sexta-feira, 23 de outubro de 2026

Paulo Nogueira Batista Jr.: O segundo turno e o lugar do Brasil no mundo

O tema de hoje, poucos dias depois do primeiro turno, é o significado econômico e geopolítico do segundo turno. Quais são as implicações, para a economia e para as relações internacionais do Brasil, do embate que teremos em 25 de outubro? Vou dar mais peso ao aspecto geopolítico, porque me parece o mais grave. É o que mais ameaça o Brasil neste segundo turno: o efeito que a eleição terá, dependendo de quem for eleito, sobre a posição internacional do país num momento muito especial da situação mundial. O primeiro turno foi apertado, 47% a 45%. É uma margem relativamente pequena, e a virada é perfeitamente possível. Não está nada garantido que Flávio Bolsonaro já esteja eleito. Vai depender muito do que acontecer entre o primeiro e o segundo turnos, como sempre, mas sobretudo neste caso, em que a disputa foi tão apertada. Não vou falar aqui como neutro. Sou eleitor do Lula e vou votar nele de novo no segundo turno. Acho um absurdo ficar neutro. Como diz a famosa frase atribuída a Dante Alighieri, o pior lugar do inferno está reservado àqueles que permanecem neutros em tempos de crise. É o caso. Vivemos uma crise sem precedentes, com ameaças sem precedentes ao país. Mesmo que eu achasse o Lula um desastre, o que não acho, escolheria o desastre menor. E, no meu entender, o desastre Flávio Bolsonaro é imenso. Por isso não compreendo quando ouço jovens dizerem que nem vão votar, porque Lula e Flávio Bolsonaro estariam “na mesma prateleira”. A falta de discernimento que alguns brasileiros demonstraram nesta eleição, a falta de conhecimento do que os candidatos representam, é realmente estarrecedora. Um amigo, economista conhecido de esquerda, me contava que o filho não foi votar porque acha que tudo é ruim. Um rapaz que teve em casa, a vida inteira, o diálogo com o pai! Não posso falar muito: na minha própria família há quem seja neutro e já houve quem votasse em Bolsonaro. Vou começar pela economia e depois passar ao aspecto internacional, ao qual reservarei mais tempo.

<><> O que Lula representa para a economia

Lula já mostrou o que pode oferecer, e não acredito que num eventual quarto mandato ele faça algo radicalmente diferente do que fez no terceiro. Como caracterizar essa política econômica? Razoável, equilibrada, sem grandes lances, basicamente responsável. Não arriscou muito. Refletiu o fato de o governo se apoiar numa aliança ampla, que inclui vários setores não ligados à esquerda, o que limita a capacidade de manobra de um governo sustentado por uma coalizão tão heterogênea. Além disso, o governo não tinha maioria no Congresso.

Os dados macroeconômicos não são ruins. Houve crescimento em torno de 3% do PIB no último ano do governo Bolsonaro e nos três primeiros anos do Lula 3. Agora há uma desaceleração em curso, bastante nítida, mas a inflação está sob controle. Deve ficar em torno de 5% neste ano, apesar dos choques externos decorrentes do ataque ao Irã. É acima do teto da meta, mas não é nada de alarmante. As pessoas costumam não levar em conta que o Banco Central pratica juros reais absurdos, com a Selic nas alturas, mesmo com toda a diretoria, presidente e diretores, já nomeada pelo presidente Lula. Dito isso, Gabriel Galípolo conseguiu modificar um pouco para melhor o regime de metas: hoje a meta de inflação é contínua, e não mais referida ao ano-calendário. É uma melhora pequena, mas não desprezível.

Na política fiscal, considero realmente um exagero dizer que o Brasil vive uma crise fiscal, como se propaga muito na mídia corporativa. Temos problemas: a dívida é alta e está crescendo. Mas o resultado primário das contas públicas, que é a parte mais sob controle do governo, está, para o setor público consolidado, em torno de zero, com um déficit da ordem de 0,6% do PIB. A origem do déficit e do crescimento da dívida é a carga de juros suportada pelo setor público, que reflete o nível da dívida e a taxa de juros praticada no Brasil. Essa dinâmica o governo Lula não conseguiu alterar. Há aqui uma distinção a fazer. Na execução do arcabouço fiscal, o governo conseguiu felizmente excluir uma série de itens da meta. Uma coisa é o déficit medido para fins do arcabouço; outra é o déficit efetivo. Quando falo em um déficit primário pequeno, de 0,6% do PIB, falo do déficit efetivo. Se eu tivesse de escolher uma variável econômica brasileira que está fora do padrão normal de sanidade, seria, sem dúvida, a taxa de juros. O Brasil tem, quando não o juro real de curto prazo mais alto do mundo, um dos mais altos. Um juro dessa magnitude só beneficia quem tem riqueza financeira expressiva. Quem a tem pode viver tranquilo sem levantar um dedo. Muito empresário acaba preferindo vender sua empresa, por exemplo a um grupo estrangeiro, e aplicar confortavelmente o resultado no mercado financeiro. Aqui o rentista tem liquidez, risco baixo e juro alto ao mesmo tempo.

O Brasil é também o paraíso fiscal dos super-ricos, que, graças às deficiências da legislação e às possibilidades de planejamento tributário, nome elegante para evasão e sonegação, pagam pouco imposto. Fernando Haddad conseguiu tomar algumas medidas para atenuar o problema, mas não chegou a resolvê-lo. Contudo, o meu propósito hoje não é fazer críticas ao governo Lula na área econômica. Diante do que se avizinha, talvez venhamos a pensar que, quando Haddad era ministro, éramos felizes e não sabíamos.  Em resumo, foi um governo basicamente razoável na economia. Não fez nada de dramaticamente errado. Fez menos do que se gostaria, mas não cometeu nenhuma barbaridade. O desemprego aberto caiu para níveis recordes de baixa, a inflação está controlada, o crescimento do PIB foi razoável e o déficit primário efetivo é pequeno. De 2027 em diante, caso Lula seja reeleito, não acredito que o quadro macroeconômico se modifique muito.

<><> O que esperar de um governo Flávio Bolsonaro

E o que acontecerá com a economia se Flávio Bolsonaro for eleito? A primeira coisa que me chama a atenção no candidato, e por consequência na equipe que ele provavelmente conseguirá montar, é o despreparo. Ele não teve nenhuma experiência anterior relevante para ser presidente da República. Foi a vida inteira parlamentar, primeiro estadual, depois federal, e parlamentar medíocre, que não se destacou por nenhuma atuação importante, assim como o resto da família, inclusive o pai. Não tem experiência executiva. Que história é essa, que agora se implantou no Brasil, de achar que alguém pode ir direto para a Presidência da República? Tivemos no primeiro turno não só o Flávio, mas também Renan Santos e Augusto Cury, sem currículo prévio que justificasse uma candidatura presidencial. Os que tinham trajetória eram Ronaldo Caiado, Romeu Zema e o próprio Lula, que tem tarimba e experiência ampla. É uma grande vantagem dele, inclusive nas questões econômicas: Lula tem uma experiência prática de decisões econômicas como presidente que nenhum outro candidato tem.

A falta de experiência se reflete também na falta de quadros para compor um eventual governo Flávio Bolsonaro. Lembrem-se do governo do pai: gente basicamente incompetente, despreparada e oportunista. Eles não têm quadros que conheçam as questões nacionais, que tenham vivência delas. São improvisadores, e trata-se de um grupo político ligado à milícia do Rio de Janeiro. O que um grupo com essas características pode oferecer ao Brasil, em geral e na área econômica em particular? Se há, entre os que nos ouvem, gente desiludida com Lula, até por alguns dos motivos que mencionei, e que diz que vai se abster porque Lula seria um traidor, peço que ponham a mão na consciência. Não se trata de Lula. Trata-se do país. Lula é o instrumento que temos para defender o país contra a extrema direita ignorante e contra as ameaças internacionais de que falarei adiante. Abster-se num momento desses é uma irresponsabilidade.

<><> O ajuste fiscal e quem paga a conta

O que Flávio anunciou para a economia? Praticamente nada, generalidades. E isso, de certo modo, é natural. Se uma tarefa importante do novo governo será ajustar as contas públicas, vale pensar no que isso significa. Qualquer que seja o presidente a partir de 2027, para fazer ajuste fiscal terá de tomar medidas que desagradam a alguém. Normalmente, o ajuste fiscal é, para usar a linguagem dos economistas, exógeno: os governantes cortam gastos ou aumentam a tributação. Toda vez que o governo corta um gasto, reduz a renda de alguém. E, quando aumenta a tributação, alguém paga essa tributação adicional. O ajuste é sempre custoso do ponto de vista político, e por isso os governos preferem empurrá-lo com a barriga. Só há uma hipótese em que o ajuste pode ser basicamente indolor: quando é endógeno, gerado por um crescimento mais significativo da economia. Pensem, por exemplo, numa economia pequena e exportadora, com alta relação entre exportações e PIB. Se ela se beneficia de um choque positivo nos termos de troca ou de um aumento da demanda externa, isso repercute na economia como um todo. O PIB cresce, aumenta a arrecadação sem tributação adicional e diminuem gastos cíclicos, como o seguro-desemprego. Esse ajuste endógeno, porém, requer condições muito especiais. De onde viria, no Brasil, um impulso de crescimento que dispensasse o governo de medidas duras? Pode-se até construir um cenário, mas não é fácil de ver.

Quem será o ministro da Fazenda de um governo Flávio Bolsonaro? Fica aqui uma conjectura, que é o nome elegante para palpite. Pode ser que ele anuncie o nome antes do segundo turno, ou depois, se eleito. É muito provável que seja um nome aceitável para a chamada “turma da bufunfa”, a exemplo do que fez o pai ao indicar Paulo Guedes, um economista super conservador, ortodoxo, comprometido com ajuste fiscal e privatizações. Talvez o nome apareça antes do segundo turno, para consolidar o apoio do chamado mercado, isto é, do capital financeiro e das grandes corporações, um apoio que já está configurado. Vimos a reação dos mercados na segunda-feira, logo depois do resultado do primeiro turno. Especula-se, com razão, que um governo Flávio venha a adotar medidas recomendadas há anos, com insistência, por economistas ortodoxos ligados ao mercado: parar de reajustar o salário mínimo em termos reais, desvincular aposentadorias e pensões do salário mínimo, acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação. Tudo isso teria efeitos positivos sobre o déficit público, mas à custa de um efeito regressivo na distribuição de renda.

Flávio faz bem, do ponto de vista dele, em esconder as cartas, se é isso que pretende fazer com um ministro do agrado da turma da bufunfa. O povo perceberia que votar nele é votar contra os próprios interesses. O aposentado e o pensionista que votam em Flávio, se essa conjectura for verdadeira, estão votando contra si mesmos. Quem depende do salário mínimo para a sua renda também vai pagar um preço. É previsível que qualquer candidato, e isso vale para o Lula também, esconda o jogo e não queira ser explícito sobre o que pretende fazer. Nenhum dos dois fala, por exemplo, em tributar os super-ricos, uma pauta muito defensável. Quem conhece a estrutura tributária brasileira não há de discordar: ela beneficia os ricos e super-ricos, que pagam proporcionalmente menos do que as classes médias e as classes baixas e ainda aplicam seu patrimônio sem risco, com liquidez e remuneração extraordinária. Por que os super-ricos não saem daqui? Podem até ameaçar, falar mal do Brasil, mas não saem. Como dizia muito bem Brizola, a burguesia brasileira não cabe em Miami.

Essa frase de Brizola inspirou o título do meu livro anterior, O Brasil não cabe no quintal de ninguém, que voltou a circular porque o presidente Lula a usou no discurso na ONU.

<><> A dimensão geopolítica: a soberania sob ameaça

Passo agora ao que me parece mais grave: a dimensão geopolítica da eleição brasileira. Não tenham dúvida de que o mundo acompanha esta eleição com enorme interesse. Estados Unidos, Europa, China, Rússia, América Latina, todos estão voltados para o Brasil. Há quem peça aos brasileiros que salvem a América Latina, que resistam votando num candidato independente do governo Trump. Vou ser claro: do ponto de vista geopolítico, eleger Flávio Bolsonaro é um desastre monumental. Tenho 71 anos de idade e nunca vi a soberania brasileira ameaçada como está hoje, pela conjugação de dois fatores. O primeiro é a presença, nos Estados Unidos, de um governo com ambições imperiais, especialmente em relação à América Latina. O segundo é um candidato que se apresenta, e a palavra é forte, mas não é exagero, como candidato a vassalo do presidente Trump. Não estou fazendo caricatura nem dando uma opinião partidária enviesada. Estou me baseando em fatos. Há pouco tempo, houve uma troca de correspondência entre Flávio Bolsonaro e Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, encarregado pelo presidente Trump de cuidar das relações com a América Latina. Rubio é filho de cubanos exilados e tem um enorme ressentimento em relação a Cuba e a várias forças políticas latino-americanas. A carta de Flávio não foi divulgada, mas a resposta de Rubio, sim, e ela contém um parágrafo assustador. Rubio agradece a Flávio a generosa oferta de, caso seja eleito, pôr uma equipe de transição à disposição do governo dos Estados Unidos.

