sexta-feira, 12 de junho de 2026

Murilo Rocha Souto Maior: Capital, dívida e tempo

Recentemente, autores e militantes levantam questionamentos sobre a possibilidade da reeleição do Presidente Lula, para seu quarto turno, partindo de distintas análises sobre o balanço econômico do governo. Ao longo de muito tempo, nas ciências políticas, compreende-se a importância do fator inflação para disputas políticas institucionais de grande porte, principalmente, para chefes de Estado. Nos Estados Unidos, por exemplo, o impacto inflacionário pré-eleição, foi uma das, senão a principal causa para a rejeição ao Bideneconomics, favorecendo a eleição de Donald Trump. O salto de uma taxa de 1%, quando assumiu, para uma taxa de 3%, quando deixa o cargo, passando por taxas elevadíssimas para o padrão estadunidense, como de 9%, resultaram no recuo político de uma ampla parcela do eleitorado, para setores mais reacionários e fascistas. Ocasionado pela diminuição do poder de compra e da qualidade de vida, que se misturam em uma cultura baseada no consumo. O que fomentou a possibilidade de crédito político para setores da extrema direita no país, em razão da promessa de um dia como ficou no passado, o retorno a uma memória ainda fresca, que não se concretiza no presente, o Make America Great Again, principal slogan da campanha fascista de Trump, mobiliza sentimentos, esperanças e afetos, principalmente com as frações da população mais deslocadas e pauperizadas, que não conseguem sustentar a mesma dinâmica de consumo e de vida, como no passado.

Esse cenário não se restringe aos Estados Unidos, mas perpassa uma dinâmica política crescente em todo mundo, principalmente na periferia do capital, como em países latino-americano-caribenhos, cuja subserviência ao centro do capital, implica na coordenação de movimentos políticos fascistas em momentos similares, caso que aconteceu na Argentina e Chile recentemente, por exemplo. O que não justifica qualquer tipo de causalidade, de forma que a política esteja submetida ao movimento inflacionário, mas demonstra, que existe uma conexão direta, sendo um fator, extremamente, pertinente para pensar os rumos políticos. No caso brasileiro, ao contrário, as recentes pesquisas que apontam para perspectivas eleitorais na disputa de 2026, todavia, podem demonstrar que outros critérios estão começando a ganhar mais espaço na escolha política, do que o inflacionário.

O aspecto inflacionário foi alvo de comentários constantes debates ao longo de todo governo Lula III, setores mais à esquerda que o governo, colocavam em debate não a inflação total, que estava normalizada para os padrões do governo de Jair Bolsonaro, 4,56% (Jan/2025) em comparação à 10,54% (Jan/2022). Todavia, no mesmo período, observando apenas a inflação sobre os alimentos temos 7% (2025), contra 9,12% (2022), que demonstra uma menor diferença, significativa, entre os percentuais inflacionários entre os governos. Múltiplos fatores podem ser levados em consideração para compreender o que responde essa questão, a baixa do estoque de grãos, por exemplo, foi um fator determinante para o governo não agir para controlar o preço das commodities no mercado, o que foi esvaziado ao longo do Governo Bolsonaro, mas que, simultaneamente, não possui prioridade para o Governo Lula, para estar na pauta da ordem do dia. A explosão dos conflitos mundiais, em importadores desses alimentos e exportadores de petróleo, a eleição de Trump, com a implementação de tarifas econômicas para os produtos brasileiros, também dificultaram tanto a importação de maquinários, quanto a exportação e produção dessas mercadorias, afetando toda a cadeia produtiva. Apesar dessas diferentes explicações e do que foi ou deixou de ser feito pelo governo, importante dar atenção à avaliação da população, que recebe os reflexos da postura governamental. Nota-se, justamente, que o período inicial de 2025, quando a inflação do preço dos alimentos atinge seu auge, com relativa, estabilização do índice inflacionário, a avaliação do Governo atinge os níveis mais baixos desde sua reeleição, não apenas com baixa da aprovação, como com alta da reprovação.

O importante, neste momento, na realidade é observar que, mesmo mantendo índices econômicos – aparentes – estáveis, a percepção da população sobre o governo é negativa. A partir desse panorama de 2025, o governo passa a realizar medidas para reduzir a inflação dos alimentos, aumentando crédito agrícola e financiamentos para o setor agrário, ainda que questionáveis e problemáticos, o que diminui, significativamente, o índice inflacionário sobre os alimentos, que sai de 7,44% (Jul/2025) para 1,76% (Fev/2026). Sob a tentativa de reverter o índice de desaprovação, aumentando o índice de aprovação, algo que não aconteceu, no mesmo salto que a inflação sobre os alimentos, visto que a aprovação aumentou de 43% (Jul/2025) para 45% (Fev/2026), com uma maior diminuição da rejeição de 53% (Jul/2025) para 49% (Fev/2026). O que não chega, nem próximo, dos patamares do início do governo, em que a aprovação contava com 54% (Ago/2023) contra 42% de desaprovação (Ago/2023). Poder-se-ia afirmar que os efeitos inflacionários sobre os alimentos ainda não foram sentidos pela população, o que seria justo de ser compreender, todavia não se confirma pela alteração dos índices de aprovação do governo. O que se verifica é a diminuição substantiva da rejeição, mas esses não passam a aprovar o governo, ao contrário, mantém-se como “Não sabem”. Apesar do movimento contrário, como ocorrido no início de 2025, disparou, desproporcionalmente, o índice de reprovação sobre o de aprovação. Ou seja, o governo possui ampla facilidade em perder apoiadores, mas imensa dificuldade de recuperá-los.

Algumas hipóteses podem emergir, como a falta de comunicação do governo, seguindo a máxima: “a prática é o critério da verdade”. Caso, as ideias colocadas por essa hipótese se coloquem verdadeiras, deveria ter havido alguma mudança significativa, o movimento de mudança sobre a percepção sobre o governo teria sido outro no início deste ano, com o retorno dos apoiadores, visto que, desde o começo do impacto da baixa inflacionária sobre os alimentos, um dos setores com maior investimento do governo foi a comunicação. Fornecendo, inclusive, verbas adicionais às Big Techs, que apoiaram e agiram para a eleição de Trump, sobre outros sistemas de comunicação. Assim, se confirma, que a comunicação não é o fator central, nem o único fator que estrutura a dificuldade de o governo aumentar sua aprovação ao longo do tempo, a ideia não se concretiza na prática real. Partindo-se da ideia de que a comunicação não poderia ter efeito tão imenso sobre a realidade do governo, outra hipótese que surge sobre o fenômeno é que existe outro aspecto, ainda não muito observado que teria tamanho impacto sobre a avaliação do governo, quanto a inflação. Analisar a sociedade, a política e a realidade não é simples tarefa, ao contrário, como parte de qualquer pensamento, que se propõem ao debate, deve haver diálogo, disputa e desavenças.

A partir das hipóteses colocadas, pretendo dialogar com alguns autores para compreender o aspecto da dívida como algo fundamental de se compreender o tempo presente, ou melhor, o tempo passado e o tempo futuro. Compreender a centralidade do crédito e do endividamento no atual processo eleitoral é, ao final do dia, compreender a relevância do poder de compra e qualidade de vida na decisão do eleitorado no voto. Mas mais que a influência sobre o voto, a dívida e o poder de compra, também, modificam as formas de ser da realidade cotidiana. Robert Kurz, ao longo de sua obra, demonstra a forma como a dinâmica da expansão dos mercados e da privatização de espaços, modifica as múltiplas relações da vida cotidiana, a partir da comercialização, dentre outros atributos, do lazer, o que expressa, em outras palavras, a máxima marxiana, compreendida pelos processos de alienação e fetichização, que analisam a forma como a sociedade baseada na exploração de classes estrutura, não apenas uma forma de troca, como uma própria concepção de ser, uma própria razão-instrumental, nas palavras dos frankfurtianos.

Que a relação tempo-sujeito, na sociedade contemporânea, modificou isso é incontestável, ter 15, 20, 30, 40 anos hoje não é o mesmo, cultural e simbolicamente, que no século XIX-XX, por exemplo. Além disso, temos os maiores índices de ansiedade, que tendem a crescer cada vez mais, uma patologia psíquica que retraça uma dinâmica social-temporal distinta nos indivíduos. Uma dinâmica de conviver no presente, enquanto se analisa o futuro, partindo do passado, um amontoado de pensamentos e de questões colocadas que evocam a incerteza do tempo presente, baseada nas possibilidades, múltiplas, do tempo futuro. A sublimação da fração financeira do capital, a partir da expansão do crédito, as novas dinâmicas digitais e o avanço produtivo do capital financeiro agravam, ainda mais, esse movimento de destruição da temporalidade, construindo uma relação destrutiva com o tempo, de forma que a negação é sempre presente, se nega o tempo presente, em detrimento de pensar o futuro, a partir do passado, assim, o hoje se torna ontem em apenas algumas horas, e as dimensões das distâncias entre o ontem, hoje e amanhã são diluídas. A produtividade do capital financeiro empurra isso, a partir do momento, que a métrica avaliada de resultado é com garantia de rendimentos para o próximo período, não convenientemente, é comum que empresas de médio/grande porte, realizem previsões métricas de resultado palpável, de 3, 4, 5 e até 6 anos para frente. A produtividade, as métricas, o resultado, sempre almejam uma manutenção produtiva do futuro, ou seja, se pensa, de todo modo, no setor financeiro, os arranjos futuros sobre o presente, para que se concerte o passado.

O presente é deslocado de seu eixo transformativo, dando espaço para um futuro que ainda não aconteceu, sobre uma leitura mecânica de um passado que não é compreendido como força-motriz. O tempo, assim, é comprimido às mínimas frações possíveis para que se possa, de todo modo, garantir o resultado a prazo, seja em 1 mês, ou 10 anos. A percepção sobre a realidade temporal acaba sendo flagelada pela dinâmica de produtividade exacerbada no cotidiano do trabalho, que incitam uma condição de subjugação subjetiva do sujeito para com seu próprio trabalho, de forma tal que a condicionante da percepção sobre o tempo é colocada à mercê da produtividade. Em uma reunião de um grupo de estudos escutei que “2023, para o mercado, para a Faria Lima, foi ontem”, toda essa construção epistemológica gira em torno desse movimento analítico que compreende que a temporalidade foi dissolvida, a partir das relações de mercado, alicerçadas, dentre outros quesitos, pela expansão do crédito. Que, também, é fomentador da compressão do tempo, de forma que a preocupação do hoje é de conseguir realizar a liberação de uma dívida emitida para uma finalidade passada, se vive o presente em razão de um futuro que existe por conta do passado. Assim, o que vive sobre a dívida, nada mais está do que em um movimento de colapso-temporal, em que o hoje é submetido para o amanhã, em razão do ontem. A expansão do capital financeiro, como Robert Kurz coloca, incita uma nova relação dinâmica dos sujeitos com a própria sociedade, de forma que laços de socialização são remodelados e dinâmicas políticas são adaptadas para se estruturarem, a partir de outras formas, voltadas para a ampliação da reprodução e a expansão do próprio mercado. Com o avanço tecnológico, após os anos 1950/1960, a dinâmica de aceleração da produção alavancou, imensamente, seu ritmo.

O desenvolvimento tecnológico recente, ano após ano, acelera, ainda mais o ritmo da expansão produtiva do mercado, de forma tal que, como mesmo expressada na frase que motiva o presente texto, 2023 se torna um ontem, apesar de termos passado 3 anos de distância, os saltos tecnológicos, a expansão do mercado financeiro e as dinâmicas de crédito, acabam por comprimir o tecido temporal da sociedade, de forma que o lastro ano, mês, dia, hora, minuto, segundo, não possuem mais efeito suficiente para provocar qualquer tipo de afecção em nós no tempo presente. Muitos, ainda, se surpreendem ao compreender que o período pandêmico foi encerrado há 4 anos, em 2022, com o fim das medidas restritivas de isolamento social. Como Karl Marx desenvolve, ao longo do livro O capital, existe um imperativo que se coloca superior ao do capital, que é a dinâmica biofisiológica do ser humano, tal como a dinâmica biológica da própria natureza, o dia se encerra com o pôr do Sol e começa com o nascer do Sol. Dentro de um ciclo solar, nosso corpo, ao longo de todo processo evolutivo, se estruturou a descansar, por cerca de 8 horas diárias.

Apesar de parecer um devaneio distante da realidade concreta, o ponto central é que, a compressão temporal exigida pelo capital sobre a vida cotidiana vai além da possibilidade da realidade sensível da humanidade, de forma que ultrapassa barreiras fisiológicas da humanidade, algo que o capital já realiza desde os primórdios. Mas que neste momento, eclode a partir de diferentes fenômenos psicossociais, desde a explosão do número de pessoas ansiosas no Brasil, até a utilização, ampla, de medicamentos, em comparação com um número baixo de pessoas realizando acompanhamento psicológico.  Isso é um fator central, não apenas para o processo eleitoral, como para a realidade cotidiana, a expansão do capital financeiro estrutura uma dinâmica de sociabilidade baseada na compressão do tempo presente, a partir de distintos mecanismos, seja a produtividade do trabalho imposta, a expansão do mercado de crédito e a ampliação das tecnologias produtivas, o que resulta em um movimento de ampliação de patologias sociais, que, sem a estrutura de saúde necessária, com a pressão produtiva do trabalho, faz os sujeitos recorrerem à medicamentos, ao invés de acompanhamentos psicológicos. Esse fenômeno, como explicado ao início, não apenas se expressa na dinâmica psicossocial, como, e principalmente, política, a compressão do tempo presente, modifica a visão de um futuro distinto, se os esforços realizados pelo meu tempo presente se voltam para sanar uma dívida passada, no futuro, esse futuro, assim, significa apenas uma continuação, infernal, do presente, de forma que, também, a redução do esforço do presente para uma dívida passada, à ser quitada no futuro, também, introduz um sentimento de repulsa sobre o que se reproduz no presente, como se nada fizesse sentido, o trabalho não pode ser usufruído, porque o poder de compra foi reduzido, ao passo que toda a renda se desloca para a dívida.

E esse ciclo se repete, incessantemente, a facilitação de cartões de crédito, com outras modalidades de crédito rotativo, como o crédito por pix, acabam por facilitar a reprodução dessa dinâmica, se toda a dívida foi paga no futuro, não resta nada para conseguir assegurar que se consiga permanecer e sobreviver ao longo dos próximos dias, nessa dinâmica, se recorre, novamente, ao crédito, e esse ciclo se reproduz e continua. Ao final, esse ciclo se reproduz a partir da estruturação e fortificação do capital financeiro, uma ramificação das demais do capital, que se mobiliza a partir da expropriação e exploração do valor das demais frações do capital, a partir da mercantilização e privatização da vida cotidiana. Após tentar destruir a natureza e com a humanidade, o capital lança mão para destruir o próprio tempo.

