segunda-feira, 13 de abril de 2026


 

Eleições 2026: “Quem oferecerá a esperança de um futuro melhor?”

Os dados de mobilidade social da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) dos primeiros dois anos do atual governo Lula mostram uma melhora nas condições de vida da população brasileira. No entanto, isso não foi suficiente para dissipar a “insatisfação visível” que se manifesta neste ano eleitoral, observa Waldir Quadros na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Não podemos esquecer que apesar das melhorias, a situação ainda é muito ruim. Ou seja, houve melhorias, mas isso não significa que a situação está boa para os brasileiros, inclusive para quem melhorou. As condições gerais da população são muito difíceis em diversos âmbitos, como moradia e alimentação. Ou seja, são muito precárias, mesmo quando há melhorias”, afirma.

Na avaliação do economista, o rumo das eleições presidenciais deste ano é uma “grande incógnita”, mas o pleito será vencido pela liderança que conseguir capitalizar o desconforto e o cansaço da sociedade. “A insatisfação é visível, a questão é quem vai conseguir capitalizar e convencer as pessoas descontentes de que está oferecendo a possibilidade de um futuro melhor. Não basta criticar o outro. É preciso oferecer a esperança de um futuro melhor”, assegura. Para ele, o maior desafio do Brasil é a reindustrialização. “Mas isso não é simples de ser feito porque o poder político no Congresso é dominado pelo agronegócio e pelos interesses financeiros. Ambos estão juntos e não têm nenhum interesse em reindustrializar o país”, pontua.

A seguir, Waldir Quadros também comenta os principais dados de sua recente pesquisa sobre a ascensão social dos negros e a persistência da discriminação racial no Brasil. “Este é o grande drama: a herança psicológica dos brancos em relação aos negros, tratando-os como inferiores, é muito profunda numa sociedade mestiça como a nossa. Hoje, pardos e negros são maioria na população, mas continua a discriminação”, sublinha.

Waldir Quadros é graduado em Economia pela Universidade de São Paulo – USP e mestre e doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, onde é professor associado do Instituto de Economia.

<><> Confira a entrevista.

·        Como está a sociedade brasileira neste ano de eleição presidencial?

Waldir Quadros – Do ponto de vista social, a situação melhorou. Os dados de mobilidade da PNAD Contínua do primeiro biênio (dois anos) mostram uma melhora, sem dúvida. Porém, isso não está se traduzindo – ao menos até agora – em maior prestígio para o governo. Pela primeira vez nas minhas pesquisas, percebo que a melhoria das condições sociais não se reflete em maior aprovação do governo Lula. A situação está melhorando, mas a aprovação social está indo por outro caminho: a questão ideológica. Há um antipetismo muito forte, que foi se cristalizando por várias razões. Ele sempre existiu, mas no último quadriênio aflorou de modo muito intenso, e isso tem ofuscado a melhoria das condições materiais.

·        O antipetismo está associado ao crescimento da extrema-direita ou tem outras causas?

Waldir Quadros – À extrema-direita, com certeza, mas não é só isso. Há um cansaço. Muitas pessoas não são de extrema-direita, mas não gostam do PT. O antipetismo também não significa que as pessoas são antiesquerda. Claro que há os que são, mas o antipetismo é um fenômeno de cansaço.

·        Em 2019, o senhor chamava a atenção para o fato de que 80% dos trabalhadores brasileiros viviam com renda de até 1.700 reais. No ano passado, os dados da PNAD Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicaram que o rendimento médio nacional chegou a 3.057. Por que essa melhora na renda não reverbera positivamente entre a população?

Waldir Quadros – Por causa da barreira ideológica. Para muitos cidadãos, as melhorias que o governo propicia não são nada além do que a sua obrigação. Hoje, a questão ideológica se sobrepõe às melhorias que ocorreram. Mas não podemos esquecer que, apesar das melhorias, a situação ainda é muito ruim. Ou seja, houve melhorias, mas isso não significa que a situação está boa para os brasileiros, inclusive para quem melhorou. As condições gerais da população são muito difíceis em diversos âmbitos, como moradia e alimentação. Ou seja, são muito precárias, mesmo quando há melhorias. Aí chegamos neste número: 80% da população vive na precariedade e, mesmo que tenha melhorado, a condição de vida ainda não está boa. Esta é a síntese.

·        Esse cansaço se reflete na declaração de Gabriel Galípolo sobre o endividamento das famílias, cuja renda está aproximadamente 30% comprometida com os custos do cartão de crédito?

Waldir Quadros – O endividamento reflete isto: para manter o consumo ou melhorar o consumo, recorre-se à dívida. É uma loucura. Mas o endividamento reflete as condições difíceis das famílias, mesmo para quem está empregado. O endividamento é uma consequência dessa situação. Galípolo poderia contribuir muito se baixasse os juros.

·        Que projeto de país precisa ser disputado nesta eleição para que os problemas sociais nacionais sejam enfrentados?

Waldir Quadros – Esta é a questão central: ou o país se reindustrializa nas condições atuais ou não teremos futuro. Este é o nosso drama: falta indústria. A indústria brasileira foi sucateada nos anos 1990 com a liberação das importações, com câmbio e juro desfavorável para a produção nacional. É o nosso maior desafio: a reindustrialização do país. Sem isso, não vamos ter futuro.

Mas reindustrializar não é simples de ser feito porque o poder político, no Congresso, é dominado pelo agronegócio e por interesses financeiros. Ambos estão juntos e não têm nenhum interesse na reindustrialização do país. Para eles, se ficar como está, está muito bom.

·        Como essa sensação de cansaço e mal-estar social pode influenciar as eleições?

Waldir Quadros – Essa é uma grande incógnita. Tenho a impressão de que os marqueteiros estão tentando interpretar exatamente isto: para onde vai a eleição? Quem vai capitalizar esse desconforto? Quem oferecerá a esperança de um futuro melhor? Porque não se trata só de criticar. Que futuro melhor pode ser oferecido? O líder que conseguir traduzir isso será o bem-sucedido.

A insatisfação é visível, a questão é quem vai conseguir capitalizar e convencer as pessoas descontentes de que está oferecendo a possibilidade de um futuro melhor. Não basta criticar o outro. É preciso oferecer a esperança de um futuro melhor.

·        Que propostas de futuro podem surgir com Lula ou Flávio Bolsonaro, que representam dois lados da polarização?

Waldir Quadros – Também estou curioso para saber por que não sei o que vão propor. Espero que se dediquem a discutir as questões estruturais da economia e da sociedade brasileira e proponham uma melhoria de perspectiva que anime o povo e canalize essa insatisfação para a busca de um futuro melhor.

·        A polarização política entre direita e esquerda tem reforçado a discriminação e remodelado a discussão sobre o racismo no Brasil?

Waldir Quadros – Não sei analisar essa questão a fundo, mas é óbvio que a polarização é uma coisa desastrosa e tem um efeito antissocial geral. Nunca vimos isso no Brasil. Tenho amigos de direita e de esquerda e nós sempre convivemos. O problema é que a polarização transformou o diferente em um inimigo a ser eliminado. Essa polarização não contribui para a redução da discriminação e do preconceito.

Se observarmos os dois polos, à direita e à esquerda, vamos perceber que há uma mistura racial. Nunca vamos conseguir identificar a esquerda com mais negros e a direita com menos negros. A questão regional tem um peso mais significativo nessa discussão porque onde a mistura já está instalada demograficamente na sociedade, ela é mais aceitável. Em regiões em que a presença negra é reduzida, a situação é mais difícil. A discriminação é maior em regiões com pouca presença de negros. Em regiões como a Bahia, é menor porque lá a presença de negros e pardos é majoritária.

·        O que os dados da PNAD indicam sobre a ascensão social dos negros? Entre 2012 e 2024, houve avanços socioeconômicos para uma parcela da população negra?

Waldir Quadros – Sim. A minha pesquisa compara a mesma ocupação dos funcionários públicos com os não públicos. Os públicos estão sempre em melhores condições de remuneração do que os não públicos, ou seja, aqueles do setor privado, das ONGs e das instituições confessionais. Isso é visível nas áreas de saúde, educação, administrativa e segurança.