Vocês se dão conta da gravidade disso? É algo sem precedentes. Um grupo de transição se forma entre um governo que sai e um governo eleito, entre a eleição e a posse, para facilitar a passagem de serviço entre dois governos nacionais. Que história é essa de construir um grupo de transição com o governo norte-americano? É um escândalo. Se a mídia corporativa brasileira não fosse tão colonizada, isso estaria sendo amplamente divulgado. No meu modo de ver, seria suficiente para pedir a impugnação da candidatura, por violar um princípio constitucional básico, que é a defesa da soberania. Não se trata só do caráter servil da família Bolsonaro em relação aos Estados Unidos. Jair Bolsonaro bateu continência para a bandeira norte-americana e teve uma relação de imitação servil com o primeiro governo Trump, cujo mandato coincidiu em grande parte com o seu. O problema é que agora é muito pior. Não necessariamente porque Flávio seja mais servil que o pai, deve ser a mesma coisa, talvez pior. A grande diferença está no ambiente internacional. Temos hoje um Trump 2, que voltou em 2025 super agressivo, marcando uma fase de extrema agressividade do imperialismo norte-americano. Há quem fale em hiperimperialismo, termo que me parece adequado.

<><> O hemisfério ocidental como quintal

O principal problema são os Estados Unidos. Vale a pena ler os documentos norte-americanos de política internacional, que estão disponíveis na internet: a Estratégia de Segurança Nacional, do fim de 2025, e a Estratégia de Defesa Nacional, de janeiro de 2026. Nos dois, o que se lê sobre o hemisfério ocidental é a afirmação, sem nenhum disfarce, de que os Estados Unidos pretendem manter ou recuperar uma hegemonia incontestável na região, entendida como o espaço que vai da Patagônia à Groenlândia. Isso foi repetido várias vezes pelo presidente e por seus ministros, notadamente Marco Rubio. O secretário de Defesa, Pete Hegseth, chegou a usar o termo “quintal”, backyard. Eles não concordam com o frase-título daquele meu livro, “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, usado com grande efeito por Lula no seu discurso na ONU. Acham que o Brasil cabe, e deve caber, no quintal deles. Por quê? Porque o Brasil é tão grande, é o maior país da América Latina, que, se não estiver submetido ao projeto imperial norte-americano, esse projeto será necessariamente incompleto. Olhem a gravidade do momento. Quais países da América Latina não estão hoje na órbita dos Estados Unidos, quais não seguem o modelo Milei? O México de Claudia Sheinbaum, uma figura excepcional. Além de ser mulher, é judia, uma judia super esclarecida, que não apoia o sionismo nem Israel e tem tido uma posição muito digna, interna e internacionalmente. Há também dois países pequenos e anti-imperialistas por tradição, Cuba e Nicarágua. E, na América do Sul, o Brasil. Ao nosso lado, só o Uruguai e Suriname, países que, com todo o respeito, não têm o peso de Colômbia, Argentina ou Peru. Estamos cercados por governos que se submetem à estratégia norte-americana, e os que não se submetem estão sob pressão.

Foi dado pouco destaque, acredito, à questão da Groenlândia. Trump ameaçou várias vezes os seus aliados europeus, notadamente a Dinamarca, com uma ação militar e acabou obtendo, na base da ameaça, um acordo com a Dinamarca e a Groenlândia que consolida a já significativa presença militar norte-americana na ilha. É uma ação inteiramente consistente com a estratégia anunciada nos documentos oficiais. Cuba está sujeita a um reforço dramático do embargo, um embargo criminoso, com fortes consequências humanitárias. Mas resiste. Minha conjectura é que o governo Trump ainda não agiu de maneira mais direta, tentando uma invasão, por dois fatores. O ataque ao Irã não está indo bem, e abrir uma nova frente nessas condições seria uma temeridade. E há as eleições de meio de mandato, decisivas para Trump: estão em jogo as duas casas do Congresso, e ele, impopular, corre o risco de perder o controle de ambas, tornar-se um “pato manco” e até sofrer um impeachment. Não sei o que fará em relação a Cuba depois das eleições parlamentares de novembro nos Estados Unidos. Na Venezuela, os Estados Unidos tiveram uma vitória espetacular. Decapitaram o regime sequestrando o presidente, levado a julgamento nos Estados Unidos, e o regime venezuelano submeteu-se passivamente aos seus desígnios. Virou um protetorado norte-americano. Um país grande e importante, nosso vizinho, em que Delcy Rodríguez está subordinada ao vice-rei Marco Rubio.

Trump está impopular nos Estados Unidos e no mundo. Outra conjectura: ele adotou, diante da eleição brasileira, uma posição de falsa neutralidade. Os estrategistas norte-americanos devem ter percebido que o apoio explícito de Trump a um candidato pode mais atrapalhar do que ajudar. Foi o que aconteceu no Canadá, onde se elegeu Mark Carney, que não era o preferido de Trump, e na Austrália. Devem ter avaliado que convém ficar aparentemente neutros para não atrapalhar o seu vassalo.

<><> Terras raras e minerais críticos no alvo

Por que o Brasil precisa tomar muito cuidado? Porque temos 8,5 milhões de quilômetros quadrados, uma grande população e amplas reservas de recursos naturais em várias áreas, notadamente de minerais críticos e terras raras, cujo interesse estratégico aumentou muito. Um dos objetivos dos Estados Unidos em relação ao Brasil, seja quem for o vencedor, mesmo que seja Lula, é pressionar o governo brasileiro a abrir-se ao interesse norte-americano nessa área: autorizar empresas norte-americanas e garantir o suprimento de matéria-prima por um período longo. Foi o que aconteceu com a Serra Verde. Os norte-americanos já obtiveram um primeiro avanço durante o próprio governo Lula, com a ajuda de Ronaldo Caiado, que não por acaso apoia Flávio Bolsonaro: fincaram o pé numa reserva importante em Goiás. No embate entre Trump e Xi Jinping no ano passado, um dos fatores da vitória tática chinesa foi justamente o fato de a China deter a maior reserva de terras raras do mundo e usá-la como alavanca. Onde mais há terras raras, além da China? Neste nosso país, que tem a segunda maior reserva, mas está situado no hemisfério ocidental, onde Estados Unidos pretendem exercer uma hegemonia incontestável. O Brasil virou, como nunca, alvo dos interesses estratégicos dos Estados Unidos, que mantêm um foco especial no hemisfério ocidental, mas não abandonaram o projeto de hegemonia global.

<><> Como o Brasil deve se preparar

Encerro com uma reflexão baseada em grande parte no meu livro Estilhaços: como o Brasil deve se preparar para esta nova era internacional, muito diferente daquela a que estávamos acostumados? Vejo muitos jovens na plateia. O mundo que vocês vão enfrentar é muito mais difícil do que o que a minha geração enfrentou, e o nosso já não era fácil. O brasileiro precisa abandonar uma postura acomodada, a de achar que com soft power, diplomacia e uma boa conversa vamos conseguir nos proteger. Temos de estar muito bem preparados, inclusive psicologicamente, como país, para enfrentar as tempestades e os desafios imensos que virão. Muita coisa é importante para nós, no plano social e econômico, mas a nossa posição internacional é a questão mais urgente, porque o inimigo está diante da nossa porta. Normalmente não se usa essa linguagem, chamar outro país de inimigo, mas, diante da postura que os Estados Unidos estão tomando, ela é apropriada.

