segunda-feira, 27 de abril de 2026

Ecos coloniais no Judiciário brasileiro: privilégio, poder e a “cegueira” histórica na magistratura

A declaração da desembargadora Eva do Amaral Coelho, do Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA), segundo a qual a magistratura brasileira caminharia para um “regime de escravidão”, não pode ser lida como um mero desabafo funcional, ou como uma hipérbole retórica isolada. Isto porque se trata, antes de mais nada, de um sintoma discursivo que traz à tona camadas profundas de apagamento histórico, de naturalização de privilégios de classe e, por último, de reprodução de uma gramática colonial que inverte a hierarquia real das opressões. Nesse sentido, cabe indagar como decisões proferidas por profissionais da magistratura como ela refletem — ou deixam de refletir — uma compreensão crítica das desigualdades estruturais que atravessam a sociedade brasileira.

Quando uma integrante do aparato judicial — instituição dotada de estabilidade remuneratória, de reconhecimento social e de blindagem institucional — equipara sua condição laboral ao regime escravocrata que fundou as desigualdades estruturais do Brasil, estamos diante de um ato de violência epistêmica. A fala da desembargadora banaliza a memória dos mais de quatro milhões de africanos escravizados no território nacional, e desloca o centro da narrativa opressiva para sujeitos historicamente privilegiados.

<><> Narrativa higienizada da escravidão

A escravidão não é uma figura de linguagem, mas se tratou de um regime material, racializado e jurídico que estruturou a propriedade, a distribuição de terras, a organização do trabalho e a própria formação do Estado nacional brasileiro. A historiografia contemporânea, desde Clóvis Moura, João José Reis, até Silvia Lara, demonstra que o cativeiro no Brasil foi um sistema totalizante, que regulou corpos, produziu subjetividades, criou hierarquias de humanidade e deixou sequelas que atravessam gerações. Por isso, quando a juíza Eva Coelho usa esse termo para descrever jornadas de trabalho, sobrecarga processual ou exigências de produtividade na magistratura, ela realiza uma inversão semântica que só é possível quando se detém o poder de nomear a dor.

Como adverte Achille Mbembe, a colonialidade não desaparece com a abolição formal, mas se metamorfoseia em novas economias da visibilidade e da legitimação. E, neste sentido, quando a elite institucional se autovitimiza através do léxico do cativeiro, ela está buscando apagar a diferença descomunal que existe entre o desconforto funcional e a violência fundante que ainda se expressa nos índices de encarceramento, na precarização do trabalho realizado por corpos negros, na vulnerabilidade das comunidades quilombolas e ribeirinhas, ou na desproporção de mortes por violência do Estado. A metáfora, aqui, funciona como um dispositivo de poder que reescreve a história a serviço da autocomiseração de classe.

Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) apontam que os magistrados ocupam o topo da pirâmide de renda e de prestígio do funcionalismo público, com estabilidade vitalícia, remunerações acima de R$ 30.000,00 (trinta mil reais), benefícios corporativos, entre outros privilégios. Não se trata de negar que existam pressões administrativas, ou metas de produtividade que gerem desgaste nas pessoas que exercem a magistratura. Reconhecemos isso. Trata-se, entretanto, de contextualizar esse desgaste dentro de uma arquitetura de privilégio que o torna incompatível com a noção de cativeiro.

Somente para se ter uma (vaga) ideia, na Bahia, meu estado, um(a) magistrado(a) (independentemente se em início ou fim da carreira) recebe um valor de R$ 2.500,00 referente ao auxílio alimentação. Isso mesmo: dois mil e quinhentos reais. Em contrapartida, um(a) docente das universidades baianas, no topo da carreira (categoria Pleno), recebe um valor de apenas R$ 440,00 (é isso mesmo que você leu: quatrocentos e quarenta reais). A desigualdade na valorização de carreiras públicas, observável na discrepância remuneratória (e também na distribuição de recursos institucionais entre áreas do conhecimento), pode ser lida como parte de uma estrutura mais ampla de hierarquização social historicamente construída no Brasil.

Nesse sentido, o contraste entre magistratura e docência universitária não se limita a escolhas administrativas contemporâneas, mas se insere em uma tradição de organização social que naturaliza diferenças profundas de prestígio, de acesso a recursos (e de reconhecimento simbólico) entre funções consideradas “centrais” e “periféricas” ao poder. É possível observar que a centralidade simbólica do Direito e da magistratura não se sustenta apenas em critérios técnicos ou funcionais, mas também em uma construção histórica de autoridade social. A própria forma como instituições de ensino estruturam seus espaços — atribuindo melhores instalações, maior visibilidade e mais recursos a determinados cursos — pode ser interpretada como um mecanismo de reprodução de hierarquias que ultrapassam o âmbito estritamente acadêmico e se conectam a padrões mais amplos de desigualdade social.

Nesse contexto, a reflexão evocada pelo discurso da juíza sobre a escravidão contribui para tensionar esse debate, já que esse tipo de abordagem permite problematizar a naturalização das diferenças entre carreiras públicas. A disparidade entre magistrados e docentes universitários pode ser vista como parte de uma continuação histórica de organização social que atribui valores desiguais a diferentes formas de trabalho e de conhecimento. A questão não se resume a reajustes pontuais, ou a correções salariais isoladas, mas envolve a necessidade de interrogar os fundamentos simbólicos e materiais que sustentam tais desigualdades. O discurso da juíza nos serve como um instrumento analítico para compreender como certas formas de hierarquia continuam em reprodução, ainda que sob novas roupagens institucionais, no interior do Estado e das universidades/faculdades brasileiras (públicas e privadas).

<><> Visões de mundo, hierarquias e projetos políticos

É importante salientar ainda que, no Brasil, classe e raça não são dimensões separáveis, mas se entrelaçam na produção de desigualdades. A escravidão foi um regime de racialização radical, que definiu quem poderia ser explorado, violentado e desumanizado. Quando a magistratura mobiliza essa categoria como metáfora universal, ela apaga exatamente esse marcador racial, e busca produzir uma narrativa “higienizada” da escravidão — uma escravidão sem negros, sem corpos, sem sangue. Essa “higienização” é uma forma de violência simbólica que permite que sujeitos brancos se apropriem de uma memória que não lhes pertence, convertendo-a em linguagem de autoexpressão. Ao fazer isso, o foco deixa de ser a violência histórica contra populações negras, e passa a ser o desconforto contemporâneo de sujeitos institucionalmente protegidos.

No contexto paraense, essa questão adquire contornos ainda mais agudos, visto que, naquela região, as marcas da exploração colonial (e da desigualdade racial) permanecem visíveis nas condições de vida da população negra, ribeirinha e periférica. Falar em “escravidão” naquele território é tocar em uma ferida histórica que continua produzindo efeitos materiais muito desumanizantes. E, por isso, o uso banalizado desse termo por membros da magistratura revela um abismo entre quem enuncia e quem vive. Esse abismo é sustentado por privilégios que não são reconhecidos como tais. A branquitude — enquanto posição estrutural — se apresenta como norma, como universal; da mesma forma, o privilégio de classe se disfarça de “mérito”, de “esforço” individual, de “conquista”.

