segunda-feira, 31 de agosto de 2026

 

A política do pânico

Uma página do Instagram chamada “Seremos Resistência” publicou uma peça acusatória contra o historiador e político brasileiro, Jones Manoel a propósito de uma “colinha” eleitoral na qual não aparecia o nome de presidente Lula da Silva. O episódio poderia parecer apenas mais uma polêmica fabricada pelas redes sociais, dessas que nascem com a solenidade de uma crise de Estado e morrem antes do fim do dia. Contudo, revela algo politicamente mais profundo e problemático. Começo com uma curta reflexão sobre o nome da referida página e o imaginário político que ela carrega: seremos resistência. A partir de uma conceção político-militar, resistir é indispensável quando os adversários estão a avançar, mas resistir não é vencer, apenas defender-se dos ataques dos inimigos. É neste ponto que a resistência deixa de ser um momento da luta e se converte numa identidade permanente de uma estratégia política, desligada de um horizonte de conquista e transformação, tornando-se num fetiche pela derrota política (mesmo que com vitórias eleitorais), visto que não se pretende conquistar iniciativa, construir força ou transformar a sociedade; pretende-se apenas impedir, pela enésima vez, que tudo se torne ainda pior. A autodesignação da página expressa metaforicamente (ou não) a temporalidade histórico-política do “lulismo tardio” (Paulo Arantes).

<><> O lulismo tardio e a política do pânico

A categoria “lulismo tardio” não designa apenas uma etapa cronológica da história política de Lula da Silva e do Partido dos Trabalhadores (PT), mas uma alteração na forma predominante de organizar o consentimento e manter a hegemonia no campo da esquerda e progressista. No seu período ascendente, sustentado pelo crescimento económico, pela expansão do emprego, pela valorização do salário mínimo e pela ampliação das políticas sociais, o progressismo do lulismo apresentava uma promessa positiva, como os pobres poderiam melhorar de vida, os trabalhadores poderiam consumir mais e o capitalismo brasileiro continuaria a lucrar, tudo isto sem rutura com as estruturas fundamentais da ordem. Era o “melhorismo”, isto é, melhorar a vida do povo trabalhador dentro da ordem, administrando e regulando os conflitos a fim de evitar que desembocassem num confronto aberto entre interesses inconciliáveis – isto é, a velha e viva, apesar de negada ou ocultada, luta de classes.

A base material começou a erodir-se com a desaceleração económica no esteio da crise capitalista e a política de austeridade aplicada em 2015 pelo governo Dilma Rousseff (o próprio PT reconhece essa análise); portanto, a crise política aberta em Junho de 2013 foi depois aprofundada pelo golpe do impeachment, lawfare e prisão de Lula, assim como a tutela militar e a emergência do bolsonarismo enquanto campo político hegemónico na direita brasileira, sinalizam para uma crise e os limites do lulismo não-tardio (forma de regulação do conflito social a partir da cadeira presidencial). Nesse processo de crise, a promessa mudou de sinal.

O lulismo progressista já não podia afirmar prioritariamente: “connosco, todos podem melhorar”. Passou a advertir: “sem nós, virá a barbárie”. Noutros termos, o futuro desejável cedeu lugar ao futuro temido. O melhorismo transformou-se em “menorismo”: já não se trata principalmente de melhorar dentro da ordem do capitalismo periférico e dependente brasileiro, mas de impedir que a sociabilidade se torne ainda pior. Uma pergunta parece incontornável: a tática lulista tem conseguido?

Enfatizo sem meias palavras. A ameaça da extrema-direita e do neofascismo é real, o golpe do impeachment de 2016, a operação político-judicial contra Lula da Silva, assim como foi o governo de Jair Bolsonaro, a gestão criminosa da pandemia, a tutela das Forças Armadas e as tentativas golpistas, as ameaças de uma intervenção imperialista dos EUA no país; são questões e riscos que não foram invenções de uma assessoria de comunicação lulista/petista, é algo verdadeiro e realmente temerário. O problema central está no uso político que se faz desses riscos. Explico melhor.

A política do pânico inicia-se quando ameaças autoritárias e fascizantes reais são convertidas numa tecnologia e modo de disciplinamento interno, quer dizer, na gramática predominante do lulismo tardio, o Lula da Silva e o PT são apresentados como as únicas barreiras possíveis contra a catástrofe; particularmente Lula, como a única mediação popular capaz de a impedir. Portanto, qualquer forma de crítica torna-se colaboração “objetiva” com a direita ou o bolsonarismo, uma posição de independência e autonomia política que trisque na hegemonia do lulismo/petismo converte-se em divisionismo; a apresentação de alternativas é denunciada como irresponsabilidade. Por outro lado, as alianças com forças conservadoras surgem como o preço inevitável para impedir algo pior, esquece-se facilmente o que Geraldo Alckmin, entre muitos outros, afirmavam quando Lula estava preso. Nesse contexto, o pequeníssimo campo da esquerda radical, que esteve na frente de várias mobilizações para denunciar a prisão de Lula e reivindicar a sua liberdade é “descartado” porque não legitima todas as táticas do lulismo. Em síntese, o inimigo externo e os riscos passam a regular o campo interno da esquerda (social-liberal e radical/socialista) e a única lealdade política que o lulismo/petismo aparenta ter é com a sua hegemonia.

Medo e pânico, neste sentido, não são a mesma coisa. O medo possui um objeto determinado, que permite produzir prudência, análise, preparação e organização coletiva. Uma esquerda que reconhece o fascismo ou neofascismo como perigo procura compreender as forças sociais que o sustentam, disputa as ruas, organiza os trabalhadores e constrói uma frente tática para o derrotar tendo em vista a sua estratégia e projeto político. Já o pânico produz outro efeito, pois comprime a temporalidade, reduz as alternativas, suspende a deliberação e exige sujeição imediata. O medo diz: há uma ameaça, organizemo-nos para enfrentá-la. O pânico ordena: não há tempo para discutir; existe apenas uma escolha legítima e qualquer divergência poderá provocar um cataclismo. É por isso que sucessivas eleições voltam a ser apresentadas como “as mais importantes das nossas vidas”; curiosamente, a exceção regressa com a pontualidade do calendário eleitoral. Antes da votação, não se pode criticar porque a direita pode vencer; depois dela, não se pode criticar porque é necessário assegurar a posse, estabilizar o governo, formar maioria, tranquilizar os mercados e preparar a eleição seguinte. Ou ainda, se criticar a direita ou extrema direita pode retornar. Um círculo vicioso que o lulismo/petismo procura impor aos setores à sua esquerda. Salvar a restrita democracia política liberal torna-se tão urgente que já não dispõe de tempo para o debate democrático no suposto campo da esquerda. O futuro torna-se adiado por excesso de urgência, ou seja, os inimigos estão sempre a condicionar as nossas iniciativas e agendas políticas.

O mecanismo interno pode ser analisado e entendido pela categoria sartriana de “fraternidade-terror”. Um perigo exterior reforça a identificação do grupo com a sua liderança; quando aparece uma divergência, o dissidente pode ser convertido num substituto simbólico do inimigo externo.

No lulismo tardio, essa disciplina não assume a forma do terror físico exatamente, mas a do disciplinamento hegemónico-político, afetivo e moral; portanto, quem critica é acusado de enfraquecer; quem constrói uma alternativa, de dividir; quem recusa uma aliança, de favorecer o fascismo. A crítica já não é enfrentada pelo seu conteúdo, mas julgada pelas consequências eleitorais que lhe são previamente imputadas. Aqui está o núcleo central e ideológico da lógica política do pânico do lulismo em crise rastejante. Do ponto de vista dos afetos políticos, a fórmula é simples: medo no presente, culpa no futuro. No presente, exige-se silêncio para não fortalecer a direita; no futuro, caso ela vença, o crítico será responsabilizado por ter falado, dividido ou apoiado outra candidatura. O ónus da justificação é deslocado, em vez de o lulismo e o PT assumirem as suas escolhas, exige-se que o dissidente demonstre que a crítica não produzirá uma catástrofe. Daí nasce a autocensura preventiva, não pela força do convencimento, mas pelo receio moral de ser apontado como responsável pelas futuras vítimas do autoritarismo. Os que fazem tendem a pagar um preço político bastante elevado.

Muitos dos que reproduzem esse dispositivo acreditam sinceramente que estão a defendera a restrita democracia representativa e podem efetivamente desejar derrotar a extrema-direita; não há uma teoria da conspiração, mas sim uma prática política internalizada. Todavia, a questão não é apenas a intenção subjetiva, mas a função política objetiva dessa lógica política e ideológica. Ao identificar a sobrevivência do regime liberal da “Nova República” com a sobrevivência eleitoral do PT, a política do pânico restaura a centralidade lulista, neutraliza a crítica e exerce pressão para subordinar o conjunto da esquerda à temporalidade permanente do mal menor.

O trágico-cómico é que o próprio Lula da Silva afirmou em 2021 que Jair Bolsonaro (o bolsonarismo) seria fruto da despolitização no Brasil nos últimos 20 anos. Resta-me perguntar: quem esteve no governo central na maior parte do tempo dessas duas décadas? Não foi o PT o partido hegemónico na esquerda brasileira nos últimos 30 anos? Ou só querem a parte boa da hegemonia? Posso concluir que o cerne do lulismo enquanto projeto de administração do capitalismo brasileiro é a despolitização? O menorismo é o modo de sobrevivência do lulismo e do PT enquanto força hegemónica? Essa forma de direção política sobre grande parte do chamado campo progressista pode ser definida como hegemonia negativa. Embora o lulismo preserve políticas sociais, promessas materiais e memórias positivas, a unidade já não se organiza em torno de um projeto afirmativo suficientemente definido, mas da rejeição de um inimigo. (o eixo predominante da unidade já não repousa num projeto político de transformação suficientemente definido – tudo depende e se justifica em torno de um “dado geológico” da correlação de forças).

O bolsonarismo fornece o conteúdo negativo; o campo lulista reivindica para si a condição de instrumento eleitoral privilegiado da contenção (um fato incontestável eleitoralmente). De um ponto de vista do imaginário político e da perspetiva de futuro a questão decisiva deixa de ser “que sociedade brasileira queremos construir?” e passa a ser “quem pode impedir a sociedade que tememos?”. Poderia ser uma contradição que se sustentasse na primeira pergunta-imaginação política para agir na segunda, mas para um partido e forma de governar que só tem tática eleitorais, não têm estratégia política de transformação estrutural do Brasil e não apresenta um projeto de futuro que ultrapasse os limites impostos pelas classes dominantes brasileiras, o que resta é a política do pânico. O risco neofascista e trumpista é real, mas essas forças terão um terreno histórico fértil quando a esquerda morta-viva que foi domesticada pelo neoliberalismo e o fim da história se recusa a ser uma força política anticapitalista e verdadeiramente antissistema.

O voto tático no mal menor pode ser racional e necessário, sobretudo numa segunda volta contra um candidato neofascista. O problema começa quando uma decisão excecional se converte numa conceção estratégica permanente, num mandato político em branco e em práticas de deslegitimação das forças que pretendem crescer fora da órbita lulista. Nesse momento, a unidade antifascista deixa de ser tática e torna-se subordinação estratégica. A ameaça já não é apenas aquilo que a esquerda precisa de derrotar; torna-se o instrumento por meio do qual uma parte da esquerda (social-liberal) procura disciplinar todas as outras (socialistas, comunistas, radicais, etc.).

<><> A “colinha” do medo e o caso Jones Manoel

Ao receber a supracitada publicação identifiquei que poderia servir como uma demonstração quase laboratorial desse mecanismo do pânico como afeto político do lulismo tardio. Para efeito de contextualização: a “colinha” publicada mostrava Jones Manoel para deputado federal, Ivan Moraes para governador e Paulo Rubem para uma das vagas ao Senado. Permaneciam vazios os espaços destinados à candidatura presidencial, à segunda vaga ao Senado e a deputado estadual. O “erro” de comunicação, que para mim não foi exatamente um erro, abriu margem para a máquina de pânico do lulismo e de deslegitimação política. A página isolou uma dessas ausências – Lula – e transformou-a imediatamente numa decisão política consciente, que Jones Manoel teria recomendado voto em branco para presidente – dado o histórico de críticas, factuais e verdadeiras, à gestão neoliberal e o centrismo do governo do presidente Lula. O fundamental é que os elementos reproduzidos no post não permitem essa conclusão, exceto para a lógica política do pânico do lulismo.

Objetivamente, a ausência de um nome, voto em branco, voto nulo, neutralidade política e apoio à extrema-direita são coisas radicalmente distintas. A acusação assenta no seguinte silogismo: há apenas duas posições legítimas, Lula ou Flávio Bolsonaro; a arte atribuída à campanha de Jones Manoel não indicava Lula; logo, Jones “acaba servindo como cabo eleitoral da extrema-direita”. A “colinha”, supostamente criada para ajudar o eleitor e agitação política, converte-se num teste de fidelidade. O espaço vazio passa a carregar mais intenção política do que os nomes efetivamente impressos.

A publicação não afirma expressamente que Jones seja bolsonarista ou algo do género, porque seria facilmente desmontado pelo papel que o mesmo tem tido no combate e debates públicos contra a extrema-direita (com milhões de visualizações). A operação é mais eficaz e astuta; a autonomia política de Jones Manoel produziria, independentemente das suas posições, da sua história ou da sua intenção, “objetivamente” o mesmo resultado desejado pelo bolsonarismo. Sem distinguir esta omissão no post (voto em branco, voto nulo e neutralidade política), a peça percorre abusivamente, para dizer o mínimo, a distância entre um campo vazio e a acusação de colaboração indireta com a extrema-direita. Jones Manoel é o objeto direto da acusação; por extensão, o objeto indireto é a esquerda socialista que recusa aceitar o lulismo e o PT como limite irrevogável da política possível no Brasil. Por isso, a linguagem do post abandona rapidamente o terreno da estratégia e entra na moralização política. Detalho. “Ter responsabilidade é para poucos”, afirma a publicação, antes de lhe atribuir a procura de “lacração”. Não se discute se a sua orientação eleitoral estaria certa ou errada, nem se pergunta qual deveria ser a relação entre autonomia socialista e uma suposta unidade antifascista em da volta na frente ampla do lulismo/petismo. Portanto, a divergência política é reduzida a uma questão individual (posição típica dos neoliberais, só que nesse caso, numa versão “progressista”): vaidade, irresponsabilidade, oportunismo digital. Em vez de responder ao programa de Jones Manoel (e da bancada da esquerda radical), o enquadramento funciona como tentativa de impor um dano reputacional à sua candidatura (com fortes chances de ser eleito deputado federal pelo estado de Pernambuco).

Por exemplo, a questão do Senado, embora secundária no meu entendimento, certifica a mesma lógica. Em Pernambuco, nas eleições de 2026, cada eleitor dispõe de dois votos para o Senado; por isso, apoiar Paulo Rubem numa das vagas não impedia o eleitor de votar noutro candidato para a segunda. A intenção de voto de 1% atribuída a Paulo Rubem na sondagem citada foi utilizada como sinal da sua alegada inviabilidade e, a partir daí, como argumento para o apresentar como fragmentador. Quando convertido em norma política, o argumento do voto útil pode produzir um circuito autorreprodutivo, porque uma candidatura minoritária recebe menos exposição, surge com baixa intenção de voto, é apresentada como inútil, perde apoios em nome do voto útil e permanece pequena; depois, a sua pequena dimensão é oferecida como prova de que nunca deveria ter tentado crescer. A sondagem eleitoral deixa de apenas descrever a correlação de forças e passa a prescrever quais candidaturas teriam legitimidade para disputar e procurar crescer. Não percebem a importância de ter um campo diverso à esquerda do PT, para alargar e politizar o próprio bloco social e eleitoral – observemos o que a extrema-direita brasileira tem feito, quantos candidatos eles têm? Estão a encurtar ou alargar o seu campo político?

Na lógica particular do post, há uma conceção patrimonial do eleitorado. Os votos da esquerda progressista parecem pertencer antecipadamente ao campo petista; qualquer candidatura socialista autónoma não conquista votos próprios, apenas “retira” votos aos seus legítimos proprietários. Assim, as forças dominantes são declaradas “responsáveis” por já serem grandes, enquanto as restantes são condenadas por permanecerem pequenas e impedidas, ao mesmo tempo, de deixar de o ser. Não se pretende uma disputa pela hegemonia, mas sim decreta-se que ela já tem detentores. Observemos a contradição. Na prática histórica do lulismo, as composições com partidos conservadores, empresários e figuras da direita são justificadas em nome da governabilidade, da maturidade e do realismo – leiam sobre Luciano Bivar. Modera-se o programa já moderado no afamado Congresso de 1991, repartem-se palanques e oferecem-se garantias aos de cima (aos liberais, ao centrão e aos conservadores). Mas quando uma força socialista apresenta candidatura própria, procura construir uma bancada independente ou recusa a subordinação integral ao lulismo, reaparecem subitamente a pureza da unidade e o perigo da divisão.

O principal é: não se trata de equiparar alianças distintas nem de negar as exigências da disputa parlamentar, mas de observar a assimetria dos critérios ético-políticos e morais utilizados. Em síntese: negociação para cima; disciplina para baixo. A direita pode entrar na coligação; a esquerda, quando diverge, passa a “trabalhar para a direita”. Certa vez escrevi uma frase que provocou a ira de muita gente: a política do lulismo é a barca de salvação da direita tradicional e a montanha que não permite nenhuma esquerda antissistema crescer à sua volta. É nesse contexto que a figura política do Jones Manoel se torna um problema político que ultrapassa a “colinha” eleitoral. Como referi, Jones Manoel tem vindo a conquistar visibilidade no debate público brasileiro como uma voz socialista e radical situada fora do campo lulista/petista, com forte circulação digital (na casa de milhões) e capacidade de disputar públicos que não se reconhecem na política do lulismo e do PT.

