João
Feres Júnior: Quando a economia não explica o voto
Apareceram
nas últimas semanas dois textos que se propõem a explicar o paradoxo do
terceiro mandato de Lula: indicadores macroeconômicos sólidos, com desemprego
em mínima histórica, PIB acima da média do G-20 e salário real em recuperação,
convivendo com avaliação popular medíocre e desempenho de campanha pior do que
se esperaria. O primeiro é o ensaio de Laura Carvalho e Guilherme Klein,
publicado na Folha de S. Paulo, “Por que o desempenho econômico de Lula 3 não
se converte em popularidade”. O segundo é o artigo de Carlos Pinkusfeld Bastos
e Luis Berner no Jornal dos Economistas, que abre com o título irônico “Não é a
economia, estúpido??”.
Além do
diagnóstico, os dois textos partilham um movimento argumentativo. Ambos começam
reconhecendo, em algum nível, que o vínculo entre desempenho macroeconômico e
voto é mais complexo do que sugere o aforismo de James Carville. Carvalho e
Klein dedicam dois parágrafos a recusar a leitura simplista da inflação.
Pinkusfeld e Berner colocam dois pontos de interrogação no próprio “é a
economia, estúpido” e mencionam de passagem que valores morais ou religiosos
“podem influenciar de maneira relevante o voto”, para em seguida declararem que
essa é “uma discussão complexa que não nos atrevemos a entrar”.
E aí
está o problema, os textos refutam retoricamente a tese do voto econômico e, em
seguida, apresentam com outras roupas uma leitura economicista de uma questão
fundamental da ciência política, que é a da formação das preferências
eleitorais.
Argumento
que essa operação não é cosmética. Ela é uma maneira de manter o econômico como
variável independente única e remeter o ideológico para o limbo daquilo que
existe mas não se mensura. A inflação vira “patamar de preços ainda elevado”. O
desemprego cai, mas o problema agora é o da “qualidade do emprego gerado”. O
salário real cresceu, mas a “janela de aspiração” se globalizou. A “experiência
subjetiva do custo de vida” entra como mediadora entre indicadores e voto. As
redes sociais aparecem, mas como fator na transformação de padrões de consumo,
não como infraestrutura de produção ideológica. O resultado é uma teoria do
voto econômico ampliada para acomodar o que o voto econômico clássico não
explicava, sem precisar trocar a moldura.
Esse
movimento é compreensível quando vindo de economistas, que treinaram a vida
inteira para tratar variáveis econômicas como explicação de outras variáveis
econômicas. O problema é que ao tentar explicar uma variável politológica, ele
descarta evidências robustas e convergentes, produzidas nos últimos anos pela
ciência política brasileira, sobre a dinâmica das preferências eleitorais em
nosso país.
Comecemos
pelo dado mais conhecido. Em todos os modelos de regressão multivariada
aplicados aos dados do Estudo Eleitoral Brasileiro de 2018 e 2022, os
preditores mais fortes do voto em Bolsonaro não são renda, escolaridade,
desemprego ou avaliação econômica. Os trabalhos de Oswaldo Amaral, Jairo
Nicolau e Lúcio Rennó convergem sobre isso, com diferentes matizes
metodológicos. Nos modelos que esses autores produziram, renda é apenas uma
variável entre outras, e nem é a mais forte. Religião, gênero e raça apresentam,
cada uma, efeitos líquidos sobre a preferência por Bolsonaro superiores a dez
pontos percentuais quando controladas pelas demais. Nenhuma delas é redutível à
economia. Tratar a renda como porta de entrada privilegiada para a explicação
do voto é uma decisão teórica, não um espelho da evidência.
Há que
se levar em conta também o recrudescimento do antipetismo, em boa medida,
produto da Operação Lava Jato e da cobertura midiática que a transformou em
paradigma interpretativo da política brasileira entre 2014 e 2018, assunto
sobre o qual o LEMEP, o Manchetômetro e o Monitor do Debate Político têm vasta
evidência publicada.
