sábado, 28 de fevereiro de 2026

A esquerda precisa parar de torcer e voltar a ler a realidade

Um alerta direto sobre por que a base progressista está desorientada no momento mais decisivo da democracia brasileira e quais caminhos concretos podem reorganizar o campo democrático a partir da vida real, do trabalho e da soberania nacional...

<><> O choque de realidade

Há um dado que deveria encerrar qualquer espaço para autoengano no campo progressista brasileiro neste momento. As pesquisas mais recentes indicam que, embora o presidente Lula lidere os cenários de primeiro turno, a disputa de segundo turno contra Flávio Bolsonaro já se configura como um empate técnico. Em termos concretos, isso significa que a eleição de 2026 não está definida. Ela está aberta, competitiva e sujeita a deslocamentos rápidos em um ambiente político marcado por instabilidade e alta tensão.

Esse ponto, por si só, deveria reorganizar imediatamente a forma como o campo democrático pensa e atua. Mas não é isso que se observa. Uma parte relevante da base progressista se comporta como se a vitória fosse inevitável, sustentando a ideia de que o apoio social já está consolidado a ponto de encerrar a disputa no primeiro turno. Outra parte reage no extremo oposto, tratando o cenário como praticamente perdido e antecipando uma derrota como se fosse um desfecho inevitável.

Nenhuma dessas posições se sustenta diante dos dados disponíveis. Ambas desconsideram a dinâmica concreta da disputa em curso, marcada por polarização intensa, guerra informacional permanente, pressão institucional contínua e um campo adversário que já demonstrou, em diversas ocasiões, capacidade de reorganização mesmo em condições desfavoráveis.

O problema que emerge não é apenas de opinião ou percepção. É um problema de leitura estratégica. Em um momento decisivo, o campo progressista demonstra dificuldade em apreender os sinais mais evidentes do cenário político. E quando uma força política perde essa capacidade, deixa de responder ao mundo como ele é e passa a reagir a projeções, expectativas e desejos.

Esse descompasso entre realidade e interpretação precisa ser enfrentado com urgência. Porque, em 2026, não será a narrativa mais confortável que prevalecerá, mas aquela que estiver ancorada nas condições concretas e for capaz de agir a partir delas.

<><> A crise de leitura do real no campo progressista

O que se observa hoje no campo progressista brasileiro não é apenas divergência política ou pluralidade de opiniões, algo inerente a qualquer ambiente democrático. O que está em curso é uma dificuldade mais profunda: uma crise de leitura estratégica do cenário. Em um contexto marcado por alta complexidade, múltiplas frentes de disputa e transformação acelerada das formas de poder e comunicação, a base progressista apresenta sinais consistentes de desorientação.

Essa desorientação se manifesta, antes de tudo, na ausência de critérios compartilhados para interpretar o que acontece. Falta um referencial comum que permita distinguir entre processos estruturais e episódios circunstanciais, entre tendências que se consolidam e ruídos momentâneos. Como resultado, a percepção do cenário passa a ser construída a partir de fragmentos, impressões e recortes isolados, frequentemente desconectados das condições concretas em que a disputa se desenrola.

Nesse ambiente, a análise tende a ser substituída por posicionamento. Em vez de compreender para intervir, muitos setores passam a reagir de forma imediata, guiados por estados de ânimo, identidade ou pertencimento. Isso não apenas empobrece o debate, mas compromete a capacidade de formular estratégia. A política deixa de ser um campo de interpretação e ação para se tornar um espaço de reafirmação de convicções prévias.

Esse quadro não surge de forma espontânea. Ele é produzido e intensificado por um ambiente comunicacional que premia respostas rápidas, simplificações e certezas absolutas. A lógica dominante favorece conteúdos que confirmam crenças e reforçam identidades, não aqueles que exigem elaboração e nuance. Nesse contexto, a dúvida tende a ser descartada como fraqueza, e a complexidade como obstáculo.

O efeito acumulado é a fragmentação cognitiva do campo progressista. Sem uma leitura minimamente compartilhada, torna-se difícil construir unidade de ação, definir prioridades e sustentar um horizonte estratégico. Cada grupo passa a operar a partir de sua própria interpretação parcial, o que reduz a capacidade coletiva de resposta diante de um adversário que, apesar de suas contradições, atua com maior coesão nos momentos decisivos.

Superar esse quadro não implica eliminar divergências, mas reconstruir uma base comum de interpretação. Sem essa referência, qualquer projeto político, por mais consistente que seja em seus princípios, tende a perder eficácia por incapacidade de se orientar no terreno concreto onde a disputa se dá.

<><> Os dois erros simétricos

A crise de leitura estratégica do cenário se manifesta, hoje, em dois comportamentos que parecem opostos, mas operam a partir da mesma lógica: o triunfalismo desmobilizador e o catastrofismo paralisante. Ambos nascem de respostas emocionais a um ambiente de alta pressão e ambos produzem efeitos semelhantes na prática política.

O triunfalismo se ancora na ideia de que a disputa já está resolvida, de que o governo consolidou apoio suficiente e de que o adversário não possui capacidade real de ameaça. Alimenta-se de recortes favoráveis, de comparações pontuais e da memória recente de vitórias passadas. Ao transformar a eleição em algo praticamente decidido, reduz o senso de urgência e enfraquece a necessidade de organização, formação política e mobilização territorial. Quando a vitória é tratada como inevitável, a disciplina estratégica perde centralidade.

O catastrofismo, por sua vez, parte de uma leitura oposta na forma, mas equivalente no efeito. Interpreta o ambiente como irreversivelmente hostil, as instituições como insuficientes e o adversário como intransponível. Cada crise passa a ser vista como sinal de colapso iminente e cada oscilação como evidência de derrota. O resultado é a paralisia. Se o desfecho já está dado, a construção paciente de maioria perde sentido.

Esses dois comportamentos são alimentados pelo mesmo contexto de saturação informacional e pressão contínua. Diante de um fluxo constante de estímulos, o campo progressista oscila entre euforia e desespero, substituindo a análise por estados de ânimo. A política deixa de ser compreendida como uma dinâmica de forças em disputa e passa a ser tratada como destino imediato.

O ponto central é que ambos retiram da base o elemento mais decisivo em qualquer disputa histórica: a capacidade de agir com lucidez sob pressão. Nem a certeza prematura nem o medo antecipado produzem estratégia. Estratégia exige leitura concreta das forças em jogo, das fragilidades e das oportunidades, além da disposição de agir a partir dessa leitura, mesmo em condições adversas.

Se o campo progressista não romper com esses dois extremos, continuará reagindo ao cenário em vez de moldá-lo. E, em uma disputa apertada, reagir já significa entrar em desvantagem.

<><> O ambiente de guerra informacional e saturação

A dificuldade de leitura estratégica do cenário não pode ser compreendida sem considerar o ambiente em que ela se produz. O campo progressista não atua em um espaço neutro de debate público. Está inserido em um ecossistema atravessado por guerra informacional permanente, no qual a disputa não ocorre apenas no campo das ideias, mas na própria organização da percepção coletiva.

Nesse contexto, a circulação de informação deixa de obedecer a uma lógica de esclarecimento e passa a ser orientada pelo impacto. Narrativas são construídas para provocar reação imediata, não compreensão duradoura. Crises surgem e se sucedem em ritmo acelerado, muitas vezes sem tempo suficiente para verificação ou assimilação. O que ganha centralidade não é apenas o conteúdo de um fato, mas sua capacidade de circular, de se repetir e de se fixar no imaginário.

Essa dinâmica produz saturação. O campo progressista passa a ser exposto a uma sequência contínua de temas, controvérsias e conflitos que dificultam a construção de uma linha interpretativa consistente. Quando tudo se apresenta como urgente, a capacidade de priorizar se perde. A agenda deixa de ser organizada internamente e passa a ser definida por estímulos externos, deslocando a ação estratégica para uma lógica reativa.

A estrutura das plataformas digitais intensifica esse processo. Algoritmos favorecem conteúdos que geram engajamento rápido, o que normalmente está associado a conflito, indignação e simplificação. Narrativas que exigem tempo, elaboração e nuance tendem a ter menor circulação. Como consequência, a percepção coletiva passa a ser moldada por fragmentos, recortes e interpretações parciais.

Há também um mecanismo recorrente de associação. Não é necessário comprovar, basta sugerir e repetir. A repetição cria familiaridade, e a familiaridade pode ser confundida com veracidade. Em um ambiente saturado, a capacidade de análise crítica se reduz, abrindo espaço para explicações simplificadas e interpretações apressadas.

O impacto político desse cenário é profundo. Ele não apenas dificulta a comunicação do campo progressista, mas interfere diretamente na sua capacidade de organizar pensamento e ação. Ao operar sob pressão contínua, respondendo a estímulos externos e disputando fragmentos de narrativa, o campo perde consistência estratégica.

Compreender esse ambiente é indispensável não para justificar erros, mas para superá-los. Em uma guerra informacional, não basta estar correto. É necessário sustentar, organizar e comunicar essa leitura em meio ao ruído, com consistência e direção.

<><> O problema interno que ninguém quer enfrentar

Há um fator dentro do próprio campo progressista que precisa ser enfrentado com maturidade e precisão. Parte da desorganização atual não decorre apenas de pressões externas, mas de dificuldades internas em lidar com a correlação concreta de forças e com as exigências de uma disputa real pelo poder.

Uma dessas dificuldades aparece na forma como determinados setores da esquerda se relacionam com o governo. A crítica é legítima e necessária. Ela corrige rumos, tensiona limites e impede acomodação. O problema surge quando essa crítica se afasta da leitura do cenário e passa a ignorar as condições concretas em que o governo opera. Em um ambiente marcado por Congresso hostil, pressão constante e disputa institucional intensa, desconsiderar esses limites não fortalece a crítica. Reduz sua eficácia política.

Em determinados momentos, essa desconexão se traduz em gestos que, ainda que orientados por coerência programática, produzem efeitos contraditórios. Ao não considerar o impacto estratégico de determinadas posições, abre-se espaço para convergências circunstanciais com o campo adversário ou para a construção de narrativas que enfraquecem o próprio campo democrático. O problema, nesse caso, não está na divergência, mas na ausência de mediação entre princípio e contexto.

Há também uma tendência à disputa por pureza política, em que a afirmação de identidade se sobrepõe à construção de maioria. Nesse tipo de dinâmica, reconhecer limites e compor passa a ser visto como concessão indevida, e não como parte da prática política em sociedades complexas. O resultado é a fragmentação em momentos que exigiriam maior coesão.

Outro ponto relevante é a dificuldade de transformar pautas corretas em propostas politicamente viáveis. Temas como o fim da escala 6x1 ou a tarifa zero possuem alto potencial de mobilização, mas exigem explicação, desenho institucional e construção de apoio para se tornarem realidade. Quando esse trabalho não é realizado, abre-se espaço para que o adversário reduza essas pautas a promessas vagas ou inviáveis, esvaziando seu potencial político.

Nada disso implica abdicar de divergências ou da capacidade crítica. Pelo contrário. Implica reconhecer que, em determinados momentos históricos, a forma como essas divergências são expressas pode fortalecer ou enfraquecer o conjunto. Em uma disputa apertada, cada gesto carrega peso estratégico.

Enfrentar esse problema exige abandonar a lógica da reação imediata e construir uma prática política consciente de suas consequências. Não se trata de silenciar diferenças, mas de situá-las dentro de um horizonte comum. Sem essa mediação, a crítica perde potência e pode, ainda que involuntariamente, contribuir para o avanço do adversário.

<><> O que reconecta com o povo e reorganiza o campo

Se o diagnóstico aponta para uma crise de interpretação e organização, a saída não pode ser abstrata. Ela precisa partir da vida concreta, daquilo que reorganiza a percepção popular e reconecta o campo progressista com as experiências reais da sociedade. É nesse terreno que determinadas agendas ganham centralidade estratégica.

O debate sobre o fim da escala 6x1 recoloca o trabalho no centro da política. Não como formulação genérica, mas como experiência cotidiana. Trata-se de tempo de vida, de saúde, de convivência e de dignidade. É uma pauta que atravessa gerações, setores e territórios, e que encontra amplo respaldo social mesmo entre aqueles que ainda não dominam seus detalhes. Quando bem apresentada, ela não apenas mobiliza, mas organiza politicamente, porque torna visível uma questão essencial: a economia precisa estar subordinada à vida, e não o contrário.

A discussão sobre a tarifa zero atua no mesmo plano. Ela incide diretamente sobre o custo de vida e sobre o direito à cidade. Transporte não é apenas deslocamento, é acesso efetivo a trabalho, educação, saúde e cultura. Quando políticas dessa natureza são implementadas ou debatidas com consistência, o impacto é imediato. Elas deixam de ser promessa e passam a ser experiência concreta, criando um vínculo direto entre política pública e melhoria de vida.

A pauta da soberania nacional, por sua vez, introduz um elemento adicional de profundidade. Em um cenário de pressões externas, disputas geopolíticas e controle de recursos estratégicos, ela redefine o eixo do debate. Soberania não é abstração. É a capacidade de decidir sobre recursos, proteger instituições e definir rumos sem submissão. É também a linha que separa um projeto de país de uma condição subordinada. Quando esse tema é tratado de forma clara e conectado às condições concretas, ele reorganiza o campo político em torno de uma questão decisiva.

O que essas agendas têm em comum é o fato de partirem da realidade material, produzirem efeitos diretos na vida das pessoas e permitirem a construção de uma narrativa coerente de projeto nacional. Mais do que isso, oferecem um ponto de convergência em um campo fragmentado, criando um espaço compartilhado de atuação.

Reorganizar o campo progressista passa por essa reconexão. Não basta reagir a crises ou responder ao adversário. É necessário disputar sentido a partir de propostas que transformem a vida concreta e sejam compreendidas como parte de um projeto maior. Quando isso acontece, a política deixa de ser apenas discurso e passa a ser vivida.

É nesse terreno que a eleição de 2026 será decidida. Não na abstração, mas na capacidade de transformar projeto em realidade e realidade em consciência política.

<><> Conclusão — A escolha histórica

O campo progressista brasileiro não enfrenta apenas um adversário externo organizado e agressivo. Enfrenta, neste momento, um desafio interno mais silencioso e igualmente decisivo: a necessidade de voltar a compreender a realidade como ela é, e não como se gostaria que fosse.

A eleição de 2026 não será vencida por convicção moral, nem por memória histórica, nem por comparação com o passado. Ela será decidida na capacidade de interpretar corretamente o presente e agir a partir dessa leitura. Isso exige abandonar tanto a euforia confortável quanto o desespero antecipado. Exige substituir reação por estratégia, impulso por organização, ruído por direção.

Não se trata de exigir unanimidade ou silenciar divergências. Trata-se de reconhecer que há momentos em que a forma de agir pesa tanto quanto o conteúdo das posições. Em uma disputa apertada, cada gesto, cada palavra e cada escolha produzem efeitos que ultrapassam a intenção individual e impactam o conjunto.

Há, ao mesmo tempo, uma oportunidade concreta. Pautas que dialogam diretamente com a vida das pessoas, como o trabalho, o custo de vida e a soberania nacional, oferecem um caminho real de reconexão entre política e sociedade. Mas elas só cumprirão esse papel se forem assumidas com clareza, explicadas com rigor e organizadas com disciplina.

O que está em jogo não é apenas uma eleição. É a capacidade do campo democrático de se orientar em um mundo marcado por conflito, disputa de narrativas e transformação acelerada. E essa capacidade não se constrói com torcida. Constrói-se com leitura, organização e ação consciente.

A história não recompensa quem torce. Recompensa quem compreende e organiza.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247

 


 

Milagre econômico na Ditadura: crescimento, propaganda e repressão

chamado “milagre econômico” da ditadura militar brasileira sempre foi envolto em muita propaganda, slogans ufanistas e uma aura de excepcionalidade. Durante décadas, a ideia de que o Brasil “crescia como nunca” foi repetida como prova de eficiência do regime autoritário. Mas qual é a verdade por trás desse discurso? O que, de fato, aconteceu com a economia, o emprego, a inflação e a qualidade de vida da população? Para entender esse período, é preciso olhar além dos números do PIB e analisar o contexto político, social e humano em que esse crescimento ocorreu.

A ditadura militar teve início em 1964, com o golpe que derrubou o governo de João Goulart, e se estendeu até 1985. O regime se consolidou progressivamente, mas atingiu seu momento mais duro a partir de 1968, com a edição do Ato Institucional nº 5 (AI-5), que suspendeu direitos civis, fechou o Congresso, institucionalizou a censura e abriu caminho para a repressão sistemática.

Foi nesse ambiente de autoritarismo que se deu o chamado milagre econômico, sobretudo durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici (1969–1974), período que coincidiu com os chamados “anos de chumbo” — a fase mais violenta da ditadura.

<><> O que foi o milagre econômico

Entre 1968 e 1973, o Brasil apresentou taxas de crescimento do PIB impressionantes, chegando ao pico de 14% em 1973, uma das maiores do mundo naquele momento. Esse crescimento foi impulsionado por um conjunto de fatores: reformas institucionais herdadas do PAEG, forte entrada de capital estrangeiro, expansão do crédito, investimentos estatais em infraestrutura e uma conjuntura internacional favorável, marcada por abundância de liquidez.

O governo apostou no crescimento acelerado da indústria, especialmente nos setores automobilístico, de bens de consumo duráveis e construção civil. Grandes obras de infraestrutura — rodovias, hidrelétricas e projetos de integração nacional — tornaram-se símbolos desse período, com destaque para a Rodovia Transamazônica, apresentada como prova da modernização do país.

