sábado, 14 de março de 2026

Evangélicos no mundo: Trump, evangélicos brancos e posições de poder

Corrente religiosa em plena expansão em todo o mundo, os evangélicos são frequentemente associados ao imaginário estadunidense e ao nacionalismo cristão, do qual são parte integrante nos Estados Unidos.

No entanto, sua realidade é infinitamente mais variegada, como explica o pesquisador Sébastien Fath, um dos maiores especialistas no assunto, em seu livro "Le Nouveau Pouvoir évangélique" (O novo poder evangélico, em tradução livre, Grasset). Trata-se de uma impressionante síntese que desmonta muitos clichês sobre esses fiéis, destacando a profunda diversidade das Igrejas evangélicas em nível internacional, especialmente na África e na Ásia, que diferem profundamente de algumas Igrejas nacionalistas estadunidenses.

<><> Eis a entrevista.

•        De onde vem o evangelicalismo?

Sua história está intrinsecamente ligada à do protestantismo e não pode ser compreendida sem considerar as diversas tendências da Reforma Protestante, que teve início no século XVI. Ao longo da história protestante, houve fases de "despertar", sem dúvida explicadas pelo fato de que, diferentemente da Igreja Católica, não existe uma centralidade institucional entre os protestantes, resultando disso uma certa fragilidade na transmissão. As fases de despertar, ou seja, de remobilização militante, abrangem três dimensões: uma dimensão pessoal, ou seja, a conversão, que é central para a identidade evangélica; uma forma de criatividade eclesial, com o surgimento de novas Igrejas que respondem a novas sensibilidades, como o metodismo e o pentecostalismo; e o impacto social, visto que esses despertares favoreceram a criação de obras como as capelanias prisionais ou a Cruz Vermelha. Esses despertares permitiram às franjas evangélicas, inicialmente minoritárias e discriminadas, se tornarem gradualmente majoritárias dentro do protestantismo.

•        No que o evangelicalismo difere do protestantismo tradicional, ou seja, luterano e reformado?

Diferencia-se principalmente na ênfase posta sobre a conversão. O evangelicalismo não é uma religião que se herda por nascimento, mas sim uma religião que se reivindica e que se testemunha publicamente. Consequentemente, as Igrejas evangélicas são geralmente Igrejas de crentes professos, compostas por associações de convertidos, o que não ocorre no luteranismo ou a Igreja Reformada. Além disso, há menos mediação na interpretação da Bíblia nas Igrejas evangélicas, que desenvolvem uma leitura mais direta e menos metafórica do que nos ambientes luteranos ou reformados.

Estes últimos dão menos importância ao sobrenatural, em favor de uma abordagem mais focada na ética. Para os evangélicos, a relação com o invisível, com um Deus poderoso que opera milagres, é essencial.

<><> Quais são os principais polos evangélicos no mundo?

Em meu livro, tento desamericanizar o imaginário sobre o evangelicalismo: trata-se de um fenômeno multipolar que não deve ser limitado aos Estados Unidos. Esse clichê está ligado à extraordinária influência da cultura estadunidense na França após 1945, com a imagem do clergyman protestante de estilo anglo-saxão. Hoje, ao contrário, o padrão do evangélico é o de uma mulher nigeriana de classe média, que administra o aluguel de três apartamentos, dirige uma empresa de telefonia móvel e, à noite, vai orar e profetizar em uma Igreja do Despertar. Estamos longe do clichê do evangélico texano branco ultraconservador: este existe, sim, mas o evangelicalismo, mesmo nos Estados Unidos, é mais diversificado — e há oito vezes mais evangélicos no resto do planeta. Chefes de Estado evangélicos governam a República Democrática do Congo — o maior país francófono do mundo —, Etiópia, Gana, República Centro-Africana, Quênia... Embora os evangélicos brancos estadunidenses (white evangelicals) ocupem espaço, a realidade é que, no plano religioso, os Estados Unidos estão se secularizando, com um aumento significativo no número de "sem religião" na população estadunidense, como demonstram os dados do Public Religion Research Institute, um think tank independente.

Milhões de pessoas se converteram ao evangelicalismo a partir da década de 1960 na América Latina e, 30 anos depois, na África francófona. Trata-se, na maioria das vezes, de novas Igrejas pós-coloniais, criadas por africanos para africanos, e não fundadas por europeus. Hoje, dos 48 milhões de evangélicos francófonos, 40 milhões são africanos. Alguns deles vieram viver na Europa, o que explica em parte o crescimento das Igrejas evangélicas no continente. No entanto, esse crescimento não é massivo: na França, 1,6% da população é evangélica, uma porcentagem muito maior do que no período pós-Segunda Guerra Mundial, mas ainda assim modesta.

•        Na França, as Igrejas evangélicas são percebidas como correntes novas, importadas de países anglo-saxões. É isso?

O século XIX propiciou uma espécie de reinvenção do protestantismo na França, onde muitas comunidades haviam sido desenraizadas. Comunidades suíças, alemãs e britânicas ajudaram os protestantes franceses a reevangelizar. Os estadunidenses chegaram mais tarde, especialmente após 1945, em um contexto de Guerra Fria, no qual temiam que a França se inclinasse para o comunismo. No entanto, desde a queda da Cortina de Ferro, a França deixou de ser uma prioridade para os Estados Unidos. E, há 30 anos, a influência mais significativa entre os evangélicos franceses é claramente aquela vinda da África. Uma influência trumpista pode estar presente em algumas redes, mas não é a linha dominante dentro do Conselho Nacional de Evangélicos Franceses, uma rede que reúne de 60% a 70% deles. Nunca houve uma Igreja evangélica nacionalista na França, e o que está acontecendo nos Estados Unidos é uma exceção.

•        Como se explica essa exceção estadunidense?

