quarta-feira, 22 de julho de 2026

O protagonismo do presidente Lula na trajetória da participação social – Parte 1

Quando Luiz Inácio Lula da Silva subiu à tribuna do Congresso Nacional em 1º de janeiro de 2003, ele anunciou uma nova forma de governar o país: “(…) iremos recuperar a dignidade do povo brasileiro, recuperar a sua autoestima e gastar cada centavo que tivermos que gastar, na perspectiva de melhorar as condições de vida de mulheres, homens e crianças que necessitam do Estado brasileiro”, disse naquele primeiro dia, estabelecendo o tom de uma gestão que faria da participação popular seu traço mais distintivo.

Play Video

Essa declaração inaugural não era retórica vazia. Dias depois, em 30 de janeiro, o presidente reinstalou o Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, o Consea, afirmando que o órgão “é o símbolo do compromisso do governo com a erradicação da fome, mas é também o reconhecimento de que a fome só será vencida com a participação ativa da sociedade civil”. Em 13 de fevereiro, foi a vez do Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social, o “Conselhão”, ser instalado com a justificativa de que “(…) é um espaço de diálogo permanente entre governo, empresários, trabalhadores e movimentos sociais. É a primeira vez que esses setores sentam juntos para pensar o Brasil de forma pactuada”.

O que se seguiu nos oito anos dos dois primeiros mandatos foi um ciclo inédito de conferências nacionais. Em 23 de outubro de 2003, o presidente abriu a primeira Conferência Nacional das Cidades, afirmando que o evento representava “a materialização de um novo jeito de governar, um jeito em que o povo não é apenas convidado a votar de quatro em quatro anos, mas a participar cotidianamente da definição dos rumos do país. A cidade é o lugar onde a vida acontece, e a população tem que ser ouvida sobre o modelo de cidade que deseja”. Essa conferência, assim como tantas outras que viriam, carregava a marca de uma inovação institucional: pela primeira vez, segmentos inteiros da população teriam espaços organizados para debater com o governo federal suas demandas e propostas.

Em 15 de julho de 2004, Lula discursou na primeira Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, classificando o momento como “um passo histórico” e lembrando que “as mulheres não podem mais ser tratadas como cidadãs de segunda classe”. Ele associou a iniciativa à criação da Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres, afirmando que “o Estado brasileiro está assumindo a responsabilidade de combater as desigualdades de gênero. A luta das mulheres é a luta de toda a sociedade”. O mesmo movimento se repetiu em 30 de junho de 2005, quando o presidente participou da primeira Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, declarando que “o Brasil tem uma dívida histórica com a população negra. Não podemos mais fechar os olhos para a discriminação racial. Esta conferência é um divisor de águas: pela primeira vez, o governo federal reúne a sociedade para debater, de forma organizada, as políticas de promoção da igualdade racial. O racismo é um crime e deve ser combatido com todas as nossas forças”.

O ano de 2005 também viu a realização, em 16 de novembro, da terceira Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, ocasião em que Lula defendeu que “a ciência precisa sair dos laboratórios e dialogar com a sociedade. Essa conferência é o espaço onde a comunidade científica e os movimentos sociais podem construir juntos uma política de inovação que atenda aos interesses do povo brasileiro”. A primeira Conferência Nacional de Cultura, em 13 de dezembro de 2005, trouxe outra declaração que sintetizava o entendimento do governo sobre o papel desses espaços: “Cultura não é supérfluo, é a alma de uma nação. Pela primeira vez, o governo federal está sentando com artistas, produtores, gestores e todos os fazedores de cultura para construir uma política de Estado para o setor. Essa conferência é um marco na valorização da nossa identidade”.

Em 2006, o ritmo se intensificou: em 12 de maio, na primeira Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa com Deficiência, o presidente declarou que “a inclusão das pessoas com deficiência é uma questão de justiça social. Essa conferência coloca o tema no centro do debate público, com a participação de quem vive a deficiência no dia a dia. Nenhuma política para este segmento será eficaz sem a escuta ativa dos seus protagonistas”, alinhado ao lema do movimento: nada sobre nós sem nós. Na sequência, em 23 de maio, foi realizada a primeira Conferência Nacional dos Direitos da Pessoa Idosa, quando Lula afirmou que “a população brasileira está envelhecendo. Garantir os direitos dos mais velhos é uma obrigação do Estado e de toda a sociedade. Esta conferência é a prova de que queremos construir um Brasil que respeite a dignidade em todas as idades, ouvindo quem já contribuiu tanto com este país”. Em junho de 2006, foi a vez da primeira Conferência Nacional de Economia Solidária, que, nas palavras do presidente, representava o reconhecimento de que “existe um outro modelo econômico possível, feito pela mão de milhões de trabalhadores e trabalhadoras organizados”.

O segundo mandato ampliou ainda mais o alcance da participação social. O ano de 2007 foi intenso para a política de participação social, com a realização de cinco conferências nacionais: a 3ª Conferência Nacional de Cidades, a 7ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, a 2ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, a 13ª Conferência Nacional de Saúde e a 3ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar. Em 27 de abril de 2008, na primeira Conferência Nacional de Juventude, o presidente afirmou que “os jovens não são o futuro, são o presente. O Brasil precisa de uma política nacional de juventude que garanta educação, trabalho e participação. Esta conferência é a prova de que o governo quer ouvir a juventude e construir com ela as soluções para os seus problemas”. Mas foi em 5 de junho de 2008, na primeira Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais, que Lula fez uma das declarações mais emocionadas de todo o período. “É com grande emoção que participo da abertura da 1ª Conferência Nacional de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais. Esta é a primeira vez que o governo federal, em toda a história do Brasil, convoca uma conferência para discutir políticas públicas voltadas para essa população. Esse gesto é um ato de coragem, um ato de afirmação dos direitos humanos”, disse, acrescentando: “A discriminação é um crime. A homofobia é uma das formas mais perversas de discriminação. Ninguém pode ser vítima de preconceito por amar. Não queremos apenas tolerar a diversidade, nós queremos respeitá-la. A diferença não pode ser motivo de vergonha, de ódio ou de violência. Ela deve ser celebrada como uma riqueza da nossa sociedade”. E concluiu com um compromisso que ressoaria além daquele momento: “O Brasil que nós estamos construindo é um país onde todas as pessoas, independentemente da sua orientação sexual, possam viver com dignidade, sem medo e com todos os direitos garantidos. A democracia que defendemos é aquela que assegura a todos e a todas o direito de serem felizes”.

Entre 2003 e 2010, o que se consolidou foi um método de governo no qual a participação social deixava de ser um acessório para se tornar o próprio modo de operar do Estado, o que avançou entre 2011 e 2016 nos governos da presidenta Dilma Rousseff, uma protagonista tão relevante quanto o presidente Lula para a história da participação social no país. Dilma realizou 41 conferências nacionais, algumas até então inéditas, como a primeira Conferência Nacional do Emprego e Trabalho Decente, a primeira Conferência Nacional sobre Transparência e Controle Social, a primeira Conferência Nacional sobre Migrações e Refúgio e a primeira Conferência Nacional de Política Indigenista. Ainda em 2011, no primeiro ano de seu governo, o Fórum Interconselhos foi criado como um mecanismo inovador para articular a participação social no ciclo de planejamento e orçamento do governo federal, com o objetivo de reunir representantes de dezenas de conselhos nacionais de políticas públicas para debater e propor diretrizes, especialmente para o Plano Plurianual (PPA) 2012-2015. A criação do fórum representou um salto qualitativo na democracia participativa brasileira, pois se tratava de um espaço permanente de diálogo transversal, em que conselhos de áreas tão diversas como saúde, educação, direitos humanos, segurança alimentar e juventude passaram a atuar de forma integrada.

