segunda-feira, 15 de junho de 2026


 

Marcos Antonio da Silva Filho: A disputa pelo significado

A cena política contemporânea parece presa a um paradoxo. Nunca tivemos tantos dados, gráficos, estudos, checagens e diagnósticos sofisticados circulando publicamente e, ainda assim, setores progressistas seguem acumulando derrotas estratégicas importantes.

A extrema direita avança em corações e mente, com vitórias eleitorais acachapantes, ocupa imaginários, reorganiza afetos e impõe sua agenda, pauta o debate enquanto parte significativa da esquerda permanece aprisionada a uma imagem liberal da política e da modernidade europeia, baseada no convencimento racional e na imagem segundo a qual o melhor argumento, sustentado por evidências empíricas, melhores razões e boa-fé racional, acabaria prevalecendo.

O problema é que a disputa política contemporânea não ocorre no plano dos argumentos, dos fatos e dos dados. Ela ocorre, sobretudo, no plano das normas que organizam o próprio significado dos fatos, ou seja, no plano da gramática que articula o significado e os critérios pelos quais avaliamos fatos.

Essa percepção torna-se particularmente visível quando observamos o crescimento do trumpismo, do bolsonarismo, da extrema direita na europa e em paíse vizinhos como na Argentina, Chile ou Paraguai e do colapso progressivo do direito internacional liberal, especialmente no papel da ONU frente a tantos massacres, especialmente na Palestina. Há uma tendência recorrente em setores progressistas de interpretar esses fenômenos como efeitos de ignorância, manipulação, mau-caratismo de alguns indivíduos ou desinformação.

Essa leitura é confortável, mas insuficiente. Existe uma parcela expressiva da base da extrema direita que se reconhece positivamente em discursos de força, autoridade, hierarquia, conflito e supremacia. Em muitos casos, trata-se de uma moral guerreira rudimentar, mas politicamente eficaz, que recupera elementos da crítica de Friedrich Nietzsche à moral dos fracos, agora traduzidos em linguagem reacionária. Isso não significa aderir a Nietzsche politicamente, mas reconhecer que reduzir o fenômeno ao erro epistêmico ou cognitivo impede compreender sua força afetiva e normativa, ou, em uma palavra, gramatical.

A extrema direita não disputa crenças empíricas ou dados científicos. Ela disputa critérios que organizam normativamente reconhecimento, autoridade, valores e pertencimento. Em outras palavras, disputa a gramática. Duvidar que a terra é redonda, não é duvidar de um fato, é desafiar a gramática da ciência, da evidência, do ocidente, da negociação, da simetria, do convencimento pelo melhor argumento.

Robert Fogelin, em seu clássico texto sobre desacordos profundos (1985), mostrou que certos conflitos não se organizam em torno de conclusões distintas sobre os mesmos dados, mas em torno de desacordos sobre o que conta como evidência, argumento legítimo, valor relevante, ou mesmo, o que conta como fato. Nesses casos, mais dados não resolvem o impasse, porque os próprios critérios de avaliação estão em disputa.

A divergência não é apenas factual. Ela é gramatical, entre imagens de mundo distintas que organizam os critérios e valores pelos quais avaliamos fatos básicos de nosso cotidiano. Depois que uma gramática está consolidada, os procedimentos estão acordados, os critérios estão claros, a determinação de verdade (ou falsidade) é algo sem importância filosófica maior. Mas se a própria gramática articula o significado de procedimentos e o seu valor estiver em dúvida, ou sob ataque, como determinar a verdade?

Essa intuição já estava presente em Ludwig Wittgenstein, especialmente em Sobre a certeza (1969). Ludwig Wittgenstein mostrou que nossas práticas cotidianas repousam sobre certezas fulcrais, isto é, crenças implícitas que não funcionam como hipóteses empíricas comuns, mas como dobradiças normativas, eixos conceituais que estruturam o sentido de nossas práticas mais básicas e cotidianas.

Essas certezas não são e não precisam ser continuamente verificadas. Elas são herdadas socialmente quando somos inseridos nos jogos de linguagem mais cotidianos e organizam o que conta como prova, autoridade, racionalidade, evidência, obviedade e absurdo. Certezas fulcrais são o ponto de apoio tácito de onde partimos para avaliar fatos e todo o resto (XAVIER e SILVA, 2023). É o eixo implícito herdado que articula tudo que é explícito (ou explicitável).

É precisamente aqui que a disputa política contemporânea precisa ser recolocada. A esquerda frequentemente insiste em disputar fatos quando o conflito político ocorre em torno das regras que organizam o significado dos fatos e os critérios pelos quais os avaliamos. A esquerda liberal insiste em apresentar evidências empíricas para sujeitos que operam a partir de gramáticas normativas distintas. Age como se estivéssemos em uma ágora iluminista simétrica, quando jamais houve simetria de poder, acesso, recursos ou reconhecimento.

Isso não significa abandonar a verdade ou aderir ao relativismo. A mentira corrói vínculos sociais e destrói condições mínimas de confiança coletiva. O problema é outro. O problema é imaginar que a política possa ser reduzida à pedagogia racional (e moral) de indivíduos isolados. Política é também estratégia, organização, correlação de forças, disputa institucional, ocupação de espaços e reorganização das condições normativas que estruturam os nossos jogos de linguagem, a nossa gramática. O que vamos fazer com as regras implícitas dos nossos jogos?

O jogo da racialização existe muito antes de mim, não depende do meu gosto ou de meus desejos, mesmo que eu não queira jogar, o jogo vai continuar operativo, sendo jogado através de mim, por mim, contra mim. Como tomar as regras do jogo? Se César for o senhor da gramática, como tomar do César a sua gramática?

É nesse contexto que proponho compreender a política contemporânea a partir do conceito de soberania gramatical (Silva, 2026). Por soberania gramatical entendo a capacidade coletiva de explicitar, disputar, sustentar e transformar as regras que organizam o significado de nossas práticas regradas: se um assenhoramento crítico das regras de nossos jogos de linguagem.

Não se trata de decidir arbitrariamente o significado de palavras, mas de disputar as inferências materiais que organizam os conceitos de nossos jogos de linguagem, e os critérios que articulam reconhecimento, autoridade, legitimidade e pertencimento em nossas práticas cotidianas. Em outras palavras, soberania gramatical designa autodeterminação normativa de nossos jogos de linguagem, ou seja, uma política de disputa pela gramática.

Inspirada em ferramentas conceituais de Wittgenstein (1969) e Robert Brandom (1994, 2000), essa perspectiva neopragmatista parte da ideia de que linguagem não é apenas representação do mundo, mas prática normativa. O significado de nossos conceitos mais básicos não é uma essência escondida nas coisas nem uma entidade mental privada. Significado é uso socialmente organizado por inferências materiais, autorizações e proibições (Silva, 2026).

Quando dizemos “democracia”, “violência”, “terrorismo”, “família”, “liberdade” ou “civilização”, não estamos designando coisas no mundo para descrever fatos. Estamos ativando redes inferenciais historicamente sedimentadas que organizam modos de agir, sentir, justificar, incluir, excluir e punir.

Isso se torna particularmente evidente em certos conflitos contemporâneos, como no debate recente sobre a privatização dos rios do Pará. O que estava em disputa ali não era apenas uma decisão técnica sobre economia e gestão hídrica, mas um choque normativo entre formas de vida: se disputava a própria gramática através da qual o rio deve ser compreendido. Para uma gramática colonial e extrativista, o rio aparece como recurso, infraestrutura, uma mercadoria ou ativo econômico. Para populações ribeirinhas, indígenas e comunidades tradicionais, o rio é território vivido, memória, ancestralidade, sustento e forma de existência. Temos aqui um conflito entre gramáticas, e não apenas econômico ou social.

Não se trata de relativismo. Trata-se de reconhecer que jogos de linguagem emergem de formas de vida situadas, organizadas por necessidades materiais, valores, afetos e práticas específicas (Silva, Xavier, Andrade, 2026). A extrema direita compreendeu algo decisivo que parte da esquerda ainda resiste em admitir: jogos de linguagem possuem fulcros. Jogos de linguagem não são rizomas. Nossas práticas cotidianas possuem eixos normativos que organizam grande quantidade de inferências matérias, critérios, normas e estabilizam historicamente práticas coletivas inteiras.

Esses fulcros possuem alta densidade inferencial e enorme inércia normativa. Uma vez estabilizados, tornam-se normativa e psicologicamente protegidos. Questioná-los produz desconforto, ressentimento e reações violentas. Não porque sejam logicamente irrefutáveis, ou necessidades metafísicas, mas porque articulam e fixam o significado de coisas muito básicas, como identidades, pertencimentos e formas de vida inteiras. A cisgeneridade, por exemplo, opera muitas vezes como certeza fulcral de muitos jogos de linguagem. A branquitude também. O individualismo liberal igualmente. O mesmo vale para certas concepções de racionalidade, propriedade, progresso e civilização herdadas do colonialismo europeu.

