sexta-feira, 8 de maio de 2026

Desenrola cria cultura que ignora razão do endividamento recorde, diz pesquisador do 'Brasil dos boletos

O investimento em programas de renegociação de dívidas mostra que o governo brasileiro está atento aos problemas da população e funciona como uma injeção de renda para permitir a volta ao consumo, afirma o geógrafo Kauê Lopes dos Santos, que estuda a cultura da compra parcelada nas periferias de São Paulo.

Por outro lado, diz o professor da Universidade de Campinas (Unicamp), programas como o Desenrola, que teve sua segunda versão lançada oficialmente pelo governo Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nesta semana, podem criar uma cultura de renegociação de débitos que não resolve o problema estrutural causado pelo consumo via crédito no Brasil.

"Essas iniciativas são importantes, porque mostram que o governo está atento aos problemas da sociedade e não simplesmente agindo como se essa fosse uma questão apenas entre a população e os bancos ou redes de varejo", diz Lopes dos Santos, autor do livro Parcelado (Editora Fósforo).

"Mas, como muitas políticas públicas, tem um impacto de curto e médio prazo."

Segundo o pesquisador, programas como o Desenrola 2.0 podem criar uma cultura de renegociação que podem "complexificar o jogo". "Pode criar uma lógica de resolver sempre no curto prazo, sem buscar entender as questões mais estruturais", diz.

A iniciativa, lançada oficialmente na segunda-feira (04/05), prevê a renegociação de dívidas com descontos e condições facilitadas de pagamento, incluindo juros menores. Podem aderir pessoas com renda mensal de até cinco salários mínimos, o equivalente a R$ 8.105.

O programa é uma reedição do pacote de medidas que operou entre 2023 e 2024.

<><> O hábito do crédito

Em Parcelado, Kauê Lopes dos Santos analisa como o consumo via crédito passou a fazer parte do modus operandi da organização do orçamento doméstico das famílias brasileiras, assim como eventuais entradas em situação de inadimplência.

"Temos uma dinâmica na qual o consumo é estruturado pelo parcelamento das coisas: tudo se parcela e, ao tudo se parcelar, vai se tendo cada vez mais um comprometimento do orçamento doméstico, o que faz com que as famílias tenham que parcelar mais ainda", disse em entrevista à BBC News Brasil.

Dados da Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor (Peic), realizada desde janeiro de 2010 pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC), mostram que 80,4% das famílias brasileiras se encontravam endividadas em março, um recorde na série histórica do levantamento.

Outra pesquisa, realizada pela Serasa, aponta que 81,7 milhões de brasileiros estavam inadimplentes em fevereiro, ou 49,9% da população adulta, com valor médio da dívida por pessoa de R$ 6.598,13.

O geógrafo aponta que o sistema varejista, articulado ao sistema financeiro, "construiu uma lógica de parcelamento em longas prestações, com taxas de juros altíssimas", tornando o cenário cada vez mais complexo para as famílias de baixa renda.

"Trata-se de uma população que está sempre no limite, e esse limite vai sendo ocupado cada vez mais por crédito, crédito, crédito, crédito. Algumas pessoas às vezes precisam até arrumar novos empregos para aumentar a renda e não se afogar na inadimplência ou na insolvência."

E se por um lado o acesso ao crédito se transforma em inclusão social e maior acesso a produtos, ele também compromete o futuro financeiro de parte da população, diz o autor.

"Essa lógica gera uma alienação do futuro. Quer dizer: o comprometimento das próximas compras está vinculado aos compromissos realizados hoje no parcelamento."

Nos últimos anos, afirma Lopes dos Santos, a situação se agravou ainda mais diante da disseminação no país das plataformas de apostas virtuais, conhecidas como bets.

"Frequentemente, as pessoas que se endividam a partir das bets são obrigadas a recorrer a modalidades de crédito com taxas mais altas para cobrir o endividamento, como cheque especial, cartão de crédito etc.", diz.

LEIA A ENTREVISTA:

·        Por que resolveu estudar o endividamento da população brasileira?

Kauê Lopes dos Santos - Eu resolvi estudar o tema, na verdade, em decorrência de uma pesquisa que desenvolvi no mestrado na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP (FAU-USP), que objetivava entender os contrastes materiais perceptíveis na periferia de São Paulo.

Quando fazia visitas de campo, observava nos bairros periféricos a presença de um conjunto de infraestruturas e serviços muito precários, como rede de saneamento básico, rede de eletricidade e telecomunicações, equipamentos de infraestrutura e lazer e etc.

Só que, ao mesmo tempo, nas moradias, observava uma presença de bens considerados modernos, como televisões, geladeiras, mais recentemente celulares, computadores e assim por diante. Esse contraste me chamava a atenção e, quando fui tentar entender o motor por trás desse contraste, cheguei na questão do crédito.

·        No seu livro, o senhor fala em endividamento crônico. O que isso significa?

Lopes dos Santos - O endividamento crônico é aquele que está ligado a uma lógica de repetição. Temos uma dinâmica na qual o consumo é estruturado pelo parcelamento das coisas: tudo se parcela e, ao tudo se parcelar, vai se tendo cada vez mais um comprometimento do orçamento doméstico, o que faz com que as famílias tenham que parcelar mais ainda.

Vamos supor que eu tenha um orçamento de um salário mínimo, mas não consiga comprar várias das coisas que tem na minha casa com esse valor. Então eu parcelo a geladeira, depois o fogão, depois a televisão. E aí chega um momento que algo como, por exemplo, uma roupa, que eu poderia comprar com o meu salário mínimo e estaria dentro do meu orçamento, já não está mais porque parte da minha renda está comprometida com as outras parcelas. Então o que eu faço? Parcelo a roupa também. Parcelo até o supermercado.

Essa lógica gera uma alienação do futuro. Quer dizer: o comprometimento das próximas compras está vinculado aos compromissos realizados hoje no parcelamento.

·        O senhor entrevistou centenas de famílias. Com o que as pessoas se endividam no Brasil hoje?

Lopes dos Santos - Na minha pesquisa, o foco principal são equipamentos elétricos e eletrônicos, mas em paralelo acompanho dados de outras pesquisas maiores, de institutos, que têm mais condições de ampliar a análise. E o que observo é que o parcelamento entra em todas as frentes da vida, inclusive para comprar alimentos e roupas.

Há também o uso para emergências, como um conserto de carro. Trata-se de uma população que está sempre no limite, e esse limite vai sendo ocupado cada vez mais por crédito, crédito, crédito, crédito. Algumas pessoas às vezes precisam até arrumar novos empregos para aumentar a renda e não se afogar na inadimplência ou na insolvência.

Mais recentemente, também temos visto o crescimento das bets, que drenam o orçamento e fazem com que as pessoas se endividem cada vez mais. E, frequentemente, as pessoas que se endividam a partir das bets são obrigadas a recorrer a modalidades de crédito com taxas mais altas para cobrir o endividamento, como cheque especial, cartão de crédito, etc.

·        Hoje quase metade da renda dos brasileiros está comprometida em dívidas com instituições financeiras, segundo o Banco Central (BC). Como chegamos a esse ponto?

Lopes dos Santos - O Brasil construiu nos últimos 25 ou 30 anos uma sociedade cujo consumo é catalisado pelo crédito. O consumo já acontecia, obviamente, mas agora o sujeito na periferia, que não era bancarizado e não tinha acesso a crédito, pode não só comprar sem ter o dinheiro em reserva, mas em uma velocidade muito maior.

E o sistema foi percebendo ao longo do tempo que o mais pobre paga – há situações de calote, de insolvência, mas a grande maioria da população paga porque é importante ter o nome limpo, até para poder continuar consumindo.

O sistema varejista, articulado ao sistema financeiro, construiu uma lógica de parcelamento em longas prestações, com taxas de juros altíssimas, o que torna a situação cada vez mais difícil de resolver, pois mesmo que você tenha chegado ao fim de um parcelamento, ainda tem a parcela de um outro produto que você comprou.

E aí, eventualmente, pode até acontecer de você terminar de pagar uma televisão, por exemplo, e aquela televisão já estar obsoleta e você ter comprar outra. Ou então nesse período você simplesmente cansou daquela TV, já quer comprar uma mais moderna porque a publicidade te convenceu.

Por isso também acredito que, quando falamos do endividamento crônico, duas dimensões importantes estão juntas na estruturação da sociedade do consumo brasileira: a obsolescência programada das mercadorias, ou seja, as mercadorias, que têm um prazo de validade; e a publicidade, que faz com que mesmo que a sua mercadoria não esteja estragada, você queira consumir outras novas.

Há ainda um conjunto de variáveis de ordem macroeconômica que são muito problemáticas. Inclusive, porque com a população sempre com o orçamento no limite, qualquer alteração de ordem macroeconômica, como por exemplo aumento do desemprego, ou a diminuição da renda, vai aumentar muito o número de pessoas em situação de inadimplência e insolvência.

·        Até que ponto o acesso ao crédito se converteu em inclusão social e aumento do poder aquisitivo no Brasil?

Lopes dos Santos - Essa questão é importante, porque o termo inclusão financeira é muito celebrado como algo positivo, pois tínhamos uma população que anteriormente estava excluída desse sistema e passa a ser incluída. Mas me parece importante qualificar essa inclusão.

O que eu fui descobrindo com a pesquisa, a partir dos entrevistados, é que eles identificam que houve uma melhora na vida deles a partir do consumo via crédito – do ponto de vista objetivo e subjetivo. Por exemplo, uma família poder ter acesso a uma geladeira para conservar alimentos significa melhora na qualidade de vida em uma dimensão objetiva.

Já do ponto de vista subjetivo, temos a percepção do sujeito cuja família vive num bairro que tem uma infraestrutura precária, mas agora consegue comprar uma coisa moderna. Ou seja, chega a lugares que nunca tinha chegado antes, ou acessa produtos a que nunca teve acesso

Mas, ao mesmo tempo, na forma como essa inclusão financeira acontece, ela também pode ser negativa. As taxas de juros empregadas vão comprometer o orçamento e vão comprometer o futuro dessas famílias.

O endividamento crônico, para mim, é uma variável nociva dessa inclusão financeira. Por isso que eu chamo de capilarização do crédito, porque as regras do sistema são verticais: elas são decididas e a população tem que acatar, e a taxa de de juros não é negociável.

·        Existe espaço para algum tipo de reforma ou maior regulação no mercado de oferta de créditos?

Lopes dos Santos - Economistas são melhores para formulação de políticas públicas de curto prazo, nas humanidades fazemos mais a leitura crítica de construção de estrutura. Mas têm muitos caminhos para serem pensados, nem todos eles de fácil resolução. Por exemplo, redução de taxas de juros não é uma coisa tão simples de ser de ser construída. Ou então educação financeira, que é muito importante, mas como isso seria feito? Se for apenas para gente em idade escolar, como é que garantimos que a maior parte da população economicamente ativa e que é tomadora de crédito vai ter acesso a esse conhecimento? E esse letramento financeiro deveria ser crítico, né? Não adianta só explicar como deve ser o orçamento da família, esse sujeito precisa também saber ler a estrutura, conhecer o sistema financeiro, os bancos, as taxas de juros cobradas.

Outra política importante, que se conecta com o debate da escala 6x1, é a questão de aumento da renda do trabalhador. Isso daria maior segurança em termos de não entrada em circuitos de insolvência. Mas tudo tem que ser feito de uma forma combinada, não dá para apostar só em uma dessas políticas.

·        O novo Desenrola Brasil foi lançado oficialmente pelo governo Lula no dia 4 de maio. Como o senhor avalia a primeira iniciativa do Desenrola, em 2023, e quais são suas perspectivas para a nova edição?

Lopes dos Santos - Essas iniciativas são importantes, porque mostram que o governo está atento aos problemas da sociedade e não simplesmente agindo como se essa fosse uma questão apenas entre a população e os bancos ou redes de varejo. Mas como muitas políticas públicas, tem um impacto de curto e médio prazo.

O Desenrola 1 teve um papel importante como um primeiro exercício de atenção para essa questão do endividamento, ao mesmo tempo em que serviu como uma garantia para os bancos, já que a forma como foi arquitetado gera menor risco nas operações do crédito. Mas há também uma leitura crítica, ligada sobretutudo ao fato de que o sujeito vai receber um desconto em sua dívida para depois voltar a consumir. Entre o Desenrola 1 e o Desenrola 2.0., mais de 9 milhões de pessoas voltaram para a condição de super endividamento, o que mostra o quão complexa é a situação.

Em termos gerais, eu entendo [as iniciativas] como algo positivo no curto prazo. No médio prazo é uma questão para ser analisada, pois pode criar uma cultura de renegociação que pode complexificar todo o jogo. Pode criar uma lógica de resolver sempre no curto prazo, sem buscar entender as questões mais estruturais.

Não vamos conseguir resolver efetivamente o problema [do endividamento e do parcelamento], pois o Brasil me parece um dos países que adotaram com mais força essa lógica. Os países europeus, nos quais os inspiramos para muita coisa, não tem essa mesma lógica operante.

O Desenrola, na verdade, é feito para lidar com as situações de inadimplência e insolvência – que são produtos do endividamento –, sobretudo para populações de baixa renda que teriam menores condições de resolver isso por conta própria. Essa injeção de verba do Estado não deixa de ser uma injeção de rendimento para essas pessoas positivem a sua situação no mercado de crédito e voltem a consumir mais.

·        Mas e a percepção pessoal em relação ao estado da economia? Sabemos o peso que o endividamento tem para as famílias brasileiras, então do ponto de vista pessoal, o programa pode ter impacto na percepção sobre o estado do país e aprovação do govermo?

Lopes dos Santos - A minha hipótese é de que isso vai ter um efeito positivo na leitura da população em relação ao governo – e a expectativa do governo também é essa.

Mas um ponto interessante em relação a essa discussão é que, nos anos 2000 e 2010, durante a ascensão da nova classe C, havia uma euforia em relação ao consumo. Essa população teve acesso, pela primeira vez, a uma TV de plasma, a um computador.

Só que, com o tempo, essas pessoas entram em um novo ciclo de consumo, de obsolescência programada, de crédito, e não há mais a mesma euforia. Aqueles bens já não são mais uma novidade e o eleitor de hoje já naturalizou a presença desses objetos no seu cotidiano.

Mas claro, o parcelamento compromete o orçamento familiar, muitas famílias vivem em situação de inadimplência e insolvência, comprometendo seu bem-estar. Isso também impacta na leitura da população diante da própria situação do consumo.

·        Uma das possibilidades da nova iniciativa é o uso de até 20% do saldo do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) para quitar as dívidas. Mas há uma preocupação de alguns setores de que isso possa comprometer a função original do FGTS de aquisição da casa própria e proteção em caso de demissão. Qual sua visão?

Lopes dos Santos - Isso tem gerado uma disputa entre empresários e diferentes setores de economia. A construção civil, por exemplo, não gosta do uso do FGTS para garantir negociação com o sistema financeiro porque o fundo é um recurso que pode ser historicamente capturado por esse setor.

Outra frente é o debate sobre o sistema financeiro ter mais uma forma de capturar o rendimento dos trabalhadores. Na verdade, se pararmos para pensar, o sujeito na periferia já está pagando as maiores taxas de juros, e está trabalhando e gerando renda que é drenada pelo sistema.

Muitas vezes ele já terminou e pagar o preço do produto à vista e segue pagando parcelas referentes apenas ao juros. Isso não deixa de ser uma captura de recursos.

Agora, além dessa captura de recursos pelo sistema, temos o FGTS, que seria mais um braço para extração de renda do trabalhador.

·        O presidente Lula afirma que quem aderir ao novo Desenrola ficará bloqueado de apostar em bets por um ano. Te parece uma boa solução para a crise de endividamento gerada pelas apostas?

Lopes dos Santos - Me parece, pelo menos, um exercício de conscientização. Em alguns países se proíbe apostas a partir de um horário específico, e eu acho corretíssimo. São jogos de azar, o próprio nome já diz muito né? E, claro, chega de forma muito irresponsável para populações em situação de maior vulnerabilidade, que vão ter seu orçamento também drenado por isso. Inclusive porque, no começo, chegou-se a vender [as bets] como uma possibilidade de renda extra, o que já foi proibido. Chega a ser imoral.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

'Tensão' sobre tarifas e surpresa em terras raras: os bastidores da reunião entre Lula e Trump na Casa Branca

A reunião entre os presidentes dos EUA, Donald Trump, e do Brasil, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atingiu, na avaliação do governo brasileiro, ao menos um dos seus objetivos principais: ganhar tempo e evitar a imposição de novas tarifas sobre produtos do país a pouco mais de cinco meses das eleições presidenciais.

