quinta-feira, 14 de maio de 2026

Os inquietantes paralelos entre 2008 e 2026: uma nova crise financeira está a caminho?

Em 15 de setembro de 2008, Bobby Seagull chegou ao seu escritório em Canary Wharf, em Londres, pouco antes das 6 da manhã.

Era a última vez que ele precisaria ser pontual. Ele era um operador do Lehman Brothers, um banco americano que passava por sérias turbulências.

"Tínhamos visto no noticiário de domingo, vindo dos Estados Unidos, que eles estavam entrando com pedido de falência. Não tínhamos muita certeza das implicações disso para nós no Reino Unido. Então, nos disseram apenas para comparecer normalmente."

Inicialmente, foi um "caos", diz Bobby. "Não havia comunicação direta com nossos colegas americanos. Eles não atendiam o telefone. Algumas pessoas pegavam objetos, como quadros na parede, e diziam: 'Eles me devem ações'."

Bobby pressentia que um desastre poderia acontecer e estava bem preparado.

"Curiosamente, naquele verão, as pessoas perceberam uma certa inquietação. Gastei todo o meu cartão da máquina de venda automática, [no valor de] 300 libras, em chocolates, porque percebi que se a máquina de venda automática ou o banco quebrassem, meu cartão da máquina se tornaria inútil."

Bobby, juntamente com milhares de colegas, colocou toda sua carreira em uma caixa de papelão e deixou o prédio.

Foi uma imagem marcante da crise financeira global que viu milhares de empresas falirem e milhões de pessoas perderem seus empregos.

Ela inaugurou uma das recessões mais longas e profundas desde a Segunda Guerra Mundial.

Agora, diversos sinais de alerta estão surgindo na economia mundial, levando alguns a questionar se estamos no início de outra crise financeira.

Como seria o próximo colapso? E, considerando que as relações internacionais em 2026 estão mais instáveis do que em 2008, os formuladores de políticas terão as ferramentas necessárias para impedir um colapso?

<><> Sinal de alerta

Antes da crise que assolou a economia mundial em 2008, já havia sinais de alerta em algumas partes do sistema financeiro.

Em 2007, muitos investimentos em empréstimos imobiliários de alto risco nos EUA deram prejuízo, com a alta inadimplência dos donos dos imóveis.

Fundos administrados pelo Bear Stearns, BNP Paribas e outros bancos tiveram que congelar a capacidade dos investidores de sacar seu dinheiro ou liquidar os fundos completamente.

Esses problemas serviram como primeiros alertas para uma crise que se mostraria muito mais profunda.

À medida que o nervosismo se espalhava, até mesmo os bancos eventualmente pararam de emprestar uns aos outros por medo de não receberem seu dinheiro de volta, criando a chamada crise de crédito. Isso causou uma crise financeira global.

Agora, voltemos para os dias de hoje.

Diversos fundos que emprestam dinheiro declararam prejuízos ou restringiram a capacidade dos investidores de resgatar seus investimentos.

BlackRock, Blackstone, Apollo e Blue Owl enfrentaram pedidos de saques bilionários de fundos de crédito privado – instituições que oferecem uma alternativa aos bancos tradicionais.

Reguladores bancários e veteranos do setor financeiro reconhecem as semelhanças entre as duas crises.

Sarah Breeden é vice-governadora do Banco da Inglaterra, instituição responsável por garantir a estabilidade financeira no Reino Unido.

Ela afirma que o novo mundo do crédito privado cresceu rapidamente, ainda não foi testado por adversidades financeiras e é pouco compreendido.

"Há ecos da crise financeira global no que estamos vendo agora", diz ela. "O crédito privado passou de zero para US$ 2,5 trilhões nos últimos 15 a 20 anos. Há alavancagem [dinheiro emprestado], há opacidade, há complexidade, há interconexões com o restante do sistema financeiro. Tudo isso se assemelha ao que vimos na crise financeira global."

Ela também está preocupada com o fato de que muito do dinheiro emprestado por fundos de crédito privado já tenha sido tomado emprestado, criando camadas de dívida — ou alavancagem — que podem amplificar quaisquer perdas.

"Há alavancagem sobre alavancagem sobre alavancagem. O que queremos garantir é que todos entendam como essa complexa estrutura de alavancagem se acumula."

Mohammed El-Erian, principal consultor econômico da empresa financeira alemã Allianz e ex-CEO da PIMCO, a maior investidora em títulos do mundo, concorda que o risco de outra crise está sendo subestimado.

"Há certas semelhanças com 2007 que me tiram o sono. As semelhanças são fragilidades claras no sistema financeiro que não são devidamente reconhecidas."

Na verdade, ele afirma, foram as restrições impostas aos bancos após a crise que deram origem a esse novo mercado de crédito privado.

Os bancos foram forçados por novas regulamentações a serem mais cautelosos. Por isso, fundos que imitavam os bancos surgiram para preencher a lacuna.

"De repente, o sistema foi inundado por credores privados que desejam emprestar dinheiro para empresas. As empresas veem todo esse dinheiro disponível e, é claro, muito dinheiro faz as pessoas cometerem erros."

Ele descreve um cenário assustador. "De repente, todos que emprestam dinheiro querem seu dinheiro de volta ao mesmo tempo. Daqui a pouco, algo começado como uma ótima ideia se transformou em algo que representa um risco de instabilidade e, em vez de beneficiar a economia, corre o risco de desestabilizá-la."

Mas Larry Fink, chefe da maior gestora de recursos do mundo, a BlackRock, disse recentemente à BBC que não concorda que o crédito privado represente uma ameaça à economia mundial.

Os problemas que afetam alguns fundos representam uma pequena fração do mercado total, afirma ele.

A própria BlackRock é uma das várias empresas que limitaram os saques de investidores nervosos em fundos de crédito privado.

Mas Fink é categórico ao afirmar que não há chance de uma repetição do trauma financeiro visto em 2007-08, pois acredita que as instituições financeiras hoje são mais seguras.

"Não vejo nenhuma semelhança", diz ele. "Nenhuma."

No entanto, alguns compararam o que está acontecendo no crédito privado a uma corrida lenta aos bancos. Você pode não ver as filas do lado de fora das agências do Northern Rock, como em 2007, mas há uma fila de pessoas querendo seu dinheiro de volta.

<><> Influência da crise energética

Outra forma pela qual a história pode estar se repetindo é através da alta dos preços da energia.

Esse foi um fator que contribuiu para a crise de 2008. O preço do petróleo bruto Brent subiu de cerca de US$ 50 por barril no início de 2007 para US$ 100 no final do ano — chegando a atingir o pico de US$ 147 em julho de 2008.

Isso foi impulsionado pela crescente demanda de uma China em rápida expansão, mas também, em parte, pelas tensões geopolíticas envolvendo o Irã.

Recentemente, os preços do petróleo subiram para mais de US$ 100 por barril, com alertas de que podem subir ainda mais se não houver uma resolução rápida para o conflito com o Irã, que fechou a artéria energética mais importante do mundo, o Estreito de Ormuz.

Fatih Birol, diretor executivo da Agência Internacional de Energia, classificou o fechamento do Estreito de Ormuz como "a maior crise de segurança energética da história", insistindo que ela é "mais grave" do que os choques energéticos anteriores de 1973 (quando alguns Estados árabes impuseram um embargo de petróleo ao Ocidente), 1979 (causado pela revolução iraniana) e 2022 (Ucrânia) "juntos".

Esse nível de pessimismo ainda não se reflete nos preços atuais do petróleo. Embora os preços tenham subido mais de 50% desde antes do conflito com o Irã, eles ainda estão longe dos níveis observados antes da última crise financeira, quando o petróleo atingiu US$ 147 por barril (em valores atuais, isso equivale a cerca de US$ 190 por barril).

E os mercados de ações estão atualmente perto de suas máximas históricas — nada parecido com o choque do petróleo de 1973, que provocou uma queda de 40% nos mercados de ações dos EUA, do pico ao vale.

Sarah Breeden, do Banco da Inglaterra, diz que espera que os mercados de ações caiam em algum momento, pois o nível atual não reflete totalmente os muitos riscos para a economia global.

Mas, por enquanto, os mercados de ações parecem presumir que a paz acabará prevalecendo, e muitas grandes empresas continuam a lucrar mais do que os investidores esperavam.

Mas um choque energético faz parte da lista de riscos do Banco da Inglaterra, que Breeden teme que possa ocorrer simultaneamente.

