Classificação
de PCC e CV como terroristas sobre políticos e Faria Lima pode prejudicar
Flávio, diz professor
Professor
de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG),
Dawisson Belém Lopes diz que ainda é cedo para estimar os impactos que a classificação do Comando Vermelho
(CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos Estados Unidos deve ter nas
eleições.
"Qualquer
previsão neste momento é imprecisa, porque é preciso entender como essa decisão
será lida pela imprensa, por Flávio Bolsonaro, por Lula e por outros
agentes políticos que influenciam o debate", diz ele, que tem artigos e
livros publicados sobre política externa ligada à América Latina e ao Brasil, escritos a partir
de pesquisas em universidades na Alemanha, na Bélgica e na Índia.
O
professor reconhece a possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ)
ganhar tração no tema da segurança pública, algo caro a grande parte dos
brasileiros e área na qual o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou sua pior avaliação em
pesquisa Datafolha publicada há duas semanas.
Dois
dias após Flávio se encontrar com Donald Trump e um dia após
se reunir com Marco Rubio, secretário de
Estado dos Estados Unidos, o governo americano decidiu classificar o PCC e o CV
como organizações terroristas internacionais.
Por
outro lado, Lopes avalia que Lula, mais experiente em debates, pode virar o
jogo ao argumentar que a medida revela a incapacidade do adversário de lidar
com problemas internos, a ponto de recorrer à ajuda externa.
"Essa
medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor,
porque prevê uma renúncia de soberania", analisa.
E esse
foi, de fato, o tom adotado por Lula em sua primeira reação pública ao anúncio
do Departamento de Estado.
Horas
após a publicação original desta reportagem, o presidente afirmou que "não
aceitamos ser tratados como republiquetas". Lula atacou Flávio: "Não
tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção
americana no Brasil".
Para
estudiosos, facções como o PCC e o Comando Vermelho são criminosas, porque agem
por interesses econômicos, sem qualquer motivação ideológica, diferentemente
das organizações terroristas. Mas Trump tem contestado essa distinção, a
exemplo do que também fez no México, com os cartéis, no ano passado.
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Sanções financeiras contra aliados
A
partir do dia 5 de junho, as facções passarão a ser tratadas por Washington
como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, o que poderia abrir a
possibilidade de o republicano promover intervenções militares em território
brasileiro e também impor sanções diversas ao país e a quem, mesmo sem saber,
mantenha alguma relação com essas organizações.
É nesse
sentido, diz o professor, que "o tiro pode sair pela culatra" para
Flávio.
"Pode-se
cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de
políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem
vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo a
turma da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem
propôs essa medida pode estar jogando contra si."
Essas
figuras, que em sua maioria apoiam a pré-candidatura do senador à Presidência,
diz o professor, "se forem atingidas podem se voltar contra ele, porque
são pessoas com muito dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema
político brasileiro".
Sua
visão encontra amparo em investigações conduzidas por autoridades como a
Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público.
Essas
três entidades deflagraram no ano passado uma
operação contra
um esquema que se valia de fundos de investimentos e empresas financeiras que
operam na Faria Lima para gerar, lavar, ocultar e blindar recursos da atuação
do PCC no tráfico de drogas e no setor de combustíveis.
Ao
todo, a estimativa da PF à época era de que o esquema tenha movimentado pelo
menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.
Na ala
política, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro
(Alerj), Rodrigo Bacellar (União), foi preso suspeito de
vazar informações sigilosas e obstruir investigações contra facções como o
Comando Vermelho.
Possíveis
sanções ao Brasil e a brasileiros após a decisão de Trump poderiam se
assemelhar à Lei Magnitsky, usada contra indivíduos acusados de corrupção ou
violações de direitos humanos. Foi ela que, no ano passado, Trump usou contra o
ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), dificultando sua
relação com o sistema financeiro americano.
A sorte
do senador é que as sanções financeiras, ao menos na avaliação do professor,
devem ser brandas. Para ilustrar seu argumento, ele lembra que os bancos
brasileiros se recusaram a se voltar contra Moraes e a atender ao desejo dos
Estados Unidos.
"Os
bancos brasileiros foram pressionados a quebrar negócios com ele, mas
resistiram, porque foram instruídos pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco
Central para fazer isso. O Brasil já está vacinado contra esse tipo de pressão.
Não vejo o sistema bancário sucumbindo e fazendo o jogo da diplomacia
estadunidense, até pelas garantias que o governo brasileiro tem dado", diz
o professor.
Ele
recorda ainda que, na época, a conexão entre Brasília e Washington era mais
delicada e vinha na esteira do "tarifaço". "Neste momento, a
relação é bastante civilizada, e o nível de tensão, bastante controlado. Não
vejo possibilidade de uma disrupção", opina.
Há, por
fim, um terceiro argumento ao qual o professor recorre: a experiência do México, que teve seus
cartéis classificados como organizações terroristas internacionais logo no
início do segundo mandato de Trump, no ano passado.
