segunda-feira, 26 de outubro de 2026

Ninguém sabe tudo: a divisão do conhecimento e a disputa política pela realidade

Não é preciso ser um observador particularmente perspicaz para perceber que uma parcela importante do debate político contemporâneo da direita, sobretudo de sua vertente mais radical, deslocou-se para uma disputa em torno da própria realidade. Questões relacionadas aos direitos das pessoas LGBT+, às mulheres, à imigração, à vacinação, à ciência, às universidades e às mudanças climáticas ocupam espaço central na agenda da extrema direita. Não se trata apenas de discordar sobre quais políticas devem ser adotadas, mas de disputar quem possui autoridade para dizer o que é verdadeiro.

O fenômeno é particularmente paradoxal diante do estágio de desenvolvimento alcançado pela civilização contemporânea. Nunca produzimos tanto conhecimento científico nem dispusemos de tantos instrumentos tecnológicos para transformar o mundo. Ao mesmo tempo, existe uma distância crescente entre aquilo que a humanidade conhece coletivamente e aquilo que qualquer indivíduo consegue conhecer por si mesmo. Essa contradição é fundamental para compreender a política contemporânea.

Um indivíduo que vive no século XXI depende constantemente de conhecimentos que não possui. Ao tomar uma vacina, não precisa dominar imunologia; ao utilizar um telefone celular, não precisa conhecer física e programação; ao consultar um médico, não possui necessariamente os conhecimentos necessários para verificar cada diagnóstico.

A vida social moderna é fundada, portanto, em uma enorme divisão do conhecimento. A especialização é uma das condições do desenvolvimento científico e produtivo, mas produz uma consequência paradoxal: quanto mais conhecimento a sociedade produz, maior é a parcela da realidade que cada indivíduo precisa aceitar sem poder verificá-la diretamente.

<><> A ignorância como condição da civilização

A divisão do trabalho, observada por Adam Smith (1776), aumentou enormemente a capacidade produtiva da sociedade ao permitir que indivíduos se especializassem em tarefas específicas. O mesmo ocorreu com a ciência: a física, a biologia, a medicina e as ciências sociais fragmentaram-se em inúmeras especialidades. O conhecimento humano tornou-se tão vasto que nenhum indivíduo pode dominar sua totalidade.

A humanidade, coletivamente, conhece cada vez mais; cada indivíduo, entretanto, permanece necessariamente ignorante diante desse conhecimento. Essa questão constitui uma característica da própria vida moderna.

Precisamos confiar em médicos, engenheiros, professores, cientistas, jornalistas e outras comunidades especializadas. A sociedade funciona porque desenvolveu instituições capazes de produzir, verificar e transmitir conhecimentos que nenhum indivíduo poderia produzir sozinho. A ciência, nesse sentido, é uma instituição social de produção e validação do conhecimento.

É justamente aí que aparece uma das grandes vulnerabilidades políticas do nosso tempo.

<><> Quando a dúvida se torna política

Se nenhum indivíduo consegue verificar sozinho a maior parte das afirmações relevantes sobre o mundo, a destruição da confiança nas instituições produtoras de conhecimento pode produzir consequências políticas irreparáveis. Não é necessário demonstrar que uma vacina é perigosa; basta lançar dúvidas sobre aqueles que afirmam que ela é segura. Não é necessário apresentar um modelo climático alternativo; basta afirmar que “os cientistas não são confiáveis”.

A estratégia pode consistir não em substituir uma verdade por uma mentira, mas em destruir a própria possibilidade de distinguir uma coisa da outra. O negacionismo, nesse sentido, não deve ser compreendido apenas como falta de informação. Ele pode funcionar como uma política de desorganização epistemológica: a questão deixa de ser “qual afirmação é verdadeira?” e passa a ser “em quem você escolhe acreditar?”.

Esse fenômeno é anterior às redes sociais. Oreskes e Conway (2011) demonstraram como determinados grupos atuaram para fabricar controvérsias e prolongar a percepção pública de incerteza em debates relacionados ao tabaco, à chuva ácida e ao aquecimento global. As plataformas digitais, entretanto, acrescentaram uma infraestrutura extremamente eficiente para a circulação dessas dúvidas, favorecendo comunidades fechadas e conteúdos capazes de produzir engajamento.

É nesse ponto que a reflexão de Theodor Adorno e Max Horkheimer se torna especialmente fecunda. Em Dialética do Esclarecimento (1947), os autores partem do paradoxo de uma civilização que alcançou extraordinário desenvolvimento científico e técnico, mas também produziu formas extremas de barbárie. Para eles, o problema não está simplesmente na existência da razão, da ciência ou da técnica, mas na transformação da razão em uma racionalidade predominantemente instrumental, orientada para o cálculo dos meios necessários à obtenção de determinados fins.

Quando a razão se limita a perguntar “como fazer?”, sem discutir criticamente “para quê?” e “a serviço de quem?”, pode converter-se em instrumento de dominação. Horkheimer desenvolveria essa crítica em Eclipse of Reason (1947), associando a razão instrumental a uma racionalidade reduzida à utilidade e à eficiência, deixando em segundo plano a reflexão sobre os fins que deveriam orientar a ação humana.

O século XX demonstrou esse paradoxo de maneira brutal: a mesma racionalização científica que permitiu avanços extraordinários também foi mobilizada para desenvolver armas de destruição em massa e aperfeiçoar mecanismos burocráticos de extermínio. A racionalidade dos meios não garante a racionalidade dos fins – principalmente uma racionalidade a serviço da humanidade.

A questão contemporânea pode ser formulada como um novo paradoxo: produzimos uma sociedade capaz de conhecer o mundo em uma escala jamais imaginada, mas não produzimos indivíduos capazes de compreender a totalidade desse conhecimento ou de decidir coletivamente quais fins devem orientar seu uso.

<><> Uma sociedade que ninguém compreende sozinho

A realidade social tornou-se tão complexa que ninguém consegue apreendê-la integralmente. A economia depende de cadeias produtivas globais, o clima é estudado por modelos matemáticos, vacinas resultam de décadas de pesquisa e novas tecnologias mobilizam conhecimentos de inúmeras áreas. Nenhum ser humano consegue dominar tudo isso, e essa não é uma falha da sociedade moderna: é uma de suas próprias condições de existência.

O problema surge quando essa dependência inevitável de instituições e especialistas é transformada em vulnerabilidade política. A democracia exige cidadãos capazes de formar juízos sobre questões que não podem conhecer diretamente em sua totalidade. Para isso, dependem de instituições capazes de produzir confiança: universidades, escolas, imprensa profissional, instituições científicas, etc.

A confiança, portanto, não é o oposto do pensamento crítico. Em sociedades complexas, ela é uma condição para que o pensamento crítico exista. Confiar em um cientista não significa acreditar cegamente em tudo o que ele diz, mas reconhecer que determinadas comunidades desenvolveram métodos para produzir e corrigir conhecimento que nenhum indivíduo consegue reproduzir sozinho.

Quando essa distinção é destruída, a política deixa de disputar interpretações sobre a realidade e começa a disputar a própria existência de uma realidade comum.

<><> A política de uma realidade paralela

A extrema direita contemporânea explora essa destruição da confiança ao transformar especialistas em inimigos, universidades em espaços de doutrinação, jornalistas em conspiradores e instituições científicas em instrumentos de interesses ocultos. É importante não reduzir toda a direita a esse fenômeno: a crítica democrática a instituições, governos e especialistas é legítima. O problema surge quando a crítica deixa de exigir melhores evidências e passa a rejeitar a própria ideia de evidência compartilhada.

