quinta-feira, 2 de abril de 2026

Cannabrava: 1º de abril - memória, golpe e a permanência da tutela imperial

No dia 1º de abril de 1964, cheguei para trabalhar no jornal Última Hora e encontrei o prédio cercado por tropas do general Amaury Kruel, comandante do 2º Exército. Era compadre do presidente João Goulart. Traiu o amigo, traiu o Brasil. Naquele dia, perdi dois empregos: o de repórter político e o de correspondente da agência Prensa Latina, uma voz alternativa ao monopólio informativo das grandes agências ocidentais.

O golpe não foi apenas uma quartelada interna. Teve apoio explícito dos Estados Unidos. Uma frota naval foi deslocada em direção ao litoral sul, pronta para intervir caso houvesse resistência. Não foi necessário. A ruptura institucional se consumou com rapidez, e hoje há ampla documentação — inclusive audiovisual — que comprova a participação estadunidense na derrubada do governo constitucional.

Nos primeiros dias, instalou-se o terror. Os Inquéritos Policiais Militares (IPMs) varreram o país. Sindicalistas, lideranças populares, intelectuais, todos foram perseguidos. Muitos foram presos, outros empurrados ao exílio. Faltaram cadeias: improvisaram-se prisões, como o navio Raul Soares, onde homens eram jogados nos porões como inimigos a serem eliminados. Era o início de uma ditadura que duraria 21 anos.

Houve resistência. Organizações de esquerda optaram pela luta armada diante do fechamento completo das vias democráticas. Foram esmagadas com violência. Ficaram pelo caminho centenas de combatentes, homens e mulheres que enfrentaram o regime com coragem. São parte de uma galeria de heróis que a história oficial insiste em silenciar ou distorcer.

Mas o golpe de 1964 não pertence apenas ao passado. Sua lógica permanece. O que se impôs ali foi mais do que um regime militar: foi a submissão do país a um modelo de dominação, hoje ainda mais sofisticado. O imperialismo já não se apresenta apenas pelas armas, mas pela hegemonia do capital financeiro e pelo controle das narrativas. A chamada “ditadura do pensamento único” continua a enquadrar o debate público e a limitar os horizontes de transformação.

As grandes agências internacionais seguem filtrando o mundo sob a ótica do sistema dominante. A dependência econômi

Rememorar o 1º de abril é mais do que um exercício de memória. É um ato político. É reconhecer que a luta pela soberania, pela democracia real e por um projeto nacional de desenvolvimento ainda está em aberto. E que cabe às novas gerações retomar esse fio da história, interrompido à força, para que o Brasil deixe de ser tutelado e passe a decidir o seu próprio destino.

¨      62 anos do golpe: Ditadura não atingiu só a classe média. E essa mentira protege seus crimes até hoje. Por Paulo Motoryn

Em janeiro deste ano, um usuário do X (antigo Twitter) escreveu que falar sobre a Ditadura Militar é um marcador de classe. A pessoa afirmou que quem tem histórias de repressão na família vem de ambientes urbanos, escolarizados, de classe média — universitários, jornalistas, advogados.

Ele, então, concluiu que, se seus antepassados eram pobres, camponeses, gente do interior, “dificilmente tiveram qualquer coisa a ver” com o regime. Que carregar uma memória de repressão virou algo “chique”, distante do horizonte do trabalhador. É algo difícil de refutar.

A postagem atingiu mais de 2 milhões de visualizações.

Hoje, quando o Brasil completa 62 anos do golpe de 1964, pensei em deixar o aniversário passar batido. Poderia trazer outro tema. Temos vários assuntos e reportagens prontos para serem veiculados aqui: investigações, entrevistas e análises.

Mas eu não dormiria tranquilo se não usasse essa edição de Cartas Marcadas, em pleno 31 de março, para responder a essa pessoa. E, por isso, esta newsletter é diferente. Me desculpe, mas desta vez ela é endereçada não a você, leitor, mas a você, usuário do X. Para não identificá-lo, vou chamá-lo nesta carta de Jaime.


Meu caro Jaime

Jaime, em primeiro lugar, meus parabéns. Seu argumento é poderoso. Cola com a direita, é claro, mas também é sedutor para pessoas de esquerda. É uma ideia apetitosa, que foi vocalizada por lideranças destacadas de diferentes espectros ideológicos nos últimos tempos.

Eu preciso confessar: eu mesmo já flertei com essa ideia. Hoje, entendo como ela desinforma e é perigosa. Mas ter simpatizado com essa visão em algum momento da vida universitária me fez escrever a você.

Eu acho sua opinião perigosa por várias razões, Jaime, e vou tentar expor algumas aqui. Mas há um motivo que, de longe, é o mais grave: essa ideia aceita como verdade a mentira central da Ditadura Militar — a de que a violência praticada pelos militares foi restrita, localizada, dirigida apenas a um grupo específico de “subversivos”.

Mas não, Jaime, não foi. A Ditadura não atingiu apenas universitários, como Alexandre Vannucchi Leme, torturado até a morte em 1973; jornalistas, como Vladimir Herzog, assassinado em 1975; ou políticos, como Rubens Paiva, detido em 1971 e cujo corpo nunca apareceu.

O que temos reportado no Intercept Brasil nos últimos anos é que os militares construíram um sistema de repressão que foi muito além disso. Foi um sistema que atravessou o país, que perdura até hoje e que escolheu alvos que não deixariam memória organizada.

É preciso que você saiba, Jaime, que a Ditadura não é algo encerrado. E não estou nem falando do 8 de Janeiro ou dos militares planejando matar um presidente eleito em pleno século 21. O regime deixou um legado que continua sendo letal. E essa letalidade tem como seu principal alvo a população negra e pobre.

Em 2024, por exemplo, nós mostramos como as forças especiais criadas na Ditadura — entre elas, os chamados “kids pretos” — estão na origem de estruturas das polícias militares como o Bope ou a Rota. Você sabe: o público-alvo dessa violência não é a classe média branca.

E você pode chamar essas informações de lacração. Mas é o trabalho sério e persistente de jornalistas experientes, com trajetórias respeitadas nos principais veículos do país: Sérgio Barbo, Gilberto Nascimento, Carlos Tautz, Tatiana Dias, André Uzêda e muitos outros.

E há também contribuições muito valiosas de não jornalistas. Em 2025, foi o historiador Lucas Pedretti quem publicou a reportagem “Fotografias inéditas mostram a face racista do regime”.

É uma matéria que revelou fichas produzidas pela repressão que enquadravam pessoas negras sob acusações como “vadiagem” — um instrumento clássico de controle social. Não eram militantes políticos organizados. Eram jovens pobres, negros, transformados em alvo pelo simples fato de existirem fora do padrão desejado pela Ditadura.

Também no ano passado, a mesma série de reportagens assinada por Pedretti veiculou o texto “Polícia jogou documentos de agentes da ditadura em sacos de lixo. Nós os abrimos”. As fichas encontradas não mostram apenas burocracia policial — elas ajudam a reconstruir quem eram os alvos reais da máquina repressiva.

E, de novo, Jaime, não são apenas os nomes que aparecem nos livros didáticos. Como você poderia descobrir visitando o Memorial da Resistência, em São Paulo, a Ditadura reprimiu fortemente o movimento operário: sindicatos sofreram intervenção estatal, lideranças foram presas e torturadas, a imprensa operária e sindical foi proibida.

