sexta-feira, 2 de outubro de 2026

Abin, França e Alemanha: o que está acontecendo com a eleição brasileira

Em 30 de setembro de 2026, uma informação mudou o enquadramento da eleição brasileira. A Reuters revelou que representantes da inteligência do país receberam, entre 9 e 11 de setembro, uma delegação francesa e alemã em Brasília. Na mesa estavam interferência estrangeira, plataformas digitais e formas de resposta antes da votação. Pela França vieram integrantes da Viginum, especializada em interferência digital estrangeira, e da Arcom, reguladora de mídia e comunicação. A Alemanha enviou representantes de sua Agência Federal de Redes. Os documentos examinados pela Reuters registram entre os objetivos da missão a preparação de respostas coordenadas para o processo eleitoral de 2026.

Foi nesse encontro que representantes brasileiros falaram em interferência proveniente dos Estados Unidos e da Rússia. As duas atribuições, porém, não aparecem sustentadas da mesma forma. Segundo o relato conhecido, a atuação norte-americana teria ido do lawfare a formas de interferência reconhecidas publicamente. Sobre a Rússia, o documento acessado pela reportagem não apresenta evidência específica. Colocar as duas acusações no mesmo plano apagaria justamente o que a informação disponível permite distinguir.

A composição da reunião ajuda a entender por que ela importa. Viginum, Arcom e a agência alemã não foram a Brasília para discutir apenas uma postagem falsa ou um vídeo adulterado. São estruturas que lidam com regulação, redes, segurança e interferência. A presença delas indica que o problema eleitoral brasileiro já está sendo observado como algo que combina tecnologia, poder estatal e capacidade de influência transnacional.

A Abin vinha preparando esse terreno conceitual. Em seu documento de desafios para 2026, descreveu o domínio digital como arena de competição geopolítica, apontou a dependência brasileira de infraestrutura tecnológica estrangeira como vulnerabilidade e admitiu que grandes plataformas podem funcionar como vetores de influência dos Estados onde estão sediadas. O mesmo documento reúne guerra cognitiva, espionagem, coerção e infraestrutura crítica dentro de um espectro híbrido. A Política Nacional de Inteligência, por sua vez, trata interferência externa como atuação deliberada voltada a influenciar os rumos políticos do país em benefício de interesses estrangeiros.

O risco, portanto, não começa apenas quando alguém tenta tocar na urna. Pode aparecer muito antes, na capacidade de uma potência, empresa ou rede política alterar o ambiente em que o país decide. Às vésperas da votação, a questão é simples e incômoda. Quem possui meios para condicionar a decisão brasileira, por quais caminhos e a serviço de quais interesses?

<><> A guerra está atrás da notícia

Durante muito tempo, o debate público sobre guerra informacional ficou preso à mentira visível. Procurava-se a postagem falsa, a fotografia adulterada, o vídeo manipulado, a frase inventada. Era necessário fazer isso, mas nunca bastou. Uma operação pode usar conteúdo verdadeiro, falso ou apenas deslocado de contexto. O que lhe dá força está na organização, no financiamento, na infraestrutura, na escolha do alvo e na capacidade de repetir um estímulo até transformá-lo em ambiente.

Minha pesquisa foi caminhando nessa direção ao longo dos últimos anos. Não por antecipação profética, muito menos por desejo de reivindicar primazia. Os próprios objetos impunham a mudança. Ao estudar metaintermediação algorítmica, autonomia cognitiva, gerrymandering digital e operações psicológicas, o problema reaparecia sob formas diferentes. Plataformas não transportam apenas informação. Classificam públicos, distribuem visibilidade, antecipam preferências e alteram o campo em que decisões são tomadas.

Em julho de 2025, eu já discutia o risco de uma infraestrutura capaz de antecipar escolhas interferir na própria formação da autonomia. Meses depois, ao tratar da guerra informacional em direção a 2026, a questão aparecia em termos de detecção, antecipação e capacidade estatal de resposta. A unidade de análise deixava de ser a peça isolada. O que precisava ser seguido era a operação.

A Viginum chegou institucionalmente a uma formulação muito próxima. O órgão francês deixa claro que não é uma agência de checagem de fatos. Seu objeto é o modo operatório informacional, observado por indicadores técnicos, comportamento dos operadores, coordenação, ferramentas, procedimentos e infraestrutura. Em junho de 2026, esse conceito foi incorporado a um marco comum do mecanismo de resposta rápida do G7, numa tentativa de deslocar a atenção das narrativas para os meios que tornam uma campanha possível.

Saber que uma mensagem é falsa ajuda a conter sua circulação. Descobrir quem a produziu, como foi distribuída, quais contas atuaram em conjunto, de onde vieram os recursos e que sistemas ampliaram seu alcance aproxima a investigação da estrutura responsável pelo efeito político. É nesse terreno que inteligência e jornalismo investigativo começam a se encontrar.

Não há razão para transformar essa convergência em vaidade. A Viginum trabalha com essa abordagem desde o início de 2025, e comunidades de inteligência e pesquisa em diferentes países chegaram por caminhos próprios a problemas semelhantes. O que importa é que a discussão brasileira permaneceu por tempo demais concentrada na oposição entre verdade e mentira enquanto a disputa já avançava sobre dados, recomendação, publicidade e distribuição.

A notícia falsa, quando existe, é o vestígio mais fácil de enxergar. A investigação estratégica começa depois dela, quando se segue a infraestrutura e se pergunta quem ganhou capacidade de produzir o efeito.

<><> A interferência deixou de ser uma hipótese abstrata

No caso dos Estados Unidos, já existe uma sequência concreta de atos de poder. Em junho de 2026, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos concluiu uma investigação aberta por determinação do presidente Donald Trump e classificou como passíveis de resposta medidas brasileiras que, segundo Washington, prejudicavam interesses comerciais norte-americanos. Entre os fundamentos estavam decisões de tribunais brasileiros contra plataformas digitais dos Estados Unidos, com ordens de remoção de conteúdo, suspensão de perfis e sanções por descumprimento. Em 15 de julho, a administração Trump impôs tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros.

Não é necessário atribuir a cada medida uma intenção eleitoral secreta para reconhecer o problema. Decisões tomadas dentro do sistema jurídico brasileiro passaram a produzir resposta econômica de uma potência estrangeira justamente quando o país entrava na reta decisiva da eleição. Quando o custo de uma escolha soberana começa a ser imposto de fora, a política comercial deixa de poder ser examinada separadamente do ambiente político em que atua.

A revelação da Reuters acrescentou outro elemento. No encontro com franceses e alemães, representantes brasileiros teriam descrito a atuação norte-americana como algo que ia do lawfare a formas abertas de interferência. É uma avaliação atribuída à inteligência brasileira e deve ser tratada com esse peso, nem mais nem menos. Sua gravidade está no fato de que não surgiu isolada, mas dentro de um contexto já marcado por pressão econômica, conflito com decisões judiciais brasileiras e articulação política transnacional.

A campanha de Flávio Bolsonaro expôs essa internacionalização de forma pública. No lançamento da candidatura, em julho, foram apresentados apoios de Javier Milei e Benjamin Netanyahu. Netanyahu apareceu por vídeo. Milei atacou Lula e exaltou Bolsonaro. Chefes de governos estrangeiros tomaram posição diante de uma candidatura à Presidência do Brasil, e a própria campanha incorporou esse apoio à sua cena política. Não é preciso imaginar clandestinidade onde a influência já se apresenta à luz do dia.