<><> A verdade sobre a economia durante a ditadura

Apesar do crescimento expressivo da produção, o milagre econômico se sustentou sobre bases frágeis e profundamente desiguais. O modelo adotado priorizava o capital e sacrificava o trabalho. A política de arrocho salarial reduziu o poder de compra dos trabalhadores ao manipular os reajustes salariais abaixo da inflação real. A lógica era clara: conter salários para aumentar lucros e reinvesti-los na expansão produtiva.

O resultado foi uma explosão da desigualdade social. Enquanto o PIB crescia, cerca de 80% da população vivia com até dois salários mínimos. A concentração de renda aumentou significativamente, como mostram os dados do Coeficiente de Gini, que subiu ao longo do período militar. O famoso argumento de “fazer o bolo crescer para depois dividir” nunca se concretizou.

Durante o auge do milagre, o desemprego urbano manteve-se relativamente baixo, sobretudo nas regiões industrializadas, graças à expansão da indústria e da construção civil. No entanto, esse dado esconde uma realidade mais dura: empregos precários, jornadas extensas, uso intensivo de horas extras e crescimento do trabalho informal e infantil.

A inflação, embora controlada no início do período em comparação aos anos anteriores, nunca desapareceu. Após 1973, com o choque do petróleo e a elevação dos juros internacionais, ela voltou a disparar, corroendo rapidamente os salários. A qualidade de vida da maioria da população não acompanhou o crescimento econômico: faltavam saneamento básico, saúde pública adequada e moradia digna, especialmente nas periferias urbanas que cresciam de forma desordenada.

<><> Propaganda, repressão e silenciamento

O sucesso aparente do milagre foi sustentado por uma poderosa máquina de propaganda estatal. Slogans como “Brasil, ame-o ou deixe-o” e “Este é um país que vai pra frente” ajudaram a criar uma narrativa oficial de prosperidade e união nacional. O tricampeonato da seleção brasileira na Copa de 1970 foi explorado politicamente como símbolo da grandeza do regime.

Ao mesmo tempo, greves eram proibidas, sindicatos controlados e qualquer crítica reprimida. A tortura, os desaparecimentos forçados e a censura garantiam o silêncio necessário para que o modelo econômico funcionasse sem contestação. Até crises sanitárias graves, como a epidemia de meningite no início dos anos 1970, foram censuradas para não “manchar” a imagem do país.

<><> O fim da ditadura e da ilusão do milagre

O milagre econômico começou a ruir em 1973, com o choque do petróleo e o aumento brutal da dívida externa. Para tentar manter o crescimento, os governos seguintes recorreram a ainda mais empréstimos, adiando o colapso. O resultado foi a crise da dívida, a estagnação econômica e a hiperinflação que marcaram os anos 1980, a chamada “década perdida”.

O fim da ditadura, em 1985, revelou o tamanho do passivo social e econômico deixado pelo regime: um país mais industrializado, porém extremamente desigual, endividado e com graves déficits em educação, saúde e bem-estar social.

O milagre econômico brasileiro não foi um milagre, mas uma construção política baseada em crescimento concentrador, endividamento externo e repressão interna. Os números grandiosos do PIB esconderam o aumento da desigualdade, a deterioração da qualidade de vida da maioria da população e a supressão das liberdades democráticas.

 

Fonte: Fórum


6×1: A saúde mental, muito além da redução da jornada

Vivemos um tempo que nos é constantemente tomado. Ele escapa entre plantões, domingos de descanso parcial e segundas-feiras atravessadas pelo cansaço acumulado. A lógica produtivista transforma o tempo em mercadoria e os corpos em engrenagens de um sistema que cobra mais do que pode ser entregue – sobretudo quando o preço é a própria saúde mental. Pensar jornadas extensas, em termos de duração e distribuição do trabalho, como dispositivos de adoecimento é, portanto, urgente.

A jornada de trabalho e a forma como ela se organiza no tempo são dimensões distintas, ainda que muitas vezes apareçam entrelaçadas. A duração da jornada refere-se ao número de horas semanais, diárias ou mensais, enquanto a escala de trabalho regula a distribuição desses dias e horas, determinando quantos dias consecutivos se trabalha antes do descanso. Um trabalhador pode enfrentar jornadas longas sem estar em Escala 6×1 ou, inversamente, estar em Escala 6×1 sem jornada extensa (Dal Rosso et Al., 2022). Diferenciar essas dimensões é fundamental para compreender os impactos do tempo de trabalho sobre a vida e a saúde dos trabalhadores.

Categorias clássicas da crítica do trabalho, como fadiga, desgaste, esgotamento e envelhecimento precoce, analisadas desde Marx (2013), permanecem relevantes. O tempo de deslocamento entre casa e trabalho, embora não contabilizado formalmente, impõe esforço adicional e revela facetas da precarização contemporânea. Em nível nacional, o tempo médio de deslocamento diário é de aproximadamente 41 minutos, com variações entre áreas urbanas e rurais (IBGE, 2019). A intensidade do trabalho será mencionada pontualmente, mantendo o foco na extensão e distribuição da jornada.

Este artigo se configura como um ensaio analítico baseado em revisão bibliográfica e análise de dados nacionais e internacionais. A seleção das fontes privilegiou referências clássicas e contemporâneas sobre crítica do trabalho, precariedade subjetiva e sociedade do cansaço, articuladas a evidências da OIT, OMS e órgãos nacionais. Essa abordagem permite examinar como a duração e a distribuição da jornada, especialmente na Escala 6×1, impactam a saúde mental e a vida dos trabalhadores.

O texto explora as consequências da extensão das jornadas e da adoção de escalas restritivas de descanso, com foco na Escala 6×1, considerando o impacto direto no adoecimento mental dos trabalhadores. A análise apoia-se em Sociologia do Trabalho e Psicologia Social, articulando dados da Organização Internacional do Trabalho (OIT) e estudos sobre efeitos psíquicos de condições de trabalho precarizadas.

Referenciais centrais incluem Richard Sennett (1999), sobre a desumanização do trabalho e corrosão das relações sociais; Ricardo Antunes (2018) e Fernando Gastal de Castro (2022), que refletem sobre precariedade subjetiva e perda de autonomia e identidade; e Byung-Chul Han (2015), que discute a sociedade do cansaço, reforçando que o excesso de produtividade se converte em esgotamento coletivo. Ao longo do texto, são percorridos alguns eixos: resgate histórico das lutas por jornada justa; análise da Escala 6×1 como produtora de precariedade subjetiva; e discussão dos impactos psíquicos da exaustão e da relação entre trabalho e sofrimento. Ao final, defende-se a necessidade de políticas públicas que garantam jornadas equilibradas e o direito ao descanso, propondo reflexões sobre o papel da Psicologia na defesa do tempo como valor humano inegociável – para cuidado, afeto e vida digna.

<><> Trabalho e Tempo de Não-Trabalho: entre a história e o agora

A história das lutas por jornadas de trabalho justas é, também, a história da luta pelo tempo e pela vida – tempo para si, para os outros, para o que escapa ao labor. Desde a Revolução Industrial, as jornadas extenuantes (que ultrapassavam doze, quatorze, até dezesseis horas diárias) impuseram aos corpos o ritmo das máquinas (Antunes, 2009). Reduzir o tempo de labuta significava, historicamente, ampliar o tempo da existência humana, ou seja, o tempo do sono, do afeto, da rua, do silêncio, da criação.

As conquistas por limites à jornada, como a luta pelas oito horas diárias, não foram concessões espontâneas, mas arrancadas por movimentos operários que reivindicavam mais do que uma pausa: buscavam existir para além do trabalho. Garantir o descanso tornou-se, assim, ato de insurgência coletiva diante de um sistema que pretendia extrair tudo dos corpos, inclusive o direito ao tempo ocioso.

Contudo, as vitórias históricas não eliminaram a tensão entre trabalho e tempo de não-trabalho. Nas últimas décadas, assistimos à intensificação de uma lógica produtiva que captura o tempo das trabalhadoras e dos trabalhadores de diferentes formas: pela extensão das jornadas (quantidade de horas) e pela distribuição do trabalho (forma como os dias são organizados). A intensificação do labor, a precarização contratual e a colonização do tempo livre remodelam ambos os aspectos, ampliando desigualdades entre segmentos da classe trabalhadora. Relatórios da Organização Internacional do Trabalho (OIT, 2009; 2022) apontam que jornadas excessivas impactam a saúde e a qualidade de vida, evidenciando a tendência global de aumento da carga horária em detrimento do tempo livre. Nessa dinâmica, o tempo do labor se configura como contínuo, fragmentado e sem bordas: contínuo, pois se estende além do expediente; fragmentado e sem bordas, porque atravessa todas as esferas da vida, prejudicando o repouso e corroendo a separação entre tempo de produção e de existência (Antunes, 2018).

