terça-feira, 30 de junho de 2026

Pode o Brasil preservar sua soberania em uma nova era de intervencionismo?

A política externa brasileira enfrenta um dos maiores desafios desde a redemocratização. Em um cenário internacional marcado pelo retorno do unilateralismo dos Estados Unidos, pela fragmentação política da América do Sul e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais, o Brasil precisa encontrar um delicado equilíbrio entre a defesa histórica da soberania dos Estados, a condenação de violações democráticas e a preservação de seus próprios interesses estratégicos.

Essa é a principal conclusão do artigo "Entre a altivez e a sensatez: os dilemas brasileiros pós-intervenção dos Estados Unidos na Venezuela", assinado pelas pesquisadoras Marsílea Gombata (FAAP/Nupri-USP) e Carolina Pedroso (Unifesp), publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada nesta semana pelo Ipea, em Brasília.

O estudo parte de um cenário prospectivo em que os Estados Unidos realizam uma intervenção militar na Venezuela e capturam Nicolás Maduro. Embora se trate de um exercício analítico de caráter prospectivo, as autoras utilizam esse cenário para discutir questões extremamente atuais: o futuro da política externa brasileira, a crise da integração sul-americana, a revitalização da Doutrina Monroe sob Donald Trump e os limites da capacidade diplomática brasileira diante da crescente competição geopolítica entre grandes potências.

<><> A política externa brasileira diante de um mundo mais hostil

Segundo as autoras, o terceiro governo Lula encontrou um ambiente internacional muito diferente daquele que permitiu ao Brasil exercer uma política externa "ativa e altiva" durante os anos 2000.

Naquele período, havia uma conjuntura favorável: crescimento econômico, expansão do multilateralismo, fortalecimento dos BRICS e governos progressistas ocupando boa parte da América do Sul.

Hoje, argumentam, o cenário é praticamente oposto.

A região vive um processo de fragmentação política, as instituições regionais perderam força, a rivalidade entre Estados Unidos e China passou a organizar a geopolítica mundial e Washington voltou a tratar a América Latina como espaço prioritário de influência estratégica.

Diante desse novo contexto, defendem que o Brasil precisa substituir parte da antiga "altivez" por uma combinação de firmeza diplomática e pragmatismo estratégico.

<><> O colapso da integração sul-americana

Um dos eixos centrais do trabalho é a análise da deterioração do projeto de integração regional construído durante os primeiros governos Lula.

As pesquisadoras recordam que iniciativas como a Unasul e a Celac nasceram em um ambiente político favorável à cooperação regional e à busca de maior autonomia em relação aos Estados Unidos.

Entretanto, mudanças eleitorais, polarização ideológica, crises econômicas e a própria crise venezuelana contribuíram para desmontar esse processo.

Hoje, argumentam, a América do Sul apresenta níveis inéditos de fragmentação política, dificultando qualquer resposta coletiva diante de crises internacionais.

Segundo o artigo, essa falta de coordenação reduz significativamente a capacidade do Brasil de exercer liderança regional.

<><> Venezuela tornou-se o principal fator de divisão

Outro ponto desenvolvido pelas autoras é o papel desempenhado pela Venezuela na polarização política regional.

Elas reconhecem que o governo Maduro foi responsável por um processo acelerado de deterioração democrática, acompanhado de forte crise econômica, hiperinflação, êxodo populacional e concentração crescente de poder nas mãos do Executivo.

Ao mesmo tempo, observam que as sucessivas tentativas internacionais de mediação fracassaram, aprofundando as divisões entre os países latino-americanos.

Enquanto alguns governos passaram a defender maior pressão sobre Caracas, outros insistiram na busca de soluções negociadas e na defesa do princípio da não intervenção.

Nesse contexto, o Brasil passou a enfrentar um dilema permanente: preservar sua tradição diplomática de defesa da soberania sem deixar de reconhecer os problemas democráticos existentes na Venezuela.

<><> Trump e a retomada da Doutrina Monroe

O artigo dedica ampla atenção à política externa do segundo governo Donald Trump.

Na avaliação das autoras, Washington passa a recuperar elementos clássicos da Doutrina Monroe, reinterpretando a América Latina como área prioritária de segurança nacional.

Nesse novo contexto estratégico, a Venezuela seria tratada simultaneamente como:

  • foco do narcotráfico;
  • espaço de influência chinesa, russa e iraniana;
  • produtor estratégico de petróleo;
  • ameaça à segurança hemisférica.

Segundo o estudo, essa combinação serviria como justificativa para uma intervenção militar norte-americana inédita na América do Sul.

As autoras observam ainda que o combate ao narcotráfico aparece como elemento central da nova estratégia norte-americana, associado à ampliação dos poderes presidenciais para realizar operações militares extraterritoriais.

<><> Brasil entre Washington e Caracas

A hipótese da intervenção coloca o governo brasileiro diante de uma situação extremamente delicada.

Condenar a ação militar significaria reafirmar princípios históricos da diplomacia brasileira.

Mas ignorar os problemas internos da Venezuela também poderia gerar custos políticos internos e externos.

Segundo as pesquisadoras, o governo Lula tenderia a optar por uma posição intermediária: rejeitar a violação da soberania venezuelana, ao mesmo tempo em que reconheceria os graves problemas institucionais acumulados pelo chavismo.

Essa posição, entretanto, dificilmente produziria consenso regional, dada a profunda polarização existente na América do Sul.

<><> O impacto da política doméstica

Outro aspecto relevante destacado pelo artigo é a crescente influência da política interna sobre a política externa brasileira.

As autoras observam que temas internacionais — especialmente Venezuela e relações com os Estados Unidos — passaram a influenciar diretamente o debate eleitoral brasileiro.

Pesquisas de opinião citadas no estudo mostram que parte significativa da sociedade considera que o governo Lula demonstrou excesso de proximidade com Maduro, enquanto outra parcela vê preocupação na crescente influência norte-americana sobre a região.

Essa divisão limita a margem de manobra diplomática do governo.

<><> Conter e engajar

Inspirando-se nos trabalhos do cientista político Feliciano de Sá Guimarães, o artigo propõe que o Brasil adote uma estratégia baseada em dois movimentos simultâneos:

  • conter iniciativas unilaterais capazes de ameaçar a soberania regional;
  • manter canais permanentes de diálogo com Washington, evitando isolamento diplomático.

Essa política permitiria ao Brasil preservar autonomia sem romper relações com os Estados Unidos, especialmente em temas como comércio, tecnologia, segurança e combate ao crime organizado.

<><> A sensatez como complemento da altivez

Na conclusão, Marsílea Gombata e Carolina Pedroso sustentam que o Brasil já não dispõe das mesmas condições estruturais que permitiram sua projeção internacional durante os primeiros governos Lula.

Num ambiente internacional mais conflituoso, marcado pela crise do multilateralismo, pela competição entre grandes potências e pela fragmentação política da América do Sul, a diplomacia brasileira precisaria combinar firmeza na defesa da soberania com flexibilidade para negociar em condições adversas.

A "sensatez", afirmam as autoras, não substitui a tradicional "altivez" da política externa brasileira. Ela passa a ser seu complemento indispensável diante de um mundo cada vez mais instável, no qual preservar autonomia exige não apenas princípios, mas também capacidade de adaptação estratégica.

¨      Washington Araújo: Brasil amplia autonomia ao acessar capital chinês

Há notícias que faço questão de ler duas ou três vezes antes de escrever. Aprendi, depois de décadas acompanhando economia e relações internacionais, que algumas decisões aparentemente técnicas acabam revelando mudanças muito mais profundas do que deixam transparecer na primeira leitura. Foi exatamente essa impressão que tive ao conhecer a intenção do governo brasileiro de emitir, pela primeira vez, títulos soberanos em yuan no mercado doméstico chinês. Quem enxergar apenas uma operação financeira estará olhando para a árvore e ignorando a floresta.

Durante muito tempo, acostumei-me a ver o Brasil recorrer quase sempre aos mesmos caminhos quando precisava dialogar com o mercado internacional de capitais. Nova York ocupava posição central. Londres aparecia logo depois. Em alguns momentos, Frankfurt ampliava esse circuito. Era como se o mapa financeiro mundial tivesse poucos endereços realmente relevantes. A realidade de hoje é outra. A economia global tornou-se mais distribuída, a Ásia consolidou-se como centro de produção, investimento e inovação, e a China deixou de ser apenas a grande fábrica do planeta para transformar-se também em uma das maiores fontes de crédito e liquidez internacionais. Ignorar essa transformação seria interpretar o presente com categorias do passado.

