Pedro
Paulo Zahluth Bastos: O enigma de Lula 3
Mais de
23 anos depois de Lula assumir a presidência pela primeira vez, seu modo de
governo continua um enigma não resolvido, pelo menos entre intelectuais de
esquerda. Jones Manoel (Altman e Manoel, 2025) e David Deccache (2025)
asseguram que o terceiro governo Lula é neoliberal, enquanto Marina Lacerda
(2026) adverte que o risco do PT é tornar-se um gestor competente, porém
conformista, inteiramente inserido no status quo neoliberal. Paulo Kliass
(2025) mapeia avanços e contradições com a balança pendendo para o mesmo
veredito. Gilberto Maringoni (2026) constata um “Lula contra Lula”, em que o
presidente governante atrapalha o candidato combativo idealizado pelos pobres
do país. O próprio Lula parece concordar com seus críticos, ao discursar no
evento da Mobilização Progressista Global em Barcelona (18/04/2026):
“O
projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e
insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda sim, nós sucumbimos à
ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de
esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade.
Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o
sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente agora
como antissistema” (Planalto, 2026)
O
diagnóstico crítico não é unânime, pelo menos não em sua ausência de nuances.
Em debate acalorado com Jones Manoel, Breno Altman (2025) insistiu no caráter
híbrido do governo: um socialdesenvolvimentismo limitado pelo neoliberalismo, a
ser criticado e, ao mesmo tempo, defendido contra a extrema direita. Altman,
contudo, enxergava o governo como representante inequívoco do interesse dos
trabalhadores contra a burguesia, o que, a meu ver, inviabiliza o entendimento
dos conflitos internos ao governo. O mesmo problema, em registro mais
acadêmico, fragilizava a tese de André Singer (2012) a respeito do Lulismo.
Para ele, tanto as políticas de estímulo e direcionamento do crescimento
econômico quanto as políticas que o limitavam para conter a inflação resultavam
de demandas contraditórias oriundas da camada popular que o lulismo
representaria: não o conjunto das classes trabalhadoras como quer Altman, mas
apenas o subproletariado.
Apresentei
de outra maneira essa mesma leitura — o terceiro governo Lula como combinação
contraditória entre socialdesenvolvimentismo e neoliberalismo, a ser criticada
e defendida ao mesmo tempo — pela primeira vez em entrevista ao próprio
programa “20 Minutos” em novembro de 2023 (Bastos, 2023a), embora tenha
expressado a mesma opinião sobre os governos do PT em artigo acadêmico mais de
uma década antes e em outras ocasiões (Bastos, 2012, 2017; Moreira e Bastos,
2023). O que faltava à minha entrevista (e às intervenções de Altman) é a
teorização e evidências sistemáticas sobre o campo de jogo e a relação entre
frações de classe e grupos políticos que explica por que as duas faces
(socialdesenvolvimentismo e neoliberalismo) coexistem no terceiro governo Lula,
em vez de apenas constatar que coexistem. É isso que tento oferecer adiante,
ainda que preliminarmente dado o escopo já excessivo para um site: advirto que
se trata de um “textão” que antecipa argumentos de um livro.
Armando
Boito foi além de Altman e respondeu aos críticos do governo Lula, em artigo
recente em A Terra é Redonda (Boito, 2026) com aportes teóricos na tradição de
Nicos Poulantzas, que Lula 3 não é um governo neoliberal e sim
neodesenvolvimentista, como teriam sido Lula 1 e Lula 2. Na mesma tradição,
Luiz Filgueiras (2026) replica que o governo administra, sem romper, o padrão
de desenvolvimento liberal-periférico instalado nos anos 1990. Paulo Nogueira
Batista Jr. (2026) não vê mudança relevante na política do Banco Central
nomeado por Lula em relação à gestão do neoliberal Roberto Campos Neto — e
qualifica a política de juros de desastre. Bresser-Pereira chega a chamar o
presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, de “traidor” (Brasil 247, 2026).
O BC, sabemos, é independente, mas a nomeação de Galípolo foi patrocinada pelo
então ministro da Fazenda Fernando Haddad, que não apenas teve Galípolo como
seu secretário-executivo, como determinou a preservação de uma meta de inflação
sugerida pelo governo Bolsonaro, de 3%, que – no mínimo – funciona como álibi
para uma política de juros estratosférica.
É
evidente que esse debate não tem apenas interesse analítico e acadêmico, mas
forte interesse político. Caso se caracterize o governo Lula como neoliberal, é
possível alegar que não se deve apoiá-lo, sendo necessário encontrar uma
alternativa à sua esquerda. Autores que defendem apoiá-lo contra a alternativa
de extrema-direita, por sua vez, tendem a rejeitar a caracterização neoliberal
e a enfatizar as dimensões antineoliberais do governo — vinculadas ao esforço
de redistribuição de renda e ao apoio a empresários nacionais que enfrentam a
concorrência de grandes empresas internacionais amparadas pelas potências
imperiais. O resultado é que as interpretações se polarizam em campos duais: de
um lado, a denúncia do caráter neoliberal do governo; de outro, a defesa de que
ele deve ser apoiado perante a ameaça neoliberal e neofascista representada
pelo bolsonarismo, exatamente porque implementa políticas distributivas e
desenvolvimentistas.
Considero
necessário superar o dualismo, assumindo mais uma vez a existência de dimensões
neoliberais e social-desenvolvimentistas no terceiro governo Lula. Venho
defendendo essa tese pelo menos desde 2012 como sendo a composição
característica dos governos do PT desde o primeiro mandato, ainda que a forma
dessa composição se modifique ao longo do tempo, em função da conjuntura
econômica e política e da correlação de forças sociais.
A
acusação de neoliberalismo homogêneo entre o governo Lula e a oposição de
direita tem um efeito colateral perverso: o neoliberalismo não aparecerá tão
ameaçador assim perante parte da opinião pública que ouve a acusação, acredita
nela e gosta dos governos do PT, mas é incapaz de entender a ameaça a direitos
sociais que a radicalização do neoliberalismo teria com a vitória da oposição
de direita. Se o neoliberalismo já é o que temos, como convencer cidadãos a
votar contra o neoliberalismo que denunciamos ser a política econômica do
bolsonarismo por trás da guerra cultural? Já a tese de que o governo resiste
bravamente ao neoliberalismo nos desarma para identificar e enfrentar as
conciliações — e mesmo adesões ativas — ao neoliberalismo que estão presentes
no núcleo da política macroeconômica do governo Lula e que são responsáveis por
enfraquecer o próprio projeto que os apoiadores do governo Lula dizem que ele
encarna.
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O que a tese da homogeneidade neoliberal acerta — e por que é unilateral
Os
indícios mobilizados pelos críticos da dimensão neoliberal do governo Lula
existem e não podem ser varridos para baixo do tapete. A proposta do novo
arcabouço fiscal, a definição de metas de superavit primário restritivas, as
iniciativas voltadas a reduzir gastos com o BPC e excluir beneficiários, o
pente-fino nas contas do Bolsa Família, a nova política salarial que limita o
crescimento real do salário mínimo a 2,5% ao ano — infelizmente menos do que o
salário mínimo cresceu, em média, no governo Fernando Henrique Cardoso —, a
meta de inflação de 3%, a taxa de juros fixada muito acima do risco-país e da
média de países subdesenvolvidos com menos reservas cambiais que o Brasil, a
defesa ativa do acordo Mercosul-União Europeia em benefício dos exportadores
agrícolas e em prejuízo do desenvolvimento industrial, as declarações do
presidente Lula de que não deseja um Estado produtor e sim um Estado regulador:
tudo isso compõe uma face efetivamente neoliberal do governo, atestada por
documentos do próprio Ministério da Fazenda (2026) ao justificar a política
fiscal do terceiro governo Lula como um esforço de colaboração com a política
monetária do Banco Central e declarações de Haddad de que deveria ter
implementado ainda maior austeridade a partir de 2024.
