A fascinante e caótica história do dólar
Em 1516, na pequena cidade de Joachimsthal,
na Boêmia, abriu-se uma mina de prata que dará origem ao nome da moeda que
ainda hoje domina as trocas econômicas do planeta. Da prata daquela jazida são
cunhadas moedas pesadas, com quase trinta gramas de metal puro, que os
comerciantes chamam de Joachimsthaler, depois, por comodidade de
pronúncia, simplesmente thaler. É dessa palavra, deformada ao longo
dos séculos através de metade da Europa e depois através do Atlântico, que
nascerá o termo “dólar”. Quando os colonos britânicos começam a usá-lo, estão
anglicizando o nome da única moeda de prata que circula em seus bolsos: o “peso
de oito” espanhol, o real de a ocho, que o Império Ibérico
distribui pelas rotas do comércio global, de Manila a Sevilha. O dólar nasce
como moeda imperial e supranacional muito antes de se tornar moeda de uma
república; os Estados Unidos não o criaram, herdaram-no. Essa genealogia
complicada, uma nação que toma emprestado o nome de sua moeda de uma mina
boêmia e de um império rival, nos obriga a rever uma ideia que damos como
certa: a de uma moeda uniforme, fungível, livremente negociável e garantida
pelo Estado. A realidade histórica, como frequentemente acontece quando se olha
de perto, é, ao contrário, muito mais desordenada.
Tudo começa nas florestas da Boêmia central,
quando um grupo de exploradores descobre, perto de um povoado até então
insignificante, Joachimsthal, o “vale de Joaquim”, uma jazida de prata de
riqueza surpreendente. O território pertence à família nobre dos Schlick, e o
conde Stephan compreende imediatamente o que tem em mãos. Para financiar a
exploração da mina, endivida-se pesadamente com diversos banqueiros europeus e
convoca para o local mineiros e especialistas de Leipzig, numa verdadeira
corrida à prata como só se verá depois, no século XIX, em relação ao
ouro: ins Tal, ins Tal, mit Mutter mit All (“para o vale, para
o vale, com a mãe, com tudo”), dizia uma poesia popular saxônica da época. O
crescimento, porém, é rápido demais para ocorrer sem sofrimento: a grande massa
de mineiros atraída trabalha em condições desumanas, em poços úmidos e
perigosos e por salários miseráveis. Para piorar as coisas, acrescenta-se um
problema aparentemente marginal: a moeda miúda, aquela que serve para comprar o
pão e a cerveja. Quando se coloca em circulação uma quantidade excessiva dela e
sua liga é adulterada, pode eclodir uma revolta; quando se coloca em circulação
moeda de boa qualidade, mas em quantidade insuficiente, também pode eclodir uma
revolta. E, de fato, a revolta eclode, e o conde Schlick vê-se obrigado a
mediar entre os credores, que querem sua prata, e os mineiros, que querem
também seus salários em boa prata, e não em moeda de liga adulterada.
Dessa urgência prática nasce a solução:
Schlick obtém do imperador e do rei da Boêmia o direito de cunhar moeda por
conta própria, convertendo imediatamente toda a prata extraída de suas minas.
De um lado, consegue assim moedas miúdas de boa qualidade com as quais pagar os
mineiros; de outro, cria para seus credores uma peça grande e pesada, com quase
trinta gramas de prata puríssima. Chamam-na Joachimsthaler, logo
abreviada para thaler, e ela se difunde com uma rapidez que ninguém
pode prever. Em poucas décadas, torna-se o nome pelo qual, em grande parte da
Europa setentrional, na Alemanha, nos Países Baixos e na região báltica, passa
a ser chamada qualquer moeda de prata de grandes dimensões e de liga quase
pura. Do outro lado da Europa, na Península Ibérica, acontece algo semelhante,
mas em uma escala consideravelmente maior. Se em 1530 as minas europeias de
prata haviam produzido 11.000 kg de prata por ano, as americanas, em 1580,
produzem 34.000 kg. A Espanha é inundada pela prata que chega das minas de Potosí
e do México e decide cunhar uma moeda de peso e pureza quase idênticos aos
do thaler boêmio: o peso de ocho, o peso de oito,
que herda o papel de moeda por excelência nas trocas comerciais internacionais.