É por isso que considero tão importante a decisão brasileira. O Tesouro Nacional prepara uma emissão de até 5 bilhões de yuans, cerca de US$ 735 milhões, por meio dos chamados Panda Bonds, títulos colocados diretamente no mercado financeiro chinês. Em termos fiscais, a operação pouco altera o perfil da dívida pública brasileira, medida em trilhões de reais. Seu alcance, porém, vai muito além do valor captado. Pela primeira vez, o Estado brasileiro convida investidores chineses a participarem diretamente do financiamento de sua dívida soberana. Isso altera a natureza da relação entre os dois países. Até agora, a China era principalmente nossa maior compradora de produtos. Passa, gradualmente, a tornar-se também financiadora do Estado brasileiro.

Não interpreto esse movimento como simples diversificação cambial. Vejo nele uma mudança estratégica de posicionamento internacional. Em abril deste ano, o Brasil voltou ao mercado europeu depois de mais de uma década sem emissões naquele ambiente, captando 5 bilhões de euros. A procura superou 16 bilhões de euros, demonstrando forte confiança dos investidores internacionais na economia brasileira. Agora surge uma terceira avenida financeira. O país deixa de depender exclusivamente dos mercados tradicionais para construir uma presença também no maior mercado de capitais da Ásia. Essa sequência não parece casual. Ela revela planejamento.

Sempre desconfiei da ideia de que autonomia nacional se constrói apenas com discursos diplomáticos. Países fortalecem sua soberania quando ampliam suas possibilidades de escolha. Quem depende de uma única moeda, de um único mercado financeiro ou de um único centro de crédito aceita, consciente ou inconscientemente, viver sob limitações que não controla. Diversificar não significa romper relações com parceiros históricos. Significa reduzir vulnerabilidades. É exatamente isso que as grandes economias procuram fazer quando o cenário internacional se torna mais imprevisível.

Os números ajudam a compreender essa decisão. Desde 2009, a China ocupa a posição de maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o intercâmbio entre os dois países ultrapassou US$ 170 bilhões, respondendo por mais de um quarto de todo o comércio exterior brasileiro. Nenhum outro parceiro possui hoje essa dimensão econômica nas relações com o Brasil. Continuar concentrando nossas fontes de financiamento apenas nos mercados ocidentais, enquanto a maior relação comercial brasileira se fortalece na Ásia, passou a representar uma assimetria difícil de justificar.

Também não estamos diante de uma experiência isolada. Portugal abriu esse caminho em 2019, tornando-se o primeiro integrante da zona do euro a emitir títulos soberanos em yuan. A Hungria aprofundou essa estratégia e lançou uma emissão de 5 bilhões de yuans em 2025. O Egito captou 3,5 bilhões de yuans em 2023. A Eslovênia realizou uma emissão de 4 bilhões de yuans neste ano. O Cazaquistão estreou recentemente nesse mercado com 3,4 bilhões de yuans, registrando demanda muito superior à oferta. O Paquistão também prepara sua entrada. Cada país possui motivações distintas, mas todos chegaram à mesma conclusão: ampliar as alternativas de financiamento fortalece a posição internacional do Estado.

O caso brasileiro, contudo, possui uma característica própria. Diferentemente de alguns desses países, o Brasil não enfrenta sanções econômicas, não perdeu acesso aos mercados em dólar nem necessita recorrer ao yuan por falta de opções. Está fazendo uma escolha, não respondendo a uma emergência. Essa diferença muda completamente a leitura geopolítica da operação. Não se trata de procurar uma saída. Trata-se de construir novas possibilidades antes que elas se tornem indispensáveis.

Outro aspecto merece atenção. Empresas brasileiras como Vale e WEG já demonstraram interesse em acessar o mercado financeiro chinês. Para grupos que produzem, investem e vendem intensamente naquele país, captar recursos em yuan reduz riscos cambiais e aproxima receitas das obrigações financeiras. A emissão soberana do Tesouro cria uma referência importante para futuras operações privadas, funcionando como porta de entrada para um relacionamento financeiro muito mais amplo entre as duas economias.

Vejo um erro recorrente em parte do debate brasileiro. Ainda insistimos em interpretar qualquer aproximação com a China como se representasse, automaticamente, um afastamento dos Estados Unidos. Essa lógica talvez tenha feito sentido durante a Guerra Fria. Hoje ela empobrece a análise. As grandes potências defendem seus interesses nacionais com clareza. A China faz isso. Os Estados Unidos também. A União Europeia, igualmente. Não encontro razão para que o Brasil seja o único país chamado a justificar permanentemente suas escolhas estratégicas.

Ao observar essa emissão em yuan, não penso em substituição de moedas nem em disputas ideológicas. Penso em autonomia. Penso na capacidade de um país negociar simultaneamente com diferentes centros financeiros, diferentes investidores e diferentes moedas, preservando maior liberdade para tomar decisões. Essa me parece ser a verdadeira novidade.

Continuo convencido de que o futuro pertencerá às nações capazes de ampliar suas opções, e não às que permanecerem presas às estruturas que organizaram a economia mundial durante tantas décadas. O Brasil possui alimentos, energia, água, biodiversidade, capacidade industrial e um mercado interno entre os maiores do planeta. Não há razão para comportar-se como economia periférica quando pode atuar como protagonista. A emissão soberana em yuan não muda, sozinha, a posição brasileira no mundo. Mas sinaliza que começamos, finalmente, a compreender que independência econômica não nasce de discursos. Nasce da coragem de construir alternativas.

 

Fonte: Brasil 247

 

Elisabeth Lopes: A ameaça trumpista às eleições de outubro no Brasil e as truculências no interior da família Bolsonaro

A América do Sul está passando por uma virada de chave em direção à extrema direita.  Atualmente são sete países nesse campo ultra liberal, com algumas nuances fascistas: Argentina, Paraguai, Equador, Bolívia, Chile, Colômbia e Peru. Há fortes ilações que explicam essa virada. Até que ponto os EUA têm a ver com essa guinada? 

De doze países restaram cinco de esquerda: Brasil, Venezuela, Guiana, Suriname e Uruguai. Ainda que a Venezuela esteja num momento oscilante, como refém do governo Trumpista. Que motivações moveram os eleitores sul-americanos para escolhas de candidatos extremistas de direita tão distantes de suas escolhas anteriores? A interferência estadunidense nas eleições dos países sul-americanos já não se preocupa em ser discreta, pelo contrário têm se realizado em alto e bom som. Nas eleições da Colômbia, por exemplo, Donald Trump chegou a participar da campanha, pedindo votos para o candidato da extrema direita

Nesta semana, Trump publicizou um texto do site americano NewsMax na sua plataforma Truth Social em que refere que as eleições do Brasil é seu próximo desafio. Segundo reportagem do UOL, 26/05/26, o texto menciona que Trump ainda precisa superar quatro grandes desafios. De acordo com a análise, os países mencionados são Cuba, Nicarágua, Venezuela e Brasil. A publicação refere ainda que: “A eleição já vem provocando um intenso debate sobre a integridade do sistema eleitoral brasileiro e sobre se a disputa será realizada de forma livre, justa e reconhecida por todos os envolvidos.” 

Outra sinalização inquestionável da ingerência norte-americana, além da reincidência do tarifaço, da classificação Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas globais, dos ataques ao Pix e das últimas declarações de Donald Trump de que o Brasil seria o próximo desafio, diz respeito à abertura de um edital do Departamento de Estado dos EUA destinado ao financiamento de organizações da sociedade civil voltadas ao monitoramento e à denúncia de supostas práticas de censura e de restrições à liberdade de expressão no país. A iniciativa prevê o acompanhamento de temas como decisões judiciais, liberdade de expressão, regulação das plataformas digitais e a atuação das autoridades eleitorais brasileiras. As inscrições permanecerão abertas até 23 de julho de 2026, e apenas um projeto será selecionado para execução, com duração prevista entre 18 e 24 meses. O programa será desenvolvido por meio de um acordo de cooperação que pressupõe a participação ativa do governo norte-americano. O edital autoriza a candidatura de organizações não governamentais sediadas tanto nos Estados Unidos quanto em outros países. Diante dessas provocações de Trump, a céu aberto, a interferência do governo estadunidense nas eleições de outubro no Brasil constitui um fato consumado. 

