segunda-feira, 5 de outubro de 2026

O caminho da democracia é longo e penoso

Em seu Manifesto Antropofágico publicado em 1928 na Revista de Antropofagia, Oswald de Andrade (1890-1954) propõe uma “deglutição cultural” – a ideia de “tratar” influências estrangeiras e transformá‑las em algo autenticamente brasileiro. O manifesto propõe uma antropofagia cultural, expressão metafórica que se coloca na direção de “devorar” influências externas (europeias, estadunidenses), a fim de poder recriá‑las de forma autônoma e crítica.

Sem dúvidas, uma contundente crítica ao colonialismo cultural e à submissão da elite brasileira aos padrões que vem do norte global. Passados quase cem anos da publicação do texto original, o incitamento de Oswald de Andrade permanece atual. Seu apelo “Contra todas as catequeses” vem ganhando ares de necessidade nesses dias tensos de um tempo pautado pelas eleições na realidade brasileira.

Em março de 2016, mais de uma década atrás, a jornalista Eliane Brum publicava no jornal El país, um artigo intitulado “Na política, mesmo os crentes precisam ser ateus”. No texto, ela procurava demonstrar os riscos de uma adesão à política pela via da fé, afirmando que se faz necessário resistir pela via da razão ao “canto da sereia” – nesse caso, é preciso resistir pela razão a tentação da crença na existência de um “mito salvador”.

A racionalidade, ainda que passível de críticas (necessárias), se coloca como uma faculdade humana que pode nos possibilitar seguir na busca por um mundo onde caibam os muitos mundos que nele habitam. Mais de dez anos se passaram da publicação do texto de Eliane Brum e vemos a lógica da barbárie muito presente em fanatismos políticos em curso.

Infelizmente, a máxima “contra todas as catequeses” de Oswald e o apelo ao ateísmo político proposto por Eliane Brum parecem ter prosperado pouco nesses últimos anos. Por exemplo, ver brasileiros e brasileiras (autodeclarados patriotas) comemorando sanções desproporcionais e descabidas dos USA (e abusa) ao Brasil é uma contradição absurda. Desfilar no dia 7 de setembro (em comemoração ao Dia da Independência) com bonecos gigantes do presidente dos EUA, clamando por intervenção, chega a ser assustador. Neste caso, o extremismo ideológico parece nublar nossa capacidade de discernimento e o convite ao absurdo fica evidente (efeito colateral de todo fanatismo).

Os argumentos de Oswald de Andrade e de Eliane Brum permitem pensar que o chamado “bolsonarismo” é uma “seita política”, que advoga em nome de uma leitura de mundo anacrônica, fechada em si mesma, que não possibilita a autocrítica, pois julga já estar na Verdade (com V maiúsculo), edificando dogmas que devem ser venerados e professados aos demais, em um processo de conversão política “no caminho do bem”.

Partindo desses elementos iniciais, não me parece nada inteligente projetar a governança de um país a um representante de um movimento que se estrutura socialmente por meio de fundamentalismos em direção à normalização do absurdo. Projetar a governança de um país a partir de uma ideologia predominantemente associada a pautas anacrônicas representa aliar-se a um modo de pensar que não cabe mais em nosso tempo, considerando a diversidade do mundo e da produção da vida na contemporaneidade.

A demagogia e a hipocrisia se colocam como bandeiras tremulantes em um horizonte que, a curto prazo, poderá ter apenas, curto prazo. Um governo não se projeta assentado predominantemente na pauta dos costumes (família, pátria, conservadorismo, entre outros temas), um engodo que precisa ser questionado com veemência.

Por exemplo, a insistente defesa da família, aparentemente, representa uma bandeira política que merece ser considerada. Porém, na medida em que fica claro o modelo patriarcal de família “proposto” pelo “bolsonarismo”, o argumento perde força. Família representa uma organização social fundada no amor. Inclusive, sua configuração pode variar conforme cultura, religião e legislação.

No Brasil, a Constituição Federal reconhece diversos tipos de união familiar. Ou seja, defender a família é defendê-la em sua radical pluralidade, tendo como princípio fundante, o amor que une pessoas que, por sua própria vontade, desejam viver e produzir a vida conjuntamente, e não, pautar o debate sobre essa questão a partir de uma perspectiva patriarcal autoritária e conservadora.

A bandeira do patriotismo é ainda mais difícil de ser problematizada para esse movimento. Na lógica imposta, quem não defende o Brasil é contra o Brasil (aos moldes do brado “Brasil ame-o ou deixe-o”). Um dos grandes problemas dessa questão, entre tantos, é projetar uma devoção religiosa a questão pátria. Sustentar chavões como “Deus, Pátria, Família” é projetar um dogma, um atestado de fé a um lema que, por sua vez, tem origem pouco nobre, tendo sido amplamente explorado por regimes autoritários do século XX, tais como o Estado Novo de Salazar em Portugal e o fascismo de Mussolini na Itália. Aqui se trata de uma questão de método, como forma de dominação por meio da devoção a uma simbologia nada ingênua, elemento básico de fundamentalismos.

Sobre o conservadorismo, mesmo não concordando, entendo que assumir uma posição conservadora frente a produção da vida, em sociedades democráticas, é um direito de todo e qualquer cidadão. O conservadorismo se coloca como um sistema filosófico que defende a manutenção da cultura e das tradições em determinado âmbito social, considerando que as respostas aos desafios do futuro, em suma, estão já dispersas (mas disponíveis) no passado, portanto, já devidamente “testadas”.

Para um conservador, já temos um “arsenal” que permitiria enfrentar os problemas do mundo a partir de referências já constituídas. Porém, ser conservador não significa ser obtuso, anacrônico e agressivo. Lembro por exemplo, do filósofo conservador britânico Roger Scruton (1944-2020), um intelectual com saberes profundos sobre música, literatura, filosofia, entre outros. Em síntese, para ele “o desejo de conservar é compatível com todos os tipos de mudança, desde que essa signifique continuidade” (2019, p. 54).

Neste caso, a ideia de continuidade se coloca como elemento fundante do conservadorismo. Mas, se é de direito assumir uma posição conservadora, em uma democracia se faz necessário também, assumir com radicalidade o diálogo vivo sobre o que vale a pena continuar a conservar e o direito de grupos assumirem outras referências para a produção da vida, especialmente em uma sociedade que se coloca de forma multifacetada e plural em um universo de possibilidades que se abrem na construção de um futuro (ainda) em aberto e em disputa.

O grande problema do conservadorismo de extrema direita é se fundar em posturas totalitárias que advogam para si o direito de responder definitivamente sobre questões complexas de nosso tempo através de simplificações da realidade – por exemplo, com perspectivas do tipo, “menino veste azul e menina veste rosa”, de autoria da ex-ministra Damares Alves, entre tantas outras. Como a realidade não cabe em simplificações dessa ordem, o cerne desse movimento se assenta no autoritarismo como método de validação de condutas anacrônicas e sem sentido no contemporâneo.

E o autoritarismo representa a centralização do poder e das tomadas de decisão. Por isso, a articulação entre fé, conservadorismo e autoritarismo é extremamente perigosa, pois define “sem os outros, o que é melhor para os outros” a partir de uma pretensa “verdade divina”. Deveríamos ter aprendido com Hannah Arendt (1906-1975) que a solução e as decisões dependem dos envolvidos (ARENDT, 2012), e aqui reside uma das lutas em nome da democracia.

Portanto, sustentar a pauta dos costumes em uma agenda política deve ter limites, considerando aspectos culturais, sociais, bem como, aspectos jurídicos. Consequência dessa articulação entre fé, conservadorismo e autoritarismo é a proliferação do neofascismo como modos (aceitáveis) de pensar, sentir e agir na contemporaneidade.

O neofascismo se funda no “colapso do contrato social” e na desesperança (seu motor social é o medo – de perder o que se tem, do outro, dos diferentes, dos ‘comunistas”, do futuro). A emergência desse novo tipo de fascismo, para além do Estado fascista presente no fascismo histórico, representa um tipo de fascismo inserido socialmente, tendo por consequência a disseminação de um modo de ser nos mais distintos segmentos sociais.

Daí surgem os ingredientes do neofascismo, produzindo novas formas de dominação e exploração nas sociedades contemporâneas, um movimento que se manifesta como um regime social e de civilização que se caracteriza pela ideia de que noções como igualdade, justiça, solidariedade e universalidade deixam de ter valor. Nessa lógica, indivíduos e grupos sociais em perseguição de seus próprios interesses passam a representar o panorama político atual, em detrimento da vida pública.

Por isso, o neofascismo se assenta na dominação (por vezes, implícita) de um grupo por outro e nas dinâmicas sociais de demarcação de poder e território (em um caldo cultural onda misoginia, racismo, homofobia, entre outros, ganham força).

O negacionismo científico representa outra marca importante de ser evidenciada no dito “bolsonarismo”. Bem verdade, ao longo da história, tivemos vários exemplos de negacionismos: o heliocentrismo e o geocentrismo; a negação do holocausto; a “revolta da vacina” no início do Século XX; o aquecimento global em nossos dias; a negação da ditadura militar (golpe de 1964); a resistência em compreender os riscos de dirigir após ingerir bebida alcoólica, entre tantos outros que poderiam ser citados.

No caso do dito “bolsonarismo”, vemos um aprofundamento de posturas anti-intelectuais e anticientíficas que vem produzindo danos impactantes para a realidade brasileira. Lembremos do movimento antivacina ao longo da pandemia e dos impactos disso na vacinação contra o sarampo, influenza e outros vírus em nossos dias, bem como, dos discursos de ódio com relação a formação universitária e escolar.

Em entrevista recente na TV Globo (28/08/2026), o candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro, afirmou que vivemos épocas cíclicas em que faz mais calor, mais frio ou chove mais, mas que isso não tem a ver com a influência do ser humano, desconsiderando razoável consenso científico de que a ação humana vem causando mudanças climáticas profundas (algumas irreversíveis). Visivelmente, tentou ser dissimulado em sua resposta, na lógica de se colocar como um “Bolsonaro moderado”.

A pauta ambiental não só se mostra ausente em sua proposta de governo, como esta evidencia pautas antiambientais – ainda, o programa não reconhece a existência de uma crise climática. Cabe lembrar que, além do exemplo da TV Globo, muitos outros estão disponíveis, como a declaração dada em maio de 2024, quando ele afirmou que seria uma armadilha atribuir as enchentes no Rio Grande do Sul às mudanças climáticas.

Além disso, a prática de desqualificar a comunidade LGBTQIA+, atacar mulheres, agredir jornalistas, promover ciberbullying, promover notícias falsas, entre outros absurdos, são ações comuns de um espectro político que se assentou no absurdo como o grande fermento de sua constituição. Por exemplo, a alguns anos atrás, justificar o nazismo, tal como feito recentemente por um “influencer”, possivelmente não seria tolerado na realidade brasileira. Atualmente, vemos setores justificando tal absurdo pela via da liberdade de expressão (?!?). Oras, até a tolerância tem limites (não podemos tolerar projetos que pretendem, em seu cerne, a negação do outro).

Tais elementos, por si só, já causariam repúdio sobre um candidato que se baseia em tais elementos para avançar na corrida presidencial. Nós necessitamos e merecemos mais do que isso. A questão que fica é “como chegamos a esse ponto”? Como chegamos ao ponto de alçar (novamente) um Bolsonaro como candidato à Presidência da República? Por que aprendemos tão pouco?

Até o jornal Folha de S. Paulo, em editorial datado de 04/04/2026, afirmou que Flávio Bolsonaro não tem a menor condição de ser presidente. Justifica a afirmação argumentando sobre sua falta de experiência, pela ausência de compromisso democrático e pela falta de disposição para manter e criar relações políticas com pessoas de outras tonalidades ideológicas.

Tivemos já um bom desenho do que o sectarismo e o despreparo podem fazer na presidência, a partir do desastroso governo de Jair Bolsonaro, hoje condenado e preso por vários crimes, entre eles, tentativa de golpe de estado. Significativa parcela do povo brasileiro parece ter esquecido dos negacionismos (cabe lembrar da postura de Jair ao longo da pandemia), inúmeros comentários absurdos (“você não merece ser estuprada pois é feia”), tomadas de decisão patéticas (zerar importo para a compra de jet-ski) são exemplos do mundo paralelo que habita governantes que se valem do “poder sem saber”.

Nessa “seara cultural”, o chavão “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos” (semelhante ao brado nazista “Alemanha acima de tudo” – em alemão, “Deutschland über alles”), expressa uma frase de ordem que pretende colocar os “cidadãos de bem” de um lado, em oposição aos “outros”, uma bandeira que pretende separar o “joio do trigo” (expressão sequestrada por esse movimento da parábola contada por Jesus em Mateus 13:24-30). Na perspectiva do “bolsonarismo”, sempre deverá haver o inimigo a combater, pois o importante, nesse caso, é manter acesa a chama do ódio pelos “outros”, alicerce basilar para projetos totalitários como esse.

Caso eleito, não se iludam, Flávio Bolsonaro irá desmantelar o que ainda temos de políticas públicas voltadas para a classe trabalhadora, privilegiando as elites que já dominam esse País. Além disso, seguirá o modelo de segurança pública de El Salvador? Lembremo-nos que lá sim é uma ditadura. Ou ainda, seguirá bajulando e “batendo continência” para os USA? Abrirá as portas do Brasil para uma colonização definitiva? Manterá a postura negacionista frente as questões ambientais? Oras, isso não é projeto de País, é projeto de destruição e submissão em troca de poder.

Ao longo das eleições de 2022, ouvimos muitas vezes que o Brasil iria virar uma Venezuela, caso Lula fosse eleito. Pois bem, isso não aconteceu – e estamos vendo de longe o que vem acontecendo na Venezuela, sua submissão forçada aos USA e a usurpação das reservas de petróleo. Algo que o Brasil vai viver, talvez de forma mais sutil, caso Flavio Bolsonaro assuma a presidência.

Algumas pessoas perguntam após argumentos dessa ordem: “Mas e o Lula?”, “E o PT?”. Oras, estamos vivendo dias difíceis de uma República em crise, mas é possível afirmar com certeza, que podemos e devemos criticar o governo e as instituições em suas limitações. Cabe reconhecer que produzir críticas ao governo e as instituições representa um empreendimento necessário para oxigenar uma democracia.

Nesses últimos quatro anos, tivemos a oportunidade de criticar o governo e as instituições sem ameaça iminente de sofrer algum tipo de violência, tal como se deu na gestão 2019-2022 (em um tempo no qual criticar o presidente era passível de reprimendas violentas, ameaças e insultos dos mais diversos). Ou seja, mesmo com suas mazelas, o atual governo recuperou certa normalidade no amplo espectro político do País.

Retomando o texto de Eliane Brum, “É um fato que o governo de Lula incluiu dezenas de milhões de brasileiros e melhorou a vida de muitos. É um fato que a miséria e a fome diminuíram significativamente no seu governo. É um fato que o Brasil mudou – e mudou para melhor com Lula. E isso não é pouco, mas não é mesmo. Isso é enorme”.

Assim, que se faça a devida crítica ao atual governo e se faça a análise do que representa sua continuidade. De minha parte, não tenho dúvidas que a amostra de 2019 a 2022 nos sinaliza o que virá pela frente caso Flávio Bolsonaro seja eleito. Quem quer ser presidente deveria focar em um projeto de Brasil no qual questões como economia, trabalho, renda, saúde, educação, mobilidade urbana, segurança pública, ecologia, entre tantas outras pautas sérias, sejam mais importantes do que teorias da conspiração, frases feitas, cancelamentos e arroubos de arrogância.

Repito o que escrevi em um texto anterior, parafraseando o italiano Nicolau Maquiavel (1469-1527), se a chapa Lula/Alckmin não nos levará por decreto ao paraíso, retomar o “modus operandi” de um governo como o de 2019-2022 por mais quatro anos já seria o inferno. Há de se colocar novamente a possibilidade de um Brasil para todos e todas, governado para além do “cercadinho”.

Pensar diferente ou simplesmente se posicionar politicamente em uma sociedade cada vez mais agressiva, violenta e armada, não pode colocar as pessoas em perigo de demissão, agressão, ou mesmo, morte. Que possamos perceber que o projeto de Flavio Bolsonaro é aprofundar as diferenças estruturais da realidade brasileira, abrindo as portas para uma colonização definitiva dos EUA.

Várias referências vêm alertando que os extremismos estão chegando a níveis intoleráveis e insuportáveis e pessoas que se intitulam “do bem” estão perdendo a capacidade de discernir sobre as consequências de suas decisões no mundo real. São autodeclarados “cidadão de bem”, mas não se furtam a ofender e até agredir aqueles e aquelas que pensam ou vivem de modo diferente – o fanatismo político vem produzindo danos irreparáveis no cotidiano. Em um país democrático, advogar em nome de um espectro político mais à esquerda ou mais à direita é um direito inalienável.

Mas isso que estamos vendo é um movimento absurdo que não pode alçar um representante à condição de Presidente do Brasil. A subserviência em relação aos EUA deveria ser, por si só, motivo de vergonha. Sem falar dos recursos não explicados oriundos de um banqueiro corrupto para a produção de um “filme de louvor” a Jair Messias Bolsonaro.

Enfim, os argumentos aqui apresentados não são novos, mas necessários de serem evidenciados em tempos difíceis para o diálogo e para as coisas do pensamento. Bem verdade, aqueles convertidos possivelmente não irão fazer a leitura do texto e, se o fizerem, não levarão em consideração os elementos apresentados. Porém, reconhecer criticamente os avanços do Governo Lula é uma postura que não pode sucumbir frente a discursos frágeis de um movimento político que se sustenta pelo fundamentalismo político-religioso.

Certamente, não estamos no paraíso com o governo Lula/Geraldo Alckmin, longe disso. Porém, o caminho será muito mais difícil para quem não nasceu em “berço esplêndido”, caso o espectro bolsonarista voltar ao poder, que isso fique muito claro.

Infelizmente, o cenário leva a crer que a mancha do chamado “bolsonarismo” ainda levará tempo para ser devidamente reconhecida como o rotundo erro que foi/é (assim como a escravidão, o nazismo, a ditadura militar e outros). Os tempos que teremos pela frente não serão fáceis. Que possamos aprender com Oswald de Andrade e com Eliane Brum.

Que possamos enfrentar a catequização laica que nos persegue na política. Que possamos cultivar a saudável necessidade do ateísmo político. Que a razão nos guie nas eleições de 2026 para os caminhos tortuosos da democracia e da soberania nacional, caminhos nunca fáceis, nunca dados de vez, que precisamos aprender construir a cada vez.

Que as eleições de outubro nos permitam vislumbrar cenários de futuro mais promissores e democráticos. Mas sem ilusões, pois o caminho da democracia é (sempre) longo e penoso…

 

Fonte: Por Ricardo Rezer, em A Terra é Redonda 

 

O Brasil diante da destruição do possível

Como parte da totalidade do mundo que abriga o pequeno e ameaçado planeta Terra, sob o domínio do destrutivo modo de produção capitalista, atualmente em sua fase mais bélica, o Brasil não está imune ao que globalmente podemos caracterizar como barbárie social e colapso ambiental, questões ostensivamente visíveis e criminosamente borradas e negadas pela direita e, com rematado deboche e escárnio, pelo discurso obscurantista e estratégico difundido pela extrema direita local e global.

Algo como uma cegueira coletiva passa a ocupar e neutralizar o poder de cognição da sociedade. A ignorância é fortalecida por um processo programático de aversão à teoria. A quem tem alguma familiaridade com o pensamento filosófico é dado saber que a palavra teoria, de origem grega, inclui a ideia de visão.

Desde a segunda metade da segunda década do século XXI, agudizada no período 2019-2022, o Brasil adentrou na fase cognitiva da ignorantosfera. A agnotologia é a área do conhecimento que cuida desse estado social, não previsto por Comte em sua tipologia dos três estados. A visão se fez curta e a ignorância, na forma mais encouraçada, passou a ser celebrada com euforia social. Publicada em 1953, a obra O Assassinato de Cristo: Volume Um de A Peste Emocional da Humanidade, escrita por Wilhelm Reich, segue como uma contribuição incontornável para pensar e enfrentar o imenso vazio cognitivo da humanidade.

A despeito, como afirma Wilhelm Reich, do que já escreveram Locke, Hume, Kant, Marx, Spengler, Freud e muitos outros grandes pensadores, a verdade é que “a imensa maioria dos homens não foi tocada pela pesquisa filosófica”. Como estamos distantes do que Santo Agostinho, na Antiguidade Cristã, imaginava como ideal da humanidade: ter na sabedoria a verdadeira medida da alma.

Neste 2026, no dia da eleição presidencial mais importante para a escolha dos limites e possibilidades de um povo, num contexto econômica, política e socialmente revolvido pela globalização neoliberal, brasileiros e brasileiras se veem diante de uma decisão. Que decisão é essa?

Ela não diz respeito a uma pessoa, a um partido ou a uma ideologia, como pode ter sido em outras eleições. Ela sequer diz respeito, como há muito não diz, à escolha de um projeto de país. Mal saído do inferno que foi o período 2019-2022, o Brasil de 2023 até 2026 ainda em curso, a despeito do que foi reconstruído pelo governo Lula, não conseguiu retomar o necessário e há muito abandonado – e sem dúvida por adesão à equivocada política de conciliação de classes – projeto do Brasil-nação.

Como escreve o grande pensador de nossas contradições sociais, Octavio Ianni: “O que caracteriza a encruzilhada em que se encontra o Brasil, na transição do século XX ao XXI é o abandono e o desmonte do projeto nacional, com suas implicações político-econômicas e sócio-cuturais, e a implantação de um capitalismo transnacional”.

Não houve desvio de rota: de província do colonialismo no século XVI chegamos à condição de província do globalismo no século XXI. O que podemos escolher nessas eleições? Trata-se pura e simplesmente da escolha da possibilidade de manutenção de padrões institucionais razoavelmente democráticos de regulação da luta de classes ou da implantação de um estado de exceção legitimado pelo voto e legalizado institucionalmente, no qual a violência da classe dominante se torna a forma fundamental de dominação para sustentar a superexploração dos que vivem do próprio trabalho.

O projeto de Brasil-nação foi sequestrado da pauta política das eleições de 2026. Por falta, de um lado, de iniciativa orgânica das forças de esquerda e, de outro, com generoso financiamento da burguesia nacional e transnacional, pela ocupação do espaço político pela pauta da moralidade, da corrupção, dos bons costumes, colorida em verde e amarelo pela hipocrisia da direita e, sobretudo, da extrema direita, sob o vazio das palavras de ordem em defesa de Deus, da Pátria e da Família.

Esse é o significado das duas candidaturas com chances reais de vitória. Contrariamente ao que muitos chamam de “polarização”, aludindo ao que caracterizaria a política brasileira – e mundial – hoje, não estamos diante de nenhuma candidatura de esquerda com chances de vencer as eleições, assim como não tivemos, desde o fim da Nova República, nenhum governo de esquerda. Isso para não observar que sob a obtusa compreensão política de boa parte da direita e maior parte da extrema direita até uma corporação mediática como a Rede Globo é vista como de esquerda.

Talvez se possa dizer que um partido de origem esquerdista, o PT, venceu cinco eleições. Mas há enorme diferença entre a formalidade do governo e a materialidade do poder e não se pode afirmar que nenhum de seus governos foi, de fato, orientado, predominantemente, por políticas comprometidas com mudanças estruturais da sociedade brasileira que a aproximassem de outro modo de organizar as relações de produção econômica e de dominação política. Não!

Os vice-presidentes de Lula e Dilma Rousseff dizem muito sobre o sentido conciliador de seus governos. Os dois primeiros governos de Lula, entre 2003 e 2010, foram feitos ao lado de José Alencar, grande empresário mineiro filiado ao antigo Partido Liberal (algo bastante diferente do que é hoje essa agremiação); ao lado de Dilma Rousseff, em seus cerca de seis anos de mandato, estava Michel Temer, do insuspeito Movimento Democrático Brasileiro, que de herdeiro da resistência à ditadura se converteu em parteiro de ditadores.

Essa política de “conciliação pelo alto”, como cunhou Florestan Fernandes, redundou em compromissos formal e objetivamente assumidos, como foram a Carta ao Povo Brasileiro e a manutenção das orientações relativas ao ajuste estrutural determinadas pelo Banco Mundial e pelo FMI. Além do tripé macroeconômico – superávit primário, metas de inflação e câmbio flutuante –, os governos de conciliação pelo alto mantiveram as políticas de desestatização, através das concessões e privatizações, da contrarreforma previdenciária, das políticas focais (isto é, dirigidas a grupos específicos da sociedade brasileira em oposição às políticas universalistas), das políticas educacionais de mercado e do beneficiamento do agronegócio e das finanças na definição das políticas de financiamento e gasto público – o que implica a destinação orçamentária.

Cabe lembrar que boa parte dessas políticas é de definição do legislativo; ou seja, a ele também coube a iniciativa ou a concordância com projetos de lei e medidas provisórias que atendiam a tais demandas. Também é preciso mencionar que outras tantas propostas, que feriam ou fugiam às determinações da Constituição de 1988, foram acolhidas pelo Supremo Tribunal Federal, como as relativas à própria Previdência, às relações de trabalho e às privatizações. O fato é que desde seu primeiro governo, Lula e o PT se afastaram dos ideais que, quando da fundação do Partido, em 1980, o identificavam como um partido “de esquerda”.

Esse afastamento se deu num contexto de aprofundamento da crise capitalista em escala mundial e de avanço da financeirização da economia apoiada nas tecnologias de informação e comunicação, que a partir dos anos 2010 se converteriam no centro nevrálgico da política. Lula deixou seu segundo mandato consagrado pelo eleitorado e pela comunidade internacional.

Não à toa, foi importante agente político na eleição de sua Chefe da Casa Civil, Dilma Roussef, reeleita em 2014, mesmo depois de enfrentar fortes movimentos populares que reivindicavam políticas que levassem à melhoria das condições de vida da maioria da sociedade (educação, saúde, saneamento, transporte etc.). As assim chamadas Jornadas de Junho de 2013 não foram compreendidas pelo governo como parte das reivindicações que deram origem ao próprio partido. Ao contrário, foram interpretadas como provenientes de opositores ao governo cujo fim era desestabilizá-lo.

A surdez para as ruas levou a atenção do governo para os agentes do mercado e, para atendê-los, a políticas fiscalistas de maior arrocho ainda para a classe trabalhadora. O isolamento político de Dilma culminou com um golpe legislativo e judiciário, a que muitos chamam de impeachment.

Com Dilma Rousseff ainda à frente do governo, teve início uma luta que articulava internacionalmente o Estado norte-americano e sua alta burguesia, combinados à alta burguesia de origem nacional brasileira, à grande imprensa tradicional e a frações dos poderes judiciário e legislativo, todos amalgamados na Operação Lava-Jato.

Golpeado o governo de Dilma Rousseff, o desafio posto para essas forças políticas era evitar descontinuidade e, se possível, aprofundar a tragédia da Ponte para o Futuro erguida por Michel Temer, com seu teto de gastos que engessava o investimento e o gasto público por vinte anos. Deu-se o segundo golpe: Luiz Inácio Lula da Silva, cuja nomeação para o ministério de Dilma Rousseff fora proibida pelo ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, foi condenado em primeira instância e preso.

O processo e a prisão do ex-Presidente nada tinham a ver com a justificativa da Operação da Polícia Federal. O vazamento das mensagens trocadas entre Sérgio Moro, juiz que o condenou, e Deltan Dallagnol, promotor que chefiou a acusação, revelaram um conluio envolvendo ambos, além da grande imprensa que os apoiou irrestritamente e o Departamento de Estado norte-americano.

O objetivo principal da Operação foi alcançado: preso, Lula foi impedido de concorrer às eleições e com isso abriu-se espaço para uma vitória eleitoral de candidato mais à direita do espectro político. Contudo, o feitiço fugiu ao controle dos feiticeiros. A militância política contra a política repetida diuturnamente nos canais abertos de TV, nas rádios e também nas redes sociais, criou o ambiente propício para o surgimento de um candidato que se travestia da indignação generalizada, representando-a sob a forma de um discurso de inspiração neofascista, num contexto político e econômico que se assemelhava ao fascismo apenas pelo fato de ser o de uma crise capitalista.

Jair Bolsonaro foi eleito e governou, se assim se pode dizer, sob o signo da destruição. Seu governo acelerou algo anunciado no primeiro governo de Fernando Henrique Cardoso, a liquidação da era Vargas. Os efeitos dessa destruição foram tão profundos que, candidato à reeleição, o ex-presidente foi o primeiro a não se reeleger estando no exercício do mandato. Diante da possibilidade do fracasso eleitoral, vislumbrada desde o primeiro dia de mandato, Jair Bolsonaro despendeu a maior parte de seus esforços retóricos e políticos com a desqualificação das instituições da república (por ele governada) e com a conspiração para um golpe de Estado.

O golpe foi evitado, mas os poderes da república, já frágeis, foram ainda mais abalados por sua ação.  Na mobilização popular com vistas a pressionar as forças armadas a aderirem ao golpe desejado, várias cenas chocantes de dissonância cognitiva explícita ganharam a praça pública. Uma delas, icônica, a manifestar o apogeu do negacionismo, foi a de pessoas organizadas em volta de um pneu para o qual rezavam, a implorar uma intervenção de forças sobrenaturais.

Hoje, quase quatro anos após o registro daquelas cenas, estamos às vésperas de uma nova eleição presidencial. O que vemos? O que percebemos é que muitas das pessoas que rezavam para pneu em praça pública ainda o fazem em seus altares privados. O simples fato de uma pessoa como Flávio Bolsonaro ter a possibilidade de concorrer ao cargo de Presidente da República com alguma chance de ganhar, diz muito sobre aquilo em que foi transformada a política, como a conhecíamos, e as eleições.

Nos EUA, Donald Trump foi reeleito, mas depois de ter perdido uma eleição. Aqui, Bolsonaro, o Jair, perdeu, foi processado e preso, o que o impediu de concorrer. Designou seu filho como herdeiro do espólio eleitoral e o 01, apesar de uma ficha corrida que passeia pelo código penal, pode ir ao segundo turno das eleições com chances de vencê-las. O que isso prova? Pergunta que nos fazemos. A resposta mais direta a que conseguimos chegar é que para uma boa parte da sociedade, a selva capitalista nua e crua, sem anteparos, é mais honesta do que as tentativas de remediar um ou outro efeito da superexploração.

O que talvez não se tenha entendido é que o fim dos anteparos, por menores que sejam, é igual a uma combinação perversa e brutal de superexploração com superdominação de classe. Flávio Bolsonaro é a face visível dos senhores das Big Techs, de Wall Street e do agro. Eles são a encarnação perfeita do espírito do capitalismo, a aparência como simulacro da essência, ambos constituindo o todo. Dos hábitos de consumo sofisticados à moral, são o oposto do que dizem e do que se vê.

Logo, há um número expressivo de pessoas entregando suas vidas e desejando entregar a de todos a embusteiros, sacripantas, em suma, ao capital em forma de gente. A questão não é moral e o mal que ameaça o cotidiano da vida do povo brasileiro é de gênese política, não metafísica.

O que nos causa temor e tremor é, a depender do resultado dessas eleições, a possibilidade real de o Brasil se converter num quintal da geopolítica imperialista do Império do Norte, mais como escárnio do que tragédia e farsa, porque sob gritos de conteúdo religioso e moral, e sob bandeiras da defesa ideológica de Deus, da Pátria e da Família. Seremos a Grande Pátria da soberania reversa.

 

Fonte: Por Marcelo Seráfico, em A Terra é Redonda

 

 

As surreais eleições dos anos 80 e 90 em que uma marca de cerveja estampou as cabines de votação no Brasil

Se não são poucas as questões em que olhares contemporâneos se espantam com o que era normal no passado, publicidade de cerveja no momento da votação é um item que merece estar na lista.

Pois da redemocratização do Brasil até meados dos anos 1990, a Antarctica — hoje marca do grupo Ambev — tinha seu logo e nome em letras garrafais estampados nas cabines que protegem o sigilo do voto do eleitor brasileiro.

"Mais do que algo 'autorizado pela lei', me parece que foi algo que era meio que tolerado em um espaço que ainda não estava claramente regulado", diz o consultor de marketing Nino Carvalho, professor no Instituto Português de Administração de Marketing (IPAM) e autor do livro Mais Marketing, Menos Guru. "Era meio que novo para todo mundo. E isso abriu espaços a interpretações e usos que, hoje, nos parecem abusos ou até coisas inacreditáveis."

Carvalho vê problemas éticos nesse tipo de ação. "O voto, provavelmente, é um dos atos mais públicos e simbólicos do exercício da cidadania. Quando uma marca privada aparece justamente dentro daquele. ambiente, ela deixa de ser simplesmente a fornecedora de um pedação de papelão ou de uma estrutura física. Passa a se associar simbolicamente à eleição e à própria instituição democrática. Isso é forte. Temos de refletir sobre isso."

A julgar pela imprensa da época, não parecia ser um fato encarado como problemático. Uma das raras críticas a respeito teve contornos de humor. Em sua coluna no jornal Folha de S. Paulo, o articulista José Simão fez piada a partir do fato de que a mesma agência de publicidade que tinha realizado a campanha vitoriosa do então presidente eleito Fernando Henrique Cardoso era a responsável pela conta da Antarctica.

Simão escreveu que aquilo parecia "um pacote". "[A agência] patrocinou as cabines e elegeu o presidente: tudo ao mesmo tempo", brincou ele. "E olha a ironia: não pode beber no dia da eleição mas as cabines eram da Antarctica. E outra ironia: as cabines eram da Antarctica e a gente que fica de ressaca?"

<><> Falta de dinheiro

Levantamento realizado pela reportagem a partir de fotografias de eleições passadas identificou o patrocínio nas eleições de todas as esferas de 1989 a 1998. Nem o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nem a Ambev confirmaram as datas.

Procurada pela BBC News Brasil, a assessoria de imprensa do TSE disse não ter informações para responder às perguntas sobre o tema. Já a equipe de comunicação da marca de bebidas demonstrou não querer falar sobre o assunto e, por fim, declarou que não conseguiria contribuir com as informações solicitadas.

A decisão de abrir para a iniciativa privada a participação no processo eleitoral reflete as dificuldades orçamentárias enfrentadas pela Justiça Eleitoral naquele momento de redemocratização, prestes a organizar a que seria a maior eleição do Brasil até então: a que elegeu Fernando Collor de Mello em 1989, o primeiro presidente escolhido por voto direto desde a ditadura militar que durou de 1964 a 1985.

"A legislação [eleitoral] ainda era prematura e havia um vácuo orçamentário. Com dificuldades financeiras para cobrir a distribuição de todas as cabines no Brasil, já que a eleição era um evento novo em termos de instraestrutura e logística, a Antarctica veio como parceira, como patrocinadora", analisa o publicitário Marcello Monteiro Gabbay, professor na Universidade São Judas.

"Era uma possibilidade muito curiosa, de fato. Não havia, na época, uma preocupação tão grande assim com a mistura de dinheiro de empresa privada com o processo da eleição", diz o advogado Alberto Rollo, especializado em direito eleitoral.

"E, francamente, a Justiça Eleitoral passava por dificuldades financeiras grandes e talvez até não tivesse dinheiro para fazer isso."

Na realidade, a lei não permitia expressamente. Mas também não proibia.

"A legislação era dúbia. Em uma época de escassez e poucos recursos para a Justiça Eleitoral, qualquer empresa podia patrocinar ou custear a infraestrutura", comenta o jurista Giuliano Salvarani, professor na Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM). "O debate ético passava ao largo das discussões mais antigas, ninguém via problema."

<><> O fim do marketing na cabine

Ao mesmo tempo que o processo eleitoral se consolidava, com a democracia brasileira se acomodando, entendimentos legais passaram a disciplinar melhor os limites do privado no processo público de votação. Há pistas disto na Lei das Eleições, de 1997. "Não trata propriamente do assunto, mas tem uma norma que parece logicamente incompatível com o uso de cabines para propaganda", afirma o jurista Carlos Ari Sundfeld, professor na FGV-Direito.

Ele se refere ao artigo 44, que fala especificamente da "propaganda eleitoral". Em um dos parágrafos, diz que "não se permitirá utilização comercial ou propaganda realiza com a intenção, ainda que disfarçada ou subliminar, de promover marca ou produto".

O ponto da lei não são as cabines, e sim a propaganda eleitoral dos candidatos. Mas, por extensão, é possível ampliar o entendimento, segundo o jurista.

"Imagino que, com o crescimento das verbas para a organização dos pleitos, que ocorreu com a consolidação da democracia, a Justiça Eleitoral tenha conseguido se virar sozinha", comenta Sundfeld.

De lá para cá, contudo, há entendimentos do TSE que confirmam a abolição da ideia de usar esses espaços como veículo de publicidade. "Com muita eficiência, e super-corretamente, penso eu, a regulação brasileira tem ficado cada vez mais restritiva em relação à presença do poder econômico privado em qualquer etapa do processo eleitoral", analisa o professor Carvalho.

"Verificou-se que não era adequado, não era ético. E talvez até não fosse moral", comenta Rollo. "A Justiça Eleitoral entendeu que não deveria misturar empresas privadas com o processo eleitoral."

Levantamento feito por Carvalho encontrou um entendimento do TSE datado de 16 de dezembro de 2003, a partir de análise da possibilidade de patrocínio de cabines de votação e formulários de justificativa. A resposta foi negativa.

"O fundamento foi claríssimo", diz o especialista. "Basicamente dizendo, com palavras técnicas, que não seria conveniente que esses materiais trouxesse referência a 'entidade ou empresa, pública ou privada', porque a independência da Justiça Eleitoral precisava ser preservada de qualquer suspeita."

Cinco anos mais tarde a pauta voltou ao tribunal. Outra vez, o entendimento foi que não era pertinente. Ao que parece, a era das cabines patrocinadas ficou para trás.

"O que dá para afirmar, com base em fontes concretas, é que em 2003 o TSE rejeitou expressamente o patrocínio e, em 2008, reafirmou [a rejeição]", diz Carvalho.

"Discussões éticas foram acontecendo ao longo do tempo", argumenta Gabbay. "Hoje consideramos anti-ético a interferência de marca em um processo que se pressupõe isento. Mas no passado não se pensava nisso."

"Houve uma certa moralização", define o jurista Salvarani.

<><> Álcool e eleições

As cabines de votação com logo da Antarctica hoje são gatilhos de memória afetiva e rendem memes, principalmente quando viralizam imagem de celebridades no momento da votação — caso icônico e que reverbera muito é o do piloto Ayrton Senna da Silva (1960-1994) votando em 1989.

"A intenção, ao pé da letra, era promover a marca em um evento de grande alcance público", comenta o publicitário Gabbay. Praticamente todo mundo vota. E as imagens da eleição circulam na mídia. O alcance, portanto, é gigantesco. "Uma oportunidade massiva, com fotos maravilhosas do ponto de vista da marca", prossegue o professor.

"Uma das funções do patrocínio é exatamente essa transferência de associações e de. imagem entre aquilo que é patrocinado e a marca patrocinadora", contextualiza o consultor Carvalho. "Por isso, [nesse caso,] o buraco ético é mais embaixo. A prática [da cabine patrocinada por cervejeira] pode não ter sido ilegal, mas, ainda assim, deve muito ser questionada."

Há uma ironia ética nessa história. A norma conhecida popularmente como "lei seca". Não se trata na verdade de uma legislação federal, mas de uma tradição administrativa regionalizada, que começou a surgir ainda nos anos 1960 e se tornou amplamente difundida em boa parte do país nos anos 1990. Na prática, cabe a cada estado definir se proíbe ou não — e sob quais condições e horários — a venda e o consumo, em espaços públicos, de bebidas alcoólicas no dia da eleição. Determinada por portarias, costuma ser adotada na maioria das unidades da federação.

A ideia é diminuir a incidência de conflitos e tumultos. E também preservar a consciência do cidadão, para que esteja lúcido no momento do voto. "A preocupação é que não haja excesso de consumo de algo que altere a consciência em um dia em que o eleitor precisa tomar uma decisão objetiva. Há o compromisso moral de estar sóbrio, ciente da escolha feita no momento do voto", analisa Gabbay.

Salvarani afirma que, se tal patrocínio institucional "não fazia diferença alguma" do ponto de vista da lei seca, a situação "deixava a circunstância um tanto quanto mais constrangedora".

"Não dá pra ignorar o fato de que, enquanto autoridades públicas restringiam a venda de álcool no dia da eleição em nome da ordem e da liberdade do voto, uma marca vinculada fortemente à cerveja podia aparecer dentro da própria cabine eleitoral", afirma Carvalho.

Especialistas comentam — e era um argumento utilizado pela própria empresa na época — que a Antarctica não é apenas marca de cerveja, mas também de refrigerante. O logo estampado na cabine, entretanto, é a inconfundível imagem dos dois pinguins do rótulo cervejeiro, muito diferente do que aparece nas embalagens de guaraná.

O especialista Nino Carvalho explica que, ainda que haja "um prisma" que permita a leitura ampla de que se tratava de uma marca "de bebidas em geral", do ponto de vista do marketing, "o efeito desejado pela ação, sim, era evidente e associação especialmente com cerveja".

Da perspectiva estritamente marqueteira, é claro, a ideia de uma cerveja gelada em um dia sem trabalho parecia ser uma boa sacada. Inclusive porque eleições sempre aos domingos são uma novidade — o primeiro turno de votação de 1994, por exemplo, foi em uma segunda-feira tornada feriado por causa do pleito.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Menopausa pode revelar sinais ligados ao risco de Alzheimer

Frequentemente ignorado em pesquisas, um espaço entre as células no cérebro feminino pode ser a chave para a compreensão da perda de memória associada à queda dos níveis de estrogênio após a menopausa. A constatação é de um estudo

Segundo estatísticas globais, até 70% dos pacientes com doença de Alzheimer (DA) são mulheres, mas os motivos pelos quais o sexo feminino é mais vulnerável ainda não foi totalmente compreendido. Há muito tempo, acredita-se, a queda de estrogênio após a menopausa pode reduzir a proteção natural do cérebro contra a perda de memória e a neurodegeneração.

No novo estudo, os cientistas examinaram camundongos machos e fêmeas jovens e idosos, com ou sem perda de estrogênio cerebral, o que permitiu identificar os efeitos especificamente relevantes para as fêmeas mais velhas. Eles descobriram que a queda do hormônio, o envelhecimento e o sexo feminino estão significativamente associados a problemas em uma rede de moléculas importante, porém frequentemente ignorada, da biologia cerebral, chamada matriz extracelular (MEC), que é altamente abundante no hipocampo.

<><> Novas perspectivas

"Esse estudo indica que as mulheres — mas não os homens — podem ser particularmente sensíveis à perda de estrogênio no cérebro na velhice, o que pode contribuir para um risco aumentado de doença de Alzheimer", disse, em nota, Hong Zhao, autora correspondente e professora de pesquisa em obstetrícia e ginecologia na divisão de ciência reprodutiva da Faculdade de Medicina Feinberg da Universidade Northwestern. Segundo os pesquisadores, os resultados oferecem novas perspectivas sobre como a perda de estrogênio pode afetar o envelhecimento do cérebro feminino, ajudando a explicar por que as mulheres têm maior risco de desenvolver demência.

Assim como a argamassa entre os tijolos, a matriz extracelular (MEC) é uma rede de moléculas que preenche os espaços entre as células cerebrais. Ela é importante para a memória, o desenvolvimento e a saúde do cérebro, e representa quase 20% do volume cerebral. A MEC atua como uma estrutura de suporte entre as células, ajudando-as a se comunicarem e a funcionarem adequadamente. 

Tradicionalmente, os cientistas têm se concentrado no estudo de células cerebrais, como neurônios e aquelas da glia, e têm dado muito menos atenção ao espaço entre as células, argumentam os autores do estudo. Essa é a primeira pesquisa a examinar a perda de estrogênio na matriz extracelular. "Esperamos que nossas descobertas motivem estudos futuros para melhor compreender como essa matriz é alterada em mulheres na pós-menopausa e como isso pode potencialmente induzir a suscetibilidade à doença de Alzheimer", disse Zhao.

Os tratamentos anti-amiloides atuais para a doença de Alzheimer, como o lecanemab e o donanemab, podem remover o acúmulo anormal da proteína amiloide no cérebro, que é um dos principais sinais da doença. No entanto, ainda não está claro o quanto esses tratamentos realmente ajudam a retardar a perda de memória ou a melhorar o funcionamento diário. Alguns estudos mostram pequenos benefícios, enquanto outros demonstram pouca melhora significativa. Para os pesquisadores de Northwestern, as descobertas publicadas na Aging Cell sugerem uma possível nova abordagem de tratamento focada na restauração do ambiente de suporte do cérebro — a MEC (matriz extracelular).

<><> Queda

Antes da menopausa, os ovários são a principal fonte de estrogênio nas mulheres. Depois, porém, os níveis do hormônio caem drasticamente e apenas pequenas quantidades são produzidas em outras partes do corpo, incluindo o cérebro, o tecido adiposo e o mamário, os ossos, os músculos e os vasos sanguíneos. O estudo publicado na Aging Cell confirma pesquisas anteriores, segundo as quais pacientes de Alzheimer do sexo feminino podem ter menor quantidade da substância em comparação àquelas sem a doença. 

"É necessário realizar mais pesquisas para entender como o estrogênio afeta o cérebro feminino e por que a perda de estrogênio aumenta o risco de Alzheimer em mulheres", disse Zhao. "Compreender esses mecanismos pode ajudar os pesquisadores a desenvolver estratégias de terapia de reposição hormonal mais seguras e eficazes para prevenir ou retardar a progressão do Alzheimer em mulheres."

<><> Reposição sob prescrição médica

A terapia de reposição hormonal (TRH), que restaura os níveis de estrogênio, tem sido estudada como uma possível forma de proteger as mulheres da doença de Alzheimer. No entanto, os estudos clínicos apresentaram resultados contraditórios. Alguns constataram que a TRH melhorou a memória e a função cognitiva, enquanto outros mostraram pouco benefícios. Essas diferenças podem depender do tipo de tratamento hormonal utilizado, da idade em que o tratamento é iniciado e das diferenças no desenho do estudo.

Hoje, os médicos recomendam que, caso haja indicação, a reposição pode ser iniciada ainda na perimenopausa, período que pode anteceder a menopausa em uma década. "A perimenopausa é marcada por grandes oscilações nos níveis de estrogênio e progesterona, provocadas pela diminuição gradual da função ovariana. Diferentemente do que se imagina, não se trata de uma queda linear dos hormônios, mas de flutuações intensas e imprevisíveis, capazes de afetar diversos sistemas do corpo, especialmente o cérebro", explica a médica Fabiane Berta, de São Paulo, que também é pesquisadora de climatério e menopausa. 

<><> Transição 

Segundo Berta, estudos conduzidos por universidades e centros de pesquisa internacionais apontam que essa fase representa um estado de transição neurológica, semelhante, em intensidade biológica, à puberdade, mas no sentido inverso. "Muitos dos sintomas mais comuns da perimenopausa têm origem cerebral. Regiões como o hipotálamo e o hipocampo, responsáveis pela regulação da temperatura corporal, do sono, da memória e das emoções, são altamente sensíveis às variações do estrogênio. Essas alterações hormonais interferem diretamente em neurotransmissores como serotonina, dopamina e noradrenalina, o que ajuda a explicar sintomas frequentes como irritabilidade, ansiedade, lapsos de memória, dificuldade de concentração e alterações de humor", afirma.

A ginecologista Bruna Paschoalim, de São Paulo, esclarece que, quando há sintomas relacionados à queda hormonal, a terapia de reposição pode ser indicada, com avaliação médica. Ela ressalta que ainda há mitos em relação ao tratamento, porque antigas informações sobre risco aumentado de câncer continuam em circulação. A especialista esclarece, porém, que as novas diretrizes internacionais apontam para a segurança dos medicamentos, quando há acompanhamento de um profissional. 

 "Existe muito tabu em relação à reposição hormonal por conta de estudos antigos que geraram medo nas pacientes. Hoje, medicina já revisitou muita coisa e entende melhor quais mulheres podem se beneficiar do tratamento e quais precisam de mais cautela", explica Paschoalim. A ginecologista cita um estudo de revisão publicado pela The Menopause Society que constatou que, quando bem indicada e acompanhada individualmente, a terapia pode trazer benefícios significativos na qualidade de vida, incluindo os sintomas associados à memória e à cognição. 

<><>  Terreno preparado para o bem-estar cognitivo

Pesquisadores da Universidade da Califórnia em São Francisco (UCSF), nos Estados Unidos, descobriram como os níveis de 16 moléculas no sangue, todas ligadas ao envelhecimento cerebral, aumentam durante a transição da menopausa na meia-idade. Em mulheres mais velhas, taxas mais altas dessas partículas foram associadas a pior memória e habilidades cognitivas, assim como ao risco de Alzheimer. Segundo os autores do estudo, publicado na revista Nature Medicine, isso sugere que a biologia desta fase reprodutiva pode preparar o terreno para a saúde do cérebro décadas depois. 

"Não acreditamos que a menopausa cause demência diretamente", disse, em nota, Kaitlin Casaletto, professora associada do Centro de Memória e Envelhecimento Fein da UCSF e coautora sênior do estudo. "Mas é possível que possamos prever o risco de uma mulher desenvolver demência décadas depois, com base nos níveis dessas moléculas durante a menopausa."

As primeiras alterações cerebrais associadas à doença de Alzheimer começam muitos anos antes do aparecimento dos sintomas. Para as mulheres, isso aponta para um período crítico próximo à menopausa — a cessação da menstruação, que ocorre em média aos 51 anos. Isso levou Casaletto a se perguntar se haveria mudanças ocorrendo no cérebro de algumas mulheres durante essa fase que pudessem se traduzir no risco e na resiliência à demência.

Os pesquisadores recrutaram 80 mulheres entre 40 e 50 anos e usaram uma ferramenta chamada STRAW+10, que combina sintomas e níveis hormonais, para avaliar exatamente em que fase da transição da menopausa cada mulher se encontrava. Um exame de sangue, que mede mais de 100 moléculas ligadas à saúde cerebral, identificou 16 cujos níveis se alteraram ao longo do fim do período reprodutivo.  

<><> Inflamação 

Moléculas associadas à inflamação cerebral aumentaram à medida que os níveis do hormônio estradiol diminuíram, enquanto um grupo separado de partículas ligadas à biologia da doença de Alzheimer se elevou quanto maiores as taxas do hormônio folículo-estimulante (FSH). Os resultados foram replicados em uma análise de dados coletados anteriormente de mais de 2,8 mil mulheres. 

Quando os cientistas analisaram os níveis dessas mesmas moléculas em mulheres na faixa dos 60 e 70 anos — usando dados de quase 12 mil participantes de quatro estudos anteriores — descobriram que as mais velhas e com as taxas mais altas dessas partículas tinham piores desempenhos em testes de memória e um risco 15% maior de desenvolver a doença de Alzheimer nos anos seguintes. 

Patrícia Menegusso, médica de São Paulo com atuação em saúde da mulher, climatério e menopausa, ressalta que o estudo não significa que o fim do ciclo reprodutivo causa demência. "É muito importante não transformar uma associação científica em uma conclusão que o estudo não permite", diz. "A maioria das mulheres que passa pela menopausa não desenvolverá demência. O que a ciência está investigando é se essa fase pode representar uma janela importante para compreender fatores relacionados à saúde cerebral ao longo da vida", esclarece.(PO)

<><> Reorganização do cérebro 

Estudos de neuroimagem sugerem que o cérebro feminino passa por um processo de reorganização durante a transição menopausal. Alterações observadas nessa fase tendem a se estabilizar ao longo dos anos seguintes, indicando que o cérebro é capaz de se adaptar à redução dos níveis de estrogênio. 

<><> Sintomas cognitivos mais comuns

  • esquecer compromissos recentes;
  • perder o fio de uma conversa;
  • ter dificuldade para encontrar palavras;
  • apresentar lapsos de atenção;
  • sentir a mente mais lenta ou menos organizada.

<><> O que ajuda a proteger o cérebro

  • praticar atividade física regularmente;
  • manter uma alimentação de padrão mediterrâneo;
  • dormir adequadamente;
  • controlar pressão arterial, colesterol e glicemia;
  • reduzir o consumo de álcool;
  • estimular o cérebro por meio de leitura, aprendizado de idiomas, música e outras atividades cognitivamente desafiadoras;
  • tratar adequadamente ansiedade, depressão e outros transtornos emocionais.

Fontes: The Menopause Society, Alzheimer’s Association, pesquisas da Weill Cornell Medicine e publicações na Nature Reviews Neurology e The Lancet

 

Fonte: Correio Braziliense

 

 

Marlon Ochoa: “Brasil é a última peça de Trump para controlar minerais da América Latina”

“Os bancos e empresas de telecomunicações transnacionais uniram-se, na semana das eleições de Honduras, para enviar milhões de mensagens aos destinatários das remessas, alertando-os de que, se Rixi Moncada, candidata do Partido Libre, vencesse o pleito, eles perderiam esses recursos. Além disso, Donald Trump publicou mensagens em suas redes sociais e pediu votos para seu candidato, Nasry Asfura – que hoje é presidente – e atacou os outros dois que lideravam as pesquisas”, afirmou o ex-membro do Conselho Nacional Eleitoral (CNE) de Honduras, Marlon Ochoa.

Apresentando áudios que comprovam “a maior interferência dos Estados Unidos nas eleições de sua história”, por meio da intervenção direta do “consultor” argentino Fernando Cerimedo – atualmente preso na Bolívia – nas eleições gerais hondurenhas de novembro de 2025, Marlon Ochoa reitera a importância crucial da reeleição de Lula no próximo domingo.

Em entrevista exclusiva, recorda que Trump apelou e, dois dias antes das eleições, “anunciou que concederia perdão ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado por traficar mais de 400 toneladas de cocaína para os EUA e que cumpria pena de 45 anos de prisão”.

Diante de tantos e tamanhos atentados à democracia, como a manipulação e fraude de atas eleitorais, o ex-membro do CNE, ex-ministro de Finanças e do Serviço de Administração de Rendas do governo de Xiomara Castro, elogiou a postura soberana do “presidente Lula, que está bastante atento à ingerência de Trump”. “Há alguns dias os EUA enviaram funcionários para tentar deslegitimar o sistema de votação eletrônica brasileiro, mas o governo não permitiu a entrada deles”, assinalou Ochoa, atualmente exilado no México pelas ameaças de morte.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Apresentaste áudios que comprovam a intervenção direta de Fernando Cerimedo na fraude que levou o ultradireitista Nasry Asfura à presidência de Honduras, no que foi, como denunciaste, “a maior interferência dos Estados Unidos em eleições na história do país”. Como ocorreu essa intervenção?

Marlon Ochoa: Bom, para explicar a intervenção dos Estados Unidos nas eleições de novembro de 2025, é preciso falar um pouco sobre o que aconteceu especificamente na semana anterior ao processo eleitoral.

Cinco dias antes das eleições, em pleno período de silêncio eleitoral (Honduras, assim como muitos outros países da América Latina, tem um intervalo em que não se pode fazer propaganda eleitoral), Donald Trump publicou mensagens em suas redes sociais.

Em primeiro lugar, ele pediu votos para seu candidato, Nasry Asfura – que hoje é presidente – e atacou os outros dois candidatos que, naquele momento, lideravam as pesquisas: Salvador Nasralla, outro de direita, e Rixi Moncada, a do Partido Liberdade e Refundação (Libre), de esquerda.

Além disso, na mensagem, ele afirmou que, se Rixi Moncada vencesse, os Estados Unidos imporiam sanções ou haveria consequências econômicas. Isso se conectou a uma campanha que a direita hondurenha vinha promovendo há muitas semanas, alegando que, com a vitória de Rixi Moncada, Honduras perderia as remessas financeiras.

Os bancos e empresas de telecomunicações transnacionais uniram-se, na semana das eleições, para enviar milhões de mensagens aos destinatários de remessas, alertando-os de que, se Rixi Moncada vencesse o pleito, eles perderiam esses recursos. O Partido Libre apresentou uma denúncia ao Ministério Público a esse respeito. Nesse contexto, a mensagem de Trump, alertando para uma possível consequência econômica da vitória de Rixi Moncada, alinha-se diretamente a essa narrativa que a direita vinha cultivando há semanas.

Esse é o primeiro ponto. Nos últimos anos, as remessas representaram entre 24% e 30% do PIB; Honduras é o país do continente americano que mais depende desse tipo de recurso. O principal país de origem dessas remessas são os Estados Unidos. Trata-se de um dado importante, pois a situação não pode ser plenamente compreendida sem que se entenda a relevância e a magnitude da questão das remessas em Honduras.

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Em segundo lugar, naquela mesma semana de silêncio eleitoral – dois dias antes, na sexta-feira que antecedeu as eleições –, Donald Trump anunciou que concederia perdão ao ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández, condenado por traficar mais de 400 toneladas de cocaína para os Estados Unidos e que cumpria pena de 45 anos de prisão.

·        Por detrás da armação, o criminoso lobby israelense

Agora, revelou-se que por trás desse perdão estava o lobby sionista – que pagou por ele. Também foi revelado, há apenas algumas semanas – em uma investigação do programa 60 Minutos –, que existe uma rede de lobistas próximos a Trump, ao movimento MAGA (Make America Great Again – Tornar a América Grande Novamente) e aos “libertários” estadunidenses que cobram pelos perdões concedidos por Trump; já são mais de 2.000 perdões nestes dois anos de presidência.

O perdão teve um efeito impressionante, sobretudo no crime organizado em Honduras, e acredito agora que esse efeito foi planejado. Em Honduras, existem dois grupos de crime organizado muito fortes: primeiro, aqueles que se agrupam em torno do narcotráfico – os cartéis de drogas – e outros que se agrupam em torno das “maras” (gangues criminosas e extremamente violentas).

O fenômeno do narcotráfico é fundamentalmente rural – isto é, os cartéis se estabelecem mais em zonas rurais do que urbanas –, enquanto as “maras” são mais um fenômeno urbano. E o perdão de Trump, diante desses dois grupos do crime organizado, enviou uma mensagem propondo um pacto: vocês têm sua impunidade garantida, desde que meu candidato vença. Essa é a intervenção, a ingerência mais clara que houve antes das eleições; e, depois das eleições, os Estados Unidos – ou melhor, Trump – publicaram uma mensagem em 2 de dezembro, dois dias depois, ameaçando aqueles que ousassem (segundo a mensagem) limitar ou impedir a contagem de votos, afirmando acreditar que seu candidato venceria; foi uma reação.

O que aconteceu nos dias seguintes às eleições foi que os EUA pressionaram praticamente para impedir a conclusão da apuração das atas e barraram o processamento das impugnações – foram apresentadas mais de 84 impugnações aos resultados, apenas no nível presidencial. Em Honduras, a lei estabelece que a eleição só pode ser declarada quando a totalidade das atas tiver sido contabilizada.

“Nesta eleição hondurenha, as duas conselheiras do Conselho Nacional Eleitoral – escondidas na embaixada da França e sob a proteção da embaixada dos EUA – fizeram uma declaração sem que fossem contabilizadas mais de 300 atas, que representavam mais de 100.000 votos”

No entanto, nesta eleição, as duas conselheiras do Conselho Nacional Eleitoral – escondidas na embaixada da França e sob a proteção da embaixada dos Estados Unidos – fizeram uma declaração sem que fossem contabilizadas mais de 300 atas, que representavam mais de 100.000 votos (o volume eleitoral nessas 306 atas era exatamente de 132.000 votos), sendo que a diferença entre o primeiro e o segundo colocado era de apenas 27.000 votos; portanto, essas atas não contabilizadas excediam claramente a quantidade de votos que faltavam ser apurados. [Vale lembrar que Asfura obteve 40,3%, superando por uma margem bastante apertada o segundo colocado, Salvador Nasralla, que registrou 39,53%.]

Além disso, nenhuma das impugnações foi sequer admitida, muito menos processada; houve contestação da totalidade das atas porque, na grande maioria delas – exatamente 72% das atas da eleição –, havia inconsistências entre a quantidade de eleitores registrada na ata (em Honduras, ainda utilizamos um sistema de atas manuscritas) e a quantidade de eleitores registrada no leitor de impressões digitais, equipamento obrigatório no sistema eleitoral hondurenho.

Constatou-se a existência de centenas de milhares de eleitores falsos em 13.000 das 18.000 atas; ou seja, em 72% das atas, havia mais eleitores registrados do que aqueles que efetivamente compareceram para votar. Naquele momento, exigi que as impugnações apresentadas fossem processadas e que realizássemos uma recontagem voto a voto de toda a eleição – ou, pelo menos, daquelas 13.000 atas que apresentavam inconsistências entre o número de eleitores registrado pelo leitor de digitais e o que constava nas atas físicas.

A resposta que recebi foi que o Departamento de Estado dos Estados Unidos havia emitido um comunicado suspendendo o visto de vários funcionários eleitorais de Honduras e a permissão de entrada nos EUA para quem, na época, presidia o Congresso Nacional; além disso, o Departamento de Estado informou que meu visto havia sido negado – visto que eu solicitara para participar de uma reunião da OEA sobre a questão eleitoral menos de um mês antes – sob a alegação de que eu havia atentado contra a democracia.

·        E a segurança nacional…

E a segurança nacional, exatamente. Naquela época, recebi uma informação anônima – já havia recebido anteriormente áudios que revelavam um plano para atentar contra o processo eleitoral – e, por volta daqueles dias, recebi também outro pacote de áudios. Neles, ouvia-se a voz de Fernando Cerimedo instruindo – presumimos nós que o próprio agora presidente Asfura – a não aceitar nenhuma contagem de votos, pois tudo já estava acertado.

Ou seja, já haviam inserido votos onde era necessário e retirado votos de onde era preciso. Todas as atas já estavam ajustadas e, sob nenhuma hipótese, deveriam aceitar a contagem voto a voto. Entregamos esses áudios ao Ministério Público e, poucas semanas depois – quando o órgão já estava pronto para enviá-los à Colômbia para perícia –, a Suprema Corte de Justiça, em um fato sem precedentes na história de Honduras, ordenou o arquivamento da investigação.

Determinou ao Ministério Público que não desse prosseguimento ao caso, pois a investigação envolvia funcionários eleitorais que, segundo a interpretação da Corte naquele momento, gozavam de imunidade – apesar de tal figura jurídica não existir em Honduras. A Corte não apenas afirmou que eles tinham imunidade penal, mas também que não podiam ser investigados. Assim, a investigação foi encerrada.

Mas, pelo menos, tornamos públicos os áudios nos quais é possível distinguir claramente que Fernando Cerimedo – independentemente de como tenha sido interpretado em vários dos países da América Latina onde atuou – não apenas desempenhava um papel na área de comunicação, mas também foi um dos arquitetos e operadores da fraude de Trump no caso hondurenho.

·        Ameaçado de morte, precisaste deixar Honduras. Como encaras essa pressão e toda a situação atual em Honduras, sem poder levantar a voz em defesa dos direitos?

O Partido Libre entregou o poder em 27 de janeiro; praticamente 10 dias depois, fui informado de que havia um plano para me prender e, posteriormente, mandar me matar dentro da prisão. As prisões em Honduras são bastante inseguras, portanto contratar alguém para cometer um ato desses lá dentro é muito fácil, e eles sabem disso.

Apresentei um pedido de medidas cautelares à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), ao qual não obtive resposta, e recorri às Nações Unidas para solicitar proteção. Devido ao cargo que eu ocupava – e a outros cargos anteriores, como ministro das Finanças e ministro da Arrecadação –, eu já havia recebido ameaças de morte e corrido riscos; por isso, contava com medidas de segurança que foram reduzidas com a mudança de governo.

Substituíram a equipe de minha confiança que me acompanhava, o que identifiquei como parte de uma estratégia para me intimidar.

“Fui notificado por pessoas da comunidade de inteligência hondurenha sobre a existência de um plano para me assassinar”

Mais tarde, em fevereiro, fui notificado por pessoas da comunidade de inteligência hondurenha sobre a existência de um plano para me assassinar. Os mentores desse plano seriam o hoje ex-presidiário Juan Orlando Hernández, o conselheiro do Partido Nacional José López Osorio e o atual presidente do Congresso Nacional, Tomás Zambrano.

Segundo as informações que recebi, o plano consistia em me afastar do cargo e, uma vez fora dele, emitir um mandado de prisão e mandar me matar dentro da cadeia. Foi assim que executaram imediatamente o primeiro processo de impeachment e destituíram o então procurador-geral, Joel Zelaya. Diante disso, decidi sair do país e permaneço fora dele.

·        Que cartas achas que os Estados Unidos e seus instrumentos, como a CIA, poderiam jogar? Qual é a importância de estarmos alertas numa frente contra o fascismo? Porque aqui interpretamos que é uma disputa entre Lula e Trump, não uma disputa simplesmente com os Bolsonaro.

Sim, a nova estratégia de segurança nacional dos Estados Unidos interpreta que as reservas de terras raras do Brasil pertencem ao governo estadunidense. Nos últimos meses, a China tem agido para limitar as exportações de terras raras – e de lítio também, bem como de materiais críticos – e, há vários meses, os EUA entendem que, para suavizar ou desacelerar seu declínio como potência hegemônica, precisam se apropriar dos recursos minerais de toda a nossa região.

A América Latina, como região, detém a segunda maior reserva de terras raras e materiais críticos, e os Estados Unidos sabem que precisam ter controle político e material sobre esses recursos para conseguir suavizar sua queda. Acredito que esse seja o principal interesse dos Estados Unidos nesta eleição.

Lula tem defendido que tanto a China quanto os Estados Unidos possam acessar esses recursos brasileiros, mas tem impulsionado programas para avançar na transformação produtiva desses recursos dentro das fronteiras brasileiras, a fim de aumentar o valor agregado deles.

Os Estados Unidos não aceitam nem sequer isso – nem mesmo essa condição mínima para poder acessar os recursos brasileiros –, e o Brasil é a última peça que faltaria a Donald Trump para acessar países que possuem reservas importantes de recursos estratégicos; afinal, ele já conta com os três países do Triângulo do Lítio (Bolívia, Chile e Argentina), e o Brasil seria a peça final, já que detém a segunda maior reserva de terras raras do mundo.

·        A que os brasileiros deveriam estar atentos?

Bem, acredito que eles estejam bastante atentos; felizmente, têm a vantagem de já terem visto o que aconteceu nas eleições do Peru, por exemplo, bem como nas da Colômbia e de Honduras, e vejo o presidente Lula bastante atento a isso. Como vocês sabem, há alguns dias os Estados Unidos enviaram funcionários para tentar deslegitimar o sistema de votação eletrônica brasileiro, mas o governo do Brasil não permitiu a entrada deles; por isso, creio que já existe o alerta necessário e que estão agindo nesse sentido.

“O presidente Lula está bastante atento à ingerência de Trump. Há alguns dias os EUA enviaram funcionários para tentar deslegitimar o sistema de votação eletrônica brasileiro, mas o governo não permitiu a entrada deles”

Com base na experiência das últimas eleições na América Latina, eu diria que os Estados Unidos estudam nossas sociedades, compreendem-nas bem e geralmente agem onde estimam que podem gerar o maior impacto. Em sociedades como as de Honduras e da Colômbia – onde há grandes segmentos da população com vínculos culturais e históricos com os Estados Unidos –, eles sabem que o apoio a um candidato pode ser mais bem aceito.

Não acredito que o apoio de Trump a Flávio Bolsonaro no Brasil tenha a mesma aceitação; por isso, as táticas variam de acordo com o país.

Acredito que o controle sobre o órgão eleitoral é muito importante para os Estados Unidos, que podem exercê-lo de forma direta – influenciando seus funcionários – ou indireta, por meio do aparato diplomático, ameaçando revogar vistos ou impor sanções. Dias antes, foi anunciado, por exemplo, que o Departamento de Estado revogou o visto do procurador-geral da Bolívia, e é evidente que isso ocorre porque ele está avançando na investigação contra Fernando Cerimedo. Portanto, lembrar-se da soberania das autoridades eleitorais é fundamental.

Já um país como o Brasil, que possui um mercado grande o suficiente para usar o acesso a ele como alavanca, deve manter uma relação de maior verticalidade, especialmente com as plataformas de redes sociais. Há alguns dias, vimos o Facebook limitar a capacidade da equipe de campanha de Lula de realizar impulsionamentos. Caso haja segundo turno – e tudo indica que haverá –, o governo brasileiro deve trabalhar, no período que antecede a nova votação, para garantir que as redes sociais sejam um campo de batalha o mais equilibrado possível; um espaço de interação social e de socialização política que, hoje em dia, é o mais importante de todos.

As pessoas passam a maior parte do dia nas redes sociais: é lá que se informam, se entretêm, se comunicam com outras pessoas e também se organizam politicamente. Por isso, o governo brasileiro deve agir conforme julgar adequado, mas precisa utilizar o acesso ao mercado brasileiro – condicionando a atuação dessas plataformas no país – para alcançar um objetivo simples: garantir que as redes sociais não se tornem um espaço de ataque à democracia brasileira.

 

Fonte: Por Leonardo Wexell Severo, na Hora do Povo