Os dados também revelam que entre os trabalhadores do setor público há uma mobilidade social melhor do que os do setor privado. Aumentou significativamente a passagem da baixa classe média para a média classe média tanto para brancos quanto para negros e pardos. Isso mostra que o emprego público é um canal de ascensão social para negros e pardos.

Na educação há uma melhoria das condições de remuneração dos professores e funcionários públicos por causa da capacidade reivindicatória. Para os governos, é mais fácil atender demandas salariais do que melhorar a estrutura da educação. As questões estruturais são mais difíceis de resolver do que dar aumento. Por isso os governos acabam atendendo às reivindicações dos professores e funcionários. Além disso, houve iniciativas de melhoria do piso de remuneração dos professores. Ou seja, existem políticas públicas cuidando da remuneração deles. Não é uma maravilha, mas é melhor do que no setor privado. Isso confirma que o problema maior é a estrutura, que está sucateada.

Na área da saúde, a situação dos enfermeiros é difícil. Eles acabam trabalhando em dois ou em até três lugares, mas o setor público remunera melhor do que o privado.

·        Por que o senhor enfatiza na pesquisa que a ascensão social dos negros acontece sem igualdade?

Waldir Quadros – Porque, quando melhora a situação salarial, melhora para todos os trabalhadores, mas se mantém uma diferença: os brancos ganham mais do que os negros e mais do que os pardos. Há uma diferença racial na remuneração nas áreas da educação, saúde e administração. Os negros estão sempre em situação desvantajosa do ponto de vista da remuneração em relação aos brancos. Existe aí uma discriminação racial. Os negros estão ascendendo nessas ocupações sem igualdade em relação aos brancos e, nesse sentido, a desigualdade permanece.

·        Seu estudo destaca que a discriminação não desaparece com a ascensão social dos negros, mas assume outras formas. Como a discriminação se manifesta no cotidiano?

Waldir Quadros – Os negros, mesmo quando alcançam uma posição de classe média, passam a conviver num espaço que era privativo de brancos e sofrem uma discriminação muito forte porque os brancos não aceitam essa “invasão”. Eles se sentem invadidos por aquelas pessoas que não fazem parte daquele cotidiano. O negro, mesmo quando ascende socialmente, sofre uma discriminação muito grande porque está fora da sua comunidade. Ele passa a conviver numa sociedade predominantemente de brancos.

·        Como a discriminação afeta psicológica e emocionalmente as pessoas?

Waldir Quadros – Afeta profundamente. Quando uma pessoa se sente discriminada e vê seus filhos discriminados, isso gera muito sofrimento e tem efeitos de todo tipo, que vai desde o sofrimento até a revolta. Há jovens que se revoltam e respondem com agressão à discriminação. É uma situação muito difícil para os negros.

·        Por que o racismo persiste numa sociedade mestiça como a brasileira?

Waldir Quadros – Infelizmente, as heranças da escravidão ainda são muito profundas e hoje estão presentes nas atitudes dos brancos em relação aos negros. Basta ver o modo como as empregadas domésticas são tratadas. Este é o grande drama: a herança psicológica dos brancos em relação aos negros, tratando-os como inferiores, é muito profunda numa sociedade mestiça como a nossa. Hoje, pardos e negros são maioria na população, mas continua a discriminação.

·        Nos últimos anos, observamos uma valorização da cultura negra e, ao mesmo tempo, um ressentimento de uma parcela da população por causa desse enaltecimento. Como rediscutir a questão racial no país neste contexto?

Waldir Quadros – O caminho é a educação. O aspecto educacional é fundamental. A escola pode dar uma grande contribuição para a redução da discriminação entre as crianças, criando um ambiente de mais respeito e igualdade. Na cultura, no esporte, os negros têm um papel significativo e reconhecido. Mas veja bem: uma coisa é gostar de assistir a um show de um negro, onde a pessoa paga um ingresso e assiste a um evento, outra coisa é conviver. Para os racistas, o grande problema é a convivência com os negros. A convivência na família, nos ambientes sociais predominantemente brancos. Essa é uma barreira muito grande.

A educação é o caminho porque já existem leis que coíbem o preconceito e a discriminação racial. Quando os negros e, principalmente, as negras acionam a justiça, vemos os efeitos. Mas não basta ter leis. É uma questão cultural. A proeminência dos negros em áreas culturais e esportivas não se traduz em menor preconceito.

As religiões também podem propiciar uma redução do preconceito no país porque nas igrejas e nos templos convivem todos. A religião tem o efeito positivo na redução da discriminação.

·        Qual impacto social e cultural a resolução da ONU, que reconhece o tráfico transatlântico de escravos como o maior crime contra a humanidade, pode ter na formação de uma nova mentalidade nas próximas gerações?

Waldir Quadros – Fundamentalmente, a resolução dá um argumento muito forte para os movimentos negros. Ela, por si só, não vai mudar a cabeça dos brancos. As conquistas não vêm espontaneamente. O movimento negro unificado tem um papel fundamental na luta por reconhecimento e pela redução das desigualdades. Nesse sentido, a resolução é um instrumento importante para a luta do movimento negro.

·        Além da educação, que medidas concretas podem ser tomadas para superar a mentalidade racista que persiste na sociedade brasileira?

Waldir Quadros – O fortalecimento dos direitos é fundamental. Não é simples. Diria que é muito difícil. Mas isso passa pela reivindicação e luta do movimento negro, inclusive no que diz respeito à educação e à saúde. A capacidade reivindicatória deles pode fazer a diferença.

 

Fonte: Entrevista especial com Waldir Quadros, para IHU


Educação e violência: da sala de aula à “Hora do Recreio”

É um tempo desfavorável aos sonhos. Na verdade, tem sido assim há algum tempo. Talvez isso justifique o discurso feito pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva após sua vitória nas eleições de 2022: o povo brasileiro quer ter de volta a esperança, dizia o presidente, utilizando de uma estratégia discursiva semelhante àquela que garantiu sua eleição no início deste século, quando a esperança teria enfim vencido o medo. A ênfase na esperança denuncia, por oposição, o real estado das coisas neste tempo de horizontes bloqueados. Se, nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump, já em 2016, havia demarcado uma rejeição às formas correntes de um aparente neoliberalismo progressista, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, cujos efeitos ainda se fazem sentir no esgoto a céu aberto que a direita encontrou para bramir seus ideais, forneceram o CPF e a roupagem verde-e-amarela à boa teorização de Nancy Fraser. Em suas palavras, não estávamos diante de uma nova roupagem da estrutura neoliberal, apenas presenciávamos o fracasso de sua aparente forma e versão progressista, até então colorida por ideais de representatividade e por bandeiras em prol das mulheres, da luta anti-homofobia e antirracista. Os resultados e efeitos desta empreitada ainda estão sob observação na contemporaneidade dos nossos dias, em que seguem intactas as estruturas de poder já estabelecidas, com políticas de exclusão de classe perpetuadas a torto e a direito. Sem sombra de dúvidas, uma análise possível deste processo se revela com clareza nos debates em sala de aula, espaço no qual os projetos de nação desenhados no correr da História se fazem e afirmam.

Fruto dos processos históricos de seu tempo, roteirizado e encenado a partir de depoimentos e histórias de vida dos próprios estudantes, Hora do recreio é o novo documentário de Lucia Murat que estreou em alguns dos cinemas brasileiros no recente 12 de março. Premiado pelo júri jovem do Festival de Berlim, já em seu título o trabalho faz menção àquilo que concretiza em sua forma artística: é mesmo de um intervalo que trata o trabalho, entre o registro e a cena, a ficção e a realidade. Passando por quatro escolas distintas, ainda que com a entrada não-liberada nos colégios estaduais, seja por bloqueios burocráticos colocados pelo próprio Estado, seja pelos bloqueios letais promovidos pela ação de sua polícia, a diretora Lucia Murat produz um retrato fiel da realidade da educação pública carioca, que decerto traduz e revela todo o projeto de nação desenhado às juventudes deste país.