Você também diz que camponeses e pobres “dificilmente tiveram qualquer coisa a ver”. Mas, segundo levantamento publicado em reportagem da Agência Pública, houve no mínimo 1,6 mil trabalhadores rurais mortos ou desaparecidos durante o regime. E, na realidade, o número deve ser bem superior a esse.

A sua afirmação de que a repressão na ditadura “é coisa de classe média estabelecida” também ignora que um dos principais grupos sociais perseguidos pelos militares foram os povos indígenas, que chegaram a ser presos e enviados a campos de concentração, como os Krenak.

<><> Ditadura foi um projeto racista

O que você também ignora, Jaime, é que a Ditadura operava como um sistema racial. Isso também não é interpretação. De novo, não é lacração. Está nos documentos.

Em outra reportagem, intitulada “A ditadura negou o racismo — e o argumento ainda é o mesmo”, nós revelamos que os militares tratavam qualquer denúncia de racismo como “calúnia”. A luta antirracista era tida como assunto “ultrapassado” e, portanto, passível de repressão.

Repito: apenas dizer que havia racismo no Brasil era considerado subversão. Artistas negros foram monitorados. Movimentos culturais foram perseguidos. Bailes soul foram vigiados. A simples construção de uma identidade negra era tratada como ameaça à ordem.


Não sei se você sabe, Jaime, mas ainda hoje seguimos encontrando provas de como ela funcionava.

Em 2022 – há apenas quatro anos! –, o repórter Sérgio Barbo revelou, na reportagem “Crematório em SP foi criado para ocultar cadáveres”, que havia uma estrutura construída para incinerar corpos de vítimas da repressão. O projeto dos militares – que, hoje, muita gente concorda contigo e diz que nem era tão ruim assim – não era só matar. Era apagar.

Em 2019, outra investigação que publicamos mostrou que o número de presos nos primeiros dias do golpe pode ter sido quatro vezes maior do que o estimado oficialmente — chegando a cerca de 20 mil pessoas. Não foi uma repressão seletiva de elite. É uma operação de massa.

<><> Tortura jamais será ‘chique’

Jaime, o seu erro não é apenas factual. Você olha para a memória disponível — aquilo que foi registrado — e conclui que ela define a realidade. Mas essa memória é produto da própria violência. E é papel do jornalismo confrontar essa visão rasteira e superficial.

A ditadura prendeu, torturou e matou. Mas também destruiu provas, ocultou cadáveres, perseguiu testemunhas e garantiu que uma parte das vítimas nunca pudesse contar o que aconteceu. Você transforma esse silêncio em argumento. E isso é grave.

Por fim, você escreveu que lembrar da ditadura virou algo “chique”. Não é. O que existe é um país onde parte das vítimas teve voz — e outra parte foi sistematicamente silenciada. Existe um país onde lembrar ainda é um ato político — porque esquecer sempre foi um projeto.

E é por isso que seguimos reportando sobre a Ditadura. Por isso que o cinema nacional segue fazendo filmes sobre a Ditadura. Que o teatro segue encenando espetáculos sobre a Ditadura. Não é saudosismo. É porque ainda hoje documentos continuam aparecendo, crimes continuam sem responsabilização e estruturas continuam operando.

E porque, toda vez que alguém tenta reduzir esse período a uma experiência “de classe média”, ajuda a empurrar de volta para o silêncio aqueles que já foram silenciados antes.


Eu sei, você escreveu apenas um tweet, Jaime. Mas o que você fez foi oferecer uma narrativa confortável. Uma forma elegante de dizer que a ditadura não foi tão ampla assim. Que não atingiu todo mundo. Que talvez seja mesmo uma “Ditabranda”– como disse aquele editorial infame da Folha de S.Paulo, de 2009. É uma narrativa sedutora. Mas é profundamente desonesta.

Poderia parar por aqui, Jaime. Mas não vou. Porque isso que você escreveu não se resolve com opinião — se resolve com informação. Nós temos dezenas de reportagens publicadas ao longo dos últimos anos que desmontam, com documentos, dados e testemunhos, essa visão confortável sobre a ditadura. Não caberiam todas aqui.

Então eu selecionei algumas — poucas, diante do volume que já produzimos — que considero um bom ponto de partida para você. Antes de falar mais sobre o que foi ou não foi a Ditadura no Brasil, talvez valha a pena ler.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global/The Intercept

 

A insegurança estrutural da juventude brasileira

A crescente incidência de sofrimento psíquico entre jovens brasileiros, registrada pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE), realizada pelo IBGE com apoio dos ministérios da Saúde e da Educação, já não pode ser tratada como um problema isolado ou passageiro. Ela expressa uma mudança mais profunda na sociedade brasileira que resulta da perda de dinamismo econômico, enfraquecimento das promessas de mobilidade social e a transformação das formas de poder e de socialização.

Nesse sentido, a ansiedade revelada em setor crescente da parcela juvenil da nova sociedade de serviços, hiperconectada na era digital, deixa de ser vista apenas como um problema individual ou psicológico. Ela passa a ser compreendida como expressão social de um tempo histórico marcado pela incerteza. Desde os anos 1990, com a adoção de políticas neoliberais, o Brasil perdeu dinamismo econômico, sofreu a desindustrialização, aprisionou-se na financeirização e fragilizou os mecanismos de ascensão social. O resultado tem sido a formação de nova geração cuja subjetividade é atravessada pela instabilidade.

Em um país historicamente desigual, esse processo agravou a sensação de bloqueio social. Embora mais escolarizada do que as gerações anteriores, grande parte da juventude passou a encontrar um mundo do trabalho mais precário, instável e fragmentado. A educação continuou sendo apresentada como caminho de ascensão, mas a correspondência entre esforço e recompensa se enfraqueceu.

Durante o período de industrialização de elevada expansão econômica ocorrida entre as décadas de 1930 e 1980, predominou, apesar das desigualdades, a percepção de que o tempo trabalhava a favor da melhora de vida. Escola, emprego e urbanização apontavam, ainda que de modo desigual, para alguma perspectiva de avanço socieconômico. A partir dos anos 1990, contudo, essa narrativa foi sendo corroída. Em seu lugar, consolidou-se uma sociedade de serviços hiperconectada, porém incapaz de garantir inclusão ampla, segurança e horizonte estável.

É nesse contexto que os dados recentes da PeNSE ganham maior significado. O aumento da tristeza, solidão, ansiedade, exposição à violência e experiências de abuso não deve ser lido apenas como questão sanitária ou psicológica. Esses indicadores expressam uma época em que o futuro perdeu força como promessa coletiva. O horizonte de expectativas superiores se estreitou.

O mal-estar que emerge desse processo não aparece, ao menos por enquanto, como revolta organizada. Ele surge de forma mais difusa, íntima e silenciosa. A juventude brasileira não está apenas ansiosa. Ela percebe, muitas vezes de forma sensível e imediata, que o modelo social que antes prometia alguma melhora deixou de funcionar. A insegurança não decorre apenas do excesso de estímulos digitais, mas também da falta de perspectivas concretas.

A hiperconectividade faz parte desse problema, mas não o explica sozinha. Ao sair das telas de celulares e redes sociais, muitos jovens encontram um mundo que pouco os acolhe. A ansiedade não nasce apenas da conexão permanente, mas da experiência cotidiana de escassez de oportunidades, de fragilidade dos vínculos e de bloqueio do futuro.

