'O
massacre dos idosos': como doença do filho de chefe de facção no Haiti levou à
maior chacina do século nas Américas
O
pequeno príncipe Benson está doente. Seu pai é o rei Micanor, autoproclamado
último monarca do Caribe. Ele é o senhor dos cais de Porto Príncipe,
"senhor da guerra" do bairro de Wharf Jérémie e da Viv Ansanm, a
confederação de facções criminosas que controla a capital do Haiti. Ele está certo de
ter descoberto o motivo. Existem na área homens-lobos, uma espécie de
feiticeiros anciãos. Eles têm o poder de se transfigurar em animais para atacar
à noite e uma capacidade especial de fazer adoecer e matar crianças. O rei
decide, então, que, para salvar seu filho, suas hostes precisam sair à caça
desses feiticeiros. Sébastien é um homem forte e rústico de 32 anos. Em uma das
casas, ele está debaixo da cama da sua mãe e observa dois homens a levarem
embora. Em outra, a avó de Evelyn diz: "Que ninguém fale nada.
Escondam-se, todos." A anciã abre a porta e é raptada. O avô de Sheila
também é levado embora. Quando ela sai para averiguar sobre seu paradeiro, o
ancião já está morto. Manú também procura seus pais, que não atendem o
telefone. No dia seguinte, ele descobre que seu pai foi desmembrado a golpes de
facão. Os bandidos de Micanor matam ainda o tio e o primo de Dustin. Ele conta
a história com dois buracos de bala no corpo. O príncipe Benson Altes morre na
madrugada de 7 de dezembro de 2024. Ele tinha seis anos. Durante seis dias, seu
pai tira a vida de 207 pessoas. A maioria tinha mais de 60 anos. Ele os corta
com facão, faz os corpos desaparecerem com fogo ou os joga no fundo do mar.
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A busca por sobreviventes
No
final de fevereiro de 2025, três meses depois do massacre em Porto Príncipe,
consigo agendar uma reunião com a advogada Rosie Auguste Ducéna, chefe da Rede
Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH, na sigla em francês). Mas
chegar até lá é complicado. A capital haitiana é a cidade mais violenta do país mais pobre e violento do continente
americano. E 90% de Porto Príncipe está, há mais de um ano, sob o controle da
Viv Ansanm, a maior confederação de gangues criminosas já vista na região. Desde
29 de fevereiro de 2024, os bandidos tomaram posse de um bairro atrás do outro,
queimando delegacias de polícia, estações de rádio locais, escolas, edifícios
governamentais, cemitérios, estradas... Eles devastaram a cidade. Os 10% que
resistem à ofensiva são defendidos pelo pouco que resta do Estado haitiano, uma
missão internacional comandada pelo Quênia, civis e pelos homens comandados por
pessoas como o ex-policial Samuel Joasil, o mais conhecido de todos. Estas
brigadas montam barricadas quase todos os dias, colocam carros queimados,
portões improvisados, cercas de arame farpado ou fogo em pneus para impedir a
entrada dos bandidos e fazer com que eles, se conseguirem entrar, se movimentem
com lentidão. Assim, eles poderão caçá-los, matá-los e, em muitos casos,
queimá-los. A mobilidade também é difícil para nós, que estamos nesta espécie
de fortaleza.
Rosie
Auguste é uma das maiores especialistas nas gangues e na violência de Porto
Príncipe. Ela acredita que esta é uma forma de pressão para fazer com que a
cidade caia com mais rapidez. "Terroristas", segundo ela. Ela também
considera que os senhores da guerra elaboram a estratégia, mas não controlam as
hostes de adolescentes que, embriagados pela adrenalina e pelo poder, acabam
assolando a população de forma arrepiante. E acrescenta que os anos vivendo
entre a violência deformam esses meninos. Mas, como os demais especialistas,
ela acredita, suspeita, intui, mas não sabe ao certo. Rosie Auguste está
visivelmente perturbada. Ela chama os bandidos da Viv Ansanm de covardes. Diz
que eles atacam a população antes do governo. "Eles sabem onde está o
primeiro-ministro, onde moram os funcionários, mas preferem atacar mulheres e
crianças desarmadas", ela conta, com a testa franzida. "Fazem
violações em massa em frente a todo mundo e matam bebês."
