sábado, 6 de junho de 2026

Gustavo Tapioca: A sombra de Washington sobre a eleição brasileira

Em 2022, Biden ajudou a fechar a porta ao golpismo no Brasil. Em 2026, com Trump de volta à Casa Branca, a aproximação entre Washington e o bolsonarismo levanta uma pergunta inquietante: o que acontece se Lula continuar crescendo nas pesquisas?  Uma das razões pelas quais o golpe de 8 de janeiro fracassou raramente aparece com a força que merece nas análises sobre a crise brasileira. Naquele momento decisivo, os Estados Unidos eram governados por Joe Biden. 

Enquanto Jair Bolsonaro colocava em dúvida o sistema eleitoral, alimentava a suspeição contra as urnas e seus aliados conspiravam contra a democracia, Washington reconheceu rapidamente a vitória de Lula. Diplomatas, emissários e militares americanos enviaram sinais claros de que os Estados Unidos não apoiariam qualquer aventura golpista no Brasil.  Esse fator internacional ajudou a isolar a extrema direita brasileira. Não foi o único. Mas foi importante. A mensagem era inequívoca: a maior potência militar do planeta reconhecia o resultado das urnas brasileiras.  Em 2026, o cenário é outro. Donald Trump voltou à Casa Branca. E o bolsonarismo voltou a Washington. 

<><> O mundo mudou desde 2022 

A eleição presidencial brasileira de 2026 ocorrerá em condições internacionais muito diferentes das que marcaram a vitória de Lula quatro anos antes. Naquele momento, o governo Biden tinha interesse explícito em conter a onda autoritária estimulada por Trump, Bolsonaro e outras lideranças da extrema direita internacional.  Hoje, a Casa Branca é comandada pelo próprio Trump. E Trump não observa o Brasil como um país qualquer. O Brasil é a maior economia da América Latina. É membro dos BRICS. Ampliou sua aproximação com a China. 

Tem peso estratégico em energia, alimentos, minerais, meio ambiente, tecnologia financeira e diplomacia global.  É também governado por Lula, um presidente que defende uma ordem internacional multipolar e resiste à submissão automática aos interesses de Washington. Nada disso é irrelevante. 

<><> Punhal Verde e Amarelo  

Há um ponto que não pode ser apagado da memória recente. O golpe de 8 de janeiro fracassou também porque, em 2022, a extrema direita brasileira não encontrou em Washington o respaldo que talvez esperasse.  O governo Biden reconheceu a vitória de Lula e enviou sinais claros aos militares brasileiros: os Estados Unidos não apoiariam ruptura institucional. Esse fator ajudou a conter a aventura golpista. O que estava em jogo não era apenas uma disputa de palácio. 

A Polícia Federal revelou depois o plano Punhal Verde e Amarelo, que incluía Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes como alvos centrais. O Brasil esteve muito mais perto do abismo do que muitos ainda admitem.  Se o golpe tivesse avançado, o país poderia ter mergulhado numa tragédia institucional comparável, ou pior, aos anos que se seguiram a 1964, quando a ditadura brasileira contou com apoio decisivo dos Estados Unidos. 

É por isso que a pergunta de 2026 é tão inquietante.  Se em 2022 Biden ajudou a fechar a porta ao golpismo, o que acontece agora, com Trump na Casa Branca e o bolsonarismo novamente buscando apoio em Washington? E Lula novamente candidato? 

<><> O elo permanente com Washington 

Existe um personagem que conecta praticamente todos os capítulos dessa história. Eduardo Bolsonaro, o filho 03 de Jair, um deputado que perdeu o mandato por “excesso de faltas”. Estava – e continua nos Estados Unidos – como embaixador “ad hoc” para lutar contra a soberania do Brasil.  Desde 2025, o deputado passou a atuar politicamente a partir dos Estados Unidos, aprofundando relações construídas ao longo dos anos com o universo político do trumpismo. Sua proximidade com Steve Bannon, assessores de Donald Trump e figuras influentes da direita americana nunca foi segredo.  Enquanto Flávio Bolsonaro se apresenta como candidato presidencial, Eduardo desempenha outro papel: o de principal articulador internacional do bolsonarismo. 

Essa divisão de tarefas ajuda a explicar por que os acontecimentos recentes não podem ser analisados isoladamente. De um lado, Flávio tenta consolidar uma candidatura presidencial. De outro, Eduardo mantém canais permanentes com setores influentes da nova administração americana.  Nenhum desses fatos, isoladamente, prova a existência de um plano de interferência eleitoral. Mas todos ajudam a formular a pergunta que realmente importa.  Se em 2022 os Estados Unidos atuaram para reforçar o respeito ao resultado das urnas, qual será a postura de uma Casa Branca comandada por Donald Trump diante de uma eventual reeleição de Lula? 

<><> A nova Doutrina Trump 

Nos últimos meses, uma sequência de movimentos começou a redesenhar o ambiente político em torno do Brasil.  Primeiro, a aproximação explícita entre Flávio Bolsonaro e a Casa Branca. Depois, a classificação do PCC e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Em seguida, as pressões comerciais, os questionamentos ao Pix e a proposta de tarifas de 25% contra produtos brasileiros.  Separadamente, cada medida possui sua justificativa. Juntas, formam um padrão.  O Brasil passou a ser tratado por Washington não apenas como parceiro comercial ou aliado regional. Passou a ser tratado como tema estratégico. 

E essa talvez seja a principal diferença entre 2022 e 2026. 

<><> Narcoterrorismo: o novo nome da velha pressão 

A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas foi celebrada por setores da extrema direita brasileira como uma vitória de Flávio Bolsonaro. Mas seu significado jurídico e político é muito mais amplo.  Quando um grupo deixa de ser tratado apenas como organização criminosa e passa a ser enquadrado como organização terrorista, entram em cena instrumentos extraordinários de pressão diplomática, financeira, policial e de inteligência.  Isso não significa intervenção automática. Mas significa a criação de um ambiente político e jurídico que amplia o alcance da legislação americana para além de suas fronteiras. 

Foi esse mecanismo que, ao longo das últimas décadas, permitiu aos Estados Unidos justificar sanções, bloqueios, operações clandestinas, ações militares e pressões sobre governos considerados hostis.  A questão, portanto, não é defender facções criminosas. A questão é compreender o que se autoriza quando Washington decide enquadrar problemas brasileiros dentro de sua própria doutrina de segurança nacional. 

<><> A América Latina conhece esse roteiro 

A preocupação não nasce de teorias conspiratórias. Nasce da História. Os Estados Unidos nunca foram observadores neutros dos processos políticos latino-americanos.  Durante a Guerra Fria, Washington apoiou ou participou diretamente de operações que influenciaram governos, eleições e golpes no continente.   Foi assim na Guatemala, em 1954, quando a CIA apoiou a derrubada de Jacobo Árbenz. Foi assim em Cuba, com a invasão da Baía dos Porcos em 1961. Foi assim no Brasil, em 1964, quando Washington apoiou o golpe contra João Goulart e preparou a Operação Brother Sam. Foi assim na República Dominicana, em 1965. Foi assim no Chile, em 1973, no processo de desestabilização que antecedeu a derrubada de Salvador Allende.  Depois vieram a guerra às drogas, o Panamá, a guerra ao terror, o Afeganistão, o Iraque, a Síria, o Iêmen, a Somália e o Paquistão. 