Na contramão das políticas correntes de negação e esquecimento, não custa mesmo notar, ainda uma nova e outra vez, aquilo que, em uma entrevista fornecida no ano de 2019, Roberto Schwarz resgatou da infame memória nacional:

Não custa notar que nossa liberdade cultural sempre teve um caráter gritante de prerrogativa de classe. Salvo os grandes momentos de exceção, o seu foco estava mais na atualização com a moda dos países dominantes que no ajuste de contas com os abismos de classe em que vivemos.

É algo desse abismo que aparece no novo trabalho de Lucia, no qual despontam mesmo os abismos de classe, gênero e raça que marcam a organização desigual da sociedade brasileira e que encontram régua e compasso na estrutura das salas de aula, especialmente nas escolas públicas periféricas destinadas à formação dos filhos da classe trabalhadora. Ali, a escola torna-se espelho e enunciação das diversas formas de violência que marcam a trajetória daqueles e daquelas que têm seus direitos parcialmente negados pelo Estado; aqueles e aquelas a quem a promessa de ascensão social tem se tornado cada vez mais apenas um material exclusivo de compra e consumo em produtos de autoajuda e consulta a coaches digitais, sem promessas e garantias reais e concretas de futuro. Nos quadros em cena, a instituição escolar enfim se mostra como o palco dos conflitos em que a diferença se revela em seu lugar mais insuportável, que é na pressuposição impossível de uma convivência entre prerrogativas distintas de classe – até mesmo no que diz respeito à expectativa daquilo que se ensina e que se aprende. Para além da convivência em sala de aula, tema de vários dos debates correntes em escolas e universidades públicas e privadas, a definição dos objetos, autores e materiais de estudo e trabalho também deixa entrever algumas das minúcias do projeto de nação em torno do qual se escreve a história de todo um povo, oficialmente marcado pela exclusão e pelo silenciamento. A escola era para ser um lugar seguro, lembra uma estudante. Mas seguro para quem? Em cima de quais fantasias construímos os pressupostos da educação nacional? Quais pressupostos precisam ser revistos, a fim de que o processo formativo possa ganhar relevância local? Saber que o Estado não autorizou a filmagem do documentário nas salas de aula de suas escolas de Ensino Médio talvez já anuncie um tanto do que se espera e anuncia às gerações em voga.

De fato, dos depoimentos de cada estudante o que salta aos olhos não é o lamento pelas condições materiais de vida, mas a transformação da violência em forma exclusiva de organização da matéria social. A linguagem bélica e o estado putrefato das relações descritas descrevem o estágio atual de implosão das formas possíveis de mediação junto a um Estado que, atendendo aos desejos neoliberais, se quer cada vez menor, restando apenas o risco, a agressão e o silenciamento como mecanismos de estruturação da ordem nacional. Não à toa, é da voz dos estudantes que sai o maior dos pedidos: Precisa ter uma pessoa para zelar por nós. Efetivamente não se trata, contudo, de uma pessoa, um sujeito singular: o que os estudantes parecem clamar é por algo que beira o cuidado, aqui um tanto desvencilhado das pautas e políticas de gênero que têm marcado a absorção do conceito nos últimos anos, ainda que reconhecendo seu alcance e importância, para abranger a possibilidade de reivindicação de um lugar político a toda uma classe. Em cena, fica o lembrete de que a luta por direitos e acessos também deve vir carregada de políticas reais de apoio e auxílio, que garantam o bem-estar e a própria possibilidade do existir. O que está em jogo são formas de proteção e segurança da vida, que precisam se concretizar para que este sujeito possa enfim encontrar alguma forma pública de expressão. Em suma, respondendo parcialmente àquela conhecida questão de Spivak acerca da possibilidade da fala dos povos subalternos, os estudantes em cena parecem já perceber que o discurso emancipatório precisa caminhar com a defesa das políticas de proteção e segurança à classe desfavorecida – ainda que esta combinação já aparente não ser um dado de possibilidade nos ditos fins de modelos neoliberais supostamente progressistas. Fica, portanto, a dúvida: o que parece, então, restar para a classe trabalhadora, além dos desmanche de seus direitos e da desordem corriqueira, da violência cotidiana? Há, ainda, alguma promessa de futuro ou a fatalidade já está em tudo anunciada? Como efetivamente produzir mundos, sonhos e realidades de vida?

Misturando realidade e ficção, teatro e literatura, cinema e realidade, o documentário de Lucia parece desenhar ao espectador a rota das estratégias de sobrevivência encontradas por toda uma jovem geração em um tempo de degradação das condições de vida. Sem sombra de dúvidas, imaginar algumas outras alternativas e possibilidades implica refletir sobre a própria educação, o projeto nacional de ensino e o percurso formativo de cada sujeito. Neste trajeto, como lembra uma das estudantes, por vezes todo o caminhar se faz com o apoio de apenas um professor. De fato, neste império de exaustão e irresponsabilidade conjunta, pode ser que um único professor seja mesmo capaz de edificar uma escola inteira. No quadro geral de desvalorização de salários e de demandas de trabalho exorbitantes, com um apagão futuro já esperado, o trabalho docente fica mais uma vez colocado em xeque, entre a responsabilização absoluta e a falta de preparo que caracterizam a precariedade da profissão ao menos desde o fim do século passado. O problema deste discurso, que é reflexo de um tempo doente e da implosão de condições mínimas de trabalho, é que educação não se faz apenas na particularidade dos encontros individuais, nos quais alguma experiência é mesmo ainda possível: educação sempre foi – e talvez seja esta uma de suas principais definições – vivência e trabalho coletivo.

Neste universo condensado de reprodução de discursos de opressão, o trabalho de Lucia deixa um lembrete ao espectador: ainda há algum horizonte de projeção e expectativa por meio da arte. É que literatura é vida comprimida no universo possível de várias páginas. Encontrar a vida que pulsa em cada uma das linhas é permitir-se viver outras nuances da própria vida. A cena teatral e as máscaras produzidas pelos próprios estudantes tentam elaborar a experiência de um vivido que transgride a compreensão e que ainda não se elabora porque é puro resíduo da história não-contada de todo um país, no qual é mesmo proibido sonhar, como já anunciava Drummond em seu livro de estreia. Representante deste processo, Hora do Recreio é documento de época e de vida: é trabalho que acompanha o espírito de um tempo e marca o instante em que os excluídos e esmagados socialmente encontram, enfim, a possibilidade de um registro autoral. A questão, contudo, resta a mesma, já há algum tempo: o que muda com a entrada desses novos corpos e sujeitos? Na concretude da vida e na materialidade dos processos, estamos afinal em um momento de abertura ou de fechamento de espaços? Para quem é o tempo de recreio que se anuncia? Quem pode, efetivamente, pausar e aproveitar este intervalo?

Hora do Recreio revela ao espectador que a incorporação discursiva das pautas progressistas ainda não alterou a materialidade dos processos sociais, que são mesmo historicamente lentos e demorados. Por ora, conseguimos conviver muito bem juntando bandeiras de diversidade e acolhimento a práticas de exclusão e silenciamento. A esperança prometida pelo Partido dos Trabalhadores também se permitiu ser vendida nas prateleiras da democracia de consumo operada neste país ao longo dos últimos anos. Na contramão deste discurso esperançoso, o documentário termina com a última fala de Clara dos Anjos, em um romance homônimo de Lima Barreto, finalizado entre dezembro de 1921 e janeiro de 1922: Nós não somos nada nesta vida! A esta fala, talvez os estudantes de Hora do Recreio acrescentem uma nova oração: MAS QUEREMOS SER! E, como se sabe, nas sociedades ocidentais, talvez a única das maneiras de redigir uma nova história e futuro seja mesmo por meio da educação. Ainda que estejamos em tempos muito desfavoráveis, é nosso dever ensinar as novas gerações a sonhar, lembrando-nos de que sonho é, antes de tudo, memória – e a memória é o que permanece vivo nas ruas e encruzilhadas. Talvez seja esta ainda – e sempre – a maior das funções e promessas da escola. azem acreditar.

 

Fonte: Por Matheus Cosmo, no Blog da Boitempo

 

As variações genéticas que podem indicar quem perde mais peso com uso de canetas emagrecedoras

Pessoas que apresentam variações em dois genes ligados ao apetite e à digestão podem perder mais peso ao usar canetas emagrecedoras como Wegovy e Mounjaro no tratamento da obesidade, sugere um estudo recente.