Na
ocasião, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, atendeu a parte das
demandas de Washington — como a extradição de criminosos e o reforço da
segurança nas fronteiras — e afastou rapidamente qualquer retaliação mais
profunda.
"Se
no México o impacto foi modesto, no Brasil tende a ser menor ainda", diz
Lopes, acrescentando que "as correntes de comércio exterior do México são,
em sua maioria, com os Estados Unidos, e todos os dias centenas de milhares de
mexicanos cruzam a fronteira, legalmente ou ilegalmente".
"Os
Estados Unidos são importantíssimos para o Brasil, sim, mas não são nem sequer
nosso maior parceiro comercial. A China faz mais do que o dobro de comércio com
o Brasil do que os Estados Unidos", diz.
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A reação de Lula à decisão dos EUA de declarar CV e PCC
como 'terroristas': 'Não aceitamos ser tratados como moleques'
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (29/5) que
não vai aceitar que o Brasil seja tratado como "republiqueta", ao
comentar a decisão dos EUA de designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro
Comando da Capital (PCC) como entidades terroristas
"Nós
não aceitamos ser tratados como moleque. Não aceitamos ser tratados como uma
republiqueta", disse Lula em uma agenda em Sergipe.
O
discurso veio em consonância com uma nota também
divulgada pelo governo nesta sexta.
O texto
ressalta que "a soberania nacional é inegociável" e que "quem
define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os
brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança".
No
discurso, o presidente Lula disse também que se sentia "triste" com a
decisão do governo americano e que havia entregado ao presidente americano,
Donald Trump, na visita à Casa Branca no início do mês, um documento que
tratava sobre medidas para combater o crime organizado.
O
governo brasileiro sempre foi contra a classificação americana, argumentando
que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para
ações militares dos EUA sob o pretexto de combate ao terrorismo.
Lula
disse que o PCC e o CV "são terroristas para as comunidades
brasileiras", mas que "não são os terroristas que o Trump quer".
"Eles
incomodam as famílias, o bairro, a cidade, roubam tudo que tem direito do povo,
o direito do povo viver livremente, então eles são terroristas. E nós vamos
combatê-los aqui dentro", defendeu Lula.
A nota
divulgada pelo governo também argumenta que a violência praticada pelas facções
"não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos,
políticos e religiosos do terrorismo internacional".
No
discurso em Sergipe, o presidente Lula comentou ainda sobre o encontro entre o senador e
pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Trump três dias
atrás.
Na
reunião, Flávio defendeu que o governo dos EUA classificasse as facções como
terroristas, uma bandeira defendida há mais de um ano por bolsonaristas,
inclusive Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro que vive
atualmente em solo americano.
Dois
dias após a visita de Flávio, o secretário de Estado americano, Marco Rubio,
anunciou a classificação dos grupos criminosos como terroristas.
"O
senhor Rubio não estava lá [na reunião com Lula], possivelmente porque ele
tivesse preparado para ajudar o filho de um bolsonarista que é candidato a
eleição aqui nesse país, que não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria,
de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil", declarou o
presidente brasileiro.
A nota
do governo também menciona "traidores".
"A
segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada
politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos
patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades
estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros", diz o texto.
"É
deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados
Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no
tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país."
Lula
ainda argumentou que o combate ao crime organizado pelos EUA deveria acontecer
entregando "os terroristas brasileiros" que estão no país.
"Sabe
as armas importadas que são contrabandeadas pro Brasil? Vêm dos EUA",
disse Lula, que ressaltou a aprovação do projeto de lei Antifacção.
Por
fim, o presidente mencionou a situação de Alexandre Ramagem, ex-chefe da
inteligência brasileira durante o governo Bolsonaro que fugiu para os EUA, e
de Ricardo Magro, empresário
controlador do Grupo Refit que é suspeito de elo com PCC e é o maior sonegador
de impostos do Brasil.
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Derrota de Lula na batalha
A
batalha em torno da classificação de PCC e CV como terroristas demorou mais de
um ano, com idas e vindas.
Do lado
do governo brasileiro, além do argumento do risco à soberania nacional, também
se alegava que a medida iria contra a legislação brasileira.
Do
outro lado, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro vinha defendendo publicamente
a medida há mais de um ano apontando a posição contrária do governo Lula à
designação como uma suposta demonstração de conivência da administração petista
com o crime organizado.
O
governo brasileiro nunca havia considerado o assunto totalmente superado dentro
da administração Trump dado o que assessores de Lula classificam como
imprevisibilidade do presidente norte-americano.
Apesar
disso, a BBC News Brasil apurou que a decisão dos EUA pegou de surpresa até
mesmo diplomatas que acompanhavam parte das conversas entre os dois países
sobre o assunto.
Durante
sua passagem pelos Estados Unidos, Flávio disse ter defendido, para toda a
equipe de Trump, que o país tomasse a medida contra as organizações criminosas
brasileiras.
Antes
da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula afirmavam, em caráter
reservado, que o governo interpretaria um anúncio da administração Trump
considerado negativo como uma possível ingerência no processo eleitoral do
Brasil e que o governo responderia a exemplo do que aconteceu durante o
tarifaço em 2025.
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Cronologia da derrota
A ideia
de adotar sanções contra organizações criminosas brasileiras como o PCC e o CV
como entidades terroristas vinha sendo estudada pelo governo norte-americano há
vários anos.
Em
2021, por exemplo, a Secretaria do Tesouro incluiu o PCC como uma entidade
designada, uma classificação que permite impor sanções aos seus integrantes ou
a empresas que mantivessem negócios com a facção.
Mas o
plano de designar PCC e CV como entidades terroristas ganhou força, de fato,
após o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025.
O plano
vinha sendo discutido internamente pela área técnica do Departamento de Estado,
com auxílio de oficiais da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.
Entre o
final de 2025 e o início de 2026, o Departamento de Estado enviou assessores ao
Brasil que se reuniram com promotores brasileiros especializados no combate ao
crime organizado para obter mais informações sobre o assunto.
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Maio de 2025
Em maio
de 2025, por exemplo, o governo norte-americano enviou o então chefe interino
da estratégia de sanções do Departamento de Estado ao Brasil, David
Gamble, e o assessor Ricardo Pitta.
Pitta
chegou a se reunir com a família Bolsonaro e, segundo o senador Flávio
Bolsonaro, já naquele momento, a família defendeu a designação do PCC e do CV
como organizações terroristas.
O
movimento foi monitorado pelo governo brasileiro que, já naquela época, via
essa possibilidade como uma possível interferência norte-americana na política
brasileira de combate ao crime organizado.
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Julho de 2025
Em
julho de 2025, quando Trump impôs o tarifaço sobre produtos brasileiros, a
expectativa na diplomacia brasileira era de que a medida sobre facções
brasileiras poderia ser adotada naquela época, o que acabou não ocorrendo.
O
governo Lula, por sua vez, tentou desmontar o discurso pró-designação adotando
um discurso de que a classificação das facções como organização terrorista não
seria efetiva no combate ao crime organizado.
Em
setembro de 2025, por exemplo, Lula criticou a possível medida em seu discurso
na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).
"É
preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais
eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem
de dinheiro e limitar o comércio de armas. Usar força letal em situações que
não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem
julgamento", disse Lula em uma referência a ataques que vinham sendo feito
pelos Estados Unidos a embarcações na costa de países latino-americanos como
Venezuela e Colômbia.
O
assunto continuou a ser discutido em Washington.
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Março de 2026
A
possibilidade de designação continuou a ser estudada pelo Departamento de
Estado até que, no dia 8 de março deste ano, o portal UOL revelou que o governo
norte-americano estava prestes a adotar a medida.
A
notícia fez com que o governo brasileiro montasse uma espécie de "operação
de emergência" para impedir a adoção da medida.
Naquele
mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por
telefone com Marco Rubio sobre o assunto.
Dois
dias depois, no dia 10 de março, um porta-voz do Departamento de Estado
divulgou uma nota reiterando que o governo norte-americano considerava as duas
facções como ameaças ao país.
"Os
Estados Unidos consideram as organizações criminosas do Brasil — incluindo o
PCC e o CV — como ameaças significativas à segurança regional, devido ao seu
envolvimento no tráfico de drogas, na violência e no crime transnacional",
dizia o texto.
Lula
passou então a defender, de forma ainda mais ostensiva, que os Estados Unidos
cooperem com o Brasil no combate ao crime organizado como alternativa à
designação.
Ao
mesmo tempo, os governos dos dois países discutiam propostas de cooperação
nessa área.
No dia
13 de março, o jornal Folha de S. Paulo revelou que os EUA haviam enviado um
plano ao Brasil em que pediam que o país adotasse medidas para extinguir o PCC
e o CV.
Nas
semanas que se seguiram, o esforço da diplomacia brasileira parecia ter surtido
efeito e a designação não veio.
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Maio de 2026
O
assunto, no entanto, voltou à tona nesta semana durante a visita de Flávio
Bolsonaro a Washington.
Ele se
encontrou com o presidente Trump, seu vice, J.D. Vance e com Marco Rubio.
Nos
encontros, disse Flávio, ele defendeu a designação do PCC e do CV como
organizações terroristas.
"Batemos
de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e
PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de
2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do
atual governo, que parece proteger esses marginais", disse Flávio após o
encontro com Marco Rubio, na quarta-feira.
Segundo
ele, Rubio teria parecido até mais favorável à proposta que Trump.
Antes
da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula diziam que, ainda que o
governo tivesse conseguido se aproximar de Trump nos últimos meses, inclusive
com uma visita ocorrida há menos de um mês, a administração petista tinha a
convicção de que diversos setores do governo norte-americano têm uma
preferência clara pela candidatura de Flávio Bolsonaro em relação à de Lula.
Fonte:
BBC News Brasil



