sábado, 24 de outubro de 2026

Luis Felipe Miguel: A escória do Brasil

Anos atrás, nos sombrios tempos em que Jair Bolsonaro era o presidente do Brasil, escrevi um texto intitulado “A raposa de Rio das Pedras”. Falava da decadência da elite política brasileira, não em termos de seus valores, mas de sua habilidade.

Tinha um tempo em que a política nacional era dominada por gente como Tancredo Neves, Petrônio Portella, Leonel Brizola, Francelino Pereira, Ulysses Guimarães, José Sarney. Podemos gostar ou não de cada um deles, mas temos que reconhecer que eram todos políticos habilidosos. “Raposas”, como se dizia.

Agora (eu dizia naquele artigo, e o “agora” era um governo que deixava o povo morrer com a condução criminosa da pandemia, conspirava a céu aberto contra a Constituição, mas ainda assim alcançava um modus vivendi com o Congresso e com o Judiciário), em vez de gente matreira, ardilosa, o cenário político via o triunfo de um truculento como Jair Bolsonaro, incapaz de um raciocínio sutil, de uma manobra elegante.

E agora (o nosso “agora”, deste segundo turno tenso e desafiador), como tudo que existe no mundo é capaz de piorar, corremos o risco de ver, na presidência da República, o filho deste sujeito.

Eu costumo dizer que há uma coisa boa que podemos falar sobre Jair Bolsonaro: um dia ele vai morrer. Em Flávio Bolsonaro, podemos reconhecer uma outra qualidade. Ele é a reunião de tudo o que de pior a escória do Brasil é capaz de produzir. Um mostruário de defeitos. Um catálogo de vícios.

Ele é daqueles sujeitos que são definidos integralmente pela palavra “filho”. Tudo o que conquistou na vida, conquistou por causa do pai, desde o primeiro emprego fantasma na Câmara dos Deputados, quando tinha apenas 19 anos, até a candidatura a presidente da República.

Foi o sobrenome paterno que lhe garantiu sucessivos mandatos como deputado estadual no Rio de Janeiro e, depois, a cadeira de senador. Seu irmão Eduardo, que obviamente também não é flor que se cheire, mas ao menos tem mais personalidade, foi mandado para São Paulo, para conquistar sua vaga na Câmara dos Deputados. Flávio Bolsonaro, não. Flávio Bolsonaro ficou agarrado a barra da saia do pai, por assim dizer, no Rio de Janeiro.

Foi Jair Bolsonaro, também, quem apresentou Flávio Bolsonaro ao ambiente em que ele se sente mais em casa, o das milícias.

<><> Lembram do Queiroz?

Flávio Bolsonaro é aquele sujeito sem sal. Se não fosse o filho de quem é, seria o tipo que vai na festa, fica do começo até o fim, e depois a gente não lembra se esteve lá ou não. O pai é tosco, um irmão é hidrófobo, o outro é delirante. Flávio Bolsonaro é só um nada.

Tem um olhar baço, de peixe morto. Está muito bem ensaiado pelos seus marqueteiros, mas não consegue deixar de ter um jeito meio robótico. Flávio Bolsonaro grita, mas não empolga. Balança, mas não tem gingado. Aqueles que o aplaudem, não o aplaudem: estão aplaudindo o pai, por interposta pessoa.

O caso do debate para o Senado no Rio de Janeiro, em que ele desmaiou e borrou as calças, com medo de enfrentar as perguntas, é emblemático. Mostra de que madeira ele é feito. Certamente não a de um líder.

O caso do fim da escala 6×1 também é emblemático. Flávio Bolsonaro era contra. Quando viu que era impossível adiar a votação no Senado, votou a favor. Mas prometeu a seus apoiadores no patronato que, se eleito, vai fazer uma nova PEC para voltar atrás. É a postura de quem não consegue afirmar sua própria posição. A postura de quem não tem compostura. E de um mentiroso.

Não surpreende. Ele não fez propaganda dizendo que vai acabar com as milícias? Depois de tantas declarações públicas de amor a elas, depois de tantas homenagens, depois de tudo o que recebeu delas, vai cuspir no prato em que comeu? Certamente, por trás dos panos, os chefes já foram assegurados de que tudo continuará bem.

Aos 45 anos, ele não é um menino. É natural pensar que ele se sente frustrado, que a essa altura da vida já gostaria de ter feito algo por si mesmo, construído uma personalidade própria, se tornado algo além do 01. Mas parece que não Flávio Bolsonaro está contente, acomodado na sua posição de nulidade, pior ainda, de preposto de uma nulidade.

João Moreira Salles publicou um texto, logo antes do primeiro turno, indigitando os expoentes da elite econômica brasileira, herdeiros como ele, banqueiros, investidores, executivos de grandes corporações, a turma do dinheiro, enfim, que estava apoiando o filho do Bolsonaro mesmo sabendo quem ele é.

A questão central é essa: eles sabem.

Não se trata de gostar ou não gostar de Lula. Esse pessoal até podia gostar, tanto cuidado que os governos do PT tiveram para não machucar seus interesses. Mas não gostam, é claro, seja porque um operário ter chegado ao poder dá um péssimo exemplo, seja porque nossa classe dominante tem alergia à igualdade e não tolera qualquer política redistributiva, por mais tímida que seja. Mas uma coisa, dizia João Moreira Salles, é não gostar de Lula. Outra coisa é estar disposto a colocar um criminoso no poder.

Flávio Bolsonaro não é só um despreparado, embora tenha dado provas cabais de sua absoluta ausência de conhecimento, de competência ou de ideias para administrar qualquer coisa, quanto mais para comandar um país de dimensões continentais.

Não é só um extremista de direita, embora também o seja, com sua defesa da tortura, sua ojeriza aos direitos, seu apreço por todas as formas de preconceito e discriminação, sua defesa das hierarquias sociais, seu desprezo pela solidariedade, seu gosto pela violência. Não é só alguém que não tem compromisso com a democracia, embora realmente vilipendie e trabalhe para subverter as instituições democráticas.

Não é só uma pessoa desumana, embora se mostre incapaz de um gesto de empatia ou de compaixão pelo próximo. Não é só um entreguista, embora não esconda seu desejo de submeter o Brasil aos Estados Unidos, oferecendo nossas riquezas e sua subserviência canina aos senhores de Washington.

Não é só um corrupto, embora também não haja dúvidas quanto a isso, alguém que começou como funcionário fantasma, com emprego presencial em Brasília enquanto fazia graduação também presencial no Rio de Janeiro, passou pelo esquema de rachadinha no gabinete, com aquela predileção insuperável por depósitos em dinheiro vivo, e chegou nos esquemas de Daniel Vorcaro, o maior escândalo financeiro de nossa história, do qual ele desponta como protagonista, mesmo com todos os esforços do pau-mandado de seu pai, André Mendonça, para abafar sua participação.

Inepto, extremista, desumano entreguista, corrupto: tudo isto está dentro da “normalidade” dos tristes tempos atuais.

<><> Crime organizado

Mas Flávio Bolsonaro é também um expoente do crime organizado, cujos interesses defende de forma permanente e com o qual mostra ter vínculos ainda mais estreitos do que os de seu pai. Uma vinculação que ele fez questão de ostentar ao longo de toda a sua vida pública.

Ou alguém consegue imaginar um deputado homenageando um bandido que está preso e indo cadeia lhe dar uma medalha, se não se sente obrigado a expressar publicamente sua lealdade? Ou um senador, no exercício de seu mandato, atuando como advogado do assassino de uma criança de apenas cinco anos – por que ele faria isso, se não fosse para mostrar um “contem comigo” para os integrantes de seu bando criminoso?

