quarta-feira, 29 de abril de 2026

Por que os ricos britânicos estão vivendo com saúde cada vez mais que os pobres?

Um novo relatório indicou que o número de anos que as pessoas no Reino Unido vivem em plena saúde está diminuindo.

Na última década, a expectativa de vida saudável (EVS) — número de anos que uma população espera viver com boa saúde — no Reino Unido caiu cerca de dois anos, para pouco menos de 61 anos tanto para homens quanto para mulheres.

Entre as 21 economias mais ricas do mundo, o Reino Unido é um dos cinco casos em que a expectativa de vida saudável diminuiu, e com a segunda maior queda.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), no dado mais recente disponível, a EVS no Brasil passou de 60,9 anos em 2000 para 61,8 anos em 2021.

A Health Foundation, do Reino Unido, responsável pela análise, afirmou que essa tendência tem um custo econômico significativo e que os resultados deveriam funcionar como um marco para as políticas públicas.

Segundo a entidade, pobreza, más condições de moradia e fatores de estilo de vida, como a obesidade, estão entre as causas, além do impacto da pandemia de Covid-19.

A análise, baseada em dados do Office for National Statistics (ONS, uma espécie de IBGE britânico) entre 2022 e 2024 e entre 2012 e 2014, mostrou que moradores dos 10% de áreas mais ricas podem esperar viver cerca de 20 anos a mais com boa saúde do que aqueles das regiões mais pobres.

Na Inglaterra, Richmond, em Londres, tem as maiores taxas de EVS: 69 anos para homens e 70 para mulheres.

Em outras cidades inglesas, como Blackpool e Hartlepool, os índices são bem mais baixos: 51 anos para homens em Blackpool e 51 anos para mulheres em Hartlepool.

Londres foi a única região a registrar melhora na EVS no período analisado. Em mais de 90% das áreas, a EVS está abaixo da idade de aposentadoria estatal, de 66 ou 67 anos, e em 1 em cada 10 áreas ficou abaixo dos 55 anos.

O relatório apontou que isso afeta significativamente a capacidade de trabalho da população e está alinhado a outros dados que mostram um alto número de pessoas fora do mercado por problemas de saúde.

A comparação global, baseada em dados da OMS, comparou o Reino Unido a outras nações da Europa Ocidental, dos países nórdicos, da América do Norte e da Oceania. O país ocupa agora a 20ª posição entre 21, ficando à frente apenas dos Estados Unidos, onde a população vive menos anos com boa saúde.

A EVS é o termo técnico usado por especialistas para estimar quantos anos de vida são vividos em plena saúde, com base em relatos dos próprios indivíduos em pesquisas, bem como em dados de mortalidade.

A Health Foundation afirmou que os resultados revelam um declínio acentuado na saúde da população britânica e que isso deveria servir de alerta para os formuladores de políticas públicas.

Andrew Mooney, principal analista de dados do think tank (centro de pesquisa e debates) Health Foundation, disse: "O Reino Unido tem os maiores índices de obesidade da Europa Ocidental e houve um aumento expressivo nos problemas de saúde mental, especialmente entre os jovens."

Segundo Mooney, isso gerou "um custo econômico significativo, com a má saúde afastando pessoas do mercado de trabalho e impedindo jovens de ter acesso à educação, emprego e formação".

Em comparação com a EVS, a Health Foundation constatou que a expectativa de vida geral permaneceu estável.

Layla McCay, diretora de políticas da NHS Alliance, afirmou: "Os dados são um alerta claro de como as desigualdades em saúde afetam profundamente a vida das pessoas, com muitas comunidades em áreas mais pobres passando mais anos com saúde precária".

"Nossos membros têm sido claros ao dizer que a resposta deve começar pela prevenção — enfrentar os determinantes sociais da saúde, fortalecer a assistência na comunidade e ampliar o acesso a serviços mais próximos da população", acrescentou McCay.

 

Fonte: BBC News

 

Mineradoras alvos de ações e multas ambientais receberam R$ 90 mi em isenções fiscais

MINERADORAS DE OURO com histórico recente de infrações ambientais, implicadas por órgãos de controle em irregularidades e em conflito com comunidades obtiveram R$ 90,1 milhões em isenções de impostos federais entre 2024 e 2025, mostra levantamento exclusivo da Repórter Brasil.

Em Cuiabá, capital do Mato Grosso, a Mineração Aricá obteve isenções fiscais mesmo após um embargo (interdição) registrado pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis) no âmbito de uma operação da Polícia Federal que investiga o uso ilegal de mercúrio.

Outra companhia com embargo ativo aplicado pelo órgão ambiental é a Mineração Aurizona S.A., que recebeu os benefícios depois de a empresa deixar 4 mil pessoas sem acesso à água potável em decorrência do rompimento de uma lagoa usada como barragem de mineração, em março de 2021, no município maranhense de Godofredo Viana.

Já a Aura Almas Mineração S.A., que opera em Almas, no Tocantins, ignorou a existência de comunidades quilombolas em seu projeto de licenciamento ambiental, segundo ação movida pela Defensoria Pública do Estado.

Em 2024, a soma das renúncias fiscais das três empresas foi de R$ 51 milhões. Em 2025, de R$ 39,1 milhões. Os dados sobre benefícios e renúncias fiscais de tributos federais são de acesso público, disponibilizados pelo Ministério da Fazenda.

<><> Leis sobre benefícios não incluem critérios socioambientais

No caso da mineradora Aurizona, o benefício foi garantido por meio da Superintendência do Desenvolvimento da Amazônia (Sudam), a partir de uma lei criada no início dos anos de 1960 com a proposta de incentivar a expansão de setores de extração de matéria-prima na região.

Ao longo dos mais de 60 anos de vigência, a Lei 4.216, que regulamenta o benefício, teve poucas alterações, graças ao lobby dos setores beneficiados, avalia Alessandra Cardoso, assessora política do Inesc (Instituto de Estudos Socioeconômicos).

“Essas leis normalmente têm dez anos de duração. Quando vai chegando esse prazo, eles [empresários] se articulam no Congresso Nacional e renovam sem nenhuma mudança”, explica Cardoso. Ela é autora da nota técnica “Incentivos Fiscais na Amazônia”, publicada em 2023 pelo Inesc, onde aponta os “questionáveis efeitos econômicos e sociais e negativos impactos ambientais” desse tipo de isenção fiscal.

Além do benefício da Sudam, as três mineradoras foram contempladas pelo Regime Especial de Aquisição de Bens de Capital para Empresas Exportadoras (Recap), que garante a suspensão de impostos na aquisição de máquinas e equipamentos.

As legislações que regem ambos os benefícios não estabelecem critérios socioambientais para a sua concessão. “É um absurdo [que esses benefícios] sejam renovados sem que haja critérios ambientais, sociais, climáticos, de responsabilidade socioambiental dessas empresas”, critica Cartório.

Para a assessora do Inesc, as lacunas na legislação sobre benefícios fiscais acabam por financiar atividades de empresas com problemas socioambientais. “Não tem contrapartida para as comunidades, não tem vedação sequer de coisas que já são muito usuais no setor financeiro, como lista de trabalho escravo e desmatamento”, diz Cardoso.

Em nota enviada à Repórter Brasil, a Receita Federal afirmou que a avaliação da reputação ambiental das empresas contempladas por incentivos fiscais é realizada somente quando está expressa na lei que criou o benefício, o que não acontece nos casos apresentados nesta reportagem. “Todo benefício fiscal é determinado por lei, que irá conter os critérios objetivos para sua concessão. À Receita Federal cabe analisar se o postulante a aquele benefício cumpre os requisitos para recebê-lo”, informou.

<><> Beneficiária tem área interditada por uso ilegal de mercúrio

Uma das beneficiárias pelo Recap é a Mineração Aricá que, em 2025, recebeu R$ 677,8 mil em incentivos. Em 2024, o valor foi de R$ 30,8 mil.

Em novembro de 2023, a mineradora teve uma área embargada e foi multada em R$ 1,5 milhão por apresentar informações falsas no sistema oficial de controle de compra e venda de mercúrio e por manter a substância em desacordo com a legislação.

A autuação do Ibama ocorreu no âmbito de um desdobramento da Operação Hermes II, deflagrada em 2023 pela Polícia Federal com o objetivo de apurar o comércio e uso ilegal de mercúrio e outros crimes, como organização e associação criminosa.

Altamente tóxico e com potencial de contaminação de ecossistemas aquáticos, o mercúrio pode causar danos neurológicos, reprodutivos e imunológicos em humanos. Por lei, todo mercúrio de origem legal precisa ser declarado e informado no sistema do Relatório de Mercúrio do Ibama, assim como as transações de compra e venda.

O embargo, registrado no distrito do Coxipó do Ouro, na zona rural de Cuiabá (MT), permanece ativo. Apesar disso, a empresa registrou recolhimento de CFEM (Compensação Financeira pela Exploração de Recursos Minerais) em 2024 pela comercialização de 211,2 kg de ouro naquele ano.

Segundo o Ibama, a mineradora contesta os autos de infração e as multas aplicadas pelo órgão ambiental ainda não foram pagas. À Repórter Brasil, o MPF em São Paulo confirmou que recebeu o relatório da Polícia Federal com o resultado das investigações da Operação Hermes II, mas alegou que o procedimento está sob sigilo e não poderia confirmar se a Mineração Aricá ou seus sócios estão sendo investigados.

A reportagem procurou a Mineração Aricá por meio de telefones, correio eletrônico e de um advogado que já atuou na defesa da empresa, mas não conseguiu fazer contato com representantes da companhia. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

<><> Rompimento de barragem deixou 4 mil sem água potável

Ainda hoje, os 4 mil moradores da comunidade de Aurizona, distrito da zona rural de Godofredo Viana, no norte do Maranhão, sofrem as consequências da contaminação das águas do rio Tromaí, que abastece a cidade. A poluição chegou em março de 2021, com o rompimento da barragem Lagoa do Pirocaua, controlada pela Mineração Aurizona S.A.

Mesmo com um embargo registrado pelo Ibama desde abril de 2021 em decorrência do rompimento, a mineradora lidera a lista dos valores de renúncias fiscais entre as três empresas citadas nesta reportagem.

Em 2025, a empresa recebeu de R$ 38,1 milhões em isenções, sendo a maior parte – R$ 35,9 milhões – acessada via Sudam. Em 2024, o benefício foi ainda mais robusto, totalizando R$ 47,2 milhões. Novamente, a legislação criada no âmbito da Sudam garantiu a maior parcela, de R$ 44,5 milhões, que também teve acesso ao Recap.

O rompimento afetou os poços do distrito, que ficaram inutilizados. Agora, a comunidade consome água mineral dos galões fornecidos pela Aurizona, afirmam moradores atingidos ouvidos pela Repórter Brasil.

“O prejuízo maior foi na nossa ETA, que é a nossa Estação de Abastecimento de Água”, conta a professora Daiane Lima Sousa, 37. “Devido às nossas lutas, com o MAB [Movimento dos Atingidos por Barragens], eles [Mineradora Aurizona] revitalizaram a ETA. Só que a gente sabe que nunca vai ficar 100%”, diz.

A professora afirma que a empresa realizou ações de reparos materiais aos moradores prejudicados pelo vazamento. Já os danos ambientais seguem em análise.

Desde setembro de 2021, a Aurizona, bem como o Estado do Maranhão, são alvos de uma Ação Civil Pública ajuizada pelo MPF, que pede a reparação dos prejuízos ambientais.

Em novembro de 2025, a Justiça autorizou uma perícia para apurar se as medidas de remediação adotadas pela empresa foram tecnicamente suficientes e se ainda há prejuízos na área. “A situação atual das famílias, no que diz respeito ao abastecimento de água e à qualidade ambiental da região, é uma das questões que a perícia judicial deverá responder”, informou à reportagem a DPU (Defensoria Pública da União), que atua como assistente do MPF na ação.

Enquanto a ação tramita, a empresa segue em operação. A Mineração Aurizona não respondeu os questionamentos enviados pela Repórter Brasil até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto para manifestações futuras.

<><> Territórios quilombolas ignorados

Em 2024, ano em que a Aura Almas Mineração S.A. conseguiu isenções fiscais no valor de R$ 3,7 milhões pelo Recap, as operações da empresa no município de Almas (TO) já haviam mudado a rotina dos moradores da comunidade quilombola de Baião.

O ruído das explosões das rochas incomoda quem vive na zona de impacto do empreendimento. O tráfego intenso de caminhões por uma via antes pacata preocupa os moradores, que temem acidentes, relata Maryellen Crisóstomo, nascida e criada na comunidade Baião e hoje coordenadora da Coordenação Estadual das Comunidades Quilombolas do Tocantins (COEQTO).

A comunidade de Baião não teve o processo de regularização fundiária concluído pelo Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária). Quando isso acontecer, a barragem usada pela mineradora – distante apenas 5 quilômetros da área habitada – fará limite direto com o quilombo.

“Nunca ninguém nos procurou para falar sobre rota de fuga, programa de segurança, nem nada”, disse Benvinda Fernandes Cardoso, 54, moradora do Baião, em entrevista à Repórter Brasil, em maio de 2024.

No fim de 2023, a Defensoria Pública do Tocantins, em conjunto com a COEQTO, entrou com uma Ação Civil Pública pedindo a suspensão das atividades da mineradora. A ação cita a falta de consulta prévia às comunidades quilombolas diretamente afetadas, como determina a Convenção 169 da OIT, além de supostas falhas no processo de licenciamento ambiental da mina.

“A gente questionou não só a inexistência do processo de consulta, mas também o fato de que essa exploração estava acontecendo com base num estudo simplificado de impacto ao meio ambiente e não no EIA/RIMA [Estudo de Impacto Ambiental e Relatório de Impacto Ambiental] completo”, diz a defensora pública Kenia Martins Pimenta Fernandes, coordenadora do Núcleo da Defensoria Pública Agrária e Ambiental do Tocantins.

Em 2025, a Justiça do Estado do Tocantins se posicionou contrária à liminar que pedia pela suspensão das atividades da Aura Almas até que as comunidades impactadas fossem ouvidas. Naquele ano, a mineradora foi novamente beneficiada pelo Recap, com isenções no valor de R$ 269,6 mil. “A liminar nós perdemos. Por outro lado, a ação segue para julgamento de mérito”, explica Fernandes.

Ainda no ano passado, a Defensoria realizou uma audiência de conciliação, onde estabeleceu as exigências para que a empresa siga em operação. O pedido inclui a elaboração de um novo Estudo de Impacto Ambiental e a realização da consulta de acordo com o protocolo definido pelas comunidades. Segundo Fernandes, a Aura Almas concordou com a proposta.

Agora, o acordo está em fase de formalização. Enquanto isso, a mineradora segue expandindo sua área de exploração entre as comunidades. São sete novas lavras em processo de abertura, segundo a Defensoria Pública. Além do Baião, outras quatro comunidades quilombolas ficam na zona de impacto: Poço Dantas, no município de Almas; São Joaquim e Laginha, ambas em Porto Alegre do Tocantins; e Lajeado, em Dianópolis. Esses territórios aguardam os estudos técnicos para a identificação das áreas de uso comum das comunidades.

Maryellen Crisóstomo confirma o contato da empresa com os quilombolas. Os resultados do diálogo, no entanto, nem sempre são favoráveis aos habitantes daquelas áreas. “A mineradora foi a Lajeado informar que, com consentimento ou não, vai ter um ponto de extração no território”, diz.

Em resposta à Repórter Brasil, a Aura Almas Mineração afirmou que a sua unidade em Almas mantém as operações regulares, em conformidade com a legislação brasileira. A companhia disse que “prioriza o desenvolvimento socioeconômico regional por meio da contratação de mão de obra local e do fortalecimento da cadeia de fornecedores da região” e que promove iniciativas “de qualificação e integração que contribuem para uma convivência pautada no respeito mútuo e no crescimento compartilhado”. Em relação a Ação Civil Pública movida pela Defensoria Pública do Estado, a empresa acrescentou que “colabora integralmente com as autoridades e que o processo segue o rito judicial regular”.

 

Fonte: Repórter Brasil

 

'O massacre dos idosos': como doença do filho de chefe de facção no Haiti levou à maior chacina do século nas Américas

O pequeno príncipe Benson está doente. Seu pai é o rei Micanor, autoproclamado último monarca do Caribe. Ele é o senhor dos cais de Porto Príncipe, "senhor da guerra" do bairro de Wharf Jérémie e da Viv Ansanm, a confederação de facções criminosas que controla a capital do Haiti. Ele está certo de ter descoberto o motivo. Existem na área homens-lobos, uma espécie de feiticeiros anciãos. Eles têm o poder de se transfigurar em animais para atacar à noite e uma capacidade especial de fazer adoecer e matar crianças. O rei decide, então, que, para salvar seu filho, suas hostes precisam sair à caça desses feiticeiros. Sébastien é um homem forte e rústico de 32 anos. Em uma das casas, ele está debaixo da cama da sua mãe e observa dois homens a levarem embora. Em outra, a avó de Evelyn diz: "Que ninguém fale nada. Escondam-se, todos." A anciã abre a porta e é raptada. O avô de Sheila também é levado embora. Quando ela sai para averiguar sobre seu paradeiro, o ancião já está morto. Manú também procura seus pais, que não atendem o telefone. No dia seguinte, ele descobre que seu pai foi desmembrado a golpes de facão. Os bandidos de Micanor matam ainda o tio e o primo de Dustin. Ele conta a história com dois buracos de bala no corpo. O príncipe Benson Altes morre na madrugada de 7 de dezembro de 2024. Ele tinha seis anos. Durante seis dias, seu pai tira a vida de 207 pessoas. A maioria tinha mais de 60 anos. Ele os corta com facão, faz os corpos desaparecerem com fogo ou os joga no fundo do mar.

<><> A busca por sobreviventes

No final de fevereiro de 2025, três meses depois do massacre em Porto Príncipe, consigo agendar uma reunião com a advogada Rosie Auguste Ducéna, chefe da Rede Nacional de Defesa dos Direitos Humanos (RNDDH, na sigla em francês). Mas chegar até lá é complicado. A capital haitiana é a cidade mais violenta do país mais pobre e violento do continente americano. E 90% de Porto Príncipe está, há mais de um ano, sob o controle da Viv Ansanm, a maior confederação de gangues criminosas já vista na região. Desde 29 de fevereiro de 2024, os bandidos tomaram posse de um bairro atrás do outro, queimando delegacias de polícia, estações de rádio locais, escolas, edifícios governamentais, cemitérios, estradas... Eles devastaram a cidade. Os 10% que resistem à ofensiva são defendidos pelo pouco que resta do Estado haitiano, uma missão internacional comandada pelo Quênia, civis e pelos homens comandados por pessoas como o ex-policial Samuel Joasil, o mais conhecido de todos. Estas brigadas montam barricadas quase todos os dias, colocam carros queimados, portões improvisados, cercas de arame farpado ou fogo em pneus para impedir a entrada dos bandidos e fazer com que eles, se conseguirem entrar, se movimentem com lentidão. Assim, eles poderão caçá-los, matá-los e, em muitos casos, queimá-los. A mobilidade também é difícil para nós, que estamos nesta espécie de fortaleza.

Rosie Auguste é uma das maiores especialistas nas gangues e na violência de Porto Príncipe. Ela acredita que esta é uma forma de pressão para fazer com que a cidade caia com mais rapidez. "Terroristas", segundo ela. Ela também considera que os senhores da guerra elaboram a estratégia, mas não controlam as hostes de adolescentes que, embriagados pela adrenalina e pelo poder, acabam assolando a população de forma arrepiante. E acrescenta que os anos vivendo entre a violência deformam esses meninos. Mas, como os demais especialistas, ela acredita, suspeita, intui, mas não sabe ao certo. Rosie Auguste está visivelmente perturbada. Ela chama os bandidos da Viv Ansanm de covardes. Diz que eles atacam a população antes do governo. "Eles sabem onde está o primeiro-ministro, onde moram os funcionários, mas preferem atacar mulheres e crianças desarmadas", ela conta, com a testa franzida. "Fazem violações em massa em frente a todo mundo e matam bebês."

Ela documenta e denuncia há anos, não apenas as barbáries das gangues. Ela também acusa o Estado haitiano de passividade, permissividade e conluio. Por isso, Rosie Auguste acredita que sua vida esteja em risco. Ela não seria a primeira pessoa assassinada por documentar esta situação. Tento entrevistar sobreviventes do massacre desde a minha chegada. Mas um jornalista local me diz que é impossível.

Ele conta que não se pode entrar em Wharf Jérémie porque o rei Micanor ficou paranoico e levou seus homens com ele. O jornalista também afirma que os sobreviventes não podem sair do bairro. Micanor montou barreiras que controlam a saída das pessoas e retêm os celulares dos moradores. E os que conseguiram fugir para outros bairros ou para campos de refugiados improvisados correriam sérios riscos. Peço a Rosie Auguste e ela promete tentar, mas destaca que, para eles, movimentar-se pela cidade seria quase um suicídio. Ela me pede para regressar no início de abril de 2025. Nesta segunda entrevista, chego ao seu escritório de moto com Ivander, meu guia local.

<><> O rei assassino e a maldição dos anciãos

Na manhã de 6 de dezembro de 2024, Evelyn e sua família ouvem motos, homens falando alto e batidas na porta. Da rua, eles perguntam pela sua avó. "Escondam-se e façam silêncio", pede a avó aos seus parentes, enquanto abre a porta. Um dos homens entra com uma pistola e outro com um facão. Eles a levam em uma das motos. Aquela foi a última vez em que Evelyn viu a avó com vida. No fundo do bairro de Wharf Jérémie, perto do mar, já se ouvem tiros. Ninguém da casa se atreve a sair. Na manhã seguinte, Evelyn e suas irmãs, em um ato de grande temeridade, se esgueiram até Nan Mangue, um pequeno banco de areia ao lado do porto de Wharf Jérémie. Ali, em meio a um grande quebra-cabeça de sangue, dividida pelo facão, elas encontram sua avó.

Há alguns dias, o filho de seis anos do rei Micanor, Benson Altes, tem febre. Nenhum dos meus informantes sabe ao certo qual foi o motivo (uma doença relacionada aos pulmões ou ao estômago), mas ele fica pior em alguns momentos. Porto Príncipe perdeu para os bandidos quase todas as suas instalações de saúde, públicas e privadas. Nem as ambulâncias da ONG Médicos Sem Fronteiras conseguem chegar aos domínios do rei Micanor, onde foram atacadas a balas em mais de uma ocasião.

Frente ao mal-estar do filho, Micanor chama seu hougan, seu sacerdote vodu pessoal, para salvá-lo. O sacerdote afirma que Benson está doente por obra do vodu. Segundo ele, trata-se de uma espécie de feitiço lançado por um loup-garou — um homem-lobo, uma espécie de feiticeiro muito temida no Haiti desde a época da colonização. O sacerdote anônimo (nenhuma fonte ou relatório registra seu nome) também afirma que os anciãos e anciãs do bairro são responsáveis não só pelo sofrimento do pequeno príncipe, como por outras mortes por doenças em Wharf Jérémie. Para os membros das gangues, os anciãos se transformaram uma espécie de praga. E é assim que irão tratar deles.

Na manhã de 6 de dezembro de 2024, depois de uma longa reunião com o hougan, o rei Micanor decide pôr fim à maldição. Ele reúne suas tropas no quartel da gangue, conhecido como Centro de Treinamento, e manda que sejam trazidos para ali todos os anciãos do bairro. Sébastien almoça com sua mãe naquele dia. Ele não recorda o que eles comeram, mas supõe que tenha sido arroz. Para muitos na cidade, este é praticamente o único alimento disponível. O bairro está tenso, como sempre acontece em Porto Príncipe. Eles ouvem tiros, a música de fundo que acompanha a cidade nos últimos cinco anos. Até que chegam os bandidos.

Jovens, eles chegam de moto, batem à porta e gritam do lado de fora que querem sua mãe. Ela diz a Sébastien que se esconda; ela não pede, mas sim ordena. Sébastien é grande, tem feições fortes, voz grave e braços largos. Seu pescoço parece o tronco de uma árvore forte e os botões de cima da camisa se esforçam como podem para não sair em disparada a cada respiração dele. Mas, no dia 6 de dezembro de 2024, este homenzarrão se enfia como pode debaixo da cama da sua mãe e se cobre com suas mantas. Ele acredita que eles estão vindo para roubar, já que sua mãe e ele são comerciantes e mantêm dinheiro vivo. Como o rei Micanor é seu vizinho e eles o conhecem há quase duas décadas, ele não imagina que irão matar ninguém do bairro. Talvez sua mãe, sim, e, por isso, ela manda que ele se esconda. Sébastien observa do seu esconderijo que dois rapazes a levam e a fazem subir em uma moto. E, horas depois, ela fará parte do quebra-cabeça humano que também inclui a avó de Evelyn. O rei Micanor sequestra neste dia 127 anciãos, 90 homens e 37 mulheres, e os leva para Nan Mangue. Ali, quando cai a noite e tudo fica escuro, seus homem os matam a tiros e facadas. O hougan recolhe sangue dos sacrificados e guarda em recipientes, ao lado de partes dos seus corpos.

<><> Os reis e o vodu

A igreja de Saint Michel fica nos limites de Pétion-Ville, dentro da pequena fortaleza que ainda resta em Porto Príncipe. Nela, dezenas de homens e mulheres levantam as mãos e as agitam no ar. Os tambores soam como trovões. A fumaça sobe e vozes graves escapam de uma cabana de madeira. Eles me olham com desconfiança, mas ninguém se anima a me expulsar dali ou me fazer mal. É um lugar sagrado e eles não irão manchá-lo, ainda mais com sangue de branco. O dia é 5 de março de 2025. Neste hounfor, ou igreja vodu, é celebrado um rito a Ezili, a família de loas associada à fertilidade, à força da maternidade, à sensualidade, ao feminino, à dança e à proteção. Um grupo carrega uma mulher jovem com síndrome de Down. Imóvel, ela brilha como um pássaro grande com as asas em crescimento. A jovem não fala. Ela apenas baba e emite uma espécie de grunhido doloroso. Ela foi recolhida da rua, onde vive ao lado de uma lixeira. Eles a vestiram e calçaram da melhor forma possível e organizaram este evento para ela. Seu objetivo é pedir a Ezili que a proteja, que a acompanhe, que a perdoe. A mulher está grávida e dará à luz nos próximos dias. Os devotos também exigem paz aos gritos e pedem aos loas que deem esperança e os ajudem a sobreviver. Eles pedem que a Viv Ansanm não entre e, se o fizerem, que eles possam derrotá-la.

O vodu é uma das religiões mais estigmatizadas do continente americano. Segundo Alfred Métraux, um dos antropólogos pioneiros no seu estudo, trata-se de um conjunto de crenças híbridas entre credos africanos, inicialmente, e a fé católica dos escravagistas que chegaram à América. Basicamente, é uma religião criada de baixo, com uma relação profunda e terna com a natureza e os mortos. Nesta tradição, os mortos não vão embora. Eles ficam e fazem parte importante da vida cotidiana. Eles regressam em sonhos, confortam os vivos e, com o passar do tempo, se tornam divindades. É desta forma que o panteão haitiano vai crescendo, até se tornar impossível de relacionar.

O vodu não tem relação com a violência ou, pelo menos, não mais que as religiões judaico-cristãs e muçulmanas. Ele se desenvolveu como motor ideológico e espiritual da revolução haitiana do final do século 18. Foi depois de um ritual organizado por uma mulher que as pessoas escravizadas destruíram o sistema de fazendas escravagistas mantido pelos franceses em 1791. Assim foi fundado o Haiti, após a primeira revolução bem sucedida de pessoas escravizadas do continente americano, a primeira declaração de independência da América Latina e a segunda do continente, depois dos Estados Unidos. Por isso, o vodu foi e, de certa forma, continua sendo uma religião eminentemente anti-imperialista. Mas, como todas as religiões, o vodu também foi usado para oprimir ainda mais aqueles que já são oprimidos. Usar o vodu como arma para subjugar as pessoas não é criação do rei Micanor. Dezenas de senhores da guerra se orgulham de serem hougan e terem a proteção dos loas.

O primeiro a observar o potencial da fé para reprimir os haitianos talvez tenha sido François Duvalier (1907-1971), o ex-ditador do país conhecido como Papa Doc. Seu aterrorizante regime durou de 1957 até a sua morte e teve dois pilares. O primeiro foi a criação do grupo paramilitar Tontons Macoutes, que assassinava seus opositores e impunha o terror nos bairros. O segundo foi o vodu. Duvalier se gabava de não ser mais um hougan, mas sim um loa; especificamente, Baron Samedi, o senhor dos cemitérios, que protege a entrada para o mundo dos mortos. Ele se apresentava com a indumentária clássica daquele espírito e, segundo os haitianos, falava como os loas e os mortos: com tom nasal. Os 14 anos de governo de Duvalier deixaram um rastro de morte pelo Haiti, estabelecendo uma forma de fazer política que prevalece até hoje no país. Pode-se dizer, de forma simplista, que a Viv Ansanm é a herança de Papa Doc e que seus senhores da guerra místicos e paranoicos são seu legado. Quando o rei Micanor decide assassinar seus vizinhos, em 6 de dezembro, não se trata de uma inovação das formas de barbárie. Ele segue uma tradição política iniciada antes mesmo que ele tivesse nascido.

<><> A paranoia do rei e os 'homens-lobos'

No dia 9 de dezembro, as pessoas ficam sem comunicação em Wharf Jérémie. Frente à cobertura da matança na imprensa local e nas redes sociais, o rei Micanor ordena o confisco dos telefones celulares de toda a população. Seus homens sequestram outras 60 pessoas, que foram levadas ao Centro de Treinamento. Lá, elas são torturadas e interrogadas. O líder quer saber quem vazou a informação para a imprensa e para a organização de direitos humanos com quem entrei em contrato meses depois, em março e abril de 2025. A gangue impõe o toque de recolher no bairro. "Ninguém sai, ninguém entra!", ordenam os bandidos aos gritos pelas ruas.

Manú está longe do arquétipo que temos do refugiado. Ele usa camisa social, óculos e sapatos brilhantes. Fala inglês e, por isso, consigo falar com ele sem filtros. Ele conta que mora em outro bairro (omitimos o nome do local por questões de segurança) e visitava frequentemente seus pais em Wharf Jérémie. Ele podia entrar e sair sem ser molestado pelos bandidos do rei. Este é um privilégio pouco comum.

Seus pais tinham ali um bom negócio. Por ser porto, havia muito movimento e a possibilidade de obter produtos antes que eles subissem de preço ao adentrar no país. No dia 6 de dezembro, Manú ligou para seus pais e eles não atenderam. E, como já circulavam rumores sobre algo estranho acontecendo no bairro, ele se aventurou e conseguiu entrar em Wharf Jérémie no dia seguinte. Sua mãe o recebeu em casa com a notícia de que, no dia anterior, homens de motocicleta haviam levado seu pai. E, apesar do toque de recolher, ele saiu para verificar o que havia acontecido com ele. Manú descobriu que o pai foi desmembrado, suas partes foram queimadas e o que restou foi atirado ao mar. E também disseram a ele que estavam matando todas as pessoas com mais de 60 anos. Sua mãe tinha mais de 70. Por isso, Manú a escondeu como pôde e, no dia 9 de dezembro, ele a retirou de casa às escondidas.

Mas ela ficou doente, parou de comer e morreu na noite de Natal. "Morreu de tristeza", lamenta Manú.

No seu funeral, ao lado do caixão da mãe, ele enterra outro caixão com coisas do seu pai. Assim, ele se despede deles, explicando que eles voltaram para um mundo aonde a raiva do rei não consegue chegar: o mundo dos sonhos. "Meus filhos são muito pequenos e não se lembrarão deles, mas eles cuidam dos meus filhos", afirma ele. É neste ponto que o choro irrompe e destrói a fria compostura do burocrata. Na tarde de 9 de dezembro, os bandidos do rei Micanor capturam três homens e duas mulheres que tentavam fugir de Wharf Jérémie e atiram no ato. Os tiros não têm relação com o vodu e os homens-lobos. O rei quer impedir de todas as formas que se saiba mais sobre o massacre. Por isso, ele proíbe que as pessoas saiam de casa e falem com os vizinhos. Mas é muito difícil ocultar mais de 200 assassinatos, mesmo com o fogo e o mar como aliados. A notícia vaza, algumas pessoas mandam vídeos para familiares fora do bairro e as imagens são compartilhadas com jornalistas locais ou nas redes sociais.

Analistas especializados das Nações Unidas interceptaram uma mensagem do rei para a alta cúpula da Viv Ansanm, em referência ao ocorrido:

Olá, colegas da Viv Ansanm. Saudações, sou o rei Micanor.

Vou contar sobre o incidente na minha região. Muitas pessoas dizem que cometi um massacre e falam em assassinatos. As vítimas são feiticeiros (homens-lobos). A coalizão Viv Ansanm não colabora com este tipo de pessoas. Podem imaginar que tenho um filho que nasceu sadio e que os anciãos da região conspiraram para matá-lo, lançando feitiços místicos contra ele? Em um caso como este, não posso permanecer impassível; preciso me vingar. Em todas as bases da Viv Ansanm, exterminaremos os feiticeiros e limparemos a região. Ouvi muitas mensagens na imprensa e de organizações de direitos humanos. Vocês sabem onde moro, quem eu sou. Vocês devem vir me buscar, são covardes, estou esperando vocês, venham me buscar. Assumo toda a responsabilidade pelo que fiz. Os anciãos mataram meu filho, vocês acham que eu não iria reagir? Um filho que amo tanto. Vocês não são pais do menino e, por isso, são insensíveis à dor. Eu, o rei Micanor, não cometi pessoalmente nenhum abuso; as pessoas que foram assassinadas estão realmente mortas. Se outros devem ser assassinados, também morrerão. Todas as gangues da Viv Ansanm caçarão os homens-lobos (feiticeiros).

Dada a explicação, ele prosseguiu com o massacre.

<><> 'Você mata os meus, eu mato os seus'

O bairro amanhece em silêncio. Ninguém quer falar alto para não alertar os bandidos sobre sua presença. "Os mais perigosos são os meninos, porque querem demonstrar seu poder e podem fazer mal só para isso", explica Evelyn, a primeira sobrevivente que entrevisto. Os homens do rei tomam as ruas e procuram alguém a quem matar. Um deles é Dustin. Magro e com cerca de 30 anos, ele manca, com uma perna enfaixada e o apoio de uma muleta. Dustin trabalhava com seu tio e seu primo em uma pequena oficina, o que lhe dava acesso ao bairro. Mas ele também confessa ter boas relações com a gangue do rei Micanor. Quando ali chegou, no dia 7 de dezembro, seu tio e seu primo já tinham sido assassinados. Ainda assim, decidiu ficar com a gangue, segundo ele, por medo de ser tomado por delator. Mas ele garante não ter se envolvido no massacre. E, como prova, mostra os dois buracos de bala no seu corpo. Ele conta que os bandidos se queixaram por ele não ter cumprido a ordem do rei. Todos tinham que matar. Alguns chegaram até a fazer tratos para evitar derramar o próprio sangue: "Você mata os meus, eu mato os seus." Aparentemente, eles não consideraram justo que Dustin se salvasse daquela condenação.

No dia 10 de dezembro, um dos homens de escalão intermediário do rei Micanor pede que ele estenda a mão e, como castigo, dispara no centro da sua palma. Outro aponta uma arma para sua cabeça, Dustin se move, o bandido aperta o gatilho e o atinge na perna. Mas ele continua correndo e consegue escapar. Agora, Dustin mora como refugiado em algum lugar da fortaleza que ainda resiste em Porto Príncipe. Suas feridas parecem ter se infectado. Se os homens das brigadas de autodefesa o capturarem e descobrirem seu vínculo com a Viv Ansanm, eles o levarão para a cuisine ("cozinha" em francês), na esquina da rua 27 e da Bois Patate, em frente ao supermercado abandonado Tag Supermarket, no bairro de Canapé Vert, o feudo do comandante Samuel Joasin e suas brigadas. Eles darão facadas suficientes para que ele não possa se mover, colocarão pneus no seu pescoço e atearão fogo. Esta prática se chama bwa kale e é o destino dos bandidos capturados pela brigada.

A paranoia do rei e sua obsessão para evitar que a notícia da matança continue se propagando fazem com que ele fique ainda mais desconfiado.

<>< O rei louco e os sonhos

A cabeça do líder é uma loteria. E a notícia do massacre se espalha por toda a capital.

"O rei Micanor ficou louco", comentam as pessoas nos bairros controlados pelos bandidos, incluindo na sua fortaleza. Uma pessoa detém informações de inteligência estrangeira e explica que a Viv Ansanm considerou derrubá-lo e substituí-lo por alguém mais confiável, menos imprevisível, à frente de Wharf Jérémie. A mesma fonte me diz que o rei ficou sabendo ou intuiu a respeito e quis demonstrar que detinha o controle do bairro e da sua própria cabeça. No dia 11 de dezembro, ele liberta as 60 pessoas raptadas dois dias antes e ordena aos seus homens que preparem sacos com arroz, feijão, absorventes higiênicos e outros produtos mais.

O rei obriga as pessoas a saírem de casa e faz a distribuição. Ele ordena que elas gritem seu nome e agradeçam porque, embora não tenha conseguido salvar seu filho, ele protegeu as outras crianças do bairro contra os homens-lobos. "Viva o rei Micanor!", grita Sheila, obrigada, enquanto mostra um saco de arroz para a câmera do telefone celular de um bandido.

