Ninguém
sabe tudo: a divisão do conhecimento e a disputa política pela realidade
Não é
preciso ser um observador particularmente perspicaz para perceber que uma
parcela importante do debate político contemporâneo da direita, sobretudo de
sua vertente mais radical, deslocou-se para uma disputa em torno da própria
realidade. Questões relacionadas aos direitos das pessoas LGBT+, às mulheres, à
imigração, à vacinação, à ciência, às universidades e às mudanças climáticas
ocupam espaço central na agenda da extrema direita. Não se trata apenas de
discordar sobre quais políticas devem ser adotadas, mas de disputar quem possui
autoridade para dizer o que é verdadeiro.
O
fenômeno é particularmente paradoxal diante do estágio de desenvolvimento
alcançado pela civilização contemporânea. Nunca produzimos tanto conhecimento
científico nem dispusemos de tantos instrumentos tecnológicos para transformar
o mundo. Ao mesmo tempo, existe uma distância crescente entre aquilo que a
humanidade conhece coletivamente e aquilo que qualquer indivíduo consegue
conhecer por si mesmo. Essa contradição é fundamental para compreender a
política contemporânea.
Um
indivíduo que vive no século XXI depende constantemente de conhecimentos que
não possui. Ao tomar uma vacina, não precisa dominar imunologia; ao utilizar um
telefone celular, não precisa conhecer física e programação; ao consultar um
médico, não possui necessariamente os conhecimentos necessários para verificar
cada diagnóstico.
A vida
social moderna é fundada, portanto, em uma enorme divisão do conhecimento. A
especialização é uma das condições do desenvolvimento científico e produtivo,
mas produz uma consequência paradoxal: quanto mais conhecimento a sociedade
produz, maior é a parcela da realidade que cada indivíduo precisa aceitar sem
poder verificá-la diretamente.
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A ignorância como condição da civilização
A
divisão do trabalho, observada por Adam Smith (1776), aumentou enormemente a
capacidade produtiva da sociedade ao permitir que indivíduos se especializassem
em tarefas específicas. O mesmo ocorreu com a ciência: a física, a biologia, a
medicina e as ciências sociais fragmentaram-se em inúmeras especialidades. O
conhecimento humano tornou-se tão vasto que nenhum indivíduo pode dominar sua
totalidade.
A
humanidade, coletivamente, conhece cada vez mais; cada indivíduo, entretanto,
permanece necessariamente ignorante diante desse conhecimento. Essa questão
constitui uma característica da própria vida moderna.
Precisamos
confiar em médicos, engenheiros, professores, cientistas, jornalistas e outras
comunidades especializadas. A sociedade funciona porque desenvolveu
instituições capazes de produzir, verificar e transmitir conhecimentos que
nenhum indivíduo poderia produzir sozinho. A ciência, nesse sentido, é uma
instituição social de produção e validação do conhecimento.
É
justamente aí que aparece uma das grandes vulnerabilidades políticas do nosso
tempo.
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Quando a dúvida se torna política
Se
nenhum indivíduo consegue verificar sozinho a maior parte das afirmações
relevantes sobre o mundo, a destruição da confiança nas instituições produtoras
de conhecimento pode produzir consequências políticas irreparáveis. Não é
necessário demonstrar que uma vacina é perigosa; basta lançar dúvidas sobre
aqueles que afirmam que ela é segura. Não é necessário apresentar um modelo
climático alternativo; basta afirmar que “os cientistas não são confiáveis”.
A
estratégia pode consistir não em substituir uma verdade por uma mentira, mas em
destruir a própria possibilidade de distinguir uma coisa da outra. O
negacionismo, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como falta de
informação. Ele pode funcionar como uma política de desorganização
epistemológica: a questão deixa de ser “qual afirmação é verdadeira?” e passa a
ser “em quem você escolhe acreditar?”.
Esse
fenômeno é anterior às redes sociais. Oreskes e Conway (2011) demonstraram como
determinados grupos atuaram para fabricar controvérsias e prolongar a percepção
pública de incerteza em debates relacionados ao tabaco, à chuva ácida e ao
aquecimento global. As plataformas digitais, entretanto, acrescentaram uma
infraestrutura extremamente eficiente para a circulação dessas dúvidas,
favorecendo comunidades fechadas e conteúdos capazes de produzir engajamento.
É nesse
ponto que a reflexão de Theodor Adorno e Max Horkheimer se torna especialmente
fecunda. Em Dialética do Esclarecimento (1947), os autores partem do
paradoxo de uma civilização que alcançou extraordinário desenvolvimento
científico e técnico, mas também produziu formas extremas de barbárie. Para
eles, o problema não está simplesmente na existência da razão, da ciência ou da
técnica, mas na transformação da razão em uma racionalidade predominantemente
instrumental, orientada para o cálculo dos meios necessários à obtenção de
determinados fins.
Quando
a razão se limita a perguntar “como fazer?”, sem discutir criticamente “para
quê?” e “a serviço de quem?”, pode converter-se em instrumento de dominação.
