'A
pátria dos Bolsonaro não é a brasileira, é a pátria estrangeira', diz Simone
Tebet
Nos
últimos meses, Simone Tebet deu um
cavalo de pau em sua vida. Ela deixou o Ministério do Planejamento e Orçamento,
que comandava desde o início do terceiro mandato de Luiz Inácio Lula da Silva
(PT), mudou-se de Brasília para São Paulo e trocou o MDB, partido ao qual foi
filiada por três décadas, pelo PSB.
Os
movimentos foram todos "acertados" previamente, como ela afirma nesta
entrevista à BBC News Brasil, para disputar uma vaga no Senado por São Paulo
como representante da centro-esquerda — termo que ela evita, preferindo
"frente ampla" ou "campo democrático".É uma arena nova para
Tebet, que deixou o Direito e a academia para fazer carreira política no Mato
Grosso do Sul, onde foi deputada estadual, prefeita, vice-governadora e
senadora. Mas também é a continuidade de outra guinada em sua trajetória a
partir da eleição de 2022, quando ficou em terceiro lugar no primeiro turno com
uma candidatura à direita de Lula e o apoio que deu ao petista no segundo
turno, considerado importante para a vitória bastante apertada contra o
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
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Confira os principais trechos da entrevista.
·
Três nomes da centro-esquerda estão na disputa pela
candidatura ao Senado em São Paulo: a senhora, Marina Silva e Márcio França. A
senhora abriria mão de concorrer por algum dos dois?
Simone
Tebet - Se
isso fosse conversado lá atrás, sem dúvida nenhuma. Só que tem uma diferença
entre a minha candidatura e as dos demais. Tive que fazer dois movimentos muito
radicais: mudar o domicílio eleitoral e mudar de partido. Lembrando que sempre
tive um único partido na minha vida, foram 30 anos de MDB. E fiz esse movimento
claramente para fazer parte de uma frente ampla e por um pedido muito especial
do presidente Lula e do vice-presidente (Geraldo) Alckmin. "Precisamos
ganhar São Paulo. São Paulo é estratégico para a eleição de 2026", me
disseram eles, aliado ao fato de que precisamos mostrar que este é um governo
de centro e um governo que tem não só o PT na sua base nos ministérios, mas tem
MDB, PSB, PSD, entre outros partidos. Então, vir para São Paulo foi uma decisão
absolutamente acertada. "Você vem para ser pré-candidata ao Senado."
Não tem como eu fazer outro movimento. Não tenho como ir para um outro posto, a
não ser o que foi determinado não só por mim, mas também porque entendo que o
presidente Lula precisa dessa frente ampla. E, dentre os três, sou aquela
pessoa que é vista ou como de centro ou de centro-direita.
·
Ter três pré-candidaturas não divide os votos da
centro-esquerda?
Tebet
- Não
há possibilidade de essa frente ampla ou desse campo democrático lançar mais do
que dois candidatos ao Senado em São Paulo. E isso não é só voz corrente, é uma
determinação dos partidos aliados de que a estratégia é lançar, na maioria dos
Estados, no máximo, dois pré-candidatos. Em alguns Estados, isso não vai ser
possível por uma questão de acomodação, mas onde pudermos, vamos lançar apenas
dois. Isso é uma estratégia político-eleitoral visando fazer maioria no Senado,
porque, hoje, a situação é adversa. Talvez este seja, de todas as eleições
pós-democracia, o momento em que a eleição para o Senado vai ser tão importante
quanto para presidente da República. Porque ali é que está a mudança ou não da
regra do jogo. Ali é que temos condições, com 49 votos, de mudar a Constituição
e mudar todo o sistema de independência e autonomia dos Poderes. Estou falando
basicamente de uma mudança radical em relação ao Judiciário, em um
desequilíbrio catastrófico para a democracia brasileira. Mas confio muito no
espírito público, tanto de Marina Silva quanto de Márcio, como no meu espírito
público. Márcio é um homem muito experimentado, que tem uma raiz ideológica
muito forte. Ele é fundador do PSB, foi governador de São Paulo, faz parte de um
time e acompanhou Geraldo Alckmin a vida inteira. É absolutamente preparado,
intelectualmente falando, com experiência e maturidade para saber que tem
condições de jogar em qualquer posição. Como companheiro que é,
independentemente da posição em que joga, está conosco e com um futuro governo
do presidente Lula, em qualquer ministério, em qualquer cargo, ainda que eleito
se for candidato a algum outro cargo que não ao Senado.
