Para
vencer o fascínio fácil do fascismo
O
fascismo exerce um fascínio insidioso sobre as massas que vitima, mas também
sobre as elites que alimenta ou constrói. Por abjeto que o seja, não é um
inimigo fácil. Pensamos vê-lo derrotado, exibimos suas mazelas, e eis que ele
teima em ressurgir com força como uma solução simples e falsa para problemas
complexos e muito verdadeiros — problemas que ele torna ainda mais graves. É um
enigma assustador e, mais uma vez, urgente, a desafiar teóricos e militantes.
Em
agosto de 1935, Georgi Dimitrov apresentou seu célebre informe sobre o sentido
da ofensiva fascista e as tarefas da classe trabalhadora. Outro o tempo, outra
a realidade, diverso até o lugar da classe operária, mas persistentes alguns
traços do fascismo. Em particular, sua capacidade de fascinar os que estão
destinados a ser coletivamente suas vítimas, ao tempo que podem,
distributivamente, ser nossos algozes.
O
fascismo fascina. Esse um dos seus traços perenes. Ele parece carregado de
vitalidade. Se preferirem, de virilidade. Por isso, apresenta-se em momentos de
crise como um caminho para o capitalismo, quando este já não consegue “manter
sua ditadura sobre as massas com os antigos métodos da democracia burguesa e do
parlamentarismo”. A dominação política
exibiria com o fascismo as suas entranhas, de sorte que sua brutalidade, longe
de excepcional, seria seu caráter verdadeiro. Explícito e dissimulado, justificar-se-ia
quando escassas as justificativas, como uma espécie de demagogia social, que
comporta “a possibilidade de arrastar consigo as massas da pequena burguesia
desajustadas pela crise, e até de alguns setores das camadas mais atrasadas do
proletariado que jamais seguiriam o fascismo se tivessem compreendido seu
verdadeiro caráter de classe, sua verdadeira natureza”.
Duas
questões se colocam naturalmente. Como pode nos fascinar nosso potencial
inimigo? Também, qual a verdadeira natureza de classe do fascismo? A última
questão parece a Dimitrov quase trivial. O fascismo implica a substituição de
uma forma estatal de dominação, a democracia burguesa, por uma ditadura
terrorista declarada. Mais precisamente, seria a quintessência do poder do
próprio capital financeiro. Ora, em sendo assim, se esta, com sua crueza, é a
resposta à segunda questão, o que pode responder à primeira? Como essa forma
insípida de puro poder pode exercer algum fascínio? Em suma, “de onde nasce a
influência do fascismo sobre as massas?” A resposta de Dimitrov é direta: O
fascismo consegue atrair para si as massas, porque apela de forma demagógica
para suas necessidades e exigências mais candentes. O fascismo não só instiga
os preconceitos profundamente arraigados nas massas, como especula também com
os melhores sentimentos destas, com sua sede de justiça e, às vezes, até com
suas tradições revolucionárias
O
fascismo conquista, portanto. Mais que dominar, é capaz de seduzir. Oferece
doces e promessas, antes de conduzir a prisões ou campos de concentração. Ele
pode lançar “as palavras de ordem mais sedutoras em determinado momento para as
massas que não alcançaram a maturidade política”; em geral, prometendo
liberdade ao preço da retirada de direitos.
A
virilidade que o fascismo ostenta, ao atentar contra direitos, mostra-se uma
forma de impotência, a saber, a incapacidade de dialogar com o outro, de lhe
fazer frente, com ou sem razão. É típica sua recusa da construção de solos
comuns e, não por acaso, é visceralmente inimigo de uma democracia que seja
mesmo radical, enquanto pode se tornar a face explícita do encobrimento de
direitos que subjaz à justificação da mera democracia burguesa. A realidade
nele se apresenta nua e crua, mas como que em um espelho distorcido: O
fascismo entrega o povo à voracidade dos elementos mais corrompidos e venais,
mas apresenta-se diante dele com a reivindicação de um “governo honrado e
insubornável”. Especulando com a profunda desilusão das massas em relação aos
governos da democracia burguesa, o fascismo se indigna hipocritamente em face
da corrupção.
Eis um
traço que conhecemos bem, e ele beira o paradoxo. Sua personagem prototípica é
o político que desdenha da política e, por isso, quer o benefício de toda
indignação (amiúde justa) com os políticos. O fascismo leva essa ambiguidade ao
paroxismo. Logo, mesmo as palavras mais elevadas são esvaziadas de sentido,
podendo o discurso afirmar ora um aspecto, ora sua negação, sendo difícil de
agarrar um discurso que pode enunciar com força uma proposição e, em segundos,
de forma ainda mais contundente, pode brandir a sua contrária.
Um
discurso sobre a liberdade é vazio, caso redunde na supressão de direitos,
proteções, prerrogativas. São seduzidos, porém, aqueles que se desejam livres
por não terem mais qualquer proteção e se sentem protegidos porque confiantes
em uma fúria que os faria sobreviver em meio ao caos e à insegurança. Em meio
ao desespero, suscita a promessa de que alguns eleitos merecem os postos mais
elevados e a salvação, ao preço da indiferença pelo destino do outro, da outra
pessoa, da outra raça, do outro povo. A contradição, porém, não está apenas no
nível do discurso — algo que uma análise teórica interna seria suficiente para
desvelar. A história mostra a contraposição entre discurso e realidade, que o
fascismo absorve embora, como se não houvesse contradição alguma. Fazendo o
diagnóstico daquela época, Dimitrov decanta um enigma que ainda nos assusta.
Uma espécie tosca de servidão voluntária se adensa, fazendo com que a afirmação
apolínea da vontade justifique uma servidão nada dionisíaca.
Dimitrov
desenha assim o descompasso entre promessa e realidade. Para a juventude, a
promessa de um porvir esplendoroso trouxe, na realidade, “dispensa em massa das
fábricas, campos de trabalho e exercícios militares incessantes, visando a uma
guerra de rapina”. Para os modestos funcionários, para os intelectuais (e como
esses se iludem com facilidade!), a promessa de acabar com as corporações e a
burocracia se transfigura na criação de uma nova burocracia, semeando “em
proporções nunca vistas a corrupção e a decomposição”. Aos camponeses
depauperados, a promessa de acabar com a vassalagem das dívidas entrega-lhes a
uma escravidão sem precedentes e aumenta “até o indizível a exploração das
grandes massas camponesas pelos grandes agricultores, os bancos e os
usurários”.
Essa
diferença tão tangível entre promessa e realidade não deveria abolir toda
capacidade de sedução? Ora, ao que parece, essa distância faz parte da força da
retórica fascista, sempre trabalhando em um descompasso, em relação ao qual
toda informação é impotente e em cuja função todo desejo pulsa, alimentando seu
mito e ilusão. E, enfim, é talvez de mito que se trate, de uma política que
desdenha o real e se consolida pela manipulação da própria vontade de poder. O
desenho do mito (no caso, uma distorção constitutiva, capaz embora de organizar
a experiência da vontade política) talvez nos aproxime mais de quanto pode
operar como fascinante a degradante experiência do fascismo como uma força
política sempre atual.
Que o
fascismo esteja embebido de pulsões da guerra, do método alexandrino de
resolução pela força, de golpes que rompem os nós que não se dispõe a desatar,
isso pode parecer um tanto óbvio. Entretanto, aumenta a estranheza de haver
fascínio no ambiente “civilizado” da produção acadêmica, no qual a carência
eventual de vitalidade estaria mais do que satisfeita pela força da palavra e
deslizaria pelo traçado sinuoso do lógos. Não precisamos sequer fazer menção a
nomes como o de Martin Heidegger ou de Mircea Eliade. Podemos evitar suas
deploráveis e historicamente inconsistentes justificativas de adesão, como as
que imaginaram o nazismo capaz de se contrapor à dissolução de alguma essência
europeia, infundindo energia simbólica a um niilismo cultural. Longe de
qualquer esforço de justificação, basta-nos lembrar um caso, o do genial
Gottlob Frege, um pensador cuja obra está para lógica contemporânea como a de
Aristóteles esteve para a lógica clássica, que se deixou seduzir, do modo mais
primário, pelo discurso nazista.
Michael
Dummett, seu mais devotado leitor, nos dá seu testemunho de quão chocado ficara
ao ler o diário de Frege, a cuja obra dedicara tantos anos de sua vida e que
reverenciava como um indivíduo absolutamente racional: Ora, trata-se exatamente
dessa obviedade, a existência de uma cisão na qual o fascismo opera. Não há
contradição entre sofisticação técnica e grande inteligência, por um lado, e
uma queda ideológica e até um fascínio pela pura e simples degradação cultural.
Esse documento do diário de Frege (que, aliás, fora supresso da edição de seu
espólio) é dos mais ilustrativos da condição humana. “Com esse documento —
afirma Dummett —, aprendi algo sobre os seres humanos que eu lamentaria não
saber; talvez também algo sobre a Europa.” Ensina-nos algo, portanto, o
mistério de uma cisão que pervade a humanidade inteira, para cuja compreensão a
lógica talvez tenha oferecido a Dummett bem menos respostas do que as cartas do
tarot.
A lição
é simples. Esse escândalo que outrora vimos na sociedade em seu conjunto (e que
se repete) pode bem instalar-se no âmago de cada indivíduo. Neste sentido, não
são seduzidas apenas as massas, mas também suas supostas elites, não havendo
cura para essa tentação pela introdução pura e simples de mais informações ou
pelo recurso idólatra à ciência, incapaz de nos oferecer por si uma suficiente
blindagem subjetiva. O lugar retórico do fascismo seria talvez a redoma
característica do mito, retomando aqui lições de Ernst Cassirer — em especial,
no capítulo “A técnica dos mitos políticos modernos”, de seu livro O Mito do
Estado, redigido em 1945. Também Cassirer ajuda-nos a entender o fato do
fascismo, mesmo que não concordemos com sua explicação desse fato. Nosso
interesse, porém, está mais em detectar quão facilmente pôde e pode esse
fenômeno capturar massas e atrair ou formar certas elites, pois está em seu
âmago a promessa de ser elite, ou seja, a invenção de diferenças que
permitiriam o exercício de prerrogativas nobiliárquicas, seja como direito a
alguma pretensa superioridade, seja pela pretensão de que a liberdade
individual se justifica sem qualquer considerando e à revelia do outro.
Podemos
imaginar cada armação teórica como uma explicação insuficiente, inclusive a de
Cassirer, mas as melhores nos deixam entrever algum aspecto substantivo ou
saliente desse fenômeno. Imaginar, ao contrário, que algum aspecto seja capaz
de explicar tudo seria aceitar uma má abstração, como quando se tenta uma
explicação psicológica para um fenômeno da política. Tinha boas razões
Poulantzas, em suas reflexões sobre o impacto popular do fascismo, ao reagir a
reduções do fenômeno complexo do fascismo a alguma explicação psicológica. Uma
explicação psicológica pouco diria acerca de suas condições materiais as mais
concretas ou de sua natureza de classe, cujo desvelamento poderia indicar que,
ao fim e ao cabo, o estado liberal e o estado fascista não se distinguiriam em
essência. De todo modo, mesmo uma boa redução sociológica ou econômica poderia
se tornar uma má abstração, incapaz de capturar o fenômeno, enquanto, por outro
lado, cada fragmento abstrato pode nos desvelar algo de sua força estranha.
Em
Cassirer, enfatiza-se o aspecto do recurso ao mito, compreendido como tentativa
humana de preencher um vazio deixado pela explicação racional. O recurso ao
mito remontaria à mais banal das ações, que pode conviver com soluções técnicas
e até ser complementar ao próprio discurso racional. O mito não desponta apenas
perante o surgimento de personagens messiânicas, líderes carismáticos ou chefes
de partido, mas amiúde envolve pessoas as mais comuns — aquelas mais
semelhantes a nós mesmos, disciplinados que somos por uma rotina que, com mais
ou menos competência, segue seu curso inexorável. O que espantou especialmente
a Cassirer foi perceber uma nova técnica da política, reeditando no presente
mitos os mais primevos, como se, com novos expedientes, o fascismo reeditasse o
procedimento de oferecer justificativas aparentemente racionais e sobretudo
respostas diretas para o que escapa a qualquer racionalidade e beira o absurdo.
Ou seja, o fascismo comportaria alguma teoria que promete “uma justificação
racional para certas concepções que, na sua origem e tendência, eram tudo menos
racionais”.
Nesse
movimento, não estaria mais o inimigo em um recanto distante e exótico; passava
a estar bem próximo, na sala ao lado, no escritório comum. Não seria um
estranho, mas alguém que pode conosco celebrar aniversários, estar nas mesmas
palestras, trabalhar nos mesmos prédios. Podemos até ser colegas de
departamento.
Nessa
proximidade distante, já não se valeria apenas da agressão explícita, mas sim
da mais bem cultivada ironia. O fascista pode, sim, ser um colega bem
cultivado, sem ser ele verdadeiramente culto. Pensar, então, o fascismo,
procurar entender o fascismo implica aceitar uma desconcertante proximidade do
mal. O fascismo tem esse traço perene da produção sistemática de diferenças
irredutíveis, mesmo quando encobertas por práticas comuns e rotineiras. Ele
funciona comprometendo a possibilidade de conciliações, inclusive as mais
tensas, de acordos e desacordos qualificados e, por isso, torna-se incapaz de
estabelecer pontes até entre os mais próximos.
Premonitoriamente,
Cassirer identifica um novo traço do mito, sua possível fabricação artificial,
algo que parece cair como uma luva como descrição da produção de celebridades
nas redes sociais: “A partir de agora, os mitos podem ser fabricados no mesmo sentido
e de acordo com os mesmos métodos utilizados no fabrico das outras armas — as
metralhadoras e os aviões”. Esse fato novo muda tudo, já reconhecendo Cassirer
esse rearmamento beligerante até em mudanças introduzidas na própria língua — o
que parece sugerir a um só tempo o esvaziamento e a ressignificação fluida de
conceitos antes capazes de dar liga ao tecido social. Um novo tecido retórico
reconstruía a organização da experiência no universo do nazismo hitlerista.
Cassirer dá como exemplo a sutil e quase imperceptível diferença entre
Siegfriede e Siegerfriede, por meio da qual, entretanto, na nova retórica, a
paz ofensiva seria a que acaso não fosse o resultado de uma vitória alemã. A
arma política do linguajar fascistóide imantava assim o mais racional discurso
de uma gama superlativa de emoções, exigindo posicionamento no que antes
poderia servir a um diálogo.
Em
suma, a retórica fascista é uma arte de alimentar o desacordo permanente, da
beligerância permanente, até mesmo na mais corriqueira descrição da experiência
humana: “Se ouvirmos essas novas palavras, descobriremos nelas toda a gama das
emoções humanas — ódio, cólera, fúria, altivez, desprezo, arrogância e
desdém”.16
Não é
difícil ver uma semelhança de família entre esse espírito da propaganda nazista
e o modo com que se reveste a atual discussão nas redes sociais, a consolidação
de desacordos que se aprofundam mais e mais, a exemplo da anatematização de
coletivos, por meio da qual o comportamento do outro, do diferente, passa a ser
lido segundo algum código penal orientado para a classificação de delitos e
inimigos. A taxonomia deixa de ser recurso de análise e passa a ser arma de
guerra. O mais assustador da análise de Cassirer, agora que nos debruçamos
brevemente sobre o fascínio do fascismo, é perceber como a própria educação
formal pode estar indefesa e ser a mais impotente, caso engolfada por esse modo
de descrever a experiência. Também o homem educado, “quando exposto às mesmas
forças, pode facilmente ser reduzido a um estado de aquiescência. Perde a
curiosidade; aceita as coisas como se lhes apresentam.”
O
fascínio da inação pode se tornar raiva ativista; a cumplicidade da indiferença
em relação ao destino do outro pode tornar o homem comum, qualquer o seu
status, em um cúmplice da violência e, muita vez, em um direto agente
destruidor. Cassirer faz uma analogia com os companheiros de Ulisses
transformados em animais: Mas aqui são homens, homens de educação e
inteligência, honestos e decentes, que subitamente renunciam ao mais alto
privilégio humano. Deixaram de ser agentes pessoais e livres. Realizando os mesmos
mitos, começam a sentir, a pensar e a falar da mesma forma. Os seus gestos são
vivos e violentos; contudo, isso não passa de uma vida artificial.
Podem
alguns duvidar que essa renuncia à subjetividade de sujeitos derramados no
espaço político e agora nas redes sociais possa ser descrita como uma vida
artificial. Afinal de contas, indivíduos que antes em nada viviam para a
política parecem ter saído do território da mera responsabilidade com a lida da
vida (desemprego ou eleições, como alguns descreveram) para o suposto exercício
de uma liberdade, instalada esta não se sabe onde. Agem como se a liberdade não
fosse, como insiste Cassirer com sofisticação e sabedoria, uma tarefa coletiva
e não um dado prévio à vida social. Em nome de uma liberdade presuntiva, o
fascismo parece desobrigar amplas camadas do verdadeiro exercício da liberdade.
Afinal, não sendo a liberdade uma promessa inata, “para possuí-la temos de
criá-la”. Se quisermos resistir, então, ao fascínio fácil do fascismo,
precisamos afastar a retórica que nos obvia a realização de nossa mais
persistente tarefa, qual seja, “uma participação ativa na construção e
reconstrução cultural do homem”.
Tinha
deixado de lado os muitos textos sobre o fascismo que compulsara durante os
governos Temer e Bolsonaro. O resultado das urnas obrigou-nos a reler alguns
trechos, muito rapidamente, indagando então como é possível que ainda fascine
tantos brasileiros, uma vez que, muito recentemente, um obscurantismo absurdo
nos legou um rastro nítido de irresponsabilidade, violência e morte. As
respostas são diversas. Cada uma delas, insuficiente; porém, todas elas juntas
nos permitem imaginar um sentido, organizar uma experiência na qual podemos
construir possibilidades autênticas de diálogo. Todas as respostas enfrentam,
todavia, esse grande mistério, com o qual nos deparamos a todo instante, o da
impotência dos discursos, da inanição da palavra, mesmo em seu território mais
sagrado. Todas as respostas se confrontam com a possível escolha da humanidade
pela barbárie, como se decididas as pessoas à pressa, às respostas rápidas, a
abandonarem os outros à própria sorte ou mesmo, em casos extremos, a usarem os
corpos alheios como um meio, quando é definidor da condição humana ser um fim
comum para todos nós e nunca um mero instrumento.
Qualquer
nossa leitura, não podemos deixar de nos aliar ao sentimento de Cassirer quando
advoga uma filosofia que não renuncie a seus próprios ideais éticos e teóricos
fundamentais. Mesmo se não aceitarmos de todo sua leitura, vale aqui concluir
com a citação longa de um trecho desse escrito composto no exílio, em 1945 —
trecho que nos surpreende pela atualidade de seu alerta ao fascínio amiúde
exercido pelo fascismo e por outras manifestações obscurantistas assemelhadas. Ao
nos desenhar bem os limites e a necessidade renovada do bom trabalho da
filosofia, indicando estar além de seu poder destruir os mitos políticos,
exatamente por eles se revestirem de uma redoma impenetrável aos argumentos
racionais, não podendo, pois, ser refutado por silogismos, Cassirer resgata uma
tarefa da filosofia, a de fazer-nos compreender o adversário. Neste caso, essa
compreensão nos obriga a aceitar que esse inimigo enigmático tem também sua
força, que não pode ser reduzida a seus efeitos e fraquezas: Todos nós
menosprezamos essa força. Quando ouvimos pela primeira vez falar de mitos
políticos achamo-los tão absurdos е incongruentes, tão fantásticos e idiotas,
que dificilmente os tomaríamos a sério. Mas agora todos nós reconhecemos que
cometíamos um erro. Não devemos repeti-lo. Devemos estudar cuidadosamente a
origem, a estrutura, os métodos e a técnica dos mitos políticos. Devemos olhar
o adversário bem de frente a fim de saber como derrotá-lo.
O
absurdo bastante tangível dessas formas múltiplas de obscurantismo (que, no
Brasil, chegou ao questionamento da esfericidade da Terra ou à rejeição das
vacinas) não parece suprimir sua capacidade de galvanizar os traços
conservadores de nossas sociedades e de inclusive obter vitórias eleitorais. O
acesso fácil à informação, que não nos falta e também nos socorre, não serve
para lhe quebrar um fascínio, mesmo quando assume a figura tosca de indivíduos
que elogiam ditadores e condecoram milicianos. Sem esgotar as explicações,
importa manter a guarda, insistir que a tarefa, sempre concreta, nunca está
completa e que fascismo, enfim, continua sendo um enigma a ser decifrado. Seu
fascínio é fácil, ademais, porque se entranha em nós, embebido que está do
legado conservador e autoritário da história brasileira, estando próximo demais
de nossas vidas e muito distante de nossos valores. É preciso, então, dia a
dia, em atos e elucubrações, desatar-lhe internamente os nós, acompanhar sua
trama conceitual e, onde quer que se esconda, dissolver seu amálgama de
conceitos esvaziados e paixões tristes.
Fonte:
Por João Carlos Salles, em Outras Palavras




