sábado, 3 de outubro de 2026

 

Um retrato da Teologia do Domínio no Brasil

A Teologia do Domínio é um projeto de poder. Ela afirma que são necessários sete “montes” (ou montanhas) para consolidar o domínio sobre a realidade de um país, o que nos evoca pelo avesso a Montanha dos Sete Patamares de Thomas Merton. Vamos refletir sobre cada um desses “montes” e como a narrativa desse grupo evangélico, secundado por setores católicos, vai se estabelecendo na prática aqui no Brasil, mesmo que gerando profundas contradições.

<><> Monte da família

A conquista da família é o primeiro passo, a base de uma nova sociedade. Essa é a conquista primeira e a mais importante.

Quem trabalha nas bases da sociedade brasileira (tenho 50 anos trabalhando nas questões socioambientais a partir das pastorais, como CPP e CPT) sabe o quanto o Brasil mudou com a razia feita nas bases da sociedade brasileira, alterando profundamente seus valores. A maioria das igrejas evangélicas é feita de pessoas simples, bons vizinhos, de bom trato, porém, vivendo uma espiritualidade de bolha, que não tem interferência nas causas socioambientais coletivas. Estão em nossas vizinhanças, nos cumprimentam, porém, se precisar de alguma tarefa coletiva na rua, eles não comparecem, principalmente se tiver pessoas de outras religiões. Esses novos valores, de grupo, de bolha, causaram um destroço nas bases sociais do Brasil e da Igreja Católica. Entretanto, o grande avanço evangélico nas bases sofreu abalos, diminuiu o avanço, sete milhões abandonaram as igrejas de bairros, exatamente por não concordarem com a submissão de seus pastores aos projetos bolsonaristas, a encarnação da Teologia do Domínio no Brasil. Muitos pastores mais lúcidos percebem esse estrago nas bases do próprio mundo evangélico.

Esse grupo evangélico é secundado por grupos católicos de extrema-direita, que promovem grandes eventos, condenam publicamente um comunismo imaginário, mas são incapazes de olhar o tipo de sociedade capitalista que devora florestas, águas e a riqueza nacional em favor de uma minoria que vive nababescamente às custas dos mais empobrecidos e vulnerabilizados. Nesse sentido, a Teologia do Domínio funciona como um Cavalo de Tróia nas periferias brasileiras, isto é, aonde a ideologia neoliberal não consegue chegar por seus próprios meios, chega através da religião.

<><> A religião

O segundo monte é a “religião”. Na verdade, ela é a primeira. É preciso o domínio das consciências, moldando-as conforme os princípios dessa teologia. O lema básico é Deus, Pátria e Família. Nessa lógica, o grande inimigo é a Igreja Católica, mas também outras religiões, como as de matriz africana. Por ser a mais numérica, a católica precisa ser atacada e destruída. A pastora afirmou em sua pregação: “eu profetizo a queda da Igreja Católica” (Ana Paula Valadão). É nesse sentido que precisam ser entendidos os ataques à CNBB e a Nossa Senhora Aparecida.

O ponto mais vulnerável do catolicismo é a Piedade Popular, por isso o mais visado, com seus santos, suas devoções aos santos e Maria, suas imagens e sua pouca base bíblica. Despreparados, os católicos não sabem como reagir quando chamados de idólatras, adoradores de ídolos, que o Papa tem o número do anticristo, assim por diante. Como exemplo, no interior da Bahia, ainda na década de 80, um “paulista” que voltava de São Paulo para Campo Alegre de Lourdes trouxe um saco de imagens de gesso na bagagem. Um dia chamou a comunidade para um ato de demonstração e quebrou imagem por imagem na paulada, mostrando à comunidade que o que elas adoravam era apenas um bloco de gesso. O estrago foi enorme, o medo, o pavor.

Durante a preparação para o Sínodo para a Amazônia, num evento preparatório em Macapá, o coordenador dos Terreiros da Amazônia pediu socorro à Igreja Católica pelos ataques feitos por membros de igrejas evangélicas. Ele temia até pela vida dos membros dos terreiros. Assim mostrava que a intolerância não tinha limites.

<><> A conquista do Estado (a política)

O controle do mundo político, portanto a conquista do Estado, é um dos montes essenciais dessa teologia-política do domínio. Penetrar no Estado, ter o controle tanto do executivo, como do judiciário, como do legislativo, em qualquer uma de suas esferas. Assim entendemos no Brasil a bancada evangélica, a presença de um pastor presbiteriano no STF — quando a primeira-dama da época entrou em transe em público —, a luta incessante para conquistar a Presidência da  República. E há a contrapartida, de políticos que bebem nessa fonte, têm as igrejas como palanques e currais, e se candidatam em nome de Deus, Pátria e Família.

Aqui deve ser entendida a frase de um candidato, quando ele afirmou que a primeira coisa a fazer quando eleito seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo”. É uma frase aparentemente religiosa, mas que se destina a arrecadar votos nos meios evangélicos adeptos dessa teologia. A frase é entendida por muitos como um “apito de cachorro”, isto é, aquele tipo de som que os humanos não ouvem, mas os caninos sim. Portanto, ela funciona como start para os entendidos do esquema, isto é, era hora de atacar a Igreja Católica para ganhar as eleições.

Aqui também pode ser entendida toda aversão a Nossa Senhora Aparecida, ora considerada um “demônio de azul”, ora chutada, ora queimada nas praças. É toda semiótica religiosa, tanto católica como de terreiros, sendo chutada por outra cosmovisão. Por isso, essa teologia se faz intolerante, agressiva e se pretende única num universo religioso tão plural quanto é o Brasil.

<><> A educação

O controle do saber se torna fundamental, baseado em outros valores individualistas e pretensamente cristãos. Essa proposta se aproxima do “Iluminismo Sombrio” (Curtis Yarvin), um recuo na história. Daí a privatização das escolas públicas, a destruição das universidades públicas, o combate à pedagogia de Paulo Freire, o ensino privado dentro de casa, o combate à ciência, a toda forma de saber que não comunga com essa visão de mundo. Portanto, nada do que eles propõem é por acaso; ao contrário, faz parte de um plano de controle do saber e das consciências de uma população de 214 milhões de habitantes. Pensar sempre foi o maior perigo para quem pretende controlar as massas humanas.

<><> A mídia

Aqui a proposta de controlar os meios de comunicação, as plataformas digitais, a internet, toda forma de divulgação de conteúdos. Assim podemos entender o domínio sobre as rádios comunitárias, a compra da TV Record por 45 milhões de dólares ainda em 1989, o livro “Plano de Poder: Deus, os Cristãos e a Política” (Edir Macedo), o financiamento de inúmeros programas de rádio e TV, o uso dos robôs, algoritmos e agora da IA na produção de conteúdos tantas vezes sem fundamento ou absolutamente construídos como fake news. O controle da informação é fundamental e pode se situar no exterior, através das plataformas e portais de internet que alimentam o mundo da contrainformação e desinformação tão presentes no mundo contemporâneo. Mais que nunca, o “divide et impera” reina sobre o mundo das comunicações.

