terça-feira, 1 de setembro de 2026

A guerra mais perto do Brasil: Washington acelera a militarização das Américas

Ataques letais, centenas de mortos, critérios secretos para a escolha de alvos, drones, inteligência integrada e um novo comando militar revelam uma mudança de escala na estratégia dos Estados Unidos. Uma engrenagem que avança pelo continente e coloca o Brasil diante de uma questão decisiva: até onde Washington pretende levar sua guerra contra o chamado narcoterrorismo?

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<><> A guerra já começou

Em 25 de agosto de 2026, forças dos Estados Unidos destruíram uma embarcação rápida no Caribe e mataram quatro pessoas. O Comando Sul dos Estados Unidos (United States Southern Command, SOUTHCOM), responsável pelas operações militares norte-americanas na América Latina e no Caribe, afirmou possuir “inteligência confirmada” de que o barco participava do narcotráfico, mas não tornou públicas as evidências que sustentaram essa conclusão. Dois dias antes, outra embarcação havia sido destruída no Pacífico Oriental, deixando dois mortos. As duas ações foram executadas pela Força-Tarefa Conjunta do Hemisfério Ocidental (Joint Task Force Western Hemisphere, JTF-WHEM), novo braço operacional criado pelo SOUTHCOM em agosto.

Os ataques de agosto não são episódios isolados. Eles integram uma campanha iniciada em setembro de 2025 contra embarcações que Washington identifica como vinculadas ao narcotráfico. Até 25 de agosto de 2026, eram 68 ataques, com 227 mortos, desaparecidos ou presumivelmente mortos e apenas três sobreviventes conhecidos. A dimensão da mudança aparece nesses números. Os Estados Unidos já não se limitam a interceptar carregamentos, apreender drogas, bloquear recursos financeiros ou apoiar forças policiais estrangeiras. Passaram a empregar força militar letal para destruir embarcações e matar pessoas que classificam como integrantes de redes narcoterroristas no Caribe e no Pacífico Oriental.

A linguagem oficial deixa pouca margem para dúvida sobre a finalidade da nova estrutura. Depois do ataque de 23 de agosto, o general Francis Donovan, comandante do SOUTHCOM, afirmou que havia criado a JTF-WHEM precisamente para “acelerar, sincronizar e executar ações letais” contra redes narcoterroristas. O comunicado também afirmou que o objetivo era levar diretamente a luta aos cartéis. No ataque de 25 de agosto, Donovan declarou que a força continuaria caçando, desarticulando e derrotando essas redes. Não se trata apenas de endurecimento retórico. Uma organização militar permanente foi criada com a função declarada de transformar inteligência em ação letal.

O ponto decisivo está no que ocorre antes do disparo. Nos dois ataques mais recentes, o SOUTHCOM afirmou possuir inteligência que vinculava as embarcações ao narcotráfico, mas não apresentou publicamente as provas utilizadas, a identidade dos mortos ou o conjunto de critérios que levou à decisão de empregar força letal. A questão, portanto, não é negar a existência do narcotráfico nem minimizar a violência dos cartéis. É compreender o que muda quando uma potência estrangeira reivindica para si a capacidade de classificar suspeitos como inimigos, localizar esses indivíduos por meio de inteligência militar e eliminá-los sem tornar visível ao público a cadeia completa que sustenta essa decisão.

A guerra, nesse sentido, não começa no míssil. Começa antes, quando o crime é deslocado para a categoria de terrorismo e o suspeito passa a ser enquadrado dentro de uma arquitetura de segurança capaz de tratá-lo como ameaça militar. Para entender como Washington chegou a esse ponto, é preciso reconstruir a mudança jurídica e política que tornou possível transformar narcotráfico em guerra.

<><> Quando o crime virou guerra

Antes de ampliar os ataques, Washington mudou a categoria do inimigo. Em 20 de janeiro de 2025, primeiro dia de seu novo mandato, Donald Trump assinou uma ordem executiva que abriu caminho para classificar cartéis internacionais e outras organizações transnacionais como Organizações Terroristas Estrangeiras (Foreign Terrorist Organizations, FTOs) ou Terroristas Globais Especialmente Designados (Specially Designated Global Terrorists, SDGTs). O texto descrevia os cartéis como ameaça à segurança nacional dos Estados Unidos, comparava suas estruturas às de organizações envolvidas em insurgência e guerra assimétrica e afirmava que sua atuação ameaçava a estabilidade do Hemisfério Ocidental. O narcotráfico começava a ser deslocado do campo predominante da investigação criminal para o da segurança nacional.

Em março de 2026, essa mudança já havia alcançado a estratégia militar. O SOUTHCOM informou ao Congresso que 13 organizações designadas como terroristas estrangeiras atuavam em sua área de responsabilidade. No mesmo período, Trump determinou o desmantelamento de cartéis e organizações terroristas estrangeiras e convocou países parceiros a mobilizar capacidades militares contra essas redes. A Estratégia Nacional de Controle de Drogas de 2026 incorporou a transformação de maneira ainda mais explícita ao incluir “ataques cinéticos contra narcoterroristas” entre os instrumentos empregados pelos Estados Unidos.

A mudança de categoria ampliou o repertório de poder disponível. Sanções, bloqueios financeiros, restrições migratórias e instrumentos penais passaram a coexistir com uma estratégia que admite força militar letal. Mas existe uma fronteira jurídica fundamental: designar uma organização como terrorista não transforma automaticamente cada integrante, associado ou suspeito em alvo militar legítimo. Entre classificar uma organização e matar uma pessoa existe uma cadeia jurídica e operacional que nenhuma mudança de vocabulário pode apagar.

É justamente nessa distância que se encontra a transformação mais importante. Para converter a categoria de narcoterrorista em capacidade de ação militar, não basta nomear o inimigo. É preciso encontrá-lo, acompanhá-lo, relacioná-lo a uma rede e produzir conhecimento operacional sobre seus movimentos. A guerra começa na classificação, mas só se torna executável quando existe uma máquina capaz de enxergar.

<><> A máquina por trás dos ataques

Um míssil é o último ato de uma operação que começa muito antes do disparo. Para localizar uma embarcação, acompanhar sua rota e relacioná-la a uma rede criminosa, é preciso transformar sinais dispersos em conhecimento operacional. O SOUTHCOM vem construindo essa capacidade por meio do Enhanced Domain Awareness (EDA), ou Consciência Ampliada do Domínio, arquitetura que integra informações de diferentes fontes em um quadro comum do ambiente estratégico. Em seus documentos, o comando trata dados como ativo estratégico e associa análise de dados e inteligência artificial à ampliação da consciência situacional e à aceleração das decisões.

O EDA integra uma estrutura mais ampla de Inteligência, Vigilância e Reconhecimento (Intelligence, Surveillance and Reconnaissance, ISR), alimentada por sensores, imagens geoespaciais, sistemas não tripulados e informações compartilhadas. Em abril de 2026, o SOUTHCOM aprofundou esse movimento ao criar o Comando de Guerra Autônoma (SOUTHCOM Autonomous Warfare Command, SAWC), destinado a incorporar sistemas não tripulados e autônomos em diferentes domínios. Dados, vigilância e automação passavam a compor um mesmo ecossistema operacional.

Essa arquitetura também se projeta sobre os países parceiros. Em exercícios multinacionais, o EDA já foi empregado para ampliar interoperabilidade e compartilhamento de informações. Militares brasileiros participaram, em 2024, de um exercício de consciência situacional espacial no qual dados de diferentes fontes foram integrados para formar um quadro operacional comum. O ponto estratégico está nessa capacidade de convergência: informações produzidas por atores distintos podem alimentar um ambiente compartilhado de observação organizado pelo comando militar norte-americano.

