A
pré-campanha eleitoral – é o petróleo, estúpido!
Donald
Trump está dando uma aula de estratégia de sobrevivência para a humanidade com
seus tarifaços e com a guerra contra o Irã. A afirmação deve surpreender a
todos, mas é bem explicável.
Faço
parte dos que acham que vai ser preciso “desglobalizar” a economia do planeta
se quisermos sobreviver à catástrofe anunciada pelas crises simultâneas que nos
assolam: aquecimento global, mudanças climáticas, destruição da biodiversidade
e dos habitats, pandemias, poluição de solos, águas e do ar, déficits de água
potável e em especial, o fim do uso de combustíveis fósseis e muitas outras.
É claro
que a salvação do planeta dependerá de muitas medidas radicais para além da
desglobalização, todas elas apontando para a substituição do sistema
capitalista que organiza (ou desorganiza) a economia mundial há dois séculos ou
mais.
O que o
psicopata da Casa Branca vem fazendo, ataca o modo dominante do capitalismo
desde o último quarto do século passado, chamado por alguns de hiper
globalização. Obviamente, o todo poderoso (mas cada vez menos) chefe do
imperialismo americano parece não ter a mínima ideia do que está fazendo, mas o
efeito é o mesmo: um tiro certeiro no coração do sistema globalizado.
Ao
criar a ilusão de trazer de volta as indústrias para o território americano
através dos tarifaços, Donald Trump ignora a profunda interdependência dos
empreendimentos econômicos globalizados, que passaram a ignorar fronteiras para
buscar as maiores margens de lucro das empresas. As empresas globalizadas
aumentaram seus lucros exponencialmente, relocalizando mundo afora tanto os
seus fornecedores, como as próprias fábricas que finalizam os produtos.
Tomemos
como exemplo a produção do café para o consumo dos americanos, os maiores
bebedores deste produto no planeta. As empresas americanas, ou de outro país
que entregam o produto final para os gringos, compram café em vários níveis de
processamento em diferentes partes do mundo, já que as condições climáticas dos
EUA não permitem o seu cultivo local. Algumas compram café em grão, apenas
secado. Estas compras podem vir do Brasil, Colômbia, Vietnam. África, América
Central.
Em
geral, as compras incluem tipos diferentes de café, grosso modo os gêneros
robusta, arábica e um tipo menos conhecido, chamado tecnicamente de arábicas
não lavados. Estas empresas fazem a torrefação, moagem, mixagem e embalagem nos
EUA, ajustando a composição em função dos gostos do público. Muitas fazem ainda
um processamento extra para produzir cafés solúveis. Outras empresas têm
diferente estratégia e compram produtos semitransformados, já torrados e
moídos, fazendo apenas a mistura e embalagem nos EUA.
Quando
Donald Trump taxou as importações de café em bloco, ele prejudicou mais as
empresas que importavam o café menos processado, sobretudo as que compravam o
produto brasileiro exportado em grão, que receberam a maior taxação no plano
internacional devido às tramoias de Eduardo “bananinha” Bolsonaro. As empresas
que importavam café processado do México ou da Colômbia saíram ganhando na
concorrência, ameaçando fechar suas concorrentes em solo americano.
Este é
um exemplo bastante simples, já que em indústrias mais complexas o número de
componentes adquiridos em outros países e até finalizados em outros países pode
chegar a milhares. Fábricas americanas se transferiram para a China, entre
outros lugares do chamado sul global para aproveitar a mão de obra mais barata
e mais disciplinada ou com uma legislação ambiental menos restritiva ou
impostos mais baixos ou ainda taxas de câmbio mais favoráveis. Além disso, elas
compram seus componentes e insumos seguindo o mesmo critério, preços mais
baixos.
Ficou
para o território americano o controle das finanças, do know how e
das patentes e a realização dos lucros com vendas para os próprios americanos
ou outros consumidores no mundo. É esta a raiz do gigantesco déficit comercial
americano que Donald Trump quis derrubar com seus tarifaços. Obviamente, não
podia dar certo e o todo poderoso teve que ceder em muito da sua estratégia ou
a consequência seria uma inflação pesada para o bolso do consumidor (e eleitor)
americano.
No
coração da globalização encontra-se um elemento chave da economia. A
multiplicação das compras de componentes de cada produto colocado no mercado
por países espalhados em todo o planeta aumentou em muito o peso dos
transportes no custo final. Hoje em dia existem organizações especializadas em
calcular a “milhagem” de cada produto de mercado, somando o quanto cada parte
teve que viajar até chegar à forma final e sua compra pelo consumidor. Os
números são estonteantes, seja para uma lata de tomate ou para um computador.
