Brasil
sob polarização: avaliação e perspectivas
Ao
longo da última década, a democracia no Brasil esteve sob pressão,
passando por diversos períodos em que foi questionada, ameaçada e até mesmo
corroída internamente.O evento mais recente e simbólico nesse sentido foi
a tentativa de golpe
de Estado de 8 de janeiro de 2023, poucos dias após o início do terceiro
mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a condenação dos
envolvidos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2025, pelo
STF. Ainda é cedo para dizer se isso marca uma virada, mas a decisão histórica
do STF de condenar o ex-presidente e vários generais é certamente encorajadora
em um país com uma longa tradição de impunidade. O cenário político permanece
turbulento. A situação do Brasil em 2025 foi caracterizada por
tensões entre os três poderes, polarização política e incerteza econômica —
elementos que geram considerável inquietação. Recentemente, um relatório
da Polícia Federal, resultado de uma extensa investigação, revelou a
existência de um plano, denominado Punhal Verde Amarelo, com o objetivo de
assassinar o presidente Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo
Alckmin e o ministro do STFl Alexandre de Moraes. A proximidade das
eleições presidenciais de 2026, marcadas para outubro, também exacerba as
disputas e intensifica a campanha eleitoral. A relação entre o governo e
o Congresso Nacional, especialmente com o chamado "centro"
— um grupo informal de parlamentares de diferentes partidos cuja principal
característica é o pragmatismo extremo e a ambição por cargos e recursos —
enfrenta diversos desafios. O apoio, ainda que parcial e minoritário, como tem
sido o caso ao longo do atual governo, é fundamental para garantir a
governabilidade. A ruptura com a coalizão governista por partidos
como União Brasil e Progressistas (ambos membros do centro , que
formou uma federação com vistas às eleições de 2026 e detém um bloco de 109
deputados federais — o maior da Câmara — e 14 senadores) é um exemplo notável,
afetando a estabilidade da coalizão e a relação entre os Poderes Executivo e
Legislativo na reta final do governo Lula. Isso representa novos desafios
para o Presidente da República, cujo mandato termina em 31 de dezembro de
2026. Também é notável o crescente envolvimento do judiciário: questões que
deveriam ser resolvidas na esfera política acabam sendo levadas aos tribunais,
especialmente ao Supremo Tribunal Federal (STF), que, por sua vez,
tem adotado uma postura mais ativa na tomada de decisões que afetam a política
interna e, ocasionalmente, até mesmo a política externa.
O ritmo
acelerado da política internacional também traz consigo mudanças geopolíticas
significativas e desafia acordos e alianças de longa data. Na esfera econômica,
as preocupações com as finanças públicas e a sustentabilidade fiscal pairam
sobre o governo, especialmente após a desaceleração do crescimento projetada
para 2025 e o aumento da dívida pública. Além disso, os avanços e os desafios
na esfera social assumem nova importância diante de um Poder Legislativo com
enorme influência política e poder orçamentário sem precedentes na história
republicana do país. Por fim, as Forças Armadas são outro ator que
não pode ser negligenciado e merece nossa análise sobre o que se pode esperar –
ou não – em 2026. Assim, examinando as dimensões externa, política, econômica,
social e militar, buscaremos compreender a caleidoscópica e desafiadora
situação atual do Brasil, construindo uma visão geral do que poderá se
desenrolar ao longo de 2026.
