sábado, 19 de setembro de 2026


 

Paulo Freire, 102 anos: por que a extrema direita odeia tanto seu legado?

“Em primeiro lugar, eu sou Paulo Freire, nasci no Recife há muito, muito tempo atrás”. É assim que o homem que, anos mais tarde, se tornaria o patrono da Educação do Brasil, se apresentou em 1985 em uma gravação para a Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Não que precisasse. Paulo Freire, nascido há exatos 102 anos, já era um dos rostos mais conhecidos do mundo acadêmico não só no Brasil, mas em todo o mundo. Mesmo tendo desenvolvido um trabalho pioneiro na alfabetização de adultos, são comuns os ataques da extrema-direita à sua figura. Mas por que será que, anos após sua morte (em 2 de maio de 1997), a obra de Paulo Freire ainda recebe tantas críticas (infundadas, diga-se de passagem) e é alvo de mentiras? “Essa demonização ocorre porque tem uma conscientização [no trabalho de Freire]. E a extrema-direita confunde essa conscientização com doutrinação”, avalia a professora Claudia Regina Vieira, educadora e pró-reitora de Assuntos Comunitários e Políticas Afirmativas da Universidade Federal do ABC (UFBAC). “O fato de Paulo Freire conscientizar os oprimidos criou um enorme incômodo nesses setores [da elite]”, diz o escritor Frei Betto, que foi amigo de Paulo Freire e escreveu com ele o livro “Essa Escola Chamada Vida”.

Basicamente, a metodologia Paulo Freire consiste na valorização do saber e do conhecimento adquirido fora da sala de aula, até mesmo de pessoas que nunca sentaram em um banco escolar. “As construções e os textos das cartilhas eram montados para decodificar letras. O conceito de Freire é usar textos trazidos das experiências das pessoas”, explica Claudia Regina. Embora especule-se (e minta-se) muito sobre o impacto de Paulo Freire na educação infantil, o foco de seu trabalho era na alfabetização de adultos. Em 1963, liderou uma iniciativa em Angicos, no Rio Grande do Norte, que alfabetizou cerca de 300 adultos com 40 horas/aula. Até o presidente João Goulart simpatizou com a ideia, mas a proposta foi interrompida pelo golpe militar de 1964.

Na ditadura, Paulo Freire foi preso e acabou se exilando no exterior por quase 16 anos. “Vem toda uma vida de andarilhagem que eu experimentei. Trabalhei primeiro no Chile, depois nos Estados Unidos e, depois, morando em Genebra, na Suíça, mas me estendendo mundo afora”, contou Freire na palestra na Unicamp em 1985.

Em uma palestra na USP em 1994, Paulo Freire fez uma reflexão de sua trajetória: “Se vocês me perguntarem: ‘Paulo, se você tivesse agora 30 anos, começaria tudo de novo?’ [Começaria] tudo de novo! Se na reencarnação eu me lembrasse do meu passado, da minha vida anterior, eu seria mais radical na minha compreensão da liberdade. No meu respeito à liberdade. Não à licenciosidade, mas a essa liberdade que se sabe liberdade.”

¨      O homem que ensinava e queria transformar o mundo

Você já se perguntou por que o nome de Paulo Freire aparece com tanta frequência nos debates sobre educação, política e ideologia? Não é à toa. O educador brasileiro, nascido em 1921 no Recife, é uma das figuras mais estudadas, reverenciadas e atacadas da história recente do país. Não pela pedagogia em si, mas pelas consequências políticas da prática que ele propôs. Quando você ouve falar em “educação libertadora”, “conscientização” ou “leitura do mundo”, há ali um traço direto da pedagogia freiriana. O incômodo que ele ainda causa revela o alcance das suas ideias. Neste artigo, você vai entender quem foi Paulo Freire, por que seu trabalho ultrapassou a sala de aula e por que seus livros continuam em alta mesmo décadas depois da sua morte.

<><> O que você precisa saber para entender Paulo Freire?

Paulo Reglus Neves Freire nasceu em 1921, no Recife. Era filho de uma família de classe média que sofreu com a instabilidade econômica depois da crise de 1929. A experiência precoce com a fome, a insegurança e a desigualdade social virou o ponto de partida para uma vida voltada à educação como prática política. Paulo Freire estudou Direito, mas nunca advogou. A primeira e única causa que assumiu foi também a última: perdeu, viu o cliente quebrar e decidiu que aquele não era o seu lugar. Preferiu ensinar. Começou dando aulas de português e logo passou a ocupar cargos ligados à educação no SESI e em universidades de Pernambuco. Desde cedo, entendeu que ensinar era mais do que repassar conteúdos. Era escutar, observar e pensar a realidade junto com quem está em sala. Freire não tratava alunos como massa de modelagem. Considerava que toda pessoa tem bagagem — mesmo que não tenha diploma. Foi com essa percepção que surgiu sua proposta de alfabetização.

<><> Primeiras experiências com alfabetização

Nos anos 1940, o Brasil ainda carregava índices altíssimos de analfabetismo entre adultos, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. As campanhas de alfabetização oficiais apostavam em cartilhas genéricas, com letras soltas e frases que pouco ou nada diziam ao cotidiano de quem vivia no campo ou em periferias urbanas. A estratégia era repetir fonemas — não formar leitores. Freire começou a atuar com educação popular nesse contexto. Ele entendia que métodos pensados para crianças da classe média urbana não funcionavam com trabalhadores rurais, operários ou domésticas. Não se tratava apenas de ensinar a ler. Era preciso conversar com essas pessoas a partir do que elas já sabiam — e esse saber não estava nos livros.

