terça-feira, 14 de abril de 2026

Após acordo de paz fracassar, Trump bloqueia Estreito de Ormuz e ameaça destruir 'navios de ataque'

Menos de 24 horas após negociações de paz entre Irã e EUA fracassarem, O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, escreveu no Truth Social nas primeiras horas desta segunda-feira (13/4), que os EUA iniciariam o "bloqueio de navios que entram ou saem de portos iranianos" às 10h ET (11h em Brasília).

Segundo Trump publicou nas redes sociais, ele "instruiu a Marinha a procurar e interceptar toda embarcação em águas internacionais que tenha pago um pedágio ao Irã" para passar por Ormuz.

Desde o início da guerra, o bloqueio seletivo — mas eficaz — do Irã a uma das vias navegáveis mais importantes do mundo geralmente só tem sido contornado por navios alinhados ao Irã, a países que Teerã considera amistosos ou por embarcações que se acredita terem pago um pedágio, estimado em cerca de US$ 2 milhões (R$ 10 milhões)

"Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura no alto-mar", disse Trump, acrescentando que "qualquer iraniano que atirar contra nós, ou contra embarcações pacíficas, será explodido até o inferno".

O presidente americano declarou ainda que "o Irã prometeu abrir o Estreito de Ormuz e, conscientemente, não o fez".

"Isto causou ansiedade, desorganização e sofrimento a muitas pessoas e países em todo o mundo", afirmou.

Após as declarações de Trump, as Forças Navais do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) afirmaram que quaisquer embarcações militares que se aproximem do Estreito de Ormuz serão consideradas como estando em violação do cessar-fogo e serão "tratadas severamente".

Em um comunicado publicado por veículos iranianos, as Forças Navais acrescentam que, "ao contrário das falsas alegações de alguns funcionários inimigos", o Estreito de Ormuz está "aberto para a passagem inocente [trânsito livre] de embarcações não militares, sob controle e gestão inteligentes, em conformidade com regulamentos específicos" do Irã.

Os "navios de ataque" iranianos serão "eliminados" caso se aproximem do bloqueio naval dos EUA, afirmou Trump, na rede social. "A Marinha do Irã jaz no fundo do mar, completamente destruída - 158 navios. O que não atingimos foi o pequeno número de seus chamados 'navios de ataque rápido', porque não os consideramos uma grande ameaça", escreveu Trump.

O presidente americano seguiu, dizendo que se algum desses navios se aproximar do bloqueio, "será imediatamente ELIMINADO, usando o mesmo sistema de destruição que usamos contra os traficantes de drogas em barcos no mar". Ele fez menção aos ataques letais que vem realizando contra supostos barcos de narcotráfico no Mar do Caribe e no Oceano Pacífico desde setembro.

O bloqueio abrangerá "toda a costa iraniana", de acordo com uma nota enviada pelo Comando Central dos EUA (Centcom) aos marinheiros e divulgada pela agência de notícias Reuters. Ele afetará navios de qualquer bandeira no Golfo de Omã e no Mar Arábico, a leste do Estreito de Ormuz.

O Centcom alertou que embarcações "que entrarem ou saírem da área bloqueada sem autorização estarão sujeitas a interceptação, desvio e captura". Na nota enviada, o Comando Central afirmou também que remessas humanitárias, como alimentos e suprimentos médicos, serão permitidas, sujeitas a inspeção.

Os mercados reagiram com nervosismo aos novos acontecimentos do conflito no Oriente Médio. O preço do petróleo voltou a subir com força nesta segunda, com o barril do tipo Brent ultrapassando os US$ 100 — alta de mais de 7% — refletindo temores sobre o impacto do bloqueio no fornecimento global de energia.

No fim de semana, as tentativas de negociações de paz entre Irã e EUA fracassaram, mas o primeiro-ministro paquistanês, Shehbaz Sharif, afirmou que os esforços para resolver o conflito continuam.

"O cessar-fogo ainda está em vigor e, neste momento, todos os esforços estão sendo feitos para resolver as questões pendentes", disse Sharif, segundo tradução da agência de notícias AFP.

Desde o início da guerra, o Irã faz um bloqueio seletivo de uma das vias marítimas mais importantes do mundo; só permite a passagem de navios de países que Teerã considera amistosos ou por embarcações que se acredita terem pago um pedágio, estimado em cerca de US$ 2 milhões (R$ 10 milhões).

"Ninguém que pague um pedágio ilegal terá passagem segura no alto-mar", disse Trump, acrescentando que "qualquer iraniano que atirar contra nós, ou contra embarcações pacíficas, será explodido até o inferno".

Mais tarde, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) afirmou que o bloqueio será apenas para navios que entram e saem de portos iranianos.

O Centcom afirmou que não bloqueará embarcações no Estreito de Hormuz se elas estiverem a caminho "de e para portos não iranianos".

Pelo menos 60 embarcações passaram pelo estreito — uma média de 10 por dia — desde que o cessar-fogo foi anunciado na noite da última terça-feira (7/4).

Trata-se de um aumento significativo em relação ao período anterior ao cessar-fogo, mas ainda é apenas uma fração do volume pré-guerra, quando cerca de 138 navios atravessavam o estreito diariamente, segundo o Joint Maritime Information Centre.

Após as declarações de Trump, as Forças Navais do Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC) afirmaram que quaisquer embarcações militares que se aproximem do Estreito de Ormuz serão consideradas como estando em violação do cessar-fogo e serão "tratadas severamente".

Em um comunicado publicado por veículos iranianos, as Forças Navais acrescentam que, "ao contrário das falsas alegações de alguns funcionários inimigos", o Estreito de Ormuz está "aberto para a passagem inocente [trânsito livre] de embarcações não militares, sob controle e gestão inteligentes, em conformidade com regulamentos específicos" do Irã.

<><> Ambição nuclear do Irã minou acordo, diz Trump

Trump também comentou as negociações conduzidas por seu vice, J.D. Vance, em Islamabad, capital do Paquistão.

O presidente disse nas redes sociais que "a reunião foi boa, a maioria dos pontos foi acordada, mas o único ponto que realmente importava, nuclear, não foi".

Segundo Trump, após "quase 20 horas" de negociações, "há apenas uma coisa que importa — o Irã não está disposto a abrir mão de suas ambições nucleares".

Donald Trump também afirmou que o Irã retornará à mesa de negociações e "nos dará tudo o que queremos".

Numa entrevista ao Sunday Morning Futures, programa da Fox News, Trump declarou que os negociadores dos EUA conseguiram "praticamente todos os pontos de que precisávamos", exceto o nuclear.

Ele afirmou ainda que o Irã não "deixou a mesa de negociações". "Prevejo que eles voltem e nos deem tudo o que queremos", declarou.

<><> EUA não conquistaram confiança, diz Irã

O presidente do Parlamento do Irã, Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação de Teerã nas conversas no Paquistão, afirmou neste domingo que agora é o momento de os EUA "decidirem se podem conquistar nossa confiança ou não".

Em uma publicação no X, Ghalibaf diz que enfatizou antes das negociações que o Irã tinha "boa-fé e vontade", mas, devido às experiências de duas guerras anteriores, não tinha "nenhuma confiança no lado oposto".

Ele afirma que a delegação iraniana "apresentou iniciativas voltadas para o futuro, mas o lado oposto acabou não conseguindo conquistar a confiança da delegação iraniana nesta rodada de negociações".

Ele prossegue: "Não cessaremos por um momento sequer nossos esforços para consolidar as conquistas dos quarenta dias da defesa nacional do Irã".

Ele acrescentou que as negociações foram "intensas" e agradeceu ao Paquistão por facilitá-las.

<><> O que é o Estreito de Ormuz

No centro desta guerra, o Estreito de Ormuz é uma das rotas de energia mais importantes do mundo, que conecta os produtores do Oriente Médio aos principais mercados da Ásia-Pacifico, da Europa e América do Norte.

Desde que o Irã anunciou seu fechamento, no dia 2 de março, logo após os primeiros ataques de Israel e dos Estados Unidos, a rota se tornou um dos epicentros da atual guerra no Oriente Médio.

Até então, cerca de 20% de todo o petróleo consumido no planeta passava por ali. Esse petróleo não vem apenas do Irã, mas também de países do Golfo, como Iraque, Kuwait, Catar, Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos.

Quase 90% desse volume segue para a Ásia. A China, sozinha, recebe cerca de 38%, seguida por Índia, Coreia do Sul e Japão.

Além disso, o estreito é uma rota essencial para o gás natural liquefeito, usado como combustível na indústria, no transporte e no aquecimento de residências em vários países.

Por ali também passam fertilizantes utilizados na agricultura em todo o mundo, inclusive no Brasil.

No sentido contrário, é pelo estreito de Ormuz que entram alimentos, medicamentos e outros produtos essenciais para o Oriente Médio.

Antes do conflito, cerca de 130 embarcações passavam pelo estreito de Ormuz todos os dias. Hoje, esse fluxo caiu para cinco ou seis navios — uma redução de cerca de 95%.

Qualquer instabilidade no estreito de Ormuz tem impacto quase imediato no restante do mundo, afetando preços, cadeias de abastecimento e economias inteiras.

¨      O que acontece agora que as negociações de paz entre Irã e EUA não chegaram a um acordo?

O encerramento das negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã sem um acordo, na capital paquistanesa, Islamabad, colocou em dúvida a possibilidade de se alcançar uma paz duradoura entre os dois países.

Antes das conversas encerradas neste domingo (12/4), autoridades do governo do Paquistão vinham demonstrando otimismo, destacando que, ao contrário de muitos outros, o país goza da confiança de ambos os lados.

O chefe da delegação dos EUA, o vice-presidente J.D. Vance, também se mostrou confiante, mas após as negociações que se estenderam pela madrugada de domingo, foi anunciado que não houve acordo.

Desacordos fundamentais sobre o programa nuclear iraniano, entre outros pontos sensíveis, teriam levado ao colapso das conversas.

Então, o que isso significa para o conflito e para as opções dos principais protagonistas da guerra?

<><> Contexto

A chefe dos correspondentes internacionais da BBC, Lyse Doucet, destaca que as negociações em Islamabad foram o mais alto nível de conversas entre Irã e Estados Unidos desde a Revolução de 1979.

"Não é possível fazer esse tipo de diplomacia em um dia", afirma Doucet, acrescentando que já havia sinais, antes mesmo do início das conversas, de que o processo não seria rápido.

O presidente dos EUA, Donald Trump, tem usado linguagem dura de forma consistente, diz Doucet.

"'O Irã foi derrotado. O Irã precisa se render.' Vance refletiu isso ao dizer que eles [Irã] tinham de concordar com os nossos termos."

Mas é pouco provável que o Irã se submeta a ultimatos, e o país não chegou a Islamabad pronto para se render, aponta Doucet.

"O Irã chegou a Islamabad não achando que tinha perdido esta guerra; na verdade, chegou achando que está vencendo. Acredita que tem uma posição forte. Continua retaliando e conseguiu militarizar o Estreito de Ormuz", o corredor no Golfo Pérsico por onde passa boa parte do petróleo mundial.

<><> E agora?

Ambos os lados voltarão às suas capitais e darão mais tempo à diplomacia? Ou o presidente dos EUA, Donald Trump, decidirá que agora é o momento de escalar o conflito?

Nicholas Hopton, ex‑embaixador do Reino Unido no Irã, acredita que há alguns sinais positivos no que ocorreu em Islamabad.

"Eles parecem ter abordado as conversas de maneira construtiva de ambos os lados", afirma Hopton.

"Conversaram por um período do dia excepcionalmente longo. E a forma como as conversas foram conduzidas permitiu tanto discussões técnicas detalhadas quanto declarações mais gerais."

Ele diz que, apesar de exigências "maximalistas" terem sido apresentadas por ambas as partes em Islamabad e de a distância entre elas ainda ser grande, os dois lados parecem esperar que novas conversas aconteçam.