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A paisagem externa
A
aceleração da história, como alguns historiadores denominam o período atual em
que múltiplos processos globais se desenrolam de forma interconectada, intensa
e imprevisível, também teve repercussões no Brasil e em suas relações
com o mundo exterior. O presidente Lula da Silva reforçou seu
compromisso com o Sul Global, concebido inicialmente durante seus
anos no Palácio do Planalto, entre 2003 e 2010, sem prejuízo das alianças
tradicionais com os Estados Unidos, a União Europeia e os
países vizinhos da América Latina, entre outros. Sem pretender ser
exaustivo, eventos como a cúpula do G-20 no Rio de
Janeiro em novembro de 2024 (que marcou o fim da presidência brasileira do
grupo), a presidência do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África
do Sul) ao longo de 2025 e a presidência do Mercado Comum do Sul (Mercosul) a partir de julho
de 2025 – de onde foram feitos esforços para finalizar a assinatura do acordo
de livre comércio com a UE , há muito adiado – sem esquecer a COP30, realizada
em Belém, no coração da Amazônia, em novembro de 2025, dão uma ideia
da intensa agenda externa do Brasil nos últimos meses do terceiro ano de
mandato de Lula. Com relação à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre
Mudanças Climáticas (Conferência das Partes), o Brasil tentou, por
meio da agenda ambiental, reativar um antigo e poderoso trunfo diplomático:
alcançou uma redução no desmatamento em comparação com 2024, no segundo ano
consecutivo de declínio, com uma diminuição de 32,4% em relação a 2023, e tem
demonstrado, em termos gerais, uma maior preservação de seus seis biomas
(Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal).
O
governo tem sido frequentemente criticado por manter laços estreitos com os
países membros do BRICS — grupo que hoje compreende muito mais países
do que aqueles que deram origem à sigla —, vários dos quais são, na verdade,
autocracias. Mas Lula da Silva respondeu que se tratam de alianças
pragmáticas que priorizam benefícios econômicos e diplomáticos. A posição
oficial brasileira tem sido a de não se alinhar ideologicamente a esses
regimes, mas sim a de buscar reforçar a autonomia estratégica do país e o multilateralismo
no cenário global, caracterizado pela erosão da democracia liberal em diversos
países. Outros preferem apontar uma contradição, visto que a política externa
do terceiro mandato de Lula da Silva tem como um de seus princípios
centrais a promoção e o fortalecimento da democracia, incluindo a criação de um
mecanismo permanente de diálogo para coordenar sua defesa, anunciado em março
de 2024 após a visita do presidente espanhol Pedro Sánchez a Brasília,
e que atualmente conta com a participação de diversos países.
Este é
um momento de declínio do multilateralismo no sistema internacional e de
ressurgimento das relações de poder entre os Estados — a guerra entre Rússia
e Ucrânia,
o conflito entre Israel e Palestina, que Lula classificou
como “genocídio”, e o ataque israelense-americano ao Irã — e de
agravamento da deterioração das relações diplomáticas desde o retorno de Donald Trump à presidência
da maior potência econômica e militar do mundo, em janeiro de 2025. No caso
do Brasil, em uma clara tentativa de interferência, o presidente
dos EUA tomou medidas unilaterais contra o país nas esferas
econômica, comercial e diplomática, em decorrência dos processos judiciais
contra seu aliado Jair Bolsonaro. O resultado tem
sido uma maior dependência do Brasil em relação à China, seu
maior parceiro comercial desde 2009, que atualmente absorve cerca de 25% de
suas exportações e responde por aproximadamente 40% do superávit comercial
brasileiro. Essa é uma consequência indesejável para Brasília, que
preferia manter uma distância pragmática
entre Washington e Pequim, negociando vantagens estratégicas e
investimentos conforme seus interesses nacionais.