Não vou
tratar aqui de um outro calcanhar de Aquiles da globalização, mas que também é
crucial: a logística cada vez mais complexa para permitir que uma fábrica
“finalística” receba todos os seus componentes, vindos de toda parte, ajustando
o fornecimento dos componentes em um cronograma preciso do processo produtivo.
Qualquer perturbação no fluxo internacional de cargas (atrasos provocados por
mau tempo nos oceanos, greves nos portos, infraestruturas inadequadas de
armazenamento ou de embarque) tem um efeito cascata de atrasos na produção
final, obviamente aumentando os seus custos.
Voltando
ao problema do aumento da demanda de transporte de cargas, a chave é o preço do
petróleo. E foi exatamente neste fator que Donald Trump deu o seu passo mais
infeliz. Ao atacar o Irã, achando que seria um passeio como na Venezuela, ele
ignorou os avisos de seus aliados no Oriente Médio, os maiores fornecedores de
petróleo do mundo quando tomados em conjunto.
Ignorou
também os avisos da inteligência militar e econômica dos EUA. Todos apontavam o
risco do bloqueio do estreito de Ormuz (por onde passam 30% das exportações de
petróleo no mundo) pelos iranianos e o risco de uma expansão da guerra para os
países vizinhos e a destruição de infraestruturas de extração, processamento e
embarque de petróleo e outros derivados como os fertilizantes.
Pois
foi o que aconteceu. Apesar de pesadas perdas, os iranianos adotaram uma
estratégia de guerra assimétrica e fecharam o estreito (bloqueando a passagem,
até agora, de mais de mil navios) e agora atacam os poços, refinarias e portos
dos vizinhos. O efeito imediato foi o estancamento das exportações de petróleo
da região, aumentando em 60% o preço desta comodity em três
semanas de guerra, sem que exista um horizonte previsível para o fim da
escalada.
Ainda
não se pode calcular a queda mais prolongada das exportações de petróleo
causada pela destruição do potencial produtivo de petróleo dos países árabes,
pois isto ainda está em curso, podendo piorar muito com o prolongamento da
guerra.
O tiro
no pé dos americanos é ainda mais espetacular porque o Irã continua exportando
petróleo, sobretudo para a China, com seus navios tanque cruzando o estreito
interditado para as exportações de outros países. Mais ainda, o desespero de
Donald Trump com o caos que provocou e seu impacto nos postos de gasolina dos
EUA (e no humor dos eleitores), levou-o a propor a suspensão dos embargos às
exportações de petróleo da Rússia, para aliviar a pressão sobre os preços, para
horror de Volodymyr Zelensky. Os eleitores de Donald Trump devem estar
amargando seu voto a cada vez que enchem o tanque de seus carros.
A
estupidez de Donald Trump, na verdade, está antecipando o golpe mortal na
globalização anunciado por muitos analistas especializados no mercado
petrolífero: a tendência inevitável da ocorrência do esgotamento do
fornecimento de petróleo.
Já
escrevi sobre este assunto em outros artigos e só vou lembrar que o pico de
produção do petróleo dito convencional ocorreu entre 2005 e 2008 e hoje, apesar
de investimentos maciços, o máximo que as empresas petrolíferas conseguiram foi
manter um platô de oferta deste tipo de óleo no mesmo nível do volume alcançado
no período citado acima. De lá para cá o que cresceu na oferta de petróleo foi
a produção dos chamados óleos não convencionais, obtidos pelo “fraking”
(Estados Unidos), pela exploração de areias betuminosas (Canadá), pelo petróleo
pesado (Venezuela) ou pela exploração de petróleo em águas ultra profundas
(Brasil e Suriname).
A
produção americana do que eles chamam de tight oil e outros
de shale oil disparou, com um forte apoio financeiro dos
governos americanos desde 2010, reduzindo impostos e facilitando crédito com
taxas de juros mínimas. Mas mesmo com todo o apoio e o sucesso no curto prazo
desta produção americana, o máximo que se conseguiu foi adiar a crise de
fornecimento de petróleo no plano mundial. A produção do tight oil estancou
a partir de 2018 e já se aponta para um teto, a partir do ano passado ou, no
cálculo mais otimista, para 2030.
Os
analistas da geopolítica do petróleo vêm prevendo que um estancamento da oferta
do “ouro negro”, sem que se tenham tomado medidas para uma transição que
levasse à sua substituição paulatina, provocará um golpe definitivo na economia
mundial globalizada, cuja demanda por este combustível só faz crescer. A
expectativa é uma reação dos países mais poderosos buscando garantir o controle
da produção remanescente no mundo.
Uma das
“saídas”, necessariamente com curta duração será uma exacerbação da exploração
dos combustíveis fósseis que ainda tem prazos maiores de esgotamento, como o
gás e o carvão ou a ampliação da exploração dos óleos não convencionais como as
areias betuminosas do Canadá, cujas reservas são imensas, ou o petróleo do
pré-sal, com reservas bem mais modestas.
