quarta-feira, 9 de setembro de 2026

Pós-verdade: quando a verdade perde o poder de convencimento

Você recebe uma informação, procura a origem e encontra documentos, reportagens ou checagens mostrando que ela é falsa. Ainda assim, quem compartilhou continua acreditando nela. Em alguns casos, o desmentimento chega, mas a narrativa permanece circulando.

Esse cenário está no centro do debate sobre pós-verdade. O conceito ajuda a explicar situações em que emoções, crenças pessoais e identidades políticas interferem no peso atribuído aos fatos. As redes sociais ampliaram a velocidade e o alcance dessas disputas, enquanto algoritmos e modelos de negócio baseados em atenção passaram a interferir no que ganha visibilidade.

A tecnologia, porém, explica apenas parte do processo. Pós-verdade também envolve confiança, pertencimento, polarização, interesses políticos e a maneira como as pessoas interpretam informações que confirmam ou confrontam suas convicções.

<><> O que é pós-verdade e como o conceito surgiu?

A definição mais conhecida de pós-verdade ganhou projeção em 2016, quando o Dicionário Oxford escolheu post-truth como palavra do ano. A expressão descreve circunstâncias em que fatos objetivos exercem menos influência sobre a opinião pública do que apelos à emoção e às crenças pessoais.

A pós-verdade não descreve uma sociedade sem fatos. Ela trata de situações em que evidências verificáveis perdem capacidade de persuasão diante de crenças já estabelecidas.

Fatos e acontecimentos ocupam um lugar específico na política porque decisões coletivas dependem de referências sobre o que aconteceu. Ao mesmo tempo, a mentira acompanha disputas políticas há séculos.

<><> Crenças e emoções interferem na força dos fatos

A forma como você recebe uma informação depende também de quem a transmite, das referências anteriores que possui e do grupo social ou político com o qual se identifica. Condições sociais, históricas e ideológicas participam da interpretação. Nesse processo, as pessoas podem favorecer informações que reforçam posições anteriores.

Esse comportamento se aproxima do viés de confirmação, tendência de buscar ou valorizar informações compatíveis com crenças anteriores. Em contextos de polarização, conteúdos falsos também podem reforçar posições políticas já estabelecidas.

Também existe um componente de pertencimento. Uma narrativa política pode funcionar como marcador de identidade: compartilhá-la ou defendê-la ajuda a demonstrar proximidade com determinado grupo. Por isso, apresentar um dado correto pode ser insuficiente para alterar uma convicção. A discussão envolve também confiança na fonte, identificação política e reconhecimento social da narrativa.

<><> Pós-verdade, mentira, fake news e desinformação

Os termos costumam aparecer juntos, mas cumprem funções diferentes. Uma mentira é uma afirmação falsa. Fake news são conteúdos fabricados com aparência informativa para enganar ou influenciar. A desinformação tem alcance mais amplo e pode envolver vídeos, imagens, declarações, conteúdos falsos ou informações verdadeiras retiradas de contexto.

O Tribunal Superior Eleitoral explica que fake news representam apenas uma parte da desinformação. A pós-verdade é definida como o contexto em que emoções e crenças pessoais ganham mais peso na formação de opiniões.

Já a propaganda busca promover uma posição política, causa ou grupo. Ela pode trabalhar com fatos, interpretações, recortes da realidade ou informações falsas. Em contextos de guerra cultural, propaganda e desinformação podem se combinar em narrativas que exploram medo, antagonismos e construção de inimigos políticos.

<><> A pós-verdade antes das redes sociais

Mentiras políticas e boatos não começaram nas redes sociais. Exemplos disso são teorias conspiratórias sobre a chegada do homem à Lua, em 1969, e versões falsas sobre a morte de Tancredo Neves, em 1985. Práticas como essa atravessam diferentes momentos da história brasileira.

O ambiente digital modificou principalmente a velocidade, alcance e segmentação. Uma mensagem pode chegar a milhões de pessoas e ser direcionada a grupos definidos por interesses, comportamentos e perfis.

Além disso, a produção de informação deixou de estar concentrada em jornais, rádios e emissoras. Qualquer pessoa conectada pode produzir conteúdo para grandes audiências, o que também altera a relação entre público, jornalismo e credibilidade.

<><> Algoritmos e economia da atenção interferem no que ganha visibilidade

A quantidade de conteúdo disponível criou outra disputa: conseguir que alguém pare para olhar. A difusão da internet transferiu parte do problema da distribuição para a disputa pela atenção.

No modelo das plataformas, visualizações, comentários e compartilhamentos produzem dados e valor econômico. Sistemas automatizados organizam o fluxo de conteúdos e ajudam a direcionar publicidade para públicos específicos.

Isso conecta a pós-verdade à economia da atenção. Conteúdos capazes de provocar reação competem por espaço com jornalismo, entretenimento, publicidade e mensagens pessoais.

Nesse ambiente, a velocidade também interfere na forma como as informações circulam. Conteúdos podem ser compartilhados antes que o usuário verifique sua veracidade, enquanto publicações capazes de despertar reações imediatas encontram espaço para se espalhar rapidamente.

<><> Bolhas informacionais reforçam crenças e grupos

Nas redes sociais, sistemas de personalização podem contribuir para a formação das chamadas bolhas de filtro, ambientes digitais em que conteúdos são selecionados de acordo com o comportamento e os interesses de cada usuário. Buscas, cliques e interações ajudam a definir o que aparece com maior frequência, favorecendo a exposição recorrente a determinados assuntos e perspectivas.

Nesse processo, conteúdos semelhantes aos que já despertaram interesse tendem a aparecer novamente. Essa personalização pode diminuir o contato com perspectivas diferentes e criar um ambiente informacional que reforça preferências anteriores.

Grupos conectados também podem construir repertórios próprios para interpretar críticas, contestar fontes externas e preservar determinada visão política. Nesse processo, polarização, confiança e identidade ajudam a explicar por que uma correção factual pode chegar ao usuário sem produzir mudança de opinião.

<><> A pós-verdade ganha outro peso em períodos eleitorais

Eleições concentram disputas pela opinião pública, o que torna a circulação de desinformação um problema também para a integridade do processo eleitoral.

Após as eleições de 2018, o Tribunal Superior Eleitoral criou, em 2019, o Programa de Enfrentamento à Desinformação, reunindo órgãos públicos, instituições de pesquisa, organizações da sociedade civil, agências de checagem e plataformas digitais. A iniciativa buscava identificar informações falsas sobre as eleições, ampliar o acesso a conteúdos verificados e desenvolver ações de educação midiática.

A inteligência artificial acrescentou novas possibilidades de manipulação desse ambiente. Em abril de 2026, vídeos gerados por IA que simulavam agressões entre pessoas identificadas com campos políticos diferentes alcançaram milhões de visualizações nas redes sociais. As cenas reproduziam a estética de gravações feitas por celular e apresentavam acontecimentos inexistentes como se fossem flagrantes reais.

A aparência de registro espontâneo aumenta a dificuldade de identificar a manipulação em uma primeira visualização. Nesse tipo de conteúdo, indignação, medo e identificação política podem estimular o compartilhamento, enquanto a verificação ocorre posteriormente, quando o material já circulou entre diferentes públicos.