No dia 5 de dezembro, ela havia ido com seu avô para o mercado. Eles compraram chaco, um vegetal parecido com a mandioca, e cozinharam para comer juntos. Sobrou um pouco, mas ela acredita que, quando seu avô foi levado para ser morto, na tarde de 6 de dezembro, ao lado de outros 126 anciãos, ele havia almoçado o que eles prepararam juntos na véspera. Em 11 de dezembro, o rei Micanor já havia matado 202 pessoas. Mas, apesar dos sequestros, torturas e assassinatos, do toque de recolher e do arroz distribuído, os bandidos dizem que há um novo vídeo nas redes sociais, onde vozes femininas narram o ocorrido nos últimos dias. Frente a isso, ele ordena a captura de cinco mulheres e as leva para o Centro de Treinamento. Lá, elas são torturadas e transportadas para Nan Mangue. Essas cinco mulheres compartilham o mar com os restos de Jacinthe, Marcel, Grette, Magarette, Mimose, Ellionise, Montellas, Charita, Marthe, Adeline, Amadide, Charléus, Euvanie, Milou, Immacula, Olympia, Umaliance, Milot, Jacqueline, Dieuvé, Bénita, Roosevelt, Jean, Rosiane… e outras 173 pessoas cujos nomes os relatórios não registram por questões de segurança.Nesta cidade de bandidos, o falso rei massacrou os anciãos e, com eles, a memória do bairro. Mas os sobreviventes afirmam que seus entes queridos retornam todas as noites em sonhos. E, com eles, vem também o passado.

<><>  O falso rei e a impunidade

Micanor não é um rei, é apenas um homem que governa impunemente um pedaço de mundo em uma ilha no Caribe. Ele nem mesmo é o fundador da sua gangue. Segundo uma pessoa que pertenceu ao grupo, Micanor era o terceiro em comando, um elemento muito violento e rápido no gatilho, ou facão. Por isso, nunca confiaram nele, pois sempre foi paranoico, influenciável e instável, segundo contam.

Em 2008, este senhor da miséria matou sua própria mambo (sacerdotisa vodu) para, segundo ele, obter seu poder. E, em 2012, acabou com 12 pessoas acusadas por ele de serem feiticeiros.Os dois líderes que os antecederam morreram perto de 2015, nas guerras fratricidas das gangues da capital. Elas disputavam entre si o controle dos espaços miseráveis da cidade e das pessoas pobres que moravam neles, antes da Viv Ansanm. A tarde deste dia de abril de 2025 vai se apagando em Porto Príncipe e a Viv Ansanm ataca os extremos da fortaleza. Faço a quinta entrevista da tarde. Ouvem-se tiros ao longe e, pela janela, pode-se ver colunas de fumaça subindo em direção ao céu. A brigada fechará as ruas em breve para se proteger das multidões raivosas da grande confederação de bandidos. Dustin fala devagar, usando gíria e com forte sotaque. É difícil entender o que ele fala.

Mas o homem está contando sobre a morte do seu tio e do seu primo e como ele precisou caminhar por mais de uma hora com a perna ferida e a mão destroçada para contar esta história. Por isso, não convém interrompê-lo. Ao término das entrevistas, saímos correndo na moto do guia Ivander. Algumas barricadas já estão instaladas, mas conseguimos evitá-las. A fortaleza põe à mostra seus espinhos e se prepara para sobreviver por mais uma noite. As testemunhas do "massacre dos idosos", agora, dormirão aqui, pois não podem mais regressar para os seus lares. Amanhã, eles tentarão voltar sem serem assassinados ou capturados pela Viv Ansanm ou pelas brigadas de vigilantes. Quase um ano e meio depois, quando escrevo esta reportagem, o massacre de Wharf Jérémie permanece impune, mesmo com todos os testemunhos e evidências que indicam o responsável pelo assassinato de 207 haitianos, em sua maioria anciãos: o autodenominado último monarca do Caribe, o senhor dos cais, um simples bandido chamado Monel Félix Altes.

*Os nomes dos sobreviventes foram alterados nesta reportagem por razões de segurança.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

terça-feira, 28 de abril de 2026

Bandidos de Farda: Estupro, roubos, assassinatos - Os crimes da ditadura escondidos por Cyro Etchegoyen

“Dr. Bruno – baixo, meio gordo, tipo sírio-libanês. Pareceu-me o oficial mais graduado do grupo (coronel). Defendeu tese na Escola Superior de Guerra, segundo me contou. É gaúcho”. Foi assim que a ex-presa política Inês Etienne Romeu descreveu o primeiro dos 20 homens que a violentaram por 91 dias na “Casa da Morte”, o maior cárcere clandestino da ditadura militar, localizado no morro Caxambu, em Petrópolis, região Serrana do Rio. Por mais de quatro décadas, o codinome “Dr Bruno” escondeu o coronel Cyro Guedes Etchegoyen, ex-chefe da seção de Contra-Informações do gabinete do ministro do Exército no governo do ditador-presidente Emilio Garrastazu Médici. A atuação do coronel foi revelada por um antigo subordinado, o tenente-coronel Paulo Malhães, em 2014.  Só que, ao ser descoberto como um dos chefes do centro clandestino criado pelos militares para torturar e desaparecer com opositores, o coronel Cyro já tinha morrido. Ele morreu dois anos antes, em 2012, em decorrência de complicações de um AVC.

A partir deste domingo (26), o ICL Notícias publica o projeto “Bandidos de farda” produzido nos últimos sete meses com uma série de reportagens e um documentário que estreará no dia 17 de maio. O projeto revela os crimes que o coronel Cyro escondeu em um imenso arquivo mantido por ele até sua morte. São 23 pastas e cerca de 3 mil páginas de documentos públicos inéditos, que pertenciam ao acervo do Exército brasileiro, mas que foram levados ilegalmente pelo coronel Cyro e que ficaram guardados com um outro militar após a sua morte.

Em outubro do ano passado, uma fonte, que terá sua identidade mantida em sigilo por segurança, entregou uma primeira parte ao Instituto Fernando Santa Cruz, idealizado por seu filho, o ex-presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz. Fernando era militante da Ação Popular (AP) e está desaparecido desde 23 de fevereiro de 1974. Uma segunda parte da documentação foi entregue em fevereiro deste ano pela mesma fonte à jornalista Juliana Dal Piva, repórter do ICL Notícias.

Entre os documentos, obtidos com exclusividade, o coronel guardava, por exemplo, relatórios de monitoramento do presidente Lula, no fim dos anos 1970. Mas o documento mais perturbador é uma denúncia feita por um soldado do Centro de Informações do Exército (CIE), órgão do gabinete do ministro, informando a existência de um estupro perpetrado, em 1969, por uma equipe de militares que atuava na área de operações e inteligência do CIE contra uma mulher que alugava quartos a integrantes da Ação Libertadora Nacional (ALN). O crime aponta para a existência de uma nova vítima da ditadura, desconhecida quando o relatório da Comissão Nacional da Verdade foi finalizado em 2014. Na ocasião, foram reconhecidas 434 vítimas, das quais 210 desaparecidas.

No arquivo de Cyro Etchegoyen estava ainda uma apostila que detalha um curso de interrogatório feito por ele, em dezembro de 1970, na Inglaterra, a convite do próprio governo inglês. No documento, é possível verificar a indicação para a construção de locais isolados, nos quais os presos são levados vendados e após técnicas de desorientação.

Essas duas primeiras histórias você conhecerá neste domingo e as demais serão publicadas nos próximos dias até à estreia do documentário “Bandidos de farda”.

O coronel Cyro tinha relatórios que registravam metodicamente sistemáticos roubos de móveis, objetos e dinheiro feitos por militares nas casas e apartamentos em que prendiam pessoas. Segundo o soldado Israel Sturne, o produto do roubo era levado para os escritórios do CIE, um dentro do Palácio Duque de Caxias e outro que ficava em prédio da Avenida Presidente Vargas. Havia ainda um apartamento que, de acordo com o militar, era utilizado pelos agentes para “encontros ocasionais com pessoas do sexo feminino”.

O coronel tinha em seu poder um extenso relatório informando como foi o trabalho para o planejamento de operações que resultaram em prisões e assassinatos de diversos opositores políticos entre 1969 e 1974, período em que ele esteve no CIE. No documento, os militares nomeiam e dão detalhes inéditos da atuação de dois agentes infiltrados que a ditadura colocou dentro das organizações de luta armada. A documentação ainda aponta que o Exército teve, até 1974, ao menos 30 agentes infiltrados. Desses, pelo menos seis no exterior, entre Argentina, Chile e Uruguai. No documento, a maioria é apresentada por meio de codinomes. Não é possível saber se são militares treinados ou ex-integrantes dos grupos de resistência que trocaram de lado.

O arquivo inédito também possui uma caderneta empoeirada de 83 páginas na qual o coronel expõe os gastos com todo o planejamento de várias operações que resultaram em assassinatos. Um cruzamento de informações feito pelo ICL Notícias entre as datas dos pagamentos descritos pelo militar com os dados produzidos pela Comissão Nacional da Verdade e pela Comissão Especial de Mortos e Desaparecidos encontrou pagamentos no total de R$ 1 milhão para cerca de 30 ações militares que resultaram em mortes cometidas por agentes do CIE durante o período mais violento da repressão política da ditadura militar.

