sexta-feira, 27 de março de 2026

Ângela Carrato: As jogadas do Grupo Globo para criar uma Lava Jato 2.0

Quando o então banqueiro Daniel Vorcaro foi preso pela Polícia Federal no aeroporto de Guarulhos, em 17 de novembro, tentando embarcar para a Europa, muitos telespectadores do Jornal Nacional não prestaram a devida atenção.

A situação começou a mudar no dia seguinte, quando o Banco Central liquidou extrajudicialmente o Banco Master, de Vorcaro, por uma série de crimes que vinha cometendo contra o sistema financeiro. Milhares de pessoas foram atingidas.

Ficava claro que a viagem de Vorcaro não tinha nada a ver com fechar a venda do Master para um suposto investidor estrangeiro, como alegou.

Era tentativa de fuga mesmo.

O rombo do Master foi avaliado em R$ 5 bilhões, número que, passados três meses, devidamente recalculado ultrapassa R$ 50 bilhões, se considerados os outros sete estabelecimentos financeiros, entre fintechs e assemelhados, que integravam o seu sistema. Todos igualmente liquidados pelo BC.

Apontado como um dos maiores escândalos financeiros da história do Brasil, o caso chama atenção pelo volume de recursos envolvidos e pela teia que Vorcaro construiu, sempre buscando blindagem e vantagens para seus interesses e negócios.

Mesmo contando com cobertura especializada em economia, finanças e negócios – inclusive um jornal, o Valor Econômico – o grupo Globo e, menos ainda o JN, nunca viram nada errado na quase meteórica trajetória de sucesso de Vorcaro.

O maior grupo de mídia corporativa brasileiro nunca alertou seu público sobre os riscos de bancos ou financeiras que prometem retornos astronômicos aos clientes, pagando valores muito acima dos praticados pelo mercado.

Chama a atenção, igualmente, como um escândalo que envolve basicamente setores do mercado financeiro, políticos de direita e extrema-direita vêm sendo jogado pelo grupo Globo no colo do STF e do governo federal.

Na primeira vez em que foi preso, Vorcaro ficou oito dias na cadeia. Seus advogados conseguiram que fosse solto, mediante o uso de tornozeleira.

Em 4 de março, na terceira fase da Operação Compliance Zero, conduzida pela Polícia Federal e autorizada pelo ministro do STF, André Mendonça, ele voltou a ser preso preventivamente devido a suspeitas de novas fraudes bilionárias, interferência nas investigações, intimidação de empresários, jornalistas e ex-funcionários.

De São Paulo, Vorcaro foi transferido para uma cela na Superintendência da PF, em Brasília, onde se encontra e já deu início às tratativas para fazer delação premiada.

JN parece apostar todas as suas fichas nesta delação, que será conduzida pelo ministro Mendonça e por um setor a ele ligado na Polícia Federal.

O esperado era que o JN e o restante da mídia corporativa vasculhassem os negócios do ex-banqueiro, a fim de elucidar suas conexões e como conseguiu ludibriar tanta gente.

Nada disso aconteceu. O JN, por exemplo, vem se limitando a uma cobertura para lá de protocolar.

JN não se mostra minimamente interessado nas investigações da Polícia Federal sobre Fundos Públicos do Rio de Janeiro e do Amapá ou no Banco de Brasília, que pertence ao governo do Distrito Federal.

Investigações que deixam claro como, sem qualquer justificativa e contrariando pareceres técnicos, seus gestores aplicaram milhões no Master.

O objetivo era claro: tentar capitalizar o banco e impedir a sua insolvência, pouco somando com o que poderia acontecer com as pensões e aposentadorias de milhares de funcionários públicos a ele vinculados.

O Fundo Único de Previdência Social do Estado do Rio de Janeiro (Rioprevidência) aplicou quase R$ 1 bilhão, em diferentes momentos, em títulos de alto risco do Master.

A operação investigada pela PF (Operação Barco de Papel) levou à prisão ex-diretores e gerou riscos aos pagamentos de aposentados.

O assunto desapareceu do JN.

O Amapá Previdência (Amprev) foi igualmente investigado pela PF na Operação Zona Cinzenta, por ter investido R$ 400 milhões em Letras Financeiras do Banco Master, um ativo de alto risco e sem cobertura do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).

O assunto igualmente desapareceu do JN.

Várias prefeituras e institutos de previdência municipais aplicaram recursos em fundos do Master, totalizando quase R$ 2 bilhões. Entre eles estão municípios de São Paulo, Rio de Janeiro, Goiás, Mato Grosso do Sul, Alagoas, Pernambuco e Amazonas.

Pelo visto os editores do JN consideram este assunto irrelevante.

Pior ainda. De todos os casos, talvez o mais emblemático seja o do Banco de Brasília (BRB), cuja direção chegou a propor a compra do Master pela instituição.

A operação previa a aquisição de 49% das ações ordinárias, 100% das preferenciais e 58% do capital total do Master. Após mais de cinco meses de análise, o Banco Central oficialmente rejeitou a compra.

A rejeição levou Vorcaro ao desespero e deu origem à fantasiosa história de que havia um investidor estrangeiro interessado no negócio.

As operações de fundos estaduais, municipais e do BRB têm em comum além de usarem dinheiro público para tentar salvar um banco inadimplente, serem conduzidas sob a batuta de políticos de extrema-direita ou de integrantes do Centrão.

Era de se esperar que, a partir daí, políticos como o agora ex-governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (PL), e os do Amapá, Clécio Luis (União) e de Brasília, Ibanes Rocha (MDB), ganhassem os holofotes do JN.

Certo?

Negativo. Através da colunista do jornal O Globo, Malu Gaspar, a família Marinho entrou em cena para tentar imprimir uma nova narrativa a estes fatos.

Gaspar publicou em seu blog, em 18 de dezembro, que havia um contrato milionário da mulher do ministro Alexandre de Moraes com o enrolado Banco Master. A informação obtida com exclusividade segundo ela, havia sido checada com fontes diferentes, todas em off.

Foi o bastante para que as reportagens dos veículos do Grupo Globo e também as dos demais veículos da mídia corporativa se voltassem unicamente para este aspecto.

Sem dúvida a nova narrativa foi bem sucedida.

Ao invés de se discutir a corrupção de Vorcaro e dos políticos de oposição que o auxiliaram, a bola da vez passou a ser Alexandre de Moraes e por extensão, o próprio STF.

Ministro de maior protagonismo na Suprema Corte, por ter sido o relator do inquérito dos atos golpistas, ter levado a julgamento e colocado na prisão o ex-presidente Jair Bolsonaro e militares de alta patente, ele sempre esteve na mira da extrema-direita.

Do ponto de vista legal, não há qualquer irregularidade neste contrato. Moraes não é o único ministro, na composição atual e nem nas anteriores do STF, em que familiares também possuíam escritórios de advocacia. Some-se a isso que ele não é e nem foi responsável por qualquer julgamento envolvendo o Banco Master no STF.

