quinta-feira, 23 de julho de 2026

O lulismo diante da crise das democracias liberais

Os bons debates servem tanto para revermos nossas posições iniciais como para buscarmos melhor fundamentar nossas ideias. Confesso que, em se tratando de explicações para o fortalecimento da extrema direita no Brasil, tendo a ratificar minha posição inicial. Qual seja, que a ascensão do bolsonarismo deve-se menos à força reativa das elites políticas e econômicas do País do que ao fracasso do reformismo institucionalista dos governos petistas. Como afirmei em texto anterior, reconheço as capacidades reativas das elites brasileiras contra toda e qualquer tentativa de mudança do status quo. Afinal, os níveis escandalosos e obscenos de concentração de renda que espoliam o nosso presente e hipotecam o nosso futuro são o resultado de um determinado projeto de país. No entanto, é inegável que as forças conservadoras proliferam nas frustrações sociais geradas pela decadência das democracias liberais em concomitância com o reordenamento das forças produtivas capitalistas. Compreender o contexto de produção dessas insatisfações bem como o modo como elas são operacionalizadas politicamente pode apontar para respostas mais consistentes acerca dos atuais conflitos que vivemos em nossa sociedade.

<><> A malograda tentativa de ruptura

Como, geralmente, os esclarecimentos devem-se mais à falta de clareza do locutor do que à incapacidade de compreensão do interlocutor, gostaria de retomar meu argumento central acerca da Nova Matriz Econômica da Presidenta Dilma Rousseff (2011-2016). A esse respeito, reafirmo que a tentativa de ruptura com o padrão rentista de acumulação de capitais estava correta em seu objetivo. Entretanto, a política econômica daquele período falhava em sua premissa inicial. Para reindustrializar o País era necessário o fortalecimento do mercado interno, de modo que, com a expansão da demanda agregada, tanto os investimentos públicos como os privados aumentassem nossa capacidade produtiva e possibilitassem a sistematização de políticas de redistribuição de renda. De fato, o problema da Nova Matriz não foi o nível estabelecido para a Selic. O que erodia sua base de sustentação era a insistência obtusa em tentar expandir a riqueza nacional a partir de um injustificado aumento da oferta. Ora, a oferta só pode aumentar quando há demanda suficiente para justificar investimentos, e esse não era o cenário daquela época. Nesse sentido, Dilma e Guido Mantega estavam muito mais para Friedrich Hayek e Milton Friedman do que para Conceição Tavares e Celso Furtado. A importância do reconhecimento desse equívoco não se restringe a um debate técnico. As principais diretrizes econômicas de um governo retratam compromissos, embates e mediações típicos da arena política. É a partir de decisões concernentes ao orçamento público e às principais variáveis macroeconômicas que um governo dá início à implementação de seu projeto político. É nos meandros da política econômica e nas nuances orçamentárias que a influência de determinados atores políticos pode ser mensurada e desvelada. Afirmar que a tentativa de ruptura gerou uma reação é apenas reconhecer a essência conflituosa da política, mas não explicar, consistentemente, como a conciliação e os equívocos do próprio campo progressista corroboraram o fortalecimento do populismo reacionário.

<><> A eleição presidencial de 2018

Como novos elementos foram trazidos a esse debate, permito-me estender minha linha de raciocínio com alguns outros argumentos, sem que o foco na realidade brasileira seja suplantado por demasiadas elucubrações. O primeiro ponto diz respeito à resiliência da candidatura petista no ano de 2018. Apesar da prisão ilegal e inconstitucional de Luiz Inácio Lula da Silva, Fernando Haddad herdou grande parte dos votos que iriam a Lula e chegou ao segundo turno daquela eleição presidencial. Se seu bom desempenho na primeira ronda não foi traduzido em vitória no segundo turno, uma série de elementos podem explicar os limites eleitorais de sua candidatura. Mas, aqui, o ponto de maior interesse diz respeito à força que o candidato petista manteve, mesmo com todas as adversidades encontradas por uma parte da esquerda brasileira em um contexto de Operação Lava Jato e de criminalização da política. Sendo assim, é importante não ignorarmos nem a estrutura partidária que deu sustentação a Haddad nem o invejável capital político de Lula. Naquele ano de 2018, o PT contava com mais de 1,5 milhão de filiados espalhados em mais de 2.700 diretórios municipais, em todos as unidades federativas do País. Além desse notável grau de capilaridade partidária, a campanha de Haddad contou ainda com 500 milhões de reais em valores correntes provenientes do Fundo Eleitoral, a segunda maior cota partidária daquelas eleições. Como sabido, essa gigantesca máquina partidária não teve maiores dificuldades para suplantar alternativas mais ou menos moderadas do campo progressista mais amplo, fossem elas o trabalhismo de Ciro Gomes (PDT) ou o socialismo democrático de Guilherme Boulos (PSoL). Todavia, nem mesmo toda essa organização partidária seria suficiente para a manutenção de uma candidatura petista, não fosse a popularidade de sua maior liderança. O capital político de Lula dispensa maiores comentários, haja vista as inúmeras situações que o testaram positivamente. Foi assim em sua reeleição, na eleição de Dilma e na garantia de seu terceiro mandato.

Indubitavelmente, grande parte dos cerca de 31 milhões de votos recebidos por Haddad no primeiro turno foi transmitida pela candidatura impugnada e indeferida de Lula, em uma campanha cuidadosamente arquitetada para associar Haddad a Lula. Não foi por acaso que a cúpula petista tratou de insistir no nome do ex-presidente, mesmo estando ele sob custódia da Polícia Federal em Curitiba, até o indeferimento oficial de sua candidatura pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a pouco mais de um mês do primeiro turno. Em linguagem weberiana, é impossível ignorarmos o valor que o poder carismático provê para a defesa de qualquer projeto político, sobretudo em regimes democráticos como o nosso. Nesse sentido, a crença na natureza extraordinária do líder e as vinculações emocionais com sua figura constituem, parcialmente, a relação de Lula com grande parte de seus eleitores. De certa forma, o lulismo é, pois, maior do que o petismo. À força da estrutura partidária petista somou-se o carisma de Lula, mesmo sem sua presença física nos palanques da campanha eleitoral de Fernando Haddad. É possível rebater esse argumento, sustentando-se que a maior organização partidária da direita viu o seu candidato naufragar naquelas tormentosas eleições de 2018. A ressalva seria válida, se apenas considerássemos o valor da estrutura partidária como tal. Mesmo com amplos recursos financeiros, longo tempo de propaganda em rádio e TV e grande coligação interpartidária, o postulante Geraldo Alckmin (PSDB) amargou um vexatório quarto lugar, com pouco mais de 4% dos votos válidos. Mas aquela eleição de 2018 não teve precedentes em nossa conturbada história política. E a crise institucional e política que a enquadrava fazia do poder carismático algo ainda mais importante e essencial. A esquerda reformista tinha Lula; a extrema direita tinha Bolsonaro. Enquanto aquele estava preso injustamente, este estava livre para, em que pese a insignificância do partido que deu guarida a sua candidatura (PSL), angariar apoio entre uma população crescentemente descontente com os escândalos de corrupção. O cenário, então, estava armado para o florescimento de um populismo reacionário, discursivamente antissistêmico e politicamente autoritário.

Por razões óbvias, as elites liberais receiam menos o extremismo de direita do que o reformismo de esquerda. A candidatura de Bolsonaro não foi a primeira opção da oligarquia rentista. Inicialmente, aquele projeto de poder tinha o apoio dos setores mais extremistas das Forças Armadas e das forças estaduais de segurança, além dos segmentos mais arcaicos do agronegócio. Mas a Faria Lima e as maiores entidades industriais, agropecuárias e comerciais somente aderiram a sua campanha quando ficou claro que o escolhido para o seu Ministério da Economia seria um liberal. Paulo Guedes foi alçado àquele posto para dar sequência à implementação das contrarreformas iniciadas por Michel Temer (2016-2019). A Reforma da Previdência, abortada com o escândalo dos irmãos Batista em 2017 e promulgada em 2019, nada mais foi do que a concretização de um compromisso assumido ainda durante a campanha. Diante do esfacelamento do PSDB e da inviabilidade eleitoral de Alckmin, para os donos do poder era vital domesticar o populismo de Bolsonaro com o liberalismo de Guedes.

