segunda-feira, 20 de julho de 2026


TariFlávio: governo abre novos mercados e exportações superam em mais de seis vezes perdas nos EUA

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva conseguiu ampliar de maneira expressiva a presença dos produtos brasileiros em novos mercados internacionais, compensando com ampla vantagem as perdas provocadas pelas tarifas impostas pelos Estados Unidos. No primeiro semestre, o crescimento das exportações para China, Europa e Índia alcançou R$ 16,1 bilhões, valor mais de seis vezes superior à redução registrada nas vendas destinadas ao mercado estadunidense.

Os dados, apresentados em levantamento sobre o desempenho recente do comércio exterior brasileiro e as ações da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, a ApexBrasil, mostram que a diversificação promovida pelo governo Lula se tornou uma das principais ferramentas de resistência do país diante do protecionismo comercial adotado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

As vendas brasileiras para os Estados Unidos registraram uma queda equivalente a R$ 2,6 bilhões, refletindo os efeitos das tarifas aplicadas pelo governo Trump no ano anterior. O impacto, porém, foi neutralizado pela abertura de novos destinos para mercadorias brasileiras, especialmente na Ásia e na Europa.

A estratégia do governo Lula tem sido ampliar as relações comerciais do Brasil, fortalecer o Mercosul e reduzir a vulnerabilidade do país a decisões unilaterais de Washington. O resultado indica que o Brasil passou a encontrar compradores em economias que apresentam demanda crescente por alimentos, energia, produtos industrializados e matérias-primas.

<><> Diversificação reduz dependência dos Estados Unidos

A expansão das exportações brasileiras para China, União Europeia e Índia reforça a estratégia de inserção internacional adotada desde o início do terceiro mandato de Lula. Ao retomar relações diplomáticas, realizar missões empresariais e acelerar negociações comerciais, o governo conseguiu criar alternativas para setores atingidos pelas barreiras dos Estados Unidos.

A diversificação também aparece no desempenho das empresas apoiadas pela ApexBrasil. Entre aproximadamente 2,4 mil companhias que exportavam para o mercado estadunidense e receberam suporte da agência, cerca de 72% conseguiram abrir novos mercados ou ampliar suas vendas para outros países.

O resultado mostra que grande parte das exportadoras brasileiras não permaneceu refém do mercado norte-americano. Ao buscar novos compradores, essas empresas conseguiram preservar receitas, manter a produção e diminuir os riscos associados à política tarifária de Trump.

A abertura de novos mercados ganhou importância adicional porque as tarifas norte-americanas não foram tratadas pelo governo brasileiro apenas como um problema conjuntural. A avaliação é que a atual política dos Estados Unidos exige uma mudança estrutural na estratégia de comércio exterior do Brasil.

<><> ApexBrasil anuncia pacote de R$ 130 milhões

Para acelerar esse processo, a ApexBrasil anunciou um pacote de R$ 130 milhões destinado a apoiar empresas brasileiras na busca por novos destinos de exportação. Os recursos serão utilizados em ações de promoção comercial, participação em feiras internacionais, missões empresariais e identificação de compradores estrangeiros.

A iniciativa pretende reduzir os efeitos das tarifas impostas pelos Estados Unidos e oferecer condições para que empresas de diferentes portes consigam entrar em mercados que, muitas vezes, exigem investimentos elevados em certificações, logística, adaptação de produtos e promoção comercial.

O foco está na ampliação das vendas para a União Europeia, China, países que integram a Associação de Nações do Sudeste Asiático, a Asean, e economias da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão.

Esses mercados são considerados estratégicos tanto pelo ritmo de crescimento econômico quanto pelo aumento da demanda por produtos nos quais o Brasil é competitivo. Entre eles estão alimentos, proteínas animais, café, produtos agrícolas, minérios, energia, máquinas, medicamentos e bens industriais.

<><> Lula amplia presença brasileira na Ásia

A Ásia ocupa uma posição central na política comercial do governo Lula. Além da China, principal parceira comercial do Brasil, o país busca fortalecer relações com Índia, Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã.

Muitas dessas economias apresentam taxas elevadas de crescimento, expansão da população urbana e aumento do poder de consumo. Países como Indonésia, Malásia, Tailândia e Vietnã oferecem oportunidades para empresas brasileiras em áreas como alimentos, energia, tecnologia agrícola, aviação e infraestrutura.

O governo brasileiro também acompanha o avanço econômico de países da Ásia Central. Cazaquistão e Uzbequistão, por exemplo, vêm registrando crescimento e ampliando a demanda por produtos importados, criando espaço para uma presença maior das empresas brasileiras.

Algumas dessas economias apresentam taxas de expansão do Produto Interno Bruto próximas de 7% ou 8%, segundo as informações apresentadas no levantamento. Esse desempenho contrasta com o crescimento mais lento de mercados tradicionais e reforça a necessidade de o Brasil direcionar suas exportações para regiões mais dinâmicas.

<><> Mercosul amplia oportunidades comerciais

Outro eixo da estratégia brasileira é a utilização do Mercosul como plataforma para negociar acordos comerciais com outros países e blocos econômicos. O governo Lula tem defendido que a integração regional deve aumentar o poder de negociação da América do Sul e facilitar o acesso das empresas do bloco a mercados relevantes.

As negociações do Mercosul com países asiáticos e com o Canadá são vistas como oportunidades para ampliar as exportações brasileiras e reduzir a concentração das vendas em poucos destinos.

A aproximação com países da Asean também pode abrir um mercado formado por centenas de milhões de consumidores. A região reúne algumas das economias que mais crescem no mundo e apresenta demanda crescente por alimentos, energia e produtos industrializados.

Na Europa, a perspectiva de ampliação das parcerias comerciais também ganhou força. A estratégia brasileira combina a busca de acordos com a promoção direta de produtos e empresas nacionais nos diferentes países do continente.

<><> Política externa gera resultados econômicos

A abertura de mercados é uma das prioridades da política externa de Lula. Desde que retornou ao Palácio do Planalto, o presidente tem defendido uma diplomacia ativa, voltada à integração regional, ao fortalecimento do Sul Global e à construção de uma ordem internacional multipolar.

Essa atuação inclui viagens presidenciais, reuniões com chefes de Estado, retomada de mecanismos de cooperação e participação brasileira em fóruns como o Brics, o G20 e encontros entre países da América Latina, África, Ásia e Oriente Médio.

As iniciativas diplomáticas também têm sido acompanhadas por missões empresariais e negociações sanitárias para permitir a entrada de produtos brasileiros em novos mercados. A habilitação de frigoríficos, o reconhecimento de certificados e a redução de barreiras técnicas são etapas fundamentais para que os acordos políticos se transformem em vendas concretas.

O aumento das exportações para China, Europa e Índia demonstra que essa política já produz efeitos econômicos. Em vez de apenas reagir às tarifas dos Estados Unidos, o governo optou por ampliar o número de parceiros e tornar o comércio exterior brasileiro mais resistente a pressões externas.

<><> Brasil responde ao protecionismo com novos parceiros

A estratégia representa uma resposta à política comercial do governo Trump. Ao impor tarifas aos produtos brasileiros, Washington buscou aumentar a pressão sobre setores da economia nacional e restringir o acesso ao mercado dos Estados Unidos.

O Brasil, no entanto, conseguiu direcionar parte crescente de sua produção para outros destinos. A diferença entre os R$ 16,1 bilhões obtidos com o aumento das vendas para China, Europa e Índia e a perda de R$ 2,6 bilhões nos Estados Unidos evidencia o impacto positivo da diversificação.

A relação entre os dois números mostra que, para cada real perdido no mercado estadunidense, o Brasil conseguiu gerar mais de seis reais em exportações adicionais para os três grandes polos comerciais.

O desempenho fortalece a posição do governo Lula de que o país não deve aceitar uma relação de dependência econômica ou subordinação política. A ampliação das parcerias internacionais permite que o Brasil preserve sua autonomia e responda a medidas protecionistas sem comprometer seu crescimento.

<><> Empresas brasileiras aumentam capacidade de resistência

O apoio da ApexBrasil também tem permitido que pequenas e médias empresas participem do processo de internacionalização. Muitas companhias dependem de orientação técnica e financeira para identificar clientes, adaptar produtos e cumprir as regras exigidas por outros países.

Ao apoiar 2,4 mil empresas afetadas direta ou indiretamente pelas tarifas dos Estados Unidos, a agência contribuiu para que a maioria delas encontrasse alternativas. O índice de 72% de empresas que abriram novos mercados ou ampliaram as vendas indica que o esforço teve alcance significativo.