·
O senador Sérgio Moro (União) tentou fazer esse movimento
de sair candidato ao Senado por São Paulo em 2022, mas não conseguiu, devido ao
domicílio eleitoral dele, que sempre foi no Paraná. E ele foi bastante
criticado na época. Por que com a senhora é diferente?
Tebet
- Não
sei se é diferente. Quem vai saber é o eleitor. O que posso dizer é: a minha
história com São Paulo não começou ontem. Diferente, inclusive, do próprio
governador [Tarcísio de Freitas], que do nada veio para São Paulo. São Paulo
foi construído pelos paulistas, pelos paulistanos aqui na capital, mas foi
construído pelas mãos de muitos imigrantes que, como meus avós, chegaram do
Líbano e optaram por São Paulo, inclusive antes de ir para Mato Grosso do Sul.
Eu ainda tenho família no interior de São Paulo. Meu marido é de Birigui,
minhas filhas estão há dez anos em São Paulo, eu fiz mestrado em São Paulo.
Tenho residência há mais de dez anos em São Paulo, no Guarujá. Tenho uma
ligação com São Paulo que não é de agora. Isso me deu tranquilidade, me dá a
legitimidade, para vir e dizer ao povo paulista: "Quero ser a sua
representante, quero defender os interesses de São Paulo".
·
A senhora mencionou sobre o Judiciário e a relação com o
Senado. Há uma pressão muito grande do Senado sobre o Supremo Tribunal Federal.
Qual é a sua posição sobre pedidos de impeachment contra ministros do Supremo?
Tebet
- Ninguém
está acima da lei. Se a gente pode, pela própria Constituição — e já aconteceu
mais de uma vez — impichar um presidente da República, nós podemos abrir um
processo de impeachment contra um ministro do Supremo Tribunal Federal.
O que a
Constituição não permite e não pode permitir, sob pena de não termos
democracia, é um cidadão ou uma parte da população questionar uma decisão
judicial que, inclusive, passou pelo plenário do Supremo, porque aquela decisão
não vai ao encontro daquilo em que ele acredita ideologicamente, que é o que a
gente tem visto ultimamente. O que acontece com a extrema direita hoje é que
ela acha que certas decisões não poderiam ter sido feitas e que, por isso, tem
que tirar o ministro. E, aí, significa tirar a liberdade de o ministro decidir,
transformando os ministros do Supremo em fantoches, inclusive da política do
Congresso. Mas, se você está diante de abuso de poder, de fatos gravíssimos, de
denúncias graves de corrupção, de venda de sentença, de abuso de poder... Desde
que haja o devido processo legal, ampla defesa, nada impede que isso [um
impeachment] aconteça. Eu mesma vejo excessos dentro do Supremo Tribunal
Federal provocados pela política.
·
Quais excessos?
Tebet
- Vou
comentar em relação a todos do Poder Judiciário. Não quero só falar do Supremo
Tribunal Federal. São gravíssimas as denúncias do que acontece nos Tribunais de
Justiça dos Estados brasileiros de compra de sentenças, lobbies ilegítimos,
advocacia ilegal...
·
Mas, no momento, existem diversos pedidos de impeachment
contra ministros do Supremo no Senado. Existe algum embasamento jurídico para
que seja aberto algum pedido?
Tebet
- Não
sei. Já estou há quatro anos fora do Senado, então eu não saberia dizer. Não
sei quantos pedidos há e nem qual é o teor, então, não posso falar no abstrato.