E aqui a história toma um rumo que aos espanhóis da época deve ter parecido
incompreensível, porque toda aquela prata, em vez de enriquecer o país, o
empobrece. Sancho de Moncada, teólogo e observador perspicaz de seu tempo,
compreende isso com clareza e, em seus escritos dirigidos à corte, denuncia
como a abundância de metais preciosos está produzindo, paradoxalmente, pobreza
generalizada e paralisia produtiva. É o retrato de um mecanismo econômico real,
que hoje chamamos de “doença holandesa”. A prata aflui, os preços sobem, os
salários sobem junto com eles, e as manufaturas espanholas se veem obrigadas a
produzir a custos que nenhum mercado externo está disposto a pagar.
O caso de Toledo, célebre em toda a Europa
por suas espadas e seus tecidos de lã e seda, talvez seja o exemplo mais nítido
desse processo. Antes da chegada maciça da prata americana, Toledo possui uma
classe artesanal próspera e competitiva; depois, seus produtos manufaturados
tornam-se caros demais até mesmo para os espanhóis, que preferem comprá-los no
exterior, pagando, naturalmente, em prata, em vez de adquiri-los nas caras
oficinas de sua própria terra, que, por isso, fecham; os artesãos empobrecem, e
o metal precioso que deveria ter sido uma bênção revela-se, ao contrário, um
agente de desindustrialização. Ninguém em Madri havia planejado esse resultado.
A Espanha do século XVI descobre, na própria pele, que riqueza monetária e
riqueza real são duas coisas muito diferentes. A prata tampouco para na Europa.
Prossegue sua viagem até a China, onde a dinastia Ming, após a reforma fiscal
conhecida como “lei do chicote único”, que impõe o pagamento dos impostos
exclusivamente em prata, absorve quantidades colossais. Os comerciantes
europeus compram seda, porcelana e chá chineses pagando quase exclusivamente
com pesos de oito, porque a China não tem nenhum interesse em importar
manufaturas ocidentais. O resultado é que o Império Celestial funciona, na
economia mundial da época, como um poço sem fundo que absorve a prata extraída
dos Andes e cunhada na Europa sem jamais devolvê-la. É justamente esse
circuito, Potosí, Sevilha, Amsterdã, Cantão, que faz do peso de oito a primeira
autêntica moeda global da história, muito antes de alguém pensá-la como uma
“reserva internacional de valor”, e explica como também o yuan chinês de hoje
seja outro descendente do “dólar” espanhol, do qual a palavra é, de fato, uma
tradução.
<><> A América colonial
Em 1767, em Maryland, um governador às voltas
com as dívidas de guerra faz algo que nenhuma outra colônia britânica havia
tentado antes: imprime papel-moeda denominado não em libras esterlinas, mas
diretamente em dólares. Partimos dessa data precisa porque, nesse gesto
aparentemente burocrático, mas na realidade revolucionário, concentra-se o
paradoxo da moeda colonial americana: um continente que vive constantemente sem
prata e, ainda assim, pensa, contrata e discute usando como unidade de medida
mental justamente essa moeda de prata que não possui, exceto em quantidades
muito limitadas. As colônias britânicas vivem na periferia de um império que
deseja, por lei, despojá-las de todo metal precioso. As regras mercantilistas
britânicas impõem que ouro e prata fluam para Londres para pagar as importações
das colônias e, ao mesmo tempo, proíbem a exportação de moeda inglesa para
elas. Os poucos pesos de oito espanhóis que os comerciantes coloniais conseguem
obter por meio do comércio, legal ou de contrabando, com o Caribe, são quase
imediatamente reenviados para o outro lado do oceano para saldar as dívidas com
a metrópole. Mas a palavra “dólar” não desaparece de modo algum da linguagem
colonial; pelo contrário, permanece como a “moeda de conta” com a qual plantadores
e comerciantes avaliam tudo em seus registros, mesmo quando não há sequer um
dólar físico em suas gavetas. Para manter a economia de pé, os colonos inventam
aquilo que se poderia chamar de um capitalismo da confiança: letras de câmbio
que transferem fundos de uma conta para outra, com a garantia de uma carga de
tabaco a caminho da Inglaterra, ou então promissórias privadas que passam de
mão em mão como se fossem moeda, sustentadas apenas pela reputação de quem as
assina. É um sistema frágil, que se sustenta enquanto dura a confiança,
enquanto a escassez crônica de moeda física leva as colônias a competirem até
mesmo entre si, desvalorizando cada uma seu próprio papel-moeda local na
esperança de atrair os poucos dólares espanhóis em circulação. Guerras cambiais
em miniatura travadas entre vizinhos que deveriam, ao contrário, ser aliados
contra a mesma metrópole.