A Escala 6×1 exemplifica a dimensão da distribuição do trabalho, concentrando dias de labor seguidos e reservando apenas um dia de folga, reduzindo o descanso a um intervalo mínimo e incapaz de recompor forças ou permitir experiências que não sejam orientadas pela produtividade.

Sennett (1999) descreve os efeitos subjetivos dessa mutação ao cunhar o conceito de “corrosão do caráter”: a instabilidade, a descontinuidade e a aceleração dos ritmos fragilizam projetos de vida e prejudicam a construção da identidade. Construída historicamente a partir de linearidade e pertença, a identidade dilui-se diante de ocupações temporárias, metas voláteis e ausência de sentido; o tempo deixa de ser vivido como experiência e transforma-se em cronograma de entrega.

Ao diálogo de Sennett soma-se a reflexão de Byung-Chul Han (2015) sobre a “sociedade do cansaço”: a transição da disciplina para o desempenho produz um sujeito que se explora por via da liberdade aparente, tornando-se seu próprio fiscal. Essa cobrança internalizada torna a sobrecarga ainda mais nociva, pois combina coerção externa (gestão por metas, insegurança, medo do desemprego) à autoexploração. Apesar de formas renovadas, não se trata de fenômeno completamente novo, já que o fordismo articulava mecanismos de controle que ultrapassavam a fábrica e penetravam modos de vida (Puckett, 2024), evidenciando que a sujeição assume formas históricas variadas.

Castro (2022) amplia essa perspectiva ao mostrar que o neoliberalismo atua diretamente sobre a constituição dos sujeitos, moldando expectativas, afetos e modos de vida. A precariedade subjetiva manifesta-se na transformação da liberdade em autoexploração e na conversão do tempo livre em tempo útil, no qual até o lazer é atravessado por exigências de eficiência. A Escala 6×1 materializa essa lógica: mesmo o dia destinado ao descanso é colonizado por tarefas, cansaços acumulados e preparação para o próximo ciclo laboral, reduzindo seu potencial reparador.

A comparação entre os relatórios da OIT (2009; 2022) confirma a continuidade e o aprofundamento da lógica produtivista que captura o tempo de vida. Em 2022, mais de 35% da força de trabalho global ultrapassava 48 horas semanais, evidenciando a extensão excessiva das jornadas e colocando em xeque a eficácia de limites formais à jornada para preservar a saúde mental (OIT, 2022).

No Brasil, embora a legislação fixe 44 horas semanais como limite, esses parâmetros têm se mostrado insuficientes diante das formas contemporâneas de organização do trabalho e suas externalidades para a vida. Importa ressaltar que, em muitos casos, tais limites não refletem conquistas, mas situações de subocupação: vínculos precários e instáveis que reduzem o tempo formal de trabalho sem garantir remuneração ou proteção social adequadas. Tanto o excesso de horas quanto a insuficiência de trabalho seguro e digno configuram dimensões do adoecimento.

Entre a história e o presente, evidencia-se a persistência da luta pelo tempo: uma disputa sindical e política, mas também existencial – o direito de viver para além do trabalho, de construir afetos, memórias e projetos que não se reduzam à lógica da produtividade. É nesse cenário que a Escala 6×1 se insere como mecanismo de distribuição desigual do trabalho, ilustrando como a organização injusta das jornadas pode corroer a possibilidade de vida digna.

<><> A Escala 6×1 como produtora de precariedade subjetiva

No interior das engrenagens produtivas contemporâneas, a Escala 6×1 produz precarização em dupla dimensão: material, ao prolongar jornadas, comprimir o tempo de descanso e distribuir o trabalho de forma desigual; e subjetiva, ao corroer identidades, vínculos afetivos e a capacidade de narrar a própria experiência fora dos marcos da produtividade. Mais que um simples arranjo organizacional, configura-se como símbolo da lógica do esgotamento, na qual o tempo de não-trabalho é capturado e esvaziado de sua função reparadora. Como aponta Antunes (2018), trata-se da compressão da vida pelo trabalho, que limita espaços de pausa e criação – dimensões reconhecidas pela Psicologia como essenciais à saúde mental e ao equilíbrio emocional.

Para Castro (2022), essa captura, ao mesmo tempo material e simbólica, reconfigura as subjetividades, moldando corpos e mentes a uma lógica de constante disponibilidade e performatividade. Nesse contexto, a precarização das condições de trabalho, para além de seus efeitos econômicos, implica também numa precarização subjetiva: um esgarçamento das vivências que sustentam a experiência de si e do outro.

Cabe aqui refletir: seria possível conceber uma precarização apenas material/objetiva, considerando que, em nosso corpo, não há separação entre mente e matéria? A precarização, portanto, é também subjetiva, pois, a exigência permanente de adaptação e produtividade atinge simultaneamente a integridade física e psíquica. Essa concepção de precariedade subjetiva como a fragilização do eu diante da urgência e da disponibilidade constante ajuda a compreender como a falta de tempo para si, para o outro e para o coletivo se traduz em esvaziamento simbólico, perda de vínculos e sofrimento psíquico – elementos que atravessam silenciosamente o cotidiano de quem vive e trabalha nessas condições (Castro, 2022), sobretudo aqueles submetidos à Escala 6×1.

Como alerta Antunes (2018), vivemos a era da subsunção real da vida ao trabalho, e a Escala 6×1, naturalizada em diversos setores, é uma das expressões evidentes dessa subsunção, na medida em que afeta fisicamente e corrói os alicerces psíquicos da existência de trabalhadoras e trabalhadores. Contribuindo para esse debate, Castro (2022) observa que a subjetividade precarizada perde a capacidade de narrar a si mesma fora dos marcos da produtividade, já que a experiência do tempo é marcada pela urgência e pela impossibilidade de pausa. Para Sennett (1999), resta um sujeito despedaçado, cuja identidade se dilui diante de ocupações temporárias, metas voláteis e ausência de sentido.

Tal processo evidencia a lógica capitalista que, ao mesmo tempo em que explora (ou induz à autoexploração), esgarça laços afetivos e solidários, dificultando, por exemplo, a organização coletiva da classe trabalhadora. Esse modelo de subjetivação reforça o isolamento, esfacela as experiências coletivas e transforma o sofrimento no trabalho em questão individual, obscurecendo suas raízes estruturais.

Dialogamos aqui com Dardot e Laval (2016) ao compreender que o neoliberalismo não se limita a uma ideologia ou política econômica, mas opera como um sistema normativo que estende a lógica do capital a todas as esferas da vida. Essa racionalidade produz um sujeito empresarial de si, permanentemente responsabilizado pelo sucesso ou fracasso de sua trajetória. O adoecimento que emerge dessas formas contemporâneas de organização do trabalho é, antes de tudo, expressão de um modo de vida que nega o tempo necessário para existir.

<><> Quando o tempo adoece: Trabalho, Sofrimento Psíquico e a Urgência de Cuidado

Ao articular a exploração material e a corrosão subjetiva, a Escala 6×1 sintetiza o modo como o capitalismo contemporâneo transforma o tempo em mercadoria e o corpo em instrumento. Essa dinâmica, ao restringir o direito à pausa e ao convívio, aprofunda um modelo de vida pautado na urgência e na produtividade. Se, até aqui, discutimos como a precarização se estrutura e se infiltra nas subjetividades, é preciso agora avançar na análise de suas consequências diretas: o adoecimento psíquico, a exaustão emocional e a negação do cuidado como dimensão fundamental da existência.

A Escala 6×1 assume uma particularidade relevante no debate sobre tempo e saúde. É importante diferenciar: a jornada longa refere-se ao excesso de horas na semana; a Escala 6×1 refere-se à forma de distribuição desses dias. Podem coincidir, mas não são sinônimos. A jornada extensa aumenta riscos físicos e mentais; a Escala 6×1 compromete o potencial reparador do único dia de folga, transformando o tempo de não-trabalho em mera preparação para o próximo ciclo de esgotamento. A evidência internacional sustenta essa preocupação. O Relatório Mundial de Saúde Mental da OMS (2022) aponta que uma em cada oito pessoas vive com algum transtorno mental, como depressão e ansiedade, especialmente entre mulheres e jovens. Já a OIT tem reiterado que jornadas prolongadas estão associadas a distúrbios do sono, esgotamento e maior risco de doenças cardiovasculares e AVCs. Desde 2009, a instituição estabelece que jornadas acima de 48 horas semanais configuram fator de risco à saúde e ao equilíbrio da vida.