Quem assistiu ao seriado Narcos sabe que Pablo Escobar tentou uma carreira política e sonhava ser presidente da Colômbia. Flavio Bolsonaro está próximo de realizar aqui, no Brasil, o sonho do chefe do cartel de Medellín.

Que o nepobaby da milícia tenha chegado, com vantagem, ao segundo turno da eleição presidencial é culpa de muita gente. Sim, dos endinheirados listados por João Moreira Salles.

Mas também da nossa imprensa corporativa, que sempre foi e continua sendo complacente com o clã Bolsonaro. Ah, vão dizer, eles noticiam os escândalos. É verdade, noticiam alguns deles, não todos, mas nunca de forma capaz de dar a dimensão de quem realmente é o candidato do PL. Como se fossem os escândalos “normais” a que já estamos acostumados na nossa elite política.

Também de muitos pastores e padres, que sabem perfeitamente quem estão apoiando, em nome de um Cristo que prega o ódio e defende os privilegios. Dos políticos do Centrão, que se deixam levar pelo oportunismo imediato. Dos influenciadores que recebem grana e que não se importam de dar sua contribuição para a vitória do mal. De tantos “cidadãos de bem” que se deixam guiar pelo ódio ao PT e a Lula e que sabem muito bem que estão entregando o Brasil a um bandido.

O que nos espera é a destruição do país. Temos poucos dias para evitar esse resultado.

¨      Gestor de offshore ligada a Flávio também integra escritório de Willer Tomaz

O advogado Mateo Scudeler, que administrou uma offshore ligada ao jatinho utilizado pelo candidato a presidente Flávio Bolsonaro (PL), também integra os registros profissionais do escritório Aragão & Tomaz Advogados Associados, pertencente ao advogado Willer Tomaz, amigo do candidato à Presidência, e ao ex-ministro da Justiça Eugênio Aragão. 

Documentos oficiais obtidos pelo núcleo investigativo do ICL Notícias comprovam que Scudeler atuava na banca durante o período em que administrava a empresa no exterior.

A descoberta ocorre em meio a uma mudança na sociedade. Em conversa com o ICL Notícias nesta sexta-feira (16), Eugênio Aragão confirmou que comunicou sua saída do escritório no dia 5 de outubro, um dia depois do primeiro turno das eleições. O desligamento ainda não foi formalizado e, segundo ele, será concluído no próximo dia 26.

“Já comuniquei minha saída. Tem várias causas em que estou constituído. Isso precisa ser resolvido para sair da sociedade Aragão e Tomaz Advogados Associados. É um procedimento que exige uma complexa logística”, afirmou.

Eugênio Aragão e Willer Tomaz manteve uma parceria profissional desde 2017. O escritório conjunto foi formalizado em setembro de 2018 e permanece ativo nos cadastros empresariais, com os dois advogados registrados como sócios.

Atualmente Aragão possui uma sociedade independente, denominada Eugênio Aragão Advogados Associados. O escritório próprio foi constituído em abril de 2023, período em que ele ainda mantinha a parceria com Willer.

A empresa administrada por Scudeler é a Alcazar Holdings, registrada na Ilha da Madeira, em Portugal. Segundo reportagem publicada pelo “Metrópoles”, a offshore pertence a Willer Tomaz e detém uma participação no jatinho Legacy 650, de matrícula PP-NLR, utilizado por Flávio Bolsonaro. O voo do candidato foi revelado pela revista “Piauí”. O advogado administrou a empresa entre abril de 2023 e junho de 2026.

A Alcazar também apareceu em documentos bancários obtidos pela Polícia Federal na investigação sobre desvios de recursos do INSS. Conforme revelado pelo pela jornalista Malu Gaspar, registros indicam que Flávio estava cadastrado como “usuário master” de uma conta bancária vinculada à empresa. O candidato e Willer negam ter compartilhado contas ou mantido relações financeiras e atribuem a informação a um erro cadastral.

<><> Documento da Câmara comprova vínculo com escritório

Um documento oficial da Câmara dos Deputados, de 27 de junho de 2023, comprova que Scudeler atuava como advogado sênior do Aragão & Tomaz Advogados Associados.

Na ocasião, ele encaminhou à CPI da Manipulação de Resultados no Futebol uma petição da Kaizen Gaming, operadora da plataforma de apostas Betano.

O e-mail foi enviado pelo endereço institucional  do escritório.

A documentação também identifica Eugênio Aragão como advogado constituído pela Betano para representá-la perante a comissão parlamentar.

Naquele momento, Scudeler já administrava a Alcazar Holdings, segundo a cronologia divulgada pelo Metrópoles. Isso significa que ele exercia simultaneamente atividades profissionais no escritório de Willer e na administração da offshore pertencente ao advogado.

O vínculo aparece novamente em registros judiciais de 2026. Em um processo envolvendo o espólio do ex-banqueiro Edemar Cid Ferreira, Scudeler figura entre os advogados ao lado de Willer Tomaz e do escritório Aragão & Tomaz.

Os documentos demonstram a continuidade da representação processual, embora não esclareçam se Scudeler mantém atualmente um contrato de associação profissional com a banca.

<><> Advogados também atuaram para entidade de apostas

Além de administrar a offshore e atuar no escritório, Mateo Scudeler presidiu a Associação Nacional dos Operadores Estaduais de Jogos e Loterias (Opera Legal), entidade que representa interesses de empresas do setor de apostas.

Entre suas associadas estão empresas como Pixbet, Vai de Bet e MarjoSports, segundo o “Metrópoles.”

A relação com o escritório de Willer também aparece em documentos do Supremo Tribunal Federal. Eugênio Aragão figura como advogado da Opera Legal em ações que discutem a regulamentação das apostas e loterias estaduais.

A entidade foi admitida como participante desses processos em agosto de 2026, quando Scudeler ainda aparecia como seu presidente em registros empresariais.

A documentação revela, portanto, que o escritório Aragão & Tomaz manteve vínculos profissionais tanto com a Betano quanto com a associação do setor de apostas dirigida por Scudeler, além de ter o advogado em seus registros de atuação processual.

<><> Willer é investigado pela Polícia Federal

Willer Tomaz é investigado pela Polícia Federal no âmbito da Operação Sem Desconto, que apura um esquema de descontos ilegais em benefícios de aposentados e pensionistas do INSS.

Em agosto, o escritório Aragão & Tomaz esteve entre os endereços abrangidos por medidas de busca autorizadas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.

A decisão, entretanto, excluiu expressamente os demais sócios e advogados do escopo investigativo. Os documentos consultados não apontam Eugênio Aragão ou Mateo Scudeler como investigados nesse procedimento.

Willer também mantém negócios ligados ao setor de apostas. Reportagem da “Folha de S.Paulo” identificou sua participação indireta na RioPag, empresa responsável pelo processamento de pagamentos de apostas no Rio de Janeiro. O advogado contestou a caracterização de sua participação empresarial.

Ao Metrópoles, Scudeler afirmou que sua atuação na Alcazar ocorreu como administrador contratado, sem participação societária na offshore. Ele também negou conhecimento de irregularidades e afirmou que suas diferentes atividades profissionais não tinham relação entre si.

Willer, por sua vez, sustenta que sua relação com Flávio Bolsonaro é exclusivamente de amizade e nega ter compartilhado contas bancárias com o candidato.

O ICL Notícias procurou Willer Tomaz e Mateo Scudeler para esclarecer a natureza dos vínculos profissionais e a relação com a offshore Alcazar Holdings, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço permanece aberto para manifestações.

 

Fonte: A Terra é Redonda/ICL Notícias 

 

A última eleição de Lula

Respiro a política desde 1989. Na primeira eleição para presidente após a ditadura, ainda criança, vivi aquele momento olhando os debates na televisão. Não entendia muita coisa; acho que gostava era do tom meio comédia pastelão dos embates entre os candidatos postulantes ao cargo de presidente.