Nesse quadro, o neoliberalismo produz mais do que políticas econômicas, pois gera uma forma de experiência social. Ele dissemina a sensação de que não há alternativa, de que cada indivíduo deve resolver sozinho problemas que são coletivos. Mesmo informados, conectados e escolarizados, muitos jovens percebem que poucas portas realmente se abrem. O resultado é uma geração marcada pela incerteza estrutural.

Mais do que uma “geração ansiosa”, trata-se de uma geração formada sob o signo da insegurança. A ansiedade, nesse caso, não é uma anomalia isolada, mas um sintoma de um modelo de desenvolvimento que perdeu a sua maior capacidade de inclusão. Ainda assim, esse sofrimento costuma ser interpretado como falha individual. Ao jovem que não consegue “dar certo”, resta a exigência de se reinventar continuamente como empreendedor de si mesmo.

Com isso, a pressão não desaparece. Ela apenas se internaliza. O peso de uma estrutura social instável é carregado no próprio corpo e na própria mente. A frustração deixa de ser episódica e se torna estrutural. Muitos jovens fizeram o que lhes foi pedido, estudaram, buscaram qualificação e adaptaram-se às novas exigências. Ainda assim, encontram-se à margem de um projeto real de futuro.

É nesse ponto que a questão ganha dimensão política. O que está em formação não é apenas uma geração frustrada, mas um novo sujeito social, ainda fragmentado, instável e sem linguagem política clara. Trata-se de uma experiência comum de insegurança, bloqueio e perda de sentido, que ainda não se traduziu plenamente em organização coletiva.

Esse sujeito, por enquanto, sente antes de formular. A ansiedade pode ser entendida, nesse sentido, como uma de suas primeiras formas de expressão. Ela ainda não aparece como programa político ou ação organizada, mas revela algo importante como a percepção difusa de que o jogo social mudou profundamente.

O risco é evidente. Esse mal-estar pode ser capturado por soluções individualizantes, por discursos de autoajuda ou por promessas de simples adaptação a uma realidade injusta. Também pode ser absorvido por formas regressivas de pertencimento, que oferecem identidade sem projeto coletivo. Mas existe outra possibilidade, ainda aberta: a de que essa ansiedade contenha o início de uma nova consciência histórica.

Não se trata, necessariamente, de uma consciência de classe nos moldes tradicionais. Trata-se, antes, de uma sensibilidade compartilhada diante de um mundo que deixou de oferecer sentido e direção. Algo que ainda não se organiza claramente em partidos, sindicatos ou movimentos duradouros, mas que circula em afetos, frustrações e percepções comuns de injustiça.

Se for assim, os dados da PeNSE deixam de ser apenas um alerta de saúde pública. Eles passam a registrar estatisticamente uma mutação social em curso. O Brasil pode estar diante de uma geração que já não acredita no futuro como promessa garantida, mas que, justamente por isso, talvez venha a recolocá-lo como problema político. Nesse caso, a ansiedade não seria o fim da história. Poderia ser justamente o começo de outra.

 

Fonte: Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras

 

Estudo brasileiro mostra vantagem do cateterismo sobre cirurgia torácica

Dois médicos brasileiros apresentaram no fim de março, em Nova Orleans, nos Estados Unidos, um estudo do instituto Dante Pazzanese de Cardiologia que compara valve in valve mitral por cateter com reoperação por cirurgia de peito aberto.

Em um ano, a taxa combinada de morte ou AVC incapacitante foi de 5,3% no grupo tratado por cateter e 20,8% no grupo cirúrgico. O procedimento por cateter também apresentou menos complicações imediatas, incluindo menor mortalidade precoce, menos sangramento e menor risco de lesão renal.

O estudo, coordenado pelo Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia e liderado pelo médico Dimytri Siqueira, avaliou pacientes que já haviam sido submetidos a cirurgia valvar. Os pacientes tinham idade média de 58 anos e a maioria eram mulheres. Setenta por cento apresentavam hipertensão pulmonar. Em média, passaram-se cerca de 14 anos desde a operação anterior.

Siqueira explicou que o estudo avaliou pacientes já submetidos a troca da válvula mitral e comparou nova cirurgia com implante por cateter. “Em pacientes operados previamente, em um ano, o implante por cateter reduziu morte, AVC e complicações.”

Em um ano, a taxa de morte ou AVC incapacitante foi de 5,3% no grupo valve in valve mitral e 20,8% no grupo submetido à reoperação por cirurgia, segundo a pesquisa. No curto prazo, o tratamento por cateter mostrou menos complicações imediatas, com menor mortalidade precoce, menos eventos hemorrágicos e menor incidência de lesão renal.

O cardiologista e diretor do instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, Fausto Feres, explicou por que o valve in valve mitral apresentou menor mortalidade e AVC.

“O procedimento do válvula em válvula mitral teve menor mortalidade e AVC principalmente devido ao alto risco cirúrgico que esses pacientes apresentam. Eles têm pressão arterial pulmonar elevada. No pós operatório, passam por intubação prolongada, acabam tendo mais infecções pulmonares, mais disfunção renal e acabam tendo uma maior mortalidade.”

Feres explicou as diferenças técnicas entre as abordagens e ressaltou a consequência clínica da técnica por cateter. Ele afirmou que o procedimento não exige abertura do tórax e proporciona recuperação rápida. “O resultado é imediato e a melhora é significativa, com alta em um ou dois dias.”

Ele comentou sobre indicação e seleção dos pacientes. Segundo Feres, aqueles com hipertensão arterial pulmonar já instalada, por causa do longo curso da doença valvar mitral, devem ser preferencialmente tratados com válvula em válvula mitral.

“Quando se pega uma população como essa, a superioridade do válvula em válvula mitral, pelo menos com um ano de seguimento, é nítida”, disse ele. Feres acrescentou que pacientes mais jovens, com risco cirúrgico menor ou candidatos a prótese metálica, continuam podendo ser indicados para cirurgia.

<><> Distanciamento da última cirurgia

Sobre o tempo desde a última cirurgia, Feres afirmou que o intervalo médio de cerca de 14 anos contribui para degeneração da prótese e piora das condições cardíacas e pulmonares, o que favorece a indicação do procedimento por cateter.

Ele citou também a existência de filas de espera nos hospitais, com esperas de seis meses a um ano, que podem agravar o quadro dos pacientes e influenciar a decisão pelo método menos invasivo.

Na apresentação em Nova Orleans, a recepção do estudo foi favorável, segudo o médico, mas surgiram pedidos por dados de seguimento mais longo. Feres afirmou que a durabilidade da prótese implantada por cateter além de um ano ainda precisa ser avaliada.

Ele informou que os pacientes do estudo serão acompanhados anualmente com exames como ecocardiograma e tomografia para verificar se os resultados se mantêm ao longo do tempo.

Quanto à adoção mais ampla do valve in valve mitral no Brasil, Feres apontou barreiras: necessidade de treinamento e de centros especializados, capacitação por meio de proctors (supervisores de treinamento), custos e ausência de reembolso sistemático pelo SUS (Sistema Único de Saúde) e por planos de saúde.

Ele disse que a disponibilidade de dispositivos não é o principal entrave. Feres concluíu que a técnica deve ser implementada em centros especializados e que o próximo passo é o acompanhamento de médio e longo prazo para avaliar a durabilidade do tratamento.