<><> Negócios

Vamos relembrar Max Weber, no seu” A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”, quando ele registra que essa ética é o fundamento do capitalismo. Aí ele situa a doutrina da predestinação de Calvino como o fundamento por excelência desse espírito. Na interpretação dele, já que segundo Calvino as pessoas já nascem predestinadas à salvação ou à condenação, o que resta é descobrir em qual desses destinos o simples mortal humano está situado. E qual é um dos sinais que revela se a pessoa está condenada ou salva? Exatamente o acúmulo de riquezas oriundas do trabalho feito com dedicação. Portanto, a riqueza acumulada não é só para a vida ser gozada aqui e agora, mas também como um indicativo de que essa pessoa está predestinada à salvação. O fato de enriquecer-se, poupar, gera o espírito acumulativo do capitalismo. Depois o mundo secularizado vai abandonar a dimensão religiosa e ficará só com o espírito acumulativo e usufruidor do capitalismo.

Nesse sentido, o mundo dos empreendimentos evangélicos, desde os mais simples até os mais sofisticados, é lido nessa perspectiva de bênção ou maldição. Não há um comentário sobre o enriquecimento à base da corrupção, nem afirmativo, nem negativo.

Daí o desenvolvimento de uma “espiritualidade” individualista, no máximo de grupo eclesial, mas que não comunga as lutas sociais, nem a justiça, nem uma sociedade mais equitativa, mas somente a riqueza pessoal e, no máximo, familiar. Essa espiritualidade acaba sendo antissolidária e se reflete na prática de tantos grupos que não querem participar das lutas sociais e políticas para emancipar as classes mais vulneráveis, oprimidas ou marginalizadas.

<><> Cultura (artes, entretenimento, etc).

Segundo o entendimento desse setor evangélico, a arte e a cultura estão dominadas pela esquerda. É preciso combater esse predomínio da esquerda e fomentar a cultura centrada nos valores da direita, que eles julgam ser o espírito bíblico. Daí que podemos entender perfeitamente o ataque a Paulo Freire, a Gramsci, a Chico Buarque, Caetano Veloso e toda ênfase no mundo das canções sertanejas e o chamado Gospel, tanto de origem evangélica como de origem católica.

Os sertanejos têm laços profundos com financiamentos da direita, elos com prefeituras ligadas ao agronegócio, aos rodeios, e suas canções falam invariavelmente de bebida, mulheres na visão machista, traições e casos banais, de forma repetitiva e insistente. Um analista desse mercado do streaming musical nos disse que é preciso começar com 500 mil reais para que uma canção dessas comece a fazer sucesso.

O mesmo acontece com o gospel, tanto evangélico como católico. É um mercado poderoso baseado em religião, uma espécie de show business religioso, com cachês caros, normalmente bancados por prefeituras ou dinheiro público. As letras são invariavelmente compostas na primeira pessoa, subjetivistas, repetindo palavras invariáveis e genéricas como aleluia, glória, amém. Não tocam no solo pedregoso da vida e evitam qualquer comprometimento com causas sociais, ambientais, solidárias e justas. As multidões acorrem a esses eventos e eles se tornaram o “rosto visível” tanto do mundo evangélico como católico.

Claro que há outras igrejas evangélicas e há um pequeno resto católico nas periferias, no anonimato, nas durezas das condições do povo, que tantas vezes não tem dinheiro sequer para o deslocamento para uma comunidade distante, ou para fazer um evento simples de formação. Quando acontecem, é pelo processo de solidariedade (vaquinha) da própria comunidade.

<><> O futuro

Embora o Magistério da Igreja Católica tenha reforçado o compromisso com os empobrecidos e descartados, com a paz, com a justiça, com o ambiente, com os valores fundamentais do Evangelho, embora haja nessa mesma linha um conjunto de pastores, pastoras e comunidades evangélicas inseridas, o projeto de poder da Teologia do Domínio continua e está sendo aplicado no Brasil. Sempre resta a esperança de que o Evangelho verdadeiro triunfe. Todo projeto com pretensões ditatoriais gera suas contradições e seus contraditores. Porém, não podemos perder de vista essa luta pelo poder por grupos religiosos de maioria evangélica, secundados por amplos grupos católicos. Eles estão a serviço da direita nacional e internacional, com um projeto de poder autoritário que será uma tragédia imprevisível caso esse projeto venha se abater novamente sobre o povo brasileiro.

 

Fonte: Por Roberto Malvezzi (Gogó), em Outras Palavras

 


Honra, autoridade e fobia da redistribuição

A relação entre “pauta moral” e voto na extrema direita no Brasil tem sido mal interpretada. Muitos tomam pelo valor de face os enunciados em favor da tradição. Em contraste, sustento que o apelo do bolsonarismo provém do seu vínculo com as promessas mais ostentatórias da modernidade: o direito à particularidade (o proprietarismo) e a ascensão social via esforço (o utilitarismo).

Nesse sentido, o que recusam não é tanto o direito à diferença, mas a ideia de que a política seja uma arena de legítima redistribuição da honra, da propriedade, da autoridade e das oportunidades. Desinformação quanto ao Pix, “taxa das blusinhas”, IOF, INSS, Banco Master e segurança pública foram temas onde a extrema direita mais causou mais estragos à esquerda no último ciclo de quatro anos.

O bolsonarismo se apresenta como o mais intransigente defensor da cultura do particularismo e da performance. Seu projeto é instrumentalizar família, religião, escola, trabalho, polícia e sistema jurídico para a realização de uma sociedade de proprietários meritórios. Ele tensiona todas essas organizações, buscando delas eliminar as exigências solidaristas (“mi, mi, mi”) que onerariam uma missão primordial: regular e hierarquizar as pessoas, premiando os supostamente mais virtuosos e impondo correções aos “problemáticos”.

É por serem os representantes dogmáticos desse conteúdo que os vemos desdenhar de formalidades liberais, tais como a separação entre três poderes, respeito aos direitos humanos e a problematização da desigualdade social. A extrema direita internacional já mostrou que até o livre mercado pode ser desdenhado se convier a uma política nativista (baseada na propriedade de uma nacionalidade) anti-imigratória e xenófoba.

No vértice das promessas de propriedade e meritocracia está o valor da isonomia, isto é, a igualdade formal perante a lei. Esse valor tem um papel contraditório nas sociedades modernas: é ele que concede legitimidade às desigualdades socioeconômicas numa sociedade concorrencial. É por mitificarem isonomia, disciplina e particularismo que os “patriotas” qualificam de degeneradoras as cotas e as políticas de transferência de renda.

Colocando-se como os defensores do “Brasil produtivo”, numa falsa equivalência entre trabalhadores e capitalistas, precisam apagar ou obstruir a pauta trabalhista da esquerda, como o fim da escala 6×1. Buscam associar a esquerda apenas aos que vivem de assistência social, à criminalidade urbana, às construções de gênero alternativas, beneficiários de cotas ou a um mundo intelectual “inútil”.

O discurso de um motofretista bolsonarista, arrependido por ter votado em Lula tempos antes, deixa explícito como essa estigmatização ganhou força: “[a esquerda] falava muito em pobreza. Hoje, não gosto que fale muito nisso, pois a gente não tem que ficar nessa (…) Eu não quero que o governo me dê nada. Nada de bolsa isso, bolsa daquilo (…) Eu defendo só uma pauta, que é a do ser humano. Tem que criar lei para todos nós, não criar uma lei só para uma classe… para mim essa minoria não é ninguém (…) Não existe “igualar”, porque tem que ter a classe baixa, a classe média e ter a classe alta (…) a gente depende do empresário para colocar a nossa comida dentro de casa (…) Tem governo que só pensa em arrecadar (….). Pra gente ter essas coisas, tem que tirar o Estado das nossas costas” (Souza apud Klava, 2024).

Como a esquerda é a porta-voz das missões redistributivas do Estado, sua crise de imagem, em meados dos anos 2010, associada ao avanço do “indivíduo-empresa” trouxeram forte ceticismo à causa da redistribuição em si. Uma pesquisa de 2018 captou com clareza esse cenário. Excetuando os evangélicos, todos os grupos de renda, gênero, raça, escolaridade, religião e região acreditavam que Jair Bolsonaro era o candidato que mais beneficiaria os “ricos, empresários e banqueiros”.

Também concordavam, em coerente complemento, que Fernando Haddad seria o melhor para os “pobres” e para os “trabalhadores” (IBOPE-Inteligência, 2018). No entanto, somente 31% dos eleitores com renda familiar situada entre um e dois salários-mínimos declarava votar no candidato do PT. Jair Bolsonaro, por outro lado, mesmo sendo identificado como o candidato dos poderosos, venceu o pleito com 55% dos votos válidos.

<><> Tradição ou hipercapitalismo?

O bolsonarismo não foi engendrado por nenhum movimento societário de retorno à tradição. Pelo contrário, o contexto neoliberal de valorização da autonomia individual e do desempenho modernizou como nunca a família, a sexualidade e a religião, no sentido de as racionalizar para o hedonismo e a ascensão social. As disputas no campo religioso não são a causa primária das transformações sociopolíticas, mas a sua expressão, especialmente nas demandas por individuação, fervor sentimental e meritocracia.

Afinal, o campo religioso é menos forte hoje do que era no passado: a proporção de cristãos caiu 12% em quatro décadas. Evangélicos ainda não chegam a um terço da população e se caracterizam cada vez mais pelo binômio fragmentação-individualização da experiência religiosa. Uma evidência disso é que a Igreja Universal do Reino de Deus perdeu, em números absolutos, 10% dos seus fiéis entre 2000 e 2010 (Mariano 2013).

Ao longo do século XXI, as famílias continuam a encolher. Os casamentos ficam mais informais e mais curtos. A aceitação de que a mulher tenha trabalho ou renda própria supera 90% em todos os estratos de cor e gênero (Nunes, 2025, p. 47). Outro traço modernista das famílias foi o crescimento médio de 60% nas despesas com educação privada entre 2008 e 2017. No período, só as despesas com dívidas foram superiores.

Portanto, não se trata de tradicionalismo, mas de família normalizada a uma sociedade seletivista e desejante por prêmios de ajustamento. A família arca com o ônus e com as tensões de um mundo do trabalho individualizado e incerto. Por isto ela é um tema bolsonarista: funciona tanto como uma propriedade de distinção meritória num mundo “anômico” quanto como um caminho para distinção e prosperidade.

A valorização do esforço se combina a um ostentatório hedonismo, visível no investimento em beleza corporal, segmento em que o Brasil é um dos maiores mercados do mundo. O hedonismo também se revela nas buscas que os brasileiros fazem no Google. Nelas, mostra-se menos interesse em temas religiosos do que por celulares premium, pelo Big Brother Brasil, o futebol, as bets e criptomoedas. Embora apenas 18% dos proprietários de aparelhos celulares portem um IPhone, ele é o item específico mais procurado na internet brasileira, evidenciando o quanto o progresso material e os signos de status deixaram de ser anseios exclusivos da pequena burguesia.

<><> Três consequências políticas do performismo particularista

É preciso perceber que a generalizada valorização da isonomia, da responsabilidade individual e da propriedade particular tem três efeitos principais sobre a política. O primeiro é alimentar uma concepção antipolítica da própria política, isto é, uma visão minimalista, policialesca e administrativa dos problemas coletivos. A política é vista como “casa de correção”, restrita a lutas sanitizantes contra corrupção e bandidagem.

Além desse sentido evidente, subsiste um significado mais vasto: o proprietarismo tende a ver como “crime” toda e qualquer medida redistributiva exercida pelo Estado em favor dos dominados. A fobia da redistribuição fica patente no google trends, que mostra os brasileiros buscando mais o termo “comunismo” do que “corrupção” desde 2004, com pico nas eleições de 2018 e 2022.

O que caracteriza a “política patriota” é a acusação à priori de que a esquerda é expropriativa e caminha para o autoritarismo, mesmo quando suas propostas produzem desenvolvimento econômico ou social. Javier Milei foi explícito quando veio prestigiar o lançamento da candidatura Flávio Bolsonaro: “não se surpreenda que sempre haverá socialistas ao lado de ladrões, porque os socialistas são ladrões”. Concebendo a política pela metáfora da guerra aos problemáticos, nada mais natural do que se voltar à destruição da reputação de quem defende alguma forma de redistribuição. Quase não há “programa”, mas sobra a estratégia.

Nos termos de Chantal Mouffe, a extrema-direita cultiva o conflito político (the political) justamente porque descrê na política (politics) como a arte de conduzir a uma boa vida em comum. Esse “comum” não existe; há apenas uma coleção de particulares que devem se defender do Outro a partir de técnicas de soberania territorial e simbólica: muros, armas, fronteiras, certificados de pertencimento etc.

Em segundo lugar, utilitarismo e proprietarismo engendram uma visão de luta de classes distinta do marxismo: ela se desloca do conflito entre capital e trabalho para uma luta dos “produtivos” contra uma plebe “ociosa e perigosa”. Essa divisão simbólica, reforçada tanto pelo bolsa-família quanto pela criminalidade, é capaz de explicar por que a maioria dos brasileiros com renda familiar menor do que dois salários-mínimos considera pertencer à “classe média”. Também a maioria acredita que os pobres não se esforçam para melhorar de vida e que bolsas e auxílios desincentivam o trabalho (Nunes, 2025).

A terceira característica complementa aquelas duas: é tornar a política basicamente um terreno da luta por status numa sociedade competitiva, confirmando “a dignidade superior” dos que ostentam um estilo de vida aderente às relações de dominação. As redes sociais, ao multiplicar as plateias e os palcos, aguçaram esse traço. Se a política não deve redistribuir, sua missão é ser a fonte do reconhecimento oficial do orgulho dos ajustados. Aos patriotas precários, essa política oferece a manutenção da escala do prestígio com base naquilo que já possuem: a disposição para prosperar, a conformidade às convenções de gênero, a religiosidade cristã e a intolerância ao crime. Até a “superioridade” quanto aos padrões de beleza faz parte do pacote.

Como essa distinção trabalhadora é mais ancorada em ostentação simbólica do que em arranjos coletivos, nada mais natural que ele seja lida como uma espécie de valentia. Não por acaso, o político de extrema-direita parece, frequentemente, uma espécie de coach da prosperidade e da masculinidade. O maior testemunho disso ocorreu durante a pandemia, quando “#EuVouTrabalhar” foi a principal hashtag dos opositores das medidas de distanciamento social (Pinheiro-Machado, 2025).

<><> Balanço e confrontação

O repertório básico da extrema direita não é rejeitar a diferença cultural, mas a igualdade social. Enquanto houver democracia, a extrema direita tenderá mais a lutar pela “exemplaridade” e o status superior dos estilos de vida convencionais do que para eliminar a isonomia. Suas iniciativas na política formal terão como foco reenquadrar os problemas distributivos como problemas correcionais.

Um dos caminhos capazes de furar essa estéril e antissocial política do reconhecimento é a explicitação de bandeiras redistributivas em prol da classe trabalhadora. É o que se vê na campanha pelo fim da escala 6×1: os “patriotas” recuam da retórica da ameaça de tirania para a retórica tecnocrática do “tiro pela culatra”, afirmando que a diminuição da jornada vai gerar desemprego. Como análogo ocorreu quando o Congresso legislou sobre a isonomia salarial entre homens e mulheres em 2023. Nessa votação, a extrema-direita ficou isolada, brandindo o tosco argumento de que as mulheres seriam demitidas.

Agora que Nayib Bukele aparece como grande referência do grupo, cabe mostrar todos os equívocos do diagnóstico correcional acerca dos problemas públicos brasileiros. Em 2025, houve oito vezes mais mortes causadas por forças policiais do que por latrocínio. Agentes da polícia, por seu turno, morreram quatro vezes mais por suicídio do que por confrontos durante o serviço (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

Isso mostra uma instituição sobrecarregada e adoecedora, cujos esforços violentos para tornar o país seguro beiram a inutilidade, considerando que a taxa de elucidação de homicídios é inferior a 40%. Seu trabalho é basicamente colocar pessoas desarmadas e sem facção dentro do sistema prisional para, de lá, saírem armadas e faccionadas (Soares, 2019). Cerca de 80 mulheres sofreram latrocínio ano passado, mas 1.500 foram vítimas de feminicídio, denotando que o feminismo e a educação para a equidade de gênero podem salvar mais vidas do que o braço armado do Estado.

A esquerda não é propriamente anti-meritocrática e nem anti-proprietária. Seu traço é recolocar essas questões de modo coletivizante: o socialismo foi historicamente concebido como um regime de gestão da propriedade coletiva e da justa interdependência entre trabalhadores. Essas pautas continuam relevantes. Isso se vê não apenas no sucesso da campanha pela redução da jornada, como no fato de que até eleitores bolsonaristas defendem a oferta pública de saúde, educação e aposentadoria (Nunes e Traumann, 2023).

A valorização dessas bandeiras pode romper o monopólio da extrema direita nos temas do trabalho e da propriedade. Teríamos assim a chance de resgatar a política como arena de redistribuição do poder material e simbólico, formando uma base mais igualitária e genuína para os projetos de autonomia pessoal.

 

Fonte: Por Gustavo Neves Bezerra, em A Terra é Redonda

 

A influente igreja evangélica que apoiou Jair, mas rejeita Flávio Bolsonaro

"Pastor da nossa igreja em Alagoas, vem cá", disse o bispo Samuel Ferreira ao microfone, levantando-se da cadeira entre Ciro Nogueira (PP-PI) e Arthur Lira (PP-AL), na mesa comprida que tomava o palco da Catedral Fama, em Goiânia, de ponta a ponta.

Era maio de 2022. Ciro Nogueira era ministro-chefe da Casa Civil do governo de Jair Bolsonaro (PL) e Arthur Lira (PP-AL), presidente da Câmara dos Deputados.

"O senhor não me pediu, e nem precisa", o bispo prosseguiu, referindo-se a Lira, que se levantava da cadeira, enquanto o pastor Jaques Balbino (o "pastor da nossa igreja em Alagoas") caminhava em sua direção.

"Lá nas nossas igrejas só vai [se] falar de Jesus, na época de eleição, e do senhor", disse Samuel Ferreira. Lira sorriu.

O bispo é um dos líderes da Assembleia de Deus Ministério Madureira, uma das maiores denominações evangélicas do país.

A promessa de campanha aconteceu durante uma reunião da Convenção Nacional das Assembleias de Deus no Brasil (Conamad), da qual Ferreira é presidente-executivo, e acabou com uma ameaça em tom bem-humorado direcionada ao pastor de Alagoas.

"Se ele não falar", prosseguiu o bispo Samuel Ferreira, "tem um outro trabalho lindo nas montanhas do Nepal... Estamos precisando de obreiros lá."

A plateia — e os parlamentares no palco — caíram na gargalhada.

"Esse é o seu candidato. Cumprimenta o homem, rapaz!"

Naquela eleição, Arthur Lira foi o candidato a deputado federal mais votado em Alagoas e ajudou o PP a conquistar quatro das nove vagas disponíveis para o Estado.

O vídeo, que voltou a circular nesta eleição, é uma oportunidade rara de ver mais de perto como a Assembleia de Deus Ministério Madureira opera como agente no mundo da política — e sua força.

Apesar de ser menos conhecida fora do mundo evangélico do que igrejas como a Universal, que está por trás da fundação do partido Republicanos, ou a Renascer em Cristo, que organiza a Marcha para Jesus, um evento que acabou virando importante palanque eleitoral, o Ministério Madureira também tem uma relação íntima com a política.

Uma conexão descrita como "pragmática" pelos pastores e especialistas ouvidos pela reportagem da BBC News Brasil.

"É uma espécie de Centrão", compara o pesquisador Gedeon Freire de Alencar, autor de Matriz Pentecostal Brasileira: Assembleias de Deus, 1911 a 2011. Ele se refere ao grupo de partidos no Congresso conhecidos por não ter um perfil ideológico claro e se alinhar com um ou outro governo a depender da conveniência.

Em 2006, o pai de Samuel Ferreira, bispo Manoel Ferreira, então líder da Conamad, pediu votos a Lula — em um pleito em que ele mesmo se candidatou, e foi eleito deputado federal pelo PTB.

Em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo na época, ele justificou o apoio argumentando que o governo do petista seria o que tinha "dado comida ao maior número de pobres", por meio do programa Bolsa Família.

Em 2018, a igreja foi uma das muitas que se reposicionaram em meio à virada bolsonarista que realinhou o mundo evangélico e o afastou da esquerda.

Quatro anos depois, apoiou novamente Jair Bolsonaro, desta vez em sua candidatura à reeleição. O então presidente chegou a fazer um discurso de meia hora no evento da Conamad em Goiás em 2022 e, às vésperas do primeiro turno, Samuel Ferreira o recebeu em São Paulo em um culto em que a imprensa foi proibida de entrar.

Agora, a cúpula resistiu a embarcar na campanha do filho mais velho do presidente, Flávio Bolsonaro (PL). O senador, que é correligionário de pastores da igreja que se tornaram parlamentares, como o deputado federal Cezinha de Madureira (PL-SP) e o deputado estadual por São Paulo Oseias de Madureira (PL-SP), buscou aproximação, mas não conseguiu fechar apoio.

Samuel Ferreira chegou a visitar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) durante a indicação ao Supremo Tribunal Federal (STF) de Jorge Messias, que é evangélico da igreja batista, e foi fotografado com ele após uma reunião no Planalto em outubro do ano passado.

Mas, quando chegou a hora de definir um lado nesta eleição presidencial, o colegiado de bispos acabou se decidindo por Ronaldo Caiado (PSD-GO), o ex-governador de Goiás que, no momento, está empatado com Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão) nas pesquisas de intenção de voto, com cerca de 3%, conforme o Agregador da BBC News Brasil.

Que igreja é essa e por que ela resolveu se alinhar a um candidato que não está entre os favoritos nas pesquisas para levar essa eleição?

<><> As Assembleias de Deus

A Assembleia de Deus é uma denominação pentecostal com mais de um século de história no Brasil. É a maior vertente evangélica no país, somando 12,3 milhões de fiéis, conforme os dados do Censo 2010.

Pesquisadores e fiéis costumam se referir a ela no plural: as Assembleias de Deus. Isso porque, de fato, são muitas.

Ao contrário da Igreja Católica, por exemplo, que responde à autoridade máxima do papa, ou de neopentecostais como a Universal, que é comandada por seu fundador, o bispo Edir Macedo, a Assembleia de Deus tem um modelo descentralizado, uma característica ligada à sua própria origem dentro do movimento pentecostal, nos Estados Unidos, no início do século 20.

Ela chegou ao Brasil por Belém do Pará em 1911, fundada por missionários suecos que haviam antes migrado para os EUA justamente na época em que o pentecostalismo florescia dentro da comunidade negra americana.

Com o tempo, expandiu-se pelo país e se fragmentou em meio a "guerras" e disputas internas, como ilustra Marina Correa, que há mais de 20 anos pesquisa a Assembleia de Deus e é autora, entre outros livros, de Dinastias Assembleianas: Sucessões Familiares nas Igrejas das Assembleias de Deus no Brasil.

É desse processo de divisão que surgem os "ministérios".

O Ministério Madureira foi fruto de uma das mais antigas cisões. Surgiu em 1929, quando o pastor Paulo Leivas Macalão fundou a primeira igreja no Rio de Janeiro, no bairro de Madureira.

Com o tempo, a Assembleia de Deus de Madureira foi se afastando da "matriz" em Belém, promovendo a abertura de novas igrejas e ganhando autonomia institucional. Até que, em 1958, fundou sua própria convenção, a Conamad, selando a divisão formal dentro do movimento.

Até os anos 1950, os diferentes templos da Assembleia de Deus no Brasil se articulavam em torno da Convenção Geral das Assembleias de Deus no Brasil (CGADB), que estava sob o comando de Belém.

As duas convenções — CGADB e Conamad — acabaram se tornando os dois grandes blocos que concentram o maior número de fiéis dentro da denominação.

A igreja do pastor Silas Malafaia, por exemplo, a Assembleia de Deus Vitória em Cristo (ADVEC), faz parte de um ministério independente (fundado em 1959 no Rio de Janeiro como Assembleia de Deus da Penha) e filiado à CGADB.

<><> Relação antiga com a política e ponto de origem da bancada evangélica

A relação com a política faz parte da identidade do Ministério Madureira. Quando ainda dava os primeiros passos, nos anos 1940, buscou se aproximar da gestão do então presidente Getúlio Vargas — que, assim como o pastor Macalão, era gaúcho.

A pesquisadora Marina Correa lembra que Macalão, junto a outros pastores, chegou a enviar um telegrama a Vargas para expressar apoio à decisão de declarar guerra aos países do eixo durante a Segunda Guerra Mundial em 1942 e oferecer "cooperação em defesa dos ideais cristãos, liberdade dos povos, orando continuamente em prol da vitória do Brasil".

O bispo Manoel Ferreira, que começou na igreja nos anos 1960 em São Paulo, fez carreira no ministério também por suas habilidades políticas, como ele mesmo conta em um capítulo da biografia produzida em comemoração ao centenário das Assembleias de Deus.

Ferreira era com frequência acionado por Macalão para resolver problemas decorrentes dos movimentos de cisão dentro da congregação.

Em um episódio em particular nos anos 1970, o fundador telefonou para o então pastor da igreja de Vila Alpina, em São Paulo, para perguntar se ele conhecia alguém que pudesse impedir no cartório a oficialização de um documento que havia sido produzido por um grupo de pastores que buscavam se separar do ministério. Ferreira conseguiu acionar um general que era político do Estado de São Paulo, e a oficialização dos documentos foi revogada.

Com o fim da ditadura, teve início o projeto de poder de fato da Assembleia de Deus de forma mais ampla, segundo Marina Correa. Em Ditadura Democracia e Fé no País da Moral e dos Bons Costumes, a pesquisadora e seu coautor analisam anos da publicação O Mensageiro da Paz, o jornal oficial da denominação, e registram como o discurso religioso, com o tempo, foi ganhando também contornos de discurso político.

Uma das grandes discussões na convenção da CGADB em 1985 foi sobre a "necessidade" de as Assembleias de Deus, que naquela época já eram a maior denominação evangélica do país, se envolverem mais na política, lembra o pesquisador Osiel Lourenço de Carvalho no artigo "Pentecostalismo na Esfera Pública - A participação das Assembleias de Deus na Política Partidária Brasileira".