O pacote de R$ 130 milhões deverá aprofundar esse movimento e aumentar o número de companhias brasileiras com presença internacional. A intenção é impedir que decisões tomadas por um único governo estrangeiro sejam capazes de comprometer cadeias produtivas inteiras no Brasil.

A combinação entre diplomacia presidencial, negociações do Mercosul, atuação da ApexBrasil e busca de parceiros na Ásia e na Europa consolida uma nova configuração para o comércio exterior brasileiro. Diante das tarifas de Trump, o governo Lula respondeu não com isolamento, mas com a abertura de novos mercados e a construção de uma rede mais ampla de relações econômicas.

¨      Agro brasileiro aposta em novos destinos para minimizar tariFlávio dos EUA

Produtores brasileiros de diferentes segmentos do agronegócio estão acelerando a busca por novos mercados para reduzir os impactos das tarifas impostas pelos Estados Unidos sobre produtos brasileiros. A estratégia inclui ampliar as vendas para destinos como União Europeia, Argentina, Oriente Médio e Ásia, diminuindo a dependência do mercado norte-americano e preservando a competitividade das exportações.

As informações foram publicadas pelo g1. Segundo a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), as tarifas impostas pelo governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, colocam sob pressão cerca de US$ 4,6 bilhões em exportações do agronegócio brasileiro, afetando cadeias como uva, ovos, madeira, arroz e açúcar.

Apesar do novo cenário, a diversificação dos mercados já vinha sendo adotada por diversos exportadores brasileiros. Em 2025, o Brasil registrou o recorde histórico de US$ 348,7 bilhões em exportações. De acordo com análise da XP Macro Research, o desempenho foi sustentado pelo redirecionamento de parte das vendas para a China e outros mercados internacionais, compensando a redução dos embarques destinados aos Estados Unidos.

<><> Produtores de uva ampliam presença em novos mercados

Entre os segmentos mais atingidos está o da uva. Segundo levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), a fruta é a principal cadeia da fruticultura brasileira que ficou fora da lista de isenções concedidas pelos Estados Unidos.

O produtor Rodrigo Pamponet afirmou ao g1 que sua fazenda praticamente deixou de depender do mercado norte-americano. Segundo ele, em 2024 foram embarcados cerca de 50 paletes de uvas para os Estados Unidos. No ano seguinte, esse volume caiu para apenas seis paletes, destinados apenas ao cumprimento de um pedido já existente. Para este ano, a expectativa é de que as exportações para aquele mercado praticamente desapareçam, caso os importadores americanos não assumam parte do custo adicional provocado pelas tarifas.

Hoje, aproximadamente 70% da produção exportada pela fazenda segue para a União Europeia, enquanto 28% é destinada à Argentina. A proximidade geográfica e os custos logísticos mais baixos fizeram do mercado argentino uma alternativa importante para os produtores.

Os números do comércio exterior refletem essa mudança. As exportações brasileiras de uva para a Argentina cresceram de 3,6 mil toneladas em 2024 para mais de 8 mil toneladas em 2025. No mesmo período, as compras norte-americanas caíram de 13,8 mil toneladas, que renderam US$ 41,5 milhões, para 4,1 mil toneladas, com faturamento de US$ 12,8 milhões.

<><> Vale do São Francisco teme impactos econômicos

Principal polo da fruticultura irrigada do país, o Vale do São Francisco responde por cerca de 75% da produção nacional de uvas e por aproximadamente 95% das exportações brasileiras da fruta.

Embora a Europa seja hoje o principal destino da produção nacional, especialistas destacam que o mercado norte-americano oferece maior rentabilidade. O pesquisador João Ricardo Lima, da Embrapa Semiárido, explicou ao g1 que os compradores dos Estados Unidos costumam pagar valores superiores pelas frutas de maior qualidade, tornando a perda desse mercado especialmente relevante para os produtores.

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), Jailson Lira, afirmou que a abertura de novos mercados reduziu parte dos impactos das tarifas, mas ressaltou que o setor ainda vive um momento de muita tensão. Segundo a entidade, a cadeia da uva gera cerca de 70 mil empregos diretos e indiretos na região, sendo aproximadamente metade ocupados por mulheres.

Apesar das dificuldades, os produtores mantêm a expectativa de que uma solução negociada seja alcançada antes de setembro, período em que começa a principal temporada de embarques de frutas do Vale do São Francisco para os Estados Unidos.

<><> Outros segmentos também reorganizam exportações

Além da fruticultura, outros setores do agronegócio acompanham os efeitos das novas barreiras comerciais.

Em nota enviada ao g1, a Associação Brasileira da Indústria do Arroz (Abiarroz) informou que participou de audiências públicas em Washington para defender que o arroz brasileiro desempenha papel complementar no abastecimento do mercado norte-americano, cuja produção doméstica não atende toda a demanda.

Mesmo assim, a entidade avalia que a exposição do setor aos Estados Unidos é limitada, já que os principais compradores do arroz brasileiro estão na América Latina e na África, com destaque para Venezuela, México e Senegal. A associação também alertou que as tarifas poderão elevar o custo do alimento para os consumidores norte-americanos caso sejam repassadas aos preços finais.

Na proteína animal, o presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), Ricardo Santin, afirmou ao g1 que o impacto das tarifas varia conforme o produto.

No mercado de ovos, o efeito tende a ser limitado porque as exportações brasileiras para os Estados Unidos já haviam diminuído após a normalização da oferta interna daquele país, encerrando o período de escassez provocado pela gripe aviária. Atualmente, apenas cerca de 1% da produção nacional de ovos é destinada ao mercado externo.

Na carne suína, a participação dos Estados Unidos também é pequena. Os embarques, que chegaram a aproximadamente 60 mil toneladas em anos anteriores, recuaram para uma média próxima de 3 mil toneladas por causa das barreiras comerciais, deixando o país fora da lista dos dez principais destinos da proteína brasileira.

A ABPA também considerou positiva a decisão das autoridades norte-americanas de manter a tilápia fora da lista de produtos sobretaxados, avaliando que a medida demonstra a existência de espaço para negociações técnicas entre os dois países.

<><> Governo prepara plano de apoio aos exportadores

Para reduzir os impactos do tarifaço, o governo federal anunciou que retomará medidas voltadas ao apoio das empresas atingidas pelas novas barreiras comerciais, embora ainda não tenha detalhado o funcionamento das ações.

O pacote deverá incluir linhas de crédito para capital de giro, financiamento de investimentos e mecanismos para facilitar o redirecionamento das exportações para novos mercados.

Paralelamente, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil) prepara um plano de contingência com investimento de R$ 130 milhões em ações de diversificação comercial. A iniciativa prevê ampliar a presença de produtos brasileiros em mercados da Ásia Central, como Cazaquistão e Uzbequistão, além de fortalecer as exportações para países do Oriente Médio.

O governo também pretende aproveitar as oportunidades abertas pelo acordo entre Mercosul e União Europeia para ampliar os destinos das exportações brasileiras e reduzir a dependência do mercado norte-americano, reforçando a estratégia de diversificação que já vem sendo adotada por diferentes segmentos do agronegócio.

<><> Alckmin diz que etanol foi único tema explícito em negociação com EUA

O vice-presidente Geraldo Alckmin afirmou nesta sexta-feira que o etanol foi o único tema tratado de forma mais explícita pelos Estados Unidos nas negociações comerciais com o Brasil, ressaltando que o governo brasileiro propôs tratar conjuntamente os mercados de etanol e açúcar.

Segundo Alckmin, Brasil e EUA não deveriam discutir tarifas sobre o etanol, uma vez que os países são os dois maiores produtores mundiais e deveriam mirar terceiros mercados para o produto.

A fala ocorreu em entrevista à GloboNews dias depois de o Escritório do Representante Comercial dos EUA (USTR) citar o acesso ao mercado brasileiro de etanol entre as justificativas para impor uma tarifa de 25% sobre produtos do Brasil, que deve entrar em vigor em 22 de julho.

Associações do setor rejeitaram o argumento norte-americano, apontando que as importações de etanol dos EUA pelo Brasil vêm caindo nos últimos anos por causa da expansão da produção doméstica a partir de milho, e não por barreiras comerciais — ao mesmo tempo em que o açúcar brasileiro segue sujeito a tarifas e restrições de acesso ao mercado americano.

