terça-feira, 12 de maio de 2026

Anos de Chumbo: Caso JK - "Quando se quer enganar a história, os fatos não fecham"

Quando se quer enganar a história, os fatos não fecham. E quando os fatos não fecham, nascem e renascem as hipóteses, os boatos, as mentiras, os rumores e o zumzum. E esse zumzum, apesar de estar na canção alegre e predileta de Juscelino Kubitschek de Oliveira — Peixe Vivo —, é de tristeza e revolta. O chamado “acidente” que matou JK há quase 50 anos continua não fechando. E o assunto, longe de se esgotar, acaba de ganhar um novo e decisivo capítulo. Um país que não conhece seu passado não tem condições de erguer seu futuro.

Depois da atuação de diversas Comissões da Verdade (Nacional, estaduais, municipais), na década passada, o Ministério Público Federal realizou uma ampla e profunda investigação, com inúmeros depoimentos e duas perícias técnicas independentes. A divulgação dos resultados do Ministério Público Federal se deu, em 2021 e, depois de ter reiniciado suas atividades em 2023, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) foi instalada a se pronunciar sobre os novos resultados, bem como sobre o regime jurídico de reconhecimento das vítimas da ditadura.

A comissão, criada por lei do governo FHC, na década de 1990, pode declarar a morte de Juscelino Kubitschek como “não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro no contexto da perseguição sistemática à população identificada como dissidente política do regime ditatorial instaurado em 1964”.

A mesma declaração já consta, desde janeiro de 2025, da certidão de óbito de Rubens Paiva, o deputado do PTB que está no centro do filme brasileiro vencedor do Oscar Ainda estou aqui, com base na Resolução CNJ nº 601/2024.

O advogado Marco Aurélio Cezarino Braga, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo, foi um dos organizadores do livro O Assassinato de JK pela Ditadura: Documentos Oficiais e integrante do Grupo de Trabalho Juscelino Kubitschek desde sua fundação.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Por que o caso JK voltou à tona com tanta força?

Porque o trabalho acumulado ao longo de uma década finalmente encontrou o caminho institucional adequado. Hoje o caso JK está formalmente instalado perante a CEMDP, que, pelo regime jurídico da memória e da verdade no Brasil, tem o poder-dever de aplicar o princípio in dubio ‘pro victima’ e de declarar a morte de JK como violenta e causada pelo Estado brasileiro. Ao mesmo tempo, a Resolução CNJ nº 601/2024 criou o mecanismo operacional para a retificação das certidões de óbito, e, em janeiro de 2025, a certidão de Rubens Paiva já foi retificada nesses termos. No caso JK, esse é o passo seguinte natural e juridicamente necessário.

·        O que o inquérito do MPF trouxe de inédito ao debate?

O MPF fez um trabalho muito relevante, após os trabalhos também muito importantes das Comissões da Verdade: ouviu pessoas, como o chefe da Polícia Política chilena, Contreras, que afirmou a atuação conjunta das ditaduras no contexto da Operação Condor; ouviu o motorista Josias Oliveira e outras testemunhas, confirmando que jamais ocorreu colisão do ônibus com o Opala. Além disso, realizou duas perícias independentes, sobre a colisão e sobre os procedimentos médico-legais que demonstram, de maneira irretorquível, que a versão da ditadura foi uma farsa, com qualidade técnica sofrível. Essas provas devem ser analisadas pela Comissão sob o regime jurídico que é de sua competência aplicar: o da busca da verdade e da memória nacional, e de reconhecimento da hipossuficiência das vítimas.

·        Qual é a importância do princípio in dubio ‘pro victima’ para o desfecho do caso?

É o coração jurídico do processo. O princípio reconhece uma realidade que qualquer pessoa honesta precisa admitir: o próprio aparato de repressão foi construído para eliminar evidências, fabricar laudos, forjar versões. Exigir, quase 50 anos depois, a mesma prova plena que se exigiria num processo penal comum é premiar exatamente essa estratégia de ocultamento. É fazer o Estado se beneficiar dos seus próprios crimes. No caso JK, os elementos são avassaladores quando avaliados por esse critério. A notícia da morte foi plantada na imprensa dias antes de ocorrer. O laudo oficial foi considerado tecnicamente inepto pelo próprio Judiciário da ditadura. Existem documentos de serviços de inteligência estrangeiros registrando planos de eliminação de JK. Há testemunhos de ameaças recebidas. Tentativas de suborno e outras aberrações. O motorista do ônibus foi inocentado. Tudo isso, avaliado pelo in dubio ‘pro victima’, aponta numa única direção: a declaração pelo assassinato político, assim como ocorreu em precedentes da própria CEMDP, como Zuzu Angel, Abílio Clemente Filho, Vladimir Herzog.

·        O que a decisão da CEMDP sobre a morte de JK significa para o Brasil?

Significaria que o Estado brasileiro, finalmente, assume a verdade. Não como um gesto simbólico, mas como um ato jurídico com todas as consequências que isso implica — para a memória, para a reparação, para a história. Significaria também que a democracia tem memória longa o suficiente para não deixar impunes as mentiras que a ditadura fabricou. E tem um significado que vai além do caso JK. Cada vez que o Estado brasileiro diz “essa morte foi violenta, foi causada por nós, no contexto de uma perseguição sistemática”, ele está construindo uma barreira contra a repetição. Está dizendo às gerações que vêm depois que aquilo teve nome, teve vítima, teve responsável — e teve consequências. É por isso que esse processo importa. Não é sobre o passado. É sobre o país que queremos ser, o que vamos ensinar para nossos filhos e netos. O caso JK não é sobre o passado: é sobre o futuro do país — um país que não conta mentiras e diz que são verdades; um país em que podemos acreditar no Estado e nas autoridades; um país decente.

¨      "Os elementos são avassaladores", diz advogado sobre morte de JK

Quando se quer enganar a história, os fatos não fecham. O "acidente" que matou JK há quase 50 anos continua não fechando. E o assunto acaba de ganhar decisivo capítulo. A Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) pode declarar a morte de Juscelino Kubitschek como "não natural, violenta, causada pelo Estado brasileiro". O advogado Marco Aurélio Cezarino Braga, professor e pesquisador da Universidade de São Paulo, faz uma análise sobre o assunto. Ele foi um dos organizadores do livro O Assassinato de JK pela Ditadura: documentos oficiais, e integrou o Grupo de Trabalho Juscelino Kubitschek desde sua fundação.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Por que o caso JK voltou à tona com tanta força agora?

Porque o trabalho acumulado ao longo de uma década finalmente encontrou o caminho institucional adequado. Hoje o caso JK está formalmente instalado perante a CEMDP, que, pelo regime jurídico da memória e da verdade no Brasil, tem o poder-dever de aplicar o princípio in dubio 'pro victima' e de declarar a morte de JK como violenta e causada pelo Estado. Ao mesmo tempo, a Resolução CNJ nº 601/2024 criou o mecanismo operacional para a retificação das certidões de óbito, e em janeiro de 2025, a certidão de Rubens Paiva já foi retificada nesses termos. No caso JK, esse é o passo seguinte natural e juridicamente necessário.

·        O que o inquérito do MPF trouxe de inédito ao debate?

O MPF fez um trabalho muito relevante, após os trabalhos também muito importantes das Comissões da Verdade: ouviu pessoas, como o chefe da Polícia Política chilena, Contreras, que afirmou a atuação conjunta das ditaduras no contexto da Operação Condor; ouviu o motorista Josias Oliveira e outras testemunhas, confirmando que jamais ocorreu colisão do ônibus com o Opala. Além disso, realizou duas perícias independentes, sobre a colisão e sobre os procedimentos médico-legais que demonstram, de maneira irretorquível, que a versão da ditadura foi uma farsa, com qualidade técnica sofrível. Essas provas devem ser analisadas pela Comissão sob o regime jurídico que é de sua competência aplicar: o da busca da verdade e da memória nacional, e de reconhecimento da hipossuficiência das vítimas.