¨      Os juros altos e a desculpa esfarrapada do 0,1%. Por Luiz Martins de Melo

A inflação que afeta o Brasil é impulsionada por turbulências geopolíticas, preços de energia em alta e cadeias de suprimentos frágeis, em vez de excesso de demanda. No entanto, os formuladores de políticas continuam a tratar isso como um problema monetário, confiando em uma ferramenta que não pode abordar as causas subjacentes. O Banco Central continua com a sua decisão de manter as taxas de juros elevadas como um exercício de prudência. Com a inflação voltando a subir, mesmo com o crescimento desacelerando, a autoridade monetária enfatiza a paciência e a “dependência dos dados” como o caminho responsável – uma abordagem moldada sobretudo por temores persistentes de repique inflacionário.

A pergunta que importa para a sociedade não é por quanto tempo os bancos centrais podem manter as taxas de juros elevadas ou o ritmo do aperto monetário. É se os formuladores de políticas conseguem manter a ficção de que taxas de juros mais altas são uma resposta eficaz, ou até neutra, às pressões inflacionárias que o Brasil enfrenta atualmente. As pressões inflacionárias de hoje não são alimentadas por mercados de trabalho superaquecidos ou demanda crescente dos consumidores. Elas refletem preços mais altos da energia, conflitos geopolíticos, perturbações relacionadas ao clima, cadeias de suprimentos frágeis e, cada vez mais, o poder de precificação das grandes corporações. Aumentar as taxas de juros pouco faz para atacar as causas subjacentes da inflação. Essas pressões de oferta provavelmente vão se intensificar. A recente decisão dos Emirados Árabes Unidos de sair da Organização dos Países Exportadores de Petróleo – OPEP sinaliza uma mudança estrutural mais profunda na economia política da energia, marcada por mudanças nas dinâmicas de poder nos mercados globais de petróleo e pelo enfraquecimento da capacidade das instituições existentes de gerenciar um recurso altamente financeirizado e geopoliticamente importante.

A saída dos Emirados Árabes Unidos mina o papel tradicional da OPEP na gestão do fornecimento. Com um de seus maiores e mais flexíveis produtores se separando, a coordenação se torna mais difícil de sustentar, aumentando a volatilidade do mercado. Os mercados de petróleo, por sua vez, estão cada vez mais fragmentados e respondendo menos à estratégia coletiva do que ao risco geopolítico e à tomada de decisão unilateral. Nessa situação, a concepção de política monetária que domina o Banco Central torna central o dilema de, no caso de manter as taxas de juros baixas por muito mais tempo, correr o risco de corroer sua credibilidade à medida que a inflação sobe gradualmente. Por outro lado, aumentar as taxas de forma muito agressiva pode aprofundar as pressões recessivas, agravar os encargos da dívida privada e pública e comprimir ainda mais famílias já afetadas pelo aumento dos custos de alimentos, moradia e energia e pelo endividamento dos juros bancários excessivos.

A verdade é que a distopia do Banco Central o faz pensar que está definindo livremente a taxa de juros entre outras opções de políticas que seriam populistas. Mas, ao contrário, ele opera dentro de restrições estruturais rígidas, impostas pelos mercados financeiros, fragilidade fiscal e pressões políticas, especialmente no que diz respeito à taxa de desemprego. Os mercados, por sua vez, antecipam cada vez mais aumentos de juros não porque resolvam a inflação, mas porque o Banco Central se sente compelido a agir, mesmo quando sua ferramenta é inadequada para a tarefa. As consequências distributivas desse reflexo político muitas vezes são negligenciadas. Taxas de juros mais altas atuam como um mecanismo disciplinar: protegem o valor dos ativos, recompensam credores e transferem o ônus do ajuste para trabalhadores, aumentam o endividamento, especialmente na compra de bens duráveis e habitação, aumenta o endividamento público e pressão para mais aperto monetário para controlar a demanda, quando o problema não é de demanda. Encarar a inflação como um problema do mercado de trabalho, mesmo que seja impulsionada por monopólios de energia, tensões geopolíticas e interrupções no fornecimento logístico, é uma escolha política, não uma necessidade econômica. Na realidade, taxas de juros mais altas não eliminam a inflação, mas redistribuem seus custos por meio de maior desemprego, aumento da dívida das famílias e redução fiscal. Isso não é um efeito colateral não intencional da política monetária, mas o mecanismo pelo qual a inflação é normalmente gerenciada. Isso causa um mal-estar na população, mesmo quando os números agregados podem ser positivos, mas o impacto na vida concreta é de formar expectativas negativas sobre o futuro da ascensão social e melhoria de vida.

A concepção hegemônica de política macroeconômica continua tratando a inflação como um problema monetário, e não estrutural e de distribuição de renda. O Banco Central, ao endurecer as condições financeiras com taxas de juros mais altas, não faz nada para reduzir os preços dos alimentos, que refletem o aumento dos custos de fertilizantes e energia. No entanto, eles aumentam o risco de perda de empregos, dificuldades com dívidas e pobreza estrutural. Se a inflação permanecer alta por anos, o problema se torna de exaustão social. As famílias não podem continuar absorvendo custos mais altos sem danos a longo prazo, desde o aumento do endividamento até a pior nutrição e o agravamento dos resultados de saúde. Nesse ponto, a inflação não é mais apenas uma questão econômica, mas uma fonte de instabilidade política, potencialmente levando a uma crise de legitimidade institucional. Essas dinâmicas ressaltam os limites da abordagem atual do Banco Central e da política monetária. À medida que a inflação se torna intimamente ligada a choques climáticos, guerra e ao controle estratégico de recursos essenciais, a política monetária sozinha não pode estabilizar preços sem impor sérios custos sociais e econômicos. Taxas de juros mais altas podem suprimir a demanda, mas não podem produzir petróleo e gás natural, desbloquear portos, reparar cadeias de suprimentos ou reduzir as margens corporativas.

Os formuladores de políticas estão usando um instrumento tecnocrático projetado para a gestão da demanda para conter aumentos de preços, impulsionados por forças estruturais e políticas. Até que essa contradição seja resolvida – por meio de política energética coordenada, investimento público, regulação de preços, estratégia industrial ou intervenção fiscal ativa –, as taxas de juros continuarão oscilando sem resolver o problema que deveriam resolver. O aperto monetário continuará sendo um gesto simbólico para transmitir controle, e não uma solução real. Essa é a distopia central da atual política macroeconômica. A dissonância cognitiva está relacionada diretamente com a política macroeconômica. Em grande parte, porque o relativo sucesso de Lula I e II foi tomado como base para a aplicação da mesma política em condições distintas. Assim, para evitar que a dissonância cognitiva aumente, temos que dar por encerrado o ciclo de políticas baseadas em altas taxas de juros, restrição fiscal e abertura das contas de capital. Voltar a pensar em uma política de inovação industrial direcionada para resolver os problemas da sociedade através dos serviços públicos de cidadania. Para isso ser efetivo, a prioridade do poder de compra do Estado tem que estar voltada para atender a demanda originada pela política de inovação industrial com prioridade para resolver os problemas da sociedade definidos em articulação com a participação popular. Essa é a base para a formação de empresas de capital nacional e a afirmação da soberania nacional pelo fortalecimento do processo democrático. O modelo que teve relativo sucesso no início dos anos 2000 –  macroeconomia liberal com transferência de renda social já esgotou a sua efetividade.

No seu cerne, a contínua dependência dos formuladores de políticas nas taxas de juros para gerenciar crises decorrentes da interação entre mercados de energia, poder corporativo e conflitos geopolíticos reflete a forma como a inflação é enquadrada. Tratar a inflação estrutural como um problema de gestão da demanda permite que os formuladores de políticas pareçam decisivos, evitando um confronto mais difícil com aqueles que definem preços, controlam recursos e extraem rendas. Essa também é uma escolha política, cujos custos sociais estão se tornando cada vez mais difíceis de ignorar. Finalmente, é preciso deixar de normalizar certos conceitos vazios de concretude histórica da mesma forma que a política macroeconômica dominante é uma abstração a histórica, resultado de uma dissonância cognitiva. Reindustrializar é um deles. Reindustrializar para manter a mesma estrutura industrial que vigora desde JK e que nos levou à situação atual? Redemocratizar? O Brasil já foi uma democracia? Portanto, sem alterar a política macroeconômica atual, as altas taxas de juros, a austeridade fiscal e a abertura da conta de capitais, não se terá uma política de inovação industrial para aumentar e melhorar os serviços públicos de cidadania e fortalecer a esperança na melhora da vida concreta e no processo democrático.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Terapia Política

 

Seria a onda de direita consequência do lulismo?

Há um ponto em que a leitura da moderação como matriz da extrema direita perde contato com a história concreta. Esse ponto aparece quando se sai do plano abstrato das categorias e se entra, enfim, no terreno das experiências efetivas de governo. Se essa tese estivesse correta em seu núcleo mais forte, os momentos de tensão entre governo e frações dominantes tenderiam a aparecer como periféricos, episódicos ou residuais, e o lulismo atravessaria sua trajetória sobretudo como forma dócil de administração do capitalismo brasileiro. A história recente não confirma essa imagem. E o caso mais eloquente talvez seja justamente o do governo Dilma.

A experiência inaugurada a partir de 2011, com o que se convencionou chamar de Nova Matriz Econômica, não cabe seriamente na ideia de simples continuidade passiva da ordem. Houve ali, com todas as limitações e contradições do processo, uma tentativa concreta de deslocar o eixo macroeconômico brasileiro em direção a um horizonte de reindustrialização, ampliação do investimento e reposicionamento do desenvolvimento nacional. Redução da taxa de juros, desvalorização cambial programada, desonerações voltadas para a indústria, expansão do crédito público, redução do custo da energia: tudo isso compôs um movimento real de inflexão. Pode-se discutir a consistência interna do programa, sua execução, seus limites, suas fragilidades e até sua ingenuidade estratégica. O que a história não autoriza é tratar esse movimento como repetição indiferente de uma governabilidade acomodada.

Esse ponto reorganiza a própria narrativa sobre o que veio depois. Durante muito tempo, consolidou-se a leitura segundo a qual a crise de 2015 e o colapso político subsequente comprovariam a falência de um reformismo incapaz de enfrentar a ordem. Só que essa interpretação embaralha a sequência efetiva dos acontecimentos. O processo revela a reação ativa de frações empresariais, midiáticas, parlamentares e judiciais contra um governo que, ainda que de modo hesitante e contraditório, tentou deslocar a arquitetura econômica para além do conforto habitual do rentismo e da financeirização. Em vez de uma simples decomposição de moderação excessiva, o período expõe o custo político cobrado de uma experiência que ensaiou uma inflexão e encontrou, diante de si, uma contraofensiva organizada.

Esse ponto foi percebido com mais clareza por leituras heterodoxas que se recusaram a tratar o período como mera administração inercial da ordem. Em chave nacional, Elias Jabbour ajudou a formular o sentido de uma disputa que envolvia reindustrialização, soberania produtiva e reposicionamento do desenvolvimento brasileiro. Em outra escala, Fernando Haddad, em Capitalismo Superindustrial, reinscreve esse problema numa transformação mais ampla do capitalismo contemporâneo, marcada pela reorganização tecnológica, produtiva e geopolítica do sistema. Essa articulação importa politicamente porque desmonta uma caricatura recorrente: a de que toda tentativa de pensar desenvolvimento, indústria, tecnologia e Estado fora do receituário rentista já seria, por definição, simples gestão moderada da ordem. Quando até Haddad pode ser tratado como “direitista” por setores da extrema esquerda, o problema já não está apenas no conteúdo do debate, mas no empobrecimento do próprio critério pelo qual ele vem sendo travado.

Lidos nesse registro, os impasses da Nova Matriz deixam de aparecer como prova de inexistência de inflexão e passam a ser vistos como expressão de uma experiência que não encontrou base material, política e empresarial capaz de sustentá-la. As frações do capital que, em tese, se beneficiariam do reposicionamento produtivo não responderam com o grau de investimento, compromisso e horizonte estratégico que a experiência exigia. Receberam incentivos, pressionaram por vantagens, demandaram proteção e, logo depois, aderiram ao movimento de desestabilização do próprio governo que lhes havia aberto essa janela. Aí está uma chave importante do período: uma experiência que tentou infletir parcialmente a ordem acabou abandonada, sabotada ou instrumentalizada justamente pelos setores que, em tese, deveriam sustentá-la.

Essa reconstituição impede que a crise brasileira seja lida em termos morais ou doutrinários. A pergunta decisiva não diz respeito ao grau de pureza do governo, nem à sua maior ou menor proximidade com um horizonte socialista que ele nunca reivindicou integralmente para si. O que importa é entender o que ocorreu quando uma experiência de centro-esquerda tentou deslocar, ainda que parcialmente, o eixo do desenvolvimento e da política econômica em direção a um projeto menos subordinado ao rentismo. O que se abriu ali foi uma situação de conflito. E é isso que a categoria de contraofensiva ajuda a iluminar.

Quando esse ponto entra em cena, o debate muda de patamar. A derrota de Dilma e a reorganização do período posterior mostram que a direita brasileira trabalhou ativamente a construção de sua própria saída. Houve ação, articulação, cálculo, reorganização de linguagem e de campo ideológico. Insatisfação econômica foi convertida em guerra moral; disputa distributiva, em cruzada anticorrupção; ressentimento de classe média, em energia política organizada. A extrema direita não apareceu como simples desdobramento das insuficiências do reformismo. Ela foi construída por agentes concretos, com interesses concretos, em disputa concreta de poder.

É justamente aí que a narrativa segundo a qual a moderação petista teria sido um dos motores centrais do bolsonarismo começa a revelar sua insuficiência. Ela tem a elegância da simetria conceitual: um reformismo que não resolve as contradições abriria espaço para sua reaparição sob forma mais regressiva. O problema é que a história concreta é menos simétrica e mais dura. Houve tentativa de inflexão, reação coordenada, sabotagem, desestabilização, deposição e reorganização ativa da direita. A passagem do lulismo ao bolsonarismo não se deixa reduzir a uma linha reta. Ela se moveu como processo de conflito.

Essa observação recoloca também o problema da mediação em seus devidos termos. Parte importante da crítica contemporânea ao lulismo trata qualquer mediação institucional, econômica ou tática como prova suficiente de capitulação. A experiência brasileira sugere algo mais difícil de admitir: mesmo deslocamentos moderados, quando tocam interesses estruturais, podem desencadear respostas violentas do bloco dominante. Isso não converte toda mediação em virtude, nem toda conciliação em estratégia acertada. Apenas recoloca a política real no terreno em que ela efetivamente existe: um campo intermediário, conflituoso, instável, em que reformas parciais, inflexões limitadas e disputas incompletas produzem efeitos históricos reais, inclusive reações regressivas intensas.

O problema da crítica abstrata à moderação está em apagar justamente esse terreno intermediário. A história se converte, então, em tribunal de coerência. Em vez de investigar o que acontece quando determinadas frações do capital se veem diante de um reposicionamento econômico relativamente adverso, retorna-se sempre ao déficit originário do reformismo. Com isso, desaparece a própria dinâmica da luta de classes em sua espessura concreta.

O debate sobre a extrema direita exige mais do que esse enquadramento. Exige compreender que a crise brasileira se deu num momento de reorganização mais ampla do capitalismo mundial, de esgotamento de padrões clássicos de crescimento periférico e de aprofundamento da vulnerabilidade estrutural de economias dependentes. Nesse contexto, a margem para experiências distributivas, desenvolvimentistas ou reformistas tornou-se mais estreita, e a reação das classes dominantes, mais agressiva. A simultaneidade entre a dificuldade crescente da centro-esquerda em oferecer respostas estáveis e a expansão internacional de direitas radicais, discursos antipolíticos e formas violentas de reorganização autoritária do consentimento não é casual. O Brasil não inventou esse processo. Mas o viveu de maneira particularmente aguda.

É aí que o debate econômico precisa voltar a ser levado a sério. Juros altos, austeridade, autonomia do Banco Central e dependência financeira compõem, de fato, a arquitetura concreta da ordem brasileira. Justamente por isso, sua transformação exige algo mais do que palavra de ordem. Exige correlação de forças, tempo político, base social, capacidade estatal e sustentação para atravessar transições instáveis. A política não desaparece porque a estrutura é dura; ela se torna mais difícil. E é nessa dificuldade que parte da crítica contemporânea à esquerda perde densidade. Ao converter mediação em rendição, produz um diagnóstico mais excitante do que útil.

Talvez seja esse um dos pontos em que o debate brasileiro mais precise amadurecer. A crítica estrutural do capitalismo segue necessária. O problema começa quando a insuficiência de uma experiência passa a funcionar como prova de sua identidade com o adversário, ou quando o fracasso de uma inflexão parcial passa a valer como demonstração de sua irrelevância. Às vezes, a verdade histórica está em outro lugar: justamente porque determinada experiência tocou, ainda que de leve, em interesses importantes, desencadeou reações que ajudam a revelar onde estavam os conflitos reais.

Nesse sentido, a crise do período Dilma talvez ensine mais sobre a força da direita do que sobre a suposta natureza intrinsecamente conciliadora do lulismo. Mesmo sem ruptura sistêmica, mesmo sem radicalização aberta, mesmo dentro dos limites estreitos de uma experiência institucional, a disputa por desenvolvimento, indústria, emprego qualificado e soberania produtiva já bastava para acionar mecanismos de defesa poderosos do bloco dominante. Isso deveria introduzir mais cautela em explicações rápidas demais sobre a gênese da extrema direita.

Porque a pergunta central não diz respeito apenas aos limites do lulismo. Ela diz respeito, também, à violência da reação que se organizou quando uma experiência de centro-esquerda tentou ir além do tolerável para as frações dominantes. Sem enfrentar esse ponto, a crítica ao reformismo corre o risco de se tornar uma forma elegante de subestimar a direita e de absolver, involuntariamente, os sujeitos concretos da contraofensiva.

É por isso que insisto: a ascensão da extrema direita não se explica adequadamente quando reduzida aos limites do lulismo. Ela precisa ser lida como resultado de uma derrota histórica mais ampla, produzida pela convergência entre crise econômica, reorganização estrutural do capitalismo, ofensiva ativa das classes dominantes e incapacidade geral da esquerda em formular resposta à altura do período. O lulismo participa dessa história, claro. Mas participa como experiência contraditória de transformação parcial que, ao esbarrar em seus próprios limites e na violência das reações que provocou, acabou derrotada num terreno muito mais amplo do que aquele que seus críticos mais apressados costumam admitir.

 

Fonte: Por Edgar Silva dos Anjos, em Outras Palavras

 

'Vacina do Butantan contra dengue seria aprovada em qualquer lugar do mundo', diz ex-diretor da Anvisa

O médico sanitarista Gonzalo Vecina, que foi o primeiro presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), disse que a vacina do Instituto Butantan contra a dengue que foi suspensa esta semana seria, na sua visão, "aprovada em qualquer lugar do mundo".

O Ministério da Saúde anunciou na segunda-feira (08/06) a suspensão temporária da vacina desenvolvida pelo Instituto Butantan e que estava sendo aplicada em profissionais de saúde e em moradores de alguns municípios brasileiros após 42 casos de reações severas — incluindo duas mortes suspeitas possivelmente ligadas ao imunizante e ainda sob investigação.

Vecina fez parte do conselho da Fundação Butantan na época em que a vacina contra a dengue entrou em fase de pesquisa clínica, na década passada.

"Dos quase 16 mil pacientes, algo em torno de 11 mil receberam a vacina e 5 mil receberam o placebo", disse Vecina à BBC News Brasil.

"Desses que tomaram a vacina, nós tivemos zero internação. Nenhum teve internação e os efeitos colaterais apresentados eram os esperados de uma vacina tranquila. É um pouquinho de dor, uma coceirinha, nada além dessas condições bem tranquilas."

"Acredito que essa vacina seria aprovada em qualquer lugar do mundo, com uma dose única, o que é uma grande vantagem frente à vacina da Takeda [Qdenga], que foi aprovada também com nenhuma contraindicação."

A vacina Qdenga, produzida pela farmacêutica japonesa Takeda, segue sendo oferecida no SUS a jovens entre 10 e 14 anos. Cerca de 8 milhões de doses desse imunizante já foram aplicadas no Brasil desde 2024.

Ele destaca a grande diferença entre a amostragem da pesquisa do Butantan — de 16 mil pessoas — e o número de pessoas que recebem a vacina agora.

"No mundo real, são 500 mil pessoas. É óbvio que com o aumento tão exponencial da amostra, eu posso ver coisas que eu não veria em uma amostra menor, apesar de ser uma amostra estatisticamente determinada."

Vecina ressalta que os casos relatados de reações graves são incomuns, e que é importante investigar o que aconteceu com a vacina do Butantan.

"É óbvio que é inaceitável que uma vacina, nos tempos atuais, para uma doença que tenha a letalidade da dengue — que não é uma letalidade exagerada — tenha mortes. É inaceitável que tenha mortes numa vacina dessa", disse.

Ele acredita que a investigação deve durar entre 15 e 30 dias.

"É a busca de uma agulha no palheiro. O palheiro não é muito grande, o que ajuda, são só 42 pessoas, mas a investigação é complexa, você tem que entender o que esses 42 pacientes têm para justificar terem tido eventos adversos graves e mortes."

<><> Por que a vacina contra a dengue foi suspensa?

O Ministério da Saúde já havia vacinado 500 mil pessoas entre profissionais de saúde do país — e posteriormente vacinou parte da população nos municípios de Botucatu (SP), Maranguape (CE) e Nova Lima (MG) e na região de Araguaína, no Tocantins.

No entanto, houve registro de 42 casos de reações raras e inesperadas, que segundo o governo correspondem a 0,008% do total. Essas reações não haviam sido identificadas em estudos clínicos e não estão previstas na bula da vacina.

Conforme a bula da vacina, os efeitos adversos esperados em parte dos vacinados são: dor de cabeça, dores no corpo, dor nos olhos, manchas na pele, cansaço extremo, coceira, enjoo, sensibilidade à luz e calafrios.

Entre os sintomas relatados nos 42 casos identificados, houve reações inesperadas: dor abdominal intensa, vômitos persistentes e sangramentos.

Três casos foram considerados graves — e dois deles resultaram em mortes. O ministério diz que nenhuma das mortes aconteceu nas três cidades e na região onde a vacinação foi ampliada para a população.

"Não se pode afirmar que os óbitos foram causados pela vacina, mas considerou-se um sinal de alerta que justifica uma investigação aprofundada. Serão verificadas possíveis comorbidades, fatores de risco e outras situações que possam ter contribuído para os óbitos", disse o ministério, em nota.

O governo disse que não há sinais de falhas no armazenamento, transporte ou aplicação das doses, mas que essas hipóteses também serão investigadas.