Em 2014, a presidenta instituiu por decreto a Política Nacional de Participação Social (PNPS) e o Sistema Nacional de Participação Social (SNPS), reforçando o seu compromisso em assegurar o fortalecimento das Instituições Participativas, mas a política foi esvaziada e, posteriormente, o decreto foi revogado. Dois anos depois, durante a abertura da 4ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, em 10 de maio de 2016, Dilma fez um dos discursos mais emblemáticos da história das conferências nacionais, apenas dois dias antes da votação no Senado que determinaria seu afastamento. Em meio à defesa do mandato e à denúncia do golpe, ela exaltou a democracia e a participação social como valores indissociáveis: “A democracia é o único regime político que garante a participação popular. É nela que nós, mulheres, conquistamos voz, conquistamos direitos e conquistamos o nosso espaço. Não há democracia sem a participação plena das mulheres. Essa Conferência é a prova viva de que o povo, quando se organiza e participa, é capaz de enfrentar todas as adversidades e construir uma nação mais justa, mais humana e mais igualitária. A participação social não é um favor do Estado; é um direito que nós conquistamos e que nenhum golpe, nenhum retrocesso poderá nos tirar. A democracia não se faz apenas nas urnas. Ela se faz no dia a dia, com a mobilização da sociedade, com a luta dos movimentos, com a ocupação dos espaços de decisão. A voz das mulheres não será silenciada, porque a nossa voz é a voz da democracia”, concluiu Dilma Rousseff.

¨      O protagonismo do presidente Lula na trajetória da participação social – parte 2

Dando continuidade às reflexões trazidas no texto acima, o fato é que a política de participação social, suas instituições, instâncias e mecanismos enfrentaram um duro revés nos anos que se seguiram ao golpe sofrido pela presidenta Dilma, com o desmonte promovido pelos governos de extrema direita até 2022. Conselhos foram extintos, conferências deixaram de ser convocadas e a participação social foi progressivamente esvaziada. Foi nesse contexto de desmonte que Lula, já candidato em 2022, apresentou seu projeto de reconstrução. O programa de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral estabeleceu que seriam retomadas as conferências nacionais e os conselhos de políticas públicas, como espaços de participação popular e controle social, revertendo o desmonte promovido nos últimos anos.

Durante a campanha eleitoral, em outubro daquele ano, o então candidato Lula foi direto: “Nós vamos recriar todos os conselhos de participação popular que foram extintos. Vamos retomar as conferências nacionais, para que o povo possa participar da definição das políticas públicas.”. Na noite da vitória eleitoral, em 30 de outubro, Lula repetiu o compromisso: “Prometo a vocês que eu vou fazer tudo o que eu puder, até mais do que eu puder, porque o que vocês me deram, como voto de confiança, exige de mim respeito a vocês, admiração a vocês; e quero dizer para vocês que nós vamos voltar a criar conferências nacionais”. Concluiu Lula, reeleito: “Todas as políticas públicas serão emanadas do povo para o povo, em conferências nacionais, municipais e estaduais!”.

Na transição governamental, em 9 de novembro de 2022, Lula anunciou o grupo técnico de participação social com uma declaração que já antecipava o que viria: “Vamos recriar o Consea, o Conselho de Participação Social, e retomar o diálogo com os movimentos que foram criminalizados”. A posse, em 1º de janeiro de 2023, foi o primeiro ato concreto dessa reconstrução. No discurso no Congresso Nacional, o presidente Lula afirmou que “ficou demonstrado que um representante da classe trabalhadora podia, sim, dialogar com a sociedade para promover o crescimento econômico de forma sustentável e em benefício de todos, especialmente dos mais necessitados. Ficou demonstrado que era possível, sim, governar este país com a mais ampla participação social, incluindo os trabalhadores e os mais pobres no orçamento e nas decisões de governo”.

Em 31 de janeiro de 2023, durante cerimônia no Palácio do Planalto, Lula declarou oficialmente: “A participação social não é uma concessão, é um direito constitucional. O Conselho de Participação Social será o coração do governo. Estamos devolvendo ao povo o que foi confiscado”. Já em 28 de fevereiro, na cerimônia de reinstalação do Consea, Lula foi enfático sobre o significado daquele ato: “O Consea é um patrimônio do povo brasileiro. Ele foi desmontado pelo governo anterior como se a fome tivesse acabado. Nós estamos aqui para reconstruir o Consea. Não há democracia sem participação social. Não há combate à fome sem a sociedade civil organizada”. Em 4 de maio, na instalação do Conselho de Desenvolvimento Econômico Social Sustentável, o novo “Conselhão”, Lula foi claro sobre o papel daquele colegiado: “O Conselhão é a demonstração de que o diálogo voltou ao Palácio do Planalto. Vocês não estão aqui para bater palmas; estão aqui para ajudar o Brasil a encontrar o seu caminho. A sociedade civil tem assento permanente neste governo”.

No dia 2 de julho, o presidente abriu a 17ª Conferência Nacional de Saúde com uma declaração que conectava participação, democracia e direito à saúde. Lula afirmou: “A saúde é o termômetro da democracia. O SUS é a maior política de inclusão social deste país, e ele só é forte porque tem a participação do povo. Não há democracia sem participação popular, e não há saúde sem democracia”. O Fórum Interconselhos somou-se a esse movimento em 19 de julho, quando foi retomado, e Lula afirmou que o evento era “a concretização da democracia participativa que prometemos na campanha. Reunir dezenas de conselhos é mostrar que o Brasil voltou a se organizar para ouvir sua gente”. A partir desse momento, o ciclo de conferências nacionais foi retomado com uma intensidade que remetia aos primeiros anos do governo Lula. Em 5 de dezembro, na 13ª Conferência Nacional de Assistência Social, Lula ressaltou que “a assistência social é um direito do nosso povo, não é favor. Essa conferência é a prova de que estamos reconstruindo o Brasil com a participação de quem mais precisa”.

Seis dias depois, em 11 de dezembro, na 6ª Conferência Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional, Lula foi direto ao associar a participação à superação da fome: “A fome não é um fenômeno da natureza, é um projeto político de destruição do Estado. A participação social é a vacina contra esse projeto. O Brasil saiu do Mapa da Fome porque teve Consea, teve conferência, teve povo organizado”. Em 14 de dezembro, na 4ª Conferência Nacional de Juventude, o presidente repetiu o bordão que usara em 2008, agora com ainda mais convicção: “Vocês, jovens, não são o futuro. O futuro a gente constrói agora, com a juventude organizada, participando. Essa conferência é a voz da juventude ecoando no Palácio do Planalto”.

