sexta-feira, 14 de agosto de 2026

O novo front cibernético dos EUA contra Lula e o Brasil

Donald Trump acaba de cruzar uma linha que o Brasil não pode tratar como detalhe técnico. Em 12 de agosto, a Casa Branca instituiu um programa para autorizar empresas privadas norte-americanas a executar operações cibernéticas contra organizações criminosas transnacionais estrangeiras, sob direção e controle do governo dos Estados Unidos. Não se trata apenas de monitoramento, coleta de dados ou cooperação policial. O memorando autoriza duas categorias de ação: operações clandestinas de vigilância e operações capazes de produzir efeitos concretos sobre sistemas, redes e infraestruturas fora do território norte-americano. A primeira categoria já revela a gravidade da mudança. O próprio documento define a vigilância cibernética como acesso a sistemas sem autorização de seu proprietário ou operador, ou além da autorização concedida, com a intenção de permanecer sem detecção. A informação coletada pode servir à preparação de ações posteriores. Em termos objetivos, o governo dos Estados Unidos está institucionalizando uma cadeia operacional que permite penetrar clandestinamente uma rede estrangeira, permanecer dentro dela, mapear sua estrutura e preparar o terreno para uma intervenção futura. A segunda categoria vai muito além. As chamadas Cyber Effects Operations podem manipular, interromper, negar acesso, degradar ou destruir sistemas de informação, redes e infraestrutura física ou virtual controlada digitalmente. O texto inclui expressamente sistemas industriais, processadores e controladores embarcados. Portanto, o alcance potencial não termina em servidores e bancos de dados: chega ao ponto em que o mundo digital controla estruturas físicas. O próprio memorando reconhece essa fronteira ao criar uma categoria especial para operações que possam provocar mortes, ferimentos graves ou atingir, segundo o direito internacional, o patamar de uso da força ou ataque armado. Os diretores ordinários do programa não podem autorizar essas ações, mas o simples fato de o documento prevê-las demonstra a extensão do espectro operacional concebido por Washington.

Há ainda uma ruptura histórica na forma de executar esse poder. Trump não está apenas contratando empresas para desenvolver softwares ou fornecer inteligência. O memorando define empresas participantes como companhias privadas norte-americanas autorizadas a conduzir operações cibernéticas sob direção do governo dos Estados Unidos. Elas poderão receber informações de outras empresas, propor operações ao National Coordination Center e, depois de aprovação escrita do governo, executá-las em nome do poder federal. A Casa Branca chama explicitamente a capacidade tecnológica do setor privado de uma “vantagem cibernética ofensiva” e determina o emprego de “todos os instrumentos do poder nacional” contra essas organizações. É essa combinação que muda o patamar do problema: poder estatal, capacidade tecnológica privada, atuação clandestina e projeção extraterritorial passam a integrar a mesma arquitetura. A fronteira política não desapareceu, mas a tecnologia passou a permitir que ela seja atravessada sem tropas, bases militares ou declaração de guerra. Um Estado pode projetar poder dentro da infraestrutura de outro país antes mesmo que a sociedade atingida saiba que uma operação começou. Para o Brasil, essa é a primeira pergunta que não admite ingenuidade: quem decide quem pode entrar em nossas redes e produzir efeitos dentro delas?

<><> O Brasil já está dentro do tabuleiro

O risco para o Brasil não nasce de uma hipótese abstrata. Antes de criar essa nova capacidade cibernética, Washington já havia dado um passo decisivo: incorporou organizações brasileiras à sua própria arquitetura de segurança nacional. Em maio, o governo Trump enquadrou PCC e Comando Vermelho como Specially Designated Global Terrorists; em junho, ambos passaram também à lista de Foreign Terrorist Organizations. Uma decisão unilateral dos Estados Unidos alterou, portanto, a natureza jurídica com que Washington passou a tratar duas organizações que operam majoritariamente sob jurisdição brasileira. A mudança não ficou no terreno simbólico. Em julho, o Departamento do Tesouro classificou o PCC como a maior organização criminosa transnacional do Hemisfério Ocidental e uma ameaça criminosa “real e crescente” dentro dos Estados Unidos. Washington passou também a atingir redes econômicas vinculadas ao grupo no Brasil: pessoas e empresas sediadas em São Paulo entraram no sistema norte-americano de sanções, inclusive estruturas financeiras acusadas de movimentar recursos provenientes de atividades ilícitas. A fronteira entre segurança pública brasileira e segurança nacional norte-americana começou, assim, a ser redesenhada por Washington.

É nesse ponto que o memorando de Trump adquire outra dimensão. PCC e Comando Vermelho não se tornam automaticamente alvos das novas operações cibernéticas: o documento exige que a organização se enquadre também nos critérios estabelecidos para uma Cyber-Enabled Transnational Criminal Organization, e não há evidência pública de que qualquer operação contra os dois grupos tenha sido autorizada. Mas a porta jurídica e política foi aberta. Organizações brasileiras já classificadas por Washington como terroristas e ameaças transnacionais passam a coexistir com um mecanismo norte-americano criado para penetrar clandestinamente sistemas de organizações criminosas estrangeiras e, quando autorizado, produzir efeitos sobre sua infraestrutura. A possibilidade de que PCC e CV sejam alcançados pelo programa já foi identificada na cobertura da própria medida. O governo brasileiro percebeu o problema antes que esse novo instrumento aparecesse. Em julho, o chanceler Mauro Vieira advertiu que a classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas poderia abrir caminho para medidas extraterritoriais dos Estados Unidos e, no limite, criar justificativas para emprego de força em território brasileiro. O alerta era essencialmente sobre soberania: nenhum país pode aceitar que outro Estado transforme unilateralmente um problema criminal interno em fundamento para exercer poder dentro de sua jurisdição. O que mudou em 12 de agosto é que essa advertência ganhou uma dimensão operacional que não existia quando Vieira falou. A intervenção estrangeira no século XXI não precisa começar com tropas desembarcando, aviões cruzando o espaço aéreo ou navios aproximando-se da costa. Pode começar muito antes, silenciosamente, dentro de uma rede. É por isso que a questão ultrapassa PCC e Comando Vermelho. O crime organizado é o objeto imediato; o precedente de soberania é o problema estratégico. Quando Washington define unilateralmente a ameaça, constrói a base jurídica para tratá-la como assunto de sua segurança nacional e desenvolve instrumentos extraterritoriais para enfrentá-la, o Brasil precisa perguntar onde termina a jurisdição norte-americana — e quem terá poder para impor esse limite.

<><> A guerra híbrida atravessa a fronteira sem soldados

É aqui que o memorando de Trump precisa ser lido para além da cibersegurança. O ciberespaço tornou-se um dos ambientes privilegiados da guerra híbrida justamente porque permite exercer poder sem reproduzir os sinais clássicos da guerra. Não exige mobilização de tropas, ocupação territorial ou declaração formal de hostilidade. Permite penetrar, observar, mapear, interromper e produzir efeitos mantendo a ação abaixo do limiar que provocaria uma resposta convencional. A própria doutrina norte-americana chama essa lógica de persistent engagement e defend forward: manter contato permanente com o adversário, disputar iniciativa no ciberespaço e agir contra ameaças antes que elas alcancem o território dos Estados Unidos. O Departamento de Defesa descreve essa postura como atuação contínua capaz de “disrupt and degrade” atores considerados hostis e seus ecossistemas de apoio. Essa lógica possui uma dimensão psicológica que costuma desaparecer das análises estritamente técnicas. Uma capacidade estratégica começa a produzir efeitos antes mesmo de ser empregada. Quando um Estado anuncia que pode alcançar clandestinamente sistemas situados no exterior, manter presença sem ser detectado e, mediante autorização, degradá-los ou destruí-los, ele altera o cálculo de todos os atores que sabem estar potencialmente dentro de seu raio de ação. É a psicologia da guerra aplicada ao domínio digital: produzir incerteza, impor custos potenciais, condicionar decisões e obrigar o outro lado a considerar permanentemente uma capacidade cuja presença talvez não consiga sequer detectar. O próprio Cyber Command já definiu a persistent engagement como instrumento para impor custos e modificar o “decision calculus” do adversário, operando deliberadamente abaixo do nível do conflito armado.

Essa característica torna o momento brasileiro particularmente sensível. Estamos em ano eleitoral, sob uma disputa política na qual as relações entre Washington e o governo Lula já integram o ambiente estratégico. A eleição não pode ser analisada apenas pela segurança das urnas. Uma operação de influência contemporânea pode buscar inteligência sobre atores políticos, explorar informações obtidas clandestinamente, alimentar narrativas, amplificar desconfiança, pressionar instituições ou alterar percepções sobre a capacidade de um governo defender seus próprios interesses. Os Estados Unidos conhecem perfeitamente essa dimensão: sua própria estratégia cibernética registra operações de defend forward realizadas para proteger eleições norte-americanas e relaciona a reformulação de sua postura ofensiva à experiência de interferência estrangeira no processo presidencial de 2016.

É preciso ser rigoroso: o memorando de Trump não autoriza genericamente empresas norte-americanas a interferir na eleição brasileira, e não há evidência pública de que uma operação dessa natureza esteja em curso. O alerta é outro e suficientemente grave. Washington acaba de ampliar a integração entre Estado, inteligência, capacidade cibernética ofensiva e empresas privadas em pleno processo eleitoral brasileiro. Se essa arquitetura permite coletar clandestinamente informações e produzir efeitos sobre determinados sistemas estrangeiros, o Brasil precisa saber quais são seus limites, seus alvos e suas salvaguardas. Em guerra híbrida, esperar a prova material da interferência para começar a discutir vulnerabilidade é aceitar que a defesa venha sempre depois da operação.

Há ainda uma assimetria decisiva. Um míssil deixa trajetória, origem provável e destruição visível. Uma operação cibernética pode atravessar servidores de terceiros, infraestrutura comercial, máquinas comprometidas e diferentes jurisdições antes de alcançar o alvo. A atribuição é lenta, politicamente disputável e, muitas vezes, incompleta. Essa ambiguidade não é um defeito periférico do domínio cibernético: é parte de seu valor estratégico. O próprio pensamento militar norte-americano descreve o ciberespaço como ambiente de contato permanente, competição e ações sustentadas abaixo do limiar de uma resposta tradicional. Por isso, o maior erro seria procurar apenas um “ataque cibernético” espetacular. A guerra híbrida raramente anuncia sua chegada. Ela trabalha sobre vulnerabilidades preexistentes, fragmenta percepção, explora dependências, confunde as fronteiras entre paz e conflito e transforma incerteza em instrumento de poder. Em uma eleição decisiva para o futuro geopolítico do Brasil, o simples surgimento de uma capacidade estrangeira que combina intrusão clandestina, ação extraterritorial e execução privada precisa ser tratado como questão de Estado. A urna é apenas o último instante da eleição; a disputa pela consciência, pela informação e pela capacidade soberana de decisão começa muito antes dela.

<><> Quando a empresa privada passa a exercer poder coercitivo

Talvez a mudança mais profunda introduzida pelo memorando esteja menos nas ferramentas autorizadas do que em quem poderá operá-las. O poder cibernético norte-americano sempre dependeu de uma relação estreita entre Estado, indústria tecnológica, universidades, empresas de inteligência e gigantes que controlam nuvens, redes, dados e infraestrutura digital. Essa relação não é nova. O próprio Cyber Command mantém hoje o Under Advisement, uma estrutura permanente de intercâmbio com mais de cem empresas privadas, destinada a compartilhar inteligência técnica e ampliar a capacidade do governo de agir contra adversários. O que Trump faz agora é atravessar outra fronteira: a empresa deixa de ser apenas fornecedora de tecnologia ou informação e passa a poder executar a própria operação autorizada pelo Estado. Essa transformação precisa ser compreendida em sua dimensão material. Quem controla infraestrutura digital possui uma capacidade de poder que não existia em nenhuma fase anterior do capitalismo. Empresas privadas concentram nuvens, inteligência artificial, satélites, sistemas de análise de dados, infraestrutura de comunicação, conhecimento sobre vulnerabilidades e uma quantidade de informação sobre sociedades inteiras que muitos Estados jamais conseguiram reunir. O aparato estatal norte-americano conhece esse valor e vem aproximando sistematicamente essas capacidades de sua estrutura militar e de inteligência. O Cyber Command afirma que colaboração com indústria e academia é fundamental para sua vantagem operacional e mantém programas específicos para transformar pesquisa e tecnologia privadas em capacidades disponíveis à sua força cibernética.

O memorando acrescenta a coerção a esse ecossistema. A cadeia prevista é inequívoca: empresas podem obter inteligência produzida no curso de suas atividades, compartilhar informações relevantes, identificar oportunidades, propor operações ao governo e, depois de autorização formal, executá-las sob direção federal. Não é mais apenas o Estado comprando uma ferramenta do mercado. É o Estado incorporando capacidade empresarial ao exercício direto de uma função estratégica. Na prática, consolida-se um complexo digital-militar no qual capital privado e poder público permanecem juridicamente distintos, mas podem convergir operacionalmente quando os interesses de segurança nacional dos Estados Unidos assim determinarem. Essa convergência também impede um truque político conveniente: esconder o Estado atrás da empresa. Pelo direito internacional, a natureza privada do executor não apaga automaticamente a responsabilidade de quem dirige a operação. O artigo 8 das regras da Comissão de Direito Internacional sobre responsabilidade dos Estados estabelece que a conduta de pessoas ou grupos pode ser atribuída ao Estado quando realizada sob suas instruções, direção ou controle. O memorando de Trump determina precisamente autorização prévia, supervisão e controle governamental das operações. A terceirização do operador não terceiriza necessariamente a responsabilidade.

Para o Brasil, essa transformação exige atenção muito além dos órgãos de Defesa. Grande parte da vida econômica, política e institucional brasileira circula por infraestrutura tecnológica controlada ou desenvolvida por corporações estrangeiras: governos, empresas, universidades, meios de comunicação, campanhas eleitorais e milhões de cidadãos dependem diariamente de plataformas, clouds, softwares e sistemas sobre os quais o Estado brasileiro possui graus muito diferentes de domínio. Não há evidência de que as grandes plataformas que operam no país tenham sido escolhidas para executar o novo programa, e seria irresponsável afirmar isso. O problema estratégico é anterior a qualquer nome: uma potência que controla parcela decisiva da infraestrutura digital global acaba de criar um mecanismo para converter capacidade tecnológica privada em capacidade operacional de Estado. É nesse ponto que o company-state deixa de ser apenas uma categoria para compreender concentração econômica e informacional. A empresa não substitui o Estado; algo mais sofisticado acontece. O Estado incorpora ao seu poder capacidades acumuladas pelo capital privado, enquanto corporações passam a ocupar espaços antes reservados ao aparato público de segurança. Dados, tecnologia, inteligência e coerção começam a formar uma mesma cadeia operacional. Para um país periférico e tecnologicamente dependente, a questão deixa de ser apenas quem vende nossos sistemas. Passa a ser quem controla a infraestrutura da qual dependemos, quem conhece suas vulnerabilidades e, sobretudo, a serviço de qual soberania essa capacidade poderá ser mobilizada quando os interesses entrarem em conflito.

<><> O que está realmente em disputa é a soberania brasileira

O centro dessa disputa não é tecnológico. É político. Um servidor pode estar em São Paulo, a nuvem nos Estados Unidos, uma carteira digital em outra jurisdição e a comunicação atravessar cabos, satélites e plataformas pertencentes a empresas estrangeiras. O crime organizado explora exatamente essa fragmentação. Mas a natureza transnacional da rede não revoga a soberania dos Estados. Se uma infraestrutura localizada no Brasil é penetrada, manipulada ou destruída por decisão de um governo estrangeiro sem consentimento brasileiro, a questão deixa de ser apenas cibersegurança: torna-se exercício de poder dentro de um espaço submetido à jurisdição nacional. O próprio Estado brasileiro já reconhece essa dimensão. A Estratégia Nacional de Cibersegurança, instituída em 2025, colocou “Soberania Nacional e Governança” entre seus quatro eixos estruturantes e definiu como objetivo proteger os interesses da sociedade brasileira no ciberespaço. A mesma política trata segurança e resiliência de serviços essenciais e infraestruturas críticas como questão estratégica e inclui entre os ciberativos redes, dispositivos, aplicações, sistemas e dados. Em outras palavras, aquilo que Washington agora admite penetrar ou atingir em determinadas operações é precisamente aquilo que o Brasil passou formalmente a reconhecer como parte do território estratégico de sua soberania. É preciso eliminar uma falsa questão antes que ela seja utilizada para desqualificar o debate. Defender a soberania brasileira não significa defender PCC, Comando Vermelho ou qualquer organização criminosa. O Estado brasileiro tem o dever de enfrentá-los com toda a força da lei. O que não pode aceitar é que o crime organizado se transforme em salvo-conduto para uma potência estrangeira ampliar unilateralmente sua jurisdição dentro do Brasil. A pergunta não é se criminosos devem ser combatidos. A pergunta é quem possui autoridade para exercer poder coercitivo em território brasileiro. Essa autoridade pertence à República Federativa do Brasil.

O problema torna-se ainda mais grave porque Washington trabalha com uma categoria particularmente elástica. O novo memorando alcança organizações envolvidas em crimes cibernéticos contra o governo, pessoas ou “interesses dos Estados Unidos”. O texto público não delimita de maneira precisa até onde vai esse conceito. Ao mesmo tempo, a Casa Branca determina que o programa opere contra organizações situadas em jurisdições estrangeiras e admite acesso clandestino a sistemas sem autorização de seus proprietários ou operadores. Não há no documento público uma garantia geral de que o consentimento do Estado territorial será condição prévia para cada operação. Isso não prova que os Estados Unidos agirão unilateralmente no Brasil. Prova que o Brasil não pode deixar a definição desse limite exclusivamente nas mãos de Washington. Há uma assimetria de poder que países do Sul Global conhecem historicamente. As grandes potências formulam ameaças a partir de seus próprios interesses, desenvolvem instrumentos para enfrentá-las e depois procuram universalizar o direito de utilizá-los. No século XX, essa projeção dependia principalmente de bases, frotas, serviços de inteligência, operações clandestinas e capacidade financeira. No século XXI, soma-se uma infraestrutura digital global cuja propriedade, conhecimento técnico e capacidade operacional estão fortemente concentrados em corporações e instituições sediadas no Norte. A dependência tecnológica deixa então de ser apenas problema econômico: converte-se em vulnerabilidade geopolítica.

É precisamente por isso que soberania digital não pode ser reduzida à proteção contra hackers. Ela significa capacidade nacional de conhecer a infraestrutura da qual o país depende, controlar dados estratégicos, detectar intrusões, atribuir ataques, desenvolver tecnologia própria e decidir quais atores estrangeiros podem operar dentro de nossas redes. O Brasil já reconheceu oficialmente que proteger serviços essenciais, infraestrutura crítica e interesses nacionais no ciberespaço é política de Estado. O memorando de Trump torna urgente transformar essa formulação em capacidade material. Porque a fronteira brasileira não termina mais no Oiapoque, no Chuí, no espaço aéreo ou nas águas do Atlântico Sul. Ela atravessa data centers, sistemas financeiros, telecomunicações, redes governamentais, satélites, nuvens, cabos submarinos e sistemas industriais. Quando outro Estado reivindica capacidade de produzir efeitos dentro desse espaço, não estamos discutindo apenas computadores. Estamos discutindo quem manda. E soberania, no fim, é exatamente isso: o direito de o Brasil decidir dentro do Brasil.

<><> Brasília precisa responder antes que aconteça

O Brasil não deve esperar a primeira operação para descobrir quais são as regras do jogo. O memorando de Trump exige uma resposta diplomática e estratégica imediata. O governo Lula precisa perguntar formalmente a Washington se qualquer operação que alcance sistemas, redes, empresas ou infraestrutura situada no Brasil dependerá de autorização brasileira; quais critérios definirão os chamados “interesses dos Estados Unidos”; se PCC e Comando Vermelho estão sendo avaliados para enquadramento no novo programa; como serão tratados danos a terceiros; e que responsabilidade caberá ao governo norte-americano pelas ações executadas pelas empresas privadas que contratar. Não se trata de criar uma crise artificial com os Estados Unidos. Trata-se exatamente do contrário: estabelecer, antes da crise, a linha que uma potência estrangeira não pode atravessar sem consentimento brasileiro. O próprio chanceler Mauro Vieira já advertiu que a designação de PCC e CV como organizações terroristas abriu espaço para medidas extraterritoriais e até para cenários envolvendo emprego de força. O instrumento cibernético criado agora torna esse alerta mais concreto. Essa resposta não pode ficar restrita ao Itamaraty. Presidência da República, GSI, ABIN, Polícia Federal, Ministério da Defesa, Comando de Defesa Cibernética e órgãos responsáveis por infraestrutura crítica precisam construir uma consciência situacional comum. Bancos, telecomunicações, empresas de energia, provedores de nuvem, plataformas digitais e operadores de serviços essenciais também fazem parte dessa equação. Uma operação estrangeira pode aparecer inicialmente como fraude, falha de sistema, incidente de segurança ou atividade criminosa antes que sua natureza política seja identificada. A fragmentação institucional é, portanto, uma vulnerabilidade. O Brasil precisa ser capaz de detectar, atribuir, compartilhar inteligência e decidir rapidamente quando um incidente deixa de ser problema técnico e passa a representar ação de um ator estatal contra interesses nacionais.

O Congresso também precisa entrar nessa discussão. A soberania cibernética não pode permanecer confinada aos especialistas enquanto decisões capazes de afetá-la são tomadas fora do país. Parlamentares precisam exigir esclarecimentos do Executivo, acompanhar os desdobramentos do programa norte-americano e discutir se o arcabouço brasileiro oferece instrumentos suficientes para responder a operações estrangeiras realizadas por empresas privadas. Universidades, centros de pesquisa, jornalistas e especialistas têm igualmente uma responsabilidade: abandonar a visão confortável de que segurança digital é assunto de técnicos. No capitalismo informacional, infraestrutura tecnológica é infraestrutura de poder. Quem domina dados, redes, processamento, inteligência artificial e capacidade de intrusão possui instrumentos capazes de influenciar decisões econômicas, militares e políticas.

Essa discussão torna-se ainda mais urgente em pleno ano eleitoral. Não existe evidência pública de que o memorando tenha sido criado para interferir nas eleições brasileiras, e afirmar isso seria substituir análise por especulação. Mas seria igualmente irresponsável ignorar o ambiente em que essa nova capacidade surge. Uma eleição não pode ser desestabilizada apenas pela violação de uma urna. Inteligência clandestina, obtenção de comunicações, exposição seletiva de informações, manipulação de narrativas, operações de influência e produção calculada de insegurança podem alterar o ambiente psicológico em que milhões de pessoas tomam decisões políticas. O memorando não autoriza genericamente esse tipo de intervenção eleitoral; ele, porém, amplia a integração entre governo, inteligência, empresas privadas e capacidade cibernética ofensiva justamente quando o Brasil atravessa uma disputa decisiva sobre seu alinhamento internacional e seu projeto de desenvolvimento. Esse risco precisa ser tratado preventivamente, não descoberto retrospectivamente. É também por isso que o presidente Lula precisa compreender essa questão para além da conjuntura eleitoral. Governos passam; a infraestrutura permanece. Hoje a pressão pode incidir sobre um governo que procura preservar autonomia diante de Washington. Amanhã poderá atingir qualquer governo brasileiro que contrarie interesses de uma grande potência. Transformar a soberania nacional em questão partidária seria uma vitória antecipada de qualquer estratégia de guerra híbrida, porque dividiria internamente aquilo que deveria constituir uma linha de defesa comum. Militares, empresários, trabalhadores, esquerda, direita democrática, universidades e instituições republicanas podem divergir sobre quase tudo; não deveriam divergir sobre quem possui autoridade para exercer poder dentro do Brasil.

Há anos venho alertando que a guerra híbrida contemporânea não deve ser procurada apenas onde explodem bombas. Ela avança sobre dependências, vulnerabilidades, fluxos financeiros, infraestrutura, informação, percepção e capacidade de decisão. A novidade de 12 de agosto é que uma parte dessa arquitetura deixou o terreno da hipótese e ganhou forma institucional. Trump autorizou um programa que coloca empresas privadas dentro de operações cibernéticas conduzidas sob autoridade federal contra organizações estrangeiras e permite ações capazes de manipular, interromper, degradar ou destruir sistemas. Isso é fato, não interpretação. O Brasil não precisa responder com paranoia, muito menos com submissão. Precisa responder como Estado soberano: inteligência, tecnologia própria, contrainteligência, capacidade de atribuição, diplomacia firme, proteção das infraestruturas críticas e clareza absoluta sobre os limites que nenhuma potência pode ultrapassar. O perigo não é afirmar que os Estados Unidos atacarão o Brasil amanhã. Não sabemos disso. O perigo é descobrir que a capacidade de agir foi construída, as regras foram definidas em Washington e nós sequer perguntamos onde termina o poder deles e começa a nossa soberania. No século XXI, uma fronteira pode ser atravessada sem um único soldado cruzá-la. E uma nação pode perder capacidade de decisão sem perder formalmente um centímetro de território. É por isso que o alerta precisa ser feito agora: o Brasil deve decidir dentro do Brasil. Ninguém mais.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

Crimes da ditadura brasileira: 52 anos da morte de Frei Tito

Em 10 de agosto de 1974, falecia no exílio Tito de Alencar Lima, o Frei Tito, frade dominicano que se tornou um símbolo da luta contra a ditadura militar no Brasil.

Perfilado aos setores progressistas da Igreja, Frei Tito militou na Juventude Estudantil Católica e desenvolveu um importante trabalho social junto às comunidades carentes de Fortaleza. Após o golpe de 1964, o frade apoiou a resistência contra o regime e ajudou a viabilizar a organização de um congresso clandestino da UNE.

Preso em 1969 sob a acusação de dar apoio à luta armada de Carlos Marighella, Frei Tito foi brutalmente torturado ao longo de meses. Libertado em 1971, ele foi banido do Brasil e partiu para o exílio na França. As sequelas físicas e psicológicas das torturas, no entanto, o acompanharam até o fim da vida. Atormentado pela lembrança dos maus-tratos, o religioso tirou a própria vida.

<><> A juventude de Tito

Tito de Alencar Lima nasceu em 14 de setembro de 1945, em Fortaleza, Ceará. Era o caçula dos 11 filhos de Laura de Alencar e Ildefonso Rodrigues de Lima. Criado no seio de uma família muito religiosa, participou desde pequeno das atividades e tarefas da Igreja Católica. A atuação nas campanhas de caridade despertou o interesse de Tito pelas questões sociais.

Aos 12 anos, o jovem foi aprovado nos exames admissionais do Liceu do Ceará, um dos colégios mais tradicionais do estado. No mesmo período, Tito ingressou na Juventude Estudantil Católica (JEC), o braço juvenil da Ação Católica Brasileira (ACB), movimento que promovia a participação de fiéis leigos nas missões evangelizadoras e nas obras sociais da Igreja. Também se tornou membro da Congregação Mariana, participando do trabalho paroquial junto às comunidades carentes de Fortaleza, em especial a Favela do Dendê.

Em 1963, após assumir o cargo de dirigente regional da JEC no Nordeste, Tito se mudou para Recife. A capital pernambucana vivia um período de intensa efervescência política e cultural. Sob o governo de Miguel Arraes, a cidade se tornara um polo de referência em experiências inovadoras no campo da educação popular e da organização social. Destacava-se, em especial, o Movimento de Cultura Popular (MCP), onde o educador Paulo Freire formulou os preceitos básicos de sua “pedagogia do oprimido”.

