quarta-feira, 29 de abril de 2026

Por que analistas indicam que Brasil vive 'momento de ouro' na economia

Brasil voltou aos radares dos investidores estrangeiros. É o que apontam instituições financeiras e analistas internacionais, diante da disparada nos preços do petróleo, alta dos juros e valorização do real.

Um relatório do Bank of America (BofA), uma das principais instituições financeiras americanas, questiona se o país pode ser o "próximo ouro", em referência ao recente bom desempenho do ativo no mercado financeiro global.

Outra análise, do banco de investimentos Goldman Sachs, indica que o Brasil tem se destacado como um dos principais beneficiários da alta nos preços do petróleo provocada pelo conflito entre EUA, Israel e Irã e o fechamento do estreito de Ormuz.

Ao elevar a projeção de crescimento da economia brasileira 1,6% para 1,9% em 2026, o Fundo Monetário Internacional (FMI) também apontou o país como um dos que podem ser favorecidos no curto prazo pela crise, por ser exportador líquido de energia.

O bom momento do Brasil, aliás, chegou às reuniões de primavera organizadas pelo FMI em Washington D.C. em meados de abril, segundo interlocutores. O colóquio é um dos dois grandes encontros globais anuais da instituição e reúne ministros das finanças, presidentes de bancos centrais, gestores de fundos, executivos e outros participantes do setor financeiro global.

"O Brasil tem sido apontado como um dos locais mais atraentes do mundo emergente", disse Martín Castellano, chefe de pesquisa para a América Latina do Instituto de Finanças Internacionais (IIF, na sigla em inglês), em entrevista à BBC News Brasil.

"Mas naturalmente, muito se tem discutido sobre as próximas eleições e seus possíveis impactos nas políticas econômicas [do país]."

<><> Como o Brasil se beneficia da guerra?

Há uma leitura comum de que o Brasil — e a América Latina como um todo — tem se beneficiado de um pano de fundo global positivo para os países emergentes.

À primeira vista, pode parecer contraditório que um conflito com efeitos negativos para a economia mundial favoreça, ainda que marginalmente, nações específicas. Mas há uma explicação clara: o papel desses países, incluindo o Brasil, como exportadores de commodities, especialmente energia.

Com as interrupções na oferta de petróleo e as incertezas nesse mercado provocadas pela guerra no Oriente Médio, os preços do combustível subiram mais de 30% desde o final de fevereiro, antes do início da guerra.

Energia mais cara também encarece transporte, produção industrial e alimentos — especialmente em países dependentes de importações. Por isso, economias importadoras de commodities tendem a ser as mais prejudicadas, enfrentando inflação mais alta, desvalorização cambial e perda de renda.

Para os exportadores de energia ou commodities, porém, o cenário pode ser outro.

No caso do Brasil, que é considerado pelo FMI um exportador líquido de energia — ou seja, vende mais petróleo e derivados ao exterior do que compra — preços internacionais altos significam ganhos maiores. Esse efeito melhora os chamados "termos de troca" (a relação entre preços de exportação e importação), e pode impulsionar o crescimento econômico.

Por tudo isso, o FMI considerou em seu relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês), divulgado em abril, que a guerra deve ter "um pequeno efeito líquido positivo" sobre o Brasil em 2026, elevando o crescimento em cerca de 0,2 ponto percentual.

"É importante destacar também que o Brasil é um dos países com altíssima participação de energias renováveis, o que representa outro fator atenuante", afirmou a vice-diretora no Departamento de Pesquisa do FMI, Petya Koeva Brooks, em um pronunciamento à imprensa durante as reuniões nos EUA na semana passada.

<><> Atraindo investimentos

Para instituições financeiras como o Bank of America (BofA) e o Goldman Sachs, esse cenário também ajuda a consolidar o país como atrativo para investimentos estrangeiros.

Mas além do peso das commodities na economia local, o Brasil se tornou destaque neste momento por conta das altas taxas de juros e o enfraquecimento do dólar.

Segundo o relatório publicado pelo Bank of America (BofA) em 14 de abril, "os investidores seguem confortáveis em manter exposição ao real brasileiro e às ações brasileiras".

A percepção, de acordo com os economistas do BofA, é de que o aumento nas previsões de inflação diante dos impactos da guerra e da alta do petróleo devem manter os rendimentos atrativos, já que o Banco Central pode encontrar mais dificuldades para acelerar o ritmo de cortes de juros.

A avaliação veio após reuniões com clientes em Nova York, às vésperas dos encontros do FMI e do Banco Mundial, que também organiza discussões com investidores todos os anos em abril.

Analistas do Goldman Sachs também apontaram em um diagnóstico de 15 de abril que o Brasil segue sendo um foco interessante para investimentos por conta do impulso das matérias-primas.

O banco afirma, porém, que setores domésticos que vêm sofrendo com a crise global, como os ligados ao crescimento local (bancos, varejo, construção), podem ver sua situação melhorar à medida que os cortes de juros forem aplicados.

Mas a conclusão é positiva. "Na América Latina, o Brasil se destacou como beneficiário da alta dos preços do petróleo", dizem os economistas.

"Com avaliações, em nossa opinião, atrativas em relação ao nível das taxas, e com expectativas de novos cortes na taxa e alta sensibilidade do mercado acionário às taxas de juros, esperamos que as ações brasileiras tenham um desempenho superior", afirma o relatório.

Até 22 de abril, o capital estrangeiro na Bolsa de Valores (B3) somou R$ 64,42 bilhões neste ano, mais que o dobro do registrado em todo o ano de 2025 (R$ 25,47 bilhões), segundo dados da consultoria Elos Ayta.

Isso significa que 61,2% de tudo que entrou na bolsa brasileira em 2026 veio do exterior, uma tendência de elevação do fluxo internacional observada desde 2023.

Mais recentemente, porém, o mercado acionário brasileiro vem atravessando um período de certa turbulência.

O Ibovespa, principal índice da B3, registrou uma desvalorização acentuada de aproximadamente 10 mil pontos em um curto intervalo de tempo, após atingir a máxima histórica em 14 de abril.

Analistas afirmam que o episódio deve ser visto mais como um ajuste típico de fluxo após um período de alta prolongado do que um sinal de alerta estrutural para a economia brasileira.

Segundo um relatório do banco Santander, o movimento de venda de ações recente foi provocado principalmente por rotação global de fluxo, e não por deterioração dos fundamentos domésticos.

Uma estimativa do Instituto de Finanças Internacionais indica ainda que, a cada aumento de US$ 10 no preço do petróleo, o Brasil recebe cerca de US$ 4 bilhões adicionais em entradas de dólares nas contas externas.

"Isso representa aproximadamente 0,2% do PIB em termos de ingresso adicional de recursos", afirma Castellano.

Para o economista e seus colegas do IIF, a alta no preço das commodities também afeta positivamente o crescimento no país.

Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), o índice de evolução do preço médio das matérias-primas disparou desde o início da guerra.

O índice da Sondagem Industrial, que mede a variação do preço das commodities, saltou 10,8 pontos entre o quarto trimestre de 2025 e o primeiro trimestre de 2026, passando de 55,3 pontos para 66,1 pontos.

O indicador não ficava tão alto desde o segundo trimestre de 2022, quando o fluxo de comércio global ainda se recuperava dos efeitos da pandemia de covid-19.

O Brasil, que tem uma base de exportações mais diversificada do que outros países da América Latina, se beneficia especialmente desse movimento, diz Martín Castellano.

"Outro fator que considero importante é que a economia brasileira é relativamente fechada, portanto não está tão exposta a choques globais", avalia.

"Além disso, acredito que os investidores entendem que o governo brasileiro lidou bem com o choque das tarifas [impostas pelos] EUA, conseguiu negociar e o impacto foi relativamente limitado", diz Castellano.

Depois de impor tarifas elevadas contra produtos brasileiros — em alguns casos chegando a 40% ou 50%, sob o argumento de desequilíbrios comerciais e questões políticas — o governo de Donald Trump reverteu parte dessas medidas em novembro passado.

Há um temor, porém, de que o governo americano esteja se preparando para anunciar uma nova onda de tarifas, que podem ter o Brasil como alvo mais uma vez.

<><> 'A tempestade perfeita' para o real

O momento de crise no Oriente Médio também foi definido como "a tempestade perfeita" para o real pelo pesquisador sênior da Brookings Institution e ex-estrategista-chefe de câmbio do Goldman Sachs, Robin Brooks.

Segundo Brooks, a guerra entre os Estados Unidos e o Irã pode ser o gatilho para uma das maiores valorizações do real dos últimos anos. Em artigo do início de abril, ele projetou que o dólar poderia ficar abaixo de R$ 4,50.

Brooks lembra o que ocorreu em 2022 como um precedente. Após a invasão da Ucrânia pela Rússia, o petróleo do tipo Brent subiu 40% no primeiro trimestre e o real se valorizou 20%, tornando-se a moeda de melhor desempenho entre os emergentes.

"Assim que os mercados perceberam que as coisas não iriam sair do controle, o real brasileiro — a personificação de uma moeda de beta alto [ou seja, uma moeda que tende a demonstrar alta sensibilidade aos ciclos econômicos globais e ao apetite por risco] — decolou de forma significativa", aponta Brooks.

Para ele, esse movimento está se repetindo agora.

O real foi a moeda que mais se valorizou em relação ao dólar no mundo em 2026 até o momento. No acumulado do ano, a alta foi de 10,4% até 17 de abril, segundo levantamento da consultoria Elos Ayta.

Como país exportador e autossuficiente de petróleo, o Brasil tem se beneficiado diretamente da entrada adicional de dólares, o que pressiona a moeda nacional para cima.

O cenário também é reflexo da procura dos investidores estrangeiros pelo país, seja por meio da bolsa de valores ou de títulos de renda fixa, dizem os especialistas.

"O Brasil, assim como vários outros países, busca consolidar o apelo de sua moeda por meio de uma economia bem administrada", aponta Colin Lewis, professor da LSE (London School of Economics and Political Science), no Reino Unido.

Segundo o economista, contribuem para isso outros bons indicadores econômicos atuais do Brasil, tais como um mercado de trabalho aquecido e a previsão de crescimento de 1,9% estimada pelo FMI.

"(O primeiro-ministro britânico) Keir Starmer adoraria ter um crescimento de 2% no Reino Unido", brinca Lewis.

A última previsão do FMI é que a economia britânica deverá crescer apenas 0,8% em 2026, abaixo da projeção anterior de 1,3%.

"O Brasil está bem conectado globalmente e projetando sua imagem como um parceiro comercial confiável e previsível", acrescenta o economista britânico em entrevista à BBC Brasil.

<><> É apenas passageiro?

Mas por quanto tempo esse cenário positivo pode se manter?

Para Martín Castellano, do IIF, o avanço do Brasil em relação à produção de petróleo significa que as altas internacionais no preço da commodity devem continuar a beneficiar, ou pelo menos não afetar intensamente, o país.

O economista destaca a mudança estrutural da última década: "o Brasil era um importador líquido de energia até 2017, mas após mudanças significativas no setor e alterações nas políticas, o país emergiu como um exportador líquido de petróleo bruto".

Em 2024, pela primeira vez na história, o petróleo foi o produto que o Brasil mais exportou, superando até a soja. No ano passado, o feito se repetiu e o país se consolidou como o sétimo exportador do mundo.

No entanto, a indústria nacional importa cerca de 10% da gasolina e até 25% do diesel que consome, por conta da falta de capacidade das refinarias locais.

Ainda assim, os choques causados por variações internacionais no preço dos combustíveis afetam muito menos o país atualmente do que no passado. As exportações também auxiliam no crescimento da economia.

"Analisando todo o contexto global, o Brasil é percebido como uma economia bastante bem administrada, o que indica certa confiança nas mudanças estruturais que vêm ocorrendo internamente", avalia Colin Lewis.

Por outro lado, afirmam os especialistas, uma mudança nas taxas de juros pode sim afastar investidores estrangeiros, apesar de melhorar o acesso doméstico a crédito e aquecer a economia internamente.

Em março, o Banco Central cortou os juros pela primeira vez em quase dois anos, reduzindo a Taxa Selic em 0,25 ponto percentual, para 14,75% ao ano.

Atualmente, o mercado já espera uma nova redução, possivelmente para 14,5% ao ano.

Outros dois fatores também podem interferir no atual cenário: as eleições presidenciais marcadas para outubro e o preço global dos fertilizantes.

A incerteza em relação ao cenário eleitoral e o futuro das políticas públicas pode afastar alguns investidores, apontam os especialistas.

Após o anúncio da pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro, em dezembro do ano passado, o principal índice da Bolsa brasileira mergulhou em fortes perdas, indicando uma possível aversão ao risco no mercado financeiro brasileiro.

"Lula tem uma bagagem, mas de qualquer forma os mercados já o conhecem", avalia Lewis.

E segundo Martín Castellano, há uma preocupação específica com o futuro das políticas fiscais no país.

"A política fiscal tem sido uma espécie de calcanhar de Aquiles de longa data para a economia brasileira", diz, apontando as mudanças constantes nessa frente e falta de disciplina como motivos que podem afastar investidores.

Além disso, afirma, um aumento brusco no preço global dos fertilizantes pode ter um impacto negativo no setor agropecuário e no custo dos alimentos, neutralizando parte do ganho em outros setores.

O setor dos fertilizantes é visto como um alvo invisível da guerra no Irã, principalmente a ureia, um composto nitrogenado essencial para o cultivo em escala.

Para o Brasil, que tem a cadeia do agronegócio como propulsora da economia e não produz seus próprios fertilizantes, o baque pode ser grande.

"O Oriente Médio fornece aproximadamente um terço das importações brasileiras de fertilizantes nitrogenados. Ao mesmo tempo, o Irã responde por cerca de 20% das exportações brasileiras de milho, deixando a economia vulnerável a potenciais interrupções no fornecimento e no comércio", aponta o relatório do IIF sobre possíveis desdobramentos da crise para o Brasil.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

'Nunca vi isso antes': jogador inglês fala sobre estreia no futebol brasileiro e relação com torcida do Corinthians

Jesse Lingard, ex-atacante do Manchester United e da seleção inglesa, entrou para a história do futebol na última semana ao se tornar o primeiro inglês a marcar um gol na Copa do Brasil. Ele garantiu a vitória do Corinthians por 1 a 0 sobre o Barra, de Santa Catarina, em sua sétima partida pelo clube paulista e segunda como titular.

Lingard foi apresentado pelo Corinthians no início de março, e tem contrato assinado até o fim deste ano. Ele é apenas o segundo jogador nascido na Inglaterra a vestir a camisa do clube. O primeiro foi Colin Kazim, que nasceu no país, mas se naturalizou turco e atuou pelo time paulista entre 2017 e 2018.

A estreia de Lingard aconteceu no dia 1º de abril, no Maracanã, na derrota do Corinthians por 3 a 1 para o Fluminense. Naquele momento, o time atravessava uma fase turbulenta, com oito jogos seguidos sem vitória — sequência que acabou levando à demissão do técnico Dorival Júnior e a contratação de Fernando Diniz, ex-técnico interino da Seleção Brasileira.

Na primeira grande entrevista desde que chegou ao Brasil, Lingard falou com exclusividade à BBC News sobre adaptação ao país, o futebol brasileiro e sua relação com a torcida corintiana, conhecida como uma das mais apaixonadas.

"Eles [torcedores] dão 100% o tempo todo. E quando o time não está tão bem, vão até o centro de treinamento, falam com a gente... Eu nunca tinha vivido isso antes. Dá pra ver o quanto são apaixonados e o quanto querem que a gente jogue bem e vença. Isso dá ainda mais motivação pra ganhar no dia do jogo", afirmou.

Ele também falou sobre a expectativa de um confronto com Neymar, atualmente no Santos.

"É sempre bom jogar contra jogadores de nível mundial. Você consegue se testar contra esses caras", afirmou.

Aos 33 anos, Lingard atuou na Inglaterra durante praticamente toda a carreira. Em 2024, foi para a Ásia jogar pelo FC Seoul, da Coreia do Sul, onde ficou até dezembro de 2025.

Segundo o inglês, o que o atraiu ao Brasil foi a "competitividade" do futebol. Ele reconhece que a decisão é incomum para um jogador europeu, mas diz que recomendaria a outros colegas.

"Continua sendo um futebol de alto nível. Eu acredito que posso jogar nesse nível. Pra mim, foi muito sobre a competição — o tamanho do clube, o tamanho da liga. Eu tinha outras propostas, mas quis me desafiar", disse o inglês, deixando claro seu objetivo:

"Vim pra ganhar título. Vim pra vencer."

A menos de dois meses para a Copa do Mundo, o jogador vê o Brasil, Inglaterra e França como seleções muito fortes. Sua última Copa foi em 2018, quando a Inglaterra chegou à semifinal. Este ano, ele acredita que os ingleses vão longe.

"Sempre tivemos boas chances. Em grandes torneios, costumamos ir bem. Eu acredito nos caras, sei o quanto são bons — então não vejo por que não."

A repórter Ione Wells conversou com o jogador no centro de treinamento do clube, em São Paulo, na última quinta-feira (23/4). Confira os principais trechos da entrevista.

•        Há poucos dias você se tornou o primeiro jogador inglês a marcar um gol na Copa do Brasil. Como é essa sensação?

Jesse Lingard: É uma sensação incrível. Como eu já disse, antes de vir pra cá eu já conhecia o clube, sabia o tamanho dele. Então, pra mim, vir pra cá foi uma grande honra. E estou aproveitando cada momento.

•        Muitos jogadores europeus vão atrás de salários altos na Arábia Saudita ou na MLS [Major League Soccer, a liga profissional de futebol dos Estados Unidos]. O que te atraiu ao Brasil?

Lingard: Acho que foi a competitividade. Ainda é um futebol de alto nível. E eu acredito que ainda posso jogar nesse nível. Então, pra mim, foi muito sobre isso, a competição. Como eu disse, o tamanho do clube, o tamanho da liga. Eu ainda quero me testar. Tive outras propostas, mas sempre busco me desafiar.

•        Você acha que outros jogadores ingleses deveriam considerar o Brasil? Não é um destino comum.

Lingard: Não é comum, é diferente. Mas eu gosto de ser diferente. Acho que, para outros jogadores ingleses, e europeus, é uma opção muito boa.

•        Memphis Depay [jogador do Corinthians], seu ex-colega no Manchester United, falou com você antes de vir pra cá. Ele disse algo que te fez pensar em vir?

Lingard: A gente trocou algumas mensagens antes de eu vir. Ele falou do clube, do que representa, e isso me atraiu ainda mais. E ter ele aqui também ajuda muito, me ajudou bastante quando cheguei.

•        Teve algo específico que ele disse que te convenceu?

Lingard: Não muito, foi uma conversa mais particular. Mas, como eu disse, ele me ajudou bastante desde que cheguei. Falou muito bem daqui, disse que gostou quando chegou e se adaptou rápido. Então, pra mim, é isso: adaptação.

•        Quais foram suas primeiras impressões do Brasil? Já conseguiu conhecer um pouco do país ou foi mais treino?

Lingard: O calendário está bem cheio. Estamos treinando todos os dias. Acho que tivemos uns dois dias de folga no mês. Tem jogo a cada três dias. Então essa parte de conhecer melhor o país vai ter que esperar. Por enquanto é treino e jogo, mas isso tem sido bom. Eu precisava disso, estava sem jogar desde dezembro.

•        Já aprendeu algumas palavras em português?

Lingard: Aprendi, mas não posso falar todas [risos]. Mas o básico: "bom dia", "boa tarde", "boa noite", "obrigado", "por favor".

•        É difícil chegar num lugar novo com outra língua?

Lingard: Sim. Na Coreia eu tinha tradutor, aqui não tenho. Alguns jogadores falam um pouco de inglês e ajudam. É tudo diferente, cultura, idioma, mas estou aprendendo e quero aprender português enquanto estiver aqui. O coreano era muito difícil. Aqui acho que consigo aprender melhor.

•        Sua estreia foi no Maracanã, um estádio lendário. Você entrou com o time perdendo por 2 a 0. Como foi aquele momento?

Lingard: Foi incrível estar de volta ao campo. Eu estava há meses sem jogar, treinando sozinho, o que é difícil. Você quer estar com o time, com a torcida. Então voltar a jogar foi uma sensação muito boa.

•        E o Maracanã?

Lingard: Incrível. Mas, pra mim, o mais importante é ganhar. Eu entrei em uma situação difícil, então precisei tentar jogar no meu melhor nível, ajudar o time o máximo possível. Mas, no fim, não conseguimos o resultado.

•        Como você compara o estilo de jogo no Brasil com Coreia e Inglaterra?

Lingard: É bem diferente. É muito físico. Eu percebi isso logo no começo, nos treinos, quando cheguei. Mas também tem um lado tático forte. Com a chegada do novo técnico [Fernando Diniz], ele tem sido bem presente com os jogadores, trabalha muito no individual, e isso ajuda a tirar o melhor de mim. Quando você tem um treinador que trabalha assim, mais próximo, faz diferença. E, como eu disse, ele tem sido muito, muito tático com a gente.

•        Os torcedores do Corinthians são conhecidos como alguns dos mais apaixonados do mundo. Eles se chamam de "loucos". Você já sentiu isso?

Lingard: Percebi isso desde o primeiro dia, pra ser sincero. No estádio, nos jogos em casa, fora… eles dão 100% o tempo todo. E quando o time não está tão bem, eles vão até o centro de treinamento. Dá pra ver o quanto eles são apaixonados, o quanto querem que a gente jogue bem e vença. Isso dá ainda mais motivação pra ganhar no dia do jogo.

•        Teve algum momento mais intenso que você viveu com a torcida?

Lingard: Acho que isso de eles irem ao centro de treinamento. Quando você está em uma fase ruim… eu nunca tinha vivido isso antes. Torcedores entrando no CT e falando com a gente, nunca tinha passado por isso. Então foi algo diferente. Mas eles merecem estar no topo, ganhando jogos sempre, então eu entendo de onde vem isso.

•        Você falou que essa paixão pode ser incrível, mas também pode ser difícil, com a cobrança. Como você lida com essa pressão?

Lingard: Você tem que ser forte mentalmente. Às vezes é difícil, mas precisa ser resiliente. É um clube enorme, sempre vai ter muita expectativa pra ganhar jogos. Quando você não consegue, vem a cobrança. Mas, como eu disse, é preciso ter a cabeça forte. Eu já passei por essa fase na minha vida e hoje estou em um ponto em que consigo lidar com as críticas.

•        Nos momentos mais difíceis por causa dessa pressão, o que te ajudou?

Lingard: Minha família e meus amigos próximos. Eles sempre foram importantes pra mim. Quando as coisas não estão indo bem, você pode ir pra casa, conversar com eles, se abrir. Eles entendem de onde a gente veio e o quanto trabalhamos pra chegar até aqui. Ter eles por perto tem sido muito importante.

•        Você mencionou que o Corinthians vive um momento um pouco turbulento, com novo técnico… o Memphis Depay está lesionado. Você sente pressão pessoal para ajudar o clube a reagir?

Lingard: Pra ser sincero, não sinto pressão. Eu cheguei e estou tentando ser eu mesmo, me adaptar à situação. É difícil, mas é trabalhar duro nos treinos e entrar bem nos jogos.

•        Tem algo específico que você quer conquistar nesse período no Corinthians?

Lingard: Ganhar. Isso é o mais importante. Títulos são importantes no futebol. Vim pra ganhar, levantar troféu — esse é o principal objetivo.

•        Brasileirão ou Libertadores?

Lingard: A Libertadores seria algo enorme. É um grande torneio. Mas qualquer título já está bom. Alguns troféus seriam ótimos.

•        Quero falar um pouco sobre como esse momento se encaixa na sua carreira. Você foi revelado pelo Manchester United e viveu o clube desde muito jovem, desde os sete anos. Como esse período moldou você como jogador e como pessoa, e como isso influencia o que você está fazendo agora?

Lingard: Estar em um clube como o Manchester United desde os sete anos e, claro, ficar lá por muitos anos pode ser difícil. Mas aquele período foi incrível: conquistamos coisas grandes no clube. Só que chega um momento em que você precisa seguir em frente. E, pra mim, foi a Coreia. Muita gente ficou surpresa com essa decisão. Mas eu achei que, naquele momento, foi bom pra mim me afastar um pouco, clarear a cabeça e voltar a focar no futebol. Como eu disse, os capítulos vão mudando, e agora estou aqui. Tive um caminho diferente do de muita gente... mas eu sou assim mesmo, gosto de explorar, tentar coisas novas. É por isso que estou aqui.

•        Era isso que eu queria te perguntar… Você preferiria ser um jogador de um clube só ou acha que essa experiência de jogar em lugares diferentes valeu a pena, olhando pra sua carreira hoje?

Lingard: Acho que tudo na vida já está meio escrito. Então, o que vier, eu sou sempre grato. Respeito muito a minha trajetória. Já aconteceu, já está escrito. Então você tem que aproveitar o caminho e seguir trabalhando duro.

•        Mas você sente que jogar em diferentes lugares foi algo importante, olhando agora pra sua vida?

Lingard: Sim, 100%. Conheci pessoas que vão ser amigas pra vida toda. Ir pra novos clubes, conhecer gente nova, viver experiências diferentes com torcedores… tudo isso vai ficar como uma grande lembrança e é uma parte importante da minha vida.

•        Você ainda mantém contato com muitos jogadores com quem atuou no United?

Lingard: Sim, acho que é sempre importante manter contato com velhos amigos. O Bruno [Fernandes], por exemplo, é alguém com quem eu falo bastante. A gente conversa bastante pelo Instagram. Ele chegou um pouco depois de mim no United e, sinceramente, tem ido muito, muito bem. Ele sempre quis ver o melhor de mim lá, sempre disse isso. Sempre foi um cara presente, com quem posso contar. Acho importante isso entre companheiros, poder trocar ideia sobre as coisas.

•        Estamos a poucas semanas da Copa do Mundo. Você foi convocado para a Copa em 2018. Como é esse período para os jogadores?

Lingard: Pode ser um pouco complicado, porque você está pensando na Copa, quer estar no time e evitar lesões… Mas ainda faltam quatro ou cinco jogos da temporada, então os jogadores ficam mais cautelosos. Ao mesmo tempo, querem terminar a temporada bem e ajudar o time. Mas é preciso ter cuidado com lesões, cuidar do corpo e se preparar para um grande torneio.

•        Quais são as chances da Inglaterra?

Lingard: Acho que sempre tivemos boas chances. Em 2018 fomos muito bem, e depois na Euro também. Em grandes torneios, normalmente vamos bem.

•        Dá pra ganhar?

Lingard: Acho que sim. Eu acredito nos caras. Tenho confiança neles. Sei o quanto são bons, então não vejo por que não.

•        E o Brasil?

Lingard: O Brasil é muito forte, pra ser sincero. Acho que Inglaterra, Brasil e França são seleções muito fortes. Assisti ao jogo entre França e Brasil algumas semanas atrás, foi um grande jogo. Acho que eles também têm boas chances. E com a situação do Neymar, se ele voltar, vai ficar ainda mais interessante.

•        Você pode enfrentar o Neymar. Como vê isso?

Lingard: É bom. Eu conheço ele, a gente já conversou algumas vezes. Vejo ele às vezes no verão…Ainda não falei com ele desde que cheguei aqui, mas é sempre bom jogar contra jogadores de alto nível, de classe mundial. Você consegue se testar contra esses caras.

•        Algum jogador brasileiro que você admira mais?

Lingard: Neymar, com certeza. Neymar e Ronaldinho. Já vi o Ronaldinho algumas vezes também. É um cara muito humilde, gente boa. Então seriam esses dois.

•        Onde você se vê nos próximos anos? O que seria sucesso aqui?

Lingard: Não gosto de pensar muito à frente, pra ser sincero. Gosto de viver o momento, aproveitar. Claro que você pensa um pouco, mas estou feliz aqui. Estou jogando o esporte que amo desde criança. Então estou feliz com a minha situação agora.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

A caneta emagrecedora 'pirata' que brasileiros se arriscam comprando no Paraguai

Quando a agente da Receita Federal na fronteira entre o Brasil e o Paraguai sinalizou ao mototaxista que parasse, o nervosismo de Mariane, na garupa, já chamava atenção.

Suando e com as costas curvadas, a advogada de 42 anos explicava na Alfândega de Foz do Iguaçu, no Paraná, que só tinha comprado no país vizinho um pote grande de Nutella. Ela estava mentindo.

Por trás de um casaco roxo amarrado na cintura, colado com fitas adesivas no seu cóccix, estavam sete canetas emagrecedoras escondidas.

A embalagem apontava serem de retatrutida, uma molécula experimental em fase de testes que ainda não foi aprovada para uso humano ou para ser vendida em lugar nenhum no mundo.

Mas produtos que dizem ter o novo medicamento já são vendidos livremente no Paraguai, de onde são trazidos em grandes quantidades para o Brasil. Também é fácil encontrar formas de comprar pelas redes sociais.

"Tenho mais medo da gordura do que de aplicar esse medicamento em mim", afirmou Mariane à BBC News Brasil ao ser flagrada com o produto. Seu nome real foi preservado nesta reportagem.

A advogada conta que começou a usar canetas do Paraguai há seis meses e que já conseguiu perder mais de 20 kg.

Ela diz que comprava de um vendedor que conheceu nas redes sociais e que entregava em sua casa, em São Paulo, mas resolveu ir por conta própria pela primeira vez ao Paraguai. Assim, conseguiria economizar mais de R$ 300 por unidade.

"Com o preço no Brasil, eu não consigo manter meu tratamento. Agora, vou ver o que fazer", disse Mariane, antes de ser autuada pela Receita e liberada para fazer o caminho de volta à capital paulista.

A retratutida ainda está sendo desenvolvida pela farmacêutica americana Eli Lilly, criadora e detentora da patente do produto. A expectativa em torno dela é grande, porque os testes iniciais mostraram um potencial de promover um emagrecimento ainda mais rápido do que as canetas campeãs de venda desse mercado, de semaglutida (Ozempic) e de tirzepatida (Mounjaro).

Não há previsão da empresa sobre quando o produto vai chegar de fato ao mercado.

Na Alfândega de Foz do Iguaçu, porém, há apreensões diárias de "retatrutida" feitas pelos agentes da Receita Federal e da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa).

Elas se somam às apreensões de vários tipos de canetas e ampolas de medicamentos emagrecedores com outros princípios ativos — especialmente, a tirzepatida—, que também são proibidas pela Anvisa de entrar no Brasil.

Nos três primeiros meses de 2026, as apreensões de canetas emagrecedoras já superam, em valor, todo o ano de 2025 no Paraná, Estado onde as autoridades brasileiras realizaram o maior número de operações para tentar conter a entrada ilegal destes medicamentos no país. Foram mais de R$ 11 milhões em apreensões em três meses do ano.

Também há número relevante de apreensões em São Paulo e Mato Grosso do Sul, que também faz fronteira com o Paraguai.

Em Foz do Iguaçu, as canetas já são o segundo produto mais apreendido do ano, depois do celular, segundo a Receita. E as canetas de retatrutida já equivalem a quase 10% do total de apreensões desse tipo de produto em todo o Paraná, segundo dados obtidos pela BBC News Brasil.

"A gente fica muito preocupado. É um produto totalmente irregular, e que a gente está percebendo que as pessoas falam muito disso no Brasil e nas redes sociais", diz Cláudio Marques, delegado-adjunto da Receita em Foz do Iguaçu.

A médica Carolina Janovsky, da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e coordenadora do serviço de obesidade da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), ressalta os riscos de usar esse medicamento.

"Ninguém sabe se teve controle sanitário correto, se a dose que diz é a que tem, se está contaminado, se tem outra substância misturada. Então, pode haver efeitos colaterais graves", diz Janovsky.

Em duas manhãs em que esteve acompanhando o trabalho da Receita Federal em Foz do Iguaçu, a BBC News Brasil flagrou três apreensões desses medicamentos — em duas, a retatrutida estava presente.

Cinco caixas deste medicamento foram flagradas dentro de uma sacola preta abandonada no chão de uma van que fazia transporte de passageiros entre Ciudad del Este e Foz. Ninguém que estava no veículo assumiu a princípio o contrabando.

"Isso é bem comum no caso de produtos como cigarros, medicamentos, anabolizantes. As pessoas descem do veículo, mas deixam o pacote para trás", explicou Caio Santana, auditor da Receita em Foz do Iguaçu, à reportagem durante a apreensão.

Como não foi identificado um dono, a responsabilidade recairia sobre o motorista e a dona da van. Os dois foram comunicados que o veículo seria apreendido.

"Esse é meu ganha-pão, nunca iria arriscar meu trabalho por conta de canetas", contou, chorando, a dona da van.

A situação só se acalmou quando um passageiro resolveu assumir a responsabilidade.

"Só porque fiquei com pena dela, mas não é minha", disse o jovem, que também teve dois celulares apreendidos. "Eu trago iPhones para vender, não vou mexer com canetas."

<><> Em fase de testes

A retatrutida atua de forma semelhante à de outros medicamentos para emagrecer que são cada vez mais populares no Brasil, em um mercado que movimentou cerca de R$ 12 bilhões no ano passado, segundo a Close Up, consultoria que produz análises do mercado farmacêutico.

Essa molécula se liga a receptores-chave presentes no cérebro e no trato gastrointestinal envolvidos no metabolismo, diminuindo o apetite e desacelerando a digestão.

A diferença é que a retatrutida tem a capacidade de agir em três receptores hormonais, enquanto a semaglutida atua em único receptor e a tirzepatida, em dois.

A Eli Lilly diz que o medicamento vem apresentando bons resultados na terceira e última etapa de testes, feitos em larga escala para confirmar se realmente funciona e é seguro.

A farmacêutica diz que ele pode levar a uma perda de até 28,7% em cerca de 15 meses. Em comparação, a semaglutida chega a 15% e tirzepatida, em torno de 20%, segundo suas fabricantes.

Espera-se que os testes da retatrutida sejam concluídos neste ano. Se os resultados forem positivos, a empresa poderá iniciar o processo para comercializá-la.

À BBC News Brasil, a farmacêutica disse que não há previsão de lançamento comercial e que a molécula só está disponível apenas nos seus ensaios clínicos.

"Versões não originais de candidatos a medicamento da Lilly não foram testadas, não são regulamentadas e podem ser perigosas — em alguns casos, fatais", afirmou a empresa em nota, em que ressaltou ainda que as versões vendidas no Paraguai são "provenientes de fornecedores estrangeiros ilegais".

Em um alerta emitido em junho de 2025, a Dinavisa, a "Anvisa paraguaia", esclareceu que os produtos vendidos atualmente como retatrutida também não são aprovados para uso geral ou venda no país.

"Esses produtos não têm registro sanitário e podem conter ingredientes não declarados ou substâncias perigosas para a saúde. Se você estiver utilizando algum desses produtos, interrompa o uso imediatamente", disse a agência.

O produto que mais tem sido comprado por brasileiros no Paraguai diz na embalagem ser de uma indústria farmacêutica com sede em Leipzig, na Alemanha. O endereço aponta para uma rua residencial da cidade.

A BBC News Brasil tentou contato por meio dos canais informados em diversos sites que dizem ser do laboratório, mas não obteve resposta.

<><> O comércio livre no Paraguai

Nas ruas da região central de Ciudad del Este, anúncios em português de canetas emagrecedoras estampam portas de farmácia, e ampolas infláveis gigantes dão boas-vindas aos brasileiros. Algumas lojas oferecem brindes a quem postar no Instagram contando que comprou o produto.

Uma atendente de farmácia disse à reportagem não haver qualquer restrição de quantidade para quem compra estas canetas — e que não era necessário apresentar receita médica, embora isso seja exigido oficialmente.

Quando questionada se não havia riscos de o produto ser apreendido ao tentar entrar no Brasil com ele, a orientação foi "esconder bem na mala".

Brasileiros pegos na fronteira costumam dizer que desconhecem as regras. Caroline, uma moradora de Foz do Iguaçu, tentava trazer quatro ampolas de tirzepatida quando foi parada pela Receita na Ponte da Amizade. Todas eram de uma marca proibida e foram apreendidas.

"A farmácia dizia que essa marca estava liberada", justificou à reportagem Caroline, que teve seu nome trocado nesta reportagem.

Em seis meses, ela contou, havia perdido mais de 40 kg usando os medicamentos paraguaios. "Nunca havia sido parada. Agora, vou me informar mais."

Além da retatrutida, a Anvisa atualmente também veta outras várias marcas de canetas e ampolas de tirzepatida vindas do Paraguai: Gluconex, Tirzedral, Lipoless, Lipoland, T.G e Tirzec.

Essas marcas foram proibidas pela Anvisa depois de a agência identificar que são vendidas amplamente pelas redes sociais no Brasil, o que é proibido para medicamentos sem regulamentação.

"São medicamentos sem registro sanitário, que não tiveram a qualidade, eficácia e segurança de uso avaliadas no Brasil", disse a Anvisa à BBC News Brasil.

As canetas que não foram expressamente vetadas pela agência podem ser trazidas do exterior, contanto que a pessoa tenha uma receita em seu nome e compre apenas o suficiente para três meses de tratamento, no máximo.

Mas a Anvisa alerta que "não tem como se pronunciar sobre a segurança de medicamentos que não estão registrados no Brasil".

<><> Os riscos do transporte clandestino

As canetas e ampolas apreendidas vêm escondidas das mais variadas formas, segundo auditores da Receita: dentro de embalagens de salgadinhos, fones de ouvido, garrafas térmicas — ou até mesmo em canos de escape de motos e motor de carros.

Essa forma de transporte coloca ainda mais em risco a saúde de quem usa o medicamento, ressalta a endocrinologista Carolina Janovsky.

Quando fechadas em embalagem, as canetas precisam ser armazenadas em ambiente refrigerado, entre 4ºC e 9ºC. "Quando está em um ambiente quente, teoricamente, ela estraga", diz Janovsky.

"O risco não é só perder efeito. Se a caneta estiver contaminada, quando esquenta, você está fazendo um meio de cultura de bactérias. E aí você vai injetar direto no seu corpo, o que pode levar a complicações graves."

Casos de pessoas que tiveram problemas de saúde sérios e até mesmo morreram depois de usar canetas emagrecedoras do Paraguai foram noticiados nos últimos meses.

O delegado da Polícia Federal de Foz do Iguaçu, Emerson Rodrigues, diz que as canetas são a "bola da vez" no contrabando vindo do Paraguai.

"A gente já viu isso com os cigarros paraguaios, depois o cigarro eletrônico, anabolizantes", conta. Rodrigues avalia que a febre em busca de canetas paraguaias só deve arrefecer caso o preço desse tipo de produto diminua no Brasil.

Hoje, o Mounjaro, única marca com venda permitida no Brasil de tirzepatida, custa a partir de R$ 1,5 mil nas principais farmácias, na dose mais baixa e com desconto oferecido pelo laboratório.

No Paraguai, é possível encontrar canetas vendidas como "similares" por R$ 300. As ampolas, que são aplicadas por meio de uma seringa, saem ainda mais baratas, a partir de R$ 35.

No Brasil, a patente da tirzepatida só deve cair em 2033. A da semaglutida, do Ozempic, caiu em março, mas não deve derrubar os preços tão cedo, como mostrou uma reportagem recente da BBC News Brasil.

Segundo a Anvisa, atualmente existem oito processos em análise para o registro de novos medicamentos com o mesmo princípio ativo do Ozempic.

No Congresso, tramita em fase inicial um projeto de lei para suspender temporariamente a patente da tirzepatida para ampliar o acesso a tratamentos para obesidade, ainda restritos devido ao alto custo.

<><> 'Há indícios fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo'

As apreensões da Receita, Polícia Federal e Polícia Rodoviária Federal no Paraná têm aumentado de escala.

Em março, durante a visita da reportagem à alfândega, agentes na sede da Receita em Foz do Iguaçu abriam caixas e contabilizavam centenas de canetas e ampolas apreendidas em uma única operação. A carga encontrada em um carro e uma casa lotados de medicamentos foi avaliada em cerca de R$ 2 milhões.

Cláudio Marques, delegado da Receita, explica que grupos criminosos têm percebido a vantagem econômica da venda desses produtos — muito mais do que o cigarro, por exemplo, produto muito conhecido por ser contrabandeado pela fronteira paraguaia.

"Esses medicamentos acabam sendo muito mais vantajosos para grupos criminosos porque é um produto pequeno, não requer uma logística grande de veículos, como o cigarro", explica Marques.

A Polícia Federal também já identifica o envolvimento de grandes organizações criminosas no comércio dessas canetas.

"Temos apreensões na casa de milhares de canetas quase que diariamente. São indícios bem fortes de que grupos criminosos estão operando nesse ramo", diz o delegado Emerson Rodrigues.

Qualquer apreensão que é feita, explica o delegado, é encaminhada para a Receita, que instaura um procedimento administrativo, posteriormente enviado ao Ministério Público Federal (MPF), que vai decidir se apresenta denúncia para instaurar um inquérito.

"Isso vai depender se a pessoa está transportando pela primeira vez ou não, se ela já tem registro de outras apreensões", explica Rodrigues.

Uma vez investigada, a pessoa pode pegar de 10 a 15 anos de prisão, segundo o delegado, por poder ser condenada por um crime hediondo que coloca em risco a saúde pública.

 

Fonte:  BBC News Brasil 

 

Jackson De Toni: Patologias sociais e polarização política

A histeria coletiva configura-se como um fenômeno social recorrente ao longo da história, manifestando-se em diferentes contextos culturais e políticos sob a forma de contágio psíquico, mobilização afetiva e produção de comportamentos coletivos irracionais. Este ensaio propõe uma análise da histeria coletiva enquanto expressão das patologias sociais contemporâneas, articulando contribuições da psicologia social, da psicanálise e da ciência política.

A partir de uma perspectiva histórico-crítica, examinam-se tanto suas raízes conceituais quanto suas manifestações modernas, especialmente no contexto da comunicação de massa. Argumenta-se que a histeria coletiva não apenas revela tensões estruturais da sociedade contemporânea, mas também evidencia formas de sofrimento psíquico socialmente compartilhadas, que operam na interface entre o individual e o coletivo.

A história das sociedades humanas é atravessada por episódios em que o comportamento coletivo parece escapar aos parâmetros da racionalidade individual, assumindo formas de excitação, medo ou violência compartilhada. Tais fenômenos, frequentemente descritos como histeria coletiva, constituem momentos privilegiados para a análise das patologias sociais, isto é, das formas pelas quais o sofrimento psíquico se organiza e se expressa no nível coletivo.

A noção de “pandemônio comungado” sintetiza essa dinâmica paradoxal: trata-se de uma comunhão do caos, na qual indivíduos, ao se agregarem em massa, passam a compartilhar estados emocionais intensificados, frequentemente dissociados de processos reflexivos. A histeria coletiva, desta maneira, não deve ser entendida como uma anomalia episódica, mas como uma manifestação estrutural das condições simbólicas, sociais e afetivas que organizam a vida contemporânea.

Historicamente, o conceito de histeria remonta à tradição médica da Antiguidade, inicialmente associado a explicações fisiológicas, como a teoria do “útero errante”, a visão original e equivocada que dominava a medicina do século XIX. No entanto, com o surgimento da psicopatologia moderna e, sobretudo, com a psicanálise, a histeria passa a ser compreendida como uma formação psíquica complexa, na qual conflitos inconscientes são convertidos em sintomas corporais ou comportamentais.

Essa mudança de paradigma desloca a etiologia da histeria do campo orgânico para o simbólico, permitindo compreendê-la como uma linguagem do inconsciente. O sintoma histérico deixa de ser visto como um fenômeno sem sentido e passa a ser interpretado como uma forma de expressão de desejos reprimidos e conflitos psíquicos não elaborados.

A transposição desse modelo para o plano coletivo implica reconhecer que os mecanismos psíquicos individuais podem operar em escala ampliada. A histeria coletiva emerge, assim, como um fenômeno em que emoções, crenças e comportamentos se disseminam rapidamente entre indivíduos, produzindo estados de excitação generalizada.

Nesse contexto, a massa funciona como um espaço de amplificação psíquica, no qual conteúdos inconscientes são compartilhados e intensificados. A massa redefine e captura as subjetividades.

<><> Contágio psíquico e dinâmica de massas

A histeria coletiva pode ser compreendida como uma forma de contágio psíquico, sustentada por mecanismos de identificação, sugestão e imitação. Esses processos atravessam os indivíduos minando sua autonomia crítica, favorecendo a adesão a narrativas coletivas que frequentemente operam por simplificação e polarização.

Do ponto de vista psicanalítico, a inserção do sujeito na massa implica uma regressão a formas mais primitivas de funcionamento psíquico, nas quais predominam afetos intensos e pouco elaborados. A dissolução parcial das fronteiras do ego permite que conteúdos inconscientes sejam projetados e compartilhados, criando uma espécie de “campo afetivo comum”.

Essa dinâmica evidencia que o sujeito não é plenamente autônomo, sendo constantemente atravessado por influências sociais, culturais, políticas e religiosas inconscientes. A experiência coletiva, portanto, não apenas reflete estados psíquicos individuais, mas também os produz e os reorganiza, configurando novas formas de subjetividade.

Na contemporaneidade, a histeria coletiva assume novas configurações, especialmente em função da expansão dos meios de comunicação e das redes sociais digitais. A circulação acelerada de informações, frequentemente desprovida de verificação crítica, favorece a emergência de pânicos morais, teorias conspiratórias e movimentos de mobilização afetiva em larga escala.

Esse cenário pode ser descrito como uma intensificação do contágio psíquico, mediado por tecnologias que amplificam a visibilidade e a velocidade das interações sociais. O espaço digital funciona como um ambiente propício à formação de bolhas afetivas e “câmaras de eco”, nas quais discursos homogêneos são reforçados e divergências são excluídas ou demonizadas. Criando uma falsa sensação de consenso e isolando os indivíduos de visões opostas.

Além disso, a crise das instituições tradicionais e a fragmentação das referências simbólicas contribuem para a produção de um sujeito mais vulnerável à instabilidade emocional e à busca por pertencimento. A histeria coletiva, nesse contexto, pode ser entendida como uma tentativa de restaurar laços sociais por meio da partilha de afetos intensos, ainda que esses afetos sejam (auto)destrutivos.

A relação entre histeria coletiva e violência revela-se particularmente relevante na análise das patologias sociais. Ao longo da história, episódios de mobilização coletiva intensa frequentemente resultaram em práticas persecutórias, exclusões sociais e ações violentas.

Esses fenômenos evidenciam como a histeria coletiva pode funcionar como mecanismo de legitimação da violência, ao construir narrativas que desumanizam determinados grupos – geralmente minoritários ou contrários ao pensamento hegemônico, e justificam sua exclusão. A projeção de conteúdos psíquicos indesejáveis sobre o “outro” permite que o grupo preserve uma imagem idealizada de si mesmo, ao custo da produção de inimigos externos.

Na contemporaneidade, esse processo se manifesta em diferentes formas, incluindo discursos de ódio, cancelamentos e polarizações extremas. A violência simbólica torna-se, assim, um elemento central das dinâmicas políticas coletivas, frequentemente precedendo ou acompanhando formas de violência material.

<><> As dimensões simbólicas e seu impacto político

A compreensão da histeria coletiva exige considerar a dimensão simbólica que estrutura a experiência humana. O inconsciente, longe de ser uma instância puramente individual, possui uma dimensão social-coletiva, sendo constituído e atravessado por discursos, valores e práticas culturais. É por isso que os fenômenos coletivos devem ser analisados como formações simbólicas complexas, nas quais se articulam desejos, medos e fantasias compartilhadas. A linguagem desempenha papel central nesse processo, ao organizar e dar sentido às experiências coletivas.

A construção de narrativas – sejam elas religiosas, políticas ou midiáticas – contribui para a formação de identidades coletivas e para a mobilização de afetos. A histeria coletiva pode ser vista, portanto, como uma manifestação extrema dessa dinâmica, na qual o simbólico se intensifica ao ponto de produzir efeitos concretos no comportamento social. Uma destas dimensões é a produção social de um “inimigo absoluto”.

A figura do “inimigo absoluto” permanece eficaz porque ela opera menos no plano jurídico-institucional e mais no plano simbólico e afetivo. Mesmo em Estados laicos, a cultura política não é neutra: ela herda matrizes religiosas, morais e míticas profundamente enraizadas. Três fatores ajudam a explicar esse mecanismo. A simplificação da complexidade social: em contextos de crise (econômica, moral, identitária), o “inimigo absoluto” oferece uma explicação simples para problemas estruturais complexos.

Ele personaliza o mal e desloca frustrações difusas para um alvo identificável. A religião funciona como um repertório simbólico de fácil reconhecimento, sobretudo para camadas populares; a produção de coesão identitária. Ao definir um “outro” como ameaça existencial, constrói-se um “nós” moralmente puro, precisamente aqui surge o fundamento para uma dimensão religiosa da histeria coletiva. Isso reforça pertencimento, lealdade e disciplina política, especialmente em grupos que se sentem culturalmente ameaçados.

Há uma espécie de fusão entre uma identidade moral religiosa e uma identidade política; e finalmente a suspensão do dissenso democrático: se o outro é visto como inimigo do bem, da nação ou de Deus, o conflito político deixa de ser legítimo. O adversário não é alguém com quem se debate, mas alguém a ser derrotado, silenciado ou eliminado simbolicamente. Há uma confessionalização do espaço público que interdita sua natureza comum e coletiva.

A laicidade formal do Estado não impede uma certa “conversão moral” da política e a politização do fenômeno religioso, sobretudo quando atores religiosos ou moralistas conseguem traduzir disputas políticas em termos de salvação versus perdição. A linguagem religiosa é incorporada por meio de um processo de tradução simbólica: categorias teológicas são deslocadas para o campo político sem necessariamente citar dogmas explícitos.

O capital simbólico religioso é convertido em capital político. A demonização da esquerda, do feminismo, das LGBTQIAPN+, das religiões de matriz africana e da ciência em geral, tem funcionado como arma política da extrema direita, no Brasil e no mundo. A religião passa a ser critério normativo para a cidadania. Uma fonte de legitimidade que não pode – por princípio e a priori, ser contestada racionalmente. Alguns sintomas centrais deste fenômeno coletivo:

(i) Moralização da política: temas como direitos humanos, gênero, laicidade ou pluralismo passam a ser apresentados como sinais de decadência moral. O debate político é substituído por juízos morais absolutos; (ii) Retórica da “guerra espiritual”: lideranças descrevem eleições e políticas públicas como batalhas entre forças do bem e do mal. O voto torna-se um ato espiritual, não apenas cívico.

(iii) Sacralização de lideranças: certos líderes são apresentados como “escolhidos”, “instrumentos de Deus” ou defensores da fé, enquanto adversários são associados ao demônio, ao caos ou à corrupção moral. A política passa a ser uma batalha espiritual (narrativa típica do neopentecostalismo), desumanizando o outro.

Esse tipo de linguagem é altamente mobilizador porque ativa emoções e pulsões primárias (medo, culpa, esperança, salvação) e cria uma disposição para o engajamento político intenso, muitas vezes acrítico. Ao mesmo tempo ela é um gatilho social que legitima discursos de ódio sob a aparência de “defesa da fé”. O pânico moral é normalizado.

O fenômeno da demonização no cenário político contemporâneo exerce efeitos profundamente corrosivos sobre as estruturas democráticas, subvertendo a lógica da pluralidade em favor de um binarismo existencial. Esse processo opera, primordialmente, por meio da deslegitimação do adversário: ao transmutar o oponente político em uma figura “maligna”, “perversa” ou “anticristã”, retira-se dele a condição de interlocutor válido. Sob essa ótica, o reconhecimento da legitimidade mútua – requisito fundamental para o exercício democrático – é anulado, tornando o debate público uma impossibilidade prática.

Concomitantemente, observa-se um sensível empobrecimento do discurso público, no qual o rigor dos argumentos racionais e a análise de evidências são preteridos em favor de slogans morais, acusações ad hominem e pânicos morais. A política, portanto, deixa de ser um espaço de deliberação para se converter em um campo de “cruzadas”, culminando na legitimação da violência, tanto simbólica quanto material, e em uma progressiva erosão da laicidade do Estado.

Esse quadro de polarização moral extrema compromete severamente a negociação institucional. Enquanto a práxis democrática exige o compromisso, a mediação e a concessão, a lógica da demonização interpreta qualquer tentativa de acordo como uma traição moral imperdoável. O conflito político deixa de ser regulado por normas institucionais para ser vivenciado como um confronto existencial, onde ocorre uma convergência perigosa entre a retórica religiosa beligerante e o autoritarismo. É a política como o terreno do “vale-tudo”, sem freios morais ou autocontenção dos competidores.

Nesse contexto, a sacralização de lideranças e a concepção do exercício governamental como o cumprimento de um “chamado divino” transformam a retórica da “guerra santa” em uma estratégia consciente de poder. Tal mecanismo converte divergências programáticas em antagonismos absolutos, bloqueando o diálogo e institucionalizando a exclusão do “outro” como premissa de governabilidade legal esse trecho.

A arquitetura das plataformas digitais e a transposição da política para o campo da “ameaça espiritual” operam em simbiose para reconfigurar o espaço público contemporâneo. No âmbito das tecnologias de comunicação, as redes sociais não apenas intensificam, mas estruturam sistematicamente a retórica da demonização.

Este fenômeno é impulsionado por algoritmos que privilegiam o engajamento através da indignação, premiando conteúdos que evocam medo e ódio sob uma lógica performática de produção de um “inimigo interno”. É a narrativa que orienta o discurso do ódio no campo político e todas suas subculturas: redpill, incel, machosfera, haters, trolls, escola sem partido…

A desintermediação da autoridade permite que lideranças políticas e religiosas contornem filtros institucionais e jornalísticos, consolidando discursos maniqueístas em “bolhas morais” que isolam o indivíduo de perspectivas contraditórias. Nesses ecossistemas, a estética da guerra cultural – materializada em memes e narrativas de consumo rápido – reduz a complexidade do outro a uma caricatura, normalizando a radicalização simbólica e substituindo o princípio democrático da alternância de poder pela lógica da eliminação do oponente.

Quando a divergência política é enquadrada como uma “ameaça espiritual” ou ameaça à identidade/self/ego o conflito transborda os limites da racionalidade e ingressa no campo do sagrado, gerando riscos severos à estabilidade democrática.

Aqui duas camadas operam em conjunto: (a) Uma camada institucional:

Erosão da laicidade: a fundamentação de decisões públicas em dogmas religiosos compromete a neutralidade do Estado e a universalidade das normas. Justificação das práticas autoritárias: medidas de exceção passam a ser apresentadas como imperativos morais necessários para a salvaguarda do “bem” contra um “mal” absoluto. Deslegitimação sistêmica da prática política: as instituições democráticas são frequentemente retratadas como entidades corrompidas por forças malignas, minando a confiança social na burocracia estatal.

(b) Uma camada social: Intolerância e fragmentação: o estímulo ao ódio religioso como estratégia de poder fratura o tecido social, criando comunidades que habitam universos morais incomunicáveis. Normalização da violência material e simbólica: a desumanização simbólica do adversário atua como um projeto pedagógico que naturaliza a exclusão e precede a violência física efetiva.

Alguns exemplos da nossa história recente onde estas dimensões se manifestaram claramente ajudam a compreender o quanto este adoecimento coletivo é perturbador e distópico.

O antipetismo moral-religioso e a construção do inimigo político (2016-2022). A partir do impeachment de Dilma Rousseff e, sobretudo, nas eleições de 2018 e 2022, o campo político progressista, a esquerda e sobretudo o PT, passaram a ser sistematicamente representados como forças do “mal”, associadas à destruição da família, ao comunismo, à “ideologia de gênero” e à perseguição religiosa.

Essa narrativa, amplamente difundida por lideranças políticas e religiosas, transformou a disputa eleitoral em uma batalha espiritual, na qual o voto era apresentado como um ato de fidelidade moral ou religiosa, e o adversário político como um inimigo existencial a ser combatido, e não um interlocutor legítimo.

O pânico moral e demonização de políticas públicas. O caso do “kit gay”, o “Programa escola sem homofobia” foi convertido em símbolo de ameaça espiritual por meio da difusão do termo “kit gay”, mobilizado principalmente a partir de 2011 e intensificado nas eleições de 2018. O material passou a ser descrito como um instrumento de corrupção moral das crianças e de ataque aos valores cristãos, apesar de tais acusações não corresponderem ao conteúdo real da política pública. Esse processo exemplifica como políticas educacionais e de direitos humanos foram demonizadas, deslocando o debate técnico para uma lógica moralizante e emocional, baseada no medo e na indignação.

A demonização das instituições democráticas. O STF como “inimigo de Deus” (2019–2023). As decisões do Supremo Tribunal Federal relacionadas a direitos reprodutivos, diversidade sexual, liberdade religiosa e combate à desinformação passaram a ser enquadradas, por atores políticos e religiosos, como ataques diretos à fé cristã e ao “povo de Deus”.

Ministros do STF foram retratados como agentes do mal ou inimigos espirituais, inserindo o conflito jurídico-institucional em uma narrativa de guerra espiritual. Esse enquadramento contribuiu para a deslegitimação das instituições democráticas, estimulando a desobediência simbólica e o enfraquecimento da confiança no Estado Democrático de Direito.

<><> Considerações Finais

O entendimento da histeria coletiva constitui uma via privilegiada para a compreensão do adoecimento emocional coletivo contemporâneo. Ao revelar a interdependência entre o individual e o coletivo, esse fenômeno evidencia como o sofrimento psíquico pode ser compartilhado, amplificado e institucionalizado.

Na era da comunicação massiva, a intensificação dos processos de contágio psíquico coloca novos desafios para a compreensão e a intervenção nas dinâmicas sociais. A análise das patologias sociais e coletivas permite identificar não apenas seus sintomas e manifestações visíveis, mas também suas condições de possibilidade.

Dessa forma, torna-se fundamental desenvolver abordagens interdisciplinares que articulem psicanálise, psicologia social e ciências humanas, a fim de compreender e enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Mais do que um fenômeno marginal, a histeria coletiva e as patologias do social revelam aspectos centrais da condição humana, convidando à reflexão sobre os limites da racionalidade e as forças inconscientes que estruturam a vida social.

O “ódio religioso” na política não é um subproduto acidental, mas uma estratégia deliberada de poder que visa reconfigurar o imaginário social. Ao transformar o adversário em um inimigo moral absoluto, rompe-se o pilar fundamental da democracia: o reconhecimento da legitimidade da existência do outro no espaço público.

A demonização na política contemporânea não é um resíduo arcaico, mas uma estratégia moderna de poder, potencializada por crises sociais, pelo medo do desconhecido, por linguagens religiosas moralizantes e pelas dinâmicas das redes digitais.

Ao transformar a política em uma luta entre o bem e o mal, ela mobiliza afetos poderosos – mas o faz ao custo da democracia, do pluralismo e da possibilidade da convivência civilizada.

 

Fonte: A Terra é Redonda