O ano de 2024 começou com a Conferência Nacional de Educação, quando Lula afirmou no discurso de encerramento da CONAE que “educação se faz com diálogo, com escuta. A CONAE é a expressão máxima da democracia participativa na definição dos rumos da nossa educação. Não há Plano Nacional de Educação que se sustente sem a comunidade escolar”. Em 4 de março, na 4ª Conferência Nacional de Cultura, Lula declarou que “cultura é a alma de um povo. E a alma não pode ser silenciada. Essa conferência é a prova de que a cultura voltou, e com ela a participação dos fazedores e fazedoras de cultura de todo o Brasil”. Já na 12ª Conferência Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, em 2 de abril, Lula afirmou: “Cuidar das crianças é cuidar do Brasil. Nós precisamos ouvi-las, garantir o direito de voz e o lugar de fala. Esta conferência é o espaço sagrado dessa escuta. Nenhuma política para a infância será efetiva se não houver a participação delas”.

No dia 30 de julho, na 5ª Conferência Nacional de Ciência, Tecnologia e Inovação, Lula defendeu que “a ciência precisa estar a serviço do povo brasileiro, e o povo precisa participar das decisões sobre os rumos da pesquisa e da inovação no nosso país. Essa conferência é um marco da reconstrução do diálogo entre comunidade científica e sociedade”. O presidente participou, em 15 de setembro, da 5ª Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, declarando que “não basta não ser racista, temos que ser antirracistas. A igualdade racial só se constrói com a participação do povo negro nos conselhos, nas conferências, nos espaços de decisão”. Já em novembro, o presidente enviou mensagem à 2ª Conferência Nacional de Migrações, Refúgio e Apatridia, dizendo que “o Brasil é um país construído por migrantes. A COMIGRAR é o reconhecimento de que a participação dessa população é essencial para políticas justas e acolhedoras”.

Em 29 de setembro de 2025, na 5ª Conferência Nacional de Políticas para as Mulheres, Lula afirmou que “essa conferência é também um grito contra o silêncio e pela liberdade das mulheres falarem o que quiserem, quando quiserem e onde quiserem. Não há democracia plena sem ouvir a voz de todas as mulheres”. Na abertura da 14ª Conferência Nacional de Assistência Social, Lula declarou: “As conferências são o oxigênio da nossa democracia. Enquanto eu for presidente, o povo terá voz ativa nas decisões deste país”.

No dia 27 de fevereiro de 2026, na 6ª Conferência Nacional das Cidades, o presidente Lula destacou que a organização e reivindicação popular trazem benefícios para a população brasileira e reforçou que a participação social é uma marca registrada de sua gestão. E assim, ao longo desses mais de vinte anos de trajetória pública entre os dois primeiros mandatos e o terceiro, o que se percebe é uma coerência notável no posicionamento de Lula sobre a participação social. As declarações de 2003 ressurgem nas de 2023-2026 com a mesma convicção; o que mudou foi o contexto: o que nos anos 2000 era uma inovação institucional, a partir de 2023 tornou-se uma reconstrução necessária diante do desmonte promovido nos governos anteriores. E é nesse ponto que se encontra talvez a declaração mais impactante de todo esse percurso, proferida na cerimônia da assinatura do Decreto de criação do Conselho de Participação Social em 31 de janeiro de 2023, quando Lula afirmou: “Eu quero que vocês saibam que esse conselho vai servir para ajudar a gente a reconstruir, ou construir uma coisa nova. Uma participação popular efetiva. E que vocês sejam tratados em igualdade de condições, que possam dizer sim da mesma forma que podem dizer não.” Essa frase encerra em si toda a trajetória: o reconhecimento de que a participação não é um favor que o governo faz à sociedade, mas um direito que lhe é devido, e a certeza de que o centro da ação governamental deve ser ocupado pela própria população.

A trajetória política do presidente Lula sempre teve na participação social um dos princípios dos seus governos, e essa coerência histórica se materializa no próprio plano de governo para a disputa eleitoral de 2026: o Plano Participativo pelo Brasil, pelos Brasileiros. Trata-se de um mecanismo de escuta social ampla que coloca o povo no centro da formulação do projeto de país, por meio de uma plataforma digital colaborativa, para que posteriormente o programa consolidado seja apresentado à sociedade. O processo totalmente inovador combinou ainda plenárias presenciais nos territórios, reuniões de grupos de especialistas e uma consulta orientada para a juventude na elaboração do documento. O gesto é profundamente simbólico: o mesmo líder que, em 2003, afirmava que “a participação do povo na definição das políticas públicas é o caminho para a verdadeira democracia” e que, em 2023, reconstruiu os conselhos extintos afirmando que “democracia é muito mais do que voto — é participação, é o povo nas ruas, nos conselhos, nas conferências”, demonstra seu compromisso com a participação social na prática, enquanto critério da verdade.

 

Fonte: Por Marcelo Pires Mendonça, em Brasil 247

 

América do Sul: a Doutrina Donroe nas urnas

A eleição de Keiko Fujimori no Peru, em 29 de junho de 2026, e a vitória de Abelardo de la Espriella na Colômbia uma semana antes confirmam uma alteração no equilíbrio político sul-americano. Com esses resultados, a direita passa a governar sete dos doze países da região.

O presidente dos EUA, Donald Trump, abertamente explicitou seu envolvimento nessas eleições, em particular a colombiana, chamando de la Espriella de líder “inteligente, forte e determinado” e a seu oponente Iván Cepeda de um “marxista de esquerda radical”. Ademais, afirmou que a manutenção entre ambos os países dependia do candidato que endossava. Mais que isso, o subsecretário de Estado Christopher Landau coordenou uma campanha de desinformação contra o candidato governista colombiano, que o secretário de Estado Marco Rubio justificou necessária como proteção aos interesses do seu país nos processos democráticos da Colômbia.

Longe de ocultar esta intromissão, Trump faz questão de expressar que assim serão as relações com os países latino-americanos, tendo seu ápice na detenção de Nicolás Maduro, mas também com sua aberta intromissão nos processos eleitorais na Argentina, no Equador, no Chile e, agora, no Brasil. Lentes estreitas enfocam esses fatos na personalidade do Trump, mas na verdade é que constitui uma visão arraigada dos Estados Unidos: “América” vai do polo norte ao sul, sem consideração pelas “soberanias” existentes.

Isso ficou claro quando Monroe anunciou sua doutrina em 1823, quando nenhum Estado do continente foi sequer consultado nem informado da mesma — e foi, na realidade, uma expressão estadunidense feita a quem considerava seus interlocutores, os europeus. A expectativa americana, como tinha expressado Thomas Jefferson, era criar um ‘Império da Liberdade’, deixando claro que seus amplos limites geográficos eram indefinidos e se estendiam ao longo do continente americano — o que ficaria claro no Destino Manifesto.

A vitória sobre o México deteve as pretensões territoriais diretas pela indisposição de incorporar populações latinas e católicas. A metade mexicana que não foi incorporada aos EUA passaria a ser tutelada indiretamente pelos mecanismos de intromissão, pressão econômica, diplomática e política, e intervenção militar, no estilo da união aduaneira sob sua arbitragem política que propuseram na Conferência Pan-Americana de 1889. Theodore Roosevelt atualizaria a visão de tutelagem continental afirmando que os EUA interveriam em qualquer país que “não se comportasse corretamente” no que ficou conhecido como seu Corolário à Doutrina Monroe.

