A
composição do governo e a disputa pelo futuro
A
composição do próximo governo Lula será julgada, nos primeiros dias, pela
distribuição dos ministérios. Haverá listas de vencedores e vencidos,
avaliações sobre o espaço do PT, cálculos sobre a participação do centro e
expectativas em torno do Ministério da Fazenda. Mas a pergunta que atravessa a
história brasileira é mais exigente. Que força social um presidente consegue
reunir para transformar uma vitória eleitoral em mudanças que sobrevivam ao
mandato?
Um
governo pode conquistar votos no Congresso e perder capacidade de orientar o
país. Pode ampliar sua coalizão e estreitar seu programa. Pode, também,
negociar com adversários para realizar conquistas que não realizaria sozinho. A
análise começa quando procuramos distinguir essas possibilidades, em vez de
tomar a extensão da aliança como medida suficiente de sua força.
As
primeiras informações sobre o novo mandato indicam negociações com partidos de
centro e a tentativa de condicionar a participação ministerial ao apoio
parlamentar. O jornal Folha de S. Paulo registrou essa orientação em 30
de outubro de 2026; a CNN, no dia 29, noticiou a busca de uma equipe que
combine experiência, renovação e maior representação do centro. São relatos de
bastidores, não decisões formalizadas.
Permitem
identificar o problema que Lula procura resolver: construir sustentação sem
entregar aos aliados o poder de impedir aquilo que justificou sua eleição. Para
compreendê-lo, precisamos sair da circulação dos ministeriáveis e acompanhar a
formação histórica dos poderes com os quais o governo precisa negociar.
A
persistência das classes proprietárias no comando de recursos fundamentais não
significa que o Brasil tenha permanecido imóvel. A economia se industrializou,
a população se urbanizou e novos sujeitos conquistaram direitos. O que exige
explicação é a capacidade de interesses dominantes atravessarem essas
transformações, reorganizando suas posições no Estado. Terra, crédito, meios de
comunicação e acesso às decisões públicas oferecem capacidades desiguais de
intervenção.
A
igualdade do voto convive com essa desigualdade de meios. Conquistar a
Presidência não transfere ao vencedor o comando integral das condições em que
governará. A força econômica procura traduzir-se em orientação administrativa,
pressão legislativa e definição do que será apresentado como possível.
A
experiência aberta em 1930 ajuda a compreender essa transformação. Getúlio
Vargas chegou ao poder por um movimento que rompeu a sucessão presidencial da
Primeira República e reorganizou o Estado. A criação do Ministério do Trabalho
e a expansão da intervenção pública acompanharam mudanças nas relações entre
governo, trabalhadores e empresários.
No
Estado Novo, instaurado em 1937, a construção de instituições econômicas
conviveu com o fechamento do Congresso e dos partidos. O CPDOC documenta tanto
a criação de órgãos e empresas estatais quanto a supressão das liberdades
políticas. A capacidade de promover transformações econômicas pode crescer
junto com mecanismos de sujeição. O desenvolvimento não contém por si mesmo uma
garantia democrática (FGV, “Getúlio Vargas”).
A CLT,
aprovada pelo Decreto-Lei nº 5.452, de 1º de maio de 1943, inscreveu direitos
em uma ordem autoritária. Sua importância não autoriza atribuir a proteção do
trabalho à generosidade pessoal de um governante, ignorando as lutas dos
trabalhadores. Tampouco permite concluir que direitos reconhecidos assegurassem
autonomia de organização. O Estado pode incorporar reivindicações e regular os
canais pelos quais seus beneficiários se apresentam politicamente. Proteger
materialmente e fortalecer politicamente os trabalhadores são processos
distintos.
Não se
trata de equiparar o governo constitucional de Lula à ditadura varguista. A
comparação incide sobre a diferença entre incorporação social e autonomia: uma
política pode melhorar a vida de milhões sem ampliar, na mesma proporção, sua
capacidade coletiva de defendê-la (FGV, “Consolidação das Leis do Trabalho”).
A crise
de 1964 acrescenta outra determinação. As reformas de base defendidas no
governo João Goulart incluíam mudanças agrárias, tributárias, bancárias,
eleitorais e educacionais, conforme o registro histórico da FGV. Tratava-se de
disputar a distribuição de recursos e as condições de participação em uma
sociedade marcada por profundas desigualdades. O golpe que derrubou João
Goulart reuniu ação militar e apoio civil; o CPDOC registra a participação de
setores empresariais, proprietários rurais, órgãos de imprensa e autoridades
políticas, além do apoio norte-americano.