O registro dos pagamentos, que inclui a indicação de um centro clandestino de tortura, desconhecido até aqui, também aponta para o controle e a prestação de contas que era feito dentro do gabinete do então ministro do Exército, Orlando Geisel. Os dados reforçam as informações existentes do controle da cúpula da ditadura sobre os crimes do período, conforme também ficou registrado em um memorando da CIA de 11 de abril de 1974. No documento do governo dos EUA, é descrita uma reunião em 30 de março daquele ano na qual os ex-ditadores-presidentes Ernesto Geisel e João Figueiredo discutem com os generais Milton Tavares de Souza e Confúcio Danton de Paula Avelino, respectivamente os chefes de saída e chegada do Centro de Inteligência do Exército (CIE), à época, a manutenção da política de assassinatos e desaparecimentos desenvolvida no governo Médici. Na ocasião, eles registravam 104 mortes de opositores.

O próprio coronel Cyro, ainda em 1994, tinha apontado para essa proximidade da cúpula em relação às decisões do gabinete. “Eu cansei de ver assuntos do CIE irem direto para o presidente da República. Não que não tenham ido ao SNI. Mas eram tão importantes que o general Orlando Geisel (ministro da Justiça) os levava direto ao gabinete do presidente, e lá se encontrava também com o chefe do SNI”, afirmou Cyro, em uma entrevista concedida aos pesquisadores Maria Celina D’Araujo e Gláucio Ary Dillon Soares, publicada no livro “Os anos de chumbo: a memória militar da repressão”, que inclui o professor Celso Castro, do CPDOC, da FGV. Cyro Etchegoyen não costumava receber jornalistas ou pesquisadores. Esse é o único registro de declarações públicas dele em vida.

E foi por meio de uma cópia dessa entrevista que o ICL Notícias também averiguou a veracidade desse arquivo. No meio dos documentos, há uma carta manuscrita da professora Maria Celina com a cópia da entrevista entregue por ela em 1993 para o coronel Cyro, pouco antes da publicação do livro. A pesquisadora reconheceu a cópia da carta e lembrou da entrevista. “Todos eram muito educados. Eu acho que é parte até da masculinidade e a parte do machismo, você ser educado com uma dama. Ele não me chamou a atenção, assim em termos de ser uma pessoa que tivesse vaidade de falar sobre seus feitos, do ponto de vista do que foi a repressão. Bem, porque ele negava. Ele negava que tivesse havido uma repressão nos moldes que os presos políticos falavam. Ele negava a tortura, por mais que a gente tentasse saber detalhes. Mas ele vai falar sempre de uma forma muito orgulhosa do trabalho deles. Isso era uma coisa que me impressionava. Era o orgulho que eles tinham de falar da contribuição que eles tinham dado para o golpe de 64, para a ditadura, para ter combatido o comunismo”, conta a pesquisadora. Sobre a apostila do estágio na Inglaterra, Maria Celina pontuou a importância da descoberta. “Quer dizer, obviamente que o governo inglês não faz um convite assim… ó, vem aqui. Ele faz um convite a partir de uma conjuntura. Deve ter havido negociações anteriores”, explica.

Cerca de um mês depois do retorno do coronel Cyro da Inglaterra, ele coordenou a criação da “Casa da Morte” em moldes semelhantes ao que descreveu ter aprendido no curso. “A tortura era uma política de Estado. A gente se diferencia dos países da América Latina, porque de fato a gente vai ter um grupo específico a frente dessas ações”, explica Samantha Quadrat, pesquisadora da Universidade Federal Fluminense. “Eles se beneficiavam economicamente, seja através das pilhagens (roubos) que eram feitas, mas também porque eles tinham boas gratificações nessa atuação. Eles recebem as melhores promoções. Eles tinham uma série de benesses para estar atuando ali e eram homens formados para aquilo. Havia uma ciência ao redor daquilo”, completa.

Há ainda uma lista com 73 nomes de integrantes do CIE, dos quais a metade recebeu a Medalha do Pacificador com Palma naquele período, revelando uma série de novos potenciais integrantes das ações da repressão da ditadura.

<><> Cyro, o “dr Bruno”

Cyro nasceu em 1929 e é filho de Alcides, o patriarca do Etchegoyen. Nasceu na fronteira entre o Brasil e o Uruguai a ponto de inspirar entre seus conhecidos uma certa lenda sobre se era brasileiro ou uruguaio. Torcia pelo Fluminense, não costumava beber, mas manteve até os últimos dias, em 2012, o hábito de fumar. Guardava consigo quatro armas: uma pistola .38, uma Beretta 22 e duas Magnum, uma .48 e outra .45.

Pertence a uma longa família de militares. O primeiro Etchegoyen militar é o pai: Alcides. Ele  aderiu à chamada Coluna Relâmpago, em 1926, e tentou um levante em Santa Maria, no interior do Rio Grande do Sul, contra a posse do presidente Washington Luís. Depois, apoiou o movimento que levou Getúlio Vargas ao poder e cresceu na carreira. Em 1942, substituiu Filinto Müller na chefia de Polícia Civil do Distrito Federal — o mesmo Müller que havia prendido e entregado à Gestapo de Hitler a judia alemã Olga Benário, mulher de Luís Carlos Prestes, então grávida, que foi executada na câmara de gás do campo de extermínio de Bernburg. Alcides foi promovido a coronel e passou a perseguir o jogo do bicho e a prostituição, além de dar continuidade à repressão dos opositores políticos do governo.

Nos anos 1950, Alcides se envolveu em novas conspirações. Em agosto de 1954, assinou o manifesto que exigia a renúncia de Getúlio Vargas  e acabou preso em 1955 pelo ministro Henrique Teixeira Lott, quando este resolveu depor o presidente interino Carlos Luz. Naquele mesmo ano, Alcides também se somou aos que tentaram barrar a posse de Juscelino Kubitschek. Um ano depois, morreu de infarto fulminante e não chegou a ver a ascensão militar dos filhos Cyro e Léo. Ambos seguiram a carreira militar e despontaram com a ascensão dos militares após o golpe de 1964.

Em março e abril de 1964, o envolvimento pessoal de Cyro foi decisivo. Ele estudava na Escola do Comando do Estado Maior e lá integrou as articulações do golpe. Quando as tropas do general Olímpio Mourão deixaram Juiz de Fora rumo ao Rio, Cyro ajudou a proteger o governador Carlos Lacerda, simpático à ideia dos militares derrubarem o presidente João Goulart. Nesse alinhamento de forças, encontrou o então tenente Freddie Perdigão Pereira, que guardava a entrada do Parque Guinle, no bairro de Laranjeiras, com cinco tanques M-41 inicialmente disponibilizados para proteger Goulart. Com o desenrolar dos acontecimentos, Perdigão foi convidado a trocar de lado. Hesitante, negociou com seus subordinados e, horas depois, saiu com quatro tanques em direção ao Palácio Guanabara. O major Cyro Guedes Etchegoyen liderou o comboio dirigindo um Volkswagen. Discursos e fotos se seguiram, com o governador Carlos Lacerda bradando sobre o que chamou de “salvação do Brasil e a de si próprio”.

Naquele mesmo ano, em junho de 1964, Leo, então chefe da polícia gaúcha em Porto Alegre, recebeu o policial norte-americano Dan Mitrione, especialista em torturas e responsável no Brasil do Office of Public Safety (OPS), braço da CIA que atuava na América Latina sob a fachada da USAID. Os dois posaram para fotos na escadaria do Palácio da Polícia. A primeira visita de Mitrione a Porto Alegre havia ocorrido entre 21 de janeiro e 1º de fevereiro de 1964, com um curso de 30 horas intitulado “Supervisão e operações de patrulhamento”. Mitrione voltou no mesmo ano, dois meses após o golpe, para um curso de 25 horas sobre “Técnica de patrulhamento”, entre os dias 19 e 26 de junho.

Ao longo dos anos seguintes, Cyro subiu na hierarquia militar. Em 1967, foi adido militar no Paraguai e chegou a conviver com o ditador Alfredo Stroessner, que comandou aquele país entre 1954 e 1989 e deixou mais de 3 mil pessoas assassinadas no período. Na sequência do crescimento, veio o convite ao CIE.

Sete anos após o golpe, era um dos chefes do órgão e foi chamado para dar início ao trabalho de contra-informação.  Sediado no 8º andar do Palácio Duque de Caxias, no centro do Rio de Janeiro, onde ficava também o Quartel General do I Exército, o CIE centralizou algumas das principais ações para prender e assassinar lideranças dos grupos de oposição à ditadura. Junto com outros oficiais do gabinete do ministro do Exército, Cyro tornou-se expoente do trabalho de segurança, espionagem e repressão. Ele passou à reserva em 1983 e morreu em 2012.

O último dos Etchegoyen a ser conhecido publicamente é o sobrinho de Cyro, general Sergio Etchegoyen, ex-ministro do Gabinete de Segurança Institucional no governo de Michel Temer, entre 2016 e 2018.

<><> Nota Instituto Fernando Santa Cruz

Há histórias que o tempo tenta enterrar, guardadas em arquivos “reservados”, escritas com a frieza burocrática de quem transformou o terror em rotina, reduzidas a números em relatórios de “subversivos postos fora de circulação”. Há famílias que resistiram ao silêncio imposto pelo Estado, guardando memórias como brasas acesas. Há o heroísmo dos que disseram não, que escolheram a consciência em vez da ordem e desapareceram sem túmulo, sem despedida, sem fim. Foi Juliana Del Piva e a equipe do ICL quem foram até essas famílias, quem os ouviu, quem reconstituiu os fatos com a coragem de quem sabe que a verdade, quando finalmente encontrada, dói e liberta ao mesmo tempo. Este trabalho não é apenas uma séri de reportagens. É um ato de resistência, de reparação e de memória viva.