Consolidou-se, assim, a percepção de que a projeção de poder sobre o continente constituía elemento central da estratégia norte-americana de afirmação internacional. Ao todo, se calculam mais de 40 intervenções diretas e cobertas. O ex-presidente Woodrow Wilson, grande promotor de muitas delas, declarou em 1913 sua insatisfação com resultados eleitorais na região e que ia ensinar aos latino-
americanos a “escolher bons homens”. Quando a resistência latino-americana e a Grande Depressão tornaram o intervencionismo mais custoso, os EUA adotaram a Política da Boa Vizinhança, optando por métodos mais suaves de ação — mas sem abandonar os preceitos básicos: América Latina deve estar alinhada às determinações dos EUA.

A Guerra Fria reativou a intervenção direta. Embora os EUA também agissem sobre países de outros continentes, na América Latina a percepção era de que se tratava de uma região não disputável, mas da sua exclusividade de ingerência — noção acendida pela Revolução Cubana. Enquanto na América Central e no Caribe os EUA fizeram intervenções militares diretas ou por meio da CIA, na América do Sul isso somente se observou na Venezuela e no Chile. No resto dos países, fundamentalmente através da Operação Condor, promoveram golpes militares, salvo Colômbia e Peru, mas se somariam à lista posteriormente — o primeiro fortemente por meio da “guerra às drogas”. Após a queda da União Soviética, a globalização projetou os instrumentos econômicos de intervenção, através do Consenso de Washington, do FMI, do Banco Mundial e, posteriormente, de mecanismos de cooperação em segurança, como o Plano Colômbia.

Trump está acelerando a velocidade dessa tutelagem, ademais de explicitar a mesma à transparência aberta. Na sua compreensão, o crescimento da presença econômica chinesa nas últimas décadas na região deve ser revertido rapidamente — em especial, dados os vários reveses que os EUA vêm sofrendo em outras partes do mundo.

Para isso, é preciso desarticular as aspirações recentes de maior autonomia na América do Sul neste século. Assim, aponta a candidatos que continuem desacreditando e enfraquecendo institucionalidades como a UNASUL e o MERCOSUL, para promover que essa cooperação multilateral se converta em uma soma de vínculos bilaterais com Washington. Não por acaso, a rede de lideranças alinhadas ao trumpismo com Bukele, Milei, Kast, Noboa, de la Espriella, Fujimori e potencialmente ao próximo presidente brasileiro ataca qualquer forma de integração regional latino-americana. Ao mesmo tempo, essas figuras políticas valorizam a relação estreita com os Estados Unidos — e até com a própria pessoa do Trump — como única solução para superar os problemas domésticos, como desempenho econômico, desgaste governamental e fragmentação partidária.

Paradoxalmente, essa dinâmica revela que, sem a ação de agentes domésticos, pouca ou nenhuma mudança ocorreria. Daí que Trump faz questão de expressar como deve ser especificamente a dinâmica eleitoral de cada país. Mas isso se sustenta com base em uma percepção negativa das capacidades e possibilidades desses processos políticos internos.

Uma visão global desses processos em seu conjunto revela os efeitos do neoliberalismo e seus impactos deletérios para o funcionamento democrático, não só na América Latina, mas em grande parte do mundo governado sob essa visão. Em 2024, o maior ciclo eleitoral da história em termos populacionais, dezenas de governos incumbentes foram derrotados, consequência dos efeitos políticos da pandemia e das instabilidades econômicas anteriores a ela, como a inflação, a desaceleração econômica e o aumento da desigualdade. A pesquisa do Pew Research Center em 34 países indicou que 54% se declararam insatisfeitos com o funcionamento da democracia. Na América Latina, a situação é mais agravante. O Informe Latinobarómetro de 2023 registrou queda de 15 pontos no apoio à democracia entre os latino-americanos desde 2010, caindo a 48%.

Assim, é nesse contexto que parte da nova direita sul-americana, influenciada pela ascensão do trumpismo, resolveu adotar métodos, como os discursos maniqueístas, antissistema e forte presença nas plataformas digitais estrangeiras. Sob expectativas impossíveis de não serem frustradas, impulsionam políticas domésticas alinhadas aos desejos abertamente explicitados por Trump. Mas a realidade de fundo revela sua força quando se observa que também essas novas direitas enfrentam dificuldades para responder às condições estruturais que favoreceram sua ascensão. Como não é uma visão ideológica ou verdadeira visão de mundo que está detrás de sua vitória nas urnas, sua base de sustentabilidade é fraca e dificilmente perduram mais de um mandato.

O cenário que surge, então, é de contínua alternância recorrente, e vitórias nas urnas milimétricas, que, ademais, favorecem as denúncias de fraudes. A recente vitória de Fujimori demonstra um caso extremo dessa dinâmica: em um país com oito presidentes desde 2016, ela venceu por conta do acúmulo de insatisfação causado por uma instabilidade que o fujimorismo contribuiu para criar. A eleição brasileira é a próxima a enfrentar esse desafio, seguida pela Argentina em 2027 e pelo Paraguai em 2028. Os demais tiveram, em geral, eleições fortemente divididas e circunstâncias disputadas até sobre o resultado final — enquanto a Venezuela se encontra num impasse formalmente indefinido.

Enquanto se foca na figura do Trump e nas vicissitudes internas de cada país para explicar seus resultados políticos, persiste a influência e intervenção — agora mais explícita, agora menos — dos EUA promovendo visões e estruturas econômico-sociais acordes aos seus interesses. Ao fim, que a América Latina consiste numa região para seu benefício, poucos o expressaram tão abertamente como em 2013 o tido liberal, progressista, defensor ambiental, promotor de direitos civis e humanos, e ex-secretário de Estado de Barack Obama, John Kerry: “O Hemisfério Ocidental é o nosso quintal. É fundamental para nós.”

 

Fonte: Por Andres Ferrari e João Pedro Castro Correia, em Outras Palavras

 

A Copa acabou. O jogo continua

A Espanha conquistou a taça, mas este Mundial será lembrado por muito mais do que pela seleção que levantou o troféu.

Para esta série de artigos, este torneio ficou marcado como a Copa da Vergonha.

Não apenas pela transformação do futebol em uma gigantesca plataforma de negócios para empresas de apostas. Nem apenas pelas decisões de arbitragem que, ao longo do torneio, alimentaram dúvidas sobre a uniformidade dos critérios.

Foi, sobretudo, porque o principal país-sede não apenas restringiu a entrada de jogadores e integrantes de delegações provenientes de alguns países africanos, do Irã e de nações de maioria árabe, como também submeteu diversos deles a procedimentos vexatórios, incluindo revistas íntimas, inspeções invasivas e longos interrogatórios.

Porque os ataques dos Estados Unidos ao Irã não produziram qualquer questionamento sobre a continuidade da competição no país agressor, em contraste com o tratamento dispensado à Rússia após a invasão da Ucrânia.

O apoio de Washington ao governo israelense, em meio ao massacre de Gaza, tampouco provocou reações equivalentes. Ainda assim, a FIFA preferiu o silêncio diante dessas contradições, chegando ao ponto de conceder a Donald Trump o recém-criado FIFA Peace Prize (Prêmio da Paz da FIFA).

Porque boa parte das democracias que costumam apresentar a defesa dos direitos humanos como um princípio universal também escolheu a omissão.

Durante um mês, a Copa terminou muitas vezes antes do apito final. Terminou quando o dinheiro das apostas passou a disputar protagonismo com o próprio futebol. Terminou quando critérios de arbitragem inconsistentes passaram a interferir mais do que deveriam nas partidas. Terminou quando o espetáculo comercial pareceu, em diversos momentos, maior do que o esporte que deveria justificar sua existência.