No campo psicológico, temos primeiro de superar o complexo de inferioridade que nós, brasileiros, temos – o famoso complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues denunciava. Esse complexo  resulta de algo antigo e arraigado, a colonização cultural e mental que sofremos ao longo dos séculos e da qual ainda não escapamos. Está na hora de jogar ao mar essa tradição de subserviência colonial. As chamadas elites brasileiras são, em grande parte, elites colonizadas, cuja referência principal são os Estados Unidos, apesar de o mundo estar mudando enormemente.

No plano econômico, temos de buscar autossuficiência em áreas estratégicas, evitando depender de fornecedores estrangeiros, especialmente dos localizados em países perigosos para nós. As cadeias de produção devem estar aqui dentro ou em países confiáveis. Essa busca gera, evidentemente, perda de eficiência econômica, não há dúvida. Mas, neste momento, a segurança nacional passa à frente da maximização da eficiência. E já passou o tempo em que se podia defender um projeto de desenvolvimento baseado na abertura comercial e financeira como alavanca.

Por fim, uma consideração mais positiva. É difícil dizer isto depois do primeiro turno, mas existe um Brasil muito diferente daquele que apareceu em parte das vitórias eleitorais. Talvez vocês, jovens, nem tenham noção de que ele existe. Já foi mais forte, mas existe ainda. É um Brasil que o mundo admira pela cordialidade, pela simpatia, pela generosidade, pelo sentimento humano. Há, claro, um lado sinistro, ligado à escravidão e à injustiça social, que nunca conseguimos eliminar. Mas há esse lado positivo, que procurei destacar em Estilhaços. Não adianta ser um país maravilhoso, exemplar, se você é muito pequeno: não terá impacto internacional. Mas um gigante como o Brasil, quinto maior território e sétima maior população do mundo, oitava maior economia, se for bem direcionado, no rumo de uma política humana e justa, que evite agressões, com o nosso pacifismo reconfigurado, pode trazer ao mundo uma mensagem, uma palavra nova. E o mundo precisa muito disso, porque as barbaridades, as injustiças e a ignorância que apareceram com tanta força no primeiro turno não são só do Brasil. Estão nos Estados Unidos, na Europa, na Argentina. O que é Flávio senão um candidato a Milei brasileiro?

Cuidado com essa expressão que o brasileiro usa muito, “só no Brasil”. Quando o brasileiro diz isso, pode ter certeza de que não é só no Brasil. É que ele não olha para o exterior e tem esse sentimento de inferioridade. Acredito que o Brasil pode trazer uma mensagem inovadora ao mundo, dependendo muito, é claro, do rumo que tomaremos neste segundo turno. Vocês podem dizer que estou delirando. Repito o que digo em Estilhaços: não é pelo delírio que se chega à essência das coisas?

 

Fonte: Brasil 247

 

Uma breve reflexão sobre a esquerda revolucionária nas eleições de 2026

As eleições de 2026 produziram um resultado que merece ser observado com atenção por aqueles que acompanham a trajetória da esquerda brasileira: a completa ausência, no Parlamento, das organizações partidárias que reivindicam para si o papel de esquerda revolucionária, marxista e de ruptura com a ordem capitalista. Não se trata aqui de afirmar que a esquerda revolucionária desapareceu do Congresso Nacional ou das Assembleias Legislativas. O que ocorreu foi algo mais específico e, talvez por isso mesmo, mais revelador.

A esquerda revolucionária continua existindo. Elegeu dezenas de parlamentares com base na tática da filiação democrática em partidos da esquerda institucional. No PT e no PSOL, conquistou cadeiras na Câmara dos Deputados e em diversas Assembleias Legislativas; o PCdoB também manteve representação federal e estadual. Como exemplos temos: São Paulo com Erika Hilton e Sâmia Bomfim estiveram entre as mais votadas para a Câmara, enquanto o PSOL elegeu uma bancada estadual expressiva e, no DF, Fábio Félix, apesar de não ter conseguido alcançar a cláusula de barreira eleitoral; no Paraná, um dos estados em que a extrema direita tem teve sua maior vitória, tivemos o Renato Freitas e ainda tivemos Minas Gerais com a Ana Elisa.

Entretanto há uma diferença fundamental entre esse campo da esquerda institucional e os partidos que reivindicam explicitamente uma estratégia revolucionária. É justamente nessa comparação que o resultado de 2026 se torna politicamente significativo. A esquerda radical que chegou ao Parlamento não é a esquerda revolucionária clássica representada pelos partidos registrados no TSE: PCB, PSTU, PCO e UP.

No debate político brasileiro, costuma-se colocar no mesmo campo “esquerda radical”, “esquerda socialista”, “esquerda marxista” e “esquerda revolucionária”. Entretanto, essas categorias não são equivalentes. PT, PSOL e PCdoB possuem correntes, tradições e setores profundamente vinculados ao marxismo e ao socialismo. Entretanto, ambos construíram, ao longo de suas trajetórias, táticas e estratégias eleitorais e institucionais próprias, o que possibilitou a construção de correntes que vão do social liberalismo até as mais variadas vertentes do marxismo revolucionário.

O PSOL, particularmente, transformou-se em uma força eleitoral relevante em grandes centros urbanos. O resultado de 2026 confirma esse processo. O PCdoB, por sua vez, permanece integrado à Federação Brasil da Esperança, ao lado de PT e PV, participando diretamente da disputa institucional e da construção de importantes bancadas parlamentares.

A situação é completamente diferente quando olhamos para PCB, PSTU, UP e PCO. Essas organizações mantêm discursos muito mais próximos da tradição revolucionária clássica: crítica estrutural ao capitalismo, defesa da transformação radical da sociedade e rejeição da adaptação da esquerda à lógica tradicional do sistema político. Mas o problema que 2026 coloca para essas organizações é justamente este: onde está sua representação institucional e nas bases sociais?

<><> O paradoxo de 2026

O paradoxo é evidente. A chamada esquerda radical conseguiu eleger parlamentares. Mas os partidos que reivindicam explicitamente uma estratégia revolucionária não conseguiram eleger ninguém. O levantamento das eleições de 2026 mostra que UP, PCB, PSTU e PCO não elegeram deputados federais e muito menos deputados estaduais. Isso não significa que essas organizações tenham deixado de existir. Tampouco significa que tenham perdido automaticamente qualquer relevância social, sindical, intelectual ou militante. Porém, significa algo bastante concreto: elas perderam espaço não apenas na disputa institucional, mas também no mundo concreto da luta de classes nas bases sociais.