Além do contrato milionário – R$ 129 milhões a serem pagos em parcelas de R$ 3 milhões mensais ao escritório de sua esposa – Gaspar insinuava que Moraes teria tido conversas com o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, na tentativa de evitar a liquidação do Master.

Moraes e Galípolo negam que tais conversas tenham tido este teor.

Não faltaram entre as vozes mais exaltadas na direita e na chamada esquerda “liberal” quem defendesse que Moraes deveria renunciar ao cargo.

O ministro Dias Tóffoli, então relator do processo do Banco Master, foi o próximo a entrar na mira do Grupo Globo.

Descobriu-se que seus irmãos e, em última instância, ele próprio, havia tido negócios com empresas de Vorcaro num resort em Santa Catarina.

Tóffoli inicialmente negou, mas acabou admitindo a sociedade já desfeita. Mesmo assim, a pressão foi tão grande que acabou abrindo mão da relatoria e se declarando impedido para julgar qualquer assunto envolvendo o banco.

O comentarista da Globonews, TV paga da família Marinho, Fernando Gabeira, chegou a defender o fechamento do STF. Depois, voltou atrás.

Foi nesse contexto que, por sorteio, a relatoria do caso caiu nas mãos do ministro André Mendonça, o “terrivelmente evangélico”, indicado para a Suprema Corte por Bolsonaro.

A partir de então, o JN passou a dedicar a Mendonça enormes espaços em seu noticiário, lembrando muito o feito com o então juiz Sergio Moro, ainda hoje uma espécie de “herói” para a família Marinho.

Enquanto a mídia corporativa, grupo Globo à frente, batia impiedosamente nos ministros Moraes e Tóffoli, as investigações da PF apontavam para fatos da maior relevância.

Um deles foi a descoberta de como, através de um grupo denominado A Turma, Vorcaro montou um esquema de milícia privada, cujo objetivo era pagar propina para apoiadores e ameaçar ou intimidar adversários.

O chefe da Turma era o próprio cunhado de Vorcaro, o ex-pastor da Igreja da Lagoinha, em Belo Horizonte, Fabiano Zettel. Já o capanga, encarregado de executar as ordens, era Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, conhecido como “Sicário”.

O grupo Globo contou esta história pela metade, enfatizando apenas a parte que lhe convinha.

Um dos seus colunistas, Lauro Jardim, estar na lista dos que poderiam receber uma surra de Sicário, mereceu todo destaque, a partir do vazamento de um dos celulares de Vorcaro periciados pela PF.

Já o envolvimento da Igreja da Lagoinha, uma espécie de QG para as operações de Zettel, foi deixado de lado.

Estavam de volta os vazamentos seletivos por parte de uma ala da PF.

Isso somado ao fato de o Caso Master ter agora como relator um ministro amigo do Grupo Globo colocou em cena, outra vez, a lembrança dos lamentáveis tempos da mentirosa Operação Lava Jato, que prendeu Lula sem provas e quase destruiu a indústria brasileira.

Não deve ter passado despercebido para o telespectador mais atento, como Mendonça se tornou presença quase diária no JN, a exemplo do que aconteceu no passado com Sergio Moro.

Preso pela Polícia Federal durante a terceira fase da Operação Compliance Zero, que investiga o esquema, Sicário tentou se enforcar com a própria camisa dentro da cela, na Superintendência da PF em Belo Horizonte, enquanto aguardava a audiência de custódia.

Acabou morrendo no dia seguinte num hospital em Belo Horizonte, para onde, segundo a versão oficial, foi levado ainda com vida.

O assunto, que deveria ter merecido cobertura e acompanhamento detalhados pela mídia, foi abafado.

Sicário era uma espécie de arquivo das atividades criminosas de Vorcaro e não há justificativa para uma morte, em circunstâncias tão estranhas, não merecer a devida apuração.

Nenhum repórter do JN foi escalado para cobrir seu funeral e não há depoimento de familiares seus.

Estavam com medo? Não quiseram falar?

Sicário pode ser comparado ao miliciano e ex-capitão do BOPE Adriano da Nóbrega, acusado de chefiar o “escritório do crime” da família Bolsonaro, ou mesmo a Paulo César Farias, o ex-tesoureiro de campanha de Fernando Collor. Ambos morreram em situações igualmente estranhas.

Voltando ao cerne do caso Master, mesmo com todo o diversionismo da mídia corporativa, a extrema direita se viu implicada, através das investigações da PF dando conta de que Zettel repassou R$ 3 milhões para a campanha de Bolsonaro à reeleição, em 2022, e R$ 2 milhões para Tarcísio de Freitas, então candidato ao governo de São Paulo.

Zettel foi identificado pela PF como o maior doador pessoa física para ambas as campanhas. Ele se encontra preso no interior de São Paulo.

Para encerrar qualquer dúvida sobre estas doações, o próprio presidente nacional do PL, agremiação de Bolsonaro, Valdemar da Costa Neto, confirmou a existência delas.

Esta não seria outra importante pauta para a mídia corporativa brasileira se quisesse fazer jornalismo?

De novo o JN fingiu que não viu nada, ao contrário de veículos como o Correio BrazilienseBrasil de Fato e CNN, que divulgaram estas doações e pediram investigações.

A “cegueira” do JN permaneceu até mesmo quando as denúncias bateram às portas da Igreja da Lagoinha e de seu banco denominado Clava Forte, apontados pela PF como espaço para lavagem de dinheiro para a turma do Master.

Nem a coincidência desta igreja ter Zettel como antigo pastor e dele ter fundado, em 2024, a unidade de luxo Lagoinha Belvedere, em Belo Horizonte, cujas atividades foram encerradas às pressas em 15 de março, mostrou-se capaz de despertar o interesse de produtores e repórteres do JN.

Sem dúvida esta história tinha tudo para se tornar, no mínimo, um excelente Globo Repórter ou uma reportagem eletrizante no Fantástico, bem diferentes das irrelevâncias com que esses dois programas da TV Globo costumam entreter seus incautos telespectadores.

Também não deve ter parecido interessante para os produtores do JN o fato desta igreja ser a frequentada por um dos expoentes da extrema direita brasileira, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e por ninguém menos do que o senador Carlos Viana (Podemos-MG), que preside a CPMI do INSS.

O fato de Carlos Viana ter repassado R$ 3,6 milhões em emendas pix para a Fundação Oásis, descrita como o braço social da Igreja Batista da Lagoinha, também não foi notícia no JN.

Em vez disso, o telejornal da família Marinho abriu todas as baterias contra o filho mais velho do presidente Lula, Fábio Luiz, tentando imputar-lhe, sem quaisquer provas, a pecha de corrupto. (Este tema será aprofundado na quarta matéria desta série).

Instalada em agosto de 2025 para investigar fraudes, descontos ilegais e empréstimos indevidos em benefícios de aposentados e pensionistas, com prejuízos estimados em R$ 6 bilhões, esta CPMI foi proposta pela oposição na tentativa de desgastar o governo Lula. Até agora sem sucesso.