<><> O cenário internacional

O segundo ponto trazido ao debate resgata, acertadamente, elementos do cenário internacional. Como o fortalecimento da extrema direita brasileira está associado a um fenômeno de abrangência global, é prudente analisar o bolsonarismo sob o viés da política comparativa. Com os ilustrativos exemplos de Donald Trump (EUA), Giorgia Meloni (Itália), Viktor Orbán (Hungria), Marine Le Pen (França), Geert Wilders (Países Baixos), Javier Milei (Argentina) e Alice Weidel (Alemanha), podemos compreender as semelhanças que interligam esses diferentes representantes do extremismo de direita, bem como as diferenças entre eles e os fatores particularmente relevantes para o fenômeno brasileiro. Nesse sentido, à pergunta colocada a respeito da ocorrência ou não de políticas de conciliação em todos esses países impõe-se uma sonora e reveladora resposta afirmativa. A despeito das singularidades nacionais e regionais, o terreno comum que engloba diferentes manifestações de populismo reacionário é, justamente, a malograda e equivocada insistência na conciliação. Não que a moderação social-democrata tenha criado o extremismo de direita. O problema é muito mais profundo e difícil de ser investigado. Todavia, uma de suas variáveis facilmente identificadas é a capitulação da social-democracia europeia no debate político-econômico que opôs, originalmente, a ortodoxia neoliberal à heterodoxia keynesiana a partir dos anos 1970. Enquadrados por uma crise econômica que, sem precedentes, fundia a alta inflação ao baixo crescimento (estagflação), os partidos reformistas não tiveram a capacidade de reagir ao avanço do paradigma neoliberal sobre as estruturas do Estado. Mais do que um debate meramente acadêmico, a oposição entre aquelas duas comunidades epistêmicas refletiu e influenciou a disputa política travada nos mais diferentes países.

A ascensão de Margaret Thatcher em 1979 e a eleição de Ronald Reagan em 1980 sinalizaram apenas o começo de uma nova fase do capitalismo internacional, com a hegemonia do neoliberalismo. Naquele momento, uma terceira revolução científico-tecnológica gerava uma ampla reordenação do sistema produtivo e uma série de transformações que, por sua vez, subvertiam e anulavam grande parte das antigas conquistas sociais dos trabalhadores. O longo processo de enfraquecimento do Estado de Bem-Estar Social foi acompanhado do revigoramento do mercado, sem mais as amarras regulatórias que lhe impuseram restrições nos primeiros vinte anos após a Segunda Guerra. A desindustrialização de economias centrais, o desmantelamento de sindicatos, a precarização do trabalho, a austeridade fiscal, tudo isso fez parte do receituário neoliberal implementado pelas mais diversas elites dirigentes do Norte Global. Com distintos graus de êxito e em diversos ritmos, uma verdadeira operação política transnacional desenrolava-se no Ocidente. Ao avanço desse tipo de assalto às estruturas do Estado moderno a resistência social-democrata foi desorganizada e inconsistente.

Diante de tantas mudanças econômicas e sociais, os tradicionais partidos de esquerda perderam suas bases sociais. Com o empoderamento do capital, os diques que por tantos anos contiveram os excessos capitalistas e protegeram os trabalhadores não mais funcionavam a contento. Da seara política não provinha mais a esperança, senão a rendição a uma nefasta ideologia disfarçada de técnica. Sua suposta assepsia valorativa atraía uma parte relevante da esquerda europeia. Nos anos 1990, o sociólogo Anthony Giddens propôs a renovação da social-democracia sob o nome de Terceira Via. A aparente novidade conceitual mostrou-se um verdadeiro embuste, domesticando-se o trabalho em prol do capital. O canto da sereia seduziu líderes como Romano Prodi (Itália), Wim Kok (Países Baixos) e Gerhard Schröder (Alemanha), todos eles oriundos da velha esquerda reformista. Nos Estados Unidos e no Reino Unido, a maré neoliberal encontrou, respectivamente, no democrata Bill Clinton e no trabalhista Tony Blair os mais entusiastas defensores das contrarreformas iniciadas no fim da década de 1970.

<><> Uma nova crise, os mesmos erros

A crise financeira de 2008 podia ter prenunciado a superação do paradigma neoliberal, uma vez que a irresponsável desregulamentação do mercado financeiro estadunidense é que propiciou a proliferação de ativos podres pelos balanços patrimoniais dos principais bancos de investimentos de Wall Street. Em vez disso, trilhões de dólares foram, magicamente, criados pelo Federal Reserve e injetados no sistema financeiro. O empoçamento de liquidez inflacionou os ativos financeiros, recompensando inescrupulosos financistas e condenando trabalhadores ao desemprego e à miséria. Enquanto Wall Street alimentava com dinheiro público as novas bestas que comandariam a economia internacional, Main Street sentia as agruras do esfacelamento do famigerado sonho americano. Logo, os recursos públicos que não chegaram à economia real financiaram a disruptiva emergência das Big Techs, precarizando ainda mais as condições das classes trabalhadoras estadunidenses.

A Europa continental, aparentemente imune à farra do rentismo anglo-saxão, não tardou a mostrar sua verdadeira face corrompida. A ciranda financeira que securitizava hipotecas e criava ativos de alto risco contaminava também os grandes bancos europeus. Quando ficou claro que a busca por retornos descomedidos não se restringia aos banqueiros de Nova York, um amplo e agressivo programa de austeridade fiscal passou a ser implementado por diferentes governos europeus. Para as elites europeias (sobretudo as alemãs), a defesa do euro exigia sacrifícios das classes trabalhadoras a partir do desmantelamento do Estado de Bem-Estar Social. A socialização dos prejuízos financeiros desencadeou a crise da dívida soberana, desgastando os elos mais fracos da zona do euro, tais como Portugal, Espanha, Irlanda e Itália. Como se não bastasse o aterrador cenário social, os trabalhadores viam-se abandonados por parte de seus representantes, haja vista o conservadorismo fiscal de grande parte dos partidos socialistas e social-democratas.

Foi assim que, na Hungria do primeiro-ministro socialista Ferenc Gyurcsány (2004-2009), o caminho para a vitória de Viktor Orbán em 2010 foi pavimentado entre um eleitorado descrente de suas instituições políticas. Após anos de instabilidade política, a Itália de Matteo Renzi (2014-2016) também foi incapaz de resistir à pressão da Comissão Europeia por acentuados cortes sociais. Embora Renzi liderasse o Partido Democrático, de centro-esquerda, seu governo implementou um doloroso programa de austeridade fiscal. Entretanto, a experiência mais traumática viria de Atenas, onde o PASOK de Geórgios Papandréu (2009-2011) já havia sucumbido aos ditames do capital financeiro. O voto de confiança que a população grega daria a uma emergente força de esquerda em 2015 seria, vergonhosamente, menosprezado pelo Governo Alexis Tsipras (2015-2019). O SYRIZA havia sido apenas uma miragem no deserto da austeridade que deslegitimava as democracias liberais europeias.