Há também participação privada nessa infraestrutura. Em fevereiro de 2026, o governo dos Estados Unidos concedeu à Barbaricum LLC um contrato de até US$ 82,6 milhões relacionado ao EDA e à estrutura de inteligência do SOUTHCOM. A empresa descreveu seu trabalho como parte da construção de um ecossistema distribuído de inteligência, envolvendo integração de dados, computação em nuvem e ferramentas geoespaciais de apoio à decisão. Isso não demonstra que uma empresa privada escolha alvos ou autorize ataques. Demonstra que capacidades privadas participam da infraestrutura tecnológica que transforma dados em conhecimento utilizável por um comando militar.

É nesse ponto que a tecnologia se torna questão de poder. Quem consegue integrar sensores, dados e inteligência adquire capacidade de organizar o campo no qual pessoas, embarcações e redes serão identificadas e classificadas. Para a América Latina, soberania passa também pela pergunta sobre quem produz a imagem estratégica do continente. Mas enxergar ainda não significa atacar. Para transformar vigilância em violência continuada, Washington precisava conectar inteligência, forças e comando numa estrutura operacional.

<><> Do laboratório ao comando permanente

A capacidade de enxergar precisava ser conectada à capacidade de agir. Esse papel coube à Operação Southern Spear, ambiente no qual o SOUTHCOM passou a empregar força militar diretamente contra redes classificadas por Washington como narcoterroristas. O combate às drogas ultrapassava a apreensão de carregamentos, a cooperação policial e a perseguição financeira. Inteligência militar passava a sustentar ataques contra embarcações no Caribe e no Pacífico Oriental.

Southern Spear revelou também um alcance maior. Em abril de 2026, o SOUTHCOM informou a interceptação ou apreensão de seis embarcações envolvidas no transporte ilegal de petróleo sancionado. Em janeiro, militares norte-americanos haviam tomado, sem incidentes, o petroleiro Veronica. O contraste importa. A mesma arquitetura militar demonstrava capacidade para interditar embarcações e deter ocupantes, enquanto em outras operações empregava força letal. Isso não significa que toda embarcação atacada pudesse ser abordada com segurança. Significa que existe uma decisão crítica entre interditar e destruir, e os critérios completos que orientam essa passagem não são públicos.

A campanha produziu também uma dinâmica característica de operações prolongadas. Relatórios oficiais registraram que as redes ilícitas modificaram rotas diante da pressão militar, enquanto a Agência de Inteligência de Defesa (Defense Intelligence Agency, DIA) ampliava a coleta para acompanhar essas mudanças. A sequência tornava-se circular: ação militar, adaptação das redes, nova inteligência e nova ação.

Em 4 de agosto de 2026 ocorreu o salto institucional. O SOUTHCOM ativou a JTF-WHEM, apresentada como evolução da experiência construída anteriormente. Com comando próprio e comando e controle unificados nos níveis tático e operacional, a nova força foi concebida para sincronizar capacidades militares e ampliar a integração com países parceiros. Southern Spear havia fornecido o ambiente de experimentação operacional. A JTF-WHEM transformava essa experiência em estrutura permanente.

Essa é a mudança de estágio. Washington passou a reunir numa mesma arquitetura a classificação do inimigo, a capacidade de localizá-lo e uma estrutura militar criada para agir contra ele. A militarização deixava de depender apenas de uma operação específica e ganhava instituição, cadeia de comando e continuidade. Para funcionar em escala hemisférica, porém, essa estrutura precisaria conectar suas capacidades às de outros Estados. A guerra começava a se distribuir pelas Américas.

<><> Uma guerra distribuída pelas Américas

Uma estrutura hemisférica não funciona apenas com forças norte-americanas. Precisa de acesso, inteligência compartilhada, interoperabilidade e capacidades locais. É nesse espaço que atua a Coalizão das Américas contra os Cartéis (Americas Counter Cartel Coalition, A3C), criada em 2026 para integrar países da região ao enfrentamento dos cartéis. Em agosto, o SOUTHCOM já registrava 18 nações parceiras vinculadas à arquitetura operacional da JTF-WHEM.

O modelo não pressupõe que Washington comande as Forças Armadas latino-americanas, nem existe evidência de que todos os integrantes da coalizão participem das ações letais dos Estados Unidos. O que os documentos mostram é outra coisa: compartilhamento de inteligência, treinamento combinado, interoperabilidade, interdição marítima e integração de capacidades militares. Exercícios multinacionais como o Panamax 2026 reforçam esse processo ao treinar forças de diferentes países para operar de maneira coordenada.

A direção estratégica foi explicitada em agosto, durante uma reunião da A3C no Panamá. O secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, agradeceu aos parceiros pelo apoio à capacidade norte-americana de “encontrar, fixar e finalizar” alvos narcoterroristas. A expressão pertence à linguagem operacional da cadeia de ataque e revela o grau de militarização incorporado ao projeto. Não se trata de atribuir aos parceiros responsabilidade automática pelos ataques norte-americanos, mas de observar que a cooperação regional passa a coexistir com uma estratégia que admite força letal contra organizações classificadas como terroristas.

Forma-se assim uma divisão assimétrica do trabalho militar. Os Estados Unidos concentram inteligência de alcance global, tecnologia, logística e poder de fogo, enquanto países parceiros podem fornecer conhecimento territorial, informações, acesso e forças locais. Esses governos mantêm interesses e capacidade de decisão próprios, mas participam de uma arquitetura cujo principal centro tecnológico e estratégico permanece em Washington.

O resultado é uma centralização da integração com descentralização dos meios. As capacidades permanecem distribuídas entre diferentes Estados, enquanto inteligência, treinamento e operações tornam-se crescentemente interoperáveis. O problema não está na cooperação contra o crime transnacional, que é necessária, mas em quem conserva o poder de classificar a ameaça e definir os limites da resposta quando essa cooperação se conecta a uma estratégia que admite violência militar.

É nesse ponto que o Brasil entra diretamente na equação. Quando organizações criminosas brasileiras passam a integrar a classificação norte-americana de terrorismo ao mesmo tempo em que Washington constrói uma arquitetura hemisférica para enfrentar militarmente o narcoterrorismo, uma transformação iniciada fora das fronteiras brasileiras começa a produzir consequências dentro de seu ambiente estratégico.

<><> O Brasil diante do limiar

O Brasil não é alvo declarado dessa guerra. Não há evidência pública de um plano norte-americano para atacar o território brasileiro nem de que organizações do país integrem listas militares secretas de alvos. O problema é outro. Em 28 de maio de 2026, o Departamento de Estado anunciou a designação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como Organizações Terroristas Estrangeiras (Foreign Terrorist Organizations, FTOs), com efeitos a partir de 5 de junho. Duas das maiores facções brasileiras ingressavam formalmente na mesma categoria jurídica que Washington vinha conectando à sua estratégia contra o narcoterrorismo.

A classificação começou rapidamente a produzir consequências. Em 1º de julho, o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros (Office of Foreign Assets Control, OFAC), órgão do Departamento do Tesouro responsável pela aplicação de sanções econômicas, atingiu brasileiros e empresas acusados de integrar uma rede de lavagem de dinheiro vinculada ao PCC. O episódio demonstrou a dimensão extraterritorial do instrumento: decisões tomadas em Washington podem alcançar indivíduos, patrimônio e circuitos empresariais relacionados a organizações cuja atuação se concentra no Brasil.

O Itamaraty percebeu o risco. Em respostas encaminhadas ao Congresso Nacional, o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, advertiu que a classificação unilateral poderia produzir consequências financeiras, migratórias e penais e contribuir para “militarizar a agenda regional de combate ao crime organizado”. Vieira registrou ainda a possibilidade de emprego de força militar dos Estados Unidos em território brasileiro como questão de soberania. O alerta não significa que exista um ataque em preparação. Expõe a colisão potencial entre duas concepções jurídicas: o Brasil distingue crime organizado de terrorismo, enquanto Washington passou a enquadrar PCC e CV dentro de sua arquitetura antiterrorista.

É nessa fricção que aparece a desintermediação estratégica do Brasil. Soberania não começa apenas quando uma força estrangeira atravessa a fronteira. Ela está também na capacidade de produzir conhecimento sobre o próprio território, classificar juridicamente suas ameaças e decidir quais instrumentos podem ser empregados contra elas. Quando uma potência externa classifica atores brasileiros, impõe sanções sobre redes relacionadas a eles e mantém uma arquitetura militar hemisférica para enfrentar organizações que define como narcoterroristas, parte das decisões que condicionam o ambiente de segurança brasileiro passa a ser produzida fora das instituições nacionais.

Isso não diminui a necessidade de enfrentar PCC, Comando Vermelho e outras organizações transnacionais. O problema não é escolher entre soberania e combate ao crime. É preservar a autoridade brasileira sobre os termos desse combate. Cooperação internacional pode ampliar a capacidade do Estado; não exige aceitar que outro país determine quando uma questão submetida ao direito penal brasileiro passa a pertencer à lógica da guerra.

É por isso que a guerra está mais perto do Brasil. Não porque haja evidência de um ataque iminente, mas porque organizações brasileiras entraram na gramática norte-americana do terrorismo justamente quando Washington construiu instrumentos militares para agir contra aquilo que classifica como narcoterrorismo. A questão decisiva passa a ser quem conserva o poder de definir a ameaça, a jurisdição e os limites da força.

<><> O poder de decidir quem pode morrer

Toda essa arquitetura desemboca numa pergunta elementar: o que transforma uma pessoa suspeita de transportar drogas em alguém que pode ser morto por uma força militar?

Washington afirma possuir inteligência que vincula os alvos ao narcotráfico, mas parte decisiva das evidências e dos critérios utilizados para selecionar quem será atacado permanece secreta. A opacidade levou o próprio Escritório do Inspetor-Geral do Departamento de Defesa a abrir uma avaliação sobre o cumprimento, pelo SOUTHCOM, dos procedimentos estabelecidos para a seleção de alvos. A investigação não demonstra irregularidade. Mostra que a cadeia que antecede a decisão de matar tornou-se objeto de escrutínio dentro do próprio aparato militar.

Essa cadeia ganhou rosto em Burnley v. United States. O processo foi apresentado à Justiça federal norte-americana por familiares de Chad Joseph, de 26 anos, e Rishi Samaroo, de 41, cidadãos de Trinidad e Tobago mortos em um ataque dos Estados Unidos em 14 de outubro de 2025. A ação sustenta que os dois trabalhavam e pescavam na Venezuela e retornavam para seu país quando a embarcação em que estavam foi destruída. São alegações ainda submetidas ao Judiciário, não fatos judicialmente estabelecidos. Mas o caso recoloca no centro da guerra aquilo que a linguagem operacional tende a abstrair: pessoas cuja responsabilidade precisa ser demonstrada antes que uma categoria possa substituir suas identidades.

É aqui que aparece o limiar entre o investigável e o eliminável. No Estado de Direito, uma suspeita conduz à investigação, produção de prova, acusação, defesa e julgamento. No direito dos conflitos armados, um alvo militar legítimo pode, sob determinadas condições, ser atacado. Ao reivindicar a existência de um conflito armado contra organizações criminosas, Washington tensiona a fronteira entre esses dois regimes. Designar uma organização como terrorista não resolve, por si só, quando uma pessoa pode ser tratada como alvo militar. É nessa passagem entre inteligência, classificação e autorização da força que se concentra um poder extraordinário: decidir quem permanece sujeito à investigação e quem passa a poder ser eliminado.

A novidade não está na assimetria histórica das relações entre Estados Unidos e América Latina, nem na longa trajetória de militarização da guerra às drogas. Está na integração contemporânea dos instrumentos. Classificação terrorista, inteligência, vigilância tecnológica, sanções, sistemas autônomos, cooperação regional e força militar passam a funcionar dentro de uma arquitetura capaz de observar, classificar e agir. O poder sobre o território começa, cada vez mais, pelo poder sobre a informação que o torna legível.

Para o Brasil, portanto, a questão não é prever uma invasão para reconhecer o problema. Soberania significa conservar a capacidade de produzir a própria inteligência, definir juridicamente a própria ameaça e decidir sob qual lei alguém será investigado, acusado, julgado e punido. Cooperação internacional pode fortalecer essa capacidade. Subordinar a outro Estado a definição do inimigo a enfraquece.

No século XXI, soberania não termina na fronteira. Quando uma potência concentra a capacidade de classificar ameaças, organizar inteligência sobre elas e admitir a força militar como resposta, a disputa deixa de ser apenas sobre segurança. Passa a ser sobre quem conserva o poder político de decidir quem é criminoso, quem é inimigo e quem pode morrer.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

O Brasil elege um presidente. Quem governa é outra história

Daqui a pouco o Brasil vai parar para decidir quem será o próximo presidente da República. Haverá pesquisas tratadas como final de Copa, debates, comícios, brigas familiares, profecias sobre o fim da democracia e provavelmente algum tio informando no grupo da família que o país acabará na segunda-feira caso o candidato errado vença no domingo.

Tudo isso para escolher alguém que, depois de eleito, descobrirá que uma parte importante do poder que prometeu exercer está no Congresso.

Essa talvez seja uma das maiores fraudes involuntárias da política brasileira. Não porque a eleição seja uma fraude, evidentemente, mas porque a maneira como continuamos imaginando o cargo de presidente tem cada vez menos relação com a maneira como o poder funciona em Brasília. Vendemos ao eleitor a escolha de um comandante e entregamos ao vencedor um condomínio. Pior: um condomínio no qual alguns vizinhos controlam o caixa, podem impedir a reforma e ainda dão entrevista reclamando do síndico.

Durante décadas, aprendemos a enxergar Brasília olhando para o Palácio do Planalto. O presidente propunha, negociava, distribuía cargos, montava maioria e pagava o preço político pelo resultado. O Congresso nunca foi figurante, mas a Presidência era inequivocamente o centro de gravidade do sistema.

Esse equilíbrio mudou brutalmente.

O Congresso avançou sobre o Orçamento, tornou obrigatórias parcelas crescentes das emendas, ampliou sua capacidade de direcionar dinheiro público e transformou os presidentes da Câmara e do Senado em personagens capazes de acelerar, mutilar ou simplesmente enterrar prioridades do governo. A Presidência continua poderosíssima, mas já não possui nem de longe a liberdade de movimentos que a campanha eleitoral finge vender.

E o melhor negócio político do Brasil passou a ser justamente não ser presidente.

Presidente não pode desaparecer quando a inflação sobe. Não pode explicar que a segurança pública é responsabilidade dos estados quando ocorre uma chacina sem ser cobrado do mesmo jeito. Não pode dizer que determinada despesa foi imposta pelo Congresso e esperar que o eleitor consulte o Diário Oficial para conferir. Para a opinião pública, o sujeito que usa a faixa presidencial é responsável pelo país inteiro, inclusive por coisas sobre as quais possui pouco ou nenhum controle.

O parlamentar descobriu arranjo mais interessante. Pode ajudar a decidir onde bilhões serão gastos, bloquear projetos, impor negociações, modificar políticas e arrancar concessões do Executivo. Quando alguma coisa funciona, aparece para inaugurar. Quando dá errado, pergunta indignado o que o governo pretende fazer.

É o sonho de qualquer administrador: poder participar das decisões sem precisar ficar com a conta inteira.

Essa distorção torna a eleição de 2026 especialmente curiosa. O Brasil está discutindo Lula e Flávio Bolsonaro como se estivesse escolhendo entre dois projetos que, depois da posse, seriam simplesmente executados. Os candidatos também colaboram com a fantasia. Nenhum deles sobe num palanque para dizer: “Prometo fazer isso se conseguir 257 deputados, negociar com quinze partidos, sobreviver a três presidentes de comissão e convencer o presidente da Câmara a colocar meu projeto em votação”.

Ficaria uma campanha menos emocionante, mas consideravelmente mais verdadeira.

O candidato promete baixar imposto. Depende do Congresso. Promete mudar regras trabalhistas. Congresso. Promete mexer na segurança pública. Congresso. Promete reformar alguma coisa. Congresso. Promete desfazer a reforma feita pelo outro. Adivinhe.

Mesmo assim, nossa atenção eleitoral continua invertida. Sabemos quem lidera a pesquisa presidencial em cada região, faixa de renda, religião e nível de escolaridade. Discutimos rejeição, segundo turno, desempenho em debate e até quem sorriu de maneira inadequada durante uma entrevista. Mas pergunte ao eleitor quem são os candidatos a deputado federal em quem pretende votar e uma parcela razoável começará a olhar para o teto.

Não é desinteresse irrelevante. É justamente nessa escolha aparentemente secundária que decidiremos quanto poder o próximo presidente terá.

O Brasil criou uma situação política quase perfeita para o Congresso: aumentou enormemente sua capacidade de governar sem exigir dele a mesma responsabilidade atribuída a quem governa. Deputados e senadores podem participar da formulação do Orçamento, impor prioridades e limitar o Executivo, mas continuam eleitoralmente protegidos pela ideia de que tudo o que acontece no país é obra ou culpa do sujeito sentado no Planalto.

Talvez seja por isso que a Presidência continue despertando tanta paixão e o Legislativo tão pouca. É mais fácil transformar duas pessoas em símbolos de tudo o que amamos ou odiamos do que prestar atenção em 513 deputados, 81 senadores, dezenas de líderes partidários e algumas presidências de comissão que efetivamente determinam o destino de boa parte das promessas que ouvimos na televisão.

A política brasileira percebeu essa mudança antes do eleitor. Partidos sabem que uma bancada numerosa vale ouro. Sabem que controlar a Câmara ou o Senado significa possuir poder sobre qualquer governo, seja de esquerda ou de direita. Sabem que um presidente popular pode chegar ao Planalto com dezenas de milhões de votos e, ainda assim, precisar negociar com um deputado que recebeu algumas dezenas de milhares para conseguir aprovar uma prioridade nacional.

Não há nada antidemocrático nisso. O Congresso também foi eleito e deve limitar o Executivo. O problema começa quando poder e responsabilidade caminham em direções opostas. Se o Legislativo quer governar cada vez mais, é razoável que o eleitor passe a cobrá-lo cada vez mais pelo governo que ajuda a produzir.

Só que ainda fazemos exatamente o contrário.

Em outubro, milhões de brasileiros escolherão cuidadosamente entre Lula, Flávio Bolsonaro e os demais candidatos. Vão comparar propostas, histórias, partidos e rejeições. Alguns passarão meses defendendo seu escolhido como se a sobrevivência da civilização dependesse daquela decisão. Então chegarão à urna, votarão para presidente e, diante da escolha para deputado, uma quantidade nada desprezível tentará lembrar o número daquele sujeito simpático cujo santinho apareceu no chão da padaria.

Essa talvez seja a grande ironia da eleição brasileira.

Passamos meses escolhendo quem vai sentar na cadeira mais famosa do país e alguns segundos escolhendo quem vai dizer a ele até onde essa cadeira pode andar.

•        Governo paga R$ 4,96 milhões em emendas parlamentares após início de restrições eleitorais

O governo federal registrou o pagamento de R$ 4,96 milhões em emendas parlamentares a estados e municípios em agosto, mais de um mês depois do início das restrições eleitorais às transferências de recursos públicos. Levantamento a partir de dados do Tesouro Nacional identificou 13 ordens bancárias que, juntas, somam R$ 4.955.472,63.

As restrições começaram em 4 de julho, três meses antes do primeiro turno das eleições. A partir dessa data, a legislação proíbe determinadas transferências de recursos da União para estados e municípios para impedir que a máquina pública seja usada para favorecer candidatos durante a campanha.

Os 13 pagamentos encontrados são referentes a emendas individuais ou de bancada. Nenhum deles aparece na base do Tesouro classificado como transferência especial, modalidade que ficou conhecida como “emenda Pix”.

A legislação prevê situações nas quais o dinheiro pode continuar sendo transferido. O ponto central é que a base do Tesouro mostra que os recursos foram pagos depois do início das restrições, mas não informa qual exceção justificou cada operação.

A questão ganha relevância porque o próprio governo federal adotou uma interpretação restritiva para esse tipo de repasse em 2026.

<><> Governo estabeleceu condições para liberar recursos

Na véspera do início das restrições, o Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos publicou uma orientação, baseada em parecer da Advocacia-Geral da União (AGU), determinando aos órgãos federais que observassem a proibição de transferências para estados e municípios durante o período eleitoral.

Pela regra adotada pelo governo, um pagamento pode continuar, em uma das principais exceções previstas na legislação, quando três condições são atendidas simultaneamente: a obrigação de transferência já existia antes do período eleitoral; havia um cronograma previamente definido para o pagamento; e a obra ou serviço já havia começado fisicamente antes de 4 de julho.

Há outras exceções. A legislação permite, por exemplo, determinados repasses relacionados a situações de emergência ou calamidade pública. Algumas transferências destinadas à segurança pública também possuem tratamento específico.

Por isso, para determinar se cada um dos 13 pagamentos cumpriu as regras, é necessário verificar o objeto financiado, o instrumento usado para a transferência e as condições existentes antes de 4 de julho.

<><> TSE e TCU divergem sobre as emendas

A discussão fica ainda mais complexa porque não há uma interpretação única entre os órgãos públicos sobre como as restrições eleitorais atingem as emendas parlamentares obrigatórias.

O Tribunal de Contas da União (TCU) entende que o fato de uma emenda ter execução obrigatória não retira sua natureza de transferência voluntária quando o dinheiro é destinado a estados ou municípios. Seguindo essa interpretação, essas emendas também precisam respeitar as limitações do período eleitoral.

A AGU segue a mesma linha, que serviu de base para as orientações do governo federal aos ministérios e demais órgãos responsáveis pelos pagamentos.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), porém, já adotou uma interpretação diferente.

Em julgamento de 2021, a Corte decidiu que a liberação de recursos provenientes de emendas parlamentares de execução obrigatória não se enquadrava automaticamente na proibição prevista na Lei das Eleições. O tribunal levou em consideração justamente o caráter obrigatório dessas despesas e a forma como os recursos eram transferidos.

A diferença entre os entendimentos voltou ao debate neste mês.

Uma nota técnica elaborada pela Consultoria de Orçamentos do Senado em agosto apresenta as duas posições: de um lado, a interpretação mais restritiva defendida por TCU e AGU; do outro, o precedente mais permissivo do TSE.

O estudo adota como referência a posição do TCU e da AGU. O documento ressalva, entretanto, que a análise é de responsabilidade de seu autor e não representa uma posição institucional do Senado.

A controvérsia jurídica ajuda a explicar por que a existência dos R$ 4,96 milhões em pagamentos não basta para classificá-los como irregulares. Mesmo sob a interpretação mais restritiva seguida pelo governo, há hipóteses nas quais a transferência pode ocorrer legalmente.

A base do Tesouro também impõe um limite à análise. Ela registra informações como beneficiário, valor, mês de referência e número da ordem bancária, mas não reúne todos os elementos necessários para determinar o motivo que autorizou cada pagamento durante o período eleitoral.

A metodologia utilizada pelo Tesouro segue o critério de caixa e considera as ordens bancárias registradas no Sistema Integrado de Administração Financeira (Siafi). Portanto, os dados se referem a pagamentos, e não apenas a recursos reservados no Orçamento.

A orientação federal também colocou sobre os órgãos responsáveis pelos repasses a obrigação de verificar se as condições legais estão presentes. Durante o período eleitoral, o governo chegou a suspender no Transferegov a emissão automática da autorização para início de obras. Autorizações excepcionais podem ocorrer manualmente, desde que acompanhadas de justificativa no sistema.

Assim, a análise das 13 operações depende agora de identificar, individualmente, o que foi financiado e qual fundamento permitiu a liberação dos recursos depois de 4 de julho.

 

Fonte: Por Cleber Lourenço, em ISL Notícias

 

Como o budismo ensina a viver a vida sem peso

O caos do agora, as marcas do passado e o excesso de futuro são desafios contemporâneos. O refúgio contra o adoecimento mental atual não promete fórmulas mágicas de felicidade, milagres ou atalhos instantâneos. Pelo contrário: encanta diversos públicos justamente pela sobriedade de sua proposta — a de aprender a encarar a vida exatamente como ela é. E, diante dessa perspectiva, o budismo une e reúne aqueles que tentam ser melhores em se autoconhecer

Entre os alpendres e o silêncio da quadra 315 Sul, a transição da curiosidade inicial para a prática espiritual rotineira revela um movimento coletivo em busca de serenidade e compaixão em tempos de incerteza. À frente do Templo Shin Budista Terra Pura de Brasília desde 2022, o monge Keizo Doi, 38 anos, nascido em Hiroshima e ordenado ainda na juventude no Japão, tem acompanhado de perto a busca daqueles que tentam, entre tantas dúvidas, entender onde nascem suas tristezas.

Para o sensei, a procura crescente pela filosofia budista no Ocidente reflete uma necessidade de ruptura com conceitos engessados e a procura por uma visão de mundo alinhada com as transformações humanas. "Aqueles que não concordam necessariamente com a visão de mundo das religiões predominantemente cristãs no Brasil procuram outras espiritualidades. E o budismo mostra algo completamente diferente: a lei da impermanência, onde o que surge vai desaparecer", acredita o monge Keizo.

Segundo o líder religioso, a raiz do sofrimento humano (dukkha) reside, justamente, no descompasso entre as expectativas de controle e a natureza inconstante da vida. "A angústia surge da lacuna entre a realidade e a ilusão. O Buda, criador dessa filosofia, revelou, séculos atrás, que o controle sobre a nossa condição física e mental está fora de nós. Quando você vive considerando que, ao ter seu desejo saciado, alcançará a felicidade, isso não vai acontecer. Ao alcançar o que desenhou, você quer mais. Nessa busca incessante pela felicidade, a pessoa fica infeliz", adverte o sensei.

Com isso, de acordo com ele, a verdadeira emancipação vem do entendimento da causa e do efeito dos fenômenos. De acordo com Keizo, a oscilação entre momentos de alegria e de dor prende o indivíduo em um ciclo contínuo de ilusões, conhecido como samsara. A superação dessa dinâmica é o objetivo central da prática espiritual. "Sair desse lugar chama-se moksha, a libertação. Isso é o ideal do budismo, o que o budismo busca? Levar as pessoas à outra margem".

<><> Diante das incertezas

E esse outro lado da ponte, para muitos, pode ser o destino final. Mas, no budismo, é apenas parte de um caminho que parece nunca acabar. Esse despertar espiritual, entretanto, pode nascer por diversos motivos. O assistente social e pedagogo José Aguilera, 55 anos, teve o ponto de virada na sua aproximação com a prática em 2016, a partir de uma provocação ecumênica. "Assisti a um vídeo do papa Francisco sobre o diálogo inter-religioso que calou intensamente dentro de mim. Eu já frequentava timidamente o templo, e aquela mensagem despertou o desejo de conhecer melhor a prática budista", conta.

Com a convivência rotineira na sangha (comunidade), o entendimento dos conceitos essenciais da filosofia passou a se dar pela vivência direta dos limites humanos. "Conteúdos como a impermanência e o desapego são compreendidos pela experiência de nossa existência e relações. Até hoje me lembro de uma das primeiras prédicas que ouvi no templo: qual deveria ser a atitude de um budista diante da morte? Não temer, não chamar, não esperar", reflete Aguilera.

Na visão dele, a recitação do namo amida butsu (eu busco refúgio na luz infinita), mantra sagrado muito utilizado no budismo, não isola o praticante das contradições e imperfeições da vida diária, mas constrói a consciência necessária para enfrentá-las. "Essa prática não nos deixa imunes às misérias humanas, mas nos coloca em estado de consciência de que temos esses limites. O budismo é lindo até a gente precisar colocá-lo em nosso dia a dia."

Para o agente de polícia Lucas de Alencar Oliveira, 42, o contato com o budismo começou como interesse acadêmico nas ciências humanas, mas consolidouse na vivência prática no início de 2019, durante um período de transição pessoal e profissional. "No final de 2018, estava passando por uma fase desafiadora, querendo fazer uma transição profissional, precisando melhorar a forma como estava me relacionando em casa, e sentia uma vontade de conhecer o budismo como praticante", relembra.

O acolhimento no Templo Shin Budista de Brasília impulsionou uma mudança profunda na gestão das emoções diárias. Diariamente, a recitação do nome do Buda Amida (namo amida butsu) atua como um lembrete direto de ética e clareza mental. "Não é um recurso mágico ou metafísico, serve como uma recordação do caminho ensinado pelo Buda para a gente trilhar no nosso dia a dia, tentando, ao máximo ,evitar sofrimento para nós e para as outras pessoas, me ajuda bastante nos momentos em que sou tomado por ignorância, raiva, apego, para lembrar que não devo ser dominado por esses sentimentos."

Lucas ressalta que o foco no presente é a ferramenta indispensável para evitar o esgotamento na rotina contemporânea. Contudo, o maior desafio é estar efetivamente neste momento. Com tantos excessos estimulando visitas inesperadas ao futuro, imaginando cenários que ainda nem existem, ele sempre tenta perceber tais sentimentos ruins. Isso, sobretudo, para sofrer menos e evitar que divague em sofrimentos que, talvez, nunca aconteçam.

<><> Guia de termos 

>>> Namo amida butsu: mantra de devoção ao Buda Amida no Budismo Terra Pura.

>>> Obon Matsuri: festival japonês budista de homenagem aos antepassados.

>>>Dukkha: conceito budista para o sofrimento, insatisfação e impermanência da vida.

>>> Samsara: o ciclo de nascimento, morte e renascimento.

>>> Moksha: libertação espiritual do ciclo de renascimento (principalmente no Hinduísmo).

>>> Sangha: a comunidade espiritual de praticantes e monges budistas.

>>> Nirvana: estado de iluminação e fim do sofrimento no budismo.

>>> Karma: lei moral de causa e efeito impulsionada pelas ações intencionais.

>>> O mundo saha: o mundo físico, caracterizado pelo sofrimento e pela paciência necessária para suportá-lo.

<><> No "aqui e agora"

A expansão do budismo no Brasil deixa de ser um fenômeno puramente religioso para se tornar uma resposta sociocultural e psíquica às pressões do mundo contemporâneo. Em uma sociedade marcada pelo ritmo frenético das capitais, os ensinamentos da filosofia oriental e suas práticas ancestrais extrapolam os limites dos templos. Eles passam a ser incorporados tanto na clínica psicológica, como uma ferramenta valiosa de regulação emocional, quanto nos estudos sociológicos, integrando a dinâmica cosmopolita de cidades estruturadas em torno do contato cultural, como Brasília.

