terça-feira, 10 de março de 2026

Modelos sindicais para melhorar a organização dos trabalhadores

As formas que as organizações de trabalhadores assumem em todo o mundo, assim como os modelos de negociação coletiva, são extremamente diversos. Dependem da história do movimento operário em cada país, da luta de classes no momento e da dinâmica de poder resultante. É claro que essas formas não são estáticas; pelo contrário, estão em constante evolução como resultado das mudanças sociais e políticas que ocorrem em cada país e globalmente.

De fato, como destacado no Índice Global de Direitos 2025 da Confederação Sindical Internacional (CSI), tendências gerais preocupantes emergiram nos últimos anos. Enquanto em 2014 — quando a pesquisa foi realizada pela primeira vez — restrições ou proibições totais ao direito de greve foram encontradas em 63% dos países analisados, onze anos depois esse número subiu para 87%. Uma situação semelhante existe em relação à negociação coletiva, que foi afetada em 80% dos países, e à liberdade de associação, em 75%.

Em um mundo dominado pelo sistema de produção capitalista, onde a classe trabalhadora é obrigada a lutar constantemente para manter e expandir seus direitos, torna-se essencial conhecer diferentes experiências e compará-las, já que o que é comum em alguns países pode ser avançado ou absolutamente retrógrado em outros.

<><> O bom, o mau e o nosso

Embora tenha sofrido alguns reveses no contexto da tendência global mencionada acima, o modelo sindical da Dinamarca é atualmente um dos melhores do mundo. Semelhante a outros países nórdicos, o país carece de regulamentações legais rígidas que regulem a relação entre capital e trabalho. No entanto, essa lacuna é compensada por sindicatos fortes e uma longa tradição de negociação coletiva centralizada, amplamente aceita pelos empregadores, que se beneficiam de uma redução significativa nos conflitos trabalhistas. Isso resulta em uma alta taxa de sindicalização, em torno de 70%, ampla cobertura dos direitos trabalhistas e um padrão de vida geralmente mais elevado.

Por outro lado, nos Estados Unidos, existem inúmeros obstáculos legais à formação de sindicatos e — com poucas exceções — a negociação coletiva universal não é realizada em nível setorial, mas sim de forma fragmentada, empresa por empresa ou mesmo em cada estabelecimento individual. Embora os membros de sindicatos geralmente desfrutem de melhores salários e mais direitos trabalhistas (o que melhorou a imagem pública das organizações sindicais), essas limitações mantiveram a porcentagem de trabalhadores sindicalizados em torno de 10% por anos.

A Argentina é um caso diferente dos anteriores. Ainda existem sindicatos fortes, e as leis trabalhistas, conquistadas e mantidas ao longo de décadas de luta dos trabalhadores, garantem essa força. Seu principal pilar é o monopólio que concede a certas organizações de trabalhadores a representação sindical exclusiva em seus respectivos setores. No entanto, algumas brechas legais, bem como a corporatização da economia, aliadas a períodos de fragilidade sindical, permitiram que o capital expandisse sistematicamente práticas fraudulentas de contratação (fora dos acordos coletivos) ou a insegurança no emprego, fragmentando o mundo do trabalho.

Atualmente, o governo de Javier Milei lidera uma nova ofensiva empresarial contra esse modelo. Embora as propostas para estender a jornada de trabalho e reduzir as indenizações por demissão sejam dignas de nota, o foco principal é enfraquecer o poder de negociação dos sindicatos, permitindo acordos em nível de empresa ou região que são inferiores aos estabelecidos por convenções coletivas nacionais. O projeto de lei de “modernização trabalhista” do governo, atualmente em debate no parlamento, reflete claramente essas intenções. Se implementado, representaria um retrocesso histórico para a organização e os direitos da classe trabalhadora argentina.

<><> Como e por quem se formam os sindicatos?

Nos Estados Unidos, formar um novo sindicato ou filiar-se a um já existente envolve um processo burocrático complexo. Isso não é acidental; trata-se de uma política deliberada que se intensificou ao longo dos anos. Como aponta um estudo do Economic Policy Institute (EPI), essa falta de apoio governamental se reflete em regulamentações que pioraram progressivamente ao longo do último meio século. “Com exceção da expansão da cobertura de saúde na década de 1970, todas as alterações legislativas na National Labor Relations Act [Lei Nacional de Relações Trabalhistas], que rege a legislação trabalhista do setor privado nos Estados Unidos, desde sua promulgação em meados da década de 1930, representaram medidas que enfraqueceram os sindicatos.”

Entre os fatores que dificultam a organização dos trabalhadores, está, por exemplo, a ausência de negociação coletiva por setor, mesmo dentro da mesma empresa. Os trabalhadores precisam votar em cada local de trabalho para decidir se criam ou se filiam a um sindicato. E mesmo que consigam uma maioria favorável, as empresas podem apresentar diversos recursos administrativos e judiciais para atrasar ou suspender o processo. Além disso, aqueles que desejam promover a sindicalização estão proibidos de realizar eventos ou assembleias de campanha nas dependências da empresa. Em contrapartida, a lei permite que os empregadores organizem “reuniões informativas” com os trabalhadores, nas quais podem “convencê-los” (ou, na realidade, pressioná-los abertamente) a não se sindicalizarem. Algumas empresas gastam milhões de dólares anualmente contratando consultorias especializadas para esse fim.

Em nítido contraste, o modelo dinamarquês carece de regulamentações específicas que definam os passos para a formação de um sindicato. A possibilidade de criação de sindicatos baseia-se no direito de associação garantido pelo Artigo 78 da Constituição de 1953, que não menciona explicitamente essa forma de organização. Assim, a responsabilidade e a legitimidade sindical são transferidas para a força de trabalho, sua capacidade de representação e, consequentemente, seu poder de ação coletiva. Além disso, a ausência de “validação” estatal é um pré-requisito para uma maior autonomia sindical do que em outros modelos. Contudo, para além dessa perspectiva geral, existem regulamentações para assegurar a proteção dos trabalhadores filiados a um sindicato. Estas estão previstas na Lei da Liberdade Sindical no Mercado de Trabalho, promulgada em junho de 1990 e alterada em 2006, que garante, entre outras coisas, a livre filiação a qualquer sindicato e proíbe a demissão ou discriminação por exercício de atividade sindical.

Dentro desse modelo, existem dois tipos de sindicatos: os chamados sindicatos “tradicionais” e os sindicatos “amarelos”. Enquanto os primeiros são organizados por setor, agrupados em federações ou confederações nacionais e possuem maior poder de negociação, os últimos podem incluir membros de diferentes áreas e profissões, não pertencem a estruturas sindicais de nível superior e têm uma capacidade de intervenção mais limitada. Esses últimos sindicatos desempenham um papel pequeno, mas importante, no modelo, garantindo a possibilidade de sindicalização para aqueles cujas tarefas específicas não se “encaixam” nas estruturas tradicionais ou que não são abrangidas por acordos coletivos gerais, obrigando-os, assim, a negociar diretamente com seus empregadores.

