Abaixo a república dos banqueiros
É a serviço desses interesses que André
Mendonça busca intervir politicamente nas eleições para favorecer o
bolsonarismo, assim como agora faz com o afastamento de Andrei Rodrigues do
comando da Polícia Federal motivado por interesses próprios. Mas também é a
serviço disso que atua e sempre atuou Alexandre de Moraes, como agora fica
evidente em seus negócios milionários com um banqueiro picareta. Depois de anos
de ataques aos direitos da classe trabalhadora, abre-se uma situação na qual
diferentes setores da burguesia e da classe política procuram definir, cada um
à sua maneira, como será o próximo capítulo do país. Enquanto a Frente Ampla
faz as alianças mais espúrias dando como alternativa apenas as eleições, a
questão decisiva é saber se os trabalhadores permanecerão como espectadores
dessa disputa ou se entrarão em cena como uma força política independente, com
um programa próprio para enfrentar essa crise e o conjunto desse regime
político degradado.
A Constituição de 1988 foi resultado da
mobilização social contra a ditadura e incorporou conquistas importantes
arrancadas pela classe trabalhadora e pelos movimentos populares. Mas ela
também estabeleceu os limites dentro dos quais a democracia brasileira, ou
seja, a democracia dos ricos, funcionaria, desviando essa força social operária
e popular. Preservou o poder econômico dos grandes empresários e banqueiros,
manteve intocados a grande concentração de terras e os fundamentos da
propriedade privada, preservou e anistiou os crimes cometidos por militares e
empresários durante a ditadura militar e deixou nas mãos de instituições pouco
ou nada democráticas decisões fundamentais sobre a vida da população. A
democracia de 1988 nunca significou que os trabalhadores passariam a governar o
país. Significou, ao contrário, a construção de um regime democrático-liberal
capaz de incorporar algumas demandas sociais sem alterar as bases do
capitalismo brasileiro.
Hoje, entretanto, os setores mais
reacionários querem ir além desses limites pela direita. A extrema direita não
pretende alterar um ou outro ponto da Constituição. Ao contrário, seu projeto é
modificar o próprio regime para ampliar o poder das forças mais conservadoras,
atacar direitos sociais e trabalhistas, fortalecer os aparelhos repressivos e
garantir ainda mais liberdade para os interesses do grande capital, projeto que
avançou com mais velocidade a partir do golpe institucional de 2016. Agora, diante
da crise do caso Master, um setor do grande empresariado defende mudanças no
regime político em uma tentativa de aumentar o poder e influência dos
banqueiros e do grande capital, eliminando conquistas que, mesmo limitadas,
foram incorporadas ao pacto de 1988.
Os atos de 7 de Setembro, apesar de uma baixa
adesão, deixaram isso evidente no discurso dos seus articuladores. A presença
conjunta de Flávio Bolsonaro, Tarcísio de Freitas e Nikolas Ferreira expressou
a tentativa de reorganização da extrema direita em torno de uma plataforma que
combina o golpismo, os ataques a ministros do STF e a defesa de uma
subordinação ainda maior a Donald Trump. A mobilização revelou também a
contradição que não pode ser escondida: enquanto reivindicam falar em nome do
Brasil, parte significativa da extrema direita deposita suas esperanças na
intervenção política e econômica dos Estados Unidos, bandeira que foi erguida
no ato reacionário da Paulista. O bolsonarismo procura se recompor não
abandonando o projeto autoritário que o marcou, mas tentando transformá-lo em
uma alternativa política capaz de disputar o futuro do país.
É nesse cenário que a crise das instituições
ganha uma importância particular. A Operação Master e as relações reveladas
entre o sistema financeiro, setores da política e integrantes das instituições
de Estado expõem algo que vai muito além da conduta individual de um ou outro
banqueiro ou ministro. Elas revelam a profunda relação entre o poder econômico
e as instituições que se dizem representativas da sociedade. A crise do STF não
pode, portanto, ser respondida simplesmente com a defesa abstrata das instituições
contra a extrema direita. Tampouco podemos permitir que a extrema direita
utilize a crise do Judiciário para apresentar-se como inimiga dos privilégios
que ela própria representa.
O problema está no próprio funcionamento de
um regime em que decisões fundamentais são tomadas por instituições cada vez
mais autoritárias, afastadas da maioria da população e que atuam
permanentemente contra seus direitos e interesses. Onze ministros, que não
foram eleitos por ninguém e repletos de privilégios, podem definir questões
decisivas para milhões de pessoas, enquanto trabalhadores não têm qualquer
controle sobre as decisões econômicas que determinam seus salários, suas
condições de trabalho e o futuro dos serviços públicos. O Congresso, por sua
vez, permanece dominado pelos interesses empresariais e pelo poder econômico. O
resultado é uma democracia na qual a maioria vota, mas uma minoria continua
decidindo, em um processo de degeneração do próprio regime político.
É justamente por isso que a resposta à crise
não pode ser a adaptação da esquerda aos limites da chamada Frente Ampla.
Diante da ameaça da extrema direita, o argumento apresentado é que seria
necessário unir todos os setores que se dizem democráticos para defender as
instituições e impedir o retorno do bolsonarismo. Essa política transforma
grande parte dos setores que se dizem de esquerda como defensores desse regime,
de uma sociedade que reserva apenas maiores níveis de exploração e precarização
das condições de vida para a esmagadora maioria do povo. A mesma esquerda que
dizia “Viva Xandão”, agora está colocada em xeque diante da revelação de seus
negócios espúrios com um banqueiro que foi um dos grandes financiadores do
bolsonarismo. Foi justamente essa política que buscou transformar a classe
trabalhadora em força auxiliar de uma aliança cujo programa permanece limitado
à preservação do atual regime, que termina sendo incapaz de atender as demandas
mais sentidas pela população trabalhadora, pobre e oprimida.
Diziam que deveríamos depositar confiança no
STF para impedir que a direita avançasse, pedindo aos trabalhadores que
aceitassem a continuidade das reformas trabalhista e da previdência (que, não à
toa, deixou os altos juízes e militares de fora), da precarização do trabalho,
do arrocho salarial, dos privilégios dos grandes grupos econômicos e do poder
dos bancos sobre a economia. Sem falar nos direitos das mulheres e LGBTQIAP+
que são sempre negados em um país onde mulheres seguem morrendo por abortos clandestinos
e existe recordes de assassinatos de mulheres e pessoas trans e o racismo é
utilizado como arma pro lucro dos patrões, pois são negras e negros a maioria
sobre quem recai a informalidade, a precarização e o fardo de escalas como a
6x1. Como resultado disso, essa esquerda se colou à defesa do STF e agora não
consegue dar uma resposta de fundo a essa crise política, atuando como peça
acessória do acordão entre Alcolumbre, Hugo Motta, Alexandre de Moraes e o
próprio governo de Frente Ampla.
Por tudo isso, é preciso apontar que a
esquerda institucional, desde que se incorporou ao governo Lula, vem
contribuindo para impedir uma saída independente e dos trabalhadores, que
realmente possa derrotar a extrema direita. A ideia do “mal menor” nos trouxe
até o cenário onde, mais uma vez, apesar de todas as debilidades da extrema
direita, as pesquisas mostram forte resiliência da candidatura de Flávio
Bolsonaro, que agora aparece em condição de empate técnico com Lula. Para todos
que querem derrotar de fato a extrema direita é preciso uma discussão que vá
para além da conjuntura: como construir uma força independente sendo parte do
governo que está conciliando com banqueiros, juízes e grandes capitalistas
mantendo as reformas que nos atacam?
Então trata-se de compreender que não será
possível derrotar a extrema direita se parte do seu programa segue intacto sob
a direção da Frente Ampla. Não é possível derrotar a extrema direita de maneira
duradoura se as condições sociais que alimentam sua força permanecerem
intactas. Enquanto milhões trabalham em jornadas exaustivas, enquanto a escala
6x1 continua sendo uma realidade, enquanto a pejotização avança, enquanto os
bancos acumulam lucros e o agronegócio concentra terras e riqueza, a extrema direita
encontrará espaço para apresentar-se como uma alternativa ao sistema. E a
Frente Ampla, ao preservar justamente essas estruturas, termina deixando
intacta a base social sobre a qual a direita procura crescer.
É necessário, portanto, que os trabalhadores
apresentem uma alternativa própria para a crise se apoiando nas lutas em curso,
como é a greve dos bancários da Caixa, que começa no próximo dia 10, dos
professores da rede estadual em Sergipe e outras. Caso contrário a primeira
vítima dessa crise continuará sendo os direitos dos trabalhadores, como mostra
o adiamento do fim da 6x1 no Senado e que agora está ameaçado. Se os setores
mais reacionários querem mutilar ou reescrever a Constituição pela direita, de
forma tutelada pelos banqueiros, nós precisamos de uma resposta popular e dos
trabalhadores. Não devemos aceitar que sejam eles, junto com o Congresso, o STF
e os grandes empresários, aqueles que decidam os novos termos do país. A saída
deve ser lutar por uma Assembleia Constituinte Livre e Soberana, que seja
imposta pela luta, e que permita à maioria discutir e decidir sobre os
fundamentos políticos, econômicos e sociais do país.
Defender uma Assembleia Constituinte não
significa simplesmente propor uma reforma constitucional feita pelos mesmos
políticos que já controlam o Congresso. Significa defender uma Constituinte
livre e soberana, conquistada pela mobilização popular, com representantes
eleitos e revogáveis, e assim possa colocar em discussão as questões que as
instituições atuais procuram manter fora do alcance da maioria. Quem deve
controlar o sistema financeiro? Quem deve decidir sobre nossas riquezas
naturais? Por que um banqueiro pode ganhar milhões enquanto uma professora
recebe salários que mal permitem viver? Por que juízes não eleitos podem
exercer poderes tão amplos? Por que uma instituição como o Senado,
historicamente distante da representação direta da maioria, deve continuar
existindo? Por que devemos aceitar que o parlamento brasileiro seja dominado
pelas bancadas BBB (Boi, Bíblia e Bala), sendo um antro de reacionários que
dominam cada vez mais o controle sobre o orçamento do país?
Uma Assembleia Constituinte desse tipo
precisa partir das necessidades concretas de quem trabalha, colocando nas mãos
da maioria da população as principais decisões sobre os rumos do país. A
redução da jornada sem redução salarial e o fim da escala 6x1 devem fazer parte
de um programa que coloque o tempo e a vida dos trabalhadores acima do lucro. A
pejotização deve ser combatida porque acaba com os direitos trabalhistas e
transfere para o trabalhador os custos da exploração. Todos os direitos para
entregadores e uberizados é uma urgência. É preciso defender emprego digno e
com direitos para todos, colocando a produção a serviço das necessidades
sociais e não da acumulação de uma minoria.
O mesmo vale para a economia. Não é possível
falar em soberania nacional enquanto os grandes bancos controlam o crédito e
determinam os rumos da economia brasileira. A estatização do sistema bancário,
sob controle dos trabalhadores, permitiria colocar o sistema financeiro a
serviço das necessidades sociais. O petróleo e as terras raras devem ser
tratados como bens naturais comuns pertencentes ao povo brasileiro, e não como
fontes de lucro para empresas privadas. As gigantes do agronegócio,
responsáveis por uma enorme concentração de terra e poder econômico, devem ser
estatizadas e colocadas sob controle dos trabalhadores e camponeses, com uma
reforma agrária radical que redistribua as terras.
Também é preciso romper com os privilégios da
casta política e judicial e com o caráter profundamente antidemocrático de
instituições que funcionam acima da população. Juízes devem ser eleitos e
receber o equivalente ao salário de um trabalhador qualificado. Nenhum político
deveria receber mais do que recebe uma professora. O Senado, instituição sem
qualquer justificativa democrática para permanecer como uma segunda câmara de
privilégios, deve ser abolido.
A disputa aberta pela crise política
brasileira é, em última instância, uma disputa sobre quem terá o direito de
escrever os próximos capítulos do país. Se deixarmos essa tarefa nas mãos dos
banqueiros, empresários, políticos profissionais, juízes e generais, teremos
uma saída cada vez mais à direita ou uma administração do mesmo regime com
novas formas.
Sabemos que em uma conjuntura eleitoral e
frente ao temor da volta da extrema direita, muitos consideram que a única
alternativa que temos para evitar que o país seja entregue ao trumpismo é
apoiar já não só a Frente Ampla, mas também o Moraes, o diretor da PF, Andrei,
ou o Gonet. Mas vejam o limite em que chegou a pressão institucional da Frente
Ampla, que nos leva a um mal menor cada vez maior permanentemente. Não podemos
aceitar isso. É preciso construir uma alternativa política independente e que
aposte no caminho da mobilização para derrubar esse regime político podre e
construir uma alternativa revolucionária que lute por um governo dos
trabalhadores de ruptura com o capitalismo. Por isso, nos inspiramos num
exemplo como o do PTS da Frente de Esquerda e dos Trabalhadores da Argentina,
que vem ganhando peso como alternativa revolucionária, com Myriam Bregman à
cabeça, batalhando por um combate consequente contra a extrema direita, sem
conciliação ou ilusões institucionais.
Se os trabalhadores do Brasil entram em cena
com sua própria força, combinando suas lutas econômicas com a batalha por uma
saída política revolucionária para esta crise, é possível avançar no sentido de
questionar essa sociedade de exploração e opressão pela raiz.
Fonte: Por Diana Assunção e Danilo Paris, em
Esquerda Diário