No plano nacional, os transtornos mentais e comportamentais figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho e de concessão de benefícios previdenciários, evidenciando que o problema ultrapassa a esfera individual e assume dimensão coletiva. Dados recentes do Instituto Nacional do Seguro Social indicam aumento de 68% nos afastamentos por motivos de saúde mental em 2024, revelando o agravamento do adoecimento psíquico relacionado ao trabalho (USP, 2025). Esses números dialogam com alertas de organismos internacionais, que apontam crescimento contínuo dos transtornos mentais associados a condições laborais precárias e à intensificação das jornadas (ONU, 2025).

A Escala 6×1 reduz o tempo disponível para recuperação física e emocional, fragiliza vínculos sociais e dificulta a construção de sentido – condições que favorecem a emergência de sofrimento psíquico. Esse processo é alimentado por uma racionalidade produtiva que combina coerção externa (gestão por metas, insegurança no emprego) e coerção internalizada (autoexploração), conforme apontam análises críticas sobre neoliberalismo e subjetivação (Antunes, 2018; Dardot e Laval, 2016; Han, 2015).

A resposta do sistema de saúde a esse sofrimento expõe contradições que agravam a situação. Embora o Ministério da Saúde tenha ampliado recentemente o custeio da Rede de Atenção Psicossocial (RAPS), persistem entraves e desigualdades na distribuição dos recursos (Brasil, 2023; Brasil, 2022), o que prejudica respostas territoriais mais efetivas às demandas da classe trabalhadora e reforça negligências históricas. É preciso, também, problematizar discursos que tratam o cuidado em termos puramente econômicos. Embora organismos internacionais eventualmente estimem retornos econômicos de investimentos em saúde mental, essa retórica não pode substituir a crítica às causas estruturais do sofrimento: a centralidade deve ser a transformação das condições de trabalho, e não apenas a expansão do tratamento clínico. A medicalização do mal-estar naturaliza o adoecimento, desloca responsabilidades do coletivo para o indivíduo e obstrui estratégias públicas de prevenção e reestruturação do tempo laboral.

Diante desse quadro, a agenda pública deve combinar medidas sobre duração e distribuição do tempo: redução de jornadas excessivas, regulação das escalas (como a revisão do modelo 6×1), políticas de mobilidade e ações territoriais de cuidado que ampliem o tempo de recuperação. A OIT já assinalou que políticas de jornada e pausas bem estruturadas podem reduzir absenteísmo e favorecer o bem-estar; contudo, esses argumentos não podem ser capturados pela lógica empresarial de eficiência. O tempo livre deve ser afirmado como direito em si, vinculado à dignidade humana e à possibilidade de sustentar vínculos, desejos e projetos, reforçando a defesa do tempo como bem público.

À Psicologia, como ciência e profissão comprometida com os direitos humanos, cabe não apenas escutar os sujeitos que sofrem, mas tensionar as estruturas que os ferem. É tempo de reivindicar o tempo: não como luxo, mas como urgência ética. Porque, se o tempo não for espaço de afeto, pausa e criação, não é tempo de viver – é tempo de (sobre)viver. Na recusa a reduzir o sofrimento a diagnósticos ou sintomas, a Psicologia pode contribuir para a construção de estratégias coletivas de cuidado, articulando escuta qualificada, territórios e políticas públicas (Nunes e Oliveira, 2025). Isso implica denunciar causas estruturais, recusar a naturalização da exaustão e defender a redução e a reordenação das jornadas como condição para a vida.

O enfrentamento da Escala 6×1, portanto, é mais do que pauta trabalhista: é pauta de saúde mental, de defesa da vida e de criação de futuros habitáveis. Quando se compromete com essa luta, a Psicologia se afirma como campo de resistência e de reinvenção do tempo.

<><> Considerações Finais: o tempo como direito

Este artigo buscou lançar luz sobre os impactos da organização do tempo de trabalho – tanto em sua duração quanto em sua distribuição – sobre a saúde mental das trabalhadoras e dos trabalhadores. O foco na Escala 6×1 permitiu problematizar como um arranjo aparentemente técnico pode se converter em dispositivo de adoecimento, ao concentrar seis dias consecutivos de labor e conceder apenas um dia de descanso.

Mostramos que a precariedade subjetiva, o esgarçamento dos vínculos e a exaustão crônica não resultam apenas do excesso de horas, mas também da forma como essas horas são distribuídas, corroendo o potencial reparador do tempo livre. Nesse sentido, a jornada não é mero detalhe administrativo: é um marcador ético e político que afeta diretamente o corpo, a subjetividade e a vida em comum.

Ainda que os formatos atuais, como a Escala 6×1, revelem novas faces da exploração, não se trata de fenômeno inédito. As categorias clássicas da crítica do trabalho, como fadiga, desgaste e esgotamento, seguem sendo fundamentais para compreender como o tempo de labor, quando apropriado pelo capital, deteriora corpos e subjetividades. A luta pelo tempo, desde Marx até as disputas contemporâneas, continua a ser uma luta pela vida. A Escala 6×1 encarna essa lógica ao transformar o descanso em exceção e a fadiga em rotina. Sua superação não é apenas pauta trabalhista, mas afirmação da dignidade humana. Defender o fim desse modelo é afirmar o tempo como direito – direito à pausa, ao cuidado e à reinvenção dos desejos, direito que não se mede em produtividade, mas em possibilidade de viver.

A experiência brasileira demonstra, ainda, que a falta de tempo coletivo repercute no próprio sistema de cuidado: quando a vida é organizada pelo trabalho, os espaços de encontro, de elaboração e de solidariedade se estreitam, enfraquecendo tanto a saúde individual quanto o tecido social. Normativas internacionais, como as da OIT, reforçam a importância de limitar a duração das jornadas e regular sua distribuição, de modo a garantir condições de recuperação e sustentabilidade da vida laboral.

Nesse cenário, a Psicologia tem um papel fundamental: não apenas escutar os sujeitos atravessados pelo sofrimento, mas tensionar as estruturas que o produzem. Ao recusar a naturalização da exaustão, a Psicologia pode contribuir para a construção de estratégias coletivas de cuidado, fortalecendo redes comunitárias e políticas públicas que defendam o tempo para a vida em sua plenitude.

Reduzir jornadas, garantir dias de recuperação, criar dispositivos coletivos de escuta e fortalecer políticas territoriais de cuidado não são gastos, mas investimentos em saúde, bem-estar e futuro comum. Por fim, deixamos uma provocação: e se o tempo voltasse a ser nosso? Talvez seja nesse intervalo – entre a pausa e o respiro – que a vida possa, enfim, reencontrar sentido.

 

Fonte: Por Vanessa Silveira de Brito, em Outras Palavras

 

“Uma nova civilização está sendo construída, a civilização da onipotência”, afirma sociólogo francês

Poucos dissecam as sociedades contemporâneas como o filósofo e sociólogo francês Gilles Lipovetsky. A crise da autoridade, a masculinidade em xeque e a sociedade do medo são alguns dos temas abordados pelo autor de A era do vazio. Lipovetsky tem buscado detectar, de modo muito original e misturando filosofia, história e sociologia, a evolução das mentalidades, as práticas sociais e os costumes, atribuindo-lhes um significado social.

Cavaleiro da Legião de Honra Francesa, a mais alta distinção concedida pelo Estado francês, e doutor honoris causa de diversas universidades, é autor de A nova era do kitsch: ensaio sobre a cultura do ‘excesso', em coautoria com o crítico de cinema Jean Serroy. Nele, analisam essa estética - considerada vulgar - que hoje está presente em todas as partes e que, para ele, é símbolo de uma nova era. Uma era ostentosa e sem limites, que busca transgredir todos os limites do poder humano.

<><> Eis a entrevista.

•        Para começar, por que, entre todos os temas relacionados à hipermodernidade já abordados em seus diversos livros, o fenômeno do kitsch lhe interessou agora?

Passei a me interessar pelo kitsch porque houve uma mudança de perspectiva. Desde o século XIX, o kitsch era visto como algo sem valor, de mau gosto. Mas, a partir dos anos 1980, talvez tenhamos passado a presenciar uma mudança completa. O kitsch, antes desprezado, agora é celebrado, valorizado e exibido nos melhores museus do mundo. Isso é muito incrível, porque quando se lê artistas e intelectuais até 1960, eles o detestavam. O kitsch era associado ao asco. E, de repente, algo mudou. O que aconteceu? O significado global do kitsch mudou.

Durante muito tempo, o kitsch esteve associado a coisas pequenas e cotidianas. Eram bugigangas, lembrancinhas, móveis, cópias fixadas nas paredes... E agora o kitsch penetrou em todos os lugares. Então, um novo mundo está emergindo, impulsionado por novos valores. Como você viu no livro, a hipótese geral é que vivemos uma nova era. É importante destacar este ponto, já que, geralmente, o kitsch nos é apresentado como uma categoria estética que sempre permaneceu a mesma. E perdemos de vista o ponto fundamental: o kitsch dos anos 2000 e 2020 não é mais o kitsch de antes.

•        Você disse que a Trump Tower, o ouro, o luxo ostentoso e até mesmo a retórica MAGA são a quintessência do kitsch. Como este livro estabelece um diálogo com a era Trump?

Temos um presidente estadunidense que personifica o mau gosto, a ostentação, a megalomania. O excesso, justamente, em tudo e sem fim. Então, se preferir, ele é a ilustração política do kitsch na era hipermoderna. Durante muito tempo, o kitsch esteve bastante presente em certas repúblicas das bananas da América Latina e da África, com chefes de Estado que eram ditadores insignificantes na história. Mas, hoje, Trump é a figura mais importante na maior potência mundial. Isto não é um simples detalhe. E vemos que a lógica do kitsch triunfou, inclusive, nos Estados Unidos.

Costumávamos dizer que a política havia se tornado entediante porque existia esta linguagem, como a chamávamos, do politicamente correto. Não se deve dizer coisas que ofendam as mulheres ou as minorias. Mas, agora, os mexicanos são chamados de chicanos, estupradores, comedores de cães e gatos. É extremamente vulgar. E ele (Trump) não tem respeito algum pela verdade. Despreza tudo isso. No período contemporânea, temos algo bastante interessante: a oposição entre dois tipos de kitsch.

•        Quais kitsch se opõem?

Há o kitsch da rainha Elizabeth, que faleceu recentemente na Inglaterra. É um kitsch tradicional, um kitsch respeitável. É kitsch; as pessoas a viam com seus chapéus roxos e vestidos amarelos. Mas ela personificava uma tradição, uma dignidade. Trump não tem nada disso; ele é kitsch vulgar. Sei que, tradicionalmente, o kitsch é vulgar, mas durante anos existiram outras categorias de kitsch que poderiam se distanciar disso.

Agora, com Trump, temos um fenômeno excepcional, que, de fato, é o tema do meu novo livro, que acaba de ser publicado na França. O livro se chama L’Odyssée de la Surpuissance. E o superpoder, hoje em dia, materializa-se em um personagem hiper-kitsch. Não apenas um pouco kitsch: é um kitsch colossal. Na linguagem, nos gestos, na estética, na vulgaridade.

•        Como você explica o fenômeno Trump e outros como ele? O que pode combatê-lo?

Voltemos um pouco à dissolução da União Soviética, em 1991, à queda do Muro de Berlim e sua posterior implosão, marcas do início de um período conhecido como a “globalização feliz”, com Fukuyama e sua teoria do “fim da história”. Este período se caracterizou pela ideia de que, com o desaparecimento das ideologias em conflito, caminhávamos para uma era de paz e de consagração da democracia. Após eliminar os regimes totalitários e, em particular, o comunismo, a democracia havia triunfado. A história refutou cruelmente as teorias de Fukuyama porque, em primeiro lugar, a guerra retornou e, em segundo lugar, a fase ascendente da democracia terminou.

•        De fato, vivemos em um momento de retrocesso democrático.

Sim. O número de democracias liberais está diminuindo no mundo e, mesmo dentro das democracias, com o populismo, pode-se dizer que a democracia de alguma forma perdeu seu caráter sexy. É como se a democracia não fosse mais desejável. Na Europa, isso também começou a ganhar terreno. Está aí Milei, seu vizinho. O Brasil, felizmente, deteve Bolsonaro; foi justo, havia planejado um golpe de Estado. Trump não gosta da democracia, prefere as ditaduras à democracia. Vivemos tempos muito difíceis.

•        Será que isso vai durar?

Não é possível ser profeta nessas coisas. Eu simplesmente acredito que o próximo passo decisivo são as eleições de meio de mandato. Foram os estadunidenses que votaram em Trump. São eles que votarão (...) Não estou sendo apocalíptico; devemos ser cautelosos, mas é certo que a era do triunfalismo democrático acabou. A democracia está na defensiva… A democracia liberal será mantida? Não sei. Está fragilizada. É inegável que a democracia está sendo fragilizada porque nosso melhor aliado, os Estados Unidos, está nos abandonando.

A Europa pode ser muito criticada, mas, em termos gerais, é um continente democrático. E nos odeiam e querem desmantelar a União Europeia. Mas não temos os meios, não temos a força. E, desde a Segunda Guerra Mundial, os líderes políticos se equivocaram ao pensar que poderiam viver simplesmente do que agora é chamado, em termos diplomáticos, dividendo da paz. Os estadunidenses nos protegem, então, não investimos em defesa, nem em armamentos, exceto na França… Não podemos mais depender do guarda-chuva estadunidense. Essa era acabou. Trump só reconhece a força.

•        O que fazer?

Não sou político, mas o Ocidente está rachando: existe o Ocidente norte-americano e o que não é; não são a mesma coisa. Penso que a Europa precisa tomar as rédeas da situação. E tomar as rédeas da situação significa que, se você quer a paz, deve se preparar para a guerra. O continente europeu é rico. O problema é que suas populações não estão dispostas a fazer sacrifícios, então é complicado. Contudo, é necessário. Caso contrário, vamos nos tornar uma colônia estadunidense. Donald Trump fará conosco a mesma coisa que fez na Venezuela. Dirá: “Vejam, façam assim, e ponto”.

>>> A era frágil

•        Você antecipou algumas questões cruciais: a crise da autoridade, da masculinidade, a democracia marcada pela insegurança. Considera que elas são importantes para explicar o presente?

Sim, mas devo acrescentar que há muitas coisas que não previ.

•        Como o quê?

Por exemplo, isto. Não acreditava que fosse possível o retorno da guerra à Europa. Jamais teria imaginado. E não era o único. Todos compartilhavam desse sentimento. Não previ a ascensão da extrema-direita. É verdade que os tempos mudam, isso é normal. Não sou metafísico; analiso as coisas conforme acontecem, e novas forças estão surgindo, e estamos entrando em uma nova era.

O século XXI não se parecerá com o século XX. E penso que, em parte, o que estamos experimentando se deve ao que analisei, mas também à outra força que agora é o tema do meu novo livro, como mencionei, que é a vontade de poder. Em meus livros anteriores, o paradigma dominante era o tocquevilliano. Ou seja, o avanço da revolução democrática. O fenômeno ao longo da história moderna o confirmou. Contudo, considero que algo está acontecendo que não é de tipo tocquevilliano.

•        O que é?

É a busca, a obsessão, pelo poder. O que Trump quer? O que Xi Jinping quer? Não é a democracia, de forma alguma. Querem aumentar constantemente seu poder. Dizem que é por segurança, por proteção. Não considero que seja verdade; são pretextos. Penso que querem o poder pelo poder. O que acontece hoje com a inteligência artificial, os robôs humanoides, as biotecnologias, as nanotecnologias, o capitalismo globalizado, (é que) a questão da democracia não é mais central. Esta é a questão do que eu chamo de superpoder, o poder colossal, poder infinito. Poder que rejeita todos os limites.

Não queremos mais nenhum limite. Trump não quer limites. Joga o direito internacional pela janela; não existe mais lei. Não existe mais moral. Sou seu amigo, tudo bem, mas me paga. Eu te defendo, mas me paga. Moralidade? Não existe moralidade. Existem apenas interesses e força. Desse modo, caminhamos para um novo mundo onde os conflitos de interesses e de forças serão, acredito, centrais. Uma civilização completamente nova está sendo construída, a que eu chamo de civilização da onipotência.

* E o que acontece neste novo mundo?

Penso que o mundo vindouro será um mundo de poder desenfreado. É um poder que fragiliza as pessoas. Vemos que a extralimitação tecnológica e comercial está devastando o planeta, reduzindo a biodiversidade, provocando o aquecimento global com uma cascata de furacões, incêndios e tempestades terríveis, que resultam em centenas de milhares de mortes todos os anos. Amanhã, o nível do mar subirá. O que será do Caribe? Todas essas ilhas correm o risco de serem tragadas pelo aumento do mar. Um desastre se aproxima.

Então, vemos o paradoxo: enquanto a humanidade e a civilização hoje possuem poderes incríveis - planejamos ir a Marte, pretendemos colonizar o planeta, estamos inventando uma inteligência artificial incrível, inclusive, podemos ter filhos com os mortos -, hoje, uma pessoa falecida, por meio da inseminação artificial ou congelamento de esperma, pode se tornar pai. Todas as categorias estabelecidas são completamente transgredidas. Mas, ao mesmo tempo, esse enorme poder está acompanhado de uma grande fragilidade. As pessoas são frágeis, estão deprimidas, têm medo. Tememos a tudo. Tememos a poluição, o que comemos, perder o emprego, as ditaduras, a guerra, os imigrantes.

•        Como recuperar a relevância do bem comum, para além do bem individual, na esfera pública?

Duas coisas me parecem essenciais: a regulamentação e a educação. A regulamentação é um problema porque os estadunidenses não a querem. Querem um mercado livre porque os mercados se veem obrigados a ser mais poderosos e a gerar mais receitas. Mas um mundo sem regulamentação é um pesadelo. É a lei da selva. Uma sociedade civilizada deve estabelecer pautas, deve fixar padrões, mas o Estado estabelece as normas e os limites. Portanto, embora o poder dominante hoje seja cada vez mais tecnológico e econômico, o Estado desempenha um papel crucial. Devemos defender que a sociedade é mais do que apenas a economia. Então, precisamos regulamentar. Caso contrário, pagaremos um preço muito alto.

O segundo ponto é que, sem regulamentação, todas as formas de notícias falsas podem ser difundidas nas redes sociais. Precisamos educar os cidadãos. Devemos fazer mais do que simplesmente ensinar a ler, escrever e matemática. Devemos ensinar alfabetização midiática. Devemos ensinar as crianças a verificar a informação. É disso que se trata a educação. Se as pessoas usarem apenas as redes sociais e ficarem fechadas em suas bolhas, será um desastre.

•        Com certeza...

Não deveríamos nos concentrar apenas na crise das democracias. Há um fenômeno tecnocientífico considerável em jogo hoje. E não deveríamos sonhar com uma revolução contra o capitalismo. Não haverá uma. O capitalismo triunfou. Mas pode haver capitalismo inteligente. Existe o capitalismo predatório e o capitalismo apocalíptico. (Mas) acredito que podemos, e temos, modelos de capitalismo mais humanos, mais civilizados. Devemos civilizar o capitalismo. Não demonizá-lo.

 

Fonte: Entrevista com Gilles Lipovetsky para Paula Escobar, em La Tercera -  tradução do Cepat, em IHU

 

Maria Luiza Falcão: O Estado da União como reality show

Nos Estados Unidos, o State of the Union não é apenas um discurso anual. É uma tradição constitucional prevista no Artigo II da Constituição: o presidente deve informar ao Congresso sobre a situação do país e propor diretrizes legislativas. Trata-se de um rito institucional de grande peso simbólico, televisionado em horário nobre, acompanhado por milhões e interpretado como momento de prestação de contas. Diferentemente de muitos presidencialismos, o evento adquiriu nos EUA contornos quase litúrgicos — uma cerimônia cívica que combina política, institucionalidade e dramaturgia.

O que Donald Trump apresentou nesta terça-feira (24) foi sobretudo dramaturgia.

Desde os primeiros minutos ficou claro que não se tratava de um relatório sobre o estado real da União, mas de uma experiência cuidadosamente roteirizada. Medalhas distribuídas ao vivo. Convidados-surpresa convocados sob aplausos. Reencontros emocionais. Heróis militares chamados ao palco como se estivéssemos na final do Super Bowl. Em vez de uma exposição estruturada de políticas públicas, assistiu-se a um programa de auditório com trilha sonora patriótica.

Quando a política vira game show, a realidade vira figurante.

<><> A economia da hipérbole

Trump insistiu que os Estados Unidos vivem uma “era de ouro”. O crescimento seria “histórico”, os preços estariam “despencando”, a indústria estaria “renascendo como nunca antes”. A retórica, como sempre, operou por superlativos.

Os dados, no entanto, continuam mais sóbrios.

A inflação anual permanece acima da meta de 2% do Federal Reserve, girando na faixa de 3%–4%. As taxas hipotecárias, mesmo com alguma acomodação, continuam elevadas para padrões da última década. O endividamento das famílias ultrapassa US$ 17 trilhões. O déficit federal projetado para este exercício supera US$ 1,5 trilhão. O custo da saúde continua pressionando os orçamentos domésticos. O crédito ao consumo permanece caro.

Nada disso apareceu como problema estrutural. No universo retórico do presidente, qualquer desaceleração vira “transição estratégica” e qualquer indicador ambíguo se transforma em “a maior recuperação da história”.

Se o crescimento não impressiona, declara-se impressionante. Se a inflação não desaparece, afirma-se que está “despencando vertiginosamente”. Se as tarifas elevam custos internos, chamam-se de “proteção patriótica”.

É uma política econômica por adjetivo.

Estudos recentes mostram que grande parte do custo das tarifas impostas recai sobre empresas e consumidores americanos, pressionando cadeias produtivas e preços domésticos. Mas no discurso presidencial, tarifas são apresentadas como arma mágica contra o déficit comercial, como se a macroeconomia pudesse ser conduzida à base de bravatas.

<><> A política do inimigo

A imigração voltou a ser o eixo emocional da noite. Fronteira sitiada, invasão iminente, ameaça permanente. Dados complexos sobre fluxos migratórios foram substituídos por casos isolados narrados com carga dramática. O método é conhecido: substituir estatística por anedota, análise por indignação.

Estudos acadêmicos reiteram que imigrantes não apresentam taxas de criminalidade superiores às da população nativa. O presidente prefere contar histórias que cabem no tempo da televisão. É mais eficiente politicamente.

A cada momento em que a atenção do público poderia vacilar, surgia um novo gesto teatral: mais uma medalha, mais um herói, mais uma cena emocionalmente calculada. Não se tratava de governar. Tratava-se de manter a audiência.

<><> O mundo reduzido a slogan

No plano internacional, o discurso revelou algo ainda mais inquietante: a ausência de estratégia.

Num momento em que a economia mundial atravessa transição estrutural — com a Ásia respondendo por mais de 60% do crescimento global — a Casa Branca ofereceu pouco além de retórica competitiva. A China foi mencionada como rival, mas sem plano consistente para lidar com sua liderança em tecnologia, semicondutores ou infraestrutura global. Nenhuma reflexão séria sobre a expansão do BRICS, sobre a reorganização financeira internacional ou sobre o declínio relativo da centralidade atlântica.

Enquanto Pequim investe pesadamente em cadeias tecnológicas estratégicas e consolida articulações regionais, Washington celebra medalhas ao vivo.

Em relação ao Irã, manteve-se o tom de ameaça e pressão, mas sem qualquer desenho diplomático claro. A política externa foi apresentada como extensão da política doméstica — musculatura retórica para consumo interno.

Não houve praticamente nenhuma menção substantiva à crise climática, apesar de eventos extremos cada vez mais frequentes no próprio território americano. Nenhuma proposta robusta de reconstrução multilateral. Nenhum esforço visível para recompor a credibilidade internacional erodida nos últimos anos.

O mundo está se reorganizando. O discurso preferiu fingir que está vencendo.

<><> A normalização da ficção

Talvez o elemento mais perigoso não seja o exagero — exageros fazem parte da política. O problema é a naturalização da distorção sistemática como método de governo.

Quando o presidente afirma que “estamos vencendo tanto que as pessoas pedem para parar de vencer”, não se trata apenas de humor involuntário. Trata-se da construção de uma narrativa impermeável a fatos. Uma realidade alternativa que dispensa verificação.

O Estado da União deveria ser momento de convergência mínima institucional. Transformou-se em palco de polarização deliberada. Democratas foram retratados como sabotadores. Críticas foram enquadradas como traição. O Congresso funcionou como cenário.

A política deixou de ser prestação de contas para virar performance.

Há algo de profundamente simbólico nisso. Um governo que inclui figuras oriundas do entretenimento e da televisão constrói uma lógica governamental compatível com essa estética: emoção acima de argumento, imagem acima de diagnóstico, audiência acima de política pública.

<><> O custo democrático

Pesquisas recentes indicam que parcela relevante da população americana acredita que o país está no rumo errado e que sua situação econômica pessoal não melhorou substancialmente. O hiato entre experiência concreta e narrativa oficial cresce.

Quando a política insiste que tudo vai “melhor do que nunca” enquanto o eleitor sente o contrário, instala-se uma tensão cognitiva. Essa tensão não desaparece. Ela se acumula.

Democracias dependem de um mínimo compartilhado de realidade factual. Quando a política passa a operar predominantemente no registro da versão — e não do dado — a erosão institucional é silenciosa, mas constante.

O Estado da União de 2026 não foi apenas um discurso longo. Foi a consolidação de um estilo de governo: espetáculo permanente, polarização estratégica e hipérbole como instrumento central.

Se esse é o “estado da União”, a pergunta que permanece não é sobre aplausos ou medalhas.

É sobre quanto tempo uma democracia consegue sustentar-se quando a política decide competir com o entretenimento — e vencer.

¨      Paradoxo geopolítico de Trump. Por Pedro Benedito Maciel Neto

A decisão de Donald Trump de substituir parte de sua política tarifária, considerada ilegal pela Supreme Court dos EUA, por uma tarifa global uniforme de 15% produziu um efeito paradoxal: países duramente criticados pela Casa Branca, como Brasil e China, tornaram-se os maiores beneficiários relativos do novo regime.