A sociedade estadunidense foi construída pelos puritanos, protestantes extremistas que a Europa não queria. Ao chegarem à Nova Inglaterra, implementaram modelos radicais que moldaram a identidade protestante estadunidense, com uma conotação de viés teocrático. Contudo, já existia um debate interno, com pensadores discordando dessa linha. Foi assim que o pastor Roger Williams (1603-1683) fundou Providence, em Rhode Island, onde introduziu a liberdade de consciência. De qualquer forma, o aspecto excepcional estadunidense persiste até hoje. Com a crescente secularização da sociedade estadunidense, muitos evangélicos sentem-se como uma cidadela sitiada. Esse pânico moral afeta particularmente os evangélicos brancos, convencidos de que os Estados Unidos perderam sua identidade cristã. Esses neopuritanos querem construir uma barreira contra a secularização, o que é motivo de preocupação para todos os defensores da democracia liberal. No entanto, as mesmas ênfases não são encontradas entre os evangélicos estadunidenses de origem africana, asiática ou latina. O quadro é completamente diferente na Europa. As minorias protestantes na França defendem a ideia de uma sociedade republicana que oferece igualdade para todos, pois a memória das perseguições sofridas ainda está muito viva. O que acontece nos Estados Unidos não pode ser transposto para a França.

Por outro lado, mesmo nos Estados Unidos, o evangelicalismo não pode ser reduzido ao nacionalismo cristão. Durante a invasão do Capitólio em 6 de janeiro de 2021, os revoltosos queriam enforcar o vice-presidente Mike Pence, um evangélico fervoroso, mas defensor da democracia e contrário ao golpe de estado. E a principal revista mensal dos evangélicos do país, Christianity Today, fundada pelo pregador Billy Graham (1918-2018) e hoje dirigida por um afro-estadunidense, é anti-Trump.

•        As Igrejas evangélicas são consideradas muito conservadoras, senão francamente reacionárias. Essa é a realidade?

É verdade que os evangélicos são bastante conservadores em matéria de sexualidade e se alinham um pouco mais à direita do que a média da população francesa. Mas eles também expressam um forte apelo pela solidariedade e valorizam o acolhimento do estrangeiro. Uma pesquisa quantitativa realizada na megaigreja Martin Luther King (MLK) de Créteil, em 2025, revelou que mais de 16% das opiniões políticas declaradas se inclinavam para La France insoumise [extrema esquerda] e menos de 4% para o Rassemblement National [RN – extrema direita].

Na França, muitos locais de culto evangélicos são Igrejas "crioulizadas", com uma porcentagem significativa de casamentos mistos, um público que mal suporta o discurso do RN. Isso é bem diferente da situação nas Igrejas dos Estados Unidos, onde a mistura é rara e muitas vezes reina uma forma de segregação implícita.

•        Poderíamos dizer que Donald Trump realizou uma espécie de OPA (tomada de poder) sobre o evangelicalismo nos Estados Unidos?

Certamente, ele o usou cinicamente para chega ao poder, instrumentalizando os ambientes evangélicos brancos. Sem dúvida, comprou em parte seu apoio, com uma troca de favores à qual muitos evangélicos, dependentes das doações, responderam favoravelmente. No entanto, não se pode falar propriamente de OPA, porque isso sugeriria um controle total, que não existe.

•        O que o evangelicalismo nos conta com seu sucesso, diante o declínio do catolicismo e do protestantismo tradicional?

É verdade que pode parecer surpreendente. Quando entrei para o CNRS em 1999, ouvia meus colegas falar sobre o colapso do catolicismo. Para a corrente evangélica, porém, é o oposto. Um dos elementos que explica esse dinamismo é que o protestantismo evangélico se adapta muito bem a uma sociedade democrática, consumista e individualista, enquanto o catolicismo está mais em sintonia com uma sociedade tradicional, baseada na transmissão geracional e na autoridade vertical.

Além disso, as Igrejas evangélicas são mais abertas do que a instituição católica no que diz respeito ao papel das mulheres, inclusive na pregação. E muitos católicos não querem mais um cristianismo em que toda palavra de autoridade venha de um homem.

Finalmente, os jovens recebem responsabilidades durante o culto e são envolvidos em atividades comunitárias, um aspecto positivo em uma sociedade onde os jovens lutam para encontrar seu espaço. Eles também são muito ativos nas redes sociais.

O crescimento dessa corrente religiosa faz parte de uma história global marcada, há 40 anos, pelo triunfo do capitalismo financeiro em detrimento do capitalismo industrial. Isso levou ao enriquecimento da oligarquia financeira, em detrimento das classes médias empobrecidas. A atomização dos laços sociais desestabilizou muitas sociedades, que, portanto, estão em busca de relações. E as Igrejas evangélicas, assim como outras ofertas religiosas — particularmente o islamismo — são lugares de solidariedade. O evangelicalismo e o islamismo constituem hoje as principais ofertas religiosas que atendem as mudanças das sociedades contemporâneas.

•        Como vê o futuro do evangelicalismo?

O crescimento do evangelicalismo não é inexorável. Nos Estados Unidos, a Convenção Batista do Sul perdeu 2 milhões de membros desde o início do século XXI, enquanto havia triplicado o número de membros após a Segunda Guerra Mundial. Acredito também que a união artificial entre Trump e os evangélicos brancos esteja lhes custando caro, mesmo que tenha lhes permitido conquistar posições de poder. Quanto ao Reino Unido, o evangelicalismo continua a perder terreno. Na Coreia do Sul, está se registrando um ligeiro declínio. Em nível mundial, por outro lado, está em crescimento, particularmente na África, China e Sudeste Asiático.

O evangelicalismo ainda tem várias décadas de crescimento pela frente, especialmente na França. Isso dependerá, contudo, da capacidade do catolicismo de se reformar. Se este último conseguir acelerar sua renovação, o evangelicalismo poderá perder força. No entanto, os evangélicos são capazes de atrair tanto ex-católicos quanto pessoas não religiosas (2 em cada 10, em média). Na França, observa-se uma forma de aculturação do evangelicalismo, por meio de figuras como o cantor Kendji Girac e o jogador de futebol Olivier Giroud. Contudo, como no caso do Islamismo, os evangélicos são muitas vezes difamados. Deve-se admitir que, ainda que modestamente, alguns crentes radicais têm potencial para causar danos, mas, na realidade, a vasta maioria desses cidadãos é pacífica. É preciso deixar claro que as minorias religiosas — judaicas, muçulmanas, evangélicas, budistas — onde têm seu espaço, contribuem para construir a França de hoje.

•        “Os evangélicos cresceram em todo o mundo alinhados com a extrema-direita”. afirma Kristin Kobes du Mez

Kristin Kobes du Mez é professora de História na Calvin University, de Michigan. Em seu livro Jesus e John Wayne: como o Evangelho foi cooptado por movimentos culturais e políticos [Editora Thomas Nelson Brasil, 2022], descreve a ascensão da direita evangélica, dos primeiros telepregadores e antifeministas da Guerra Fria à conversão de Trump no presidente da “Maioria Moral”.

<><> Eis a entrevista.

•        Seu livro tem uma abordagem estadunidense, mas a presença do evangelismo na Europa é cada vez mais notável. É um fenômeno mundial em expansão?

O evangelismo conservador é a versão reacionária do cristianismo que está se espalhando por todo o mundo através das missões que as organizações evangélicas estadunidenses exportam para muitas partes do planeta, com mensagens populares e agressivas campanhas de penetração em comunidades locais, através de rádios, televisões e publicações por onde difundem seu credo para dominar o mercado religioso.

E agem com astúcia, combinando as tradições patriarcais com as agendas nacionalistas locais mais retrógradas. Desde a publicação de meu livro Jesus e John Wayne, recebi informações precisas sobre o aumento de sua presença e influência no Canadá, Reino Unido, Austrália, Alemanha, Holanda, China, Brasil, Uganda, Quênia e também na Espanha.

•        Quais são os valores dos evangélicos?

Nos Estados Unidos, querem restaurar a “América cristã” e ordenar a sociedade segundo as leis de Deus. Isto se traduz em uma ênfase hierárquica da autoridade masculina e uma política baseada na “lei e na ordem”.

São pessoas que se opõem aos direitos de gays, lésbicas, bissexuais e transexuais, ao aborto, à imigração, à redistribuição de renda e a qualquer tentativa de abordar as desigualdades sociais, pois apoiam sem rodeios o capitalismo de livre mercado. Também são muito propensos a negar a existência do racismo.

Além disso, enquanto muitos defendem a democracia liberal, o evangelismo branco estadunidense está cada vez mais inclinado a tendências autoritárias. Apoiam as lideranças fortes, mostram muito pouca preocupação com a supressão de direitos civis e acreditam que a violência política pode ser justificada se é para proteger sua visão do que deve ser os Estados Unidos.

Alguns admiram a maneira em que políticos como Putin, Orbán e Meloni lidam com o poder. A facção mais extremista defende que as leis de Deus estão acima de qualquer compromisso com a democracia, pois está convencida de que está construindo sua obra e que Deus está do seu lado.

•        Em plena crise de legitimidade do liberalismo, são um perigo para o sistema?

Sim, absolutamente. O elemento cristão mais radical representa um perigo para a democracia liberal. Acreditam que a finalidade de sua doutrina autoritária justifica os meios. Sentem-se à vontade enfrentando os tribunais, proibindo os setores mais críticos de votar ou fazendo interpretações da Constituição para privilegiar os direitos daqueles que compartilham de sua agenda.

•        Na Europa, e concretamente na Espanha, o número de seguidores tem crescido. Onde está o seu sucesso?

Dedicam enormes recursos financeiros para promover ensinamentos que fazem crescer o seu movimento religioso. Sempre dominam a tecnologia moderna para disseminar mensagens e são incrivelmente acolhedores quando as pessoas entram pela porta de sua igreja desencantadas com um Estado que não lhes oferece qualquer resposta. Tenha presente que os evangélicos oferecem um senso de comunidade e identidade a seus fiéis, em uma época caracterizada pela incerteza econômica e a mudança cultural. São formados na crença divina da prosperidade, que promete sucesso aos seus adeptos, tanto neste mundo como no próximo.

•        É paradoxal que uma doutrina baseada na dominação de classe atraia seguidores entre os setores sociais mais desfavorecidos.

Sim, é assim. Transmitem a ideia de que se alguém é “obediente” e busca a bênção de Deus, receberá sua recompensa na forma de felicidade pessoal e sucesso financeiro. Exaltam os ricos como os santificados por Deus e, portanto, merecedores de sua riqueza, ao passo que os pobres são vistos como culpados por sua penúria, que só podem ser salvos por sua fé.

Misturam habilmente a caridade com a evangelização. Distribuem refeições gratuitas, elaboram programas extraescolares e oferecem ajuda individual à margem das políticas estatais contra a pobreza e a desigualdade.

•        Na Espanha, a direita política tem participado de cerimônias evangélicas para conquistar o voto de seus fiéis, muitos deles migrantes latino-americanos. É uma cópia do que Trump e Bolsonaro já fizeram?

Essa não foi apenas uma estratégia de Trump e Bolsonaro. Essa tem sido a tática constante da direita religiosa em todo o mundo, desde os anos 1960 e 1970. Aproveitam-se da devoção de seus seguidores para se apresentarem como a única opção política realmente cristã.

Começam seu trabalho se posicionando sobre valores familiares como aborto, sexo e gênero, mas acabam apresentando toda a sua agenda conservadora como a única forma de ser um crente fiel.

Nos Estados Unidos, tem sido uma fórmula incrivelmente eficaz para mobilizar eleitores. E não utilizam apenas pastores e igrejas para espalhar sua propaganda, mas também meios de comunicação em que transmitem mensagens políticas bem afinadas para chegar a centenas de milhões de pessoas.

•        A principal organização protestante da Espanha se distanciou dessa corrente evangelista politizada porque “viola o princípio da separação Igreja-Estado”. Qual é a sua opinião?

Não posso falar se esta afirmação é genuína ou apenas mera aparência. O que posso dizer é que muitos evangélicos estadunidenses se declaram apolíticos, enquanto se alinham sistematicamente com a extrema-direita e apoiam o Partido Republicano. E defendem seu comportamento dizendo que suas lealdades políticas são meramente “cristãs”, não partidaristas.