Eram personagens, cada qual uma espécie de gente habitante do Brasil visível daquela época: um era o bom velhinho; outro, um playboy mimado que não deveria reger a nação; tinha um interiorano que parecia estar sempre com um chapéu de caubói; existia o sofisticado, tal como os homens da Faria Lima de hoje; o “fora da casinha” se fazia presente e às vezes parecia o mais são. Por fim, uma dupla que foi se apaixonando aos poucos ao longo dos anos: um que parecia uma mistura de Capitão Rodrigo com Dom Quixote e o outro que tinha um discurso tão penetrante, certeiro e forte, que dava medo em grande parte da população.

Na minha família de classe média baixa, residente do subúrbio porto-alegrense, os votos se dividiram entre Fernando Collor, do PRN, Leonel Brizola, do PDT, e Roberto Freire, do PCB, no primeiro turno. Depois foi Fernando Collor e Lula. Deu Collor. Na época, ele não parecia tão mal na minha visão infantil. Tinha a tendência de gostar dele. Ele era penetrante tal como o Lula, tinha um magnetismo.

O problema é que isso durou muito pouco: logo se percebeu que seu magnetismo nada mais era do que a maquiagem polida que a burguesia e seus tentáculos midiáticos produzem. Caiu, mesmo que a cada eleição a mídia escolha, a partir de seus interesses, alguém parecido com o Fernando Collor para polir. Quando o movimento cara-pintada tomou as ruas para derrubar Fernando Collor, Lula estava lá, atuante tal como na redemocratização brasileira.

Veio o segundo vice do PMDB tomar conta do Brasil depois da redemocratização: Itamar Franco. Discreto como um bom mineiro, ajeitou a casa com aqueles acordões que só o PMDB sabe fazer. Governou tranquilamente e ainda saiu no Carnaval. Deu o pontapé inicial para o nascimento do Real, junto com Fernando Henrique, que aproveitou os bons ventos e o sucesso do plano para alinhavar duas eleições presidenciais em sequência.

Lula amargou o descrédito da população em sua voz, que parecia vir lá de longe, de um outro tempo, direcionada a olhar para além do Plano Real. Pouco encontrava ressonância. O Capitão Rodrigo misturado com Dom Quixote foi quem ele teve de aliado na época: foi seu vice em 1998. Brizola certamente ensinou muito a Lula, assim como aprendeu muito com o sindicalista do ABC paulista.

 Quando o Plano Real já não sustentava mais a esperança do povo brasileiro e, sobretudo, a própria economia, o Brasil começou a se aproximar mais daquele discurso que parecia tão longínquo no qual Lula nunca cansou de insistir. Um outro mundo era possível, com mais igualdade social e com um governo que também olhasse para os pobres. Porto Alegre teve um papel fundamental para dar amplitude ao discurso de Lula. Esta cidade teve, talvez, a experiência mais bem-sucedida do PT na administração pública de uma prefeitura.

Foram mais ou menos 15 anos de gestão petista, a começar pelo galo missioneiro em 1989 que, em 1998, assumiu o estado depois de uma batalha épica contra a cria da grande mídia. A frase “RBS mente, Olívio na frente” espraiou-se por todos os rincões do Rio Grande do Sul, e Olívio Dutra virou uma eleição que tinha tudo para perder frente às forças neoliberais que já eram dominantes.

Olívio Dutra ganhou, e foi um governo difícil, assim como uma das primeiras experiências do PT de governar um estado brasileiro. A oposição se dava no Legislativo e no meio midiático. A direita, filhote da ditadura, estava muito ressentida para admitir os trabalhadores gerindo o estado. Aos trancos e barrancos Olívio Dutra governou e pôde acolher em pagos gaúchos o primeiro Fórum Social Mundial.

Sempre lembrarei da passeata de abertura. Gigantesca. Lula estava presente, caminhava à frente daquela multidão. Àquela altura, ganhava status de maior liderança política do Brasil, não só no campo da esquerda, mas para uma grande parte que antes não simpatizava ou até tinha medo dele.

Um pouco menos de dois anos depois do Fórum, Lula estava subindo a rampa do Planalto para ser, pela primeira vez, presidente. Já tinha perdido três eleições, porém nunca desistiu do Brasil e de seu povo. Renascia a cada fracasso. Entretanto, nunca expressava ressentimento nas derrotas; pelo contrário, aprendia um pouco a cada vez com os tombos que levava na vida democrática.

Parece que o século XXI aspirava a um outro mundo possível, e Lula então ganhou a primeira, depois a segunda, e o Brasil nunca foi tão valorizado internacionalmente a partir de seus governos. Preservando o Plano Real, turbinou a economia e as relações comerciais internacionais, mas, sobretudo, fez circular o dinheiro na mão do povo brasileiro.

Lula também não inventou o programa Bolsa Família, mas o multiplicou, o qualificou e o legitimou perante a sociedade, ganhando prêmios internacionais por isso. Mas não só: nas universidades públicas, abriu mais e mais espaço para a população brasileira usufruir deste lugar de conhecimento e formação qualificada. Pobres, populações negras e indígenas, pessoas com deficiência, enfim, puderam ocupar aquilo que lhes era de direito, obviamente, não sem lutas que perduram até os dias de hoje.

Dilma Rousseff, saída do governo de Olívio Dutra no estado do Rio Grande do Sul, substituiu essa figura que já tinha alçado outro patamar na história do Brasil. Desafio quase intransponível, mas que a “coração valente”, de ferro tal como foi no tempo da ditadura, ousou viver, sendo a primeira presidenta do Brasil. Ela sofreu muito nas mãos da misoginia brasileira ressentida por perder seu posto de comando perante a sociedade.

Boicotada em seu governo de todas as maneiras – o que o inviabilizou –, acabou por sofrer um golpe, no qual um insignificante deputado ainda teve o disparate perverso de exaltar o torturador de Dilma no período militar. Regozijaram-se como hienas, e logo em seguida os filhotes da ditadura saíram do armário, assumindo, com orgulho, o fascismo.

O PMDB, que sempre está no lugar certo e na hora certa, fez um novo acordão para gerir o Brasil. O vampirão, terceiro vice do PMDB a assumir a presidência, fez aquele governo silencioso de todo golpista manchado por lama. Além de derrubar Dilma Rousseff, também sujou suas mãos desarticulando com o Legislativo várias conquistas que os governos do PT tinham garantido ao povo brasileiro. A famosa “PEC do Teto” (ou PEC da Maldade) foi o seu auge.

Depois de 14 anos de governo progressista, a burguesia não poderia esperar para recuperar todos os lucros que achava ter o direito de reaver. O Brasil, desde sua invasão em 1500, foi governado por colonizadores/conservadores/burgueses/corruptos. Foram quinhentos e dois anos desta estirpe no poder antes de Lula, abocanhando tudo o que podiam do Estado brasileiro. Quatorze anos com uma dieta mais restritiva, com a qual não podiam abocanhar tudo a que estavam acostumados, fizeram-nos soltar todo o ódio, ressentimento e fascismo que possuem em seus corpos atravessados pela perversidade da classe burguesa.

Lula foi preso e o sistema vibrou. Conseguiram amarrar o gigante, tentaram silenciá-lo, queriam que todos o esquecessem; era para ter sido apagado da história. Não só ele: a ideia era apagar os quatorze anos de diferença que o Brasil viveu em relação aos outros quinhentos e dois anos de colonizadores/conservadores/burgueses controlando a nação.