É nesse cenário de escassez que Horatio
Sharpe precisa atuar, nomeado governador de Maryland justamente nos anos em que
a guerra Franco-Indígena impõe à colônia enormes despesas militares: é preciso
pagar as tropas, fortificar as fronteiras, conter as incursões inimigas. O
caminho principal da tributação revela-se impraticável. A assembleia dos
colonos resiste e, de todo modo, eles literalmente não têm as moedas com que
pagar os impostos. Sharpe recorre então aos bills of credit,
títulos de crédito governamentais de curso legal forçado, mas garantidos pelas
cotas que a colônia detém no Banco da Inglaterra e, sobretudo, por um sinking
fund alimentado por impostos futuros. No início, funcionam e a lei que
os institui prevê uma amortização rígida, com prazos fixos para a retirada e a
destruição dos títulos, a ponto de eles começarem também a ser acumulados como
“reserva de valor”, na ausência de moedas físicas. Mas em Londres pensam de
outra maneira: o governo e o Parlamento ingleses, influenciados pelas ideias de
Hume, segundo as quais a deflação não é um problema porque os preços se
ajustarão e, além disso, isso favorecerá uma maior circulação de moedas físicas
de prata, proíbem, com o Currency Act de 1764, a emissão de
papel-moeda de curso legal nas colônias. Como previsto, a massa monetária se
contrai de repente, mas a deflação que se segue, em vez de estimular a
economia, leva à sua desaceleração: os preços agrícolas se ajustam, como dizia
Hume, é verdade, mas, ao despencarem, bloqueiam o comércio, e os colonos, que
nesse meio-tempo haviam se endividado confiando naquela liquidez, veem-se
soterrados por dívidas que não sabem como honrar.
A solução que Sharpe concebe em 1767 é
elegante em sua simplicidade: se o problema é que já não se podem emitir
títulos de curso legal denominados em libras, por que não ancorá-los
diretamente ao dólar espanhol, a moeda que os colonos já utilizam na mente,
antes mesmo de utilizá-la nos bolsos? Embora o nobre inglês proprietário da
colônia de Maryland por meio de uma royal charter, Frederick
Calvert, sexto Lord Baltimore, não lhe dê nenhuma autorização explícita, Sharpe
manda emitir o primeiro papel-moeda da história norte-americana denominado
oficialmente em dólares, garantindo sua conversibilidade em libras esterlinas,
à taxa de 4 xelins e seis pence, e, sobretudo, produzindo muitas cédulas de
valores menores para facilitar os pagamentos miúdos. O experimento dá certo, os
preços se estabilizam, o comércio recupera o fôlego, e tanto os comerciantes
locais quanto os credores ultramarinos depositam confiança nas novas cédulas. É
uma pequena revolução que passa quase despercebida nos manuais de história política,
mas que antecipa em quase trinta anos a escolha que a república americana fará
depois da independência. Sharpe não terá tempo de colher os frutos políticos
desse sucesso. Em 1769, é chamado de volta a Londres, deixando para trás uma
colônia economicamente saneada, mas que começa a deslizar em direção às tensões
com a metrópole que levarão à revolução. O destino de seu antigo “empregador”,
Frederick Calvert, Lord Baltimore, é ainda mais impiedoso. Ele é arrastado por
escândalos judiciais e por uma conduta privada que a Londres da época considera
intolerável e precisa fugir para o continente, onde morre no exílio poucos anos
depois, marcando o epílogo de uma dinastia que havia governado Maryland por um
século e meio.
