A
mentira como método e a chantagem como projeto de poder
A
mentira, além de ser um sério desvio ético, transformou-se em método,
estratégia de comunicação e instrumento de desgaste coletivo. Seu objetivo já
não é convencer, mas exaurir. Não pretende conquistar a inteligência do
interlocutor, e sim fatigá-lo até que perca a disposição de reagir. O
subproduto malicioso dessa asfixia planejada é a generalização de uma
desesperança quase crônica. Ao anestesiar a capacidade de indignação, o sistema
empurra uma parcela significativa da população para o ceticismo, consolidando a
crença de que a representação política está tão apodrecida que essa degeneração
não se desfará.
A
mentira jamais foi um acidente de percurso na história do poder. Desde a
Antiguidade, a manipulação dos fatos, a dissimulação e o ardil para obtenção de
vantagens atravessaram impérios, alimentaram guerras e derrubaram governos. O
que distingue nosso tempo não é apenas a existência da fraude política, mas a
sua prática contumaz. Um expoente dessa prática é Donald Trump, que transformou
o ato de mentir em uma rotina diária de governo e de campanha. Ao despejar uma
enxurrada ininterrupta de mentiras, posteriormente desmentidas por fontes
fidedignas, Trump é um super adepto da pós-verdade" como política de
Estado, demonstrando que essa atitude repetida à exaustão pode criar realidades
paralelas para o consumo de parcelas expressivas do movimento MAGA “Make
America Great Again” e até fora dele. Daí ter sido eleito em 2024.
No
Brasil, um exemplo eloquente dessa prática foi a ficção jurídica das chamadas
pedaladas fiscais, convertida em pretexto para remover uma presidente sem crime
de responsabilidade comprovado. Tanto Dilma, quanto os milhões de brasileiros
que a elegeram foram atingidos por um processo conduzido pelo então
vice-presidente golpista Michel Temer com o apoio decisivo de Eduardo Cunha que
mais tarde foi cassado por quebra de decoro parlamentar após mentir à CPI da
Petrobras ao negar ser titular de contas bancárias secretas no exterior. Sua
queda nos lembra o velho ditado de que a mentira tem perna curta. Ao tentar
blindar seu patrimônio, o ardiloso parlamentar viu o feitiço virar contra o
feiticeiro. O mesmo arranjo mentiroso que ele liderou para destituir um governo
eleito acabou por triturá-lo.
Essa
pedagogia da mentira encontrou sua expressão mais grotesca quando Roberto
Alvim, então secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, reproduziu trechos de um
discurso do nazista Joseph Goebbels em rede nacional, ao som de Richard Wagner.
A cena foi grotesca. Não se tratava apenas de uma infeliz coincidência
estética. Foi a demonstração de como parcelas da extrema direita que ascenderam
ao poder, após o impeachment da ex-presidente Dilma, já se sentiam
suficientemente confortáveis para flertar abertamente com referências que, em
qualquer sociedade minimamente consciente de sua história, seriam motivo de
vergonha alheia e de absoluto vexame. Na mesma direção, o governo extremista de
direita de Trump, superando até mesmo o nazista Adolf Hitler, que na Copa de
1936 pelo menos se submeteu às regras olímpicas, Trump faz da Copa do Mundo de
2026, símbolo de exclusão política e segregação racial ao impedir a entrada de
juízes, de dirigentes e ao humilhar jogadores de seleções que ele despreza.
Mas o
traço mais persistente dessas correntes políticas não está apenas em suas
demonstrações de autoritarismo. Assistimos diariamente a parlamentares
inundarem seus discursos com elogios às próprias reputações obscuramente
ilibadas, apresentando-se quase como figuras santificadas da vida pública.