Dessa convenção saíram 18 candidatos à eleição para deputado federal do ano seguinte. Impulsionados pelo lema "irmão vota em irmão", título de um livro escrito na época por um assessor do Senado e líder assembleiano, 13 foram eleitos.

Assim, a Assembleia de Deus foi um dos muitos grupos que estiveram presentes nas discussões da Assembleia Nacional Constituinte de 1987. Nesse momento, passam "de fato a ganhar voz" na política, como destaca Correa, dando origem ao que se conhece hoje como a bancada evangélica do Congresso.

"A Benedita estava lá nessa época, mas ela nunca usou a religião para isso", observa Correa, referindo-se a Benedita da Silva, assembleiana que também foi senadora nos anos 1990 e agora concorre novamente a uma cadeira na Casa pelo PT.

<><> De Belém a Madureira - e ao Brás

Manuel Ferreira havia ascendido ao posto de pastor-presidente no Ministério Madureira poucos anos antes, em 1982, quando morreu Paulo Leivas Macalão — sem ter indicado sucessor — e seu vice-presidente, pastor Alípio, cerca de 20 dias depois.

Sua chegada ao poder deslocou o eixo do Ministério Madureira do Rio para São Paulo, o Estado para onde Manoel Ferreira havia se mudado ainda criança de Alagoas e onde construiu sua trajetória dentro da Assembleia de Deus.

"São Paulo é também um grande centro financeiro, de poder. Onde Edir Macedo resolveu construir seu Templo de Salomão?", comenta o pesquisador Gedeon Freire de Alencar, referindo-se à Igreja Universal, que também começou no Rio de Janeiro e hoje tem sua base mais importante em São Paulo.

O Templo de Salomão, aliás, está a menos de 200 metros da principal igreja do Ministério Madureira hoje, no bairro do Brás. O templo central da AD Brás é uma enorme construção de concreto armado e vidro espelhado com capacidade para 5 mil pessoas. É presidida por Samuel Ferreira, filho de Manuel Ferreira, hoje principal liderança do ministério.

A reportagem da BBC News Brasil procurou a igreja, mas não teve retorno sobre o pedido de entrevista.

<><> De Bolsonaro a Caiado

O deputado federal Otoni de Paula (PSD-RJ), que foi pastor do Ministério Madureira e na década de 1990 fundou o Ministério Missão de Vida, acredita que a decisão de apoiar Caiado se deve "à capacidade comprovada de Caiado como gestor" e à proximidade que a denominação tem com ele desde o tempo em que era deputado federal, nos anos 1990.

O Ministério Madureira tem uma base importante em Goiás. Foi o primeiro Estado para onde se expandiu, em 1936, antes ainda de desembarcar em São Paulo, em 1938.

"Então o apoio aí ao Caiado foi algo, assim, quase que natural, diante de um clima de polarização em que a igreja também ficou evitando entrar", afirma De Paula, cuja igreja é ligada a Madureira e à Conamad.

O apoio foi oficializado em abril, durante o evento anual da Conamad, realizado em Goiânia. O então governador de Goiás sentou-se à mesa comprida no palco, à semelhança de Arthur Lira em 2022, e ouviu sorrindo Samuel Ferreira discursar ao microfone.

"Madureira não entrou no segundo, Madureira entrou em primeiro turno — e Madureira é pé quente", disse o bispo na ocasião.

Passados quatro meses, contudo, a candidatura de Caiado não decolou. De Paula diz que a igreja "tem consciência" disso, mas que ainda não fechou um posicionamento.

"Os bispos ainda não decidiram como será o comportamento da Igreja enquanto convenção para esse segundo turno."

Ele já declarou que votará em Lula em um eventual segundo turno. Sobre a decisão da igreja de recusar as investidas de Flávio Bolsonaro, o deputado deixa claro que não fala pelo colegiado de bispos que deliberam sobre os apoios políticos, mas diz que o senador "sempre se aproveitou da igreja e nós temos consciência disso".

"Ele nunca foi um dos nossos", acrescenta De Paula, que já foi bolsonarista e vem há meses fazendo críticas abertas a esse campo político.

"Nós o apoiamos aqui no Rio de Janeiro, maciçamente, lá atrás, em 2018, e Flávio depois nunca esteve conosco mais, nunca congregou conosco mais. E não é só a gente, qualquer igreja evangélica do Rio de Janeiro nunca mais recebeu a visita do Flávio, porque ele nunca foi um dos nossos", completa.

Ciro Nogueira e Arthur Lira, que protagonizaram a cena na Conamad de 2022 e voltou a circular nas últimas semanas, são novamente candidatos, ao Senado no Piauí e em Alagoas, respectivamente. Desta vez, contudo, não houve manifestação pública de apoio de Madureira.

O bispo Samuel Ferreira tem concentrado os esforços na campanha de seus candidatos a deputado federal e estadual em São Paulo, Rogério Madureira e Elias Madureira, ambos pelo PL. Tem peregrinado por diferentes cidades com a "Caravana Movimenta Madureira" apresentando-os aos fiéis do interior.

Uma postagem em sua página da semana passada celebrava o endosso da ex-primeira dama Michelle Bolsonaro (PL), que desponta como uma das favoritas a uma vaga ao Senado pelo Distrito Federal e gravou um vídeo pedindo voto aos dois. "E agora é oficial. Madureira vai cantar!", comemorou o bispo na legenda.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Os riscos da Frente ampla

As eleições brasileiras caminham para uma situação paradoxal: o PT aparece como a única força de esquerda com chances reais de chegar ao segundo turno, mas justamente essa condição pode enfraquecer uma das funções mais importantes da esquerda: pressionar o próprio campo progressista a ultrapassar os limites impostos pela institucionalidade e pelos interesses das elites econômicas.

Durante algum tempo, candidaturas à esquerda do PT cumpriram esse papel. Ciro Gomes, apesar das controvérsias, obrigava o debate a passar por industrialização, soberania nacional, juros, endividamento e política econômica. Guilherme Boulos, quando candidato à Presidência, colocou em evidência a taxação de lucros e dividendos e uma oposição mais explícita aos interesses do agronegócio e do sistema financeiro.

Não é necessário considerar essas candidaturas revolucionárias ou coerentes em todos os aspectos para reconhecer sua importância. A existência de uma alternativa à esquerda do PT altera a correlação de forças dentro do próprio campo progressista, obrigando o partido a disputar um eleitorado que, sem essa alternativa, pode ser considerado praticamente garantido.

Sem esse contraponto, diminuem os incentivos para que o PT radicalize seu discurso. Quanto mais depende de alianças empresariais, estabilidade institucional e apoio de parcelas da elite econômica, maior tende a ser sua disposição para se apresentar como administrador responsável da ordem existente, e não como força de transformação dessa ordem.

Por isso, uma oposição à esquerda do PT só existe efetivamente quando apresenta candidatura própria. A disputa eleitoral também serve para produzir pressão política, estabelecer novos parâmetros para o debate e representar parcelas da população que não encontram espaço nas alternativas oferecidas pela institucionalidade.

A própria ideia de que a correlação de forças impede uma política mais à esquerda precisa ser relativizada. Ela não é uma fotografia imutável à qual os partidos simplesmente se adaptam: também é produzida pela ação política, pela organização social e pela capacidade de apresentar alternativas.

Quando um governo de esquerda se desloca para o centro, esperando que a sociedade o acompanhe, pode ocorrer o contrário. As massas deixam de se mobilizar por uma agenda de transformação e a direita passa a ocupar o espaço da ruptura. Foi uma das contradições do bolsonarismo: Jair Bolsonaro construiu uma imagem antissistema enquanto sua política econômica contemplava interesses do capital financeiro, do agronegócio e de setores empresariais. Seu discurso de ruptura não significava necessariamente romper com os grupos dominantes, mas disputar o controle político da própria ordem existente.

Um governo de frente ampla corre risco semelhante. Ao tentar representar simultaneamente diferentes setores, pode ser identificado cada vez mais com a própria institucionalidade. Nesse cenário, a direita pode reivindicar o lugar simbólico de oposição ao sistema, mesmo estando profundamente ligada aos interesses econômicos que o sustentam.

Esse fenômeno também aparece na mobilização social. A greve dos caminhoneiros de 2018 e as mobilizações que culminaram no 8 de janeiro demonstraram capacidade de mobilização nacional de setores da direita. Isso não significa que a sociedade brasileira tenha simplesmente se tornado de direita. O bolsonarismo também acumulou contradições que assustaram setores da elite, especialmente sua condução da pandemia, os conflitos institucionais e a contestação do resultado eleitoral de 2022.

A crise do bolsonarismo abriu espaço para o retorno do PT ao governo por meio de uma frente ampla. Porém, ao ocupar esse espaço, o lulismo passou progressivamente a ocupar também o lugar de administrador da institucionalidade que antes combatia. A direita, assim, ganhou a oportunidade de reivindicar o monopólio do discurso antissistema.

É nesse ponto que uma esquerda radical, mesmo eleitoralmente pequena, adquire uma função que ultrapassa sua votação. Uma candidatura do PSol, PCB, PSTU ou de outra força independente não precisa necessariamente vencer para produzir efeitos políticos. Ela pode deslocar a frente ampla para a esquerda, colocar temas estruturais no centro do debate e pressionar o governo.

Uma esquerda radical também pode funcionar como ameaça política aos interesses dominantes. A possibilidade de crescimento de uma agenda de tributação do capital, fortalecimento dos direitos trabalhistas, industrialização, soberania nacional e enfrentamento dos interesses financeiros e agrários pode estimular concessões sociais e econômicas para evitar o crescimento de uma alternativa mais radical.

Existe um paralelo histórico com a social-democracia europeia durante a existência da União Soviética. Guardadas as diferenças, a existência de uma alternativa muito mais à esquerda contribuiu para que setores do capitalismo europeu aceitassem níveis maiores de tributação, proteção social, direitos trabalhistas e políticas públicas. Não por humanismo das elites, mas porque reformas também podem resultar do temor diante de transformações mais profundas.

Por isso, a transformação do PSol em uma espécie de extensão eleitoral do lulismo é problemática. Ao abandonar a candidatura própria para concentrar-se na aliança com o PT contra a extrema direita, o partido perde parte de sua capacidade de pressionar o governo e apresentar uma alternativa aos limites do lulismo.

O problema se agrava porque o bolsonarismo não parece ser passageiro. A extrema direita veio para permanecer na política brasileira. Bolsonaro não criou do nada sentimentos como autoritarismo, anticomunismo, desconfiança das instituições e hostilidade ao STF; ele os reorganizou e transformou em força eleitoral de massas.

A direita pode aprender com suas próprias contradições. Um candidato que preserve o autoritarismo político e o liberalismo econômico, mas abandone parte do extremismo e da imprevisibilidade de Bolsonaro, poderia ser mais aceitável para a institucionalidade e para setores dominantes. Algo semelhante ocorreu nos Estados Unidos, onde o trumpismo transformou o reacionarismo em força de massas enquanto o Partido Democrata permaneceu profundamente integrado à institucionalidade e aos centros de poder econômico.

Nesse cenário, a tendência do PT é deslocar-se para o centro para disputar o eleitorado moderado, a institucionalidade e o apoio de setores econômicos. Se toda a esquerda se limitar a apoiar o lulismo para impedir o retorno do bolsonarismo, cria-se um ciclo perverso: a ameaça da extrema direita justifica a união em torno do candidato mais moderado; depois da eleição, esse governo tem poucos incentivos para confrontar os interesses que sustentam a ordem vigente; na eleição seguinte, a mesma ameaça volta a justificar a unidade.

A consequência é uma suspensão permanente da disputa por reformas estruturais. A esquerda justifica sua moderação pela correlação de forças, mas, ao mesmo tempo, deixa de construir a força social necessária para modificá-la.

Enquanto isso, permanecem questões como concentração de renda, baixos salários, superexploração do trabalho, dependência econômica e tecnológica e primarização da economia brasileira.

 

Fonte: Por Bruno Machado, em A Terra é Redonda

 

Brasil tem 547 registros de Creutzfeldt-Jakob, doença que matou Lito Sousa

O Brasil registrou 547 pacientes com a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) entre 2005, quando a doença passou a integrar a Lista Nacional de Doenças de Notificação Compulsória, e 2021.

Os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação do Ministério da Saúde mostram que o país teve 1.576 notificações suspeitas da doença no período.

A DCJ acometeu Lito Sousa, morto aos 59 anos nesta quinta-feira (1), 41 dias após a divulgação do diagnóstico da patologia neurodegenerativa. O velório do influenciador acontece nesta sexta (2), em São Paulo.

<><> Casos mais comuns

Os registros mais frequentes da doença aconteceram nas regiões Sudeste, Sul e Nordeste.

São Paulo teve, no total, 512 casos suspeitos da doença. Somente a capital registrou 101 mortes desde 2007. Na sequência, as maiores suspeitas da doença foram registradas no Paraná, com 189 registros, além dos 158 casos suspeitos em Minas Gerais.

Segundo o Ministério da Saúde, a maior frequência das notificações está entre as idades de 55 a 74 anos, com 53,6% das suspeitas em mulheres e 46,3% em homens.

<><> Tratamento?

Não existe um tratamento comprovado para evitar a evolução da doença. Segundo o Ministério da Saúde, 90% dos diagnosticados morrem em até um ano.

Não existe, portanto, nenhum medicamento autorizado pela Anvisa para uso amplo no Brasil, e o SUS (Sistema Único de saúde) não oferece tratamento para a doença além do suporte terapêutico e do controle das complicações.

