sexta-feira, 17 de abril de 2026

Thiago Toledo Ferreira da Rocha: Ausência de hegemonia

O ano de 2026 chegou e as eleições convocam a crítica retrospectiva e projetiva. Em setores críticos ao governo, consolidou-se o diagnóstico de que o terceiro governo Lula resignou-se a se tornar um gestor da ordem neoliberal, recusando a mobilização popular e o confronto com o capital, desperdiçando, assim, a oportunidade de construir um novo projeto hegemônico capaz de se afirmar como resistência à inércia neoliberal. Ao fazê-lo, abriu espaço ao retorno do fascismo de extrema direita.

Tal diagnóstico está correto. No entanto, a questão inquietante é o porquê disso. O desafio consiste em compreender até que ponto se trata de uma escolha político-eleitoral, de falta de coragem ou desejo, e até onde tal paralisia é fruto de obstáculos sistêmicos impostos tanto pela dinâmica do capitalismo global quanto pelos entraves institucionais brasileiros.

Colocar boas perguntas é difícil; mais difícil ainda é enfrentá-las. Partamos do início, para enquadrar o governo no cenário maior em que está inscrito: o interregno global.

Advém de Antonio Gramsci a ideia de interregno. O conceito foi formulado pelo autor nos Cadernos do cárcere, escritos na prisão entre 1926 e 1936. O contexto foi o da Primeira Guerra Mundial e da avassaladora crise do capitalismo de 1929, que gerou milhões de desempregados e profunda desintegração social na Europa.

Nesse momento, as classes dirigentes capitalistas perderam sua legitimidade, e o projeto capitalista democrático perdeu sua força de adesão e consenso. Isso deixou um vazio que Antonio Gramsci, informado pela teoria da história de Karl Marx, afirmou que o socialismo preencheria por meio de um novo projeto político, econômico e ideológico. Caberia ao proletariado se preparar para isso.

No entanto, sabemos que não foi isso que ocorreu. Apesar das insurreições proletárias que despontaram nesse momento pela Europa e da Revolução Russa comandada por Vladímir Lênin e Leon Trótsky, a hegemonia socialista do proletariado não se consagrou. Mas não apenas o socialismo não se consagrou, como despontaram os fascismos históricos de Adolf Hitler e Benito Mussolini. Diante disso, Antonio Gramsci afirmou que tais fenômenos mórbidos e regressivos eram resultado da combinação entre o sofrimento social no interregno e a ineficácia da esquerda em se colocar como nova força hegemônica.

Atualmente, o mundo ocidental vive um interregno análogo ao descrito pelo autor. Como mostrou Wolfgang Streeck, em O tempo comprado, depois do colapso financeiro de 2008, a ordem neoliberal perdeu sua legitimidade, mas prossegue em modo zumbi e com frequência de modo abertamente autoritário. Entende-se aqui por neoliberalismo o processo que se inicia na década de 1970, marcado pelo desmonte do Estado de bem-estar social, desregulamentações, privatizações massivas e austeridade fiscal, o que acarretou o fenômeno da financeirização.

Para Wolfgang Streeck, ainda que o neoliberalismo definhe, o novo – seja um socialismo, seja um novo pacto social-democrata – não consegue nascer, em parte por conta dos entraves sistêmicos legados pelo próprio neoliberalismo, em parte pela ausência de alternativas políticas, econômicas e ideológicas da esquerda mundial. O resultado é um longo período de inércia desordenada, incerteza, degradação e agudização do sofrimento social.

Com efeito, o ponto de Wolfgang Streeck é mostrar como, ao retirar do âmbito democrático grande parte das decisões acerca da política econômica, os governos tornaram-se impotentes para implementar seus programas – algo que Francisco de Oliveira já havia notado ao sublinhar a convergência programática entre PT e PSDB no início dos anos 2000.

À medida que esquerda e direita se tornavam cada vez mais parecidas, a revolta social gerada pela ausência de transformações profundas e pelo aprofundamento da precarização estimulou a adesão a movimentos de extrema-direita. Esse seria, para Wolfgang Streeck, o vínculo entre a crise do capitalismo, datada de 2008, e a crise da democracia, cujo marco é a eleição de Donald Trump em 2016.

Hoje, as possibilidades políticas no interregno oscilam entre uma reconfiguração autoritária do próprio neoliberalismo, à la Donald Trump, Javier Milei e Jair Bolsonaro; um novo modelo capitalista, como o ensaiado pelo governo de Joe Biden; tentativas reformistas corajosas de resistência como o caso de Gustavo Petro; ou manejos que administram a inércia do modelo neoliberal em decadência, como é o caso de Gabriel Boric no Chile e do governo Lula.

A China, por sua vez, desponta na contramão, como nova superpotência mundial, com um arranjo político-econômico surpreendente, candidatando-se à hegemonia mundial, enquanto desaceleram as economias capitalistas dos países da OCDE. Nesse sentido, as atuais guerras no Oriente Médio e as tentativas de subjugação da América Latina por Trump via tarifas, ameaças e violações de soberania nacional assinalam as saídas violentas da decadência da hegemonia estadunidense. Ainda, em meio a inúmeras guerras e disputas de hegemonia, o mundo tem que lidar com um enorme desafio, que exige articulações políticas coordenadas: o colapso ecológico. 

Nesse cenário, governos progressistas, imersos em inúmeras dificuldades, hesitam em se contrapôr à inércia neoliberal, tornando-se gestores dessa situação. A esquerda assumiu, nas duas últimas décadas, a tarefa rebaixada de oferecer avanços – inegociáveis, mas insuficientes – em políticas de reconhecimento social de minorias sociais, abandonando transformações sócio-econômicas profundas. Algo que Nancy Fraser batizou de “neoliberalismo progressista”.

No ano de 1967, quando convidado a falar para estudantes perplexos com o crescimento do partido fascista de extrema direita na Alemanha anos depois do trauma do nazismo, Theodor Adorno insistiu que o fascismo sempre foi o resultado de uma democracia que nunca esteve à altura do seu conceito, que jamais foi capaz de realizar o igualitarismo e o universalismo que prometeu. A democracia liberal capitalista sempre teria guardado o perigo de que a revolta pelo sofrimento social por ela gerada fosse cooptada contra ela mesma.

Teria sido essa a razão para a ascensão de Hitler e Mussolini, a mesma em jogo naquele momento. De forma análoga, o fascismo contemporâneo é fruto da precarização da vida social e do sofrimento social no interior do interregno atual. Ele surge oferecendo respostas desastrosas para problemas muito reais, acolhendo à sua maneira, a revolta social e a rebeldia anti-sistema que outrora fora marca da esquerda.

E o Brasil no meio deste interregno? Pois então. O neoliberalismo penetrou no Brasil nos anos 1980 e se intensificou a partir do governo FHC. A partir de 2016, através dos governos de Michel Temer e sobretudo Jair Bolsonaro, intensifica-se a precarização econômica com um projeto político de extrema direita abertamente autoritário. Sob a retórica de combate à crise fiscal e redução da dívida pública, foi aprovado o teto de gastos em 2017, que atrofiou dramaticamente a capacidade de investimento público.

Na mesma direção, foram aprovadas reformas retrógradas como a reforma trabalhista; além, é claro, de privatizações, ataques a empresas públicas, desmanches de políticas sociais como o Bolsa família, Mais médicos e Minha Casa Minha Vida, redução do investimento em pesquisa, ciência e tecnologia, e a aprovação, em 2021, da independência do Banco Central.

Conforme mostra o livro Brasil no Inferno Global, organizado por André Singer, da perspectiva do interregno, durante os governos do PT, especialmente com Lula, houve um neoliberalismo redutor da pobreza, que se beneficiou do boom das commodities para incluir os mais pobres através de transferências de renda e de crédito. Em 2016, com a crise econômica e o impeachment, entra em cena um neoliberalismo predador, de austeridade fiscal rígida, redução de direitos e reformas antipopulares.

Já com Jair Bolsonaro – nosso fenômeno mórbido – viu-se um projeto autoritário de desmantelamento das instituições democráticas e construção de inimigos internos. Mas, eis que depois de Jair Bolsonaro, Lula vence as eleições. Isso deveria nos lembrar que o interregno explicita um espaço vazio a ser ocupado. Ou seja, ou bem a esquerda se apresenta como esta tendência de futuro, capaz de oferecer um horizonte que resolva o interregno atual, ou a extrema direita o fará – como liás, já o faz.

São duas perguntas que emergem daí. A primeira é: por que Lula não o fez? A segunda pergunta, talvez mais desafiadora, consiste em pensar o que é um projeto hegemônico de esquerda hoje.

