sábado, 30 de maio de 2026

Classificação de PCC e CV como terroristas sobre políticos e Faria Lima pode prejudicar Flávio, diz professor

Professor de política internacional e comparada da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Dawisson Belém Lopes diz que ainda é cedo para estimar os impactos que a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelos Estados Unidos deve ter nas eleições.

"Qualquer previsão neste momento é imprecisa, porque é preciso entender como essa decisão será lida pela imprensa, por Flávio Bolsonaro, por Lula e por outros agentes políticos que influenciam o debate", diz ele, que tem artigos e livros publicados sobre política externa ligada à América Latina e ao Brasil, escritos a partir de pesquisas em universidades na Alemanha, na Bélgica e na Índia.

O professor reconhece a possibilidade de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) ganhar tração no tema da segurança pública, algo caro a grande parte dos brasileiros e área na qual o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) registrou sua pior avaliação em pesquisa Datafolha publicada há duas semanas.

Dois dias após Flávio se encontrar com Donald Trump e um dia após se reunir com Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos, o governo americano decidiu classificar o PCC e o CV como organizações terroristas internacionais.

Por outro lado, Lopes avalia que Lula, mais experiente em debates, pode virar o jogo ao argumentar que a medida revela a incapacidade do adversário de lidar com problemas internos, a ponto de recorrer à ajuda externa.

"Essa medida pode ser vista como entreguismo, algo contra o Brasil, não a favor, porque prevê uma renúncia de soberania", analisa.

E esse foi, de fato, o tom adotado por Lula em sua primeira reação pública ao anúncio do Departamento de Estado.

Horas após a publicação original desta reportagem, o presidente afirmou que "não aceitamos ser tratados como republiquetas". Lula atacou Flávio: "Não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil".

Para estudiosos, facções como o PCC e o Comando Vermelho são criminosas, porque agem por interesses econômicos, sem qualquer motivação ideológica, diferentemente das organizações terroristas. Mas Trump tem contestado essa distinção, a exemplo do que também fez no México, com os cartéis, no ano passado.

<><> Sanções financeiras contra aliados

A partir do dia 5 de junho, as facções passarão a ser tratadas por Washington como uma ameaça à segurança dos Estados Unidos, o que poderia abrir a possibilidade de o republicano promover intervenções militares em território brasileiro e também impor sanções diversas ao país e a quem, mesmo sem saber, mantenha alguma relação com essas organizações.

É nesse sentido, diz o professor, que "o tiro pode sair pela culatra" para Flávio.

"Pode-se cogitar que a iniciativa vá alvejar pessoas ligadas à política, além de políticos profissionais, que mantenham interações com o PCC e o CV. Isso já tem vindo à tona nos últimos tempos. Já se sabe de algumas relações envolvendo a turma da Faria Lima, os investidores e os bancos com o crime organizado. Quem propôs essa medida pode estar jogando contra si."

Essas figuras, que em sua maioria apoiam a pré-candidatura do senador à Presidência, diz o professor, "se forem atingidas podem se voltar contra ele, porque são pessoas com muito dinheiro e influência para mexer nas alavancas do sistema político brasileiro".

Sua visão encontra amparo em investigações conduzidas por autoridades como a Receita Federal, a Polícia Federal e o Ministério Público.

Essas três entidades deflagraram no ano passado uma operação contra um esquema que se valia de fundos de investimentos e empresas financeiras que operam na Faria Lima para gerar, lavar, ocultar e blindar recursos da atuação do PCC no tráfico de drogas e no setor de combustíveis.

Ao todo, a estimativa da PF à época era de que o esquema tenha movimentado pelo menos R$ 52 bilhões entre 2020 e 2024.

Na ala política, o ex-presidente da Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj), Rodrigo Bacellar (União), foi preso suspeito de vazar informações sigilosas e obstruir investigações contra facções como o Comando Vermelho.

Possíveis sanções ao Brasil e a brasileiros após a decisão de Trump poderiam se assemelhar à Lei Magnitsky, usada contra indivíduos acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. Foi ela que, no ano passado, Trump usou contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), dificultando sua relação com o sistema financeiro americano.

A sorte do senador é que as sanções financeiras, ao menos na avaliação do professor, devem ser brandas. Para ilustrar seu argumento, ele lembra que os bancos brasileiros se recusaram a se voltar contra Moraes e a atender ao desejo dos Estados Unidos.

"Os bancos brasileiros foram pressionados a quebrar negócios com ele, mas resistiram, porque foram instruídos pelo Ministério da Fazenda e pelo Banco Central para fazer isso. O Brasil já está vacinado contra esse tipo de pressão. Não vejo o sistema bancário sucumbindo e fazendo o jogo da diplomacia estadunidense, até pelas garantias que o governo brasileiro tem dado", diz o professor.

Ele recorda ainda que, na época, a conexão entre Brasília e Washington era mais delicada e vinha na esteira do "tarifaço". "Neste momento, a relação é bastante civilizada, e o nível de tensão, bastante controlado. Não vejo possibilidade de uma disrupção", opina.

Há, por fim, um terceiro argumento ao qual o professor recorre: a experiência do México, que teve seus cartéis classificados como organizações terroristas internacionais logo no início do segundo mandato de Trump, no ano passado.

Na ocasião, a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum, atendeu a parte das demandas de Washington — como a extradição de criminosos e o reforço da segurança nas fronteiras — e afastou rapidamente qualquer retaliação mais profunda.

"Se no México o impacto foi modesto, no Brasil tende a ser menor ainda", diz Lopes, acrescentando que "as correntes de comércio exterior do México são, em sua maioria, com os Estados Unidos, e todos os dias centenas de milhares de mexicanos cruzam a fronteira, legalmente ou ilegalmente".

"Os Estados Unidos são importantíssimos para o Brasil, sim, mas não são nem sequer nosso maior parceiro comercial. A China faz mais do que o dobro de comércio com o Brasil do que os Estados Unidos", diz.

¨      A reação de Lula à decisão dos EUA de declarar CV e PCC como 'terroristas': 'Não aceitamos ser tratados como moleques'

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) disse nesta sexta-feira (29/5) que não vai aceitar que o Brasil seja tratado como "republiqueta", ao comentar a decisão dos EUA de designar o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC) como entidades terroristas

"Nós não aceitamos ser tratados como moleque. Não aceitamos ser tratados como uma republiqueta", disse Lula em uma agenda em Sergipe.

O discurso veio em consonância com uma nota também divulgada pelo governo nesta sexta.

O texto ressalta que "a soberania nacional é inegociável" e que "quem define como o crime é classificado e combatido dentro do Brasil são os brasileiros, com suas instituições, suas leis e suas forças de segurança".

No discurso, o presidente Lula disse também que se sentia "triste" com a decisão do governo americano e que havia entregado ao presidente americano, Donald Trump, na visita à Casa Branca no início do mês, um documento que tratava sobre medidas para combater o crime organizado.