Uma sociedade democrática precisa de algum terreno factual comum. Podemos discordar sobre o que fazer diante das mudanças climáticas; não podemos transformar sua existência em uma questão de preferência partidária. Podemos discutir políticas de vacinação; não podemos atribuir o mesmo peso epistemológico a décadas de pesquisa científica e a uma publicação anônima em uma rede social.

Theodor Adorno e Max Horkheimer (1947) ajudam novamente a compreender esse processo. Sua análise da indústria cultural mostrava como a produção cultural, submetida à lógica da mercadoria e da padronização, podia contribuir para a formação de indivíduos menos autônomos e mais adaptados às estruturas sociais existentes. Embora as redes sociais não sejam equivalentes à indústria cultural de seu tempo, permanece relevante a ideia de que as formas de circulação das informações participam da formação dos sujeitos políticos.

Hoje, algoritmos selecionam aquilo que vemos, plataformas recompensam conteúdos capazes de produzir engajamento e comunidades digitais podem criar ambientes nos quais determinadas crenças são continuamente confirmadas. O resultado não é apenas mais informação, mas uma transformação da própria experiência social da realidade.

As mudanças climáticas constituem um exemplo particularmente claro do conflito entre realidade científica e interesses econômicos e políticos. Levar suas consequências a sério exige transformações nos padrões de produção, energia, transporte, agricultura, urbanização e consumo. Torna-se evidente, portanto, que uma transição climática efetiva exige a superação definitiva do capitalismo, substituindo as estruturas de propriedade e os interesses econômicos consolidados por um novo sistema que harmonize as necessidades humanas com os limites e o respeito à natureza.

A realidade científica possui, nesse caso, consequências políticas. É justamente por isso que negá-la pode ser conveniente. Se a mudança climática é uma invenção, não precisamos transformar nossa matriz energética; se a perda de biodiversidade é exagerada, não precisamos alterar padrões de ocupação territorial. A negação da realidade funciona, então, como uma forma de conservação social.

Isso não significa que todos os indivíduos que negam as mudanças climáticas estejam conscientemente defendendo interesses econômicos específicos. Ideologias não precisam ser produzidas deliberadamente por cada indivíduo para cumprir funções sociais. Como Marx e Engels (1845-1846) demonstraram em sua crítica da ideologia, determinadas formas de representação podem ocultar relações sociais e aparecer como descrições naturais da realidade.

A ideologia da extrema direita contemporânea pode assumir uma forma particularmente sofisticada: não precisa oferecer uma explicação alternativa completa do mundo; pode simplesmente produzir dúvida suficiente para impedir que a realidade produza consequências políticas.

<><> A crise do neoliberalismo e a administração da frustração

Essa dinâmica também precisa ser relacionada à crise do próprio neoliberalismo. A partir das décadas de 1970 e 1980, diversas economias passaram por desregulamentação financeira, privatizações, redução de determinadas formas de intervenção estatal e fortalecimento da lógica de mercado. A promessa era que mercados mais livres produziriam maior eficiência, crescimento, inovação e prosperidade.

Os resultados foram mais contraditórios do que essa promessa sugeria. O período posterior foi acompanhado, em diferentes países, por aumento da desigualdade, expansão da financeirização e crescente insegurança econômica. Thomas Piketty (2014) documentou a forte concentração da renda e da riqueza observada em diversos países nas últimas décadas.

Quando uma ordem política deixa de oferecer respostas convincentes às condições materiais da população, abre-se espaço para explicações alternativas. É nesse terreno que a extrema direita pode prosperar. Em vez de questionar as estruturas econômicas que produzem insegurança, frequentemente desloca a insatisfação para outros grupos: imigrantes, minorias sexuais, intelectuais, universidades, movimentos sociais e ambientalistas. A frustração material encontra, assim, um objeto político mais facilmente identificável.

Esse deslocamento ajuda a compreender por que discursos aparentemente irracionais podem cumprir uma função política racional. Se determinados problemas exigem transformações profundas, negar sua existência reduz a pressão por transformação; se a desigualdade resulta de estruturas complexas, atribuí-la a grupos socialmente vulneráveis simplifica a explicação.

A irracionalidade do conteúdo pode coexistir, portanto, com uma racionalidade da função social que desempenha. A Teoria Crítica permite perceber esse paradoxo: a irracionalidade não precisa estar fora da racionalidade moderna; pode ser produzida dentro dela (Adorno; Horkheimer, 1947).

<><> Reconstruir uma realidade comum

Combater a extrema direita não pode significar simplesmente fornecer mais informações. Se a sociedade depende de conhecimentos especializados, precisamos reconstruir as instituições que tornam possível confiar nesse conhecimento sem transformar confiança em obediência cega. Universidades públicas fortes, educação capaz de formar pensamento crítico, jornalismo profissional e instituições científicas independentes são parte dessa tarefa.

Mais importante, precisamos recuperar a ideia de que conhecimento é uma produção coletiva. Nenhum de nós sabe tudo. O cientista não domina toda a ciência; o médico não domina toda a medicina; o economista não compreende sozinho toda a economia. O cidadão não precisa dominar tudo isso para participar democraticamente da sociedade. Precisa, entretanto, reconhecer onde termina seu conhecimento individual e onde começa o conhecimento coletivo que sustenta nossa civilização.

Talvez essa seja uma das tarefas políticas mais importantes do nosso tempo: reconstruir a confiança sem abandonar a crítica; defender a ciência sem transformá-la em dogma; reconhecer a autoridade do conhecimento sem convertê-la em autoridade política absoluta.

Uma sociedade na qual ninguém acredita em instituições, especialistas ou evidências não se torna necessariamente mais livre. Pode tornar-se simplesmente mais vulnerável àqueles que possuem maior capacidade de manipular suas percepções. Em uma sociedade saturada de informação, destruir a confiança pode ser tão poderoso quanto controlar a informação.

O problema, portanto, não é que tenhamos produzido conhecimento demais. É que produzimos uma realidade que nenhum de nós consegue compreender sozinho. Essa é a grande conquista e, simultaneamente, uma das grandes fragilidades da civilização.

Somos capazes de conhecer o clima do planeta, desenvolver vacinas e construir sistemas tecnológicos de complexidade inimaginável. Mas essa capacidade coletiva só existe porque cada indivíduo aceita que não precisa – e não pode – saber tudo. A civilização depende dessa humildade.

Talvez seja precisamente contra ela que parte da política contemporânea da extrema direita se insurja. Ao convencer indivíduos de que sua experiência particular é suficiente para substituir o conhecimento acumulado por comunidades inteiras de pesquisadores, transforma a ignorância inevitável em certeza política. Quando a certeza substitui a investigação, a suspeita substitui a evidência e a identidade substitui o argumento, a política deixa de ser uma disputa sobre o futuro e passa a ser uma disputa contra a própria realidade.

O desafio democrático do século XXI é, portanto, maior do que combater notícias falsas. É reconstruir as condições sociais nas quais a verdade possa novamente ter autoridade pública – não porque todos precisemos saber tudo, mas justamente porque ninguém pode saber tudo sozinho.

 

Fonte: Por Gustavo Ramirez-Aleixo, em A Terra é Redonda

 

Waldir Pires dedicou vida e carreira à defesa da democracia

O Brasil aprendeu que a democracia precisa de defesa constante depois de 21 anos mergulhado em uma ditadura militar. E um baiano, que viveu em exílio durante esse período sombrio da história nacional, era defensor inegociável da participação do povo na política. Nascido em 21 de outubro de 1926, Waldir Pires construiu desde a juventude no movimento estudantil, passando pela resistência ao golpe de 1964 e a redemocratização do país a partir de 1985, uma trajetória guiada pela certeza de que a democracia só se realiza plenamente quando garante a igualdade entre todos os cidadãos. No mês do seu centenário, mergulhamos no acervo histórico de A TARDE para recontar parte da história de um dos políticos baianos mais respeitados do século XX.

