sexta-feira, 24 de abril de 2026

'Não queremos guerra com EUA, mas estamos preparados', afirma Díaz-Canel

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel afirmou que a ilha socialista não busca confronto com os Estados Unidos, mas mantém prontidão diante de um cenário de ameaças do governo Trump. Em meio ao agravamento das pressões externas e ao endurecimento do bloqueio energético norte-americano, o líder cubano reforçou o caráter defensivo da estratégia adotada por Havana.

“Cuba não é uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Os Estados Unidos sempre desempenharam o papel de potência agressora, e Cuba, o de ilha agredida. Portanto, sempre tivemos que nos preparar para o perigo iminente de uma agressão militar, que se manifestou em diferentes níveis, em diferentes governos dos Estados Unidos, em distintos momentos do contexto internacional e também regional”, disse.

A fala de Díaz-Canel ocorreu durante a entrevista exclusiva que o líder cubano concedeu ao fundador de Opera Mundi, Breno Altman, em uma edição especial do programa 20 MINUTOS.

Segundo o mandatário cubano, a posição de Cuba parte de uma tradição histórica de resistência e da necessidade de preservar a soberania nacional diante de ameaças recorrentes, destacando que o país não representa risco à segurança norte-americana e que qualquer agressão seria injustificada. Apesar do cenário, Díaz-Canel reiterou a disposição para o diálogo com Washington, desde que conduzido em bases de respeito mútuo e sem imposições. Para ele, a negociação continua sendo o caminho preferencial, ainda que o país siga se preparando para cenários adversos.

O presidente destacou que Cuba tem recebido apoio tanto do Brasil quanto de diversos países e atores internacionais, em um movimento que combina iniciativas governamentais e solidariedade popular. Segundo ele, o governo brasileiro tem atuado na denúncia do bloqueio e busca formas de enviar ajuda material, enquanto movimentos sociais e representantes políticos também contribuíram com doações diretas ao povo cubano.

Esse apoio se soma ao de países como ChinaColômbia, México e Rússia que têm enviado alimentos, insumos e suporte energético, além da participação de organizações e grupos internacionais que mobilizam recursos e ações solidárias diante das dificuldades enfrentadas pela ilha.

<><> Confira trechos da entrevista de Breno Altman com Díaz-Canel:

·        Presidente, na sua opinião, há risco real de uma intervenção militar dos Estados Unidos na ilha?

Cuba é um país de paz. Já o demonstramos ao longo da história. Cuba não é uma ameaça à segurança dos Estados Unidos. Cuba não é um país que tenha pretendido agredir ninguém, nunca. Portanto, a partir dessa visão, posso garantir que não há justificativa nem qualquer desculpa possível para que o governo dos Estados Unidos tente uma agressão contra nós. Assim, uma agressão contra Cuba só poderia ocorrer por uma abordagem hegemônica, prepotente e agressiva dos Estados Unidos em relação ao nosso país. E essa tem sido, precisamente, a história das relações entre Cuba e os Estados Unidos ao longo dos anos da Revolução.

Os Estados Unidos sempre desempenharam o papel de potência agressora, e Cuba, o de ilha agredida. Portanto, sempre tivemos que nos preparar para o perigo iminente de uma agressão militar, que se manifestou em diferentes níveis, em diferentes governos dos Estados Unidos, em distintos momentos do contexto internacional e também regional.

Portanto, digo-lhe que, nas condições atuais, é possível que tentem agredir Cuba. Devemos nos preparar para que não haja surpresa nem derrota. Não promovemos a guerra, não a estimulamos, mas não a tememos se for necessário defender a Revolução, a soberania e a independência do país.

Preparamo-nos não com uma visão ofensiva, mas com uma visão defensiva, baseada em uma concepção construída também em contextos anteriores de agressão por parte de governos dos Estados Unidos. Essa concepção combina uma estratégia de guerra simétrica, a partir de nossa experiência histórica, com uma guerra irregular de participação popular — conhecida como “guerra de todo o povo” —, na qual cada cubano tem um papel e uma missão na defesa da pátria, o que constitui uma honra e um dever, conforme estabelece nossa Constituição.

·        O senhor está pessoalmente preparado para o risco de uma intervenção militar dos Estados Unidos?

Claro que sim. Estamos todos preparados em Cuba, e todos aqueles que ocupam cargos de responsabilidade também estão.

·        Há negociações com os Estados Unidos neste momento?

Tentamos iniciar um diálogo. Negociar ou chegar a um acordo em uma relação entre nações e governos é um processo longo, que exige, primeiro, o estabelecimento de canais de diálogo, a construção de uma agenda de debate e, a partir dela, a possibilidade de alcançar entendimentos.

Cuba sempre teve disposição histórica para dialogar com o governo dos Estados Unidos, desde que isso ocorra com respeito ao nosso sistema político, à nossa soberania e à nossa independência, sem imposições e em condições de igualdade. Impor condições não é dialogar, e a imposição inviabiliza a negociação. Um processo de diálogo é, antes de tudo, delicado, pois envolve relações bilaterais entre países. Deve ser conduzido com responsabilidade, ética e decência.

Essa é uma posição histórica de Cuba nas relações com os Estados Unidos. Em diferentes administrações, esses processos avançaram mais ou menos, mas sempre existiram. Neste momento, estamos em uma fase muito preliminar, inicial, do que pode vir a ser um processo mais amplo de conversações.

·        Presidente, o Brasil está ajudando Cuba? Sei que o senhor recebeu Chico Buarque recentemente. O Brasil está prestando ajuda neste momento?

O Brasil é uma nação irmã, com a qual mantemos excelente relação governamental. Também temos uma relação muito positiva com o presidente Lula. Os povos do Brasil e de Cuba são irmãos, unidos por sentimentos de amizade, respeito e admiração mútua. Recebemos apoio tanto do governo quanto do povo brasileiro e de seus movimentos sociais. No comboio que mencionei, vieram representantes de partidos de esquerda, do Movimento dos Sem-Terra e de outros movimentos sociais, trazendo doações ao povo cubano.

O governo brasileiro tem sido um dos mais ativos na denúncia do bloqueio energético e do bloqueio em geral contra Cuba. O presidente Lula sempre foi um porta-voz dessa denúncia e do apoio ao nosso país. Além disso, o governo brasileiro busca formas de enviar ajuda material, embora esteja sujeito às limitações impostas por esse sistema.

·        Ainda não chegou?

A ajuda ainda não chegou. O problema é que o sistema de bloqueio, ampliado com a aplicação do Capítulo III da Lei Burton, afeta não apenas a economia cubana, mas também qualquer relação econômica com Cuba, envolvendo empresários ou instituições de qualquer parte do mundo. Os países também ficam sujeitos a essas medidas coercitivas impostas pelos Estados Unidos.

Apesar disso, há disposição do governo brasileiro em ajudar. Empresários brasileiros também têm apoiado Cuba em diversos processos. Observamos, por exemplo, as experiências do Brasil com biocombustíveis e buscamos desenvolver tecnologias nessa área. O Brasil também tem apoiado nosso país com alimentos.

·        Qual é a necessidade diária de combustível de Cuba?

Nós temos uma parte do combustível. Podemos operar com cerca de 7 milhões de toneladas por ano e produzimos entre 3 e 4 milhões de toneladas com petróleo nacional. O restante, porém, precisamos importar. Portanto, hoje garantimos a geração de energia elétrica de nossas usinas termelétricas com petróleo nacional, mas temos mais de 100 MW de geração distribuída que recuperamos ao longo desse período, como parte dos investimentos que vínhamos realizando para melhorar a estabilidade do sistema elétrico nacional, e que, há quatro meses, não estão disponíveis por falta de combustível.

O que nos permite manter a geração de energia elétrica são os investimentos que vínhamos fazendo, com a mudança da matriz energética para fontes renováveis, sobretudo em parques fotovoltaicos. No ano passado, instalamos mais de 1.000 MW, passando de 3% para 10% de participação desse tipo de energia — ou seja, crescemos, em um ano, 10% na geração com fontes renováveis.

Portanto, já há um primeiro fator de grande impacto, que é o energético. Praticamente, o que geramos é suficiente apenas para garantir um nível mínimo de energia elétrica para as atividades essenciais da vida cotidiana. A geração para a população é muito limitada, enquanto quase toda a economia fica paralisada, o que começa a afetar a produção e os serviços.

Já tivemos momentos de 30 horas consecutivas de apagão em uma comunidade. Tudo isso nos levou a adotar um conjunto de medidas para reorganizar, por exemplo, a atividade laboral. Tivemos que realocar pessoas, mudar atividades produtivas e recorrer mais ao trabalho remoto ou ao teletrabalho.

Também reorganizamos as atividades escolares: tanto o ensino fundamental quanto o superior passaram a adotar formatos menos presenciais, com maior uso de tecnologias de ensino a distância. No entanto, o uso dessas tecnologias também é limitado, pois, durante apagões, as conexões são interrompidas, dificultando o acesso a plataformas didáticas e pedagógicas.

Há também um impacto significativo nos sistemas de saúde, especialmente nos serviços de cirurgia. Temos uma lista de mais de 96 mil pessoas aguardando procedimentos, entre elas mais de 11 mil crianças. São atividades que sabemos realizar e realizar bem, mas estamos limitados por algo que representa uma punição coletiva.

É uma política criminosa, realmente genocida. Tudo se complica: o transporte, o abastecimento de água — já que, sem energia, os sistemas de bombeamento são interrompidos — e os ciclos de distribuição se prolongam. Há impacto em diversos serviços, como a coleta de lixo sólido, pois falta combustível para quase tudo.

Às vezes, há alimentos e medicamentos, mas não há como transportá-los com eficiência e no tempo necessário. Na vida cotidiana, imagine uma família enfrentando longas horas de apagão. Se a energia retorna de madrugada, esse período se transforma em tempo para realizar tarefas domésticas que não puderam ser feitas antes.

No dia seguinte, essa família estará cansada para trabalhar e levar as crianças à escola. Soma-se a isso a dificuldade de transporte, de acesso ao café da manhã e até de retorno para casa. Em que momento as crianças podem fazer suas tarefas escolares sem energia? Isso prejudica diretamente o aprendizado.

Faltam medicamentos. Temos tratamentos para pacientes oncológicos que não conseguimos adquirir devido ao agravamento do bloqueio. Faltam serviços e produção para atender diversas necessidades. O que devemos considerar é a capacidade de resistência desse povo, que, nessas condições, conseguiu se manter unido, preservar a esperança e não se dobrar.

·        Presidente, como descreveria o impacto do endurecimento do bloqueio norte-americano sobre a economia e a vida cotidiana em Cuba nos últimos meses?

Para explicar esse impacto, podemos analisá-lo em dois âmbitos: o nacional e o cotidiano da vida familiar. Em primeiro lugar, é importante destacar que a situação atual — especialmente nos últimos quatro meses, após a ordem executiva de 29 de janeiro, que impõe um bloqueio energético sob a alegação de que Cuba seria uma ameaça extraordinária aos Estados Unidos — não é recente. Trata-se de um processo acumulado que vem se tornando cada vez mais complexo.

Cuba enfrenta bloqueio há mais de 60 anos, mas ele adquiriu nova dimensão no final de 2019, quando o governo Trump adotou cerca de 240 medidas e incluiu o país na lista de Estados que supostamente apoiam o terrorismo. Isso intensificou e internacionalizou o bloqueio.

A partir daí, surgiram problemas com divisas, produção, acesso a matérias-primas, turismo, remessas e viagens. Houve também perseguição financeira e energética, agravando carências de alimentos, medicamentos e itens básicos, situação que se prolongou durante a pandemia sob a manutenção dessa política.

Posteriormente, com novas medidas, incluindo sanções à Venezuela, o fornecimento de combustível ao país foi afetado, culminando na imposição de um bloqueio energético. Nenhuma economia pode sobreviver sem combustível, e seus efeitos se refletem diretamente na geração de energia elétrica.

·        Qual é o papel da solidariedade internacional nesse contexto, especialmente de Rússia e China?

Cuba mantém laços históricos de amizade, solidariedade e cooperação com China e Rússia. Ambos os países têm contribuído, dentro de suas possibilidades, para o apoio energético e alimentar, mesmo diante das restrições impostas por sanções.

Além da ajuda governamental, há forte participação de movimentos sociais e iniciativas solidárias internacionais. Recentemente, o país recebeu um comboio internacional com representantes de diversos movimentos e doações populares.

Os principais desafios atuais são energia, medicamentos e alimentos. Houve apoio significativo do México, com envio de suprimentos e materiais para sistemas fotovoltaicos. Colômbia, China e Vietnã também contribuíram com ajuda, especialmente nas áreas alimentar e energética.

·        Os envios de petróleo da Rússia são suficientes?

Cuba passou quatro meses sem receber combustível, operando apenas com reservas. Recentemente, chegou um navio russo com petróleo — um gesto simbólico importante, embora insuficiente para resolver totalmente a situação.

A carga representa cerca de um terço da necessidade mensal e garante abastecimento por aproximadamente 10 dias. Esse combustível permitirá ampliar temporariamente a geração de energia, especialmente no período noturno, mas seus efeitos são limitados no tempo.

A Rússia anunciou novos envios, e Cuba reafirma seu direito de importar combustível. Além disso, o país passou a autorizar a importação por entidades privadas — algo inédito —, o que tem permitido pequenas entradas de combustível, ainda que em volumes reduzidos e com processos complexos.

¨      Cuba cobra ‘prioridade máxima’ para fim do bloqueio energético em reunião com delegação dos EUA

governo de Cuba confirmou ter tido uma reunião de caráter “respeitoso e profissional” em Havana com a delegação dos Estados Unidos. A confirmação foi dada na segunda-feira (20/14) pelo vice-diretor-geral do Ministério das Relações Exteriores cubano, Alejandro García del Toro, responsável pelos assuntos norte-americanos ao jornal Granma, acrescentando que durante as conversações pediram à Casa Branca urgência na suspensão do cerco energético.

“Nenhuma das partes estabeleceu prazos ou fez propostas ameaçadoras”, disse García del Toro. De acordo com o diplomata, a delegação de Washington era composta por secretários assistentes do Departamento de Estado, enquanto do lado cubano participavam “no nível de vice-ministro das Relações Exteriores”.

O funcionário de alto escalão também enfatizou que essas reuniões são conduzidas sob um critério de discricionariedade devido à sensibilidade das questões abordadas no âmbito bilateral. A principal prioridade cubana no encontro foi a exigência de eliminar o cerco energético que pesa sobre o país.

“A eliminação do cerco energético contra o país era uma questão de máxima prioridade para nossa delegação. Esse ato de coerção econômica é uma punição injustificada para toda a população cubana. Também é uma chantagem em escala global contra Estados soberanos, que têm todo o direito de exportar combustível para Cuba, em virtude das regras que regem o livre comércio”, disse.

Em 29 de janeiro, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem executiva intensificando o bloqueio contra Cuba, ao declarar uma suposta emergência nacional, considerando a ilha uma “ameaça incomum e extraordinária” à segurança nacional. A medida permitiu que Washington sancionasse países que tentassem fornecer petróleo direta ou indiretamente a Cuba, o que resultou em uma escassez de combustível e deflagrou uma grave crise humanitária e energética no país caribenho.

O governo de Cuba reiterou sua disposição de dialogar com as autoridades dos Estados Unidos, mantendo uma posição aberta à comunicação desde que as trocas sejam realizadas com base em respeito e não interferência. Em entrevistas a veículos norte-americanos, o presidente cubano Miguel Díaz-Canel abriu a possibilidade de negociações e reiterou que o diálogo deve sempre ocorrer “em condições iguais” e com pleno respeito à soberania, ao sistema político, à autodeterminação e ao direito internacional.

 

Fonte: Opera Mundi/Telesur

 

Luiz Martins de Melo: É possível renovar a esquerda?

A postura política defensiva da centro-esquerda e da esquerda no século XXI fez com que parecessem um guardião de uma institucionalidade injusta. Buscar o reformismo radical oferece uma alternativa para voltar às suas origens democráticas e desafiadoras da institucionalidade hegemônica no capitalismo de Estado dominante.

Desde seus inícios, durante as revoluções de 1848, a social democracia e a esquerda socialista têm sido um projeto político definido por sua natureza transformadora. A partir do progresso alcançado ao longo do século XX, a esquerda sempre foi caracterizada por uma atitude contínua de desafio ao estado de coisas predominante. Essa atitude crítica em relação à estrutura da sociedade e suas instituições não apenas levou a uma transformação da sociedade – por meio de conquistas, como a criação do estado de bem-estar social – mas também permitiu que a esquerda mudasse a forma como suas políticas centrais eram implementadas, garantindo que sempre refletissem as necessidades contemporâneas e continuassem beneficiando as pessoas comuns.

Por alguns anos, porém, esse lado transformador – que sempre definiu a forma da esquerda fazer política – vem se desgastando. Com a ascensão do populismo de direita e sua ameaça inerente à democracia, a esquerda foi forçado a se posicionar na defensiva. Embora conscientes do descontentamento generalizado com o estado atual das coisas e da necessidade urgente de mudança em vários aspectos da sociedade, diante da possibilidade de algo muito pior ganhar poder, a esquerda se viu numa posição de defesa do status quo com todas as suas falhas, em vez de oferecer a mudança ousada que a população exigia.

