terça-feira, 22 de setembro de 2026

Nem impeachment de ministros vai resolver crise do Supremo, avalia Diego Werneck

Quando lançou, em 2023, o seu livro O Supremo: Entre o Direito e a Política, o professor Diego Werneck já lançava uma visão crítica ao peso que poderes individuais dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) podiam ter e sua influência na política brasileira. Agora, três anos depois e com um tribunal imerso em uma crise descrita como sem precedentes, Werneck acha que a situação passou dos limites e não vê uma resolução pelo menos na próxima década. "A gente tem uma crise de muito tempo ainda pela frente, no sentido de que é uma crise da capacidade do Supremo de convencer as pessoas minimamente de que ele não é um ator político como qualquer outro, de que ele não é simplesmente uma versão diferente dos deputados e senadores e do presidente", diz o professor associado do Insper e doutor em direito pela Universidade Yale, nos EUA.

Em entrevista à BBC News Brasil, Werneck avalia que mesmo medidas como o impeachment de ministros, defendido especialmente por parlamentares e candidatos da direita nestas eleições, vão solucionar o "buraco" em que o país se encontra na relação com sua Suprema Corte. "Eu acho que esse tribunal treinou os políticos na última década a indicarem pessoas que vão explorar ao máximo esses poderes individuais, que vão dialogar com os políticos, que vão ser próximos da política. Então, eu não vejo como, no curto prazo, mesmo com o impeachment, essa crise (pode) se resolver", comenta.

Leia abaixo os principais pontos da entrevista:

·        O senhor publicou um livro em 2023 que já trazia uma análise bastante crítica sobre o funcionamento do STF, o poder concentrado na mão dos ministros e a centralidade do tribunal na política. Passados três anos desde o lançamento, esses problemas que o senhor já citava se aprofundaram? O senhor adicionaria um novo aspecto a esse problema estrutural?

Diego Werneck - O livro tinha uma preocupação central que era tentar imaginar o que a gente espera do funcionamento de uma instituição que se apresenta como um tribunal para ser diferente de um ator político como outro qualquer. Um tribunal é uma instituição que precisa convencer as pessoas de que o poder que os juízes exercem vem do fato de que eles não estão inventando soluções ali do nada, mas estão fazendo algum esforço de boa fé para aplicar regras que foram criadas e decisões que outras pessoas, outros tribunais antes deles ou o legislador tomaram.

Além disso, um tribunal precisa aplicar essas regras para resolver conflitos dos quais ele não é parte, porque a gente tem conflitos políticos no Congresso, entre o Congresso e o presidente, que são resolvidos por regras também.

Os tribunais têm garantia de independência e essa autoridade para resolver uma série de questões. Eles estão aplicando regras que eles não criaram, e também deveriam estar aplicando essas regras para resolver conflitos dos quais eles não são parte. Isso é uma simplificação, porque aplicar regras vai envolver juízos políticos. É muito difícil você imaginar que ministros que estão em Brasília e que fizeram carreiras que os tornaram escolhíveis para o Supremo não vão ter algum tipo de proximidade, inclusive com as pessoas que os indicaram. Mas, de alguma forma, o desenho e funcionamento do tribunal tem que ser orientado para jogar sempre as coisas pro outro lado. Mostrar que não estão inventando as coisas da cabeça livremente — como um político pode criar regra no legislativo — e não são simplesmente o mesmo conflito que aparece na política vestindo toga.

Essa explicação é para dizer que acho que piorou muito de lá [2023, lançamento do livro] para cá. Já era muito ruim, mas agora essas duas ideias se agravaram.

·        E em que sentido elas se agravaram?

Werneck - A primeira ideia que se agravou é a ideia de que as regras são opcionais. E os procedimentos, mesmo que tenham uma margem para interpretação e algum tipo de juízo político envolvido, não são opcionais. Você não pode virar e falar: "Quer saber? Eu vou fazer uma coisa completamente diferente, da minha cabeça". E isso tem acontecido muito nesse episódio do dessa crise atual do Supremo.

Por exemplo, o caso do ministro Dias Toffoli [que foi retirado da relatoria do caso do Banco Master]. Independentemente da motivação do ministro Edson Fachin, se era nobre ou não, o fato é que ali se faz algo que não tinha previsão legal.

Uma sessão fechada ao fim da qual o ministro Toffoli desiste de ser relator, coisa que não tem previsão, sem se declarar suspeito. E o tribunal solta uma nota que só confirma a completa heterodoxia ou a gambiarra que foi feita ali. Então, o que aquilo ali sinaliza? As regras são opcionais, os procedimentos são opcionais e a gente constrói conforme a gente anda. E se agravou também o critério de distanciamento da política.

Você pode suspeitar que os ministros têm motivações políticas, e eu acho que essa é uma suspeita permanente no caso do Brasil. No caso do Supremo que a gente tem, a gente deveria ter sempre. Mas você tem essa suspeita, e o ministro deveria estar trabalhando contra ela. Ele está ocultando, ele está adotando um comportamento que exteriormente não te permite fazer essa leitura política, de que ele não tem um lado no conflito para além do Supremo. O que a gente vê muitas vezes são comportamentos que parecem sinalizar um lado claro. Você consegue ver uma continuidade muito clara, até muitas vezes de questões eleitorais e políticas partidárias e o que está acontecendo dentro do Supremo.

·        O senhor está falando de ministros específicos, no caso do conflito entre André Mendonça e Alexandre de Moraes? Ou são todos envolvidos nisso?

Werneck - Acho que os comportamentos são muito diferentes e não acho que todos os ministros podem ser é criticados por esse segundo aspecto da mesma forma.

Por exemplo, o ministro Fachin.

Embora eu ache que ele adotou soluções heterodoxa, como puxar a relatoria do caso, algo que eu nunca tinha visto, não acho que ele tem se comportado de forma a ancorar a interpretação do que ele está fazendo no interesse desse ou aquele ator político de Brasília. Mas, na raiz desses problemas de desenho no Supremo, está o comportamento individual dos ministros e os poderes individuais.

Pega o caso do ministro André Mendonça. Ele adotou uma postura que me pareceu correta, de enviar a questão (se abre investigação contra Moraes) para o colegiado decidir, o que me parece uma autolimitação do seu poder individual. Porém, ele vai lá e libera o sigilo quatro, três dias antes de liberar para o plenário. Esse é um exemplo de uma decisão individual que muda já o cenário, já produz efeitos políticos, já produz efeitos na opinião pública, sem que o colegiado tenha a chance de decidir se aquilo vai acontecer ou não. Então, o ministro André Mendonça, indicado pelo ex-presidente Bolsonaro, num contexto em que tem sido questionado o quanto que a sua motivação não está ligada ao timing das eleições, ele toma uma decisão, que independentemente da motivação dele se é essa ou não, reforça essa leitura.

Seria diferente se o colegiado decide. Qualquer crítica de comportamento político, de motivação política, se enfraquece, porque é um colegiado de ministros indicados por presidentes diferentes, ministros que não têm nada em comum em muitas coisas.

Outro exemplo é ministro Mendonça monocraticamente suspender também o Andrei Rodrigues, diretor da Polícia Federal. Ele imediatamente liberou para turma, o que é bom, mas ele também já está criando o fato consumado. Aí vem o ministro Flávio Dino, e num outro processo que não tinha nada a ver com tema, inventa uma uma nova gambiarra para dizer "não, eu vou na prática reformar sua decisão". Flávio Dino, indicado recentemente pelo governo do PT, em uma eleição que está sendo pensada a partir desse conflito...

É muito diferente se fosse um voto do ministro Flávio Dino num colegiado de vários.

O colegiado tem uma força de contenção da politização individual e de qualquer leitura politizante da decisão. A leitura vai acontecer, mas ele ajuda a minorar esse efeito.

·        Dando esses exemplos, eu fiquei pensando num termo que o senhor usa nas suas pesquisas, que é o "ministrocracia" (quando a ação de um ministro do STF pode influenciar o processo político decisório, criando problemas para a justificação do poder do tribunal em um regime democrático). A gente está vivendo o auge dessa ministrocracia?

Werneck - Olha, estranhamente, o que está acontecendo nessa crise atual é uma expressão de que, sim, a ministrocracia vai bem, obrigada. E "estranhamente" porque houve reformas importantes que procuraram limitar isso (sob a presidência de Rosa Weber). O Supremo criou regras que obrigam o ministro, quando dá algum tipo de medida cautelar, imediatamente liberar para apreciação do colegiado. Isso foi uma medida importante, mas ela é incompleta.

Primeiro, porque nem todas as decisões monocráticas são do tipo medida cautelar, mas podem, ainda assim, ter um grande efeito político no mundo. Por exemplo, a decisão do ministro Toffoli, quando na Lava Jato, ele anula boa parte das delações. Aquilo era uma decisão monocrática, mas não era uma decisão cautelar, era de mérito.

