sábado, 12 de setembro de 2026

Quem é quem nas mensagens que desencadearam a maior crise da história do STF

O Supremo Tribunal Federal (STF) mergulhou em sua crise mais grave desde que mensagens extraídas do celular do banqueiro Daniel Vorcaro foram divulgadas, em 1º de setembro de 2026.

Ex-controlador do Banco Master, Vorcaro foi preso em novembro de 2025. Ele é investigado por suspeita de cometer fraudes financeiras estimadas em R$ 12,2 bilhões.

As mensagens — tornadas públicas após uma decisão do ministro André Mendonça — foram enviadas por Vorcaro a um contato salvo com o nome Alexandre de Moraes. Há também conversas de Vorcaro com funcionários do Master e pessoas ligadas à família de Moraes.

Ao tornar as mensagens públicas, Mendonça, relator do inquérito sobre o Master no Supremo, pediu que o plenário do STF decida sobre a abertura de uma investigação contra Moraes. O pedido é algo inédito, já que nenhum ministro da Corte jamais foi formalmente investigado por atos no exercício do cargo.

A guerra aberta entre os dois ministros escalou: Moraes pediu ao presidente do STF, Edson Fachin, autorização para investigar Mendonça por improbidade administrativa, abuso de autoridade e crime de responsabilidade na condução das operações que envolvem o Master e o INSS.

Presidente do Supremo, Fachin convocou uma sessão do plenário para a próxima terça-feira (15/9), quando os ministros vão decidir sobre o caso.

Em um novo capítulo desta história, na terça-feira (8/9), André Mendonça determinou o afastamento de Andrei Rodrigues da chefia da Polícia Federal. Andrei é um dos nomes que aparecem nas mensagens de Vorcaro que desencadearam a crise.

No dia seguinte (9/9), Andrei foi reconduzido à chefia da PF por ordem do também ministro do STF, Flávio Dino, que considerou, entre outros pontos listados em sua decisão, que Mendonça não poderia ter decidido sozinho sobre o afastamento, por ser um dos interessados no caso.

No mesmo dia, a crise ganhou mais um capítulo: Fachin retirou Moraes da relatoria do inquérito das Fake News — que ele conduzia desde a abertura, em 2019 — e assumiu o caso, alegando que os episódios recentes reforçavam a necessidade de concluir a investigação.

Na quinta-feira (10/9), Fachin pediu e Mendonça aceitou retirar o sigilo de do caso Master — a expectativa é de que os documento se tornem públicos nesta sexta-feira (11/9).

Abaixo, a BBC News Brasil explica e lista quem são as pessoas que aparecem nas mensagens de Vorcaro que desencadearam a crise.

DANIEL VORCARO

É do celular de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, que a PF extraiu todas as mensagens. A polícia conseguiu recuperar prints — que o banqueiro escrevia e enviava via WhatsApp usando o recurso de visualização única — mesmo depois de esses arquivos terem sido apagados.

Nas mensagens, Vorcaro cobra da equipe do banco que o pagamento ao escritório da mulher de Alexandre de Moraes, Viviane Barci de Moraes, nunca atrase. O contrato, da ordem de R$ 131 milhões, não teve seu conteúdo divulgado no inquérito da PF.

Também nas mensagens, o ex-controlador do Master autoriza a emissão de cartões de crédito para os filhos do ministro, no limite de R$ 300 mil cada.

As mensagens mostram ainda que, ao longo de 13 dias, em novembro de 2025, Vorcaro intensificou os apelos a Moraes para tentar impedir a liquidação do banco e o avanço das investigações.

No dia 15 de novembro, dois dias antes de ser preso, Vorcaro perguntou a Moraes: "Acha que segunda já tenho que estar fora?". Também questionou se era "aquele mesmo juiz Ricardo" — referência a Ricardo Augusto Soares Leite, que viria a mandar prendê-lo — e se Gabriel Galípolo, presidente do Banco Central, "tá sabendo". Em outra mensagem, pediu ajuda para marcar um encontro com Galípolo.

No dia 16 de novembro, ele ainda perguntou ao contato atribuído a Moraes: "Ele tá sabendo das soluções? E quer antecipar pra não deixar acontecer? Qual a sua leitura? O que tá havendo? E com Andrei dá pra segurar". Na interpretação da PF, essas mensagens seriam uma tentativa de pedir a intervenção do ministro junto ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues.

No próprio dia da prisão, 17 de novembro, Vorcaro insistiu por "novidade": "Conseguiu ter notícia ou bloquear?". Poucas horas depois, foi preso no Aeroporto Internacional de Guarulhos, durante a primeira fase da Operação Compliance Zero.

O que diz Vorcaro: A defesa do banqueiro já tentou reverter a prisão por habeas corpus, alegando ausência de "fatos concretos".

ALEXANDRE DE MORAES

Alexandre de Moares assumiu como ministro do STF em 2017, após ser indicado pelo então presidente Michel Temer (MDB). Assumiu protagonismo na Corte nos últimos anos, principalmente por ter sido o relator do inquérito das Fake News e por conduzir o processo que levou à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado. Presidiu o TSE na última eleição presidencial, em 2022.

Segundo o relatório da PF, as mensagens de Vorcaro foram enviadas a um contato salvo com variações do nome do ministro — "Alexandre de Moraes BRASÍLIA", "Novo", "STF TSE NOVO" e "Eu STF".

Como eram enviadas por recurso de visualização única, não é possível saber se Moraes respondeu a Vorcaro nem o que o ministro teria dito. O contato entre os dois aparece em episódios espaçados ao longo de dois anos.

Em 30 de dezembro de 2023, Vorcaro organizou um almoço em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, do qual Moraes teria participado — funcionários do banqueiro relataram, por mensagem, que "o ministro" estava lá e havia tirado uma foto com um deles. Não há, porém, confirmação nominal direta no relatório, só a associação feita pela PF a partir do contexto das mensagens.

Em 30 de outubro de 2025, dizendo ter recebido de "pessoas de dentro do Banco Central" a informação de que a PF e o Ministério Público pressionavam a instituição contra ele, Vorcaro escreve diretamente ao número atribuído a Moraes: "É importante reforçar com Andrei e Paulo pra não deixar ninguém de baixo fazer uma sacanagem que aí vai tudo pro saco. Estou disponível pra tratar e explicar qualquer coisa, só não pode ter sacanagem" —, em referência a Andrei Rodrigues, diretor-geral da PF, e Paulo Gonet, procurador-geral da República.

Na mesma mensagem, envia os nomes de quatro delegados e três procuradores envolvidos nas apurações preliminares contra o banco.

Em 15 de novembro de 2025, já às vésperas da prisão, Vorcaro pergunta: "Acha que segunda já tenho que estar fora?" e "Você acha que existe alguma chance disso acontecer amanhã de manhã?".

O que diz Moraes: O magistrado não comentou publicamente o conteúdo das mensagens. Dois dias depois da divulgação das mensagens, reagiu à crise pedindo a Fachin a abertura de investigação contra Mendonça. Um dia depois de ter sido retirado da relatoria do inquérito das Fake News, chegou a anunciar que falaria à imprensa, mas, apenas uma hora depois, cancelou o pronunciamento.

PAULO GONET

Segundo o relatório da PF, não há nenhum contato salvo no celular de Vorcaro com o nome de Paulo Gonet, o procurador-geral da República (PGR). A PF identifica apenas referências indiretas, em conversas do banqueiro com o advogado do Master, Ciro Soares, que teria intermediado o contato entre Vorcaro e o Procurador-geral da República em 2025.

Entre os indícios, estão uma selfie de Ciro ao lado de Gonet, um pedido para custear a viagem do filho de Gonet, identificado como Pedro Gonet, a um evento em Londres, e mensagens que Ciro atribui a Gonet, como "Gonet é firme" e "PG confirmou a ida para Londres".

O relatório da PF não confirma que "PG" seja Gonet, mas outras menções no documento, como a referência ao filho Pedro, reforçam essa leitura.

Como PGR, Gonet é a autoridade que deveria conduzir uma eventual investigação contra Moraes. Mas na noite de 1º de setembro — mesmo dia em que o relatório veio a público — ele pediu a Mendonça a anulação de toda a apuração da PF, alegando que o ministro excedeu seus poderes ao mandar a polícia investigar um colega da Corte sem aval prévio do plenário e que, pelo Código de Processo Penal, não cabe a um juiz conduzir investigações pré-processuais — papel que seria da Polícia Judiciária e do próprio Ministério Público, que é chefiado pelo PGR.

O que diz Gonet: O procurador-geral não comentou o fato de ele próprio aparecer no relatório da PF.

ANDREI RODRIGUES

Andrei Rodrigues é o diretor-geral da Polícia Federal. Não aparece em troca de mensagens diretas com Vorcaro, mas é citado como destinatário do pedido do banqueiro a Moraes, em 30 de outubro de 2025, quando o banqueiro pede que o ministro "reforçasse" com "Andrei e Paulo" para que ninguém "de baixo" atrapalhasse seus interesses — a PF interpreta que "Andrei" seria Andrei Rodrigues, e "Paulo", o procurador-geral Paulo Gonet.

Também aparece em tratativas, articuladas pelo ex-ministro Fábio Faria, sobre um convite para um evento jurídico em Londres, com despesas bancadas por um grupo ligado ao Master.

A situação de Andrei virou um pingue-pongue dentro do próprio STF em menos de 24 horas. Na terça-feira (8/9), Mendonça determinou seu afastamento preventivo da direção-geral da PF, cinco dias depois de Moraes ter pedido a Fachin a investigação contra o colega de Corte — segundo Mendonça, Andrei e o diretor de Inteligência Policial, Leandro Almada da Costa, também afastado, teriam produzido ao menos seis "relatórios de inteligência" sigilosos entre 3 e 31 de agosto de 2026, monitorando de forma ilegal o próprio Mendonça e o advogado-geral da União, Jorge Messias.