Ainda assim, a bola insistiu em lembrar que conserva uma rebeldia própria.

Quando tudo parecia submetido ao dinheiro, às estratégias de poder e às narrativas cuidadosamente construídas, o futebol voltou a fazer aquilo que faz de melhor: produzir o inesperado.

A rebeldia começou ainda na disputa pelo terceiro lugar. Inglaterra e França, em um jogo que muitos tratam apenas como cumprimento de tabela, protagonizaram um improvável 6 a 4, transformando uma partida quase sempre esquecida em um dos grandes espetáculos do torneio.

No dia seguinte, a final entre Espanha e Argentina não apagou as contradições desta Copa. Ao contrário. Reuniu, em noventa minutos — e depois na prorrogação — quase todas elas. Foi o momento em que o espetáculo comercial cedeu lugar, outra vez, ao próprio jogo.

<><> Noventa minutos para resumir uma Copa

A Argentina entrou em campo carregando uma história improvável. Sobreviveu quando parecia eliminada contra Cabo Verde, voltou do abismo diante do Egito, resistiu à Inglaterra e chegou à decisão sustentada por uma combinação rara de coragem, entrega e talento de alguns de seus protagonistas. Mas milagres não costumam ser inesgotáveis.

No jogo da final, a seleção argentina praticamente não existiu ofensivamente. Durante os noventa minutos regulamentares, não produziu uma única finalização. Segundo a Opta, empresa especializada em estatísticas do futebol, tornou-se a primeira seleção da história das finais da Copa do Mundo a terminar o tempo regulamentar sem dar um único chute ao gol. A primeira tentativa que exigiu uma intervenção do goleiro espanhol só aconteceu na reta final da prorrogação. Messi, cercado durante quase toda a partida, permaneceu distante do jogo. Quando finalmente encontrou algum espaço para criar, o relógio já jogava pela Espanha.

Quem manteve os argentinos vivos foi o goleiro Emiliano “Dibu” Martínez, seguro nas intervenções necessárias. Não realizou defesas espetaculares, mas fez exatamente aquilo que sua equipe precisava para permanecer respirando enquanto o restante do time parecia incapaz de reencontrar o caminho do ataque.

A pergunta inevitável é se o desgaste finalmente cobrou seu preço. A equipe que tantas vezes renascera durante a competição parecia caminhar como um sobrevivente que continua avançando apenas porque ainda não percebeu a extensão dos próprios ferimentos. Permaneceu assim até o gol de Ferran Torres, já na prorrogação. Só então tentou reagir. Mas já não havia tempo, pernas nem futebol suficientes.

<><> A Espanha venceu. O futebol também?

A Espanha foi superior praticamente do primeiro ao último minuto.

Controlou o meio-campo com Rodri, dono do ritmo da partida, ocupou os espaços, recuperou rapidamente a posse de bola e criou sucessivas oportunidades. Faltou-lhe apenas transformar essa superioridade em gols. As chances desperdiçadas se acumularam. Mesmo após passar a atuar com um jogador a mais, a equipe demorou para converter o domínio em vantagem. Seria receio de assumir o risco da finalização? Excesso de confiança de que o gol surgiria naturalmente? Talvez um pouco de cada.

A arbitragem voltou a ocupar um espaço que jamais deveria ser protagonista numa decisão. A expulsão de Enzo Fernández, após uma falta tão desnecessária quanto imprudente, foi inevitável. Mas o mesmo rigor não apareceu diante da sequência de entradas duras que marcou a partida desde os primeiros minutos. Mais grave foi a anulação do gol espanhol por uma falta cuja existência dificilmente resiste às imagens. Ficou a sensação de que a régua utilizada para medir o contato físico variava conforme a circunstância. No futebol, a regra deveria ser invisível. Quando ela se torna assunto principal, algo deixou de funcionar.

A decisão também colocou frente a frente duas escolas de futebol extraordinárias que convivem com uma contradição persistente. Espanha e Argentina encantam o mundo pela qualidade de seus jogadores, mas ambas enfrentam, há anos, episódios recorrentes de racismo praticados por setores de suas torcidas. Seria injusto transformar esse comportamento em característica de povos inteiros. Mas seria igualmente injusto fingir que se trata apenas de casos isolados.

Talvez a conquista da Copa pela Espanha e o vice-campeonato da Argentina possam produzir algo além da alegria de uns e da frustração de outros. O futebol não transforma sociedades por decreto, mas, às vezes, ajuda a revelar suas contradições. As duas seleções chegaram à final com elencos que expressam a diversidade étnica do futebol contemporâneo. Que suas arquibancadas consigam, um dia, refletir essa mesma diversidade com o respeito que ela merece.

<><> Muito além da final

Ao longo do torneio, discutimos a transformação do futebol em plataforma de negócios globais, a presença sufocante das empresas de apostas, a naturalização seletiva dos conflitos internacionais, a permanência das desigualdades entre Norte e Sul e a surpreendente afirmação de seleções que, durante décadas, ocuparam apenas papéis secundários no imaginário esportivo.

Não era apenas uma Copa.

Era um espelho.

Enquanto alguns insistiam em acreditar que a geografia continuava decidindo partidas, africanos, latino-americanos e asiáticos lembravam que mapas desenhados pelos colonizadores não definem o resultado de um jogo. Enquanto patrocinadores disputavam cada centímetro das transmissões, jogadores ainda encontravam maneiras de devolver humanidade ao espetáculo. Enquanto governos procuravam transformar vitórias em propaganda, alguns atletas insistiam em lembrar que nenhuma camisa vale mais do que uma vida humana.

O futebol jamais resolveu as contradições do mundo.

Apenas as tornou visíveis.

Por isso, talvez a maior lição desta Copa tenha sido justamente aquela que não aparece na tabela de classificação.

Nenhum sistema é absoluto. Nenhum favoritismo é permanente. Nenhuma hegemonia está garantida para sempre.

Em uma Copa que também poderá ser lembrada como a Copa dos africanos, Marrocos, Senegal, Egito, Cabo Verde, Gana, África do Sul, Costa do Marfim, Argélia e República Democrática do Congo demonstraram que o mapa do futebol mudou e que a velha divisão entre centros e periferias já não explica o que acontece dentro de campo.

A tradição continuou sendo patrimônio. Mas deixou de ser garantia de futuro.

Talvez essa tenha sido a maior rebeldia desta Copa: mostrar que nem a história, nem o dinheiro, nem as velhas hierarquias conseguem eliminar completamente o espaço do improvável.

<><> Quando termina o espetáculo

Mesmo cercado pelo mercado, pelas disputas de poder e pelas manipulações do espetáculo, o futebol continua preservando esse pequeno território de rebeldia onde o improvável ainda encontra espaço para existir.

As luzes dos estádios se apagam. As transmissões terminam. Os patrocinadores procuram novos produtos para vender. As plataformas de apostas continuam buscando novos apostadores. As guerras continuam ceifando vidas. A fome continua atravessando fronteiras. As desigualdades permanecem distribuindo privilégios e sofrimentos de forma escandalosamente desigual. E os povos continuam lutando para escrever uma história que quase nunca aparece nas propagandas oficiais.

Em grande parte do mundo, a bola será substituída pelas urnas. Nos Estados Unidos, as eleições de meio de mandato representarão o primeiro grande teste político do segundo governo Donald Trump. No Brasil, a eleição presidencial voltará a colocar em disputa os rumos do país. Mas, para além das diferenças entre sistemas eleitorais e realidades nacionais, ambos os processos farão parte de uma disputa mais ampla, travada neste momento em praticamente todas as sociedades: a resistência das democracias ao desgaste de suas instituições e ao avanço das forças neofascistas.

<><> Agora começa outro campeonato

Haverá quem tente transformar o medo em estratégia, a desinformação em método e o dinheiro em atalho para a vitória. Haverá árbitros institucionais sob permanente escrutínio, narrativas em disputa e interesses econômicos tentando ocupar o espaço reservado à vontade popular.

Mas as eleições, como o futebol, conservam uma característica incômoda para quem acredita controlar o resultado antes do jogo começar.

O futuro nunca entra em campo derrotado.

Depende da capacidade de cada sociedade de distinguir espetáculo de realidade, propaganda de projeto e paixão de manipulação.

A Copa termina.

As democracias entram em seu tempo decisivo.

E, ao contrário do futebol, não haverá prorrogação.

 

Fonte: Por Luís Mauro Filho, em Brasil 247

 

Visão impactada: catarata pode acometer pessoas de todas as idades

Antigamente descrita como opacificação da lente natural do olho, a catarata é uma degradação da qualidade óptica do cristalino. Essa condição bloqueia e distorce a passagem da luz, o que causa uma visão turva ou embaçada, e pode ter diversas causas, como diabetes, traumas oculares e exposição excessiva aos raios UVs. Na maioria dos casos, o fator de maior importância é o envelhecimento ocular e a senilidade dos olhos. No entanto, as operações cirúrgicas corretivas para catarata em pessoas mais novas têm aumentado nos últimos anos. 

Clécio Rodrigues, professor de história, relata que precisou fazer a cirurgia aos 52 anos após uma recomendação médica. "Usei óculos desde muito jovem, e estava querendo me livrar dele. Tinha uma catarata nível 1 evoluindo para nível 2, o médico me disse que algum dia eu precisaria fazer, então eu aproveitei", afirma ele, que não necessita mais do uso de óculos. 

Essas alterações na visão podem começar a ocorrer depois dos 40 anos, mas os sintomas mais graves se manifestam, geralmente, após os 60. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), por meio do Relatório Mundial sobre a visão (2024), 65 milhões de pessoas têm problemas associados à catarata, o que a torna uma doença muito comum e perigosa se não for tratada corretamente. 

O médico Bruno Fontes, diretor da Sociedade Brasileira de Oftalmologia, afirma que o aumento das cirurgias de cataratas feitas entre uma parcela mais jovem não se dá pela mudança de hábitos, por exemplo, o uso abundante de telas, mas, sim, pela tecnologia de excelência empregada nas operações. "A cirurgia atualmente é de alto nível, podendo ser empregada em correções de graus em pessoas com mais de 55 anos de idade. Então, não é preciso esperar a condição amadurecer."

Além disso, o oftalmologista relembra que, com o aumento da expectativa de vida da população, é normal que a maioria das pessoas busque tratar suas condições antes para conseguir envelhecer com uma melhor qualidade de vida. 

Para casos de pessoas com diabetes ou que fazem uso de medicamentos com corticoides, a formação de catarata precoce é mais recorrente. O restante da população pode tomar certas atitudes que retardam o acontecimento dessa doença, como o uso de óculos de Sol quando há a exposição direta. "Apesar do avanço da tecnologia, não existem ainda mecanismos que consigam retardar efetivamente esse quadro", afirma Bruno. 

<><> Sintomas 

Os sinais na visão da pessoa variam conforme o tipo de catarata. Mas os mais comuns são:

- Diminuição da clareza visual

- Dificuldade para enxergar — principalmente para dirigir, ler e andar

- Visão duplicada ou embaçada

- Sensibilidade à luz

- Alteração das cores — perdem o brilho

- Mudanças rotineiras no grau dos óculos

<><> Diagnóstico 

Exames como lâmpada de fenda e mapeamento de retina, realizados por um oftalmologista, conseguem avaliar a transparência do cristalino e verificar a existência ou não da catarata no olho do paciente. Recomenda-se que esses exames sejam feitos anualmente por pessoas com mais de 65 anos, e uma vez a cada dois anos por pessoas mais jovens. 

<><> Tratamento 

A única forma de retirada da catarata é por meio de cirurgia, que consiste na substituição do cristalino por uma lente intraocular. 

<><> Recuperação 

A operação dura entre 15 e 30 minutos e o paciente retorna para casa no mesmo dia, seguindo as recomendações médicas de repouso e uso de colírios. Importante lembrar que cada olho é feito em um dia, para que o paciente consiga recuperar um dos lados e evitar infecções. 

>>>> Palavra do especialista - Carlos José de Souza é cirurgião oftalmológico 

·        Os sintomas vistos em pessoas mais jovens são diferentes dos vistos em pessoas idosas? 

No tocante à manifestação da catarata, quando se trata do envelhecimento natural do cristalino, pacientes mais idosos tendem aos sintomas de embaçamento progressivo e dificuldade para visualização em geral, independentemente da distância. Entretanto, pacientes jovens também podem desenvolver opacidade e reportar sintomas semelhantes, muitas vezes negligenciados em consultas de rotina, mas que, diante do especialista, conclui-se tratar de catarata.

·        O olho, quando mais jovem, possui tecidos mais elásticos e a cápsula do cristalino é mais resistente. Nesse sentido, a cirurgia torna-se facilitada ou mais complexa? 

Embora o aparelho utilizado para remoção da catarata seja o mesmo, independentemente da idade, devido ao grau de opacidade do cristalino ser menor em pacientes jovens, o cirurgião geralmente necessita de menos energia do aparelho no processo cirúrgico.

·        Muitas pessoas têm procurado a cirurgia de catarata devido a tecnologia dela para, por exemplo, a correção do grau. Essa busca pode ser feita ou o procedimento deve ser realizado somente em casos de catarata?

Até pouco tempo atrás, a cirurgia de catarata encontrava indicação apenas em casos de opacidade do cristalino, mais comum em pacientes idosos. Porém, com o avanço da tecnologia na área oftalmológica, principalmente nos aparelhos que auxiliam o cirurgião na remoção do cristalino, bem como nas lentes intraoculares que devolvem a qualidade visual, a cirurgia torna-se uma excelente opção para disfunções do cristalino que manifestem graus, mesmo que sem opacidade considerável.

¨      Brasil tem 10 milhões de crianças com catarata

Apesar de ser muito comum em pessoas com idade acima de 50 anos, a catarata não é uma doença que acomete apenas os adultos. De acordo com a Organização Mundial de Saúde, a cada 3 mil crianças nascidas vivas, uma apresenta a doença. Para ter uma ideia, no Brasil, estima-se que cerca de 10 milhões de crianças tenham essa doença, conhecida como catarata infantil congênita.

De acordo com o oftalmologista Thiago Pacini, essa condição pode interferir no desenvolvimento visual da criança. "Ao nascer, o bebê não tem a visão desenvolvida como a de um adulto e isso pode causar danos futuros caso não seja identificada e tratada imediatamente", enfatiza o médico, que tem mais de 15 anos de experiência no tratamento da doença. "Isso pode ocorrer em qualquer época da vida e, quando acontece na infância, é denominada catarata infantil. Caso ela esteja presente desde o nascimento, chamamos de catarata congênita", complementa.

O especialista explica que a catarata ocorre quando o cristalino perde sua transparência. Esse cristalino é como se fosse uma lente transparente localizada dentro do olho, responsável por dar foco às imagens.

Segundo Pacini, os fatores responsáveis são herança genética, infecção, problemas metabólicos, inflamações e até reações a medicamentos são alguns dos motivos que podem levar o recém-nascido a ter a patologia. "Existe a possibilidade de mãe desenvolver infecções como sarampo ou rubéola, por exemplo, durante a gravidez, e isso influenciar na catarata do bebê", informa.

O diagnóstico é feito por meio de teste do reflexo vermelho por um oftalmologista. Quando há uma alteração no reflexo vermelho, há suspeita de catarata infantil. Porém, nem sempre há a necessidade de tratamento. No entanto, em alguns casos, quando atrapalha a visão, é necessária a cirurgia que consiste em retirar o cristalino opaco e substituir por outro.

De acordo com a idade e do caso, pode ser inserida uma lente intraocular na primeira cirurgia. Depois, são prescritos óculos para correção de grau elevado pela falta de cristalino.

<><> Detecção precoce

Thiago Pacini recomenda exames anuais a partir dos sete anos. A detecção precoce é fundamental, pois a catarata infantil, se não tratada, pode levar à ambliopia (olho preguiçoso) e comprometer permanentemente a visão. Programas de triagem em escolas e unidades de saúde são essenciais para identificar casos precoces, permitindo uma intervenção rápida e adequada.

Apesar dos desafios, avanços médicos têm proporcionado tratamentos eficazes para a catarata infantil. Cirurgias pediátricas especializadas, muitas vezes realizadas com técnicas minimamente invasivas, oferecem uma perspectiva positiva para crianças diagnosticadas com essa condição.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Entregar anéis não preservará dedos

A reação dos candidatos de Trump à Presidência do Brasil ante as últimas agressões geopolíticas e geoeconômicas ao nosso país, por parte do governo de extrema-direita dos EUA, além de abjeta e vergonhosa, é também ridícula.

Flávio Bolsonaro e sua turma de parvos acreditam que a submissão a Trump e a aceitação de imposições, que quebrariam a economia brasileira e destruiriam o futuro do país (como abrir setores industriais inteiros, sem nenhuma reciprocidade), fariam o governo estadunidense “aliviar” suas agressões.

Ora, a estupidez dessa, por assim dizer, “tese”, é abissal. Revela total desconhecimento da natureza do governo Trump.

Trump, uma clara dissidência do Homo sapiens, tem crenças obsoletas e arcaicas sobre a economia e sobre as relações internacionais, que ele “herdou” do pitoresco presidente McKinley, o qual era tachado ironicamente, pelos seus próprios colegas do Partido Republicano, de “Tariff Man”.

Trump realmente acredita que grandes e irracionais tarifaços, aplicados universalmente, inclusive a aliados, somados à total destruição das regras multilaterais de comércio, poderão:

a)    Reerguer as velhas indústrias dos EUA e estimular o reshoring geral da indústria de transformação estadunidense.

b)   Criar uma fonte de renda importante para o Estado norte-americano, de modo a poder reduzir impostos para as grandes companhias dos EUA. Esse segundo ponto é uma promessa eleitoral importante.

Trump e seus “assessores” econômicos, como Kevin Hassett, Peter Navarro, Howard Lutnick etc., realmente acreditam nisso. Acreditam que o planeta pode ser colocado numa máquina do tempo para fazê-lo regressar aos tempos de McKinley ou aos idos do pós-guerra.

Durante a campanha, falando sobre os tempos de “grandiosidade” dos EUA, Trump mencionou que esses “tempos áureos” teriam ficado comprometidos, a partir de 1916.

Por qual razão 1916?

Porque foi em 1916 que os EUA promulgaram a 16ª Emenda Constitucional, a qual introduziu o imposto de renda federal na economia estadunidense.

McKinley e muitos membros do Partido Republicano sempre tinham sido a favor de altíssimas tarifas de importação e contra o imposto de renda. E sempre acreditaram que tais tarifas, que McKinley pretendeu fixar em 50%, seriam essenciais para desenvolver e manter a indústria dos EUA.

As tarifas grandiosas, dessa forma, apresentavam uma dupla solução: financiar os gastos do Estado e, ao mesmo tempo, promover a industrialização e o desenvolvimento dos EUA, sem prejudicar os interesses dos ricos e das grandes empresas.

Fortemente regressivas, as tarifas de importação extremamente elevadas colocariam os custos do desenvolvimento sobre a população em geral.

É o que Trump está emulando, mais de um século depois.

Hoje, Trump pretende impor tais custos não apenas à população dos EUA, mas também à população mundial. A população dos EUA pagaria com o aumento dos preços internos, já a população estrangeira pagaria com a perda de empregos e rendimentos. 

Por isso, posições humilhantes e “genuflexórias”, como a de Flávio Bolsonaro, de oferecer participação aos EUA na própria equipe de transição (algo claramente ilegal e inconstitucional), não farão diferença alguma para Trump.

Ao contrário, o alinhamento vergonhoso à geopolítica trumpista só acelerará a ruína do Brasil, pois a intenção de Trump e, principalmente, de Marco Rubio, é a de transformar o Brasil em um quintal, um protetorado.

Esse é o “futuro” do Brasil com Flávio Bolsonaro e com os demais candidatos da direita.

Mas esse nem é o ponto principal. O ponto principal, que ninguém parece enxergar, é que a associação a Trump é uma associação com o fracasso.

Trump está destinado ao fracasso, tanto no campo interno quanto no campo externo.

No campo interno, a industrialização forçada por tarifaços não está funcionando. O reshoring não está ocorrendo e o custo de vida está sendo muito impactado pelas tarifas bizarras, feitas sem uma política industrial bem-desenhada.  Trump está despencando nas pesquisas e deverá perder a maioria no Congresso, nas próximas eleições.

No campo externo, a geopolítica predatória e isolacionista de Trump, centrada no autismo do “American Only” (unicamente a América) e na crença obtusa de que as relações internacionais são um “jogo de soma zero” (para que os EUA ganhem, os “outros”, aliados ou não, têm de perder), também não está produzindo os resultados esperados.

O evidente fracasso de Trump no Irã é uma clara demonstração dos limites dessa geopolítica totalmente deslocada no tempo.

Alguns analistas mais lúcidos do próprio Partido Republicano, como A. WESS MITCHELL, consideram que os EUA serão forçados a fazer o que se chama de “consolidação”, um movimento estratégico que os britânicos realizaram em 1904. 

Na época, o principal almirante da armada britânica, John “Jacky” Fisher, preocupado com a ascensão econômica, tecnológica e militar da Alemanha (como hoje os estadunidenses se preocupam com a ascensão da China), delineou uma estratégia para fortalecer a posição britânica, que foi caracterizada como de “consolidação”. 

Consolidação é quando um Estado se concentra em seus principais interesses, reduzindo sua presença em áreas de menor significado estratégico, ao mesmo tempo em que aumenta os recursos nacionais para ampliar o poder à sua disposição ao longo do tempo.  Não obstante, isso não era visto como recuo, e, muito menos, aquiescência a um declínio nacional.