Essa diferença é fundamental. Um partido pode ter militantes, participar de movimentos sociais, organizar sindicatos, produzir jornais, disputar eleições e manter uma identidade ideológica definida. No entanto, quando sua presença eleitoral não consegue garantir minimamente uma representação parlamentar, sua capacidade de interferir diretamente na base social também diminui drasticamente — por mais que o discurso seja: “as eleições não são prioridade e servem apenas para divulgar o programa da organização”.

A eleição de 2026 tornou essa distância particularmente visível ao observarmos o exemplo de Pernambuco, onde Jones Manoel, como candidato a deputado federal pelo PSOL, obteve mais votos do que a soma dos votos para presidente, em todo o país, dos quatro partidos: UP, PCB, PSTU e PCO.

<><> Da questão da revolução à representação

Há, portanto, uma questão histórica que a esquerda revolucionária brasileira precisa enfrentar. Durante décadas, esses partidos construíram sua identidade justamente a partir da crítica à esquerda institucional. PT, PCdoB, PSB, PDT e posteriormente PSOL foram frequentemente acusados, em diferentes momentos e por diferentes correntes, de adaptação à institucionalidade burguesa.

O argumento tradicional era relativamente simples: ocupar o Estado não significaria transformar a sociedade. No entanto, a eleição de 2026 apresenta uma ironia histórica. Aqueles militantes e organizações — muitos oriundos de partidos como UP, PCB, PSTU e PCO — que aceitaram disputar sistematicamente o terreno eleitoral conseguiram construir representação e ampliar significativamente sua influência na base social. Já aqueles que preservaram organizações revolucionárias mais rígidas, tentando de alguma forma manter um registro partidário junto ao TSE, permaneceram praticamente sem representação parlamentar e reduziram enormemente sua influência nas bases sociais. Aqui vale sublinhar que não apenas individualidades mais os dois maiores movimentos socias brasileiros do meio urabano, MTST, e do meio rural, MST, também vem mostrando forte presença nas redes digitais e ampliando suas representatividades no meio institucional e especialmente parlamentar com uma utilização eficiente das redes digitais.

O resultado, por si só, não resolve o debate estratégico — mas muda os termos em que ele precisa ser realizado. A pergunta deixa de ser simplesmente: “Devemos ou não disputar a institucionalidade e as eleições?” E passa a ser: “Como disputar as instituições sem abandonar um projeto de transformação social e manter influência social?

Essa talvez seja uma das principais questões colocadas pela eleição de 2026. O eleitorado não desapareceu, ele mudou de interlocutor. Também seria equivocado interpretar o resultado como se o eleitorado de esquerda tivesse simplesmente abandonado ideias socialistas. O que os resultados sugerem é algo diferente. Uma parcela desse eleitorado parece ter preferido candidatos e partidos capazes de combinar determinadas pautas de esquerda, inclusive anti sistema, com presença institucional, comunicação eleitoral, atuação parlamentar e capacidade de disputar eleições proporcionais.

E aqui aparece uma característica que talvez seja uma das maiores novidades da esquerda nas eleições contemporâneas: a capacidade de transformar o candidato ou movimento por ele representado em uma marca política permanente nas redes digitais. Grande parte dos parlamentares identificados com a esquerda radical que conseguiu se eleger em partidos da esquerda institucional construiu, além da estrutura partidária, uma relação direta com o eleitorado por meio das redes digitais.

São lideranças parlamentares que atuam também como comunicadores, produtores de conteúdo e, em alguns casos, verdadeiros influencers políticos. Instagram, YouTube, TikTok, X e outras plataformas deixaram de ser apenas instrumentos de divulgação de uma campanha para se transformarem em espaços permanentes de formação de opinião, mobilização e construção de identidade política

Essa talvez seja outra diferença decisiva em relação aos partidos legalizados e abertamente marxistas da esquerda revolucionária tradicional com registro legal. Enquanto essas organizações continuam, em grande medida, estruturadas segundo formas tradicionais de comunicação política — jornais partidários, páginas institucionais, reuniões, panfletagem, atos e comunicação dirigida principalmente à própria militância, uma nova geração de lideranças parlamentares aprendeu a falar diretamente com milhões de pessoas sem depender da mediação da estrutura partidária.

O fenômeno produz uma inversão importante: antes, o partido construía o candidato; agora, em muitos casos, é o candidato que constrói sua própria audiência e leva essa audiência para dentro do partido. Isso altera profundamente a relação entre partido, militância e eleitorado, logo base social. O seguidor não necessariamente é militante, o compartilhamento não equivale à organização política e a audiência digital não substitui uma estrutura partidária. Mas, eleitoralmente, essa capacidade de comunicação pode ser decisiva para transformar uma candidatura pouco conhecida nacionalmente em uma candidatura competitiva.

Os partidos revolucionários precisam, portanto, enfrentar também essa questão. Não basta ter uma boa formação de Marx, Lênin, Trotsky, Gramsci, Stalin, Mao Tse Tung ou de qualquer tradição teórica revolucionária se a organização não consegue estabelecer comunicação com uma geração que constrói sua visão de mundo por meio das plataformas digitais. O problema não é abandonar a teoria ou transformar a política em espetáculo, é compreender que a disputa pela consciência social também passa, hoje, pela disputa dos algoritmos, das narrativas, dos vídeos curtos, dos podcasts, dos memes e das comunidades digitais.

E talvez aqui esteja uma das maiores contradições da esquerda revolucionária contemporânea: organizações que possuem décadas de experiência na formação política de militantes muitas vezes têm enorme dificuldade para transformar esse conhecimento em uma linguagem capaz de alcançar milhões de pessoas que não participarão de uma reunião partidária, mas assistirão a um vídeo de dois minutos no celular.

Portanto, a guerrilha digital e o domínio dos algoritmos na disputa de narrativas vão muito além do mero uso das redes sociais como entretenimento ou vitrine eleitoral. A atuação de quadros políticos como Ana Elisa, Sâmia Bomfim, Elias Jabbour, Humberto Mattos, Renato Freitas, Fábio Félix e outras lideranças da nova geração lança luz sobre o que o militante e historiador Jones Manoel define como “guerrilha digital”. Trata-se de compreender que as plataformas virtuais não são terrenos neutros, mas campos de batalha ideológicos regidos por lógicas proprietárias e algoritmos desenhados para favorecer o engajamento rápido, a polarização e o consumo imediato.

Logo, dominar o algoritmo, sob essa perspectiva, não significa render-se à mercantilização da política ou transformar o debate teórico em mero espetáculo. Pelo contrário: significa apropriar-se das ferramentas técnicas de agitação e propaganda no século XXI para romper as bolhas institucionais e o cerco da mídia hegemônica. Deste modo, a guerrilha digital exige que a formação teórica — seja leninista, gramsciana ou oriunda de qualquer tradição revolucionária — seja traduzida em estratégias de avanço sistemático, métricas de retenção, estética audiovisual e capacidade de resposta em tempo real, diante de uma população consumida pelo tempo social em que os padrões são imediatos.