O governo brasileiro sempre foi contra a classificação americana, argumentando que ela poderia colocar em risco a soberania nacional ao abrir espaço para ações militares dos EUA sob o pretexto de combate ao terrorismo.

Lula disse que o PCC e o CV "são terroristas para as comunidades brasileiras", mas que "não são os terroristas que o Trump quer".

"Eles incomodam as famílias, o bairro, a cidade, roubam tudo que tem direito do povo, o direito do povo viver livremente, então eles são terroristas. E nós vamos combatê-los aqui dentro", defendeu Lula.

A nota divulgada pelo governo também argumenta que a violência praticada pelas facções "não pode ser confundido com o tipo de ação por motivos ideológicos, políticos e religiosos do terrorismo internacional".

No discurso em Sergipe, o presidente Lula comentou ainda sobre o encontro entre o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e Trump três dias atrás.

Na reunião, Flávio defendeu que o governo dos EUA classificasse as facções como terroristas, uma bandeira defendida há mais de um ano por bolsonaristas, inclusive Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro que vive atualmente em solo americano.

Dois dias após a visita de Flávio, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, anunciou a classificação dos grupos criminosos como terroristas.

"O senhor Rubio não estava lá [na reunião com Lula], possivelmente porque ele tivesse preparado para ajudar o filho de um bolsonarista que é candidato a eleição aqui nesse país, que não tem vergonha na cara de trair a nossa pátria, de ir nos EUA pedir intervenção americana no Brasil", declarou o presidente brasileiro.

A nota do governo também menciona "traidores".

"A segurança da nossa população é importante demais para ser manipulada politicamente por traidores que tentam confundir esses conceitos. Por falsos patriotas, envolvidos com o crime organizado, que pedem a autoridades estrangeiras a interferência em assuntos brasileiros", diz o texto.

"É deplorável que mais uma vez integrantes da família Bolsonaro viajem aos Estados Unidos para defender intervenção estrangeira no Brasil, como já fizeram no tarifaço, que causou tantos danos ao nosso país."

Lula ainda argumentou que o combate ao crime organizado pelos EUA deveria acontecer entregando "os terroristas brasileiros" que estão no país.

"Sabe as armas importadas que são contrabandeadas pro Brasil? Vêm dos EUA", disse Lula, que ressaltou a aprovação do projeto de lei Antifacção.

Por fim, o presidente mencionou a situação de Alexandre Ramagem, ex-chefe da inteligência brasileira durante o governo Bolsonaro que fugiu para os EUA, e de Ricardo Magro, empresário controlador do Grupo Refit que é suspeito de elo com PCC e é o maior sonegador de impostos do Brasil.

<><> Derrota de Lula na batalha

A batalha em torno da classificação de PCC e CV como terroristas demorou mais de um ano, com idas e vindas.

Do lado do governo brasileiro, além do argumento do risco à soberania nacional, também se alegava que a medida iria contra a legislação brasileira.

Do outro lado, o grupo liderado por Flávio Bolsonaro vinha defendendo publicamente a medida há mais de um ano apontando a posição contrária do governo Lula à designação como uma suposta demonstração de conivência da administração petista com o crime organizado.

O governo brasileiro nunca havia considerado o assunto totalmente superado dentro da administração Trump dado o que assessores de Lula classificam como imprevisibilidade do presidente norte-americano.

Apesar disso, a BBC News Brasil apurou que a decisão dos EUA pegou de surpresa até mesmo diplomatas que acompanhavam parte das conversas entre os dois países sobre o assunto.

Durante sua passagem pelos Estados Unidos, Flávio disse ter defendido, para toda a equipe de Trump, que o país tomasse a medida contra as organizações criminosas brasileiras.

Antes da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula afirmavam, em caráter reservado, que o governo interpretaria um anúncio da administração Trump considerado negativo como uma possível ingerência no processo eleitoral do Brasil e que o governo responderia a exemplo do que aconteceu durante o tarifaço em 2025.

>>>>> Cronologia da derrota

A ideia de adotar sanções contra organizações criminosas brasileiras como o PCC e o CV como entidades terroristas vinha sendo estudada pelo governo norte-americano há vários anos.

Em 2021, por exemplo, a Secretaria do Tesouro incluiu o PCC como uma entidade designada, uma classificação que permite impor sanções aos seus integrantes ou a empresas que mantivessem negócios com a facção.

Mas o plano de designar PCC e CV como entidades terroristas ganhou força, de fato, após o início do segundo mandato de Donald Trump, em 2025.

O plano vinha sendo discutido internamente pela área técnica do Departamento de Estado, com auxílio de oficiais da Embaixada dos Estados Unidos em Brasília.

Entre o final de 2025 e o início de 2026, o Departamento de Estado enviou assessores ao Brasil que se reuniram com promotores brasileiros especializados no combate ao crime organizado para obter mais informações sobre o assunto.

<><> Maio de 2025

Em maio de 2025, por exemplo, o governo norte-americano enviou o então chefe interino da estratégia de sanções do Departamento de Estado ao Brasil, David Gamble, e o assessor Ricardo Pitta.

Pitta chegou a se reunir com a família Bolsonaro e, segundo o senador Flávio Bolsonaro, já naquele momento, a família defendeu a designação do PCC e do CV como organizações terroristas.

O movimento foi monitorado pelo governo brasileiro que, já naquela época, via essa possibilidade como uma possível interferência norte-americana na política brasileira de combate ao crime organizado.

<><> Julho de 2025

Em julho de 2025, quando Trump impôs o tarifaço sobre produtos brasileiros, a expectativa na diplomacia brasileira era de que a medida sobre facções brasileiras poderia ser adotada naquela época, o que acabou não ocorrendo.

O governo Lula, por sua vez, tentou desmontar o discurso pró-designação adotando um discurso de que a classificação das facções como organização terrorista não seria efetiva no combate ao crime organizado.

Em setembro de 2025, por exemplo, Lula criticou a possível medida em seu discurso na Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU).

"É preocupante a equiparação entre a criminalidade e o terrorismo. A forma mais eficaz de combater o tráfico de drogas é a cooperação para reprimir a lavagem de dinheiro e limitar o comércio de armas. Usar força letal em situações que não constituem conflitos armados equivale a executar pessoas sem julgamento", disse Lula em uma referência a ataques que vinham sendo feito pelos Estados Unidos a embarcações na costa de países latino-americanos como Venezuela e Colômbia.

O assunto continuou a ser discutido em Washington.

<><> Março de 2026

A possibilidade de designação continuou a ser estudada pelo Departamento de Estado até que, no dia 8 de março deste ano, o portal UOL revelou que o governo norte-americano estava prestes a adotar a medida.

A notícia fez com que o governo brasileiro montasse uma espécie de "operação de emergência" para impedir a adoção da medida.

Naquele mesmo dia, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, conversou por telefone com Marco Rubio sobre o assunto.

Dois dias depois, no dia 10 de março, um porta-voz do Departamento de Estado divulgou uma nota reiterando que o governo norte-americano considerava as duas facções como ameaças ao país.