Em paralelo ao trabalho desenvolvido na JEC, Tito acompanhou os acirrados debates políticos e as disputas travadas entre trabalhistas e udenistas no início dos anos 60. Ele se aproximou do movimento estudantil, atuando junto à União Cearense de Estudantes Secundaristas, e apoiou as reformas de base propostas por João Goulart.

<><> Carreira eclesiástica e movimento estudantil

O golpe militar de 1964 resultou na extinção de várias iniciativas educacionais e sociais mantidas pela Igreja. Tito e outros militantes ligados à Ação Católica, no entanto, permaneceram ativos na resistência à ditadura e buscaram fortalecer os vínculos com o movimento estudantil, então a principal frente de oposição ao regime.

Em 1965, então com 19 anos, Tito decidiu seguir a carreira eclesiástica, ingressando na Ordem dos Pregadores (ou Ordem Dominicana). Ele concluiu o noviciado em Belo Horizonte e professou seus votos religiosos em 1967, quando foi ordenado sacerdote.

Frei Tito se mudou para São Paulo em 1968, passando a residir no Convento de Santo Alberto Magno, no bairro de Perdizes. O ingresso na ordem religiosa não afetou seu engajamento político. Inspirados pelas novas diretrizes do Concílio Vaticano II e pela Teologia da Libertação, os dominicanos de São Paulo se tornaram opositores convictos da ditadura militar.

Em 1968, Tito ingressou no curso de Ciências Sociais da Universidade de São Paulo (USP). Conciliando a rotina conventual com a militância, ele participou das mobilizações estudantis que denunciavam a violência dos aparelhos repressivos e exigiam a restauração das liberdades civis.

O frade teve papel importante na organização do 30º Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE), ajudando a viabilizar o empréstimo do sítio em Ibiúna onde foi sediado o encontro. Em 12 de outubro de 1968, o congresso foi invadido por tropas da Polícia Militar e por agentes do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social), resultando na prisão de 739 estudantes.

Tito foi um dos militantes presos em Ibiúna, tendo seu nome incluído nos registros dos aparelhos repressivos e passando a sofrer perseguição. Contrariada com o crescimento das organizações revolucionárias e com a agitação do movimento estudantil, a ditadura se encaminhava para sua fase mais violenta, marcada pela prisão, tortura e assassinato de centenas de opositores.

<><> A tortura nos porões do regime

O convento dos dominicanos em Perdizes passou a ser monitorado pela ditadura. Os militares haviam sido informados pelo governo norte-americano de que os frades estariam mantendo contato e prestando apoio logístico para a Ação Libertadora Nacional (ALN), uma das mais combativas organizações da luta armada contra o regime, comandada pelo guerrilheiro Carlos Marighella.

Na madrugada de 4 de novembro de 1969, uma equipe de agentes do DOPS invadiu o convento durante a “Operação Batina Branca”. A ação foi coordenada pelo delegado Sérgio Fleury, um dos mais infames torturadores do regime. Frei Tito foi detido ao lado de outros frades, incluindo Frei Giorgio Callegari. Carlos Marighella foi assassinado nesse mesmo dia, vitimado por uma emboscada de Fleury.

Tito foi levado para as dependências do DOPS em São Paulo. Ele foi violentamente interrogado e torturado durante cerca de um mês, sofrendo com espancamentos, palmatória e choques elétricos. O frade permaneceu encarcerado no Presídio Tiradentes até fevereiro de 1970, quando foi transferido para a sede da Operação Bandeirante (OBAN), o embrião do DOI-CODI.

Apelidada de “sucursal do inferno”, a sede da OBAN foi cenário de alguns dos abusos mais repulsivos do regime. Lá, Frei Tito amargou torturas ainda mais brutais. O religioso foi colocado na cadeira do dragão, recebendo choques elétricos na cabeça e nos órgãos genitais. Teve o corpo queimado com brasas de cigarros, sofreu privação de sono, água e comida e foi pendurado no pau de arara.

Os militares também torturaram Frei Tito psicologicamente, proferindo insultos à sua fé e ameaçando seus familiares e amigos. Um torturador chegou a introduzir um fio elétrico em sua boca, para que o religioso “recebesse a hóstia”. Os agentes o pressionavam a delatar seus companheiros e a assinar falsas confissões implicando os dominicanos em roubos a bancos.

Em uma noite, após passar várias horas no pau de arara, em desespero diante das torturas e visando proteger seus amigos, Frei Tito tentou o suicídio, cortando seus pulsos. Ele foi socorrido e levado ao Hospital Central do Exército, no Cambuci, onde permaneceu cerca de uma semana em tratamento — enquanto a tortura psicológica continuava.

Ainda na prisão, Frei Tito escreveu uma carta-denúncia detalhada sobre as sevícias sofridas. O texto circulou clandestinamente no país, chegou à imprensa internacional e se tornou uma das primeiras denúncias públicas sobre a tortura em larga escala praticada no Brasil.

Na carta, Frei Tito apelou à Igreja para que se pronunciasse contra as violações de direitos humanos: “A esperança desses presos coloca-se na Igreja, única instituição brasileira fora do controle estatal-militar. Sua missão é: defender e promover a dignidade humana. Onde houver um homem sofrendo, é o Mestre que sofre. É hora de nossos bispos dizerem um BASTA às torturas e injustiças promovidas pelo regime, antes que seja tarde. A Igreja não pode omitir-se. As provas das torturas trazemos no corpo.”

<><> Libertação, exílio e morte

Em 7 de dezembro de 1970, o embaixador da Suíça no Brasil, Giovanni Bucher, foi sequestrado em uma operação da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), outra organização da luta armada. A ação foi comandada pessoalmente por Carlos Lamarca.

Para soltar o diplomata, os guerrilheiros exigiram a libertação de 70 presos políticos, incluindo Frei Tito. A ditadura militar dificultou as negociações, prolongando o sequestro por 42 dias, mas acabou atendendo à exigência. Bucher foi libertado em janeiro de 1971.

Banido do Brasil pelo governo de Emílio Garrastazu Médici, Frei Tito se refugiou no Chile de Salvador Allende. Com a crescente instabilidade política e a iminente ameaça de golpe militar, o frade partiu para a Itália. Tito encontrou forte resistência e desconfiança de setores da Igreja Católica em Roma, sendo até mesmo rotulado como “terrorista”.

O brasileiro seguiu então para a França, onde foi acolhido pelos dominicanos do Convento de Saint-Jacques, em Paris. Lá, ele tentou retomar estudos na Sorbonne e passou por tratamento psiquiátrico. Tito carregava sequelas psicológicas profundas da tortura. Sofria com depressão, crises de pânico e alucinações. Era permanentemente atormentado por vozes e visões de Fleury e de outros torturadores.

Frei Tito foi transferido para o ambiente mais calmo do convento de Sainte-Marie de La Tourette, em Éveux, mas o trauma persistia. O sofrimento psíquico acabou por levá-lo ao esgotamento completo. Em 10 de agosto de 1974, Frei Tito tirou a própria vida. Seu corpo foi encontrado enforcado em um bosque nos arredores de Villefranche-sur-Saône. Ele tinha 28 anos.

Tito foi enterrado no cemitério do convento de Éveux. Em sua lápide, a inscrição relatava os suplícios impostos ao frade: “Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido, atormentado até a morte por ter proclamado o Evangelho, lutando pela libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra estrangeira”.

Em março de 1983, os restos mortais de Frei Tito foram trasladados ao Brasil. A urna foi recebida por Dom Paulo Evaristo Arns na Catedral da Sé, em São Paulo, em uma missa de corpo presente assistida por 4.000 pessoas. Em seguida, os restos mortais seguiram para Fortaleza, onde foram sepultados no Cemitério São João Batista.

Em 2007, a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos publicou relatório detalhando as sevícias sofridas pelo frade dominicano e reconhecendo que sua morte ocorrera em consequência dos atos de tortura praticados por agentes do poder público. A conclusão foi posteriormente referendada pela Comissão Nacional da Verdade.

Em 2016, o Ministério Público Federal denunciou Homero César Machado, ex-capitão de artilharia do Exército, e Maurício Lopes Lima, ex-capitão de infantaria, pelas torturas infligidas a Frei Tito. A Justiça Federal, no entanto, rejeitou a denúncia, com base na Lei da Anistia.

O religioso foi homenageado com o título honorário de Cidadão Paulistano, outorgado pela Câmara Municipal de São Paulo em 2016. Uma rua da capital paulista chamada “Doutor Sérgio Fleury” teve seu nome alterado para “Rua Frei Tito de Alencar Lima” em 2021. A história do frade e da resistência dos dominicanos contra a ditadura inspirou o livro “Batismo de Sangue”, de Frei Betto, e o filme homônimo de Helvécio Ratton.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

Como nova onda de ataques às vacinas gerou efeito reverso nas redes sociais, segundo levantamento

A nova onda de ataques às vacinas promovida por políticos de direita ampliou a discussão sobre imunização nas redes sociais, mas foi seguida por uma reação majoritariamente favorável à vacinação, segundo levantamento da plataforma de monitoramento digital Torabit obtido pela BBC News Brasil.

A Torabit analisou 93.755 publicações únicas contendo o termo "vacina" no X, Facebook, Instagram e Bluesky entre os dias 3 e 10 de agosto.

No período, 54,4% das publicações foram classificadas como pró-vacina, enquanto 28,3% foram classificadas como antivacina. Outras 9,4% ficaram sem classificação e 7,9% foram consideradas informativas.

Considerando apenas as publicações que assumiram uma posição sobre o tema, 65,8% eram favoráveis à vacinação e 34,2%, contrárias.

A análise acompanha um período de aumento da discussão sobre vacinas no Brasil, marcado pela repercussão de declarações de políticos brasileiros, e pelo surto de sarampo em São Paulo (23 dos 24 casos do país foram identificados no Estado) e pelo debate nos Estados Unidos.

Nos Estados Unidos, a discussão também foi alimentada pela audiência do imunologista Anthony Fauci no Senado, em 29 de julho.

Fauci, que foi um dos principais responsáveis pela resposta americana à pandemia de covid-19 e se tornou uma das figuras mais associadas à defesa das medidas de controle da doença, foi chamado a depor por um comitê liderado pelo senador republicano Rand Paul, seu antigo crítico, em uma investigação sobre a origem do coronavírus e a atuação do governo durante a pandemia.

Durante a audiência, Fauci se recusou a responder às perguntas e invocou a Quinta Emenda da Constituição americana, que protege contra a autoincriminação, mais de cem vezes.

O episódio ocorreu depois que republicanos divulgaram trechos dos diários pessoais de Fauci escritos durante a pandemia e reacendeu acusações feitas pela direita americana sobre sua atuação, incluindo questionamentos sobre a origem do vírus e pesquisas de "ganho de função" — embora não tenha surgido, na audiência, nova evidência que alterasse as conclusões científicas estabelecidas sobre vacinas ou a origem da covid-19.

Nesse contexto, o presidente Donald Trump assinou na segunda-feira (10) uma ordem executiva que determina uma revisão das recomendações federais de vacinação infantil e reduz de 18 para 11 o número de doenças para as quais a vacinação é recomendada de forma universal.

Outras vacinas passam a ser consideradas para grupos específicos ou por decisão conjunta entre médicos e pacientes. A medida também orienta o governo a separar a vacina tríplice viral (sarampo, caxumba e rubéola) em três aplicações distintas.

O governo Trump diz que a mudança busca alinhar o calendário americano ao de outros países desenvolvidos, mas a decisão foi criticada por organizações médicas e especialistas em saúde pública, que apontam falta de evidências novas que justifiquem a alteração.

<><> Ataque e defesa da vacina nas redes

Os dois primeiros dias do levantamento da Torabit concentraram 52,9% de todas as publicações registradas no período. Na segunda-feira (3), foram 19,6% do volume total e, na terça-feira (4), 33,3%. Na quarta-feira (5), o volume caiu para 4%, mas voltou a subir nos dias seguintes.

Segundo a Torabit, a movimentação inicial foi impulsionada pela repercussão do depoimento do imunologista Anthony Fauci ao Senado americano e por um vídeo publicado pelo deputado Nikolas Ferreira em 2 de agosto, no qual ele retomou alegações sobre a pandemia de covid-19.

Na segunda metade do período, o debate voltou a ganhar força com o avanço do surto de sarampo em São Paulo e com um vídeo publicado pelo ex-deputado Eduardo Bolsonaro em 7 de agosto.

Ele mostrava uma declaração assinada no Texas assumindo a responsabilidade pela decisão de não vacinar a filha e defendeu que os pais tenham liberdade para decidir sobre a imunização dos filhos, usando o modelo texano como exemplo para o Brasil.

A proporção de publicações favoráveis e contrárias às vacinas variou ao longo dos oito dias analisados.

No dia 3, primeiro dia do levantamento, havia praticamente um empate: 41,2% das publicações eram pró-vacina e 41,1% eram antivacina.

No dia seguinte, a vantagem passou para o campo favorável à imunização: 56,1% contra 32,8%. Na quarta-feira (5), a diferença aumentou, com 66,9% de publicações pró-vacina e 16% antivacina. Na quinta-feira, os percentuais foram de 64,6% e 16,8%, respectivamente.

A tendência se alterou novamente na sexta-feira (7), quando o vídeo de Eduardo Bolsonaro passou a repercutir. Naquele dia, 48% das publicações foram classificadas como pró-vacina e 22,2% como antivacina. No sábado, os percentuais foram de 48,5% e 24,3%.

A reação favorável à vacinação voltou a crescer no domingo (9), chegando a 66%, contra 18,8% de conteúdos antivacina. Na segunda-feira (10), último dia do levantamento, a diferença foi ainda maior: 82,1% das publicações eram pró-vacina e 10,3%, antivacina.

A Torabit identificou, portanto, um padrão semelhante após as duas principais ondas de conteúdo antivacina analisadas: aumento imediato da discussão e posterior reversão da tendência. Segundo a empresa, o efeito de cada investida sobre a distribuição das posições durou aproximadamente 48 horas.

Os dados não permitem determinar se os ataques provocaram diretamente o aumento das manifestações pró-vacina. O período também foi marcado pelo surto de sarampo em São Paulo e pelo início da campanha nacional de multivacinação, acontecimentos que contribuíram para ampliar a discussão sobre imunização.

<><> Vídeos de Nikolas e Eduardo tiveram repercussões diferentes

Os dados da Torabit permitem separar a repercussão dos vídeos de Nikolas Ferreira e Eduardo Bolsonaro.

No caso de Nikolas Ferreira, o vídeo publicado no dia 2, em que o deputado retomou afirmações sobre a pandemia de coronavírus, representou 3% de todas as menções sobre vacinas registradas no período. O pico ocorreu na segunda-feira (3), quando o conteúdo apareceu em 6,5% das menções sobre vacinas daquele dia.

A maior parte das publicações que mencionavam Nikolas, no entanto, era favorável à vacinação: 87,9% foram classificadas como pró-vacina, contra 5,8% antivacina. A repercussão perdeu força rapidamente e, a partir da quarta-feira, passou a representar menos de 1,5% das menções diárias.

A repercussão do vídeo de Eduardo Bolsonaro foi maior e mais prolongada. O conteúdo representou 6,4% de todas as menções sobre vacinas no período. Publicado na sexta-feira (7), respondeu por 9,7% das menções daquele dia, mas atingiu seu pico no sábado e no domingo, quando esteve presente em 26,2% das publicações sobre vacinas em cada um dos dois dias.

Também houve maior presença de conteúdo antivacina entre as publicações que citavam Eduardo: 31,6%, contra 60,9% de conteúdo pró-vacina. Ainda assim, as manifestações favoráveis à imunização foram maioria.

A diferença entre os dois episódios também aparece no conteúdo das reações. No caso de Nikolas, as publicações mais compartilhadas contestavam suas afirmações sobre a pandemia.

No caso de Eduardo, a discussão incluiu críticas sobre responsabilização e contradições atribuídas à família Bolsonaro, incluindo publicações que afirmavam que integrantes da família são vacinados enquanto fazem campanha contra a vacinação.

<><> Sarampo impulsionou defesa da vacinação

O surto de sarampo em São Paulo também teve papel importante na conversa sobre vacinas durante o período.

As menções ao surto representaram 10,6% de todas as publicações analisadas. A participação do tema aumentou ao longo da semana: era de 3,7% das menções sobre vacinas na segunda-feira (3), passou para 15% na sexta-feira (7) e chegou a 15,7% no sábado (8).

Entre as publicações que mencionaram o sarampo, 72,7% foram classificadas como pró-vacina, 24,1% como informativas e apenas 2,1% como antivacina. Outras 1,2% não puderam ser classificadas.

O levantamento também identificou diferença entre perfis femininos e masculinos.

Entre os perfis femininos com posição definida, 67% das menções eram pró-vacina e 33% antivacina. Entre os perfis masculinos, 56% eram pró-vacina e 44% antivacina.

No levantamento anterior do Valor, que considerava apenas os primeiros cinco dias, 68% das menções de perfis femininos eram positivas em relação às vacinas, contra 51% entre os homens.

A Torabit também separou a classificação de posição da análise de sentimento das publicações.

No período completo, 42,3% das menções tinham tom negativo, enquanto 27,2% tinham tom positivo. O tom, porém, não indica necessariamente uma posição contrária às vacinas.

Segundo a plataforma, 62% das publicações classificadas como negativas eram, na verdade, pró-vacina. Isso ocorre porque uma publicação pode defender a vacinação e, ao mesmo tempo, usar linguagem negativa ao criticar um político ou uma declaração antivacina.

A Torabit afirma que os dois indicadores são analisados separadamente: a classificação de posição mede se o conteúdo é favorável ou contrário à vacinação, enquanto a análise de sentimento identifica o tom da publicação.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

O “braço esquerdo” do antipetismo

No dia 31 de julho, o site A Terra é Redonda divulgou o artigo de Eduardo Luiz Zen intitulado “As raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro”.No dia 3 de agosto, Luis Nassif afirmou que texto seria “o melhor estudo feito sobre a natureza do governo Lula e, consequentemente, do Partido dos Trabalhadores”. Estas considerações sobre o tema serão divididas em duas partes, e esta é a primeira.

Se esse é o “melhor estudo”, temo pelo pior. Primeiro: a “natureza do governo Lula” não define, “consequentemente”, a “natureza do PT”. Nem vice-versa. Segundo: não é possível discutir a influência do neoliberalismo no governo Lula e no PT, sem levar em consideração a influência do neoliberalismo no Brasil e no mundo, entre outras variáveis que compõem a luta de classes e a luta entre os Estados no atual período histórico.

Terceiro e mais importante: a análise de Eduardo Luiz Zen é repleta de erros, inconsistências e lacunas que afetam suas premissas e conclusões. Para começo de conversa, a história do PT não costuma ser contada a partir de uma ruptura com suas origens”, entre outros motivos porque não existe uma história do PT. Existe uma disputa de interpretações. E parte dessa disputa versa, exatamente, sobre continuidades e rupturas. Se só houvesse rupturas, o PT não seria mais o PT, em nenhum sentido. E se só houvesse continuidades, o PT não teria vencido cinco das nove eleições presidenciais ocorridas desde 1989.

Eduardo Luiz Zen critica a tese da ruptura com as origens, tese que efetivamente – pela esquerda ou pela direita – não consegue explicar como “aquilo deu nisso”. Mas no lugar desta tese da ruptura com as origens, Eduardo Luiz Zen propõe uma visão que me parece igualmente esquemática, segundo a qual o presente estaria quase que totalmente previsto no passado. Por consequência, não haveria história, não haveria política, não houve nem haverá escolhas; tudo o que aconteceu já estaria escrito nas origens. Só faltando concluir que razão teriam, supostamente, os que disseram ser um erro criar o PT.

Ademais, Eduardo Luiz Zen dá como incontestavelmente verdadeira uma afirmação que precisaria ser provada: a de que o PT seria o “braço esquerdo do neoliberalismo”. Aceita esta tese, a história do Brasil desde 1989 até hoje teria sido um jogo de faz-de-conta, no qual a suposta verdadeira esquerda estaria mascarada de ferro e jogada nas masmorras, enquanto seu lugar de direito estaria ocupado por um partido-farsante.

Que os governos petistas conviveram e seguem convivendo com o neoliberalismo, Henrique Meirelles e Gabriel Galípolo não nos deixam mentir. Que poderia e deveria ter havido mais conflito, tampouco tenho dúvida. Que setores do PT se converteram ao social-liberalismo, tenho provas todo santo dia (a mais recente é a êxito da OSS dirigida por Ludhmila Hajiar). Mas daí a tratar o conjunto do PT como “braço esquerdo do neoliberalismo”, há uma grande diferença. Cabendo perguntar ainda qual seria o efeito prático dessa tese sobre nosso engajamento nas eleições 2026.

Minha impressão é de que Eduardo Luiz Zen adota como método uma espécie de “conta de chegar reversa”. Ele tem uma tese sobre o PT atual e busca “comprovar” esta tese “adaptando” a história do Partido ao figurino da tal tese. Um exemplo disso é sua descrição das “três matrizes principais na formação do partido: o novo sindicalismo do ABC, a esquerda católica ligada à Teologia da Libertação e a intelectualidade paulista”.

Eduardo Luiz Zen diz que a “literatura” costuma apontar estas três matrizes, as quais ele acrescenta “estudantes radicalizados, egressos da luta armada, organizações trotskistas, novos movimentos sociais e a corrente pragmática reunida em torno de Lula”. E complementa: “a partir dos aportes dessas matrizes e dos demais componentes da formação petista, é possível identificar seis raízes que ajudam a explicar sua práxis posterior. O neoliberalismo não foi posteriormente enxertado nessa árvore. Seus germes já estavam nessa combinação”.

Adianto que é a primeira vez que leio acerca da “intelectualidade paulista” como uma matriz principal na formação do PT. Acrescento também que a taxonomia de Eduardo Luiz Zen é – aos meus olhos – uma mixórdia. Mas isso são detalhes. O grave mesmo é seu determinismo sociológico, que atribui parte do suposto neoliberalismo petismo à influência do “operário da multinacional”.

Quem quer que tenha vivido ou estudado as lutas travadas no final dos anos 1970 e início dos anos 1980, quem quer que tenha refletido sobre a ação do sindicalismo cutista e do PT nos anos 1980 e início dos anos 1990, sabe que havia de tudo um pouco: posições conflitantes, tendências em confronto, correlações de força diversas. Eduardo Luiz Zen faz terraplenagem disso tudo e constrói uma interpretação segundo a qual tudo já estaria mais ou menos pré-determinado pelo pecado original: os caras trabalhavam em empresas estrangeiras (fato que vale apenas para parte da respectiva categoria).

Algo particularmente curioso nesta “narrativa” de Eduardo Luiz Zen é a expectativa implícita de que o sindicalismo fosse capaz de produzir uma “crítica à inserção dependente do país” e a defesa do “controle nacional da produção”. A mim parece que essas e outras conclusões extrapolam os limites da consciência sindical. Aliás, em parte foi a percepção desse tipo de limites que levou Lula e muitos outros dirigentes sindicais a capitanearem a criação de um partido, o PT.

O raciocínio adotado por Eduardo Luiz Zen conduz a tratar aquela decisão – decorrência de um salto na consciência de centenas de milhares de militantes e, naquele contexto entre o final dos anos 1970 e o início dos anos 1980, a maior manifestação prática de emancipação da classe trabalhadora – como se tivesse sido um retrocesso histórico.

Claro que para sustentar essa interpretação somos obrigados a dar como verdadeiras teses que não encontram sustento, nem nas resoluções, nem na prática do PT nos anos 1980. Por exemplo, Eduardo Luiz Zen diz que “a dimensão internacional ocupava o lugar da questão nacional” e que “o capital podia ser combatido como relação entre patrão e empregado sem ser enfrentado como poder internacional organizado sobre uma economia dependente”.

Isto pode ser a opinião dele, assim como pode ser a opinião de militantes que atuavam, na época, em organizações de esquerda que lutavam contra o PT. Mas não confere com a dinâmica dos anos 1980, que entrosaram num só caudal a questão social, a questão democrática e a questão nacional, o desenvolvimento e o socialismo.

Noutros momentos, nos anos 1990 e 2000, predominaram no movimento sindical cutista posições diferentes daquela que predominara nos anos 1980. E isso teve, como é obvio, uma influência sobre o PT. Mas essa influência não estava pré-determinada. Não se tratou apenas ou principalmente de uma continuidade, nem tampouco de uma ruptura. Foi uma metamorfose, fortemente influenciada pelo contexto dos anos 1990, onde teve grande destaque o colapso do socialismo soviético. Aliás, chega a ser incrível que este “detalhe” não compareça na análise feita por Eduardo Luiz Zen.

Dito de outra maneira: não dá para discutir as mudanças nas concepções de parte do PT, desconsiderando as mudanças na correlação de forças mundial. Ou alguém acha que seria possível manter as mesmas concepções e a mesma prática do período anterior? Mas uma coisa é discordar das escolhas predominantes num ambiente de derrota, outra coisa é dizer que tudo já estava pré-determinado pelo suposto vilão ideal: o “operário de multinacional”.

Concordo com Eduardo Luiz Zen que “a identidade atribuída ao operariado do ABC foi (…) mais radical do que sua práxis”. Mas esse raciocínio se aplica, também, ao movimento comunista brasileiro e ao nacionalismo trabalhista. Entretanto, o fato histórico e político é que foi Lula, não Luiz Carlos Prestes ou Leonel Brizola, que se consolidou nos anos 1980 como grande expressão do conjunto da esquerda e da classe trabalhadora brasileira. E, na contramão do que ocorria em boa parte do mundo, manteve essa condição nas décadas seguintes. E isso aconteceu em parte porque, ao contrário do que Eduardo Luiz Zen diz, o “operário” não “desapareceu como força pública organizada”. Ficou mais fraco? Certamente. Desapareceu? Não.

Depois de espancar o operário da multinacional, Eduardo Luiz Zen se dedica a espancar o que ele chama de “pobrismo”. Neste caso o alvo da crítica não é o novo sindicalismo, mas sim as comunidades eclesiais de base.

Por suposta culpa delas, diz Eduardo Luiz Zen, “a pobreza deixou de ser apenas uma condição a superar e passou a conferir autenticidade, autoridade e pureza. O trabalhador remete à produção, ao conflito entre capital e trabalho, à organização coletiva e aos direitos universais. O pobre remete à carência, ao cadastro, ao benefício e à proteção focalizada. A passagem de um sujeito ao outro antecipou a política social do lulismo: financismo no comando da economia e pobrismo na administração de suas consequências”.

Como fez no caso do novo sindicalismo, Eduardo Luiz Zen faz terraplanagem da história e vincula, sem mediações, o que ele diz ser a posição teórica e prática das CEBs nos anos 1970 e 1980 ao que ele diz serem as políticas públicas dos governos petistas a partir dos anos 2000. Na minha opinião, nos dois casos ele apela para a caricatura. Mas, para além disso, o fato é que não se pode compreender como “aquilo supostamente teria dado nisso”, desconsiderando o contexto histórico. Nem se pode desconsiderar a importância que teve e segue tendo a atuação dos setores mais pobres da classe trabalhadora, na luta política e social das últimas décadas.

Eduardo Luiz Zen busca amparo para sua “tese” na opinião, como sabemos, sempre mucho coerente de Mangabeira Unger, segundo o qual o “pobrismo” seria o “complemento social do financismo brasileiro”. Se isso fosse verdade, por qual motivo o grande capital promove uma guerra permanente contra as políticas sociais do governo Lula?

Que certas políticas de combate à pobreza são estruturalmente limitadas, não tenho dúvidas. Que setores da esquerda abandonaram as reformas estruturais e não conseguem enxergar além das políticas públicas, tampouco há como negar. Mas, igualmente, não há como negar que tanto a extrema-direita quanto a direita tradicional, ambas neoliberais, desancam as políticas sociais dos governos petistas, usando argumentos parecidos aos de Eduardo Luiz Zen.

Eduardo Luiz Zen não parece se dar conta deste parentesco entre algumas de suas opiniões e as de parte da tal intelectualidade paulista. Pelo contrário, ele afirma que uma “terceira raiz” do PT teria sido, exatamente, “a intelectualidade ligada à USP”, que ele acusa de fornecer ao PT “boa parte de seu vocabulário sobre autoritarismo, populismo, patrimonialismo, corporativismo e sociedade civil”. Que alguma desta influência existe, não tenho dúvida.

Mas basta olhar a trajetória e as ideias de, entre outras e outros, Marilena Chauí, Antonio Candido e de Florestan Fernandes para perceber que a “intelectualidade ligada à USP” que contribuiu para a criação do PT não pode ser confundida com a intelectualidade paulista que esteve na origem do PSDB nem pode ser reduzida àqueles que vieram para o PT na expectativa de fazer um partido social-democrata. A esse respeito, vale atentar para a trajetória de Francisco Weffort, que em 1994 foi de mala e cuia para o ninho tucano.

Alguém poderia sugerir que Fernando Haddad seria a prova cabal da influência, no PT, da “intelectualidade ligada à USP”. Acontece que a presente influência de Fernando Haddad – seja lá como a interpretemos – é fato historicamente recente, tendo relação direta e indireta com a emergência do neofascismo e com a debacle do PSDB. Duas outras variáveis que – como o já citado colapso do socialismo soviético – não comparecem na análise de Eduardo Luiz Zen.

O curioso é que, neste mesmo período em que cresceu a influência de Fernando Haddad no PT, cresceu também a influência dos que defendem o nacional-desenvolvimentismo e uma interpretação positiva acerca do papel do varguismo, do trabalhismo e da industrialização. Assim como cresceu o que podemos chamar de “questão regional petista”, contrapondo a seção paulista do Partido a de outras regiões do país.

Nesse sentido, a maneira como Eduardo Luiz Zen descreve os fenômenos mais confunde do que esclarece o que está em jogo. Por exemplo: segundo ele, na “tradução petista, o sujeito portador da modernidade deixou de ser o barão do café ou o industrial tradicional e passou a ser o operário do ABC, acompanhado pelo intelectual da USP. São Paulo continuava a ser o centro dinâmico do país e o palco decisivo da luta de classes: concentrava o grande capital, a vanguarda operária e a interpretação autorizada do conflito”.

Literariamente pode soar meio poético dizer que “Lula completa essa narrativa: o retirante nordestino torna-se sujeito político quando ingressa no mundo industrial paulista. O Nordeste fornece o pobre; São Paulo o transforma em trabalhador moderno. A velha locomotiva ganhou uma tripulação vermelha”. Mas, sem falar dos problemas de mérito, qual seria a decorrência política desta interpretação que Eduardo Luiz Zen faz?

Paradoxamente, Eduardo Luiz Zen afirma que esta “intelectualidade paulista” teria nos legado “uma relação profundamente negativa com a história brasileira. O passado nacional foi reduzido a uma sucessão de escravidão, oligarquia, racismo, autoritarismo, patrimonialismo e barbárie. Quem não encontra na história nenhuma herança utilizável dificilmente imagina algo grandioso para construir em nome do país. A crítica necessária ao passado converteu-se em desprezo pela história comum e incapacidade de projetar o futuro”.

Até mesmo quem frequentou o curso de história na USP tem dificuldade de compartilhar dessa visão segundo a qual predominaria – exatamente naquele estado cuja elite cultua os bandeirantes e se apresenta como quatrocentona – uma intelectualidade hiper-niilista acerca da história pátria. Mas mesmo que isso fosse verdade, ainda restaria explicar o que seria, para Eduardo Luiz Zen, a “herança utilizável” que permitiria imaginar “algo grandioso” para construir “em nome do país”.

Por outro lado, não deixa de ser curioso que Eduardo Luiz Zen faça esta crítica e, ao mesmo tempo, tenha uma “relação profundamente negativa” com a história recente da classe trabalhadora e da esquerda brasileira. Frases como “não encontra na história nenhuma herança utilizável” e “desprezo pela história comum” cabem muito bem na sua – dele, Zen – visão sobre a trajetória da maior parte dos trabalhadores com consciência de classe, que desde o final os anos 1970 fundaram e até hoje sustentam o PT.

Para completar seu giro de metralhadora, Eduardo Luiz Zen critica “a cultura da ruptura e a rejeição do reformismo. As reivindicações imediatas podiam ser apoiadas, mas as transformações estruturais verdadeiras eram remetidas à superação do capitalismo. O PT não foi uma social-democracia que posteriormente abandonou as reformas. Nasceu denunciando o reformismo e colocando-se à esquerda dele. O problema apareceu quando a revolução deixou de existir como estratégia concreta. As reformas haviam sido concebidas sobretudo como acúmulo para a ruptura, não como um projeto histórico autônomo capaz de ocupar seu lugar. Quem considera as reformas impossíveis sem a revolução acaba, enquanto a revolução não chega, administrando aquilo que existe. O socialismo permaneceu no horizonte e nos símbolos. No presente, restaram a administração das vulnerabilidades e a aceitação da estrutura econômica: radicalismo no discurso, melhorismo na política social e neoliberalismo na organização da economia”.

Ou seja: segundo a “narrativa” de Eduardo Luiz Zen, aquele mesmo PT que – por influência pelo “operário da multinacional” – supostamente teria abandonado a crítica à dependência, também teria – por influência dos radicais – supostamente adotado uma visão super-revolucionária. Aqui, novamente, considero que Eduardo Luiz Zen pratica a arte da caricatura, desconsiderando por exemplo que sempre existiu, no PT, um conflito entre diversos tipos de reformismo e diversos tipos de revolucionarismo.

 

Fonte: Por Valter Pomar, em A Terra é Redonda 

 

Os inimigos da pátria sempre estiveram aqui, Trump e Rubio são só suportes

A vassalagem frente aos interesses estrangeiros sempre foi a tônica das classes dominantes brasileiras. Os senhores da terra e do comércio de escravizados nunca se preocuparam com a constituição de um projeto de nação nos trópicos. Seus rebentos foram buscar lustro na Universidade e em Paris.  Não à toa, como diz o Presidente Lula, o Brasil foi um dos últimos países da América a erguer uma Universidade. 

A institucionalização do Brasil só começou a ganhar forma com a vinda da Corte de Dom João VI, fugindo de Napoleão Bonaparte em 1808. Cabe ressaltar que até essa data a colônia era uma mera exportadora dos frutos da terra e do ouro das Minas Gerais para Portugal. Isso, por si só, já demonstra a diferença abissal entre a colonização dos EUA, do Canadá, da Austrália e da Nova Zelandia e a dos países colonizados pelas então potências ibéricas: Portugal e Espanha. 

Incapazes de romper com o escravismo colonial, como escreveu Jacob Gorender, que nos EUA levou a uma guerra entre o Sul escravista e o Norte industrialista, com a vitória do Norte, aqui no Brasil, sem guerra o “Sul venceu”, completou Darcy Ribeiro. 

 Nos legando a vergonhosa herança de ser o último país a abolir a escravização. 

A ausência de projeto, a visão torpe, tacanha e mesquinha nos colocou à margem da Revolução Industrial e nos consolidou como um país exportador primário: primeiro do açúcar, depois do café, da borracha, entre outros. 

A ausência de um enfrentamento entre o atraso e o progresso, e o massacre a todas as formas de insubordinação dos de baixo: Palmares, balaiada, canudos, malês, inconfidência mineira, entre muitas outras, criou um sólido vínculo entre as nascentes forças militares e as oligarquias agraristas. Vem daí o epíteto de “coronel” dado o poder de mando dos senhores que tinham poder de vida e de morte em seus territórios. É deste cenário que surge a ingerência das forças armadas todas as vezes que há contestação sólida ao status quo dominante. Fato inaugurado com a Proclamação da República em 1889 liderada por Deodoro da Fonseca, como uma resposta dos latifundiários à abolição da escravatura. 

Séculos XX e XXI: o viralatismo das elites 

O menosprezo pelo desenvolvimento do país atravessou os séculos. Incapazes de ousar, os “donos” do poder optaram pelo mais fácil: exportar sua produção e importar os bens produzidos no estrangeiro. O fortalecimento dos EUA pós 1ª guerra e após a Doutrina Monroe, derivou os olhos da burguesia brasileira para o “irmão do Norte”. Entrou com toda força no território brasileiro o American way of life. Trazido inicialmente pelos jornais e depois consolidado pelo cinema, as rádios e a televisão. Sem nenhum espírito de ousadia criativa, optou-se para a substituição de importações: trazendo para cá as multinacionais ao invés de investir na construção de parques industriais nacionais. A presença do capital estrangeiro no país sem contrapartida nacional levou a uma brutal remessa de lucros para o exterior e ampliou a dominação econômica dos EUA sobre a economia brasileira.  

A 2ª guerra mundial e a decisão do governo brasileiro em aderir a luta contra o Eixo: Alemanha, Itália e Japão, depois de uma certa indecisão, permitiu que Vargas garantisse além do armamento, a construção, pelos EUA, da CSN, da FNM e da Álcalis. Foi a partir da guerra que as forças armadas brasileiras elegeram as forças norte-americanas como espelho. Já que até aquele momento eram francesas as formações militares por aqui. 

O espírito nacionalista de Vargas preocupava os EUA, principalmente depois da criação da Petrobras como uma empresa estatal. Já que o petróleo vinha se tornando a principal commoditie do mundo. Foi aí que o viralatismo ampliou a sua presença já que foi uma batalha difícil não permitir a entrega da nossa empresa. O golpe de 1964, dez anos depois foi o coroamento dessa subordinação. 

Atualmente, com a financeirização da economia, a associação entre o capital nacional e os fundos americanos fazem com que parte dos financistas daqui operem diretamente contra os interesses do país. Juntando-se isso com a subordinação extremo-direitista dos bolsonaros e seus asseclas, forma-se o caldo de cultura para que Marco Rúbio e seu chefe Donald Trump se arvorem em intervir política e economicamente nos rumos do Brasil. 

Falta grandeza e vergonha na cara para grande parte da Faria Lima. Falta decoro e honestidade aos parlamentares e governantes estaduais que se subordinam a isso. 

A altivez e a defesa da pátria passam longe deles. 

É obvio que temos que repudiar a ingerência da Casa Branca sobre o processo eleitoral brasileiro. Mas, com toda a certeza, o maior inimigo do Brasil é a quinta-coluna. Derrotá-los é uma questão de honra. 

¨      Lula disputa reeleição contra Trump e Marco Rubio. Por Aquiles Lins

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está disputando sua reeleição à Presidência contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e contra o seu secretário de Estado, Marco Rubio. Esqueçam Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema. A disputa que já está sendo travada é Lula-Alckmin versus Trump-Rubio. É o que fica claro a partir da divulgação pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos de um vídeo que exalta a Doutrina Monroe.

A mensagem de Washington ultrapassa em muito uma declaração sobre política externa. Ao apresentar Trump como o “mais recente defensor” de uma doutrina historicamente utilizada para afirmar a hegemonia dos Estados Unidos sobre as Américas e proclamar que a “dominância americana” no Hemisfério Ocidental não será mais questionada, o Departamento de Estado estabelece também quais governos representam obstáculos a esse projeto. O Brasil sob o comando de Lula, que novamente tenta sua vocação de ser uma potência, está necessariamente entre eles: além de ser o maior país da América Latina, tem a China como principal parceiro comercial, participa ativamente dos Brics e sustenta uma política externa baseada na multipolaridade e na autonomia diante das grandes potências.

É por isso que auxiliares de Lula passaram a enxergar com maior nitidez uma articulação de Marco Rubio destinada a desgastar o governo brasileiro e dificultar a reeleição do presidente. A leitura faz sentido quando o vídeo é colocado ao lado das ações adotadas por Washington desde a volta de Trump à Casa Branca. O governo estadunidense já recorreu a tarifas contra produtos brasileiros, investigação comercial contra o Pix e diversas outras ações do Brasil, sanções e restrições de vistos contra autoridades e pressões diplomáticas, chegando a relacionar algumas de suas medidas ao tratamento dado pelo Estado brasileiro a Jair Bolsonaro.

A interferência estadunidense na eleição brasileira, portanto, não precisa começar com um pedido explícito de votos para determinado candidato. Ela começa quando uma potência estrangeira utiliza seu peso econômico e diplomático para aumentar o custo político de um governo que pretende derrotar. Se tarifas prejudicam setores da economia brasileira, se sanções alimentam a narrativa da oposição contra as instituições nacionais e se Washington transforma aliados de Bolsonaro em interlocutores privilegiados, essas decisões produzem efeitos dentro do processo político brasileiro. Trump e Rubio não precisam estar na urna para participar da eleição.

O interesse dos Estados Unidos na derrota de Lula também é objetivo. Uma vitória do atual presidente significaria mais quatro anos de um Brasil empenhado em diversificar suas relações internacionais, aprofundar os Brics e preservar seus vínculos econômicos com a China. Uma vitória de forças alinhadas ao trumpismo abriria a possibilidade inversa: aproximar novamente Brasília da estratégia de Washington para conter Pequim e reconstruir uma esfera de influência norte-americana na América do Sul. A eleição brasileira passou, dessa maneira, a integrar a disputa geopolítica entre Estados Unidos e China.

Marco Rubio ocupa posição central nessa estratégia. Sua proximidade política com aliados da família Bolsonaro e sua atuação na ala mais ideológica do governo Trump ajudam a conectar o projeto continental da Casa Branca à disputa brasileira. Para Washington, interessa menos saber qual nome da direita chegará competitivo a outubro do que criar as condições para que Lula não permaneça no Palácio do Planalto. O candidato brasileiro pode mudar; o interesse estratégico do império decadente, não.

A eleição presidencial de 2026 começa, assim, antes da campanha formal e com atores que não aparecerão na cédula. Lula e Alckmin terão adversários brasileiros, mas enfrentarão uma máquina de poder instalada em Washington que declarou publicamente sua intenção de restabelecer a “dominância americana” sobre o continente. Trump e Rubio já escolheram o projeto que desejam derrotar no Brasil. Por isso o país precisa acordar e reeleger Lula no primeiro turno, para dar uma resposta clara e uníssona de que o Brasil é do povo brasileiro.

¨      Flávio Bolsonaro não consegue sustentar a marca que herdou do pai. Por Moisés Mendes

A marca Bolsonaro, o mais importante ativo da direita brasileira desde 2018, está sob ameaça. A fragilização desse bem com valor intangível, em plena campanha, não favorece os herdeiros de Bolsonaro.

Esse é o dilema que o bolsonarismo tentará escamotear: a marca ficou fraca porque seu criador perdeu forças, ou perdeu forças porque o herdeiro da grife não tem qualidades para mantê-la relevante?

As duas causas se misturam, mas o esgotamento do nome indica que Flávio Bolsonaro é fraco para carregar nas costas a herança política do pai. Tanto que os próprios marqueteiros pretendem tirar o sobrenome das peças de campanha do filho ungido.

Parece um paradoxo. Flávio só se firmou como nome capaz de enfrentar Lula por ser um Bolsonaro. Mas é incompetente para manter esse ativo vivo e decisivo não só para o bolsonarismo, mas para toda a direita.

Mais paradoxos. Desde o final de 2023, pesquisas do Datafolha indicavam que o eleitor não se sentia à vontade para votar em indicados por Bolsonaro. Esta manchete é de setembro daquele ano: 68% dos paulistanos não querem votar em candidato a prefeito indicado pelo ex-presidente. Ricardo Nunes se elegeu como bolsonarista, mas com apoio constrangido de Bolsonaro.

Esta outra manchete é de dezembro de 2025: Datafolha aponta que 50% dos eleitores brasileiros não votariam em nenhum candidato a presidente indicado por Bolsonaro. A mesma pesquisa mostrou Michelle como a preferida para suceder o criador do bolsonarismo, com 22%.

Depois, vinham Tarcísio de Freitas (20%), Ratinho Júnior (12%) e Eduardo Bolsonaro (9%). Flávio aparecia em quinto lugar, com apenas 8%, quase empatado com Ronaldo Caiado, em sexto, com 6%.

Flávio assumiu, ao ser o ungido, uma tarefa que não teria como suportar, como previam os eleitores da direita há pouco mais de meio ano. Mais recentemente, Michelle o denunciou como machista e autoritário, para desafiar sua autoridade e dizer também que ele é fraco.

O Centrão o considera incapaz, ou não teria abandonado sua candidatura. A velha direita negou-lhe apoio, não por discordar do que pensa e do que poderia vir a fazer no governo, mas por ser fraco.

Junta-se à fraqueza do candidato a perda de valor da marca, pela série de circunstâncias que não a favorecem. E esse cenário pode ir comprovando a tese segundo a qual o bolsonarismo seria apenas uma manifestação doentia e transitória do antilulismo.

O que sempre se soube é que o eleitorado lulista é maior do que o eleitorado de esquerda não lulista. E que a direita não bolsonarista é muito maior do que o eleitorado do bolsonarismo. Lula é bem maior do que a esquerda, e Bolsonaro é bem menor do que a direita.

Lula construiu as esquerdas pós-ditadura em torno do seu nome. O nome de Bolsonaro foi usado pela direita como gambiarra para enfrentar Lula e o PT. Bolsonaro só foi grande porque a velha direita o enxergou como salvação para derrotar o lulismo.

É possível resumir que, sem Lula e sem o antilulismo extremado, que ficou desamparado com o fim do tucanismo, Bolsonaro não existiria.E agora percebemos que o bolsonarismo com esse formato, frágil como estrutura política orgânica, porque nem partido próprio conseguiu formar, pode acabar nesta eleição.

O descarte da marca Bolsonaro, orientado por marqueteiros que sabem o que fazem, a partir de pesquisas com quem consome e exala extremismo, é o momento mais doloroso para os herdeiros de um líder fora de combate.

O que virá depois é puro chute. Pode ser o bolsonarismo neopentecostal de Michelle, que será mais evangélico do que bolsonarista. E mais fofo do que virulento, mas também, como significa uma reinvenção, talvez mais perigoso, por tudo o que o mundo da fé representa. E pode ser também o bolsonarismo burocrata de Tarcísio.

Como todos os indicadores até aqui são de derrota de Flávio, ele pode se preparar para a dívida que não terá como pagar a partir de outubro. O filho que ninguém queria como candidato ficará marcado como incompetente até para proteger o nome do pai.

 

Fonte: Por Alberto Cantalice, em Brasil 247