As descobertas, publicadas na revista científica Nature, podem ajudar a explicar por que algumas pessoas perdem muito mais peso do que outras e por que algumas apresentam efeitos colaterais mais intensos, como náusea e vômito, ao utilizar esses medicamentos.

Os remédios, amplamente utilizados em diversos países, reduzem a sensação de fome ao agir de forma semelhante a um hormônio intestinal natural que induz a saciedade.

Embora os genes possam ter um papel relativamente modesto na eficácia desses tratamentos, especialistas afirmam que outros fatores, como sexo, idade e até a origem da pessoa, também podem influenciar os resultados.

Estima-se que pelo menos 1,6 milhão de pessoas no Reino Unido tenham usado medicamentos para perda de peso no último ano, número que deve crescer.

A maioria desses produtos é adquirida de forma privada, por meio de farmácias online. O sistema público de saúde britânico, o NHS, oferece Wegovy e Mounjaro apenas a uma pequena parcela de pessoas com obesidade e outras condições associadas.

A proporção de peso corporal perdida com o uso desses medicamentos pode variar bastante. Ensaios clínicos indicam perda de peso média de 14% com a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e de 20% com a tirzepatida (Mounjaro).

Neste estudo, baseado em dados de 15 mil pessoas que utilizaram esses medicamentos para emagrecer, a perda média foi de 11,7% do peso corporal ao longo de cerca de oito meses de tratamento. Alguns perderam até 30% do peso, enquanto outros perderam pouco ou nada.

Todos os 15 mil participantes haviam previamente aderido a testes genéticos da empresa 23andMe, que utilizou esses dados para mapear a experiência de usuários de medicamentos para emagrecimento. Ao analisar milhões de variações genéticas, os pesquisadores identificaram um padrão que sugere uma relação entre algumas variantes e a eficácia dos tratamentos.

A professora Ruth Loos, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, que comentou o estudo na revista científica Nature, afirmou: "O estudo identificou uma variante genética associada à perda de peso, que também está ligada à ocorrência de náusea".

"As pessoas com essa variante tendem a perder mais peso", disse Loos.

Essa diferença adicional corresponde, em média, a cerca de 0,76 kg mas, entre aqueles que possuem duas cópias do gene, a perda pode ser o dobro.

Segundo Loos, a variante é comum em pessoas de ascendência europeia: 64% possuem uma cópia, enquanto 16% têm duas. Em comparação, cerca de 7% dos afro-americanos carregam uma cópia do gene.

"Se você tem essa variante, vai perder mais peso", diz Loos.

O estudo também identificou outra variante que pode estar relacionada aos efeitos colaterais, como náusea e vômito, em usuários de tirzepatida (Mounjaro).

Isso pode significar que até 1% das pessoas que utilizam o medicamento apresentem episódios intensos de vômito, quase 15 vezes mais frequentes do que o habitual.

A professora Loos afirmou que o efeito genético, embora modesto, "é comparável a outros fatores, e não é irrelevante".

Ela ressalta, no entanto, que os achados ainda precisam ser reproduzidos em outros estudos o que, até o momento, não ocorreu.

Para Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, "a genética é apenas uma parte de um quadro muito mais complexo".

Segundo ela, os principais determinantes dos resultados são "fatores comportamentais, clínicos e relacionados ao tratamento", como a prática diária de exercícios físicos, a alimentação saudável durante o uso do medicamento, o suporte e as orientações recebidas, além de condições de saúde pré-existentes.

Mas outros fatores também influenciam.

Pesquisas anteriores indicam que as mulheres têm mais que o dobro de chance de perder 15% do peso corporal com o uso de Mounjaro em comparação com homens.

Ser mais jovem, branco ou asiático também está associado a maior perda de peso, embora as razões ainda não sejam totalmente compreendidas.

Além disso, o tipo de medicamento, a dose e o tempo de uso também estão ligados a resultados mais expressivos.

A longo prazo, a combinação de informações genéticas com outros dados poderá orientar a escolha do tratamento mais adequado para cada paciente, abordagem conhecida como "medicina de precisão".

Mas esse cenário ainda está distante, afirma o professor Naveed Sattar, especialista em saúde metabólica da Universidade de Glasgow, na Escócia.

"No geral, esses resultados são cientificamente interessantes, mas ainda estão longe de mudar a prática clínica", disse.

"O que precisamos agora são dados mais robustos de ensaios clínicos para definir melhor o equilíbrio entre benefícios e riscos desses e de outros tratamentos emergentes."

<><> Acesso no Brasil

No Brasil, o acesso a esses medicamentos começa a mudar. O Rio de Janeiro se tornou a primeira cidade do país a oferecer o medicamento Ozempic pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 18/03.

A medida ocorre no contexto do fim da patente da semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, que expirou no país em 20/03. Com o término da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk, outras empresas passam a poder desenvolver versões do composto.

Na prática, a mudança abre espaço para concorrência e eventual redução de preços, embora esse efeito não deva ser imediato, devido a entraves regulatórios e industriais, como mostrou a reportagem da BBC News Brasil.

Atualmente, o custo mensal do tratamento gira em torno de R$ 1.400, o que limita o acesso, sobretudo entre a população de menor renda, mais afetada pela obesidade.

 

Fonte: Por Philippa Roxby, repórter de Saúde da BBC

 

Os riscos da IA e dos algoritmos nas eleições de 2026

Da Netflix ou no Spotify, um algoritmo ajuda a decidir o que você vai assistir ou ouvir. Nas redes sociais, outro sistema calcula o que vai aparecer na sua timeline. Essas linhas de código podem parecer inofensivas e até úteis, mas acabam trancando o usuário em câmaras de eco e ditando novas regras de comportamento. Na prática, elas atuam como instituições.

“Eu sou da ciência da computação. Quando se falava em instituição, eu pensava num ministério, no Congresso, na Constituição”, diz Virgilio Almeida, professor da Universidade Federal de Minas Gerais, a UFMG, ex-coordenador do Comitê Gestor da Internet no Brasil, o CGI.br, e secretário nacional de Política de Informática de 2011 a 2015, durante o governo de Dilma Rousseff. Quando começou a estudar a regulação de plataformas, ele buscou na ciência política o caminho para lidar com o problema na tecnologia.

Foi assim que se uniu aos cientistas políticos Ricardo Fabrino Mendonça, também da UFMG, e Fernando Filgueiras, da Universidade Federal de Goiás, para lançar “Política dos algoritmos – Instituições e as transformações da vida social” pela editora Ubu. O argumento central do livro é contundente: os sistemas digitais passaram a definir regras e estruturas sociais com o mesmo peso do Congresso ou da Constituição.

A diferença é que o Congresso e a Constituição são (ou deveriam ser) democráticos e transparentes. Já os códigos das big techs trilionárias são opacos e mudam sem aviso prévio. Ainda assim, essas ferramentas tecnocráticas ditam as novas formas de trabalho, de socialização e, em última instância, influenciam as eleições que definem quem senta no Congresso. Do controle do que lemos nas redes à identificação de suspeitos por reconhecimento facial, os algoritmos comandam a esfera pública.

No livroos autores argumentam que esses sistemas ocultam a natureza política das decisões que são programados para tomar. Ao despersonalizar processos, eles naturalizam injustiças sociais – como os sistemas de reconhecimento facial, que falham gravemente ao ler rostos de pessoas pretas e pardas.

Apesar do controle imposto pelas máquinas, a subversão ainda é uma prerrogativa humana. O livro traz exemplos do chamado gaming – a arte de driblar as normas algorítmicas. Um caso famoso é o uso de maquiagens especiais por manifestantes chineses para cegar as câmeras policiais.

Mas nem tudo se resolve driblando o sistema. Por isso, os pesquisadores defendem a democratização dessa tecnologia. “Há quem possa argumentar que essa é uma postura utópica e irrealista”, eles escrevem. “Mas cabe lembrar que democratizar o poder político nunca foi fácil.” 

A saída, apontam, é forçar a abertura dessas caixas-pretas para que sejam auditáveis e compreensíveis. Não se trata de ensinar programação a todos, mas de expor as intenções e consequências das plataformas.