•        Parar de tomar aspirina após infarto não é seguro, diz estudo brasileiro

Um estudo brasileiro mostrou que parar de usar aspirina nos primeiros meses após um infarto não é seguro, podendo aumentar o risco de um segundo infarto, derrame e trombose. A pesquisa foi liderada pelo Einstein Hospital Israelita e é um dos destaques do congresso anual da European Society of Cardiology (ESC), que acontece em Madri, na Espanha, e termina nesta segunda-feira (1º).

A pesquisa NEO-MINDSET acompanhou por 12 meses mais de 3.400 pacientes com síndromes coronarianas agudas e avaliou se seria seguro suspender o uso da aspirina após a angioplastia com stent -- um procedimento minimamente invasivo usado para desobstruir artérias --, mantendo apenas um medicamento antiplaquetário (usado para evitar a formação de coágulos sanguíneos).

"Quando acontece um infarto, há a formação de placas de gordura nas artérias e, por vezes, a formação de coágulos, obstruindo a passagem de sangue para o coração. Por isso, existe a necessidade de desobstruir imediatamente a artéria para restabelecer o fluxo de sangue para aquela região", explica Pedro Lemos, diretor da Cardiologia do Einstein Hospital Israelita e autor sênior da pesquisa à CNN.

"Isso pode ser feito de maneira medicamentosa, com uma medicação que solva o coágulo, mas o tratamento mais eficiente é fazer a desobstrução com o implante de stent para permitir a passagem plena do sangue", completa.

Após a desobstrução da artéria com stent, é preciso evitar que um novo coágulo se forme na região do coração. Para isso, são usadas medicações que afinam o sangue, de acordo com o especialista. Atualmente, o tratamento padrão após um infarto combina aspirina com outro antiplaquetário, um método chamado dupla anti-agregação plaquetária. Porém, como a aspirina pode aumentar o risco de sangramentos, havia dúvidas sobre sua continuidade.

Estudos prévios indicavam que é possível retirar a aspirina após alguns meses, mantendo-se um período inicial de dupla anti-agregação. Mas permanecia incerto se a retirada poderia ser realizada logo após o infarto. Agora, os resultados da pesquisa do Einstein demonstram que, geralmente, manter a dupla medicação desde o início é mais seguro, reforçando o protocolo tradicional e influenciando práticas médicas ao redor do mundo.

<><> O que o estudo mostrou?

Os pesquisadores observaram que a retirada precoce da aspirina -- ou seja, logo após o infarto -- resultou em uma redução significativa de sangramentos, com uma incidência de 2% no grupo que não utilizou o medicamento, em comparação com 4,9% no grupo que manteve a terapia dupla.

Por outro lado, a alteração no protocolo padrão não manteve a proteção contra eventos cardiovasculares graves, como infarto, derrame ou necessidade urgente de nova revascularização. Segundo o estudo, o grupo que usou sem aspirina teve um risco 7% maior de ter esses eventos, em comparação com 5,5% no grupo que manteve o uso.

Além disso, o número de casos de trombose de stent -- uma complicação séria desse tipo de procedimento, caracterizada pela formação de um coágulo sanguíneo em um stent coronário -- pareceu maior entre os pacientes que não receberam aspirina: 12 casos entre os que não usaram o medicamento, contra 4 no grupo que manteve o uso.

"O que vimos é que, de modo geral, a retirada da aspirina precocemente, logo depois do infarto, não é tão benéfica quanto deixar os dois remédios ao longo dos 12 meses", afirma Lemos. "Um dos tipos de reinfarto é a trombose de stent. Então, resumindo: quando nós retiramos a aspirina, não ficamos tão protegidos quanto quando damos as duas medicações", completa.

O trabalho foi realizado em parceria com o Ministério da Saúde, via Programa de Apoio ao Desenvolvimento Institucional do Sistema Único de Saúde (Proadi-SUS) e envolveu 50 centros hospitalares de diversas regiões do Brasil, com a maioria dos pacientes participantes sendo do Sistema Único de Saúde (SUS).

"A publicação no New England Journal of Medicine e a seleção como destaque no principal congresso de cardiologia do mundo reforçam a maturidade da pesquisa clínica conduzida no Brasil. Trata-se de uma contribuição relevante para a prática médica global, que projeta a cardiologia e a ciência médica brasileira no geral em um cenário de excelência científica internacional", afirma Luiz Vicente Rizzo, diretor-executivo de Pesquisa do Einstein.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Paulo Kliass: Lula, as dívidas e os juros

As tendências apresentadas pela maioria das pesquisas de opinião divulgadas nas últimas semanas apontam para uma aproximação das intenções de voto entre Lula e Flávio Bolsonaro. Considerando a margem de erro dos levantamentos, o fato é que, se a eleição fosse hoje, haveria um empate técnico entre ambos. A polarização está na ordem do dia e na boca dos eleitores, sugerindo que o Brasil atravessará um período de campanha bastante acirrada, com algumas tintas que remetem ao pleito de quatro anos atrás.

O presidente insiste em não reconhecer as indicações das pesquisas que também apuram a aprovação ou a desaprovação de seu governo. Mas também neste quesito os números são inquietantes. Apesar dos indicadores positivos relativos a desemprego, emprego e PIB, por exemplo, o fato é que a população não parece nada satisfeita com a sua situação. Boa parte dos empregos gerados é precária e informal, com remuneração bastante frágil e jornadas de trabalho extenuantes. O crescimento do PIB é pouco expressivo em quesitos como o consumo das famílias, retratando uma priorização dos recursos destinados ao agronegócio. A inflação de alimentos, energia e transporte cresce acima da média e compromete ainda mais a qualidade de vida da grande maioria dos setores que compõem a base de nossa pirâmide da desigualdade social e econômica.

Esse quadro de incerteza termina por acirrar os ânimos daqueles que estão mais diretamente envolvidos na disputa de outubro próximo. E pode inclusive levar a estratégias equivocadas, em termos políticos e eleitorais. Lula tem evitado promover mudanças na orientação da política econômica de seu terceiro mandato. Tal opção está cobrando a fatura pela austeridade fiscal implícita no Arcabouço Fiscal, pela política monetária de SELIC nas estratosferas, pela cara de paisagem do Banco Central (BC) quanto às tarifas e spreads cobrados pela banca, pela falta de recursos para levar à frente políticas públicas voltadas à maioria da população.

<><> A crise atual e as explicações equivocadas

A combinação perversa de tais opções equivocadas de políticas públicas se concretiza em fenômenos que se revelam muito desgastantes para quem está à frente do Poder Executivo. Esse parece ser o caso de eventos como a fila recorde de tempo de espera para se conseguir atendimento no INSS ou os níveis dramáticos de inadimplência e de endividamento que afetam a grande maioria da população. Ao evitar o reconhecimento de que a política econômica está na base de tais acontecimentos, Lula e seus principais assessores partem para a busca de desculpas e explicações que não param de pé.

A questão dos juros elevados e do comprometimento da renda familiar para pagar as dívidas crescentes são exemplos típicos de tal recusa em encarar o fenômeno, reconhecer os equívocos e propor soluções efetivas. Lula chegou perto de responsabilizar o povo pela situação de elevado endividamento. Em visita a uma empresa automobilística no final de março, ele se dedicou a comentar o tema:

(…) “Tudo a gente vai comprando. É R$ 50 ali, R$ 30, R$ 40. Parece que não é nada. Mas quando chega no final do mês, a somatória dessa quantidade de pouquinhos vira grande. E a gente começa a ficar zangado. ‘Trabalhei o mês inteiro, recebi meu salário e não sobrou nada’. Aí quem vocês xingam? O governo” (…) [GN]

Ora, o próprio presidente é que sempre estimulou o aumento dos níveis de consumo, com a ilusão de que a maioria da população estaria ingressando na classe média. No entanto, como praticamente nada foi feito para oferecer crédito em condições minimamente civilizadas para os indivíduos e as famílias, o que se verificou foi o crescimento quase explosivo dos compromissos financeiros no orçamento doméstico. O governo assistiu a tudo de forma absolutamente passiva, contando provavelmente com a varinha mágica do “mercado” para solucionar essa equação dramática. Mas a crise se mantém e Lula aponta uma leitura muito simplista do quadro:

(…) “Aí, a gente fica zangado e culpa quem? Culpa o governo. O mundo é assim. A gente culpa o governo por tudo que dá errado. Eu sei que, na cabeça das pessoas, funciona assim” (…)

<><> O povo não é culpado da situação grave

A reação do presidente guarda alguma semelhança com a forma como ele se manifestou a respeito do tema de juros elevados ainda em seu primeiro mandato. Estávamos em abril de 2005 e o COPOM acabara de elevar a SELIC para 19,5%. Os juros cobrados pelos bancos seguiam bastante elevados, inclusive pela recusa do BC em atuar sobre os spreads escandalosos que já eram cobrados nas operações de crédito e empréstimo. O diagnóstico de Lula jogava sobre o colo do povo a responsabilidade pelos juros muito altos, como se as pessoas fossem preguiçosas para conversar com o gerente do outro banco na calçada em frente.

(…)”Ele [o brasileiro] não levanta o traseiro do banco, ou da cadeira, para buscar um banco mais barato. Reclama toda noite dos juros pagos e no dia seguinte não faz nada para mudar” (…)

Parece evidente que o governo exerce um papel fundamental nesse xadrez de juros e endividamento elevados. A definição da taxa referencial de juros é atribuição do Comitê de Política Monetária (COPOM), que vem a ser integrado pelos integrantes da diretoria do BC — todos indicados pelo governo. Os juros escorchantes cobrados pela banca também só são possíveis de serem praticados em função da cara de paisagem e cumplicidade do mesmo órgão. Afinal, ele tem por função exercer seu papel de órgão regulador e fiscalizador do sistema bancário e financeiro. Além disso, o governo deveria utilizar os bancos estatais federais para reduzirem seus spreads e obrigarem o oligopólio da banca privada a acompanhar tal tendência.

No entanto, desde 2003, os sucessivos governos dirigidos pelo Partido dos Trabalhadores (PT) nada fizeram a esse respeito. Com exceção de uma tentativa logo abandonada por Dilma Rousseff em 2012, o Banco do Brasil (BB), a Caixa Econômica Federal (CEF), o Banco do Nordeste (BNB) e o Banco da Amazônia (BASA) sempre orientaram suas ações seguindo o padrão dos conglomerados financeiros privados. Uma das principais consequências de tal adesismo à lógica financista é a incapacidade de o Estado intervir nessa seara para defender os menos favorecidos e impedir os abusos por parte do cartel da banca e de suas ramificações no mundo do financismo.

Outro aspecto relevante na mira equivocada de Lula é o aparente desconhecimento de uma novidade no domínio dos fatores que mais impulsionam os índices de endividamento e da inadimplência. Refiro-me ao impressionante avanço das apostas no cotidiano da população e no universo da economia de uma forma geral. Em primeiro lugar, em mais uma demonstração da imposição de parte de nossas elites a uma postura submissa ao imperialismo, “resolvemos” importar o vocábulo do inglês: parece que fica mais chique dizer e escrever “bet”.

E a força da grana vem se impondo de maneira catastrófica a cada dia, a cada semana, a cada mês que passa. A legislação autorizando as apostas foi aprovada em 2018 por meio da Lei 13.756, mas de forma mais efetiva somente em 2023, por meio da Lei 14.790, já no começo do terceiro mandato de Lula. A partir de então, o elevado faturamento desse tipo de atividade e a dominação de grandes empresas do ramo fizeram com que ramos importantes de atividades econômicas, culturais e esportivas dependam cada vez mais dos recursos de publicidade e patrocínio dos grupos de apostas.

<><> Governo nada faz para conter as apostas

A fragilidade de regulamentação, por outro lado, estimula a aplicação descontrolada de dinheiro por parte da população, em especial os setores de mais baixa renda. Assim, o que ocorre atualmente é que os gastos com apostas no orçamento da população da base de nossa pirâmide da desigualdade são o fator que mais pesa no endividamento e na inadimplência. Isso significa que a fala de Lula está um pouco deslocada da realidade. O problema não é mais apenas comprar muito sem pensar ou assumir dívidas junto a instituições financeiras. De acordo com pesquisa recente, as apostas são o fator que mais pesa no comprometimento da já diminuta renda dos setores mais pobres.

(…) “O avanço das apostas online passou a ter peso maior no endividamento das famílias brasileiras do que fatores tradicionais, como juros e crédito” (…) [GN]

Por outro lado, Lula precisa compreender que um dos fatores que também contribuem de forma efetiva para o elevado endividamento e inadimplência dos indivíduos e famílias reside na elevadíssima taxa de juros dos bancos. Por exemplo, durante o terceiro mandato de Lula, a média da taxa cobrada nas operações do cartão de crédito rotativo foi de 438% ao mês. Ela chegou a atingir 456% em maio do ano passado. Uma loucura! Esse é o segmento de maior spread observado, uma vez que a SELIC está no patamar de 15%. Ora, os bancos só podem cobrar essas taxas estratosféricas porque contam com a complacência do BC, que nada faz senão atender aos interesses das empresas do sistema financeiro.

Na verdade, o que se faz necessário é uma mudança significativa na orientação da política econômica, com a adoção urgente de medidas para reverter o quadro de dificuldades sociais e econômicas pelo qual passa a grande maioria da população. Caso contrário, o governo vai continuar enfrentando sérias dificuldades para reverter o quadro de desaprovação, tal como apontado nas pesquisas. Estamos a seis meses das eleições e Lula precisa mostrar ao povo brasileiro que seu governo merece a confiança nas urnas para exercer mais um mandato à frente do Palácio do Planalto. Afinal, a alternativa seria um retrocesso ainda maior, com o retorno da extrema direita ao governo federal.

¨      Entre o Estado e o mercado, a sociedade civil. Por Fernando Nogueira da Costa

O dualismo nos modelos institucionais brasileiros, segundo Carlos Henrique Vieira Santana e Marcela Nogueira Ferrario, ambos professores da UNILA, na pesquisa “Superando o Colonialismo Interno?”, refere-se, primordialmente, ao debate sobre as relações entre o Estado e a sociedade na formação das instituições e das mudanças políticas no país. Eles fazem uma análise espacial dos desembolsos do BNDES sobre a renda e o emprego nos municípios brasileiros entre 2002 e 2023.

Uma vertente clássica das Ciências Sociais interpreta o Estado brasileiro como uma instância dotada de autonomia relativa. Ela se sobrepõe a uma sociedade civil vista como “invertebrada” ou desorganizada.

Esse dualismo é analisado sob o conceito de modernização conservadora, no qual o Estado soluciona crises de legitimidade ao neutralizar elites reacionárias e construir um aparato burocrático hegemônico, sem as classes sociais conseguirem exercer hegemonia própria. A ferramenta para gerir esse dualismo teria sido o corporativismo, um sistema onde o Estado coordena verticalmente a representação de interesses.

Por meio dele, o Estado incorporou diversos atores (industriais, trabalhadores urbanos e classes médias) para garantir estabilidade política, enquanto as elites agrárias mantinham o controle sobre o campo, excluindo os trabalhadores rurais.

Para superar essa visão dualista de “Estado forte versus sociedade fraca”, parte da literatura propõe uma abordagem integrada. Essa visão identifica o formato institucional brasileiro como o resultado da articulação direta entre segmentos organizados da sociedade e o funcionamento das máquinas estatais.

Além do aspecto institucional, o relatório de pesquisa também menciona a “razão dualista” no campo econômico. Descreve a suposta separação entre um setor industrial “moderno” e um setor agrícola “atrasado”. No entanto, para críticos como Francisco de Oliveira, essa dualidade é aparente, existindo, na verdade, uma integração dialética onde o setor “atrasado” ajuda a financiar e manter o crescimento do setor “moderno”.

Para o desenvolvimento municipal, entre o reducionismo binário entre o Estado e o mercado como os agentes responsáveis, o terceiro incluído deve ser a comunidade de cada cidade do interior. Cabe pesquisar quais são as atividades atraentes do desenvolvimento e em quais setores se deve colocar o foco para multiplicar empregos e renda, além de levantar qual é a infraestrutura necessária. É responsabilidade exclusiva do governo federal e seus órgãos como o BNDES?

A oposição binária Estado vs. mercado costuma ocultar um terceiro polo decisivo no desenvolvimento local: a comunidade organizada do território. Em cidades do interior, o desenvolvimento costuma emergir de sistemas locais de produção, onde interagem três vetores: (i) Estado provê infraestrutura, financiamento e regulação; (ii) mercado/empresas organizam investimento e inovação produtiva; (iii) comunidade local cria redes sociais, cooperativas, associações, identidade territorial e capacidade de coordenação.

Esse terceiro incluído (a comunidade) é crucial, porque o desenvolvimento municipal depende de capital social, conhecimento local e governança territorial. Sem isso, investimentos externos se tornam enclaves sem efeitos multiplicadores.

Para planejar quais atividades são mais atraentes para o desenvolvimento municipal, o critério central não deve ser apenas crescimento do PIB local, mas capacidade de gerar efeitos multiplicadores de emprego, renda e encadeamentos produtivos. Por exemplo, a agroindústria regional transforma a produção primária em produtos processados como laticínios, processamento de carnes, café especial, frutas processadas  bioenergia. Apresenta as vantagens de ter alto impacto em cidades pequenas, conectar agricultura familiar e indústria, além de criar cadeias logísticas e serviços.

Também é possível criar indústrias leves e manufatura regional, especialmente aquelas com cadeias curtas e mercado interno: móveis, alimentos, têxtil, calçados, equipamentos agrícolas e materiais de construção. Esse tipo de indústria foi a base de vários polos regionais brasileiros como os exemplos históricos de Franca-SP e Nova Serrana-MG em calçados e Bento Gonçalves-RS em móveis.

Serviços intensivos em mão de obra são muito importantes para multiplicação rápida de emprego: saúde regional, educação superior, turismo, logística e construção civil. Hospitais regionais, universidades e centros técnicos têm grande efeito dinamizador.

Hoje, por meio de economia do conhecimento descentralizada, cidades médias podem desenvolver tecnologia agrícola, software, serviços digitais, centros de dados. Santa Rita do Sapucaí, localizada no sul de Minas Gerais (a 405 km de Belo Horizonte), é mundialmente conhecida como o “Vale da eletrônica”. Sua principal atividade econômica é a produção de eletrônicos, telecomunicações e informática, destacando-se como polo de tecnologia e inovação, com mais de 180 empresas e a primeira escola técnica de eletrônica da América Latina.

É possível também desenvolver o turismo territorial quando existe patrimônio natural ou cultural. Por exemplo, o ecoturismo, o turismo histórico, o turismo gastronômico e o turismo religioso geram empregos em muitos setores.

O desenvolvimento local ocorre quando existem cadeias produtivas territoriais, não atividades isoladas. Como exemplos de setores estratégicos, para cidades do interior focar e multiplicar emprego e renda, em agroindústria e agricultura familiar, a cadeia típica é agricultura processamento logística comércio exportação.

Construção civil de habitações é um dos maiores multiplicadores econômicos porque emprega mão de obra local, ativa indústria de materiais e gera renda rapidamente. Serviços regionais estruturantes são oferecidos por hospitais, universidades, centros técnicos e comércio regional. Cidades concentradoras desses serviços, como Campinas, se tornam polos regionais.

Quanto à pequena indústria regional, clusters locais são decisivos. Eles dependem de Escolas Técnicas, fornecedores locais, crédito produtivo e cooperação empresarial.

O desenvolvimento territorial exige infraestrutura básica e logística. No caso de infraestrutura física: estradas e ferrovias, energia elétrica confiável, saneamento, habitação, internet de alta velocidade e centros logísticos. No caso de infraestrutura social: escolas técnicas, universidades regionais, hospitais e centros de pesquisa. Isso cria capital humano local. No caso de infraestrutura financeira: crédito produtivo, cooperativas de crédito e bancos regionais. Por isso, os bancos públicos federais – BNDES, BB, Caixa, BNB, Basa – por meio de crédito direcionado são fundamentais para o desenvolvimento regional.

Porém, o BNDES e o governo federal, em especial a Financiadora de Estudos e Projetos (FINEP), não são suficientes, porque o desenvolvimento territorial exige arquitetura multinível. O governo federal tem papel-chave em grandes investimentos, crédito de longo prazo, política industrial e infraestrutura nacional.

Os estados, isto é, as unidades federativas, têm funções desenvolvimentistas por meio de Universidades estaduais, agências de desenvolvimento e infraestrutura regional. As prefeituras dos Municípios, embora muitas não tenham capacidade técnica para tanto, têm papel essencial no planejamento urbano, na política de solo, na criação de parques industriais e na capacitação profissional.

Como dito, entre o binarismo Estado versus mercado, o terceiro incluído é a comunidade ou a sociedade civil, entre outras instituições, cooperativas, associações empresariais, sindicatos e universidades locais. Sem esse capital social, o investimento público não gera desenvolvimento endógeno.

O verdadeiro “motor desse mecanismo” socioeconômico e político são os ecossistemas territoriais. O desenvolvimento municipal bem-sucedido geralmente envolve cinco elementos simultâneos: (a) base produtiva local; (b) instituições educacionais; (c) infraestrutura logística; (d) crédito produtivo; (e) governança comunitária. Esse conjunto forma o chamado de sistema produtivo local.

A lógica sistêmica do desenvolvimento local é representada pelo seguinte processo: comunidade organizada identificação de vocações locais arranjos produtivos locais infraestrutura + crédito cadeias produtivas emprego + renda + arrecadação reinvestimento local. Logo, desenvolvimento territorial é um fenômeno emergente de redes sociais, produtivas e institucionais.

O desenvolvimento municipal não resulta nem do mercado sozinho nem do Estado isoladamente. Ele surge da interação entre três polos: Estado (infraestrutura e financiamento), Empresas (produção e inovação) e Comunidade (coordenação territorial e capital social). Cidades bem-sucedidas em articular esses três elementos tendem a formar ecossistemas produtivos duráveis.

 

Fonte: Outras Palavras/A Terra é Redonda

 


 

Apoio dos EUA à ditadura: documentos revelam tensão e conflito nas relações bilaterais

A última viagem do norte-americano Nelson Aldrich Rockefeller ao Brasil ocorreu em 1969, quando o bilionário do setor petroleiro e filantropo tinha 61 anos. Experiente nas relações com a América Latina, onde a fundação que leva o nome de sua família atua desde 1916, Rockefeller havia estado no país diversas vezes, mas essa viagem derradeira era a primeira na nova capital, Brasília. Passados cinco anos desde o golpe de Estado, em 1964, quando o apoio norte-americano foi fundamental para a deposição do presidente João Goulart e a ascensão dos militares ao poder, as relações bilaterais entre os dois países não eram tão amistosas como se poderia supor e Rockefeller, então governador do estado de Nova Iorque, vinha na condição de emissário do presidente Richard Nixon — por quem fora incumbido de reafirmar a amizade dos Estados Unidos com o Brasil.

Rockefeller procurou demonstrar entusiasmo por Brasília, à qual se referiu como “um lugar que o resto do mundo ainda não alcançou” e em cujo projeto arquitetônico teria se inspirado na construção do complexo governamental Empire State Plaza, em Albany, capital do estado de Nova Iorque, edificado entre 1965 e 1978. Acostumado às diversões do Rio de Janeiro, o empresário, entretanto, estranhou a austeridade da nova capital, onde foi recebido com ar oficial e sob um forte esquema de segurança. Rockefeller expressaria, em relatório sobre a viagem, certo desconforto nas duas reuniões que teve com o presidente brasileiro, o marechal Arthur da Costa e Silva, no Palácio da Alvorada.

O militar teria feito questão de esclarecer alguns pontos de divergência entre os dois países, começando pela invasão do escritório da Associated Press no Brasil, em um episódio que conflagrou a censura a jornalistas e veículos de imprensa e que foi motivo de protesto do embaixador norte-americano, Lincoln Gordon, personagem fundamental nas articulações que antecederam 1964. Na sequência, Costa e Silva rememorou o golpe, afirmando o protagonismo brasileiro: havia sido uma “revolução do povo que se opôs ao comunismo”, instaurando “um governo do povo dedicado ao povo”. Embora tenha enfatizado o caráter “nacional” da “revolução”, o presidente reiterou a lealdade brasileira aos Estados Unidos, alegando que o desenvolvimento econômico do país e a melhoria das condições de vida do povo eram de interesse norte-americano, uma vez que a miséria dos países próximos representava uma ameaça ao vizinho do Norte.

Confrontado pelo empresário a respeito de supostas restrições políticas e violações de direitos humanos no Brasil sob a ditadura, especialmente contra os chamados presos de consciência – jornalistas, artistas e intelectuais encarcerados por suas ideias e não por envolvimento na luta armada –, Costa e Silva justificou que os Estados Unidos haviam dado pouca assistência militar ao Brasil após o golpe e que, em face do “aberto ataque comunista ao Ocidente”, a democracia podia esperar.

Nos Estados Unidos, havia, naquele momento, pressão política contra a ditadura no Brasil. O senador democrata Frank Church sugeriu o cancelamento da viagem de Rockefeller ao país como forma de protesto contra as notícias sobre exacerbações do governo que reverberavam por lá. O Congresso pressionava o Executivo para que condicionasse as ajudas ao Brasil ao restabelecimento das liberdades democráticas. Rockefeller acreditava, entretanto, como rezava uma certa tradição da política externa norte-americana, que os regimes militares eram algo congênito na América Latina, sendo melhor “conviver com eles do que isolá-los”.

Quem conta toda essa história é Antonio Pedro Tota no livro “O Amigo Americano – Nelson Rockefeller e o Brasil” (2014). Ela é ilustrativa de uma mudança nas relações entre os Estados Unidos e o Brasil após o golpe de 1964, reconhecidamente sustentado pelos norte-americanos, e demonstra, contrariando o senso comum, que elas foram permeadas por tensão, dissenso e, eventualmente, conflito.

Embora, na prática, o encontro entre Nelson Rockefeller e Costa e Silva tenha servido para atualizar as lealdades do Brasil para com os Estados Unidos, condicionada a apoio militar e econômico, ele expõe alguns aspectos da relação entre os dois países após 1964 que merecem ser considerados: primeiro, uma leitura do golpe que, mesmo sem negar a participação norte-americana, defende o protagonismo brasileiro e o suposto caráter popular e nacionalista da resistência ao comunismo internacional; segundo, o ressentimento brasileiro à pouca assistência militar após a conhecida operação Brother Sam, que se manteve apenas até que Jango fosse deposto e os militares ascendessem ao poder; terceiro, a dúbia relação dos Estados Unidos com as ditaduras militares latino-americanas, que ajudaram a promover e legitimar, mas que expuseram a falácia da democracia na América.

Há muito a participação norte-americana no golpe de 1964 é conhecida. Em discurso proferido no Recife, no calor dos acontecimentos, Leonel Brizola atribuiu ao então recente golpe o estatuto de obra do “imperialismo yankee”. Preso pela Marinha durante a ditadura, acusado de subversão, o historiador Moniz Bandeira escreveu “Presença dos Estados Unidos no Brasil”, lançado em 1973, no qual apontava a participação do Departamento de Estado norte-americano e da CIA no golpe. Em 1981, René Armand Dreifuss publicaria “1964 – A conquista do Estado”, no qual não apenas a participação direta dos Estados Unidos, via agências federais, corpus diplomático e forças armadas, foi demonstrada, mas também a de empresas privadas, tais como Texaco, Shell, ESSO (das iniciais S.O., referentes a Standard Oil, empresa pertencente à família Rockefeller), Bayer, General Electric, IBM, Coca-Cola, Cigarros Souza Cruz e General Motors, muitas delas norte-americanas, que financiaram instituições brasileiras gestoras do golpe, sobretudo o Instituto de Estudos e Pesquisas Sociais (IPES).

·        Documentos desclassificados comprovam a participação norte-americana além do golpe

A despeito de trabalhos historiográficos importantes, baseados em pesquisas de arquivo, a participação norte-americana no golpe foi, durante muito tempo, desacreditada, considerada resultado de teorias conspiratórias elaboradas por políticos e intelectuais de esquerda. As evidências, entretanto, foram aparecendo progressivamente.

Em 2004, por ocasião dos 40 anos do golpe, a Universidade George Washington desclassificou documentos do National Security Archive referentes ao “Brazil Project”, que contêm fontes sobre a participação norte-americana no golpe, demonstrando que os Estados Unidos estavam preparados para intervir militarmente no processo de deposição de Jango, caso as forças brasileiras fracassassem.

Em 2008, o historiador Carlos Fico publicou “O Grande Irmão”, baseado em documentação então inédita coletada nos Estados Unidos, especialmente em fontes intituladas “Country Analysis and Strategy Paper” (CASP), abrigadas no National Archives and Records Administration (NARA), que consistiam em relatórios conjuntos elaborados por diversos setores da embaixada norte-americana no Brasil, pelo Departamento de Estado e por agências federais norte-americanas durante a ditadura militar brasileira.

