quinta-feira, 26 de março de 2026

Ângela Carrato: A verdade, a primeira vítima da cobertura do JN sobre a guerra dos EUA e Israel contra o Irã

É fato que Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã na madrugada de 28 de fevereiro, dando início a uma guerra que não precisava acontecer.

O Irã não ameaçava em nada os EUA e os dois países estavam em meio a negociações, cuja nova rodada aconteceria na semana seguinte.

Os bombardeios ignoraram o direito internacional e deixaram claro quais eram os agressores e qual o país agredido.

Apesar desta verdade acaciana, o JN passou a se referir à guerra dos EUA e Israel contra o Irã como Conflito no Oriente Médio ou Guerra do Irã.

Percebe, caro (a) leitor (ra) como essa simples mudança tem o papel de apagar quem foi o agressor?

A operação seguinte foi a de caracterizar o Irã como um país bárbaro, uma ditadura sanguinária e seus dirigentes, os aiatolás, como religiosos retrógrados, violadores dos direitos humanos e inimigos das mulheres.

Não foi complicado obter sucesso nesta operação, uma vez que desde 1979, quando através de uma revolução, os aiatolás chegaram ao poder, toda a mídia ocidental passou a descrevê-los como retrógrados e inimigos da democracia.

A visão que a mídia ocidental passa sobre os aiatolás é a que interessa aos seus governos e às suas empresas multinacionais.

Basta lembrar que, no poder, os aiatolás expulsaram as multinacionais do Irã e reestatizaram suas reservas de petróleo, a segunda maior do mundo.

Reservas que o xá Reza Pahlevi, após derrubar o então primeiro-ministro Mohammed Mossadegh, em 1953, havia entregue de bandeja aos interesses ingleses e estadunidenses.

Não é de agora a desumanização que a mídia faz dos aiatolás, o que facilita em muito a naturalização dos ataques contra eles, especialmente quando apresentados como responsáveis por um “regime ditatorial”.

É importante observar como o JN caprichou ao enfatizar a justeza da ação dos Estados Unidos e de Israel, sob o argumento de que o Ocidente “jamais poderia permitir” que ditadores como os aiatolás tivessem acesso a artefatos nucleares.

Ao dizer isso, o JN tenta imputar ao governo do Irã algo que ele sempre negou: buscar o domínio da tecnologia nuclear para fins bélicos.

Até hoje, o único país que lançou duas bombas nucleares foi os Estados Unidos.

Mais ainda: Israel, seu protegido, é suspeito de, há décadas, possuir a bomba atônica e não há qualquer registro de que o assunto tenha sido levado à Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável por este tipo de fiscalização.

Todas as notícias sobre a “guerra do Irã” no telejornal da família Marinho seguem o mesmo roteiro.

Independente de quem esteja levando a melhor, a notícia começa por Israel ou Estados Unidos revidando ataques do Irã. As reportagens contam com entrevistas com especialistas ocidentais e os “fatos” são detalhados por seus correspondentes a partir dos EUA e da Europa.

A Globo não tem correspondentes fora do circuito Estados Unidos (Nova York-Washington) – Europa (Londres, Paris, Roma, Genebra) e tudo o que é dito parte da perspectiva e dos interesses do imperialismo estadunidense e de Israel.

O Irã, no enquadramento editorial do JN, sempre aparece como estando em desvantagem ou atacando indiscriminadamente Israel e os países vizinhos do Golfo Pérsico.

Frases como “Irã toca o terror nos países do Golfo” ou “Irã escala a crise” estiveram presentes na abertura (escalada) de duas edições do JN, nos dias 16 e 17/3.

No entanto, nada mais distante da realidade. O Irã não ataca alvos civis, diferentemente dos Estados Unidos e de Israel, e tem denunciado ataques de “falsa bandeira” que lhes são atribuídos.

Igualmente foi naturalizado pelo JN o fato de que no primeiro dia da guerra ter sido assassinado todos os principais dirigentes iranianos, a começar pelo aiatolá Khamenei, líder supremo, e a maioria dos seus familiares.

Neste mesmo dia, EUA e Israel bombardearam uma escola de ensino fundamental, na cidade de Minab, no sul do país, matando 180 meninas, com idade entre 7 e 12 anos.

O JN se referiu à morte dessas meninas en passant. Limitou-se, cinco dias depois, a mostrar que a escola era próxima de um suposto alvo militar e que pode ter sido atingida “por engano”.

Pior ainda: tentou passar pano para Israel, que disse não ter nada a ver com a morte das crianças, e deu espaço para Trump dizer o mesmo, anunciando que iria mandar “apurar os fatos”.

Desde então, a morte dessas meninas sumiu do JN.

Para dar impressão de que Trump está vencendo a guerra, o JN faz de tudo. Ao invés de abrir sua edição de 16/3, com um Trump patético, pedindo apoio aos líderes de países europeus e do Japão para desobstruir o estreito de Ormuz, fechado parcialmente pelo Irã, jogou esta informação crucial para o meio da reportagem, passando por cima do que há de mais elementar em se tratando de técnica de edição.

Aos que podem argumentar que tudo não passou de erro ou descuido, no dia seguinte, o JN repetiu a mesma lógica.

Jogou a principal informação, a de que Joseph Kent, diretor do Centro Nacional de Contraterrorismo dos Estados Unidos (NCTC) havia renunciado ao cargo devido a divergências sobre a guerra contra o Irã para o meio da reportagem, tentando diminuir o seu impacto.

Ao contrário da mídia internacional e da própria mídia estadunidense, o JN não deu qualquer relevância à afirmação de Kent de que esta guerra interessa mais a Israel do que aos Estados Unidos.

Ao passar pano para Nethanyaru, seja em se tratando desta guerra contra o Irã, seja no genocídio em curso contra os palestinos na Faixa de Gaza, o JN dá razão aos que apontam para a prevalência do lobby sionista em seu noticiário.

Some-se a isso que o JN esconde do seu público que a guerra de Trump e de Nethanyaru têm o apoio de apenas 30% da população estadunidense.

Esconde que tem havido protestos diários nas principais cidades dos EUA e da Europa contra esta guerra.

Esconde que militares dos Estados Unidos estão denunciando a falta de sentido de uma guerra que interessa apenas a Israel.

Não satisfeitos, os editores do JN e seus âncoras falam sobre o fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 25% do carregamento de petróleo bruto mundial e grande parte do gás natural liquefeito (GNL) produzido na região, como se fosse algo que surgiu do nada e é da exclusiva responsabilidade do Irã.

Desde o início da guerra, o Irã anunciou que poderia fechar o Estreito de Ormuz. Trump e Nethanyaru não acreditaram e ampliaram os bombardeios.

O Irã cumpriu a promessa e agora, com o barril de petróleo chegando aos US$ 120,0 e com indicação de mais alta, o JN faz de tudo para jogar “esta crise econômica de proporções mundiais” nas costas do Irã e no Brasil tenta responsabilizar o presidente Lula pela alta no preço dos combustíveis.

Novamente divulgam inverdades. Infelizmente sabemos que uma mentira repetida à exaustão pode se tornar uma verdade.

JN fez infográficos para mostrar quais líderes iranianos foram mortos, apresentando-os como se fossem integrantes de facções criminosas com suas respectivas ramificações.

Detalhe: a cor predominante nos infográficos era sépia, que no espectro cromático está associada à coisa antiga.

Os aiatolás seriam, por esta lógica, antigos, atrasados, retrógrados, merecedores de serem varridos da face da terra. Aliás, foi algo semelhante o que disse Trump, anunciando que matará qualquer novo líder do Irã que assumir o poder e se negar a aceitar os termos determinados por ele.

Nem Hitler chegou a tanto em seus pronunciamentos, mas o JN não viu nada de errado e novamente naturalizou mais esta fala absurda e criminosa de Trump, que pretende ser “o dono do mundo”, como assinalou o presidente Lula em pronunciamento em meados de janeiro.

Como o JN visa justificar crimes de guerra praticados pelos Estados Unidos e Israel, uma vez que constitui agressão suprema ao direito internacional um país sequestrar ou matar dirigentes de outros países, ele esconde todas as críticas que Lula ou outros líderes, como Gustavo Petro, da Colômbia, ou Pedro Sanches, da Espanha, façam à insensatez desta guerra, a Trump ou a Nethanyaru.

Pode demorar, mas Trump e Nethanyaru vão responder pelos seus crimes, mas o JN não parece muito preocupado com isso.

Como sempre, aposta na memória curta das pessoas.

É impressionante como a suposta cobertura do JN apresenta também, sem qualquer contraditório, as bravatas de Trump como verdades inquestionáveis, a exemplo de que o próximo país no qual ele pretende mudar o governo, depois da Venezuela e do Irã, é Cuba.

Vale perguntar: não seria o caso do JN fazer uma efetiva reportagem sobre Cuba, abordando as hostilidades dos Estados Unidos contra a ilha caribenha desde a década de 1960?

Esta reportagem que o JN não fez, acabou sendo realizada pelo Fantástico do domingo (22/3).

A melhor definição para o que foi mostrado é “patético”.

Sob o argumento de que a Globo pediu visto ao governo cubano para seus jornalistas realizarem a reportagem e não obteve resposta, o Fantástico terceirizou a reportagem para os profissionais da Associated Press, uma agência de notícias fundada em 1846, cujos proprietários são jornais, estações de rádio e de TV estadunidenses.

Ou seja: deixou a cobertura da guerra nas mãos de um dos lados da guerra.

Após mostrar Trump dando um ultimato ao Irã e um Nethanyaru visitando áreas de Israel atingidas por bombardeios do Irã, a reportagem emendou lembrando que Trump bombardeou o Irã na linha do que fez na Venezuela, onde “capturou” o ditador Nicolás Maduro e pode fazer algo parecido com a “ditadura cubana”.

Foi sobre Cuba, no entanto, que a reportagem se estendeu mais. Mostrou que o país esteve pela segunda vez em menos de uma semana às escuras, fruto da falta de petróleo, pois não há mais o fornecimento da Venezuela.

A reportagem da Associated Press, exibida pelo Fantástico, ouviu vários moradores da ilha para confirmar os graves problemas que enfrentam, pois “falta quase tudo”.

Até um retrospecto da história de Cuba, desde os tempos de colônia espanhola, foi exibido para tentar convencer o público que derrubar o governo Diaz- Canel e o regime socialista será um “ato humanitário”.

O problema é que o tal retrospecto estava marcado por mentiras.

A primeira é de Cuba estava livre após deixar de ser colônia da Espanha. Em 1901, os Estados Unidos impuseram à Constituição cubana a emenda Platt, que subordinava a ilha aos interesses dos Estados Unidos. Ela concedia aos EUA o direito de intervir militarmente no país e exigia o arrendamento de terras para bases navais, como Guantánamo.

Ao abordar a Revolução que derrubou o corrupto e ditatorial governo de Fulgêncio Batista, em 1959, afirmou que Cuba “trocou uma ditadura por outra”, referindo-se à vitória de Fidel Castro.

Sobre o embargo econômico dos Estados Unidos, que Cuba vive desde 1962, apenas algumas poucas referências, mas nada que lembre o fato de que, há décadas, a quase totalidade dos países que integram a ONU se pronuncia contra ele. Mesmo assim, o embargo é mantido pelo veto dos EUA, com o apoio de Israel.

Como a maioria das pessoas não sabe e nem pesquisa sobre o que é a Associated Press, acaba aceitando o que é mostrado. E, neste caso, o que foi mostrado não passou da mais descarada propaganda dos Estados Unidos contra o que considera seus adversários.

Se tivesse o mínimo compromisso com os fatos, era para o Fantástico ter exibido que exatamente naquele mesmo domingo, Cuba recebia uma missão de solidariedade composta por representantes de dezenas de países, que lá chegaram com alimentos e remédios.

Vários brasileiros integram esta missão, a começar por Thiago Ávila. Mais ainda, pelo menos um cargueiro chinês está a caminho de Cuba com toneladas de alimentos.

Na caradura, o Fantástico escondeu tudo isso, para passar a ideia de que a população cubana está abandonada à própria sorte.

Escondeu também o contundente pronunciamento do presidente Lula durante o Fórum Celac-África, realizado em Bogotá, na Colômbia, no dia anterior.

Em seu discurso, Lula afirmou: “não somos mais colônias. Não aceitamos mais ser apenas exportadores de minerais. Temos que ter a chance de desenvolver nossos países”, diante de uma plateia que o aplaudiu entusiasticamente.

Nada disso apareceu no Fantástico e nem aparece no JN.

Para a família Marinho o importante é esconder a importância de Lula e do Sul Global e fazer de tudo para manter em evidência o império em declínio e seus aliados. Mesmo quando este império pode jogar o mundo numa catástrofe ou dar início à Terceira Guerra Mundial.

Em síntese, a cobertura da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã pela TV Globo, seja JN ou Fantástico, confirma tudo aquilo que o experiente jornalista australiano Phillip Knightley (1929-2016) já havia escrito: “além da mídia e seus correspondentes serem propagandistas e fabricantes de mitos, a primeira vítima sempre é a verdade”.

Seu livro tem exatamente o título de “A Primeira Vítima” e mesmo publicado em 1975, permanece de uma atualidade impressionante.

No caso as vítimas são o Irã, a Venezuela, Cuba e todo o Sul Global.

Os dois primeiros países sendo atacados para que seu petróleo seja surrupiado, Cuba para que os Estados Unidos consigam derrotar um país que ousou buscar o socialismo como caminho e o Sul Global por apostar no mundo multipolar.

Parodiando Knightley, as reportagens do JN sobre a guerra dos EUA e de Israel contra o Irã parecem ter sido editadas nos gabinetes do pessoal do Mossad e da CIA.

A da Associated Press exibida pelo Fantástico certamente foi.

 

Fonte: Viomundo

 


 

O “homem cancelado” como identidade política

Em novembro de 2025, um estudo conduzido por Julie C. Ricard e uma equipe de pesquisadores da Fundação Getúlio Vargas revelou um retrato detalhado de um fenômeno que, durante muito tempo, foi tratado como subcultura marginal da internet. O levantamento identificou 85 comunidades da machosfera brasileira no Telegram, reunindo mais de 220 mil usuários e cerca de 7 milhões de conteúdos publicados desde 2015.

A análise longitudinal mostra que o volume de conteúdos nessas comunidades cresceu quase 600 vezes entre 2019 e 2025, especialmente após a pandemia, consolidando um ambiente comunicacional massivo dedicado à circulação de narrativas masculinistas, ressentimento de gênero e hostilidade contra mulheres. Essas comunidades organizam-se em diferentes camadas discursivas. Algumas operam explicitamente na misoginia, enquanto outras se apresentam como espaços de desenvolvimento pessoal masculino, finanças ou debates culturais. O repertório, porém, costuma convergir para um conjunto relativamente estável de ideias: vitimização masculina, crítica ao feminismo, teorias sobre mercado sexual e guerra cultural contra o que chamam de ideologia de gênero.

Importa observar que esse universo não permanece confinado à extrema direita. A linguagem da vitimização masculina, a denúncia de perseguição cultural e a crítica sistemática às pautas de gênero passaram a circular com relativa facilidade entre campos ideológicos distintos. O resultado é que certos repertórios discursivos da machosfera começam a aparecer também em ambientes progressistas, ainda que com outras justificativas e tonalidades políticas.

Essa circulação transversal não significa equivalência ideológica entre os campos, mas revela algo mais profundo: a existência de uma gramática masculina compartilhada, capaz de atravessar divisões políticas quando a masculinidade é percebida como ameaçada. A filósofa Judith Butler, em Problemas de Gênero, oferece uma chave para compreender esse fenômeno. Para Butler, o gênero não é uma essência, mas uma performance que precisa ser continuamente reiterada para se sustentar. Quando essa reiteração é perturbada, seja por críticas feministas, por mudanças culturais ou por novas configurações de poder, a resposta tende a ser uma reafirmação intensificada, e por vezes violenta, da identidade ameaçada. A “machosfera” pode ser lida, nesse sentido, não como expressão de uma masculinidade estável, mas como sintoma de uma masculinidade em crise que busca se reconstituir coletivamente.

O debate recente no Brasil oferece um ponto de inflexão revelador. Em diferentes ocasiões, o presidente Lula apelou para que os homens participassem ativamente do combate ao feminicídio e à violência de gênero. O pedido, aparentemente simples, desloca uma estrutura histórica: durante décadas, foram sobretudo mulheres, movimentos feministas, pesquisadoras e vítimas, que sustentaram quase sozinhas a denúncia e o enfrentamento da violência masculina. Quando essa responsabilidade começa a ser explicitamente compartilhada, muitos homens interpretam o gesto não como convite à transformação, mas como uma acusação coletiva. É nesse momento que emerge uma reação defensiva: a percepção de que a masculinidade está sendo cobrada, vigiada ou injustamente responsabilizada. Esse sentimento funciona como combustível para novas formas de solidariedade masculina e prepara o terreno para um fenômeno que ganhará força na esfera digital: a transformação do “homem cancelado” em identidade política.

<><> O homem cancelado como identidade política

A esfera pública digital introduziu um elemento novo nessa dinâmica: o fenômeno do cancelamento. Em sentido amplo, trata-se de uma sanção social produzida nas redes quando indivíduos são expostos por comportamentos considerados inaceitáveis. À primeira vista, o cancelamento aparece como forma difusa de responsabilização. Na prática, porém, seus efeitos distribuem-se de maneira profundamente desigual.

Mulheres frequentemente enfrentam campanhas de difamação prolongadas, violência sexualizada e expulsão duradoura do espaço público. Para homens com capital simbólico elevado, o cancelamento costuma operar de maneira distinta. Em muitos casos, ele produz um efeito paradoxal. O estigma inicial transforma-se em catalisador de novas redes de solidariedade masculina, permitindo que a figura cancelada reorganize sua presença pública com base em narrativas de perseguição, injustiça ou censura.

Nesse processo, o cancelamento deixa de ser apenas punição. Ele se converte em identidade política. A literatura sobre o fenômeno descreve a emergência de um sujeito que interpreta a vigilância digital permanente como prova de perseguição coletiva. A exclusão simbólica deixa de ser compreendida como consequência de ações específicas e passa a ser narrada como parte de um sistema moral hostil.

Essa interpretação produz o que alguns estudos descrevem como identidade reativa. O indivíduo não apenas reage à crítica, mas reorganiza sua posição pública a partir dela. O rótulo de cancelado torna-se elemento constitutivo da própria identidade política. Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, descreveu como o sujeito masculino se constituiu historicamente como universal ao definir a mulher como o Outro, aquela que não tem perspectiva própria, apenas reflete e limita o homem. Essa posição de universalidade nunca precisou se nomear, porque nunca foi questionada. O que o cancelamento faz, nesse contexto, é precisamente introduzir um questionamento que o sujeito masculino não está habituado a receber. A reação identitária (a conversão do estigma em bandeira) pode ser lida como recusa em abandonar esse lugar de universalidade. O homem cancelado não se reconhece como alguém que errou: reconhece-se como alguém injustamente destituído de um lugar que considerava seu por direito.

Em certos contextos, o cancelamento chega a funcionar como capital simbólico. Ser alvo de críticas passa a indicar coragem ou autenticidade diante de um suposto sistema moral repressivo.

Em entrevista recente concedida por Márcia Tiburi em 27 de janeiro, ao canal Mídia Livre, a filósofa descreve o mecanismo pelo qual denúncias feitas por mulheres são frequentemente deslocadas para uma narrativa de perseguição ideológica. Ao comentar um caso específico, Tiburi afirma que o acusado passou a “se vitimizar” e a se apresentar como alguém “maltratado por uma feminista”, transformando a própria feminista em “inimiga”. Segundo ela, trata-se de uma operação discursiva que mistura vitimização masculina, monetização da misoginia e mobilização de seguidores. Nesse processo, o conteúdo da denúncia deixa de ser o centro da discussão e é substituído por uma encenação política em que o homem denunciado aparece não como possível autor de violência, mas como suposta vítima de uma guerra ideológica conduzida por mulheres ou pelo feminismo.

Essa dinâmica torna-se politicamente mais complexa quando se articula a dois debates reais da esquerda contemporânea: o lawfare e a crítica ao identitarismo. A história recente do Brasil, marcada por casos de perseguição judicial contra lideranças progressistas, com o caso Lula como referência internacional, criou uma sensibilidade legítima diante de acusações públicas. No entanto, essa memória também pode ser mobilizada para relativizar denúncias relacionadas a relações de gênero. Forma-se assim uma zona discursiva ambígua em que denúncias de violência ou abuso passam a ser reinterpretadas como disputas políticas ou guerras culturais.

Nesse ambiente, homens cancelados e homens nunca cancelados passam a compartilhar uma gramática comum que desloca o debate do conteúdo das denúncias para a legitimidade de quem acusa. Desse processo emerge uma rede informal de solidariedade masculina no campo progressista, marcada pela reabilitação simbólica de figuras criticadas, pela crítica recorrente às pautas feministas e pelo enquadramento dessas tensões como expressão do chamado identitarismo. A consequência é a neutralização do conflito, pois a denúncia concreta perde centralidade e o debate se desloca para disputas abstratas sobre moralismo, cancelamento ou perseguição política.