Ainda assim, as categorias precisam permanecer separadas. Apoio político, coerção econômica, influência informacional e operação clandestina produzem efeitos diferentes e exigem provas diferentes. Misturá-las pode render uma frase mais explosiva, mas destrói a análise. Guerra híbrida não é um rótulo para qualquer conflito. É uma forma de observar a combinação de instrumentos quando eles passam a convergir sobre a autonomia decisória de outro Estado.

Essa diferença de prova é especialmente importante no caso da Rússia. A Abin a mencionou, e há operações russas de influência documentadas em outros países, assim como presença informacional russa na América Latina. O material público conhecido sobre a eleição brasileira, contudo, não oferece o mesmo nível de detalhamento apresentado no caso norte-americano. Capacidade não equivale a autoria, e presença internacional não basta para demonstrar interferência eleitoral. Fazer essa distinção não suaviza a análise. Evita que ela seja contaminada por uma simetria que os fatos disponíveis não sustentam.

Israel exige cuidado semelhante. O apoio de Netanyahu a Flávio Bolsonaro é público. Também é documentada a existência de empresas israelenses que atuam nos mercados de inteligência, vigilância e operações de influência, e o Brasil conhece os riscos políticos de tecnologias estrangeiras de monitoramento quando elas entram em estruturas estatais sem controle adequado. Isso não prova que o governo israelense comande uma operação clandestina contra Lula. Mostra, porém, que interesses, redes políticas e capacidades tecnológicas de origem estrangeira já fazem parte do ambiente que cerca a eleição.

A soberania ganha aqui um sentido material. Não é uma palavra para cerimônias nem um argumento reservado às Forças Armadas. É a capacidade de uma sociedade absorver pressões sem entregar a decisão. Quando uma eleição passa a conviver com tarifas, disputas sobre plataformas, apoios presidenciais estrangeiros e redes transnacionais de influência, olhar apenas para a campanha doméstica é enxergar metade do tabuleiro.

<><> O campo de batalha está dentro da infraestrutura

Grande parte da guerra informacional contemporânea acontece sobre infraestrutura privada. Publicidade eleitoral, segmentação de públicos, recomendação algorítmica, inteligência artificial e disputa pela atenção dependem de sistemas que não estão sob controle direto do Estado brasileiro. São plataformas que organizam visibilidade por regras próprias e modelos opacos, capazes de decidir em segundos o que alcança milhões de pessoas e o que desaparece. Por isso soberania digital deixou de ser assunto técnico.

O documento da Abin já citado reconhece essa vulnerabilidade ao tratar fluxos de dados, plataformas sociais e infraestrutura informacional como territórios de competição geopolítica. A dependência brasileira de tecnologias controladas no exterior cria uma assimetria difícil de ignorar. Não significa que cada decisão empresarial seja uma ordem de governo estrangeiro. Significa que parte crescente da esfera pública brasileira funciona em ambientes cuja governança, arquitetura e interesses econômicos são definidos fora do país.

Em agosto, a Anistia Internacional testou essa fragilidade. Pesquisadores submeteram ao sistema de anúncios do Facebook peças experimentais com desinformação eleitoral em português. Oito das quatorze peças com conteúdo falso foram aceitas. O teste saiu de Londres, sem VPN que simulasse localização brasileira, e a conta não havia concluído a verificação de identidade exigida para publicidade política. Os anúncios foram cancelados antes de ir ao ar, mas o sistema de revisão permitiu que chegassem até ali.

No dia 30 de setembro, outro levantamento apontou pelo menos R$ 1,1 milhão em anúncios eleitorais considerados irregulares na Meta. Algumas páginas operavam do exterior, havia pagamentos em moedas estrangeiras e determinados conteúdos acumularam milhões de impressões antes da remoção. A empresa informou ter retirado anúncios ilegais e reiterou seu compromisso com a integridade eleitoral. O episódio, somado ao teste da Anistia, mostra quanto tempo pode existir entre a circulação de uma peça e a reconstrução de sua cadeia de responsabilidade.

A própria campanha eleitoral passou a depender financeiramente desse mercado de visibilidade. Até 20 de setembro, candidatos brasileiros haviam destinado mais de R$ 167 milhões à Meta para impulsionar conteúdo político, superando o gasto de toda a eleição de 2022. Uma parcela relevante da comunicação eleitoral circula, portanto, dentro de uma infraestrutura pertencente a uma corporação estrangeira e organizada por sistemas que o eleitor não audita e o Estado brasileiro conhece apenas parcialmente.

Esse desenho produz uma vulnerabilidade que independe de conspiração. Quem compra alcance entra numa disputa regida por critérios de distribuição privados. Quem opera redes coordenadas tenta explorar os mesmos mecanismos. Quem fiscaliza chega depois, muitas vezes obrigado a reconstruir trajetórias que a plataforma já percorreu em escala industrial. O poder está menos na mensagem isolada do que na capacidade de fazê-la aparecer para a pessoa certa, no momento certo e com frequência suficiente para parecer parte natural do ambiente.

Em 23 de setembro, essa dependência apareceu por outra via. A conta de anúncios da campanha de Lula no Facebook foi suspensa temporariamente e restabelecida no mesmo dia. A campanha considerou a medida prejudicial e pediu explicações. A Meta confirmou o restabelecimento, mas não informou publicamente a razão da suspensão. O episódio não demonstra interferência deliberada. Revela algo mais elementar. Uma decisão técnica ou empresarial tomada dentro de uma plataforma pode alterar de imediato a capacidade de comunicação de uma candidatura presidencial.

Não é preciso controlar todos os cidadãos para produzir efeito político. Basta controlar ou explorar pontos de passagem importantes. Publicidade, recomendação, busca, nuvem, inteligência artificial e distribuição funcionam como gargalos de uma esfera pública cada vez mais digital. Quem detém poder sobre esses gargalos não determina automaticamente o voto, mas interfere no campo de visibilidade em que milhões de pessoas definem o que parece urgente, confiável ou irrelevante.

É aí que a integridade eleitoral encontra seu limite mais difícil. A urna pode permanecer tecnicamente intacta enquanto o ambiente anterior ao voto sofre pressão econômica, tecnológica e informacional. Proteger a máquina e ignorar o espaço em que a vontade é formada seria cuidar apenas da última etapa de um processo que começou muito antes.

Um país que não conhece suficientemente a infraestrutura pela qual sua população recebe informação, não domina seus dados estratégicos e não consegue auditar os sistemas que organizam a esfera pública transfere parte da própria autonomia para estruturas que não controla. A ameaça mais sofisticada não precisa derrubar a democracia por fora. Pode aprender a operar dentro das dependências que a democracia passou a considerar normais.

<><> Soberania não termina na urna

Diante desse quadro, a resposta brasileira não pode se limitar à proteção da votação ou à remoção de conteúdo. O país precisa tratar a esfera informacional como parte de sua infraestrutura estratégica. Isso envolve Justiça Eleitoral, inteligência, ciberdefesa, investigação financeira, universidades, imprensa, empresas e sociedade civil. Nenhuma dessas áreas, sozinha, enxerga o quadro inteiro.

O TSE ampliou em 2026 sua cooperação com Meta, Google, X, Telegram, TikTok, Kwai, LinkedIn e outras plataformas, exigindo planos de mitigação de riscos à integridade eleitoral. É um passo necessário. Mas a defesa de uma eleição também depende de saber de onde vem o dinheiro, como redes se coordenam, quais infraestruturas estão sendo usadas e quando uma campanha de influência deixa de ser ruído para adquirir valor estratégico.

A aproximação com França e Alemanha pode ajudar nessa construção, desde que cooperação não se transforme em dependência. O Brasil tem interesse em aprender com estruturas que já desenvolveram métodos de detecção e atribuição. Também tem obrigação de construir capacidade própria. Uma democracia soberana não pode depender permanentemente de Washington, Paris, Berlim, Bruxelas, Moscou, Pequim ou Tel Aviv para compreender o que acontece dentro de sua esfera pública.