Contudo,
a leitura que daí extrai a homogeneidade neoliberal comete um erro simétrico:
subestima dimensões materiais e institucionais que não são neoliberais. A
recomposição real do salário mínimo no início do mandato, o Minha Casa Minha
Vida, o Pé-de-Meia, o Gás do Povo, a retomada da política industrial com a Nova
Indústria Brasil, o papel mais ativo do BNDES, as compras governamentais com
preferência nacional, o conteúdo local na cadeia do petróleo e gás, a
diplomacia dos BRICS e da desdolarização, a adesão — tardia, mas real — à luta
contra a escala 6×1 puxada desde baixo: tudo isso compõe uma política
efetivamente distinta da de Temer e Bolsonaro. Tratar essas políticas como
propaganda, reduzindo o governo ao seu eixo fiscal-monetário, impede de captar
a contradição real do arranjo e produz um diagnóstico politicamente ineficaz:
se Lula 3 é apenas neoliberalismo com outro nome, não há razões econômicas e
sociais para defendê-lo frente à alternativa do neoliberalismo autoritário.
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O que Boito acerta — e o que sua tipologia deixa de fora
Se
esses fatos são suficientes para refutar a caracterização do governo como
puramente neoliberal, eles não bastam para sustentar a interpretação oposta.
Armando Boito (2026) caracteriza o terceiro governo Lula como
neodesenvolvimentista mobilizando a distinção entre política governamental e
modelo de capitalismo para definir o neodesenvolvimentismo como o
desenvolvimentismo possível dentro do modelo neoliberal. Boito usa,
indistintamente, os conceitos de modelo capitalista, modelo econômico e modelo
de acumulação para se referir à mesma invariante que seria administrada por
governos que executam diferentes políticas, sendo por isso que um governo
“neodesenvolvimentista” como o de Lula pode administrar o modelo neoliberal e
os governos de Dutra e Café Filho (presumidamente liberais) puderam administrar
o modelo desenvolvimentista.
O
aporte é interessante para orientar a pesquisa sobre as formas diferentes de
administração do modelo neoliberal e, como já disse várias vezes, a
contribuição de Boito (1999; 2018) é incontornável para entendermos a política
brasileira contemporânea com profundidade. Contudo, a separação rígida entre
modelo e política não se sustenta nem teórica nem empiricamente.
Primeiro,
um modelo de capitalismo não se reproduz sozinho, mas, a meu ver, inclui uma
certa forma de Estado e um certo tipo de política de Estado de que depende para
se reproduzir, assim como as ideologias que justificam o conjunto. O próprio
Boito afirma que o modelo desenvolvimentista tinha um “objetivo”: a
industrialização. Ora, ter um objetivo é um atributo que não deve ter um
registro apenas no plano do modelo de acumulação, exigindo considerarmos as
políticas econômicas e os valores ideológicos intrínsecos às políticas de
Estado inerentes à reprodução do modelo, e trazer essas políticas e esses
valores para a própria conceituação do modelo. É por isso que prefiro continuar
usando o termo socialdesenvolvimentismo para designar a ideologia de economia
política e a prática que inspira nos governos liderados pelo PT (Bastos, 2012),
dimensão ideológica essa que o conceito de “neodesenvolvimentismo” não define
sequer como negação ao desenvolvimentismo clássico.
Ao ser
equiparado por Boito com modelo econômico e modelo de acumulação, o modelo de
capitalismo é conceituado com reducionismo econômico para excluir a forma de
Estado, a política de Estado e suas ideologias. Se seguirmos Louis Althusser ou
Nancy Fraser para teorizar o capitalismo sem reducionismo econômico (Bastos,
2023b; 2025a), um modelo capitalista tampouco pode ser definido unicamente com
base em variáveis econômicas (modelo econômico, modelo de acumulação) separadas
de características da forma de Estado, de política de Estado e de ideologia
política. Em níveis mais concretos, outras variáveis podem ser incorporadas
para entender a estrutura e a dinâmica de modelos particulares (Bastos, 2025b).
A
fragilidade teórica da distinção rígida entre modelo econômico e política
econômica se revela quando o próprio Boito a desrespeita ao aplicá-la na
caracterização do modelo desenvolvimentista. Aí, ele alude não a
características estruturais do modelo de acumulação, mas a características
comuns da política econômica executada pelos diversos governos do período (com
diferentes intensidades e combinações) a despeito das diversas coalizões
sociais que pilotavam e das outras políticas públicas que promoviam: protecionismo,
financiamento público, investimentos estatais, por exemplo. Contudo, outras
políticas econômicas que ele alega caracterizarem o modelo desenvolvimentista,
como centralização do câmbio e regulação protetiva do mercado de trabalho, não
foram promovidas por todos os governos do período a despeito da forma de Estado
herdada.
Por sua
vez, outras políticas econômicas que Boito alega só caracterizarem a adesão
ativa dos governos neoliberais à “novíssima dependência” (abertura comercial e
financeira) são características invariantes do modelo neoliberal no Brasil.
Assim como a política macroeconômica que Boito sequer menciona – metas de
inflação e superávit primário “austeras”, apreciação cambial para estimular
importações baratas de bens, serviços e capitais – elas são políticas que mesmo
os governos liderados pelo PT mantiveram ativamente, com a devida justificação
ideológica operada por ministros do governo e, às vezes, até pelo presidente
Lula (como entender as finanças públicas como finanças domésticas, ou alegar
que o Estado deve preferencialmente regular e não produzir). Não é sequer
possível dizer que os governos do PT sempre operaram essa políticas com menos
intensidade. Gabriel Galípolo executa uma política de juros mais austera que a
de Roberto Campos Neto, e admite uma volatilidade cambial muito superior à de
Henrique Meirelles no primeiro mandato de Lula, embora tenha um colchão de
reservas cambiais muito vezes maior. A partir de 2003, Pallocci e equipe
aumentaram ano a ano as metas de superavit primário muito depois de superado o
risco de uma fuga de capitais catastrófica até serem derrotados por Dilma
Rousseff, a líder do campo socialdesenvolvimentista, quando pretenderam fazer o
que nenhum governo liderado pela direita tentou no Brasil: assegurar o déficit
nominal zero, ou seja, gerar um superávit primário no tamanho necessário para
compensar todo o gasto com juros da dívida pública!
Isso
não terminou em 2005 com a vitória de Dilma Rousseff sobre Palocci. Pelo menos
até um texto escrito bem depois dessa vitória, Boito (2010) ainda considerava a
conta de juros cobrada pela política monetária de Henrique Meirelles como prova
do caráter neoliberal do governo Lula. Se essa caracterização era excessiva, o
outro polo que passaria a defender também é, sobretudo se abstrai os
constrangimentos que as políticas macroeconômicas executadas pelo governo
continuaram exercendo sobre qualquer política “neodesenvolvimentista” executada
no período: ou o novo arcabouço fiscal – defendido ativamente pelo ministro
Haddad – já não inviabilizou a regra de elevação do salário mínimo e a
capitalização de empresas estatais que foram essenciais para o crescimento
econômico nos primeiros mandatos de Lula?
Ademais,
a abertura financeira foi aprofundada e consolidada institucionalmente nos
primeiros governos de Lula que, aliás, consideravam fundamental converter o
Brasil em “investment-grade” junto às agências de classificação de risco. Anos
depois da comemoração ao obter esse título em 2008, mantê-lo foi a
justificativa pública para a política de austeridade encomendada a Joaquim Levy
depois da eleição de 2014 (Bastos, 2014). Como outras políticas, a abertura
comercial sofreu reversões parciais e temporárias, nunca integrais e
duradouras, a despeito da justificação do protecionismo pelo
socialdesenvolvimentismo e do atendimento a demandas protecionistas setoriais
que não são feitas apenas por empresários nacionais – como pelas filiais
automobilísticas ocidentais preocupadas com a concorrência das asiáticas desde
a década de 1990. No terceiro governo, a celebração do Acordo Mercosul-União
Europeia por Lula é uma reviravolta em relação à posição original do primeiro
mandato (mais preocupado com os riscos à indústria de transformação), mas mesmo
a proposta brasileira de uma “grande barganha” durante a Rodada Doha da
Organização Mundial do Comércio, em 2005, já havia sido criticada pelas
delegações da Índia e da Argentina como uma traição à coalizão pelo desenvolvimento
(Bastos & Hiratuka, 2017; 2020).