"O que acontece se vários desses riscos se concretizarem ao mesmo tempo?", ela pergunta.

"Um grande choque macroeconômico, ao mesmo tempo em que a confiança no crédito privado cai, ao mesmo tempo em que as avaliações de IA e outras avaliações de ativos de risco se reajustam. O que acontece nesse ambiente e estamos preparados para ele?"

<><> Inteligência artificial

E aí Breeden toca em outro risco a ser adicionado ao potencial coquetel de crise.

Mais de US$ 2 trilhões foram investidos em IA, no que o cofundador da Microsoft, Bill Gates, chamou de "frenesi" e outros descrevem como uma bolha.

Isso impulsionou as avaliações de algumas megaempresas a tal ponto que 37% do valor do principal índice do mercado de ações dos EUA, o S&P 500, agora está concentrado em apenas sete empresas (incluindo Nvidia, Microsoft, Alphabet (empresa controladora do Google) e Amazon, que também estão entre as maiores investidoras em infraestrutura de IA.

Isso significa que os milhões de pessoas que investem em fundos de índice estão investindo uma grande parte de suas economias em IA, quer queiram ou não.

Uma grande venda de ações dessas empresas afetaria os poupadores — incluindo indivíduos e fundos de pensão em diversos países — e inevitavelmente abalaria a confiança empresarial e do consumidor.

O estouro da bolha das empresas "ponto com", que atingiu seu pico em março de 2000, contribuiu para desencadear uma recessão em 2001.

O índice Nasdaq, com forte presença de empresas de tecnologia, caiu quase 80% entre março de 2000 e outubro de 2002, destruindo bilhões em valor de mercado.

Esse colapso de empresas baseadas na internet, as enormes perdas para investidores e as demissões em massa no setor de tecnologia causaram uma recessão mais ampla na economia.

<><> 'Incêndio financeiro'

Há também a questão da capacidade das autoridades para apagar um possível "incêndio financeiro".

Em 2008, os governos finalmente conseguiram controlar o caos injetando bilhões de dólares de dinheiro público nos principais bancos para evitar seu colapso e aumentando as garantias sobre os depósitos bancários para impedir que os poupadores fugissem.

Ao mesmo tempo, os principais bancos centrais cortaram as taxas de juros, incluindo um raro corte coordenado.

Mas alguns temem que essas opções possam não existir mais.

Em 2008, a dívida do governo do Reino Unido representava menos de 50% da renda nacional.

Hoje, esse número está próximo de 100%, após grandes intervenções em 2008 para resgatar bancos, auxílios durante a covid-19 e subsídios de energia em 2022 após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Portanto, a capacidade do governo de tomar empréstimos é muito mais limitada.

Mohammed El-Erian usa a analogia de um corpo de bombeiros que ficou sem água.

"Governos e bancos centrais tiveram que responder a crise após crise e, ao fazerem isso, reduziram sua capacidade de resposta", alerta ele.

Esse sentimento é compartilhado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI), que afirmou no início deste mês que os múltiplos desafios econômicos mundiais ocorrem em um momento em que "o espaço para políticas públicas foi reduzido".

Há também o estado precário das relações internacionais. Em meio à crise de 2008, líderes nacionais se reuniram em uma série de encontros de emergência, incluindo um crucial em Washington, em novembro de 2008, onde definiram seu plano para injetar bilhões nos bancos; e outro em Londres, em abril de 2009.

Gordon Brown, o primeiro-ministro que ajudou a liderar a resposta internacional, afirmou que a forte cooperação internacional foi o que impediu que a crise se transformasse em uma depressão.

Tudo isso pode ser mais difícil hoje, em meio a divergências significativas entre os países ricos sobre política comercial, Otan e até mesmo o status da Groenlândia.

Escrevendo no início deste mês sobre os perigos de uma crise financeira, o FMI fez questão de alertar que a "cooperação internacional está mais fraca" agora do que em anos anteriores.

A implicação, talvez, seja que, em uma era de guerra na Europa, guerras comerciais entre EUA e China e a política "América Primeiro" do presidente dos EUA, Donald Trump, será mais difícil para os governos deixarem de lado suas diferenças e sentarem na mesa de negociações como fizeram em 2008.

Brown alertou diversas vezes sobre os perigos de uma abordagem isolacionista — de "nós contra eles" — em assuntos globais.

<><> Fragilidades financeiras

Sarah Breeden, no entanto, demonstra otimismo, argumentando que os bancos têm mais capacidade de absorver choques do que em 2008.

Ela se conforta com o fato de que os bancos estão "muito mais capitalizados agora" — em outras palavras, eles têm reservas de caixa maiores, em vez de depender de empréstimos.

"Não acho que, se entrarmos em crise, será na mesma escala", diz ela.

Mohammed El Erian concorda — até certo ponto. "Não estamos exatamente na situação de 2008, porque não acredito que o sistema bancário, e, portanto, o dinheiro dos depositantes e o sistema de pagamentos, estejam em risco. Mas estamos em um momento semelhante ao de 2008, no sentido de que o sistema financeiro pode agravar as fragilidades econômicas que nos levam à recessão."

E se isso acontecer, ele não tem dúvidas de quem sofrerá mais.

"As fragilidades econômicas e financeiras tendem a expor os segmentos mais vulneráveis ​​da população. Eles têm a menor resiliência e tendem a ser atingidos com particular intensidade."

Bobby Seagull, que agora é professor de matemática, diz que os mercados financeiros estão ainda mais complexos hoje em dia e que nunca se sabe ao certo que surpresas desagradáveis ​​podem estar escondidas.

"Você está meio que passando instrumentos financeiros de uma pessoa para outra, sem ter certeza do que há dentro deles. E acho que a preocupação é que, se as coisas acontecerem, elas se intensificam muito rapidamente nos mercados financeiros. E é aí que você não quer ser a última pessoa a ficar com esse pacote."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Como editoras atraem leitores com brasileiros lendo menos

Thalita Rebouças tinha 26 anos quando participou de sua primeira Bienal do Livro, em 2001. A autora de Traição Entre Amigas (2000) chegou cedo ao Riocentro, na Barra da Tijuca, com uma pilha de livros debaixo do braço. Uma hora depois, não tinha vendido nenhum. Dali a pouco, uma garota se aproximou: "Moça, onde fica o banheiro?". Cansada de se sentir invisível, Thalita subiu numa cadeira e começou a gritar: "Eu sou escritora! Não estou aqui para dar informação. Estou aqui para dar autógrafo". "Quem comprar meu livro", esgoelou-se, "leva um autógrafo. Vai que eu fico famosa, hein? Vocês não vão precisar mais entrar em fila ziguezague para pegar meu autógrafo!"

Por ironia do destino, três bienais depois, Thalita sofreu uma tendinite de tanto autografar. O médico prescreveu anti-inflamatório e repouso. "Jura? Ainda faltam quatro dias…", fez as contas, apavorada. O jeito foi substituir sua assinatura por um carimbo personalizado.

"A Bienal não é mais uma feira de livros. Virou um parque de diversões literário!", brinca ela hoje, aos 50 anos. "Não tem truque, tem humor. Quando o adolescente se identifica com o que lê, ri de si mesmo. Não quero passar lição de moral, quero que ele entenda que não está sozinho. Quando você fala com verdade as coisas que quer falar, chega nas pessoas que tem que chegar", explica a autora.

Nesses 24 anos, muita coisa mudou: tanto para Thalita quanto para a Bienal. Desde Traição Entre Amigas, ela já publicou 30 títulos, foi traduzida para mais de 20 idiomas e vendeu cerca de 2,3 milhões de exemplares. Alguns deles, como Tudo por um Pop Star (2003), Fala Sério, Mãe! (2004) e Uma Fada Veio Me Visitar (2007), foram adaptados para o teatro, o cinema e o streaming.

<><> Ler é a maior diversão

Thalita não exagera quando diz que a Bienal virou "um parque de diversões literário". Na edição deste ano, que começa dia 13 de junho e vai até 22 de junho, tem até roda-gigante, a Leitura nas Alturas. Cada cabine, um universo diferente: Turma da Mônica, Lilo & Stitch, As Crônicas de Nárnia...

"Essas atrações ajudam a conectar as pessoas aos livros porque transformam a literatura em experiência. Não basta vender livros, queremos criar memórias. Precisamos acabar com essa história de que ler é ‘chato' ou ‘difícil'. Na Bienal, mostramos que literatura pode ser algo divertido, leve e emocionante", explica Tatiana Zaccaro, diretora da GL Events Exhibitions, uma das realizadoras da Bienal Internacional do Livro.