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O cenário político
Com
a inelegibilidade de
Jair Bolsonaro para
cargos públicos em 2023 (até 2030) e sua condenação por conspiração golpista,
que resultou em uma pena de mais de 27 anos de prisão, a oposição buscou um
novo líder, gerando tensões políticas no período pré-eleitoral. Em ordem de
proximidade e importância, os governadores de São Paulo (Tarcísio de Freitas), Paraná (Ratinho
Júnior), Minas Gerais (Romeu Zema) e Goiás (Ronaldo Caiado), e até mesmo a
ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, tentaram ocupar seu
lugar. Por fim, o senador Flávio Bolsonaro, filho do
ex-presidente, será um dos candidatos à presidência do Brasil, apoiado por seu
pai. O processo de impeachment contra Bolsonaro resultou em sanções
contra o Brasil, incluindo uma tarifa de 50% sobre as exportações
brasileiras para os Estados Unidos, a suspensão de vistos para ministros
do Supremo Tribunal Federal e membros do
governo Lula (estendendo-se a seus familiares) e a aplicação da Lei Magnitsky (criada para
punir estrangeiros por graves violações de direitos humanos e práticas
corruptas). O ex-presidente Bolsonaro foi
condenado à prisão,
enquanto Trump continua a caracterizar os eventos como uma "caça
às bruxas" e tenta interferir diretamente na política e no judiciário
brasileiros. Vale a pena relembrar, ainda que brevemente, a tentativa de golpe
de janeiro de 2023 e suas repercussões na atualidade. Em 8 de janeiro daquele
ano, o Brasil foi surpreendido pela invasão — e vandalismo —
do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e
do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, por apoiadores de
Bolsonaro, com o objetivo de impedir a reeleição de Lula da
Silva.
Naquele
dia em que a democracia foi ameaçada, os indignados com a derrota nas urnas,
que estavam acampados em frente ao quartel-general do Exército desde o revés
eleitoral, exigiram o cancelamento das eleições, a intervenção militar, o
retorno do AI -5 (um conjunto de medidas decretadas pela última
ditadura para consolidar seu poder) e a demissão do Ministro Supremo
Federal Alexandre de Moraes. Uma parte significativa da turba foi
rapidamente condenada, enquanto as sentenças contra seus líderes foram anunciadas
em 11 de setembro de 2025, na Ação Penal (AP) 2668, pelo Supremo Tribunal
Federal (STF). A sentença envolveu os oito membros do Núcleo 1 da tentativa de
golpe, ou Núcleo Crucial, de acordo com a Procuradoria-Geral da República
(PGR). Desses, sete réus foram condenados pelos crimes de tentativa de abolição
violenta do Estado de Direito democrático, golpe de Estado, participação em
organização criminosa armada, danos graves e deterioração do patrimônio
protegido. Mesmo antes do veredicto final e do anúncio das sentenças,
o Centrão começou a circular no Parlamento uma proposta de
anistia para os envolvidos nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Isso está em
consonância com uma longa tradição brasileira de impunidade para esse tipo de
crime, como se viu durante o período de redemocratização do país. As pesquisas
indicam que a maioria da sociedade rejeita uma anistia, mas membros do
Congresso apresentaram diferentes formatos e propostas (incluindo a forma mais
"branda", por meio da redução de penas). Cabe ressaltar que essa
proposta mantém acesa a chama da polarização. Além disso, a um
ano das eleições, a posição de Lula como favorito é repleta de
riscos. É importante lembrar que, das nove eleições presidenciais realizadas
desde o retorno da democracia em 1985, em quatro delas os candidatos que
lideravam as pesquisas um ano antes acabaram perdendo nas urnas. Diferentemente
das democracias, onde a previsibilidade é a norma, no Brasil a
volatilidade é estrutural. O sistema de representação proporcional por lista
aberta, a fragmentação partidária, a instabilidade econômica, os laços
partidários frágeis e um alto grau de ambivalência ideológica explicam esse
fenômeno.
A
ciência política internacional estabelece que, em eleições em que o incumbente
tem 40% ou mais de aprovação, há 75% de chance de
reeleição. Lula está exatamente nesse patamar. Seu governo mantém
cerca de 45% de aprovação, e pouco mais da metade do eleitorado avalia o
desempenho pessoal do presidente como "bom/excelente" ou
"regular". Trata-se de uma posição de equilíbrio instável: qualquer
movimento pode empurrá-lo para dentro ou para fora da zona de conforto
estatístico.
Atualmente,
o presidente brasileiro, que vinha sofrendo um declínio histórico persistente
em seus índices de aprovação, começou a recuperar uma parcela significativa de
sua popularidade após os episódios de interferência de Donald Trump. Invocando a
soberania e afirmando que ela é inegociável, Lula e seus ministros
usam bonés azuis com o slogan "Brasil pertence aos brasileiros" e a
bandeira brasileira, em contraste com os bonés vermelhos com a inscrição "Make America Great
Again"
e a bandeira americana, juntamente com a bandeira israelense, usados por uma parcela
significativa da direita brasileira desde o início de 2025. O
governo lançou o Plano Brasil
Soberano, que destinará 40 bilhões de reais (aproximadamente US$ 7,6 bilhões)
para compensar os exportadores pelas perdas afetadas pelo aumento das tarifas
americanas em vigor desde agosto de 2025, e se reposicionou lançando uma nova
marca governamental que mudou "Brasil: União e Reconstrução" para
"Governo do Brasil, ao lado do povo brasileiro". No
entanto, Flávio Bolsonaro está se aproximando de Lula nas
pesquisas para um possível segundo turno . O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que a
disputa será entre "Lula e Fávio, ponto final". Assim, a
eleição colocará mais uma vez Lula da Silva contra Bolsonaro,
com resultado completamente incerto.
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O cenário econômico decisivo
Enquanto
a política permanece em suspenso, a economia emerge como a arena decisiva onde
a batalha eleitoral será travada. De 1,5% durante o governo
Bolsonaro (2019-2022), o crescimento médio do PIB subiu para 3,2% em 2023
e 3,4% em 2024, já sob a presidência de Lula. Mas em 2025, além da frágil
situação fiscal interna, o cenário internacional trouxe novas instabilidades
que, somadas às altas tarifas de Trump, causaram uma
desaceleração da economia. Como resultado, o crescimento em 2025 foi de 2,3%, e
o Banco Central e o mercado projetam um crescimento de 1,5% para
2026. E nesse horizonte, muitas nuvens negras ainda pairam.
Embora
seja verdade que a taxa de desemprego esteja em seu nível mais baixo na série
histórica (em torno de 5,5% da população economicamente ativa), a renda média
do trabalhador continue a crescer e, em 2024, o Brasil tenha atingido
um estoque de cerca de um trilhão de dólares em investimento estrangeiro direto
(um recorde na série histórica do Banco Central, com os EUA liderando com mais
de três vezes o investimento do segundo colocado), há outros fatores que devem
ser considerados para se obter um panorama mais claro de como a economia poderá
afetar a sucessão em 2026. Com a dívida bruta do governo (incluindo as
obrigações dos governos federal, estaduais e municipais) em torno de 78% do PIB
e um déficit em conta corrente equivalente a 3,5% do PIB , o Banco Central tem
justificado a manutenção das taxas de juros em 15% (que não devem começar a
cair antes de 2026), o que inibe o consumo, a produção e a expansão das
atividades produtivas. O quadro fiscal, sancionado em 2023 para substituir a
regra anterior de teto de gastos, acumulou quase 20 exceções em dois anos, como
resultado da pressão do Executivo e do Congresso Nacional. A
cada exceção, a regra perde credibilidade.
Mas
existem outros números, ainda menos animadores: 72 milhões de brasileiros
estão inadimplentes (ou seja, 43% dos adultos, o maior índice desde o
início da pesquisa); a taxa de juros dos cartões de crédito rotativo ultrapassa
há tempos os 450% ao ano (e a inadimplência já passou de 60%), em uma economia
com inflação em torno de 5% ao ano. A sensação de exaustão e a dificuldade que
uma parcela considerável da sociedade tem em vislumbrar uma saída complicam
ainda mais a situação e levam a respostas sociais que exacerbam a crise atual.
A busca por uma solução nas apostas eletrônicas tornou esse cenário
ainda mais desafiador e sombrio: o percentual de brasileiros maiores de 16 anos
(ou seja, aqueles que já podem votar) que relatam ter feito algum tipo de
aposta subiu de 24% em outubro de 2024 para 36% em setembro de 2025, o que
dobrou o índice de endividamento devido às apostas online e à drenagem de
recursos do mundo do consumo. Em resumo, existem problemas macroeconômicos e
microeconômicos que podem ter impacto em 2026, e o atual governo carece tanto
da vontade política quanto da maioria parlamentar para alcançar soluções
estruturais e duradouras. Além disso, há uma clara tensão entre uma "ala
técnica" liderada pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e uma "ala
política" chefiada pelo Chefe da Casa Civil, Rui Costa, ambos membros
do Partido dos Trabalhadores (PT) e ambos candidatos à presidência,
em relação aos rumos da agenda econômica. Da mesma forma, a promessa de reindustrialização
não está se concretizando, e o setor agroindustrial responde por grande parte
do crescimento econômico. Vale sempre lembrar que a sensação de bem-estar é
mais decisiva do que a curva do PIB, e aí reside um problema central que o
atual governo deve enfrentar nas próximas eleições.
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A esfera social (sempre desafiadora)
Em um
país como o Brasil, marcado por uma desigualdade estrutural e estruturante
em sua sociedade, com uma das maiores concentrações de renda do planeta, a
questão social, sempre volátil, surge como uma variável importante. Em
2022, Lula foi eleito com a promessa de resgatar a democracia e
incluir os pobres no orçamento federal e os ricos no imposto de renda (apesar
da alta carga tributária, esta é fundamentalmente regressiva). Nos dois
primeiros anos (2023-2024), a classe média cresceu 18% (de 32,8 para 38,6
milhões de pessoas), enquanto o número de pessoas classificadas como
"miseráveis" caiu 33% (de 19,3 para 12,9 milhões). Apesar desses
indicadores positivos, Waldir Quadros, economista da Universidade Estadual
de Campinas, aponta que a popularidade do governo não reflete os dados:
"Trabalho com esse banco de dados e metodologia há mais de 20 anos. Esta é
a primeira vez que vejo essa discrepância, porque normalmente, a mobilidade
social aumenta e a popularidade do governo melhora.".
O Brasil alcançou
um progresso histórico na luta contra a pobreza. Em dois anos, o número de
famílias vulneráveis cadastradas no Cadastro
Único diminuiu 25%. Em maio de 2023, eram 26,1 milhões de domicílios, e em
julho de 2025, esse número havia caído para 19,56 milhões. Isso representa uma
melhora na vida de 6,55 milhões de famílias. Individualmente, 14,17 milhões de
pessoas saíram da pobreza, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento
Social. Em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para a
Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciou que o Brasil havia
sido novamente removido do Mapa da Fome. Isso ocorre quando
o risco de desnutrição cai abaixo de 2,5% da população (o país havia retornado
a essa categoria durante o primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019,
mesmo antes da pandemia global de
Covid-19,
que exacerbou a situação). O retorno da política de aumento do salário mínimo,
com reajustes anuais reais acima da inflação, sem dúvida também contribuiu para
essa situação. No início de outubro de 2025, foi aprovada uma isenção do
imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais por mês (aproximadamente US$
950), que entrará em vigor em janeiro de 2026, em comparação com a faixa atual
de tributação em torno de 3.000 reais (US$ 570), beneficiando diretamente 15
milhões de pessoas.