Horkheimer desenvolveria essa crítica em Eclipse of Reason (1947),
associando a razão instrumental a uma racionalidade reduzida à utilidade e à
eficiência, deixando em segundo plano a reflexão sobre os fins que deveriam
orientar a ação humana.
O
século XX demonstrou esse paradoxo de maneira brutal: a mesma racionalização
científica que permitiu avanços extraordinários também foi mobilizada para
desenvolver armas de destruição em massa e aperfeiçoar mecanismos burocráticos
de extermínio. A racionalidade dos meios não garante a racionalidade dos fins –
principalmente uma racionalidade a serviço da humanidade.
A
questão contemporânea pode ser formulada como um novo paradoxo: produzimos uma
sociedade capaz de conhecer o mundo em uma escala jamais imaginada, mas não
produzimos indivíduos capazes de compreender a totalidade desse conhecimento ou
de decidir coletivamente quais fins devem orientar seu uso.
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Uma sociedade que ninguém compreende sozinho
A
realidade social tornou-se tão complexa que ninguém consegue apreendê-la
integralmente. A economia depende de cadeias produtivas globais, o clima é
estudado por modelos matemáticos, vacinas resultam de décadas de pesquisa e
novas tecnologias mobilizam conhecimentos de inúmeras áreas. Nenhum ser humano
consegue dominar tudo isso, e essa não é uma falha da sociedade moderna: é uma
de suas próprias condições de existência.
O
problema surge quando essa dependência inevitável de instituições e
especialistas é transformada em vulnerabilidade política. A democracia exige
cidadãos capazes de formar juízos sobre questões que não podem conhecer
diretamente em sua totalidade. Para isso, dependem de instituições capazes de
produzir confiança: universidades, escolas, imprensa profissional, instituições
científicas, etc.
A
confiança, portanto, não é o oposto do pensamento crítico. Em sociedades
complexas, ela é uma condição para que o pensamento crítico exista. Confiar em
um cientista não significa acreditar cegamente em tudo o que ele diz, mas
reconhecer que determinadas comunidades desenvolveram métodos para produzir e
corrigir conhecimento que nenhum indivíduo consegue reproduzir sozinho.
Quando
essa distinção é destruída, a política deixa de disputar interpretações sobre a
realidade e começa a disputar a própria existência de uma realidade comum.
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A política de uma realidade paralela
A
extrema direita contemporânea explora essa destruição da confiança ao
transformar especialistas em inimigos, universidades em espaços de doutrinação,
jornalistas em conspiradores e instituições científicas em instrumentos de
interesses ocultos. É importante não reduzir toda a direita a esse fenômeno: a
crítica democrática a instituições, governos e especialistas é legítima. O
problema surge quando a crítica deixa de exigir melhores evidências e passa a
rejeitar a própria ideia de evidência compartilhada.
Uma
sociedade democrática precisa de algum terreno factual comum. Podemos discordar
sobre o que fazer diante das mudanças climáticas; não podemos transformar sua
existência em uma questão de preferência partidária. Podemos discutir políticas
de vacinação; não podemos atribuir o mesmo peso epistemológico a décadas de
pesquisa científica e a uma publicação anônima em uma rede social.
Theodor
Adorno e Max Horkheimer (1947) ajudam novamente a compreender esse processo.
Sua análise da indústria cultural mostrava como a produção cultural, submetida
à lógica da mercadoria e da padronização, podia contribuir para a formação de
indivíduos menos autônomos e mais adaptados às estruturas sociais existentes.
Embora as redes sociais não sejam equivalentes à indústria cultural de seu
tempo, permanece relevante a ideia de que as formas de circulação das
informações participam da formação dos sujeitos políticos.
Hoje,
algoritmos selecionam aquilo que vemos, plataformas recompensam conteúdos
capazes de produzir engajamento e comunidades digitais podem criar ambientes
nos quais determinadas crenças são continuamente confirmadas. O resultado não é
apenas mais informação, mas uma transformação da própria experiência social da
realidade.
As
mudanças climáticas constituem um exemplo particularmente claro do conflito
entre realidade científica e interesses econômicos e políticos. Levar suas
consequências a sério exige transformações nos padrões de produção, energia,
transporte, agricultura, urbanização e consumo. Torna-se evidente, portanto,
que uma transição climática efetiva exige a superação definitiva do
capitalismo, substituindo as estruturas de propriedade e os interesses
econômicos consolidados por um novo sistema que harmonize as necessidades
humanas com os limites e o respeito à natureza.
A
realidade científica possui, nesse caso, consequências políticas. É justamente
por isso que negá-la pode ser conveniente. Se a mudança climática é uma
invenção, não precisamos transformar nossa matriz energética; se a perda de
biodiversidade é exagerada, não precisamos alterar padrões de ocupação
territorial. A negação da realidade funciona, então, como uma forma de
conservação social.
Isso
não significa que todos os indivíduos que negam as mudanças climáticas estejam
conscientemente defendendo interesses econômicos específicos. Ideologias não
precisam ser produzidas deliberadamente por cada indivíduo para cumprir funções
sociais. Como Marx e Engels (1845-1846) demonstraram em sua crítica da
ideologia, determinadas formas de representação podem ocultar relações sociais
e aparecer como descrições naturais da realidade.
A
ideologia da extrema direita contemporânea pode assumir uma forma
particularmente sofisticada: não precisa oferecer uma explicação alternativa
completa do mundo; pode simplesmente produzir dúvida suficiente para impedir
que a realidade produza consequências políticas.
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A crise do neoliberalismo e a administração da frustração
Essa
dinâmica também precisa ser relacionada à crise do próprio neoliberalismo. A
partir das décadas de 1970 e 1980, diversas economias passaram por
desregulamentação financeira, privatizações, redução de determinadas formas de
intervenção estatal e fortalecimento da lógica de mercado. A promessa era que
mercados mais livres produziriam maior eficiência, crescimento, inovação e
prosperidade.
Os
resultados foram mais contraditórios do que essa promessa sugeria. O período
posterior foi acompanhado, em diferentes países, por aumento da desigualdade,
expansão da financeirização e crescente insegurança econômica. Thomas Piketty
(2014) documentou a forte concentração da renda e da riqueza observada em
diversos países nas últimas décadas.
Quando
uma ordem política deixa de oferecer respostas convincentes às condições
materiais da população, abre-se espaço para explicações alternativas. É nesse
terreno que a extrema direita pode prosperar. Em vez de questionar as
estruturas econômicas que produzem insegurança, frequentemente desloca a
insatisfação para outros grupos: imigrantes, minorias sexuais, intelectuais,
universidades, movimentos sociais e ambientalistas. A frustração material
encontra, assim, um objeto político mais facilmente identificável.
Esse
deslocamento ajuda a compreender por que discursos aparentemente irracionais
podem cumprir uma função política racional. Se determinados problemas exigem
transformações profundas, negar sua existência reduz a pressão por
transformação; se a desigualdade resulta de estruturas complexas, atribuí-la a
grupos socialmente vulneráveis simplifica a explicação.
A
irracionalidade do conteúdo pode coexistir, portanto, com uma racionalidade da
função social que desempenha. A Teoria Crítica permite perceber esse paradoxo:
a irracionalidade não precisa estar fora da racionalidade moderna; pode ser
produzida dentro dela (Adorno; Horkheimer, 1947).
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Reconstruir uma realidade comum
Combater
a extrema direita não pode significar simplesmente fornecer mais informações.
Se a sociedade depende de conhecimentos especializados, precisamos reconstruir
as instituições que tornam possível confiar nesse conhecimento sem transformar
confiança em obediência cega. Universidades públicas fortes, educação capaz de
formar pensamento crítico, jornalismo profissional e instituições científicas
independentes são parte dessa tarefa.
Mais
importante, precisamos recuperar a ideia de que conhecimento é uma produção
coletiva. Nenhum de nós sabe tudo. O cientista não domina toda a ciência; o
médico não domina toda a medicina; o economista não compreende sozinho toda a
economia. O cidadão não precisa dominar tudo isso para participar
democraticamente da sociedade. Precisa, entretanto, reconhecer onde termina seu
conhecimento individual e onde começa o conhecimento coletivo que sustenta
nossa civilização.
Talvez
essa seja uma das tarefas políticas mais importantes do nosso tempo:
reconstruir a confiança sem abandonar a crítica; defender a ciência sem
transformá-la em dogma; reconhecer a autoridade do conhecimento sem convertê-la
em autoridade política absoluta.
Uma
sociedade na qual ninguém acredita em instituições, especialistas ou evidências
não se torna necessariamente mais livre. Pode tornar-se simplesmente mais
vulnerável àqueles que possuem maior capacidade de manipular suas percepções.
Em uma sociedade saturada de informação, destruir a confiança pode ser tão
poderoso quanto controlar a informação.
O
problema, portanto, não é que tenhamos produzido conhecimento demais. É que
produzimos uma realidade que nenhum de nós consegue compreender sozinho. Essa é
a grande conquista e, simultaneamente, uma das grandes fragilidades da
civilização.
Somos
capazes de conhecer o clima do planeta, desenvolver vacinas e construir
sistemas tecnológicos de complexidade inimaginável. Mas essa capacidade
coletiva só existe porque cada indivíduo aceita que não precisa – e não pode –
saber tudo. A civilização depende dessa humildade.
Talvez
seja precisamente contra ela que parte da política contemporânea da extrema
direita se insurja. Ao convencer indivíduos de que sua experiência particular é
suficiente para substituir o conhecimento acumulado por comunidades inteiras de
pesquisadores, transforma a ignorância inevitável em certeza política. Quando a
certeza substitui a investigação, a suspeita substitui a evidência e a
identidade substitui o argumento, a política deixa de ser uma disputa sobre o
futuro e passa a ser uma disputa contra a própria realidade.
O
desafio democrático do século XXI é, portanto, maior do que combater notícias
falsas. É reconstruir as condições sociais nas quais a verdade possa novamente
ter autoridade pública – não porque todos precisemos saber tudo, mas justamente
porque ninguém pode saber tudo sozinho.
Fonte:
Por Gustavo Ramirez-Aleixo, em A Terra é Redonda



