quarta-feira, 14 de outubro de 2026

O ônus do poder absoluto: o dia em que o fascismo bolsonarista governar

Durante anos, o bolsonarismo transformou limites institucionais, crises e derrotas em prova de que inimigos impediam seu projeto. Uma vitória em 2026 mudaria essa condição. Com a Presidência, a maior bancada da Câmara, presença decisiva no Senado e capacidade real de atrair o Centrão, o campo fascista teria espaço para avançar sobre o Estado em escala inédita. A partir daí, a questão deixaria de ser o que ele promete fazer e passaria a ser o que consegue sustentar quando capital, trabalho, soberania, proteção social e vida cotidiana entram na mesma conta.

<><> A Constituição como voz de Bolsonaro a la Carl Schimitt

Desde a noite de 4 de outubro, uma pergunta não sai das nossas cabeças. Não é apenas o que significa Flávio Bolsonaro ter chegado ao segundo turno com 56,1 milhões de votos e 47,03% dos votos válidos. O problema maior está na estrutura de poder que pode se formar ao redor dessa votação caso ele vença. O PL elegeu 121 deputados e deverá iniciar 2027 com 28 senadores. A disputa presidencial continua aberta e precisa ser travada até o último voto, mas ignorar o que essa correlação representa seria um erro estratégico. Pela primeira vez, o campo fascista brasileiro pode chegar ao Executivo cercado por uma força parlamentar suficientemente grande para tentar converter em programa de governo aquilo que durante anos apresentou como desejo bloqueado.

O bolsonarismo já governou o país, mas conseguiu preservar uma condição psicológica de oposição. Jair Bolsonaro comandou ministérios, orçamento, milhares de cargos e parcelas importantes da máquina pública sem abandonar a narrativa de que forças ocultas ou instituições hostis impediam seu projeto de avançar. Supremo, Congresso, governadores, imprensa, universidades, servidores, movimentos sociais, sistema eleitoral. O personagem mudava conforme a necessidade. A função permanecia. Cada fracasso podia ser apresentado como sabotagem e cada limite servia para alimentar a promessa de que tudo seria diferente se o movimento finalmente recebesse poder suficiente. Governar e permanecer insurgente contra o próprio Estado foi uma das operações políticas mais eficientes do bolsonarismo.

Bolsonaros os que sempre viveram do Estado e se vendem muito habilmente como outsiders.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro reduziria parte desse álibi.

O PL não possui sozinho os votos necessários para alterar a Constituição, afastar autoridades ou impor qualquer decisão que desejar. Só que a política brasileira nunca funcionou pela soma mecânica das bancadas. A Presidência organiza orçamento, cargos, agenda legislativa, alianças regionais e acesso à máquina federal. O Centrão não é uma corrente doutrinária e muito menos centro ideologico. É uma estrutura de poder que historicamente se aproxima de quem governa e dispõe de recursos para construir maioria. Um presidente bolsonarista – que ascende neste 2026 com base em negociatas com rachadinhas, Vorcaro e fascismo evangélico – iniciaria essa negociação apoiado na maior bancada da Câmara, numa presença extraordinária no Senado e em forças reacionárias espalhadas por outras legendas. Não receberia poder juridicamente absoluto. Poderia, porém, reunir condições políticas para empurrar o país muito além dos limites que contiveram Jair Bolsonaro entre 2019 e 2022.

A reforma e emenda da constituição poderia ser uma nova constituinte e ai direitos civilizatórios seriam todos questionados porque contra clausulas pétreas teríamos a voz do Fuher, como fala Carl Schimitt. O guardião da constituição não é mais um supremo corrupto na voz dos eleitores, mas quem? Flavio Bolsonaro I o Probo, o Justo, aquele que acusa o supremo de negociatas com Vorcaro quando embolsa milhões de Vorcaro.

Chamamos esse campo de fascista ou fascismo de massas porque sua trajetória, sua prática e seu projeto justificam a categoria. Não é insulto nem atalho retórico. Estamos falando de uma força que transformou adversários em inimigos internos, naturalizou a violência política, naturalizou feminicídio e crianças rebolando com armas letais. Principalmente o Bolsonarismo fascista atacou o sistema eleitoral, quando o resultado lhe foi desfavorável. E tentou submeter instituições de controle pela força e pelo cooptação de militares entreguistas e não soberanos.

Reduzir esse bloco a uma direita convencional esconderia justamente aquilo que precisa ser compreendido antes que volte ao Planalto em condições muito mais favoráveis.

O primeiro erro da esquerda seria acreditar que um eventual governo Flávio Bolsonaro fracassará simplesmente porque é fascista. Justamente os governos fascistas de massa vem com o aplauso da toda população. E vitorias e glamour. Olhem as olimpiadas da Alemanha Nazista. Um trem de bonança e riqueza em uma europa falida economicamente com a bolha de 1929.

A história não oferece o conforto de que as pessoas não vão aderir a este marketing do grande pai do grande irmão que Bolosonaro e Trump oferecem.

.O fascismo pode governar, entregar resultados, incorporar parcelas das classes populares e construir consentimento enquanto reorganiza a sociedade em favor de uma ordem profundamente desigual. Mussolini destruiu a autonomia sindical e submeteu o trabalho ao Estado corporativo, mas combinou essa submissão com mecanismos de proteção social, assistência e integração. Erdoğan ampliou programas sociais ao mesmo tempo que enfraquecia sindicatos e flexibilizava relações de trabalho. Orbán construiu apoio com benefícios familiares, crédito e proteção seletiva enquanto redesenhava instituições e concentrava poder. Modi combinou transferências, moradia, infraestrutura e serviços digitalizados com nacionalismo hindu e exclusão. Bukele demonstrou algo que a esquerda não pode desprezar. Segurança também é uma necessidade material. Uma família que deixa de viver sob ameaça cotidiana experimenta uma mudança concreta, ainda que essa segurança seja produzida por estado de exceção, prisões em massa e concentração extrema de poder.

A segurança aparente das periferias será construída com toda carne preta e pobre que a maioridade penal de 16 e o encarceramento recorde vai trazer. E tudo isso privatizado, vendido a magnificas empresas do tio Sam.

Petrobras, saúde publica e SUS, bancos públicos, Correios, tudo será privatizado e entregue aos Bezos da vida. A vacinação infantil não será mais gratuita, segundo pediatras nas redes sera 10 mil por criança. E como dos Estados Unidos as pessoas apodrecerão na rua, nos seus carros e nas barracas, celebrando o estado liberal.

É nessa diferença que a questão de classe recupera nitidez. Um trabalhador pode receber transferência e perder capacidade de negociação, conseguir emprego numa relação mais precária, acessar crédito assumindo mais risco individual e viver num bairro mais seguro sob um Estado mais intrusivo. A melhora de uma dimensão da vida não produz automaticamente autonomia política. A incorporação pode ser real e ainda assim subordinada. O trabalhador entra na ordem como beneficiário, consumidor, pequeno empreendedor, fiel, usuário de serviço público ou destinatário de uma política de segurança, mas perde força quando sindicatos, associações e outras formas coletivas de proteção são esvaziados. O fascismo não precisa empobrecer todos os trabalhadores para derrotá-los politicamente. Precisa impedir que ganhos individuais se convertam em poder coletivo.

A precarização pode ser percebida como exploração ou vendida como liberdade de empreender. Uma dificuldade econômica pode ser atribuída a decisões concretas ou deslocada para um inimigo escolhido. O mesmo trabalhador pode viver uma relação objetiva de dependência e se perceber como empresário em ascensão. Guerra psicológica do fascismo evangélico que vivemos no Brasil   começa exatamente nesse intervalo entre experiência e interpretação. Ela não cria sentimentos do nada. Organiza medo, esperança, humilhação, pertencimento e ressentimento, oferecendo uma leitura da realidade e apontando quem deve ser amado, temido ou odiado.