Em entrevista ao Intercept Brasil, Filgueiras e Almeida dão exemplos práticos de como os códigos governam a sociedade. Eles avaliam os riscos das eleições de 2026, a primeira disputa eleitoral brasileira sob o peso da inteligência artificial generativa. <><> Leia os melhores trechos.

·        O que significa dizer que os algoritmos hoje são instituições? Como isso acontece na prática?

>> Virgilio Almeida  As instituições existem para estabelecer regras formais ou informais, para criar comportamentos e dar estabilidade. A família é uma instituição, por exemplo. Você sabe quais regras são permitidas ali dentro.

Os algoritmos não são neutros, nem mágicos. Eles têm intenções e essas intenções são definidas pelos humanos. Eles também estabelecem contextos e regras.

‘Os algoritmos não são neutros, nem mágicos. Eles têm intenções e essas intenções são definidas pelos humanos’.

Um exemplo prático: quando você entra na Netflix, o sistema te dá uma resposta baseada no seu histórico de interação. Ele olha para o que você gosta, o que deixou de assistir e começa a moldar o seu comportamento de usuário de acordo com isso. 

É isso que fazem os algoritmos de recomendação e os algoritmos que controlam os fluxos de notícias das plataformas, tudo de acordo com o que os códigos desses sistemas acham que vai te manter mais engajado. Esse engajamento amplia a exposição à publicidade. 

Mais recentemente, vemos novos objetivos. O Grok [IA do X, antigo Twitter] tem objetivos políticos, privilegia um tipo de notícia e esconde outras. Essa capacidade de dar visibilidade ou tornar invisível, enterrar uma informação, é um poder político dos algoritmos, chave na criação do pensamento coletivo.

>> Fernando Filgueiras – Quando você pensa em instituições e fala de órgãos governamentais e corporações, você está falando de coisas que implicam organização coletiva, de como as pessoas criam regras para estabelecer algum padrão de convivência.

Quando falamos de uma grande instituição política, como o Congresso, estamos falando de regras estruturantes da sociedade brasileira. Também podemos pensar em um conjunto de normas que depois vai derivar em outras regras que nascem da nossa convivência cotidiana, e podem ser tanto formais – como a Constituição – quanto informais. Não posso chegar em alguém e dar um tapa na cara dessa pessoa gratuitamente, desde que eu não seja maluco. A convivência coletiva vai nos ensinando essas regras.

Hoje, muitas dessas regras de convivência são determinadas pelos algoritmos. O trabalho no Brasil está todo estruturado na CLT, que é uma consolidação de legislações que estruturam as relações de trabalho existentes. As plataformas que promovem a uberização do trabalho mudam essas regras, a ponto de obrigar o governo a criar novas regras.

Campanhas eleitorais também estão sendo alteradas, já que o debate passa antes pelo Instagram e pelo WhatsApp. Os algoritmos alteram nossas dinâmicas sociais e de ação política em um âmbito global.

‘Os algoritmos alteram nossas dinâmicas sociais e de ação política em um âmbito global’.

Eu fui num jantar aqui em Brasília organizado por uma parlamentar. Os parlamentares mais novos estavam preocupados em tirar fotos instagramáveis, enquanto a velha guarda da política brasileira estava sentada em algum canto tentando articular alguma coisa. Isso demonstra como a gente está institucionalizando nossos padrões de ação a partir de sistemas digitais.

·        Como a gente pode regulamentar essas novas instituições, que são privadas, globais e fechadas?

>> Virgilio  Alguns anos atrás foi aprovada no Parlamento Europeu a lei que garante o direito ao esquecimento na internet. Se você faliu há 20 anos e depois se recuperou, as notícias sobre a falência continuam aparecendo no Google. Agora, você pode solicitar ao Google a remoção dessa visibilidade. Isso virou lei porque um espanhol processou a empresa.

>> Fernando  A gente levou séculos para estabelecer os sistemas políticos das sociedades industriais e democráticas. Hoje, a gente tem um oligopólio de poucas corporações que controlam uma infraestrutura de dados que vai calibrando e moldando todo esse processo eleitoral. 

São dilemas novos para a sociedade que partem de uma infraestrutura algorítmica que vai produzindo novos padrões de institucionalização e desinstitucionalização. A CLT nunca esteve tão frágil no Brasil como agora, e a dinâmica de comunicação mudou radicalmente.

É um processo de mudança muito intenso com uma infraestrutura que a gente não consegue controlar, que, ao mesmo tempo que é global, afeta dinâmicas locais. Como mudar isso? No livro, não temos uma resposta definitiva para isso. A gente aponta direções, como amplificar a participação e colocar o cidadão no centro do processo de constituição de algoritmos.

Acho que o ponto que merece muita atenção é que ao mesmo tempo que essa estrutura digital surge, desinstitucionalizando coisas e institucionalizando outras, a gente nunca esteve tão próximo do autoritarismo. Claro que isso não é uma relação linear, mas em muitas situações essas tecnologias ajudam governos autoritários, seja por vigilância…

>> Virgilio – Ou por censura…

·        No livro, vocês argumentam que as redes sociais definem os limites das nossas escolhas. Como essas limitações aparecem nas eleições?

>> Fernando  Essas tecnologias dão o frame [a moldura] para as escolhas. Eu continuo livre para escolher, mas escolho dentro daquelas opções que limitam as minhas alternativas. Uma eleição não deixa de ser isso. Nossas escolhas são sempre limitadas, de certa maneira. A corrida para ser candidato a presidente é muito grande. O que difere é que agora os frames das escolhas são dados pelos algoritmos.

>> Virgilio  Nós estamos numa nova época. Os mesmos mecanismos de análise e acompanhamento não funcionam mais. Como controlar essas instituições algorítmicas? No livro, a gente apresenta a ideia de tornar o controle das instituições algorítmicas mais democrático, com mecanismos que tenham participação da sociedade. Algo como o Comitê Gestor da Internet, que é uma instituição multisetorial e envolve a sociedade como um todo, mas não tem a função de estabelecer regras, só boas práticas.

·        Já tivemos eleições marcadas por algoritmos. Mas 2026 é a primeira disputa no Brasil com a IA generativa massificada. A inteligência artificial pode mudar a forma como votamos?

>> Fernando  Como essas tecnologias estabelecem um frame de escolha para cada indivíduo, vai se produzindo uma mudança epistêmica. O conhecimento muda radicalmente, e essa é uma coisa que a gente não consegue ter controle. 

Brincadeiras à parte, esse é o meu maior desespero. Porque a gente alterou radicalmente a forma como o conhecimento é produzido. E o conhecimento que eu estou falando não é só o científico. Estou falando de várias outras formas de conhecimento, até o religioso. Na Alemanha tem IAs rezando missa. É um negócio muito maluco delegar a espiritualidade a uma inteligência artificial.

‘Inteligência artificial implica sobretudo mudar as relações de poder’.

Se pode influenciar como a gente vota? Acho que sim, e pode influenciar muito. Inteligência artificial implica sobretudo mudar as relações de poder, o que cria um outro regime de informação e conhecimento que a gente ainda não tem nenhuma certeza sobre como opera.

>> Virgilio  O grande risco é a capacidade de manipulação que esses novos algoritmos têm. Essa manipulação tem várias facetas. Uma delas é a antropomorfização. As pessoas hoje buscam a terapia com algoritmos. Não há um conhecimento maior dos efeitos disso, mas esses chatbots não foram criados para ser terapeutas.

Os brasileiros enviam cerca de 140 milhões de mensagens para o ChatGPT diariamente. Essa capacidade de influência complica o jogo da seguinte forma: ele pode não falar uma mentira, mas pode começar a sugerir informações incompletas e parciais. E isso pode ser uma forma de manipular as pessoas. O ChatGPT vai entender o que aquele cidadão tem de preferência e de gosto e vai ajustando as respostas de acordo com isso. 

E aí que está a grande dificuldade: como é que você controla isso? Uma coisa é controlar notícias falsas: você pode fazer um serviço de fact-checking. Mas não tem como você controlar essa conversa tête-à-tête. A não ser que, institucionalmente, você decida que os chatbots não podem tratar do tema “eleições”. Isso teria que ser uma decisão que vá em direção às grandes plataformas. Não tem como controlar isso individualmente.