Foi aí que nasceu a ideia de trabalhar com palavras geradoras. Em vez de começar com o B-A = BÁ, o processo de alfabetização partia de palavras como “terra”, “enxada”, “trabalho” ou “sede”. Termos familiares, carregados de significados, que permitiam aos alunos reconhecer sons, letras e também refletir sobre sua própria condição social. Essa abordagem estava longe de ser assistencialista. Ela ia à raiz. Ao propor que o alfabetizando refletisse sobre sua experiência, Paulo Freire estava abrindo espaço para um tipo de aprendizado que mexia com a consciência de classe, o sentimento de pertencimento e a percepção crítica do mundo.

<><> Educação como prática de liberdade

Paulo Freire dizia que a educação nunca é neutra. Ou ela forma sujeitos capazes de intervir na realidade, ou reforça a lógica da obediência. Isso não é metáfora. É uma leitura da função social da escola num país como o Brasil. A pedagogia tradicional, baseada na repetição e na autoridade, cumpre um papel: manter o estudante em posição passiva. O professor fala, o aluno escuta. O conteúdo é imposto, não discutido. O resultado disso é a reprodução das hierarquias de fora da escola — entre classes, raças, gêneros e territórios.

Freire propôs uma inversão: colocar o educando como protagonista. Reconhecer seus saberes, suas vivências, suas perguntas. Usar o diálogo como método. A escola, nesse modelo, deixa de ser um espaço de adestramento e passa a ser espaço de disputa simbólica e política. Não se trata apenas de ensinar a ler e escrever. Trata-se de formar consciência crítica. Ao propor uma pedagogia baseada na escuta e na participação, Freire coloca em xeque o autoritarismo que sempre marcou o sistema educacional brasileiro. Ele entende que aprender é também aprender a se posicionar no mundo. E isso, para muita gente, é perigoso.

<><> O método Paulo Freire de alfabetização

Dizer que o “método Paulo Freire” fracassou porque a educação brasileira vai mal é repetir uma distorção. O método nunca foi aplicado em escala nacional. O que existe são experiências pontuais, geralmente vinculadas a políticas locais ou a movimentos sociais. E isso tem uma explicação: o método não foi desenhado para escolas formais ou ensino infantil. Era uma proposta de alfabetização de adultos em contextos de exclusão, estruturada em três pilares:

>> 1. O aluno não é um recipiente vazio

A metáfora que Freire combateu com mais força foi a da “educação bancária”. Nela, o professor deposita conhecimento e o aluno recebe passivamente. Freire propôs outra lógica: todo educando já tem vivências, saberes e formas de interpretar o mundo. O papel do educador é dialogar com isso — não impor uma visão.

>> 2. O ponto de partida é o cotidiano

A alfabetização, para Freire, começa com palavras que fazem parte do dia a dia de quem está aprendendo. Isso não é só uma estratégia pedagógica. É também política: dizer que o mundo vivido pelo oprimido importa. Que a vida real não é um obstáculo para aprender, mas o próprio terreno de aprendizado.

>> 3. A alfabetização precisa gerar consciência

Não basta decodificar palavras. A leitura da palavra tem que vir junto com a leitura do mundo. O objetivo não era apenas formar leitores funcionais. Era formar sujeitos conscientes, capazes de identificar as estruturas que limitam suas vidas — e dispostos a transformá-las.

<><> O caso de Angicos (RN)

A experiência mais conhecida do método foi em 1963, na cidade de Angicos, no Rio Grande do Norte. Ali, 300 trabalhadores foram alfabetizados em apenas 40 horas de aula. Parece milagre, mas era organização. O projeto tinha apoio do governo federal, articulação com universidades e engajamento da comunidade local. A eficácia do método incomodou setores conservadores. Quando trabalhadores começaram a reivindicar direitos depois de aprender a ler, o alarme soou nas elites locais. Pouco tempo depois, o golpe militar de 1964 desmobilizou o Plano Nacional de Alfabetização — que já contava com apoio de João Goulart e previa a criação de milhares de círculos de cultura baseados nas ideias de Freire. O método freiriano foi interrompido no Brasil antes de começar. Enquanto isso, seria adotado — e adaptado — em países da África, da América Latina e até da Escandinávia, com resultados reconhecidos por organizações como a Unesco.

<><> Exílio e repercussão internacional

Paulo Freire passou de preso político a referência global em menos de uma década. Depois do golpe de 1964, foi detido em Recife e passou 70 dias na prisão. Acusado de subversão, acabou exilado. Primeiro na Bolívia, depois no Chile. Nos anos seguintes, passou por Genebra, nos bastidores das Nações Unidas, e lecionou em Harvard, nos Estados Unidos. Enquanto era silenciado no Brasil, suas ideias ganhavam corpo e adesão em vários continentes. A repressão não interrompeu sua produção. Pelo contrário. O exílio forçou Freire a pensar sua pedagogia em diálogo com outras culturas e outras lutas. E o mundo respondeu.

<><> A trajetória internacional de Paulo Freire

No Chile, logo após deixar o Brasil, Freire trabalhou com programas de alfabetização de camponeses. Era um país em transformação, com forte presença dos movimentos populares. Foi ali que ele sistematizou a base de sua teoria e escreveu Educação como Prática da Liberdade. Em 1969, foi convidado para dar aulas na Universidade de Harvard. Em seguida, estabeleceu residência em Genebra, onde atuou como consultor do Conselho Mundial de Igrejas. Nesse papel, viajou por dezenas de países da Ásia, América Latina e África. Participou diretamente da formulação de políticas educacionais em contextos de descolonização. Era uma pedagogia em movimento.

