sexta-feira, 16 de outubro de 2026

A fascistização do Brasil

Muito da nossa dificuldade em compreender os circuitos afetivos que dão subsídio à experiência atual do fascismo social está relacionada à ficção de que a práxis política está ancorada em determinantes puramente racionais...

<><> O possível retorno do bolsonarismo político

O fenômeno político da atual ascensão dos novos fascismos, e, mais que isso, o caso do retorno dessa ultradireita numa segunda eleição democrática (caso de Donald Trump nos EUA) por escolha popular, apesar dos malogros desses primeiros governos, nos obriga a refletir sobre o que se passa na expectativa das parcelas da população que estão recolocando essas lideranças no poder.

Que as elites da Faria Lima estejam apostando nessa reeleição é perfeitamente compreensível, pois elas estão votando pelos seus próprios interesses. Que as classes médias altas também estejam trabalhando pela vitória da ultradireita e pela derrota do trabalhismo petista também é compreensível, pois elas constituem a parcela da população (a base social do antipetismo) que projeta fazer parte dessas elites.

A circunstância mais desafiadora à análise política atual é a adesão significativa dos pobres e do lumpem-proletariado a um projeto de poder que já se revelou completamente refratário aos interesses populares. Pois, nesse caso, observamos que a adesão ao fascismo social e político não lhes trará absolutamente a uma trajetória de ascensão social. Então, resta a pergunta: o que na proposta fascista de poder que os levou a votar contra seus próprios interesses?

É lugar comum na ciência política, mas também entre muitos analistas políticos progressistas, pelo menos desde a experiência nazifascista na Europa, tentar explicar esse fenômeno “ilógico” de duas maneiras: ou argumentando a respeito do ressentimento político das classes médias (mas, lembremos que a votação no candidato de ultradireita foi bastante expressiva na classe trabalhadora); ou argumentando que foi por “burrice” que o eleitor de baixa renda deu um tiro no próprio pé.

O argumento acerca do ressentimento político nutrido pelas antigas oligarquias do período pré-bismarckiano nascido da perda de prestígio, privilégios e queda do poder aquisitivos sofridos com a unificação da Alemanha, foi usado, por exemplo, por Norbert Elias para tentar explicar a ascensão do Nacional-socialismo e o clima de “Ovo da Serpente” que este imprimiu à República de Weimar.

O outro argumento também bastante mobilizado para explicar a adesão das massas ao fascismo seria a ignorância política embalada por uma reação emocional e irracional. Esses argumentos podem valer para a experiência do fascismo histórico, substantivo, mas auxiliam pouco a compreensão de como esse fenômeno vem se dando nas chamadas democracias liberais, sobretudo as frágeis democracias do Sul Global. Afirmamos isso porque as circunstâncias históricas dessas experiências autoritárias no século XX em nada se parecem com aquelas em ação na atual fase do capitalismo.

As experiências fascistas argentina e brasileira, por exemplo, precisam ser compreendidas a partir tanto do processo histórico da formação desses países como Estados nacionais, quanto pela conjuntura geopolítica criada pelas transformações estruturais (econômicas, políticas, sociais e culturais) trazidas pelo assim chamado “capitalismo de plataforma”. Nesse sentido, concordamos com a tese de Vladimir Safatle em seu último livro.

Vladimir Safatle nos chama a atenção para o fato de que é necessário compreender a íntima relação existente entre o “fascismo restrito” das democracias liberais e o fascismo institucionalizado. A seu ver, a verdade é que, mutatis mutandis, a sociabilidade fascista dos dias atuais encontra-se em total continuidade com a sociabilidade experimentada nos períodos de fascismo restrito encapsulado nas ditas democracias liberais. A esse argumento de Vladimir Safatle, acrescentamos que é necessário olhar com bastante atenção para as especificidades dos processos históricos de cada país.

<><> A luta política como campo de batalha

Essa interpretação de Vladimir Safatle não encontrou eco imediato entre os analistas políticos, sobretudo porque, historicamente, o movimento fascista sempre esteve associado a um posicionamento político baseado em afetos irracionais: a violência endógena, a ficcionalização de um inimigo interno, a guerra como léxico político etc.

Aqui precisamos observar que o próprio Vladimir Safatle entende a construção dos diferentes tipos de sociabilidade como baseadas num “circuito de afetos”, nascido e alimentado em consonância com os regimes políticos vigentes. Em “Como construir esteticamente um povo: Sobre certo modernismo sombrio e sua atualidade” ele afirma:

“Creio que perderemos dimensões fundamentais do fenômeno fascista se não o compreendermos como uma batalha pela formação da sensibilidade social, pelo cultivo dos afetos e pela produção do horizonte sensível da política. A ordem sensível é o fundamento da imaginação social, de seus limites e formas, e o controle da imaginação e da sensibilidade é o fundamento de todo e qualquer poder. Por ter consciência disso, o fascismo é um projeto estético, uma reconstrução da sensibilidade que define os limites do visível e do perceptível no interior da ordem social”.

Assim, segundo ele, perderemos dimensões fundamentais do fenômeno político da ascensão dos novos fascismos se não os compreendermos como travando ativamente uma batalha pela formação da sensibilidade social, o que não significa em absoluto afirmar que a escolha pelo fascismo é sempre e necessariamente irracional. Muito pelo contrário. Observando a história de construção do nosso país, perceberemos que, pelo menos desde o período integralista, o fascismo nunca desapareceu do cenário nacional. Mais até que o campo progressista, os autoritarismos políticos levam a sério a necessidade de disputar a formação da sensibilidade social, e essa é uma escolha política racional.

Portanto, precisamos distinguir entre esses dois movimentos: uma coisa é compreender que, ontologicamente, toda força política fará essa disputa pelo domínio da afetividade social; outra coisa é afirmar que toda escolha fascista é irracional. A ultradireita entendeu bem essa lição e está ganhando de lavada essa batalha, ao ponto de podermos afirmar que a sociedade brasileira está sendo atravessada em seus mais diversos estratos sociais pelo fascismo social. O campo progressista vem capitulando diante dessa disputa pela comunicação com a sociedade brasileira, e, nesse cenário, o fascismo cresce em proporções numéricas e simbólicas.

Muito da nossa dificuldade em compreender os circuitos afetivos que dão subsídio à experiência atual do fascismo social está relacionada à ficção de que a práxis política está ancorada em determinantes puramente racionais. Vladimir Safatle acerta precisamente quando nos apresenta a atual experiência do fascismo social como uma reação racional e pragmática ao afunilamento político, econômico e social posto em nosso horizonte pelo sistema capitalista neoliberal. A história da formação de nossa nacionalidade é marcada desde sempre pela violência e desigualdade.

É preciso compreender que todas as características do fascismo social atual (moralização da política, interdição do debate público pelo “lugar de Fala”, autoritarismo, preservação das hierarquias de classe, violência de Estado etc.) mantêm-se em fluxo contínuo em relação ao período colonial.

Colonização, escravidão, expropriação do trabalho produtivo, objetificação da natureza, violência generalizada (mas capitaneada pelas políticas de segurança do Estado, e pela extraordinária letalidade do aparato policial brasileiro), divisão de classes, hegemonia da cultura moral da competição, do individualismo e da guerra permanente. Esse é o subsolo patético da nossa política, inclusive nos períodos de fascismo restrito e de afirmação dos valores republicanos.

A sociabilidade brasileira é violenta e autoritária desde sempre, mas esse seu traço não se confunde com a conservação de um possível resquício de arcaísmo da economia patriarcal e do personalismo próprio à cultura da sociedade patriarcal latifundiária. Como afirma Florestan Fernandes, o autoritarismo brasileiro não é um resquício arcaico do período colonial, mas, antes, a consequência das escolhas feitas pelas nossas elites dominantes em nosso processo de modernização (periférica). O autoritarismo do período colonial se atualizou no projeto de modernização capitalista tal como implementado pelo Estado brasileiro.

Ou seja, o fascismo social brasileiro é, antes, o outro lado da cabeça de Janus do capitalismo e da democracia liberal. Essa modernização, que se consolidou a partir de 1930, acelerando o surto urbanizador e comercial, na medida em que se deu nos quadros do modo de produção capitalista, teve como prioridade o projeto de incluir os setores médios como um dos maiores beneficiários desse novo modelo de desenvolvimento, ao mesmo tempo em que pretende excluir propositalmente os negros, mestiços, racializados e pobres.

A política de “embranquecimento”, levada a cabo pelo Estado brasileiro em fins do século XIX, traduziu explicitamente o anseio das classes dominantes e das classes médias brasileiras por evitar que nosso país se tornasse uma nação racializada. Capitalismo, autoritarismo e racismo formam a tríade padroeira da história brasileira.

 <><> Violência e autoritarismo

Esse processo de desenvolvimento das forças produtivas internas, acelerou o surto urbanizador e comercial nas grandes capitais. Se de um lado, esse processo virá a assimilar os setores médios urbanos (rapidamente os europeus, que já dominavam o comércio e a moedagem pela experiência obtida em seus países de origem, tornaram-se as figuras de proa da economia urbana, baseada sobretudo no comércio); de outro lado, esse mesmo Estado e seus tentáculos (as instituições republicanas recém-nascidas durante a passagem ao regime de democracia liberal) trabalharão incansavelmente para excluir os dejetos sociais (negros, mestiços e pobres) da convivência cidadã.

Daí podermos inferir que tal modernização à brasileira foi pensada estrategicamente para que, como afirma Jessé Souza, restasse aos negros, aos brancos pobres e à classe trabalhadora em geral, “o pior ponto de partida para a integração à (nova) ordem competitiva”:

“Para Florestan Fernandes, o abandono de toda essa população à própria sorte foi o principal fator responsável pela situação de penúria e desorganização econômica e moral desses estratos, que tiveram lançados sobre os ombros a responsabilidade de criar os dispositivos necessários à sua integração na nova ordem. Assim, não é difícil vislumbrar o futuro de marginalização social e pobreza econômica aos quais essa população estava condenada”.

Diante das vicissitudes resultantes de um processo autoritário de modernização, dominado pelos interesses do grande capital nacional (submetido ao grande capital internacional do Norte Global), vivemos no Brasil um nível de violência social absurdo. Mas, o manto que as classes dominantes lançam para disfarçar essa sociabilidade violenta quer nos fazer acreditar que capitalismo e fascismo representam dois modos antagônicos de gestão da vida social.

No entanto, a verdade observável pelo nosso processo histórico de constituição enquanto país e sociedade é que o sistema capitalista se sustenta e se reproduz no revezamento histórico entre períodos democráticos e períodos autoritários.

Agora, voltemos ao questionamento feito no início desse texto: que razões explicam que a classe trabalhadora e o lumpem-proletariado tenham sido seduzidos pelo projeto político fascista nas últimas eleições? Por que corremos o risco de devolver o governo do país ao projeto fascista bolsonarista? É preciso levar a sério essa pergunta.

Afirmar que a adesão ao fascismo é pragmática e racional não significa dizer que se trata de uma reação legítima. Em determinadas condições sociais, o indivíduo pode fazer um cálculo semelhante a: se a sociedade já não consegue garantir proteção e recursos para todos, alguém será excluído; portanto, é racional tentar permanecer entre aqueles que serão protegidos.

Vladimir Safatle associa essa lógica à intensificação neoliberal da competição e à destruição dos mecanismos de solidariedade e de pertencimento de classe.

Nesse sentido, “racional” não significa justo, verdadeiro ou universalmente razoável. Significa racionalidade estratégica ou instrumental: dados certos fins – sobreviver, manter posição social, preservar privilégios –, a exclusão de outros pode aparecer ao agente como um meio coerente para alcançá-los.

O afunilamento social provocado pelas necessidades estruturais de reprodução do modo-de-produção capitalista, tais como o sucateamento das políticas públicas de proteção social, a violência social endógena, o alto índice de desemprego, a miséria, o empobrecimento crescente das classes mais vulneráveis, a uberização da força de trabalho etc. são condições vividas hoje no regime de democracia liberal.

Também salta aos olhos a perda do horizonte de vida digna através do trabalho pela classe que vive do trabalho, além da ilusão que a mesma vive de que o auto empreendedorismo e o esforço pessoal a conduzirá a um mundo de liberdade, sucesso e bem-estar. Nessas circunstâncias, o cálculo racional feito pelos setores da população que estão apoiando o bolsonarismo é o de que, independente do regime político e ideológico, o melhor governo (o mais promissor) é aquele que permitirá que seu destino social não naufrague como o Titanic.

As elites e parte das classes médias que aderiram ao fascismo sabem que o retorno de um governo autoritário desfavorecerá os subalternos sociais e todos aqueles que forem identificados como inimigos, mas esses setores sociais apaziguam sua consciência pensando: sim, a violência aumentará, mas como seria possível fazer uma omelete sem quebrar os ovos?

 

Fonte: Por Diana Pichinine, em A Terra é Rdonda

 

Carlos Eduardo Araújo: O perigo de se dizer apolítico

Há pessoas que dizem odiar a política. Não querem discutir o assunto, evitam o debate e acreditam que a política é, por natureza, um elemento desagregador, uma força que insufla inimizades, aprofunda divergências e alimenta os ódios. Preferem, por isso, manter-se distantes, como se fosse possível construir uma existência alheia às disputas que atravessam a sociedade. Como se a política fosse algo que acontece lá fora, no mundo dos outros, sem repercussões sobre a vida de cada um de nós.

Ocorre que essa percepção, além de ilusória, ignora uma das mais antigas constatações da filosofia ocidental. Há mais de dois milênios, Aristóteles, logo no início de sua obra Política, afirmava que o homem é, por natureza, um animal político. Com isso, reconhecia que a vida humana não se realiza plenamente no isolamento, mas na convivência, na organização da comunidade e na participação, direta ou indireta, nas questões que dizem respeito à coletividade.

Não há, portanto, como escapar inteiramente à política. O ser humano é um ser social e, precisamente por viver em sociedade, é também um ser político. Nossas escolhas, nossos valores, nossas convicções, nossas aversões e até mesmo nossas omissões expressam determinada maneira de compreender o mundo e de nos posicionar diante dele. A política não se manifesta apenas no voto, na militância partidária ou nas discussões públicas. Ela também se revela naquilo que defendemos, no que toleramos, no que condenamos e, sobretudo, naquilo que aceitamos como natural ou inevitável.

Por isso, a pretensa neutralidade política, frequentemente apresentada como sinal de equilíbrio ou de superioridade diante das disputas ideológicas, nem sempre é aquilo que pretende ser. Muitas vezes, o discurso de quem se declara apolítico termina por favorecer a conservação da ordem existente, reproduzindo, ainda que inconscientemente, valores e interesses identificados com a direita e, em determinadas circunstâncias, com a extrema direita.

Afinal, quando alguém afirma que nada mudará em sua vida, independentemente de quem governe, não está apenas se afastando do debate: está formulando uma interpretação política da realidade, ainda que não se dê conta disso.

Ouvi, muito recentemente, uma afirmação dessa natureza. Dizia uma pessoa das minhas relações que não deveríamos nos envolver tanto com a política, pois, mesmo que um adversário profundamente nocivo ao país, oriundo de uma família marcada por graves controvérsias, denúncias e episódios que exigem investigação e responsabilização, chegasse ao poder, nada mudaria substancialmente em nossas vidas.

Continuaríamos a trabalhar, a cuidar de nossas famílias, a cumprir nossas obrigações e a seguir, tranquilamente, o curso de nossa existência. Afinal, argumentava essa pessoa, foi assim durante o governo de Jair Bolsonaro, do qual, como ela própria afirmou, todos sobrevivemos, como se o simples fato de termos sobrevivido fosse prova de que nada de grave tivesse acontecido.

Mas será mesmo? É possível olhar para os quatro anos daquele desgoverno e concluir, honestamente, que a política não fez diferença na vida dos brasileiros? A realidade histórica desmente essa tranquilidade quase irresponsável.

O governo de Jair Bolsonaro foi marcado por retrocessos, desmandos administrativos, conflitos institucionais e ataques a direitos sociais. A reforma da Previdência, aprovada em 2019, alterou profundamente as regras de aposentadoria, impondo condições mais rigorosas a milhões de trabalhadores. Para muitos brasileiros, especialmente aqueles submetidos a uma vida inteira de trabalho árduo, a aposentadoria tornou-se um horizonte mais distante, uma promessa adiada justamente quando o corpo já acumulava as marcas do tempo e do esforço.

Enquanto isso, os povos indígenas foram submetidos a um período de extrema vulnerabilidade. Os Yanomami, em particular, sofreram as consequências da expansão do garimpo ilegal, da violência e do enfraquecimento da proteção estatal.

Imagens de crianças e adultos reduzidos a condições extremas de desnutrição, que as faziam se assemelharem a egressos de campos de concentração nazista, expuseram ao país e ao mundo uma tragédia humanitária que não poderia ser tratada como simples fatalidade. A omissão do poder público diante de uma população que dependia e depende de sua proteção revelou, de maneira brutal, o preço que os mais vulneráveis podem pagar quando o Estado se afasta de suas responsabilidades.

E o que dizer das mulheres, das pessoas LGBTQIA+, das comunidades de religiões de matriz africana? O que dizer da disseminação de preconceitos, da hostilidade contra minorias e da legitimação de discursos que, em vez de promoverem o respeito à diversidade, estimulavam a intolerância? Quando autoridades públicas transformam a diferença em motivo de desprezo e a discriminação em instrumento de mobilização política, não estamos diante de meras divergências de opinião. Estamos diante de um processo de corrosão e, no limite, de supressão da convivência democrática.

A pandemia de Covid-19 talvez tenha constituído a expressão mais dramática desse descompromisso com a vida. Enquanto o país enfrentava uma emergência sanitária de proporções devastadoras, o presidente da República minimizava a gravidade da doença, fazia chacota do sofrimento alheio, desestimulava medidas de proteção e promovia aglomerações. A vacinação, que deveria ter sido tratada como prioridade absoluta de saúde pública, tornou-se objeto de controvérsias políticas e de declarações irresponsáveis, até mesmo de negociatas.

O Brasil ultrapassou a marca de 700 mil mortes oficialmente registradas por Covid-19. Estudos e análises sobre a condução da pandemia apontaram que uma parcela expressiva dessas mortes poderia ter sido evitada mediante uma resposta governamental mais rápida, coordenada e comprometida com as evidências científicas. A dimensão exata das mortes evitáveis depende dos critérios e das metodologias empregados, mas a gravidade das falhas na resposta federal foi amplamente documentada.

É preciso compreender o significado humano desses números. Por trás de cada morte havia uma pessoa, uma família, uma história interrompida, um abraço que não aconteceu, uma despedida impossível. Mortos que não puderam ser devidamente velados, familiares privados do direito de honrar seus entes queridos, vivos impedidos de realizar os rituais da despedida. A política, naquele momento, deixou de ser uma abstração debatida nos parlamentos para se tornar uma questão de vida ou morte. Literalmente.

Também a educação, a cultura, a ciência e a proteção ambiental sofreram os efeitos de uma orientação governamental que promoveu conflitos, desvalorizou o conhecimento científico e enfraqueceu políticas públicas. Na Amazônia, o avanço do desmatamento, da mineração ilegal e das invasões de territórios indígenas evidenciou os riscos de uma política ambiental predatória. O discurso oficial contribuiu para um ambiente de hostilidade contra a fiscalização e de descrédito em relação à proteção dos ecossistemas.

No campo social, a fome voltou a ocupar um lugar vergonhoso na realidade brasileira, em um país capaz de produzir alimentos em abundância. Em 2022, o Brasil retornou ao Mapa da Fome da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura, segundo os dados então divulgados. Milhões de pessoas passaram a enfrentar a insegurança alimentar, enquanto a pobreza e a desigualdade expunham as contradições de uma sociedade que convive com a abundância de uns e a privação de muitos.

Não podemos esquecer que aquele cenário de miséria e desamparo deu origem à tristemente célebre fila do osso, uma das imagens mais degradantes e dolorosas daquele período, que permanece na memória nacional como símbolo da fome e da indignidade a que tantos brasileiros foram submetidos.

E ainda poderíamos falar da fragilização das instituições, dos ataques reiterados ao sistema eleitoral, das ameaças à democracia e da disseminação de uma linguagem política agressiva, beligerante e marcada pelo desprezo ao adversário, tratado como inimigo. Poderíamos continuar enumerando fatos, episódios e consequências, numa lista tão extensa que dificilmente caberia nestas páginas.

Diante de tudo isso, como sustentar que nada muda em nossas vidas quando muda o governo? Como afirmar que tanto faz quem ocupa a Presidência da República, quem controla o Congresso, Nacional, quem toma as decisões no STF ou quais interesses orientam as decisões do Estado? Essa indiferença só é possível quando se ignora que os direitos de que desfrutamos, os serviços públicos de que dependemos, as liberdades que exercemos e as oportunidades que temos não existem independentemente das escolhas políticas. São, em grande medida, resultado delas.

E é justamente por isso que precisamos olhar com seriedade para o futuro.

Imaginemos um eventual governo de Flávio Bolsonaro, amparado por um Congresso Nacional amplamente dominado pelo bolsonarismo e pela extrema direita. Imaginemos um Executivo fortalecido por uma maioria parlamentar hostil à diversidade, avessa à proteção social e disposta a aprofundar a agenda política e econômica que marcou o governo anterior. Nesse cenário, o que impediria a retomada de políticas que já produziram consequências tão graves para o país? Que garantias teríamos de que os direitos sociais, a proteção ambiental, a educação pública, a cultura e as instituições democráticas permaneceriam a salvo?

É bastante plausível que muitos desses retrocessos não apenas se repetissem, mas também se agravassem em um eventual governo de Flávio Bolsonaro. Trata-se de reconhecer os riscos inerentes a um projeto político, à sua trajetória, às ideias que o inspiram e às forças que o sustentam. A experiência histórica não nos permite prever o futuro com absoluta certeza, mas nos impõe o dever de aprender com o passado e de levar a sério os sinais que ele nos oferece.

Tudo aquilo que o governo Lula procurou reconstruir após a devastação dos anos Bolsonaro, seja no combate à fome, na valorização do salário mínimo, na recuperação das políticas sociais, na proteção ambiental ou no fortalecimento das instituições, poderia ser ameaçado por uma nova guinada à extrema direita. Conquistas que exigiram anos de luta e de reconstrução poderiam ser comprometidas em um espaço de tempo muito menor do que aquele necessário para recuperá-las.

E não seriam apenas os mais pobres a sofrer as consequências. A classe média, que tantas vezes acredita estar protegida das turbulências políticas, também depende da qualidade dos serviços públicos, da estabilidade institucional, das oportunidades educacionais, da segurança jurídica e de um ambiente econômico e social que lhe permita planejar o futuro.

Nenhuma classe social vive inteiramente isolada das decisões do Estado. A ilusão de imunidade política costuma desaparecer quando os efeitos das decisões governamentais finalmente chegam à porta de casa.

Mais grave ainda seria a possibilidade de um aprofundamento da polarização, do ressentimento e da perseguição aos que pensam de maneira diferente. Uma democracia não se destrói apenas quando suas instituições são formalmente abolidas. Ela também se deteriora quando o adversário passa a ser tratado como inimigo, quando a divergência se converte em ameaça e quando a violência verbal prepara o terreno para a violência concreta.

É por tudo isso que não podemos minimizar os perigos da extrema direita, muito menos naturalizar sua presença no poder como se estivéssemos diante de uma alternância política qualquer, sem maiores consequências para a sociedade. Há diferenças profundas entre projetos de país, e essas diferenças se traduzem em direitos preservados ou suprimidos, vidas protegidas ou abandonadas, liberdades ampliadas ou restringidas.

A política pode, de fato, produzir conflitos, acirrar paixões e alimentar inimizades. Mas a solução não está em abandoná-la, e sim em compreendê-la, debatê-la e participar dela com responsabilidade. A recusa ao debate não elimina os conflitos da sociedade; apenas nos torna menos capazes de compreender suas causas e de enfrentar suas consequências.

A política não deixa de existir quando fechamos os olhos para ela. Continua agindo, decidindo, escolhendo quem será protegido e quem será abandonado.

E, quando finalmente percebemos seus efeitos em nossa própria vida, talvez já seja tarde demais para impedir aquilo que, por indiferença, permitimos que acontecesse.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Eleição não é apenas plebiscito sobre democracia; é também sobre projetos econômicos distintos

Quais projetos econômicos estão em disputa nas eleições presidenciais deste ano? Em entrevista para o especial Lula × Bolsonaro 2026, o professor livre-docente do Instituto de Economia da Unicamp e economista chefe do Global Fund for a New Econonomy, Pedro Rossi, compara os governos Lula 3 e Jair Bolsonaro e antecipa o que esperar em caso de vitória de Luiz Inácio Lula da Silva ou de Flávio Bolsonaro em 25 de outubro. Para ele, um último mandato do presidente Lula seria diferente do atual, voltado para a redução do custo de vida, com serviços públicos gratuitos e redução do preço de energia, aluguel e transportes; já um governo Flávio anuncia uma agenda de cortes de gastos muito agressiva. 

Pedro é autor dos livros Brasil em disputa (Planeta, 2024) e Taxa de câmbio e política cambial no Brasil (FGV, 2016), coautor de Economia para transformação social: pequeno manual para mudar o mundo (Perseu Abramo, 2023) e co-organizador de Economia pós-pandemia: desmontando os mitos da austeridade fiscal e construindo um novo paradigma econômico (Autonomia Literária, 2020). 

LEIA A ENTREVISTA:

·        Como você avalia o desempenho da economia brasileira durante o governo Bolsonaro? E em que medida esses resultados foram afetados pelos efeitos da pandemia? 