A lição
não é que toda reforma provoca necessariamente uma ruptura. É que os
compromissos democráticos de forças poderosas precisam ser avaliados também
quando seus interesses são contrariados. Uma concordância abstrata com a
democracia não esclarece até onde seus participantes aceitam a redistribuição
do poder econômico e social (FGV, “Reformas de base”; CASTRO, “O golpe de 1964
e a instauração do regime militar”).
A
Constituição de 1988 alterou esse terreno ao reconhecer direitos sociais e
garantias para a disputa política. A saúde foi definida como direito de todos e
dever do Estado; a educação, como direito de todos; e a autonomia universitária
recebeu proteção constitucional.
Esses
dispositivos instituem obrigações e oferecem instrumentos de luta, cuja
efetividade depende de financiamento, administração e controle democrático. O
reconhecimento universal de um direito pode conviver com filas e desigualdades
territoriais. A distância entre reconhecimento e realização constitui uma
disputa continuada. O compromisso constitucional com direitos encontra recursos
distribuídos por relações sociais que a Constituição não suprimiu (BRASIL,
Constituição de 1988, arts. 196, 205 e 207).
Sérgio
Abranches formulou, em 1988, o conceito de presidencialismo de coalizão para
analisar a combinação brasileira de presidencialismo, multipartidarismo,
representação proporcional e federalismo. Seu argumento chama a atenção para a
heterogeneidade social e para a necessidade de agregar interesses em uma base
de governo. É uma contribuição decisiva para compreender por que a eleição
presidencial não produz, por si, uma maioria legislativa.
Mas a
existência dessa necessidade não informa ainda o conteúdo de cada acordo. Há
coalizões construídas em torno de compromissos públicos e há arranjos cuja
coesão depende da distribuição contínua de vantagens. Mesmo dentro de uma
aliança, as duas dimensões podem coexistir. A tarefa analítica consiste em
identificar quais interesses comandam a negociação, quais compromissos são
verificáveis e quanto poder de decisão o governo preserva sobre suas
prioridades (ABRANCHES, 1988).
Chamar
qualquer acordo de traição torna impossível compreender o governo democrático
em uma sociedade plural. Chamar qualquer concessão de realismo torna impossível
avaliar a perda de direção política. Entre essas duas simplificações
encontra-se a questão central: que resultados a negociação produz e que
possibilidades futuras ela abre ou fecha? Uma aliança pode assegurar a
aprovação de uma política de saúde e, assim, fortalecer direitos.
Outra
pode garantir uma votação imediata ao preço de entregar a condução de uma área
estratégica a quem trabalha contra seus objetivos. O critério não pode ser
apenas o número de partidos reunidos nem a origem partidária do ministro. Deve
incluir a relação entre o que se concede, o que se obtém e quem conserva os
meios de fiscalizar o acordo. Sem essa avaliação, a palavra governabilidade
deixa de explicar uma relação e passa a dispensar a prestação de contas.
Os
primeiros governos Lula mostraram que uma coalizão heterogênea pode conviver
com melhorias sociais relevantes. O estudo “A década inclusiva”, divulgado pelo
Ipea em 2012 e apresentado pela Câmara dos Deputados, analisou a redução da
pobreza e da desigualdade entre 2001 e 2011. O período inclui governos
diferentes e não permite atribuir todo o resultado a uma única gestão.
Ainda
assim, impede tratar as conquistas sociais daqueles anos como mero efeito de
propaganda. Para quem passou a comer melhor, estudar ou contar com uma renda
mais segura, a mudança teve existência material. Uma crítica que desconsidera
essa experiência não compreende a base social do lulismo. Mas reconhecer seus
resultados não resolve outra pergunta: quanto dessas melhorias se converteu em
instituições, organização e financiamento capazes de protegê-las em conjunturas
adversas? A avaliação precisa conservar juntas a conquista e sua
vulnerabilidade (IPEA, 2012; CÂMARA DOS DEPUTADOS, 25 set. 2012).
Essa
vulnerabilidade não decorre de uma suposta incapacidade dos pobres de
reconhecer seus interesses. Resulta, entre outros fatores, da diferença entre
receber melhoria e controlar as condições de sua reprodução. O acesso ao
consumo não equivale à segurança do emprego; a matrícula não assegura
permanência; a renda maior não elimina dependências produzidas por moradia,
transporte e endividamento.
Além
disso, pessoas não interpretam sua vida apenas pela renda: religião,
pertencimento, violência, discriminação e expectativas familiares entram na
formação das escolhas. Uma política emancipadora precisa reconhecer essa
complexidade sem renunciar à materialidade das relações de classe. O apoio
popular não é um crédito permanente concedido ao governo por benefícios
passados. Precisa ser renovado por experiências presentes de proteção,
participação e futuro possível. Quando o governo perde essa relação, a linguagem
da gratidão tende a encobrir um problema que exige investigação.
O
afastamento de Dilma Rousseff, concluído pelo Senado em 31 de agosto de 2016,
evidencia a fragilidade de alianças cuja continuidade não está garantida pela
participação no Executivo. O registro oficial documenta a perda do mandato por
61 votos a 20 e a posse definitiva de Michel Temer. A qualificação política
desse processo permanece objeto de disputa; tratá-lo como golpe parlamentar é
uma interpretação que precisa assumir seus argumentos, em vez de apresentar-se
como reprodução neutra da decisão institucional.
Para a
análise da coalizão, há uma constatação suficiente: a presença de um aliado na
vice-presidência não impediu que ele assumisse o comando de uma alternativa ao
governo eleito. A distribuição de posições não produz, necessariamente,
solidariedade programática. Os compromissos podem mudar quando se alteram
custos, oportunidades e relações de força (SENADO FEDERAL, 31 ago. 2016).
A
disputa orçamentária tornou esse problema especialmente visível. Em dezembro de
2022, o STF declarou inconstitucional o uso ampliado das emendas de relator
conhecido como orçamento secreto. A decisão apontou violações da transparência,
da impessoalidade, da moralidade e da publicidade. Não se tratava de negar ao
Legislativo participação no orçamento, mas de enfrentar uma forma de destinação
de recursos sem identificação adequada de seus responsáveis e beneficiários.
O
episódio permite compreender uma mudança na negociação política: quando
recursos são fragmentados em circuitos de influência de difícil fiscalização, a
coordenação nacional de políticas perde condições de se impor. A pergunta deixa
de ser apenas quantos ministérios um partido recebe. Passa a incluir quem
define a aplicação do dinheiro público e diante de quem precisa justificar essa
definição (STF, 19 dez. 2022).
Há
ainda uma negociação menos visível, realizada por meio das regras econômicas
que condicionam as decisões de todos os ministérios. A Emenda Constitucional nº
95, de 2016, instituiu um regime de limitação das despesas primárias federais;
a Lei Complementar nº 200, de 2023, estabeleceu outro regime fiscal, com
critérios distintos. Não são normas equivalentes, e a substituição deve ser
reconhecida como mudança efetiva.
Ambas,
porém, mostram como escolhas sobre a duração e a expansão do gasto são
institucionalizadas. Por isso, a orientação de um governo não pode ser deduzida
apenas da presença de um ministro identificado com movimentos sociais. É
preciso examinar se educação, saúde, infraestrutura e ciência dispõem de meios
para executar seus objetivos. Um programa pode permanecer no discurso enquanto
perde, no orçamento, a possibilidade de se realizar (BRASIL, EC nº 95/2016; LC
nº 200/2023).
A
responsabilidade com as contas públicas integra qualquer projeto que pretenda
durar. Inflação, insolvência e desorganização administrativa recaem de modo
desigual sobre a população e podem destruir conquistas. Reconhecer isso não
obriga a aceitar como neutra toda proposta apresentada em nome do equilíbrio.
Quem paga tributos, quem recebe benefícios fiscais, quais despesas são
protegidas e quais investimentos são adiados são escolhas distributivas.
Também
é necessário avaliar a qualidade do gasto e a capacidade de executar projetos,
em vez de supor que qualquer expansão orçamentária produz desenvolvimento. A
disputa consiste em organizar sustentabilidade financeira e direitos sociais em
um projeto verificável. Quando a discussão começa e termina pelo corte, a
arrecadação, os privilégios tributários e os efeitos futuros do investimento
desaparecem do campo de alternativas. O governo passa a administrar uma
escassez cuja distribuição deixa de ser interrogada.
Nesse
ponto, a dependência pode ser examinada como controle das condições do tempo
histórico. A formulação só acrescenta algo se identificarmos mecanismos:
interrupção de investimentos, financiamento instável, dependência tecnológica e
prazos definidos por agentes sobre os quais a população dispõe de pouca
influência. Uma pesquisa precisa de continuidade; uma indústria demanda
aprendizagem; a formação de profissionais atravessa governos.
Quando
a manutenção desses processos fica subordinada a negociações curtas e
recorrentes, o país perde capacidade de sustentar decisões cujo resultado não
cabe no calendário eleitoral. Não é a simples existência de limites que
comprova a dependência. É a distribuição desigual da capacidade de estabelecer
esses limites, revê-los e suportar seus custos. A soberania se torna concreta
quando a sociedade conquista meios institucionais, produtivos e financeiros de
manter escolhas coletivas através do tempo.
A
universidade pública oferece um lugar preciso para observar essa disputa. A
Constituição lhe assegura autonomia e vincula ensino, pesquisa e extensão.
Contudo, a autonomia depende de condições para trabalhar: custeio, pessoal,
infraestrutura e continuidade dos projetos. Se uma instituição precisa
interromper atividades ou adiar manutenção para atravessar o exercício
financeiro, uma parcela de sua agenda é definida pela sobrevivência. Não
afirmamos que essa seja a situação uniforme de todas as universidades, mas
identificamos um mecanismo que deve ser avaliado nos dados de cada instituição.
Para o
novo governo, a escolha do ministro da Educação será inseparável da relação com
Fazenda, Planejamento e Ciência e Tecnologia. A capacidade de defender a
universidade se revela no financiamento e no respeito às suas decisões,
inclusive quando seus pesquisadores criticam o governo que lhes garante
recursos (BRASIL, Constituição de 1988, art. 207).
No
plano imediato, a ampliação ao centro pode reduzir obstáculos legislativos e
isolar forças comprometidas com a erosão democrática. É uma possibilidade
política relevante, não uma garantia. O rótulo de centro reúne trajetórias e
interesses diferentes; não informa, sozinho, o comportamento de cada bancada. A
avaliação precisa acompanhar compromissos sobre direitos, orçamento,
instituições e políticas concretas.
Também
não se deve concluir que todo aliado conservador esteja disposto a aderir a um
projeto de desenvolvimento ou que toda força de esquerda tenha capacidade de
executá-lo. Competência administrativa, compromisso público e apoio organizado
precisam ser examinados em conjunto. A prudência consiste em conhecer essas
diferenças, não em adiar indefinidamente a definição das prioridades.
Uma
objeção forte a esse argumento afirma que a correlação de forças já obriga Lula
a aceitar quase tudo: seria preferível preservar o governo a arriscar suas
conquistas. Há verdade na preocupação com a sobrevivência institucional. O erro
começa quando uma condição adversa é transformada em justificativa permanente
para não modificá-la. Relações de força não mudam apenas por vontade
presidencial, mas também não permanecem exteriores às escolhas do governo.
Uma
política que fortalece serviços públicos, abre participação e melhora condições
de organização pode ampliar apoio para decisões posteriores. Uma concessão que
desarticula esses meios pode tornar a próxima negociação ainda mais desigual. O
realismo precisa incluir os efeitos acumulados da própria estratégia. Caso
contrário, cada recuo será defendido pela fraqueza existente e produzirá parte
da fraqueza usada para justificar o recuo seguinte.
A
mobilização social entra aqui como capacidade de formular, fiscalizar e
sustentar políticas. Sua tarefa não se esgota em defender o presidente diante
de ataques, embora a defesa da ordem democrática seja necessária. Sindicatos e
movimentos precisam de agenda própria, enraizamento cotidiano e liberdade de
crítica. A comunicação digital pode aproximar pessoas, divulgar informações e
convocar ações, mas não substitui relações de confiança construídas no
trabalho, nos bairros e nas instituições.
Também
precisa admitir escuta: quem recebe uma mensagem não é apenas destinatário de
convencimento. Tem experiência, dúvida e discordância. Uma política democrática
de comunicação permite reconhecer problemas antes que se convertam em ruptura.
Se o governo trata toda crítica popular como ajuda ao adversário, perde uma
fonte de conhecimento sobre os efeitos de suas decisões e empobrece a base que
pretende preservar.
O
próximo governo será mais forte se conseguir tornar públicos os compromissos
que organizam sua maioria. Isso significa indicar prioridades, explicitar
contrapartidas legítimas, permitir fiscalização e enfrentar o descumprimento
dos acordos. Oferece à sociedade condições de reconhecer quem sustenta ou
bloqueia cada decisão.
A
história brasileira mostra experiências de incorporação social, rupturas
autoritárias, conquistas democráticas e limites de coalizões amplas. Ela não
entrega uma receita para 2027, mas impede que a escolha dos ministros seja
tratada como assunto restrito aos negociadores. A composição do governo
interessa porque distribui poder sobre o trabalho, os direitos e o futuro.
A
tarefa de Lula será negociar os meios de governar e, ao mesmo tempo, construir
as condições para que a maioria popular participe da definição do que merece
ser governado, transformado e preservado.
Fonte:
Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda




