso. Uma rápida troca de passes na entrada da área, dois toques sutis para abrir espaço e um tiro de perna esquerda, direto no canto superior. Sua comemoração foi ainda mais simbólica, se arremessando contra a câmera e rugindo para a lente, com a boca aberta e os olhos esbugalhados. Aquele seria o último gol de Maradona em Copas do Mundo. Em sua participação final, o mágico argentino criaria as jogadas que resultaram nos dois gols de Claudio Caniggia, que levaram a alviceleste a vencer por 2x1 outro estreante na Copa, a Nigéria, no jogo seguinte.

"Precisei marcá-lo homem a homem", relembra o nigeriano Sunday Oliseh. "Nunca vi um jogador controlar a bola como ele fazia. Ele fez a diferença. Era simplesmente um gênio." Mas a campanha da Argentina na Copa saiu de controle quando o exame antidoping de Maradona naquele jogo mostrou traços de substâncias proibidas. Ele alegou inocência. Seu treinador pessoal havia comprado o suplemento alimentar errado, Ripped Fuel, em vez de Ripped Fast. Mas o filho favorito da nação argentina foi suspenso antes do último jogo da fase de grupos, contra a Bulgária. "Diego estava desesperado, estava em pedaços, começou a chorar, se trancou no quarto e não queria falar com ninguém", contou à BBC Roberto Peidro, membro da equipe médica da Argentina. Ele comparou o ambiente da concentração com "um funeral". A Argentina estava entre as favoritas para a conquista da Copa até a suspensão de Maradona, mas perdeu em Dallas por 2x0, para uma seleção búlgara inspirada pelo atacante Hristo Stoichkov. E acabou voltando para casa nas oitavas de final, ao perder por 3x2 para outra surpresa, a Romênia.

Outra seleção que foi para a Copa de 1994 com grandes expectativas foi a da Colômbia, automaticamente classificada após bater a Argentina por 5x0 em Buenos Aires, no ano anterior. Figuras como Pelé, Johan Cruyff e o italiano Arrigo Sacchi indicavam os colombianos como possíveis favoritos. Com seu uniforme reserva na cor azul, a Colômbia perdeu por 3x1 para a Romênia na sua estreia em Pasadena, na Califórnia. Os romenos Raducioiu e Gheorghe Hagi balançaram as redes do goleiro Óscar Córdoba, que havia substituído o antigo titular, René Higuita, preso no ano anterior. Em meio às ameaças de morte ao técnico colombiano Francisco Maturana, transmitidas nas telas de TV no hotel da concentração e atribuídas aos cartéis de drogas do país, a seleção colombiana enfrentou a novata equipe dos Estados Unidos na segunda rodada da fase de grupos. Aos 35 minutos do primeiro tempo, o zagueiro Andrés Escobar (1967-1994) fez um gol contra, dificultando ainda mais a missão colombiana. Earnie Stewart fez o segundo gol americano, para alegria dos quase 94 mil torcedores presentes ao estádio Rose Bowl, em Pasadena. Adolfo Valencia descontou para a Colômbia no final do jogo, fechando o placar em 2x1. Os Cafeteros venceram a Suíça no jogo final da fase de grupos por 2x0, mas acabaram eliminados da Copa. Ao voltar à Colômbia, Escobar escreveu um artigo para o jornal colombiano El Tiempo, dizendo: "A vida não termina aqui." Mas, apenas 10 dias depois do seu gol contra, o jovem de 27 anos foi morto a tiros na porta do Bar El Indio, na cidade colombiana de Medellín, após uma discussão no estacionamento do local. O assassinato foi apresentado como uma morte por vingança. Outras pessoas, como o próprio Maturana, consideraram Escobar uma vítima infeliz da violência reinante na sociedade colombiana naquela época. A morte do zagueiro marcou um final trágico à era de ouro do futebol do país.