É importante voltar ao governo Bolsonaro porque ele nos ensina a não cometer erros. A economia durante o governo Bolsonaro foi um desastre. A pandemia foi um fenômeno que atingiu o mundo todo. Quando comparamos os resultados, vemos que o Brasil teve um desempenho pior do que o de outros países. A média mundial de crescimento do PIB naquele período de quatro anos foi de 2,3% ao ano, enquanto no Brasil foi a metade disso: 1,2%. O país também cresceu muito menos do que a média dos países emergentes, que foi superior a 3%. 

A condução econômica no governo Bolsonaro foi pautada pela austeridade fiscal e pelo projeto privatista. Vivemos um período de muitas reformas, privatizações e liberalização. Tivemos a lei de liberalização cambial, a autonomia do Banco Central, as privatizações avançaram intensamente e foi aprovada a reforma da Previdência. Houve também um conjunto de propostas que não vingaram, mas que apontavam todas na direção da liberalização, da privatização e da austeridade. 

É importante lembrar também que, durante a pandemia, o Brasil ficou sem auxílio emergencial entre a primeira e a segunda onda [de janeiro ao início de abril de 2021]. Bolsonaro cortou o auxílio com a intenção de levar as pessoas de volta às ruas. No momento em que morriam 4 mil pessoas por dia, não havia nenhum tipo de auxílio relacionado à pandemia. O resultado foi trágico: naquele ano, morreram mais de 400 mil pessoas, e a pobreza atingiu 62 milhões de brasileiros. Cerca de 30% da população estava em situação de pobreza. Foi desastroso. 

Outro ponto importante é a gestão da Petrobras. É interessante comparar os dois governos porque, durante o governo Lula, houve um choque do petróleo relacionado à guerra do Irã. No governo Bolsonaro, houve um choque relacionado à guerra da Ucrânia, mas a gestão da Petrobras foi completamente diferente – os preços seguiam a paridade internacional, ou seja, acompanhavam o mercado externo. Isso fez com que a gasolina disparasse. A população pagou o preço da alta do petróleo, o que evidentemente aumentou os lucros da Petrobras. A empresa distribuiu valores enormes em dividendos aos acionistas. Estamos falando de R$ 80 bilhões no período Bolsonaro. A Petrobras distribuiu esses recursos aos seus acionistas. A questão é saber quem ganha. Naquele momento, a população pagou mais caro, enquanto os acionistas ganharam. 

No governo Lula, houve um controle dos preços. A Petrobras passou a funcionar com uma finalidade pública, amortecendo o impacto da alta do petróleo sobre a gasolina e o diesel e, portanto, sobre a inflação. Assim, a gasolina não subiu no governo Lula. É importante destacar esse aspecto porque ele revela a importância da Petrobras como ativo estratégico e também ajuda a entender o projeto de privatização defendido por Flávio Bolsonaro. Ele já falou abertamente em privatizar a Petrobras. Talvez não faça isso durante a campanha eleitoral, quando estão escondendo algumas coisas, mas já se manifestou sobre o assunto ao longo de sua carreira. Há um vídeo em que ele declara ser totalmente favorável à privatização da empresa. 

·        O governo Lula 3 apresenta inflação controlada e índices historicamente baixos de desemprego, mas também é alvo de críticas pela trajetória ascendente da dívida pública. Como você avalia a política econômica do governo atual? 

O governo Lula precisa ser entendido como aquele que assume depois do desastre econômico do governo Bolsonaro. Há uma herança importante, inclusive fiscal, porque boa parte dos precatórios que não foram pagos por Bolsonaro foi quitada durante o governo Lula. Isso tem impacto no déficit e na dívida. A meu ver, foi um governo que colocou a economia nos trilhos. 

O governo recuperou políticas fiscais e retomou o aumento real do salário mínimo. É importante lembrar que o salário mínimo não cresceu em termos reais durante o governo Bolsonaro. Também havia uma regra de valorização do salário mínimo que Bolsonaro não manteve. Essa regra estabelecia que o salário mínimo deveria ser reajustado pela inflação e pelo crescimento do PIB de dois anos antes. A lógica era permitir que a população se beneficiasse do crescimento econômico. Bolsonaro acabou com essa regra. Seu governo concedeu apenas o reajuste pela inflação porque isso é uma exigência constitucional. Era obrigado a fazê-lo. Paulo Guedes tentou mudar até mesmo essa disposição da Constituição, pois considerava que ela não deveria estar lá e que, se o governo quisesse deixar de conceder um reajuste nominal ao salário mínimo, deveria poder fazê-lo. Ou seja, se dependesse deles, não haveria aumento real e, segundo essa lógica, nem sequer precisaria haver aumento nominal. O salário mínimo e seu poder de compra cairiam ainda mais, pois já houve uma pequena perda de poder aquisitivo naquele período. 

Esse é um ponto importante. Lula recuperou a política de valorização do salário mínimo, retomou políticas sociais e voltou a conceder aumentos ao funcionalismo público, que ficou praticamente congelado durante o governo Bolsonaro. Adotou, portanto, algumas medidas relevantes do ponto de vista histórico. 

A reforma tributária também é importante. Muitos governos tentaram realizá-la, mas nenhum presidente havia conseguido aprovar uma reforma dessa dimensão. É muito difícil fazer uma reforma tributária no Brasil. 

Além disso, há a isenção do imposto de renda para quem ganha até cinco salários mínimos, o que também é importante. O financiamento dessa medida envolve a tributação de quem ganha mais de R$ 50 mil e não paga impostos na mesma proporção que alguns trabalhadores assalariados. Ou seja, houve a tributação de dividendos. 

Outra iniciativa relevante é a discussão sobre a escala de trabalho 6 × 1. Essa discussão representa uma inflexão em relação à direção das reformas recentes, que sempre avançaram no sentido da desconstrução de direitos e da liberalização. As reformas promovidas por Temer e a continuidade dada por Bolsonaro foram marcadas por mudanças no campo trabalhista. Elas tendem a enfraquecer o trabalhador, flexibilizar as relações de trabalho, retirar regras e dar mais liberdade ao empresário para fazer o que quiser. O discurso de Flávio Bolsonaro é claro: ele defende a liberdade de o trabalhador negociar diretamente com o patrão. 

O problema é que existe uma assimetria entre o trabalhador e o patrão. Quando retiro essas regras, reforço essa assimetria e dou um poder enorme ao empregador. Isso tende a aumentar a desigualdade e reduzir os salários. Acho importante destacar esse aspecto. 

·        E o que esperar em caso de reeleição? 

Em caso de reeleição de Lula, imagino que ele tente fazer um mandato diferente. Seria o último mandato dele, pautado também por um sentimento de mudança expresso nas urnas. Seria um governo voltado para avançar em determinadas pautas. 

A questão do custo de vida e a questão do tempo de trabalho estão muito claras. E o custo de vida envolve vários aspectos. 

No fundo, o problema é a renda do trabalhador. Vimos recentemente que ela cresceu muito, mas, se as bets retiram dinheiro da renda dos trabalhadores e as dívidas e os juros comprometem essa renda, sobra menos dinheiro disponível para o consumo. Além disso, há despesas como aluguel, energia e uma série de outros preços que podem ser objeto de políticas públicas. 

A agenda do custo de vida também precisa identificar onde estão os gargalos e quais são os aspectos que mais pesam para os trabalhadores. 

É importante enfrentar essas questões e também desmercantilizar parte da vida cotidiana, o que significa avançar em uma agenda de serviços públicos gratuitos. Se tenho acesso a uma saúde melhor, gasto menos com remédios e planos de saúde. Se tenho transporte público e energia mais baratos, isso também contribui para reduzir o custo de vida. 

O aluguel é outra questão importante, assim como a pauta do trabalho. Essa é uma agenda muito importante para o Brasil. 

O debate em torno da escala 6 × 1 mostra que essa questão ultrapassa o aspecto político, rompe a polarização e expressa um sentimento generalizado de que as pessoas estão trabalhando demais. Não se trata apenas de o desemprego estar muito baixo. Muitas vezes, as pessoas precisam ter mais de um emprego para dar conta das despesas e acabam sem tempo. 

Por isso, a questão do tempo é importante: tempo para o lazer, para cuidar de outras pessoas, para ir à missa. Essa agenda do trabalho deve ganhar peso em um eventual governo Lula. 

Já em um eventual governo Flávio Bolsonaro, acho que teríamos um retrocesso nesse sentido, o que seria desastroso. 

·        Flávio Bolsonaro adota a estratégia da extrema direita de emitir sinais contraditórios e confusos em suas declarações. Por exemplo, ora afirma que fará um ajuste fiscal, ora promete cortar impostos. Alguns analistas dizem que, diante disso, é difícil prever o que aconteceria em um eventual governo seu. Você concorda ou existem outros elementos que permitem antecipar o que um retorno dos Bolsonaros representaria para a economia? 

Não acho difícil prever. Acredito que um governo Flávio seria marcado pela austeridade e pelo retrocesso, com uma agenda de cortes de gastos muito agressiva. 

Quando ele fala em cortar cerca de R$ 200 bilhões, não há como fazer isso sem reduzir gastos sociais. Hoje, de cada R$ 5 gastos pelo governo federal, R$ 4 são destinados a despesas sociais. Cerca de 45% do orçamento público corresponde ao INSS. 

Há ainda cerca de 11% destinados a benefícios sociais, 10% à educação, 10% à saúde e 5% à segurança. Não há muito de onde tirar recursos. 

O corte de gastos, portanto, recairia sobre as despesas sociais. Para realizá-lo, seria necessário promover reformas extremamente impopulares, como desvincular o salário mínimo dos benefícios previdenciários, permitindo que os benefícios deixassem de acompanhar sua valorização. 

É para isso que serviria uma reforma desse tipo. Outra possibilidade seria acabar com os pisos constitucionais de saúde e educação, abrindo caminho para cortar os recursos destinados a essas áreas. Também haveria propostas de emenda à Constituição voltadas à redução dos gastos sociais.  

Isso teria impacto sobre a economia. A austeridade é contracionista, não expansionista. O debate sobre a chamada austeridade expansionista perdeu força no exterior. Essa ideia já não encontra a mesma aceitação, porque o gasto do governo corresponde à renda do setor privado. Quando o governo deixa de gastar, sobretudo em um volume muito elevado, provoca uma crise. 

