sábado, 18 de julho de 2026


 

O flerte entre o mercado da fé e a ultradireita

Em novembro de 2024, na cidade de Santa Maria, no Rio Grande do Sul, realizou-se o 1º Summit de Empreendedorismo Cristão. O evento tinha como objetivo, segundo seus organizadores, “promover, desenvolver e fomentar o empreendedorismo à luz da palavra de Cristo”. Entre os palestrantes, figurava Junior Rostirola, autor do livro mais vendido da Amazon Brasil em 2024: Café com Deus Pai. Rostirola também é fundador de uma igreja própria com mais de sete mil fiéis em Itajaí – SC e declarado simpatizante de figuras políticas autoritárias como Jair Bolsonaro e Donald Trump. Ao lado dele, Oséias Gomes, CEO da rede Odonto Excellence e autor de Empreenda pelos Princípios Bíblicos, e o Pastor Marcos Freire, fundador do projeto social Baluarte na África. O evento poderia parecer apenas uma curiosidade do cenário religioso brasileiro, mas não é. Ela condensa características fundamentais do que se chama de extrema-direita na política brasileira atual: a fusão entre o empreendedorismo como ética, a fé cristã no plano moral  e conservadorismo com características, cada vez mais, reacionárias, além do vínculo e apoio a figuras autoritárias integrantes de movimentos neofascistas. Todos esses eixos articulam um anticomunismo pautado pela ideologia neoliberal oriundo da escola austríaca de figuras como Ludwig von Mises e seu discípulo direto Israel Kirzner. Ideologia essa que é a força do projeto imperialista estadunidense ao articular produção de consenso e desinformação em massa para distorção da realidade social e bloqueio da consciência de classe e radicalização dos movimentos sociais. Compreender esse nó exige ir fundo nas raízes intelectuais do problema e identificar quem o organiza, quem o financia e quem o amplifica. 

>>> 1. O empreendedorismo como ética neoliberal e aparelhos privados de hegemonia empresariais 

O empreendedorismo não nasceu como política pública nem como tendência espontânea do mercado. Ele tem pais intelectuais identificáveis, e eles não escondem suas posições políticas. Para compreendermos o que se propaga hoje como ideologia do empreendedorismo é necessário observar a colaboração de autores ultraliberais como von Mises e seu discípulo direto Israel Kirzner. Suas análises pautadas pela defesa da propriedade privada e do mercado são utilizadas como base das concepções de ódio ao Estado e crença cega no funcionamento do mercado como sinônimo de liberdade a partir da prática do empreendedorismo como prática natural entre os seres sociais. De acordo com Dardot e Laval (2016), se existe originalidade no neoliberalismo (fase atual do capitalismo tardio) essa reside na transformação profunda da relação entre instituições e ação individual, que não pode ser compreendida sem atentar para essa conexão fundamental. O neoliberalismo, mais do que uma simples ideologia capitalista ou política econômica, atua, segundo os autores, como um regime que tem como objetivo moldar a subjetividade humana, direcionando-a para uma postura empresarial e competitiva, onde o indivíduo se torna um homem empresarial, submetido a uma lógica de concorrência em todos os níveis sociais. 

Ludwig von Mises, um dos mais influente dos economistas neoliberais da Escola Austríaca, buscou desenvolver ao longo do século XX uma teoria da ação humana, uma praxeologia que parte de um axioma simples e radical: todo ser humano age racionalmente para maximizar seus fins subjetivos. A consequência imediata desse postulado é a rejeição de qualquer forma de regulação coletiva da vida econômica: se cada indivíduo é o melhor árbitro de seus próprios interesses, o mercado é a única instituição legítima de coordenação social. O Estado, nessa visão, é sempre um entrave, uma distorção, uma violência autoritária. 

Mas Mises foi além da teoria econômica. Em Liberalismo na tradição clássica publicado em 1927 saudou abertamente o fascismo por ter, em suas palavras: “salvado a civilização europeia do perigo bolchevique”, reconhecendo que o mérito do fascismo “viverá eternamente na história”. A ressalva que fez de que o fascismo seria apenas um “improviso emergencial” não apaga o essencial: para Mises, a questão entre democracia e ditadura é subordinada à questão da propriedade privada. Onde o capital estiver ameaçado, a ditadura pode ser a solução. A propriedade privada, para ele, era o verdadeiro princípio civilizatório; tudo mais, incluindo a forma do regime, era secundário. 

Essa posição não é um detalhe biográfico. É a estrutura lógica de um pensamento que legitimou, e continua a legitimar, o apoio do liberalismo econômico a soluções autoritárias sempre que se apresente uma crise de hegemonia. O fascismo, em Mises, não é o oposto do liberalismo: é a sua forma de exceção. 

Israel Kirzner, discípulo direto de Mises e principal teorizador contemporâneo do empreendedorismo na Escola Austríaca, desdobrou esse núcleo em uma teoria do sujeito econômico. Em Competition and Entrepreneurship(1 973), Kirzner coloca o empreendedor no centro do processo de mercado, ou seja, como um agente dotado de uma especial capacidade de perceber oportunidades ainda não exploradas, o que ele denomina alertness, ou “estado de alerta”. Esse sujeito, permanentemente vigilante, competitivo e orientado pelo lucro, não é apenas uma figura econômica. É um projeto de subjetividade: o que o ser humano deve ser para funcionar adequadamente na ordem de mercado. 

A passagem de Mises para Kirzner é, portanto, a passagem da defesa do mercado para a fabricação do sujeito do mercado. O empreendedor não é mais apenas quem cria empresas: é o nome do ser humano ideal no capitalismo neoliberal. E como todo ideal, ele implica uma condenação daqueles que não se encaixam, que dependem do Estado, que organizam coletivamente sua resistência, que se recusam a ser a própria empresa. 

A genealogia intelectual do empreendedorismo não se sustenta apenas no plano das ideias. Ela precisa de estruturas organizadas para se tornar hegemônica, ou seja, para penetrar nas escolas, nas igrejas, nos programas sociais, nos meios de comunicação e, finalmente, nas vontades coletivas. É aqui que entram os aparelhos privados de hegemonia (APH’s), no sentido que Antonio Gramsci deu ao conceito, ou seja, organizações formalmente privadas que exercem funções de direção política e ideológica na sociedade civil. 