Em 2012, a presidente Dilma Rousseff consolidou a justiça de transição no Brasil, ao assinar a Lei de Acesso à Informação − que estabeleceu novos parâmetros para a liberação de documentos com informações sobre violações de direitos humanos pelo Estado brasileiro durante a ditadura − e instituir a Comissão Nacional da Verdade (CNV).

Em 2013, a partir de um contato entre o historiador brasileiro Sidnei Munhoz, que fazia parte da CNV, e o brasilianista norte-americano James Green, foi estabelecido o projeto Opening the Archives, uma parceria entre a Universidade Estadual de Maringá (UEM) e a Brown University com apoio dos arquivos nacionais do Brasil e dos Estados Unidos, que visa à digitalização e disponibilização on-line de documentos referentes à presença dos Estados Unidos no Brasil entre as décadas de 1960 e 1980. Em entrevista ao site do projeto, James Green, colunista da Agência Pública, afirmou que a ideia de disponibilizar as fontes para livre acesso surgiu quando ele pesquisava no NARA para a escrita do livro “Apesar de vocês”, publicado em 2009.

Com efeito, o NARA possui uma vasta documentação sobre as relações entre os Estados Unidos e o Brasil, notadamente durante a ditadura, parte da qual já foi investigada por historiadores brasileiros. Em 2011, quando estive no arquivo pela primeira vez fazendo pesquisa para o doutorado, identifiquei fontes sobre a atuação de uma agência federal até então pouco conhecida no Brasil, a United States Information Agency (USIA). A pesquisa ensejou um dos primeiros trabalhos sobre a atuação do Programa de Fomento ao Livro da agência no país, atuante entre 1953 e 1973, que desempenhou papel central na chamada Guerra Fria cultural. A tese, defendida em 2013, foi publicada em 2015, sob o título “Guerra Fria e Política Editorial”, e demonstrou que o programa estabeleceu uma complexa rede de contatos no Brasil, envolvendo empresários, editores e escritores, cujos interesses não devem ser menosprezados. O tema foi objeto de reportagem da Pública.

Mais recentemente, com a abertura dos arquivos JFK, novas possibilidades de pesquisa foram abertas, cujos efeitos ainda não podem ser calculados.

<><> A complexidade das relações Brasil-EUA exige uma leitura além do senso comum

A historiografia tem demonstrado alguns aspectos relevantes das relações Brasil-Estados Unidos ao longo da história e, em particular, na ditadura, que apontam caminhos para investigações futuras.

  1. Assumir a participação dos Estados Unidos no golpe não deve implicar no juízo de que o regime que o sucedeu, o militar, tenha sido necessariamente americanista. A análise documental, qualitativa, de cada governo, programa, acordo é fundamental para entender a complexidade dessa relação;
  2. Ainda que a ideia de desenvolvimento, notadamente econômico, assumida como projeto para o país pelos militares estivesse, especialmente nos anos 1960, em acordo com as teorias da modernização, amplamente em voga entre intelectuais e policymakers norte-americanos no período, ela era pensada por uma chave nacionalista;
  3. O projeto de modernização para o Brasil antecede o governo Castelo Branco e, portanto, deve ser analisado sob uma perspectiva mais ampla, tal como se nota nas relações dos governos Jânio Quadros e Jango com a Aliança para o Progresso, por exemplo;
  4. A presença dos Estados Unidos no Brasil não é, nem de longe, uma novidade da era John Kennedy, instaurada com a criação da Aliança para o Progresso e da USAID. Ainda que, no início do século 20, o isolacionismo tivesse grande força nos Estados Unidos, sendo a abertura de fronteiras uma pauta específica de presidentes como Theodore Roosevelt e Woodrow Wilson, o processo de capilarização internacional do país remonta ao século 19, com especial atuação da iniciativa privada;
  5. As fundações privadas foram um braço importante da diplomacia norte-americana, vide a atuação da Rockefeller, da Carnegie e da Ford. Embora a historiografia já tenha apontado o papel de grandes fortunas no golpe, considerando os financiamentos da Standard Oil, da família Rockefeller, ao IPES, o papel específico das fundações ainda merece investigações mais detidas;
  6. A avaliação do sucesso ou do insucesso dos programas norte-americanos no Brasil é um tema especialmente interessante. Se os conhecidos acordos MEC-USAID, por exemplo, que presidiram a reforma universitária promovida pelos militares em 1968, foram vistos no Brasil como uma forte ingerência norte-americana sobre o país, do lado de lá, eles foram, em parte, aceitos como um fracasso. Isso demonstra que suas pretensões eram de maior monta e, talvez por isso mesmo, não foram completamente atingidas;
  7. Embora a presença de cientistas estrangeiros no Brasil, particularmente na Amazônia, também seja um fenômeno antigo, os governos militares definiram uma política para a região que por vezes comprometeu interesses estrangeiros, a exemplo do decreto de Costa e Silva, de 1969, que restringiu essa presença e foi recebido no exterior como sintoma do “chauvinismo” dos homens da caserna;
  8. O tema dos direitos humanos, sobretudo em se tratando de prisões por crimes “de consciência” denunciadas por organizações como a Anistia Internacional, é um elemento importante para compreender o gradativo desgaste da imagem internacional da ditadura, inclusive nos Estados Unidos. As críticas que os governos militares brasileiros receberam, nessa direção, estavam ligadas à dimensão de exceção do regime, à suspensão dos valores democráticos, com ênfase nos temas da censura e da tortura;
  9. Embora haja alguma dimensão de mal-estar, esses temas jamais foram fundamentais para reduzir ou mesmo eliminar a presença dos Estados Unidos no continente. A mudança de rota na política externa americana nas décadas de 1970 e 1980 explica muito mais. Um olhar detido para o continente seria retomado pelo Consenso de Washington e pelas políticas neoliberais, no final dos anos 1980. Isso se refletiu na Constituinte de 1987, por exemplo, quando o país fez um lobby incisivo, com especial interesse nas questões ambientais;
  10.  A incompatibilidade entre os Estados Unidos e as ditaduras latino-americanas nunca passou, a rigor, de um problema teórico, que os ideólogos da política externa norte-americana conseguiram resolver bem, embora tenha tido implicações práticas. Desde a chamada Era Kennan, no início da Guerra Fria, a ideia da “democracia como fetiche” era tida como possível, inclusive para os Estados Unidos, uma vez que se defendia o Executivo forte e se assumia o Congresso como expressão de um povo intelectualmente limitado e provinciano. Essa premissa não nos deve fazer supor, entretanto, que não fossem legítimas as críticas à contradição norte-americana de apoiar ditaduras em outros países, entoadas inclusive por cidadãos norte-americanos.

Os Estados Unidos não são, como o Brasil não o é, um país homogêneo. Para compreender a história de sua política externa, há que se considerar as diversas frentes de sua atuação no ultramar: a diplomacia formal, as agências de Estado, os programas federais, as fundações privadas, as empresas. Há que se considerar agentes e instituições militares e civis, políticos e diplomáticos, não apenas norte-americanos, mas também brasileiros, em seus assuntos e motivos próprios. Seus rastros estão nos arquivos. Muito tem sido feito pelos historiadores, mas ainda há muito por fazer. Assumir que o apoio dos Estados Unidos à ditadura brasileira não foi simples nem linear é um bom começo de conversa.

 

Fonte: Por Laura de Oliveira Sangiovanni, da Agência Pública