No entanto, é importante destacar que também há líderes evangélicos que consideram que tudo isso não passa de uma submissão religiosa, diante de uma política direitista. Não é que esses pastores sejam esquerdistas ou que votem no Partido Democrata, mas pelo menos reconhecem os perigos que a inclinação de sua congregação à direita representa para o país e para sua fé.

E atenção porque muitos dos que lamentam publicamente a politização da fé acabam apoiando os candidatos republicanos e favorecendo os elementos mais extremistas.

•        Fala-se do poder dos evangelistas nos Estados Unidos, mas não na Rússia, onde também experimentam um crescimento surpreendente.

Por décadas, os estadunidenses se consideraram os oponentes mais resistentes e obstinados do comunismo soviético, por isso é surpreendente ver, atualmente, como alguns evangélicos enaltecem fervorosamente Putin por sua defesa autoritária dos “valores tradicionais”.

Assim como alguns cristãos russos – evangélicos e ortodoxos –, veem Putin como um homem forte que tem tudo o que precisa para enfrentar a esquerda decadente. E muitos deles consideram que apoiar a democracia liberal é fazer o jogo da esquerda.

•        Há muito dinheiro por trás dessas igrejas?

Há uma grande quantidade de dinheiro por trás dessas igrejas, suas redes e organizações, como o Conselho de Política Nacional, que reúne destacados pastores com bilionários para falar de suas doações privadas. Milhares de evangélicos doam 10% de sua renda mensal para suas congregações.

E esse dinheiro é usado para pagar os pastores e toda a sua equipe de assessores, para construir edifícios, financiar missionários, comprar recursos educacionais e alimentar a divulgação. Além disso, as editoras evangélicas são um grande negócio.

Os best-sellers evangélicos costumam vender milhões de cópias, apesar de serem bastante simples e de qualidade questionável. Os circuitos de conferências que organizam também são extremamente lucrativos, e a música e suas rádios se transformaram em indústrias com um gigantesco alcance.

 

Fonte: Entrevista com Sébastien Fath para Virginie Larousse, no Le Monde - tradução de Luisa Rabolini, em IHU/Naiz

 


 

20 deputados mais ausentes da Câmara já somam mais de 700 faltas sem justificativa... e não dá em nada

O clássico “assim eu prometo”, juramento padrão de um deputado federal na cerimônia de posse do mandato, se refere ao cumprimento e defesa da Constituição, que, entre os vários princípios, não aborda, de forma específica, a assiduidade parlamentar. Os 513 parlamentares somam 13.813 ausências desde 2023, quando teve início a atual legislatura.

Dessas faltas, 10,7 mil foram justificadas (77,5% do total), por motivos que variam entre missão oficial autorizada, licença para tratamento de saúde, licença maternidade e licença paternidade. No entanto, ao longo dos últimos três anos, a Câmara registrou 3.107 faltas de seus deputados sem qualquer explicação.

Ao todo, 462 congressistas não justificaram faltas à Mesa Diretora, 90% do total de cadeiras da Casa. Além disso, 93 parlamentares faltaram dez ou mais vezes sem prestar contas.

<><> Por que isso importa?

        Às vésperas da definição sobre o fim da escala 6×1 e poucos meses antes da corrida eleitoral, é direito do trabalhador brasileiro verificar a assiduidade e atividades de seu representante no Congresso e como ele irá se posicionar diante do tema.

As justificativas evitam o desconto de R$ 1,5 mil do salário por falta na sessão deliberativa (quando há discussão e votação de propostas). Mas, nesse contexto, há parlamentares que utilizaram o tempo de licença para irem a festas e até jogos de futebol – conforme revelou a Agência Pública com exclusividade.

Diante do ano eleitoral, as faltas devem ser ainda mais frequentes por causa dos compromissos partidários regionais. Frente a essa realidade, a Pública investigou quem são os representantes políticos mais ausentes da Câmara dos Deputados e quais partidos lideram esse ranking.

<><> PL e MDB são os partidos com mais ausências

Embora os recentes conflitos no Congresso Nacional, o MDB e o PL – partido do ex-presidente Jair Bolsonaro – estão alinhados num aspecto: são maioria na lista dos 20 deputados federais com mais faltas sem justificativa na Câmara, desde de 2023, início da atual legislatura.

Apenas os 20 deputados com mais ausências sem justificativa somaram 706 faltas a sessões no plenário nos últimos três anos. Além do PL (4) e MDB (4), compõem esse ranking: Republicanos (3); PP (3); PSD (2); PT (1); PSB (1) e PRD (1). Além disso, um dos parlamentares listados não tem filiação partidária.

No primeiro semestre deste ano, o calendário eleitoral já desloca os parlamentares à “formação de chapas, às convenções partidárias e demais engrenagens; nesse cenário, consolida-se, de modo tácito, o denominado “recesso branco” [período de folga estendida], expressão consagrada internamente para designar a redução substancial das sessões deliberativas”, detalhou, em reserva à Pública, um consultor legislativo da Câmara.

<><> Um réu e dois condenados

Dos dez primeiros no ranking com mais faltas, dois perderam o mandato em 2025, e um em 2026. No pódio, há dois deputados condenados e presos: Chiquinho Brazão (sem partido-RJ) e Carla Zambelli (PL-SP); e outro, réu na justiça: Eduardo Bolsonaro (PL-SP).

A perda do mandato de Chiquinho Brazão (sem partido-RJ), que faltou a 113 sessões, foi declarada pela Mesa Diretora da Câmara, em abril de 2025, um ano após ele ter a prisão preventiva decretada por suspeita de mandar matar a tiros a vereadora Marielle Franco e o motorista Anderson Torres, em 2018. Em 25 de fevereiro de 2026, a Primeira Turma do STF condenou a 76 anos e 3 meses de prisão Chiquinho Brazão e o irmão, Domingos Brazão, por serem os mandantes do crime.

Já Eduardo Bolsonaro (PL-SP) acumulou 61 ausências e teve a perda do mandato declarada em 18 de dezembro de 2025 pela Mesa Diretora, que baseou a decisão no fato de o ex-parlamentar ter excedido o limite máximo de ausências estabelecidas na Constituição Federal. O filho de Jair Bolsonaro mora nos Estados Unidos desde fevereiro de 2025 e é réu no Supremo Tribunal Federal (STF) por atuar junto ao governo americano pelo tarifaço à indústria brasileira e suspensão dos vistos de ministros da corte.

Carla Zambelli (PL-SP) faltou a 29 sessões deliberativas e perdeu o mandato em dezembro de 2025, por decisão do STF, onde acumula duas condenações: por invadir os sistemas do CNJ (Conselho Nacional de Justiça) e pela perseguição armada a um homem negro, às vésperas das eleições de 2022, em São Paulo. A Câmara chegou a rejeitar a cassação da ex-deputada, mas a votação foi anulada pelo ministro Alexandre de Moraes. Zambelli está presa desde julho de 2025 na Itália, onde tentava escapar do cumprimento do mandado de prisão emitido pelo Supremo.

<><> Regras diferentes da CLT

A Constituição Federal estabelece a perda de mandato ao deputado que deixar de comparecer a um terço das sessões ordinárias da Casa sem licença ou justificativa. Todavia, não existe a previsão de penalidades ao parlamentar que faltar periodicamente ao trabalho, mesmo atuando sob um regime de escala 3×4: com presença obrigatória no Congresso às terças e quartas, à noite, e às quintas pela manhã. Nos demais dias, os deputados estão, normalmente, liberados para outras agendas.

Desde 2015, um ato da Mesa Diretora, assinado pela atualmente senadora Mara Gabrilli (PSD-SP), passou a combater faltas indiscriminadas no Congresso estabelecendo a exigência de comprovação de licenças e missões autorizadas, mas deixou uma brecha ao liberar líderes partidários e integrantes da Mesa dessa obrigação. A prerrogativa foi utilizada pelo PL na tentativa de salvar o mandato de Eduardo Bolsonaro (PL-SP), enquanto ele faltava às sessões por estar morando nos Estados Unidos. O partido tentou nomear o deputado como líder da minoria para que o parlamentar tivesse as faltas abonadas automaticamente em função do cargo.

Já a Consolidação das Leis de Trabalho (CLT) prevê a possibilidade de demissão por justa causa em caso de abandono de emprego ou reiteradas faltas sem justificativa. Antes, porém, a empresa deve notificar o empregado por escrito e, se as faltas persistirem, pode até suspender o trabalhador temporariamente.

Para a advogada Nara Cysneiros, com atuação em direito constitucional e parlamentar, como não há punição prevista a faltas recorrentes, o mecanismo de controle de assiduidade, atualmente, é o voto popular. “Quem controla o deputado que falta muito nesse limite é o eleitor. A única autoridade que tem poder para controlar um ‘mau parlamentar’ que se comporta dentro dos limites das garantias do mandato é o povo”.

<><> Deputados já justificaram 10,7 mil ausências, com destaque para o Centrão

Entre 2023 e 2025, houve 10.706 ausências a sessões em plenário justificadas por deputados federais no Congresso Nacional. Um total de 344 parlamentares deixou de comparecer a 10 ou mais sessões nesse período, justificando as faltas à Mesa Diretora.

Para justificar o não comparecimento, o parlamentar deve protocolar documentos que expliquem o motivo da ausência, como determina o regimento interno da Casa. Em caso de licença para tratamento de saúde, a documentação pode ser apresentada posteriormente. Quando se trata de sessão deliberativa (com discussão e votação de proposições), a falta sem justificativa gera em desconto de 1/30 no salário. O valor é de aproximadamente R$ 1,5 mil, considerando o salário bruto de R$ 46.366,19 dos parlamentares.

Entre os cinco deputados com mais faltas justificadas, quatro são amigos e fortes nomes do Centrão na Câmara. No caso do grupo, a explicação está relacionada a missões oficiais autorizadas pela Mesa Diretora. No topo do ranking, está Luciano Bivar (União-PE), ex-presidente do União Brasil, com 146 ausências justificadas. Ele foi destituído da presidência do partido, em agosto de 2025, após um processo de investigação interna em que Bivar era suspeito de ameaçar o advogado do ex-aliado Antônio Rueda, que atualmente comanda a legenda.

Em segundo lugar, Dr. Luizinho (PP-RJ), que justificou 134 faltas e é líder do PP na Câmara, além de grande aliado do presidente da Casa, Hugo Motta (Republicano-PB). Em seguida, está Isnaldo Bulhões (MDB-AL), líder do MDB, acumulando 133 ausências justificadas. Ele é seguido pelo colega de bancada estadual, o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL), que não compareceu a 113 sessões.

 

Fonte: Por Dyepeson Martins, da Agencia Pública


Como sanções de Trump contra Cuba atingem esperança de vida de crianças com câncer

Tristeza sobre tristeza: se o câncer é uma doença que devora ou maltrata vidas de um dia para o outro, o aparecimento desse mal em crianças é ainda mais doloroso. Roubar o futuro de um menor é uma dupla tragédia: para quem a sofre e para seus familiares.

Mas, apesar disso, a área destinada ao tratamento infantil da doença no Instituto Nacional de Oncologia e Radiobiologia de Havana exorciza visualmente esse mal. Em seu salão de jogos, há um mural em que um menino cavalga um alazão e, esboçando um enorme sorriso, brande sua espada e conduz o animal rumo ao final de um arco-íris, como se o combate contra sua doença estivesse inevitavelmente destinado a vencer a batalha.

No centro do quarto, perto das janelas cheias de luz, um ônibus de madeira vermelho leva em seu teto um tesouro em forma de carregamento de balões e bolas. Mesas e carteiras estão cheias de desenhos feitos pelas crianças doentes, iluminados pelas mais intensas e variadas cores. Nas folhas de papel pintadas com aquarela não há ilustrações em preto e branco. A explosão de cores nessas obras de arte é uma espécie de conjuro contra a desesperança.