<><> De dólares de prata a
dólares bancários
Há um momento, na história de toda moeda, em
que ela deixa de ser um pedaço de metal e se torna uma promessa escrita em um
pedaço de papel; para o dólar, esse momento pode ser associado, não sem alguma
simplificação, à Constituição americana de 1787. Vale a pena deter-se nessa
passagem, porque ela é menos linear do que parece à primeira vista e porque diz
respeito diretamente à maneira como o dinheiro ainda hoje é criado: não pelas
casas da moeda, mas pelos bancos, cada vez que concedem um empréstimo e, no mesmo
instante, fazem surgir um depósito do nada. Um mecanismo que hoje governa os
mercados mundiais e sobre o qual, um século e meio mais tarde, discutem os
banqueiros centrais reunidos em Jackson Hole.
Os constituintes da Filadélfia, lembrando-se
do caos do papel-moeda dos anos da revolução, que havia levado a
desvalorizações impressionantes do papel-moeda emitido pelos diversos estados,
decidem cortar pela raiz: aos estados é retirado o poder de cunhar moedas,
emitir papel-moeda e considerar legais pagamentos que não sejam feitos em
moedas de ouro ou prata. Ponto. Nenhum Estado poderá celebrar Tratado, Aliança
ou Confederação; conceder Cartas de Corso e de Represália; cunhar moeda; emitir
Títulos de Crédito; declarar qualquer coisa, exceto moedas de ouro e prata,
como meio legal de pagamento de dívidas; aprovar qualquer Bill of Attainder,
lei ex post facto ou lei que prejudique a obrigação dos contratos; ou conceder
qualquer Título de Nobreza. Parece uma solução definitiva, mas a Constituição
não diz uma palavra sobre os bancos privados. Não os proíbe, não os
regulamenta, simplesmente não os considera. E essa distração ou silêncio
calculado — e seria interessante saber até que ponto os constituintes tinham
consciência disso, mas essa é uma pergunta à qual as fontes não permitem
responder com certeza — abre a porta para todo um século de cédulas emitidas
por instituições privadas, formalmente conversíveis em metal precioso, mas, na
prática, cada vez mais distantes dele. As pessoas se acostumam assim a pagar
com a promessa de um banco em vez de pagar com prata de verdade.
De 1806 a 1835, de fato, não é cunhada sequer
uma moeda de um dólar nos EUA. É verdade que o Congresso fundou uma casa da
moeda federal que começou a operar já em 1792, reproduzindo em valor e peso as
moedas de prata espanholas. Mas nunca conseguirá produzir o suficiente para as
necessidades internas e, sobretudo, as moedas de um dólar acabam regularmente
exportadas, como acontecia também com as europeias, para os mercados orientais,
razão pela qual deixam justamente de ser cunhadas, concentrando-se a produção
nas moedas de valor mais baixo, que são extremamente procuradas para as
transações cotidianas. Para ver o que isso significa na prática, deslocamo-nos
para Nova Orleans, cidade portuária que, na primeira metade do século XIX,
talvez ofereça o mais belo exemplo de desordem monetária de todos os Estados
Unidos. Nos mercados da cidade circula o picayune, uma pequena
moeda de prata espanhola que vale um décimo sexto de dólar, a clássica “moeda
pequena”, indispensável para quem precisa comprar o pão de cada dia. Ao lado
desse trocado de prata circulam as cédulas dos chamados property banks,
instituições cujo capital não é constituído por reservas líquidas, mas por
títulos garantidos por terras e seres humanos escravizados: as propriedades dos
plantadores de algodão e açúcar da Louisiana. Esses bancos imprimem, de fato,
cédulas de todos os valores para financiar a expansão agrícola e mercantil, mas
são tão frágeis quanto seus ativos são imobilizados. Quando, em 1837, as
exportações de algodão são interrompidas e as entradas de prata do exterior
param, desencadeia-se uma verdadeira bank run para converter
as cédulas em prata nos bancos. Estes ficam, depois de poucos dias, sem prata
física, e as cédulas perdem praticamente todo o seu valor. Os únicos que ainda
as aceitam, com enorme desconto, são os donos de tavernas, em troca de bebidas
alcoólicas e outras bebidas. Nunca se bebeu tanto em Nova Orleans quanto
naqueles dias. A crise de liquidez torna-se tão grave que a prefeitura precisa
intervir, imprimindo por conta própria cédulas rudimentares de pequeno valor,
posteriormente chamadas, com o típico understatement americano,
de “shinplasters”, “emplastros para a canela”, apenas para manter vivos os
pequenos intercâmbios.
