sexta-feira, 19 de junho de 2026

Antonio Prado: O PIX e o bullying de Trump

Entrei em meu carro para ir a um compromisso. Liguei o navegador porque não conhecia o endereço do lugar. A operação foi simples: conectei meu celular à central multimídia do painel, acionei o aplicativo de mapas, informei o destino e voilà. Uma voz suave feminina começou a dar as instruções para acompanhar o mapa na tela. Siga pela rua tal, vire em 500 metros na rua tal. Maravilha.

Sou de uma geração em que o James Bond, na época o grande Sean Connery – cujo nome completo era Thomas Sean Connery – usava, em suas perseguições, um sinalizador escondido sob o veículo do vilão. No painel do seu Aston Martin DB5, havia uma incrível luzinha vermelha intermitente. Ele não podia se distanciar muito do seu alvo. Era incrível.

A diferença entre a tecnologia disponível ao James Bond em seu Aston Martin DB5 e a disponível hoje a bilhões de pessoas pelo mundo é abissal.

A origem dessas maravilhas tecnológicas é estatal, como documentou detalhadamente Mariana Mazzucato em seu livro O Estado Empreendedor. A internet foi criada nos laboratórios da DARPA; o smartphone tem tecnologias oriundas de várias agências públicas dos EUA; e o GPS é uma infraestrutura pública, utilizada gratuitamente por todo o mundo. A tecnologia da central multimídia de meu carro e o celular que conecto a ela vêm de investimentos públicos feitos durante décadas pelo governo dos EUA.

Nada de espantar. O discurso liberal das autoridades estadunidenses sempre foi para inglês ver, como diz o ditado brasileiro. No caso, para os países periféricos verem, já que União Europeia, Japão e Noruega nunca compraram essa narrativa de “chutar a escada”, como escreve Ha-Joon Chang. Tampouco China e Índia, na ordem internacional agora nascente.

<><> E o PIX, o que tem a ver com tudo isso?

É porque, em julho de 2025, o USTR iniciou uma investigação sobre as práticas comerciais do Brasil com base na Section 301, com o objetivo de orientar ações de retaliação para nos submeter aos interesses dos EUA. O PIX estava no radar dessa investigação.
O relatório foi divulgado no dia 1º de junho de 2026 e está aberto ao contraditório até 6 de julho. O USTR poderá tomar medidas a partir de 15 de julho. Há tempo para a diplomacia brasileira atuar, mas não muito.

>>>> O relatório é uma peça de bullying diplomático ao estilo Donald Trump. Aqui está a lista:

  1. Comércio digital e serviços digitais.
    2. Regulação de plataformas digitais e moderação de conteúdo.
    3. Serviços de pagamento eletrônico (incluindo o PIX).
    4. Tarifas preferenciais e política tarifária.
    5. Barreiras regulatórias ao comércio e aos investimentos.
    6. Aplicação de normas anticorrupção e transparência regulatória.
    7. Proteção da propriedade intelectual.
    8. Proteção de dados de testes farmacêuticos.
    9. Acesso ao mercado brasileiro para bens e serviços dos EUA.
    10. Tratamento regulatório de empresas estrangeiras em determinados setores.

Longa a lista. Os três primeiros itens são os cruciais. Essencialmente, um lobby das Big Techs e das bandeiras de cartões de crédito.

Há várias coisas a serem ditas. Primeiro, os EUA pressionam o Brasil apesar de acumularem, segundo dados do próprio governo brasileiro, um superávit de aproximadamente US$ 415 bilhões nas transações econômicas com o Brasil nos últimos quinze anos. O Brasil é um dos poucos parceiros relevantes com os quais os EUA mantêm saldo positivo. Quando o tarifaço do ano passado foi imposto por Trump – aliás, um verdadeiro tiro no pé – sua principal justificativa era a de que os países tratavam muito mal os EUA. Além de ser mentira no caso brasileiro, trata-se de uma choradeira típica do eleitorado trumpista, que sequer entende que quem paga as tarifas são eles mesmos.

Cada um dos dez itens da pauta do USTR mereceria comentários detalhados, mas vou me ater ao PIX.

Estudos do FMI (Fundo Monetário Internacional) e do BIS (Bank for International Settlements) tratam o PIX como um avanço tecnológico significativo nos meios de pagamento em nosso país. Entendem que o PIX é uma infraestrutura pública, de acesso universal, sem distinção da origem das pessoas físicas e jurídicas.

Também estabelecem que o PIX agiliza significativamente a liquidação das operações por ser instantâneo. Reduz os custos de transação por ser gratuito e estimula a inclusão bancária.

Relatório do Banco Central do Brasil (Relatório de Gestão do PIX, publicado em 2023 e resumido aqui no Terapia Política) contribui para entender a cronologia do desenvolvimento do PIX pelo Banco Central do Brasil (BCB). Trata-se de uma tecnologia do BCB que contou com a participação de várias instituições. O conto de que é uma criação do governo Bolsonaro é mais uma fake news de um governo vazio de realizações.

Este não é o único sistema público de pagamentos. A Índia tem um sistema gigantesco e a China também. A Índia, aliás, também tem sido alvo do USTR.

<><> A pergunta que não quer calar é: quais são os interesses envolvidos nessa ofensiva do USTR?

Os EUA são uma plutocracia que se orgulhava, até recentemente, de ter um presidente bilionário que está em queda livre de apoio eleitoral devido ao abandono de promessas feitas ao movimento MAGA: não entrar em novas guerras, liberar imediatamente os arquivos do caso Epstein e manter baixo o custo de vida. Orgulham-se também de ter um trilionário que participou da reforma administrativa do governo dos EUA.

Há interesses das bandeiras de cartões de crédito, mas principalmente das Big Techs, que já têm ou querem desenvolver suas próprias plataformas de meios de pagamento. Não podemos esquecer o pioneirismo do PayPal, de onde se originaram muitos dos atuais bilionários da tecnologia, como Elon Musk, Peter Thiel, Reid Hoffman, Steve Chen, Chad Hurley e Jawed Karim.

É óbvia a oportunidade de negócios existente nos sistemas de meios de pagamento, origem de tantas Big Techs.

Os interesses comerciais sempre se misturam aos geopolíticos. O sistema monetário mundial ainda é dominado pelo dólar, e os EUA querem manter essa hegemonia e seu conhecido “privilégio exorbitante” – emitir a principal moeda de reserva internacional – expressão consagrada e tema do livro de Barry Eichengreen, grande especialista no assunto.

