A
guerra mais perto do Brasil: Washington acelera a militarização das Américas
Ataques
letais, centenas de mortos, critérios secretos para a escolha de alvos, drones,
inteligência integrada e um novo comando militar revelam uma mudança de escala
na estratégia dos Estados Unidos. Uma engrenagem que avança pelo continente e
coloca o Brasil diante de uma questão decisiva: até onde Washington pretende
levar sua guerra contra o chamado narcoterrorismo?
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A guerra já começou
Em 25
de agosto de 2026, forças dos Estados Unidos destruíram uma embarcação rápida
no Caribe e mataram quatro pessoas. O Comando Sul dos Estados Unidos (United
States Southern Command, SOUTHCOM), responsável pelas operações militares
norte-americanas na América Latina e no Caribe, afirmou possuir “inteligência
confirmada” de que o barco participava do narcotráfico, mas não tornou públicas
as evidências que sustentaram essa conclusão. Dois dias antes, outra embarcação
havia sido destruída no Pacífico Oriental, deixando dois mortos. As duas ações
foram executadas pela Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (Joint Task
Force Western Hemisphere, JTF-WHEM), novo braço operacional criado pelo
SOUTHCOM em agosto.
Os
ataques de agosto não são episódios isolados. Eles integram uma campanha
iniciada em setembro de 2025 contra embarcações que Washington identifica como
vinculadas ao narcotráfico. Até 25 de agosto de 2026, eram 68 ataques, com 227
mortos, desaparecidos ou presumivelmente mortos e apenas três sobreviventes
conhecidos. A dimensão da mudança aparece nesses números. Os Estados Unidos já
não se limitam a interceptar carregamentos, apreender drogas, bloquear recursos
financeiros ou apoiar forças policiais estrangeiras. Passaram a empregar força
militar letal para destruir embarcações e matar pessoas que classificam como
integrantes de redes narcoterroristas no Caribe e no Pacífico Oriental.
A
linguagem oficial deixa pouca margem para dúvida sobre a finalidade da nova
estrutura. Depois do ataque de 23 de agosto, o general Francis Donovan,
comandante do SOUTHCOM, afirmou que havia criado a JTF-WHEM precisamente para
“acelerar, sincronizar e executar ações letais” contra redes narcoterroristas.
O comunicado também afirmou que o objetivo era levar diretamente a luta aos
cartéis. No ataque de 25 de agosto, Donovan declarou que a força continuaria
caçando, desarticulando e derrotando essas redes. Não se trata apenas de
endurecimento retórico. Uma organização militar permanente foi criada com a
função declarada de transformar inteligência em ação letal.
O ponto
decisivo está no que ocorre antes do disparo. Nos dois ataques mais recentes, o
SOUTHCOM afirmou possuir inteligência que vinculava as embarcações ao
narcotráfico, mas não apresentou publicamente as provas utilizadas, a
identidade dos mortos ou o conjunto de critérios que levou à decisão de
empregar força letal. A questão, portanto, não é negar a existência do
narcotráfico nem minimizar a violência dos cartéis. É compreender o que muda
quando uma potência estrangeira reivindica para si a capacidade de classificar
suspeitos como inimigos, localizar esses indivíduos por meio de inteligência
militar e eliminá-los sem tornar visível ao público a cadeia completa que
sustenta essa decisão.
A
guerra, nesse sentido, não começa no míssil. Começa antes, quando o crime é
deslocado para a categoria de terrorismo e o suspeito passa a ser enquadrado
dentro de uma arquitetura de segurança capaz de tratá-lo como ameaça militar.
Para entender como Washington chegou a esse ponto, é preciso reconstruir a
mudança jurídica e política que tornou possível transformar narcotráfico em
guerra.
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Quando o crime virou guerra
Antes
de ampliar os ataques, Washington mudou a categoria do inimigo. Em 20 de
janeiro de 2025, primeiro dia de seu novo mandato, Donald Trump assinou uma
ordem executiva que abriu caminho para classificar cartéis internacionais e
outras organizações transnacionais como Organizações Terroristas Estrangeiras
(Foreign Terrorist Organizations, FTOs) ou Terroristas Globais Especialmente
Designados (Specially Designated Global Terrorists, SDGTs). O texto descrevia
os cartéis como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, comparava suas
estruturas às de organizações envolvidas em insurgência e guerra assimétrica e
afirmava que sua atuação ameaçava a estabilidade do Hemisfério Ocidental. O
narcotráfico começava a ser deslocado do campo predominante da investigação
criminal para o da segurança nacional.