·        Qual é a importância do princípio in dubio 'pro victima' para o desfecho do caso?

É o coração jurídico do processo. O princípio reconhece uma realidade que qualquer pessoa honesta precisa admitir: o próprio aparato de repressão foi construído para eliminar evidências, fabricar laudos, forjar versões. Exigir, quase 50 anos depois, a mesma prova plena que se exigiria num processo penal comum é premiar exatamente essa estratégia de ocultamento. É fazer o Estado se beneficiar dos seus próprios crimes. No caso JK, os elementos são avassaladores quando avaliados por esse critério. A notícia da morte foi plantada na imprensa dias antes de ocorrer. O laudo oficial foi considerado tecnicamente inepto pelo próprio Judiciário da ditadura. Existem documentos de serviços de inteligência estrangeiros registrando planos de eliminação de JK. Há testemunhos de ameaças recebidas. Tentativas de suborno e outras aberrações. O motorista do ônibus foi inocentado. Tudo isso, avaliado pelo in dubio 'pro victima', aponta numa única direção: a declaração pelo assassinato político.

·        O que a decisão da comissão significa para o Brasil?

Significaria que o Estado, finalmente, assume a verdade. Não como um gesto simbólico, mas como um ato jurídico com todas as consequências que isso implica — para a memória, para a reparação, para a história. Significaria também que a democracia tem memória longa o suficiente para não deixar impunes as mentiras que a ditadura fabricou. E tem um significado que vai além do caso JK. Cada vez que o Estado brasileiro diz "essa morte foi violenta, foi causada por nós, no contexto de uma perseguição sistemática", ele está construindo uma barreira contra a repetição. Está dizendo às gerações que vêm depois que aquilo teve nome, teve vítima, teve responsável — e teve consequências. O caso JK não é sobre o passado: é sobre o futuro do país — um país que não conta mentiras e diz que são verdades; um país em que podemos acreditar no Estado e nas autoridades; um país decente.

¨      Caso Juscelino Kubitschek: "Não existe futuro sem memória", diz Nilmário Miranda

Um dos responsáveis pela criação da Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), em 1995, e integrante da primeira formação colegiada, Nilmário Miranda, ex-deputado federal e ex-ministro dos Direitos Humanos do primeiro governo de Luiz Inácio Lula da Silva, nunca teve dúvidas de que o ex-presidente Juscelino Kubitschek morreu em um atentado patrocinado pelo Regime Militar, em agosto de 1976.

Como ex-membro da comissão e autor do pedido, em nome da família JK, de reabertura do processo de reparação histórica, Nilmário considerou "muito robusto" o parecer da conselheira relatora do caso, a historiadora Maria Cecília Adão. "A verdade histórica fortalece a democracia", disse ele ao Correio Braziliense, ao comentar o documento que deve ser votado na CEMDP nas próximas semanas. O parecer de Maria Cecília Adão está sendo analisado pelos demais seis conselheiros do órgão.

Leia os principais trechos da entrevista que o ex-ministro concedeu ao Correio sobre os impactos da revisão das causas da morte do estadista mineiro que, pela versão da ditadura militar, havia morrido em um acidente na Via Dutra. À época, as autoridades apontaram que o Opala em que JK estava com seu motorista e amigo Geraldo Ribeiro, que também morreu, havia perdido a direção do veículo ao bater em um ônibus da Viação Cometa antes de sair da pista e bater de frente com um caminhão que vinha em sentido contrário. A comissão não tem dúvidas de que essa versão foi uma fraude.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Por que o senhor decidiu pedir, em fevereiro do ano passado, a reabertura do caso sobre a morte de Juscelino Kubitschek na Comissão de Mortos e Desaparecidos Políticos?

Por lei, as famílias não podem mais requerer indenizações. Mas eu consultei juristas que me disseram que, pelo alcance nacional do caso e para restabelecer a verdade histórica, eu poderia fazer isso. E isso não depende da autorização das famílias. Então, por não envolver indenização e pela verdade histórica, eu entrei com o requerimento. E eu já tinha a informação de que o motorista (da Viação Cometa) Josias fora absolvido da acusação de homicídio culposo, em segunda instância (o motorista sempre negou a colisão com o carro de JK). Ora, se ele foi absolvido, é porque não houve acidente.

·        O senhor cita uma relação entre a morte de JK e a da estilista Zuzu Angel, seis meses antes. O carro em que ela estava também sofreu um "acidente" no bairro carioca de São Conrado, na versão dos peritos da época, do Instituto Carlos Éboli, do Rio de Janeiro. Vinte anos depois, uma testemunha nova, que não apareceu à época por medo da repressão política, prestou um depoimento à comissão e à Ordem dos Advogados do Brasil, na sede da Assembleia Legislativa da Paraíba. Que relação é essa?

O relator do caso Zuzu na comissão, aberto a pedido da filha dela, Hildegard Angel, era o advogado Luís Francisco de Carvalho Pinto. Ele pegou dois engenheiros, que não cobraram nada, para examinar o Instituto Carlos Éboli. Os dois concluíram que o laudo pericial que atestou o suposto acidente era uma farsa, desafiava as lei da física, uma aberração. As circunstâncias da morte foram falsificadas. Os mesmos peritos foram os que fizeram o laudo de JK de que houve um acidente, eles já estavam a serviço da Ditadura. Como havia o precedente da falsificação das circunstâncias da morte de Zuzu Angel, com esses dados, eu pedi a reabertura do caso JK.

·        Toda essa referência histórica foi avaliada pela relatora do caso JK?

A professora Cecília Adão recebeu tudo isso, inclusive, um estudo da USP com 30 advogados, que virou o livro O assassinato de JK pela ditadura — documentos oficiais, com mil páginas. A conselheira escrutinou tudo o que havia sobre a morte dele. Ela ficou um ano fazendo esse relatório, que tem 5 mil páginas. Só o voto dela tem mil páginas, e que vai ser julgado nos próximos dias.

·        Qual a importância histórica dessa reviravolta sobre a morte de JK, que vai completar 50 anos em agosto?

A verdade histórica. O "cara" fundou Brasília, foi governador de Minas, prefeito da minha cidade, Belo Horizonte, um dos homens mais populares do país. Ele não era militante de esquerda, era um homem de centro, de formação conservadora, desenvolvimentista, mas era superpopular e defendia eleições diretas. Ele, certamente, seria imbatível. JK estava na mira da Operação Condor (liderada pelo serviço secreto dos Estados Unidos com ditaduras sul-americanas para eliminar lideranças de esquerda). Foram 773 mortos pela Operação Condor, e JK entrou nessa lista. Não era da esquerda, mas era superpopular e queria eleições diretas.

·        O relatório não aponta quem matou ou mandou matar JK, só afirma que o ex-presidente não morreu por acidente, correto?

A anistia de 1979 diz que os crimes da Ditadura não poderiam ser julgados. Perdoou o verdugo (carrasco) e a vítima, torturador e torturado, violando o direito internacional, que fala da anistia apenas para crimes cometidos pelo Estado. A lei proíbe, ate hoje, julgar os algozes. Flávio Dino (ministro do Supremo Tribunal Federal) defende a tese de que desaparecimento é um crime continuado e que essa restrição da lei deveria sair da Constituição. Espero que esse caso JK ajude o Brasil a rever a Lei de Anistia e condenar (os algozes da Ditadura) por crime contra a Humanidade.

