Um
retrato da Teologia do Domínio no Brasil
A
Teologia do Domínio é um projeto de poder. Ela afirma que são necessários sete
“montes” (ou montanhas) para consolidar o domínio sobre a realidade de um país,
o que nos evoca pelo avesso a Montanha dos Sete Patamares de Thomas Merton.
Vamos refletir sobre cada um desses “montes” e como a narrativa desse grupo
evangélico, secundado por setores católicos, vai se estabelecendo na prática
aqui no Brasil, mesmo que gerando profundas contradições.
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Monte da família
A
conquista da família é o primeiro passo, a base de uma nova sociedade. Essa é a
conquista primeira e a mais importante.
Quem
trabalha nas bases da sociedade brasileira (tenho 50 anos trabalhando nas
questões socioambientais a partir das pastorais, como CPP e CPT) sabe o quanto
o Brasil mudou com a razia feita nas bases da sociedade brasileira, alterando
profundamente seus valores. A maioria das igrejas evangélicas é feita de
pessoas simples, bons vizinhos, de bom trato, porém, vivendo uma
espiritualidade de bolha, que não tem interferência nas causas socioambientais
coletivas. Estão em nossas vizinhanças, nos cumprimentam, porém, se precisar de
alguma tarefa coletiva na rua, eles não comparecem, principalmente se tiver
pessoas de outras religiões. Esses novos valores, de grupo, de bolha, causaram
um destroço nas bases sociais do Brasil e da Igreja Católica. Entretanto, o grande
avanço evangélico nas bases sofreu abalos, diminuiu o avanço, sete milhões
abandonaram as igrejas de bairros, exatamente por não concordarem com a
submissão de seus pastores aos projetos bolsonaristas, a encarnação da Teologia
do Domínio no Brasil. Muitos pastores mais lúcidos percebem esse estrago nas
bases do próprio mundo evangélico.
Esse
grupo evangélico é secundado por grupos católicos de extrema-direita, que
promovem grandes eventos, condenam publicamente um comunismo imaginário, mas
são incapazes de olhar o tipo de sociedade capitalista que devora florestas,
águas e a riqueza nacional em favor de uma minoria que vive nababescamente às
custas dos mais empobrecidos e vulnerabilizados. Nesse sentido, a Teologia do
Domínio funciona como um Cavalo de Tróia nas periferias brasileiras, isto é,
aonde a ideologia neoliberal não consegue chegar por seus próprios meios, chega
através da religião.
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A religião
O
segundo monte é a “religião”. Na verdade, ela é a primeira. É preciso o domínio
das consciências, moldando-as conforme os princípios dessa teologia. O lema
básico é Deus, Pátria e Família. Nessa lógica, o grande inimigo é a Igreja
Católica, mas também outras religiões, como as de matriz africana. Por ser a
mais numérica, a católica precisa ser atacada e destruída. A pastora afirmou em
sua pregação: “eu profetizo a queda da Igreja Católica” (Ana Paula Valadão). É
nesse sentido que precisam ser entendidos os ataques à CNBB e a Nossa Senhora
Aparecida.
O ponto
mais vulnerável do catolicismo é a Piedade Popular, por isso o mais visado, com
seus santos, suas devoções aos santos e Maria, suas imagens e sua pouca base
bíblica. Despreparados, os católicos não sabem como reagir quando chamados de
idólatras, adoradores de ídolos, que o Papa tem o número do anticristo, assim
por diante. Como exemplo, no interior da Bahia, ainda na década de 80, um
“paulista” que voltava de São Paulo para Campo Alegre de Lourdes trouxe um saco
de imagens de gesso na bagagem. Um dia chamou a comunidade para um ato de
demonstração e quebrou imagem por imagem na paulada, mostrando à comunidade que
o que elas adoravam era apenas um bloco de gesso. O estrago foi enorme, o medo,
o pavor.