Ao longo de sua vida pública, Waldir Pires buscou fazer da política um espaço de esperança, legando uma atuação pública dedicada à justiça social e à afirmação dos direitos humanos. Seu primeiro nome é Francisco [Francisco Waldir], homônimo ao do santo católico que se doava aos mais necessitados. Nasceu em Acajutiba e começou a estudar em Amargosa, passando depois para Nazaré das Farinhas, onde fez o antigo curso ginasial e, mais tarde, se mudou para Salvador, onde concluiu o ensino médio no Ginásio da Bahia.

No colégio ele começou a vida política a partir do movimento estudantil. Ao mesmo tempo, trabalhava para garantir a permanência na escola. A graduação ele concluiu em 1949, quando foi orador da primeira turma de Direito da Universidade Federal da Bahia (Ufba). Na Faculdade de Direito, participou ativamente das lutas estudantis, especialmente em defesa da criação da Petrobras. O espírito de combater nas fileiras democráticas vem desde essa época.

"A insistência de Waldir Pires na afirmação da democracia e da política como elementos civilizatórios foi uma de suas contribuições mais importantes dentro da política. Ele defendia a política como um instrumento da civilização porque a política permite a convivência de contrários, desde que com respeito", explica o jornalista e escritor Emiliano José, membro da Academia de Letras da Bahia (ALB) e autor da biografia em dois volumes de Waldir Pires.

Emiliano teve inúmeras conversas com o político para produzir o livro e conta que ele era um admirador da democracia ateniense, da Revolução Francesa e da Revolução Americana, mas que sempre lembrava que nenhuma dessas experiências realizou plenamente o potencial de um ‘governo do povo para o povo’. "Ele sempre dizia em nossas conversas que a democracia ainda não havia se realizado no mundo”, afirma o autor.

Na Grécia e na França, pensava Waldir, houve exclusão de grande parcela da sociedade. E, no caso dos Estados Unidos, apesar da revolução que libertou o país da Inglaterra, o regime escravagista foi mantido até a Guerra Civil, deixando marcas profundas que ainda hoje afetam e explicam o país. Por isso, mesmo diante das revoluções que admirava, buscou não se inebriar pelo que Emiliano chama de ‘liberalismo democrático’.

"Para ele, a democracia não poderia ser um regime apenas de eleições. Ela é, claro, um fruto das eleições, mas não se pode resumir a isso. Para Waldir, a democracia é, sobretudo, a afirmação da igualdade entre todos os seres humanos e essa era a luta dele. Por isso digo que o legado de Waldir Pires não é simplesmente uma obra ou um momento em sua carreira, mas uma trajetória absolutamente rigorosa no leito da democracia, sem nunca se afastar dela”.

<><> Carreira e exílio

A carreira política de Waldir Pires começou aos 24 anos, pouco depois da formatura em Direito, quando assumiu o posto de secretário de Estado do então governador da Bahia, Regis Pacheco. A função era parecida àquela que hoje corresponde à de um secretário de Relações Institucionais. "Isso foi em 1950. Em 1954, ele se elege deputado estadual e se torna, na prática, o líder do governo de Antônio Balbino. Havia um líder de direito, mas ele era o líder de fato do governo que foi bastante progressista para o momento", acrescenta Emiliano José.

Em 1958, Waldir foi eleito deputado federal e em 1962 disputou pela primeira vez o governo da Bahia. Foi derrotado por Lomanto Júnior por menos de 5% de diferença nos votos, "mas conseguiu se afirmar como um grande nome da vida política baiana naquele momento", afirma Emiliano. Com a derrota, ele abraça a área acadêmica e se torna docente do curso de Direito da Universidade Católica do Salvador (Ucsal) e depois passa a ser um dos professores da Universidade de Brasília, junto com Anísio Teixeira e Darcy Ribeiro.

No ano de 1959, foi chamado para ser Delegado Federal do Ministério da Educação (MEC) na Bahia e Sergipe, cargo que ocupou oficialmente até 1969. E, em 1963, se tornou Consultor-Geral da República, assumindo a Controladoria Geral da República do governo João Goulart. "Passa a integrar o governo reformista de Goulart. Era ele quem redigia os principais investimentos e decretos, como o bloqueio do envio de dinheiro brasileiro para o exterior e a reforma agrária. Tudo que Goulart tentou colocar em prática, Waldir Pires foi quem redigiu. Então veio o golpe", aponta o biógrafo.

Com a ditadura militar, continua Emiliano, Waldir Pires fugiu para exílio junto com Darcy Ribeiro, Mas, para não serem presos em uma viagem convencional, fugiram em um “teco-teco” (nome popular dos aviões monomotores) abastecido com gasolina de caminhão, até chegarem ao Uruguai. Sem conseguir emprego no país vizinho para sobreviver com a família, Yolanda Avena, com quem se casou em 1950, e os filhos do casal, ele vai para a França, onde dá aulas primeiro na Universidade de Dijon e depois na Universidade de Paris (Sorbonne). Voltou ao Brasil em 1970, com salvo-conduto do Ministério das Relações Exteriores.

<><> Atuação nos bastidores

Ao desembarcar no Rio de Janeiro na volta do exílio no exterior, Waldir prestou um longo depoimento aos agentes da repressão da ditadura e depois foi levado para a Polícia Federal, onde foi avisado que estava proibido de sair da cidade sem autorização. "Ele passa de 1970 até 1978 numa espécie de semiexílio no Rio de Janeiro, porque não podia exercer nenhuma atividade abertamente política. Mas ainda assim consegue se envolver politicamente", explica Emiliano José. Ele ajudou na eleição de Francisco Pinto para deputado federal na Bahia e outras eleições no Rio de Janeiro, mantendo contato com a esquerda brasileira.

Para se manter economicamente na nova situação, investiu em uma empresa de extração de brita e granito. Seu primeiro sócio foi o ex-deputado Rubens Paiva, que posteriormente foi assassinado pela ditadura. “Em paralelo à atividade profissional, mantinha contatos políticos com os que resistiram na clandestinidade, como Marco Antônio Coelho, Giocondo Dias, Luís Maranhão e Cibilis Viana entre outros", informa o perfil biográfico de Waldir Pires no Dicionário Biográfico-Histórico da Bahia, da Biblioteca Virtual Consuelo Pondé.

Emiliano José conta que Waldir Pires era bem próximo de Rubens e no dia 20 de janeiro de 1971, quando o ex-deputado foi sequestrado, Waldir o havia visitado e quase ficou para almoçar com a família Paiva. "Era Dia de São Sebastião, feriado no Rio de Janeiro, e Waldir disse que não podia ficar pois tinha combinado algo com Yolanda e os filhos. Remarcou o almoço para o sábado seguinte. Se ele tivesse aceitado, provavelmente também teria desaparecido naquele dia".

De volta à Bahia em1979, foi recebido como um líder natural da oposição no Estado e com grande festa, acrescenta Emiliano. “Tinha muita gente no aeroporto, pois era uma liderança que voltava. Waldir fez isso com muita consciência, porque no final de 1978, o Ato Institucional nº 5 (AI-5) havia sido extinto, o que lhe dava liberdade para essa movimentação. Também já estávamos às portas da anistia, que iria acontecer em agosto. Tudo isso deu a ele, até certo ponto, tranquilidade para voltar à Bahia e participar da vida política do estado outra vez".