Com base nesse horizonte ameaçador, a coordenação do processo eleitoral brasileiro deve permanecer em estado de atenção permanente, atuando de forma preventiva diante de interferências internas e externas. Além da proteção das urnas, é fundamental resguardar o espaço público de campanhas de desinformação, ingerências estrangeiras e operações de manipulação da opinião pública, assegurando que a soberania popular expressa livremente nas urnas seja o único fator a determinar os rumos da nação brasileira. Sob essa perspectiva, o ministro Kassio Nunes Marques será posto à prova na presidência do TSE. Caberá a ele demonstrar se no comando da Justiça Eleitoral resguardará a integridade do processo eleitoral ou retribuirá a indicação política que o projetou nacionalmente.

Nesse clima sul-americano sob a égide da intromissão do EUA, a vitória, ainda que apertadíssima de Abelardo de la Espariella à presidência da Colômbia reforça o grotesco capítulo do extremismo de direita da América do Sul. Figura histriônica, multimilionária, visceralmente contrária ao multilateralismo combinado a uma subserviência canina e constrangedora a Donald Trump, um padrinho político, que faz da mentira o motor de seu governo, desacreditado não só pelo partido democrata, mas pela maioria da população norte-americana e, sobretudo, no plano mundial.

Antes de se lançar à política, o empresário e advogado Espriella construiu uma carreira extremamente lucrativa e controversa. Advogou para comandantes paramilitares e narcotraficantes da Autodefensas Unidas de Colômbia (AUC), figuras de destaque das desmobilizadas AUC, um violento grupo paramilitar de extrema-direita, para operadores e financiadores de esquemas de lavagem de dinheiro, para políticos envolvidos em corrupção de alto escalão, como congressistas, governadores e prefeitos investigados no escândalo conhecido na Colômbia como "Parapolítica" (a aliança ilegal entre políticos e paramilitares para fraudar eleições e desviar fundos públicos). Vale assinalar que a produção e tráfico de cocaína na Colômbia triplicou na última década representando 72% do mercado global espalhada em múltiplos cartéis e facções e o homem que cobrou honorários milionários para livrar criminosos da cadeia agora assume o poder com a promessa de governar com mão de ferro. A grande ironia é que ele não vai mais precisar de procuração para lidar com os novos chefões do narcotráfico, agora, ele tem a própria faixa presidencial.

O delírio autocrático de Espriella nutre-se, declaradamente, da admiração que ele devota a referências do bloco de degeneração democrática: Donald Trump, Javier Milei, Nayib Bukele e Benjamin Netanyahu. Ao inspirar-se nesse quarteto, ele absorve a prepotência imperialista de Trump, a subserviência de Milei aos Estados Unidos, o autoritarismo de Bukele, marcado pelo atropelo das garantias constitucionais em nome de uma ordem extrema, e o desprezo de Netanyahu pelas instâncias multilaterais, subordinando-as à lógica da sobrevivência política a qualquer custo. Essa combinação de influências deixa evidente que seu projeto representa uma síntese do que há de mais nocivo na nova extrema direita global.

No Brasil, a poucos meses das eleições para a presidência da República e para mandatos no Congresso, as expectativas são tensas. Desta vez os eleitores não podem errar nas escolhas de seus candidatos. É primordial mudar o panorama da atual composição majoritária, formada por parlamentares da direita oportunista e da extrema direita, tanto no Senado, como na Câmara de Deputados. A virada para uma bancada progressista, com propostas consistentes para o desenvolvimento sustentável do país, voltadas à melhoria das condições de vida da população é crucial. 

A produção da atual bancada de oposição ao governo, tem revelado um quadro rarefeito de produções legislativas que efetivamente sejam voltadas às necessidades da população. Quando esses segmentos se movem, fazem-no em benefício próprio ou de poderosas corporações aliadas no toma-lá-dá-cá que garante a sobrevivência em seus redutos eleitorais e, não raro, alimenta o duto de propinas viabilizado por emendas parlamentares cada vez mais suspeitas de graves ilicitudes. Em certa medida, as ações legislativas dessa ala sombria e manifestamente antipovo diferenciam-se em algumas nuances. Enquanto o Centrão se dedica ao pragmatismo rasteiro de ampliar seu poder, barganhar cargos e controlar verbas públicas, a exemplo do senador Ciro Nogueira (PP-PI), entre outros, a extrema direita se notabiliza por transformar as redes sociais em um palco de desinformação, difundindo um verdadeiro tsunami de mentiras, como faz o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG); por destinar emendas parlamentares até mesmo para clubes de tiro, como no caso da deputada da coroa de flores Júlia Zanatta (PL-SC); por manter vultosas quantias de dinheiro em espécie em casa, como ocorreu com o deputado Sóstenes Cavalcante (PL-RJ); além de cultivar, de forma permanente, o barulho das pautas ideológicas, o moralismo conservador e uma oposição obsessiva ao governo.

Essa fisionomia majoritariamente horrenda do Congresso Nacional, bem como de muitas assembleias legislativas estaduais, câmaras de vereadores e governos estaduais controlados pelo Centrão e pela extrema direita, foi eleita em massa na onda do desprezível bolsonarismo, que tantos prejuízos causou e continua causando ao povo brasileiro, mantido refém da mentira, dos desvios de recursos públicos para interesses privados, do populismo, do engodo incomensurável e de falsos outsiders que se apresentaram sob a enganosa hashtag do antissistema. O mais preocupante é que o país ainda permaneça sob essa atmosfera bolsonarista, grotesca e deletéria, o que leva parte da população a acreditar que a única alternativa ao campo da esquerda progressista se resume aos integrantes da família Bolsonaro ou a outros representantes da direita que orbitam esse mesmo universo político, como Ronaldo Caiado (União Brasil) e Romeu Zema (Novo).

Essa permanência, contudo, não significa coesão interna. Embora a família Bolsonaro viva frequentes disputas por protagonismo político, o capital eleitoral construído ao longo dos últimos anos continua sendo disputado pelos seus integrantes. Um exemplo disso foi o recente embate entre Michelle Bolsonaro e seu enteado, Flávio Bolsonaro, materializado em um longo vídeo publicado nas redes sociais, com desabafos sobre a postura autoritária e grosseira do enteado com ela, repleto de recados subliminares e divulgado, deliberadamente, no mesmo dia de um importante jogo da Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

Sobre esse episódio, há várias elucubrações na tentativa de explicar o teor do vídeo publicado por Michelle. Na minha avaliação, todas as hipóteses levantadas por comentaristas, tanto da mídia corporativa quanto da mídia progressista independente, podem ser viáveis, com exceção de que ela se revelou como feminista. Ao contrário de que ela atuaria como uma defensora das causas femininas, sua conduta aponta para o pragmatismo político. O verdadeiro objetivo parece ser a busca por protagonismo e visibilidade, elementos essenciais para angariar suas ambições e projetos de poder. Não se pode descartar que a verdadeira motivação seja a mais inesperada e só venha a ser compreendida mais adiante. Nessa família, tudo parece possível, inclusive aquilo que hoje sequer imaginamos como explicação. Quando se trata dos Bolsonaro, à exceção das inúmeras trapalhadas protagonizadas pelos integrantes homens da família, Michelle se destaca pela capacidade de articulação, pela astúcia e pela habilidade com que transita tanto nos espaços estritamente políticos quanto naqueles que, em aparência, não o são.

Diante dos desdobramentos políticos internos que antecedem as eleições de outubro e das crescentes ameaças de Donald Trump à América do Sul, expressas no discurso de retomar a região como o "quintal" dos Estados Unidos e em iniciativas destinadas a influenciar o cenário político brasileiro em favor de um candidato alinhado à extrema direita, como Flávio Bolsonaro, ou de qualquer outro representante desse campo político subserviente, o panorama nacional aponta para tempos desafiadores. Essa postura intervencionista dos Estados Unidos persiste mesmo após a resposta diplomática do secretário de Estado Marco Rubio à carta de Flávio Bolsonaro, nesta semana. Embora a negativa à isenção tarifária tenha frustrado as expectativas sabujas de Flávio, a declaração final de Rubio, de que os EUA estão prontos para cooperar com os líderes que o povo brasileiro eleger, em uma agenda “mutuamente benéfica” revela a continuidade de um desejo de tutela, disfarçado cinicamente de cooperação.

Esse ambiente de pressões externas soma-se à atuação de uma direita oportunista e de uma extrema direita local atoladas até o pescoço em escândalos de corrupção, chantagens, produção massiva de fake news e no fisiologismo sem precedentes da distribuição de emendas parlamentares para alimentar seus currais eleitorais. Para agravar ainda mais esse quadro, a elite econômica, representada pelos barões da Faria Lima, e a mídia corporativa atuam de forma sistemática para inviabilizar a reeleição de Lula, relegando a segundo plano resultados expressivos alcançados em seu governo. Entre eles estão a retirada do Brasil do Mapa da Fome, a aprovação da histórica reforma tributária, a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até cinco salários mínimos, a retomada e expansão do programa Minha Casa, Minha Vida, inclusive para a classe média, além dos recordes na geração de empregos e da política de valorização do salário mínimo acima da inflação. Frente a esse poderoso entrelaçamento entre desinformação, poder econômico, fisiologismo político e pressões geopolíticas, as forças progressistas de esquerda enfrentarão enormes dificuldades para romper a bolha informacional e conscientizar os brasileiros sobre o que realmente estará em jogo para o futuro do país e para as condições de vida de sua população.

¨      Crise dos EUA e avanço da extrema direita expõem disputa global, diz Afonso de Albuquerque

A crise interna dos Estados Unidos tem ampliado a disputa global conduzida pela extrema direita e tornado mais instável a atuação internacional de Washington, avaliou o professor Afonso de Albuquerque, nesta terça-feira (23). Segundo ele, o governo Donald Trump expressa um cenário de fragmentação política, perda de consistência estratégica e acirramento das disputas em escala internacional. As informações são do Giro das Onze, da TV 247. Durante o programa, Afonso analisou o avanço da extrema direita na América Latina, a soberania digital, o papel das big techs, a influência histórica dos Estados Unidos sobre a região e a crise envolvendo Jaques Wagner.

<><> Ordem global em transição

Para o professor, o mundo atravessa um período de transição, no qual a ordem antiga já perdeu estabilidade, mas uma nova ainda não foi consolidada. Esse intervalo, afirmou, produz caos, disputas e incertezas, mas não deve ser interpretado apenas como motivo para pessimismo. “A gente tá vivendo o momento transição, né? Aquela famosa frase do Gramsci de que o velho mundo está morrendo e o novo ainda não surgiu. Acho que esse é o momento que nós estamos”, afirmou. Afonso avaliou que a extrema direita se beneficia do desgaste das instituições democráticas, mas não consegue oferecer uma alternativa institucional consistente quando chega ao poder. Segundo ele, esse traço aparece em diferentes países da América Latina e ajuda a explicar crises de legitimidade após vitórias eleitorais desse campo político.“Houve ali um desgaste das instituições, né? E a extrema direita ela surfa nisso, no desgaste das instituições. Aí quando a extrema direita assume, ela não é capaz de propor novas instituições”, disse.

<><> Estratégia dos EUA perdeu unidade

Na leitura do professor, os Estados Unidos deixaram de operar com uma estratégia externa unificada, como ocorria em outros períodos históricos. A antiga elite bipartidária, que sustentava políticas de Estado entre governos democratas e republicanos, perdeu força diante de uma disputa interna mais fragmentada. “As pessoas falam os Estados Unidos, a estratégia dos Estados Unidos, e me parece bastante claro que não existe mais isso”, afirmou. Para Afonso, a política externa de Trump não representa uma orientação nacional estável, mas uma agenda antidemocrata projetada internacionalmente. Ele também ponderou que uma eventual política democrata tenderia a funcionar como reação antirrepublicana, o que enfraquece a continuidade da ação externa norte-americana. “A política do Trump não é uma política dos Estados Unidos, é uma política antidemocrata em escala internacional”, declarou.

<><> Washington mais perigosa

Apesar disso, Afonso alertou que a instabilidade norte-americana não reduz os riscos para outros países. Na avaliação dele, Washington se tornou mais perigosa justamente porque perdeu parte da noção de limite, embora esteja menos sólida estruturalmente do que no passado. “A gente tá lidando com os Estados Unidos que são mais perigosos porque de alguma forma perderam a noção de limite”, afirmou. Segundo o professor, os Estados Unidos ainda têm capacidade de causar danos no cenário internacional, mas já não dispõem da mesma legitimidade e consistência de outros momentos históricos. Para ele, essa combinação de poder remanescente e instabilidade política torna a conjuntura especialmente sensível.

<><> América Latina no centro da disputa

Afonso também analisou o impacto dessa crise sobre a América Latina. Para ele, a região voltou a ser um espaço decisivo na disputa política internacional, especialmente diante do avanço de lideranças de extrema direita alinhadas ao trumpismo. O professor afirmou que o Brasil não deve analisar o cenário regional com medo, mas com consciência dos riscos. Segundo ele, o medo tende a produzir decisões ruins e a reduzir a capacidade de mobilização política. “Quando a gente tem medo, eu acho que a gente desiste de lutar, né? E quando a gente desiste de lutar, a gente perde”, afirmou. Na avaliação de Afonso, o Brasil possui características próprias em relação a outros países da região, sobretudo pela existência de forças sociais, partidárias e institucionais mais estruturadas. Essa diferença, disse, pode ser decisiva diante das pressões internacionais e do avanço da extrema direita.

<><> Soberania digital e big techs

O professor também relacionou a crise dos Estados Unidos à disputa por soberania digital. Segundo ele, a dependência brasileira de infraestruturas privadas estrangeiras representa uma vulnerabilidade estratégica, especialmente porque essas empresas estão submetidas a obrigações legais e políticas ligadas ao governo norte-americano. “Nós dependemos de uma infraestrutura privada estrangeira que legalmente deve obrigações de segurança com o governo dos Estados Unidos. Então, eu diria, essa é a grande apreensão”, disse. Para Afonso, o Brasil precisa enfrentar esse debate de forma estrutural. Ele defendeu a criação de plataformas públicas, inclusive em formatos transnacionais, como resposta ao poder das big techs e à dependência tecnológica. “Eu tenho insistido, né? Eu acho que as plataformas, teremos que criar plataformas públicas”, afirmou. Segundo ele, a questão digital deixou de ser apenas tecnológica e passou a integrar o núcleo da soberania nacional. O controle sobre dados, infraestrutura e comunicação, afirmou, tornou-se parte da disputa política global.

<><> “Otimista e proativo”

Apesar do diagnóstico crítico, Afonso rejeitou uma leitura paralisante da conjuntura. Para ele, o caos pode ser entendido como parte de uma transição histórica, e não apenas como sinal de derrota. “O caos tem duas maneiras de olhar o caos. A primeira é você dizer: ‘Perdemos a ordem’. A segunda maneira é dizer: ‘A antiga ordem apodreceu, nós estamos rumando para uma nova ordem’. No intervalo entre essas duas ordens é caos”, afirmou. O professor disse preferir uma postura ativa diante da instabilidade política e internacional. Segundo ele, o pessimismo tende a produzir reação defensiva, enquanto a ação propositiva permite disputar o sentido da nova ordem em formação. “Eu prefiro ser otimista e proativo do que pessimista, porque o pessimista tende a ser reativo”, declarou.

 

Fonte: Brasil 247

 

Oliveiros Marques: Ideias para renovar as esquerdas

Não pude resistir à aventura de comentar esta obra. De escrita fluida, de coesão que não permite fugas, de conteúdo articulado e pensamento absurdamente contemporâneo, Ideias para renovar as esquerdas, de Juliano Medeiros, publicada pela editora Contracorrente, embora tenha menos de uma semana de lançamento, já reúne páginas fundamentais para que compreendamos o momento presente e nos lancemos à militância de hoje e de amanhã — se não com mais respostas, ao menos com as perguntas necessárias a serem feitas.

Juliano foi militante do movimento estudantil, presidente nacional do PSOL e hoje preside a federação Rede-PSOL, além de coordenar a Rede Futuro, uma plataforma militante de articulação que reúne militantes e dirigentes de movimentos sociais e organizações de esquerda de toda a América Latina. É a partir desse lugar de observação e atuação que, recorrendo a autores importantes da filosofia, da sociologia, da economia e da ciência política, ele aguça o olhar — como quem maneja estetoscópios, lupas e microscópios — para contribuir com este tão necessário debate sobre o futuro das esquerdas, em especial na América Latina.

A obra começa com uma observação fundamental que, na maioria das vezes, parece escapar à percepção de dirigentes e lideranças de esquerda: insistindo em repetir velhas análises e estratégias já desgastadas, muitos não percebem que o mundo mudou — e que, tendo o mundo mudado, as mulheres e os homens de hoje também são outros.

Juliano desmonta o falso debate que opõe “lutas de classe” a “lutas identitárias”. Sem afirmá-lo diretamente, deixa claro que essa separação é uma grande bobagem, pois hoje “a classe trabalhadora e o conflito entre capital e trabalho são atravessados por outras formas de opressão que são igualmente funcionais ao sistema do capital, como o machismo, o racismo e a homofobia”.

Nesse sentido, o autor sugere que não basta pensar a redistribuição da riqueza restrita à sua dimensão econômica. É aqui que entram, por exemplo, a questão climática e a redução da jornada de trabalho. E, no debate sobre o tempo destinado ao trabalho, Juliano insere categorias que considero fundamentais para pensarmos a atuação das esquerdas no Brasil e no mundo: família e cuidado. Não vou me alongar em discorrer sobre esses pontos, pois considero essencial que você, que lê estas poucas e mal traçadas linhas, beba diretamente da fonte e leia o livro. Mas destaco que a luz que Juliano projeta sobre essas duas categorias deveria estar presente nos capacetes de mineiro que usamos em nossos movimentos diários, emitindo raios de atenção sobre elas. Trata-se de uma disputa de grande envergadura, especialmente no Brasil, frente à apropriação indevida que o bolsonarismo fez de ambos os conceitos — transformando “família” em bandeira de conservadorismo moral e “cuidado” em discurso esvaziado de qualquer compromisso com políticas públicas efetivas.

A obra, no entanto, destaca diversas outras agendas que podem contribuir para a renovação das esquerdas — entre elas, a reinvenção das formas de organização política, o enfrentamento da crise de representação e a construção de novas narrativas capazes de dialogar com as subjetividades contemporâneas. Mas concluo, a partir da leitura, que família e cuidado podem ser a chave para retomarmos o diálogo revolucionário com os homens e mulheres de hoje.

Vale a leitura. E, acima de tudo, vale o debate que essa leitura certamente provocará. Sem verdades absolutas, mas com as provocações necessárias — afinal, nos últimos anos, a adoção de uma práxis pela práxis tem absorvido boa parte da capacidade de pensar e refletir do nosso campo.

•        “'A esquerda precisa trazer o debate da economia para nós'”, diz dirigente do MST

O integrante da direção nacional do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), João Paulo Rodrigues, afirmou que a esquerda brasileira precisa colocar a economia no centro do debate político e programático para responder aos desafios enfrentados pela classe trabalhadora e construir um novo projeto nacional de desenvolvimento. A declaração foi dada durante entrevista ao programa Brasil Popular, da TV 247.

Segundo Rodrigues, os problemas enfrentados pela população não podem ser discutidos apenas a partir das pautas tradicionais de direitos ou da organização política dos movimentos sociais. Para ele, questões como endividamento das famílias, emprego, industrialização, juros e novas formas de trabalho precisam ocupar lugar central nas formulações da esquerda.

“O debate da economia define a vida real das pessoas”, afirmou. Na avaliação do dirigente, a discussão sobre projeto nacional passa necessariamente pela construção de alternativas concretas para trabalhadores urbanos e rurais, especialmente diante das transformações provocadas pela digitalização da economia e pelo avanço da inteligência artificial.

Rodrigues argumentou que parte da nova geração de trabalhadores está sendo atraída por discursos ligados ao empreendedorismo individual e que os movimentos populares precisam apresentar respostas econômicas capazes de dialogar com essa realidade. Para ele, a defesa de direitos continua importante, mas não é suficiente para mobilizar amplos setores da população.

O dirigente citou como exemplo a situação de pequenos produtores rurais. Segundo ele, garantir a permanência dessas famílias no campo exige enfrentar problemas relacionados à produtividade, ao acesso à tecnologia, à industrialização da produção e à renda. Sem isso, afirmou, discursos simplificados sobre sucesso individual tendem a ganhar espaço.

A mesma lógica, segundo Rodrigues, vale para trabalhadores urbanos submetidos à precarização e à chamada uberização do trabalho. Ele defendeu que a esquerda apresente propostas para regular as plataformas digitais e construir formas de organização econômica que garantam renda e proteção social.

Outro ponto destacado foi o impacto da inteligência artificial sobre o mercado de trabalho. Rodrigues avaliou que o tema ainda não ocupa o espaço necessário nas discussões políticas e sindicais. Para ele, o avanço tecnológico deve ser orientado para reduzir o esforço físico dos trabalhadores, ampliar o tempo livre e aumentar a capacidade produtiva do país.

“O governo federal tem feito um esforço muito grande, mas nós vamos ser atropelados pela inteligência artificial. A esquerda precisa discutir isso”, afirmou.

Na entrevista, o dirigente também relacionou o debate econômico à necessidade de um projeto nacional mais amplo, capaz de enfrentar a dependência financeira do país, estimular a industrialização e gerar empregos. Segundo ele, temas como a política de juros, o papel do Banco Central e a destinação dos recursos públicos precisam ser incorporados ao cotidiano das organizações populares.

Para Rodrigues, a construção de um novo ciclo político exige que movimentos sociais, sindicatos, universidades e organizações populares debatam não apenas reivindicações específicas, mas também os rumos da economia brasileira. Ele defendeu que a elaboração desse projeto ocorra paralelamente à disputa eleitoral e continue após as eleições, como parte de um processo permanente de mobilização social.

Ao final da entrevista, o dirigente reafirmou que discutir economia é condição para enfrentar problemas estruturais do país e aproximar a política da vida concreta da população. “Por que o Banco Central não baixa o juro? Por que temos tanto endividamento? Esses assuntos precisam estar na pauta, porque são eles que definem a vida real das pessoas”, concluiu.

 

Fonte: Brasil 247

 

'Eu ficava até 14h por dia no celular. Estou fazendo terapia para combater meu vício'

O telefone de Marios apita e se ilumina. Ele acaba de receber uma mensagem de WhatsApp minha pedindo uma entrevista para esta reportagem.

Ele quer responder imediatamente. A vontade, ele me conta mais tarde, é avassaladora.

No entanto, ele está no meio de uma sessão de terapia sobre seu vício em telefone celular. Ele não pode responder agora.

Ele se controla. Mas assim que a reunião termina, ele volta ao telefone e, uma hora depois, nos falamos através de uma chamada de vídeo.

"Sinto muito", digo. "A última coisa que eu queria fazer era interromper sua sessão."

"Não se preocupe", suspira Marios. "Essa é a sensação que tenho há muitos anos: essa necessidade incontrolável de usar meu telefone."

"É como carregar seu próprio traficante. Minha droga está sempre no meu bolso, piscando, apitando e me lembrando de tomar uma dose."

Em um dia ruim, Marios, que é personal trainer em Londres, passava mais de 14 horas olhando para a tela (o Instagram, diz ele, é o principal problema). Mas agora ele está fazendo um curso de 12 sessões de terapia particular para tentar conter essa compulsão, que ele acredita ser impulsionada pela solidão.

Uma olhada nas estatísticas de tempo de tela do meu telefone me diz que verifiquei meu aparelho 116 vezes ontem. Também passei mais de três horas olhando para ele.

Marios é viciado? Eu sou viciada?

É difícil saber.

O vício em telefone ainda não existe como um problema de saúde oficial, mas, em uma pesquisa recente com mil adultos realizada pela Deloitte, 70% dos entrevistados disseram que passam tempo demais em seus telefones. À medida que um número crescente de acadêmicos alerta que smartphones estão mudando a química do nosso cérebro, especialistas em dependência me disseram que estão vendo mais clientes completamente dependentes de seus dispositivos.

No ano passado, um em cada três clientes tratados por dependência de drogas pelos UK Addiction Treatment Centres (UKAT), que atendem 3,5 mil pessoas por ano, também apresentava uma dependência secundária de telefone. Em 2019, eram apenas um em cada dez.

Alguns clientes chegam a desistir do tratamento para seu vício principal porque se recusam a entregar seus dispositivos ao entrar na clínica, afirma o UKAT.

Mas quando alguém deixa de ser apenas uma pessoa que envia mensagens em excesso e passa a precisar de ajuda profissional?

Ao subir pela alameda arborizada que leva ao Rainford Hall, sou recebida por enormes vitrais que datam da era jacobina, com vista para jardins bem cuidados.

É um local improvável para tratar pessoas com um vício digital.

Aqui, em St Helens, no norte da Inglaterra, funciona o centro de reabilitação Steps Together, que também recebe pessoas que lutam com outros vícios (incluindo drogas, álcool e jogos de azar).

Os terapeutas dizem estar vendo um número crescente de pessoas que não conseguem se desconectar de seus dispositivos.

"Pode afetar qualquer pessoa, de qualquer origem", explica a terapeuta-chefe Kelly Watson. "Todos nós temos telefones, todos temos circuitos cerebrais semelhantes, e muitos de nós podemos nos tornar viciados."