Essa capacidade precisa sobreviver a governos. Operações informacionais amadurecem ao longo do tempo, atravessam calendários eleitorais e se adaptam às mudanças de plataforma. O Estado brasileiro necessita de memória técnica, equipes estáveis, capacidade de atribuição e mecanismos de cooperação que não desapareçam depois da apuração dos votos. Sem isso, cada eleição começa como se o país estivesse aprendendo novamente a reconhecer o problema.

Crítica estrangeira não é automaticamente interferência, relação diplomática não é conspiração, jornalismo internacional não é operação psicológica e apoio político público não equivale, por definição, a ação clandestina. Banalizar esses conceitos seria oferecer aos próprios operadores de influência a confusão de que precisam. Atribuição séria exige prova, contexto e capacidade de distinguir interesses que se cruzam sem presumir comando único onde ele não foi demonstrado.

O jornalismo e a pesquisa têm responsabilidade particular nesse terreno. Reproduzir narrativas em circulação é apenas o começo. Investigar significa seguir vínculos, infraestrutura, dinheiro, cronologia e efeitos até onde a evidência permitir. Foi essa exigência que, ao longo dos últimos anos, me levou a olhar menos para a mentira como objeto isolado e mais para as condições que lhe dão potência. A revelação da reunião entre Abin, franceses e alemães torna essa pergunta ainda mais urgente.

Empresas, universidades e organizações da sociedade civil também fazem parte dessa defesa. Grande parte da capacidade técnica necessária está fora do governo. Pesquisadores acompanham redes, jornalistas reconstroem interesses, empresas controlam infraestrutura e organizações civis detectam abusos que o Estado muitas vezes só percebe depois. Transformar esse conhecimento disperso em capacidade democrática é uma tarefa de soberania.

Soberania não pertence a um governo, partido ou candidatura. Pertence ao país. Alianças externas, dependências tecnológicas e pressões econômicas precisam ser julgadas pelo efeito que produzem sobre a autonomia nacional, não pela conveniência que oferecem a um campo político numa eleição. O Brasil precisa conservar para si a decisão sobre o próprio futuro.

A reunião revelada pela Reuters vale menos como episódio diplomático do que como aviso. Instituições brasileiras e europeias já discutem interferência estrangeira em termos de inteligência, infraestrutura e resposta coordenada. Enquanto isso, o debate público ainda corre o risco de se prender à próxima fake news quando a disputa decisiva acontece numa camada mais profunda.

A urna é o último território da eleição. Quando o eleitor chega a ela, boa parte da disputa pela soberania já aconteceu.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Código Aberto

 

Reta final – corrupção e voto

Entre escudos partidários e leituras polarizadas do escândalo, a corrupção ainda não derrubou Flávio Bolsonaro, mas o eleitor não alinhado, mais volátil, se torna o árbitro decisivo de um pleito provavelmente definido no segundo turno... 

<><> Corrupção tira voto?

Muita gente ficou surpresa com o fato de a mega corrupção de Flávio Bolsonaro e sua relação promíscua com Daniel Vorcaro, do Banco Master, não ter provocado queda na intenção de votos. O diálogo de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro, amplamente divulgado pela mídia, revelou que ele pediu 132 milhões, mas já havia recebido 61 milhões a título de financiamento do filme sobre seu pai. Mas esse dinheiro foi desviado para destino incerto e ignorado, provavelmente embolsado por Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo. O presente artigo busca explicar a relação complexa entre corrupção e voto com foco na atual eleição.

A corrupção pode tirar votos, mas não necessariamente tira votos de maneira imediata ou proporcional à gravidade das acusações. A literatura sobre comportamento eleitoral no Brasil mostra justamente esse fenômeno.
O eleitor partidariamente identificado pode relativizar a denúncia. Os eleitores tendem a proteger candidatos do seu próprio campo político diante de acusações de corrupção. Mas essa proteção não é absoluta: quando a percepção de corrupção se torna sistêmica e generalizada, a lealdade partidária pode enfraquecer.

Isso ajuda a entender por que uma denúncia pode ser interpretada de maneiras completamente diferentes por grupos políticos diferentes: para alguns, ela confirma uma suspeita; para outros, pode ser vista como perseguição política ou como algo secundário diante de outras questões.

Diversos estudos mostram que corrupção compete com identificação ideológica, avaliação da economia, rejeição ao adversário e outras questões. Assim, percepções sobre corrupção podem ter efeito sobre o voto, mas fatores econômicos, avaliação do governo e identificação partidária podem funcionar como “escudos” diante das acusações. Ou seja, eleitores podem continuar escolhendo candidatos acusados de corrupção quando levam em consideração partido, ideologia e outras características do candidato.

E os indecisos? Aqui está uma distinção importante: não é possível concluir, a partir das pesquisas agregadas, que a corrupção esteja necessariamente tirando votos de Flávio Bolsonaro entre os indecisos. Mas, teoricamente, os eleitores menos identificados com um candidato podem ser mais suscetíveis a informações novas, porque têm menos compromisso partidário prévio.

Alem disso, quando não existem alternativas percebidas como honestas, a importância atribuída à corrupção diminui e o engajamento eleitoral também pode cair.

E existe ainda um fenômeno particularmente importante: o eleitor pode não mudar de candidato, mas passar a ter menor convicção sobre ele. Isso pode aparecer primeiro como aumento de indecisos, voto “nenhum”, redução da certeza do voto ou maior volatilidade – e somente depois eventualmente como transferência de votos.

Assim, a corrupção não tira voto de quem já está fortemente identificado, mas pode ser mais relevante para os indecisos e eleitores pouco comprometidos.

<><> Dados das pesquisas

DataFolha – 18–19 ago. Lula 39%; Flávio Bolsonaro 33%; Diferença 6. Em 15–17 set. – Lula 39%; Flávio Bolsonaro 36%; Diferença 3. Ou seja, Flávio Bolsonaro não caiu depois da divulgação das primeiras informações do caso Vorcaro. Ao contrário, passou de 33% para 36% no Datafolha entre o início e a segunda metade de setembro.

Na Quaest, ocorreu movimento semelhante: Flávio Bolsonaro passou de 31% para 33% no primeiro turno entre as duas pesquisas de setembro. Na BTG/Nexus, Flávio estava em 37% em 14 de setembro e permaneceu em 37% em 18–20 de setembro, enquanto Lula oscilou de 42% para 40%.

Portanto, não há evidência nas principais pesquisas de setembro de que as revelações sobre Daniel Vorcaro tenham produzido, até agora, uma queda agregada de Flávio Bolsonaro. Mas há um dado que muda bastante a interpretação.

O Datafolha perguntou quem poderia mudar de voto. Entre os eleitores não alinhados nem ao lulismo nem ao bolsonarismo, 46% dizem que ainda podem mudar de voto. Entre os eleitores de Flávio Bolsonaro, por outro lado, 82% dizem estar totalmente decididos. Entre os de Lula, são 84%. Ou seja, tanto para o eleitor bolsonarista como para o eleitor de Lula, o voto está relativamente consolidado. Mas no que se refere ao eleitor não alinhado, há muito mais espaço para mudança. E esse terceiro grupo é justamente aquele em que uma nova informação sobre corrupção pode ter maior relevância.

No Datafolha de 21 de setembro, 31% disseram espontaneamente que Flávio era prejudicado pela crise do STF e pelo escândalo do Banco Master. Lula foi mencionado por 38%.

Mas a interpretação do escândalo é extremamente polarizada. Entre os eleitores de Flávio, 58% dizem que os políticos envolvidos no Banco Master são majoritariamente de esquerda; apenas 9% apontam a direita. Entre os eleitores de Lula ocorre o inverso: 48% apontam a direita; 17%, a esquerda.

Isso é importante porque mostra que a mesma informação está sendo filtrada por identidades políticas prévias. Por isso, a corrupção pode não “tirar voto” imediatamente. Mas a questão temporal não pode ser ignorada.

As informações mais graves da investigação foram divulgadas a partir de 11 de setembro, quando documentos da PF e da PGR passaram a mostrar Flávio Bolsonaro como interlocutor direto de Daniel Vorcaro e quando veio a público a investigação por suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

O Datafolha seguinte entrevistou 15–17 de setembro; a Quaest, 17–20. ortanto, essas pesquisas já captaram parte da repercussão, mas não permitem medir um eventual efeito de informações posteriores ou de uma possível acumulação de notícias.

Assim, o efeito da corrupção Flávio/Vorcaro ainda não se traduziu em queda agregada de Flávio Bolsonaro nas pesquisas de setembro. Pelo contrário, Datafolha e Quaest registraram crescimento de sua intenção de voto entre suas rodadas de setembro.
Mas é bom não esquecer que, enquanto os eleitores identificados com Lula ou Flávio Bolsonaro apresentam níveis elevados de convicção, o grupo mais potencialmente sensível é o eleitorado não alinhado, no qual 46% ainda admitem mudar de voto.

Segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, no jornal O Globo de 27 de setembro, na pergunta espontânea, em que o entrevistado responde sem ver a lista de candidatos, cerca de um terço do eleitorado ainda não sabe em quem vai votar para presidente. Na estimulada, a indecisão é menor, mas varia muito entre os Estados.

<><> Vitória no primeiro turno?

O presidente Lula (PT) avançou na mais recente pesquisa BTG/Nexus sobre a disputa pela Presidência da República e chegou a 47,7% dos votos válidos no cenário espontâneo, aproximando-se da marca necessária para uma vitória ainda no primeiro turno. O levantamento foi realizado entre os dias 25 e 27 de setembro de 2026, em todo o país.

Quando são considerados apenas os votos válidos – excluindo brancos, nulos e indecisos –, Lula alcança 47,7%, alta de 1,7 ponto em relação à rodada anterior. Flávio Bolsonaro registra 40,7%, avanço de 1,6 ponto. A distância entre os dois chega, portanto, a sete pontos percentuais.

O problema é que os chamados “indecisos” podem decidir na hora H da votação, e ninguém sabe se votam branco, nulo ou em algum candidato. Não há previsão sobre isso.

Pesquisa Quaest para as eleições presidenciais divulgada em 28 de setembro mostra o presidente Lula com 39% das intenções de voto no primeiro turno, à frente de Flávio Bolsonaro que tem 34%. No segundo turno, ambos aparecem empatados, com 42% dos votos. E na pesquisa espontânea, em que os entrevistados não recebem uma lista com os nomes dos candidatos, Lula tem 31%, contra 27% de Flávio.

Assim, levando em conta os dados das pesquisas acima, existe a possibilidade, embora remota, de vitória de Lula no primeiro turno. O fortalecimento da campanha de Lula se deve principalmente a três fatores: restrição às bets, aumento do salário mínimo e aumento do Bolsa Família. O erro grosseiro de Flávio Bolsonaro a respeito do episódio envolvendo Nossa Senhora da Aparecida também fortaleceu a campanha de Lula.

O mais provável, porém, é haver segundo turno, cujo resultado é imprevisível tendo em vista o realinhamento das forças, novas alianças e o embate direto dos dois candidatos.

No segundo turno, se realmente houver, as denúncias de corrupção contra Flávio vão provavelmente desempenhar um papel mais importante.

¨      As novas fake news sobre as urnas eletrônicas

As eleições voltaram a ser acompanhadas por uma onda de desinformação sobre as urnas eletrônicas. Embora a disseminação de notícias falsas sobre o sistema eleitoral brasileiro tenha marcado o pleito de 2022, as narrativas não desapareceram e agora circulam em versões mais elaboradas, muitas delas envolvendo acusações sem provas relacionadas à Venezuela e aos Estados Unidos.

Os ataques ao sistema eleitoral ganharam força durante o governo do ex-presidente Jair Bolsonaro, que defendia a adoção do voto impresso e questionava a confiabilidade das urnas eletrônicas. As declarações infundadas sobre o processo de votação contribuíram para a condenação do ex-mandatário pela Justiça Eleitoral, que o tornou inelegível.

Uma das versões mais recentes da desinformação tenta associar as eleições brasileiras à empresa Smartmatic, fornecedora de tecnologia eleitoral usada em outros países. Em vídeos compartilhados nas redes sociais, usuários alegam que autoridades americanas teriam apresentado provas de que urnas ligadas à empresa seriam suscetíveis a fraudes e sugerem, sem evidências, que o mesmo ocorreria no Brasil.

As alegações exploram um relatório de inteligência dos Estados Unidos divulgado neste ano. O documento afirma que os governos de Hugo Chávez e Nicolás Maduro demonstraram interesse em manipular resultados eleitorais por meio de sistemas eletrônicos de votação. As suspeitas incluíam possíveis conversas envolvendo a Smartmatic sobre formas de interferência no processo eleitoral venezuelano.

No entanto, o próprio relatório não concluiu que houve fraude eleitoral em larga escala. Segundo a inteligência americana, outros fatores explicavam melhor os resultados observados nas eleições venezuelanas.

No Brasil, a Justiça Eleitoral afirma que nunca utilizou urnas ou softwares desenvolvidos ou operados pela Smartmatic. O órgão esclarece que a empresa apenas prestou serviços de comunicação de dados e voz em eleições anteriores, sem participação no desenvolvimento ou na operação das urnas eletrônicas brasileiras.

<><> Flávio Bolsonaro replica fake news sobre urnas

Apesar disso, a informação enganosa continuou a viralizar. Em julho, o senador Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência, afirmou que muitas das máquinas usadas nas eleições brasileiras teriam a mesma origem da empresa venezuelana citada nas denúncias. O parlamentar não apresentou fontes para sustentar a alegação. Posteriormente, afirmou, em nota, que não havia questionado a integridade do sistema eleitoral brasileiro.

Essa não é a única falsidade que tem circulado sobre as urnas. Nos últimos meses, veículos de imprensa e autoridades eleitorais desmentiram alegações de que hackers teriam invadido equipamentos de votação, de que a programação das máquinas teria sido alterada, de que existiriam candidatos "secretos" desbloqueáveis ou até de que ferramentas de inteligência artificial poderiam modificar votos registrados.

Embora apresentem versões diferentes dos fatos, essas publicações compartilham um objetivo comum: semear dúvidas sobre a segurança e a legitimidade do sistema eleitoral brasileiro sem apresentar evidências que sustentem as acusações.

<><> Décadas de uso sem fraudes

Especialistas alertam que esse tipo de desinformação pode abrir espaço para questionamentos infundados sobre resultados eleitorais e para tentativas de deslegitimar a vontade expressa pela maioria dos eleitores nas urnas.

Em resposta ao avanço das notícias falsas, a Justiça Eleitoral intensificou ações de transparência. Neste ano, o órgão desmontou uma urna eletrônica em transmissão nacional para explicar o funcionamento do equipamento e detalhar suas camadas de segurança. Segundo as autoridades, a iniciativa teve como objetivo combater a desinformação e aproximar os eleitores do processo democrático.

Considerado referência internacional em votação eletrônica, o sistema brasileiro acumula décadas de uso sem registro de fraude comprovada capaz de alterar resultados eleitorais.