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro precisa ser lido a partir dessa lógica. Ele reúne privatizações, redução de regulações, reforma administrativa, diminuição do custo do trabalho, prevalência do negociado sobre o legislado e hostilidade explícita ao que chama de República Sindical. Ao mesmo tempo, projeta um Estado mais digital, integrado e capaz de identificar indivíduos, cruzar informações, automatizar decisões e ampliar sua presença na segurança pública. O mesmo projeto que pretende retirar o Estado de determinadas relações econômicas quer fortalecê-lo como infraestrutura de dados, administração, vigilância e coerção. Não há incoerência. Há uma escolha de classe sobre onde o Estado deve recuar e onde deve se tornar mais poderoso.

Essa escolha aparece na vida cotidiana. O capital encontra menos obstáculos, a negociação trabalhista tende a ser individualizada e organizações coletivas perdem capacidade de interferência. O cidadão, por sua vez, se aproxima de um Estado que pretende concentrar serviços, documentos, benefícios e informações numa identidade digital, usar inteligência artificial no atendimento e expandir reconhecimento facial e monitoramento. Para alguns, a fricção diminui. Para outros, cresce. Certas operações econômicas devem acontecer com velocidade. A organização do trabalho, o protesto e os grupos definidos como ameaça encontram identificação, suspeita, controle e coerção.

Há anos, uma das linhas que orientam nossa pesquisa é que a tecnologia não elimina intermediários. Ela substitui alguns por outros menos visíveis e mais concentrados. Quando uma plataforma toma o lugar de uma agência, um algoritmo substitui uma decisão humana ou uma base de dados passa a organizar elegibilidade e prioridade, a mediação permanece. Quando esse processo chega ao Estado, o cidadão pode sentir que finalmente se relaciona de maneira direta com o governo enquanto sua vida passa a ser filtrada por sistemas que definem acesso, risco, benefício e comportamento esperado. A conveniência não elimina o poder. Muitas vezes o torna mais difícil de enxergar.

A experiência indiana ajuda a perceber a mudança. Sistemas digitais de identificação e transferências diretas permitiram ao governo Modi alcançar milhões de pessoas com rapidez e reduzir intermediações tradicionais. Houve eficiência real, mas também uma transformação política. Direitos e benefícios podem ser associados diretamente à figura do governante, e a relação coletiva com o Estado cede espaço ao vínculo individual entre liderança e beneficiário. A mediação política diminui enquanto a mediação técnica cresce.

Nesse ambiente, guerra psicológica deixa de ser apenas instrumento eleitoral. Quem controla a relação informacional entre governo e cidadão ganha capacidade para organizar contexto, prioridade e interpretação. Não precisa convencer a sociedade inteira num único discurso. Pode atuar sobre milhões de pequenas experiências repetidas. A mensagem que chega primeiro, a ameaça que ganha visibilidade, o benefício associado ao presidente, o grupo apresentado como parasita ou inimigo. A disputa começa antes da opinião formada, no campo em que a realidade se torna perceptível.

A infraestrutura digital amplia esse poder. Câmeras, reconhecimento facial, bancos de dados, redes sociais e inteligência artificial permitem transformar classificações políticas em procedimentos administrativos. O inimigo deixa de existir apenas no discurso e pode passar a aparecer nos sistemas que distribuem suspeita, atenção policial e acesso. Nada disso exige que o país acorde numa manhã sob uma ditadura formal. A mudança pode avançar por acúmulo, apresentada a cada etapa como solução técnica para um problema concreto.

Por isso a velha discussão sobre Estado mínimo explica pouco. O projeto é reduzir obrigações sociais e mediações democráticas em determinadas áreas enquanto se amplia a capacidade de executar decisões, organizar informação e disciplinar conflitos. Menos regulação diante do capital pode conviver perfeitamente com mais vigilância, polícia, prisão e poder administrativo. O Estado não desaparece. Muda de função e distribui sua força de maneira desigual.

No Brasil, essa transformação carrega ainda uma contradição de soberania. Grande parte das infraestruturas digitais que organizam comunicação, armazenamento, inteligência artificial e circulação de informação está sob controle de empresas estrangeiras. Um governo pode ampliar enormemente a capacidade tecnológica do aparato estatal enquanto aprofunda a dependência nacional de plataformas, nuvens, modelos e redes que o país não controla. É possível construir um Estado mais eficiente para administrar sua população e um Brasil menos capaz de decidir o próprio destino. Tecnologia, classe e geopolítica se encontram exatamente aí.

Mas nenhuma arquitetura informacional governa sozinha uma sociedade. Algoritmos podem organizar percepção, propaganda pode deslocar responsabilidade e coerção pode elevar o custo da resistência. Nenhum deles produz comida, paga aposentadoria, sustenta hospital ou cria emprego por decreto. Um eventual governo Flávio Bolsonaro teria de atender o bloco econômico que espera desregulação, privatizações, redução do custo do trabalho e abertura de novos espaços de acumulação, sem romper a base popular que continuará exigindo renda, serviços, segurança, crédito e perspectiva de ascensão. Enquanto essas duas necessidades puderem caminhar juntas, o governo pode conservar força. A tensão começa quando uma exige o sacrifício da outra.

O próximo presidente tampouco receberá uma economia devastada em que qualquer melhora possa ser vendida como reconstrução. A taxa de desemprego chegou a 5,3% no trimestre encerrado em agosto de 2026 e o rendimento real médio do trabalho alcançou R$ 3.777. Manter emprego e renda é politicamente diferente de prometê-los quando tudo desmoronou. Ao mesmo tempo, a dívida pública federal chegou a R$ 9,29 trilhões em agosto e seu custo permanece alto. Cortar despesas, privatizar e reduzir impostos pode satisfazer frações importantes do capital, mas o mesmo governo terá de financiar Previdência, saúde, educação, segurança, transferências e infraestrutura. Não existe engenharia ideológica capaz de abolir essa conta.

A luta de classes reaparece justamente na distribuição do custo. Quando o governo reduz proteção trabalhista e enfraquece organizações coletivas, alguém absorve o risco antes compartilhado. Quando uma família precisa pagar pelo que deixou de encontrar numa política pública, a despesa ressurge em outra parte de sua vida. Quando o trabalhador negocia sozinho diante de uma empresa muito maior, a liberdade contratual esconde uma desigualdade concreta de poder. O governo pode compensar grupos e escolher prioridades. Não pode eliminar o conflito distributivo produzido pela própria estrutura que pretende aprofundar.

Há ainda uma contradição que nenhum nacionalismo de palanque resolve. Entre janeiro e setembro deste ano, a China recebeu 29,75% das exportações brasileiras. Os Estados Unidos ficaram com 9,65%. O bolsonarismo fez da aproximação política com Washington um eixo de sua identidade internacional, mas governar o Brasil exige lidar com uma estrutura econômica na qual a China é decisiva para agronegócio, mineração, balança externa e estabilidade. Subordinar essa relação à disciplina geopolítica dos Estados Unidos produziria custo interno. Preservá-la exigiria reconhecer que o interesse nacional brasileiro não coincide automaticamente com a estratégia de Washington. Soberania é justamente a capacidade de decidir a partir dessa diferença.

A tensão atravessaria o próprio bloco governista. Agronegócio dependente do mercado chinês, capital financeiro, indústria, governadores, forças de segurança e parlamentares não carregam prioridades idênticas. Inimigos comuns podem reunir essas forças na oposição. Governar obriga a decidir diariamente quem ganha, quem perde e quem paga. É nessa passagem da unidade contra alguém para a administração concreta dos interesses que surgem fissuras reais.

Nada disso garante crise política. Regimes autoritários sobrevivem durante anos quando conseguem proteger setores decisivos, distribuir perdas de maneira desigual e convencer parte suficiente da população de que a responsabilidade pertence a outro. A fabricação do inimigo ganha, nesse momento, uma função ainda mais prática. Ela administra culpa. Se o próprio governo concentra instrumentos de decisão, precisa trabalhar cada vez mais para demonstrar que algum poder oculto continua impedindo a prosperidade prometida. Só que a propaganda atua sobre a experiência, não no lugar dela. Medo e identidade podem sustentar lealdades por muito tempo, mas não tornam irrelevantes salário, serviço público, dívida familiar e expectativa de futuro.