·        Qual a mensagem que o desfecho desse processo sobre a morte de JK deixa para os dias de hoje?

Há um lema que diz: "Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça". Se o golpe de 8 de janeiro de 2023 tivesse vencido, o presidente Lula estaria morto, o vice-presidente Alckmin estaria morto, o ministro Alexandre de Moraes também. Mostrar o que aconteceu com JK no passado e poder condenar as pessoas fortalecem a verdade histórica, a democracia, para não termos mais golpes, assassinatos. Ajuda o país.

·        O relatório vai ser aprovado?

Como fui eu que fiz o pedido, não posso ficar perguntando como os conselheiros vão votar. Mas, como há tantos elementos que robustecem a convicção de assassinato, deve ser aprovado. E o país vai levar até um susto, porque ninguém imagina que uma pessoa tão pacífica como JK seja assassinado por motivos políticos. É um ensinamento para o país, para não ter mais volta. Esse é o objetivo principal, fortalecer da democracia. Não existe futuro sem memória.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Como os Lundgren criaram o império das Pernambucanas e as controvérsias que cercam a família

Anita Harley, controladora e um dia principal executiva da rede varejista Pernambucanas, pode ter se tornado conhecida de um novo público com a série documental O Testamento, da Globoplay. Mas ela foi por muito tempo a cara da marca, ao menos nas décadas mais recentes dos 118 anos de existência da empresa.Anita está para o Grupo Pernambucanas — que inclui a rede varejista e uma empresa de soluções financeiras, a Pefisa — mais ou menos como Luiza Trajano está para a Magalu, ou como Abílio Diniz esteve para o Grupo Pão de Açúcar.

Há dez anos, contudo, ela sofreu um AVC e desde 2016 habita, incomunicável, um quarto do hospital Sírio-Libanês, em São Paulo. As rocambolescas disputas em torno de sua curatela, e consequentemente de sua sucessão no Grupo Pernambucanas, são o cerne dramático da produção, uma das mais assistidas do catálogo de streaming da Globoplay em 2026. Era mesmo de se esperar que seu séquito se alvoroçasse por um patrimônio pessoal um dia estimado em pouco menos de R$ 2 bi, além, claro, pelo controle da varejista. Mas é preciso reconhecer que, se a marca Pernambucanas ainda possui recall, notadamente em cidades menores, hoje ela está bem longe de ser a potência econômica que um dia foi.

<><> Da Suécia ao Brasil

A história das Pernambucanas começa com o sueco Herman Lundgren (1835–1907), que chegou ao Brasil em 1855, aos 20 anos, sem saber falar português. Filho de uma família de comerciantes, ele cresceu em uma Suécia ainda majoritariamente agrícola, que só se industrializaria no fim do século 19. Nesse período, o país viveu profundas transformações sociais e uma intensa onda migratória: entre 1850 e 1914, mais de um quinto da população emigrou, em grande parte para os Estados Unidos. "Ele veio na aventura, saiu da Suécia para o clima tropical. Largou tudo e foi para o Nordeste", contou Elisabeth Lundgren em depoimento ao projeto Museu do Pessoa, em 2019, que resgatou memórias da família Lundgren.

No Brasil, Herman reunia vantagens raras: falava três idiomas — sueco, inglês e alemão —, possuía o desembaraço social e atuava em um ambiente livre de concorrência minimamente qualificada. Essas habilidades permitiram que ele trabalhasse como intérprete de comerciantes estrangeiros que chegavam ao porto de Recife, cidade onde se fixou após passagens rápidas pelo Rio de Janeiro e Salvador. Mas foi como despachante aduaneiro que ele iniciou sua trajetória empreendedora. Mais tarde, tornou-se representante consular da Suécia (então em união com a Noruega) e naturalizou-se brasileiro. A partir daí, passou a formar sociedades voltadas à exportação de produtos nordestinos, como sal potiguar, cera de carnaúba e couro de cabra. Foi justamente essa posição privilegiada no porto do Recife, acompanhando de perto os produtos que chegavam ao Brasil, que lhe permitiu identificar uma fragilidade do mercado: a dependência de pólvora importada.

Num Brasil em que apenas uma fábrica militar, em Magé (RJ), atendia parte da demanda por pólvora — em alta devido à Guerra do Paraguai — os prognósticos eram promissores para a produção local. Nesse contexto, Herman estruturou em 1866 a Sociedade Anônima Pernambuco Powder Factory, dando início à produção de pólvora no país e a construção de uma fortuna que sustentaria sua trajetória empresarial no Brasil.

<><> Fábrica de tecidos

Embora a pólvora tenha sido o ponto de partida de sua ascensão econômica, foi no setor têxtil que Herman Lundgren e seus sucessores — principalmente os filhos Frederico e Arthur — construíram o legado empresarial que seria administrado por Anita Harley quase um século depois. Tudo começou em 1904, com a aquisição de uma fábrica de tecidos em Paulista, então distrito de Olinda, ao norte do Recife. De acordo com reportagens da época, a fábrica estava praticamente falida, mas Herman utilizou os lucros obtidos com o negócio da pólvora para reerguê-la e fundar a Companhia de Tecidos Paulista (CTP).

O economista, jornalista e político Raul de Góis (1907–1994), em biografia publicada em 1963 e considerada "apologética", descreve o cenário encontrado pelos Lundgren: um "lugar renegado do progresso", "em seus últimos arrancos de vida", habitado por "uma miserável população, subnutrida e doente, alojada em palhoças".

A reativação da fábrica transformou Paulista e deu à família Lundgren forte influência na região. De acordo com o projeto Museu da Pessoa, a economia local passou a girar em torno da indústria, e grande parte dos moradores trabalhava no negócio dos "suecos", que eram vistos como "referência de riqueza" e "construtores da cidade".

Se a entrada no setor têxtil foi, em parte, fruto de oportunidade — e a sorte, como se diz, sorri a quem trabalha — os Lundgren logo se beneficiariam do contexto econômico.

Um ano após a aquisição, o governo Rodrigues Alves elevou a tarifa de importação de tecidos de 15% para 50%, fortalecendo a produção nacional. Nos anos seguintes, a família ampliaria sua atuação com a aquisição de outra fábrica têxtil na Paraíba, consolidando sua presença no setor. "Eu diria que essa família é pioneira na industrialização no Nordeste. As fábricas se concentravam no eixo Rio-São Paulo e eles criaram um polo diferente, uma visão diferente, com um mercado que ainda era inesperado", declarou Francisco Mussnich ao projeto Museu da Pessoa.

Com a morte de Herman Lundgren, em 1907, a CTP passa a ser dirigida de fato por seus filhos Frederico e Arthur, que dariam novo impulso ao negócio. Em 1908 eles fundam, no Recife, a primeira loja própria para a venda dos tecidos produzidos pela fábrica, então chamada Lojas Paulista — embrião do que viria a se tornar a rede Pernambucanas. "Quem transforma a estoparia em comércio é a segunda geração, que tem esse marco empreendor, que vai carregar o negócio para um estágio de comercio bastante inovador", disse Derek Lundgren em depoimento também ao Musseu Pessoa.

<><> A origem das Casas Pernambucanas

A primeira loja surgiu já sob o comando de Arthur e Frederico Lundgren, marcando uma virada nos negócios da família. A estratégia era clara: integrar produção e venda, eliminando intermediários — comuns à época — e, assim, reduzir o preço final dos produtos. O modelo garantia uma vantagem competitiva relevante. O livro Pernambucanas – 100 anos com a família brasileira, publicado em 2008, é explícito ao apontar que a empresa buscava romper o "monopólio do setor de atacado" de tecidos, então dominado por comerciantes portugueses no Nordeste.

Sob a liderança de Arthur Lundgren, a entrada no varejo foi marcada por práticas pouco usuais no Brasil da época, como o estabelecimento de preços fixos — "sem regateio" — e o lançamento da marca dos "bons tecidos" Olho, que oferecia "garantia absoluta" de que as cores das fazendas não desbotariam. Esse posicionamento era sustentado pela tecnologia dos teares importados da Europa e pela atuação de técnicos estrangeiros, sobretudo alemães e ingleses.

Se, no início, a operação se assemelhava a um barracão junto à fábrica de Paulista, a expansão foi rápida. Já em 1920, os irmãos Lundgren contavam com cerca de duzentas lojas varejistas próprias, espalhadas pelo Nordeste, comercializando tanto a produção da família quanto a de outras fábricas. Na época, dizia-se que qualquer cidade brasileira decente deveria ter "igreja, mercado, cinema e uma filial das Casas Pernambucanas". A chegada ao Sudeste marcou uma nova fase do negócio. São Paulo conheceu sua primeira unidade ainda na década de 1910, na Praça da Sé, no coração da cidade, uma demonstração da importância dada pela família à localização dos pontos de venda. Foi também a partir desse crescimento que a rede passou a adotar o nome Casas Pernambucanas.

Para dar conta da expansão da rede e padronizar a gestão das lojas, um manual de procedimentos chegou a ser redigido, nos anos 1930, abordando diversos aspectos do dia-a-dia no ponto de venda. Sempre houve grande preocupação com publicidade e com a localização das filiais, com preferência clara pelas ruas comerciais. "Não há razões para se temer a vizinhança de concorrentes fortes", registra Góis a partir do documento interno. O manual também consagra um princípio que se tornaria central no varejo: o cliente sempre tem razão: "Não devemos nos esquecer que em nossas lojas mandam os clientes e por causa disso deve ser feito tudo para agradá-los o mais possível. O cliente uma vez mal servido não volta." Ao longo das décadas seguintes, a varejista continuaria a crescer, tornando-se a maior rede de varejo do Brasil nas décadas de 1940 e 1950, com mais de 400 lojas, segundo o projeto Museu da Pessoa.

<><> Construção de vilas operárias

Em 1924, quando já tinham centenas de lojas espalhadas pelo país, os herdeiros de Herman adquiriram uma segunda fábrica têxtil em Rio Tinto, na Paraíba, onde implantaram a Companhia de Tecidos Rio Tinto. Assim como em Paulista, a fábrica foi acompanhada da construção de uma vila operária para os trabalhadores morarem, aproveitando a política tributária favorável ao uso da terra da época. Ao mesmo tempo em que garantia emprego e infraestrutura, esse modelo de cidade-fábrica também implicava forte controle sobre a vida dos trabalhadores, limitando sua autonomia e contato com o mundo exterior.

No artigo Da Aldeia da Preguiça à ativa colmeia operária – o processo de constituição da cidade-fábrica Rio Tinto – Parahyba do Norte, o pesquisador Eltern Campina Vale descreve como se organizava a vida dos operários em Rio Tinto. "[Núcleos] Foram estruturados no sentido de conter ao máximo seus moradores, evitando interferências e contatos externos vistos como perturbadores de suas finalidades industriais. Ofereciam trabalho, moradia e todos os equipamentos necessários à existência e à ocupação do tempo livre do trabalhador. Retendo o grupo operário, buscava-se prevenir seu contágio por ambientes tidos como degradantes ou por indivíduos tidos como corrompidos."

No mesmo artigo, o pesquisador se vale de uma passagem do livro de Raul de Góis para dizer que, quando confrontado com a ideia de que a localidade Aldeia da Preguiça, em Rio Tinto, era pouco adequada para uma vila operária, pois era formada por lotes de terras "ruins", pantanosas e ocupadas por indígenas – que seriam desterrados –, Arthur Lundgren responde que lá sua família iria "plantar gente".

Aos contratadores que buscavam essa gente para ser "plantada", Frederico Lundgren, também herdeiro, dizia que pretendia fazer em suas terras da Paraíba uma verdadeira "Manchester", a cidade inglesa que por décadas foi o maior benchmarking fabril do Ocidente. Campina menciona o dirigente sindical João Batista Fernandes, que afirma que Frederico sugeria a seus agenciadores seduzir os futuros operários ao dizer que em Rio Tinto "até das torneiras, em vez de água, jorra leite".

Ao longo das décadas, esse modelo também daria origem a tensões sociais e conflitos trabalhistas, cujos reflexos se estendem até hoje. Por décadas, moradores dessas vilas pagaram aluguel à Companhia de Tecidos Rio Tinto. Em 2022, o governo da Paraíba desapropriou cerca de 700 dessas moradias, que ainda pertenciam à empresa e a seus descendentes. Ainda assim, a família Lundgren segue como uma das principais proprietárias imobiliárias da cidade.

<><> 'Espião nazista'

Arthur Lundgren morreu em 1967, aos 85 anos, tendo passado seis décadas como "capitão" da Pernambucanas. Seu poder se estendeu ao domínio político, tendo sido eleito deputado antes mesmo da revolução de 1930, segundo o obituário do carioca O Jornal, além de prefeito de Rio Tinto. Ele sofreu severa oposição do interventor e depois duas vezes governador de Pernambuco Agamenon Magalhães (1893-1952), seu grande adversário político, que aproveitou a adesão do Brasil aos países aliados na Segunda Guerra, em 1942, para tentar fazer pespegar em Arthur a imagem de espião nazista.

Era uma época em que a propaganda nazista era transmitida por vias oficiais, especialmente por meio dos consulados alemães no Brasil, como registra a pesquisadora Juliana Ferreira Capos Leite em sua tese de mestrado de 2017 na Universidade Federal Rural de Pernambuco (UFRPE). No trabalho, ela escreve: "Em Pernambuco, assim como em outros vários estados da federação, a propaganda nazista estava diretamente relacionada ao partido e ao consulado alemão. Tais instituições se entrelaçavam na organização referente a essas atividades." "O material de propaganda", segue ela, "era distribuído na capital para empresas parceiras do consulado e em cidades do interior do estado". Entre essas empresas, estava a dos Lundgren. Além disso, na cidade de Rio Tinto, na Paraíba, onde também funcionava uma filial da Companhia de Tecidos Paulista, estava localizada uma "subfilial" do Partido nazista "A região fazia parte do complexo industrial da família Lundgren, área definida pela polícia política como 'um reduto de atividades nazistas' por se tratar de um local com significativa concentração de alemães."

A historiadora Susan Lewis, contudo, não acredita no envolvimento dos membros da família Lundgreen com o Partido Nazista. Segundo ela, não há provas contundentes da relação entre a família Lundgren e o nazismo. "Posso dizer com segurança que não há documentos que comprovem isso. O que eu defendo é que, com a necessidade de centralizar o poder político na Era Vargas, o estado criou mecanismos para diminuir a força da família, por isso essas acusações", disse em entrevista ao Diário de Pernambuco.

Por meio de nota, a Pernambucanas informou que "não possui qualquer vinculação com narrativas ou interpretações relacionadas a trajetórias familiares que não dizem respeito à sua atuação empresarial". "Sua estrutura de governança é independente, com Conselho de Administração próprio e gestão profissional. A Companhia repudia de forma inequívoca qualquer forma de discriminação ou intolerância, incluindo o antissemitismo", afirmou. "Com mais de 100 anos de atuação, a companhia pauta suas decisões por princípios de ética, transparência, respeito, diversidade e inclusão, refletidos em suas práticas e compromissos públicos", acrescentou em nota.

<><> Como está hoje as Pernambucanas

No ranking de 2024 das 300 maiores empresas de varejo do Brasil, publicado pelo Instituto Retail Think Tank (RTT), a companhia aparece em 45º lugar em faturamento — estava em 43ª no ano anterior. Imediatamente à sua frente, em 2024, estavam Cacau Show e Supermercados Condor. Mas os R$ 6,1 bilhões de receita que a colocam nessa posição contam apenas parte da história.

A margem Ebtida, melhor indicador de lucratividade operacional, foi de 1,8% em 2024 — bem abaixo do resultado de 9,9% em 2023. A Magalu teve um faturamento quase oito vezes maior, de R$ 47,28 bi, e margem Ebtida de 7,8%. O faturamento de 2025, recentemente publicado, não difere muito do exercício anterior.

Considerado como um ano "economicamente desafiador" na Carta do Relatório de Administração, 2025 tem como marcas para a empresa o início da operação de um braço logístico de transporte próprio, esforços para a redução da dívida, aumento do tíquete médio de consumo em 4,1% e incremento de participação do vestuário na receita geral, agora para 68%. Também marca a criação da nova marca corporativa: Grupo Pernambucanas.

A empresa chegou a 2026 com 11 mil funcionários e 470 lojas próprias em 15 estados brasileiros além do Distrito Federal. Sócio do RTT e um dos responsáveis pelo ranking, o consultor Alberto Serrentino vê "resiliência" na Pernambucanas. "A marca é muito forte, com presença no interior, base forte de clientes, [operação de] crédito, mas os problemas societários a fizeram ficar muito tempo sem expandir e perder visão de longo prazo", diz.

Com capital fechado e uma governança truncada, a Pernambucanas precisou lutar contra uma certa acefalia que já a obliterava muito antes de Anita chegar ao poder com a morte de sua mãe, Helena Lundgren, em 1990. Disputas internas já colocavam em campos opostos os herdeiros do fundador, o sueco Herman Lundgren. Entre eles estava Arthur, que mais tarde se tornou pai de Helena e avô de Anita. Essas rinhas familiares já haviam solapado parte das operações da Pernambucanas. Como capitanias hereditárias, as operações e as lojas do Rio, Ceará e Pernambuco foram entregues a ramos distintos da família, para, depois, naufragarem nesses três estados. Isso fez com que as Pernambucanas encerrassem suas atividades por todo o Nordeste, incluindo em Recife, na década de 90. A falência teria ocorrido "por uma série de motivos, principalmente de gestão". As lojas só retornaram a Pernambuco em 2021.

Para Ivan Rizzo, professor da FIA Business School, de São Paulo, e coordenador da área de varejo, "velocidade de tomada de decisão e a rápida implementação em grande escala são fatores críticos para o sucesso de uma empresa desse setor". Para ele, que falou por telefone à BBC News Brasil, isso não costuma ser possível com uma "cadeia decisória confusa".

Após o AVC de Anita, Sergio Borriello, antes CFO da Pernambucanas, assumiu como CEO com metas auspiciosas: um plano de expansão com abertura de mais de 100 lojas foi implementado. A Borriello também é creditado um esforço de atualização tecnológica — providência imperiosa em tempos de varejo omnichannel (vendas em todos os canais). Depois dele, a cadeira parece ter ficado abrasiva.

Em agosto de 2024, com apenas dez meses na função, alegando razões pessoais, Marcelo Labuto passou o bastão para o atual titular, Ricardo Doebeli, ex-consultor da McKinsey e da Galeazzi & Associados — esta última uma butique de reestruturação famosa por seu currículo de downsizings (diminuição do tamanho de empresas) radicais. Em depoimento a uma edição do jornal Valor Econômico de julho passado, Doebeli mencionou como movimento relevante de sua gestão a criação de uma diretoria da Transformação, responsável por gestar um programa de intraempreendedorismo aberto para todos os funcionários da empresa. Ideias e propostas surgidas a partir daí, caso se mostrassem viáveis, poderiam vir a ser implementadas.

Embora quase sempre fiel a um modelo que parece datado, o de one-stop shop, em que todas as compras podem ser resolvidas num mesmo lugar — e que teve no Brasil apogeus e fracassos retumbantes como os dos magazines Mappin e Mesbla — a Pernambucanas teve momentos de vanguarda ao longo de sua história, especialmente nas estratégias de capilarização, do uso criativo e massivo da publicidade e no lançamento de um crediário, chamado "Tentação", algo incomum nos anos 1970. Ter chegado muito tarde à era digital pode ter como causa, ou como uma de suas causas, os problemas de sucessão, mas não foi fácil para a Pernambucanas sobreviver bem aos anos 1990, época de abertura do mercado brasileiro aos produtos estrangeiros, responsável pela derrocada de diversas concorrentes. É esse um dos momentos mais críticos na história da empresa segundo Roberto Kanter, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV), que vê na Pernambucanas um espírito sempre "conservador", "avesso a modismos". Ainda assim, Kanter destaca que Luiza Trajano, cuja Magalu é hoje benchmarking em transformação digital, inspirou-se não apenas na figura de Anita, mas no comportamento da executiva, na "maneira como ela se fazia presente nas lojas e de como se relacionava com os colaboradores". Ou, mais precisamente, frisa Kanter, de como ambas, Anita e depois Luiza, "entenderam os colaboradores como parte de uma grande família".

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Encontrando 'espermatozoides ocultos': a técnica de IA que tem dado esperança a homens considerados inférteis

Era início de novembro de 2025 quando Penelope recebeu uma ligação enquanto dirigia para casa do trabalho em Nova Jersey, nos Estados Unidos. Era seu médico, ligando com a notícia que ela tanto esperava. Após dois anos e meio de tentativas angustiantes, Penelope finalmente estava grávida.

Após muitos exames, ela e o marido, Samuel, descobriram que ele tinha síndrome de Klinefelter, uma condição genética que afeta homens que nascem com um cromossomo X extra, muitas vezes diagnosticada apenas na idade adulta.

A maioria das pessoas com síndrome de Klinefelter produz pouco ou nenhum espermatozoide no líquido ejaculado, uma condição conhecida como azoospermia. Cerca de 10% dos homens inférteis apresentam azoospermia.

Transbordando de alegria e incredulidade, Penelope esperou até que Samuel (ambos os nomes foram alterados para preservar a privacidade do casal) voltasse para casa naquela noite para compartilhar a notícia.

"O rosto dele era uma explosão de emoção", diz ela. "Ele chorou... só de termos conseguido chegar até aqui, porque exigiu tanto esforço, tempo e pesquisa. E o fato de termos apenas um embrião, e de ter dado certo, aquilo deixou a gente extremamente feliz."

A gravidez só foi possível graças a uma nova técnica conhecida como sistema Star (sigla em inglês para "Rastreamento e Recuperação de Espermatozoides"), desenvolvida pela Universidade de Columbia, nos EUA, para rastrear espermatozoides em homens com azoospermia.

O sistema usa inteligência artificial para ajudar a identificar e localizar os poucos espermatozoides "escondidos" que homens com essa condição podem ter.

"Eu estava com medo. Pensei que não conseguiria ter meu próprio filho, que é uma parte muito importante da minha vida", diz Samuel, a quem disseram que tinha 20% de chance de ter um filho biológico. "E isso foi um grande choque."

A infertilidade afeta milhões em todo o mundo. Cerca de uma em cada seis pessoas em idade reprodutiva enfrenta problemas para engravidar pelo menos uma vez na vida.

A infertilidade masculina é um fator que contribui em até 50% dos casos, e 1% de todos os homens são azoospérmicos.

Isso significa que potencialmente milhões de homens em todo o mundo têm contagens de espermatozoides tão baixas, com espermatozoides difíceis de localizar, que são considerados azoospérmicos.

Mas o poder da IA para encontrar esses espermatozoides ocultos pode oferecer esperança àqueles que desejam se tornar pais.

No final do ano passado, após cinco anos de desenvolvimento, o primeiro bebê a nascer usando o sistema Star permitiu que um casal que lidava com a infertilidade há quase duas décadas finalmente tivesse um filho.

É um momento de que Zev Williams, diretor do Centro de Fertilidade da Universidade de Columbia, e sua equipe lembram bem.

"Todos estavam pulando de alegria", diz ele. "Há poucas coisas em que a recompensa por todo o esforço investido seja algo tão maravilhoso e especial quanto isso. Agora temos uma bebezinha e, com a graça de Deus, muitas, muitas outras [virão]."

Desde o nascimento do primeiro bebê Star, a tecnologia tem sido usada regularmente no centro de fertilidade. A lista de espera hoje conta com centenas de pessoas de todo o mundo.

Com base nos últimos 175 pacientes que a utilizaram, Williams afirma que a equipe tem encontrado espermatozoides em pouco menos de 30% dos casos.

Trata-se de indivíduos que haviam sido informados de que não tinham chance de ter um bebê usando seu próprio esperma.

Em testes adicionais, a Star conseguiu encontrar 40 vezes mais espermatozoides do que uma busca manual realizada por um técnico treinado, de acordo com Williams.

Normalmente, uma amostra de sêmen contém dezenas de milhões de espermatozoides por mililitro. Uma pequena gota da amostra é examinada ao microscópio para que a contagem de espermatozoides possa ser estimada, além de verificar se os espermatozoides estão se movendo e se são saudáveis.

Mas em amostras azoospérmicas, pode haver apenas um único espermatozoide em toda a amostra — embora em alguns casos não haja nenhum. Analisar a amostra gota a gota é impraticável.

Williams teve a ideia para o sistema Star em 2020, depois de ler sobre como a IA está sendo usada para encontrar novas estrelas.

Os telescópios modernos produzem uma quantidade enorme de dados sobre o céu noturno, cuja análise por astrônomos humanos em busca de objetos nunca vistos antes seria extremamente demorada. Mas o uso de algoritmos de aprendizado de máquina pode realizar esse trabalho em minutos.

"A imagem do céu era muito semelhante ao que estamos procurando e ao que vemos em homens que são informados de que não têm espermatozoides", diz Williams.

Ele começou a ponderar se seria possível aplicar essas tecnologias para identificar e isolar espermatozoides da mesma forma.

Ele e sua equipe já estavam usando uma tecnologia de imagem de alta resolução que poderia ser usada para escanear a amostra. O desafio era analisar centenas de imagens por segundo em tempo real para detectar e extrair qualquer espermatozoide encontrado.

Williams e seus colegas usam chips microfluídicos — vidro ou polímero gravado com uma série de canais tão finos quanto um fio de cabelo humano. A amostra de esperma flui através desses canais e pode ser escaneada pelo dispositivo de imagem.

Um algoritmo de aprendizado de máquina detecta quaisquer espermatozoides nas imagens em tempo real, para que possam ser isolados da maneira mais delicada possível, garantindo que não sejam destruídos.

"À medida que a amostra flui, capturamos imagens a 300 vezes por segundo", explica Williams.

"A maior parte do que vemos são apenas detritos e fragmentos. Não é como se fosse um líquido vazio. E você está tentando encontrar aquele espermatozoide realmente raro em um mar de todos esses outros detritos e fragmentos de células."

Williams afirma que o método Star atingiu uma taxa de sensibilidade de 100%, o que significa que ele tem a capacidade de encontrar um único espermatozoide em uma amostra, caso haja um presente.

"É simplesmente encontrar algo onde não conseguíamos ver antes", destaca o pesquisador.

Uma vez identificado, um sistema robótico extrai o(s) espermatozoide(s) em milissegundos após sua detecção.

"A robótica no chip microfluídico separa aquela pequena parte do fluido que contém o espermatozoide", diz Williams.

"Você acaba com um tubo cheio de fluido seminal, mas sem nenhum espermatozoide dentro, e uma minúscula gota que contém os espermatozoides."

No caso de Samuel, houve um desafio adicional e uma novidade para o sistema Star: com a síndrome de Klinefelter, não há espermatozoides no líquido ejaculado. Para encontrá-los, os urologistas precisam examinar o testículo. Samuel passou por terapia hormonal durante nove meses em preparação para uma cirurgia de extração testicular bem-sucedida em outro centro de fertilidade.

A amostra foi então enviada para a equipe de William na Universidade Columbia para análise.

"O tecido da cirurgia foi transportado para o nosso laboratório de andrologia, que fez o processamento para que o material pudesse ser analisado pelo sistema Star", diz Eric Forman, diretor médico e de laboratório do Centro de Fertilidade da Universidade Columbia, que supervisionou o procedimento.

Ao mesmo tempo, Penelope estava fazendo seu procedimento de coleta de óvulos. Uma amostra de esperma fresco geralmente é fornecida no mesmo dia, pois oferece a melhor chance de fertilização. Eles estavam correndo contra o tempo.

O sistema Star conseguiu isolar oito espermatozoides na amostra de Samuel, que foram então injetados nos óvulos de Penelope. Um deles se transformou em um blastocisto completo, um estágio mais desenvolvido do embrião.

O bebê deles, que provavelmente será o primeiro menino nascido como resultado da Star, está previsto para o final de julho. É um momento que eles nunca tiveram certeza se alcançariam.

"Está começando a parecer realmente real agora, especialmente porque estou sentindo os movimentos. Fizemos o ultrassom morfológico e tudo está ótimo", diz Penelope.

A busca por espermatozoides ocultos não é a única maneira como a IA está sendo usada para melhorar os resultados em tratamentos de fertilidade.

Na estimulação ovariana, por exemplo — um processo essencial na fertilização in vitro (FIV) que ajuda os ovários a produzirem múltiplos óvulos — o aprendizado de máquina está permitindo o cálculo de uma dosagem mais personalizada do hormônio gonadotrofina.

Enquanto isso, ferramentas de aprendizado profundo estão auxiliando na seleção mais precisa e viável de gametas e embriões.

Mas, para avaliar os resultados a longo prazo, os especialistas concordam que são necessários mais ensaios clínicos em larga escala, bem como clareza sobre como lidar com dados médicos sensíveis, confidencialidade e disputas em torno de responsabilidade e propriedade.

Há também preocupações com a promessa exagerada de um final feliz que pode acompanhar as inovações em IA.

"Casais que passam por longas jornadas de fertilidade podem ficar desesperados para conceber e são vulneráveis a tratamentos caros e de valor não comprovado", diz Siobhan Quenby, professora de obstetrícia da Universidade de Warwick, no Reino Unido.

"É muito empolgante que tecnologia avançada, imaginação, engenharia e IA tenham sido combinadas para desenvolver uma nova solução para a subfertilidade masculina grave", acrescenta ela.

"Uma gravidez bem-sucedida é um começo importante. No entanto, mais pesquisas com mais pacientes são necessárias antes que o valor deste novo tratamento possa ser totalmente avaliado."

Para Samuel, no entanto, a perspectiva de que essa técnica baseada em IA possa ajudá-lo e à sua esposa a aumentar a família novamente no futuro é tentadora.

"Claro, agora estamos sendo ambiciosos e queremos outro filho, quem sabe no futuro, mas isso é algo pelo qual teremos que passar novamente, porque não temos nada em reserva além de óvulos", diz ele.

Mas eles também têm esperança agora, diz ele, onde antes não havia nenhuma.

 

Fonte: BBC Culture

 

Lula nos EUA: resumo de uma visita soberana e altiva

O encontro entre Lula e Trump, realizado na Casa Branca, em Washington, marcou um dos episódios diplomáticos mais relevantes da atual conjuntura internacional. Muito além de uma simples reunião bilateral, a conversa entre os dois líderes simbolizou uma redefinição estratégica das relações entre Brasil e EUA em um momento de intensas disputas geopolíticas, econômicas e tecnológicas no mundo contemporâneo.

A articulação, que contou com setores econômicos e empresariais soberanistas. ocorreu em um contexto particularmente delicado para a política internacional. A disputa entre grandes potências pelo controle de cadeias produtivas estratégicas, a guerra comercial envolvendo EUA e China, os conflitos no Oriente Médio, a reorganização das alianças globais e a crescente importância dos minerais críticos transformaram países detentores de recursos naturais em atores centrais do tabuleiro mundial. Nesse cenário, o Brasil surge como potência mineral, energética, agrícola e ambiental, despertando o interesse das principais economias do planeta.

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Foi justamente nesse ambiente que Lula chegou a Washington acompanhado de uma delegação ministerial, incluindo representantes das áreas econômica, diplomática, energética, comercial e de segurança pública. A composição da comitiva demonstrava, desde o início, que a pauta iria muito além de formalidades protocolares. O objetivo era discutir soberania, comércio, minerais estratégicos, combate ao crime organizado, tarifas comerciais e os rumos da cooperação entre as duas maiores democracias do continente americano.

O encontro também teve forte simbolismo político. Trump, conhecido mundialmente por seu estilo agressivo, por gestos de intimidação diplomática e por confrontos públicos com líderes internacionais, adotou uma postura incomum diante de Lula. O presidente brasileiro foi recebido no tapete vermelho da Casa Branca, em um gesto interpretado por diplomatas como demonstração de respeito institucional e reconhecimento político. Não houve constrangimentos públicos, emboscadas midiáticas nem confrontos retóricos. Ao contrário: a reunião foi ampliada muito além do previsto inicialmente, transformando um encontro de 45 minutos em quase três horas de conversas reservadas e almoço oficial.

O próprio Trump, após a reunião, fez questão de destacar publicamente o caráter produtivo do encontro. Em mensagem divulgada nas redes sociais, afirmou ter concluído uma “reunião muito produtiva” com Lula e anunciou novas rodadas de negociação entre representantes dos dois governos. A declaração teve peso diplomático significativo porque evidenciou uma mudança de tom na relação entre os dois países.

Mais do que cordialidade, o encontro demonstrou reconhecimento político. Lula foi tratado como chefe de Estado de uma potência regional e global. O respeito demonstrado por Trump revelou que, independentemente das diferenças ideológicas entre ambos, os EUA reconhecem a importância estratégica do Brasil em áreas decisivas para o século XXI.

Esse reconhecimento não ocorreu por acaso. O Brasil ocupa posição privilegiada na disputa global por minerais críticos e terras raras, elementos fundamentais para a produção de baterias, carros elétricos, semicondutores, turbinas eólicas, equipamentos militares, inteligência artificial e tecnologias ligadas à transição energética. O país possui a segunda maior reserva conhecida de terras raras do planeta, atrás apenas da China, tornando-se peça-chave na reorganização das cadeias globais de suprimento.

Foi justamente nesse tema que Lula reafirmou, de maneira firme e inequívoca, a defesa da soberania nacional brasileira. Durante o encontro, o presidente deixou claro que o Brasil está aberto a investimentos internacionais, inclusive norte-americanos, mas não aceitará transformar-se em mero exportador de matéria-prima barata. A mensagem foi direta: o país quer parceria, tecnologia, industrialização e agregação de valor dentro do território nacional.

Ao comentar a reunião posteriormente, Lula afirmou que as terras raras constituem uma questão de soberania nacional. A declaração sintetiza uma visão estratégica de desenvolvimento baseada na defesa dos interesses brasileiros diante da nova corrida global por recursos minerais.

Essa posição representa uma ruptura importante com modelos históricos de exploração econômica que relegaram o Brasil à condição de fornecedor periférico de commodities. Durante décadas, riquezas naturais brasileiras foram exportadas sem geração significativa de tecnologia, indústria ou conhecimento interno. O atual debate sobre minerais críticos recoloca a necessidade de construção de uma política nacional de desenvolvimento industrial e tecnológico associada à mineração estratégica.

A aprovação da Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos pela Câmara dos Deputados, justamente às vésperas da reunião com Trump, fortaleceu a posição brasileira nas negociações. O projeto prevê mecanismos de incentivo à exploração, ao refino e ao processamento dos minerais dentro do Brasil, além da criação de instrumentos financeiros voltados ao fortalecimento da cadeia produtiva nacional.

Ao apresentar essa nova política ao governo norte-americano, Lula sinalizou que o Brasil não pretende estabelecer relações de subordinação com nenhuma potência. O presidente enfatizou que o país deseja construir parcerias com empresas americanas, chinesas, europeias e asiáticas, sem exclusividade geopolítica. Essa postura reforça a tradição diplomática brasileira baseada na autonomia estratégica, no multilateralismo e na defesa da soberania nacional.

A fala de Lula sobre soberania teve enorme repercussão porque ocorre em meio a uma disputa mundial cada vez mais intensa entre EUA e China pelo controle de cadeias produtivas estratégicas. EUA busca reduzir sua dependência em relação aos minerais processados pelos chineses, enquanto China amplia sua influência global por meio de investimentos em mineração, infraestrutura e tecnologia. Nesse cenário, o Brasil torna-se alvo prioritário das grandes potências.

A resposta de Lula foi clara: o Brasil aceita cooperação, mas rejeita submissão. O país quer investimento estrangeiro associado à industrialização local, geração de empregos, transferência tecnológica e fortalecimento da economia nacional.

Essa visão também apareceu nas discussões comerciais. Lula rebateu a narrativa de que o Brasil seria protecionista e apresentou dados sobre o déficit brasileiro na relação comercial com os EUA. O presidente propôs a criação de um grupo de trabalho bilateral para discutir tarifas, comércio e investimentos de maneira pragmática e equilibrada.

O discurso brasileiro foi pautado pela ideia de reciprocidade e respeito mútuo. Lula deixou claro que deseja ampliar os investimentos norte-americanos no Brasil, especialmente em infraestrutura, transição energética, mineração e tecnologia. No entanto, reforçou que qualquer parceria deve respeitar os interesses estratégicos nacionais.

Outro aspecto importante do encontro foi a defesa enfática da democracia brasileira e da não interferência externa nas eleições nacionais. Em meio ao crescimento internacional de movimentos ultraconservadores e às tentativas de influência política transnacional, Lula afirmou categoricamente que apenas o povo brasileiro decidirá os rumos do país.

Essa declaração teve enorme relevância porque ocorreu justamente em um ambiente político internacional marcado pela disseminação de campanhas digitais, interferências externas e disputas informacionais conduzidas por grupos políticos globais. Ao afirmar que democracia e soberania são inegociáveis, Lula estabeleceu limites claros na relação bilateral com os EUA.

Também foi significativa a postura adotada pela delegação brasileira durante a reunião. Lula orientou todos os integrantes da comitiva a falarem exclusivamente em português, inclusive ministros fluentes em inglês. O gesto foi interpretado como afirmação simbólica da identidade nacional e da igualdade diplomática entre os países.