 

Fonte: Por Liszt Vieira, em A Terra é Redonda /DW Brasil

 

Contra a indiferença, tomar partido

Antonio Gramsci escreveu, em 1917, que “a indiferença opera com força na história. Opera passivamente, mas opera”1. Sua advertência não perdeu atualidade. Quando uma parte da sociedade deixa de disputar os rumos da vida coletiva, as decisões continuam sendo tomadas – por forças organizadas, com interesses próprios. Nas eleições brasileiras de 2026, tomar partido é reconhecer que o futuro do país está em disputa no presente.

Há dez anos, o golpe parlamentar contra Dilma Rousseff abriu um novo período da luta de classes no Brasil. A ofensiva contra direitos, a deterioração das condições de trabalho e a ascensão do bolsonarismo fazem parte dessa história. A vitória de Lula em 2022 interrompeu a permanência de Jair Bolsonaro no governo, mas não desfez a força social e política da extrema direita. O bolsonarismo manteve presença parlamentar e capacidade de mobilização. Hoje, com Flávio Bolsonaro, disputa o retorno ao poder em um cenário internacional marcado pelo avanço do trumpismo e por pressões crescentes sobre a soberania dos países latino-americanos.

Não há razão para subestimar o que está em jogo. Um novo governo bolsonarista representaria mais obstáculos à luta pelo fim da escala 6×1, à defesa do SUS, à proteção ambiental e ao enfrentamento das desigualdades. Também fortaleceria as forças que atacam a autonomia das mulheres, os direitos da população LGBTQIA+, os territórios indígenas e a liberdade religiosa. A democracia que precisamos defender se realiza nessas lutas e na possibilidade de ampliá-las.

Ao mesmo tempo, defender o que está ameaçado não basta para mobilizar quem vive sob jornadas exaustivas, dívidas e insegurança. A extrema direita procura dar sentido à frustração produzida por essas condições, deslocando-a para o medo e a hostilidade contra outros setores da população. A resposta do campo popular precisa mostrar, em conflitos concretos, que é possível melhorar a vida. A mobilização pela redução da jornada, a mudança no Imposto de Renda e a iniciativa de enfrentar as Bets apontam nessa direção. A aprovação do fim da escala 6×1 na Câmara foi uma conquista da pressão social; sua efetivação ainda depende da continuidade dessa luta.

Por isso, a luta contra o bolsonarismo precisa disputar também o sentido dessas experiências. O problema de quem não consegue descansar, pagar o aluguel ou planejar o mês seguinte não decorre de uma falha pessoal. Está ligado às formas pelas quais o trabalho, a renda e o acesso às condições de vida são organizados em nossa sociedade. Quando essas dificuldades deixam de ser vividas isoladamente e passam a ser reconhecidas como problemas comuns, torna-se possível construir vínculos, reivindicações e confiança na ação coletiva.

É nesse terreno que se coloca a tarefa eleitoral dos próximos dias. Eleger Lula pela quarta vez e ampliar a bancada de parlamentares comprometidos com a democracia e com os direitos populares são condições para barrar o retrocesso representado por Flávio Bolsonaro e prosseguir na disputa por novas conquistas. No plano internacional, a pressão exercida pelo trumpismo sobre países da América Latina reforça a importância de o Brasil preservar a capacidade de decidir seus próprios rumos. Ao afirmar na ONU que o Brasil não cabe no quintal de ninguém, Lula expressou uma posição de defesa da soberania que deve se traduzir na proteção dos serviços públicos, dos recursos nacionais e das condições de vida da população.

A defesa dessas condições de vida inclui a proteção diante dos riscos ambientais. O El Niño exige preparação para seus efeitos em diferentes regiões do país. A crise climática, por sua vez, torna ainda mais urgente eleger representantes que levem a ciência e a prevenção a sério, em vez de ceder ao negacionismo ambiental.

Tomar partido exige, nesta reta final, trabalho político: conversar com quem ainda hesita, levar essas disputas aos locais de trabalho, aos bairros e às comunidades, participar da campanha de rua e nas redes e defender candidaturas capazes de sustentar essas lutas no Congresso. Em Esquerdismo, doença infantil do comunismo2, Lenin (2025) insiste que reconhecer os limites históricos do Parlamento não autoriza os revolucionários a abandonar sua disputa enquanto ela for necessária à luta política da classe trabalhadora. A questão tática é compreender quando e para que ocupar esse terreno. No Brasil de hoje, depois dos retrocessos impostos pelo bolsonarismo e diante da possibilidade de seu retorno ao governo, a luta eleitoral é decisiva para os rumos do país. Reeleger Lula e ampliar a presença parlamentar do campo popular são, portanto, tarefas dos socialistas e de todos os que se comprometem com a defesa da soberania nacional.

Nenhuma dessas disputas será resolvida em uma única eleição. O resultado das urnas, no entanto, definirá condições decisivas para enfrentá-las. A experiência desde 2022 mostra que a extrema direita pode sofrer uma derrota eleitoral e continuar organizada. Uma vitória do campo popular precisa, portanto, ampliar a mobilização, formar novos vínculos e sustentar, depois da votação, as lutas que lhe dão conteúdo.

Gramsci advertia que a indiferença permite a poucos conduzir os destinos de muitos. Tomar partido, hoje, significa defender as conquistas populares e a soberania, enfrentar a extrema direita e organizar as forças capazes de melhorar a vida no presente. Derrotar Flávio Bolsonaro, reeleger Lula e fortalecer uma representação popular e democrática no Parlamento são tarefas imediatas. Construir o futuro exige tornar o presente habitável – e começar a organizá-lo agora.

 

Fonte: Por Ederson Duda, no Blog da Boitempo

 

Novas regras para doação de sangue no Brasil: veja o que muda

Novas regras para a doação de sangue no Brasil entraram em vigor nesta quarta-feira (30). As medidas pretendem alinhar os critérios de triagem clínica às mais recentes evidências científicas e tecnológicas, ampliando a segurança, além de flexibilizar restrições para públicos que antes enfrentavam impedimentos prolongados.

A Portaria GM/MS nº 11.685/2026, publicada no DOU (Diário Oficial da União), redefine o conjunto de regulamentos técnicos da área de sangue e de procedimentos hemoterápicos, no âmbito do Sinasan (Sistema Nacional de Sangue, Componentes e Derivados).

As novas diretrizes pretendem modernizar e flexibilizar prazos de inaptidão temporária, reduzindo o tempo de espera após tatuagens e exames endoscópicos, além de endurecer exigências estruturais e de governança para hospitais.

<><> Critérios de doação

Entre as novas mudanças estão a revisão dos prazos de inaptidão temporária, substituindo regras antigas por uma análise de risco mais individualizada.

Veja algumas das principais alterações:

  • Tatuagens e piercings: A portaria reduz o prazo de inaptão em relação a procedimentos estéticos realizados em ambientes com controle adequado de biossegurança. No caso de piercings em cavidades oral ou genital, exigem-se a remoção e um período de espera de quatro meses;
  • Exames Endoscópicos: Neste caso, o impedimento para doadores que passaram por procedimentos como endoscopia caiu de seis para quatro meses;
  • Peso: Para doação habitual de sangue total ou de componentes, o candidato deve ter, no mínimo, 50 kg. Candidatos com peso abaixo de 50 kg podem ser aceitos mediante avaliação médica. Além disso, é motivo de inaptidão a ocorrência de perda de peso inexplicável superior a 10% da massa corporal nos 3 meses anteriores à doação;
  • Profilaxias (PrEP e PEP): A norma estabelece regras específicas para o uso de antirretrovirais voltados à prevenção do HIV, definindo prazos de inaptidão proporcionais à modalidade de tratamento (como quatro meses para profilaxias orais e até dois anos para a modalidade injetável de longa duração);
  • Doadores Idosos: Para os idosos, a regulamentação reforça e detalha as condições para a continuidade das doações por voluntários de repetição com mais de 70 anos, mediante avaliação médica individualizada no próprio serviço de hemoterapia.