Por fim, o modelo argentino também possui essa hierarquia sindical, mas ela é estritamente regulamentada por lei. Formalmente — pelo menos por enquanto — a liberdade de organização sindical é garantida, e um grupo de trabalhadores que atenda a certos requisitos básicos (membros, estatuto, órgão diretivo, etc.) pode se registrar junto à autoridade trabalhista competente. Na prática, porém, somente os sindicatos com registro têm o poder de negociar salários e condições de trabalho para todos os trabalhadores abrangidos pelo respectivo acordo coletivo (sejam ou não membros), bem como a capacidade de descontar as mensalidades sindicais da folha de pagamento e usufruir de certas isenções fiscais. Os sindicatos que operam dentro do mesmo acordo, mas não possuem esse registro, são privados da maioria dos direitos, incluindo o direito à proteção sindical para seus delegados e dirigentes.

A chave desse modelo reside no fato de que o estatuto sindical é único por setor (exceto em certas áreas da administração pública), o que significa que um único sindicato detém o monopólio exclusivo da representação plena. Isso coloca em xeque a liberdade de associação, uma vez que qualquer trabalhador terá maior probabilidade de defender os seus direitos ao filiar-se ao sindicato com maior peso legal, em detrimento dos demais. Contudo, em tempos de declínio sindical, este modelo rígido funciona como um baluarte contra a ganância patronal, pois, por mais fraco que o sindicato seja, ainda conserva uma série de poderes muito importantes que lhe garantem um poder de negociação significativo.

A contradição é evidente: ao mesmo tempo que limita seriamente o surgimento de organizações mais democráticas e combativas, centralizando o poder em estruturas frequentemente antiquadas e burocráticas, também força as empresas a negociar e limita a possibilidade de formarem e apoiarem sindicatos pró-empregador.

<><> Negociação e conflito

Por essa razão, as negociações salariais e trabalhistas na Argentina são altamente centralizadas. Independentemente de sua capacidade representativa, legitimidade ou base real de membros, o sindicato com reconhecimento legal é o único com autoridade para negociar legalmente acordos coletivos com as associações empresariais do setor.

Existem, é claro, algumas exceções relacionadas a circunstâncias muito específicas, como o caso do Asociación Gremial de Trabajadores del Subte y Premetro (AGTSyP). Embora o status oficial de sindicato pertença ao Unión Tranviarios Automotor (UTA), a ampla representação do AGTSyP, a concentração de seus membros nas sete linhas da rede e sua capacidade de paralisar o sistema de metrô lhe conferem, na prática, um poder de negociação que o modelo sindical argentino lhe nega. Mas, além desse exemplo, são poucos os casos de sindicatos com registro simples que têm algum impacto real.

Um dos contrapesos a esse modelo é uma estrutura organizacional muito particular que permite um certo grau de autonomia dentro de um mesmo sindicato: as comissões internas. Estas são compostas por delegados da base, eleitos em seus locais de trabalho e, com algumas nuances, possuem relativa capacidade de ação independente. Isso é reforçado pela ordem progressiva de precedência na legislação: ou seja, em cada região, empresa ou estabelecimento, somente podem ser negociadas condições que superem os padrões mínimos estabelecidos por lei ou pelo acordo coletivo vigente. Assim, existem comissões internas que não são diretamente subordinadas à direção, ou mesmo se opõem a ela, e que podem — dentro de certos parâmetros — construir uma estrutura sindical alternativa, alcançando conquistas que superam as obtidas pelo próprio sindicato. Contudo, em 2016, o Supremo Tribunal de Justiça proferiu uma decisão que limitou o direito à greve, estabelecendo que somente o sindicato (com registro pleno ou simples) pode convocar para ações sindicais. Dessa forma, comissões internas combativas, que divergem de uma direção mais conciliadora, ficam sujeitas a sanções caso realizem qualquer ação sindical sem o aval da direção.

Por fim, um aspecto positivo e distintivo do modelo argentino é a chamada “ultra atividade” dos acordos coletivos de trabalho. Ao contrário do que ocorre na maioria dos países do mundo, onde os contratos entre sindicatos e empregadores têm prazo de validade — e, portanto, quando terminam, todos os direitos e proteções neles previstos deixam de ser válidos —, no contexto argentino, esses acordos permanecem ativos mesmo que as negociações entre as partes não resultem em novos acordos.

Nos Estados Unidos, a situação é diferente: os poucos trabalhadores sindicalizados sabem que seus “contratos sindicais” têm prazo de validade, o que os obriga a renegociar todos os aspectos trabalhistas (e não apenas os salários) em cada nova negociação. Direitos conquistados em contratos anteriores podem ser perdidos se o novo acordo coletivo os colocar em uma posição de desvantagem.

Essa dinâmica afeta tanto sindicatos pequenos quanto poderosos, como aconteceu com o United Auto Workers (UAW) em 2007 e 2008. Diante da crise econômica dos EUA, a Ford, a General Motors e a Chrysler pressionaram o UAW a assinar um contrato que estabeleceu uma desigualdade estrutural entre os trabalhadores. Os contratados posteriormente receberam salários mais baixos e menos benefícios em termos de aposentadoria e plano de saúde. Além disso, o contrato eliminou o sistema de reajuste salarial por custo de vida para todos os trabalhadores.

Essa situação só foi revertida com a greve histórica de 2023, quando uma nova liderança sindical, encabeçada por Shawn Fein, e em meio a uma nova onda de sindicalismo, possibilitou a recuperação desses direitos. Foram necessários dezesseis anos. É importante ressaltar que mencionamos apenas três empresas porque a negociação coletiva na principal economia do mundo é extremamente descentralizada: não existem acordos setoriais, e cada sindicato negocia contratos específicos com empresas individuais, que, na maioria dos casos, se aplicam apenas aos membros do sindicato.

Trabalhadores do mesmo estabelecimento podem ter condições de trabalho radicalmente diferentes, dependendo de possuírem ou não um “contrato sindical”. Existem algumas exceções, como os funcionários de diversos órgãos públicos que têm o direito de se sindicalizar e negociar com um único empregador: o governo estadual ou municipal correspondente (não existe lei que permita isso em âmbito nacional). Ou, como ocorreu com a famosa greve de 2023 dos roteiristas, atores e atrizes, que foi dirigida contra uma única associação patronal que acabou cedendo.

O círculo virtuoso (e alguns problemas) da negociação multinível

Alimitada regulação estatal das relações capital-trabalho na Dinamarca é possível devido a uma série de fatores muito específicos. Um deles é a enorme centralização tanto do setor empresarial quanto do sindical. Longe de ser um paraíso da livre concorrência, esse aspecto da organização social dinamarquesa é deliberadamente moldado por algumas poucas instituições muito poderosas.

Do lado dos empregadores, e como resultado do trabalho consciente da Confederação Dinamarquesa de Empregadores (Dansk Arbejdsgiverforening, DA), “das mais de 150 organizações que existiam no final da década de 1980, apenas onze permanecem hoje. Destas, a Confederação da Indústria Dinamarquesa (Dansk Industri, DI) é a maior.” Isso é destacado em um documento da Organização Internacional do Trabalho (OIT) escrito por Søren Kaj Andersen, membro do Centro de Pesquisa de Relações Trabalhistas da Universidade de Copenhague.

Entretanto, no âmbito trabalhista, a Confederação Dinamarquesa de Sindicatos (Fagbevægelsens Hovedorganisation, FH) surgiu em 2019 após a fusão da tradicional Confederação Dinamarquesa de Sindicatos (Landsorganisationen i Danmark, LO) e da Confederação Dinamarquesa de Organizações de Empregados e Funcionários Públicos (FTF). Dentro dessa Confederação, destaca-se o Sindicato Central dos Trabalhadores da Indústria (CO-Industri), que reúne nove sindicatos, incluindo o influente sindicato dos metalúrgicos Dansk Metal, o Sindicato dos Trabalhadores Não Qualificados da Indústria de Transformação (3F Industri) e o Sindicato dos Trabalhadores Administrativos e do Comércio Varejista (HK).

Essas organizações são responsáveis ​​por definir os padrões salariais para os trabalhadores em todo o país. Desde a década de 1990, as negociações trabalhistas na Dinamarca seguem um padrão muito específico: no início do ciclo de negociação, o primeiro acordo coletivo a ser firmado em nível nacional é o da indústria manufatureira. O principal argumento, afirma Andersen, é que, como o setor mais importante voltado para a exportação, ele deve ditar a tendência para os ajustes salariais e as regulamentações em geral.

Consequentemente, o acordo alcançado entre a CO-Industri e a associação patronal DA relativamente ao salário mínimo, ao horário de trabalho, aos direitos e obrigações dos representantes sindicais, ao acesso à educação, à formação e a outras disposições estabelece o quadro para “acordos subsequentes nos setores dos transportes, da construção, do comércio varejista e de outros setores”. Naturalmente, trata-se de um quadro geral que deve ser adaptado a cada setor, tendo em conta as suas características específicas.

Caso não se chegue a um consenso em qualquer setor, um mediador público intervém para ajudar a sanar as divergências entre as partes. Assim que as propostas para os vários acordos coletivos de trabalho são finalizadas, o próprio Estado dinamarquês elabora uma “Proposta de acordo para todos” em colaboração com as organizações nacionais de trabalhadores e empregadores. Depois de redigido, o texto é devolvido aos sindicatos e associações patronais para aprovação por votação de todos os membros, que devem obter maioria para a ratificação final. Esse mecanismo funciona como uma importante ferramenta de supervisão, uma vez que os sindicatos têm de consultar e receber considerações dos seus membros durante o processo de negociação para garantir um voto favorável. Além disso, também exerce pressão sobre os empregadores, que compreendem que evitar conflitos depende de algo mais do que apenas manter boas relações com os líderes sindicais.

Desde a implementação desse sistema, “apenas a rodada de negociações de 1998 resultou em um grande conflito”, recorda Andersen. “Portanto, essa forma bastante rigorosa de coordenação horizontal, incluindo a interligação de todos os acordos coletivos, reduziu o risco de conflitos trabalhistas e, assim, estabilizou o sistema de negociação”, acrescenta. Essa lógica de negociação é altamente vantajosa para a classe trabalhadora dinamarquesa, uma vez que todos os sindicatos obtêm melhorias praticamente idênticas em cada novo acordo. Os setores com menor poder de negociação e menores taxas de sindicalização beneficiam-se da força do setor industrial, representado pela CO-Industri. E embora o mesmo procedimento não seja seguido no setor público, os salários estatais estão vinculados às tendências salariais do setor privado através do chamado “Acordo Regulatório” (Reguleringsordningen) de 1983.

Contudo, apesar de alcançar baixos níveis de conflito laboral e condições de trabalho muito superiores às da maioria dos países do mundo, o modelo de negociação dinamarquês apresenta desvantagens. Uma vez aprovado um acordo geral, independentemente das condições específicas de cada setor, o direito à greve ou a outras ações laborais fica severamente limitado. Se a maioria dos membros do sindicato votar contra o acordo negociado, eles ainda são obrigados a manter a paz social caso o restante do sindicato tenha votado a favor.

Outro aspecto negativo é que, ao contrário de países como a Argentina, onde um acordo coletivo de trabalho só pode prevalecer sobre outras regulamentações se melhorar as condições de trabalho dos funcionários, esse princípio não existe na Dinamarca. Assim, podem ser firmados acordos individuais com representantes sindicais que pioram as condições de trabalho (com exceção do salário mínimo). Como esses acordos individuais são implementados após a aprovação dos acordos coletivos nacionais, os representantes sindicais não têm o direito de greve, o que coloca os empregadores em posição de pressioná-los e influenciá-los.

<><> Conclusões

Sem dúvida alguma, e apesar de alguns aspectos negativos, do nosso ponto de vista, o melhor dos três sistemas apresentados neste texto é o dinamarquês. Isso se deve à sua comprovada eficácia ao longo do tempo e aos seus resultados para a classe trabalhadora. Mas, como mencionamos no início, os modelos sindicais são produtos das particularidades de cada país: sua história, suas lutas, sua resistência, até mesmo sua geografia. Eles não podem ser copiados ou replicados de forma linear. E as características positivas que consideramos adequadas para adoção devem ser adaptadas ao contexto nacional.

Em países como a Argentina ou os Estados Unidos, seria inviável eliminar da noite para o dia as normas e regulamentações que protegem o movimento sindical. Isso porque seus sindicatos e organizações patronais não possuem o mesmo nível de centralização, recursos e coordenação que na Dinamarca. Pelo contrário, para desenvolver iniciativas positivas como a negociação coletiva multinível e a interligação de convenções coletivas, seria necessário um arcabouço legal mais amplo e preciso para compelir o setor empresarial a cumpri-lo. Isso começaria com a promoção da regularização das relações trabalhistas e das condições de trabalho, bem como com políticas públicas que ajudem a fortalecer, expandir e consolidar as estruturas sindicais, fornecendo-lhes maiores recursos e capacidades técnicas que lhes permitam aumentar sua autonomia e poder de negociação.

 

Fonte: Por Santiago Mayor - Tradução Pedro Silva, para Jacobin Brasil

 

A pesquisadora que estuda o mercado de trabalho das mães solo no Brasil: 'Ganham 40% menos que pais casados'

A pesquisadora Mariene Ramos cresceu cercada de mães solo — mulheres que criam seus filhos sem o apoio de um parceiro ou parceira.

Nascida em Ponte Alta do Bom Jesus, cidade com pouco mais de 4 mil habitantes no interior do Tocantins, Mariene se mudou com a família para o Distrito Federal aos 7 anos, por motivo de doença de um irmão mais novo.

Após o falecimento deste irmão e com o pai aposentado precocemente por um acidente de trabalho, sua mãe passou a complementar a renda da família cuidando dos filhos de vizinhas em Novo Gama, cidade goiana da periferia de Brasília.