Sistemas como os do Brasil, da Índia e da China são entendidos como ameaças a essa dominância do dólar como moeda de conta, de troca e de reserva. Esse papel do dólar é um instrumento de poder. E talvez o abuso no uso desse poder – transformando o sistema da moeda em arma contra países considerados adversários dos interesses dos EUA – seja uma das principais causas da progressiva substituição da moeda estadunidense em determinadas transações internacionais.

O bullying de Trump é baseado em justificativas falsas, a começar pelo fato de que as principais estruturas da economia digital foram criadas pelo governo dos EUA: os chips, a internet e o GPS. O GPS nasceu na DARPA e continua sendo mantido como infraestrutura pública, sob controle direto do governo estadunidense.

Esse relatório do USTR, baseado na Section 301, que hoje ameaça as exportações brasileiras para os EUA com uma sobretaxa adicional de 25%, é uma evidente tentativa de interferência na soberania brasileira. O Brasil criou uma grande infraestrutura pública de pagamentos instantâneos, desenvolvida pelo Banco Central em cooperação com dezenas de instituições financeiras e tecnológicas. Esse patrimônio tecnológico e institucional do povo brasileiro é o PIX.

¨      Lula exalta o Pix no G7: "inclusão e eficiência"

O presidente Lula (PT) exaltou no G7, nesta quarta-feira (17), em Évian, na França, o papel do Pix como instrumento de “inclusão e eficiência”, embora não tenha citado nominalmente o sistema de pagamento, que classificou como “uma de nossas maiores entregas para o cidadão brasileiro”.

A fala ocorreu em uma reunião com a presença do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em meio à pressão comercial de Washington contra o Brasil. O governo norte-americano ameaça impor tarifas a produtos brasileiros sob a alegação de supostas práticas comerciais “desleais”, em uma ofensiva que inclui críticas a políticas de comércio digital e serviços de pagamento eletrônico, campo no qual o Pix aparece como um dos pontos de atrito.

No discurso, dedicado ao tema “Inteligência Artificial e proteção de menores na internet”, Lula afirmou que a infraestrutura pública digital representa “um dos bens mais estratégicos do século XXI” e amplia a capacidade do Estado de servir, incluir e conectar cidadãos por meio de políticas públicas.

Segundo o presidente, o Brasil construiu um sistema de pagamento público e gratuito que se tornou referência de como dados integrados podem promover inclusão financeira e eficiência digital. Embora o Pix não tenha sido mencionado pelo nome, a descrição feita por Lula remete diretamente ao sistema brasileiro de pagamentos instantâneos.

A defesa feita por Lula no G7 ganha peso político no momento em que os Estados Unidos questionam instrumentos digitais brasileiros sob o argumento de que poderiam prejudicar interesses comerciais norte-americanos. Ao destacar o sistema de pagamento como uma das principais entregas ao cidadão, o presidente apresentou a infraestrutura digital brasileira como política pública de inclusão, e não como barreira comercial.

<><> Soberania digital e disputa comercial

Lula relacionou o avanço da infraestrutura digital à necessidade de garantir soberania sobre dados e benefícios econômicos produzidos pela sociedade. Para o presidente, o Brasil defende que a governança sobre os dados de cidadãos e instituições seja protegida e gere valor para o próprio país.

O presidente afirmou ainda que o governo seguirá fortalecendo um ambiente digital doméstico baseado em segurança jurídica, previsibilidade regulatória e igualdade de tratamento entre empresas nacionais e estrangeiras.

A declaração ocorre em um cenário de disputa internacional sobre o controle de dados, plataformas digitais, sistemas de pagamento e inteligência artificial. No caso brasileiro, o Pix se consolidou como uma ferramenta pública de grande alcance, associada à bancarização, à redução de custos de transação e à eficiência dos pagamentos no país.

<><> IA, desigualdades e concentração tecnológica

No discurso, Lula alertou que, sem ação deliberada dos governos, a inteligência artificial pode ampliar, e não reduzir, desigualdades. Ele observou que, enquanto empresas de tecnologia alcançam valor equivalente ao de grandes economias, 2,6 bilhões de pessoas ainda permanecem desconectadas da internet.

O presidente também destacou a concentração global dos serviços de computação em nuvem. Segundo ele, entre 2016 e 2021, um único país respondeu por quase 90% das exportações globais do setor, enquanto muitos países do Sul Global continuam inseridos na economia digital como fontes de dados, mercados consumidores e fornecedores de insumos estratégicos.

Para Lula, a governança internacional da inteligência artificial deve reconhecer a diversidade de trajetórias nacionais e garantir que a tecnologia fortaleça a democracia, a coesão social e a soberania dos países.

<><> Regulação e proteção de direitos

Lula afirmou que a inteligência artificial e os serviços digitais transformam profundamente as economias, com impactos positivos sobre produtividade industrial, serviços públicos, medicina, segurança alimentar e energia. Ao mesmo tempo, advertiu para práticas nocivas no ambiente digital, como discursos de ódio, desinformação, pedofilia, manipulação de imagens de crianças e mulheres para pornografia, violência contra mulheres e meninas e precarização do trabalho.

O presidente defendeu o engajamento das grandes empresas de tecnologia para que o futuro digital seja construído de forma segura, ética e alinhada ao interesse público. “Regular o ambiente digital é central para proteger direitos fundamentais”, afirmou.

Lula também citou a aprovação do Estatuto Digital para Crianças e Adolescentes, descrito por ele como uma das legislações mais avançadas do mundo para proteger crianças e adolescentes no ambiente digital. O presidente afirmou que o Brasil está garantindo que crianças e adolescentes possam estar online em segurança e combatendo criminosos que ameaçam sua integridade física e mental.

Ao mencionar dados da UNICEF, Lula disse que um em cada cinco adolescentes e crianças brasileiras, entre 12 e 17 anos, foi vítima de exploração ou abuso sexual no ambiente digital. Ele também afirmou que 8,8 milhões de mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de violência online, incluindo ameaças, assédio e invasões de contas.

<><> Governança global

No plano internacional, Lula defendeu que a Organização das Nações Unidas tenha papel central no debate sobre inteligência artificial. “Nenhum foro substitui a universalidade das Nações Unidas”, afirmou.

O presidente mencionou o Pacto Digital Global, aprovado em Nova Iorque em setembro de 2024, e destacou o Painel Científico Internacional Independente sobre Inteligência Artificial como o primeiro órgão científico global sobre o tema.