Ela
documenta e denuncia há anos, não apenas as barbáries das gangues. Ela também
acusa o Estado haitiano de passividade, permissividade e conluio. Por isso,
Rosie Auguste acredita que sua vida esteja em risco. Ela não seria a primeira
pessoa assassinada por documentar esta situação. Tento entrevistar
sobreviventes do massacre desde a minha chegada. Mas um jornalista local me diz
que é impossível.
Ele
conta que não se pode entrar em Wharf Jérémie porque o rei Micanor ficou
paranoico e levou seus homens com ele. O jornalista também afirma que os
sobreviventes não podem sair do bairro. Micanor montou barreiras que controlam
a saída das pessoas e retêm os celulares dos moradores. E os que conseguiram
fugir para outros bairros ou para campos de refugiados improvisados correriam
sérios riscos. Peço a Rosie Auguste e ela promete tentar, mas destaca que, para
eles, movimentar-se pela cidade seria quase um suicídio. Ela me pede para
regressar no início de abril de 2025. Nesta segunda entrevista, chego ao seu
escritório de moto com Ivander, meu guia local.
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O rei assassino e a maldição dos anciãos
Na
manhã de 6 de dezembro de 2024, Evelyn e sua família ouvem motos, homens
falando alto e batidas na porta. Da rua, eles perguntam pela sua avó. "Escondam-se
e façam silêncio", pede a avó aos seus parentes, enquanto abre a porta. Um
dos homens entra com uma pistola e outro com um facão. Eles a levam em uma das
motos. Aquela foi a última vez em que Evelyn viu a avó com vida. No fundo do
bairro de Wharf Jérémie, perto do mar, já se ouvem tiros. Ninguém da casa se
atreve a sair. Na manhã seguinte, Evelyn e suas irmãs, em um ato de grande
temeridade, se esgueiram até Nan Mangue, um pequeno banco de areia ao lado do
porto de Wharf Jérémie. Ali, em meio a um grande quebra-cabeça de sangue,
dividida pelo facão, elas encontram sua avó.
Há
alguns dias, o filho de seis anos do rei Micanor, Benson Altes, tem febre.
Nenhum dos meus informantes sabe ao certo qual foi o motivo (uma doença
relacionada aos pulmões ou ao estômago), mas ele fica pior em alguns momentos. Porto
Príncipe perdeu para os bandidos quase todas as suas instalações de
saúde,
públicas e privadas. Nem as ambulâncias da ONG Médicos Sem Fronteiras conseguem
chegar aos domínios do rei Micanor, onde foram atacadas a balas em mais de uma
ocasião.
Frente
ao mal-estar do filho, Micanor chama seu hougan, seu sacerdote vodu
pessoal, para salvá-lo. O sacerdote afirma que Benson está doente por obra do
vodu. Segundo ele, trata-se de uma espécie de feitiço lançado por um loup-garou —
um homem-lobo, uma espécie de feiticeiro muito temida no Haiti desde a época da
colonização. O sacerdote anônimo (nenhuma fonte ou relatório registra seu nome)
também afirma que os anciãos e anciãs do bairro são responsáveis não só pelo
sofrimento do pequeno príncipe, como por outras mortes por doenças em Wharf
Jérémie. Para os membros das gangues, os anciãos se transformaram uma espécie
de praga. E é assim que irão tratar deles.