É a partir dessa perspectiva que se torna possível dizer “isso é escravidão”, sem perceber a violência contida nessa equivalência. A crítica que aqui faço não tem o objetivo de deslegitimar o desgaste profissional, nem de negar a necessidade de reformas na gestão judiciária. Pelo contrário. Sou ciente (e já fui vítima) da sobrecarga processual. Ademais, penso que esses profissionais devem receber salário compatível com a responsabilidade do seu trabalho, até mesmo para não sucumbir a outros expedientes (embora baixos salários não justifiquem atos ilícitos!). De fato, todo trabalho precisa ser bem remunerado. Todo(a) profissional merece remuneração digna.

Mas existe uma diferença muito grande entre reivindicar condições dignas de trabalho e apropriar-se do vocabulário da desumanização histórica. A primeira é um direito; a segunda é um ato de apagamento. Como demonstram estudos sobre linguagem e poder, as metáforas que elegemos para descrever nossas experiências carregam visões de mundo, hierarquias de valor e projetos políticos. Dessa forma, quando a elite jurídica escolhe a “escravidão” como metáfora de seu desconforto, ela está (conscientemente ou não) reproduzindo a mesma lógica que, historicamente, negou humanidade aos povos escravizados para justificar sua exploração.

Essa distinção é fundamental. Ignorá-la é perpetuar uma forma sofisticada de racismo (discursivo, simbólico, institucional), um racismo que não se manifesta, necessariamente, em ofensas diretas, mas na capacidade de esvaziar a experiência histórica do “outro” e reinscrevê-la sob uma lógica universalizante. Nesse sentido, a violência histórica não é negada frontalmente, mas é diluída, reorganizada e reclassificada em categorias genéricas que a afastam de sua especificidade material e de suas consequências estruturais. A escravidão, enquanto forma extrema de desumanização e de estrutura fundante da sociedade brasileira, deixa de funcionar como categoria analítica específica e passa a integrar um vocabulário genérico de sofrimento.

É preciso dizer ainda, com todas as letras, que a banalização da escravidão no discurso da magistratura é uma expressão de privilégio, porque não se trata de ignorância inocente, mas de uma posição estrutural que permite ignorar. É o privilégio de quem não sente, na própria pele, o peso da desumanização. E isso requer que exijamos da magistratura muito mais do que uma correção técnica: precisamos cobrar responsabilidade histórica. Cobrar o reconhecimento de que certas palavras não podem ser utilizadas sem consideração pelas relações de poder que as atravessam. E para quem pensa que se trata de “mi, mi, mi”, saibam que não o é! Implica, sobretudo, deslocar o centro da enunciação  — começar a escutar o “outro”. Significa reconhecer que a justiça não pode ser construída a partir de uma única perspectiva — especialmente quando essa perspectiva é a de quem sempre esteve no topo da hierarquia social.

Diante disso, faço três perguntas:

1) o que significa o fato de uma desembargadora — investida da autoridade de decidir sobre direitos, liberdades e dignidades — recorrer a uma analogia que esvazia a experiência histórica mais radical de negação da humanidade no Brasil?;

2) que tipo de sensibilidade jurídica se revela — ou se ausenta — nesse gesto?; e

3) se julgar exige tanto uma compreensão situada das desigualdades que estruturam a sociedade quanto a capacidade de reconhecer que o direito funciona em um campo atravessado por assimetrias profundas de raça e classe, quando essa consciência falta, não haveria o risco de uma prática jurisdicional que reproduz (ainda que involuntariamente) as mesmas hierarquias que deveria combater?

<><> Responsabilidade histórica

Ao mobilizar a escravidão como metáfora, a juíza mostra os limites de seu próprio horizonte interpretativo, qual seja, uma dificuldade (ou recusa) de perceber que a história da escravidão no Brasil não é um repertório simbólico disponível, mas uma estrutura que ainda organiza quem sofre, como sofre e, fundamentalmente, quem é reconhecido como sujeito de sofrimento legítimo. Isso tem consequências diretas para o labor de julgar. Pois se uma magistratura não reconhece a especificidade da violência racial, ela corre o risco de universalizar experiências que são, na verdade, profundamente desiguais; corre o risco de tratar como equivalentes situações que, do ponto de vista histórico e social, são incomparáveis. E, ao fazer isso, ela esvazia a própria ideia de justiça.

E faço mais três perguntas:

1) como alguém que recorre a esse tipo de analogia escuta as demandas de sujeitos historicamente marcados pela escravidão?;

2) como interpreta denúncias de trabalho análogo à escravidão contemporânea?; e 3) de que maneira avalia casos que envolvem desigualdades raciais estruturais?

A responsabilidade histórica que se exige da magistratura passa, portanto, por uma revisão profunda de suas práticas discursivas, mas, principalmente, de seus pressupostos cognitivos e éticos, porque não basta evitar determinadas expressões. É preciso compreender por que elas são problemáticas. É preciso reconhecer que o Direito não pode funcionar a partir de uma perspectiva que ignora — ou minimiza — as marcas da escravidão na sociedade brasileira.

Ao recorrer à banalização da escravidão, a desembargadora Eva Coelho evidencia o quanto essa transformação ainda está por acontecer. Evidencia a persistência de uma magistratura que, embora tecnicamente sofisticada, permanece enraizada em uma visão de mundo que naturaliza seus próprios privilégios. E evidencia, sobretudo, a urgência de uma crítica que não se contente com ajustes superficiais, mas que exija uma reconfiguração efetiva do modo como se pensa, se fala e se pratica a justiça.

Esse tipo de enunciação funciona, principalmente, como uma estrutura de sensibilidade compartilhada, na qual determinadas experiências históricas são esvaziadas de seu conteúdo material e convertidas em figuras de linguagem disponíveis ao uso indiscriminado. Ao fazer da escravidão uma metáfora para desconfortos institucionais, a desembargadora Eva Coelho deslocou o eixo da violência histórica — concreta, racializada e fundante — para um campo abstrato, onde tudo pode ser comparado e, portanto, relativizado. Nesse movimento, se obscurece o presente, e se dificulta o reconhecimento das continuidades que ainda organizam as desigualdades no Brasil.

Ao transformar a escravidão em uma analogia intercambiável, amplia-se o campo do comparável ao ponto em que diferenças qualitativas entre experiências históricas são reduzidas a gradações de intensidade. Nesse processo, o risco analítico central é a relativização, pois, se tudo pode ser comparado à escravidão, então, nada o é plenamente. Essa dinâmica se torna ainda mais relevante quando articulada ao debate sobre a desigualdade institucional entre carreiras públicas e a hierarquização interna das universidades, a qual mencionei.

<><> Horizonte limitado de compreensão do mundo

Esse tipo de enunciação pode ser compreendido como parte de um regime discursivo que reorganiza a memória social, de modo despolitizado, porque transforma eventos históricos traumáticos em repertórios simbólicos de uso generalizado. Repito: não estou negando a legitimidade da linguagem figurada em contextos jurídicos ou institucionais; estou destacando seus efeitos políticos e epistemológicos. A metáfora é um recurso cognitivo e comunicativo amplamente constitutivo do pensamento social. O problema não reside em seu uso em si, mas nos efeitos epistemológicos que ela pode produzir quando desvinculada de uma ancoragem histórica rigorosa.

Em tais casos, a metáfora deixa de funcionar como dispositivo explicativo e passa a atuar como dispositivo de equivalência (indevida), produzindo uma espécie de homogeneização das experiências históricas que apaga suas diferenças estruturais. Portanto, desvinculada de ancoragem histórica precisa, a metáfora pode funcionar como mecanismo de apagamento das especificidades da violência. A escravidão, quando usada como metáfora, perde seu sentido de um regime histórico concreto de exploração racializada e de organização econômica e social. Perde, portanto, sua especificidade e sua centralidade explicativa na formação da sociedade brasileira. Esse esvaziamento simbólico pode produzir um efeito paradoxal, uma vez que, ao mesmo tempo em que amplia a circulação do termo, reduz sua capacidade de nomear criticamente as continuidades estruturais de desigualdade que ainda atravessam o presente.

Mais do que um problema de linguagem, estamos diante de uma questão ética e política. Uma magistratura incapaz de reconhecer a densidade histórica de certos termos dificilmente estará apta a interpretar, com a devida profundidade, os conflitos sociais que lhe são apresentados. E isso tem implicações diretas na produção das decisões judiciais — que deixam de ser apenas técnicas para se tornarem também expressões de um horizonte limitado de compreensão do mundo. Porque, no fim das contas, julgar é também escolher quais histórias importam. É decidir quais dores são reconhecidas como legítimas e quais podem ser descartadas como exagero ou irrelevância.

Quando a história da escravidão é reduzida a uma metáfora, o que se escolhe é que ela não importa o suficiente.

 

Fonte: Por Verbana Córduba, em Diálogos do Sul Global

 

"Leão e Trump vêm de mundos diferentes: uma visão universal versus uma visão egoísta", diz bispo emérito

Donald Trump critica Francis Prevost. Há uma enorme distância política e cultural entre esses dois estadunidenses, duas figuras simbólicas em nível global. Michael Mulvey, 76, bispo emérito de Corpus Christi, Texas, um dos estados republicanos por excelência, recentemente aposentado, relata o profundo desconforto da comunidade católica após as palavras do presidente sobre o Papa.

>>>> Eis a entrevista.

·        Como o senhor avalia os ataques do presidente Trump ao Papa Leão XIV por suas posições sobre a guerra?

Trump e o Papa Leão vêm de dois mundos diferentes. Nós somos fiéis ao Papa e à sua visão, que é uma visão de paz. É muito doloroso pensar que uma figura política possa criticar um homem de Deus que tem uma visão universal do mundo. Trump tem uma visão egoísta, pensa primeiro em si mesmo e projetou essa visão em sua política. Ele diz que quer paz, mas depois bombardeia o Irã.

O Papa lançou uma mensagem de paz, contra a guerra, com palavras fortes, porém de diálogo. As palavras violentas que o presidente usou contra o Papa Leão são inaceitáveis. Não sou psicólogo, mas, na minha opinião, são palavras que vêm de um homem muito inseguro. Um homem inseguro que controla a maior potência mundial. Trump é bilionário. Seu mundo é o dinheiro. Ele vem de uma cultura onde o valor das pessoas se baseia no fato de que "quanto mais você tem, mais você é". Todos que vão contra essa visão são atacados com violência.

·        Trump afirma que o atual pontificado está prejudicando a Igreja.

Isso é ridículo. O Papa usa o Evangelho para falar de paz, e o presidente não pode pretender que o Papa apoie aqueles que fazem guerra e criam violência. Quando Trump diz que os iranianos não têm respeito pela humanidade, ele está falando de todos os iranianos. Se você diz algo assim, você também não tem respeito pela humanidade, porque não pode considerar todos os iranianos da mesma forma. A violência está se tornando um padrão para tratar as pessoas. Perdemos a cabeça. O fim, neste caso, não justifica os meios. Não pode justificá-lo.

·        Em seu post, ele também citou Louis Prevost, irmão do Papa, dizendo que o prefere por ser "totalmente MAGA". O irmão do Papa deve ter se sentido desconfortável.

Eu também acho. Não se pode acreditar que alguém que votou nos republicanos — e leu isso na internet — seja "totalmente MAGA", seja com certeza um seu apoiador. O Papa critica a guerra porque quer a paz no mundo. O comportamento de Trump evidencia sua insegurança. Na história estadunidense, houve apenas dois presidentes católicos: JFK Kennedy e Joe Biden.

Normalmente, a classe dominante branca indica um presidente ligado às igrejas evangélicas. Você progride se estiver ligado a uma dessas igrejas. O problema das igrejas evangélicas é o "evangelho da prosperidade", a teoria segundo a qual "quanto mais dinheiro você tem, mais Deus está com você".

As igrejas evangélicas acreditam nisso. Não existe a dimensão da dor, da dificuldade da existência que faz parte da vida humana. Dê seu dinheiro à igreja e, no final, Deus o abençoará. Essa é a mentalidade da igreja evangélica que está crescendo, especialmente entre os republicanos.

·        O presidente também atribuiu a si mesmo um papel na eleição do Papa. Ele disse: "Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano".

Isso é constrangedor e absolutamente escandaloso. Ele disse coisas inaceitáveis. Não é de forma alguma verdade. Nos EUA, o consenso político permanece fortemente ligado ao mundo religioso. Os políticos usam a religião. Não é o centro do seu pensamento, mas eles tentam explorá-la para benefício próprio. Nos Estados Unidos, as igrejas estão cheias, não é como na Europa. Ter o consenso das igrejas é importante para vencer as eleições.

Trump se fez retratar como Jesus curando um doente, com a águia estadunidense ao fundo. Isso é um devocionismo blasfemo. Por que faz isso?

Vivemos na terra de Hollywood, onde o que importa é a imagem. Essa imagem, para mim, é blasfema. Mas algumas pessoas aqui acreditam nela. Você pode vender qualquer produto para um estadunidense, basta usar uma imagem e as palavras certas.

·        Os Estados Unidos não são mais o farol da democracia.