Segundo, tem decisões que deveriam estar sujeitas à regra, mas os ministros encontram maneiras de esburacar a regra. O ministro Flávio Dino, até onde eu entendi, na cautelar que ele deu determinando a recolocação do diretor da PF no cargo, não liberou para apreciação de algum colegiado, porque formalmente não foi nomeada como uma medida cautelar. O ministro Alexandre de Moraes também já fez isso em alguns casos envolvendo ordem de prisão no processo contra Jair Bolsonaro e processos conexos ali ao 8 de janeiro, em que ele interpreta as medidas não como uma decisão nova, mas como uma replicação de decisão que já foi tomada antes.

E tem um terceiro ponto, que é: mesmo que as duas primeiras não fossem verdade na política brasileira, decidir primeiro individualmente e depois perguntar o que os colegas acham muitas vezes já é mudar o jogo, como o exemplo da decisão de (Mendonça de) levantar o sigilo. Essa decisão, quando ela já muda o status quo, ela empareda o colegiado. Tem uma tendência natural a quem está nessa situação de pensar sobre o problema de forma diferente, que é: "Bom, talvez eu não tivesse feito isso. Mas agora que foi feito, eu não quero assumir a responsabilidade de reverter".

Um exemplo é uma cautelar do ministro Nunes Marques durante a pandemia, que autorizou, num sábado de noite, a realização de cerimônias religiosas para a Páscoa naquele domingo, de forma presencial. Uma decisão gravíssima que, mesmo nas regras atuais, não teria dado tempo de reverter e já havia produzido efeitos no mundo. Então, assim, as mudanças foram boas, mas elas foram incompletas em várias dimensões. E talvez a principal dessas dimensões é decidir sozinho, especialmente num clima político conflagrado, em que os ministros estão cada vez mais próximos da política. É arrastar o colegiado com você para um fato consumado que você já determinou.

A crise atual do Supremo tem vários problemas, é simplista dizer 'olha aí, o problema é ministrocracia'. Porém, acho que não estaríamos onde estamos hoje se esse não fosse um tribunal em que ministros individuais têm tantas prerrogativas para alterar o status quo político fora do tribunal apenas por força da sua decisão individual. E isso reforça a leitura de politização, isso de fato politiza o tribunal, porque ministros que têm a motivação política conseguem produzir esses efeitos.

·        A situação em que estamos hoje tem a ver, então, com as característica individuais desses ministros que foram indicados e que fazem esse uso das decisões monocráticas?

Werneck - As características individuais vão existir em qualquer tribunal. O que eu acho que o sistema atual faz é permitir que características e vontades individuais se expressem em mudanças na política. E aí não é só o problema de decisão, mas um problema de liberdade de comportamento, que é um outro problema do Supremo.

A discussão do código de ética, que é apenas a ponta de um iceberg de um problema muito maior, é uma forma de encaminhar uma discussão anterior. Que é: para garantir que essas pessoas exerçam o grande poder que tem de uma forma que seja imparcial, a gente precisa se preocupar não só com o que eles fazem processualmente, mas com o seu comportamento público, com quem eles se encontram, como eles se posicionam publicamente. E nesse aspecto, esse é um dos pontos mais baixos da história do tribunal.

·        O senhor tem falado sobre duas crises diferentes no Supremo, uma de conjuntura e uma estrutural. Mesmo considerando que essa primeira crise, a respeito do conflito entre Moraes e Mendonça, seja resolvida, como fica a segunda? O senhor vê solução com o quadro de ministros que a gente tem?

Werneck - É uma suposição muito forte assumir que teria solução para a crise do momento, porque me parece que precisaríamos de decisões e me parece que a gente não vai ter decisões. A incapacidade do colegiado de decidir e esses comportamentos individuais contraditórios de André Mendonça, Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Gilmar Mendes e de outros ministros só vão complicar a situação. Em tese, deveria ser uma saída simples, que é levar tudo para o plenário e decidir no colegiado todas as questões. Quem perder perdeu.

Mas ela não vai acontecer porque parece que os ministros não conseguem mais perder. O mais importante é ganhar. E, se eu tiver que adotar comportamentos públicos que vão ser lidos de uma forma que prejudique minha imparcialidade, tudo bem. E, se eu tiver que inventar procedimentos e regras e extrair o máximo dos meus poderes individuais, tudo bem também. Mas digamos que o tribunal conseguisse decidir. Mesmo que a gente tivesse resposta às questões, eu acho que a gente tem uma crise aí de uma década.

A gente tem uma crise de muito tempo ainda pela frente, no sentido de que é uma crise da capacidade do Supremo de convencer as pessoas minimamente, de que ele não é um ator político como qualquer outro, de que ele não é simplesmente uma versão diferente dos deputados e senadores e do presidente, porque tem poderes diferentes. Mas são poderes diferentes, com a mesma lógica. A consolidação desse ceticismo geral ficou oculto muitos anos, me parece.

Eu cito um trabalho da Fabiana Luci de Oliveira, Luciana Gross Cunha e Luciana Ramos, em que elas fizeram uma pesquisa sobre o Supremo na pandemia, perguntando para as pessoas várias coisas sobre confiança no tribunal. E uma das conclusões a que elas chegaram é perturbadora. É que a concordância com as decisões era um ótimo preditivo do quanto você confia no tribunal como instituição.

Isso pode parecer óbvio, mas na verdade é muito preocupante.

O tribunal precisa desagradar as pessoas com as decisões. As pessoas precisam ser capazes de apoiar o tribunal, mesmo se elas não gostarem que está sendo decidido. Isso é ter um juiz, isso é ter um árbitro que está resolvendo um problema. Não é porque quer te agradar, mas porque alguém tem que tentar pegar essas regras, a Constituição, e fazer a melhor leitura que conseguir, com divergência, com conflito, com viés que seja, mas da forma mais independente possível daquele problema.

E existe uma outra dimensão que eu queria colocar. Os ministros são muito úteis para os políticos. Existe esse caminho possível que é — dependendo da composição política do Senado e de quem ganha a Presidência — um cenário de a gente ter reformas e impeachment. Mas eu não acho que isso resolve o problema.

·        Por que impeachment não resolveria o problema?

Werneck - Porque duas coisas vão acontecer, eu acho, simultaneamente nesse cenário, se essas ameaças de fato aparecerem.

Primeiro, pode ser que o comportamento dos ministros não fique contido diante da ameaça, mas que eles fiquem ainda mais políticos, no sentido tanto de contra-atacar quanto de chegarem a algum tipo de acomodação com os políticos. "Não precisa fazer isso, e a gente também não usa o nosso poder contra vocês de uma forma tão agressiva." Essa é uma acomodação que pode acontecer e que não vai fazer as pessoas lerem o tribunal como não sendo um ator político. E as indicações. Mesmo que tenha o impeachment, as pessoas precisam ter em mente que o impeachment não é tirar um ministro, é abrir uma vaga também.

E quem que vai ser colocado nessas vagas?

Eu acho que esse tribunal treinou os políticos na última década a indicarem pessoas que vão explorar ao máximo esses poderes individuais, que vão dialogar com os políticos, que vão ser próximos da política. Então, eu não vejo como, no curto prazo, mesmo com o impeachment, essa crise (pode) se resolver. Não é que nunca houve indicação de ministros que tinham um perfil mais próximo da política, mais próximo dos atores políticos que o indicaram. Sempre houve, mas era um ou outro dentro de várias vagas e muitas vezes eram ministros que não tinham relação pessoal com o presidente que indicou, não tinham passagem relevante pelo governo, não eram pessoas que tinham essa disposição para dialogar com políticos.

Mas agora, de Alexandre de Moraes (indicado por Michel Temer, em 2017) pra cá, tem sido tem sido um elemento predominante nas indicações. Mesmo se, na composição atual, os ministros dissessem "vamos tentar moderar o nosso comportamento", o que não vai acontecer, eu acredito que quem quer que seja o próximo presidente não vai virar para o tribunal e falar: "Eu sei do que esse tribunal é capaz. Eu sei o quanto que representa para mim ter um aliado fortíssimo numa dessas vagas. Eu sei o quanto isso pode fazer diferença até eventualmente numa eleição. Mas mesmo assim eu vou indicar uma pessoa que eu acho que compartilha de certos valores, mas que eu sei que nunca vai atender a um telefonema meu, que eu sei que nunca vai estar disposta a construir uma solução politicamente, independentemente do que as regras estejam dizendo". Infelizmente, a tendência, realisticamente, é que os presidentes, quem quer que seja, façam o contrário disso.

·        O senhor falou em crise de uma década, mas esse cenário que o senhor está desenhando me parece algo ainda a mais longo prazo...

