segunda-feira, 20 de abril de 2026

Eleições: a direita quer nova avenida para as fake news

Em dezembro de 2023, enquanto o Supremo Tribunal Federal ainda ecoava a decisão que responsabilizaria veículos jornalísticos por danos decorrentes de entrevistas com falsas imputações criminais, o senador Rogério Marinho (PL-RN) protocolava no Senado Federal uma Proposta de Emenda à Constituição que, em sua brevidade, carrega consequências de longo alcance. A PEC 67/23 propõe acrescentar o §7º ao artigo 220 da Constituição Federal para estabelecer que “veículo de comunicação não responde civilmente quando, sem emitir opinião, veicule entrevista na qual é atribuído, pelo entrevistado, ato ilícito a determinada pessoa”.

A proposição dormitou por mais de dois anos nas gavetas do Congresso, com pouca visibilidade. No dia 8 de abril, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) do Senado aprovou seu texto por unanimidade. A PEC segue agora para votação em dois turnos no plenário do Senado, de onde, se aprovada, será remetida à Câmara dos Deputados. É preciso compreender o que está em jogo, porque este tema vai muito além de uma defesa da liberdade de imprensa, como quer fazer crer o parlamentar responsável pelo programa de governo do candidato da extrema direita à Presidência da República. E se torna ainda mais nociva em meio aos embates de um ano eleitoral.

>>> Decisão a ser enterrada

Para entender o alcance da proposta, é indispensável revisitar o Tema 995 do Supremo Tribunal Federal (STF), cuja tese foi fixada em 29 de novembro de 2023 e aperfeiçoada por unanimidade nos embargos de declaração julgados em 20 de março de 2025 — consolidando o entendimento vigente. O Supremo fixou que a proteção constitucional à liberdade de imprensa se consagra pelo binômio liberdade com responsabilidade, vedada a censura prévia, mas admitida a responsabilização posterior. No caso específico de entrevistas em que o entrevistado imputa falsamente a prática de crime a terceiro, a empresa jornalística somente poderá ser responsabilizada civilmente se comprovada sua má-fé, caracterizada por: (i) dolo — conhecimento prévio da falsidade da declaração; ou (ii) culpa grave — evidente negligência na apuração da veracidade do fato, sem que o veículo tenha buscado o contraditório ou oferecido resposta ao ofendido. Entrevistas ao vivo merecem tratamento ainda mais restritivo: nelas, o veículo fica isento de responsabilidade por declarações feitas exclusivamente pelo entrevistado, desde que assegure o direito de resposta em iguais condições, espaço e destaque.

Trata-se de um equilíbrio cuidadosamente construído pela mais alta Corte do país, pois, nesses casos, não há censura prévia, mas há responsabilidade posterior quando o veículo age com negligência diante de evidências de falsidade disponíveis no momento. É um padrão compatível com democracias consolidadas ao redor do mundo. Mas a PEC de Marinho não dialoga com essa ponderação. Ela a suprime. Ao gravar na Constituição a imunidade civil irrestrita dos veículos, elimina precisamente os requisitos que o STF estabeleceu como condição para a responsabilização civil — a prova de má-fé do veículo, caracterizada por dolo ou culpa grave na apuração e divulgação dos fatos. A PEC transforma a Constituição em instrumento de salvo-conduto para a divulgação negligente de acusações falsas, desde que o veículo não emita, formalmente, uma opinião.

>>>> Ampliação tentada e rechaçada

O problema que se avizinha poderia ter sido ainda maior. No curso do processo legislativo da PEC, o senador Marcos Rogério (PL-RO) apresentou a Emenda nº 1, que pretendia ir muito além do texto de Marinho, porque buscava incluir regras sobre a responsabilidade de provedores de aplicações de internet e tipificar como crime a censura prévia a manifestações do pensamento. Esse texto constitucionalizaria, na prática, a lógica do artigo 19 do Marco Civil da Internet — aquele mesmo dispositivo que o STF declarou parcial e progressivamente inconstitucional em junho de 2025, por maioria de oito votos a três, ao reconhecer que a imunidade irrestrita das plataformas por conteúdos de terceiros era incompatível com a ordem constitucional brasileira. O senador Hamilton Mourão (Republicanos-RS) apresentou a Emenda nº 2, que tratava de competência jurisdicional por prerrogativa de função, matéria sem qualquer relação temática com a proposição original.

A CCJ rejeitou as duas emendas. O relator, senador Oriovisto Guimarães (PSDB-PR), argumentou que a emenda de Marcos Rogério tratava de matéria consideravelmente mais complexa que o texto original e inviabilizaria uma análise cuidadosa do mérito. A emenda de Mourão foi rejeitada com base no artigo 230 do Regimento Interno do Senado, pela ausência de pertinência temática.

A rejeição das emendas, contudo, não deve ser lida como recuo do bloco que as subscreveu. Ela representa, antes, uma decisão tática de avançar primeiro com o núcleo da proposta — a imunidade civil da mídia tradicional —, preservando o terreno para que a extensão às plataformas seja disputada em outro momento, seja via PEC autônoma, seja na tramitação de futuros projetos de regulação digital. É importante ter isso em mente para que o oportunismo estratégico não se confunda com abandono do objetivo final para as empresas de tecnologia estrangeiras.

>>>> Veículos de comunicação não são plataformas

A rejeição da emenda de Marcos Rogério pela CCJ não elimina o problema analítico que ela carregava. Ao contrário, torna-o mais nítido. Ao tentar estender a imunidade civil dos veículos de comunicação aos provedores de aplicações de internet, a emenda pressupunha que essas categorias são juridicamente equiparáveis para fins de responsabilidade por conteúdo de terceiros. Essa equiparação é insustentável do ponto de vista constitucional — e sua aceitação acrítica comprometeria não apenas a coerência do sistema normativo, mas a efetividade dos direitos fundamentais em colisão.

O veículo de comunicação tradicional — jornal, emissora de rádio ou televisão — exerce uma função editorial ativa e deliberada. Ele seleciona pautas, define enquadramentos, escolhe entrevistados, edita falas e decide o que vai ao ar ou à página. Essa curadoria editorial é o núcleo de sua atividade e o fundamento de sua proteção constitucional específica no artigo 220 da Constituição Federal. É exatamente por isso que o STF, no Tema 995, não eximiu os veículos de qualquer responsabilidade, mas calibrou essa responsabilidade ao grau de diligência exercida. Se havia indícios de falsidade e o veículo os ignorou, há negligência editorial punível. A liberdade de imprensa pressupõe um setor que, ao menos em alguma medida, responde pelas notícias que difunde.

Por sua vez, o provedor de aplicação de internet opera sobre fundamento estruturalmente distinto, apesar de guardar similaridades com a imprensa tradicional. O artigo 19 do Marco Civil da Internet, ao ser sancionado em 2014, adotou o modelo da imunidade condicionada à ordem judicial, fazendo com que a plataforma só respondesse por conteúdo de terceiro se, após receber ordem judicial específica de remoção, deixasse de cumpri-la — não se tratava de mera notificação extrajudicial, mas de provimento jurisdicional formal. A lógica era a de que as plataformas seriam meros dutos neutros de comunicação, incapazes de controlar ex ante o volume massivo de conteúdo gerado por seus usuários. Tratava-se de uma ficção que o tempo tratou de revelar, pois as plataformas não são neutras. Seus algoritmos de recomendação amplificam ativamente determinados conteúdos, seus sistemas de monetização incentivam o engajamento por indignação e conflito, e suas decisões de moderação e difusão são, em si mesmas, atos editoriais com consequências políticas e sociais mensuráveis.

Foi precisamente esse hiato entre a ficção normativa da neutralidade e a realidade do funcionamento algorítmico que levou o STF a declarar parcial e progressivamente inconstitucional o artigo 19 do Marco Civil — decisão tomada por maioria de oito votos a três, com três ministros votando pela validade do dispositivo. A tese de repercussão geral fixada pelo Supremo reconheceu que a imunidade irrestrita das plataformas era incompatível com a tutela constitucional da dignidade da pessoa humana e dos direitos da personalidade, impondo-lhes um dever de cuidado proporcional ao seu poder de amplificação de danos. Vale registrar que o STJ, em setembro de 2025, sinalizou que a tese ainda não teria força vinculante plena enquanto não transitasse em julgado no STF, gerando uma camada adicional de incerteza jurídica sobre a efetividade imediata da decisão nas instâncias inferiores. A emenda rejeitada pela CCJ tentava justamente reconstituir, pela via constitucional, o que o Supremo havia derrubado como dispositivo inconstitucional. Sua rejeição no colegiado foi fundamentada em critérios regimentais e de pertinência temática — o que não significa que o mérito foi apreciado ou que a tentativa não se repetirá.

O texto da PEC que segue ao plenário do Senado, mesmo sem a extensão às plataformas, já confunde implicitamente os dois regimes ao utilizar o argumento da liberdade de imprensa para blindar veículos de qualquer responsabilidade editorial, independentemente da diligência exercida. Mas fica uma pergunta que não pode ser ignorada: as plataformas digitais podem invocar o futuro texto constitucional para escapar da responsabilização civil? A resposta exige distinguir três vetores com horizontes temporais distintos.

<><> Vetor 1

— Invocação direta do §7º pelas plataformas. O texto proposto contém dois bloqueios que dificultam a invocação direta pelas plataformas. O primeiro é o substantivo “entrevista”. Em uso jurídico e jornalístico consolidado no direito brasileiro, o termo designa conteúdo deliberadamente produzido ou comissionado por um veículo, com estrutura de pergunta e resposta. Um post, um vídeo de usuário, uma thread — nenhum desses é uma “entrevista veiculada pelo veículo” no sentido constitucional que o §7º contempla. O segundo bloqueio é topográfico, já que o §7º estaria inserido no Capítulo V do Título VIII da Constituição, “Da Comunicação Social”, historicamente interpretado com referência à imprensa e às mídias de massa tradicionais. A ADPF 130, que julgou inconstitucional a Lei de Imprensa, é o precedente mais direto dessa tradição interpretativa; o RE 511.961, embora trate da liberdade de exercício profissional do jornalismo — e não diretamente do escopo subjetivo do art. 220 — também orbita esse mesmo universo doutrinário. Por essas razões, a invocação direta do §7º por uma plataforma — “somos um veículo de comunicação e veiculamos entrevistas, logo somos imunes” — teria alta probabilidade de rejeição judicial perante o STF atual.

<><> Vetor 2

— Uso analógico como princípio interpretativo. Este é o vetor mais subestimado. Independentemente de uma invocação direta, a existência do §7º no texto constitucional fornece às plataformas um argumento de interpretação sistêmica relevante em qualquer litígio de responsabilidade civil por conteúdo de terceiro. Se a Constituição protege veículos que transmitem declarações de terceiros sem emitir opinião, a mesma lógica protetiva deveria orientar a interpretação das normas que regem plataformas que, igualmente, não emitem opinião sobre o conteúdo gerado por seus usuários. A condição “sem emitir opinião” é o gancho específico, já que se realiza quase perfeitamente sobre o discurso que as plataformas utilizam há anos para se apresentar como intermediários neutros — o mesmo argumento nuclear da Section 230 norte-americana e o mesmo que o STF já recusou ao declarar inconstitucional a imunidade irrestrita do art. 19 do Marco Civil. O risco não é que o argumento vença no STF, mas que contamine decisões de instâncias inferiores, gere jurisprudência discrepante e incentive recursos protelatórios. A constitucionalização de um princípio de imunidade pela não emissão de opinião cria um vetor hermenêutico que pode migrar para além do âmbito estrito do §7º.

<><> Vetor 3

— Expansão legislativa com âncora constitucional. Este é o risco estrutural mais grave e o menos explorado no debate público. Uma vez que o §7º exista no texto constitucional, o Congresso pode editar lei ordinária definindo o que conta como “veículo de comunicação” para os fins daquele dispositivo — e essa definição pode incluir plataformas digitais. Para isso, não será necessária nova emenda constitucional: bastará maioria simples. O bloco que subscreveu a emenda de Marcos Rogério — que pretendia incluir as plataformas diretamente no texto constitucional — sabe que não tem, por ora, votos para uma PEC autônoma sobre plataformas. Mas pode ter votos para uma lei ordinária que, ancorada no §7º, redefina o perímetro de aplicação do dispositivo. Esta estratégia é conhecida na teoria constitucional como constitutional laundering, que consiste na inserção no texto constitucional de princípio com vocabulário suficientemente aberto. A expansão do alcance é feita pela legislação ordinária, com quórum incomparavelmente mais baixo. Tratar ambos como equivalentes para fins constitucionais não amplia a liberdade de imprensa. Cria as condições para que a responsabilidade civil das plataformas seja esvaziada pela porta dos fundos do processo legislativo ordinário. É exatamente isso que o lobby das empresas de tecnologia tem interesse em viabilizar.

<><> Oportunismo do momento

O ressurgimento da PEC 67/23 não é casual. Ele coincide com um momento de intensa pressão sobre o Congresso, que legislou sobre proteção de crianças nas redes a partir do ECA Digital, e com as ameaças do governo Trump ao Brasil em razão das decisões do Judiciário sobre as big techs. Como observamos em artigo no ano passado, o lobby das empresas de tecnologia, alinhado ao interesse eleitoral de partidos da extrema direita, vem buscando uma saída para impedir uma regulação mais abrangente das plataformas. E o faz fatiando o debate, apresentando soluções pontuais que parecem responder ao clamor social, mas que tentam preservar a irresponsabilidade estrutural dos intermediários digitais.

A PEC 67/23 é a versão constitucional desse fatiamento. Ao invés de enfrentar o problema da desinformação com instrumentos que responsabilizem veículos e plataformas por sua atuação algorítmica e editorial, propõe exatamente o oposto. Quer imunizar constitucionalmente quem lucra com a circulação de acusações falsas, desde que este ator mantenha a aparência de neutralidade ao não emitir “opinião”.

<><> Cobertura retórica

A justificativa apresentada por Marinho apela à liberdade de imprensa, citando inclusive o voto do ex-ministro do STF Marco Aurélio de Mello, que a descreveu como a medula da democracia. Ninguém contesta o princípio. O problema é que a PEC não protege a liberdade de imprensa — ela protege a irresponsabilidade no exercício dessa liberdade. Há uma diferença fundamental entre censurar previamente um conteúdo difundido e responsabilizar um veículo que, diante de indícios claros de falsidade, opta por não verificar os fatos e divulga acusações que podem arruinar honras e vidas. O STF foi preciso ao traçar essa distinção no Tema 995. A PEC a apaga.

Democracias maduras não tratam as liberdades de expressão e de imprensa como direitos absolutos que anulam todos os demais. Tratam-nas como direitos que convivem com outros princípios fundamentais — como o direito à honra, à dignidade, à intimidade — e que exigem, para sua proteção real, que quem as exerce assuma responsabilidade por seus efeitos. Um veículo de comunicação que publica, sem qualquer verificação, uma denúncia que sabe ou deveria saber ser falsa não está exercendo liberdade de imprensa. Está praticando um ato de dano, e a Constituição não deveria ser o escudo de sua impunidade.

<><> O que está em disputa

A PEC 67/23 não é uma proposta técnica de aperfeiçoamento legislativo de um artigo fundamental para nossa sociedade. É uma tomada de posição política explícita. Ela pode vir a garantir que os interesses dos grandes veículos de comunicação e das plataformas digitais prevaleçam sobre o direito de pessoas e instituições de não terem suas honras destruídas por conteúdos cuja falsidade era verificável.

Num momento em que o Congresso é pressionado, de um lado, pela comoção legítima com a proteção das crianças nas redes e, de outro, pelas ameaças tarifárias de Washington em nome dos interesses do Vale do Silício, é preciso que a sociedade compreenda o que está sendo negociado. A paralisia regulatória das redes digitais não é acidente, é projeto — e tem nome, sobrenome e número de proposição legislativa.

A Constituição Federal é o pacto fundante da República. Usá-la para escudar a impunidade de quem lucra com a desinformação não é defender a democracia. É, às suas custas, fragilizá-la. E se torna ainda mais grave fazer isso em um ano eleitoral.

 

Fonte: Por James Görgen, em Outras Palavras


A promessa impossível: estaremos testemunhando o retorno do fascismo?

A política, antes de qualquer outra coisa, é sobre emoção. Todos nós baseamos nossos julgamentos sobre o mundo – o estado do país em que vivemos, por exemplo, e o que gostaríamos de fazer a respeito – em uma mistura de cálculo racional e instinto. Mas para que esses julgamentos se transformem em um programa político cujos ideais sejam compartilhados por milhões de pessoas, e para que confiemos em líderes que prometam concretizar esses objetivos, precisamos realmente sentir. Quais seriam, então, os sentimentos específicos evocados pelo seguinte?

# “A Grã-Bretanha que eu amo está sendo dilacerada pela diversidade, igualdade e inclusão.” - Suella Braverman, ex-ministra do Interior, fevereiro de 2026

# “Não é só a Grã-Bretanha que está sendo invadida, não é só a Grã-Bretanha que está sendo violentada. Todas as nações ocidentais enfrentam o mesmo problema: uma invasão orquestrada e organizada, com a consequente substituição de cidadãos europeus, está acontecendo.” Tommy Robinson, influenciador da extrema-direita , setembro de 2025

# “Precisamos… explicar às meninas e mulheres jovens a realidade biológica desta crise. Muitas mulheres na Grã-Bretanha estão tendo filhos muito tarde na vida.” Matthew Goodwin, personalidade da mídia, novembro de 2024

# “A Grã-Bretanha está caminhando a passos largos para uma guerra civil, e ninguém sabe como impedi-la.”Daily Telegraph, abril de 2025

# “Agora, estamos falando do futuro da civilização ocidental. Acreditamos em uma cultura judaico-cristã? Acreditamos que a família é uma unidade para o bem? Acreditamos na liberdade de expressão? … É assim que as coisas estão em jogo.”
Nigel Farage, fundador do Reform UK, setembro de 2022

# “Uma revolução política está em curso na Grã-Bretanha! A Grã-Bretanha está se voltando contra o establishment.” GB News, setembro de 2025

# “Deportação em massa agora, queimem todos os hotéis cheios desses bastardos, se quiserem, e já que estão nisso, levem junto o governo e os políticos traidores… Se isso me torna racista, que seja.” Lucy Connolly, cuidadora de crianças de Northampton, julho de 2024

Olhe ao redor e você verá versões desses sentimentos, expressas com diferentes graus de intensidade, onde quer que a extrema-direita esteja presente. Uma sensação de desgraça iminente, de humilhação, de vitimização e declínio. A sensação de que é necessária uma insurreição, talvez até violenta, para defender uma maioria sitiada. Uma confusão entre o que é necessário: uma “revolução” ou a restauração de uma velha ordem. Figuras de proa da extrema-direita incentivam esses sentimentos – algumas abertamente, outras com um aceno e uma piscadela. Em outros momentos, parece que esses sentimentos brotam de baixo. Se você já leu sobre a história do fascismo – o movimento de massa assassino e reacionário que desfigurou a Europa em meados do século XX – isso pode lhe soar familiar. O historiador Robert Paxton, um dos maiores especialistas mundiais em fascismo, enfatizou como os fascistas se apoiavam fortemente no apelo às emoções. Paxton chamou essas emoções de “paixões mobilizadoras”. Entre elas estavam a sensação de uma crise avassaladora, o medo do declínio do grupo dominante, a sede de pureza e autoridade e a glorificação da violência.

Hoje, enquanto populistas de extrema-direita prosperam nas urnas e extremistas atraem enormes seguidores, uma pergunta paira no ar: isso é fascismo? Certamente, há elementos que nos lembram o fascismo, se olharmos para o exterior. O BJP, partido do primeiro-ministro de extrema-direita da Índia, Narendra Modi, tem ligações com um movimento paramilitar de rua, o RSS , que esteve envolvido em pogroms anti-muçulmanos. O que é o Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA (ICE) senão uma turba legalizada, armada e munida de distintivos, enviada pelo presidente para aterrorizar parte da população do seu próprio país? Será que a extrema-direita britânica, em suas diversas vertentes, representa o retorno do fascismo? A resposta curta é não – com uma ressalva. Não estamos testemunhando uma repetição do século XX. A extrema-direita atual possui vida e ímpeto próprios, e deve ser vista como singular à nossa época. Reconhecer isso é essencial para entendermos suas causas, suas fragilidades e a maneira específica como ameaça nossa liberdade – porque, de fato, representa uma ameaça. Em suas formas mais extremas, é abertamente violenta. Mesmo em suas formas mais brandas, busca reverter o progresso que conquistamos rumo à igualdade e tornar nossas sociedades menos democráticas.

O fascismo emergiu no século XX, em meio a sociedades marcadas pela violência da Primeira Guerra Mundial e pela instabilidade, fome e desemprego em massa que se seguiram, e onde um crescente movimento operário ameaçava usurpar o poder das elites governantes tradicionais. Em resposta a um sentimento de humilhação ou traição nacional, o fascismo prometia o renascimento da nação por meio da violenta eliminação de inimigos internos e da conquista imperial no exterior, em troca do abandono da democracia. Sua base estava entre as frustradas classes médias baixas, mas rapidamente ganhou apoio de todas as classes sociais. Seus apoiadores se organizavam em partidos com alas paramilitares uniformizadas. Eles operavam no que Paxton chamou de uma “colaboração difícil, mas eficaz” com as elites governantes tradicionais, para quem o fascismo era uma forma de manter a ordem e esmagar a esquerda. (Essas elites estavam enganadas: viam o fascismo como seu cão de guarda, mas ele as devorou ​​vivas.) Isso não parece muito com uma descrição da nossa época. No Ocidente, por exemplo, vivemos – pelo menos até recentemente – um período sem precedentes de paz e prosperidade. Há pouca esquerda organizada, pelo menos não uma que ameace uma revolução ou mesmo uma reforma radical como os movimentos comunistas e socialistas fizeram no início do século XX. Tampouco, apesar de muitas reclamações, existe qualquer desejo real de acabar com a democracia. Aliás, os movimentos de extrema-direita mais proeminentes da atualidade fazem muito alarde sobre seu compromisso com a democracia: eles são mais democráticos do que seus oponentes, afirmam. No entanto, existe uma sobreposição crucial entre o fascismo da Europa do período entre guerras e a extrema-direita atual, que nos remete à questão da emoção. Em última análise, os dois movimentos compartilham a mesma exortação subjacente: purificar a comunidade. Eles dizem aos seus apoiadores que o orgulho, a segurança e o sucesso serão garantidos atacando os inimigos da nação. Alegam que esses inimigos estão sendo protegidos por conspirações das elites. Prometem mudanças radicais que fortalecerão a ordem social, em vez de destruí-la e reconstruí-la de forma mais equitativa. Essa é uma promessa impossível. Como Paxton nos diz, para os fascistas da Europa do século XX, ela levou ou à entropia – um movimento que não conseguiu cumprir suas promessas e entrou em colapso – ou à crescente radicalização. Na Alemanha e na Itália, em particular, os líderes fascistas correram para atender às expectativas de seus seguidores, improvisando e iniciando uma espiral de violência que levou à guerra, ao genocídio e, por fim, à destruição do próprio povo que depositara sua fé neles. Hoje, a extrema-direita volta a fazer uma versão dessa promessa impossível. Tal como os seus antecessores políticos, os seus líderes não controlam totalmente as forças que procuram desencadear. É por isso que são tão perigosos – mas é também por isso que podem ser travados.

"Extrema direita" é um termo controverso. Ninguém o usaria para descrever suas próprias posições políticas. Mas, ainda assim, é útil. Muitas vezes, tratamos "extrema direita" como sinônimo de "fascista", "nazista" ou "racista violento". Pode até significar essas coisas, mas também é algo mais amplo. Cas Mudde, cientista político e um dos maiores especialistas no assunto, define a extrema direita como um conjunto de movimentos nacionalistas de direita hostis ao nosso sistema político democrático liberal. Mudde divide a extrema direita em duas partes. Uma delas é a extrema-direita, que rejeita a essência da democracia. Isso incluiria o fascismo – que substitui a democracia pela ditadura – bem como grupos e indivíduos que recorrem à violência para promover sua causa. A outra é a extrema-direita, que aceita a essência da democracia, mas se opõe a elementos fundamentais do nosso sistema atual. A democracia liberal combina governo representativo – por meio do voto – com um conjunto de freios e contrapesos destinados a proteger a liberdade individual, bem como a liberdade de grupos minoritários. Tribunais independentes, leis constitucionais e de direitos humanos, e uma imprensa livre são exemplos desses freios e contrapesos. Mas a extrema-direita frequentemente ataca esses elementos, acusando-os de obstruir sua versão de democracia – que, essencialmente, se baseia na ideia de que, contanto que a extrema-direita vença uma eleição, uma vez no poder, ela deve poder fazer o que bem entender.

Em nossa época, a forma dominante de política de extrema-direita vem da direita radical, por meio de partidos que utilizam um estilo político conhecido como populismo . Esse é outro termo controverso, mas, em termos simples, o populismo é uma abordagem política em que um partido ou indivíduo se apresenta como o único e verdadeiro representante do povo, em oposição a uma elite corrupta ou desconectada da realidade. Não é inerentemente de esquerda nem de direita, e às vezes os populistas têm razão. Temos elites, sim, e elas podem ser corruptas ou desconectadas da realidade. Mas o populismo muitas vezes é uma forma de pedir permissão aos eleitores para fazer mudanças radicais na sociedade – portanto, a natureza dessas mudanças importa muito. As mudanças que o populismo de extrema-direita busca implementar ameaçam nossa liberdade. E quanto mais demorarmos para combater esse movimento de forma adequada, maior será o risco de algo ainda mais extremo surgir em seu rastro. Desde meados da década de 2010, populistas de extrema-direita venceram eleições nacionais em países tão diversos como Índia, Filipinas, Polônia, Hungria, Itália, Estados Unidos, Brasil e Argentina, entre outros. Em muitos parlamentos europeus, eles têm uma presença significativa, estando, em alguns casos, prestes a formar o próximo governo. Nos últimos anos, o aumento dos custos de energia e dos preços dos alimentos impulsionou ainda mais os populistas de extrema-direita, à medida que os eleitores se tornam cada vez mais frustrados com seus governos.

No início da década de 2010, esses movimentos estavam quase todos à margem da política. Então, o que mudou? No Ocidente, a resposta costuma ser a imigração. Nas últimas décadas, a imigração para países ricos tem crescido, e os populistas de extrema-direita na Europa Ocidental e na América do Norte geralmente fazem da política anti-imigração um ponto central de suas plataformas. Mas eles também prosperaram em lugares onde a imigração quase não foi tema de campanha: em 2015, o partido de extrema-direita Lei e Justiça da Polônia venceu as eleições parlamentares quando o país era predominantemente um país de emigração. Rodrigo Duterte, o ex-líder populista de extrema-direita das Filipinas, fez campanha com a promessa de revitalizar áreas urbanas em dificuldades. Isso nos mostra que, antes de analisarmos as causas específicas do populismo de extrema-direita em nossa região, precisamos observar o que está acontecendo de forma mais ampla. O que todos os lugares mencionados acima têm em comum é um sistema político – a democracia liberal – e um sistema econômico: o capitalismo. É uma combinação complexa. As democracias liberais prometem direitos iguais para todos, mas o capitalismo é necessariamente um sistema desigual, visto que, para sobreviver, a grande maioria de nós precisa trabalhar para gerar lucros para nossos empregadores. Não recebemos uma parte igual desses lucros; em vez disso, nos é prometido um padrão de vida melhor. Escolhemos, por meio do voto, entre as diferentes opções para atingir esse objetivo: redistribuindo a riqueza através do sistema tributário, por exemplo, ou incentivando os bancos a emprestar dinheiro para pessoas que desejam abrir seus próprios negócios, ou mantendo os impostos baixos e contando com a generosidade de filantropos ricos.

Desde a década de 1990, o mundo tem buscado uma forma particularmente desenfreada de capitalismo. Isso trouxe grandes benefícios: milhões de pessoas saíram da pobreza. Mas também trouxe uma desigualdade muito maior. A Índia, por exemplo, é uma das economias que mais crescem no mundo, mas também um dos países mais desiguais, onde os 10% mais ricos da população detêm 65% da riqueza nacional . Mesmo em tempos de bonança, a desigualdade pode gerar frustração e ressentimento entre as pessoas que sentem que não estão recebendo uma parte justa da riqueza. Modi, por exemplo, é popular entre as classes médias hindus da Índia, em parte porque promete enviar mais prosperidade para elas. Em tempos difíceis, os problemas se acumulam. Em nossa era, particularmente no Ocidente, a crise financeira global de 2008 lança uma longa sombra sobre a nossa política. De tempos em tempos, a capacidade do capitalismo de gerar lucros vacila a tal ponto que causa uma crise. As elites governantes estabelecidas lutam para encontrar uma maneira de reanimar a economia, enquanto setores da população ficam cada vez mais insatisfeitos e começam a explorar alternativas políticas mais radicais. Essas alternativas vêm da esquerda e da direita. Mas, em tempos de crise prolongada, o nacionalismo de direita parece atraente para muitas pessoas. Um estudo sobre eleições na Europa entre 1870 e 2014 sugere que os eleitores tendem a responder às crises financeiras movendo-se para a direita , com a extrema-direita sendo a mais beneficiada. Setores da elite governante podem ser tentados a se agarrar a essas soluções de direita, como forma de consolidar sua posição ou de aprovar reformas econômicas que sabem que seriam impopulares se não estivessem revestidas de um verniz patriótico.