No Brasil, o crescimento dessas estruturas ao longo das últimas três décadas é vertiginoso. Entre 1996 e 2017, o número de APH’s ultraliberais cresceu 680% (CASIMIRO, 2018). Entre eles, o Instituto Milenium, o Instituto Liberal, a Rede Liberdade, o Instituto Rothbard Brasil, os Estudantes pela Liberdade e, de forma particularmente reveladora, o Instituto Mises Brasil. Fundado em 2009 por Hélio Beltrão — filho de um ministro da ditadura empresarial-militar, o Instituto Mises Brasil é hoje uma das principais trincheiras do pensamento ultraneoliberal no país. Opera em múltiplas frentes: eventos acadêmicos, produção de conteúdo para plataformas digitais, parcerias com universidades e articulação com o campo político da extrema direita.  A desinformação, neste caso, não é acidente: é método. 

O campo empresarial mais amplo organiza-se em torno do GIFE (Grupo de Institutos, Fundações e Empresas), que reúne entidades como a Fundação Roberto Marinho, a Fundação Lemann, a Fundação Itaú Social e a Fundação Bradesco. O denominador comum entre todas elas é a proposta do empreendedorismo como solução para a desigualdade social, uma solução que, ao transferir para o indivíduo a responsabilidade pelos problemas estruturais do capitalismo, esvazia qualquer demanda por redistribuição, regulação ou direitos coletivos. 

Não é coincidência que o Grupo Globo — principal conglomerado midiático do país — tenha lançado a campanha “Vamos Ativar o Empreendedorismo” e publicado um editorial intitulado “O empreendedorismo é instrumento para uma sociedade mais igualitária” (O GLOBO, 2021). A mídia proprietária, os institutos empresariais e as fundações de “responsabilidade social” formam um bloco articulado que Gramsci reconheceria imediatamente: um conjunto de forças que, atuando na sociedade civil, busca construir o consenso necessário para que a ordem do capital apareça como a única ordem possível e o empreendedorismo, como a única forma racional de ser. 

Esses aparelhos não são partidos no sentido formal. Mas exercem a função de partido no sentido gramsciano: organizam vontades coletivas, possuem intelectuais orgânicos, disputam a hegemonia moral e intelectual da sociedade. A diferença em relação ao partido tradicional é que eles operam sob o signo do “privado”, da “inovação” e da “liberdade de escolha”, o que torna sua natureza política tanto mais eficaz quanto mais invisível. 

>>> 2.  Deus e o mercado: fé e empreendedorismo 

A conexão entre o movimento cristão que se apresenta como “conservador”, o neoliberalismo via ética mercadológica-empreendedora e o movimento neofascista e reacionário não é acidental nem meramente eleitoral. Ela tem raízes ideológicas profundas e o empreendedorismo é um de seus elos mais importantes. Mises em Socialismo: uma análise econômica e sociológica de 1922 foi explícito ao afirmar que a Igreja deveria se afastar dos ensinamentos de solidariedade e justiça social presentes no Evangelho que ele via como “sementes do mal” e alinhar-se à defesa da propriedade privada e das leis do mercado. Para ele, as palavras de Cristo em favor dos pobres eram “uma ameaça à ordem capitalista”, e a Igreja, enquanto instituição, “deveria combatê-las”. Esse programa, aparentemente absurdo em sua brutalidade, encontrou eco em setores do protestantismo conservador de origem estadunidense que chegou ao Brasil ao longo do século XX como parte do projeto imperialista e com o objetivo de produzir o consenso capitalista e neoliberal com as igrejas neopentecostais exercendo a função de partido, ou seja, com pauta e projeto político definido. Segundo o autor: 

(…) procurei  demonstrar  não  apenas  como  o  Estado  brasileiro,  sobretudo  entre  1964  e 1985, facilitou a instalação e a proliferação de organizações religiosas conservadoras, mas  também  como  esse  fenômeno  se  inscreve  num  projeto  imperialista formulado nos Estados Unidos e que tinha como pressuposto o combate ideológico global ao comunismo.(NETTO, 2023) 

O Summit de Empreendedorismo Cristão de Santa Maria não é, portanto, uma anomalia. É o retrato e a  expressão organizada de uma convergência que vem sendo construída há décadas: entre a teologia da prosperidade, a ética empreendedora e a política autoritária. O cristão empreendedor que rejeita o Estado, combate o comunismo e vota na extrema direita não é uma contradição, é o produto acabado de uma estratégia ideológica coerente que produz e reproduz determinadas formas de existência para atender ao imperialismo estadunidense. 

Nas eleições de 2018, Bolsonaro obteve 51 % dos votos entre eleitores evangélicos, contra 27% de Lula. Líderes religiosos como Silas Malafaia, Marco Feliciano e Magno Malta foram protagonistas na mobilização autoritária em torno do ex-presidente. Atualmente, 246 deputados e senadores integram a bancada evangélica no Congresso Nacional, a maioria deles empresários vinculados a frações diversas do capital, para quem a pauta de costumes religiosa é o veículo de uma agenda econômica ultraneoliberal. 

A função do discurso religioso-empreendedor nesse arranjo é dupla: ele fornece uma linguagem de mobilização popular que transcende a frieza da teoria econômica, e ele blinda o projeto de classe de qualquer crítica que tente identificar seus interesses reais. Quem combate a privatização da Eletrobras está combatendo a “liberdade econômica”; quem defende direitos trabalhistas está promovendo o “comunismo”; quem critica Bolsonaro está atacando os “valores cristãos”. A fusão entre fé, mercado e política autoritária produz um campo semântico que se propõe impermeável à contradição. 

>>> 3. Neofascismo, empreendedorismo e desinformação 

O empreendedorismo como ética da proposta neoliberal, por si só, não produz tendências autoritárias. Para que a subjetividade neoliberal se converta em um autoritarismo de massas, é necessário um inimigo e nada melhor do que um período de crise de hegemonia burguesa para que a proposta autoritária apareça como opção. E é aqui que a desinformação entra como elemento estrutural no movimento neofascista no Brasil contemporâneo e não como falha do sistema de comunicação, mas como estratégia deliberada de construção de consenso reacionário em torno da disseminação de fake news.  