Na
manhã de 6 de dezembro de 2024, depois de uma longa reunião com o hougan,
o rei Micanor decide pôr fim à maldição. Ele reúne suas tropas no quartel da
gangue, conhecido como Centro de Treinamento, e manda que sejam trazidos para
ali todos os anciãos do bairro. Sébastien almoça com sua mãe naquele dia. Ele
não recorda o que eles comeram, mas supõe que tenha sido arroz. Para muitos na
cidade, este é praticamente o único alimento disponível. O bairro está tenso,
como sempre acontece em Porto Príncipe. Eles ouvem tiros, a música de fundo que
acompanha a cidade nos últimos cinco anos. Até que chegam os bandidos.
Jovens,
eles chegam de moto, batem à porta e gritam do lado de fora que querem sua mãe.
Ela diz a Sébastien que se esconda; ela não pede, mas sim ordena. Sébastien é
grande, tem feições fortes, voz grave e braços largos. Seu pescoço parece o
tronco de uma árvore forte e os botões de cima da camisa se esforçam como podem
para não sair em disparada a cada respiração dele. Mas, no dia 6 de dezembro de
2024, este homenzarrão se enfia como pode debaixo da cama da sua mãe e se cobre
com suas mantas. Ele acredita que eles estão vindo para roubar, já que sua mãe
e ele são comerciantes e mantêm dinheiro vivo. Como o rei Micanor é seu vizinho
e eles o conhecem há quase duas décadas, ele não imagina que irão matar ninguém
do bairro. Talvez sua mãe, sim, e, por isso, ela manda que ele se esconda. Sébastien
observa do seu esconderijo que dois rapazes a levam e a fazem subir em uma
moto. E, horas depois, ela fará parte do quebra-cabeça humano que também inclui
a avó de Evelyn. O rei Micanor sequestra neste dia 127 anciãos, 90 homens e 37
mulheres, e os leva para Nan Mangue. Ali, quando cai a noite e tudo fica
escuro, seus homem os matam a tiros e facadas. O hougan recolhe
sangue dos sacrificados e guarda em recipientes, ao lado de partes dos seus
corpos.
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Os reis e o vodu
A
igreja de Saint Michel fica nos limites de Pétion-Ville, dentro da pequena
fortaleza que ainda resta em Porto Príncipe. Nela, dezenas de homens e mulheres
levantam as mãos e as agitam no ar. Os tambores soam como trovões. A fumaça
sobe e vozes graves escapam de uma cabana de madeira. Eles me olham com
desconfiança, mas ninguém se anima a me expulsar dali ou me fazer mal. É um
lugar sagrado e eles não irão manchá-lo, ainda mais com sangue de branco. O dia
é 5 de março de 2025. Neste hounfor, ou igreja vodu, é celebrado um
rito a Ezili, a família de loas associada à fertilidade, à
força da maternidade, à sensualidade, ao feminino, à dança e à proteção. Um
grupo carrega uma mulher jovem com síndrome de Down. Imóvel, ela brilha como um
pássaro grande com as asas em crescimento. A jovem não fala. Ela apenas baba e
emite uma espécie de grunhido doloroso. Ela foi recolhida da rua, onde vive ao
lado de uma lixeira. Eles a vestiram e calçaram da melhor forma possível e
organizaram este evento para ela. Seu objetivo é pedir a Ezili que a proteja,
que a acompanhe, que a perdoe. A mulher está grávida e dará à luz nos próximos
dias. Os devotos também exigem paz aos gritos e pedem aos loas que
deem esperança e os ajudem a sobreviver. Eles pedem que a Viv Ansanm não entre
e, se o fizerem, que eles possam derrotá-la.
O vodu
é uma das religiões mais estigmatizadas do continente americano. Segundo Alfred
Métraux, um dos antropólogos pioneiros no seu estudo, trata-se de um conjunto
de crenças híbridas entre credos africanos, inicialmente, e a fé católica dos
escravagistas que chegaram à América. Basicamente, é uma religião criada de
baixo, com uma relação profunda e terna com a natureza e os mortos. Nesta
tradição, os mortos não vão embora. Eles ficam e fazem parte importante da vida
cotidiana. Eles regressam em sonhos, confortam os vivos e, com o passar do
tempo, se tornam divindades. É desta forma que o panteão haitiano vai
crescendo, até se tornar impossível de relacionar.