Comecemos pela primeira. Tem razão aqueles que denunciam a falta de desejo e coragem política de Lula. A implementação do arcabouço fiscal elaborado por Fernando Haddad mostrou, desde o início, a concessão do governo à política fiscal neoliberal de austeridade fiscal e cortes de gastos sociais. As promessas de campanha de revogação das reformas trabalhista e do ensino médio foram abandonadas, e não houve a tentativa prometida de reestatizar a Eletrobrás.

Foram concedidos enormes subsídios ao agronegócio via plano Safra e postura descompromissada com o meio ambiente; discurso ambíguo e pouco incisivo relativo à diminuição da jornada de trabalho e descompromisso com pautas clássicas da esquerda ligadas à reforma agrária. Novamente, o lulismo mostrou sua face de força despolitizadora e sua estratégia eleitoral de não confrontação ao capital em defesa da classe trabalhadora. Diferente de Claudia Sheinbaum e Gustavo Petro, por exemplo, as tentativas de mobilização popular a fim de pressionar o congresso por pautas pró-classe trabalhadora foram praticamente nula: quase não se fez pronunciamentos públicos em TV aberta e mobilizações populares.

Por outro lado, a resposta à pergunta “por que Lula não o faz” não pode ser explicada apenas por escolhas políticas ou falta de desejo. É preciso considerar também os entraves estruturais que limitam a ação de governos progressistas hoje. Pois a própria confecção de um projeto hegemônico de esquerda e a viabilidade de sua implementação depende da identificação dessas estruturas bloqueadoras a fim de superá-las. No Brasil, esses obstáculos operam em dois níveis articulados: o nível global, relacionado à dinâmica do capitalismo contemporâneo, e o nível nacional, ligado à configuração institucional e à correlação de forças no sistema político brasileiro.

Em nível global, os dois entraves estruturais são a financeirização vinculada ao processo de descolamento da economia em relação às democracia de massas, e a posição periférica do Brasil na divisão do trabalho internacional.

Conforme argumenta Wolfgang Streck, a autonomia dos Bancos centrais limitam a soberania dos Estados sobre sua política econômica e produzem exigências de austeridade fiscal, enfraquecendo o poder do Estado e pressionando por cortes de gastos e reformas anti-populares. Em países como o Brasil, dependentes de capital estrangeiro e cuja dívida pública é observada por investidores internacionais, as tentativas de ampliação de investimentos sociais são contidas pela pressão dos mercados por equilíbrio fiscal, contenção da dívida pública e austeridade com elevação de juros e pressões por ajustes orçamentários.

Em relação à posição periférica no capitalismo global, sabemos como quase toda África e América Latina são dependentes da exportação de commodities (soja, cana-de-açúcar, minérios e petróleo). No Brasil, a prevalência e força política do agronegócio, bem como a enorme concentração fundiária por ele gerada, bloqueia projetos de reforma agrária e de transição energética voltada ao combate às desigualdades, além, é claro, de provocar danos ambientais brutais e irreversíveis.

A esse respeito, foi Robert Kurz quem mostrou, em O colapso da modernização, como ao longo do século XX, a automação da produção industrial advinda da incorporação da alta tecnologia nos países centrais do capitalismo tornou os países periféricos – que outrora forneciam mão de obra barata às fábricas estrangeiras e competiam com produtos de média complexidade no mercado internacional – simplesmente inúteis e sem competitividade produtiva alguma.

Isso gerou, em países como o Brasil, processos de desindustrialização, por um lado – acarretando em precarização do trabalho e desemprego – e, de outro, endividamento crônico, por conta da dependência de créditos de órgãos como o FMI e Banco Mundial para financiamento de seus próprios gastos públicos. Isso levou Robert Kurz a afirmar, com razão, que, para a periferia, a modernização tão sonhada já foi, a única possível dentro de um sistema onde sua única função possível é a de suporte de expropriação para a exploração e extração do mais-valor no centro do sistema.

À nível nacional, os dois entraves estruturais dizem respeito ao modo de funcionamento do presidencialismo brasileiro e a fragmentação da classe trabalhadora no capitalismo de plataforma. Tais entraves, uma vez articulados, impossibilitam transformações profundas por meio do funcionamento normal das instituições e bloqueia a força popular das ruas.

A cultura política que organiza o sistema político brasileiro desde a redemocratização estrutura-se pela distribuição de recursos políticos, como cargos e emendas parlamentares, e acomodação de alianças e interesses heteróclitos como meio de garantir governabilidade e estabilidade institucional. Essa dinâmica paralisa a implementação de programas políticos e mudanças estruturais mais profundas. A contradição dos governos petistas foi justamente a de utilizar o pemedebismo como estratégia para promover avanços sociais, o que teve como saldo uma regressão política, que naturalizou o pemedebismo e o conservadorismo como mecanismo normal das instituições brasileiras.

No atual governo Lula, formado por uma coalizão amplíssima de partidos ideologicamente distantes, claro está que a estratégia do pemedebismo, para a esquerda, chegou ao seu limite. O que sinaliza a urgência da retomada das articulações entre movimentos sociais e Estado e a luta por uma reforma política capaz de desmantelar a dinâmica conservadora do Estado brasileiro.

Se o sistema político trava mudanças profundas, a solução deveria advir das ruas, de movimentos que, ou criassem alternativas institucionais, ou que pressionassem sistematicamente o Estado por mudanças. No entanto, a desestruturação da classe trabalhadora no contexto do capitalismo de plataforma neoliberal, dificulta as mobilizações populares de esquerda. Estamos diante de outra classe trabalhadora, diferente daquela que elegeu os governos petistas.

O surgimento de capitalismo de plataforma, que produziu os fenômenos da uberização e da pejotização do trabalho, aprofundou esse processo de precarização do trabalho, redução e enfraquecimento dos sindicatos e das identidades coletivas, levando os trabalhadores a uma lógica individualista de sobrevivência, dificultando a construção de projetos políticos e movimentos organizados. Dinâmica que hoje se traveste sob o véu ideológico do empreendedorismo, que foi incorporado pela própria esquerda como maneira de se aproximar das aspirações de parte significativa da população.

Toda teoria crítica comprometida com a realização da justiça social, tenta, à sua maneira, identificar aquilo que bloqueia a emancipação, aquilo impede que os potenciais emancipatórios do presente se realizem. A dificuldade, hoje, talvez seja a de que os obstáculos estejam mais claros que os potenciais. Mas não esqueçamos: enquanto houver sofrimento social, haverá quem sonhe e lute pela emancipação. O compromisso, para aqueles que acreditam em possibilidades, será sempre o de olhar a realidade do ponto de vista do que ela poderia ser, mas ainda não é.

Há casos pelo mundo que mostram como o momento atual – o interregno – exige mais ousadia, radicalização e tentativas de ruptura por parte da esquerda: Zoham Mandami, em NY, Gustavo Petro, na Colômbia, Claudia Sheinbaum, no México, corroboram tal perspectiva. No Brasil, o crescimento político e midiático de um comunista como Jones Manoel, por exemplo, que recoloca no debate público ideias clássicas da esquerda, e que não teme em falar em socialismo brasileiro no século XXI, também é sugestivo nesse sentido.

Pela via inversa, lembremos como inúmeros governos progressistas pouco combativos foram sucedidos por governos fascistas de extrema: Dilma Rousseff sucedida por Michel Temer e Jair Bolsonaro, Alberto Fernandez por Javier Milei, Barack Obama por Donald Trump; além do crescimento alarmante da extrema direita no parlamento francês (Rassemblement Nacional) em meio ao governo Emmanuel Macron e da Afd na Alemanha. No Brasil, Flávio Bolsonaro está despontando nas pesquisas como alguém que pode vencer Lula.

O interregno atual, portanto, não é só um diagnóstico histórico meramente teórico. Ele é o momento em que a esquerda decidirá se continuará administrando o sofrimento social gerado pelas crises contemporâneas, ou se assumirá o desafio de renascer e produzir um novo tempo do mundo. Renascer significa, dentre outras coisas, reconhecer o tamanho do desafio e dos obstáculos a serem enfrentados.

Reconhecer que a inércia neoliberal e o sofrimento social que ela produz não podem ser nosso horizonte de futuro. O interregno é um campo de disputa. Mas, como mostra a experiência histórica, ele não permanece aberto para sempre. E o que a vida quer da gente é coragem.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Quando o trabalho tritura e mata

São Paulo, 28 de fevereiro de 2026. Era um sábado à noite, quando um funcionário (animador cultural) tirou a própria vida dentro da unidade do Sesc Pompeia, zona oeste da capital. Trabalhava na unidade há 7 anos. Suicídio ou acidente de trabalho fatal? Segundo reportagem do portal Metrópoles, publicada em 11 de março, a busca pelo esclarecimento dos fatos revelou testemunhos de outros funcionários relatando jornadas abusivas, assédio moral, pressão por metas e acúmulo de funções. As denúncias chegaram ao Ministério Público do Trabalho (MPT), que instaurou um inquérito para apurar o caso.