Parte do nosso cérebro funciona com um sistema de recompensa, diz ela. Recebemos uma mensagem, uma curtida nas redes sociais, ou até lemos alguma informação nova em um site, e então a dopamina (um mensageiro químico no cérebro que regula o prazer e a motivação) é liberada.

Eventualmente, para alguns de nós, a necessidade por esse estímulo se torna excessiva. Pode assumir o controle, fazendo com que horas — ou até dias — de nossas vidas desapareçam no mundo online, explica ela.

James, que está sendo tratado em outro centro Steps Together em Leicester, sabe bem o que é isso.

O homem de 48 anos procurou inicialmente ajuda para vício em álcool, mas logo ficou claro que sua dependência digital também estava fora de controle.

Depois de perder o emprego, seu dia passou a ser consumido por rolar as redes sociais, checar sites de notícias e se fixar no que estava acontecendo em diferentes partes do mundo.

Se ele publicasse algo nas redes sociais, ficava acordado no meio da noite verificando curtidas e comentários. Ele me conta que parecia que o mundo digital o mantinha refém.

Mas qualquer prazer em usar o telefone havia desaparecido. "Eu ficava com receio", lembra James. "Parecia que um pedaço da minha alma tinha sido sugado, mas eu não conseguia parar."

Watson afirma que, quando os clientes chegam ao Rainford Hall, eles estão preocupados, confusos e não querem abrir mão de seus telefones.

"Eles dizem: 'Mas eu preciso para o trabalho, preciso para manter contato com a família.' Posso ouvir o medo em suas vozes. É o porto seguro deles."

Muitos passam pelo menos 28 dias no centro residencial, recebendo terapia em grupo e individual para as questões que impulsionam seu vício, enquanto são ajudados a gradualmente reduzir sua dependência.

Watson trabalha com eles para diminuir aos poucos o tempo de tela e descobrir quais pensamentos e sentimentos surgem quando não estão com o dispositivo.

"Esse é frequentemente o problema — a vida pode ser difícil demais, e ao rolar a tela do telefone eles podem se dissociar do mundo real."

Longe do luxo do Rainford Hall, pessoas ao redor do mundo estão se unindo para apoiar umas às outras na luta contra o vício digital.

Em 2017, várias pessoas preocupadas com seu uso de tecnologia e internet se uniram para criar o Internet and Technology Addicts Anonymous (ITAA), uma associação global inspirada nos Alcoólicos Anônimos (AA).

Jenny é uma de suas membros. No auge de seu vício em telefone, ela não dormia por dias. Mal comia ou bebia, sua dependência era tão forte.

"Eu perdia partes da minha vida", explica a mulher de 30 anos, que não quer que a BBC use seu nome verdadeiro.

Ela não se importava com o que aparecia na tela — um filme, uma série, um vídeo curto — desde que estivesse assistindo a algo.

"Eu não percebi o quanto estava viciada até estar em abstinência e ter que pedir a amigos e familiares para manter meus dispositivos trancados", lembra Jenny.

"Era tão ruim que pensei que iria morrer se não assistisse a algo."

Se tivesse recaídas, recorria a pegar ou "emprestar sem permissão" um laptop ou um smartphone de sua família.

Mas então a culpa e a vergonha surgiam, e ela queria consumir ainda mais conteúdo para bloquear esses sentimentos.

Após anos "buscando ajuda", ela encontrou o ITAA e seguiu o programa de 12 passos contra o vício. Agora está em recuperação e não assiste nem transmite conteúdo há cinco anos.

Jenny diz que se sente confortável em ter um telefone básico e usar a internet para o trabalho. "Agora estou no comando", afirma.

Outro membro do ITAA, Tom, diz que seu vício o levou a lugares sombrios. Ele podia perder meses inteiros de sua vida com o telefone e outras telas.

"Eu passava 10 horas seguidas consumindo conteúdo — podia estar ouvindo música, assistindo algo no YouTube, navegando nas redes sociais e jogando videogame — tudo ao mesmo tempo."

"Depois eu caminhava por duas horas e voltava a consumir. Isso podia continuar por meses."

O vício de Tom foi tão avassalador que o levou a perder seu negócio e seu senso de propósito na vida.

"Eu me tornei suicida", diz ele. "Estou começando a sentir alegria real na vida novamente. Jogo muito pickleball, saio ao ar livre e vou à academia."

Hilda Burke, psicoterapeuta credenciada pela British Association of Counselling and Psychotherapy (BACP), escreveu recentemente um livro de apoio chamado Phone Addiction Workbook, após observar um número crescente de clientes procurando ajuda por dependência digital.

Se você está preocupado com o tempo que passa na tela, ela recomenda analisar seu próprio comportamento e refletir sobre o que pode estar por trás disso.

"Faça a si mesmo perguntas como: 'O que estava acontecendo naquele dia? Eu estava esperando alguém responder a uma mensagem?'"

Muitas vezes, é a espera por uma resposta a uma mensagem que causa nosso desconforto inicial, explica Burke. Isso então nos leva a usar o telefone como distração.

"Em vez de entrar online, talvez faça outra coisa para se distrair. Chame um amigo, vá correr, leia um livro.

"E tente não sentir culpa ou vergonha — em vez disso, pense em como poderia lidar com isso da próxima vez."

Empresas de telefonia também introduziram recursos que ajudam as pessoas a monitorar seu tempo de tela e restringir o acesso a certos aplicativos, em uma tentativa de combater o ciclo viciante em que muitos de nós caímos.

De volta ao norte de Londres, Marios está esperançoso de que seu curso de terapia poderá ajudá-lo a superar sua dependência de telefone. Ele também está a caminho de se tornar fluente em espanhol — graças a vários aplicativos em seu telefone.

"Nem tudo é ruim", diz ele.

Mas, um segundo depois, ele pega o telefone por impulso. Assim que o toca, parece se lembrar de sua determinação. Ele pressiona o aparelho com firmeza.

"Todos os dias, estabeleço a intenção de não usá-lo tanto e isso está fazendo diferença", diz Marios. "E, a cada dia, estou lentamente começando a aproveitar as coisas novamente. É possível, tenho certeza."

 

Fonte: BBC News

 

Governo Trump vai 'tensionar' eleições no Brasil por medo da China, diz especialista que mapeou direita na América Latina

As mais recentes vitórias presidenciais na América Latina reforçaram o movimento que a região vem promovendo há alguns anos: a de ter seus países governados pela direita.

Após mais de três semanas de apuração das urnas, Keiko Fujimori se consagrou como vencedora das eleições no Peru. Com uma diferença de 49.641 votos a mais sobre o candidato da esquerda, Roberto Sánchez, esta foi mais uma eleição acirrada na América Latina, onde direita e esquerda disputaram, voto a voto, a preferência do eleitor.

Foi mais uma eleição em que a direita sai vencedora na região, a exemplo também da vitória de Abelardo de la Espriella no disputado segundo turno na Colômbia.

Ambos são de direita, embora tenham características antagônicas, como explica Regiane Bressan, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), especializada em América Latina.

Enquanto De la Espriella é tido como um outsider — um jovem empresário que nunca ocupou nenhum cargo eletivo antes — Keiko Fujimori vem de uma família tradicional na política de seu país e concorreu em outras três eleições presidenciais antes desta última, em que saiu vitoriosa.

Por outro lado, os dois presidentes foram eleitos sob forte discurso de combate ao narcotráfico e à violência nas ruas e contribuíram para deixar o mapa da região cada vez mais à direita.

Esse movimento vem acontecendo desde o início dos anos 2000, explica Bressan e já na última década tingiu o mapa da América Latina quase que todo de presidentes da direita (veja abaixo).

Ela atribui essa guinada à direita a diversos fatores, mas reforça que a descrença na política tradicional, a influência das redes sociais e a busca por soluções rápidas para problemas complexos estão muito presentes.

Mas o denominador comum desse movimento não é um discurso, é um país: os Estados Unidos.

Para Bressan, o país interfere — direta ou indiretamente — nas decisões da região. E as eleições do Brasil, neste ano, não serão diferentes.

"Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil", afirma ela.

Nesta entrevista, ela conta o que está por trás dessa "tensão" americana na região, por que um presidente de direita não é automaticamente um aliado de Trump, e como o discurso baseado na segurança pública está tão presente em todas as campanhas.

·        Podemos começar fazendo um panorama dos principais líderes da América Latina e seus alinhamentos políticos?

Regiane Bressan – Bom, na Argentina, o Javier Milei é um presidente de direita, alinhado com Donald Trump.

Na Bolívia, o presidente Rodrigo Paz Pereira está alinhado à direita e encerrou um longo ciclo de hegemonia do movimento socialista, representado pelo Evo Morales.

No México, a Claudia Sheinbaum, que é de esquerda. E é importante falar do México, que é um país e uma líder que tentou ao longo desses últimos anos não apenas ser governado pela esquerda, mas ter autonomia e reforçar a sua soberania. Ao mesmo tempo, eles têm uma política muito próxima dos Estados Unidos, isso é histórico devido à fronteira, aos acordos internacionais, pelo próprio Nafta, que hoje, com o México, chama-se T-MEC.

No entanto, a Claudia Sheinbaum vem encontrando muita dificuldade para manter certa autonomia, já que as questões da migração, do narcotráfico e mesmo do comércio, com as maquiladoras — que são as empresas americanas que estão no México — causam uma interdependência muito forte.

Ela encontra, muito mais do que o Brasil, dificuldade para manter autonomia e soberania ao mesmo tempo. O México, por meio de governos de esquerda, buscou uma presença maior na América Latina, inclusive figurando entre os países interlocutores na questão venezuelana. No entanto, ele saiu bastante fragilizado porque não conseguiu um diálogo, na época, com Nicolás Maduro, após as eleições de julho de 2024.

Sobre o Chile, estive lá antes do segundo turno, que deu a vitória, no fim do ano passado, para José Antonio Kast. Naquele momento, a população sentia o grande problema da segurança pública, da violência nas ruas. Há muita pressão por causa dos Estados Unidos de um lado, e dos fluxos migratórios, sobretudo venezuelanos, do outro, porque eles têm muito mais resistência do que nós em relação aos venezuelanos. E isso ajudou na vitória do Kast, já que o Chile também é um país historicamente mais conservador, mais à direita.

O Kast não é um populista como o Milei ou como o Abelardo de la Espriella, que acabou de ganhar na Colômbia, mas é alinhado aos Estados Unidos e à direita.

Falando de Abelardo de la Espriella, na Colômbia, ele mimetiza [Nayib] Bukele e Milei. É um extremista populista, um outsider que não tem praticamente nenhuma experiência na política, mas foi eleito com um discurso atacando a dificuldade de governabilidade de Gustavo Petro, o fluxo migratório da Venezuela, com um alinhamento com os Estados Unidos e com o desafio de crescimento econômico.

·        O Panamá, embora não figure entre os grandes países da região, tem uma situação interessante de ser dita, não?

Bressan – Sim, ali, o presidente José Raúl Mulino também é considerado de direita, mas é importante recordar que os Estados Unidos ameaçaram voltar a ter o domínio no Canal do Panamá. Ou seja, não é porque o governo é de direita que o Trump está facilmente alinhado e apoiando.

Eu acho que os Estados Unidos são sempre uma ameaça e os países têm que se curvar muito. E isso foi pressionado pelo documento expedido no dia 5 de dezembro de 2025, quando os Estados Unidos divulgaram o seu interesse em ter o domínio na região, em exercer influência.

Ou seja, ainda que Mulino seja de direita, ele não deixa de sofrer a pressão dos Estados Unidos sobre o Canal do Panamá.

·        Ser de direita não garante automaticamente apoio dos Estados Unidos.

Bressan - Exatamente.

·        Esses países alinhados à direita e aos Estados Unidos foram eleitos com um discurso de combate ao narcotráfico e à violência, talvez exceto Milei.

Bressan – É, mas ele foi eleito em 2023, era outro momento. E a Argentina vem enfrentando um problema enorme de crescimento econômico desde 2002.

O país está numa crise econômica e ele se ancorou muito nessa questão da ideologia, porque houve trocas ideológicas na Argentina e nenhum deles conseguiu resolver o problema econômico. Então ele se pautou muito na economia, mas eu acho que ele também traz em seu discurso essa questão da violência e da segurança, mas não tanto quanto os outros nesse momento, já que essa também está sendo uma bandeira muito grande do Trump.

Então, de maneira geral, e respondendo à sua pergunta, com certeza. E a questão da violência vai pautar também a eleição aqui no Brasil.

·        Mas seguindo com o mapeamento, faltou o Peru...

Bressan – Isso, onde a Keiko Fujimori foi eleita. Ela é de direita, mas ela não é uma outsider como os demais, como o Abelardo, Milei e Bukele. Ela vem de uma família tradicional, é filha de Alberto Fujimori, que governou o país nos anos 90 de maneira autoritária, então, ela deve seguir uma linha de direita bem conservadora.

É a quarta tentativa dela de eleição. E ela também usou as pautas do narcotráfico e da segurança interna como uma bandeira da sua campanha eleitoral.

·        E essa ancoragem nessa pauta da segurança, da violência, é um dos fatores que podem explicar o país ter voltado para um Fujimori?

Bressan - Sim, mas foram uma campanha e uma eleição muito acirradas. Mas podemos dizer sim, que essa temática também induziu, também favoreceu sua eleição. O Peru está, há muito tempo, muito envolvido com o narcotráfico. Junto com a Bolívia e a Colômbia, é um país que lidera o envolvimento com o narcotráfico.

A questão do narcotráfico é um grande problema, porque, ao mesmo tempo que países como o Brasil querem ter autonomia e soberania para lidar com esse problema, trata-se de um problema transnacional em que os países já não conseguem mais efetivar uma ofensiva sozinhos.

Aliás, um dos grandes problemas do narcotráfico é o consumo, e o principal mercado consumidor são os Estados Unidos. Se não houver um combate ao consumo de drogas lá, a gente não vai conseguir aqui. Porque a partir do momento em que eu continuo tendo consumo, eu estou incentivando toda a cadeia.

E já sabemos que os países não vão dar conta sozinhos.

Então é possível que tanto a Colômbia quanto o Peru e a Bolívia tenham um envolvimento maior dos Estados Unidos no combate ao narcotráfico, inclusive na Bolívia.

É importante falar também do Uruguai, cujo presidente é Yamandú Orsi, de esquerda.

É um dos países mais estáveis da América Latina. Diferentemente dos demais, ele está à esquerda, mas não existe um tensionamento ideológico tão grande quanto nos demais. Ali ocorre a manutenção das políticas.

Conversando com lideranças, analistas e pesquisadores no Uruguai, é isso que a gente vê: uma esquerda, mas que mantém as políticas públicas, e aí quando a direita ganha, também não há muitas mudanças. Então é um dos países mais estáveis da região, é claro, mantendo sempre o preceito democrático.

·        Recentemente vazou uma fala do presidente Lula afirmando que "nunca foi um esquerdista". Essa fala ocorreu em conversa informal com a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional (FMI), Kristalina Georgieva, e o chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o G7 na França. Como a senhora classificaria o país?

Bressan - Eu ainda o classifico como de esquerda, como um país progressista. Mas a própria esquerda critica muito, tem muitas críticas.

·        Olhando para esse mapa, a gente pode perceber que a direita, os governos alinhados aos Estados Unidos são a maioria nos países da região. Isso tem a ver com o que os pesquisadores chamam de pêndulo na América Latina?

Bressan – Sim, de maneira geral, os governos estão alinhados à direita. Isso não seria um problema, afinal, não é um problema ser de direita ou de esquerda. O problema é que governos extremistas muitas vezes tensionam e flertam com o autoritarismo.

Muitas vezes, para conseguir realizar determinados feitos, como, por exemplo, Milei, que prometeu extinguir o Banco Central e dolarizar a economia, e, para isso, ele está fazendo uma grande afronta ao Congresso, porque isso não se resolve apenas com o presidente.

O cidadão latino-americano acredita numa democracia que nós chamamos de democracia delegativa. Guillermo O'Donnell [politólogo argentino] dizia que o eleitor latino-americano acredita que a democracia acontece apenas a cada quatro anos, no sufrágio.

Ou seja, eleito presidente, ele teria superpoderes para governar da forma como pretender.

E assim, a população latino-americana muitas vezes não se espanta quando um governo vai migrando para o autoritarismo, porque muitas vezes esse movimento é feito de maneira paulatina. Não é de uma hora para outra que se torna autoritário.

Vejamos o exemplo da Venezuela, que é o mais recente na região: as instituições democráticas foram sendo extintas, reformas foram sendo feitas, e quando a população se dá conta, já é um governo autoritário.

A grande preocupação com governos extremistas e populistas é que muitas vezes eles têm o apoio da população para determinadas reformas.

O próprio Hugo Chávez fez inúmeros plebiscitos. Ele, que era uma figura que governava muito em torno de si mesmo, era bastante populista.