De acordo com a pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, 53% dos brasileiros não leram nenhum livro nos três meses anteriores ao levantamento realizado em 2024. Esse foi o menor número registrado desde a primeira edição da pesquisa em 2007. Também foi a primeira vez que o número de não leitores ultrapassou o de leitores.

A pesquisa identificou ainda que, nos últimos quatro anos, o Brasil perdeu quase 7 milhões de leitores. Diante desse cenário, editoras precisam buscar meios para alcançar esse público, que cada vez mais perde o interesse pela leitura.

A estratégia de transformar literatura em experiência tem dado resultado na Bienal. A edição de 2023 registrou recorde de público (600 mil pessoas) e de venda (5,5 milhões de exemplares). "Em um país que perde milhares de leitores todo ano, arrastar multidões que transformam autores em celebridades e compram uma média de oito a nove livros é incrível", avalia Zaccaro.

Segundo levantamento do Ministério da Cultura (MinC), o Brasil tem hoje cerca de 320 eventos literários, entre feiras, bienais e saraus. Desses, um dos mais concorridos é a Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip.

Outra estratégia bem-sucedida é apostar em edições de bolso. Quem garante é Ivan Pinheiro Machado, um dos fundadores da L&PM. "Foram mais de 30 milhões de exemplares vendidos, custando menos da metade de um livro convencional e com a mesma qualidade editorial", explica Pinheiro Machado, o PM da sigla L&PM – o L é de Paulo Lima, o outro sócio.

Atualmente, a coleção L&PM POCKET tem 1.500 títulos disponíveis: de William Shakespeare a Monteiro Lobato, de Fernando Pessoa a Millôr Fernandes, de Charles Bukowski a Martha Medeiros. "Ninguém fez mais para a cultura do livro nestas últimas décadas do que essa coleção", gaba-se Pinheiro Machado.

<><> Vale a pena ler de novo

Na hora de conquistar novos leitores ou fidelizar os antigos (ou assíduos, como prefere Bruno Zolotar, diretor comercial e de marketing da Rocco), nada melhor do que relançar um clássico. Um bom exemplo disso é A Hora da Estrela (1977), de Clarice Lispector.

"O livro sempre vendeu bem, mas, com a edição de 2020, ganhou maior distribuição, foi lido pela geração Z, mereceu resenhas nas redes sociais e voltou a ser comentado por gente como a atriz Cate Blanchett e a cantora Olivia Rodrigo", orgulha-se Zolotar. "Não por acaso, voltou à lista dos mais vendidos, décadas depois da morte de sua autora. Tudo pode acontecer a partir de uma nova edição."

Relançar clássicos é uma dica (quase) infalível. Com roupa nova, então, melhor ainda: nova tradução, textos extras (notas, prefácios e posfácios) e capa dura. E nem precisa ser tão antigo assim. É o caso de Uma Autobiografia (2016), de Rita Lee. O livro foi relançado em 2023, por ocasião da morte da roqueira, numa edição de luxo, com pintura lateral em tie-dye, fitilho marcador de página e um novo caderno de fotos, com documentos de época e imagens inéditas. Em uma delas, Rita "ajuda" a derrubar o Muro de Berlim, em 1989. "Esses relançamentos são atrativos porque apresentam uma obra importante a um novo público", afirma Guilherme Samora, editor da Globo Livros.

Na Harper Collins Brasil, dois clássicos indiscutíveis – o dramaturgo pernambucano Nelson Rodrigues e a escritora inglesa Agatha Christie – ganharam coleções exclusivas. A da Rainha do Crime vem com brindes, como uma ecobag e um calendário.

"Muitas vezes, clássicos são associados à leitura escolar obrigatória. Quando apresentados com uma linguagem mais contemporânea, que pode ser uma nova tradução ou uma edição ilustrada, tornamos a leitura mais acessível", observa Leonora Monnerat, CEO do grupo HarperCollins Brasil. "Mais do que uma obrigação, ler precisa ser algo prazeroso. Um entretenimento como assistir a um filme ou disputar um game."

E não basta conquistar leitores. É preciso engajá-los em comunidades. É o que faz o Harlequin, um dos selos do grupo HarperCollins Brasil. Referência na publicação de livros de romance, criou o Festival de Literatura Romântica do Brasil (Flir) para leitores do gênero. "É um evento temático, anual e interativo que cultiva esse senso de pertencimento. Quando um leitor encontra outras pessoas que compartilham do mesmo gosto literário, ele se sente parte de algo maior. É uma estratégia que ajuda a disseminar o hábito da leitura", afirma Monnerat.

<><> Com quantos selos se faz uma editora

Dividir uma editora em subeditoras, aliás, virou quase uma regra. Na Planeta, são treze selos. Desses, Ana Carolina Fontoura, diretora de marketing e comunicação, destaca dois: o Tatu-Bola, que apresenta volumes infantis, e o Crítica, que reúne títulos históricos. Enquanto o primeiro se propõe a conquistar novos leitores, ou seja, crianças a partir de um ano de idade, o segundo ambiciona fidelizar os antigos, isto é, quem não se importa de pagar mais por um livro de qualidade.

"É preciso identificar o que o público de cada selo está buscando e entregar", explica Fontoura. "Não há segredo. O que há é um catálogo amplo e variado para atender a todos os tipos de leitores."

Uma palavra que os editores costumam usar é curadoria. "Muitas vezes, os leitores confiam tanto na curadoria da Todavia que compram esse ou aquele livro tão somente porque ele está saindo pela editora", explica Leandro Sarmatz. "Sabem que houve um trabalho prévio de garimpo e um processo editorial de qualidade."

Em 2024, a Todavia ganhou três Jabutis: dois de ficção (Romance de Entretenimento para O Crime do Bom Nazista, de Samir Machado de Machado, e Romance Literário para Salvar o Fogo, de Itamar Vieira Júnior) e um de não ficção (Biografia e Reportagem para Baviera Tropical, de Betina Anton). "O que dá errado é pretender ser o que não é: uma editora literária embarcar num filão comercialóide ou uma comercial investir em literatura experimental."

Para turbinar suas vendas, muitos editores apostam em escritores não convencionais. São religiosos, médicos, atores, youtubers, influenciadores digitais... Mas, será que isso funciona? Talvez sim, arrisca Cassiano Elek Machado, diretor editorial do Grupo Record, desde que a pessoa tenha algo a dizer.

"Livros feitos por personalidades que tenham muitos fãs ou seguidores em diferentes canais ou redes sociais podem atrair leitores não tradicionais. Mas, só a popularidade não garante vendas. Tem de estar envolvido no projeto, e não apenas emprestar o nome e a fama", destaca Machado.

<><> Na livraria física ou na online

Um bom editor tem que pensar em tudo: título instigante, capa bonita, preço competitivo... Pensa que acabou? Ainda não! "Temos que ir aonde nossos potenciais leitores estão: nas redes sociais", explica Mariana Kaplan, diretora de marketing da Sextante. "Temos feito parceria com influenciadores cujos perfis não são dedicados a livros. Eles conseguem apresentar de forma nativa o conteúdo de nossos livros e despertar o interesse em seus seguidores." 

Dentro do ponto de venda físico, a primeira coisa a fazer é garantir uma boa exposição do livro. "Se não estiver em uma posição de destaque, não adianta capa bonita nem título instigante", pondera Kaplan.

É por essas e outras que Rui Campos, sócio da Livraria da Travessa, gosta de dizer que aposta em três A's: arquitetura (ambiente agradável e funcional), acervo (obras do mundo inteiro) e atendimento (livreiros interessantes e interessados). "Uma livraria nunca é igual à outra", observa Campos. "Quem tem uma perto de casa corre o risco de se tornar leitor."

Segundo levantamento da Associação Nacional de Livrarias (ANL), o Brasil tem hoje 2.972 espaços físicos dedicados à venda de livros. Só a Travessa tem 14 lojas físicas – 13 delas no Brasil e uma em Portugal.

Além do livro de papel, o leitor pode levar para casa o digital e o audiolivro. Houve um tempo que o digital foi visto como inimigo do impresso. Hoje, há leitores que compram um mesmo título no formato digital, para ler no metrô, e no físico, para guardar em casa.

"Enquanto o e-book atrai leitores já familiarizados com a leitura, o audiobook é uma oportunidade de atrair novos leitores. O Brasil é, historicamente, um grande consumidor de áudio – primeiro do rádio e agora dos podcasts", pondera Mariana Kaplan, da Sextante.

<><> Livro x mercadoria

Independentemente do formato, o importante é consumir conteúdo. Mas, o que pensam eles, os escritores? "Leitor não é cliente. Não do autor, ao menos. Talvez seja da editora ou da livraria, e aí se pode falar em conquistar leitores pela qualidade do papel ou do desconto da loja", ressalva Samir Machado de Machado, autor do livro O Crime do Bom Nazista (2023). "O escritor escreve para expressar um conjunto de ideias e torce, a cada livro, para que isso seja interessante para mais alguém além dele próprio."

Autor do livro Ainda Estou Aqui, que deu origem ao filme que ganhou o primeiro Oscar do cinema brasileiro, Marcelo Rubens Paiva garante que não escreve para atrair leitores. "Livro não é mercadoria. Escrever é uma missão. Escrevo porque amo escrever. Não escrevo por obrigação, escrevo por prazer", discorre.

Ele lembra que, dos 17 livros que publicou, Feliz Ano Velho (1982) e Ainda Estou Aqui (2015) fizeram sucesso, mas Meninos em Fúria (2016), também autobiográfico, não. "Já escrevi outros livros depois de ganhar outros prêmios e não muda muita coisa. Escrever é um ato solitário. Quando escrevo, estou mais preocupado com os meus pesadelos do que com as minhas glórias", relata ele, que acaba de lançar O Novo Agora (2025) pela Alfaguara, selo da Companhia das Letras.

O ato de escrever pode até ser solitário, mas a tarefa de fazer do Brasil um país de leitores é coletiva. É um esforço conjunto que abrange, entre outros, professores, bibliotecários e governantes. "Um livro pode ser transformador na vida de um leitor porque traz reflexão, aprendizado e entretenimento", afirma Guilherme Samora, da Globo Livros.

 

Fonte: DW Brasil

 

Sem segredos na consulta: veja 7 omissões que podem afetar a saúde

Em uma consulta médica, o silêncio pode ser tão perigoso quanto um diagnóstico errado. Omissões — como esquecer de mencionar um sintoma, minimizar um hábito ou não comentar dificuldades com o tratamento — podem distorcer exames, confundir o raciocínio clínico e atrasar tratamentos.

Embora muitas dessas situações pareçam inofensivas, elas têm impacto direto na tomada de decisão médica. Isso porque grande parte do diagnóstico se baseia na história clínica relatada pelo paciente. Quando ela é incompleta, o profissional pode interpretar sinais de forma isolada, sem acesso ao contexto necessário para uma avaliação mais precisa.

Uma comunicação clara com o profissional de saúde ajuda a montar o quebra-cabeça do diagnóstico de forma correta e propor tratamentos mais assertivos. A seguir, conheça alguns dos casos mais comuns no consultório e por que podem custar caro.

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>> 1. “Estou tomando certinho”

Não tomar o remédio como prescrito é uma das omissões mais comuns — e perigosas. “É muito frequente o paciente afirmar que toma a medicação corretamente, mas quando conversamos com mais calma percebemos esquecimentos frequentes, pausas no tratamento ou mudanças de dose feitas por conta própria”, relata o cardiologista Murilo Meneses Nunes, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

Quando isso ocorre, o médico pode concluir que a doença piorou ou que o tratamento não funciona, levando a troca de medicamentos, aumento de dose ou exames desnecessários. “Quando essa informação não aparece, o raciocínio clínico pode seguir um caminho errado”, alerta Nunes.

Em alguns casos, o impacto vai além. “Falhas no uso de anti-hipertensivos podem elevar de 20% a 30% o risco de infarto ou AVC [acidente vascular cerebral] ao longo do tempo”, exemplifica o cardiologista Angelo Amato Vincenzo de Paola, docente da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

>> 2. “Tá tudo bem com o tratamento”

Muitos pacientes não contam que discordam do tratamento, seja por custo do medicamento, medo dos efeitos colaterais ou dificuldade de seguir os horários. O resultado costuma ser um abandono silencioso.

“Se o médico não tem acesso a essas dificuldades, pode interpretar que o tratamento não está funcionando e acabar modificando a conduta sem perceber que a principal barreira era a adesão”, alerta o médico do Einstein. Com o tempo, isso afeta o controle de doenças e aumenta o risco de complicações.

Por isso, é importante que o paciente se sinta à vontade para dizer quando algo no plano estabelecido pelo profissional de saúde não está funcionando. Muitas vezes, existem alternativas ou ajustes que tornam o tratamento mais simples e viável.

>> 3. “Minha rotina é saudável”

Será? Alimentação ruim, sedentarismo, sono inadequado e consumo de álcool, outras drogas ou cigarro são frequentemente minimizados. Quando essas informações não aparecem na consulta ou são diminuídas, o médico pode interpretar um exame alterado sem entender o contexto real que gerou aquele resultado. E o paciente perde a oportunidade de entender melhor sobre os impactos daquilo na saúde.

O consumo de álcool, tabaco e outras substâncias pode alterar o metabolismo de medicamentos, aumentar efeitos adversos ou modificar a resposta ao tratamento. Omitir o hábito de fumar, por exemplo, pode também interferir nos cálculos de risco cardiovascular. “De dois a cinco cigarros por dia aumentam em 20% o risco de arritmias e em 50% o de insuficiência cardíaca”, alerta o professor da Unifesp.

Todos esses hábitos estão associados a uma série de doenças crônicas e podem modificar o risco global do paciente. Quando o médico desconhece esse contexto, pode escolher um tratamento que não seja o mais adequado para aquela realidade.

>> 4. “São só coisinhas bobas”

Muitas doenças crônicas se desenvolvem lentamente e com sintomas iniciais discretos. Informações como histórico familiar, alterações no peso, fadiga persistente, mudanças no sono, sede excessiva ou episódios ocasionais de mal-estar podem parecer detalhes isolados, mas ajudam a orientar o raciocínio diagnóstico.

“Quando essas informações não aparecem, o médico pode não perceber sinais iniciais que justificariam investigação mais aprofundada. Isso pode atrasar o diagnóstico e, consequentemente, o início do tratamento”, adverte Murilo Nunes.

>> 5. “Prefiro não comentar algo tão íntimo”

A vergonha ainda é um grande filtro no consultório, mas ela pode levar a atraso em diagnósticos. Escape de urina, diarreia frequente ou problemas nas relações sexuais podem parecer desconectados da queixa principal, mas muitas vezes são sinais importantes de diversas condições médicas.

“Alterações intestinais persistentes, sintomas urinários, dor nas relações sexuais ou disfunção erétil podem indicar desde alterações hormonais e metabólicas até problemas urológicos, ginecológicos, neurológicos ou psicológicos”, afirma Nunes. Em alguns casos, também podem estar associados a efeitos colaterais de medicamentos. Doenças cardíacas e diabetes, por exemplo, podem desencadear a disfunção erétil.

Quando o paciente evita falar sobre isso por constrangimento, o médico perde uma informação que poderia direcionar a investigação. Além disso, esses sintomas frequentemente têm impacto importante na qualidade de vida, nos relacionamentos e na saúde mental. Ao não serem abordados na consulta, os pacientes continuam lidando com o problema sem orientação adequada.

>> 6. “É só um chá/suplemento”

Muitos pacientes não mencionam chás, fitoterápicos, suplementos e fórmulas manipuladas porque acreditam que não são relevantes ou que são produtos sem risco. O problema é que essas substâncias podem interagir com outros medicamentos ou alterar exames laboratoriais.

Também podem conter hormônios, estimulantes ou até substâncias com efeito metabólico importante. Se o médico não sabe que o paciente está usando esses produtos, pode atribuir alterações laboratoriais a outras causas e acabar conduzindo a investigação de forma menos precisa.

>> 7. “Meus outros tratamentos não são importantes”

Sem acesso à lista completa de medicamentos em uso, o médico pode prescrever fármacos semelhantes ou da mesma classe terapêutica sem perceber. Isso pode levar à duplicidade de tratamento, além de elevar o risco de efeitos adversos e atrapalhar a análise de determinados sintomas ou alterações em exames.

<><> Como ter uma consulta mais eficiente

Preparar-se para a consulta ajuda a extrair o melhor daquele momento. Uma estratégia simples e eficaz é montar um “relatório pessoal”, anotando os sintomas que vêm sendo percebidos, quando começaram, com que frequência aparecem e se existe algo que parece piorar ou aliviar o quadro. Também é fundamental levar uma lista completa e atualizada de todos os medicamentos em uso, incluindo vitaminas, chás, suplementos e fórmulas manipuladas.

Ter em mãos exames anteriores e registrar previamente as principais dúvidas ajuda a tornar a conversa mais objetiva e produtiva. Durante a consulta, é importante se sentir à vontade para abordar até os temas mais delicados. Se algo causa vergonha, vale sinalizar isso ao médico para abrir espaço ao diálogo.

Não tenha receio de dizer que não entendeu termos técnicos e explicações confusas. A honestidade sobre hábitos de vida e discordância do tratamento proposto é outro ponto essencial. “O objetivo não é julgar o paciente, mas compreender o cenário real de saúde para tomar decisões mais seguras”, resume o cardiologista do Einstein em Goiânia.

 

Fonte: CNN Brasil

 


 

Luiz Filgueira: Lula, Maquiavel e a eleição

Nicolau Maquiavel, pensador considerado por muitos como o fundador da Ciência Política, pouco lido hoje, é desde sempre identificado e criticado, de forma equivocada, por supostamente advogar práticas  e métodos imorais, desonestos, fraudulentos e violentos – enfim, “maquiavélicos” – em especial expressos no seu livro mais famoso: O Príncipe (escrito em 1513 e com primeira edição em 1532). Na origem dessa (in)compreensão, e de sua difusão, está a Igreja de Roma, que Maquiavel, em seu tempo, identificava como o principal inimigo da unificação da Itália – objetivo maior de seu pensamento e sua ação política.

Com ele, a política ganhou autonomia frente a outras áreas do conhecimento: economia, moral, ética, direito etc. Nessa perspectiva, passou-se a reconhecer que essa área do pensamento e da ação humana tem uma dinâmica própria, que não está subordinada à moral privada e à ética cristã – como os seus antecessores e contemporâneos compreendiam. A política é pensada e praticada a partir da ótica da “razão de Estado”, na qual a guerra não é o seu oposto, mas sim um dos seus possíveis desdobramentos.

Desse modo, a diferença fundamental entre ele e os seus antecessores é que estes trataram e discutiram a política “como ela deveria ser”, enquanto Maquiavel observou, tratou e discutiu a política “como ela é de fato”. Apoiou-se em seus estudos dos filósofos e historiadores da Antiguidade Clássica e, principalmente, tendo por referência a sua experiência de 14 anos como funcionário-Chanceler da Cidade-Estado de Florença.

No seu pequeno livro, Maquiavel, preocupado em evidenciar a “verdade efetiva das coisas”,  desnuda para o povo o caráter e a natureza da política e dos governantes, cujo objetivo fundamental é chegar ao poder e mantê-lo. Em particular, aponta os métodos utilizados pelos “Príncipes” que foram bem-sucedidos em suas ações e o comportamento daqueles que fracassaram em atingir os seus objetivos.

Para o fim deste artigo, o que nos interessa de seu pensamento é o que consideramos o seu núcleo central, qual seja: os conceitos de “fortuna” e “virtude”, elaborados por ele, para refletir, respectivamente, sobre as mutáveis circunstâncias (condições) objetivas do ambiente político (distintas conjunturas) e, de outro, sobre a vontade e ação política dos Príncipes (os sujeitos políticos) em cada conjuntura. Para ele a relação fortuna-virtude é decisiva para entender porque alguns vencem e outros fracassam. A ideia é a seguinte:

A fortuna se refere às circunstâncias fundamentalmente imprevisíveis e incontroláveis (externas), com as quais os sujeitos políticos se defrontam em sua ação política, que colocam situações e problemas novos que devem ser enfrentados – cujas soluções estão limitadas por essas mesmas circunstâncias. Mas isso não se confunde com destino, fatalismo inexorável, poder cego e incontrolável; a ação dos sujeitos pode enfrentar a fortuna, influenciá-la e parcialmente direcioná-la. Para isso, estes devem adaptar os seus comportamentos e as suas ações a ela – o que remete ao significado e à importância do conceito de virtù.

A virtude para Maquiavel, diferentemente da concepção de seus contemporâneos, não se identifica com as conhecidas virtudes cristãs, que caracterizam um “homem bom” e estão associadas à salvação da alma. O homem de ação, ele mesmo imerso nos acontecimentos, tem capacidade, determinação, energia e engenhosidade, capacidade de adaptar o seu comportamento e as suas ações às circunstâncias, às necessidades das diversas conjunturas, de acordo com os distintos problemas colocados objetivamente. Assim, o sujeito político deve interferir sobre a fortuna, mas ser guiado pela necessidade política (pragmatismo), e ter a capacidade, caso necessário, de “mudar a sua natureza”, adaptando-a aos tempos. Todas as suas ações políticas devem estar coerentes com esse princípio geral, independentemente de estarem ou não compatíveis com as virtudes cristãs – sob a pena de ser derrotado, inexoravelmente, pela fortuna.

Em suma, a fortuna é algo externo ao sujeito político, está fora de seu controle, não está subordinada a sua vontade e nem pode ser prevista quando vai mudar (a incerteza é própria da política); portanto, o Príncipe virtuoso é aquele que consegue entender as circunstâncias de cada momento, e suas mutações, adaptando a sua vontade e a suas ações a elas, de forma a tirar o máximo proveito da nova situação, procurando direcioná-la a seu favor. E, mais especialmente, a virtude maior do sujeito político é ter a capacidade de se adaptar ativamente à fortuna mesmo que isso signifique contrariar a sua própria natureza.

<><> Lula: fortuna e virtude

Como é do conhecimento de quase todos, os governos Lula, em particular o seu segundo governo, obteve um enorme sucesso, mesmo sem modificar/alterar as características essenciais do Padrão de Desenvolvimento Capitalista Liberal-Periférico – constituído no Brasil desde o início dos anos 1990. Ao fim e ao cabo, os seus resultados econômicosociais o diferenciaram fortemente dos governos de FHC.

Intelectuais e políticos da direita neoliberal explicam esse sucesso como uma questão de “sorte”; o Lula foi um sortudo: além de, supostamente, ter se beneficiado da “casa arrumada” por FHC em razão das reformas neoliberais implementadas por este, teve a sorte grande da China ter ingressado na OMC e alterar completamente os mercados de commodities ofertadas pelos países da periferia do capitalismo. Essa teria sido a razão fundamental do sucesso de Lula, que deixou o governo com 80%  de aprovação.

No âmbito da esquerda, para a sua parte majoritária, a causa fundamental teria sido a superação do “Modelo Neoliberal” e a adoção do “Modelo Neodesenvolvimentista”; este último resgatando as políticas econômicas do antigo desenvolvimentismo, mas agora com distribuição de renda, decorrente das políticas sociais adotadas.

Observando o fenômeno do ponto de vista do pensamento de Maquiavel, não resta dúvida que, desde o início dos anos 2000 – portanto, antes mesmo do início do primeiro governo Lula – as circunstâncias internacionais se alteraram, com o crescimento mundial passando a ser “puxado” pelo par China-EUA, com forte impacto sobre as contas externas (balança comercial e de transações correntes) dos países periféricos. Assim, a nova fortuna permitiu a esses países a redução de suas respectivas vulnerabilidades externas conjunturais, ao melhorar os seus balanços de pagamentos.

Diante desse quadro, o governo Lula soube ler e entender a fortuna que estava se constituindo, tendo tido a virtude de flexibilizar a política macroeconômica (metas de inflação, superávit fiscal primário e câmbio flutuante) herdada de FHC – que havia sido mantida rígida durante a primeira metade do primeiro governo, inclusive levando o país em 2003 a uma recessão. Como hoje, essa política, conhecida como o “tripé macroeconômico”, dificultava os gastos do governo (investimento e programas sociais) e mantinha taxas de juros elevadíssimas, com consequências decisivas sobre o baixo crescimento econômico e o elevado desemprego

Posteriormente contudo, a partir da segunda metade do primeiro governo, ao diminuir o superávit fiscal primário e reduzir a taxa de juros (o mesmo Regime de Política Macroeconômico, mas flexibilizado), em associação com a política de reajuste real do salário-mínimo (acima da inflação) e seus impactos nos benefícios da Previdência Social, juntamente com outras políticas sociais (Bolsa-Família), o resultado foi mais crescimento econômico, redução do desemprego e uma pequena melhora na distribuição de renda (no âmbito dos rendimentos do trabalho). Adicionalmente, a utilização dos bancos públicos e da Petrobrás também foi decisiva para alavancar a economia, que teve como símbolo maior a política “dos campeões nacionais” implementada pelo BNDES

Em suma, sem confrontar as reformas neoliberais e o capital financeiro, mas sabendo ler as novas circunstâncias internacionais, o governo Lula flexibilizou o Regime de Política Macroeconômica – que permitiu um desempenho econômico-social muito melhor do que aquele do período dos dois governos FHC. E para isso, Lula não precisou ir de encontro a sua própria natureza conciliadora; as novas circunstâncias (crescimento econômico) possibilitaram-lhe administrar os interesses opostos (capital X trabalho) e deslocar o conflito político para a oposição ricos X pobres.

<><> A natureza conciliadora de Lula e o seu terceiro governo

A natureza conciliadora de Lula, sempre disposto a negociar com todos, é amplamente conhecida pelos que acompanham sua trajetória desde a sua época de dirigente sindical. Como dirigente político a sua tendência à conciliação, particularmente a partir dos anos 1990, se aprofundou – apenas mudando o escopo de negociação, que se ampliou e se tornou mais complexa.

Acontece que a crise geral do capitalismo de 2007/2008, prolongada com a crise do euro em 2010, trouxe uma nova fortuna, novas circunstâncias econômicas e políticas que afetaram as relações internacionais e todos os países do mundo. No Brasil, o impulso econômico propiciado pelas importações chinesas reduziu-se a partir do governo Dilma e o crescimento econômico desacelerou. A tentativa desse governo de se contrapor a essa desaceleração, através de isenções fiscais para o capital, não funcionou. Os capitalistas não investiram os recursos obtidos, mas aplicaram no mercado financeiro com a compra de títulos do governo. E o pior, a redução das receitas públicas, decorrente da política de isenção, criou um problema fiscal, expresso em déficits primários.

Na sequência, o segundo governo Dilma, logo no seu início, implementou um “ajuste fiscal”, a austeridade preconizada e proposta pela direita neoliberal; o resultado todos conhecem: uma enorme recessão, que foi fundamental para a desestabilização do governo e a construção do golpe de Estado de 2016 – com o impedimento da Presidente. Para piorar, assistiu-se, a partir da crise mundial, à ascensão da extrema direita neofascista, expressa no Brasil pelo bolsonarismo, que começou a vir à tona em meio às manifestações de 2013 e da campanha do impeachment em 2015-16, consolidando-se definitivamente com o governo Temer e, a seguir, com a eleição em 2018 de Jair Bolsonaro.

O desastroso governo Bolsonaro, em todas as áreas (economia, educação, saúde, meio ambiente, relações internacionais etc.), abriu as portas para o terceiro mandato de Lula, mas em uma conjuntura completamente distinta da existente durante os seus dois governos anteriores. Nas novas circunstâncias, as forças políticas  adversárias ampliaram-se: à direita neoliberal tradicional, cada vez mais caudatária da extrema direita neofascista em todo o mundo, veio juntar-se o bolsonarismo que, apesar de derrotado (por um fio) na eleição para presidente, elegeu uma grande bancada de deputados e senadores. Adicionalmente, o empoderamento do Parlamento desde o governo Temer, com a aprovação do caráter obrigatório para as emendas parlamentares (secretas ou não), enfraqueceu o Poder Executivo na sua relação com o Poder Legislativo. O chamado “Presidencialismo de Coalizão” sofreu um forte abalo, com a perda de poder de negociação do Presidente da República

Nesse cenário adverso, Lula vem tocando o seu terceiro governo do mesmo modo como fez em seus dois governos anteriores: desconsiderando a necessidade de mobilização popular e com ampla negociação encapsulada no Parlamento, sancionando uma correlação de forças desfavorável. No entanto, em momentos pontuais apostou na mobilização popular e obteve, exemplarmente, a aprovação da isenção do imposto de renda para quem ganha até 5 mil reais, barrou a anistia para Bolsonaro e os golpistas e enfrentou vitoriosamente, de forma soberana, a taxação de Trump contra as exportações brasileiras.

A conciliação com a austeridade expressou-se no Novo Arcabouço Fiscal, substituto do famigerado Teto de Gastos do governo Temer, e na política monetária (juros estratosféricos) do Banco Central – que deram continuação ao Tripé Macroeconômico, agora de forma rígida. Como consequência, os programas e políticas dos governos anteriores de Lula foram reativados, após os ataques de Temer e Bolsonaro, mas de forma mais tímida e precária. Além disso, a desestruturação da cadeia produtiva do petróleo, em particular o fatiamento da Petrobrás promovida pelos governos de Temer e Bolsonaro, retirou do governo um importante instrumento de política econômica.

Apesar disso tudo, a  taxa média de crescimento da economia brasileira no atual governo ainda vai se situar em torno de 2,7% e a taxa de desocupação é a menor da série histórica, não podendo deixar de se observar, contudo, que os empregos gerados são de baixíssima qualidade. De qualquer sorte, nas novas circunstâncias, o melhor desempenho da economia, expresso nos diversos indicadores econômicos, não tem se refletido em uma melhor avaliação do governo e de Lula. Apostar que o crescimento, por si só, associado a políticas sociais inclusivas, é suficiente para “ganhar politicamente” a maioria da população não tem se mostrado efetivo. Isso já havia sido constatado quando eclodiram as manifestações de junho de 2013, mas parece que não foi registrado.

Nesse novo contexto, o “Centrão”, a direita neoliberal e o neofascismo passaram durante todo o período emparedando e “disciplinando” o terceiro governo Lula que, após os momentos de mobilização acima citados, continuou com sua “tática negociadora restrita ao Parlamento”. Agora, recentemente, a vitória da “pequena política” mais uma vez se impôs: o amplo leque oposicionista derrotou o governo em duas pautas importantes, reprovando a sua indicação para ministro do STF e derrubando os vetos de Lula na proposta de dosimetria (redução das penas para Bolsonaro e os demais golpistas) que havia sido aprovada pelo Parlamento.

Estamos em um momento decisivo (há apenas cinco meses para a eleição) e não há o menor sinal de se retomar a mobilização popular. Parece que, diferentemente dos seus governos anteriores, Lula não conseguiu ler as novas circunstâncias com que se deparou em seu terceiro governo, isto é, não conseguiu se adaptar à mudança da fortuna, que exigiria ir de encontro a sua própria natureza conciliadora. No passado, a conciliação pôde funcionar, propiciando ganhos econômico-sociais conjunturais para a classe trabalhadora. Em um momento de crescimento econômico e inexistência ainda do movimento neofascista, Lula conseguiu arbitrar o conflito capital-trabalho. Hoje, contudo, a fortuna é outra: exigiria, desde o início do terceiro governo, forte mobilização popular como base para qualquer negociação, dentro e fora do Parlamento.

Mas essa “mudança de chave” não ocorreu, apesar dos dois discursos proferidos por Lula (nos EUA em setembro de 2025 e, mais recentemente, na Espanha) nos quais reconhece e faz a crítica da esquerda por ter abandonado a organização e mobilização popular. O retardatário apoio (mas sem mobilização) do governo Lula, do PT e dos sindicatos em geral, mas particularmente da CUT, ao fim da escala de trabalho 6X1 é exemplar da incapacidade de entender as novas circunstâncias.

E aqui chegamos a um ponto crucial: a leitura de Maquiavel, feita por Gramsci, anota que, no quadro do capitalismo e da luta de classes travada entre capital e trabalho, o “Príncipe” não deve ser entendido e reduzido a um indivíduo – por mais virtuoso que este possa ser. Na condição de “Principe”, mais importante que o indivíduo é o partido político da classe trabalhadora, desde que este assuma a direção do processo político, organizando e mobilizando a classe. Na década de 1980, com a criação do PT e sua forma de atuação, parecia que estávamos assistindo à constituição do “Principe Moderno” no Brasil. No entanto, a partir dos anos 1990, com vitória do neoliberalismo, esse projeto descarrilhou – da mesma forma como havia ocorrido com os partidos social-democratas, socialistas e trabalhistas nos países centrais do capitalismo; o processo de “transformismo” abortou a construção do “Príncipe Moderno”. Por isso, a responsabilidade de todo esse processo não é apenas de Lula e de seu governo; ela é também dos partidos de esquerda, sindicatos e centrais sindicais ligados organicamente a Lula e a este governo.

O resultado disso tudo, é que neofascismo e a direita neoliberal, ambos cada vez mais associados, sentiram-se estimulados e empoderados a “emparedar” o governo. A disputa eleitoral será, ou já está sendo, duríssima. As forças políticas neoliberais, em sua quase totalidade, estão com o bolsonarismo. A resposta a isso, só pode ser a imediata mobilização popular em torno dos temas que ainda estão sendo objeto de decisões do Congresso Nacional (em especial o fim da escala 6X1) e da eleição de Lula. Ou vai-se continuar esperando que o “gênio negociador” de Lula encontre a saída das dificuldades? A hora é agora, é a última hora!

 

Fonte: Outras Palavras


Por que a CIA multiplicou os templos, sufocou a Teologia da Libertação e pariu o projeto de poder evangélico?

Relatórios desclassificados revelam como Washington instrumentalizou a liberdade religiosa na ditadura militar para criar um "anticorpo espiritual" contra o avanço da esquerda no Brasil...

Havia um método na multiplicação dos templos. Nas décadas de 1960 e 1970, enquanto a ditadura militar apertava os parafusos da repressão no Brasil, uma revolução silenciosa disputava corações e mentes nos grotões e nas periferias. Sob o véu da liberdade religiosa, cruzadas evangelísticas e o avanço do movimento evangélico brotavam por todo o país, mas os tijolos dessa expansão nem sempre vinham apenas de doações de fiéis. Documentos secretos, relatórios de inteligência e investigações independentes, reunidos aos poucos como peças de um quebra-cabeça que muitos queriam manter incompleto, apontam para um padrinho improvável por trás dos púlpitos: a Agência Central de Inteligência dos Estados Unidos (CIA).

Durante a Guerra Fria, Washington tinha pavor de que o vírus comunista infectasse o “quintal” latino-americano. A preocupação se intensificou quando setores progressistas da Igreja Católica abraçaram a Teologia da Libertação, uma leitura do Evangelho que colocava Cristo ao lado dos pobres. Para o establishment estadunidense, aquilo era marxismo travestido de batina. Foi nesse contexto que a CIA passou a enxergar as igrejas evangélicas como uma espécie de anticorpo espiritual — e a investir pesado em sua proliferação.

<><> Bispos denunciam a infiltração

Um dos primeiros alertas veio de dentro da própria Igreja Católica. Em 1985, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) enviou um relatório bombástico ao Vaticano. O documento, citado pelo jornal The Washington Post naquele mesmo ano, afirmava que a CIA havia se infiltrado em grupos religiosos não católicos no Brasil e que “fortes grupos, especialmente dos Estados Unidos, enviam grandes somas de dinheiro para as atividades de grupos religiosos independentes”. Os bispos mencionavam nominalmente “seitas evangélicas protestantes” que chegavam ao país com auxílio americano, obtendo vistos com facilidade — privilégio negado aos missionários católicos comprometidos com a causa dos pobres. O relatório também alertava que o esquema parecia fazer parte de uma “estratégia global americana”, que incluía a infiltração direta em determinados grupos.

<><> O recrutamento de missionários

Os dados não param nas denúncias eclesiásticas. Em 1975, pressionada por organizações religiosas, a própria CIA admitiu que usava missionários e clérigos como informantes e para atividades encobertas na América Latina. Uma investigação do jornalista John Marks, coautor do livro The CIA and the Cult of Intelligence, revelou que entre 30% e 40% dos missionários que ele entrevistou tinham alguma história de conexão entre igreja e inteligência para contar. Um veterano de 20 anos na agência foi direto: “Usaria qualquer um para alcançar meus objetivos. Já usei monges budistas, padres católicos e até um bispo”.

<><> Da Casa Branca aos templos

Como esse dinheiro chegava ao chão brasileiro? Documentos recentemente desclassificados e analisados pelo historiador Rodrigo de Sá Netto, da Universidade Federal Fluminense (UFF), mostram um sofisticado esquema de triangulação. O governo dos EUA, por meio de agências como a Agência dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (USAID) e a Agência de Informação dos Estados Unidos (USIA), canalizava recursos para organizações missionárias que atuavam como verdadeiras multinacionais da fé.

O Conselho de Segurança Nacional estadunidense registrava, já nos anos 1960, a presença disseminada de missões evangélicas estrangeiras na Amazônia. Pesquisadores e organizações indigenistas passaram posteriormente a associar parte dessas missões à política de integração forçada de povos indígenas, à expansão de interesses econômicos sobre a região e às estratégias anticomunistas de Washington durante a Guerra Fria.

<><> A estratégia desenhada

A peça central desse debate é o Relatório Rockefeller. Em 1969, a pedido do presidente Richard Nixon, Nelson Rockefeller percorreu a América Latina em uma missão para avaliar a região em meio ao avanço de forças nacionalistas, populares e de esquerda.

O relatório identificou setores da Igreja Católica como uma força de mudança social, em alguns casos “revolucionária se necessário”, e apontou a influência da conferência episcopal de Medellín, de 1968. Anos depois, essa leitura seria associada por pesquisadores e críticos da política estadunidense ao estímulo de Washington a correntes religiosas conservadoras, sobretudo evangélicas, como forma de conter a Teologia da Libertação e o avanço da esquerda no continente.

<><> O voo das multinacionais da fé

Sob esse guarda-chuva, desembarcaram no Brasil organizações como o Summer Institute of Linguistics (SIL), braço da missão Wycliffe Bible Translators. Oficialmente dedicado a traduzir a Bíblia para línguas indígenas, o SIL construiu uma rede de bases na Amazônia com infraestrutura que incluía sistema próprio de rádio e aviação — o Jungle Aviation and Radio Service (JAARS) — e recebia financiamento de petrolíferas como a Shell e de agências governamentais estadunidenses.

Sua atuação, segundo os repórteres Gerard Colby e Charlotte Dennett, ia muito além da tradução bíblica: funcionava como “vanguarda da destruição das florestas tropicais”, preparando terreno para a exploração de recursos naturais. Outro veículo crucial foi a Campus Crusade for Christ — atualmente CRU —, que liderou a campanha “Here’s Life” em 1974 com apoio direto de oficiais consulares estadunidenses no Brasil, promovendo um cristianismo despolitizado e anticomunista.

Emissoras como a Trans World Radio e a HCJB, sediada no Equador, transmitiam sermões de coloração anticomunista para vastas áreas onde a Teologia da Libertação vinha ganhando terreno.

<><> Igrejas que nasceram nesse caldo

Muitas das denominações que hoje contam com milhões de fiéis foram fundadas ou impulsionadas nesse ambiente. A Igreja do Evangelho Quadrangular chegou ao Brasil em 1951, enviada diretamente dos Estados Unidos, abrindo caminho para que pastores brasileiros fundassem a Igreja Deus é Amor e a Igreja Brasil para Cristo — denominações que serviram de base para que Edir Macedo erguesse, em 1977, a poderosa Igreja Universal do Reino de Deus.

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Há também a controversa Igreja da Unificação, do reverendo Moon. Documentos do serviço secreto brasileiro mostram que a ditadura militar a protegeu abertamente porque a igreja “fazia atividades de conscientização política anticomunista” e “denunciava sistematicamente as mazelas do comunismo”.

<><> O monitoramento do voto evangélico

O interesse da inteligência estadunidense não era apenas doutrinário: era eleitoral. Em 1989, quando Luiz Inácio Lula da Silva despontava como candidato viável à Presidência, a CIA passou a dedicar espaço inédito em seus relatórios sobre o Brasil ao voto evangélico. A agência examinava “sua estrutura de poder, formada por milhões de votos, igrejas e redes de comunicação” e destacava o papel da Igreja Universal do Reino de Deus e de Edir Macedo, que, na avaliação dos analistas, comungava do mesmo objetivo das Organizações Globo: “evitar o milagre de um operário, sem curso superior, virar presidente no Brasil”.

<><> O legado que permanece

Essa arquitetura, construída tijolo por tijolo durante três décadas, transformou o mapa religioso brasileiro. O censo de 2010 já mostrava que os católicos haviam caído de 93,5% da população, em 1950, para menos de 65%, enquanto os evangélicos disparavam para mais de 22% — percentual que, segundo projeções, pode ultrapassar 30% no próximo censo.

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Os filhos daquela estratégia continuam ativos. Em 2019, o grupo ultraconservador Capitol Ministries, com raízes profundas no Partido Republicano estadunidense, instalou-se em Brasília e obteve acesso a integrantes do governo Bolsonaro. E, em 2023, a Polícia Federal (PF) constatou que igrejas batistas, presbiterianas e Assembleias de Deus teriam financiado ônibus e recrutado participantes para os atos golpistas de 8 de janeiro, que culminaram na invasão das sedes dos Três Poderes.

