terça-feira, 21 de julho de 2026

Brasil entre soberania, democracia e seus problemas sociais

Quem quiser que se iluda, estamos diante de um novo ciclo político de longa duração, no qual os velhos problemas do país já não podem ser enfrentados da mesma forma, num contexto de crise da democracia ocidental, revolução tecnológica e desestruturação dos pactos diplomáticos pós Segunda Guerra Mundial. É nesse contexto que o Brasil chega às eleições de 2026, com uma combinação complexa de problemas sociais e econômicos, de radicalização política e de mudança da ordem internacional.

Ninguém pode desconsiderar que o nosso subdesenvolvimento, para usar uma expressão clássica, decorre da baixa produtividade, da desigualdade de oportunidades, da precariedade da educação básica, da expansão do crime organizado, dos deficits de saneamento e de habitação, do alto custo do capital e da fragilidade fiscal. Esse é o diagnóstico que alimenta o debate e divide opiniões por parte de quem busca soluções para o país em bases democráticas.

Ocorre que, agora, o Brasil enfrenta uma ameaça externa inédita desde a redemocratização, na medida em que o governo norte-americano de Donald Trump transformou tarifas comerciais e pressões diplomáticas em instrumentos de interferência política, numa tentativa de favorecer seus aliados ideológicos e influenciar as escolhas dos brasileiros. Não se trata, portanto, apenas de decidir quem governará o país, mas de definir como o Brasil defenderá sua democracia, sua economia e ocupará seu lugar numa ordem mundial em transformação.

Os Estados Unidos continuam sendo um parceiro histórico fundamental, mas sua política externa passa por uma mudança de paradigma. O movimento Maga (Make America Great Again) rompeu com aspectos importantes da tradição liberal que orientou Washington no pós-guerra. Em lugar da defesa das instituições multilaterais, da previsibilidade das alianças e da abertura comercial, a Casa Branca opera uma diplomacia transacional, nacionalista e protecionista na qual pontificam o histrionismo de Trump e os interesses da plutocracia que hoje domina a política norte-americana.

Tarifas, sanções e ameaças são utilizadas como instrumentos de pressão até mesmo contra países aliados estratégicos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Agora, a aproximação entre o movimento Maga e o clã Bolsonaro trouxe um elemento perigoso à disputa brasileira: a tentativa de vincular interesses econômicos e estratégicos dos Estados Unidos no Brasil ao resultado de nossa eleição. A resposta não pode ser o velho antiamericanismo, mas exige a firme defesa da soberania.

Uma boa relação com os Estados Unidos não significa obediência, sobretudo quando interesses eleitorais e comerciais de uma corrente estrangeira se confundem com os de um grupo político brasileiro. Sem embargo das críticas, o governo de Luiz Inácio Lula da Silva não tem outra opção a não ser negociar com firmeza, recorrer às instituições multilaterais, proteger os setores atingidos e, simultaneamente, preservar os canais de cooperação. Nossa política externa é de Estado, baseada nos interesses permanentes do Brasil.

<><> Direitos e deveres

Ao contrário de outros momentos de tensão com os Estados Unidos, como aquele que resultou no golpe militar de 1964, o Brasil tem relações comerciais muito mais diversificadas. Nosso comércio com os Estados Unidos representa apenas 2% do Produto Interno Bruto (PIB), porém, é o principal destino de nossos produtos industrializados. E também não podemos cair na dependência de nosso maior parceiro comercial, a China, cuja capacidade industrial excedente pressiona os produtores de outros países. O Brasil deve ampliar acordos com União Europeia, Índia, Japão, Canadá, México, África, Sudeste Asiático e Oriente Médio, sem abandonar Washington nem Pequim. Ou seja, trata-se de construir novas alternativas e buscar ainda maior integração com a economia mundial.

Nada disso, porém, no plano interno, eliminará a insatisfação social e resolverá os problemas objetivos da população. A retaliação de Trump pode fortalecer momentaneamente uma narrativa nacionalista, mas o custo de vida, a insegurança, os juros, a qualidade dos serviços públicos e a esperança continuarão orientando o voto. A eleição não será decidida apenas com denúncias do autoritarismo adversário. É preciso demonstrar capacidade de entrega: segurança, educação, saúde, habitação, mobilidade urbana, crescimento, inclusão social e instituições que funcionem.

Com a Constituição de 1988, o Sistema Único de Saúde (SUS), a universalização da educação fundamental, o salário mínimo valorizado, a transferência de renda, as ações afirmativas e a ampliação do acesso à universidade transformaram a sociedade brasileira. Não podemos brigar com os fatos. Os resultados insuficientes dessas políticas não são a prova de que a inclusão social fracassou. Nem devemos tratar quatro décadas de redemocratização como tempo perdido, apesar da descontinuidade administrativa e da recidiva oligárquica e do patrimonialista. O desafio não é abandonar os fundamentos da Constituição de 1988, mas atualizar os meios pelos quais se pretende alcançar igualdade, liberdade e dignidade.

O Brasil realmente precisa reconciliar direitos coletivos com responsabilidade individual. A emancipação e a inclusão social devem oferecer condições para que cada cidadão desenvolva suas potencialidades e, ao mesmo tempo, responda por suas escolhas. O problema é que o mau exemplo vem de cima, devido à captura de instituições e políticas públicas por interesses privados, empresariais ou mesmo individuais. Vem daí, na verdade, a maior ameaça às nossas democracia e soberania. Basta ver as pesquisas sobre aprovação das principais instituições do país.

¨      Mauro Vieira: EUA queriam ‘capitulação’ e interferir no processo de Bolsonaro

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, afirmou nesta quinta-feira (16) que os Estados Unidos exigiram uma “capitulação” do Brasil durante as negociações para evitar o tarifaço sobre produtos brasileiros e tentaram interferir no processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro. Segundo o chanceler, a ameaça de elevar as tarifas para 50% teve motivação política e foi usada como forma de pressionar o governo brasileiro, embora a medida anunciada pelos Estados Unidos tenha fixado uma sobretaxa de 25% para parte dos produtos brasileiros.

A declaração foi dada um dia após o governo norte-americano anunciar a aplicação da tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, resultado da investigação conduzida com base na Seção 301 da legislação comercial dos Estados Unidos.

Em declaração à imprensa, Vieira afirmou que o governo brasileiro manteve mais de 30 reuniões presenciais, virtuais ou por telefone com autoridades norte-americanas desde março de 2025, em níveis presidencial, ministerial e técnico. Segundo ele, foram 11 contatos com o secretário de Estado, Marco Rubio, e com o representante de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, além de reuniões entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump.

“O Brasil está, portanto, negociando com os Estados Unidos desde antes do tarifaço original, anunciado em 2 abril de 2025.”