Apesar da ausência, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) havia autorizado, em setembro, a importação dos EUA do medicamento experimental ALN-6457 em uma operação de urgência para ser usado no tratamento do influenciador e piloto Lito Sousa.

O remédio ainda não havia sido usado em humanos e demandou uma autorização da agência por considerar que a doença tem evolução rápida, letal e irreversível, e não tem patrocinador ou representante responsável pelo medicamento no Brasil.

<><> O que é a doença de Creutzfeldt-Jakob?

A doença de Creutzfeldt-Jakob é uma enfermidade neurodegenerativa fatal que afeta o sistema nervoso central, causada por agentes infecciosos chamados príons. Os pacientes podem apresentar distúrbios no raciocínio, perda de memória, prejuízos na fala, falta de coordenação de movimentos musculares e tremores.

Os príons são partículas formadas por proteínas encontradas nas células do sistema nervoso dos seres humanos e de outros mamíferos. Em condições normais, a proteína príon celular não causa danos ao organismo. Ela exerce diversas funções fisiológicas, como a proteção dos neurônios contra a morte celular.

No entanto, por razões que ainda não são totalmente esclarecidas, essas proteínas podem apresentar erros durante a sua formação. Esses erros levam a alterações na estrutura da proteína, que se torna infecciosa e tóxica.

Cerca de 85% dos casos são esporádicos, afetam geralmente pessoas entre 55 e 70 anos, com uma incidência de 1 ou 2 casos para cada 1 milhão de habitantes. Entre 10% e 15% acontecem por mutação hereditária no príon. Ocorrências também raras foram registradas em consequência de procedimentos cirúrgicos e por meio do uso de instrumentos contaminados.

A doença neurológica grave apresenta uma rápida evolução e, de forma inevitável, leva o paciente à morte. Os sintomas são variados e podem ser caracterizados por aspectos relacionados à demência progressiva, que pode ser associada a espasmos musculares involuntários.

A doença de Creutzfeldt-Jakob é muito rara e não existem evidências de contágio de uma pessoa para outra.

¨      Doença pode matar em até um ano e não tem cura

O influenciador especialista em aviação Lito Sousa morreu após enfrentar a Doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ). A enfermidade neurodegenerativa é rara, não tem cura e age rapidamente, podendo matar 90% dos pacientes entre seis meses e até um ano após o diagnóstico, segundo o Ministério da Saúde.

Lito divulgou um vídeo nas redes sociais anunciando a doença em agosto, relatou sintomas e morreu em um intervalo de 41 dias após a publicação. O velório e o enterro do youtuber acontecem nesta sexta-feira (2), em São Paulo.

O Brasil registrou 547 confirmações e 1.576 notificações suspeitas da doença entre 2005 e 2021. Segundo o Ministério da Saúde, a média estimada de casos varia entre 1 e 2 por um milhão de pessoas a cada ano.

<><> Evolução rápida

Conforme explica o Dr. Jamary Filho, neurologista, pesquisador e coordenador da UTI Neurológica e do Centro de Pesquisa Clínica do Hospital Mater Dei de Salvador, a evolução ao óbito é rápida pelo alto poder de infecção da proteína príon, que "vai acumulando no cérebro e sendo transmitida de uma célula do sistema nervoso central para outra célula do sistema nervoso central". Antes do óbito, a doença apresenta sinais progressivos de demência e perda da capacidade motora.

Após o diagnóstico, a média de sobrevida dos pacientes varia entre seis meses e um ano, segundo informações do Ministério da Saúde. "A média é de seis meses a um ano; é realmente bem rápido, porque essas células vão infectando umas às outras em sequência e aí a proteína vai acumulando em cada uma das células e fazendo as células morrerem gradativamente num ritmo bem acelerado", comenta o neurologista.

O especialista também aponta que estimar um tempo máximo exato é difícil na medicina, pois depende de decisões de fim de vida e do suporte clínico ou paliativo escolhido pelas famílias.

Diante do prognóstico severo e da ausência de terapias consolidadas, alternativas experimentais ganham espaço de forma compassiva. O neurologista pontua que o uso de medicações em fase de ensaio clínico ocorre de maneira limitada.

O médico destaca que se trata de uma situação em que "você tem uma doença incurável, você não sabe se a medicação vai funcionar, mas como é a única medicação possível de se ter alguma esperança ou expectativa de recuperação, você usa no paciente sabendo que pode não ter efeito nenhum".

Lito Sousa, por exemplo, foi autorizado pela Anvisa a importar dos EUA e usar uma medicação experimental, o ALN-6457. O remédio ainda não havia sido usado em seres humanos.

O médico conclui que a doença não tem forma de prevenção conhecida pela medicina.

¨      Entenda como a doença degenerativa age no corpo

A doença que matou o especialista em aviação e influenciador Lito Sousa, nesta quinta-feira (1°), é a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), uma enfermidade neurodegenerativa rara e progressiva. A doença pertence ao grupo das encefalopatias espongiformes transmissíveis.

A causa e a transmissão da doença estão relacionadas a uma proteína anormal denominada príon. Ela é altamente estável e resistente a métodos convencionais de desinfecção físico-química.

No cérebro dos pacientes, o acúmulo dessa proteína provoca alterações que deixam o tecido cerebral com aspecto esponjoso. A velocidade da degeneração psicomotora associada à DCJ é significativamente maior do que a observada em outras demências, como o Alzheimer.

A doença é caracterizada por um quadro clínico inicial de demência, com perda de memória e tremores, associado a outros sinais e sintomas neurológicos. O paciente apresenta uma piora rápida e progressiva após o início dos sinais e sintomas.

Com a progressão do quadro clínico, podem ocorrer insônia, depressão, crises epilépticas, paralisia facial, entre outros sintomas.

Quais sintomas o paciente apresenta?

As manifestações são variadas e não específicas. A doença pode se apresentar inicialmente como um quadro de demência associado a outros sinais e sintomas.

Também podem ocorrer sintomas neurológicos e psiquiátricos, como comprometimento cognitivo, perda de memória, tremores, ataxia, afasia, falta de coordenação motora, distúrbios visuais, espasmos musculares (mioclonia) e alterações de comportamento.

O paciente com DCJ também pode apresentar dor de cabeça, fadiga, sonolência, falta de apetite e distúrbios da linguagem.

<><> Tenho como me prevenir?

De acordo com o Ministério da Saúde, não há evidências de que a doença seja transmitida por contato casual com uma pessoa infectada.

As medidas de prevenção estão voltadas principalmente para profissionais e procedimentos que envolvem risco de exposição aos príons. Isso inclui o uso de equipamentos de proteção individual (EPIs) e cuidados específicos de biossegurança, limpeza, desinfecção e esterilização de instrumentos cirúrgicos, com o objetivo de evitar a transmissão da doença.

 

Fonte: CNN Brasil