Werneck - É, eu acho que uma década talvez seja pouco. Mas eu acho que uma década talvez comece a ser tempo suficiente para começar a acontecer uma outra coisa, que é uma mudança geracional na comunidade jurídica, com pessoas que estão agora no meio de sua carreira, que estão vendo o que está acontecendo e que de alguma forma deem valor a procedimento e regras. Eu acho que talvez uma década é o mínimo para que comece a haver uma mudança em termos de uma geração que ainda não está em posições relevantes, mas está quase lá. E que olhe o que está acontecendo, faça um juízo negativo do que está acontecendo, e quem sabe vá construir uma comunidade jurídica com pessoas que possam, inclusive, daqui a 20 anos, estarem em tribunais superiores, estar no Supremo, que se comprometam com algumas ideias básicas. A ideia de que essa é uma função, justamente por ser tão poderosa, justamente por ser tão importante para o país, que me limita. Esse é um poder que tem como preço não poder fazer qualquer coisa. Esse é um poder que tem como preço estar de mãos atadas em muitas situações nas quais eu, politicamente, moralmente, queria fazer diferente.

·        E estabelecer mandato com um tempo fixo, acha que é um caminho?

Werneck - Eu sou favorável ao mandato. Tem vários problemas de como implementar, vai gerar efeitos daqui a muito, muito tempo. Me parece que o principal ponto do mandato não é limitar o tempo que o ministro fica, porque isso já existe hoje, né? A idade dele determina quanto tempo ele fica. O problema é que você tem mandatos individuais. Então, tem o ministro que é indicado com 40 anos, ele vai ter um mandato de 35 anos lá no Supremo. O problema é que tem um que vai ficar 12 e outro vai ficar 35. E acho que isso gera incentivos ruins para presidentes indicarem pessoas cada vez mais jovens. E, por serem mais jovens, vão ter uma trajetória menos consolidada e vão ter menos coisas a perder se forem vistas como submissas aos políticos.

Um mandato combinado, sobretudo elevando uma idade mínima para sei lá, 45, 50 anos, não vai impedir o problema, mas pelo menos restringe o leque de pessoas que um presidente pode virar e falar "eu quero uma pessoa que mais seja incapaz de dizer não para mim". O mandato é importante, elevar a idade mínima é importante, mas quero deixar claro que não acho que sejam medidas que vão produzir efeito na próxima década. Isso é a gente se preparando para reduzir a chance de passar pelo que a gente está passando agora daqui a 20 anos.

O que eu acho que é mais urgente é a questão dos poderes individuais.

A crise atual do momento não vai sumir com isso, mas se a gente reduz drasticamente os poderes individuais de ministros para bloquearem decisões, decidirem sozinhos, emparedarem seus colegas de colegiado, nos próximos anos a gente consegue já ver algum efeito positivo. Uma vez que todo mundo esteja vendo publicamente os ministros se comportando, decidindo e usando da forma mais bruta seus poderes individuais, de maneiras que eles não estão te dando nenhuma razão para não ler isso de forma política, como que a gente vai "desver" isso?

Isso vai tomar tempo.

Mas eu acho que as pessoas têm uma responsabilidade, a comunidade jurídica e a imprensa também, de nos perguntar o quanto que nós não estamos aprovando no curto prazo a política que a gente acha legal, a decisão individual contra o colegiado, o pedido de vista que muda o jogo, que a gente acha é justificado, correto. Se você passa a achar que, porque você concordou com aquele uso do poder individual, então tudo bem; se o procedimento só é bom se leva para o resultado que eu quero... Esse é um buraco do qual a gente não vai conseguir sair enquanto a gente não parar de pensar nesses termos. Não faz nem sentido pensar que essas instituições se justificam se não for com base nessas ideias mínimas, de que elas podem até ser influenciadas pela política, podem ter decisões que têm efeito político, mas o desenho da instituição, as regras que estruturam como os ministros deveriam decidir e se comportar, são todas feitas para reforçar a ideia de que não são atores políticos iguais a aqueles em que você vota.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Liszt Vieira: Imaginando o improvável retrocesso

Segundo o DataFolha de 17 de setembro, Lula tem 46% e Flávio Bolsonaro 44% no segundo turno. Essa diferença de dois a três por cento pró Lula, muito consistente nas últimas semanas, foi a mesma do resultado em 2022. As chances de se criar novos fatos contra Lula e seus aliados mais próximos é muito baixa. Já contra Flávio Bolsonaro, são muito maiores e bem possíveis. Lula tem a máquina do governo nas mãos e isso pode fazer ainda mais diferença, exatamente o contrário da outra vez em 2022.

Mas a eleição não está nada garantida e não se pode descuidar ou errar muito. As probabilidades de vitória de Lula continuam a ser muito grandes, principalmente se atacar Flávio Bolsonaro com mais veemência, vinculando-o a seu amigo Daniel Vorcaro. Outro ponto importante seria Geraldo Alckmin entrar na campanha com mais energia, mostrando mais a cara.

Assim, faço parte daqueles que acreditam na vitória de Lula, embora por pequena margem, como na última eleição. Mas, como exercício, vamos considerar o que ocorreria na hipótese contrária.

De acordo com as posições já anunciadas publicamente pelo candidato Flávio Bolsonaro, a economia, se eleito fosse, teria uma guinada liberal mais profunda, com uma redução importante do tamanho do Estado, privatizações e redução da carga regulatória. Mais recentemente, sua coordenadora econômica chegou a dizer que Javier Milei é uma referência para a equipe. Segundo Daniella Marques, coordenadora econômica da candidatura, a experiência da Argentina com Javier Milei é um “ótimo exemplo” e promete corte de gastos, revisão de benefícios tributários, privatizações e mudanças no funcionamento das estatais.

Ou seja, arrocho salarial, repressão aos pobres e aposentados que passaram na Argentina a comer carne de burro, quando comem. Esse modelo, baseado em cortes de verbas na saúde e educação, principalmente, e redução no emprego, indústria e consumo, está quebrando a Argentina! Só no primeiro ano de governo, a redução nos gastos com obras públicas chegou a 87%. Nos recursos discricionários para as províncias, a diminuição foi de 76%.

Desde a chegada de Javier Milei ao poder, mais de 30 mil empresas fecharam na Argentina. Empresários e economistas atribuem esse movimento a uma combinação de fatores, como queda do consumo interno, perda do poder de compra das famílias, custos operacionais elevados e, principalmente, maior concorrência externa após as medidas de abertura econômica. Dados da Universidade Nacional de Buenos Aires (UBA) mostram que, entre novembro de 2023 e abril de 2026, o salário mínimo perdeu 39,3% de seu poder real de compra. Energia e serviços públicos ficaram 249% mais caros em termos reais. O peso valorizou 30%, encarecendo a produção local e afogando quem produz.

Levando em conta declarações anteriores do candidato Flávio Bolsonaro, ele tomaria decisões no sentido de acelerar privatizações e concessões, redução de ministérios e órgãos públicos, desregulamentação, redução do gasto público, revisão de políticas de subsídios, maior participação privada em serviços públicos e reformas para reduzir custos trabalhistas e empresariais. No que se refere a direitos trabalhistas e previdência, uma orientação econômica inspirada em Javier Milei e na desregulamentação tende a favorecer menor custo de contratação, com redução de salário e das obrigações empresariais.

Quanto ao meio ambiente, o negacionismo climático do bolsonarismo propõe supressão do licenciamento ambiental, expansão da mineração, abertura de terras indígenas para exploração econômica, redução das restrições ambientais ao agronegócio, crítica às organizações ambientalistas e redução da capacidade de fiscalização ambiental. O candidato Flávio Bolsonaro já se pronunciou diversas vezes contra determinadas políticas de demarcação e a favor de maior liberdade para exploração econômica de Terras Indígenas.

Isso significa dificultar novas demarcações, ampliar atividades econômicas em terras indígenas, facilitar mineração, reduzir restrições à exploração de recursos naturais, diminuir o poder de órgãos ambientais e indigenistas e enfraquecer a proteção territorial indígena construída nas últimas décadas.

Outro ponto sensível seria a guerra contra a cultura. Na prática, isso significa reduzir financiamento público, mudar critérios da Lei Rouanet, ampliar fiscalização ideológica dos projetos, privilegiar manifestações culturais consideradas conservadoras e diminuir o papel do Ministério da Cultura.

O conservadorismo cultural levaria a um enorme estrago na educação, com a expansão das escolas cívico-militares, maior disciplina escolar, combate ao que o bolsonarismo chama de “ideologia de gênero”, restrições à educação sexual, maior controle ideológico sobre os conteúdos do currículo, valorização de educação moral e cívica. O objetivo não é mais ensinar o aluno a pensar, mas ensinar o aluno a obedecer.

As escolas ficariam submetidas a um controle político rígido. Quando era deputado estadual, Flávio Bolsonaro apoiou o projeto “Escola sem Partido”. O texto estabelecia, entre outras coisas, que os alunos não deveriam receber conteúdos que pudessem entrar em conflito com as convicções religiosas ou morais dos pais.

Em relação à ciência, o desprezo seria generalizado, como se viu no governo de Jair Bolsonaro, mas determinadas áreas seriam particularmente atacadas. Entre elas, destacam-se as ciências humanas, pesquisa ambiental, os estudos climáticos, as pesquisas sobre gênero e sociedade, as universidades públicas quando produzissem resultados politicamente incômodos para o governo. O financiamento para pesquisa científica seria bastante reduzido. A vacina voltaria a ser boicotada pelo governo e a Terra voltaria a ser plana, segundo políticos bolsonaristas.