Lula encerrou defendendo avanços concretos no Diálogo Digital sobre Governança de Inteligência Artificial, organizado pela União Internacional de Telecomunicações, previsto para julho deste ano em Genebra.

 

Fonte: Le Monde/Brasil 247

 

A Copa do Mundo dos ultrarricos: pacote de R$ 20 milhões para a final, jatinho entre estádios e encontro com jogadores

Alguns dias atrás, a Knightsbridge Circle, que oferece serviços exclusivos de concierge para o público de altíssima renda, anunciou um pacote para a final da Copa do Mundo, em 19 de julho em Nova Jersey, nos Estados Unidos.

A oportunidade, descrita como "a primeira do tipo na história do torneio", foi oferecida exclusivamente aos seus clientes convidados, que passam por uma avaliação antes de serem aceitos.

Ela incluía seis ingressos na primeira fileira, bem na linha de meio de campo, e acesso ao gramado durante a premiação, no momento em que a seleção campeã erguer a taça.

O preço total para seis pessoas: US$ 4 milhões (cerca de R$ 20 milhões).

"(O pacote) foi vendido para um de nossos membros menos de 24 horas depois de anunciado", diz à BBC News Brasil o presidente da Knightsbridge Circle, Stuart McNeill.

A Knightsbridge Circle é uma entre várias empresas que estão oferecendo pacotes de luxo para os ultrarricos que desejam participar da Copa.

A atual edição é considerada inédita por, dentre outros motivos, ser disputada em três países — Estados Unidos, México e Canadá — e ter um número recorde de 48 seleções participantes. Serão ao todo 104 partidas em 16 cidades.

Para muitos torcedores ao redor do mundo que desejam acompanhar o Mundial de perto, o planejamento começou há meses e foi marcado por dificuldades, desde os altos preços dos ingressos e do transporte para alguns dos estádios até obstáculos para conseguir o visto americano.

Mas, para uma ínfima parcela dos visitantes, a experiência será bem diferente: eles devem chegar às cidades-sede de jatinho particular, deslocar-se aos estádios de helicóptero ou limusine e ter lugar garantido na área VIP, mesmo que tenham decidido fazer tudo isso de última hora.

"Trabalho com esse mercado (de luxo) há 22 anos, e a maior surpresa, para mim, é que nesta Copa, o dinheiro pode comprar praticamente qualquer coisa, o que é uma novidade (em comparação com as anteriores)", diz McNeill.

Ele e outros especialistas do segmento de alto luxo não revelam os nomes dos clientes interessados na Copa do Mundo. São celebridades, bilionários, fundadores de empresas, executivos do setor de tecnologia e atletas, entre outros, vindos de várias partes do mundo, inclusive do Brasil.

"Temos alguns clientes brasileiros", diz McNeill, lembrando que a empresa tem uma equipe em Miami que fala português.

<><> Quanto custa uma experiência de luxo?

Nem todos os pacotes de luxo para a Copa têm um preço milionário. Os valores dependem de vários fatores, como tipo de acesso, transporte, acomodação e número de noites.

Mas muitos dos roteiros sob medida oferecidos pela Knightsbridge Circle, por exemplo, "passam facilmente dos seis dígitos".

Incluem desde os já citados jatinhos e helicópteros até atendimento VIP nos aeroportos, equipes de segurança e hospedagem em redes de hotéis de luxo, como Four Seasons, Aman e Rosewood.

Nicole Wallach, vice-presidente da divisão de lazer da Magma Global, empresa especializada em serviços de concierge de viagens de luxo, calcula que as opções mais em conta fiquem entre US$ 25 mil e US$ 75 mil (R$ 125 mil e R$ 375 mil) para um casal, incluindo hospedagem cinco estrelas, ingressos para uma partida, voo em classe executiva e transfer privativo.

Alguns clientes pagam bem mais do que isso, em itinerários de luxo que incluem vários dias e diversas cidades-sede. Há também quem decida emendar a Copa com viagens para outros locais.

"Tenho clientes que vão assistir a jogos em Los Angeles e depois pegar um voo para passar algumas noites no Havaí", diz Wallach à BBC News Brasil.

Para o fim de semana da final, com hospedagem de luxo em Nova York, ela estima que os gastos podem ficar facilmente na casa dos seis dígitos.

Gina Gabbard, diretora de Estratégia da First in Service Travel, agência de Nova York que faz parte da rede global de turismo de luxo Virtuoso, diz à BBC News Brasil que as opções para os torcedores ultrarricos vão desde ingressos VIP e refeições preparadas por chefs durante o jogo até pacotes mais completos.

"Podem incluir hospedagem em hotéis de luxo, transporte privativo na cidade-sede, reservas em restaurantes sofisticados, passeios e outras atividades e, para alguns clientes, encontros exclusivos com os jogadores", afirma Gabbard.

"Os ingressos VIP, dependendo da partida, podem custar a partir de US$ 5 mil [R$ 25 mil] por pessoa", diz Gabbard.

"Pacotes começam em torno de US$ 50 mil dólares [R$ 250 mil] e podem chegar a várias centenas de milhares de dólares quando envolvem múltiplos jogos e cidades."

<><> Privacidade e acesso são o que importa

Segundo Wallach, para os clientes desse segmento, conveniência, privacidade e acesso são mais importantes do que o preço.

"São viajantes que costumam voar em jatos particulares e se hospedar nas suítes mais luxuosas", diz.

"Eles viajam acompanhados de sua própria equipe e realmente esperam uma experiência altamente personalizada quando se trata de um evento dessa magnitude."

Ela ressalta, porém, que nem todos os interessados em pacotes de luxo para a Copa viajam em jatinhos, e alguns vão de primeira classe ou executiva em voos comerciais.

Além disso, em determinadas partidas, é possível que haja mais procura do que disponibilidade de helicópteros para chegar aos estádios.

"Há um limite para o número de aeronaves e locais de desembarque disponíveis", diz Wallach. Nesse caso, a solução é um carro de luxo com motorista particular.

De acordo com Wallach, esses torcedores querem mais do que apenas um ingresso VIP. "Nem todos querem sentar na primeira fila. Para muitos, a prioridade é a privacidade e o acesso a serviços exclusivos. Eles estão em busca de uma experiência VIP completa", ressalta.

"Enquanto o torcedor comum perde tempo em filas, pagando por comida e bebida ao longo do dia, esses clientes costumam contar com entrada exclusiva e acesso a lounges privativos com alta gastronomia".

Wallach afirma que é equivocado pensar que esses viajantes estão simplesmente buscando a experiência mais cara. "O que eles querem é uma experiência sem atrito."