Entre eles, destacam-se nomes como Ciro Nogueira (PP-PI), Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), Sergio Moro (PL-PR), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Júlia Zanatta
(PL-SC) coincidentemente da extrema direita ou da direita oportunista, sempre
pródigos em pregações moralistas quando o assunto é a conduta alheia. Ciro
Nogueira chegou a prometer que abandonaria a vida parlamentar caso alguma
acusação de desvio ético contra ele fosse comprovada. O desfecho, porém, foi
bem diferente de sua promessa. Após as revelações do Caso Master, não apenas
permaneceu no exercício do mandato, como ainda foi agraciado pelo presidente do
Senado com a missão de representar o senado no Fórum Político de Alto Nível das
Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em Nova York. No Brasil, ao
que parece, certas promessas têm prazo de validade menor que um discurso de
campanha, e determinadas controvérsias funcionam menos como obstáculo e mais
como credencial para novas honrarias.
Nesse
ambiente de narrativas movediças, o pré-candidato Flávio Bolsonaro protagonizou
recentemente um exemplo didático da mentira como método. Negou reiteradamente
qualquer vínculo relevante com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Tratou as
acusações como invenções de adversários e motivo de deboche. Poucas horas
depois do surgimento de mensagens e áudios comprometedores do Intercept, porém,
admitiu negociações milionárias que antes classificava como fantasiosas. Antes
disso, repetia o slogan “o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”, numa
tentativa de transferir para o seu adversário um escândalo que se aproximava
perigosamente de seu próprio círculo político. O problema é que a realidade
costuma ser pouco cooperativa com versões improvisadas.
O mesmo
padrão esteve presente durante o governo de seu pai Jair. Mentiras sobre fraude
nas urnas eletrônicas numa mesma falácia usada por Trump quando não se reelegeu
em 2020, falsas promessas de cura para a Covid-19 e narrativas infundadas sobre
vacinas repetidas à exaustão. A estratégia não era provar os fatos, mas
desgastar a própria noção de realidade por meio da repetição contínua da
desinformação. Sob o desgoverno de Bolsonaro, o país registrou os piores
índices de vacinação em mais de duas décadas, um retrocesso que empurrou o
Brasil de volta a índices incompatíveis com sua tradição histórica de
imunização.
É
justamente nessa realidade controversa que ainda existe uma parcela do
eleitorado impermeável aos fatos. A repetição contínua enfraquece a capacidade
de questionamento do público. No ano passado, o deputado Nikolas Ferreira
(PL-MG) utilizou as redes sociais para disseminar uma narrativa distorcida que
associava o governo Lula a uma suposta taxação do Pix, explorando ruídos de
comunicação para inflar o pânico econômico na população, a operação cumpriu
exatamente seu objetivo, o de produzir desgaste político imediato ao governo,
apostando que a velocidade da mentira sufocaria qualquer tentativa posterior de
restabelecer a verdade. Entretanto, o mesmo deputado não teve o mesmo
entusiasmo para publicizar nas redes sociais todas as viagens cortesia que fez
no jatinho do dono do banco Master.
Nesse
movimento permanente de sonegação da verdade, esses políticos se servem de tudo
e de todos que possam lhes garantir vantagens particulares. Deixam-se comprar
por quem lhes oferece benefícios em troca de favores, como ocorreu nas relações
de vários políticos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Todavia, os fatos
frequentemente revelam uma proximidade desconcertante com práticas que dizem
combater. Notícias publicadas na revista Veja (11/06) revelaram uma suposta
propina de nada menos que R$ 155 milhões paga por Vorcaro ao presidente do
Congresso, Davi Alcolumbre, valor que, por si só, dispensa maiores comentários
sobre a dimensão do escândalo. O parlamentar negou veementemente ter recebido
tal valor.
Nesse
horizonte de engodos e chantagens, as pautas eleitoreiras da direita
oportunista e da extrema direita se multiplicam na mesma velocidade em que
falseiam a realidade. O exemplo mais recente é a aprovação, na Comissão de
Constituição e Justiça da Câmara, da PEC que reduz a maioridade penal de 18
para 16 anos. Vendida como solução para a criminalidade, a proposta ignora o
consenso de especialistas e pesquisadores de que encarcerar adolescentes em um
sistema penitenciário hiperlotado e falido, que funciona como verdadeira escola
do crime, não reduz a violência. Ao contrário, tende a ampliar os índices de
reincidência. Trata-se de mais um impropério programado para o consumo
eleitoral, escondendo o fracasso das políticas de ressocialização atrás do
clamor punitivista e convertendo a barbárie em plataforma de campanha.
