As
raízes vermelhas do neoliberalismo brasileiro
A
história do PT costuma ser contada a partir de uma ruptura com suas origens.
Para seus críticos à esquerda, essa ruptura teria sido uma traição; para seu
campo majoritário, um amadurecimento imposto pela democracia, pela correlação
de forças e pelas responsabilidades de governo. Em ambas as versões, o partido
teria nascido socialista, operário e radical e se transformado à medida que se
aproximava do poder. A Carta ao Povo Brasileiro seria o momento simbólico dessa
passagem: conversão, para uns; realismo, para outros.
As duas
explicações preservam a pureza do passado, traída em uma, superada na outra.
Mas talvez seja mais correto inverter a pergunta. Em vez de procurar o momento
em que o PT abandonou suas origens, é preciso identificar o que havia nessas
origens que já anunciava sua transformação no braço esquerdo do neoliberalismo
brasileiro. O papel do lulismo esteve longe de ser secundário. Afinal, ao longo
de três décadas dessa ordem, ocupou a Presidência por mais da metade do tempo.
A
literatura costuma apontar três matrizes principais na formação do partido: o
novo sindicalismo do ABC, a esquerda católica ligada à Teologia da Libertação e
a intelectualidade paulista. A elas se somaram estudantes radicalizados,
egressos da luta armada, organizações trotskistas, novos movimentos sociais e a
corrente pragmática reunida em torno de Lula. A partir dos aportes dessas
matrizes e dos demais componentes da formação petista, é possível identificar
seis raízes que ajudam a explicar sua práxis posterior. O neoliberalismo não
foi posteriormente enxertado nessa árvore. Seus germes já estavam nessa
combinação.
A
primeira raiz foi o “operário da multinacional”. O novo sindicalismo rompeu com
a tutela estatal, enfrentou o patronato e recolocou o trabalhador industrial no
centro da política. Mas sua combatividade se formou no interior das grandes
montadoras estrangeiras do ABC, num ambiente em que a internacionalização da
produção já aparecia como horizonte natural da economia. Lutava-se contra o
patrão dentro da multinacional; foi essa experiência do conflito, e não uma
crítica à inserção dependente do país, que o novo sindicalismo levou ao PT.
A
dimensão internacional ocupava o lugar da questão nacional. A solidariedade
entre trabalhadores, a circulação das empresas e a integração produtiva eram
percebidas em escala mundial, enquanto propriedade estrangeira, remessa de
lucros, controle tecnológico, balanço de pagamentos e soberania econômica
permaneciam marginais. O capital podia ser combatido como relação entre patrão
e empregado sem ser enfrentado como poder internacional organizado sobre uma
economia dependente.
Essa
separação seria decisiva. O novo sindicalismo ensinou o PT a disputar salários,
direitos e participação nos resultados sem necessariamente disputar o controle
nacional da produção. A mesa de negociação da fábrica foi ampliada até se
tornar uma teoria geral da política: Lula conversa com trabalhadores,
banqueiros, multinacionais e investidores estrangeiros, oferece garantias e
procura distribuir parte dos ganhos sem alterar a estrutura que organiza o
poder.
Essa
disposição aproximava o partido de um dos fundamentos do neoliberalismo que se
afirmaria nas décadas seguintes: a economia mundial tratada como campo
inevitável, marcado pela livre circulação do capital, pelas cadeias
internacionais e pela primazia dos fluxos financeiros, enquanto o Estado
nacional perdia legitimidade como instrumento de direção econômica. A
integração internacional era aceita como realidade; a dependência deixava de
ser formulada como problema político central.
A
identidade atribuída ao operariado do ABC foi, assim, mais radical do que sua
práxis. Por ocupar o coração industrial do país, ele foi elevado a sujeito
histórico e vanguarda revolucionária, embora sua ação permanecesse concentrada
na negociação dentro de uma estrutura produtiva estrangeirizada.
Quando
a desindustrialização dissolveu essa base social, o lulismo preservou sua
fotografia. O operário desapareceu como força pública organizada e retornou
como memória do partido e biografia de Lula. A classe deixou de organizar a
política; sua identidade passou a legitimar o líder.
A
segunda raiz foi “o pobrismo”. As comunidades eclesiais de base contribuíram
para organizar os setores populares e resistir à ditadura. Mas também ajudaram
a transformar o pobre em fundamento moral da política. A pobreza deixou de ser
apenas uma condição a superar e passou a conferir autenticidade, autoridade e
pureza.