O que
defendo é, se chegar a algum pedido de impeachment, se tiver embasamento claro,
mensagem de WhatsApp, vídeo, comprovação e, portanto, mais do que indícios, mas
denúncias sérias, não vejo problema em se abrir um processo. O que não pode é
abrir a porta para que ninguém tenha segurança jurídica e qualquer juiz ou
ministro do Supremo fique tolhido na sua liberdade de decidir com medo de ser
impichado. O que defendo é uma reforma política como um todo, que passa por uma
reforma do Executivo, do Legislativo, Judiciário e, no caso do Judiciário em
específico — até porque eu já votei nesse sentido —, defendo o fim da
vitaliciedade para ministro do Supremo e mandato de 12 anos. Não acho que, com
35 anos [de idade], alguém esteja preparado para estar dentro do Supremo
Tribunal Federal. Entre outras coisas que defendo, são regras muito claras com
o fim dos penduricalhos. Você quer aumentar o teto do salário? Aumenta o teto,
mas ter tantos privilégios em cima do holerite, que todo mês um ministro ou
juiz ou desembargador ganhe, em média, R$ 150 mil, R$ 180 mil, R$ 200 mil por
mês. Isso é inconcebível. Isso é imoral. Isso é até antiético.
·
Quem o presidente Lula deveria indicar, depois que Jorge
Messias foi rejeitado pelo Senado para a vaga no Supremo?
Tebet
- Essa
é uma decisão política que ainda não está fechada. Claro que sustento de forma
absoluta, com 100% de certeza e vontade, que seja escolhida uma mulher.
·
O nome da senhora chegou a ser ventilado. A senhora iria
se o presidente chamasse?
Tebet
– Se
eu fosse egoísta, pragmática e pensasse só no presente, aceitaria. Mas, hoje,
digo claramente que não. Porque o que está em risco é muito maior, é o futuro
do Brasil. Por que eu aceitaria? Imagina, você não quer ter vitaliciedade? Não
quer ter 15 anos de mandato? É muito difícil uma campanha eleitoral... Eu sou
jurista, eu tenho toda uma formação, eu tenho mestrado... Não quero nem falar
do meu currículo, porque não estou me apresentando para esse cargo. Já estou
dizendo claramente: o presidente não me indicaria por uma questão estratégica,
porque ele precisa dessa cara da frente ampla em São Paulo para a eleição. E eu
não aceitaria, porque a minha missão com o Brasil é reposicionar o papel do
centro democrático no processo eleitoral de 2026 e 2030.
·
Mas a senhora já disse não ao presidente Lula?
Tebet
– Não.
O presidente Lula nunca tratou desse assunto comigo.
·
Mas e sobre qualquer outro assunto?
Tebet
- Sim,
sim. Quantas vezes na equipe econômica eu disse "presidente, não dá isso
aqui". O presidente tem uma característica, que poucas vezes vi num líder
político. Eu, desde muito criança, acompanho a política e vejo grandes líderes.
Não tive privilégio, por exemplo, de conviver com Tancredo Neves, mas tive o
privilégio de conhecer Mário Covas, Ulysses Guimarães, de estar com Montoro,
falando aqui por São Paulo, entre outros grandes líderes de todo o país. Poucas
vezes vi uma liderança desta envergadura do presidente Lula, com a capacidade
tão grande de saber ouvir. Ele é um presidente que pode estar em uma reunião
ministerial, em um evento com empresários, com a sociedade civil ou com uma
mulher de periferia [não importa]. Ele não interrompe. Se eu falar por dez
minutos, ele vai me ouvir por dez minutos. Não é porque eu sou ministra dele.
Estou falando de todas as pessoas que convivem [com ele]. E isso dá, a meu ver,
ao presidente uma sabedoria ímpar. A chance de errar é bem menor.
·
A senhora acha que pode enfrentar resistência dos
eleitores petistas, lembrando que a senhora votou a favor do impeachment de
Dilma Rousseff (PT)?
Tebet
- Não.
Ao contrário. Desde o movimento que tive que fazer em 2022, diante de uma
eleição tão apertada, vejo um reconhecimento muito claro e muito forte da
esquerda brasileira, por ter, apesar do meu posicionamento, colocado como
prioridades absolutas a democracia, o desenvolvimento social e o
desenvolvimento sustentável como prioridade. Inclusive, isso é externado pela
sociedade, e aqui estou falando de sindicatos, onde vou dar palestras e
conversar, movimentos de luta pela moradia... Quando vão conversar comigo, a
primeira coisa que eles dizem é "olha, eu passei a te admirar e te respeitar,
embora pensemos muitas vezes diferente, pelo seu posicionamento. Você teve a
coragem que gente de esquerda no segundo turno não teve, uma coragem de vir
para um projeto maior de país".Como foi uma eleição muito apertada, esse
reconhecimento está sendo externado agora em 2026. Estou sendo acolhida, e os
números das pesquisas mostram que hoje aquele primeiro a dar o voto é o eleitor
de esquerda.
·
A senhora, como senadora, defendeu também interesses do
agronegócio. Se eleita, em qual bancada a senhora vai estar no ano que vem?
Tebet
- A
bancada do setor produtivo do Brasil. Quero fazer questão, como pessoa de
centro, como sempre fiz, de dizer que não há dicotomia. Não é binário, esse
sistema é muito mais complexo do que isso.Quero fazer questão de continuar
levantando a minha voz para dizer o seguinte: o grande agronegócio não disputa
com a agricultura familiar e muito menos o agronegócio do bem disputa com a
pauta ambientalista. O agro não vive sem o meio ambiente.
·
É que o agro não é feito só do agro do bem, como a
senhora diz.
Tebet
- Mas
o agro do mal precisa ser combatido. Não pertenço a ele. A gente não pode
confundir também, e muitas vezes a imprensa faz esse desserviço para o
agronegócio brasileiro, de incluir os invasores de terra dos biomas,
especialmente da Amazônia, do Cerrado e do Pantanal, com o agro. Essa turma não
representa 3% a 5% do agronegócio brasileiro. Eles não são o agro. Eles são
grileiros e precisam ser reconhecidos como grileiros. É invasor de terra
pública e precisa ser reconhecido como invasor de terra pública. Não é setor
produtivo. O que ele quer ali é desmatar, colocar a boiada e mandar essa carne,
muitas vezes sem o reconhecimento, para alguns poucos países que ainda aceitam
a carne sem o selo da inspeção sanitária. Como ministra do Planejamento e
Orçamento, votava, no CMN [Conselho Monetário Nacional], por juros
diferenciados, inclusive para quem produz e coloca comida na mesa. Quem coloca
comida na mesa do brasileiro, 70% da produção que consumimos, vem da agricultura
familiar. E a agricultura familiar não disputa terra com o agronegócio. Defendo,
mesmo sendo do agro, a reforma agrária feita sem violência, sem ocupação e
invasão de terra, mas feita pelo Estado brasileiro. Temos terras devolutas,
temos áreas públicas, temos setores do agronegócio, os fazendeiros, que querem
vender sua propriedade, que não querem mais, porque seus filhos não querem mais
trabalhar na zona rural e querem trabalhar nos grandes centros. É necessário
ter um recurso no orçamento brasileiro, maior até do que hoje tem — a gente
sempre colocou, mas tem que ser maior — onde você possa incentivar ainda mais
as áreas produtivas que possam alimentar o Brasil por meio da agricultura
familiar.Essa pergunta é interessante, porque é disso que o Brasil precisa:
voltar ao centro. É o centro que consegue dialogar com a esquerda ou a direita
e com as pautas da esquerda e da direita. Não dos extremos, porque eles não
jogam dentro das regras.
·
Se a senhora for eleita, pretende tentar disputar
novamente a presidência do Senado?
Tebet
- Hoje,
não passa pela minha cabeça disputar qualquer coisa que não seja a eleição para
o Senado em São Paulo. Talvez minha maior conquista na vida pública tenha sido
poder ser candidata à Presidência da República. Porque não foi a minha maior
derrota, foi a única eleição que perdi e foi a vez em que eu mais ganhei,
porque eu comecei a fazer política no momento em que as mulheres não tinham
voz. Quando muitas precursoras deram o direito a termos vozes, eu estava
começando a engatinhar na política. De lá para cá, nesses 30 anos de vida
pública, eu sempre tive voz, mas nunca era ouvida. E há uma grande diferença:
as mulheres hoje têm voz. Nós temos voz, mas poucas vezes somos ouvidas. Quando
fui candidata à Presidência, por ser uma das poucas mulheres e por ter tido um
protagonismo nos debates, saí da eleição não derrotada, mas vitoriosa, porque
passei a ter voz e passei a ser ouvida.
·
Sobre a redução da escala 6x1, empresários dizem que o
projeto do governo é irresponsável, porque propõe que a mudança seja feita de
maneira muito rápida. O que a senhora acha?