O ônus do poder absoluto está nessa passagem. O problema não é saber se o fascismo consegue administrar o Brasil. Consegue administrar, reprimir, distribuir, privatizar, investir e produzir consentimento. O teste é saber por quanto tempo consegue manter juntos os interesses de quem espera lucrar com a reorganização do Estado e as expectativas de quem entregou seu voto esperando melhorar de vida. Se essa equação se romper, a contradição não trabalhará automaticamente a favor da democracia. Pode produzir desilusão, mas também radicalização, medo e mais violência. Esperar o fracasso do fascismo nunca poderá ser uma estratégia.

A resposta democrática precisa começar antes. A democracia é inclusive votar em quem não se gosta mas se sabe um democrata.  Defender instituições continuará indispensável, mas será insuficiente se democracia voltar a significar apenas regras formais para milhões de pessoas submetidas à precariedade e à falta de horizonte. Democracia precisa existir na experiência concreta como trabalho digno, moradia, saúde, segurança, mobilidade, educação, tempo e participação nas decisões que organizam a vida. Sem isso, o fascismo continuará encontrando matéria social para transformar abandono em ressentimento e ressentimento em autoridade.

Também será necessário abandonar o desprezo pelo trabalhador que aderiu ao bolsonarismo. Muitos desses eleitores não ignoram simplesmente os próprios interesses. Seus interesses foram interpretados e organizados politicamente por outro campo. O motorista de aplicativo que se percebe como empreendedor, a família que associa proteção ao discurso religioso, o pequeno comerciante que identifica imposto como inimigo e o trabalhador que exige segurança vivem contradições reais. A resposta democrática não pode dizer a essas pessoas que compreenderam a própria vida de forma errada. Precisa construir uma explicação mais poderosa para a experiência que elas efetivamente vivem e, principalmente, oferecer capacidade material de transformá-la.

Isso exige organização. Sindicatos capazes de falar com o trabalho do século XXI, movimentos presentes nos territórios, partidos enraizados fora dos períodos eleitorais, comunicação própria, inteligência estratégica e instituições capazes de organizar trabalhadores dispersos, informais, terceirizados e conectados por plataformas. Reconstruir o comum não significa ressuscitar mecanicamente as formas do século passado. Significa devolver força coletiva a uma sociedade que foi treinada a se relacionar com mercado, Estado e política cada vez mais como uma soma de indivíduos.

A disputa tecnológica faz parte dessa reconstrução. Um país que terceiriza dados, nuvens, inteligência artificial, comunicação e parte crescente de sua capacidade de decisão entrega parcelas de sua soberania. Não existe projeto democrático consistente se o espaço no qual a população percebe o mundo e toma decisões estiver organizado por estruturas privadas submetidas a interesses externos. Soberania no século XXI continua passando por energia, indústria, território e recursos naturais, mas passa também por processamento, modelos, redes e capacidade cognitiva.

É nesse sentido que o socialismo recupera sua questão mais concreta. Não se trata de prometer que o Estado dará mais coisas às pessoas. Trata-se de mudar quem possui capacidade para decidir o que será produzido, como a riqueza será distribuída, quais tecnologias serão desenvolvidas, quem controlará a infraestrutura e quais interesses orientarão o país. Proteção sem poder pode produzir dependência. Democracia duradoura exige sujeitos capazes de interferir sobre as condições de sua própria existência.

Essa é a dimensão do problema que o segundo turno colocou diante do Brasil. Se Flávio Bolsonaro perder, o fascismo não desaparecerá. Cinquenta e seis milhões de votos, uma bancada gigantesca e uma estrutura social capaz de sustentar esse projeto continuarão existindo. Se vencer, a disputa mudará de escala. O campo fascista terá instrumentos muito maiores para realizar aquilo que promete e carregará, ao mesmo tempo, a responsabilidade pelas consequências de suas escolhas. A democracia não pode apostar sua sobrevivência na incapacidade do adversário de suportar esse peso. Precisa reconstruir, desde agora, a força social, política, tecnológica e nacional capaz de impedir que o poder absoluto de alguns seja construído sobre a impotência de todos os outros.

 

Fonte: Por Reynaldo Aragon e Luciana Bauer, no <Código Aberto>

 

Francisco Calmon: O risco de uma autocracia e a volta do velho sistema

Os três Poderes da República são independentes e harmônicos entre si, segundo a Constituição. Ocorre que, caso Flávio Bolsonaro vença a eleição, com a maioria de áulicos no Congresso e, daqui a pouco tempo, também com a maioria no STF, haverá mudanças na Carta Magna e ele se tornará um autocrata.

O risco está na concentração de poder e na possibilidade de alterar as próprias regras que sustentam o equilíbrio entre as instituições. Com um Congresso majoritariamente alinhado e a perspectiva de uma maioria também no Supremo Tribunal Federal, os mecanismos constitucionais de controle poderão ser enfraquecidos, abrindo caminho para um governo autoritário. O equilíbrio entre pesos e contrapesos desaparece.

Flávio representa a volta do velho sistema: o capitalismo de extrema orientação liberal, no qual a única perspectiva é a maximização do lucro e a pauperização do proletariado. Esse projeto também significa a alienação dos bens naturais do país, sua entrega às multinacionais, a subserviência absoluta aos EUA e um governo voltado para atender aos interesses do mercado.

As consequências desse modelo recairiam sobre a população trabalhadora, enquanto os interesses do capital seriam privilegiados. O desemprego e o mapa da fome estariam de volta, aprofundando a desigualdade social.

É isso o que querem aqueles que votam em Flávio ou estão equivocados quanto ao projeto que ele representa?

<><> Juros, crescimento econômico e a disputa eleitoral

Se Galípolo tivesse baixado os juros, o Brasil teria crescido na faixa de 5%, e não teria para ninguém. A redução dos juros poderia favorecer a atividade econômica, estimular investimentos e ampliar as condições para a geração de mais empregos, em vez de manter a economia submetida à camisa de força do rentismo.

Mas Galípolo trabalha a favor do rentismo e da manutenção de um exército de reserva de mão de obra. Essa orientação parte da premissa de que o pleno emprego, acompanhado de salários dignos, gera inflação. Assim, a política monetária acaba subordinada à preocupação com os preços, enquanto o potencial de crescimento econômico e a melhoria das condições de vida dos trabalhadores ficam em segundo plano. Falta dialética nessa equação.

É nesse contexto econômico e político que se coloca a disputa eleitoral.

Por que Lula ganha no segundo turno? Porque haverá debates, e Flávio é fraco: só sabe agredir e não tem projeto para apresentar. A comparação entre os candidatos permitirá confrontar suas propostas e expor as diferenças entre as concepções de país que representam.

Flávio não entende de economia nem de gestão, nunca administrou nada e, segundo as acusações aqui apontadas, sabe lavar dinheiro sujo, apropriar-se do dinheiro de funcionários e ficar rico sem provar como ganhou. A fragilidade de sua experiência administrativa e os questionamentos sobre sua trajetória poderão pesar no confronto eleitoral, sobretudo quando tiver de apresentar propostas concretas para o país.

O dilema para o Brasil é: retrocesso à barbárie ou avanço civilizatório.

¨       Em nome do pai, vote no filho. Por Gustavo Tapioca 

Na pesquisa Atlas/Bloomberg divulgada em 28 de abril de 2026, os candidatos de 2022 foram novamente apresentados ao eleitor. Nesse cenário hipotético, Lula aparecia com 45,2% e Jair Bolsonaro com 45,0%. A diferença era estatisticamente irrelevante. Politicamente, o dado era estarrecedor. 

 Apesar de um governo desastroso, robustas acusações de corrupção e de uma condenação a 27 anos e três meses de prisão por liderar a organização criminosa que golpe de Estado, Jair Bolsonaro permanecia no mesmo patamar de intenção de voto de Lula, o presidente que o derrotara nas urnas. 

No dia seguinte à divulgação da pesquisa Atlas/Bloomberg, em 29 de abril de 2026, publicamos o artigo “Pesquisas mostram que o golpe ainda respira”. Sua conclusão continua valendo em outubro de 2026:  

“a democracia brasileira venceu juridicamente o golpe, mas ainda não derrotou a mentalidade golpista.” 