Esses fulcros ou eixos normativos de nossas práticas regradas cotidianas não são derrotados simplesmente por demonstrações empíricas, ou pela apresentação de mais dados e mais gráficos. Eles precisam ser desafiados e deslocados por pressão coletiva, reorganização institucional, transformação material e disputa de gramáticas. É aqui que entra aquilo que tenho chamado de alavancagem gramatical (SILVA, 2026b; SILVA, 2026c).

Inspirado em um modelo expressivista, inferencialista e neopragmatista periférico, propomos pensar a política como intervenção estratégica sobre fulcros normativos (SILVA, XAVIER, ANDRADE, 2026). Uma alavanca só produz deslocamento porque encontra um ponto de apoio adequado. O mesmo ocorre na política. Uma estrutura muito maior que nós pode ser deslocada com a força coletiva correta, no ponto fulcral correto, com a alavanca correta. Existem conceitos, imagens e práticas capazes de produzir fissuras em gramáticas aparentemente estáveis. Chamo esse processo de epifania gramatical (Silva, 2026).

Uma epifania gramatical pode ser provocada. Ativistas encontram fulcros em nossas formas de vida e os desafiam. A epifania de encontrar novos caminhos numa gramática antiga, ocorre quando um jogo de linguagem que parecia natural, necessário e inevitável passa a ser percebido como histórico, contingente e, por tanto, transformável. A epifania, como a percepção de novas possibilidades, pode surgir de múltiplas formas.

Quando alguém percebe um novo caminho dentro do caminho cotidiano que sempre percorreu. Quando sujeitos historicamente isolados passam a se reconhecer como parte de um grupo ou de uma classe. Quando o velho caminho de vergonha se transforma em orgulho (orgulho gay, orgulho trans, orgulho negro etc.). Quando o impossível começa a parecer possível. Quando aquilo que se apresentava como universal revela-se apenas uma perspectiva entre outras, como a branquitude.

Ativistas, artistas, filósofos e movimentos populares frequentemente operam exatamente nesse nível. Produzem epifanias gramaticais, rachaduras no campo do possível. Expandem o espaço lógico de uma comunidade. Desafiam gramáticas naturalizadas. Mostram que podemos tomar a gramática do César. É isso que explica o profundo desconforto gerado por movimentos antirracistas, transfeministas, indígenas ou quilombolas. Eles não ameaçam apenas opiniões individuais. Eles pressionam os fulcros normativos que organizam gramáticas inteiras.

Nesse ponto, torna-se fundamental distinguir perspectivas.

Jogos de linguagem assim como nichos ecológicos possuem perspectivas, afinal o meio em que estamos proporciona oportunidades de ação diferentes de acordo com nossas histórias, e nossas perspectivas. O predador e a presa não habitam o mesmo mundo normativo, ainda que ocupem o mesmo espaço físico. Assim como o opressor e o oprimido. Uma pedra no caminho oferece um bom exemplo para compreender essa dinâmica. Ela é um fenômeno objetivo. Mas ela não possui um único significado universal inscrito nela mesma. Dependendo do nicho ecológico e da perspectiva situada no jogo de linguagem, uma pedra pode funcionar como abrigo, como obstáculo, como arma, como ferramenta, como ameaça ou como refúgio.

Malcolm X compreendeu isso de maneira radical. Seu rompimento com o integracionismo liberal não era simples radicalização retórica. Era percepção de assimetria estrutural de perspectivas antagonicas em jogos de linguagem e práticas injustas. Malcolm recusava a ideia de que negros deveriam implorar reconhecimento ao opressor. Sua crítica ao “Uncle Tom” apontava precisamente para o sujeito que internaliza a gramática dominante e passa a protegê-la mesmo quando ela organiza sua própria subordinação.

Uncle Tom é um vassalo gramatical trabalhando para que a gramática de opressão seja aceita e reproduzida. A questão para Malcolm X não era apenas direitos civis. Era autodeterminação. Era disputa de poder. Era recusa do assimilacionismo. Era soberania gramatical (Silva, 2026c).

Essa discussão se aproxima profundamente da leitura de Clóvis Moura sobre o Quilombo dos Palmares (2022). Na interpretação de Moura, Palmares não foi mero refúgio defensivo nem tentativa de integração gradual à ordem colonial. Palmares constituiu uma ruptura política organizada contra a gramática colonial e moderna da escravidão. Ali se instituíram formas próprias de autoridade, pertencimento, economia, proteção e reconhecimento.

Tratava-se de uma contra-gramática. Palmares desafiava elementos centrais da gramática colonial e moderna, como o individualismo, a submissão racial, a separação rígida entre corpo e razão, entre teoria e prática, a inferiorização da ancestralidade africana e a destruição dos vínculos comunitários. No lugar disso, afirmava território, corpo vivido, coletividade, memória, interdependência, integração com a natureza, ancestralidade, autodefesa e auto determinação.

Por isso, proponho compreender Palmares como paradigma de aquilombamento normativo, em diálogo também com Beatriz Nascimento (2021). Aquilombar-se não significa isolamento romântico nem pureza identitária de um grupo minorizado. Significa construção coletiva de espaços soberanos capazes de sustentar normativa e materialmente formas de vida próprias diante da violência gramatical colonial. (Santana e Silva, 2025; Praxedes Silva, 2025). Toda colonização é também a captura e predação de uma gramática, de uma forma de vida.

O colonialismo não impôs apenas ocupação territorial e exploração econômica. Impôs critérios alheios de ação, de sentido e de inteligibilidade. Determinou quem era racional, humano, civilizado ou digno. A soberania gramatical emerge justamente como recusa sistematica e coletiva dessa predação da gramática (Silva, 2026b; 2026c). A soberania gramatical ou a autodeterminação normativa de um grupo minorizado exige autoproteção, autodefesa, autogoverno, disciplina coletiva e organização estratégica.

Não se trata de essencialismo. Nem de separatismo absoluto. Trata-se de reconhecer assimetrias reais de poder, de acesso, de recursos. Uma comunidade constantemente submetida à violência gramatical não pode depender exclusivamente da benevolência do opressor para existir.

Não vai implorar pela sua liberdade, vai ter que conquistá-la também através da autodeterminaçao de sua própria gramatica, ou seja, pela soberania coletiva de determinar os critérios e normas pelos quais vão jogar os seus próprios jogos. Isso exige abandonar certas ilusões liberais profundamente arraigadas. A principal delas é a fantasia da neutralidade e simetria. Não existe espaço público neutro. Toda gramática estabiliza perspectivas específicas. O chamado universal frequentemente funciona apenas como perspectiva dominante invisibilizada.

Esse colonialismo gramatical não opera por coerção explícita. Opera por desejo. Faz a vítima desejar reconhecimento do próprio sistema que a inferioriza. Esse é talvez um dos aspectos mais sofisticados da dominação contemporânea. Extrair valor não apenas explorando corpos, mas capturando desejos, dominando a gramática do desejo. Fazer a vítima desejar os produtos do opressor. Desejar integrar-se à gramática que a subordina.

Nesse sentido, a esquerda frequentemente se desmobiliza ao imaginar que inclusão simbólica em instituições existentes já constitui vitória suficiente. Mas integração não é soberania. Representação sem reorganização normativa dos jogos de linguagem frequentemente apenas administra a subordinação.

A disputa política contemporânea exige algo mais profundo. Exige capacidade de construir instituições, vínculos, formas de proteção e contra-gramáticas capazes de sustentar formas de vida no desafio da gramática dominante. Isso não significa abandonar alianças amplas nem recusar toda negociação. Significa reconhecer que não existe negociação simétrica quando uma das partes organiza sua prática a partir da negação da humanidade da outra.

A extrema direita compreende perfeitamente a dimensão estratégica da política. Ela disputa corações, mentes, afetos, símbolos, imaginários e pertencimentos. Ou seja, ela disputa a gramática há muito tempo. Constrói redes e eixos. Ocupa espaços. Protege e alavanca suas certezas fulcrais. E parte importante da esquerda continua reagindo apenas no plano moral e epistêmico, denunciando a ignorância de alguns grupos ou da imoralidade de alguns indivíduos.

Continua apostando que mais dados e mais fatos bastarão para iluminar a alma de alguns. Não bastarão. É necessário compreender que política envolve a organização normativa de formas de vida. Envolve sustentação coletiva. Envolve disputa sobre o que conta como razão, valor e humanidade. A linguagem, nesse contexto, não é espelho. Também não é apenas lâmpada. Ela é alavanca. Com o fulcro adequado, pequenas forças organizadas podem mover estruturas muito maiores.