Todas as paredes dessa área do hospital são uma festa para os olhos. Não há nelas nada que lembre o sofrimento e a dor dos pequenos e de seus familiares. Assemelham-se ao mais alegre salão escolar. Diferenciam-se do amarelo pálido de outras paredes do hospital.

Essa “decoração” poderia parecer um contrassenso diante das dificuldades que médicos e pacientes enfrentam no tratamento, mas não é. A doutora Mariuska Forteza Saéz, responsável pela oncopediatria, explica por quê: “A criança que tem câncer já não é”, diz, “uma criança que vai brincar ou ir à escola. Sua vida social muda completamente. E é preciso um esforço extra para enfrentar isso. É necessário acompanhar essa criança e sua família com todo o apoio psicossocial necessário, para que se situem em sua nova realidade e aceitem os tratamentos, que sempre são dolorosos e muito complexos. É preciso aceitar que, nessa nova vida, haverá isolamento social.”

O instituto é o centro de referência para o tratamento, a pesquisa e a cura do câncer em Cuba, um dos nove centros oncológicos e uma das mais de 46 unidades onde se trata a doença. Sua sala pediátrica conta com 20 leitos disponíveis. Atualmente atende 12 crianças. Muitas delas não são de Havana, mas de outras províncias. O serviço médico e os medicamentos são totalmente gratuitos.

<><> Uma situação dilacerante

O estrangulamento energético imposto por Donald Trump contra a maior das Antilhas provocou grandes carências. O doutor Luis Curbelo Alonso, diretor do instituto, explica: “O oncologista é um profissional que se forma no otimismo. Não se dá por vencido. Quando vê uma sobrevida de três ou seis meses, encara isso como algo grande, porque conseguiu prolongar a vida desse paciente com uma qualidade adequada.”

Mas a asfixia imposta pelo governo Trump atenta contra esse otimismo. “Em condições como as de hoje”, explica, “temos o conhecimento, a experiência e a equipe de trabalho para enfrentar algo que pode ser curável ou controlável e, no entanto, não temos o medicamento. Isso é algo muito dilacerante como profissional, muito cruel. Não podemos nos sentar diante de um paciente e dizer, cara a cara: ‘você tem essa doença e não posso fazer nada’. Isso não está na nossa consciência.”

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A frieza das cifras fala por si só. Segundo o doutor Carlos Alberto Martínez, chefe da seção de Controle do Câncer no Ministério da Saúde, Cuba chegou a alcançar uma sobrevida de 80% em crianças com câncer — uma façanha. Nos países desenvolvidos, a sobrevida varia entre 80% e 90%. Mas, com o bloqueio, as restrições foram se agravando, o que tornou mais difícil manter esses resultados. Assim, diante da limitação de recursos, foi necessário modificar os protocolos de tratamento e, em vez de medicamentos de primeira linha, utilizar remédios de segunda linha. Isso fez com que a taxa de sobrevida diminuísse para 65% — ainda assim uma cifra acima das metas atualmente estabelecidas por organismos internacionais.

A doutora Forteza Saéz comenta: “A situação é muito grave neste momento. Já era difícil em relação à aquisição de insumos e medicamentos. Mas agora se agrava e se complica com outros aspectos. Para os pacientes — assim como para nossos trabalhadores — o transporte e a alimentação são um problema. A falta de combustível os agravou. Os pacientes oncopediátricos — e os oncológicos em geral — seguem uma dieta diferente do restante da população. Têm necessidades diferentes. Agora está mais difícil ter acesso a esses alimentos. Alguns têm familiares no exterior e talvez recebessem uma ajuda que tornava sua vida um pouco mais suportável dentro do ambiente hospitalar. Mas agora isso também deixou de existir. Para onde quer que se olhe, há uma complicação a mais além das que já enfrentávamos.”

<><> Solidariedade é humanidade

Em momentos críticos para os Estados Unidos, durante a passagem do furacão Katrina, Cuba formou a Brigada Henry Reeve, lembra Fernando González, que está à frente do Instituto Cubano de Amizade com os Povos. “Nossos médicos estavam dispostos a participar dos trabalhos de recuperação na Luisiana, mas os Estados Unidos não aceitaram sua presença.”

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O espírito solidário de Cuba esteve presente inclusive em países com muito mais recursos. Durante a pandemia da covid-19, a ilha enviou brigadas médicas a países como Itália e Andorra. E, quando os cientistas cubanos desenvolveram vacinas, compartilharam-nas. Isso faz parte de seu espírito de solidariedade: sentir-se parte da humanidade e compartilhar o que têm, não o que lhes sobra. José Martí expressou essa ideia na frase “Pátria é humanidade”.

É legítimo perguntar: quanto mais Cuba poderia ter feito pelo mundo se não estivesse submetida à asfixia? Quantas pessoas no mundo poderiam ter se beneficiado dos serviços médicos cubanos?

No embate diário contra o câncer, os médicos de Cuba enfrentam todo tipo de carências e limitações materiais provocadas pelo capricho do trumpismo de pretender derrotar um povo insubmisso.

Em Cuba, González explica, foram desenvolvidos produtos que poderiam salvar vidas nos Estados Unidos. Por exemplo, o Heberprot-P, medicamento desenvolvido pelo Centro de Engenharia Genética e Biotecnologia, que permite alcançar altos índices de preservação dos membros em pacientes com diabetes que tendem a desenvolver úlceras. Com esse produto, evita-se um grande número de amputações. Quantos doentes poderiam ter sido salvos se esse medicamento pudesse ser utilizado nos Estados Unidos?

<><> Amor e saúde

A medicina cubana é um farol de solidariedade em meio à obscura noite do mercantilismo e da privatização dos sistemas de saúde. “Vamos continuar resistindo. Vamos continuar buscando alternativas que permitam a sustentabilidade do que foi conquistado”, assegura o doutor Martínez.

A cada dia, médicos como Mariuska Forteza, Carlos Alberto Martínez e Luis Curbelo lutam em Cuba para curar ou ampliar as expectativas de vida de pacientes com câncer, crianças e adultos. Fazem isso ao lado de uma excepcional equipe de profissionais de saúde e trabalhadores. Em seu embate contra a doença, enfrentam todo tipo de carências e limitações materiais provocadas pelo capricho do trumpismo de pretender derrotar um povo insubmisso.