O vodu
não tem relação com a violência ou, pelo menos, não mais que as religiões
judaico-cristãs e muçulmanas. Ele se desenvolveu como motor ideológico e
espiritual da revolução haitiana do final do século 18. Foi depois de um ritual
organizado por uma mulher que as pessoas escravizadas destruíram o sistema de
fazendas escravagistas mantido pelos franceses em 1791. Assim foi fundado o
Haiti, após a primeira revolução bem sucedida de pessoas escravizadas do
continente americano, a primeira declaração de independência
da América Latina e
a segunda do continente, depois dos Estados Unidos. Por isso, o vodu foi e, de
certa forma, continua sendo uma religião eminentemente anti-imperialista. Mas,
como todas as religiões, o vodu também foi usado para oprimir ainda mais
aqueles que já são oprimidos. Usar o vodu como arma para subjugar as pessoas
não é criação do rei Micanor. Dezenas de senhores da guerra se orgulham de
serem hougan e terem a proteção dos loas.
O
primeiro a observar o potencial da fé para reprimir os haitianos talvez tenha
sido François Duvalier (1907-1971), o ex-ditador do país conhecido como Papa
Doc. Seu aterrorizante regime durou de 1957 até a sua morte e teve dois
pilares. O primeiro foi a criação do grupo paramilitar Tontons Macoutes, que
assassinava seus opositores e impunha o terror nos bairros. O segundo foi o
vodu. Duvalier se gabava de não ser mais um hougan, mas sim
um loa; especificamente, Baron Samedi, o senhor dos cemitérios, que
protege a entrada para o mundo dos mortos. Ele se apresentava com a
indumentária clássica daquele espírito e, segundo os haitianos, falava como
os loas e os mortos: com tom nasal. Os 14 anos de governo de
Duvalier deixaram um rastro de morte pelo Haiti, estabelecendo uma forma de
fazer política que prevalece até hoje no país. Pode-se dizer, de forma
simplista, que a Viv Ansanm é a herança de Papa Doc e que seus senhores da
guerra místicos e paranoicos são seu legado. Quando o rei Micanor decide
assassinar seus vizinhos, em 6 de dezembro, não se trata de uma inovação das
formas de barbárie. Ele segue uma tradição política iniciada antes mesmo que
ele tivesse nascido.
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A paranoia do rei e os 'homens-lobos'
No dia
9 de dezembro, as pessoas ficam sem comunicação em Wharf Jérémie. Frente à
cobertura da matança na imprensa local e nas redes sociais, o rei Micanor
ordena o confisco dos telefones celulares de toda a população. Seus homens
sequestram outras 60 pessoas, que foram levadas ao Centro de Treinamento. Lá,
elas são torturadas e interrogadas. O líder quer saber quem vazou a informação
para a imprensa e para a organização de direitos humanos com quem entrei em
contrato meses depois, em março e abril de 2025. A gangue impõe o toque de
recolher no bairro. "Ninguém sai, ninguém entra!", ordenam os
bandidos aos gritos pelas ruas.
Manú
está longe do arquétipo que temos do refugiado. Ele usa camisa social, óculos e
sapatos brilhantes. Fala inglês e, por isso, consigo falar com ele sem filtros.
Ele conta que mora em outro bairro (omitimos o nome do local por questões de
segurança) e visitava frequentemente seus pais em Wharf Jérémie. Ele podia
entrar e sair sem ser molestado pelos bandidos do rei. Este é um privilégio
pouco comum.