Doutor em psicologia clínica e especialista em neuropsicologia, o professor do Centro Universitário Uniceplac Rafael Alberto Moore explica que a ciência passou a olhar atentamente para a filosofia com o objetivo de orientar a população para um viver mais conectado ao presente. "Aspectos como o desapego, a aceitação e a prática da meditação passaram a ser incorporados em muitas correntes de terapia. O budismo é uma inspiração para a psicologia em orientar para um viver de maior aceitação com as nossas limitações e abdicar do nosso desejo de controlar o que não podemos", aponta.

Segundo o especialista, os efeitos práticos da autocompaixão e da presença plena atuam desarmando o hábito da autocrítica destrutiva. "A meditação ajuda a mudar o enfoque dos pensamentos para o presente e a regular as emoções, como a respiração. Já a autocompaixão é importante porque muitas pessoas com quadros de depressão e ansiedade são muito críticas e exigentes consigo. Esses exercícios as ajudam a se desligar desses pensamentos muito negativos e a interromper as cobranças e críticas excessivas".

Aposentada e frequentadora do templo desde 2013, Graça Monteiro, 74, chegou ao templo por meio de uma amiga, neta de japoneses, que a convidou para fazer um curso de iniciação ao budismo. "Venho de família católica, estudei em colégio de freiras e achei tudo aquilo muito diferente do meu cotidiano. Passei cerca de dois anos frequentando o templo para, então, adotá-lo como prática diária", conta. Até aqui, a parte mais desafiadora — e também a melhor — tem sido aprender a lidar com aquilo que ela não pode controlar.

Graça vê, em si mesma, muita dificuldade em entender as incertezas que, naturalmente, costumam aparecer. Ainda assim, acredita que a rotina é o que ajuda a firmar o que absorve dessa filosofia. "Não sou o tipo de pessoa que senta para meditar. Prefiro adotar a prática da atenção plena no 'aqui e agora'. Se estou respondendo a perguntas, estou respondendo a perguntas. Não estou pensando no café da manhã nem no que tenho para fazer mais tarde. Isso é viver no presente, e impacta diretamente a nossa saúde mental. Esquecer que existe um celular ali ao lado ainda é um dos maiores desafios."

De acordo com a aposentada, atualmente, existe uma banalização de conceitos milenares no mercado de bem-estar, que transformam esses conhecimentos em comércio. "Assim como existe o greenwashing, agora temos o wellness washing, tomando como base os conceitos budistas. Pessoas e organizações estão ganhando dinheiro com isso e essa é a lógica do mercado. Mas o budismo é sobre experienciar a vida em seus mais diversos aspectos."

<><> A busca por sentido

A popularização dessas práticas e o crescimento do "budismo secular" ou do mindfulness no Ocidente não surpreendem. Muito pelo contrário. É de total sentido que muitos estejam buscando sentido para as próprias jornadas e emoções. Para a professora de relações internacionais do Ceub Aline Thomé, o fenômeno é um resultado natural e esperado da fluidez cultural em uma sociedade urbana e acelerada.

"Adotar as técnicas que a gente chama de mindfulness, ou budismo secular, envolve toda uma busca por tranquilidade, por lidar com angústias, com uma aceleração excessiva e ansiedades que fazem parte do nosso cotidiano enquanto humanidade, que vive sob a lógica do sistema capitalista", reflete a professora. "Buscar recursos para lidar com o caos de um meio urbano é esperado. Tanto no formato secular quanto no formato religioso, essa busca é uma resposta ao modelo de sociedade em que vivemos”, completa.

Aline Thomé destaca, ainda, que o ambiente urbano da capital federal funcionou como um terreno fértil para a consolidação e a popularização do Templo Shin Budista e de seus eventos comunitários, como a tradicional quermesse do Obon Matsuri, além de fazer com que a população mais jovem se sentisse à vontade para fazer visitas e conhecer o local.

"Brasília é uma cidade de formação cosmopolita, criada no centro do Brasil e constituída pela vinda de imigrantes de todos os cantos e por representantes de embaixadas e organismos internacionais. Temos um caldeirão cultural aqui, e é totalmente esperado que isso tenha aberto espaço para a presença da filosofia budista na cidade".

<><> Tipos de Budismo 

>>> Theravada 

É a escola mais antiga e preservada que existe hoje, predominantemente praticada no Sudeste Asiático (Sri Lanka, Tailândia, Mianmar, Camboja e Laos).

>>> Mahayana

É a maior vertente do budismo em número de praticantes. Expandiu-se pelo Leste Asiático (China, Japão, Coreia, Vietnã).

>>> Vajrayana 

Desenvolveu-se como uma evolução do Mahayana e é a forma predominante na região do Himalaia (Tibet, Nepal, Butão e Mongólia).

<><> Cura, presença e entendimento

Para quem adota a filosofia budista na vida pessoal, o entendimento dessas premissas muda radicalmente o enfrentamento de crises. A psicóloga Jessica Jorge Carvalho, 32, começou a frequentar o templo em 2016, após a morte precoce de um amigo. Apesar de ter convivência com a cultura japonesa desde pequena, os mantras e hábitos (como o de tirar os sapatos antes de entrar em um ambiente fechado) não causaram estranhamento devido à familiaridade, e a filosofia parecia ser exatamente o que precisava no momento.

Mais tarde, os conceitos que aprendeu serviram de ancoragem durante um dos momentos mais difíceis da sua vida, daqueles que ela nunca imaginou que viveria: o diagnóstico e o tratamento de um câncer de mama em estágio 3. "A impermanência nos ajuda a ver as coisas sob outro foco: se tudo vai acabar, quer dizer que nenhum sofrimento é eterno. A percepção da impermanência me auxiliou no enfrentamento do câncer de mama. Foram momentos de muito medo, mas tive a certeza de que todas essas dificuldades em algum momento cessariam. Receber um diagnóstico fatídico determina como será um período da sua vida, mas não determina como você escolhe lidar com aquilo”, detalha.

Em remissão desde abril desse ano, ela ainda atribui muito do bom andamento do tratamento à tranquilidade da mente e à aceitação do quadro que estava vivendo. Além do impacto na regulação emocional e nas tomadas de decisão, Jessica ressalta que o budismo engaja o indivíduo na transformação social e na defesa das minorias. "Perceber a interdependência entre as pessoas me fez atentar ainda mais para a necessidade de melhorarmos nossa vida em sociedade. Estamos interligados por um ciclo de interdependência com todas as pessoas, logo a injustiça e a intolerância devem ser veementemente combatidas".

<><> O papel do ensinamento

No final de tudo, o budismo é uma religião ou uma filosofia? Para Keizo Doi, os dois. ”Se você estudar filosofia, vai perceber que é uma religião; se estudar religião, vai ver que é uma filosofia”, brinca. Todavia, de acordo com o sensei, o que importa são os ensinamentos. Os aprendizados diários e a inserção deles no cotidiano. Os mantras, as perspectivas e a crença. Tudo isso é o suficiente para quem deseja uma história com mais sentido.

“Os ensinamentos funcionam como o veículo para atravessar o rio turbulento das paixões humanas. Quando o sofrimento se extingue, atinge-se o nirvana, descrito como o estado de suprema tranquilidade”, acrescenta o líder religioso. Diferentemente do que muitos imaginam no Ocidente, onde o budismo é associado exclusivamente a longas horas de meditação ou a regras rígidas de conduta diária, a tradição Shin Budista da Terra Pura enfatiza a simplicidade e a acessibilidade para pessoas comuns.

"Quando se trata do Budismo, a primeira coisa que a pessoa pensa é a meditação. Na meditação, o objetivo é encontrar o Buda para você sair do samsara. A recitação do nome do Buda também tem o mesmo objetivo: atender ao chamado do Buda. O resto é floreio. Ler sutra, oferecer incenso, limpar o altar — é isso. O resto é floreio, mas a gente também faz", complementa o sensei em tom bem-humorado.

Ao lidar com os inevitáveis percalços da vida diária no mundo contemporâneo — o mundo saha, "onde você tem que aturar" —, a filosofia budista convida à observação atenta do próprio karma, evitando culpar terceiros pelos reveses vividos. "Quando a gente vivencia algum sofrimento, nossa tendência é procurar a causa alheia. Mas no budismo não existe causa alheia do sofrimento. Sempre o que você pensou, falou e agiu acarreta algum karma", conclui Keizo Doi. ,E assim, esse estilo de vida tem alcançado tantas pessoas. Mostrando que o sofrimento é inerente à causa humana, mas que a felicidade também.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Doenças raras: quando a genética desafia o diagnóstico

Na última semana, o caso do influenciador Lito Sousa, do canal Aviões e Música, chamou a atenção em todo o país. Diagnosticado com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), condição neurológica rara, degenerativa e fatal, ele trouxe visibilidade à realidade de pessoas que vivem com doenças raras, muitas delas sem tratamento ou cura.

São milhares de condições, a maioria causada por alterações genéticas, que exigem atenção especializada, atendimento personalizado e suporte para garantir qualidade de vida. Estima-se que 13 milhões de brasileiros sejam afetados por doenças raras, das quais 80% têm origem genética.

Um dos grandes desafios é ainda conhecer a própria condição de saúde. Os pacientes enfrentam desinformação, profissionais incapacitados e ausência de protocolos para identificar a situação. Estudo conduzido pela Rede Brasileira de Doenças Raras (RARAS), que ouviu 12 mil pacientes, aponta que o diagnóstico leva, em média, 5,4 anos.

Muitas vezes, a demora em identificar o quadro pode permitir o avanço da doença, que poderia ser contida ou atrasada por procedimentos já existentes, além do risco de sequelas irreversíveis. No caso do influenciador Lito Sousa, a doença geralmente é identificada no início dos sintomas, e a expectativa de vida dos pacientes é de 6 a 12 meses após o surgimento dos primeiros sinais.

A influenciadora Priscila Araújo, de 39 anos, tem uma singela alteração no gene TP53. É uma mudança pequena, em comparação com a complexidade do DNA humano. No entanto, a mutação faz com que a proteína p53, produzida pelo corpo e responsável por controlar o crescimento celular e destruir células com danos genéticos, tenha sua função prejudicada.

O resultado é uma tendência muito maior do que a da população em geral de desenvolver diversos tipos de câncer. A estimativa é de que mulheres com a Síndrome de Li-Fraumeni tenham 90% de chance a mais de desenvolver câncer. No caso dos homens, o risco aumenta 70%.

Ao receber o diagnóstico, Priscila conta que resolveu seguir sua vida e seus planos, mas que teve de fazer escolhas, como a de retirar ou não as glândulas mamárias para evitar o desenvolvimento de tumores na região. "Uma das decisões mais importantes que tomei depois que descobri a Síndrome de Li-Fraumeni foi fazer, em 2023, uma adenomastectomia bilateral preventiva. Isso porque, nas mulheres com a síndrome, o risco de desenvolver câncer de mama ao longo da vida é estimado entre 80% e 90%", conta.

"No meu caso, esse número pesou ainda mais porque existe um histórico muito forte de câncer de mama na família do meu pai. Muitas das mulheres da família começaram justamente pelo câncer de mama, e uma das minhas irmãs também teve a doença. Graças a Deus, no caso dela, foi descoberta ainda no início e ela conseguiu tratar", afirma.

Além da decisão pela cirurgia, a influenciadora teve de se preocupar ainda mais com a alimentação. Alguns tipos de alimentos podem elevar a chance de desenvolver câncer, o que já exige atenção da população em geral e torna a dieta ainda mais importante para quem tem no DNA a mutação que atinge Priscila e 23 pessoas da família dela. "Antes de descobrir a síndrome, eu já tinha bons hábitos, principalmente com a alimentação. Mas depois do diagnóstico passei a ter ainda mais cuidado com isso", explica.

"Eu já me alimentava bem e hoje tento me alimentar melhor ainda. Não fumo, não bebo, não tomo refrigerante e evito ao máximo alimentos ultraprocessados. Também levo esses hábitos para a minha família, mas sem fazer terrorismo alimentar, porque acredito que tudo precisa ter equilíbrio", completa. Ela transformou o desafio de saúde em inspiração e utiliza as redes sociais para dar dicas de alimentação saudável e informar sobre a síndrome.

<><> Cuidados diários

Uma doença ainda mais rara afeta pessoas em diversas regiões do país. A epidermólise bolhosa (EB) é causada por uma alteração genética que provoca hipersensibilidade na pele, que fica fragilizada ao toque. Atritos e traumas, mesmo que pequenos, podem causar bolhas, feridas, dor e cicatrizes. Para se proteger, quem tem a doença precisa fazer curativos no corpo, que devem ser trocados diariamente, além de usar diversos produtos, especialmente hidratantes, para manter a pele saudável.

A servidora pública federal Anna Carolina Rocha, de 43 anos, convive com a doença e conta que perdeu parentes no passado em razão da ausência de diagnóstico e tratamento. "Meus pais são primos de segundo grau e eu tive três tios com EB. Mas isso foi na década de 40, 50. No interior, muito interior de Minas Gerais. Então eles não passavam de meses de vida. Morriam de infecção por causa das lesões ou desnutrição por causa das lesões na boca e não conseguiam mamar", relata.

Após quatro décadas convivendo com a epidermólise bolhosa, Anna precisa manter os cuidados diários, mas conta que a rotina é cada vez mais complexa. "A EB afeta muito a minha vida, pois tenho uma rotina exaustiva de curativos. No dia que a minha cuidadora está aqui, passo o dia inteiro fazendo curativo. Acordo, vou ao banheiro e começo a fazer o curativo. Pauso para o almoço e volto. Pausa para o lanche, para o trabalho e volto aos curativos. Não dou conta mais de trocar em apenas um dia. O processo causa muita dor. A EB tem formas mais leves e mais graves. As mais graves, como é o meu caso, são progressivas e pioram com a velhice, pois a pele fica mais frágil", descreve.

Mas ela conta que os entraves provocados pela doença não a impediram de seguir a vida e realizar sonhos. "Estudei, me formei, fiz concurso público, fui trabalhar no serviço público… Eu vivi uma vida como a vida das outras pessoas. Claro que com orientações e as adaptações necessárias, mas de uma maneira mais leve. Meus planos são continuar com saúde para continuar trabalhando no serviço público, continuar fazendo arte, tocando o movimento de Ativismo EB, que eu fundei, e continuar o trabalho de divulgação da doença e conscientização", completa.

Em fevereiro deste ano, o Ministério da Saúde incluiu no SUS uma nova plataforma de sequenciamento genético, que promete fazer até 20 mil atendimentos por ano. A medida pode reduzir o tempo de diagnóstico dos atuais sete anos para seis meses.

<><> Origem

As doenças raras têm uma ligação muito forte com a genética. Por conta disso, sempre que uma pessoa é identificada com alguma alteração do tipo, é importante avaliar a árvore genealógica, seja para entender a origem do problema ou evitar que as futuras gerações herdem o gene.

No entanto, existem casos em que não há relação genética ou em que a incidência da doença é inédita na família, como explica a médica Romina Herédia, geneticista do Hospital de Base de Brasília, especialista pela Sociedade Brasileira de Genética Médica e professora da Escola Superior de Ciências da Saúde do Distrito Federal.

"Não, nem todas as doenças raras são transmitidas ou foram herdadas. Depende da doença e do mecanismo da doença. Algumas doenças podem acontecer por uma mutação nova. Também é possível que os pais sejam portadores assintomáticos e tenham filhos afetados. É possível investigar, com exames genéticos, algumas causas e predisposições em casais que desejam ter filhos. No aconselhamento genético, o heredograma/história familiar, até etnia, podem indicar quais são os exames de rastreio e as opções reprodutivas e de investigação no embrião/feto, se for o caso", destaca.