Este trabalhador integrará o contingente que, entre 2013 e 2023, somou 6.810.735 acidentados no Brasil — dado levantado pelo Anuário Estatístico de Acidentes do Trabalho (AEAT), da Previdência Social, com apoio da Fundacentro. Deste total, 27.484 casos foram fatais. Resta o impasse: o caso será computado como mais um acidente de trabalho fatal ou engrossará as estatísticas de suicídio? 

No mercado de trabalho brasileiro, o tempo da exploração não para: a cada 43 segundos, em média, um trabalhador formal sofre um acidente registrado. A cada três horas e meia, uma dessas trajetórias é definitivamente interrompida por uma morte no exercício da função. Desde 2021, essa curva de violência laboral mantém uma ascensão ininterrupta. Estes dados não são apenas estatísticas frias; eles revelam a dimensão física e temporal da expropriação da vida — onde o tempo de trabalho deixa de ser apenas uma mercadoria e passa a ser o próprio limite da existência.

É importante notar, entretanto, que os dados do AEAT captam apenas uma parte da realidade, limitando-se aos trabalhadores com carteira assinada e contribuintes do INSS. Assim, estão excluídos dessa conta os 38% da força de trabalho brasileira que sobrevivem na informalidade, conforme dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNADC)/IBGE de 2025. Segundo estimativas da Organização Internacional do Trabalho (OIT), essa lacuna estatística sugere que o número real de acidentes pode ser de duas a três vezes maior do que o registrado. O que os números oficiais mostram é apenas a ponta de um iceberg.

Ainda que parciais, o que os registros oficiais revelam já é suficiente para soar o alarme. Em 2013, o Brasil contabilizou 717.911 acidentes e 2.793 óbitos; em 2023, os números situaram-se em 732.751 e 2.769, respectivamente. À primeira vista, a semelhança entre os dados das duas pontas da década sugere uma estagnação, mas essa aparência de estabilidade oculta uma trajetória turbulenta. Entre esses dois pontos, o que se vê não é o controle dos riscos, mas a manutenção de um patamar inaceitável de violência laboral que resiste ao tempo e às transformações do mercado.

De 2014 a 2020, o país registrou uma queda consistente nos indicadores, porém por motivo conjuntural, não preventivo. A recessão econômica de 2015 e 2016 contraiu o emprego formal e, por consequência, reduziu a base de trabalhadores cobertos pelo sistema previdenciário. Esse movimento foi radicalizado pela pandemia de COVID-19: em 2020, os acidentes recuaram 14% em comparação ao ano anterior, atingindo o patamar mais baixo da série, com 472.476 ocorrências. Trata-se de uma “queda estatística” provocada pela paralisia econômica, e não por uma real proteção à vida do trabalhador.

O que se seguiu à pandemia foi uma escalada preocupante. Em 2021, os acidentes saltaram 20,9%, seguidos por altas de 12,6% em 2022 e 11,9% em 2023. Dados preliminares do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) indicam que o motor da expropriação continua acelerado, com novo crescimento de 11,2% em 2024 e uma alta adicional de 8,98% no primeiro semestre de 2025. Ao todo, o Brasil registrou um crescimento acumulado de 56% nos acidentes de trabalho em apenas três anos (2020–2023) — um indicador brutal de que a retomada econômica ocorre sob o signo da precarização e do confisco da saúde do trabalhador.

É necessário ponderar que parte desse crescimento recente pode refletir um ganho de eficiência nas notificações, e não necessariamente um aumento isolado no número de sinistros. O lançamento do painel de monitoramento em tempo real pelo governo federal, em 2025, conferiu visibilidade a ocorrências que antes permaneciam sob as sombras da subnotificação. Entretanto, especialistas alertam que este fenômeno estatístico não anula a hipótese de uma piora real e tangível nas condições de trabalho. A intensificação dos ritmos produtivos — pressão por resultado, assédio, jornada exaustiva — e a precarização dos vínculos seguem como componentes plausíveis — e preocupantes — para explicar a manutenção desses patamares elevados de violência laboral.

Quando observamos os setores econômicos que mais matam, constatamos que nem todos são igualmente perigosos — e os dados revelam uma hierarquia de risco que permanece praticamente inalterada há décadas.

A letalidade no mercado brasileiro concentra-se em setores com Classificação Nacional de Atividades Econômicas (CNAE) específicos: a construção civil lidera em números absolutos de óbitos: com uma taxa de 9 mortes para cada 1.000 acidentes (quase o dobro da média nacional), o setor registrou mais de 640 mortes em 2023, impulsionado pela retomada de programas habitacionais. Contudo, é na agropecuária que o risco relativo atinge seu ápice, com 12 óbitos por 1.000 acidentes, sob uma camada de subnotificação profunda de trabalhadores temporários.

O setor de transporte e logística, por sua vez, é o que cresce de forma mais acelerada e invisível. A expansão do e-commerce e das plataformas de entrega criou um contingente de 1,8 milhão de trabalhadores (PNADC/IBGE 2025) que navegam em uma zona cinzenta: motoboys e entregadores que, por serem MEIs ou informais, não geram Comunicação de Acidente de Trabalho (CATs), tornando sua expropriação estatisticamente nula, mas fisicamente real. Por fim, a saúde e assistência social emerge no pós-pandemia com 150.000 registros em 2024, expondo o esgotamento de profissionais de enfermagem frente a lesões osteomusculares e acidentes biológicos.

No cenário global, a dimensão do problema brasileiro ganha contornos dramáticos. Segundo o ILOSTAT (OIT), o Brasil ocupa uma posição incômoda: nossa taxa de acidentes fatais é estimada em 6,9 mortes por 100.000 trabalhadores, enquanto a média dos países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) é de apenas 1,8. Na prática, o trabalhador brasileiro tem 3,8 vezes mais chances de morrer no exercício de sua função do que a média de um trabalhador em economias desenvolvidas. A taxa de acidentes fatais no Brasil é estimada em 6,9 mortes por 100.000 trabalhadores. O dado baseia-se no universo de trabalhadores formais e segue a metodologia do SDG Indicator 8.8.1, parâmetro oficial que o país reporta às Nações Unidas para monitorar o cumprimento das metas de trabalho decente e desenvolvimento sustentável.

O contraste com o Reino Unido (0,5 por 100.000 trabalhadores) e Alemanha (0,7 por 100.000 trabalhadores) não é acidental; é o resultado de décadas de políticas públicas como o Health and Safety at Work Act britânico e a norma ISO 45001 alemã. Enquanto a Europa persegue a meta de

“Zero Mortes até 2030”, o Brasil sequer consegue superar seus vizinhos latino-americanos, ficando atrás de Chile (5,1), Argentina (4,2) e Uruguai (2,9). É preciso cautela metodológica, dado que a subnotificação em países com alta informalidade pode camuflar uma realidade ainda mais perversa; no entanto, o gap em relação ao mundo desenvolvido permanece expressivo e indefensável.

Por que sociedades de capitalismo desenvolvido são mais seguras? A resposta reside em quatro pilares estruturais e um fundamento teórico. O primeiro é a fiscalização: o Brasil opera com um dos menores índices de auditores-fiscais por trabalhador, situando-se muito abaixo da recomendação da OIT (1:10.000), o que torna as normas de segurança “letra morta”.i O segundo é o sistema de incentivos: mecanismos como o Fator Acidentário de Prevenção (FAP) e o Riscos Ambientais do Trabalho (RAT) são insuficientemente agressivos para alterar o comportamento das empresas, onde o custo previdenciário é facilmente diluído.

O terceiro pilar é a cobertura: o sistema brasileiro exclui deliberadamente os informais, MEIs e trabalhadores de plataformas — uma ironia estrutural onde os mais vulneráveis estão fora do radar. O quarto fator é a maturidade institucional: em países com baixas taxas, a segurança é um valor internalizado, e não apenas uma obrigação legal.

Por fim, há o fundamento nos termos marxistas: no capitalismo desenvolvido, a mais-valia relativa tende a ser o motor principal da produtividade — o que explica a manutenção de taxas de acidentalidade em patamares baixos. Nelas, a exploração é sofisticada e baseada no incremento tecnológico, com a força de trabalho administrada sob os preceitos da democracia empresarial. No Brasil, em contraste, ainda predomina a lógica da mais-valia absoluta: a extração de valor ocorre prioritariamente pelo prolongamento da jornada, pela intensificação do ritmo e pelo controle autoritário, expondo, consequentemente, o corpo e a alma do trabalhador ao risco direto e à expropriação da vida.

Por trás de cada estatística, reside uma biografia que os dados do AEAT são incapazes de capturar: o trabalhador que retorna para casa com uma sequela permanente, a família que perde subitamente seu provedor, a empresa que expande margens ignorando as condições de trabalho. Os 1.569.684 afastamentos superiores a 15 dias registrados na última década representam um passivo que transborda o benefício do INSS. Eles englobam a erosão da produtividade, custos de substituição e, sobretudo, o fardo invisível sobre o SUS e a saúde mental coletiva.

Referência na área, o economista Peter Dorman estima que os custos totais dos acidentes — incluindo externalidades não computadas — atingem 4% do PIB global. No Brasil, dada a precariedade estrutural, essa proporção é certamente mais profunda. Para os “invisíveis” — os 38% na informalidade, os 1,8 milhão de trabalhadores de plataforma e os operários sem registro — o acidente não é uma linha em um relatório; é uma catástrofe pessoal sem rede de proteção, a materialização final do salário real confiscado pela exposição ao risco absoluto.

 

Fonte: Por Por Marcelo Phintener, em Outras Palavras

 

Pacientes com Alzheimer: a luta diária contra o esquecimento

Imagine perder-se em um labirinto sem mapa, onde as paredes são feitas de esquecimentos. A cada passo, você tem roubada de si a capacidade de reconhecer rostos familiares, de lembrar histórias que marcaram sua vida e, até mesmo, de encontrar as palavras certas para expressar os sentimentos. Apesar de parecer algo saído de um filme, é um drama real, conhecido como Doença de Alzheimer, transtorno neurodegenerativo que afeta a memória, a fala e o comportamento. A condição acomete ao menos 1,7 milhão de brasileiros com 60 anos ou mais, conforme dados do Ministério da Saúde.

A maioria dos que possuem um familiar afetado pela doença tem a rede pública de saúde um apoio para cuidar desses pacientes. O especialista em audiovisual Osires Reis, 44 anos, é um desses. Em 2018, a mãe do morador de Samambaia, Maria Sousa, 70, foi diagnosticada com Alzheimer. O tratamento, iniciado no Instituto de Saúde Mental, passou por diferentes unidades até chegar à Unidade Básica de Saúde (UBS) de Samambaia, onde é realizado atualmente.

"Minha mãe tratava bipolaridade desde os anos 1990, então, os primeiros sinais de confusão mental e esquecimento foram associados à falta de adesão à terapia. Apenas em 2017, constatamos que a bipolaridade estava estabilizada e que a memoria tinha piorado", recorda.

Na época, a gravidade do quadro exigiu o uso imediato de memantina, um medicamento não disponível no Sistema Único de Saúde (SUS), o que gerou desafios financeiros. Além do custo, Osires relata dificuldades na rede pública, como a falta de profissionais especializados e a demora para conseguir consultas e exames. "Precisaríamos de mais neurologistas, gerontólogos e psicólogos, além de cursos sobre como lidar com a doença. Também seria fundamental que a UBS oferecessem cuidadores domiciliares", disse.

<><>  Medicação

A aposentada Marisa de Souza Alonso, 69, é a principal responsável pelos cuidados com a mãe, Vilma de Souza, 93, diagnosticada com Alzheimer em 2018. Aos 93 anos, Vilma vive com Marisa e a família no Lago Sul, em Brasília.

Segundo Marisa, os maiores problema incluem o acesso aos medicamentos nas farmácias da rede pública, como a memantina, e outros fármacos necessários para o controle de sintomas secundários, como crises de raiva e de insônia. "Muitos dos medicamentos específicos também não são encontrados facilmente na Farmácia Popular", afirmou.

Ela defende um maior investimento em remédios, gratuitos ou subsidiados, indicados para doenças neurodegenerativas. "Essa condição é malvada. Desconecta o doente da família ainda em vida. Melhorar a disponibilidade de remédios seria um passo importante", finalizou.

<><> Cenário incerto

Hoje, o SUS oferece gratuitamente tratamento e monitoramento da evolução da enfermidade. Entretanto, o acesso nem sempre é garantido à população. O neurologista Carlos Valencia — especialista em Neurologia Cognitiva no Hospital de Base —, apontou a defasagem na estrutura do DF para lidar com o aumento de casos de doenças neurodegenerativas. "A estrutura atual é insuficiente diante da crescente demanda, dos desafios do envelhecimento populacional e do aumento de incidência de doenças crônicas", ressaltou o também membro da Associação Brasileira de Alzheimer (Abraz).

De acordo com o médico, algumas soluções existentes demonstram alta eficácia em seus tratamentos, mas precisam ser ampliadas. "Falta articulação para aproveitar melhor os recursos humanos e a infraestrutura disponíveis. Além disso, o programa da Secretaria de Saúde (SES-DF) que fornece medicamentos para tratar sintomas relacionados às demências, por meio da farmácia de alto custo, é uma iniciativa importante no cuidado desses pacientes", avaliou

<><> Saúde

Em nota, SES-DF disse que oferece suporte nas unidades de atenção primária e nos ambulatórios especializados em geriatria, neurologia e psiquiatria das policlínicas. Além do atendimento médico, algumas dessas unidades têm equipes multiprofissionais, incluindo psicólogos, fisioterapeutas, nutricionistas e terapeutas ocupacionais, para tratar os idosos com Alzheimer e outras demências.

Quanto ao acesso aos remédios, a SES-DF informa que aqueles aprovados pela Anvisa ao tratamento da doença estão disponíveis nas Farmácias de Alto Custo do Distrito Federal. A orientação a pessoas próximas que notem sinais de prejuízo cognitivo progressivo em parentes, como perda de memória, dificuldade de atenção, desorientação ou alterações de comportamento, é buscar a unidade de saúde da atenção primária mais próxima para avaliação médica inicial. Caso necessário, o médico poderá encaminhar o paciente a uma avaliação especializada.

<><> Cuidados

O diagnóstico precoce do Alzheimer ainda é um dos maiores obstáculos enfrentados por médicos e familiares. Segundo a geriatra Priscilla Mussi, coordenadora de Geriatria do Hospital Santa Lúcia e do Cuidar , existe uma crença cultural de que falhas de memória são normais em idosos. "Não é normal o idoso esquecer algo que já sabe, como senhas ou receitas. O comum é ter dificuldade em aprender coisas novas", explica.

Por fim, a geriatra enfatiza a importância da prevenção, com hábitos de alimentação balanceada, atividade física regular e controle de transtornos psiquiátricos, como depressão e ansiedade. "A população precisa estar atenta aos sinais de alerta, como o esquecimento de atividades habituais ou repetição excessiva de assuntos. Esses sintomas devem sempre ser investigados", conclui.

•        Como pessoas com a mente ativa desenvolvem Alzheimer

Mulher que inspirou o filme vencedor de Melhor Filme Internacional no Oscar de 2025, Eunice Paiva, esposa do ex-deputado Rubens Paiva, desaparecido e morto durante a ditadura militar, teve seus últimos anos de vida marcados pelo Alzheimer. A trajetória da personagem foi interpretada pelas atrizes Fernanda Torres e Fernanda Montenegro (já em cena com os efeitos da demência).

Mas como uma mulher inteligente, ativa e determinada, que dedicou anos à busca pela verdade sobre o desaparecimento do marido, pode ter desenvolvido uma doença tão devastadora como o Alzheimer?

O médico vascular e angiologista Álvaro Pereira esclarece pontos importantes sobre o caso de Eunice Paiva. “Em primeiro lugar, Eunice conviveu com a doença durante 14 anos, o que já é uma conquista.

A média de vida após o diagnóstico gira em torno de oito a dez anos. Outro fator relevante é que ela começou a apresentar os primeiros sinais aos 75 anos e faleceu aos 89, o que indica que suas atividades intelectuais e estilo de vida contribuíram para retardar o avanço da doença. Vale lembrar que o Alzheimer pode surgir bem mais cedo e sim, pode estar relacionado à genética”, explica o especialista.

Segundo ele, o tempo prolongado de vida com a doença sugere que Eunice recebia cuidados diferenciados e provavelmente mantinha sob controle outras condições clínicas como hipertensão, diabetes e colesterol alto.

O histórico familiar importa, mas não é determinante. “Muitas doenças têm predisposição genética, inclusive o Alzheimer. Ter casos na família pode aumentar o risco, mas não é uma sentença. Da mesma forma, pessoas sem nenhum caso familiar também podem desenvolver a doença”, afirma.

Não há sinais definitivos de que alguém terá Alzheimer. No entanto, esquecimentos frequentes, perda de memória e lentidão no raciocínio, especialmente sem causas aparentes como estresse extremo, sobrecarga de trabalho ou problemas emocionais, podem ser indícios de predisposição.

O que se sabe, segundo o especialista, é que não há um roteiro certo para o surgimento de demências. Por isso, o foco deve estar na prevenção e na promoção de hábitos saudáveis, especialmente para quem tem antecedentes familiares.

“Manter uma alimentação equilibrada, praticar exercícios físicos, usar ativamente o cérebro, estimular o intelecto, ter interações sociais frequentes e significativas, tudo isso ajuda. Hoje também já temos recursos como a ledterapia, que pode auxiliar na prevenção e até no retardo da progressão da doença. Infelizmente, Eunice não teve acesso a essas tecnologias, que ainda não estavam disponíveis na época.”

“A busca por um envelhecimento saudável e digno envolve múltiplos fatores. A ciência vem avançando, mas é natural que com a idade haja perda de capacidade cognitiva. Manter corpo e mente ativos é uma das formas mais eficazes de adiar ou evitar o surgimento de diferentes tipos de demência”, complementa.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Lula vai a reunião da esquerda mundial em meio a tensões globais com Trump

É em meio a tensões de ordem global com Donald Trump que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) faz aquela que deve ser sua última grande viagem internacional de seu terceiro mandato, antes do início da campanha para o pleito deste ano.

A primeira parada é em Barcelona, na Espanha, onde o presidente chegou por volta das 23h do horário local (18h do horário de Brasília) desta quinta-feira (16/4).

No domingo, ele segue para Hanover, na Alemanha, e, na segunda-feira, encerra a viagem com uma visita à capital de Portugal, Lisboa.

Na Catalunha, Lula estará cercado por alguns dos mais importantes líderes de esquerda do mundo, a começar pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, que criou um evento para debater pautas que lhe são caras ante o avanço da direita radical, que tem Trump como um dos principais rostos.

É o chamado Global Progressive Mobilisation (Mobilização Progressista Global, em tradução literal), cujos debates atravessam temas como ameaças à democracia, desinformação e violência de gênero e chega ao fim com uma sessão plenária capitaneada por Sánchez e Lula.

Entre as lideranças, o espanhol é, aliás, o que tem sido mais vocal nas críticas a Trump. Ele não mediu palavras depois que os Estados Unidos bombardearam o Irã junto com Israel, dizendo que os ataques eram ilegais e que o republicano estava "brincando de roleta russa com o destino de milhões" de pessoas.

O premiê também proibiu o uso de aeronaves americanas nas bases que os EUA têm no sul da Espanha para a ofensiva contra Teerã.

É por isso que, na avaliação de especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, a passagem pela Espanha pode ser vista como um campo minado.

Para o professor de Relações Internacionais da Universidade Internacional da Flórida, Guilherme Casarões, Lula deve "tomar cuidado para não apertar os botões errados" e se empolgar nas críticas contra Trump.

Uma declaração em uma ocasião como esta, na presença de jornalistas do mundo inteiro, pode repercutir mais — e de forma mais rápida e em outros idiomas — do que aquelas que ele faz no dia a dia no Brasil.

Em outras palavras, diz o professor, Lula terá de equilibrar as críticas a Trump — para agradar sua base e aliados de esquerda com quem vai se encontrar — sem elevar o tom a ponto de desagradar outra parcela do eleitorado, que vê como essencial manter uma boa relação com os Estados Unidos e com o próprio Trump.

Isso em um cenário em que Flávio Bolsonaro (PL), que se consolida como principal adversário de Lula nas eleições, aparece numericamente à frente em pesquisas de intenção de voto.

Na última pesquisa divulgada pela Quaest na quarta-feira (15/4), o petista aparece com 40% dos votos contra 42% do filho de Jair Bolsonaro em um possível segundo turno.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL), irmão de Flávio, deixou o Brasil para viver nos Estados Unidos e se aproximar de figuras-chave do governo Trump. Isso ajuda Flávio a ser visto, ao menos pelos eleitores que rejeitam Lula, como uma ponte mais segura entre os brasileiros e americanos.

<><> Acordo Mercosul-União Europeia

A corda bamba sobre a qual Lula vai ter que se equilibrar na Espanha também se estende a temas que, embora não sejam diretamente ligados à figura de Trump, tangenciam o governo do republicano.

Um deles é o acordo Mercosul-União Europeia, que deve entrar em vigor nas próximas semanas, em 1º de maio, após mais de duas décadas de negociação.

Segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, é esperado que o acordo elimine tarifas para 92% das exportações do Mercosul, em um valor aproximado de US$ 61 bilhões.

No caso do Brasil, os produtos agropecuários e calçados brasileiros devem estar entre os principais beneficiados.

Os brasileiros podem sentir mudanças no dia a dia, com a redução esperada nos preços de produtos importados da Europa, como vinhos, azeites, queijos e lácteos, e a promessa da chegada ao país de marcas como as de alguns chocolates de luxo.

Há, ainda, a expectativa de que o preço de veículos, medicamentos e insumos para o agronegócio, como maquinários e produtos veterinários, caiam.

Se, à primeira vista, pode parecer que há apenas motivos para comemorar, por outro lado, o debate sobre o acordo pode ser delicado para Lula. O instrumento, afinal, é uma forma de diversificar a balança comercial do Brasil e, em última análise, reduzir a dependência em relação aos Estados Unidos.

Depois de Lula já ter se posicionado contra o uso contínuo do dólar nas negociações internacionais, é possível que, nas sabatinas com jornalistas, surjam perguntas cujas respostas — se não forem cuidadosamente pensadas — possam causar irritação do outro lado do Atlântico.

Outra questão crítica na relação entre os dois países no momento é a investigação comercial aberta nos Estados Unidos sobre o Pix, que deixa em aberto a possibilidade de novas sanções contra o Brasil.

O Pix foi mencionado em um relatório de 31 de março em que os EUA listam o que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas americanas.

Por conta disso, o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (Office of the United States Trade Representative, USTR), abriu um inquérito em julho do ano passado para apurar se o Pix configura "prática desleal", ferindo a competitividade do setor produtivo americano.

Casarões diz acreditar que Lula vai pisar no freio, como já tem feito no Brasil nos últimos meses. Em sua visão, não haveria nem sequer motivo para soar agressivo com Trump, agora que o tarifaço já arrefeceu e o republicano, frente à guerra no Oriente Médio, não deve voltar a comentar a política brasileira.

Esta passagem pela Europa será a viagem internacional com a maior comitiva do presidente Lula neste mandato, que deve reunir cerca de 15 ministros. Ao todo, estão previstos mais de 20 acordos com Espanha e Alemanha em diversas áreas.

Oliver Stuenkel, professor de Relações Internacionais na Fundação Getulio Vargas (FGV), diz que a viagem pode ser positiva para Lula, caso seja bem administrada.

"A Europa é um parceiro ideal para o Brasil, apesar das divergências. Há uma sobreposição enorme em temas como o Oriente Médio e a governança digital. E o Brasil precisa de parceiros para não ser confrontado pelos Estados Unidos sozinho", afirma.

"Precisa de terceiros para aumentar sua margem de manobra na hora de negociar tanto com Washington quanto com Pequim", conclui Stuenkel.

¨      Na Europa, Lula busca "consolidar parcerias, atrair investimentos e discutir temas globais urgentes"

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) embarcou nesta quinta-feira (16) para uma viagem oficial à Europa com o objetivo de "consolidar parcerias, atrair investimentos e discutir temas globais urgentes". A agenda inclui compromissos na Espanha, Alemanha e Portugal, além de encontros com líderes políticos e empresários.

De acordo com publicação do próprio presidente em suas redes sociais, a missão internacional busca fortalecer relações estratégicas com países europeus, considerados parceiros importantes do Brasil, especialmente às vésperas da entrada em vigor do acordo Mercosul-União Europeia, prevista para 1º de maio.

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<><> Reuniões políticas e agenda internacional

Na Espanha, Lula participará de uma reunião de trabalho com o presidente do governo, Pedro Sánchez, e integrará o Fórum em Defesa da Democracia ao lado de outros chefes de Estado e de governo.

Já na Alemanha, o presidente brasileiro terá encontro com o chanceler federal Friedrich Merz para firmar novas parcerias. Lula também participará da Feira de Hannover, considerada o maior evento de tecnologia e inovação industrial do mundo, no qual o Brasil será o país convidado especial neste ano.

A agenda prevê ainda reuniões com empresários brasileiros e europeus tanto na Espanha quanto na Alemanha. O objetivo é ampliar mercados, fortalecer relações comerciais e estimular novos investimentos no Brasil.

Em Portugal, Lula se reunirá com o primeiro-ministro Luís Montenegro e com o novo presidente, António José Seguro, dando continuidade ao diálogo político e econômico entre os países.

<><> Viagem ocorre antes de acordo Mercosul-UE

A viagem é considerada estratégica por ocorrer poucos dias antes da implementação do acordo entre Mercosul e União Europeia, que deve ampliar o comércio e a cooperação entre os blocos.

Antes de embarcar, Lula também desejou “um ótimo trabalho ao companheiro Geraldo Alckmin, que assume a presidência até o nosso retorno”, conforme destacou na publicação.

¨      Lula critica ameaças de guerra constantes feitas pelo mandatário estadunidense e cobra reforma no Conselho de Segurança da ONU

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) criticou o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao afirmar que ele não foi eleito “imperador do mundo” e defender mudanças no Conselho de Segurança da ONU em meio ao aumento das tensões internacionais. A declaração foi feita em entrevista à revista alemã Der Spiegel, na qual o líder brasileiro abordou conflitos globais e a necessidade de reorganização da governança mundial. A entrevista foi publicada nesta quinta-feira (16), mesmo dia em que Lula iniciou uma viagem oficial à Europa, com compromissos previstos na Alemanha, Espanha e Portugal.

<><> Críticas à postura dos Estados Unidos

“Trump não foi eleito imperador do mundo. Ele não pode ficar ameaçando outros países com guerra o tempo todo. Precisamos colocar este mundo em ordem, que está prestes a se transformar em um campo único de batalha”, afirmou Lula na entrevista. O presidente brasileiro também comentou o ambiente de disputa entre grandes potências, como China, Rússia e Estados Unidos. Segundo ele,

Lula também disse ter pedido aos líderes da China, Rússia e França - Xi Jinping, Vladimir Putin e Emmanuel Macron, respectivamente - para que fosse realizada uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para que Trump fosse instado a discutir o conflito no Irã, mas que ninguém "deu ouvidos". “É como se estivéssemos à deriva em alto mar, em um navio sem capitão”,ressaltou.

<><> Impactos globais e cobrança à ONU

Lula alertou para os efeitos sociais de possíveis conflitos armados, especialmente em países mais vulneráveis. “Não pode ser que Trump comece uma guerra com o Irã e que quem acabe pagando a conta dessa guerra sejam os pobres da África ou da América Latina, que terão de gastar mais dinheiro com feijão, carne e verduras”, declarou.

Ele também cobrou uma atuação mais firme da Organização das Nações Unidas. “O secretário-geral da ONU, António Guterres, deveria convocar imediatamente uma Assembleia Geral Extraordinária para que Trump, Putin e os outros prestem contas”, afirmou.

<><> Defesa de reforma no Conselho de Segurança

Outro ponto central da entrevista foi a crítica à atual composição do Conselho de Segurança da ONU. Lula defendeu a inclusão de novos membros permanentes, como países africanos, do Oriente Médio, além de Brasil ou Alemanha. Para o presidente, há incoerência no funcionamento do órgão.

“Como você pretende explicar a alguém que, justamente, os cinco membros permanentes são os maiores produtores de armas? São eles que possuem armas nucleares e travam guerras”, criticou, ao citar conflitos recentes envolvendo grandes potências.

<><> Relação com Cuba e economia

Questionado sobre a possibilidade de apoio energético a Cuba, Lula afirmou que o Brasil não enviou petróleo ao país para evitar impactos negativos sobre a Petrobras no mercado internacional.

“Nossas relações com Cuba são tão boas que os cubanos nos deram a entender: Lula não deve tomar nenhuma medida que prejudique o Brasil”, disse. Ele acrescentou que o país pode oferecer “medicamentos e alimentos” e destacou a importância de ajudar Cuba a reduzir sua dependência energética.

<><> Eleições e cenário político

Na entrevista, Lula também abordou a política interna e evitou confirmar candidatura à reeleição. Segundo ele, a decisão dependerá da convenção do Partido dos Trabalhadores, embora esteja se preparando. “Estou com a cabeça e o corpo 100% em forma. Quero viver até os 120 anos”, afirmou.

Sobre uma eventual derrota, destacou o respeito ao resultado das urnas. “Quando o povo toma uma decisão, seja ela de direita, de esquerda ou do centro, temos de aceitar o resultado”, disse. O presidente também demonstrou confiança na continuidade democrática do país.

<><> Agenda internacional

A entrevista foi divulgada na véspera da viagem de Lula à Europa, considerada uma das principais agendas internacionais antes das eleições. Entre os compromissos está a participação, ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz, na abertura da Feira de Hannover, maior evento de tecnologia industrial do mundo, que terá o Brasil como país-parceiro nesta edição.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

'Somos oprimidos no Brasil': a onda de brasileiros rumo ao Paraguai em busca de 'sonho de direita'

"Bem-vindos ao Paraguai", repetia alto o chefe do serviço de imigração em Ciudad del Este enquanto caminhava entre cadeiras de praia, bancos de plástico e cangas.

"Amanhã, às 7h, começaremos a distribuição de fichas. Às 8h, começa o atendimento para quem quer tirar residência."

A mensagem era destinada a centenas de brasileiros organizados em uma longa fila que faziam silêncio - pontuado por aplausos - para ouvir as orientações em espanhol após um dia inteiro acampados sob o sol forte e no chão de terra vermelha de Ciudad del Este, na fronteira com o Brasil.

Era noite do penúltimo domingo de março. Só dali a 12 horas começaria de fato o mutirão itinerante do governo paraguaio para agilizar a emissão de documentos para quem quer se mudar para o país.

A fila, porém, já quase dobrava a esquina, e os brasileiros ainda tinham pela frente várias horas mais de calor, chuva e mosquitos para garantir atendimento no dia seguinte.

"Viemos conhecer tudo isso que o Paraguai tem para oferecer aos brasileiros", dizia sorridente Delly Fragola, de 55 anos, sentada em uma cadeira de praia colorida comprada para encarar a espera.

Dona de um salão de cabeleireiro em Anápolis, no interior de Goiás, ela tinha chegado às 8h junto com a filha e o genro.

Estavam ali porque o "Brasil não tem mais oportunidades" para seu negócio. No Paraguai, diziam, poderiam encontrar "mão de obra mais facilitada".

"No Brasil, ninguém quer trabalhar."

Um pouco mais atrás, o também empresário Dilberto Wegrnen, de 63 anos, de Cascavel, no interior do Paraná, tomava uma cerveja enquanto esperava assar as carnes de um churrasco improvisado numa grelha em cima de um tonel, organizado pelos novos amigos de espera.

Dilberto estava ali pela crença de que "o Paraguai vai ser o maior país da América Latina muito em breve" e também porque tem muitas críticas ao governo Lula.

"Empresários estão saindo do Brasil para vir para o Paraguai. Aqui, a carga tributária é muito menor e as leis trabalhistas são muito mais acessíveis. Tudo isso leva a quê? A essa fila enorme aqui hoje", explicava o paranaense.

O grupo faz parte de uma onda crescente de brasileiros que querem se mudar para o Paraguai e tem chamado a atenção de autoridades do país, que desde o ano passado promove mutirões para organizar a demanda e atender os aspirantes a residentes.

A principal porta de entrada é Ciudad del Este, famosa pelas compras baratas e comércio caótico do outro lado da Ponte da Amizade. O mutirão de março foi o segundo do ano na cidade — somados, foram cerca de 4 mil atendimentos só ali — e o governo paraguaio planeja mais 19 ao longo do ano no país.

Em 2025, o Paraguai bateu recorde ao conceder 40,6 mil autorizações de residência a estrangeiros. Mais da metade (23,5 mil) eram brasileiros, muito mais do que os segundos colocados, os argentinos (4,3 mil).

Para 2026, a expectativa é que o número seja ainda maior. Só nos três primeiros meses do ano, foram emitidas 9,2 mil autorizações para brasileiros.

A BBC News Brasil acompanhou por três dias a fila do mutirão. Todos com quem a reportagem conversou disseram estar ali movidos por suas posições políticas e pela busca de uma vida com mais conforto e menos impostos.

São pessoas de todas as regiões do Brasil, que em geral começam a sonhar com a vida no Paraguai navegando nas redes sociais.

Os vídeos que se proliferam em geral enumeram as "vantagens econômicas" de se mudar para o país, reforçando a baixa carga tributária do Paraguai e a predominância de governos de direita na sua história.

Eles são publicados principalmente por influenciadores brasileiros que vivem ou fazem compras na Paraguai. Muitos oferecem serviços de assessoria para quem quiser fazer o mesmo caminho.

Foi assim que Marcelo Mendes, um arquiteto aposentado de 70 anos de Recife, abandonou o plano de se mudar para Portugal, onde sua filha mora.

"Na internet, a gente teve conhecimento em vários grupos. A gente viu vídeos de pessoas que já vieram contando a situação, como é que tira os documentos", conta ele.

Seu plano agora é vender sua casa na capital pernambucana e comprar outra na cidade de Encarnación, a quatro horas de carro ao sul de Ciudad del Leste, na fronteira com a Argentina. Mas antes precisa convencer sua mulher, que chegou a ir ao Paraguai, mas ainda não está disposta a se mudar para lá.

"A gente não está aguentando o Brasil, o salário da gente está perdendo valor. O que eu ganho em real também não dá para viver em Portugal. Aqui, consigo viver bem", diz Marcelo, que pretende complementar a renda trabalhando como corretor de imóveis.

<><> A mudança de perfil: de estudantes de medicina à motivação política

A carioca Zena Cheraze, de 68 anos, percorreu sozinha 1,5 mil km de ônibus do Rio de Janeiro à Ciudad del Este "no escuro", sem saber direito se tinha em mãos todos os documentos que precisava.

"É muita propaganda no YouTube, cada um diz uma coisa. Mas vim aqui pra ver", explica. Professora aposentada e viúva, ela espera conseguir pagar um plano de saúde mais barato no Paraguai.

Desde 3 horas da manhã na fila do mutirão, Zena gravava um vídeo para dizer a amigos que, na verdade, não estava só: havia uma legião de pessoas como ela à espera de um "sim" do Paraguai.

"Nós, da direita, nos sentimos as pessoas mais oprimidas. A gente não tem liberdade", justificou a aposentada à BBC News Brasil sobre sua empreitada. "É um governo que só está nos fazendo mal."

Um grande número de brasileiros com o mesmo perfil de Zena tem sido notado pelas autoridades de imigração.

Cornelio Melgarejo, que chefia a imigração no departamento de Alto Paraná, na fronteira com o Brasil, calcula que há dois anos 80% dos que solicitavam residência eram estudantes de Medicina em busca de faculdades com mensalidades mais baratas do que no Brasil.

Mas, nos últimos tempos, apareceram muitos empresários querendo abrir negócios no país e aposentados, "em busca da estabilidade econômica e política", diz Melgarejo.

Em comum, a visão de que a vida no Paraguai hoje corresponde melhor às suas posições ideológicas.

O atual presidente paraguaio, Santiago Peña, é o nono governante de direita entre os dez que comandaram o país desde a redemocratização, após o fim da ditadura do general Alfredo Stroessner, em 1989.

Foi seu governo que criou os mutirões migratórios, chamados de Migramovil. Criada em 2025, a iniciativa reúne em um só lugar órgãos como a Direção Nacional de Migração e a Polícia Nacional, que pode fornecer garantias de que o imigrante não tem problemas com a Justiça.

A gestão busca capitalizar ativamente a nova onda imigratória. A chegada de imigrantes ao Paraguai é anunciada como uma indicação de que o país vai bem - uma das peças promocionais oficiais sobre o assunto diz que o "Paraguai abre suas portas ao mundo".

Os estrangeiros são apontados como responsáveis por trazer dinamicidade à economia local, ao mesmo tempo em que o governo muda leis e dá ainda mais incentivos fiscais para atrair investimentos e empresas.

Alinhado ao governo de Donald Trump, Peña sancionou em março um polêmico acordo que autoriza a presença de militares e empresas americanas no país para combater o crime organizado.

"99% das pessoas que estão vindo são de direita", contabiliza a carioca Roberta Viegas, que mora há 1 ano no Paraguai e tem promovido reuniões entre empresários como ela e oferece serviços de assessoria a interessados pela mudança.

Antes de se mudar, Roberta, de 47 anos, estava especialmente preocupada com a educação de seus quatro filhos no Rio de Janeiro, especialmente a do de 14 anos, mesmo matriculado numa escola particular e cristã.

"A gente não estava se sentindo bem no Brasil no cenário atual, pelas minhas crenças, por aquilo que eu acredito", explica Roberta, que planejava inicialmente ir para a Austrália, mas mudou a rota para o Paraguai após um amigo passar a viver lá.

A família, explica Roberta, também não estava vendo futuro no negócio de venda planos de saúde que mantinha no Rio e se sentia acuada pela violência urbana na cidade.

"Não tem aquele ditado 'quem está incomodado que se mude'?. Eu falei para o meu marido: 'Não adianta a gente ficar aqui passando ranço'. Vamos para outro lugar onde a gente se sinta bem para criar nossos filhos."

Entre os pais com filhos pequenos na fila do serviço de imigração, também é comum encontrar quem deseja ensinar os filhos em casa, o chamado homeschooling.

A paranaense Marluize Ávila, de 42 anos, vendia brigadeiros acompanhada dos dois filhos, Eduardo e Isabela, enquanto esperava para dar entrada nos documentos. Ela pretende cuidar da educação deles de manhã e vender a comida à tarde na porta de universidades.

O Paraguai é um país bem tradicional e não prejudica se você fizer a educação domiciliar", diz Marluize.

Quem apoia essa ideia argumenta que a educação tem que ser decidida pela família e não por regras educacionais estabelecidas pelo Estado. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) defendeu a liberdade dos pais de optar por essa forma de ensino e propôs regulamentá-la em sua campanha à reeleição.

No Brasil, em 2018, o Supremo Tribunal Federal (STF) determinou que a educação domiciliar no Brasil era ilegal, cabendo ao Congresso Nacional aprovar uma lei federal a respeito. Um projeto passou pela Câmara em maio de 2022 e, hoje, tramita no Senado.

O Paraguai, apesar de não ter regulamentação específica sobre o tema, é frequentemente apontado pela comunidade de pais que defende o homeschooling como um destino possível para a prática, porque não haveria uma "perseguição" a quem faz isso.

"Vou ter mais liberdade tanto para empreender como para fazer as aulas extracurriculares com eles", diz Marluize.

"Todos os lugares têm coisas boas e ruins, mas aqui tem um pensamento mais conservador. Caiu a tarde, os jovens estão conversando e brincando na rua. É diferente de estar bebendo e fumando, sabe?"

<><> Baixos impostos e 'maquilas' da Lupo e Riachuelo

Quem pede o direito à residência no Paraguai é questionado pelos funcionários do governo sobre as razões por que querem imigrar.

"As respostas mais frequentes são sobre o custo do nosso imposto", diz Cornelio Melgarejo, do serviço migratório paraguaio.

A carga tributária total do Paraguai, ou o peso dos tributos arrecadados pelo governo em relação à economia, gira em torno de 14,5% do PIB, segundo a OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico). No Brasil, a taxa é mais que o dobro, 32%, segundo o Ministério da Fazenda.

O Paraguai consolidou ao longo dos anos 1990 e 2000 uma regra simples sobre a cobrança de impostos: 10-10-10.

Ou seja, os três tributos mais importantes — o imposto sobre valor agregado (IVA), o imposto de renda de pessoa física e o imposto de renda das empresas — têm a mesma alíquota de 10%.

Em comparação, o Brasil pretende criar seu IVA, aprovado na reforma tributária de 2023, unificando cinco tributos federais, estaduais e municipais. A estimativa é que esse imposto entre em vigor completamente em 2033, com uma alíquota entre 25% e 28%.

A tributação da renda no Brasil vai de 7,5% a 27,5% para pessoas físicas e, no caso de empresas, começa em 15%, com adicional de 10% sobre lucros acima de R$ 20 mil por mês.

A carga tributária mais baixa e o sistema mais simples do Paraguai são destacados pelos governantes do país como uma das bases para atrair investimentos que poderiam ir para as outras nações mais desenvolvidas da região.

O sistema começou a ser delineado em 1992 e foi sendo consolidado nos sucessivos governos de direita. O único presidente de esquerda, Fernando Lugo (2008–2012), chegou a propor algumas reformas, mas sofreu um impeachment.

Além disso, desde 2000 o país adotou o esquema chamado de "maquila", em que fábricas instaladas no Paraguai podem importar matéria-prima quase sem imposto, produzir no terrório paraguaio e exportar pagando quase nenhum tributo. A estratégia levou ao país unidades fabris de marcas brasileiras como a Lupo e Riachuelo.

O economista Alexandre da Costa, pesquisador na Unila (Universidade da integração latino americana) e na UFPR (Universidade Federal do Paraná), explica que o modelo paraguaio tem contribuído para o país crescer em torno de 4% nos últimos três anos, acima da média da América Latina, embora ainda seja uma das menores economias da região e tenha um dos mais baixos índices de desenvolvimento humano e também de renda per capita.

O PIB do Brasil, ressalta Costa, é cerca de 50 vezes maior do que o do Paraguai — e a economia paraguaia acaba sendo muito atrelada ao que acontece no Brasil, seu maior parceiro comercial.

"A estratégia de desenvolvimento do Paraguai tem como base, sobretudo, o baixo custo de produção para empresas e o baixo custo de vida para os demais", diz Costa.

Um dos exemplos mais citados sobre o custo de vida mais baixo no Paraguai é a energia elétrica.

Graças à grande quantidade de eletricidade excedente gerada pelas hidrelétricas de Itaipu, construída em parceria com o Brasil, e Yacyretá, em parceria com a Argentina, os paraguaios têm a energia mais barata da região.

Mas, no caso de Itaipu, há uma negociação em curso para o acordo atual que pode deixar os paraguaios em situação menos confortável. Segundo dados da consultoria do setor elétrico SEG, em média, a energia no Brasil é 2,8 vezes mais cara que no Paraguai.

"No caso do empresário, ele também é atraído principalmente pela baixa carga tributária e baixo custo da mão de obra. Os direitos trabalhistas no Paraguai, se comparados com no Brasil, são bem inferiores", segue Costa.

O país, por exemplo, não tem FGTS (Fundo de Garantia por Tempo de Serviço), e as férias começam em 12 dias úteis por ano, aumentando com o tempo de empresa, podendo chegar a 30 dias. Não há seguro desemprego.

Mas a carga tributária menor também significa que o Paraguai arrecada menos dinheiro e tem uma baixa capacidade de estimular a economia e o desenvolvimento, sobretudo com projetos de infraestrutura, saúde e educação.

"Então, o ponto central é verificar a sustentabilidade desse modelo no médio e longo prazo. Muitos desses brasileiros, por exemplo, vêm procurar o SUS aqui em Foz do Iguaçu quando precisam", afirma Costa.

O sistema público de saúde no Paraguai é bastante fragmentado — entre quem tem emprego formal ou não, por exemplo — e, apesar de existir uma gratuidade por lei, tem muitas limitações. Quem é atendido muitas vezes precisa pagar por todos os insumos, de remédio à seringa usada.

Apesar de reduções importantes nos últimos anos, a extrema pobreza atinge 4,1% no país (no Brasil, é 3,5%), segundo os órgãos de estatísticas oficiais.

Para o economista, essa nova onda de divulgação de informações sobre um "milagre econômico" do Paraguai precisa ser vista com cautela, especialmente quando começa a atrair pessoas em busca de emprego.

No Paraguai, o salário mínimo oficial é maior do que no Brasil (o equivalente a R$ 2.300), mas a taxa de informalidade dos empregos — ou seja, pessoas sem vínculos formais de trabalho — é de 62,5%, índice muito maior que o do Brasil, que está em 37,5%.

Para os brasileiros que estão imigrando, porém, o modelo paraguaio é o que eles defendem como o ideal.

Quase todos ouvidos pela reportagem disseram considerar que o Brasil vive uma crise econômica, mesmo que os dados hoje apontem para uma inflação dentro da meta, um baixo índice de desemprego e crescimento do PIB.

"Falam que os índices [do Brasil] são muito bons. Mas não sabemos se são todos verdadeiros. Não sei...", dizia Joraci de Lima, empresário de 61 anos de Campo Mourão, no interior do Paraná, que não conseguiu ser atendido no primeiro dia mutirão em Ciudad del Este, mesmo chegando às 3h na fila.

O paranaense explicava que seu negócio do ramo de metalurgia estava saudável no Brasil, mas, devido à carga tributária e possiblidade de reeleição do presidente Lula, ele queria uma filial no Paraguai.

"Ninguem quer trocar sua pátria. Mas a condição dos impostos no Brasil não nos ajuda em nada."

"O sentimento de todos aqui é de perda, dor, angústia e desilusão", lamentava.

Muitos na fila não consideram rever a decisão de se mudar mesmo que a direita volte à presidência brasileira em 2027. Eles argumentam que a sistema brasileiro já estaria viciado.

<><> A vida no Paraguai: até quando?

Na casa de Miriam Costa, 37 anos, e Guilherme Lopes, 34, em uma rua tranquila na periferia da Ciudad del Este, o tereré, uma bebida gelada a base de mate, já virou tradição.

O casal trocou há três meses seu pequeno apartamento em Serra, no Espírito Santo, por uma casa de dois andares, onde trabalham juntos para vender romances eróticos para um "público mais conservador" escritos por Miriam em português e vendidos pela internet.

Os dois sentiam que não precisavam estar mais no Brasil para manter o negócio. No mundo da "literatura hot", Miriam é "Alicia Bianchi", que assina romances como Tudo Pela Luxúria, com cenas picantes de sexo, mas sem entrar em temas considerados tabus. Guilherme organiza a estratégia de vendas.

No Paraguai, eles usufruem de uma regra que aplica tributação mínima a quem recebe renda do exterior.

Os dois se consideram libertários e anarcocapitalistas e consideram positivo o fato de os serviços públicos do Paraguai serem pouco desenvolvidos, já que o governo arrecada menos dinheiro.

"A gente prefere um Estado menor, com menos intervenção na economia, menos intervenção na nossa vida pessoal. Isso significa que o Paraguai não tem uma saúde planificada como no Brasil, mas, ao mesmo tempo, você tem um plano de saúde top de linha com um preço muito mais acessível", defende Miriam, que diz pagar o equivalente a R$ 800 de plano de saúde para toda família.

"Eu prefiro essa maneira de viver. Eu vou escolher aonde que o meu dinheiro vai e onde vou investir na minha educação e saúde."

Pais de um filho no espectro autista, o casal diz conseguir pagar por uma escola melhor no Paraguai (por cerca de R$ 742) e, apesar de reconhecerem o Brasil como um país mais desenvolvido, não pretendem voltar.

"Eu não estou vendo com bons olhos para onde o país está indo", diz Miriam.

"A gente tá vendo uma radicalização tanto da esquerda quanto da direita. A gente não vê, como no Paraguai, uma união em prol do Brasil."

A última estimativa feita pelo governo brasileiro, de 2023, aponta que 263 mil brasileiros viviam no Paraguai, formando a terceira maior comunidade no exterior, depois de EUA e Portugal.

Segundo o Itamaraty, não há números recentes que identifiquem essa nova onda migratória ou quantos desses brasileiros que obtêm residência de fato criam raízes em território paraguaio.

Mas os dados detalhados divulgados pelo Paraguai ajudam a traçar como está o cenário atual.

Ao mesmo tempo em que há um crescimento grande de pedidos de residências temporárias, o aumento dos pedidos de residência permanente, que podem ser feitos após dois anos vivendo no Paraguai, é mais tímido.

Em 2025, dos 23,5 mil pedidos de residência de brasileiros, apenas 4,6 mil (19%) eram permanentes. Em 2020, os pedidos permanentes representavam 68%.

Isso pode indicar que grande parte das pessoas que imigra não necessariamente fica no país. Além disso, a proximidade com o Brasil faz com que o caminho de volta seja mais simples muitas vezes.

O vendedor de suco de laranja Leonardo Ribeiro, de 22 anos, trocou Marília, no interior de São Paulo, por Ciudad del Este há três meses depois de receber uma proposta do patrão que imigrou para lá, mas já vê que seu tempo de Paraguai está acabando.

"Eu acho que o pessoal deu uma magia a mais pela internet, pelos vídeos no Paraguai. Mas não achei muita diferença do Brasil, não", diz Leonardo.

"Eu vim mais pela questão econômica, para ver se mudava pouquinho de patamar. Até vale a pena ficar aqui, mas, particularmente, prefiro o meu Brasil", conta o vendedor, que pretende voltar ainda neste ano.

Já Roberta Viegas está satisfeita com o novo endereço, mas tem alertado que "tem muita gente vendendo que o Paraguai é 'mil maravilhas', por interesse próprio".

"Não é assim, tem muitos defeitos. Se você tem vontade de vir ao Paraguai, é preciso ver primeiro se a pessoa se identifica", orienta a empresária.

Ainda com saudade das praias do Rio de Janeiro, ela diz que o lugar dela e da sua família segue longe do Brasil.

"Obviamente que, se eu vejo que o meu país, está segundo aquilo que eu acho bom para mim, eu volto. Eu amo o Brasil. Mas, hoje, eu me sinto melhor aqui."

 

Fonte: BBC News Brasil