Nos Estados Unidos, embora Barack Obama (2009-2017) fosse uma liderança vinculada à elite do Partido Democrata, sua eleição representou a esperança de que os chamados bancos zumbis não fossem mais resgatados por um Estado que pouco fazia para salvaguardar as massas mais vulneráveis. Em vez disso, a insolvência privada continuou sendo quitada com recursos públicos. O aprofundamento dos resgates bancários transformou a esperança em revolta e preparou os nutrientes com que o populismo reacionário de Donald Trump alimentar-se-ia menos de uma década mais tarde. Era, pois, com descarada hipocrisia que as elites dirigentes prestavam sua homenagem à credulidade do povo daquele país. Inegavelmente, o racismo, o conservadorismo e o fundamentalismo cristão existiam muito antes de Obama. No entanto, o ônus político daquela crise financeira ainda geraria um maior enfraquecimento do Partido Democrata, com um flagrante distanciamento entre sua burocracia e sua base social.

<><> A identificação da esquerda com um sistema em decadência

A construção de falsos consensos foi uma das técnicas operacionalizadas para que a resistência das classes trabalhadoras fosse enfraquecida. Dessa forma, a aparência científica de uma velha e carcomida ideologia esvaziou as alternativas pensadas à esquerda do espectro político. Com a capitulação da social-democracia, a adoção do receituário neoliberal passou a ser vista como destino, não mais como fruto de embates e de compromissos, de decisões essencialmente políticas. Se outrora o antagonismo e o conflito é que baseavam as estratégias e as tomadas de posição, desde então uma suposta harmonia de interesses entorpece parte relevante dos representantes dos trabalhadores. A resignação é, doravante, a lente através da qual a esquerda institucional vê a desvantajosa correlação de forças nos parlamentos e na composição dos governos. Com o aprofundamento das liberdades econômicas, a própria democracia liberal perdeu sua vitalidade. À custa das instituições democráticas, o mercado vingou-se pelos anos de regramento keynesiano. A redução das complexidades políticas a uma mera gestão econômica afastou diversos setores da esfera pública, limitando o atendimento a suas principais demandas. Sem espaço suficiente para uma efetiva e profunda participação popular, diversos regimes democráticos viram a sua energia ser drenada unicamente para as vivências eleitorais. Convergindo com a interpretação minimalista de Schumpeter, muitas das democracias mais longevas e consolidadas degradaram-se em meros ritos e procedimentos que regulam, minimamente, a disputa pelos votos dos eleitores. Sem condições de oferecer respostas e, sobretudo, de viabilizar alternativas à selvageria neoliberal, a esquerda passou a ser vista como parte integrante de um sistema em decomposição. A longa e teimosa política de conciliação de interesses fez dela um sócio minoritário no condomínio político das democracias liberais. Saem conservadores; assumem social-democratas. E, aos olhos do grande público, poucas são as diferenças. Personagens diferentes; mesmo roteiro teatral. “Se quisermos que tudo continue como está, é preciso que tudo mude”, é o que proclama, cinicamente, o personagem Tancredi no clássico O Leopardo.

<><> Por uma revitalização do campo progressista

As profundas transformações tecnológicas engendradas no seio do capitalismo internacional fazem das atuais contradições entre forças produtivas e relações sociais algo mais grave do que os abalos sísmicos dos anos 1970. A nefasta financeirização da economia mundial foi ultrapassada pela criação de um capital que submete nossas identidades a um método espoliativo de extração de valor. As rentas geradas a partir de nossos dados tornaram até mesmo os capitalistas tradicionais obsoletos e reféns de um novo tipo de rentismo. Com a ampla datificação da economia, vivemos uma espécie de interregno gramsciano. Quando o novo ainda não tem força suficiente para surgir e o velho apresenta sinais de uma iminente morte, são as forças progressistas que devem apontar para caminhos politicamente viáveis e socialmente desejáveis.

O núcleo mais duro do eleitorado de esquerda pode continuar, apesar de suas críticas e de seus dissabores, votando nos partidos reformistas. Entretanto, a esquerda institucional sempre precisou atingir segmentos menos politizados para que a luta política fosse traduzida em vitória eleitoral. É a perda desse eleitorado e a desmobilização de seus militantes mais fiéis que comprometem o seu futuro e preparam o terreno para a ascensão da extrema direita. Diante de tantas incertezas e de tamanhas incoerências, uma frenética pulsão de morte leva uma parte significativa da classe média empobrecida e dos trabalhadores mais precarizados a aderir, entusiasticamente, ao populismo reacionário. Quando tanto a direita democrática como a esquerda reformista são vistas como parte do sistema que explora e subjuga, parece não restarem mais opções para além dos mais boquirrotos e autoritários extremistas. É verdade que a beleza e a sofisticação teóricas não prescindem de comprovação empírica. Nem mesmo o mais inveterado crítico do positivismo pode ignorar uma tal realidade dos fatos. Mas, quando a teoria em questão é capaz de oferecer boas ferramentas analíticas, a aparente confusão ininteligível na qual estamos inseridos passa a ser, coerentemente, interpretada. Em outros termos, a perspectiva histórica ajuda-nos a compreender como chegamos a uma crise sistêmica muito mais grave do que aquela representada pelo declínio do consenso keynesiano. É a partir desse tipo de reflexão, pois, que infiro que uma injustificada insistência nos mesmos erros de outrora pode decretar uma letal derrota do campo progressista.

 

Fonte: Por Guilherme Backes, em Outras Palavras

 

“Follow the Money”: Quem financia os criadores de desinformação?

No jornalismo, costumamos usar a expressão “follow the money” para falar de uma das técnicas mais antigas da profissão: se você quer saber quem está por trás de um crime ou problema social, é necessário seguir a trilha do dinheiro.

Pois, foi exatamente o que os jornalistas do Estadão Verifica fizeram em uma tremenda reportagem, que, infelizmente, não recebeu a atenção que merecia. Os repórteres Luciana Marschall e Pedro Prata descobriram nada menos que 28 contas no Facebook que estavam produzindo e espalhando conteúdo fake feito por inteligência artificial (IA) a respeito de Lula e Bolsonaro. Juntas, elas tinham mais de 1 milhão de seguidores.

Os conteúdos são apelativos, para dizer o mínimo.

A página Brazilian Vibes trazia, por exemplo, posts com imagens de soldados do Exército, enfileirados diante de tanques segurando uma faixa que dizia: “pela democracia e Justiça, liberdade para Jair Bolsonaro”. Outra imagem mostrava Jair numa cama humilde, aparentando ser uma cela, com um escrito em vermelho na parede: “Deus é o juiz e eles pagarão”. Em uma terceira, uma fileira de soldados encara Alexandre de Moraes: “O STF passou de todos os limites e leis?”

As imagens apelativas ajudaram o conteúdo a viralizar e atrair cliques, embora muitos deles tivessem erros crassos de português.

Por uma simples razão: o administrador de uma das páginas, um homem do Sri Lanka localizado pelos repórteres, não fala nossa língua. Ele simplesmente pede à inteligência artificial que crie textos e imagens sobre Bolsonaro, Flávio e Lula, sabendo que atrairão cliques.

Com a IA, o custo de se produzir desinformação é zero. E como o Facebook recompensa visualizações e cliques – são as “medidas de sucesso” para que o próprio Facebook venda anúncios – isso virou uma profissão.  

Este rapaz, que mora em Colombo, capital do Sri Lanka, disse aos repórteres que faz isso para gerar renda por meio do programa de criação de conteúdo da Meta. O programa paga mais a quem faz conteúdo para o Brasil do que quem o faz para o Sri Lanka.

Entre as postagens, o Estadão localizou ainda erros de imagens, como um vídeo, da página We Love Brazil, no qual a família Bolsonaro aparece sorrindo, em uma viagem de carro. No banco de trás, Eduardo Bolsonaro aparece duas vezes. O vídeo teve mais de 1,7 mil comentários e 7,9 mil curtidas.

A culpa é do rapaz do Sri Lanka? Não, a culpa é da Meta, que literalmente o paga pelo serviço de produzir conteúdo viralizável.

A Meta, que financiou as páginas cheias de desinformação durante meses, só as derrubou depois do Estadão entrar em contato. Assim como a empresa faz com quase tudo, de anúncios de bets ilegais e golpes online – tudo fica no ar até que alguém denuncie. Enquanto isso, o Mark Zuckerberg e os acionistas vão enchendo os bolsos de dinheiro. Dane-se com o quê.

Este problema é particularmente preocupante nas eleições. Embora o TSE tenha proibido a criação de deepfakes a respeito de candidatos, não existe nenhuma possibilidade da nossa Justiça eleitoral conseguir punir criadores que estão a 14 mil quilômetros de distância. E, como o Facebook, YouTube, TikTok, Instagram e WhatsApp não fazem sua parte, estaremos sem dúvida vulneráveis a uma enxurrada de fake news.

Quando alguém me pergunta por que decidimos investigar as Big Techs, eu conto uma pequena historinha: em 2014, fomos pioneiras em fazer fact-checking no Brasil, chegando às mentiras e exageros dos candidatos à corrida eleitoral. Em 2018, percebemos que a coisa havia mudado: a eleição de Bolsonaro demonstrou que a desinformação havia virado um instrumento da política, de maneira organizada, industrializada, e regada a muito dinheiro. Até então, as plataformas sempre prometiam que iam lutar contra a desinformação. Mas, a partir de 2023, com a tentativa de golpe de Estado e as respostas fraquíssimas das Big Techs à desinformação, ficou claríssimo que nunca houve, nem haverá um compromisso sério das Big Techs em enfrentar o problema da desordem informacional.

Por um motivo simples: dinheiro.

Quem mais paga e quem mais lucra com a desinformação, seja sobre um golpe localizado mirando velhinhos, seja sobre um candidato da República, são elas. É essa a resposta, pura e simples.

E sabemos que os executivos do Vale do Silício – e também aqueles aqui, naqueles escritórios coloridos e lúdicos na Faria Lima – topam tudo por dinheiro.

•        O Leviatã digital. Por Eduardo S. Vasconcelos

A política contemporânea talvez esteja diante de uma transformação mais profunda do que supõem as análises habituais sobre fake news, polarização, inteligência artificial ou redes sociais. Esses fenômenos são importantes, mas talvez sejam apenas sintomas de uma mudança maior: o deslocamento do poder para o interior da própria formação da consciência pública.

O problema já não está apenas no que o cidadão pensa. Está no modo como ele passa a desejar, temer, reagir e perceber o mundo antes mesmo de pensar.

Durante muito tempo, imaginamos o poder como algo visível: o Estado, a lei, a polícia, o parlamento, o governo, o partido, a imprensa, a empresa, a igreja, a escola. Hoje, no entanto, uma parte decisiva do poder tornou-se ambiental. Ele não aparece como ordem. Aparece como recomendação. Não se impõe como censura direta. Aparece como fluxo. Não exige obediência explícita. Produz permanência, dependência, repetição e engajamento.

É nesse cenário que proponho pensar o conceito de “Leviatã digital”[1]: uma nova arquitetura de poder formada por plataformas, algoritmos, dados, vigilância, inteligência artificial, economia da atenção e administração dos afetos coletivos. Ele não substitui o Estado, mas passa a disputar com ele a organização da vida pública.

O Leviatã de Thomas Hobbes nasceu como resposta ao medo. Diante da ameaça da guerra de todos contra todos, os indivíduos entregariam parte de sua liberdade a uma autoridade soberana capaz de garantir ordem, segurança e previsibilidade.

O Leviatã clássico era visível. Tinha forma estatal. Legislava, punia, julgava, arrecadava, vigiava e comandava. O Leviatã digital é mais difuso. Não possui uma cabeça única. Não se limita ao Estado. É composto por empresas globais, plataformas digitais, infraestruturas algorítmicas, bancos de dados, sistemas de recomendação, publicidade comportamental, influenciadores, militâncias digitais e inteligência artificial.

Seu poder não está apenas em proibir. Está em orientar. Não está apenas em reprimir. Está em modular. Não está apenas em vigiar. Está em prever.

O poder soberano dizia: obedeça. O poder algorítmico sugere: continue rolando a tela.

A atenção tornou-se uma das principais mercadorias do capitalismo contemporâneo. Mas ela não é uma mercadoria qualquer. A atenção é a porta de entrada da consciência. Quem controla a atenção controla parte da percepção. Quem controla a percepção influencia o julgamento. Quem influencia o julgamento interfere no comportamento político.

A economia da atenção transforma o cidadão em usuário, o usuário em dado, o dado em previsão e a previsão em mercadoria. A vida subjetiva passa a ser extraída, calculada, segmentada e vendida. Nesse ambiente, a política não precisa mais convencer apenas por argumentos. Ela precisa capturar afetos. Medo, raiva, ressentimento, indignação, humilhação e pertencimento tornam-se recursos de mobilização. A política deixa de ser apenas disputa de projetos e passa a ser disputa pela arquitetura emocional da sociedade.

Jürgen Habermas pensou a esfera pública como espaço de argumentação, crítica e formação racional da vontade coletiva. Essa ideia nunca se realizou plenamente, mas serviu como horizonte democrático.

O Leviatã digital corrói esse horizonte. A esfera pública é fragmentada em bolhas. A realidade comum é substituída por versões afetivas da realidade. O debate vira reação. A divergência vira ameaça. A dúvida vira fraqueza. A complexidade vira inimiga da viralização.

A democracia precisa de tempo. O algoritmo exige velocidade. A democracia precisa de escuta. O algoritmo premia reação. A democracia precisa de mediação. O algoritmo radicaliza o conflito. O resultado é uma política cada vez mais emocionalizada, performática e tribalizada.

Shoshana Zuboff chamou atenção para o capitalismo de vigilância: um regime econômico baseado na captura de experiências humanas transformadas em dados comportamentais. Mas a questão não é apenas econômica. É política. Quando a subjetividade passa a ser rastreada, prevista e influenciada, a democracia enfrenta um problema novo. A manipulação deixa de ser apenas propaganda pública e passa a operar no nível micropsicológico da experiência individual.

Guy Debord mostrou que a sociedade moderna transformou a vida em espetáculo. Pierre Bourdieu mostrou que o poder simbólico opera quando é reconhecido como legítimo. Michel Foucault demonstrou que o poder moderno não apenas reprime, mas produz sujeitos.

O Leviatã digital articula essas três dimensões: espetáculo, poder simbólico e produção de subjetividade. Ele produz o sujeito conectado, indignado, vigiado, segmentado, ansioso e permanentemente convocado a reagir.

O cidadão contemporâneo já não é apenas eleitor, trabalhador ou consumidor. Ele é também terminal afetivo de circulação política. Recebe estímulos. Reage. Compartilha. Indigna-se. Confirma crenças. Ataca adversários. Defende identidades. Produz dados. Alimenta o sistema que o captura.

Essa é a sofisticação do Leviatã digital: ele transforma participação em extração. Cada gesto de engajamento parece liberdade, mas também alimenta a máquina que aprende a conduzir novos gestos. O sujeito acredita estar apenas expressando sua opinião. Muitas vezes, porém, está funcionando como vetor de circulação de narrativas que foram desenhadas para explorar suas vulnerabilidades.

A democracia não desaparece. As eleições continuam. Os parlamentos continuam. Os tribunais continuam. Os partidos continuam. Mas todos passam a funcionar sob pressão de uma nova camada de poder.

Parlamentares precisam performar para suas bases digitais. Governos precisam disputar narrativas em tempo real. Gestores públicos passam a ser pressionados por métricas de imagem. Campanhas eleitorais segmentam medos. Crises institucionais são aceleradas por cortes virais. A mentira organizada circula mais rápido que sua correção.