"Passei cerca de três anos morando com amigos da família para poder estudar, enquanto meus pais trabalhavam no setor de chácaras de Brasília", lembra Mariene, que antes disso estudou em escola rural, onde alunos de diversas idades convivem em uma mesma série.

"Quando mudamos para o Novo Gama, eu já tinha 13 para 14 anos, e ajudava minha mãe com essa dinâmica, de deixar e buscar criança na escola, de fazer comida", conta a pesquisadora, hoje com 36 anos.

"Eu eu via a luta daquelas mulheres. A maioria eram domésticas, nem todas eram mães solo — mas muitas eram. Enquanto outras eram casadas, mas não podiam contar com os maridos, por questões como o vício em bebida, então, na prática, se tornavam meio mães solo também."

Com pai e mãe que não concluíram o ensino fundamental, Mariene se formou no ensino médio, tornou-se funcionária pública e completou duas faculdades, de gestão pública e jornalismo.

Nesse meio tempo, porém, tornou-se ela mesma uma mãe solo — tema que decidiu estudar em seu mestrado em políticas públicas no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

"Sem rede de apoio, após me mudar do Novo Gama para Brasília para o mestrado, precisei levar minha filha para muitas das aulas", lembra Mariene. "Todas as aulas à noite, eu levava, então, no aniversário dela de 14 anos, ela estava em uma aula de Econometria junto comigo."

"Foi aí que me deu mais vontade ainda de estudar sobre esse tema", conta a pesquisadora, destacando a importância do assunto em um momento em que o Brasil passou a ter maioria de domicílios chefiados por mulheres.

Desde 2022, elas passaram à frente dos homens na chefia dos lares brasileiros, tornando-se responsáveis por 52% dos domicílios.

Nos lares monoparentais — aqueles onde apenas um adulto vive com os filhos, sem a presença de um cônjuge — a chefia feminina chega a 92%, segundo estudo do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Socioeconômicos (Dieese), a partir de dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

<><> Menos renda e formalização, mais serviço doméstico

Coorientada pelos pesquisadores Carlos Corseuil e Marcos Hecksher, a pesquisa de mestrado de Mariene traça um retrato de como trabalham as mães que criam seus filhos sozinhas no Brasil, a partir de dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua do IBGE, de 2022.

No estudo, a pesquisadora considera como mães solo as mulheres chefes de domicílio, com filhos e sem cônjuge. Em 2022, o Brasil somava mais de 10,9 milhões de mães solo responsáveis por domicílio, o equivalente à população total de países como Portugal ou Bélgica.

"Os estudos sobre mães solo no Brasil hoje são muito escassos", observa Mariene.

"Sempre ouvimos falar de penalidade pela maternidade, mas tratando as mulheres como um grupo homogêneo — mas elas não são iguais."

Penalidades pela maternidade são desvantagens profissionais e econômicas que mulheres enfrentam no mercado de trabalho após se tornarem mães, incluindo menor probabilidade de contratação ou promoção e percepção de menor competência, que se expressam, por exemplo, em rendimentos mais baixos.

Em 2022, mães solo tinham o menor rendimento médio (R$ 2.322) entre os arranjos familiares, quase 40% abaixo dos pais com cônjuge (R$ 3.869) e 11,5% inferior à renda média das mães com cônjuge — pessoas com cônjuge contam ainda com o rendimento do parceiro para compor a renda familiar.

"As mães solo não sofrem penalidade apenas no rendimento, elas sofrem também na questão da precariedade do trabalho", observa Mariene.

Em 2022, o grupo apresentava uma taxa de ocupação de 50,2%, inferior aos pais com cônjuges (81%) e às mães com cônjuge (53,2%).

Elas também tinham a menor taxa de contribuição previdenciária (28,3%), significativamente inferior aos pais com cônjuge (54,8%) e mesmo às mães com cônjuge (34,7%).

"Essa baixa cobertura previdenciária representa uma vulnerabilidade de longo prazo para as mães solo, comprometendo a segurança social na velhice ou em situações de incapacidade", destaca a autora do estudo.

Analisando a população ocupada por setores da atividade econômica, Mariene observa que há uma concentração de mães solo em setores historicamente desvalorizados e marcados por baixos salários, como serviços domésticos (21,9%).

O percentual de mães solo trabalhando como empregadas domésticas é significativamente superior ao das mães com cônjuge (11,8%) e quase 27 vezes maior que o dos pais com cônjuge (0,8%).

"Isso reforça a hipótese de que as mães solo estão confinadas em setores com menores remunerações", destaca a pesquisadora, em sua dissertação.

<><> Baixa escolaridade e 'geração sanduíche'

A escolaridade é um fator importante para compreender essa precária inserção das mães solo no mercado de trabalho.

Pouco mais de 55% têm, no máximo, o ensino médio incompleto, percentual superior ao de pais com cônjuge (46,6%), mães com cônjuge (39,9%) e mulheres sem filhos (47,9%), ficando atrás apenas dos pais solo (61,4%).

E apenas 13,7% das mães solo concluíram o ensino superior, abaixo das mulheres sem filhos (22,1%) e também das mães com cônjuge (19,9%).

Mariene destaca, porém, que a escolaridade não explica tudo, e que é preciso levar em conta também a discriminação sofrida pelas mães solo no mercado de trabalho.

"Muitas vezes, o empregador supõe que aquela pessoa vai ter menos disponibilidade, menos flexibilidade e vai render menos", observa a pesquisadora.

"Então, ela acaba não conseguindo ocupar cargos mais altos ou ocupa aqueles com salário um pouco mais baixo."

Analisando o perfil racial, 62% das mães solo são negras, sendo 14% pretas e 47% pardas, enquanto 37% são brancas e 2% de outras raças ou cor. O percentual de pessoas negras no grupo é superior ao do conjunto de pais solo (60%), mães com cônjuge (59%), pais com cônjuge (56%) e mulheres sem filhos (50%).

Mariene destaca ainda a questão da "geração sanduíche" — mulheres pressionadas simultaneamente pelo cuidado de filhos e de pais idosos.

No caso das mães solo, 33,5% residem em domicílios com pessoas acima de 60 anos. Essa proporção é mais que o dobro das mães com cônjuge (15,7%) e supera significativamente a dos pais com cônjuge (19,4%).

"Esses idosos podem representar uma rede de apoio, mas também podem precisar da ajuda dessa mãe, então, muitas delas vivem uma jornada dupla de cuidado, ou uma jornada tripla", diz a pesquisadora.

Por fim, ela observa que 57% das mães solo recebem algum tipo de benefício social do Estado, proporção substancialmente superior à dos pais com cônjuge (19%) e também superior à das mães com cônjuge (34%), dos pais solo (49,9%) e das mulheres sem filhos (48,6%).

A pesquisadora destaca que isso é consequência direta da falha do mercado de trabalho em absorver adequadamente a mão de obra dessas mulheres.

"Como essas mães não estão conseguindo receber [através do trabalho] um rendimento que consiga arcar com suas despesas, o Estado acaba tendo que entrar com benefícios", afirma.