No que diz respeito ao termo neofascismo, seguimos a reflexão de Armando Boito Jr (2019) para diferenciar a ideologia neofascista (como parte fundamental da atuação da extrema direita brasileira) de um governo neofascista inexistente no Brasil até o momento atual. A face neofascista da extrema direita brasileira se apresenta em um momento de crise de hegemonia e avanço autoritário da lógica do capital.  Não é por outro motivo que o movimento  adota o mantra neoliberal “não há alternativas”. 

A extrema direita brasileira, que ainda tem em Jair Bolsonaro sua figura de inflexão desde 2018, opera com um repertório ideológico preciso e em marcha neofascista: anticomunismo, rejeição a atuação universal do Estado, defesa da propriedade privada como valor civilizatório, visão do mercado como espaço de liberdade genuína e solução social. Além de identificar qualquer regulação da vida social como censura, ditadura ou reflexo do temido “marxismo cultural”. Esse repertório não foi inventado no Brasil: ele é a transposição direta, com roupagem tropical, da Escola Austríaca neoliberal de Mises e Kirzner, mediada pelo protestantismo conservador de origem estadunidense e amplificada pelas plataformas digitais via fake news em massa. 

O mecanismo é circular e eficaz. As plataformas digitais que não são neutras, mas infraestruturas orientadas por algoritmos que maximizam o engajamento pela radicalização, amplificam os conteúdos que produzem medo, ressentimento e identidade de grupo ameaçado. O anticomunismo fornece o conteúdo emocional: há um inimigo, ele está em marcha, ele quer destruir sua família, sua fé, seus valores e sua propriedade. O empreendedorismo fornece a solução: liberte-se do Estado, confie no mercado, seja você mesmo uma empresa. E os APH’s empresariais fornecem a doutrina organizada que conecta os dois, seja na batalha das ideias, seja na proposição de políticas públicas voltadas à lógica do mercado.  

Florestan Fernandes (1976) chamou atenção para características da autocracia burguesa no Brasil: quando a acumulação do capital está ameaçada por uma crise de hegemonia, a classe dominante brasileira, historicamente avessa ao progresso social, recorre a elementos do fascismo para manter seus privilégios históricos. Com massivo apoio da classe dominante brasileira (multinacional e associada às leis do capital-imperialismo internacional),  no  plano de governo de Jair Bolsonaro para 2018, lia-se: “gerar emprego e renda é objetivo de qualquer governo democrático e que acredita na liberdade econômica. Para que isso aconteça, um dos fatores fundamentais é o estímulo ao empreendedorismo.”   

Já em 2022, a proposta do plano de governo bolsonarista era “ampliar e fortalecer o processo de desestatização” como premissa da eficiência governamental. A linguagem do empreendedorismo e da desestatização não era ornamento retórico: era o núcleo programático de um projeto que privatizou a Eletrobras, lutou pelo desmonte de direitos trabalhistas e submeteu o país ao receituário do capital financeiro internacionalizado. A desinformação, nesse contexto, cumpre uma função ideológica precisa: ela não precisa ser verdadeira para ser eficaz. Ela precisa ser crível o suficiente para mobilizar o medo e o ressentimento de setores médios que, pauperizados pela crise econômica, buscam um culpado que não seja o capital. O comunismo, que não existe no Brasil como força política relevante, é o candidato perfeito. Ele é ao mesmo tempo onipresente (está em tudo que incomoda) e invisível (nunca pode ser confrontado diretamente), o que o torna um inimigo em potencial. 

>>> 4. O que está em jogo 

De acordo com Heloísa Starling (2022), a democracia brasileira em crise aponta uma distinção fundamental: “o conservador conserva, mas o reacionário precisa destruir”.  O movimento de extrema direita que se consolidou no Brasil nos últimos anos não é conservador no sentido clássico, mas sim, cada vez mais, reacionário e neofascista: ele reage contra as conquistas civilizatórias da Constituição de 1988, contra os direitos humanos ou trabalhistas, contra qualquer forma de regulação do capital e contra as instituições do próprio Estado burguês. É um movimento de destruição e o empreendedorismo é sua linguagem de construção. 

Essa aparente contradição se resolve quando compreendemos o que está sendo destruído e o que está sendo construído. O que se destrói são os vínculos de solidariedade coletiva, os direitos sociais, a esfera pública, a confiança nas instituições e a possibilidade de ação política organizada da classe trabalhadora. O que se constrói é um sujeito isolado, competitivo, desconfiante do Estado, crente no mercado e mobilizável pelo medo do comunismo. 

Esse sujeito empreendedor de si mesmo, cristão e reacionário é o produto e o agente da hegemonia burguesa no Brasil contemporâneo. A plataformização da vida social é o ambiente em que essa construção se acelera. As redes sociais não apenas transmitem desinformação: elas a produzem algoritmicamente, retroalimentam câmaras de eco, monetizam o ódio e individualizam a experiência política ao ponto de tornar a ação coletiva estruturalmente mais difícil. O desafio que isso coloca para a democracia brasileira não é apenas eleitoral. É mais fundo: trata-se da disputa pela subjetividade, pelo tipo de ser humano que uma sociedade produz e reproduz. Um projeto que transforma a solidariedade em fraqueza, a regulação em censura, o direito em privilégio e o trabalhador em empresário de si mesmo não está apenas disputando eleições. Está disputando o que significa ser humano em uma sociedade organizada pelo capital. 

Reconhecer esse projeto como o que ele é, e não uma corrente de pensamento entre outras, mas uma estratégia de classe organizada, financiada e amplificada por estruturas privadas de poder é o primeiro passo para enfrentá-lo com a seriedade que ele exige. 

 

Fonte: Por Otávio Augusto Cunha, em Outras Palavras


'Literatura é também uma forma de vingança', diz Milton Hatoum sobre trilogia ambientada na ditadura

"Literatura é também vingança. É uma forma de vingança, porque você exorciza seus fantasmas, pavores, traumas, quando escreve." A frase é do escritor amazonense Milton Hatoum, em referência a sua trilogia O Lugar Mais Sombrio, que teve o terceiro volume, Dança de Enganos, publicado em outubro de 2025. A declaração foi dada pelo escritor em sua visita ao Reino Unido para participar do festival de literatura de Hay-on-Wye, no País de Gales, e fazer uma palestra na Biblioteca Britânica, em Londres, na Inglaterra.