Outro
mecanismo da fraude política que opera em ritmo de urgência eleitoral foi o
lançamento das velhas pautas-bomba cujo o custo será de R$ 2 trilhões em 10
anos, segundo cálculos do Ministério da Fazenda. Desta vez, Davi Alcolumbre
superou seu estilo truculento contra o governo. O exemplo mais impactante
em custo trata da aprovação do Projeto de Lei (PL 5.122/2023), que cria uma
linha especial para renegociação de dívidas de produtores rurais. Ao ampliar os
gastos em pleno período eleitoral, a extrema-direita e a direita fisiológica
desmascaram a própria farsa, a austeridade tão propalada por eles morre na
praia quando o objetivo é fazer média com o agronegócio, entre outros
seguimentos em troca de dividendos nas urnas. Ao aprovar medidas sem apontar a fonte
de financiamento, o Senado abriu espaço para questionamentos constitucionais.
Como ressaltou o ministro do STF, Gilmar Mendes, o Congresso não pode criar
despesas sem indicar de onde virão os recursos. O governo, por sua vez, prepara
uma reação baseada em vetos, articulação política e eventual acionamento do
STF.
Essa
mesma lógica de transformar direitos em moeda de barganha orienta os movimentos
de Davi Alcolumbre no Senado. Não por acaso, Alcolumbre sentou sobre a pauta do
fim da escala 6x1, adiando uma discussão de enorme interesse para milhões de
trabalhadores brasileiros. O bloqueio ocorre justamente quando o cerco da
Polícia Federal no caso Master se aproxima de figuras relevantes, como
aconteceu poucos dias após com a revelação da propina dada por Vorcaro a
Alcolumbre, além da intensificação desse parlamentar em disputas de poder com o
governo federal.
Para
variar, o andar de cima, que jamais perde a oportunidade de sapatear sobre os
trabalhadores, tratou de engrossar o coro contra o fim da escala 6x1. Em
entrevista à GloboNews, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, declarou, num tom
característico de quem jamais precisou bater cartão de ponto, que a extinção
imediata da jornada representaria um retrocesso. Criticou a ausência de diálogo
com o setor produtivo e atribuiu à proposta forte motivação eleitoral. O
argumento, entretanto, é velho conhecido dos trabalhadores brasileiros. Sempre
que se propõe ampliar direitos, anuncia-se uma catástrofe econômica iminente.
Foi assim com as férias remuneradas, com a licença-maternidade, com o 13º
salário e com inúmeras outras conquistas trabalhistas. Nenhuma delas destruiu a
economia. Pelo contrário, contribuíram para ampliar o consumo, fortalecer o
mercado interno e melhorar as condições de vida da população. O colapso
prometido nunca se concretizou.
Contudo,
como a dinâmica da história é feita de choques e contradições, na contramão do
projeto de poder de Davi Alcolumbre, prejudicial ao país, mais uma pesquisa
reforça a tendência observada em levantamentos recentes. A pesquisa da Genial
Quaest divulgada em 10/06 aponta avanço nas intenções de voto do presidente
Lula em cenários eleitorais frente a Flávio Bolsonaro. Esse movimento reflete o
desgaste político do bolsonarismo e a crescente percepção de parte do
eleitorado acerca das controvérsias que cercam a trajetória política do
senador. Com uma atuação parlamentar frequentemente marcada por controvérsias e
escassez de iniciativas de interesse público, Flávio Bolsonaro transformou a
atividade política em vetor de negócios privados. O crescimento expressivo do
patrimônio familiar, incompatível aos olhos de muitos observadores com os
rendimentos da atividade parlamentar, alimenta questionamentos que se somam ao
histórico das rachadinhas e das operações imobiliárias suspeitas. Seus vínculos
com personagens do submundo financeiro ampliaram ainda mais essas dúvidas,
projetando sobre sua trajetória sombras que insistem em acompanhá-lo.