Pouco mais de cinco meses depois, o primeiro turno da eleição de 2026, em 4 de outubro, deu 47,03% dos votos válidos a Flávio Bolsonaro e 45,16% a Lula. O pai estava fora da cédula. O filho levou o sobrenome e o projeto político ao segundo turno, à frente do presidente Lula. 

Pesquisa e votação têm candidatos e bases de cálculo diferentes. O resultado das urnas não tem margem de erro. O alerta da Atlas/Bloomberg em abril e o resultado do primeiro turno da eleição, em 4 de outubro, permanece: a condenação do líder não dissolveu a força eleitoral do bolsonarismo. 

<><> A sentença transformada em perseguição 

Em 25 de novembro de 2025, o STF determinou o início do cumprimento das penas de sete condenados do núcleo central da trama golpista, entre eles Jair Bolsonaro, generais, um almirante e ex-ministros. 

Foi uma vitória institucional. A responsabilização alcançou dirigentes que haviam ocupado o comando do Estado e usado essa posição contra a ordem democrática. 

A sentença, entretanto, não apaga as lealdades construídas em torno de um líder. O bolsonarismo transforma a responsabilização em demonstração de perseguição.  

A lógica lembra o trumpismo e sua versão brasileira, o bolsonarismo: a derrota é apresentada como fraude; a investigação, como ataque; a condenação, como prova de que o líder enfrenta o “sistema”. 

Flávio participa dessa operação. Na sabatina da TV Globo de 28 de agosto 2026, negou a tentativa de golpe e a apresentou como uma “farsa armada para tirar o presidente Bolsonaro da vida pública”.  

Ao negar o crime reconhecido no julgamento, o filho preserva a imagem do pai e oferece aos seguidores uma explicação que dispensa rever sua adesão. 

<><> “Meu pai vai subir a rampa comigo” 

No dia 1º de março de 2026, durante o ato “Acorda, Brasil”, na Avenida Paulista, em São Paulo, Flávio, ainda pré-candidato, fez uma promessa sobre o pai: “em janeiro de 2027, ele irá pessoalmente subir aquela rampa do Planalto junto com o povo brasileiro”. 

Em 11 de abril, em Porto Alegre, no lançamento da pré-campanha de Luciano Zucco ao governo do Rio Grande do Sul, ampliou a promessa: “Todas as pessoas que foram perseguidas vão subir a rampa com a gente”. 

Na quarta-feira, 7 de outubro, após o primeiro turno, voltou à promessa em reunião do PL. Disse que pretende governar “com o presidente Bolsonaro do meu lado, que ele vai subir aquela rampa junto com a gente”. 

O condenado pelo crime de golpe de Estado passa a ser apresentado como perseguido. Seu retorno é oferecido como reparação de uma injustiça. A promessa mobiliza o ressentimento e dá à eleição a aparência de uma revanche. 

<><> O pai como mito, o filho como instrumento 

Jair Bolsonaro está condenado, inelegível e preso. O Supremo o condenou como líder da organização criminosa que tentou um golpe de Estado. A trama incluía o plano “Punhal Verde e Amarelo”, que previa assassinar Lula e Geraldo Alckmin, então presidente e vice-presidente eleitos, além do ministro Alexandre de Moraes. 

Flávio representa esse campo político numa candidatura que promete devolver o bolsonarismo ao governo. A disputa de 2026, portanto, é entre Lula e o filho do líder da trama que previa seu assassinato. 

O primeiro turno confirma a capacidade de mobilização nacional dessa candidatura. A continuidade também aparece nos compromissos públicos do filho. Na entrevista de agosto, Flávio prometeu trabalhar pela anistia durante a transição. A libertação do pai e dos demais condenados foi incorporada ao projeto eleitoral. 

<><> Em nome do pai, vote no filho  

Para a militância que considera Jair uma vítima, eleger Flávio significa abrir o caminho para sua libertação e para o retorno do bolsonarismo ao poder. O pai permanece como mártir. O filho se apresenta como aquele que poderá restaurar seu lugar. 

No artigo “Flávio anuncia o roteiro do golpe por dentro”, publicado na quarta-feira, 7 de outubro, examinamos a combinação entre as promessas de libertar o pai, alterar a Constituição e interferir no equilíbrio entre os Poderes. 

Esse projeto pode voltar ao comando do Estado com a força política que sobreviveu à condenação. Para o bolsonarismo, a sentença precisa ser desacreditada e o líder, apresentado como injustiçado. A herança familiar precisa parecer renovação para que o filho leve adiante o mesmo projeto. 

Para uma parcela radicalizada dos seguidores, aceitar a condenação exigiria rever a própria história e reconhecer que seu líder tentou impedir a posse do vencedor, comandando uma trama que previa assassinar o presidente Lula. A narrativa de perseguição oferece uma saída: preservar a lealdade e atribuir aos adversários a responsabilidade pelo destino do pai. 

<><> O precedente turco 

Recep Tayyip Erdoğan está no poder na Turquia há 23 anos: foi primeiro-ministro de 2003 a 2014 e é presidente desde então. A reforma constitucional aprovada em 2017 e implementada em 2018 substituiu o parlamentarismo por uma Presidência de poderes concentrados.  

O cargo de primeiro-ministro desapareceu, a fiscalização parlamentar enfraqueceu e a independência judicial foi comprometida. As eleições continuaram, com restrições à oposição e vantagem governista na cobertura da imprensa.  

É o mecanismo do autoritarismo eleitoral: preservar o voto enquanto se esvaziam os controles sobre o governante. 

No Brasil, já presidencialista, o risco de um caminho semelhante aparece nas propostas de Flávio Bolsonaro. Ele anuncia que usará a maioria parlamentar para mudar a Constituição e reformar o Judiciário. 

Ao defender o fim da reeleição, cogitou ampliar o próprio mandato de quatro para cinco anos, deixando a decisão ao Congresso. Também prometeu indicar cinco ministros para o STF e defende que o Senado afaste Alexandre de Moraes e outros ministros por impeachment. A promessa de libertar o pai explicita o interesse familiar que acompanha essa reorganização das instituições. 

<><> A luta continua 

Flávio aposta no respaldo de Donald Trump e Marco Rubio — os defensores da doutrina “Este hemisfério é nosso” e líderes da ultradireita que se espalha pelo mundo e já chegou em todos os países da América do Sul, com exceção do Uruguai e da joia da coroa chamada Brasil. Por enquanto. 

Em 25 de outubro, os brasileiros decidirão quem ocupará a Presidência. Depois, se vencer, Lula certamente dirá sua frase famosa: a luta continua, companheiros. 

A luta para impedir que a memória do golpe seja convertida em culto, a condenação de golpistas em martírio, e o Brasil em patrimônio dos Bolsonaro e quintal dos Estados Unidos. 

 

Fonte: Brasil 247

 

O trabalhador quer viver. Mas quem lhe dará esse direito?

Há uma pergunta que deveria ocupar o centro do debate sobre o futuro do trabalho no Brasil. Afinal, quanto da própria vida um trabalhador precisa entregar para ter o direito de sobreviver? Oito horas por dia? Dez? Seis dias por semana? E quanto tempo deve sobrar para os filhos, para a família, para estudar, descansar ou simplesmente não fazer nada? Parece uma discussão elementar, mas, em pleno século XXI, ainda precisamos defender algo que deveria ser óbvio. O trabalhador não nasceu para viver exclusivamente em função do emprego.

A discussão sobre o fim da escala 6×1, que chegou ao plenário do Senado nesta semana, trouxe para o centro da disputa presidencial duas concepções bastante diferentes sobre a organização do trabalho. Luiz Inácio Lula da Silva defende a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas, com dois dias de descanso remunerados e sem diminuição dos salários. Flávio Bolsonaro, por sua vez, defende uma alternativa baseada na flexibilização dos contratos, na negociação individual, na remuneração proporcional às horas trabalhadas e sem descanso remunerado.

A proposta defendida por Lula parte do princípio de que a redução da jornada deve representar uma conquista efetiva para quem trabalha. Já a proposta encampada por Flávio Bolsonaro, apresentada pelo senador Rogério Marinho, permite que trabalhadores optem por contratos remunerados por hora, com reflexos proporcionais sobre férias, décimo terceiro e FGTS. Seus defensores argumentam que isso ampliaria a liberdade de escolha e poderia facilitar contratações. As entidades sindicais alertam para o risco de enfraquecimento da proteção coletiva e de redução da renda.

E é justamente nessa palavra, liberdade, que mora uma das questões mais importantes dessa discussão.

Porque existe uma diferença enorme entre a liberdade escrita numa proposta legislativa e a liberdade experimentada por quem precisa pagar aluguel, comprar comida e sustentar uma família. Um trabalhador que depende daquele emprego para sobreviver tem realmente as mesmas condições de negociação que o empresário responsável por contratá-lo? Até que ponto uma escolha pode ser considerada livre quando uma das partes precisa desesperadamente do salário e a outra controla a oferta de trabalho?

É por isso que os direitos trabalhistas existem. Não surgiram de um favor dos patrões, tampouco da generosidade de governos. Foram conquistados ao longo de décadas de mobilização, greves, enfrentamentos e organização coletiva. A limitação da jornada, o descanso remunerado, as férias e o décimo terceiro representam conquistas históricas justamente porque a relação entre capital e trabalho nunca foi uma negociação entre forças equivalentes.

Quem trabalha no comércio conhece essa realidade. Conhece o domingo perdido, o aniversário do filho comemorado às pressas, a consulta médica adiada, o cansaço acumulado e a sensação de que a vida acontece sempre nos intervalos do expediente. Para milhões de trabalhadores e trabalhadoras, a escala 6×1 não é um conceito econômico ou uma discussão acadêmica. É uma rotina que consome praticamente toda a semana e deixa apenas um dia para resolver as obrigações domésticas, descansar e tentar recuperar as energias.

O debate sobre a jornada também exige que se fale de produtividade, custos empresariais e organização dos serviços. Essas questões são legítimas e precisam ser enfrentadas. Mas não podem servir para retirar da discussão aquilo que deveria estar em primeiro lugar. O desenvolvimento econômico precisa ser compatível com a melhoria das condições de vida de quem produz a riqueza do país.

Reduzir a jornada sem reduzir salários significa reconhecer que os ganhos de produtividade e os avanços tecnológicos também devem beneficiar os trabalhadores e as trabalhadoras. Afinal, se a economia evolui, se as empresas modernizam seus processos e se a tecnologia permite produzir mais em menos tempo, por que a redução do tempo dedicado ao trabalho não pode fazer parte dessa transformação?

A experiência histórica demonstra que a duração da jornada nunca foi uma condição inflexível. Direitos que hoje parecem naturais já foram considerados impossíveis, caros demais ou prejudiciais à economia. O descanso semanal, as férias remuneradas e a jornada de oito horas enfrentaram resistências antes de se consolidarem. Por isso, o debate atual não deve se limitar à pergunta sobre quanto custa reduzir a jornada. É igualmente necessário perguntar quanto custa, para a sociedade, manter milhões de pessoas submetidas a rotinas exaustivas.

Há também uma dimensão que os números econômicos dificilmente conseguem traduzir. Tempo livre não é desperdício. É convivência familiar, participação comunitária, formação profissional, cultura, saúde e cidadania. Um país que discute a redução da jornada está discutindo, no fundo, que lugar deseja o trabalho deve ocupar na vida das pessoas.

O segundo turno das eleições tornou essa discussão ainda mais visível. Lula e Flávio Bolsonaro apresentam caminhos diferentes para uma questão que afeta diretamente milhões de brasileiros. Cabe examinar não apenas as promessas, mas também o conteúdo das propostas, seus mecanismos de proteção e seus possíveis efeitos sobre salários, direitos e condições de trabalho.

Como trabalhador e dirigente sindical, considero indispensável que qualquer mudança na legislação tenha como ponto de partida a valorização do trabalho, o fortalecimento da negociação coletiva e a garantia de que os avanços econômicos sejam acompanhados por avanços sociais.

O Brasil precisa discutir como produzir riqueza, gerar empregos e fortalecer suas empresas. Mas precisa, com a mesma seriedade, discutir como garantir que trabalhadores e trabalhadoras tenham tempo e condições para usufruir da vida que ajudam a construir.

Porque trabalhar é parte da vida. Não pode ser a vida inteira.

 

Fonte: Por Julimar Roberto, em Brasil 247

 

Tesouraço de Flávio pode ser mortal para o SUS

Uma matéria do jornal Folha de S.Paulo, publicada nesta quarta-feira (7), mostra um apanhado das medidas que a equipe econômica do candidato à Presidência da República Flávio Bolsonaro (PL) tem prometido à Faria Lima em um eventual governo. A meta seria realizar um ajuste inicial da ordem de 2% do PIB, o equivalente a cerca de R$ 250 bilhões.

Entre as iniciativas listadas para alcançar essa meta estão a desvinculação dos reajustes da Previdência Social e do Benefício de Prestação Continuada (BPC) do salário mínimo, podendo receber abaixo do valor que o governo considera o básico para sobreviver. Também estaria nos planos o fim dos pisos constitucionais que estabelecem a obrigatoriedade de investimentos na Saúde e na Educação.

Oficialmente, o candidato nega. “Vocês (aposentados) vão ter reajuste, sim, acima da inflação das suas aposentadorias, que é uma coisa sagrada”, disse nesta quinta-feira (8). O que ele considera “sagrado” não foi respeitado durante o governo do pai, Jair Bolsonaro, que apenas repôs a inflação do salário mínimo e das aposentadorias, sem nunca ter dado aumento real. A fala também contrasta com o que disse o coordenador de campanha do candidato do PL em uma entrevista concedida em março. “O modelo está estourando. Só posso dizer que a gente vai ter que revisitar a Previdência”, disse o senador Rogério Marinho (PL-RN).

Mas o que significaria um corte da magnitude de 2% do PIB para a Saúde? Para a médica, professora titular da UFRJ e coordenadora do Grupo de Pesquisa e Documentação sobre Empresariamento da Saúde, Ligia Bahia, o programa de Flávio é uma “fake news” pelo fato de ser impossível compatibilizar tamanhos cortes no orçamento com a promessa de melhorar o Sistema Único de Saúde (SUS).

Ela destaca que, diante de um quadro de restrição orçamentária na área, seria pouco provável que o ministro anunciado por Flávio para comandar a pasta, o médico oftalmologista e presidente licenciado do Conselho Deliberativo do Hospital Israelita Albert Einstein, Cláudio Lottenberg, assumisse o ministério. “O que a gente acha, e já posso antecipar, é que ele vai governar com militares, tal como o pai fez com o Pazuello”, aponta, lembrando o titular do Ministério da Saúde que comandou as ações da área durante parte da pandemia de covid-19. “Acho que ninguém com algum prestígio na área da saúde toparia ser ministro com esse grau de corte de gastos.”

Risco para as políticas sociais

O presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco), Rômulo Paes de Sousa, chama a atenção para o fato de Flávio Bolsonaro não ter deixado explícito o que vai fazer na economia em seu plano de governo, que tem generalidades como o uso da expressão “tesouraço” sem especificar onde os cortes serão feitos de fato.

“Parte de suas declarações parece contradizer o que outros interlocutores ligados a ele disseram a determinados setores econômicos. O que se percebe é o improviso na definição das medidas, enquanto diferentes setores disputam a agenda do candidato. Ele é um candidato que mobiliza interesse, mas não apresenta um projeto claro para o Brasil nem um compromisso com uma proposta consistente de desenvolvimento econômico e social”, pontua.

Para Paes de Sousa, embora não haja um detalhamento, a trajetória do senador e de seu grupo sinaliza uma direção. “No entanto, o histórico político do candidato e das forças que o apoiam aponta para uma alocação de recursos que favorece principalmente os segmentos mais ricos da população. No fundo, essa é a grande questão em disputa neste debate eleitoral: a quem o Estado brasileiro vai servir, dependendo de quem vencer”, afirma.