Com Lula preso, o centrão abriu as portas do inferno e deixou o demônio do fascismo tomar conta das peças do xadrez da equipe que fica mais à direita do tabuleiro. Alimentaram o demônio chamado de “mito” e conhecido como Jair Bolsonaro; achavam graça das bravatas dele, era meio tosco, mas era muito parceiro para qualquer tramóia que beneficiasse a família e excluísse qualquer um que ameaçasse seus atos corruptos. A sorte é que o fascismo é tão violento que se suicida com o tempo, pois em seu interior um efeito paranoico está sempre no ar: todos são potencialmente inimigos.

Encarnam fielmente o clima do livro 1984, de perseguição ao inimigo. Não à toa, vimos uma briga de várzea entre Jair Bolsonaro e Sérgio Moro em abril de 2020.

Só esqueceram que Lula não cansa de renascer, tal como a mitologia de seu signo astrológico, o Escorpião. Ele sempre volta, renasce, insiste em viver. Àquela altura, Lula já era cada um de nós, pois aprendemos com ele a acreditar na igualdade econômica, política, social e cultural. Lula retornou à presidência, derrubando toda a maquinaria fascista que assaltou o país. Obviamente, não sem o ressentimento da direita, que agora não era só direita, era também fascista.

O representante deste fascismo não teve a hombridade de reconhecer a derrota. Golpista que sempre foi, acabou na cadeia por seus atos contra a democracia. Lula agora termina seu terceiro mandato e, mesmo com mais de 80 anos de idade, ainda tem lenha para queimar e deseja, cada vez mais, aproximar as classes no Brasil, agenciar comércios mais parceiros entre os países fora do eixo Europa e Estados Unidos e afastar o fascismo de nossa sociedade.

Estamos na última eleição de Lula. Vai para o seu quarto mandato. Sim, vai, porque é descabido ele perder para um cara que nunca aprovou um projeto em anos de legislativo, sempre envolvido em corrupção e que só tem amigos presos ou que sofrem processos judiciais. É inadmissível.

E esta semana é a última da eleição 2026. Nesta segunda Lula esteve fazendo campanha em Porto Alegre em uma linda e gigante caminhada pelas ruas da cidade. Só que esta semana não é a última apenas desta eleição. É a última eleição do Lula. Esta gigantesca caminhada de Porto Alegre não era apenas o último grande ato no Rio Grande do Sul nesta eleição. Esta última semana, esta eleição, esta caminhada enorme em Porto Alegre tipo a do primeiro fórum social mundial, provavelmente, é a última de Lula, independentemente de ele ganhar ou não.

O que emociona ao olhar o que foi esta caminhada é que não é só uma passeata para a eleição do Lula, pois também é uma espécie de despedida dele, este que se tornou o pai de todos os brasileiros. Tem filho que é fiel a ele; outro que o admira, mas sabe criticar também. Tem aquele que com o tempo se distanciou e ficou frio com Lula, e alguns desistiram dele. Ainda tem uma parcela de filhos que o desprezam, não querem um pobre vindo do Nordeste como pai, rejeitam, querem matá-lo de todas as formas. Não adianta: o legado de Lula já está cravado na história.

Independentemente de termos vivido nas mãos dos colonizadores/conservadores/burgueses por mais de quinhentos e oito anos, Lula é o maior. Daqui cinquenta anos, se ainda existir o mundo, se ainda livros cruzarem nossos olhos e se a história sobreviver, Lula será lembrado como o maior estadista do Brasil e da América Latina. Nada o superará; mesmo que “Messias” se apresentem ao longo do tempo para reclamar a coroa, quem nasceu para ser Pelé – que, aliás, era de Escorpião também – nunca perderá a majestade.

 

Fonte: Por Mário Francis Petry Londero, em A Terra é Redonda

 

Legislativo: renovação à direita é menor que se pensa

A ideia de que a direita brasileira se tornou o principal polo de renovação política ganhou espaço nas análises eleitorais. Associada à ascensão de alguns candidatos jovens, à comunicação direta nas redes sociais e à capacidade de mobilizar eleitores fora dos canais tradicionais, essa interpretação sugere que o campo conservador teria encontrado uma fórmula para formar novas lideranças, enquanto os progressistas enfrentam dificuldades para se renovar. Os resultados das eleições de 2026, contudo, recomendam cautela. A derrota de políticos experientes não equivale necessariamente à renovação do sistema, assim como a eleição de candidatos jovens não comprova, por si só, a emergência de novas lideranças.

A disputa pela Câmara dos Deputados oferece um primeiro contraponto. Dos parlamentares que tentaram renovar seus mandatos, 111 não conseguiram se reeleger. Entre os derrotados estão representantes de longa trajetória tanto do campo conservador quanto do progressista. À primeira vista, o resultado poderia ser interpretado como uma resposta do eleitorado à demanda por renovação política. Os números, porém, não sustentam uma conclusão tão abrangente.

Em 2018 e 2022, aproximadamente um em cada três deputados que buscaram a reeleição não conseguiu retornar à Câmara. Em 2026, a proporção foi menor: dos 405 parlamentares que tentaram renovar seus mandatos, 294 foram reeleitos. Houve, portanto, menos derrotas entre os candidatos à reeleição, proporcionalmente, do que nos dois pleitos anteriores. O resultado está longe de indicar uma ruptura mais intensa com a representação estabelecida.

A composição da Câmara que tomará posse em 2027 reforça essa leitura. Dos 186 deputados considerados estreantes na Casa, apenas 55 nunca haviam exercido mandato eletivo. Os demais já tinham experiência política em outras posições, como assembleias legislativas, câmaras municipais e prefeituras. Ao mesmo tempo, pelo menos uma centena de parlamentares eleitos já acumulava três ou mais mandatos na Câmara. A entrada de novos nomes, portanto, não corresponde necessariamente à chegada de novos atores à política. Em boa parte dos casos, trata-se da circulação de representantes por diferentes posições institucionais.

Esses números não diminuem a importância das mudanças individuais nem significam que o eleitorado tenha permanecido indiferente às candidaturas e a seus posicionamentos. Revelam, contudo, a necessidade de distinguir a renovação dos ocupantes dos cargos da transformação das estruturas de representação. Uma Câmara pode incorporar novos parlamentares sem alterar substancialmente as forças políticas que a organizam, as agendas que prevalecem ou os mecanismos que favorecem a continuidade dos mandatos.

Essa distinção ganha relevância diante das mudanças na relação entre Legislativo e Executivo. Desde 2015, o Congresso ampliou sua participação na definição e na destinação de recursos públicos, especialmente por meio das emendas parlamentares e do avanço do orçamento impositivo. O crescimento dos recursos sob influência dos parlamentares fortaleceu sua capacidade de atender demandas das bases eleitorais e de construir vínculos políticos com relativa autonomia em relação ao governo federal.

O processo também alterou os incentivos à permanência no cargo. Uma cadeira na Câmara representa não apenas visibilidade pública e poder de negociação, mas também capacidade de direcionar recursos, influenciar decisões orçamentárias e intermediar demandas locais. Quanto maior a possibilidade de converter o exercício do mandato em entregas reconhecidas pelo eleitorado, maior o potencial de transformar o capital institucional em capital eleitoral.

A continuidade de políticos experientes, nesse contexto, não pode ser explicada apenas pela resistência dos partidos à renovação ou por uma suposta preferência dos eleitores por nomes conhecidos. Ela também se relaciona a uma estrutura institucional que oferece aos ocupantes de mandato recursos e instrumentos para preservar sua posição. Novos candidatos enfrentam concorrentes que, em muitos casos, já dispõem de redes políticas consolidadas, visibilidade pública e capacidade de intermediar recursos. A competição eleitoral, embora formalmente aberta, não ocorre em condições equivalentes.