Um ponto que não deve ser esquecido é a questão da anistia de Jair Bolsonaro e dos envolvidos nos processos relacionados à tentativa de golpe de 8 de janeiro. Isso poderia produzir uma forte disputa institucional porque a extensão e os efeitos de uma anistia dependeriam do Congresso e poderiam ser submetidos ao controle do STF.

Mas a transformação mais radical talvez fosse a política externa. Flávio Bolsonaro vem defendendo uma aproximação muito maior com Donald Trump, os Estados Unidos e Israel, e um afastamento do Brics, da China e da Rússia, em que pese as relações comerciais com esses países. Na hipótese improvável de um novo governo bolsonarista, as posições atualmente apresentadas incluem saída do Brics, aproximação com os EUA, Israel e adesão ao chamado “Escudo das Américas”.

O Brasil abandonaria sua atual política autônoma e multilateral para se subordinar a um maior alinhamento estratégico com Washington. Isso não significaria necessariamente rompimento comercial com a China, mas sim uma mudança de orientação geopolítica: de país autônomo a país subordinado aos interesses dos EUA. Isso pressupõe desde entregar minerais estratégicos até apoio ao massacre dos palestinos por Israel no Oriente Médio. Ou seja, o Brasil se tornaria colônia dos EUA.

Na Segurança Pública, um ponto importante é o armamento da população mediante o aumento da circulação legal de armas e redução das restrições administrativas. Defenderia o endurecimento das penas, presídios de segurança máxima, redução da maioridade penal, classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações narcoterroristas, por ordem de Donald Trump, e apoio às milícias do Rio de Janeiro, às quais Flávio e Jair Bolsonaro sempre foram ligados e já chegaram até a defender as milícias publicamente.

Com efeito, Flávio Bolsonaro já fez declarações favoráveis às milícias. Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como integrante da milícia de Rio das Pedras e ligado ao chamado Escritório do Crime, foi homenageado por Flávio Bolsonaro na Alerj e recebeu a Medalha Tiradentes em 2005.

Flávio e Jair Bolsonaro chegaram a visitá-lo na prisão. E familiares de Adriano da Nóbrega foram empregados no gabinete de Flávio Bolsonaro. Assim, Flávio Bolsonaro iria discursar contra o tráfico de drogas e as facções, enquanto as milícias seriam tratadas predominantemente como “forças de segurança territorial” ou como um problema secundário.

Em relação às mulheres, não chegaria ao extremo proposto por seu amigo e apoiador Paulo Figueiredo, comparsa de seu irmão Eduardo nos EUA, que quer suprimir o voto feminino. Paulo Figueiredo declarou que “mulher vota estatisticamente muito mal, principalmente as solteiras, pois as mulheres casadas, em geral, tendem a acompanhar o voto do marido”. Mas Flávio Bolsonaro certamente apoiaria propostas conservadoras como legislação mais restritiva ao aborto, cancelando por exemplo o aborto legal de menor em caso de estupro, e rejeição dos direitos reprodutivos.

O Brasil tem 12 candidaturas validadas pela Justiça Eleitoral para Presidente da República. O único candidato que recebeu dinheiro do Banco Master foi Flávio Bolsonaro, comprovadamente corrupto, que embolsou o dinheiro roubado por Daniel Vorcaro alegando despesas com o filme sobre seu pai. E, por incrível que pareça, não parece ter tido prejuízo eleitoral com isso.

Para imaginar o que faria o candidato Flávio Bolsonaro, na hipótese improvável de sua vitória, é importante levar em conta que o programa que realmente importa não é o registrado no TSE, mas o que está inscrito nas declarações e na sua trajetória política. Isso permitiria avaliar melhor o retrocesso em relação às conquistas sociais, econômicas, políticas, ambientais, científicas, diplomáticas e éticas das últimas décadas.

¨      Tudo se decidirá em duas semanas. Por Valério Arcary

Tudo se decidirá em duas semanas. Mas quem tem iniciativa tática conquista vantagem. Prevaleceu, finalmente, no comando da campanha o sentido de máxima urgência diante de uma eleição indefinida. As decisões de aumentar o valor do Bolsa-Família, de assumir o acesso às canetas emagrecedoras, gratuitamente, pelo SUS, e enfrentar a epidemia de endividamento pelas bets como uma tragédia de saúde pública vieram atrasadas, mas ainda a tempo de incidir na disputa da pauta das eleições, ao lado do fim da jornada 6×1.

A apresentação da biografia de Lula e, mais importante, a defesa do legado do governo, em especial diante da inescapável comparação com as calamidades da gestão Bolsonaro, foram necessárias nas primeiras semanas de campanha. Foi, também, uma decisão justa fazer a defesa da soberania, diante da interferência de Donald Trump, e da democracia, diante do perigo autoritário do retorno do bolsonarismo ao poder, ambicionando uma maioria absoluta no Congresso, em especial no Senado, e o controle do STF (Supremo Tribunal Federal) com a nomeação de ministros “terrivelmente” reacionários.

Mas a dinâmica da disputa exigia um reposicionamento emergencial, assumindo novos compromissos para o futuro, porque esta eleição é diferente da campanha de 2022. Um giro era necessário, e oxalá se mantenha. O que não avança, recua. Propostas como a defesa da regulamentação de imposto sobre as grandes fortunas e o passe livre, como exemplos de compromissos para o quarto mandato, mereceriam ser, também, consideradas.

Não só têm audiência de massas e podem energizar a mobilização da militância que será indispensável, mas respondem a expectativas adiadas por décadas que podem fazer a diferença em uma eleição que será definida por uma margem de votos, dramaticamente, estreita. A resposta ao medo deve ser a agitação da esperança de que dias melhores virão.

A sessão do STF foi um escarcéu confirmando que não havia remédio jurídico para um julgamento político. Mas o desfecho permitiu ganhar tempo. Foi evitado que as duas últimas semanas de campanha eleitoral tivessem como pauta a corrupção. Devemos ter sentido de perspectiva considerando a correlação de forças no Tribunal e na sociedade.

Pior teria sido se fosse iniciada a investigação somente contra Xandão, porque este desenlace iria eletrizar o núcleo duro bolsonarista associando Lula a Alexandre de Moraes em um amálgama manipulador e desonesto. Melhor teria sido, evidentemente, se tivesse vencido a questão de ordem apresentada por Gilmar Mendes, e todos os ministros suspeitos de envolvimento com favores de Vorcaro, todos sem exceções, fossem investigados.

Mas isso era impossível. A solução de impasse pelo pedido de vistas de Dino foi um mal menor. Impasse é muito melhor do que derrota. O objetivo de Edson Fachin era abrir a investigação contra Alexandre de Moraes antes do primeiro turno, o que turbinaria, inevitavelmente, a campanha “Fora Xandão, Fora Lula”. Ninguém deveria se surpreender que tenha sido apoiado por Luiz Fux o ministro que absolveu Jair Bolsonaro no julgamento por golpismo.

Mas é bom lembrar que foi por um triz. Felizmente, as informações disponibilizadas no celular de Daniel Vorcaro, na véspera e sob intensa pressão, provocaram pânico em Nunes Marques, que se declarou impedido. Mas estão equivocados aqueles que na esquerda se uniram à louvação de Carmem Lúcia deixando-se “hipnotizar” pela defesa da “dignidade” do Supremo. O voto dela contra um julgamento unificado de todos os envolvidos em relações suspeitas com Daniel Vorcaro favoreceu a manobra de André Mendonça, e revelou uma completa incompreensão do perigo neofascista colocado por uma possível volta do bolsonarismo ao poder.

A fração liberal da classe dominante apoiou, irresponsavelmente, a manobra de André Mendonça de manipular a eleição associando Lula a Alexandre de Moraes como denúncia de um “sistema podre de corrupção”. Facilitaram a tentativa de subverter a pauta do debate eleitoral para elevar o nível de exigências à candidatura Lula. Não têm muitos votos além da classe média abastada, mas têm peso político-social.

Ninguém pode desconhecer que a pauta da corrupção favorece a extrema direita. Este paradoxo é escabroso porque é um fato inescapável que o candidato Flávio Bolsonaro manteve relações indefensáveis com banqueiro preso Daniel Vorcaro. Mas grandes grupos capitalistas que se expressam por meio da Rede Globo e Folha de S. Paulo, além de outras empresas de comunicação social, estão fazendo, despudoradamente, um ultimato para que Lula se comprometa com um ajuste fiscal que garanta pelo menos entre 2% e 3% de superavit fiscal.

Encontraram acolhida em setores do governo, como o ministro da Fazenda Dario Durigan, que sinalizou até a desvinculação do salário mínimo como piso da remuneração dos benefícios da Previdência Social. A grande mídia comercial está flertando com a catástrofe: o perigo de uma nona vitória da extrema-direita (Argentina, El Salvador, Equador, Chile, Bolívia, Honduras, Colômbia e Peru), desde que Trump voltou ao poder é real e imediato.