Essa talvez seja a principal lição política do presente. Quem não disputa gramáticas continuará apenas reagindo às gramáticas do adversário. E quem não constrói soberania gramatical permanecerá vulnerável à captura e predação normativa organizada por poderes externos. Não há transformação política profunda sem disputa pela gramática e reorganização normativa e material das certezas fulcrais de nossos jogos de linguagem, como o jogo da racialização ou da generificação, ou da subordinação de uma classe por outra, por exemplo.

A luta contemporânea é também uma luta pelo significado. Mas, mais profundamente, é uma luta pelas regras e normas que articulam o significado de tudo aquilo que somos capazes de imaginar, reconhecer e viver, ou seja, é uma luta gramatical também. Não reconhecer isto significa continuar perdendo.

 

Fonte: A Terra é Redonda

Estado vigilante – a dialética entre censura e liberdade

Em 2001, o grupo Facção Central fazia uma eloquente denúncia na música O Show Começa Agora: “A censura do meu Rap e a Tropa de Choque/ Me mostram que protesto é só quando o boy morre. Aqui são flores no caixão e silêncio ou bala de borracha e gás lacrimogêneo”. As rimas, ecoadas por meio da voz de Eduardo Taddeo, sinalizavam não apenas para a censura, de fato, sobre o seu rap um ano antes – o videoclipe Isso Aqui é uma guerra foi acusado pela Justiça de fazer apologia ao crime –, mas também para o cenário mais amplo do Brasil, no qual mobilizações e manifestações populares eram contempladas pela repressão policial: “se vier para o asfalto fazer passeata/ Aí o PM lhe mata, lhe faz engolir bandeira e faixa”.

Curioso que, também nos anos 2000, há uma matéria da Folha de S. Paulo que diz: “Polícia do RJ investiga videoclipe de MV Bill. O rap volta a ser tratado como caso de polícia”. A 15ª Delegacia de Polícia do estado do Rio apresentou ofício à gravadora, “requisitando cópia do novo videoclipe do rapper”, sob a alegação de que ele poderia conter imagens que fariam apologia do crime organizado”.

Uma cacetada de artistas e grupos de rap e reggae já foi censurada, reprimida e presa no Brasil nas últimas décadas. Para se ter uma ideia, até o grito “Fogo na Babilônia”, de Sine Calmon, em 1997, já foi interpretado como “apologia às drogas”, e o cantor baiano acabou preso no palco: “Os policiais que prenderam Calmon estavam disfarçados em meio ao público. Eles alegaram que, durante o show, ele incitava os jovens a acender seus baseados (cigarros de maconha) ao gritar “Fogo na Babilônia”, um dos versos da música “Nayambing Blues” e nome do primeiro disco da banda Morrão Fumegante”.

Esse histórico Estado vigilante e policial sempre deu uma atenção mais cuidadosa às expressões periféricas, aos movimentos populares e a grupos de esquerda. Mas, se não é necessário recuarmos ao período da ditadura militar para vislumbrarmos a atuação de um Estado regulador, um olhar para o passado mais distante nos faz perceber que, no final do século XIX e no decorrer da primeira metade do XX, as tentativas de controle social e a repressão policial – por meio de prisões e agressões físicas – recaíam sobre aqueles indivíduos pertencentes às religiões de matriz africana ou aqueles que jogavam capoeira pelas ruas de Salvador, por exemplo. O Estado regulador agia a partir de diretrizes raciais.

Engana-se, porém, quem pensa que esse fenômeno se perdeu nos finais da década de 1990 e início dos anos 2000. Nos últimos dias, a máquina sionista tem operado a todo vapor no Brasil. Lê-se na CNN: após processo movido pela Confederação Israelita do Brasil, Zé Maria, “Presidente do PSTU, é condenado a dois anos por discursos contra Israel”. A mesma organização já processou o jornalista Breno Altman – uma das principais vozes contra o sionismo no Brasil – em múltiplas ocasiões.

Além de exigir sua prisão, a Conib sempre tenta censurar as suas postagens nas redes digitais. Para ficarmos apenas com um exemplo, a entidade sionista revela-se particularmente truculenta em 2024: “Conib pede que Justiça tire Breno Altman de redes e o proíba de dar entrevista e fazer lives” – é o que nos informa Mônica Bergamo. Trata-se de uma tentativa de silenciamento (…) de extirpar o indivíduo da vida pública.

Recentemente, a major da Polícia Militar do Rio de Janeiro, Adriana Kutwak apresentou representação ao Ministério Público Federal contra Rui Costa Pimenta, presidente do PCO, por manifestações de apoio ao Hamas e ao Hezbollah. A major apontou que “é inaceitável que alguém defenda movimentos terroristas que praticam atentados bárbaros contra civis (…). Manifestações que apoiam essas práticas só reforçam a incitação ao ódio, à violência”.

Não nos esqueçamos da Lei Antissemitismo de Tabata Amaral. O Projeto de Lei proposto pela deputada busca equiparar “antissemitismo” ao crime de racismo e impõe reclusão de dois a cinco anos a quem, dentre outras coisas, “efetuar comparações entre as políticas israelenses e as dos nazistas”. Bruno Huberman foi cirúrgico: “A gente está vivendo uma caça às bruxas já no Brasil, mesmo sem o PL da Tabata Amaral. Se esse PL passar, a gente pode ter um fechamento de regime, de alguma forma; uma censura prática como se tinha na ditadura, só que em período supostamente democrático”.

Diante disso, não é sem preocupação que observo essa tara de setores da esquerda por proibição. Como bem observou o próprio Rui Costa Pimenta:

“agora o que nós vemos é a esquerda adotando essa política tenebrosa. Porque a esquerda acredita que eles têm o poder da antiga Inquisição; que eles podem botar todo mundo na cadeia por falar A, B, C e D (…). O imperialismo em crise… criou mecanismos de aliciamento de setores que poderiam ter uma posição revolucionária, e acabam sendo cooptados para uma política pseudo-liberal, que é a política da diversidade sexual. Essa política é acompanhada – e a esquerda ficou totalmente dominada por isso – pela repressão policial. Então, criou-se a ideia de que você pode libertar a humanidade através da justiça e da polícia do Estado capitalista.”

Isso pode ser vislumbrado no caso de Carlos Roberto Massa, o “Ratinho”. Quando Erika Hilton assumiu a presidência da Comissão das Mulheres na Câmara dos Deputados, o apresentador do SBT blasfemou: “Ela é trans. Para ser mulher, tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra. Eu acho que deveria deixar uma mulher”.

De imediato, a deputada anunciou que processaria o jornalista e solicitou ao Ministério das Comunicações a suspensão do seu programa por 30 dias. Assim como a parlamentar do PSol, o Ministério Público Federal pediu a “condenação de Ratinho e do SBT por falas transfóbicas”. Além de solicitar o pagamento de 10 milhões de reais “a título de indenização por danos morais coletivos”, o órgão demanda que a emissora retire, de imediato, a íntegra do programa de seus sites e redes sociais, “como forma de limitar o dano perpetrado pelas falas discriminatórias e preconceituosas”. Perigoso.

No entanto, continuemos com Erika Hilton, instituições de Estado e remoção de conteúdos em plataformas de acesso público. Mas desta vez vejamos a ação da Advocacia Geral da União. Este órgão, atendendo a um pedido da eminente deputada federal, notificou a plataforma X, em abril deste ano, exigindo a derrubada de algumas postagens sobre o projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo.

Vejamos o que diz o jornal Metrópoles:

“A maioria das postagens que a AGU busca remover faz uma confusão entre dois projetos da mesma autora, a senadora Ana Paula Lobato (PSB-MA). O projeto aprovado que equipara a misoginia ao crime de racismo. Já o trecho citado nas postagens é de outro projeto de Lobato, o que cria a política nacional de combate à misoginia”.

Um dos alvos da ação da AGU foi a jornalista Madeleine Lacsko. Isso fez com que a própria AGU enviasse outro documento à plataforma X, desta vez pedindo que a empresa levasse em consideração a liberdade de imprensa. A notificação da procuradoria, assinada pelos advogados da União Raphael Ramos Monteiro de Souza e Clarice Calixto acentua: “Solicita-se que, na análise dos conteúdos cuja remoção foi solicitada, seja observado o disposto no § 1º, inciso VI, do normativo supracitado, de modo que não sejam removidas postagens efetuadas por profissionais da imprensa”. Confuso. Muito confuso e atabalhoado. Não faz sentido. Não são apenas os profissionais de imprensa que devem ter o direito à liberdade de expressão assegurado. Todos os cidadãos brasileiros, profissionais de quaisquer áreas, ou não profissionais!

Já tive a oportunidade de iniciar um texto criticando justamente uma “deturpação” por parte de Madeleine Lacsko, quando o jornalista faz uma equiparação cínica e equivocada entre Lula da Silva e Jair Bolsonaro – O Mito dos Monstros Gêmeos. Mas simplesmente não dá para ter como luta ou orientação política a censura. Se seguirmos a lógica de derrubada de postagens que “confundem”, “deturpam” ou “manipulam”, é preciso que se fechem urgentemente os estúdios da Globonews! Na verdade, todas as redações dos grandes veículos de mídia do Brasil.

Vou ficar com apenas um exemplo, o mais recente que tive contato. A Folha de S. Paulo sugere uma relação entre os ataques estadunidenses no Irã e uma maior liberdade feminina: “Mulheres sem véu e dirigindo motos se multiplicam pelas ruas do Irã desde início da guerra”. Se porventura a matéria indigna aqueles com uma postura anti-imperialista, grande parte dos comentários na página do Instagram é satisfatória. Muitos internautas denunciam a falsificação do jornal e sua tentativa de justificar – ou legitimar e louvar – os bombardeios sobre Teerã.

As ações que pedem a derrubada de postagens das redes digitais ou a suspensão de determinados programas são empreendidas com a justificativa política – e moral – de se enfrentar a extrema-direita, o bolsonarismo, o fascismo, etc. Ora! Nada mais inócuo. Embora tal política – a luta por meio da Justiça e do Estado Policial – venha sendo empregada nos últimos anos, o candidato que representa justamente os três polos que se visa combater tem chances reais de ser eleito presidente. Para não falar das projeções que apontam um aumento da bancada do PL no parlamento.

Desconsidera-se ainda a capacidade intelectual do povo comum de participar do debate público sem tutela e de identificar manipulações e mentiradas. Vejamos, por exemplo, o caso mencionado agora há pouco dos protestos na caixa de comentários da Folha de S. Paulo. Essa tara por censura e “leis” “anti isso” e “anti aquilo” parece que está causando certa desorientação política.

O projeto sionista reivindicado por Tabata Amaral teve, inicialmente, o apoio de quadros importantes da esquerda. Foi necessária uma forte pressão do eleitorado para que parlamentares recuassem e retirassem a “assinatura de projeto que considera antissemitismo criticar Israel”.

A contribuição para um Estado cada vez mais vigilante, controlador e repressor é perigosa para quem? Sejamos justos: nunca haverá uma lei “anti-Ratinho”. Mas muito facilmente podemos ter uma legislação que dê brechas para punir e censurar expressões populares – “lei anti-funkeiro A”, “lei anti-rapper B” – ou bandeiras historicamente tremuladas pelas esquerdas!

Vejamos uma das últimas denúncias feitas pelo jornalista Breno Altman: “são absurdos os decretos do presidente Lula nos pontos em que determinam o dever das plataformas de retirar conteúdos sem decisão judicial, quando se trata de “terrorismo” e outros temas. Essa medida confere maior poder a esses oligopólios e fragiliza a liberdade de expressão como direito essencial”.

A partir do decreto assinado pelo Presidente da República, foram consolidadas algumas alterações no Marco Civil da Internet. O Supremo Tribunal Federal já havia selecionado sete grupos de crimes considerados graves que exigem remoção imediata do conteúdo pelas próprias redes: terrorismo, instigação à mutilação ou ao suicídio, golpe de Estado e ataques à democracia, racismo, homofobia e crimes contra mulheres e crianças. O governo federal anunciou as mudanças como “novas diretrizes para a proteção de mulheres no ambiente digital”.

O portal G1 reforça: o algoritmo deve ser programado para reduzir o alcance de ataques coordenados contra mulheres – como os que costumam atingir mulheres jornalistas atacadas por causa de seu trabalho.

Não há dúvidas acerca do compromisso do Presidente da República com a democracia, com as minorias e os direitos humanos. No entanto, nos vemos diante de uma série de conceitos vagos. Breno Altman chamou a atenção para o caso do terrorismo. Trata-se, com efeito, de uma categoria historicamente invocada para se referir também a grupos e sujeitos que se opõem às investidas imperialistas.

Vejamos um exemplo concreto: quando Susana Botar expressou, nos estúdios do Opera Mundi, a sua admiração pela República Islâmica do Irã, o Hamas e o Hezbollhah enquanto os movimentos insurgentes “contra o imperialismo e o colonialismo a partir do século XX”, logo Renata Barreto acusou a estudante de ser uma “mulher que defende movimentos terroristas fundamentalistas islâmicos”, isto é, “mais um produto da esquerda antissemita”. A visão sobre o Hamas e o Hezbollah apresentada pela empresária é a mesma disseminada pelos veículos da grande imprensa e – podem inferir sem medo de resvalar – é compartilhada pelos quadros dos órgãos do Estado brasileiro.

O meu intento aqui é – correndo o risco de ser egocêntrico e cometer “sincericídio” – menos defender o direito da extrema-direita ou de qualquer indivíduo com quem não concordo, de expor os seus pensamentos repulsivos, e mais chamar a atenção para o poder que estamos dando à burocracia do Estado – entidade que tem historicamente utilizado poder contra minorias e outros grupos políticos que reivindicavam mais direitos.

Parece que as ferramentas empregadas para tentar proteger minorias são as mesmas utilizadas para silenciá-las. Determinado setor da esquerda passou a depender visceralmente do Estado punitivo e a defendê-lo visceralmente. A repressão policial e judicial virou o principal instrumento de luta política. Honestamente, posso estar equivocado, mas não sei se é um bom caminho.

 

Fonte: Por Osnan Silva de Souza, em A Terra é Redonda

 

Raízes da esquizofrenia: cientistas buscam desvendar origens

A esquizofrenia, um transtorno mental complexo que afeta a percepção da realidade, continua desafiando a ciência na busca por suas causas e mecanismos. Estudos recentes, conduzidos por pesquisadores de diferentes instituições internacionais, esclarecem os fatores biológicos envolvidos tanto nos déficits cognitivos quanto no surgimento dos sintomas psicóticos da condição que acomete cerca de 0,5% da população mundial. Os trabalhos também visam encontrar vias de tratamento.

No Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos, cientistas identificaram uma mutação genética que compromete a habilidade de pacientes em atualizar as próprias crenças com base em novas informações — uma dificuldade muito comum na esquizofrenia. O estudo, publicado na revista Nature Neuroscience, analisou o gene grin2a, associado ao transtorno.

"Se esse circuito não funcionar bem, você não consegue integrar informações rapidamente", afirma Guoping Feng, professor do MIT e um dos autores principais da pesquisa. "Estamos bastante confiantes de que esse é um dos mecanismos que contribuem para o comprometimento cognitivo, que é uma parte importante da patologia da esquizofrenia."

Para o trabalho, a equipe criou um modelo experimental com camundongos portadores da mutação e observou dificuldades na tomada de decisões adaptativas. Em testes comportamentais, os animais apresentaram lentidão para ajustar suas escolhas diante de mudanças nas recompensas, indicando prejuízos na flexibilidade cognitiva. Segundo Tingting Zhou, pesquisadora envolvida no estudo, "o que acontece com pacientes esquizofrênicos é que eles se apegam demais à crença prévia. Eles não utilizam tantos estímulos atuais para atualizar o que acreditavam antes, então a nova informação fica distante da realidade."

Carolina Guedes, psiquiatra e psicoterapeuta integrante da plataforma INKI, detalha que o gene grin2a é responsável por produzir uma proteína que faz parte de um receptor no cérebro — o NMDA —, ativado por um mensageiro químico chamado glutamato. "Esse receptor funciona como uma espécie de portão: quando o glutamato chega, o portão abre e permite que as células nervosas se comuniquem entre si. Quando esse gene é mutado, a porta funciona mal, e a comunicação entre neurônios na região do tálamo mediodorsal fica comprometida. O efeito prático disso é que a pessoa perde a capacidade de ajustar seu comportamento quando o ambiente muda."

Os experimentos da equipe evidenciaram alterações no circuito tálamo-cortical, especialmente no tálamo mediodorsal nos animais. Ao estimular esse circuito por optogenética — uma técnica que combina engenharia genética e luz para controlar a atividade de células específicas —, os cientistas conseguiram reverter parcialmente os déficits observados, sugerindo um caminho promissor para o desenvolvimento de novos tratamentos.

<><> Falha na "limpeza" cerebral

Enquanto isso, na Universidade de Genebra (Unige), na Suíça, pesquisadores investigaram os mecanismos que antecedem o surgimento dos sintomas psicóticos, como alucinações e delírios. O estudo, publicado na revista Biological Psychiatry: Global Open Science, aponta para o papel do sistema glinfático, responsável pela eliminação de resíduos do cérebro, como um fator-chave de vulnerabilidade.

A equipe se concentrou em indivíduos com a síndrome de deleção 22q11.2, condição genética que eleva significativamente o risco de psicose. Ao analisar dados de imagem cerebral coletados ao longo de mais de duas décadas, os cientistas identificaram alterações precoces no sistema de limpeza cerebral, já na infância.

"Essa trajetória atípica sugere que uma vulnerabilidade resultante da interação entre fatores biológicos e ambientais está presente muito antes do início dos sintomas", explica Alessandro Pascucci, primeiro autor do estudo e doutorando no departamento de psiquiatria da Unige.

As descobertas do estudo indicam que a disfunção do sistema glinfático pode levar ao acúmulo de substâncias tóxicas e a um desequilíbrio entre neurotransmissores. "A excitação excessiva pode se tornar tóxica para os neurônios e contribuir para alterações em certas regiões cerebrais particularmente vulneráveis e envolvidas na psicose, como o hipocampo. Nossos resultados sugerem uma ligação entre disfunção do sistema glinfático, mecanismos de neurotoxicidade e psicose", destaca o pesquisador.

O psiquiatra Fábio Leite, do Hospital Anchieta, detalha que o sistema glinfático faz a limpeza dessas estruturas, que são tóxicas para o cérebro, protegendo os neurônios. "A deleção genética pode fazer com que não haja um bom funcionamento dessa tarefa. Assim, a sujeira cerebral pode ser um fator irritativo e, junto à inflamação periférica central, ativar algum tipo de patologia latente, como no caso da esquizofrenia, quadros psicóticos esquizofrênicos."

Para Stephan Eliez, professor da Unigue, as descobertas abrem caminho para estratégias preventivas. "Identificar esses fatores preditivos modificáveis pode abrir caminho para estratégias que permitam retardar ou mesmo prevenir um primeiro episódio psicótico."

<><> Prognóstico positivo

"Nosso tratamento reabre uma janela crucial para reconfigurar as conexões no cérebro adulto", frisa o primeiro autor, Marc Dos Santos, professor assistente de pesquisa em neurociência. "Acredita-se que a falta de plasticidade cerebral seja um fator chave no desenvolvimento dos sintomas da esquizofrenia. Reformar as sinapses também pode ser benéfico para outros transtornos mentais, como a depressão."

Dos Santos afirma que a equipe ainda não sabe quanto tempo duram os efeitos terapêuticos, mas planeja estudar esse aspecto em novos experimentos. O grupo de pesquisa está agora otimizando essa proteína para futuros ensaios clínicos em pacientes com síndrome de duplicação 16p11.2, que está associada a um risco dez vezes maior de desenvolver esquizofrenia.

Para Thiago Taya, neurologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas, a descoberta é muito importante, porque pode abrir um novo leque de terapias mais específicas. "Esse possível novo tratamento deve ser submetido aos devidos ensaios clínicos para avaliar uma relação de causalidade entre a medicação e a melhora dos sintomas em pacientes humanos, além de testar um dos critérios mais importantes, a segurança da medicação."

Segundo Taya, outro ponto importante é avaliar a praticidade do tratamento. "Uma aplicação diretamente no líquido cefalorraquidiano ou no tecido cerebral, como foi feito no estudo, pode trazer efeitos positivos, mas pode não ser fácil para realizar periodicamente, justamente por se tratar de um procedimento mais invasivo e com, possivelment,e mais riscos."

"Os ensaios clínicos teriam uma taxa de sucesso muito maior e os tratamentos funcionariam muito melhor porque você administraria o novo medicamento exatamente às pessoas que poderiam responder a ele", sublinha Peter Penzes, autor correspondente e professor da UN. Segundo ele, o próximo passo seria desenvolver um biomarcador sanguíneo para identificar um subgrupo de pacientes que responderia à abordagem

<><> Esperança para tratamento

As medicações atuais para pacientes com esquizofrenia tratam questões tais quais alucinações e delírios, mas não impactam em problemas como desorganização e disfunção executiva. Agora, um novo estudo da Universidade Northwestern (UN), nos Estados Unidos, realizado com humanos e ratos, descobriu um biomarcador da condição que também pode servir como um novo candidato a medicamento para tratar os sintomas cognitivos do transtorno.

Ao examinar o líquido cefalorraquidiano de mais de 100 pacientes com esquizofrenia e de indivíduos saudáveis, os cientistas identificaram uma forma de uma proteína cerebral chamada Cacna2d1, até então desconhecida e em livre circulação. O estudo constatou que, para pessoas esquizofrênicas, os níveis dessa substância são mais baixos, o que resulta em circuitos cerebrais hiperativos ou hiperexcitados.

Em seguida, a equipe criou uma versão sintética da proteína, chamada SEAD1, e a testou em um modelo de camundongo com esquizofrenia genética. Uma única injeção de SEAD1 no cérebro dos animais corrigiu tanto a atividade anormal dos circuitos quanto os problemas comportamentais associados ao transtorno. Além disso, o tratamento não causou efeitos colaterais observáveis.

<><> Prognóstico positivo

"Nosso tratamento reabre uma janela crucial para reconfigurar as conexões no cérebro adulto", frisa o primeiro autor, Marc Dos Santos, professor assistente de pesquisa em neurociência. "Acredita-se que a falta de plasticidade cerebral seja um fator chave no desenvolvimento dos sintomas da esquizofrenia. Reformar as sinapses também pode ser benéfico para outros transtornos mentais, como a depressão."

Dos Santos afirma que a equipe ainda não sabe quanto tempo duram os efeitos terapêuticos, mas planeja estudar esse aspecto em novos experimentos. O grupo de pesquisa está agora otimizando essa proteína para futuros ensaios clínicos em pacientes com síndrome de duplicação 16p11.2, que está associada a um risco dez vezes maior de desenvolver esquizofrenia.

Para Thiago Taya, neurologista do Hospital Brasília Águas Claras, da Rede Américas, a descoberta é muito importante, porque pode abrir um novo leque de terapias mais específicas. "Esse possível novo tratamento deve ser submetido aos devidos ensaios clínicos para avaliar uma relação de causalidade entre a medicação e a melhora dos sintomas em pacientes humanos, além de testar um dos critérios mais importantes, a segurança da medicação."

Segundo Taya, outro ponto importante é avaliar a praticidade do tratamento. "Uma aplicação diretamente no líquido cefalorraquidiano ou no tecido cerebral, como foi feito no estudo, pode trazer efeitos positivos, mas pode não ser  fácil para realizar periodicamente, justamente por se tratar de um procedimento mais invasivo e com, possivelment,e mais riscos."

"Os ensaios clínicos teriam uma taxa de sucesso muito maior e os tratamentos funcionariam muito melhor porque você administraria o novo medicamento exatamente às pessoas que poderiam responder a ele", sublinha Peter Penzes, autor correspondente e professor da UN. Segundo ele, o próximo passo seria desenvolver um biomarcador sanguíneo para identificar um subgrupo de pacientes que responderia à abordagem. (Isabella Almeida)

<>< Preconceito resiste - Renata Verna, médica psiquiatra do Hospital Santa Lúcia

"Atualmente, a esquizofrenia é considerada um transtorno crônico, sem cura definitiva, mas com possibilidade de remissão significativa. Cerca de 20 a 30% dos pacientes apresentam boa evolução, com poucos episódios; entre 40 e 50% têm um curso intermediário, com recaídas; e aproximadamente 20 a 30% evoluem com um quadro mais grave e persistente. Nesse contexto, o conceito mais importante atualmente não é o de cura, mas sim o de remissão sintomática, recuperação funcional e melhora da qualidade de vida. A condição ainda é altamente estigmatizada, o que leva a atraso no diagnóstico, baixa adesão ao tratamento e isolamento social. No conceito moderno, ela deve ser entendida como um transtorno neuropsiquiátrico complexo, envolvendo disfunção dopaminérgica, alterações estruturais cerebrais e a interação de fatores genéticos e ambientais. Talvez o mais importante na prática clínica seja que, quanto mais precoce o diagnóstico e o cuidado, melhor o prognóstico funcional."

 

Fonte: Correio Braziiense

 

Carta aos evangélicos: PT reforça respeito à liberdade de culto e proíbe uso eleitoral da fé

O PT divulgou uma carta ao público evangélico durante o 4º Encontro Nacional de Evangélicos do partido em Brasília, nesta segunda-feira (8). O documento reforça que a fé não deve ser usada para fins eleitorais, destacando o compromisso do partido com o respeito à dimensão espiritual, comunitária e ética das crenças religiosas.

O partido ressaltou que a representação política da religião não é homogênea, criticando a ideia de que evangélicos formam um bloco único.

O encontro contou com a presença da primeira-dama Janja da Silva, do presidente do PT, Edinho Silva, da senadora Eliziane Gama (PT-MA), da deputada federal Benedita da Silva (PT-RJ), da vereadora Aava Santiago (PSB) e da deputada federal Marina Silva (Rede-SP), entre outros. A carta também mencionou leis sancionadas por Lula que garantem liberdade de culto e o reconhecimento da música gospel como patrimônio nacional.

No texto, o PT destacou políticas sociais e estratégicas que farão parte da agenda eleitoral, incluindo: saúde integral da mulher, desenvolvimento local a partir das terras raras, agricultura familiar, acesso ao primeiro emprego para jovens, inclusão de pessoas com deficiência e garantia de direitos para a população negra no sistema de justiça. Temas controversos, como aborto, não foram abordados.

A iniciativa integra a estratégia do partido de atrair o eleitorado religioso de forma ética e transparente, diante de desafios históricos da campanha de Lula com esse público, que tende a se inclinar para candidatos conservadores.

Entre as ações previstas para 2026 estão a ampliação de uma rede de influenciadores digitais evangélicos, o diálogo com igrejas de médio porte e a formação de uma frente ampla envolvendo pastores e fiéis, inclusive fora do PT.

<><> Leia a carta na íntegra: 

“Este é o tipo de jejum que desejo: Soltem os que foram presos injustamente, aliviem as cargas de seus empregados. Libertem os oprimidos, removam as correntes que prendem as pessoas. Repartam seu alimento com os famintos, ofereçam abrigo aos que não têm casa. Deem roupas aos que precisam, não se escondam dos que carecem de ajuda. 

Isaías 58:6-7

Graça e paz!

Nós, evangélicas e evangélicos de todos os Estados e do Distrito Federal, reunidos em Brasília no IV Encontro Nacional de Evangélicos do Partido dos Trabalhadores, nos dirigimos ao povo brasileiro movidos pela fé, pela esperança e pelo compromisso com a construção de um Brasil mais justo, democrático, solidário e fraterno.

Reconhecemos que os evangélicos brasileiros são diversos, pensam de formas diferentes e exercem sua cidadania com liberdade de consciência. Refutando a imagem de que formamos um bloco político único, este encontro não pretende falar em nome de todas as denominações, mas expressar a reflexão de um segmento que, a partir de sua fé, defende a democracia, a justiça social e o bem comum. Por isso, rejeitamos toda tentativa de transformar a religião em instrumento de manipulação política, e denunciamos aqueles que usam do Evangelho como negócio.

A religião pura e imaculada para com Deus e Pai é esta: Visitar os órfãos e as viúvas nas suas tribulações, e guardar-se da corrupção do mundo. (Tiago 1:27)

Somos parte da vida cotidiana do nosso país. Estamos presentes nas periferias, nos campos, nas cidades, nas escolas, universidades, locais de trabalho, movimentos sociais e igrejas espalhadas por todo o Brasil. Compartilhamos as mesmas alegrias, preocupações e esperanças do povo brasileiro. E, por isso, defendemos a ampliação e aprofundamento de políticas públicas que tem feito diferença na vida do povo brasileiro, como o Bolsa Família, o Minha Casa Minha Vida, o Brasil Sorridente, as Cozinhas Solidárias, a Nova Indústria Brasil, o Pé de Meia, o Gás do Povo, a Farmácia Popular, o Agora Tem Especialistas, o Sistema Único de Saúde (SUS), a Reforma do Imposto de Renda – isentando quem ganha até R$5 mil -, a Política Nacional de Cuidados, o Pacto de Enfrentamento ao Feminicídio, entre muitas outras medidas.

Entendemos que a fé cristã nos chama à oração e ao compromisso concreto com a vida, a justiça, a reconciliação, a paz e o cuidado da criação. A defesa da democracia, da justiça social, da Reforma Agrária; o enfrentamento à fome, a valorização do trabalho, a proteção dos mais vulneráveis fazem parte da mensagem de Jesus e da melhor tradição evangélica. Defendemos o fim da escala 6×1, o que representa qualidade de vida para os trabalhadores e trabalhadoras, além da defesa de um maior tempo de convivência familiar, essencial para a saúde mental e a organização do lar.

Reconhecemos também o papel das igrejas, das organizações comunitárias e das iniciativas de solidariedade que atuam diariamente nos territórios, periferias, campos e comunidades de todo o Brasil. São ações que promovem acolhimento, cuidado, esperança e fortalecimento dos vínculos sociais.

Nossa fé nos ensina que não podemos ser indiferentes ao sofrimento humano. Seguir Jesus Cristo significa cuidar da vida, promover a justiça, praticar a solidariedade e defender a dignidade de todas as pessoas.

Acreditamos que desenvolvimento econômico e justiça social devem caminhar juntos. Também entendemos que o desenvolvimento do Brasil precisa estar comprometido com a proteção do meio ambiente, o cuidado com a criação e a preservação das águas, das florestas e da biodiversidade. Cuidar da Casa Comum é cuidar do presente e das futuras gerações.

Bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. (Mateus 5:9)

Reconhecemos que a violência é uma das maiores preocupações do povo brasileiro. Defendemos políticas de segurança pública capazes de enfrentar o crime organizado, proteger as famílias, apoiar as vítimas da violência, fortalecer as instituições de segurança pública e promover uma cultura de paz, sempre com respeito à vida, aos direitos humanos e à dignidade da pessoa humana.

Defendemos de forma especial o enfrentamento de toda violência contra as mulheres e a promoção de relações baseadas no respeito, na igualdade e na dignidade.

Defendemos uma sociedade que proteja crianças, mulheres, idosos, pessoas com deficiência, povos indígenas, comunidades tradicionais e todos os grupos historicamente vulneráveis ou excluídos. Acreditamos que uma nação mais justa é aquela que cuida especialmente daqueles que mais precisam de proteção e oportunidades e se opões a toda forma de discriminação, intolerância e racismo.

Defendemos a democracia e a soberania nacional como valores fundamentais da vida brasileira. A democracia garante direitos, protege liberdades, assegura a participação popular e permite a convivência respeitosa entre diferentes opiniões, crenças e visões de mundo. A soberania fortalece a capacidade do povo brasileiro de decidir seu próprio destino, proteger seus recursos estratégicos e construir um projeto de desenvolvimento comprometido com a justiça social e o bem comum. Defendemos igualmente a liberdade religiosa, princípio essencial para que todas as pessoas possam viver sua fé ou suas convicções com dignidade, respeito e liberdade.

Por isso, deixando a mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo, porque somos membros uns dos outros. (Efésios 4:25)

Manifestamos preocupação com a disseminação de notícias falsas, discursos de ódio e tentativas de manipulação da fé para fins políticos ou econômicos. O Evangelho nos chama à verdade, à honestidade e à responsabilidade. A religião não deve ser utilizada para dividir o povo brasileiro, mas para promover esperança, solidariedade e compromisso com o bem comum.

Nossa comunicação se fundamenta no respeito, no amor ao próximo e no compromisso com a verdade. Em nossas Igrejas, nossos irmãos e irmãs, precisam ter um amplo acesso às informações para que, como os cristãos de Bereia, possam examinar e verificar onde está a verdade. Como evangélicos afirmamos o nosso compromisso em compartilhar essas informações, utilizando as redes sociais de forma responsável, educativa e em diálogo com as particularidades denominacionais, geracionais e regionais.

Os governos do PT atuaram sempre de forma respeitosa e laica, defendendo o respeito a diversidade e a liberdade religiosa. Foi com o presidente Lula que foram sancionadas leis que garantem o direito de livre culto e a criação de igrejas. Ele também assinou decretos para o reconhecimento da música gospel como cultura e patrimônio nacional, além de instituir o Dia Nacional da Música Gospel, o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa e o Dia Nacional da Marcha para Jesus. Os governos do PT nunca se opuseram às igrejas, sempre tiveram uma postura de respeito e de reconhecimento da importância e do papel da Igreja Evangélica.

Bendito seja o Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo que, segundo a sua grande misericórdia, nos gerou de novo para uma viva esperança, pela ressurreição de Jesus Cristo dentre os mortos (1 Pedro 1:3)

Como evangélicas e evangélicos comprometidos com esses valores, reconhecemos os avanços alcançados pelo Brasil na reconstrução de políticas públicas, na geração de empregos, na redução da fome, na valorização da educação e da saúde e na ampliação das oportunidades para a população. Ao mesmo tempo, sabemos que ainda há muito a fazer para garantir plenamente os direitos sociais e elevar a qualidade de vida do povo brasileiro.

