Paulo
Nogueira Batista Jr.: O segundo turno e o lugar do Brasil no mundo
O tema
de hoje, poucos dias depois do primeiro turno, é o significado econômico e
geopolítico do segundo turno. Quais são as implicações, para a economia e para
as relações internacionais do Brasil, do embate que teremos em 25 de outubro?
Vou dar mais peso ao aspecto geopolítico, porque me parece o mais grave. É o
que mais ameaça o Brasil neste segundo turno: o efeito que a eleição terá,
dependendo de quem for eleito, sobre a posição internacional do país num
momento muito especial da situação mundial. O primeiro turno foi apertado, 47%
a 45%. É uma margem relativamente pequena, e a virada é perfeitamente possível.
Não está nada garantido que Flávio Bolsonaro já esteja eleito. Vai depender
muito do que acontecer entre o primeiro e o segundo turnos, como sempre, mas
sobretudo neste caso, em que a disputa foi tão apertada. Não vou falar aqui
como neutro. Sou eleitor do Lula e vou votar nele de novo no segundo turno.
Acho um absurdo ficar neutro. Como diz a famosa frase atribuída a Dante
Alighieri, o pior lugar do inferno está reservado àqueles que permanecem
neutros em tempos de crise. É o caso. Vivemos uma crise sem precedentes, com
ameaças sem precedentes ao país. Mesmo que eu achasse o Lula um desastre, o que
não acho, escolheria o desastre menor. E, no meu entender, o desastre Flávio
Bolsonaro é imenso. Por isso não compreendo quando ouço jovens dizerem que nem
vão votar, porque Lula e Flávio Bolsonaro estariam “na mesma prateleira”. A
falta de discernimento que alguns brasileiros demonstraram nesta eleição, a
falta de conhecimento do que os candidatos representam, é realmente
estarrecedora. Um amigo, economista conhecido de esquerda, me contava que o
filho não foi votar porque acha que tudo é ruim. Um rapaz que teve em casa, a
vida inteira, o diálogo com o pai! Não posso falar muito: na minha própria
família há quem seja neutro e já houve quem votasse em Bolsonaro. Vou começar
pela economia e depois passar ao aspecto internacional, ao qual reservarei mais
tempo.
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O que Lula representa para a economia
Lula já
mostrou o que pode oferecer, e não acredito que num eventual quarto mandato ele
faça algo radicalmente diferente do que fez no terceiro. Como caracterizar essa
política econômica? Razoável, equilibrada, sem grandes lances, basicamente
responsável. Não arriscou muito. Refletiu o fato de o governo se apoiar numa
aliança ampla, que inclui vários setores não ligados à esquerda, o que limita a
capacidade de manobra de um governo sustentado por uma coalizão tão
heterogênea. Além disso, o governo não tinha maioria no Congresso.
Os
dados macroeconômicos não são ruins. Houve crescimento em torno de 3% do PIB no
último ano do governo Bolsonaro e nos três primeiros anos do Lula 3. Agora há
uma desaceleração em curso, bastante nítida, mas a inflação está sob controle.
Deve ficar em torno de 5% neste ano, apesar dos choques externos decorrentes do
ataque ao Irã. É acima do teto da meta, mas não é nada de alarmante. As pessoas
costumam não levar em conta que o Banco Central pratica juros reais absurdos,
com a Selic nas alturas, mesmo com toda a diretoria, presidente e diretores, já
nomeada pelo presidente Lula. Dito isso, Gabriel Galípolo conseguiu modificar
um pouco para melhor o regime de metas: hoje a meta de inflação é contínua, e
não mais referida ao ano-calendário. É uma melhora pequena, mas não
desprezível.
Na
política fiscal, considero realmente um exagero dizer que o Brasil vive uma
crise fiscal, como se propaga muito na mídia corporativa. Temos problemas: a
dívida é alta e está crescendo. Mas o resultado primário das contas públicas,
que é a parte mais sob controle do governo, está, para o setor público
consolidado, em torno de zero, com um déficit da ordem de 0,6% do PIB. A origem
do déficit e do crescimento da dívida é a carga de juros suportada pelo setor
público, que reflete o nível da dívida e a taxa de juros praticada no Brasil.
Essa dinâmica o governo Lula não conseguiu alterar. Há aqui uma distinção a
fazer. Na execução do arcabouço fiscal, o governo conseguiu felizmente excluir
uma série de itens da meta. Uma coisa é o déficit medido para fins do
arcabouço; outra é o déficit efetivo. Quando falo em um déficit primário
pequeno, de 0,6% do PIB, falo do déficit efetivo. Se eu tivesse de escolher uma
variável econômica brasileira que está fora do padrão normal de sanidade,
seria, sem dúvida, a taxa de juros. O Brasil tem, quando não o juro real de
curto prazo mais alto do mundo, um dos mais altos. Um juro dessa magnitude só
beneficia quem tem riqueza financeira expressiva. Quem a tem pode viver
tranquilo sem levantar um dedo. Muito empresário acaba preferindo vender sua
empresa, por exemplo a um grupo estrangeiro, e aplicar confortavelmente o
resultado no mercado financeiro. Aqui o rentista tem liquidez, risco baixo e
juro alto ao mesmo tempo.
O
Brasil é também o paraíso fiscal dos super-ricos, que, graças às deficiências
da legislação e às possibilidades de planejamento tributário, nome elegante
para evasão e sonegação, pagam pouco imposto. Fernando Haddad conseguiu tomar
algumas medidas para atenuar o problema, mas não chegou a resolvê-lo. Contudo,
o meu propósito hoje não é fazer críticas ao governo Lula na área econômica.
Diante do que se avizinha, talvez venhamos a pensar que, quando Haddad era
ministro, éramos felizes e não sabíamos. Em resumo, foi um governo
basicamente razoável na economia. Não fez nada de dramaticamente errado. Fez
menos do que se gostaria, mas não cometeu nenhuma barbaridade. O desemprego
aberto caiu para níveis recordes de baixa, a inflação está controlada, o
crescimento do PIB foi razoável e o déficit primário efetivo é pequeno. De 2027
em diante, caso Lula seja reeleito, não acredito que o quadro macroeconômico se
modifique muito.
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O que esperar de um governo Flávio Bolsonaro
E o que
acontecerá com a economia se Flávio Bolsonaro for eleito? A primeira coisa que
me chama a atenção no candidato, e por consequência na equipe que ele
provavelmente conseguirá montar, é o despreparo. Ele não teve nenhuma
experiência anterior relevante para ser presidente da República. Foi a vida
inteira parlamentar, primeiro estadual, depois federal, e parlamentar medíocre,
que não se destacou por nenhuma atuação importante, assim como o resto da
família, inclusive o pai. Não tem experiência executiva. Que história é essa,
que agora se implantou no Brasil, de achar que alguém pode ir direto para a
Presidência da República? Tivemos no primeiro turno não só o Flávio, mas também
Renan Santos e Augusto Cury, sem currículo prévio que justificasse uma candidatura
presidencial. Os que tinham trajetória eram Ronaldo Caiado, Romeu Zema e o
próprio Lula, que tem tarimba e experiência ampla. É uma grande vantagem dele,
inclusive nas questões econômicas: Lula tem uma experiência prática de decisões
econômicas como presidente que nenhum outro candidato tem.
A falta
de experiência se reflete também na falta de quadros para compor um eventual
governo Flávio Bolsonaro. Lembrem-se do governo do pai: gente basicamente
incompetente, despreparada e oportunista. Eles não têm quadros que conheçam as
questões nacionais, que tenham vivência delas. São improvisadores, e trata-se
de um grupo político ligado à milícia do Rio de Janeiro. O que um grupo com
essas características pode oferecer ao Brasil, em geral e na área econômica em
particular? Se há, entre os que nos ouvem, gente desiludida com Lula, até por
alguns dos motivos que mencionei, e que diz que vai se abster porque Lula seria
um traidor, peço que ponham a mão na consciência. Não se trata de Lula.
Trata-se do país. Lula é o instrumento que temos para defender o país contra a
extrema direita ignorante e contra as ameaças internacionais de que falarei
adiante. Abster-se num momento desses é uma irresponsabilidade.