A especialista explica que, no caso da epidermólise bolhosa, existe um tratamento aprovado nos Estados Unidos. Em relação à doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) e à Síndrome de Li-Fraumeni, os estudos ainda estão em andamento. Neste momento, o mais importante é um diagnóstico mais célere.

"É possível que essas doenças tenham manifestações clínicas mais tardias, na idade adulta. No caso da epidermólise bolhosa (EB), essa situação é rara, mas possível em casos mais leves. Em relação ao tratamento, há uma terapia aprovada nos Estados Unidos para uma forma específica de EB, e outras estão em pesquisa. Para DCJ e Li-Fraumeni, há algumas pesquisas, mas em fases mais iniciais. O tratamento atual é, predominantemente, de vigilância e suporte", completa.

<><> SUS

No Brasil, o atendimento às pessoas com doenças raras é oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS), que conta com uma política específica para diagnóstico, acompanhamento e tratamento dessas condições. A rede inclui serviços de referência e equipes multidisciplinares, mas o acesso pode variar conforme a doença e a disponibilidade de especialistas, exames e terapias em cada região.

O tratamento depende da condição e, em muitos casos, não há cura. As opções podem incluir medicamentos específicos, terapias de reposição, cirurgias, fisioterapia e acompanhamento multidisciplinar para controlar sintomas, retardar a evolução da doença e melhorar a qualidade de vida.

Algumas terapias de alto custo são disponibilizadas pelo SUS para doenças específicas, enquanto outras ainda estão em pesquisa. Para condições sem tratamento específico, o cuidado costuma ser voltado ao controle dos sintomas e à prevenção de complicações.

¨      Tratamento de doenças raras enfrentam lacunas, apontam especialistas

Cerca de 13 milhões de brasileiros convivem com doenças raras, grupo que reúne mais de sete mil condições, das quais aproximadamente 95% ainda não possuem tratamento disponível, segundo dados do setor de saúde e da indústria farmacêutica. O cenário evidencia desafios no diagnóstico, no acesso a terapias e na incorporação de inovação, ao mesmo tempo em que coloca o Brasil como peça relevante em estratégias globais de pesquisa clínica.

Em entrevista ao Correio, Marc Dunoyer, presidente global da Alexion e diretor de Estratégia da AstraZeneca, afirmou que o impacto dessas condições é mais amplo do que a classificação sugere. "De cada 10 pessoas, uma é afetada por doenças raras, então não é algo tão raro assim", explica. Segundo o especialista, além da raridade da doença, o tratamento também é um desafio a ser superado. Diante de cerca de 10 mil enfermidades identificadas, "existem mais ou menos 500 produtos aprovados", o que evidencia um intervalo entre demanda e oferta terapêutica.

Os pacientes também enfrentam problemas para identificar a doença. No Brasil, o tempo médio para fechar um diagnóstico preciso  supera os cinco anos, período em que pacientes passam por diferentes especialistas até identificar a condição correta. "Esse tempo acontece porque há diagnósticos equivocados até se chegar à definição correta, podendo levar até mais de 10 anos em alguns casos", afirmou. Segundo ele, "o momento mais importante na vida do paciente é quando recebe o diagnóstico correto", etapa que define o início do tratamento, quando disponível.

O sistema público de saúde concentra a maior parte da assistência, financiando mais de 84% dos exames e 86% dos tratamentos. Ainda assim, o acesso a medicamentos permanece um dos principais entraves. Levantamento do setor aponta que os protocolos aprovados ainda aguardam inclusão nas diretrizes clínicas, com tempo médio de 14 meses. "Os melhores sistemas de seguridade social são aqueles que são receptivos à inovação", disse. "Se um desses elementos estiver faltando, a coisa não funciona", completou, ao citar a necessidade de integração entre sistema público, especialistas e centros de referência.

O custo também representa um fator crítico. Dados internacionais indicam que famílias afetadas podem enfrentar despesas até seis vezes maiores do que aquelas associadas a doenças crônicas. "É impossível que os pacientes arquem com esses custos sozinhos", afirmou o executivo, ao defender modelos sustentáveis para ampliação do acesso.

Nesse contexto, o Brasil tem sido incorporado como eixo estratégico em pesquisa clínica. O país é o segundo maior mercado internacional da AstraZeneca, atrás apenas da China. Em 2025, foram investidos R$ 315 milhões em estudos clínicos, com resultados positivos em 16 pesquisas de fase 3. Para 2026, a empresa projeta mais de 100 ensaios em andamento, distribuídos por mais de 200 centros em 23 estados, com investimento superior a R$ 368 milhões e participação de mais de 1.500 novos pacientes.

Na área específica de doenças raras, estão previstos 18 estudos clínicos no país, com aumento de 22% na participação de pacientes brasileiros. O objetivo é atingir 3.651 pessoas tratadas até 2030. "A capacidade de realizar pesquisas no nível local é imprescindível para que a inovação chegue aos pacientes", disse Dunoyer.

<><> Mais investimentos 

A aquisição da Alexion pela AstraZeneca, concluída em 2021 por US$ 39 bilhões, ampliou a atuação em imunologia e doenças raras e expandiu a rede global de pesquisa. "Passamos de 20 para 80 países, o que permitiu beneficiar um número maior de pacientes em escala mundial", afirmou. Segundo ele, a integração, também, acelerou o desenvolvimento de novos medicamentos e ampliou o intercâmbio entre áreas como oncologia e imunologia.

O executivo citou ainda um caso clínico para ilustrar o impacto do diagnóstico e do tratamento. Uma paciente com neuromielite óptica passou anos sem identificação correta da doença até iniciar terapia adequada. "Após o tratamento, ela retomou atividades e chegou a correr a maratona de Tóquio", relatou, ao destacar a mudança de trajetória após a intervenção médica.

Além da pesquisa, o debate envolve a incorporação de terapias no sistema público de saúde. Um exemplo é o ravulizumabe, indicado para hemoglobinúria paroxística noturna, que recebeu recomendação de incorporação, mas ainda aguarda inclusão formal. Estudos apontam que sua adoção pode gerar economia de R$ 528 milhões em cinco anos, em comparação ao tratamento atualmente disponível.

Para Dunoyer, o avanço depende da combinação entre inovação científica, estrutura de atendimento e políticas públicas. "Precisamos multiplicar o número de produtos aprovados e garantir acesso global", afirmou. Ele acrescentou que países como o Brasil podem contribuir para a próxima geração de soluções biomédicas, desde que haja integração entre pesquisa, financiamento e assistência.

O cenário, que reúne demandas de saúde pública e estratégias de negócios, coloca o país no centro de discussões sobre desenvolvimento científico, acesso a medicamentos e sustentabilidade do sistema de saúde, em um campo onde a maioria das doenças ainda não possui resposta terapêutica.

Como parte da estratégia para ampliar o acesso e reduzir desigualdades, Dunoyer defendeu maior integração entre governo, indústria e centros de pesquisa. Além disso, é fundamental acelerar a incorporação de tecnologias e reduzir o tempo entre a aprovação e a disponibilização ao paciente. Segundo ele, o Brasil tem capacidade para liderar esse movimento na América Latina, desde que haja previsibilidade regulatória e continuidade nos investimentos. "A inovação precisa caminhar junto com sustentabilidade, garantindo que o sistema consiga absorver novas terapias sem comprometer o atendimento",   acrescentou. "O desafio não é apenas desenvolver medicamentos, mas assegurar que eles cheguem de forma efetiva a quem precisa", concluiu o especialista. 

 

Fonte: Correio Braziliense