Nascido em Manaus há 73 anos, de ascendência libanesa, Hatoum é ganhador de três prêmios Jabuti (pelos romances Relato de um Certo Oriente, Dois Irmãos e Cinzas do Norte) e tomou posse como membro da Academia Brasileira de Letras (ABL) no último mês de abril. Seus livros são construídos em torno de dramas familiares que o escritor insere em um contexto histórico e político mais amplo. Os romances também abordam questões urbanas e ecológicas. A ditadura militar, tema presente em Dois Irmãos e Cinzas do Norte, assume posição central em O Lugar Mais Sombrio. Na Biblioteca Britânica, após uma palestra em que falou sobre sua história e sua literatura, o escritor contou que foi preso duas vezes durante a ditadura, a primeira aos 16 anos, e que teve amigos assassinados nesse período. Dias depois, em entrevista à BBC News Brasil, o escritor explicou por que segue falando sobre o tema. "Porque é um pesadelo. A minha geração viveu dos 12 aos 30 anos sob uma ditadura. É toda uma juventude e uma parte da vida adulta. A ditadura continua sendo um fantasma para nós", diz o escritor, ao citar a tentativa de golpe pela qual Jair Bolsonaro foi condenado a 27 anos e 3 meses de prisão, após decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal.

>>>> Leia a seguir os principais trechos da entrevista abaixo.

·        Em 2013, em visita à Inglaterra, você participou de um festival literário onde dividiu o palco com o escritor britânico Ian McEwan. O que ficou para você daquele encontro?

Milton Hatoum — Foi uma conversa simpática. Eu admiro a obra do McEwan, lembro que houve algumas discordâncias (risos), mas nós discordamos com cordialidade.

·        Sobre o que foram essas discordâncias? Você se lembra?

Hatoum — Acho que em um romance dele tinha uma personagem da CIA. Na verdade, não foi uma discordância, foi uma observação que eu fiz. Eu disse que a CIA é muito mal vista pelos latino-americanos em função da atuação que teve nos golpes militares na América Latina nos anos 1960 e 1970. Faz tanto tempo, eu não me lembro, mas foi uma conversa muito amistosa. Foi muito interessante, foi em uma cidade à beira-mar…

·        Foi em Snape, no condado de Suffolk.

Hatoum — Você está mais por dentro do que eu… [risos]

·        É porque eu estava lá [risos]. E, se me lembro bem, em um dado momento da conversa, você e McEwan falaram sobre a ditadura militar chilena. Eu noto que você segue falando sobre ditaduras, não é?

Hatoum — Sim, porque é um pesadelo. A minha geração viveu dos 12 aos 30 anos sob uma ditadura. É toda uma juventude e uma parte da vida adulta. E a ditadura ameaçou voltar no governo Bolsonaro. Ele e os generais que o assessoravam tentaram dar um golpe porque perderam as eleições. Então, a ditadura continua a ser um fantasma para nós. Ela acabou, mas há um núcleo de extrema direita na política brasileira que tentou dar um golpe.

·        Nessa visita a Londres, você disse que decidiu escrever sobre a ditadura brasileira como uma espécie de "vingança", um "acerto de contas". O primeiro livro da trilogia, A Noite da Espera, foi publicado em 2017. Como se sentiu, um ano depois, ao ver tomar posse no Brasil Jair Bolsonaro, um presidente que declarou publicamente seu apoio a políticas da ditadura?

Hatoum — Literatura é também vingança. É uma forma de vingança, porque você exorciza seus fantasmas, seus pavores, seus traumas, quando escreve. E, no caso da trilogia, muita coisa do que está lá foi inspirada na vida dos meus amigos que foram presos e torturados. Eles me deram os diários deles, as cartas. Amigas e amigos que foram presos. Claro, eu não usei o que eles me deram, mas me inspirei bastante em algumas passagens. Um mês antes de Bolsonaro assumir, eu ganhei um prêmio na França que é o maior prêmio para a literatura latino-americana, o prêmio Roger Caillois. Fui à França receber esse prêmio e no discurso falei que o governo Bolsonaro seria uma espécie de laboratório do delírio da extrema direita. E foi o que aconteceu. Em quatro anos, vivemos esse pesadelo que foi o governo Bolsonaro. Um pesadelo em relação aos direitos humanos, que ele sempre desprezou. Elogiava torturadores da ditadura. Elogiou um dos maiores torturadores, inclusive que torturou a ex-presidente Dilma Rousseff. O único livro que ele citou nesses quatro anos de governo foram as memórias desse torturador.

·        O coronel Brilhante Ustra.

Hatoum - Exatamente. A política em relação à Amazônia foi destruidora, também. Durante a covid ele foi negacionista, atrasou a compra de vacinas. Ele foi um desastre em todas as áreas. Inclusive na área econômica. Ele se dizia um liberal e o ultra-liberal ministro dele da economia não fez nada.

·        Então seu livro ofereceu um comentário, um alerta sobre o que estava acontecendo?

Hatoum — Foi essa a repercussão que teve. Era um livro ambientado na ditadura, mas que repercutia no tempo presente, o primeiro e o segundo volumes. Foi uma coincidência. Eu não previa isso, sinceramente. Eu não achava que o capitão Bolsonaro ia ganhar as eleições. Ele foi crescendo e surpreendeu a todos. Foi um momento em que a literatura encontrou seu destino no próprio contexto político. Coincidiu com uma volta ao autoritarismo.

·        Você acha que ainda assim conseguiu fazer seu acerto de contas?

Hatoum — Meus amigos acham que sim, uma parte pequena da minha geração acha que sim. E a resposta quem dá é o leitor, sempre. É um livro que está circulando. Esse último volume, Dança de Enganos, foi lançado em outubro do ano passado e já tem quatro reimpressões.

·        Você também mencionou na sua palestra na Biblioteca Britânica que havia sido preso duas vezes durante a ditadura, a primeira aos 16 anos. Qual foi o impacto dessa experiência sobre você?

Hatoum — Na minha vida estudantil, eu não participei de nenhum grupo ou organização de resistência contra a ditadura. Era apenas um jovem que ia às manifestações e bradava pela liberdade e contra o regime de exceção. Em 1968, participei de uma passeata na avenida W3, em Brasília, e fui detido. Passei um dia e uma noite em uma cela na delegacia e ouvia os gritos dos estudantes universitários mais velhos que estavam sendo torturados. Essa primeira detenção inspirou uma cena no primeiro volume da trilogia, em que eu me inspirei na minha própria vida. Claro, mudei muitas coisas, como sempre acontece na ficção. E a segunda prisão foi durante o Encontro Nacional de Estudantes na PUC, a Pontifícia Universidade Católica, no dia 22 de setembro de 1977. A Polícia Militar, sob o comando de um coronel muito violento, invadiu o campus da PUC na rua Monte Alegre [em São Paulo] e mais de 800 estudantes, professores e funcionários foram presos e levados para o quartel da PM. Eu me lembro que jogaram bombas de gás, bombas incendiárias, foi um horror. Duas estudantes inclusive sofreram queimaduras muito graves. Foi um dos episódios mais brutos e violentos da ditadura. Essa segunda detenção inspirou uma passagem mais longa no segundo romance da trilogia, em que Martim, o personagem, não conta nada sobre essa prisão, mas depois aparece com sequelas, inclusive no olho. Ele não consegue enxergar direito, sofre sequelas, consequências da brutalidade, do espancamento.

Não me arrependo nem um pouco de ter participado pacificamente nas duas manifestações em que fui detido. Era meu compromisso de jovem cidadão brasileiro com a democracia. Nunca fui violento, nunca peguei armas, eu apenas estava lá de corpo presente para exigir a volta da democracia. O que é mais grave é que todo o aparato repressivo da ditadura permaneceu intacto, como eu falei na minha conversa com a [jornalista] Maya Jaggi na British Library [Biblioteca Britânica]. A PM, desde aquela época, vem agindo com muita brutalidade, muita violência e até recentemente houve matanças na periferia de São Paulo, Rio, Recife e todo o Brasil. Essa é uma questão a ser resolvida no Brasil porque toda essa repressão está voltada contra os mais pobres, sobretudo a população negra das periferias das nossas metrópoles.

·        O evento na Biblioteca Britânica foi intitulado de Writing Brazil - Writing the World (em tradução livre, Escrevendo o Brasil, Escrevendo o Mundo). Que questões e problemas você vê como centrais do Brasil e do mundo hoje?

Hatoum — [Vejo] uma crise mundial. Ela pode ser vista como uma crise da democracia e dos direitos humanos. Acho que isso está acontecendo no país mais poderoso do Ocidente ou do mundo, os Estados Unidos. [Veja] o jeito como são tratados os refugiados e imigrantes, prisões e até assassinato de imigrantes. Acho que vivemos também uma total descrença em relação ao direito internacional diante dessa agressão à população de Gaza e do Líbano. Acho que é uma crise do Ocidente. Os valores humanistas do Ocidente foram colocados em cheque diante do que está acontecendo em Gaza há mais de três anos e agora no sul do Líbano. E isso não é inseparável da crise das mudanças climáticas, há um negacionismo absurdo de alguns governos, inclusive o governo norte-americano. Vejo o mundo assim, com uma ascensão do autoritarismo, da extrema direita.

·        Você acha que essas questões vão se fazer presentes na sua literatura?

Hatoum — Não exatamente, porque acho que a minha literatura está muito ligada à minha experiência de vida e de leitura. Sobre a questão Palestina já escrevi vários ensaios. Prefácios, por exemplo. Escrevi um prefácio para um livro do Mahmoud Darwish, que é o maior poeta palestino. Escrevi um ensaio sobre a tradução brasileira do romance Meu Nome é Adam, do grande escritor libanês Elias Khoury, que faleceu há alguns anos. Tenho escrito sobre a Palestina.

·        Mas não em ficção, certo?

Hatoum — Em ficção, escrevi um conto de três, quatro páginas sobre a Palestina que se chama O Último Abraço. Ele foi publicado em um livro sobre Gaza. Para romance, tenho outros planos, estou escrevendo outras coisas.

·        Você disse na sua palestra que o Brasil recebe povos de todo o mundo e chama todos de brasileiros, sem hierarquia. Após a palestra, a jornalista britânica Maya Jaggi perguntou como você reconcilia esse Brasil com o Brasil das desigualdades, o Brasil escravocrata. Sua resposta seguiu por um outro caminho… Gostaria de retomar a questão aqui?

Hatoum — Eu respondi com uma pergunta. Como você pode pensar em um Brasil moderno e civilizado diante de quatro séculos de escravidão? Eu não sei. Não tenho resposta para isso. Porque também não acredito na civilização [risos]. É muito complicado, porque de que civilização a gente está falando? A civilização portuguesa e espanhola, que escravizou e matou milhões de pessoas em três séculos de colonização? A Bélgica — e isso está no livro Heart of Darkness [Coração das Trevas, em português] de [Joseph] Conrad — que colonizou o Congo, matou milhões de africanos e erigiu sua riqueza a partir da riqueza da África? Por isso citei Walter Benjamin. Não há oposição entre civilização e barbárie. São as duas faces da mesma moeda. Respondi com essa pergunta.

·        Mas ao mesmo tempo você fala de um Brasil que recebe todo mundo, sem hierarquia. Então existe um lado positivo, não?

Hatoum — Existe. Mas para mim é essa a riqueza do Brasil. Porque uma parte da nossa mestiçagem foi um ato de violência, uma violentação. Mas a partir de um certo momento, com as ondas de imigração de todo o mundo, essa mestiçagem brasileira aponta para uma coisa nova. Uma coisa que não existe. Não são grupos étnicos que convivem separadamente, grupos de orientais, de asiáticos ou de europeus. É que esses grupos se misturaram. É essa, eu acho, a riqueza do Brasil. E não vejo isso em nenhum lugar do mundo. Vejo agora mesmo com os refugiados sírios. Já estão integrados na sociedade brasileira, não são hostilizados, já têm o pequeno comércio deles. Eu vejo essa, para usar uma palavra em desuso, a mestiçagem como uma promessa de uma convivência possível.

·        Seu primeiro livro, Relato de um Certo Oriente, foi publicado em 1989. Nesses quase 40 anos, vozes emergiram na vida brasileira. Vozes de mulheres, que ganharam mais protagonismo. De pessoas negras, povos originários, de pessoas LGBT. Sente um impacto mais forte dessas vozes em você e na sua criação literária?