<><>Nova candidatura de Waldir Pires

Em 1982, já com eleições diretas para governador, Waldir Pires avaliou que ainda não era o momento de disputar o cargo e apoiou a candidatura de Roberto Santos, mas visto como uma figura democrática. Waldir então opta por concorrer ao Senado e embora não tenha sido eleito, obteve quase um milhão de votos.

Três anos depois, se tornou ministro da Previdência e Assistência Social, já na fase de redemocratização. "O ministro Waldir Pires fez um vigoroso discurso contra a fome e o desemprego: Só haverá democracia na medida em que, ao lado da liberdade, tenhamos atendidas as necessidades existenciais básicas", transcreveu A TARDE, em 16 de março de 1985. No mesmo ano, em meio às discussões sobre quem seu partido escolheria para concorrer à prefeitura de Salvador, o então ministro visitou a sede do jornal e fez questão de ir ao parque gráfico cumprimentar os trabalhadores, como diz a edição de 25 de maio de 1985.

No ano seguinte, Waldir Pires se lançou candidato ao governo da Bahia. "A campanha de 1986 mobilizou a alma, o coração, os sentimentos e as melhores esperanças do povo baiano. Ele venceu a eleição de maneira memorável”, conta Emiliano José. O governador eleito assumiu o cargo em 1987 e, ainda segundo seu biógrafo, “tomou posse diante de uma Bahia de terra arrasada".

A TARDE registrou o cenário e o ânimo do novo chefe do executivo baiano: "O governador eleito da Bahia, Waldir Pires, afirmou, ontem, que não vai assumir o governo pessimista porque considera que o pessimismo não se ajusta com o desafio que está posto à sua frente", diz a edição de 12 de março de 1987.

Um dos seus principais focos estava na saúde e foi durante sua gestão que o Hospital Geral do Estado (HGE) e outras unidades de saúde no interior, como o Hospital Geral de Camaçari (HGC), foram inaugurados. A gestão foi marcada por iniciativas inéditas que enfrentaram, inclusive, resistência entre alianças políticas. "Foi um governo em que ele se permitiu governar e que foi de grande qualidade. Ele trouxe um novo parâmetro ético, onde ele não admitia nenhum tipo de corrupção e não houve uma única acusação de desvio de dinheiro público, por exemplo. Foi um governo absolutamente inovador", afirma Emiliano José.

Mas, em 14 de maio de 1989, o então governador tomou a decisão mais polêmica da carreira pública. Com pouco menos de dois anos e meio gerindo o estado, Waldir Pires renunciou ao cargo para se candidatar à vice-presidência, na chapa com Ulisses Guimarães, que havia presidido a Assembleia que redigiu e aprovou a Constituição de 1988, a chamada Constituição Cidadã.

"Foi uma decisão que, até hoje, é muito discutida. Ele dizia ter sido a decisão mais difícil da vida dele. E hoje, olhando a História, evidentemente foi um equívoco, mas isso é parte da vida política: só não comete equívoco quem não está mergulhado na vida política. Ele renuncia, se torna vice de Ulisses, e Ulisses perde. Foi um desastre político muito grande", diz Emiliano.

Desastre pelo pleito perdido e, principalmente, pelo mandato interrompido. "Com o corte da renúncia, aquilo que ainda poderia ser feito, e muita coisa poderia ser feita, não foi feito. Ele poderia, inegavelmente, fazer um sucessor. [...] A verdade é que o governo de Waldir Pires deixou marcas de grande qualidade, mas que nunca foi concluído", reflete Emiliano José.

Em 1991, Waldir foi eleito deputado federal, cargo que ocupou até 1995, pelo PDT, e que voltou a ocupar em 1999, pelo PT. Esse último mandato foi finalizado em 2003, quando foi chamado para ser o Ministro-Chefe da Controladoria Geral da União (CGU) no primeiro mandato de Luís Inácio Lula da Silva como presidente. "Nessa função que tinha o status de ministro, ele foi responsável por diversas denúncias contra prefeituras, secretarias e governos que recebiam recursos do governo federal e desviavam para fins aos quais não eram direcionadas", diz a biografia dele na Biblioteca Virtual Consuelo Pondé.

Após dois anos e meio à frente da CGU, foi convidado pelo presidente Lula para assumir o Ministério da Defesa, cargo que aceitou e desempenhou durante a crise no setor aéreo brasileiro e um momento delicado da política nacional. Sua última função pública, porém, seria mais próxima do início: em outubro de 2012, foi eleito vereador de Salvador pelo PT. Cumpriu integralmente o mandato até 31 de dezembro de 2016, encerrando sua longa trajetória política aos 90 anos.

Cerca de um ano e meio depois, aos 91, Waldir Pires morreu após parada cardiorrespiratória. "Waldir Pires foi uma pessoa que expressou bem aquilo que Hannah Arendt diz sobre a principal virtude do político ser a coragem. Pode parecer uma coisa muito simples, mas não é. A política exige coragem e tomada de posição. Waldir era um sujeito sereno, terno, educado e civilizado, como cabe ao bom político, segundo o que ele próprio dizia. Mas também era um homem de posições rigorosas, firmes e disposto a ousar. Quando ele decidia, estava decidido e seguia adiante. A utopia da democracia era a grande meta do Waldir Pires e para ele não importava que não conseguisse realizá-la inteiramente, mas sim se aproximar um pouco mais de concretizá-la a cada dia de luta", afirma Emiliano.

 

Fonte: Por Priscila Dórea, em A Tarde

 

Câncer de mama: direitos e benefícios que amparam pacientes no tratamento

A pedagoga Gislaine Santos tomava banho depois do trabalho, em 2015, quando sentiu um caroço no seio. Em 6 de dezembro daquele ano, veio o diagnóstico de câncer de mama. À época, aos 54 anos, ela trabalhava como especialista em educação no sistema penitenciário do Distrito Federal havia duas décadas. Com o início do tratamento, viu-se diante de uma nova urgência: buscar sustentação nas políticas públicas e benefícios previdenciários assegurados a pacientes oncológicos.

O drama de Gislaine reflete o cenário de milhares de brasileiros. Estimativas do Instituto Nacional de Câncer (Inca) indicam que o Brasil registrará 781 mil novos casos de câncer a cada ano no triênio 2026-2028. O câncer de mama lidera as ocorrências entre as mulheres e, no DF, são previstos 1.410 novos casos anuais — uma taxa de 89,31 diagnósticos por 100 mil moradoras.

Diante da necessidade de afastamento do trabalho, os benefícios da Previdência Social tornam-se o principal pilar econômico das famílias. Dados do Ministério da Previdência Social revelam a dimensão dessa demanda para câncer de mama: somente entre janeiro e agosto de 2026, foram concedidos 31.838 benefícios por incapacidade temporária (antigo auxílio-doença) no Brasil, dos quais 512 ocorreram no DF. No mesmo período, a concessão de aposentadorias por incapacidade permanente (invalidez) somou 2.601 casos no país, sendo 40 deles no DF.

Apesar do respaldo legal, o caminho até a concessão dos direitos é marcado por entraves. Aposentada por incapacidade permanente, Gislaine, hoje aos 65 anos, recorda a saga enfrentada ao tentar acessar o Benefício de Prestação Continuada (BPC) antes da aposentadoria (Veja o quadro Direitos fundamentais). "É muita burocracia para receber. Demora. Precisei de amigas para me carregar", expõe.

Quando a aposentadoria foi concedida, veio o alívio financeiro. "Consegui me tranquilizar com as contas pagas, sabendo que os anos em que trabalhei não foram em vão", relata. A pedagoga destaca o acolhimento dos quatro filhos e a gratidão ao atendimento médico recebido no Hospital Universitário de Brasília (HUB).

Curada do carcinoma nas mamas, ela enfrenta agora um câncer ósseo, diagnosticado no início do ano, e reforça a necessidade de combater a morosidade do sistema. "Até hoje contam que é a mesma demora. Nada facilitado para quem está doente. Temos que arregaçar as mangas, sem medo. Você tem direito e não deve ter receio de usá-los", frisa. 

Os hospitais públicos no DF que atendem pacientes oncológicos de mama são o Hospital Regional de Taguatinga (HRT), o Hospital Universitário de Brasília (HUB) e o Hospital de Base do Distrito Federal (HBDF). Desses, apenas o HRT é administrado diretamente pela Secretaria de Saúde do Distrito Federal (SES).

Procurada, a pasta informou ao Correio que a emissão de laudos médicos exigidos pelo INSS para casos como o de Gislaine não segue um prazo fixo, e leva em consideração as necessidades dos pacientes. No caso de solicitação de laudos para isenção fiscal, os pacientes podem ser encaminhados ao Serviço Social para receber orientações sobre os procedimentos e critérios para o benefício.

<><> Abalo emocional

A morosidade nos trâmites públicos e nas operadoras de saúde impõe um desgaste grave a quem já enfrenta o abalo emocional da enfermidade. Para a doutora em saúde pública e professora de Saúde Coletiva da Universidade de Brasília (UnB), Silvia Badim Marques, a espera por procedimentos ou benefícios agrava a vulnerabilidade.

"Os pacientes oncológicos não têm tempo. O sistema, público ou privado, impõe tempos burocráticos que comprometem o tratamento e prejudicam a saúde mental, pois a espera exige da pessoa um tempo que ela simplesmente não tem", pontua a professora.

Silvia ressalta que o tratamento é garantido pela Lei Orgânica da Saúde no Sistema Único de Saúde (SUS), mas reconhece entraves na incorporação e disponibilização de fármacos e exames de alta complexidade. "Quando o paciente não encontra acesso imediato, deve buscar auxílio jurídico. A Defensoria Pública atua fortemente na mediação extrajudicial e judicial para garantir medicamentos e exames sem custos ao cidadão", orienta.

<><> Resiliência

Nádia Tavares atuava no setor administrativo da Secretaria de Educação do DF quando recebeu o primeiro diagnóstico de câncer de mama aos 46 anos. O impacto inicial trouxe o receio do que estava por vir, superado pela rede de apoio familiar. "Tive medo de morrer e deixar quem amo, mas entendi que era preciso lutar por mim e por eles", conta, hoje aos 60 anos.

Na ocasião, recusou a aposentadoria por invalidez. Porém, aos 49 anos, no segundo diagnóstico da doença, o afastamento tornou-se inevitável e a aposentadoria por incapacidade permanente foi concedida. Após passar por quimioterapia e radioterapia, desenvolveu uma trombose decorrente do uso contínuo de medicação.

"Durante o tratamento, nunca pensei em desistir. O médico alertou que casos como o meu poderiam levar à amputação, mas eu disse: 'Não me preocupo em perder a perna, o que eu quero é viver'", recorda. Apoiada na fé e na orientação espiritual recebida na Igreja Ortodoxa Nossa Senhora da Anunciação e Menino Jesus, Nádia comemora a remissão da doença e mantém o acompanhamento periódico.

"Aprendi que, para cuidar dos outros, preciso primeiro cuidar de mim. Precisamos nos cuidar no corpo e na mente e tentar viver da melhor maneira possível", afirma.

<><> Caminhos legais

Para evitar indeferimentos administrativos ao requerer benefícios como o auxílio por incapacidade temporária ou a aposentadoria por invalidez no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), Armindo M. Robinson, especialista em direito processual civil e professor da Estácio Brasília, esclarece que a lei isenta o paciente da carência (número mínimo de contribuições), mas exige o cumprimento rigoroso de outros critérios.

"A dispensa de carência não significa concessão automática. Continuam necessárias a qualidade de segurado e a comprovação da incapacidade para o trabalho por mais de 15 dias consecutivos. Diagnóstico e incapacidade laboral são conceitos juridicamente distintos", explica o jurista.

O professor alerta para os erros mais frequentes no envio de laudos, inclusive pelo sistema Atestmed: "Um laudo que apenas informa 'paciente com câncer' comprova a doença, mas não a incapacidade. O documento deve detalhar as limitações profissionais, o histórico do tratamento, o CID e o período estimado de afastamento. Documentos sem data, sem assinatura ou ilegíveis provocam atrasos e indeferimentos", orienta.

Sobre a estabilidade no emprego, Robinson esclarece que o diagnóstico isolado de câncer não garante 12 meses de estabilidade automática, a menos que fique comprovada a relação da doença com o trabalho (doença ocupacional). Contudo, o trabalhador conta com a proteção da Súmula 443 do Tribunal Superior do Trabalho (TST), que proíbe a demissão discriminatória.

Quando as vias administrativas e o diálogo direto falham, a Defensoria Pública da União (DPU) atua de forma gratuita na orientação e no ajuizamento de ações contra o INSS. A defensora pública federal Larissa Amantea aponta que a principal causa de contencioso no DF é a negativa pericial ou o indeferimento na análise documental pelo Atestmed.

"A demanda mais comum é o indeferimento do benefício por parecer contrário à perícia médica, que conclui pela ausência de incapacidade, mesmo com a pessoa em tratamento ativo, sofrendo colaterais severos ou em pós-operatório. No BPC, o INSS muitas vezes não reconhece a mastectomia como impedimento de longo prazo. Nesses casos, acionamos a Justiça para restabelecer ou conceder o direito", explica Larissa Amantea.

<><> Outros direitos

Larissa Amantea pontua que portadores de câncer possuem outros direitos essenciais, como a isenção do Imposto de Renda sobre aposentadorias, a prioridade na tramitação de processos e a possibilidade de quitação do financiamento habitacional pelo seguro.

No âmbito local, a Secretaria de Desenvolvimento Social (Sedes-DF) atua no acolhimento de famílias em situação de vulnerabilidade por meio dos Centros de Referência de Assistência Social (Cras). A rede socioassistencial realiza a inclusão e atualização no Cadastro Único (CadÚnico) — requisito indispensável para a solicitação do BPC junto ao INSS — e avalia a concessão de programas locais, como o Cartão Prato Cheio e auxílios de vulnerabilidade temporária, garantindo o suporte necessário durante o período de tratamento.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

O Apocalipse contra a idolatria do dinheiro, os despejos e os poderes que nos governam

A verdadeira solução começa quando a dignidade humana prevalece sobre o lucro, a justiça sobre o privilégio e o serviço sobre a dominação. Começa quando deixamos de considerar inevitável que alguém perca a sua casa por não poder pagar, quando a política assume a sua responsabilidade e quando a Igreja não se limita a consolar as vítimas, mas ousa questionar as estruturas que as deixam desprotegidas.

<><> Eis o artigo.

“Saiam dela, povo meu!” (Apocalipse 18,4). A ordem é dirigida àqueles que vivem em um sistema cuja prosperidade se baseia na injustiça e cujo poder sedutor dificulta o reconhecimento de suas contradições. A Babilônia se sustenta não apenas pela força de seus governantes, mas também pelos interesses que protege, pelos privilégios que distribui e pela cumplicidade que cultiva. Sua denúncia levanta uma questão incômoda para qualquer época: como podemos viver sem participar daquilo que degrada a dignidade humana? Hoje, a questão se estende à economia, que transforma necessidades básicas em oportunidades de negócios; à política, que tolera desigualdades persistentes; e às instituições religiosas, quando priorizam sua influência em detrimento das exigências do Evangelho.