<><> A fé como instrumento de poder

A história aqui contada não é sobre fé genuína. É sobre como a fé pode ser instrumentalizada para fins geopolíticos. Os documentos que revelam essa trama — alguns disponíveis apenas de forma fragmentada, outros ainda classificados — mostram que, por trás de muitas igrejas que hoje moldam a política nacional, há um projeto de poder meticulosamente arquitetado durante a Guerra Fria.

Como escreveu o analista político Germán Gorraiz López, as igrejas evangélicas latino-americanizadas “conseguiram traçar uma nova arquitetura espiritual no chamado quintal dos Estados Unidos, enquanto teciam uma densa rede de contatos como agentes encobertos da CIA para apoiar candidatos leais aos interesses americanos”.

Não se trata de demonizar a crença de milhões de brasileiros. Trata-se de compreender que, em certos momentos da história, a mão invisível do mercado pode ser, na verdade, a mão bastante visível de uma agência de inteligência. E que, entre o púlpito e o altar, às vezes há um microfone ligado diretamente a Langley.

¨      Evangélicos e poder: a disputa pela alma política do Brasil. Por Paulo Cannabrava Filho

O crescimento das igrejas evangélicas no Brasil deixou de ser apenas um fenômeno religioso para se tornar um fator central na disputa política. Em ano eleitoral, essa presença ganha ainda mais peso e levanta uma preocupação evidente: estamos diante de um projeto organizado de poder.

Hoje, os evangélicos já se aproximam de algo em torno de um terço da população brasileira, com projeções indicando avanço contínuo. Esse crescimento se expressa em números robustos. A Assembleia de Deus reúne cerca de 12 milhões de fiéis; a Congregação Cristã no Brasil, mais de 2 milhões; a Igreja Universal do Reino de Deus, 1,9 milhão; a Quadrangular, 1,8 milhão; Deus é Amor, 845 mil; além de diversas outras denominações que, somadas, alcançam milhões de brasileiros. Entre as igrejas tradicionais, destacam-se os batistas, com cerca de 3,7 milhões, e os adventistas do sétimo dia, com 1,5 milhão, além de luteranos, presbiterianos e metodistas.

Esse contingente não está disperso. Ele vem sendo sistematicamente trabalhado politicamente. O Partido Liberal (PL), por exemplo, mapeia essas igrejas com o objetivo de transformá-las em base eleitoral organizada. Lideranças religiosas assumem papel direto na política, orientando votos e mobilizando fiéis. Um caso emblemático é o da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, do pastor Silas Malafaia, que já declarou apoio ao senador Flávio Bolsonaro, projetado como candidato à Presidência da República, levando essa influência diretamente para dentro da disputa eleitoral.

Mas esse movimento não pode ser analisado apenas no plano doméstico. Em A Nova Roma, mostro como os Estados Unidos se consolidaram como uma potência imperial também através da instrumentalização da fé. Grande parte dessas denominações tem origem nos Estados Unidos e carrega consigo uma visão teológica que não é neutra: trata-se da teologia da prosperidade e, em muitos casos, da chamada teologia do domínio, que desloca o foco da justiça social para a legitimação do poder e da riqueza.

Esse avanço contrasta com o papel histórico da teologia da libertação, que aproximava a Igreja Católica das camadas populares e colocava a fé a serviço da transformação social. O que vemos agora é uma inversão: a religião sendo utilizada como instrumento de conformação e controle.

Há ainda um componente geopolítico que não pode ser ignorado. Em estudo recente, o jornalista Leonardo Wexel Severo demonstra como determinadas seitas religiosas atuam articuladas a interesses externos, funcionando como extensão de estratégias políticas, inclusive vinculadas ao Estado de Israel. Em países como a Guatemala, esse processo se deu sob um clima de terror e repressão, frequentemente silenciado pela mídia hegemônica.

No Brasil, sinais desse alinhamento aparecem no uso recorrente de símbolos de Israel em cultos e atividades religiosas, apresentados como referência espiritual incontestável. No entanto, esse discurso pode operar como instrumento de despolitização e desvio de foco, enquanto se constrói, na prática, um projeto de ocupação de espaços de poder.

A situação é crítica. Mais do que nunca, o desafio é levar à população a verdade dos fatos, romper o véu da manipulação e do uso político da fé. Em ano eleitoral, cabe exigir do candidato das forças democráticas não apenas resistência, mas um projeto claro de salvação nacional — capaz de recuperar a soberania, reafirmar o caráter laico do Estado e devolver à política seu compromisso com o interesse público.

¨      Fé em Deus, voto na família: o culto político que expõe o poder dos púlpitos

A crescente influência política das igrejas evangélicas no Brasil tem ampliado o debate sobre os limites entre fé, poder e processo eleitoral. Em diferentes regiões do país, templos religiosos têm se transformado em espaços de mobilização política, onde líderes religiosos e agentes públicos utilizam cultos para apresentar candidaturas, pedir apoio eleitoral e consolidar bases de sustentação entre os fiéis. O fenômeno, embora não seja novo, ganha contornos mais evidentes à medida que as eleições se aproximam, especialmente em estados onde a força do eleitorado evangélico é decisiva. Em tese, a legislação eleitoral brasileira permite que candidatos frequentem ambientes religiosos e até participem de eventos públicos. No entanto, especialistas apontam que o uso de púlpitos para promoção política e a vinculação explícita entre fé e voto levantam questionamentos éticos e jurídicos sobre abuso de poder religioso e possível desequilíbrio na disputa eleitoral. Embora ainda não exista tipificação específica na legislação para “abuso de poder religioso”, o tema já é alvo de debates recorrentes no âmbito da Justiça Eleitoral. Um exemplo recente ocorreu em Roraima, envolvendo o deputado estadual Isamar Júnior. Durante um culto evangélico realizado na igreja liderada por sua família, o parlamentar anunciou que abriria mão da candidatura à reeleição para apoiar dois projetos políticos familiares: a candidatura do pai, o pastor Isamar Ramalho, ao Senado Federal, e a da mãe, missionária Maria de Nazaré Sodré Ramalho, à Assembleia Legislativa de Roraima. A declaração ocorreu diante de membros da congregação e repercutiu nos bastidores políticos do estado. No mesmo discurso, o parlamentar afirmou que colocaria sua estrutura política à disposição da campanha do pai, mencionando inclusive o mandato e servidores vinculados ao gabinete parlamentar. A fala gerou questionamentos sobre eventual uso da máquina pública em benefício eleitoral, sobretudo pelo fato de a declaração ter sido feita em um ambiente religioso, diante de fiéis da denominação comandada pela própria família. O episódio reacendeu um debate nacional sobre o papel das igrejas na política. Para críticos, a utilização de cultos como espaço de articulação eleitoral pode comprometer a liberdade de escolha do eleitor, especialmente quando há influência direta de lideranças religiosas sobre os fiéis. Já defensores da participação política das igrejas argumentam que líderes religiosos têm direito à manifestação política e que comunidades de fé também fazem parte do tecido democrático do país. Em “pente fino” na atuação do parlamentar é possível constatar que o mandato não foi suficiente para demandas reais da população, se limitando a causas evangélicas como a criação do Dia da Bíblica em Roraima ou a condecoração com honrarias da Assembleia Legislativa de Roraima (ALERR) ao próprio pai. No início do mandato, Isamar também se envolveu em uma grande polêmica ao supostamente receber dinheiro público e ir assistir a um jogo de futebol no Rio de Janeiro, quando deveria estar representando a Casa Legislativa em Brasília. Nas últimas décadas, o crescimento da bancada evangélica e da influência religiosa nas disputas eleitorais consolidou uma nova dinâmica política. Pastores, bispos e líderes ministeriais passaram a atuar não apenas como formadores de opinião moral, mas também como articuladores eleitorais, frequentemente apresentando candidatos “oficiais” das igrejas ou orientando o voto em nomes considerados alinhados aos valores religiosos. Em estados da região Norte, onde igrejas pentecostais e neopentecostais possuem forte capilaridade social, o fenômeno é ainda mais evidente. Cultos religiosos frequentemente se transformam em espaços de demonstração de apoio político, aproximando púlpito e palanque em uma relação que, para muitos observadores, redefine as fronteiras entre religião e poder no Brasil contemporâneo.

Fonte: Por Wagner França, em Presa Latina/Diálogs do Sul Global/Portal O Fato