Alckmin também reforçou que o Brasil segue disposto ao diálogo e vai trabalhar para reduzir as tarifas dos EUA.

 

Fonte: Brasil 247 

O golpe se voltou contra quem o desferiu

O calendário eleitoral avança. Nesta semana terá início a temporada de convenções partidárias e, com elas, haverá uma mudança formal, porém importante, no cenário da disputa. Daqui por diante, os políticos que disputarão cargos eletivos este ano poderão ser chamados de candidatos — algo que já eram há muito tempo, mas que não podiam dizer. A convenção nacional do PL, de Flávio Bolsonaro, será no sábado, 25 de julho. A do PT, do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ocorrerá na próxima semana, dia 2 de agosto.

Os candidatos não precisarão recorrer a subterfúgios para pedir voto ao eleitor. No Brasil é assim: o Código Eleitoral é rígido e estabelece uma série de restrições a quem vai disputar eleições. Mas a impressão que fica é a de que os postulantes aos cargos nem ligam para isso.

Até o dia 4 deste mês, por exemplo, Lula, Tarcísio Gomes de Freitas, de São Paulo, e os outros governadores que disputarão a reeleição participaram de dezenas de inaugurações de obras de suas gestões. Os eventos nada mais foram do que comícios. Eles falavam e agiam como candidatos, distribuíam tapinhas nas costas dos correligionários — só não podiam se apresentar como candidatos.

MALHA FINA

Mais de uma vez, nessas ocasiões, os limites da lei eleitoral foram ultrapassados. Dias atrás, a Procuradoria Regional Eleitoral de São Paulo se manifestou favorável à aceitação de uma denúncia contra o presidente Lula. O motivo foi um pedido explícito de votos para as candidatas que apoiará na disputa pelo Senado em São Paulo, Simone Tebet e Marina Silva — suas ex-ministras. A punição é multa de R$ 5.000 a R$ 25.000.

Será que o presidente está preocupado com isso? Não parece. Em 2024, Lula fez exatamente o mesmo: pediu votos antes da hora para o então candidato Guilherme Boulos, do Psol, que disputou a Prefeitura de São Paulo com o apoio do PT. Até hoje, mais de dois anos depois, não há registro do pagamento da multa, reduzida de R$ 20.000 para R$ 15.000.

São tantos os casos em que a Justiça parece inerte diante do descumprimento das normas eleitorais que, quando alguém cai na malha fina, é inevitável que o episódio atraia atenção. Na última segunda-feira, o ministro Alexandre de Moraes tomou decisões que atingem em cheio a candidatura (ou melhor, a pré-candidatura) de Flávio Bolsonaro.

O episódio girou em torno da carta do ex-presidente Jair Bolsonaro, lida por Flávio em suas redes sociais. Na tentativa de reorganizar as forças de apoio ao PL, o ex-presidente, que cumpre em regime domiciliar a pena de prisão a que foi condenado pelo STF, disse que seus apoiadores deveriam deixar as "possíveis diferenças" de lado e se unir em torno da candidatura de seu filho mais velho.

CONSEQUÊNCIAS INESPERADAS

A reação de Moraes, que cuida do caso, não tardou. Rigoroso, como costuma ser quando se trata de qualquer ação que envolva a família Bolsonaro, ele endureceu o jogo e proibiu Flávio de ter contato com o pai por 90 dias — o que os manterá afastados durante todo o processo eleitoral. Também solicitou à Justiça Eleitoral que avalie o possível descumprimento da lei por campanha eleitoral antecipada.

No calor dos acontecimentos, emergiu a suspeita de que a intenção de Flávio, ao divulgar amplamente a carta, foi justamente a de provocar a reação do ministro. Como se o golpe tivesse se voltado contra quem o desferiu. A decisão ampliou o alcance político da carta, conferiu relevância nacional ao episódio e recolocou o nome de Jair Bolsonaro no centro da campanha justamente às vésperas das convenções partidárias.

Os movimentos da política às vezes têm consequências estranhas. O contencioso comercial com os Estados Unidos, por exemplo, é um desastre para o Brasil. Na semana passada, o governo americano aplicou tarifas de 25% sobre uma série de produtos brasileiros — e é cada vez mais evidente que a decisão foi estimulada pela postura do Itamaraty, que, em vez de negociar, preferiu não conversar com Washington.

Assim como a decisão de Moraes pode acabar projetando ainda mais o nome de Flávio Bolsonaro, a decisão do governo de Donald Trump, que parece mirar o governo brasileiro, pode render dividendos eleitorais a Lula. Por essas e outras, a campanha deste ano promete fortes emoções. É esperar para ver.

¨      Tarifaço começa dia 22, número de Flávio na urna. Por Gilberto Menezes Côrtes

Não adianta o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) fazer contorcionismos para atribuir a responsabilidade do tarifaço de 25%, imposto pelo USTR (Escritório de Comércio dos Estados Unidos), do governo Trump, a mais de 4 mil itens exportados pelo Brasil aos EUA, ao presidente Lula.

As digitais do candidato, que apoiou as medidas em junho do ano passado, quando Trump exigiu, pela sua rede social, "IMEDIATAMENTE", a suspensão do processo contra Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal, estão presentes na própria data em que começa a contagem do tarifaço: 22 de julho.

Isso vai reavivar, na hora da votação na urna, em 4 de outubro, quem é, de fato, o instigador de medidas lesa-pátria contra o Brasil, pois o número do candidato do PL é 22.

A responsabilidade política é toda do clã Bolsonaro, que, capitaneado pelo ex-presidente Jair Bolsonaro, eleito pelo PSL em 2018, sentou praça no PL em 30 de novembro de 2021.

<><> Exceções não alteram as regras

Como em todos os tarifaços já ensaiados pelo governo Trump (o primeiro, de âmbito global, valeria a partir de abril de 2025, mas foi recuado diante do efeito bumerangue), há um prazo efetivo para que os importadores locais dos produtos desembarcados nos portos e aeroportos americanos paguem as novas tarifas. Isso exclui os produtos que estão em trânsito, por navios.

De outra parte, na economia globalizada que o presidente americano quer destruir em favor do MAGA, a indústria e o setor de serviços dos Estados Unidos dependem dos insumos importados. Por isso, por dependerem dos "chips" e terras raras fornecidas pela China, o rugido inicial de leão contra Xi Jinping se transformou em miado, com recuos gerais e negociações caso a caso.

Em agosto-setembro do ano passado, diante das pressões inflacionárias, a partir do café da manhã, os EUA foram abrindo isenções pragmáticas a produtos brasileiros, como resultado das negociações de representantes empresariais e governamentais dos dois países. Depois, a própria Suprema Corte americana derrubou o tarifaço.

<><> Mirando no Brasil

Mas a mira "na cabecinha" do Brasil, como diria o ex-aliado, ex-governador Wilson Witzel (PSL-RJ), que sofreu "impeachment" na Alerj, em 2021, foi instigada pelo clã Bolsonaro, representado nos EUA, desde fevereiro de 2025, pelo filho 03, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que perdeu o mandato por excesso de faltas, enquanto tramava contra a pátria junto ao Departamento de Estado chefiado por Marco Rubio, e o economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, general João Figueiredo.

A ambos, em duas ocasiões, Flávio Bolsonaro se juntou, em Washington, para tramar contra o Brasil. Em maio, depois de despencar nas pesquisas após as revelações de sua intimidade com Vorcaro [por sinal, esta semana, foi divulgada foto descontraída do senador, sem camisa, feita em 2022, ao lado do "sicário" de Daniel Vorcaro, Luiz Phillipi Mourão, que teria se suicidado em cela da Polícia Federal em março deste ano, indicando que os contatos seriam anteriores a 2024, como alega], para defender, ao lado de Trump, o tarifaço, negociações com o Pix e a inclusão do PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas.

Ante a repercussão negativa, voltou em julho ao Departamento de Estado, depois de pedir, em carta ao USTR, para que os Estados Unidos suspendessem o tarifaço por três meses, “para não beneficiar Lula”, e aproveitou para municiar o secretário Marco Rubio contra o Brasil. Isso explicaria a grosseria do ataque ao “ego” de Lula pelo secretário de Trump, o maior dos ególatras.

Assim, na prática, os impactos nos consumidores americanos (que, no fundo, vão receber produtos remarcados pelas novas tarifas) fica para agosto.