Talvez por isso, o clímax da família Marinho contra Lula e o PT tenha acabado por acontecer através do episódio do powerpoint sobre as ligações de Daniel Vorcaro, apresentado pela jornalista Andréia Sadi no programa Estúdio i, da GloboNews.

Do nada, um quadro que lembrava o powerpoint exibido em 2016 pelo chefe da força-tarefa da Lava Jato, Deltan Dallagnol, para incriminar Lula foi exibido na sexta-feira (20).

Na maior cara de pau, entre as principais conexões de Vorcaro figuravam Lula, Galípolo e o PT.

Com Lula a PF tem tido toda liberdade para investigar, Galípolo foi o presidente do BC que decretou a liquidação do Banco Master e nenhum ministro, deputado ou prefeito do PT figura entre os que participaram do esquema com o Master.

Na retratação, a emissora reconheceu o erro no uso do material visual e disse que o conteúdo não refletia adequadamente o “rigor editorial” adotado pela redação. O ridículo pedido de desculpas não mencionou diretamente o nome de Lula.

Que o tal powerpoint nunca foi iniciativa da jornalista é óbvio. A hierarquia em todos os veículos do grupo Globo é tamanha, que jamais algo assim teria lugar. Se não foi um “erro” da repórter, de quem é a responsabilidade?

O histórico de Sadi é o de fazer o jogo do patrão. O mesmo jogo que fazem Malu Gaspar, Merval Pereira e Carlos Alberto Sardenberg. Não passam de peças numa engrenagem maior. Peças desprovidas de qualquer ética ou senso de compromisso para com a informação.

Uma das utilidades do tal powerpoint, obviamente não mencionada no pedido de desculpas, foi abastecer as redes sociais da extrema-direita que, desde então, não falam em outra coisa.

Como estudiosa da mídia, arrisco a observação de que a escolha de um programa da GloboNews e não uma reportagem no JN para divulgar este mentiroso powerpoint não se deu ao acaso.

Uma das vantagens de um conglomerado de mídia, como o Globo, é de poder lançar mão de veículos específicos para ações determinadas. As ações mais pesadas nunca começam nos veículos de maior audiência. Sempre são testadas nos veículos menores.

Não se tratou de erro ou equívoco, mas de um teste. E um teste que se valeu de algo ainda muito presente na memória do povo brasileiro como o powerpoint dos tempos da Lava Jato. Dito de outra forma, a GloboNews acionou um gatilho na memória dos seus telespectadores.

A empresa terá feito isso por conta própria ou contou com “assessoramento” do Tio Sam, como na época da Lava Jato?

Se a reação não tivesse sido tão intensa e rápida como foi pelas redes sociais progressistas e pela mídia independente, possivelmente a família Marinho se sentiria encorajada a dar passos mais largos no combate ao governo Lula.

Por isso, é preciso atenção redobrada, pois o Grupo Globo joga pesado e de forma calculada.

Em curtíssimo espaço de tempo, atacou o filho mais velho do presidente Lula e o próprio presidente.

Sintomaticamente, o responsável por todos os crimes cometidos pelo Banco Master, Roberto Campos Neto, não foi sequer mencionado no powerpoint ou na retratação da emissora.

Foi ele quem permitiu a instalação de fintechs e de bets no país sem qualquer regulação.

Durante a sua gestão, a turma do Master esteve 24 vezes no BC e hoje se sabe que dois diretores da instituição, agora devidamente afastados e respondendo processo administrativo, funcionavam como consultores privados para Vorcaro.

Tamanho silêncio sobre Campos Neto no JN e em todo o Grupo Globo tem explicação.

O patriarca Roberto Marinho, com o cinismo que lhe era peculiar, justificaria que Campos Neto é um “amigo da casa”.

Na realidade é bem mais do que isso.

Depois que deixou o BC, Campos Neto assumiu uma das vice-presidências do Nubank, cuja relação com a família Marinho é de sociedade e investimento estratégico.

Através da Globo Ventures, a gestora de capital de risco comandada por Roberto Marinho Neto, a família investe em diversas empresas, incluindo o Nubank.

Campos Neto é, portanto, uma espécie de funcionário de uma empresa em que a família Marinho é sócia.

Deve ser mera “coincidência” o fato de o Nubank patrocinar o JN. Da mesma forma que não deve passar de “coincidência” o Banco Will, uma das fintechs ligadas ao Master liquidadas pelo BC, ter patrocinado o programa do global Luciano Huck.

Outra enorme “coincidência” certamente deve ter sido o Banco Master patrocinar a festa de 25 anos do jornal Valor Econômico, em 2024, em Nova York.

O evento reuniu a nata do mercado financeiro brasileiro em um dos hotéis mais requintados da cidade e a cerimônia foi aberta por ninguém menos do que Daniel Vorcaro.

Ele fez questão de demostrar sua amizade para com dirigentes do Grupo Globo e de chamar pelo nome cada um dos diretores e colunistas seus amigos que lá se encontravam, a exemplo de Malu Gaspar e de Lauro Jardim.

Não por acaso o JN se mostra tão entusiasmado diante da provável delação de Vorcaro, que será conduzida por André Mendonça.

Mesmo diante de todas as evidências de que o governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro, deveria ser cassado e tornado inelegível num processo que não tem nada a ver com o Banco Master, Mendonça preferiu votar a favor do réu. Foi voto vencido, mas deixou claro de que lado se encontra.

Se a delação de Vorcaro conterá informações verdadeiras e elucidativas, que possam contribuir para que toda a corrupção do Master venha à tona, é algo a ser conferido.

O certo é que em ano eleitoral, se alguém ainda tinha dúvidas de que a família Marinho aposta em uma Lava Jato 2.0, não precisa ter mais.

 

Fonte: Viomundo

 

O instituto nacional dos julgamentos definitivos

Conta-se que, em algum anexo mal ventilado onde outrora viveram indígenas, funciona o “Instituto nacional de julgamentos definitivos”. Trata-se de uma instituição dedicada a resolver, de uma vez por todas, os problemas do mundo. Nas paredes, há quadros dos antepassados dos membros, respeitáveis senhores sesmeiros e responsáveis pelas mais diversas transações desde os tempos de Tomé de Souza até os dos delírios de Ernesto Geisel, sempre devidamente apagadas da memória nacional. Seus membros descobriram recentemente um método revolucionário: em vez de analisar fenômenos complexos, basta nomeá-los moralmente.

Numa de suas sessões mais produtivas, decidiram classificar os países do mundo. Após breve deliberação, chegaram à conclusão de que existe, sim, “o pior país do mundo”. A descoberta foi celebrada como um avanço metodológico: finalmente, a geopolítica fora reduzida a um adjetivo. Mas o entusiasmo não parou aí.

Em dado momento, um dos membros sugeriu que talvez fosse possível ir além dos países e classificar também os povos. “E se identificássemos traços morais essenciais?”, perguntou, com a segurança de quem nunca teve de testar uma hipótese.

Foi então que a discussão enveredou por um terreno ainda mais fértil: a mediocridade. Não a mediocridade banal, cotidiana, estatisticamente distribuída, que seria pouco útil, mas uma mediocridade seletiva, atribuível a certos grupos, convenientemente isolados do restante da humanidade. Ou pior: alçados à condição de “inimigos da humanidade”.

É aqui que um convidado inesperado poderia ter prestado algum serviço: Francis Galton, aquele excêntrico vitoriano obcecado por medir a humanidade, que pensava a mediocridade não como um insulto, mas uma propriedade estatística. Francis Galton produziu uma conclusão bastante desinteressante: todos os povos são, em média, igualmente ordinários. A mediocridade não distingue. Ela nivela. E depois disso influenciou os discursos eugenistas de seu tempo.

Talvez os respeitados intelectuais do Instituto tenham um horizonte de propósitos práticos semelhante. Mas para isso, até a conclusão de Francis Galton deveriam abandonar, pois teriam de converter o universal em particular e o banal em estigma, aplicado ao grupo correto.

É exatamente esse movimento que aparece em recentes manifestações de certos intelectuais que, no afã de discutir crimes e agressões da maior importância, deslocam a retórica para julgamentos coletivos contra judias e judeus. Refiro-me a um artigo “O Pior País do Mundo” publicado no site A Terra é Redonda por Paulo Nogueira Batista Jr. e às recentes manifestações digitais de Jessé Souza.

Ao sugerir a mediocridade de judeus, não como indivíduos, mas como coletivo indistinto, o argumento de Paulo Nogueira Batista Jr. abandona qualquer pretensão analítica e ingressa num repertório bastante conhecido: o da essencialização moral de um povo. Não se trata mais de criticar políticas, decisões de governo ou estratégias militares, mas de atribuir uma qualidade intrínseca a uma coletividade inteira (que sequer é nacional). Evidentemente, é possível condenar práticas de Estado sem associá-las a uma coletividade difusa ou a pretensas características morais inerentes.

Isso ocorre pouco tempo depois de Jessé Souza utilizar lentes conspiratórias para analisar a rede misógina de pedofilia mantida por Jeffrey Epstein. Ao fazê-lo, não se limitou a analisar redes concretas de poder ou responsabilidade; preferiu insinuar conexões entre os crimes do financista e um suposto “lobby judaico” ou “sionismo”, deslocando o problema do plano das práticas e instituições para o da identidade coletiva. Essas afirmações não apenas carecem de evidências empíricas, como fazem uso do clássico recurso de substituir uma imputação situada para uma generalização difusa.

Jeffrey Epstein e seus associados não são agentes de seus crimes. São receptáculos inertes de uma força irresistível. Suas vítimas desaparecem como algo colateral. O recuo posterior, com a alegação de confusão terminológica entre “judaico” e “sionista”, serve apenas como ato falho e pouco altera a estrutura do argumento, que permanece assentada na mesma operação de deslocamento e essencialização.

Esse gesto tem história. Ele ecoa uma tradição que, ao longo do tempo, projetou sobre judeus uma dupla imagem tão conveniente quanto contraditória: ora a da inferioridade moral, ora a de um poder desmesurado de controlar processos econômicos e sociais. É essa segunda vertente, a hipérbole conspiratória, que reaparece, por exemplo, quando se questiona a presença de indivíduos de origem judaica em posições de destaque como se isso, em si, fosse indício de algo a ser explicado. A tragédia europeia do antissemitismo construiu boa parte de sua força precisamente nessa fantasia de agência extraordinária.

É uma das figuras célebres invocadas por Paulo Nogueira Batista Jr. que nos ensina que quando esse repertório retorna hoje, ele não o faz como farsa.

Aqui, o paralelo é instrutivo. Em A sagrada família, Karl Marx já ironizava a “crítica crítica”: uma forma de pensamento que, incapaz de apreender as mediações concretas de um conflito social, refugia-se em julgamentos abstratos e grandiloquentes. A farsa contemporânea consiste precisamente nisso: a reedição, em chave empobrecida, de velhos esquemas explicativos que substituem análise por imputação.

É nesse ponto que a figura do bode expiatório entra em cena, teorizada por outro intelectual extraordinário. Lewis Coser (Ludwig Cohen) mostrou como conflitos sociais frequentemente são deslocados para alvos simbólicos, permitindo que tensões reais sejam expressas sem jamais serem enfrentadas. O mecanismo é conhecido: personaliza-se, simplifica-se, moraliza-se. E, ao final, tem-se a confortável sensação de ter dito algo importante, quando, na verdade, apenas se redistribuiu a carga afetiva do problema.

Talvez isso ajude a entender um detalhe curioso: a centralidade quase obsessiva atribuída a “intelectuais de origem judaica” em textos que, em tese, tratariam de Estados e de conflitos geopolíticos. É um deslocamento revelador. Quando a análise escorrega da política para a origem, da ação para a identidade, algo já saiu do eixo. Aqui, quem talvez pudesse oferecer alguma pista adicional é Sigmund Freud: há fixações que dizem menos sobre o objeto visado do que sobre a estrutura do olhar que insiste em visá-lo.

Mas há um elemento adicional que não pode ser ignorado e que diz respeito não apenas aos autores, mas aos circuitos que os autorizam. Quando meios de comunicação e instituições que se pretendem espaços de debate público passam a acolher reiteradamente esse tipo de formulação em que coletividades são essencializadas e reduzidas a traços morais não estão apenas hospedando opiniões controversas. Estão conferindo legitimidade discursiva a um repertório historicamente associado a formas de racismo. Ao fazê-lo, não apenas falham em distinguir entre crítica política e estigmatização coletiva, como contribuem para normalizar essa confusão.

E a consequência é previsível. Uma vez atravessado esse limiar, a lógica tende a se expandir: se é aceitável aqui, por que não ali? O que se inaugura não é um debate mais franco, mas um rebaixamento do próprio espaço público, onde o ódio pode circular sob a forma respeitável de “opinião”, e a aniquilação simbólica passa a ser exercida com a chancela da publicação. E se é aceitável com uns, porque não com outros? Daí porque o silêncio de intelectuais e suas associações frente a essas manifestações de seus membros pode ser tão custoso.

No fim, o que se apresenta como diagnóstico (a mediocridade de um grupo) revela-se mais como sintoma. Não de qualquer característica intrínseca aos outros, mas de uma dificuldade bastante conhecida: a de sustentar a complexidade sem recorrer ao atalho confortável da generalização. Quando interpelados, recorrem ao expediente usual de invocar as exceções à regra que proclamam (alguns bons judeus) ou lembram com afeto de algum conhecido (“tenho até amigos”).