Segundo levantamento da Global Trade Alert, o Brasil registra a maior redução na tarifa média ponderada aplicada às suas exportações para os EUA: queda de 13,6 pontos percentuais. A China aparece em seguida, com redução de 7,1 pontos. Em contraste, aliados tradicionais dos EUA - como Reino Unido, União Europeia e Japão - enfrentam aumentos marginais.

O dado é politicamente eloquente. O Brasil, que chegou a enfrentar tarifas que alcançavam 40% ou 50% sobre determinados produtos, passa a operar sob um regime significativamente mais brando. Produtos agrícolas estratégicos - como café, carne bovina e frutas - já haviam obtido suspensões parciais; agora, a tarifa uniforme representa, comparativamente, uma melhora relevante.

O presidente Lula reagiu com cautela, afirmando estar “aliviado por não ter se precipitado”. A leitura é pragmática: a volatilidade jurídica e política da política comercial da era Trump recomenda prudência.

O maior prejudicado proporcionalmente é o Reino Unido, cuja tarifa média sobe 2,1 pontos percentuais. A União Europeia enfrenta aumento de 0,8 ponto percentual, com países como Itália e França particularmente expostos quando consideradas categorias antes isentas.

A presidente do Banco Central Europeu, Christine Lagarde, observou que o custo das tarifas tende a recair sobre importadores e consumidores americanos - uma lembrança de que o protecionismo não é isento de efeitos domésticos.

A tensão atinge também o chamado Acordo de Turnberry entre EUA e UE, cuja ratificação enfrenta questionamentos no Parlamento Europeu.

A decisão da Suprema Corte invalidou tarifas impostas com base na IEEPA (Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional). Trump reagiu rapidamente, recorrendo à Seção 122 da Lei de Comércio de 1974 para impor tarifa de 10% - elevada para 15% - válida por 150 dias sem aprovação do Congresso.

Analistas como Simon Evenett argumentam que a alavancagem americana não diminuiu; apenas mudou de instrumento. A possibilidade de novas investigações sob a Seção 301 mantém parceiros comerciais sob pressão permanente.

Ou seja: o regime atual é transitório e estrategicamente ambíguo. Trata-se menos de estabilização e mais de reorganização do poder de barganha.

O segundo conteúdo analisado reforça essa leitura. Apesar da decisão judicial, governos dificilmente romperão acordos firmados com Washington. O receio de retaliações em setores sensíveis - aço, automóveis, semicondutores - e em áreas extracomerciais, como defesa e segurança, atua como freio.

A política comercial americana passa a operar sob lógica de dissuasão: mesmo quando juridicamente fragilizada, mantém capacidade coercitiva por meio de múltiplos instrumentos legais (Seções 232 e 301).

O paradoxo é evidente. Países acusados de práticas desleais ou superávits excessivos - Brasil, China, Vietnã - acabam proporcionalmente beneficiados. Já aliados históricos, cujas exportações concentram-se em setores já tarifados (aço, alumínio, automóveis), sofrem maior impacto.

Isso sugere que a política comercial de Trump não é meramente econômica, mas geopolítica: busca redefinir hierarquias e forçar renegociações contínuas, mantendo todos os parceiros em estado de incerteza calculada.

Para o Brasil, o momento é de oportunidade cautelosa. A redução tarifária melhora competitividade relativa, mas o horizonte permanece volátil. O regime é temporário (150 dias) e sujeito a novas reconfigurações legislativas ou judiciais.

No tabuleiro global, o que se vê não é o fim da guerra comercial, mas sua metamorfose: menos baseada em decretos emergenciais amplos e mais estruturada em instrumentos legais fragmentados, porém igualmente eficazes como mecanismos de pressão.

O comércio internacional, sob Trump, deixa de ser arena de previsibilidade normativa e transforma-se em instrumento permanente de negociação estratégica. O jogo não terminou - apenas começou de novo.

¨      Trump diz que EUA buscam domínio no Hemisfério Ocidental

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta terça-feira (24) que Washington pretende consolidar uma posição de predominância no Hemisfério Ocidental. A declaração foi feita durante o discurso anual sobre o Estado da União, realizado no Capitólio, diante de membros da Câmara dos Representantes e do Senado.

De acordo com a agência russa TASS, que divulgou trechos do pronunciamento com base em informações da assessoria de imprensa da Casa Branca, Trump destacou que a estratégia do governo envolve reforço da segurança e defesa dos interesses nacionais norte-americanos na região.

Em sua fala, o presidente declarou: "Estamos também restaurando a segurança e a dominância americana no Hemisfério Ocidental, agindo para garantir nossos interesses nacionais e defender nosso país da violência, das drogas, do terrorismo e da interferência estrangeira. Durante anos, grandes extensões de território em nossa região, incluindo grandes partes do México, estiveram sob o controle de cartéis de drogas assassinos".

O discurso foi proferido no tradicional pronunciamento anual ao Congresso, momento em que o chefe da Casa Branca apresenta diretrizes e prioridades da administração federal. A ênfase na atuação regional e no combate ao crime organizado marcou parte central da fala, com menção direta à atuação de cartéis de drogas em países vizinhos.

Ao associar segurança interna à política externa no entorno geográfico dos Estados Unidos, Trump reiterou a intenção de fortalecer a presença e a influência norte-americana no Hemisfério Ocidental, apontando o enfrentamento ao narcotráfico e à interferência estrangeira como pilares de sua estratégia.

¨      Financial Times vê estado mental de Trump como risco global

A atuação do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, representa um fator de risco para a estabilidade internacional, na avaliação do jornal britânico Financial Times. Em análise publicada nesta terça-feira (24), o veículo sustenta que o comportamento e as decisões do mandatário ampliam incertezas geopolíticas e podem gerar impactos que ultrapassam as fronteiras norte-americanas.

O Financial Times argumenta que, embora psiquiatras norte-americanos evitem comentar publicamente a saúde mental de figuras públicas desde a chamada “regra Goldwater”, criada nos anos 1970, a conduta de Trump levanta questionamentos entre observadores. O jornal afirma que, enquanto o presidente prepara uma mobilização militar dos Estados Unidos no Oriente Médio sem detalhar claramente seus objetivos, uma avaliação honesta dos riscos globais deveria considerar sua psicologia como elemento central.

Segundo a publicação, mentiras frequentes não configuram, por si só, prova de irracionalidade. No entanto, o problema se agrava quando auxiliares e aliados passam a reforçar essas versões, criando um ambiente no qual o presidente pode acreditar nas próprias afirmações. O texto destaca que líderes estrangeiros têm recorrido à exaltação pessoal como forma de influência. O secretário-geral da Otan, Mark Rutte, descreveu Trump como um “papai” que estaria tomando atitudes firmes para proteger a família — gesto interpretado pelo jornal como tentativa de alimentar sua vaidade para direcionar decisões.

No plano interno, o artigo aponta que integrantes do governo competem em elogios públicos. A procuradora-geral Pam Bondi declarou que Trump é “o maior presidente da história dos Estados Unidos”. O secretário de Comércio, Howard Lutnick, afirmou que ele inaugurou “uma era de ouro americana”. Já o secretário de Defesa, Pete Hegseth, ao comentar uma operação na Venezuela, classificou a ação como “a operação militar mais poderosa, eu diria, da história mundial”. Para o Financial Times, declarações desse tipo substituem avaliações técnicas realistas por demonstrações de lealdade.

O jornal também destaca reveses institucionais enfrentados pelo presidente. Na sexta-feira (data não informada no texto original), a Suprema Corte decidiu por seis votos a três invalidar a maior parte das tarifas impostas pelo governo. Em reação, Trump chamou dois ministros indicados por ele próprio, Neil Gorsuch e Amy Coney Barrett, de “desleais” e “antipatrióticos”, além de insinuar influência estrangeira sobre ambos.

Outro foco de tensão envolve o Federal Reserve. No mês passado (data não especificada), o presidente do banco central, Jerome Powell, fez um pronunciamento público em defesa da independência da instituição após o Departamento de Justiça ameaçá-lo com acusação criminal relacionada a custos de reforma da sede da entidade. O Financial Times avalia que, mesmo com a possível substituição de Powell por Kevin Warsh, não há garantia de alinhamento automático com a Casa Branca, especialmente diante da pressão inflacionária.

A política migratória também enfrenta resistência crescente. Agentes do serviço de imigração (ICE) têm sido alvo de desconfiança pública, enquanto tribunais e organizações civis impõem obstáculos aos planos de deportação. A Suprema Corte deverá analisar, nas próximas semanas, a contestação do governo ao direito à cidadania por nascimento.

Ao mencionar a chamada “regra Taco” — sigla em inglês para a ideia de que “Trump sempre recua” — o jornal reconhece que o presidente tende a retroceder quando enfrenta forças institucionais robustas. Ainda assim, conclui que a combinação entre vaidade, estímulo constante por parte de aliados e decisões de alto impacto estratégico configura um risco que, segundo a análise, não se limita aos Estados Unidos, mas alcança a ordem internacional.