A
mudança de humor entre eleitores sem alinhamento ideológico rígido sugere uma
avaliação cada vez mais crítica sobre sua figura. Afinal, para muitos
brasileiros, pesa mais o legado de uma família que transformou a política em
patrimônio privado do que a propaganda cuidadosamente construída em torno dela.
Como diz o velho ditado, quem sai aos seus não degenera. Filho de um
ex-parlamentar que passou quase três décadas no baixo clero sem produzir
realizações relevantes para a maioria da população, Flávio apenas sofisticou o
método.
Convém
ressaltar ainda, que ao divulgar os resultados da pesquisa Genial Quaest, a
mídia corporativa tratou de enquadrar a defesa da soberania nacional pelo
governo, como oportunismo eleitoral do PT "e não como a obrigação
elementar de qualquer governo comprometido com os interesses do país. Logo
surgem insinuações sobre conveniência política. Os comentários veiculados na
GloboNews evidenciam essa tendência. Essa mesma mídia raramente destacou com
igual ênfase o papel dos governos de esquerda na redução das desigualdades, na
ampliação do acesso à educação, no fortalecimento de programas sociais ou na
valorização da renda dos trabalhadores. Há quase sempre um "mas" à
espera. Se a economia cresce, o mérito é do mercado, se a pobreza diminui,
trata-se de populismo, se políticas públicas corrigem distorções sociais, a
suspeita recai imediatamente sobre interesses eleitorais. O benefício concreto
à população costuma ocupar menos espaço que a desconfiança sobre quem o
promove.
A
distorção chega a ser ofensiva para quem acompanha minimamente a realidade
nacional. Procuram nivelar políticas públicas de interesse coletivo às manobras
oportunistas da direita e da extrema direita, como se tudo não passasse de
disputa eleitoral. Programas como o Desenrola, que enfrentou o endividamento de
milhões de brasileiros, ou a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda
para quem ganha até R$ 5 mil mensais são frequentemente tratados como pacotes
de bondade, quando na verdade respondem a problemas concretos que afetam a vida
cotidiana da população. Afinal, qual seria a alternativa desejada por esses
comentaristas? Que o governo permanecesse inerte diante dos problemas sociais?
Curiosamente, o mesmo rigor raramente foi aplicado aos governos da direita. Já
quando pesquisas indicam recuperação da popularidade de Lula, não passa
despercebido o desconforto de alguns analistas. Afinal, reconhecer avanços
concretos de um governo progressista parece, para alguns setores da imprensa,
uma tarefa muito mais difícil do que encontrar razões para relativizá-los.
Por
fim, é necessário chamar a atenção de que ao longo dos últimos anos, a mentira
tornou-se um método político estruturado. Entre falsas promessas, teorias
conspiratórias, chantagens legislativas e pautas bomba para produzir dividendos
eleitorais, políticos da extrema direita e a direita oportunista se locupletam
ao longo de seus mandatos. Argumentos torpes e falaciosos podem até
produzir vitórias escorchantes, como a da senadora Damares Alves
(Republicanos-DF) ao conseguir aprovar no Senado (em votação simbólica) a
suspensão de uma norma de 2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e
do Adolescente para dificultar o aborto legal em crianças vítimas de estupro,
mas cobra um preço elevado por corroer a confiança pública, degradar a vida e
transformar a política em um permanente exercício de manipulação e de fins
obscuros. Quando a falsificação dos fatos na política vira estratégia de poder,
a verdade torna-se vítima e uma ameaça contínua para aqueles que dependem da
sua ausência: o povo, aquele que mais depende da sua existência, que paga a
conta mais cara e duradoura.
Fonte:
Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247