<><> Traduções e circulação global

Pedagogia do Oprimido saiu em 1968, no Chile. Foi escrito em português, publicado em espanhol e só depois traduzido para o inglês. Desde então, nunca parou de circular. Já são mais de 40 idiomas. O livro se tornou leitura obrigatória em programas de formação docente e cursos de ciências sociais, especialmente nos Estados Unidos, Canadá, Reino Unido e países africanos de língua portuguesa. Segundo o Google Scholar, é o terceiro livro mais citado no mundo nas áreas de humanidades e ciências sociais. Nenhum outro autor latino-americano chegou tão longe. A pedagogia de Paulo Freire influenciou sindicatos, igrejas progressistas, ONGs, movimentos estudantis e experiências educativas de base popular. Ela se tornou referência para quem entende a educação como instrumento de transformação social.

<><> Paulo Freire e a África

Na África, o encontro com a pedagogia freiriana foi direto. Países recém-independentes como Guiné-Bissau, Angola e Moçambique precisavam reconstruir seus sistemas educacionais a partir do zero — depois de séculos de colonização portuguesa. Paulo Freire foi chamado para ajudar. Freire trabalhou com educadores locais. Levou sua abordagem dialógica, baseada na escuta e no contexto, e a colocou a serviço de lutas verdadeiras: alfabetizar camponeses, formar quadros técnicos, construir identidades nacionais. Em vez de repetir o padrão europeu de ensino, os países africanos que contaram com Freire criaram propostas próprias, com base na realidade local. Na África do Sul, Paulo Freire também foi lido e discutido dentro do movimento da Consciência Negra. Steve Biko, referência do antirracismo no país, viu na pedagogia freiriana uma ferramenta de resistência cultural e afirmação política. Não à toa, o nome de Freire circulava em universidades e igrejas negras mesmo durante o regime do apartheid.

<><> Docência e gestão pública

Com a anistia, Paulo Freire voltou ao Brasil em 1980. Já reconhecido internacionalmente, escolheu se reaproximar da realidade brasileira por dentro da política e da universidade. Passou a lecionar na PUC-SP e na Unicamp, onde participou da formação de professores, educadores populares e militantes. Também ajudou a estruturar os programas de alfabetização do Partido dos Trabalhadores, ao qual se filiou. Em 1989, assumiu a Secretaria Municipal de Educação de São Paulo, convidado por Luiza Erundina, recém-eleita prefeita da capital. Era a primeira vez que Freire ocupava um cargo executivo em uma grande cidade. Ali, precisou lidar com a máquina pública, a burocracia e as disputas políticas internas — sem abandonar seus princípios.

<><> Políticas públicas com base freiriana

Durante sua gestão, foram implementadas ações voltadas à valorização da carreira docente: concursos públicos, ampliação de vagas na formação continuada e maior autonomia pedagógica nas escolas. Freire também priorizou a Educação de Jovens e Adultos (EJA). Criou o MOVA — Movimento de Alfabetização de Jovens e Adultos — como proposta descentralizada, enraizada nos territórios e baseada no diálogo com comunidades locais. Até hoje, o MOVA inspira projetos em outras capitais e municípios do país. O enfrentamento à evasão escolar, o incentivo à escuta dos estudantes e a defesa da escola pública como espaço de cidadania foram algumas das marcas do período. Mas nem tudo correu em paz.

<><> Ataques e resistência

Freire foi alvo de críticas constantes por parte de setores conservadores, inclusive dentro da imprensa. Questionava-se sua atuação como gestor, sua influência ideológica e sua associação com o PT. O debate sempre esteve carregado de disputas sobre o papel da escola na sociedade. Mesmo assim, sua passagem pela gestão pública deixou um legado: políticas educacionais que dialogam com a realidade dos estudantes e professores, sem recorrer a fórmulas importadas ou imposições verticais.

<><> Patrono da educação brasileira

Paulo Freire morreu em 2 de maio de 1997, em São Paulo, aos 75 anos. Até o fim da vida, manteve-se ativo como professor, palestrante e escritor. Deixou uma obra extensa, composta por livros, artigos, cartas e entrevistas, além de uma base sólida para quem pensa a educação como prática social e política. Em 2012, por iniciativa da deputada Luiza Erundina, o Congresso aprovou a lei que o declarou Patrono da Educação Brasileira. A sanção presidencial foi mais do que simbólica: foi o reconhecimento do Estado brasileiro ao educador que havia sido preso, exilado e perseguido por seus ideais.

<><> Reconhecimento fora do país

Antes mesmo de ser reconhecido oficialmente pelo Brasil, Freire já havia recebido dezenas de homenagens em universidades ao redor do mundo. São mais de 35 títulos de Doutor Honoris Causa, prêmios da Unesco, estátuas em escolas e institutos, e cátedras universitárias com seu nome em países da América Latina, da Europa, da África e dos Estados Unidos. Seus livros seguem entre os mais citados na área de ciências sociais, especialmente Pedagogia do Oprimido, que atravessou fronteiras e chegou a mais de 20 idiomas. Mais do que um pensador, Freire virou referência prática para experiências pedagógicas voltadas à transformação social.

<><> A guerra ideológica em torno de Paulo Freire

Nos últimos anos, Paulo Freire passou a ocupar um lugar central na retórica da extrema direita brasileira. Tornou-se alvo simbólico de um projeto político que disputa o sentido da escola, da universidade e da formação crítica. Durante a campanha presidencial de 2018, Jair Bolsonaro afirmou que iria “expurgar Paulo Freire” das diretrizes educacionais do país. Seu governo colocou esse plano em prática. Abraham Weintraub, então ministro da Educação, declarou que o monumento a Freire em frente ao MEC era uma “lápide da educação brasileira”. A frase era parte de uma ofensiva sistemática contra qualquer proposta educacional que dialogue com desigualdade, direitos ou consciência política. O ataque a Freire não parte do desconhecimento — parte da estratégia. Ao reduzir a pedagogia crítica à “doutrinação”, o que se pretende é controlar o espaço da escola, transformando-a num ambiente de reprodução silenciosa de valores conservadores.