Olha, é preciso lembrar que esse meu primeiro romance é narrado por uma mulher. Então, isso já estava no meu horizonte. E que as pessoas excluídas, que são alvo de preconceito, já estão no meu livro. Por exemplo, uma das personagens mais importantes, e uma das que eu mais gosto, é uma surda-muda. Em Dois Irmãos eu trouxe duas coisas que vão no sentido da sua pergunta. A primeira é o narrador, que é o filho natural de uma violência. Ele não pertence à família, mas ele é o porta-voz dessa família. Ele é um mestiço, filho de um brasileiro de origem libanesa com uma mulher indígena. E a presença dessa mulher é importantíssima no romance. Em Cinzas do Norte, a relação entre os dois amigos, só com muito esforço você não percebe que é uma relação homoerótica. Só que eu fiz isso há 20, 30 anos, porque foram questões com as quais a minha geração lidou, tentou se libertar. Que é a questão da repressão familiar, no interior da família. Tanto que na trilogia os personagens discutem essa relação entre a célula familiar e uma repressão maior do Estado, entre a família e o Estado. [A família] como um núcleo pequeno de opressão e o Estado como um aparato mesmo, repressivo e autoritário.

E essas questões reaparecem em toda a trilogia, a questão dos personagens marginalizados, do personagem negro, da homossexualidade. Isso surgiu com força na literatura nos últimos dez anos, mas são pautas que estão há décadas, ninguém está descobrindo nada. Quem olhava para essas questões nos anos 1960 já estava pensando nisso. Eu não gosto de glorificar ninguém, acho que a gente não precisa disso. Não precisa também mistificar ninguém ou nada. Também sou contra a mistificação. Isso só ofusca a nossa lucidez, quando você mistifica. Então, os mais jovens, se eles forem generosos, eles vão dizer que isso já é consequência, não estamos fazendo nada novo, isso é um processo, isso vem lá de trás, de Machado de Assis, depois Lima Barreto. Isso tem uma longa história no Brasil. De luta também.

·        O que tem lido? Descobriu alguma voz na literatura brasileira mais recentemente que tenha chamado sua atenção?

Hatoum — Não tenho tempo mais para ler muitas coisas. Recebo muitos livros e, se for parar para ler todos, não tenho nem como ganhar a minha vida. Mas li Torto Arado, do Itamar Vieira Junior, quero ler o livro da Paulliny Tort. Tem também alguns escritores do Nordeste, como a Socorro Acioli, do Ceará. Li A Cabeça do Santo, primeiro romance dela. Tem outros escritores da minha geração que são importantes: Cristóvão Tezza, Ana Miranda. Eu às vezes leio escritores contemporâneos, jovens. Mas o Brasil ainda é muito centrado no Rio e em São Paulo. Quando me perguntam se li fulano, a maioria é do Rio e de São Paulo. Eu digo que tem escritores jovens do Acre, de Belém, de Manaus. Por que eu tenho de ler só escritores do Sul e do Sudeste? Agora, tem uma poeta de quem eu gosto muito, chamada Ana Maria Marques, mineira. É uma das vozes poéticas mais importantes, uma jovem poeta. Ela deve ter menos de 50 anos. Para mim é jovem, está saindo da adolescência [risos]. Ela é uma poeta de valor. Eu, para ser mais sincero, sigo mais os poetas do que os romancistas.

·        Recentemente, no seu discurso ao tomar posse na Academia Brasileira de Letras, você falou da forma magistral como Graciliano Ramos deu voz, no livro Vidas Secas, aos brasileiros sem acesso à literatura, incapazes de articular o pensamento com a palavra. Vidas Secas foi publicado há mais de 80 anos. Quem dá voz a esses brasileiros no Brasil de agora?

Hatoum — Torto Arado é um livro em que essas brasileiras e esses brasileiros, sobretudo as mulheres, falam. Falam sem a intermediação de uma voz superior, de uma voz de mando, oculta. Acho que Itamar consegue isso nesse romance. É uma coisa importante, e o sucesso que ele fez, tudo isso, é muito importante.

·        No mesmo discurso você citou o álbum Sobrevivendo no Inferno, do grupo de rap Racionais MC's. Estariam eles representando esses brasileiros?

Hatoum — Sem dúvida, e dos mais poderosos discos. Inclusive caiu no vestibular da Unicamp. São músicas que alcançam um público muito grande. E eles se reconhecem nessa música. É uma mensagem política muito poderosa e ao mesmo tempo muito bem elaborada, não é um panfleto.

·        E você por acaso se pega maravilhado em ver como, por exemplo, uma figura como Mano Brown tem essa articulação?

Hatoum — Ele é um dos grandes. Você vê que a cultura popular é uma cultura sofisticada. A elite brasileira sempre separou muito o popular do erudito, o clássico do popular, e na verdade há uma sofisticação muito grande, tanto na música popular quanto na literatura brasileira. Mano Brown é uma das vozes mais atuantes e criativas do Brasil.

·        Aconteceu alguma coisa nessa sua visita ao Reino Unido que poderia inspirar o cronista Milton Hatoum?

Hatoum — Ah, aconteceu sim, eu me perdi em Londres [risos]. Fui para um lugar e não sabia mais onde eu estava. Eu achava que estava voltando para Londres, mas estava indo para muito longe. Londres é muito labiríntica. Eu morei muito tempo em Paris. Lá parece que tudo é muito bem delimitado, você sabe exatamente onde está. Aqui, a possibilidade de você se perder é bem maior, me lembra São Paulo. Londres tem uma coisa paulistana, é muito grande também. Mas, para ser sincero, achei Londres muito massificada. Já não vejo mais encanto. Fiquei meio deprimido quando fui a Bloomsbury. Eu procurava um simples café, um lugar tranquilo, com uma mesinha, e não conseguia. E naquele calor manauara me deu uma mistura de cansaço com tristeza. Mas acho que o mundo está assim, uniformizado, massificado. E a uniformidade é o fim. As cadeias de lojas e o urbanismo também. É uma arquitetura do desastre, da repetição, dos caixotes com vidro fumê que eu critico tanto nos meus romances. É a massificação do capitalismo, o fim das aristocracias todas, das elites pensantes. Não estou lamentando isso, só estou constatando, porque também não sou nostálgico de nada disso. Acho que é uma crise mesmo, é para onde caminha o capitalismo tentacular, tudo vai se parecer, todas as cidades vão ser mais ou menos iguais, talvez com exceção de Istambul [risos] e de algumas cidades do Marrocos. Não sei.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Educação domiciliar é uma decisão individual?