Todavia, o jovem intelectual negro e nordestino não é apenas um youtuber (como os desafetos políticos procuram nominá-lo a fim de deslegitimar), mas uma liderança política em formação e construção, com uma candidatura que procura vocalizar um projeto coletivo da revolução brasileira e, sobretudo, com a possibilidade de consolidar e liderar um campo político fora do lulismo/petismo. O post busca associá-lo a quatro marcas típica do pânico do lulismo tardio diante de um quadro político que possa triscar minimamente o hegemonismo do PT/lulista, como irresponsabilidade, oportunismo, divisão da esquerda e colaboração objetiva com a extrema-direita. A referida publicação é importante, por esse motivo tomei a decisão de escrever esse texto separado do ensaio alargado acerca da lógica política construída em torno do grupo político liderado por Lula da Silva, porque ela reproduz com nitidez a gramática política do lulismo tardio, ao utilizar um inimigo real para transformar uma liderança concorrente situada à esquerda do PT num inimigo interno a ser derrotado ou domesticado. Isto é, inscreve-se numa lógica que legitima como realistas as alianças lulistas com forças conservadoras e liberais, mas apresenta a autonomia do campo socialista como desvio moral; e transforma a necessidade de derrotar a extrema-direita num dispositivo que produz o efeito de deslegitimar a acumulação de força por uma esquerda que pretenda superar o lulismo/petismo – um processo que implica múltiplas contradições, uma delas é ter que estar num partido que apoia Lula da Silva desde a primeira volta das eleições presidenciais.

O retomo o nome da página como metáfora do lulismo tardio. O problema não está no verbo resistir em si. Mas quando a resistência se torna o horizonte inteiro, contém-se o adversário sem construir força capaz de lhe retirar a iniciativa, a emergência transforma-se em destino e a defesa permanente toma o lugar da vitória política e transformadora. Eis o fetiche da derrota na vitória eleitoral. Explico. Os adversários conservam a iniciativa, a esquerda administra o medo e cada nova ameaça serve para reduzir um pouco mais o horizonte do possível. Desse modo, quando a temporalidade mata as possibilidades de futuros, os neofascistas e sucedâneos estão a vencer, e o que mais me espanta é o marasmo que essa lógica política impõe quando vejo pessoas queridas do meu cotidiano a corroborar acriticamente essa política do pânico permanente.

Estão sempre dececionadas com uma liderança política que cresce fora do lulismo, é crítico contumaz das principais causas dos problemas estruturais do Brasil e enuncia um projeto alternativo ao petismo, mas têm uma benevolência com o governo neoliberal liderado por Lula da Silva e cada vez mais à direita. Combater o fascismo exige resistência e, sobretudo, uma esquerda mais forte, organizada, enraizada e capaz de oferecer um futuro que possa ser construído e não seja sinônimo de tradição, como tem enunciado o filósofo Vladimir Safatle, como uma questão central dos problemas e limites da esquerda social-liberal mundo afora. A extrema direita não pode ser o inimigo invocado para impedir que uma alternativa verdadeira antissistema cresça e não poderá ser derrotada duradouramente sem, entre outras condições, o fortalecimento de uma esquerda autónoma, organizada e capaz de disputar a sociedade. A unidade tática, quando necessária; independência estratégica e programática, continuamente – inclusive dentro das alianças políticas necessárias.

Resistir não é vencer. Uma esquerda que, para impedir o pior, interdita a revisão dos erros do presente e a construção de outro futuro acaba por converter a vitória eleitoral e a derrota política numa mesma identidade contraditória. O pânico e o medo tornam-se, então, o seu programa máximo: o menorismo.

 

Fonte: Por Carlos Hortmann, em A Terra é Redonda

 

Memórias do Jornalismo: Em 1964, vendo o golpe acontecer

Houve um erro de cálculo das forças populares em 1964. Pensaram que palavras por si mesmas podem transformar a realidade. O programa de reformas do governo de João Goulart causava alvoroço, mas enfrentava forte resistência e patinava. Sem diálogo à direita, Jango se aproximava da esquerda. Reunia-se com confederações e sindicatos de trabalhadores, portuários, estivadores, metalúrgicos etc. Recebia dirigentes do Partido Comunista Brasileiro (PCB), da organização católica de esquerda Ação Popular (AP), da União Nacional dos Estudantes (UNE) e das Ligas Camponesas de Francisco Julião. 

Havia muita manifestação, em que se destacavam os jovens de classe média. A UNE Volante andava pelo país fazendo programas de alfabetização e sindicalização rural, e propagandeando a reforma agrária. Os sindicatos de trabalhadores promoviam greve atrás de greve. As Ligas Camponesas falavam em “reforma agrária na lei ou na marra”. Generais e almirantes emponderados alardeavam a existência de um dispositivo militar que derrotaria qualquer tentativa de golpe. Todo esse aparato passava a impressão de ser muito forte. 

A esquerda estava em ofensiva, se achava próxima do poder, conforme declarou Luís Carlos Prestes. Mas a conspiração contra o governo se desenvolvia mobilizando e armando os setores conservadores, largamente predominantes na sociedade, com apoio da Igreja Católica. Os agentes secretos dos Estados Unidos estavam espalhados pelo país. O confronto se anunciava. 

Desde meados de 1963 eu estava trabalhando na revista O Cruzeiro, lotado na sucursal de São Paulo, sediada em algum andar do edifício dos Diários Associados, na rua 7 de abril, no centro da capital. Fui contratado pelo chefe de redação, o jornalista Audálio Dantas, então já famoso por ter descoberto uma escritora que vivia numa favela, Carolina Maria de Jesus, e por haver promovido a publicação de seu livro, Quarto de Despejo, com grande repercussão.   

Para chegar até ali eu havia passado por dois anos agitados. Desde a demissão do Estadão não parava em emprego. Enquanto trabalhava na Folha de S. Paulo eu me casei com Maria Lucia, que seria minha companheira e parceira por 64 anos. Durante minha estada na Folha, a equipe com a qual estava trabalhando se demitiu coletivamente. O jornalista Murilo Felisberto, que havia me trazido para o jornal havia sido demitido. E a equipe saiu em solidariedade a ele. Eram Sergio de Souza, Sergio Pompeu, José Carlos Marão, Woile Guimarães. Mylton Severiano da Silva. Esse pessoal iria se constituir numa espécie de confraria, da qual eu passei a fazer parte, que  no futuro seguiria junto, se apoiando mutuamente e realizando trabalhos de grande repercussão. 

Eu havia acabado de me casar e eles me aconselharam a não sair para não ficar sem dinheiro. Aceitei o conselho. Mas não fiquei muito tempo. Um mês depois deixei a Folha, um jornal mesquinho. Em seguida estive na sucursal do Jornal do Brasil brevemente; dali passei para o Jornal do Comércio. Pouco depois já estava na revista Transporte Moderno, da Editora Abril. 

Mas também não fiquei lá. Um ex-colega do Estadão, Alberto Gambirasio, me telefonou de Brasília com um convite para eu dirigir um jornal no Rio de Janeiro, chamado Folha de Brasília. O jornal seria produzido e impresso no Rio e distribuído em Brasília. O dono era um político oportunista do PTB com ambições no governo de João Goulart. Sedento de novidades, topei na hora. No final de 1962 fui para o Rio deixando Maria Lucia, e o filho dela, Rogério, que havia se tornado meu filho também, sozinhos no apartamento que alugávamos na rua Avanhandava esquina com a avenida Nove de Julho. 

O jornal era produzido nas instalações da Tribuna da Imprensa, então dirigido pelo soturno Hélio Fernandes. Quando eu ia fazer os pagamentos do contrato, me recebia sentado em uma escrivaninha em semiescuridão, não cumprimentava nem falava mais nada, apenas conferia o dinheiro. Já não tenho certeza, mas acho que o jornal se compunha de dois cadernos de 8 páginas. Com matérias compradas da Tribuna e textos vindos de Brasília. Eu fazia o jornal com a colaboração de um paginador e três ou quatro noticiaristas. Redigia as manchetes e um texto de primeira página retratando a conjuntura, que eu bispava dos outros jornais. 

Era dezembro, as escolas de samba faziam ensaios para o carnaval, já disputando popularidade. Nomeei um dos rapazes como setorista de carnaval, dava uma matéria quase todo dia com fotos. Era Mangueira num dia, Portela no outro, Vila Isabel, assim por diante como a Última Hora. Tinha palavras cruzadas e, pasmem! a coluna de Nelson Rodrigues, que me telefonava toda semana me cobrando os pingues mil réis que a coluna, distribuída por todo o Brasil, custava.  Eu, com 23 anos e ele, com um vozeirão rouco de fumante inveterado, me chamando “Senhor Azevedo” pelo telefone. Nunca nos encontramos. 

Maria Lucia não se conformou. Ela sempre dizia que casamento não dá certo quando cada um fica para um lado. Levou Rogério para casa de seus pais, tomou um ônibus e veio ficar comigo. Talvez temesse que uma carioca me pegasse. 

Mesmo que quisesse eu nem tinha tempo para aventuras. Trabalhava umas 16 horas por dia, desde a preparação do jornal até levar com uma kombi, de madrugada, o reparte para um avião da Varig. E tinha de pagar o frete à vista. E cair na cama. 

Mas as coisas não iam bem. Faltava dinheiro, a equipe ensaiou uma greve. E o patrão não estava satisfeito, achava minhas manchetes muito para a esquerda.  Rompemos e Maria Lucia e eu viemos embora, de mãos abanando, dias antes do carnaval de 1963. 