"Este acordo — se houver um a ser feito eventualmente — provavelmente terá novos elementos e será mais complexo até mesmo do que o acordo de 2015", afirma, referindo‑se ao acordo fechado com o Irã pelo então presidente dos EUA, Barack Obama.

Kasra Naji, correspondente especial do serviço persa da BBC News, também sugere que "nem tudo está perdido".

"O chefe da delegação iraniana nas conversas, Mohammad Bagher Ghalibaf, tuitou culpando o lado americano por não conseguir ganhar a confiança da delegação iraniana 'durante esta rodada de conversas', deixando aberta a possibilidade de mais negociações", escreve Naji.

E, de fato, a BBC apurou que conversas indiretas continuaram entre delegados iranianos e americanos por meio do Paquistão, apesar do fim das negociações formais.

"Isso não foi confirmado oficialmente nem pelos EUA nem pelos iranianos e, como no passado, sempre foi difícil entender a natureza de quaisquer discussões entre intermediários", afirma a correspondente da BBC em Islamabad, Azadeh Moshiri.

"Mas isso pode sugerir que a porta para a mediação e para conversas por canais paralelos não está totalmente fechada."

Portanto, uma escalada por parte de Washington está fora de cogitação, pelo menos por enquanto, com Trump adotando uma abordagem mais paciente e estratégica?

Sim, dizem alguns especialistas, que sugerem que o Irã continua a ter influência sobre os EUA — particularmente em razão da prolongada interrupção do comércio global, da sobrevivência da liderança iraniana e de seus aliados e da existência de seus estoques de urânio enriquecido.

Uma agência de notícias iraniana, a Tasnim, citou uma fonte dizendo: "O Irã não está com pressa para negociar." A fonte acrescentou que "a bola está no campo da América".

Como coloca a correspondente Azadeh Moshiri: "A grande lição aqui é que a força bruta não empurrou os iranianos para uma posição em que sentissem que precisavam fazer concessões."

Outros relatos sugerem que Trump está considerando um bloqueio naval ao Irã após o colapso das conversas — semelhante ao que ocorreu antes da deposição do ex‑presidente venezuelano Nicolás Maduro, em janeiro.

Talvez em alusão a isso, no fim de semana, enquanto as negociações estavam em andamento, um alto oficial militar dos EUA divulgou uma declaração sobre o estabelecimento de um corredor marítimo seguro — por meio de ações ativas de desobstrução de rotas — para desbloquear o Estreito de Ormuz.

Não está claro se isso poderia ou ocorreria em conjunto com a retomada dos bombardeios dos EUA ao Irã.

Em última análise, o presidente dos EUA deve estar ciente de duas coisas, afirma a correspondente Lyse Doucet.

"Primeiro, [um retorno à guerra] seria muito impopular em casa."

Trump estará atento ao impacto doméstico de qualquer conflito global prolongado — especialmente se o custo de vida continuar a subir justamente quando as eleições de meio de mandato se aproximam, em novembro.

O índice de preços ao consumidor (CPI) mais recente — que mede o preço de uma cesta de bens e serviços — é o maior em quase dois anos, um indicativo preocupante do que pode estar por vir.

"Segundo, não vai funcionar", acrescenta Doucet. "O Irã vai reagir."

¨      EUA estão fadados ao fracasso em qualquer bloqueio naval, afirma Irã

Um alto assessor militar do líder supremo do Irã afirmou nesta segunda-feira (13) que os Estados Unidos estão fadados ao fracasso em qualquer bloqueio naval, após a ameaça do presidente Donald Trump de bloquear o Estreito de Ormuz.

“Os Estados Unidos, assim como sofreram uma derrota histórica contra o Irã ao tentar abrir o Estreito de Ormuz, também estão fadados ao fracasso em qualquer bloqueio naval”, disse Mohsen Rezaee, ex-comandante-em-chefe da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) que saiu da aposentadoria para servir ao novo líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei.

Rezaee acrescentou que as forças armadas do Irã "não permitirão tal movimento por parte dos EUA" e que seu exército possui "capacidades significativas ainda não exploradas" para neutralizar quaisquer ameaças.

Como mostrado pela CNN, os EUA anunciaram no domingo que vão bloquear o Estreito de Ormuz a partir das 11h (horário de Brasília) de segunda-feira.

Apesar de já ter sido restringido pelo Irã, o estreito não está tecnicamente fechado – Teerã tem permitido gradualmente a passagem de alguns petroleiros em troca de um pedágio de até 2 milhões de dólares por navio. E, principalmente, o Irã tem permitido que o seu próprio petróleo entre e saia da região durante a guerra.

Ao fechar o estreito, os Estados Unidos podem cortar uma fonte fundamental de financiamento para o governo e para as operações militares do Irã.

“O bloqueio será aplicado imparcialmente contra embarcações de todas as nações que entrarem ou saírem de portos e áreas costeiras iranianas, incluindo todos os portos iranianos no Golfo Pérsico e no Golfo de Omã”, disse o Comando Central dos Estados Unidos, em uma publicação no X.

Segundo o governo americano, os navios que não estejam viajando para ou de portos iranianos poderão passar livremente pelo Estreito de Ormuz, pois o bloqueio "não impedirá a liberdade de navegação" dessas embarcações.

O anúncio do Comando Central dos EUA se dá após Trump ter anunciado hoje cedo um bloqueio no Estreito de Ormuz, medida que poderá aumentar o preço do petróleo, enquanto Washington procura intensificar a sua influência sobre Teerã.

Mohammad Bagher Ghalibaf, presidente do Parlamento iraniano, respondeu à ameaça publicando um mapa dos preços da gasolina em postos próximos à Casa Branca. “Aproveitem o preço atual da gasolina. Com o que está sendo chamado de 'bloqueio', vocês logo sentirão falta da gasolina a US$ 4 ou US$ 5.”

 

Fonte: BBC News/CNN Brasil

 

segunda-feira, 13 de abril de 2026


 

Eleições 2026: “Quem oferecerá a esperança de um futuro melhor?”

Os dados de mobilidade social da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua) dos primeiros dois anos do atual governo Lula mostram uma melhora nas condições de vida da população brasileira. No entanto, isso não foi suficiente para dissipar a “insatisfação visível” que se manifesta neste ano eleitoral, observa Waldir Quadros na entrevista a seguir, concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. “Não podemos esquecer que apesar das melhorias, a situação ainda é muito ruim. Ou seja, houve melhorias, mas isso não significa que a situação está boa para os brasileiros, inclusive para quem melhorou. As condições gerais da população são muito difíceis em diversos âmbitos, como moradia e alimentação. Ou seja, são muito precárias, mesmo quando há melhorias”, afirma.

Na avaliação do economista, o rumo das eleições presidenciais deste ano é uma “grande incógnita”, mas o pleito será vencido pela liderança que conseguir capitalizar o desconforto e o cansaço da sociedade. “A insatisfação é visível, a questão é quem vai conseguir capitalizar e convencer as pessoas descontentes de que está oferecendo a possibilidade de um futuro melhor. Não basta criticar o outro. É preciso oferecer a esperança de um futuro melhor”, assegura. Para ele, o maior desafio do Brasil é a reindustrialização. “Mas isso não é simples de ser feito porque o poder político no Congresso é dominado pelo agronegócio e pelos interesses financeiros. Ambos estão juntos e não têm nenhum interesse em reindustrializar o país”, pontua.

A seguir, Waldir Quadros também comenta os principais dados de sua recente pesquisa sobre a ascensão social dos negros e a persistência da discriminação racial no Brasil. “Este é o grande drama: a herança psicológica dos brancos em relação aos negros, tratando-os como inferiores, é muito profunda numa sociedade mestiça como a nossa. Hoje, pardos e negros são maioria na população, mas continua a discriminação”, sublinha.

Waldir Quadros é graduado em Economia pela Universidade de São Paulo – USP e mestre e doutor em Ciência Econômica pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp, onde é professor associado do Instituto de Economia.

<><> Confira a entrevista.

·        Como está a sociedade brasileira neste ano de eleição presidencial?

Waldir Quadros – Do ponto de vista social, a situação melhorou. Os dados de mobilidade da PNAD Contínua do primeiro biênio (dois anos) mostram uma melhora, sem dúvida. Porém, isso não está se traduzindo – ao menos até agora – em maior prestígio para o governo. Pela primeira vez nas minhas pesquisas, percebo que a melhoria das condições sociais não se reflete em maior aprovação do governo Lula. A situação está melhorando, mas a aprovação social está indo por outro caminho: a questão ideológica. Há um antipetismo muito forte, que foi se cristalizando por várias razões. Ele sempre existiu, mas no último quadriênio aflorou de modo muito intenso, e isso tem ofuscado a melhoria das condições materiais.

·        O antipetismo está associado ao crescimento da extrema-direita ou tem outras causas?

Waldir Quadros – À extrema-direita, com certeza, mas não é só isso. Há um cansaço. Muitas pessoas não são de extrema-direita, mas não gostam do PT. O antipetismo também não significa que as pessoas são antiesquerda. Claro que há os que são, mas o antipetismo é um fenômeno de cansaço.

·        Em 2019, o senhor chamava a atenção para o fato de que 80% dos trabalhadores brasileiros viviam com renda de até 1.700 reais. No ano passado, os dados da PNAD Contínua, divulgada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicaram que o rendimento médio nacional chegou a 3.057. Por que essa melhora na renda não reverbera positivamente entre a população?

Waldir Quadros – Por causa da barreira ideológica. Para muitos cidadãos, as melhorias que o governo propicia não são nada além do que a sua obrigação. Hoje, a questão ideológica se sobrepõe às melhorias que ocorreram. Mas não podemos esquecer que, apesar das melhorias, a situação ainda é muito ruim. Ou seja, houve melhorias, mas isso não significa que a situação está boa para os brasileiros, inclusive para quem melhorou. As condições gerais da população são muito difíceis em diversos âmbitos, como moradia e alimentação. Ou seja, são muito precárias, mesmo quando há melhorias. Aí chegamos neste número: 80% da população vive na precariedade e, mesmo que tenha melhorado, a condição de vida ainda não está boa. Esta é a síntese.

·        Esse cansaço se reflete na declaração de Gabriel Galípolo sobre o endividamento das famílias, cuja renda está aproximadamente 30% comprometida com os custos do cartão de crédito?

Waldir Quadros – O endividamento reflete isto: para manter o consumo ou melhorar o consumo, recorre-se à dívida. É uma loucura. Mas o endividamento reflete as condições difíceis das famílias, mesmo para quem está empregado. O endividamento é uma consequência dessa situação. Galípolo poderia contribuir muito se baixasse os juros.

·        Que projeto de país precisa ser disputado nesta eleição para que os problemas sociais nacionais sejam enfrentados?

Waldir Quadros – Esta é a questão central: ou o país se reindustrializa nas condições atuais ou não teremos futuro. Este é o nosso drama: falta indústria. A indústria brasileira foi sucateada nos anos 1990 com a liberação das importações, com câmbio e juro desfavorável para a produção nacional. É o nosso maior desafio: a reindustrialização do país. Sem isso, não vamos ter futuro.

Mas reindustrializar não é simples de ser feito porque o poder político, no Congresso, é dominado pelo agronegócio e por interesses financeiros. Ambos estão juntos e não têm nenhum interesse na reindustrialização do país. Para eles, se ficar como está, está muito bom.

·        Como essa sensação de cansaço e mal-estar social pode influenciar as eleições?

Waldir Quadros – Essa é uma grande incógnita. Tenho a impressão de que os marqueteiros estão tentando interpretar exatamente isto: para onde vai a eleição? Quem vai capitalizar esse desconforto? Quem oferecerá a esperança de um futuro melhor? Porque não se trata só de criticar. Que futuro melhor pode ser oferecido? O líder que conseguir traduzir isso será o bem-sucedido.

A insatisfação é visível, a questão é quem vai conseguir capitalizar e convencer as pessoas descontentes de que está oferecendo a possibilidade de um futuro melhor. Não basta criticar o outro. É preciso oferecer a esperança de um futuro melhor.

·        Que propostas de futuro podem surgir com Lula ou Flávio Bolsonaro, que representam dois lados da polarização?

Waldir Quadros – Também estou curioso para saber por que não sei o que vão propor. Espero que se dediquem a discutir as questões estruturais da economia e da sociedade brasileira e proponham uma melhoria de perspectiva que anime o povo e canalize essa insatisfação para a busca de um futuro melhor.

·        A polarização política entre direita e esquerda tem reforçado a discriminação e remodelado a discussão sobre o racismo no Brasil?

Waldir Quadros – Não sei analisar essa questão a fundo, mas é óbvio que a polarização é uma coisa desastrosa e tem um efeito antissocial geral. Nunca vimos isso no Brasil. Tenho amigos de direita e de esquerda e nós sempre convivemos. O problema é que a polarização transformou o diferente em um inimigo a ser eliminado. Essa polarização não contribui para a redução da discriminação e do preconceito.

Se observarmos os dois polos, à direita e à esquerda, vamos perceber que há uma mistura racial. Nunca vamos conseguir identificar a esquerda com mais negros e a direita com menos negros. A questão regional tem um peso mais significativo nessa discussão porque onde a mistura já está instalada demograficamente na sociedade, ela é mais aceitável. Em regiões em que a presença negra é reduzida, a situação é mais difícil. A discriminação é maior em regiões com pouca presença de negros. Em regiões como a Bahia, é menor porque lá a presença de negros e pardos é majoritária.

·        O que os dados da PNAD indicam sobre a ascensão social dos negros? Entre 2012 e 2024, houve avanços socioeconômicos para uma parcela da população negra?

Waldir Quadros – Sim. A minha pesquisa compara a mesma ocupação dos funcionários públicos com os não públicos. Os públicos estão sempre em melhores condições de remuneração do que os não públicos, ou seja, aqueles do setor privado, das ONGs e das instituições confessionais. Isso é visível nas áreas de saúde, educação, administrativa e segurança.

Os dados também revelam que entre os trabalhadores do setor público há uma mobilidade social melhor do que os do setor privado. Aumentou significativamente a passagem da baixa classe média para a média classe média tanto para brancos quanto para negros e pardos. Isso mostra que o emprego público é um canal de ascensão social para negros e pardos.

Na educação há uma melhoria das condições de remuneração dos professores e funcionários públicos por causa da capacidade reivindicatória. Para os governos, é mais fácil atender demandas salariais do que melhorar a estrutura da educação. As questões estruturais são mais difíceis de resolver do que dar aumento. Por isso os governos acabam atendendo às reivindicações dos professores e funcionários. Além disso, houve iniciativas de melhoria do piso de remuneração dos professores. Ou seja, existem políticas públicas cuidando da remuneração deles. Não é uma maravilha, mas é melhor do que no setor privado. Isso confirma que o problema maior é a estrutura, que está sucateada.

Na área da saúde, a situação dos enfermeiros é difícil. Eles acabam trabalhando em dois ou em até três lugares, mas o setor público remunera melhor do que o privado.

·        Por que o senhor enfatiza na pesquisa que a ascensão social dos negros acontece sem igualdade?

Waldir Quadros – Porque, quando melhora a situação salarial, melhora para todos os trabalhadores, mas se mantém uma diferença: os brancos ganham mais do que os negros e mais do que os pardos. Há uma diferença racial na remuneração nas áreas da educação, saúde e administração. Os negros estão sempre em situação desvantajosa do ponto de vista da remuneração em relação aos brancos. Existe aí uma discriminação racial. Os negros estão ascendendo nessas ocupações sem igualdade em relação aos brancos e, nesse sentido, a desigualdade permanece.

·        Seu estudo destaca que a discriminação não desaparece com a ascensão social dos negros, mas assume outras formas. Como a discriminação se manifesta no cotidiano?

Waldir Quadros – Os negros, mesmo quando alcançam uma posição de classe média, passam a conviver num espaço que era privativo de brancos e sofrem uma discriminação muito forte porque os brancos não aceitam essa “invasão”. Eles se sentem invadidos por aquelas pessoas que não fazem parte daquele cotidiano. O negro, mesmo quando ascende socialmente, sofre uma discriminação muito grande porque está fora da sua comunidade. Ele passa a conviver numa sociedade predominantemente de brancos.

·        Como a discriminação afeta psicológica e emocionalmente as pessoas?

Waldir Quadros – Afeta profundamente. Quando uma pessoa se sente discriminada e vê seus filhos discriminados, isso gera muito sofrimento e tem efeitos de todo tipo, que vai desde o sofrimento até a revolta. Há jovens que se revoltam e respondem com agressão à discriminação. É uma situação muito difícil para os negros.

·        Por que o racismo persiste numa sociedade mestiça como a brasileira?

Waldir Quadros – Infelizmente, as heranças da escravidão ainda são muito profundas e hoje estão presentes nas atitudes dos brancos em relação aos negros. Basta ver o modo como as empregadas domésticas são tratadas. Este é o grande drama: a herança psicológica dos brancos em relação aos negros, tratando-os como inferiores, é muito profunda numa sociedade mestiça como a nossa. Hoje, pardos e negros são maioria na população, mas continua a discriminação.

·        Nos últimos anos, observamos uma valorização da cultura negra e, ao mesmo tempo, um ressentimento de uma parcela da população por causa desse enaltecimento. Como rediscutir a questão racial no país neste contexto?

Waldir Quadros – O caminho é a educação. O aspecto educacional é fundamental. A escola pode dar uma grande contribuição para a redução da discriminação entre as crianças, criando um ambiente de mais respeito e igualdade. Na cultura, no esporte, os negros têm um papel significativo e reconhecido. Mas veja bem: uma coisa é gostar de assistir a um show de um negro, onde a pessoa paga um ingresso e assiste a um evento, outra coisa é conviver. Para os racistas, o grande problema é a convivência com os negros. A convivência na família, nos ambientes sociais predominantemente brancos. Essa é uma barreira muito grande.

A educação é o caminho porque já existem leis que coíbem o preconceito e a discriminação racial. Quando os negros e, principalmente, as negras acionam a justiça, vemos os efeitos. Mas não basta ter leis. É uma questão cultural. A proeminência dos negros em áreas culturais e esportivas não se traduz em menor preconceito.

As religiões também podem propiciar uma redução do preconceito no país porque nas igrejas e nos templos convivem todos. A religião tem o efeito positivo na redução da discriminação.

·        Qual impacto social e cultural a resolução da ONU, que reconhece o tráfico transatlântico de escravos como o maior crime contra a humanidade, pode ter na formação de uma nova mentalidade nas próximas gerações?

Waldir Quadros – Fundamentalmente, a resolução dá um argumento muito forte para os movimentos negros. Ela, por si só, não vai mudar a cabeça dos brancos. As conquistas não vêm espontaneamente. O movimento negro unificado tem um papel fundamental na luta por reconhecimento e pela redução das desigualdades. Nesse sentido, a resolução é um instrumento importante para a luta do movimento negro.

·        Além da educação, que medidas concretas podem ser tomadas para superar a mentalidade racista que persiste na sociedade brasileira?

Waldir Quadros – O fortalecimento dos direitos é fundamental. Não é simples. Diria que é muito difícil. Mas isso passa pela reivindicação e luta do movimento negro, inclusive no que diz respeito à educação e à saúde. A capacidade reivindicatória deles pode fazer a diferença.

 

Fonte: Entrevista especial com Waldir Quadros, para IHU


Educação e violência: da sala de aula à “Hora do Recreio”

É um tempo desfavorável aos sonhos. Na verdade, tem sido assim há algum tempo. Talvez isso justifique o discurso feito pelo presidente Luís Inácio Lula da Silva após sua vitória nas eleições de 2022: o povo brasileiro quer ter de volta a esperança, dizia o presidente, utilizando de uma estratégia discursiva semelhante àquela que garantiu sua eleição no início deste século, quando a esperança teria enfim vencido o medo. A ênfase na esperança denuncia, por oposição, o real estado das coisas neste tempo de horizontes bloqueados. Se, nos Estados Unidos, a eleição de Donald Trump, já em 2016, havia demarcado uma rejeição às formas correntes de um aparente neoliberalismo progressista, o impeachment de Dilma Rousseff e a eleição de Jair Bolsonaro, cujos efeitos ainda se fazem sentir no esgoto a céu aberto que a direita encontrou para bramir seus ideais, forneceram o CPF e a roupagem verde-e-amarela à boa teorização de Nancy Fraser. Em suas palavras, não estávamos diante de uma nova roupagem da estrutura neoliberal, apenas presenciávamos o fracasso de sua aparente forma e versão progressista, até então colorida por ideais de representatividade e por bandeiras em prol das mulheres, da luta anti-homofobia e antirracista. Os resultados e efeitos desta empreitada ainda estão sob observação na contemporaneidade dos nossos dias, em que seguem intactas as estruturas de poder já estabelecidas, com políticas de exclusão de classe perpetuadas a torto e a direito. Sem sombra de dúvidas, uma análise possível deste processo se revela com clareza nos debates em sala de aula, espaço no qual os projetos de nação desenhados no correr da História se fazem e afirmam.

Fruto dos processos históricos de seu tempo, roteirizado e encenado a partir de depoimentos e histórias de vida dos próprios estudantes, Hora do recreio é o novo documentário de Lucia Murat que estreou em alguns dos cinemas brasileiros no recente 12 de março. Premiado pelo júri jovem do Festival de Berlim, já em seu título o trabalho faz menção àquilo que concretiza em sua forma artística: é mesmo de um intervalo que trata o trabalho, entre o registro e a cena, a ficção e a realidade. Passando por quatro escolas distintas, ainda que com a entrada não-liberada nos colégios estaduais, seja por bloqueios burocráticos colocados pelo próprio Estado, seja pelos bloqueios letais promovidos pela ação de sua polícia, a diretora Lucia Murat produz um retrato fiel da realidade da educação pública carioca, que decerto traduz e revela todo o projeto de nação desenhado às juventudes deste país.

Na contramão das políticas correntes de negação e esquecimento, não custa mesmo notar, ainda uma nova e outra vez, aquilo que, em uma entrevista fornecida no ano de 2019, Roberto Schwarz resgatou da infame memória nacional:

Não custa notar que nossa liberdade cultural sempre teve um caráter gritante de prerrogativa de classe. Salvo os grandes momentos de exceção, o seu foco estava mais na atualização com a moda dos países dominantes que no ajuste de contas com os abismos de classe em que vivemos.

É algo desse abismo que aparece no novo trabalho de Lucia, no qual despontam mesmo os abismos de classe, gênero e raça que marcam a organização desigual da sociedade brasileira e que encontram régua e compasso na estrutura das salas de aula, especialmente nas escolas públicas periféricas destinadas à formação dos filhos da classe trabalhadora. Ali, a escola torna-se espelho e enunciação das diversas formas de violência que marcam a trajetória daqueles e daquelas que têm seus direitos parcialmente negados pelo Estado; aqueles e aquelas a quem a promessa de ascensão social tem se tornado cada vez mais apenas um material exclusivo de compra e consumo em produtos de autoajuda e consulta a coaches digitais, sem promessas e garantias reais e concretas de futuro. Nos quadros em cena, a instituição escolar enfim se mostra como o palco dos conflitos em que a diferença se revela em seu lugar mais insuportável, que é na pressuposição impossível de uma convivência entre prerrogativas distintas de classe – até mesmo no que diz respeito à expectativa daquilo que se ensina e que se aprende. Para além da convivência em sala de aula, tema de vários dos debates correntes em escolas e universidades públicas e privadas, a definição dos objetos, autores e materiais de estudo e trabalho também deixa entrever algumas das minúcias do projeto de nação em torno do qual se escreve a história de todo um povo, oficialmente marcado pela exclusão e pelo silenciamento. A escola era para ser um lugar seguro, lembra uma estudante. Mas seguro para quem? Em cima de quais fantasias construímos os pressupostos da educação nacional? Quais pressupostos precisam ser revistos, a fim de que o processo formativo possa ganhar relevância local? Saber que o Estado não autorizou a filmagem do documentário nas salas de aula de suas escolas de Ensino Médio talvez já anuncie um tanto do que se espera e anuncia às gerações em voga.

De fato, dos depoimentos de cada estudante o que salta aos olhos não é o lamento pelas condições materiais de vida, mas a transformação da violência em forma exclusiva de organização da matéria social. A linguagem bélica e o estado putrefato das relações descritas descrevem o estágio atual de implosão das formas possíveis de mediação junto a um Estado que, atendendo aos desejos neoliberais, se quer cada vez menor, restando apenas o risco, a agressão e o silenciamento como mecanismos de estruturação da ordem nacional. Não à toa, é da voz dos estudantes que sai o maior dos pedidos: Precisa ter uma pessoa para zelar por nós. Efetivamente não se trata, contudo, de uma pessoa, um sujeito singular: o que os estudantes parecem clamar é por algo que beira o cuidado, aqui um tanto desvencilhado das pautas e políticas de gênero que têm marcado a absorção do conceito nos últimos anos, ainda que reconhecendo seu alcance e importância, para abranger a possibilidade de reivindicação de um lugar político a toda uma classe. Em cena, fica o lembrete de que a luta por direitos e acessos também deve vir carregada de políticas reais de apoio e auxílio, que garantam o bem-estar e a própria possibilidade do existir. O que está em jogo são formas de proteção e segurança da vida, que precisam se concretizar para que este sujeito possa enfim encontrar alguma forma pública de expressão. Em suma, respondendo parcialmente àquela conhecida questão de Spivak acerca da possibilidade da fala dos povos subalternos, os estudantes em cena parecem já perceber que o discurso emancipatório precisa caminhar com a defesa das políticas de proteção e segurança à classe desfavorecida – ainda que esta combinação já aparente não ser um dado de possibilidade nos ditos fins de modelos neoliberais supostamente progressistas. Fica, portanto, a dúvida: o que parece, então, restar para a classe trabalhadora, além dos desmanche de seus direitos e da desordem corriqueira, da violência cotidiana? Há, ainda, alguma promessa de futuro ou a fatalidade já está em tudo anunciada? Como efetivamente produzir mundos, sonhos e realidades de vida?

Misturando realidade e ficção, teatro e literatura, cinema e realidade, o documentário de Lucia parece desenhar ao espectador a rota das estratégias de sobrevivência encontradas por toda uma jovem geração em um tempo de degradação das condições de vida. Sem sombra de dúvidas, imaginar algumas outras alternativas e possibilidades implica refletir sobre a própria educação, o projeto nacional de ensino e o percurso formativo de cada sujeito. Neste trajeto, como lembra uma das estudantes, por vezes todo o caminhar se faz com o apoio de apenas um professor. De fato, neste império de exaustão e irresponsabilidade conjunta, pode ser que um único professor seja mesmo capaz de edificar uma escola inteira. No quadro geral de desvalorização de salários e de demandas de trabalho exorbitantes, com um apagão futuro já esperado, o trabalho docente fica mais uma vez colocado em xeque, entre a responsabilização absoluta e a falta de preparo que caracterizam a precariedade da profissão ao menos desde o fim do século passado. O problema deste discurso, que é reflexo de um tempo doente e da implosão de condições mínimas de trabalho, é que educação não se faz apenas na particularidade dos encontros individuais, nos quais alguma experiência é mesmo ainda possível: educação sempre foi – e talvez seja esta uma de suas principais definições – vivência e trabalho coletivo.

Neste universo condensado de reprodução de discursos de opressão, o trabalho de Lucia deixa um lembrete ao espectador: ainda há algum horizonte de projeção e expectativa por meio da arte. É que literatura é vida comprimida no universo possível de várias páginas. Encontrar a vida que pulsa em cada uma das linhas é permitir-se viver outras nuances da própria vida. A cena teatral e as máscaras produzidas pelos próprios estudantes tentam elaborar a experiência de um vivido que transgride a compreensão e que ainda não se elabora porque é puro resíduo da história não-contada de todo um país, no qual é mesmo proibido sonhar, como já anunciava Drummond em seu livro de estreia. Representante deste processo, Hora do Recreio é documento de época e de vida: é trabalho que acompanha o espírito de um tempo e marca o instante em que os excluídos e esmagados socialmente encontram, enfim, a possibilidade de um registro autoral. A questão, contudo, resta a mesma, já há algum tempo: o que muda com a entrada desses novos corpos e sujeitos? Na concretude da vida e na materialidade dos processos, estamos afinal em um momento de abertura ou de fechamento de espaços? Para quem é o tempo de recreio que se anuncia? Quem pode, efetivamente, pausar e aproveitar este intervalo?

Hora do Recreio revela ao espectador que a incorporação discursiva das pautas progressistas ainda não alterou a materialidade dos processos sociais, que são mesmo historicamente lentos e demorados. Por ora, conseguimos conviver muito bem juntando bandeiras de diversidade e acolhimento a práticas de exclusão e silenciamento. A esperança prometida pelo Partido dos Trabalhadores também se permitiu ser vendida nas prateleiras da democracia de consumo operada neste país ao longo dos últimos anos. Na contramão deste discurso esperançoso, o documentário termina com a última fala de Clara dos Anjos, em um romance homônimo de Lima Barreto, finalizado entre dezembro de 1921 e janeiro de 1922: Nós não somos nada nesta vida! A esta fala, talvez os estudantes de Hora do Recreio acrescentem uma nova oração: MAS QUEREMOS SER! E, como se sabe, nas sociedades ocidentais, talvez a única das maneiras de redigir uma nova história e futuro seja mesmo por meio da educação. Ainda que estejamos em tempos muito desfavoráveis, é nosso dever ensinar as novas gerações a sonhar, lembrando-nos de que sonho é, antes de tudo, memória – e a memória é o que permanece vivo nas ruas e encruzilhadas. Talvez seja esta ainda – e sempre – a maior das funções e promessas da escola. azem acreditar.

 

Fonte: Por Matheus Cosmo, no Blog da Boitempo

 

As variações genéticas que podem indicar quem perde mais peso com uso de canetas emagrecedoras

Pessoas que apresentam variações em dois genes ligados ao apetite e à digestão podem perder mais peso ao usar canetas emagrecedoras como Wegovy e Mounjaro no tratamento da obesidade, sugere um estudo recente.

As descobertas, publicadas na revista científica Nature, podem ajudar a explicar por que algumas pessoas perdem muito mais peso do que outras e por que algumas apresentam efeitos colaterais mais intensos, como náusea e vômito, ao utilizar esses medicamentos.

Os remédios, amplamente utilizados em diversos países, reduzem a sensação de fome ao agir de forma semelhante a um hormônio intestinal natural que induz a saciedade.

Embora os genes possam ter um papel relativamente modesto na eficácia desses tratamentos, especialistas afirmam que outros fatores, como sexo, idade e até a origem da pessoa, também podem influenciar os resultados.

Estima-se que pelo menos 1,6 milhão de pessoas no Reino Unido tenham usado medicamentos para perda de peso no último ano, número que deve crescer.

A maioria desses produtos é adquirida de forma privada, por meio de farmácias online. O sistema público de saúde britânico, o NHS, oferece Wegovy e Mounjaro apenas a uma pequena parcela de pessoas com obesidade e outras condições associadas.

A proporção de peso corporal perdida com o uso desses medicamentos pode variar bastante. Ensaios clínicos indicam perda de peso média de 14% com a semaglutida (Ozempic e Wegovy) e de 20% com a tirzepatida (Mounjaro).

Neste estudo, baseado em dados de 15 mil pessoas que utilizaram esses medicamentos para emagrecer, a perda média foi de 11,7% do peso corporal ao longo de cerca de oito meses de tratamento. Alguns perderam até 30% do peso, enquanto outros perderam pouco ou nada.

Todos os 15 mil participantes haviam previamente aderido a testes genéticos da empresa 23andMe, que utilizou esses dados para mapear a experiência de usuários de medicamentos para emagrecimento. Ao analisar milhões de variações genéticas, os pesquisadores identificaram um padrão que sugere uma relação entre algumas variantes e a eficácia dos tratamentos.

A professora Ruth Loos, da Universidade de Copenhague, na Dinamarca, que comentou o estudo na revista científica Nature, afirmou: "O estudo identificou uma variante genética associada à perda de peso, que também está ligada à ocorrência de náusea".

"As pessoas com essa variante tendem a perder mais peso", disse Loos.

Essa diferença adicional corresponde, em média, a cerca de 0,76 kg mas, entre aqueles que possuem duas cópias do gene, a perda pode ser o dobro.

Segundo Loos, a variante é comum em pessoas de ascendência europeia: 64% possuem uma cópia, enquanto 16% têm duas. Em comparação, cerca de 7% dos afro-americanos carregam uma cópia do gene.

"Se você tem essa variante, vai perder mais peso", diz Loos.

O estudo também identificou outra variante que pode estar relacionada aos efeitos colaterais, como náusea e vômito, em usuários de tirzepatida (Mounjaro).

Isso pode significar que até 1% das pessoas que utilizam o medicamento apresentem episódios intensos de vômito, quase 15 vezes mais frequentes do que o habitual.

A professora Loos afirmou que o efeito genético, embora modesto, "é comparável a outros fatores, e não é irrelevante".

Ela ressalta, no entanto, que os achados ainda precisam ser reproduzidos em outros estudos o que, até o momento, não ocorreu.

Para Marie Spreckley, da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, "a genética é apenas uma parte de um quadro muito mais complexo".

Segundo ela, os principais determinantes dos resultados são "fatores comportamentais, clínicos e relacionados ao tratamento", como a prática diária de exercícios físicos, a alimentação saudável durante o uso do medicamento, o suporte e as orientações recebidas, além de condições de saúde pré-existentes.

Mas outros fatores também influenciam.

Pesquisas anteriores indicam que as mulheres têm mais que o dobro de chance de perder 15% do peso corporal com o uso de Mounjaro em comparação com homens.

Ser mais jovem, branco ou asiático também está associado a maior perda de peso, embora as razões ainda não sejam totalmente compreendidas.

Além disso, o tipo de medicamento, a dose e o tempo de uso também estão ligados a resultados mais expressivos.

A longo prazo, a combinação de informações genéticas com outros dados poderá orientar a escolha do tratamento mais adequado para cada paciente, abordagem conhecida como "medicina de precisão".

Mas esse cenário ainda está distante, afirma o professor Naveed Sattar, especialista em saúde metabólica da Universidade de Glasgow, na Escócia.

"No geral, esses resultados são cientificamente interessantes, mas ainda estão longe de mudar a prática clínica", disse.

"O que precisamos agora são dados mais robustos de ensaios clínicos para definir melhor o equilíbrio entre benefícios e riscos desses e de outros tratamentos emergentes."

<><> Acesso no Brasil

No Brasil, o acesso a esses medicamentos começa a mudar. O Rio de Janeiro se tornou a primeira cidade do país a oferecer o medicamento Ozempic pelo Sistema Único de Saúde (SUS), em 18/03.

A medida ocorre no contexto do fim da patente da semaglutida, princípio ativo presente em medicamentos como Ozempic e Wegovy, usados no tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, que expirou no país em 20/03. Com o término da exclusividade da farmacêutica Novo Nordisk, outras empresas passam a poder desenvolver versões do composto.

Na prática, a mudança abre espaço para concorrência e eventual redução de preços, embora esse efeito não deva ser imediato, devido a entraves regulatórios e industriais, como mostrou a reportagem da BBC News Brasil.

Atualmente, o custo mensal do tratamento gira em torno de R$ 1.400, o que limita o acesso, sobretudo entre a população de menor renda, mais afetada pela obesidade.

 

Fonte: Por Philippa Roxby, repórter de Saúde da BBC