A discussão sobre a educação domiciliar tem se tornado cada vez mais presente nas agendas educacionais de diferentes países. Em geral, seus defensores argumentam que as famílias possuem o direito de escolher a forma como desejam educar seus filhos, considerando aspectos pedagógicos, religiosos, culturais ou mesmo críticas ao funcionamento das escolas. Trata-se de um debate legítimo em sociedades democráticas, nas quais a liberdade de escolha constitui um valor importante. Entretanto, quando se discute a educação das novas gerações, é preciso reconhecer que a questão ultrapassa o âmbito das preferências individuais das famílias. Defenderemos neste texto que a educação possui uma dimensão pública que diz respeito à própria continuidade da vida em sociedade.

A escola é uma instituição criada para muito mais do que ensinar conteúdos. Sua função consiste em inserir crianças e adolescentes em um mundo que já existia antes deles e que continuará existindo depois deles. Nesse processo, cada estudante é convidado a conhecer diferentes formas de pensar, interpretar a realidade, compreender a história, produzir conhecimentos e construir relações com pessoas que possuem trajetórias, valores e perspectivas distintas das suas. É justamente essa experiência de encontro com a diversidade de ângulos para ver a vida que faz da escola um espaço singular de formação humana.

Nessa direção, vale a pena sublinhar, a convivência democrática não nasce espontaneamente. Ela precisa ser aprendida, experimentada e continuamente exercitada. Aprender a ouvir opiniões diferentes, lidar com conflitos, respeitar regras construídas coletivamente, argumentar sem recorrer à violência, cooperar na realização de objetivos comuns e reconhecer os direitos dos outros são aprendizagens que não se desenvolvem apenas pela transmissão de valores no ambiente familiar. Elas exigem experiências concretas de participação em uma comunidade mais ampla, onde diferenças, desacordos e negociações fazem parte do cotidiano.

Nesse sentido, então, a escola constitui um dos poucos espaços sociais em que crianças e jovens convivem diariamente com colegas provenientes de diferentes grupos sociais, culturais, religiosos e econômicos. Essa diversidade produz desafios, como é de nosso conhecimento; mas também oportunidades educativas insubstituíveis. A descoberta de que existem modos distintos de viver, pensar e compreender o mundo amplia horizontes, combate preconceitos e favorece o desenvolvimento da (necessária) empatia. A democracia depende justamente dessa capacidade de reconhecer o outro como alguém legítimo, mesmo quando suas ideias diferem das nossas.

Em tempos marcados pela intensificação das disputas políticas, pelo fortalecimento de discursos intolerantes ou mesmo pela fragmentação das experiências coletivas, a escola assume um papel ainda mais relevante. Ela representa um espaço público de encontro entre diferentes gerações e diferentes formas de compreender a realidade. Não se trata de eliminar os conflitos ou produzir consensos artificiais, mas de ensinar que o dissenso faz parte da vida democrática e que os conflitos podem ser enfrentados por meio do diálogo, da escuta e da construção coletiva de soluções.

A educação domiciliar tende a concentrar os processos formativos no interior da família, restringindo parte dessas experiências de convivência social. Ainda que muitas famílias ofereçam ambientes afetivos, ricos culturalmente e comprometidos com a aprendizagem, nenhum núcleo familiar consegue reproduzir integralmente a pluralidade de relações que caracteriza a vida escolar. A escola coloca os estudantes diante da alteridade, isto é, diante da experiência de viver com pessoas que não compartilham necessariamente das mesmas convicções, hábitos ou modos de vida. Essa experiência constitui um componente essencial da formação cidadã.

Outro aspecto importante diz respeito ao próprio sentido público da educação. A formação das novas gerações não interessa apenas às famílias, mas à sociedade como um todo. Cada criança que aprende a respeitar diferenças, participar de decisões coletivas e agir com responsabilidade fortalece as bases da convivência democrática. Por essa razão, a escola não pode ser compreendida apenas como um serviço oferecido às famílias, mas como uma instituição que produz bens públicos, entre eles a coesão social, a confiança entre cidadãos e a construção de uma cultura de direitos.

Também é na escola que crianças e adolescentes entram em contato com conhecimentos produzidos pela humanidade ao longo da história. O currículo escolar amplia repertórios culturais, científicos, artísticos e éticos, permitindo que os estudantes transcendam os limites de suas experiências familiares. A educação escolar não busca substituir os valores da família, mas ampliá-los, colocando cada estudante em diálogo com diferentes tradições de pensamento, linguagens e formas de compreender o mundo. Vale a pena destacar que essa abertura intelectual constitui uma condição indispensável para o exercício da autonomia.

É evidente que as escolas enfrentam inúmeros desafios. Persistem problemas relacionados às desigualdades educacionais, às dificuldades de aprendizagem, à violência, à discriminação e às limitações estruturais. Esses desafios, entretanto, não diminuem a importância dessa instituição. Pelo contrário, indicam a necessidade de fortalecê-la por meio de políticas públicas capazes de garantir melhores condições de funcionamento, formação qualificada dos professores, gestão democrática e ambientes seguros e acolhedores para todos os estudantes.

Defender a escola não significa negar o papel insubstituível das famílias. A educação acontece em múltiplos espaços e a participação familiar continua sendo decisiva para o desenvolvimento das crianças e dos adolescentes. Contudo, família e escola cumprem funções distintas e complementares. Enquanto a família oferece vínculos afetivos fundamentais para a constituição da identidade, a escola introduz os sujeitos em uma comunidade mais ampla, onde aprendem a compartilhar responsabilidades, respeitar diferenças e participar da construção do bem comum, conforme estamos argumentando ao longo deste texto.

A defesa da escola é, portanto, também uma defesa da democracia. Sociedades democráticas dependem de instituições capazes de formar cidadãos que compreendam a importância do diálogo, da cooperação, do respeito às diferenças e da responsabilidade coletiva. Esses valores não se aprendem apenas em discursos ou em livros; eles são construídos nas experiências cotidianas de convivência. A sala de aula, o recreio, os projetos coletivos, os conselhos estudantis, as atividades culturais e esportivas e as inúmeras interações que compõem a vida escolar são oportunidades concretas para aprender a viver com os outros. A educação cidadã tem sido amplamente revigorada na literatura brasileira e estrangeira.