Em São Paulo arranjei emprego no jornal católico Brasil Urgente. Mas faltou dinheiro e me mandaram embora. Com amigos do PCB consegui um lugar no Diário da Noite, dos Diários Associados de Assis Chateaubriand. Audálio Dantas gostou de uma matéria e me convidou para O Cruzeiro. Por sugestão minha Audálio contratou mais dois repórteres, José Carlos Marão e Hamilton Almeida Filho (HAF), este um novato na confraria. 

A radicalização tomava conta do país. Em 13 de março, no comício da Cinelândia, no Rio de Janeiro, Goulart foi radical. Corriam boatos de que ele planejava dar um golpe. Em resposta, a Marcha da Família com Deus tomou as ruas de São Paulo e repercutiu muito. 

Em seu livro, já citado em outro texto desta série, Claudio Abramo registra esse momento: “dia 28 de março Jango mandou um avião me buscar em São Paulo. Disse-lhe que Adhemar de Barros estava conspirando. Alertei-o de que dias antes o dr. Julinho havia visitado Assis Chateaubriand, que aquilo era sinal seguro de que o golpe estava na rua (…) Disse para Darcy (Ribeiro) que o general Amaury Kruel, comandante do II Exército, sediado em São Paulo, ia aderir a Adhemar. Darcy me respondeu que não, porque Kruel era compadre de Jango (…) Cheguei a São Paulo e disse à minha mulher que o golpe era inevitável”. 

Três dias depois, em 31 de março, quando o general Mourão começou a deslocar suas tropas de Minas Gerais, tateando o terreno e não encontrando oposição, o tão falado dispositivo militar do governo não apareceu. Os grandes sindicatos e a inflamada juventude haviam promovido muita agitação, mas não tinham armas nem estavam preparados para a luta armada. Julião também não havia armado os camponeses. 

Ainda acreditando que o dispositivo militar do governo ia confrontar Mourão, me ofereci para ir acompanhar o movimento das tropas. Mas Jorge Ferreira, que era o diretor geral da sucursal, não autorizou. Ficamos ali na redação trocando ideias, fazendo suposições sobre os futuros acontecimentos. 

Em primeiro de abril João Goulart estava no Rio de Janeiro, foi para Brasília. De lá voou para Porto Alegre onde Leonel Brizola já ensaiava a resistência. O presidente contava com alguns generais amigos, como o comandante do Segundo Exército, de São Paulo. Mas este terá sido convencido, ao que se diz por um bom punhado de dólares, e juntou-se aos golpistas. 

Jango continuava em território nacional, mas o senador Auro de Moura Andrade, grande empresário paulista, presidente do Congresso, praticou uma vilania ao considerar que ele havia abandonado o governo ao deixar Brasília e decretou seu cargo vago. 

Brizola e militares do Exército no Rio Grande do Sul, na época o mais poderoso do país, propuseram a resistência ao presidente. Mas João Goulart não concordou e viajou para o Uruguai, onde possuía fazendas de gado, e pediu asilo político ao país vizinho. Nessa ocasião Leonel Brizola rompeu definitivamente com o cunhado. 

Na noite de primeiro de abril, assisti a um dos mal-sucedidos arroubos de resistência ao golpe de Estado. Acompanhado do colega Mylton Severiano da Silva, que depois seria apelidado de “Miltainho”, me postei na frente do prédio da sede da Companhia Telefônica, na rua 7 de abril, a 200 metros do prédio dos Diários Associados. Ali havia profusão de policiais. 

O motivo:  Nelson Gatto, um jornalista setorista de assuntos policiais dos Diários, conhecido como valentão e que andava armado, estava me causando uma grande surpresa. Acompanhado de alguns sargentos e outros companheiros havia invadido e tomado posse à mão armado da sede da Telefônica. Estavam entrincheirados num andar superior. Policiais entravam e saiam. Reparei que um policial gordo saiu porta afora, esbaforido, em pânico, ensopado de suor. 

Mais tarde fiquei sabendo que Gatto era janguista. Sua resistência, porém, não durou muito. Pelo que sei não houve tiros. Depois de horas sem luz e alimentos, ameaçados pelos policiais, os rebelados se renderam. Depois de alguns dias foram conduzidos a uma prisão flutuante junto com muitos outros, a bordo do navio da Marinha Raul Soares, ancorado na Bacia de Santos. Ali foram mantidos pelos golpistas por muitos meses, submetidos a precárias condições de alojamento e alimentação.   

Em primeiro de abril, o estudante baiano Duarte Brasil Lago Pacheco Pereira, vice-presidente da UNE, estava no exercício na presidência porque José Serra estava, como sempre, viajando. Duarte se preparava para deixar o Rio de Janeiro enquanto a sede da UNE era incendiada pelos golpistas. Ele era dirigente da Ação Popular, agremiação católica progressista, assim como Serra. A AP tinha influência nos debates políticos com Jango e seus ministros. Duarte me contou mais tarde que naqueles dias febris de fevereiro e março de 1964, ele, como representante de Ação Popular, se opôs e impediu uma proposta de autogolpe de Goulart, sugerido pelo entorno do presidente. 

Reunindo outros dirigentes da UNE, ele viajou de automóvel para a Bahia com a disposição de organizar a resistência. O grupo foi para Feira de Santana, cujo prefeito, o sempre aguerrido Chico Pinto, também se preparava para a resistência armada. Por lá ficaram vários dias, mas não encontrando apoio, acabaram por desistir e se dispersar. 

Nos dias seguintes sucediam-se milhares de prisões de civis e militares pelo país, cassações de mandatos parlamentares e executivos, de lideranças sindicais. Comunistas, dirigentes da Ação Popular, lideranças da UNE que não caíram na clandestinidade, foram presos. No campo, militares e latifundiários promoviam massacres de líderes camponeses. Ditadura! 

Eu, como todo mundo, me surpreendi com a falta de resistência aos golpistas. Quando se deram conta de que as forças armadas não se dividiam, avançaram para o poder.  Quanto a mim, ainda não tinha militância política, não me incomodaram. Continuei em O Cruzeiro até julho de 1964, quando fui convidado para trabalhar na revista Quatro Rodas, da Editora Abril. 

Como eu contei no livro Cicatriz de Reportagem, a repercussão do golpe militar de abril de 1964 na redação da revista Quatro Rodas foi dramática. Um dos jornalistas que trabalhavam lá, tentando tornar-se o diretor da revista, foi aos patrões e denunciou a equipe, chefiada por Paulo Patarra, como sendo uma célula comunista. O momento era propício, havia uma caça às bruxas…  Mas não deu certo. O diretor de Quatro Rodas, Mino Carta, o diretor, defendeu sua equipe, o patrão concordou com ele, o acusador foi mandado embora. 

Patarra e seus companheiros saíram fortalecidos do episódio. Participavam do grupo José Hamilton Ribeiro, José Roberto Pena, Expedito Marazzi, George Duque Estrada, Pedro Cortizas Dominguez. Em seguida, Mino Carta deixou a Abril e foi para o Estado de S. Paulo, fazer a Edição de Esportes, um jornal que saía domingo à noite com a cobertura dos jogos de futebol. Foi o embrião do diário Jornal da Tarde

Patarra assumiu a direção. Abriram-se algumas vagas na equipe e ele convidou Sérgio de Souza para ser editor de texto. E, acho que por sugestão deste, me convidou para trabalhar como repórter. A proposta era ótima. Aceitei, pedi demissão de O Cruzeiro e fui tirar um mês de férias, que passei com minha família numa fazenda às margens do rio Paraná, no Pontal do Paranapanema. 

Em agosto, assumi na Quatro Rodas, e fui recebido com uma surpresa por Paulo Patarra: que tal fazer um mapa turístico dos índios do Brasil? Era um projeto audacioso que me levaria a várias regiões do país para mostrar onde moravam e como viviam as tribos indígenas remanescentes. 

Sabia-se que a Editora Abril estava programando o lançamento de uma nova revista, mensal, de reportagens, que viria a ser a Realidade – e o Patarra queria dar uma demonstração à empresa de que a equipe de Quatro Rodas estava em condições de fazer essa revista. Por isso, ele pensou no projeto dos índios, matéria totalmente diferente dos tradicionais roteiros turísticos de Quatro Rodas

Durante duas semanas entrevistei antropólogos e etnólogos, debrucei-me sobre livros na Universidade de São Paulo. Descobri a obra de Darcy Ribeiro, a quem não pude entrevistar porque naquele momento amargava o exílio no Uruguai. Depois de estudar o assunto, pedi uma reunião com o Patarra e o pessoal da equipe para expor uma dúvida. A situação dos índios era trágica, as tribos estavam sendo dizimadas pelo contato com a civilização. 

Como fazer uma matéria de turismo, divulgar mapas com estradas e localização das aldeias, convidando as pessoas a ir lá? Minha pauta era de uma denúncia contra a destruição das tribos. Mostrei os dados que havia recolhido, sobre as tribos que tinham sido extintas e as que estavam sendo exterminadas na época. O Paulo respondeu: “Faz de conta que a gente não sabe. Vai lá e faz!” 

Viajei por 3 meses e meio quase continuamente pela Amazônia. Maria Lúcia estava grávida e ficou com Rogerio no apartamento da rua Avanhandava esquina com Nove de Julho enquanto eu mergulhava no sertão sem dar notícia. Havia partido em meados de setembro, voltei dias antes do Natal. Ela estava com uma barriga grande, esperando nosso filho Luciano, 

A empresa só ficou conhecendo o conteúdo da matéria quando ela já estava nas provas! Isso era bem do Patarra… 

A matéria, Paz para o índio vencido, veio a público na edição de fevereiro de 1965. Com muitas fotos, ocupou, se não me engano, umas 20 páginas de Quatro Rodas. Como explicar uma reportagem sobre índios numa revista de automóveis?  Depois disso passei a ser o editor do caderno de automobilismo, Alta Rotação. 

Luciano nasceu em 26 de março de 1965. Acompanhei o parto, cesariana. Mas à noite Maria Lucia ficou na maternidade em companhia de sua amiga Moema Aidar. Eu tive quer ir cobrir uma corrida de automóveis, as 24 Horas de Interlagos, pela noite afora. 

 

Fonte: Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

 

 

Para enfrentar o cancelamento da política

Numa recente entrevista realizada por Simone Pieranni com Wang Hui – provavelmente a figura mais proeminente da New Left chinesa – o influente pensador político dedica amplo espaço à discussão de dois conceitos: a “política da despolitização” e a “repolitização”.

Retomando em traços muito gerais aquilo que Wang Hui aí relatou, a despolitização não é, como o termo pareceria sugerir, a ausência da política tout court. É antes a apresentação de atos, discursos, estratégias na base de protocolos de alegada neutralização, ou tecnicização, dos mesmos, com o objetivo de os subtrair à disputa política, estigmatizando e criminalizado os seus detratores.

A neutralização propõe uma universalidade de valores assentes nos conceitos aparentemente indiscutíveis de progresso tecnológico, predisposição genética, centralidade do QI, confiança na capacidade dos melhores para produzirem aquilo de que precisamos, o direito de acederem, custe o que custar, àquilo que for necessário para um desenvolvimento apresentado como infinito e imparável. Por trás disto tudo – como demonstrou recentemente Quinn Slobodan – há uma escolha política precisa, com objetivos claros. É a mesma, parece, que Wang Hui reconduz à política da despolitização.

Mais uma vez, são os EUA que definem as linhas ao longo das quais se articula este novo rumo. Não é tudo fruto da atual administração, ainda que o trumpismo represente, sob muitos aspetos, a sua extremização. Em termos gerais, esta política é, ou apresenta-se como, a resposta ao estado de crise em que se encontra o Ocidente, pelo menos a partir do 2008.

A política da despolitização vai além das formas mais consolidadas de relação neoliberal entre mercado e instituições, público e privado. Impulsiona novos cenários de que, com diferentes graus de consciência, somos todos testemunhas. Sustentada pelo impacto da IA no andaime institucional, nas formas de organização do trabalho, nas configurações sociais, na vida na sua acepção biológica e social mais ampla, a política da despolitização apresenta-se hoje como a antítese da ética em política.

O que estamos vivenciando não pode ser visto apenas como mais uma etapa na longa e linear vida do capitalismo. Não basta chamar a visão despolitizada dos novos patrões do mundo como “fim da história”. O que os anima é a convicção de se encontrarem no início de uma nova história, onde o desenvolvimento tecnológico disruptivo já não deixa espaço para as leituras éticas do agir político do século XX.

Aí encaixam-se as projeções transumanistas de superação da morte, a redefinição escatológica do destino do mundo, a identificação em tons bíblicos dos inimigos da sua ideia de progresso. Neste contexto, a guerra, declinada em muitas formas diferentes, assume a função purificadora em relação ao mau, ao Anticristo. Este último não passa de tudo o que se interpõe à produção do futuro definido pelo seu “projeto teológico secularizado”, como é definido por Rafael Azzi.

Quer se trate de guerra ao ambiente, aos pobres, ao que sobra do Estado social, em nome de um “desenvolvimentismo” que não faz prisioneiros, ou quer se entenda no sentido mais tradicional do termo, a política da despolitização encontra na guerra a sua mais coerente e elevada expressão. Para Wang Hui, aliás, a guerra não é nada mais do que a continuação direta da politica da despolitização. E, acerca disso, parece difícil produzir argumentos que refutem a sua tese.

O sucesso dessa política reside na capacidade de penetração e condicionamento tanto da nossa vida ativa cada vez mais conectada, como do nosso inconsciente offline. A este respeito, um outro intelectual chinês, Yuk Hui, prefere, ao examinar o padrão econômico e cultural dominante, pôr a ênfase sobre os processos de desindividuação, como consequência do predomínio das pulsões em relação à economia da libido. Daí surge a necessidade de uma nova individuação do pensamento, “para cuja realização a tecnologia é fundamental”, dado que o próprio uso atual da tecnologia deve ser visto como a causa principal da desindividuação.

A nova individuação proposta por Yuk Hui traz, portanto, ao nível da vida do sujeito o conceito de repolitização que Wang Hui analisa colocando-o num plano relacional mais abrangente.

Afirmar a necessidade de repolitizar as relações não significa desconhecer a multiplicidade de ações políticas novas e diversas que parecem apresentar, em muitos terrenos, níveis de participação popular às vezes bastante elevados. Não é este o ponto, ou, se quisermos, isto é apenas um lado do processo de repolitização de que se quer falar. Talvez, felizmente, o menos problemático. Da Europa às suas fronteiras externas (Albânia e Sérvia), e a muitos outros países, entre os quais Quênia e Índia, sem esquecer experiências particulares nos EUA, assiste-se a uma contínua propagação de protestos politicamente importantes e eficazes.

O assunto da repolitização diz respeito tanto a ações políticas institucionais como ao “político” de modo mais amplo Este deve ser entendido como o sentido geral do agir que redefine as prioridades e os valores, com base numa contraposição antagônica ao estado de coisas presente. A sua fundamentação não é abstrata, mas sim enraizada nas lutas políticas que a ele remetem.

O “político” não é a somatória daquelas ações, mesmo quando existam analogias e pontos de contato entre elas. Remete ao conceito de hegemonia, entendida no sentido gramsciano de luta cultural na dimensão ético-política. Um conceito que Laclau aplicou à ideia de cadeias equivalentes crescentes entre sujeitos e ações, para a definição de uma democracia radical.

Este “político” constitui, portanto, o quadro de referência antagônico, a que as variadas ações remetem e que, ao mesmo tempo, cada uma delas contribui a formar. Existe uma relação de reciprocidade entra os dois elemento: é este que define o percurso de constituição da hegemonia.

É um percurso que tem de ser ativado, trazido à tona. As cadeias equivalentes e as articulações entre sujeitos que produzem ações políticas são a nervura e o arcabouço deste percurso.

Com base naquilo que foi dito, o elemento que pode constituir-se como quadro de referência da potência coletiva das ações deste novo “político” é a “guerra à guerra”. Este parece ser hoje o significante capas de pôr em movimento um projeto hegemônico de amplo alcance.

A guerra na sua acepção mais ampla é, como se disse, é a continuação da política da despolitização. Combatê-la com as armas da repolitização significa tornar cada ação que a contraste uma peça do novo projeto hegemônico que queremos levar a cabo.

Para tal efeito, precisamos produzir elementos convincentes, que não se limitem a contrapor. Precisamos de novos nomes. A guerra que queremos travar à guerra (ao ambiente, por exemplo) tem de afirmar que tipo de relação propomos entra a sociedade humana e a natureza; o que significa desenvolvimento, produção e consumo numa prospetiva ecossocialista, como defende Sabrina Fernandes.

O mesmo pode-se dizer para a guerra contra a guerra aos sujeitos marginais, à saúde e escola pública, ao direito a uma vida digna, a uma casa, um rendimento. O mutualismo pode oferecer soluções? Ajuda a definir um modelo societário em que investir, por estar subtraído à ganância e à valorização direta do capital?

O combate às guerras genocidas que utilizam armas produzidas direta ou indiretamente nas nossas cidades, e que transitam no comércio internacional, necessita acrescentar novas alianças àquelas que já existem, para promover ações eficazes e duradouras. O que já está ocorrendo é importantíssimo, mas não basta: a luta tem de encontrar formas de se estender não apenas na horizontal, mas também na vertical, ao longo da cadeia de abastecimento.

Os novos meios computacionais de organização, produção e controle devem tornar-se um campo de batalha, uma passagem estratégica da supply chain onde intervir. Os hackers, tal como os entende MacKenzie Wark, isto é os produtores de informações e métodos de uso dos sistemas contra os patrões vetorialistas, são um sujeito de importância vital.

* * *

A criação de cadeias equivalentes e a articulação entre sujeitos diferentes produzem saber, cuidado, solidariedade, consciência e potência. É aí onde o político fica reforçado e reforça a expansão das lutas num ecossistema que não tem confins predefinidos.

A sua dimensão define-se com base do funcionamento de uma ecologia, onde tudo coevolui e onde a distribuição das ações não é sinónimo de fraqueza, mas de variabilidade não totalizável de uma rede.

* * *

A cidade apresenta-se como o laboratório ideal onde a repolitização pode assumir materialidade e visibilidade imediata, onde é possíve experimentar um percurso que tenha como objetivo a criação de uma nova hegemonia cultural e ético-política.

Esta nova hegemonia encontra sustentação e força na ideia de cidadania ativista, que redefine as posições e as prioridades de quem vive e transforma os espaços urbanos diariamente, dentro e contra as transformações que lhe são impostas.

As articulações, os pontos de sutura entre as ações distribuídas dos sujeitos, cada um com a sua própria especificidade, contribuem para definir e ampliar o significado de “Guerra à guerra”.

Se isto significar subtrair-nos, pelo menos parcialmente, à asfixia avassaladora e criminosa que nos cerca, a guerra à guerra poderá tornar-se então a maneira de recomeçarmos a respirar coletivamente.

Aconteceu à época das cidades rebeldes, acontece hoje com a Nova York de Mamdani. As cidades, às vezes surpreendem-nos pela capacidade de transformação que demonstram, devido à autonomia, ou soberania, que as distingue e que fez com que, no passado, fossem vistas como âmbitos “ilegais”. Se a história se repetir, não teremos outra escolha senão estar, sem remorso, do lado da ilegalidade.

 

Fonte: Por Stefano Rota, em Outras Palavras

 

Cardiologia mundial redefine o conceito de infarto e reforça: exame de sangue alterado, sozinho, não fecha o diagnóstico

Um mesmo resultado de troponina alta no sangue pode significar um infarto —ou uma entre mais de uma dezena de outras condições que nada têm a ver com entupimento de artéria. É em torno dessa distinção que as principais sociedades de cardiologia do mundo reorganizaram a forma de definir e classificar o infarto do miocárdio.

A mudança está na 5ª Definição Universal de Infarto do Miocárdio, publicada nesta sexta-feira (28) no periódico European Heart Journal. O documento aposenta a classificação que separava os casos em tipos 1, 2, 3, 4 e 5 e passa a agrupá-los conforme o mecanismo que desencadeou a lesão no coração.

Foi elaborado em conjunto pela Sociedade Europeia de Cardiologia (ESC), pelo American College of Cardiology (ACC), pela American Heart Association (AHA) e pela World Heart Federation (WHF), com especialistas de 12 países e cinco continentes.

<><> De cinco, três

Os casos passam a ser distribuídos em três grandes grupos, definidos pela origem do problema. O infarto primário nasce em uma alteração aguda da própria artéria coronária. O secundário aparece quando outra doença desequilibra a relação entre o oxigênio que chega ao coração e o de que ele precisa. E o relacionado a procedimento surge como complicação de uma intervenção cardíaca.

Antes, cada infarto ganhava um número conforme o mecanismo e o contexto do evento, mas algumas dessas gavetas juntavam situações muito diferentes. O antigo tipo 2 abrigava tanto problemas agudos da própria coronária —como dissecção, embolia ou vasoespasmo— quanto quadros em que outra doença fazia o coração receber menos oxigênio do que precisava.

Para os autores, era uma estrutura difícil de aplicar do mesmo modo em toda parte e que nem sempre revelava o mecanismo por trás do evento. Amarrar a classificação à origem do infarto, resume o cirurgião cardiovascular Ricardo Kazunori, da BP - A Beneficência Portuguesa de São Paulo, é o avanço mais direto da revisão.

<><> Infarto primário: o problema começa na artéria

O infarto primário se dá quando há uma alteração aguda na circulação coronariana —o conjunto de artérias que leva sangue ao músculo do coração. A causa mais comum continua sendo a aterotrombose: uma placa de aterosclerose na parede do vaso se rompe ou sofre erosão, favorece a formação de um coágulo e esse coágulo reduz ou interrompe o fluxo de sangue.

Agora a categoria reúne também outros mecanismos agudos das coronárias, como a dissecção espontânea da artéria, a embolia, o vasoespasmo, a reestenose ou trombose de stent em certas situações e a falha de enxerto quando ocorre mais de 30 dias após a revascularização.

O ponto em comum, explica Kazunori, é a origem: todos partem de uma alteração aguda da própria coronária. Identificar qual deles está em jogo continua decisivo, porque mecanismos distintos podem pedir investigação e tratamento diferentes —daí o peso que a definição dá à angiografia coronariana e a exames capazes de mostrar o que aconteceu dentro do vaso.

<><> Infarto secundário: outra doença sufoca o coração

No infarto secundário, não é preciso haver uma obstrução aguda da artéria por um coágulo. O que ocorre é um descompasso: outra condição faz o oxigênio que chega ao coração ficar aquém do que o órgão precisa naquele momento.

A oferta pode cair —numa anemia importante, numa baixa oxigenação do sangue ou numa pressão muito baixa— ou a demanda pode disparar, como em certas taquicardias e na hipertensão intensa.Kazunori cita a hemoglobina muito baixa de uma anemia grave, ou uma hipoxemia, como exemplos de oxigênio insuficiente chegando ao músculo.

Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp), lembra dos quadros mais graves, como o choque séptico, em que o infarto surge como desdobramento de outra doença.

É nessa categoria que a nova definição aperta o critério. Ter uma doença capaz de gerar o desequilíbrio e apresentar troponina alta não basta: é preciso reunir evidência de que houve isquemia e lesão do músculo cardíaco compatíveis com um infarto —o que ajuda a separar quem de fato infartou de quem tem uma lesão no coração provocada por outro processo.

<><> Complicações de cateter e cirurgia sob mesmo guarda-chuva

O terceiro grupo reúne os infartos ligados a procedimentos cardíacos, como intervenções por cateter e cirurgias, em que o evento decorre de uma complicação que compromete a circulação do coração. Antes, procedimentos percutâneos e cirurgia de revascularização tinham categorias separadas, com critérios que exigiam troponina cinco ou dez vezes acima do limite de referência.

A nova proposta uniformiza esses diagnósticos, abandona os múltiplos do marcador como base principal e passa a considerar complicações do procedimento dentro de uma janela de até 30 dias, com critérios objetivos de imagem e de lesão do músculo.

Kazunori ilustra: a pessoa que vai colocar um stent e sofre uma complicação que fecha uma artéria, ou quem faz uma cirurgia de revascularização e tem um problema numa anastomose que leva ao infarto. A ideia é distinguir uma variação nos marcadores, comum depois de qualquer intervenção, de um infarto realmente provocado por uma complicação relevante.

<><> O antigo tipo 3 deixa de existir

A revisão não só cria grupos: também apaga uma categoria. O infarto tipo 3 nomeava a morte cardíaca em que o infarto era a causa provável, mas o paciente morria antes que os exames de confirmação pudessem ser feitos.

Esses casos passam a ser enquadrados como primários, secundários ou relacionados a procedimento, conforme o contexto clínico ou os achados de autópsia, quando houver.

<><> Exame de sangue não diz sozinho qual foi a causa

A troponina está no centro dessa investigação porque funciona como um marcador de lesão das células cardíacas —uma proteína do músculo do coração que escapa para a corrente sanguínea quando essas células se lesionam. Pela nova definição, existe lesão miocárdica aguda quando seus níveis sobem e/ou caem ao longo das medições e ao menos um resultado ultrapassa o percentil 99 fixado como limite de referência do exame.

Isso, por si, não equivale a um infarto. A troponina também sobe em situações como miocardite, sepse, insuficiência cardíaca aguda, embolia pulmonar, hipertensão grave, síndrome de Takotsubo, AVC, crises epilépticas, exercício físico intenso e alguns tratamentos contra o câncer.

A fronteira, resume Kazunori, está na isquemia: se o marcador sobe e há critérios de isquemia, cabe falar em infarto; se sobe sem esses critérios, é preciso procurar outra causa. Para confirmar o diagnóstico, o médico avalia o quadro inteiro —além da troponina, pesam sintomas compatíveis, alterações novas no eletrocardiograma e exames de imagem—, e o próprio consenso reconhece que nenhum critério isolado dá conta de todos os casos.

Há ainda um cenário em que a troponina permanece alta sem lesão nova: a lesão miocárdica crônica, quando o marcador fica persistentemente elevado num paciente estável, por doenças cardíacas crônicas ou outras alterações na estrutura do coração.

A função dos rins entra nessa leitura, já que a menor capacidade de eliminar a troponina da circulação pode manter os níveis altos. Por isso, muitas vezes não importa só quanto o exame marca, mas como esse valor se comporta ao longo do tempo e conversa com os demais achados.

<><> Mulheres passam a ter valores de referência próprios

A nova definição reforça o uso de limites de troponina específicos para cada sexo. O percentil 99 de referência costuma ser mais baixo entre mulheres, e aplicar um único ponto de corte aos dois sexos abre espaço para que lesões cardíacas —infartos inclusive— deixem de ser reconhecidas em algumas pacientes.

Adotar valores por sexo, segundo o consenso, reduz esse viés e o risco de subdiagnóstico feminino. A diferença não é só laboratorial, observa Kazunori: o ponto de corte adotado é o que define quais pacientes seguem para investigação adicional e quais são liberados.

<><> MINOCA vira ponto de partida, não conclusão

Outro conceito revisto é o MINOCA, sigla aplicada a pacientes com lesão cardíaca e coronárias sem obstrução importante.