Já se passaram quase duas décadas desde que a bolha imobiliária nos EUA estourou, reverberando por todo o sistema bancário global e quase levando-o ao colapso. Mas os efeitos da crise financeira foram particularmente duradouros no Ocidente. A América do Norte e a Europa sofreram uma grave recessão, seguida por uma recuperação dolorosamente lenta. No Reino Unido, a economia encolheu mais de 6% entre 2008 e 2009. Levou cinco anos para se recuperar e o valor dos salários – o quanto podemos comprar com o dinheiro que ganhamos – praticamente nunca se recuperou. Em situações como essa, é compreensível que as pessoas fiquem irritadas.  Essa raiva não leva automaticamente a políticas de extrema-direita. Basta pensar, por exemplo, em quantos movimentos de protesto surgiram nos anos que se seguiram à crise financeira e na variedade de suas reivindicações: os protestos do Occupy nos EUA e no Reino Unido, que visavam o próprio sistema bancário; os movimentos contra a austeridade no sul da Europa; levantes por maior democracia no Oriente Médio, na Rússia e na Ucrânia; protestos em massa contra a corrupção e o custo de vida no Brasil; o Black Lives Matter e sua reivindicação por igualdade racial. Segundo uma pesquisa, os protestos em massa aumentaram 36% globalmente entre 2008 e 2019. No entanto, a maioria desses movimentos não conseguiu atingir seus objetivos declarados. Cada vez mais, o populismo de extrema-direita — que se apresenta como uma alternativa às antigas elites estabelecidas — é o que temos agora. Então, o que os populistas de extrema-direita têm a oferecer que os outros não têm?

O teórico político Richard Seymour tem um nome para o que os populistas de extrema-direita oferecem aos eleitores: “ nacionalismo do desastre ”. Tem uma componente superficial, que é em grande parte económica, e um apelo mais profundo e poderoso, que é emocional. Superficialmente, os populistas de extrema-direita prometem um renascimento nacional através de medidas ousadas, talvez até ilegais, na economia. O presidente da Argentina, Javier Milei, posa no palco com uma motosserra, simbolizando como pretende cortar gastos públicos desnecessários. O regime tarifário de Donald Trump fará com que os americanos se sintam vencedores novamente. No entanto, os benefícios econômicos reais do populismo de extrema-direita estão longe de ser claros. Em 2024, Trump prometeu aos americanos alimentos mais baratos se votassem nele. Isso ainda não aconteceu. A primeira-ministra da Itália, Giorgia Meloni, impulsionou o emprego, mas a maioria dos novos empregos é de meio período ou mal remunerada. No Brasil, sob Jair Bolsonaro, a renda média caiu. À primeira vista, as medidas econômicas oferecidas pelo populismo de extrema-direita parecem brandas em comparação, digamos, com o fascismo do século XX, que prometia transcender as divisões de classe e unir nação, Estado e líder em um único corpo – o “Estado corporativo”, como Mussolini o chamava. Mas Seymour sugere que a verdadeira recompensa é psicológica: o nacionalismo do desastre afirma que, para se sentir um vencedor, alguém precisa perder, e perder feio. Sem exceção, os populistas de extrema-direita prometem punir certos grupos em nome da maioria, para que esta se sinta novamente vitoriosa. Muitos prometem restringir os direitos de grupos minoritários. Na Itália, o governo Meloni ordenou que as prefeituras registrem apenas os pais biológicos nas certidões de nascimento , excluindo parceiros do mesmo sexo. Com a mesma frequência, prometem restaurar os papéis sociais tradicionais e hierárquicos: no Brasil, Bolsonaro foi eleito presidente com o apoio de cristãos evangélicos que declararam guerra à “ideologia de gênero”: seu rótulo para um conjunto de ideias feministas, pró-LGBTQ+ e pró-escolha. Embarcam em grandes projetos de engenharia social, como na Índia, onde a doutrina da prosperidade de Modi é acompanhada por um esforço para transformar um país historicamente multirreligioso em exclusivamente hindu, com os muçulmanos, em particular, retratados como intrusos perigosos.

Isso porque o fio condutor que une os populistas de extrema-direita em todo o mundo é a alegação de que a nação – a sua própria nação, para ser mais preciso – está sob grave ameaça. Eles veem desastres em cada esquina. Além disso, dizem, esse perigo é causado por inimigos nacionais específicos que podem ser nomeados, culpados e punidos. Os alvos específicos podem variar de acordo com o contexto e, à primeira vista, podem não ter nada a ver uns com os outros. Mas compartilham uma lógica comum. O perigo nacional é sempre culpa de uma classe marginalizada perigosa, combinada com as ações de uma elite traiçoeira. A natureza da ameaça, no fundo, sempre gira em torno de sexo, nascimento, morte ou uma combinação dos três. Pense, por exemplo, na frequência com que a extrema-direita europeia tenta pintar os refugiados como estupradores e assassinos, ou em como os nacionalistas hindus da Índia acusam os homens muçulmanos de " jihad do amor ", uma teoria da conspiração que afirma que casamentos inter-religiosos comuns são resultado de uma trama sinistra.

Os populistas de extrema-direita se apresentam como salvadores da nação. Mas há uma contradição entre o que oferecem superficialmente – segurança e prosperidade – e os meios que propõem para alcançá-las. Os populistas de extrema-direita parecem movidos tanto por um desejo de provocar o desastre quanto por um desejo de salvar seu povo dele. Acusam as elites de corrupção, mas frequentemente fazem uma demonstração descarada de corrupção quando chegam ao poder. Quando se trata de uma ameaça existencial genuína, a crise climática, os populistas de extrema-direita parecem estar divididos entre a negação completa e um desejo perverso e jubiloso de acelerá-la. Como Trump diz sobre os combustíveis fósseis: "Perfurem, meu bem, perfurem". O que eles realmente oferecem, diz Seymour, é algo profundamente destrutivo: vingança. As frustradas classes médias hindus da Índia colherão os benefícios do crescimento se a vida se tornar insuportável para seus vizinhos muçulmanos; os homens nas Américas voltarão a ser vencedores quando os papéis de gênero tradicionais forem restaurados; regiões economicamente deprimidas da Europa serão revitalizadas pela deportação em massa de refugiados.

O objetivo final, diz Seymour, é canalizar o ressentimento da população em uma “revolta contra a civilização liberal”. O populismo de extrema-direita já demonstrou um potencial profundamente violento. Quando Duterte assumiu o poder nas Filipinas em 2016, ele incitou o assassinato de viciados e traficantes de drogas. Estima-se que até 30.000 pessoas foram mortas , algumas por grupos paramilitares, em um período de seis anos. Em Israel, a retórica eliminacionista da extrema-direita tem alimentado a violência genocida perpetrada contra os palestinos em Gaza desde os ataques do Hamas em 7 de outubro de 2023, bem como os ataques de colonos na Cisjordânia. A Índia também é periodicamente assolada por surtos de violência de multidões nacionalistas hindus.

Na Europa, os populistas de extrema-direita podem se distanciar de tal violência. Mas a mensagem de perigo nacional – e o foco em sexo, nascimento e morte – é generalizada. É importante reconhecer que nem todos que votam em populistas de extrema-direita concordam com a mensagem subjacente deles. Assim como outros movimentos políticos, os populistas de extrema-direita bem-sucedidos constroem uma coalizão de apoio, explorando preocupações cotidianas compartilhadas por um público mais amplo: inflação, desemprego e assim por diante. No entanto, algumas pessoas realmente acreditam na mensagem subjacente do populismo de extrema-direita – e sem essa crença, os movimentos de extrema-direita sequer decolariam.

Os populistas de extrema-direita exploram uma mistura contraditória de emoções. Por um lado, prometem um maior senso de comunidade, por exemplo, através da ênfase em uma cultura nacional homogênea; por outro, oferecem uma maneira de destruir tudo. Existem várias razões pelas quais essa mistura pode ter prosperado nos últimos anos. A primeira, pelo menos no Ocidente, está ligada ao sistema econômico e político em que vivemos. Após a crise econômica da década de 1970, os governos adotaram uma nova abordagem para gerir o capitalismo, conhecida como neoliberalismo . Tratava-se tanto de um conjunto específico de políticas econômicas quanto de uma filosofia mais ampla sobre como os governos deveriam se comportar e como as pessoas deveriam se relacionar umas com as outras em sociedade.

De maneira geral, as políticas econômicas envolveram a transferência de poder e recursos do controle democrático para as grandes empresas, particularmente os mercados financeiros. Dinheiro e riqueza podem circular pelo mundo com menos restrições, assim como bens e certas categorias de pessoas aprovadas. Uma política neoliberal típica é a privatização do setor de água na Inglaterra, que ocorreu em 1989. Desde que empresas privadas foram autorizadas a administrar esse serviço vital com fins lucrativos, seus acionistas lucraram £ 85 bilhões, segundo o grupo de campanha We Own It , com um serviço que nós, na Inglaterra, pagamos com nossas contas e impostos. Sob o neoliberalismo, os principais partidos políticos do Ocidente convergiram para conjuntos de políticas semelhantes e passaram a ser dominados por uma classe de profissionais que viam seu trabalho como o de garantir o bom funcionamento do sistema, usando o Estado para apoiar as grandes empresas quando necessário, mas sem intervir de forma excessiva. ("Não há alternativa", como disse Margaret Thatcher.) Hoje, os rios e praias da Inglaterra estão cheios de esgoto porque as empresas privadas de água priorizaram o lucro para seus acionistas em detrimento do investimento em infraestrutura. No entanto, sucessivos governos descartaram a possibilidade de reestatizar a água, um recurso essencial para a nossa vida. Um sistema como este não fomenta a solidariedade. Pode nos tornar mais propensos a ver nossos vizinhos como potenciais concorrentes em vez de aliados; ou a ver os beneficiários de assistência social como aproveitadores, os políticos como corruptos e os serviços públicos como um desperdício dos nossos impostos suados. É uma receita para o ressentimento e a desconfiança. Na Grã-Bretanha, a confiança social despencou entre as décadas de 1980 e 2000, de acordo com a pesquisa British Social Attitudes. (Houve uma pequena melhora nos últimos anos, embora a solidão continue generalizada.)

Emoções tóxicas não são um resultado inevitável. Podemos muito bem reagir à falta de comunidade tentando encontrar mais dela. Mas nossas reações também são moldadas pelas ferramentas à nossa disposição. As redes sociais oferecem uma nova maneira de nos conectarmos uns com os outros, mas também possuem qualidades viciantes e compulsivas que exploram nossos piores instintos – principalmente quando as plataformas de redes sociais buscam tirar proveito dessas qualidades para nos manter online, a fim de maximizar sua receita publicitária. As redes sociais também se provaram um canal notavelmente eficiente para teorias da conspiração, uma característica central da visão de mundo da extrema-direita, e nutriram as subculturas mais extremistas, como o neonazismo e o movimento misógino "incel". Elas até transformaram o terrorismo de "lobo solitário" – no qual indivíduos ressentidos, quase sempre homens, descarregam sua raiva no mundo em atos espetaculares de violência – em uma espécie de meme macabro. Em 2019, um atirador em Halle, na Alemanha, transmitiu ao vivo seu ataque a uma sinagoga na plataforma de jogos Twitch; em 2016, o autor de um massacre em uma boate gay em Orlando, na Flórida, checou o Facebook no meio do ataque .

Seymour sugere que vejamos as figuras de proa da extrema-direita atual menos como ativistas políticos tradicionais e mais como celebridades, surfando nessa onda de ressentimento potencialmente violento. É por isso que os populistas de extrema-direita investiram tanto tempo e esforço em suas atividades online. Bolsonaro tinha um gabinete do ódio , um grupo de assessores que planejava sua estratégia nas redes sociais; Modi recompensa seus apoiadores mais virulentos no Twitter seguindo-os discretamente de volta; Trump é o homem com o maior megafone do mundo . A filósofa Hannah Arendt descreveu o fascismo de forma memorável como um tipo de “aliança temporária entre a massa e a elite”. Uma das maiores diferenças entre o fascismo do século XX e a extrema-direita atual é que o fascismo exigia partidos políticos de massa e militarizados para consolidar essa aliança. Poucos partidos desse tipo existem hoje. Mas, nos piores casos, as redes sociais permitem uma relação semelhante. Esse tipo de política de extrema-direita é efêmera e instável, podendo sair perigosamente do controle. Mas também pode se dissipar – especialmente se for contestada de forma convincente.

 

Fonte: The Guardian

 

Atrás do trio elétrico

“Atrás do trio elétrico só não vai quem já morreu”, diz a música de Caetano Veloso. Nós morremos porque fomos atrás do tripé macroeconômico, superávit fiscal, câmbio flutuante e regime de meta de inflação. A fé cega no livro, na teoria e a troca entre estabilidade monetária e o desmonte da infraestrutura brasileira montada a duras penas entre 1930 e 1980. O Plano Real nunca teve como meta um projeto de desenvolvimento econômico e, muito menos, um plano estratégico para o Brasil.

O mantra da eficiência econômica somada a alocação eficiente dos recursos pela iniciativa privada colocaria o Brasil rumo ao crescimento sustentável! A partir desse momento é decretado o cancelamento da palavra planejamento e a repetição “ad naseum” que investimento público é sinônimo de gasto. 50 anos de experiências de planejamento desde Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e regime militar foram jogados no lixo da história. Quem foi atrás do trio elétrico não morreu, quem foi atrás do tripé desmantelou a capacidade produtiva desse país!

Para quem já teve nosso maior economista Celso Furtado como ministro do planejamento, contemplou uma mera secretaria do Planejamento, com função específica de execução do orçamento federal no governo Jair Bolsonaro. Onde a palavra planejamento virou símbolo do bolchevismo rasteiro. Um palavrão! O país que produzia fertilizantes, tinha um setor petroquímico completo, até o governo Fernando Henrique, hoje importa diesel e fertilizantes!

Uma privatização feita de forma binária, tudo o que é privado é bom e eficiente, tudo o que é estatal é ruim e ineficiente. Assim foi o fim da Ultrafértil produtora de fertilizantes e a Petroquisa, e as refinarias “vendidas” ao setor privado. Qual era o plano estratégico e planejamento de nação de um dos maiores produtores de alimentos do mundo? Nenhum! A mão invisível resolve com maior eficiência. A mão invisível procura mercados rentáveis e lucrativos.

Ficou mais barato importar, 50 anos de construção e articulação dos setores produtivos morreram atrás do tripé macroeconômico. A herança maldita que sobrevoa Brasília e a mídia nacional, grita todo santo dia contra qualquer tentativa de planejamento estratégico e urra espirrando bílis de apenas mencionar o termo investimento público!

Nesse período, os países que mais cresceram e se desenvolveram, como China, Índia, Coreia do Sul e Vietnã, abriram mão da fé cega da mão invisível, fugiram do tripé, sem abrir mão da estabilidade de preços, do planejamento e, principalmente, da coordenação e indução do Estado. Não caíram no truque ideológico binário da conjugação das estrelas dos mercados eficientes. Ao contrário, mostraram um pragmatismo eficiente, sem abrir mão de mercado eficiente e coordenação estatal.

Pelos resultados, mostraram que é possível fazer os dois, não são excludentes. Escolheram ir atrás do trio elétrico e não morreram! Escolheram combater as restrições de oferta, produzir! Tanto com investimento público e privado, sem preconceitos teóricos! Nesses países, conjugar o verbo planejar não é palavrão!

O Brasil que já foi referência mundial de planejamento e execução, seguiu cegamente o tripé macroeconômico. Morreu, crescimento medíocre nos últimos trinta anos, custo alto e produtividade baixa logística, e foi dominado por um discurso repetido a exaustão de restrição de demanda. O país do investimento e preocupado em aumentar sua capacidade produtiva e precisa voltar a ir atrás do trio elétrico! Antes tarde do que nunca!

“Cortar gastos públicos é um exercício que envolve riscos de desabamento. Nunca se sabe qual é o gasto que sustenta o edifício todo” (Mário Henrique Simonsen).

No momento, o sucesso das medidas de coordenação e planejamento nacional depende crucialmente de uma reforma estrutural radical dos métodos e das instituições brasileiros. Primeiro, a criação, junto ao gabinete da Presidência da República, dos Grupos Executivos, à semelhança do governo Juscelino Kubitschek durante o Plano de Metas. Por exemplo, um Grupo Executivo do Complexo Econômico-Industrial da Saúde seria extremamente necessário. Nesta crise, é recomendável a criação de comitês com participação de trabalhadores, empresários e profissionais.

Pouca gente, muito qualificada, administrando um sistema de coordenação público-privada. Os programas de financiamento e de incentivos ao investimento devem, sim, contemplar cláusulas de conteúdo nacional, com metas e contrapartidas rigorosamente cobradas dos beneficiários privados.

Portanto, não é o momento de meias palavras ou de meias medidas. É imprescindível estigmatizar o debate que impera nos escaninhos da mediocridade, aquele que suscita suspeitas sobre o gasto público.

A verdadeira responsabilidade fiscal é com os brasileiros e suas vidas. Somente a rápida expansão do gasto público, coordenada a outras ações centralizadas pelo planejamento nacional, pode evitar que a crise econômica se transforme em uma depressão, numa crise social mais grave, com potencial imprevisível para a ordem social e política no país.

O debate brasileiro sobre o desenvolvimento está encolhido nos calabouços das políticas econômicas neoliberais. Sofrem prejuízo as investigações que tomam como guia a “dinâmica das estruturas”, ou seja, as transformações financeiras, tecnológicas, patrimoniais e espaciais determinadas pela interação entre os movimentos da economia internacional e as estratégias nacionais

Em seu livro Três industriais brasileiros, o grande Heitor Ferreira Lima reproduz o artigo de um comentarista da imprensa paulistana. Dizia o sábio: “Não temos condições para o desenvolvimento industrial, porque somos um país de analfabetos, com imigração de analfabetos e ainda em anarquia política, econômica e financeira. o problema do Brasil consiste em aproveitar suas terras, as mais vastas, inexploradas do globo”.

Não foram outros os argumentos de Eugênio Gudin, também engenheiro-economista como Roberto Simonsen, na célebre Controvérsia do Planejamento Econômico de 1944.

 

Fonte: Por Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo, em A Terra é Redonda

 

Sentindo-se mal? Seus segredos podem estar causando estresse

Normalmente, nada me deixa mais feliz do que receber uma mensagem que começa com "não compartilhe isso, mas...". No entanto, ao reproduzir a mensagem de voz no meu celular, minha alegre expectativa se transformou em consternação.

Era uma fofoca daquelas, mas que eu preferia não ter sabido. Agora eu também tinha que esconder isso dos outros.

Você provavelmente conhece essa sensação. Não é à toa que falamos em "guardar" segredos e no "fardo" do segredo: esconder algo dos outros pode ser desgastante, seja por desespero em ocultá-lo ou por uma enorme vontade de compartilhar.

Senti como se estivesse lutando para manter uma bola de praia submersa: por mais que tentasse afastar o segredo da minha mente, os pensamentos simplesmente continuavam surgindo.

Essa sensação de exaustão não era apenas um palpite: guardar segredos tem um custo psicológico elevado e está associado a uma série de consequências negativas, afirma Valentina Bianchi, psicóloga clínica e pesquisadora de pós-doutorado da Universidade de Melbourne.

Ela é uma das poucas acadêmicas focadas em segredos e explora como eles afetam nosso bem-estar em dois estudos futuros ( atualmente em revisão ). Eis o que ela tem a dizer sobre quando devemos manter silêncio, mesmo que isso nos custe a paz interior, e quando talvez seja melhor compartilhar o fardo.

<><> O que é um segredo?

Você provavelmente sabe quais são seus segredos e consegue dizer quando um deles cruza seu caminho. Mas na psicologia, onde os segredos são uma área de estudo relativamente recente, "a definição mudou ao longo do tempo", diz Bianchi.

Antes, os pesquisadores definiam segredos como qualquer informação que era ativamente retida em uma conversa, mas recentemente essa visão mudou e passou a definir segredo como qualquer informação que você decidiu não contar a ninguém. Isso reflete as descobertas de 2017 , feitas por um dos colaboradores de Bianchi, de que os segredos afetam você mesmo quando você está sozinho.

Assim, pelo menos na definição acadêmica de segredos, a intenção supera a ação: você não precisa compartilhar tudo com seu parceiro, por exemplo, mas decidir não contar algo a ele constitui um segredo. "No momento em que alguém toma a intenção, ou se compromete a reter informações, é aí que nasce um segredo", explica Bianchi. "Isso porque sabemos que a parte mais impactante de se ter um segredo é pensar nele."

<><> Que tipo de segredos existem?

Bianchi e outros pesquisadores costumam se referir a 38 categorias de segredos ( veja quantas você consegue identificar! ). Essas categorias foram identificadas no artigo de 2017 por meio de uma pesquisa com pessoas sobre o que elas mantinham em segredo ou escondiam dos outros. Posteriormente, essas categorias foram testadas e refinadas em pesquisas adicionais.

Algumas são obviamente explosivas (um relacionamento secreto, um vício, um comportamento criminoso), enquanto outras não causariam estranheza (um hobby, um objetivo ou um detalhe pessoal que você não compartilhou).

Não é viável para os pesquisadores saber quantos segredos as pessoas normalmente guardam, porque qualquer pessoa pode estar escondendo "centenas de mentiras", destaca Bianchi.

Mas esse estudo descobriu que a pessoa média guardava 13 tipos de segredos, cinco dos quais nunca havia revelado.

Bianchi afirma que a categoria mais comumente relatada é ter contado uma mentira para alguém e depois mantido esse segredo. Outras que "basicamente sempre aparecem" nos estudos estão relacionadas a finanças, desejos românticos e comportamentos sexuais, diz ela.

As pessoas também costumam esconder a insatisfação com sua aparência física ou com um relacionamento, diz Bianchi. Por exemplo, você pode não falar sobre sentir ressentimento em relação a um amigo ou estar infeliz com seu parceiro.

<><> De que forma guardar um segredo afeta o bem-estar?

O estresse, a preocupação e o medo de ser descoberto contribuem para o impacto psicológico de guardar segredos, afirma Bianchi. Mesmo segredos que poderiam ser considerados positivos (como esconder o fato de estar apaixonado ou grávido) podem coexistir com a ansiedade.

A pesquisa de Bianchi descobriu que a principal forma pela qual os segredos afetam o bem-estar é através da "divagação mental espontânea": aquela experiência, às vezes desagradável, de ter pensamentos sobre o segredo surgindo involuntariamente na sua cabeça.

“Descobrimos que esse tipo de pensamento estimula sentimentos negativos e, com o tempo, forma um ciclo vicioso de pensar mais sobre o segredo, sentir-se pior em relação a ele e assim por diante”, diz Bianchi.

Os resultados negativos podem incluir estresse, menor satisfação no relacionamento e sentimentos de inautenticidade e isolamento. Pensar intencionalmente sobre o segredo não parece ter o mesmo efeito, acrescenta ela.

Alguns estudos chegaram a mostrar uma correlação entre o sigilo ou a ocultação de informações pessoais (como homossexualidade , tentativas de suicídio e estresse no trabalho ) e consequências negativas para a saúde física, afirma Bianchi.

No entanto, sua pesquisa sugere que as pessoas rotineiramente priorizam a proteção de segredos, mesmo que isso possa prejudicar seu bem-estar.

Em um artigo de 2024, ela descobriu que as pessoas eram mais propensas a reprimir seus sentimentos sobre seu segredo, ou tentar se distrair, do que conversar com alguém.

Além do fardo específico do segredo, suprimir pensamentos e emoções pode ser prejudicial ao bem-estar, diz Bianchi – mas as pessoas parecem aceitar isso para proteger o segredo.

<><> Como os segredos afetam os relacionamentos?

O sigilo não é necessariamente ruim. Para algumas profissões, como terapeutas, jornalistas e espiões, é essencial.

Assim como a fofoca , também serve a um propósito social, diz Bianchi. Por exemplo, ocultar informações sobre si mesmo ou sobre outra pessoa pode ser uma forma de proteger sua reputação ou melhorar seu status social.

Da mesma forma, compartilhar um segredo (seu ou de outra pessoa) pode ser uma estratégia social, aproximando você de alguém ou criando distância de outros. "Os segredos podem, na verdade, funcionar como uma espécie de cola dentro dos grupos", diz Bianchi.

No entanto, guardar segredos alheios pode ser tão prejudicial ao seu bem-estar quanto guardar os seus próprios – e sentir-se melhor raramente é tão simples quanto desabafar.

Embora contar para alguém possa trazer alívio temporário, “não é uma panaceia”, diz Bianchi. “Sabemos que compartilhar segredos com as pessoas erradas, na hora errada ou da maneira errada, pode ser extremamente prejudicial.”

Se seu confidente compartilha dos mesmos dilemas éticos ou sociais que você em relação a um segredo, você está simplesmente transferindo o fardo para você. Se, por outro lado, suas opiniões divergem — por exemplo, sobre a importância de manter o segredo em segredo —, isso pode afetá-lo(a) e também o relacionamento.

Mas, em geral, “revelar segredos é bastante raro”, diz Bianchi. É mais provável que você compartilhe seu segredo com um confidente designado e continue discutindo-o com essa pessoa do que divulgá-lo para outras pessoas.

<><> Como você pode reduzir o impacto emocional de guardar um segredo?

Se você está realmente com dificuldades para guardar um segredo, Bianchi sugere compartilhar seus sentimentos com um profissional, como um terapeuta, ou com um líder comunitário de confiança, como um padre. Você não precisa revelar o segredo em si.

“Você pode obter uma resposta empática, uma análise da realidade e uma perspectiva diferente deles, sabendo que esse é o trabalho deles”, diz ela. “Você não está necessariamente os sobrecarregando, da mesma forma que seria um amigo próximo ou seu parceiro.”

Se a confissão for um passo demasiado grande, Bianchi sugere uma estratégia de “reavaliação cognitiva”. Reflita sobre o significado do segredo para você, considere os riscos e as consequências de mantê-lo ou compartilhá-lo e, em seguida, faça uma análise de custo-benefício.

Se você conseguir encontrar razões positivas para guardar seu segredo – por exemplo, proteger um relacionamento ou os sentimentos de outra pessoa – ou conectá-lo aos seus valores, será mais fácil suportá-lo.

O estudo de Bianchi, de 2024, descobriu que quanto mais as pessoas consideram seus segredos imorais, prejudiciais aos relacionamentos ou de propósito obscuro, maior o impacto negativo. Da mesma forma, quanto mais negativo você considera seu segredo, mais desgastante ele se torna.

Bianchi sugere que busquemos nos livrar de parte do autojulgamento e da vergonha associados ao ato de guardar segredos. Em vez disso, podemos reformulá-lo como mera "regulação da informação", uma habilidade importante e, às vezes, até mesmo benéfica para o bem comum.

Ainda não gosto de pensar naquele segredo que me foi imposto, e sinto um arrepio desagradável quando ele me vem à mente. Mas com o tempo, ficou mais fácil lidar com isso, e com a libertadora constatação de que, no fim das contas, não é da minha conta. Afinal, já tenho segredos suficientes para guardar.

 

Fonte: The Guardian

Famílias dilaceradas por patriotas mais velhos que se radicalizam à direita

Graham não se lembra de sua mãe jamais ter compartilhado suas opiniões políticas. Ele não tem certeza se ela sequer votou até conhecer seu pai, que era um grande apoiador do Partido Trabalhista. Ela o acompanhou, votando nos Conservadores apenas uma vez, por despeito, perto do fim do relacionamento. Mais tarde, ela se casou com um fazendeiro mais conservador, que se inclinou a favor da saída da União Europeia no referendo do Brexit. "Mas, honestamente, além disso, ela nunca mais falava de política. Simplesmente não tinha interesse." Graham, que trabalha no setor de transportes na região central da Inglaterra, notou uma grande mudança em sua mãe durante a pandemia de Covid. "Lembro-me de estar voltando do trabalho para casa um dia e receber um telefonema. De repente, ela começou a me bombardear com teorias da conspiração." Ele agora percebe quanto tempo ela passava online, no celular e no iPad, isolada dos amigos, da família e da vida religiosa que sempre foi tão importante para ela.

Cinco anos depois, a mãe de Graham, aposentada e na casa dos 60 anos, apoia o agitador de extrema-direita e criminoso condenado Tommy Robinson com o que seu filho descreve como fervor religioso. Ela lhe disse que Keir Starmer é um comunista que tenta "nos substituir por muçulmanos" e que a Covid foi uma farsa. Ele conta que ela passa horas nas redes sociais e usa a TV apenas para assistir a vídeos do YouTube. “Fui visitá-la há algumas noites e tudo começou normalmente, mas a conversa mudou completamente”, diz Graham. “De repente, o assunto era muçulmanos em prisões forçando outros a se converterem sob a mira de facas, e de alguma forma Starmer entrou na história, então eu simplesmente tive que ir embora. Tenho tentado ajudá-la, mas não entendo muito de política e acabo piorando a situação. Sempre fomos próximas, mas sinto que estou a perdendo.” Graham nunca teve uma ideia clara do que, exatamente, sua mãe consome em suas telas, ou como ela se radicalizou. Mas ele está longe de ser o único a lidar com a guinada política, às vezes extrema, à direita de um parente mais velho. Embora muitas pesquisas e preocupações tenham se concentrado na radicalização em jovens – particularmente homens jovens –, pouco se sabe sobre os efeitos de um cenário político e midiático fragmentado sobre os baby boomers, a geração que agora tem entre 60 e 80 anos e está cada vez mais conectada à internet.

As pesquisas indicam há tempos que, em média, nos tornamos mais conservadores com a idade. E o fosso geracional mostra sinais de crescimento. Uma pesquisa da YouGov nas eleições gerais de 2024 mostrou que a queda tradicional na porcentagem de votos para o Partido Trabalhista com o aumento da idade foi mais acentuada do que em eleições anteriores, caindo de 45% para aqueles com quase 30 anos para 20% entre os maiores de 70 anos. Enquanto isso, uma análise recente de dados de pesquisas e sondagens dos EUA e do Reino Unido feita pelo Financial Times mostra que, enquanto as gerações com mais de 46 anos seguem trajetórias políticas tradicionais de direita, os millennials – aqueles com idades entre 29 e 45 anos – parecem estar resistindo a essa tendência após duas décadas de turbulência econômica. Conversei com dezenas de pessoas sobre as dolorosas fissuras que estão surgindo em suas famílias, onde essas guinadas à direita estão se tornando mais evidentes. Elas descreveram um quadro de alienação impulsionada pela desinformação.

Os pais de Nadine se separaram quando ela era adolescente. Assim como a mãe de Graham, a dela nunca havia expressado opiniões políticas. Mas, nos últimos anos, ela e seu novo parceiro ficaram obcecados com questões raciais e imigração, frequentemente "discursando furiosamente" sobre pequenas embarcações. "Minha mãe fica no iPad no sofá, enquanto o parceiro dela geralmente está no computador de mesa, isolado em outro cômodo", diz Nadine, que tem pouco mais de 40 anos e mora no norte da Inglaterra. "Não faço ideia de quais fóruns, canais do YouTube e outras plataformas ele frequenta, mas sei que ambos estão bastante no Facebook ."

Sara Wilford, professora associada e especialista em ética informática na Universidade De Montfort, em Leicester, tem se dedicado a mapear o ambiente online em que sua própria faixa etária (61 anos) agora navega. Fundadora do Smidge (Narrativas nas Mídias Sociais: Combatendo o Extremismo na Meia-Idade), um projeto de pesquisa financiado pela União Europeia, ela afirma que os idosos estão passando cada vez mais tempo livre online. Em 2025, a Ofcom, órgão regulador do setor, constatou que os britânicos com mais de 65 anos passam um recorde de três horas e 20 minutos por dia online. Ao mesmo tempo, a moderação de redes como o X e o Facebook tornou-se mais flexível, potencialmente levando mensagens tradicionalmente marginais para as mãos de pessoas mais velhas. A pesquisa da Ofcom revelou que, para 75% dos usuários de redes sociais com mais de 65 anos, o Facebook é o aplicativo de rede social “principal”; para um terço deles, é a única plataforma desse tipo que utilizam.

Wilford identifica a "pornografia da nostalgia" como um primeiro passo comum no processo de radicalização. O bom e velho conteúdo do tipo "na minha época" agora está recebendo o tratamento de inteligência artificial. Uma onda de contas de mídia social com nomes como Nostalgia Cat, Purest Nostalgia e Maximal Nostalgia publica vídeos com foco suave de jovens de rosto fresco (quase sempre brancos) intocados pelas duras realidades do século XXI. "Outro dia vi um vídeo de um garoto andando pelas ruas dos anos 80 dizendo como tudo era melhor", conta Wilford. O cenário dos anos 80 ou 90 de grande parte desse conteúdo gerado por computador revela suas origens nas mãos de criadores da geração Z. Eles estão alimentando a demanda por nostalgia entre outros jovens nativos digitais que idolatram uma era pré-smartphone das fitas cassete e das locadoras Blockbuster; pense em Stranger Things sem os monstros. Mas seus vídeos estão incomodando as gerações mais velhas, que estão se acostumando com uma dieta de "coisas de boomer" – vídeos que variam de estranhas releituras de conteúdo tradicional com gatos feitas por inteligência artificial até o tipo de vídeo desvairado compartilhado por influenciadores de direita, incluindo o próprio Donald Trump, o boomer mais velho da geração.

Wilford mantém uma conta X como uma janela para o que pode acontecer a seguir. Quando a criou, ela seguia algumas contas de direita, mas relativamente convencionais, e diz: "Agora recebo um feed 'para você' muito interessante". Ela começou a receber conteúdo de várias contas de direita, incluindo a do deputado Rupert Lowe, que perdeu o apoio do Partido Reformista em março passado e tem adotado uma linha particularmente rígida em relação à imigração. "Também recebo muitos apoiadores do Trump, além de postagens aleatórias repletas de desinformação. Mas eles também são inteligentes. Em três linhas bem escritas, eles falam sobre imigrantes, gangues de estupradores ou fraudadores de benefícios sociais, e se você não tiver a inclinação de verificar, você engole tudo sem questionar." Wilford está preocupada com o fato de usuários mais velhos da internet nem sempre reconhecerem o quão vulneráveis podem ser. “São pessoas que não cresceram como nativos digitais”, diz ela. “Mas já tive muitas conversas em que as pessoas dizem: 'Ah, não, não estou sendo influenciado por ninguém', e continuam navegando despreocupadamente, sem checar os fatos. Ou dizem que não estão online ou que não usam redes sociais, mas aí você pergunta e descobre que usam aplicativos de bairro e fóruns locais. Eles acessam esses aplicativos para verificar quando o lixo será coletado, mas eles podem estar repletos de conteúdo de extrema direita.”

Uma espiral de desinformação e desconfiança no governo e na grande mídia pode levar pessoas que talvez não se juntassem a uma organização de extrema-direita a caminhos bastante sombrios. Uma análise de dados feita pelo The Guardian no ano passado identificou uma rede de grupos de extrema-direita no Facebook a partir dos perfis de algumas das pessoas acusadas de crimes online em conexão com os distúrbios após o assassinato de três meninas em Southport , no verão de 2024. As 51.000 postagens analisadas como parte do projeto revelaram padrões de retórica anti-imigração e teorias da conspiração. Embora, tradicionalmente, essas ideias tenham florescido em plataformas com um perfil de usuário mais jovem, incluindo 4chan, Parler e Telegram, sites como Facebook e X estão tornando-as mais acessíveis a um público mais amplo – e mais velho; os mais de 40 administradores ou moderadores dos três maiores grupos do Facebook na pesquisa do Guardian eram homens e mulheres com mais de 60 anos.

Wilford afirma que a normalização do racismo nessas plataformas está encorajando pessoas que antes poderiam ter reprimido opiniões ofensivas. Ela acredita que a participação nessas comunidades pode oferecer um poderoso senso de reconhecimento em uma fase da vida em que as pessoas podem se sentir socialmente redundantes ou até mesmo invisíveis. "Elas entram nesses chats ou fóruns e são realmente ouvidas e levadas a sério", diz ela. "Para alguém que sente que a sociedade não se importa mais com ela, isso é uma revelação. Elas sentem que encontraram uma comunidade novamente." No ano passado, Smidge produziu "A Family Tea", um curta- metragem de seis minutos que reflete o impacto potencial disso dentro das famílias. Uma mãe lê propaganda anti-imigração em seu laptop enquanto o marido lê um jornal e o filho adulto mexe no celular. A mãe, uma enfermeira, fica irritada por ter perdido uma promoção para um colega estrangeiro. A tensão aumenta e logo ela está repetindo mentiras sobre a teoria nacionalista branca da "grande substituição". O filho, cuja companheira é imigrante, sai da sala. "Se você continuar assim, pode não ver seus netos crescerem", diz o pai.

Sarah, que está na casa dos 60 anos, quase se tornou essa mãe. Ela se lembra de ter votado no Partido Liberal, aos 22 anos, nas eleições gerais de 1979, quando Margaret Thatcher chegou ao poder. “As políticas deles me pareciam mais moderadas, pareciam estar considerando mais as pessoas”, diz ela sobre os liberais. “Mas quando meu irmão descobriu, ele disse: 'O que você está fazendo? Papai vota nos conservadores, eu voto nos conservadores, você tem que votar nos conservadores.' Eu não era muito ligado em política. Pensava: ‘Bem, se eles pensam assim, vou segui-los’, o que é um pouco patético, mas eu era muito jovem. Não existiam as fontes de notícias que existem hoje, então passei a votar nos Conservadores.”

Sarah, que mora na zona rural de East Anglia, acredita que comprar uma casa aos 24 anos também contribuiu para mudar suas convicções políticas. Ela passou a admirar Thatcher e a tolerar John Major. Não demorou muito para que, após a vitória de Tony Blair em 1997 ("Terrível!"), Sarah dissesse que a preocupação com a Europa a inspirou a votar no Ukip. "Gostei do que eles defendiam e achei que eram mais patriotas", afirma. Conforme crescia, a filha de Sarah, agora com seus trinta e poucos anos, desenvolveu opiniões muito diferentes: “Não consigo pensar em ninguém de nenhum dos lados da família dela que teria votado no Partido Trabalhista, mas talvez tenha sido a influência de seus professores e colegas de escola. Na adolescência, ela dizia: 'Mãe, não entendo por que você apoia essas pessoas. Você é uma pessoa muito legal. Não faz sentido.'”O distanciamento aumentou quando Sarah começou a fazer campanha para o Ukip. Depois veio o Brexit. “Minha filha valorizava sua liberdade de movimento e acreditava na propaganda de que as pessoas que não queriam perder sua soberania eram intolerantes e racistas. Tivemos discussões extremamente acaloradas, algo que nunca tínhamos tido antes. Nosso relacionamento estava à beira do colapso.”

Sarah agora vota no Partido Reformista. Ela admira Nigel Farage e Donald Trump e diz que "o estilo de vida muçulmano me preocupa diariamente", uma visão que ela reconhece como racista. No entanto, ela também se ressente da ideia de que pessoas com mais de 60 anos não entendem nada de internet ou estejam buscando desesperadamente um propósito e reconhecimento online. Ela diz que se informa principalmente pelo GB News e pelo Telegraph. Ela só usa o Facebook para manter contato com os amigos, diz que o X não é para ela e que sabe checar informações.

Sarah não foi a única pessoa que me contou sobre sua própria guinada à direita. Um homem de 60 e poucos anos de Surrey disse que se considerava “firmemente de esquerda” até uma década atrás. Suas opiniões também o colocaram em desacordo com sua filha adulta. “É impossível ter um debate sensato… Assim que [a esquerda] se depara com fatos e lógica, eles ficam com raiva, usam insultos e depois vão embora.”

Andy, um acadêmico na casa dos 50 anos, diz que seus pais, que estão na casa dos 80 e moram nos arredores de Londres, não precisaram de exposição a contas extremistas do X ou grupos do Facebook repletos de teorias da conspiração para se inclinarem fortemente à direita, de uma forma que criou uma grande ruptura familiar. "Acho que a visão de mundo que eles absorvem dos jornais que sempre leram é muito mais perigosa", diz ele por meio do Zoom. "Ainda podemos discutir sobre as teorias da conspiração mais absurdas com base no argumento de que são simplesmente loucura, mas o que eles leem é visto como normal... É basicamente a mesma visão de mundo expressa de uma maneira mais polida." Andy, que agora mora no exterior, conta que sua mãe já foi eleitora do Partido Liberal Democrata, enquanto seu pai sempre foi um “Conservador à moda antiga”. Eles respeitavam seu ativismo ambiental quando ele era estudante nos anos 90. Sua mãe chegou a votar no Partido Verde em solidariedade. Mas nos últimos 25 anos – principalmente depois do 11 de setembro – “o discurso sobre imigração os radicalizou”. Quando Andy se casou com uma imigrante em 2005, “a reação era sempre: 'Bem, não estamos falando dela'”. As opiniões deles se tornaram mais extremistas desde o Brexit e a ascensão do Partido Reformista, que agora apoiam. “Quando surgiu a questão da saída da UE, era impossível ter qualquer tipo de conversa sobre o assunto. O Brexit destruiu tudo.” Durante uma discussão sobre a Europa, alimentada em parte pelo álcool, Andy conta que seu pai o ameaçou de soco.

Segundo Andy, os pais dele levam vidas confortáveis, em grande parte alheios aos problemas que mais os incomodam, incluindo a imigração. “Mas é como se tivessem perdido a capacidade de pensar criticamente, então estão presos num ciclo vicioso de ignorância. Mas também não conseguem se dar conta de que são ignorantes, porque são pessoas instruídas que conhecem o mundo. Eles acreditam piamente que pessoas de raças diferentes não se misturam e que estrangeiros não deveriam viver na Grã-Bretanha.” Eles são muito islamofóbicos, mas essas visões já não são consideradas extremistas por muita gente. Zack Polanski e o Partido Verde têm falado sobre tornar a esperança algo normal novamente. Acho que também precisamos fazer com que o preconceito volte a ser algo estranho.” Andy culpa a política centrista por não oferecer a pessoas como seus pais uma visão de mundo mais positiva. "Ninguém defendeu a civilidade e o multiculturalismo, ou uma visão liberal da Grã-Bretanha como uma potência humanista que apoia os direitos humanos e o Estado de Direito", diz ele. "Esse é o lugar natural onde meus pais deveriam estar, mas quando partidos como o Ukip começaram a ganhar força, houve um pânico coletivo de perder eleitores para eles." Lisan, cujo irmão se radicalizou à direita, acredita que as redes sociais ganharam tanta força que estão radicalizando pessoas que talvez nunca tenham tido uma conta no Google ou no Facebook. "Nem sei se minha família usa redes sociais, mas o fato de estarmos cercados por elas, e de as pessoas receberem informações polarizadas nas manchetes dos jornais ou no rádio, significa que quase não importa mais", diz ela.

Ela cresceu em uma família da classe trabalhadora em Londres. Seu irmão, que está na casa dos 60 anos, administra um pub. Quando ele mencionou, em um casamento recente da família, que agora votava no Partido Reformista, ela ficou surpresa e perguntou o porquê. “Ele disse: 'Estamos perdendo nossa identidade'. Perguntei o que ele queria dizer com 'identidade' e ele simplesmente explodiu e mandou eu me foder, dizendo que eu era ingênua e ridícula e que não entendia o que era aquilo. Depois, saiu furioso. Todos ficaram chocados, porque ele nunca tinha dito nada parecido, com tanta raiva e ódio. Foi realmente perturbador.” Agora coach corporativa, Alison diz que a disparidade educacional em sua família tornou mais difícil para ela e seu irmão chegarem a um consenso. Ela percebeu que tentar dialogar com ele e outros parentes que se inclinaram para a direita só parece deixá-los mais irritados. Mas ela se pergunta se essa raiva não está mal direcionada. "Senti que, por ter feito uma pergunta que ele não soube responder, a raiva não era, na verdade, contra mim, mas contra ele mesmo. E então senti pena dele." O irmão de Alison pediu desculpas e eles conseguiram manter o relacionamento, mesmo que agora esteja abalado. Mas dezenas de outras pessoas com quem conversei falaram sobre laços familiares que se romperam. "Minha família está praticamente afastada da minha tia por causa das opiniões de extrema-direita dela no Facebook", diz uma mulher de 40 e poucos anos de Hampshire. Uma americana diz que apenas o dever de cuidar de um parente doente impediu seu afastamento da família desde que seus pais "se radicalizaram tanto à direita a ponto de se tornarem quase irreconhecíveis... É difícil vislumbrar os pais amorosos de que me lembro, para depois vê-los desaparecerem em meio a absurdos sectários no momento em que as redes sociais os colocam em evidência."

Entre centenas de respostas a uma publicação do Guardian sobre parentes mais velhos que estão se inclinando para a direita politicamente, um subgrupo notável se destacou: aqueles que contrariam a tendência e se tornam mais de esquerda com a idade. Uma mulher afirma que ela e suas amigas se tornaram mais liberais: “Viver mais nos dá a oportunidade de perceber que as coisas não são tão simples e dicotômicas quanto pensávamos”. Um editor aposentado, na casa dos 70 anos, também descreve uma guinada à esquerda: “Isso se deve em parte à culpa pelo nosso estilo de vida confortável no pós-guerra e à sensação de que temos uma dívida com a sociedade”. Tracey Laszloffy, que trabalha nos EUA como terapeuta de casais e famílias há mais de 35 anos, afirma que valores opostos sempre fizeram parte do seu trabalho. “Mas a política em si explodiu nos últimos anos. E aqui, o que realmente chama a atenção é a polarização em relação a Trump e ao MAGA. Nunca vi nada tão divisivo.” A intensidade dos sentimentos pode dificultar para Laszloffy desenterrar as causas profundas, muitas vezes ligadas a ressentimentos antigos. "Eu só uso a política como ponto de partida, porque conversas sobre Trump não levam a lugar nenhum", diz ela. Ela atendeu um casal de idosos cujo casamento estava ameaçado por opiniões divergentes sobre Trump (ele era fã). Acontece que o homem, que tinha um emprego braçal que pagava muito menos do que o da esposa, havia ficado irritado porque a prometida recuperação econômica de Trump não havia se concretizado. "Ele estava lidando com questões relacionadas à masculinidade e à identidade, e reconhecer essa vulnerabilidade criou o terreno necessário para que eles se reconectassem de forma significativa."

Janet Reibstein, psicóloga da Universidade de Exeter, diz que se lembra de sua própria história nos EUA, de onde emigrou para o Reino Unido décadas atrás. “Toda a minha família era contra a guerra do Vietnã, mas eu tinha um primo no exército que vinha nos provocar de propósito”, conta Reibstein, autora de Good Relations: Cracking the Code of How to Get on Better (Boas Relações: Desvendando o Código de Como se Dar Bem). A solução foi a que ela ainda recomenda: desistir da ideia de que vai mudar a opinião de alguém. Em vez disso, estabeleça limites ao redor do campo minado e busque pontos em comum. “Eu disse a ele que não poderia me visitar se falasse sobre a guerra, e ele respeitou. O problema é que, quando o discurso dominante é de divisão, fica mais difícil ter essas conversas.” O afastamento familiar, promovido nas redes sociais e em contas do Reddit como "corte total de contato", aparentemente se proliferou. Os dados sobre o assunto são escassos, mas uma pesquisa da YouGov nos EUA no ano passado sugeriu que mais de um terço dos adultos estavam afastados de um dos pais, filhos, irmãos, avós ou netos. Outra pesquisa, realizada logo após as eleições de 2024 pelo Harris Poll, indicou que metade dos adultos americanos estavam afastados de um parente próximo, com 18% citando diferenças políticas como o motivo.

Mesmo que as pessoas mais velhas estejam se movendo mais rápido e com mais intensidade para a direita, Joshua Coleman, psicólogo especializado em afastamento familiar e criador da pesquisa em parceria com o Harris Poll , argumenta que seus filhos também estão se tornando menos tolerantes à diferença. “Talvez no passado as pessoas pensassem: 'Nossa, mamãe ou papai está ficando mais conservador(a), que chato', mas agora isso se torna um grande indicador de valores”, diz Coleman, autor de "Regras do Afastamento: Por que os Filhos Adultos Cortam Laços e Como Curar o Conflito". “Associar-se a eles está, de alguma forma, em desacordo com a própria identidade e aspirações.” Embora Coleman, de 71 anos, reconheça que cortar relações é a única saída em casos extremos de ruptura familiar, ele acredita que os mais jovens tendem a ver a política como uma justificativa para tomar medidas drásticas, e até mesmo se vangloriar delas. "É visto como um ato virtuoso de proteção da identidade e da saúde mental", acrescenta. "Tudo isso é bastante recente." Ele observa o mesmo instinto nos pais da geração millennial de proteger os filhos das opiniões dos avós. Nadine, a leitora cuja mãe e o parceiro se tornaram obcecados por barcos pequenos, agora pensa duas vezes antes de levar a filha à casa da avó. “Ainda a convido para eventos familiares, mas fico nervosa com a possibilidade de ela dizer algo ofensivo. Sei que as opiniões dela não refletem as minhas, mas me preocupo que outros possam pensar que sim.”

No geral, porém, Nadine diz que conseguiu evitar a política e manter um bom relacionamento com os pais. Já Sarah, a eleitora do Partido Reformista com a filha desesperada, comenta: “Combinamos que não íamos mudar de ideia, então tivemos que parar de falar sobre política. Preciso ter muito cuidado porque não concordamos em nada, mas funciona e o principal é que ela sabe que eu a amo.” Graham também decidiu parar de interagir com a mãe quando ela compartilha suas opiniões ou as últimas teorias da conspiração que consome online. Ele também reconhece algo na visão de Wilford: muitos radicais online mais velhos são motivados por um sentimento de redundância e isolamento. "Contanto que eu fique calado, acho que o relacionamento vai sobreviver", diz ele. "Mas sinto que preciso ajudá-la de alguma forma. Quando ela diz essas coisas, parece quase em pânico, como se estivesse tentando me convencer. Mas também acho que agora ela está preocupada, por causa do que eu disse, que algumas das coisas que ela leu não sejam verdadeiras." Ele sugeriu terapia, mas ela rejeitou a ideia. No início, eram as opiniões políticas que o incomodavam, desafiando seus próprios valores, bem como sua compreensão de quem era sua mãe. Mas agora ele só quer que ela fique bem. "Não sei quais seriam suas crenças políticas se ela pudesse se curar disso", acrescenta, antes de admitir que sua tolerância tinha limites. Ele pensa por um instante. "Suponho que não me incomodaria mais se ela quisesse ser membro do Reform ou apoiar Tommy Robinson, contanto que não fosse porque ela estivesse acreditando em mentiras."

 

Fonte: The Guardian