Para concluir, será importante recuperar nosso principal argumento: ao reduzir a educação à dimensão privada da família, corre-se o risco de enfraquecer justamente aquilo que sustenta a vida democrática – a experiência compartilhada de um mundo comum. A escola permanece como uma das instituições mais importantes para tornar esse mundo acessível às novas gerações, formando sujeitos capazes de reconhecer a pluralidade da sociedade, enfrentar conflitos de maneira civilizada e participar ativamente da construção de um futuro coletivo. Em uma época marcada por profundas transformações sociais, fortalecer a escola significa fortalecer a própria democracia, preservando um espaço no qual as diferenças deixam de ser motivo de separação para se transformarem em oportunidade permanente de aprendizagem, diálogo e construção do bem comum.

 

Fonte: Por Roberto Rafael Dias da Silva, em Outras Palavras

 

O colesterol de origem genética que a estatina não baixa (e que pode triplicar o risco de infarto)

A aprovação do primeiro comprimido contra o colesterol "ruim", anunciada nesta quinta-feira (16) nos Estados Unidos, soma-se a um leque cada vez maior de remédios voltados ao LDL. Nenhum deles, porém, atua sobre um tipo específico de colesterol que inquieta os cardiologistas —e que a maior parte das pessoas nunca mediu.

É a lipoproteína(a), ou Lp(a): uma fração determinada quase inteiramente pela genética que, quando elevada, se associa a um risco até três vezes maior de infarto.

O nome já entrega uma peculiaridade. O "a" é escrito em minúsculo, e entre médicos a molécula costuma ser tratada no diminutivo. Por trás do apelido, no entanto, há um fator de risco que só agora começa a ganhar atenção na rotina dos consultórios —impulsionado tanto por novas recomendações quanto pela expectativa dos primeiros remédios capazes de reduzi-la.

<><> Um colesterol que se herda

Ao contrário do LDL, que sobe e desce conforme alimentação, peso e medicação, a lipoproteína(a) é definida sobretudo pela herança familiar.

Cerca de 90% do valor de cada pessoa vem da genética, segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).

Estima-se que cerca de uma em cada cinco pessoas tenham níveis elevados —na maioria das vezes, sem saber.

"A lipoproteína(a) é determinada principalmente pela genética, e não é algo que se corrija com dieta. A pessoa nasce com uma tendência a tê-la mais alta ou mais baixa", afirma.

É essa origem que a torna, ao mesmo tempo, importante e difícil de enfrentar: dieta, exercício e estatinas —pilares do controle do colesterol— praticamente não a alteram.

<><> O risco

O interesse pela lipoproteína(a) cresceu à medida que estudos observacionais associaram seus níveis altos a desfechos graves. Segundo Mattar, valores acima de cerca de 50 mg/dL —o equivalente ao quartil mais alto da população— relacionam-se a um risco cerca de três vezes maior de infarto. A fração também favorece a calcificação da válvula aórtica, problema comum em idosos.

ℹ️ Por atuar de forma independente do LDL, a lipoproteína(a) funciona como um marcador adicional: duas pessoas com o mesmo colesterol "ruim" podem ter riscos cardiovasculares diferentes a depender desse valor.

<><> Por que quase ninguém dosou

Durante anos, medir a lipoproteína(a) fazia pouca diferença prática: não havia tratamento específico, e o resultado raramente mudava a conduta. Esse cenário começou a virar.

A diretriz de dislipidemia publicada em março de 2026 pelo American College of Cardiology e pela American Heart Association, ao lado de outras entidades médicas, passou a recomendar a dosagem da lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida para todos os adultos —orientação também defendida por Mattar.

"A recomendação hoje é que cada pessoa dose a lipoproteína(a) ao menos uma vez na vida, para conhecer o próprio risco cardiovascular", diz.

Trata-se de um exame de sangue simples, feito uma única vez, já que o valor tende a permanecer estável ao longo da vida. Descobrir uma lipoproteína(a) alta não significa, por ora, iniciar um remédio para baixá-la —mas serve de alerta para controlar com mais rigor tudo aquilo que se consegue mudar.

"Quem tem a lipoproteína(a) elevada precisa se cuidar mais: manter o LDL baixo, os triglicérides controlados, a pressão e a glicemia em ordem, além de atividade física e alimentação equilibrada", orienta o cardiologista.

Os primeiros remédios

A lacuna terapêutica pode estar perto do fim. Diversas empresas testam substâncias voltadas a reduzir a lipoproteína(a), e a mais avançada é o pelacarseno, da Novartis, uma injeção mensal que, em estudos iniciais, reduziu a fração em torno de 80%.

O medicamento é o foco do estudo Horizon, o primeiro grande ensaio a investigar se baixar a lipoproteína(a) de fato diminui infartos e acidentes vasculares cerebrais (AVCs) —com mais de 8 mil pacientes acompanhados por anos.

<><> Os resultados são esperados ao longo de 2026, com apresentações aguardadas no Congresso da Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), marcado para o fim de agosto, em Munique. Outras terapias, incluindo uma versão em comprimido, também estão em teste.

Mattar faz, porém, uma ressalva que separa a promessa da comprovação: reduzir a lipoproteína(a) ainda não é o mesmo que reduzir eventos.

"Provavelmente baixar a lipoproteína(a) trará benefício, mas ainda não temos estudos que confirmem isso. Pesquisas capazes de mostrar redução de infartos e AVCs precisam de mais de cinco anos de acompanhamento", explica.

É essa lacuna que os estudos das próximas semanas começam a preencher: mostrar não apenas o quanto os novos remédios derrubam a lipoproteína(a), mas se essa queda se traduz em menos infartos.

Por enquanto, a lipoproteína(a) é um número que vale a pena conhecer mesmo sem um remédio para mudá-lo —porque indica o quanto é preciso proteger todo o resto.

E, em questão de meses, a medicina pode descobrir se um risco que, por muito tempo, só sabia nomear finalmente poderá ser reduzido, e, sobretudo, se reduzi-lo salva vidas.

 

Fonte: g1