A política pública, que exige continuidade e planejamento, passa a concorrer com a lógica do espetáculo permanente. O risco é grave: governar deixa de ser resolver problemas e passa a ser administrar percepções.

Nenhuma sociedade enfrenta aquilo que não consegue nomear. O conceito de “Leviatã digital” não pretende substituir outras categorias já fundamentais, como capitalismo de vigilância, sociedade do espetáculo, esfera pública, biopolítica ou poder simbólico. Ele procura articular essas dimensões em uma imagem política capaz de descrever o nosso tempo.

Estamos diante de uma estrutura que não apenas comunica a política. Ela reorganiza a política. Não apenas transmite conflitos. Produz conflitos. Não apenas informa cidadãos. Modela percepções. Não apenas observa comportamentos. Aprende a induzi-los.

A democracia brasileira ainda discute, com razão, eleições, instituições, golpes, corrupção, desigualdade e representação. Mas precisa acrescentar outra pergunta ao seu vocabulário crítico: quem controla o ambiente mental no qual os cidadãos formam suas escolhas políticas?

O Leviatã Digital ainda não governa como Estado. Mas talvez já esteja aprendendo a governar antes do Estado. E é precisamente por isso que compreendê-lo deixou de ser uma curiosidade teórica. Tornou-se uma urgência democrática.

 

Fonte: Por Natalia Viana, da Agencia Pública/A Terra é Redonda

 

Doenças neurológicas afetam 3,4 bilhões, diz OMS

O dia 22 de julho é considerado o Dia Mundial do Cérebro, e as doenças neurológicas já representam a principal causa de incapacidade no mundo e afetam mais de 3,4 bilhões de pessoas, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde).

No Brasil, onde a população envelhece rapidamente, especialistas defendem que o cuidado com a saúde cerebral deve começar antes do surgimento dos primeiros sintomas de doenças como Alzheimer e Parkinson.

Em 2026, a campanha da Federação Mundial de Neurologia tem como tema "Saúde cerebral: acesso para todos", reforçando a necessidade de ampliar o acesso à prevenção, ao diagnóstico precoce, ao tratamento e à reabilitação.

Segundo a OMS, apesar dos avanços da ciência, o acesso aos serviços especializados em neurologia ainda é desigual em diversos países, principalmente os de baixa e média renda. O envelhecimento populacional torna esse desafio ainda maior para os sistemas de saúde.

No Brasil, dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) mostram que a proporção de pessoas com 60 anos ou mais passou de 8,7% da população em 2000 para 15,6% em 2023. Atualmente, o país reúne cerca de 33 milhões de idosos, e a projeção é que esse grupo represente 37,8% da população até 2070.

Esse cenário deve refletir no aumento dos casos de doenças neurodegenerativas. De acordo com o Relatório Nacional sobre a Demência, cerca de 2,71 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais vivem com algum tipo de demência. Mantida a tendência atual, esse número poderá ultrapassar 5,6 milhões até 2050.

<><> Saúde cerebral além do tratamento

Para Patrícia Lessa, diretora pedagógica do Supera Estimulação Cognitiva, o envelhecimento da população exige uma mudança na forma como a saúde cerebral é encarada.

"Precisamos deixar de falar apenas sobre tratamento e passar a discutir prevenção, promoção da saúde cerebral e cuidado ao longo de toda a vida", afirma.

Segundo a especialista, a saúde cognitiva é construída continuamente e não apenas na terceira idade.

Hábitos como atividade física regular, alimentação equilibrada, sono de qualidade, interação social, aprendizagem constante e desafios intelectuais ajudam a fortalecer a chamada reserva cognitiva, mecanismo que aumenta a capacidade do cérebro de lidar com os efeitos naturais do envelhecimento.

<><> Estudo brasileiro aponta benefícios

Pesquisadores da USP (Universidade de São Paulo) e do Hospital das Clínicas acompanharam 207 idosos saudáveis durante dois anos para avaliar os efeitos de um programa estruturado de estimulação cognitiva.

Publicado na revista científica International Psychogeriatrics, o estudo dividiu os participantes em dois grupos. Enquanto um deles participou de atividades voltadas ao desenvolvimento da memória, atenção, raciocínio e outras funções cognitivas, o outro não recebeu a intervenção.

Ao final dos 24 meses, os idosos que participaram do programa apresentaram melhora aproximada de 45% na memória, redução de 60% nas queixas cognitivas e diminuição de 29% dos sintomas depressivos.

Os pesquisadores também observaram avanços em funções executivas, como planejamento, organização, raciocínio e tomada de decisões.

Para a gerontóloga Thaís Bento, doutora em Neurologia pela USP e uma das autoras da pesquisa, os resultados reforçam que a estimulação cognitiva pode fazer parte das estratégias de prevenção.

"Através deste estudo realizado com pessoas idosas saudáveis voluntárias, reforçamos que a estimulação cognitiva pode ser iniciada em qualquer fase da vida, antes mesmo do surgimento de sinais de declínio cognitivo", afirma.

Segundo a pesquisadora, o cérebro mantém sua capacidade de adaptação ao longo de toda a vida.

"O cérebro precisa de novidades. Sempre que aprendemos algo diferente, estimulamos áreas responsáveis pelo raciocínio, pela memória e pela atenção. Esse processo fortalece as conexões entre os neurônios e contribui para manter a mente ativa ao longo dos anos", explica.

Além dos ganhos cognitivos, a pesquisa identificou benefícios relacionados ao convívio social e ao bem-estar emocional. As atividades em grupo favoreceram a interação entre os participantes e estimularam diferentes habilidades simultaneamente, fatores associados à preservação da autonomia durante o envelhecimento.

Thaís também destaca que os resultados ajudam a desfazer a ideia de que envelhecer significa, inevitavelmente, perder a capacidade de aprender.

"Ainda existe a ideia de que envelhecer significa ficar frágil, esquecer tudo ou perder autonomia. Mas a ciência mostra exatamente o contrário. Muitas pessoas envelhecem preservando suas funções cognitivas porque permanecem aprendendo, socializando e mantendo o cérebro em constante atividade", diz.

Para a especialista, em um país que envelhece rapidamente, investir na saúde cognitiva desde as primeiras fases da vida pode contribuir tanto para melhorar a qualidade de vida da população quanto para reduzir o impacto das doenças neurológicas sobre os sistemas de saúde.

"As evidências reforçam que esse cuidado deve começar antes do aparecimento dos primeiros sintomas. Não é preciso esperar que apareçam falhas importantes de memória para começar a cuidar do cérebro. Quanto mais cedo esse estímulo fizer parte da rotina, maiores são as chances de preservar as funções cognitivas durante o envelhecimento", conclui.

¨      "Marcapasso cerebral": como funciona tecnologia que trata Parkinson e TOC

Utilizada há décadas no tratamento do Parkinson, a estimulação cerebral profunda também vem sendo empregada em casos selecionados de transtorno obsessivo-compulsivo (TOC), depressão resistente e outras condições neurológicas. O neurocirurgião Dr. Cesar Cimonari de Almeida explica como funciona essa tecnologia e quem pode se beneficiar dela.

Quando ouvimos a palavra marcapasso, a maioria das pessoas pensa imediatamente no coração. Mas existe uma tecnologia semelhante que atua em outra estrutura igualmente complexa: o cérebro.

Conhecida como estimulação cerebral profunda, ou DBS (do inglês Deep Brain Stimulation), a técnica consiste na implantação de eletrodos em regiões específicas do cérebro para modular circuitos neurais associados a determinadas doenças.

Embora o tratamento seja amplamente reconhecido por seu uso na doença de Parkinson, seu campo de aplicação vem se expandindo nas últimas décadas. Hoje, a estimulação cerebral profunda já faz parte do arsenal terapêutico para algumas condições neurológicas e psiquiátricas graves, especialmente quando os tratamentos convencionais não conseguem oferecer resultados satisfatórios.

Apesar dos avanços, ainda existe muita desinformação sobre a técnica. Algumas pessoas imaginam procedimentos experimentais ou intervenções que alteram a personalidade. A realidade é bastante diferente.

<><> Como funciona o chamado “marcapasso cerebral”

O sistema é composto por eletrodos implantados em áreas específicas do cérebro, conectados a um gerador de impulsos elétricos posicionado sob a pele, geralmente na região do tórax. Esses impulsos atuam modulando circuitos cerebrais que apresentam funcionamento alterado em determinadas doenças.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, a técnica não destrói tecido cerebral nem substitui funções do cérebro. O objetivo é regular a atividade de circuitos neurais envolvidos nos sintomas da doença.

Na doença de Parkinson, por exemplo, a estimulação cerebral profunda pode reduzir tremores, rigidez e oscilações motoras que deixam de responder adequadamente aos medicamentos. O mesmo princípio vem sendo estudado e aplicado em outras condições, sempre com critérios rigorosos de seleção.

<><> Muito além do Parkinson

O Parkinson continua sendo a indicação mais conhecida da estimulação cerebral profunda, mas não é a única. Pacientes com distonia, tremor essencial e algumas formas de epilepsia também podem se beneficiar da técnica em situações específicas.

Nos últimos anos, a neurocirurgia funcional passou a ocupar espaço crescente no tratamento de transtornos psiquiátricos graves e resistentes aos tratamentos convencionais.

O transtorno obsessivo-compulsivo grave é um dos exemplos mais conhecidos. Em pacientes que permanecem altamente incapazes mesmo após tratamento medicamentoso e psicoterapia adequados, a estimulação cerebral profunda pode oferecer melhora significativa da qualidade de vida.

A depressão resistente ao tratamento também tem sido alvo de pesquisas e aplicações clínicas em centros especializados ao redor do mundo. Embora os resultados sejam promissores, trata-se de uma área que continua em evolução científica.

É importante destacar que esses tratamentos não são indicados para casos leves ou moderados. Estamos falando de pacientes com sintomas graves, persistentes e que não responderam adequadamente às abordagens convencionais.

<><> Resultados promissores, mas sem soluções milagrosas

Uma das maiores preocupações quando se fala em novas tecnologias é a criação de expectativas irreais.

A estimulação cerebral profunda não representa uma cura universal para doenças neurológicas ou psiquiátricas. Também não substitui acompanhamento médico, medicamentos ou suporte multiprofissional. Seu papel é complementar.

Em pacientes corretamente selecionados, os resultados podem ser expressivos. Muitos recuperam autonomia, reduzem sintomas incapacitantes e apresentam melhora importante na qualidade de vida.

Mas o sucesso depende de uma avaliação criteriosa, realizada por equipes especializadas que incluem neurologistas, psiquiatras, neurocirurgiões, psicólogos e outros profissionais. A decisão de implantar um sistema de estimulação cerebral profunda é sempre individualizada e baseada em critérios científicos rigorosos.

O cérebro continua sendo uma das estruturas mais complexas do corpo humano. Justamente por isso, tecnologias capazes de modular seus circuitos de forma precisa representam um dos avanços mais fascinantes da medicina moderna.

O chamado “marcapasso cerebral” não substitui o cérebro nem modifica quem somos. Seu objetivo é ajudar determinados circuitos a funcionar de forma mais equilibrada, oferecendo uma nova possibilidade terapêutica para pacientes que, muitas vezes, já esgotaram outras alternativas de tratamento.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Hegemonia imperialista em crise, tarifaço e a ameaça do PIX

Há mais de um ano Trump iniciou seu carrossel de ameaças ao Brasil por meio de tarifas comerciais. Depois de implementações breves e recuos consecutivos, o governo dos Estados Unidos voltou a anunciar essas medidas para uma série de produtos importados do Brasil, dessa vez com uma alíquota de 25%. Entre os motivos elencados por uma suposta investigação do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) estão — as também supostas — barreiras comerciais ao etanol estadunidense no Brasil, a fragilidade na aplicação de leis anticorrupção, tarifas preferenciais concedidas a países como México e Índia, e até acusação de frouxidão no combate ao desmatamento ilegal. Além disso, mencionam o comércio digital e os serviços de pagamento eletrônico, em que misturam, num mesmo balaio, questões de regulamentação das plataformas digitais e big techs e o principal serviço de pagamentos digitais instantâneos utilizado no país, de criação originalmente brasileira e oferecido gratuitamente, o PIX.

O uso de tarifas comerciais como instrumento de subjugação política, diplomática e econômica foge a todos os acordos multilaterais estabelecidos e não encontra respaldo legal, nem legítimo, na Organização Mundial do Comércio (OMC), mas se tornou o principal instrumento de chantagem dos EUA frente à sua própria decadência, ao crescimento de outros polos econômicos e geopolíticos no mundo e, consequentemente, ao temor da perda de sua influência sobre regiões onde busca manter sua hegemonia imperialista. Ao Brasil, enfrentar com firmeza essas intimidações e construir alternativas no comércio e na estrutura produtiva nacional são movimentos indispensáveis à manutenção da soberania econômica, digital e política.

O insistente apelo de Trump por tarifas comerciais como instrumento de chantagem — ou subjugação — não é meramente casuístico ou aleatório, mas tem embasamento num projeto claro e que se estrutura em reação à situação desconfortável que vive o império estadunidense, com o declínio de sua hegemonia e a ascensão de novos polos de poder geopolítico e econômico no mundo, especialmente a China.

Mas vamos por partes. E aqui quero me valer de três etapas para conduzir essa história: 1) os abalos na hegemonia dos Estados Unidos no mundo, tomando emprestado o conceito de dominação sem hegemonia cunhado por Gramsci e utilizado nas reflexões de Arrighi; 2) as estratégias de Trump para tentar reparar esses buracos no casco de uma gigantesca embarcação em lento naufrágio, com destaque para o papel das tarifas comerciais; 3) e por fim, porque nesse cenário o Brasil, as plataformas digitais e o PIX são tão relevantes.

<><> Uma hegemonia em crise

Comecemos pelos tremores na hegemonia estadunidense. Em 2008, o economista italiano, e de tradição marxista, Giovanni Arrighi sentou-se para escrever a última obra de sua vida, Adam Smith em Pequim: origens e fundamentos do século XXI. E o título não é mera provocação. A tese é que a ascensão chinesa — e, com ela, a de outras potências asiáticas — não é uma cópia tardia do capitalismo ocidental, mas o desdobramento de um caminho próprio: aquele que o velho Adam Smith batizou de “caminho natural” do desenvolvimento, baseado no mercado, mas não necessariamente capitalista, de uso intensivo de mão de obra e — repare nesse detalhe, que voltará a nos assombrar — poupador de energia. Onde o Ocidente acumulou capital e poder de forma “interminável”, a Ásia teria trilhado uma via mais horizontal. E é justamente aí que Arrighi enxerga a semente de uma “sociedade mundial de mercado baseada em maior igualdade entre as civilizações”, como sonhara Smith, e, no mesmo gesto, o lento declínio da hegemonia estadunidense.

Escrevendo ainda sob a fumaça da invasão do Iraque, Arrighi lança mão de um conceito afiado para dar nome ao que via: a dominação sem hegemonia. A ideia é colhida de Ranajit Guha e apoiada no conceito elaborado por Gramsci, e aqui convém não simplificar. Hegemonia, para Gramsci, não é mero convencimento, mas uma força que repousa sobre um alicerce bem concreto: poderio econômico, político e militar de fato conquistado. O grupo hegemônico dirige porque é central na economia, porque comanda as instituições, porque, no limite, tem superioridade militar; e é sobre esses alicerces que ele faz concessões reais aos grupos subordinados e consegue vestir seus próprios interesses com a roupagem do interesse geral. A coerção não some nesse arranjo: fica de prontidão, discreta, na retaguarda. Hegemonia é, nas palavras de Arrighi, a capacidade dos grupos dominantes de apresentar seu domínio como se servisse não só aos seus próprios interesses, mas também aos dos grupos subordinados. Quando essa capacidade se esgota e sobra apenas o porrete escancarado, não há mais hegemonia, há dominação nua e crua.

E foi isso, argumenta Arrighi, que a guerra no Iraque revelou: os Estados Unidos saíram politicamente derrotados daquelas incursões, revelando sua incapacidade de liderar pelo consenso e pela força das instituições globais. Sobrava-lhes a força bruta. Uma possível comparação com os recentes ataques ao Irã não se trata de mera coincidência. Nesses momentos, a tentativa de impor domínio se veste de farda militar; nada impede, porém, que se manifeste de outras formas, como a arma econômica e a chantagem diplomática, encarnadas, hoje, em sanções comerciais ou nos malfadados tarifaços.

A ascensão da China como protagonista global na corrida tecnológica, uma enorme liquidez de capital para financiamento externo, aliada a um imenso mercado consumidor e a uma enorme demanda por importações, dinamizou o comércio com diversas partes do mundo. Essa nova possibilidade reduziu a dependência comercial — e, por vezes, até financeira — de vários países em relação aos Estados Unidos e à Europa. E essa dinâmica não apenas se confirmou, como se tornou tendência. No Oriente Médio, a exportação de petróleo se deslocou majoritariamente para a Ásia; a África se consolidou como fornecedora de importantes minerais críticos e metais estratégicos; e o Brasil, de um lado, viu sua balança comercial melhorar com o aumento substancial das exportações de alimentos e, de outro, tornou-se um destino cada vez mais relevante do investimento estrangeiro direto chinês.

No âmbito financeiro, as transformações ocorrem em ritmo mais lento, mas já podem ser percebidas. Depois de se consolidar no topo da hierarquia monetária, os Estados Unidos passaram a registrar déficits comerciais gigantescos, sustentados pela imensa demanda por dólares e por títulos do Tesouro estadunidense — a principal moeda das transações comerciais e de reserva de valor internacional — de que os demais países precisam para liquidar seus negócios e guardar suas reservas. Esse processo foi, em boa medida, alimentado pela própria ascensão chinesa: entre 2000 e 2024, de acordo com dados do próprio governo da República Popular da China, suas importações saltaram de cerca de US$ 225 bilhões para aproximadamente US$ 2,59 trilhões — um crescimento superior a 1.000% —, enquanto suas reservas internacionais saltaram de US$ 165 bilhões, em 2000, para cerca de US$ 3,4 trilhões, em 2025, após alcançarem um pico de quase US$ 4 trilhões em 2014. Ao acumular esse colossal volume de reservas — em grande parte aplicado em ativos denominados em dólar —, a China tornou-se uma das principais financiadoras do déficit norte-americano.

No entanto, ao menos três movimentos vêm corroendo o papel do dólar. O primeiro é o avanço dos investimentos e empréstimos externos chineses. O segundo é a ascensão lenta, porém persistente, do renminbi: embora ainda modesto nos pagamentos globais — cerca de 3,1% em janeiro de 2026, na quinta posição, atrás de dólar, euro, libra e iene —, o yuan já responde por perto de metade das transações transfronteiriças da própria China (num recorte em que o dólar caiu de cerca de 80% para 50%) e por aproximadamente 6% do financiamento ao comércio mundial. O terceiro é a redução deliberada e sustentada das reservas de títulos do Tesouro estadunidense pelo Banco Popular da China: de um pico de US$ 1,32 trilhão, em novembro de 2013, para cerca de US$ 680 bilhões no fim de 2025 — uma queda de quase 50% que fez a China recuar do primeiro para o terceiro lugar entre os maiores credores estrangeiros dos EUA, atrás de Japão e Reino Unido.

Evidentemente, essa movimentação nas placas tectônicas do capitalismo global não passaria ilesa a uma reação irritada do imperialismo estadunidense. E aliás, em certa medida chega a ser grosseira a similaridade na propaganda e na estratégia utilizadas por Donald Trump, ao ressuscitar o movimento “Make America Great Again”, com o momento em que essa expressão foi cunhada, durante o governo de Ronald Reagan, contexto também marcado por inflação elevada e desemprego crescente, que já prenunciava o fim da era dourada da economia do pós-guerra. A década de 1980 representou a superação do capitalismo regulado e do Estado de bem-estar social associados aos acordos de Bretton Woods. Esse período viu a concentração de renda nos Estados Unidos disparar para patamares inéditos, impulsionada por inovações financeiras que permitiram ganhos estratosféricos por meio de instrumentos de capital fictício, cada vez mais descolados dos ativos reais da economia.

Mas esse declínio também tem raízes internas. A mesma globalização financeira que reorganizou a economia norte-americana — com a desintegração vertical das empresas, o offshoring e o outsourcing rumo à mão de obra barata asiática — aprofundou uma fratura dentro dos próprios Estados Unidos. A produtividade líquida da economia disparou cerca de 90% entre 1979 e 2025, mas a remuneração do trabalhador mediano cresceu apenas 33% no mesmo período: a riqueza foi gerada, mas cada vez menos distribuída. Sob o “capitalismo de gestão de ativos”, fundos de investimento impuseram uma lógica de curto prazo voltada ao valor para o acionista, e executivos passaram a ser remunerados maciçamente em ações e bônus — de modo que a razão entre o salário de um CEO e o de um trabalhador típico saltou de 31 vezes, em 1978, para 280,7 vezes em 2024 (chegando a 408,5 vezes em 2021). A hegemonia estadunidense, portanto, corrói-se por fora e por dentro ao mesmo tempo: perde terreno no tabuleiro global enquanto concentra renda e ressentimento em casa. É diante dessa dupla crise que o governo dos Estados Unidos ensaia suas respostas para tentar preservar o próprio império.

<><> A reação de um império em declínio

Não por acaso Trump lança mão das mesmas estratégias adotadas por Reagan. Para decifrar essa estratégia, é fundamental examinar as ideias de Stephen Miran, ex-presidente do Conselho de Consultores Econômicos de Trump e que atuou, ainda, como conselheiro na Casa Branca e atual governador do Federal Reserve. Considerado um dos arquitetos do “Acordo de Mar-a-Lago”, Miran publicou, no final de 2024, “Um guia do usuário para a Reestruturação do sistema de comércio global” quando ainda era estrategista na empresa de consultoria Hudson Bay Capital. Suas teses repousam sobre o objetivo de “reconfigurar os sistemas globais de comércio e finanças em benefício dos Estados Unidos” (Miran, 2024, p. 38, tradução livre) e confrontam Wall Street ao defender que o Estado pode influenciar a taxa de câmbio do dólar por meio de ferramentas multilaterais ou unilaterais.

Entre as medidas unilaterais, Miran chega a sugerir a compra de moedas estrangeiras, a venda massiva de dólares, restrições legais a transações cambiais e até uma taxação de uso sobre títulos do Tesouro dos EUA detidos por governos estrangeiros. No entanto, as tarifas comerciais emergiram como sua ferramenta preferencial, isto é: “um instrumento pelo qual se pode obter com sucesso alavancagem de negociação — e receita — junto a parceiros comerciais” (Miran, 2024, p. 38, tradução livre), provavelmente sendo usadas antes de qualquer intervenção cambial.

O objetivo principal é financiar o déficit em conta corrente dos EUA, mas também reduzir o déficit fiscal e proteger a indústria nacional da concorrência internacional — notadamente a chinesa — e da desvantagem cambial. Contudo, as consequências desse tipo de estratégia já se manifestam: a elevação do custo global do financiamento da economia estadunidense, pressões inflacionárias adicionais sobre o consumo e o afastamento de aliados históricos, que podem se sentir prejudicados pela postura coercitiva.

Políticas multilaterais de desvalorização cambial não são novidade, como demonstram os Acordos do Plaza e do Louvre nos anos 1980 (período em que Reagan também buscava “tornar a América grande novamente”). No entanto, o uso de ferramentas unilaterais e coercitivas como na forma atual é inédito e expressa uma característica do conceito de dominação sem hegemonia.

Num cenário em que os alicerces do sistema monetário internacional baseados no dólar estão abalados e a força do comércio global se desloca da centralidade nos Estados Unidos, fica evidente que esse país vê seu poder ameaçado; suas fundações, contudo, permanecem sólidas e com raízes profundas. Um marco tecnológico fundamental reforça essas fundações: o paradigma da tecnologia da informação. As plataformas digitais passaram a permear quase todas as esferas das relações sociais, e são parte cotidiana da sociedade moderna. Por deter o domínio tecnológico e de propriedade das principais plataformas utilizadas no mundo, os Estados Unidos mantêm capacidade de sustentar sua hegemonia que se espalha por meio desses serviços. E os serviços de intermediação financeira digital estão intrinsecamente ligados a esse processo.

<><> A centralidade do Brasil e do PIX para a reação estadunidense

A lógica coercitiva com que os EUA tentam sustentar seu domínio materializa-se, de forma exemplar, no caso brasileiro. As tarifas de 25% anunciadas em julho de 2026 apoiam-se numa investigação do USTR sob a seção 301 que, a pretexto de práticas “desleais”, apenas reembala acusações já mencionadas (do etanol às tarifas preferenciais, do “combate à corrupção” ao desmatamento). Entre elas, uma se destaca e revela o alvo real: o comércio digital e os serviços de pagamento eletrônico, com foco nas ordens judiciais a plataformas como X, Meta e Google e no suposto favorecimento ao PIX. O próprio Representante de Comércio, Jamieson Greer, resumiu o espírito da medida ao afirmar que proteger os interesses econômicos americanos contra práticas desleais seria o fundamento da política “América Primeiro” de Trump. Por trás do discurso, porém, o que está em jogo é mais profundo: não uma lista de queixas comerciais, mas os próprios alicerces, monetários e tecnológicos, sobre os quais os Estados Unidos ainda sustentam seu poder.

Nesse tabuleiro, o Brasil se torna peça-chave por pelo menos três razões. A primeira é geopolítica: sua posição estratégica no comércio disputado entre Estados Unidos e China. A segunda é econômica: trata-se de um amplo mercado consumidor sob influência histórica dos EUA, sobretudo para serviços de tecnologia da informação. E a terceira, a que mais importa aqui, é a construção de alternativas financeiras, como a aproximação com os BRICS em torno de plataformas de pagamento e instituições próprias e, no centro dela, o PIX. É esse terceiro canal que ganha relevância especial no contexto atual, e é para ele que voltamos nossa atenção, pelo simbolismo que representa para o país.

Os desdobramentos que a consolidação do PIX traz consigo podem não parecer óbvios à primeira vista, mas têm uma amplitude que vai muito além da disputa propagandística. A evolução dos sistemas digitais de pagamento está diretamente ligada ao monopólio de empresas estadunidenses (algumas já amplamente conhecidas, como Visa e Mastercard), mas a grande virada nessa história é a entrada das big techs nesse tipo de serviço. O modelo que faria do WhatsApp, controlado pela Meta, a principal plataforma de pagamentos do Brasil já estava lançado e prometia revolucionar um mercado prestes a ser dominado por uma big tech estrangeira, à semelhança do que o WeChat faz na China, com a “singela” diferença de ser uma empresa nacional, submetida a forte regulação e supervisão estatal.

Em um outro trecho do documento de Miran, na seção “financial extraterritoriality”, ele descreve como o controle do dólar permite aos EUA congelar ativos, cortar países do SWIFT e restringir acesso ao sistema bancário, ou seja, o poder de coagir “without having to mobilize a single soldier”(Miran, 2024, p. 10, tradução livre). O PIX pôde, ao mesmo tempo, frustrar a possibilidade das big techs estadunidenses se consolidarem no setor de pagamentos digitais num mercado importantíssimo e levantar possibilidades de acordos internacionais envolvendo transações instantâneas e gratuitas, que podem servir, inclusive, de base para o desenvolvimento de outras inovações tecnológicas financeiras também para transações transfronteiriças, a exemplo do que se busca desenvolver com o BRICS Pay.

A perda desse mercado não significa apenas a perda de possibilidades de lucro, mas da capacidade de controle de uma imensa quantidade de dados e informações financeiras num país de grande relevância geopolítica e cuja capacidade política de impor normas e regulações sobre a ingerência de empresas estrangeiras é ainda muito limitada. Portanto, a existência do PIX é, de antemão, uma proteção indispensável à soberania financeira do Brasil, além de tantas outras vantagens oferecidas ao cidadão brasileiro em suas transações bancárias cotidianas. O PIX é um avanço civilizacional, um serviço de utilidade pública que possibilita reduzir custos e distâncias, facilitar o trabalho de pequenos produtores, autônomos e empresários, agilizar processos, num mundo moderno permeado pela quase essencialidade de serviços digitais, tornando-se então um avanço em termos de serviços essenciais ao cidadão brasileiro. Questionar o PIX em relação à concorrência de empresas privadas seria como questionar a oferta de vacinas gratuitas pelo SUS por competir com as empresas privadas da indústria farmacêutica, é uma contradição humanitária.

O enredo que se desenrola desde o anúncio de tarifas por Trump, que vai desde as justificativas políticas, como os processos movidos contra Bolsonaro, até todos esses interesses não ditos, evidencia o caráter político dessas tarifas. Mas essas medidas descumprem todas as normas e regras estabelecidas nos acordos internacionais e nas instituições multilaterais, e mesmo que sempre tenham atuado como um braço da hegemonia dos EUA, seguem paralisadas e sem capacidade — ou sem interesse — de reagir, um exemplo claro é a inércia da OMC. E quanto mais medidas ilegais são levadas a cabo, menos as regras e acordos estabelecidos têm funcionalidade.

O governo brasileiro acerta quando reage com firmeza na defesa do PIX e não aceita as tarifas. Negociações e instituições multilaterais devem sempre ser um canal a se utilizar, mas esse momento se apresenta também como uma encruzilhada histórica. As pressões e chantagens dos Estados Unidos não vão cessar com base na negociação e tampouco por medidas da OMC, portanto cabe também ao país construir uma estratégia de soberania de longo prazo e estruturada, o que pressupõe a diversificação de parceiros comerciais, o avanço na consolidação de uma estrutura produtiva diversificada e de maior teor tecnológico, a construção de novos blocos de transações financeiras que reduzam o poder do dólar e o desenvolvimento de novas tecnologias da informação que reduzam a dependência das big techs estrangeiras, especialmente no setor de transações financeiras, e nisso o PIX é um grande trunfo.

Esse cenário cria aberturas para o fortalecimento de alternativas, ainda que incipientes, como as iniciativas dos BRICS. O papel de liderança do Brasil e de Lula no bloco, somado ao desgaste da extrema-direita brasileira após as tentativas de golpe frustradas, contribuiu para que o país se tornasse um alvo preferencial. Mas ser alvo, aqui, é também sinal de que há o que defender: resistir a essas chantagens e apostar em alternativas soberanas é cada vez mais uma necessidade — e, nesse tabuleiro, o PIX é menos um meio de pagamento do que a prova de que outros caminhos são possíveis.

 

Fonte: Por Iago Montalvão, no Blog da Boitempo