Seus
pais tinham ali um bom negócio. Por ser porto, havia muito movimento e a
possibilidade de obter produtos antes que eles subissem de preço ao adentrar no
país. No dia 6 de dezembro, Manú ligou para seus pais e eles não atenderam. E,
como já circulavam rumores sobre algo estranho acontecendo no bairro, ele se
aventurou e conseguiu entrar em Wharf Jérémie no dia seguinte. Sua mãe o
recebeu em casa com a notícia de que, no dia anterior, homens de motocicleta
haviam levado seu pai. E, apesar do toque de recolher, ele saiu para verificar
o que havia acontecido com ele. Manú descobriu que o pai foi desmembrado, suas
partes foram queimadas e o que restou foi atirado ao mar. E também disseram a
ele que estavam matando todas as pessoas com mais de 60 anos. Sua mãe tinha
mais de 70. Por isso, Manú a escondeu como pôde e, no dia 9 de dezembro, ele a
retirou de casa às escondidas.
Mas ela
ficou doente, parou de comer e morreu na noite de Natal. "Morreu de
tristeza", lamenta Manú.
No seu
funeral, ao lado do caixão da mãe, ele enterra outro caixão com coisas do seu
pai. Assim, ele se despede deles, explicando que eles voltaram para um mundo
aonde a raiva do rei não consegue chegar: o mundo dos sonhos. "Meus filhos
são muito pequenos e não se lembrarão deles, mas eles cuidam dos meus
filhos", afirma ele. É neste ponto que o choro irrompe e destrói a fria
compostura do burocrata. Na tarde de 9 de dezembro, os bandidos do rei Micanor
capturam três homens e duas mulheres que tentavam fugir de Wharf Jérémie e
atiram no ato. Os tiros não têm relação com o vodu e os homens-lobos. O rei
quer impedir de todas as formas que se saiba mais sobre o massacre. Por isso,
ele proíbe que as pessoas saiam de casa e falem com os vizinhos. Mas é muito
difícil ocultar mais de 200 assassinatos, mesmo com o fogo e o mar como
aliados. A notícia vaza, algumas pessoas mandam vídeos para familiares fora do
bairro e as imagens são compartilhadas com jornalistas locais ou nas redes
sociais.
Analistas
especializados das Nações Unidas interceptaram uma mensagem do rei para a alta
cúpula da Viv Ansanm, em referência ao ocorrido:
Olá,
colegas da Viv Ansanm. Saudações, sou o rei Micanor.
Vou
contar sobre o incidente na minha região. Muitas pessoas dizem que cometi um
massacre e falam em assassinatos. As vítimas são feiticeiros (homens-lobos). A
coalizão Viv Ansanm não colabora com este tipo de pessoas. Podem
imaginar que tenho um filho que nasceu sadio e que os anciãos da região
conspiraram para matá-lo, lançando feitiços místicos contra ele? Em um
caso como este, não posso permanecer impassível; preciso me vingar. Em todas as
bases da Viv Ansanm, exterminaremos os feiticeiros e limparemos a região. Ouvi
muitas mensagens na imprensa e de organizações de direitos humanos. Vocês sabem
onde moro, quem eu sou. Vocês devem vir me buscar, são covardes, estou
esperando vocês, venham me buscar. Assumo toda a responsabilidade pelo que fiz.
Os anciãos mataram meu filho, vocês acham que eu não iria reagir? Um filho
que amo tanto. Vocês não são pais do menino e, por isso, são insensíveis à dor.
Eu, o rei Micanor, não cometi pessoalmente nenhum abuso; as pessoas que
foram assassinadas estão realmente mortas. Se outros devem ser assassinados,
também morrerão. Todas as gangues da Viv Ansanm caçarão os homens-lobos
(feiticeiros).
Dada a
explicação, ele prosseguiu com o massacre.