<><> Creches e qualificação profissional

Para mudar esse quadro, Mariene defende que é preciso aumentar a oferta de creches em tempo integral no país.

Um estudo recente da ONG Todos pela Educação mostrou que, em 2024, apenas 41,2% das crianças de até 3 anos eram atendidas por creches no país — ainda distante da meta de 50% estabelecida pelo Plano Nacional de Educação (PNE).

Entre os mais pobres, 30,6% das crianças eram atendidas, enquanto entre as mais ricas, a taxa chegava a 60%.

O levantamento também mostrou que quase 2,3 milhões de crianças de até 3 anos estavam fora da creche em 2024, por dificuldades de acesso, como falta de vagas ou de unidades próximas.

A pesquisadora do Ipea diz ainda que é preciso reconhecer o tempo de cuidado dessas mães, debate que vem ganhando espaço no Brasil, a partir da aprovação da Política Nacional de Cuidado.

Estudo do Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (Made-USP), com base em dados da Pnad Contínua de 2019, mostra que, somadas as horas remuneradas e não remuneradas, as mulheres brasileiras trabalham em média 58,1 horas semanais, ante 50,3 horas dos homens.

A carga de trabalho não remunerado das mulheres chega a 21,3 horas semanais, mais do que o dobro das 8,8 horas masculinas, "configurando uma jornada total equivalente a uma escala 7x0: todos os dias da semana, sem folga", destacam os pesquisadores do Made, em estudo lançado neste domingo (8/3), por ocasião do Dia Internacional da Mulher.

Por fim, Mariene defende ainda que é preciso investir na qualificação profissional das mães solo, para que um maior número delas possa obter renda suficiente por meio do trabalho. Mas, para isso, ela reforça novamente a importância da oferta de creches, para que essas mães possam estudar e trabalhar.

"Hoje, eu entendo minha mãe como uma política pública ambulante", brinca a pesquisadora, sobre o trabalho de sua mãe como cuidadora dos filhos de vizinhas. "Naquela época, eu não entendia assim, mas, hoje, entendo que é isso."

"Precisamos olhar para essas mulheres — essa maioria de mulheres nas chefias de lar, essas 11 milhões de mães solo. Não se trata mais de um grupo marginal, mas de uma transformação estrutural do país", considera a pesquisadora.

"Quando o mercado e as políticas públicas se ajustam a essa realidade, toda a economia ganha", diz Mariene.

"Precisamos inseri-las no mercado de trabalho, não de forma assistencialista, mas para que elas consigam viver do seu próprio trabalho."

Fazendo isso, afirma a pesquisadora, será possível ter uma próxima geração, que são os filhos dessas mulheres, talvez com menos dificuldades.

"Eu furei essa bolha: me tornei servidora pública, fiz mestrado, e pretendo continuar esse estudo no doutorado. Mas, para que mais pessoas possam furar a bolha, é preciso trazer essas mulheres, essas mães, para um mercado de trabalho menos precário."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Mulheres hétero podem ser consideradas grupo de risco para ISTs? Entenda

O relato recente da atriz Mel Lisboa, 44, reacendeu um debate importante sobre a saúde sexual das mulheres. Em entrevista a um podcast, a artista contou que descobriu ter contraído HPV, doença sexualmente transmissível (IST) quando adolescente, após ser traída pelo namorado da época -- diagnóstico que veio durante uma consulta ginecológica e já em estágio avançado. A experiência, segundo ela, serviu de alerta para os riscos de infecções sexualmente transmissíveis mesmo em relações aparentemente estáveis.

Casos como esse ajudam a levantar uma discussão cada vez mais presente entre especialistas: mulheres heterossexuais podem ser consideradas um grupo vulnerável às ISTs? Embora muitas vezes não sejam vistas como população de maior risco, fatores como desigualdade nas negociações sobre uso de preservativo, relações monogâmicas com parceiros que têm múltiplas parcerias, falta de testagem frequente e até mesmo condições biológicas podem aumentar a exposição a infecções.

Uma pesquisa de 2022 intitulada "Infecções sexualmente transmissíveis e saúde reprodutiva feminina", de Olivia T Van Gerwen, Christina A Muzny e Jeanne M Marrazzo, descobriu que as mulheres são mais afetadas por infecções sexualmente transmissíveis do que os homens ao longo da vida.

"Do ponto de vista biológico, isso se explicaria por características anatômicas e fisiológicas do trato genital feminino", disse a médica ginecologista Laura Gusman, em entrevista à CNN, que concorda que "existe uma vulnerabilidade biológica real, que ajuda a explicar por que a transmissão de algumas infecções ocorre com maior facilidade do homem para a mulher do que no sentido inverso."

"Durante a relação sexual, a mucosa vaginal e cervical fica exposta ao sêmen, que pode permanecer em contato com esses tecidos por um período prolongado, aumentando a possibilidade de transmissão de vírus e bactérias presentes nesse fluido. Além disso, o trato genital feminino é formado por uma ampla superfície mucosa que é influenciada pelas flutuações hormonais, que podem modificar a resposta inflamatória local e a capacidade de defesa contra microrganismos."

Outro fator importante, segundo a profissional, é que durante a relação sexual podem ocorrer pequenas lesões, especialmente quando há pouca lubrificação ou em situações de relação sexual forçada, acarretando em microfissuras que facilitam a entrada de agentes infecciosos.

"Soma-se a isso o fato de que, em algumas infecções, como o HIV, o sêmen pode apresentar concentrações virais mais elevadas do que as secreções vaginais, o que contribui para que a transmissão do homem para a mulher ocorra com mais facilidade", explicou Gusman.

<><> Contexto social estrutural também pode colaborar para mais ISTs em mulheres

Outro estudo de 2022, "Relações de gênero e poder no contexto das vulnerabilidades de mulheres às infecções sexualmente transmissíveis", de Samy Moura, Maria Adelane da Silva, Andréa Moreira e Ana Karina Pinheiro, evoca que a desigualdade de gênero ainda coloca muitas mulheres em posição de submissão nas relações, o que dificulta o diálogo sobre sexo seguro e o reconhecimento de seus próprios direitos sexuais e reprodutivos.

"Em muitos contextos, mulheres ainda enfrentam dificuldades para negociar o uso do preservativo dentro das relações, especialmente quando existe desigualdade de poder, dependência emocional ou econômica, ou mesmo o receio de gerar conflitos dentro do relacionamento", ressaltou a ginecologista.

A sexualidade feminina ainda é cercada por tabus, o que acaba limitando o acesso a conhecimento, prevenção e cuidado.

"Mulheres de classes sociais mais baixas, por exemplo, enfrentam maior risco de aquisição de ISTs, muitas vezes por acesso insuficiente à informação, à prevenção e aos serviços de saúde", disse o ginecologista Vinícius Araújo, também à CNN. "Há ainda a vulnerabilidade dentro de relacionamentos abusivos ou tóxicos. Muitas mulheres acreditam estar em uma relação monogâmica, enquanto o parceiro não é fiel. Nesses casos, a exposição ocorre sem que elas tenham consciência do risco ou autonomia para negociar o uso de preservativo."

Culpa no diagnóstico pode se tornar perigosa

"Trabalhar a questão da culpa é fundamental para que o diagnóstico seja feito precocemente e o tratamento iniciado sem demora", destacou Araújo. Ao receber o diagnóstico, muitas mulheres relatam sentir vergonha ou culpa, principalmente quando acreditavam estar em uma relação estável. Esses sentimentos podem atrasar a busca por atendimento e dificultar o início do tratamento adequado.

Segundo o infectologista Paulo Abrão, presidente da Sociedade Paulista de Infectologia, se os diagnósticos não forem precoces, os riscos para a pessoa doente aumentam. "Aumenta também o tempo de transmissão das ISTs para outras parcerias, se não são curadas", explicou o médico.

<><> As ISTs mais comuns em mulheres

Entre as infecções sexualmente transmissíveis mais comuns entre mulheres estão o HPV, a sífilis, o herpes genital, a clamídia e a gonorreia.

"As ISTs em mulheres podem acarretar em lesões genitais locais e até situações graves como câncer por HPV de colo uterino, vagina, vulva, anus e reto. A sífilis pode acometer o sistema nervoso central e a visão, além de poder haver sífilis congênita (passagem para o feto). Ainda, ISTs podem levar a infertilidade", destacou Abrão.

O HPV, caso de Mel Lisboa, é extremamente prevalente. "Como ele é tão frequente, basicamente todos nós vamos encontrar algum tipo de HPV durante a nossa vida", afirmou o infectologista Renato Kfouri, em entrevista anterior à CNN. A infecção geralmente começa na adolescência, com a iniciação sexual, e o contato com o vírus pode se manter ao longo da vida.

"As ISTs podem ter impactos importantes na saúde da mulher, muitas vezes de forma silenciosa. Infecções bacterianas como clamídia e gonorreia podem ascender pelo trato genital e desencadear doença inflamatória pélvica, que está associada à infertilidade tubária, dor pélvica crônica e aumento do risco de gravidez ectópica. O HPV, quando não identificado e acompanhado, pode evoluir para lesões precursoras e câncer do colo do útero. A sífilis, por sua vez, pode evoluir para formas sistêmicas e trazer complicações graves, especialmente na gestação", explicou Laura Gusman.

<><> Prevenção e frequência de exames

O uso consistente do preservativo feminino ou masculino continua sendo uma das medidas mais importantes para reduzir o risco de transmissão de ISTs, inclusive dentro de relacionamentos estáveis, explicou Gusman.

"A vacinação contra o HPV é outra medida fundamental e deve ser estimulada tanto em meninas quanto em meninos, lembrando também da vacinação contra Hepatite B. A realização periódica de exames de rastreamento e testagens para ISTs também é parte essencial do cuidado com a saúde sexual", afirmou a médica.

Ainda, os especialistas destacaram que, de maneira geral, mulheres sexualmente ativas devem realizar avaliação ginecológica anual. Já o rastreamento para clamídia é particularmente importante em mulheres jovens. As diretrizes recomendam a investigação em mulheres sexualmente ativas com menos de 25 anos e a manutenção do rastreio se identificados fatores de risco, já que essa infecção costuma ser assintomática.

Em relação ao HPV, o rastreamento do câncer do colo do útero deve ser realizado, de acordo com as diretrizes atuais, em mulheres entre 25 e 64 anos que já iniciaram a vida sexual.

"Fazer exames médicos de rotina anualmente e, na mínima suspeita, procurar os serviços de saúde para consulta, é fundamental. Usar todos os métodos de prevenção disponíveis também", ressaltou Paulo Abrão.

 

Fonte: CNN Brasil

 

O Atlântico Sul e a nova disputa pelo poder global

Crises logísticas, sanções financeiras e exercícios navais no entorno do Cabo da Boa Esperança revelam uma transformação silenciosa: o poder contemporâneo se mede pela continuidade operacional. O Atlântico Sul voltou ao centro do cálculo estratégico.

<><> O Atlântico Sul voltou ao cálculo do poder

O Atlântico Sul sempre foi tratado como espaço secundário da geopolítica. O eixo decisivo parecia estar no Atlântico Norte, no Golfo Pérsico ou, mais recentemente, no Indo-Pacífico. O Sul figurava como rota complementar, área de passagem, extensão periférica de disputas definidas em outros centros. Essa leitura deixou de ser suficiente.

Quando crises no entorno do Mar Vermelho elevaram riscos e custos de navegação, e embarcações passaram a contornar o Cabo da Boa Esperança para evitar instabilidade, o sistema internacional foi lembrado de um dado estrutural: a estabilidade econômica depende da continuidade das rotas. O desvio não foi apenas geográfico. Ele alterou prazos, contratos, seguros e cadeias de suprimento. O Atlântico Sul reapareceu não como detalhe cartográfico, mas como componente material do funcionamento do comércio global.

A relevância da região não decorre de anexações territoriais ou confrontos convencionais. O que mudou foi a percepção de que rotas marítimas, infraestrutura portuária, seguros e coordenação naval são elementos centrais do poder contemporâneo. Território permanece essencial, mas sua eficácia estratégica está condicionada à capacidade de sustentar fluxos. Um espaço soberano que não consegue garantir circulação perde autonomia prática.

O exercício coordenado de marinhas sob a bandeira do BRICS no entorno do Cabo deve ser lido nesse contexto. Ele não inaugura guerra clássica nem altera fronteiras. Ele sinaliza que Estados do Sul Global passaram a considerar a proteção e a diversificação de corredores marítimos como parte explícita de sua estratégia. O Atlântico Sul voltou ao cálculo do poder porque integra as artérias que mantêm economias, energia e dados em movimento.

A partir desse ponto, a geopolítica deixa de ser apenas disputa por extensão territorial e passa a envolver a disputa por continuidade operacional. E é nesse deslocamento que o Atlântico Sul ganha centralidade emergente.

<><> Guerra por território, poder sobre fluxos

A disputa territorial não desapareceu do cenário internacional. Estados continuam protegendo fronteiras, defendendo zonas econômicas exclusivas e projetando força sobre espaços estratégicos. O que se transformou foi o modo como o poder se exerce sobre esses territórios. No século XXI, controlar o solo é insuficiente se não se controla a circulação que o atravessa.

A experiência recente é clara. Países que mantiveram sua integridade territorial intacta foram severamente afetados por restrições financeiras, bloqueios comerciais e sanções energéticas. A exclusão de sistemas internacionais de pagamento, o congelamento de ativos e a limitação de acesso a mercados demonstraram que é possível pressionar economias inteiras sem deslocar tropas. O território permaneceu soberano; os fluxos foram condicionados.

O mesmo ocorre no comércio marítimo. A dependência de seguradoras, bancos e corredores logísticos transforma rotas em instrumentos de poder. Quando riscos aumentam em um gargalo estratégico, como ocorreu no entorno do Canal de Suez, a elevação dos custos de seguro e o redirecionamento de embarcações impactam cadeias produtivas em escala global. Não houve ocupação militar de portos distantes. Houve ajuste nas condições de circulação.

Essa lógica redefine a própria noção de soberania. Um Estado pode exercer controle pleno sobre seu território e, ainda assim, ver sua capacidade de operar no sistema internacional reduzida se seus fluxos forem interrompidos ou encarecidos por decisões externas. A autonomia prática depende da integração estável a redes financeiras, energéticas e logísticas. No século XXI, poder é a capacidade de garantir continuidade quando outros enfrentam interrupção.

O Atlântico Sul insere-se nesse quadro como corredor capaz de funcionar como alternativa quando outros pontos se tornam vulneráveis. Sua relevância não substitui disputas territoriais tradicionais, mas as complementa. A capacidade de manter rotas abertas, diversificadas e protegidas passa a ser elemento estratégico equivalente à defesa de fronteiras. O poder contemporâneo combina controle territorial com gestão dos fluxos que dão vida a esse território.

<><> O Cabo como infraestrutura estratégica

O Cabo da Boa Esperança sempre figurou nos mapas do comércio mundial, mas sua importância tornou-se evidente quando a estabilidade de outros corredores foi questionada. Ao funcionar como alternativa ao Canal de Suez, ele conecta Ásia, Europa, África e Américas por uma rota mais longa, porém politicamente menos concentrada em um único gargalo. Quando embarcações optam por esse percurso, não estão apenas alterando distância. Estão recalculando risco.

Esse recálculo envolve prazos, contratos de fornecimento, custos de combustível, reajustes de seguro e decisões de financiamento. Cada navio que contorna o Cabo carrega consigo um encadeamento financeiro que ultrapassa o transporte físico de mercadorias. O Atlântico Sul deixa de ser espaço vazio entre continentes e passa a operar como infraestrutura que sustenta cadeias produtivas globais.

Além do comércio de bens, a região integra circuitos energéticos e digitais. Exportações de petróleo e gás da África e da América do Sul dependem de rotas atlânticas para alcançar mercados distantes. Cabos submarinos que cruzam o oceano sustentam comunicações, transações financeiras e operações empresariais. A estabilidade dessas linhas, visíveis ou invisíveis, é condição para o funcionamento da economia contemporânea.

Quando marinhas coordenam exercícios no entorno do Cabo, o gesto não pode ser reduzido a protocolo. Ele ocorre em uma zona que funciona como válvula de compensação em momentos de instabilidade sistêmica. Testar capacidade de presença e coordenação nessa rota significa reconhecer que sua proteção faz parte do cálculo estratégico. Não se trata de substituir outros eixos da geopolítica, mas de integrar o Atlântico Sul ao conjunto de corredores cuja continuidade influencia o equilíbrio global.

O Cabo tornou-se, assim, elemento de redundância em um sistema vulnerável a interrupções. Em vez de depender exclusivamente de um único gargalo, Estados passam a considerar alternativas operacionais. Essa mudança não altera mapas formais, mas altera prioridades estratégicas. Infraestrutura passa a ser tratada como extensão do território, e rotas marítimas como componente direto da soberania material.

<><> Redundância como resposta estratégica

Se a pressão contemporânea se exerce pela interrupção de fluxos, a resposta racional não é apenas confrontar quem interrompe, mas reduzir a vulnerabilidade estrutural. É nesse ponto que a redundância deixa de ser conceito técnico e passa a ser estratégia de Estado. Diversificar rotas, ampliar parceiros, criar mecanismos financeiros alternativos e coordenar presença em corredores críticos tornam-se formas de ampliar margem de manobra.

O exercício naval realizado sob a bandeira do BRICS no entorno do Cabo deve ser compreendido nessa lógica. Ele não anuncia confronto militar direto nem redefine fronteiras. O que indica é a disposição de grandes países do Sul Global de testar coordenação em uma rota estratégica que pode funcionar como alternativa em momentos de tensão. Ao operar juntos em um corredor sensível do comércio internacional, esses Estados ensaiam capacidade de proteção fora do circuito tradicionalmente dominante.

Movimentos semelhantes já aparecem em outras esferas. A ampliação de acordos comerciais em moedas locais, a criação de sistemas de liquidação financeira paralelos e a busca por novos arranjos energéticos são formas de construir redundância econômica. No plano marítimo, a coordenação em rotas alternativas cumpre papel equivalente. O objetivo não é controlar o sistema global, mas reduzir a possibilidade de bloqueio unilateral.

Essa estratégia altera o cálculo de poder. Quanto maior a diversidade de circuitos disponíveis, menor a eficácia de instrumentos que dependem de concentração. A capacidade de impor sanções ou condicionar acesso a mercados continua existindo, mas encontra limites quando alternativas ganham consistência. A redundância não elimina interdependências, mas redistribui vulnerabilidades.

O Atlântico Sul torna-se relevante porque integra essa arquitetura emergente. Sua função como corredor alternativo e espaço de coordenação revela que a disputa contemporânea não se esgota na posse de território. Ela envolve a capacidade de manter economias operando mesmo sob pressão. Construir redundância é, nesse contexto, forma de preservar soberania prática sem recorrer à escalada militar.

<><> A reação e o significado político

Se a movimentação no entorno do Cabo fosse apenas rotina operacional, dificilmente teria provocado questionamentos diplomáticos e debates públicos. O desconforto revela que o gesto foi interpretado como sinal político. Quando Estados que historicamente enfrentaram restrições financeiras ou comerciais passam a coordenar presença em um corredor estratégico, a mensagem vai além do exercício técnico. Ela sugere busca por autonomia operacional.

Nas últimas décadas, instrumentos econômicos tornaram-se ferramentas centrais de pressão. Congelamento de ativos, exclusão de sistemas de pagamento, restrições a exportações estratégicas e condicionamento de seguros marítimos mostraram que a integração aos fluxos globais pode ser modulada por decisões concentradas. Países afetados por essas medidas mantiveram seus territórios, mas viram sua capacidade de operar no comércio internacional ser comprimida.

Nesse contexto, qualquer movimento que amplie alternativas logísticas e financeiras tende a ser observado com cautela por quem detém instrumentos de condicionamento. A coordenação naval no Atlântico Sul foi lida como parte desse processo mais amplo. O debate não girou em torno de ameaça militar direta, mas sobre o significado de novos atores se posicionarem como capazes de proteger e organizar corredores estratégicos.

A reação indica que o controle dos fluxos permanece no centro da disputa internacional. A legitimidade para garantir segurança marítima, facilitar comércio e moldar regras de circulação não é neutra. Ela confere influência política e econômica duradoura. Quando essa prerrogativa deixa de ser monopolizada por um único eixo, o equilíbrio simbólico se altera.

O Atlântico Sul entra, assim, em uma arena onde infraestrutura e política se entrelaçam. A disputa não é apenas sobre presença naval, mas sobre quem participa da definição das condições sob as quais a circulação global ocorre. A sensibilidade diante de exercícios na região confirma que sua relevância deixou de ser periférica e passou a integrar o núcleo das decisões estratégicas.

<><> O Brasil diante da escolha

Para o Brasil, essa transformação não é abstrata. O país depende do mar para sustentar sua inserção internacional. Exportações de minério, soja, petróleo e manufaturados seguem majoritariamente por rotas atlânticas. Alterações nos custos de navegação, nos prêmios de seguro ou nas condições financeiras que viabilizam o comércio impactam diretamente arrecadação, emprego e estabilidade macroeconômica. A soberania formal do território brasileiro pouco significa se sua capacidade de circulação for restringida.

Além do comércio físico, o Brasil integra redes digitais que atravessam o Atlântico por cabos submarinos. Transações financeiras, comunicação empresarial e fluxos de dados governamentais dependem dessa infraestrutura. A proteção e a diversificação desses corredores não são temas técnicos secundários. São componentes da autonomia decisória do Estado. Em um ambiente no qual pressões econômicas podem produzir efeitos comparáveis aos de um bloqueio militar, garantir continuidade torna-se imperativo estratégico.

A coordenação no entorno do Cabo coloca o país diante de uma escolha. Permanecer como espaço geográfico atravessado por fluxos definidos externamente ou participar ativamente da construção de alternativas que ampliem sua margem de manobra. A tradição diplomática brasileira valoriza o Atlântico Sul como zona de cooperação e estabilidade. Essa tradição pode ser atualizada para incorporar a dimensão logística que hoje condiciona soberania.

Assumir papel mais ativo não implica adesão automática a confrontos ou abandono de compromissos multilaterais. Significa reconhecer que, em um sistema marcado por sanções e tensões comerciais, depender de um único circuito amplia vulnerabilidades. A articulação regional, a diversificação de parcerias e o investimento em infraestrutura própria são caminhos para reduzir exposição a interrupções externas.

O Brasil não controla os principais sistemas financeiros globais nem os maiores conglomerados de seguro marítimo. Sua vantagem está na capacidade de combinar dimensão territorial, recursos naturais e posição geográfica para participar da definição das regras que organizam o Atlântico Sul. Ignorar essa possibilidade equivale a aceitar que decisões fundamentais sobre sua circulação sejam tomadas fora de sua influência. Em um mundo onde poder se exerce pela gestão dos fluxos, essa escolha define o grau real de soberania.

<><> O que está sendo decidido

O debate em torno do Atlântico Sul não se limita a exercícios navais ou a disputas diplomáticas pontuais. O que está sendo decidido é quem terá condições de manter economias funcionando quando pressões se intensificam. O poder contemporâneo não se expressa apenas pela capacidade de ocupar território, mas pela aptidão para preservar circulação sob risco.

Nos últimos anos, ficou evidente que sistemas financeiros podem ser restringidos, exportações estratégicas podem ser condicionadas e rotas marítimas podem se tornar mais onerosas por razões políticas. Essas medidas não redesenham fronteiras no mapa, mas alteram a hierarquia real de poder. Países com alternativas operacionais suportam melhor os choques. Países excessivamente dependentes de um único circuito tornam-se vulneráveis a decisões externas.

O Atlântico Sul entrou nesse cálculo porque oferece margem de diversificação em um sistema concentrado em poucos gargalos. Sua importância não deriva de substituição absoluta de outros eixos, mas de sua capacidade de funcionar como componente de redundância em uma rede global tensionada. Ao integrar-se ao núcleo da discussão sobre fluxos, a região passa a influenciar estratégias de Estados que buscam reduzir vulnerabilidades sem recorrer a confrontos diretos.

Essa transição não se formaliza em declarações solenes. Ela se consolida à medida que rotas alternativas ganham uso, mecanismos financeiros paralelos se expandem e cooperações regionais se aprofundam. O mapa do poder muda quando infraestrutura muda. E infraestrutura muda quando Estados decidem investir na proteção e na diversificação de suas artérias econômicas.

O Atlântico Sul tornou-se parte desse processo porque conecta continentes, energia e dados. Sua centralidade emergente não substitui outras disputas geopolíticas, mas adiciona uma camada decisiva à forma como o poder é exercido. No século XXI, soberania não se mede apenas pela extensão territorial, mas pela capacidade de manter fluxos ativos diante de interrupções calculadas. É nesse terreno que a disputa atual se desenrola, silenciosa e estrutural.

<><> A disputa pelas artérias do sistema

O que emerge dessa reconfiguração é uma constatação simples e decisiva. O poder global passou a depender menos da ocupação direta de espaços e mais da gestão das artérias que mantêm o sistema em funcionamento. Controlar ou diversificar rotas marítimas, sistemas financeiros, cadeias energéticas e infraestrutura digital tornou-se equivalente a exercer influência estratégica duradoura.

O Atlântico Sul entra nesse quadro porque conecta economias que produzem recursos essenciais e mercados que os consomem. Ele não substitui outros eixos de poder, mas integra o conjunto de corredores cuja estabilidade influencia decisões globais. Quando Estados coordenam presença nesse espaço, não estão apenas realizando exercícios militares. Estão sinalizando que compreendem a lógica de uma disputa que se dá sobre continuidade e não apenas sobre território.

Essa mudança altera a forma como soberania é exercida. Países que investem em redundância logística e financeira ampliam sua capacidade de resistir a pressões externas. Aqueles que permanecem dependentes de um único circuito mantêm integridade formal, mas operam sob risco constante de interrupção. A geopolítica do século XXI não elimina a importância das fronteiras, mas a subordina à capacidade de manter fluxos ativos.

Para o Brasil e para os demais países banhados pelo Atlântico Sul, a questão é clara. Participar da definição das regras que organizam esse corredor ou aceitar que elas sejam determinadas por centros externos. A resposta a essa pergunta definirá o grau de autonomia real nas próximas décadas.

O mundo não está diante de uma guerra convencional no Atlântico Sul, mas de algo mais profundo. Está diante de uma disputa estrutural sobre quem administra, protege e diversifica as artérias do comércio global. Quando essas artérias entram em disputa, o mapa do poder começa a se deslocar. E é nesse deslocamento que o Atlântico Sul passou a contar.

<><> O deslocamento estrutural

A reorganização do poder global não será proclamada por tratados nem anunciada por confrontos diretos. Ela já se manifesta na forma como Estados recalculam risco, protegem corredores estratégicos e constroem alternativas para reduzir sua exposição a interrupções. O território continua central, mas sua eficácia depende da capacidade de manter fluxos ativos sob pressão. O Atlântico Sul integra esse novo cálculo porque conecta energia, comércio e infraestrutura digital em um sistema cada vez mais tensionado. A disputa contemporânea não elimina fronteiras, mas redefine seu valor estratégico. Soberania, hoje, significa capacidade de circulação. Quem entender essa mudança ampliará sua margem de manobra. Quem a ignorar permanecerá formalmente soberano e operacionalmente vulnerável.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon Gonçalves, em Brasil 247