sábado, 27 de junho de 2026

EUA x Brasil: a intervenção subterrânea

Pete Hegseth, Secretário de Guerra dos EUA, anunciou em 10 de junho, na base naval da Baía de Guantánamo, que Washington está “retomando o controle do nosso hemisfério” e que, para isso, já está implantando na América Latina a mesma inteligência, as mesmas redes e a mesma força militar usadas contra a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio, em coordenação com os países aliados do Escudo das Américas.

“Estamos caçando vocês como caçamos a Al-Qaeda e o Estado Islâmico no Oriente Médio – com as mesmas redes e a mesma inteligência”, disse Hegseth às tropas, em uniforme de treinamento. Invocou a Doutrina Monroe do século XIX e o que ele chamou de novo “Corolário Trump” – uma atualização do Corolário Roosevelt que trata o hemisfério ocidental como “território chave” para a segurança nacional dos EUA.

No Brasil, maior país e economia da América Latina, essa nova arquitetura deixou de ser uma abstração em 5 de junho. O Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) foram designados pelos Estados Unidos como “Organizações Terroristas Estrangeiras” (FTO, na sigla em inglês) e “Terroristas Globais Especialmente Designados” (SDGT, na sigla em inglês) – as mesmas categorias legais aplicadas à Al-Qaeda e ao Estado Islâmico. Mas o Brasil não foi o primeiro. A campanha de designação já durava mais de um ano. Em 20 de fevereiro de 2025, oito cartéis latino-americanos foram designados como FTOs e SDGTs de uma só vez: Tren de Aragua, MS-13, Cartel de Sinaloa, CJNG, Cartel del Noreste, La Nueva Familia Michoacana, Cartel del Golfo e Carteles Unidos. Em outubro de 2025, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros do Departamento do Tesouro dos EUA (OFAC) foi ainda mais longe. Incluiu o presidente colombiano Gustavo Petro – um chefe de Estado eleito e em exercício – diretamente à Lista SDN.

Agora, o OFAC, órgão responsável pela aplicação de sanções econômicas e pelo congelamento de ativos de pessoas e entidades sancionadas – atualizou sua lista de sanções (a Lista de Nacionais Especialmente Designados e Pessoas Bloqueadas, ou Lista SDN) para classificar o PCC e o Comando Vermelho como um “Grupo Terrorista Transnacional” e uma “Organização Criminosa”. Embora a designação criminalize a própria entidade como terrorista, a inclusão significa que qualquer indivíduo, banco, empresa ou instituição – dentro ou fora dos Estados Unidos – com qualquer exposição às organizações designadas fica sujeito a sanções secundárias e processo criminal. Este instrumento garante o isolamento financeiro global de qualquer entidade classificada, estendendo o alcance da doutrina muito além das fronteiras norte-americanas.

Como resultado, o Brasil está sendo inserido na mesma estrutura legal antiterrorista aplicada a esses grupos no Oriente Médio, em um contexto de crescente presença militar dos EUA na região, incluindo Paraguai e Argentina. Empresas, instituições e indivíduos brasileiros estão agora potencialmente sujeitos a sanções do OFAC mesmo fora dos Estados Unidos, e passíveis de sanções sob leis arbitrárias de imigração e segurança nacional dentro do país.

Lula, o presidente brasileiro, é alvo do governo Trump.

Não é mera improvisação retórica que a família Bolsonaro tente vincular Lula e o Partido dos Trabalhadores (PT) ao PCC desde 2022 – uma alegação falsa que levou o TSE a ordenar a remoção das publicações relevantes e a multar Jair Bolsonaro. Flávio Bolsonaro agora reativa a mesma estratégia em escala internacional, buscando transformar a oposição ideológica em suspeita criminal e pavimentar o caminho para a criminalização internacional de seus adversários – incluindo Lula pessoalmente, em ano eleitoral.

<><> A esquerda associada pelos EUA aos grupos terroristas

Hegseth não fez sua declaração em Guantánamo como ex-apresentador do programa Fox & Friends Weekend, posto que um dia ocupou, mas como chefe civil do Pentágono — a maior máquina de guerra do mundo — e o oficial responsável por todo o aparato militar dos EUA. Seu cargo é o segundo mais alto na cadeia de comando militar, abaixo apenas do presidente.

O que Hegseth descreve não é uma metáfora. Trata-se da transferência literal da doutrina, dos métodos e da infraestrutura da Guerra ao Terror pós-11 de Setembro para a nova guerra ao terror de Trump contra o “extremismo violento de esquerda” transnacional. A nova arquitetura foi inaugurada pela Estratégia Nacional de Contraterrorismo de 2026 , assinada por Trump em 6 de maio.

Esse documento fundiu, pela primeira vez na história dos EUA, três categorias oficiais de ameaça terrorista em uma só: “narcoterroristas e gangues transnacionais”, “terroristas islâmicos tradicionais” e – algo sem precedentes – “extremistas violentos de esquerda, incluindo anarquistas e antifascistas”.

Hegseth citou a Estratégia como a Carta Magna da ofensiva para “retomar nosso hemisfério”, alegando que os presidentes anteriores “ignoraram a Doutrina Monroe por tempo demais” e “fingiram que nosso próprio quintal não importava”.

Não é coincidência que Hegseth tenha passado 45 minutos na Baía de Guantánamo — um local de tortura e de ocupação ilegal do território cubano pelos EUA — elogiando a operação militar que capturou o presidente venezuelano Nicolás Maduro em minutos. Ele saudou essa operação contra a Venezuela como o grande ensaio geral para colocar a doutrina em prática.

A nova guerra de Trump contra o terror afasta-se da doutrina do terrorismo “árabe-religioso”, deslocando a guerra contra o jihadismo para o cerne da luta ideológica contemporânea da era pós-7 de outubro dentro da própria sociedade civil – incluindo o combate ao “extremismo de esquerda”.

Diversos documentos e atos oficiais do governo Trump estabelecem uma doutrina clara, bem documentada e oportunista contra uma nova forma de suposto terrorismo ideológico: o “extremismo violento de esquerda”. A estratégia é global. Nos Estados Unidos e na Europa, essa doutrina se traduz em campanhas de securitização e criminalização da sociedade civil – sobretudo dos movimentos de solidariedade à Palestina e de imigração –, enquanto na América Latina assume a forma de uma ruptura muito mais radical.