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O ajuste fiscal e quem paga a conta
O que
Flávio anunciou para a economia? Praticamente nada, generalidades. E isso, de
certo modo, é natural. Se uma tarefa importante do novo governo será ajustar as
contas públicas, vale pensar no que isso significa. Qualquer que seja o
presidente a partir de 2027, para fazer ajuste fiscal terá de tomar medidas que
desagradam a alguém. Normalmente, o ajuste fiscal é, para usar a linguagem dos
economistas, exógeno: os governantes cortam gastos ou aumentam a tributação.
Toda vez que o governo corta um gasto, reduz a renda de alguém. E, quando
aumenta a tributação, alguém paga essa tributação adicional. O ajuste é sempre
custoso do ponto de vista político, e por isso os governos preferem empurrá-lo
com a barriga. Só há uma hipótese em que o ajuste pode ser basicamente indolor:
quando é endógeno, gerado por um crescimento mais significativo da economia.
Pensem, por exemplo, numa economia pequena e exportadora, com alta relação
entre exportações e PIB. Se ela se beneficia de um choque positivo nos termos
de troca ou de um aumento da demanda externa, isso repercute na economia como
um todo. O PIB cresce, aumenta a arrecadação sem tributação adicional e
diminuem gastos cíclicos, como o seguro-desemprego. Esse ajuste endógeno,
porém, requer condições muito especiais. De onde viria, no Brasil, um impulso
de crescimento que dispensasse o governo de medidas duras? Pode-se até
construir um cenário, mas não é fácil de ver.
Quem
será o ministro da Fazenda de um governo Flávio Bolsonaro? Fica aqui uma
conjectura, que é o nome elegante para palpite. Pode ser que ele anuncie o nome
antes do segundo turno, ou depois, se eleito. É muito provável que seja um nome
aceitável para a chamada “turma da bufunfa”, a exemplo do que fez o pai ao
indicar Paulo Guedes, um economista super conservador, ortodoxo, comprometido
com ajuste fiscal e privatizações. Talvez o nome apareça antes do segundo
turno, para consolidar o apoio do chamado mercado, isto é, do capital
financeiro e das grandes corporações, um apoio que já está configurado. Vimos a
reação dos mercados na segunda-feira, logo depois do resultado do primeiro
turno. Especula-se, com razão, que um governo Flávio venha a adotar medidas
recomendadas há anos, com insistência, por economistas ortodoxos ligados ao
mercado: parar de reajustar o salário mínimo em termos reais, desvincular
aposentadorias e pensões do salário mínimo, acabar com os pisos constitucionais
de saúde e educação. Tudo isso teria efeitos positivos sobre o déficit público,
mas à custa de um efeito regressivo na distribuição de renda.
Flávio
faz bem, do ponto de vista dele, em esconder as cartas, se é isso que pretende
fazer com um ministro do agrado da turma da bufunfa. O povo perceberia que
votar nele é votar contra os próprios interesses. O aposentado e o pensionista
que votam em Flávio, se essa conjectura for verdadeira, estão votando contra si
mesmos. Quem depende do salário mínimo para a sua renda também vai pagar um
preço. É previsível que qualquer candidato, e isso vale para o Lula também,
esconda o jogo e não queira ser explícito sobre o que pretende fazer. Nenhum
dos dois fala, por exemplo, em tributar os super-ricos, uma pauta muito
defensável. Quem conhece a estrutura tributária brasileira não há de discordar:
ela beneficia os ricos e super-ricos, que pagam proporcionalmente menos do que
as classes médias e as classes baixas e ainda aplicam seu patrimônio sem risco,
com liquidez e remuneração extraordinária. Por que os super-ricos não saem
daqui? Podem até ameaçar, falar mal do Brasil, mas não saem. Como dizia muito
bem Brizola, a burguesia brasileira não cabe em Miami.
Essa
frase de Brizola inspirou o título do meu livro anterior, O Brasil não cabe
no quintal de ninguém, que voltou a circular porque o presidente Lula a
usou no discurso na ONU.
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A dimensão geopolítica: a soberania sob ameaça
Passo
agora ao que me parece mais grave: a dimensão geopolítica da eleição
brasileira. Não tenham dúvida de que o mundo acompanha esta eleição com enorme
interesse. Estados Unidos, Europa, China, Rússia, América Latina, todos estão
voltados para o Brasil. Há quem peça aos brasileiros que salvem a América
Latina, que resistam votando num candidato independente do governo Trump. Vou
ser claro: do ponto de vista geopolítico, eleger Flávio Bolsonaro é um desastre
monumental. Tenho 71 anos de idade e nunca vi a soberania brasileira ameaçada
como está hoje, pela conjugação de dois fatores. O primeiro é a presença, nos
Estados Unidos, de um governo com ambições imperiais, especialmente em relação
à América Latina. O segundo é um candidato que se apresenta, e a palavra é
forte, mas não é exagero, como candidato a vassalo do presidente Trump. Não
estou fazendo caricatura nem dando uma opinião partidária enviesada. Estou me
baseando em fatos. Há pouco tempo, houve uma troca de correspondência entre
Flávio Bolsonaro e Marco Rubio, secretário de Estado dos Estados Unidos,
encarregado pelo presidente Trump de cuidar das relações com a América Latina.
Rubio é filho de cubanos exilados e tem um enorme ressentimento em relação a
Cuba e a várias forças políticas latino-americanas. A carta de Flávio não foi
divulgada, mas a resposta de Rubio, sim, e ela contém um parágrafo assustador.
Rubio agradece a Flávio a generosa oferta de, caso seja eleito, pôr uma equipe
de transição à disposição do governo dos Estados Unidos.
Vocês
se dão conta da gravidade disso? É algo sem precedentes. Um grupo de transição
se forma entre um governo que sai e um governo eleito, entre a eleição e a
posse, para facilitar a passagem de serviço entre dois governos nacionais. Que
história é essa de construir um grupo de transição com o governo
norte-americano? É um escândalo. Se a mídia corporativa brasileira não fosse
tão colonizada, isso estaria sendo amplamente divulgado. No meu modo de ver,
seria suficiente para pedir a impugnação da candidatura, por violar um
princípio constitucional básico, que é a defesa da soberania. Não se trata só
do caráter servil da família Bolsonaro em relação aos Estados Unidos. Jair
Bolsonaro bateu continência para a bandeira norte-americana e teve uma relação
de imitação servil com o primeiro governo Trump, cujo mandato coincidiu em
grande parte com o seu. O problema é que agora é muito pior. Não
necessariamente porque Flávio seja mais servil que o pai, deve ser a mesma
coisa, talvez pior. A grande diferença está no ambiente internacional. Temos
hoje um Trump 2, que voltou em 2025 super agressivo, marcando uma fase de
extrema agressividade do imperialismo norte-americano. Há quem fale em
hiperimperialismo, termo que me parece adequado.
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O hemisfério ocidental como quintal
O
principal problema são os Estados Unidos. Vale a pena ler os documentos
norte-americanos de política internacional, que estão disponíveis na internet:
a Estratégia de Segurança Nacional, do fim de 2025, e a Estratégia de Defesa
Nacional, de janeiro de 2026. Nos dois, o que se lê sobre o hemisfério
ocidental é a afirmação, sem nenhum disfarce, de que os Estados Unidos
pretendem manter ou recuperar uma hegemonia incontestável na região, entendida
como o espaço que vai da Patagônia à Groenlândia. Isso foi repetido várias
vezes pelo presidente e por seus ministros, notadamente Marco Rubio. O
secretário de Defesa, Pete Hegseth, chegou a usar o termo “quintal”, backyard.
Eles não concordam com o frase-título daquele meu livro, “O Brasil não cabe no
quintal de ninguém”, usado com grande efeito por Lula no seu discurso na ONU.
Acham que o Brasil cabe, e deve caber, no quintal deles. Por quê? Porque o
Brasil é tão grande, é o maior país da América Latina, que, se não estiver
submetido ao projeto imperial norte-americano, esse projeto será
necessariamente incompleto. Olhem a gravidade do momento. Quais países da
América Latina não estão hoje na órbita dos Estados Unidos, quais não seguem o
modelo Milei? O México de Claudia Sheinbaum, uma figura excepcional. Além de
ser mulher, é judia, uma judia super esclarecida, que não apoia o sionismo nem
Israel e tem tido uma posição muito digna, interna e internacionalmente. Há
também dois países pequenos e anti-imperialistas por tradição, Cuba e
Nicarágua. E, na América do Sul, o Brasil. Ao nosso lado, só o Uruguai e
Suriname, países que, com todo o respeito, não têm o peso de Colômbia,
Argentina ou Peru. Estamos cercados por governos que se submetem à estratégia
norte-americana, e os que não se submetem estão sob pressão.
Foi
dado pouco destaque, acredito, à questão da Groenlândia. Trump ameaçou várias
vezes os seus aliados europeus, notadamente a Dinamarca, com uma ação militar e
acabou obtendo, na base da ameaça, um acordo com a Dinamarca e a Groenlândia
que consolida a já significativa presença militar norte-americana na ilha. É
uma ação inteiramente consistente com a estratégia anunciada nos documentos
oficiais. Cuba está sujeita a um reforço dramático do embargo, um embargo
criminoso, com fortes consequências humanitárias. Mas resiste. Minha conjectura
é que o governo Trump ainda não agiu de maneira mais direta, tentando uma
invasão, por dois fatores. O ataque ao Irã não está indo bem, e abrir uma nova
frente nessas condições seria uma temeridade. E há as eleições de meio de
mandato, decisivas para Trump: estão em jogo as duas casas do Congresso, e ele,
impopular, corre o risco de perder o controle de ambas, tornar-se um “pato
manco” e até sofrer um impeachment. Não sei o que fará em relação a Cuba
depois das eleições parlamentares de novembro nos Estados Unidos. Na Venezuela,
os Estados Unidos tiveram uma vitória espetacular. Decapitaram o regime
sequestrando o presidente, levado a julgamento nos Estados Unidos, e o regime
venezuelano submeteu-se passivamente aos seus desígnios. Virou um protetorado
norte-americano. Um país grande e importante, nosso vizinho, em que Delcy
Rodríguez está subordinada ao vice-rei Marco Rubio.
Trump
está impopular nos Estados Unidos e no mundo. Outra conjectura: ele adotou,
diante da eleição brasileira, uma posição de falsa neutralidade. Os
estrategistas norte-americanos devem ter percebido que o apoio explícito de
Trump a um candidato pode mais atrapalhar do que ajudar. Foi o que aconteceu no
Canadá, onde se elegeu Mark Carney, que não era o preferido de Trump, e na
Austrália. Devem ter avaliado que convém ficar aparentemente neutros para não
atrapalhar o seu vassalo.
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Terras raras e minerais críticos no alvo
Por que
o Brasil precisa tomar muito cuidado? Porque temos 8,5 milhões de quilômetros
quadrados, uma grande população e amplas reservas de recursos naturais em
várias áreas, notadamente de minerais críticos e terras raras, cujo interesse
estratégico aumentou muito. Um dos objetivos dos Estados Unidos em relação ao
Brasil, seja quem for o vencedor, mesmo que seja Lula, é pressionar o governo
brasileiro a abrir-se ao interesse norte-americano nessa área: autorizar
empresas norte-americanas e garantir o suprimento de matéria-prima por um
período longo. Foi o que aconteceu com a Serra Verde. Os norte-americanos já
obtiveram um primeiro avanço durante o próprio governo Lula, com a ajuda de
Ronaldo Caiado, que não por acaso apoia Flávio Bolsonaro: fincaram o pé numa
reserva importante em Goiás. No embate entre Trump e Xi Jinping no ano passado,
um dos fatores da vitória tática chinesa foi justamente o fato de a China deter
a maior reserva de terras raras do mundo e usá-la como alavanca. Onde mais há
terras raras, além da China? Neste nosso país, que tem a segunda maior reserva,
mas está situado no hemisfério ocidental, onde Estados Unidos pretendem exercer
uma hegemonia incontestável. O Brasil virou, como nunca, alvo dos interesses
estratégicos dos Estados Unidos, que mantêm um foco especial no hemisfério
ocidental, mas não abandonaram o projeto de hegemonia global.
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Como o Brasil deve se preparar
Encerro
com uma reflexão baseada em grande parte no meu livro Estilhaços: como o
Brasil deve se preparar para esta nova era internacional, muito diferente
daquela a que estávamos acostumados? Vejo muitos jovens na plateia. O mundo que
vocês vão enfrentar é muito mais difícil do que o que a minha geração
enfrentou, e o nosso já não era fácil. O brasileiro precisa abandonar uma
postura acomodada, a de achar que com soft power, diplomacia e uma boa
conversa vamos conseguir nos proteger. Temos de estar muito bem preparados,
inclusive psicologicamente, como país, para enfrentar as tempestades e os
desafios imensos que virão. Muita coisa é importante para nós, no plano social
e econômico, mas a nossa posição internacional é a questão mais urgente, porque
o inimigo está diante da nossa porta. Normalmente não se usa essa linguagem,
chamar outro país de inimigo, mas, diante da postura que os Estados Unidos
estão tomando, ela é apropriada.
No
campo psicológico, temos primeiro de superar o complexo de inferioridade que
nós, brasileiros, temos – o famoso complexo de vira-lata que Nelson Rodrigues
denunciava. Esse complexo resulta de algo antigo e arraigado, a
colonização cultural e mental que sofremos ao longo dos séculos e da qual ainda
não escapamos. Está na hora de jogar ao mar essa tradição de subserviência
colonial. As chamadas elites brasileiras são, em grande parte, elites
colonizadas, cuja referência principal são os Estados Unidos, apesar de o mundo
estar mudando enormemente.
No
plano econômico, temos de buscar autossuficiência em áreas estratégicas,
evitando depender de fornecedores estrangeiros, especialmente dos localizados
em países perigosos para nós. As cadeias de produção devem estar aqui dentro ou
em países confiáveis. Essa busca gera, evidentemente, perda de eficiência
econômica, não há dúvida. Mas, neste momento, a segurança nacional passa à
frente da maximização da eficiência. E já passou o tempo em que se podia
defender um projeto de desenvolvimento baseado na abertura comercial e
financeira como alavanca.
Por
fim, uma consideração mais positiva. É difícil dizer isto depois do primeiro
turno, mas existe um Brasil muito diferente daquele que apareceu em parte das
vitórias eleitorais. Talvez vocês, jovens, nem tenham noção de que ele existe.
Já foi mais forte, mas existe ainda. É um Brasil que o mundo admira pela
cordialidade, pela simpatia, pela generosidade, pelo sentimento humano. Há,
claro, um lado sinistro, ligado à escravidão e à injustiça social, que nunca
conseguimos eliminar. Mas há esse lado positivo, que procurei destacar em Estilhaços.
Não adianta ser um país maravilhoso, exemplar, se você é muito pequeno: não
terá impacto internacional. Mas um gigante como o Brasil, quinto maior
território e sétima maior população do mundo, oitava maior economia, se for bem
direcionado, no rumo de uma política humana e justa, que evite agressões, com o
nosso pacifismo reconfigurado, pode trazer ao mundo uma mensagem, uma palavra
nova. E o mundo precisa muito disso, porque as barbaridades, as injustiças e a
ignorância que apareceram com tanta força no primeiro turno não são só do
Brasil. Estão nos Estados Unidos, na Europa, na Argentina. O que é Flávio senão
um candidato a Milei brasileiro?
Cuidado
com essa expressão que o brasileiro usa muito, “só no Brasil”. Quando o
brasileiro diz isso, pode ter certeza de que não é só no Brasil. É que ele não
olha para o exterior e tem esse sentimento de inferioridade. Acredito que o
Brasil pode trazer uma mensagem inovadora ao mundo, dependendo muito, é claro,
do rumo que tomaremos neste segundo turno. Vocês podem dizer que estou
delirando. Repito o que digo em Estilhaços: não é pelo delírio que se
chega à essência das coisas?
Fonte:
Brasil 247