A chantagem da Casa Branca vai ficar mais ameaçadora nas próximas duas semanas, a pretexto do discurso de Lula na abertura da Assembleia das Nações Unidas. Já ficou demonstrado que a agitação de represálias contra o Brasil para disseminar o medo é funcional. Devemos estar conscientes de que a interferência dos EUA, que começou há um ano em julho de 2025 com o tarifaço, pode ser decisiva.

O resultado da campanha eleitoral está imprevisível. Tanto podemos vencer quanto perder. A mais recente pesquisa Datafolha revelou, pela terceira semana seguida, apesar do tumulto no STF, que se mantém um empate técnico no segundo turno de Lula 46% contra 44% de Flávio Bolsonaro, e rejeição de ambos em 47%. Confirmou, também, que é muitíssimo provável que haja um segundo turno, e que a diferença a favor de Lula no primeiro turno veio diminuindo.

Mas sinaliza um aumento da aprovação do governo, e esta é a informação mais animadora. Todas as oscilações são nos limites da margem de erro. Dados desagregados mais relevantes são que Lula mantém maioria entre os mais pobres (46% a 29%) que representam gigantescos 49% do eleitorado, no Nordeste (56% a 26%) que correspondem a 27%, defende um empate técnico, ainda que numericamente atrás, no Sudeste que concentra 42% da população (35% a 37%), vantagem entre os menos instruídos (47% a 30%), que são 28% do da sociedade, e católicos (43% a 34%) que são metade do povo.

Flávio Bolsonaro mantém vantagem entre os remediados (41% a 33%) que ganham entre 2 e 5 salários-mínimos, e são 34% da classe trabalhadora e, sobretudo, na classe média acima de R$7.500,00 reais (44% a 28%) que são 12% do eleitorado, embora a margem de erro da pesquisa nos dois segmentos seja de 6 pontos. Mantém vantagem no Sul (45% a 27%), que são 15% dos eleitores. A extrema direita tem maioria entre os brancos e quem tem escolaridade média, além de diminuir a desvantagem entre as mulheres.

Mas Lula tem 35% na pesquisa espontânea, menos 4% que na estimulada, e Flávio 26%, menos 10% que na estimulada, uma adesão menos consolidada, em um contexto em que 21% não fizeram sua escolha. Isso significa que há ainda um espaço grande de disputa. Aonde a votação de Lula pode crescer? O que a história dos últimos dez anos nos sugere é que será entre os trabalhadores, negros e mulheres, considerando que na classe média se consolidou um anti-lulismo ressentido.

Devemos esperar, também, que uma parte dos 15% de preferências que se distribuem entre Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Renan Santos e Romeu Zema se deslocarão para FlávioBolsonaro já no primeiro turno.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Hábito de leitura ajuda a preservar saúde mental

Seja um mangá ou um romance de Machado de Assis, ler por prazer favorece a saúde mental, com ganhos que vão do aumento da empatia ao risco reduzido da doença de Alzheimer. Novos estudos de neuroimagem demonstram que o hábito, quando voluntário, está associado a diferenças na estrutura do cérebro, como volume aumentado em regiões envolvidas em aprendizado, linguagem, regulação emocional e controle das funções executivas, aquelas que gerenciam pensamentos e ações para se atingir um objetivo. 

Pesquisas também relacionam a leitura a uma conectividade mais forte da substância branca e aumento da espessura cortical em áreas-chave do cérebro onde ocorre o processamento da linguagem. Embora muitos desses estudos mostrem apenas associações, alguns já conseguem estabelecer evidências de causa e efeito, argumenta Barbara Sahakian, do Departamento de Psiquiatria da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Ela é um dos autores de um artigo publicado na revista Psychological Medicine no qual descreve os múltiplos benefícios do hábito para a saúde mental. 

"A leitura é uma ótima maneira de cuidar da saúde do cérebro, desenvolver habilidades cognitivas importantes e melhorar o bem-estar", enumera Sahakian. "É algo que devemos incentivar desde cedo, considerando as crescentes evidências de seus benefícios, principalmente para as crianças, mas, na verdade, nunca é tarde para começar, e os benefícios podem persistir ao longo de toda a vida, inclusive na velhice."

<><> Massa cinzenta

Um dos estudos com relação causal descritos no artigo foi conduzido por Anthony J. Krafnick, da Universidade de Georgetown, em Washington, nos Estados Unidos, e incluiu 11 crianças com dislexia na faixa etária de 7 a 11 anos. Segundo a pesquisa, um treinamento de oito semanas com foco em imagens mentais, traçado de letras e articulação de palavras melhorou significativamente as habilidades de leitura, sendo que alguns dos benefícios foram mantidos em uma avaliação realizada dois meses após o fim do programa. Os ganhos cognitivos foram acompanhados por aumento no volume de substância cinzenta — o "processador" de pensamento, controle muscular e percepção dos sentidos — em cinco regiões cerebrais, o que foi calculado por um exame chamado morfometria baseada em voxel (MBV). 

"A leitura é uma experiência cognitiva muito completa. Quando uma criança lê ou escuta uma história, ela precisa sustentar a atenção, acompanhar a sequência dos acontecimentos, lembrar personagens, antecipar hipóteses e organizar informações para compreender o sentido do texto", observa Raquel Nazário, diretora e gestora educacional da escola Maple Bear Brasília. "Esse processo mobiliza memória, linguagem, imaginação e funções executivas, como planejamento, flexibilidade de pensamento e controle inibitório." Segundo a pedagoga, quanto mais prazerosa e frequente a prática na infância e na adolescência, maiores os ganhos em concentração, interpretação, conexões e execução de tarefas complexas. 

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim, de Brasília, observa que começar cedo a gostar de ler pode ter impactos cognitivos duradouros. "Um estudo com mais de 10 mil adolescentes constatou que aqueles que começaram a ler por prazer na infância apresentaram, mais tarde, melhor atenção, memória de trabalho, memória episódica e controle inibitório", relata. "Também tiveram melhor desempenho acadêmico e menos problemas relacionados à saúde mental, além de diferenças em áreas do cérebro ligadas à linguagem e à cognição."

<><> Plasticidade 

Gebrim afirma que mesmo quem começou a ler mais tarde pode se beneficiar. "O cérebro continua plástico. Temos estudos mostrando mudanças no cérebro de adultos que passaram por processos de alfabetização, acompanhadas de melhora na leitura e na escrita", diz. Em 2013, um artigo da Universidade do Sul da Califórnia, publicado na revista Scientific Studies of Reading, por exemplo, demonstrou que, em pessoas de 18 a 25 anos, uma exposição maior à leitura aumentou a espessura cortical em regiões importantes do processamento da linguagem. 

A neuropsicóloga ressalta, porém, que ainda não é possível saber se quem começa a ler por prazer depois dos 40 anos sofre alterações cerebrais estruturais. "Mas eu acho essa possibilidade muito interessante. Não existe uma idade atrasada para começar a estimular o cérebro. Se a leitura desperta interesse e prazer, ela coloca atenção, memória, linguagem, imaginação e compreensão para trabalhar. E isso já é um ótimo motivo para abrir um livro, independentemente da idade.

Outro benefício para adultos leitores é uma possível proteção contra a neurodegeneração. Barbara Sahakian, da Universidade de Cambridge, observa que há um conjunto de evidências observacionais que relacionam atividades de lazer cognitivamente estimulantes, como a leitura, a um declínio cognitivo mais lento e a um risco reduzido de demência em idosos. Uma dessas pesquisas, com dados de 1.939 pessoas, foi publicada neste ano na revista Neurology. Os autores descobriram que, entre aquelas que passaram a vida lendo por prazer, o risco de desenvolver a doença de Alzheimer foi 36% menor. Os autores ressaltam, porém, que não se trata de uma relação causal.

<><>  Uma janela para o mundo 

Os benefícios da leitura prazerosa vão além da consolidação da memória ou do aperfeiçoamento linguístico. No artigo de revisão publicado na revista Psychological Medicine, os autores destacam os ganhos socioemocionais, como redução do estresse, maior relaxamento, mais empatia e compreensão pelos outros e uma atitude mais tolerante em relação a diferentes perspectivas. 

"Quando a pessoa se envolve com uma leitura agradável, sua atenção se afasta, por algum tempo, das preocupações, e isso ajuda a diminuir pensamentos repetitivos e produz uma sensação de pausa e relaxamento", esclarece a psicóloga clínica Maria Keity Fernandez Cavalcante, de Brasília. "A leitura também desperta emoções positivas, estimula a imaginação e pode ajudar a pessoa a encontrar novos sentidos para aquilo que está vivendo. Além disso, o vínculo criado com personagens e histórias pode gerar uma sensação de companhia, reduzindo a percepção de solidão."

Um estudo publicado na revista Plos One por pesquisadores da Universidade Livre de Amsterdã, nos Países Baixos, sustenta, inclusive, que a leitura de ficção estimula a empatia. "Frequentemente, quando alguém lê uma história de ficção, a identificação com os personagens e o envolvimento emocional com a história fazem com que o leitor simpatize com eles e talvez até vivencie os eventos da história como se os estivesse vivenciando pessoalmente", escreveram os autores. 

A pedagoga e gestora educacional Raquel Nazário, da Maple Bear Brasília, destaca a importância de a criança entrar em contato com diferentes realidades, emoções, conflitos e formas de ver o mundo. "Ao acompanhar personagens, ela aprende a reconhecer sentimentos, compreender motivações, perceber consequências de escolhas e desenvolver empatia. Do ponto de vista socioemocional, isso é muito poderoso. A leitura amplia a capacidade de escuta e de compreensão do outro", diz. 

>>> Três perguntas para  - Elaine Cristina da Silva, psicopedagoga com especialização em Neurociência Cognitiva do colégio SIGMA

·        Como a leitura é processada pelo cérebro?

A leitura é uma aquisição cultural e, para aprendê-la, o cérebro reorganiza e integra circuitos que originalmente realizavam outras funções, especialmente aqueles relacionados à visão e à linguagem. É o que a neurociência denomina reciclagem neuronal, uma manifestação da plasticidade cerebral. Isso significa que, enquanto uma criança lê, não está simplesmente reconhecendo letras e palavras. Diferentes regiões cerebrais trabalham de forma articulada para transformar grafemas em fonemas, reconhecer visualmente as palavras, acessar a linguagem e, principalmente, construir significado. Mas há algo ainda mais interessante: ler é sustentar uma construção de sentido ao longo do tempo. Para compreender uma narrativa, é preciso manter informações disponíveis na memória de trabalho, recuperar aquilo que já aconteceu, relacionar conhecimentos prévios às novas informações, formular hipóteses e revê-las à medida que o texto avança. Quando falamos em leitura por prazer, acrescentamos ainda outro componente importante: a emoção. Memória, emoção e aprendizagem estão profundamente relacionadas. As experiências emocionais que acompanham a leitura podem influenciar a formação e a consolidação das memórias, especialmente quando despertam sentimentos positivos, como curiosidade, interesse, prazer e envolvimento.

·        Como esse hábito afeta as funções cerebrais?

A leitura demanda atenção sustentada, memória de trabalho, controle de distrações e flexibilidade cognitiva. Se uma informação nova muda aquilo que eu imaginava sobre um personagem, por exemplo, preciso abandonar uma hipótese e construir outra. Se algo não foi compreendido, preciso voltar, reler e reorganizar meu pensamento. A leitura não “treina” uma única área do cérebro; ela mobiliza uma verdadeira rede de processos cognitivos que precisam atuar de forma integrada para podermos compreender, interpretar e construir sentidos. A própria aprendizagem da leitura promove modificações nas redes relacionadas à linguagem e, à medida que a proficiência leitora avança, também são observadas mudanças na forma como o cérebro processa e integra as informações.

·        Ler também favorece o desenvolvimento socioemocional?

Existe uma dimensão da leitura que podemos considerar tão importante quanto a cognitiva: a leitura é também uma experiência social e emocional. Quando acompanhamos uma história, temporariamente enxergamos o mundo a partir de outro ponto de vista. Entramos em contato com personagens que desejam, sofrem, erram, escolhem e interpretam situações de maneiras diferentes das nossas, e o leitor é convidado a sair da própria perspectiva e considerar a perspectiva do outro. É nesse exercício que a literatura pode favorecer o desenvolvimento de competências relacionadas à empatia, à compreensão das emoções e à percepção de diferentes perspectivas. No entanto, a leitura não pode ser compreendida apenas como um fenômeno cerebral isolado. Os processos cognitivos e sociais estão profundamente interligados, de modo que o desenvolvimento do sujeito se constitui também a partir das experiências, das relações e das interações socioculturais que atravessam sua trajetória.

>>> Palavra de especialista - Juliana Gebrim, psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal

A leitura pode contribuir para a chamada reserva cognitiva. Eu gosto de pensar nela como uma espécie de poupança mental. Ao longo da vida, vamos acumulando recursos que podem ajudar o cérebro a lidar melhor com as mudanças do envelhecimento. E ler exige bastante da nossa cabeça. Tem atenção, memória, linguagem, raciocínio, compreensão e a capacidade de fazer conexões. Pesquisas que acompanharam pessoas durante muitos anos encontraram uma associação entre ler com frequência e um menor risco de declínio cognitivo e demência — isso não significa que ler seja uma vacina contra o Alzheimer. Quem lê mais pode também ter outros hábitos que favorecem a saúde do cérebro, além de diferenças de escolaridade e de condições de vida. O que temos é uma associação bastante interessante. Manter o cérebro ativo ao longo da vida parece estar relacionado a um envelhecimento cognitivo mais saudável, e a leitura é uma maneira simples e acessível de fazer isso. A ideia é que esse estímulo constante possa ajudar a construir uma reserva cognitiva e dar ao cérebro mais recursos para enfrentar as mudanças que vêm com a idade.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Canetas emagrecedoras mudam hábitos e movimentam novos mercados

Durante muito tempo, a balança foi o principal instrumento para medir o resultado de uma dieta. O número que aparecia depois de subir no aparelho parecia resumir o esforço, a mudança corporal e até a sensação de sucesso ou fracasso. Com a popularização dos medicamentos injetáveis para emagrecimento, porém, a transformação passou a aparecer em outros lugares, como no guarda-roupa, na mesa do restaurante, nas fotografias, na disposição para praticar exercícios e na maneira como algumas pessoas ocupam espaços.

A gerente de projetos de tecnologia da informação e comunicação Ana Daniela Andrade, 52 anos, percebeu isso aos poucos. O processo começou em março de 2025, primeiro com atividade física e acompanhamento médico e nutricional. Cerca de sete meses depois, a medicação entrou como complemento. Ela iniciou o tratamento com Wegovy e, posteriormente, passou para o Mounjaro. Ao todo, considerando o período desde setembro de 2025, foram cerca de 25 quilos eliminados em aproximadamente 12 meses. "Meu processo foi gradual, e foi muito mais do que simplesmente perder peso", conta Ana Daniela. Quando começou a medicação, estava com aproximadamente 91 quilos. Desde então, chegou aos 73. Mais do que a diferença na balança, ela percebeu mudanças nas medidas e na composição corporal. "Não tive perda de massa magra; pelo contrário, ela aumentou bastante. E isso é algo que valorizo muito, porque ganhar massa magra é um processo difícil e que exige constância." A primeira mudança visível apareceu no armário. "Foi principalmente com as roupas. Chega um momento em que você percebe que aquela roupa que antes ficava apertada começa a ficar larga. Depois, você experimenta uma peça que antes nem consideraria, e ela serve", destaca.

A advogada Fernanda Marques, 38, também associa a transformação a situações que ultrapassam o peso. Ela perdeu 13 quilos em aproximadamente três meses e atualmente está na fase de manutenção. O início do tratamento foi acompanhado de efeitos colaterais, principalmente enjoo e fraqueza. Em determinado momento, precisou tomar vitamina na veia. Para Fernanda, a mudança física também interferiu na forma como se percebia. "Além da mudança física, senti uma melhora significativa na minha autoestima, e isso também acabou refletindo positivamente na minha ansiedade e na forma como eu me sentia comigo mesma." O internacionalista Pedro Balaban perdeu 14 quilos em quase um ano. Antes do tratamento, estava na faixa de obesidade e insatisfeito com o próprio corpo. Entre as mudanças que percebeu, estão o conforto para vestir roupas que já possuía e a melhora no condicionamento físico para praticar esportes.

Os três relatos ajudam a mostrar que o efeito de uma mudança corporal não termina no momento em que o ponteiro da balança desce. Mas, antes de chegar às consequências cotidianas, é preciso entender o que acontece dentro do organismo.

<><> Além da balança

Para compreender o real impacto dos medicamentos injetáveis no organismo, a médica endocrinologista Vanina Farias explica que o ponto de partida deve ser a desmistificação da doença. Segundo ela, o excesso de peso não pode ser reduzido a uma simples conta matemática. "O importante para entender como os medicamentos ajudam é entender a fisiopatologia da doença. Não se trata somente de uma equação entre comer menos e exercitar menos. É uma doença biológica que tem múltiplos mecanismos."

As novas moléculas atuam simulando a ação de hormônios produzidos no próprio intestino humano, mas com uma durabilidade muito superior no organismo. É essa característica que permite a aplicação semanal do fármaco e garante um efeito prolongado sobre a sensação de saciedade. De acordo com a endocrinologista, em pacientes diagnosticados com obesidade, as sinalizações químicas entre o corpo e o cérebro que indicam a hora de parar de comer estão desreguladas. A medicação age justamente reparando esse mecanismo. "Dentro disso, existe em nível central, digamos, no cérebro, um circuito, que é como se fosse um freio. Nos obesos, os sinais de fome e saciedade estão alterados. E esses medicamentos são semelhantes a esses hormônios que produzem no corpo e que lhe devolvem esse freio de saciedade a nível mental. Por isso, de fato, tudo parece mudar", ressalta a especialista. Além da atuação direta no sistema nervoso central, o remédio reduz a velocidade do esvaziamento gástrico, prolongando a sensação de preenchimento do estômago após as refeições. É justamente essa alteração na percepção da fome que ajuda a explicar uma das mudanças mais relatadas por quem faz o tratamento: a quantidade de comida consumida.

Para Ana Daniela, a diferença é perceptível principalmente à mesa. "Hoje, não consigo comer como comia antes e também não sinto necessidade daquela quantidade", relata. Ela afirma ter passado a prestar mais atenção à alimentação, especialmente à proteína e à qualidade do que consome. "Comecei a enxergar a alimentação como parte da manutenção do meu corpo e da minha massa muscular, e não apenas como uma questão de emagrecer." A endocrinologista do Sabin Diagnóstico e Saúde Ana Clara d'Acampora explica que semaglutida e tirzepatida atuam de maneira semelhante, mas não idêntica. A semaglutida se liga aos receptores do GLP-1, hormônio produzido pelo próprio organismo e relacionado à produção de insulina e à sinalização de fome e saciedade. A tirzepatida também atua sobre o GLP-1, mas acrescenta a ação sobre o GIP. "Ela tem um comportamento dual. Então, imita dois hormônios: o GLP-1 e o GIP. Os estudos mostram que é como se tivesse uma ação sinérgica, que potencializa essa ação", detalha Ana Clara. Os efeitos adversos, segundo a endocrinologista, são semelhantes entre os dois medicamentos: náusea, piora do refluxo e alteração gastrointestinal, em geral, são os principais. 

<><> Os dilemas desse mundo

O avanço da procura fez acender um sinal de alerta entre os médicos: o aumento das compras por canais não oficiais. A endocrinologista Vanina Farias destaca que o uso de substâncias adquiridas fora da rede farmacêutica credenciada expõe o paciente a riscos, uma vez que não há garantia sobre a procedência ou a composição do produto. "Quando eu compro um medicamento que não está regulado pela agência regulatória, não sei o que estão vendendo, não sei o que estão aplicando. Se eu me aplico algo que compro por fora do mercado oficial, isso é extremamente sério e prejudicial", acrescenta Vanina. Outro ponto levantado pela médica é a utilização da medicação por pessoas que buscam apenas a perda de poucos quilos por razões estéticas, sem possuir diagnóstico de sobrepeso com comorbidades ou obesidade. Nesses casos, a interrupção precoce do uso pode ser acompanhada do chamado "efeito sanfona", especialmente quando não houve mudança de hábitos e preservação da massa muscular. "A longo prazo, talvez ele vai trazer mais problemas do que benefícios, porque estou utilizando um medicamento para baixar de peso apenas pensando no peso da balança, sem ter em conta toda a composição desse peso. Quando eu uso mal o medicamento, sem troca de hábitos, sem boa alimentação proteica, sem atividade física que me preserve o músculo, não só baixei gordura, também perdi músculo no caminho. Caso a rotina não inclua ingestão adequada de proteínas e treinos de força para preservação dos músculos, o organismo pode reduzir o gasto energético basal. Ao suspender o remédio, a tendência biológica é recuperar parte do peso perdido em forma de gordura. Por essa razão, a endocrinologista defende que o objetivo do tratamento deve ir além do número registrado na balança. "Precisamos deixar somente de olhar o peso e nos centrar em melhorar a composição corporal desse paciente", aponta.

<><> Tratamento ininterrupto

Assim como qualquer intervenção farmacológica, os análogos hormonais exigem atenção aos efeitos colaterais. Os sintomas mais comuns envolvem o sistema digestivo, ocorrendo com mais frequência nas fases iniciais do tratamento ou a cada aumento de dosagem. "Não existe remédio mágico que seja efetivo para tratar a doença e que não tenha nenhum efeito adverso", reforça Vanina Farias. Ao contrário de tratamentos com início, meio e fim predeterminados, o acompanhamento da obesidade deve ser compreendido dentro da lógica das doenças crônicas, a exemplo da hipertensão arterial. A endocrinologista esclarece que iniciar o uso da substância já projetando a sua interrupção pode comprometer os resultados a longo prazo. A manutenção do quadro de saúde pode envolver a redução gradual das doses ou o suporte contínuo focado no estilo de vida, mas sempre sob supervisão regular. "Não tenho que começar uma medicação pensando em quando vou suspender, porque é uma doença crônica. Tem que estar acompanhado sempre de algum tratamento", conclui a médica.

<><> O novo corpo chega primeiro ao armário

Se, dentro do organismo, a mudança acontece por meio de sinais relacionados à fome e à saciedade, no cotidiano, ela aparece em gestos mais concretos. Uma das primeiras áreas afetadas costuma ser o guarda-roupa. Ana Daniela conta que perdeu praticamente todas as roupas que tinha. "As peças começaram a ficar mais folgadas e, de repente, perdi praticamente todo o meu guarda-roupa."

Como a perda foi significativa e ainda estava em andamento, ela optou por não investir em grandes ajustes. "Passei tudo para um brechó e comprei algumas peças novas, mas não muitas, porque ainda estava no processo de emagrecimento." A situação se repetiu pouco depois. "As roupas novas também já ficaram folgadas, e essas, sim, precisarão de ajustes." Para ela, porém, a principal mudança aconteceu antes mesmo da compra. "Hoje entro em uma loja com mais curiosidade e menos receio de experimentar. Parece banal, mas, para quem passou muito tempo evitando determinadas roupas, isso representa uma mudança enorme." 

Fernanda Marques passou por experiência semelhante. "Foi muito significativo voltar a vestir minhas roupas e perceber que elas estavam servindo novamente", celebra. Antes, evitava algumas peças, especialmente blusas sem manga, porque não se sentia confortável com o corpo. "Hoje, poder olhar para mim e me sentir bem é uma das maiores mudanças. Não se trata apenas do tamanho da roupa, mas sobre a sensação de voltar a gostar do que vejo no espelho." A mudança também abriu espaço para experimentar modelos que antes eram evitados. "Hoje, consigo escolher o que quero usar porque realmente gosto, e não simplesmente porque é o que consegue disfarçar alguma coisa", adiciona.

Pedro Balaban, por sua vez, não abandonou o estilo que desenvolveu durante o período em que ganhou peso. "Mantive o gosto que adquiri quando engordei, as roupas oversized, mas também voltei a utilizar outras que havia deixado de utilizar", conta. "Voltei a usar camisas G, que antes ficavam mais apertadas. Hoje estão confortáveis." Para o alfaiate Valdir Camargo, as mudanças no corpo já chegaram ao ateliê. "Aumentou, e aumentou muito a procura por ajustes. Eu te falo que mais de 60% dos meus clientes devem estar usando as canetas emagrecedoras ou usaram."

Segundo ele, o ajuste está atrelado à quantidade de peso perdida. Normalmente, dá para ajustar quando a mudança foi de, no máximo, 10kg. "Dependendo do quanto a pessoa perde, é possível ajustar e a roupa ficar boa. Mas também tem limite." Quando a transformação é maior, a relação com o guarda-roupa muda completamente. "Quando tem aquelas mudanças drásticas, 30kg, 40kg, é preciso um armário novo, e normalmente é um momento muito feliz, ele vai comprar mais feliz pelo novo corpo dele."

<><> Tamanho psicológico

A transformação física, entretanto, não acontece necessariamente na mesma velocidade da percepção que a pessoa tem de si. A consultora de imagem Lilian Lemos, que atua no segmento plus size desde 2013, acompanha casos em que a numeração escolhida continua maior mesmo depois de uma perda expressiva de peso. "Tudo o que você escolhe para vestir afirmar que o seu corpo tem uma representatividade. Até a falta de opções é uma questão. Quando uma cliente emagrece muito e rápido, essa 'representatividade' e o hábito de compra, muitas vezes, não acompanham essa velocidade." Ela cita o caso de um cliente que passou por cirurgia bariátrica e perdeu cerca de 40 quilos. Antes, vestia tamanho 54/56. Depois, chegou ao 46. Mesmo assim, continuava comprando roupas maiores. "Quando fui ao armário, ela já tinha se desfeito das roupas grandes, e feito novas compras: de roupas ainda grandes no corpo dela! Sim, ela continuava comprando tamanho 50, porque, aos olhos dela, era o tamanho do próprio corpo", conta.

Para Lilian, o episódio mostrou como a percepção corporal pode demorar a acompanhar a transformação física. "Isso me mostrou o quanto existe uma visão distorcida delas mesmas. Talvez por medo, ou por crenças, ou até por realmente acreditar que ainda precisa perder peso." A consultora também chama atenção para outra mudança no mercado. Segundo ela, marcas plus size vêm reduzindo numerações ou encerrando operações. "A quantidade de marcas plus size diminuindo suas numerações ou até fechando as portas está alarmante. Isso demonstra uma movimentação do comércio voltada totalmente para o corpo magro", salienta. Para Lilian, a discussão não deveria partir da ideia de que corpos maiores deixaram de existir por causa da popularização dos medicamentos. "A mulher plus size não sumiu, ela continua precisando de comunicação visual, então, para isso, ela tem que emagrecer? E é onde fica a questão: como tem representatividade e viabilidade das marcas?", questiona.

A consultora observa ainda que a compra de roupas depois de um emagrecimento pode carregar expectativas que vão além da necessidade prática de renovar o armário. "Esse emagrecimento vem carregado de um monte de sentimentos (bons e ruins): desejos, sonhos, pertencimento, inclusão, aceitação pessoal, orgulho próprio, aprovação social… uma infinidade de motivos que só aquela mulher vai entender." O risco, segundo Lilian, está em transformar o emagrecimento em uma corrida permanente por números menores. Por isso, ela recomenda que a compra de roupas acompanhe o processo de transformação. "Para começar, ter noção do quanto vai emagrecer em cada intervalo de tempo, para não comprar muito o que não vai servir lá na frente", enfatiza. 

<><> Comer também muda

A relação com a comida é outro ponto em que as mudanças aparecem. Fernanda conta que era uma pessoa que "beliscava o tempo inteiro" e percebeu redução desse comportamento durante o tratamento. "Passei a ter mais controle e a identificar melhor quando realmente estava com fome ou quando estava comendo por ansiedade", observa. Pedro também percebeu mudanças. "Um dos meus maiores problemas era a velocidade ao comer. Com o remédio, além de controlar a quantidade e a impulsividade, aprendi a controlar a velocidade em que como." Ana Daniela continua frequentando restaurantes, festas e encontros. A diferença está na quantidade consumida. "Hoje, consigo comer uma quantidade menor", relata.

Para a psicóloga Camilla Leitão, essa mudança precisa ser acompanhada de cuidado para que a comida não seja transformada em inimiga. "A alimentação está relacionada ao prazer, e não somente à saciedade", resume. Segundo ela, a perda de peso deve ser acompanhada de reeducação alimentar, com variedade e espaço para alimentos que proporcionem prazer, além do acompanhamento de nutricionista e endocrinologista. A preocupação é evitar que o controle da alimentação se transforme em uma nova fonte de restrição. O objetivo, segundo Camilla, deve ser construir uma relação mais equilibrada com a comida, inclusive em situações sociais.

A alteração no corpo também pode modificar a maneira como a pessoa se apresenta para o mundo. "O corpo faz parte de nossa identidade e integra a forma como cada um se relaciona com o outro e também com o meio que habitamos." Ela explica que uma mudança corporal pode produzir uma sensação de liberdade quando permite que a pessoa retome atividades ou situações que antes eram difíceis. "A partir do momento que esse corpo está saudável, traz uma sensação de liberdade que se associa com o prazer de acessar locais ou fazer coisas que antes podiam ser inviáveis, como praticar esportes, fazer trilhas ou até subir e descer escadas", enfatiza.

Para Fernanda, uma das situações mais marcantes foi voltar a usar biquíni. "Nunca fui uma pessoa que amasse o meu corpo. Desde que me entendo por gente faço dieta, inclusive, já fiz cirurgia plástica. A ansiedade e o fato de comer compulsivamente faziam com que eu acabasse vivendo o efeito sanfona, passei a evitar ainda mais esse tipo de roupa", conta. Pedro, por outro lado, relata que a mudança na percepção de si apareceu nas fotografias. "Não me achar bonito em nenhuma foto e apenas aceitar que estou feio era o que mais me marcava e me incentivou a iniciar o processo." A autoestima, entretanto, também pode se tornar um território delicado. Camilla alerta para o risco de associar excessivamente o valor pessoal ao corpo. "O mundo em que vivemos, por vezes, apresenta corpos impossíveis e vidas extremamente bem-sucedidas. As redes sociais, movidas por influenciadores, criam tendências inatingíveis", alerta. 

<><> Nenhuma caneta aplica massa muscular

A mudança na balança também não significa que o trabalho físico perdeu importância. A educadora física Carol Borba reforça que os medicamentos podem fazer parte de um tratamento, mas não substituem o movimento. “Ainda não inventaram uma caneta que aplica massa muscular, nem cápsula que fortalece osso ou melhora condicionamento. Isso depende do movimento”, diz Carol. “O esforço não é castigo, é o preço que a gente paga para ter autonomia, força e massa muscular.”

A recomendação é de que o uso da medicação seja acompanhado de uma rotina capaz de preservar a massa muscular. Carol afirma que é possível combinar tratamento e exercício. “São muito bem-vindas em diversos casos, mas ferramenta é diferente de substituto”, afirma. “Perigoso é quando o movimento vira algo opcional, porque o treino não é opcional.”

Ana Daniela é um exemplo desse processo combinado. Antes mesmo de começar a medicação, já havia iniciado os treinos. Hoje, mantém o exercício como parte da rotina, faz treino funcional em uma academia de CrossFft e caminhadas aos domingos no Eixão do Lazer. “Hoje, tenho uma preocupação muito grande não só em emagrecer, mas em preservar massa muscular, continuar treinando e conseguir manter esse resultado", conta.  Para ela, o exercício também passou a representar uma mudança de perspectiva. “Sempre sonhei em ter uma vida fitness, e todo esse processo me incentivou ainda mais. Hoje, mais do que comemorar o resultado, meu foco é manter tudo o que conquistei e alcançar novas metas", celebra. 

<><> Um mercado que também muda de tamanho

As transformações individuais começam a produzir reflexos em setores que vão além da saúde. Na moda, a discussão sobre a redução dos tamanhos disponíveis ganhou força em meio à popularização dos medicamentos GLP-1. Nos Estados Unidos, uma análise da Edited, citada pelo The Guardian, comparou a oferta de novos vestidos femininos da H&M entre janeiro e maio de 2025 e o mesmo período de 2026. No ano passado, os tamanhos 3XL e 4XL representavam 2% do novo estoque; em 2026, desapareceram da amostra, e o XXL também perdeu espaço. A H&M confirmou ao jornal a descontinuação das duas numerações, atribuindo a decisão à queda de demanda. A redução, porém, não significa que a necessidade por roupas maiores tenha desaparecido. Como observa a especialista Lilian Lemos, "um tamanho menor não deveria estar associado a beleza, sucesso ou saúde, assim como um tamanho maior não deveria ser visto como algo que precisa ser escondido ou corrigido".

<><> Do estoque à balança

No Brasil, o fenômeno já é sentido na ponta que abastece o pequeno comércio. Segundo Alaor Gomes, presidente do Sindiatacadista-DF, o impacto começou pelo bolso. "No atacado de alimentos e bebidas, nós já sentimos no faturamento: o consumidor come menos e muda o que compra menos", diz. Ele cita uma projeção de queda de cerca de 0,49% ao ano no volume total vendido nos supermercados, com as categorias de indulgência — doces, salgadinhos, refrigerantes, sorvetes, bebida alcoólica — perdendo espaço para frescos, proteínas, iogurte e fibras. O movimento também chegou às araras. "Isso já é perceptível. As grandes redes observam uma redução de consumo nos tamanhos XXL e XL e uma migração para o consumo de roupas esportivas", afirma Gomes. Para ele, o risco é operacional e financeiro. "Se as confecções não alinharem a essas projeções, correm o risco de bilhões em prejuízo por estoque errado. A indústria de confecção e o varejo de moda terão de refazer suas curvas de tamanho." O problema, segundo o presidente do sindicato, está na antecedência com que o varejo de moda trabalha. "As compras são feitas com seis a nove meses de antecedência, usando 'curvas de tamanho' que definem quantas peças de cada numeração comprar. Um erro ou a não previsão dessas alterações de tamanho pode afetar a rentabilidade do setor de moda", ressalta. No setor alimentar, o ajuste é outro. "É preciso recalibrar o mix — mais proteína e porções menores. Quem não ajustar sortimento e estoque vai carregar produto que não gira", acrescenta. 

Gomes lista, ainda, outros setores sob pressão: "No alimentar, perdem força as bebidas açucaradas, o álcool, além de doces, salgadinhos, sorvetes, fast food e foodservice, e cresce proteínas, iogurte, frutas frescas e congeladas", destaca.  Para Gomes, não há dúvida sobre a natureza do movimento: "É tendência estrutural, não moda passageira. Hoje, o impacto sobre o volume total ainda é de um dígito, mas a curva é ascendente e rápida. Quem tratar isso como ponto fora da curva vai ser pego despreparado; quem se antecipar, ajustando mix, estoque e sortimento, sai na frente. No comércio, quem não se antecipa contabiliza prejuízo." Os efeitos indiretos dos medicamentos também aparecem em setores menos óbvios, como a aviação comercial, já que o peso transportado interfere em cálculos de equilíbrio, desempenho e consumo de combustível. Estimativas citadas em reportagens americanas apontam que uma redução de 10% no peso médio dos passageiros poderia diminuir em até 1,5% os gastos com combustível das quatro maiores companhias aéreas dos Estados Unidos — United, Delta, American e Southwest —, o equivalente a até US$ 580 milhões por ano.

 

Fonte: Correio Braziliense