<><> O enfrentamento à pós-verdade passa pela informação

Checar fatos continua sendo parte da resposta, mas correções isoladas têm alcance limitado diante de processos que envolvem identidade, confiança, atenção e polarização. Por isso, o TSE incorporou à sua estratégia ações para ensinar cidadãos a compreender os mecanismos da desinformação, reconhecer sinais de manipulação, avaliar fontes e conhecer formas de denúncia.

O enfrentamento à pós-verdade passa também pela transparência dos sistemas algorítmicos, pela responsabilidade das plataformas, pelo fortalecimento do jornalismo e pela formação crítica para o consumo de informação. São caminhos que ampliam as condições para que cada pessoa consiga distinguir evidências, interpretações e tentativas de manipulação.

A democracia convive com divergências sobre projetos, interesses e escolhas políticas. O problema se aprofunda quando a disputa alcança os próprios fatos que sustentam essas posições. Sem referências verificáveis, o debate público perde uma base comum para discutir decisões que afetam toda a sociedade.

Preservar esse espaço comum não significa eliminar conflitos ou produzir consenso. Significa garantir que diferentes visões de mundo possam disputar caminhos a partir de fatos que possam ser verificados, questionados e corrigidos. Em um ambiente de informação permanente, fortalecer essa capacidade também é fortalecer as condições para que escolhas políticas sejam feitas com mais autonomia e consciência.

¨      Dez anos de crises e uma República que ainda não encontrou seus limites. Por Cleber Lourenço

O mais assustador na crise que tomou conta do Supremo nesta semana não é descobrir quem está certo. É perceber que todas as respostas parecem ruins.

André Mendonça deve continuar à frente do caso Master? Há motivos para questionar sua permanência. Deve sair? Quem assume? Em quais condições? Trocar o relator resolve o problema ou apenas muda seu endereço? Inclusive, esse é um questionamento que também assombra o presidente da corte, o ministro Edson Fachin.

Não há resposta confortável porque quase ninguém chegou até aqui fazendo tudo certo.

Mendonça levanta questões que precisam ser respondidas, mas sua atuação é questionada pela Polícia Federal e pela PGR. Alexandre de Moraes tinha o direito de reagir ao que considerou irregular, mas recorreu ao inquérito das fake news, aberto em 2019 e ainda vivo sete anos depois, para pedir providências contra outro ministro do STF. Edson Fachin agora tenta organizar o trânsito depois que todo mundo resolveu avançar o sinal.

É erro em cima de erro.

O Brasil institucional dos últimos dez anos cabe razoavelmente bem nessa frase.

A crise atual é resultado de uma mania que se consolidou nesse período: diante de uma situação excepcional, alguma autoridade conclui que também ganhou poderes excepcionais.

Um avança cinco centímetros. O seguinte avança dez. O próximo percebe que ninguém o impediu e atravessa a rua inteira. Quando damos conta, ninguém mais sabe onde termina a prerrogativa de um e começa a do outro.

Dois fenômenos aceleraram essa degradação: a Lava Jato e Jair Bolsonaro.

A Lava Jato não inventou o abuso de poder no Brasil. Seria dar crédito demais a Curitiba. Mas ajudou a transformar excepcionalidade em virtude.

Em nome do combate à corrupção, métodos questionáveis foram tolerados porque a causa era considerada nobre. Procuradores descobriram o prazer de fazer política sem precisar disputar eleição. Sergio Moro deixou de ser apenas juiz, virou personagem nacional e terminou ministro justamente do governo beneficiado eleitoralmente pelo ambiente produzido pela operação.

Tudo muito republicano, evidentemente.

A política saiu daquele período devastada. Dilma Rousseff sofreu impeachment. Michel Temer assumiu uma Presidência fragilizada e governou sob duas denúncias criminais. Lula foi preso. O sistema político perdeu legitimidade.

Nesse terreno apareceu Bolsonaro.

Ele não inventou a fragilidade institucional brasileira. Apenas percebeu que haviam deixado a porta aberta.

Durante quatro anos, atacou o Supremo, colocou as urnas sob suspeita, estimulou manifestações contra outros Poderes, anunciou que não cumpriria decisões de Alexandre de Moraes e levou novamente as Forças Armadas para o centro da política. Seu governo terminou numa tentativa de impedir a continuidade democrática cujo capítulo mais visível foi o 8 de Janeiro.

Os militares, aliás, não foram sequestrados pela política. Entraram nela porque quiseram. Foram parte do problema, não vítimas dele.

Em abril de 2018, na véspera de o STF julgar o habeas corpus que poderia impedir a prisão de Lula, o então comandante do Exército, Eduardo Villas Bôas, publicou mensagem sobre “repúdio à impunidade” e disse que a instituição estava atenta às suas “missões institucionais”. Depois revelou que o texto havia sido discutido com integrantes do Alto Comando.

Era o comandante do Exército colocando o peso político das Forças Armadas sobre o ambiente de um julgamento decisivo do Supremo.

No governo Bolsonaro, militares ocuparam milhares de cargos civis, participaram da campanha de desconfiança contra as urnas e integrantes das Forças Armadas apareceram depois nas investigações sobre a tentativa de golpe.

A democracia resistiu. Mas resistir também deixa cicatrizes.

Para enfrentar Bolsonaro, o Supremo acumulou poderes extraordinários. Moraes virou símbolo da resistência democrática e também da hipertrofia institucional produzida naquele período.

O inquérito das fake news é praticamente um fóssil vivo dessa época.

Foi aberto em 2019 diante de ataques reais ao tribunal e teve papel importante no enfrentamento de redes antidemocráticas. Bolsonaro deixou o Planalto em janeiro de 2023. Estamos em setembro de 2026.

O inquérito continua aberto.

Nesta semana, Moraes recorreu a ele para pedir providências contra outro ministro do próprio STF.

A emergência acabou. A ferramenta ficou.

Esse é o problema das excepcionalidades. Elas entram pela porta prometendo ficar cinco minutos e, quando você percebe, já mudaram o endereço eleitoral para sua casa.

E a síndrome do “eu mando aqui” não ficou restrita ao Supremo.

Davi Alcolumbre (União-AP) abriu uma guerra política porque Lula não indicou ao STF o nome que ele queria. A Constituição é relativamente simples nesse ponto: o presidente indica e o Senado aprova ou rejeita.

Alcolumbre aparentemente encontrou uma terceira etapa invisível: o presidente do Senado escolhe.

Hugo Motta (Republicanos-PB) também protagonizou seus choques institucionais a partir da Presidência da Câmara.

Agora chegamos novamente ao Supremo.

Um ministro questiona o outro. PF e PGR contestam decisões. Moraes pede providências contra Mendonça. Fachin precisa retirar o material do inquérito das fake news para evitar que um pedido feito por Moraes contra Mendonça permanecesse sob a relatoria do próprio Moraes.

A essa altura, o organograma da República começa a precisar de barbante vermelho e um quadro de cortiça.

Mudam os personagens. Muda a instituição. A frase permanece:“Eu mando aqui.”

Esse talvez seja o legado mais perigoso da última década. Não apenas a polarização ou a radicalização, mas a erosão das fronteiras que deveriam impedir uma autoridade de confundir a função que exerce com a propriedade da instituição que ocupa.