‘O grande risco é a capacidade de manipulação que esses novos algoritmos têm’.

Essa é a grande diferença que vamos ver nas eleições deste ano. A gente não sabe o que vai acontecer, e estabelecer regras para isso é muito difícil, a não ser que as empresas atuem. Algumas plataformas já têm restrições parecidas com questões de suicídio e de terrorismo, os chatbots são programados para não responder. A pergunta é: isso poderia ser expandido para a questão eleitoral? Talvez. Nós precisamos discutir quais serão essas regras, e essas regras precisam ser concebidas com participação da sociedade.

·        Existe alguma proposta sólida para combater essa desinformação via IA? Fica cada vez mais difícil diferenciar o que é real do que foi gerado por máquina.

>> Fernando  Eu ousaria dizer que não existe uma proposta sólida. O que o TSE [Tribunal Superior Eleitoral] pretende fazer é criar algumas iniciativas mais educativas para lidar com isso, ou indicar que conteúdos criados com IA no âmbito de campanhas eleitorais precisam ser rotulados. Mas eu acho tudo isso muito pouco. É tranquilo rotular um conteúdo que o partido oficial criou. O problema é o que acontece em uma sociedade em que qualquer um pode criar esse tipo de conteúdo, não necessariamente só os filiados de um partido qualquer.

Hoje, na prática, a gente ainda não tem uma perspectiva sólida de estabelecer isso de forma mais robusta no âmbito das eleições. Acho que será uma eleição que vai continuar superpolarizada, que tende a ser muito crítica aos incumbentes – uma tendência global da última década. Vai ser uma eleição muito difícil, que não vai dar uma maioria robusta para quem ganhar. Em qualquer situação, o próximo presidente será um presidente fraco institucionalmente de novo.

Muitas vezes, esses conteúdos de IA são criados fora do país. Estamos começando a discutir mais sobre como garantir a soberania digital e o processamento de dados dentro do território do país. As discussões ainda são tímidas e dependem de muito investimento orçamentário.

É um tema sensível para se discutir na esfera pública como ela está hoje. Muita gente acusa de censura, de controle, de novas formas autoritárias. Parece uma espécie de jogo de soma zero que a gente criou e é difícil sair dele.

>> Virgilio  Se o país fizer valer mais rigorosamente a Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais, a LGPD, de modo a minimizar o acesso a dados pessoais, também vai diminuir essas possibilidades de manipulação. Porque são os dados pessoais que acabam levando à construção dos perfis digitais. 

Uma medida concreta é a Autoridade Nacional de Proteção de Dados, a ANPD, agir de forma rigorosa com as companhias estrangeiras que operam essas plataformas, porque isso diminuiria a capacidade de manipular um indivíduo, já que seus dados não estarão tão claros. É importante preservar os dados pessoais, não deixar que eles sejam usados nas campanhas.

·        Vocês escrevem que “os algoritmos não são estruturas gravadas em pedra, mas instituições sociais recriadas na ação humana por meio dela e com ela”. Enxergar os algoritmos como instituições significa que eles não são definitivos, podem ser transformados e reformados. Por onde a gente começa a criar algoritmos mais democráticos?

>> Fernando  O uso de IA e a expansão de sistemas computacionais de caráter mais disruptivo têm sido muito discutidos em vários setores. O que se reforça é a ampliação da transparência e fortalecer como se  explicam esses sistemas – especialmente sistemas de inteligência artificial. Mas tudo isso é muito novo e a gente não sabe muito bem como fazer. 

Sem dúvida, a gente pode ter uma IA mais explicável e auditável, mas a gente precisa começar a criar regras novas para os desenvolvedores. E não estou falando das pessoas que sentam atrás de um computador e programam, mas das grandes corporações que desenvolvem software e hardware.

O fato hoje é que a gente tem um oligopólio de grandes empresas que controlam esse mercado. A gente precisa inaugurar uma rota de democratização na construção desses sistemas, porque eles se tornaram centrais na sociedade contemporânea.

>> Virgilio  Um exemplo concreto do que precisa ser mudado são os sistemas de reconhecimento facial. Eles estão presentes em prédios públicos, condomínios e edifícios. Esses sistemas geralmente são treinados fora daqui, onde as características demográficas são completamente diferentes. Qual a consequência disso? Muitos desses sistemas erram bem mais com pessoas negras, especialmente mulheres negras, do que com homens brancos. Os algoritmos precisam ser modificados.

Outra linha de atuação é que precisamos treinar, na faculdade, os engenheiros de computação e análise de dados para entender questões históricas e sociais, que já precisam fazer parte do projeto desde o começo. O projeto não pode ignorar, por exemplo, que no Brasil a tonalidade de pele não é só branca ou preta, mas também parda.

Os engenheiros de computação são, no fundo, engenheiros sociais – porque, ao escrever um código, eles mudam relações sociais. E eles não são preparados para isso. A cabeça desse pessoal e a cabeça das gerências dessas corporações precisam ter essa formação. São questões complicadas, estranhas e recentes, e precisam ser mais discutidas no Congresso.

 

Fonte: Por Eduardo Lima, em The Intercept

 

Polina Godz: A imprensa da Comuna

A Comuna de Paris é conhecida por muitas coisas, mas a tipografia não é uma delas. Apesar dos inúmeros cartazes, panfletos e do extenso arquivo de um jornal diário que ainda existem, esses documentos impressos não se destacam da tipografia geral do século XIX. Afinal, a Comuna governou Paris por pouco mais de dois meses, na primavera de 1871. Na ocasião, qualquer cultura visual distinta que pudesse ter se desenvolvido foi interrompida pela violenta contrarrevolução. No entanto, mesmo em sua curta existência, a Comuna de Paris conseguiu oferecer um exemplo de uma sociedade mais justa, democrática e igualitária para as gerações futuras. E enquanto muitos tipógrafos que apoiaram a Comuna pegaram em armas para defender seus princípios, houve aqueles que viram seu ofício como uma importante ferramenta para o regime revolucionário. Eles compuseram, imprimiram e distribuíram milhares de cartazes e panfletos na mais prestigiosa gráfica da França, a Imprensa Nacional, ao mesmo tempo que a transformavam por dentro.

A Imprensa Nacional nem sempre teve esse nome. Ao longo de sua história, mudou de nome para refletir os regimes governantes. Fundada como Imprensa Real em 1640, foi brevemente renomeada Imprensa da República após a Revolução Francesa de 1789. Foram necessárias mais duas revoluções antes de finalmente se tornar a Imprensa Nacional em 1848, para depois ser renomeada Imprensa Imperial sob Napoleão III e recuperar o título de “Imprensa Nacional” após o colapso do Segundo Império em 1870. Mas foi durante a Comuna de Paris que, pela primeira vez em sua história, a Imprensa Nacional foi gerenciada por um tipógrafo operário. Durante esse breve período, a instituição histórica foi reestruturada para introduzir a autogestão, a abolição de penalidades, a substituição do pagamento por peça produzida por salário semanal e a simplificação da hierarquia. 

Embora a maioria dos funcionários administrativos tenha optado por sair quando teve a oportunidade, os trabalhadores manuais — como compositores, impressores, fundidores, desenhistas litógrafos, trabalhadores em funções auxiliares (encadernação, impressão de linhas, brochuras, etc.) e operários — cerca de mil pessoas, escolheram em sua grande maioria permanecer. Esses trabalhadores produziam diariamente cartazes com a mais alta qualidade de impressão, utilizando equipamentos de ponta, enquanto reconquistavam sua dignidade e seus direitos democráticos. No fim, o interessante na história da tipografia da Comuna de Paris não são as mudanças, mas as permanências: as mesmas fontes de propriedade da Imprensa Oficial, que passaram a ser usadas para disseminar as mensagens de autogoverno e comunalismo radical, em condições de trabalho melhores e mais dignas.

<><> Revolução na tipografia

Revoluções na política e na tipografia raramente coincidem, mas há momentos em que uma alcança a outra. A Comuna de Paris não foi a primeira vez na história francesa em que um regime revolucionário abraçou o potencial da tipografia criada sob o domínio de seus oponentes conservadores. Um século antes da Revolução Francesa, que estabeleceu a Primeira República em 1792, Luís XIV buscou marcar seu reinado com uma fonte própria para ser usada pela Imprensa Real. A fonte resultante, “Romain du Roi”, canalizou perfeitamente o espírito do Iluminismo com sua lógica geométrica e precisão científica. Acadêmicos, tipógrafos e membros da recém-criada Academia de Ciências estudaram a caligrafia tradicional, bem como os tipos móveis existentes, para construir uma fonte nova, mais racional e moderna. Com seu alto contraste, hastes retas e construção simétrica, a Romain du Roi possuía um design radical. Tanto que, quando a Revolução Francesa aboliu a monarquia, a tipografia real não foi descartada; em vez disso, encontrou um novo uso na impressão de assignats — proto-notas bancárias atreladas ao valor das propriedades nacionalizadas da Coroa e da Igreja. Como observa Robin Kinross em seu ensaio sobre a tipografia moderna, com seu “abandono da bagagem rococó, um retorno aos fundamentos e à ordem da era clássica, a fonte Romain du Roi era de fato totalmente apropriada como estilo da nova república na França”.

A fonte Romain du Roi não só permaneceu em uso durante toda a Primeira República, como também influenciou a tipografia francesa por décadas. Inspirando-se nela, em 1812, Napoleão I encomendou uma nova fonte que correspondesse às suas ambições imperiais: a “Romain de l’Empereur”. Desenhada por Firmin Didot, ela era baseada em uma grade métrica e levava a racionalidade do seu design a um novo extremo. Mantinha um detalhe curioso da Romain du Roi: um pequeno esporão no lado esquerdo da letra minúscula “l”. Essa referência à tradição caligráfica logo se tornou a marca registrada da Imprensa Oficial. Criticada por sua rigidez mecânica, a fonte imperial de Firmin Didot teve uma curta duração, justamente quando novas tendências da tipografia comercial chegavam da Grã-Bretanha. 

Em 1818, sob o regime da Restauração de Luís XVIII, o tipógrafo real Jacquemin trabalhou em um novo conjunto de fontes proprietárias, conhecidas como “caracteres de Londres”, com letras mais ousadas e contrastantes. Alguns dos punções para essas fontes provavelmente foram produzidos na Inglaterra pela fundição Fry, sendo posteriormente personalizados e complementados com letras adicionais, incluindo o característico “l” minúsculo. No entanto, os modernos caracteres de Londres, com suas formas exageradas e robustas, não foram universalmente aceitos, e em 1825, para marcar a ascensão de Carlos X ao trono, um novo conjunto de caracteres foi lançado. 

Inspirada no processo por trás da Romain du Roi, uma nova comissão foi formada para estudar e desenvolver a mais recente fonte proprietária. À frente dessa comissão estava Marcellin-Legrand, que, embora não se opusesse às inovações tipográficas de sua época, retornou à elegância clássica da Romain du Roi de Grandjean e da Romain de l’Empereur de Didot. Em meados do século, essa fonte também era considerada ultrapassada. Assim, em 1847, Marcellin-Legrand, ainda tipógrafo da corte, redesenhou alguns de seus caracteres, introduzindo notavelmente um “g binocular”, uma referência histórica a uma forma popularizada anteriormente pelo sobrinho de Firmin, Jules Didot.

Embora as fontes oficiais da Imprensa Oficial mudassem a cada década, aproximadamente, para refletir as mudanças de regime, as condições de trabalho ali permaneciam invariavelmente precárias. E se a industrialização do século XIX trouxe novos processos e máquinas para a Imprensa Oficial, pouco progresso foi feito em relação aos direitos dos trabalhadores, o que inevitavelmente gerou ressentimento contra a mecanização. Nos acalorados dias da Revolução de 1830, um grupo de tipógrafos parisienses invadiu as instalações da Imprensa Oficial e destruiu as máquinas Stanhope. Contudo, essa rebelião ludita pouco conseguiu, e logo depois os tipógrafos foram obrigados a consertar as máquinas. Uma nova ordem interna impôs disciplina nas oficinas, rendendo à Imprensa Oficial o apelido de “Mazas typographique”, em referência ao nome da prisão parisiense.

A Imprensa Nacional era geralmente chefiada por elites instruídas — diplomatas, historiadores e cientistas — que compreendiam o papel estratégico da gráfica, mas não possuíam a experiência prática dos tipógrafos. Fossem republicanos ou monarquistas, utilizavam a Imprensa Nacional para promover os interesses do regime ao qual eram leais, sem buscar alterar a estrutura organizacional da instituição. Da impressão do anúncio da primeira eleição com sufrágio universal masculino em 1848 aos cartazes preparados pelos conspiradores durante o golpe de Estado de 2 de dezembro de 1851, que restauraria o império, a Imprensa Nacional desempenhou um papel importante na turbulenta política do século. Contudo, sua estrutura interna permaneceu extremamente hierárquica, com favorecimento explícito e disciplina rígida.

<><> A tomada da Imprensa Nacional

Durante a guerra de 1870 e o primeiro cerco de Paris, a Imprensa Nacional especializou-se na produção de cartazes oficiais para diversas finalidades: decretos governamentais, avisos à população parisiense, ordens ministeriais relativas ao preço e à distribuição de alimentos durante o cerco e mensagens do governo incentivando a resistência ao cerco e aos bombardeios. A qualidade do seu trabalho, a sua disponibilidade e a sua docilidade tornaram a Imprensa Nacional essencial para o governo republicano. Os cartazes foram ainda mais cruciais para informar os parisienses, uma vez que o cerco isolou a capital do resto do país; permitiram que a população sitiada se mantivesse informada sobre as ações do governo e o curso da guerra. E quando, em 18 de março, começou a insurreição em Paris, foi na Imprensa Nacional que foram impressos os cartazes que exigiam à Guarda Nacional que “se apoderasse das armas que alguns querem usar contra Paris”.  

Para impedir a disseminação de mais avisos como esse, no mesmo dia, antes mesmo de a prefeitura ser cercada, o 86º Batalhão da Guarda Nacional, sob o comando do Tenente Louis-Guillaume Debock e de Jean-Louis Pindy, invadiu a Imprensa Nacional. Naquela noite, cartazes pró-Comuna foram impressos e distribuídos a partir do mesmo local.

Nos dias que se seguiram, o diretor e a alta administração da Imprensa Nacional foram demitidos, mas os funcionários restantes ficaram livres para permanecer ou sair. A decisão deles dependia em grande parte de sua posição hierárquica: os funcionários administrativos, que tinham salários fixos, eram mais propensos a sentimentos de lealdade ao governo e desertaram, enquanto os operários, que trabalhavam por produção, estavam mais preocupados em garantir o próprio sustento. Para persuadir os operários a se demitirem, os funcionários administrativos espalharam o boato de que o comitê central da Guarda Nacional não tinha meios para pagá-los. Essa notícia foi rapidamente desmentida pelos comunardos, que conseguiram adiantamentos e apelaram para a consciência de classe dos trabalhadores.

Pela primeira vez em sua história, a alta administração da Imprensa Nacional era composta por três operários. O diretor, Louis-Guillaume Debock, era tipógrafo, republicano militante, veterano da revolução de 1848 e um dos primeiros membros do escritório parisiense da Associação Internacional dos Trabalhadores. Líder do movimento operário e tipógrafo de profissão, era a pessoa ideal para o cargo de diretor. Seu filho, Georges, também tipógrafo operário, atuava como secretário, e André Alavoine, filho de um operário da Imprensa Nacional e membro radical da Primeira Internacional, tornou-se vice-diretor.

<><> Dois tipos de letra da Comuna de Paris

Embora algumas das outras funções da Imprensa Nacional, como a impressão de trabalhos científicos e documentos administrativos, tenham sido temporariamente interrompidas, a produção de cartazes foi priorizada, chegando a cinco ou seis modelos por dia, o que exigia uma atividade quase ininterrupta de composição, correção, impressão e distribuição. Os cartazes eram numerados e marcados com “Imprimerie Nationale” para indicar o local de impressão, como era prática comum na época. Mas o que os diferenciava era também a qualidade superior da impressão, os layouts altamente legíveis com amplo espaço em branco e a tipografia refinada que apresentava uma marca registrada da Imprensa Nacional — o esporão na letra minúscula “l”. 