A
Petrobras acredita que pode chegar a uma produção de 7 a 8 milhões de barris
por dia se todos os investimentos previstos no plano atual derem certo, mas
isto não será alcançado antes de 2035, quando a crise já deverá estar
instalada. Embora esta seja uma produção importante para nós, ela fica longe de
compensar a queda de oferta prevista de outras fontes, sendo menos de que 8% do
consumo mundial projetado para meados da próxima década, de 105/110 Mb/dia.
Já a
produção canadense cobrará investimentos gigantescos para se expandir e
implicará em uma espetacular destruição ambiental em uma área superior ao
estado de Minas Gerais naquele país. Por outro lado, o petróleo obtido do
betume é o de pior qualidade e de maior custo em toda a história do petróleo.
Alguns
países poderão se voltar para explorar jazidas de carvão e processá-lo para
gerar um sucedâneo líquido do petróleo, mas com custos muito mais altos e com
uma fortíssima emissão de gases de efeito estufa, salvando a economia por um
lado e ferrando o planeta por outro. Deve ser o caso da China e da Índia, mas
os hoje poderosos países da União Europeia vão ficar a descoberto já que sua
dependência de importações de combustíveis fósseis é total.
O que
se espera é um movimento de disputa que vai levar a guerras mais ou menos
localizadas. Os analistas gostam de lembrar que a disputa pelo petróleo foi
definidora da maior parte das guerras travadas no século passado e no início
deste em que estamos.
A
história mostra que a Segunda Guerra mundial foi ganha pelos dois países com
acesso às maiores reservas de petróleo, os Estados Unidos e a União Soviética,
com a Alemanha e o Japão tentando tomar conta de áreas capazes de fornecer
petróleo para o esforço de guerra, a primeira tentando chegar aos poços de Baku
(e travada pela derrota em Stalingrado) e a segunda tentando destruir a frota
americana em Pearl Harbor para garantir o acesso ao maior produtor da Ásia
naquele momento, Sumatra.
Mais
recentemente, a queda do regime do apartheid na África do Sul
só ocorreu quando o embargo internacional de petróleo levou à capitulação dos
dirigentes brancos daquele país. E não esqueçamos das ações bélicas americanas
no Kuwait, no Iraque, na Líbia e no Afeganistão, todas relacionadas a esforços
de controle de fontes de petróleo ou (no último caso) de gás. Ou ainda, apenas
dias atrás, o ataque de Donald Trump à Venezuela.
Tudo
isso levanta a preocupação sobre o futuro da nossa exploração no pré sal.
Independentemente da correção ou não das intenções expansionistas da Petrobras
(acho que os quase 100 bilhões de dólares previstos poderiam ser mais bem
utilizados para financiar a transição para uma economia descarbonizada) não
duvidemos que os nossos irmãos do norte” não deixarão de mirar na nossa riqueza
subaquática, explorada ou a explorar.
O
choque de oferta de petróleo atual pode ficar catastrófico se a guerra se
prolongar a ponto das reservas estratégicas existentes, sobretudo nos EUA, se
esgotarem. Com a oferta de petróleo caindo abaixo da demanda os preços vão
subir para níveis estratosféricos, batendo os 150 dólares por barril do auge da
crise de 2008. Os primeiros a pagar pela crise vão ser os países mais pobres e
os sem recursos energéticos próprios, no primeiro caso a maior parte do Sul
Global e, no segundo, a União Europeia.
Uma
diminuição brusca da oferta de combustíveis replicaria em escala mundial o
impacto do fim do bloco soviético em 1989. Em países que dependiam inteiramente
do petróleo russo subsidiado por razões políticas, como Cuba e Coreia do Norte,
o baque na economia, nos transportes e na produção agrícola foi brutal e a fome
tornou-se endêmica, enquanto as pessoas passaram a se deslocar em bicicletas e
a iluminação passou a ser racionada.
Nunca é
demais lembrar que o petróleo não é “apenas” a base de todo o transporte no
mundo, mas está presente em inúmeros objetos de consumo corrente: alimentos,
produtos eletrônicos, tecidos, plásticos, cosméticos, medicamentos, outros.
Raros são os objetos que não são produzidos (e transportados) graças ao
petróleo. O essencial do modo de vida contemporâneo repousa sobre a oferta
abundante de petróleo.
Para
resumir, o peso do petróleo no mundo atual basta saber que a energia contida em
um galão de 50 litros corresponde à força física fornecida por mil pessoas ao
fim de uma diária de trabalho árduo.