As vacinas contra a dengue que já estão nos postos de saúde não serão descartadas ou destruídas. Segundo o ministério, elas devem permanecer armazenadas na rede de frio até que a investigação seja concluída.

Ainda não há data para uma decisão sobre se a vacinação será retomada. Essa decisão depende das investigações em andamento. O governo não divulgou um prazo.

A Anvisa terá um painel de especialistas para aprofundar a investigação epidemiológica sobre a vacina. Segundo o diretor do Butantan, Esper Kallás, esse processo será fundamental para decidir sobre a retomada da vacinação.

"A gente é confiante que a vacina é uma importante arma no enfrentamento da dengue e nós temos que basear essa retomada em dados muito rigorosos, muito criteriosos na metodologia científica. O Butantan não está fazendo torcidas, ele está respeitando a evidência dos dados e continuamos a fazer isso para respeitar a história de dedicação ao desenvolvimento de novos produtos usando esses preceitos científicos fundamentais", destacou.

<><> O que é a vacina contra a dengue do Butantan?

A vacina do Butantan contra a dengue começou a ser disponibilizada em dezembro do ano passado, após aprovação da Anvisa.

Antes disso, a Qdenga havia sido incorporada no Programa Nacional de Imunizações (PNI) pelo Ministério da Saúde de forma gratuita. Ela segue em uso.

Segundo o Ministério da Saúde, o Instituto Butantan trabalhou no desenvolvimento da sua vacina por aproximadamente 20 anos, e licenciou sua tecnologia ao Instituto Nacional de Saúde dos Estados Unidos (NIH).

Foram realizados estudos clínicos de fase 1, 2 e 3, conforme os protocolos vigentes. Mais de 11 mil voluntários foram vacinados e acompanhados por 5 anos.

A vacina apresentou eficácia geral de 65% contra a doença e eficácia de 80,5% para casos mais graves.

Segundo o ministério, "a vacina não deixa de ser segura quando um sinal é detectado. Trata-se de um alerta que precisa ser investigado com mais profundidade."

A dengue é considerada a maior endemia do país. Até 30 de maio, o Brasil teve redução de 97% nas mortes por dengue e de 94% nos casos prováveis, na comparação com 2024, segundo dados do governo.

"As vacinas continuam sendo armas fundamentais nesse enfrentamento, e vão ajudar a alcançar resultados ainda melhores", disse o ministério.

"Segundo a OMS, vacinas salvaram 154 milhões de vidas nos últimos 50 anos, cerca de 3 milhões por ano. No Brasil, as vacinas ajudaram a erradicar poliomielite (paralisia infantil) e a rubéola e, no caso do sarampo, o país está livre da doença."

O diretor do Butantan também ressaltou a importância da vacinação no enfrentamento de doenças transmissíveis

A vacinação é uma das principais medidas de enfrentamento de doenças transmissíveis e que mais salvaram vidas ao longo da história.

"Nós temos um ganho de qualidade de vida, de expectativa de vida, que vem sendo disponível para os brasileiros através da imunização infantil, dos adolescentes, adultos e de pessoas de mais idade", destacou.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Thiago Dhatt: O jogo sujo da neutralidade - a FIFA entre guerras, pressões e submissões

Ao disputar a organização da Copa do Mundo Masculina de 2014, o Estado brasileiro foi impelido a aprovar uma legislação excepcional, a chamada Lei Geral da Copa, por meio da qual compromissos comerciais, operacionais, publicitários e tributários assumidos perante a entidade passaram a repercutir diretamente no ordenamento jurídico interno.

A soberania nacional não foi formalmente abolida, mas foi funcionalmente comprimida, o país legislou sob a sombra de uma necessidade política criada por uma entidade privada global, que converteu o desejo de sediar um megaevento em instrumento de pressão normativa. Mesma lógica da preparação da Copa do Mundo Feminina de 2027, confirmando que a FIFA continua a exigir dos Estados anfitriões uma arquitetura jurídica especial para viabilizar seus torneios.

Esse padrão de imposição contrasta com o que se observa na Copa do Mundo de 2026, organizada por Estados Unidos, México e Canadá. Se no Brasil a entidade se apresentou como polo forte da negociação, capaz de condicionar o Parlamento a criar zonas de exclusividade comercial, isenções tributárias e regimes jurídicos de exceção, em solo norte-americano a FIFA parece aceitar uma inversão completa da relação de forças.

Em vez de impor ao país anfitrião condições correlatas às de outros países, como acesso, circulação e tratamento igualitário de delegações, torcedores, árbitros e oficiais, a entidade vem se acomodando a uma realidade no mínimo incômoda; a FIFA adota uma postura subserviente e permissiva diante das exigências e restrições dos Estados Unidos para a Copa do Mundo de 2026. Enquanto a entidade costuma punir governos menores por interferência política ou descumprimento de regras, em solo americano ela tem aceitado passivamente que decisões diplomáticas passem por cima das suas próprias diretrizes esportivas.

Os casos envolvendo o Irã, delegações do Oriente Médio e da África, árbitros e torcedores revelam com nitidez essa assimetria. A revogação da alocação oficial de ingressos destinada aos torcedores iranianos, a deportação de árbitros chancelados pela própria FIFA, como o somali Omar Abdulkadir Artan, e as restrições de visto que transformaram a seleção iraniana em uma espécie de “seleção nômade”, obrigada a estabelecer sua base em Tijuana, no México, e a entrar nos Estados Unidos apenas no dia dos jogos, violam frontalmente a promessa de universalidade do torneio e a integridade competitiva.

A entidade limitou-se a emitir notas protocolares, afirmando que “não se envolve nos processos de imigração dos países sedes” e alertando torcedores de que possuir ingresso não garante entrada no país anfitrião. A neutralidade invocada nesse contexto não é um princípio universal, mas uma prudência seletiva diante de uma superpotência capaz de constranger institucionalmente o futebol global.

Essa prudência ganha contornos ainda mais complexos quando se observa o papel dos Estados Unidos no chamado FIFA Gate. Foi em solo norte-americano, por meio da atuação do Departamento de Justiça e do FBI, que o maior escândalo de corrupção da história do futebol mundial resultou na prisão de dezenas de dirigentes e na queda de Joseph Blatter. A jurisdição norte-americana, valendo-se de conexões financeiras e bancárias com seu território, produziu uma reordenação profunda do poder interno da FIFA, deixando claro que os Estados Unidos não são apenas mercado, anfitrião e potência diplomática, mas também centro financeiro e ator com capacidade real de impor custos penais à própria entidade.

Desde então, a organização sabe que, diante de Washington, não fala como autoridade soberana do futebol, mas como parte administrativamente condicionada. Essa condição ajuda a explicar por que a mesma FIFA que exige leis de exceção de países periféricos se mostra tão discreta diante de barreiras migratórias e securitárias impostas pelos Estados Unidos.

<><> O direito internacional para a FIFA — dois pesos e duas medidas

A diferença de tratamento da FIFA em relação a conflitos geopolíticos e violações do direito internacional também é ponto desgaste na imagem de neutralidade da instituição.

A Rússia e seus clubes estão suspensos de todas as competições da FIFA e da UEFA desde fevereiro de 2022. A sanção foi aplicada em conjunto pelas entidades devido ao conflito na Ucrânia e permanece em vigor, impedindo o país de disputar torneios oficiais como a Copa do Mundo. Nesse caso, a excepcionalidade geopolítica converteu-se rapidamente em sanção esportiva. O ponto crítico não está em debater a justeza ou ilicitude da conduta russa, nem em sustentar que o esporte deva permanecer indiferente a violações severas do direito internacional.