O julgamento virtual que referendaria o afastamento tinha maioria formada na Segunda Turma do STF, mas foi suspenso por um pedido de vista do ministro Gilmar Mendes.

Já na quarta-feira (9/9), o ministro Flávio Dino reverteu a decisão de Mendonça e determinou a reintegração imediata de Andrei e Leandro Almada aos cargos, atendendo a um recurso apresentado pelo próprio Andrei.

Dino apontou dois problemas principais na decisão de Mendonça: o partido Novo, que provocou o caso, não teria legitimidade para pedir o afastamento de uma autoridade em um processo penal, e a definição sobre quem comanda a PF seria prerrogativa exclusiva do presidente da República, não de um ministro do STF.

Dino também proibiu novas medidas cautelares contra os dois por atos praticados no exercício regular de suas funções e determinou que a controvérsia sobre os relatórios de inteligência seja levada ao plenário do STF.

Antes da decisão de Dino, a AGU já havia recorrido a Fachin, presidente da Corte, pedindo a suspensão da medida de Mendonça, pelo mesmo argumento sobre a prerrogativa presidencial.

O que diz Andrei: O diretor-geral da PF não se manifestou publicamente até a publicação desta reportagem.

VIVIANE BARCI DE MORAES

Viviane Barci de Moraes é esposa de Alexandre de Moraes e sócia-diretora do escritório de advocacia que leva os sobrenomes do casal.

O contrato de R$ 131 milhões entre o escritório e o Master é o fio condutor de boa parte da história: Viviane enviou a Vorcaro a primeira minuta do documento em 11 de janeiro de 2024. A edição final do arquivo, segundo a PF, foi feita por um usuário identificado como "Ministro Alexandre de Moraes", em 15 de janeiro. O contrato foi assinado ainda naquele mês, no valor de por volta de R$ 3 milhões mensais, por três anos.

Ao longo de 2024 e 2025, Vorcaro pressionou repetidamente sua equipe para que os pagamentos ao escritório nunca atrasassem, chegando a transferir R$ 3,4 milhões de uma vez em fevereiro de 2024.

O que diz Viviane e o escritório: o escritório afirmou que seu setor de compliance consultou o próprio Moraes sobre eventuais impedimentos antes de fechar o contrato — para verificar se havia alguma restrição, como processos sob relatoria dele no STF ou julgamentos de interesse do banco —, mas concluiu que não havia problema, já que o ministro nunca havia atuado em causas do Master.

Em março de 2026, o escritório detalhou os serviços prestados: uma equipe de 15 advogados, com mais três escritórios terceirizados, 94 reuniões de trabalho com o banco entre fevereiro de 2024 e novembro de 2025, e a produção de 36 pareceres jurídicos sobre temas como direito previdenciário, direito trabalhista e compliance.

CIRO SOARES

Ciro Soares, advogado que integrou a defesa de Vorcaro no STJ, aparece no relatório da PF como intermediário dos contatos entre o banqueiro e o procurador-geral da República, Paulo Gonet.

Em 14 de abril de 2024, escreveu a Vorcaro "amizade é tudo, viu irmão" e "Gonet é firme". Quase um ano depois, em 15 de março de 2025, enviou a Vorcaro uma foto ao lado de Gonet, com a mensagem "liga aqui, ele quer falar com você" — na sequência, houve quatro ligações entre os dois, cujo conteúdo a PF não revelou.

Em 28 e 29 de março de 2025, também repassou a Vorcaro mensagens que atribui a Gonet sobre um evento em Londres, perguntando se o filho do procurador, Pedro Gonet, poderia viajar com despesas pagas pelo grupo do banco — pedido que Vorcaro autoriza em 11 de abril.

O que diz Ciro Soares: não se manifestou até a publicação desta reportagem.

GIULIANA E ALEXANDRE BARCI DE MORAES (FILHOS DE ALEXANDRE DE MORAES)

Giuliana e Alexandre Barci de Moraes atuam como advogados no escritório da mãe. Segundo o relatório da PF, em 2 de outubro de 2025, Guilherme de Toledo Benazzi, administrador do escritório Barci de Moraes, procurou Vorcaro para tratar da emissão de cartões de crédito do Master em nome dos dois.

Uma executiva do banco perguntou se poderia emitir os cartões com limite de R$ 300 mil para cada filho. Vorcaro respondeu apenas "OK".

O que dizem Giuliana e Alexandre Barci de Moraes: não se manifestaram até a publicação desta reportagem.

FÁBIO FARIA

Ex-deputado federal pelo Rio Grande do Norte e ministro das Comunicações do governo Bolsonaro (2020-2022), Fábio Faria hoje atua no mercado financeiro, no BTG Pactual. É casado com a apresentadora Patrícia Abravanel, filha de Silvio Santos.

O contato salvo com seu nome no celular de Vorcaro aparece em episódios ao longo de mais de um ano, atuando como intermediário entre o banqueiro e o ministro Alexandre de Moraes:

•        Em dezembro de 2023, articula os primeiros encontros entre os dois e compartilha com Vorcaro o contato salvo depois como "Alexandre de Moraes";

•        Ao longo de janeiro de 2024, trata de prazos do contrato entre Vorcaro e o escritório da mulher de Moraes, e confirma jantares com o ministro;

•        Em março de 2024, cobra Vorcaro dizendo que "o careca não pode atrasar" — mensagem que antecede, minutos depois, a cobrança do próprio Vorcaro à equipe do banco para que o pagamento ao escritório de Viviane Barci de Moraes fosse feito imediatamente;

•        Em abril de 2024, intermedeia o convite do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para um evento jurídico em Londres, organiza encontros na casa de Moraes e na própria residência de Vorcaro e ainda trata de um suposto veto do ministro a participantes do evento.

O que diz Fábio Faria: afirma que apenas "sugeriu o escritório Barci de Moraes para atuação em um caso na Justiça de São Paulo", que não se reuniu com integrantes do Master e que não teve conhecimento dos valores do contrato.

FABIANO ZETTEL

Cunhado de Vorcaro, pastor da Igreja Batista da Lagoinha e CEO da Moriah Asset. Segundo a PF, recebeu de Vorcaro, em 8 de fevereiro de 2024, o pedido para enviar o "contrato Barci Moraes assinado" e a pergunta sobre quando seria feito o primeiro pagamento — no mesmo dia, o Master transferiu R$ 3.422.268,14 ao escritório.

Preso temporariamente em 14 de janeiro de 2026, quando tentava embarcar para Dubai, nos Emirados Árabes, ele foi solto e voltou à prisão em março, por ordem de Mendonça, no âmbito da Operação Compliance Zero.

O que diz Zettel: não se manifestou até a publicação desta reportagem.

<><> Outros nomes que aparecem no relatório

•        Ângelo Silva, tesoureiro do Master, também investigado pela PF: foi cobrado por Vorcaro, irritado, por ter atrasado o pagamento ao escritório Barci de Moraes. "Contrato mais importante que temos, te pedi pra não falhar", disse Vorcaro, acrescentando que a situação era "surreal";

•        Romy Goerck Gentina Klenquen, funcionária do Master: foi a ela que Vorcaro reforçou que os pagamentos ao escritório Barci de Moraes nunca atrasassem, dizendo "pode pagar sempre, sem nota, do jeito que for";

•        Adriana Solano, superintendente comercial do Master: em outubro de 2025, ela autorizou, junto a Vorcaro, a emissão de cartões de crédito de R$ 300 mil para os filhos de Moraes;

•        A filha de Vorcaro, Stella, e a namorada dele, Martha Graeff: Vorcaro mencionou a essas pessoas que estava "com Alexandre Moraes" em mensagens entre novembro de 2024 e agosto de 2025 — únicas referências no relatório a encontros pessoais fora do contexto profissional.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Calor, secas e enchentes podem comprometer a educação antes mesmo da escola

A crise climática pode começar a afetar a trajetória escolar de uma criança antes mesmo de seu primeiro dia de aula. Uma revisão de pesquisas sobre eventos climáticos extremos indica que a exposição a calor intenso, secas e inundações durante a gestação e a primeira infância está associada a problemas de saúde, desenvolvimento cognitivo, frequência escolar e permanência na educação. Os efeitos tendem a ser mais severos entre famílias com menos recursos para enfrentar perdas de renda, alimentos e acesso a serviços de saúde.

O impacto do clima sobre a educação costuma ser associado à interrupção das aulas por enchentes, ondas de calor ou tempestades. Porém, as consequências podem começar muito antes de uma criança entrar na escola. Alterações nas condições ambientais durante períodos críticos do desenvolvimento podem influenciar sua saúde e suas oportunidades educacionais por muitos anos.

Uma análise conduzida por pesquisadores reuniu 254 estudos, dos quais 90 apresentaram análises estatísticas utilizadas no núcleo da revisão. O conjunto das evidências apontou uma relação consistente entre eventos climáticos extremos vivenciados durante a gravidez e os primeiros anos de vida e resultados posteriores relacionados à saúde, à aprendizagem e à quantidade de anos de escolaridade.

Os efeitos variam conforme a intensidade, a duração e o momento em que ocorre o evento climático. As condições econômicas da família também fazem diferença. Uma inundação pode representar uma perda temporária para uma família com reservas financeiras, seguro e acesso regular a serviços públicos. Para outra, o mesmo episódio pode significar redução da alimentação, interrupção de tratamentos médicos e necessidade de colocar crianças para trabalhar.