O texto dos cartazes foi composto com os caracteres londrinos de Jacquemin. Essas letras robustas, que hoje conhecemos como “fat face”, nem sempre foram bem vistas e, historicamente, eram consideradas vulgares e anômalas. Ao descrever a fonte, um diretor da National Printing House não poupou palavras, chamando as formas das letras de “monstruosas e bizarras”. Contudo, ele admitiu que, após um estudo mais aprofundado sobre legibilidade, as fontes poderiam ser bastante úteis para leitura a longas distâncias. O estilo ganhou destaque ao longo do século XIX, à medida que mais e mais cartazes eram impressos para serem lidos coletivamente e, geralmente, à distância, sendo sua espessura e proporções amplas uma vantagem. Assim, durante a Comuna de Paris, centenas de cartazes impressos com as fontes encomendadas para a Imprensa Imperial pontilhavam as pequenas ruas de Paris, anunciando eleições, atualizações militares, funerais e medidas revolucionárias tomadas pela Comuna — abolição do serviço militar obrigatório, adiamento das obrigações de dívida, remissão de dívidas de aluguéis durante o período do cerco — para um público ávido por informações.

Contudo, nem tudo o que foi impresso durante a Comuna de Paris se destinava aos muros da cidade. Para alguns documentos, particularmente aqueles dirigidos às populações fora de Paris, era necessário um formato diferente, e assim uma série de panfletos foi impressa na Imprensa Nacional. Um desses panfletos, dirigido aos soldados de Versalhes, foi colocado em cilindros de madeira e disparado por canhões. Outro foi lançado de balões em áreas rurais. Apesar dos métodos incomuns de distribuição, essas obras possuíam as características formais dos documentos oficiais, o que era necessário para comunicar a legitimidade do governo revolucionário contra as acusações de selvageria e incompetência. 

Esses comunicados, dirigidos aos trabalhadores rurais e soldados, apresentam outra fonte proprietária da Imprensa Oficial. Concebida em 1825 como as “Letters of Charles X”, essa fonte teve alguns de seus caracteres atualizados em 1847, mas a gravura original permaneceu em uso até o século XX. Retomando formas mais leves e elegantes, que lembram a efêmera Romain de l’Empereur de Didot, a fonte real apresentava proporções ligeiramente condensadas e racionalidade mecânica, que encontraram uso inesperado na composição tipográfica dos panfletos dos revolucionários André Léo e Charles Delescluze, bem como no programa da Comuna de Paris.

<><> Os interesses comuns da classe trabalhadora

Como a Imprensa Nacional oferecia seus serviços não apenas à comissão executiva da Comuna, mas também aos órgãos governamentais dos diversos distritos e a vários ministérios da cidade, o grande volume de trabalhos de impressão era exaustivo. Isso exigiu destreza e reorganização da instituição. A Imprensa Nacional manteve um certo grau de autonomia em relação à Comuna, deixando a maioria dos detalhes logísticos a cargo da expertise de seus funcionários. O texto, o número de cópias e o layout geralmente estavam sujeitos a motivações técnicas, econômicas e políticas, e os três tipógrafos-operários à frente da instituição dominavam todas as três. Eles tinham voz ativa sobre o que e como era impresso e zelavam para equilibrar o bem-estar dos trabalhadores com as necessidades urgentes da Comuna.

Para simplificar a organização da instituição e promover os valores mais igualitários da Comuna, os diretores da Imprensa Nacional aboliram diversos cargos gerenciais e burocráticos. Os chefes das oficinas passaram a ser eleitos em vez de indicados pelo diretor. Assim como em outros locais sob o regime da Comuna, o sistema de multas foi abolido. No que diz respeito aos salários, uma mudança há muito desejada por muitos trabalhadores foi implementada: a substituição do pagamento por peça produzida por uma remuneração fixa de acordo com o número de horas trabalhadas. As mulheres obtiveram um aumento salarial significativo.

“Na Imprensa Nacional, os trabalhadores demonstraram que até mesmo uma das instituições mais tradicionais do Estado poderia ser reorganizada segundo princípios democráticos e adaptada para atender às necessidades da classe trabalhadora.”

A organização do trabalho baseava-se num sistema de assembleias operárias, com representantes de oficinas e profissões enviando recomendações por escrito. Adicionais salariais eram concedidos para horas extras e os intervalos para refeições passaram a ser remunerados. Como resultado do consenso democrático, desenvolveu-se um sistema de salários e remuneração que respeitava as necessidades e os desejos dos diferentes tipos de trabalhadores. Esse novo sistema, além de mais eficiente, pois exigia menos supervisão gerencial, também era mais igualitário, já que buscava equiparar os salários dos trabalhadores da mesma profissão. Mas as reformas salariais nunca foram apenas medidas revolucionárias vindas de cima; foram o resultado da autogestão e da democracia no local de trabalho. O fato de as novas medidas estarem alinhadas aos princípios da Comuna de Paris comprovava o interesse comum da classe trabalhadora.

A Imprensa Nacional nunca foi renomeada como “Imprensa da Comuna”, mas talvez devesse ter sido. Especialmente considerando que, naquela primavera de 1871, a autoridade sobre ela foi transferida do Ministério da Justiça diretamente para a Comuna e, juntamente com a produção de armas, passou a ser administrada de forma a atender às necessidades imediatas do governo revolucionário. Além disso, a alta administração da Imprensa Nacional, exilada em Versalhes, continuou assinando os documentos como tal, apesar de utilizar instalações e fontes inferiores. Isso permitiu que os opositores da Comuna distribuíssem cartazes “oficiais” nas províncias, alegando falsamente que representavam o governo. E embora os comunardos tivessem se esforçado consideravelmente para comunicar seu programa e suas verdadeiras intenções ao resto da França, esse esforço foi severamente prejudicado pela propaganda de Versalhes. 

Ao retornar a Paris, a alta direção exilada da Imprensa Nacional reverteu as reformas implementadas pelos comunardos, recompensando os poucos trabalhadores que se recusaram a trabalhar na instituição controlada pela Comuna. Ao contrário da violência que muitos participantes e simpatizantes da Comuna de Paris enfrentaram, os trabalhadores da Imprensa Nacional foram em grande parte poupados. A alta direção reinstalada alegou que a maioria deles permaneceu simplesmente porque dependia de seus salários para sustentar suas famílias, descartando quaisquer motivações políticas ou ideológicas. E embora houvesse alguma verdade nisso, os trabalhadores que permaneceram participaram com entusiasmo da reorganização da instituição e se beneficiaram das reformas implementadas. Os mais militantes entre eles foram forçados ao exílio, enquanto os demais mantiveram discrição sobre sua participação e apoio à Comuna de Paris. 

Apesar dos esforços para suprimir seu legado, a experiência de reorganização do local de trabalho durante o período da Comuna reverberou na posteridade. Na Imprensa Nacional, ela reapareceu pela primeira vez nas políticas sociais de seu diretor, Arthur Christian, na virada do século XX. Baseado em sua visão progressista e sob a pressão dos tipógrafos sindicalizados, ele retomou algumas das reformas implementadas pelos comunardos, notadamente a fixação de salários. Determinado a celebrar o legado histórico da Imprensa Nacional, em 1905 ele escreveu um livro influente sobre os primórdios da impressão na França, utilizando as fontes tipográficas originais da Imprensa Nacional, além de algumas releituras que ele mesmo encomendou. 

A Comuna não deixou um estilo visual distintivo. Os mesmos tipos de letra perduraram, passando da monarquia ao império e à república. O que mudou, ainda que brevemente, foi a ordem social subjacente. Na Imprensa Nacional, os trabalhadores demonstraram que mesmo uma das instituições mais tradicionais do Estado podia ser reorganizada segundo princípios democráticos e adaptada para servir às necessidades da classe trabalhadora.

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil