quinta-feira, 12 de março de 2026

A EXTREMA DIREITA CONSTRÓI HÁ ANOS A SUA CAPILARIDADE NACIONAL

Muita gente nem sequer estava sabendo que a extrema direita voltaria às ruas em 1º de março. Eu mesmo descobri bastante em cima da hora. Esta circulação menos intensa da convocatória talvez se explique pelo afastamento de Silas Malafaia da organização. No período entre fim de 2023 e fim de 2025, o pastor se especializou na organização de “showmícios” profissionais. O objetivo da campanha que ele armou era pressionar o Congresso pela “anistia” a Jair Bolsonaro, aos generais envolvidos na tentativa de golpe militar de 2022 e aos presos do 8 de janeiro de 2023. Mas o “amanhã vai ser maior” não se confirmou. Com a prisão do ex-presidente em novembro do ano passado, este ciclo se encerrou e qualquer forma de resistência mais intensa ou disruptiva saiu de cena, pelo menos por hora. O que restou é a aposta de que o perdão aos golpistas – de alto escalão e/ou de baixo calão – virá não por meio do Legislativo (anistia), e sim do Executivo, em 2027 (indulto), algo com o que todos os pré-candidatos do clã Bolsonaro e da direita, sem medo de se aliar à extrema direita, já se comprometeram como sua primeira ação no poder.

No chão do ato, a manifestação não parecia muito grande. Andei tranquilamente na Avenida Paulista até a Rua Peixoto Gomide. Muitos buracos entre as pessoas, um deles preenchido por um enorme bandeirão trazido de Poços de Caldas. Quando o protesto bolsonarista está muito denso, várias vezes nem arrisco contornar o carro de som para chegar do lado oposto. Considerei que valia a pena a tentativa. Ao chegar no quarteirão do MASP, consegui com facilidade me aproximar do carro de som, mas descobri que a organização do ato montou uma “área VIP”, que impedia que manifestantes comuns circulassem livremente; aparentemente, apenas ativistas escolhidos poderiam acessar a área protegida por grades de contenção.

Em termos puramente quantitativos, o ato “Acorda Brasil” não foi um fracasso. Antes da prisão de seu maior líder, a média de manifestantes estava em torno de 40 mil (como nos atos de 07/09/24, 04/08/25, 07/09/25). Já depois do seu encarceramento, os atos de Brasília em novembro (100 pessoas) e de São Paulo em dezembro (1,4 mil) demonstraram o que realmente é um protesto bolsonarista pequeno. Ao final do último domingo, me surpreendi quando saiu a contagem do Monitor do Debate Político da USP e do Cebrap, com 20,4 mil manifestantes, um número próximo ao reunido em 25 de janeiro deste ano em Brasília (18 mil). Parece-me que este é o “novo normal” da capacidade de mobilização bolsonarista.

Não acompanhei o adensamento da manifestação, pois parei de circular para me posicionar em um canteiro elevado, do lado do Parque Trianon. Ali, a vista era relativamente privilegiada, mas alcançava apenas o telão no carro de som, não os oradores em carne e osso, bloqueados por uma banca de jornal. Desde 2015, quando comecei a observar protestos das direitas, é muito nítido como a unidade central de mobilização é a família, em especial, casais. Desta vez, eu estava rodeado apenas por mulheres mais velhas – as poucas exceções foram dois homens que ficaram pouco tempo por ali e uma jovem que se embrenhou entre nós para poder tirar fotos e fazer vídeos; ao começar a se afastar, ela foi muito elogiada pelas senhoras, como se fosse raro que a juventude se mobilizasse pelas pautas e bandeiras consideradas corretas.

Em seu discurso, Nikolas Ferreira se referiu a esta parcela de sua audiência como “as tias do zap”. O jovem deputado federal disse: “Palmas pras tias do zap. O Brasil te ama”. As senhoras ao meu redor foram à loucura. Não apenas durante o discurso do orador mais carismático do dia. Eu até diria que, com a ausência de Jair e Michelle, o carisma estava relativamente bem distribuído entre os que falaram no microfone naquele domingo. Quase todos os deputados estaduais e federais, governadores e senadores foram aclamados.

Alguns minutos antes, a chegada de Flávio Bolsonaro junto com o pastor e Nikolas foi projetada no telão do carro de som e a animação foi generalizada – difícil precisar para qual alvo a energia das pessoas foi proporcionalmente mais canalizada. Em uma conversa informal entre duas amigas, o deputado federal Capitão Derrite foi chamado de “um homem bonito”. Pelas palmas e gritos, a libido das senhoras se orienta para a legitimação de quase todos os políticos-celebridades do campo conservador-reacionário, o que não é pouca coisa em um cenário de enorme descrença e desconfiança na política institucional, considerando tanto o Brasil quanto o mundo.

Não foi um ato gigante, mas foi um ato emocionalmente intenso. Nas observações de protesto, também é significativo prestar atenção nos discursos e nos símbolos que ali circulam. Praticamente todos os oradores no carro de som se basearam discursivamente em um antagonismo entre a “ditadura de toga” e o que eles chamam de “verdadeira democracia”. Mesmo caminhando para uma campanha eleitoral no 2º semestre em que poderão concorrer livremente, o diagnóstico do campo conservador-reacionário é de “injustiça”, medo, “perseguição”, prisões, “sequestros” e “exílios”. Tanto Eduardo Bolsonaro (residindo nos EUA) quanto Carla Zambelli (presa na Itália) foram mencionados inúmeras vezes.

Em termos simbólicos, para além da já consagrada tríplice aliança das bandeiras brasileira, estadunidense e israelense, me chamou a atenção de uma bandeira gaúcha no chão do ato e uma bandeira do estado de Pernambuco pendurada no carro de som. Camisetas, cartazes e conversas informais revelam que o ato não é composto apenas por paulistanos: São José, Araçatuba e Campinas (cidades do interior de São Paulo), Tubarão (Santa Catarina) e a já mencionada Poços de Caldas (Minas Gerais). A extrema direita constrói há anos a sua capilaridade nacional.

Tenho me interessado também na descrição do que pode ser chamado de tecnologias sociais nos protestos. O carro de som unificado foi uma inovação de Malafaia que, em novembro de 2023, possibilitou centralizar o ato e reprimir dissidências. Desde setembro de 2024, eu passei a chamar a atenção à dinâmica de tapete vermelho que permite os políticos-celebridades entrarem e saírem do carro de som, com os manifestantes-fãs gritando e tirando fotos. Mesmo em um contexto de retumbante fracasso quantitativo, no final de 2025, as subcelebridades que substituíram Malafaia criaram duas inteligentes gambiarras para contornar a ausência de Jair e também das massas, o que eu nomeei de líder-de-papelão e povo-de-LED.

Desta vez, graças à minha vista privilegiada no canteiro do Trianon, fiquei observando a lógica profissional da edição do que se passava ao vivo no telão do carro de som. Em vez de um mambembe Jair de papelão, o ex-presidente compareceu em um vídeo muito bem editado. Projetados no telão, os manifestantes contemplaram: o ex-presidente em lágrimas, a facada e o sofrimento no hospital. Contudo, o fim da narrativa audiovisual é épica: Jair aparece jovem como capitão e, em seguida, recebendo a faixa em 2019 como presidente eleito da república – uma promessa ou expectativa de que o passado possa se repetir no futuro? Enquanto os oradores ali presentes faziam seus discursos eletrificados, o telão alternava entre um zoom no carro de som, a multidão enquadrada habilmente para parecer muito maior do que de fato era e, por fim, um zoom em algum manifestante individual. Em ambos os casos das inteligentes edições, o que se busca é uma fusão ou identificação entre lideranças e povo.

A percepção subjetiva de sucesso quantitativo era tamanha, que uma manifestante ao meu lado se espantou com o telão e disse para a amiga “é que nem na época da Dilma!”, o que evidencia a confusão de escalas: no domingo eram duas dezenas de milhares, enquanto nos momentos de auge da campanha pró-impeachment eram mais de duas centenas de milhares.

O uso do telão também inovou ao incorporar o “exilado” e ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, falando diretamente de um celular de dentro de seu carro. Sua fala foi breve, mas incisiva: a eleição não é a única forma de transformar a sociedade brasileira, mas é o instrumento mais rápido e eficiente que a extrema direita tem à sua disposição. Com Flávio Bolsonaro eleito em outubro de 2026, a certeza de que virá a libertação de seu pai.

A conexão ao vivo com Eduardo correu surpreendentemente bem, sem nenhuma falha técnica. Não se pode dizer o mesmo do microfone, que falhou algumas vezes e simplesmente parou de funcionar na vez de um empresário discursar. E o próprio telão, tão bem utilizado na maior parte do ato, também teve seus momentos de piscar e falhar. Na gestão de Malafaia (2023-25), os showmícios sempre correram de forma profissional e impecável. Talvez estas falhas possam ser lidas metaforicamente como as dificuldades de o campo conservador-reacionário efetivar seu maior objetivo ali propalado: uma unidade que parecia estar funcionando a pleno vapor, mas que abaixo da superfície se revela mais frágil ou mais desafiadora do que querem conceder suas lideranças.

Todo protesto é produzido por uma pluralidade de atores e de agendas que estão em conflito e são hierarquizados, mesmo que tal assimetria mude com o decorrer do tempo. A tarefa de quem o etnografa é organizar em uma narrativa estas divergências cambiantes que são internas a um mesmo campo politico.

Se formos nos ater ao curto prazo, a discordância mais fácil de se identificar é a existência ou mesmo concorrência entre dois pré-candidatos à presidência para 2026: Flávio Bolsonaro (PL) e o governador de Goiás, Ronaldo Caiado (ex-União Brasil e recém-filiado ao PSD). Por um lado, ambos se apresentaram com a mesma promessa: o compromisso com o indulto a Bolsonaro logo em 1º de janeiro. Logo, ambos se equivalem como risco à democracia brasileira, que precisa urgentemente se manter firme na responsabilização de todos os criminosos que atentaram contra ela em 2022.

Por outro lado, pela lógica tanto da política das ruas quanto da política institucional, Caiado está necessariamente em desvantagem. Gilberto Kassab utiliza com habilidade o PSD para se situar simultaneamente como interlocutor tanto de Lula quanto de Tarcísio, o que torna mais difícil (ou mesmo impossível) que Caiado possa se viabilizar como candidato e, ainda por cima, encarnar uma candidatura que represente a extrema direita.

Além disso, Flávio foi ungido pelo pai. E isto foi lembrado em vários dos discursos eletrificados. Por vezes, a ênfase foi na continuidade do sangue; outras vezes a escolha paterna era relida como escolha divina; por fim, uma remissão à pátria. De qualquer forma, operações simbólicas consistentes no sentido de legitimá-lo como herdeiro para quem seria transmitida a liderança de todo um campo político. Tudo no protesto de domingo caminhava para ser o lançamento oficial da candidatura presidencial de 01. Mas, no meio do caminho, havia uma pedra, chamada Nikolas.

É na tensão entre Nikolas e Flávio que se desenha não apenas o horizonte de disputa em um prazo mais largo, como a discordância mais profunda que o protesto de 1º de março revelou. Foi Nikolas quem realizou a convocatória original do ato. Em seu discurso, ele foi fiel ao enquadramento que ele propôs inicialmente: “Fora Lula, Fora Moraes, Fora Toffoli”. Quase nada de “Flávio 2026”.

As menções a Lula acabaram sendo mais breves e menos agressivas do que aquelas a Alexandre de Moraes. O deputado federal pelo PL de Minas Gerais convidou os manifestantes a se imaginarem voltando à Paulista em um futuro breve para comemorar o impeachment do ministro do STF, decretando que “o seu destino é a cadeia”. Embora a reação generalizada tenha sido efusiva, uma senhora do meu lado comentou com a amiga “Será que a gente vai ver isso?”. Conforme a amiga não reagiu verbalmente, ela própria respondeu: “Eu acho difícil”.

As menções finais a Toffoli também foram breves, mas Nikolas afirmou que “Se cair um, caem todos”. Os discursos de Nikolas sempre são precisos, inspirados e inspiradores. Ele já teve de discursar em situações mais adversas – atos muito pequenos que desafiavam a sua tarefa de instilar esperança de que o presente de sofrimentos e derrotas pudesse ser substituído por um futuro de superação e vitória. Mas desta vez, ele falou de modo a espraiar confiança: “Essa avalanche verde e amarela não termina aqui”.

Nikolas foi o penúltimo a falar e, pela primeira vez desde que observo protestos bolsonaristas, Flávio ficou com o peso e a responsabilidade de fazer o discurso de finalização do ato. Iniciou com uma reverência monumental a Nikolas, creditando à sua “Caminhada Pela Liberdade”, que foi de Paracatu (no noroeste de Minas Gerais e na divisa com Goiás) até Brasília em janeiro deste ano, a responsabilidade por ter acordado o Brasil. Interpreto esta como uma tentativa de decretar sumariamente a superação dos atos minúsculos (e decepcionantes para a base bolsonarista), que ocorreram logo após a prisão de Jair, na virada de novembro para dezembro de 2025. Se não bastasse este crédito, Flávio agradeceu Nikolas “por existir”. Apenas. Não só em contraste com as reclamações agressivas de Eduardo de que Nikolas estaria com “amnésia”, como também um reconhecimento de que o jovem deputado se tornou gigante e incontornável para o partido digital bolsonarista.

Flávio seguiu em seu discurso de maneira protocolar e, como bom político profissional, pagando pedágio para todos os presentes: acenou para Ronaldo Caiado, esvaziando a fricção entre suas pré-candidaturas, e agradeceu Malafaia pelos serviços prestados. Introduziu o Banco Master afirmando que “agora o Brasil conhece as entranhas do jogo do poder de Brasília”. Reivindicou o acesso direito e privilegiado ao pai: teria falado com ele na quarta-feira da semana anterior, para lhe garantir que, em janeiro de 2027, ele subiria “a rampa”. E buscou terminar, de forma triunfante, dizendo que eles estão em uma travessia e que chegarão do outro lado para cantar o hino da vitória.

Não foi nem o discurso nem a personalidade mais carismática que eu presenciei em atos da extrema direita, mas Flávio cumpriu seu papel de forma relativamente competente. Conduziu os manifestantes em um crescente de energia e confiança e o timing da trilha sonora foi milimetricamente calculado para coincidir com as palmas ao final de sua fala. Só que o roteirista do protesto não contava com a atrevida intervenção juvenil de Nikolas. Dez segundos depois de finalizada a fala de Flávio, o deputado atravancou de forma brusca e ousada a apoteose orquestrada por Flávio, palmas e música. O ato parecia ter acabado, mas ele tomou o microfone para dizer que, antes da manifestação ser finalizada, ele queria puxar uma salva de palmas e homenagear Michelle Bolsonaro – uma agente política que havia sido muito menos mencionada no carro de som do que Jair, Eduardo ou Zambelli.

Além disso, Nikolas convocou todos a orar um Pai Nosso, justificando que “nada do que a gente fizer vai prosperar se nós não consagrarmos isso daqui ao nosso Deus”. Assim, acabou usurpando o protagonismo de Flávio 2026 no gran finale do evento. Em seguida, o ato foi efetivamente encerrado e a trilha sonora pôde seguir sem interrupções. É verdade que, para as eleições de outubro, a candidatura de Flávio vai se tornando inevitável por ser a mais bem-posicionada para ser encampada pelas direitas descomprometidas com a democracia. É a trinca sangue, pátria e Deus legitimando-o como único herdeiro de Jair Messias Bolsonaro. E é verdade que Nikolas não é um concorrente para o curto prazo; pelo limite constitucional, ele só se tornará presidenciável nas eleições de 2034. Hoje, ele tem apenas 29 anos. Contudo, pelo seu tamanho digital e pelo seu carisma nas ruas, me parece que a grande divergência, conflito ou competição no interior do campo conservador-reacionário passará a se dar entre ele e o clã Bolsonaro. E, no médio prazo, o “em nome do pai” de Flávio me parece menos poderoso do que o “em nome do Pai” de Nikolas Ferreira.

 

Fonte: Por Jonas Medeiros, para Le Monde 

 

A coragem de estar errado

Há um paradoxo que define o nosso tempo: nunca a sociedade dependeu tanto da ciência – para compreender epidemias, projetar sistemas técnicos complexos, antecipar riscos ambientais e enfrentar a crise climática – e, ao mesmo tempo, nunca foi tão organizado o ataque à própria ideia de evidência. Em plena era de satélites, dados massivos e inteligência artificial, reaparece com força uma tentação antiga: a de abandonar o difícil trabalho de interrogar o real e substituí-lo por certezas identitárias, confortáveis e imunes à crítica.

O negacionismo contemporâneo não é mera ignorância. Ele se apresenta como uma recusa ativa do princípio de realidade, como tentativa de substituir o mundo como ele, é por um mundo emocionalmente confortável: “minha verdade”, “minha fé”, “meu grupo”, “minha identidade”. Sob roupagem digital, ressurge o impulso pré-moderno: a verdade não como busca, mas como posse; não como argumento, mas como bandeira; não como horizonte compartilhável, mas como instrumento de poder.

Defender o método científico, portanto, não é um gesto corporativo em favor de cientistas, universidades ou laboratórios. É algo mais profundo: defender uma conquista civilizatória rara – talvez a mais preciosa de todas –, a capacidade de construir conhecimento público, cumulativo e corrigível; e, justamente por isso, progressivo.

<><> A revolução invisível

A modernidade científica começa, simbolicamente, com Galileu – não apenas por suas descobertas, mas por seu gesto intelectual. A natureza deixa de ser interpretada como texto sagrado ou alegoria metafísica e passa a ser interrogada como um sistema que responde, com coerência, às perguntas corretas. Em vez de “o que devemos crer?”, a pergunta passa a ser: “o que acontece quando medimos com rigor?”

Esse gesto, aparentemente simples, custou caro – e ainda custa. Ele exige renúncia: renúncia à primazia da autoridade, renúncia ao conforto do dogma, renúncia ao impulso ancestral de concluir antes de examinar. O método científico inaugura uma ética do pensamento que pode ser resumida assim: a realidade tem precedência sobre nossas convicções.

Nesse sentido, ciência não é apenas técnica; é também uma educação moral do olhar. Ela impõe uma disciplina incômoda e libertadora: crenças privadas não podem governar sozinhas o conhecimento público. E, diante do universo, ela nos obriga a aceitar um rebaixamento necessário: não somos a medida do real.

Aqui está o núcleo da revolução científica: a ciência é uma das poucas atividades humanas organizadas para corrigir a si mesma de modo sistemático. Em quase todas as esferas – política, religião, moral ou estética – crenças tendem a se preservar, mesmo quando falham. A ciência é a exceção: ela progride porque admite sua fragilidade.

Sua força não decorre de promessa de infalibilidade, mas de um método de depuração. A ciência se autocorrige porque exige que hipóteses possam ser derrubadas por evidência contrária; porque submete conclusões à reprodutibilidade, isto é, ao escrutínio de terceiros; e porque se apoia numa cultura institucional de crítica, debate e revisão contínua. É esse arranjo – frio apenas na aparência, mas profundamente humano – que transforma erro em aprendizado e desacerto em etapa.

Por isso, o método científico não promete “verdades eternas”. Ele promete algo mais útil: verdades progressivas, cada vez mais robustas, menos dependentes de autoridades e mais dependentes de evidência. A ciência torna-se, assim, a forma mais sofisticada de conhecimento coletivo já inventada: ela não se sustenta pela fidelidade, mas por testes; não pela unanimidade, mas pelo controle crítico.

Essa autocorreção produz algo decisivo: o acúmulo de conhecimento. A humanidade não “opina” sobre antibióticos, órbitas planetárias ou circulação do sangue. Ela sabe – porque testou, repetiu, corrigiu. O conhecimento científico não recomeça do zero: ele se soma.

<><> A física moderna

A transição do século XIX para o XX assistiu a um dos maiores abalos filosóficos da história humana. Até então, mesmo com a Revolução Industrial, o universo newtoniano sugeria uma imagem sedutora: um mundo contínuo, mecanicamente previsível, governado por leis claras, com o tempo e o espaço como cenários neutros. A ignorância ainda existia, mas parecia temporária.

A relatividade de Einstein abriu uma primeira fenda nessa moldura: o espaço e o tempo deixam de ser absolutos e tornam-se relativos ao observador e às condições do movimento. A gravidade deixa de ser apenas força, e torna-se geometria do espaço-tempo. Era um convite à humildade: o mundo não se organiza para confortar o senso comum.

Mas foi a mecânica quântica que produziu o golpe mais profundo – porque atingiu a própria noção do que chamamos de “realidade”. Até então, ainda se podia imaginar que o mundo “em si” fosse um palco perfeitamente definido, no qual as coisas possuíssem propriedades determinadas e apenas aguardassem que alguém as medisse. A revolução quântica dissolveu esse conforto. No domínio microscópico, a matéria deixa de se comportar como coisa sólida e previsível e passa a se apresentar como possibilidade: estados superpostos, probabilidades e limites estruturais ao que pode ser conhecido ao mesmo tempo.

A realidade, nesse nível, já não se assemelha a um inventário de objetos “prontos”; revela-se como um tecido mais complexo, em que aquilo que pode ser dito sobre o real depende do modo como o interrogamos, como experimentamos, como medimos. A lição é desconcertante: a verdade científica não é a que nos conforta; é a que resiste à prova.

Se a física relativizou certezas, a cosmologia relativizou nossa importância. A descoberta de Edwin Hubble – de que o universo está se expandindo – alterou não apenas a astronomia, mas também a própria imagem histórica que a humanidade faz do cosmos: o universo deixa de ser um cenário fixo e passa a ser entendido como um processo físico em evolução, com dinâmica, idade e direção.

O universo ganha idade – e nós, de súbito, deixamos de ser a “medida” do tempo. Nossas civilizações, guerras, identidades e disputas morais tornam-se um mero instante microscópico num tempo cosmológico incomensurável. A Terra é um ponto periférico. O sistema solar, um detalhe. A galáxia, uma entre bilhões.

Mas não se trata de pessimismo. Trata-se de perspectiva. A ciência moderna, ao deslocar o humano do centro, não diminui sua dignidade: combate a arrogância. Enfraquece a pretensão de superioridade natural de qualquer grupo, raça ou dogma. E devolve uma grandeza mais difícil: não a de ocupar o centro, mas a de compreender o que não foi feito para nós.

Se a cosmologia relativizou nosso lugar no universo, a biologia molecular relativizou a nossa separação diante da vida. A descoberta da estrutura do DNA e o desvendamento do código genético colocaram a diversidade viva sob um mesmo princípio: a vida como informação material organizada.

O efeito filosófico desse momento é imenso: o humano deixa de ser exceção e passa a ser parte. Somos continuidade evolutiva. Somos história biológica. Somos natureza consciente. Dessa revolução nasce a biotecnologia moderna: vacinas, diagnósticos, terapias-alvo, engenharia genética.

Conhecer a vida passa a significar também poder transformá-la. Abre-se um horizonte de cura – e um novo horizonte de risco. E fica claro que ciência não é catecismo moral: é ferramenta da verdade.

Tecnologia, redes e o novo terreno do obscurantismo

A revolução tecnológica recente – automação, robótica, inteligência artificial – é uma extensão do método científico à vida cotidiana: sensores, dados, modelos, inferência. O mundo passa a depender de previsão. A economia depende de validação. A organização social depende de sistemas técnicos.

Mas essa mesma infraestrutura que multiplica conhecimento também multiplica ruído. Nunca foi tão fácil fabricar certezas falsas, nem tão fácil tornar uma mentira viral. A esfera pública fragmenta-se, e a verdade se tribaliza. Nesse ambiente, o negacionismo ganha potência – não por ser racional, mas por ser emocionalmente eficiente: oferece pertencimento no lugar do argumento, segurança psicológica no lugar da dúvida, identidade no lugar da complexidade.

O negacionismo, assim, não é apenas erro: é projeto de poder. Não é debate sobre o verdadeiro; é disputa sobre quem tem o direito de impor a própria “verdade”. Em vez de autocorreção, fidelidade. Em vez de evidência, obediência.

Alguns projetos contemporâneos explicitam essa tendência ao tentar enquadrar o dissenso como ameaça e o pluralismo como desvio moral – aproximando o debate público da lógica da suspeita e da intimidação. O caso do chamado Project Esther é revelador. O ponto essencial, porém, vai além do exemplo específico: quando uma sociedade converte divergência em heresia e evidência em suspeita, ela retorna a uma forma medieval de vida pública – onde a verdade não é construída, mas decretada.

E, então, a força tenta se impor sobre a razão: pela intimidação, pela censura, pela destruição do debate e pela substituição do argumento por enquadramentos morais absolutos.

Há um passo final – talvez o mais decisivo – nessa defesa do método científico: trata-se, no limite, de uma defesa da vida.

A Terra levou bilhões de anos para produzir algo raro no universo observável: uma biosfera complexa, delicada, exuberante, capaz de sustentar diversidade e consciência. A humanidade é parte dessa trama. Não estamos acima dela. Dependemos dela. E a ciência moderna – ao contrário do que sugerem seus detratores – não nos afasta da natureza: ela nos permite compreendê-la e, portanto, protegê-la.

Por isso, o negacionismo climático é mais do que uma disputa de números: é irresponsabilidade moral travestida de opinião. Ele tenta dissolver evidências em crença, transformar medições em ideologia e confundir a sociedade com ruído, justamente quando a realidade física se torna implacável. O planeta não negocia com narrativas. A atmosfera não reconhece preferências. O carbono não respeita identidades. A física do clima não se curva à retórica.

Defender a ciência, nesse terreno, é defender um pacto intergeracional: o direito dos que virão de herdar um mundo habitável. É afirmar que nenhuma “verdade privada” – religiosa, ideológica, identitária ou econômica – pode sequestrar o futuro comum.

A ciência não é infalível. Mas ela é corrigível – e essa é sua superioridade histórica. O negacionismo, ao contrário, é inflexível por princípio: alimenta-se de dogma. Não busca verdade: busca vitória.

O método científico é uma disciplina do espírito. Ensina que mudar de ideia diante da evidência é virtude, não fraqueza. Talvez esta seja hoje a fronteira decisiva: preservar a cultura da autocorreção contra a cultura da imposição.

Quando a sociedade abandona a ideia de verdade pública – testável, verificável, compartilhável –, abre-se o caminho para o império das certezas violentas. E quando isso acontece, não é apenas a ciência que se perde: perde-se a própria possibilidade de convivência.

Defender o método científico é, portanto, defender a própria razão.

E, num mundo que volta a flertar com o obscurantismo, defender a razão é também defender a própria possibilidade de futuro.

 

Fonte: Por Celso Pinto de Melo, em A Terra é Redonda

 

Por que 'Ozempic brasileiro' pode demorar e queda de patente não deve derrubar preços

A patente da semaglutida, princípio ativo do Ozempic, cairá em 20 de março no Brasil. Mas a expectativa de comprar a caneta emagrecedora por um preço mais baixo não deve se concretizar neste mês, devido a dificuldades regulatórias e industriais.

A esses fatores somam-se os planos da Novo Nordisk, criadora do Ozempic, para se manter relevante no Brasil, seu oitavo maior mercado no mundo. A farmacêutica dinamarquesa passará a produzir em Minas Gerais suas canetas, hoje importadas.

A farmacêutica ainda avalia recorrer da decisão judicial que negou a extensão de sua patente, solicitada sob a justificativa de compensar os anos levados para conceder o registro — no Brasil, o prazo de 20 anos começa a contar a partir do pedido, e não da concessão.

Após derrotas no Superior Tribunal de Justiça (STJ), o laboratório pode levar a discussão ao Supremo Tribunal Federal (STF). Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, porém, consideram improvável uma vitória, já que a medida poderia afetar não apenas o Ozempic, mas toda legislação de patentes do país.

De toda forma, é um cenário que pode resultar em um nível de concorrência ainda limitado entre as empresas brasileiras, o que levaria à prática de preços não muito abaixo do que já é visto hoje, segundo analistas do setor.

Entenda a seguir os entraves para a produção do "Ozempic brasileiro" — como a versão similar tem sido chamada —, um dos pivôs do mercado das canetas emagrecedoras, que viu seu faturamento dobrar no ano passado e movimentou cerca de R$ 12 bilhões no Brasil.

>>> 1. Anvisa ainda não autorizou a produção

As aprovações para a produção da semaglutida no Brasil devem começar a ser concedidas nas próximas semanas, segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), mas a falta de regulação às vésperas da queda da patente pode levar a atrasos nos lançamentos.

Ao todo, 14 pedidos para a produção de semaglutida são avaliados pela agência reguladora, que concederá no máximo três autorizações por semestre — um trabalho, portanto, que deve se estender até meados de 2028.

A EMS, maior farmacêutica do país e uma das primeiras que receberá o aval, diz que suas canetas chegarão às farmácias, na melhor das previsões, três meses após a obtenção do registro. A empresa, portanto, espera iniciar as vendas no segundo semestre.

A estimativa do Itaú BBA, setor do banco voltado a investidores, que tem se debruçado sobre este mercado, é de que o lançamento só aconteça em agosto.

"Só faremos qualquer produção após sair o registro. Podemos nos antecipar, mas só com a compra de matéria-prima", diz Marcus Sanchez, vice-presidente da EMS.

"Um medicamento de menor complexidade poderíamos colocar no mercado em 30 ou 45 dias após a queda de patente, mas este a gente acredita que em menos de 90 dias não é possível."

A previsão se ancora na experiência de ter produzido as primeiras canetas emagrecedoras brasileiras — a Olire e a Lirux, cujo princípio ativo é a liraglutida, o mesmo usado no Saxenda e no Victoza, da Novo Nordisk.

Mas o lançamento pode atrasar caso surjam intercorrências, principalmente ligadas à importação de insumos e à distribuição para as farmácias, uma dificuldade constante em um país de dimensões continentais.

>>> 2. Desconto obrigatório é de apenas 20%

O segundo motivo que pode dificultar a chegada breve de um Ozempic mais barato é que nenhuma das canetas brasileiras será genérica, categoria que impõe aos laboratórios a obrigação de oferecer um desconto de ao menos 35% em relação ao medicamento de referência.

Os registros submetidos à Anvisa são, em sua maioria, de produtos similares. Essa classe permite que a farmacêutica conceda um desconto mais baixo, de cerca de 20%.

Ambos têm o mesmo princípio ativo. A diferença é que o genérico não tem marca comercial e é identificado pelo nome da substância, enquanto o similar tem nome próprio e embalagem personalizada.

As versões brasileiras, que ainda não tiveram seus nomes divulgados, poderão, portanto, ser vendidas a partir de R$ 1.039,76, considerando que o Ozempic hoje sai por R$ 1.299,70.

Não é incomum achar a caneta da Novo Nordisk por R$ 999, mas isso se deve a um desconto do laboratório, que pode ser reduzido sem aviso nem justificativa, diferentemente do preço de tabela, que não pode ter altas sem autorização da Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed).

Para estabelecer os preços tanto de similares quanto de genéricos, vale lembrar, são levados em consideração os preços máximos de tabela do medicamento original.

Após a queda da patente, a Novo Nordisk pode oferecer descontos maiores na tentativa de frear os concorrentes brasileiros, que, por sua vez, também poderiam baixar mais ainda os preços para se manterem competitivos.

A farmacêutica anunciou na semana passada promoções para o Wegovy: a caneta com a dose inicial será oferecida gratuitamente na compra de outra unidade com dosagem mais alta, usada posteriormente pelo paciente após a adaptação ao medicamento.

À BBC News Brasil, no entanto, nenhum dos executivos desses laboratórios quis detalhar como a queda das patentes impactará a concorrência e, consequentemente, os preços.

A EMS diz que não quer fazer promessas e só saberá o valor cobrado quando produzir sua caneta em larga escala. Já a empresa dinamarquesa afirma que reagirá às mudanças do mercado, mas apenas quando elas acontecerem.

Um estudo do Itaú BBA estima que a queda de preços poderá ser de 50% em cinco anos, mas, por hora, não deve ultrapassar os 30% — cenário no qual as canetas seriam vendidas por cerca de R$ 900.

"Esse é um cálculo feito com base nas conversas que a gente teve com as farmacêuticas", diz Rodrigo Gastim, especialista em consumo do Itaú BBA, que assina um estudo recente sobre as canetas emagrecedoras ao lado de Vinicius Figueiredo, do time de saúde, e Gustavo Troyano, da área de alimentação.

"No começo, a gente assume uma premissa de queda de preço menor, porque são poucos produtos e são similares. As empresas vão tentar segurar o preço. Daqui a alguns anos, quando houver mais competição, é provável que a queda seja maior."

O histórico da liraglutida, princípio ativo da geração anterior das canetas emagrecedoras, pode dar bases para projeções relacionadas à semaglutida.

Oito meses após o lançamento dos similares, três canetas de 6 mg/mL são vendidas por R$ 845,12 na versão da EMS (chamada Olire) e por R$ 1.058,13 na da Novo Nordisk (Saxenda). Foi uma baixa de 20,1% — pouco acima dos 20% obrigatórios.

Isso quando considerados os preços de tabela. Na prática, com os descontos oferecidos pelos laboratórios — concedidos mediante o fornecimento de uma série de dados do paciente usados em estratégias comerciais e de marketing —, o cenário pode mudar, tanto para melhor quanto para pior.

Hoje, o desconto chega a quase 30%: o produto da EMS sai por R$ 633, e o da Novo Nordisk, por R$ 899. A diferença, porém, só aumentou nos últimos dias, após uma política de vendas mais agressiva às vésperas de quedas de patentes no setor. Por meses, ficou em torno de 15%.

Mesmo assim, a concorrência chacoalhou o mercado. Em agosto do ano passado, mês em que os similares foram lançados, a Novo Nordisk perdeu 36,36% de seu mercado de liraglutida para a EMS.

Devido ao desabastecimento, a EMS sofreu quedas bruscas nos meses seguintes, chegando a responder por apenas 0,34% das vendas de liraglutida em novembro, mas o laboratório brasileiro se estabilizou e, em janeiro, somou um quarto das vendas.

Os dados foram obtidos pela BBC News Brasil com a Close Up, uma multinacional dedicada à produção de relatórios sobre o mercado farmacêutico. Eles levam em consideração os três produtos da Novo Nordisk (Saxenda, Victoza e Xultophy) e os dois da EMS (Olire e Lirux).

>>> 3. Fabricar as canetas exige investimento bilionário

A terceira razão pela qual a queda de preços deve ser baixa a princípio é a dificuldade de produzir as canetas emagrecedoras.

As fábricas desses medicamentos, cuja construção pode custar bilhões de reais, enfrentam exigências mais rigorosas do que as que produzem comprimidos, cápsulas ou soluções líquidas não injetáveis.

Além de cuidados com envase e monitoramento ambiental e microbiológico, para garantir a esterilidade de lote a lote, as canetas passam por uma série de testes para que possam ser transportadas em condições mais adversas do que as do laboratório sem perder qualidade. O transporte, aliás, é um desafio à parte, por exigir refrigeração.

Poucos laboratórios são aptos para esse tipo de produção no Brasil. Entre as exceções estão a Biomm e a EMS, que diz ter investido R$ 1,2 bilhão na construção de sua planta fabril em Hortolândia, a 100 km da capital paulista.

A Biomm solicitou à Anvisa autorização para produzir suas canetas, mas não quis detalhar seus planos à reportagem. A Novo Nordisk está construindo uma fábrica em Montes Claros, no interior de Minas Gerais, com investimento de R$ 6,4 bilhões, mas ainda não produz canetas emagrecedoras no Brasil.

Há, ainda, custos além da produção: é preciso contratar representantes de vendas, realizar conferências médicas e visitar consultórios para fazer propaganda dos produtos. Afinal, como eles só podem ser vendidas com prescrição, são os médicos, em última instância, que decidem qual produto seu paciente vai comprar.

A experiência da EMS com a liraglutida é ilustrativa. Cerca de 35% dos profissionais que receitaram seus medicamentos Olire e Lirux no ano passado nunca tinham prescrito qualquer outro tipo de caneta emagrecedora, segundo a Close-Up.

É nesta etapa da cadeia de vendas, aliás, que as empresas brasileiras têm vantagens em relação às estrangeiras, afirma Filipe Campos, líder de análise de mercado na Close-Up.

"Muitas multinacionais priorizaram o mercado hospitalar e tiraram o pé das farmácias, então as brasileiras ganharam espaço, porque elas têm uma força de visitação de médicos mais forte", diz Campos.

"É um investimento alto, desde a contratação de representantes de vendas até a compra de ferramentas de análise de dados."

>>> 4. Concorrência nacional será baixa a princípio

Ao passo que muitos laboratórios brasileiros estão interessados nas canetas emagrecedoras, poucos serão capazes de produzi-las, e a Novo Nordisk planeja contra-atacar e começar a produzi-las no Brasil, tornando-se mais competitiva para enfrentar a concorrência após a queda de suas duas patentes.

"A gente não tem confirmação de qual medicamento específico vai ser produzido e quando, mas a fábrica está se transformando para produzir qualquer um desta classe — tanto os que estão no mercado quanto os que estão por vir", diz Leonardo Bia, vice-presidente de assuntos corporativos e sustentabilidade da Novo Nordisk no Brasil, que importa suas canetas.

A maioria dos laboratórios brasileiros, por sua vez, deve se unir a empresas estrangeiras. É o caso do Aché, da Hypera e da Cimed, que alardeou a ideia de produzir suas canetas no Brasil, mas desistiu devido ao custo.

Em geral, as parcerias são com farmacêuticas da Ásia, principalmente as indianas, conhecidas por produzir insumos a custos competitivos.

São duas alternativas: importar o medicamento já pronto e reembalá-lo para a revenda no Brasil — prática conhecida como licenciamento — ou contratar um laboratório estrangeiro para terceirizar a produção de uma versão própria.

Ambas as opções, no entanto, implicam importar as canetas, o que pode submeter essas empresas a impostos capazes de comprometer sua competitividade. A taxação dos insumos para produção nacional está em discussão.

Há ainda as farmacêuticas que nem sequer quiseram entrar na competição. É o caso da Eurofarma, que havia pedido à Anvisa autorização para produzir semaglutida, mas desistiu da ideia ainda no ano passado.

A decisão veio após uma parceria com a Novo Nordisk, que não teve valores revelados, na qual a companhia brasileira distribui parte dos medicamentos da dinamarquesa pelo país.

>>> 5. Mounjaro e venda ilegal já pressionam o mercado antes da queda da patente

Em janeiro, os três principais medicamentos à base de semaglutida da Novo Nordisk — Ozempic, Wegovy e o comprimido Rybelsus — somaram R$ 453,2 milhões em vendas. No mesmo mês, o Mounjaro, sozinho, vendeu quase o dobro e rendeu R$ 850 milhões ao laboratório americano Eli Lilly, segundo a Close-Up.

Há menos de um ano, o segmento das canetas emagrecedoras era quase todo dominado pela Novo Nordisk — em junho de 2025, quando o Mounjaro ainda não tinha se espalhado pelo Brasil, a companhia dinamarquesa vendeu R$ 679,8 milhões apenas com a semaglutida.

Essa variação ilustra como o mercado tem se tornado cada vez mais volátil a partir do lançamento de novos fármacos, cada vez mais potentes, que derrubam as gerações anteriores.

A liraglutida, pioneira nessa classe, pode levar à redução de até 8% do peso corporal. Revolucionária quando lançada, logo ela foi ultrapassada pela semaglutida, que elevou esse patamar para cerca de 15%, hoje já obsoleto se comparado à tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro.

A patente da tirzepatida só deve cair em 2036, mas nem por isso a corrida por novos medicamentos não deve parar. A aposta mais nova da Eli Lilly, a retatrutida, ainda em fase de testes e prevista para ser lançada no Brasil no início de 2027, promete levar a perda de até 25% do peso corporal.

A disputa também deve se ampliar com os fármacos orais, que ganham espaço como alternativa não só para quem evita injeções, mas também para pacientes que buscam opções mais baratas, já que eles são mais simples de fabricar e transportar.

O Rybelsus, único disponível no Brasil, custa R$ 565, quase metade dos R$ 999 cobrados pelo Ozempic ou pelo Wegovy em suas dosagens mais baixas.

Embora seja menos conhecido, o Rybelsus já responde por cerca de 20% das vendas de semaglutida da Novo Nordisk.

A menor adesão é, em parte, atribuída à potência mais limitada do remédio, que leva à redução de 5% do peso corporal. Mas este é um desafio que a indústria já trabalha para superar — o comprimido Orforglipron, que a Eli Lilly planeja lançar em 2027, é três vezes mais potente.

Além disso, a competição se estende à venda ilegal, cada vez mais popular no Brasil. É difícil estimar o tamanho desse mercado, segundo os executivos e analistas, mas ele virou alvo da Polícia Federal.

A Eli Lilly estima que milhões de canetas ilegais de tirzepatida já possam ter sido vendidas no Brasil — vindas do Paraguai, onde não há respeito à patente, ou de farmácias de manipulação.

A manipulação é permitida para atender a um paciente específico, ajustando uma dose não disponível comercialmente ou modificando a composição para evitar determinado efeito colateral, por exemplo. Mas o que se tem visto é a produção em massa nessas farmácias, algo ilegal e já na mira da Polícia Federal.

"Cerca de 181 quilos de tirzepatida foram importados por empresas brasileiras para manipulação no ano passado. A gente usa cinco miligramas para fazer um Mounjaro, em média. Isso equivaleria, então, a 36,2 milhões de doses ilegais. Todos os laboratórios precisam trabalhar juntos contra isso", diz o presidente da companhia no Brasil, Daniel Binette.

<><> Laboratório brasileiro já visa mercado americano

O valor empenhado na produção de canetas emagrecedoras pode ser tamanho que a EMS, por exemplo, diz que precisará investir no mercado estrangeiro para atingir seu ponto de equilíbrio financeiro — o chamado "break-even point".

Mesmo assim, a fábrica só deve se pagar em 2030, segundo o vice-presidente do laboratório, Marcus Sanchez. A venda de Olire e Linux (liraglutida) para os Estados Unidos, a partir de 2027, é primordial para isso, com faturamento esperado de US$ 60 milhões, ele diz.

Mas o cenário é instável. Apesar de concentrar metade do mercado mundial das canetas emagrecedoras e ser um alvo fértil para as exportações, os Estados Unidos têm imposto sobretaxas ao Brasil, o que pode pôr o plano da EMS em risco.

Com isso, a expectativa recai ainda sobre a semaglutida, cuja patente cai em 2032 nos EUA. Será um período, em tese, mais tranquilo para as negociações, visto que o mandato atual do presidente Donald Trump — que não pode se reeleger — já terá terminado.

"Fomos 'first to file' nos Estados Unidos, como eles chamam a primeira empresa a protocolar um pedido de medicamento similar. Isso nos concede prioridade para vender nossa semaglutida seis meses antes da queda da patente. É uma legislação que existe lá", afirma Sanchez.

Apesar de ter os EUA como alvo principal, a EMS já pensa em alternativas. Uma delas é o Leste Europeu, onde espera vender 5 milhões de euros (ou R$ 30,9 milhões) em canetas de liraglutida por meio de uma filial na Sérvia, a Galenika, ainda este ano.

"Chegamos tarde para jogar no restante da Europa, embora a gente vá bater na porta das empresas desses países para oferecer nosso produto para revenda", diz Sanchez. "Nossa ideia é passar de US$ 400 milhões por ano de faturamento lá."

<><> Crescimento do mercado sustenta interesse industrial, apesar das dificuldades

Apesar das dificuldades, as canetas emagrecedoras têm crescido exponencialmente no Brasil. No ano passado, a venda dobrou em relação ao ano anterior, segundo a Close-Up.

Em janeiro de 2026, houve um crescimento de 34% nas vendas em relação à média mensal registrada em 2025, um indicativo de que haverá mais crescimento — segundo o Itaú BBA, este ano deve terminar com faturamento de R$ 24,6 bilhões.

Até 2030, o faturamento deve ser de R$ 50,8 bilhões, diz Rodrigo Gastim, do Itaú, que conta ter feito a estimativa a partir das vendas dos anos anteriores e da ampliação do uso dos fármacos para o tratamento de outras patologias, como as cardiológicas, algo já em estudo.

Há ainda o interesse estético, ele diz. "Temos uma população obesa ou com sobrepeso relevante, mas este não é o único público. Somos o segundo país que mais realiza procedimentos estéticos no mundo, então o interesse inclui o uso eventual, de quem quer perder alguns quilos para o verão, por exemplo."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

A identidade política de direita ainda está em construção, afirma pesquisadora

Os posicionamentos políticos, sociais, culturais e religiosos das mulheres são multifacetados, complexos e difíceis de serem reduzidos a um único conjunto articulado de ideias e valores que moldam a compreensão delas da realidade. Essa complexidade, especialmente na inter-relação de gênero, religião e política, está sendo mapeada por diferentes pesquisas contemporâneas que buscam identificar semelhanças e assimetrias no modo como as mulheres se posicionam no campo político e religioso..

<><> Confira a entrevista.

·        IHU – Você pesquisa as relações entre gênero, religião e política. Muitos estereótipos são formulados a partir dessa conexão. Que complexidades evidencia nessa tríade e o que elas revelam sobre as mulheres do Brasil profundo, particularmente as evangélicas, que são objeto da sua investigação? É possível traçar um perfil de quem são essas mulheres e como elas pensam a partir das suas pesquisas?

Jacqueline Moraes Teixeira – Sim. Quando falamos das mulheres evangélicas e, consequentemente, das decisões e escolhas em relação ao cenário político mais geral, ainda precisamos desconstruir vários estereótipos que circundam o imaginário sobre como é esse grupo, como ele pensa, quais as suas questões fundamentais e quais seriam as principais pautas que geram engajamento. O primeiro imaginário é essa ideia de uma mulher mais velha, com uma vestimenta que remete a um imaginário muito comum sobre as mulheres evangélicas, que é aquele de uma senhora mais idosa, de coque. Ou seja, uma imagem que empurra para uma chave de leitura mais conservadora. Na verdade, o que as pesquisas sempre mostraram – e os dados do Censo 2022 corroboram – é que quando estamos falando desse público, de forma geral, estamos falando de um grupo que reúne, majoritariamente, mulheres entre 14 e 45 anos. Ou seja, um público muito jovem e muito produtivo. É um público que está presente no mercado de trabalho, vivendo um momento de muitas decisões, disputando questões fundamentais, como acesso a políticas públicas de saúde, educação e desenvolvimento social. É um grupo atravessado por crises e situações econômicas, para quem a família é muito importante – não apenas pensando a família como uma categoria de conservação da crença, mas como um lugar que precisa oferecer, minimamente, uma proteção e um senso de reconhecimento. Este também é um público majoritariamente negro, ou seja, mulheres pardas e pretas, que vivem nos grandes centros do país, mas que têm uma concentração significativa na região Norte, onde há uma desigualdade acerca da configuração das cidades, que as afeta. Seja pela questão geracional, seja pela questão étnico-racial, de gênero ou territorial, essas mulheres têm noções como mobilidade social e estratégia de vida geracional como algo superimportante. Outro dado sobre o qual muito pouco se fala é o perfil de consumo deste público, que é muito disputado. Algumas pesquisas mostram como esse grupo é estratégico e fundamental para a circulação de marcas de determinados produtos em espaços com menos estruturas de equipamento urbano, como é o caso das favelas. Ao contrário do que se espera, quando se pensa de forma mais macro a população evangélica e sua tendência a apoiar uma agenda neoliberal, esse público espera muito do Estado. Considerando que nesse grupo tem um perfil significativo de mulheres que são responsáveis pela manutenção da própria família, espera-se que o Estado, marcado pela corruptibilidade, seja capaz de responder com a produção e a manutenção de políticas públicas. Temas sensíveis são a educação, a saúde pública, a saúde da mulher e a saúde do idoso. Portanto, é um público que não adere com facilidade à ideia do Estado mínimo ou de um Estado que não esteja preocupado com o bem-estar social ou mesmo com questões relacionadas à subsistência de forma geral. É um público que depende muito do Bolsa Família. Nesse sentido, o grupo tem uma certa abertura para pensar temáticas específicas, voltadas para uma pauta mais geral dos direitos humanos e para uma agenda histórica do feminismo, que, para este público, não aparece como uma agenda feminista, mas é vista como fundamental. Entre as pautas, destacam-se o combate à violência de gênero, especialmente contra à mulher, a equiparação salarial, os direitos iguais entre homens e mulheres e questões relacionadas à necessidade de uma construção de políticas públicas às mulheres.

·        A partir desse quadro que você descreve, diria que as mulheres evangélicas se identificam mais com agendas da esquerda ou cresceu entre elas um apoio à direita ou extrema-direita?

Jacqueline Moraes Teixeira – O que estou vendo é a direita caminhando no sentido de visibilizar e se conectar com as necessidades apresentadas por este grupo. Tenho pensado cada vez mais como o centro político precisa aprender a ler essa margem e, ao tentar produzir uma estrutura e uma tecnologia de leitura dessa margem, tentar construir uma linguagem de conexão, que produza minimamente uma conexão com essa margem. Estamos falando de uma configuração de direita no contexto nacional que não consegue prescindir do debate sobre gênero e raça. Isso porque esse debate, embora não esteja necessariamente vinculado a um repertório feminista, reelabora esse repertório, entendendo que as mulheres precisam de apoio e que existe uma dimensão desigual entre homens e mulheres. Isso tem empurrado a direita para uma aposta específica de candidaturas de mulheres, como também para a construção de um repertório que, no contexto desta aposta, dê conta da expectativa de produção de um Estado que dispute e que dê conta da produção de algumas políticas públicas. O que estou afirmando é que existe, sim, uma identificação cada vez mais crescente desse público feminino relacionado a candidaturas de direita. Essa identidade política de direita não está pronta. As pessoas, de alguma maneira, ainda estão transitando e definindo os contextos das suas apostas políticas. Mas vejo uma direita muito interessada em engajar esse público, elaborando um conjunto de agendas que consegue responder aos anseios dele e construir um espaço de confiabilidade política.

·        A que se deve essa dificuldade de estabelecimento de confiança com a esquerda?

Jacqueline Moraes Teixeira – Essa dificuldade está alicerçada em alguns fatores. Em primeiro lugar, porque, de alguma maneira, as pessoas entendem que as candidaturas da esquerda vêm de pessoas de fora, que não entendem o público evangélico, ou que são tão refratárias à fé que colocam a fé em risco. Além disso, existem várias dimensões históricas que dificultam a confiabilidade em candidaturas de esquerda, mesmo havendo uma tradição consolidada de militância e configuração de governos de esquerda que apostam em políticas públicas, e na tentativa de produção de uma igualdade de bem-estar social. Entretanto, isso é visto com muita desconfiança, como se fosse uma estratégia para conseguir votos. De alguma maneira, as lideranças nacionais e regionais ligadas à direita são entendidas como lideranças mais orgânicas. Elas são mais passíveis de confiança. As pessoas de esquerda e suas candidaturas são lidas como outsider. Existe aí uma questão fundamental que não está simplesmente relacionada ao conteúdo das narrativas de direita, mas à construção de uma sensação de que essas pessoas estão mais próximas, teriam mais entendimento das especificidades do grupo e, portanto, teriam mais condições de atender às expectativas políticas dele.

·        A fé acaba se constituindo como um elemento central que determina o voto?

Jacqueline Moraes Teixeira – Não. As pessoas não votam apenas em quem é evangélico ou da igreja. Não é que a fé direcione a expectativa e o voto apenas para quem é da igreja, mas, fundamentalmente, a fé aciona uma necessidade de construção da confiança, a qual vem pela rede, no sentido de que é preciso entender de onde está vindo o candidato. O candidato pode não ser evangélico – como é o caso do Bolsonaro –, mas tem uma rede na qual as pessoas confiam. É essa rede que ajuda a entender o quanto uma pessoa pode ser elegível. A dinâmica da rede é muito forte para entender quem é o candidato, de onde ele vem e por quais caminhos. É por isso que cada vez mais aparece a ideia de voto evangélico. Não gosto dessa formulação porque ela compromete e enfraquece o debate, além da nossa capacidade de pensar as heterogeneidades que atravessam esse grupo. As igrejas são um lugar significativo de construção de solidariedade e de rede de proteção, a tal ponto que a rede importa. Nesse sentido, as pessoas não votam em alguém que pode colocar a rede em risco. A rede é a prioridade a partir da qual se faz a leitura em quem se pode ou não confiar.

·        As igrejas têm suas especificidades, mas, de modo geral, que tipo de compreensão política diria que as mulheres estão adquirindo nas igrejas e, a partir dessa compreensão, que narrativa elaboram sobre a situação social, política e econômica do país?

Jacqueline Moraes Teixeira – Em 2022, 2023 e 2024, coordenei uma pesquisa no Instituto de Estudos da Religião (ISER) com Lívia Reis, em que evidenciamos essas questões. A pesquisa começou em 2022 para produzir uma leitura da conjuntura das eleições. Depois, continuamos o estudo para compreender os níveis de entendimento e as leituras relacionadas ao governo Lula, além das compreensões sobre economia e políticas públicas de educação e saúde. Percebemos que Bolsonaro não é uma figura nacional exclusiva no sentido de que as pessoas afirmam que votarão nele, mas existe uma dificuldade de conseguir ler determinadas políticas fundamentais, que foram produzidas no governo Lula, como sendo políticas do governo Lula. Por exemplo, as pessoas têm dificuldade de apreender a dimensão do equilíbrio econômico que aumentou a empregabilidade no contexto da vida delas. A sensação econômica de que as coisas estão muito caras sempre aparece como muito evidente, apesar da retirada do imposto de itens fundamentais da cesta básica. A dificuldade de compreender políticas de bem-estar social como políticas produzidas por um governo de esquerda dificulta muito as leituras relacionadas à confiabilidade, à sensação de que o governo não está sendo corrupto e, consequentemente, às adesões à esquerda. Isso se desdobrou de forma muito forte no contexto das eleições de 2024, quando vários candidatos de direita foram eleitos em prefeituras importantes e em cidades de pequeno porte. Nesse sentido, empurrar todo mundo para a direita e chamar todo mundo de conservador empobrece muito a leitura da conjuntura, como tem sido muito comum.

·        Diante desse quadro, quais os principais desafios da esquerda e da direita para a eleição deste ano?

Jacqueline Moraes Teixeira – O desafio substancial neste ano eleitoral, no contexto desta disputa, é entender que, se Bolsonaro não é a principal figura 'engajante', tem um trabalho significativo a ser feito para direcionar os votos para a candidatura de Flávio Bolsonaro. Há um deslocamento aí para o qual pouco nos atentamos, mas que foi fundamental em 2022 e será em 2026. Às vezes, apostamos que os eleitores decidem especificamente pela imagem de quem está se candidatando, mas as figuras de mediação são importantes para a construção da confiabilidade, como foram as figuras de Damares Alves e Michelle Bolsonaro em 2022. Fiz pesquisas de campo em Brasília naquele período. A estética dos eventos eleitorais não mostrava a imagem do Bolsonaro. As imagens que apareciam eram da Michelle e de outras mulheres, como a Celina Leão (PP), vice-governadora do Distrito Federal. Isso significa que as figuras femininas, mesmo que não estejam no centro do pleito, são centrais na construção da confiabilidade do voto. Logo, essas figuras mediadoras e produtoras da confiabilidade são fundamentais.

·        A esquerda também está se aproximando desse grupo e suas demandas?

Jacqueline Moraes Teixeira - Nunca imaginei que Michelle seria candidata à Presidência. Não era nem o objetivo dela nem o do partido. Mas ela tem uma imagem. Consegue suscitar uma certa situação de insurgência que gera confiabilidade no processo. Não à toa é tão importante, no contexto atual do PL, ver o que é possível fazer para que Michelle e o PL passem a apoiar a candidatura de Flávio Bolsonaro. A falta de apoio dela pode ser negativa. Mesmo ela se candidatando como senadora, o seu apoio é fundamental para incidir sobre determinados grupos e sobre essa camada específica das mulheres evangélicas. Quando falamos da esquerda política, aí está o grande desafio. Na atual conjuntura, infelizmente, há uma dificuldade de ter uma figura política de esquerda que possa ancorar essa mediação e a produção de confiabilidade específica nesse grupo, para além do Lula. Falta uma aposta na formação de figuras que se tornem nacionalmente conhecidas, importantes e fundamentais não só para a história da esquerda no Brasil, mas também para os movimentos sociais, como mulheres negras, evangélicas pentecostais, como é o caso de Benedita da Silva e Marina Silva. Infelizmente, no conjunto das questões históricas e por decisões institucionais partidárias, essas figuras não conseguem se capilarizar nacionalmente no sentido de ir para as pontas.

·        A primeira-dama, Janja, tentou uma aproximação com as mulheres evangélicas no ano passado. Qual é o significado e a repercussão dessa iniciativa no meio evangélico?

Jacqueline Moraes Teixeira – É uma aproximação importante, que deve continuar, mas chegou tarde porque a visibilidade dessa aproximação está muito colada à construção do pleito e das eleições. Isso acaba corroborando na construção da desconfiança, já que a aproximação não é orgânica.

·        Como a imagem da primeira-dama é vista nesse grupo? Destoa muito do perfil das mulheres evangélicas ou se assemelha a ele em alguma medida?

Jacqueline Moraes Teixeira – A figura dela não destoa muito. Estamos falando de uma mulher cis, que é reconhecida publicamente como heterossexual. Além disso, é uma companheira importante do seu marido. A conjuntura política criticou muito o protagonismo da Janja por estar sempre definindo determinadas agendas. Mas o protagonismo dela, ao contrário do que se espera, não é lido como algo ruim pelas mulheres evangélicas porque entra nessa ideia da mulher que está o tempo todo produzindo a cena e atuando como grande fechamento do seu marido. A grande questão é que Janja representa uma aproximação específica, partidária, que, por uma série de questões históricas, soa muito interessada por conta da conjuntura política ou para ganhar votos. Outra questão é que Janja, de alguma maneira, fez uma aproximação com grupos de mulheres evangélicas progressistas. É muito importante que esse grupo seja visibilizado porque falamos pouco sobre ele. A mídia fala pouco das mulheres que se reconhecem como progressistas políticas, como feministas que enfrentam publicamente questões relacionadas ao aborto e às políticas públicas, que são temas delicados no contexto das igrejas evangélicas brasileiras. É fundamental que essa aproximação aconteça e essas mulheres sejam visibilizadas. Mas, infelizmente, elas representam a minoria do público evangélico e estão mais concentradas em igrejas do protestantismo histórico. As mulheres que frequentam essas igrejas têm ensino superior completo, com perfil étnico-racial majoritariamente branco, embora existam mulheres negras nesse contexto dos movimentos progressistas de mulheres evangélicas. É importante que essa aproximação alcance as mulheres pentecostais e neopentecostais, que são a maioria das evangélicas. O desafio está em produzir contato e relação de confiabilidade com essas mulheres.

·        Outro campo de disputa entre as mulheres é o feminismo. Tem crescido entre elas, evangélicas ou não, uma postura antifeminista ou o feminismo tem sido ressignificado?

Jacqueline Moraes Teixeira – As duas coisas estão acontecendo ao mesmo tempo. Se, por um lado, existe o crescimento do antifeminismo e do discurso de que o feminismo é contrário aos princípios de fé cristã, por outro lado emerge a noção de feminino. Existe uma construção para que feminismo e feminino sejam categorias contrárias. Nesse sentido, a fé cristã conduziria mais as mulheres na defesa do feminino e não do feminismo. Apesar de a ideia de feminino ter sido construída em oposição à categoria de feminismo, ela não nega o conteúdo das pautas históricas do feminismo. Ao contrário, traz essas pautas para si, as ressignifica e as purifica, afirmando que elas não seriam propriamente femininas. As pautas centrais são as questões relacionadas à violência doméstica – porque grande parte das mulheres que sofrem violência doméstica é evangélica, segundo pesquisas de Valéria Vilhena. Visto que a questão da violência passou a ser mais divulgada, as mulheres evangélicas passaram a desenvolver seus primeiros projetos de atendimento a mulheres em situação de violência. Surge então a ideia de que o enfrentamento da violência de gênero, da violência doméstica, a Lei Maria da Penha e a lei do feminicídio seriam pautas de um movimento feminino – e não de um movimento feminista. A pauta do movimento feminista incluiria o aborto e a masculinização das mulheres e não a igualdade. A ideia de igualdade se desdobra numa concepção de que o feminismo defende que as mulheres devem se parecer mais com os homens. Em contraposição, a ideia de feminino propõe que as mulheres defendam o que é ser mulher e isso tem que ser valorizado. O reconhecimento de que é errado as mulheres ganharem menos que os homens não é visto como uma pauta feminista, mas, sim, como uma pauta feminina. Tem uma estratégia reducionista aí. A institucionalização de várias políticas de direitos humanos no país e a promulgação da Lei Maria da Penha, em 2006, foram fundamentais para trazer muitas mulheres evangélicas, que tinham atuação em movimentos sociais, para o cenário político nacional. Foi por conta da promulgação desta lei que várias igrejas evangélicas abriram projetos de atendimento a mulheres em situação de violência. Minha pesquisa de pós-doutorado, feita entre 2018 e 2021, analisa a candidatura de várias mulheres evangélicas pentecostais, mostrando que a emergência política delas ocorre porque cursaram Direito e Serviço Social e começam a abrir projetos de enfrentamento de mulheres em situação de violência em suas igrejas locais. Esses projetos cresceram, foram para outras igrejas e isso foi importante para que elas passassem a ter reconhecimento político e fossem lançadas como candidatas em 2018 e em 2022.

·        Nos últimos anos, as feministas têm enfatizado a discussão sobre a violência de gênero. Quais temas tendem a orientar as próximas ondas do movimento?

Jacqueline Moraes Teixeira – Enquanto feminismo – e me reconheço como feminista – temos uma questão para revisitar, que é o entendimento de por que razão as pautas do feminismo chegam, mas a assinatura feminista, não.

Hoje, existe uma consciência mais plural e capilarizada das desigualdades e da violência contra as mulheres. Mas por que, na ponta, quando essa informação chega e essa sensibilidade acontece, a assinatura da luta feminista não está junto? Esse é um desafio que temos e que estará cada vez mais evidente nos próximos anos. A disputa é muito mais pela assinatura do que pelo conteúdo. Não gosto de pensar a ideia de feminino como antifeminismo, mas como uma possibilidade de disputar a assinatura de uma agenda que aparece sem direção, sem endereço e sem nome. Precisamos nos perguntar por que esse nome aparece de um jeito e não de outro e por que isso não chega nas pontas e, quando chega, como chega. Precisamos discutir cada vez mais quais pedagogias, dinâmicas e políticas de diálogo podemos construir para diluir mal-entendidos, atravessamentos e avançar na discussão sobre a legalização do aborto, sobre o reconhecimento das múltiplas formas de ser mulher, das populações trans, das travestis e desse conjunto plural e reconhecido de mulheres que compõem esse escopo e toda a nossa luta.

·        A data de 8 de março é um momento para refletirmos sobre quais pautas fundamentais para as mulheres brasileiras?

Jacqueline Moraes Teixeira – O 8 de março é um dia de luta e reconhecimento do quanto a desigualdade ainda permanece de modo muito forte na nossa sociedade. O aumento do feminicídio é assustador em São Paulo e em outros estados do país. Ainda temos uma configuração de muita luta, de muito a ser feito, enquanto estamos lutando pela sobrevivência – e esse é um dado assustador. A igualdade não é somente de condições de subsistência, mas precisa ser uma igualdade da possibilidade de existir. Sou otimista e, apesar desses quadros ruins, entendo que temos conquistado muitas coisas. Apesar de vários retrocessos no oferecimento de políticas públicas específicas para mulheres, também estamos falando de uma consciência mais generalizada da violência e da necessidade de lutar para existir. Quando olho para o público feminino das igrejas, que, em sua maioria, infelizmente, por questões históricas e étnico-raciais, se encontra distante da universidade, percebo que ele se reconhece como foco de uma violência e tem pensado ressignificações para o seu enfrentamento. Temos que celebrar a desconstrução da ideia de uma mulher religiosa, evangélica, alienada e oprimida, e pensar como podemos reconhecer e fortalecer os vínculos, as capacidades e as possibilidades de resistência que vêm surgindo nas igrejas por redes de mulheres evangélicas.

·        Cresceu muito a escalada do ódio e da violência na sociedade civil. Neste ano eleitoral, essa dinâmica tende a se acentuar. Como rompê-la e restabelecer as relações humanas?

Jacqueline Moraes Teixeira – O nosso principal desafio é, de fato, tentar não dividir, no sentido de amplificar ainda mais a política do “nós e dos outros”, afastando ainda mais as pessoas, como sendo os outros que não compreendem e não dialogam com o que fazemos, como sendo inimigos ou pouco esclarecidos. Temos que seguir discutindo as nossas bases epistemológicas e entendendo, com coragem, que precisamos realmente apostar em espaços e tecnologias de comunicação não violenta e de diálogo. Temos que seguir nos perguntando quem reconhecemos como nós e quem estamos afastando como outros, e o que esse afastamento tem produzido.

 

Fonte: Entrevista com Jacqueline Moraes Teixeira, para IHU