O presidente indica ministro do Supremo. O Senado aprova ou rejeita. Polícia investiga. Procurador acusa. Juiz julga. Militar cumpre suas atribuições constitucionais. Parlamentar legisla e fiscaliza.

E ministro do Supremo também tem limites.

Não parece uma tese especialmente sofisticada. No Brasil de 2026, infelizmente, já é quase vanguarda.

Talvez por isso seja impossível encontrar uma saída boa para a crise atual. Estamos tentando consertar problemas produzidos por sucessivas excepcionalidades usando instituições que passaram uma década sendo entortadas para responder às excepcionalidades anteriores.

O país desenvolveu um método peculiar: para apagar cada incêndio, derruba uma parede. Quando começa o incêndio seguinte, descobre que a parede fazia falta.

A Lava Jato fragilizou a política em nome do combate à corrupção. Bolsonaro fragilizou as instituições para permanecer no poder. O Supremo acumulou poderes para enfrentar Bolsonaro. O Congresso avançou sobre espaços alheios. Os militares voltaram a flertar com um poder moderador que só existe na Constituição imaginária dos quartéis.

E chegamos a 2026 discutindo quem pode investigar um ministro do Supremo, quem pode investigar o ministro que investigou o ministro e quem julgará a investigação sobre a investigação.

Se continuar assim, em algum momento será necessário criar um Supremo para julgar o Supremo.

O Brasil passou boa parte da última década esperando pelo próximo salvador: o juiz que salvaria o país da corrupção, o militar que colocaria ordem na política, o presidente que enfrentaria o sistema, o ministro que salvaria a democracia, o parlamentar que enquadraria o Supremo.

Talvez esteja justamente aí o erro.

A República não precisa de mais um sujeito chegando para dizer “eu mando aqui”.

Precisa que todos reaprendam uma coisa muito menos emocionante — e infinitamente mais democrática:ninguém manda nela sozinho.

 

Fonte: ICL Notícias 

 

A indecência de votar pensando apenas em si

É exatamente esse o centro da contundência da coluna publicada por Martha Medeiros em 4 de setembro, na Zero Hora. Às vésperas da eleição presidencial de 4 de outubro, a escritora retoma — agora com força ainda maior — uma reflexão que já havia desenvolvido em 2021: quem teve seus direitos e interesses assegurados ao longo da vida não deveria votar pensando apenas em si mesmo.  

Quando a escritora apresenta o próprio perfil — mulher branca, heterossexual, pertencente a uma família que lhe garantiu estudo, cultura, segurança e estrutura desde o berço —, não está apenas fazendo uma autocrítica ou um inventário de suas vantagens de classe. Está estabelecendo um contraste ético profundo com a retórica vazia da política tradicional. 

Martha diz que pôde frequentar boas escolas, estudar idiomas, viajar e conviver com livros, filmes e teatro. Teve acesso a plano de saúde, previdência privada e uma rede de contatos à qual pode recorrer nos momentos difíceis. Trabalha há 45 anos, criou as duas filhas e vive sob um teto seguro, com a certeza de que terá o que comer no dia seguinte. 

Seus interesses fundamentais foram atendidos antes mesmo de ela nascer, quando sua mãe pôde realizar os exames necessários durante a gravidez. Por que, então, deveria escolher o próximo presidente pensando apenas em si mesma? 

<><> A indecência 

A resposta da escritora é a frase que concentra toda a força de sua coluna: “Seria uma indecência se eu votasse pensando em mim.” 

A frase incomoda porque confronta diretamente uma das engrenagens mais eficientes das campanhas eleitorais: a redução do voto a uma transação individual. O candidato oferece segurança, vantagens tributárias, proteção patrimonial ou a preservação de privilégios; o eleitor responde escolhendo aquele que promete defender seus interesses imediatos. 

É uma visão estreita da democracia. Transforma o voto numa espécie de contrato particular entre o cidadão e o governante e apaga da urna aqueles que, embora formalmente iguais perante a lei, nasceram sem as condições mínimas para exercer essa igualdade. 

Em 2026, a menos de um mês da eleição, recuperar essa reflexão funciona como antídoto contra o individualismo que domina grande parte do debate político. Enquanto discursos corporativistas e polarizados apelam para o bolso, o medo ou o ressentimento das classes já protegidas, Martha propõe a maturidade cívica do voto por alteridade: a decisão consciente de não votar apenas a partir do próprio umbigo, mas em função de quem foi sistematicamente marginalizado pelo Estado e pela desigualdade estrutural do país. 

<><> A mesma pergunta, cinco anos depois 

Não é a primeira vez que ela defende esse princípio. Em 24 de setembro de 2021, pouco mais de um ano antes da disputa entre Lula e Jair Bolsonaro, Martha publicou no Zero Hora a coluna “A quem interessa meu voto”. O subtítulo anunciava que votaria, em 2022, no candidato que apresentasse as melhores propostas para o país — não para ela própria. 

Martha reconhecia que precisava do governo, como qualquer cidadã, mas muito menos do que outros brasileiros. Por isso, escreveu que não deveria olhar para o próprio umbigo, mas para os lados: para quem precisava comer, encontrar trabalho e ter acesso aos livros. Não revelava o nome de seu candidato, mas estabelecia uma fronteira democrática: seu voto não seria entregue a um extremista que defendesse a ditadura e a tortura, exaltasse a ignorância, estimulasse a violência ou propagasse notícias falsas. 

A coluna de 2026, “Meus interesses? Deixem-os pra lá”, retoma o mesmo princípio, mas avança politicamente. O Brasil já atravessou a pandemia, os ataques às urnas eletrônicas, a tentativa de golpe e a invasão das sedes dos Três Poderes em 8 de janeiro de 2023. Jair Bolsonaro foi condenado. O bolsonarismo, porém, reorganizou-se em torno da candidatura de Flávio Bolsonaro e voltou a disputar a Presidência. 

Martha não cita Lula nem Flávio. Não precisa. Ao escrever que votará em quem impeça a escalada do retrocesso, da ignorância e da irresponsabilidade, deixa claro o lado em que se encontra. A referência à soberania torna a identificação ainda mais evidente: ela não dará seu voto a um “entreguista lambe-botas” disposto a tratar o Brasil como sucursal dos Estados Unidos. 

<><> Votar também pelo país 

A expressão não foi lançada ao acaso. A eleição ocorre sob a pressão explícita do governo de Donald Trump, em meio à aproximação do clã Bolsonaro com Washington e à tentativa de subordinar o futuro do Brasil aos interesses econômicos, políticos e estratégicos dos Estados Unidos. A escolha presidencial já não envolve apenas dois projetos internos. Coloca frente a frente a preservação da soberania brasileira e a submissão de um eventual governo de Flávio Bolsonaro ao trumpismo. 

Martha acrescenta uma dimensão nacional ao voto por alteridade. Não basta pensar nos outros. É necessário pensar também no país. Patriotismo não é bater continência para a bandeira dos Estados Unidos, festejar sanções contra o Brasil ou oferecer nossas riquezas em troca de apoio eleitoral. É defender a independência, a democracia e o direito dos brasileiros de escolher seu governo sem tutela estrangeira. 

A coluna ultrapassa, assim, o terreno da reflexão pessoal. Quem pode pagar escola, saúde, previdência, transporte e segurança talvez atravesse um governo socialmente irresponsável protegido dentro de sua bolha. Quem mora numa encosta, depende da escola pública, espera atendimento no SUS ou precisa de transferência de renda não dispõe do mesmo abrigo. 

Para essas pessoas, política não é abstração. Uma eleição pode decidir se haverá comida, vaga na escola, remédio no posto de saúde, oportunidade de emprego ou socorro quando a chuva destruir a casa. O eleitor privilegiado consegue sobreviver aos erros de um governo. O brasileiro pobre, muitas vezes, não consegue. 

<><> O voto não é um cheque em branco 

O voto por alteridade não significa renunciar aos próprios interesses nem entregar um cheque em branco a quem se apresente como defensor dos pobres. Tampouco dispensa a cobrança contra corrupção, incompetência ou erros de um governo progressista. A própria Martha ressalva que quem assumir em janeiro cometerá erros e deverá ser cobrado. 

Mas existe diferença entre cobrar os erros de um governo democrático e devolver o poder a um projeto que nunca demonstrou compaixão por quem depende de políticas públicas; entre exigir eficiência do Estado e entregá-lo a quem deseja destruí-lo; entre combater a corrupção e utilizar essa bandeira para justificar a volta do autoritarismo. 

O mercado, o agronegócio, o empresariado, o equilíbrio fiscal e o crescimento econômico importam. Mas só adquirem sentido democrático quando seus resultados chegam à maioria, e não quando ampliam a distância entre brasileiros protegidos e abandonados. 

O Brasil avançou na redução da pobreza: segundo o IBGE, 8,6 milhões de pessoas saíram dessa condição entre 2023 e 2024. Mesmo assim, em 2024, quase um quarto da população ainda vivia abaixo da linha de pobreza. Em 2025, o índice de Gini do rendimento domiciliar permaneceu em 0,511. A desigualdade continua determinando quem terá acesso à saúde, à educação, à moradia segura e até à possibilidade de sobreviver a uma tragédia. 

É por isso que Martha vota pela criança cuidada pelo irmão enquanto a mãe trabalha. Pelo adolescente obrigado a abandonar a escola. Pelo jovem que não encontrou o primeiro emprego. Pelos moradores das encostas, pelas mulheres vítimas de violência e pelos milhões aos quais foi negado até o domínio pleno da leitura e da escrita. 

<><> A página que o eleitor não pode virar 

Poucos dias antes da publicação da coluna de Martha, O Estado de S. Paulo voltou a tratar da candidatura de Flávio Bolsonaro. Em editorial de 27 de agosto, contestou a tentativa do senador de declarar encerrado o escândalo de sua relação com Daniel Vorcaro. O título foi direto: “A página que Flávio não virou”. 

Flávio afirmara que o caso Dark Horse era “página virada”. O Estadão respondeu: “Não é.” Não é porque ele prometeu explicar, em 30 dias, como foram utilizados os milhões recebidos de Vorcaro e não explicou. Não é porque a intimidade entre o candidato e o banqueiro investigado não desaparece quando o candidato se irrita com perguntas. Não é porque continuam sem resposta as suspeitas sobre o destino do dinheiro, as razões do financiamento e o que Vorcaro esperava receber em troca. 

E não é porque o passado de Flávio contém outras páginas jamais satisfatoriamente viradas: as “rachadinhas”, os imóveis adquiridos com dinheiro vivo, as relações com milicianos e sua participação ativa no projeto político que tentou impedir a posse do presidente eleito e abolir violentamente o Estado Democrático de Direito. O projeto político que programou o Plano Verde Amarelo, que deixava explícito o assassinato do presidente Lula, seu vice Alkmin e o ministro Alexandre de Moraes. 

O Estadão não parece estar aderindo a Lula. Continua tentando salvar a direita de Flávio Bolsonaro. Martha também não escreve uma declaração partidária de voto. Faz algo anterior e mais profundo: estabelece os critérios morais pelos quais pretende escolher. Esses critérios tornam a escolha menos difícil. 

A eleição de 2026 é dura. A extrema direita continua agressiva, financiada, internacionalizada e disposta a tudo, com Trump no centro da política mundial e da ultradireita global. Eduardo Bolsonaro permanece nos Estados Unidos vivendo como um bilionário esbanjador atuando contra a soberania brasileira. Jair Bolsonaro, mesmo condenado, continua tentando comandar o campo político que criou. E Flávio procura apresentar-se como candidato viável de uma direita que não consegue se libertar do próprio monstro. 

Mas há uma diferença fundamental entre 2018 e 2026. 

Ninguém pode dizer que não sabia. Ninguém pode dizer que foi surpreendido. 

Ninguém pode fingir que Flávio Bolsonaro surgiu como novidade eleitoral, conservador moderado, candidato normal de centro-direita ou alternativa sem vínculos com o desastre anterior. 

Ele vem de onde vem. Carrega o que carrega. Representa o que representa. 

Em 2018, o Estadão disse que a escolha entre Fernando Haddad e Jair Bolsonaro era “muito difícil”. Em 2026, o próprio Estadão mostra que a escolha entre Lula e Flávio Bolsonaro não pode ser tratada da mesma maneira. 

Já conhecemos o roteiro. Conhecemos a mentira. Conhecemos o entreguismo. Conhecemos a violência. Conhecemos o ataque às urnas. Conhecemos a tentativa de golpe. Conhecemos o preço pago pelo Brasil. 

<><> E conhecemos os Bolsonaro. 

Martha acrescenta a pergunta que faltava: quem já teve educação, saúde, segurança, cultura, proteção familiar e oportunidades deve votar apenas para preservar os próprios interesses? Sua resposta é não. 

Seu voto pertence também à criança cuidada pelo irmão enquanto a mãe trabalha. Ao adolescente que abandonou a escola. Ao jovem que não encontrou o primeiro emprego. À mulher violentada. Ao morador da periferia. A quem depende do Estado para transformar sobrevivência em cidadania. 

A página que Flávio Bolsonaro pretende virar é justamente a página que o eleitor brasileiro não pode esquecer. 

Votar pensando apenas no próprio bolso, depois de tudo o que o país viveu, não seria apenas egoísmo. 

“Seria uma indecência. 

Meus interesses? Deixem para lá. 

O Brasil tem mais com que se preocupar.” 

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

O próximo ciclo do otimismo brasileiro

Para quem trabalha com escrita ativa, ou vive ativamente dela, existe um dilema recorrente: como dizer a mesma coisa, de várias formas? Em política econômica e de desenvolvimento, a repetição disfarçada de novidade é um recurso usual. O analista de arquibancada, que não tem posição a defender nem mandato a justificar, pode ao menos observar o jogo com alguma distância.

E o que se observa, no texto “O próximo ciclo do planejamento brasileiro”, de Marcio Pochmann, publicado recentemente no site A Terra é Redonda, é um recurso bastante engenhoso: adaptar velhas lições a situações novas, permitindo a mudança de assunto na manutenção do propósito. O problema é que, em determinado momento, o pênalti vai por cima do travessão. E às vezes para fora do estádio.

Aqui, é necessário darmos um passo atrás. Marcio Pochmann tem inúmeros serviços prestados à academia, ao conhecimento e às políticas públicas. Não é apenas um grande intelectual e pensador da realidade brasileira: ele botou a mão na massa, no governo, com uma trajetória pelo IPEA e pelo IBGE que causa inveja a uma base bastante alta da pirâmide à qual pertence. Estamos perguntando aqui como passageiros do veículo para quem temos dificuldade de imaginar alguém melhor ao volante.

O argumento central do texto é construído em quatro movimentos. O primeiro deles é histórico-filosófico: a transformação das temporalidades sociais, da sociedade agrária à era digital, torna insuficiente o Estado que opera apenas sobre o “presente do passado”. Para sustentar esse ponto, mobilizam-se Edward P. Thompson e Hartmut Rosa. São referências reais e pertinentes.

E. P. Thompson, em “Time, work-discipline, and industrial capitalism” (Past & Present, no. 38, 1967), demonstrou como a disciplina do tempo fabril substituiu progressivamente o tempo orientado por tarefas pelo tempo medido pelo relógio, constituindo uma forma de dominação específica da sociedade capitalista industrial.

Hartmut Rosa, em Social acceleration: a new theory of modernity (Columbia University Press, 2013), argumenta que a aceleração técnica, a aceleração da mudança social e a aceleração do ritmo de vida produzem formas de alienação que não se resolvem com mais velocidade, mas com sua desaceleração deliberada. O problema não está nas referências. Está no que se faz com elas.

Usar E. P. Thompson para recomendar uma disciplina mais sofisticada do tempo estatal é uma operação de mão invertida: o autor descreveu a imposição do tempo como dominação, não como modelo a ser aperfeiçoado. Usar Rosa para argumentar em favor de um Estado mais rápido e preditivo é ainda mais paradoxal: a aceleração social, para Hartmut Rosa, é o problema, não a solução. Dizer a mesma coisa de várias formas é legítimo; mas quando as formas convocadas contradizem o propósito que as convoca, chegamos ao limite do recurso retórico. O coração do torcedor não sustenta a cabeça do analista.

O segundo movimento é epidemiológico e demográfico. Dados reais do IBGE sobre a saúde mental dos adolescentes, os impactos das enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul, o envelhecimento estrutural da população e a transição epidemiológica são apresentados para caracterizar uma ruptura na lógica das políticas públicas.

Nenhum pesquisador sério contestaria a relevância desses fenômenos. A transição de um padrão de morbimortalidade dominado por doenças infecciosas para outro dominado por doenças crônicas não transmissíveis é documentada, no caso brasileiro, ao menos desde os anos 1990, e a literatura de saúde coletiva – de Sérgio Arouca a Paulo Paim – vem discutindo suas implicações para o sistema de saúde há décadas. O envelhecimento estrutural da população, igualmente, não é novidade para os demógrafos: as projeções do IBGE já sinalizavam essa tendência desde os anos 2000, e o 12o. Censo Demográfico apenas confirmou o que as estimativas intercensitárias já anunciavam.

A questão relevante, portanto, não é se precisamos de mais e melhores dados sobre esses fenômenos. É por que o Brasil, que possui um Sistema Único de Saúde, um robusto sistema de proteção social e décadas de produção estatística de qualidade, não conseguiu traduzir o conhecimento disponível em políticas eficazes de prevenção e cuidado.

Essa é uma pergunta de economia política, não de engenharia da informação. Sustentar que a resposta está na construção de um Estado preditivo dotado de inteligência estatística avançada é, novamente, adaptar uma velha lição – a da insuficiência das políticas reativas – a uma situação nova, mantendo o propósito de ampliar as capacidades do aparato estatal de produção de dados. O argumento é plausível. Mas é, em certa medida, circular.

O terceiro movimento trata da transformação territorial. O interior brasileiro deixou de ser apenas fornecedor de matérias-primas e abriga, crescentemente, novos polos de serviços, logística e economia digital. A observação é correta e subestimada no debate público. A literatura de economia regional e de geografia econômica – de Carlos Brandão (Território e Desenvolvimento, Editora da Unicamp, 2007) à tradição do Cedeplar – já mapeou essas dinâmicas com os instrumentos disponíveis, sem necessidade de esperar por sistemas preditivos mais sofisticados. O problema não tem sido a ausência de ferramentas analíticas, mas a incapacidade de traduzir o diagnóstico em intervenção, dado o padrão historicamente concentrador do investimento público federal e as restrições fiscais impostas às unidades subnacionais.

Aqui, há algo que merece atenção. A transformação territorial é apresentada como argumento para a necessidade de estatísticas de fluxo, não apenas de estoque. A pergunta passa a ser: onde as pessoas trabalham, estudam, consomem, para onde se deslocam. É uma pergunta legítima e tecnicamente interessante.

Mas a resposta proposta – integração de registros administrativos, imagens de satélite, dados digitais e inteligência artificial – pressupõe uma capacidade institucional e fiscal que o texto não discute, e ignora que o acesso diferencial a infraestrutura digital reproduz, no plano dos dados, as mesmas assimetrias regionais que se pretende corrigir no plano das políticas. Não há neutralidade nos dados que um Estado preditivo produziria sobre um território desigual.

O quarto e último movimento é o mais ambicioso e, a nosso juízo, o mais problemático. O texto propõe a passagem da “estatística descritiva” para a “inteligência estatística preditiva”, com uso de ciência de dados e inteligência artificial, como condição para um novo ciclo de planejamento. A formulação é sedutora, e há algo de genuinamente importante nela: a ideia de que o Estado deve agir sobre o fato gerador dos problemas, e não apenas sobre suas consequências, está na raiz de qualquer concepção séria de planejamento de longo prazo. Mas a sedução retórica aqui é grande, e convém não se deixar levar.

Não há necessidade de acionar a patrulha de plantão para reconhecer que a literatura especializada em governança de dados e sociologia digital aponta consistentemente que o problema da inteligência artificial aplicada ao Estado não é apenas técnico. É de poder. Shoshana Zuboff (The age of surveillance capitalism, PublicAffairs, 2019) demonstrou como a capacidade de antecipar comportamentos, produzida pelo acúmulo e processamento de dados em escala, pode ser instrumentalizada para fins que nada têm a ver com o bem-estar coletivo.

Virginia Eubanks (Automating inequality, St. Martin’s Press, 2018) documentou como sistemas algorítmicos de previsão e triagem, aplicados a populações vulneráveis nos Estados Unidos, tendem a reproduzir e ampliar as desigualdades que pretendiam corrigir. O texto reconhece, en passant, que “uma inteligência artificial sem estatística pública de qualidade apenas reproduzirá desigualdades, vieses e assimetrias existentes”. Mas não discute quem controlará esses sistemas, com que finalidade, sob que supervisão democrática e com que garantias contra o uso político das capacidades preditivas do Estado. São perguntas que não podem ser postergadas.

O texto fecha com uma sequência de imagens retóricas que fecham o argumento com firmeza excessiva. O Estado que não espera a enchente para reconstruir, a doença para tratar, o envelhecimento para cuidar, o desemprego para qualificar. Quem discordaria?

Mas governar não é antecipar tecnicamente o futuro. É arbitrar conflitos de interesse, distribuir recursos escassos em contextos de incerteza, negociar prioridades que frequentemente colidem e sustentar escolhas impopulares contra pressões de curto prazo. Para isso, o Estado precisa de dados, sim. Mas precisa, antes e sobretudo, de capacidade política, de coerência institucional e de autonomia em relação aos interesses que organizam o presente.

Nenhum sistema de geoinformação, por mais sofisticado, resolve esse problema. Há também algo meio esquisito mais ao final, parecido com uma negação da experiência histórica na formulação de diagnósticos para o planejamento, que eu prefiro atribuir à pressa e ao meu entendimento limitado. Marcio Pochmann não diria isso, certo?

Adaptar velhas lições – a necessidade do planejamento, a insuficiência do Estado reativo, a centralidade da informação para a formulação de políticas – a situações novas é um recurso legítimo e muitas vezes produtivo. O mote da modernização estatal tem uma história longa e uma tradição intelectual respeitável no Brasil, de Celso Furtado ao IPEA dos anos 1970, passando pelas reformas administrativas da Nova República.

O que distingue essa tradição dos seus usos contemporâneos é a consciência de que a capacidade do Estado de agir sobre o futuro depende menos de seus instrumentos técnicos do que de sua sustentação política, de sua inserção em coalizões sociais capazes de manter prioridades ao longo do tempo e de sua imunidade relativa às pressões dos interesses de curto prazo.

Ok, as opções não são exatamente boas. Não vamos discutir aqui o voto. Você aí que está lendo pensando que esta crítica nega a pertinência do planejamento estatal ou da modernização das capacidades estatísticas de produção de dados pode partir para outro texto do clipping. Não há nada disso aqui. O que há é a convicção de que o argumento do Estado preditivo, tal como formulado, resolve um problema técnico para evitar um problema político.

E que isso, precisamente, é o recurso mais engenhoso e mais arriscado que o debate sobre planejamento pode oferecer no momento em que vivemos. Não deveria ser um problema afirmar isso, ou reafirmar as condições de superação do subdesenvolvimento. Está difícil, pessoal. Está difícil.

 

Fonte: Por Luiz Eduardo Simões de Souza, em A Terra é Redonda 

 

As barreiras da saúde mental para quem recorre ao SUS

Em julho deste ano, os familiares da auxiliar de serviços gerais Sidelia Soares receberam uma mensagem de confirmação da consulta dela com um psicólogo. Seria o início do acompanhamento da paciente na rede pública de saúde de Cuiabá (MT).

Sidelia enfrentava um quadro de depressão e procurou ajuda em 2023, quando entrou na fila de espera da capital do Mato Grosso. O acompanhamento especializado seria um passo importante para tratar os problemas psicológicos que a acompanhavam por décadas, desde a perda de um filho recém-nascido.

Mas a mensagem sobre a consulta, mais de dois anos após o pedido da paciente, causou tristeza na família dela. Um detalhe fundamental impediu qualquer atendimento: Sidelia se suicidou em agosto de 2024, aos 58 anos.

"Quando vi a mensagem da consulta, ficou aquele sentimento de tristeza. Fiquei pensando: se ela tivesse recebido uma orientação profissional, talvez isso tivesse feito a diferença", diz a jornalista Janaiara Soares, de 33 anos, filha da auxiliar de serviços gerais.

Sidelia tinha sintomas evidentes de depressão, mas relutava em procurar ajuda. Em 2023, após as mortes dos pais, a situação piorou e ela buscou apoio psicológico. "É muito doloroso pensar que o acompanhamento profissional talvez pudesse ter salvado a vida da minha mãe", afirma Soares.

A reportagem procurou a Prefeitura de Cuiabá para comentar sobre a fila de espera para atendimento psicológico na cidade. No entanto, não houve resposta até a publicação da reportagem.

<><> Histórico de dificuldades

O caso de Sidelia evidencia as barreiras enfrentadas por muitos que buscam apoio para tratamentos referentes à saúde mental na rede pública do país. Especialistas afirmam que o Sistema Único de Saúde (SUS) enfrenta um histórico de dificuldades relacionadas ao tema.

Esse problema tem ficado cada vez mais evidente, dizem especialistas, diante da crise de saúde mental no país. Os números mais recentes mostram o aumento de casos de doenças como depressão e ansiedade na população, movimento que tem sido notado em todo o mundo.

A Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2019, feita pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apontou que 10,2% (16,3 milhões) das pessoas com mais de 18 anos sofrem de depressão. Esse dado, o mais recente sobre o tema, inclui apenas quem declarou ter recebido o diagnóstico de um profissional de saúde. O número representou um salto de 34,2% em comparação à PNS anterior. No levantamento de 2013, o índice de depressão entre adultos correspondia a 7,6% da população brasileira.

Esses problemas de saúde mental impactam diretamente a sociedade. No ano passado, foram concedidos mais de 546 mil afastamentos em todo o país por causa de transtornos psíquicos. Foi um crescimento de 15% em relação a 2024. Os principais motivos foram ansiedade e depressão.

O Ministério da Saúde afirma, em nota à reportagem, que tem aumentado o investimento na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) "para fortalecer o acesso ao cuidado em saúde mental em todo o Brasil".

Segundo a pasta, os atendimentos voltados à saúde mental podem ser feitos em diferentes serviços, como os Centros de Atenção Psicossocial (Caps), as Unidades Básicas de Saúde (UBS), as Unidades de Pronto Atendimento (UPAs), entre outros.

<><> Cuidados sobre a saúde mental no SUS

Os casos em que pacientes enfrentam uma longa espera por atendimento psicológico não são incomuns, dizem especialistas. "Nós temos pouquíssimos psicólogos e psiquiatras para atender a toda a demanda na rede pública. Por isso, conseguir esse acompanhamento é bem demorado", afirma o psiquiatra Antônio Geraldo, presidente da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Não há levantamentos sobre as dimensões das filas na rede pública das cidades brasileiras.

Há pouco mais de 600 mil psicólogos registrados no Brasil, segundo o Conselho Federal de Psicologia (CFP). Desse total, somente 11,3 mil atendem no SUS, diz o Ministério da Saúde. Conforme a pasta, o número atual representa um crescimento de 15,3% em comparação a 2024, quando havia 9,8 mil psicólogos na rede pública do país.

De acordo com o Ministério da Saúde, há 28,8 mil psiquiatras no país, dos quais 18,1 mil atuam no SUS. Segundo a pasta, o dado é baseado na Classificação Brasileira de Ocupações (CBO), sistema oficial do Ministério do Trabalho e Emprego que cataloga, nomeia e codifica profissões no mercado de trabalho brasileiro.

Esses dados sobre psiquiatras são questionados pela ABP. "Esse número não procede, é só olhar a demografia médica do CFM. O Brasil não tem nem 15 mil psiquiatras formados", afirma Geraldo.

A demografia do Conselho Federal de Medicina (CFM) de 2020, a mais recente, diz que há 11,9 mil psiquiatras no país. Outro levantamento sobre o tema, o atlas Demografia Médica no Brasil 2025 (DMB), da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e da Associação Médica Brasileira (AMB), indica que há 13,5 mil psiquiatras no país.