Essas
primeiras constatações já desorganizam o quadro economicista. Se a variável que
melhor explica o voto bolsonarista é uma adesão ideológica produzida por uma
operação judicial-midiática iniciada em 2014, qualquer modelo que tente derivar
o desempenho eleitoral de Lula em 2026 a partir da execução macroeconômica
recente está perdendo o objeto.
Convém
ser claro sobre o que essa expressão, adesão ideológica, significa e o que não
significa. Ela não implica que o eleitor bolsonarista vote movido por uma
paixão irracional, em estado de polarização afetiva, como sugerem leituras
psicologizantes hoje em voga na literatura nacional e internacional sobre
populismo. Implica apenas que ele adere a um conjunto coeso de valores e
narrativas sobre como a sociedade brasileira deveria se organizar que têm pouco
a ver com a economia. O descolamento do eixo exclusivamente econômico não
redunda, portanto, em irracionalidade ou em pura emoção. A adesão a valores
culturais e o apoio a políticas públicas a partir deles está diretamente ligada
à formação de preferências eleitorais em qualquer regime democrático. Esse
assunto precisa ser estudado de maneira adequada e não simplemente tomado como
epifenômeno de variáveis macroeconômicas.
Há um
achado ainda mais perturbador. Em análise de cluster que publiquei recentemente
na Revista Opinião Pública, identifiquei três perfis distintos entre os
eleitores que votaram em Bolsonaro no primeiro turno de 2022. Um deles, isolado
de longe pelos parâmetros estatísticos do agrupamento como o mais coeso, é o de
eleitores liberais nas questões de valores familiares, francamente
progressistas em política social, majoritariamente favoráveis ao controle da
venda de armas e nada golpistas. É também o cluster menos evangélico da
amostra, com incidência dessa religião muito abaixo da observada na população
brasileira em geral.
O que
explica esse grupo numeroso de bolsonaristas? Não é a economia. Não é sequer a
adesão a valores conservadores, como nos outros dois grupos identificados na
análise. Não é a religião. É o antipetismo, em estado quase laboratorial,
sobrevivendo ao próprio Bolsonaro como objeto positivo de preferência. Esse
cluster é uma evidência negativa frontal contra as teses economicistas, pois
são eleitores que, por suas preferências no que toca à política pública,
deveriam votar em Lula, mas votaram em Bolsonaro. Nenhuma “janela de aspiração
globalizada” explica isso. Nenhum “patamar de preços ainda elevado” explica
isso. Há um ato político-identitário aqui, formado por uma trajetória de
comunicação política específica.
Chegamos
assim ao segundo bloco de evidências, que desestabiliza o quadro dos textos em
questão de modo ainda mais radical. Em pesquisa qualitativa nacional com 24
grupos focais espalhados por todas as regiões do país, e em análise
quantitativa por regressão logística com 2.558 respondentes do survey do
INCT-IDDC, encontrei algo que precisa ser dito com todas as letras: a própria
percepção das condições econômicas é endógena à filiação ideológica.
Em
meados de 2021, com PIB estagnado e desemprego ainda alto, bolsonaristas
renitentes nas classes C e D declaravam aos grupos focais que a economia estava
melhorando, que 2021 estava “muito melhor que 2020”, que o pior já havia
passado. Os dados da economia real não permitiam essa leitura. A leitura vinha
de outro lugar; daquilo que chamei de “esfera comunicacional bolsonarista”, uma
infraestrutura de mídia composta por Record, SBT, CNN-Brasil, Jovem Pan, grupos
de WhatsApp evangélicos e perfis nas redes sociais, que processa os fatos
econômicos e devolve uma narrativa de recuperação sob ataque de inimigos.
Na
análise feita em outro artigo, utilizando a técnica de regressão logística,
controlando por renda, religião, região, raça e gênero, os preditores mais
fortes do voto em Bolsonaro em 2022 foram (i) ter como canal de TV preferido um
canal favorável a Bolsonaro como Record, SBT, CNN-Brasil ou Jovem Pan
(coeficiente 1,21), (ii) ter como canal menos favorito um canal hostil a
Bolsonaro (coeficiente –0,88) e (iii) atribuir imagem negativa à Rede Globo
(coeficiente 0,70). Renda apareceu sim como variável significativa, mas em
valores menores.
Em
outras palavras, o que organizou a preferência eleitoral em 2022 não foi
primordialmente a trajetória das variáveis renda ou preços. Mesmo as percepções
sobre a economia dependem da esfera comunicacional na qual o cidadão obtém suas
informações sobre o que aconteceu com a renda e com os preços.
É claro
que os preços nas gôndolas dos supermercados têm efeito eleitoral, mas eles
devem ser mensurados em conjunto com os fatores ideológicos e demográficos já
identificados pelos trabalhos de ciência política. A percepção de “vida
difícil” não é uma resposta a estímulos econômicos universais filtrados por
psicologia universal; é uma resposta a estímulos econômicos reais filtrados por
uma esfera de comunicação ideologicamente carregada. Tratar a percepção como
variável intermediária neutra entre indicadores e voto, como fazem os textos em
questão, é não enxergar esse dado básico.
Dada a
assimetria da polarização ideológica em nosso país, com a extrema-direita
golpista de um lado e a centro-esquerda democrática, liberal e institucional do
outro, devemos inclusive considerar a hipótese de que fatores econômicos movem
mais os eleitores progressistas do que os bolsonaristas. O cluster antipetista
descrito acima não é mobilizado pelo bolso; é mobilizado por uma adesão
identitária que o atravessa há mais de uma década, blindada da economia pela
mesma esfera comunicacional que reinterpreta cada indicador. O eleitor de
centro-esquerda, menos travado em uma identidade política durável e mais
responsivo às condições materiais cotidianas, é o que de fato cobra do governo
a tradução dos números em vida vivida. Se isso estiver correto, a leitura
economicista da impopularidade de Lula está olhando para o lado errado do
espectro, pois ela explica melhor a desmobilização eventual do eleitor lulista
do que a permanência do eleitor bolsonarista. O problema estratégico não é
convencer o bolsonarista de que a economia melhorou, esforço que bate contra
parede comunicacional. O problema é não perder o eleitor de Lula em 2026 por
desencanto com o ritmo da entrega.
Há um
terceiro problema, este interno ao próprio quadro economicista. Pinkusfeld e
Berner anotam, fazendo “papel de advogado do diabo”, que mesmo em 2023 e 2024,
quando os indicadores foram, em suas próprias palavras, “muito mais
expressivos”, não houve melhora robusta na avaliação do governo. É um dado
importante pois demonstra o fracasso da explicação economicista ao desfazer a
sequência temporal causal proposta. Afinal, indicadores ruins em 2025 não podem
ser causa de desaprovação que já estava posta em 2023, quando os indicadores
eram bons.
Os
autores percebem o problema e tentam absorvê-lo no argumento estrutural de
longo prazo segundo o qual o governo Lula III “não representou uma ruptura
radical com um passado de quase uma década de baixo crescimento, fragilização
das capacidades estatais, precarização do mercado de trabalho e queda dos
salários”. A observação é correta no plano descritivo, mas é normativamente
injusta, pois adotam um padrão ideal de política pública como parâmetro de
comparação, para em seguida constatarem que o governo Lula III promoveu avanços
superficiais, mas foi incapaz de reformas estruturais. Do ponto de vista da
filosofia moral e da ciência política, o problema desse raciocínio é que trata
o presidente como se agisse em um vácuo político, no qual a única força eficiente
é sua própria vontade. Cobrar de Lula que fizesse grandes mudanças estruturais,
no contexto político de seu terceiro governo, com o Congresso dominado pelo
Centrão, e grande imprensa e mercado militando diariamente em prol da agenda
fiscalista, não me parece razoável.
A
“ironia da história” com que Pinkusfeld e Berner encerram o texto, o fato de
que o grupo político responsável pelas políticas econômicas malsucedidas desde
2015 é precisamente o mais bem posicionado da oposição no atual contexto
eleitoral, é a maior evidência possível contra a moldura escolhida pelos
próprios autores. Se a economia explicasse a formação das preferências
eleitorais, esse grupo não estaria liderando coisa alguma.
Concordo
que a economia importa, e concordo até com a especificação proposta por
Carvalho e Klein de que é a percepção subjetiva que toca o voto, não os
indicadores agregados em si. Contudo, o ponto é outro. Tratar a percepção
subjetiva como uma função relativamente direta da experiência econômica vivida,
modulada por aspirações, memórias e comparações sociais, sem teorizar a
infraestrutura comunicacional que produz e estabiliza essa percepção, é
insistir no erro que se pretende superar. O eleitor brasileiro de 2025 não
experiencia o custo de vida sozinho; ele o experiencia mediado por um campo
informacional que o ensina a interpretar a fila do supermercado em termos
políticos pré-fabricados. Pinheiro-Machado e Scalco, citadas no texto de
Carvalho e Klein, descreveram exatamente esse fenômeno nas periferias de Porto
Alegre, ao anotarem que a frustração de consumo de parcela da população se
desloca para a adesão a um campo identitário-comunicacional que oferece a
explicação, qual seja, o bolsonarismo. Tal observação está nas fontes que citam
em seu artigo, mas parece não ter sido levada a sério.
O que
está em jogo, portanto, não é uma disputa acadêmica de paradigma. É uma disputa
sobre prescrição política. Se a impopularidade de Lula é fundamentalmente um
problema de tradução macro-micro, mais entrega econômica, mais redução de
juros, mais serviços públicos, então a estratégia para 2026 está dada, e basta
executá-la. Foi essencialmente isso que a equipe econômica tentou de 2023 para
cá. O texto da Folha, na sua reta final, é literalmente uma lista de medidas
econômicas e suas potenciais conversões em “experiência cotidiana de
bem-estar”. Três anos depois, com indicadores entre os melhores da década, a
estratégia produziu o resultado que conhecemos.
Se, em
contrapartida, a “impopularidade” de Lula, que, diga-se de passagem, continua a
liderar as pesquisas eleitorais, é em larga medida o efeito de uma esfera
comunicacional construída ao longo da última década contra ele e seu partido,
sustentada por um cluster antipetista que não responde a sinais econômicos, por
uma rede de mídia evangélica que opera fora do alcance do governo, por canais
de TV abertos cooptados e por uma vasta infraestrutura de redes sociais de
extrema-direita, então a estratégia política precisa se mexer em um terreno que
a entrega econômica não toca. Precisa disputar o acesso aos meios de
comunicação, reorganizar a comunicação política e enfrentar diretamente a
esfera adversária. Sem isso, qualquer reforma do imposto de renda e qualquer
fim da escala 6×1 serão metabolizados pela esfera bolsonarista e pela em mais
um sinal de que Lula “não está deixando o brasileiro de bem trabalhar em paz”,
e pela mídia tradicional como “mais uma medida populista eleitoreira do
petista”.
Não é a
economia, estúpido! É a comunicação política, e ela foi bastante descuidada ao
longo do governo Lula III. Esse é o problema cuja gravidade ambos os textos
perceberam pela metade, o suficiente para usarem o aforisma de Carville como
gancho de seus textos, não o suficiente para deixarem de lados os vícios
economicistas sobre os quais baseiam sua análise de uma variável eminentemente
política: a preferência eleitoral.
Fonte:
Outras Palavras