<><> A saída dos donos da casa, frente ao Brasil

Os Estados Unidos se classificaram no seu grupo e, mais do que isso, receberam de presente um embate emocionante nas oitavas de final, contra o Brasil. A animação foi ainda maior, pois o jogo seria disputado no dia 4 de julho, data da independência americana. "Foi uma guerra", relembra Carmona. "Os americanos deram tudo de si para vencer no Dia da Independência. O jogo foi dramático. Um verdadeiro duelo na Copa do Mundo." No lado brasileiro, Leonardo foi expulso no final do primeiro tempo, ao atingir o meio-campista americano Tab Ramos com o cotovelo. Ramos conta que, depois do golpe, ele se sentiu como se fosse morrer, mas o técnico Milutinovic tentou fazê-lo voltar, antes da intervenção dos médicos. Leonardo iria visitá-lo posteriormente no hospital, para se desculpar com o jogador americano. "Entrei para substituir Tab", conta Wynalda. "Eu não sabia se ele sobreviveria àquilo. Sua aparência era horrível. Ele é um ótimo amigo, foi realmente muito difícil. Saímos de campo mais ou menos rapidamente e a primeira pergunta foi 'como está Tab? Ele está bem? Ele ainda está conosco?' Estávamos muito preocupados." Os donos da casa seguraram o placar até o gol de Bebeto, aos 27 minutos do segundo tempo.

O Brasil seguia na Copa, para enfrentar a Holanda nas quartas de final. E, para os milhares de torcedores americanos no estádio, a derrota por 1x0 foi uma saída gloriosa do torneio, provando que a seleção americana inspirava confiança. "Mesmo com a tristeza, nós comparecemos a um evento pouco depois do jogo e Robin Williams estava presente", conta Wynalda. "Em 30 segundos, ele nos fez rir muito e esquecer aquilo. Ele simplesmente reiterou como estava orgulhoso, ele e os Estados Unidos, do que havíamos acabado de fazer." Para Rothenberg, aquele jogo foi "uma reviravolta para o futebol" nos Estados Unidos. "Todos conhecem o grande e impactante entusiasmo dos torcedores brasileiros. Mas havia um número igual de torcedores americanos, com rostos pintados, acenando com bandeiras, dançando nas ruas. Foi quando pensei 'sabe de uma coisa? Nós nos tornamos um país do futebol.' E acho que isso permanece até hoje."

Já a Itália se classificou em terceiro lugar no seu grupo. As quatro equipes terminaram com o mesmo número de pontos. Pagliuca foi suspenso por dois jogos após ter sido expulso no jogo contra a Noruega. Foi a primeira expulsão de um goleiro em uma Copa do Mundo. Por isso, ele perdeu o último jogo da seleção italiana na fase de grupos (um empate contra o México por 1x1) e a vitória sobre a Nigéria na segunda fase, por 2x1, após prorrogação. Seu substituto, Luca Marchegiani, se saiu tão bem que Pagliuca chegou a pensar que sua participação no torneio havia acabado. Ele estava no seu quarto de hotel, assistindo a uma partida de golfe na TV com seu colega Roberto Donadoni, quando o auxiliar técnico da seleção italiana veio confirmar o retorno do goleiro titular na partida contra a Espanha, pelas quartas de final. O auxiliar técnico da Itália na Copa de 1994 era o atual treinador da seleção brasileira, Carlo Ancelotti. "Para mim, a Copa do Mundo começou, na verdade, naquela noite", conta Pagliuca. "No jantar, eu obviamente estava muito feliz, mas não podia demonstrar isso. Após o jantar, nós costumávamos sair para caminhar, para auxiliar a digestão. Eu fumava um cigarro quando Marchegiani se aproximou de mim e perguntou se eu sabia de algo. Eu me senti mal, mas haviam me pedido para manter segredo."

<><> Os ícones do verão americano

O verão futebolístico de 1994 nos Estados Unidos foi marcado por desempenhos individuais notáveis. O búlgaro Hristo Stoichkov chegou às semifinais com seis gols ao longo do torneio. Seu desempenho o levou a ser o artilheiro da Copa, ao lado do russo Oleg Salenko, que marcou cinco vezes em um único jogo, a vitória de 6x1 contra Camarões na fase de grupos. "Stoichkov era um jogador notável, absolutamente único", relembra Pagliuca. "Ele estava no auge da carreira e era muito perigoso, mas nós o marcamos extremamente bem." A Bulgária enfrentou a Itália nas semifinais, depois de eliminar os detentores do título, a Alemanha, por 2x1. Stoichkov ganharia a Bola de Ouro naquele ano, mas a Itália tinha o seu próprio herói: Roberto Baggio. O "Rabo de Cavalo Divino", como era chamado, foi para o sacrifício com a expulsão de Pagliuca contra a Noruega, mas serviu de inspiração para a Azzurra nos jogos eliminatórios. Baggio fez o gol de empate no final do jogo contra a Nigéria, nas oitavas de final, e marcou de novo para classificar a Itália na prorrogação.

Nas quartas de final, ele driblou o goleiro Andoni Zubizarreta para marcar o gol da vitória italiana sobre a Espanha por 2x1, a dois minutos do final da partida. E também assinalou dois gols mágicos na semifinal contra a Bulgária no Giants Stadium, vencida pela Itália também por 2x1. "A partir das oitavas, Baggio explodiu e nos carregou até a final", relembra Pagliuca. "Ele marcou gols incrivelmente importantes. Ele não era só um grande jogador, mas uma pessoa verdadeiramente boa. Ele tinha uma personalidade calorosa, muito brincalhão, sempre rindo e brincando — perfeito para o vestiário. "Tínhamos um ótimo grupo", conta o goleiro. "Nós nos sentíamos bem juntos." Na outra chave, estava o talentoso romeno Gheorghe Hagi. Depois de trocar o Real Madri pelo Brescia, ele passou a temporada na Série B italiana e ficou descontente com o clube, que negou sua transferência para substituir Maradona no Napoli. "A motivação da Copa do Mundo fez com que ele se reinventasse", relembra o jornalista romeno Emanuel Rosu. "Do nada, ele começou a treinar cada vez mais e melhor do que ninguém. Ele disse que era uma 'bomba', antes da viagem da Romênia para os Estados Unidos, de tão preparado", relembra o jornalista. "Ele dizia para as pessoas à sua volta que a Romênia poderia vencer o torneio. Basicamente, ele impulsionou todo o time na direção certa. E também o país. Havíamos acabado de sair das trevas do comunismo." A campanha da Romênia na Copa de 1994 terminou nas quartas de final, em uma derrota nos pênaltis para a Suécia, outro vibrante ataque do torneio. Mas o desempenho de Hagi conquistou os torcedores romenos e surpreendeu todo o mundo. Para a Romênia, aquela "foi a maior alegria dos anos 1990, depois que a sangrenta revolução matou milhares de pessoas e os mineiros foram duas vezes a Bucareste, poucos anos antes, agredindo as pessoas e os opositores do regime", relembra Rosu. "Romênia 94 pacificou a sociedade e nos iluminou a todos. Houve muitos votos para Hagi escritos à mão nas eleições presidenciais realizadas poucos anos depois. Ele era muito popular."

<><> Bebeto e Baggio vão às lágrimas

O país ainda vivia o luto pelo seu herói nacional, Ayrton Senna (1960-1994). O acidente que causou a morte do tricampeão mundial de Fórmula 1 havia ocorrido apenas dois meses antes da Copa. Após a vitória sobre os donos da casa nas oitavas de final, a seleção brasileira derrotou a Holanda por 3x2 em um jogo memorável nas quartas de final, com gols de Romário, Bebeto e Branco. Na semifinal, o Brasil eliminou a Suécia ao vencer por 1x0, com gol de Romário. Com estes resultados, Brasil e Itália disputariam a final da Copa no estádio Rose Bowl, em Pasadena, repetindo a final de 1970 no México. Mas o jogo contra os holandeses ficou marcado pela icônica comemoração de Bebeto ao marcar o segundo gol do Brasil, balançando seu bebê. Dois dias antes do jogo pelas quartas de final, Bebeto recebeu na concentração um telefonema da sua esposa, avisando que o filho do casal havia nascido saudável. E, em questão de uma hora, a TV Globo conectou o atacante, a esposa e o recém-nascido por um link de vídeo. Mattheus comemora 32 anos em 2026. Atualmente, ele é meio-campista do Tampa Bay Rowdies, que disputa a USL Championship, a segunda divisão americana. "Foi totalmente espontâneo", declarou Bebeto posteriormente à Fita. "Ainda fico emocionado ao falar sobre isso."

A semifinal entre Brasil e Suécia também foi disputada no Rose Bowl. Já a Itália precisou voar da costa leste para a final da Copa, a ser disputada no sol da Califórnia, ao meio-dia. Carmona conta que os jornalistas "derreteram nas arquibancadas", mas, para Pagliuca, o tempo era mais fresco no gramado. "Havia menos umidade", ele conta. "Lembro que era muito mais quente em Nova York e em Boston. Surgiu até uma leve brisa no final." Brasil x Itália foi um tenso empate sem gols, o primeiro 0x0 em uma final de Copa do Mundo. O momento mais marcante foi um chute de longa distância de Mauro Silva. A bola passou pelos dedos de Pagliuca e bateu na trave.