<><> Escola Sem Partido e o monitoramento da sala de aula

Criado nos anos 2000, o movimento Escola Sem Partido ganhou força entre 2015 e 2018, com forte apoio da nova direita nas redes sociais e no Congresso. A proposta era simples na aparência: defender a “neutralidade” do ensino. Mas, na prática, os projetos de lei e ações promovidas pelo grupo buscavam censurar professores, eliminar debates sobre desigualdade e criminalizar qualquer abordagem crítica no ambiente escolar. Paulo Freire virou o principal alvo. Era citado como símbolo de tudo o que deveria ser retirado das escolas. Seus livros foram atacados, seu nome demonizado. Em alguns casos, cartazes com sua imagem foram arrancados de salas de aula, e educadores que mencionavam suas ideias eram acusados de “militância”.

A ironia: Freire sempre defendeu que a escola fosse um espaço de diálogo, escuta e pensamento autônomo. Não se tratava de ensinar o que pensar, mas de criar as condições para que o estudante pensasse por conta própria.

<><> Acusações de doutrinação

Entre os principais argumentos usados contra Freire, o mais repetido é o da “doutrinação ideológica”. A acusação também aparece em discursos parlamentares, programas de TV e postagens de influenciadores ligados à nova direita. Mas ela não se sustenta diante da obra do autor. Paulo Freire não propõe catequese política. Sua pedagogia parte do pressuposto de que ninguém educa ninguém: as pessoas se educam em relação umas com as outras, mediadas pela realidade. O papel do educador, para Freire, é criar situações de aprendizagem em que o estudante consiga refletir criticamente sobre o mundo que vive — e não absorver dogmas prontos.

<><> O que dizem os livros de Paulo Freire?

Quem leu Pedagogia do Oprimido, Pedagogia da Autonomia ou A importância do ato de ler sabe que a proposta freiriana não gira em torno de partidos, slogans ou ideologias fechadas. A preocupação central está na formação do sujeito como cidadão consciente de seu lugar no mundo. Freire parte da realidade do educando, do seu vocabulário, das suas experiências. A alfabetização, no seu método, começa por palavras que fazem sentido na vida concreta: “terra”, “trabalho”, “seca”, “injustiça”. O conteúdo vem da escuta, da experiência e da análise coletiva. Não há doutrinação onde há escuta ativa e construção compartilhada do conhecimento.

A pedagogia freiriana incomoda porque propõe o oposto da submissão. Ela convida à pergunta, à investigação e à ação. Em tempos de ataques à educação pública, Freire se tornou um obstáculo para quem prefere uma escola disciplinadora, sem conflito, sem voz, sem política. Na prática, chamar Paulo Freire de doutrinador é uma forma de tentar interditar o debate sobre desigualdade, exclusão e projeto de país. É uma disputa ideológica, sim — mas não da parte de Freire. A tentativa de expulsar suas ideias da educação brasileira é uma ação política concreta, com objetivo claro: manter tudo como está.

<><> Por que ainda vale a pena ler Paulo Freire?

Freire escreveu nos anos 1960, mas os dilemas que ele enfrentava continuam por aqui. O analfabetismo funcional ainda assombra o país. A desigualdade segue marcando o acesso à educação. A escola, muitas vezes, é tratada como um espaço de adestramento, não de formação crítica. Freire parte de um ponto: toda educação é política. Não existe neutralidade. O modo como você ensina revela de que lado está. Ou a escola forma para a crítica ou forma para a submissão. Fingir que isso não existe é jogar o debate para debaixo do tapete. Ler Paulo Freire hoje é disputar o que a escola deve ser. É defender a formação de sujeitos autônomos, não só de trabalhadores ajustados ao mercado. É se posicionar contra o esvaziamento do ensino público, contra a militarização da educação e contra a censura nas salas de aula.

<><> Frases de Paulo Freire para pensar

  • “Se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda.”
  • “A leitura do mundo precede a leitura da palavra.”
  • “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens educam-se entre si, mediatizados pelo mundo.”
  • “Ensinar não é transferir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou a sua construção.”
  • “Não é no silêncio que os homens se fazem, mas na palavra, no trabalho, na ação-reflexão.”
  • “Educação não transforma o mundo. Educação muda pessoas. Pessoas transformam o mundo.”

Essas frases não foram escritas para serem repetidas sem pensar. Elas existem para provocar, para desmontar certezas, para virar do avesso aquilo que foi normalizado. Freire não suaviza o debate. Ele força o olhar para onde incomoda. E nesse incômodo, convida você a agir.

<><> Por que ainda te pedem para esquecer Paulo Freire?

Paulo Freire incomoda. Incomoda, porque sua pedagogia questiona a estrutura, a desigualdade e a lógica autoritária da escola tradicional. Não à toa, virou alvo da extrema direita. Mas quem leu “Pedagogia do Oprimido” sabe que o que ele propõe é diálogo, não doutrinação. Ignorar Freire é uma escolha. E quase sempre, essa escolha favorece quem prefere uma escola disciplinada, calada, voltada para desempenho — não para a consciência. Entender quem foi Paulo Freire é entender o que está em disputa quando se fala em educação no Brasil. Seu legado não é uma fórmula pronta. É uma ferramenta. E para quem vive à margem, a ferramenta é sobrevivência.

<><> Paulo Freire não é passado

Freire não virou símbolo à toa. O que ele escreveu não ficou parado nos anos 1960. Seu pensamento continua em disputa porque toca em feridas abertas: desigualdade, exclusão, autoritarismo. Ele falou de um país que ainda existe.