Enquanto a América enfrenta essas
dificuldades bancárias, do outro lado do mundo apaga-se um mecanismo que
durante três séculos havia regulado a economia mundial da prata. A China da
dinastia Qing exige, para seus impostos e seu comércio, moedas de prata de
fabricação muito precisa: os chamados dólares “cabeça de Buda”, que, na
realidade, trazem a efígie não de Buda, mas do rei da Espanha Carlos III, cujo
perfil os comerciantes chineses consideravam semelhante, ou as moedas com o
desenho conhecido como “asas de morcego”, cunhadas no México e na Boêmia. Para
obter essas moedas específicas, os ocidentais que querem comprar chá e seda
precisam fazê-las chegar de meio mundo de distância, alimentando aquele
escoamento de prata em direção ao Oriente de que já falamos. Mas agora acontece
algo que inverte trezentos anos de equilíbrios: o comércio de ópio, promovido
por todos os meios pelos britânicos, inclusive por meio de verdadeiras guerras,
começa a obrigar os consumidores chineses a pagar pela droga em prata e, pela
primeira vez na história, o fluxo do metal se inverte, da China para o
Ocidente. O grande poço de absorção da prata mundial, aquele que havíamos visto
se formar com a reforma fiscal dos Ming, deixa de funcionar. Não porque a China
tenha deixado de querer prata, mas porque começou a ter de devolvê-la. Como se
isso não bastasse, justamente nesses mesmos anos ocorre um fato que, em solo
americano, encerra definitivamente a era do dólar de prata: em 1848,
descobre-se ouro na Califórnia.
O afluxo repentino do metal amarelo altera a
relação de valor entre ouro e prata, tornando esta última, paradoxalmente, mais
valiosa do que seu valor oficial de cunhagem. Aplica-se então a velha lei de
Gresham, segundo a qual a moeda ruim expulsa a moeda boa: quem possui dólares
de prata prefere fundi-los e revendê-los como metal, ou enviá-los para o
exterior, onde valem mais, em vez de gastá-los pelo valor nominal. As moedas de
prata, em suma, não são confiscadas nem abolidas por lei; simplesmente desaparecem
porque se torna mais conveniente fazê-las desaparecer, e o mundo ocidental,
inclusive os EUA, adota um novo sistema monetário, o Gold Standard.
É um epílogo perfeitamente coerente com tudo o que contamos até agora: o dólar
de prata, nascido em uma mina boêmia, desenvolvido ao longo das rotas
espanholas e chinesas, morre como moeda de uso comum não por um decreto, mas
por um cálculo de conveniência feito por milhares de pessoas comuns, cada uma
por conta própria. Daqui em diante, o dólar será cada vez mais uma questão de
bancos e cada vez menos uma questão de metal.
<><> Da nota bancária à moeda
global
Em 1907, durante algumas semanas do outono,
todo o sistema financeiro americano corre o risco de parar. Basta o colapso de
uma tentativa especulativa com as ações de uma empresa de mineração de cobre
para que a desconfiança se espalhe de banco em banco. As agências fecham, os
pagamentos são interrompidos, os depositantes se aglomeram para retirar
dinheiro que, simplesmente, não existe, porque os bancos, como sempre acontece,
mantêm em caixa apenas uma fração do que foi depositado. É o pânico que finalmente
convence o Congresso a fazer aquilo que a América havia adiado por um século:
criar um banco central. Nasce assim, em 1913, o Federal Reserve, pensado para
emprestar liquidez emergencial aos bancos em dificuldades.
Funciona, mas apenas até certo ponto. Quando
chega a Grande Depressão, vinte anos depois, milhares de bancos fecham as
portas e, com eles, desaparecem as economias de milhões de americanos e boa
parte da moeda em circulação. A lição é que ter um banco central não basta para
tornar realmente seguro um sistema baseado no crédito privado. Nessa crise
repete-se, como um déjà-vu, a história que já havíamos visto em Nova Orleans um
século antes: quando falta dinheiro oficial, alguém o inventa. O economista
Irving Fisher, um dos mais importantes teóricos monetários de seu tempo,
defende o uso de moedas locais de emergência, os scrip. Quem os
coloca em prática, em uma pequena cidade de Iowa chamada Hawarden, é um
funcionário municipal chamado Charles Zylstra, que manda imprimir cédulas
locais às quais deve ser aplicada uma marca fiscal a cada transação; sua
arrecadação financiará o resgate final do papel-moeda. Um mecanismo um tanto
complicado, se quisermos, mas eficaz, e sua difusão em outras comunidades
demonstra mais uma vez que a moeda nunca é apenas uma questão técnica, mas
também sempre um produto de decisões políticas.