O Instituto Fernando Santa Cruz – IFSC apoia de forma incondicional este trabalho e estende esse apoio a cada família que abriu suas portas e suas feridas para que ele existisse. O IFSC leva o nome de Fernando Santa Cruz, estudante, militante, pai, desaparecido político desde 1974, cujo corpo o Estado jamais devolveu à sua família. Levamos seu nome não como símbolo de dor, mas de luta: pela memória, pela verdade e pela justiça que ainda está por vir. O IFSC teve papel central na reunião, preservação e publicização dos documentos que deram origem a este documentário, arquivos sigilosos do Centro de Informações do Exército que confessam, em papel timbrado, o que o Estado brasileiro fez aos seus próprios filhos. Cada família encontrada confirma que a história não pertence aos que tentaram apagá-la, ela pertence aos que sobreviveram para contá-la. Acreditamos, com toda a força de nossa missão, que um país que não enfrenta o seu passado não apenas o repete, mas o legitima. Nunca mais!

Instituto Fernando Santa Cruz-IFSC

Memória, Verdade e Justiça

 

Fonte: ICL Notícias

 

A quem interessa não nomear os crimes de ódio contra as mulheres?

Ao contrário do que a extrema-direita está alardeando em discurso mentiroso, o Projeto de Lei nº 896/2023, chamado de PL da Misoginia, não tem nada de vago ou impreciso. O texto aprovado no Senado por todos os 67 senadores e senadoras presentes à votação do dia 24 de março é bastante claro: define misoginia como "conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres".

O projeto altera a Lei nº 7.716/1989, conhecida como Lei do Racismo, para tratar a misoginia da mesma forma como já são tratados os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional. Entre as condutas discriminatórias descritas taxativamente como crime, estão as que envolvem injúria e ofensa à dignidade, impedimento de acesso a locais públicos e tratamento desigual em ambiente de trabalho, com penas de multa e reclusão de dois a cinco anos. Além disso, o texto aprovado no Senado altera o Código Penal para prever pena em dobro nos casos em que mulheres forem vítimas de crimes contra a honra (injúria, difamação ou calúnia) em contexto de violência doméstica e familiar.

Não se está propondo definir sanções específicas para situações abstratas. Trata-se de nomear crimes contra a mulher no caso concreto, assim como já ocorre para os crimes de racismo, intolerância religiosa e xenofobia, devidamente descritos e nomeados na lei. Ofender mulheres e negar a elas os seus direitos mais básicos é uma escolha deliberada que precisa ser corporificada em signo capaz de afastar equívocos quanto à identificação de suas intenções e consequências. O nome para essa escolha é crime. Crime de ódio e aversão às mulheres pelo simples fato de elas serem mulheres. O nome para esse crime é misoginia.

Vale lembrar que o Supremo Tribunal Federal (STF), no âmbito do julgamento da Ação Direta de Inconstitucionalidade por Omissão nº 26 e do Mandado de Injunção nº 4733, equiparou os atos de homotransfobia aos crimes previstos na Lei do Racismo, alegando que o Congresso Nacional se omite quando não criminaliza essas condutas. Então, por analogia óbvia, incluir a misoginia como tipo penal é decisão providente do Legislativo. Decisão que deveria, inclusive, ser acompanhada da tipificação da homotransfobia, na forma que reivindica o STF.

Dizer que o texto do PL da Misoginia é passível de interpretações subjetivas é tão equivocado quanto afirmar que a intenção do projeto é censurar e silenciar os homens ou condená-los sem motivo plausível, apenas por dizerem "alguma coisa que as mulheres podem não gostar". Nesse sentido, advogar que o projeto atenta contra a liberdade de expressão configura apropriação indébita e mal intencionada do conceito, coisa que a extrema-direita faz com frequência, sempre que quer chancela para a impunidade e para a defesa de um Estado mínimo onde, em nome do bom funcionamento do mercado, tudo é permitido, inclusive as maiores ofensas, mentiras e calúnias.

Da mesma forma, chamar o PL da Misoginia de pauta ideológica é usar o conceito de "ideologia" seletivamente, em proveito próprio. Para essas pessoas, só é ideológico aquilo que não convém a elas e contraria os seus interesses. No seu universo particular, o que elas pensam e desejam deve ser visto e entendido como natural e esperado, desprovido de ideologia. Para elas, só há ideologia no discurso do adversário. E, em tempos de polarização, "denunciar" essa ideologia é pauta necessária para debates tão polêmicos quanto vazios de lógica e sentido.

Diz-se, nos estudos da linguagem, que um conceito existe quando passa a haver algum consenso quanto ao significado que ele evoca. Esse significado, por sua vez, precisa ser reconhecido, pela comunidade de falantes de uma mesma língua, na palavra exata que o descreve. Negar um nome para os crimes de ódio contra as mulheres é deixar na abstração ou no campo da especulação condutas reais que ameaçam a sua existência. É impedir que se nomeie aquilo que interessa a muitos não enxergar. Porque o não nomeado não existe no campo da lei e da sanção. Pode ser apenas imaginação. Pode ser só invenção. Para muitos vai ser mimimi. A quem isso é conveniente?

O PL da Misoginia não é um projeto contra os homens. É um projeto que protege as mulheres de crimes cometidos por ódio ou aversão contra elas. Em um país onde pelo menos quatro mulheres são mortas a cada dia por feminicídio, nada mais misógino do que ser contra a sua votação urgente na Câmara. Pedir para engavetá-lo é mais uma violência simbólica entre tantas outras cometidas contra as mulheres. A sua aprovação unânime no Senado precisa ser vista com o significado e importância que tem. Ninguém aguenta mais.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Como a ciência quer fazer o corpo virar uma "fábrica natural" de Ozempic

Pessoas que buscam perder peso e reduzir o açúcar no sangue podem, no futuro, receber uma única injeção que transformará suas células em pequenas fábricas produtoras de uma proteína que é, essencialmente, o ingrediente ativo em medicamentos como Ozempic, Wegovy e Mounjaro.

Esta é a ambição de duas startups de biotecnologia, a RenBio, de Nova York, e a Fractyl Health, de Massachusetts. Ambas as empresas concluíram testes iniciais demonstrando que suas abordagens funcionam, pelo menos em camundongos, e já iniciaram testes em animais maiores — porcos e macacos — para verificar se suas terapias gênicas podem ser eficazes em organismos de maior porte.

Com sucesso contínuo e financiamento adequado, elas esperam levar as terapias a pacientes humanos — embora possam ser necessários anos de pesquisas adicionais para provar que suas ideias funcionam e são seguras.

Os medicamentos GLP-1 mais recentes – disponíveis em injeções e comprimidos – provaram ser altamente eficazes para a perda de peso, inaugurando uma nova era no tratamento da obesidade.

GLP-1, sigla para peptídeo semelhante ao glucagon-1, é um hormônio produzido pelo corpo que ajuda a sinalizar ao cérebro e ao intestino que está satisfeito e não precisa comer mais. Os novos medicamentos para perda de peso imitam a ação desse hormônio aumentando a secreção de insulina para reduzir o açúcar no sangue. Eles também retardam o movimento dos alimentos pelo trato digestivo, o que ajuda as pessoas a se sentirem saciadas mais rapidamente e por mais tempo, além de atuarem no cérebro para reduzir o apetite.

Em menos de dois anos, o percentual de adultos americanos usando esses medicamentos para perda de peso praticamente dobrou, aumentando de 5,8% para 12%, segundo um relatório recente da Gallup. Sua popularidade pode finalmente estar fazendo diferença na taxa de obesidade do país, que caiu de 39,9% em 2023 para 37% em 2025, de acordo com a Gallup.

No entanto, os medicamentos podem ser caros, e até metade dos usuários relatam efeitos colaterais, incluindo náusea, vômitos e fadiga. Estudos sugerem que as pessoas precisam continuar usando-os para manter a perda de peso, mas muitas não gostam da ideia de permanecer indefinidamente com o tratamento. Um estudo recente descobriu que quase dois terços das pessoas sem diabetes que começaram a usar medicamentos GLP-1 interromperam o uso dentro de um ano.

A próxima onda de pesquisas busca capitalizar os benefícios dos GLP-1s com menos desvantagens. É aí que entram empresas como a Fractyl e a RenBio.

A Fractyl está apresentando os resultados mais recentes de seu ensaio com uma terapia gênica chamada Rejuva em camundongos durante a reunião anual da Sociedade de Obesidade, chamada ObesityWeek, que está sendo realizada em Atlanta esta semana.

A RenBio compartilhou seus resultados de estudos em andamento com camundongos em um artigo preliminar, ainda não revisado por pares ou aceito em uma revista médica, no mês passado. A empresa também apresentará descobertas atualizadas na ObesityWeek.

<><> Transformando células musculares em fábricas de GLP-1

A RenBio chama sua tecnologia de "Faça Você Mesmo", e é uma ideia relativamente simples. Eles utilizam um plasmídeo — um anel de DNA nu — em solução salina.

O DNA, sigla para ácido desoxirribonucleico, carrega as instruções que o corpo usa para se construir e se renovar constantemente. Ele vive no núcleo, ou cérebro, de cada célula como uma escada dupla retorcida. A escada é composta por quatro ácidos nucleicos individuais, como as letras que formam palavras em um livro, unidos em longas cadeias que codificam as instruções para proteínas. A ordem das letras indica ao corpo como produzir as proteínas.

No caso da RenBio, os pesquisadores codificaram as instruções para produzir uma proteína agonista do receptor GLP-1 — essencialmente o mesmo ingrediente ativo em medicamentos como Ozempic e Mounjaro — e a inseriram em um pequeno círculo chamado plasmídeo. Eles injetaram uma solução salina contendo esses plasmídeos no tecido muscular e utilizaram pulsos elétricos curtos — de milissegundos — para estimular as células musculares.

"Funciona de maneira muito eficiente. Basicamente, os pulsos elétricos criam temporariamente pequenos poros na membrana celular que permitem que os anéis de DNA entrem na célula", explicou a Dra. Rachel Liberatore, presidente e diretora científica da RenBio.

A partir daí, os plasmídeos migram para o núcleo, onde permanecem no citoplasma gelatinoso. Quando a célula se prepara para traduzir seu próprio DNA, o DNA do plasmídeo é lido e traduzido junto com ele. Quando a célula lê as instruções, ela produz a proteína agonista do receptor GLP-1 e a libera no organismo.

Liberatore explicou que, embora a terapia da RenBio use tecnologia genética, não se trata de uma terapia gênica tradicional: os pesquisadores não estão tentando consertar um gene defeituoso. Em vez disso, estão usando a própria maquinaria da célula para transformá-la em uma fábrica de proteínas.

"O DNA que estamos injetando, o DNA plasmídeo, não interfere de forma alguma com seu próprio DNA. Portanto, não interfere com seus cromossomos, não se integra ao seu material genético e não é algo que você vai transmitir para seus filhos", afirma Liberatore.

A RenBio também está usando esta plataforma para desenvolver terapias proteicas que podem ser construídas da mesma forma, como anticorpos contra o vírus Zika. O trabalho é financiado pela Agência de Projetos de Pesquisa Avançada de Defesa (DARPA) e pela Autoridade de Pesquisa e Desenvolvimento Biomédico Avançado (BARDA) do governo federal. Também conta com o apoio do Wellcome Trust, uma fundação de pesquisa em saúde.

Nos experimentos mais bem-sucedidos da RenBio, camundongos injetados com os plasmídeos perderam cerca de 15% do peso corporal, significativamente mais do que os camundongos do grupo placebo. A perda foi mantida por pelo menos um ano após receberem o DNA plasmídeo.

Em cada formulação testada, a perda de peso se estabilizou nos camundongos tratados com os plasmídeos, atingindo um platô. Mas isso é positivo quando se trata de uma terapia de longa duração, segundo Liberatore.

"Na verdade, ficamos muito satisfeitos em ver isso, porque não necessariamente queremos uma perda de peso contínua por um ano, um ano e meio", afirma Liberatore.

Testes de tolerância à glicose mostraram que o açúcar no sangue também foi melhor regulado.

Os pesquisadores ainda não têm certeza sobre quanto tempo os plasmídeos podem permanecer ativos. A ideia é que um médico possa aplicar uma injeção em seus pacientes a cada ano ou dois.

"Nossa visão é que isso é realmente ideal para a fase de manutenção que as pessoas estão começando a discutir com os GLP-1s", afirma Liberatore.

A plataforma de plasmídeos também foi testada em macacos, e os pesquisadores chegaram até mesmo a usar o dispositivo em si mesmos – embora apenas com solução salina pura, não com plasmídeos.

A RenBio espera começar a testar sua plataforma de plasma para fornecer instruções de produção de anticorpos contra o vírus Zika em pessoas no próximo ano.

<><> Direcionando células para ajudar o corpo a produzir mais GLP-1

Outra empresa chamada Fractyl Health está adotando uma abordagem um pouco diferente. Ela usa uma técnica de terapia gênica mais tradicional na qual a casca externa de um pequeno vírus — chamado vírus adeno-associado — introduz DNA nas células e fornece instruções para produzir GLP-1.

Em casos raros, quando vírus são usados para entregar genes, eles podem desencadear uma resposta imune no corpo, levando a inflamações potencialmente perigosas, reações alérgicas ou danos aos órgãos. Em outros casos, vetores de terapia gênica como vírus podem acabar onde não deveriam e podem introduzir erros nos genomas das células, o que pode levar ao câncer.

A ideia é que um único tratamento aplicado diretamente nas células produtoras de insulina no pâncreas nunca precisaria ser repetido.

"Como estamos fazendo a entrega localmente, acreditamos que precisaremos de uma dose muito baixa deste vírus, o que nos dá confiança no potencial de segurança em pessoas", afirma Harith Rajagopalan, cofundador e CEO da Fractyl Health.

Os pesquisadores testaram isso em camundongos e porcos, e ambos os testes foram bem-sucedidos, segundo Rajagopalan. Mas camundongos e porcos não são humanos, e muitas terapias que tiveram sucesso em animais de laboratório acabaram falhando em pessoas.

"Há promessa, mas seriam necessários muito mais dados para considerar ensaios clínicos em humanos, já que provavelmente seria irreversível", diz.

Donald Kohn é professor titular de microbiologia, imunologia e genética molecular no Centro de Pesquisa de Células-Tronco Broad da Universidade da Califórnia – Los Angeles.

"A preocupação seria que a alteração genética é permanente, então se houver superexpressão... que pode mudar com várias condições — perda de peso, doença, envelhecimento, alterações hormonais — isso poderia causar problemas devido à superexpressão sem forma de reverter, exceto remover o pâncreas ou o músculo tratado", afirma Kohn por e-mail.

Kohn explicou que existe um longo debate na terapia gênica sobre seu uso para tratamentos não relacionados a doenças, como aumento de altura ou massa muscular. Em geral, o entendimento é que não deveria ser utilizada para aprimoramentos.

"Isso certamente está próximo da linha entre medicina e aprimoramento, e por isso acredito que seja mais um motivo para considerar se este é um caminho que devemos seguir", diz Kohn.

A Fractyl afirma que já apresentou a documentação regulatória nos Estados Unidos para iniciar testes em humanos. "Esperamos ver dados em humanos no próximo ano, em 2026", afirma Rajagopalan.

Os vírus são especialistas em infectar células, então os cientistas usam essa capacidade para inserir DNA em uma célula, fazendo com que ela comece a produzir as proteínas que os pesquisadores desejam – neste caso, o GLP-1.

No entanto, a terapia gênica como esta pode ser arriscada, então para minimizar o risco, os pesquisadores projetaram seu DNA para reconhecer a sequência promotora da insulina. Sequências promotoras são pequenos trechos de DNA que indicam à maquinaria de cópia da célula onde uma nova proteína começa. Funciona como um interruptor liga/desliga no DNA.

Ao fazer com que a sequência de DNA do GLP-1 reconheça o promotor da insulina, os pesquisadores vincularam a função de sua sequência à produção de insulina, outro hormônio que ajuda a regular o açúcar no sangue.

Isso significa que apenas as células que produzem insulina também produzirão GLP-1, limitando a dose que é liberada no corpo.

Isso também cria uma forma de aumentar ou diminuir o volume extra de GLP-1. Quando um camundongo come uma refeição rica em gordura e calorias, seu corpo produzirá mais insulina e também mais GLP-1, para proteger contra o ganho de peso.

Quando o organismo consome uma porção mais moderada de sua alimentação normal, não produz tanto GLP-1, assim não perde peso quando não há necessidade.

Em camundongos, os resultados têm sido promissores, afirma Dr. Randy Seeley, professor da Universidade de Michigan que estuda a sinalização hormonal relacionada ao diabetes tipo 2 e obesidade. A Fractyl contratou Seeley para testar a terapia gênica, e ele possui opções de ações na empresa.

Camundongos obesos tratados com a terapia gênica, chamada Rejuva pela Fractyl, perderam cerca de 20% do peso corporal em três semanas.

"Superou a semaglutida", o ingrediente ativo do Ozempic e Wegovy, afirma Rajagopalan.

Quando os pesquisadores trataram camundongos com peso normal usando a terapia gênica e depois os alimentaram com uma dieta rica em gordura, os animais não ganharam peso. Seus níveis de açúcar no sangue também permaneceram normais.

Ao aplicarem a terapia gênica em camundongos magros que mantinham sua dieta normal, estes não perderam peso excessivamente. Também não desenvolveram níveis perigosamente baixos de açúcar no sangue, sugerindo que o tratamento pode ser seguro tanto para prevenir quanto para tratar e manter a obesidade.

Também pode ser uma forma de prevenir o diabetes.

Rajagopalan vislumbra um futuro onde seja possível identificar pessoas com risco de obesidade, seja por histórico familiar ou outros fatores, e oferecer-lhes terapia gênica para prevenir esse destino.

Em um ambiente alimentar onde alimentos processados foram desenvolvidos para enganar o cérebro e induzir o consumo de quantidades não saudáveis, ele vê esta terapia gênica como uma potencial ajuda para as pessoas recuperarem o controle sobre seu apetite e saúde.

"A comida está mais barata por caloria e mais amplamente disponível do que em qualquer outro momento da história humana", diz Rajagopalan. "Simplesmente não fomos feitos para produzir GLP-1 suficiente para o mundo ao nosso redor."

A solução, segundo ele, pode estar em ajudar o corpo a produzir mais GLP-1 por conta própria.

"Ainda há um longo caminho pela frente, e não podemos minimizar o trabalho envolvido. Quer dizer, isso equivale a dizer que vamos colonizar Marte, em termos da magnitude do esforço necessário para chegar lá", afirma Rajagopalan. "Mas por que não aspirar a isso?"

 

Fonte: CNN Brasil