Em
março de 2026, essa mudança já havia alcançado a estratégia militar. O SOUTHCOM
informou ao Congresso que 13 organizações designadas como terroristas
estrangeiras atuavam em sua área de responsabilidade. No mesmo período, Trump
determinou o desmantelamento de cartéis e organizações terroristas estrangeiras
e convocou países parceiros a mobilizar capacidades militares contra essas
redes. A Estratégia Nacional de Controle de Drogas de 2026 incorporou a
transformação de maneira ainda mais explícita ao incluir “ataques cinéticos
contra narcoterroristas” entre os instrumentos empregados pelos Estados Unidos.
A
mudança de categoria ampliou o repertório de poder disponível. Sanções,
bloqueios financeiros, restrições migratórias e instrumentos penais passaram a
coexistir com uma estratégia que admite força militar letal. Mas existe uma
fronteira jurídica fundamental: designar uma organização como terrorista não
transforma automaticamente cada integrante, associado ou suspeito em alvo
militar legítimo. Entre classificar uma organização e matar uma pessoa existe
uma cadeia jurídica e operacional que nenhuma mudança de vocabulário pode
apagar.
É
justamente nessa distância que se encontra a transformação mais importante.
Para converter a categoria de narcoterrorista em capacidade de ação militar,
não basta nomear o inimigo. É preciso encontrá-lo, acompanhá-lo, relacioná-lo a
uma rede e produzir conhecimento operacional sobre seus movimentos. A guerra
começa na classificação, mas só se torna executável quando existe uma máquina
capaz de enxergar.
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A máquina por trás dos ataques
Um
míssil é o último ato de uma operação que começa muito antes do disparo. Para
localizar uma embarcação, acompanhar sua rota e relacioná-la a uma rede
criminosa, é preciso transformar sinais dispersos em conhecimento operacional.
O SOUTHCOM vem construindo essa capacidade por meio do Enhanced Domain
Awareness (EDA), ou Consciência Ampliada do Domínio, arquitetura que integra
informações de diferentes fontes em um quadro comum do ambiente estratégico. Em
seus documentos, o comando trata dados como ativo estratégico e associa análise
de dados e inteligência artificial à ampliação da consciência situacional e à
aceleração das decisões.
O EDA
integra uma estrutura mais ampla de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento
(Intelligence, Surveillance and Reconnaissance, ISR), alimentada por sensores,
imagens geoespaciais, sistemas não tripulados e informações compartilhadas. Em
abril de 2026, o SOUTHCOM aprofundou esse movimento ao criar o Comando de
Guerra Autônoma (SOUTHCOM Autonomous Warfare Command, SAWC), destinado a
incorporar sistemas não tripulados e autônomos em diferentes domínios. Dados,
vigilância e automação passavam a compor um mesmo ecossistema operacional.
Essa
arquitetura também se projeta sobre os países parceiros. Em exercícios
multinacionais, o EDA já foi empregado para ampliar interoperabilidade e
compartilhamento de informações. Militares brasileiros participaram, em 2024,
de um exercício de consciência situacional espacial no qual dados de diferentes
fontes foram integrados para formar um quadro operacional comum. O ponto
estratégico está nessa capacidade de convergência: informações produzidas por
atores distintos podem alimentar um ambiente compartilhado de observação
organizado pelo comando militar norte-americano.
Há
também participação privada nessa infraestrutura. Em fevereiro de 2026, o
governo dos Estados Unidos concedeu à Barbaricum LLC um contrato de até US$
82,6 milhões relacionado ao EDA e à estrutura de inteligência do SOUTHCOM. A
empresa descreveu seu trabalho como parte da construção de um ecossistema
distribuído de inteligência, envolvendo integração de dados, computação em
nuvem e ferramentas geoespaciais de apoio à decisão. Isso não demonstra que uma
empresa privada escolha alvos ou autorize ataques. Demonstra que capacidades
privadas participam da infraestrutura tecnológica que transforma dados em
conhecimento utilizável por um comando militar.
É nesse
ponto que a tecnologia se torna questão de poder. Quem consegue integrar
sensores, dados e inteligência adquire capacidade de organizar o campo no qual
pessoas, embarcações e redes serão identificadas e classificadas. Para a
América Latina, soberania passa também pela pergunta sobre quem produz a imagem
estratégica do continente. Mas enxergar ainda não significa atacar. Para
transformar vigilância em violência continuada, Washington precisava conectar
inteligência, forças e comando numa estrutura operacional.
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Do laboratório ao comando permanente
A
capacidade de enxergar precisava ser conectada à capacidade de agir. Esse papel
coube à Operação Southern Spear, ambiente no qual o SOUTHCOM passou a empregar
força militar diretamente contra redes classificadas por Washington como
narcoterroristas. O combate às drogas ultrapassava a apreensão de
carregamentos, a cooperação policial e a perseguição financeira. Inteligência
militar passava a sustentar ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico
Oriental.
Southern
Spear revelou também um alcance maior. Em abril de 2026, o SOUTHCOM informou a
interceptação ou apreensão de seis embarcações envolvidas no transporte ilegal
de petróleo sancionado. Em janeiro, militares norte-americanos haviam tomado,
sem incidentes, o petroleiro Veronica. O contraste importa. A mesma arquitetura
militar demonstrava capacidade para interditar embarcações e deter ocupantes,
enquanto em outras operações empregava força letal. Isso não significa que toda
embarcação atacada pudesse ser abordada com segurança. Significa que existe uma
decisão crítica entre interditar e destruir, e os critérios completos que
orientam essa passagem não são públicos.
A
campanha produziu também uma dinâmica característica de operações prolongadas.
Relatórios oficiais registraram que as redes ilícitas modificaram rotas diante
da pressão militar, enquanto a Agência de Inteligência de Defesa (Defense
Intelligence Agency, DIA) ampliava a coleta para acompanhar essas mudanças. A
sequência tornava-se circular: ação militar, adaptação das redes, nova
inteligência e nova ação.
Em 4 de
agosto de 2026 ocorreu o salto institucional. O SOUTHCOM ativou a JTF-WHEM,
apresentada como evolução da experiência construída anteriormente. Com comando
próprio e comando e controle unificados nos níveis tático e operacional, a nova
força foi concebida para sincronizar capacidades militares e ampliar a
integração com países parceiros. Southern Spear havia fornecido o ambiente de
experimentação operacional. A JTF-WHEM transformava essa experiência em
estrutura permanente.
Essa é
a mudança de estágio. Washington passou a reunir numa mesma arquitetura a
classificação do inimigo, a capacidade de localizá-lo e uma estrutura militar
criada para agir contra ele. A militarização deixava de depender apenas de uma
operação específica e ganhava instituição, cadeia de comando e continuidade.
Para funcionar em escala hemisférica, porém, essa estrutura precisaria conectar
suas capacidades às de outros Estados. A guerra começava a se distribuir pelas
Américas.
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Uma guerra distribuída pelas Américas
Uma
estrutura hemisférica não funciona apenas com forças norte-americanas. Precisa
de acesso, inteligência compartilhada, interoperabilidade e capacidades locais.
É nesse espaço que atua a Coalizão das Américas contra os Cartéis (Americas
Counter Cartel Coalition, A3C), criada em 2026 para integrar países da região
ao enfrentamento dos cartéis. Em agosto, o SOUTHCOM já registrava 18 nações
parceiras vinculadas à arquitetura operacional da JTF-WHEM.
O
modelo não pressupõe que Washington comande as Forças Armadas
latino-americanas, nem existe evidência de que todos os integrantes da coalizão
participem das ações letais dos Estados Unidos. O que os documentos mostram é
outra coisa: compartilhamento de inteligência, treinamento combinado,
interoperabilidade, interdição marítima e integração de capacidades militares.
Exercícios multinacionais como o Panamax 2026 reforçam esse processo ao treinar
forças de diferentes países para operar de maneira coordenada.
A
direção estratégica foi explicitada em agosto, durante uma reunião da A3C no
Panamá. O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, agradeceu aos
parceiros pelo apoio à capacidade norte-americana de “encontrar, fixar e
finalizar” alvos narcoterroristas. A expressão pertence à linguagem operacional
da cadeia de ataque e revela o grau de militarização incorporado ao projeto.
Não se trata de atribuir aos parceiros responsabilidade automática pelos
ataques norte-americanos, mas de observar que a cooperação regional passa a
coexistir com uma estratégia que admite força letal contra organizações
classificadas como terroristas.
Forma-se
assim uma divisão assimétrica do trabalho militar. Os Estados Unidos concentram
inteligência de alcance global, tecnologia, logística e poder de fogo, enquanto
países parceiros podem fornecer conhecimento territorial, informações, acesso e
forças locais. Esses governos mantêm interesses e capacidade de decisão
próprios, mas participam de uma arquitetura cujo principal centro tecnológico e
estratégico permanece em Washington.
O
resultado é uma centralização da integração com descentralização dos meios. As
capacidades permanecem distribuídas entre diferentes Estados, enquanto
inteligência, treinamento e operações tornam-se crescentemente interoperáveis.
O problema não está na cooperação contra o crime transnacional, que é
necessária, mas em quem conserva o poder de classificar a ameaça e definir os
limites da resposta quando essa cooperação se conecta a uma estratégia que
admite violência militar.
É nesse
ponto que o Brasil entra diretamente na equação. Quando organizações criminosas
brasileiras passam a integrar a classificação norte-americana de terrorismo ao
mesmo tempo em que Washington constrói uma arquitetura hemisférica para
enfrentar militarmente o narcoterrorismo, uma transformação iniciada fora das
fronteiras brasileiras começa a produzir consequências dentro de seu ambiente
estratégico.
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O Brasil diante do limiar
O
Brasil não é alvo declarado dessa guerra. Não há evidência pública de um plano
norte-americano para atacar o território brasileiro nem de que organizações do
país integrem listas militares secretas de alvos. O problema é outro. Em 28 de
maio de 2026, o Departamento de Estado anunciou a designação do Primeiro
Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como Organizações
Terroristas Estrangeiras (Foreign Terrorist Organizations, FTOs), com efeitos a
partir de 5 de junho. Duas das maiores facções brasileiras ingressavam
formalmente na mesma categoria jurídica que Washington vinha conectando à sua
estratégia contra o narcoterrorismo.
A
classificação começou rapidamente a produzir consequências. Em 1º de julho, o
Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Office of Foreign Assets
Control, OFAC), órgão do Departamento do Tesouro responsável pela aplicação de
sanções econômicas, atingiu brasileiros e empresas acusados de integrar uma
rede de lavagem de dinheiro vinculada ao PCC. O episódio demonstrou a dimensão
extraterritorial do instrumento: decisões tomadas em Washington podem alcançar
indivíduos, patrimônio e circuitos empresariais relacionados a organizações
cuja atuação se concentra no Brasil.
O
Itamaraty percebeu o risco. Em respostas encaminhadas ao Congresso Nacional, o
ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, advertiu que a classificação
unilateral poderia produzir consequências financeiras, migratórias e penais e
contribuir para “militarizar a agenda regional de combate ao crime organizado”.
Vieira registrou ainda a possibilidade de emprego de força militar dos Estados
Unidos em território brasileiro como questão de soberania. O alerta não
significa que exista um ataque em preparação. Expõe a colisão potencial entre
duas concepções jurídicas: o Brasil distingue crime organizado de terrorismo,
enquanto Washington passou a enquadrar PCC e CV dentro de sua arquitetura
antiterrorista.
É nessa
fricção que aparece a desintermediação estratégica do Brasil. Soberania não
começa apenas quando uma força estrangeira atravessa a fronteira. Ela está
também na capacidade de produzir conhecimento sobre o próprio território,
classificar juridicamente suas ameaças e decidir quais instrumentos podem ser
empregados contra elas. Quando uma potência externa classifica atores
brasileiros, impõe sanções sobre redes relacionadas a eles e mantém uma
arquitetura militar hemisférica para enfrentar organizações que define como
narcoterroristas, parte das decisões que condicionam o ambiente de segurança
brasileiro passa a ser produzida fora das instituições nacionais.