"Os Estados Unidos consideram as organizações criminosas do Brasil — incluindo o PCC e o CV — como ameaças significativas à segurança regional, devido ao seu envolvimento no tráfico de drogas, na violência e no crime transnacional", dizia o texto.

Lula passou então a defender, de forma ainda mais ostensiva, que os Estados Unidos cooperem com o Brasil no combate ao crime organizado como alternativa à designação.

Ao mesmo tempo, os governos dos dois países discutiam propostas de cooperação nessa área.

No dia 13 de março, o jornal Folha de S. Paulo revelou que os EUA haviam enviado um plano ao Brasil em que pediam que o país adotasse medidas para extinguir o PCC e o CV.

Nas semanas que se seguiram, o esforço da diplomacia brasileira parecia ter surtido efeito e a designação não veio.

<><> Maio de 2026

O assunto, no entanto, voltou à tona nesta semana durante a visita de Flávio Bolsonaro a Washington.

Ele se encontrou com o presidente Trump, seu vice, J.D. Vance e com Marco Rubio.

Nos encontros, disse Flávio, ele defendeu a designação do PCC e do CV como organizações terroristas.

"Batemos de novo na mesma tecla de que os Estados Unidos deveriam classificar, sim, CV e PCC como organizações terroristas. Dissemos que, se Deus quiser, a partir de 2027, o Brasil vai ser um aliado no combate ao crime organizado, diferente do atual governo, que parece proteger esses marginais", disse Flávio após o encontro com Marco Rubio, na quarta-feira.

Segundo ele, Rubio teria parecido até mais favorável à proposta que Trump.

Antes da viagem de Flávio, interlocutores do presidente Lula diziam que, ainda que o governo tivesse conseguido se aproximar de Trump nos últimos meses, inclusive com uma visita ocorrida há menos de um mês, a administração petista tinha a convicção de que diversos setores do governo norte-americano têm uma preferência clara pela candidatura de Flávio Bolsonaro em relação à de Lula.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Verbena Córdula: Debate eleitoral no Brasil ignora pobreza e soberania nacional por tema “corrupção”

As eleições presidenciais no Brasil têm sido marcadas, historicamente, por intensos embates ideológicos, disputas narrativas e crises de confiança nas instituições políticas. Em meio a esse cenário, denúncias de corrupção frequentemente ocupam o centro do debate público e da cobertura midiática. Nos últimos meses, o tema concentrou-se no escândalo envolvendo o Banco Master, ganhou enorme repercussão nacional e contribuiu para ampliar a polarização política brasileira. Mas é isso mesmo de que o Brasil necessita?

•        Elemento decorativo do discurso oficial

A autonomia científico-tecnológica representa tema fundamental frequentemente ignorado. O Brasil possui universidades públicas relevantes, centros de pesquisa reconhecidos internacionalmente e grande potencial de inovação. Contudo, cortes orçamentários, fuga de cérebros e dependência tecnológica externa limitam o desenvolvimento nacional. Países que alcançaram elevado nível de desenvolvimento investiram pesadamente em ciência, tecnologia e educação estratégica, como a China, por exemplo. No entanto, o debate político brasileiro raramente discute, de forma contundente, a construção de soberania tecnológica, preferindo concentrar energia em disputas eleitorais imediatistas.

Não poderia deixar de mencionar aqui o racismo estrutural — uma das bases históricas da formação social brasileira — ainda profundamente presente nas instituições, nas relações econômicas e nas desigualdades cotidianas. Mesmo mais de um século após a abolição da escravidão, a população negra segue, majoritariamente, em situação de maior vulnerabilidade social, com menor acesso a oportunidades, maior exposição à violência policial e sub-representação em espaços de poder político, econômico e acadêmico. Apesar disso, o tema raramente ocupa lugar central nos debates públicos, sendo muitas vezes tratado de forma superficial ou reduzido a episódios isolados de discriminação, sem uma reflexão consistente sobre suas estruturas históricas e sobre as medidas necessárias para sua superação.

A permanência desse cenário escancara a insuficiência e a profunda omissão histórica do próprio Estado brasileiro diante do racismo estrutural. Ainda que a criação do Ministério da Igualdade Racial represente uma conquista simbólica importante dos movimentos negros, ela pouco altera uma realidade marcada pela continuidade da exclusão, da violência e da marginalização da população negra. Na prática, o combate ao racismo frequentemente permanece restrito ao discurso institucional, enquanto políticas efetivas seguem fragilizadas por cortes orçamentários, falta de prioridade política e ausência de enfrentamento concreto às estruturas que reproduzem privilégios raciais no país.

O contraste entre a retórica oficial e a realidade cotidiana é notório. Enquanto autoridades celebram avanços institucionais, jovens negros continuam sendo as principais vítimas da violência policial, as periferias seguem abandonadas pelo poder público e a população negra permanece ocupando os postos mais precarizados da economia. O Estado que cria ministérios é o mesmo que falha em garantir educação de qualidade, acesso digno à saúde e oportunidades reais de ascensão social para milhões de brasileiros negros.

Mais do que insuficiência administrativa, observa-se uma contradição estrutural: o mesmo Estado que reconhece formalmente a existência do racismo é aquele que, historicamente, ajuda a produzi-lo e sustentá-lo até hoje, perpetuando mecanismos de exclusão. Sem investimento massivo, sem políticas permanentes e sem enfrentamento direto às desigualdades raciais enraizadas nas instituições, a pauta antirracista é reduzida a um elemento decorativo do discurso oficial — útil para compor narrativas progressistas, mas incapaz de transformar concretamente a vida daqueles que seguem sendo os principais alvos da exclusão social brasileira.

Outra questão importante é a defesa nacional, que se tornou estratégica para o Brasil e para a América Latina em um contexto internacional marcado pela disputa por influência política, econômica, tecnológica e militar. Os Estados Unidos mantêm historicamente forte presença na região por meio de acordos econômicos, influência diplomática e cooperação militar. Nas últimas décadas, essa atuação intensificou-se com o crescente interesse por recursos naturais estratégicos, como água, biodiversidade, minerais raros, petróleo e energia. No entanto, o país pouco debate esse assunto.

Países que não desenvolvem capacidade própria de pesquisa, inteligência e defesa tornam-se mais vulneráveis à dependência externa. A presença crescente de interesses estrangeiros sobre territórios estratégicos latino-americanos demonstra que a defesa nacional precisa ser entendida de forma ampla, articulando economia, ciência, diplomacia e proteção territorial. Nesse cenário, é evidente que o fortalecimento da soberania brasileira depende da construção de um projeto nacional capaz de integrar desenvolvimento social e capacidade estratégica.

Não se trata de promover discursos militaristas ou nacionalismos extremos, mas de reconhecer que nenhum país alcança autonomia real sem planejamento de longo prazo e sem capacidade de proteger seus próprios interesses. Por isso, debater defesa nacional significa, também, discutir o futuro do país, sua posição no cenário global e a necessidade de construir uma nação menos dependente economicamente e mais preparada para enfrentar disputas internacionais em um século marcado pela competição por recursos, tecnologia e influência política.

Esse desinteresse — sobretudo das elites — pela soberania nacional possui raízes históricas profundas. Desde a formação econômica do Brasil, parcelas dominantes da sociedade construíram relações de dependência em relação aos grandes centros de poder internacional, priorizando modelos econômicos voltados à exportação de matérias-primas e à subordinação tecnológica externa. Em vez de incentivar um projeto nacional baseado em ciência, inovação e autonomia produtiva, consolidou-se uma lógica de dependência que limita a capacidade do país de competir estrategicamente no cenário global.

A ausência de compromisso com a construção de soberania tecnológica torna o Brasil vulnerável economicamente, enfraquece sua capacidade industrial e reduz sua influência internacional em um mundo cada vez mais definido pela disputa por tecnologia, informação e controle de recursos estratégicos. A independência científica e tecnológica raramente ocupa espaço central nas eleições presidenciais justamente porque exige planejamento de longo prazo e enfrentamento de interesses consolidados. Investir seriamente em pesquisa, universidades públicas, desenvolvimento industrial e inovação significaria transformar a estrutura econômica do país e ampliar a autonomia nacional diante das potências estrangeiras.

A maior parte das elites brasileiras demonstra pouco interesse em construir esse caminho, preferindo modelos econômicos baseados na dependência financeira e na exportação de commodities. Assim, enquanto outros países discutem inteligência artificial, soberania digital, indústria de alta complexidade e segurança tecnológica, o debate político brasileiro permanece preso a conflitos imediatos e disputas eleitorais superficiais. Esse cenário contribui diretamente para o empobrecimento da democracia e para o esvaziamento do debate eleitoral.

O silêncio das elites demonstra ausência de visão histórica e, principalmente, uma dificuldade estrutural de pensar o Brasil como nação autônoma e protagonista no cenário internacional. Porque as elites nacionais pensam apenas em dinheiro. Para essa gente — com raras exceções — pouco importa um país soberano, desenvolvido e independente científica e tecnologicamente. E, sem enfrentar esses problemas, o país continuará preso a ciclos de dependência, desigualdade e fragilidade política que limitam suas possibilidades de desenvolvimento pleno. E muitas e muitos ainda se dizem patriotas!

<><> Brasil: Caminhos para as próximas décadas

É por essas e outras razões que os escândalos de corrupção simbolizam mais do que um problema jurídico ou moral. Eles são um sintoma da pobreza do debate público nacional. Sim, pobreza do debate político. Infelizmente, a política brasileira tornou-se excessivamente centrada em conflitos pessoais, escândalos midiáticos e disputas de imagem. Isso não significa minimizar eventuais irregularidades ou defender impunidade. Mas um país maduro e sério não pode se limitar à lógica do escândalo permanente.

Também é importante reconhecer o papel da mídia — e das redes sociais — nesse processo. A lógica contemporânea da comunicação política privilegia temas capazes de gerar engajamento imediato, indignação e conflito. Escândalos possuem enorme capacidade de mobilização emocional e, por isso, recebem atenção desproporcional. Em contrapartida, debates sobre saneamento, ciência, planejamento urbano, política industrial e racismo estrutural tendem a parecer menos atraentes para a dinâmica acelerada das redes digitais. O resultado é um empobrecimento progressivo da esfera pública.

As eleições presidenciais deveriam representar momentos privilegiados para a sociedade debater e posicionar-se diante dos projetos de país. Em vez de apenas escolher indivíduos ou partidos, o eleitorado deveria ser estimulado a refletir sobre qual modelo de desenvolvimento deseja construir. Isso implica discutir desigualdade social, educação de qualidade, fortalecimento institucional e inserção internacional do Brasil. Contudo, enquanto a agenda pública permanecer dominada por escândalos sucessivos, essas discussões continuarão marginalizadas.

A democracia burguesa brasileira necessita, urgentemente, recuperar a capacidade de formular debates estruturais. Casos envolvendo corrupção precisam ser investigados e julgados com seriedade, independentemente do grupo político envolvido. Porém, o futuro do país não pode ficar refém dessas disputas. O Brasil enfrenta desafios profundos demais para reduzir suas eleições a uma sucessão interminável de denúncias, vazamentos e confrontos morais.

Enquanto escândalos monopolizam o debate público, milhões de brasileiras e brasileiros continuam convivendo com precariedade educacional, insegurança alimentar e fome, deficiência no saneamento, desigualdade regional e falta de oportunidades. O verdadeiro desafio das eleições presidenciais não deveria ser decidir quem ocupa o Palácio do Planalto, mas quais caminhos o país pretende seguir nas próximas décadas.

•        Cannabrava: Janela partidária movimenta 135 deputados de 20 partidos e reforça maioria conservadora

A janela partidária voltou a demonstrar a profunda fragilidade ideológica do sistema político brasileiro. Ao todo, 135 deputados federais de 20 partidos trocaram de legenda no atual rearranjo político do Congresso Nacional. A movimentação, longe de refletir divergências programáticas ou debates ideológicos, revela sobretudo a disputa por poder, recursos públicos, tempo de televisão e sobrevivência eleitoral.

O principal beneficiado foi o PL, que ampliou sua bancada e alcançou cerca de 101 deputados federais, consolidando-se como a maior força política da Câmara. O PP também cresceu, chegando à faixa de 54 deputados. O Partido Social Democrático (PSD) manteve aproximadamente 47 parlamentares. O Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) ganhou musculatura política e chegou perto de 19 deputados, enquanto o Partido Socialista Brasileiro (PSB) avançou para cerca de 20 parlamentares.

Entre as maiores perdas está o União Brasil, que perdeu cerca de 15 deputados e caiu para aproximadamente 44 parlamentares. O Partido Democrático Trabalhista (PDT) sofreu forte esvaziamento e ficou reduzido a apenas seis deputados federais. O Partido dos Trabalhadores (PT) praticamente manteve sua bancada em torno de 66 deputados. Já partidos menores, como Partido Socialismo e Liberdade (PSOL), Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Partido Verde (PV) e Solidariedade, tiveram pequenas oscilações.

O quadro consolidado reforça o domínio da direita e da extrema-direita dentro do Congresso Nacional. A oposição conservadora mantém uma maioria próxima de 300 parlamentares, enquanto os setores democráticos e progressistas somam algo em torno de 100 deputados. Essa correlação de forças ajuda a explicar as enormes dificuldades enfrentadas pelo governo federal para aprovar medidas de interesse popular e implementar mudanças estruturais.

A chamada governabilidade acaba submetida a negociações permanentes, distribuição de cargos, liberação de emendas parlamentares e acordos circunstanciais. O debate programático desaparece. Muitos partidos perderam identidade ideológica e se transformaram apenas em máquinas eleitorais voltadas à disputa de verbas públicas e espaços de poder.

O eleitor vota acreditando em determinado programa político, mas depois assiste ao parlamentar migrar livremente para outra legenda, muitas vezes sem qualquer justificativa coerente. Isso aprofunda o descrédito nas instituições e aumenta a sensação de afastamento entre o sistema político e os interesses reais da população.

Vivemos uma democracia profundamente condicionada pelo poder econômico e pela influência do capital financeiro. Em ano eleitoral, torna-se cada vez mais necessária uma reforma política capaz de fortalecer partidos programáticos, reduzir o fisiologismo e devolver legitimidade à representação popular. Sem isso, o país continuará refém de maiorias parlamentares construídas muito mais por conveniências do que por compromissos ideológicos ou projetos nacionais.

•        Plutocracia brasileira e concentração obscena de renda

O Brasil registrou em 2025 uma renda domiciliar per capita recorde de R$ 2.264, em meio ao aprofundamento da plutocracia financeira que marca a economia nacional, valor 6,9% superior ao de 2024. À primeira vista, o dado parece indicar melhora consistente das condições de vida da população. O mercado de trabalho segue aquecido, o desemprego caiu e os indicadores oficiais tentam transmitir uma sensação de normalidade econômica. Mas a realidade concreta do povo brasileiro revela outra coisa: o crescimento da renda continua concentrado nas mãos de uma minoria privilegiada, enquanto a maioria sobrevive em condições cada vez mais precárias.

A concentração de renda no Brasil alcançou níveis obscenos, incompatíveis com qualquer projeto civilizatório minimamente democrático. O sistema econômico opera para transferir riqueza para o topo da pirâmide social, alimentando a especulação financeira e fortalecendo uma plutocracia que passou a controlar não apenas a economia, mas também o sistema político e as decisões estratégicas do Estado.

Segundo dados da PNAD Contínua do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda média real domiciliar per capita dos 10% mais pobres subiu apenas 3,1%. Ainda assim, essa faixa da população sobrevive com miseráveis R$ 268 mensais por pessoa — o equivalente a R$ 8,93 por dia. É uma renda incompatível com a dignidade humana. Não cobre alimentação adequada, transporte, moradia nem acesso pleno aos serviços básicos. A pergunta inevitável é: como sobrevivem essas famílias?

Enquanto isso, os 10% mais ricos tiveram aumento de renda de 8,7%, alcançando rendimento per capita superior a R$ 9.117 mensais. Mais chocante ainda é a situação do 1% mais rico da população: a renda média chegou a R$ 24.976 por pessoa, crescimento de 9,9% em relação ao ano anterior.

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Segundo dados do Ministério da Fazenda, 1% da população brasileira detém 37,3% de toda a riqueza nacional. Dependendo da metodologia utilizada, essa concentração pode chegar perto de 50%. Já os 50% mais pobres da população possuem apenas 2% da riqueza do país.

Os números revelam uma deformação estrutural. Segundo a Oxfam, os 5% mais ricos detêm a mesma fatia de riqueza que os outros 95% da população brasileira. Mais escandaloso ainda: seis brasileiros possuem patrimônio equivalente ao de cerca de 100 milhões de habitantes — praticamente metade do país.

<><> Plutocracia à brasileira

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que os 50% mais pobres detêm apenas 2% do patrimônio nacional, enquanto um grupo ínfimo, correspondente a 0,01% da população, concentra sozinho 27% de todos os ativos financeiros do país. É essa elite financeira que conforma a verdadeira plutocracia brasileira, impondo os rumos da política econômica nacional.

Não por acaso, o Brasil continua praticando uma das mais perversas estruturas tributárias do mundo. Segundo levantamento citado pela revista CartaCapital, os milionários pagam proporcionalmente menos impostos do que a classe média. Quando pagam, a alíquota efetiva gira em torno de 20,6%, enquanto trabalhadores assalariados e setores médios chegam a suportar carga próxima de 42,5% sobre sua renda e consumo.

O resultado é um modelo econômico voltado essencialmente para garantir os ganhos do sistema financeiro. Os juros estratosféricos mantêm a transferência permanente de renda para rentistas e aplicadores financeiros, enquanto o Estado reduz sua capacidade de investimento em desenvolvimento, infraestrutura, ciência, tecnologia e políticas sociais.

O Brasil tornou-se uma sociedade profundamente desigual, marcada pela concentração patrimonial extrema e pela captura do Estado pelos interesses do capital financeiro. Vivemos a ditadura do pensamento único imposta pelo capital financeiro. Essa estrutura impede o desenvolvimento soberano e aprofunda a exclusão social.

Não se trata apenas de um problema econômico. Trata-se de uma questão política, social e moral. Nenhuma democracia resiste indefinidamente a tamanha desigualdade. A concentração obscena de riqueza destrói a coesão social, enfraquece as instituições e transforma a política em instrumento dos grandes grupos econômicos.

Em ano eleitoral, esse debate torna-se ainda mais urgente. O país precisa discutir um verdadeiro projeto de salvação nacional, capaz de enfrentar a concentração de renda, democratizar o acesso à riqueza e recolocar o desenvolvimento soberano no centro da agenda brasileira. Sem isso, continuaremos sendo uma nação rica, mas condenada a conviver com a pobreza de sua maioria e com o privilégio escandaloso de poucos.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

O livro que deu origem a filme com Wagner Moura e conta a história que levou ao indiciamento de Raúl Castro

A crise que resultou no indiciamento do ex-presidente de Cuba Raúl Castro, 94 anos, pelos Estados Unidos, na semana passada, é o pano de fundo para um livro-reportagem filmado para o streaming com o ator brasileiro Wagner Moura em um dos papéis centrais.

Publicado em 2011, Os últimos soldados da Guerra Fria, do também brasileiro Fernando Morais, revela uma trama emoldurada pela tensão diplomática e militar entre Washington e Havana que se seguiu ao fim da União Soviética.

A escalada teve um de seus pontos culminantes no dia 24 de fevereiro de 1996, quando um jato MIG-29 da Força Aérea Cubana, derrubou dois aviões bimotores Cessna 337 de um grupo anticastrista sobre o Estreito da Flórida no dia 24 de fevereiro de 1996.

Os quatro tripulantes das duas aeronaves (três americanos de origem cubana e um cubano com visto permanente de residência nos Estados Unidos) morreram, enquanto uma terceira conseguiu escapar.

Na época, Raúl Castro era ministro da Defesa de Cuba, sob a presidência de seu irmão Fidel Castro (1926-2016). Agora, 30 anos depois, Raúl e outros cinco cubanos foram indiciados em uma corte federal da Flórida por suspeita de homicídio e destruição das duas aeronaves.

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Em entrevista por telefone à BBC News Brasil, o escritor Fernando Morais recorreu a sua condição de "autor de livro e consultor de filme" sobre o assunto para justificar o "espanto" com a medida contra Raúl Castro.

Prestes a completar 80 anos no próximo dia 22 de julho, dos quais 50 dedicados à cobertura jornalística de assuntos cubanos, o jornalista e escritor atribuiu a decisão de uma juíza federal da Flórida a "mais uma manifestação delirante do presidente [Donald] Trump".