<><> Impactos do tarifaço na reta final

Ou seja, o noticiário sobre os impactos do tarifaço – não só pela ótica das perdas de empresários e trabalhadores brasileiros dos setores mais atingidos (que se concentram em São Paulo, o estado de maior pujança econômica e de mais peso no colégio eleitoral), além das notícias vindas dos EUA - vai coincidir com a abertura da janela para que os partidos políticos confirmem suas chapas para a eleição presidencial e para os demais cargos em disputa este ano.

Nesta segunda-feira, 20 de julho, começa a contagem regressiva para a definição das chapas, cujo prazo se encerra em 5 de agosto.

Os impactos políticos dos noticiários negativos que se abateram sobre o candidato do PL desde 13 de maio, quando o site “Intercep Brasil” divulgou suas conversas de “irmão” com Daniel Vorcaro, para cobrar do então dono do Banco Master, que já tinha adiantado R$ 61 milhões, o restante dos R$ 134 milhões previstos para o filme “Dark Horse”, o “Azarão”, sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, são devastadores. E refletem nas pesquisas eleitorais

<><> A ironia do calendário

Não é devaneio ou mera especulação de alguns analistas políticos a suposição de mudança brusca na chapa do PL até 5 de agosto.

Aos sucessivos revezes de Flávio Bolsonaro, como o cerco da Polícia Federal a aliados políticos no Rio de Janeiro e outros estados ligados ao crime organizado (ironia, além das milícias, há vinculações ao Comando Vermelho e ao Terceiro Comando Puro, ainda não considerado “terrorista”) se somam os riscos da audiência marcada para o dia 28 de julho pelo ministro Alexandre de Moraes, no STF.

Trata-se do julgamento de crime de calúnia contra o presidente Lula, a quem acusara de ligações com o narcotráfico. Os casos geram a expectativa de que o senador, - ameaçado de derrota para Lula – tente manobra radical para evitar a retomada das investigações sobre a prática de “rachadinhas” de salários de nomeados em seu gabinete na Alerj.

O mandato de senador de Flávio Bolsonaro está valendo até 31 de janeiro de 2026. Foi por ter sido eleito senador, em 2018, e o pai presidente da República, que Jair Bolsonaro mexeu céus e terras para trancar as investigações e anular as provas de saques e depósitos em caixas eletrônicos colhidos pelo Ministério Público e a Polícia Civil do Estado Rio de Janeiro, e passar o exame à instância superior. O governo estadual, sob intervenção do presidente do Tribunal de Justiça do ERJ, desembargador Ricardo Couto, não deixa espaço a manipulações políticas dos aliados

O caso das “rachadinhas” motivou as desavenças que levaram ao “impeachment” de Witzel. Também custou a demissão de Sérgio Moro do Ministério da Justiça e Segurança de Bolsonaro, em 23 de abril de 2020, porque a Polícia Federal estava reabrindo o caso.

Flávio, se for eleito, promete o indulto ao pai, Jair Messias Bolsonaro, que está cumprindo pena de 27 anos em prisão domiciliar – quase suspensa pela mal explicada divulgação da “Carta aos brasileiros”, lida por Flávio em redes sociais. O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, adiantou que o indulto poderia ocorrer em janeiro. Entretanto, em caso de derrota, Flávio Nantes Bolsonaro perde a imunidade a partir de 1º de fevereiro. Se as chances de derrota crescerem, é plausível que busque a proteção de um novo mandato no Senado ou na Câmara dos Deputados.

<><> Nas tarifas, Trump quer a Fifa, não ONU e OMC

Para o presidente americano, Donald Trump, que retirou os Estados Unidos dos principais acordos internacionais (como o do Clima), esvaziou a ONU e seus organismos internacionais (como a OMS e a OMC) e anunciou tarifaço contra o Brasil a partir de 22 de julho, o mundo ideal seria o da Copa do Mundo, gerido pela Fifa.
No jogo contra a Bósnia: o artilheiro Balogun, dos EUA, foi expulso, por jogo violento. E estaria suspenso no jogo, eliminatório, contra a Bélgica, dia 6 de julho. O presidente Trump apelou à Fifa e foi atendido: para Trump, “a Fifa corrigiu uma grande injustiça”. Mas os deuses do futebol não aceitam interferência e a Bélgica eliminou os EUA por 4 X1.

O arrazoado do USTR (o Escritório de Comércio dos Estados Unidos), equivalente ao nosso MDIC (Ministério do Desenvolvimento Indústria e Comércio Exterior) para justificar o tarifaço de 25% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, com lista de exceção de mais de 11 mil itens (que pesam no bolso de seus consumidores ou vitais à indústria), como o café, carne bovina, laranja e suco de laranja, peixes, madeiras serradas, terras raras e peças e motores para aeronaves) é tão primário e grosseiro quanto a intervenção de Trump atendida por Giani Infantino, da Fifa.

Na verdade, a gênese do pacote americano traduz visão imperialista que não aceita concorrência no comércio, pois implicaria aceitar a perda em alguma área. Na agricultura, os EUA foram gigantes e líderes em quase todos os grãos, alimentos e produção de carnes passíveis de serem produzidos em território americano. A escala cresceu no século passado, quando as duas guerras mundiais afetaram a produção agrícola na Europa.

As exceções ditadas climáticas são claras como o cacau e o café e outros produtos que são inviáveis de produzir no solo ianque. Mas as geadas que atingiram os cafezais de São Paulo e Paraná em julho de 1975 mudaram o mapa da agricultura do Brasil. Atrás de clima mais ameno, o café se instalou no sul de Minas e no Triângulo mineiro. A cana-de-açúcar e a laranja ocuparam áreas que eram do café em SP.

E a produção de soja, iniciada no Rio Grande do Sul e Paraná, foi atraída para o Planalto Central, com sementes de soja, milho e algodão adaptadas pela Embrapa. Pastos foram substituídos por lavouras mecanizadas e a integração da produção de grãos com o confinamento de gado bovino para engorda provocou recordes de produção de grãos e carnes. Soja e milho são matérias-primas das rações para aves e suínos, cuja produção alimentou brasileiros e gerou excedentes exportáveis. O alvo da conquista do cerrado no governo Geisel (1974-79) era atender à demanda do Japão.
Na virada do século, o Brasil já era líder na exportação de carne de frango (desbancando os líderes EUA e o segundo lugar da França). O passo seguinte, com a entrada da China como grande comprador de proteínas e matérias-primas, foi erradicar a febre aftosa nos rebanhos bovinos e suínos para habilitar o Brasil como exportador dos dois tipos de carne.

A peste suína africana destruiu, na década passada, mais da metade da produção de carne de porco (a carne mais consumida na China). Isso abriu enorme espaço para carnes no mercado chinês. Os Estados Unidos não aproveitaram, porque seu rebanho bovino vem encolhendo (é menos da meta dos 220 milhões de cabeças no Brasil) e o país precisa importar carne para seus 340 milhões de consumidores.

Os pecuaristas americanos tentaram acusar os pecuaristas brasileiros de práticas desleais ou de conquista de florestas para pastos (o que fizeram no século 19). Mas a necessidade de segurar a inflação doméstica, deixou a carne bovina brasileira fora da lista: é vital à produção de hamburguers. É bom ficar atento a novas investidas.
Do mesmo modo, madeiras de pinus serradas foram isentas de taxas porque são vitais à indústria da construção de casas nos EUA. Idem para o suco de laranja (a produção da Flórida é insuficiente) e para as peças e motores para a aeronaves da Embraer, importantes para o mercado regional, assim como máquinas e tratores de uso industrial.

Mas o lado mais revelador do inconformismo americano com a perda de sua hegemonia econômica em diversas áreas é a crítica de que as instalações industriais no mundo estão com capacidade acima do consumo global. Ora, quem criou a pujança industrial nas economias emergentes após a primeira crise do petróleo, em 1973, foram os próprios Estados Unidos. Houve clara intenção de transferência da produção de bens com uso intensivo de energia (como o alumínio e o aço) para fora do território americano. Com o Brasil, acumulam saldo de mais de US$ 400 bilhões em 15 anos!

E o governo Nixon, ao abrir relações comerciais com a China, em 1972, o que, a partir da década de 1980 levou à crescente transferência de unidades de produção das multinacionais americanas nos chamados “tigres asiáticos”. As dimensões da China mostraram que as fábricas locais, produziam em muito maior escala. Com investimentos maciços em educação e a formação de engenheiros (enquanto os Estados Unidos privilegiam advogados para discussão de relações comerciais e patentes), a indústria americana ficou obsoleta e várias áreas na economia mundial (siderurgia e atividades que usam muito aço, como a construção naval e a indústria automobilística).

Querer que o mundo pague o preço pelo oportunismo americano que trocou o GATT pela OMC, porque era vantagem (nos anos 90) perder na corrente de comércio para ganhar nos fluxos financeiros, “royalties” e patentes) é igual tentar mandar no jogo como na Fifa (e não deu certo). O Brasil e outros países têm de recorrer aos painéis de controvérsia da Organização Mundial do Comércio.

 

Fonte: Por Nuno Vasconcellos, em O Dia/JB

 

Agricultores familiares denunciam nova modalidade de chocolate artificial

As grandes empresas do mercado de chocolate estão pesquisando febrilmente uma modalidade de doce sem cacau. Por ora, o objetivo ainda está no âmbito de laboratório industrial.

Este alerta está sendo divulgado nas redes, sem confirmação ou credibilidade. Por esse motivo, consultei um produtor da agricultura familiar e dos assentamentos da reforma agrária, sobre a veracidade do que está sendo comentado nas redes.

Afinal, o cacau será banido em definitivo do que conhecemos como chocolate? Ora, sempre temos que considerar que a grande parte do cognominado “chocolate”, hoje, a rigor, é uma massa doce com muito açúcar, flavor (sabor artificial), gordura (manteiga de cacau) e corante escuro, tipo “chocolate”.

Portanto, o cacau e suas saudáveis amêndoas já estão sendo abandonados faz tempo. Grande parte dos consumidores não se dá conta dessa esperteza dos grandes industriais que produzem e comercializam esse doce tão aprecidado no mundo todo.

A consulta aos produtores diretos de cacau resultou no comentário que faço a seguir. Eles solicitam que não divulguem  a identidade e a localidade onde produzem. Temem a represália dos grupos econômicos que dominam o mercado mundial do chocolate. Apenas posso dizer que estão no Nordeste e na Amazônia.

<><> O novo chocolate de laboratório

Gigantes do setor (como a Mondelez, dona das marcas Cadbury e Toblerone, e a empresa Lindt) estão investindo pesado em startups de biotecnologia. Estudam o cultivo de células de cacau em biorreatores para criar manteiga de cacau artificial.

As indústrias alegam que fazem esses testes porque as mudanças climáticas e as pragas estão prejudicando as plantações tradicionais de cacau na África. Isso fez o preço da fruta subir muito nos últimos anos.

O cacau cultivado em laboratório ainda não tem aprovação regulatória de órgãos de saúde de nenhum país para ser comercializado.

A estimativa mais otimista dos cientistas é que os primeiros produtos cheguem ao mercado apenas a partir de 2027.

Os cientistas não fabricam “cacau de plástico”. Eles usam a agricultura celular (técnica que cultiva células vivas fora da planta) para multiplicar o cacau-fruta em tanques industriais.

O processo funciona como uma receita de laboratório em quatro passos básicos:

1) Os cientistas recortam uma pequena parte de uma planta de cacau real, como um pedacinho da semente ou da folha.

2) Colocam esse pedaço em um prato de laboratório com nutrientes. A planta cria uma massa de células chamada “calo” (uma espécie de célula-tronco vegetal que pode se multiplicar sem parar).

3) Essas células são transferidas para o biorreator. Esse aparelho é um grande tanque de aço inox aquecido, cheio de água, açúcar, vitaminas e minerais. Ele imita o ambiente interno da fruta.

4) As células se multiplicam rapidamente ali dentro. Em poucos dias, os cientistas retiram essa massa de células líquida, retiram a água e a transformam em um pó ou pasta que tem o mesmo gosto, cheiro e gorduras do cacau que cresce saudável na Mata Atlântica da Bahia ou na selva amazônica.

<><> Quem são as empresas de biotecnologia

As principais startups de biotecnologia que lideram o desenvolvimento de cacau em laboratório são a Celleste Bio, a California Cultured e a Food Brewer.

São justamente essas empresas que estão recebendo os investimentos milionários das grandes multinacionais do chocolate, bem como pesados aportes do capital financeiro.

Celleste Bio (Israel): é a empresa mais avançada do setor. Eles receberam um grande aporte da Mondelez International (dona da Cadbury e Toblerone) e criaram em laboratório as primeiras barras experimentais usando manteiga de cacau cultivada em biorreatores. A meta deles é atingir escala comercial nos próximos dois anos.

California Cultured (USA): conseguiu um feito técnico importante ao criar um sistema de biorreatores modulares de plástico rígido com capacidade de 2 mil litros. Isso barateou muito o custo de produção do cacau celular. Eles têm uma forte parceria de desenvolvimento com a gigante belga de ingredientes alimentares Puratos.

Food Brewer (Suíça): aposta no cultivo de variedades finas de cacau da América Latina (sobretudo do Brasil) em laboratório, utilizando inteligência artificial para monitorar o crescimento das células. Recebeu investimentos da famosa marca de chocolates suíça Lindt and Sprüngli.

<><> Chocolate feito de outros vegetais fermentados

Além das empresas que multiplicam células de cacau real em tanques, existe um segundo grupo de startups criando alternativas feitas com outros vegetais fermentados, e que imitam perfeitamente o sabor do chocolate convencional.

Voyage Foods (USA): Jamais usa cacau. Fabrica um substituto idêntico usando uma mistura de sementes de uva, proteínas de girassol, óleos vegetais e muito açúcar. Fecharam um contrato gigante de distribuição global com a Cargill – grande multinacional de capital fechado, processadora de alimentos e suprimentos para a agricultura extensiva.

Win-Win/WNWN (Reino Unido): Produz barras de “chocolate” sustentáveis utilizando cevada e alfarroba fermentadas.

Os testes de sabor com o cacau de laboratório mostram que ele consegue imitar quase perfeitamente o chocolate tradicional, mas o processo para chegar até aí envolve muita ciência e provadores profissionais.

Os cientistas medem o sucesso desses testes comparando a cópia de laboratório com o chocolate comum.

Nos testes da startup Voyage Foods e da Celleste Bio, os provadores profissionais contratados relataram que o sabor, o amargor e as notas de baunilha e frutas são indistinguíveis do chocolate comum em receitas misturadas (como bombons recheados ou a mescla variada dos chamados achocolatados).

O maior desafio atual não é o gosto, mas a textura. A manteiga de cacau natural tem uma propriedade única: ela derrete exatamente à temperatura do corpo humano (36°C). Os primeiros lotes de laboratório às vezes derretiam rápido demais na mão ou demoravam para derreter na boca, deixando uma sensação de gordura espessa no céu da boca. As startups dizem que já corrigiram quase 100% disso ajustando os nutrientes das células.

<><> O que dizem os produtores de cacau do Brasil

Os produtores brasileiros enxergam a tecnologia do cacau de laboratório com uma mistura de ceticismo, defesa do meio ambiente e confiança na alta qualidade do produto natural.

A reação deles não é de pânico, mas sim de reafirmação do valor do cacau de verdade, especialmente o cultivado no Sul da Bahia e na Amazônia.

Na Bahia e na Amazônia, cerca de 60% do cacau é cultivado no sistema “cabruca”, onde os cacaueiros crescem plantados à sombra de árvores nativas da mata original. O cacau gosta de locais úmidos e muita sombra. O cultivo perfeito para a proteção e expansão natural da ameaçada Mata Atlântica e a vasta Amazônia.

As startups acima mencionadas dizem que o cacau de laboratório é sustentável porque não precisa de terra. Os produtores familiares rebatem dizendo que a lavoura deles é que preserva a floresta em pé.

Se a indústria parar de comprar o cacau das fazendas, os agricultores perdem o sustento, o que poderia levar ao abandono das terras e, consequentemente, ao desmatamento da Mata Atlântica.

Os produtores entendem que o cacau celular objetiva resolver o problema das grandes multinacionais que hoje fazem chocolate barato de supermercado (com baixo percentual de cacau e muita gordura e açúcar).

Em vez de temer a tecnologia, os produtores baianos e amazônidas estão trazendo a tecnologia para dentro das fazendas para aumentar a produção e combater pragas.

Os produtores da Bahia já usam inteligência artificial, sensores e robôs para monitorar plantações agroflorestais.

O objetivo é criar árvores mais fortes e resistentes (como as pesquisas da Biofábrica da Bahia), provando que o campo pode ser tão eficiente quanto um biorreator, sem perder a conexão com a natureza.

<><> O chocolate artificial e a ética comercial

A indústria, já sabemos, enfrenta instabilidades devido ao tema da crise climática e a consequente alta dos preços da matéria-prima, o cacau.