É nesse ponto que a suposta superioridade da direita na formação de novas lideranças precisa ser examinada com maior rigor. A capacidade de lançar candidatos jovens, conquistar visibilidade nas redes sociais e converter insatisfação em votos constitui uma vantagem eleitoral relevante. Mas a capacidade de eleger não se confunde com a de construir lideranças duradouras, capazes de representar grupos sociais diversos, formular agendas, mediar conflitos e estabelecer vínculos de confiança que sobrevivam a uma eleição. São processos relacionados, mas distintos, com temporalidades e exigências próprias.

A mesma distinção vale para o campo progressista. A renovação política exige mais do que apresentar candidatos de uma nova geração ou substituir quadros antigos. Pressupõe construir reconhecimento social, estabelecer conexões territoriais com diferentes segmentos do eleitorado e transformar pautas e identidades políticas em capacidade efetiva de representação.

Uma pesquisa realizada pelo Núcleo Ypykuéra em parceria com o Observatório Político e Eleitoral da UFRJ ajuda a aprofundar essa discussão. O estudo, baseado em grupos focais com eleitores que votaram em Lula nos dois turnos de 2022 ou apenas no segundo, identificou percepções distintas sobre a permanência de representantes já conhecidos. Entre as menções codificadas, 23,6% apontaram as vantagens financeiras e de marketing de quem já ocupa um mandato como fator favorável à sua escolha. Outros 21% destacaram o reconhecimento e a confiança no trabalho realizado por esses representantes.

Os dois resultados iluminam dimensões diferentes da continuidade política. De um lado, a vantagem dos incumbentes está associada a condições desiguais de competição. De outro, a preferência por representantes conhecidos também pode decorrer de uma avaliação positiva de sua atuação. A continuidade pode expressar vínculos de confiança construídos ao longo do tempo.

Essa ambivalência é central para compreender os limites de uma renovação reduzida à substituição de nomes. Não basta que novos candidatos tenham acesso à disputa eleitoral. Eles precisam construir reconhecimento e credibilidade, enquanto partidos e organizações políticas precisam criar condições para que novas lideranças conquistem espaço. Ao mesmo tempo, a familiaridade com um representante não deve ser confundida automaticamente com qualidade da representação, assim como a inexperiência institucional não constitui, por si só, uma virtude política.

A pesquisa também ajuda a afastar a ideia de que o campo progressista esteja simplesmente paralisado. A emergência de novas referências ocorre de forma plural, em torno de agendas, trajetórias e públicos distintos. Há ainda que se considerar que as formas de identificação política se tornaram mais fragmentadas. As redes sociais ampliaram os canais de mobilização, reduziram o peso exclusivo das estruturas partidárias e permitiram que lideranças com agendas específicas alcançassem públicos próprios. O desafio está na capacidade de converter as experiências em formas de articulação política que ampliem sua legitimidade para além de segmentos específicos.

A discussão sobre renovação, portanto, exige critérios mais precisos do que idade, número de mandatos ou desempenho nas urnas. É preciso observar se novos representantes conseguem ampliar a participação política, construir vínculos sociais duradouros, formular respostas para problemas coletivos e influenciar as instituições para além da própria eleição. Também é necessário avaliar se a chegada de novos nomes modifica as relações de poder ou apenas incorpora novos atores a estruturas que permanecem praticamente inalteradas.

Os resultados de 2026 não autorizam afirmar que a política brasileira tenha passado por uma renovação generalizada. Tampouco permitem atribuir exclusivamente à direita a capacidade de produzir novos quadros.

O que revelam é a convivência entre a permanência de políticos tradicionais, a circulação de representantes por diferentes níveis de governo e a entrada de novos nomes, em um sistema no qual as oportunidades de ascensão e consolidação política permanecem desiguais.

A renovação política não pertence a um espectro ideológico. É um processo disputado, desigual e de longo prazo. Seu êxito se mede pela possibilidade de transformar representação eleitoral em legitimidade social, capacidade de articulação e influência efetiva sobre a vida pública. Confundir essas dimensões pode produzir uma narrativa atraente sobre vencedores e vencidos, mas pouco esclarece sobre as mudanças – ou as continuidades – da democracia brasileira.

 

Fonte: Por Artur Sampaio, em Outras Palavras

 

Nota sobre a abstenção eleitoral

A abstenção é uma pedra no sapato do presidente Lula. Em 2022, ele liderava as pesquisas com folga, mas bastou abrir as urnas para Jair Bolsonaro encostar. Os institutos de pesquisa logo se tornaram alvo de críticas, ao menos até que o cientista político Antonio Lavareda explicasse o fenômeno em comentado artigo na Folha de S. Paulo.

Segundo Antonio Lavareda, os institutos erraram porque uma boa parte do eleitorado de Lula não apareceu para votar. O que explica por que a vantagem sempre diminuía na hora da apuração.

Para entender o que aconteceu, Antonio Lavareda fez uma conta em dois passos. Primeiro, calculou as intenções de voto das pesquisas sobre o eleitorado total, e não apenas sobre os votos válidos, como costuma ser divulgado. Depois, comparou esses números com os votos que cada candidato recebeu.

Fazendo assim, confirmou que Jair Bolsonaro teve nas urnas praticamente o que as pesquisas previam, enquanto Lula teve menos. A conclusão era uma só: parte do eleitorado lulista não foi votar.

A explicação disso estaria no perfil desse eleitor. O grosso do eleitorado de Lula está entre os mais pobres, justamente quem tem mais dificuldade para comparecer às urnas, por motivos que incluem a distância até a seção eleitoral, o dinheiro da passagem, a falta de alguém com quem deixar os filhos. E o mesmo vale para os idosos, faixa em que Lula também leva vantagem.

Essa pedra no sapato de Lula não desapareceu em 2026. Segundo a pesquisa da Quaest, entre os que não compareceram no primeiro turno, 43% dizem apoiar o petista, e 38%, Flávio – uma diferença que, aplicada sobre os 33,5 milhões de eleitores ausentes, representaria cerca de 1,7 milhão de votos a mais para Lula.

A campanha petista entendeu o recado e passou a concentrar esforços em convencer quem ficou em casa no primeiro turno. O próprio Lula falou disso no primeiro discurso após o resultado: “Tivemos 33 milhões de pessoas que não votaram e vamos fazer um apelo para que as pessoas saibam que o voto é necessário para decidir o futuro do país”.

Neste segundo turno, no entanto, quem mais tem a sofrer com a abstenção é Flávio Bolsonaro. Explico por que.

Bem diferente do pai, que arrastava votos para tudo que é candidatura de direita, Flávio Bolsonaro é quem precisa ser puxado. Basta olhar para os demais nomes que chegaram a ser cogitados para a disputa presidencial, como Michelle Bolsonaro (PL-DF), Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e Nikolas Ferreira (PL-MG). Todos mais carismáticos do que Flávio Bolsonaro e que, por conta disso, serviram de cabos eleitorais dele nos estados, e não o contrário.

O mesmo se vê entre vários dos governadores que disputaram o primeiro turno, como Cleitinho Azevedo (Republicanos-MG), Eduardo Riedel (PP-MS), Jorginho Mello (PL-SC), Luciano Zucco (PL-RS) e o próprio Tarcísio de Freitas. Todos tiveram, em seus estados, votação maior que a de Flávio Bolsonaro. Em São Paulo, Tarcísio de Freitas fez 62,6% dos votos válidos, contra 51,9% de Flávio Bolsonaro, quase 11 pontos de diferença. Em Mato Grosso do Sul, Eduardo Riedel teve 67,1%, e Flávio Bolsonaro, 58,6%. Em Minas Gerais, Cleitinho Azevedo chegou a 55,4%, enquanto Flávio Bolsonaro ficou em 48,2%.