Enquanto os partidos revolucionários tradicionais continuam limitados a formas panfletárias e analógicas de comunicação — atingindo majoritariamente aqueles que já estão convencidos —, o domínio dos algoritmos permite disputar a atenção da juventude e da classe trabalhadora no terreno em que elas efetivamente constroem suas visões de mundo. Dominar a gramática dos algoritmos passa a ser, portanto, uma condição estratégica indispensável da luta de classes contemporânea: sem a maestria técnica da comunicação de massas no ambiente digital, a crítica radical ao capitalismo permanece estéril, restrita às reuniões de quadros e incapaz de se converter em força política concreta.

<><> O paradoxo da comunicação e a contradição estratégica

Esse fenômeno também ajuda a compreender por que determinados candidatos conseguem construir votações expressivas mesmo quando seus partidos possuem estruturas relativamente pequenas. A força eleitoral deixa de depender exclusivamente da máquina partidária. O candidato passa a carregar consigo uma comunidade digital que exerce influência sobre uma base social ampla e diversificada.

Essa comunidade pode ser mobilizada durante uma eleição, mas também pode ser mantida entre eleições. A liderança parlamentar continua produzindo conteúdo, comentando acontecimentos, denunciando adversários, explicando projetos de lei, participando de debates e apresentando sua própria interpretação da realidade. Cria-se, assim, uma espécie de mandato permanente nas redes sociais, o que, na prática, representa uma transformação importante da política contemporânea — até então explorada principalmente pela extrema direita.

O partido continua necessário para registrar a candidatura, organizar a chapa, participar do sistema eleitoral e garantir estrutura jurídica e institucional. Mas a capacidade de comunicação do candidato pode ultrapassar em muito a estrutura tradicional da própria organização partidária. É justamente essa combinação de ideologia, identidade política, atuação institucional e comunicação digital profissionalizada que, desde as eleições de 2018 e, agora, em 2026, adquiriu enorme importância no cenário eleitoral e na disputa da luta de classes.

É aqui que reside a principal contradição. A esquerda revolucionária sempre ensinou que as instituições são instrumentos de disputa da luta de classes, e não necessariamente seu objetivo final. Mas, se essas instituições são efetivamente um espaço onde decisões fundamentais da sociedade são tomadas, abrir mão de disputar esse espaço significa deixar que outras forças políticas o ocupem.

O resultado de 2026 demonstra isso empiricamente. A esquerda revolucionária não deixou de eleger parlamentares. Ela simplesmente os elegeu por meio de organizações diferentes daquelas que historicamente reivindicaram para si o monopólio da representação da esquerda revolucionária.

E, cada vez mais, esses parlamentares chegam às instituições não apenas carregados por partidos da esquerda institucional, mas por comunidades digitais construídas em torno de suas próprias figuras públicas que se conectam com movimentos sociais e pautas que repercutem e têm a atenção e engajamento de amplos segmentos da classe trabalhadora, essa talvez seja uma das principais lição política das urnas em 2026.

<><> O desafio para a esquerda revolucionária brasileira e o segundo turno das eleições 2026

A questão colocada agora para essas organizações não é abandonar seus princípios, tampouco transformar-se simplesmente em mais uma legenda eleitoral. Na prática, após décadas de participação, partidos como PSTU, PCB, PCO e, mais recentemente, a UP não conseguiram crescer eleitoralmente em votos e representação institucional, nem ampliar sua inserção na base social. Afinal, essas organizações não acumularam crescimento significativo nas organizações populares, seja no meio urbano ou no rural.

O desafio é explicar por que, depois de décadas de construção política, partidos que se apresentam como revolucionários conseguem tão pouca capacidade de representação eleitoral enquanto outras organizações e individualidades, muitas delas também identificadas com o socialismo e com tradições marxistas revolucionárias, conseguem ocupar espaços institucionais parlamentares relevantes utilizando o mecanismo de filiação democrática nos partidos da esquerda institucional.

Tendo como base as concepções de partido leninista em diálogo frutífero com a linha gramsciana, talvez seja necessário repensar a relação entre partido, movimento social, território, comunicação e disputa eleitoral. Além disso, pode ser preciso acrescentar uma sexta dimensão a essa equação: a construção de comunidades políticas digitais capazes de dialogar para além da própria militância.

Afinal, Lenin e os bolcheviques deixaram como lição a capacidade de enfrentar uma das realidades mais hostis da luta de classes. Com impressionante inventividade, flexibilidade tática e firmeza estratégica, formularam para seu tempo histórico um modelo de organização. Assim, sua grande contribuição não está apenas no modelo de partido em si, mas sobretudo no método e na capacidade de adaptação à realidade concreta, para fazer avançar a luta dos explorados.

Deste modo, pode ser necessário os partidos discutir novas formas de organização mais sintonizadas com as demandas da juventude, que constrói sua visão de mundo a partir das telas dos celulares. Ou, talvez, essas organizações partidárias concluam que a disputa pela representação parlamentar nunca foi seu objetivo principal e que sua atuação deve permanecer concentrada fora das instituições. Nesse caso, poderiam abrir mão de seus registros no TSE, do fundo eleitoral1e de todas as obrigações burocráticas previstas na legislação eleitoral.

Mas, qualquer que seja a resposta, 2026 tornou impossível ignorar a pergunta. A esquerda socialista, comunista, das mais variadas vertentes revolucionárias no Brasil continua tendo presença política, mas perdeu a disputa pela representação institucional com seus próprios partidos tradicionais da esquerda que possuem o registro no TSE. E essa perda ocorre em duas dimensões: no Parlamento e na comunicação política de massas2.

Enquanto os partidos revolucionários tradicionais preservam estruturas militantes relativamente pequenas e uma presença digital limitada, uma nova geração de lideranças parlamentares de esquerda socialistas, comunistas, revolucionários de variadas vertentes que aprendeu a ocupar simultaneamente as instituições e as redes, transformando seguidores em audiência, audiência em identidade política e identidade política em votos e votos em influência na realidade concreta da luta de classes.

Esse talvez seja um dos fatos mais importantes — e menos discutido — produzido pelas eleições de 2026. Ao contrário do que se propaga, a esquerda radical não desapareceu das instituições. O que perdeu espaço foi a velha forma partidária de representar essa esquerda socialista, comunista e anticapitalista, presa entre uma caricatura de partido leninista e seus registros legais no TSE, mas que, na prática, se transformaram em micro máquinas burocráticas sem influência no mundo real da juventude e dos trabalhadores.

Nesse sentido, essas novas lideranças parlamentares vinculadas à esquerda socialista, comunista e das mais variadas correntes revolucionárias que emergiram das eleições de 2026 não devem ser vistas apenas como uma renovação das bancadas parlamentares. Eles representam uma nova forma de fazer política, construída a partir da capacidade de organizar comunidades digitais, dialogar diretamente com milhões de pessoas e transformar influência nas redes sociais em força política concreta.

Essa experiência pode ser decisiva para a esquerda brasileira a para o campo democrático popular na batalha do segundo turno no próximo dia 25 de outubro de 2026. Se esses parlamentares conseguirem articular suas comunidades, suas pautas e sua capacidade de comunicação em torno de um projeto político mais amplo, poderão desempenhar papel importante na construção da vitória do presidente Lula.

O desafio, portanto, é a direção da campanha do presidente Lula convocar essas lideranças da esquerda socialista para a linha de frente e transformar seguidores em militantes, audiência em participação política e influência digital em capacidade de mobilização popular eleitoral. Para a esquerda institucional e para o próprio campo da esquerda revolucionária, compreender e potencializar essa nova geração de jovens lideranças que se tornaram deputadas e deputados será fundamental para disputar a sociedade e garantir que a força acumulada nas redes digitais se converta também em força política, capaz de contribuir para a vitória de Lula nas eleições presidenciais.

 

Fonte: Por Por Fabiano Duarte, no Blog da Boitempo

 

A soberania brasileira está em disputa nas urnas

Há alguns meses a candidatura de Flávio Bolsonaro parecia estar indo por água abaixo. Em meados de maio, o senador de extrema direita se viu envolvido em um grande escândalo de corrupção após a publicação de mensagens vazadas que mostravam que ele havia solicitado cerca de 27 milhões de dólares a um ex-banqueiro, atualmente preso, que está no centro da maior fraude bancária da história do Brasil.

Os recursos — dos quais cerca de 12 milhões de dólares foram transferidos para uma conta no Texas ligada ao irmão do candidato, Eduardo — teriam sido destinados a ajudar a financiar uma cinebiografia hagiográfica sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que continua em prisão domiciliar por planejar um golpe para reverter as eleições de 2022 no Brasil. Logo após a divulgação do escândalo, os índices de popularidade de Flávio começaram a despencar. Ele precisava urgentemente mudar de assunto.

Na semana seguinte, o presidente dos EUA, Donald Trump, e o secretário de Estado, Marco Rubio, vieram em seu socorro. Em 26 de maio, Trump recebeu Flávio no Salão Oval para uma sessão de fotos não anunciada. Ele disse aos repórteres que havia pedido a Trump para classificar as maiores facções do Brasil como organizações terroristas estrangeiras (FTOs). Rubio concedeu a classificação dois dias depois. Flávio conseguiu projetar força política e desviar a conversa da corrupção para a segurança; sua candidatura estava mais uma vez garantida.

As classificações como FTOs são mais um exemplo da interferência do governo Trump na política brasileira, somando-se às tarifas sobre as exportações brasileiras politicamente motivadas (pelas quais Eduardo fez lobby) e às sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal que processou Jair Bolsonaro. Essas medidas não são muito diferentes dos esforços agressivos do governo Trump para influenciar as recentes eleições na Argentina, Colômbia e Honduras.

Além de seu impacto simbólico em um ano eleitoral, vale a pena considerar o que as designações de FTO pelos EUA poderiam significar para a soberania e a autonomia estratégica do Brasil — especialmente se Flávio vencer no domingo. Os brasileiros têm motivos para temer que seu país possa ser engolfado pela guerra cada vez mais ampla de Trump contra o que ele chama de “narco-terrorismo”.

Travar uma guerra contra as organizações regionais de tráfico de drogas foi um tema de destaque na campanha de Trump. Em janeiro de 2023, ele anunciou que “derrubaria os cartéis da mesma forma que derrubamos o ISIS”, oficialmente para combater a epidemia de fentanil nos Estados Unidos.

Poucas semanas após sua posse em 2025, o presidente começou a cumprir suas promessas, designando várias organizações criminosas latino-americanas como FTOs — incluindo os cartéis de Sinaloa e Jalisco Nova Geração e gangues como a MS-13 e o Tren de Aragua. Foi a primeira vez que um governo dos EUA aplicou essa classificação a organizações de tráfico de drogas sem nenhuma agenda política aparente.

Em agosto daquele ano, Rubio declarou que os cartéis são “organizações terroristas armadas, não simplesmente organizações de tráfico de drogas”, colocando-os na mesma classificação de segurança nacional que a Al-Qaeda, o Boko Haram e o Estado Islâmico.

A partir de setembro de 2025, essa mudança doutrinária serviu de justificativa para uma série de ações militares letais sem precedentes — e aparentemente ilimitadas — no Caribe, na América Central e no Pacífico Oriental. Em uma campanha posteriormente batizada de “Operação Southern Spear”, navios militares dos EUA atacaram dezenas de embarcações supostamente controladas por organizações terroristas envolvidas no tráfico de drogas (FTOs), matando seus ocupantes (239 pessoas, segundo a última contagem) sem prisão ou julgamento e sem apresentar provas de que transportavam drogas. As identidades da maioria dos mortos permanecem desconhecidas — mesmo para as Forças Armadas dos EUA.

Os ataques não contribuíram em nada para combater o tráfico de fentanil, já que a droga letal chega aos Estados Unidos predominantemente por via terrestre, vinda do México. Tampouco interromperam significativamente o tráfico de cocaína, com relatórios recentes — incluindo uma avaliação da Agência Antidrogas dos EUA (DEA) — indicando que os traficantes adaptaram suas rotas.

Mas a política alcançou outra coisa: as designações de Organização Terrorista Estrangeira (FTO) transformaram uma questão de segurança pública em uma questão militar, abrindo caminho para uma expansão da atividade militar dos EUA em todo o Hemisfério Ocidental.

A manifestação mais dramática dessa mudança até agora foi o ataque militar dos EUA à Venezuela, em 3 de janeiro, e o sequestro do presidente Nicolás Maduro para que ele respondesse a acusações de tráfico de drogas nos Estados Unidos. O ataque foi o primeiro desse tipo na América do Sul e matou cerca de 75 pessoas. O Departamento de Estado associou o incidente a uma recente designação de FTO, apesar de não ter apresentado nenhuma verdadeira evidência de que o governo da Venezuela desempenhasse um papel de liderança no tráfico de drogas no hemisfério.

A campanha militar não autorizada dos EUA nas Américas gerou preocupação no Congresso dos EUA, que detém a autoridade exclusiva para enviar as Forças Armadas a combate. Isso também deveria preocupar o Brasil. A designação de organizações criminosas brasileiras como FTOs as transforma, a critério de Washington, de alvos das autoridades brasileiras em alvos potenciais da força militar dos EUA.

Sob o atual presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil certamente continuaria a resistir à pressão que tal designação exerce sobre a jurisdição e a soberania do país. Mas, sob o governo de Flávio, operações militares dos EUA em solo brasileiro são uma possibilidade real. Em resposta a uma postagem nas redes sociais de outubro de 2025 do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, sobre um ataque letal a um barco no Pacífico oriental, o candidato de extrema direita disse “como estava com inveja” e convidou Hegseth “a passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas”.