Aliviado, o goleiro italiano beijou a luva e acariciou o poste. "Beijei a trave porque ela salvou minha carreira", diz ele, sorrindo. "Se aquela bola tivesse entrado, eu ficaria marcado para o resto da vida. Todos se lembrariam do erro de Pagliuca na final." A batida na trave fez com que a final fosse lembrada pelo pênalti decisivo perdido por Roberto Baggio. Três jogadores já haviam perdido seus pênaltis na decisão: Franco Baresi e Daniele Massaro, pela Itália, e Márcio Santos, pelo Brasil.

A vitória brasileira viria justamente dos pés do jogador que havia conduzido a Itália até a final. Baggio cobrou e mandou a bola por cima do gol. Foi um final agonizante para a mágica campanha do italiano. O Brasil era tetracampeão mundial de futebol.

"É claro que a decepção foi enorme", relembra Pagliuca. Ele abraçou o atacante após o pênalti perdido. "Ele se sentia particularmente culpado, mas nós dissemos que ele havia nos levado até ali. Por isso, não havia por que se desculpar. Este é o futebol", destaca o goleiro. "Você pode ser um herói em um momento e outra coisa no momento seguinte. Nós tentamos confortá-lo ao máximo possível. Ele ficou muito abalado. Até hoje, quando o vejo, às vezes falamos sobre aquilo. As emoções daquele dia ficarão comigo para sempre." Na concentração do Brasil, a sensação era de alívio. Mas persistiram os debates sobre o cauteloso estilo da seleção de 1994, aparentemente incomum para o futebol brasileiro — e que rendeu vaias durante as eliminatórias. "Os cartolas também receberam muitas críticas", relembra Carmona. "Um deles atacou um jornalista durante a comemoração do título. Havia também uma luta de poder entre a imprensa do Rio de Janeiro e de São Paulo, cada uma com suas próprias preferências técnicas e táticas. O ambiente era tenso, mesmo na comemoração." O técnico Carlos Alberto Parreira permaneceu imperturbável. Ele respondeu aos seus críticos citando um dos grandes expoentes da música norte-americana. "Como Frank Sinatra naquela canção, I did it my way" — "eu fiz do meu jeito", declarou Parreira.

<><> O nascimento da Major League Soccer

A Copa dos Estados Unidos foi um sucesso. E a Major League Soccer, a principal liga de futebol americana, foi lançada dois anos depois. "Na minha opinião, a Copa do Mundo de 1994 foi muito importante para aproximar os americanos do futebol", segundo Pagliuca. Rothenberg destaca que "houve muito ceticismo por parte da maioria dos torcedores de futebol do mundo, que coçavam a cabeça, dizendo: 'Como este país que não é do futebol conseguiu organizar isso?' Acho que eles passaram a acreditar de verdade." Eric Wynalda foi o autor do primeiro gol da MLS, na vitória do San José Clash sobre o DC United por 1x0, em abril de 1996. Ele recebeu uma ligação de Jürgen Klinsmann, campeão mundial pela Alemanha Ocidental em 1990, comemorando o feito: "Não sei se você percebeu a importância deste gol." Atualmente, a MLS conta com 30 equipes. Ela já recebeu astros internacionais como David Beckham, Zlatan Ibrahimovic, Kaká, Wayne Rooney e Lionel Messi. Mas Rothenberg afirma que a liga teria "sido um desastre", não fosse pelo sucesso da Copa de 1994.  Houve época em que era difícil até mesmo encontrar futebol na TV americana. Rothenberg conta que não houve cobertura em língua inglesa da Copa do Mundo de 1990 nos Estados Unidos. Agora, com a Copa de 2026, os jogos masculinos e femininos são imensamente populares e totalmente integrados à cultura americana. "Saímos da ausência da televisão para a saturação completa", analisa ele. "Agora, você entra em um estacionamento e as crianças estão chutando uma bola de futebol, não lançando um passe para a frente", como no futebol americano. "Se você visitar os shoppings, é mais provável encontrar pessoas vestindo réplicas de camisas do seu time local, do Messi, do Bayern de Munique ou do Tottenham, Real Madri e Barcelona. Elas se destacam até mesmo em cidades onde reina o baseball ou o futebol americano."Para Rothenberg, este é o verdadeiro legado da Copa do Mundo de 1994.

 

Fonte: BBC Sport