Nas disputas para as casas legislativas, o fenômeno também salta aos olhos. Peguem-se nomes como Guilherme Derrite (PP-SP), Lucas Pavanato (PL-SP), Eduarda Campopiano (PL-SP), André Fernandes (PL-CE) e Bruno Engler (PL-MG). Todos empolgaram a militância de um jeito que Flávio Bolsonaro não conseguiu em nenhum momento da campanha.

Todos os nomes citados têm uma coisa em comum: não estarão nas urnas no próximo domingo (25). Até mesmo os governadores, que liquidaram a fatura já no primeiro turno.

Sem esses nomes na disputa, muitos eleitores que votaram em Flávio a reboque deles terão menos motivos para voltar às urnas. E isso se soma a um padrão já observado em outras eleições de que, em estados sem disputa estadual no segundo turno, a abstenção tende a ser maior que nos demais.

Alguém pode dizer que “pau que bate em Chico bate em Francisco”, pois o mesmo raciocínio se aplicaria a Lula nos estados em que governadores aliados se elegeram no primeiro turno, caso de Bahia, Ceará e Piauí.

A diferença é que, em todos eles, Lula foi mais votado que os próprios governadores. Ou seja, foi ele quem puxou os governadores, e não o oposto. Faz sentido esperar que esses mesmos eleitores voltem às urnas no domingo.

A campanha de Flávio Bolsonaro percebeu o risco e lançou o “Flaviômetro”, um site que monitora quais políticos de direita estão pedindo voto para ele nas redes sociais. Também tem levado nomes como Nikolas Ferreira a caminhadas pelo país, inclusive fora de seus estados, os chamados “bloquinhos”. O objetivo é manter os já eleitos mobilizados e evitar o efeito descrito aqui.

Esses aliados, porém, vão enfrentar uma barreira adicional, erguida pelo próprio Flávio desde o fim do primeiro turno. No debate da Band, no último domingo (18), o senador passou boa parte do tempo atrás de Lula, balançando a cabeça em sinal de negativa enquanto o petista falava. Trackings da campanha petista registraram que boa parte do público o viu como mal-educado e sem preparo para a Presidência. Nem no próprio entorno de Flávio Bolsonaro a atuação foi consenso.

Do outro lado, a campanha de Lula soube aproveitar o momento, em especial o Exército do Lula, canal de André Janones (Rede-MG) com mais de sete milhões de seguidores. Durante o próprio debate, André Janones mobilizou buscas e hashtags que trouxeram à tona pautas incômodas para Flávio. Uma delas é o caso Ana Clara, menina de cinco anos morta por um tiro de fuzil durante uma operação da PM em Niterói, em 2021, caso em que Flávio advogou para o policial acusado do disparo.

O resultado apareceu já na pesquisa Quaest divulgada nesta quarta-feira (21). A rejeição de Flávio chegou a 52% e já supera a de Lula, de 47%, em cinco pontos. Uma semana antes, a diferença era de apenas um.

Não há dúvida de que a abstenção continua sendo um problema de Lula. Mas Flávio Bolsonaro também depende de quantos eleitores de Tarcísio de Freitas, Cleitinho Azevedo, Nikolas Fereira e Lucas Pavanato vão sair de casa no domingo.

 

Fonte: Por Rodrigo de Abreu Pinto, em A Terra é Redonda 

 

Lula e o SUS: os 13 compromissos que o Brasil precisa

O Brasil aprendeu da pior forma o que acontece quando o Sistema Único de Saúde é enfraquecido. Foram anos de teto de gastos, de filas crescentes e de negacionismo. Quem vive do trabalho sabe o que isso significa na prática: madrugada na porta do posto para conseguir ficha, meses de espera por um exame e famílias endividadas para pagar um atendimento privado.

O governo do presidente Lula virou essa página. E virou com trabalho, gestão e investimento.

Para enfrentar o maior gargalo histórico do SUS, que é o acesso ao especialista, o governo criou o programa Agora Tem Especialistas. Não se trata de mais um programa com nome bonito. É uma mudança estrutural que ataca o problema em três frentes: tecnologia, gente e gestão. Com a telessaúde integrada, as carretas de exames que percorrem o interior, o prontuário eletrônico e a organização da fila nacional por critério de risco, o SUS entrou definitivamente no século 21.

Ao mesmo tempo, houve a recomposição humana. O Mais Médicos foi recriado e ampliado, com mais de 28 mil profissionais, os agentes comunitários de saúde voltaram a ser valorizados e o SAMU teve a frota renovada. O resultado apareceu onde mais importa: na vida das pessoas.

Apenas em 2025, o SUS registrou o maior volume de atendimentos da sua história, com 14,9 milhões de cirurgias realizadas e 43,7 milhões de exames especializados. São números que representam mães que conseguiram mamografia no tempo certo, trabalhadores que voltaram a enxergar após cirurgia de catarata e crianças que tiveram diagnóstico precoce.

Esse esforço de reconstrução agora ganha um novo patamar com a apresentação dos 13 Compromissos para a Saúde. São diretrizes claras para os próximos quatro anos, que apontam para um SUS mais resolutivo e mais presente no território.

Os compromissos vão do óbvio que nunca foi feito à inovação necessária: garantir a política de fila zero para cirurgias e exames, assegurar o diagnóstico de câncer em até 30 dias e o início do tratamento em até 60 dias, fortalecer a saúde da mulher com acesso integral a preventivo, mamografia e parto humanizado e garantir cuidado integral para crianças e idosos.

Há também compromissos estruturantes, como a ampliação definitiva da Farmácia Popular, com gratuidade para 40 medicamentos, a multiplicação dos CAPS para enfrentar a crise de saúde mental, a transformação do Mais Médicos em política permanente de Estado e a retomada da produção nacional de vacinas, fármacos e equipamentos, garantindo soberania sanitária.

Outro ponto central é o SUS digital, mas humano. A proposta prevê um cartão SUS único no celular do cidadão, integrado nacionalmente, sem abrir mão da presença do agente de saúde na porta de casa. É tecnologia a serviço do cuidado, não para substituir o contato humano.

Diante de dois projetos tão distintos para a saúde, a escolha fica evidente. De um lado, um projeto que enxerga saúde como gasto a ser cortado e que flertou com o negacionismo durante a pandemia. De outro, um projeto que entende saúde como investimento, como direito constitucional e como motor de desenvolvimento.

Investir no SUS da saúde e não na doença e no negacionismo é mais que um slogan. É uma diretriz de governo. É o que garante que o Brasil continue a ter um sistema público, universal e gratuito, referência para o mundo.

A perspectiva que se coloca, portanto, é que a esperança e a saúde vão vencer de novo.

Viva o SUS.

 

Os sinais vermelhos da economia em 2027 e o que Flávio e Lula propõem para eles

Seja Flávio Bolsonaro (PL) ou Luiz Inácio Lula da Silva (PT) o eleito neste domingo (25/10), a economia deverá ser um "calcanhar de Aquiles" para o novo governo.

Quem tomar posse em 5 de janeiro terá que responder à cobrança do mercado financeiro por um ajuste nas contas públicas e lidar com a insatisfação dos brasileiros com o custo de vida e o endividamento recorde. Tudo isso, em meio a uma economia que deverá crescer menos em 2027.

Para economistas ouvidos pela BBC News Brasil, nenhum dos dois candidatos apresentou planos claros para responder a esses desafios. E respostas mais concretas são aguardadas para o pós-eleição, quando a próxima equipe econômica for finalmente definida.

"Um governo bem-sucedido não vai ser aquele que vai apresentar os melhores números nesses quatro anos, mas aquele que vai conseguir deixar uma economia em condições melhores para crescer nos anos seguintes", acredita Bruno Imaizumi, economista da consultoria 4intelligence.

Para Felipe Salto, economista-chefe da Warren Investimentos e ex-diretor-executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado, o fundamental é que o eleito não perca o senso de urgência e apresente um plano objetivo para a economia e as contas públicas "na primeira hora", já que isso ficou ausente do debate eleitoral.

"O problema é que o tempo urge, porque, com esse Congresso que ganhou as eleições — apesar de ser mais à direita, o que, em um cenário de eleição do senador Flávio, poderia ser mais palatável — há outras agendas fora desse ciclo econômico, fiscal, orçamentário, e isso também impõe limitações, sobretudo se não tiver um plano coeso, um plano claro", diz Salto.

Entenda os três principais desafios do próximo presidente na economia, como os dois candidatos dizem que responderão a eles e o que de fato precisaria ser feito, na visão de economistas.

<><> Desequilíbrio das contas públicas

O novo presidente vai ter que lidar com uma dívida pública no maior nível desde a pandemia. A dívida bruta do governo geral — que inclui governo federal, Previdência, Estados e municípios — chegou a R$ 11,1 trilhões em agosto, equivalente a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB, soma de todos os bens e serviços produzidos no país), segundo o Banco Central.

A dívida cresce quando o governo gasta mais do que arrecada com impostos. Sem dinheiro em caixa, ele é obrigado a pegar mais dinheiro emprestado, a juros mais altos, numa "bola de neve" fiscal.

A dívida pública alta — e sem perspectiva de estabilização do seu nível em relação ao PIB nos próximos anos — gera dúvidas quanto à capacidade do governo de honrar suas obrigações.

Com isso, o Banco Central diz ter dificuldade de baixar a taxa de juros. Isso encarece investimentos e empréstimos e reduz o crescimento da economia, afetando a vida dos brasileiros em geral.

Flávio Bolsonaro tem dado sinais ambíguos sobre como pretende lidar com a questão. Por um lado, ele fala em um "tesouraço" no gasto público e nos impostos, e seus auxiliares na área econômica têm prometido em entrevistas e nos bastidores um ajuste fiscal da ordem de 1,5% a 2% do PIB nos primeiros 18 meses de governo, equivalente a um corte de gastos de R$ 190 bilhões a R$ 250 bilhões.

Por outro lado, o senador tem prometido aos eleitores que vai manter o reajuste real do salário mínimo e que não vai desvincular aposentadorias e benefícios sociais do salário-base. Afirma ainda que não vai reduzir os pisos constitucionais dos orçamentos da Saúde e da Educação e diz que seu ajuste das contas públicas deverá ser centrado em cortes de ministérios, cargos comissionados, despesas administrativas e supersalários do funcionalismo público e no combate à corrupção.

Já Lula, com seu pacote eleitoral, criou despesas fiscais com impacto de quase R$ 200 bilhões até 2030, segundo cálculo da Warren Investimentos, anterior à proposta de tarifa zero nos transportes aos fins de semana.

O presidente também segue dizendo que o crescimento da economia e a ampliação da arrecadação decorrente disso são o caminho para reduzir a dívida pública, sem se comprometer com cortes de despesas.

"Não temos, de nenhum dos dois candidatos, propostas ainda bem definidas [de ajuste fiscal], esse é um debate que ficou para depois da eleição, porque todas as propostas passam por redução de despesa, algo que é obviamente impopular", avalia Rafaela Vitória, economista-chefe do Banco Inter.

A diferença, na visão da economista, é que Flávio contará com maior condescendência do mercado no início de seu governo, por conta da experiência do governo de Jair Bolsonaro (PL), em que o salário mínimo foi ajustado apenas pela inflação (sem ganho real), e o teto de gastos do governo Michel Temer (MDB) foi mantido, com a desvinculação dos pisos de gastos com saúde e educação a percentuais fixos da receita do governo.

Já Lula tem um desgaste de credibilidade, após quatro anos de governo sem controlar o gasto, o que foi agravado pelas diversas promessas eleitorais que ampliam a despesa e reduziram arrecadação, como o Desenrola 3.0; o perdão de dívidas, o Pix de R$ 5 mil e o aumento do teto do MEI; a proibição das bets; o aumento do Bolsa Família; e a manutenção da desoneração sobre combustíveis.

Nesse cenário, tanto a economista do Inter, quanto Felipe Salto, da Warren, acreditam que, passada a eleição, "a realidade vai se impor", e algum ajuste terá de ser feito, por qualquer um dos dois presidenciáveis.

No caso das promessas de Flávio, Salto observa que "a conta não fecha", porque não é possível reduzir a carga tributária como tem prometido o candidato mantendo o Estado de bem-estar social previsto na Constituição de 1988.

Ao mesmo tempo, promessas de fazer a economia apenas cortando ministérios e vendendo ativos "não colam", diz ele, porque não geram uma economia suficiente para o país passar do déficit primário ao superávit — o que só aconteceria mexendo nos gastos obrigatórios e nas isenções fiscais.

"Se o Flávio ganhar, acontecerá uma frustração para aqueles que acreditaram nesse Flávio novo do segundo turno, que é o Flávio que diz que vai aumentar gastos, que o ajuste dele vai ser de corte de desperdícios, de redução de ministérios, porque a gente sabe que por aí não tem como fazer economia relevante", acredita Salto.

Um indício de que Flávio deverá frustrar eleitores e agradar o mercado, diz o economista, é sua postura com relação à escala 6x1. O senador votou a favor da proposta na última hora e sem comparecer presencialmente à votação, enquanto sinalizava a empresários nos bastidores que, se eleito, deve rever a medida.

No caso de Lula, Rafaela Vitória observa que, se reeleito, ele deverá enfrentar uma deterioração das chamadas condições financeiras, com juros futuros e dólar em alta, por conta da descrença do mercado em sua capacidade de fazer um ajuste fiscal. Isso pressionaria a inflação.

"O governo seria forçado a tomar algumas medidas, ainda que impopulares e contra o que foi anunciado na campanha, por conta da volatilidade mais negativa no mercado", diz a economista.

Rafaela Vitória e Salto, no entanto, avaliam que, mesmo que isso aconteça, não seria comparável ao "cavalo de pau" dado por Dilma Rousseff (PT) em 2015, com a adoção de um ajuste fiscal duro, contrário às promessas de campanha à reeleição da ex-presidente.

"Acredito que existe uma diferença do atual governo em relação à Dilma", diz a economista-chefe do Inter.

"O diagnóstico de que é preciso controlar o crescimento de gasto existe. Naquela época, o diagnóstico era de que gastar mais era bom, você tinha o 'gasto é vida'", observa.

"Hoje, desde o [ex-ministro da Fazenda, Fernando] Haddad, mas também sob [o atual ministro, Dario] Durigan, existe um diagnóstico de que ter responsabilidade fiscal é importante para estabilizar preços."

Salto defende que, qualquer que seja o eleito, o ajuste deve ser feito de forma gradual, sob o risco de o país entrar em recessão — ou seja, haver uma queda prolongada da atividade econômica — com um corte muito agudo.

"A economia já está em desaceleração desde meados de 2025, as projeções já indicam um crescimento próximo de 1% para o ano que vem", observa.

"Se você fizer um ajuste abrupto no primeiro ano, assumindo que ele fosse possível politicamente, colocaria a economia em recessão."

Como parte de um pacote gradual, Salto defende um corte de 50% nas emendas parlamentares; a desindexação da Previdência e benefícios ao salário mínimo, com reajuste passando a ser definido pelo Executivo; a submissão da correção dos pisos de Saúde e Educação ao arcabouço fiscal, limitando o crescimento a 2,5% ao ano — o que já foi feito no governo Lula 3 para o reajuste do mínimo; uma revisão ampla do gasto tributário, incluindo entidades filantrópicas, regimes especiais como o Simples, a Zona Franca de Manaus, e abatimentos para pessoas físicas no Imposto de Renda; o fim dos supersalários, entre outras medidas.

Já Rafaela Vitória avalia que as principais medidas que teriam credibilidade seriam a desvinculação de gastos obrigatórios, incluindo o atrelamento dos benefícios sociais e aposentadorias ao salário mínimo; e a desvinculação dos pisos de Saúde e Educação da receita.

<><> Economia em desaceleração em 2027

Um segundo desafio para o próximo presidente será um crescimento menor da economia, que, na visão dos analistas, "já está contratado" para 2027.

No boletim Focus do Banco Central mais recente, a mediana das expectativas dos analistas é de uma alta de 1,83% do PIB neste ano e de apenas 1,32% no próximo. Mas economistas avaliam que o resultado pode ser ainda mais fraco em 2027, próximo de 1%.

A perda de ritmo deverá ser influenciada por uma redução dos estímulos fiscais pelo governo federal e governos estaduais em 2026, em meio à corrida eleitoral. Ao mesmo tempo, os investimentos devem seguir pressionados no começo do ano pelos juros ainda elevados.

A esse cenário deve se somar uma retração da agropecuária, setor que tem puxado o desempenho do PIB nos últimos anos, por conta das quebras de safra esperadas com o El Niño forte — o que também deve pressionar o preço dos alimentos.

"Estamos projetando uma queda de 0,7% do agro no ano que vem, devido à questão do El Niño", diz Imaizumi, da 4intelligence. "Está vindo um monstro climático, que está sendo subestimado."

O eleitor costuma avaliar o governo pelo que sente no bolso. Se o início do mandato for de economia fraca, uma percepção negativa pode se consolidar cedo e pesar na popularidade do presidente, na relação com o Congresso e nas perspectivas de reeleição ou sucessão.

Em seus programas, os candidatos não focam especificamente em 2027, mas ambos trazem propostas para estimular o crescimento econômico nos próximos quatro anos.

O candidato do PL promete dobrar o ritmo de crescimento médio do país, de 2% para 4% ao ano, incluindo medidas como a facilitação do licenciamento ambiental, um "revogaço" regulatório, desestatizações e atração de investimento privado em concessões, redução da carga de impostos e da burocracia, flexibilização trabalhista e redução do custo do trabalho.

Promete ainda adicionar valor aos minerais críticos (lítio, nióbio e terras raras) para atrair indústrias de ponta e data centers; racionalizar encargos da conta de luz e incentivar a exploração de gás não convencional (fracking) e o agronegócio.

Já o petista aposta na indução estatal ao investimento privado, com a continuidade de programas como o Nova Indústria Brasil (NIB), de reindustrialização; uma segunda edição do Novo PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), de investimentos em infraestrutura e na área social; e o Plano de Transformação Ecológica (PTE), de crescimento sustentável.

O plano de Lula combina isso com propostas de fortalecimento da demanda interna, por meio do crescimento da massa salarial, e apoio a micro, pequenas e médias empresas por meio do alargamento de linhas de crédito produtivo (como Pronampe, Procred 360 e Acredita).

"Um governo regular [na economia] conseguiria evitar uma deterioração significativa das questões fiscais e, ao mesmo tempo, manter a economia crescendo de maneira moderada, sem ser de forma artificial, colocando mais despesas públicas", opina Imaizumi.

"Um bom ou ótimo governo seria aquele que, além de estabilizar a questão das contas públicas, conseguisse implementar reformas que realmente aumentassem o potencial de crescimento do país", afirma, acrescentando ser cético quanto a isso, qualquer que seja o eleito.

Já Rafaela Vitória, do Banco Inter, acredita que, se o cenário de desaceleração da economia for acompanhado de uma mudança no rumo fiscal, uma queda de juros pelo Banco Central se torna mais factível, o que pode limitar a perda de ritmo da atividade.

"Mesmo que a gente tenha um semestre de atividade mais parada [no início de 2027], o fato de termos o Banco Central com mais espaço para cortar juros traz uma expectativa de retomada desse crescimento já no final de 2027 para 2028", acredita.

"Agora, se o governo demorar muito para atuar nas medidas e o Banco Central não puder cortar juros com mais celeridade, a desaceleração pode se prolongar ou até mesmo termos uma recessão."

<><> Custo de vida e endividamento

Por fim, o terceiro grande desafio do próximo presidente na economia será reverter o mau humor dos brasileiros, provocado pelo custo de vida elevado e endividamento recorde nos últimos anos.

Levantamento feito por Bruno Imaizumi, da 4intelligence, mostra que o eleitor chegou às urnas em 2026 com poder de compra acima das eleições de 2022, mas ainda abaixo do pré-pandemia.

O salário mínimo em setembro deste ano (R$ 1.621) comprava 1,76 cesta básica, ante 1,61 em igual mês de 2022, e mais 2 ao longo de 2019, último ano antes da emergência da covid-19. O maior valor da série foram 2,28 cestas básicas em março de 2012, considerando o valor da cesta de São Paulo, em série do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese).

Já o percentual de famílias endividadas recuou para 81,7% em setembro, na primeira queda do indicador no ano, após sucessivos recordes, segundo dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC).

As empresas também enfrentam situação complicada, com diversos pedidos de recuperação judicial no setor de varejo e no agronegócio.

Para lidar com a questão do custo de vida, Lula propõe manter a política de valorização real do salário mínimo e a inflação sob controle. Para baratear alimentos, o petista acena à agricultura familiar, propondo ampliar o Plano Safra da Agricultura Familiar, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) e a oferta de Assistência Técnica e Extensão Rural (ATER). Também promete baratear a energia elétrica e que a Petrobras retome o segmento de distribuição de combustíveis.

Para endereçar o problema do endividamento, o presidente lançou medidas diversas ao longo da campanha eleitoral, como o Desenrola 3.0, o perdão da dívida de MEIs e a proibição das bets.

A nova versão do Desenrola, diferentemente das anteriores, propõe comprar carteiras de dívidas com desconto de até 90%, repassando a dedução ao devedor, com o objetivo de limpar até R$ 150 bilhões em dívidas dos brasileiros até meados de 2028.

Flávio Bolsonaro, por sua vez, propõe responder à questão do custo de vida reduzindo imposto sobre o consumo. Em seu programa de governo, ele sugere ainda simplificar a conta de luz, racionalizando encargos e subsídios cruzados; e reduzir o preço dos alimentos por meio da criação de "corredores logísticos inteligentes" para diminuir o custo do transporte, a ampliação da capacidade de armazenamento de safras e o estímulo à produção nacional de fertilizantes.

Com relação ao endividamento, o candidato do PL tem indicado usar a Caixa Econômica Federal para recomprar dívidas — proposta semelhante ao Desenrola 3.0 de Lula –, mas o senador foi além e se comprometeu, no debate da Band, a dar carência de seis meses para as famílias e de um ano para as empresas iniciarem o pagamento. A proposta repercutiu mal entre agentes do mercado financeiro, que, nas redes sociais, disseram considerar a medida um "calote bancário".

Para Bruno Imaizumi, as propostas dos candidatos não tocam em agendas de longo prazo. Ele avalia que reduzir o custo de vida, em uma economia ainda muito dolarizada como a brasileira, exigiria valorizar a moeda nacional, o que, na sua visão, só seria possível com reformas estruturantes.

"Ficamos muito mal acostumados a discutir uma única grande reforma por mandato. E essa reforma, geralmente, vem muito desidratada", afirma. "Por isso a relação entre os Três Poderes é tão importante, porque nos falta discutir os problemas estruturais."

Com relação ao endividamento, Imaizumi também avalia que as propostas dos dois lados são paliativas, e que uma solução de longo prazo exige reduzir os juros no país, o que só será possível com o reequilíbrio das contas públicas.

 

Fonte: BBC News Brasil