Não é sobre transformar todo professor em militante. É sobre entender que ensinar é um ato político. Que a escola pode ser reprodutora de injustiças ou espaço de formação crítica. E que decidir fingir neutralidade é, no fim, escolher um lado — mesmo sem admitir. Se hoje há quem queira apagar Freire do debate público, não é porque ele falhou. É justamente porque ele acerta demais. Por isso, você ainda precisa ler Paulo Freire. Não para concordar com tudo. Mas para entender o que está em jogo quando se fala de educação no Brasil. E para lembrar que a ignorância nunca é só falta de informação. Às vezes, é projeto.

 

Fonte: ICL Notícias


Trabalhar sentado pode causar trombose? Doença pode causar AVC e até amputação

A trombose é caracterizada pela formação de um coágulo dentro dos vasos sanguíneos que alteram o fluxo do sangue, gerando inchaço e dor nas regiões das coxas e pernas. Profissionais que permanecem por horas sentados na mesma posição são mais vulneráveis para a condição.

O alerta contra a doença ganha destaque nesta quarta-feira (16), considerado o Dia Nacional de Combate e Prevenção à Trombose.

Segundo dados do Ministério da Saúde, no primeiro semestre de 2025, o foram registrados mais de 36 mil casos da doença. Em 2024, mais de 75 mil registros da doença ocorreram no país.

Para o médico Herik Oliveira, especialista em Angiologia e Cirurgia Vascular pela Sociedade Brasileira de Angiologia e de Cirurgia Vascular (SBACV), a identificação dos sinais é importante para evitar a complicação da doença.

Dor súbita e intensa, inchaço rápido, perda de força ou sensibilidade devem ser avaliados por um médico.

"Ficar muito tempo sentado aumenta o fator de risco para a trombose, porque a falta de movimento impede a contração adequada das veias das pernas para aumentar o retorno de sangue dos pés das pernas por coração. Isso pode ocasionar um acúmulo de sangue nas veias e pode predispor ao maior risco da formação de trombo ou coágulo interior dessas veias, aumentando o risco de trombose", explica o médico.

A trombose é dividida em dois tipos: a arterial e a venosa. Ambas podem causar complicações sérias e até fatais aos pacientes.

<><> Quais são os sintomas da trombose arterial?

A trombose arterial ocorre quando o coágulo se forma em uma artéria e pode comprometer a circulação do sangue para os órgãos e extremidades do corpo.

"Os principais sintomas da trombose arterial são dor intensa no membro, formigamento ou parestesia, palidez, diminuição da temperatura nas extremidades, podendo os dedos ficarem com cor arroxeada, diminuição ou ausência dos pulsos arteriais no membro acometido e pode acontecer de haver paralisia e perda da força muscular", explica o médico.

Além da grande quantidade de tempo sentado, entre os principais fatores de risco para essa condição estão idade avançada, tabagismo, diabetes, hipertensão, níveis elevados de colesterol e triglicerídeos, aterosclerose, aneurismas, doenças autoimunes, distúrbios de coagulação, trombofilias, câncer e procedimentos endovasculares.

<><> O que é a trombose venosa?

A doença também pode ocorrer nas veias e é dividida em trombose venosa superficial, quando o coágulo se forma em veias localizadas abaixo da pele, e trombose venosa profunda (TVP), quando atinge veias profundas, geralmente localizadas nos músculos.

"Os sinais e sintomas que sugerem a trombose venosa são dor intensa no membro, de forma aguda, inchaço de início rápido, aumento da consistência ou volume muscular, dor à palpação no músculo, dor à palpação no trajeto das veias, dilatação das veias superficiais, e o inchaço geralmente é unilateral", alerta o médico.

A trombose venosa está associada a fatores como idade avançada, histórico pessoal ou familiar de trombose ou embolia pulmonar, imobilização prolongada, internação ou permanência no leito, cirurgias recentes, traumas, câncer, gravidez, período pós-parto, uso de anticoncepcionais com estrogênio, obesidade, trombofilias, varizes e viagens aéreas prolongadas.

<><> Complicações

Ainda de acordo com o especialista, complicações variam de acordo com o tipo de trombose.

"A trombose arterial pode complicar com isquemia e isso aumenta o risco de infarto, acidente vascular cerebral e insuficiência renal. Em alguns casos, há o risco de amputação nas extremidades dos membros", conta.

"Já a trombose venosa pode causar embolia pulmonar, além do surgimento de úlcera ou ferida na região do tornozelo e, a longo prazo, o paciente pode ter inchaço crônico no membro acometido pela trombose venosa", complementa o médico.

<><> Tratamento

O tratamento depende do tipo e da gravidade da doença.

Na trombose arterial, pode envolver anticoagulantes, medicamentos para controle do colesterol, como as estatinas, além do controle da hipertensão e do diabetes. Em determinados casos, é necessário realizar um procedimento para retirar o coágulo, como trombectomia ou embolectomia arterial. A intervenção pode ser feita com cateter e, em algumas situações, incluir a colocação de stents.

Na trombose venosa, o tratamento é geralmente clínico, com uso de anticoagulantes. Nos casos mais graves, pode ser necessária uma trombectomia venosa, realizada por meio de cateter para retirada do coágulo.

"Geralmente, esse paciente vai ter uma evolução benigna do quadro e necessita fazer o uso de anticoagulante por um período de, no mínimo, três a seis meses", complementa o médico.

<><> Quais são as formas de prevenção?

Pequenos cuidados na rotina ajudam a prevenir a trombose no cotidiano.

O Ministério da Saúde recomenda fazer atividades físicas de forma rotineira, além de ingerir bastante líquido.