O nosso medo de governos como o de Bukele, como o de Milei, como agora, de Abelardo de la Espriella, que é um outsider que não vem da política tradicional, é que eles possam, de alguma forma, migrar para o autoritarismo.

·        E por que esses governos foram eleitos agora?

Bressan - Existe também uma descrença na política tradicional e na própria democracia. Por que a população elegeu candidatos como eles, que não têm repertório?

Estive na Argentina em 2023, pouco antes das primárias, e consegui, naquele momento, visitar o Congresso argentino junto a um deputado. Eu estava fazendo pesquisa sobre o apoio ao acordo Mercosul-União Europeia.

No Congresso, eu perguntei a esse deputado sobre o Milei, [na época deputado também], e ele respondeu: "eu sei como é que ele atua aqui, ele fala muito menos do que eu — e eu não sou um candidato muito expressivo — então dificilmente ele vai ganhar".

Aliás, dos dez entrevistados que a gente teve naquela semana, todos falavam "Milei não tem chance". Eu cheguei a ouvir "a gente não é Brasil, como vocês, que elegeram Bolsonaro".

Só que eles eram pessoas mais experientes, com mais idade, que ainda acreditavam na política tradicional. Os mais jovens, além de não acreditarem na política tradicional, se alimentam de informações pelas redes sociais, e gostam de candidatos que apresentam uma solução rápida, uma solução imediata [para os problemas].

Por isso que a Colômbia acabou de eleger Abelardo de la Espriella, que é jovem e empresário. E ele quer dar uma solução rápida a um problema histórico da Colômbia, que é o narcotráfico, um problema que vem desde os anos 70.

Tudo isso para a gente entender que a região está sendo governada hoje por governos majoritariamente de direita, que estão pegando muito pesado com a questão da segurança pública. Isso porque a violência está grande, mas ela também é fruto de um problema estrutural da região, que é a pobreza e a desigualdade. E os governos de esquerda não deram conta de resolver essa problemática totalmente.

Tivemos a onda da esquerda no começo do século 21 e esses governos, claro, se saturaram. E aí uma outra coisa importante sobre a influência externa: esse período [da onda da esquerda, início dos anos 2000] foi o momento em que os Estados Unidos se voltaram para o 11 de setembro e eles deram um espaço, um respiro, se retiraram muito da nossa região.

E não existe vácuo nas relações internacionais. Outras lideranças ocuparam. Tanto líderes emergentes, não populistas, vieram à baila, ou seja, conseguiram governar, como também tivemos uma influência cada vez maior da China, que não publiciza, mas está muito presente na nossa região. E os Estados Unidos estão esperneando desde o começo do governo Trump, porque eles sabem que estão perdendo a hegemonia mundial para a China.

A China não publiciza, eles têm outra forma de trabalhar, mas eles estão muito presentes.

·        E olhando para essa situação, dos Estados Unidos perdendo hegemonia, a senhora acha que Trump pode, de alguma maneira, interferir ou atuar na eleição brasileira deste ano?

Bressan - Com certeza. Eu não tenho provas concretas sobre isso, mas eu te falo por circular pelas eleições dos outros países, estar em contato com pesquisadores do Uruguai, da Venezuela, agora estive no México, e não tem como não acreditar que não haja interferência.

E não precisa existir uma interferência direta. Existe uma influência, uma pressão e isso é muito divulgado, como quando o Flávio Bolsonaro foi lá nos Estados Unidos jogar com as tarifas. Sabemos que o nosso Pix é uma ameaça em relação às bandeiras dos cartões, então existe aí toda essa dinâmica.

Mas, que os Estados Unidos vão pressionar por um candidato alinhado a eles, não tenho dúvida. Eles querem voltar a ter influência sobre nós, porque sabem que perderam, de um lado para a China, e do outro, para a União Europeia, que deve estar cada vez mais presente aqui. A União Europeia não é uma ameaça para os Estados Unidos, mas está nesse tabuleiro de forças de influência na região.

·        Especialmente agora com o acordo Mercosul-União Europeia entrando em vigor...

Bressan – Com certeza.

Em agosto do ano passado [quando o primeiro tarifaço de Trump tinha acabado de entrar em vigor], estive em Brasília fazendo entrevistas sobre o tema das tarifas.

Conversamos com alguns deputados e foi interessante que nenhum deles, naquele momento, queria falar dos Estados Unidos. Mas todos diziam "olha, temos que procurar alternativas, temos que ir ao México".

Aí fomos na CNI [Confederação Nacional da Indústria], no Itamaraty, e a ideia era a mesma: "Vamos buscar alternativas, vamos buscar uma solução, não vamos ficar reféns dos Estados Unidos ou duelando com os Estados Unidos."

·        Diante dessa situação, numa eventual vitória novamente do Lula esse ano, ele corre o risco de ficar isolado no continente, em relação aos Estados Unidos?

Bressan – Bom, vamos lembrar como foi a estratégia do Brasil no G20. A gente queria negociar o acordo do Mercosul com a Europa. O que o Brasil fez? Usou uma grande estratégia. Chamou o Milei para o G20, o Milei foi, falou tudo o que ele queria falar, a política externa brasileira acolheu o Milei e depois falou: "Milei, então você assina o documento?"

E ele assinou.

A política externa é pragmática, e a gente não vai se isolar, porque a nossa política externa é pragmática.

Eu dei o exemplo do Milei, mas é isso que a gente vai fazer com a Colômbia, com a Venezuela. Ou seja, não concordamos com a eleição, mas não vi ninguém do Itamaraty condenar, se isolar, porque fazemos fronteira, porque somos um país grande, porque a qualquer momento os Estados Unidos podem intervir ou se envolver num conflito, e o Brasil quer estar aqui presente na região.

Aliás, o que a gente tem discutido nos congressos de integração é voltar a ter o que a União Europeia teve lá nos anos 50, que foi uma integração funcional. Ou seja, Alemanha e França, que estiveram em conflito na Segunda Guerra, não queriam mais brigar. O que eles fizeram? Compartilharam a administração de aço e carvão, essenciais para uma guerra.

As políticas de infraestrutura, de estrada, de rodovia na América do Sul devem continuar, a despeito das ideologias. E aí a gente consegue uma integração mais funcional, ou seja, baseada em funções, em pragmatismo e interesses efetivos dos nossos Estados.

Eu acredito que os Estados Unidos continuarão tensionando a nossa região e acho que vão tensionar as eleições no Brasil. Vão continuar tensionando a situação do México. E, é claro, a gente tem que estar muito atento a esses governos extremistas, porque são governos extremistas que rompem com a democracia.

·        Quando a senhora fala em tensionar as eleições brasileiras, o que isso significa, na prática? Essa tensão vem de que forma?

Bressan – Em forma de tarifas, de considerar como terroristas as facções criminosas, as Big Techs, que o Brasil quer regulamentar, e as críticas ao Pix.

Acho que esses quatro temas já são um grande exemplo do que a gente deve enfrentar nos próximos meses em relação ao tensionamento dos Estados Unidos.

·        E tem alguma conversa que o Lula poderá ter para remediar essa postura do Trump?

Bressan - Aí vamos entrar em outra arena que é a sanidade do Trump. Ele é muito instável, não é pragmático. Acho que a dificuldade que o Lula encontra é essa, ele encontra o Trump num dia, o Trump gosta. Aí no outro, já não gosta mais. É uma instabilidade que dificulta demais.

[Robert] Keohane, um teórico dos anos 80, que fala sobre a importância, depois da Guerra Fria, de criarmos e ampliarmos as organizações, diz que é importante que eu saiba como o outro vai atuar. Eu tenho regras, porque eu sei mais ou menos como o outro país vai atuar e aí eu consigo ter um planejamento econômico, consigo investir em indústria para exportar, porque sei que o outro país vai comprar de mim, sei que eu posso fazer uma cadeia produtiva.

A previsibilidade de comportamento é muito importante para as relações internacionais. E nós estamos num momento de fracasso, de encolhimento, de retração dessas organizações.

A imprevisibilidade, que não me deixa saber como os países vão atuar, dá medo, gera insegurança à população e faz com que haja também uma descrença.

É um ciclo: uma descrença na política, nos partidos tradicionais, que gera o apoio a candidatos de respostas rápidas, e que flertam com um certo autoritarismo, porque existe instabilidade e instabilidade gera insegurança que gera medo.

E aí as pessoas tendem a sair dos partidos mais tradicionais, sair daqueles políticos que já até governaram antes, para candidatos outsiders.

 

Fonte: BBC News Brasil