Com base no número do atlas, o Brasil tem um índice de 6,69 psiquiatras por 100 mil habitantes. É um número bem inferior à média de 17,83, calculada com base nos 41 países analisados no levantamento.

A pesquisa da FMUSP e da AMB aponta que a Suíça lidera o ranking proporcional de psiquiatras, com índice de 53 profissionais por 100 mil habitantes. Em seguida aparecem Alemanha, com 28, e Grécia, 26.

<><> Desigualdade regional

Um ponto importante do atlas é sobre a desigualdade regional na distribuição desses especialistas no Brasil. A imensa maioria dos 13,5 mil psiquiatras no país, conforme o dado do estudo, está nas regiões Sudeste (51,8%) e Sul (22,8%). O Nordeste aparece na terceira posição, com 14,7%, seguido pelo Centro-Oeste, 8,3%, e Norte, com apenas 2,4%.

Os especialistas frisam que a desigualdade regional no acesso a esses tratamentos é motivo de preocupação. "Como o SUS é descentralizado, o tempo de espera depende de onde a pessoa mora. Há cidades em que a rede de saúde mental é modelo, como Campinas, no interior de São Paulo. Mas há outros municípios em que a situação é bem difícil", afirma o psiquiatra Deivisson Viana, da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

O Ministério da Saúde afirma que a organização da rede de saúde e a gestão de vagas, filas e encaminhamentos são atribuições dos estados e municípios, por meio das centrais de regulação. "O Ministério da Saúde atua na formulação de políticas públicas, definição de diretrizes e cofinanciamento da assistência", diz a pasta.

Pelo país, há iniciativas importantes como os Caps, que costumam funcionar em regime de portas abertas. Ou seja, um paciente pode buscar atendimento diretamente na unidade. Esses serviços são voltados a pessoas com transtornos mentais graves e persistentes, incluindo aqueles relacionados ao abuso de álcool e outras drogas.

O Ministério da Saúde afirma que há 3,1 mil Caps em funcionamento no país. Segundo a pasta, o número é 28% maior do que uma década atrás, quando eram 2,4 mil centros desse tipo.

Para atender a demanda da população, dizem especialistas, os números de Caps deveriam ser muito maiores. "Nós temos mais de 5 mil cidades no país. Então, por exemplo, 2 mil Caps seriam ideais somente para atender o Estado de São Paulo, que é enorme", afirma Geraldo. "Além disso, muitos desses Caps não têm médico com registro de psiquiatra, geralmente são clínicos que dizem que têm treinamento em saúde mental."

Outra forma de buscar acompanhamento psicológico na rede pública é por meio de uma UBS. Na unidade, o paciente diz os problemas que enfrenta, recebe acolhimento feito por um membro da equipe de saúde – normalmente um enfermeiro ou técnico em enfermagem – e passa por uma avaliação. É a partir disso que ele entra na fila por atendimento com psicólogo ou psiquiatra.

<><> Longo caminho pela frente

As iniciativas relacionadas à saúde mental no Brasil são exemplares, avalia Viana. Mas na prática, diz ele, elas esbarram em dificuldades estruturais, econômicas e de gestão. "Já melhorou muito, se analisarmos o cenário nos últimos 25 anos. A cobertura da atenção básica para a saúde mental melhorou bastante. Mas é difícil lidar com uma demanda que cresce cada vez mais", diz.

Nos últimos anos, o Brasil anunciou mais recursos para ações relacionadas à saúde mental. Ainda assim, dizem especialistas, está longe dos valores adequados.

"O Brasil tem destinado de 1% a 2% do orçamento total da saúde para os cuidados de saúde mental. Isso é inferior a muitos outros países. Há países europeus em que o orçamento para esse segmento chega a 10% do total", diz o psiquiatra Rodrigo Leite, coordenador do programa de Psiquiatria Social e Cultural do Instituto de Psiquiatria da Universidade de São Paulo (USP).

Leite classifica que a saúde mental brasileira vive um "subfinanciamento crônico". "Às vezes existe um aumento entre uma gestão e outra, mas é mínimo. Nunca passou de 2% do total", afirma.

<><> Um problema histórico

Com os problemas de saúde mental cada vez mais comuns, os especialistas afirmam que é urgente que haja cada vez mais investimentos nesse segmento no país.

Um dos problemas que dificulta a condução de políticas públicas sobre saúde mental, dizem especialistas, é a falta de diálogo entre os poderes municipal, estadual e federal. "Isso fragiliza a rede de saúde de forma geral, especialmente a rede de atenção à saúde mental. Isso gera dificuldades sistêmicas de organização de fluxo e comunicação entre os serviços", diz Leite.

"É um problema histórico. Passa governo, entra governo e esse problema continua. Alguns dão mais atenção ao tema, mas o problema permanece", afirma Geraldo, da ABP. "Quando não há tratamento, as pessoas não têm para onde recorrer e elas tendem a não se cuidar", acrescenta.

Enquanto as dificuldades permanecerem, pacientes podem continuar esperando por anos para que possam iniciar acompanhamento especializado, como no caso de Sidelia.

"A gente tinha a opção de pagar pelo acompanhamento psicológico da minha mãe, mas ela sempre estava preocupada em não causar gastos, por isso disse que só faria se fosse pelo SUS", diz Janaiara. "Acho que o caso dela mostra como a saúde mental deveria ser algo básico. Uma atenção psicológica também pode salvar, por isso acho que precisa da mesma atenção que outras especialidades", acrescenta.

 

Fonte: DW Brasil

 

O desafio de impedir que a mentira influencie o voto

Com a inteligência artificial cada vez mais capaz de produzir vídeos, áudios e imagens realistas, as eleições de 2026 passam por um desafio: impedir que conteúdos falsos ou manipulados influenciem a decisão do eleitor. As regras do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) não proíbem o uso da tecnologia nas campanhas, mas estabelecem limites, exigem identificação de conteúdos sintéticos e vedam, entre outras práticas, o uso de deepfakes para favorecer ou prejudicar candidaturas. Nesta entrevista, a advogada eleitoralista Nahomi Helena de Santana, diretora do Instituto Paranaense de Direito Eleitoral (Iprade) explica os limites impostos às campanhas, os riscos da disseminação de conteúdos falsos e as dificuldades da Justiça Eleitoral para agir com rapidez diante de uma tecnologia capaz de viralizar uma manipulação em poucos minutos.

·        Quais são os principais limites impostos pelo TSE ao uso de IA por candidatos, partidos e equipes de campanha?

O TSE não proibiu toda utilização de IA, mas exige que o conteúdo sintético seja identificado de forma explícita, destacada e acessível, com indicação da tecnologia empregada. Chatbots e avatares podem ser utilizados, desde que não simulem uma interlocução real com o candidato ou com outra pessoa. No âmbito da propaganda eleitoral, é absolutamente proibida a deepfake destinada a favorecer ou prejudicar candidatura, ainda que a pessoa retratada tenha autorizado a manipulação. Deve-se considerar deepfake o conteúdo sintético produzido ou manipulado por IA ou tecnologia equivalente, com grau de realismo ou verossimilhança, capaz de criar, reproduzir ou alterar imagem, voz ou manifestação de pessoa viva, falecida ou fictícia. Também não podem ser publicados novos conteúdos sintéticos com imagem, voz ou manifestação de candidatos ou pessoas públicas nas 72 horas anteriores e nas 24 horas posteriores à votação. A infração pode gerar remoção, multa, responsabilização criminal e, nos casos graves, cassação por abuso de poder ou uso indevido dos meios de comunicação, nos termos da Resolução TSE 23.610/2019.

·        As regras eleitorais são capazes de impedir que uma campanha use IA para manipular o eleitor?

Nenhuma norma consegue impedir por absoluto que alguém produza ou publique conteúdo manipulador. Elas funcionam como instrumento de prevenção, remoção e responsabilização. Principalmente neste ano, no âmbito das campanhas eleitorais, elas são uma tentativa. Tentativa de enfrentar a gravidade dos danos que essas tecnologias podem gerar para o resultado do pleito e para a discussão pública. A rotulagem protege o uso legítimo de IA, mas aquele que pretende enganar o eleitor e a eleitora provavelmente também tentará ocultar a própria manipulação e se esquivar do poder de polícia da Justiça Eleitoral. Além disso, conteúdos difundidos em grupos fechados, contas anônimas ou redes coordenadas podem alcançar milhares de pessoas antes de serem detectados, representados e suspensos. A regulamentação de 2026 fortaleceu a resposta ao admitir inversão do ônus da prova, impor deveres às plataformas e vedar conteúdos sintéticos no período crítico da votação. Sua efetividade, porém, dependerá da rapidez da identificação, da preservação das provas e da cooperação entre campanhas, imprensa, plataformas e Justiça Eleitoral.

·        Na prática, quem vai conseguir fiscalizar milhões de vídeos, áudios, imagens e conteúdos produzidos por IA durante a campanha? A Justiça Eleitoral tem estrutura para detectar uma deepfake antes que ela tenha causado estrago?

Não há fiscal único quando o tema é propaganda eleitoral. A vigilância será, necessariamente, distribuída entre campanhas, imprensa, sociedade civil, Ministério Público, plataformas digitais e Justiça Eleitoral. Tratando-se de propaganda, qualquer cidadã ou cidadão pode agir e realizar uma denúncia. O TSE ampliou sua estrutura, criou conselho especializado, manteve canais de alerta e estabeleceu cooperação técnica com plataformas e empresas de detecção de conteúdo sintético. Porém, ainda assim não existe capacidade humana ou tecnológica para examinar preventivamente todos os conteúdos publicados ou compartilhados em ambientes privados. Na prática, a atuação continuará sendo majoritariamente reativa, a partir de denúncias, monitoramento de conteúdos relevantes e pedidos judiciais de urgência. Recentemente, um caso do TRE-RS foi exemplar pela determinação de retirada, em 24 horas, de uma deepfake sexualmente depreciativa. Isso demonstra capacidade de resposta, mas também que a exposição ilícita já havia ocorrido. A vedação de censura é uma premissa democrática que gera essas situações problemáticas e exige celeridade na reação.

·        Se um conteúdo falso produzido por IA viralizar às vésperas da votação e só for identificado depois da eleição, de que adianta a punição? A Justiça consegue reparar o dano causado ao processo eleitoral?

A punição posterior continua relevante para responsabilizar os autores, desestimular novas condutas e impedir que a fraude produza efeitos jurídicos permanentes. A Justiça pode determinar remoção, direito de resposta, divulgação de esclarecimento, multa e apuração criminal, além de examinar eventual abuso de poder ou uso indevido dos meios de comunicação. Se forem demonstradas a autoria ou anuência da campanha e a gravidade das circunstâncias, o ilícito poderá fundamentar cassação e, conforme o caso, a realização de nova eleição. Há precedentes nesse sentido. O problema é que nenhuma decisão consegue fazer o eleitor "desver" uma falsidade recebida no momento decisivo, especialmente quando ela circula em aplicativos de mensagens. A reparação jurídica pode restaurar a legitimidade institucional do resultado, mas dificilmente recompõe integralmente o dano político já causado, tanto ao pleito quanto aos prejuízos à democracia.

·        Até onde vai a responsabilidade de candidatos e partidos pelo conteúdo produzido por apoiadores? Uma campanha pode alegar que não sabia de uma deepfake usada para atacar um adversário?

A manifestação espontânea de um apoiador não gera responsabilidade automática e objetiva para o candidato ou para o partido beneficiado. É necessário examinar se houve financiamento, encomenda, coordenação, autorização, compartilhamento, incorporação à estratégia oficial ou prévio conhecimento do conteúdo ilícito. A alegação de desconhecimento perde força quando existem vínculos com a campanha, circulação em grupos coordenados, atuação de pessoas contratadas ou republicação pelos perfis oficiais. A Resolução do TSE determina que campanhas verifiquem a fidedignidade até mesmo de conteúdos produzidos por terceiros antes de utilizá-los em sua propaganda. Portanto, a campanha pode provar que desconhecia uma iniciativa verdadeiramente autônoma, mas não pode se beneficiar, deliberadamente, da deepfake e depois invocar ignorância como salvo-conduto.

·        Com conteúdos gerados por IA cada vez mais realistas e difíceis de distinguir de materiais verdadeiros, qual será o maior desafio da Justiça Eleitoral para preservar a integridade das eleições deste ano?

O maior desafio será decidir com velocidade suficiente, mas sem sacrificar a prova técnica, a liberdade de expressão e o devido processo legal. Além de identificar a manipulação, será preciso descobrir sua origem, distinguir deepfake de sátira ou edição ostensiva e demonstrar sua finalidade eleitoral. O TSE definiu, recentemente, que deepfake pressupõe conteúdo sintético realista ou verossímil e que sua proibição específica depende da caracterização como propaganda eleitoral. Outro risco é o chamado "dividendo do mentiroso": diante da popularização da IA, conteúdos autênticos também podem ser falsamente desacreditados como montagens. A integridade eleitoral dependerá tanto da perícia e da remoção rápida quanto de mecanismos confiáveis de autenticação, rastreabilidade e esclarecimento público.

·        A senhora acredita que as eleições de 2026 serão mais vulneráveis à manipulação digital do que eleições anteriores?

Sim, o ambiente informacional está mais vulnerável, porque a IA reduziu drasticamente o custo, o tempo e o conhecimento necessários para fabricar vídeos, vozes e imagens convincentes. A manipulação também pode ser personalizada, testada em diferentes públicos e disseminada, simultaneamente, por redes sociais, influenciadores e aplicativos de mensagens. Isso não significa que o sistema eletrônico de votação esteja mais vulnerável, mas que a formação da vontade do eleitor enfrenta riscos qualitativamente maiores. Por outro lado, a Justiça Eleitoral chega a 2026 com regras mais detalhadas, deveres reforçados para plataformas e instrumentos que não existiam com a mesma amplitude em pleitos anteriores. Teremos, portanto, eleições mais expostas tecnologicamente, embora também mais protegidas juridicamente. O resultado dependerá, sobretudo, da velocidade e da coordenação das respostas.

 

Fonte: Correio Braziliense