De qual cidade precisamos sair? De qual sistema? De quais cumplicidades? O que significa atender a esse chamado hoje, quando a riqueza se acumula, a moradia se torna um bem inacessível para muitos e uma pessoa idosa pode terminar seus dias longe da casa onde viveu por décadas?

O livro do Apocalipse não oferece uma resposta técnica para os problemas políticos e econômicos de nossa época. Oferece algo mais perturbador: um critério pelo qual podemos julgá-los. Denuncia uma sociedade que confunde prosperidade com justiça, poder com legitimidade e acumulação com bem-estar. Uma sociedade na qual governantes, mercadores e aqueles que se beneficiam da ordem estabelecida lamentam sua queda, mas mal parecem notar as vidas sacrificadas para mantê-la.

A Babilônia é a imagem desse mundo. E sua advertência se estende hoje à economia, à política e também à Igreja.

<><> A Babilônia não desapareceu

Em Apocalipse 17-18, Babilônia representa um poder que seduz governantes, enriquece mercadores e estende sua influência por meio do luxo, do comércio e da dominação. A referência alude a Roma, o centro do poder imperial, mas o símbolo transcende as circunstâncias históricas em que foi escrito.

A Babilônia não é apenas uma cidade. É uma lógica de poder: uma lógica que transforma seus interesses particulares em necessidades coletivas, apresenta seus privilégios como inevitáveis ​​e considera aceitável o sofrimento que lhe permite manter sua prosperidade.

Sua grandeza tem um preço. Os governantes lucram com suas alianças; os mercadores prosperam com seus negócios; aqueles que compartilham de suas vantagens temem perdê-las. Quando a cidade cai, todos choram. Mas quem chora por aqueles que foram explorados para tornar essa riqueza possível?

O capítulo 18 contém uma das denúncias mais poderosas de toda a Escritura. A enumeração das mercadorias comercializadas pela Babilônia culmina em uma expressão arrepiante: “escravos, isto é, vidas humanas” (Ap 18,13).

O problema não é o comércio em si, nem toda riqueza é inerentemente injusta. O problema surge quando a acumulação se torna ilimitada e as pessoas acabam sendo meros instrumentos de lucro. A questão ressoa ao longo dos tempos: o que acontece quando o dinheiro deixa de ser um meio de sustentar a vida e se torna a medida que determina quais vidas merecem ser sustentadas?

Não é necessário identificar a Babilônia com um país, um partido ou uma ideologia para reconhecer sua presença. Ela pode se manifestar onde quer que o poder econômico dite as decisões políticas, onde a lucratividade se sobreponha à dignidade e onde o sofrimento dos mais vulneráveis ​​seja aceito como um custo inevitável do progresso.

A Babilônia não precisa que todos os seus habitantes sejam maus. Basta que muitos considerem seus privilégios normais, suas consequências inevitáveis ​​e mudar as regras custoso demais.

<><> Uma cidade que expulsa seus habitantes

Uma cidade deveria ser um lugar para se viver. No entanto, nossas cidades correm o risco de se tornarem espaços onde é cada vez mais difícil permanecer. Moradia é uma necessidade humana fundamental, mas também um ativo financeiro, um investimento e uma fonte de lucro. O conflito começa quando sua dimensão econômica acaba se sobrepondo à sua função social.

Uma casa deixa então de ser apenas um lugar onde alguém dorme, cria os filhos, cuida dos parentes idosos e constrói relacionamentos. Ela se torna, acima de tudo, um ativo cujo valor deve aumentar. O bairro se transforma em uma oportunidade de negócio; seus habitantes, em variáveis ​​numa transação econômica; a presença contínua de uma família, em um obstáculo para o aumento da lucratividade.

A contradição é evidente: os valores dos imóveis podem subir enquanto as chances de possuir uma casa diminuem. O investimento imobiliário pode crescer enquanto jovens empregados lutam para se tornarem independentes, famílias gastam uma parcela desproporcional de sua renda com aluguel e idosos temem perder as casas onde viveram por décadas.

<><> O que significa progresso quando aqueles que sustentam uma cidade com seu trabalho não têm condições de morar nela?

A crise habitacional não é apenas um problema de preços. Ela afeta a verdadeira liberdade, a segurança pessoal, a saúde, as relações familiares e a possibilidade de construir um futuro. Quem não tem um lar estável não perde apenas um teto sobre a cabeça: pode também perder a continuidade dos seus relacionamentos, a sua autonomia e o seu lugar na comunidade.

Portanto, a habitação não pode ser tratada como uma mera mercadoria. Sua regulamentação deve conciliar os direitos legítimos dos proprietários com a necessidade de garantir o acesso digno e razoável a um recurso essencial. Nem todos os proprietários têm os mesmos recursos financeiros, nem todas as situações de inadimplência são iguais. Além disso, nem todos os despejos decorrem das mesmas circunstâncias. Precisamente por essa razão, são necessárias políticas que diferenciem as situações, protejam os mais vulneráveis ​​e ofereçam alternativas quando a situação de sem-teto for evitável.

Uma cidade pode enriquecer-se e empobrecer seus habitantes simultaneamente. A Babilônia começa quando o crescimento econômico deixa de questionar para quem cresce e à custa de quem.

<><> Maricarmen: a face humana da injustiça

O caso de Maricarmen Abascal, a mulher de 87 anos despejada em 23 de setembro de 2016 da casa em Madri onde morava há mais de sete décadas, trouxe à tona a dimensão humana da crise habitacional. Ela faleceu em 7 de outubro, após ser hospitalizada desde o despejo. Sua história provocou indignação pública generalizada e reacendeu o debate sobre despejos e a proteção de pessoas vulneráveis.

Não é necessário atribuir uma causa médica ao despejo, o que não cabe estabelecer, para compreender a gravidade do ocorrido. Basta observar a situação: uma idosa com deficiência, despejada da casa que fora seu lar por décadas e que faleceu sem jamais poder retornar.

Uma vida inteira pode ser condensada em uma única cena: uma porta se fechando, uma maca sendo levada para a rua, uma pessoa perdendo o lugar onde construiu suas memórias.

A linguagem jurídica pode descrever o procedimento. A linguagem econômica, calcular os custos. A linguagem administrativa, determinar a jurisdição. Mas que linguagem expressa a perda de um lar quando esse lugar guarda décadas de pertencimento, afeto e memórias?

É importante distinguir entre a legalidade de um procedimento e a justiça de suas consequências. O fato de uma ação ser legal não elimina a obrigação de examinar seu impacto humano, especialmente quando afeta pessoas vulneráveis. Tampouco significa que todos os despejos sejam ilegítimos ou que os direitos dos proprietários estejam desprotegidos. Significa que uma sociedade deve se perguntar quais salvaguardas estabelece para evitar que alguém fique em situação de indigência.

O caso de Maricarmen nos obriga a fazer uma pergunta fundamental: pode uma sociedade ser considerada justa se possui mecanismos para despejar uma idosa de sua casa, mas não garante uma solução oportuna que preserve sua dignidade?

A indignação pública é compreensível, mas não basta. Tampouco basta transformar uma tragédia em símbolo por alguns dias e depois voltar ao normal. A verdadeira homenagem consistiria em impedir que outros passassem por situações semelhantes. A compaixão que não muda nada corre o risco de se tornar uma forma respeitável de indiferença. Segundo dados do Conselho Geral da Magistratura (CGPJ) do primeiro trimestre de 2016, foram realizados 4.005 despejos judiciais na Espanha, o que equivale a uma média de 44,5 por dia. Esse número inclui despejos por falta de pagamento de aluguel, execuções hipotecárias e outras causas.

<><> Leão XIV: Não basta atender às emergências

Em 28 de setembro de 2026, durante a conferência de imprensa no voo de regresso da França para Roma, Leão XIV foi questionado sobre o problema da habitação e sobre o despejo de Maricarmen.

Sua resposta merece atenção porque ele mudou o foco do caso específico para as causas subjacentes. O Papa afirmou que o problema da habitação não pode ser resolvido apenas por uma paróquia, uma diocese ou a Igreja. Ele também pediu que os líderes políticos e as autoridades sejam instados a encontrar soluções para um problema que, como observou, está se agravando.

A importância desta intervenção reside numa distinção crucial: atender aqueles que sofrem as consequências de um problema é uma coisa, mas modificar as condições que o produzem é outra bem diferente. Uma paróquia pode fornecer alojamento temporário. Uma diocese pode mobilizar recursos. Uma comunidade pode apoiar uma família que enfrenta um despejo. Todas estas ações são necessárias. Mas nenhuma delas substitui a responsabilidade das autoridades públicas de desenvolver políticas habitacionais eficazes. A assistência imediata não pode servir de desculpa para deixar intocadas as causas profundas do problema dos sem-abrigo.

Leão XIV aponta, portanto, para uma questão que transcende a situação imediata: quando uma injustiça se repete, as estruturas que a tornam possível devem ser examinadas. Não basta reagir a cada emergência como se cada caso fosse uma desgraça isolada. É necessário perguntar por que essas situações ocorrem, quais interesses estão envolvidos, quais decisões as incentivam e quais alternativas poderiam evitá-las.

Aqui encontramos a voz do Papa e a denúncia do Apocalipse. Ambos nos obrigam a olhar além das aparências e a examinar a lógica que rege a realidade quando seus resultados conflitam com a dignidade humana.

A Igreja não precisa ditar uma solução técnica única nem se tornar um partido político. Mas também não pode se refugiar na caridade para se esquivar da dimensão pública da justiça. Sua responsabilidade inclui acompanhar as vítimas, desafiar os que detêm o poder e examinar criticamente as estruturas econômicas e sociais. A caridade é essencial, mas não substitui a justiça.

<><> Quando a habitação se torna um ídolo

A crítica de Babylon torna-se particularmente relevante quando aplicada a uma economia onde o acesso à moradia depende cada vez mais do poder aquisitivo. Não se trata de demonizar o mercado imobiliário ou culpar todos os proprietários de imóveis. Trata-se de questionar o que acontece quando um bem essencial à vida é submetido a uma lógica que pode recompensar a escassez, incentivar o acúmulo e negligenciar as necessidades daqueles com menos recursos.

Uma casa pode legitimamente ser propriedade privada. Mas também é, ao mesmo tempo, um bem com função social. A tradição cristã preserva ambos os aspectos sem reduzir um ao outro.

O Catecismo da Igreja Católica nos lembra que a propriedade privada está subordinada à destinação universal dos bens (n. 2403). Paulo VI, na Populorum Progressio (n. 23), questionou a concepção da propriedade como um direito incondicional e absoluto. Francisco retomou essa tradição na Laudato si' (n. 93), insistindo que o direito à propriedade não pode ser separado das necessidades dos outros.

Essas referências não fornecem uma resposta automática para todas as controvérsias relativas a aluguéis, regulamentação, construção ou habitação pública. Elas, no entanto, impedem que a defesa dos direitos de propriedade se torne um argumento que exclua qualquer obrigação para com aqueles que precisam de um lar.

O problema surge quando o valor de um imóvel é considerado mais importante do que a segurança de seus habitantes; quando o aumento da lucratividade é apresentado como um objetivo suficiente; ou quando a vulnerabilidade econômica é interpretada como uma falha individual, sem examinar as condições sociais que a agravam.

A idolatria do dinheiro começa quando lhe é concedida a autoridade para decidir quais necessidades humanas merecem ser atendidas e quais podem ser deixadas desprotegidas. Nem todo lucro é injusto. Nem todo investimento é especulação. Mas nenhum retorno econômico pode ser considerado moralmente suficiente se suas consequências humanas forem sistematicamente excluídas da análise.

A questão cristã não é se os proprietários têm direitos. Eles têm. A questão é se esses direitos podem ser exercidos sem qualquer consideração pelo bem comum e por aqueles que não têm alternativas de moradia. Quando a propriedade é completamente separada de sua função social, ela deixa de ser uma questão puramente privada e se torna uma questão de justiça.

<><> Até mesmo os governantes choram quando a Babilônia cai

Em Apocalipse 18, os reis da terra, os mercadores e os marinheiros lamentam a queda da cidade. Cada grupo observa a ruína sob a perspectiva de seus próprios interesses. Os governantes perdem uma fonte de influência; os mercadores, seus lucros; os marinheiros, o centro de seus negócios. A cena revela uma forma de cegueira moral: aqueles que se beneficiavam daquela ordem percebem, acima de tudo, suas próprias perdas.

A crítica à política surge quando o poder deixa de ser entendido como um serviço e se torna um instrumento de preservação, privilégio ou dominação. No problema da habitação, essa responsabilidade não pode ser examinada por meio de slogans partidários. Requer a análise dos poderes de cada nível de governo, das decisões tomadas, dos recursos alocados, dos resultados obtidos e das medidas que foram rejeitadas ou adiadas. Requer também a distinção entre responsabilidades judiciais, econômicas, municipais, regionais e nacionais, sem atribuir todos os males de um problema complexo a um único ator.

Essa complexidade não pode servir de desculpa para a inação. Quando uma necessidade fundamental afeta persistentemente grandes segmentos da população, as políticas públicas devem demonstrar sua capacidade de abordar as causas profundas, e não apenas gerenciar as consequências. A habitação exige políticas sustentáveis ​​para construção e reabilitação, disponibilidade de moradias acessíveis, proteção social, segurança jurídica e medidas mensuráveis ​​que permitam verificar seu impacto.

A questão não é escolher entre o mercado e o Estado como se um deles pudesse resolver todos os problemas. Trata-se de determinar qual combinação de responsabilidades, regras e instrumentos melhor garante o acesso à moradia e protege os direitos das pessoas.

O livro do Apocalipse não oferece um programa de governo. Ele oferece um critério pelo qual se pode julgar qualquer governo: a prosperidade de alguns não pode, por si só, justificar o sofrimento evitável de outros.

E esse critério também deve ser aplicado às instituições religiosas. Quando uma igreja busca manter sua influência por meio da proximidade com o poder, protege seus privilégios ou evita certas acusações para não desagradar seus aliados, ela corre o risco de se entrincheirar no próprio sistema que deveria desafiar. A fé não pode se tornar uma justificativa sagrada para a ordem vigente.

<><> "Para que vocês não se tornem cúmplices dos pecados deles"

Esta é a frase decisiva de Apocalipse 18,4. O chamado para sair da Babilônia não se trata apenas de evitar o castigo que possa vir. Trata-se de impedir a cumplicidade. A questão deixa de ser o que os poderosos estão fazendo e passa a ser também o que nós mesmos aceitamos.

A cumplicidade pode manifestar-se na indiferença ao sofrimento alheio, na defesa de privilégios injustificáveis, na aceitação da exclusão de algumas pessoas ou na convicção de que a nossa responsabilidade termina onde começam as decisões dos governantes.

Também pode assumir a forma de uma neutralidade que favorece sistematicamente os mais fortes, uma prudência que nunca se compromete ou uma moralidade privada que se recusa a examinar as consequências públicas de suas próprias decisões.

Na área da habitação, abandonar a Babilônia significa rejeitar a ideia de que a falta de moradia é uma consequência inevitável da vida econômica. Significa defender políticas que possibilitem o acesso digno à moradia, apoiar aqueles que enfrentam despejo e exigir que as instituições ajam antes que a vulnerabilidade leve à miséria.

Mas isso também significa reconhecer as limitações das respostas individuais. A solidariedade entre vizinhos pode impedir que alguém fique sozinho; a ajuda material pode proporcionar alívio emergencial; uma comunidade pode oferecer abrigo temporário. No entanto, nenhuma dessas iniciativas substitui uma política pública capaz de abordar as dimensões estruturais do problema.

Compaixão sem justiça atenua as consequências. Justiça sem compaixão pode se tornar uma abstração administrativa. Uma sociedade digna precisa de ambas.

O livro do Apocalipse não autoriza a divisão do mundo em uma minoria de puros e uma maioria de culpados. Ele se dirige ao povo de Deus, que também pode ser encontrado na Babilônia. Ninguém está isento de examinar suas próprias práticas, interesses e silêncios simplesmente por pertencer a uma comunidade religiosa.

A Igreja não pode alegar indiferença às contradições que denuncia. Deve questionar-se sobre o que faz com seus bens, como utiliza seus recursos e em que medida suas prioridades se alinham à sua missão. Deve acompanhar os pobres sem transformá-los em objetos de caridade, defender a justiça sem selecionar suas denúncias com base na filiação política dos responsáveis ​​e exigir transparência das autoridades públicas, ao mesmo tempo que aceita o escrutínio de sua própria conduta.

A saída começa quando a fé deixa de ser uma declaração de identidade e se torna uma forma concreta de responsabilidade.

<><> Partir sem abandonar as vítimas

Existe uma interpretação dessa exortação que deve ser descartada: a ideia de que a única resposta cristã a um mundo injusto é se afastar dele, proteger a própria consciência e esperar que suas estruturas desmoronem.

Essa interpretação confunde romper com indiferença. Se a ordem é partir para não ser cúmplice, isso não pode significar que aqueles com recursos abandonam os que não têm. Não se liberta da lógica da exclusão descartando os já excluídos. Não se combate a injustiça deixando sozinhos aqueles que a sofrem.

Para sair da Babilônia, é preciso resistir aos seus mecanismos e, ao mesmo tempo, construir alternativas. Significa apoiar pessoas ameaçadas de despejo, exigir soluções habitacionais, promover políticas eficazes, defender direitos fundamentais e rever práticas que transformam uma necessidade básica em fonte de exclusão.

Significa também recuperar uma dimensão comunitária da vida que a lógica do lucro tende a enfraquecer. Uma casa não é meramente um espaço privado. É o lugar a partir do qual uma pessoa participa da sociedade, estabelece conexões, cuida dos outros e encontra um certo grau de estabilidade. Quando alguém perde sua casa, nem sempre é apenas uma propriedade ou um contrato que se perde: uma rede de relacionamentos pode ser rompida, e nenhuma quantia de ajuda financeira pode restaurá-la completamente.

O Evangelho não propõe uma sociedade sem conflitos, nem oferece soluções imediatas para todas as desigualdades. Mas estabelece uma exigência: as instituições e as decisões humanas devem ser julgadas também pelas suas consequências para aqueles que menos podem se defender.

A esperança cristã não consiste em aguardar passivamente o colapso da Babilônia. Consiste em recusar aceitar como definitivo aquilo que desumaniza e em trabalhar para organizar a vida em comum de uma maneira diferente.

<><> De qual cidade devemos partir?

A questão permanece em aberto. Cada era constrói suas próprias Babilônias e desenvolve uma linguagem particular para justificar seus privilégios. A nossa conhece a linguagem da eficiência, da competitividade, da segurança, do crescimento e da inovação. Todos esses conceitos podem expressar bens reais. Tornam-se problemáticos quando apresentados como argumentos absolutos, imunes a quaisquer considerações éticas.

Vivemos também rodeados de informações sobre o sofrimento alheio. Temos consciência das guerras, dos deslocamentos, da precariedade e da exclusão. Contudo, a visibilidade da injustiça não garante a sua responsabilização. Podemos observá-la, comentá-la e partilhar imagens sem alterar as nossas prioridades nem questionar as estruturas que contribuem para a sua produção.

A Babilônia não precisa que ignoremos tudo o que acontece. Para ela, basta que a informação não se transforme em consciência, que a indignação não leve ao comprometimento e que a crítica jamais alcance nossos próprios interesses. Portanto, "sair dela" não pode ser simplesmente um chamado para abandonar as convicções alheias. Deve se tornar um exercício de autoexame coletivo.

Que injustiças consideramos toleráveis ​​por beneficiarem nosso bem-estar? Que privilégios defendemos sem questionar como são mantidos? Que sofrimentos aceitamos como inevitáveis? Que silêncios protegem nossa posição? Que imagem de Deus usamos para justificar decisões que o Evangelho deveria desafiar?

A questão se estende à economia, à política, à cultura e às instituições religiosas. Estende-se também à nossa compreensão de propriedade, sucesso e segurança. Não porque toda prosperidade seja suspeita, mas porque nenhuma prosperidade pode estar isenta de responsabilidade moral.

Leão XIV nos lembrou que a crise habitacional exige uma análise de suas causas e um apelo por soluções por parte das autoridades. O Livro do Apocalipse acrescenta uma questão mais radical: estamos preparados para abandonar a cumplicidade que permite que o problema persista?

Não basta que Babilônia caia. É necessário que ela deixe de governar nossa consciência. Uma cidade pode cair e deixar intacta a lógica que a sustentava. Um império pode desaparecer e a idolatria do poder sobreviver. Um governo pode mudar e a indiferença para com os fracos permanecer. Até mesmo uma instituição religiosa pode ser reformada sem que sua necessidade de privilégios desapareça.

A verdadeira solução começa quando a dignidade humana prevalece sobre o lucro, a justiça sobre o privilégio e o serviço sobre a dominação. Começa quando deixamos de considerar inevitável que alguém perca a sua casa por não poder pagar, quando a política assume a sua responsabilidade e quando a Igreja não se limita a consolar as vítimas, mas ousa questionar as estruturas que as deixam desprotegidas.

"Saiam dela, meu povo." Não se trata de abandonar o mundo àqueles que o governam, mas de deixar de aceitar que seu domínio seja inevitável. Não se trata de nos proclamarmos superiores aos outros, mas de reconhecermos nossa própria cumplicidade. Não se trata de nos refugiarmos em uma fé sem história, mas de impedir que a fé se torne apenas mais uma engrenagem na máquina da ordem que deveria desafiar.

O Evangelho não pode proclamar a dignidade humana enquanto aceita que o direito a uma moradia digna seja subordinado, sem limites, à capacidade de pagamento. Não pode falar de fraternidade enquanto a falta de moradia é tratada como uma inevitabilidade econômica. E não pode proclamar a justiça de Deus sem perguntar que tipo de sociedade permite que uma senhora idosa seja despejada da casa onde viveu por mais de setenta anos.

A questão crucial não é se veremos a Babilônia cair, mas sim se estamos dispostos a parar de cooperar com sua lógica enquanto ela ainda persiste. A questão mais perturbadora em Apocalipse não é quando a cidade cairá, mas o quanto dela já incorporamos em nossa maneira de pensar, governar, crer e viver.

 

Fonte: Por Rafael Lázcano, para  Religión Digital