Essa crença foi expressada por assessores do presidente Lula após o encontro.

Apesar de boa parte das tarifas impostas por Trump a produtos brasileiros a partir de julho do ano passado ter sido retirada ao longo dos últimos meses, o Brasil é alvo de duas investigações com base na chamada seção 301 da Lei de Comércio dos EUA, que investiga supostas práticas comerciais irregulares do país.

Uma delas tem prazo para terminar em julho e, em tese, poderia servir de base para mais tarifas norte-americanas até mesmo antes desse tempo.

Mas, segundo o governo brasileiro, os dois presidentes determinaram a criação de um grupo de trabalho para discutir a questão tarifária com um primeiro prazo de conclusão em 30 dias. Com isso, o governo brasileiro entende que ganhou pelo menos um mês com a garantia de que novas tarifas não serão aplicadas.

Interlocutores do presidente familiarizados com o teor da reunião afirmam que a questão tarifária foi, de fato, o único ponto em que houve alguma discordância entre as duas equipes técnicas que acompanharam os dois presidentes.

De acordo com eles, o representante-geral de Comércio dos Estados Unidos, Jamieson Greer, teria sido o responsável por "tensionar" parte da reunião, defendendo que a tarifa média brasileira sobre produtos importados dos Estados Unidos ainda estaria em níveis elevados, o que justificaria a aplicação de tarifas a exportações brasileiras.

Segundo um assessor do presidente Lula ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado, Greer teria atuado como o "policial mau", responsável por colocar pressão nas negociações.

Segundo ele, esse comportamento de Greer já era esperado pela equipe brasileira uma vez que o oficial norte-americano é um notório defensor da política de tarifas. Sua atuação, no entanto, segundo a delegação brasileira, teria sido parcialmente contornada pela postura de Trump ao longo do encontro, que acatou a proposta brasileira de criar o grupo de trabalho para debater o tema.

A equipe econômica brasileira, liderada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, e pelo ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, intervieram pontuando que o Brasil teria um déficit de pelo menos US$ 20 bilhões na balança comercial com os Estados Unidos nos últimos anos. Nos cálculos dos próprios norte-americanos, segundo Rosa, esse déficit seria ainda maior: US$ 30 bilhões.

De acordo com o governo, os dados mostrariam que não haveria razões para os EUA sancionar um país com quem eles têm saldo positivo na sua balança comercial.

<><> O que é a Seção 301

O governo dos Estados Unidos abriu uma investigação comercial contra o Brasil com base na chamada Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, um instrumento legal que permite a Washington apurar práticas estrangeiras consideradas injustas ou discriminatórias contra empresas e produtos americanos.

O procedimento, conduzido pelo Escritório do Representante de Comércio dos EUA (USTR), pode resultar em medidas de retaliação, como a imposição de tarifas adicionais sobre exportações brasileiras.

A investigação envolve um amplo conjunto de temas. Entre eles estão políticas brasileiras ligadas ao comércio digital, ao sistema Pix, regras de proteção de dados, propriedade intelectual, acesso do etanol americano ao mercado brasileiro, às tarifas preferenciais concedidas a outros parceiros comerciais, ao combate à corrupção e ao desmatamento ilegal.

Na avaliação do governo americano, essas práticas podem criar barreiras ou distorções que prejudicam a competitividade de empresas dos EUA no Brasil.

A Seção 301 autoriza o governo americano a investigar, de forma unilateral, atos, políticas ou práticas de outros países que "onerem ou restrinjam" o comércio dos Estados Unidos.

Se o USTR concluir que houve prejuízo e que as medidas estrangeiras são "injustificáveis" ou "irracionais", a lei permite a adoção de medidas de retaliação, como tarifas, restrições comerciais ou a suspensão de benefícios.

O instrumento ganhou notoriedade nos últimos anos por ter embasado o "tarifaço" imposto pelos EUA à China durante o primeiro mandato de Donald Trump.

No caso brasileiro, a abertura do processo ocorre em um contexto de maior tensão política e comercial entre os dois países.

Além das críticas de setores empresariais americanos, a iniciativa também reflete uma estratégia do governo dos EUA de buscar bases legais mais robustas para ações comerciais, após decisões judiciais internas terem limitado o uso de outros mecanismos tarifários.

O governo brasileiro contesta a investigação e afirma que suas políticas são transparentes, não discriminatórias e compatíveis com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

O Itamaraty argumenta ainda que a Seção 301 é um instrumento unilateral, incompatível com o sistema multilateral de solução de controvérsias, e lembra que os EUA mantêm superávit comercial na relação bilateral.

A apuração segue um rito formal, com consultas entre os governos, audiências públicas e coleta de contribuições de empresas e entidades interessadas. O processo pode se estender por cerca de um ano.

Até sua conclusão, o principal impacto tende a ser a incerteza para exportadores e investidores, diante do risco de novas barreiras comerciais impostas pelos Estados Unidos.

<><> Surpresa: terras raras

Um dos pontos que mais chamou atenção da equipe brasileira foi a postura de Trump e sua equipe em relação a minerais críticos.

Segundo integrantes da comitiva do presidente, Trump demonstrou um interesse mediano pelo assunto, o que contrastou com a expectativa de que este fosse um assunto que dominaria, pelo lado norte-americano, parte do debate.

Nos últimos meses, técnicos brasileiros e norte-americanos vinham mantendo reuniões sobre o assunto e uma proposta chegou a ser enviada pelos EUA a respeito do assunto.

Desde o início do governo Trump, o governo dos EUA vem tentando diminuir a dependência do país em relação à China no acesso a minerais críticos como as terras raras, usadas na produção de equipamentos para a transição energética e de produtos de alta tecnologia como telefones celulares, computadores e armamentos.

Neste contexto, o Brasil é visto como um potencial parceiro, pois o país detém a segunda maior reserva conhecida de terras raras do mundo, atrás apenas da China. Em março, o governo dos EUA promoveu um fórum sobre minerais críticos envolvendo empresários brasileiros e norte-americanos, além de ter firmado um protocolo de intenções com o governo de Goiás relacionado à pesquisa e exploração desses minerais.

Por tudo isso, a equipe brasileira preparou documentos para atualizar os norte-americanos sobre o andamento do marco legal para a exploração desse material no Brasil.

Nesta semana, por exemplo, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos (PNMCE), que estabelece os primeiros parâmetros legais do Brasil sobre o tema.

Para o Brasil, a criação da política, que deve ser chancelada pelo Senado nos próximos dias, é vendido como um trunfo aos norte-americanos. Em entrevista coletiva, o presidente Lula disse que o Brasil está aberto a investimentos dos EUA no setor desde que não se limitem a explorar os minerais e a exportá-los apenas como matéria-prima. O governo quer que os investimentos priorizem o beneficiamento deles em território nacional.

Apesar disso, nenhum acordo sobre o assunto foi assinado pelas duas delegações.

A avaliação da equipe brasileira é de que a postura de Trump sobre o assunto durante a reunião possa ser resultado do fato de que, na prática, os norte-americanos já estejam avançando com seus projetos de extração de minerais críticos no Brasil a exemplo da compra de uma mineradora de terras raras em Goiás por uma empresa dos EUA, divulgada em abril.

<><> Crime organizado

Um dos pontos que era tido como prioridade do governo brasileiro foi a pauta do combate ao crime organizado e a tentativa de evitar que os EUA classificassem as facções criminosas brasileiras como Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas internacionais.

Segundo Lula e um interlocutor familiarizado com o teor da reunião, a possível designação das facções brasileiras não foi debatida na reunião.

"Não discutimos isso. O que eu queria dizer eu entreguei por escrito. Cada assunto que eu discuti com o presidente Trump, além dos ministros falarem, eu entreguei a ele cada proposta nossa escrita em inglês. Pra que ele não ter dúvida sobre o que nós queremos, porque estamos levando muito a sério essa questão do crime organizado", disse Lula.

A intenção de designar as facções brasileiras como organizações terroristas havia sido expressa pelos EUA no início do ano, fazendo com que o governo brasileiro mobilizasse sua diplomacia para convencer os governo norte-americano a recuar pelo menos de forma temporária.

O governo alega que é contra essa ideia porque ela abriria brechas para ações militares, policiais e de inteligência norte-americanas em território nacional a exemplo do que acontece em outras regiões do mundo como na costa do Caribe, no Oriente Médio e na costa do Oceano Pacífico.

Durante o almoço entre as duas delegações nesta quinta-feira, o Brasil entregou uma nova proposta de cooperação internacional para o combate ao crime organizado focado em dois eixos: o combate à lavagem de dinheiro que financia organizações criminosas; e o tráfico de armas.

A proposta, segundo interlocutores brasileiros, vai ser analisada pelo governo norte-americano, mas ainda não há prazo para que uma resposta seja dada.

Lula chegou a dizer que na entrevista coletiva que uma das ações previstas seria a criação de uma espécie de grupo internacional com países da América Latina e de outras regiões para atuação em conjunto contra carteis e outras organizações criminosas. Ele citou o exemplo de um centro montado em Manaus que reúne representantes de polícias e forças de seguranças de todos os países da região amazônica.

"Eu disse a ele que estamos dispostos a construir um grupo de trabalho com todos os países da América Latina e quiçá com todos os países do mundo, para criarmos um grupo forte de combate ao crime organizado", disse Lula.

¨      O que os jornais do mundo disseram sobre encontro de Lula e Trump

encontro do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) com Donald Trump, em Washington, nesta quinta-feira (7/5), repercutiu amplamente na imprensa internacional.

A reunião, que durou cerca de três horas e marcou a primeira visita de Lula à Casa Branca durante o governo Trump, tratou de temas como minerais críticos, tarifas americanas sobre produtos brasileiros e estratégias de combate ao crime organizado.

O jornal espanhol El País destacou o tom de reaproximação entre os dois presidentes. Segundo a publicação, apesar das tensões acumuladas nos últimos meses, "havia muito em jogo nessa relação estratégica" e os líderes "demonstraram clara sintonia".

A reportagem afirmou que Lula minimizou os atritos anteriores com Trump e que o encontro teve como objetivo "virar a página dos desentendimentos" entre os dois governos.

O diário espanhol também ressaltou os gestos simbólicos da recepção ao presidente brasileiro.

Lula entrou pela ala sul da Casa Branca, onde um tapete vermelho foi colocado especialmente para recebê-lo, enquanto Trump saiu até a escadaria para cumprimentá-lo pessoalmente — o que o El País classificou como um "sinal de boa relação pessoal apesar das diferenças ideológicas".

Já o jornal francês Le Monde afirmou que, apesar dessas diferenças, Lula e Trump apareceram sorridentes nas fotos após "uma reunião que se estendeu muito além do horário previsto". Segundo a publicação, os líderes buscavam "encontrar pontos em comum em questões delicadas que afetam as duas maiores economias das Américas".

O periódico francês também destacou o "impulso" eleitoral que o encontro representa para Lula, que deve enfrentar nas urnas em outubro, entre outros candidatos, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e aliado de Trump.

Na mesma linha, o argentino La Nación observou que a reunião "durou muito mais do que o esperado" e ocorreu sob "estrita confidencialidade".

O britânico The Independent, por sua vez, afirmou que o encontro teve um "clima de mistério" e que Trump "evitou a imprensa" após a reunião com Lula. O jornal ressaltou que uma coletiva prevista no Salão Oval "foi adiada e depois cancelada sem explicações", após os dois líderes permanecerem reunidos por horas a portas fechadas.

O cancelamento da coletiva conjunta também foi destacado pela Reuters. A agência observou que os dois líderes estavam programados para responder perguntas no Salão Oval, mas não apareceram, "o que gerou especulações sobre um possível fracasso nas negociações".

Mais tarde, porém, Lula afirmou que havia pedido que não houvesse coletiva antes da reunião para que os dois pudessem conversar primeiro.

A Reuters ainda classificou o encontro como uma reunião entre "duas das figuras populistas mais proeminentes do mundo", apesar das fortes diferenças ideológicas.

Já o Wall Street Journal afirmou que os dois líderes "buscavam reparar as relações desgastadas" entre Brasil e Estados Unidos.

O jornal também destacou o impacto eleitoral da reunião: "Após meses de tensão, o líder brasileiro tenta impedir que o presidente dos EUA apoie o candidato da direita nas eleições presidenciais de outubro", em referência a Flávio Bolsonaro.

Na coletiva realizada na Embaixada do Brasil após o encontro, Lula foi questionado por jornalistas se teria conversado com Trump sobre apoio nas eleições deste ano ou se temia que o presidente americano apoiasse o filho de Jair Bolsonaro.

Lula respondeu que esse é um assunto interno do Brasil e que não discutiu o tema com Trump.

"Não existe nenhuma possibilidade de eu discutir esse assunto com qualquer presidente de qualquer país do mundo. Esse é um assunto brasileiro e eles sabem disso, eles também são presidentes."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

O negro e neto de escravizado que explicou os 'Quatro Brasis': quem foi Milton Santos, o maior geógrafo brasileiro

Em 1994, o brasileiro Milton Santos (1926-2001) foi laureado com o prêmio internacional Vautrin Lud, considerado o Nobel da geografia. Até hoje, ele é o único pesquisador latino-americano a obter tal reconhecimento.

Esta é uma amostra da relevância global do geógrafo Milton Almeida dos Santos, um dos maiores intelectuais do século 20.

Negro e neto de um escravizado, o baiano de Brotas de Macaúbas nasceu há 100 anos — lembrados em 3 de maio deste ano — e se tornou figura fundamental no entendimento do Brasil e do mundo globalizado.

Um dos editores do livro Milton Santos: A Pioneer in Critical Geography from the Global South ("Milton Santos: um Pioneiro do Sul Global em Geografia Crítica", em tradução livre), o geógrafo Lucas Melgaço, professor na Vrije Universiteit Brussel (VUB), situa as contribuições do brasileiro como "essenciais para a geografia" — e que vão "além dela".

"Embora bastante disciplinar, no sentido de que ele se preocupava em repensar o que era a geografia, seu objeto e o trabalho do geógrafo, ele conseguiu ultrapassar os limites da disciplina, tornando-se uma referência para várias ciências sociais", contextualiza Melgaço.

"Ele deixou vários legados. Acredito que a principal contribuição de Milton Santos para as ciências sociais, no Brasil e no mundo, foi a construção de um método, um conjunto de conceitos e teorias coerentes, que se complementam e se transformam em ferramentas poderosas para compreender o mundo contemporâneo", acrescenta.

"Ele não criou apenas neologismos, algo comum na academia hoje, muitas vezes ligado ao ego dos pesquisadores buscando crédito por ideias que outros já trabalharam, mas revisitou termos existentes ou criou novos, de uma forma que eles dialogam entre si."

Milton Santos se destacou por seus estudos a respeito da urbanização no Terceiro Mundo e pelas pesquisas a respeito da globalização. Ele também criou uma proposta teórica de regionalização do país em quatro regiões, batizadas de "Quatro Brasis".

Levando em consideração as diferenças de infra-estrutura e o suporte a redes de informações, mercadorias, capitais e pessoas entre os Estados, ele propôs uma visão sobre o Brasil considerando a região amazônica, a região nordeste, a região centro-oeste e a região concentrada.

Pela sua definição, a região amazônica conteria os Estados do Acre, Amazonas, Roraima, Rondônia, Pará e Amapá — conjunto de unidades com pouca densidade demográfica e escassos centros urbanos.

A concentrada seria a área que englobaria os Estados do Sul e do Sudeste brasileiros, centro tecnológico do Brasil, com urbanização densa e intenso desenvolvimento científico e comercial.

O nordeste de Milton Santos é muito parecido com a região oficialmente chamada de Nordeste, compreendendo Zona da Mata, Agreste, Sertão e Meio-Norte.

Seria uma área dependente do turismo — no litoral —, com indústrias sobretudo na Zona da Mata e uma base subdesenvolvida agropecuarista no interior.

Por fim, o centro-oeste de tal divisão abrange Tocantins, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás e Distrito Federal, uma região voltada para a agropecuária mas com desenvolvimento tecnológico comparável à região concentrada.

"Essa divisão proposta por ele do Brasil mostra não só a base física, mas as regiões como palco de uma série de relações e conflitos, com suas diferenças não só nas geografias física e humana, mas na própria relação entre estados, elites e poder econômico, impactando nas pessoas que ali vivem", pontua o o geólogo Marco Moraes, autor do livro Planeta Hostil.

<><> Biografia

Santos nasceu na Chapada Diamantina. Tantos seus pais como seus avós maternos eram professores primários — e foi com eles que o garoto aprendeu a ler e a escrever. Seu avô paterno havia sido escravizado.

Quando entrou para o internato do Instituto Baiano de Ensino, aos 10 anos, tomou gosto pela geografia, influenciado por um professor. Cursou direito na Universidade Federal da Bahia — graduou-se em 1948. Durante a faculdade, militou em grupos estudantis de esquerda.

Formado em direito, prestou concurso para professor de geografia. Acabou indo embora para Ilhéus, onde deu aulas no colégio municipal. Lá trabalharia como jornalista para o jornal A Tarde.

Desta passagem nasceria seu livro Zona do Cacau.

Mais tarde, Santos se mudaria para Salvador, onde se tornou professor na Universidade Católica em 1956. Foi convidado a fazer seu doutorado na Universidade de Estrasburgo, na França — concluído em 1958.

Sua carreira ascendia no início dos anos 1960. Tornou-se livre-docente na Universidade Federal da Bahia e, como editor do jornal A Tarde, viajou a Cuba na comitiva do então presidente Jânio Quadros (1917-1992).

A convite do governo estadual da Bahia, tornou-se presidente da Comissão de Planejamento Econômico.

O golpe militar de 1964, contudo, interrompeu sua trajetória.

Santos foi preso pelo regime e, em seguida, exilou-se na França. Trabalhou na Universidade de Toulouse e, depois, em Sorbonne.

Em 1971 trocou Paris por Toronto, no Canadá. Ele havia aceitado a proposta para se tornar professor na principal universidade de lá.

Em seguida, tornou-se pesquisador no Instituto de Tecnologia de Massachusetts, nos Estados Unidos. Aí nasceu sua amizade com o famoso sociólogo americano Noam Chomsky.

Também foi nessa época que Santos preparou sua obra mais importante, O Espaço Dividido, que seria publicada em 1979.

O geógrafo trabalhou ainda na Venezuela, em missão da ONU, e no Peru, na Universidade de Lima.

Ainda moraria dois anos na Tanzânia, onde criou o curso de pós-graduação em geografia na Universidade de Dar es Salaam.

Antes de voltar ao Brasil ainda passaria novamente pela Venezuela e pelos EUA — com uma temporada na Universidade Columbia, em Nova York.

No retorno ao país, já na segunda metade dos anos 1970, Milton Santos trabalhou como consultor do governo estadual de São Paulo e na Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano (Emplasa).

Por alguns anos, lecionou na Universidade Federal do Rio de Janeiro. Em 1984, foi contratado pela Universidade de São Paulo, onde seguiria até o fim da vida — mesmo após ter se aposentado, em 1997.

Para o sociólogo Paulo Niccoli Ramirez, professor da Fundação Escola de Sociologia de São Paulo (FESPSP), Milton Santos se tornou um autor fundamental na geografia porque "ele reviu o conceito de globalização", percebendo como o fenômeno, operado "pelo modelo neoliberal", produz desigualdades entre centro e periferia.

"Ele desejou uma globalização mais humanizada, pensando nas periferias e em como um processo de acumulação capitalista poderia contribuir para a maior distribuição de renda", diz Ramirez.

"É um autor lapidar, fundamental em todo o mundo, para podermos entender as contradições do processo de globalização", afirma Ramirez.

Melgaço argumenta que o pensamento de Santos "permanece relevante para entender o presente".

"De forma mais concreta, talvez a sua concepção de que o espaço geográfico não é apenas o palco das ações humanas, mas um conjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações seja um de seus principais legados", explica o professor.

"Grande parte de sua teoria gira em torno dessa ideia central, principalmente na última fase de sua vida acadêmica. Também é altamente relevante sua visão de que a geografia funciona como uma filosofia das técnicas. Esse conceito, por vezes abstrato e complexo, é fundamental para entender o período atual, incluindo as perversidades da globalização, as desigualdades técnicas, as opacidades dos territórios, as contrarracionalidades e as inventividades dos espaços que ele chamava de hegemonizados."

Para Melgaço, há um otimismo na obra de Santos. Não era ingênuo, mas "muitas vezes provocador", às vezes "até um pouco ácido". "Ele não tinha medo de causar desconforto ou de fazer as pessoas pensarem", diz.

"Isso porque sua teoria frequentemente convida à ação, não necessariamente militante, mas uma ação que desafia estruturas. Acho que esse foi a origem de seu otimismo, já que ele via possibilidades de mudanças, muitas vezes vindas de lugares marginalizados, dos de baixo, do sul global. Ele inclusive fala da globalização como um conjunto de possibilidades", afirma Melgaço.

Professor na Universidade Estadual do Maranhão (Uema), o geógrafo Cristiano Nunes Alves ressalta que a "potência e a força" da obra de Milton Santos estão no fato de que suas ideias são "aplicáveis".

"Ele nos traz um conjunto de ferramentas teóricas e metodológicas que efetivamente podem ser aplicadas na análise dos territórios, na análise espacial", afirma.

"Sua obra tem um fundo filosófico muito claro e presente, mas, ao mesmo tempo, não está apartada da concretude", define Alves. O geógrafo destaca o papel de Santos ao situar a informação como força que move os territórios.

<><> Negritude

A questão negra, se não foi central em seu trabalho, permeava suas preocupações de maneira constante.

"Embora ele não tenha teorizado no sentido amplo sobre a questão de raça, sua perspectiva de homem negro está em todo o seu trabalho", argumenta Alves.

"Ele dá ferramentas para pensar e para ler a formação social brasileira com o elemento racial como estruturante de nossa história territorial."

"Quando ele traz à tona situações das populações pobres e das periferias, ele chama a atenção para os subalternos. Sabemos quem são os subalternos: as mulheres, os indígenas e os negros", ressalta Alves.

"Ele, por várias vezes, refletiu sobre a questão racial e, sobretudo, sobre o fato de ser um intelectual negro no Brasil, numa universidade elitista e pouco diversa. Mas a questão racial não foi central na sua elaboração teórica", diz Melgaço. "Ele sempre buscava ver a questão racial dentro de uma estrutura mais ampla e complexa."

O professor lembra que Santos era favorável às cotas, embora enfatizasse que só elas não bastavam — era preciso que fossem acompanhadas de iniciativas que dessem aos negros devidas condições de sucesso acadêmico. "E isso tinha a ver com mobilidade, comida, lazer, descanso e tudo o mais", explica.

"Ele dizia que não era um especialista na questão negra, mas que a questão negra era a sua história", pontua Melgaço. "Há relatos dele, mas principalmente dos seus colegas, das inúmeras vezes que o racismo o impediu de acessar cargos e posições dentro e fora da academia."

Essa postura muitas vezes fazia de Santos uma pessoa percebida de forma ambígua pelos ativistas de seu tempo. "Por vezes, era criticado por, na visão de alguns, ser demasiadamente isento ou tangencial no assunto", diz Melgaço.

"Mas, na minha opinião, acho que era uma visão um pouco simplista do que realmente pensava Milton Santos. Para mim, parecia que ele se preocupava com transformações estruturais e que a questão negra fosse parte de mudanças mais profundas."

"Ele tinha bastante consciência sobre o papel de um intelectual negro no mundo acadêmico. Viveu na pele o racismo da sociedade. E, obviamente, tinha uma percepção muito mais claras sobre essa relações, trazendo suas contribuições sobre como enxergar e fazer as políticas públicas que visam a fortalecer os direitos humanos, direitos sociais e as próprias políticas", acredita Ramirez.

<><> No mundo

O geólogo Moraes comenta que Milton Santos deveria "ser muito mais celebrado e reconhecido no Brasil".

"Não só por sua história, de um negro de origem humilde que ganhou o principal prêmio da geografia, mas pela contribuição incrível de seu trabalho", afirma.

"Sua compreensão de espaço geográfico não como substrato inerte para atividade humana, mas como coisa dinâmica que influencia e é influenciada pela atividade humana, é essencial", diz Moraes. "Permite analisar a geografia como interação permanente e contínua."

"Ele analisou as relações e a configuração geográfica a partir das periferias. Tanto das desigualdades sociais e regionais dentro do Brasil como das periferias do mundo", analisa Moraes.

"Olhar a geografia não do ponto de vista eurocêntrico é uma contribuição importante. E ele fez isso enquanto intelectual negro."

"Ele criticou a globalização. Nisso foi visionário. Desmistificou o fenômeno, de coisa boa que integraria o mundo, mostrando que há muitos excluídos do processo, prejudicados", explica Moraes.

Por outro lado, Santos enxergou possibilidades para o fenômeno. "Se nos unirmos e encararmos a globalização de outra forma, ela pode ser uma coisa boa, inclusive uma forma de reação às elites dominantes."

"A obra de Milton Santos tem como principal legado o entendimento do espaço geográfico. Com os seus estudos, ao teorizar o espaço como um sistema de objetos e ações, a geografia começa a se debruçar também sobre as atividades humanas e as relações econômicas, deixando de se fixar majoritariamente no estudo da paisagem e aumentando sua interdisciplinaridade", contextualiza o relações públicas Breno Costa, estudioso da obra de Santos e pesquisador na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais.

Segundo ele, no sistema de Santos, os objetos e as ações humanas estão interligados na formação das cidades e regiões. "Portanto, seus trabalhos criaram uma escola de pensamento bastante complexa e rica de conceitos", aponta.

"Ele se esforçou em entender, sobretudo, os países subdesenvolvidos e as formas de urbanização precárias", diz Costa. "Foi um crítico incansável do fenômeno da globalização."

Para o geógrafo, o mecanismo age como "um motor de desigualdades", tendo um impacto perverso para o países do Sul Global. "Entender isso tem um impacto muito grande na escolha do papel que o Brasil deve ter em um sistema mundial de produção e consumo", afirma.

Há uma redescoberta da obra de Santos no exterior, sobretudo no mundo anglófono. Nesse cenário, o trabalho de Melgaço é fator de destaque.

Em 2017, em parceria com o acadêmico canadense Tim Clarke, ele lançou a tradução em inglês do livro Por Uma Outra Globalização, do geógrafo brasileiro.

No mesmo ano, foi publicada uma coletânea em inglês, de artigos sobre o trabalho de Santos.

De lá para cá, outras obras do geógrafo também ganharam versões em inglês, como A Natureza do Espaço e Por Uma Geografia Nova.

Os estudos de Santos seguem atuais. "Ajuda a entender os problemas contemporâneos", diz Costa. Ele faz um exercício observando o que acontece hoje com as grandes empresas de tecnologia. Segundo o pesquisador, o Vale do Silício acaba servindo com "um centro produtor de tensões, intencionalidades e ideologias, espalhando seu modo de pensar por todo o planeta".

"Nesse caso, a América Latina acaba se tornando mera consumidora desse conjunto de técnicas, criando-se aqui uma psicosfera, uma forma de pensar e um conjunto de valores que foram inoculados em nós por esses Cavalos de Troia", analisa ele, sob uma perspectiva da teoria de Milton Santos.

 

Fonte: BBC News Brasil