Assim se forma aquilo que poderíamos chamar de tribo dos homens cancelados da esquerda. Não se trata de grupo homogêneo nem de movimento articulado. Trata-se antes de um campo de afinidades que opera por meio de solidariedade masculina implícita. A intelectual e ativista Bell Hooks descreveu esse fenômeno com precisão em A vontade de mudar: homens, masculinidades e amor (2025). Para Hooks, o patriarcado não é uma ideologia exclusiva da direita,  é uma estrutura emocional e relacional que os homens progressistas também carregam, frequentemente sem examinar. Homens que se identificam com causas de justiça social podem, ao mesmo tempo, reproduzir nas relações pessoais e nas redes de solidariedade os mesmos padrões de dominação que afirmam combater publicamente. A tribo dos homens cancelados da esquerda não seria, nessa leitura, uma anomalia ou desvio do campo progressista. Seria antes uma expressão de algo que esse campo ainda resiste em nomear.

<><>  Masculinidade, algoritmo e violência

Enquanto esse debate se desenvolve em ambientes intelectuais e políticos, outra dimensão da machosfera cresce de maneira silenciosa entre jovens.

A jornalista Marie Declercq observa que discursos associados à cultura red pill deixaram de ser subcultura obscura da internet e passaram a circular de forma banal entre adolescentes. Influenciadores, memes e vídeos transformaram esse repertório em linguagem cotidiana da masculinidade juvenil. Segundo Declercq, o problema não está apenas na presença de influenciadores misóginos, mas na normalização gradual de um vocabulário que desumaniza mulheres antes mesmo do processo de socialização adulta.

Casos recentes de violência de gênero praticados por jovens revelam essa transformação cultural. Episódios como o estupro coletivo ocorrido no Rio de Janeiro mostram como a misoginia digital oferece uma gramática contemporânea para práticas antigas de violência. O universo red pill não inventou a misoginia. O que ele fez foi reorganizar discursos históricos de dominação masculina dentro de uma linguagem adaptada ao ambiente digital.

A pesquisa sobre a machosfera organizada por Ricard, citada no início do texto, mostra que o fenômeno não se limita a comunidades de extrema direita. Ele representa uma transformação mais ampla nas formas contemporâneas de sociabilidade masculina. Quando discursos de vitimização masculina e críticas ao feminismo atravessam fronteiras ideológicas, eles indicam a existência de solidariedades mais profundas do que as divisões políticas aparentes.

Esse é o ponto mais delicado do debate atual. Se a machosfera cresce na extrema direita e seus repertórios passam a circular também no campo progressista, o enfrentamento da violência de gênero não pode limitar-se à denúncia de adversários ideológicos. Ele exige uma investigação mais incômoda, pois sem enfrentar as formas de solidariedade masculina que atravessam a própria esquerda, qualquer mobilização masculina contra o feminicídio corre o risco de reproduzir exatamente as estruturas que afirma combater.

 

Fonte: Por Sara Goes e Paola Jochimsen, em Outras Palavras

Entidades “sem fins lucrativos”: parasitas no SUS?

Brasil e Portugal fazem parte de um conjunto bastante seleto de países que possuem sistemas universais de saúde. Se particularizarmos o caso do Brasil, posicionado na periferia do capitalismo, a situação torna-se ainda mais especial. Tanto o Sistema Único de Saúde (SUS) brasileiro quanto o Serviço Nacional de Saúde (SNS) português resultaram de processos de luta social potentes e contemporâneos. O primeiro é produto do combate à ditadura empresarial-militar (1964-1985), que terminou por tomar o rumo de uma transição pactuada, pelo alto, e assumir a forma de uma redemocratização da vida política sem tocar nas estruturas de classes. O segundo originou-se de um processo revolucionário (1974-75), que pôs fim também a uma ditadura (neste caso, ainda, fascista e colonialista) e promoveu a ruptura da ordem então vigente, alterando significativamente as bases materiais da sociedade portuguesa – e, embora na sequência o processo tenha refluído, foi a Revolução que fundou e ‘temperou’ a democracia portuguesa (Loff, 2022; Secco, 2005).

Em outro trabalho (Dantas, 2025) – que se dedicou a explorar, comparativamente, justamente a relação entre os processos políticos experimentados em ambos os países, com as suas resultantes em termos de políticas sociais de grande envergadura na saúde, além de investigar os componentes históricos e conjunturais que ajudam a entender os processos de desmonte atuais que vivenciam –, aventamos, como problemáticas de estudo (ainda carentes de aprofundamento), dois fatores de naturezas distintas. O primeiro diz respeito ao resultado prático, no tempo histórico de média duração, do desenrolar dos dois processos políticos que, embora flagrantemente distintos em sua forma e conteúdo, atualmente parecem guardar mais aproximações relativas do que suas origens e desenvolvimentos tão diferentes poderiam nos fazer supor. O outro fator, inserido no registro da longa duração, que pode se constituir na base para o entendimento do primeiro, diz respeito à condição estruturalmente ‘dependente’ de ambos os países no cenário internacional capitalista, que pode nos permitir iluminar suas realidades nacionais, mutuamente, a partir da análise de base econômica e das formas políticas consequentes a esta base – ainda que não de modo mecânico.

Tais indicações não servirão aqui para nós como hipóteses a serem testadas, mas nos parece válido apresentá-las para que as tenhamos em mente quando nos debruçarmos sobre as formas atuais que tem assumido a ação privatizante de desmonte das políticas públicas e universais de acesso à saúde no Brasil e em Portugal. A nós interessam duas ordens de questões: em uma ponta, o senso comum reinante que associa a atuação do setor privado à eficiência, economia de recursos e transparência, ao cabo em que à gestão pública cola a imagem da lentidão, do desperdício e da corrupção; na outra, nos chamam a atenção os meios e o feitio através dos quais este senso comum tem sido ‘educado’.

É neste terreno que pretendemos contribuir com o debate, mas para tanto é preciso que digamos, já de antemão, de onde partimos. Para nós, a relação entre público e privado é inevitavelmente conflituosa sob relações sociais pautadas, não superficial ou lateralmente, mas essencialmente, pela apropriação privada da riqueza socialmente produzida (Marx, 2017). Logo, não se pode (sem conflito) configurar esta relação como ‘complementar’ ou passível de equilíbrio administrável por um Estado supostamente zeloso do ‘interesse geral’, secundado por um empresariado ‘socialmente responsável’ e ambientado em uma sociedade civil ‘solidária’. Se nenhum dos elementos que em tese garantiriam essa harmonia existe na realidade dos fatos – tal como pelas lentes liberais são caracterizados –, debitar o resultado do conflito de classes à sua pior ou melhor administração por canais institucionais antes mistifica o problema no lugar de desvelá-lo.

Processos privatizantes, portanto, em velocidade mais ou menos acelerada e sob formas mais ou menos sofisticadas, têm a sua ‘economia política’. Dizem respeito, grosso modo, a ciclos, situações e conjunturas políticas, todas sob determinadas configurações de luta social. Se é assim, não podemos reduzi-los aos momentos em que se efetiva a venda direta do patrimônio público ou em que vigoram as parcerias público-privadas, as concessões e a entrega da gestão pública para particulares. E se, ademais, os chamados conflitos distributivos são a face mais nítida da vida social nas sociedades capitalistas – do centro ou da periferia –, às classes dominantes se exige um preparo para atuar sobre esta desarmonia permanente. Si vis pacem, para bellum!

Há muitas formas de privatização que se criam, desaparecem ou se reinventam. Este trabalho se debruçará sobre uma delas, que vem se ampliando enormemente nos últimos 30 anos sem a atenção devida, muito bem protegida que está sob o véu da filantropia. Referimo-nos à ação de entidades ditas ‘sem fins lucrativos’, que costumam representar, em bloco e de modo associado, os interesses de segmentos e frações do capital em todos os setores econômicos – entre os quais nos interessa o da saúde. Trata-se, então, como veremos, de investigar os “mecanismos do poder de classe que se baseiam na ampliação da sociedade civil” (Louçã, Lopes e Costa, 2014, p. 16).

<><> Entidades sem fins lucrativos: panorama internacional e os casos de Brasil e Portugal

Institutos, associações, fundações e organizações não governamentais (ONGs) declaradamente filantrópicas ou não – que prestam serviços dos mais variados, oferecem cursos, formam quadros no empresariado e na política, empregam trabalhadores e/ou utilizam força de trabalho voluntária, financiam-se com doações de pessoas físicas e/ou do poder público, de empresas, fundações e de outras entidades sem fins lucrativos – têm se multiplicado aceleradamente nas últimas três décadas como fenômeno internacional. Embora variem as nomenclaturas, as formas de financiamento, funcionamento e atuação, os setores e a abrangência que alcançam (regional, nacional ou internacional), bem como o enquadramento jurídico que recebem em cada país – a ação efetiva como empresas lucrativas ou como defensoras e formuladoras dos interesses empresariais no médio e no longo prazo – são, na média, o traço que lhes confere unidade (Fontes, 2020).

O seu modus operandi costuma cobrir dois grandes roteiros, isolados ou combinados: o primeiro diz respeito às entidades que prestam serviços de natureza pública. Atuam, como sociedade civil, onde deveria atuar o mesmo Estado (stricto sensu) que, diuturnamente, as financia. Na outra ponta, aparecem as entidades que não se caracterizam exatamente pela prestação de serviços (ou pelo menos de forma direta nem tampouco substancial do ponto de vista do público que alcançam) mas que combinam a forma dos think tanks com o conteúdo dos lobbies: captam recursos quase sempre volumosos (em parte ou na totalidade agraciadas com generosas isenções fiscais), reúnem políticos profissionais, especialistas e instituições renomadas de cada setor em que decidem atuar, produzem análises e diagnósticos para abastecer os governos de ‘boas ideias’, realizam seminários, conferências e encontros que costumam contar com grande apelo midiático e dessa forma conquistam paulatinamente a legitimidade de uma ‘voz coletiva’, como ‘sociedade civil’, de modo a propor e induzir políticas públicas setoriais que atendam aos interesses empresariais ali presentes. Neste segundo universo, principalmente, é que se encontram as entidades que atuam no campo da saúde, em ambos os países, e que aqui serão objeto de nossa análise.

Se quisermos, um rápido panorama internacional desse tipo de atuação empresarial pode nos oferecer balizas para as situações particulares de Brasil e Portugal. O Global NGO Technology Report (2018), que se remete aos dados colhidos e compilados até 2017, traz números bastante significativos que, neste espaço, reduziremos aos pontos que nos pareceram mais importantes, quais sejam: 1) Em todos os continentes, no centro e na periferia do capitalismo, estima-se algo em torno de 10 milhões o número de ONGs existentes; 2) O impacto econômico dessa atividade é tão significativo que, juntas, as ONGs de todo o mundo seriam a quinta maior economia do planeta; 3) Até 2030, estima-se que algo em torno de ¼ da população mundial será doadora de recursos para essas entidades, o que revela o grande apelo social que exercem, como expressão de uma ‘sociedade civil do bem’; 4) Em diversos países, a participação dessas entidades nos números relativos à geração de trabalho voluntário e empregos é significativa: a título de exemplo, nos EUA, 11,4 milhões de empregados; na Inglaterra e no País de Gales, além dos quase dois milhões de empregados, há 3,2 milhões de voluntários; na Austrália, as mais de 600 mil ONGs são responsáveis por 8% da força de trabalho daquele país.

No que diz respeito ao Brasil, o Mapa das Organizações da Sociedade Civil (OSC), do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indica, em 2023, a existência ativa de 879.326 OSCs – das quais 80,9% constituem-se juridicamente como associações sem fins lucrativos –, o que representa um aumento de 7,8% em comparação com os dados referentes a 2021 (Ipea, 2024). Se quisermos notar a curva de crescimento desse tipo de entidade, vale dizer que até 2005 existiam algo em torno de 200 mil – à época denominadas Fundações e Associações sem Fins Lucrativos (Fasfil) (Fontes, 2020).

Sobre Portugal, segundo a Conta Satélite da Economia Social (2023), do Instituto Nacional de Estatística (INE), em 2020 foram identificadas 73.851 entidades de natureza declaradamente não lucrativas – que, tal como no caso brasileiro, alinham-se ao quadro geral que apresentamos. Se compararmos com os dados referentes a 2010, quando se inicia a série histórica, podemos afirmar que o número de entidades ativas cresceu 33% em dez anos. Ainda segundo o mesmo documento, a atividade do conjunto dessas entidades foi responsável por 3,2% do Valor Acrescentado Bruto (VAB) nacional, 5% das remunerações, 5,2% do emprego total e 5,9% do emprego remunerado. Destaque: a saúde foi a atividade mais relevante em termos de VAB e emprego, perfazendo 25,5% da cifra do primeiro e 33,2% do segundo (Cooperativa António Sérgio…, 2024).

Se retomarmos a realidade brasileira no que se refere aos dados econômicos gerados por essas entidades, veremos, por exemplo, que, considerando os números da economia de 2023, a atividade dessas organizações foi responsável por 4,27% do PIB (Produto Interno Bruto) do país (Brasil, 2024). No ano anterior, o repasse de recursos federais para as OSCs atingiu a casa dos 24 bilhões de reais, correspondendo a quase 10% das despesas obrigatórias e discricionárias dos gastos públicos federais (Tribunal de Contas da União, 2024).

Em Portugal, segundo dados referentes a 2010, analisados por Mendes (2016), embora as Entidades do Setor Não-Lucrativo (ESNL) na saúde (e Bem-Estar) apresentassem-se à época de modo residual, correspondendo apenas a 3,52% do total de organizações existentes, já respondiam pelo terceiro maior setor em termos de empregos gerados e o quarto no que diz respeito ao peso do VAB. Os dados consolidados disponíveis mais recentes, presentes na Conta Satélite da Economia Social 2019-2020, indicam a crescente importância do setor: “A saúde e os serviços sociais foram as atividades mais relevantes em termos de VAB e emprego, verificando-se que a Saúde foi responsável por 25,5% do VAB e 33,2% do emprego remunerado da ES [Economia Social]” (Cooperativa António Sérgio…, 2024).

No Brasil, segundo os dados mais recentes, o peso relativo das OSCs estritamente da saúde também é pequeno, correspondendo a 2,51% do total (Ipea, 2024). Porém, tal como em Portugal, trata-se do setor com maior volume de empregos gerados, como informa a pesquisa “A importância do Terceiro Setor para o PIB no Brasil e em suas regiões”, realizada pela Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e divulgada em 2023: 5,88% da ocupação no Brasil, ou cerca de 6 milhões de postos de trabalho, estão no terceiro setor. Entre as atividades, a saúde é a que mais gera postos, com 30,6%, seguida pela educação, 14,3% e atividades artísticas 7,6%. Outras organizações associativas são responsáveis pelos outros 47,5% (Inovação em Cidadania Empresarial, 2023).

É significativo que este mesmo setor saúde, no qual se multiplicam as ações empresariais promovidas por entidades como as que descrevemos, venha sendo recorrentemente apontado (ou denunciado) como espaço privilegiado de ‘reprodução da dinâmica capitalista’, de ‘criação de oportunidades’, ‘geração de riquezas’, ‘criação de empregos’ etc., tanto no Brasil (Gadelha, 2022; Mendes e Carnut, 2022; Costa e Bahia, 2024, entre outros) quanto em Portugal (Maia, 2021; Campos, 2008, entre outros). No mínimo, há que se suspeitar da existência de uma forte conexão entre a expansão geométrica de entidades ditas ‘sem fins lucrativos’ (ou não lucrativas) atuantes na saúde, em ambos os países, e o crescimento exponencial dos investimentos privados empresariais neste setor.

Ainda que limitados pelo espaço, nos parecem suficientes as evidências (Fontes, 2020, 2018, 2017 e 2010, entre outros) de que estamos diante de uma ação deliberada do capital e de seus agentes para ampliar incessantemente os meios e as formas de apropriação privada da riqueza socialmente produzida – para além do âmbito das relações de trabalho –, de ataque aos fundos públicos e de privatização, em última análise. No entanto, no mais das vezes o que se observa é uma convicta aprovação social dessas entidades – também em importantes segmentos das esquerdas e entre ativistas sociais. Para nós, o nó da questão repousa sobre as noções acerca do Estado e da sociedade civil que embasam o senso comum, com o conceito de Terceiro Setor sendo a expressão máxima do ‘embuste’.

 

Fonte: Por André Vianna Dantas, em Outra Saúde

 

Vladimir Safatle: ‘Flávio Bolsonaro não quer ser presidente, quer ser administrador de colônia’

No seu recém lançado livro A Ameaça Interna: Psicanálise dos novos fascismo globais, o psicanalista e professor titular do departamento de Filosofia da Universidade de São Paulo (USP), Vladimir Safatle, trata sobre o conceito de fascismo restrito.

‘O que é fascismo restrito? São sociedades que tratam setores da população, tratam certos territórios, como o espaço de máxima espoliação, como espaço da ausência de direito, como espaço da vulnerabilização da vida. E eu poderia dar esse exemplo em todas as ditas democracias mais estabelecidas do capitalismo global’, explicou o autor durante a entrevista que concedeu ao programa Conversa Bem Viver.

Na obra, publicada pela editora Ubu, o autor aponta que não se deve olhar para o eleitorado de extrema direita como se fosse uma parcela da população  que não sabe o que está acontecendo de fato. “Não faz nenhum sentido imaginar que são pessoas que são incapazes, que elas estão sendo enganadas, que elas não estão entendendo o que está acontecendo, que elas acreditam em fake news, que elas acham que a Terra é plana e todo esse tipo de coisa. Eu acho essa uma posição politicamente absolutamente catastrófica. Elas sabem muito bem o que está acontecendo. Elas sabem muito bem que, não existe mais sociedade para todo mundo dentro desse horizonte de crise do capitalismo.”

É preciso entender o contexto, segundo Safatle: “Tem que passar por entender o sistema de precarização profunda que essas pessoas estão passando, entender que a gente está perdendo a nossa capacidade de fornecer uma alternativa real, que não seja simplesmente tentar gerir, de uma maneira mais humana as crises terminais do capitalismo, e ter uma postura mais combativa.”

Na visão do professor, existe um cálculo racional no fascismo e o eleitor da direta entendeu que “é basicamente cada um por si”. “E se é cada um por si, então, bem, que não me atrapalha com nenhuma demanda de solidariedade. Que me deixem lutar pela minha sobrevivência”.

Nesse sentido, um avanço e vitória eleitoral da extrema direita, esse cenário seria ainda mais agressivo. “É nossa obrigação impedir que um projeto fascista apareça no Brasil pela segunda vez. E, pela pela segunda vez, vai ser muito mais forte. Vai ser muito diferente do primeiro. O seu grau de destruição vai ser muito maior. Até porque eles já sabem como funciona a máquina do Estado, já sabem de onde vem os pólos principais de resistência e a gente vê um horizonte global articulado. E ele vai interferir brutalmente na política brasileira.” 

Nesse sentido, o pré-candidato à presidência, Flávio Bolsonaro, não tem projeto para a nação, focando apenas em fazer do Brasil uma colônia. “Esse sujeito não quer ser presidente do Brasil, ele quer ser administrador de colônia, é outra coisa. Não tem nenhuma ideia do que é ser presidente do Brasil. Ele quer administrar, fazer com que a gente volte a uma situação colonial e ele ser o administrador da colônia. Ninguém aqui quer voltar a uma situação colonial, já começa por aí. Independente das nossas divergências.”

Para Safatle, a ação do campo progressista no enfrentamento ao fascismo não tem sido eficaz ao contrário da atuação dos partidos de esquerda na Colômbia, que atuam com combatividade às estruturas do sistema capitalista,

<><> Confira a entrevista

  • Eu quero começar um conceito básico que você apresenta nas primeiras páginas, que é o fascismo restrito, com o qual você desmascarar as democracias liberais que o mundo vive depois do pós-guerra. No exemplo do Brasil, que pós-ditadura militar, a população negra, mulheres, entre tantos outros grupos vivem um tipo de fascismo mesmo estando em uma democracia liberal. 

Vladimir Safatle: Exatamente, eu acho que nós temos um problema epistemológico grave, que é trabalhar com teorias do Estado, que não leva em conta clivagens territoriais e clivagens de classe, clivagens sociais. A gente vai tendo a impressão de que nós temos um Estado que é um Estado democrático de direito, que é uma dita democracia liberal.

Em todo seu território, ele vai funcionar como uma uma democracia liberal e uma instituição garantidora de direitos, instituição de direitos, e isso está longe de ser a verdade. O processo é completamente diferente. 

O que acontece é que essas instituições, elas clivam o seu território, elas dividem o território. Tem territórios que de fato vão ter uma uma circulação da experiência democrática. Tem outros territórios que vão estar submetidos a regimes de violência e recessão contínuos, normalizados. A gente conhece isso muito bem num país como o Brasil. 

A democracia brasileira, quando ela existiu? Ela é uma democracia que existe aqui onde eu estou, aí onde você está, e mais uns sete a oito quilômetros, mas lá na já na periferia de São Paulo, ela acabou. 

Porque você não tem nenhuma garantia de integridade pessoal, você não tem nenhuma garantia que vão bater na porta na sua porta às cinco da manhã, não vai ser o leiteiro, vai ser polícia sem mandado e te colocando numa situação de profunda precariedade e vulnerabilidade.

É completamente abstrato imaginar que um tipo de exercício da lei é dado em um certo território,  é dado em outro também. Por isso que eu insisti na ideia de que nunca vivemos uma democracia liberal, isso nunca existiu, isso é uma uma completa abstração. O que nós vimos foi fascismos restritos, que em situações de crise generalismo. 

O que é fascismo restrito? São sociedades que tratam setores da população, tratam certos territórios, como o espaço de máxima espoliação, como espaço da ausência de direito, como espaço da vulnerabilização da vida. E eu poderia dar esse exemplo em todas as ditas democracias mais estabelecidas do capitalismo global.

O que era a o regime político dos Estados Unidos do ponto de vista de um negro que vivia no sul dos Estados Unidos na década de 60 e na década de 70. Pergunta para eles o que eles achavam da democracia norte-americana.

A França e a Inglaterra até há bem pouco tempo eram estados coloniais. Isso significa que suas possessões coloniais faziam parte do seu território. Então, em certos territórios vigoravam uma lei completamente distinta. Pergunta para os argelinos o que eles achavam da democracia francesa. Pergunta para os indianos o que eles achavam da democracia inglesa. Isso mostra que a gente tem uma deficiência enorme de conseguir entender processos concretos de organização política entre nós.

E uma das teses centrais do livro é falar que o colonialismo é o espaço de desenvolvimento do fascismo, o fascismo nada mais é, do que a extensão da lógica da violência colonial para os países metropolitanos. E a permanência do colonialismo indica um elemento fascista muito interno às nossas sociedades. E mesmo depois dessas sociedades deixarem de ser sociedades coloniais, elas reverberam o problema na sua relação com os imigrantes. Então, eu insistiria muito nesse aspecto, para que a gente pudesse qualificar melhor o problema, que é o que falta muito hoje.

  • Inclusive, sobre qualificar o problema, me permita avançar um pouquinho mais, porque vivemos num fascismo restrito, mas, a gente não vai dizer que o presidente Lula é fascista ou que o presidente Obama era fascista, mas a gente pode dizer que o presidente Trump e o presidente Bolsonaro sim são fascistas. E isso muda o conceito, nestes casos, é quando vivemos um fascismo generalizado. Porque a sociedade, no geral, tem tanta dificuldade de dizer que  Donald Trump é um presidente fascista ou que Jair Bolsonaro é um presidente fascista. De onde vem esse medo, esse receio, essa restrição?

Teriam várias respostas possíveis. Primeiro é muito importante a gente entender que na passagem de um fascismo restrito, ou seja, um fascismo para certos territórios e populações para um fascismo generalizado, um fascismo que se generaliza para todo o território de um país e para todas as suas populações, você tem mudanças qualitativas significativas. Inclusive, para essas populações que já estão sob regime fascista, elas têm uma vulnerabilidade ainda maior.

Por isso, não faz nenhum sentido uma coisa do tipo: “Ah, mas agora vocês estão reclamando porque agora que vocês estão sentindo a violência que a gente sempre sentiu”. Esse tipo de colocação, que por vezes se ouve, é uma colocação falsa, porque o que acontece é outra coisa. O nível de violência que esses setores já violentados vão estar exposto é muito maior.

Há uma mudança qualitativa mesmo, por mais que os Estados Unidos tenham uma dinâmica fascista com certos setores da população, ninguém está falando que Obama e Trump são a mesma coisa ou que Lula e Bolsonaro são a mesma coisa. Muito pelo contrário, evitar essa generalização é nossa primeira tarefa política. A segunda é desmontar as estruturas fascistas em geral. 

E porque não se usa o termo? Essa é uma questão muito interessante. Eu diria que o mundo acadêmico contribuiu de maneira absolutamente detestável para que fosse difícil a sociedade nomear o problema. A gente fez uma espécie de espaço de produção de uma miríade de conceitos: populismo de direita, democracia e liberal, ultranacionalismo, identitarismo de direita, Tem vários conceitos que parecem que têm duas funções, na verdade. A primeira delas é que não nomeamos o tipo de problema que temos à nossa frente. E o segundo é criando uma série de equivalências entre posições, entre aspas extremas, para tentar desqualificar todas essas posições extremas. Como se a nossa posição normal já não fosse extrema, como se a nossa situação de normal já não fosse, na verdade, o pior dos extremismos, porque ele parece naturalizar um processo insustentável para setores enormes da população dos nossos países e de populações mundiais.

A tentativa de evitar chamar de gato um gato, tem como única função desmobilizar as forças políticas que devem ser mobilizadas diante do tipo de desafio que nós temos à nossa frente. É uma escolha política, escolha política de não nomear. A primeira função do pensamento crítico é dar o nome correto para as coisas. Não ter medo de nomear corretamente os problemas. E não por acaso, em um país como o Brasil, isso é ainda mais evidente, como tipo de estratégia. 

A gente está falando de um país cujo o fascismo nacional é um eixo constituinte da nossa história. E a universidade brasileira, durante décadas, apagou a sua história. Se a gente falasse em fascismo dentro da universidade, a gente era zombado. Até hoje a gente tem problemas. É que agora começou a ficar mais evidente o processo.

Você vai vendo o supremacismo racial, o expansionismo militar, o fim das estruturas do direito internacional, a indiferença e dessensibilização em relação aos piores níveis de violência que a gente pode imaginar, níveis genocidários de violência. Aí, claro, basta você juntar os pontos que você vê exatamente o que está na nossa frente.

Nomear o problema, não é só uma descrição, ele produz um ato. Quando você assume isso, algo muda. Você fala: “Não, espera aí, se eu estou diante de uma ameaça fascista, então qual é a minha ação dentro desse horizonte?” Não posso mais imaginar que estou numa situação política normal. Também não vou organizar minha recusa de uma forma normal, é uma forma excepcional. É um convite a uma modificação estrutural da nossa forma de ação política.

  • Professor, deixa eu aproveitar que no final da sua resposta você trouxe bastante sobre o que devemos fazer a partir do momento que a gente consegue denominar devidamente cada coisa, mas trazendo outro elemento do seu livro. Como é preciso olhar os eleitores de extrema direita?  Você faz uma provocação de que a gente não tem que olhar para eles como se estivessem sendo enganados, pelo contrário, eles sabem muito bem o que estão fazendo. Então como é possível entender de onde vem essa disseminação, crescimento e consolidação do fascismo dentro do país, tornando a extrema direita como um dos blocos políticos mais fortes para essa eleição de 2026?

O Brasil é o país que teve o maior partido fascista fora da Europa. A gente tinha um milhão e duzentos mil membros da eleição integralista nacional dos anos 30. Essas pessoas não desapareceram Essas pessoas fazem parte da nossa história. Elas estão por todos os lados. Basta ver que essa reconfiguração do fascismo nacional, volta agora com força, e volta porque nunca foi embora. Porque sempre teve aqui. Claro que não podia ter representações políticas à altura, mas ele estava à espreita do da primeira crise estrutural da nova república. Quando a Nova República começa a entrar em crise, quando o sistema de pacto da Nova República entra em crise, então eles se fortalecem. Hoje, vendo de frente para trás, fica muito evidente como esse processo estava nos assombrando a todo momento. 

Estamos diante de um ano eleitoral. Eu  sou alguém que passou todos esses anos tendo críticas muito claras em relação ao governo do Lula. Mas eu acho que numa situação como essa, é completamente diferente. A margem de manobra que um que um governo não fascista nos fornece, ela é fundamental nesse momento. É nossa obrigação impedir que um projeto fascista apareça no Brasil pela segunda vez. E, pela pela segunda vez, vai ser muito mais forte. Vai ser muito diferente do primeiro. O seu grau de destruição vai ser muito maior. Até porque eles já sabem como funciona a máquina do Estado, já sabem de onde vem os pólos principais de resistência e a gente vê um horizonte global articulado. E ele vai interferir brutalmente na política brasileira. 

O problema de um senhor como Flávio Bolsonaro é que esse sujeito não quer ser presidente do Brasil, ele quer ser administrador de colônia, é outra coisa. Não tem nenhuma ideia do que é ser presidente do Brasil. Ele quer administrar, fazer com que a gente volte a uma situação colonial e ele ser o administrador da colônia. Ninguém aqui quer voltar a uma situação colonial, já começa por aí. Independente das nossas divergências — às vezes as pessoas fazem uma crítica dita de esquerda radical, que a gente não tem nenhum tipo de sensibilidade para o problema, ao contrário, acho que a gente tem uma entrega muito honesta para certas lutas, porque a gente sabe que a gente não vai ganhar nada no final dessa luta, mas a gente sabe muito bem o que vai ser perdido. Então, eu acho que esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto é o seguinte: eu insisti muito no livro, em recusar a psicologizar comportamento político, principalmente dos setores precários e vulneráveis que que fazem escolhas fascistas, extrema direita. Eu acho que é um equívoco político brutal.

Existe uma diferença entre os eleitores orgânicos, aqueles que tem uma configuração ideológica muito clara, e com esses não tem muito o que fazer, são essas pessoas com as quais nós vamos combater nos próximos 50 a 60 anos, e que a gente combate a mais de 50 a 60 anos. Elas são basicamente as mesmas, as suas histórias são as mesmas. Quem combateu na ditadura militar, sabe muito bem de onde eles vieram, eles continuam no mesmo lugar, a gente continua no mesmo lugar e vai ser assim a vida toda.

Se fosse só isso, isso não seria um problema. Eles são cerca de 15% da população. Só que o problema é quando eles viram 48%, 49%, 50%. Aí, sim, nós temos um problema. E aí é importante entender como o fascismo é um discurso realista. E qual é o tipo de resposta que ele está dando. Não faz nenhum sentido imaginar que são pessoas que são incapazes, que elas estão sendo enganadas, que elas não estão entendendo o que está acontecendo, que elas acreditam em fake news, que elas acham que a Terra é plana e todo esse tipo de coisa. Eu acho essa uma posição politicamente absolutamente catastrófica. Elas sabem muito bem o que está acontecendo. Elas sabem muito bem que, não existe mais sociedade para todo mundo dentro desse horizonte de crise do capitalismo.

E, infelizmente, o campo progressista não conseguiu, até agora, se colocar como uma alternativa politicamente crível. Uma alternativa que consegue garantir uma ampliação real das macroestruturas de proteção social, que consegue quebrar essa dinâmica do próprio sistema de produção, e fornecer uma alternativa de sociedade. Então, dentro desse horizonte, eles fazem uma escolha.

A escolha é: “Se não tem sociedade para todo mundo, então é basicamente cada um por si. E se é cada um por si, então, bem, que não me atrapalha com nenhuma demanda de solidariedade, mas que assim, que que me permite que me deixem lutar pela minha sobrevivência”. Ora, isso é catastrófico, é claro, mas é absolutamente racional, existe um cálculo racional no fascismo.

A gente tem que parar de imaginar o fascismo com uma espécie de resposta emotiva, uma resposta populista nesse sentido, Como se as emoções passassem por cima da razão. É necessário entender a escolha racional por trás desse processo. E isso nos coloca uma questão: a nossa resposta não pode ser essa que a gente está dando até agora. Tem que passar por entender o sistema de precarização profunda que essas pessoas estão passando, entender que a gente está perdendo a nossa capacidade de fornecer uma alternativa real, que não seja simplesmente tentar gerir, de uma maneira mais humana as crises terminais do capitalismo, e ter uma postura mais combativa.

De todo esse processo latino-americano que nós estamos vendo nos últimos anos, um dos únicos dos países que se destaca como uma exceção a essa ascensão da do fascismo, é a Colômbia, olha que interessante. Que é o país que teve uma uma posição da sua esquerda muito mais clara do que todos os outros, muito mais combativa do que todos os outros. Eles estão colhendo frutos. E isso deveria servir como uma espécie de alerta e de reflexão para todos nós.

  • O senhor traz  um exemplo no livro, que eu vou compartilhar aqui para todo mundo entender, que é um caso que aconteceu na Pensilvânia. Uma empresa ameaçada por ser extremamente poluente, foi fechada pelo governo que a reabriu de uma maneira mais ecologicamente sustentável, o que na prática significou precarização dos empregos. Então os trabalhadores de lá começaram a pensar: “Por que quero me comprometer com a luta ambiental, pensar no mundo sustentável, se isso significa piorar a minha qualidade de vida? Prefiro votar no Trump que está saindo do acordo de Paris e está apostando nos Estados Unidos forte, mesmo que isso signifique o fim do mundo. Se é para acabar o mundo, eu quero que eu pelo menos viva bem até o final”.  Mas professor, numa perspectiva mais esperançosa, o final do livro, eu acho muito elucidador, brilhante e espirituoso, porque você cita a Revolução Haitiana, primeira revolução nas Américas contra o colonialismo, erguida pelo movimento negro, pelos escravizados que conseguiram dominar o país e fizeram um marco até hoje. E você cita ela para trazer a frase : “Há momentos históricos que só o delírio é a única saída consequente”. Queria que tu explicasse essa frase e como aplicá-la na prática em 2026.

Utilizando esse mesmo exemplo que você trouxe, do professor Rui Braga, ‘Angústia do Precariado’. Muito interessante, que ele mostrou exatamente isso. Olha o cálculo racional que existe por trás. É isso que ele estava querendo mostrar,

Então, o fascismo, ele aparece com uma perspectiva realista. Só que o dado é que ser realista hoje é o que há de mais irreal. Porque ser realista hoje é se adaptar a uma realidade insuportável. Uma realidade que não consegue garantir sequer as condições mais elementares de reprodução da nossa vida, dentro de um meio ambiente que está em profunda degradação e degradação acelerada.

Dentro desse horizonte, é importante a política emancipatória lembrar que nessas situações, mais do que tentar ser realista, é apostar em algo que parece hoje como um delírio. E em vários momentos da história, aqueles que apostaram no delírio acabaram vencendo. Eu lembrei da Revolução Haitiana exatamente por causa disso. Do ponto de vista concreto, pessoas escravizadas que se sublevaram contra o exército mais potente da época, o exército Napoleônico, a grande potência militar da época, era um completo delírio. No entanto, esse delírio venceu.

Ele venceu uma vez, ele vence outras. O delírio também tem a capacidade de imaginar um mundo possível, lá onde parece que não há mais imaginação, mais espaço para imaginação. Ela força os limites da imaginação, e isso que muitas vezes é necessário dentro de uma dinâmica política, principalmente agora, onde nós temos um um tipo de combate, que é um combate estrutural, onde as forças de reprodução material do capitalismo assumem o seu lado mais terrorista, mais brutalizada e mais militarizada. Elas não têm mais espaço para simular acordos.

Nesse momento, a gente tem que lembrar que quando a gente parecia diante de forças desproporcionais, a capacidade que a gente teve de imaginar outros futuros e acreditar na nossa força, foi um elemento decisivo para a vitória.

 

Fonte: Brasil de Fato