Como participantes de um encontro que refletiu sobre os desafios do Brasil e das eleições de 2026, entendemos que a participação política responsável faz parte do exercício da cidadania e do compromisso democrático. Por isso, estimulamos a presença ativa das evangélicas e dos evangélicos nos debates públicos, na formulação de propostas e na construção dos caminhos que definirão o futuro do país.

Nesse primeiro momento salientamos os seguintes tópicos para o plano de governo:

– Ampliação das políticas públicas voltadas a saúde integral da mulher, enfrentamento à violência e que tenha como foco em seu cuidado e acolhimento em relação à sua saúde física e mental.

– A questão das terras raras precisa ter como norte o desenvolvimento local e regional, a partir dos conhecimentos e estratégias existentes nas Universidades, Institutos e no território, visando o desenvolvimento social e a nossa soberania nacional.

– Em relação ao campo, defende-se o fortalecimento de políticas voltadas à agricultura familiar, como a política de Reforma Agrária, o PAA e o Plano Safra. Também salientamos a necessidade de ampliação dos quintais produtivos, com prioridade para as camponesas. Além de políticas voltadas para a irrigação de pequenas propriedades e fortalecimento da educação no campo, com creches e escolas de educação de tempo integral na zona rural.

– Criação de políticas voltadas para a juventude, com foco no primeiro emprego.

– Fortalecimento das políticas para pessoas com deficiência, com foco em ações de cuidado integral e de geração de renda.

– Garantia do acesso da população negra ao sistema de justiça.

Ao avaliarmos os desafios que permanecem e os avanços já conquistados, entendemos que o Brasil precisa continuar avançando. A redução das desigualdades, a valorização do trabalho, o fortalecimento dos serviços públicos, a proteção ambiental, a promoção da cultura de paz e a ampliação das oportunidades para o povo brasileiro exigem continuidade, compromisso democrático e participação popular.

Acreditamos que a esperança não é apenas um sentimento individual. A esperança popular se constrói coletivamente quando o povo participa da vida pública, amplia direitos, fortalece a democracia e trabalha para que ninguém seja deixado para trás.

Inspirados por esses valores, reafirmamos nosso compromisso com a construção de um Brasil mais justo, solidário e inclusivo. A partir de uma avaliação cidadã, democrática e programática dos desafios do país, dos avanços alcançados e das tarefas ainda necessárias para garantir direitos, reduzir desigualdades e ampliar oportunidades, manifestamos nosso apoio à continuidade do projeto democrático e popular liderado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Este compromisso não nasce do uso eleitoral da fé, pois compartilhamos do entendimento do próprio presidente de que não se deve “tirar proveito político de uma coisa sagrada”.

À medida que nos aproximamos das eleições de 2026, convidamos as igrejas, lideranças religiosas, movimentos populares, organizações da sociedade civil e toda a população brasileira a participar do debate público com liberdade, responsabilidade, respeito e esperança.

Seguimos acreditando em um Brasil onde a fé caminhe ao lado da justiça, a política esteja a serviço da vida, a democracia seja fortalecida, a soberania nacional seja respeitada, a criação seja cuidada, a verdade prevaleça sobre a mentira e a esperança seja mais forte do que o medo.

Que Deus abençoe o povo brasileiro, fortaleça nossa democracia, nossa soberania, inspire nossas orações e ações em favor do próximo e nos conduza pelos caminhos da fé, da justiça, da paz, da esperança e do bem comum.

Brasília, 08 de junho de 2026.

IV Encontro Nacional de Evangélicos do Partido dos Trabalhadores”

¨      Janja responde ataque de Silas Malafaia e deixa pastor sem reação

Durante discurso no 4º Encontro Nacional de Evangélicos do PT, a primeira-dama Janja da Silva respondeu ao ataque que recebeu do pastor Silas Malafaia em agosto de 2025. Na ocasião, Malafaia debochou dos encontros de Janja com mulheres evangélicas, as quais classificou como “insignificantes”.

Janja afirmou que nenhuma mulher é insignificante e que, mesmo que os encontros tivessem reunido poucas mulheres evangélicas, o que importa é a abertura de diálogo.

“Ele teve a cara de pau de ir em uma rede social e falar que eu estava conversando com mulheres insignificantes. Insignificante é ele, porque toda mulher, para mim, é importante”, disse Janja.

Em 2025, Janja realizou encontros com mulheres da Igreja Coletivação, na Ceilândia (DF).

“Não importa se eu fiz uma reunião com duas, com três, com duzentas, com mil. O que importa é que eu conversei, o que importa é que eu ouvi elas […] eu queria ouvir elas, queria entender qual era a dificuldade de nos aproximarmos efetivamente. E eu percebi que não tem dificuldade, porque é isso mesmo. As dificuldades que as mulheres nos seus territórios sentem são as mesmas de uma mulher progressista e de uma mulher de direita. Não existe essa separação.”

Sempre presente e histriônico nas redes sociais, até o fechamento desta matéria, Silas Malafaia ainda não havia se manifestado sobre a declaração de Janja.

 

Fonte: Fórum

 

Reflexões sobre a propaganda eleitoral

A propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV foi o grande palco do debate eleitoral desde os estertores do regime militar nos anos 1980 até meados da década passada. A principal mudança desde então tem sido o crescente papel das redes telemáticas nas eleições e uma relativa perda de importância do horário eleitoral gratuito. Foram mudados os meios de comunicação, que são ferramentas; o fundamental sempre é quem controla as ferramentas, e para quê.

Os períodos de propaganda eleitoral gratuita costumavam introduzir um ar renovador no debate político, levantando questões de interesse popular, rompendo a monotonia das temáticas e interpretações políticas de interesse do capital financeiro, que dominavam e ainda dominam o debate político no dia-a-dia das TVs, rádios e jornais.

Durante os primeiros governos petistas, quase sempre o período eleitoral produzia uma inflexão favorável ao governo nas pesquisas. Compreende-se: fora do período eleitoral, só existia a propaganda política usual dos noticiários da grande imprensa, oposicionista, enquanto o período eleitoral garantia certo equilíbrio no debate, particularmente no segundo turno, permitindo ao governo mostrar ao público as realizações que a imprensa escondia.

Depois do impeachment de Dilma Rousseff, o período de propaganda eleitoral gratuita foi reduzido em número de dias e encurtado pela metade em tempo de exposição diário. O Congresso, por sua maioria de direita, aprovou estas mudanças com o argumento da redução de gastos públicos, já que o tempo de programação em rádio e TV é gratuito para os partidos, mas é remunerado pelo governo para as empresas. A credibilidade desta justificativa se esvai considerando o aumento exorbitante dos gastos com as emendas parlamentares no mesmo período, emendas que se tornaram outra forma de propaganda eleitoral.

Este esvaziamento da propaganda eleitoral gratuita foi simultâneo à abertura do novo palco eleitoral, as redes digitais, que já se mostraram muito atuantes na articulação das manifestações de 2013 a 2016, junto à dobradinha VejaGlobo. Atuaram, portanto, na eleição apertada de Dilma Rousseff contra Aécio Neves e, depois, em prol do impeachment da Presidenta.

Nas eleições de 2018, a força bolsonarista nas redes apareceu e assustou pelo volume e, particularmente, pelo conteúdo, simbolizado por uma mamadeira pornográfica. A expressão “fake-news” foi incorporada às conversas coloquiais. E essa ferramenta de comunicação continuou atuante no governo Bolsonaro, foi central para a tentativa de golpe de 8 de janeiro de 2023, e continua atuante, agora com o incremento tecnológico da Inteligência artificial.

Ficou claro que as redes digitais têm gerado bolhas de circulação da propaganda política, com a divulgação seletiva de notícias mentirosas, dificultando imensamente o debate político, sendo cada nicho ideológico abastecido por informações distintas, e com análises distintas sobre as notícias divulgadas pela imprensa comercial. Mais ainda, constatou-se que o fanatismo encontra campo aberto dentro de algumas dessas bolhas.

Por conta desta força da ferramenta digital em mãos fascistas, as eleições presidenciais de 2022 ensejaram importante atuação do STE, então presidido pelo ministro Alexandre de Morais, no sentido de controlar as notícias falsas e as manifestações de ódio nas redes digitais, já encontrando resistência das grandes redes telemáticas multinacionais. O argumento esgrimido por estas redes, assim como pela propaganda bolsonarista, assenta-se na liberdade de expressão. Como se esta fosse absoluta, isenta de limitas de respeito ao ser humano e à Constituição.

Mas o argumento “libertário” é falso principalmente porque as redes impõem suas próprias regras. Um caso emblemático é a censura imposta pelo YouTube ao canal do portal Brasil 247, quando proibiu a continuidade da divulgação das reportagens do jornalista Joaquim de Carvalho sobre a suposta facada em Bolsonaro a 6 de setembro de 2018, que trazia informações importantes negligenciadas pela imprensa corporativa, equiparando-as a “fake news”. Enfim, liberdade de expressão também é uma das coisas que precisa ser cobrada das redes telemáticas multinacionais.

Uma tentativa abrangente de regulação das redes foi o projeto relatado na Câmara Federal pelo deputado Orlando Silva (PCdoB-SP) no começo do atual governo Lula. Procurava coibir a divulgação de postagens inconstitucionais como as de racismo, misoginia, pedofilia, ataques à democracia e, por outro lado, buscava impor a remuneração aos criadores de conteúdo brasileiros pelas grandes redes telemáticas, cujos lucros provêm daqueles criadores. A iniciativa enfrentou pesada oposição no Congresso, que culminou no desmembramento do projeto em dois ou três projetos mais específicos, dos quais não se falou mais.

Previsivelmente, o lobby das redes telemáticas encontrara terreno fértil no Congresso. O bolsonarismo nutriu-se sempre de grande trânsito nas redes digitais, e amplo domínio das técnicas de segmentação de notícias que fizeram a fama de Steve Bannon. A aliança de Elon Musk ao bolsonarismo foi explícita, e orgulhosamente ostentada pelo nosso fascismo vira-lata. Além destes dois personagens, estiveram juntos naquela solenidade de posse de Donald Trump mega-empresários proprietários de quase todas as redes telemáticas disponíveis no Brasil, exceto Telegram e Tic-Toc. Portanto, a posicionamento da direita no Congresso era previsível, assim como o do oportunismo centrista.

Mas a oposição àquele projeto incluiu canais e blogs de esquerda, com destaque para o importantíssimo Brasil 247. A crítica deste órgão centrava-se na questão financeira, com um argumento de difícil compreensão: as grandes redes disporiam de um fundo para remuneração dos criadores de conteúdo e, se fossem obrigadas a remunerar os conteúdos como os da rede Globo, nada restaria para os pequenos órgãos como o próprio Brasil 247, que tem contrato com aquela rede.

Ora, a remuneração do produtor de conteúdo corresponde necessariamente a uma parcela daquilo que as grandes redes arrecadam a partir de cada produtor; não se entende a razão do suposto conflito entre a Globo, ou as grandes redes de comunicação em geral, e os pequenos órgãos, como se o fundo para remuneração dos produtores de conteúdo fosse rígido. O conflito objetivo evidente é entre todos os produtores e as grandes redes telemáticas.

Houve também a crítica dos sindicatos de jornalistas e de artistas contra a ausência de menção no projeto à remuneração aos profissionais, apenas às empresas, mas esse aspecto certamente poderia ter sido incluído, não fosse a pressão das grandes empresas telemáticas sobre o Parlamento.

Agora, às vésperas das novas eleições presidenciais e legislativas, o Executivo e o Legislativo anunciam medidas inteiramente opostas neste tema. Decreto do presidente Lula enrijece a legislação de uso destes meios, exigindo respeito aos princípios constitucionais de combate a racismo, misoginia, estímulo a violência e auto-mutilação, ou ataques à democracia, incluindo responsabilização solidária das redes pelo conteúdo divulgado.

O Congresso propõe-se a derrubar o decreto presidencial, e discute leis flexibilização das regras de uso eleitoral das redes pelos parlamentares, permitindo disparos em massa e praticamente extinguindo multas. Assim como já está votando a flexibilização das regras de uso eleitoral das emendas parlamentares, para que as obras decorrentes possam ser usadas explicitamente como propaganda eleitoral.

Não tranqüiliza observar que, no contexto, avulta o papel da Justiça Eleitoral, que agora está sob o comando dos 20% de Jair Bolsonaro no STF. Portanto, apesar das várias ações positivas do terceiro governo Lula, e apesar dos escândalos em que se afogam os bolsonaristas e a direita, o debate eleitoral exigirá muita atenção dos democratas.

Reconhecendo a importância das redes digitais, a militância democrática e de esquerda formou um conjunto de órgãos que acompanham com perspicácia a vida política. Muitos passam por dificuldades financeiras, precisam perder tempo solicitando apoio nesta área, mas vêm cumprindo um papel fundamental de resistência anti-fascista.

Abro parêntesis para um caso específico, o Blog da cidadania. Seu fundador, de Eduardo Guimarães, teve sua principal fonte de renda destruída pelo ex-juiz Sérgio Moro, por ter noticiado com antecedência a prisão de Lula, e passou a viver de seu blog, que foi o primeiro a prognosticar a libertação de Lula e sua eleição. Teve agora seus equipamentos novos, recém adquiridos, perdidos por um acidente, e precisa de apoio para sobrevivência de seu canal que trouxe contribuições importantíssimas para o debate público.

É consenso, pois, a necessidade de participação nas redes digitais, e o domínio desta linguagem. Porém, também se reconhece que o ambiente das redes digitais tem sido o contexto que gerou as bolhas de circulação de propaganda política, com a divulgação seletiva de notícias mentirosas, e todas as suas seqüelas. Em comparação, a propaganda eleitoral gratuita, além do maior equilíbrio de tempo de fala, cria a possibilidade de resposta do adversário em sua propaganda e, em caso de acusação falsa, permite a captura tempo de propaganda do acusador através do STE e dos TREs.

Por isto, é importante fortalecer a propaganda eleitoral gratuita aos olhos da população, enfatizando esses aspectos do equilíbrio entre as partes e da possibilidade de resposta. Não tem credibilidade, por exemplo, acusação feita em alguma rede digital que não tenha sido repetida no horário gratuito. Não se trata de desqualificar as redes digitais a que cada eleitor dá atenção, até porque estas podem aprofundar o debate político e eleitoral. Trata-se apenas de apontar um critério prático para o reconhecimento de notícia possivelmente mentirosa.

Nem sempre as tendências visíveis se mantêm, é usual aparecerem contra-tendências.Por exemplo, um país nórdico acaba de proibir meios digitais na educação infantil, retornando aos livros e cadernos, com base em observações pedagógicas. Houve um choque de muitos eleitores de Jair Bolsonaro com a realidade das práticas comerciais, digamos, dos Bolsonaro, e talvez este choque permita a estes eleitores valorizar o debate, o confronto dos discursos entre si e com a realidade.

Esta conscientização do eleitor da superioridade do horário eleitoral sobre propagandas unilaterais é tarefa factível para qualquer militante democrata, em sua atuação específica, mas que bem caberia ao Superior Tribunal Eleitoral.

Antes e durante as campanhas eleitorais, este Tribunal usualmente proclama a necessidade do eleitor estar atento contra notícias mentirosas, mas tem dificuldade de propor uma maneira prática, não abstrata, para o eleitor reconhecer as tais “fake news”. Uma maneira de fazê-lo é mostrar ao eleitor este aspecto de superioridade da propaganda gratuita sobre a propaganda unilateral, pois só o enfrentamento de idéias permite desnudar factóides. Fica esta sugestão para o Tribunal.

O programa eleitoral gratuito alterna propagandas para o Executivo e para o Legislativo, programas muito distintos. As propagandas para o Executivo costumam ser mais politizadas, apresentando com algum detalhamento as distintas convicções e propostas.

As propagandas para o Legislativo se perdem pela atomização, com muitíssimos candidatos se alternando cansativamente, cada um com direito a pouquíssimos segundos para recitar princípios ou citar realizações. Isso reflete nosso tipo de sistema proporcional, em que o eleitor escolhe um candidato individual, em oposição ao sistema proporcional de voto em lista, naturalmente mais politizador.

Os partidos progressistas poderiam empregar parte do tempo de propaganda legislativa para destacar a importância do voto partidário, para consolidar uma base sólida de apoio legislativo ao quarto mandato do presidente Lula. Convém que o eleitorado saiba que há candidatos de partidos centristas e de direita que se elegem declarando voto em Lula, mas, eleitos, são constrangidos a votar contra as propostas do governo, por fechamento de questão no partido, por exemplo.

Outra questão politizadora pode ser a das emendas parlamentares, tendo em vista o que é trazido à tona pelas investigações da PF sob relatoria do ministro Flávio Dino. Uma boa condução deste tópico pode anular a vantagem eleitoral dos parlamentares candidatos que tiverem sido favorecidos por emendas secretas.

Indo mais a fundo, conviria aos partidos democráticos encampar como proposta de campanha uma redução expressiva do valor das emendas parlamentares, pois estas impedem a estruturação orgânica do orçamento federal, assim como dos estaduais e municipais. Ao mesmo tempo, as emendas consolidam o parlamento brasileiro como um aglomerado de interesses locais e, mesmo, pessoais.

 

Fonte: Por José Ricardo Figueiredo, em A Terra é Redonda