Paulo Nogueira Batista Jr. é, inclusive, reincidente na farsa: ele já empregou semelhante retórica para expressar seu ressentimento diante da nomeação de um economista israelense-brasileiro à presidência do Banco Interamericano de Desenvolvimento.

E, nesse sentido, talvez não estejamos diante de um problema de “mediocridade alheia”, mas de algo mais banal e, como Galton lembraria, muito mais bem distribuído. Inclusive entre aqueles que se arrogam o direito de medi-la.

 

Fonte: Por André Vereta-Nahoum, em A  Terra é Redonda

 

Aids: A história de um lucro mórbido

Primeiro de dezembro é o Dia Mundial da Luta contra a AIDS. Todos os anos, pessoas ao redor do mundo relembram o início da epidemia como uma tragédia médica e moral, uma época de muitos funerais e poucos avanços médicos. Mas a história econômica — de como o abandono governamental levou à mercantilização da sobrevivência — permanece em grande parte desconhecida. Essa história omitida é importante, especialmente porque sua lógica ressurge agora.

Nos primeiros anos da crise da AIDS, quando milhares de pessoas perdiam seus empregos, moradias e planos de saúde, o governo estadunidense não interveio para estancar a sangria. Em vez disso, surgiu um novo instrumento financeiro pouco compreendido: pessoas com AIDS começaram a vender suas apólices de seguro de vida para investidores em busca de dinheiro rápido, muitas vezes apenas para pagar o aluguel, os medicamentos ou obter um mínimo de conforto em seus últimos meses de vida. Um investidor pagava ao paciente uma parte do “benefício por morte” do seguro de vida — talvez 80% do valor da apólice, talvez 30%, dependendo de quanto tempo se esperava que o paciente morresse. Após a morte do paciente, o investidor recebia o valor total do seguro.

Essas transações, chamadas de liquidações de apólices de seguro de vida, eram frequentemente retratadas como uma curiosidade macabra da epidemia — um choque entre vendedores “falidos” e compradores “moralmente falidos”. Âncoras curiosos em programas de notícias corporativas encontraram uma nova palavra favorita: macabro. Mas o mercado de apólices de seguro de vida não era uma aberração. Era um resultado previsível da austeridade e do abandono, um exemplo clássico do que acontece quando a rede de proteção social é deliberadamente desmantelada e o capital privado invade o setor.

Recentemente, dirigi um documentário sobre esse setor, Cashing Out [Lucrando], que também explora minha própria conexão inesperada com ele: meu pai foi um dos primeiros investidores a comprar apólices de seguro de vida de pessoas com AIDS. Ele lucrou quando elas morreram; sem que eu soubesse, esses lucros ajudaram a financiar meus anos de adolescência — quando, aliás, eu estava descobrindo que era gay.

As pessoas tendem a se fixar no drama pessoal dessa história, mas essa reação obscurece o que as transações de apólices de vida realmente revelam: os investidores não eram a fonte da crueldade; o Estado era. Ele criou condições em que pessoas com AIDS tinham que apostar na própria morte para sobreviver, e em que pessoas comuns podiam ser facilmente recrutadas para lucrar com essa precariedade.

O que tornou essas transações possíveis foi a erosão deliberada da infraestrutura pública sob Ronald Reagan e, posteriormente, Bill Clinton — o esvaziamento da elegibilidade para o Medicaid, dos benefícios por invalidez e da habitação pública — aliado à privatização da saúde e à decisão cultural de relegar pessoas LGBTQIA+ e usuários de drogas à miséria e à morte. A epidemia criou novas necessidades precisamente no momento em que o Estado se esquivava delas. Os mercados só puderam preencher o vazio porque o Estado o havia deixado completamente aberto.

Enquanto entrevistava sobreviventes para o meu filme, conheci Dee Dee Chamblee, uma ativista negra trans de Atlanta que, apesar de se sustentar como profissional do sexo, não tinha um seguro de vida para vender. Ela me disse que via os seguros de vida como o desfecho lógico de um sistema que abandona as pessoas e depois as envergonha por sobreviverem como podem. O que impressionou Dee Dee no envolvimento do meu pai, segundo ela, foi menos o seu caráter grotesco do que a sua banalidade — a desigualdade se reproduz não por meio de vilões excepcionais, mas por meio de transações rotineiras que parecem apolíticas ou até benevolentes. Dee Dee me mostrou o que o capitalismo havia se esforçado para esconder de mim, como um homem gay branco de família abastada: o projeto estadunidense privatizou a sobrevivência e normalizou a exploração.

Nas últimas duas décadas, as lições políticas da epidemia foram suavizadas e reformuladas. Empresas farmacêuticas patrocinam as comemorações do Dia Mundial da Luta Contra a AIDS. Corporações ostentam laços vermelhos. Uma rede de apoio outrora militante e um amplo movimento político — nascido da ajuda mútua, da organização de inquilinos e da luta antirracista — foi profissionalizado em um complexo industrial filantrópico-sem fins lucrativos. A principal ideia do ACT UP — de que a AIDS foi uma crise política criada pela austeridade, pelo racismo e pela homofobia — foi substituída por narrativas de resiliência individual, heroísmo médico ou conscientização despolitizada (“Que triste o que aconteceu…”).

O problema é que essa lembrança higienizada torna mais difícil reconhecer os ecos da história da AIDS quando os ouvimos no presente. Os programas de HIV agora enfrentam cortes profundos sob um segundo mandato de Trump. Os créditos fiscais do Obamacare estão prestes a expirar, ameaçando a única cobertura acessível que milhões de pessoas possuem. O desmantelamento do Medicaid deixou milhões de pessoas sem assistência. Pacientes com COVID longa estão tendo seus benefícios por invalidez negados em taxas alarmantes. Startups de dívidas médicas, salas de emergência apoiadas por capital privado e redes de cuidados paliativos com fins lucrativos repetem a lógica das transações com apólices em uma forma atualizada: quando o Estado abandona as pessoas, o mercado monetiza as consequências.

Com a infraestrutura pública sendo mais uma vez desmantelada, novos mercados continuarão a se formar em torno das necessidades que o Estado se recusa a atender. Nossa questão mais premente não é se os indivíduos se comportarão bem dentro desses mercados. É por que permitimos que nossa política transformasse os mercados nos árbitros de quem tem o direito de viver com dignidade — e de quem tem o direito de viver.

Neste Dia Mundial da Luta Contra a AIDS, devemos resistir à nostalgia sentimental que nos leva a relembrar a epidemia. Enquanto mergulhamos em mais um período de austeridade, em mais uma tentativa de desmantelar as mínimas proteções conquistadas após décadas de luta, precisamos recordar com precisão. A lição política que os ativistas da AIDS lutaram para nos ensinar foi simples: o mercado sozinho não pode manter as pessoas vivas, abrigadas e cuidadas. Essa é uma responsabilidade coletiva — e uma escolha política. Para honrar os milhões perdidos para a epidemia, precisamos confrontar as condições que tornaram possível a lógica das transações com apólices, tanto naquela época quanto agora.

 

Fonte: Por Matt Nadel - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

Escândalo do Master é ruim para Lula, mas não muda rumo da eleição, diz fundador de instituto de pesquisa

Qualquer que seja o vencedor das eleições presidenciais deste ano, será por uma margem muito apertada.

Para Maurício Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Ideia, aproximadamente 5 milhões de eleitores decidirão se Lula merece ser reeleito ou um de seus adversários deve assumir seu lugar.

"Cerca de 3%, 4% das pessoas que votaram no Lula em 2022 hoje avaliam o governo de maneira regular ou acham que o governo não merece continuar", diz em entrevista à BBC News Brasil.

"Meu ponto é: esses 3% ou 4% vão decidir a eleição."

Para ele, é improvável que uma eventual delação de Daniel Vorcaro, controlador do liquidado Banco Master, exerça alguma influência nas eleições presidenciais deste ano.

Mas o mesmo não pode ser dito sobre a eleição para o Senado, que, de acordo com Moura, será pautada pela discussão sobre o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

"Acho muito complicado a gente passar uma campanha de Senado discutindo impeachment de ministro do Supremo. E é isso que está dado hoje com esse escândalo", afirma.

O analista político, que hoje vive em Washington e trabalha para os mercados financeiros americano e brasileiro, aponta na entrevista a seguir quais cartas estão sobre a mesa nesta eleição.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Qual potencial uma eventual delação do Daniel Vorcaro tem para definir essa eleição?

Maurício Moura – O primeiro ponto aqui é a eleição para o Senado, que costuma ser coadjuvante. O tempo de campanha saiu de 12 semanas, em 2014, para 6, em 2018 e, com isso, as pessoas estão se engajando muito pouco na eleição para o Senado.

Na véspera do primeiro turno de 2022, na pesquisa espontânea de intenção de votos no Estado de São Paulo, 55% dos paulistas não sabiam falar o nome de um candidato ao Senado. E o que é o que aconteceu? Não só em São Paulo, mas no Brasil inteiro, houve uma correlação dos votos do Senado com o voto para presidente. Os candidatos de Lula e de Bolsonaro nos Estados tiveram uma votação muito correlata.

Mas este ano tem uma característica diferente: a maioria dos brasileiros não sabe o que um senador faz, mas já sabe que um senador pode tirar um ministro do Supremo. Esta campanha do Senado vai ser, portanto, sobre impeachment de ministros do Supremo. Não dá para imaginar uma candidatura que não vai endereçar esse tema sobre ser a favor ou contra.

Esse já é o primeiro efeito desse escândalo: uma eleição que costuma ser coadjuvante, com um tema central. Acho muito complicado a gente passar uma campanha de Senado discutindo impeachment de ministro do Supremo. E é isso que está dado hoje com esse escândalo.

O segundo ponto é que é muito difícil dimensionar o potencial do escândalo. A Operação Lava Jato começou em 2014, mas foi estourar na opinião pública ao longo dos quatro anos seguintes. Na véspera do segundo turno de 2014, teve a delação vazada do [doleiro Alberto] Youssef, que saiu na capa de uma revista e, mesmo assim, não teve impacto eleitoral. Impactou pouco em 2014, quando teve muita reeleição de governador e a própria reeleição da presidente Dilma. Todo o impacto da Lava Jato aconteceu nas eleições de 2016 e 2018.

Eu estou com dificuldade de ver isso mudando radicalmente o cenário dessa eleição. Inclusive porque, diferentemente da eleição presidencial, os governadores são muito bem avaliados. Há uma enorme chance de reeleição e continuidade de grupos políticos em vários Estados. É uma eleição de continuidade, no governo do Estado e na Câmara dos Deputados.

Dificilmente, a gente vai ter algo similar ao que aconteceu em 2018. Um dos motivos por que acreditava que Bolsonaro ganharia era justamente porque o clima era muito antipolítica, antissistema, e ele era o único candidato antissistema colocado. Hoje não tem esse mesmo clima, muito pelo contrário, tem até uma fadiga de escândalos de corrupção.

Mas, com certeza, para o governo é ruim, porque, quando tem um escândalo de corrupção, em que todo mundo está envolvido, sempre respinga em quem está no poder. Estando o presidente [Lula], e o PT ainda carrega um sentimento antipetista de parcimônia com a corrupção, obviamente é algo ruim para esse governo que está sendo mal avaliado.

É importante dizer que todos os presidentes que buscaram a reeleição melhoraram [a aprovação] durante a eleição, mas a diferença é que, neste ano, a margem de melhora do Lula é pequena. Mas em uma eleição em que tudo faz diferença, ter esse escândalo de alguma maneira respingando é ruim para o governo.

·        Na semana passada, Lula disse que esse escândalo do Master é o "ovo da serpente" de Bolsonaro e de Roberto Campos Neto, ex-presidente do Banco Central. Ele está tentando se vacinar contra esse respingo?

Moura - Sim. Mas, por outro lado, a população já tem uma sensação de que todo mundo é corrupto, principalmente de renda e escolaridade mais baixas. Inclusive, muita gente que votou no Lula em 2022 votou consciente de que ele já foi preso.

·        Acha que existe alguma dificuldade de a população entender que o escândalo está, por enquanto, atrelado a ministros do Supremo e não ao governo Lula?

Moura - Muita dificuldade. Porque, inclusive, todos eles têm uma característica comum: eles são o poder, então, é improvável que essa diferenciação aconteça.

·        Lula já está dizendo que essa campanha não vai ser do "Lulinha Paz e Amor". Que tipo de campanha podemos esperar?

Moura - Esta é uma eleição de reeleição. A pergunta central é se o Lula merece continuar ou não. É o que a gente tenta medir mensalmente. Hoje, tem nas pesquisas públicas um percentual maior de gente que acha que o governo não merece continuar. Lula é o protagonista da eleição, assim como Bolsonaro foi em 2022.

Essencialmente, este governo tem uma dificuldade: ninguém que votou no Bolsonaro no segundo turno de 2022 aprova ou já aprovou o governo [Lula], que tem uma barreira de popularidade. Cerca de 3%, 4% das pessoas que votaram no Lula hoje avaliam o governo de maneira regular ou acham que o governo não merece continuar. Meu ponto é: esses 3% ou 4% vão decidir a eleição. São mais ou menos 4 milhões ou 5 milhões de pessoas.

·        Essa pesquisa mostrou que são, essencialmente, mulheres, empreendedoras de classe mais baixa.

Moura – Isso. Na faixa de renda de dois a cinco salários mínimos por mês. São pessoas que estão envolvidas em várias formas de renda, tendo uma, duas, três atividades geradoras de renda. Estão nas periferias das grandes cidades do Sudeste e Nordeste. São bastante urbanas e muito apolíticas.

Elas não estão nessa discussão das bolhas, que, basicamente, pauta a política brasileira há muito tempo. E foram fundamentais para a vitória do Lula. Parte desse pessoal votou no Bolsonaro em 2018 e mudou para o Lula em 2022. Esse é o público que vai decidir a eleição.

Sobre o "Lulinha Paz e Amor", quando o Lula faz esse tipo de comunicação, é muito mais para a militância, dizendo que vai ser uma eleição acirrada e que vai exigir muita transpiração de todo mundo. Ele não está falando para esse grupo aí que vai decidir a eleição.

·        A desaprovação do governo tem aumentado, segundo pesquisas. O que está contribuindo para isso?

Moura – Existe um público que votou no Lula e, agora, não aprova o governo, e o que não votou nele e nunca aprovou o governo. A gente tem que olhar esse público que votou [no Lula] e hoje não o aprova. E o principal ponto até agora é o custo de vida. Inclusive, tem uma expressão nos Estados Unidos que captura bem isso, affordability, que é a capacidade das pessoas fecharem as contas do mês.

A gente vive um fenômeno muito único, de desemprego baixo e aumento da massa salarial, mas dois temas deixam as pessoas com uma sensação desconfortável: um, obviamente, é o alto endividamento. Esse grupo especificamente, de 3%, 4% [que votaram no Lula e hoje avaliam negativamente o governo] é um grupo altamente endividado. O outro é a incapacidade das pessoas de acompanhar o aumento dos preços, o custo de vida.

É um fenômeno bastante recente, global. As pessoas estão trabalhando, eventualmente até conseguem evoluir em termos de renda, mas essa renda não acompanha o custo de vida e, obviamente, isso cai na conta do governo.

·        É o mesmo cenário que se formou quando Joe Biden foi derrotado por Donald Trump na eleição presidencial americana em 2024?

Moura - É muito semelhante. Lula foi eleito em função de uma rejeição de um governo. Bolsonaro perdeu, muito por causa da rejeição à gestão dele na pandemia, algo que aconteceu com o Trump em 2020 também.

Em um cenário extremamente polarizado, os grupos [de eleitores] que se mexeram de um lado para o outro se mexeram justamente por causa da questão econômica, do custo de vida. Inclusive, Trump foi eleito com a expectativa de que ele iria endereçar a questão da inflação. E esse tema e o do custo de vida vão ser fundamentais para esse público que vai decidir a eleição presidencial.

·        Que é um tema também relacionado à pandemia, correto? O mundo não se reergueu totalmente depois disso.

Moura – Totalmente. O patamar de preços no mundo e as cadeias produtivas mudaram e, obviamente, isso tem um custo, que está sendo pago pelas várias sociedades do mundo. E, neste momento, a gente está vivendo um conflito no Irã também, que afeta o preço do petróleo. O contexto não é favorável para o custo de vida.

·        Há algo que possa ser feito ainda neste ano para tentar reverter isso, dado que é um fenômeno global?

Moura - O governo está se mexendo nesse aspecto. Tem uma expectativa de que a nova tabela do Imposto de Renda, assim como o fim da escala 6x1, tenha algum impacto na vida das pessoas. Acho que o governo está trabalhando. Uma coisa que é uma tradição brasileira, independentemente se é um governo de esquerda ou de direita, é o avanço fiscal em ano eleitoral. Ou seja, mais gastos. Isso acontece recorrentemente e, provavelmente, está acontecendo agora.

·        Lula e Flávio têm, ambos, uma rejeição alta e parecida, que gira em torno de 45%, segundo as pesquisas. Vai ser uma eleição da rejeição?

Moura - Essa é uma eleição que, se a gente olhar os números frios em termos de aprovação e de quem merece continuar, é uma eleição de oposição. Justamente mais pessoas desaprovam esse governo, acham que o governo não merece continuar.

O PT ainda tem uma questão muito particular, porque ele sempre é prejudicado pela abstenção. Os 20% de abstenções [são eleitores que] têm um perfil de baixa renda e escolaridade e que tendem a votar no PT. Inclusive, o grupo que menos aparece para votar são os analfabetos. Esse é um dos motivos, por exemplo, pelo qual o PT não ganhou no primeiro turno nas eleições presidenciais. As pessoas de alta renda e escolaridade, que são mais oposição nesse governo, acabam tendo um percentual maior dos votos válidos.

Essa é uma eleição de mudança. Nesse contexto, se tiver um candidato do outro lado com muita rejeição, essa eleição se torna acirrada. Nos últimos dez anos, a oposição ganhou sete em cada dez eleições em países democráticos. Justamente pela questão de popularidade, que tem um teto, em função da polarização. E também porque é muito difícil mexer no custo de vida, na inflação. E isso é bom para as oposições, seja de esquerda ou de direita.

·        Nesse momento, tem espaço para aparecer um outsider?

Moura - São duas eleições diferentes. Obviamente que, do lado do governo, é uma eleição muito particular para o PT, porque não tem nenhuma candidatura à esquerda do PT. Provavelmente, haverá uma votação do Lula muito similar no primeiro e no segundo turno, porque vai ter pouco espaço de avanço no segundo turno.

De alguma maneira, a eleição de 2022 foi assim. A votação do Lula foi muito parecida no primeiro e no segundo turno, sendo que ainda tinha o Ciro Gomes [na época no PDT, hoje no PSDB], que, de alguma maneira, capturava os votos. Desta vez, a gente não vai ter isso.

A outra eleição é a da oposição, onde está Flávio Bolsonaro. Nas pesquisas, ele tem a grande vantagem de ter um sobrenome conhecido. Ainda tem um altíssimo percentual de pessoas que espontaneamente não sabem o nome de um candidato. A pesquisa espontânea de intenção de voto dá um estado real do mental real das pessoas, porque se você não apresenta nenhuma alternativa, e a pessoa fala espontaneamente [o nome de algum candidato], dá o grau de engajamento.

Nesse sentido, Lula tem 30% sempre, porque a conexão mental do Lula é histórica. Hoje, muita gente ainda fala de Jair Bolsonaro na espontânea, não faz nem a diferenciação entre ele e Flávio. E tem um contingente enorme de indecisos. Quando a gente pergunta se as pessoas já decidiram o voto, um terço fala que não. E um terço é muito nesse contexto.

A disputa da oposição, do ponto de vista da demanda da opinião pública, está aberta. A eleição da oposição é, no primeiro turno, mostrar, para convencer o eleitorado que não quer o PT, quem tem a maior probabilidade de ganhar do PT no segundo turno. É o que eu chamo de antipetismo de chegada, que, geralmente, tem uma antecipação do segundo turno no primeiro. Concentra os votos antipetistas em um candidato com maior chance de ganhar do PT no segundo turno.