O
programa Bolsa Família (criado durante
o primeiro mandato de Lula da Silva) foi completamente reformulado, ampliando
sua abrangência. O governo sabe que precisa de programas sociais concretos para
ser competitivo até 2026 e, além da já mencionada isenção do imposto de renda,
planejou iniciativas como Gás do Povo (que garante botijões de gás
gratuitos para 17 milhões de famílias) e Luz do Povo (que oferece
energia elétrica gratuita para usuários vulneráveis cadastrados no
Cadastro Único), entre outras. Na área da saúde,
ampliou os programas Mais Médicos, Brasil
Sorridente (programa odontológico) e Agora Tem Especialistas, que
agiliza consultas e exames no Sistema Único de Saúde (SUS). Na área da
educação, houve um aumento no investimento em mensalidades para o ensino
fundamental e médio, e foi criado o programa Pé-de-Meia, que incentiva os
alunos a concluírem o ano letivo com auxílio financeiro de até R$ 1.750 para
aqueles que forem aprovados nas três etapas e prestarem o Exame Nacional
do Ensino Médio (Enem). Além disso, às vésperas do ciclo eleitoral, o
governo promete mobilizar esforços para aprovar uma emenda constitucional que
aboliria a jornada de trabalho
6x1 (o
regime de trabalho padrão no Brasil, em que seis dias de trabalho são seguidos
por um dia de descanso), bem como implementaria a gratuidade no transporte
público. Contudo, a percepção de uma melhoria na qualidade de vida não é
garantida e, até o momento, muitos desses avanços (em sua maioria isolados e
não estruturais) — e sua sustentabilidade a longo prazo — são vistos com
ceticismo por grande parte da sociedade brasileira. A margem de manobra do
governo é bastante limitada: aproximadamente um quarto dos gastos não
discricionários é controlado pelo Poder Legislativo por meio de emendas
tributárias, o que agrava a falta de transparência, a corrupção, a fragmentação
e a incoerência das políticas públicas, além de enfraquecer a capacidade do
Poder Executivo de definir a agenda.
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A politização das forças armadas
A
transição na área da Defesa, de Bolsonaro para Lula, foi
particularmente tensa, com nomeações tardias para
o Exército, Marinha e Força Aérea, e com comandantes
militares indicados pelo presidente Bolsonaro recusando-se a entregar
seus cargos na presença do recém-eleito comandante supremo, além de
demonstrarem total tolerância a extremistas de direita que continuavam a
protestar em frente aos quartéis em favor de um golpe militar. Essa foi a única
área da equipe de transição sem membros indicados por Lula, que nomeou José Múcio, político de direita
que mantém diálogo com Bolsonaro, como novo ministro da Defesa. Ainda
assim, por exemplo, o novo comandante do Exército, Júlio Cesar de Arruda,
permaneceu menos de um mês no cargo, já que o chefe militar manteve uma postura
corporativista e desafiadora diante da necessidade de recuperar a confiança
pública em um Exército questionado. Como já mencionamos, a tentativa fracassada
de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, o plano Punhal Verde
Amarelo — concebido em novembro de 2022, com equipes formadas por
militares das Forças Especiais, os chamados "Kids Pretos", que
monitoravam o cotidiano e os itinerários do ministro, do presidente e do
vice-presidente com a intenção de assassiná-los — e oficiais de alta patente
envolvidos em atividades ilícitas, culminaram na já mencionada condenação
histórica de 11 de setembro de 2025, na qual, pela primeira vez na história
brasileira, oficiais superiores e generais foram condenados por um tribunal
civil. Contudo, os quartéis permanecem altamente politizados e ainda simpáticos
ao ex-presidente Bolsonaro, e não há, efetivamente, controle civil
democrático ou direção política por parte das autoridades civis sobre esse
instrumento de força do Estado.
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Considerações finais
Independentemente
do rumo e da forma que a situação política assumir em 2026, a polarização
permanecerá uma realidade, dada a sua importância para os dois principais
líderes da atualidade, Lula da Silva e Jair
Bolsonaro.
Um Lula revigorado por Trump vem ganhando terreno, mas é
sempre importante lembrar que ele terá 81 anos nas eleições de 2026, e a
memória de Joe Biden, que teve de desistir da corrida presidencial
por problemas de saúde relacionados à idade avançada, lança uma sombra sobre a
candidatura do ex-metalúrgico (mesmo que ele seja apenas alguns meses mais
velho que Trump). Especialistas apontam que, de modo geral, o eleitorado
brasileiro está dividido entre um terço que apoia a direita e um terço que
apoia a esquerda. Os 30% restantes são o elemento central da equação. Estima-se
que, desse grupo, dois terços se abstenham de votar, e os 10% restantes sejam
compostos por eleitores indecisos, que podem pender para qualquer um dos
lados. Lula tem um piso alto, mas um teto baixo, já que quase metade
do eleitorado reitera consistentemente que não votaria nele. O bolsonarismo, por sua vez,
tornou-se um legado tóxico para muitos de seus aliados: atrai votos, mas repele
alianças. Portanto, a eleição de 2026 provavelmente será acirrada, na qual o
candidato que conseguir se conectar com o público, mostrando-lhe um caminho
para uma vida melhor, e não apenas agendas abstratas em favor do
institucionalismo e da promoção da democracia, conquistará o voto dos
indecisos.
Na
esfera econômica, a reforma tributária, considerada a mudança mais
significativa no sistema tributário das últimas décadas, entrou em vigor em
janeiro de 2026 com a implementação experimental da Contribuição sobre
Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS).
Isso poderá levar a uma redução da pesada carga tributária suportada por
empresas, trabalhadores e consumidores. Espera-se que o PIB continue crescendo,
com uma provável redução nas taxas de juros, o que beneficia diretamente os cidadãos
comuns. No entanto, a inflação anual persistente em torno de 5% está impactando
as receitas do governo e continua sendo um desafio que precisa ser enfrentado. Os
indicadores sociais, em particular a redução da pobreza e da pobreza extrema,
devem continuar a melhorar, com a criação de mais empregos e o aumento do
rendimento médio. A segurança pública, o controlo das despesas e os cuidados de
saúde continuam a ser os calcanhares de Aquiles do atual governo, e a sociedade
no seu conjunto exige reformas profundas nestas áreas.
Para
concluir nossa avaliação, na véspera de 7 de setembro, Dia da
Independência do Brasil, Lula da Silva se reuniu em um churrasco
informal com o Ministro da Defesa, comandantes militares da ativa e
ex-comandantes de seus mandatos anteriores. Na pauta, no que o Ministro
Múcio chamou de "encontro entre amigos", estava um pedido de um
plano estratégico de defesa para os próximos 20 anos, levando em conta as
atuais mudanças tectônicas no sistema internacional. Na prática, foi uma
demonstração de apreço institucional às vésperas do julgamento de Jair
Bolsonaro e
de militares conhecidos por seu envolvimento em tentativas de golpe, e uma
forma de tentar apaziguar as tropas em vista do período eleitoral iminente. A
rápida concessão da vitória por Biden em 2022 e as mensagens diretas
e indiretas de que, caso ocorresse qualquer tipo de colapso institucional, toda
a cooperação militar com os EUA cessaria, desempenharam um papel
significativo na posse de Lula. Com Trump na Casa Branca até
2029, o cenário muda substancialmente. Em resumo, nesta breve avaliação e
perspectiva para 2026, acreditamos que provavelmente teremos um ano marcado
pela normalidade institucional, sem grandes convulsões, aguardando o resultado
da candidatura de Flávio Bolsonaro. As esferas econômica e social,
apesar dos desafios e crises ocasionais, devem, em geral, continuar
apresentando números e indicadores positivos. A questão militar permanece uma
variável indefinida, mas, por ora, foi apaziguada por sinais orçamentários e
planos de defesa mais robustos. A corrida presidencial já começou e, de fato,
se estende a todas as áreas da vida política, econômica e social do país, sob a
sombra da polarização.
Fonte:
Por Esther Solano e Alexandre Fuccille, em Nueva Sociedad