Nos tornamos autorreferenciais, esse é o problema. Trump diz que somos o centro do mundo, mas isso não é verdade. Não se pode seguir em frente sozinhos. Não se pode anular os direitos humanos das pessoas; é preciso haver um esforço pela paz e pelo diálogo, e se deve tentar incluir todos, se deve entender a cultura, as linguagens e as histórias dos outros. Os Estados Unidos foram construídos por migrantes. Todos os estadunidenses são filhos de migrantes. A diversidade foi a riqueza dos Estados Unidos.

·        Os Estados Unidos "desunidos"?

Quando nos tornamos autorreferenciais, só pensamos em nós mesmos. Eu amo muito os Estados Unidos, mas este não é o país em que queremos viver. A política fracassou.

Não há relação entre os dois partidos: quando um é eleito, passa o tempo todo criticando o outro. Não podemos continuar assim. Mesmo que a economia esteja indo bem, as pessoas não estão felizes.

·        O que quer dizer?

Nas grandes celebrações familiares, não se pode mais falar de política; não se pode dizer em quem se votou porque corre-se o risco de brigar. O país está realmente polarizado demais.

¨      Paolo Naso: A teopolítica de Trump, a evolução do fundamentalismo cristão americano

"O fundamentalismo evangélico hoje possui sua própria força independente que lhe permite avançar em seu caminho, com a firme bênção de um presidente que parece não ter escrúpulos em abraçar as causas mais radicais", escreve Paolo Naso.

Paolo Naso lecionou na Universidade Sapienza de Roma e foi professor visitante em diversas universidades americanas. Suas obras sobre estudos americanos incluem Martin Luther King: Uma História Americana (Laterza, 2021), Como uma Cidade no Alto de uma Colina: A Tradição Puritana e o Movimento dos Direitos Civis nos EUA (Claudiana, 2008) e Deus Abençoe a América: As Religiões dos Americanos (Riuniti, 2002).

>>>>Eis o artigo.

fundamentalismo evangélico hoje possui força própria que lhe permite avançar em seu caminho, com a bênção convicta de um presidente que parece não ter escrúpulos em abraçar as causas mais radicais. A imagem do presidente Trump, que, durante a guerra com o Irã, recebeu as bênçãos de uma corte de pregadores evangélicos reunidos em oração, está destinada a permanecer na história da Casa Branca e da comunicação política global.

Aquele que invoca a ajuda de Deus para uma nação em guerra não é um fundamentalista islâmico, nem um cesaropapista da escola russa, mas o presidente de uma democracia laica cujos princípios fundadores incluem a separação entre Estado e denominações religiosas.

Com a postura de um sumo sacerdote no centro do altar, o comandante supremo da maior potência mundial se retrata em oração. É o ato litúrgico do nacionalismo cristão, uma teologia que entrelaça a ideia do excepcionalismo americano com sua tradição religiosa e seu papel como superpotência que se coloca "na presença de Deus".

Uma religião civil, diríamos no passado. Para nós, porém, parece ser uma variante de uma religiosidade conservadora e patriótica, regressiva e repressiva, que busca alimento e justificação nos textos bíblicos e na tradição cristã da América. Em suma, no fundamentalismo evangélico.

<><> Os dados sobre o fenômeno

O fenômeno fundamentalista nasceu e cresceu em um contexto peculiar, que os dados ilustram eloquentemente: depois do Brasil, os Estados Unidos são o país de maioria cristã com a maior porcentagem de frequência semanal à igreja (38%), em comparação com 4% na França ou 10% na Alemanha. Evangélicos — um termo genérico que hoje engloba a maioria dos fundamentalistas, em sentido estrito — representam quase 30% dos americanos, católicos são quase 24%, e protestantes históricos, adeptos das chamadas denominações tradicionais, não passam de 13%; os "sem religião", aqueles que não pertencem a nenhuma comunidade religiosa, representam apenas 17%.

Em suas origens, há mais de cem anos, o fundamentalismo era uma opção teológica nascida dentro do protestantismo americano, que defendia a inerrância absoluta e indiscutível do texto bíblico. Seu inimigo declarado era a teologia liberal, acusada de propor uma abordagem histórico-crítica ao texto bíblico que, para os fundamentalistas, minava sua credibilidade e, em última análise, matava a alma da fé cristã. Seu impacto político foi insignificante, mas cem anos depois parece ser um ator decisivo na dinâmica institucional dos Estados Unidos.

<><> O divisor de águas de Reagan

Os pioneiros do movimento evangélico, a começar por Billy Graham, evitaram identificar-se com uma ideologia política, praticando uma espécie de surfe político com o objetivo de manter um diálogo com diferentes setores da sociedade americana. O ponto de virada da década de 1980, que veio com Ronald Reagan, constitui, portanto, um divisor de águas histórico e, em certo sentido, definitivo.

Quanto mais a esquerda liberal abandonava o discurso público sobre religião, mais os valores religiosos tornavam-se monopólio de grupos de pressão que, com crescente clareza, apreenderam o valor político-eleitoral da "lacuna religiosa" e a preencheram formulando um pacote de valores religiosos apresentado como a solução para a crise e a decadência da América.

Os grandes aparatos do protestantismo americano — a começar pelo Conselho Nacional de Igrejas, mas também as denominações individuais e mais prestigiosas, como presbiterianos, metodistas, episcopais (Comunhão Anglicana), luteranos e uma gama diversa de tradições calvinistas — não conseguiram compreender a magnitude desse desafio e se viram administrando, com recursos cada vez mais escassos, um passado prestigioso que é cada vez menos capaz de impactar o presente.

<><> Dividindo as igrejas

Nos últimos anos, a questão da homossexualidade, a ordenação de pastores abertamente gays e o reconhecimento de casais do mesmo sexo tornaram-se o aríete com o qual setores fundamentalistas — agora amplamente identificados com a direita religiosa — dividiram as igrejas históricas: presbiterianos, luteranos, metodistas e outros vivenciaram décadas de tensões internas dilacerantes que resultaram em verdadeiros cismas.

A adesão quase messiânica ao trumpismo é o mais recente desses passos. O risco é grave porque, começando com o apelo rigoroso por uma interpretação literal da Bíblia, o fundamentalismo evangélico corre o risco de se tornar a teologia dominante de um nacionalismo cristão construído em torno da ação autocrática de um líder que ameaça bens constitucionais fundamentais e polariza a sociedade americana em campos ideológicos cada vez mais divididos e conflitantes.

A adesão quase messiânica ao trumpismo é o passo mais recente nessa direção. O risco é grave porque, começando com o apelo rigoroso a uma interpretação literalista da Bíblia, o fundamentalismo evangélico corre o risco de se tornar a teologia dominante de um nacionalismo cristão construído em torno das ações autocráticas de um líder que ameaça bens constitucionais fundamentais e polariza a sociedade americana em campos ideológicos cada vez mais divididos e conflitantes. O funeral de Charlie Kirk, o ativista de direita (e da direita religiosa) morto em um ataque em 10 de setembro de 2025, indicou a liturgia desse nacionalismo cristão, banhada no sangue de um mártir que, postumamente, legitima o discurso de ódio que proferiu em vida. Desse evento trágico, permanece a conclusão perturbadora do presidente Trump. Após as palavras que a viúva da vítima havia expressado sobre o assassino, ele quis expressar sua opinião divergente: "Kirk não odiava seus oponentes, ele queria o melhor para eles. É aí que discordo de Charlie. Eu odeio meu oponente. E não quero o melhor para ele. Sinto muito. Sinto muito."

<><> Direito ao ódio

direito ao ódio emerge, portanto, como uma virtude da teologia do nacionalismo cristão interpretada e abençoada por Trump, que pode ter uma alma eminentemente política e até mesmo secularizada, mas que não teria produzido efeitos tão significativos se não tivesse sido alimentada e nutrida por correntes do fundamentalismo evangélico e seu aliado anômalo: o tradicionalismo católico. Esse encontro de objetivos comuns ocorre com base na rejeição do aborto, do casamento entre pessoas do mesmo sexo, do ensino religioso nas escolas e de outras questões consideradas geralmente morais ou ligadas aos valores mais tradicionais do patriarcado.

O fundamentalismo evangélico hoje possui sua própria força independente que lhe permite avançar em seu caminho, com a firme bênção de um presidente que parece não ter escrúpulos em abraçar as causas mais radicais. Incluindo a da confessionalização cristã de uma América, cujo prefeito recentemente e legitimamente inaugurou seu mandato jurando sobre o Alcorão. E aqui reside o maior paradoxo do fundamentalismo: uma corrente teológica nascida há pouco mais de cem anos para defender a estrita adesão literal ao texto bíblico, para protegê-lo da contaminação do pensamento e da política modernos, hoje se vê interpretada por aqueles que distorcem a Bíblia aos interesses e à teopolítica de um nacionalismo cristão que busca elevá-la à religião de Estado.

¨      A mesquita, o silêncio e o desafio de Leão XIV. Por Washingto Araújo

A cena não foi desenhada para aplausos fáceis. Em 13 de abril de 2026, o Papa Leão XIV atravessou a soleira da Grande Mesquita de Argel sem sapatos e sem discurso. Permaneceu em silêncio por quase dez minutos ao lado do imã. Não há como subestimar a potência política de um gesto assim num tempo em que palavras demais encobrem a ausência de sentido.

Nascido em Chicago, primeiro papa dos Estados Unidos e primeiro agostiniano a ocupar o trono de São Pedro, Leão XIV chegou a Argel como parte de uma viagem de 11 dias por quatro países africanos. Escolheu a terceira maior mesquita do mundo para inaugurar, de forma inequívoca, o tom de seu pontificado. Não se tratou de cortesia protocolar. Foi uma tomada de posição.

No voo de volta, ao comentar o episódio, o pontífice afirmou que cristãos e muçulmanos podem coexistir de maneira concreta, citando Argélia e Líbano como exemplos imperfeitos, porém reais. Pediu aos católicos menos medo do Islã e mais disposição para compreendê-lo. Não é a primeira vez. Desde o início do pontificado, Leão XIV vem insistindo que o século XXI não comporta religiões entrincheiradas.

Em pronunciamento recente na Organização das Nações Unidas, foi além. Criticou o “capitalismo que exclui” e também formas de “coletivismo que esmagam a dignidade humana”, recusando rótulos simplistas sobre comunismo. Ao abordar a escalada no Oriente Médio, citou Israel e Irã, defendendo cessar-fogo imediato e uma arquitetura de segurança que inclua líderes religiosos como mediadores ativos. Não é retórica vazia. É uma tentativa de devolver à fé um papel civilizatório.

Nem todos acolhem esse caminho. Setores conservadores da Igreja acusam o papa de diluir diferenças doutrinárias profundas. Temem que a ênfase no diálogo funcione como verniz sobre conflitos históricos. A crítica merece ser ouvida, mas revela também o impasse de uma instituição que precisa falar ao mundo sem perder a si mesma.

O que me chama a atenção, contudo, não é a divergência previsível. É o contraste brutal entre o silêncio de Argel e o barulho incessante que domina a vida contemporânea. Vivemos imersos em uma sucessão de ruídos — informacionais, ideológicos, emocionais — que nos empurram para reações rápidas e superficiais. Nesse ambiente, o silêncio torna-se quase subversivo.

Há algo de profundamente humano — e também profundamente espiritual — em parar, retirar os sapatos e reconhecer o sagrado no espaço do outro. 

Esse gesto, mais do que qualquer discurso, questiona a lógica de confronto permanente que tem marcado a política internacional e as relações entre crenças.

Talvez o ponto central esteja aqui: não se trata de apagar diferenças, mas de recusar que elas sejam usadas como combustível para a separação. Em um mundo que insiste em erguer muros, Leão XIV aposta em pontes. Em uma era de certezas agressivas, ele sugere reflexão e escuta.

Insisto: o planeta não precisa de mais vozes competindo por atenção. Precisa de mais silêncio carregado de sentido. Precisa de menos medo do outro e mais curiosidade. De menos caricaturas e mais encontro.

Ao final, o gesto em Argel não permite leitura morna. Ele incomoda — e precisa incomodar. A humanidade segue sendo uma só, embora fragmentada por fronteiras, interesses e crenças que, muitas vezes, mais separam do que iluminam. E Deus, qualquer que seja o nome que cada tradição lhe dê, não pode continuar tratado como propriedade exclusiva, como se o sagrado tivesse dono, fronteira ou passaporte.

Quando o Papa Leão XIV entra descalço na Grande Mesquita de Argel e permanece ali, em silêncio, ele não encerra conflitos nem dissolve séculos de tensão. Mas faz algo que poucos líderes ousam: aponta, sem rodeios, para o esgotamento desse mundo barulhento, ansioso e incapaz de escutar. O excesso de voz tem produzido escassez de sentido.

Não existe hoje tarefa mais urgente do que promover a unificação do gênero humano. E aqui não há espaço para ambiguidade: Deus é um. As religiões são uma — porque todas, em sua essência, voltam-se ao mesmo Deus, ainda que o nomeiem de formas distintas. E a humanidade é uma. Simples assim. O resto — as divisões, os muros, os preconceitos — é construção nossa. E, sendo construção, pode e deve ser desfeita.

 

Fonte: Entrevista com Michael Mulvey, para Riccardo Barlaam, no Il Sole 24 Ore - tradução  de Luisa Rabolini, para IHU/Domani/Brasil 247

 

O choque de Ormuz e o horizonte eleitoral de 2026

O agravamento do conflito no Oriente Médio e a quase interrupção do tráfego no Estreito de Ormuz não representam apenas mais um episódio de instabilidade geopolítica. O que está em curso é um deslocamento mais profundo: a transformação de um evento regional em um choque sistêmico, capaz de reconfigurar expectativas, políticas econômicas e equilíbrios globais.

Durante décadas, a economia mundial operou sob uma premissa silenciosa, mas fundamental: a de que a energia, embora sujeita a oscilações, permaneceria disponível em volumes suficientes e a custos relativamente previsíveis. O Estreito de Ormuz era a expressão concreta dessa estabilidade — um ponto estreito, mas funcional, por onde fluía uma parcela decisiva da energia global.

A súbita contração do fluxo — estimada em cerca de 97% — rompe essa lógica. Não se trata apenas de uma redução de oferta, mas de uma quebra de confiança em uma das engrenagens centrais da economia global. Quando um canal por onde transitavam quase 40% do petróleo marítimo deixa de operar, o impacto não é marginal. Ele redefine o próprio funcionamento dos mercados.

O comportamento dos preços do petróleo expressa essa ruptura. A passagem de um patamar de cerca de 65 dólares por barril para níveis superiores a 110 — com picos ainda mais elevados — não pode ser interpretada como uma flutuação cíclica. Trata-se de um ajuste abrupto a uma nova percepção de risco, em que a escassez deixa de ser um cenário improvável e passa a integrar o cálculo cotidiano dos agentes econômicos.

Esse ponto é decisivo. Diferentemente de episódios inflacionários recentes, impulsionados por excesso de demanda ou por estímulos monetários, o choque atual é essencialmente de oferta. E choques de oferta têm uma característica particularmente desafiadora: eles comprimem crescimento ao mesmo tempo em que elevam preços.

É exatamente essa combinação que recoloca no horizonte um cenário que parecia superado: o da estagflação.

Diante disso, os bancos centrais das principais economias se veem presos a um dilema clássico, mas em condições mais adversas. A expectativa, até pouco tempo, era de flexibilização monetária, acompanhando sinais de desaceleração e inflação mais controlada. O choque energético altera esse quadro. A inflação projetada sobe, mas o crescimento enfraquece — e qualquer decisão passa a implicar custos relevantes.

Elevar juros para conter preços significa aprofundar a desaceleração. Mantê-los baixos para sustentar a atividade implica aceitar uma inflação mais persistente. Não há solução simples, apenas escolhas difíceis.

Os mercados já começaram a precificar essa mudança. A elevação dos rendimentos dos títulos públicos em economias centrais indica não apenas expectativas de juros mais altos, mas uma reavaliação mais ampla das condições financeiras globais. O aumento do custo do crédito, por sua vez, tende a se espalhar rapidamente: hipotecas mais caras, investimento mais contido, consumo pressionado.

Ao mesmo tempo, os efeitos desse choque estão longe de ser homogêneos.

Economias exportadoras de energia tendem a se beneficiar no curto prazo, com melhora de termos de troca e receitas externas. Já países dependentes de importação — especialmente na Europa e em partes da Ásia — enfrentam deterioração de suas condições macroeconômicas.

A China ocupa uma posição singular nesse cenário. Sua elevada dependência de importações energéticas a expõe diretamente ao choque de preços. No entanto, a diversificação de fornecedores, os contratos de longo prazo e a capacidade de coordenação entre política fiscal, monetária e industrial oferecem algum grau de amortecimento. Mais do que isso, o momento pode acelerar estratégias já em curso: diversificação de rotas, fortalecimento de estoques estratégicos e avanço na transição energética.

O que emerge, portanto, não é apenas uma crise conjuntural, mas um ponto de inflexão. A ideia de um mundo sustentado por energia abundante, barata e previsível começa a se desfazer. No lugar dela, surge um ambiente marcado por volatilidade, fragmentação e maior peso da geopolítica sobre a economia.

<><> O Brasil diante do novo choque energético

Para o Brasil, esse cenário não é neutro — e tampouco é simples.

À primeira vista, o país parece bem-posicionado. Como exportador relevante de petróleo, tende a se beneficiar da elevação dos preços internacionais. O aumento das receitas externas e fiscais pode, em tese, fortalecer a economia e ampliar margens de política econômica.

Mas essa leitura é apenas parcial.

O Brasil continua estruturalmente exposto a choques energéticos por diferentes canais. A dependência de derivados, a sensibilidade dos preços internos — especialmente do diesel — e o impacto direto sobre custos logísticos fazem com que o aumento do petróleo rapidamente se traduza em pressão inflacionária doméstica.

E, nesse ponto, o país reencontra um problema conhecido.

Com uma taxa de juros já elevada, o espaço de resposta da política monetária é limitado. O Banco Central se vê diante do mesmo dilema observado nas economias avançadas, mas em condições mais restritivas: conter a inflação sem comprometer ainda mais um crescimento já moderado.

O efeito tende a ser difuso, mas profundo. Custos mais altos de transporte pressionam alimentos. Insumos agrícolas como fertilizantes importados  encarecem. Cadeias produtivas inteiras absorvem o impacto. E, ao final, é o consumo das famílias — especialmente das camadas mais vulneráveis — que sente de forma mais direta.

Há ainda uma dimensão estratégica que o país ainda não resolveu plenamente.

O Brasil possui reservas relevantes não apenas de petróleo, mas também de minerais críticos, como terras raras, fundamentais para a transição energética global. No entanto, permanece, em grande medida, como exportador de recursos brutos, com limitada capacidade de processamento e agregação de valor.

Nesse contexto, o choque atual expõe uma oportunidade — e uma fragilidade.

A oportunidade está na possibilidade de se posicionar melhor em um mundo que valoriza segurança energética e acesso a recursos estratégicos. A fragilidade reside na ausência de uma estratégia clara que transforme essa vantagem potencial em poder econômico efetivo.

No limite, o risco é conhecido: capturar ganhos de curto prazo via preços mais altos, sem alterar a inserção estrutural do país na economia global.

<><> Um choque que redefine mais do que preços

A crise de Ormuz não é apenas um episódio de alta do petróleo. Ela funciona como um teste de estresse para o modelo econômico que predominou nas últimas décadas.

Um modelo baseado na suposição de estabilidade energética, integração de mercados e previsibilidade relativa.

Essas bases estão sendo tensionadas simultaneamente.

O que se desenha não é apenas um período de maior volatilidade, mas um ambiente em que energia, geopolítica e economia deixam de ser esferas parcialmente separadas e passam a operar de forma cada vez mais interdependente.

E, nesse novo ambiente, a questão central deixa de ser apenas como responder ao choque — e passa a ser quem está preparado para um mundo em que choques como esse deixam de ser exceção e passam a ser parte da regra.

<><> Do estreito de Ormuz às urnas de 2026

A crise energética desencadeada pelo estreitamento de Ormuz não se limita aos mercados internacionais ou às decisões de bancos centrais. Seus efeitos tendem a penetrar diretamente no ambiente político doméstico — e, no caso brasileiro, podem se tornar um dos vetores silenciosos mais relevantes das eleições de 2026.

Isso ocorre porque choques de energia têm uma característica particular: eles são rapidamente percebidos pela população, ainda que sua origem seja distante e complexa.

O aumento do preço do petróleo não permanece nos gráficos ou nos relatórios de mercado. Ele se materializa no diesel, no transporte, nos alimentos, no custo de vida. E, ao fazer isso, altera percepções — muitas vezes de forma mais intensa do que indicadores macroeconômicos agregados.

Esse ponto é central para o ambiente eleitoral.

Mesmo que o Brasil se beneficie, em termos de balança comercial e arrecadação, da alta dos preços internacionais, o impacto doméstico tende a ser assimétrico. Ganhos externos são difusos e pouco visíveis para a população. Já a inflação percebida no cotidiano é imediata e concreta.

Essa dissociação entre desempenho macroeconômico e percepção social pode se tornar politicamente decisiva.

Em contextos como esse, governos frequentemente enfrentam um problema clássico: são cobrados por efeitos que não controlam integralmente, mas que afetam diretamente o eleitorado. O resultado é uma erosão de apoio que não decorre necessariamente de erros de política econômica, mas da incapacidade de neutralizar um choque externo adverso.

No Brasil, isso se agrava por um fator adicional: o papel dos preços administrados e das expectativas em torno da política de combustíveis.

Qualquer tentativa de amortecer o impacto — seja via subsídios, controle de preços ou mudanças na política da Petrobras — envolve custos fiscais, riscos de distorção e conflitos com o mercado. Por outro lado, a ausência de intervenção pode alimentar a inflação e pressionar ainda mais o custo de vida.

Não há solução sem custo político.

Esse dilema tende a se intensificar à medida que o calendário eleitoral se aproxima. Medidas de curto prazo podem aliviar pressões imediatas, mas gerar fragilidades posteriores. Já a manutenção de uma postura mais ortodoxa pode preservar fundamentos, mas ao preço de desgaste eleitoral.

Além disso, o choque energético pode reconfigurar o próprio eixo do debate político. Temas como inflação, custo de vida, juros e emprego tendem a ganhar centralidade, deslocando discussões mais estruturais ou de longo prazo. Em um ambiente de renda pressionada, o eleitor médio tende a priorizar respostas imediatas — o que favorece narrativas simplificadoras e, muitas vezes, soluções economicamente frágeis, mas politicamente eficazes.

Há também um efeito indireto, mas relevante: o impacto sobre a política monetária.

Se a inflação se mostrar mais persistente, a manutenção de juros elevados ou a interrupção de um ciclo de queda pode afetar investimento, crédito e atividade econômica. Isso, por sua vez, incide sobre emprego e renda — variáveis historicamente decisivas em processos eleitorais no Brasil.

Nessa situação, o cenário de 2026 tende a ser menos influenciado por grandes projetos de país e mais moldado pela experiência econômica concreta da população nos meses que antecedem a eleição.

E é justamente aí que o choque de Ormuz pode exercer seu peso.

Não como um tema explícito da campanha — dificilmente será —, mas como uma força subterrânea, que reorganiza percepções, redefine prioridades e condiciona o ambiente no qual as disputas políticas ocorrerão.

No limite, o que está em jogo não é apenas o impacto de um evento externo, mas a capacidade do sistema político brasileiro de absorver e administrar um choque que não controla — e que, ainda assim, pode definir o humor do eleitorado.

 

Fonte: Por Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

 

Seca no Rio Xingu expõe limites de Belo Monte frente à crise climática

As maiores usinas hidrelétricas da Amazônia estão se tornando cada vez mais vulneráveis aos impactos das mudanças climáticas, e Belo Monte pode estar dando o alerta mais evidente até agora. Construída no Rio Xingu, próxima à cidade de Altamira, sudoeste do Pará, após anos de debate sobre seus impactos ambientais e a confiabilidade de sua geração de energia, a megausina enfrenta um problema que seus projetistas não conseguiram resolver por meio da engenharia: a escassez de água.

Dois estudos publicados no final de 2025 reforçam as evidências dessa situação — um elaborado pela Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) em parceria com o Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), e outro pelo Escritório Federal de Pesquisa Energética (EPE), vinculado ao Ministério de Minas e Energia. Sob perspectivas diferentes, ambos os relatórios concluem que as mudanças climáticas estão remodelando de forma fundamental os sistemas hídricos e energéticos do país e exigindo adaptações urgentes, já que 43,7% da energia do Brasil provém de usinas hidrelétricas.

O relatório da ANA e da UFRGS alerta que as usinas hidrelétricas da região amazônica podem perder até 40% de sua capacidade de geração de energia nos próximos 20 a 30 anos, caso o planejamento continue a ser baseado em dados históricos de vazão dos rios, em vez de projeções ajustadas ao clima atual. A bacia do Rio Xingu, em particular, enfrentará estações secas significativamente mais longas e intensas nas próximas décadas. As vazões máximas dos rios poderão cair até 50%, segundo o estudo, publicado em novembro de 2025. Os dados também indicam que períodos consecutivos de seca — historicamente em torno de 20 dias — poderão se estender a até 40 dias até o fim do século, com alguns períodos de estiagem chegando a 150 dias.

Esses números apontam para o futuro, mas a gravidade das secas e seus impactos nas usinas da Amazônia já são realidade. Em 2024, durante o pico da estação seca, entre setembro e novembro, Belo Monte gerou, em média, apenas 145 megawatts por dia — pouco mais de 1% de sua capacidade instalada de 11.233 megawatts, de acordo com dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico.

“Esse desempenho reflete a seca mais severa registrada no Brasil desde o início dos registros históricos, em 1950”, disse Saulo Aires, coordenador de mudanças climáticas da ANA, à Mongabay. “O que estamos vendo agora é que a realidade hidrológica já mudou.”

O estudo da EPE, também publicado em novembro de 2025, analisa as consequências energéticas dessas mudanças. Ele conclui que compensar a redução na confiabilidade da geração hidrelétrica exigirá investimentos significativos em fontes alternativas de energia. Construir um portfólio elétrico resiliente e de baixas emissões pode demandar a implantação de 121 gigawatts de capacidade adicional, especialmente em armazenamento, energia solar, energia eólica e tecnologias complementares. Mesmo com custos operacionais mais baixos, o investimento total no sistema pode crescer 70%, chegando a R$ 144 bilhões, o que reflete a escala da adaptação necessária para manter a segurança energética.

Os estudos da ANA e da EPE também mostram que, enquanto o Norte do país terá estações secas mais severas, o Sul deve registrar um aumento das chuvas. No entanto, essa mudança não se traduz em maior potencial hidrelétrico. Rafael Kelman, diretor-executivo da consultoria de energia PSR e coordenador do estudo da EPE, disse à Mongabay que a topografia do Sul do país dificulta muito a construção de novas hidrelétricas. “Em geral, o saldo é negativo para o Brasil. Haverá menos energia hidrelétrica”, afirmou.

Ao mesmo tempo, o aumento das temperaturas deve elevar a demanda por eletricidade, especialmente devido ao uso de ar-condicionado. “Menos chuva significa menos hidroeletricidade, e mais calor significa mais demanda”, disse Kelman. “É uma pressão dupla sobre o sistema.”

<><> Exposição aos riscos climáticos

Belo Monte entrou em operação em 2016 como uma usina do tipo fio d’água, ou seja, sem um grande reservatório para armazenar água durante os períodos chuvosos. A escolha deste modelo foi crucial para superar as controvérsias sobre a barragem, que se estenderam por anos. A opção por uma usina do tipo fio d’água foi apresentada pelos responsáveis pela obra como uma forma de reduzir a área alagada e os danos ambientais. O modelo, no entanto, também deixou o empreendimento altamente exposto aos riscos dos períodos de seca.

Em 2024, por exemplo, a usina não atingiu sua projeção de geração de energia em nenhum dia do ano. O maior volume diário foi registrado em 30 de abril, quando, em um breve intervalo, Belo Monte produziu 10.397 megawatts, antes que a geração caísse bruscamente com o retorno da estação seca. No fim de agosto, mesmo antes do pico da seca, apenas uma das 18 turbinas da usina estava em operação, cada uma com capacidade de 611 megawatts.

Rodrigo Paiva, professor do Instituto de Pesquisas Hidráulicas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e um dos autores do estudo em parceria com a ANA, destaca a situação frágil de Belo Monte, localizada em uma região onde os modelos climáticos indicam os sinais mais fortes de redução futura das vazões dos rios.

“O que obtivemos como resultado é uma projeção para as próximas décadas de uma grande redução dos rios amazônicos, especialmente nos afluentes meridionais mais afetados, como o Xingu e o Tapajós”, disse Paiva. “Mesmo considerando um cenário moderado de emissões de gases de efeito estufa, essa grande redução de chuvas e vazões acabou se manifestando.”

Paiva acrescentou que o estudo não simulou uma transformação completa da floresta em savana, a partir do temido e iminente ponto de não retorno na Amazônia, o que sugere que essas projeções podem ser conservadoras. “Isso poderia amplificar ainda mais essas mudanças no regime hidrológico”, alertou.

<><> Levando a ciência a sério

Para Aires, da ANA, o maior erro no monitoramento, coleta e análise de dados para planejar sistemas hídricos atualmente é olhar para o passado. “Mas o futuro não vai repetir o passado. Já chegamos a um ponto de não retorno em termos de hidrologia. O esforço agora é minimizar os impactos.”

Kelman afirmou que Belo Monte exemplifica os riscos de projetar megaempreendimentos sem considerar plenamente o conhecimento científico sobre o clima. “A ciência já apontava que essa região da Amazônia teria uma redução significativa nas precipitações”, disse. “Nesse projeto, as mudanças climáticas deveriam ter sido consideradas mais seriamente no dimensionamento da usina.”

O coordenador do estudo da EPE lembrou que estudos realizados por volta de 2010, quando Belo Monte estava sendo planejada, já sugeriam que a usina deveria ter sido cerca de 30% menor. “Aquela escala foi por razões econômicas. Considerando as mudanças climáticas, provavelmente deveria ter sido ainda menor.”

Segundo Kelman, a falta de dados hidrológicos de longo prazo para rios como o Xingu agravou a incerteza. “Ninguém sabe qual era a vazão do Xingu em 1930 ou em 1940”, disse. “Você a infere estatisticamente, às vezes, usando dados coletados a 2 mil quilômetros de distância. A confiabilidade disso é muito baixa.”

A conturbada história da usina há muito tempo alimenta críticas de grupos ambientalistas. O processo de licenciamento de Belo Monte foi um dos mais problemáticos da história do Brasil, marcado por disputas judiciais e alegações de que condicionantes ambientais fundamentais não foram cumpridas antes do início das obras. O Ministério Público Federal ajuizou 26 ações contra o projeto, e organizações indígenas alertaram diversas vezes sobre danos sociais e ecológicos, incluindo o aparecimento de peixes com deformidades. A usina agora enfrenta um processo polêmico de renovação de licença.

<><> Da promessa à realidade

A operadora de Belo Monte, a Norte Energia, contesta a ideia de que a usina está se tornando obsoleta. Em nota à Mongabay, a empresa afirmou que a hidrelétrica continua sendo fundamental para o sistema brasileiro e que, em determinados momentos, chegou a suprir até 19% da demanda nacional de eletricidade.

“Durante a semana de virada do ano de 2025 para 2026, em meio a uma onda de calor no Sudeste do Brasil, Belo Monte gerou, em média, 8,55 gigawatts, o que corresponde a 9,3% do consumo total do país”, disse a empresa. “Isso é equivalente à demanda de 28 milhões de residências.”

A Norte Energia afirmou que as regras operacionais da usina, incluindo seu hidrograma — que determina quanta água pode ser usada para geração de energia, um dos pontos mais polêmicos junto às comunidades locais — foram definidas durante o processo de licenciamento e estão sujeitas a decisões das autoridades ambientais e dos tribunais. A empresa disse que continua defendendo a manutenção do chamado “hidrograma de consenso”, um modelo que seleciona a opção mais segura e viável entre dois hidrogramas possíveis, supostamente equilibrando a proteção ambiental com a segurança energética.

Moradores e cientistas argumentam, no entanto, que a vazão é insuficiente para reproduzir o fluxo natural do Rio Xingu, o que provoca o colapso das populações de peixes.

A empresa também destacou investimentos de mais de 8 bilhões de reais em medidas de mitigação ambiental, incluindo 1,4 bilhão de reais destinados a projetos envolvendo indígenas. Os planos da Norte Energia incluem o monitoramento de fauna, flora e recursos hídricos, além de melhorias na infraestrutura nos municípios vizinhos, como Altamira e Vitória do Xingu.

Mesmo assim, pesquisadores afirmam que a adaptação será inevitável. “Infelizmente, esse projeto não vai entregar o que foi prometido”, disse Paiva sobre Belo Monte. “O que pode ser feito agora é adaptar a operação, incorporar cenários climáticos e aceitar que a energia garantida do passado não existe mais.”

Para o Brasil, a lição de Belo Monte pode moldar decisões futuras sobre a renovação da licença da usina e sobre o futuro de toda a Amazônia. “Novos projetos nessa região já deveriam considerar que teremos menos vazão nos rios”, disse Paiva. “Planejar com base apenas em condições históricas não é mais viável.”

 

Fonte: Mongabay