O problema está na ausência de um critério universalizável. Se a FIFA aceita que uma guerra de agressão, a violação de fronteiras e a apropriação esportiva de territórios justifiquem exclusão, precisa explicar por que situações distintas, mas igualmente permeadas por violações do direito internacional, deslocamento forçado, punição coletiva, uso de armas proibidas, ataques a estruturas civis e operações militares unilaterais não produzem sequer processo disciplinar equivalente quando envolvem aliados estratégicos do Ocidente, como Estados Unidos e Israel.

Especialistas em direito internacional e órgãos multilaterais apontam que o conflito no Irã carece de respaldo jurídico, pois a Carta das Nações Unidas proíbe o uso da força entre Estados, exceto em casos de legítima defesa ou mediante resolução do Conselho de Segurança da ONU. A captura e destituição forçada de Nicolás Maduro por tropas dos Estados Unidos, classificada diplomaticamente por diversos países e movimentos como um sequestro político, também é considerada uma violação direta ao direito internacional. As ofensivas militares norte-americanas configuram quebras severas do direito internacional civil e humanitário.

Da mesma forma, as ações conduzidas por Israel na Faixa de Gaza, na Cisjordânia e no Líbano, que envolvem ordens de deslocamento forçado, destruição de infraestrutura civil essencial e ataques documentados contra tropas de manutenção da paz da ONU (UNIFIL), não geraram qualquer sanção esportiva de natureza excludente.

A Associação Palestina de Futebol questiona há anos a participação, em competições organizadas pela federação israelense, de clubes situados em assentamentos na Cisjordânia ocupada, o que toca diretamente um ponto sensível dos estatutos da FIFA: a impossibilidade de uma associação atuar no território de outra sem autorização. Ainda assim, a entidade optou por não aplicar sanção esportiva substancial.

O debate sobre “dois pesos e duas medidas” suscita uma reflexão crítica sobre a reverberação de uma postura institucional que leva a FIFA a agir com desequilíbrio e parcialidade sobre um esporte que teoricamente deveria representar a pluralidade e inclusão de diferentes povos em todo o mundo. No caso do Brasil, a FIFA utilizou a ameaça de retirar o evento para pressionar o governo federal a ceder pressões da entidade e que resultaram na criação de legislações que sobrepuseram interesses comerciais da FIFA ao ordenamento jurídico nacional, ao passo que nos EUA a entidade se curva numa linha reversa de pressão; a dos norte-americanos. Como se os EUA fizessem um favor à FIFA realizando o evento em seu território e impusessem suas condições para tal.

A Rússia, isolada por sua condição de adversária estratégica, tornou-se sancionável. Israel, protegido por alianças diplomáticas robustas permanece em campo. A neutralidade, assim, deixa de ser princípio e passa a funcionar como linguagem de conveniência, capaz de justificar tanto a intervenção quanto a omissão. As seleções entram em campo sob a retórica da igualdade, enquanto suas federações, torcedores e oficiais são tratados conforme a hierarquia real do poder internacional.

A pergunta central, portanto, não é se a FIFA deve banir todos os Estados envolvidos em controvérsias internacionais, mas quais critérios distinguem uma violação internacional esportivamente relevante de uma violação politicamente tolerável. Enquanto essa resposta não for esclarecida, o universalismo proclamado pela entidade continuará a parecer apenas retórico, e a Copa do Mundo seguirá revelando uma verdade incômoda; todos os países parecem iguais, mas nos bastidores da governança, alguns continuam sendo muito mais iguais do que outros.

¨      'A Copa não é para nós': os torcedores que desistiram após serem barrados ou ficarem sem visto para os países-sede

Quando a seleção de futebol do Iraque se classificou para a Copa do Mundo no fim de março, Abdulla Adnan comprou ingressos para os jogos de seu país contra Noruega e França, que serão disputados nas cidades americanas de Boston e Filadélfia neste mês.

"Ir a um jogo, a um estádio, a uma multidão, torcer e ver meu time — isso é tudo para mim", diz ele. "É um sentimento incomparável."

A Copa do Mundo começa oficialmente nesta quinta-feira (11/06), com a cerimônia de abertura às 14h30. Acompanhe a cobertura ao vivo da abertura da Copa do Mundo 2026 na BBC Brasil.

Esta é apenas a segunda vez que o Iraque se classificou para o Mundial — a primeira foi em 1986. Mas está sendo difícil conseguir um visto.

E Adnan não está sozinho. Torcedores de mais de um quarto dos países participantes da Copa do Mundo estão enfrentando proibições de viagem, restrições mais rígidas ou altas taxas de rejeição de vistos, mostra uma análise de dados de viagens feita pela BBC.

O Iraque não está na lista de proibição de viagens do governo de Donald Trump. Por isso, no caso de Adnan, o obstáculo foi inesperado.

Após o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, os EUA suspenderam serviços consulares de rotina no Iraque devido a preocupações com a segurança na região. Isso significa que não há lugar no país onde Adnan e outros torcedores iraquianos possam obter vistos, já que precisam comparecer a uma entrevista presencial.

Por isso, Adnan viajou ao país vizinho, a Jordânia, para tentar obter um visto na embaixada dos EUA. Mas, quando chegou para sua entrevista, funcionários disseram que, por não ser cidadão jordaniano, aquela embaixada não poderia lhe dar um visto.

Os ingressos para o jogo e a viagem à Jordânia custaram cerca de US$ 1,8 mil (R$ 9,4 mil).

Adnan considerou solicitar o visto na Turquia, mas como o processo poderia levar até duas semanas, decidiu que não poderia ficar tanto tempo longe de casa. Ele desistiu de tentar obter o visto.

Torcedores de vários países disseram à BBC que outros obstáculos também estão causando indignação e frustração.

Uma das barreiras é a lista do governo Trump com proibições e restrições de vistos para determinados países, incluindo quatro que disputam a Copa do Mundo — Haiti, Irã, Senegal e Costa do Marfim. Isso significa que seus cidadãos estão impedidos de receber o tipo de visto de visitante que as autoridades dos EUA recomendam para torcedores.

Políticas rígidas de imigração e repressão a migrantes sem documentação foram parte central da campanha de reeleição de Trump em 2024. As autoridades dos EUA afirmam que seu sistema precisa ser rigoroso devido aos desafios enfrentados para gerenciar o enorme fluxo de pessoas que cruzam as fronteiras do país.

Julien Kouadio Adonis, da associação de torcedores da Costa do Marfim, diz: "É uma forma de segregação velada, mas a prova está aí. Nenhum país europeu enfrentou esse tipo de restrição. Por que a África?"

Sua associação normalmente envia um grupo de torcedores à Copa do Mundo, mas decidiu nem tentar ir aos EUA por causa das barreiras.

Embora esteja aliviado por evitar o que chamou de preços "exorbitantes" dos ingressos, Adonis acredita que um país que não quer receber torcedores de equipes classificadas não deveria ser autorizado a sediar a Copa do Mundo.

"O futebol é um espetáculo e um espetáculo precisa de pessoas assistindo", diz ele.

Quarenta e dois países, geralmente mais ricos, se beneficiam de um programa de isenção de visto, no qual os pedidos são feitos online por meio do Sistema Eletrônico para Autorização de Viagem dos EUA (Esta). Isso custa cerca de US$ 40 (R$ 200). Não há países africanos nessa lista.

O visto que os EUA recomendam para torcedores da Copa do Mundo custa US$ 185 (R$ 930) e os solicitantes devem comparecer a uma entrevista presencial. O Departamento de Estado afirma que eles devem demonstrar "sua intenção de deixar os EUA após a viagem e/ou sua capacidade de pagar todos os custos da viagem".

No entanto, em maio, os EUA anunciaram que retirariam a exigência de depósitos de até US$ 15 mil (R$ 77 mil) para pessoas de países classificados para a Copa do Mundo — Argélia, Cabo Verde, Costa do Marfim, Senegal e Tunísia — desde que tenham ingressos válidos para o torneio. Torcedores de Senegal e Costa do Marfim tiveram que garantir vistos até dezembro, antes do começo das novas restrições.

O torcedor senegalês Aliou Ngom esteve nas duas últimas Copas do Mundo no Catar e na Rússia. Para ele, um dos destaques do torneio é ver "culturas se unindo de todo o mundo".

Um treinamento da seleção feminina de basquete do Senegal nos EUA foi cancelado no ano passado quando várias jogadoras tiveram o visto negado. Assim como Adonis, Ngom decidiu que fazia pouco sentido solicitar um visto como torcedor.

A análise da BBC dos dados do Departamento de Estado dos EUA mostrou que a taxa de rejeição de vistos para cidadãos de 11 dos 48 países que se classificaram para a Copa do Mundo foi superior a 40%. Isso inclui solicitantes de todos os tipos, não apenas torcedores.

Isso se compara a uma taxa média de rejeição de 34% para pedidos de visto de negócios B1 e turismo B2 — o tipo recomendado para torcedores que vão ao torneio — de todos os países.

Os dados abrangem o período de outubro de 2024 até o fim de setembro de 2025, portanto não incluem torcedores que pediram vistos nos últimos oito meses. Os 11 países são Equador, Egito, Haiti, Argélia, Uzbequistão, Cabo Verde, Jordânia, Irã, República Democrática do Congo, Gana e Senegal.

<><> Rejeições

Com uma taxa de rejeição elevada, é difícil para torcedores desses países saber se devem arriscar gastar dinheiro em ingressos caros antes de solicitar um visto, que talvez nem venham a obter.

Se comprarem ingressos diretamente da Fifa, eles podem revendê-los no site da entidade mediante taxa e também podem usar o sistema Fifa Pass para acelerar o processo de solicitação de visto.

"O Fifa Pass é um passo positivo porque tenta colocar os detentores de ingressos em entrevistas prioritárias para vistos", diz Celine Atallah, de um escritório de advocacia de imigração em Massachusetts.

Mas ela acrescenta que, embora torne o processo mais rápido, isso não aumenta a probabilidade de aprovação do visto.

"O sistema de vistos é o controlador de acesso invisível da Copa do Mundo", diz Atallah. "A Fifa pode vender um ingresso, mas o governo dos EUA decide quem recebe um visto, e a CBP [Alfândega e Proteção de Fronteiras] decide quem realmente entra."

Mesmo com um visto, quem viaja aos EUA não tem entrada garantida na chegada, pois autoridades de fronteira ainda podem recusar a entrada.

Abu Kass é presidente da associação de torcedores de futebol da Jordânia, país onde 57% dos pedidos de visto para os EUA foram recusados no ano até o fim de setembro de 2025.

"Eles vêm rejeitando pessoas nos últimos três a quatro meses", diz ele, acrescentando que não conhece um único torcedor que tenha recebido visto. A associação de torcedores jordanianos nos EUA disse à BBC que conhecia apenas um torcedor jordaniano que havia recebido visto.

Kass afirma que levou mais de 42 documentos para sua entrevista de visto na capital jordaniana, Amã, onde seu pedido foi recusado. Os EUA não informam o motivo quando negam um visto.

"Esta Copa do Mundo não é nossa", diz Kass. "Não é para árabes esta Copa do Mundo, é para eles. Se o presidente da associação de torcedores foi recusado, quem será aceito?"

Um porta-voz do Departamento de Estado disse à BBC que o governo estava "preparado para receber visitantes de todo o mundo para a maior e melhor Copa do Mundo da Fifa da história" e que "a maioria dos torcedores estrangeiros não precisava usar o Fifa Pass porque são nacionais do Canadá ou de um dos 42 países que se qualificam para viagem sem visto" ou já possuíam visto.

Ele afirmou que, em todos os casos, "vamos dedicar o tempo necessário para garantir que um solicitante não represente risco à segurança dos EUA" e que "analisamos cada pedido de visto caso a caso, após revisão rigorosa e verificação minuciosa, para determinar se o indivíduo é elegível segundo a lei dos EUA".

O Departamento de Segurança Interna está preocupado com pessoas que permanecem no país após o vencimento do visto e afirma que houve mais de 538 mil "casos de permanência além do prazo" entre outubro de 2023 e setembro de 2024. O Pew Research Center estima que, em 2023, antes da repressão do governo Trump a migrantes sem documentação, havia 14 milhões de imigrantes vivendo ilegalmente nos EUA.

Os países que sediaram as últimas quatro Copas do Mundo criaram sistemas especiais de visto para torcedores, embora a aprovação de documentos de viagem não fosse garantida.

Canadá e México são coanfitriões do torneio, mas 78 das 104 partidas, incluindo a final, serão disputadas em cidades dos EUA.

Os sistemas próprios de imigração e vistos do Canadá e do México são diferentes do americano. Nenhum dos dois emitiu proibições de viagem para países específicos, embora o Canadá, assim como os EUA, tenha recentemente imposto restrições de entrada a países afetados pelo recente surto de Ebola na África, o que inclui a República Democrática do Congo, classificada para a Copa do Mundo.

O Canadá exige que as pessoas forneçam dados biométricos para solicitações de visto e há dois países classificados para a Copa do Mundo — Irã e Cabo Verde — onde o Canadá não possui instalações para coleta desses dados.

O Canadá não detalha as taxas de recusa de vistos por tipo ou país, mas sua taxa geral em 2025 foi de 54%.

O México não publica dados de recusa de vistos. O país exige que os solicitantes façam o pedido presencialmente em uma embaixada ou consulado. Entre os países classificados para a Copa do Mundo, há oito — Cabo Verde, República Democrática do Congo, Costa do Marfim, Senegal, Uzbequistão, Bósnia e Herzegovina, Tunísia e Iraque — onde o México não tem presença diplomática para atendimento.

<><> Fifa censura uniforme do Haiti por mensagem política

Às vésperas da estreia do Haiti na Copa do Mundo de 2026, a Fifa solicitou alteração em um dos elementos visuais que compõem o uniforme da seleção caribenha por considerá-lo uma manifestação política. A fabricante das camisas, a Saeta, comunicou a decisão nesta quarta-feira (10). O símbolo vetado faz referência à Batalha de Vertières, confronto decisivo que abriu caminho para a independência do Haiti do domínio francês, em 1804.

O projeto foi elaborado em parceria com a Federação Haitiana de Futebol e tinha como objetivo homenagear “o orgulho, a resiliência e o espírito do povo haitiano” e “não tinha a intenção de ser uma declaração política”. A seleção haitiana voltará a disputar uma Copa do Mundo após 52 anos, justamente em um dos momentos mais simbólicos de sua história recente.

“Diversos conceitos foram desenvolvidos e aperfeiçoados ao longo de vários meses e submetidos ao processo padrão de aprovação da FIFA”, esclarece a nota da fabricante.

A Saeta afirma que a peça fazia referência aos homens e mulheres que ajudam a construir o futuro do Haiti e que jamais teve a intenção de transmitir uma mensagem partidária ou eleitoral. Ainda assim, durante a análise do material, a Fifa concluiu que “certos elementos visuais poderiam ser interpretados de maneira diferente” de acordo com os regulamentos da entidade para equipamentos esportivos. Por isso, solicitou mudanças no design antes da aprovação final.

“Embora essa interpretação tenha sido diferente da nossa intenção, a Saeta respeitou o processo e implementou os requisitos finais comunicados pela Fifa”, concluiu a empresa.

 

Fonte: ICL Notícias/BBC News Árabe