Luis
Felipe Miguel: O escândalo do Banco Master
A esta
altura do campeonato, não resta dúvida que o escândalo do Banco Master vai nos
acompanhar até as eleições de outubro e será um de seus temas maiores. Serão
meses de novas revelações, enquanto as múltiplas ramificações do caso vão
emergindo.
O
escândalo se desenrola em duas dimensões, naturalmente interconectados – e
ambas importantes, embora de formas diversas. A primeira dimensão diz respeito
a como os diferentes agentes políticos reagem ao caso, tentando proteger a si
(ou a seus aliados) e jogar a conta no colo dos adversários. Por agentes
políticos eu me refiro não apenas a partidos e candidatos, mas também ao
Judiciário, a altos funcionários dos três poderes, às igrejas e à imprensa.
Os
meses de novas revelações serão meses também de narrativas truncadas, de
acusações seletivas, de esquecimentos marotos.
A outra
dimensão se refere ao deciframento da promiscuidade entre a elite política e os
donos do dinheiro no Brasil. Daniel Vorcaro era um gângster, com métodos de
mafioso e maus modos de nouveau riche. Operando de forma tão ostensiva, revelou
uma parte de um sistema de relações que integra o setor financeiro, o crime
organizado e altas autoridades da República.
É
comum, em setores da esquerda, o discurso de que a corrupção é um problema
menor, transformado em grande questão nacional para desviar a atenção dos
conflitos estruturais. Existe um ponto de verdade nesta abordagem; a temática
da corrupção favorece um discurso moralista, que enquadra os problemas como
sendo responsabilidade de pessoas más que fazem coisas más, não da organização
geral da sociedade, e cuja solução, portanto, é simplesmente “tirar as maçãs
podres do cesto”, isto é, a punição.
Muitos
anos atrás, fui coautor de um artigo sobre o escândalo do mensalão que mostrava
como este era enquadramento dominante nos editoriais dos jornalões. Mais de 90%
deles indicavam que o comportamento de determinados agentes políticos eram a
causa exclusiva da crise.
No
entanto, um caso como o do Banco Master tem o condão de revelar vários dos
mecanismos pelos quais a burguesia captura o Estado brasileiro. Não é a simples
corrupção que nos vem à cabeça quando se usa o termo, pela qual um empreiteiro
coloca alguns milhões no bolso de um gestor público para ganhar uma licitação e
superfaturar uma obra qualquer. É um sistema de construção de lealdades e
dependências que atravessa toda a gestão do poder público no Brasil, da
definição das leis às decisões judiciais. Se Ralph Miliband apontava a
constituição de uma “elite do poder”, consolidada pelos laços interpessoais
entre capitalistas e políticos, aqui muitos destes laços eram estreitados nas
festas em Trancoso, regadas a uísque Macallan e ornamentadas pela presença de prostitutas
europeias.
Costumo
dizer, a partir da obra de Nicos Poulantzas, que a corrupção é uma das “falhas
constitutivas” do Estado capitalista: algo que é formalmente vetado e punido,
mas integra o funcionamento esperado do sistema. É um recurso que a classe
burguesa tem para fazer valer seus interesses quando as regras ostensivas não
bastam. Mas, uma vez que a ferramenta está à disposição, naturalmente é usada
também por operadores em defesa de seus interesses próprios, na concorrência
uns com os outros.
De todo
jeito, nesse contexto, a luta contra a corrupção é uma luta para que sistemas
de controle, que visam garantir uma aproximação mínima com a igualdade prevista
nos códigos legais, tenham efetividade. A luta contra a corrupção é parte,
assim, da luta pela distribuição do fundo público, logo da luta de classes.
A
semana passada começou com o relatório da CPI do crime organizado e terminou
com a prisão do ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB).
É óbvio
que o relatório do senador Alessandro Vieira foi um despropósito, voltado
apenas a agradar os setores da direita que hoje se colocam contra o Poder
Judiciário, não pelos seus muitos erros e malfeitos, mas pelos seus acertos.
Uma CPI sobre o crime organizado sem propor o indiciamento de um único chefe de
facção, de um único operador de lavagem de dinheiro, em vez disso apontando
apenas exclusivamente para três ministros do STF e para o procurador-geral da
República, é um escárnio.
(E,
para não sobrar nenhuma dúvida, deixando de fora um dos ministros do Supremo
cujas vinculações com Daniel Vorcaro são mais estreitas, o bolsonarista Kássio
Nunes.)
Mas não
é de hoje que as comissões parlamentares de inquérito se tornaram um circo.
Entre conchavos, acertos para proteger fulano em troca da imunidade ao
beltrano, e desvios de finalidade, elas se mostram quase invariavelmente
inúteis para os propósitos que as justificam. O que causa espécie é que o
Supremo, que nunca se preocupou em moralizar o funcionamento da CPIs, resolva
propor medidas drásticas agora que foi afetado.
Não é
uma exceção, é a regra. O Supremo Tribunal Federal sempre se mostra muito cioso
dos direitos de seus integrantes. Quanto aos outros cidadãos brasileiros, nem
tanto.
A
intenção de jogar o foco no Supremo é esperta. De fato, a vinculação do mais
alto órgão do Judiciário, sobre quem pesa a responsabilidade de garantir o
cumprimento da Constituição, com os esquemas de Daniel Vorcaro é muito grave.
Não dá – e isso Lula, o PT e a esquerda em geral têm que assumir – para passar
pano para os negócios de Dias Toffoli e do escritório da família de Alexandre
de Moraes com o banqueiro hoje na Papuda. Qualquer hesitação em exigir
investigação séria e punição de eventuais culpados ajuda a direita na sua
estratégia, que é associar o Supremo ao PT, construindo equivalências que fazem
da esquerda o polo da corrupção.
O que
sustenta esta narrativa é que Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli
foram empurrados para uma posição de enfrentamento dos abusos de poder da Lava
Jato e das intentonas golpistas de Jair Bolsonaro e seu bando. Se isso os
credencia como defensores da institucionalidade democrática em um momento de
ameaça, mérito que não lhes pode ser negado, não autoriza que seu passado seja
esquecido, muito menos que sejam considerados de esquerda.
Gilmar
Mendes foi não um coadjuvante, mas um dos artífices do golpe de 2016. Naquela
época, avalizava todas as presepadas do então juiz Sérgio Moro. Foi o
responsável pela proibição de que Lula assumisse a Casa Civil do governo Dilma
Rousseff, considerada a pá de cal na esperança de recomposição da relação entre
o governo e o Congresso. Alexandre de Moraes chegou ao STF pelas mãos do
usurpador Michel Temer. Dias Toffoli cortejou o governo de Jair Bolsonaro.
Todos apoiaram a absurda prisão de Lula. Seu compromisso com a democracia é,
quando muito, circunstancial. Seu vínculo com o ideário da esquerda é nulo.
Lula é
adepto da amnésia, está sempre pronto a abraçar quem o atraiçoou. O povo
brasileiro não pode se dar esse luxo.
O passo
seguinte, na construção da narrativa da direita, acompanhada pela imprensa
corporativa, também já foi testado e usado muitas vezes. É um discurso seletivo
de contaminação, pelo qual o envolvimento de uma única pessoa considerada de
esquerda em um escândalo de corrupção serve para condenar toda a esquerda, ao
passo envolvimento de direitistas é desprezado como casos isolados. Aliás, isso
não vale só para a corrupção.
Quando
a gente vê a Brasil Paralelo, o MBL, esse povo todo, cada pessoa de esquerda
parece pessoalmente responsável por cada morte no gulag, mesmo que tenha um
histórico irrepreensível de crítica ao stalinismo. Já o nazismo eles nem
aceitam que tenha sido de direita, até mesmo quando estão reproduzindo uma
grande parte de seu discurso e de suas práticas.
A
culminação dessa manobra (até agora) foi o infame PowerPoint da GloboNews, em
que Lula – sobre quem o escândalo simplesmente não respingou – era representado
como o mais próximo de Daniel Vorcaro.
Há,
sim, pessoas ligadas ao PT e/ou ao governo envolvidas: Guido Mantega, Ricardo
Lewandowski, o senador Jaques Wagner. Seria uma boa ocasião para que o PT e a
esquerda em geral repensassem a tolerância que adquiriram quanto a ver seus
quadros de chamego com a burguesia. Isto nunca fez bem, em nenhum tempo e
nenhum lugar, para um partido que se quer à esquerda do centro, mesmo que seja
reformista e moderado.
Mas o
grosso das relações do Master está com a direita. Tem gente até fazendo
“placares” e eles sempre chegam a, sei lá, 40 a 5 em favor da direita. Nikolas
Ferreira, Ciro Nogueira, Tarcísio de Freitas, Roberto Campo Neto, Ibaneis
Rocha, Cláudio Castro, Tony Rueda, ACM Neto, Ratinho Jr., Fábio Wajngarten… A
lista é enorme.
São
milhões e milhões de reais jorrando de um lado. Do outro, projetos de lei sob
medida para facilitar as mutretas vorcarianas, fiscalizações fajutas, pareceres
malandros. O dinheiro era repassado por meio de pagamentos assombrosamente
inflados por serviços diversos. Assim, o ex-diretor do Banco Central na gestão
Campos Neto, Belline Santana, ganhou 2 milhões para elaborar um estudo de 50
páginas sobre educação financeira, aparentemente um compilado de resumos de
artigos científicos que um estudante estagiário faria com uma mão nas costas.
(Ganhou mais R$ 2 milhões com outro serviço ordinário.)
Dois
milhões por 50 laudas. Dá R$ 40 mil por página. Fazendo as contas, somando os
livros que publiquei e os artigos em revistas acadêmicas, chego a umas 9 mil
páginas. Meu erro foi não ter vendido esse material para Daniel Vorcaro, daria
R$ 360 milhões. Garanto que pelo menos o trabalho não é tão picareta quanto o
de Santana.
Para
Daniel Vorcaro, como estamos vendo, seria um trocado, mas para mim faria toda a
diferença!
Ou ACM
Neto. Alguém acha honestamente que uma “consultoria” dele, sobre qualquer tema
que seja, pode valer R$ 3,6 milhões – sem envolver tráfico de influência?
O que
me leva ao assunto que dominou os últimos dias da semana, os mais de R$ 100
milhões em imóveis escondidos por Paulo Henrique Costa – que, na qualidade de
presidente do Banco de Brasília, tentou comprar os ativos podres do Master,
passando o prejuízo para os cofres públicos.
O então
governador, hoje candidato (ou talvez ex-candidato) ao Senado, o bolsonarista
Ibaneis Rocha, aparece envolvido, não apenas por uma questão de simples lógica,
mas por registros de conversas. Sua defesa é um monumento à cara-de-pau: disse
que não sabe “nem fazer um pix”, logo não seria capaz de entender as
maracutaias financeiras do Master.
Ele
parecia bem mais atilado quando amealhava uma grande fortuna em um punhado de
anos. Mas, mesmo que sua incompetência fosse real, ele seria culpado no mínimo
de uma negligência criminosa na gestão das finanças do Distrito Federal.
Um
sujeito desagradabilíssimo, Ibaneis Rocha está sendo descartado como peso morto
pela direita do DF, que se apressou a substituí-lo em sua nominata preferencial
para o Senado – agora, a chapa é Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. Com o
escândalo batendo às portas de sua sucessora, a vice-governadora efetivada no
cargo, Celina Leão, ainda mais visceralmente bolsonarista que ele, já começou o
assanhamento por uma candidatura alternativa para o governo, com o atual
senador Izalci Lucas lançando seu próprio nome. (Sim, um relato sobre a
política local se assemelha a um daqueles velhos tratados sobre demonologia.)
O fio
da meada é claro: operando com gente como Ciro Nogueira e Felipe Barros, ambos
bolsonaristas, no Congresso, para promover mudanças na legislação que o
beneficiassem, e garantindo o beneplácito do Banco Central do bolsonarista
Campos Neto para suas manobras, o Master contava com o governo dos
bolsonaristas Ibaneis Rocha e Celina Leão no Distrito Federal para assumir suas
dívidas bilionárias e sair limpo da história.
Lula
tem que deixar claro que ele é o maior interessado no desvendamento de todo o
esquema.
• Banco Master: o escândalo que escancara
o abismo brasileiro. Por Paulo Cannabrava Filho
Mais
uma vez, não é possível silenciar diante do escândalo envolvendo o Banco
Master. Os números impressionam, mas o que mais choca é a naturalidade com que
esquemas dessa magnitude parecem operar dentro das estruturas do poder.
Fala-se
em uma propina de R$ 146 milhões, dos quais R$ 74,6 milhões teriam sido
efetivamente pagos, convertidos em imóveis de alto padrão em Brasília e São
Paulo. Beneficiário direto: Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de
Brasília (BRB), instituição pública que deveria servir ao interesse coletivo.
Ao
mesmo tempo, o BRB teria injetado cerca de R$ 12 bilhões no Banco Master para
adquirir carteiras de crédito consignado inexistentes. Uma operação que, se
confirmada, revela não apenas má gestão, mas uma engrenagem sofisticada de
desvio de recursos públicos.
A
prisão de Paulo Henrique Costa, no dia 17 de abril, durante a quarta fase da
Operação Compliance, que investiga os crimes atribuídos a Daniel Vorcaro, dono
do Banco Master, é apenas a ponta visível de um esquema que, ao que tudo
indica, vinha sendo alimentado há anos.
A
relação entre o BRB e o Master não é recente. Já em 2024, o banco estatal teria
atuado para injetar recursos e evitar a quebra da instituição privada,
levantando sérias dúvidas sobre cumplicidade, conivência e uso indevido de
recursos públicos.
Tudo
isso ocorre sob o olhar das autoridades locais. É difícil acreditar que
operações dessa escala tenham ocorrido sem conhecimento das mais altas
instâncias do governo do Distrito Federal.
Mas há
um outro lado dessa história, talvez ainda mais revelador do país que estamos
nos tornando.
Enquanto
bilhões circulam em esquemas suspeitos, cerca de 82 milhões de brasileiros
estão inadimplentes, acumulando dívidas que somam R$ 539 bilhões. Quase 80%
dessas pessoas têm renda de até dois salários mínimos.
A taxa
de desemprego atinge níveis historicamente baixos, mas isso não se traduz em
alívio para a população. Ao contrário: a taxa Selic permanece em patamares
próximos de 15% ao ano, impondo um custo financeiro insuportável.
Na
prática, isso significa que o cidadão comum destina, em média, 70,5% de sua
renda para pagar dívidas e despesas básicas como água, luz, telefone e aluguel.
Trabalha-se para sobreviver, não para viver.
De um
lado, jatinhos, imóveis de luxo e cifras milionárias. De outro, um povo
esmagado pelo endividamento e pela ausência de perspectivas.
Esse
contraste não é acidental. Ele revela a lógica de um sistema que protege o
privilégio e transfere o peso da crise para os de baixo.
O
escândalo do Banco Master não é um episódio isolado. É mais um sintoma de um
modelo que naturaliza a promiscuidade entre o público e o privado, enquanto
condena a maioria da população à precariedade.
Estamos
em ano eleitoral. É o momento de exigir dos candidatos não apenas discursos,
mas propostas concretas e soluções sistêmicas para enfrentar a corrupção, que
não é um desvio ocasional, mas um traço estrutural de um sistema que se
alimenta da desigualdade.
O campo
democrático, se quiser se afirmar como alternativa real, precisa mudar de rumo.
Não basta administrar a crise: é necessário apresentar um projeto de salvação
nacional, capaz de recuperar a soberania, reorganizar a economia e colocar o
Estado a serviço da maioria.
Sem
isso, os escândalos continuarão a se repetir — e o abismo seguirá se
aprofundando.
Fonte:
A Terra é Redonda/Diálogos do Sul Global