<><> 13 anos para escrever

Nono livro de Morais, Os últimos soldados é também um ponto fora da curva em sua obra.

As reviravoltas na produção do relato, que quase não chegou às prateleiras por falta de recursos do autor para concluí-lo, assemelham-se às da própria narrativa.

Observador atento da realidade do país ao qual consagrou seu primeiro título, A ilha (1976), Morais virou sua atenção para o caso pela primeira vez em 1998. A bordo de um táxi, ele ouviu pelo rádio a notícia da prisão de cinco cubanos acusados de espionagem nos Estados Unidos.

O sinal verde para consultar arquivos cubanos do caso ocorreu apenas em 2005, quando Fernando Moraes estava às voltas com O mago, biografia do romancista Paulo Coelho.

O início efetivo do trabalho só ocorreria três anos depois, quando o jornalista teve tempo e recursos de sua editora, Companhia das Letras, para uma série de viagens a Cuba e Estados Unidos.

No meio da investigação, o trajeto São Paulo-Havana-Miami consumiu todo o dinheiro.

Os últimos soldados da Guerra Fria só veio a lume graças à compra do argumento para o cinema pelo produtor Rodrigo Teixeira, que também co-produziria Ainda estou aqui (2024).

A providencial venda de direitos para a tela grande custeou a conclusão do livro. A obra revela Morais no auge de seus poderes de narrador, capazes de conduzir o leitor por uma magistral reportagem histórica em ritmo de thriller.

Meses antes do lançamento, o autor recebeu a ligação de um repórter que acabara de ler a prova de divulgação do livro distribuída pela editora.

"Fernando, o seu livro é do...", disse-lhe o interlocutor, completando a frase com o célebre palavrão à brasileira.

A reação do escritor foi uma sonora gargalhada.

"Vou responder a você com as mesmas palavras que [o dramaturgo] Nelson Rodrigues disse a José Lino Grunewald [tradutor] ao encontrá-lo na rua e ouvir dele um comentário parecido com o seu sobre uma peça: 'O senhor escreva o que está dizendo, o senhor assine e o senhor publique'."

Em 2019, Wasp Network: rede de espiões, co-produção franco-belgo-hispano-brasileira estreou no Festival de Cinema de Veneza. O filme é dirigido pelo francês Olivier Assayas e tem os astros Wagner Moura, Gael García Bernal, Penélope Cruz e Ana de Armas no elenco.

No ano seguinte, o filme passou a fazer parte do catálogo da Netflix.

Com três obras adaptadas para o cinema (Olga, Chatô, o Rei do Brasil e Corações sujos), o escritor atuou como consultor histórico de Wasp network: rede de espionagem.

<><> Derrubada de aviões

Apesar de marcante em Os últimos soldados, o abate dos aviões está longe de ocupar posição central no livro.

O episódio é narrado no oitavo dos 15 capítulos da obra, quando a trama de espionagem, ameaças e cerco de três vértices – o regime cubano, as administrações de quatro presidentes norte-americanos e o ecossistema anticastrista de direita da Flórida – está bem avançado.

O objetivo de Morais era contar a história de personagens aos quais o noticiário atual quase não faz referência: os agentes cubanos que inspiraram o título do livro, infiltrados pela inteligência do país nos grupos de oposição baseados nos Estados Unidos.

A narrativa começa por seguir os passos de dois oficiais cubanos, René Gonzalez e Juan Pablo Roque, que desertam em momentos distintos para os Estados Unidos em meio ao colapso econômico da ilha após o fim da União Soviética.

De tão prosaicas, as fugas não despertam suspeitas: enquanto Gonzalez rouba um avião da base aérea onde serve, Roque viaja de ônibus até as proximidades da base americana de Guantánamo e nada até os muros da instalação.

Na Flórida, os dois não têm dificuldade em aproveitar a formação como pilotos para integrar-se a grupos anticastristas que sobrevoam Cuba em desafio às autoridades da ilha.

As organizações também patrocinam ataques a turistas e hotéis e transportam drogas para os Estados Unidos.

Ao mesmo tempo, Gonzalez e Roque tornam-se informantes do FBI, a polícia federal americana, à qual fornecem pistas sobre as atividades dos bandos da Flórida que contrariam as leis americanas.

Os policiais mantêm os desertores sob estrita vigilância, suspeitando de que sejam o que finalmente revelarão ser: espiões a serviço de Havana.

A Rede Vespa, da qual fazem parte os dois pilotos e outros 12 operadores em solo americano, acabará desbaratada pelas autoridades, e cinco de seus integrantes – incluindo Gonzalez – serão presos e condenados.

Em Cuba, para onde regressarão entre 2013 e 2014 por meio de uma troca de prisioneiros, os chamados Cinco Cubanos são cultuados como heróis.

<><> A derrubada

Contariando a justiça americana, a Corte Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas (ONU), para os quais o abate deu-se fora do espaço aéreo territorial cubano, Morais sustenta a versão de Havana de que a derrubada ocorreu no interior desse perímetro.

Nenhuma das perícias e inquéritos sobre o caso conseguiu estabelecer com precisão a posição das aeronaves no momento em que foram atingidas pelos mísseis disparados pelo MIG-29.

Durante ao menos um ano antes do incidente, porém, o governo cubano havia endereçado múltiplos protestos por violação de espaço aéreo por aviões oriundos da Flórida junto às autoridades americanas.

Os órgãos de aviação civil dos Estados Unidos, por seu turno, tinham advertido o grupo Irmãos pelo Resgate, ao qual pertenciam os aparelhos alvejados, por atitudes "provocativas".

Na prática, o episódio de fevereiro de 1996 obrigou Washington a proibir definitivamente os voos dos grupos anticastristas sobre Cuba, atendendo, assim, à principal reivindicação do regime de Havana.

Morais afirma que cogitou pedir à CIDH a reabertura das averiguações do caso com base em seu livro, mas desistiu em razão do esgotamento de prazos legais.

"Não me surpreenderá se [os Estados Unidos] tentarem fazer alguma coisa semelhante ao que fizeram em Caracas. O que eu tenho segurança, pelo que conheço deles [os cubanos], é que o resultado não será semelhante", diz o escritor, aludindo à captura do ditador venezuelano Nicolás Maduro por forças especiais americanas, em janeiro.

<><> Raúl e Fidel

O escritor relembra que Os últimos soldados propiciou seu último encontro com os irmãos Castro, em Havana.

"Foi um mês antes do falecimento do comandante Fidel [ocorrido em 25 de novembro de 2016]", afirma.

De passagem pela capital cubana para o lançamento da edição cubana do livro, Morais foi à residência de Raúl, então presidente do país, para presenteá-lo com a obra.

"Ele [Raúl] atendeu uma chamada no telefone celular. Era o irmão mais velho [Fidel]. Disse-me: 'Está se queixando de que você não foi levar o livro para ele'."

O autor, que não procurara Fidel em razão das notícias sobre sua saúde precária, retornou ao hotel para apanhar um exemplar e levá-lo ao líder nonagenário, a quem encontrou lúcido, apesar da postura encurvada.

"Pode-se dizer que era um velhinho", recorda-se.

Em alguns minutos de visita, segundo Morais, Fidel disse-lhe que pretendia ler o livro, sobre o qual ouvira comentários positivos.

A visita seguinte do escritor a Cuba ocorreu dois meses depois, em companhia dos ex-presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff, para o funeral de Fidel, morto em 26 de novembro de 2016.

 

Fonte: Por Luiz Antônio Araujo, de Porto Alegre para a BBC News Brasil

 

Dores menstruais tiram das aulas 4 em cada 10 alunas no país

Seis em cada dez estudantes dos ensinos fundamental e médio que menstruam relatam ter cólicas fortes e moderadas que atrapalham sua rotina escolar e exigem uso de medicação. E cerca de quatro em cada dez alunas (37,1%) faltam às aulas mensalmente por dores menstruais.

Os dados são de pesquisa realizada pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.info e foi divulgada na quarta-feira (27), em ocasião do Dia Internacional da Dignidade Menstrual, celebrado nesta quinta-feira (28). A data tem o objetivo de promover a discussão e combater o estigma e a pobreza menstrual.

O levantamento foi feito em fevereiro deste ano com 2.551 estudantes — sendo 770 estudantes que menstruam —, 303 docentes e 181 gestores escolares, das redes pública e privada de ensino de todas as regiões do país.

<><> Sintomas menstruais

A sondagem inédita revela que o principal sintoma menstrual que impede as alunas de irem às aulas é a cólica, mencionado por 57,7% das entrevistadas. As demais manifestações relacionadas à menstruação apontadas são:

•        Cansaço e dores no corpo, citados por 30,1% das entrevistadas;

•        Dores de cabeça (28%);

•        Dor de barriga, por 20,1%;

•        Vergonha e medo de vazamento, por 19,3%;

•        Falta de banheiro ou produtos de higiene, por 8,2%.

Os dados coletados revelam que os sintomas do fluxo menstrual podem levar a, aproximadamente, dois dias de falta por mês.

A líder da iniciativa de Endometriose, Dor Pélvica e Saúde Menstrual do Instituto Alana, Sofia Reinach, explica que o absenteísmo (faltas ou do não cumprimento da carga horária escolar) nos dias de dor pode afetar a aprendizagem, o vínculo com a escola e as oportunidades educacionais ao longo da trajetória, por isso, deve ser tratado com seriedade.

“Quase 40% das meninas no Brasil estão perdendo pelo menos um dia de aula por mês por conta das dores [menstruais]: uma parcela muito grande da população que deve ser cuidada para que isso não signifique defasagem escolar e uma desvantagem crônica na aprendizagem”.

O estudo verificou que parte das ausências, quando associada a sintomas menstruais, ainda é tratada como questões individuais, privadas ou inevitáveis.

O Instituto Alana enfatiza ser preciso reconhecer a dor como problema coletivo e sugere a adoção de protocolos de faltas justificadas e orientação ao corpo docente. A expectativa é que as mudanças possam reduzir o constrangimento das alunas e melhorar o registro destes casos.

<><> Desigualdade racial na menstruação

O estudo aponta para disparidade racial. Apesar de as meninas negras falarem que sentem menos cólicas fortes, por outro lado, elas faltam mais às aulas.

Neste recorte racial, as alunas negras perdem até 1,5 vez mais dias de aula (dois a cinco dias por mês) que alunas brancas: 14,5% das alunas negras faltam de dois a cinco dias/mês por motivos menstruais. Entre as alunas brancas, o índice de faltas cai para 9,6%.

Quando observada a experiência de dor no período menstrual, também não há uniformidade entre os grupos raciais. As meninas brancas relatam ter mais dor intensa. Entre as entrevistadas brancas, 37,5% descrevem suas cólicas como fortes. Entre as meninas e adolescentes negras, esse índice é menor (25,9%). Ao mesmo tempo, 16% das meninas negras dizem não sentir cólicas menstruais, contra 8,5% das brancas que informam não sentir dor em intensidade alguma.

A porta-voz do Instituto Alana, Sofia Reinach, conclui que, na realidade, o indicador de dores fortes subestima o problema entre as alunas negras. Isto porque as meninas negras normalizam mais suas dores porque são ensinadas culturalmente a acreditar que a dor não deve ser considerada como algo que precisa de tratamento.

“As meninas negras nomeiam menos a sua dor como forte. Aparentemente, elas têm um limiar de dor maior, portanto, reconhecem menos como uma dor incapacitante. Mas, na prática, o impacto da dor as tira de suas atividades e da escola”, diz.

A especialista defende que os profissionais das áreas da educação e da saúde “desaprendam esse viés antigo de que corpos negros sentem menos dor” ou que são mais resilientes.

“É muito importante que essa percepção mude, porque as meninas negras estão sentindo dor, mas falam menos sobre ela. Os ouvidos dos profissionais têm que estar mais atentos. A escola deve fazer parte de uma rede de cuidado”, frisa Sofia.

Para que a menina negra seja acompanhada adequadamente e os impactos da dor sejam os menores possíveis, a especialista em saúde menstrual e dor pélvica destaca a necessidade de os professores perceberem a dor das alunas, de gestores escolares perguntarem a respeito e das famílias delas que devem ser acionadas.

<><> Assimetrias regionais

As regiões Norte e Centro-Oeste sofrem mais com a falta de infraestrutura e produtos. Falta de banheiro e de produtos de higiene menstrual aparecem como motivos de ausências nas aulas especialmente no Norte (18,9%) e Centro-Oeste (30,2%).

O estudo considera que o acesso à infraestrutura adequada é condição básica de permanência escolar.

Em Brasília, a estudante de publicidade e propaganda Ana Clara Maimoni mobilizou os vizinhos e as pessoas conhecidas para arrecadar absorventes.

“Eu sempre achei um absurdo como os postos dão camisinha de graça, mas não dão absorventes e como isso afeta a nossa vida”.

Ana Clara conseguiu arrecadar cerca de 1 mil absorventes, que foram doados a uma escola na qual as alunas não tinham pleno acesso a eles. O estoque foi suficiente para atender às meninas por seis meses.

O Projeto Contra a Pobreza Menstrual contou também com palestra com profissionais de saúde para informar as estudantes, na Vila Planalto, no centro da capital federal. “As meninas adoraram e participaram bastante, fizeram várias perguntas”, disse Ana Clara.

Para a realizadora do projeto, a escola é um espaço estratégico para abordar essa questão, e é justamente da educação que essas meninas acabam sendo privadas quando não têm acesso ao mínimo necessário para a dignidade menstrual.

“Isso só escancara a nossa desigualdade, principalmente, porque os homens não passam por isso, pessoas que não menstruam não passam por isso e as mulheres acabam tendo que lidar sozinhas”, conta Ana Clara Maimoni.

“Muitas vezes, elas não falam sobre porque ainda é considerado um tabu em muitos lugares e essas meninas jovens que não tinham condição e muito pouco conhecimento”, ressalta.

O projeto foi pontual e acabou não tendo continuidade, mesmo assim, no entendimento de Ana Clara, é um passo para uma mudança maior. “É uma conquista, mesmo que pequena, porque eu consegui trabalhar só com uma escola, mas de pouquinho em pouquinho a gente conquista grandes coisas”, acrescentou.

<><> Menarca precoce e cólicas

A pesquisa demonstra que a menarca (primeira menstruação) é cada vez mais precoce no Brasil. Em média, 65,2% das meninas ouvidas menstruaram até os 11 anos e 36,5% até os 10 anos.

A prevalência de menarca precoce também varia por região: as maiores proporções estão no Nordeste (45,5%) e no Sul (43,9%) e a menor no Centro-Oeste (16,1%).

Na média nacional, a proporção de menarca precoce é semelhante entre as populações brancas e negras.

•        Na região Sul, 64% das alunas negras e 32,9% das brancas tiveram menarca precoce;

•        No Sudeste, esse índice sobe para 61,6% entre as meninas negras e 5,3% das brancas;

•        No Nordeste, 53,9% das brancas e 35,4% das negras.

O estudo ainda associa diretamente a menarca precoce a dores mais intensas. Entre as alunas que menstruaram aos 10 anos, 43% relataram cólicas fortes. O índice cai para 27% entre aquelas que menstruaram aos 11 ou 12 anos. Entre as estudantes que menstruaram aos 13 anos, um quarto diz sentir cólicas fortes. Quando contabilizadas as que tiveram a primeira menstruação aos 14 anos ou mais e sentiram dores, o percentual é 28%.

“Para muitas meninas, menstruar não significa apenas lidar com uma nova fase do corpo, mas também com dores que podem afetar a frequência às aulas, a concentração, a prática de esportes e a convivência com colegas”, informa o estudo do Instituto Alana.

<><> Educação menstrual

Muitas estudantes chegam à primeira menstruação sem nenhuma orientação sobre o ciclo e, por este motivo, o Instituto Alana reforça a importância de falar sobre saúde menstrual antes da primeira menstruação.

“Precisamos antecipar os debates sobre saúde menstrual nas escolas para o ensino fundamental 1. Além disso, ter um olhar cuidadoso, ampliar as estratégias de cuidado para essa faixa etária, em especial, para que as meninas com muita dor com menarca precoce tenham um acompanhamento mais próximo”, afirma Sofia Reinach.

<><> Trabalhadoras da educação

As escolas brasileiras sofrem duplamente com as faltas tanto de alunas quanto professoras. No universo pesquisado, 28,3% das gestoras escolares confirmaram ter cólicas fortes e 16,9% das entrevistadas já faltaram ao trabalho por motivos menstruais.

Dentro de sala de aula, 15,8% das professoras descreveram ter cólicas fortes e uma em cada dez professoras (12,1%) faltou ao trabalho ao menos uma vez no último ano por motivos menstruais.

Considerando que 37,1% das alunas faltam mensalmente por menstruação e 64% relataram cólicas moderadas ou fortes, o estudo sugere que percentual mais reduzido entre as profissionais de educação, em relação às estudantes pode refletir, em parte, maior acesso a diagnósticos, acompanhamento e tratamento da dor entre as profissionais e a responsabilidade da vida adulta.

“As professoras faltam menos do que alunas. A cada momento da vida em que a responsabilidade aumenta e que as profissionais veem o seu trabalho ameaçado por conta das dores, as professoras se esforçam mais para conviver com essa dor no seu ambiente profissional”, observa o estudo.

Sofia Reinach defende a adoção de políticas de saúde menstrual no ambiente escolar que incluam estudantes e trabalhadoras, com protocolos adequados para cada perfil. “Precisamos entender que a dor menstrual tira meninas e mulheres do cotidiano escolar e torna isso um fenômeno cumulativo. As escolas estão sofrendo duplamente com essas faltas, tanto de alunas quanto professoras.”

<><> Desconhecimento dos meninos

A menstruação ainda é pouco compreendida como uma questão coletiva dentro da escola. Os dados mostram que 36,8% dos estudantes do sexo masculino afirmam não pensar muito sobre o tema — quase duas vezes maior que o registrado entre as meninas, de 19,7%.

A diferença também aparece na percepção sobre os impactos do ciclo menstrual na rotina: cerca de um quarto dos meninos e adolescentes (23,7%) acredita que a menstruação pode atrapalhar a escola ou a prática esportiva, enquanto 41,2% das alunas reconhecem esse efeito negativo.

A liderança do Alana diz que é preciso envolver os meninos nos debates sobre a temática.

“É fundamental que o assunto menstruação deixe de ser um tabu. E, para isso, a gente precisa trazer os meninos para as conversas cotidianas. Não tem mais como menstruação ser um assunto apenas de meninas e mulheres na sua intimidade”, constata Sofia.

A ideia é que os meninos e rapazes deixem de ser espectadores passivos ou agentes de constrangimento e passem a fazer parte de uma rede de apoio às meninas e jovens.

<><> Impactos da naturalização da dor

Tratar a dor menstrual como algo normal na adolescência pode gerar impactos que vão além da trajetória escolar das meninas.

A invisibilidade das cólicas e dores que começa com faltas, afastamento de atividades físicas, perda de concentração e, consequentemente, da diminuição do rendimento escolar pode prejudicar a saúde, a renda e a qualidade de vida das mulheres.

A publicação relata que mulheres que aprenderam a conviver com dores intensas tendem a seguir trabalhando apesar dos sintomas menstruais.

<><> Atraso de diagnósticos

A naturalização da dor também pode atrasar o diagnóstico de condições mais graves. “A normalização da dor faz com que uma menina aprenda que cólica é normal. Ela para de reclamar e, no entorno, os adultos param de investigar se essa dor poderia ter um tratamento ou não”, relata Sofia.

O estudo destaca que as dores incapacitantes tratadas como “normais”, que começam ainda na adolescência e podem piorar com o tempo, somente serão investigadas na vida adulta, quando já podem ter evoluído para uma doença ginecológica ou outra condição que afeta diferentes dimensões da vida de uma mulher.

O estudo exemplifica as ocorrências de endometriose, doença inflamatória causada pela presença de tecido do endométrio em outras regiões do corpo. A endometriose — geralmente com início silencioso na adolescência — afeta uma em cada dez mulheres e pode levar até 12 anos para ser diagnosticada.

Por fim, com base na análise dos dados apurados, o Instituto Alana reafirma que investir em saúde menstrual nas escolas é essencial, tanto para garantir o direito à aprendizagem quanto para reduzir desigualdades que começam no corpo e se acumulam na trajetória escolar.

“Incluir saúde menstrual nos protocolos, no currículo e na infraestrutura, priorizando as estudantes mais afetadas, é uma oportunidade de promover equidade e favorecer uma escola que reconhece a realidade de todas as crianças e adolescentes”, destaca a instituição.

 

Fonte: Agencia Brasil