Isso aconteceu com Aécio [Neves] em 2014, quando houve uma disputa entre ele e Marina [Silva], e ele percebeu que a campanha da Marina desidratou e conseguiu aglutinar no final do primeiro turno esse antipetismo de chegada. Bolsonaro fez isso em 2018, quando muita gente queria votar no [Geraldo] Alckmin, no [João] Amoedo, mas acabou votando no Bolsonaro para tentar tirar o PT. Em 2022, muita gente que ia votar no Ciro [Gomes], na Simone [Tebet] acabou votando no Bolsonaro justamente para tentar tirar o PT. Essa disputa do antipetismo de chegada está aberta.

O problema é que a oferta depende da política, e uma característica dessa eleição, é que a disputa de poder real não é a disputa pelo Palácio do Planalto. A maioria dos presidentes de partidos está muito mais interessada na eleição da Câmara e do Senado do que na eleição presidencial, porque houve um deslocamento de poder, financeiro e político, da Presidência para o Congresso Nacional.

É muito interessante ver que é uma eleição de oposição sem oposição, porque a preocupação da eleição presidencial está muito concentrada no Palácio do Planalto, claro, na reeleição do Lula, muito concentrada na família Bolsonaro, mas os presidentes de partido não têm essa mesma motivação.

A grande pergunta, que eu não sei responder, é se vai ter uma candidatura com musculatura, com robustez política e financeira para concorrer com a candidatura do Flávio Bolsonaro na oposição. Mas, isso existindo, o Flávio vai disputar com uma terceira candidatura o espaço mental de quem está melhor posicionado para ganhar do Lula no segundo turno. Essa disputa está colocada na opinião pública. Não sei se ela está colocada na política.

·        Em 2018, você disse logo no início do ano que Bolsonaro tinha grandes chances de ser eleito. E agora?

Moura - Essa é uma eleição essencialmente de oposição. E a oposição pode perder a eleição? Pode, porque, por exemplo, em 2014, era uma eleição de oposição também, e a presidente Dilma foi reeleita. Então, é possível o presidente Lula ser reeleito? Claro. Só que as circunstâncias são muito desfavoráveis, porque é uma eleição de oposição.

Se a oposição tiver como nome alguém com altíssima rejeição, obviamente aumenta a probabilidade da reeleição. Se a oposição conseguir se aglutinar em um nome com baixa rejeição, menos conhecido, mas com baixa rejeição, aumenta muito a probabilidade de Lula não ser reeleito. Essa é a equação dessa eleição.

Se a gente não tivesse um nome de altíssima rejeição como o do Flávio, o risco de não reeleição seria muito maior. Mas uma coisa eu garanto: vai ser decidida em três, quatro pontos percentuais. Vai ser uma margem muito estreita.

·        Quanto os Estados Unidos, especialmente Trump, podem influenciar nessa eleição aqui no Brasil?

Moura - O histórico do Trump de influenciar eleições é negativo. Ele tentou na eleição do Canadá e mudou justamente uma tendência que era da derrota do Partido Liberal, que estava no poder há três mandatos. E foi uma interferência direta. Ele fez vários tuítes em relação à eleição, inclusive no dia, e mandou um tuíte para as pessoas votarem contra o Partido Liberal.

De alguma maneira, ele interferiu na eleição da Austrália. A oposição acabou comemorando a vitória do Trump, se aliando às ideias dele, em uma eleição que também era de oposição, e o Partido Trabalhista ganhou.

A própria intervenção do governo americano, não só do Trump, na eleição da Alemanha no ano passado, com Elon Musk, com J.D. Vance, acabou desacelerando o crescimento do AfD, que era o partido da direita radical lá. As intervenções eleitorais são ruins, na média. A grande questão, que está aberta, é se haverá uma interferência do governo americano na eleição em si, por meio das empresas de tecnologia, ou de alguma coisa que não o Trump se posicionando.

A eleição brasileira não costuma ser uma eleição de debate de política externa. Talvez o Brasil seja a única democracia grande no mundo que não debate política externa em uma eleição presidencial. A eleição de agora no Chile debateu muito a questão da imigração e da relação com a Venezuela. A eleição do México, em que se debateu a relação com os Estados Unidos, as eleições na Índia, que é outra democracia grande, debateu sua relação com a China, com o Paquistão. Mas o Brasil não é um país que tradicionalmente debate política externa na eleição presidencial.

·        Qual o potencial que a inteligência artificial tem, por meio de fake news, de influenciar essa eleição?

Moura - Pouco, porque a gente está mais polarizado. Realmente, a margem de disputa dessa eleição é de 3% ou 4%, e são pessoas que, se você acompanhar a rotina delas, vai perceber que elas não têm tempo de se envolver com questões políticas. São pessoas que trabalham 16 horas por dia, sete dias por semana. Os outros dois lados estão bem estabelecidos. Esses temas basicamente vivem nas suas bolhas.

Acredito que inteligência artificial é uma coisa que ninguém ainda dimensionou o uso nas campanhas direito e é muito difícil regular. Mas não acredito que isso vai ser decisivo para essa eleição, até porque é muito difícil desconstruir o Lula. Todo mundo já tem uma opinião positiva ou negativa sobre ele, sobre o governo dele. E é a mesma coisa do lado dos Bolsonaro.

O que me preocupou em 2022, que eu acho que talvez seja uma notícia positiva agora, é que não está no debate da opinião pública a legitimidade e a funcionalidade das urnas eletrônicas. Foi uma coisa muito ruim essa descredibilização das urnas, que é claramente um negócio que funciona muito bem. Eu já fui observador eleitoral oficial em vários países, no México, Alemanha, Noruega, Peru, Estados Unidos, e o sistema brasileiro é o melhor sistema que eu vi.

·        Em 2022, Lula tinha o Gabriel Galípolo articulando com o mercado e foi importante a figura dele, inclusive para trazer o Fernando Haddad para a Fazenda. Esse ano essa figura, até o momento, não existe. Como o mercado está olhando para essa candidatura à reeleição do Lula?

Moura - Tem dois mercados: o externo, que tem uma visão, e o local, com outra visão. O mercado externo tem uma visão bastante pragmática do Lula. Inclusive, até mais positiva, porque, em 2002, se vendeu um Lula muito radical que não se materializou. Desde então, o mercado internacional enxerga o Lula como um líder pragmático e não vê um risco no Brasil se tornar radical com uma vitória do Lula.

Claro que o mercado nacional também enxerga problemas fiscais, mas não uma ruptura, tem uma visão muito mais calma no mercado internacional. No mercado local, tem uma tensão maior de uma reeleição do PT justamente pelo tema fiscal.

Tem um lado positivo e negativo de não ter essa figura [como a do Galípolo]. O lado pragmático, positivo, é que dificilmente um novo mandato vai ser diferente em termos da política econômica. Então, já se sabe mais ou menos o que esperar. Obviamente, o mercado não vai ter uma figura que o deixe confortável em relação ao segundo mandato do Lula. Por mais que o Lula escolha nomes, não acredito que ninguém vai conseguir endereçar as preocupações que o mercado interno tem em relação ao governo petista.

 

Fonte: BBC News Brasil