Tebet
- Ou
não conhece o Brasil ou é tendencioso quem afirma que o Brasil vai quebrar, que
os setores produtivos vão quebrar, porque nós vamos imediatamente reduzir em
duas — duas! — horas o tempo de trabalho do brasileiro. Estão fazendo um
discurso raso. Fiz questão de, antes de falar com o presidente Lula sobre isso,
ser a primeira ministra do governo a falar do fim da escala 6x1, no programa da
GloboNews da Miriam Leitão, baseado inclusive em evidências. Ficava sob o meu
ministério o Ipea [Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada], que tem esse
papel de fazer análise dentro dos diagnósticos e números que o IBGE [Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística] nos fornece. Eu pedi [estudos]. Por
exemplo, no setor do agronegócio, o impacto é de apenas 1% do faturamento.
·
Mas no setor de serviços...
Tebet
- O
impacto é no micro e pequeno empresário, prestador de serviços. Aí entra a mão
do Estado. O Estado não vai largar a mão desse setor que gera emprego. Nesse
caso específico, com a mudança da legislação, quem vai precisar? O empregador
que tem 1, 2, 5, 10 ou 12 funcionários, seja no setor de serviços, seja no
setor de comércio.
·
E o que o Estado vai fazer?
Tebet
– A
lei complementar vai estabelecer de que forma vai haver a transição e quais são
os instrumentos — e não são poucos que o Estado brasileiro tem — que serão
colocados à disposição desse setor. O Brasil não vai quebrar, os setores não
vão quebrar. Eu mesma, que sou a favor do fim imediato da escala 6x1, seria a
primeira a defender o setor de serviços, o setor de comércio. Estou falando aí
do pequeno, do micro, para que ele possa continuar, inclusive gerando emprego e
renda, que é o que nós queremos.
·
Há quem defenda que essa negociação deveria ser feita
diretamente entre patrão e empregado. Se o funcionário quer trabalhar sete dias
na semana, ele trabalha. A senhora acha que é um argumento que faz sentido
nesse contexto?
Tebet
- No
Brasil de hoje, não.
·
Por quê?
Tebet
- Porque
não tem paridade de armas. Não tem um equilíbrio nessa relação. Quando você
está no pleno emprego, como é agora, você até pode sentar na mesa de negociação
quase de igual para igual. Mas o Brasil é movido, lamentavelmente, por crises
econômicas. A cada três, quatro anos, tem uma crise. Quando você está num
período de desemprego, há uma fragilidade daquele empregado que acaba aceitando
qualquer condição, qualquer bico, qualquer informalidade, qualquer regra.
Não
estou dizendo que não tem que deixar espaço para negociação. Acho importantes
os acordos coletivos, mas muito bem dosados e como exceção, não como regra. Virando
essa página da escala 6x1, teremos, sob a ótica do empregador, um outro desafio
que não é pequeno e que é antigo, que será voltar os olhos e políticas
públicas, em parceria com a iniciativa privada, para a produtividade do
trabalhador brasileiro, que é menor do que a produtividade do trabalhador
americano e europeu.
Por
culpa do trabalhador? Não. Por culpa do Estado, que não faz a parceria, não faz
uma política pública estratégica com o setor produtivo para o país, para trazer
esse produtor para o século 21. Isso passa por cursos profissionalizantes, por
qualificação, por inserir esse trabalhador no mundo digital, da tecnologia, da
inteligência artificial.
·
Críticos dizem que esse governo Lula não deixou marcas.
Qual é a marca que a senhora deixa no ministério?
Tebet
- Não
concordo com isso. A primeira grande marca: o presidente Lula recompôs e
consolidou a democracia no Brasil, e o 8 de Janeiro foi um exemplo muito claro.
Ali não foi só a depredação de um patrimônio público, porque eles poderiam ter
invadido qualquer coisa. Eles invadiram a casa mais popular, mais democrática
do Brasil, que é o Congresso Nacional, onde você tem todas as ideologias lá
dentro, e aquele que é o guardião da Constituição, da democracia, que é o
Supremo Tribunal Federal. Não foi pouca coisa que aconteceu. A segunda grande
marca foi ter tirado o Brasil do Mapa da Fome. Estamos falando de 20 milhões de
brasileiros. É muito cômodo para mim, que tomo café da manhã, almoço e janto e
nunca passei fome e sou considerada uma privilegiada por isso, dizer que isso não
é uma marca, que isso é pouca coisa. Um país que alimenta o mundo não pode
deixar uma única criança brasileira dormir com fome. Isso é preceito básico.
Isso não tem a ver com ser de esquerda ou ser de direita, é um princípio básico
de quem respeita a própria Constituição. O fato de ter recomposto programas que
foram extintos no passado, por si só, é uma grande marca da valorização do
salário mínimo. Qual foi a última vez que o Brasil cresceu por quatro anos
consecutivos acima de 2%? Eu não me lembro. Há 15 anos? Temos que evoluir para
o século 21 e trazer uma gestão moderna em um possível Lula 4, focado numa
educação mais ampla, com ciência, tecnologia e inovação, inteligência
artificial na área econômica. Ter as terras raras sob nossas regras, em que
tenha valor agregado no Brasil, sem nenhum preconceito da cor do dinheiro
estrangeiro. Não podemos ter preconceito com a cor desse dinheiro. Que venham
dólares, que venham ienes, que venham a moeda indiana, chinesa, europeia. Temos
os minerais críticos, as terras raras, mas não temos a tecnologia e nem temos
dinheiro suficiente para, sozinhos, com o investidor privado nacional
brasileiro, explorar essa atividade econômica.
·
A senhora disse certa vez que o Bolsa Família estimula a
informalidade. O programa tem que ser redesenhado?
Tebet
- Não.
Que estimula a informalidade? Em que momento eu disse isso? Não lembro.
[Nota
da redação: Em abril de 2025, quando ministra, Tebet disse ao programa
"Bastidores CNN" que: "Em alguns momentos, a gente verifica que
o Bolsa Família, no nível que está, ele, de uma certa forma, estimula a
informalidade. Não é que ele seja o fator principal da informalidade, nós temos
'N' razões para a informalidade."]
·
A senhora acha que ele tem alguma questão que precisa ser
redesenhada?
Tebet
- O
que precisava ser redesenhado, nós fizemos, que era a porta de saída. Fizemos
prazos, inclusive estabelecemos que, mesmo que o beneficiário encontre emprego,
por 12 meses, ele está segurado. Vai diminuindo só o valor [do benefício], para
poder ter a segurança de que ele pode ir para a formalidade. O Bolsa Família é
o segundo projeto mais social do governo do presidente Lula. Só não considero o
primeiro, porque acho que não tem nada mais precioso para uma mulher, para uma
família, do que ter a casa própria. Para mim, o projeto social — e o que eu
gostaria de ver são 5 milhões de casas sendo feitas, essa foi a meta do
presidente Lula para os próximos anos — é o Minha Casa Minha Vida. Não tem nada
mais social que isso, porque, não tendo que pagar o aluguel, você coloca esse
dinheiro do salário na mesa, você come melhor, tem lazer.
·
O presidente Lula tem turbinado alguns programas sociais
neste ano, que é um ano de eleição. Como a senhora, que sempre foi defensora
das contas públicas, enxerga esses gastos?
Simone
Tebet - O
problema do Brasil não é gastar muito. O problema no Brasil é gastar mal e
arrecadar mal.
·
O que significa arrecadar mal?
Tebet
- O
problema não está nas políticas sociais, nas políticas públicas. O Brasil é
rico o suficiente, arrecada o suficiente para comportar isso. O problema é
quando você tem duplicidade de políticas públicas no município, no Estado e no
governo federal. Tem vários ministérios ou várias secretarias estaduais ou
municipais fazendo a mesma coisa, e o serviço não chega lá na ponta. É preciso
fazer revisão de gastos, cortar erros, que foi o que nós fizemos, porque tinha
muita coisa errada, inclusive no Bolsa Família. Um segundo ponto é a revisão de
gastos que precisamos fazer com mais força, para garantir a eficiência desse
gasto público. Quando a gente tentou garantir isenção do Imposto de Renda para
quem ganha até R$ 5 mil e cobrar pelo menos 10% daqueles super-ricos que não
pagavam nem 10%, o que foi uma verdadeira revolução, foi uma grita geral. E,
por exemplo, não atingia nem o agro, porque o agro já paga mais de 10% nos
contratos, por exemplo, de arrendamento. São só os super-ricos — são poucas mil
pessoas — [que pagarão o imposto] para beneficiar 20 milhões de pessoas. Hoje
quem mais paga imposto no Brasil, direto ou indireto, é a população mais pobre
e a classe média. Então, é essa justiça tributária necessária que fizemos,
aliada a uma revisão dos gastos tributários pelo lado da receita. Tinha muita
renúncia fiscal que se justificava no passado, mas não se justifica mais, e
outras que se justificavam no passado e que precisam permanecer. Por exemplo,
22% de tudo que a gente renuncia — e são quase R$ 600 bilhões ao ano — vem do
Supersimples. Isso é estratégico e fundamental. É o que garante
competitividade. Senão você quebra o micro e pequeno comerciante, prestador de
serviços, empresário, e o grande empresário fica cada vez mais rico. Mas também
tem muitos gastos tributários que precisam ser revistos nesses R$ 600 bilhões.