Ao longo de toda a visita, Lula buscou transmitir a imagem de um Brasil soberano, aberto ao diálogo, mas consciente de sua importância estratégica no cenário global. O presidente procurou demonstrar que o país não pretende alinhar-se automaticamente a nenhuma potência, mas sim construir relações equilibradas capazes de gerar desenvolvimento econômico e fortalecimento institucional.

A própria duração da reunião e o clima cordial entre os dois presidentes reforçaram a percepção de que Trump reconhece Lula como interlocutor relevante. Em um momento de forte polarização internacional, o presidente brasileiro conseguiu manter diálogo produtivo com um líder ideologicamente distinto sem abrir mão de princípios fundamentais da política externa brasileira.

Essa capacidade de diálogo amplia o protagonismo internacional do Brasil. Lula demonstrou que o país pode negociar simultaneamente com EUA, China, Europa e demais atores globais sem renunciar à autonomia estratégica. Trata-se de uma política externa baseada na multipolaridade e no pragmatismo soberano.

O encontro também serviu como resposta política interna. Em meio a tensões com o Congresso Nacional e disputas domésticas, Lula utilizou a agenda internacional para reafirmar liderança e capacidade de articulação global. A recepção respeitosa na Casa Branca fortaleceu sua imagem de estadista e reposicionou o debate político brasileiro em torno da importância geopolítica do país.

Além disso, a reunião evidenciou que o Brasil possui hoje ativos estratégicos fundamentais para o futuro da economia mundial. A combinação entre reservas minerais, matriz energética relativamente limpa, potencial agrícola, biodiversidade e capacidade industrial coloca o país em posição privilegiada na nova ordem internacional.

Nesse contexto, a defesa das terras raras como patrimônio estratégico nacional ganha dimensão histórica. O debate não envolve apenas mineração, mas o modelo de desenvolvimento que o Brasil pretende construir nas próximas décadas. A questão central é saber se o país continuará exportando riqueza bruta ou se utilizará seus recursos naturais para impulsionar inovação, industrialização e soberania tecnológica.

Lula deixou claro qual caminho defende. O Brasil quer ser protagonista, não coadjuvante. Quer compartilhar riqueza sem abrir mão do controle nacional sobre recursos estratégicos. Quer investimentos estrangeiros sem submissão política. Quer integração internacional sem perda de soberania.

Ao final do encontro, consolidou-se a percepção de que a relação entre Brasil e EUA entra em nova etapa. Persistem divergências comerciais, tensões geopolíticas e interesses distintos. Porém, o diálogo estabelecido mostrou que há espaço para cooperação baseada em respeito mútuo e reconhecimento da importância estratégica brasileira.

Mais do que uma simples visita diplomática, o encontro entre Lula e Trump revelou um Brasil consciente de seu peso internacional. Um país que busca ocupar posição soberana no mundo multipolar do século XXI. Um país que entende que suas riquezas minerais, sua democracia e sua autonomia política não são mercadorias negociáveis, mas pilares fundamentais de um projeto nacional de desenvolvimento. 

¨      Na Casa Branca, Lula fez barba, cabelo e bigode. Por Tereza Cruvinel

O êxito incontestável do encontro do presidente Lula com Donald Trump superou as expectativas do próprio governo brasileiro e suplantou até a crônica má vontade da mídia corporativa para com ele.

E antes de qualquer avaliação sobre ganhos políticos ou eleitorais, o que mais importa é o reconhecimento de que Lula foi à Casa Branca em defesa dos interesses do Brasil, disposto ao diálogo e à negociação, mas demarcando como limite a observância da soberania e da democracia brasileiras.

Trump, tão áspero, foi mais que amistoso, não há que negar: mandou estender o tapete vermelho, e sorridente recebeu o visitante na porta com caloroso aperto de mão. Aceitou, de pronto, o pedido para que não houvesse sessão com a imprensa no Salão Oval no início do encontro, temendo uma daquelas emboscadas que Trump já armou para outros. Depois da visita, nas redes, chamou Lula de “muito dinâmico” e, mais tarde, de “bom homem” e de “um cara inteligente”. Na sexta-feira passada, teria encerrado o telefonema que fez para Lula com um inusitado “I love you”. Ele, que ouviu isso de Bolsonaro, talvez tenha pensado que seja um costume político brasileiro entre aliados. Lá, não é. Nem aqui, mas foi um indicador da temperatura que haveria na Casa Branca.

Lula também fez seus salamaleques, como o de sugerir que Trump fosse mais sorridente, que sorrisse na foto oficial, pois ele era “mais bonito” sorrindo, e outros de que não tivemos notícia. E com isso ganhou uma excelente “photo opportunity”, que pode lhe render votos.

 O fru-fru diplomático parece fútil mas tem seu valor semiótico, como indicador das disposições subjetivas dos atores. De tudo, resultou o que o presidente Lula chamou de “um passo importante para a consolidação da relação histórica e democrática que o Brasil sempre teve com os Estados Unidos”.

Música pura para as elites nacionais, que colocam a relação com os EUA no altar das questões que não admitem ser comprometidas por qualquer governo.

Nada concreto foi anunciado, pode dizer a oposição. Bobagem pura. Trump nem falou contra o pix ou em classificar as organizações criminosas brasileiras como narco-terroristas. Dispensado aqui explicar o que isso significaria. Vitória de Lula.

Quando a conversa começou a azedar sobre tarifas, Lula disse ter proposto o grupo de trabalho para acertarem os ponteiros dentro de 30 dias. Há muito o que ser acertado ainda nesta área: tarifas ainda em vigor, pesando especialmente sobre o aço e o alumínio, e a investigação, com base na seção 301 da lei comercial deles, sobre supostas práticas comerciais desleais do Brasil.

Sobre terras raras, Lula não prometeu exclusividade aos Estados Unidos, mas foi completamente aberto à participação de empresas norte-americanas na exploração, desde que todo o processo de tratamento e refino seja feito no Brasil, gerando tecnologia, empregos, divisas...

Lula queria muito acertar logo um acordo de cooperação para combaterem juntos o crime organizado. Agregando inclusive outros países das Américas.  Não deu, mas combinaram de criar, para isso, outro grupo de trabalho.

Aqui no Brasil costuma-se dizer que quando o governo não quer resolver um problema, cria-se um GT, um grupo de trabalho. Não acho que isso se aplique aos grupos aprovados no encontro da Casa Branca.

Obviamente, o governo de Trump tem muitos outros abacaxis sobre a mesa, com destaque para a guerra desnecessária que ele mesmo criou com o Irã, mas a diplomacia brasileira, como me disse hoje um diplomata, vai marcar cerrado para que o trabalho avance, em reuniões presenciais ou remotas com os pares do lado de lá.

Tudo que foi tratado, com total transparência, é do interesse nacional. Nem por isso, deixam de existir os ganhos eleitorais. Tanto para Trump, que amarga a impopularidade, e enfrentará eleições para o parlamento no final do ano, como para Lula, que tentará a reeleição, está com a aprovação baixa e, segundo as pesquisas, neste momento, está empatado tecnicamente com Bolsonarinho (Cantalice, foi adotar seu tratamento para o filhote).

Muito ainda se pode dizer e compreender a partir do encontro, uma vitória do pragmatismo bilateral (para além da existência ou não da tal de “química”). E da diplomacia presidencial, que muita gente enxerga como diletantismo de Lula, contando os dias que já passou fora do país. Todas as viagens foram no interesse nacional, mas com esta ele marcou seu gol mais importante nesta área.

 

Fonte: Por Larissa Ramina e Carol Proner, em Brasil 247