  • praticar exercícios físicos regularmente;
  • evitar o consumo de álcool e tabagismo;
  • manter uma dieta equilibrada são as principais maneiras de prevenir a trombose.
  • Evitar o aumento do peso corporal.
  • Usar meias elásticas no caso de insuficiência venosa, sempre com orientação médica.
  • Movimentar-se ao máximo no dia, respeitando as limitações orientadas pela equipe de saúde.

O médico Herik Oliveira também afirma que, em casos de profissionais que trabalham por muito tempo sentado, é ideal que ele movimente a perna por 10 minutos a cada 1 hora. Se não for possível levantar para caminhar, movimentar ou massagear os membros.

"O uso de meia elástica de compressão também pode ser prescrita por um médico especialista em angiologia e cirurgião vascular em situações de risco como cirurgias e viagens longas", conclui o especialista.

¨      Consumo de ultraprocessados e sódio: saiba o impacto na saúde do coração

O consumo elevado de alimentos ultraprocessados, como refrigerantes, biscoitos recheados, embutidos e refeições prontas, é um dos principais fatores associados ao aumento do risco de desenvolvimento de problemas cardiovasculares, associados, principalmente, ao sódio presente nesses produtos.

De acordo com o American Heart Association, quando ingerido além da conta, o sódio passa a atuar diretamente no aumento da pressão arterial, sobrecarregando o músculo cardíaco e elevando o risco de doenças graves.

<><> A relação entre o sódio e o coração

O excesso de sódio na corrente sanguínea atrai água para dentro dos vasos sanguíneos, aumentando a quantidade de sangue dentro deles. Quando mais sangue flui pelos vasos, a pressão arterial aumenta. O aumento do fluxo sanguíneo também faz o coração trabalhar mais para bombear mais sangue pelo corpo.

Com o tempo, a pressão alta pode esticar demais ou lesionar as paredes dos vasos sanguíneos e acelerar o acúmulo de placas que podem bloquear o fluxo sanguíneo.

<><> Hipertensão Arterial

O risco de desenvolver hipertensão arterial entre os brasileiros está ligado ao consumo de ultraprocessados, segundo um estudo liderado pela pesquisadora Patricia de Oliveira da Silva Scaranni e publicado na revista Public Health Nutrition, que utilizou dados do ELSA-Brasil (Estudo Longitudinal de Saúde do Adulto).

Os pesquisadores analisaram 8.754 participantes entre 35 e 74 anos que não apresentavam diagnóstico prévio de hipertensão, por um período médio de 3,9 anos. Os resultados apontaram que os ultraprocessados representam, em média, 25,2% de toda a energia diária consumida pela população estudada.

Os participantes com maior consumo de ultraprocessados apresentaram um risco até 23% maior de desenvolver hipertensão arterial em comparação com aqueles com menor consumo.

O estudo também relacionou a elevada presença de sódio, aditivos químicos e gorduras saturadas nesses produtos ao enrijecimento precoce das artérias, elevando a pressão sobre as paredes dos vasos sanguíneos.

<><> Como evitar excesso de ultraprocessados e sódio

As dicas abaixo podem te ajudar a controlar o consumo de sódio e manter hábitos mais saudáveis.

  • Cozinhe mais refeições em casa.
  • Tempere sua comida com ervas e especiarias em vez de apenas sal.
  • Enxágue alimentos em conserva para remover o excesso de sódio.
  • Leia o rótulo de Informação Nutricional de alimentos semelhantes e compare o teor de sódio por porção. Escolha aqueles com a menor quantidade de sódio.
  • Procure alimentos rotulados como "livre de sódio", "baixo teor de sódio" ou "sódio reduzido".

 

Fonte: CNN Brasil

 

Censura durante a ditadura: controle, medo e resistência

A censura foi uma das marcas mais profundas da ditadura militar no Brasil. Junto à repressão política, o regime silenciou sistematicamente a arte, a imprensa e o pensamento crítico. Músicas, filmes, livros e jornais foram vetados, modificados ou proibidos.

Embora não inédita na história brasileira, a censura ganhou novos contornos durante o regime: mais ampla, institucionalizada e moralizante. O Estado usou esse controle para forjar uma aparência de estabilidade e sufocar a oposição e a diversidade de pensamento.

Neste artigo, vamos explorar os mecanismos de censura implantados pela ditadura, sua importância para a sustentação do regime e as estratégias criativas usadas por artistas e jornalistas para resistir ao silenciamento.

<><> Como funcionava a censura durante a ditadura militar brasileira?

A censura foi uma estratégia central do regime para controlar a informação, moldar o discurso público e impedir críticas. Por meio de medidas legais e práticas autoritárias, o Estado atuou sobre jornais, músicas, filmes, novelas e qualquer produção considerada “subversiva” ou ofensiva à “moral e os bons costumes”.

<><> A censura como instrumento político e moral

A censura impedia críticas, denúncias de corrupção, retratos da desigualdade social e temas como racismo, emancipação feminina, luta de classes e sexualidade. Tudo isso era enquadrado como ameaça à moral e aos bons costumes e potencialmente nocivo à coesão social. O objetivo era impor uma visão única, conservadora e patriótica.

Durante a ditadura, a censura adquiria uma caraterística de polícia política, mas também moral. É preciso lembrar que diversos setores da direita e conservadores apoiaram a tomada de poder pelos militares.

Todo o controle da informação feito pelos órgãos censores do Estado colaborava para criar uma narrativa única sobre o cenário do país. Foi essa manipulação que permitiu a consolidação de mitos como o “milagre econômico” e a narrativa de que não havia corrupção no período.

<><> Quais eram os mecanismos de censura durante a ditadura militar no Brasil?