No Equador, por exemplo, pesquisadores acompanharam crianças cujas mães foram expostas a fortes inundações associadas ao El Niño durante a gravidez. Cada mês adicional de exposição esteve relacionado, no ano seguinte, a menor renda familiar e menor consumo de alimentos. As crianças expostas ainda apresentaram maior ocorrência de baixo peso ao nascer e anemia, além de estatura menor em relação à idade e desempenho inferior em determinados testes de linguagem e desenvolvimento cognitivo.

A escassez de chuva também aparece entre os fatores de risco. Em áreas rurais de Burkina Faso, crianças expostas antes do nascimento a níveis excepcionalmente baixos de precipitação apresentaram resultados inferiores em avaliações relacionadas ao pensamento e à aprendizagem. Também tiveram maior probabilidade de começar a escola mais tarde, menor probabilidade de estar matriculadas e maior participação no trabalho.

O calor elevado segue uma trajetória semelhante. Uma pesquisa baseada em dados de 29 países tropicais relacionou as condições climáticas enfrentadas durante a gestação e a primeira infância ao nível educacional alcançado posteriormente. No Sudeste Asiático, crianças submetidas a temperaturas muito acima da média local nesses períodos foram projetadas para completar cerca de 1,5 ano a menos de escolaridade do que aquelas expostas a temperaturas próximas da média.

<><> Desigualdade climática chega à sala de aula

Os impactos da emergência climática sobre a educação também revelam uma profunda desigualdade internacional. Crianças que vivem em países de baixa e média renda frequentemente enfrentam maior vulnerabilidade, enquanto suas populações contribuíram relativamente pouco para as emissões de gases de efeito estufa responsáveis pelo aquecimento global.

Uma quebra de safra pode elevar os preços dos alimentos e reduzir a renda de uma família. Ao mesmo tempo, uma enchente pode destruir moradias, plantações, estradas e escolas. Para gestantes, a combinação entre insegurança alimentar, aumento da carga de trabalho e dificuldade de acesso a serviços de saúde pode criar condições adversas durante fases importantes do desenvolvimento fetal.

Na primeira infância, a alimentação adequada e os cuidados de saúde são especialmente importantes porque cérebro e organismo passam por um período acelerado de crescimento. Quando uma crise climática compromete esses recursos, seus efeitos podem aparecer anos depois em indicadores educacionais.

A situação também ajuda a explicar por que o aquecimento global pode ampliar desigualdades já existentes. Recursos financeiros, seguros, infraestrutura e serviços públicos eficientes aumentam a capacidade de recuperação após um desastre. Famílias em situação de maior vulnerabilidade dispõem de menos alternativas para absorver perdas repentinas.

<><> Transferência de renda pode amortecer os danos

Os efeitos de uma exposição climática precoce tampouco determinam o futuro de uma criança. Parte das pesquisas mostra possibilidades de recuperação quando famílias recebem apoio adequado.

Entre as estratégias estudadas estão os programas de proteção social, como transferências de renda destinadas a preservar o acesso a alimentos, cuidados de saúde e educação durante períodos de crise. Em alguns programas, os pagamentos estão vinculados à frequência escolar ou ao acompanhamento de saúde das crianças.

Na revisão analisada, seis estudos avaliaram transferências de renda realizadas durante secas, enchentes ou ciclones. Quatro encontraram efeitos positivos sobre resultados educacionais. A magnitude desses benefícios variou conforme a idade da criança, o valor recebido e a intensidade do desastre climático.

Um exemplo vem do México rural. Crianças expostas a condições adversas de chuva próximas ao período de nascimento apresentaram, posteriormente, menor número de séries escolares concluídas e menor probabilidade de continuar os estudos depois do ensino secundário. Entre famílias destinadas a receber pagamentos do programa Progresa, porém, as perdas educacionais associadas ao choque climático foram menores.

A transferência de renda funciona, nesse contexto, como uma espécie de amortecedor social. O recurso pode ajudar uma família a manter a alimentação, o atendimento médico e a permanência dos filhos na escola quando uma seca, enchente ou tempestade reduz sua renda.

Essa estratégia, entretanto, precisa fazer parte de uma política climática mais ampla. Recursos financeiros ajudam famílias a atravessar períodos de crise, mas não substituem a reconstrução de escolas, a adaptação da infraestrutura, a segurança alimentar, o fortalecimento dos serviços públicos e a redução das emissões de gases de efeito estufa.

<><> Proteção começa antes do nascimento

A proteção de gestantes e crianças pequenas merece atenção específica nas políticas de adaptação climática. Os primeiros estágios da vida concentram processos biológicos e cognitivos que podem influenciar a trajetória de uma pessoa por décadas.

O desafio tende a crescer à medida que eventos extremos se tornam mais frequentes ou intensos em diferentes regiões. Ao mesmo tempo, os recursos destinados à cooperação internacional e ao desenvolvimento enfrentam pressão. Em 2025, o governo britânico anunciou a redução da ajuda oficial ao desenvolvimento, de aproximadamente 0,5% para 0,3% da renda nacional até 2027.

O cenário reforça a necessidade de considerar educação, saúde materno-infantil e proteção social como componentes da adaptação às mudanças climáticas. Preparar escolas para ondas de calor é importante, mas a resposta precisa começar antes da criança chegar à sala de aula.

Quando uma enchente recua ou uma seca termina, seus efeitos sociais podem permanecer. Para algumas crianças, o desastre climático pode aparecer posteriormente como uma interrupção nos estudos, atraso escolar, pior desempenho ou redução dos anos de educação concluídos.

A crise climática, portanto, também é uma questão de oportunidades. Proteger os primeiros anos de vida significa reduzir a possibilidade de que um evento extremo ocorrido durante a gestação ou a infância transforme uma emergência ambiental temporária em uma desvantagem educacional que acompanhe a criança por muitos anos.

 

Fonte: eCycle

 

Exposição à luz à noite pode prejudicar estrutura e função do coração

 A exposição à luz durante a noite está ligada a alterações importantes e potencialmente prejudiciais na estrutura e função do coração. A conclusão é de um estudo liderado pela Universidade de Tulane, em Nova Orleans, nos Estados Unidos. Para o trabalho, os cientistas avaliaram mais de 11 mil pessoas. A pesquisa foi publicada nesta quarta-feira (09/09), na revista European Heart Journal.

"Estudos observacionais anteriores associaram a exposição à luz noturna a um risco maior de doenças cardiovasculares, mas pouco se sabe sobre as alterações estruturais e funcionais cardíacas relacionadas. Realizamos esta pesquisa para descobrir o que acontece com o coração ao longo do tempo quando as pessoas são expostas a muita luz durante a noite", afirmou o professor Lu Qi, líder da pesquisa.

O trabalho incluiu 11.071 pessoas que faziam parte do UK Biobank, um banco de dados do Reino Unido. Todos os participantes usaram um sensor de luz no pulso durante sete dias para medir os níveis de claridade durante a noite. Três anos depois, os voluntários fizeram uma ressonância magnética para examinar cuidadosamente as estruturas e funções do coração.

Play Video

Em seguida, os pesquisadores compararam pessoas expostas a níveis de luz superiores a três lux — unidade de medida do Sistema Internacional de Unidades para a iluminância — com pessoas sem acesso a praticamente nenhuma claridade durante a noite.

A equipe demonstrou que pessoas com alta exposição à luz noturna apresentavam espessamento da parede do ventrículo esquerdo, uma das câmaras do coração, reduzindo o espaço interno da câmara. Havia indícios de que a capacidade do músculo cardíaco de se contrair durante os batimentos estava reduzida. Este é um indicador precoce de disfunção cardíaca. Os pesquisadores também encontraram alterações nos ventrículos direitos e nos átrios esquerdos, outras duas câmaras do órgão.

<><> Remodulação cardíaca

O professor Qi afirmou que este é o primeiro estudo do gênero e demonstra que a exposição a níveis mais elevados de luz durante a noite está ligada à remodelação cardíaca. "É nesse processo que a estrutura e a função do coração se alteram, o que normalmente observamos em resposta ao estresse crônico ou a lesões cardíacas. É a forma que o nosso corpo encontra para se adaptar a esse estresse, mas, em última análise, isso enfraquece o coração e pode levar à insuficiência cardíaca."

"A poluição luminosa surgiu como um novo fator de risco para doenças cardiovasculares. Nossos resultados, juntamente com evidências de outros estudos, sugerem que a redução da exposição à luz noturna deve ser considerada como uma das estratégias potenciais para a prevenção de doenças cardíacas por médicos e formuladores de políticas públicas."

Segundo Gabriel Romão Borges Piau, cardiologista da clínica Cárddio, em Brasília, a luz à noite pode desregular o ritmo circadiano, o relógio biológico do corpo, que participa do controle da pressão arterial, frequência cardíaca e metabolismo cardíaco. "A luminosidade também reduz a produção de melatonina e impacta diretamente na qualidade e na duração do sono", explica.

"O estudo sugere, ainda, envolvimento de alteração autonômica — responsável por manter o equilíbrio do nosso corpo —, inflamação, alterações vasculares e metabólicas, que podem levar ao remodelamento e consequentemente à piora da função cardíaca", completou o especialista.

Em comentário adicional, o professor Thomas Münzel, do Centro Médico Universitário de Mainz, na Alemanha, e seus colegas afirmaram que é hora de os médicos, principalmente aqueles que tratam pacientes com insuficiência cardíaca ou fibrilação atrial, começarem a questionar o ambiente de sono. "Quão escuro está o quarto, se o paciente trabalha em turnos noturnos e quanto tempo usa telas após o pôr do sol. As recomendações são simples e baratas: cortinas blackout, iluminação de cabeceira com luz quente e cobertura dos pequenos LEDs de espera em aparelhos eletrônicos domésticos."

Segundo eles, do ponto de vista da saúde pública, as implicações são ainda maiores. "A poluição luminosa é um dos poucos riscos ambientais que as cidades podem controlar direta e economicamente. Luminárias protegidas, lâmpadas de espectro quente e postes de iluminação com regulagem de intensidade ou acionados por movimento já estão disponíveis, são energeticamente eficientes e ecologicamente corretos."

O cardiologista Thiago Germano diz que, além de estímulos não desejáveis na hora de dormir, outros problemas podem trazer riscos ao coração durante o descanso. "Por exemplo, a apneia do sono, uma condição clínica em que o sono é interrompido diversas vezes durante a noite por pausas respiratórias, cursando com estímulo simpático deletério ao sistema cardiovascular. Essa condição clínica deve ser diagnosticada e tratada adequadamente."

>>> Palavra de especialista - Carlos Nascimento, cardiologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas

# Resposta ao ambiente

"Hoje sabemos que dormir bem  não significa apenas repousar um certo número de horas. Importam também a qualidade, a regularidade e o horário do sono, além de doenças como a apneia. Dormir pouco, ter um sono muito fragmentado, trabalhar frequentemente à noite ou variar demais os horários de dormir e acordar pode prejudicar a saúde cardiovascular. Isso acontece porque o sono é um período de recuperação do organismo. Durante a noite, em condições normais, ocorre uma redução da frequência cardíaca e da pressão arterial. Quando esse descanso é interrompido repetidamente, pode haver maior ativação do sistema nervoso, aumento da pressão, inflamação, resistência à insulina e maior risco de obesidade. Tudo isso, ao longo do tempo, pode repercutir no coração. O que mais chama atenção nesse trabalho é que ele reforça uma ideia cada vez mais importante na cardiologia: o coração também responde ao ambiente. Durante muito tempo, quando falávamos em prevenção cardiovascular, pensávamos principalmente em pressão alta, colesterol, diabetes, tabagismo, alimentação e exercício. Tudo isso continua sendo fundamental. Mas hoje sabemos que sono, poluição, ruído, luz noturna e desorganização do ritmo circadiano também podem influenciar a saúde ao longo dos anos."

•        Passos ajudam a reduzir o risco de morte, mostra estudo

Diminuir o número de passos diários, mas acelerar o ritmo, ou aumentar a quantidade mantendo a marcha mais lenta pode reduzir significativamente o risco de morte prematura para pessoas com estilo de vida sedentário. É o que sugere uma pesquisa publicada no British Journal of Sports Medicine.

Segundo as evidências atuais, um maior número de passos diários é fundamental para prevenir mortes prematuras. Porém, segundo os autores, da Universidade Monash, na Austrália, ainda não está claro qual o papel da intensidade da caminhada ou como diferentes combinações de passos e ritmos podem influenciar esse risco.

Os pesquisadores analisaram dados de 103.684 participantes de meia-idade do Reino Unido que usaram um rastreador de atividades por sete dias consecutivos entre 2013 e 2015 para monitorar o número e a intensidade dos passos diários dados. A contagem foi dividida em quatro categorias: 0-5 mil; 5 mil-7,5 mil; 7,5 mil-10 mil; e mais de 10 mil. A cadência das passadas também foi medida.

<><> Óbitos

Em seguida, acompanharam até o fim de novembro de 2022 o número de pessoas que morreram por qualquer causa ou por doenças cardiovasculares. Durante um período médio de acompanhamento de cerca de oito anos, houve 1.697 óbitos por motivos diversos e 502 relacionados a problemas do coração ou acidente vascular cerebral.

 A análise mostrou que diferentes combinações de contagem e ritmo de passos foram associadas a um menor risco de morte. Por exemplo, a chance foi substancialmente menor entre aqueles que caminharam com mais intensidade (pelo menos 80 passos/minuto), mas em pouca quantidade (menos de 5 mil). A mortalidade também foi reduzida entre os que andaram mais (entre 5 mil e 7,5 mil), porém lentamente (60 passos/minuto), comparado aos sedentários.

Segundo os pesquisadores, uma intensidade maior da atividade física com um volume menor pode proporcionar benefícios à saúde comparáveis aos de práticas menos vigorosas, porém com maior duração. "Nossos resultados contribuem para a base de evidências de abordagens baseadas em passos, que visam tanto a contagem diária quanto a intensidade da atividade física, para reduzir o risco de mortalidade, e podem orientar intervenções baseadas em passos para adultos de meia-idade e idosos, particularmente indivíduos com dificuldades para aumentar a contagem diária de passos ou a intensidade da atividade física", escreveram os autores.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Rio cercado: marisqueiras de Sergipe lutam por acesso ao manguezal

Vemos metade do corpo de Adriana Hora dos Santos fora d’água: o cabelo escuro preso numa trança única, braços e tórax cobertos pela blusa de lycra cor-de-rosa. A lama do mangue onde pisa chega à altura das coxas. Com um facão de pouco mais de 40 centímetros, ela tira dezenas de ostras das raízes retorcidas, num ritmo cadenciado: nem muito rápido, nem muito devagar.

Na margem oposta ao rio Vaza-Barris, os prédios de Aracaju, capital de Sergipe, parecem de outro mundo. Aqui, só ouvimos o marulho da água, o golpe da lâmina e a voz de Adriana: Sou, sou Marisqueira / Rainha do mangue, sou guerreira! / Sou, sou Marisqueira / Mulher de luta, batalhadeira / É o vento que me dá / É o rio, é o mangue, é o mar / Dói o peito, rio cercado / Dói o peito não ter pescado / Vem, mulher, lute, emancipe / Somos as marisqueiras de Sergipe!É o hino do Movimento das Marisqueiras de Sergipe (MMS), coletivo auto-organizado de mulheres que há anos resiste a um processo contínuo de degradação ambiental e apagamento cultural. Atuando como guardiãs do mangue, realizam um trabalho de conservação ambiental ao mesmo tempo em que enfrentam ameaças que colocam em risco sua sobrevivência.  Escutar uma marisqueira é escutar muitas: os verbos quase vêm sempre no plural. “Sempre estamos em bando”, diz Adriana. E foi em bando que fomos apresentados ao mangue.

<><> O mangue como refúgio

O dia começa conforme o horário da maré e só termina depois que os baldes estiverem cheios. Hoje estamos de barco, mas às vezes é a pé ou de bicicleta. São horas de deslocamento e espera na lama. Uma vez dentro do mangue, as marisqueiras ganham movimentos anfíbios, já que é difícil definir as fronteiras entre terra e água nesse ecossistema.

Antes de entrar, nos avisam que é preciso se preparar: calça comprida, camiseta com proteção solar, chapéu, meias grossas até a canela e uma espécie de calçado criado por elas mesmas, costurado a partir de pedaços de calça jeans. “É um tecido mais grosso, que protege os pés de se cortar nos pedaços de marisco, especialmente ostra”, explicam. Completam o equipamento o balde, o facão, a vara e, às vezes, o jereré — uma rede em forma de cone. Tecnologias sociais que facilitam o trabalho, mas não aplacam o esforço. “O povo acha caro o massunim a 40 reais, mas não entende o que a gente passa. É todo um processo, de horas e horas”, argumenta Adriana a respeito do molusco que no Sudeste é chamado de vôngole. Um processo que começa no trabalho da cata e segue com tudo o que envolve o beneficiamento: higienização, conservação e preparo do produto para venda ou consumo. Em geral, o marisco é cozido ou assado no fogo à lenha, para economizar gás de cozinha.

Isoladas nos manguezais ou nas croas (bancos de areia que emergem no leito de rios ou praias durante a maré baixa ou seca), as marisqueiras ficam expostas não só aos perigos da natureza — sol, umidade, galhos, insetos — mas também a outros tipos de violência, inclusive a masculina. Por isso, andar em grupo, além de ritual, é estratégia de sobrevivência, cuidado e acolhimento. A violência permeia a vida de quase todas essas mulheres e a das múltiplas gerações anteriores. Uma violência que começa, inclusive, em casa. Não surpreende, então, que muitas descrevam o mangue como refúgio. A mãe de Adriana, por exemplo, se separou do marido que abusava do álcool e passou a sustentar a família. Criou os dez filhos catando mariscos e cozinhando pra fora. “Naquele tempo era uma fartura. A gente encontrava de tudo [no mangue] e voltava feliz, porque todo mundo vinha com as vasilhas e baldes cheios”, relata. Era uma panela cheia de aratu, outra de caranguejo, outra de siri, e ainda tinha o massunim e o sururu. A avó, as irmãs, tios e tias, todo mundo morava perto do Vaza-Barris. “O povo vivia de roça e maré. Isso aqui tudo era sítio, arrodeado de água. Não estava aterrado desse jeito”. Plantava-se batata, macaxeira, coco e inhame. O que se colhia, comia. O que sobrava, além dos mariscos, era levado de barco até o mercado central de Aracaju.

Estamos em Areia Branca, região que já foi um povoado tradicional de pescadores e lavradores ao sul da capital sergipana. Até 2021, fazia parte da chamada Zona de Expansão de Aracaju, um nome genérico que a prefeitura extinguiu ao elevar Areia Branca e outras cinco antigas localidades vizinhas, como Mosqueiro e Robalo, à categoria de bairro. Hoje ligada ao centro pela Avenida Melício Machado, a região recebe grandes obras de pavimentação, drenagem e urbanização da administração municipal. É onde está a Ribanceira, uma das últimas praias de rio limpas e preservadas da capital. O outro grande rio que banha a capital, o rio Sergipe, sofre com um processo contínuo de poluição desde a segunda metade do século 20. “Eu acho que essa história de uma vida melhor na cidade é pura fake news. Coisa de televisão. É bem melhor estar aqui”, diz Adriana, orgulhosa de ter aberto há pouco seu próprio estabelecimento, uma petiscaria próxima à Ribanceira — até porque não consegue mais se sustentar só da mariscagem. Se antigamente parte da população ribeirinha saía dos povoados para a cidade em busca de melhores condições de vida, já que ali não tinha muitas oportunidades de emprego, hoje em dia o cenário é outro. “Sinto que somos forçados a sair pelos empreendimentos. E o próprio rio, que não tá dando quase mais nada [de peixes e mariscos]. É que o rio já não é mais nosso.”

<><> Como tudo começou: o Peac e a origem do movimento

A história do Movimento das Marisqueiras de Sergipe está ligada ao Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras (Peac), uma exigência legal imposta pelo Ibama à Petrobras como condição para a empresa manter as licenças ambientais de exploração de petróleo e gás na Bacia de Sergipe-Alagoas. Na prática, funciona como uma contrapartida: para continuar explorando o mar, a Petrobras é obrigada a financiar um trabalho de educação ambiental voltado às comunidades tradicionais que vivem na área afetada por essa atividade. Hoje o programa é executado pela Universidade Federal de Sergipe (UFS), por meio de convênio com a Fundação de Apoio à Pesquisa e Extensão de Sergipe (Fapese), e abrange 95 comunidades tradicionais espalhadas por dez municípios do litoral sergipano, além de Conde e Jandaíra, na Bahia — um mapa que não segue divisas estaduais, mas a rota que o óleo faria se vazasse. Entre pescadores, marisqueiras, catadoras de mangaba e outras populações ribeirinhas, o objetivo declarado do Peac é enfrentar, por meio de alternativas pedagógicas e populares, os impactos socioeconômicos causados, direta e indiretamente, pela exploração de petróleo e gás no mar.

Foi dentro dessa estrutura que, a partir de um diagnóstico de vulnerabilidades feito entre 2013 e 2014, nasceu o projeto voltado às mulheres marisqueiras, embrião do que hoje é o MMS. A análise revelou que os impactos da cadeia de petróleo e gás atingiam as mulheres de forma particular: quando o marisco ficava escasso, a situação piorava sobretudo para elas, num cenário também associado a mais violência. Dali surgiu o Projeto de Organização e Fortalecimento Sociopolítico das Marisqueiras do Litoral de Sergipe. “Esse projeto não criou o movimento: era um trabalho de educação popular e educação ambiental crítica com as mulheres da área de abrangência do Peac”, relata Sandra Oliveira, professora da UFS e atual coordenadora do projeto. “Ao entenderem os motivos pelos quais estavam empobrecendo, perdendo marisco, sofrendo mais violência e perdendo território, as mulheres concluíram que a melhor forma de enfrentamento era a via do movimento social. Elas se organizaram por iniciativa própria, depois de terem acesso a esse conhecimento e ao letramento político.” Isso gera uma contradição estrutural, destacada pela equipe do Peac: um movimento social nasce de dentro de uma política de mitigação que é, ela própria, condicionante de uma licença para continuar explorando os territórios dessas mulheres. “O grande desafio ao longo dos anos tem sido como o movimento se emancipa desse lugar, inclusive financeiramente, já que ainda depende, em grande parte, do financiamento da Petrobras”, analisa Sandra. Segundo ela, as lideranças já compreendem essa contradição. Inicialmente viam a Petrobras como benfeitora; hoje, enxergam a empresa como responsável pelas mudanças vividas nas comunidades.

<><> Marisqueira, sim, com muito orgulho

Para Sandra, nos últimos anos, a principal conquista do movimento foi dar visibilidade à mariscagem e ao papel das mulheres na defesa de seus territórios; não só em Sergipe, mas em outros espaços políticos e urbanos. Ela explica que, diferente das organizações ligadas à pesca, mais consolidadas na esfera pública, as marisqueiras historicamente não eram reconhecidas como pescadoras artesanais, “já que a maioria dos pescadores são homens”. Acontece que o trabalho de beneficiamento do marisco — como retirar os moluscos e crustáceos da casca e preparar o filé de camarão — sempre foi feito por mulheres. “Mas isso nem era considerado parte da pesca artesanal, oficialmente.” A atuação da mulher no manguezal e na mariscagem era classificada como mera ajuda doméstica ou complementar à do marido pescador.

Essa assimetria histórica era sentida diretamente no bolso e nos direitos dessas trabalhadoras. Por décadas, as antigas normas das colônias de pesca sequer aceitavam mulheres em seus quadros. “Sob uma forte estrutura patriarcal, as marisqueiras definiram a luta de igualdade de direitos na pesca e o reconhecimento da própria identidade de marisqueira, que antes era invisibilizada”, afirma Gislei Lazzarotto, autora do livro Itinerâncias – Marisqueiras e educação ambiental: qual é o seu território?, fruto de seu pós-doutorado no Programa de Pós-Graduação em Psicologia da UFS com estágio no Peac. Durante dois anos, ela conviveu com marisqueiras de diferentes regiões de Sergipe. “O que pude observar é que a vida cotidiana dessas mulheres se transforma em uma constante estratégia de defesa. Elas sofrem violência de gênero tanto nos espaços familiares quanto nos espaços de participação pública.” Segundo sua pesquisa, o cenário legislativo começou a mudar com a promulgação da Lei da Pesca (nº 11.959) em 2009, quando o Estado brasileiro incluiu as etapas de pré e pós-captura como partes integrantes e legítimas da cadeia produtiva da pesca artesanal.

Apesar do avanço no papel, a garantia real de benefícios sociais protetivos, como o seguro-defeso (pago aos pescadores durante o período de proibição da pesca para reprodução das espécies), ainda é complexa. Barreiras burocráticas e questionamentos sobre o reconhecimento da atividade feminina na mariscagem ainda persistem. Recentemente, com articulação junto ao Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais as mulheres passaram a reivindicar o reconhecimento das marisqueiras como categoria própria, apesar de orientações anteriores sugerirem que seria mais vantajoso se autodenominarem apenas “pescadoras artesanais” para acessar direitos já consolidados. “Se já existia o movimento da pesca, por que não ter o das marisqueiras?”, questiona Graziela dos Passos, atual coordenadora do MMS.

“Elas assumem o lugar da marisqueira, lugar de guardiãs do mangue. E, ao mesmo tempo, elas não entram em confronto com o fato de serem pescadoras também”, afirma Gislei. Mais do que a busca por direitos trabalhistas, as marisqueiras transformaram o próprio nome de sua atividade em um símbolo de orgulho e força política. “O movimento é uma escola, uma maneira de a gente aprender a andar com as próprias pernas”, afirma Jilvanilda Santos. Ela faz parte do MMS há cerca de 12 anos e conta o quanto o coletivo transformou sua vida. “Uma das coisas é o conhecimento e a consciência da violência que vivia com o meu ex-marido. Agora eu sei dos meus direitos, meus direitos como mulher e como marisqueira.” Já Graziela relata que o movimento lhe deu a possibilidade de se fortalecer e de lutar pela sua comunidade.” Antes eu não sabia o que fazer, como resistir, quem procurar, sabe? Agora sabemos que tem o Ibama, que tem Adema [Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe], por exemplo. Alguns órgãos que foram feitos para nos ajudar.”

<><> “Sem marisqueira, não tem caranguejo no prato”

É Sandra quem analisa: a identidade marisqueira sergipana está relacionada tanto às características do ecossistema quanto à cultura alimentar local. No estado, a diversidade e a abundância de mariscos ocorrem graças à geografia de rios e dos manguezais. Mas em intercâmbio com marisqueiras da Lagoa de Jequiá, no estado vizinho de Alagoas, por exemplo, o movimento constatou que, apesar de o mangue também ser “cheio de aratu”, elas não o capturam: seu principal produto é o siri. Faz sentido, portanto, que a Feira da Cata ao Prato tenha se tornado um dos eventos mais estratégicos do movimento. “Foi uma explosão, uma conquista muito importante pra gente”, celebra Adriana. Com duas edições já realizadas em parceria com o Peac, a feira oferece diversas atividades para aproximar o público do universo das marisqueiras. Durante dois dias, famílias inteiras consomem produtos e pratos tradicionais, além de conhecerem as mãos que os preparam. “É uma forma da sociedade entender essa cadeia produtiva e valorizar ainda mais o trabalho das marisqueiras”, afirma Sandra. “Sem mangue, não tem marisqueira. Sem marisqueira, não tem caranguejo no prato do sergipano.”

Hoje, a gestão do projeto dentro do Peac é compartilhada com as lideranças do MMS. O movimento reúne representantes de cerca de 20 comunidades, desde o norte do estado, passando pela região central — que inclui Aracaju, Barra dos Coqueiros, São Cristóvão, Itaporanga d’Ajuda — até chegar ao sul, onde há maior concentração de lideranças, já que foi onde o Peac iniciou suas primeiras ações. Com o crescimento da visibilidade do movimento, as lideranças passaram a ser convidadas a participar de todo tipo de iniciativa — do governo federal a vereadores do interior —, nem sempre com intenção clara. Mas há também a incidência política genuína: mandatos populares aproximaram-se para comprar a causa do MMS e levá-la adiante. Entre as parceiras mais constantes está Linda Brasil, primeira deputada estadual trans de Sergipe e uma das mais bem votadas do estado. Ela participa dos encontros anuais do movimento, o Encontro das Marisqueiras de Sergipe (Emaris), para o qual também são convidados representantes do Ibama, da Administração Estadual do Meio Ambiente de Sergipe (Adema), da Secretaria do Patrimônio da União (SPU) e do INSS, para que as marisqueiras possam cobrar o que lhes é devido.

Foi desses encontros que nasceram duas leis aprovadas recentemente. Uma instituiu, no início de 2026, o Dia Estadual da Marisqueira: 9 de janeiro. A outra, mais ambiciosa, criou a política estadual de incentivo à mariscagem, com ações de fomento e saúde laboral. “Achávamos que íamos brigar muito para passar”, conta Sandra, “mas aprovou rápido. Agora a briga é pelo orçamento.” Para a coordenadora do MMS, essas conquistas são fruto direto do trabalho de incidência política das marisqueiras. “A mobilidade entre povoados, o compartilhamento de demandas e do enfrentamento às violências, bem como as formações promovidas, criaram condições para que suas vozes fossem escutadas”, complementa Gislei. O tempo dedicado à articulação externa, no entanto, afastou as lideranças de suas próprias comunidades. No último processo de avaliação conjunta, elas reconheceram: “Agora é a hora da gente voltar.” Fortalecer as bases, levar o que aprenderam fora para as mulheres que ficaram. Enquanto isso, as que permaneceram seguem expostas a ameaças que só crescem.

<><> Corpo-território: “o mangue é minha vida”

O corpo das mulheres segue registrando, dia após dia, o preço de passar cada vez mais horas imersas na lama. Segundo relatos das marisqueiras, em dez anos, o volume de marisco recolhido despencou: o que antes se catava em duas ou três horas hoje exige um dia inteiro de trabalho, e ainda assim rende menos. “Trabalha-se mais para tirar menos, o marisco encarece, e a vida piora. A água está mais quente e contaminada. Isso afasta e escasseia o marisco”, resume Graziela. Esse tempo a mais na água, submersas e molhadas por horas seguidas, também traz diversos agravos à saúde. Os mais relatados pelas marisqueiras, e os mais invisibilizados, são problemas ginecológicos e vasculares, além de lesões decorrentes de carregar peso. Ao longo de sua pesquisa, Gislei mapeou justamente como os corpos das marisqueiras e os territórios que habitam são indissociáveis, explicando o nexo entre as agressões ao meio ambiente e a vivência física e política das marisqueiras: “Para elas, o território é a extensão de si mesmas”, resume. Na esteira da degradação ambiental, também se perdem os saberes que habitam o território. Como o “encantamento” do aratu, em que os crustáceos saem da toca atraídos por assovios, batidas na lata e cantorias. Marilene Passos da Vitória, mãe de Graziela, demonstra: apesar de seus 68 anos, sobe numa gaiteira (os galhos retorcidos do mangue onde as catadoras se apoiam para ficar acima da lama), senta, bate e canta. “Se não cantar, eles não vêm.” Ela coloca uma isca, um aratu mesmo, na ponta do fio de náilon preso à varinha de pau, e espera. “O mangue é minha vida. Eu fui criada dentro do mangue. Aprendi a catar aratu com minha mãe, que aprendeu com a dela.”

Esse conhecimento transmitido oralmente, de geração em geração, hoje enfrenta uma ameaça menos evidente: a de algumas igrejas pentecostais e neopentecostais. Há relatos de proibição, por parte dessas igrejas, dos cantos usados para atrair o aratu, associados a religiões de matriz afro-indígena. Já entre os adventistas, a restrição é alimentar: eles pregam a abstenção de frutos do mar, considerados “impuros” pela Bíblia. “Eu não posso mais comer caranguejo, massunim… só peixe”, diz Marilene. “Mas posso pegar para os outros, que ainda não conhecem a Palavra.”

<><> A falta de acesso ao mangue e o fim do rio

O “rio cercado”, citado no hino do MMS, faz referência ao acesso ao mangue que, pouco a pouco, está sendo cortado. No antigo povoado de Mosqueiro — que também integrava a a Zona de Expansão e, em breve, será mais um bairro de Aracaju —, Graziela aponta para a obra que há dois anos canaliza água doce sobre o mangue. Enquanto as máquinas passavam, ela viu os bichos escaparem, sufocados, da areia: aratus e guaiamuns subiam em paus para se salvar. “Bem ali, naquele pé de coqueiro, era a passagem para o nosso portinho”, diz ela, lembrando de quando todo mundo ia a pé para pescar e mariscar, até pouco tempo. “Essa água doce já está causando tudo isso. Sururu já está morrendo, as ostras estão caindo, mortas.”

Trata-se da fração de uma das maiores obras de infraestrutura urbana já executadas na capital sergipana, integrante do Programa Aracaju Cidade do Futuro, financiado pelo New Development Bank (NDB). De acordo com dados da prefeitura, o projeto inclui um sistema de macro e microdrenagem com um canal principal de 7,6 quilômetros e outros 18 canais auxiliares, além de pavimentação e esgotamento sanitário. O investimento total é de cerca de R$ 180,6 milhões e abrange Areia Branca. A prefeitura afirma que o objetivo é resolver os alagamentos históricos da região.

Graziela contra-argumenta: para ela as lagoas sazonais já cumprem a função de drenagem natural. Os terrenos, porém, têm sido vendidos e aterrados para novos loteamentos e condomínios. Para ela, a obra é mais uma porta de entrada para a especulação imobiliária que há anos impacta a região. “As pessoas foram tirando nossos manguinhos para construir seus píeres e lanchas maravilhosas, e virou isso aqui”, denuncia. Tudo, segundo ela, liberado pelo Ibama. Agora, para chegar ao mangue, é preciso atravessar um trecho alagado, parte da obra. A prefeitura prometeu uma passagem por cima do canal de concreto, mas até agora nada foi feito. “E depois que tudo isso virar esgoto, como é que a gente vai passar?”, pergunta.

Órgãos estaduais e municipais garantem que a obra vai tratar o esgoto. As marisqueiras não acreditam. Elas se lembram do outro grande rio da cidade, o rio Sergipe, cuja promessa de tratamento de esgoto nunca saiu do papel. “É o que vai acontecer com o nosso Vaza-Barris aqui”, conclui Graziela. Segundo a Companhia de Desenvolvimento dos Vales do São Francisco e do Parnaíba (Codevasf), o rio Vaza-Barris tem 450 quilômetros de extensão. Ele nasce no sertão baiano e sua bacia hidrográfica corta 30 municípios até desaguar no oceano Atlântico, já em Sergipe, ao sul de Aracaju. Comunidades como Mosqueiro e Areia Branca, integrantes da capital, sempre viveram de suas águas.

A Orla Pôr do Sol, construída na comunidade de Mosqueiro, é outro exemplo de obra que afetou a vida às margens do Vaza-Barris: embora tenha trazido melhorias para a população, também impactou o meio ambiente a vida de pescadores e ribeirinhos. O que se vê no local é um grande número de lanchas de passeio e de construções irregulares. “Se eu chegar com o meu barquinho de pobre, não consigo encostar. A própria Marinha me tira de lá”, relata Jilvanilda Santos. Essas obras não são uma história isolada. Segundo as marisqueiras, estão ligadas à expansão urbana desordenada e à especulação imobiliária, tidas como alguns dos principais fatores que levam à perda de território e limitação de acesso aos manguezais.

<><> “São dois mundos em choque”

Há uma discussão em curso dentro do Peac sobre até onde vai a responsabilidade da indústria de petróleo e gás nesse cenário de ameaças. A equipe e o movimento das marisqueiras são questionados sobre por que trazem à pauta temas como a especulação imobiliária, aparentemente sem relação direta com o petróleo. “Essas ameaças estão conectadas ao modelo de desenvolvimento centrado na economia petrodependente: mais estradas, mais infraestrutura, mais fluxo de pessoas e capital”, afirma Sandra. Na visão da professora e coordenadora do projeto, o contraste é claro: para a indústria de petróleo e gás, o território é recurso econômico. Para as marisqueiras, o mangue é modo de vida, fonte de alimento, sustento e renda. “O manejo que elas fazem é completamente diferente”, diz ela. “Elas não querem que o mangue acabe; querem cuidar dele. São dois mundos em choque.” Certa vez, quando uma marisqueira lhe perguntou por que o governador, dono de uma casa às margens do rio, queria destruí-lo, Sandra respondeu: é que o rio, para este senhor, é paisagem, algo para contemplar, para andar de jet ski. A marisqueira pareceu confusa e questionou mais uma vez: “E ele come o quê?”

Apesar de suas fragilidades, a política de licenciamento ambiental ainda representa um obstáculo contra essa lógica de exploração. “Ela impõe que as pessoas saibam por que estão perdendo seus territórios, por que os mariscos estão mais escassos”, diz Sandra. “Foi feito para não passar a boiada em cima das comunidades.”É nessa contramão que o Peac segue operando — um programa custoso, segundo ela, mas irrisório frente à escala de quem financia. Um único dia de lucro da exploração de petróleo na Bacia de Campos, calcula Sandra, bancaria o programa inteiro por 40 anos. Diante de um cenário cada vez mais desfavorável, o próprio movimento das marisqueiras discute alternativas locais de proteção. No sul do estado, tramita uma proposta parada há anos: transformar a região em reserva extrativista, unidade de conservação que permitiria às marisqueiras seguir com seu modo de vida sob outro amparo legal — um caminho que poderia ser replicado em diferentes áreas do estado. Sandra também acredita em modelos cooperativistas como caminho para viabilizar economicamente o trabalho das marisqueiras, com menos dependência do financiamento ligado à indústria. “A ideia de reparação deveria vir com algo permanente”, diz.

O que sustenta essas mulheres, no fim, é sua própria rede: de amizade, de cuidado, de trabalho dividido. “O movimento tem conseguido, em alguma medida, contar uma história e denunciar esse racismo ambiental”, complementa Gislei. “A chance dessas comunidades desaparecerem sem nem contar suas histórias é muito grande.” Na perspectiva de futuro das marisqueiras, registrar essa memória, então, já é uma forma de vitória. Assim nasceu o livro Guardiãs do Mangue, memória marisqueira, uma obra coletiva publicada em 2025 pelo MMS, com coordenação da professora Lívia Cardoso (UFS) que reúne textos, poemas e registros visuais sobre vivências cotidianas da mariscagem. “As filhas hoje conhecem e escrevem essa história ao lado das mães, num orgulho que antes não existia”, celebra Gislei. Garantia, no entanto, não há. Elas seguem esperançosas, mas fica a dúvida se os netos e netas algum dia poderão viver do rio, do mangue e da mariscagem como viveram suas avós.

 

Fonte: Mongabay

 

Fernando Cerimedo e a intervenção da extrema-direita nas eleições da América Latina

A figura de Fernando Cerimedo, argentino que participou da tentativa de golpe articulada pelo bolsonarismo nas eleições brasileiras de 2022, ajuda a entender a trama da extrema-direita na América Latina para intervir nas eleições regionais e como essa articulação que envolve robôs e fake news — se relaciona com o processo eleitoral em curso no Brasil.

Cerimedo é o argentino que apareceu em uma live alegando falsamente que as nossas urnas eletrônicas eram passíveis de fraude, durante o processo eleitoral que elegou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva para o seu terceiro mandato. Ele foi um dos instrumentos utilizados pela família Bolsonaro e seu grupo político para tentar um golpe em 2022, processo que culminou nos atos de 8 de janeiro de 2023. Apesar das prisões de diversos envolvidos — como o ex-presidente Bolsonaro, generais e manifestantes —, o movimento golpista continua. O que observamos no processo eleitoral relaciona-se diretamente com essa ofensiva da extrema-direita aliada à Casa Branca na América Latina e no Caribe, com foco na América do Sul.

<><> A prisão na Bolívia e a denúncia de feminicídio

Embora a atuação de Cerimedo extrapole a América do Sul — estando envolvido no Hondurasgate, em tentativas de desestabilização da presidenta Claudia Sheinbaum no México e em conexões com Nayib Bukele em El Salvador —, ele acabou preso na Bolívia. Sua prisão ocorreu após sua ex-companheira, Cláudia, sofrer um atentado.

Ao ser socorrida na ambulância, ela o denunciou declarando que Cerimedo havia mandado matá-la. A polícia boliviana o deteve no aeroporto no momento em que ele tentava deixar o país. Na terça-feira (8) ele foi transferido para um presídio de segurança máxima na Bolívia, onde permanece preso. Cláudia sobreviveu aos três tiros e, ao relatar o ocorrido, revelou uma série de informações sobre o envolvimento de Cerimedo em diversas tramas da extrema-direita na região.

Ele também esteve envolvido na Colômbia com a eleição de Abelardo de la Espriella. Essa figura pouco abordada pela mídia comercial no Brasil fundou pelo menos duas empresas que ganharam notoriedade após sua prisão.

A primeira é a Numen, consultoria política voltada à formação em marketing digital — entendido aqui como disseminação de fake news e manipulação da opinião pública pelas redes. A segunda é o portal Derecho al Diario, jornal argentino que teve como sócio o espanhol Javier Negre e atuação no México. A presidenta Claudia Sheinbaum tem abordado o tema em suas conferências matinais na Cidade do México. Apesar de afirmarem que ele não está mais na direção do portal após ser preso, Cerimedo é o fundador do veículo, e sua trajetória acompanha o crescimento da nova direita na América Latina e no Caribe.

<><> Estratégias digitais e a ameaça à democracia

Ele esteve envolvido na eleição de Javier Milei na Argentina em 2023, na candidatura de Nasry Asfura em Honduras e, em 2022, na tentativa fracassada de golpe no Brasil. Todas essas ações apoiam-se em uma estrutura de trolls, robôs e “fazendas de bots” para a difusão massiva de conteúdos falsos e enganosos.

Trata-se de uma concepção de comunicação na qual a disputa eleitoral deixa de ser um debate de propostas e projetos para se tornar uma ocupação massiva do ambiente digital. O objetivo é capturar a atenção pública, mobilizar emoções, atacar adversários e engajar comunidades virtuais sempre contra um inimigo comum.

No Brasil, vimos isso em 2022 com a construção da narrativa de fraude nas urnas eletrônicas produzidas até 2020, baseando-se em números de série e teorias conspiratórias. Após atuar no Brasil, Cerimedo participou ativamente da construção da candidatura de Javier Milei na Argentina.

A campanha de Milei não se estruturou sobre partidos tradicionais, mas sobre uma comunidade digital que funcionava como um partido. Influenciadores substituíram os antigos cabos eleitorais, e canais do YouTube ocuparam o lugar dos jornais e programas partidários.

Memes substituíram panfletos, e os algoritmos passaram a organizar os públicos, tudo alimentado por circuitos fechados no WhatsApp e no Telegram. Portais alinhados transformavam narrativas de redes em supostas notícias, utilizando inclusive logotipos falsos de veículos tradicionais, como o jornal O Globo. Além de criar falsos fatos de rápida dispersão, a rede utiliza milhões de *bots* cada vez mais sofisticados com inteligência artificial para simular a participação de pessoas reais no debate eleitoral.

<><> Conexões internacionais e a operação no Chile e Bolívia

Cerimedo operou no Brasil, Argentina, Honduras, Colômbia e Bolívia em alinhamento com setores de Washington e Miami. Ele possui estruturas empresariais nos Estados Unidos e vínculos com operadores políticos como Damián Merlo Debernardi, consultor argentino-americano que aproximou Milei de setores político-midiáticos dos EUA e viabilizou sua entrevista com o apresentador televisivo conservador Tucker Carlson, que projetou o pouco conhecido líder da extrema-direita argentina.

A partir de Miami, esse centro operacional sustenta ações pela América Latina. No Chile, Cerimedo participou, via instituto, da campanha do “Rechazo”, que derrotou a proposta de nova Constituição oriunda dos protestos de 2019. Na época, circularam fake news absurdas — como a falsa alegação de que haveria aborto até os nove meses ou desapropriação de residências —, o que levou à forte rejeição do texto constitucional.

Na Bolívia, ele manteve laços estreitos com Rodrigo Paz. Há registros fotográficos dele no gabinete de Paz, inclusive durante a visita do Rei Felipe da Espanha. O próprio vice-presidente eleito da Bolívia, Edmond Lara, hoje rompido com Paz, denunciou em vídeo que Cerimedo frequentava mais reuniões de gabinete do que ele.

Houve também atuação na Colômbia na chamada Operação Júpiter, seguindo o mesmo modus operandi. Em vez de detalhar cada país, cabe refletir sobre esse método de construção de um ecossistema próprio de comunicação.

A estratégia utiliza canais de YouTube, influenciadores, podcasts e redes sociais para criar um circuito em que milhões consomem informações pautadas pela invenção de inimigos — a esquerda, o comunismo, os movimentos feministas, os migrantes, os sindicatos, a imprensa e instituições como o STF. Transforma-se a política em uma guerra cultural permanente baseada na indignação constante, sem aprofundamento ou debate de projetos.

Esse sistema opera a partir de centros nos Estados Unidos e se adapta rapidamente entre os países de língua espanhola. Além de Cerimedo, existem outros operadores semelhantes que exigem investigação. Sua prisão revelou quantias elevadas de dinheiro, buscas por documentos e apreensão de equipamentos para fazendas de bots. Toda essa rede continua sob apuração.

Esse tema é de alto interesse para nós que atravessamos períodos eleitorais. Enquanto na América Latina e na Europa o caso recebe ampla cobertura, no Brasil o assunto é pouco debatido, e a sociedade demonstra certo desinteresse em relação às operações de redes que podem estar nos afetando.

¨      Fernando Cerimedo e o atual modus operandi da extrema-direita na América Latina. Por Bruno Lima Rocha

A proposta deste breve artigo é expor de forma breve como o neofascismo funciona na América Latina. Não se trata de relato amplo e detalhado, com nomes sem fim, empresas de fachadas, laranjas, lavagem de dinheiro e etc. Sim, este é o procedimento padrão, de melar as eleições nos países latino-americanos, poluir o debate público de versões disfarçadas de opiniões criadas por fazendas de bots e, de maneira muito aproximada, financiar estas iniciativas com a economia do crime. É isso mesmo, não é ficção ou roteiro de filmes com conspiração política.

No Brasil, o epicentro da suspeita de golpe eleitoral, com o ministro André Mendonça sendo instrumento ativo na campanha de Flávio Bolsonaro e automaticamente, fortalecendo a aliança com o imperialismo capitaneado por Trump e Rubio. Já na Bolívia, repercute um padrão mais ampliado, cuja prisão do operador da CIA Fernando Cerimedo, é a parte mais visível de todo esquema.

Cerimedo foi peça central na eleição de Javier Milei em 2023 na Argentina. Atuou para espalhar a calúnia de fraude nas urnas eletrônicas no Brasil. Fez campanha contra a constituinte no Chile e também no segundo turno das eleições no país. Foi conselheiro de campanha de Rodrigo Paz na Bolívia, depois teve um espaço informal com alto nível decisório. O intento de feminicídio contra sua ex-companheira – a influenciadora de direita boliviana Nadia Beller – foi para queima de arquivo conforme o próprio afirmou para um cúmplice. Este é simplesmente o diretor da Polícia Nacional Boliviana na luta contra o narcotráfico.

Uma vez preso, Cerimedo traz consigo atividades conexas com voos irregulares no Departamento de Beni. “Coincidentemente” é o mesmo lugar de origem carreira política da ex-presidente golpista da Bolívia, Jeanine Áñez. Também deve ser por “coincidência” que o procedimento é o mesmo ocorrido no Equador, em Honduras e agora na Colômbia em casos de relação direto de narcotráfico e a ascensão de governantes de extrema-direita.

A Bolívia passou por duas situações semelhantes antes do golpe impulsionado por narcotraficantes em 2019. O golpe liderado pelo então coronel Hugo Banzer (1971) e posteriormente no golpe de 1980 – tendo a frente o general Luis García Meza e pelo coronel Luis Arce Gómez. Em ambas tomadas de poder o narcotráfico atuou diretamente, financiou as atividades ilegais, operou com redes da CIA e da DEA e foi parte ativa no modo de acumulação através do Poder Executivo e a corrosão do aparelho de Estado.

Quais as semelhanças entre estes procedimentos e o acionar de Fernando Cerimedo como um operador de Donald Trump e Marco Rubio? Todas. O “consultor argentino” é pivô de uma crise cujas evidências eram abundantes desde o lançamento do portal Derecha Diario. Qual a diferença agora? A revelação de um esquema, considerando que ele, Cerimedo, foi para Santa Cruz de la Sierra para operar “livremente”, garantindo o financiamento de todos os seus clientes nas redes sociais, como o mandatário argentino.

Se na economia do narcotráfico as redes da CIA operam como funcionais, na base cibernética o suporte vem da inteligência sionista. Como de costume, a espionagem israelense incide através da internet com o uso de mecanismos de disparos em massa, poluindo o debate público, aliando-se às plataformas e Big Techs, exercendo censura na prática política.

Cerimedo é uma peça, hoje importante, depois removível. Em geral, os cabeças da estrutura criminal tem pouca longevidade, e os aparelhos seguem funcionando. Estes vão sendo moldados de acordo com as frações de classe no poder dos países da América Latina e suas relações – se diretas ou indiretas – com Washington, o Comando Sul e o conjunto dos instrumentos do imperialismo para a dominação do Continente.

¨      Avanço da extrema direita na América Latina é influência direta da pressão e ingerências de Trump

Com a recente vitória do candidato de extrema direita na Colômbia, Abelardo de la Espriella, e de Keiko Fujimori no Peru, o mapa latino-americano voltou a ser pintado novamente de azul, ainda mais quando também consideramos os atuais governos na Bolívia, Equador, Honduras, Chile, Panamá, Paraguai, República Dominicana, Argentina e El Salvador: todos governados pela extrema direita.

O avanço da extrema direita pelo continente vem sendo articulado com especial atenção pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem promovendo ingerências em processos eleitorais e tomando medidas de pressão contra quem ainda ousa enfrentá-lo.

O cenário colocado impõe desafios para o campo progressista em toda a América Latina, mas oferece caminhos para a resistência desse campo da esquerda. Em participação no podcast Dilemas do Sul, Joana Salém, historiadora e professora da Universidade Federal do ABC (UFABC), avalia que, no contexto da Colômbia, apesar da derrota de Iván Cepeda, a esquerda saiu fortalecida do processo, ainda mais considerando o histórico colombiano de sucessivos governos de direita nas últimas décadas.

“Havia algumas variações dentro do campo conservador, mais neoliberais, mais agressivas na política antidrogas, uma direita mais moderada, mas eram variações da direita, e a esquerda colombiana sempre teve muita dificuldade de emplacar eleitoralmente. O [atual presidente, Gustavo] Petro, por si só, já é um fato novo da conjuntura, que foi um presidente organizador e mobilizador da esquerda colombiana”, aponta.

A historiadora destacou alguns pontos importantes da gestão de Petro, citando a reforma no comando militar do país, ao retirar todos os militares ligados ao uribismo, a melhoria nas políticas sociais, como redução da idade de aposentadoria de mulheres, e a reforma trabalhista.

Salém destaca que, com a derrota, o projeto de país de esquerda acaba interrompido. Contudo, a campanha mostrou a capacidade de mobilização do campo progressista. “Essa campanha eleitoral foi bastante mobilizadora. A esquerda colombiana é muito diversa, com enraizamento popular, com movimentos organizados e que representaram uma confiança nas reformas feitas pelo Gustavo Petro”, pontua.

O historiador e pesquisador do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social, Miguel Stedile, acrescenta à fala de Joana Salém que o período de Petro na presidência será encarado, daqui a algum tempo, como “um momento histórico”.

Segundo ele, para compreender o atual momento político colombiano, é preciso compreender que a história do país foi atravessada por muita violência, que acabou criando um narco-estado no período de Pablo Escobar, com mortes e o aumento considerável da violência urbana. Esse contexto levou o país a entrar nos anos 1990 com uma forte militarização dos Estados Unidos. “A simples vitória do Petro, mesmo se ele tivesse feito um governo moderado, que ele não fez, já seria completamente uma exceção nesse contexto da própria história colombiana”, defende.

Stedile atribui a derrota de Petro ao contexto latino-americano, que teve até invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro pelo governo Donald Trump. “Há dois anos atrás, o Petro não tinha um governo Donald Trump assediando a América Latina como a gente tem hoje. Não tinha uma doutrina Monroe e não tinha um 3 de janeiro em que os Estados Unidos disseram: ‘Isso aqui são protetorados dos Estados Unidos, a China não deve comercializar e nós vamos importar a nossa hegemonia e, se preciso, violar a soberania territorial de um país e sequestrar o presidente’. Tudo baseado numa acusação que depois eles abandonaram”, ressalta.

“É um aviso para as eleições brasileiras. Que ninguém imagine que teve uma química entre o Trump e o Lula. Não tem química, não vai ter química com ninguém que se oponha aos interesses dos Estados Unidos. A outra questão é o próprio contexto de avanço da extrema-direita, que é consequência e é retroalimentado por esse trumpismo. Eu diria que o mapa não está pintado de azul. É azul, vermelho e branco”, afirma, em referência as cores da bandeira estadunidense”, complementa Stedile.

¨      Marco Rubio sobre a luta contra o narcotráfico: “Existem territórios no México que são controlados por organizações criminosas”

O secretário de Estado de Donald Trump, Marco Rubio, juntou-se à pressão sobre o governo de Claudia Sheinbaum na quarta-feira na luta contra o narcotráfico. O funcionário americano afirmou que "os mexicanos fizeram mais do que nunca para combater esses grupos, mas ainda está longe de ser suficiente". Rubio reiterou uma ideia frequentemente repetida pelos apoiadores de Trump: "Não acho que seja segredo para ninguém. Existem territórios, vastos territórios no México, que não são governados pelo Estado; são controlados por organizações de narcotráfico".

Rubio está no Equador em visita à região e, falando à imprensa na embaixada em Quito, comparou os esforços dos dois países contra os cartéis de drogas. “O caso do México representa um desafio ainda maior, devido à extensão do país e ao poder dos cartéis”, afirmou. O porta-voz observou que o “principal problema do país, pesquisa após pesquisa ”, é a segurança e listou os candidatos políticos, juízes e jornalistas que “são assassinados rotineiramente” no México.

“Esses grupos são muito perigosos; precisam ser confrontados. E nossa esperança, nossa intenção, é fazê-lo em colaboração com o governo mexicano. Esse é o ideal, mas, eventualmente, essa ameaça terá que ser enfrentada, de uma forma ou de outra”, disse um dos mais poderosos funcionários da Casa Branca, reacendendo o espectro constante de uma intervenção militar dos EUA no país.

Exatamente um ano atrás, Rubio estava na Cidade do México para assinar um acordo entre os dois países para “desmantelar o crime organizado transnacional”. Dentro do Ministério das Relações Exteriores, em uma coletiva de imprensa lotada, o aliado de Trump declarou: “Nenhum governo está cooperando mais conosco do que o governo mexicano, o governo da presidente do México”.

Durante aquela visita, que foi a sua primeira e, por ora, a última ao país, o discurso de Rubio foi bem diferente. O secretário afirmou que "nunca antes na história houve esse nível de cooperação, com respeito à soberania, e que ela produz resultados concretos". Em outras palavras, ele próprio apresentou o mantra de Sheinbaum: cooperação sem submissão. Agora, após o escândalo envolvendo agentes da CIA em Chihuahua, a acusação contra Rubén Rocha Moya por narcotráfico em Sinaloa e a revogação de vistos de figuras do Morena, partido governista, Rubio já não menciona a soberania.

“Esses grupos representam uma enorme ameaça e estão bem na nossa fronteira. Agora existem drones; eles estão tentando usar drones para traficar drogas e pessoas através da fronteira”, disse o oficial na quarta-feira, refletindo a mais recente obsessão dos Estados Unidos com o uso de drones. Sobre a necessidade de o governo Sheinbaum fazer mais, Rubio acrescentou: “Eles sabem disso; nós já dissemos isso a eles. Esperamos trabalhar em cooperação com eles para fazer mais. Porque, no fim das contas, o verdadeiro problema são os cartéis no México.”

O secretário de Estado está em meio a uma visita de alto nível de três dias à Colômbia, Equador e Peru, três dos países sul-americanos ideologicamente mais próximos da administração Trump. Rubio indicou que sua prioridade é “fortalecer a presença [dos EUA] no Hemisfério Ocidental”: “Acredito que esta viagem e estas reuniões, mais do que qualquer outra coisa, contribuem para avançar ainda mais em direção a esse objetivo”. A agenda, que está seguindo conforme o planejado, está focada no combate ao narcotráfico, uma das prioridades da Casa Branca em seu relacionamento com a América Latina.

 

Fonte: Grabois.org/Jornal GGN/Brasil de Fato/El País