Isso
não diminui a necessidade de enfrentar PCC, Comando Vermelho e outras
organizações transnacionais. O problema não é escolher entre soberania e
combate ao crime. É preservar a autoridade brasileira sobre os termos desse
combate. Cooperação internacional pode ampliar a capacidade do Estado; não
exige aceitar que outro país determine quando uma questão submetida ao direito
penal brasileiro passa a pertencer à lógica da guerra.
É por
isso que a guerra está mais perto do Brasil. Não porque haja evidência de um
ataque iminente, mas porque organizações brasileiras entraram na gramática
norte-americana do terrorismo justamente quando Washington construiu
instrumentos militares para agir contra aquilo que classifica como
narcoterrorismo. A questão decisiva passa a ser quem conserva o poder de
definir a ameaça, a jurisdição e os limites da força.
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O poder de decidir quem pode morrer
Toda
essa arquitetura desemboca numa pergunta elementar: o que transforma uma pessoa
suspeita de transportar drogas em alguém que pode ser morto por uma força
militar?
Washington
afirma possuir inteligência que vincula os alvos ao narcotráfico, mas parte
decisiva das evidências e dos critérios utilizados para selecionar quem será
atacado permanece secreta. A opacidade levou o próprio Escritório do
Inspetor-Geral do Departamento de Defesa a abrir uma avaliação sobre o
cumprimento, pelo SOUTHCOM, dos procedimentos estabelecidos para a seleção de
alvos. A investigação não demonstra irregularidade. Mostra que a cadeia que
antecede a decisão de matar tornou-se objeto de escrutínio dentro do próprio
aparato militar.
Essa
cadeia ganhou rosto em Burnley v. United States. O processo foi apresentado à
Justiça federal norte-americana por familiares de Chad Joseph, de 26 anos, e
Rishi Samaroo, de 41, cidadãos de Trinidad e Tobago mortos em um ataque dos
Estados Unidos em 14 de outubro de 2025. A ação sustenta que os dois
trabalhavam e pescavam na Venezuela e retornavam para seu país quando a
embarcação em que estavam foi destruída. São alegações ainda submetidas ao
Judiciário, não fatos judicialmente estabelecidos. Mas o caso recoloca no
centro da guerra aquilo que a linguagem operacional tende a abstrair: pessoas
cuja responsabilidade precisa ser demonstrada antes que uma categoria possa
substituir suas identidades.
É aqui
que aparece o limiar entre o investigável e o eliminável. No Estado de Direito,
uma suspeita conduz à investigação, produção de prova, acusação, defesa e
julgamento. No direito dos conflitos armados, um alvo militar legítimo pode,
sob determinadas condições, ser atacado. Ao reivindicar a existência de um
conflito armado contra organizações criminosas, Washington tensiona a fronteira
entre esses dois regimes. Designar uma organização como terrorista não resolve,
por si só, quando uma pessoa pode ser tratada como alvo militar. É nessa
passagem entre inteligência, classificação e autorização da força que se
concentra um poder extraordinário: decidir quem permanece sujeito à
investigação e quem passa a poder ser eliminado.
A
novidade não está na assimetria histórica das relações entre Estados Unidos e
América Latina, nem na longa trajetória de militarização da guerra às drogas.
Está na integração contemporânea dos instrumentos. Classificação terrorista,
inteligência, vigilância tecnológica, sanções, sistemas autônomos, cooperação
regional e força militar passam a funcionar dentro de uma arquitetura capaz de
observar, classificar e agir. O poder sobre o território começa, cada vez mais,
pelo poder sobre a informação que o torna legível.
Para o
Brasil, portanto, a questão não é prever uma invasão para reconhecer o
problema. Soberania significa conservar a capacidade de produzir a própria
inteligência, definir juridicamente a própria ameaça e decidir sob qual lei
alguém será investigado, acusado, julgado e punido. Cooperação internacional
pode fortalecer essa capacidade. Subordinar a outro Estado a definição do
inimigo a enfraquece.
No
século XXI, soberania não termina na fronteira. Quando uma potência concentra a
capacidade de classificar ameaças, organizar inteligência sobre elas e admitir
a força militar como resposta, a disputa deixa de ser apenas sobre segurança.
Passa a ser sobre quem conserva o poder político de decidir quem é criminoso,
quem é inimigo e quem pode morrer.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247