Permitir a intervenção militar dos EUA na América Latina também é um dos objetivos do Escudo das Américas, uma nova aliança liderada pelos EUA na qual os governos membros — a maioria deles aliados de direita de Trump — parecem desempenhar um papel subordinado à campanha militar regional em expansão de Trump.

Em uma reunião da aliança realizada em setembro, em Nova York, os governos participantes endossaram uma declaração ampla redigida pelo governo Trump, supostamente com mínima participação dos demais membros. A declaração apela à invocação do Tratado do Rio de 1947, um tratado de segurança hemisférica da era da Guerra Fria que espelha a cláusula de defesa mútua do Artigo 5º da OTAN. Isso facilitaria a ação coletiva contra organizações criminosas não estatais, potencialmente abrindo as portas para a intervenção estrangeira nesses países.

Os governos também se comprometeram a tomar medidas individuais e coletivas contra as 24 organizações criminosas que o Departamento de Estado dos EUA classificou como FTOs, incluindo as duas facções brasileiras. “Se vocês não conseguirem [lidar com as organizações criminosas], nós faremos isso por vocês”, disse Trump.

Durante seu encontro com Trump em 26 de maio, Flávio teria prometido que, se eleito, o Brasil aderiria ao Escudo das Américas. Posteriormente, ele repetiu a promessa em pelo menos duas ocasiões.

Para o Brasil, o que está em jogo não poderia ser maior. Ao contrário de muitos de seus vizinhos latino-americanos, o Brasil há muito aspira à autonomia estratégica, desenvolvendo capacidades industriais, militares e tecnológicas para defender sua soberania sem depender de um patrono entre as grandes potências. Essa ambição gerou uma indústria de defesa cada vez mais sofisticada. Também moldou a abordagem do Brasil em relação à Amazônia e ao Atlântico Sul, onde suas forças armadas tradicionalmente consideram o controle do território, das fronteiras e dos recursos estratégicos como uma questão de segurança nacional.

O Equador oferece a prévia mais óbvia e preocupante do que a guerra de Washington contra o narcoterrorismo pode significar para o Brasil. Sob o presidente Daniel Noboa, o país adotou uma estratégia de segurança cada vez mais militarizada, respaldada por um apoio dos EUA mais intenso, sem, no entanto, conter a violência cada vez maior no país. As forças armadas equatorianas têm sido implicadas em denúncias de desaparecimentos forçados, execuções extrajudiciais, tortura e detenções arbitrárias. A Human Rights Watch chegou a documentar casos de tortura durante uma operação conjunta entre os EUA e o Equador que culminou no bombardeio de uma fazenda de gado leiteiro.

No mar, as forças americanas atacaram, interceptaram e destruíram embarcações pesqueiras equatorianas. Um barco, o Fiorella, desapareceu junto com oito tripulantes em janeiro. As evidências circunstanciais sugerem fortemente que as forças americanas estiveram envolvidas, embora as Forças Armadas dos EUA o tenham negado. O Washington Post relatou posteriormente que ataques misteriosos a embarcações equatorianas faziam parte de um programa secreto da CIA. Somente em agosto e setembro, as forças dos EUA interceptaram e destruíram mais oito embarcações pesqueiras equatorianas, detendo mais de 140 tripulantes e gerando denúncias de abusos. Um juiz equatoriano absolveu recentemente 32 desses tripulantes, afirmando que não havia provas de que tivessem cometido atos ilegais.

Enquanto isso, Noboa está abrindo cada vez mais o Equador para o posicionamento de forças militares dos EUA. No ano passado, o Departamento de Estado, a pedido de Noboa, designou duas gangues equatorianas como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTOs). Em março, o Comando Sul dos EUA e o Exército equatoriano começaram a realizar operações militares conjuntas contra essas gangues, às quais se referiram como “narcoterroristas”.

Apesar da proibição constitucional equatoriana de bases estrangeiras, pessoal da Força Aérea dos EUA está estacionado na base de Manta, no Equador, sem data prevista para partida, e aeronaves militares dos EUA estão operando a partir da Base Aérea de Taura. No início de setembro, o comandante da Força Aérea equatoriana fez um pedido oficial de orientações sobre o controle operacional de Taura e insistiu que o Equador deveria manter o controle operacional e administrativo. Noboa o destituiu do cargo dois dias depois.

Relatórios recentes indicam que o governo Trump está agora enviando centenas de soldados americanos a mais para a América Latina e redirecionou dezenas de milhões de dólares em assistência militar destinada à Europa e ao Oriente Médio para a Colômbia, o Equador, o Peru e o Panamá. Trump não tem interesse em respeitar as garantias constitucionais e a soberania de outros países — nem a do Equador e, certamente, nem a do Brasil.

Após o primeiro turno das eleições no Brasil, Trump saudou a vantagem de dois pontos de Flávio como uma “vitória apertada, mas muito, muito grande”. Fica claro — seja por meio de tarifas utilizadas como arma, sanções ou designações de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) — que Trump, Rubio e outros autoridades do governo tentaram influenciar o resultado das eleições presidenciais no Brasil. Para eles, conquistar o Brasil como um parceiro dócil e politicamente endividado na campanha hemisférica do governo seria o prêmio máximo, após as recentes vitórias da extrema direita no Chile, na Colômbia, no Equador e em Honduras.

Em última análise, o projeto regional de Trump — que ele chamou, sem sutileza, de “Doutrina Donroe” — vai além de uma agenda militar hegemonista. Trata-se também, conforme anunciou sua Estratégia de Segurança Nacional em 2025, de garantir acesso privilegiado aos recursos naturais do hemisfério, especialmente minerais críticos, ao mesmo tempo em que busca reduzir e substituir o crescente comércio da região com a China. Flávio apresentou o Brasil como a resposta à dependência dos EUA em relação à China no que diz respeito a terras raras e prometeu a Washington uma parceria estratégica em minerais.

Lula propôs um modelo totalmente diferente. Ele ofereceu ao governo Trump uma cooperação policial e financeira de longo alcance contra o crime organizado, ao mesmo tempo em que rejeitou as designações unilaterais de Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO) feitas por Washington como uma ameaça à soberania brasileira. Em vez de abraçar o plano de Trump para o domínio hemisférico dos EUA, ele continuou a defender o multilateralismo e a autonomia estratégica, evitando uma dependência excessiva tanto dos Estados Unidos quanto da China.

Ao votarem em 25 de outubro, os brasileiros devem estar cientes de que estarão tomando uma decisão estratégica sobre se a segurança e os recursos de seu país devem ser integrados a uma arquitetura hemisférica militarizada e liderada pelos EUA que, como o caso do Equador ilustra claramente, leva à subordinação, sem provavelmente fazer nada para conter a violência. Ou se desejam permanecer sujeitos às decisões soberanas tomadas em Brasília.

 

Fonte: Por Alexander Main e Guillaume Long, em Opera Mundi