A censura foi uma peça-chave no funcionamento da ditadura militar que durou 21 anos no Brasil.  Após o golpe de 1964, repressões à imprensa e a cultura aumentaram, mas foi a partir de 1967, com a Lei de Censura à Imprensa, que o regime estruturou legalmente os mecanismos de controle.

Antes disso, a censura se dava por meio de batidas policiais, apreensão de materiais e ameaças físicas. Entre 1964 e 1968, o editor Ênio Silveira, foi preso diversas vezes e teve a editora Civilização Brasileira, a qual era dono, invadida em diversas oportunidades. Com o tempo, a ditadura buscou dar aparência legal às práticas de censura, ampliando sua sofisticação e alcance.

<><> Lei nº 5.250 (Lei de Censura à Imprensa)

Sancionada por Castello Branco em 1967, a Lei nº 5.250, também conhecida como Lei de Censura à Imprensa, regulava a liberdade de expressão, proibindo conteúdos considerados subversivos ou ofensivos à moral e aos bons costumes.

<><> Ato Institucional Nº 5 (AI-5)

Publicado em 1968, o AI-5 ampliou os poderes da ditadura: fechou o Congresso, suspendeu o habeas corpus, institucionalizou a tortura e intensificou a repressão e a censura.

No livro 1968: o Ano Que não Terminou, o jornalista Zuenir Ventura estima que, nos dez anos em que o AI-5 esteve em vigor, houve a censura de “cerca de 500 filmes, 450 peças de teatro, 200 livros, dezenas de programas de rádio, cem revistas, mais de 500 letras de música e uma dúzia de capítulos e sinopses de telenovela”.

<><> Decreto-Lei nº 1.077/70 (Decreto Leila Diniz)

O decreto foi publicado dois meses após uma entrevista de Leila Diniz ao jornal O Pasquim, onde a atriz falou abertamente sobre amor livre, sexo e maconha. O conteúdo provocou forte reação dos militares. Foi após essa lei que as redações de jornais e revistas passaram a contar com censores oficiais.

<><> Autocensura

Além da repressão direta, muitos jornalistas e artistas passaram a evitar certos temas por medo de represálias. A autocensura tornou-se reflexo da vigilância constante e da insegurança instaurada.

<><> Quais eram os órgãos censores da ditadura militar?

Durante a ditadura militar, a vigilância e a repressão a opositores contaram com a atuação direta de órgãos como o DOPS, o DOI-CODI e os departamentos de inteligência das Forças Armadas.

Mas, além disso, diversos órgãos foram criados ou tiveram estruturas adaptadas para realizar a censura institucionalizada e sistemática à cultura e à imprensa:

  • Serviço Nacional de Informações (SNI): embora sua função principal fosse a coleta de dados e inteligência, teve papel central na criação da imagem pública da ditadura militar. O SNI desempenhava a manipulação e censura da mídia, colaborando para a propaganda estatal.
  • Divisão de Censura de Diversões Públicas (DCDP): vinculada ao Ministério da Justiça, era responsável por analisar e vetar conteúdos culturais como filmes, músicas, peças de teatro, novelas e programas de TV.
  • Conselho Superior de Censura: criado em 1976 para tentar padronizar critérios entre os censores e dar uma aparência técnica às decisões. Quando algum artista discordava de uma censura era necessário entrar com um recurso no órgão.

<><> O papel dos censores

Os censores oficiais eram servidores públicos com status de policiais federais. O cargo exigia curso superior e o órgão promovia treinamentos para refinar o julgamento dos funcionários.

Após a revogação do AI-5, em 1978, embora a censura política tenha diminuído, a censura moral se intensificou, especialmente sobre livros. Segundo a professora Sandra Ramão, em artigo publicado na Revista de Estudos Avançados da USP, uma das hipóteses para isso é de que, nesse período, a censura intensificou ainda mais a vigilância moral.

Em 1981, Solange Hernandes assumiu a chefia da DCDP e intensificou o trabalho de censura do órgão. Para ironizar a atuação da censora, em 1985 o cantor Leo Jaime lançou a música Solange, uma adaptação da música So Lonely, da banda britânica The Police.

<><> Criatividade e resistência para driblar a censura durante a ditadura

Durante a censura na ditadura militar no Brasil, artistas e jornalistas criaram formas criativas de resistência. A imprensa alternativa, as metáforas na música e o teatro engajado driblavam a censura estatal e mantinham vivas a crítica e a liberdade de expressão em meio à repressão autoritária.

<><> A imprensa que não se calou

A censura durante a ditadura militar no Brasil atingiu diretamente a imprensa, a cultura e a produção intelectual. Inicialmente, grande parte da mídia apoiou o regime, posição que só mudou após os rumos da gestão militar despertarem incômodo em setores do empresariado brasileiro.

Nesse contexto, surgiram publicações alternativas e clandestinas. Os jornais clandestinos, em geral ligados a grupos políticos, foram duramente reprimidos. Já a imprensa alternativa ganhou força com publicações como a revista Pif-Paf, criada por Millôr Fernandes e que contou com nomes como Ziraldo, Jaguar e Fortuna. A publicação foi encerrada após uma edição na qual Millôr provocou o regime ao alertar que o país poderia “cair numa democracia” caso conteúdos como aquele fossem permitidos.

Outros veículos, como Movimento, O Pasquim, Jornal da Amazônia e O Lampião da Esquina — voltado ao público gay — desafiaram o autoritarismo. Chargistas como Henfil e Laerte também utilizaram o humor gráfico como forma de resistência.

Mesmo na grande imprensa, houve enfrentamento: jornalistas desafiaram a censura e enfrentaram prisões, perseguições e até a morte, como no emblemático caso de Vladimir Herzog.

<><> Metáforas e entrelinhas como forma de protesto na música

A partir de 1964, a censura da ditadura militar impôs uma nova realidade para os artistas. Produtores de teatro, compositores, cantores e cineastas precisaram encontrar formas de driblar a repressão. O uso de recursos de linguagem, como as metáforas, passou a ser explorado.

Na música, diversos compositores tiveram suas canções censuradas, como Geraldo Vandré, Chico Buarque, Rita Lee e Gilberto Gil. Mas com o tempo, para driblar a censura, os artistas passaram a adotar algumas técnicas, entre elas incluir uma canção crítica na mesma pasta em que estavam as letras de compositores considerados “neutros”.

Foi assim que o compositor Paulo César Pinheiro conseguiu lançar a música “Pesadelo”, que entre outras mensagens, tinha o verso “Você corta um verso, eu escrevo outro / Você me prende vivo, eu escapo morto”. Outras músicas também ganharam repercussão, como a canção “Cálice”, de Gilberto Gil e Chico Buarque, que se aproveitava do duplo sentido da palavra para criticar o “Cale-se” imposto pela ditadura.

<><> Conheça 5 canções que foram censuradas durante a ditadura militar

A música foi um dos campos mais férteis de resistência à repressão. Abaixo, listamos sete canções emblemáticas que foram censuradas por afrontarem o regime ou por tratarem de temas considerados “subversivos”, “imorais” ou “perigosos” pelos censores.

  • “Pra Não Dizer Que Não Falei das Flores” – Geraldo Vandré (1968): hino informal da resistência, foi vetada por exaltar a luta popular contra o regime e se tornar um símbolo dos movimentos de combate à ditadura.
  • Comportamento Geral (1973) – Gonzaguinha: criticava a passividade social e a alienação induzida pela ditadura e teve a exibição proibida pelos militares.
  • Cor de Rosa Choque (1981) – Rita Lee: inicialmente com o nome As Duas Faces de Eva, a música fala sobre a força das mulheres, mas foi acusada de ferir a moral e os bons costumes por um verso em que Rita Lee menciona a menstruação.
  • Que as Crianças Cantem Livres (1973) – Taiguara: a música trazia críticas à repressão e à falta de liberdade, especialmente à infância e juventude.
  • Tiro ao Álvaro – Adoniran Barbosa e Elis Regina (1973): a música foi censurada por desrespeitar as normas gramaticais e ser vista como “linguagem inadequada”, revelando o nível absurdo do controle

<><> O teatro e o cinema como trincheiras

O teatro e o cinema também foram alvos da censura durante a ditadura militar. Zé Celso, do Teatro Oficina, usou a linguagem experimental como crítica ao regime e foi preso, torturado e exilado. Já Augusto Boal, do Teatro de Arena, dirigiu peças como Arena Conta Zumbi, escrita com Gianfrancesco Guarnieri e com música de Edu Lobo. Exilado, Boal desenvolveu o Teatro do Oprimido, propondo a prática teatral como instrumento de transformação social.

No cinema, diversos filmes recebiam investimento estatal, mostrando que a ditadura buscava perpetuar sua narrativa também nas produções audiovisuais. Ainda assim, surgiram filmes que desafiaram o regime. Terra em Transe (Glauber Rocha), Cabra Marcado Para Morrer (Eduardo Coutinho) e Pra Frente, Brasil! (Roberto Farias) confrontaram a narrativa oficial e trataram de temas como a desigualdade social e econômica.

<><> O fim da censura e a redemocratização

O fim da censura no Brasil está diretamente ligado ao processo de redemocratização iniciado ainda nos anos 1980. Com o desgaste do regime militar, a pressão social por liberdades democráticas se intensificou. Movimentos sociais, setores da Igreja, da imprensa e da cultura tiveram papel decisivo ao exigir eleições diretas, anistia aos perseguidos políticos e o fim das restrições à liberdade de expressão.

Foi com o governo Sarney, em 1985, que se iniciou o desmonte do aparato autoritário. Mas somente após a promulgação da Constituição de 1988, que a liberdade de expressão e de imprensa foi garantida de forma plena e a livre manifestação do pensamento restaurada.

No entanto, a Lei Nº 5260/67, conhecida como Lei de Censura à Imprensa, continuou a constar no ordenamento jurídico brasileiro até 2009, quando foi considerada inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF).

<><> Por que não devemos esquecer da censura durante a ditadura militar brasileira?

Lembrar a censura imposta pela ditadura militar é essencial para compreender como o silenciamento da arte, da imprensa e da crítica foi usado como ferramenta de dominação e de construção de uma narrativa idealizada do período.

O Brasil nunca enfrentou seu passado autoritário. Os militares foram anistiados pelos crimes que cometeram; a tortura, o assassinato e o desaparecimento de opositores foi por muito tempo ignorado. Se hoje, de tempos em tempos, o monstro do autoritarismo volta para nos assombrar, é porque os horrores do período ainda são relativizados.

Ignorar esse passado é abrir espaço para que discursos autoritários se normalizem, disfarçados de moral ou ordem. A mesma moral e ordem que promoveu 21 anos de repressão, violência e aprofundamento de desigualdades sociais. Preservar a memória histórica é uma forma de resistência e um alerta permanente de que, se hoje a liberdade de expressão pode ser defendida, é por que durante a ditadura muita gente lutou — e morreu — para que ela pudesse ser conquistada.

A ditadura militar no Brasil foi um período complexo e sua história é cercada por narrativas revisionistas e tentativas de esconder a verdade. Quer saber o que muitos tentam negar? Assinando a plataforma do ICL você tem acesso a diversos filmes, documentários e cursos sobre o período, com uma visão crítica e provocadora.

 

Fonte: ICL Notícias