A 5ª definição passa a tratá-lo como "lesão miocárdica com artérias coronárias não obstrutivas" e, mais do que isso, como um diagnóstico de trabalho —uma etapa, não o fim da linha. Encontrar troponina alta sem obstrução significativa não encerra a busca pela causa; é, nas palavras de Kazunori, um cenário que leva a investigação a outro nível.

Exames como a ressonância magnética cardíaca e métodos mais detalhados de avaliação das coronárias ajudam a separar um problema coronariano de outras doenças capazes de agredir o músculo.

<><> Imagem ganha protagonismo

Os exames de imagem assumem um papel maior tanto para confirmar o infarto quanto para identificar seu mecanismo. A angiografia coronariana invasiva segue como referência para avaliar as coronárias em pacientes selecionados e pode revelar não só a obstrução, mas qual alteração aguda está por trás dela; conforme o caso, ecocardiograma, tomografia das coronárias e ressonância magnética cardíaca também entram.

Reunir essas informações, e não olhar apenas para a troponina, é o que fecha o diagnóstico, diz Kazunori —algo especialmente útil nos casos menos típicos, em que sintomas e eletrocardiograma não dão resposta clara.

<><> Um diagnóstico possível onde faltam exames

O documento dedica atenção especial aos serviços de saúde sem acesso a exames laboratoriais e a métodos avançados de imagem, ponto que Mattar faz questão de destacar.

O pano de fundo é um contraste: em 2021, o mundo registrou 31,9 milhões de novos casos de doença isquêmica do coração, 31,8% a mais do que em 2010, enquanto o acesso aos recursos para diagnosticar um infarto segue desigual. Um estudo citado no consenso mostrou que, em Uganda, apenas 43% dos serviços avaliados tinham dosagem de troponina e 55% dispunham de eletrocardiograma.

Para esses lugares, a diretriz fixa critérios próprios: o diagnóstico pode ser presumido quando o paciente tem sintomas compatíveis com isquemia somados a alterações características no eletrocardiograma, como novas mudanças isquêmicas ou o surgimento de ondas Q patológicas.

Sem troponina nem imagem aprofundada, explica Mattar, o médico se apoia na clínica, no tipo de dor e no eletrocardiograma —e autorizar esse diagnóstico presumido ajuda o profissional de uma região carente a agir a tempo, evitando que alguém em pleno infarto seja liberado sem tratamento.

O consenso menciona, ainda, a telemedicina na leitura de eletrocardiogramas e a expansão dos testes de troponina no próprio ponto de atendimento.

<><> Por que a mudança pode mexer nas estatísticas

Classificar um infarto não interfere apenas na ficha do paciente: é essa etiqueta que define como os casos entram nas bases de internação e mortalidade, como estudos clínicos selecionam participantes e como países comparam resultados.

A contabilidade, porém, emperra: a expansão dos testes de troponina de alta sensibilidade e a definição anterior elevaram em 11% os diagnósticos do antigo tipo 1 e em 22% os do tipo 2, mas, em dois países europeus, menos de 20% dos pacientes que preenchiam os critérios da antiga definição para o tipo 2 chegaram a receber um código de infarto na CID-10.

Para estreitar essa distância, a nova classificação foi construída com a Organização Mundial da Saúde e propõe códigos da CID-11 capazes de diferenciar os infartos primários, secundários e relacionados a procedimentos, além de separar os eventos com e sem elevação do segmento ST no eletrocardiograma.

Ao reduzir as categorias e prendê-las ao mecanismo que causou a lesão, os autores esperam aproximar o que o médico encontra no atendimento do que é registrado nas estatísticas e estudado nas pesquisas.

 

Fonte: g1

 

A esquerda, a máquina e o capital

A inteligência artificial não vai desaparecer porque denunciamos seus riscos. A questão decisiva do século XXI é quem controlará a técnica, para quais fins e em benefício de quem. Se a luta de classes chegou aos algoritmos e à inteligência artificial, abandonar esse território não é resistência. É entregá-lo ao adversário.

<><> A esquerda está fazendo a pergunta errada

A esquerda tem razões de sobra para desconfiar da inteligência artificial. Ela nasce, em sua forma dominante, concentrada nas mãos de algumas das corporações mais poderosas da história, alimentada por volumes colossais de dados, infraestrutura computacional, energia e trabalho humano. Pode eliminar postos de trabalho, intensificar a exploração, ampliar a vigilância, automatizar decisões e concentrar ainda mais riqueza e poder. O diagnóstico é correto. O problema começa quando dele se extrai a conclusão errada.

Diante da inteligência artificial, boa parte da esquerda ainda pergunta o que a tecnologia fará conosco: quantos empregos destruirá, quais profissões substituirá, quanto poder entregará às Big Techs, quais capacidades humanas atrofiará. São perguntas necessárias. Mas são perguntas de quem observa a transformação tecnológica como objeto, não de quem pretende disputá-la como sujeito. A pergunta estratégica é outra: o que a classe trabalhadora pretende fazer com a inteligência artificial?

É precisamente nesse deslocamento que aparece a tecnofobia. Não na crítica à IA, que é indispensável; não na defesa de limites, regulações ou mesmo da proibição de tecnologias socialmente inaceitáveis; mas no momento em que a crítica à técnica sob o capitalismo se converte em recuo diante da disputa pela própria técnica. Porque a inteligência artificial não desaparecerá por ser perigosa. O capital tampouco renunciará a uma força capaz de ampliar produtividade, reorganizar o trabalho, concentrar conhecimento e produzir poder. Enquanto discutimos se deveríamos temê-la, outros estão decidindo quem a possui, como será construída e para que servirá.

É aqui que a tecnofobia deixa de ser apenas uma insuficiência de leitura e se torna um erro estratégico. Uma força política pode compreender perfeitamente os perigos de uma tecnologia e ainda assim fracassar em compreender o poder que existe em controlá-la. E nenhuma tecnologia desaparece porque aqueles que não a controlam decidiram recusá-la. Ela apenas continua sendo desenvolvida por quem tem capital, infraestrutura e capacidade para fazê-lo.

A esquerda pode, portanto, estar certa sobre quase todos os perigos da inteligência artificial e ainda chegar à conclusão política errada. A questão decisiva não é escolher entre aceitar a técnica ou resistir a ela. É decidir quem terá poder para determinar seus rumos.

<><> Marx já havia separado a máquina do capital

Há quase dois séculos, Marx enfrentou uma confusão que retorna agora sob novas formas. Ao analisar as revoltas operárias contra a maquinaria, escreveu em O Capital que foi preciso “tempo e experiência” para que os trabalhadores aprendessem a distinguir a máquina de seu emprego pelo capital e, assim, deslocassem seus ataques do instrumento material para a forma social que o convertia em arma contra eles. A distinção é decisiva: a máquina não é o capital.

Isso jamais significou neutralidade. Marx descreveu com brutal precisão o que acontece quando a maquinaria entra na produção submetida à valorização do capital: ela pode disciplinar o trabalhador, intensificar o ritmo, desqualificar saberes, ampliar a exploração e transformar o ganho de produtividade em desemprego. A técnica incorpora relações de poder, reorganiza o processo de trabalho e pode confrontar quem trabalha como uma força hostil. Mas é precisamente aí que começa a análise materialista, não onde ela termina.

A contradição está no fato de que a máquina capaz de eliminar trabalho necessário contém uma possibilidade que o próprio capitalismo converte em ameaça. Se uma inteligência artificial permite realizar em duas horas o que antes exigia oito, há pelo menos duas perguntas possíveis: quantos trabalhadores poderão ser dispensados ou quanto tempo de vida poderá ser devolvido a quem trabalha? A capacidade técnica é reduzir trabalho. Transformar essa capacidade em desemprego, precarização ou redução da jornada é uma decisão determinada pelas relações de propriedade, poder e distribuição.

É por isso que a tecnofobia produz uma inversão tão problemática para a esquerda. Desde quando uma tradição fundada na crítica das relações de produção passou a localizar na capacidade da máquina de poupar trabalho o problema que deveria procurar na sociedade que transforma essa economia de trabalho em ameaça à sobrevivência? O escândalo não é uma máquina poder trabalhar por nós. O escândalo é termos organizado uma sociedade em que trabalhar menos pode significar não poder viver.

No Grundrisse, Marx enxergou ainda mais longe: à medida que ciência, conhecimento e cooperação social se incorporam às forças produtivas, a riqueza deixa de depender na mesma proporção do trabalho humano imediato. O horizonte emancipatório não era manter seres humanos trabalhando onde máquinas poderiam poupá-los, mas converter o aumento da produtividade em tempo disponível para o desenvolvimento humano. A inteligência artificial radicaliza essa contradição. Nunca tivemos instrumentos tão poderosos para economizar determinadas formas de trabalho; sob o capital, essa possibilidade chega aos trabalhadores primeiro como medo.

A pergunta marxista diante da IA, portanto, não é como impedir que a técnica nos poupe trabalho. É quem se apropriará da produtividade, quem controlará a máquina e quem ficará com o tempo que ela for capaz de libertar.

<><> A tecnofobia também pode ser um fetichismo

Há uma ironia desconfortável na crítica contemporânea à inteligência artificial. Quanto mais poder atribuímos à máquina, mais facilmente desaparecem de cena aqueles que realmente decidem o que fazer com ela. Dizemos que a IA vai destruir empregos, precarizar profissões, vigiar trabalhadores, manipular comportamentos e concentrar riqueza. A frase transforma a tecnologia em sujeito. O capital some.

Marx conhecia bem esse tipo de inversão. No fetichismo, relações sociais produzidas por seres humanos aparecem diante deles como propriedades naturais das coisas. Não se trata de afirmar que a tecnofobia seja simplesmente uma nova modalidade do fetichismo da mercadoria, mas de reconhecer nela uma operação semelhante quando consequências historicamente determinadas pelas relações de propriedade e poder passam a ser apresentadas como atributos inevitáveis da própria técnica. A máquina parece agir sozinha justamente quando mais precisamos perguntar quem age por meio dela.

A inteligência artificial não decide que um ganho de produtividade será convertido em demissão em vez de redução da jornada. O algoritmo não escolhe sozinho transformar cada movimento de um trabalhador em métrica de desempenho. Um modelo não determina que conhecimento produzido socialmente será cercado por propriedade privada. Sistemas técnicos tornam essas operações possíveis, condicionam escolhas e incorporam relações de poder em sua própria arquitetura, mas são empresas, proprietários, gestores, Estados e instituições que definem sob quais relações sociais essas capacidades serão mobilizadas. Apagar esses sujeitos não radicaliza a crítica ao capital. Apaga o capital da crítica.

É nesse ponto que a tecnofobia pode produzir seu paradoxo mais profundo: pretendendo denunciar o poder da tecnologia, acaba por conceder à tecnologia um poder que pertence às relações sociais. O desemprego aparece como destino técnico; a vigilância, como consequência inevitável do algoritmo; a concentração, como natureza da inteligência artificial. E aquilo que foi historicamente construído começa a parecer tecnologicamente necessário.

Para uma esquerda materialista, essa inversão é especialmente perigosa. Se a causa está na máquina, a política termina na contenção da máquina. Mas se a técnica é um campo material atravessado pela luta de classes, a questão muda inteiramente: quem detém o poder de determinar sua finalidade? A tecnofobia começa a perder força no instante em que o capital volta a aparecer na frase.

<><> O capital não tem tecnofobia

O capital não está esperando que a sociedade resolva seus dilemas éticos sobre a inteligência artificial. Enquanto discutimos se devemos temê-la, corporações e Estados disputam semicondutores, energia, data centers, capacidade computacional, modelos, dados e cérebros. A corrida pela IA é apresentada como corrida pela inovação, mas sua materialidade revela algo maior: é uma disputa pela infraestrutura do poder.

A concentração já começa na base. Mais de 90% dos modelos de IA considerados relevantes em 2025 vieram da indústria. A fabricação dos semicondutores mais avançados depende de uma cadeia extraordinariamente concentrada, enquanto a capacidade de treinar e operar grandes modelos exige volumes de computação e energia que poucos atores conseguem financiar. Não existe “nuvem” no sentido etéreo que a palavra sugere: existem minas, eletricidade, chips, servidores, cabos, data centers, propriedade intelectual e bilhões em capital. Por trás da inteligência aparentemente imaterial existe uma infraestrutura brutalmente material.

É essa infraestrutura que transforma capacidade tecnológica em poder. Quem controla computação em escala pode decidir quais modelos serão treinados; quem controla modelos condiciona aplicações; quem controla plataformas organiza acesso, circulação e dependência. Dados e conhecimento produzidos socialmente entram nessa arquitetura e podem retornar à sociedade cercados por propriedade privada, preços, licenças e regras definidas por poucas corporações. A inteligência artificial não elimina a velha questão dos meios de produção. Ela a estende aos meios de produção da própria inteligência social.

O capital não precisa acreditar que toda inovação seja boa nem ignorar seus riscos. Basta reconhecer o poder que ela concentra e agir para controlá-lo. A tecnofobia, ao contrário, corre o risco de transformar a recusa moral de seus efeitos em ausência política no terreno onde esse poder está sendo acumulado.

Denunciar monopólios tecnológicos não constrói capacidade tecnológica alternativa. O capital não precisa que a esquerda ame sua tecnologia. Basta que ela desista de disputá-la.

<><> No Sul Global, não disputar é depender

Há uma diferença brutal entre recusar uma tecnologia e não possuir capacidade para decidir sobre ela. Para países do Sul Global, essa distinção separa soberania de dependência. O Brasil pode decidir não desenvolver inteligência artificial, capacidade computacional ou modelos próprios. Isso não fará a IA desaparecer de seu território. Fará empresas, governos, universidades e trabalhadores brasileiros utilizarem sistemas construídos sobre infraestruturas, padrões e interesses definidos em outros centros de poder.

A dependência começa muito antes da tela. Está nos semicondutores que não produzimos em escala avançada, na computação que precisamos contratar, nas nuvens que armazenam e processam dados, nos modelos que não controlamos e nas condições de acesso que podem ser alteradas por decisões empresariais, sanções, controles de exportação ou conflitos geopolíticos. Soberania tecnológica não significa fabricar sozinho cada chip ou construir uma autarquia digital impossível. Significa possuir capacidade material suficiente para escolher interdependências sem transformar dependência em destino.

É por isso que a disputa pela inteligência artificial já entrou na razão de Estado. O próprio Brasil começou a investir em infraestrutura pública de computação, supercomputadores, semicondutores e modelos de linguagem em português, ao mesmo tempo que procura diversificar fornecedores e reduzir vulnerabilidades externas. Há mais de meio século, o Chile de Salvador Allende já havia percebido, com o Projeto Cybersyn, algo que permanece atual: informação, capacidade de processamento e coordenação econômica também são instrumentos de soberania. Mudaram as máquinas. A questão do poder permaneceu.

Para a esquerda do Sul Global, portanto, a tecnofobia carrega uma contradição adicional: é possível rejeitar a tecnologia produzida pelo centro e terminar ainda mais subordinado a ela.

A soberania do século XXI não será medida apenas pelo controle do território físico, dos recursos naturais ou da moeda. Será medida também pela capacidade de uma sociedade participar das decisões sobre as infraestruturas que organizam conhecimento, produção e vida. No Sul Global, abandonar a disputa pela técnica não é escapar da máquina. É correr o risco de viver dentro da máquina dos outros.

<><> A técnica também é luta de classes

Disputar a técnica não significa ajoelhar-se diante dela. Uma sociedade emancipada não seria aquela que desenvolve tudo o que é tecnicamente possível, mas aquela que recupera o poder de decidir coletivamente o que merece ser desenvolvido. Há tecnologias que devem ser apropriadas, outras transformadas, algumas limitadas e aquelas que simplesmente não deveriam existir. O contrário da tecnofobia não é a tecnofilia. É poder sobre a técnica.

Essa disputa começa antes de a máquina chegar ao local de trabalho. Está em quem financia a pesquisa, controla a infraestrutura, define os problemas que merecem ser automatizados, projeta os sistemas e determina suas finalidades. Continua quando a tecnologia entra na fábrica, no escritório, na escola ou no serviço público: trabalhadores precisam ter poder para interferir em sua implantação, contestar seus critérios e participar da decisão sobre aquilo que será automatizado. E termina onde o capitalismo procura encerrar a discussão: na apropriação dos ganhos de produtividade.

Se uma inteligência artificial permite produzir em quatro horas aquilo que antes exigia oito, a pergunta política não pode se limitar a quantos empregos serão eliminados. Deve alcançar aquilo que realmente está em disputa: por que não trabalhar quatro horas? Por que o aumento da capacidade produtiva deveria pertencer ao proprietário da máquina e não à sociedade que acumulou o conhecimento capaz de torná-la possível? A promessa emancipatória da automação só começa onde termina o direito automático do capital de capturar seus benefícios.

É nesse sentido que inteligência artificial, algoritmos e automação precisam entrar definitivamente no horizonte da luta de classes. Sindicatos terão de disputar algoritmos como disputam jornadas e salários; movimentos populares terão de disputar infraestrutura e dados; Estados periféricos terão de construir capacidade tecnológica; universidades públicas terão de produzir conhecimento que não termine cercado por monopólios privados. Controle popular da técnica não significa trocar o conselho de administração de uma Big Tech por uma burocracia estatal. Significa democratizar o poder de decidir o que produzir, como produzir, para quê produzir e quem se apropria do resultado.

A esquerda não precisa amar a inteligência artificial. A máquina não nos oferece emancipação nem nos condena inevitavelmente à barbárie. Entre uma possibilidade e outra existem política, propriedade, organização e luta.

Durante demasiado tempo, perguntamos o que a tecnologia fará com os trabalhadores. A pergunta continua necessária, mas já não basta. O século XXI colocou diante da esquerda uma tarefa maior: disputar as forças capazes de reorganizar trabalho, conhecimento e poder antes que sua propriedade pareça tão natural quanto hoje parece sua presença. A esquerda aprendeu a perguntar o que a tecnologia fará com os trabalhadores. Agora precisa decidir o que os trabalhadores farão com a tecnologia.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247