Como resultado, recentemente, adotou uma atitude conservadora em relação à política. Não conservadora em suas políticas, mas conservadora em sua postura, caracterizada não mais por sua ênfase tradicional na transformação gradual da sociedade, mas por um desejo defensivo de preservar o que já conquistara, apesar da necessidade de atualizar essas conquistas conforme as necessidades atuais. Devido a essa forma conservadora de fazer política, a esquerda que antes era vista como o lado do progresso e da reforma social rumo a uma sociedade mais justa, liderando um processo de aprofundamento da democracia, passou a ser vista como apoiadora de um sistema que a maioria das pessoas considera injusto. Essa mudança de percepção da população teve consequências eleitorais visíveis e dolorosas para a esquerda e para sociedade.

A esquerda e a centro-esquerda nunca foram uma força conservadora. Sua forma de fazer política, de agir sobre assuntos públicos, baseia-se no princípio do reformismo, na convicção de que, por meio de um processo de reforma gradual e constante das instituições existentes, pode-se torná-las mais justas e, por sua vez, tornar a sociedade mais livre e mais igualitária. Portanto, devem rejeitar essa atitude conservadora que os tem atormentado nos últimos anos e reabraçar a abordagem que tornou seu movimento uma força política positiva, progressista e transformadora. Em resumo, precisa retomar o reformismo radical.

Quando falamos de reformismo radical, estamos falando de um princípio de ação. Ou seja, estamos falando de uma atitude em relação à política, sobre a forma como a política de esquerda deve ser conduzida.

Não se trata apenas de rejeitar a defesa cega das instituições existentes, mas também de manter uma visão crítica em relação a elas. Trata-se de reconhecer e defender seus elementos centrais liberais que abrem espaço para o avanço do processo democrático, ao mesmo tempo em que estamos dispostos a repensar como essas mesmas políticas e instituições devem ser implementadas e colocadas em prática. Levar o reformismo radical para além do liberalismo. Significa ter coragem e disposição para mudar e remodelar as instituições e organizações que apoiamos, e a humildade de ouvir aqueles que estão insatisfeitos e sentem que foram prejudicados.

Considere o Estado de bem-estar social como exemplo. Embora seja verdade que as reformas alcançadas pela esquerda nessa área melhoraram a vida das pessoas em um ritmo sem precedentes, é igualmente verdade que há um sentimento generalizado de que os serviços públicos que compõem o Estado de bem-estar social não estão cumprindo seus propósitos universalistas. À medida que a realidade muda e surgem novos problemas e necessidades, a resposta da esquerda não pode ser defender cegamente os serviços públicos como eles existem atualmente. Em vez disso, deveria ser reconhecer que, embora seus princípios fundamentais permaneçam corretos, sua organização e financiamento atuais não são adequados para atender às necessidades da população e, portanto, precisam ser reformados e adaptados. Nesse caso, essa mudança significa abandonar a estrutura burocrática e centralizada dos serviços públicos e reorganizá-los para que operem em nível comunitário, mais próximos de seus usuários e mais responsivos às suas necessidades.

O termo “radical” sugere uma postura política de transformação da hegemonia liberal atual para uma democrática. Essa hegemonia de construção de instituições democráticas é centro da visão de uma nova sociedade mais igualitária e livre. Livre da exploração e apropriação selvagem, econômica e financeira hoje, e das ameaças autoritárias e violentas do neofascismo. A esquerda deve se convencer de que há um senso de urgência para esse reformismo ampliado, que as mudanças necessárias devem ser feitas o mais rápido possível e que devem ser implementadas de forma a garantir que seus efeitos sejam sentidos o mais rápido possível. Embora, a princípio, isso possa levantar obstáculos e resistências dos grupos conservadores, esse radicalismo busca reforçar a sua natureza transformadora, sua capacidade de melhorar a vida das pessoas e com isso ganhar força política para vencer essas resistências.

Esse radicalismo, no entanto, não pode ser demonstrado apenas por meio de medidas políticas. Mais importante ainda, ele deve ser demonstrado na comunicação, contando uma história da sociedade que o projeto busca construir, demonstrando tanto vontade de mudar, quanto uma visão clara do que essa mudança envolve. Além de possuir ambições e políticas transformadoras, a esquerda deve desenvolver um discurso enérgico que enfatize que seu projeto não é apenas gerenciar a sociedade, mas reformá-la por meio das instituições existentes e da criação de novas. Como um projeto político cujo mandato é dado pelo povo, sua forma de comunicação deve sempre refletir o desejo generalizado por mudanças rápidas e enérgicas. O discurso da esquerda não pode ser de apaziguamento, deve ser uma linguagem de movimento, moldada por uma visão clara dos elementos centrais da transformação oferecida.

Para muitos que ainda se apegam a essa atitude conservadora e à abordagem tecnocrática da política, adotar essa postura diante do nosso discurso e apresentação pública corre o risco de ser acusada de populista, fazendo a esquerda parecer irresponsável e perder o eleitorado centrista. No entanto, essa perspectiva está equivocada. Basta olhar para o mundo ao nosso redor para perceber que a população em geral está ansiosa por mudanças. Embora a esquerda sempre tenha representado mudanças positivas, nosso discurso e ritmo de ação também devem refletir essa identidade. Os resultados de não incorporar a força da mudança estão para todos verem: esse papel inevitavelmente será ocupado por aqueles que se apresentem como agentes de mudança, mas que apenas nos oferecem a pior versão possível do presente –apresentam-se como defensores da liberdade, escondem o ovo da serpente do autoritarismo, da desigualdade social e do conservadorismo cultural.

As mudanças radicais para os serviços públicos são exemplos do efeito do reformismo radical nas propostas da esquerda. Mantendo intactos os princípios e elementos centrais dos serviços públicos, ou seja, sua natureza estatal, baseada na necessidade e universalista, essa abordagem consegue olhar criticamente para suas deficiências atuais e mudá-las, tanto em sua organização, quanto na alocação de recursos, para que reflitam melhor as necessidades contemporâneas. Em vez de permanecer na defensiva, buscando apenas preservar o que existe apesar das crescentes frustrações das pessoas, busca apresentar um modelo mais justo, refletindo a natureza sempre transformadora e crítica do reformismo radical.

Em todas essas áreas, os compromissos centrais da esquerda, a existência de uma economia de mercado fortemente regulada, um estado de bem-estar social universal fornecido publicamente e um sistema tributário progressivo são mantidos intactos. No entanto, a forma como esses compromissos são traduzidos na realidade é diferente: mais ousada, mais imaginativa e reveladora da capacidade de pensar criticamente sobre as próprias conquistas da social-democracia e adaptá-las às circunstâncias atuais.

Em resumo, essa é a atitude reformista radical que a esquerda deve adotar. Significa adotar a essência reformista de sua ideologia e aplicá-la com o senso de urgência e rápida transformação que os tempos atuais exigem. Trata-se de deixar de ser defensivo e, finalmente, partir para o ataque. O ataque que aponta para esperança de uma transformação na vida das pessoas para mais igualdade e liberdade.

Ao fazer isso, e rejeitando a atitude conservadora que tem mantido a esquerda recuada e tímida, ainda poderá haver esperança para um futuro mais justo.

•        Flávio, aposentadoria, BPC, saúde, educação e real natureza da trapaça. Por Reinaldo Azevedo

Já assistiram a um espetáculo de “teatro de sombras”? Eu já. Tem seu fascínio. Silhuetas que se veem em razão de um jogo de luzes representam um papel em que se dispensa a excessiva personalização. O que vale é o simbolismo. A expressão pode ser metáfora de uma percepção superficial dos fatos que não corresponde à verdade essencial das coisas. Bem, os mais dedicados às coisinhas da filosofia logo se lembraram, e com razão, da caverna de Platão, né?

AGENDA ESCONDIDA

Flávio Bolsonaro não chega a ser meu melhor exemplo para explicar a distância entre o mundo da percepção, com seus enganos, e o das ideias. Mas serve por agora. A turma do pré-candidato do PL à Presidência vazou para, como costumo escrever, “Uzmercáduz” que, se eleito, ele vai desvincular do salário mínimo as correções das aposentadorias e do BPC (Benefício de Prestação Continuada,

Notem bem: sou contra a desvinculação, mas não considero isso um crime. O que é inaceitável, aí sim, é esconder a agenda. Anuncia-se, ainda, que o dito Zero Um quer privatizar 95% das estatais. Rememoro: privatizações têm disciplina constitucional: Inciso XIX do Artigo 37 da Constituição. Não basta dizer “vou vender e pronto!” Tem de passar pelo Congresso. “Ah, a maioria do Parlamento será de direita; vai ser bico!” Falso. Depende muito de como os interesses cartoriais vão se organizar.

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SAÚDE. EDUCAÇÃO E PRIVATIZAÇÕES

Mais: o pré-candidato do PL também pretende, se eleito, mexer com os respectivos Orçamentos de Saúde e Educação. Seriam corrigidos, também eles, apenas pela inflação. Acabar-se-iam as vinculações que impõem desembolsos de 15% da receita corrente líquida no primeiro caso e 18% da receita líquida de impostos no segundo.

“Uzmercáduz” entram em frêmitos gozosos nessas horas.

Flávio quer esconder a sua agenda sobre aposentadoria, BPC e gastos em Saúde e Educação mais do que o diabo pretende esconder a sua condição de Anjo Caído. Pode ser criptonita eleitoral para quem se quer um novo Super-Homem.

O “homem da direita” também estaria disposto a vender 95% das estatais… É mesmo? Depende de como seja percebido o debate. A ideia seria passar nos cobres, por exemplo, a Petrobras abaixo do seu valor de mercado, como Tarcísio de Freitas fez com a Sabesp? Nota: é possível vender subsidiárias de empresas públicas ou mistas por decisão administrativa, submetendo-se apenas à Lei 9.491, das privatizações. No caso das empresas-mãe, não.

REAÇÃO

Pois bem: a campanha de Flávio e ele próprio saíram chutando a Folha, que deu a notícia com indisfarçável entusiasmo. É do jogo: em se tratando de extrema direita, bata sempre na imprensa, mesmo que ela se mostre a favor.

Fato: o “vazamento” passou um recado aos mercados: “Flávio é esse cara”. Ou, em linguagem de peso histórico-religioso, “Ecce homo”. Mas não se trata de Pilatos mandando crucificar um Cristo. Ao contrário. Trata-se de exultação: “Vejam aí: eis o homem de vocês”. Mas o pré-candidato do PL tem de fazer a sua parte no minueto: “Que absurdo? Eu? diminuir, na prática, o valor das aposentadorias do BPC? Tudo fake news”. Assim, quase todo mundo ganha:

– os mercados ficam felizes porque se confirma ser essa, de fato, a agenda de Flávio;

– o pré-candidato ganha porque bate “na imprensa”, ainda que lhe tenha prestado o favor de dizer a quem interessa o que realmente pensa.

“Ah, Tio, então todos vencem?” Bem, caras, caros e cares, se ele ganhar, os aposentados, os que recebedores do BPC e os que dependem de saúde e educação públicas obviamente perderão. Mas, nesse caso, quem se importará? Um dia haverá o futuro sorrindo para todos, não é?, muito especialmente para os desvalidos que ainda não perceberam as virtudes da espera e da perda que será, um dia, ganho. Mas para as futuras gerações de desvalidos.

Amanhã tudo será melhor.

 

Fonte: Terapia Política/Metrópoles

 

Como a polícia desmascarou assassino brasileiro que ficou foragido no Paraguai por décadas

Por mais de 20 anos, o brasileiro Marcos Campinha Panissa viveu no Paraguai com outra identidade. Casou-se, construiu uma família, abriu negócios.

Para vizinhos e amigos, ele era José Carlos Vieira, apenas um comerciante que levava uma vida discreta.

Ninguém suspeitava que, décadas antes, ele havia sido condenado no Brasil por um crime brutal.

A vida construída com base em documentos falsos começou a ruir na manhã de quarta-feira (15/4), quando Marcos foi abordado por agentes da Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai (Senad) ao sair de um estabelecimento em San Lorenzo, a cerca de 15 quilômetros da capital, Assunção.

"Marcos!", chamaram os policiais. A reação do brasileiro foi imediata.

"Ele olhou para os agentes com uma expressão de espanto. Era como alguém que não ouvia o próprio nome há muitos anos, e se surpreendia ao ouvi-lo novamente. Ele ficou paralisado", relatou à BBC News Brasil o ministro responsável pela Senad, Jalil Rachid.

Marcos estava foragido da Justiça brasileira havia mais de 30 anos. Ele foi condenado por matar a ex-mulher, Fernanda Estruzani, com 72 facadas. O crime ocorreu em agosto de 1989, dentro do apartamento de Fernanda, em Londrina, no Paraná.

Na época, o caso foi tratado como homicídio — o crime de feminicídio ainda não existia na legislação brasileira.

Marcos chegou a passar por dois júris em liberdade. Mas antes que o terceiro julgamento acontecesse, em 1995, ele desapareceu.

Desde então, seu nome constava na difusão vermelha da Interpol, lista de criminosos procurados internacionalmente.

"Esse era um dos alertas vermelhos ativos mais antigos da Polícia Federal na Interpol", disse o superintendente da PF no Paraná, Rivaldo Venâncio.

Em 2008, com a mudança na legislação que passou a permitir julgamentos sem a presença do réu, Marcos foi condenado à revelia a 19 anos de prisão.

Mas nunca cumpriu a pena, que o manteria preso até 2028, porque não havia sido localizado — até a quarta-feira.

<><> O crime

Fernanda Estruzani tinha 21 anos quando foi morta, em 6 de agosto de 1989. Marcos tinha 23 anos.

De acordo com o Ministério Público do Paraná, o casal tinha uma filha pequena e estava separado havia cerca de dois anos, mas ele não aceitava o fim do relacionamento.

Na manhã do crime, Marcos foi até o prédio onde Fernanda morava, no centro de Londrina.

Após a ex-mulher ter se recusado a deixá-lo entrar, ele invadiu o local, onde encontrou Fernanda com um namorado.

Segundo denúncia apresentada pelo Ministério Público na época, Marcos ficou com ciúmes da ex-mulher, os dois discutiram e ele foi embora.

Por volta das 22h daquele mesmo dia, Marcos voltou ao local e conseguiu entrar no apartamento usando uma cópia da chave.

Fernanda estava deitada, prestes a dormir, quando foi atacada pelo ex-marido e atingida por 72 golpes de faca.

"Eles estavam separados, mas ele não aceitava o fim do relacionamento. Esse tipo de crime ainda se repete, marcado pela ideia de tratar a mulher como propriedade, objeto", afirma o procurador-geral do Ministério Público do Paraná, Francisco Zanicotti.

O corpo foi encontrado no dia seguinte, após uma denúncia anônima, segundo informações de reportagens na época. O crime causou grande comoção, levando a protestos na cidade.

Marcos sempre foi o principal suspeito da polícia. Ele chegou a ter prisão preventiva decretada, ficou foragido por dois meses, mas se apresentou depois e confessou o crime.

<><> Julgamentos e fuga

Em outubro de 1991, Marcos foi julgado pela primeira vez e condenado a 20 anos e 6 meses de prisão.

Como a pena era superior a 20 anos, a defesa recorreu ao chamado "protesto por novo júri", mecanismo então previsto na legislação que permitia a realização de um novo julgamento. Ele continuou em liberdade.

À época, réus condenados a penas iguais ou superiores a 20 anos pelo Tribunal do Júri tinham direito automático a um novo julgamento — regra que só seria extinta anos depois, com a reforma do Código de Processo Penal.

Em março de 1992, Marcos foi submetido a um segundo júri e teve a pena reduzida para 9 anos.

A decisão, no entanto, foi anulada em 1994 pelo Tribunal de Justiça do Paraná, que apontou irregularidade na formação do Conselho de Sentença: um dos jurados não poderia ter participado do julgamento.

Um terceiro júri foi marcado para maio de 1995, mas Marcos não apareceu. A partir de então, passou a ser considerado foragido, e o julgamento ficou suspenso por tempo indeterminado.

Em 2008, com a reforma do Código de Processo Penal, que passou a permitir julgamentos mesmo na ausência do réu, ele foi julgado à revelia pelo Tribunal do Júri de Londrina e condenado a 19 anos de prisão.

<><> Fuga e vida no Paraguai

Investigadores acreditam que, após o crime, Marcos passou um período em São Paulo antes de deixar o Brasil e seguir para o Paraguai, onde entrou usando uma identidade falsa.

Não há uma data exata para sua entrada no país, mas estima-se que isso aconteceu há pelo menos duas décadas, já que ele se casou em 2001.

"Logicamente, as circunstâncias geográficas, sendo países vizinhos, facilitam a entrada no Paraguai pelo Brasil, pois nossas fronteiras terrestres são facilmente acessíveis, especialmente considerando que, há 30 anos, estávamos em processo de transição para a democracia", afirmou o ministro da Senad, Jalil Rachid.

No Paraguai, Marcos assumiu o nome de José Carlos Vieira e construiu uma nova vida. Teve uma filha, adquiriu bens e abriu negócios, incluindo uma loja de ferragens e materiais agrícolas no departamento de Concepción, a cerca de 470 quilômetros de Assunção.

Segundo Rachid, Marcos levava uma rotina discreta e sem chamar atenção na capital, onde tinha uma casa.

Durante o período em que foi monitorado pela polícia paraguaia, ele foi visto circulando normalmente pela cidade: fazendo compras, frequentando comércios e visitando a filha.

"Ele não teve absolutamente nenhum problema para se locomover livremente no Paraguai. Ele tinha bens em seu nome, veículos, casa. Ele tinha uma vida normal aqui", destacou o ministro.

A polícia paraguaia acredita que a família não sabia sobre o passado de "José Carlos" ou sua verdadeira identidade, Marcos Panissa.

Rachid relatou que tanto a esposa quanto a filha do brasileiro, que são paraguaias, ficaram "absolutamente chocadas" ao saber que ele era foragido da polícia e que tinha matado a ex-mulher.

"Quando sua filha veio visitá-lo aqui, ela desabou em lágrimas, profundamente magoada e chocada com a situação do pai. Me parece que elas [esposa e filha] realmente não tinham a menor ideia do que ele havia feito em sua vida anterior", afirmou.

"Para elas, ele era outra pessoa, completamente diferente: o José Carlos, que a partir do momento em que entrou no Paraguai, construiu uma vida totalmente nova."

<><> Cooperação entre as polícias

A prisão de Marcos só foi possível graças a um trabalho conjunto entre a Polícia Federal, o Ministério Público do Paraná e a Secretaria Nacional Antidrogas do Paraguai.

Após anos de buscas e denúncias de que o brasileiro poderia estar nos Estados Unidos ou até na Europa, a Polícia Federal recebeu, no ano passado, a informação de que ele vivia no Paraguai.

"Pela proximidade entre os dois países e a facilidade de travessia, sempre houve a suspeita de que ele pudesse estar lá. Mas dados mais concretos chegaram no ano passado, e repassamos às autoridades paraguaias", afirmou o superintendente da Polícia Federal no Paraná, Rivaldo Venâncio.

A partir dessas informações, a Senad conseguiu cruzar dados até identificar o nome falso usado por Marcos e passou a monitorá-lo.

"Desenvolvemos uma rede de inteligência compartilhada, trocando informações entre as duas instituições. Foi assim que conseguimos localizá-lo no Paraguai e colocá-lo sob vigilância", afirmou Rachid, acrescentando que o período entre o monitoramento e a prisão foi de cerca de uma semana.

Na semana passada, a polícia montou a operação Memento Mei — expressão em latim que significa "lembre-se de mim", em alusão ao não esquecimento das vítimas de feminicídio no Brasil.

Inicialmente, os policiais foram até a cidade de Concepción, onde o brasileiro mantinha um comércio e imóveis, mas ele não foi encontrado.

As buscas seguiram no dia seguinte para Assunção, onde ele morava, e depois para San Lorenzo, na região metropolitana, onde Marcos acabou localizado.

O brasileiro foi preso na manhã de quarta-feira — 37 anos após o crime — enquanto fazia compras. Ele foi abordado na rua por agentes que o chamaram pelo nome verdadeiro, o que causou espanto.

"Aquela reação quase estupefata nos mostrou que era ele e que ele ficou realmente surpreso quando o chamamos pelo nome", declarou Rachid.

Após a detenção, as autoridades paraguaias iniciaram os procedimentos para a expulsão do brasileiro do país. Ele foi entregue à PF na Ponte Internacional da Amizade, onde o mandado de prisão foi cumprido.

"Apesar de ter um mandado de prisão na Interpol ativo, a polícia paraguaia concluiu que ele estava de forma irregular no país. Então, por questões migratórias, eles decidiram expulsá-lo", explicou Venâncio.

Para o Ministério Público, a prisão representa o desfecho de uma busca que nunca foi interrompida.

"Nunca deixamos de procurá-lo. O fato de a prisão ter ocorrido, mesmo tantos anos depois, mostra que o sistema de Justiça não esquece as vítimas", afirmou Zanicotti.

A BBC News Brasil entrou em contato com o advogado de defesa de Marcos Panissa, mas não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Em entrevista ao Fantástico, o advogado Antônio Carlos de Andrade Vianna disse que vai entrar com um recurso para diminuir a pena de Marcos para nove anos, como foi no julgamento em 1992.

"A defesa nunca falou que ele era inocente. Realmente ele confessou o crime. Ele cometeu um crime pavoroso, mas nem por isso podemos sair da legalidade desse assunto. Vamos fazer uma revisão criminal, para que aquela decisão seja revista", declarou.

 

Fonte: Por Iara Diniz, da BBC News Brasil

 

Quando o cochilo é sinal de perigo

Adormecer ao longo do dia, especialmente pela manhã, pode ser um alerta silencioso do organismo de que há algo de errado. Pesquisadores acreditam que monitorar as sonecas ajuda a revelar problemas como apneia e doenças cardiovasculares...

Dormir alguns minutos depois do almoço costuma ser um hábito saudável e, em muitas culturas, quase obrigatório. Quando, contudo, os cochilos ao longo do dia se tornam longos, frequentes ou começam logo pela manhã, esse pode ser um alerta silencioso do organismo, especialmente em pessoas mais velhas. A constatação é de um estudo publicado na revista Jama, que acompanhou 1.338 adultos acima de 56 anos, com idade média de 81 anos, por quase duas décadas.

Embora estudos anteriores tenham encontrado associações semelhantes, os autores destacam que, geralmente, os dados eram relatados pelos pacientes. Agora, porém, os participantes foram convidados a usar dispositivos vestíveis, como relógios inteligentes, para medir objetivamente os períodos de sono durante o dia. Ao relacionar as informações a registros de saúde e mortalidade ao longo de 19 anos, os cientistas descobriram que cada hora adicional de cochilo esteve ligada a um aumento de 13% na mortalidade por todas as causas. A frequência também pesou: cada dormidinha extra por dia elevou o risco em 7%.

 "Nosso estudo é um dos primeiros a mostrar uma associação entre padrões de cochilo medidos objetivamente e mortalidade, e sugere que há um imenso valor clínico em monitorar esses padrões para detectar problemas de saúde precocemente", disse, em nota, Chenlu Gao, pesquisador de anestesiologia do Mass General Brigham, em Boston, e principal autor da pesquisa. Os autores alertam que o horário do cochilo foi o que mais chamou a atenção. Adultos que caíam no sono pela manhã — entre as 9h e o início da tarde — tiveram risco de morte 30% maior, em comparação com os que dormiam pós-almoço, a famosa sesta. Esse padrão pode refletir alterações mais profundas no organismo.

<><> Temperatura

Andrea Bacelar, neurologista, neurofisiologista e especialista em medicina do sono da Academia Brasileira do Sono (ABS), explica que, entre as 13h30 e as 15h30, há um período de sonolência natural. "Fisiologicamente, ocorre uma queda de temperatura corporal nesse intervalo, variando entre os indivíduos. Muitas pessoas atribuem ao almoço, mas, hoje, sabemos que é por conta da queda da temperatura do corpo. O problema, aponta, é quando o descanso pós-prandial ultrapassa 30 minutos, sinalizando hipersonolência", diz.

"Não é que o sono seja prejudicial, mas o cochilo prolongado significa que meu sono da noite não é reparador", esclarece Bacelar. "Ou então está acontecendo privação do sono: ou seja, quantidade menor do que eu preciso ou qualidade ruim. Isso indica que a pessoa está fora de seu ritmo biológico." Essa alteração, ressalta a especialista, pode sugerir comorbidades.

Segundo os autores da pesquisa, distúrbios como apneia obstrutiva costumam estar por trás do cochilo prolongado e em horas impróprias. Nesses casos, o indivíduo não consegue manter um sono reparador durante a noite, o que leva à sonolência diurna. "O paciente pode achar que está apenas cansado, mas, na verdade, há uma fragmentação importante do sono noturno", explica Chenlu Gao.

<><> Fadiga

Além disso, doenças crônicas — incluindo condições cardiovasculares, metabólicas e neurodegenerativas — também podem provocar fadiga persistente e aumentar a necessidade de cochilos ao longo do dia. O estudo, inclusive, ajustou os resultados para fatores como hipertensão, diabetes, índice de massa corporal e uso de medicamentos, e ainda assim encontrou associação entre dormir no período diurno e mortalidade.

Outro ponto destacado no artigo publicado na Jama é que o cochilo pode estar relacionado a inflamações no organismo. Pesquisas anteriores demonstraram que pessoas que costumam adormecer durante o dia têm níveis mais elevados de marcadores inflamatórios, o que pode contribuir para o desenvolvimento de doenças cardiológicas, porque alterações no ciclo circadiano, o "relógio biológico", impactam o sistema cardiovascular.

Quando há desregulação do ciclo, um conjunto de fatores acaba favorecendo o ambiente propício ao desenvolvimento de doenças cardiovasculares, incluindo maior ativação do sistema nervoso simpático (relacionado ao estresse) e prejuízo da função dos vasos sanguíneos. "Quando se dorme pouco ou mal, o organismo permanece em estado de alerta, e isso pode favorecer a elevação da pressão ao longo do tempo", explica a cardiologista Erika Campana, presidente do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC).

Os autores do estudo publicado na Jama acreditam que o monitoramento do cochilo, especialmente em idosos, deve se tornar uma rotina clínica, para investigação de comorbidades. Eles acreditam que, com a popularização de relógios inteligentes e outros dispositivos vestíveis, será possível fazer esse acompanhamento em larga escala. "Essas tecnologias podem ajudar a identificar mudanças sutis no comportamento ao longo do tempo, permitindo intervenções mais precoces", destacam, no artigo.

>>>> Três perguntas para Márcia Assis, neurologista e médica do sono, membro titular da Academia Brasileira do Sono (ABS)

•        Como diferenciar um cochilo saudável de um padrão que pode sinalizar problemas de saúde?

O cochilo diurno, frequentemente visto como um hábito benigno ou até saudável, pode assumir diferentes significados clínicos dependendo de suas características. Na fisiologia do sono, um cochilo considerado saudável costuma ser breve (10 a 30 minutos), intencional, realizado no início da tarde, especialmente após o almoço, quando fisiologicamente e naturalmente sentimos sonolência. Nesse período, há uma queda circadiana natural do estado de alerta. Um cochilo no início da tarde é curto e tem efeito restaurador, sem prejuízo do sono noturno. No entanto, quando os cochilos se tornam prolongados, frequentes, não planejados, isto é, irresistíveis ou pouco restauradores, especialmente fora da janela circadiana esperada, como no período da manhã, eles deixam de ser apenas um comportamento adaptativo e passam a representar um possível marcador de distúrbio do sono ou de condições clínicas subjacentes.

•        Por que o cochilo pela manhã pode representar um distúrbio?

Do ponto de vista da medicina do sono, esse padrão pode indicar que o sono noturno não foi suficientemente reparador, seja por fragmentação, como ocorre na apneia obstrutiva do sono, seja por desalinhamento do ritmo circadiano ou por privação do sono. Em outras palavras, o indivíduo desperta sem ter completado adequadamente os processos restauradores do sono. Embora o cochilo possa, inicialmente, surgir como uma resposta compensatória à privação de sono, sua persistência, mesmo após a tentativa de regularização do sono noturno, ou sua associação com sonolência excessiva diurna, fadiga, prejuízo cognitivo ou impacto funcional, indica a necessidade de investigação clínica mais aprofundada. O cochilo passa a ser um sinalizador de que algo acontece e que merece uma avaliação médica.

•        Quando procurar ajuda?

Cochilos longos e frequentes não devem ser interpretados isoladamente como fator de risco, mas como um possível fenótipo comportamental que reflete vulnerabilidades biológicas, incluindo distúrbios do sono, condições psiquiátricas, doenças sistêmicas ou até processos neurodegenerativos. Assim, mais do que avaliar a presença do cochilo, é fundamental compreender seu padrão, seu contexto e seu impacto. O cochilo pode ser restaurador, mas também pode ser um sinal precoce de que algo no sono ou na saúde global não vai bem. Ficar atento aos sinais do nosso corpo torna-se muito valioso, inclusive quando o sinal vem por cochilos fora do habitual.

 

Fonte: Correio Braziliense