Fisher decidiu que, em vez de tentar manter todas as bases navais dispersas do Império Britânico, priorizaria as águas adjacentes às Ilhas Britânicas para deter a Alemanha, a principal ameaça ao Reino Unido. 

Porém, para suprir as lacunas criadas em outras áreas, ele pretendia contar com aliados regionais, como o Japão e a França, que os diplomatas britânicos estavam cortejando. Ao fazer isso, ele esperava ganhar tempo para que o Reino Unido mobilizasse suas poderosas indústrias e se mantivesse à frente de seus rivais em tecnologias de ponta.

Em outras palavras, a consolidação implicava não apenas a concentração de recursos em áreas prioritárias para conter o principal rival e o aumento dos investimentos em recursos nacionais (algo que Trump já vem tentando fazer), mas também fortes alianças para manter a hegemonia em outras áreas geográficas.

Trump, obviamente, está fazendo uma consolidação equivocada, pois despreza a necessidade de estabelecer alianças fortes para exercer hegemonia em áreas geopolíticas não prioritárias. 

O Rei Charles III, diga-se de passagem, chamou a atenção para este ponto, em seu discurso no Congresso dos EUA.

Portanto, muito provavelmente, os EUA serão forçados a refazer, com muito esforço, sua antiga política de alianças (principalmente a aliança transatlântica), bem como a rever sua política tarifária irracional, feita fora do contexto de uma política industrial sólida e das normas constitucionais dos EUA.

Trump é um fracasso monumental e quem a ele se associar fracassará também.

Entregar anéis não preservará dedos. 

¨      The Economist: Ataque dos EUA amplia apoio ao Pix no Brasil

A decisão do governo dos EUA de incluir o Pix entre os argumentos usados para justificar a ofensiva tarifária contra o Brasil ampliou o apoio interno ao sistema de pagamentos. A avaliação é da revista britânica The Economist, que destacou o uso da plataforma por cerca de 170 milhões de pessoas e contestou as acusações apresentadas por Washington.

O Pix foi mencionado em uma investigação comercial conduzida durante um ano pelas autoridades norte-americanas. O processo classificou como “injustas” determinadas práticas brasileiras e embasou a aplicação de uma tarifa adicional de 25% sobre uma série de produtos importados do Brasil.

O governo do presidente Donald Trump sustenta que a plataforma representa uma ameaça competitiva às empresas norte-americanas de pagamentos. Também afirma que o sistema, operado pelo Banco Central, teria caráter protecionista.

Segundo a The Economist, os dois argumentos não encontram respaldo no funcionamento do Pix. A infraestrutura não diferencia instituições brasileiras e estrangeiras, enquanto companhias internacionais podem participar nas mesmas condições oferecidas às empresas nacionais. Visa e Mastercard, por exemplo, aderiram voluntariamente ao sistema.

A publicação pondera que a atuação do Banco Central como operador e regulador pode gerar discussões sobre concentração de atribuições. Essa questão, entretanto, não comprova a existência de discriminação contra empresas dos Estados Unidos.

<><> Pix alcança quase 80% da população

Criado em 2020, o Pix passou a ser utilizado por quase 80% dos brasileiros. A plataforma permite transferências e pagamentos instantâneos durante 24 horas, inclusive em fins de semana e feriados.

A gratuidade das operações para pessoas físicas foi um dos fatores responsáveis pela rápida expansão. Antes do lançamento do sistema, parte dos serviços eletrônicos disponíveis cobrava tarifas que dificultavam o acesso dos consumidores de menor renda.

Estimativas do Banco Central apontam que pelo menos 70 milhões de pessoas ingressaram no sistema financeiro formal desde a implantação da ferramenta. A facilidade para movimentar recursos também estimulou trabalhadores a manter salários e economias em contas bancárias, em vez de sacar imediatamente os valores recebidos.

A revista avalia que o Pix não apenas transferiu operações realizadas anteriormente por cartões ou outros meios. A plataforma ampliou o mercado ao incorporar consumidores que dependiam do dinheiro em espécie ou utilizavam pouco os serviços bancários.

<><> Uso do sistema impulsiona depósitos

Estudo da Fundação Getulio Vargas (FGV) citado pela publicação identificou crescimento mais acelerado dos depósitos bancários em municípios onde a utilização do Pix avançou com maior intensidade.

O efeito foi mais expressivo nas regiões com forte presença da economia informal. Nessas localidades, a gratuidade e a facilidade das transferências reduziram barreiras enfrentadas por trabalhadores autônomos e pequenos comerciantes.

Outro levantamento apontou que estabelecimentos localizados em áreas com maior adesão ao Pix também apresentavam maior probabilidade de aceitar cartões de débito. O resultado indica que a expansão da plataforma pública não eliminou os instrumentos privados.

Desde 2020, o número de transações com cartão de crédito no Brasil aumentou 127%. O dado contraria a interpretação de que o crescimento do Pix teria provocado uma queda generalizada nas operações das empresas de cartões.

<><> Concorrência pressiona tarifas dos cartões

O principal impacto sobre as operadoras está relacionado às taxas cobradas dos comerciantes. No Brasil, os estabelecimentos geralmente pagam ao processador aproximadamente 2% do valor das vendas realizadas com cartão de crédito.

A disponibilidade de uma alternativa instantânea e de menor custo obriga essas empresas a justificar as tarifas. A pressão competitiva recai, portanto, sobre as receitas obtidas com o processamento, e não necessariamente sobre o volume das transações.

Pequenos empreendedores também passaram a receber pagamentos sem depender de máquinas de cartão ou de contratos com empresas adquirentes. Para efetuar uma cobrança, basta ter uma conta habilitada e disponibilizar uma chave Pix ou um código QR.

<><> Plataforma reduz barreiras entre bancos

A criação do Pix facilitou a movimentação de recursos entre instituições financeiras. Antes de 2020, transferências lentas e tarifadas contribuíam para manter clientes nos grandes bancos tradicionais.

Com operações gratuitas e instantâneas, os consumidores ganharam maior liberdade para distribuir seus recursos entre diferentes contas. Bancos digitais e instituições menores passaram a competir em condições mais favoráveis em um mercado historicamente concentrado.

O aumento da concorrência bancária ocorreu simultaneamente à inclusão de milhões de novos usuários. Para a The Economist, o sistema foi criado justamente para enfrentar limitações dos serviços anteriores, que não atendiam adequadamente uma parcela significativa da população brasileira.

<><> Modelo brasileiro pode alcançar outros países

A revista avalia que a preocupação do governo Trump também pode estar relacionada à possibilidade de o Pix servir de referência para outros países da América Latina. A disseminação de plataformas semelhantes teria potencial para reduzir as receitas das redes norte-americanas de cartões e sua influência sobre a infraestrutura regional de pagamentos.

O México lançou em 2019 o CoDi, seu próprio sistema de transferências instantâneas. A adesão, no entanto, permaneceu limitada: em 2024, somente 1,6% dos mexicanos havia utilizado a plataforma.

No Brasil, a integração entre bancos, fintechs e outras instituições, somada à gratuidade e à facilidade de uso, levou o Pix a alcançar uma escala significativamente maior. O desempenho tornou o sistema uma referência internacional e o colocou no centro da disputa comercial entre Brasília e Washington.

 

Fonte: Por Marcelo Zero, em Brasil 247