Durante
a preparação para o Sínodo para a Amazônia, num evento preparatório em Macapá,
o coordenador dos Terreiros da Amazônia pediu socorro à Igreja Católica pelos
ataques feitos por membros de igrejas evangélicas. Ele temia até pela vida dos
membros dos terreiros. Assim mostrava que a intolerância não tinha limites.
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A conquista do Estado (a política)
O
controle do mundo político, portanto a conquista do Estado, é um dos montes
essenciais dessa teologia-política do domínio. Penetrar no Estado, ter o
controle tanto do executivo, como do judiciário, como do legislativo, em
qualquer uma de suas esferas. Assim entendemos no Brasil a bancada evangélica,
a presença de um pastor presbiteriano no STF — quando a primeira-dama da época
entrou em transe em público —, a luta incessante para conquistar a Presidência
da República. E há a contrapartida, de políticos que bebem nessa fonte,
têm as igrejas como palanques e currais, e se candidatam em nome de Deus,
Pátria e Família.
Aqui
deve ser entendida a frase de um candidato, quando ele afirmou que a primeira
coisa a fazer quando eleito seria “decretar que o Brasil é do Senhor Jesus
Cristo”. É uma frase aparentemente religiosa, mas que se destina a arrecadar
votos nos meios evangélicos adeptos dessa teologia. A frase é entendida por
muitos como um “apito de cachorro”, isto é, aquele tipo de som que os humanos
não ouvem, mas os caninos sim. Portanto, ela funciona como start para os
entendidos do esquema, isto é, era hora de atacar a Igreja Católica para ganhar
as eleições.
Aqui
também pode ser entendida toda aversão a Nossa Senhora Aparecida, ora
considerada um “demônio de azul”, ora chutada, ora queimada nas praças. É toda
semiótica religiosa, tanto católica como de terreiros, sendo chutada por outra
cosmovisão. Por isso, essa teologia se faz intolerante, agressiva e se pretende
única num universo religioso tão plural quanto é o Brasil.
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A educação
O
controle do saber se torna fundamental, baseado em outros valores
individualistas e pretensamente cristãos. Essa proposta se aproxima do
“Iluminismo Sombrio” (Curtis Yarvin), um recuo na história. Daí a privatização
das escolas públicas, a destruição das universidades públicas, o combate à
pedagogia de Paulo Freire, o ensino privado dentro de casa, o combate à
ciência, a toda forma de saber que não comunga com essa visão de mundo.
Portanto, nada do que eles propõem é por acaso; ao contrário, faz parte de um
plano de controle do saber e das consciências de uma população de 214 milhões
de habitantes. Pensar sempre foi o maior perigo para quem pretende controlar as
massas humanas.
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A mídia
Aqui a
proposta de controlar os meios de comunicação, as plataformas digitais, a
internet, toda forma de divulgação de conteúdos. Assim podemos entender o
domínio sobre as rádios comunitárias, a compra da TV Record por 45 milhões de
dólares ainda em 1989, o livro “Plano de Poder: Deus, os Cristãos e a Política”
(Edir Macedo), o financiamento de inúmeros programas de rádio e TV, o uso dos
robôs, algoritmos e agora da IA na produção de conteúdos tantas vezes sem
fundamento ou absolutamente construídos como fake news. O controle da
informação é fundamental e pode se situar no exterior, através das plataformas
e portais de internet que alimentam o mundo da contrainformação e desinformação
tão presentes no mundo contemporâneo. Mais que nunca, o “divide et impera”
reina sobre o mundo das comunicações.
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Negócios
Vamos
relembrar Max Weber, no seu” A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo”,
quando ele registra que essa ética é o fundamento do capitalismo. Aí ele situa
a doutrina da predestinação de Calvino como o fundamento por excelência desse
espírito. Na interpretação dele, já que segundo Calvino as pessoas já nascem
predestinadas à salvação ou à condenação, o que resta é descobrir em qual
desses destinos o simples mortal humano está situado. E qual é um dos sinais
que revela se a pessoa está condenada ou salva? Exatamente o acúmulo de
riquezas oriundas do trabalho feito com dedicação. Portanto, a riqueza
acumulada não é só para a vida ser gozada aqui e agora, mas também como um
indicativo de que essa pessoa está predestinada à salvação. O fato de enriquecer-se,
poupar, gera o espírito acumulativo do capitalismo. Depois o mundo secularizado
vai abandonar a dimensão religiosa e ficará só com o espírito acumulativo e
usufruidor do capitalismo.
Nesse
sentido, o mundo dos empreendimentos evangélicos, desde os mais simples até os
mais sofisticados, é lido nessa perspectiva de bênção ou maldição. Não há um
comentário sobre o enriquecimento à base da corrupção, nem afirmativo, nem
negativo.
Daí o
desenvolvimento de uma “espiritualidade” individualista, no máximo de grupo
eclesial, mas que não comunga as lutas sociais, nem a justiça, nem uma
sociedade mais equitativa, mas somente a riqueza pessoal e, no máximo,
familiar. Essa espiritualidade acaba sendo antissolidária e se reflete na
prática de tantos grupos que não querem participar das lutas sociais e
políticas para emancipar as classes mais vulneráveis, oprimidas ou
marginalizadas.
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Cultura (artes, entretenimento, etc).
Segundo
o entendimento desse setor evangélico, a arte e a cultura estão dominadas pela
esquerda. É preciso combater esse predomínio da esquerda e fomentar a cultura
centrada nos valores da direita, que eles julgam ser o espírito bíblico. Daí
que podemos entender perfeitamente o ataque a Paulo Freire, a Gramsci, a Chico
Buarque, Caetano Veloso e toda ênfase no mundo das canções sertanejas e o
chamado Gospel, tanto de origem evangélica como de origem católica.
Os
sertanejos têm laços profundos com financiamentos da direita, elos com
prefeituras ligadas ao agronegócio, aos rodeios, e suas canções falam
invariavelmente de bebida, mulheres na visão machista, traições e casos banais,
de forma repetitiva e insistente. Um analista desse mercado do streaming
musical nos disse que é preciso começar com 500 mil reais para que uma canção
dessas comece a fazer sucesso.
O mesmo
acontece com o gospel, tanto evangélico como católico. É um mercado poderoso
baseado em religião, uma espécie de show business religioso, com cachês caros,
normalmente bancados por prefeituras ou dinheiro público. As letras são
invariavelmente compostas na primeira pessoa, subjetivistas, repetindo palavras
invariáveis e genéricas como aleluia, glória, amém. Não tocam no solo pedregoso
da vida e evitam qualquer comprometimento com causas sociais, ambientais,
solidárias e justas. As multidões acorrem a esses eventos e eles se tornaram o
“rosto visível” tanto do mundo evangélico como católico.
Claro
que há outras igrejas evangélicas e há um pequeno resto católico nas
periferias, no anonimato, nas durezas das condições do povo, que tantas vezes
não tem dinheiro sequer para o deslocamento para uma comunidade distante, ou
para fazer um evento simples de formação. Quando acontecem, é pelo processo de
solidariedade (vaquinha) da própria comunidade.
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O futuro
Embora
o Magistério da Igreja Católica tenha reforçado o compromisso com os
empobrecidos e descartados, com a paz, com a justiça, com o ambiente, com os
valores fundamentais do Evangelho, embora haja nessa mesma linha um conjunto de
pastores, pastoras e comunidades evangélicas inseridas, o projeto de poder da
Teologia do Domínio continua e está sendo aplicado no Brasil. Sempre resta a
esperança de que o Evangelho verdadeiro triunfe. Todo projeto com pretensões
ditatoriais gera suas contradições e seus contraditores. Porém, não podemos
perder de vista essa luta pelo poder por grupos religiosos de maioria
evangélica, secundados por amplos grupos católicos. Eles estão a serviço da
direita nacional e internacional, com um projeto de poder autoritário que será uma
tragédia imprevisível caso esse projeto venha se abater novamente sobre o povo
brasileiro.
Fonte:
Por Roberto Malvezzi (Gogó), em Outras Palavras