<><> Segurança hospitalar

A portaria determina alterações no âmbito de segurança hospitalar, padronizando e endurecendo as exigências estruturais e operacionais para a rede de saúde e os serviços de hemoterapia.

Segundo o documento, hospitais que realizam cirurgias de grande porte, atendimentos de urgência e emergência, procedimentos obstétricos ou que alcancem a marca de 60 transfusões mensais passam a ter a obrigatoriedade de contar com estruturas próprias e rigorosas de Agências Transfusionais.

Além disso, passa a ser exigido a constituição de instâncias multiprofissionais de governança, por meio dos Comitês Transfusionais. Esses comitês têm a missão de monitorar o uso racional do sangue, a hemovigilância e a revisão sistemática de eventuais reações adversas.

<><> Modernização

O documento ainda prevê a adoção do padrão global ISBT 128, padronizando terminologias, códigos de barras e rotulagem para garantir a total rastreabilidade do ciclo do sangue, desde o doador até o paciente receptor.

Os serviços de hemoterapia ficam obrigados a armazenar os registros dessas etapas por um período mínimo de 20 anos.

Além disso, a norma também formaliza protocolos obrigatórios de mitigação da TRALI (Lesão Pulmonar Aguda Associada à Transfumão). Essa avaliação deve levar em consideração o sexo biológico, o número de gestações e o histórico de transfusões do doador.

¨      Portaria libera doação de sangue de pessoas com mais de 70 anos; entenda

Pessoas com 70 anos ou mais, que permaneceram saudáveis, poderão doar sangue a partir desta quarta-feira (30), segundo o novo regulamento técnico de hemoterapia do Brasil.

A condição foi publicada em julho na Portaria GM/MS 11.685/2026, do Ministério da Saúde e já está em vigor. No entanto, para doar, o idoso precisa ser considerado apto na avaliação clínica realizada pelo serviço de hemoterapia, além de pesar no mínimo 50 Kg.

Segundo o Ministério da Saúde, a decisão acompanha a atual expectativa de vida e envelhecimento da população brasileira. Os critérios atuais são necessários para proteger os doadores e os pacientes que recebem as transfusões.

Incentivamos a população brasileira a procurar os serviços de hemoterapia, com a certeza de que será acolhida com todo o cuidado e a segurança necessários e de que cada doação será utilizada de forma responsável e cientificamente adequada para ajudar a salvar vidas em todo o país.Mozart Sales, secretário de Atenção Especializada à Saúde do Ministério da Saúde,

O limite para a primeira doação continua de sessenta anos, onze meses e vinte e nove dias. O que muda agora é que pessoas que já doavam e estão com mais de 70 anos poderão continuar como doadores. 

<><> Alteração no tempo das doações

A mudança na idade dos doadores foi aprovada em conjunto com outras alterações. O objetivo é facilitar o acesso e os níveis nos estoques dos bancos de sangue.

Uma delas é a redução do tempo de espera daqueles que ficam temporariamente impedidos de doar, como os que passaram por endoscopia ou que utilizaram anabolizantes sem prescrição médica. O novo prazo cai de seis para quatro meses.

No caso de tatuagem, maquiagem definitiva e procedimentos estéticos, como aplicação de botox, preenchimento e microagulhamento, a doação poderá ser realizada após sete dias, desde que realizado em local que cumpra as normas de segurança. Quando essa avaliação não for possível, o prazo será de quatro meses.

Para piercing na boca ou na região genital, a doação poderá ser feita quatro meses após a retirada.

<><> Caneta emagrecedora não impede doação

O uso de agonista de GLP-1 também é citado na portaria. O paciente que utilizar o injetável será inapto, de forma temporária, por quatro meses se possuir histórico de compartilhamento do dispositivo (agulha) usado na aplicação.

No entanto, isso não significa que essas pessoas nunca poderão doar sangue. A doação pode acontecer depois do prazo, mas, na triagem, o histórico da utilização dos injetáveis deve ser informado para a equipe de hemoterapia.

<><> Teste de malária

Uma das novas regras estabelecidas é a obrigatoriedade do teste de malária em 100% dos exames de triagem.

“O NAT Plus, desenvolvido por Bio-Manguinhos/Fiocruz, já é utilizado para identificar HIV e hepatites B e C e passa a detectar também o parasita causador da malária. Assim, o período de impedimento para pessoas que se deslocaram para municípios de áreas endêmicas ou tiveram exposição em regiões de mata, bosque ou floresta passa a ser de 30 dias. Antes, o prazo poderia chegar a 12 meses”, diz o Mozart.

Com isso, o Brasil se torna o primeiro país a implantar o exame de forma obrigatória na avaliação clínica.

¨      Testemunhas de Jeová podem doar sangue? Entenda o que mudou com nova regra

Uma nova determinação do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová permite que os fiéis decidam individualmente sobre o recebimento e a doação de componentes do sangue.

A regra foi divulgada no site oficial da denominação cristã na última sexta-feira (18) e estabelece que a decisão sobre aceitar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma ou plaquetas de outra pessoa é uma “questão de consciência pessoal”.

Essa flexibilização dá continuidade a atualizações anteriores sobre o papel da consciência individual na decisão de utilizar frações do sangue ou o próprio sangue em procedimentos médicos. Segundo a organização, a Bíblia não traz orientações específicas sobre esses assuntos e, por isso, a decisão deve ficar a critério de cada fiel.

A religião é historicamente conhecida por proibir transfusões de sangue com base no fundamento bíblico ‘abster-se de sangue’. Para os religiosos, o sangue é sagrado e representa a vida, sendo considerado um presente de Deus.

Agora, a decisão sobre o recebimento ou a doação de quatro componentes do sangue fica a cargo de cada fiel. O Corpo Governante considera que se trata de uma questão de discernimento próprio.

Em março, o Corpo Governante já havia anunciado mudanças na orientação sobre o uso do próprio sangue em procedimentos médicos e cirúrgicos.

Na ocasião, a organização afirmou que a Bíblia não traz orientações específicas sobre o uso do próprio sangue nesses procedimentos e que deveria prevalecer o princípio descrito em Gálatas, capítulo 6, versículo 5: “Cada um levará a sua própria carga”.

Segundo a autoridade religiosa, eles não possuem autorização para estabelecer regras sobre assuntos que não são especificados na escritura. Neste caso da doação e recebimento dos componentes sanguíneos, não há nenhuma passagem específica que aborde o assunto.

<><> Transfusão total continua proibida

As transfusões de sangue total, por outro lado, continuam expressamente proibidas. O Corpo Governante afirma que a proibição da transfusão de sangue total é uma questão religiosa, e não médica.

“Tanto o Velho como o Novo Testamento claramente nos ordenam a nos abster de sangue. [...] Além disso, para Deus, o sangue representa a vida. [...] Então, nós evitamos tomar sangue por qualquer via não só em obediência a Deus, mas também por respeito a ele como Dador da vida”, afirma a organização.

 

Fonte: CNN Brasil

 

O futuro em jogo nas eleições de 2026

Sabemos que, nos regimes político-administrativos condicionados pelo voto popular, as Constituições definem e garantem sua estrutura e funcionalidade. A democracia é louvada por ser o pressuposto da liberdade individual e coletiva. Todavia, também sabemos que, por si só, ela não garante a emancipação humana, uma sociedade mais equânime e o bem-estar social.

Mas é sob seu manto — o da democracia — que se justifica a preservação da luta entre desiguais, mesmo diante de situações extremas de domínio das condições necessárias para tal. Se a liberdade é um direito formal, constitucional, ela deveria possibilitar ao cidadão o “direito a ter direitos”[i]. Quando o direito constitucional se restringe a chancelar uma liberdade limitada, a própria concepção de liberdade resulta comprometida. Assim, a cidadania formal (meramente jurídica) converte-se em obstáculo para o florescimento da cidadania substantiva — aquela que confere um elevado status de pertencimento social, mensurado pelo acesso pleno e indistinto de toda a população à justiça, saúde, educação, habitação, emprego, renda e representação política, em síntese, a condições para que qualquer um possa ter uma vida digna e liberdade de escolhas.

Daí, o fortalecimento de uma representação progressista nos Poderes da República, de modo especial no Congresso Nacional, é o mecanismo capaz de conferir voz política aos trabalhadores e às camadas populares. Essa presença é indispensável para conter as insurgências das elites econômicas que buscam apropriar-se do orçamento público, instrumento decisivo na alocação de recursos em prol de políticas sociais inclusivas.

Não é à toa que, historicamente, toda medida governamental voltada à proteção do trabalhador e da população vulnerável é rechaçada pela elite financeira e pela imprensa conservadora, que recorrem imediatamente ao discurso alarmista sobre o ‘aumento do déficit público’. Para os setores dominantes, focados exclusivamente na acumulação de capital e na preservação de privilégios, qualquer investimento no povo é pechado de ‘despesa desnecessária’. Alegando razões fiscais e macroeconômicas, as elites impõem políticas de austeridade[ii] que promovem exclusão, subtração de direitos e precarização das relações trabalhistas.

O orçamento público funciona como um verdadeiro jogo de cabo de guerra (ou puxa-puxa): a direção para a qual a corda é tracionada determina se haverá redução ou ampliação das desigualdades. Essa analogia ilustra a luta de classes no Brasil, na qual, mandato após mandato, o lado vencedor tem sido invariavelmente jogado pelos donos do poder. Embora representem uma minoria demográfica, esses grupos dominam as regras do jogo e impõem sua força sobre a maioria — constituída por trabalhadores formais, informais, autônomos, PJs, empreendedores de si mesmos, motoristas e entregadores de aplicativos. Com a precarização das relações de trabalho, gerada pelas reformas trabalhistas, as categorias inerentes às posições nas ocupações têm se fracionado e multiplicado.

A análise das relações entre Estado e Governo possui implicações profundas na vivência da cidadania. O Estado constitui a estrutura política e jurídico-legal perene, circunscrita a um território e garantidora da soberania[iii]. O Governo compreende a direção transitória do Estado exercida pelos Três Poderes, usualmente associada ao Executivo. A harmonia republicana depende do sistema de freios e contrapesos, projetado para impedir a hipertrofia ou a concentração de poder em indivíduos ou instituições. A preservação da Constituição assenta-se nesse equilíbrio instável, no qual a fiscalização mútua entre os Poderes protege a sociedade contra o arbítrio e o autoritarismo.

Sempre que um dos Poderes extrapola seus limites constitucionais, os pilares republicanos entram em colapso. A história brasileira revela uma crônica fragilidade institucional, na qual os períodos democráticos são sucessivamente interrompidos por regimes de exceção. Desde a Proclamação da República até o presente, o país promulgou seis Cartas Magnas (1891, 1934, 1937, 1946, 1967 e 1988), refletindo a alternância dramática entre a concessão de direitos para o povo e o chancelamento do autoritarismo.

É emblemático que a primeira Constituição republicana, em 1891, tenha nascido de um golpe militar que depôs a Monarquia. Esse ‘pecado original’ serviu de modelo e estímulo para rupturas posteriores, como a instalação do Estado Novo de Getúlio Vargas e a Ditadura Militar de 1964, que sequestrou o Estado e os direitos dos cidadãos por mais de vinte anos. A redemocratização foi alcançada a um custo social elevadíssimo, culminando na promulgação da Constituição Cidadã de 1988.

Contudo, a instabilidade no equilíbrio dos Poderes permanece viva, como atestou o famigerado ataque golpista de 8 de janeiro de 2023. Caso a intentona tivesse sido bem-sucedida, a Carta Cidadã teria sido revogada. O ‘pecado original’ do golpismo, alimentado por narrativas de revoluções e contrarrevoluções, insiste em manter o povo afastado das decisões nacionais. Enquanto as estruturas de poder forem dominadas pelas elites econômicas, a ameaça à democracia continuará latente.

Nessa gangorra constitucional, a efetividade dos direitos oscila conforme a correlação de forças políticas. Nossa história demonstra que a perpetuação da ordem democrática é ameaçada toda vez que governos progressistas tentam mover o pêndulo orçamentário para atender às necessidades da população na base da pirâmide social. Esse padrão é evidenciado pelas perseguições históricas a presidentes que propuseram reformas de inclusão: Getúlio Vargas foi alvo de incessante perseguição política que o conduziu tragicamente ao suicídio; Juscelino Kubitschek (JK) teve sua posse e mandato ameaçados por sucessivas conspirações golpistas articuladas por setores da UDN e facções das Forças Armadas; João Goulart (Jango) foi Deposto pelo golpe de 1964 sob a acusação de subversão ao propor as ‘Reformas de Base’, destinadas a combater a desigualdade estrutural. Ressalte-se que há fortes suspeitas e contestações sobre as causas das mortes de JK e Jango, ambas em 1976, no contexto da Ditadura Militar (com a vigência da Operação Condor).

A alegação da ‘ameaça comunista’ atua como um verdadeiro coringa de chantagem psicossocial, mobilizado pelas elites para engajar as camadas médias e populares na legitimação de atos golpistas — incluindo o apelo histórico à intervenção das Forças Armadas dos Estados Unidos. Esse vírus ideológico permanece incrustado na cultura militar e conservadora, reaparecendo no impeachment de Dilma Rousseff em 2016, no 8 de janeiro de 2023 e no permanente estado de vigília agressiva contra o governo democrático, estendido para acampamentos virtuais nas redes sociais (ironicamente em “substituição” aos instalados junto aos quarteis do exército).

Ademais, a campanha do candidato bolsonarista traz nada mais do que uma proposta de intervenção velada à independência e autonomia institucionais e aos interesses do povo brasileiro, ao recomendar a participação de representantes do governo americano para atuar diretamente no processo de transição, caso seja eleito. Além dessa afronta à nossa soberania, o referido candidato a reforça ao declarar um alinhamento praticamente incondicional aos interesses dos EUA, ao abrir nossas fronteiras à exploração das riquezas nacionais, como terras raras, petróleo, minerais em geral, energias renováveis, tecnologias, dentre outros recursos.

No plano doméstico, as propostas do candidato, aliada à pauta da extrema-direita, sinalizam para a eliminação de direitos e a adoção de políticas de austeridade econômica e de privatizações. Em suma, prega o desmonte do Estado social e a adoção de uma austeridade radical, espelhada abertamente no modelo ultraliberal do presidente argentino Javier Milei. O resultado dessa política na Argentina tem sido devastador: estagnação econômica, falência de empresas, precarização do trabalho, destruição de salários e uma exclusão social que lançou mais de um terço da população na pobreza e 7,5% na indigência.

Do exposto, O cenário que se avizinha nas eleições de 2026 coloca em disputa a própria sobrevivência das políticas sociais no Brasil e a questão da pobreza e desigualdades. Depreende-se, assim, que poderemos, por meio do próximo governo eleito, caso progressista, afirmar o Estado como instância de garantia e promoção do bem-estar social e econômico do país e da população. Já a vitória do projeto ultraliberal significará o sucateamento do Sistema Único de Saúde (SUS) como rede pública e universal, o sufocamento do ensino e da pesquisa científica (com a drenagem de recursos da CAPES, do CNPq e a pressão privatista sobre as universidades públicas), além do ataque à Previdência Social e a programas vitais de transferência de renda, como o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Além disso, o modus operandi do extremismo caracteriza-se pelo conflito permanente, pelo armamentismo, pela degradação das relações institucionais, pela corrupção e por práticas desumanas — demonstradas cabalmente durante a tragédia da pandemia de COVID-19 e no colapso social provocado pela proliferação das apostas virtuais (BETs). Na reta final do pleito, esse grupo fomenta divisões extremas ao provocar controvérsias e tensões religiosas — como os ataques velados e abertos à imagem de Nossa Senhora Aparecida como Padroeira do Brasil —, incitando uma ‘guerra santa’ entre evangélicos e católicos e instigando uma perigosa teologia do domínio.

Registre-se, ainda, que uma situação antes nunca vista no exercício do poder por nenhum presidente da República — nem durante os governos militares — concerne à imbricação e promiscuidade no exercício do poder executivo, no qual negócios e interesses do clã familiar do ex-presidente sobrepuseram-se aos assuntos de Estado, instalando uma dinâmica de nepotismo, chantagem e instabilidade permanente que atenta contra a ética e o decoro republicanos. Este imbróglio de interesses familiares incrustados no comando do país, tem implicações diretas na condução do governo e do Estado, comprometendo as relações com os demais poderes e a própria sustentação da República. Nunca se testemunhou coisa parecida, na qual se misturam problemas e conflitos familiares com assuntos públicos, governamentais e do próprio Estado.

Frente a esse horizonte nebuloso, revela-se urgente a escolha de um governo que fortaleça o Estado brasileiro enquanto guardião perene da Constituição de 1988. A preservação do aparato jurídico-legal de proteção social é a única garantia de que a vida em sociedade possa ser gerida com dignidade e justiça. As eleições de 2026 exigem a escolha consciente de governantes comprometidos com os valores republicanos — princípios éticos e políticos que garantem que a República seja efetivamente a res publica (coisa pública, interesse de todos os cidadãos) —, e não instrumento de apropriação por minorias abastadas.

Como desfecho, cumpre invocar o Artigo 1º da Carta Magna de 1988, que consagra o Brasil como um Estado Democrático de Direito fundamentado na cidadania e na dignidade da pessoa humana, assentando categoricamente em seu parágrafo único que ‘todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente’. É esse comando constitucional que deve guiar a nação: recolocar o cidadão no centro do orçamento e das decisões públicas é o único caminho para superar o histórico de exclusão e assegurar a soberania e a paz no Brasil.

¨      Trump diz que está acompanhando as eleições presidenciais no Brasil 'muito de perto'

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou nesta quinta-feira (1/10) que está acompanhando "muito de perto" as eleições no Brasil. O republicano disse ainda que o país e a disputa presidencial atual são muito importantes.

"O Brasil é um país muito importante. É um ótimo país. As pessoas do Brasil são fantásticas. É uma eleição muito importante", disse Trump, após ser questionado por uma repórter na Casa Branca.

Antes, ao ser questionado se estava seguindo a eleição, ele respondeu que estava acompanhando "muito de perto".

A declaração acontece a três dias do primeiro turno e em meio ao receio do governo brasileiro de interferência dos Estados Unidos no pleito.

Na fala desta quinta, Trump não declarou apoio a nenhum dos candidato, mas o presidente americano já manifestou, em diversas ocasiões e por meio de medidas nos últimos anos, sua proximidade com a família Bolsonaro.

Na semana passada, a campanha do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) e ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) uma investigação sobre uma possível ingerência dos EUA na eleição brasileira.

A campanha de Lula também pediu a cassação da chapa de Flávio Bolsonaro (PL) afirmando que o senador se articulou com o governo Trump para impactar o resultado das eleições, violando a soberania nacional.

Em 17 de setembro, Flávio já havia negado categoricamente que estivesse recebendo ajuda do governo americano: "Não existe ajuda do governo americano. Essa narrativa não vai colar, desculpa. Quem resolve a eleição é a gente aqui."

O pedido ocorreu dias após a divulgação, pela Folha de São Paulo, de um documento em que a Agência Brasileira de Inteligência (Abin) elevou a possibilidade de interferência dos EUA na eleição ao "nível de criticidade".

Segundo a Abin, Washington busca fragilizar o governo Lula por enxergá-lo como resistente à ambição dos EUA de exercer uma hegemonia na América Latina. Hoje o Brasil tem como principal parceira comercial a China, uma grande rival dos EUA.

Flávio Bolsonaro tem dito que pretende se aproximar dos EUA se for eleito e visitou Trump em maio. Dois dias depois da visita, os EUA anunciaram que as facções PCC e Comando Vermelho seriam classificadas como organizações terroristas pelo governo americano.

A medida foi festejada por Flávio e criticada por Lula, para quem a classificação abria as portas para uma intervenção americana no país.

Em conversas reservadas com a BBC, assessores do governo citaram outro exemplo do que consideram uma tentativa de interferência dos EUA na eleição: a divulgação, em 15 de setembro, de um relatório do Departamento de Estado americano com críticas ao desempenho do governo brasileiro no combate a facções criminosas.

As críticas se alinham com o discurso de Flávio e miram um setor considerado pelo próprio governo como um calcanhar de Aquiles.

Em discurso na Assembleia Geral da ONU, na última terça-feira (22/9), Lula reagiu. Ele criticou a "ingerência externa em processos eleitorais" e disse que o "Brasil não subestima o desafio representado pelo crime organizado", mas que o país não vai "terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras".

Afirmou ainda que o "Brasil não cabe no quintal de ninguém".

<><> Relação estremecida

Outro documento, divulgado pelo jornal O Estado de S. Paulo em 17 de setembro, detalha uma série de exigências que os EUA teriam apresentado ao Brasil como condição para reduzir as tarifas comerciais impostas ao país no ano passado.

Entre os pontos listados estaria a participação de "dissidentes políticos" nas eleições brasileiras. A expressão é normalmente utilizada pelos EUA para se referir a opositores de regimes considerados ditatoriais.

O documento, segundo a reportagem, não cita nominalmente o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por golpe de Estado e hoje inelegível. Em outras ocasiões, porém, o governo Trump criticou a condenação de Bolsonaro e classificou o processo contra o ex-presidente como uma perseguição política.

De acordo com O Estado de S. Paulo, o governo brasileiro se recusou a negociar esse ponto com os EUA.

As divergências entre os dois países não se deram só no âmbito de negociações comerciais. Nos últimos meses, os EUA também adotaram sanções contra autoridades brasileiras, entre elas o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, o ministro do STF Alexandre de Moraes e delegados da Polícia Federal envolvidos em investigações de bolsonaristas.

Em agosto, Washington também revogou o visto da embaixadora brasileira nos EUA, Maria Luiza Viotti, uma medida inédita na relação entre os dois países. Segundo o governo americano, a decisão ocorreu como retaliação à demora do Brasil em aprovar a indicação do novo embaixador dos EUA em Brasília.

O Brasil, por sua vez, se recusou a conceder vistos a dois diplomatas americanos após uma reportagem do jornal The Washington Post apontar que eles fariam questionamentos sobre o sistema eleitoral brasileiro. O governo dos EUA negou a intenção.

 

Fonte: Por Fernando J. Pires de Sousa, em A Terra é Redonda/BBC News Brasil