Isso, é
claro, se explica pela força econômica e política do agronegócio, que só
cresceu desde 2005, a ponto de Lula ter afirmado em 2025 que “já não é
quebra-galho trabalhar com o agronegócio. Virou o principal negócio do Brasil”
(Konchinski, 2025). Atender à pressão política de exportadores locais de
produtos primários por subsídios e tratados comerciais feitos às custas do
projeto de reindustrialização que está no centro da ideologia
socialdesenvolvimentista (como veremos) seria suficiente para negar a existência
de dimensões neoliberais nas políticas econômicas de um governo presumidamente
antineoliberal?
Creio
que não. Alegar que a defesa governamental dos interesses particularistas do
agronegócio às custas do aprofundamento da desindustrialização expressa algum
tipo de “desenvolvimentismo” contradiz a melhor formulação do próprio Boito
(1999) que, em sua tese de livre-docência sobre o neoliberalismo dos anos 1990,
afirmava com todas as letras que a desindustrialização era um desejo das forças
imperialistas na reconfiguração das economias e Estados dependentes
latino-americanos. Defender o contrário hoje, acusando os que continuam
relacionando desenvolvimento econômico com algum ganho de autonomia nacional
associado ao domínio de capacitações tecnológicas industriais como
“empiricistas”, é abandonar exatamente o terreno em que um embate estratégico
com o imperialismo sempre se travou e, assim, fazer concessões exageradas à sua
hegemonia ideológica. A abertura comercial sempre foi defendida pelos ideólogos
neoliberais como o meio mediante o qual a estrutura produtiva com baixo valor
agregado no Sul “complementaria” a (leia-se: seria subordinada à) estrutura
produtiva de alto valor agregado no Norte. Não estavam errados: as políticas
econômicas (e não o “modelo” em abstrato) de apreciação cambial e abertura
comercial provocaram evidente especialização regressiva da estrutura produtiva
desde a década de 1990, em tendência praticamente sem interrupção até hoje – e
que até se aprofundou depois de 2010 –, pois as políticas
socialdesenvolvimentistas fracassaram em compensar o efeito das políticas
neoliberais (Moreira & Bastos, 2023; Bastos, 2024c).
Uma vez
que relações de poder e hegemonia também se expressam no campo ideológico (e na
autopercepção dos sujeitos “sujeitados”), marxistas inspirados por Althusser
sempre evitaram equacionar a preferência revelada dos “sujeitos” ao seu
interesse objetivo. Não me parece correto equacionar o interesse objetivo e a
preferência revelada das frações burguesas industriais que, a despeito de
apoiarem ativamente a abertura comercial “em geral” no Brasil, buscam proteção
estatal particularista diante de um modelo capitalista dependente que devasta
estruturalmente suas condições de sobrevivência. Precisamos investigar como a
própria estrutura hegemônica bloqueia a emergência de interesses objetivos
contrários ao modelo capitalista que os devasta ou, pelo menos, os limita de
modo a permitir sua incorporação subordinada em um modelo e em um bloco no
poder sobre o qual não têm a hegemonia, como veremos.
É claro
que não estou sugerindo que todos os governos administram um certo modelo
capitalista da mesma forma: Boito e seus diversos alunos e alunas (que ajudei a
formar em várias bancas de avaliação e seminários em grupo de pesquisa comum há
quase quinze anos, como ele também ajuda a formar os meus) são insuperáveis na
investigação sistemática das políticas “neodesenvolvimentistas” e de seus
suportes sociais. O que alego é que os governos liderados pelo PT “herdam” um
modelo de capitalismo, uma forma de Estado, e um tipo de política econômica
hegemônica que continuam reproduzindo ativamente, inclusive com o trabalho
ideológico necessário para tal.
O
modelo capitalista e a forma de Estado resultantes das reformas neoliberais dos
anos 1990 implicaram a preservação de políticas econômicas neoliberais
hegemônicas — metas de inflação pouco flexíveis, autonomia (real ou formal) do
Banco Central para elevar juros muito acima do necessário, regras fiscais que
limitam estruturalmente o gasto público, abertura financeira nunca revertida,
amplo nível de abertura comercial, apreciação cambial para estimular
importações baratas de bens, serviços e capitais — mesmo em governos que não
são inteiramente comprometidos com o neoliberalismo. Quem o diz, aliás, é o
próprio presidente Lula, ao reconhecer em Barcelona que governos progressistas
se limitavam a administrar o neoliberalismo.
Fonte:
Outras Palavras