“O que o candidato parece sugerir é que, em caso de vitória, haverá uma forte restrição das políticas sociais, com cortes concentrados principalmente nessa área”, destaca. “Na prática, isso significa menos atendimento em saúde, menos universidades, menos escolas públicas e menos proteção social, incluindo uma previdência mais restrita. E não se trata apenas de reduzir o valor das aposentadorias ou dos benefícios assistenciais, mas também de dificultar o acesso a eles.”

O presidente da Abrasco alerta que o eleitor “precisa estar atento aos próprios interesses”, afirmando que uma candidatura como a de Flávio não parece ecoar as expectativas da maioria da população, e sim as de uma minoria que recebe isenções, desde contribuições previdenciárias até diferentes benefícios tributários.

“É uma agenda em que os recursos do Estado seriam ainda mais capturados por uma elite econômica que o próprio candidato diz combater. Uma característica dos grupos de extrema direita, como o que o candidato representa no Brasil, é apresentar-se como popular, preocupado com o país e capaz de resolver seus problemas”, explica. “Na prática, porém, a confusão entre as declarações de seus diversos interlocutores parece apontar para uma agenda em que a maioria da população brasileira perde. E perde muito.”

O fantasma do teto de gastos e o desfinanciamento do SUS

“As medidas fiscais previstas pela equipe do candidato Flávio Bolsonaro, conforme registradas na matéria da Folha, representam um ataque frontal ao Sistema Único de Saúde (SUS)”, diz a economista da Associação Brasileira de Estudos de Saúde (ABrES), Mariana Alves Melo. “Já vimos algo semelhante acontecer. Em 2016, com a promulgação da Emenda Constitucional nº 95, conhecida como teto de gastos, o piso federal do SUS foi congelado nos valores de 2017.”

Mariana lembra que esse congelamento provocou um período de desfinanciamento da saúde pública no Brasil: a cada ano, havia menos recursos para manter o SUS. “Isso ocorreu justamente quando a população envelhecia, crescia a necessidade de incorporar tecnologias e medicamentos para melhorar os resultados em saúde e se faziam sentir os efeitos das mudanças climáticas sobre as condições de saúde da população. Entre 2017 e 2022, a perda acumulada foi de aproximadamente R$ 60 bilhões.”

O período crítico para a área só começou a ser revertido com a PEC da Transição, promulgada no final de 2022, após a eleição do governo Lula, que permitiu investimentos fora do teto de gastos para 2023 e determinou a criação de um novo regime fiscal.

“A medida teve um efeito importante sobre os recursos disponíveis para o SUS naquele ano. A proposta orçamentária elaborada ainda pelo governo Bolsonaro previa cortes de aproximadamente 50% a 60% em políticas já consolidadas, o que poderia levar à sua descontinuidade. Entre elas estavam políticas de provimento médico, como o Programa Médicos pelo Brasil, iniciativas capilares, como o Farmácia Popular, e as políticas de saúde indígena”, recorda.

Embora o Arcabouço Fiscal não tenha estabelecido o regime considerado necessário e desejável para o SUS, ele não desvinculou o piso da Saúde do mínimo constitucional, lembra a economista. “Com a extinção dos efeitos da Emenda Constitucional nº 95, o piso federal voltou a corresponder a 15% da receita corrente líquida. Como resultado, entre 2023 e 2025, houve um incremento nominal de aproximadamente R$ 165 bilhões nos recursos do SUS.”

As medidas prometidas pela equipe econômica de Flávio Bolsonaro à Faria Lima, segundo Mariana, representariam uma volta atrás, alinhando-se ao antigo Teto de Gastos estabelecido no governo Temer e mantido por Jair Bolsonaro. “Se os recursos do SUS forem congelados e corrigidos apenas pela inflação, não será possível atender às novas demandas que recaem sobre o sistema. Entre elas estão os efeitos das mudanças climáticas, novas pandemias e epidemias e os avanços tecnológicos, necessários para ampliar o acesso e tornar o sistema mais eficiente, adverte.

“Uma medida como essa, anunciada pelo candidato Flávio Bolsonaro, provocaria um novo período de retrocesso na implementação do direito universal à saúde. Teríamos perdas, piores resultados em saúde, descontinuidade de políticas e interrupção dos avanços recentes”, sustenta.

Além do impacto direto na saúde pública, a economista ressalta os efeitos que os cortes na área teriam sobre a própria economia. “O SUS é a maior política do Estado brasileiro e uma das que mais promovem distribuição de renda. O gasto público tem efeito multiplicador: quando o Estado investe no SUS e amplia a oferta e a diversidade de serviços, também movimenta a economia, gera renda e empregos e aumenta o retorno em tributos e impostos”, define.

“Por isso, os efeitos de uma medida fiscal dessa magnitude, anunciada pelo candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, seriam negativos não só para as condições de saúde da população, mas também para o próprio ciclo econômico”, conclui.

 

Fonte: Por Glauco Faria, em Outra Saúde

 

Brasil: O que une os ricos decadentes e os pobres ressentidos

No início dos anos 1990, Jorge Aragão lançou Identidade, samba que começava com os seguintes versos:

Exemplo pra minar teu sono
Sai desse compromisso
Não vai no de serviço
Se o social tem dono, não vai

Era, antes de tudo, uma canção sobre racismo e identidade negra, mas a imagem do elevador captava algo mais amplo sobre a sociedade brasileira: lugares não servem apenas para acomodar pessoas; também dizem quem pode estar onde, ao lado de quem e em que condições. Mais de três décadas depois, parte daquilo que a canção reivindicava foi alcançada, sem que as hierarquias denunciadas por Aragão tenham desaparecido. Universidades se expandiram, o transporte aéreo se popularizou, direitos do trabalho doméstico foram ampliados e grupos historicamente mantidos em posições subalternizadas conquistaram maior presença e reconhecimento em espaços antes muito mais fechados. Em alguma medida, o elevador começou a parar em andares onde antes não parava.

O elevador social não precisa descer para produzir ressentimento. Basta que comece a parar em andares onde antes não parava.

Durante muito tempo, certas posições sociais funcionaram exatamente porque eram posições de distância. Viajar de avião, ter uma empregada doméstica, entrar numa universidade, possuir determinado diploma, consumir certos bens, frequentar determinados lugares: nada disso vale apenas pelo conforto, pelo conhecimento ou pela utilidade que oferece. Vale também porque distingue.

O problema começa quando aquilo que me distinguia passa a estar ao alcance de outros. Nesse momento, uma coisa curiosa pode acontecer: continuo no mesmo andar — às vezes até subo um pouco —, mas tenho a sensação de estar descendo.

Talvez esteja aí um dos pontos cegos de parte do debate recente sobre economia e voto no Brasil.

Em artigo publicado neste Outras Palavras, em 23 de setembro de 2026, Marcelo Phintener parte de um paradoxo importante. Os indicadores econômicos melhoram, o desemprego cai, a renda cresce e políticas sociais são recompostas, mas essa melhora não se converte automaticamente em apoio eleitoral ao governo. Sua resposta procura sair das planilhas: comida cara, deslocamentos exaustivos, informalidade, ausência de direitos e precarização continuam compondo a experiência cotidiana de milhões de trabalhadores.

Há muito de correto nesse diagnóstico. Seria absurdo imaginar que alguns décimos a menos na inflação ou algumas casas decimais a mais no rendimento médio apareçam imediatamente na consciência do trabalhador como aparecem numa tabela do IBGE. Phintener vai além. Chama atenção para as transformações subjetivas produzidas pelo mundo do trabalho e termina tratando o voto como juízo simbólico, atravessado por sofrimento, desconfiança e identificação. Ele próprio, portanto, empurra a discussão para além do cálculo utilitário.

Se o voto é também identificação, cabe perguntar não apenas por que a melhora econômica encontra dificuldades para chegar ao eleitor, mas por que esperamos que ela desfaça identidades políticas já constituídas.

Desfiamos um rosário de bons indicadores — emprego, renda, salário mínimo, consumo, programas sociais — e esperamos que, em algum ponto dessa sequência, os votos apareçam. Quando não aparecem, começamos a procurar onde a engrenagem falhou: o eleitor não percebeu a melhora, o preço dos alimentos anulou o ganho salarial, a comunicação foi ruim, a precarização neutralizou a recuperação. Tudo isso pode ser verdade, mas talvez o problema esteja também em outro lugar: as pessoas podem ter percebido que sua situação melhorou sem que isso altere a maneira como percebem sua posição social. Porque estar melhor não é a mesma coisa que estar acima.

<><> Dois passageiros no mesmo elevador

Há, contudo, dois processos que podem caminhar politicamente juntos sem atingir necessariamente as mesmas pessoas.

De um lado está o trabalhador de que fala Phintener: pode ter recuperado renda, talvez esteja empregado, mas continua submetido a jornadas extensas, informalidade, aplicativos e transferência individual dos riscos do trabalho. Para ele, a questão central pode não ser a perda de uma posição privilegiada, mas a forma pela qual interpreta a própria ascensão ou sobrevivência. A gramática do empreendedor de si oferece uma resposta poderosa: se melhorei, foi por meu esforço; se todos melhoraram, preciso continuar correndo para chegar à frente.

De outro lado estão aqueles para quem processos de democratização reduziram distâncias antes tomadas como naturais. Não precisam ter empobrecido e, às vezes, não perderam um centavo. O que percebem ameaçado é sua posição relativa.

Um mecanismo fala da subjetivação de quem procura subir; o outro, da reação de quem olha para baixo e percebe os outros se aproximando. São processos distintos, mas não necessariamente experiências de pessoas diferentes: podem coexistir num mesmo indivíduo e reforçar-se mutuamente. A questão é compreender como demandas e afetos diversos, distribuídos entre grupos distintos ou combinados na experiência de uma mesma pessoa, podem ser articulados numa mesma formação política.

<><> O que as planilhas não medem

Sociedades não são formadas por indivíduos carregando cestas isoladas de bens e comparando apenas aquilo que possuíam ontem com aquilo que possuem hoje. Elas são feitas de relações, hierarquias, comparações e distâncias.

Weber sabia disso ao distinguir classes e estamentos. Bourdieu transformou essa intuição numa sociologia inteira da distinção. Certos bens importam pelo que permitem fazer; importam também porque sua distribuição diz alguma coisa sobre quem somos em relação aos outros.

Desta forma, uma sociedade pode ficar mais rica sem que todos se sintam socialmente mais valorizados. Pode inclusive reduzir desigualdades e, exatamente por isso, produzir desconforto entre aqueles que experimentavam determinadas distâncias como naturais.

Seria fácil amontoar exemplos brasileiros. Quando a universidade se expande, o diploma continua valendo, mas pode perder parte de sua capacidade de demarcar mundos sociais. Quando o transporte aéreo se populariza, o avião continua chegando ao mesmo destino, mas o aeroporto deixa de funcionar da mesma maneira como marcador de exclusividade. Quando direitos do trabalho doméstico são ampliados — como ocorreu com a Emenda Constitucional 72, de 2013, e depois com a Lei Complementar 150, de 2015 —, há uma mudança material evidente para as trabalhadoras, mas também uma alteração numa relação historicamente marcada por enormes assimetrias sociais. Da mesma forma, quando negros, mulheres, pessoas LGBTQIA+ ou outros grupos antes mantidos em posições subalternizadas passam a reivindicar reconhecimento, ninguém precisa perder formalmente um direito para experimentar a mudança como perda de centralidade.

Uma política de inclusão pode, assim, produzir uma experiência paradoxal: ganhos absolutos convivem com perdas relativas de posição; o elevador sobe, mas fica mais cheio.

Essa hipótese tem aparecido com força na literatura sobre as novas direitas. Noam Gidron e Peter Hall propõem olhar para o status social — reconhecimento, respeito e lugar percebido na hierarquia — como uma dobradiça entre transformações econômicas e culturais. Ao recusar a oposição simples entre “economia” e “cultura”, mostram como mudanças materiais alteram posições e expectativas, enquanto transformações culturais modificam aquilo que conta como reconhecimento e prestígio.

Nos Estados Unidos, Diana Mutz, utilizando dados em painel de 2012 e 2016, interpretou mudanças nas preferências por candidatos como mais compatíveis com ameaça ao status de grupos dominantes do que com dificuldades econômicas individuais. O resultado ganhou enorme repercussão, mas foi contestado. Stephen Morgan, reanalisando os mesmos dados, argumentou que algumas das medidas classificadas por Mutz como ameaça de status — especialmente as relativas a comércio e China — também podem expressar interesses materiais e concluiu que os dados em painel são compatíveis com interesses econômicos pelo menos tão importantes quanto a ameaça de status. Mutz respondeu; Morgan replicou. A controvérsia nos mostra que, posição, identidade e interesses materiais podem andar juntos de tal forma que separá-los como explicações concorrentes termina empobrecendo o problema.

Ashley Jardina, por outra trilha, mostrou como a identidade branca pode tornar-se politicamente saliente quando integrantes de um grupo historicamente dominante percebem mudanças em sua posição. Brian Schaffner, Matthew MacWilliams e Tatishe Nteta encontraram, entre eleitores brancos na eleição norte-americana de 2016, forte associação entre atitudes raciais, sexismo e voto, relativizando explicações assentadas exclusivamente na insegurança econômica.

Nada disso pode ser transportado mecanicamente para o Brasil. Nossa história racial, nosso sistema partidário e nossas hierarquias são outros. Ainda assim, a pergunta atravessa as duas sociedades: o que acontece quando grupos acostumados a determinada posição passam a perceber que a distância que os separava dos demais está diminuindo?

Em “À Espera dos Bárbaros: neoliberalismo, antagonismo e a construção discursiva do masculinismo evangélico no Brasil”, escrito por mim com TiagoMorais e Mayra Goulart, já havíamos recorrido a essa literatura para pensar como perda percebida de status, ressentimentos raciais e de gênero e inseguranças materiais podem ser traduzidos em antagonismos culturais.

Quando o outro sobe

Em “‘Os humilhados serão exaltados’: ressentimento e adesão evangélica ao bolsonarismo”, escrito com Mayra Goulart e Paula Frias, argumentamos que o ressentimento funciona como afeto catalisador dos vínculos de identificação entre Bolsonaro e parcelas importantes de seu eleitorado, especialmente o evangélico.

Ali já observávamos algo que interessa diretamente ao argumento deste ensaio. As políticas de inclusão dos governos petistas não apenas satisfizeram demandas. Ao atender algumas delas, produziram outras, deslocaram posições e desorganizaram distinções sobre as quais relações sociais haviam repousado por muito tempo.

Isso não significa que toda redução da desigualdade produza ressentimento, tampouco que pessoas que melhoram de vida se tornem conservadoras porque outras também melhoraram. A questão é relacional: o ressentimento pode emergir não apenas quando alguém perde alguma coisa, mas quando a ascensão de outro altera o significado daquilo que ele próprio possui.

Posso conservar minha renda e ver minha posição relativa diminuir; continuar tendo acesso a determinado bem, mas perder o monopólio simbólico que ele me proporcionava; não perder autoridade formal alguma e, ainda assim, experimentar como afronta que alguém que deveria, segundo minhas expectativas, ocupar uma posição subordinada passe a falar comigo como igual.

Talvez uma das dificuldades das políticas redistributivas esteja aí. Elas conseguem medir razoavelmente quanto alguém ganhou, mas têm muito mais dificuldade para medir quanto alguém acredita ter perdido quando os outros também ganham. É nessa fresta que o ressentimento cresce, pois não é necessário que o elevador desça; basta olhar para o lado e encontrar ali alguém que, no mapa social aprendido desde a infância, deveria estar alguns andares abaixo.

<><> O antipetismo dá um nome

Ressentimentos, contudo, não chegam sozinhos às urnas, nem possuem número de legenda. Entre uma experiência difusa de deslocamento e uma identidade política existe um trabalho de tradução.

Em Partisans, Antipartisans, and Nonpartisans, publicado em 2018, David Samuels e Cesar Zucco mostraram que, numa democracia frequentemente descrita como marcada por fraca identificação partidária, boa parte das atitudes partidárias positivas e negativas organizou-se em torno de um único partido: o PT. De um lado, o petismo; de outro, uma identidade negativa relativamente consistente, o antipetismo.

Antes de 2018, idade, gênero, escolaridade, religiosidade, classe social, raça, ideologia esquerda-direita e divisão urbano-rural não distinguiam petistas de antipetistas ou o faziam apenas minimamente. Isso impede que se reconte retrospectivamente toda a história do antipetismo como reação automática de determinada classe, grupo religioso ou posição de status. Trata-se de uma identidade política sedimentada ao longo do tempo, com uma história que não se deixa reduzir a uma única clivagem social.

Mais recentemente, Samuels, Fernando Mello e Cesar Zucco avançaram sobre essa questão. No working paper “Polarization and Perceptions of Status Gain and Loss: The Case of Brazil”, construído a partir de survey nacional, a evidência aponta que percepções de ganho de status — tanto pessoal quanto do grupo ao qual o indivíduo sente pertencer, as “pessoas como eu” — aparecem associadas à identificação com o PT. Percepções de perda de status, por sua vez, aparecem associadas à oposição ao partido. A relação é relevante, mas não permite concluir que a ameaça de status seja uma causa geral do antipetismo.

Já em “Partisan Stereotyping and Polarization in Brazil”, Samuels, Mello e Zucco mostram algo importante: o antipetismo antecede Bolsonaro e cresceu ao lado do PT desde os anos 1980. Os antipetistas, em geral, não possuíam outra legenda como grupo positivo de pertencimento; constituíam-se por uma identificação partidária negativa. Bolsonaro não criou o antipetismo nem conseguiu reuni-lo sob uma nova bandeira partidária.

O ressentimento não produz mecanicamente antipetismo, e o antipetismo tampouco é sinônimo de ameaça de status. Uma vez sedimentado, porém, pode oferecer uma gramática capaz de organizar experiências que não nasceram necessariamente partidárias.

O desconforto diante das cotas, a reação a políticas de gênero, a irritação com programas redistributivos, a sensação de que “há direitos demais”, a rejeição aos sindicatos, o medo de perder autoridade na família, a crítica à corrupção: essas coisas não são idênticas e não possuem uma origem comum. Precisam ser articuladas para andar juntas; nesse movimento, o antipetismo fornece um nome político para parte delas.

<><> Bolsonaro oferece um “nós” — mas não um novo partido

Uma identidade fundada apenas na rejeição carrega, porém, uma insuficiência. Saber quem rejeitamos não responde completamente à pergunta sobre quem somos.

Quando Bolsonaro apareceu como candidato competitivo em 2018, muitas das peças já estavam sobre a mesa: antipetismo, conservadorismo moral, punitivismo, discursos religiosos, ressentimentos sociais, anticomunismo, desconfiança institucional, masculinismo e uma linguagem neoliberal de responsabilização individual. Sua força política esteve em amarrá-las.

Samuels, Mello e Zucco observam que Bolsonaro não transformou os antipetistas num novo grupo partidário positivo. Suas campanhas presidenciais atraíram também grande contingente de eleitores sem identificação partidária. Pode haver identificação com um líder e com uma comunidade política sem que isso se traduza em partidarismo tradicional.

Essa forma de identificação encontra em Freud uma formulação clássica.

<><> O que Freud tem a ver com as planilhas

Em Psicologia das massas e análise do Eu, de 1921, Freud procura compreender por que indivíduos reunidos em grupos comportam-se de maneiras que não podem ser explicadas simplesmente pela soma de suas decisões isoladas. O elemento central de sua resposta são os vínculos libidinais e a identificação.

A referência a Freud não implica diagnosticar eleitores nem converter escolha política em patologia. Interessa aqui sua análise dos vínculos de pertencimento. O sujeito investe afetivamente no grupo, em seus símbolos, palavras, rituais e naquele que ocupa a posição de liderança. A identificação entre aqueles que partilham esse investimento e a relação com o líder reforçam-se mutuamente.

Essa dimensão já atravessava outros trabalhos, nos quais o ressentimento aparecia como um afeto capaz de sustentar vínculos de identificação.

Laclau leva esse problema para o terreno da política. O líder não é apenas porta-voz de interesses previamente constituídos. A própria construção do “povo” depende da articulação de demandas inicialmente heterogêneas, que passam a reconhecer-se como parte de um mesmo campo.

Visto por esse ângulo, Bolsonaro fez mais que receber votos antipetistas. Deu corpo político a afetos e demandas que não se esgotavam no antipetismo, produzindo gestos, bordões, símbolos, inimigos e formas de reconhecimento mútuo que permitem dizer “nós” sem necessariamente dizer “somos do mesmo partido”.

Constituído nesses termos, o vínculo pode sobreviver a frustrações materiais. Esperar que algumas casas decimais de inflação, desemprego ou crescimento desfaçam automaticamente uma identificação desse tipo talvez seja pedir às planilhas uma tarefa para a qual nunca foram feitas.

<><> Se todos subiram, quem venceu?

Nem todo apoio à direita precisa nascer de uma tentativa de preservar privilégios ameaçados. O trabalhador precarizado de Phintener está em outra posição e, muitas vezes, quer subir.

Para esse trabalhador, a subjetividade neoliberal oferece outra gramática. O empreendedor de si não procura somente estabilidade; precisa vencer. Sua gramática é relacional: mérito e fracasso, vencedores e perdedores, fortes e fracos. Nesse universo, uma política que melhora a situação de todos pode ser valorizada materialmente sem produzir aquilo que a competição promete simbolicamente.

O bolsonarismo pode articular essas duas experiências distintas. Àquele que teme perder distância, pode oferecer a promessa de restauração de hierarquias; àquele que procura subir, pode oferecer a linguagem do mérito, da autonomia, do esforço individual e da vitória sobre aqueles apresentados como dependentes.

Um olha para baixo e teme que os outros se aproximem; o outro olha para cima e quer provar que merece chegar lá. Não são as mesmas pessoas e não precisam ter os mesmos interesses. A política começa quando se consegue fazê-las caminhar juntas.

<><> Talvez as planilhas estejam certas

Phintener mostra que indicadores macroeconômicos não são vividos como tabelas e que a precariedade produz formas específicas de subjetividade. Ao afirmar que o voto é identitário e simbólico, abre caminho para o problema que examinamos.

A diferença está na ênfase e no mecanismo. Mesmo quando a melhora econômica chega, ela pode não bastar.

Entre renda e voto existe uma sociedade, na qual indivíduos se comparam, procuram reconhecimento e ocupam posições relativas. Entre essas posições e o voto existe a política, capaz de nomear experiências distintas, construir antagonismos e articular demandas. E entre a política e a duração de uma identidade existe, ainda, o afeto.

O antipetismo oferece uma identidade negativa sedimentada ao longo de décadas. Bolsonaro não a inventou nem a converteu simplesmente num novo partidarismo, mas sua liderança pôde articulá-la a outras demandas e oferecer a parcelas distintas do eleitorado formas de pertencimento e reconhecimento.

Talvez a pergunta precise ser invertida. Em lugar de perguntarmos apenas por que alguém que melhorou de vida não recompensa eleitoralmente quem governa, deveríamos perguntar o que significa “melhorar” numa sociedade em que o valor de tantas coisas depende também da distância que elas permitem manter — ou vencer — em relação aos outros.

As planilhas contam aquilo que as pessoas têm; a política é feita também daquilo que elas acreditam ser em relação às outras.

O elevador social não precisa descer para que alguém experimente a sensação de queda.

Para quem aprendeu a reconhecer a própria posição olhando para baixo, às vezes basta que os outros comecem a subir.

 

Fonte: Por Paulo Gracino Junior, em Outras Palavras