A guerra, como frequentemente acontece,
resolve aquilo que a paz não havia conseguido resolver. Durante a Segunda
Guerra Mundial, o Federal Reserve trabalha em estreita colaboração com a Casa
Branca para manter baixo o custo da dívida pública, financiando o esforço de
guerra por meio da expansão do crédito bancário. No pós-guerra, com os acordos
de Bretton Woods, o dólar sai definitivamente das fronteiras americanas para se
tornar o eixo de todo o sistema mundial de câmbios. As demais moedas se ancoram
ao dólar e o dólar, apenas para os bancos centrais estrangeiros, note-se,
permanece conversível em ouro à taxa fixa de 35 dólares por onça. É o momento
de máxima glória da velha equação entre moeda e metal; mas, como veremos, é
também o início de seu fim.
Nos anos 1950, quase silenciosamente, abre-se
em Londres uma fissura que ninguém sabe, no início, até onde irá se ampliar: o
mercado de eurodólares. Trata-se, em palavras simples, de depósitos em dólares
mantidos em bancos europeus, fora da jurisdição do Federal Reserve e, portanto,
fora do alcance de suas regulamentações sobre reservas e taxas de juros. A City
de Londres descobre nesse vazio normativo uma oportunidade de ouro e, em pouco
tempo, são os próprios bancos americanos, por meio de suas filiais no exterior,
que passam a utilizar esses dólares offshore para contornar as
restrições de crédito impostas em seu país. Na Fed, alguém percebe isso e não
gosta nem um pouco. Andrew Brimmer, membro do conselho de governadores, lança
mais de um alerta sobre esse mercado paralelo que, na prática, escapa ao controle
do banco central que deveria governar a moeda americana. Propõe medidas de
contenção; mas as autoridades da Fed, mais interessadas em não dificultar a
expansão dos mercados financeiros internacionais do que em defender a ortodoxia
monetária, deixam correr.
O ponto de ruptura chega em 1971. Alguns
bancos centrais europeus, em particular o alemão e o francês, sentados sobre
montanhas de dólares acumulados graças às exportações para os EUA e preocupados
com a inflação americana, começam a pedir sua conversão em ouro. E o ouro,
simplesmente, corre o risco de não ser suficiente. Richard Nixon, diante do
risco de ver Fort Knox esvaziado, decide suspender, de um dia para o outro, sua
conversibilidade. É o fim de Bretton Woods e é um momento em que muitos — economistas,
banqueiros, observadores — esperam o pior. Um dólar sem ouro, pensa-se, corre o
risco de perder toda a credibilidade no mercado de câmbio. Dois anos depois, a
crise do petróleo de 1973 parece oferecer uma ocasião perfeita àqueles que
queriam ver o dólar afundar. O que farão os países árabes, repentinamente
enriquecidos pelo aumento do preço do petróleo, com todos aqueles dólares em
suas mãos? A resposta, para desgosto dos pessimistas, é que os reinvestem em
títulos do Tesouro americano e os depositam nos bancos ocidentais,
consolidando, em vez de enfraquecer, o papel internacional da moeda dos EUA. Privado
da ancoragem ao ouro, o dólar não desaba, portanto, mas descobre-se
simplesmente que ele é aquilo em que já havia se transformado muitas décadas
antes, desde os tempos das cédulas de Nova Orleans: não um pedaço de metal, mas
uma rede de confiança e contratos, sustentada pela profundidade e pela
estrutura dos mercados financeiros americanos mais do que por qualquer outra
garantia. O fim da conversibilidade não é, portanto, um colapso, mas o
desvelamento de uma natureza que o dólar já possuía havia muito tempo, sem que
ninguém tivesse tido coragem ou necessidade, até aquele momento, de admiti-la
abertamente.
Fonte: La Storia e Le Idee | Tradução: Lucas
Scatolini, para Outras Palavras