Eles padecem sob um cerco asfixiante que estreita cada vez mais as possibilidades de cumprir o juramento hipocrático e inflige dores adicionais a doentes e familiares. Mas não se rendem, não esmorecem. Seu enorme amor à humanidade, à vida e à profissão os torna inquebrantáveis.

Graças a eles, a muitos outros como eles e a um sistema de saúde que coloca em primeiro lugar a saúde das pessoas — e não o lucro —, no final daquele arco-íris pintado na parede da sala de oncopediatria do instituto encontra-se a porta de entrada para outro mundo.

 

Fonte: La Jornada/Diálogos do Sul Global

 

A visão externa sobre o país, e o pessimismo militante da mídia

Pedi ao Gemini, o IA do Google, um resumo do que a imprensa ocidental e a chinesa falaram do Brasil durante o dia de ontem.

Deu isso:

>>>> 1. Cenário Internacional: na imprensa Ocidental Brasil em Foco

•        O Brasil amanhece sob os holofotes da imprensa internacional, que destaca o país como um pilar de estabilidade institucional e parceiro estratégico indispensável no cenário global. A iminente cúpula entre os presidentes Lula e Donald Trump é o principal assunto, com os Estados Unidos buscando garantir o fornecimento de terras raras e lítio para reduzir sua dependência da China.

•        No campo econômico, a perspectiva é otimista. Agências como Reuters e o Wall Street Journal repercutem os dados positivos da inflação e a expectativa de manutenção da meta fiscal, posicionando o Brasil como um dos destinos preferenciais para capital estrangeiro em 2026.

•        Além disso, a cooperação militar brasileira na vigilância das fronteiras amazônicas é vista pela imprensa europeia como fundamental para a contenção de crises e a manutenção da segurança na América do Sul.

>>>> 2. Imprensa Chinesa (Xinhua, Global Times e CGTN)

•        Na China, a cobertura da imprensa estatal destaca o Brasil como seu principal parceiro estratégico de longo prazo na América Latina, com foco no fortalecimento do bloco BRICS.

•        A agência de notícias Xinhua elogia a postura diplomática brasileira no conflito do Oriente Médio, enaltecendo a decisão do país de “não ceder a pressões” e manter uma neutralidade ativa, em linha com a posição de Pequim.

•        No front econômico, a estabilidade do agronegócio brasileiro é tratada como uma questão de segurança nacional pela mídia chinesa. O jornal Global Times anuncia novos investimentos em portos no Nordeste para garantir o fornecimento de soja e milho, visto como vital diante de possíveis bloqueios logísticos globais.

•        Por fim, o Brasil é apresentado como um laboratório para o futuro, com o People’s Daily destacando parcerias em energia limpa e tecnologia, como o hidrogênio verde e a expansão de carros elétricos chineses na região.

>>>> 3. Resumo do Clima Econômico nos Jornais Brasileiros:

O tom é de “respiro tenso”. O mercado celebra a trégua no preço do petróleo, mas os editoriais de política e sociedade focam na queda da aprovação do governo devido ao custo de vida e na crise de grandes empresas nacionais.

Esse será o jogo durante 2026, com a mídia exercitando diuturnamente o pessimismo e procurando jogar o caso Master nas costas do governo, além da fabricação de falsos escândalos.

É significativa a volta do procurador do Tribunal de Contas da União, Júlio Marcelo de Oliveira, que inventou as pedaladas fiscais que embasaram o impeachment de Dilma Rousseff, agora investindo contra o presidente do IBGE, Márcio Pochmann, e insinuando a possibilidade de manipulação dos dados em ano eleitoral. A intenção óbvia é desmerecer os bons indicadores da economia, um dos trunfos de Lula.

É importante notar que Júlio Marcelo volta à cena política pelas mãos de Miriam Leitão, colunista de O Globo e, durante a Lava Jato e o impeachment, a jornalista que mais se empenhou na produção de fatos negativos, alguns claramente manipulados

As suspeitas de Júlio Marcelo foram levantadas por Miriam mesmo antes da posse de Pochmann. Fica nítido, portanto, que a “denúncia” foi articulada por ela.

Leia o artigo “Com a Lava Jato 2, a volta do criador das ´pedaladas´” para entender o tamanho da armação.

Para Miriam se expor novamente, é sinal maior de que as Organizações Globo recorreram novamente ao apito de cachorro, para enquadrar seus jornalistas em mais uma guerra santa. Ontem, comentaristas da Globonews “acusavam” o governo de tentar jogar a crise do Master na conta de Roberto Campos Neto.

<><> As pesquisas eleitorais

Há alguns pontos a se considerar para as eleições, à luz desse tiroteio da grande mídia.

Flávio Bolsonaro, por enquanto, está jogando sozinho. Significa que o jogo ainda não começou para valer. O homem que, pouco tempo atrás, propôs que os Estados Unidos bombardeassem a Baía de Guanabara, agora é apresentado como um símbolo da moderação.

Seu currículo é escondido, as suspeitas de lavagem de dinheiro, de ligação com o escritório do crime, o subfaturamento na compra de uma mansão em Brasília, tudo é ignorado pela mídia.

Mas, por enquanto, é campanha de um lado só. Por isso mesmo, as pesquisas eleitorais servem de aviso, mas não podem ser superestimadas. Quando o outro time entrar em campo, o jogo se inverte. As fragilidades de Flávio serão expostas e as conquistas do governo serão apregoadas.

O ponto que pega é uma Selic a 15%.

•        É hora de Lula virar a chave e apresentar ao país o governo empreendedor

O grande argumento de campanha de Lula é o de ser a última fortaleza contra a invasão bárbara de Jair Bolsonaro.

Agora, tem-se mercado, mídia, redes sociais investindo em uma alternativa ao Bolsonaro. Ele tem o focinho de Bolsonaro, rabo de Bolsonaro, pelo de Bolsonaro, mas não é Bolsonaro. Trata-se de Flávio Bolsonaro.

Quem é esperto, não cai. Mas a maioria do eleitorado é constituído de fiéis, crentes no que dizem as igrejas, os terraplanistas e os grupos de mídia. Nesse quadro, como fica Lula, com o enfraquecimento de seu principal argumento?

A receita é fácil, a elaboração, mais difícil, a aceitação por parte de Lula, seria algo inédito. Trata-se da capacidade de montar um plano que desenhe claramente o futuro, e que convença sua viabilidade para agentes econômicos, a pequenos empresários e aos trabalhadores em geral.

Um projeto de desenvolvimento pressupõe grupos de discussão, vários ministérios, atores sociais e econômicos ajudando a compor metas e caminhos.

Projetos de desenvolvimento nunca passaram perto de Lula. Para ele, governar consiste no meritório Bolsa Família e nos investimentos do PAC (Plano de Aceleração do Crescimento). E em não mexer muito na estrutura econômica para não criar marolas.

Conseguirá mudar o estilo e aceitar a camisa de seda (que Lula, pelo visto, considera camisa de força) de um plano de desenvolvimento?

As possibilidades são enormes e, de certo modo, já estão ensaiadas no NIB (Nova Indústria Brasil), conduzido pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, e nos planos de transição energética, coordenados pela Fazenda.

Mas nunca se constituíram em planos de governo, nunca foram entendidos como planos de Lula. E, efetivamente, (ainda) não são.

A ideia do Governo Orquestrador é essa. É o governo articulando grupos interministeriais, com participação da sociedade civil, de entidades empresariais e sindicais, movimentos sociais e mercado. São planos decididos por comissões, tendo na cabeça coordenadores com boa formação em planejamento. Tem a vantagem de atrair adesões. A desvantagem de tirar das mãos do Presidente a liberdade, que ele julga essencial, para montar seus pactos políticos, ainda mais tendo em vista um Congresso hostil e um clima golpista.

O fato novo é que o golpismo é estimulado justamente por essas parcerias

Repito o que já coloquei em outros artigos, sobre os caminhos que se abrem com o governo Orquestrador:

>>>>> Desenvolvimento produtivo sem criar novos ministérios (milagre possível)

Quem já existe

•        BNDES, Finep, Embrapii

•        SENAI, SENAC, SENAR

•        Sebrae, Apex

•        Universidades federais, IFs

•        Bancos públicos (BB, CEF, BNB, Basa)

O que pode ser feito

•        Programas nacionais por cadeia produtiva (não por setor genérico):

 

alimentos processados, fármacos, defesa, mobilidade elétrica, agroindústria, economia do cuidado

•        Crédito + tecnologia + compras públicas num único pacote

•        Contratos de desempenho com metas claras (exportação, emprego, inovação)

Resumo: o Estado deixa de ser caixa eletrônico e vira orquestrador.

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<><> Segurança pública: menos bravata, mais inteligência integrada

Quem já existe

•        PF, PRF, polícias civis e militares

•        Coaf, Receita Federal

•        CNJ, MP, Detrans, guardas municipais

O que pode ser feito

•        Centros integrados regionais de inteligência financeira + criminal

•        Força-tarefa permanente contra lavagem de dinheiro local (jogo, milícia, tráfico, grilagem)

•        Banco único de dados operacionais (com controle judicial)

Resumo: crime organizado odeia integração. Vive de silo.

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<><> Saúde: SUS com cérebro digital

Quem já existe

•        SUS, Fiocruz, Butantan

•        Datasus, Anvisa

•        Universidades e hospitais públicos

O que pode ser feito

•        Prontuário nacional interoperável (já tecnicamente viável)

•        Produção local de insumos estratégicos com compras públicas garantidas

•        Rede nacional de vigilância epidemiológica em tempo real

Resumo: o SUS já é gigante — falta coordenação tecnológica, não discurso.

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<><> Educação e trabalho: parar de formar desempregados sofisticados

Quem já existe

•        MEC, IFs, SENAI/SENAC

•        Sistema S

•        Universidades públicas

•        Ministérios do Trabalho e da Indústria

O que pode ser feito

•        Pactos regionais: formação ligada a projetos produtivos reais

•        Cursos técnicos conectados a compras públicas e crédito

•        Reconversão profissional contínua (IA, energia, logística, saúde)

Resumo: diploma sem demanda é só papel bonito.

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<><> Infraestrutura: usar o Estado para destravar, não substituir

Quem já existe

•        DNIT, EPL, Infra S.A.

•        TCU, BNDES

•        Estatais e concessionárias

O que pode ser feito

•        Projetos padronizados e replicáveis (menos obra “artesanal”)

•        Coordenação entre União, estados e municípios para licenciamento

•        Planejamento logístico integrado (ferrovias, portos, energia)

Resumo: atraso não é falta de dinheiro — é excesso de atrito.

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<><> Meio ambiente e economia: parar de tratar como inimigos

Quem já existe

•        Ibama, ICMBio

•        Embrapa

•        Universidades

•        Cooperativas e povos tradicionais

O que pode ser feito

•        Bioeconomia amazônica com crédito, assistência técnica e mercado garantido

•        Rastreabilidade obrigatória (já existe tecnologia)

•        Valorização econômica de quem preserva

Resumo: floresta em pé precisa modelo de negócios, não só discurso moral.

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<><> Democracia e instituições: coordenação é proteção

Quem já existe

•        STF, TSE, CNJ

•        CGU, TCU

•        MP, Defensorias

•        Universidades e imprensa

O que pode ser feito

•        Protocolos institucionais contra desinformação e ataques coordenados

•        Transparência ativa e dados abertos integrados

•        Educação midiática e institucional permanente

Resumo: democracia não se defende sozinha — precisa engenharia.

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<><> A virada de chave

O Brasil não precisa de mais estruturas. Precisa de:

•        coordenação,

•        metas claras,

•        integração institucional,

•        liderança política com visão de sistema.

Ou, em termos menos diplomáticos:

menos improviso, menos vaidade, menos silo.

O material já existe. Falta só alguém juntar as peças — como num Lego institucional gigante.

 

Fonte: Por Luís Nassif, no Jornal GGN