Isso envolve, entre outros aspectos, não ter de enfrentar multidões nem se preocupar com nenhum detalhe da programação.

"Eles querem exclusividade, não querem ficar esperando pelos outros. É um verdadeiro tratamento de tapete vermelho, e eles estão dispostos a pagar por isso", diz McNeill.

As equipes de apoio que costumam viajar com esses clientes podem incluir diversos profissionais, desde seguranças até chefs particulares.

"Em muitos casos, o consultor de viagens colabora diretamente com o assistente pessoal e outros membros da equipe do cliente para coordenar os arranjos", destaca Gabbard.

<><> Decisões de última hora

Outro aspecto que diferencia esses viajantes dos torcedores comuns é a (pouca) antecedência no planejamento.

"Muitos vão assistir aos jogos acompanhados de suas famílias, outros vão aproveitar para recepcionar clientes", diz Wallach.

"Eles valorizam seu tempo muito mais do que o dinheiro, e várias vezes tomam decisões de última hora."

Segundo McNeill, o interesse de seus clientes na Copa foi tímido no início. "Para viajantes de fora dos Estados Unidos, havia uma real relutância em razão do cenário político", afirma.

No entanto, a procura ganhou força nas últimas semanas, e a expectativa é de que aumente ainda mais à medida que as oitavas de final se aproximem e fique mais claro quais países vão avançar.

"Na verdade, está apenas começando para nós, porque os membros que atendemos costumam fechar os planos de última hora", diz McNeill.

"Gostam de ver como está o desempenho de sua seleção [antes de decidir]. Por exemplo, se o Brasil chegar à semifinal ou à final, vão entrar em um avião e ir para onde quer que o jogo seja realizado."

Entre os membros da Knightsbridge Circle, são comuns viagens bate-volta com duração de um ou dois dias, chegando na manhã do jogo ou na noite anterior e partindo no dia seguinte. Na semana seguinte, podem retornar para a próxima partida de sua seleção.

"Como muitos voam em jatinhos particulares, é conveniente e fácil para eles assistir a todos os jogos", observa McNeill.

Wallach diz ter visto aumento na procura desde que o torneio começou. "Sinceramente, acho que é maior do que esperávamos."

Segundo McNeill, além das partidas, há procura também por outras experiências exclusivas, como uma série de almoços organizados por sua empresa com ex-jogadores da Copa, que oferecem a oportunidade de conversar de perto com nomes consagrados do futebol mundial.

Em outras ocasiões, clientes que querem ver os craques de perto se comprometem com doações para instituições de caridade apoiadas pelo atleta. "Muitos dos jogadores são altamente engajados em causas beneficentes", ressalta McNeill.

"Em seu dia de folga, podem concordar em receber alguns clientes no centro de treinamento. Nossos clientes fazem uma doação [a uma instituição], e talvez possam tirar fotos [com o atleta], bater uma bola ou algo do tipo."

Para os interessados em acesso "superexclusivo" na final da Copa que perderam o pacote de US$ 4 milhões, McNeill lembra que há uma nova oportunidade, com dois assentos exclusivos na beira do gramado. Cada um vai custar "apenas" US$ 1,5 milhão de dólares (R$ 7,5 milhões).

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Quem paga mais impostos na América Latina?

Os impostos financiam escolas, hospitais, estradas e aposentadorias. Em teoria, além disso, têm outra função-chave: reduzir as desigualdades. Mas, na América Latina, uma das regiões mais desiguais do mundo, os sistemas tributários parecem estar longe disso.

"Na América Latina e no Caribe, a política fiscal arrecada pouco, de forma injusta, e aprofunda a extrema desigualdade", afirma a Oxfam em sua publicação Riqueza sem controle, democracia em risco: por que a América Latina e o Caribe precisam de um novo pacto fiscal. Segundo a organização internacional de combate à pobreza, "a estrutura tributária funciona de maneira contrária ao que deveria: desperdiça seu potencial de redistribuição e protege aqueles que mais têm".

Para Verónica Paz Arauco, diretora de programas da Oxfam na região, o resultado é claro: "Hoje, quem sustenta o sistema tributário são, proporcionalmente, os que menos têm", afirma à DW. "Os lares de baixa e média renda o financiam principalmente por meio de impostos sobre o consumo", explica. "Enquanto uma pessoa pertencente aos 50% mais pobres pode destinar cerca de 45% de sua renda ao pagamento de impostos, o 1% mais rico contribui com menos de 20%", critica.

O gráfico acima, que mostra o peso da arrecadação tributária no Produto Interno Bruto (PIB) dos países da América Latina e do Caribe, expõe outra disparidade: comparada aos países-membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), entidade popularmente conhecida como "clube dos países ricos", a região arrecada bem menos impostos.

A diferença é ainda mais gritante na comparação com as nações que lideram o Índice de Desenvolvimento Humano Ajustado à Desigualdade (IDHAD): Islândia, Dinamarca, Noruega, Suíça, Holanda, Bélgica, Finlândia, Alemanha, Irlanda e Suécia. Nesses países, o peso dos impostos no PIB é de mais de 35% e chega a até 45%, no caso dinamarquês. As únicas exceções da lista são Suíça (27,2%) e Irlanda (21,7%).

<><> Quem tem mais paga menos

Boa parte da arrecadação fiscal latino-americana vem de impostos sobre o consumo, enquanto os tributos sobre renda, lucros e riqueza têm um peso muito menor. Ou seja: a região tributa mais o consumo cotidiano do que as grandes rendas e patrimônios.

"As famílias de menor renda têm menos poupança, por isso destinam proporcionalmente mais de sua renda ao consumo. Isso faz com que os impostos sobre o consumo tenham um efeito regressivo", explica, em entrevista à DW, Ricardo Cantú Calderón, pesquisador do Centro de Investigação Econômica e Orçamentária (CIEP), no México.

"A tributação se baseia em impostos que aprofundam a desigualdade", afirma à DW, no mesmo sentido, a economista María Julia Eliosoff, diretora de projetos econômicos da Fundação Friedrich Ebert na Argentina. Trata-se de "uma situação de injustiça muito clara", avalia.

Mas esse desequilíbrio não se explica apenas pelo fato de que quem tem menos destina uma parte maior de sua renda ao pagamento de impostos. Pesa também a forma como se tributam — ou deixam de ser tributadas — as rendas mais altas e o patrimônio.

"Uma parte importante da renda das pessoas mais ricas vem do capital, que continua sendo insuficientemente tributado, e existem amplos benefícios fiscais", aponta Verónica Paz Arauco, da Oxfam.

Cantú Calderón, do CIEP, concorda e acrescenta que quem possui grandes patrimônios pode recorrer a estratégias financeiras e esquemas que lhes permitem se beneficiar de tratamentos tributários mais favoráveis.

Eliosoff concorda, e pontua que a arrecadação sobre patrimônio é quase inexistente na região.

Mas tributar mais quem ganha mais não poderia desestimular o investimento e comprometer o crescimento, como argumentam alguns? Para Cantú, a ideia "não tem muito fundamento". "No curto prazo, os investidores reagem, mas no longo prazo isso se ajusta", afirma.

<><> Economia informal também é desafio para a arrecadação

A esse cenário soma-se outro desafio estrutural da região: a elevada informalidade no mercado de trabalho. Segundo a Organização Internacional do Trabalho (OIT), praticamente um em cada dois trabalhadores da América Latina e do Caribe (46,7%) atuava em empregos informais no primeiro semestre de 2025.

"Essa situação limita a arrecadação, especialmente em impostos diretos e contribuições sociais, e empurra os Estados a depender mais de impostos indiretos como o IVA [Imposto sobre Valor Agregado de produtos e serviços]", afirma Arauco, da Oxfam.

<><> O peso das grandes fortunas

Mas o debate sobre quem paga impostos ganha outra dimensão quando se observa a concentração de riqueza.

A fortuna conjunta dos bilionários da América Latina e do Caribe chega a 622,9 bilhões de dólares, um valor quase equivalente ao PIB combinado de Chile e Peru. Dados da Oxfam mostram ainda que, neste século, a riqueza desse pequeno grupo cresceu 16 vezes mais rápido do que a economia regional.

Arauco, da Oxfam, explica que a não taxação da riqueza acumulada pelos mais ricos – ou a taxação insuficiente – se reflete diretamente na falta de financiamento para serviços públicos essenciais, como saúde, educação e sistemas de cuidado.

<><> Como tornar o sistema tributário mais justo?

"A chave não é eliminar os impostos sobre o consumo, mas garantir que sejam os melhores possíveis", sustenta em entrevista à DW Julián Folgar, economista do Banco Mundial para a Argentina e professor de Finanças Públicas. "Reformas que ampliem a base tributária, reduzam tratamentos preferenciais injustificados e melhorem o cumprimento das regras podem gerar ganhos simultâneos em equidade, eficiência e arrecadação", detalha.

O desafio para a América Latina, portanto, não seria apenas arrecadar mais, e sim construir sistemas tributários mais progressivos, capazes de reduzir desigualdades sem comprometer o crescimento econômico. Porque, no fim, o debate não é apenas sobre quanto arrecadar, mas também quem paga essa conta.

 

Fonte: DW Brasil

 

Ciência aponta para dois tipos de autismo: um com "hiperconectividade" e outro com "hipoconectividade"

Um amplo estudo internacional identificou evidências de que o autismo pode incluir pelo menos dois subtipos biológicos distintos, cada um marcado por uma forma diferente de comunicação entre as regiões do cérebro.

Talvez você já saiba, mas nenhum autista é igual. Todos possuem necessidades e dificuldades diferentes. A descoberta pode representar um passo importante para o desenvolvimento de diagnósticos mais precisos e tratamentos personalizados no futuro.

A pesquisa foi conduzida por cientistas do Instituto Italiano de Tecnologia (IIT), do Child Mind Institute, em Nova York, e da Universidade de Trento, sendo publicada na revista científica Nature Neuroscience (link no primeiro parágrafo).

<><> Dois padrões diferentes de comunicação cerebral

Os pesquisadores analisaram exames de ressonância magnética funcional de 940 crianças e jovens adultos com autismo, comparando os resultados com mais de mil indivíduos neurotípicos. Paralelamente, também estudaram 20 modelos de camundongos geneticamente modificados para compreender os mecanismos biológicos por trás das alterações observadas.

A análise revelou dois grupos principais.

O primeiro foi caracterizado pela hipoconectividade, ou seja, uma comunicação reduzida entre diferentes regiões cerebrais. Esse padrão foi associado principalmente a alterações envolvendo as sinapses, estruturas responsáveis pela transmissão de informações entre os neurônios.

Já o segundo grupo apresentou hiperconectividade, caracterizada por uma comunicação acima do normal entre determinadas áreas do cérebro. Nesse caso, os pesquisadores encontraram uma relação mais forte com mecanismos ligados ao sistema imunológico.

Juntos, esses dois subtipos representaram aproximadamente um quarto das pessoas com autismo incluídas no estudo.

<><> Camundongos ajudaram a explicar a biologia do autismo

Um dos diferenciais da pesquisa foi combinar estudos em seres humanos com modelos animais.

Segundo os autores, os experimentos com camundongos permitiram identificar quais alterações genéticas e moleculares estavam relacionadas aos diferentes padrões de conectividade cerebral. Depois disso, essas "assinaturas biológicas" foram comparadas com os exames de imagem dos participantes humanos.

Os mesmos padrões encontrados nos animais também apareceram nas pessoas com autismo, fortalecendo a hipótese de que esses subtipos possuem bases biológicas distintas.

Além disso, análises de expressão gênica mostraram que regiões associadas à hipoconectividade apresentavam maior atividade de genes relacionados às sinapses, enquanto áreas com hiperconectividade exibiam maior participação de genes ligados ao sistema imunológico.

<><> Um caminho para medicina de precisão

Os pesquisadores afirmam que compreender essas diferenças pode ajudar a explicar por que o autismo apresenta manifestações tão variadas entre uma pessoa e outra.

Embora os dois grupos tenham mostrado apenas diferenças modestas nas avaliações clínicas tradicionais, indivíduos com hiperconectividade cerebral tendiam, em média, a apresentar pontuações ligeiramente mais altas nas escalas de gravidade do transtorno.

Para a equipe, isso demonstra que exames baseados na atividade cerebral podem revelar informações que as avaliações comportamentais, sozinhas, nem sempre conseguem identificar.

<><> Ainda podem existir mais tipos de autismo

Os autores ressaltam que esses dois subtipos provavelmente representam apenas parte da diversidade biológica do transtorno do espectro autista.

Com conjuntos de dados maiores e novas pesquisas, outros padrões poderão ser identificados futuramente.

O objetivo é que, no longo prazo, essas descobertas contribuam para uma abordagem de medicina de precisão, na qual o diagnóstico e as intervenções possam ser adaptados de acordo com os mecanismos biológicos predominantes em cada indivíduo, e não apenas pelos sinais comportamentais observados.

•        O orgulho autista começa onde termina a comparação

Junho é reconhecido internacionalmente como o mês do orgulho autista, um movimento que convida a sociedade a enxergar o autismo para além dos diagnósticos, dos estereótipos e das limitações frequentemente associadas à condição. Mais do que celebrar diferenças, essa data nos leva a refletir sobre um dos principais fatores de sofrimento vivenciados por muitas famílias: a comparação constante.

A comparação costuma surgir muito cedo. Pais observam outras crianças da mesma idade e se perguntam por que o filho ainda não fala, não brinca da mesma forma, não faz amigos com facilidade ou não acompanha determinadas expectativas escolares. Embora seja uma reação compreensível, ela pode transformar diferenças legítimas de desenvolvimento em uma fonte permanente de angústia.

Quando uma criança autista é avaliada apenas a partir do que outras crianças fazem, corre-se o risco de enxergar apenas aquilo que lhe falta. Aos poucos, as conversas passam a girar em torno do que precisa ser corrigido, treinado ou alcançado. O foco se desloca das potencialidades para os déficits, das conquistas para as ausências.

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Essa dinâmica também afeta os pais e muitos carregam um sentimento de inadequação, como se estivessem falhando ao ver o filho seguir um caminho diferente daquele que imaginaram. Quanto mais rígidas as expectativas, maior tende a ser a frustração. E, muitas vezes, a criança percebe esse olhar, sentindo-se constantemente cobrada a ser alguém diferente de quem é.

<><> Orgulho não é negar desafios

Isso não significa ignorar os desafios reais que podem acompanhar o autismo. Algumas pessoas necessitam de apoio significativo em diferentes áreas da vida, e reconhecer essas necessidades é fundamental para garantir qualidade de vida, inclusão e acesso a recursos adequados. O orgulho autista não consiste em negar dificuldades, mas em compreender que elas não definem integralmente uma pessoa.

<><> Neurodiversidade: uma nova perspectiva sobre o desenvolvimento

Nos últimos anos, o conceito de neurodiversidade tem contribuído para ampliar essa compreensão. A ideia parte do princípio de que existem diferentes formas de funcionamento cerebral e que essas diferenças fazem parte da diversidade humana. Na prática, isso significa abandonar a expectativa de que todas as pessoas aprendam, se comuniquem, socializem ou percebam o mundo da mesma maneira.

Quando adotamos essa perspectiva, uma mudança importante acontece. Em vez de perguntar "por que essa criança não faz como as outras?", passamos a perguntar "como ela aprende?", "como ela se comunica?" e "quais são seus pontos fortes?". Essa mudança de olhar não elimina as intervenções necessárias, mas permite que elas sejam construídas a partir do respeito à individualidade e não da tentativa de apagar diferenças.

Muitas pessoas autistas apresentam habilidades notáveis, interesses profundos, criatividade, honestidade, pensamento original e formas únicas de compreender o mundo. Essas características nem sempre são valorizadas quando a atenção está concentrada apenas em comparações e expectativas padronizadas.

O verdadeiro orgulho autista nasce quando entendemos que desenvolvimento não é uma corrida e que valor humano não pode ser medido pela proximidade com um padrão. Ele começa quando deixamos de perguntar o quanto uma pessoa autista se parece com os demais e passamos a reconhecer quem ela é. Afinal, inclusão não significa fazer todos serem iguais. Significa garantir que cada pessoa possa ser respeitada em sua singularidade.

 

Fonte: Xataka.com/CNN Brasil

 

Jeferson Miola: A Jaques Wagner o que é de Jaques Wagner

A investigação de Jaques Wagner no marco da Operação Compliance Zero tem como alvo o próprio senador, individualmente, e não envolve, de nenhuma maneira, o governo Lula, a bancada do PT no Senado e tampouco o Partido dos Trabalhadores.

Há, no entanto, o risco de governo, bancada petista e PT serem tragados para a crise que não lhes pertence caso Jaques Wagner continue na liderança do governo no Senado. Ele precisará se desincompatibilizar do cargo para se dedicar integralmente, e no seu próprio nome, ao pleno exercício do direito de defesa no processo. As informações sobre supostos mimos e vantagens econômicas indevidas recebidas por Jaques Wagner e familiares não foram vazadas pela imprensa, mas constam de relatório da Polícia Federal sobre conteúdos encontrados nos dispositivos de Daniel Vorcaro.

A PF mostrou encadeamento de diálogo entre Wagner e Augusto Lima, o ex-sócio de Daniel Vorcaro, para operacionalizar a aquisição de apartamento no condomínio Poème Horto pelo valor de 2,5 milhões de reais, e relatou pagamentos e repasses milionários a empresas financeiras vinculadas ao núcleo familiar do senador. O relatório da PF também descreveu “possível atuação parlamentar de Jaques Wagner em temas de interesse do Banco Master”.

A PF relatou que “o Senador teria mantido interlocução direta com Augusto Ferreira Lima sobre temas relacionados [a] à elevação da margem consignável da remuneração disponível para os trabalhadores regidos pela CLT, para os aposentados e pensionistas vinculados ao RGPS, além de autorizar a realização de empréstimos e financiamentos por beneficiários do BPC e de outros programas federais de transferência de renda, […]; [b] à tentativa de aprovação da PEC nº 65/2023, com repercussões sobre o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e [c] à atuação parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação de potencial aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília”.

A denúncia contra Jaques Wagner é impactante. O bolsonarismo tentará instrumentalizar o caso para desviar a atenção sobre o envolvimento sistêmico do establishment direitista e bolsonarista, em especial de Flávio Bolsonaro, Ciro Nogueira, Antonio Rueda e outros, envolvidos organicamente com o esquema mafioso de Daniel Vorcaro. O governo não pode titubear na necessária equivalência de postura sobre a gravidade das apurações da PF, pois isso legitimaria a estratégia diversionista da bancada Master. As revelações da PF – que não se confundem com vazamentos, intrigas políticas ou fofocas– que “valem para Chico, valem, também, para Francisco”. A Jaques Wagner o que é de Jaques Wagner.

¨      O que pesa contra líder do governo Lula no Senado alvo de nova fase de operação contra Banco Master

Uma nova fase da Operação Compliance Zero da Polícia Federal — que investiga um suposto esquema bilionário de fraudes envolvendo o Banco Master — foi deflagrada nesta quinta-feira (18/06) e tem, entre os seus alvos, o senador Jaques Wagner (PT-BA). Outro alvo da operação é o banqueiro Augusto Ferreira Lima. Wagner é líder do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no Senado. "O senador Jaques Wagner é apontado pela Polícia Federal como suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais", afirma decisão assinada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, que é relator do caso. O senador teria recebido pagamentos e benefícios em troca de apoio por medidas no Congresso que ajudariam o Banco Master — como a chamada "Emenda Master". Já Augusto Ferreira Lima é descrito como "gestor ligado ao Banco Master, principal interlocutor privado de Jaques Wagner e figura central na suposta entrega de vantagens econômicas indevidas ao parlamentar e a pessoas de seu entorno. Os fatos investigados podem caracterizar, em tese, os crimes de corrupção passiva, de corrupção ativa e de lavagem de dinheiro." Foram autorizadas buscas em endereços ligados ao senador — mas não dentro de seu gabinete no Senado.

A Polícia Federal apreendeu cerca de US$ 55 mil dólares e outros € 33,5 mil na operação desta quinta-feira. Uma fonte que acompanha as investigações afirmou à BBC News Brasil em caráter reservado que o dinheiro foi encontrado em dois endereços ligados a Jaques Wagner. Um no Distrito Federal e outro na Bahia.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, emitiu uma nota na qual afirma que Wagner é "depositário de toda a nossa confiança". "Apoiamos todas as apurações envolvendo o Banco Master, a sociedade tem o direito de saber a verdade, os crimes cometidos precisam ser apurados e os responsáveis penalizados", diz o presidente do PT. "Nesse processo de investigação e apuração, temos confiança que Jaques Wagner esclarecerá todos os fatos, comprovando a sua inocência".

<><> Quais as suspeitas sobre Jaques Wagner e Augusto Ferreira Lima?

A Operação Compliance apura a possível prática de crimes financeiros, de lavagem de dinheiro, de organização criminosa, de corrupção e de delitos conexos atribuídos a gestores e operadores ligados ao antigo Banco Master. "No campo específico da presente representação, apura-se a possível relação ilícita entre gestores do Banco Master, notadamente Augusto Ferreira Lima e Daniel Bueno Vorcaro, e o Senador Jaques Wagner", diz a decisão de Mendonça.

>>> As autoridades brasileiras investigam três eixos principais nessa fase da operação:

  • a possível "entrega de vantagens econômicas", com destaque para a compra de um apartamento em Salvador
  • a identificação de pagamentos e repasses a empresas "vinculadas ao núcleo familiar de Jaques Wagner"
  • a verificação de "indícios de atuação parlamentar, por parte do Senador, em temas de interesse do Banco Master", especialmente "em matéria de crédito consignado, em relação ao limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) e em iniciativa parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação de aquisição do Banco Master pelo BRB".

A PF diz que Wagner teria encaminhado a Augusto Ferreira Lima dados de um apartamento do empreendimento Poème Horto avaliado em R$ 2,45 milhões. A compra final teria sido feita por outra empresa "em dinâmica que a autoridade policial reputa compatível com ocultação do beneficiário final", segundo a decisão. Essas tratativas teriam acontecido mesmo depois da deflagração da primeira fase da Operação Compliance Zero. A PF afirma que a BN Financeira Ltda. — uma "empresa associada ao núcleo familiar de Jaques Wagner" — teria recebido R$ 3,5 milhões de uma "pessoa jurídica vinculada ao núcleo de Augusto Ferreira Lima".

As autoridades também dizem que houve "atuação parlamentar de Jaques Wagner em temas de interesse do Banco Master". A PF diz que Wagner e Lima trataram diretamente de três temas relacionados ao Master:

  • à elevação da margem consignável da remuneração disponível para os trabalhadores, aposentados e pensionistas, além de autorizar a realização de empréstimos e financiamentos por beneficiários do BPC e de outros programas federais de transferência de renda;
  • à tentativa de aprovação da PEC 65/2023, com mudanças no limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos;
  • "atuação parlamentar voltada à fiscalização e controle da operação de potencial aquisição do Banco Master pelo Banco de Brasília (BRB)".

Além disso, as autoridades afirmam que há outras questões "mais laterais" por parte de Wagner, como o "uso gratuito de aeronaves vinculadas a Augusto Ferreira Lima ou ao Banco Master"; e o "recebimento de ingressos para shows no exterior de elevado valor". A decisão cita ingressos à família do senador para shows de uma cantora que teriam acontecido em Los Angeles, em valor superior a R$ 63 mil.

<><> 'Emenda Master'

A decisão de Mendonça cita a chamada "Emenda Master", que já havia surgido em outras fases da Operação Compliance Zero. No mês passado, o senador Ciro Nogueira (PP-PI) foi alvo de uma fase da operação, suspeito de ter recebido vantagens financeiras para beneficiar o Banco Master, do banqueiro Daniel Vorcaro, que está preso. Uma das acusações levantadas na investigação é que Nogueira teria apresentado uma proposta legislativa redigida pelo próprio Master, ampliando o limite de aplicações financeiras protegido pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão, por investidor. Caso fosse aprovada, a mudança permitiria a bancos vender mais ativos financeiros com 100% de proteção.

A venda de aplicações financeiras com promessa de rendimentos exagerados alavancou o Banco Master e é uma das causas de sua liquidação em outubro pelo Banco Central. O banco oferecia investimentos protegidos pelo FGC, mas prometia rentabilidade muito acima do normal no mercado. Depois, aplicava esses recursos em operações de alto risco ou mesmo fraudulentas, segundo investigações da PF.

Com a liquidação do Master, o FGC teve que devolver aos investidores do banco as aplicações até o limite de R$ 250 mil por CPF, o que provocou o maior rombo da história da instituição, de aproximadamente R$ 52 bilhões, considerando também outras instituições ligadas ao conglomerado, como Will Bank e Banco Pleno. Ou seja, se o limite de proteção fosse ampliado, como propôs o senador, esse rombo poderia ter sido ainda maior.

O fundo é uma instituição privada, mantida por contribuições dos próprios bancos que operam no país, e tem como objetivo justamente atuar em eventuais quebras bancárias para evitar que a crise se espalhe pelo sistema financeiro. O problema no caso do Master é que a instituição teria distorcido a finalidade do FGC ao aproveitar a garantia do fundo para vender aplicações irrealistas. A tentativa de ampliar o limite de garantia foi feita por meio da emenda número 11, apresentada em 13 de agosto de 2024, dentro de uma proposta de alteração da constituição que busca mudar regras de funcionamento do Banco Central, a PEC 65/2023. A matéria está tramitando na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado e ainda não foi à votação. O texto do senador ficou conhecido como "emenda Master" depois que a crise no banco explodiu.

O senador Jaques Wagner é citado em tratativas sobre a PEC 65/2023 na decisão de quarta-feira que levou à nova fase da Operação Compliance Zero. "Em 13 de agosto de 2024, data da inclusão da emenda, Augusto [Ferreira Lima] realizou chamada de voz para Jaques Wagner, com duração de 9min19s, e logo depois encaminhou ao parlamentar o link da emenda. Posteriormente, em 27 de agosto de 2024, após encontro presencial, Augusto reencaminhou o link da emenda ao Senador." A Polícia Federal afirma, no texto da decisão do relator do STF, que o senador "não seria mero destinatário passivo de informações, mas interlocutor relevante em temas sensíveis ao grupo econômico investigado. Também merece destaque a mensagem de 29 de março de 2025, em que, ao explicar a Jaques Wagner os termos da operação de venda do Banco Master ao BRB, Augusto afirmou: 'Você mais do que ninguém sabe de minha história e faz parte disso!!'", afirma a decisão. "A autoridade policial também destaca que Augusto atuou como canal de interlocução com Jaques Wagner sobre temas de interesse do Banco Master. Enviou notícias sobre rating, estrutura acionária, Will Bank, PEC 65/2023, operação BRB/Master, requerimentos no Senado e CPI do Master. A constância desse fluxo informacional sugere, em juízo preliminar, relação funcionalmente direcionada e não meramente social."

¨      Investigação sobre Jaques Wagner aproxima caso Master do governo Lula, diz imprensa internacional

A nova fase das investigações das autoridades brasileiras sobre o caso Master, que inclui entre os alvos o senador Jaques Wagner (PT-BA), líder do governo de Luiz Inácio Lula da Silva no Senado, repercutiu na imprensa internacional. Endereços ligados ao senador foram alvos de busca na quinta-feira (18/06). Wagner é apontado pela Polícia Federal como "suposto beneficiário central das vantagens econômicas investigadas, figurando como agente público em favor de quem teriam sido estruturados pagamentos, benefícios e aquisições patrimoniais". A Polícia Federal investiga se o senador teria recebido pagamentos e benefícios em troca de apoio por medidas no Congresso que ajudariam o Banco Master, como a chamada "Emenda Master". Há suspeitas em torno da compra de um apartamento de luxo em Salvador e um pagamento de R$ 3,5 milhões. Ele nega ter cometido irregularidades.

A Polícia Federal apreendeu cerca de US$ 55 mil e outros 33,5 mil euros na operação desta quinta-feira. Uma fonte que acompanha as investigações afirmou à BBC News Brasil em caráter reservado que o dinheiro foi encontrado em dois endereços ligados a Jaques Wagner. Wagner confirmou que o dinheiro apreendido pela PF na operação é seu, mas negou qualquer irregularidade. O senador não foi indiciado.

O site da Al Jazeera, a rede de notícias baseada no Catar com grande influência no mundo árabe, disse que o escândalo do Master "atingiu ambos os lados do espectro político brasileiro — e pode até mesmo influenciar a próxima corrida presidencial do país, em outubro". O site lembra que no mês passado o portal The Intercept Brasil divulgou áudios nos quais o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, do Master, para produção de um filme biográfico sobre Jair Bolsonaro. "Os mandados [de busca da Operação Compliance Zero] de quinta-feira marcaram a mais recente de uma série de operações destinadas a revelar a extensão dos crimes financeiros de Vorcaro e como eles podem ter alimentado a corrupção governamental", afirma a Al Jazeera.

O jornal argentino Clarín destacou a presença de um aliado de Lula na nova etapa da investigação da Polícia Federal. "A inclusão do importante senador na investigação do Banco Master aproxima este escândalo do governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição para um quarto mandato não consecutivo em outubro. O caso começou com a liquidação por insolvência do Banco Master em novembro, que devia mais de US$ 7 bilhões a cerca de 800 mil investidores (cujas dívidas foram quitadas pelo fundo de garantia)", diz o jornal argentino. "Logo se transformou em uma investigação que apontou ligações suspeitas entre seu proprietário, o banqueiro Daniel Vorcaro, e figuras do poder público brasileiro de todo o espectro político."

O jornal diz que, após as revelações sobre o áudio de Flávio Bolsonaro a Vorcaro, o senador do PL "caiu nas pesquisas e agora está vários pontos atrás de Lula nas intenções de voto para o segundo turno. Lula, que admitiu ter se encontrado com Vorcaro em 2024, prometeu que o caso seria investigado 'até as últimas consequências'", diz o Clarín.

A agência de notícias para o mercado financeiro Bloomberg disse que a investigação sobre o Banco Master e Vorcaro "atingiu políticos de todo o espectro político, abalando a campanha eleitoral brasileira a quatro meses da votação. Após a divulgação de reportagens envolvendo Wagner, a campanha de Lula instruiu aliados e membros do gabinete a defenderem publicamente o senador, segundo uma pessoa com conhecimento do assunto", afirma a Bloomberg. "A campanha reconheceu, no entanto, que seus esforços para atribuir a culpa pelo escândalo do Banco Master a Bolsonaro e seus aliados haviam se tornado mais difíceis, de acordo com outra pessoa familiarizada com o assunto."

A agência de notícias Reuters destacou que o escândalo de corrupção "chegou perto do presidente do Brasil nesta quinta-feira, com uma operação da Polícia Federal que teve como alvo seu principal aliado no Congresso, intensificando o foco na corrupção política às vésperas das eleições de outubro" . As supostas ligações com Wagner trazem o escândalo do Banco Master para o círculo íntimo do presidente pela primeira vez", afirma a agência. "Seus laços estreitos com Lula remontam a décadas, incluindo cargos no gabinete do presidente. Como governador da Bahia, ele ajudou a transformar o Estado nordestino em um reduto de apoio ao governista Partido dos Trabalhadores."

Segundo a Reuters, as notícias de quinta-feira reforçaram "a percepção de que a investigação sobre o Banco Master influenciará a corrida presidencial de 2026. No mês passado, o escândalo abalou a campanha do senador Flávio Bolsonaro — apontado pelas pesquisas como o principal rival na tentativa de reeleição de Lula — depois que o senador confirmou ter obtido financiamento de Vorcaro para um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro."

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Brasil