Se você fizer um corte de 10% por ano desses R$ 600 bilhões, já no ano de 2027
vai cortar R$ 60 bilhões. São R$ 60 bilhões a mais que vão entrar nos cofres
públicos, diminuindo o impacto da dívida, que vai impactar no câmbio, porque
vamos ter um país mais seguro, onde vai ter mais vinda de capital estrangeiro.
Com isso, tem uma valorização da nossa moeda, e o dólar vai ficar mais barato.
A gente compra muita coisa em dólar, então os produtos no Brasil vão ficar mais
baratos, você tem menos inflação, que é o maior imposto para os mais pobres. E
aí, no segundo ano, cortar mais 10%, então entraremos em 2028 com um corte de
gastos públicos de R$ 120 bilhões. No terceiro ano, R$ 180 bilhões. Se parar
por aí, já teve quase que sanada a questão orçamentária pelo lado da receita,
sem aumentar imposto nem dos ricos. Esse trabalho a gente precisa fazer no
Congresso a partir de 2027, com muita responsabilidade.
·
Depois que as mensagens de Flávio Bolsonaro pedindo
dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro vieram à tona, ventilou-se a
possibilidade de a candidatura dele ser substituída pela Michelle Bolsonaro. A
senhora acha que o presidente Lula teria mais ou menos chance de ganhar se
disputasse com ela?
Tebet
– Esse
é um problema da extrema direita. Eles que se entendam com essa bola dividida,
desse que é o maior escândalo do sistema financeiro e, portanto, de corrupção
da história do Brasil, que é o Banco Master. As pesquisas mostraram que já teve
uma primeira queda [das intenções de voto em Flávio Bolsonaro]. Acho que essa
queda vai se acentuar, porque acredito que muita coisa ainda virá. Não sei
sequer se o ex-presidente [Bolsonaro] lança uma mulher candidata a presidente
da República, conhecendo o que ele pensa sobre isso. Acho que a eleição do
presidente Lula estará na nossa capacidade de nos comunicar com o eleitor e de
mostrar o que foi o governo Bolsonaro e, portanto, o que seria um governo
Flávio. Afinal, tal pai, tal filho. A fruta não cai longe do pé. E há o que é o
governo do presidente Lula. A gente fez muito e se comunicou mal. A gente não
teve a capacidade de mostrar o risco que corremos e os retrocessos que tivemos
e tudo aquilo que tivemos que reconstruir nesses três anos e meio, que não foi
pouca coisa e em muito pouco tempo. Então, é uma disputa nossa conosco mesmo.
·
Não faz diferença com quem será essa disputa?
Tebet
- Não.
Faz diferença se fossem terceiros. Mas estamos falando dentro da sua pergunta
da família Bolsonaro. A família Bolsonaro é uma coisa só. Pensam igual,
pensaram igual o país e pensam o país da mesma forma. O Deus deles, 'Deus,
pátria e família', não é o mesmo Deus nosso. A pátria, não é a pátria
brasileira, é a pátria estrangeira, a família, quem faz pela família
brasileira, quem sempre fez pela família brasileira, é quem entrega casa
popular, é quem garante a quem mais precisa o Bolsa Família, é quem coloca o
pobre na universidade, é quem garante cultura, educação, investimento no futuro
em ciência, tecnologia e inovação. Isso tudo quem fez foi o Lula 3, e quem
destruiu e deixou de fazer foi o ex-presidente Bolsonaro.
Fonte: Por
Marina Rossi, da BBC News Brasil