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'Você mata os meus, eu mato os seus'
O
bairro amanhece em silêncio. Ninguém quer falar alto para não alertar os
bandidos sobre sua presença. "Os mais perigosos são os meninos, porque
querem demonstrar seu poder e podem fazer mal só para isso", explica
Evelyn, a primeira sobrevivente que entrevisto. Os homens do rei tomam as ruas
e procuram alguém a quem matar. Um deles é Dustin. Magro e com cerca de 30
anos, ele manca, com uma perna enfaixada e o apoio de uma muleta. Dustin
trabalhava com seu tio e seu primo em uma pequena oficina, o que lhe dava
acesso ao bairro. Mas ele também confessa ter boas relações com a gangue do rei
Micanor. Quando ali chegou, no dia 7 de dezembro, seu tio e seu primo já tinham
sido assassinados. Ainda assim, decidiu ficar com a gangue, segundo ele, por
medo de ser tomado por delator. Mas ele garante não ter se envolvido no
massacre. E, como prova, mostra os dois buracos de bala no seu corpo. Ele conta
que os bandidos se queixaram por ele não ter cumprido a ordem do rei. Todos
tinham que matar. Alguns chegaram até a fazer tratos para evitar derramar o
próprio sangue: "Você mata os meus, eu mato os seus." Aparentemente,
eles não consideraram justo que Dustin se salvasse daquela condenação.
No dia
10 de dezembro, um dos homens de escalão intermediário do rei Micanor pede que
ele estenda a mão e, como castigo, dispara no centro da sua palma. Outro aponta
uma arma para sua cabeça, Dustin se move, o bandido aperta o gatilho e o atinge
na perna. Mas ele continua correndo e consegue escapar. Agora, Dustin mora como
refugiado em algum lugar da fortaleza que ainda resiste em Porto Príncipe. Suas
feridas parecem ter se infectado. Se os homens das brigadas de autodefesa o
capturarem e descobrirem seu vínculo com a Viv Ansanm, eles o levarão para
a cuisine ("cozinha" em francês), na esquina da rua
27 e da Bois Patate, em frente ao supermercado abandonado Tag Supermarket, no
bairro de Canapé Vert, o feudo do comandante Samuel Joasin e suas brigadas. Eles
darão facadas suficientes para que ele não possa se mover, colocarão pneus no
seu pescoço e atearão fogo. Esta prática se chama bwa kale e é
o destino dos bandidos capturados pela brigada.
A
paranoia do rei e sua obsessão para evitar que a notícia da matança continue se
propagando fazem com que ele fique ainda mais desconfiado.
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O rei louco e os sonhos
A
cabeça do líder é uma loteria. E a notícia do massacre se espalha por toda a
capital.
"O
rei Micanor ficou louco", comentam as pessoas nos bairros controlados
pelos bandidos, incluindo na sua fortaleza. Uma pessoa detém informações de
inteligência estrangeira e explica que a Viv Ansanm considerou derrubá-lo e
substituí-lo por alguém mais confiável, menos imprevisível, à frente de Wharf
Jérémie. A mesma fonte me diz que o rei ficou sabendo ou intuiu a respeito e
quis demonstrar que detinha o controle do bairro e da sua própria cabeça. No
dia 11 de dezembro, ele liberta as 60 pessoas raptadas dois dias antes e ordena
aos seus homens que preparem sacos com arroz, feijão, absorventes higiênicos e
outros produtos mais.
O rei
obriga as pessoas a saírem de casa e faz a distribuição. Ele ordena que elas
gritem seu nome e agradeçam porque, embora não tenha conseguido salvar seu
filho, ele protegeu as outras crianças do bairro contra os homens-lobos. "Viva
o rei Micanor!", grita Sheila, obrigada, enquanto mostra um saco de arroz
para a câmera do telefone celular de um bandido.
No dia
5 de dezembro, ela havia ido com seu avô para o mercado. Eles compraram chaco,
um vegetal parecido com a mandioca, e cozinharam para comer juntos. Sobrou um
pouco, mas ela acredita que, quando seu avô foi levado para ser morto, na tarde
de 6 de dezembro, ao lado de outros 126 anciãos, ele havia almoçado o que eles
prepararam juntos na véspera. Em 11 de dezembro, o rei Micanor já havia matado
202 pessoas. Mas, apesar dos sequestros, torturas e assassinatos, do toque de
recolher e do arroz distribuído, os bandidos dizem que há um novo vídeo nas
redes sociais, onde vozes femininas narram o ocorrido nos últimos dias. Frente
a isso, ele ordena a captura de cinco mulheres e as leva para o Centro de
Treinamento. Lá, elas são torturadas e transportadas para Nan Mangue. Essas
cinco mulheres compartilham o mar com os restos de Jacinthe, Marcel, Grette,
Magarette, Mimose, Ellionise, Montellas, Charita, Marthe, Adeline, Amadide,
Charléus, Euvanie, Milou, Immacula, Olympia, Umaliance, Milot, Jacqueline,
Dieuvé, Bénita, Roosevelt, Jean, Rosiane… e outras 173 pessoas cujos nomes os
relatórios não registram por questões de segurança.Nesta cidade de bandidos, o
falso rei massacrou os anciãos e, com eles, a memória do bairro. Mas os
sobreviventes afirmam que seus entes queridos retornam todas as noites em
sonhos. E, com eles, vem também o passado.
<><> O falso rei e a impunidade
Micanor
não é um rei, é apenas um homem que governa impunemente um pedaço de mundo em
uma ilha no Caribe. Ele nem mesmo é o fundador da sua gangue. Segundo uma
pessoa que pertenceu ao grupo, Micanor era o terceiro em comando, um elemento
muito violento e rápido no gatilho, ou facão. Por isso, nunca confiaram nele,
pois sempre foi paranoico, influenciável e instável, segundo contam.
Em
2008, este senhor da miséria matou sua própria mambo (sacerdotisa
vodu) para, segundo ele, obter seu poder. E, em 2012, acabou com 12 pessoas
acusadas por ele de serem feiticeiros.Os dois líderes que os antecederam
morreram perto de 2015, nas guerras fratricidas das gangues da capital. Elas
disputavam entre si o controle dos espaços miseráveis da cidade e das pessoas
pobres que moravam neles, antes da Viv Ansanm. A tarde deste dia de abril de
2025 vai se apagando em Porto Príncipe e a Viv Ansanm ataca os extremos da
fortaleza. Faço a quinta entrevista da tarde. Ouvem-se tiros ao longe e, pela
janela, pode-se ver colunas de fumaça subindo em direção ao céu. A brigada
fechará as ruas em breve para se proteger das multidões raivosas da grande
confederação de bandidos. Dustin fala devagar, usando gíria e com forte
sotaque. É difícil entender o que ele fala.
Mas o
homem está contando sobre a morte do seu tio e do seu primo e como ele precisou
caminhar por mais de uma hora com a perna ferida e a mão destroçada para contar
esta história. Por isso, não convém interrompê-lo. Ao término das entrevistas,
saímos correndo na moto do guia Ivander. Algumas barricadas já estão
instaladas, mas conseguimos evitá-las. A fortaleza põe à mostra seus espinhos e
se prepara para sobreviver por mais uma noite. As testemunhas do "massacre
dos idosos", agora, dormirão aqui, pois não podem mais regressar para os
seus lares. Amanhã, eles tentarão voltar sem serem assassinados ou capturados
pela Viv Ansanm ou pelas brigadas de vigilantes. Quase um ano e meio depois,
quando escrevo esta reportagem, o massacre de Wharf Jérémie permanece impune,
mesmo com todos os testemunhos e evidências que indicam o responsável pelo
assassinato de 207 haitianos, em sua maioria anciãos: o autodenominado último
monarca do Caribe, o senhor dos cais, um simples bandido chamado Monel Félix
Altes.
*Os
nomes dos sobreviventes foram alterados nesta reportagem por razões de
segurança.
Fonte:
BBC News Mundo