Mas nos resta uma indagação de natureza ética: a saber, o consumidor eventualmente poderá estar sendo enganado ou confundido com essas variantes do chocolate verdadeiro derivado da amêndoa de cacau.

Cabe, portanto, um regramento mais rídido do Estado no sentido de informar ao consumidor acerca da condição e natureza do produto que irá consumir.

No Brasil, a discussão sobre a transparência na rotulagem do chocolate avançou significativamente com a sanção da Lei nº 15.404/2026, que define regras mais rígidas para que um produto possa ser chamado de “chocolate”.

O principal objetivo da lei é justamente coibir práticas que possam induzir o consumidor ao erro, assegurando o direito à informação clara e precisa . A motivação veio de um estudo da Universidade de São Paulo (USP) que mostrou que produtos chamados de “meio amargo” muitas vezes tinham a mesma quantidade de cacau que chocolates ao leite, ou seja, mais açúcar e menos cacau do que o esperado.

As embalagens deverão informar na parte da frente, em uma área de pelo menos 15% da superfície, a frase “Contém X% de cacau”. Isso torna a informação visível e de fácil comparação para o consumidor.

Classificações subjetivas como “amargo” e “meio amargo” serão substituídas pela informação categórica do teor de cacau.

Produtos que não atingirem esses percentuais mínimos não poderão mais ser chamados de “chocolate”. Eles terão que usar denominações como “composto de chocolate” ou “cobertura sabor chocolate”.

Isso resolve o problema apontado: o termo “sabor” indica claramente que não é chocolate de verdade.

A nova lei brasileira é um passo importante para garantir que o consumidor não seja enganado, estabelecendo uma linha clara entre o que é chocolate e o que é uma vulgar e nociva imitação.

O próximo grande desafio regulatório será lidar com as inovações tecnológicas, como o chocolate de laboratório, para garantir que o mesmo princípio de transparência seja aplicado.

Os produtores da agricultura familiar e dos assentamentos da reforma agrária estão ao mesmo tempo atentos e vigilantes – produzindo cacau saudável, chocolate autêntico e protegendo a floresta nativa.

¨      Lei define percentual mínimo de cacau nos chocolates comercializados no país

Chocolates comercializados no Brasil terão de seguir percentuais mínimos de cacau na composição, previstos por lei. Além disso, os fabricantes precisarão informar, de forma clara, a quantidade do ingrediente nos rótulos dos produtos vendidos no país, sejam eles nacionais ou importados.

A Lei nº 15.404/2026, que define critérios para a produção, classificação e rotulagem de produtos derivados de cacau no Brasil, está publicada na edição desta segunda-feira (11) do Diário Oficial da União. A norma entra passa a vigorar em 360 dias, período em que a indústria deverá se adaptar às novas exigências.

Um dos principais avanços previstos é a obrigatoriedade de informar nos rótulos o percentual total de cacau do produto. De acordo com a lei, a indicação deverá aparecer na parte frontal da embalagem, ocupando pelo menos 15% da área e com destaque suficiente para facilitar a leitura.

A informação será apresentada no formato “Contém X% de cacau”, de acordo com os percentuais a seguir:

  • Cacau em pó: mínimo de 10% de manteiga de cacau;
  • Chocolate em pó: mínimo de 32% de sólidos totais de cacau;
  • Chocolate ao leite: no mínimo 25% de sólidos totais de cacau e 14% de sólidos totais de leite ou derivados;
  • Chocolate branco: no mínimo 20% de manteiga de cacau e 14% de sólidos totais de leite.
  • Achocolatado ou cobertura: mínimo de 15% de sólidos de cacau ou 15% de manteiga de cacau

O texto também proíbe práticas que possam induzir o consumidor ao erro, como o uso de imagens, cores ou expressões que sugiram tratar-se de chocolate quando o produto não atende aos critérios estabelecidos.

Em caso de descumprimento das regras, os responsáveis estarão sujeitos às sanções previstas no Código de Defesa do Consumidor, além de outras penalidades sanitárias e legais cabíveis.

 

Fonte: Brasil de Fato/Agencia Brasil

 

As pessoas com tipo raro de nanismo que podem guardar 'segredo' contra câncer e diabetes

Para as pessoas com síndrome de Laron, uma condição rara que impede o corpo humano de crescer mais de 1,20 m de altura, o mundo é uma terra de gigantes. Nele, tudo é enorme, alto e inacessível: a mesa da cozinha, os degraus dos ônibus, a roupa do varal, a entrada de um consultório médico, o escritório de trabalho. Muitas delas tentam compensar essa vida desproporcional com sonhos. Ou ilusões.

Sara Espinoza, por exemplo, deseja medir 1,70 m. Paola Boada quer ter uma família.

María Gabriela García sonha em ter um trabalho que permita que ela compre a passagem aérea para presenciar o casamento da sua irmã, na Espanha. Já María del Cisne Romero deseja ter uma fábrica de chocolate.

Todas elas alimentam seus sonhos no Equador, país que possui uma incidência bastante incomum da síndrome de Laron. É ali que se encontram cerca de um terço das 840 pessoas com desta condição em todo o mundo, com especial concentração nas províncias de El Oro e Loja, no sul do país. "O que acontece é que o corpo não processa o hormônio do crescimento e as pessoas não atingem a altura padrão", explica o endocrinologista Jaime Guevara, especialista no tratamento desses pacientes. Ele estuda a condição há mais de duas décadas. "Mas isso não os prejudica em nível físico, apesar da falta de altura", prossegue Guevara. "Além disso, sua condição faz com que eles tenham menos probabilidade de desenvolver câncer ou sofrer de diabetes." Ou seja, a síndrome traz uma limitação e um benefício.

Muitos dos pacientes equatorianos que receberam a reportagem da BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC, levam uma vida normal. Mas, quando falam dos seus sonhos, às vezes, eles são vencidos pelo cansaço e pela frustração. "Uma das coisas que mais me frustraram por ter o Laron é o relacionamento com os homens", conta Paola Boada, em lágrimas, vestida de rosa e preto, no seu apartamento projetado de acordo com o seu tamanho. "Eles me partiram o coração porque existe um padrão de beleza no qual, aparentemente, eu não me encaixo. Eles me descartam de todas as entrevistas de trabalho devido ao meu tamanho", conta María Gabriela García. "Não vejo muitas opções para mim. Quando passamos pela rua, as pessoas ficam olhando, mesmo que já nos tenham visto muitas vezes", conta María del Cisne Romero.m"Esta é a doença da solidão", destaca Guevara. "E este país não oferece muito para que eles vivam melhor."

As províncias onde mora a maioria das pessoas com a síndrome de Laron são distantes dos principais centros urbanos do país (Quito e Guayaquil), onde ficam as instalações médicas adequadas para o seu tratamento. Existe há 20 anos um medicamento (chamado Increlex) que, se for aplicado durante a fase de crescimento, pode ajudar a aumentar a altura. Mas nem todos os pacientes têm acesso ao remédio, apesar das decisões judiciais da Corte Interamericana de Direitos Humanos e do próprio Tribunal Constitucional do Equador.

<><> Da Europa para o Equador

Na década de 1950, o pediatra israelense Zvi Laron começou a observar, em alguns pacientes tratados por ele em Tel Aviv (Israel), uma condição que não permitia que eles crescessem até os padrões mínimos de outros pacientes. O médico acredita que estes genes tenham se originado na Indonésia há milhares de anos e viajado para o Ocidente, através das rotas comerciais.m"Foi encontrado o esqueleto de uma mulher de quase 18 mil anos", conta Laron, hoje com 99 anos. "Quando examinei o esqueleto, vi que ele se parecia muito com as mudanças físicas apresentadas pelos nossos pacientes." Já havia na época dezenas de causas de nanismo documentadas nos livros de medicina, como a acondroplasia ou falhas da tireoide. Mas Laron observou que, nestes casos, havia algo mais incomum: o nível excessivo do hormônio do crescimento. "Laron chegou à conclusão de que aquelas pessoas produziam altas quantidades de hormônios do crescimento, mas não a insulina que se encarrega de processar aquele hormônio, devido a uma mutação genética", explica Guevara.

Nos seus estudos, Laron também conseguiu determinar que a origem da mutação procedia dos judeus sefarditas que habitaram a Península Ibérica. Alguns deles haviam chegado ao Oriente Médio. Outros portadores do gene viajaram para o continente americano, especialmente àquele remoto local que passaria a formar o sul do Equador. "Eles chegaram a este país, se instalaram em áreas isoladas e começaram um processo de relações endogâmicas, que fizeram com que a população de pessoas com síndrome de Laron atingisse especial incidência no Equador", segundo Guevara.

<><> As três amigas

O consultório de Jaime Guevara é um quarto amplo, repleto de quadros com diplomas de medicina, em uma zona residencial da capital equatoriana, Quito. Na manhã da entrevista, cinco mulheres com a síndrome se consultam com ele. Elas não param de rir e brincar entre elas, enquanto falam da sua saúde com o médico.

Uma delas é María Gabriela García. Ela mostra com orgulho sua tatuagem de três corações. Um deles tem o lado interno pintado, representando a ela, ao lado das suas duas grandes amigas, María José e Lugarda. Elas se conheceram por meio do médico, um dos poucos especialistas que estudam como é viver com a síndrome. "Não é fácil viver sabendo que você não tem o tamanho de uma pessoa normal", ela conta.

García menciona um exemplo das suas dificuldades no dia a dia: pegar ônibus. "Precisamos subir de joelhos. E precisamos subir rápido, como todos fazem, mas, para nós, é muito mais difícil. Temos dificuldade para subir os degraus. Muitas vezes, nós caímos dos ônibus", relata ela. García explica que existem outros obstáculos silenciosos e constantes, como não conseguir emprego com facilidade.

Ela trabalha como cuidadora de crianças e recebeu, pouco tempo atrás, o convite de casamento da sua irmã na Espanha, no ano que vem. "O dinheiro que ganho cuidando de crianças não chega para viver com tranquilidade, que dirá para economizar para a viagem", lamenta ela, chorando. María José e Lugarda, as duas outras pacientes, a abraçam imediatamente. E Lugarda, especificamente, a confronta. "Não vamos desistir", afirma ela à amiga. Afinal, ser de baixa estatura em um mundo "enorme" já é bastante difícil para que as pessoas ainda as rotulem de choronas. "Meu sonho é poder viajar para a Espanha", relata María Gabriela. "Por isso, vim do sul do Equador até Quito. Lá, não existem oportunidades para mim."

No sul do Equador, dividida entre El Oro e Loja, vive a maior comunidade de pessoas com síndrome de Laron. Lá só se chega por terra depois de oito horas de viagem. Nenhuma das principais linhas aéreas do país oferece serviços regulares e apenas uma chega aos aeroportos locais de Loja e Santa Ana. "A doença da solidão", como diz Jaime Guevara.

<><> 22 anos de estudo

O sul do Equador é dominado por uma cadeia de montanhas azuis e nuvens esponjosas. Encravada nesta paisagem, está Piñas, uma cidade de 18 mil habitantes que moram em casas dispersas, na parte baixa de um vale. Ali, em um sobrado com paredes de cor creme e janelas verdes, moram María del Cisne Romero e sua irmã gêmea María Luisa, ambas engenheiras industriais, ambas com síndrome de Laron. A casa tem cheiro de hortelã e café. As gêmeas preparam chocolates para vender na Páscoa. A ordem na cozinha é tanta que a impressão é que elas estão se preparando para uma cirurgia. O lugar é amplo, repleto de mesas auxiliares e bancos, que permitem a elas alcançar as mesas da cozinha para produzir os bombons. E, antes de começar a preparação, as irmãs compareceram a uma aula de dança de uma hora.

Uma das principais recomendações médicas para as pessoas com síndrome de Laron é manter atividade física frequente. Mais que uma recomendação, esta é uma exigência. Os altos níveis do hormônio do crescimento influenciam a produção de insulina pelo corpo, o que pode gerar sobrepeso.

Guevara indica que mais de 90% das pessoas com a síndrome também sofrem de obesidade. E especialistas destacam que o esporte permite controlar o peso e os níveis de insulina. "Estamos preparando uma caixa especial para levar para Meche, uma amiga que também tem Laron", conta María Luisa, enquanto coloca os chocolates na caixa. Meche não é apenas uma amiga. É uma espécie de fada-madrinha, conhecida por todos em Piñas, Balsas e Loja.

Calcula-se que, nesta região do país, morem cerca de 100 pessoas com a síndrome, que tem caráter recessivo, ou seja, só ocorre com a presença do gene da linhagem do pai e da mãe. "Não é uma vida fácil", destaca a terapeuta. "Temos muitos desafios, mas, como onde moramos há mais pessoas com esta síndrome, podemos ajudar uns aos outros, quase como outra família." É também o que pensam as gêmeas Romero. Conviver com outras pessoas que têm a mesma síndrome permitiu que elas se olhassem no espelho, sabendo que não estão sozinhas. É uma conspiração contra a solidão. "Cresci em um mundo de gigantes", descreve María Luisa. "Quando fomos estudar em Cuenca [a terceira maior cidade do Equador, também no sul do país], nunca haviam visto alguém com tão pouca altura como nós e todos nos achavam estranhas. Elas apontavam para nós", prossegue ela. "Foi estranho. Mas, aqui, é diferente."

Os moldes dos bombons têm formato de coração. Ao lado da mesa, estão seus filhos Matías e Lucía, um de cada irmã, com apenas oito anos de idade. Eles já são mais altos que elas. As crianças observam com atenção para ver se algum pedaço de chocolate se solta para ser comido. "A gravidez da minha filha foi de risco", conta María Luisa. "Como pessoas de pouca estatura, não podemos ter parto natural e, além disso, ela atrasou. Achei que minha pele não conseguiria se esticar mais", em referência à sua barriga proeminente e aos receios da primeira gravidez.

<><> Sem diabetes ou câncer

As gêmeas, Meche, María Gabriela e Lugarda se conhecem há anos. Elas se esforçam para tentar recordar mais ou menos quando foi a primeira vez em que se encontraram. Elas se conheceram quando Jaime Guevara as reuniu em Piñas para iniciar um estudo, perto de 1988. Existem duas fotos daquele encontro. Ali estão elas, ainda meninas, ao lado de Guevara com aspecto juvenil e do médico Walter Longo, da Universidade da Califórnia, nos Estados Unidos.

Quando se formou em medicina, Guevara se especializou em diabetes. Ele começou a notar, pouco a pouco, que a incidência de doenças como câncer e diabetes era menor entre os pacientes com Laron do que na população em geral. Inicialmente, ele pensou que sua condição os ajudava a ter saúde cardiovascular invejável, mas os resultados posteriores não foram tão claros a este respeito. "O que observamos é que o excesso de hormônio do crescimento os protege contra este tipo de doenças", explica Guevara.

Nos seus 22 anos de estudos, Guevara e Longo não documentaram casos de diabetes entre equatorianos com síndrome de Laron e houve apenas um caso de câncer. Guevara e Longo replicaram o que ocorre no corpo de uma pessoa com síndrome de Laron, sob parâmetros específicos. O resultado foi parecido com o encontrado posteriormente na população em geral com a síndrome, a que Guevara teve acesso nos anos que se seguiram. Existem cada vez mais evidências apoiando a teoria de que o hormônio IGF-1, produzido principalmente no fígado em resposta ao hormônio do crescimento (GH) e que promove o crescimento dos ossos, músculos e cartilagens, impede a morte das células cancerígenas. Ou seja, pacientes com baixos níveis de IGF-1, como as pessoas com síndrome de Laron, teriam menor incidência de câncer.

"A ideia é poder reproduzir em pessoas sem a síndrome, com um medicamento, o que ocorre naturalmente nas pessoas com Laron", explica Guevara. "Seria uma grande colaboração desta bela comunidade para o mundo." Mas Zvi Laron acredita que o baixo nível de IGF-1 é um "fator importante", mas não explica sozinho a baixa incidência de câncer.

Guevara e Longo publicaram os resultados da pesquisa em 2011. Na ocasião, aquelas crianças (que, hoje, são adultos) deixaram claro que não eram apenas casos vivos de uma síndrome rara que pode causar transtornos, mas que poderiam oferecer algo para o avanço da ciência. As descobertas os levaram a pensar, por alguns anos, que seriam imunes ao câncer e outras doenças. Mas, há dois anos, María Luisa foi diagnosticada com câncer do cólon. Ela passou por cirurgia e tratamento com quimioterapia. "Isso nos conscientizou de que não éramos totalmente imunes a estas doenças, como pensávamos", relembra María Luisa. "Precisamos nos cuidar, temos que praticar esportes, precisamos cuidar do que comemos."

As duas irmãs terminam a preparação dos chocolates. Uma das caixas recebe uma folha impressa com a imagem de um anjo e uma frase sobre a vida. Enquanto elas embalam os bombons, surge uma pergunta: o medicamento Increlex existe há cerca de 15 anos. Se for aplicado durante a fase de crescimento, ele pode ajudar a desenvolver o corpo até atingir uma estatura padrão. As duas irmãs têm, agora, 40 anos de idade.

Pergunto a elas se elas gostariam de ter crescido um pouco mais. "Claro que sim", responde María Luisa. "As pessoas se perguntam sobre o que gostariam de ter feito. Agora, nós nos aceitamos como somos e nos amamos assim, mas o tratamento teria evitado muitos momentos ruins. Mas, se Deus nos mandou assim, foi porque tinha uma missão para nós", destaca María del Cisne.

<><> A luta pelo Increlex

Sara Espinoza, de 15 anos, tem olhos verdes vivos. Em cada uma das mãos, ela tem uma baqueta que gira entre os dedos, enquanto se arruma para tocar a bateria que está à sua frente. Ela está sobre o tablado do templo da Missão Carismática Internacional, no centro de Machala, a cerca de 300 km a sudoeste de Quito. Mais que um local de adoração e reflexão, o templo parece um teatro pronto para um concerto de rock. Sara está concentrada, pronta para fazer o cenário vibrar. Ela tem 15 anos e tem a síndrome de Laron. Mas sua aparência é muito diferente das gêmeas Romero, de María Gabriela e de Lugarda. "Comecei a tomar o medicamento cinco anos atrás e isso me permitiu crescer até 1,47 m", conta ela, com uma timidez contrastante com o poder com que logo irá arrancar o som da bateria. Sara ainda irá precisar de Increlex nos próximos três anos. "Meu sonho é medir 1m70", ela conta, com olhos vivos, iluminando o cenário com um golpe de baqueta sobre a caixa. Mas conseguir o medicamento é uma batalha longa e pesada.

Na primeira metade da década de 2000, várias famílias com filhos e filhas com a síndrome já sabiam da existência do Increlex, um medicamento desenvolvido na França. Seu ingrediente ativo, a mecasermina, tem a propriedade de ajudar no crescimento das pessoas que não conseguem processar o hormônio do crescimento humano. O medicamento tem uma série de limitações. Ele só pode ser administrado entre 2 e 18 anos de idade. Em alguns casos, existem efeitos colaterais delicados e o cada frasco pode custar mais de US$ 800 (cerca de R$ 4,1 mil), pois apenas uma farmacêutica o produz.

Guevara explica que um menor com Laron precisa de pelo menos três frascos por mês. São US$ 2,4 mil mensais (cerca de R$ 12,3 mil). "Muitos de nós não tínhamos dinheiro, nem plano de saúde, que nos permitisse adquirir o medicamento", conta Patricia Álvarez. "Por isso, demos início a uma luta na Justiça para nos garantir o direito de ter acesso a este remédio." O processo começou perto de 2005. Na época, os dois filhos de Álvarez com Laron estavam dentro da faixa de idade em que o medicamento poderia fazer efeito. Em 2010, um tribunal especial da província de Pichincha, onde fica a cidade de Quito, ordenou ao governo que passasse a ser o principal fornecedor do Increlex. Mas a decisão foi ignorada. As famílias contam que, por 10 anos, não tiveram resposta ao chamado da Justiça local. Por isso, elas precisaram levar suas petições para instâncias superiores. "É um desespero muito grande ver a Justiça dar razão a você e o governo se negar a nos dar algo que é fundamental para a saúde dos nossos filhos", relembra Álvarez. "Precisamos continuar lutando." O desacato do governo ao tribunal foi um dos argumentos empregados por ela e por outros familiares que fizeram parte da petição conjunta.

Eles levaram o caso para a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), onde destacaram as constantes respostas negativas ao seu pedido e a desatenção às medidas judiciais tomadas a este respeito. Em abril de 2020, a CIDH deu razão às famílias. E, desta vez, o governo equatoriano respeitou a sentença. O governo declarou a síndrome como "doença rara" e começou a fornecer o medicamento, além de um tratamento integral para as pessoas afetadas. Mas, mesmo com a ordem judicial, o fornecimento do remédio às pessoas com síndrome de Laron, muitas vezes, sofreu interrupções ou atrasos. "Meu filho mais velho só conseguiu receber o medicamento por dois anos", lamenta Álvarez. "Houve muitas pessoas que não conseguiram receber o remédio ao longo dos anos em que ele deve ser administrado e que teria servido para que eles tivessem uma vida mais normal."

<><> A nova geração

Camila quer o balão roxo que seu pai tem na boca, inflando com todos os músculos tensos e as bochechas cheias de ar. Mayra, a mãe, observa a cena com atenção. Ela procura o momento certo para pegar sua filha e colocá-la no colo. Assim, ela terá um plano com toda a família (ela, seu marido e as duas filhas), em uma pose perfeita para a fotografia. Mas Camila quer o balão. E, assim que seu pai o entrega, ela foge e começa a dar voltas com ele por toda a sala da casa. "Ela não para quieta", conta a mãe.

Camila Romero Loaiza tem pouco mais de dois anos e mora em Piñas. Ela é um dos casos mais recentes conhecido de pessoas com síndrome de Laron no Equador. Mayra recorda que a bebê nasceu com medidas padrão. Mas, como na maioria das histórias destes pacientes, os números que marcavam seu crescimento começaram a ficar estagnados aos seis meses de idade. "Como já haviam sido observados muitos casos no Equador, os médicos me disseram rapidamente que era um possível caso de síndrome de Laron", conta a mãe. Mas ela não tinha a menor ideia do que se tratava e precisou começar a ver documentários no YouTube. "Eu não sabia nem mesmo como alimentar minha filha", relembra ela. "Os médicos que a atendiam também não sabiam muito sobre como tratar as crianças com a síndrome. Quanto ela deveria medir por ano? Quando deveria andar? Quanto deveria pesar? Não há muita informação."

Mayra relembra com pesar aquele momento de incerteza. Mas ela recebeu ajuda de outras pessoas, suas vizinhas, que haviam passado por experiências similares. Uma delas disse que os bebês com Laron comem pouco. Outra, que eles demoram um pouco para andar, mas, depois, não param quietos. Uma terceira explicou que eles não têm problemas cognitivos, nem de fala. "E assim foi. As pessoas de Piñas foram me orientando", destaca Mayra.

Chegou o domingo de Páscoa. Por isso, todos os membros da família vestem roupas elegantes para a foto conjunta. Eles irão depois para uma reunião na casa da avó de Camila. Lá, eles irão comer locro e encebollado, dois pratos típicos da região. Mas eles precisam voltar cedo, pois estão se preparando para viajar a Guayaquil, que fica a seis horas de carro de Piñas. Eles precisam fazer este trajeto a cada três meses, ida e volta, para que diversos especialistas analisem o estado de saúde de Camila à medida que ela for crescendo. "Felizmente, nós temos carro e tenho e uma irmã que nos recebe", conta Daniel, o pai de Camila. "Mas muitas famílias precisam pagar ônibus e hotel para receber o tratamento."

A menina dá voltas pela casa com o globo roxo na mão, como se fosse um trem de alta velocidade. Ela tem dois anos e meio. Há exatamente seis meses, ela deveria ter começado seu tratamento com Increlex, mas não recebeu a primeira dose até agora.

"Já recebemos uma notificação do governo, garantindo que o medicamento de Camila está pronto", conta a mãe. "Mas não deixo de pensar se o fato de não termos recebido por seis meses pode prejudicar seu crescimento. São muitas perguntas. E também tenho um pouco de medo." Este receio tem uma base concreta. Em vários casos, surgiram muitos efeitos colaterais indesejados do medicamento e os pacientes precisaram deixar de tomá-lo. "Quero que a vida da minha filha seja a mais normal possível. Que não a olhem de forma diferente na escola, que ela não seja discriminada pelo seu tamanho." "E isso depende muito do medicamento. Tomara que ela consiga recebê-lo sem problemas", prossegue Mayra.

Depois de vários minutos, Camila para de correr e solta o balão, que cai em seguida. É o momento perfeito para agarrá-la e tirar a foto. Mas a menina vê o carro da Barbie estacionado em uma esquina da cozinha. E, em um ato de astúcia, foge da perseguição a gargalhadas.

 

Fonte: BBC News Mundo