Os nomes mudam. As justificativas mudam. Mas a lógica permanece. 

Uma ameaça é identificada. Uma estrutura jurídica é criada. Os instrumentos de pressão se ampliam. E a margem de atuação de Washington cresce. 

<><> A região sob nova ofensiva 

A América Latina voltou a ser tratada como terreno prioritário da disputa internacional.  A ascensão de Javier Milei na Argentina foi celebrada por Trump, por Steve Bannon e pela extrema direita global como um modelo de vitória política no continente.  Em outros países, a disputa entre projetos soberanos e projetos alinhados à nova direita americana tornou-se cada vez mais explícita. O método não precisa ser o mesmo da Guerra Fria. 

A pressão pode vir por tarifas. Por sanções. Por plataformas digitais. Por campanhas de desinformação. Por questionamentos eleitorais. Por cooperação seletiva em segurança. Por apoio político a aliados internos.  E é exatamente por isso que o caso brasileiro merece atenção. Nenhum outro país da América Latina reúne simultaneamente o peso econômico, territorial, energético, agrícola, ambiental, tecnológico e diplomático do Brasil.  Se Trump atua para influenciar o rumo político de países menores da região, o que poderá fazer diante do maior país latino-americano, integrante dos BRICS, parceiro estratégico da China e governado por Lula? 

<><> Lula cresce. E agora? 

A pergunta já não é apenas o que acontece se Lula vencer. A pergunta talvez seja anterior. O que acontece se Lula continuar crescendo? O que acontece se as pesquisas passarem a apontar uma vitória cada vez mais provável do atual presidente? É nesse ponto que os episódios recentes deixam de parecer isolados.  O narcoterrorismo. O tarifaço. Os ataques ao Pix. A investigação comercial contra o Brasil. A aproximação entre Flávio Bolsonaro e Trump. A presença permanente de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. A pressão sobre temas estratégicos da economia brasileira.  Tudo isso pode ser interpretado como fatos separados. Mas também pode ser lido como parte de um ambiente crescente de pressão sobre o Brasil antes mesmo da eleição. Não é preciso afirmar que existe uma intervenção em curso para reconhecer que há sinais de alerta. Basta observar os acontecimentos. 

<><> E se Flávio perder? 

A pergunta mais incômoda talvez seja esta. Se Flávio Bolsonaro for derrotado por Lula nas urnas, a Casa Branca aceitará o resultado sem contestação? Talvez sim. Talvez Trump reconheça imediatamente a vitória brasileira, como Biden fez em 2022. Talvez as tensões atuais se dissipem. Talvez o comércio volte ao centro da relação bilateral.  Mas também é possível que a eleição brasileira de 2026 ocorra sob uma pressão internacional muito mais pesada do que a de 2022. A diferença é brutal. Em 2022, Washington ajudou a fechar a porta ao golpismo. Em 2026, Washington é governada por Trump.  E Trump tem ao seu comando um bolsonarismo que nunca aceitou plenamente a derrota de 2022, que viu seu líder condenado por tentativa de golpe e que agora tenta voltar ao poder por meio de Flávio Bolsonaro. 

<><> O Brasil precisa olhar para o perigo 

Não se trata de alarmismo. Trata-se de memória histórica. O Brasil sabe o que acontece quando elites internas buscam apoio externo para derrotar projetos populares e soberanos. Sabe porque viveu 1964. Sabe porque enfrentou 21 anos de ditadura. Sabe porque viu perseguições, prisões, cassações, torturas, assassinatos e exílios serem justificados em nome da ordem, da segurança nacional e do combate ao comunismo.  Agora, o vocabulário mudou. Não é mais o comunismo. É o narcoterrorismo. Não são mais os tanques nas ruas como primeira cena. São tarifas, sanções, investigações comerciais, bloqueios, pressões diplomáticas, espionagem, guerra digital e articulações políticas internacionais.   Mas o risco de fundo permanece o mesmo: a tentativa de submeter a soberania brasileira a interesses definidos fora do país. 

<><> A eleição que já começou fora das urnas 

A eleição presidencial de outubro ainda não começou oficialmente em sua fase decisiva. Mas a pressão sobre o Brasil já começou.  

Começou quando o bolsonarismo levou sua agenda para Washington.   Começou quando Eduardo Bolsonaro transformou os Estados Unidos em base permanente de articulação política.   Começou quando Flávio Bolsonaro tentou apresentar Trump como fiador de sua candidatura.   Começou quando PCC e Comando Vermelho foram enquadrados na doutrina americana do narcoterrorismo.   Começou quando o Pix entrou na mira. Começou quando tarifas de 25% passaram a ser usadas como instrumento de pressão.  Começou quando o Brasil, por sua relação com os BRICS, com a China e com uma ordem internacional multipolar, passou a ser tratado como problema estratégico. 

A pergunta de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. A pergunta é outra.  O que fará Trump se Lula continuar crescendo?  E o que fará o Brasil para impedir que sua soberania volte a ser negociada nos corredores do poder em Washington? 

¨      Como Trump está infiltrando suas forças armadas na América Latina com uma nova coalizão militar contra o narcotráfico

Três datas dos primeiros cinco meses de 2026 ilustram o renovado intervencionismo dos EUA na América Latina: em 3 de janeiro, as tropas de elite da Força Delta dos EUA invadiram Caracas e sequestraram Nicolás Maduro, presidente da Venezuela. Em 3 de março, helicópteros militares equatorianos, com apoio militar dos EUA, incendiaram supostos esconderijos de narcotraficantes na província de Sucumbíos, perto da Colômbia. "Sim, também estamos bombardeando narcoterroristas em terra", declarou Pete Hegseth, então Secretário de Defesa dos EUA. Em 30 de abril, o presidente argentino Javier Milei desembarcou no porta-aviões nuclear americano USS Nimitz para participar de exercícios navais conjuntos com os EUA em Mar del Plata. Poucos dias antes, havia autorizado a presença de militares americanos em solo argentino para o Exercício Daga Atlántica. O fluxo de intervenções militares dos EUA na América Latina ocorre no âmbito da Operação Escudo das Américas, uma nova coalizão militar lançada em 7 de março no campo de golfe Trump National Doral, em Miami, para combater o narcotráfico e a imigração ilegal. Doze governos nacionais alinhados a Donald Trump já aderiram à Operação, incluindo Argentina, Equador, Bolívia, El Salvador, Paraguai e Costa Rica — um país historicamente neutro e sem exército, onde o debate sobre a presença de bases militares americanas em seu território já começou.

Após décadas de presença limitada a bases isoladas, as forças armadas dos Estados Unidos estão de volta à América Latina. Donald Trump está forçando diversos governos a assinarem acordos militares em uma sequência carregada de simbolismo. Em fevereiro de 2024, o Acordo sobre o Estatuto das Forças (SOFA) foi assinado com o Equador, país que fechou a base militar de Manta em 2009. Em abril de 2025, um memorando de entendimento militar foi assinado com o Panamá, país onde Washington administrou o Canal do Panamá até 2000 e onde se localizava a Escola das Américas, que treinava os exércitos de ditaduras. O Peru e a República Dominicana autorizaram o destacamento temporário de tropas americanas em seus territórios até o final de 2025. No entanto, o acordo que mais gerou preocupação foi o SOFA assinado com o Paraguai. Aprovado em março, o acordo não só protege os soldados americanos da justiça paraguaia, como também permite a circulação de veículos e armamentos militares sem qualquer inspeção. "O acordo representa uma verdadeira base militar secreta. É humilhante", declarou o deputado da oposição Raúl Benítez ao elDiario.es.

<><> Protestos eclodem no Paraguai

Em um evento na Plaza Italia, em Assunção, membros de movimentos indígenas e camponeses se reuniram para formar uma frente unida de resistência. Eles discursaram em guarani, usando ocasionalmente palavras em espanhol: "Resistência", "camaradas", "privatização", "narcopoder". Uma palavra se repetia constantemente: SOFA. "Este acordo viola os direitos das comunidades. Um soldado americano pode estuprar uma menina e nada acontece. O narcotráfico é a desculpa deles", disse Camila Mas, da Coordenação Paraguaia de Direitos Humanos (CODEHUPY), ao elDiario.es. Rosa Toledo, da La Vía Campesina, declarou que a revogação do SOFA é uma das principais reivindicações dos povos indígenas e dos movimentos camponeses: "Viola o Artigo 143 da Constituição (relativo à soberania nacional). Permite que comunidades de pequenos agricultores sofram despejos violentos." Os EUA têm um longo histórico de danos colaterais decorrentes de supostas operações antidrogas. Uma investigação do New York Times revelou que o alvo do ataque em Sucumbíos, em março, não era um acampamento de narcotráfico, mas sim uma fazenda leiteira. A congressista de esquerda Johanna Ortega, do Partido Solidariedade País (PPS), denuncia o acordo SOFA como um insulto ao povo paraguaio. "Antes, a cooperação com os militares dos EUA era implementada em etapas. O acordo SOFA transforma oficialmente o Paraguai no quintal dos EUA, permitindo a entrada de qualquer veículo e beneficiando apenas alguns poderosos", disse ela ao elDiario.es. A congressista explica que o acordo prevê o levantamento das sanções impostas pelos EUA contra o ex-presidente Horacio Cartes por seu envolvimento em "corrupção desenfreada". "É paradoxal: a maioria dos deputados conservadores implicados em contrabando e narcotráfico votou a favor do acordo", observa Raúl Benítez. Pelo menos 26 deputados de Cartes foram investigados judicialmente por seu envolvimento com o narcotráfico.

<><> Alarme em Brasília

O acordo SOFA assinado pelo Paraguai soou o alarme em Brasília. Apenas alguns dias antes de sua aprovação, o jornalista brasileiro Jamil Chade noticiou que o Departamento de Estado dos EUA havia declarado a região da tríplice fronteira entre Paraguai, Argentina e Brasil como uma das "principais áreas de atividade na América Latina", incluindo a cidade brasileira de Foz do Iguaçu. Poucos dias após a assinatura do acordo SOFA, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, André Vieira, reuniu-se em Assunção com o presidente paraguaio Santiago Peña para expressar sua preocupação. A recente designação, pelos Estados Unidos, das organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas representou um grande revés para o Brasil. O encontro do presidente Lula com Donald Trump na Casa Branca, no início de maio, não conseguiu reverter a decisão.

A pressão da família Bolsonaro sobre Donald Trump após o escândalo de corrupção envolvendo o filme Dark Horse acelerou o processo. Será que o SOFA paraguaio permitirá que os EUA desdobrem tropas em território brasileiro sob o pretexto de combater o financiamento do Hezbollah ou os cartéis de drogas brasileiros na tríplice fronteira? "É verdade que a medida faz parte de uma política externa que busca expandir a influência dos EUA. Mas expandir os instrumentos de pressão é uma coisa, e intervenção direta em território brasileiro é outra", disse André Pasternak Glitz, procurador do Ministério Público do Paraná, ao elDiario.es. Para Tallita Lima, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ), considerar o PCC e o CV como terroristas significa enquadrá-los no contexto da segurança nacional, da defesa e da política externa. "Quando Washington começa a classificar organizações criminosas latino-americanas como terroristas, cria um ambiente político no qual medidas extraterritoriais, sanções, cooperação assimétrica e formas mais intrusivas de vigilância parecem mais aceitáveis", disse Lima a este jornal. Após o anúncio do governo americano, o próprio Lula afirmou que os cartéis de drogas "são terroristas para as comunidades brasileiras", mas "não são os terroristas que Trump quer".

<><> Interesses ocultos

A presença de Alexandre Silveira, Ministro de Minas e Energia do Brasil, na reunião em Assunção fornece mais uma pista sobre as implicações do acordo SOFA: recursos naturais e minerais. O deputado federal paraguaio Billy Vaesken, do Partido Liberal, denunciou que o acordo SOFA não apenas abre mão da soberania, mas também de "informações valiosas" sobre os recursos naturais do país, referindo-se ao lítio e aos aquíferos subterrâneos — o Paraguai compartilha o vasto Aquífero Guarani com o Brasil, a Argentina e o Uruguai. Vaesken afirma que o verdadeiro interesse dos EUA "não é a cooperação desinteressada, mas o acesso a dados estratégicos e recursos naturais críticos do Paraguai", que também incluem ouro e urânio. Após a intervenção militar dos EUA na Venezuela, a Operação Escudo das Américas foi recebida com suspeita em toda a região. "A doutrina de segurança nacional dos EUA visa criar uma barreira contra potências adversárias. Ela é claramente direcionada à China", disse à BBC o chileno Carlos Solar, especialista em segurança e defesa no Royal United Services Institute (RUSI).

Pablo Ospina, professor da Universidade Andina Simón Bolívar, no Equador, afirma que, embora o narcotráfico e a imigração não sejam meras cortinas de fumaça, os novos acordos militares dos EUA têm outros objetivos. "O interesse político mais evidente é consolidar contatos e parcerias entre projetos de extrema-direita", declara. O especialista aponta que existem interesses em comum entre o governo dos EUA e seus aliados para promover "agendas menos populares, como cortes de impostos para os mais ricos, reduções em serviços sociais e nos sistemas universais de saúde e educação pública, além da pilhagem de recursos, da natureza e do patrimônio".

Da Argentina, a principal preocupação é a Base Naval Integrada que o governo de Javier Milei autorizou a ser construída em conjunto com os EUA na península de Ushuaia, na Terra do Fogo. A visita de uma delegação comercial americana a Ushuaia, em janeiro, não incluiu o narcotráfico em sua agenda, mas sim o "processamento de licenças para a gestão de minas e o processamento de minerais críticos", segundo a própria embaixada dos EUA. Emiliano Fossatto, secretário jurídico da Terra do Fogo, governada pela oposição peronista, declarou que a visita foi repleta de "muitas preocupações" e não foi comunicada às autoridades locais. "A localização geográfica do porto de Ushuaia, porta de entrada para a Antártica, é significativa. Pode haver outros motivos em jogo." A Antártica, vítima do derretimento do gelo causado pelo aquecimento global, está se tornando uma nova fronteira para o Hemisfério Ocidental da era Trump.

 

Fonte: Brasil 247/ elDiario.es

 


 

A solução de Oxford para reduzir polarização entre lulistas e bolsonaristas

Seja você lulista ou bolsonarista, há uma boa chance de que você tenha imaginado o grupo do lado oposto do espectro político mais radical do que ele realmente é.

Pesquisadores observaram essa distorção ao perguntar a milhares de brasileiros, no auge da eleição de 2022, o que eles imaginavam que seus adversários políticos pensavam.

Naquele momento, os bolsonaristas estimavam que mais de oito em cada dez lulistas (81%) eram a favor de legalizar o aborto no primeiro trimestre de gestação. O número real era bem menor: 46%.

Os lulistas cometiam o mesmo equívoco em relação aos bolsonaristas. Imaginavam que só 27% deles apoiavam cotas para alunos de baixa renda nas universidades, quando o apoio real beirava 80%.

Os números vêm de um estudo sobre polarização política no Brasil publicado nesta sexta-feira (5/6) na revista Nature Communications.

A pesquisa foi liderada por Anna Petherick, da Universidade de Oxford, em parceria com a FGV-Ebape (Rio), e tem como coautores Guilherme Ramos, Rodrigo Furst, Rafael Goldszmidt e Eduardo Andrade.

O levantamento ouviu de 2 mil a 3 mil brasileiros em cinco rodadas, entre abril de 2022 e janeiro de 2023, antes, durante e depois das eleições.

Nas quatro últimas, acompanhou sempre as mesmas pessoas, o que permitiu medir como o sentimento de cada uma mudava ao longo do tempo.

"As pessoas são muito mais precisas ao estimar as opiniões do próprio grupo do que as do outro grupo. E isso faz sentido, porque você provavelmente convive mais com elas, conversa mais com elas", diz Petherick, em entrevista à BBC News Brasil.

"Mas o interessante é que a forma como elas entendem mal o outro grupo é exagerando aquilo de que não gostam, muitas vezes em torno de questões morais."

<><> A polarização afetiva

Esse abismo entre o que um grupo imagina do outro e o que o opositor de fato pensa alimenta o que os pesquisadores chamam de polarização afetiva. Ela mede a antipatia entre quem pensa diferente. O estudo sugere que essa polarização pode ser amenizada com algo simples: a informação.

"A polarização ideológica é sobre o quanto você discorda do que o outro pensa. A afetiva é o abismo no sentimento, no gostar ou não gostar", diz Petherick.

"Se você discorda fortemente de alguém, provavelmente não vai querer jantar uma pizza com essa pessoa, né?"

Desde os anos 1990, na maior parte do mundo, a polarização ideológica ficou mais ou menos no mesmo patamar, segundo os pesquisadores. Ou seja, as pessoas não passaram a discordar muito mais sobre questões-chave. O que cresceu foi a antipatia pelo lado oposto, tendência que preocupa os autores do estudo.

"A antipatia está ligada à intolerância. Fica mais difícil ter um debate fundamentado, chegar a um meio-termo, unir-se para resolver problemas que dependem de toda a sociedade", afirma Petherick.

No cenário mais extremo, o fenômeno aparece associado à violência política, segundo a pesquisadora.

Para medir o quanto as pessoas gostavam ou não umas das outras, o estudo pedia uma nota de 0 a 100 para cada grupo. Em 2022, antes da eleição, a distância era grande. Em média, os entrevistados davam 72 pontos ao próprio grupo e apenas 17 ao rival.

Por que isso acontece, Anna Petherick admite, é "uma pergunta profundamente filosófica". Ela cita estudos de outros países que apontam uma pista cultural.

"Em uma cultura individualista, o sentimento de que o seu grupo tem que estar certo e o outro errado é mais forte do que numa cultura coletivista, em que você se vê como parte do todo."

Para ela, as redes sociais também amplificam o sentimento: "Hoje, qualquer um publica na hora, para o mundo inteiro, sem a pressão de checar. A gente já tende a exagerar quando fala de quem não gosta. Aí outra pessoa lê, acredita e ainda exagera mais quando repassa. As redes não são a única causa, mas não ajudam".

<><> Por que estudar esse fenômeno no Brasil?

Quase tudo o que se sabe sobre polarização afetiva vem dos Estados Unidos, onde os campos políticos são nítidos - com dois partidos dominando as disputas eleitorais. O interesse por estudar o jogo político brasileiro surgiu pela sua complexidade.

"Nos Estados Unidos é simples: tem os democratas e os republicanos. No Brasil, você tem os petistas e os antipetistas, os lulistas e os bolsonaristas, e esses grupos não se encaixam exatamente uns nos outros", diz Petherick.

"Aí tem gente que só se define contra alguma coisa, não a favor de nada. Quem é o seu grupo, se você é só 'anti' alguém? Você não tem um time. Você tem só aquilo que não é."

Muito antes do estudo, Petherick já desconfiava de que o sentimento pesava mais que os fatos na política brasileira.

A intuição surgiu há mais de dez anos, no doutorado, quando pesquisava corrupção no país e percebeu que suas estatísticas não davam conta do que ouvia em campo.

"As pessoas usavam a palavra 'corrupção' para dizer que não gostavam de alguém. Nem sempre tinha a ver com uma prova concreta. Era quase como labaredas de raiva. Era o sentimento empurrando o comportamento político, mais do que os detalhes técnicos", avalia.

<><> Qual é a solução para a polarização?

O coração do estudo é um experimento que funciona como o teste do início desta reportagem.

A partir da segunda rodada, parte dos entrevistados teve que estimar quantos lulistas e bolsonaristas, em cada dez, apoiavam uma política polêmica. Quase sempre erravam, imaginando o outro grupo mais extremo do que ele era.

Em seguida, recebiam os números verdadeiros, tirados da própria pesquisa. Só então avaliavam de novo o grupo adversário.

Quando a pessoa via que a caricatura não batia com a realidade, a rejeição ao outro lado caía. O efeito foi mais forte foi em relação ao aborto. Desmatamento na Amazônia e cotas sociais e raciais também reduziram a rejeição, só que menos.

As pessoas passaram a ver de forma mais positiva o adversário, mas continuaram avaliando o próprio grupo do mesmo jeito. Ninguém precisou abrir mão do que pensava para tolerar mais o outro.

"A ideia não é mexer no que as pessoas acreditam sobre as políticas. É reduzir o quanto elas não gostam umas das outras, para conseguirem conversar sobre o que acreditam de um jeito mais sensato", diz Petherick.

A saída que o estudo sugere é que o brasileiro cheque o que o outro lado pensa, em vez de supor.

Petherick, que já foi jornalista, faz o apelo também a quem trabalha com informação.

"Mesmo quando as pessoas têm certeza do que o outro grupo acredita, elas frequentemente estão muito erradas."

<><> O que mais o estudo mostrou

A pesquisa aproveitou o calendário de 2022 para testar se outros eventos, além da eleição, mexiam com a antipatia política.

A quarta rodada de entrevistas caiu em plena Copa do Mundo. Os pesquisadores a dividiram em oito momentos, aplicados antes e depois de cada jogo do Brasil.

A aposta era que um símbolo de identidade nacional pudesse aproximar os grupos, como já se observou com Olimpíadas em outros países. Porém, não foi o que aconteceu. A vitória ou derrota da seleção no Mundial não mudou nada na rivalidade entre lulistas e bolsonaristas.

A correção de percepção rendeu ainda um efeito que ia além do previsto. Ao descobrir os números reais sobre aborto e desmatamento, os lulistas não só passaram a tolerar mais o outro lado. Eles também recuaram um pouco no próprio apoio a essas pautas. Ou seja, mostrar como o outro lado pensa pode aproximar também as opiniões e levar parte do público para o centro.

O estudo tem limites, que os próprios autores reconhecem. Eles não mediram efeitos de longo prazo, por exemplo. Não dá para saber se a redução da antipatia dura dias, semanas ou se evapora pouco depois.

<><> As eleições de 2026

Petherick aposta que o roteiro das eleições de 2022 se repete neste ano. "Uma eleição apertada entre dois times já estabelecidos e bastante entrincheirados aponta para o mesmo aumento de polarização afetiva de novo."

O que a deixa otimista é o que veio depois do último pleito. A derrota de Jair Bolsonaro (PL) foi seguida de semanas de tensão: apoiadores do ex-presidente bloquearam estradas pelo país e montaram acampamentos em quartéis, e, em 8 de janeiro de 2023, uma semana após a posse do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), eles invadiram e depredaram as sedes dos três Poderes em Brasília.

Mesmo assim, a polarização afetiva caiu nos meses seguintes em ambos os grupos. A última rodada da pesquisa foi a campo cerca de três semanas após os ataques, e registrou a queda.

"Pelo que eu lia no noticiário na época, não achei que fosse acontecer", diz Petherick.

A eleição deste ano caminha para o confronto que Petherick descreve. Lula aparece à frente do senador Flávio Bolsonaro (PL) nas estimativas de intenção de voto para o primeiro e o segundo turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

Lula ultrapassou Flávio no segundo turno em maio, após a revelação da ligação entre o filho de Jair Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a segunda-feira (01/06), a estimativa de intenção de votos no petista no segundo turno está agora em torno de 46%, enquanto Flávio Bolsonaro tem 41%.

No fim, a pesquisadora insiste que o que decide se uma eleição é saudável ou não é a informação que chega ao eleitor.

"O que mais importa é as pessoas entenderem com clareza quais são as opções e o que cada uma significa para a vida delas. Da forma mais honesta possível, sem serem enganadas pelas redes ou pelos próprios vieses."

 

Fonte: BBC News Brasil

Os que foram impedidos de sonhar

Ano de 1988. O debate sobre a constituição fertilizava o país. Mas aquilo pouco importava para um adolescente de 15 anos de idade que acabara de ingressar no mundo do trabalho formal pelas portas da construção civil. Os desejos eram ingênuos. O primeiro deles, não realizado, estava ali, no fundo do enorme galpão que abrigava o almoxarifado preenchido por tubulações, revestimentos, latas de tinta e a poeira cinza do cimento. Escanteada, com os dois pneus murchos, a velha Yamara RX 80 preta, motor 2 tempos, conhecida como oitentinha, era, em silêncio, desejada. Abandonada, aquela velha motocicleta alimentou os sonhos de um trabalhador que ocupava a base da pirâmide salarial da construção civil.

Ano de 2026. Um diálogo, extraído de um vídeo na rede social Instagram, contorce o estomago: — Qual o seu nome? — É Sharon. — Qual é o teu sonho? — Eu não tenho sonho. A jovem branca, com sua bicicleta parada na calçada, com a bag vermelha fixada nas costas, remetendo à imagem do quasímodo de Victor Hugo, não se conteve em lágrimas. Essa jovem, a despeito da tragédia familiar relatada, não está sozinha. É parte da infantaria de trabalhadores e trabalhadoras precarizados que povoam a paisagem urbana do país.

As aspirações das gerações anteriores, que desfrutavam da sociabilidade do trabalho estável e de uma diminuta porção das políticas públicas, especialmente aquelas que facilitaram a aquisição de bens duráveis, não servem de exemplo para a juventude pobre que não acredita mais nas promessas da sociedade do trabalho.

Mas há um ponto que deveria anteceder qualquer formação de juízo sobre as razões da incapacidade de sonhar desses jovens. Não estamos a tratar de julgamentos morais ou de escolhas que não tenham qualquer relação com a reprodução diária de suas vidas. Aqui o antídoto interpretativo parece ser aquele resumido em uma das Teses sobre Feuerbach (VIII), que advoga que a vida social é, essencialmente, prática (Marx & Engels, 2008). O que importa, portanto, é partir das condições reais, traduzidas pela história e inscritas no cotidiano dos jovens precarizados.

Um pouco do que Friedrich Engels fez ao renunciar ao Porto e à Champanhe para adentrar na vida das operárias e operários para compor o brilhante livro A situação da classe trabalhadora na Inglaterra. O que os indivíduos são, desejam ser ou são impedidos de sê-lo, não se explica pelas escolhas individuais situadas no tempo presente.

Encontramos esse princípio de análise em A irrupção, texto do filósofo Henri Lefebvre, publicado no calor do Maio de 1968: “A juventude operária nasce como uma ira, cega ou lúcida, contra a pressão das autoridades, contra o ´real´ existente na sua integridade. Se a geração anterior fez sobretudo reivindicações no plano econômico, se ela quis e ainda quer bens de consumo, aumento de salário, numa palavra, o fim da velha miséria, a geração nova quer outra coisa. A geladeira e o carro não seduzem mais, não a espantam mais, não a satisfazem”. (p. 130-131).

O contexto europeu, no ocaso daquilo que já foi adjetivado de Trinta Gloriosos, não se reproduziria, no Brasil, da mesma forma, nem tampouco o diagnóstico preliminar do filósofo sobre o desejo dos jovens que pincharam os muros de Paris. Aqui nunca respiramos os ganhos, traduzidos na universalização dos serviços públicos ou em empregos com remunerações dignas, para os trabalhadores da cidade e do campo. É certo que a Constituição de 1988 (Brasil, 1988) firmou uma série de pactos que ampliaram as redes protetivas públicas, a exemplo da saúde, da educação e da Previdência Social. Os pequenos avanços registrados, aos quais podemos somar as transferências de renda direta, como o Bolsa Família, ajudaram a retirar uma fração da população da indigência.

Os avanços, infelizmente, não concorreram com os retrocessos sociais resultantes das radicais mudanças no mercado de trabalho e da adesão ao programa de austeridade fiscal. Equilibramo-nos, para utilizar a metáfora do sociólogo Robert Castel (2003), em As metamorfoses da questão social, entre a zona dos “instáveis”, caminhando, a passos largos, para a zona de “desfiliação”. Nessa zona obscura, repleta de riscos, não é permitido sonhar, sequer, com a sucata de uma velha motocicleta. Uma fração significativa da juventude precarizada encontra-se nas bordas dessa zona cinzenta de desfiliação da qual, no nosso modelo de sociedade, é quase impossível sair.

Mas como, objetivamente, podemos encontrar subsídios para compreender essa impossibilidade de sonhar dos jovens trabalhadores? Será que a visão idealista de um mundo composto por indicadores macroeconômicos positivos não é produto de nossa vontade de partilhar nossas poucas conquistas com uma massa de jovens sem esperança?

 correlação dos dados macroeconômicos, desde que submetidos ao escrutínio da realidade objetiva, pode dar pistas para compreendermos a erosão dos sonhos da juventude trabalhadora. O primeiro dado, uma vez que vivemos em uma sociedade cujo motor da geração e concentração da riqueza é a venda da força de trabalho, refere-se ao desemprego. Há uma inegável euforia registrada nos últimos anos que é resultante da redução das taxas de desemprego, que faz os mais entusiastas até mesmo cogitar a hipótese de que vivemos uma situação de pleno emprego.

A taxa de desocupação geral, em 2012, atingiu 8 pontos, inferior aos 6,1 pontos registrados no ano de 2026. Ocorre que, em um país com as características do Brasil, as médias quase sempre não explicam a complexidade econômica e social do território. No ano de 2012, a taxa de desemprego entre 14 e 17 anos atingiu 24,8 pontos e entre 18 e 24 anos, 16,1 pontos. Em 2026, a taxa de desocupação entre 14 e 17 anos atingiu 25,1 e, entre 18 e 24, alcançou 13,8 pontos. O desemprego atinge, fundamentalmente, a população jovem e negra, com evidentes cortes regionais.

Segundo o IBGE (2026): “A taxa de desocupação por sexo foi de 5,1% para os homens e 7,3% para as mulheres no primeiro trimestre de 2026. Já a taxa de desocupação por cor ou raça ficou abaixo da média nacional (6,1%) para os brancos (4,9%) e acima para os pretos (7,6%) e pardos (6,8%)”. O desemprego entre os jovens é assustador. Não há porque, sem horizonte de renda resultante da estabilidade do emprego formal, imaginar que esses jovens tenham razões para sonhar. O cotidiano é mais pragmático. A ambição é conseguir pagar o aluguel e, sobrando algum dinheiro, alimentar-se com algo que não seja macarrão instantâneo.

A experiência do desemprego dos jovens, incluindo aquela do núcleo familiar, não é abstrata. Na impossibilidade de renda do emprego formal, com os benefícios, já erodidos, da CLT, a opção que resta é ingressar no heterogêneo universo do trabalho informal. No Brasil, segundo dados do IBGE (2026), 37,8% da população ocupada encontra-se na informalidade. São 38,5 milhões de trabalhadoras e trabalhadores sem qualquer expectativa de proteção laboral. Esse universo de trabalhadores informais, uma parcela significativa de jovens, ocupa, predominantemente, o setor de comércio e de serviços.

No comércio varejista das pequenas cidades, as ocupações são caracterizadas por reduzidos salários e alta carga de trabalho semanal. O trabalho de freelancer, em bares, restaurantes e lanchonetes, servindo comida ou vigiando de crianças, é a regra para uma legião de jovens das grandes cidades que se juntam aos vendedores ambulantes que inflacionam as paradas de ônibus e sinaleiros. A chamada escala 6X1 também é a regra comum na informalidade, atingindo, especialmente, os jovens, como descrito no Atlas comentado da escala 6X1 no Brasil (Arrais et al., 2025).

Os empregos, independentemente da escolarização, não oferecem, como antes, a certeza de vantagens adicionais. Dos 4.589 trabalhadores da escala 6X1 que responderam à pesquisa realizada pelo Observatório do Estado Social Brasileiro, 24,45% tinham curso superior completo e 22,29% curso superior incompleto. Aquele processo descrito por Pierre Bourdieu (2012), em A distinção, sobre a defasagem entre a escolarização e a oportunidade de empregos, é repaginado na periferia do capitalismo.

Invariavelmente, o desemprego e a informalidade sedimentam o caminho para o endividamento. O geógrafo Milton Santos, ainda na década de 1980, advertia que o SPC funcionava como uma espécie de “tribunal privado” (1987, p. 22). No Brasil, em abril de 2026, 50,8% da população adulta tinha nome negativizado. A dívida média, em janeiro de 2019, era de R$ 3.926,39, passando, em abril de 2026, para R$ 6.814,39.

Considerando o setor da inadimplência, em abril de 2026, os bancos/cartões responderam por 27,5% e o setor financeiro 19,8% das dívidas, respectivamente. Os dados fazem par com aqueles divulgados pelo DIESSE, que identificou, com base na Pesquisa de Endividamento e Inadimplência do Consumidor, que 80,4% das famílias estavam, em março de 2026, endividadas (DIESSE, 2026). A evolução no valor das dívidas individuais, especialmente no cartão de crédito rotativo, ilustra o drama da juventude.

As bets não inauguraram o paradigma do endividamento. A institucionalização da agiotagem antecede esse fenômeno. A listagem, disponível no site do Banco Central do Brasil, sobre as taxas de juros prefixados de cartões de crédito rotativo é indecente. Os juros anuais das 62 instituições listadas variam de 22,08% ao ano até 992,11% ao ano. Nessa modalidade, a Caixa Econômica Federal, o Banco do Brasil e o Bradesco operam com juros anuais de 297,49%, 345,5% e 392,78%, respectivamente.

A novidade, fartamente registrada pela imprensa (Piauí, 2025), é que mais da metade do endividamento via cartão de crédito tem ocorrido para aquisição de alimentos. Não se trata mais de imaginar a dívida para a aquisição de uma residência própria, de um veículo ou de uma passagem aérea para algum destino turístico no nordeste brasileiro. É apenas a sobrevivência, em modo semelhante ao registrado pela jornalista Bárbara Ehrenreich, no livro Miséria à americana – vivendo de subemprego nos Estados Unidos.

O endividamento talvez seja o processo que melhor explica o padrão de acumulação neoliberal. Sendo estrutural, pouco importa a liturgia da educação financeira que povoa os currículos escolares. Maurizio Lazzarato, em O governo do homem endividado, ofereceu a senha para interpretarmos esse processo:

A divida constitui uma nova técnica de poder. O poder de controle e de coerção sobre o devedor não vem do exterior, como nas sociedades disciplinares, mas do devedor ele mesmo. (2017, p.66)

Se adotarmos a premissa de que o primeiro ato histórico dos homens resulta, como assinalaram Marx e Engels (1998, p. 39), de sua necessidade de comer, beber, ter habitação, vestir-se, então, para os trabalhadores e trabalhadoras, a venda de sua força de trabalho para aquisição de bens de consumo continua sendo um fator decisivo para a reprodução da vida. O endividamento, por comprometer a reprodução da vida, tolhe as ambições mais diminutas dos jovens, queimando, diariamente, sua já envelhecida epiderme.

Não há dúvidas de que, por diferentes razões, a questão da participação da juventude na política partidária, nos marcos da democracia representativa, tenha despertado interesse nacional. Todos continuam a reivindicar o monopólio sobre o futuro da juventude. As diferentes matrizes políticas olham para o futuro, quase sempre, na defensiva, como se não tivessem nenhuma responsabilidade pelas decisões políticas e econômicas que favoreceram a precarização do trabalho. Parecem disputar o futuro, desvinculando-se de qualquer responsabilidade sobre o passado.

Acreditam que esses jovens operam fora de uma racionalidade política, motivo pelo qual eles não seriam capazes de reconhecer, e agradecer, os avanços sociais representados pelos indicadores macroeconômicos. Adjetivam-nos, com soberba intelectual, de “pobres de direita” (Souza, 2014). Qualificam-nos, jocosamente, de “empreendedores”. Não sabem que aquilo que une um entregador motociclista por aplicativo de São Paulo, uma operadora de caixa de um grande varejista de Recife e uma manicure de Goiânia, inscrita no MEI, é, apenas, a vontade de reproduzir suas vidas e, quem sabe, individualmente ou em família, aprender, como as gerações anteriores, a sonhar.

Enfim, 37 anos separam o desejo tímido por aquela velha moto do choro angustiante da jovem Sheron. Em 1988, ano da constituinte, os sonhos ainda tinham a capacidade, mesmo para um jovem pobre, de semear o mundo real. Para Sheron, que observa a juventude, incorporada ao suor, escorrer na pele, não sonhar pode ser a melhor forma de evitar semear a amarga realidade que aprisiona, adoece e mata os jovens pobres brasileiros.

 

Fonte: Por Tadeu Alencar Arrais, em A Terra é Redonda

 

 

Por que o sal tem um efeito tão poderoso em nosso cérebro?

Como você vai entender ao longo dessa reportagem, a resposta para essa pergunta tem a ver com dois fatores: primeiro, com o paladar, já que o sal altera e realça o sabor da comida. Segundo, com uma necessidade básica de manter o equilíbrio do nosso organismo, já que o sódio é fundamental para o funcionamento das células.

Mas por que gostamos tanto de sal? E como ele deixa a nossa comida tão saborosa?

Ele está presente em quase todas as culinárias do mundo, seja na forma de minúsculos grãos ou como parte de temperos básicos de algumas regiões — o molho de soja, por exemplo, pode conter entre 14% e 18% de sal.

Quimicamente, falamos do cloreto de sódio. Ele é composto por íons de sódio e cloro.

O que acontece quando um desses minúsculos cristais toca nossa língua?

"O paladar é um sentido que, através das papilas gustativas, nos permite detectar substâncias químicas em nosso ambiente que podem ser benéficas ou prejudiciais", explica a especialista em paladar Courtney Wilson, da Faculdade de Medicina da Universidade do Colorado, nos Estados Unidos.

"Essas papilas gustativas são pequenos aglomerados de células no formato de um dente de alho, espalhadas por toda a língua. Essas células possuem receptores que evoluíram para reagir a certos tipos de substâncias químicas", acrescenta ela.

No caso do sal, temos receptores que reagem especificamente ao sódio.

"Eles são essencialmente poros minúsculos na superfície da célula que permitem apenas a passagem de certos íons. Assim, quando os íons de sódio estão presentes, eles podem fluir por esse minúsculo canal. A célula é alertada para a presença de sódio e envia esse sinal elétrico pelo nervo até o cérebro", diz Wilson.

Mas por que o sal tem um gosto tão bom?

"Nem sempre... Basicamente, temos dois sistemas: um que nos diz quando o sabor é agradável e outro que nos avisa que é demais e que provavelmente deveríamos cuspir", afirma a especialista.

"Se você tiver a concentração certa de sal, a quantidade que manterá seu corpo num nível ideal, terá um gosto realmente delicioso."

Essa sensação, ensina Wilson, acontece porque o corpo sempre tenta manter o teor de sal dentro de uma faixa estreita.

Embora a presença de sal seja essencial para o funcionamento do organismo, o excesso dele pode ser prejudicial.

"Manter a quantidade certa de sódio no nosso corpo é extremamente importante. Os sinais elétricos que as células cerebrais enviam umas às outras e aos músculos, e que recebem dos sistemas sensoriais — e até mesmo os pensamentos — dependem do sódio."

Mas o sal faz mais do que "salgar": ele pode realçar outros sabores.

E nós sabemos como esse mecanismo funciona?

"A resposta simples é não", admite Wilson.

"A resposta mais complexa é que existem algumas evidências de que as células gustativas se comunicam entre si, o que afetaria a intensidade da resposta a um determinado estímulo na boca, seja ele doce, amargo ou salgado. Portanto, adicionar sal poderia afetar a resposta das papilas gustativas às outras dimensões", explica ela.

"Mas isso também pode estar acontecendo mais adiante nessa via de informação. Pode acontecer no tronco encefálico ou no córtex gustativo, onde a informação chega e as células podem estar interagindo para modular a nossa percepção."

Assim, o poder mágico e transformador do sal — aquele que faz com que os doces tenham um sabor melhor com apenas uma pitada salgada — permanece um mistério.

Talvez ele altere o comportamento das nossas células gustativas, ou talvez a forma como percebemos os sinais disso no cérebro.

Mas o sal não é apenas um condimento.

Como diz Wilson, ele é vital para o bom funcionamento do nosso organismo.

Será que isso explica, em parte, por que achamos esse ingrediente tão atraente?

<><> Sem sal, não há vida

"Os animais, incluindo nós, usam sódio para uma variedade de funções. Ele é essencial para a vida", constata Joel Geerling, professor associado de neurologia da Universidade de Iowa, nos Estados Unidos.

"Cerca de um terço do nosso gasto energético diário está relacionado ao bombeamento de sódio de dentro para fora da célula", enfatiza ele.

"Cada célula do corpo possui uma bomba de sódio-potássio em seu revestimento externo, que funciona o dia todo, e bombeia íons de sódio para fora da célula."

Quando esse sódio está fora das nossas células, ele tenta voltar rapidamente, num mecanismo parecido ao que acontece com a água represada por uma barragem.

Nossas células controlam o movimento do sódio através de canais especiais.

Quando esses canais se abrem, o sódio entra em grande quantidade, e nossas células aproveitam a energia desse movimento para diversos processos.

"Cerca de um terço do nosso gasto energético diário é gasto bombeando sódio de dentro para fora da célula", repete ele.

"Os íons de sódio invadem a célula e causam uma mudança rápida e acentuada na voltagem da membrana, conhecida como potencial de ação no neurônio — não apenas no cérebro, mas também nas células do músculo cardíaco, aquelas que nos mantêm vivos, batimento após batimento", detalha o especialista.

Se não tivéssemos sódio, nossas células simplesmente não funcionariam.

Geerling tem pesquisado o cérebro para tentar entender por que sentimos tanta necessidade de sal.

"Os animais que vivem no mar têm muito sódio ao redor e, na verdade, têm o problema oposto ao dos animais terrestres: eles precisam reter parte do sódio e manter o equilíbrio interno."

Nos animais terrestres, a situação é oposta.

"O sódio é muito escasso na terra. Se você mora longe do mar, e principalmente se não come carne, terá muito pouco sódio na dieta", explica o especialista.

"Os carnívoros comem outros tecidos animais, que têm cerca de 0,9% de cloreto de sódio, então geralmente consomem sal suficiente. Mas os herbívoros, se comerem apenas plantas, terão um teor muito alto de potássio e praticamente nenhum sódio", compara ele.

"Os elefantes são um exemplo famoso. Existem manadas desses animais na África que se lembram da localização de cavernas com sal nas paredes, de onde extraem esse composto com as presas."

"Os cervos procuram depósitos de sal, e os caçadores, para atraí-los, usam blocos de sal [como chamariz]."

"Animais cuja dieta é puramente vegetariana precisam de uma fonte de sal e tendem a apresentar um apetite maior por sal, mesmo na natureza", acrescenta Geerling.

"Os humanos são onívoros, então precisamos garantir que obtemos sal suficiente na dieta, e talvez seja por isso que o desejamos tanto."

<><> Como fazem os elefantes

Hoje em dia, a maioria das pessoas consome sal suficiente na dieta.

Mas, para nossos ancestrais, encontrar esse ingrediente era vital.

E, assim como os elefantes, os humanos antigos eram atraídos por fontes naturais desse precioso mineral.

São lugares como a mina de sal em funcionamento mais antiga do mundo, localizada em uma montanha em Hallstatt, na Áustria.

Há evidências de que as pessoas começaram a extrair sal ali já em 5 mil a.C. e, surpreendentemente, o sal ainda é extraído comercialmente de lá hoje em dia.

"Há 250 milhões de anos, este lugar era a parte rasa de um grande mar, que depois se separou. A água começou a evaporar e, ao longo de milhares de anos, grandes camadas de sal-gema se acumularam. Quando os Alpes se formaram, o calcário foi deslocado sobre essas camadas de sal", diz Daniel Bradner, arqueólogo do Museu de História Natural de Viena, também na Áustria.

A mina de Hallstatt estava localizada a 200 quilômetros do mar, portanto, seus vastos depósitos naturais de sal têm sido um recurso incrivelmente valioso para as pessoas por milhares de anos.

"A mineração começou aqui há 7 mil anos, no período Neolítico. Os primeiros agricultores e colonizadores descobriram o depósito de sal através de nascentes naturais de água salgada na superfície e, então, começaram a escavar", explica Bradner.

"Na Idade do Bronze, por volta de 3,5 mil anos atrás, já existia uma operação de mineração profunda totalmente desenvolvida, estendendo-se a mais de 250 metros abaixo da superfície, com estruturas organizacionais, ferramentas especializadas e um sistema de transporte."

"Eles se dedicavam à mineração de sal-gema em larga escala e eram os principais fornecedores para grande parte da Europa Central", acrescenta ele.

"O sal é uma necessidade para a sobrevivência a longo prazo em um local, por isso era essencial para o estabelecimento [humano] nos Alpes."

<><> Os 'neurônios do sal'

As pessoas que viveram nos Alpes no período pré-histórico também usaram o sal para conservar alimentos e manter os animais vivos durante o inverno.

Se não tivessem o suficiente, as consequências eram terríveis.

"Os órgãos, e todas as células, incham", explica o neurologista Geerling.

"Esse é um problema sério, especialmente no cérebro porque, se inchar demais, ele começa a se projetar através do orifício na parte inferior do crânio, o que é muito perigoso. Portanto, não se pode deixar a concentração de sódio cair muito", complementa o pesquisador.

Parte da pesquisa de Geerling sobre como regulamos a concentração de sal envolve o controle do conteúdo de água no corpo — e a substância responsável por isso é o hormônio antidiurético (ADH).

"Ele informa aos rins quanta água reter, e isso é rigorosamente regulado minuto a minuto, ao longo do dia."

Mas essa não é a única maneira pela qual nosso corpo controla os níveis de sal. Na verdade, em seu trabalho, Geerling descobriu mecanismos no cérebro que impulsionam a busca por esse mineral precioso.

"Em meu laboratório, estudamos um grupo específico de neurônios — os HSD2 — que detectam os níveis de um hormônio chamado aldosterona. Ele é produzido nas glândulas suprarrenais [que ficam acima dos rins] quando o volume de sal e água no corpo é insuficiente e o coração começa a ter dificuldade para manter a pressão arterial", explica ele.

"Nesses casos, os níveis de aldosterona aumentam, e isso leva os neurônios a induzir o animal a buscar e consumir mais sal", acrescenta ele.

"Até agora, identificamos esses neurônios em camundongos, ratos, porcos e humanos. Não fizemos um estudo cuidadoso e deliberado em outras espécies, mas parece que eles estão presentes em mamíferos em geral."

Então, temos neurônios em nossos cérebros que não são apenas dedicados a monitorar a quantidade de sal que consumimos, mas também a nos impulsionar a procurá-lo se necessário.

"Sim, é fascinante. É um comportamento muito específico. Não descobrimos nenhuma outra função desses neurônios. Ainda estamos investigando, mas parece que o que eles causam especificamente é o aumento do consumo de sal pelos animais."

Então, voltamos à pergunta do início da reportagem: por que gostamos tanto de sal?

Por um lado, porque ele altera o sabor das coisas, embora não saibamos exatamente como.

Por outro, porque ele é vital para nossas células — então evoluímos para desejá-lo e achá-lo saboroso nas quantidades certas.

Na verdade, temos até neurônios no cérebro sintonizados que nos levam a procurá-lo. Trata-se de um sistema incrível, projetado com grande precisão para criar o nosso apetite por sal.

 

Fonte: BBC News