O
trabalhador remete à produção, ao conflito entre capital e trabalho, à
organização coletiva e aos direitos universais. O pobre remete à carência, ao
cadastro, ao benefício e à proteção focalizada. A passagem de um sujeito ao
outro antecipou a política social do lulismo: financismo no comando da economia
e pobrismo na administração de suas consequências.
O
pobrismo, como Mangabeira Unger denomina o complemento social do financismo
brasileiro, não significa preocupar-se demais com os pobres, mas ambicionar
pouco demais para eles e para o país. Em vez de reorganizar a produção,
universalizar o trabalho protegido e construir autonomia material, protege-se o
pobre em sua condição e formaliza-se a precariedade como empreendedorismo. O
Microempreendedor Individual, criado em 2008, sintetiza essa racionalidade: em
vez de reconhecer plenamente o trabalhador autônomo como trabalhador, constrói
juridicamente uma empresa ao redor dele.
O
pobrismo também organiza um Estado de baixa ambição. Diante de problemas
estruturais, o governo cria um programa, uma linha de crédito, um edital, uma
parceria. Financia sem comandar, fomenta sem organizar e contrata sem construir
capacidade própria. É o Estado do puxadinho, cuja mediocridade não consiste em
nada fazer, mas em fazer milhares de pequenas coisas sem produzir transformação
histórica.
Na
política de cultura, a pulverização dos recursos é chamada de capilaridade.
Cada território recebe um pouco, cada grupo executa um projeto, cada
organização disputa seu edital. Universaliza-se o pequeno projeto precário, não
o acesso às grandes instituições. O pobre recebe uma sala multifuncional,
algumas oficinas e o dever de representar sua origem, não o melhor museu, a
melhor biblioteca ou a melhor escola de artes que o país poderia construir.
A
instituição permanente que o Estado não constrói produziria história; o projeto
que financia produz um evento.
O mesmo
pobrismo aparece na conversão da favela em identidade cultural. A favela não é
uma cultura, mas uma forma urbana da desigualdade. Seus moradores podem
produzir obras extraordinárias, que valem por aquilo que são, não pelo rótulo
“favelado” ou “periférico”.
Transformar
a privação territorial em autenticidade, marca e nicho de financiamento não
emancipa seus habitantes. “A favela venceu” é a fórmula perfeita de uma ordem
que desistiu de fazer a favela acabar. Aquilo que uma reforma estrutural
deveria superar, o pobrismo administra e o identitarismo celebra.
A
terceira raiz foi “a nova locomotiva paulista”. A intelectualidade ligada à USP
forneceu ao PT boa parte de seu vocabulário sobre autoritarismo, populismo,
patrimonialismo, corporativismo e sociedade civil. Críticas dirigidas a
problemas reais acabaram compondo uma interpretação na qual o Estado
concentrava todas as patologias. O grande capital aparecia como poder
concentrado, mas o mercado desaparecia como relação social de poder.
O
Estado tinha interesses; o mercado parecia ter apenas mecanismos. O trabalhismo
foi reduzido a populismo, tutela e conciliação de classes, enquanto o
planejamento estatal e o nacional-desenvolvimentismo eram desqualificados como
formas estatizantes, centralizadoras e autoritárias de modernização pelo alto.
O PT
não apenas deixou de fazer da construção de um projeto nacional o princípio
organizador de sua estratégia; constituiu-se em ruptura com as tradições
trabalhista e nacional-desenvolvimentista que haviam transformado a questão
nacional em industrialização, construção do Estado e incorporação social dos
trabalhadores.
Há
nisso uma homologia com 1932. Na antiga ideologia paulista, São Paulo era a
locomotiva moderna diante de um Brasil atrasado, e o Estado nacional limitava
seu dinamismo. Na tradução petista, o sujeito portador da modernidade deixou de
ser o barão do café ou o industrial tradicional e passou a ser o operário do
ABC, acompanhado pelo intelectual da USP. São Paulo continuava a ser o centro
dinâmico do país e o palco decisivo da luta de classes: concentrava o grande
capital, a vanguarda operária e a interpretação autorizada do conflito.
Lula
completa essa narrativa: o retirante nordestino torna-se sujeito político
quando ingressa no mundo industrial paulista. O Nordeste fornece o pobre; São
Paulo o transforma em trabalhador moderno. A velha locomotiva ganhou uma
tripulação vermelha.
Essa
intelectualidade também legou uma relação profundamente negativa com a história
brasileira. O passado nacional foi reduzido a uma sucessão de escravidão,
oligarquia, racismo, autoritarismo, patrimonialismo e barbárie. Quem não
encontra na história nenhuma herança utilizável dificilmente imagina algo
grandioso para construir em nome do país. A crítica necessária ao passado
converteu-se em desprezo pela história comum e incapacidade de projetar o
futuro.
A
quarta raiz foi “a revolução contra as reformas”. Estudantes, antigos
militantes da luta armada, marxistas revolucionários e correntes trotskistas
trouxeram ao PT a cultura da ruptura e a rejeição do reformismo. As
reivindicações imediatas podiam ser apoiadas, mas as transformações estruturais
verdadeiras eram remetidas à superação do capitalismo.
O PT
não foi uma social-democracia que posteriormente abandonou as reformas. Nasceu
denunciando o reformismo e colocando-se à esquerda dele. O problema apareceu
quando a revolução deixou de existir como estratégia concreta. As reformas
haviam sido concebidas sobretudo como acúmulo para a ruptura, não como um
projeto histórico autônomo capaz de ocupar seu lugar.
Quem
considera as reformas impossíveis sem a revolução acaba, enquanto a revolução
não chega, administrando aquilo que existe. O socialismo permaneceu no
horizonte e nos símbolos. No presente, restaram a administração das
vulnerabilidades e a aceitação da estrutura econômica: radicalismo no discurso,
melhorismo na política social e neoliberalismo na organização da economia.
O
radicalismo não contradiz materialmente essa práxis. Ele a legitima. Preserva a
identidade da esquerda, mantém a militância vinculada e apresenta cada
concessão como tática temporária de uma transformação sempre futura. O
socialismo inalcançável permite ao partido ser absolutamente realista no
presente.
A
quinta raiz foi “a autonomia contra o Estado”. Autonomia sindical, autonomia
das bases, autonomia dos movimentos, descentralização, sociedade civil e órgãos
independentes respondiam inicialmente à ditadura, à tutela e ao centralismo
burocrático. Transformadas em princípio geral, porém, fragmentaram a soberania
e corroeram a capacidade de direção nacional.
Uma das
vertentes dessa cultura autonomista já apontava diretamente para a futura ordem
neoliberal. Na Constituinte de 1988, petistas propuseram um Banco Central
autônomo e mandatos fixos para seus dirigentes.
O PT
nasceu desconfiando do Estado como centro de direção e celebrando a autonomia
das partes. O neoliberalismo fez dessa desconfiança uma arquitetura de governo.
Surge
daí um estatismo teleológico e um antiestatismo prático. O Estado forte está
reservado ao socialismo futuro; o Estado realmente existente é considerado
patrimonial, burocrático, cooptador e suspeito. Ele pode gastar muito sem
construir capacidade pública, limitando-se a financiar, regular, contratar e
repassar recursos para empresas, associações, fundações e organizações sociais.
O
privado empresarial aparece como interesse; o privado associativo, como
participação. A sociedade civil petista não superou a privatização.
Ofereceu-lhe uma linguagem moralmente aceitável para a esquerda.
O
edital tornou-se a unidade administrativa desse antiestatismo: o Estado
pulveriza recursos, terceiriza a execução e dispersa a responsabilidade. Na
participação social, a lógica é semelhante. Conselhos e conferências discutem
políticas setoriais, enquanto juros, moeda, propriedade e estrutura produtiva
permanecem protegidos no topo. A participação desce aos conselhos enquanto o
poder sobe para a macroeconomia.
A sexta
raiz foi “o partido das bases e o poder do chefe”. O PT nasceu exaltando a
democracia interna, a pluralidade de tendências e a organização popular.
Tornou-se concentrado numa liderança pessoal cuja origem social vale mais do
que sua práxis.
Lula
tornou-se simultaneamente operário, pobre, retirante, mediador entre classes,
patrimônio eleitoral e encarnação da esquerda. Sua biografia passou a funcionar
como programa. Não importa apenas o que faz, mas quem foi. O identitarismo
começa em casa.
Essa
centralidade produziu um monopólio do pragmatismo. Alianças e concessões
condenadas em outras forças transformam-se, em Lula, em genialidade política.
Ao mesmo tempo, o partido desenvolveu uma pedagogia de desmobilização: o povo
vota, os movimentos apoiam e o líder negocia. Pressionar o governo pode ajudar
a direita; construir força autônoma pode ameaçar a unidade.
Se o
capital calcula, os pobres sofrem e Lula negocia, a mobilização popular
torna-se dispensável. O partido que nasceu para devolver a política às bases
terminou ensinando às bases que deveriam esperar o chefe negociar por elas.
A
combinação dessas seis raízes encontra sua forma cultural mais acabada no
“identitarismo”. Não se trata da luta contra o racismo, o machismo ou a
homofobia, mas da ideologia que reorganiza as lutas em torno da essência
identitária, da autoridade da experiência, da representação e da superioridade
moral atribuída à condição de vítima.
O
identitarismo não é uma distração externa ao neoliberalismo. É sua cultura
progressista. A igualdade cede lugar à diversidade, a transformação à
representação e a universalização ao reconhecimento. A pirâmide não é
derrubada; passa a ser julgada pela diversidade de quem consegue subir.
A elite
paulista participou da difusão do identitarismo por seus diferentes braços.
Funcionou como antena das agendas produzidas sobretudo nos Estados Unidos e no
circuito acadêmico e cultural anglo-saxão, importando-as e reproduzindo-as no
Brasil sem submetê-las ao crivo da história e das estruturas nacionais.
A
universidade forneceu conceitos e especialistas; as ONGs, militantes e
projetos; os meios culturais, prestígio e visibilidade; o capital financeiro,
fundações, editais e recursos. Não se tratou de uma insurgência externa contra
o poder econômico, mas da formação de uma cultura progressista perfeitamente
assimilável e ativamente promovida por ele. A velha locomotiva, que nunca
oferecera ao Brasil um projeto nacional, passou a financiar os vocabulários
pelos quais a fragmentação neoliberal podia ser apresentada como emancipação.
O
identitarismo também aprofunda a desmobilização. Seu horizonte deixa de ser
abolir as relações de opressão e passa a mudar quem ocupa seus polos: trocam-se
os ocupantes; preserva-se a estrutura. Em vez de organizar interesses comuns,
distribui posições de fala, fiscaliza pertencimentos e decompõe a sociedade em
sujeitos que competem por reconhecimento, recursos e autoridade de vítima.
A
revolução é substituída pela busca interminável de uma representatividade
reparadora, e a fragmentação social produzida pelo neoliberalismo retorna como
princípio de organização da esquerda.
No
campo lulista, o identitarismo é a política simbólica das reformas estruturais
que nunca viriam. O partido incorporou os sujeitos das reformas mais
profundamente do que incorporou as próprias reformas: os sem-terra sem reforma
agrária, os moradores das periferias sem reforma urbana, os sindicatos sem
universalização do trabalho protegido e os grupos discriminados sem
democratização do poder econômico.
A
classe operária, esvaziada como força material pela desindustrialização,
retorna como memória e vanguarda imaginária. As reformas ausentes retornam como
reconhecimento. Os movimentos incorporados sem seus projetos retornam como
identidades.
O
resultado pode ser resumido em quatro termos: financismo no comando, pobrismo
na política social, editalismo na execução e identitarismo na legitimação. O
financismo protege o topo, o pobrismo administra a base, o editalismo pulveriza
a ação estatal e o identitarismo rebatiza a fragmentação e a precariedade como
diversidade.
O PT
não foi uma esquerda reformista que simplesmente se tornou neoliberal. Foi uma
esquerda anti-reformista que, sem revolução, encontrou no neoliberalismo a
forma de governar o presente e no identitarismo a forma de conservar sua
radicalidade simbólica.
A força
e a perenidade do neoliberalismo brasileiro não se explicam apesar do PT:
explicam-se também por meio dele. O partido não apenas administrou uma ordem
recebida, mas ajudou a construí-la, reproduzi-la e revesti-la de legitimidade
popular. A bandeira permaneceu vermelha porque o vermelho não era apenas uma
máscara, mas parte do mecanismo que permitia ao neoliberalismo governar pela
esquerda sem ser reconhecido como neoliberal.
O
lulismo não traiu simplesmente suas raízes. Foi a síntese delas.
Fonte:
Por Eduardo Luiz Zen, em A Terrra é Redonda




