segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

Olímpio Cruz Neto: Eleições gerais de 2026 sob o império da IA (I)

Lembra da bolinha de papel que atingiu José Serra? Lembra do “gabinete do ódio” tentando comprar software de monitoramento? Aquilo era pirulito no recreio: improviso, ruído, truque de esquina. A guerra de 2026 é outra. Ela não depende de um ato que vira manchete — depende de um encanamento que roda todo dia. Não precisa que você acredite; basta que você duvide. Não precisa vencer o argumento; basta saturar a atenção.

As eleições gerais de 2026 começam assim: não com uma mentira monumental, mas com uma avalanche de pequenas certezas prontas para consumo. Na primeira hora da manhã, antes do café terminar de coar, o país já está de pé — não pelas ruas, mas pela palma da mão.

O celular vibra com a urgência de quem bate na porta. Um vídeo chega no grupo da família. Em seguida, o mesmo vídeo aparece em outro, com uma legenda diferente. Depois, numa terceira versão, alguém “explica” a cena com uma voz segura, paternal, como se estivesse revelando um segredo que só ele teve coragem de dizer em voz alta.

Dez minutos depois, o assunto vira meme. Em meia hora, vira “tendência”. Em uma hora, você já encontra gente reagindo ao vídeo que você ainda nem viu — e gente reagindo à reação do vídeo que você nem teve tempo de checar.

É isso — em escala — que já está acontecendo. Não é que a desinformação tenha nascido agora. O que mudou foi o patamar. O que antes exigia equipe, tempo, orçamento e uma estrutura quase industrial, hoje pode ser feito como se fosse um aplicativo: liga, produz, adapta, dispara. A inteligência artificial entra como quem abaixa o preço do ingresso para um estádio lotado. Ela não inventa a torcida, mas faz a multidão chegar mais rápido — e gritar em coro.

A eleição geral de 2026 deixa de ser apenas a disputa clássica das ideias. Vira algo mais frio e mais difícil de explicar em frases bonitas: uma disputa de infraestrutura. Infraestrutura de atenção, distribuição e velocidade. Quem controla o encanamento por onde as emoções passam.

<><> O método exposto

No começo do ano, uma história atravessou Brasília e as redes com um detalhe que importa mais do que o enredo: o método. Reportagens registraram relatos de influenciadores abordados no fim de 2025 com propostas para publicar conteúdos questionando decisões do Banco Central do Brasil no caso Banco Master.

A peça central, aqui, não é o valor exato nem o folclore da negociação — é a lógica: conteúdo sob encomenda, roteiro, timing, multiplicação. Quando o assunto ganhou corpo, a Polícia Federal abriu apuração para investigar uma possível campanha coordenada nas redes contra o Banco Central após a liquidação do banco, segundo noticiário.

Em paralelo, análises públicas de pesquisadores indicaram volume elevado de publicações e a tentativa de dar aparência de “onda espontânea” ao que poderia ser uma operação organizada — um traço típico do nosso tempo: não basta falar; é preciso parecer inevitável.

Esse episódio funciona como um ensaio geral por um motivo simples: ele mostra que redes capazes de operar hoje para um pagador podem operar amanhã para outro — e, num ano eleitoral, essa plasticidade deixa de ser detalhe de mercado e vira risco institucional.

A política sempre se alimentou de fatos — mas em 2026 os fatos não são mais o centro; são matéria-prima. Um recorte. Um pedaço de áudio. Uma frase fora de contexto. Um gráfico sem fonte. Um print sem link. Um “vazamento” sem origem. Um vídeo editado para caber em 30 segundos e sobrar indignação.

A IA não precisa fabricar tudo do zero. Ela pode fazer algo mais eficiente: torcer o real até que o real pareça outra coisa. O falso raramente chega com a placa “falso”. Ele chega com maquiagem, com luz boa e com uma legenda certeira. E quando o conteúdo parece testemunho, a checagem vira uma corrida injusta — porque a checagem exige o que o conteúdo não oferece: origem, contexto, cadeia. A checagem precisa de tempo; a emoção precisa de segundos.

<><> A fábrica do espontâneo

A grande operação do nosso tempo não é convencer — é parecer natural.

Parece um depoimento, mas é um roteiro. Parece indignação, mas é um pacote. Parece “voz do povo”, mas tem cronograma. Parece “achei isso por acaso”, mas há uma máquina inteira empurrando o acaso para a sua tela.

A estética é a do cotidiano. O cenário é a sala simples, o carro parado, a rua. O vocabulário imita o de quem não tem tempo para discurso: “vou falar rápido”, “não dá pra ficar calado”, “ninguém quer te contar isso”. A frase final pede um gesto que parece inofensivo — “manda pra mais alguém” — mas é o empurrão que transforma um conteúdo em corrente.

E aí entra o traço novo: em 2026, a máquina que produz essas peças não precisa mais de tanto esforço humano para variar. A IA escreve uma versão “irônica” e outra “grave”. Uma mais regional, outra mais “neutra”. Uma com cara de “análise”, outra com cara de “desabafo”. Ela faz o que o marqueteiro de ontem chamaria de segmentação — só que com uma rapidez que deixaria qualquer agência antiga com inveja.

O milagre é simples: a mesma mensagem, com roupas diferentes, entra em casas diferentes sem parecer propaganda. Ela entra como conversa.

Aqui está o coração do problema: a IA dá ao mercado da atenção duas vantagens que, juntas, viram um motor de guerra política. A primeira é velocidade. Um acontecimento do dia vira, em poucas horas, dezenas de versões. A segunda é variedade. A mesma ideia ganha cara de piada, de denúncia, de “análise”, de “confissão”, de “desabafo”.

Esse par — velocidade e variedade — cria um fenômeno clássico do nosso tempo: a sensação de que “está em todo lugar”. E quando algo está em todo lugar, o cérebro interpreta como verdade social, mesmo quando não é verdade factual. A etiqueta cola antes da prova.

A parte desconfortável começa aqui: se existe um mercado que vende atenção, e se esse mercado se organiza pela lógica de “entrega” (alcance, engajamento, viralidade), o Estado corre o risco de ser capturado pela arena que deveria administrar. Não se trata de demonizar criadores de conteúdo. Trata-se de reconhecer uma assimetria: sem padrões claros, contratar alcance é contratar poder de agenda. E poder de agenda, em ano eleitoral, não pode operar como caixa-preta.

A captura não precisa ser ideológica. Pode ser apenas mercantil. Hoje a rede serve a um pagador; amanhã serve a outro. O que está em disputa não é fidelidade; é fluxo.

<><> Três linhas vermelhas

Não adianta pedir calma à multidão quando o encanamento foi desenhado para acelerar pânico. O que ajuda é estabelecer três linhas vermelhas — simples, públicas, cobradas.

Primeira: rotulagem real. Conteúdo político com uso de IA precisa ser identificado de forma padronizada.

Segunda: trilha e rastreabilidade. Quem pagou, quem executou, quem distribuiu — sem isso, a democracia vira território de “acredita quem quer”.

Terceira: resposta rápida com devido processo. Regras claras, justificativa e possibilidade de contestação.

A eleição de 2026 talvez não seja a primeira em que a inteligência artificial aparece. Mas pode ser a primeira em que ela se torna infraestrutura de guerra de percepção: uma máquina que não precisa convencer, só precisa empurrar; uma máquina que não precisa provar, só precisa saturar.

E infraestrutura não se enfrenta com gritaria. Infraestrutura se enfrenta com transparência, auditoria e norma — e com uma sociedade que reaprende a fazer a pergunta mais simples do jornalismo: de onde vem isso?

¨      Eleições gerais de 2026 sob o império da IA (II)

Há uma cena que não rende foto e, por isso mesmo, passa batida. Ela não acontece no palanque, nem no plenário. Acontece numa sala com ar-condicionado e café morno, diante de uma tela onde não há eleitores — há números. Não se fala “povo”. Fala-se “público”. Não se diz “convencer”. Diz-se “otimizar”. Não se debate “verdade”. Debate-se “performance”.

Em 2026, com a inteligência artificial barateando a produção e acelerando a distribuição, a política descobre um atalho perigoso: comprar presença constante sem parecer propaganda. O que era campanha vira ambiente. O que era peça vira conversa. O que era slogan vira meme. E o que era persuasão vira saturação — aquela sensação de que “está em todo lugar”, antes mesmo de alguém provar de onde veio.

A pergunta que decide o ano não é “quem mentiu?”. É outra, mais seca e mais útil: quem pagou — e por qual caminho? Sem esse caminho, a democracia vira um mercado de alcance com recibos bonitos na entrada e sombra no destino final.

<><> O dinheiro como oxigênio

Comunicação pública é parte do Estado. Orientar, prestar contas, fazer campanhas de utilidade pública — tudo isso é legítimo. O problema começa quando, no mundo digital, a execução vira um corredor longo de terceirizações e subcontratações, e cada porta fechada reduz a visibilidade sobre quem faz o quê.

A dinâmica é conhecida, mas a escala mudou. Hoje, o governo contrata e a agência executa. Já o fornecedor terceiriza. E o intermediário “ativa”. Uma rede “distribui”. Um criador “posta” e o recorte circula. Outro corte viraliza. E o público, que só vê o resultado final na tela, recebe aquilo com cara de cotidiano — não de campanha.

Não é preciso demonizar agências, nem influenciadores, nem plataformas. O risco está na arquitetura: quando a cadeia tem muitas dobras, a responsabilidade se dissolve. Ninguém é autor. Todo mundo é prestador de serviço. Ninguém planejou. O pessoal só “entregou”. E, quando o problema aparece, cada elo aponta para o elo seguinte — como se o efeito político fosse um acidente sem dono.

Em ano eleitoral, isso deixa de ser detalhe administrativo. Porque, na prática, o que se compra não é apenas divulgação: é poder de agenda. E, vamos ser claros: o poder de agenda, em 2026, não pode operar como uma caixa-preta.

<><> O encanamento em cascata

O Brasil tem instrumentos formais de transparência: contratos, editais, registros públicos, trilhas administrativas. E há páginas oficiais com informações sobre publicidade e contratos no âmbito da comunicação do governo federal. A Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República aparece na entrada do processo, com ritos e documentos.

Só que o centro do problema não está na entrada. Está na saída. É ali que surgem rótulos genéricos (“ativação”, “conteúdo”, “relacionamento”), camadas de intermediação e ações executadas por terceiros que nem sempre aparecem com nitidez no que o público consegue auditar.

Quando o dinheiro passa por muitos filtros até virar vídeo curto, meme e corte “orgânico”, o país fica numa situação esquisita: vê o impacto político, mas não enxerga o mapa do encanamento.

E aí 2026 entra como multiplicador. Porque a IA não apenas barateia conteúdo. Agora, temos uma variação que custa muito, mas muito pouco. Uma mesma tese ganha dezenas de versões — irônica, indignada, paternal, regional, “neutra”, “técnica”, “desabafo”. A mesma mensagem entra em casas diferentes sem parecer a mesma mensagem. A máquina não precisa convencer; basta repetir com diversidade suficiente para criar clima.

Nesse cenário, rastreabilidade deixa de ser burocracia e vira fronteira democrática. O que antes era uma preocupação de controle interno vira uma necessidade de segurança institucional: se o Estado compra alcance sem conhecer o encanamento inteiro, pode financiar — sem intenção — uma infraestrutura que amanhã será alugada contra ele.

<><> Rastreabilidade ou captura

O caso do Banco Master acende o alerta não por “resolver” nada sozinho, mas porque expõe método e plasticidade: redes e formatos capazes de operar a favor de um cliente podem ser acionados contra outro, dependendo do pagador. Há apuração oficial sobre suspeita de campanha coordenada nas redes, com autorização do ministro Dias Toffoli. Também há análises do NetLab/UFRJ apontando sinais compatíveis com tentativa de fabricar “onda” a partir de volume e padrões de publicação.

A lição institucional é simples: em 2026, “quem pagou” é só metade da pergunta. A outra metade é “por onde isso correu e quem respondeu pela execução”. E a resposta não é moralismo nem censura. É contrato. É auditoria. É obrigação de prova.

Três medidas cabem em edital, cabem em contrato e cabem em fiscalização — e mudam o jogo:

  1. Mapa de destino final (obrigatório): Para cada campanha digital, é preciso ter uma lista auditável de intermediários e destinatários finais relevantes, com entregas mensuráveis e períodos definidos.
  2. Cláusula anti-inautenticidade (padrão): Proibição explícita de compra de engajamento, fazendas de cliques e distribuição por comportamento coordenado não declarado — com penalidades e gatilhos claros.
  3. Transparência em tempo útil (não decorativa): Painel com atraso curto, com critérios de alocação e trilha de execução. Transparência tardia é só arqueologia.

O Brasil atravessa 2026 com uma escolha silenciosa. Ou aceita que a política vire planilha de alcance sem mapa de destino. Ou exige que, para cada peça que chega como conversa, exista um rastro verificável por trás. Democracia, no fim, não é só voto. É a capacidade de dizer: mostre o caminho.

 

Fonte: Brasil 247

 

Em oito anos no Real Madrid, Vini Jr. denunciou 20 casos de racismo

A Uefa, o órgão máximo do futebol europeu, anunciou nesta quarta-feira (18/2) a abertura de uma investigação oficial após o jogador brasileiro Vinicius Junior relatar ter sido alvo de ofensa de cunho racista durante uma partida em Portugal.

Esta foi a 20ª vez que Vini Jr. alega ter sido alvo de racismo durante seus oito anos no Real Madrid.

O episódio mais recente aconteceu nesta terça-feira (17/2), durante a vitória do Real Madrid por 1 a 0 sobre o Benfica, em Lisboa, pelo playoff da Liga dos Campeões 2025/2026.

Segundo Vini Jr, o meio-campista do Benfica, o argentino Gianluca Prestianni, o insultou com ofensas racistas minutos depois dele marcar um gol e comemorá-lo dançando.

A atitude foi confirmada pelo atacante francês Kylian Mbappé, que joga ao lado de Vini Jr. no Real Madrid. Em entrevista ao TNT após a partida, ele afirmou ter ouvido Prestianni dirigir ofensas racistas contra Vini Jr. cinco vezes durante o jogo.

O meio-campista do Benfica teria coberto a boca com a camisa para que a as câmeras não registrassem a ofensa, segundo Mbappé. Prestianni negou a acusação.

"Quero esclarecer que em nenhum momento dirigi insultos racistas a Vini Jr., que lamentavelmente interpretou mal o que achou ter ouvido", disse o argentino. Ele também afirmou ter recebido ameaças após o episódio.

Segundo comunicado da Uefa, um inspetor de Ética e Disciplina foi designado para apurar as alegações de comportamento discriminatório ocorridas na partida. Novas informações devem ser divulgadas nos próximos dias.

O jogo chegou a ser interrompido por 10 minutos após Vini comunicar o incidente ao árbitro François Letexier.

Jogadores das duas equipes deixaram o campo, e o protocolo antirracismo foi acionado.

O gesto de braços cruzados utilizado pelo árbitro faz parte do protocolo introduzido pela Fifa em 2024 para sinalizar denúncias de racismo em campo.

Segundo o protocolo antirracismo adotado pela Uefa desde 2009, os árbitros podem interromper ou até encerrar partidas em casos de discriminação.

O procedimento prevê três etapas: interromper o jogo e fazer um anúncio no estádio, suspender a partida por cinco a dez minutos com retirada dos jogadores de campo e, em caso de persistência, abandonar o jogo após avaliação de segurança.

Após a paralisação, a partida foi retomada e terminou com vitória do Real Madrid por 1 a 0.

Em uma publicação nas redes sociais, Vinicius afirmou que "racistas são, acima de tudo, covardes" e criticou a forma como o protocolo foi conduzido.

"Nada do que aconteceu hoje é novo na minha vida", escreveu o jogador, que acumula diversos episódios semelhantes ao longo da carreira.

Ele também afirmou ter recebido cartão amarelo pela comemoração do gol e disse não compreender a decisão.

Em publicação nas redes sociais, o Benfica defendeu o atleta e afirmou que, pela distância, os jogadores do Real Madrid não poderiam ter ouvido o que alegam ter sido dito.

O Benfica afirmou que há uma "campanha de difamação" contra Prestianni após a abertura de investigação da Uefa.

O clube acrescentou ainda que "apoia totalmente" e acredita na versão dos acontecimentos apresentada pelo argentino.

<><> O que pode acontecer com Prestianni

Caso a investigação da Uefa conclua que houve abuso racial, Prestianni poderá receber uma suspensão mínima de 10 partidas em competições europeias.

A punição obrigatória foi introduzida em 2013, quando Gianni Infantino era secretário-geral da entidade, e já foi aplicada em casos anteriores, como o do zagueiro Ondrej Kudela, banido por dez jogos após ofensas racistas contra Glen Kamara em 2021.

Regulamentos da Uefa determinam esse mínimo disciplinar, embora sanções adicionais possam ser impostas dependendo da gravidade do caso.

<><> Reações e controvérsias

O episódio gerou repercussão. Companheiros de equipe e ex-jogadores condenaram o suposto ataque, enquanto o técnico do Benfica, José Mourinho, foi criticado por comentários que relativizaram o caso.

Após a partida, Mourinho chegou a insinuar que Vini Jr. provocou a situação.

"Esses talentos são capazes de fazer coisas lindas, mas infelizmente ele não ficou feliz por marcar aquele gol incrível", disse ele à Amazon Prime.

"Quando você marca um gol como esse, você comemora de forma respeitosa", se referindo à dança feita por Vinicius para comemorar o gol.

Ele também afirmou que o Benfica não poderia ser um clube de futebol racista pelo simples fato de seu maior jogador de todos os tempos, Eusébio, ser negro.

Jogadores do Real Madrid saíram em defesa de Vini Jr.

O lateral Trent Alexander-Arnoldclassificou o episódio como "uma vergonha para o futebol", e o ex-meia Clarence Seedorf afirmou que nunca se deve justificar abuso racial.

Thierry Henry, que também sofreu racismo durante a carreira, disse compreender a sensação de solidão vivida por jogadores nessas situações.

Henry afirmou que, em episódios desse tipo, muitas vezes se trata da palavra de um jogador contra a de outro, o que pode gerar sensação de isolamento para quem denuncia a agressão.

<><> O que já aconteceu antes com Vinicius Junior

O episódio em Lisboa não é um caso isolado. Vini Jr já foi insultado em estádios por toda a Espanha.

Desde que se tornou protagonista no futebol europeu, o brasileiro tem denunciado repetidamente episódios de racismo — dentro e fora de campo — e sua trajetória se tornou um retrato da persistência do problema no esporte.

A hostilidade contra o brasileiro tem nomes, datas e condenações judiciais.

Em outubro de 2021, durante um Clássico no Camp Nou, um torcedor gritou insultos racistas contra Vinicius enquanto ele era substituído. O caso foi arquivado porque a polícia não conseguiu identificar o agressor.

Meses depois, em março de 2022, torcedores do Mallorca imitaram sons de macaco em sua direção e disseram que ele deveria "ir colher bananas".

As autoridades ficaram "indignadas" e disseram que o ato foi "desprezível", mas não "criminal". Nenhuma medida foi tomada.

Naquele mesmo ano, em setembro de 2022, torcedores do Atlético de Madrid entoaram cânticos racistas contra o brasileiro nos arredores do estádio antes de um clássico contra o Real Madrid. O clube condenou o comportamento, classificando-o como "inaceitável".

Em janeiro de 2023, um boneco com a camisa de Vinicius foi pendurado em uma ponte próxima ao centro de treinamento do Real Madrid — gesto amplamente interpretado como ameaça. Quatro homens foram multados em 60 mil euros e proibidos de frequentar estádios por dois anos.

Outros incidentes ocorreram nos meses seguintes, todos com pouca ou nenhuma consequência para os autores.

Mas foi em maio de 2023 que Vinicius decidiu reagir aos insultos e confrontar as arquibancadas.

Durante uma partida da La Liga, Vinicius sofreu abusos racistas de torcedores do Valencia. O atacante interrompeu o jogo para alertar o árbitro e, mais tarde, foi expulso após uma confusão generalizada.

O Real Madrid denunciou o episódio à promotoria espanhola como crime de ódio, transformando o caso em um marco jurídico.

Em março de 2024, o clube voltou a apresentar queixa após o árbitro de uma partida contra o Osasuna não incluir em seu relatório alegações de insultos racistas vindos da torcida.

Dias depois, o próprio Vinicius afirmou sentir-se "cada vez com menos vontade de jogar futebol" diante da repetição dos ataques, evidenciando o impacto psicológico da discriminação contínua.

Em junho de 2024, três torcedores foram condenados a oito meses de prisão e dois anos de proibição de frequentar estádios por sua participação nos insultos. Foi a primeira sentença desse tipo na Espanha.

Após a condenação, Vini Jr declarou ser um "algoz de racistas", reforçando sua postura combativa..

Em 29 de setembro de 2024, quatro pessoas foram presas por incitar uma campanha de ódio nas redes sociais, sob anonimato, para insultar o jogador durante o clássico contra o Atlético de Madrid.

Em novembro de 2024, o Real Madrid anunciou punição a um torcedor menor de idade que havia cometido abuso racial contra o jogador, incluindo multa e proibição de frequentar estádios por um ano.

Em maio de 2025, a Justiça espanhola proferiu uma decisão considerada histórica: cinco pessoas receberam penas suspensas de prisão por insultos racistas contra Vinicius durante uma partida contra o Real Valladolid, em 2022. Foi a primeira vez que condenações desse tipo ocorreram no país em contexto de futebol.

Em 17 de fevereiro de 2026, a partida entre Benfica e Real Madrid foi interrompida por 10 minutos após Vinicius relatar um ataque racista, levando à abertura de investigação pela Uefa e reacendendo o debate internacional sobre a eficácia dos protocolos antirracismo.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

Depois do desmonte, o maior investimento na história do SUS

O governo do presidente Lula consolidou a retomada do compromisso com a saúde da população e realizou o maior investimento da história do SUS: R$ 234,5 bilhões em 2025, quase R$ 6 bilhões a mais do que obriga o piso Constitucional. Em parceria com estados, municípios e entidades filantrópicas, nosso Sistema Único de Saúde, ressuscitado por este governo, atingiu números recordes de cirurgias eletivas, de equipes da atenção primária em saúde, de transplantes, de ampliação da cobertura vacinal das 16 vacinas infantis e o reconhecimento pela Organização Mundial da Saúde do maior país do mundo a ter alcançado a eliminação da transmissão do HIV de gestantes para os bebês. Não se trata apenas de um número expressivo no orçamento. Trata-se de uma decisão política clara: o SUS do lado do povo brasileiro.

O Brasil ainda vive a reconstrução e o fortalecimento do SUS. Após um histórico de subfinanciamento crônico, agravado por medidas de austeridade fiscal, desmontes e instabilidade institucional, o país voltou a colocar a vida e a saúde da população no centro das prioridades nacionais, da atenção primária à alta complexidade, com mais capacidade de resposta e proximidade com as necessidades reais da população, especialmente nas regiões historicamente mais vulneráveis.

Ao registrar o maior crescimento orçamentário na história da saúde, o Governo do Brasil criou as condições para a retomada da sua capacidade de planejamento, coordenação e indução de políticas públicas no âmbito do SUS. Entre 2022 e 2026, o orçamento federal destinado às Ações e Serviços Públicos de Saúde passou de R$ 139,8 bilhões para R$ 247,5 bilhões, um crescimento acumulado de 77%.

<><> Diálogo, planejamento e metas ambiciosas para transformar a saúde

O SUS é um dos maiores patrimônios sociais do Brasil. É ele que garante vacinação, atendimento de urgência, tratamento de doenças crônicas, transplantes, vigilância em saúde e cuidado integral dos brasileiros e brasileiras. Seu fortalecimento não é gasto, é investimento em desenvolvimento, produtividade, dignidade e futuro.

O avanço é resultado do diálogo permanente com o Congresso Nacional, articulação com a área econômica do governo e compromisso com o pacto federativo. Um exemplo concreto é o Programa Agora Tem Especialistas que atua diretamente para enfrentar gargalos históricos da média e alta complexidade, ampliar o acesso a atendimentos especializados e reduzir o tempo de espera, especialmente em regiões de difícil acesso. Mais investimentos e inovação vão levar o que existe de mais especializado do SUS para quem mais precisa.

Criado em maio de 2025, o Programa já alcançou o marco histórico de mais de 14,7 milhões de cirurgias eletivas impulsionadas pela nova tabela SUS Agora Tem Especialistas que supera, definitivamente, a antiga. Ele também garantirá que centenas de hospitais privados abram suas portas para pacientes que aguardam há muito tempo cirurgias ou exames especializados na rede pública de saúde de seus estados e municípios, sem comprometer o orçamento do Ministério da Saúde.

Outra inovação são os serviços móveis e a expansão da telessaúde levando procedimentos que ainda demoram muito para chegar na ponta. É assim com as carretas de consultas, exames e cirurgias de saúde da mulher e das que ofertam tomografia, ultrassom e cirurgias oftalmológicas. Elas chegarão a 150 unidades espalhadas por todo o país. O telessaúde atingiu seis milhões de atendimentos e será

expandido reforçado por sete mil pontos de atendimentos disseminados pelas Unidades Básicas de Saúde (UBS) com os kits de telesaúde que estão sendo distribuídos pelo Ministério da Saúde.

Temos os maiores programas de transplantes e vacinação em sistemas públicos universais de saúde do mundo e vamos consolidar a maior rede pública de prevenção, diagnóstico e tratamento de câncer.

Com a inauguração do centro de tratamento ao câncer em Roraima e compra de aceleradores lineares, pela primeira vez na história, todos os estados brasileiros terão tratamento de radioterapia.

Em parceria com o hospital AC Camargo, referência no tratamento de câncer no país, garantimos o maior investimento com a incorporação do mais moderno tratamento de câncer de mama, o que mais mata mulheres. Essa cooperação também criou o Super Centro Brasil de Diagnóstico para o Câncer e vai reduzir o tempo para a realização de exame e resultado de biópsias.

A Saúde Integral da Mulher é nossa prioridade absoluta. Será promovida uma caravana permanente para garantir que as mulheres, que são a maioria da população brasileira, usuárias e profissionais do SUS, tenham atenção com as melhores tecnologias para prevenção e promoção da saúde sexual e reprodutiva e mobilização necessária para o combate à violência.

Desde a introdução da vacina para bronquiolite para cerca de dois milhões de pessoas que engravidam, antes exclusiva apenas para quem podia pagar de 1,5 mil a 4 mil reais a dose; do Implanon como mais uma tecnologia para prevenção da gravidez que custa de 3 mil a 5 mil reais em clínicas privadas; e com o maior mutirão de cirurgias e exames especializados da história, que ocorrerá em março de 2026; o SUS estará ao lado daquelas que chefiam a maioria das famílias brasileiras.

Nossa saúde pública incorporou uma revolução tecnológica na detecção do HPV, causador do câncer de colo de útero, para substituir o exame de Papanicolau, implantou 100 novas salas de cirurgias com equipamentos modernos e 36 novas maternidades serão construídas pelo PAC Saúde, que investe mais de R$ 18 bilhões também para construção, ampliação e modernização de hospitais, policlínicas, UBSs e Centros de Atenção Psicossocial, além de aquisição e renovação de equipamentos na rede.

Serão incorporadas mais de 2 mil ambulâncias do SAMU, 2 mil para transporte sanitário, 10 mil combos de equipamentos para as UBSs, kits de Telessaúde, 40 aparelhos de ressonância e 40 de tomografia, além de estruturas para 150 equipamentos para centros cirúrgicos, 40 novos aceleradores lineares de radioterapia, 327 freezers para hemocentros e renovação de equipamentos para 27 laboratórios centrais.

Outra novidade é o novo plano de diretrizes para construção de unidades resilientes as mudanças climáticas como parte do AdaptaSUS, que estabelece novos padrões que buscam enfrentar crises climáticas que geram tensões na saúde pública.

Porta de entrada do SUS, a Atenção Primária à Saúde vai ampliar sua cobertura com a construção das 1.100 novas UBSs. Com isso, a rede deve contar com 28 mil profissionais ativos no Mais Médicos, 58,3 mil equipes de Estratégia de Saúde da Família, sendo 336 ribeirinhas, 500 em territórios quilombolas e 300 Unidades Móveis de Consultório na Rua, ampliando o cuidado em contextos urbanos, rurais, ribeirinhos e de maior vulnerabilidade social.

A saúde bucal também será fortalecida com 400 Unidades Odontológicas Móveis, 500 impressoras 3D para próteses dentárias e 77 Unidades Básicas de Saúde Fluvial, garantindo acesso aonde antes o serviço não chegava. O mesmo vale para a vacinação, assistência farmacêutica e saúde reprodutiva: produção nacional da vacina contra a dengue, incorporação da vacina Pneumo 20, ampliação do Farmácia Popular e a distribuição de 1,8 milhão de unidades do Implanon.

Terminaremos 2026 com um outro mapa da vacinação do Brasil, saindo de coberturas menores de 80% que tivemos em 2022 para o crescimento significativo desde a volta do Presidente Lula e do respeito ao Zé Gotinha, chegando a mais de 90% de cobertura e protegendo o Brasil de doenças como o sarampo, que voltou a explodir na América do Norte, fruto do negacionismo e no corte de programas de saúde em países dominados pela extrema-direita.

Uma das marcas da reconstrução do SUS é a reestruturação dos hospitais federais no Rio de Janeiro. A atitude genocida do governo anterior na gestão da pandemia afundou a rede dos hospitais federais e dos institutos nacionais deixando o estado nas profundezas da desassistência, com leitos e equipes desativadas, e no redemoinho do desperdício com contratos que preencheram as páginas policiais.

O SUS sairá mais forte ao final de 2026 e vai ajudar o Brasil a liderar o enfrentamento de três desafios que impactarão a saúde do povo brasileiro nas próximas décadas: a crise climática, o envelhecimento e hábitos que multiplicam as doenças crônicas e o negacionismo, que afeta o dia a dia das práticas nos serviços de saúde e nas ferramentas de difusão das informações a população.

Os investimentos são, acima de tudo, impulso para uma agenda de desenvolvimento econômico menos desigual, mais inovadora e incorporadora de tecnologia e ambientalmente sustentável.

Este recorde, aliado a política de fortalecimento da capacidade produtiva nacional, faz com que o Brasil entre de vez na reorganização das cadeias globais de produção de tecnologias para a saúde. Em 2025, passamos a ter a maior fábrica de hemoderivados da América Latina, voltamos a produzir insulina depois de 20 anos e construímos duas plataformas tecnológicas de vacinas de RNA Mensageiro com a Fiocruz e Butantan.

Também consolidaremos nossas plataformas nacionais de produção de medicamentos biológicos, mais de uma década de desafio sendo bem-sucedida, e inauguraremos a produção em terapias celulares, nova fronteira do câncer e peptídeos, hoje utilizados para diabetes e no combate à obesidade.

Defender o SUS é defender o Brasil. É reduzir desigualdades, salvar vidas e garantir que o direito à saúde seja uma realidade concreta, e não apenas um princípio constitucional.

Estamos, sim, no caminho certo. E seguimos avançando.

 

Fonte: Por Alexandre Padilha, e Adriano Massuda, em ICL Notícias

 

Lula, Bolsonaro, Dilma ou Temer: quem gastou mais no cartão corporativo?

Os gastos com os chamados cartões corporativos por presidentes da República voltaram a intenso escrutínio público após o governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) divulgar no início de janeiro uma planilha detalhando parte dessas despesas de 2003 a 2022.

A divulgação gerou um debate nas redes sociais sobre qual presidente gastou mais em cartões corporativos. Conforme o próprio governo esclareceu depois, no entanto, as informações dessa planilha estão incompletas.

Por isso, para tentar responder qual presidente usou mais o cartão, a BBC News Brasil fez um levantamento nos dados da Controladoria Geral da União (CGU), órgão que disponibilizou à reportagem registros do uso dos cartões a partir de 2004 e é a fonte mais completa disponível para os valores totais gastos.

O que a planilha trouxe de novidade em relação à CGU foi detalhar as despesas presidenciais, retirando o sigilo de parte delas. Esse sigilo costuma ser usado com o argumento de que isso preservaria a segurança dos presidentes e seus familiares.

Vale esclarecer que os cartões corporativos, que são oficialmente chamado de cartões de pagamentos do governo federal, são usados não só para despesas da Presidência da República, mas também de outros órgãos e ministérios. Eles servem, por exemplo, para bancar despesas de servidores e autoridades em viagens, ou para pagar alguma despesa emergencial, como uma obra ou manutenção de algum equipamento (entenda melhor ao longo da reportagem).

A BBC News Brasil fez, então, duas análises sobre essas despesas. Comparamos os gastos específicos da Presidência da República e as despesas de todo o governo, ou seja, de todos os órgãos e ministérios, com esses cartões. Em ambas as comparações, os dois primeiros governos de Lula aparecem com a maior média anual de despesas (veja os números e entenda os cálculos ao longo da reportagem).

Foram feitas essas duas comparações (despesas da Presidência e despesa total do governo) porque um dos debates surgidos após a divulgação da planilha é que os gastos registrados nos cartões corporativos da Presidência nos dois primeiros governos de Lula incluiriam também despesas de ministérios e, por isso, somariam valores maiores que a de outras administrações, como os governo de Temer e Bolsonaro, cujas informações estariam restritas a gastos da Presidência.

Essa informação, porém, foi desmentida pela própria Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom). Em resposta à BBC News Brasil, o órgão disse que as despesas da planilha se referiam apenas a gastos da Secretaria Especial de Administração da Presidência, que não incluem despesas de ministérios e ficam registradas na CGU com o código 110001.

Os números da CGU analisados pela reportagem indicam que, na média anual, a administração Lula foi a que mais gastou com o cartão, tanto quando se considera o total do governo (R$ 111,6 milhões ao ano), como quando se observa apenas as despesas da Presidência (R$ 13,6 milhões). Os valores foram atualizados pela inflação.

Na outra ponta, a administração Temer aparece como a que menos usou o cartão: R$ 66 milhões na média anual de todo o governo, e R$ 6,3 milhões na média anual da Presidência.

Já Dilma e Bolsonaro se alternam. O governo dela aparece como o segundo que mais gastou no total (R$ 105,4 milhões em média), enquanto ele aparece com o segundo maior gasto quando se considera apenas o uso do cartão pela Presidência (R$ 11,3 milhões em média).

Os dados disponíveis no momento dos cálculos iram até outubro de 2022, já que ainda não haviam entrado no sistema as despesas de novembro e dezembro.

Eis a média anual de cada presidente, calculada após atualização das despesas pela inflação:

<<< Gasto total do governo com cartões (média anual):

Lula: R$ 111.615.995,03

Dilma: R$ 105.359.749,99

Temer: R$ 66.018.287,49

Bolsonaro: R$ 66.859.775,58

<<<< Gasto da Presidência com cartões (média anual):

Lula: R$ 13.651.977,23

Dilma: R$ 10.168.224,19

Temer: R$ 6.352.463,95

Bolsonaro: R$ 11.297.276,77

>>>> Entenda melhor a seguir o funcionamento dos cartões corporativos e os cálculos feitos pela BBC News Brasil.

<><> Como funciona o cartão corporativo?

O cartão corporativo passou a ser adotado no governo Fernando Henrique Cardoso para substituir o uso de cheques em compras emergenciais e de baixo valor, quando não é possível seguir os trâmites normais de uma licitação ou de um processo de dispensa de licitação. Essa categoria de despesa é chamada de suprimento de fundos.

Cada órgão que utiliza os cartões tem um responsável nomeado como "ordenador de despesas", que administra a distribuição dos cartões para alguns servidores e quais gastos cada um está autorizado a fazer. O próprio ordenador não pode ter um cartão.

Segundo os decretos nº 5.355/2005 e nº 93.872/1986, as despesas com cartões podem ser feitas em três situações:

- para atender despesas eventuais, inclusive em viagens e com serviços especiais, que exijam pronto pagamento;

- quando a despesa deva ser feita em caráter sigiloso, conforme se classificar em regulamento;

- para atender despesas de pequeno vulto, assim entendidas aquelas cujo valor, em cada caso, não ultrapassar limite estabelecido em Portaria do Ministro da Fazenda.

A própria portaria, porém, prevê que o Ministério da Fazenda e do Planejamento poderão autorizar outras despesas em ato conjunto.

Já os limites das despesas estão estabelecidos na Portaria 95/2002 do Ministério da Fazenda, mas essa norma também estabelece que esses limites podem ser superados excepcionalmente desde que essa mudança seja justificada em despacho do ministério responsável pela despesa.

Os limites gerais estabelecidos são de 10% dos valores fixados na Lei de Licitação para obras e 10% do fixado na lei para outras despesas, sendo que esses limites são atualizados pela inflação a cada ano.

No entanto, essas regras e limites são mais flexíveis e menos claras no caso da Presidência da República.

Conforme estabelece o decreto 93.872/1986, alguns órgãos terão regimes especiais de uso do cartão, devido a suas "peculiaridades" de funcionamento. Isso inclui órgãos da Presidência da República, da Vice-Presidência da República e algumas áreas específicas de ministérios, como a o atendimento à saúde indígena do Ministério da Saúde e algumas repartições do Itamaraty no exterior.

No caso da Presidência, o regime especial está previsto na portaria nº 141, de março 2022.

Em uma avaliação das regras feita ao portal de notícias Jota, a organização Transparência Brasil considerou que essa portaria "tampouco é clara sobre os termos e limites aplicáveis".

<><> Entenda a diferença dos dados da planilha e da CGU

Os gastos com esses cartões são disponibilizados a cada mês no Portal da Transparência, uma ferramenta administrada pela Controladoria Geral da União (CGU) que permite acompanhar as despesas do governo.

No entanto, parte do uso do cartão é mantida em sigilo — ou seja, embora o Portal traga os valores totais gastos, não é possível saber os detalhes de parte das operações, como o local da compra, o que foi adquirido e por qual servidor responsável pelo cartão.

A justificativa costuma ser a segurança de autoridades ou garantir o sucesso de ações sigilosas, como operações da Polícia Federal.

A organização Fiquem Sabendo, especializada em transparência, chegou a solicitar a queda desse sigilo ao governo Bolsonaro, mas o pedido foi negado. A justificativa da recusa se baseou neste trecho da Lei de Acesso à Informação: "As informações que puderem colocar em risco a segurança do Presidente e Vice-Presidente da República e respectivos cônjuges e filhos(as) serão classificadas como reservadas e ficarão sob sigilo até o término do mandato em exercício ou do último mandato, em caso de reeleição".

Com o fim do mandato de Bolsonaro, portanto, a justificativa para o sigilo caiu e as informações foram disponibilizadas pelo novo governo, junto com despesas de outros presidentes desde 2003, atendendo ao pedido da Fiquem Sabendo.

No entanto, o governo Lula liberou a planilha sem explicar o seu conteúdo, o que levantou muitas dúvidas e questionamentos sobre qual seria exatamente o escopo das despesas divulgadas.

Assim como os números do Portal da Transparência analisados pela BBC News Brasil, o conteúdo dessa planilha indica que os maiores gastos teriam sido realizados por Lula nos seus dois primeiros mandatos (2003 a 2010).

Seus apoiadores, porém, passaram a argumentar que os dados de Lula incluiriam despesas de todo governo — ou seja, não seriam apenas da Presidência da República, mas também de ministérios.

Segundo essa argumentação, as despesas de Lula estariam infladas em relação a de outros anos, que seriam restritas aos gastos da Presidência da República.

A BBC News Brasil questionou a Secretaria de Comunicação da Presidência da República (Secom) no dia 13 de janeiro e, após uma semana, o órgão esclareceu que os dados divulgados na planilha se referem apenas a gastos relacionados diretamente aos presidentes, registrados no Portal da Transparência como despesas da Secretaria Especial de Administração da Presidência (unidade gestora identificada pelo código 110001).

Ainda assim, há diferenças entre o conteúdo da planilha e os dados dessa unidade gestora extraídos pela BBC News Brasil diretamente do Portal da Transparência.

Um ponto que não foi esclarecido ainda pelo governo é se os dados incluem gastos dos presidentes em viagens ao exterior, por exemplo. A planilha não parece incluir essas despesas, enquanto a CGU disse à reportagem que "é possível que despesas no exterior componham as transações" dos cartões corporativos.

A nota da Secom diz ainda que está produzindo uma nova planilha das despesas com cartão. "Haverá uma nova publicação em breve, uma vez que alguns registros não foram incluídos na extração original", respondeu o órgão.

A Secom ressaltou ainda que gastos do Gabinete de Segurança Institucional (GSI) que foram classificados como sigilosos "permanecerão sem publicação até o posicionamento do GSI acerca da persistência ou não das razões para classificação".

Segundo o órgão, o governo "divulgará, juntamente com a nova planilha, os critérios (escopo) utilizados para extração (dos dados)".

<><> Entenda o levantamento da BBC News Brasil

Diante do argumento de apoiadores de Lula de que não seria possível comparar os gastos no cartão corporativo porque as despesas do petista incluiriam mais órgãos do governo do que as de outros presidentes, a BBC News Brasil fez duas análises.

A reportagem comparou tanto o total gasto por cada governo como as despesas relacionadas diretamente ao presidente, por meio da Secretaria Especial de Administração da Presidência.

Esses gastos são identificados pela CGU na categoria "cartões de pagamentos do governo federal". Os dados disponibilizados vão de 2004, segundo ano do primeiro governo Lula, até outubro de 2022. Ou seja, nem o primeiro ano do governo Lula , nem os dois meses finais do mandato de Bolsonaro estavam no sistema.

Em ambos os casos, foi retirada uma média anual dessas despesas para cada governo — como cada um dos presidentes governou por uma quantidade diferentes de anos, não faria sentido comparar o total.

Para essa comparação, o gasto de cada ano foi atualizado pela inflação (IPCA) até dezembro de 2022, e depois foi retirada a média de cada presidente.

No caso de Lula, como o Portal da Transparência fornece apenas dados a partir de 2004, foi feita a média de sete anos de gestão (2004 a 2010), ficando de fora o primeiro ano do mandato.

O valor total gasto pelo governo corrigido pela inflação ficou em R$ 781.311.965,24, dando uma média anual de R$ 111,6 milhões.

Já o gasto da Secretaria Especial de Administração da Presidência somou R$ 95.563.840,61 em sete anos, uma média de R$ 13,6 milhões.

Para Dilma, foram considerados os anos de 2011 a 2015 (cinco anos), já que em 2016 ela foi afastada do cargo em abril. O total do governo deu R$ 526.798.749,95, e a média anual ficou em R$ 105,4 milhões.

A despesa da Secretaria Especial de Administração da Presidência com cartão somou R$ 50.841.120,94 nos cinco anos da presidente (R$ 10,2 milhões em média)

Para Temer, foram considerados apenas 2017 e 2018, já que são os únicos anos completos de mandato, o que significou um total de R$ 132.036.574,98 para o governo e uma média de R$ 66 milhões.

No seu caso, a Secretaria Especial de Administração da Presidência gastou R$ 12.704.927,90 com cartão nos dois anos, ou R$ 6,3 milhões em média.

E, para Bolsonaro, foi feita a média dos quatro anos de governo (2019 a 2022). O total gasto por sua administração com cartões deu R$ 267.439.102,32, com a média anual em R$ 66,8 milhões.

Já a Secretaria Especial de Administração da Presidência somou R$ 45.189.107,08 no cartão. Na média anual, o gasto ficou em R$ 11,3 milhões.

O que mais chama atenção é a grande diferença entre o gasto médio total dos governos Lula e Dilma e dos governos dos outros dois presidentes.

Uma possível razão para essa diferença é que Lula e Dilma tinham mais ministérios do que Bolsonaro e Temer. Os petistas consideram que é importante uma maior número de pastas para implementar políticas públicas, enquanto os outros dois adotaram uma estrutura mais enxuta, com o argumento de que o Estado deve ser mais eficiente.

Um conclusão mais fundamentada, porém, demanda uma análise mais aprofundada das despesas.

Vale notar que o total do governo Bolsonaro ainda deve subir, já que não foram contabilizadas despesas dos últimos dois meses do seu mandato. Mas parece improvável que esse período eleve o gasto médio anual total do governo acima do registrado por Lula e Dilma.

A despesa específica da presidência também deve subir um pouco. Como Bolsonaro reduziu muito suas viagens no final de 2022, após a derrota para Lula, esse impacto tende a ser suavizado devido aos gastos relativamente menores com alimentação, hospedagem e segurança nesses deslocamentos.

Sobre os dados analisados, vale ainda destacar que a CGU não oferece uma apresentação padronizada. O Portal da Transparência mantém apenas dez anos de gastos dos governos (2013 a 2022) para consulta online.

"Isso se deve à necessidade de se manter um volume administrável de dados em disco, de maneira a não comprometer o desempenho do Portal", explicou a instituição.

Já as despesas com cartão corporativo de 2004 a 2012 foram enviadas em planilhas de Excel após a solicitação da reportagem.

<><> Sigilo questionado

Para Gil Castello Branco, secretário-geral da organização Contas Abertas, é compreensível que algumas despesas sejam sigilosas, como operações da Polícia Federal que não podem ser antecipadas com emissões de notas de empenho, descrevendo previamente os nomes dos agentes, o local, e a data das compras.

"Em fóruns internacionais, são debatidos, inclusive, o sigilo ou não, por exemplo, da padaria onde é comprado o pão para a residência oficial do presidente da República. Supostamente, essa informação facilitaria um eventual atentado", acrescenta.

Na sua avaliação, porém, parte das informações não é divulgada porque as autoridades temem algum constrangimento.

"Costumo dizer que os presidentes não têm salário, e sim poupança. Tudo o que imaginarmos relacionados ao dia a dia da família presidencial e seguranças são pagos pelos cidadãos. E os presidentes, seja quem for, comem iguarias preparadas por chefs famosos, vestem-se bem orientados por estilistas, têm cabeleireiros e outros serviços pessoais à disposição, consomem bebidas alcoólicas, etc", exemplifica.

"São despesas pagas pelos contribuintes que, se reveladas, pensam as autoridades, geram constrangimento perante os eleitores", acredita Castello Branco, que defende a ampla divulgação das despesas com os cartões corporativos, com exceção apenas das que envolvam a segurança do presidente e de seus familiares.

A planilha divulgada pelo governo neste mês, por exemplo, que todos os quatro presidentes eram clientes do mercado La Palma, um comércio gourmet em Brasília.

No total, a Presidência da República consumiu cerca de R$ 3,6 milhões nas duas unidades do mercado, em valores não atualizados pela inflação. Lula, em oito anos, usou o cartão em compras que somaram R$ 1,175 milhão. Dilma, por sua vez, gastou cerca de R$ 1,2 milhão em pouco mais de cinco anos. Já as despesas de Temer somaram R$ 492 mil em cerca de dois anos e meio. Enquanto Bolsonaro consumiu cerca de R$ 680 mil em quatro anos.

<><> Polêmicas novas e antigas

Essas despesas têm sido alvo de polêmicas desde que o cartão corporativo foi adotado no governo Fernando Henrique Cardoso.

Em 2008, no segundo mandato de Lula, o Senado chegou a instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para apurar o uso dos cartões. Um dos investigados foi o então ministro dos Esportes, Orlando Silva (PCdoB-SP), que virou alvo após pagar R$ 8,30 em uma tapioca em Brasília com o cartão corporativo. Ele alegou que se enganou no momento do pagamento e que ressarciu o valor, já que o cartão só poderia ser usado em viagens.

Também sofreu questionamento uma despesa de R$ 20.112 com diárias em hotel e alimentação, em uma viagem ao Rio de Janeiro para qual levou a esposa, sua filha bebê e uma babá. Ele argumentou que estava em agenda oficial e que a presença de sua mulher fazia parte do protocolo da viagem.

Apesar disso, Silva decidiu devolver do próprio bolso R$ 30.870,38 gastos com o cartão em dois anos como ministro.

No caso de Bolsonaro, algumas despesas também chamam atenção, como gastos elevados com alimentação e abastecimento de combustível em dias que o ex-presidente realizou motociatas com apoiadores.

Segundo levantamento do jornal O Globo, o uso do cartão corporativo soma R$ 1,5 milhão em dias de motociata. A maior parte envolve hospedagens em hotéis de alto padrão (R$ 865.787), alimentação (R$ 580.181), apoio logístico (R$ 36.047) e gasolina (R$ 18.691).

Quando Bolsonaro realizou uma motociata em São Paulo no dia 15 de abril de 2022, por exemplo, o cartão da presidência realizou sete compras no valor total de R$ 62.206 na lanchonete Tony e Thais, que fica em Moema.

Nessa mesma data, também foram gastos no total R$ 2.614,61 em dois postos de combustível.

Após a divulgação desses dados, foi levantado o argumento de que as despesas indicam a possibilidade de o cartão da presidência ter sido usado não só para os gastos da equipe presidencial, mas para fornecer lanches e combustível para os apoiadores que participaram da motociata.

Segundo Gustavo Badaró, professor de Direito Processual Penal da Universidade de São Paulo, se isso tiver ocorrido, o ex-presidente poderia ser enquadrado no crime de peculato (desvio de dinheiro público), que tem pena de 2 a 12 anos de prisão, além de multa.

Além disso, poderia ser cobrado a ressarcir os cofres públicos na esfera civil.

Outras despesas podem levantar esse tipo de suspeita. A planilha revela que Bolsonaro gastou R$ 55 mil em uma padaria no Rio de Janeiro um dia após a festa de casamento do seu filho Eduardo Bolsonaro, que ocorreu na cidade em 25 de maio de 2019.

O ex-presidente ainda não comentou publicamente essas despesas específicas reveladas pela planilha.

Ao responder sobre o tema em agosto, em entrevista a Jovem Pan, Bolsonaro afirmou nunca ter gastado um centavo do cartão corporativo para si. Disse também que os gastos eram da equipe de segurança que, segundo ele, teria 80 integrantes que o acompanhavam em viagens.

 

Fonte: BBC News Brasil