>>>> A arquitetura legal e militar para intervir na América Latina

Legalmente, a estratégia para a América Latina consiste em fundir “narcoterrorismo” e “extremismo de esquerda” em uma única categoria e atribuí-la a governos eleitos e líderes considerados hostis a Washington – abrindo, assim, as portas até mesmo para a intervenção militar.

<><> 1. Designações de Terrorismo

Classificar as organizações criminosas na mesma categoria jurídica da Al-Qaeda libera os poderes de ação militar extraterritorial usados no período pós-11 de setembro. A América Latina emergiu como uma prioridade política para o governo Trump desde o primeiro dia de seu mandato. Em 20 de janeiro de 2025, dia de sua posse, Trump designou Cuba como um Estado Patrocinador do Terrorismo (SST), enquanto a Venezuela foi deliberadamente excluída dessa lista.

Deliberadamente, pois naquele mesmo dia Trump assinou uma ordem executiva inaugurando uma estratégia diferente, a ser testada na Venezuela: um processo formal para designar, em linguagem ampla e abrangente, “certos cartéis” e “outras organizações” como Organizações Terroristas Estrangeiras ou Terroristas Globais Especialmente Designadas. Mais importante ainda, o documento alterou a própria definição de cartel, estabelecendo que tais grupos vão além do crime organizado tradicional, em virtude de sua alegada convergência com atores extra-hemisféricos, incluindo governos hostis.

Em novembro de 2025, Hegseth designou o Cartel de los Soles como uma Organização Terrorista Estrangeira e insistiu publicamente que Nicolas Maduro era “o líder desse cartel” – precisamente nos termos da nova definição da ordem executiva.

O Cartel de los Soles nunca existiu. O termo é uma gíria venezuelana da década de 1990, usada genericamente para se referir a líderes corrompidos pelo narcotráfico. O próprio Departamento de Justiça (DOJ) admitiria posteriormente, em juízo, que a organização não existe, e órgãos técnicos do governo norte-americano – a DEA, o Departamento de Estado, o Serviço de Pesquisa do Congresso e o Relatório Mundial sobre Drogas do UNODC – contradizem a mentira que justificou a invasão, não identificando redes de produção ou distribuição de fentanil na Venezuela.

Tampouco eram necessárias armas de destruição em massa — a mentira contada por Bush e Tony Blair a seus respectivos legislativos para justificar a invasão e destruição do Iraque. A mera designação foi suficiente para abrir o caminho legal para a invasão de um Estado soberano. Como o próprio Hegseth reconheceu em entrevista à One America News Network, declarar o Cartel de los Soles uma organização terrorista infiltrada no Estado venezuelano traria “uma série de novas opções” sobre como os Estados Unidos lidam com quem acusam de narcoterroristas na região.

<><> 2. Coalizões de países aliados e tentativa de isolar a China

Em seu discurso, Hegseth também anunciou a expansão do Escudo das Américas – a coalizão anti-narcoterrorismo – como um mecanismo para operar dentro de países aliados, “descobrindo onde esses terroristas designados operam, onde produzem suas drogas”, replicando o modelo de operações especiais usado no Afeganistão e no Iraque.

Em seu discurso, Hegseth também anunciou a expansão do Escudo das Américas — a coalizão anti-narcoterrorismo — como um mecanismo para operar dentro dos países aliados.

As mesmas estruturas de vigilância, capacidades de fusão de dados e operações especiais construídas no Oriente Médio estão sendo replicadas no Caribe, na Amazônia e no Pacífico Sul. O Escudo das Américas é o equivalente à coalizão da “guerra ao terror” pós-2001. Bukele e Milei desempenham os papéis que o presidente paquistanês Parvez Musharraf e o Rei Abdullah, da Jordânia desempenharam no Oriente Médio.

Dois meses após a invasão da Venezuela e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e de Cilia Flores, em 7 de março, Trump reuniu chefes de Estado de doze nações latino-americanas em seu resort de golfe em Doral, Flórida, para a cúpula inaugural do Escudo das Américas (oficialmente Coalizão das Américas Contra os Cartéis – ACCC). Os líderes das maiores economias da região – Brasil, México e Colômbia – não foram convidados, enquanto o autocrata Nayib Bukele, de El Salvador, e Javier Milei, da Argentina, estavam na lista de convidados. A narrativa oficial era a luta contra os cartéis, mas a proclamação do Escudo falava em repelir “influências estrangeiras” e “interferências no hemisfério”. A linguagem é direcionada à China, cujo comércio com a região aumentou de US$ 12 bilhões em 2000 para US$ 515 bilhões em 2024. A coalizão reúne 18 países com o objetivo de expandir o compartilhamento de informações e a interdição marítima no Caribe e no Pacífico.

<><> 3. Bases Militares

Guantánamo, as bases argentinas sob o Decreto 264/2026, o escritório do FBI no Equador e o SOFA no Paraguai tornam-se os equivalentes funcionais das bases americanas no Kuwait, Catar e Bahrein. Cuba ainda resiste.

Nos dias que se seguiram à cúpula, a arquitetura regional do Escudo das Américas começou a tomar forma. Em 10 de março, sob um acordo negociado entre Marco Rubio e o ministro das Relações Exteriores do Paraguai, Rubén Ramírez Lezcano, a Câmara dos Deputados do Paraguai aprovou um Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) que permite a presença de militares e civis dos EUA no país, com imunidade penal equivalente à do corpo diplomático. O presidente Lula expressou preocupação com a possibilidade de tropas americanas serem destacadas ao longo da fronteira entre o Paraguai e o Brasil.

Um dia depois, em 11 de março, os Estados Unidos inauguraram o primeiro escritório permanente do FBI no Equador, coroando uma série de acordos de segurança assinados em apenas duas semanas entre Washington e Quito – incluindo, em 3 de março, a primeira operação militar conjunta “antidrogas” em solo latino-americano, liderada pelo Comando Sul. Analistas observam que a posição estratégica do Equador – com acesso direto ao Pacífico e às Ilhas Galápagos – o torna um centro privilegiado para a projeção de inteligência dos EUA na região.

No processo de substituição do que resta da diplomacia pela militarização, Milei forneceu um aliado obediente e estruturalmente indispensável ao Escudo das Américas. O Decreto de Necessidade e Urgência 264/2026, assinado por ele em 17 de abril, autorizou a entrada de pessoal e equipamento das Forças Armadas dos Estados Unidos para o exercício “Daga Atlântica”, entre 21 de abril e 12 de junho de 2026, na Base Naval de Puerto Belgrano, na Guarnição Militar de Córdoba e na VII Brigada Aérea em Moreno, Buenos Aires – em paralelo com o destacamento do porta-aviões nuclear USS Nimitz nas águas do Atlântico Sul.

Mesmo enquanto a estrutura legal estava sendo formalizada, Washington já havia mobilizado navios de guerra, posicionado caças F-35 em Porto Rico e enviado o porta-aviões USS Gerald R. Ford para o Caribe — um poder de fogo claramente desproporcional para combater cartéis, que não possuem força aérea. Desde 2 de setembro de 2025, os Estados Unidos realizaram pelo menos 44 ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental, em ações que a ONU classificou como execuções extrajudiciais. Em março de 2026, um oficial da defesa confirmou ao Congresso que 47 embarcações haviam sido atacadas e pelo menos 157 pessoas mortas, incluindo pescadores de Trinidad e Tobago e da Colômbia. A ONU determinou que ações militares, diretas ou secretas, contra outro Estado soberano constituiriam “uma violação ainda mais grave da Carta da ONU”.

O próprio comandante do Comando Sul (Southcom) – a estrutura militar responsável pelas operações dos EUA na América Latina e no Caribe – o almirante Alvin Holsey expressou preocupações internas sobre a legalidade das operações e apresentou sua renúncia em uma tensa reunião com Hegseth em 6 de outubro.

<><> 4. A Palantir e a vigilância em massa em território estrangeiro

A dimensão tecnológica dessa arquitetura, contudo, chegou com outra figura do mundo corporativo – que tem profundas raízes nos serviços de inteligência dos Estados Unidos e de Israel. Em 12 de abril de 2026 – precisamente quando as tropas americanas começavam a ocupar posições em bases argentinas – Peter Thiel desembarcou em Buenos Aires acompanhado por familiares, assessores e segurança pessoal. Em 23 de abril, foi recebido na Casa Rosada por Milei e pelo Ministro das Relações Exteriores, Pablo Quirno. Milei descreveu o encontro como uma conversa “maravilhosa” entre “anarcocapitalistas”.

Thiel, ex – sócio de Jeffrey Epstein , é cofundador e presidente da Palantir Technologies, uma empresa focada em integração de dados, análise de inteligência e contratos governamentais.

Desde 2014, a Palantir fornece tecnologia para agências de segurança israelenses e firmou uma “parceria estratégica” com o Ministério da Defesa de Israel para apoiar o “esforço de guerra”, realizando uma reunião do conselho em Tel Aviv “em solidariedade” a Israel. Um relatório da relatora especial da ONU, Francesca Albanese, concluiu que havia “motivos razoáveis” para acreditar que a Palantir forneceu tecnologia de policiamento preditivo e a plataforma de inteligência artificial que alimenta os sistemas “Lavender”, “Gospel” e “Where’s Daddy?” – sistemas que geram automaticamente listas com dezenas de milhares de alvos em Gaza. A Palantir também fornece tecnologia para o Centro de Coordenação Civil-Militar de Gaza, o complexo militar americano em Kiryat Gat, criado em outubro de 2025 para implementar o plano de Trump para Gaza.

Trata-se da mesma empresa que, nos Estados Unidos, acumulou contratos com o ICE no valor de US$ 287 milhões entre 2011 e 2025, fornecendo o sistema que dá a cada agente de imigração acesso a uma rede de bancos de dados públicos e privados sobre qualquer indivíduo. A Palantir está se infiltrando no Brasil por meio do apresentador de TV Luciano Huck e do ex-ministro do Supremo Tribunal Federal Luis Roberto Barroso.

<><> A natureza sem precedentes da nova guerra de Trump contra o terror.

Os Estados Unidos estão inaugurando, diante de nossos olhos, uma doutrina de segurança hemisférica e global que é perigosamente confundida como mera continuação – mais explícita e agressiva – do expansionismo tradicional americano. Uma vasta arquitetura jurídica, política e militar está sendo elaborada pelo governo Trump e seus parceiros internacionais, incluindo Israel e o lobby israelense, para a chamada Nova Guerra ao Terror contra um “extremismo de esquerda transnacional” global da era pós-7 de outubro.

Esse nível de agressão vai muito além de tudo o que os EUA tenham feito na região nas últimas quatro décadas, desde a Operação Condor, a Guerra Contra e os golpes de Estado no Chile, Argentina, Brasil, Guatemala e outros países.

Documentos e atos oficiais do governo Trump estabelecem uma doutrina clara, coerente, oportunista e bem documentada contra uma nova forma de terrorismo. Há uma mudança paradigmática na era pós-7 de outubro, expressa como política de Estado pelo próprio governo Trump, que equipara sistematicamente os protestos pró-Palestina ao terrorismo e ao antissemitismo. Um exemplo revelador é o Projeto Esther, concebido pela Heritage Foundation – o mesmo grupo por trás do Projeto 2025 – que consolidou essa retórica em políticas institucionais explícitas em campi universitários. Atos como participar de protestos pró-Palestina foram enquadrados como antissemitismo e como fornecimento de apoio material ao terrorismo, de modo que os manifestantes poderiam ser deportados ou enfrentar prisão, sanções civis ou outras consequências graves.

Trata-se de uma tentativa de reorganizar a hegemonia dos EUA e do Norte global, expandindo o vocabulário do antiterrorismo para abranger o “extremismo de esquerda” e a dissidência na sociedade civil – abrindo o que a lei chama de “estados de exceção” transnacionais, desacreditando as garantias democráticas e pavimentando o caminho para a ascensão da extrema-direita e sua interseção com o libertarianismo americano: uma corrente que prega a dissolução do Estado e a soberania absoluta do indivíduo como princípio político.

 

Fonte: Por Sara Vivacqua, no Monthly Review Online | Tradução: Antonio Martins, em Outras Palavras

 

Big techs exploram e vendem nossas vulnerabilidades emocionais, diz pesquisadora britânica

Antes mesmo de familiares e amigos, as plataformas digitais provavelmente sabem se você vai casar ou está grávida. Sabem quais tênis serão tendência entre adolescentes. E, segundo a pesquisadora britânica Kaitlyn Regehr, também conseguem identificar quando uma criança apresenta sinais de automutilação ou risco de suicídio.

"É errado assumir que formas de proteção não poderiam ser implementadas. Elas poderiam, sim — se fossem obrigadas", afirmou à BBC News Brasil a autora de Nação Smartphone, lançado no Brasil em março pela editora Vestígio.

Nesta segunda-feira (15/6), o Reino Unido anunciou que vai proibir menores de 16 anos de usar as principais plataformas de redes sociais, incluindo TikTok, Facebook, Instagram e X, o antigo Twitter.

Crianças e parte dos adolescentes também não poderão mais fazer transmissões ao vivo nem conversar com estranhos em aplicativos de jogos. A regulamentação deve ser implementada até o Natal, com efeitos práticos previstos para o início de 2027, segundo o primeiro-ministro.

No Brasil, o debate sobre a regulamentação das big techs também ganhou novo impulso. No dia 20 de maio, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) assinou dois decretos que ampliam a fiscalização sobre redes sociais e regulamentam decisões recentes do Supremo Tribunal Federal (STF) sobre o Marco Civil da Internet.

As medidas dão à Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD), ligada ao Ministério da Justiça, poder para monitorar se empresas estão cumprindo obrigações estabelecidas pela Corte, incluindo atuação proativa contra conteúdos relacionados a crimes graves, como indução ao suicídio, terrorismo e violência contra mulheres.

O movimento é visto pelo governo como uma tentativa de avançar sobre um tema que travou no Congresso com o chamado PL das Fake News. Em 2023, grandes empresas como o Google já haviam travaram uma batalha contra a PL 2630 — um projeto que estipulava regulamentação e fiscalização de plataformas digitais.

Já a oposição afirma que os decretos abrem espaço para censura indireta e criam insegurança jurídica ao impor obrigações às plataformas sem aprovação do Legislativo.

O debate ocorre em meio a uma pressão crescente, no exterior, para responsabilizar empresas de tecnologia não apenas pelo conteúdo publicado nas redes, mas também pelo funcionamento de algoritmos e sistemas de recomendação.

Em março, em uma decisão considerada histórica, um júri popular na Califórnia concluiu que Meta e Google contribuíram para uma crise de saúde mental entre jovens por meio do design do Instagram e do YouTube.

O processo foi movido por uma jovem que afirmou ter desenvolvido dependência das plataformas ainda na infância e sofrido de dismorfia corporal, depressão e pensamentos suicidas. As empresas foram condenadas a pagar US$ 6 milhões em indenização.

Para Regehr, o caso representa um marco porque desloca o foco do debate sobre liberdade de expressão para o funcionamento das próprias plataformas — especialmente seus sistemas algorítmicos de recomendação.

"Não se tratava do direito de alguém publicar sua jornada suicida, mas se a Meta tinha o direito de oferecer algoritmicamente esse conteúdo a uma criança", afirmou.

Regehr atua diretamente na formulação de políticas públicas e colaborou com o Online Safety Act (Lei de Segurança Online, na tradução para o português), legislação aprovada no Reino Unido em 2023 que obriga plataformas digitais a proteger usuários de conteúdos ilegais e nocivos, com foco especial em crianças e adolescentes.

Segundo ela, o modelo de negócios das redes sociais é estruturado justamente para maximizar atenção — ainda que isso signifique amplificar conteúdos nocivos, polarização e vulnerabilidades emocionais.

"Desinformação costuma ser mais atraente do que a verdade, e conteúdos que exploram nossas vulnerabilidades conseguem nos manter ali por mais tempo. É essa atenção extra que os anunciantes estão pagando para obter."

Para Regehr, o debate sobre segurança digital precisa ir além da remoção de conteúdos ilegais após o dano já ter ocorrido e passar a discutir a própria arquitetura das plataformas.

"Precisamos pensar muito mais em segurança desde o design", afirma. "As plataformas continuam sendo viciantes."

<><> Leia abaixo a entrevista.

·        Recentemente um julgamento concluiu que plataformas da Meta e Google foram desenhadas intencionalmente para serem viciantes e contribuíram para dismorfia corporal, depressão e outros problemas durante a infância. Decisões como esta levam a mudanças estruturais ou são simbólicas?

Kaitlyn Regehr - O julgamento sobre vício em redes sociais na Califórnia foi um momento muito importante, especialmente para os defensores dessa pauta.

Só para contextualizar: nos Estados Unidos, as plataformas de redes sociais são protegidas pela Seção 230. Isso significa que elas não são classificadas como editoras responsáveis pelo conteúdo publicado em suas plataformas, mas mais como grandes indexadoras.

Mas o que foi significativo nesse caso é que ele não tratava do direito à publicação, mas sim do direito à disseminação. Ou seja, não era sobre o direito de alguém à liberdade de expressão ou sobre poder publicar sua jornada suicida, mas sobre se a Meta tinha o direito de oferecer algoritmicamente esse conteúdo suicida a uma criança, por exemplo.

O foco estava no processo tecnológico, e não no conteúdo em si. E, como Meta e YouTube foram considerados responsáveis nesse julgamento, isso abre espaço para começarmos a questionar esses processos tecnológicos viciantes e manipuladores, que basicamente ditaram nossa vida digital nas últimas duas décadas.

Isso torna o momento muito importante, tanto em termos de conscientização pública quanto de potencial de mudança futura.

Agora, o fato de a Meta e o Google terem sido responsabilizados nesse julgamento não significa que as plataformas tenham mudado até agora. Elas continuam sendo plataformas viciantes. Ainda tendem a priorizar conteúdos que capturam atenção.

E, quando falamos em conteúdos que capturam atenção, normalmente falamos de conteúdos que priorizam ódio, dano e desinformação, porque isso prende mais a atenção.

Sabemos que a desinformação costuma ser mais atraente do que a verdade, e que conteúdos nocivos ou que exploram nossas vulnerabilidades conseguem nos manter ali por mais tempo. E é essa atenção extra que os anunciantes estão pagando para obter. Esse é o modelo.

É por isso que frequentemente vemos danos sendo priorizados, especialmente para jovens e adolescentes. Então, o fato de isso ter sido atacado judicialmente é significativo, mas ainda não estamos seguros. E ainda precisamos usar formas eficazes de proteção e de retomada de controle sobre esses processos tecnológicos.

·        As empresas costumam argumentar que oferecem controles parentais e ferramentas de bem-estar digital. Por que isso não tem sido suficiente?

Regehr - Há pesquisas indicando isso. Um estudo muito importante da NYU, publicado recentemente, sugere que uma quantidade muito limitada dessas ferramentas é realmente eficaz. Sabemos que muitas delas simplesmente não funcionam. E as que funcionam são muito fáceis para as crianças burlarem.

Além disso, mesmo quando essas ferramentas estão ativas e sendo usadas por adultos, há poucas evidências de que realmente melhorem nosso bem-estar digital. Uma das melhores coisas que podemos fazer pelo nosso bem-estar digital é simplesmente não levar o celular para o quarto quando vamos dormir. Esses são limites saudáveis que podemos estabelecer.

Também sou muito crítica dessa ideia de que empresas de tecnologia precisam nos oferecer soluções para um vício que elas mesmas criaram. Como se precisássemos comprar mais produtos delas ou investir mais nas tecnologias delas para resolver uma dependência que elas produziram.

Provavelmente, se você quer estabelecer limites, o melhor seria colocar o celular dentro de um armário por um dia.

·        Sua pesquisa mostra que adolescentes podem ser rapidamente expostos a conteúdos nocivos, como misoginia e discurso de ódio. O que mais te surpreendeu quando vocês criaram perfis falsos de jovens para testar o comportamento das plataformas?

Regehr - Acho que foi a velocidade com que conteúdos nocivos podem ser entregues a jovens hipotéticos. Nós, adultos, frequentemente subestimamos o tipo de dano que existe ali fora porque simplesmente não o vemos.

Você pode ver conteúdos sobre decoração de interiores — e podemos discutir se isso é bom ou ruim para você; talvez não seja ótimo ficar vendo cozinhas que você nunca poderá comprar. Mas claramente o impacto é muito diferente para um adulto do que para um adolescente com uma mente ainda em formação.

As vulnerabilidades dos adolescentes são diferentes. Como diz Amy Orben, da Universidade de Cambridge, não é exatamente que as redes sociais causem problemas de saúde mental, mas elas pioram o estado natural da adolescência — que já tende à ansiedade, à tristeza, ao desconforto social.

Então elas amplificam vulnerabilidades que já existem. Se você é um adolescente em uma fase muito delicada do desenvolvimento, propenso à insegurança, a problemas de imagem corporal, preocupado com o futuro e com oportunidades, e alguém oferece uma resposta para isso — por exemplo, para meninos jovens: "você acha que não vai entrar na universidade? Talvez seja culpa da ascensão social de mulheres e minorias" — você tem mais chances de acreditar nessa resposta se estiver recebendo microdoses constantes desse conteúdo.

Então não se trata de um único post visto uma vez. Trata-se do efeito de receber continuamente microdoses de conteúdo nocivo.

·        E como funciona esse processo de "microdosagem"?

Regehr - Quando falamos em "microdosagem de dano", não estamos falando de ver um post uma única vez. Estamos falando do impacto de ver continuamente esse conteúdo — e da forma como os algoritmos tendem a aumentar gradualmente a intensidade desse conteúdo.

Para continuar prendendo sua atenção, o conteúdo tende a ficar cada vez mais extremo ou mais severo ao longo do tempo, de forma lenta e quase imperceptível para você.

Também vale pensar no modelo publicitário envolvido nisso. Sarah Wynn-Williams, a denunciante do Facebook, fala sobre o conceito de "segmentação emocional". Ela diz que, quando trabalhava na Meta, a empresa vendia ativamente aos anunciantes essa ideia de segmentação emocional.

Ou seja, se uma adolescente apagasse uma foto sua no Instagram, a Meta saberia que aquele era um ótimo momento para vender produtos de emagrecimento para ela. Eles podiam segmentá-la emocionalmente.

E não só vender produtos, mas também aumentar a vulnerabilidade. Porque, se você continua enviando imagens de pessoas extremamente magras e conteúdos relacionados à dismorfia corporal, você amplia essa vulnerabilidade — e provavelmente conseguirá vender ainda mais produtos de emagrecimento depois.

Então isso não é exatamente um fenômeno novo. Publicitários sempre exploraram nossas inseguranças para vender produtos que prometem preencher essas faltas. O que é novo é a capacidade de identificar nossas vulnerabilidades de forma extremamente precisa e específica e depois ampliá-las ainda mais.

·        Você participou da elaboração do Online Safety Act no Reino Unido, mas no seu livro diz que depois passou a criticá-lo. Onde você acha que as legislações falham?

Regehr - Um dos maiores problemas da segurança online é que ela virou um trabalho de limpeza posterior. É como limpar um líquido derramado depois que alguém já escorregou e se machucou.

Isso não é investir em segurança desde a concepção do produto, mas sim lidar com o dano depois que ele já aconteceu. O modelo assume que crianças verão conteúdos nocivos — e então tentamos limpar a bagunça depois.

Acho que esse é um problema fundamental e continuará sendo um problema no Online Safety Act. Então, quando outros países forem criar políticas sobre danos e segurança online, precisamos pensar muito mais em segurança incorporada ao design e em formas robustas de regulação, além de penalidades reais para empresas que não cumprirem essas exigências.

·        No Brasil, há um debate crescente em torno do ECA Digital, lei semelhante ao Online Safety Act, com medidas como restrições ao perfilamento de menores e verificação de idade. Esta é a direção certa?

Regehr - Um dos problemas é que a verificação etária praticamente não é aplicada. Não posso falar especificamente sobre o Brasil porque não sei como isso será implementado aí. Mas, se o país decidir levar isso realmente a sério e impor penalidades financeiras às empresas que não aplicarem os limites de idade, isso pode ter potencial para funcionar.

Vamos ser honestos: crianças vão mentir sobre a idade. Mas as empresas sabem quantos anos elas têm. Elas sabem qual tênis elas vão querer comprar na próxima estação. Sabem quando estamos grávidas antes de qualquer outra pessoa. Também sabem se uma criança está praticando automutilação ou tem risco de suicídio.

Elas sabem tudo isso.

Então podemos começar a dizer, como sociedade: primeiro, estamos desconfortáveis com a quantidade de informação que vocês têm sobre nossas crianças. Mas, se vocês têm essas informações, então têm a responsabilidade de protegê-las.

Também deveria existir um mecanismo para informar autoridades e redes de proteção quando uma criança estiver em risco de automutilação ou suicídio. Hoje esse mecanismo praticamente não existe entre empresas de redes sociais e órgãos de proteção.

Então é errado assumir que essas formas de restrição e proteção não poderiam ser implementadas pelas plataformas. Elas poderiam, sim — se fossem obrigadas a isso.

·        Exigências de verificação etária levantam preocupações sobre privacidade. Críticos dizem que estaríamos trocando um risco por outro. Como você vê isso?

Regehr - Acho que o debate sobre privacidade é muito estranho porque já entregamos uma quantidade enorme da nossa privacidade para essas empresas. Sinceramente: o que elas ainda não sabem sobre você?

Então, honestamente, acho que o debate sobre privacidade precisa estar bem mais abaixo na lista de prioridades nesse contexto. Existem outras coisas muito mais urgentes para enfrentar primeiro.

·        Essas leis parecem muito ambiciosas no papel, mas o principal desafio é técnico, político ou econômico?

Regehr - O maior problema é que, na maioria desses casos, deixamos empresas extremamente ricas ditarem o bem-estar e o desenvolvimento das nossas crianças. E isso saiu completamente do controle. Não é apropriado.

Muito disso é econômico. Existe uma corrida tecnológica para superar outras empresas e outros países no aperfeiçoamento dessas tecnologias. Priorizamos crescimento econômico em detrimento dos seres humanos. E isso é uma preocupação cada vez maior à medida que entramos na era da inteligência artificial.

·        Você critica o foco excessivo em tempo de tela e restrições de aplicativos. Em vez disso, propõe a ideia de "nutrição digital". Como seria, na prática, uma dieta digital saudável?

Regehr - Algumas orientações sobre tempo de tela podem ser úteis. Essas recomendações surgiram de pesquisas de cerca de 15 anos atrás sobre obesidade infantil, mostrando que é melhor para a saúde física das crianças brincar ao ar livre do que ficar diante de telas. Isso continua sendo verdade em termos gerais.

Mas essas orientações nunca abordaram saúde mental e bem-estar psicológico. O foco era quantidade de consumo, não qualidade de consumo. E é justamente sobre qualidade que precisamos começar a falar.

Quando falo em dieta digital, estou falando sobre pensar em que tipo de conteúdo estamos colocando em nossos corpos por meio das telas: conteúdos educativos, conteúdos socialmente positivos.

Para crianças, minha regra geral é: quanto maior a tela, melhor. Telas grandes em espaços coletivos, como assistir televisão com a família com conteúdo regulado, tendem a ser muito melhores do que uma criança sozinha num quarto rolando um feed algorítmico numa tela pequena.

Isso tende a ser melhor para a criança. E também evita a criação de dependência de conteúdos algorítmicos e de vídeos curtos, que sabemos serem prejudiciais para a capacidade de atenção.

Para adultos, precisamos pensar em conteúdos que nos eduquem, nos informem e continuem nos desafiando. E, quando digo "desafiar", também falo de atenção. Sabemos que adultos que usam muito o celular já não leem conteúdos longos da mesma maneira.

Então precisamos refletir sobre de onde tiramos nossas informações e como construir uma dieta digital mais equilibrada e saudável.

·        Para pais que se sentem perdidos: qual é o erro mais comum que eles cometem ao lidar com o uso de smartphones pelos filhos? E quais medidas práticas podem tomar no dia a dia?

Regehr - É preciso entender: o YouTube é uma rede social. E hoje ele substituiu a televisão para a maioria das crianças.

Sabemos, pelos dados dos Estados Unidos, que 81% das crianças usam YouTube aos 3 anos de idade e 89% aos 5 anos.

Isso significa que todo o trabalho cuidadoso que existia em torno de programação infantil em ambientes regulados praticamente foi jogado pela janela, porque as crianças já não estão mais nesses espaços.

Existe uma diferença enorme entre assistir a um programa infantil regulado, pensado por especialistas em infância, e colocar uma criança diante de um feed algorítmico do YouTube. Uma diferença gigantesca.

Então, se há uma coisa que você pode mudar hoje na sua parentalidade, tire seu filho do YouTube.

Também há coisas que fazemos como pais que acabam preparando nossos filhos para um futuro de exposição excessiva nas redes. Isso se relaciona ao conceito de sharenting, quando pais compartilham imagens dos filhos nas redes sociais.

Estima-se que, aos 13 anos, uma criança já tenha tido 1.300 imagens suas compartilhadas pelos pais.

O Barclays Bank chegou a afirmar que, até 2030, dois terços dos casos de roubo de identidade serão cometidos contra crianças atualmente expostas online pelos próprios pais. Porque data de nascimento, endereço da infância e nome de animal de estimação já bastam para muitos golpes bancários.

Então o que acontece é que pais expõem os filhos desde muito cedo: desde o anúncio da gravidez, do primeiro ultrassom, do primeiro teste positivo. E isso pode ser muito inseguro para essas crianças no futuro.

Então, uma recomendação: se você vai postar fotos dos seus filhos, tranque essas contas. Observe o que aparece ao redor da imagem e o que pode identificar aquela criança. E converse com ela. Dá para começar a discutir consentimento desde cedo.

Essas seriam duas dicas práticas que pais podem começar a aplicar hoje e que podem ter um impacto muito grande.

·        Se nada mudar no atual modelo das plataformas, que impactos de longo prazo podemos esperar para esta geração?

Regehr - Um dos impactos é a questão da saúde mental e o que isso faz com o bem-estar psicológico das pessoas.

Mas há outro ponto importante que ainda não abordamos: o que isso fez com nossa sociedade em termos de polarização, de empurrar pessoas para caminhos informacionais cada vez mais estreitos.

Hoje já não estamos consumindo as mesmas informações nem a mesma verdade que a pessoa sentada ao nosso lado no ônibus ou até no nosso próprio sofá. Estamos presos em silos informacionais extremamente individualizados, e isso tem enormes implicações para a sociedade como um todo.

Precisamos falar mais sobre como as redes sociais, em sua busca constante por hiperpersonalização, acabaram nos tornando tão hiperindividualizados que estamos perdendo a noção de coletivo.

Precisamos reagir a isso. Precisamos abrir esses silos informacionais e voltar a recentrar nossas sociedades em torno do coletivo.

 

Fonte: BBC News

 

Para impedir que o ódio se utilize da religião

Desde os primórdios, a humanidade sempre esteve submetida à ação dos manipuladores de seus sentimentos para que os interesses característicos de certos grupos fossem mantidos, ou conquistados.

Assim, também desde sempre, um dos principais instrumentos aos quais os manipuladores recorrem para a concretização de seus planos tem a ver com a religião, ou com temas a ela correlacionados.

Por isso, considero quase que impossível vislumbrar uma resposta para este tipo de problemas sem que tenhamos igualmente uma boa compreensão do significado dos fatores que dão embasamento aos sentimentos religiosos e às religiões como instituições organizadas da sociedade.

Antes de avançar nos pontos realmente merecedores de serem qualificados como dignos de atenção, quero deixar bem claro desde o princípio que considero totalmente irrelevante a discussão sobre a existência ou não de Deus, o ser supremo, criador e regedor de tudo o que existe no mundo.

E o teor de minha argumentação deveria ser bem compreendido e aceito por todos, em especial por aqueles que acreditam com sinceridade que a existência de Deus é uma realidade indiscutível.

Inegavelmente, para que sua autoridade se imponha de fato e que seus seguidores a acatem e obedeçam voluntariamente, é imperativo que Deus incorpore tão somente causas, ideias e motivações que nos conduzam no rumo do bem, da justiça e da solidariedade entre toda a humanidade. Por expressar a bondade em seu nível mais elevado, seria inadmissível que suas orientações apontassem em sentido oposto.

Um ser com toda essa magnanimidade jamais teria como sua preocupação cobrar de suas criaturas declarações públicas de sua crença. A única prova indispensável de fidelidade que corresponde a seu caráter é exigir que seus seguidores vivam inteiramente dedicados a defender e exercitar na prática a luta para atingir os objetivos de bondade por ele traçados.

Em consequência, todas as boas ações humanas são de seu agrado, mesmo quando feitas sem mencioná-lo. Por outro lado, nenhuma maldade tem sua aprovação, ainda que quem a cometa invoque seu nome para tal. Isto se deve a que, como já visto, a mais contundente prova de lhe ser fiel é obrar em perfeita sintonia com seus desígnios, ou seja, praticar efetivamente o bem.

Havendo feito os esclarecimentos das linhas anteriores, podemos tentar extrair algumas lições determinantes para nossa boa orientação.

Como saber se o caminho que nos está sendo sugerido corresponde de verdade à vontade de Deus? Para responder corretamente a esta indagação, o que menos importa é quantas vezes seu nome é pronunciado por quem nos transmite a orientação, e sim analisar se os propósitos indicados estão ou não alinhados com o que poderia ser condizente com nossa divindade suprema do bem.

A maneira mais adequada de avaliar se as orientações que nos estão sendo passadas correspondem ou não com os desejos de Deus é recorrer ao maravilhoso instrumento que nos foi proporcionado para dirimir dúvidas: nossa capacidade de raciocinar.

É simplesmente inadmissível que alguém dotado da exclusiva faculdade mental de discernir entre o bem e o mal não se ponha a refletir sobre as propostas que lhe são apresentadas antes de sua aceitação.

Se o ser humano conta com este exclusivo dom de refletir para distinguir o certo do errado, o justo do injusto, então, sua obrigação e seu dever é sempre fazer uso do mesmo.

Obedecer cegamente certas ordens apenas por terem sido apresentadas como se fossem de Deus é uma enorme violação de nossos deveres para com o próprio criador. Se ele nos gerou com o poder do raciocínio, como é possível imaginar que nos proibiria usá-lo? Seguramente, só seus mais encarniçados inimigos querem impedir isto. É que eles temem ser desmascarados quando raciocinamos.

Seguindo adiante com nossas reflexões, podemos nos perguntar: Sendo Deus o criador de toda a humanidade, por que ele discriminaria alguns e privilegiaria outros? Faz algum sentido a ideia de que ele tem um povo de sua preferência, ao qual reserva um lugar e um futuro especial em seu reino?

Conforme concluímos após um pouco de reflexão, caso fosse assim, esse deus não passaria de um racista, um ser maldoso, indigno, que mereceria ser rechaçado e condenado por todos os que defendem os princípios da justiça e da bondade.

Mas, evidentemente, foram os espertalhões manipuladores os inventores dessa história de que Deus tem um povo escolhido. Por meio dessa argumentação, eles tratavam de obter benesses para si mesmos em detrimento do conjunto da humanidade.

Porém, quando fazemos uma análise criteriosa desta questão, torna-se mais fácil deduzir que esse favorecimento de uns em prejuízo dos demais é uma característica maligna, é algo muito mais típico do diabo, que nunca poderia estar associado à figura do Deus do bem.

Basta observar o crime que os sionistas israelenses estão cometendo atualmente na Palestina, com o massacre de crianças, mulheres e todo um povo indefeso, para concluir que nenhuma divindade bondosa jamais daria sua aprovação a tão abominável atrocidade.

Mesmo assim, por instância de certos pilantras e farsantes pseudo-religiosos, há muitos que se consideram cristãos entre os principais apoiadores do genocídio do povo palestino.

Como é sabido, os estudos científicos sobre a psicologia de massas revelam o enorme potencial do ódio para forjar e conquistar a adesão de grande número de pessoas com o intuito de jogá-las contra outros grupos humanos.

Os manipuladores sabem bem que um grupo de gente tomado pela fúria dispõe-se a tolerar e cometer quaisquer monstruosidades, por mais terríveis que sejam, contra os alvos de sua ira.

Em ilustração do que acaba de ser referido, podemos recordar o período em que o Brasil esteve submetido à intensa campanha midiática de endeusamento da mais tenebrosa quadrilha do crime organizado em atividade em nosso país, a chamada Operação Lava-Jato.

Visando favorecer os interesses das classes dominantes e os de seus mentores do imperialismo, esse bando de facínoras não hesitou em desviar bilhões e bilhões de recursos públicos para benefício dos membros da quadrilha e em empenhar-se na destruição da base da indústria nacional. Tudo com vista a possibilitar que seus patrocinadores dos centros imperialistas pudessem garantir seu domínio sobre nossa nação.

Entretanto, esses crimes avassaladores contaram com a tolerância, e até mesmo com o apoio, de boa parte de nossa população, na qual a massacrante campanha midiática de manipulação de sentimentos havia injetado o veneno do ódio contra os pretensos “corruptos do PT”.

Ou seja, para propiciar uma gigantesca roubalheira, a pilhagem do país e abrir as portas para o imperialismo, os mais corruptos, depravados e entreguistas serviçais dos interesses antinacionais falavam que estavam “combatendo a corrupção”. E o ódio despejado sobre nossa população pelos instrumentos a serviço das classes dominantes possibilitou que os inimigos da pátria obtivessem uma vitória parcial naquele momento.

É recorrendo a esse mesmo modelo de indução hipócrita de ódio por quem quer cometer os delitos que diz estar combatendo que atuam certas correntes políticas pseudo-religiosas, fundamentalmente as do âmbito do chamado neopentecostalismo.

Assim, é comum observar como certos aproveitadores da pior espécie, agentes do mal e inimigos mortais de tudo o que a figura de Jesus simboliza, inoculam e disseminam seu mais venenoso ódio entre os adeptos de suas instituições sob o pretexto de estarem numa campanha frontal contra as forças do diabo.

Contudo, esses falsos cristãos são os mais evidentes propulsores de infames hipocrisias que poderiam claramente ser atribuídas aos senhor das trevas. No entanto, seu propósito real é apoiar os ricos contra os pobres, manter o Estado exclusivamente com a função de garantir os privilégios dos grandes bilionários. Por isso, eles são contrários a tudo o que se proponha a amenizar o sofrimento dos mais carentes.

Portanto, não à toa, embora se declarem ferrenhos inimigos do bolsa-família, alegando que serve para sustentar vagabundos, estavam plenamente integrados no esquema de ladroagem do Banco Master e se locupletaram até o talo com o roubo dos recursos públicos destinados a atender os aposentados e pensionistas. Uma vez mais, crimes diabólicos sendo praticados por pilantras que ousam dizer que falam em nome de Deus.

Resumindo conclusivamente, é muito importante que os que nos identificamos sinceramente com as maiorias populares e o conjunto da nação reiteremos nossa mensagem em defesa do direito de que todos possam ter e cultuar a religião que considerem mais afim com sua visão de mundo. Não obstante, devemos também deixar bem evidente que somos frontalmente contrários à manipulação de conceitos religiosos com a pretensão de privilegiar os exploradores de nosso povo.

Em decorrência do já exposto, precisamos estar alertas para impedir que o ódio continue servindo como um eficaz instrumento das classes dominantes e seus auxiliares subalternos.

Sabemos que os sentimentos que atraem as pessoas para a religião são originalmente derivados da busca de um mundo mais justo. Além disso, temos ciência de que uma coisa é ter um sentimento de caráter espiritual e outra bem diferente é a maneira como certas instituições que se autodenominam religiosas desenvolvem suas atividades.

Neste esforço por construir um mundo melhor, cabe-nos a tarefa de zelar para que os agentes do ódio não consigam manipular a fé daqueles que vão à procura de Deus. Tendo ou não religião, devemos estar sempre dispostos a entender e contribuir com todas as medidas que efetivamente signifiquem uma melhoria de vida para nossa gente. De igual maneira, devemos nos opor com determinação aos que almejem empregar conceitos e instituições religiosas com o propósito de manter ou aprofundar as condições de subordinação das maiorias para favorecimento dos exploradores.

•        Memorial lembra testemunhas de Jeová perseguidas no nazismo

Um memorial para homenagear as testemunhas de Jeová perseguidas pelo regime da Alemanha nazista foi inaugurado em um parque de Berlim nesta quarta-feira (24/06), 81 anos após o fim da Segunda Guerra Mundial.

"Este memorial é dedicado às pessoas que sofreram amarga injustiça e, ainda assim, repetidamente demonstraram humanidade", disse Julia Klöckner, presidente do Bundestag (Parlamento alemão), durante a cerimônia de inauguração no parque Tiergarten.

Membros das testemunhas de Jeová, um movimento religioso de origem cristã que surgiu nos Estados Unidos no século 19, foram sistematicamente perseguidos na Alemanha e em outras partes da Europa durante o regime nazista, de 1933 a 1945. Ao menos 1.750 testemunhas de Jeová foram mortas nesse período.

"Quase 14 mil testemunhas de Jeová – mulheres e homens – foram presas, incluindo 4.200 em campos de concentração, onde foram estigmatizadas com um 'triângulo roxo'", afirma a fundação em seu site.

Eles praticavam sua religião em segredo, já que haviam sido banidos por Hitler.

<><> Não faziam saudação nazista

Segundo a fundação federal responsável pelo memorial, os membros dessa religião rejeitavam Adolf Hitler, se recusavam a fazer a saudação nazista, não se filiavam a organizações estatais, fugiam do serviço militar e ajudavam outras pessoas que estavam sendo perseguidas.

A fundação também administra o memorial do Holocausto em Berlim, um amplo espaço no centro da cidade, próximo do Portão de Brandemburgo, e não muito distante do memorial às testemunhas de Jeová.

Com cinco metros de altura, o memorial de bronze foi projetado pelo artista Matthias Leeck para se assemelhar a uma árvore que permanece firme, mesmo com seus galhos cortados.

O memorial foi erguido próximo ao lago dos peixes dourados no parque Tiergarten, onde um grupo de testemunhas de Jeová foi preso pela polícia da Gestapo em 22 de agosto de 1936, segundo a fundação. Ao menos 17 morreram em consequência das torturas sofridas.

Na época, os membros costumavam se reunir próximo do lago para trocar informações secretamente.

"A Gestapo realizou sua batida exatamente aqui, onde 17 pessoas corajosas posteriormente perderam a vida", disse Wolfram Weimer, comissário de cultura da Alemanha, durante a cerimônia.

Na ocasião, Klöckner observou que, mesmo após o fim do domínio nazista, algumas comunidades religiosas continuaram a ser vistas com desconfiança no país. É por isso, disse Klöckner, que o memorial demorou tanto para ser construído – a obra cumpre uma lei aprovada no parlamento em 2023.

"A fé delas permaneceu estranha e suspeita para muitas pessoas. Sua perseguição e sofrimento não foram suficientemente reconhecidos", afirmou.

Hoje, as testemunhas de Jeová somam 180 mil pessoas na Alemanha; na década de 1930, eram 25 mil, segundo a agência de notícias AFP.

Além de ter sido responsável pela morte de 6 milhões de judeus, o nazismo também perseguiu e assassinou dissidentes, homossexuais, vadios e desajustados, pessoas de etnia sinti ou roma, comunistas, pessoas com deficiência e eslavos.

 

Fonte: Por Jair de Souza, em Brasil 247/DW Brasil