Segundo o ministro, a carta enviada por Donald Trump ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva em 9 de julho de 2025, que ameaçava impor tarifas de 50% aos produtos brasileiros, evidenciou a motivação política da medida.

“E foi justamente nessa carta – em que o Presidente Trump ameaçou o Brasil com tarifas de 50%, caso o processo contra o ex-Presidente da República não fosse imediatamente interrompido – que foi dada a instrução ao Representante de Comércio dos Estados Unidos para que iniciasse a investigação sob a Seção 301 contra o Brasil.”

Vieira afirmou que, desde o início das negociações, o governo brasileiro buscou dialogar sobre todos os temas apresentados pelos Estados Unidos. Segundo ele, porém, Washington fez exigências consideradas inaceitáveis.

“Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações.”

O chanceler afirmou que uma das exigências era a abertura “total, irrestrita e exclusiva” de setores da economia brasileira aos Estados Unidos, sem qualquer contrapartida para os produtos nacionais.

“Cito, como exemplo, demandas de abertura total, irrestrita e exclusiva aos Estados Unidos de setores inteiros da economia brasileira, sem qualquer contrapartida para os produtos brasileiros. Em outras palavras, exigiam uma capitulação.”

Vieira também criticou declarações publicadas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, sobre as tarifas impostas ao Brasil.

“Nesse sentido, as declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros.”

Na sequência, acrescentou:

“Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o Chefe de Estado de um país amigo.”

O ministro também rebateu os argumentos apresentados pelos Estados Unidos para justificar a investigação comercial contra o Brasil. Segundo ele, as críticas ao Pix e à política ambiental brasileira não têm fundamento.

“As alegações e declarações de autoridades americanas sobre o PIX são descabidas. O PIX é uma infraestrutura pública de pagamentos criada pelo Banco Central e está disponível a todas as instituições financeiras que atuam no Brasil. Não é sério falar em competição desleal gerada pelo PIX.”

Em relação ao desmatamento, afirmou:

“As acusações sobre desmatamento também são absurdas. Desde 2022, reduzimos significativamente o desmatamento na Amazônia e no cerrado.”

Vieira também voltou a defender o histórico da relação comercial entre os dois países. Segundo ele, os Estados Unidos acumularam superávit de US$ 424 bilhões em bens e serviços com o Brasil nos últimos 15 anos e, em 2025, 76% das importações americanas entraram no Brasil sem pagamento de imposto de importação, incluindo oito dos dez principais produtos exportados pelos Estados Unidos ao mercado brasileiro.

O chanceler afirmou ainda que o governo brasileiro participou de todas as etapas da investigação conduzida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), apresentou duas defesas formais e participou de consultas governamentais em Washington. Apesar disso, disse que a decisão americana ignorou os argumentos apresentados por Brasília.

“Todas as alegações dos norte-americanos para justificar a aplicação de tarifas não têm lastro na realidade.”

¨      ‘Trump quer isolar América Latina de influências de um mundo multipolar’, diz analista internacional

O governo de Donald Trump exigiu que o Brasil barrasse os investimentos chineses nos setores de mineração e terras raras, além de abrir totalmente o mercado nacional para produtos estadunidenses, segundo documento divulgado pelo ICL Notícias. A divulgação da informação acontece dois dias após Trump anunciar a taxação de 25% sobre produtos brasileiros.

Para a analista internacional Amanda Harumy, a decisão expõe a política externa do governo Trump, que coloca a América Latina como um campo de disputa. “Trump tenta isolar a América Latina de influências de um mundo multipolar, principalmente da China. Lembrando que a China é o maior parceiro comercial do Brasil”, destaca em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato. “É um campo de batalha onde duas potências comerciais se encontram: de um lado os EUA e, de outro, a China.”

Harumy reforça que o Brasil tem capacidade de manter relações comerciais com diversos países e, portanto, essa “chantagem da Casa Branca” mostra mais uma vez o caráter político. “Estão tentando desestabilizar politicamente o Brasil para influenciar a disputa doméstica que teremos em outubro”, afirma.

A analista reconhece que alguns setores serão impactados, mas, no final do dia, a tentativa é de ingerência política. “É um discurso ideológico-político. Lembrando que a família Bolsonaro em diversos momentos construiu esse diálogo com Trump e defende a tarifa na economia brasileira”, argumenta.

Amanda Harumy avalia que o governo Lula precisa ser pragmático diante dos últimos acontecimentos e, na análise dela, isso já vem ocorrendo. “Os canais diplomáticos se transformaram em instrumentos para se construir um diálogo. Mas não é através do convencimento diplomático que a gente vai conseguir solucionar esse grande interesse de ingerência política que os EUA vêm promovendo no Brasil. E destaco: essa vai ser a primeira ingerência de muitas”, destaca.

 

Fonte: Por Luiz Carlos Azedo, no Correio Braziliense/CL Notícias/Brasil de Fato

 

Tarifas de Trump não vão funcionar e fortalecerão Lula, diz Nobel de Economia

O economista americano Paul Krugman publicou um artigo nesta segunda-feira (20/7) no qual afirma que as tarifas impostas pelo governo Donald Trump ao Brasil não vão funcionar — e vão fortalecer o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

"Usar as tarifas para punir o Brasil por suas conquistas monetárias não terá sucesso", afirma o economista, em artigo publicado no site Substack. Confirmadas na semana passada, as tarifas entram em vigor na próxima quarta-feira (22/07).

Krugman, que há exatamente um ano publicou um texto no qual classificou o Pix como "dinheiro do futuro", pontua que as tarifas vão fortalecer politicamente o presidente Lula.

"Economicamente, o alcance das tarifas será limitado", afirma, ao citar os temores do governo Trump em relação aos preços do café, suco de laranja, carne bovina, entre os produtos — alguns dos principais itens exportados pelo Brasil aos EUA.

Krugman, que ganhou o Nobel de Economia em 2008 e é professor da Universidade da Cidade de Nova York, afirma que o governo Trump tenta punir o Brasil pelo sucesso do Pix. "Por que é injusto um país oferecer a seus cidadãos uma maneira melhor de fazer compras e pagar contas?", questiona o economista em seu artigo.

"De certa forma, a administração Trump ainda tenta punir o Brasil por ser uma verdadeira democracia", diz Krugmann em seu texto. "Ao contrário dos EUA, o Brasil processou seu ex-presidente, Jair Bolsonaro, por tentar fomentar uma revolta após perder a última eleição", continua o economista.

Em seu artigo, o economista afirma também que a hostilidade de Trump em relação ao Pix ilustra a mesma posição do presidente dos EUA em relação à política energética. "Este governo se opõe ao progresso, sempre que o progresso contraria os interesses e a ideologia dos oligarcas que investiram dinheiro na campanha de Trump e no seu bolso", diz.

Krugman cita ainda um relatório do Fed (o Banco Central dos EUA) de 2022, que afirma que o Pix é uma moeda digital do Banco Central do Brasil, "análoga ao dinheiro de papel".

O economista questiona também: "Mas desde quando é uma prática comercial desleal uma empresa perder clientes para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?". E continua, com a pergunta: "Deveríamos fechar o serviço postal dos EUA porque ele oferece um serviço de entregas melhor e mais barato do que a UPS e a FedEx?"

No artigo, Krugman cita que o governo Trump estaria preocupado com o fato de o Pix e outros sistemas de pagamentos similares desafiarem a hegemonia internacional do dólar.

Mas, para o economista, o Brasil é um ator "pequeno demais para provocar impacto no sistema global de pagamentos". No entanto, argumenta Krugman, o dólar pode enfrentar um desafio real caso o Banco Central Europeu conseguir adotar um euro digital em 2029, como planejado. "Se isso acontecer, não é difícil imaginar que um número significativo de transações antes feitas em dólar passarão a ser feitas em euros digitais", escreve Krugman.

O Nobel de Economia continua: "o motivo pelo qual as pessoas podem optar pelo euro digital é porque os EUA não vão oferecer um meio de pagamento igualmente bom. Por que não vai ter um dólar digital?", questiona. E ele mesmo responde. "Não porque seja uma má ideia — como o Brasil demonstrou, seria uma ótima ideia. Mas existem poderosos grupos de interesse que se opõem a qualquer iniciativa desse tipo.

Na conclusão de seu artigo, Krugman cita o argumento da economista brasileira Monica de Bolle, para quem as tarifas fortalecem a posição do governo brasilero. Em entrevista à BBC News Brasil na semana passada, De Bolle avaliou que o impacto das tarifas de Trump deve ser restrito.

"Mas a evidente insensatez dessas novas tarifas não impedirá que elas aconteçam. O governo Trump declarou guerra ao futuro", conclui Krugman, ao afirmar que o presidente dos EUA nunca admite quando suas guerras fracassam.

¨      'Trump tentará punir Brasil por esse sucesso', diz Nobel de economia sobre ação do governo americano contra Pix

O economista Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia de 2008, criticou a investigação aberta pelo governo dos Estados Unidos contra o Pix e afirmou que a ofensiva representa uma tentativa de punir o Brasil pelo sucesso do sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

Em artigo publicado nesta segunda-feira (20), Krugman afirma que o Pix se tornou uma referência mundial em pagamentos digitais e que a iniciativa do governo de Donald Trump não se sustenta do ponto de vista econômico.

"Trump tentará punir o Brasil por esse sucesso", escreveu o economista ao comentar a investigação comercial aberta pela administração americana com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos.

O governo americano incluiu o Pix entre os temas da investigação sobre supostas práticas comerciais brasileiras consideradas desleais. Criado pelo Banco Central, o sistema permite transferências e pagamentos instantâneos entre pessoas e empresas.

Para Krugman, oferecer um sistema público de pagamentos mais barato e eficiente não configura uma prática comercial desleal.

"Por que seria desleal um país oferecer aos seus próprios cidadãos uma forma melhor de fazer compras e pagar contas?", questiona.

<><> Pix ampliou concorrência

Ao longo do artigo, o economista defende que o Pix aumentou a concorrência no mercado de pagamentos ao oferecer uma alternativa de baixo custo para consumidores e empresas.

Na avaliação dele, a popularização do sistema reduziu a dependência de meios tradicionais de pagamento e afetou empresas como Visa e Mastercard. Isso, porém, seria resultado da concorrência entre tecnologias, e não de uma vantagem indevida.

"Desde quando é uma prática comercial desleal que empresas percam mercado para um concorrente que oferece um produto melhor e mais barato?", escreveu.

Krugman argumenta que a reação do governo americano reflete, em parte, a perda de espaço de empresas privadas diante de um sistema público considerado mais eficiente.

<><> Debate vai além do Pix

O Nobel usa o caso brasileiro para defender sistemas públicos de pagamentos e moedas digitais emitidas por bancos centrais.

Segundo ele, o sucesso do Pix demonstra que esse tipo de ferramenta pode tornar pagamentos eletrônicos mais baratos e eficientes. Já os Estados Unidos, afirma, ficaram para trás nesse debate devido à resistência política e à pressão de grupos ligados ao mercado de criptomoedas.

"A verdadeira preocupação deles é que ela funcione bem demais", escreveu ao comentar a oposição à criação de um dólar digital.

Krugman também compara o caso brasileiro à experiência de El Salvador com o Bitcoin. Para ele, enquanto o Pix se tornou amplamente utilizado pela população, a tentativa do governo salvadorenho de transformar a criptomoeda em um meio de pagamento de massa fracassou.

¨      Governo Lula amplia estratégia para enfrentar tarifaço e aposta em novos mercados

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) traçou uma estratégia para reduzir os impactos do tarifaço imposto pelos Estados Unidos. Além de preparar um pacote de subsídios aos setores mais afetados, o Planalto deve intensificar o diálogo com representantes da indústria e do agronegócio para construir uma resposta ágil às medidas anunciadas por Washington. Paralelamente, o governo pretende acelerar a abertura de novos mercados para ampliar o destino das exportações brasileiras e diminuir a dependência do mercado estadunidense.

A avaliação, nos bastidores do governo, é de que a escuta permanente dos setores atingidos permitirá calibrar as medidas de apoio e dar maior rapidez às ações de enfrentamento. A intenção é reunir as demandas dos segmentos afetados para formular respostas capazes de preservar empregos, produção e competitividade.

Ao mesmo tempo, a gestão Lula aposta na diversificação dos parceiros comerciais como uma das principais alternativas para mitigar os efeitos das barreiras impostas pelos Estados Unidos. A estratégia inclui fortalecer relações com mercados já consolidados e ampliar negociações com novos destinos para os produtos brasileiros.

As iniciativas caminham em paralelo ao pacote de apoio econômico que será anunciado pelo governo federal. A expectativa é que as medidas combinem instrumentos de crédito e incentivos à produção com ações voltadas à expansão da presença do Brasil no comércio internacional.

No Planalto, a avaliação é de que a combinação entre diálogo com os setores produtivos, medidas de estímulo à economia e ampliação das relações comerciais coloca o país em uma posição mais sólida para enfrentar o avanço do protecionismo adotado pelo governo Donald Trump e reduzir seus impactos sobre a economia brasileira.

¨      Ordem de Lula é evitar reação que dê munição a Trump e Flávio Bolsonaro na crise das tarifas

Depois do tarifaço de 25% na semana passada, o governo brasileiro aguarda para esta ou próxima semana a definição sobre novo aumento de 12,5% de tarifas — fruto de uma investigação americana sobre importação de produtos produzidos com trabalho forçado em outros países.

A ordem no governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) é buscar aumentar a lista de exceções de produtos brasileiros sujeitos às novas tarifas e retomar as negociações.

Nada de radicalismo nem rompantes, como adotar de imediato medidas de reciprocidade, porque é isso, na avaliação de assessores presidenciais, que o presidente norte-americano Donald Trump e o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, desejam.

Se isso acontecer, ambos podem atacar o governo Lula de intransigente e afirmar que Lula submete os planos eleitorais aos interesses das empresas brasileiras.

O Brasil vai insistir na retomada das negociações, mas avalia que, se antes a equipe do presidente dos Estados Unidos não quis de fato negociar, não será agora que eles vão mudar de posição.

"Eles colocaram na mesa temas inviáveis de negociação. E eles sabiam disso. Ceder seria muito prejudicial para as empresas brasileiras, como zerar imposto de importação nos setores químicos, automotivos e de etanol", reclama um assessor presidencial.

O governo Lula calcula bem sua reação às decisões de Donald Trump porque, hoje, a maioria dos brasileiros tem uma avaliação negativa do presidente dos Estados Unidos e associa o pré-candidato do PL, Flávio Bolsonaro, ao novo tarifaço.

Inicialmente, a equipe de Lula falou em acionar a Lei da Reciprocidade Econômica, mas a preferência é por retomar as conversas. De todo modo, isso não está descartado, mas o processo é demorado.

🔎A Lei da Reciprocidade Econômica autoriza o governo brasileiro a adotar medidas contra países ou blocos econômicos que imponham barreiras comerciais consideradas prejudiciais ao Brasil. Entre as possibilidades previstas estão a elevação de tarifas sobre produtos importados, a suspensão de benefícios comerciais e outras restrições econômicas.

A preferência é insistir nas negociações, buscando passar para o lado dos Estados Unidos a decisão de não retomar as conversas.

Por sinal, dentro do governo ninguém acredita que algo seja acordado antes das eleições presidenciais no Brasil.

Na avaliação de integrantes do governo, os últimos movimentos da equipe de Donald Trump são na linha de apoiar a eleição de Flávio Bolsonaro.

¨      De barões da indústria a barões da pisadinha: Fiesp de Skaf bajula Trump e trai o Brasil. Por Chico Alves

Houve um tempo em que os donos das grandes indústrias eram tratados como heróis do empreendedorismo nacional. Tanto que, ao estilo do que já acontecia nos Estados Unidos, vários deles ostentavam informalmente um título nobiliárquico: eram chamados de barões.

Um desses personagens até tinha o título oficial. Irineu Evangelista de Sousa foi sagrado Barão de Mauá em 1854  pelo Imperador D. Pedro II por reconhecimento ao seu pioneirismo na modernização do Brasil.

Os demais donos de indústria não ingressaram oficialmente no baronato, mas eram tratados pelo apelido. Em especial os empresários paulistas.

Hoje, o cenário mudou completamente.

A principal entidade representativa das indústrias paulistas não tem nada de heroica e nem de modernizadora.

A julgar pelas opiniões expressadas em nota sobre o tarifaço de Donald Trump, o presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, está muito mais para vilão que para mocinho.

Diante da absurda tarifa de 25% que o presidente dos Estados Unidos aplicou sobre vários produtos brasileiros, o bolsonarista Skaf assinou o texto mais humilhante que um líder empresarial poderia criar.

Como sempre acontece, culpou o governo pelo acontecido.

Citou “ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington acabou por minar vínculos construídos ao longo de mais de 200 anos de cooperação bilateral”.

O que Skaf considera como “desalinhamento político com Washington” é, na verdade, a resistência da gestão Lula em ficar de joelhos e aceitar todos os caprichos de Trump contra a indústria nacional.

Como o colunista do ICL Notícias Jamil Chade revelou em primeira mão, para negociar redução de tarifas o governo dos EUA exigiu que o Brasil barrasse investimentos chineses no setor de terras raras e minérios, além de abrir de forma plena o mercado nacional para bens americanos.

Segundo o texto da “proposta”, revelado por Jamil, os Estados Unidos exigiam do Brasil simplesmente “eliminar tarifas sobre bens industriais dos EUA, incluindo químicos, veículos e autopartes, produtos médicos e frutos do mar”.

Trump também queria que o governo brasileiro aceitasse “a importação de veículos produzidos nos EUA” não mais de acordo com as normas nacionais, mas seguindo “as Normas Federais de Segurança de Veículos Motorizados dos EUA”.

Além disso, os americanos queriam que aceitássemos “certificados eletrônicos e autorização prévia de comercialização do FDA (Food and Drug Administration dos EUA) para dispositivos médicos e produtos farmacêuticos produzidos nos EUA” sem contestação.

Diante disso, é difícil pensar em algo mais sabujo do que a rendição proposta pela nota da Fiesp, contra os interesses do próprio setor que diz representar.

O texto abjeto afirma ainda que “a retaliação comercial poderia ter sido evitada com uma condução técnica e pragmática”. Em uma palavra: capitulação.

Confirma-se assim que não restou nada de heroico aos industriais de hoje — ou ao menos aos que representam esse pedaço importante da economia brasileira.

Para bajular Trump, a Fiesp de Paulo Skaf  está disposta até mesmo a prejudicar as empresas brasileiras e pisar na soberania nacional.

Lamentavelmente, esses que foram um dia os barões da indústria estão hoje mais para barões da pisadinha.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil de Fato/g1/ICL Notícias

 

A estrutura política das pequenas cidades

Há um silêncio estranho em algumas pequenas cidades brasileiras. Não aquele silêncio que vem no meio da madrugada de uma cidade tranquila, com a brisa leve batendo entre as árvores ou com a sensação de quietude que se forma após um dia escaldante na caatinga. Há outro tipo de silêncio nessas cidades, um silêncio que costuma estar ligado a um certo sentimento de dependência, e que, de certa forma, permanece às escondidas na festa do dia da inauguração, nas explosões de fogos durante as campanhas políticas ou na alegria das fotos de redes sociais da prefeitura. É o silêncio de quem precisa de alguma coisa – e, convenhamos, a dependência dificilmente age em voz alta.

É justamente nessa arena, opressiva, agradável e profundamente desigual, que surge o que propõe chamar de “pré-feudalismo”. A expressão pode parecer excessiva à primeira vista. Talvez seja mesmo, mas isso ocorreria se a cidade brasileira fosse realmente um ambiente republicano. O fato é que, em muitas pequenas cidades do interior, a dinâmica política das prefeituras não está mais organizada em função de uma cidadania, mas em função de uma espécie de posse informal do poder.

A prefeitura ainda mantém o seu caráter de patrimônio público na aparência. Mas não no essencial. De fato, as estruturas políticas das pequenas cidades brasileiras acabam reproduzindo, de forma clara e explícita, uma espécie de dinâmica feudal: orçamentos públicos servindo de instrumento eleitoral; cargos comissionados sendo usados como premiação; contratos administrativos estabelecendo nexos de dependência entre empresários e gestores políticos; e os próprios cidadãos ficando às vezes com a impressão de reféns de suas próprias necessidades existenciais.

Há de se dizer que falar disso é doloroso, mas é importante entender que, nesse caso, as prefeituras não administram apenas ruas, escolas e postos de saúde. Elas administram relações sociais. Relações de expectativas. Relações de medos. Essa deve ser justamente a característica mais refinada do pré-feudalismo: ele não precisa de correntes, pois constrói a dependência.

Da perspectiva marxista, a dinâmica poderia ser interpretada como uma espécie de estrutura local de reprodução de relações de classe dentro do contexto do capitalismo periférico brasileiro. Na realidade, a prefeitura passa a fazer parte de uma estrutura oligárquica onde poder político e interesses econômicos se misturam no clima controlado dos edifícios executivos.

Ou seja, o pré-feudalismo vai além da ideia de corrupção individual, ou até mesmo do “político ladrão”. Essa seria uma análise simplória do fenômeno, que vai além do conceito de corrupção e que se revela uma estrutura que vai na contra-mão dos princípios democráticos da própria cidade.

No pré-feudalismo, a prefeitura torna-se a principal peça econômica da cidade. Ou seja, os trabalhos, os contratos, as licitações, os eventos e até mesmo oportunidades de negócio se passam sob as mãos da máquina administrativa do poder municipal. As prefeituras tornam-se então uma espécie de ecossistema político em que tudo respira de acordo com a estrutura de poder que se estende por elas.

E há ainda mais um aspecto interessante: quanto mais pobre a cidade, maior será o poder simbólico da prefeitura. As condições econômicas precárias fazem com que o clientelismo se fortaleça cada vez mais, criando dependência a partir da fragilidade econômica das pessoas e dificuldade de enfrentamento ao poder. Assim, a cidadania acaba sendo gradualmente sufocada pela relação baseada em favores e obrigações.

Começa-se com medo. Logo vem o conformismo. E termina com a naturalização. O pré-feudalismo é a expressão dessa naturalização das estruturas de poder político. E algumas cidades brasileiras têm características marcantes para isso. No município de Paulista, na região do sertão paraibano, por exemplo, o fenômeno deixa claro alguns elementos do pré-feudalismo.

Trata-se de uma pequena cidade com pouco mais de 11 mil habitantes. Entretanto, a história da cidade parece se repetir com a permanência de grupos tradicionais na chefia executiva municipal. O objetivo aqui não é apontar nomes, mas observar as estruturas históricas que permitem uma conclusão: a alternância democrática existiu completamente, ou apenas pintou a engrenagem?

Em pequenas cidades, o poder costuma ter sobrenome. Isso muda tudo. O comerciante pensa duas vezes antes de criticar a gestão. O trabalhador temporário se abstém de manifestar críticas políticas. E os pequenos prestadores de serviços descobrem a importância dos silêncios na política municipal. Gradualmente, a cidade assume contornos de um teatro onde todas as pessoas são livres para agir, mas sabem muito bem até onde podem ir.

Esse é o funcionamento da dinâmica do pré-feudalismo, que precisa de violência explícita, mas que se apoia mais em manipulação psicológica e cotidiana.

Com a era das redes sociais, a situação fica ainda pior. Hoje, prefeituras acabam assumindo funções de produtores de propaganda institucional, com vídeos em drone, trilha sonora para inaugurações, cenas de prefeitos realizando obras e entregando serviços aos moradores com a música no fundo. A política urbana entra definitivamente na era do marketing político.

O importante, porém, é entender que imagens também têm poder no pré-feudalismo atual. A presença constante do governante em fotografias abraçando idosos, entregando cestas básicas, visitando obras e até mesmo caminhando pelas ruas ao som de canções inspiradoras não constrói apenas publicidade administrativa. Ela também ajuda a formar uma identificação emocional com o próprio líder político.

Critique o prefeito, e estará criticando a própria cidade. Toda a noção de espaço público republicano dá lugar à ideia de uma cidade quase monárquica, em que a figura do gestor se mescla ao espaço da cidade, como se a cidade fosse sua propriedade e os recursos de sua gestão tivessem origem na bondade pessoal do político em questão.

Além disso, problemas estruturais da cidade seguem invisíveis atrás da cortina de inaugurações. A praça é reformada pela terceira vez. O portal turístico reluz nas entradas da cidade. Festa receber milhares de investimentos públicos. As escolas seguem precárias, os hospitais superlotados e a juventude sem perspectivas de vida. Concreto virou show de luzes. Política urbana torna-se, de certa forma, uma espécie de performance em que o concreto serve apenas para a realização de espetáculos políticos.

Há simbolismo profundo na dinâmica, que ama monumentos justamente por eles poderem distrair. Distraindo a opinião pública da falta de movimento social. De certa forma, o maior talento das oligarquias municipais contemporâneas é justamente esse: transformar a permanência em movimento. Muda-se de slogan. Trocam-se jingles. Atualiza-se o logo. Mas os padrões de relação de dependência continuam iguais.

E a mídia local, muitas vezes, é quem se encarrega de promover isso. Nas pequenas cidades, os meios de comunicação locais dependem do investimento de publicidade por parte das prefeituras. Com isso, a própria possibilidade de crítica política torna-se um exercício arriscado ou praticamente impossível de realizar.

O pior de tudo é que tudo isso ocorre à luz do sol da democracia. Há eleições. Campanhas políticas. Partidos. Discurso de liberdades democráticas. Tudo funciona formalmente conforme a lei, mas, por trás disso, uma dinâmica muito mais antiga: a tradicional confusão do público com o privado.

Justamente nesse ponto, o pré-feudalismo assume o papel de herdeiro legítimo do patrimonialismo histórico brasileiro. Desde a era colonial, as estruturas políticas brasileiras sempre foram vistas como prolongamento dos interesses da oligarquia local. O que mudou não foi o sistema em si, mas sua estética. O coronel trocou seu cavalo pelo Instagram. Mas continua querendo controlar a cidade.

O neoliberalismo agravou ainda mais essa dinâmica. Com a precarização dos direitos sociais dos trabalhadores, a dependência econômica das pessoas cresceu e o poder dos clientelistas locais aumentou. Quem vive na margem sabe que sobreviver é mais importante que questionar a máquina. Ferino, mas prático.

Esse é justamente o ambiente em que o pré-feudalismo prospera. Combater, então, o fenômeno passa longe de depender apenas de investigações policiais ocasionais ou da moralização da corrupção. É preciso romper os fundamentos econômicos que fazem do pré-feudalismo algo tão eficaz. Democracia real implica em autonomia social. Liberdade de imprensa. Educação crítica. Participação política da população.

Mais especificamente, é preciso que o cidadão comece a voltar a se ver como sujeito de direitos, em vez de se ver como beneficiário da bondade de governos que administram uma cidade de sua própria conta.

Porque a cidade não deve ter dono. A prefeitura não deve ser uma herança familiar. Os recursos orçamentários públicos não devem ser usados para garantir a continuidade das oligarquias. Enquanto isso, entretanto, persistirá no Brasil a dinâmica do pré-feudalismo.

Porque enquanto a cidade for tratada como pertencendo aos grupos de poder, haverá uma democracia incompleta – uma democracia que se curva diante das forças silenciosas do pré-feudalismo. Inquietante é pensar que isso é aceito como normal.

 

Fonte: Por Joaquim Neto, em A Terra é Redonda

 

Diversionismo político e saúde – a fluoretação da água

O negacionismo científico e a difusão de fake news sobre saúde e doença podem matar. Ainda quando não matam, prejudicam políticas públicas de saúde. Os indicadores da cobertura vacinal no Brasil, durante os governos Temer-Bolsonaro, mostram isso claramente. A hesitação vacinal, a que negacionismo e fake news levaram muitas famílias, está na origem de milhares de mortes evitáveis por vacinação.

Mas negacionistas e difusores de mentiras nunca respondem por seus crimes ou pelos prejuízos que causam à saúde pública. O caso da fluoretação da água, sob o governo de Donald Trump, é também um exemplo eloquente das consequências de recusar conhecimentos científicos e optar por crendices.

Embora um inquérito amostral com 1.114 participantes tenha revelado que 56% dos entrevistados que tinham opinião sobre o assunto sejam favoráveis à medida, e ainda que mais de sete mil pesquisas científicas indiquem que há suficiente evidência científica para o uso dessa que é considerada uma indispensável tecnologia de saúde pública para prevenir cárie dentária, o governo de Donald Trump segue propondo o contrário: segue recomendando aos Estados que cessem sua implementação.

Os estados de Utah, onde a cobertura da fluoretação alcançava 43,6% da população, e Flórida, com cobertura de 78,1%, interromperam o uso dessa tecnologia em 2025. Caso não sejam revertidas oportunamente, em dez anos será possível aferir o grau máximo do prejuízo à saúde das populações desses estados.

Em declaração publicada no site da ADA, a Associação dos Dentistas dos Estados Unidos (EUA), Robert Kennedy Jr, o “ministro da Saúde” do governo de Donald Trump admitiu que a prevalência de cárie aumentará onde a fluoretação for interrompida. Como nesse caso parece não haver dúvida sobre o fato de que os promotores do negacionismo não são pessoas ignorantes, ou estúpidas, pois têm boa formação escolar, cultura e sabem as consequências dos seus atos como autoridades públicas, resta uma questão: por que o fazem?

No Brasil, durante o governo de Jair Bolsonaro, chegamos a ter um ministro da Saúde antivacinista fake, contumaz praticante do diversionismo. Com razão, críticos do negacionismo têm aventado a hipótese do diversionismo, com objetivos políticos.

No clássico Da arte da guerra, do chinês Sun Tzu (544 a.C. – 496 a.C.), o termo ‘diversionismo’ aparece duas vezes, ambas no capítulo VII, intitulado ‘Manobras estratégicas’. Na introdução desse capítulo ele afirma que “o general precisa integrar e harmonizar muitos elementos diferentes antes de marchar para o campo de batalha. Além disso, precisa estabelecer suas manobras táticas, e não há nada mais difícil. A dificuldade das manobras táticas consiste em ver claro o que é dúbio, em ver vantagem onde há desvantagem.

Por exemplo, seguir uma rota longa e circular, depois de ludibriar o inimigo para afastá-lo do caminho, e então, mesmo estando em desvantagem geográfica, correr para atingir a meta antes dele, eis o que demonstra bom conhecimento do artifício do diversionismo”. Na seção ‘Táticas não amarradas’ Tzu faz considerações sobre o campo de batalha e diz que “Não somos aptos a liderar a marcha de um exército a menos que estejamos familiarizados com a aparência do terreno – suas montanhas e florestas, suas armadilhas.

Não podemos usar as características naturais do terreno em nosso benefício a não ser nos servindo de guias locais. Precisamos, na guerra, praticar a dissimulação para obter sucesso. E nos mover apenas quando há um benefício real a ser alcançado com tal ação. Nossa decisão de concentrar ou dividir as tropas vai depender de cada circunstância. Tenhamos a rapidez do vento, a compactação de uma floresta. Em questão de assaltos e invasões, sejamos como o fogo e, quando parados, como uma montanha.

Mantenhamos nossos planos tão invisíveis e impenetráveis quanto a noite e, quando em movimento, caiamos como um relâmpago sobre o inimigo. Ao tomar de assalto uma região, devemos permitir que o butim seja dividido entre os homens; quando capturarmos um novo território, dividamo-lo em lotes para o benefício dos soldados. Precisamos ponderar e deliberar antes de agir. Aquele que aprender a usar o artifício do diversionismo será um conquistador. Eis a arte de fazer manobras”.

O termo “diversionismo” pode ser conceituado como uma estratégia, tática ou manobra para desviar a atenção ou esconder algo, com o objetivo de enganar interlocutores. Em sentido popular, equivale a “cortina de fumaça”, ou “escapar de um assunto”. O diversionismo é amplamente utilizado nas áreas política e militar, motivo pelo qual é objeto de estudo das ciências que se ocupam dessas áreas.

Na área militar, as expressões “campo de batalha” e “teatro de operações” referem-se ao território onde se travam batalhas. O conceito diz respeito, portanto, em termos militares, classicamente, ao ambiente da conflagração (terrestre, marítimo ou aéreo). Mas batalhas e guerras não se restringem ao domínio militar, pois atravessam, em todos os âmbitos, as sociedades envolvidas, nas dimensões dos mundos natural, social e simbólico.

O mundo simbólico, onde tem papel central o imaginário social, é também ele, ao seu modo, um ambiente em que se travam batalhas. Neste sentido, é um teatro de operações, cujos recursos para as disputas provêm das comunicações sociais. Não sem razão, o ex-governador da Califórnia e senador estadunidense Hiram Warren Johnson (1866-1945) afirmou em 1917 que “a primeira vítima de uma guerra é a verdade”, para dizer que em qualquer conflito todos os envolvidos se valem de recursos midiáticos, como a propaganda e a manipulação das informações, incluindo a censura, para buscar ter o controle da narrativa.

No capítulo intitulado ‘O SUS no centro da disputa política do imaginário social no contexto da pandemia de covid-19’, assinalei que o imaginário social não é um fenômeno desarticulado da realidade social, expressando, portanto, as ideologias presentes em cada sociedade, seus símbolos e mitos. Nele ocorrem embates renhidos, cotidianos, sem trégua, em torno de valores como direitos sociais, direitos humanos, papel do Estado na garantia de direitos, equidade, justiça e tantos outros temas que mobilizam diferentes atores e os colocam em ação, e em oposição, disputando hegemonia e, para isso, desenvolvendo e empregando ferramentas que operam no mundo simbólico.

Nesse mundo, o imaginário social é, portanto, mais um teatro de operações das disputas travadas por diferentes sujeitos sociais, agentes, classes ou grupos sociais em busca de impor suas visões de mundo.

Na era da informação, com a aceleração inaudita do fluxo de dados, informações e interações em todo o planeta, proporcionada pela velocidade e amplitude da internet, as redes sociais digitais vêm se constituindo em campos de batalha ou teatro de operações midiáticas de conflitos que, como não poderia deixar de ser, impactam fortemente todo o ciclo das políticas públicas, dentre as quais as de saúde.

As pautas que dizem respeito a costumes, como os debates sobre moralidade, religião, direitos civis, comportamento e tradições culturais ocupam posição destacada nessas batalhas midiáticas em ambientes digitais, em busca do domínio do imaginário social. No Brasil, com ou sem a participação de instituições governamentais dos três poderes, têm enorme apelo popular entre grupos conservadores, progressistas e contam com ampla adesão da audiência, os temas que envolvem direitos LGBTQIA+, aborto, educação, posse de armas e liberdade religiosa.

Várias dessas pautas remetem a políticas públicas de saúde e levam o SUS, por vezes, para o centro dos debates. A vacinação e o aborto são temas recorrentes. A fluoretação das águas é, no Brasil, por enquanto, menos frequente. Mas, nos EUA a fluoretação vem sendo “arrastada”, neste momento, para o centro de temas propícios ao uso como diversionismo político, pois geram falsas polêmicas sem maiores implicações para os embates abertamente político-ideológicos.

São, nesse sentido, inofensivos, e com as falsas polêmicas levantadas por competentes profissionais da área de comunicação, põem as pessoas para “debater” questões irrelevantes – mas apresentadas ao público como se fossem problemas cruciais, urgentes, que afetam, imediata e diretamente, suas vidas e de pessoas próximas.

Com tais “polêmicas”, o diversionismo político busca fazer com que o público não se ocupe de temas relevantes, dos assuntos políticos efetivamente importantes coletivamente, como a mortandade em Gaza, o desemprego, a inflação e o cerceamento de direitos nos EUA, as agressões imperialistas à Venezuela e ao Irã, o bloqueio a Cuba, dentre tantos outros temas efetivamente polêmicos. Com isso, o diversionismo distrai a atenção do que importa politicamente, com o que, nesse aspecto, não importa.

Trata-se, portanto, para quem o pratica, de sempre que necessário em alguma conjuntura adversa, usar politicamente a fluoretação da água (ou alguma vacina, ou “a cura do câncer”, dentre outros temas), como uma operação midiática diversionista, para desviar a atenção da opinião pública de assuntos politicamente relevantes. Quem o faz, pode até pensar ser essa manobra inócua, desprovida de consequências. Mas, não.

Há consequências. Importantes. Relevantes para a saúde pública. Porém, para quem usa saúde, doença, sofrimento e morte como ingrediente para diversionismos, como táticas de distração e manipulação para chegar e se manter no poder, que importância pode ter a saúde pública?

 

Fonte: Por Paulo Capel Narvai, em A Terra é Redonda 

 

Brasil x EUA: o pano de fundo político da sobretaxa

A decisão dos Estados Unidos de impor sobretaxas adicionais para a importação de produtos brasileiros tem gerado repercussões econômicas, mas também políticas. Enquanto integrantes do governo classificam a investigação conduzida por autoridades norte-americanas como "frágil" e baseada em documentos desatualizados da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), especialmente em alegações relacionadas ao combate à corrupção no país, analistas alertam para o acirramento do debate eleitoral em torno do novo tarifaço. Inclusive, apontam para o pano de fundo político da decisão do governo norte-americano diante da proximidade das eleições presidenciais em outubro e das recentes conversas dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio.

A pesquisa Genial/Quaest, divulgada logo após a confirmação da taxação adicional dos EUA de 25% sobre mais de 3 mil produtos brasileiros, mostrou que a intenção de voto no senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) recuou até mesmo entre eleitores bolsonaristas na comparação com junho, passando de 88% para 81%. O levantamento revelou ainda que 51% dos eleitores concordam que a família Bolsonaro é a responsável pelo tarifaço dos EUA, e 30% concordam que Flávio tentou reverter as tarifas.

A expectativa de analistas é de que essa nova sanção ao Brasil poderá dar ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) uma linha de ataque a ser explorada na campanha; em uma disputa que deverá ser muito acirrada. De acordo com relatório do Eurasia Group, o aumento de quase 1,7 mil para pouco mais de 2,1 mil no número de produtos isentos deve reduzir o impacto econômico da medida após várias audiências em Washington de representantes do setor privado.

"A lista ampliada abrange algumas das exportações mais significativas do Brasil para os EUA, incluindo carne bovina, café, suco, pescado, ferro-gusa e diversos produtos de madeira. Isso significa que apenas um quarto das exportações brasileiras é afetado pela tarifa de 25%", destacou a consultoria norte-americana.

Para os analistas do Eurasia Group, a medida acabou prejudicando mais a candidatura de Flávio Bolsonaro, apesar de ele ter mais chances de conseguir um acordo com os Estados Unidos se vencer as eleições. "A decisão dos EUA sobre as tarifas prejudicará a candidatura de Flávio, mas não definirá o resultado da eleição. Os eleitores brasileiros não votam com base na política externa, e a disputa será decidida, em última análise, por questões internas", frisou o relatório da equipe liderada por Christopher Garman. Recentemente, ele elevou de 55% para 60% as chances de vitória de Lula nas eleições deste ano.

Na avaliação da consultoria, alguns produtos sujeitos apenas à tarifa adicional de 12,5% relacionada ao trabalho forçado também permanecerão competitivos, visto que a medida se aplica à maioria dos principais parceiros comerciais dos EUA. O governo brasileiro espera a confirmação dessa nova tarifa ainda nesta semana. Ela integra uma estratégia mais ampla de proteção comercial adotada por Trump, alinhada aos princípios do movimento Maga (Make America Great Again), que defende o fortalecimento da indústria e da economia dos Estados Unidos por meio de medidas protecionistas. E, ainda segundo essa avaliação, o Brasil não seria um caso isolado. Países aliados históricos dos Estados Unidos, como Reino Unido, Israel, El Salvador e Austrália, também teriam sido alvo de medidas semelhantes, inclusive, nações que mantinham deficit comercial com os norte-americanos.

<><> Tropeço diplomático

No entanto, o CEO da Casa Política e ex-diretor da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) e do Senado Federal, Márcio Coimbra, atribui o tarifaço à má condução da política externa brasileira. Para ele, a imposição da sobretaxa pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), com base na Seção 301 da Lei de Comércio norte-americana, expõe uma "paralisia da política externa brasileira" e representa um revés que o governo federal tenta transformar em narrativa política.

Coimbra argumenta que o Palácio do Planalto busca responsabilizar a oposição, especialmente o senador Flávio Bolsonaro, pelas sanções devido às articulações realizadas junto à Casa Branca. Na avaliação do especialista, entretanto, essa estratégia tende a encontrar resistência entre setores produtivos. Ele citou críticas do empresariado, especialmente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), ao que classificou como "ruídos desnecessários" e conflitos personalistas por parte do governo.

<><> Lei da Reciprocidade

A discussão sobre uma eventual resposta brasileira às novas sanções dos EUA ganhou com a sanção da Lei nº 15.122/2025, conhecida como Lei da Reciprocidade Econômica. Contudo, analistas veem o uso dessa ferramenta com cautela.

A advogada Natasha Giffoni Ferreira, sócia do escritório Volk & Giffoni Ferreira Advogados, a aplicação da Lei da Reciprocidade não deve significar uma retaliação indiscriminada, porque uma resposta ampla poderia elevar os preços de máquinas, equipamentos, medicamentos e tecnologias importadas dos Estados Unidos, pressionando custos empresariais e a inflação. Ela defendeu uma estratégia seletiva, priorizando produtos cuja sobretaxa tenha maior efeito político e comercial nos EUA, mas provoque menor impacto sobre consumidores e empresas brasileiras. "A melhor solução não é necessariamente a retaliação imediata, mas a utilização criteriosa dos instrumentos disponíveis para proteger a competitividade das empresas brasileiras sem transferir o custo da disputa para a economia interna."

O especialista em direito internacional empresarial Marcelo Godke também concordou que a negociação diplomática representa o caminho mais eficaz para a resolução do impasse. Segundo ele, a administração de Donald Trump caracteriza-se por uma postura assertiva e por privilegiar negociações diretas. Nesse contexto, a apresentação de propostas e demandas objetivas tende a ser mais produtiva do que o confronto. "Diplomacia, diálogo e negociação são fundamentais. O histórico da atual administração indica que, quando propostas factíveis e de interesse mútuo são apresentadas, há disposição para o entendimento", afirmou.

Márcio Coimbra também criticou a possibilidade de utilização da Lei de Reciprocidade como resposta ao novo tarifaço dos EUA, porque uma retaliação tarifária poderia elevar custos de importação, afetar cadeias produtivas e provocar impactos negativos sobre empregos e preços internos.

¨      Efeito do novo tarifaço será reduzido pois Brasil já redirecionou mercado para outros países, avalia economista

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, decretou o tarifaço de 25% sobre produtos brasileiros nesta quarta-feira (15) e gerou resposta imediata do governo Lula, que planeja acionar a Lei de Reciprocidade.

Assim como aconteceu na taxação anterior, em agosto do ano passado, os EUA tiraram alguns produtos considerados essenciais da lista, como café, carne bovina e suco de laranja. Ainda assim, a taxação incidirá em produtos majoritariamente da área industrial e alguns agrícolas, como máquinas, pneus, açúcar, etanol, tabaco, madeira, calçados e alguns produtos de alumínio.

Em entrevista ao Conexão BdF, da Rádio Brasil de Fato, o economista José Luis Oreiro, professor do departamento de economia da Universidade de Brasília (UnB), aponta que o impacto para a economia brasileira é menor do que o que Trump quer fazer crer no discurso. Oreiro avalia que, por causa do tarifaço do ano passado, o mercado brasileiro buscou outros parceiros comerciais e já se acomodou na nova realidade.

“De lá para cá, parte do comércio que o Brasil fazia com os EUA foi desviado para a China e para a União Europeia. A participação dos EUA nas exportações brasileiras está no seu mínimo histórico. O mercado estadunidense representa menos de 10% das exportações brasileiras. Essas medidas anunciadas ontem afetam aproximadamente 40% das exportações brasileiras”, explica.

José Luis Oreiro afirma que, se a extrema direita dos EUA queria trazer, de alguma forma, o Brasil para mais “perto da sua órbita de influência”, a medida produziu o efeito contrário. “Vai colocar o Brasil ainda mais no polo da China e, em segundo lugar, da União Europeia”, resume.

O economista também avalia que a aplicação da Lei de Reciprocidade é uma praxe e que o impacto mais forte será na indústria de transformação no Brasil. “O que a indústria vai ter que fazer é o que já vem fazendo nos últimos 12 meses, que é direcionar essa produção para outros mercados. O governo brasileiro vai ter que adotar medidas de incentivo, como algum tipo de isenção fiscal, algum crédito no BNDES, enquanto elas estão procurando novos mercados. Mas eu não tenho dúvida de que esse efeito sobre a economia brasileira vai ser muito reduzido. Embora ele se concentre no setor que é nosso filé mignon, que é a indústria de transformação, o efeito global será pequeno”, analisa Oreiro.

¨      Lula diz que fará "guerra da verdade" contra Trump após tarifaço

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) discursou nesta sexta-feira (17/7) em alusão ao tarifaço de 25% anunciado nesta semana pelo governo dos Estados Unidos às exportações brasileiras.

Lula, em pronunciamento realizado no Instituto Nacional de Traumatologia e Ortopedia (INTO), no Rio de Janeiro, reforçou o interesse em fazer uma "guerra" ao presidente norte-americano Donald Trump.

"O Brasil não tem interesse em guerra, nós somos da paz. Agora, a guerra que eu quero fazer com ele (Trump) é a guerra da verdade. Quero provar ao mundo quem está falando a verdade nessa guerra tarifaria entre Brasil e Estados Unidos", afirmou Lula.

"Nessa, guerra (anunciada por Lula) Trump terá de usar a arma da palavra", completou o líder brasileiro, em seu segundo pronunciamento público após os EUA oficializarem a aplicação da tarifa de 25 % a uma lista de produtos brasileiros exportados para o país norte-americano.

Mais cedo, também no Rio de Janeiro, Lula condicionou sua manifestação a uma resposta pública de Donald Trump. “Quando Trump falar, eu falarei. Contra o Brasil, ninguém ganha mentindo”, disse o petista.

Além das declarações de Lula após a oficialização das tarifas, o vice-presidente Geraldo Alckmin e ministros palacianos criticaram publicamente, ontem (16), os argumentos do governo dos Estados Unidos para a aplicação da sobretaxa à exportações brasileiras.

Um dos pontos levantados pelos EUA, o funcionamento do Pix foi defendido pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, que chamou o sistema de pagamento como símbolo da “soberania financeira brasileira”.

 

Fonte: Correio Braziliense/Brasil de Fato