Além de
substituir trabalho físico, o petróleo, como vimos acima, está presente em
milhares de produtos de consumo corrente e temos a tendência a esquecer que,
embora seja possível encontrar substitutos para o uso desta comodity como
combustível, o seu papel nas indústrias é muito mais difícil de ser
substituído. Devíamos estar economizando petróleo para este uso mais “nobre”,
em vez de queimá-lo nos transportes e na produção de energia elétrica.
Para um
país como o Brasil, com acesso a petróleo suficiente para cobrir as
necessidades do mercado interno, o problema vai ser a insuficiência da nossa
capacidade de refino que nos faz exportadores de óleo cru e importadores de
gasolina e diesel. Construir refinarias seria um caminho, se não fosse o tempo,
quatro a cinco anos, para entrarem em produção.
Uma
outra debilidade menos percebida é a nossa dependência da importação de
fertilizantes, hoje da ordem de 80% do consumo. Podemos produzir fertilizantes
nitrogenados (já o fizemos no passado, mas abandonamos este investimento), mas
também neste caso há um delay entre a decisão de construir
novas refinarias e a sua entrada em operação. Mais difícil vai ser resolver a
falta de fosfatos e potássio, quase inexistentes na geologia do país.
A
transformação em larga escala de lixo orgânico e lodo de esgoto em
fertilizantes poderia resolver uma boa parte da nossa demanda de nitrogênio,
fósforo e potássio, mas, mais uma vez, há prazos mais ou menos longos para se
implantar biodigestores em várias escalas em todo o país e o agronegócio não
pode esperar. Sem fertilizantes a produção agrícola convencional vai entrar em
colapso e o impacto na oferta e nos preços dos alimentos vai ser gigantesco,
exigindo importações de produtos básicos e derrubando exportações que tem sido
uma âncora para a nossa balança de pagamentos.
Para
piorar, uma crise internacional do petróleo vai reduzir a oferta de alimentos
no mundo e o custo do seu transporte vai fazer com que as exportações se
dirijam para quem pode pagar preços bem mais altos. Neste caso, vamos disputar
as compras com blocos mais ricos, como a União Europeia.
A
solução estratégica para a produção de alimentos e outros produtos agrícolas
vai ser a adoção de um modelo agroecológico que dispensa o uso de fertilizantes
químicos, mas isso vai cobrar uma radical transformação agrária no país, pois a
agroecologia opera na escala da agricultura familiar, hoje em queda no número e
na participação no produto agropecuário total. Leva tempo fazer uma reforma
agrária radical e mais ainda construir respostas técnicas diversificadas para
os diferentes ambientes produtivos e a sua aplicação pelos agricultores
familiares.
Todas
estas considerações são hipotéticas e a crise imediata pode ser superada antes
da catástrofe, se Donald Trump arriar a bandeira e parar a guerra. Mas a ameaça
fica apenas adiada e não superada, até a próxima crise. Faz falta pensarmos
desde já em uma política de transição energética e do modelo produtivo
agropecuário para escaparmos da dependência dos combustíveis fósseis e dos
adubos químicos. Não é isso que estamos vendo no contexto atual do debate
pré-eleitoral.
Para
completar, o quadro fica ainda mais aterrorizante se introduzirmos na equação a
ameaça muito concreta da emergência climática. A crise do petróleo pode levar à
exacerbação das emissões de gases de efeito estufa (com o aumento do uso de
combustíveis com emissões ainda maiores de gases de efeito estufa (como o
carvão, o tight oil e as areias betuminosas) com todos os
efeitos desastrosos que já identificamos em outros artigos.
O que
precisamos para escapar do desastre ou para minimizá-lo é pensar em um novo
modelo de desenvolvimento de forma holística, sem querer tapar o sol com a
peneira e sem buscar soluções paliativas.
No
imediato, o governo está “esvaziando o oceano com um balde”, tentando impedir
que o espetacular aumento de preços no mundo chegue aos nossos postos de
gasolina e diesel. Seria mais racional elevar os preços internos dos
combustíveis para os particulares e subsidiar os serviços essenciais. Isto
exigiria outras medidas incontornáveis, como expandir os serviços de mobilidade
urbana coletiva.
Tudo
isso leva tempo e custa dinheiro de investimentos pesados. Vamos pagar o preço
da falta de visão estratégica do governo (e de todos os governos anteriores)
que estimularam sistematicamente a expansão do transporte individual em
automóveis e o uso de caminhões no transporte de cargas.
Precisamos
de um plano de emergência para o Brasil com foco nas necessidades básicas do
nosso povo e não na medíocre (e suicida) busca de gerir a crise terminal do
capitalismo (Lula + esquerda) ou aprofundá-la (Bolsonaro + Centrão).
Fonte:
Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda




