quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Planejamento e neoliberalismo

O Estado como uma forma geral de poder político de dominação, assume limitada capacidade organizativa e institucional dos interesses do capital enquanto classe, ou seja, o Estado se estabelece, antes de tudo como um garantidor da “propriedade burguesa e dos seus interesses”.

Esta noção do Estado como poder de classe é ponto de partida para o entendimento genérico do Estado, na medida em que diversas outras formas sociais de reprodução ao longo da história foram também baseadas na expropriação do excedente socialmente produzido em favor de uma classe social específica e teve na forma estatal um poder político de domínio de classe, porém no capitalismo o Estado se estabelece como uma forma social central da sociabilidade moderna, expressando o Capital na sua forma política.

Nas vésperas de mais um momento de um conturbado ciclo eleitoral brasileiro, vale analisar e entender como a construção nacional se deu nos últimos noventa anos e, principalmente, organizar a crítica social sobre como o Estado teve e tem enorme lógica intervencionista própria, mesmo que o processo de integração e conformação do sistema capitalista nacional, periférico e dependente estabeleça uma soberania restringida. Vamos analisar isso a partir das contribuições de Otávio Ianni.

<><> Capitalismo periférico e industrialização

A lógica do Estado capitalista integra uma ampla interação social, regras institucionais que fazem parte da construção das relações de produção capitalistas em termos históricos, sendo que a decisão das referidas regras depende da capacidade organizacional de cada sociedade, das condições de acumulação de capital e da lógica do desenvolvimento desigual, essência do capitalismo.

Otávio Ianni trabalhou ao longo da sua obra três condicionantes sociais e econômicos que não podem ser menosprezados: (i) como o ciclo da revolução burguesa brasileira foi algo lento e incompleto, ponto que veremos neste texto; (ii) como o Estado agrário brasileiro manteve e mantém profunda influência na construção do capitalismo periférico nacional; (iii) por fim, como o planejamento como técnica e construção de ordem foi tão central nos diversos ciclos da ordem de poder econômico nacional. O

Estado condiciona e era condicionado pelo poder econômico, mas em grande medida a transformação social observada no Brasil no último século foi derivado dessa liminar autonomia relativa que o poder estatal brasileiro assumiu, mesmo sob condições de “dependência estrutural” como teorizou o autor.

A compreensão que o processo de formação do Estado capitalista no Brasil e suas diferentes formas de intervenção se reverteram nos últimos três quartos de século em momentos críticos-históricos que ele denomina de “ciclos da Revolução burguesa” no Brasil e, principalmente, na sua compreensão o capitalismo brasileiro se forma amalgamado pelo poder estatal, mas limitado pela conformação histórica e da sua origem enquanto Estado agrário.

A dependência estrutural se estabelece por cinco ordens econômicas: (1) o fluxo de transferência de valor não se dá momentaneamente, mas como lógica contínua, alimentando a própria existência do imperialismo enquanto forma econômica universal; (2) somente a permanência de superexploração do trabalho possibilita o fluxo de transferência de riqueza e condiciona formas estruturais de pobreza nas nações dependentes.

(3) A tecnologia, como base da produção de mais-valia relativa permanece restringida, tanto levando ao subdesenvolvimento do departamento produtor de meios de produção, quanto à continua produção de bens primários para exportação; (4) o Estado tem como essência organizar a infraestrutura produtiva e manter os fluxos de transferência de riqueza; (5) o subdesenvolvimento se relaciona ao controle de fluxos monetários, a dependência estrutural implica em continua dívida pública estrutural.

O Estado forma uma relação de organização do capital e isso se constitui com base tanto no controle do fundo fiscal público, tanto na massa tributária arrecadada, quanto na gestão do sistema de dívida pública, assim como pela capacidade institucional e poder de controle social.

<><> Os ciclos intervencionistas e os choques neoliberais

O planejamento aparece no Brasil no período posterior à década de 1930, sendo que a forma que o Brasil estabelece esse processo constitui uma ruptura social, algo que não é mínimo, uma solução ao poder resoluto da construção de algo meio autônomo ao poder imperialista. O planejamento não parece como algo menor, sendo que a validade de organização social requer uma base planejada, sendo que Otávio Ianni não somente compreende isso como organiza o pensamento brasileiro em torno disso.

A intervenção estatal aparece no formato contínuo de política econômica sendo o “fulcro do desenvolvimento” capitalista brasileiro nos últimos cem anos (1930-2030). As relações entre planejamento, acumulação de capital e formação de uma “tecnoestrutura” com uma burocracia própria e muito vinculada ao estabelecimento e consolidação de um sistema econômico com a presença da empresa pública, da empresa privada nacional e da empresa privada estrangeira foram fatores orientadores da forma como o Estado brasileiro se posicionou, principalmente desde a matriz do “Plano de Metas”, mas principalmente enquanto base organizadora autoritária durante o regime militar.

Vale frisar um princípio organizador do sistema estatal brasileiro e sua relação com a acumulação de capital: desde 1930, a política econômica governamental foi estatizante ou privatista, nacionalizante ou internacionalista, desenvolvimentista ou estabilizadora, conforme a constelação política dominante e a natureza dos dilemas econômicos existentes na ocasião. Uma lógica pendular, numa espécie de efeito “sanfona” foi a característica marcante do sistema “interdependente” brasileiro.

Otávio Ianni identificou seis momentos de alterações cíclicas no capitalismo periférico nacional entre 1930 e 1985, todos eles de algum modo “puxados” por intervenção estatal, com diferentes limites de adesão da burguesia nacional brasileira, mas sempre bruscamente interrompidos por choques “neoliberais”.

O primeiro momento chave refere-se à Revolução de 1930 e a ascensão de um primeiro Vargas. Dois elementos aparecem naquele momento que serão marcantes em momentos posteriores: (i) a organização de segmentos econômicos de uma burguesia industrial com certo caráter autônomo, algo representado de forma ilustre na figura de Roberto Simonsen.

(ii) A acomodação de interesses da oligarquia agrária com setores da urbanidade industrial estabelecendo uma “modernidade arcaica”, ou uma reorientação econômica por dentro da ordem, e a permanência de elementos fortes do “Estado agrário”, sendo o “getulismo” uma construção ideológica que fará um frágil amalgama da nascente sociabilidade capitalista brasileira, nos termos de Otávio Ianni “a ideologia da contenção, da adequação do comportamento político do proletariado às exigências da formação do capitalismo”.

O segundo momento, ainda no período Vargas, implica uma certa inflexão nacionalista, passando a preponderar no período do Estado novo uma forte visão intervencionista, que tanto estabelece uma base industrial estatista (CVRD, CSN, CHESF), quanto um acordo nacional federativo, subordinando as oligarquias regionais ao centro executivo da União. Pode-se afirmar, como nos pondera Otávio Ianni, que a costura do Estado enquanto poder gestor de um capitalismo nacional teria parcialmente se consolidado, sendo que este autor mostra que a fragilidade do desenvolvimentismo será colocada a mostra em momento posterior.

A terceira inflexão seria com o fim da Segunda Guerra e com a deposição de Vargas em 1945, a guinada liberal-agrária que determinará a primeira grande crise do nascente desenvolvimentismo brasileiro. O modelo adotado por Dutra estabelecia uma perda da capacidade de controle cambial, uma revisão forte da intervenção estatal em setores importantes da economia e uma revisão do caráter planejador estatal.

Durante este período, se formou ainda um diagnóstico previamente elaborado pela Comissão Mista Brasil-EUA, que em certa medida desidratou o capitalismo periférico de parte do seu conteúdo nacional. Poderíamos anotar que esse foi o primeiro choque neoliberal da economia brasileira, como nota Otávio Ianni em “nome de princípios liberais, criaram-se novas condições favoráveis à entrada e saída de capital estrangeiro (…) eliminaram-se os órgãos estatais vinculados ao intervencionismo [e] desmontou-se a nascente tecnoestrutura que se criou nos anos anteriores”, sendo que esse liberalismo produziu “a reelaboração das condições de dependência”, forçando a perda de capacidade produtiva propriamente nacional e grande desnacionalização da economia.

O quarto momento dessa continua interação entre formação do capitalismo periférico e composição intervencionista estatal se dá com o retorno de Vargas (1951-54). O quadro de grupos burgueses industriais tinha se diversificado, sendo que agora observa-se três grupos com características e vínculos políticos distintos: a pequena burguesia industrial, vinculada a produção de bens tradicionais; a grande burguesia industrial, com maior centralização de capital e o capital internacional. Como observa Ianni cada grupo destes “estava interessado num padrão particular de relacionamento do Estado com as atividades econômicas”.

De qualquer forma, esse novo Vargas será central na tentativa de estabelecimento de um arranjo industrialista que organizasse o sistema econômico, sendo que se abandona “as diretrizes inspiradas pela doutrina liberal”, sendo que a partir daquele momento o esforço elaborativo da CEPAL (Comissão Econômica para América Latina e Caribe) e a recente formação do BNDE (Banco Nacional de Desenvolvimento) vão dar nova tônica nas relações entre Estado e economia, constituindo-se naquele período três elementos que comporão desde então instrumentalidades básicas da intervenção estatal brasileira, resistentes até aqui:

(a) o já referido BNDE, criado em 1952, estabelecendo um braço de dotação de financiamento, mas também organizando projetos de longa maturação. Vale denotar que já em 1953 se tem a formação do Grupo Misto CEPAL-BNDE, sob a coordenação do jovem economista Celso Furtado, cuja relação com o principal formulador de política econômica da CEPAL, o argentino Raul Prebisch, estabeleceu em grande medida as linhas mestras do que se convencionou denominar de “estruturalismo latino-americano” e seu entendimento de que a industrialização era parte da plataforma política de autonomia da periferia continental em relação ao centro capitalista estadunidense.

(b) a criação da Petrobrás, criada em 1953, tendo três elementos importantes no seu processo de estabelecimento: primeiramente, desenvolvimento da principal estrutura de produção energética do século XX; em segundo lugar, conformação de um amplo arranjo nacionalista que possibilitou, pelo menos momentaneamente uma não ruptura do pacto desenvolvimentista; por fim, estabeleceu elementos de organização da “tecnoestrutura estatal”. Otávio Ianni observa que “a fundação da Petrobrás revelou o modo pelo qual o poder executivo estava incorporando e desenvolvendo o pensamento técnico-científico, como estilo de atuação”.

(c) A conformação de um arranjo federativo de planejamento regional que buscou inserir no debate nacional duas das principais regiões de menor desenvolvimento: o Nordeste e a Amazônia. Assim, a criação do Banco do nordeste do brasil (BNB) e da Superintendência do Plano de Valorização Econômica da Amazônia (1952-1953), representou a perspectiva de consolidação do planejamento enquanto condição de ocupação do espaço regional enquanto parte da lógica desenvolvimentista nacional, o que segundo Otávio Ianni representava que progressivamente “a ideologia e a prática do planejamento são incorporadas pelo poder público, como componentes cada vez mais necessários do Estado”.

Esse período é interrompido pelo suicídio de Getúlio Vargas (1954), sendo que o “agosto do desgosto” demarca a dupla condição de acirramento da luta de classes, com a crescente pressão de parte da burguesia internacional pela efetivação de um novo arranjo liberal e de perda de soberania nacional e, por outro, o avanço da organização de setores da classe trabalhadora e de reorganização da sociedade brasileira em um projeto mais nacionalista.

O suicídio de Getúlio Vargas foi uma decisão angustiada de um ator que via sua capacidade de influência neste amplo jogo de forças, onde o imperialismo passava a ditar de forma quase intestina as relações de poder nacional, sendo exaurida. Como expressa Otávio Ianni pouco “a pouco, anulava-se na prática, a estratégia destinada a incentivar a formação do capitalismo nacional, como um sistema relativamente autônomo”, avizinhando-se um processo de perda de soberania e incrustação da dependência em um novo ciclo de organização da economia, algo que foi, pelo menos parcialmente adiado pela decisão radical de Getúlio Vargas.

O quinto ciclo econômico de intervencionismo estatal tratado por Otávio Ianni (p. 151-191) encerra a fase de democracia liberal burguesa e desenvolvimentista nacional. O Plano de Metas, resultante de um amplo trabalho realizado pelo Grupo Misto BNDE-CEPAL (1955). O desenvolvimentismo enquanto base de política econômica se fortalece ambiguamente, como trataremos, no período de Juscelino Kubitschek, a despeito das pressões do governo estadunidense que tinham se acirrado com a criação da Petrobras (1953) e com o controle das remessas de lucro.

O contexto internacional era de acelerado crescimento na Europa e Japão (Plano Marshall), com a reorganização do padrão internacional com base no multilateralismo e no ouro-dólar, com taxas de juros muito baixas favorecendo grande mobilidade de capitais. Com o fim da Guerra da Coreia (1954) e com a reorganização da economia estadunidense, houve o esvaziamento da Comissão Mista Brasil-EUA, o que levou a criação do Grupo Cepal-BNDE ainda em 1955, que reverenciou o Plano de Metas.

Para Otávio Ianni o Plano de Metas realizou uma etapa importante da expansão do sistema econômico brasileiro, porém denotando “a metamorfose das relações de tipo imperialista (externas) em relações de dependência (internas)”, consolidando uma nova fase da estrutura industrial brasileira, com uma forte presença do capital internacional e tornando a economia brasileira um “subsistema da economia mundial”.

Otávio Ianni observa que “o conceito de industrialização, para JK, não continha a ideia de autonomia”, diferentemente da forma de compreensão de Vargas que tratava industrialização e independência econômica como formas sociais integradas, enquanto para Kubitschek “a industrialização somente seria possível no contexto da interdependência e associação”. De qualquer forma o governo JK executou um programa ousado de crescimento econômico e institucional acelerado, com ênfase na industrialização e na reorganização administrativa do país, estabelecendo uma mudança estrutural no regime econômico brasileiro, mas ambiguamente aprofundou fatores condicionantes das relações de dependência estrutural.

Vale observar que o Plano Trienal de Celso Furtado, no governo João Goulart, cuja lógica das Reformas de Base que poderiam estabelecer uma nova fase de desenvolvimento do capitalismo brasileiro em condições mais autônomas do imperialismo estadunidense foi abortado pelo golpe civil-militar, resultante tanto da crise interna da burguesia nacional, mas principalmente, ao nosso ver, da imposição dos referidos interesses estadunidenses.

Otávio Ianni sintetizou a questão da crise política e da contrarrevolução observando que o “problema principal era a reestruturação do poder político” não se tratando somente de crise da democracia representativa, mas tratava-se de uma crise que negava a própria condição de autonomia nacional, subordinando toda capacidade de desenvolvimento nacional aos estreitos limites dos interesses externos.

O último momento do ciclo desenvolvimentista que Otávio Ianni tratou já foi dentro do regime de exceção ditatorial, sendo que os Planos de Desenvolvimento (PND) estabeleciam, à primeira vista, o retorno a lógica parcialmente nacionalista do Plano de Metas, mas vale ponderar três aspectos que são bastante diferentes de uma perspectiva de construção de qualquer projeto nacional, mas demonstram ambiguidade presente mesmo durante o período do regime militar.

O estabelecimento de um regime econômico baseado na associação ao capital externo e que levasse a frente a modernização capitalista brasileira foi, de fato, uma equação bastante complexa, mas os militares e seus ideólogos civis, como Roberto Campos e Delfin Netto, assumiram inicialmente com destemida capacidade.

O ciclo desenvolvimentista militar pode ser compreendido principalmente decifrando os I e II PND. A lógica de complementaridade econômica, vinculada ao estabelecimento de segmentos importantes do Departamento I (meios de produção) da economia, se deu organizando algumas cadeias produtivas de insumos importantes (metálicos e petroquímica principalmente), porém, com o “predomínio da tendência internacionalista”, sendo que se observa “uma reintegração da economia brasileira, enquanto subsistema econômico, no âmbito do capitalismo mundial, sob a égide dos EUA”.

Esse último ciclo encerra a possibilidade de um desenvolvimento capitalista com viés nacionalista, o que parece ser, na visão de Otávio Ianni, uma consequência histórica irremediável de um padrão em que “o poder público teve um papel decisivo na criação de condições mais favoráveis para o funcionamento e expansão da empresa privada, nacional e multinacional”.

Os seis ciclos desenvolvimentistas tratados por Otávio Ianni sempre se encerram em cada período por um choque “neoliberal” que repõe as relações de poder em conformidade aos interesses imperialistas, sendo que após o processo de redemocratização o Estado brasileiro se integra passivamente a ordem global em um amplo ajuste neofinanceiro, que desmonta e avança na desindustrialização nacional, a principal herança dos governos FHC. Convém, para aproximar essa análise do atual momento analisar e pontuar que possibilidade teremos nos próximos anos.

Os governos petistas tentaram em diversos momentos recompor parcialmente e de forma frágil a capacidade intervencionista e, no limite, neodesenvovimentista do Estado brasileiro, porém sempre travados pelas barreiras impostas pela lógica da restrição fiscal neoliberal e por uma incapacidade política de organizar a sociedade enquanto força de reação, considerando que o neoliberalismo se manifesta enquanto força ideológica do poder imperialista estadunidense.

O que temos pela frente, caso Lula se eleja será uma possibilidade, mesmo que mínima e resultante de grande pressão da sociedade organizada brasileira, de estabelecer um outro tipo de projeto nacional, talvez reorganizando a capacidade interventora e pró-planejamento do Estado nacional. Caso Lula seja derrotado teremos um novo e, neste caso, avassalador choque neoliberal, algo que talvez impossibilite desde sempre qualquer projeto civilizatório brasileiro, os próximos dias nos dirão.

 

Fonte: Por José Raimundo Trindade, em A Terra é Redonda

 

Priscila Miranda: O futuro que eu vi nascer em 2003

O futuro que eu vi nascer começou em 2003, e eu vivi tudo isso. Vivi o que veio antes, vivi a transformação que começou ali, vivi as interrupções, os retrocessos, as perdas e cheguei até este presente, que talvez seja justamente o momento em que o país possa, finalmente, transformar aquele futuro iniciado lá atrás em um futuro mais sólido, mais amplo e mais adequado ao Brasil que nós ainda precisamos construir.

Tenho 45 anos e, portanto, tenho 45 anos de Brasil. Tenho memória do Plano Sarney, apesar de ser muito jovem naquele momento, vivi o Plano Real, vivi os anos 1990 e vivi a eleição de Lula em 2002. Quando eu era criança, eu tinha muito medo de crescer. Achava que o mundo das crianças era melhor, e não apenas porque era um mundo lúdico, porque eu era inventiva, criava coisas, inventava ideias, mas porque tinha uma convicção muito infantil e ao mesmo tempo muito séria de que as crianças percebiam algumas verdades que os adultos já não conseguiam perceber. Eu frequentava reuniões políticas com meu avô, ouvia as conversas dos adultos, via o que acontecia ao meu redor e cresci com a sensação de que o Brasil era um país permanentemente em dificuldade, permanentemente tentando sair de alguma coisa, e de que ser adulto significava entrar naquele mundo complicado, instável e com possibilidades muito limitadas.

Depois eu cresci e, como quase todo mundo, quis exatamente aquilo que antes me assustava: quis ser independente, quis trabalhar, ganhar meu dinheiro, construir alguma coisa, não depender da minha família. E é a partir daí que 2003 tem um significado muito concreto para mim. Eu não estou dizendo que naquele primeiro ano do governo Lula o Brasil acordou transformado nem que tudo começou magicamente no dia da posse. Estou dizendo que, olhando hoje para os vinte e três anos que separam aquele momento de 2026, consigo enxergar ali o início de uma ideia de futuro que, para uma parcela enorme da população brasileira, significava simplesmente poder participar de coisas das quais antes estava excluída.

No meu caso, essa transformação não veio por uma cota e não veio pelo acesso a um programa universitário. Eu sempre estudei em escola pública, fiz vestibulares, passei e ingressei numa universidade pública. Quando programas como o ProUni foram criados, eu já estava em outra fase da minha vida. O que mudou a minha trajetória de uma maneira definitiva foi uma coisa muito mais simples e, olhando agora, talvez muito mais estratégica do que nós conseguíamos perceber naquele momento: eu consegui comprar meu primeiro computador. Em 2005, no primeiro governo Lula, foi instituído o projeto Computador para Todos, voltado à inclusão digital e à aquisição de computadores em condições facilitadas; o próprio decreto determinava um teto para o preço dos equipamentos incluídos no programa e previa linhas específicas de crédito dos bancos públicos federais.

Isso precisa ser colocado no contexto daquele Brasil. Hoje, em 2026, quando carregamos computadores no bolso e estamos discutindo inteligência artificial, pode parecer quase ridículo explicar por que ter um computador próprio era uma transformação. Mas não era. Eu dividia um computador. Minha tia, por exemplo, era digitadora. É importante lembrar até dessa profissão: depois da datilografia, havia pessoas cujo trabalho era fazer a digitação em computadores, porque o computador não era ainda uma ferramenta individual universalizada. A existência de uma profissão como a de digitadora ajuda a explicar o tamanho daquela mudança. Ter um computador na sua casa significava possuir uma ferramenta de informação, comunicação, produção e trabalho que estava começando a determinar quem poderia ou não entrar na economia do século XXI.

E ninguém me deu aquele computador. Eu comprei. Essa diferença, para mim, é essencial, porque existe uma maneira muito simplista de falar de política pública como se inclusão significasse simplesmente o Estado entregar alguma coisa gratuitamente a alguém. Não foi isso. Uma política pública criou condições para que eu tivesse acesso a um bem que até então era muito mais difícil de comprar. Eu paguei por ele, parcelei e usei aquela ferramenta para trabalhar. E foi com aquele computador que consegui dar continuidade aos negócios que já começava a construir. Pude pesquisar, escrever, me comunicar, estabelecer relações profissionais, organizar meu trabalho e, progressivamente, construir uma empresa. Aquele computador não era um prêmio e não era um objeto de consumo supérfluo. Era uma ferramenta de produção.

É talvez agora, vinte anos depois, que eu consiga compreender inteiramente o que aquilo significou. Hoje praticamente todo o meu trabalho acontece digitalmente. Trabalho com cinema, produzo, distribuo, negocio direitos, envio filmes e projetos, converso com pessoas em diferentes países, participo de mercados internacionais, construo parcerias e administro uma empresa através de um computador. E hoje utilizo inteligência artificial. Existe uma linha histórica entre essas duas coisas, entre o computador ao qual eu consegui ter acesso em 2005 e as ferramentas de inteligência artificial que utilizo em 2026. Não porque uma política de 2005 tenha criado a IA, evidentemente, mas porque antes de participar da próxima revolução tecnológica é preciso ter conseguido entrar na anterior.

Esse talvez seja o ponto central. O futuro não começa quando uma tecnologia é inventada. O futuro começa quando as pessoas conseguem ter acesso a ela. E o Brasil que começou a surgir em 2003 era, para mim, um Brasil que começava a discutir justamente quem poderia ter acesso às coisas: ao computador, à universidade, ao crédito, ao consumo, ao conhecimento, às viagens, ao trabalho e à possibilidade de construir uma vida que não estivesse predeterminada pelo lugar social de onde cada pessoa tinha vindo. O ProUni, por exemplo, foi instituído em 2005 para conceder bolsas integrais e parciais no ensino superior privado. Eu não fui beneficiária dele, mas anos depois, já como empresária, empreguei pessoas que haviam sido.

E é aí que, para mim, aparece uma dimensão das políticas públicas que raramente cabe na discussão imediata de uma eleição. Uma política pode chegar a uma pessoa de uma maneira relativamente pequena e continuar produzindo consequências durante vinte anos. No meu caso, tive acesso a uma ferramenta, transformei aquela ferramenta em trabalho, o trabalho se transformou num negócio, o negócio cresceu e me permitiu empregar pessoas mais jovens do que eu, algumas delas provenientes de uma geração que, por sua vez, havia tido acesso a outras políticas de inclusão. Uma oportunidade começou a produzir outra. E isso, para mim, é muito mais importante do que a ideia infantilizada de que um governo “dá” alguma coisa. Um país se transforma quando cria condições para que as pessoas possam construir e, depois, multiplicar aquilo que conseguiram construir.

Talvez por isso me incomode tanto a facilidade com que essa história inteira é apagada e substituída por duas ou três palavras repetidas infinitamente. Eu conheço isso dentro da minha própria família. Conheço a repetição do “ladrão”, do “corrupto”, como se essas palavras, repetidas suficientemente, dispensassem qualquer análise sobre o que efetivamente aconteceu na vida de milhões de pessoas. Corrupção deve ser investigada, julgada e punida; governo algum está acima de crítica. Mas uma sociedade que transforma sua história política numa coleção de rótulos perde a capacidade de compreender o que produziu resultado, o que fracassou, o que precisa ser corrigido e, sobretudo, aquilo que precisa de continuidade para amadurecer.

Porque então vieram as interrupções. Veio a crise política, veio o impeachment de Dilma Rousseff em 2016, decidido pelo Senado por 61 votos a 20, veio o governo Bolsonaro, veio a pandemia e veio uma sucessão de rupturas que atingiu também a maneira como o país trabalhava, produzia e imaginava seu próprio futuro. E eu acho que este é um ponto que ainda não conseguimos compreender suficientemente: não dá para continuar normalmente depois de tudo o que aconteceu. Não dá para fingir que atravessamos apenas mais uma alternância comum de governos e que, passados três ou quatro anos, tudo deveria estar novamente funcionando como antes.

Na cultura isso é muito evidente para mim porque é o meu campo de trabalho. Não se desmonta uma cadeia cultural e depois se liga tudo novamente apertando um botão. Pessoas deixam o setor, empresas fecham, estruturas desaparecem, relações profissionais e internacionais são interrompidas, projetos deixam de existir, conhecimento se perde. Destruir pode ser rápido; reconstruir não é. E o mesmo raciocínio vale para educação, ciência, tecnologia, cidades, empresas e para a própria confiança de uma geração na possibilidade de construir alguma coisa neste país.

Talvez o Brasil precise compreender que algumas transformações exigem vinte anos. Não vinte anos sem oposição, não vinte anos sem crítica, não vinte anos de um mesmo presidente ou de uma democracia suspensa, porque não é disso que estou falando. Estou falando de continuidade de um projeto de país, da capacidade de decidir que determinadas coisas são estruturais e não podem ser desmontadas a cada ciclo político. Educação precisa de tempo, ciência precisa de tempo, tecnologia precisa de tempo, cultura precisa de tempo, empresas precisam de tempo, instituições precisam de tempo e uma geração precisa de tempo para receber uma oportunidade, construir alguma coisa a partir dela e entregá-la ampliada para a geração seguinte.

O Brasil, no entanto, parece viver preso ao hábito de começar novamente. Constrói e interrompe, avança e recua, cria e desmonta, e depois passa anos reconstruindo aquilo que já poderia estar consolidado. Talvez seja por isso que, aos 45 anos, eu tenha a sensação de ter vivido vários países diferentes dentro do mesmo Brasil. Vi um país em que as possibilidades eram extremamente limitadas, vi um país começar a abrir possibilidades, vi o que consegui fazer quando uma dessas possibilidades chegou até mim e vi, depois, uma parte desse processo ser interrompida.

É desse lugar que olho para Lula em 2026. Não de um lugar de santificação, porque não acredito que político seja santo e não acredito que governo deva ser protegido da crítica. Também não quero voltar para 2003, nem para 2005. Não tenho nenhuma nostalgia de um passado idealizado. O que me interessa é exatamente o contrário: quero saber se o Brasil conseguirá finalmente ir adiante. Quero saber se conseguiremos pegar aquilo que começou a ser construído, corrigir os erros, atualizar o que envelheceu, preservar aquilo que funcionou e chegar a uma nova etapa em vez de destruir tudo outra vez e retornar ao ponto de partida.

E talvez a inteligência artificial seja justamente uma boa maneira de pensar essa questão. Em 2005, a pergunta era quem conseguiria ter um computador. Em 2026, estamos diante de outra transformação que pode reorganizar profundamente trabalho, conhecimento, educação, cultura e produção. A pergunta continua sendo praticamente a mesma: quem terá acesso? Quem poderá usar essas ferramentas para produzir, criar, aprender, empreender e participar da economia que está surgindo, e quem ficará novamente do lado de fora? Se o Brasil não compreender essa questão, corremos o risco de repetir em escala muito maior a desigualdade tecnológica que existia quando um computador ainda era um objeto inacessível para grande parte da população.

Por isso digo que o futuro que eu vi nascer começou em 2003. Não porque tudo tenha começado com um homem, não porque tudo o que veio depois tenha sido perfeito e não porque todos os problemas do país tenham sido resolvidos. Digo isso porque foi naquele momento que eu, olhando a partir da minha própria experiência e da geração a que pertenço, comecei a perceber um país em que o acesso poderia se transformar numa política de desenvolvimento e em que pessoas que historicamente estiveram fora poderiam começar a entrar.

É também a partir dessa experiência que se explica o meu voto em Lula. É uma escolha minha, construída pela memória de 45 anos de Brasil, pelo que vi antes, pelo que vi mudar e pelo que vi ser interrompido. Eu sei o que uma política aparentemente pequena foi capaz de produzir na minha vida durante vinte anos. Sei também o que consegui multiplicar a partir dela. E por isso, quando penso no futuro, não penso apenas naquilo que o Brasil precisa inventar, mas naquilo que precisa ter tempo suficiente para consolidar.

Quando eu era criança, tinha medo de crescer porque achava que o mundo das crianças era melhor do que o mundo dos adultos. Hoje, depois de 45 anos vivendo este país, talvez eu pense justamente o contrário: precisamos finalmente conseguir crescer. Não apenas economicamente, mas crescer como país, acumular conhecimento, experiência, tecnologia, cultura e memória, em vez de voltar eternamente ao começo. Se em 2005 a minha porta para o futuro foi um computador e em 2026 trabalho com ferramentas que naquela época pertenceriam à ficção científica, a pergunta que me interessa agora é o que o Brasil será capaz de colocar nas mãos da próxima geração e o que essa geração poderá construir a partir disso.

O futuro que eu vi nascer começou em 2003. O que nós ainda não conseguimos fazer foi deixá-lo continuar.

 

Fonte: O Cafezinho

 

Quando a promessa de prosperidade vira promessa de punição

O PIB pode crescer enquanto uma família continua adiando a compra da casa, renegociando dívidas e revendo os planos para os filhos. Entre a melhora das estatísticas e a experiência de quem trabalha existe uma distância que também é política. Quando a expectativa de prosperar se enfraquece, discursos que prometem identificar e punir os culpados pelo fracasso podem ganhar espaço.

Essa relação está no centro de The Moral Consequences of Economic Growth, publicado em 2005. Benjamin M. Friedman argumenta que a melhora do padrão de vida da maioria favorece a tolerância e o compromisso com a democracia. O economista se refere ao progresso percebido pelas pessoas, que pode divergir da expansão da riqueza nacional. Seu argumento depende de uma pergunta concreta: a vida está melhorando para uma parcela ampla da população?

Na interpretação de Friedman, as pessoas comparam sua situação com o próprio passado e com a posição dos outros. Quem percebe avanço em sua vida tende a ver o sucesso alheio como uma ameaça menor. Se essa perspectiva desaparece, a competição por posição social pode se intensificar. O autor reconhece outras causas para os fenômenos políticos, mas chama atenção para o que acontece quando o esforço deixa de produzir a expectativa de progresso.

Há evidências históricas de que certos choques econômicos alteram a disputa política. Manuel Funke, Moritz Schularick e Christoph Trebesch analisaram mais de 800 eleições em 20 economias avançadas, entre 1870 e 2014. Após crises financeiras sistêmicas, observaram maior polarização, enfraquecimento das maiorias governistas e crescimento da votação da extrema direita. Os autores relacionam esse resultado à atração por discursos que atribuem as dificuldades a minorias ou estrangeiros.

O padrão não apareceu nas recessões comuns nem nos choques macroeconômicos graves sem origem financeira. Portanto, o estudo não descreve uma reação automática ao empobrecimento. Também não permite aplicar suas conclusões diretamente ao Brasil, ausente da amostra. Sua contribuição é mostrar que a natureza da crise importa: dificuldades econômicas de origens distintas podem estar associadas a respostas políticas diferentes.

A década de 1930 oferece um contraste histórico. Na Alemanha, a depressão contribuiu para a desagregação da República de Weimar e para a ascensão do nazismo, embora não tenha sido a única causa. Nos Estados Unidos, o New Deal ampliou programas de emprego, a regulação financeira e a proteção social, com continuidade das eleições presidenciais. As medidas ajudaram a recuperação, mas não encerraram a depressão naquela década. Uma crise internacional teve desfechos políticos distintos; sua gravidade, isoladamente, não explica essa diferença.

No Brasil, essa reflexão começa pelo orçamento das famílias. O crescimento agregado pode conviver com renda estagnada para determinados grupos, insegurança no emprego ou dívidas que absorvem os ganhos do trabalho. A experiência de cada pessoa depende de como os resultados econômicos se distribuem. Isso ajuda a formular o problema, mas não autoriza confundir descontentamento com um governo e rejeição à democracia.

O medo da violência acrescenta outra dimensão. Evitar um trajeto, fechar um comércio mais cedo ou restringir a circulação dos filhos são formas pelas quais a insegurança pode reorganizar a vida. É também a partir dessas experiências que as pessoas avaliam a proteção oferecida pelo Estado. Os registros de criminalidade e a sensação de segurança nem sempre avançam juntos. Compreender essa diferença importa para analisar a confiança nas instituições.

El Salvador reúne mudanças que precisam ser examinadas em conjunto. No relatório mundial de 2026, referente aos acontecimentos de 2025, a Human Rights Watch registra queda acentuada da violência das gangues durante o governo de Nayib Bukele. A organização também documenta prisões arbitrárias, tortura e violações do devido processo legal. O relatório ressalva que restrições de acesso aos dados e mudanças na contabilização dos homicídios dificultam avaliar a precisão das alegações oficiais sobre a redução dos crimes.

Em julho de 2025, a Assembleia Legislativa salvadorenha aprovou alterações constitucionais que eliminaram o limite de reeleições presidenciais. A queda da violência e a concentração de poder ocorreram no mesmo período, mas essa simultaneidade não demonstra que uma dependesse da outra. O caso coloca lado a lado resultados de segurança, abusos documentados e mudanças nas regras do poder. Nenhum desses elementos pode substituir a análise dos demais.

A comparação com o Brasil exige atenção às diferenças entre os países. Ainda assim, ela permite separar perguntas que muitas vezes se confundem: houve melhora das condições de vida? A população se sente mais protegida? Como avalia o governo e os limites de sua autoridade? Uma resposta favorável sobre segurança não equivale, por si só, à aprovação de qualquer medida adotada em seu nome. Da mesma forma, uma avaliação negativa da economia não revela sozinha a preferência por outro regime político.

A questão brasileira vai além de saber se a economia cresce. Importa compreender quem percebe a melhora, quem continua exposto à insegurança e como essa experiência altera as expectativas. A literatura sobre crises financeiras indica que a busca de culpados pode ganhar força após determinados choques. Quando o futuro parece fora de alcance, a política passa a disputar também o sentido da frustração. É nesse terreno que a promessa de punir pode ocupar o lugar da promessa de prosperar.

 

Fonte: Por Gustavo Pessoa, em Brasil 247

 

Milhões de idosos vivem sem apoio adequado no Brasil, diz estudo

O Brasil conta com mais de 32 milhões de pessoas com 60 anos ou mais em um processo acelerado de envelhecimento populacional. A terceira onda do Estudo Longitudinal da Saúde dos Idosos Brasileiros (ELSI-Brasil), conduzido pela Fiocruz Minas em parceria com a Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acendeu um alerta sobre as condições de vida dos idosos.

Considerada uma das maiores pesquisas sobre envelhecimento no Brasil, ela mostra que milhões de idosos enfrentam dificuldades para manter a autonomia e não recebem o suporte necessário para lidar com essas limitações.

Um dos dados mais preocupantes do levantamento é que 20,4% dos idosos brasileiros apresentam dificuldade para realizar pelo menos uma atividade básica do dia a dia, como tomar banho, se vestir, comer, usar o banheiro ou levantar da cama.

Segundo os pesquisadores, isso representa cerca de 6,5 milhões de pessoas vivendo com algum grau de limitação funcional.

O problema se agrava quando a pesquisa analisa a rede de apoio disponível para esse grupo. Entre os idosos que têm dificuldade para realizar atividades cotidianas, apenas 37,9% recebem ajuda. Isso significa que a maioria não conta com assistência regular, mesmo enfrentando limitações que afetam diretamente sua independência e qualidade de vida.

Os resultados indicam ainda que a situação piora com o avanço da idade. Enquanto 13,9% das pessoas entre 60 e 69 anos apresentam limitações funcionais, esse percentual sobe para 44,2% entre aqueles com 80 anos ou mais. As mulheres também são mais afetadas: 23,1% relatam dificuldades para atividades básicas, contra 17% dos homens.

O estudo também aponta falhas na estrutura de cuidados oferecida aos idosos. Apenas 5,8% dos cuidadores afirmaram ter recebido algum tipo de treinamento para desempenhar essa função.

Para os pesquisadores, esse dado evidencia a falta de políticas públicas voltadas à capacitação e ao suporte de familiares e cuidadores informais, que frequentemente assumem a responsabilidade pelos cuidados sem orientação adequada.

Além da falta de assistência, a pesquisa mostra que fatores urbanos e sociais também dificultam o envelhecimento saudável. Quase metade dos idosos que vivem em áreas urbanas, 42,7%, afirma ter medo de cair por causa de buracos, defeitos em calçadas ou problemas nas vias públicas próximas de casa. Entre pessoas com 80 anos ou mais, esse índice chega a 63,1%.

A sensação de insegurança também afeta milhões de brasileiros mais velhos. Segundo o levantamento, 12,1% dos idosos consideram as vizinhanças muito inseguras em relação à violência e à criminalidade. 

Na área da saúde, a pesquisa identificou que 34,4% dos idosos apresentam níveis compatíveis com hipertensão arterial. O percentual corresponde a cerca de 11 milhões de brasileiros que precisam de acompanhamento para evitar complicações graves, como infarto, acidente vascular cerebral, insuficiência renal e demência vascular.

Os pesquisadores destacam que os desafios do envelhecimento vão muito além das doenças. Questões como mobilidade urbana, acessibilidade, segurança, assistência domiciliar e suporte aos cuidadores têm impacto direto na autonomia e no bem-estar da população idosa.

O estudo também reforça a importância do Sistema Único de Saúde (SUS) nesse cenário. Cerca de dois terços dos brasileiros com 60 anos ou mais dependem exclusivamente da rede pública para atendimento médico. Além disso, 69,2% estão vinculados à Estratégia Saúde da Família, considerada uma das principais portas de entrada para o cuidado dessa população.

¨      Número de médicos geriatras cresce quase 380% em 14 anos no Brasil

Dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que os idosos deixaram de ser a menor fatia da população brasileira em 2023 e, daqui a duas décadas, serão maioria no país.

A população com 60 anos ou mais teve um aumento de 56% em relação ao Censo Demográfico de 2010. São cerca de 32.113.490 pessoas que estão nessa faixa etária, que representam 15,6% da população do Brasil.

À medida que essa parcela considerável da população cresce, aumenta também a preocupação em relação à saúde e ao bem-estar dela. A boa notícia é que o número de médicos geriatras no Brasil também vem aumentando. No entanto, ainda faltam profissionais.

A especialidade, focada em cuidar da saúde de pessoas idosas, registrou um aumento de 378,4% entre os anos de 2011 e 2024, segundo dados da Demografia Médica, publicação do CFM (Conselho Federal de Medicina) e da USP (Universidade de São Paulo).

Em 2011, o país contava com apenas 662 geriatras. Hoje, são mais de 3 mil profissionais com título de especialista reconhecido, o que corresponde a 1,49 especialista por 100 mil habitantes.

O número de mulheres geriatras é maior em relação aos homens: são 62,1% contra 37,9%. A região Sudeste é a que concentra o maior número desses especialistas, com 58,1%. Em segundo lugar é o Nordeste, com 16,9%, seguido pela região Sul, com 14,1%, Centro-Oeste, com 8,6%, e região Norte, com 2,3%.

“O Brasil está passando por um acelerado processo de envelhecimento populacional. No entanto, o número de médicos geriatras ainda é insuficiente para atender a essa demanda crescente. Embora a especialidade tenha ganhado maior reconhecimento nos últimos anos, é fundamental expandir a formação de geriatras e também sensibilizar outros profissionais da saúde sobre os princípios do cuidado geriátrico”, diz Marco Túlio Cintra, geriatra e presidente da Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia (SBGG).

O crescimento na formação de geriatras e a necessidade cada vez maior desses profissionais ocorrem em resposta a uma mudança no perfil da população. Doenças crônicas, como hipertensão, diabetes, osteoporose, demências e cardiopatias, tornam-se mais prevalentes com o envelhecimento e exigem acompanhamento contínuo.

Cintra explica ainda que o geriatra, além de especialista no envelhecimento humano, realiza também prevenção, diagnóstico, tratamento, gerenciamento das condições clínicas e múltiplas doenças do idoso.

“O objetivo é manter a autonomia, funcionalidade e qualidade de vida, respeitando as singularidades e prioridades de cada indivíduo. O geriatra acompanha todas as fases do envelhecimento, desde os primeiros sinais da transição para a velhice até os momentos de maior fragilidade, incluindo o cuidado paliativo e o apoio à pessoa idosa e sua família diante da finitude. Trata-se de um cuidado contínuo”, explica.

O indicado é que pessoas a partir dos 60 anos busquem atendimento de um geriatra. No entanto, o acompanhamento pode começar ainda mais cedo.

“Pessoas mais jovens, com doenças crônicas complexas ou que desejam se preparar para um envelhecimento saudável, também podem se beneficiar da avaliação geriátrica. Quanto mais cedo for iniciado o acompanhamento, maiores as chances de prevenir complicações e preservar a qualidade de vida ao longo do tempo”, acrescenta Cintra.

¨      A saúde que não aparece nos exames

Cuidar do corpo é um hábito que, se ainda não foi incorporado, deveria ser, por todos nós. Exames de rotina, check-up, aquela bateria de números que nos diz se está tudo bem. Colesterol, glicemia, pressão. Um cuidado que a gente já entende como essencial: prevenir antes que o corpo peça.

Mas há uma saúde que não aparece em nenhum desses exames. Ela não tem taxa de referência, não cabe em gráfico, não acende alerta em consultório. E, talvez por isso, seja a que mais negligenciamos: a saúde da mente.

Com o corpo, aprendemos a lógica da prevenção. Cuidamos antes que ele reclame e achamos isso o mais natural do mundo. Com a mente, invertemos tudo: só olhamos para ela quando algo já não vai bem. Como se cuidar da saúde emocional fosse um recurso de emergência, e não uma prática de vida.

Aprendi cedo o valor do autoconhecimento. A terapia entrou na minha vida não como conserto, mas como manutenção. Um espaço de escuta, de organização interna, de encontro comigo mesma. Ali, aprendi a nomear o que sentia, a entender meus movimentos, a me preparar para as fases que a vida traria. E foram muitas. Posso dizer que atravessei os momentos mais desafiadores da minha trajetória com mais inteireza porque esse cuidado já existia antes deles, e sigo.

Porque a mente também acumula. Acumula preocupações, cobranças, lutos pequenos e grandes, conversas que não tivemos, decisões adiadas. E o que não é olhado não desaparece, apenas encontra outros caminhos para aparecer: no sono, no corpo, na impaciência, na ansiedade, na distância de quem amamos.

O curioso é que ninguém acha exagero em fazer alongamento antes da corrida. Ninguém questiona quem cuida da alimentação estando saudável. No corpo, prevenção é sabedoria. Na mente, ainda carrega um resquício de tabu, como se procurar um espaço de cuidado emocional precisasse de uma justificativa, de um motivo grave, de uma crise que o autorize.

Mas não precisa. Cuidar da mente pode ser tão cotidiano quanto cuidar do corpo. Pode ser a terapia, sim. Mas pode ser também a pausa consciente no meio do dia, o diário antes de dormir, a caminhada sem celular, a oração, a respiração, a meditação, a conversa honesta com alguém de confiança, o hábito de agradecer. Cada um encontra suas formas, e pode ser um conjunto delas. O que importa é que elas existam antes que façam falta.

Vejo essa mudança acontecendo, aos poucos, nas novas gerações. Meus filhos falam de saúde emocional com uma naturalidade que a minha geração levou décadas para conquistar. E isso me enche de esperança. Talvez estejamos, finalmente, entendendo que não existe saúde pela metade: corpo e mente são um só sistema.

Não se trata de estar mal para se cuidar. Trata-se de entender que a saúde mental é parte da saúde. Simples assim. E que existe algo de muito bonito em se conhecer antes da crise, e não por causa dela. Quem se conhece atravessa melhor. Quem se cuida, sustenta melhor os outros cuidados que a vida pede.

No fim, talvez seja isso: a mente merece o mesmo carinho de agenda que damos ao corpo. Merece hora marcada, constância e prioridade.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Valter Pomar: Lula e os ricos

Duvido que as estatísticas e a “ciência” política respaldem esse aspecto do que ele diz, mas, apesar ou por causa disso, Lula é reincidente em se apresentar como alguém que teria sido generoso com os ricos.

Sua frase clássica a respeito parece ter sido publicada pela revista Veja, em setembro de 2006: “A única frustração que eu tenho é que os ricos não estejam votando em mim. Porque eles ganharam dinheiro como ninguém no meu governo”.

Outra frase, sobre os banqueiros, foi publicada pela Folha de S. Paulo, em agosto de 2007: “Posso garantir que foram os que ganharam muito dinheiro neste país, no meu governo. Aliás, a parte mais pobre é que deveria estar mais zangada, porque ela teve menos do que eles tiveram”. 

Quase vinte anos depois, em setembro de 2026, num comício em Florianópolis, Lula perguntou: “Por que o agro é contra nós? Só pode ser uma questão de eu ser nordestino, porque se fosse por dinheiro, deveriam se ajoelhar para mim, já que nunca houve tanto dinheiro para o agro como agora”.

É provável que estas perguntas de Lula sejam exclusivamente retóricas, assim como é possível que alguém já tenha alertado o presidente sobre a impossibilidade estatística dele – em três mandatos presidenciais, aos quais se deve somar os de Dilma – ter feito mais pelos de cima do que fizeram os demais presidentes do Brasil, absolutamente todos vinculados, direta ou indiretamente, à classe dominante.

Mesmo assim, as frases citadas de Lula são uma excelente demonstração da contradição mortal existente, tanto na estratégia da tendência atualmente majoritária no nosso Partido dos Trabalhadores, quanto na estratégia que prevaleceu no movimento comunista brasileiro, pelo menos entre 1922 e 1990.

A saber: a ideia de que caberia à classe trabalhadora ajudar a desenvolver o “capitalismo brasileiro”, contribuindo para eliminar seus excessos, defeitos e obstáculos.

Os partidos comunistas nunca tiveram força suficiente para tentar levar à prática esta tese. 

Já nós petistas conseguimos conquistar, por cinco e logo mais por seis vezes, a presidência da República. E colocamos o governo federal a serviço, ao menos parcialmente, daquela tese.

Qual foi o resultado disso? 

Entre muitas outras coisas, descobrimos – embora a ficha ainda não tenha caído para boa parte da “cúpula” – que o maior obstáculo para reformar o capitalismo brasileiro é… o grande empresariado capitalista.

Podemos entupir essa gente de dinheiro. Eles não mudam. E não mudam porque – ao menos na época em que vivemos – o capitalismo realmente existente é isso aí que conhecemos. Portanto, inconciliável com a ampliação do bem estar, das liberdades, do desenvolvimento e da soberania de um país como o Brasil.

Podemos fazer ou falar o que quisermos. Os grandes capitalistas sempre darão um jeito de fazer com que nossa sociedade continue dependente, uma das mais desiguais do mundo, com pouca soberania e muita plutocracia política.

E os grandes capitalistas não se contentam com receber – palavras de Lula – muito dinheiro de nossos governos. Eles querem sempre mais, eles querem tudo.

Por isso o golpe e o governo golpista de 2016-2018, por isso o governo do cavernícola pai, por isso o ilegal parlamentarismo-de-emendas e o Banco Central independente, por isso a candidatura do cavernícola filho tendo o apoio que tem.

Sendo assim as coisas, precisamos escolher: ou o masoquismo que insiste nessa relação tóxica ou um divórcio litigioso que nos emancipe dessa lógica que leva o ministro Durigan a se sentir no direito e na obrigação de “justificar” que o recente aumento do Bolsa Família não foi “real”, foi apenas um reajuste para compensar a inflação.

Ouvindo tamanha merda, um velho anarquista espanhol provavelmente diria que “o Brasil só será realmente livre quando o último banqueiro privado tiver sido enforcado nas tripas do último latifundiário”.

A preços de hoje, me contentaria com um pacote de reformas estruturais que faça os capitalistas perderem bastante e faça o povo ganhar muito. E poderia começar, já, pelas Bets. Afinal de contas, gentileza com gentileza se paga. 

¨      Campanha Lula deve manter a iniciativa. Por Valérrio Arcary

Tudo se decidirá em duas semanas. Mas quem tem iniciativa tática conquista vantagem. Prevaleceu, finalmente, no comando da campanha, o sentido de máxima urgência diante de uma eleição indefinida. As decisões de aumentar o valor do Bolsa Família, de assumir o acesso às canetas emagrecedoras, gratuitamente, pelo SUS, e enfrentar a epidemia de endividamento pelas bets como uma tragédia de saúde pública vieram atrasadas, mas ainda a tempo de incidir na disputa da pauta das eleições, ao lado do fim da jornada 6×1. A apresentação da biografia de Lula e, mais importante, a defesa do legado do governo, em especial diante da inescapável comparação com as calamidades da gestão Bolsonaro, foram necessárias nas primeiras semanas de campanha. Foi, também, uma decisão justa fazer a defesa da soberania, diante da interferência de Trump, e da democracia, diante do perigo autoritário do retorno do bolsonarismo ao poder, ambicionando uma maioria absoluta no Congresso, em especial no Senado, e o controle do STF (Supremo Tribunal Federal) com a nomeação de ministros “terrivelmente” reacionários. 

Mas a dinâmica da disputa exigia um reposicionamento emergencial, assumindo novos compromissos para o futuro, porque esta eleição é diferente da campanha de 2022. Um giro era necessário, e oxalá se mantenha. O que não avança, recua. Propostas como a defesa da regulamentação de imposto sobre as grandes fortunas e o passe livre, como exemplos de compromissos para o quarto mandato, mereceriam ser, também, consideradas. Não só têm audiência de massas e podem energizar a mobilização da militância que será indispensável, mas respondem a expectativas adiadas por décadas que podem fazer a diferença em uma eleição que será definida por uma margem de votos dramaticamente estreita. A resposta ao medo deve ser a agitação da esperança de que dias melhores virão.  

A sessão do STF foi um escarcéu, confirmando que não havia remédio jurídico para um julgamento político. Mas o desfecho permitiu ganhar tempo. Foi evitado que as duas últimas semanas de campanha eleitoral tivessem como pauta a corrupção. Devemos ter sentido de perspectiva considerando a correlação de forças no Tribunal e na sociedade. Pior teria sido se fosse iniciada a investigação somente contra Xandão, porque este desenlace iria eletrizar o núcleo duro bolsonarista associando Lula a Alexandre de Moraes em um amálgama manipulador e desonesto. Melhor teria sido, evidentemente, se tivesse vencido a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, e todos os ministros suspeitos de envolvimento com favores de Vorcaro – todos, sem exceções –, fossem investigados. Mas isso era impossível. A solução do impasse pelo pedido de vistas de Dino foi um mal menor. Impasse é muito melhor do que derrota. O objetivo de Fachin era abrir a investigação contra Alexandre de Moraes antes do primeiro turno, o que turbinaria, inevitavelmente, a campanha “Fora Xandão, Fora Lula”. Ninguém deveria se surpreender que tenha sido apoiado por Fux o ministro que absolveu Bolsonaro no julgamento por golpismo. Mas é bom lembrar que foi por um triz. Felizmente, as informações disponibilizadas no celular de Vorcaro, na véspera e sob intensa pressão, provocaram pânico em Nunes Marques, que se declarou impedido. Mas estão equivocados aqueles que, na esquerda, se uniram à louvação de Carmem Lúcia, deixando-se “hipnotizar” pela defesa da “dignidade” do Supremo. O voto dela contra um julgamento unificado de todos os envolvidos em relações suspeitas com Vorcaro favoreceu a manobra de Mendonça, e revelou uma completa incompreensão do perigo neofascista colocado por uma possível volta do bolsonarismo ao poder.

A fração liberal da classe dominante apoiou, irresponsavelmente, a manobra de Mendonça de manipular a eleição associando Lula a Alexandre de Moraes como denúncia de um “sistema podre de corrupção”. Facilitaram a tentativa de subverter a pauta do debate eleitoral para elevar o nível de exigências à candidatura Lula. Não têm muitos votos além da classe média abastada, mas têm peso político-social. Ninguém pode desconhecer que a pauta da corrupção favorece a extrema direita. Este paradoxo é escabroso porque é um fato inescapável que o candidato Flávio Bolsonaro manteve relações indefensáveis com o banqueiro preso Vorcaro. Mas grandes grupos capitalistas que se expressam através da Rede Globo e Folha de São Paulo, além de outras empresas de comunicação social, estão fazendo, despudoradamente, um ultimato para que Lula se comprometa com um ajuste fiscal que garanta pelo menos entre 2% e 3% de superávit fiscal. Encontraram acolhida em setores do governo, como o ministro da Fazenda Dario Durigan, que sinalizou até a desvinculação do salário mínimo como piso da remuneração dos benefícios da Previdência Social. A grande mídia comercial está flertando com a catástrofe: o perigo de uma nona vitória da extrema direita (Argentina, El Salvador, Equador, Chile, Bolívia, Honduras, Colômbia e Peru), desde que Trump voltou ao poder é real e imediato. A chantagem da Casa Branca vai ficar mais ameaçadora nas próximas duas semanas, a pretexto do discurso de Lula na abertura da Assembleia das Nações Unidas. Já ficou demonstrado que a agitação de represálias contra o Brasil para disseminar o medo é funcional. Devemos estar conscientes de que a interferência dos EUA, que começou há um ano em julho de 2025 com o tarifaço, pode ser decisiva. 

O resultado da campanha eleitoral está imprevisível. Tanto podemos vencer quanto perder. A mais recente pesquisa Datafolha revelou, pela terceira semana seguida, apesar do tumulto no STF, que se mantém um empate técnico no segundo turno de Lula (46%) contra 44% de Flávio Bolsonaro, e rejeição de ambos em 47%. Confirmou, também, que é muitíssimo provável que haja um segundo turno, e que a diferença a favor de Lula no primeiro turno veio diminuindo. Mas sinaliza um aumento da aprovação do governo, e esta é a informação mais animadora. Todas as oscilações são nos limites da margem de erro. Dados desagregados mais relevantes são que Lula mantém maioria entre os mais pobres (46% a 29%) que representam gigantescos 49% do eleitorado, no Nordeste (56% a 26%) que correspondem a 27%, defende um empate técnico, ainda que numericamente atrás, no Sudeste que concentra 42% da população (35% a 37%), vantagem entre os menos instruídos (47% a 30%), que são 28% do da sociedade, e católicos (43% a 34%) que são metade do povo. Bolsonaro mantém vantagem entre os remediados (41% a 33%) que ganham entre 2 e 5 salários-mínimos, e são 34% da classe trabalhadora e, sobretudo, na classe média acima de 7,5 mil reais (44% a 28%), que são 12% do eleitorado, embora a margem de erro da pesquisa nos dois segmentos seja de 6 pontos. Mantém vantagem no Sul (45% a 27%), que são 15% dos eleitores. A extrema-direita tem maioria entre os brancos e quem tem escolaridade média, além de diminuir a desvantagem entre as mulheres. Mas Lula tem 35% na pesquisa espontânea, menos 4% que na estimulada, e Flávio 26%, menos 10% que na estimulada: uma adesão menos consolidada, em um contexto em que 21% não fizeram sua escolha. Isso significa que há ainda um espaço grande de disputa. Onde a votação de Lula pode crescer? O que a história dos últimos dez anos nos sugere é que será entre os trabalhadores, negros e mulheres, considerando que na classe média se consolidou um anti-lulismo ressentido. Devemos esperar, também, que uma parte dos 15% de preferências que se distribuem entre Cury, Caiado, Renan e Zema se deslocarão para Bolsonaro já no primeiro turno.

<><> BTG/Nexus mede pela primeira vez a expectativa da vitória de Lula

A pesquisa BTG/Nexus divulgada nesta segunda-feira (21) trouxe um indicador novo na série: a expectativa dos próprios entrevistados sobre quem vai vencer a eleição, independentemente de seu voto pessoal. O resultado mostra 54% acreditando em vitória de Lula, contra 36% que esperam vitória de Flávio Bolsonaro. É uma métrica conceitualmente diferente de intenção de voto, e historicamente tende a ser mais estável e menos suscetível a efeito de desejo do entrevistado, o que a torna um termômetro complementar interessante à leitura pura de quem lidera hoje.

No cenário estimulado de primeiro turno, Lula tem 40% contra 37% de Flávio, distância de 3 pontos dentro da margem de erro de 2 pontos. É recuo em relação à rodada de 14 de setembro, quando Lula tinha 42% e Flávio, 37%. Na pesquisa espontânea, Lula lidera por 40% a 34%.

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No segundo turno, Lula aparece numericamente à frente de Flávio por 46% a 45%, dentro da margem de erro, e o quadro comparativo às rodadas recentes do próprio instituto mostra oscilação constante nesse patamar de empate técnico: 45% a 46% em 31 de agosto, 39% a 35% em 8 de setembro, 47% a 46% em 14 de setembro. Contra Ronaldo Caiado, o resultado é empate exato, 45% a 45%. Contra Augusto Cury, Lula tem 44% a 43%, também empate técnico. As distâncias mais confortáveis aparecem contra Zema (47% a 41%) e Renan Santos (47% a 39%).

A pesquisa ouviu eleitores entre 18 e 20 de setembro, com margem de erro de 2 pontos e 95% de confiança.

 

Fonte: Opera Mundi/O Cafezinho