Há uma queda do PIB, que prejudica a todos. Não apenas quem recebe aposentadoria ou o Benefício de Prestação Continuada (BPC), mas também os empreendedores, sejam pequenos, médios ou mesmo grandes empresários, porque a demanda diminui. 

Os clientes passam a ter menos dinheiro para gastar, e a economia deixa de girar. Por isso, considero perigoso esse projeto econômico, assim como o projeto político, evidentemente. 

O que quero dizer é que essa eleição não é apenas um plebiscito sobre a democracia. Ela também trata de projetos econômicos distintos: de um lado, um projeto de distribuição de renda e crescimento; de outro, um projeto de austeridade e retrocesso. 

 

Fonte: Por Luís Brasilino, no Le Monde

 

Plano de Flávio de cortar R$ 200 bilhões “ou é mentira, ou vai levar idosos à pobreza”, alerta ministro do Planejamento

Escalado pelo presidente Lula para rebater as propostas do plano de governo do candidato Flávio Bolsonaro (PL) para a economia brasileira, o ministro do Planejamento Bruno Moretti fez um alerta grave em entrevista à Folha de S. Paulo, ao comentar a promessa bolsonarista de cortar entre R$ 200 bilhões até R$ 250 bilhões dos gastos públicos, caso Flávio seja eleito presidente em 25 de outubro.

Segundo Moretti, não há possibilidade nenhuma de uma eventual equipe econômica de Flávio fazer um corte desse tamanho sem atacar a Previdência Social e outros benefícios vinculados ao salário mínimo, como o BPC, que é pago às pessoas com deficiência. Dessa forma, na visão do ministro de Lula, ou Flávio “está mentindo” sobre fazer um ajuste dessa ordem de R$ 200 bilhões, ou ele realmente está disposto a levar idosos e pessoas com deficiência à “situação de pobreza”, o que é ainda mais preocupante.

À Folha, o ministro explicou que para chegar a um corte de R$ 200 bilhões, Flávio necessariamente teria de mexer no salário mínimo e na aposentadoria dos idosos, entre outros benefícios sociais. Primeiro, extinguindo a política de valorização do salário mínimo, o que vai levar ao congelamento dos valores pagos nos próximos anos. E como essa medida será insuficiente para alcançar os R$ 200 bilhões que ele prometeu, ele terá de mexer também na vinculação dos benefícios sociais ao salário mínimo e nas despesas obrigatórias da União, pois é a única forma de “produzir uma queda de despesa acentuada, nessa ordem de R$ 190 bilhões”.

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“E essa é a tese que mais nos preocupa, porque desvincular os benefícios da Previdência e do BPC do salário mínimo, é levar as pessoas idosas e com deficiência à situação de pobreza. Porque se perder o nexo do salário mínimo com esses benefícios, o valor desses benefícios ficará sujeito a um valor que ninguém conhece”, comentou Moretti.

“Então temos duas hipóteses: ou é mentira que esse ajuste será feito (e aí fica difícil compreender uma certa euforia do mercado com a proposta), ou, por outro lado, se esses cortes forem feitos, repito: não há hipótese senão através do corte expressivo de despesas discricionárias e, como isso não será suficiente, implicará em corte de despesas obrigatórias, que na prática só se faz nessa ordem de grandeza se, além de extinguir os ganhos reais do salário mínimo, fizer a desvinculação, ou seja, disser que esses benefícios sociais [aposentadoria, BPC, etc] não estão mais lastreados no salário mínimo“, pontuou o ministro de Lula.

¨      Aposentadoria aos 75 anos? Ex-juíza previdenciária alerta para os impactos do plano de Flávio Bolsonaro

Com uma trajetória dedicada à Justiça Previdenciária, a ex-juíza federal Luciana Bauer fez um alerta grave ao GGN sobre os riscos que o plano econômico do candidato Flávio Bolsonaro (PL), com um corte projetado entre R$ 200 bilhões e R$ 250 bilhões no orçamento, representa para os direitos trabalhistas e sociais no Brasil.

Relembrando sua experiência no julgamento de causas trabalhistas e previdenciárias, Bauer destacou a gravidade de colocar em xeque garantias conquistadas ao longo de décadas de trabalho.

“A vida toda eu fui juíza previdenciária e o meu maior orgulho, a coisa que mais me sensibilizava era pegar a carteira de trabalho de pessoas e ver ali uma foto de 20, 30, 50 anos as pessoas que começaram a trabalhar ainda na adolescência, pois todos esses direitos podem ser postos em xeque e as pessoas se aposentarem só depois de 70, 75 anos”, afirmou a ex-juíza e hoje fundadora do Jusclima.

<><> Ameaça ao pequeno agricultor e ao LOAS/BPC

Além do aumento da idade de aposentadoria e da precarização das garantias trabalhistas, a ex-magistrada chamou atenção para os impactos no campo. Segundo ela, o “tesouraço” atinge o segurado especial rural — o pequeno produtor que não recolhe ao INSS de forma tradicional, mas pela comercialização de sua produção agrícola, com emissão de nota fiscal. Ou seja, penalizar esse setor comprometeria, ainda, a própria segurança alimentar do país.

“Segurado especial rural que não recolhe INSS de forma normal, mas sim pela nota fiscal da sua pequena produção agrícola. Eles também correm risco com a reforma de Flávio Bolsonaro, com o corte de 250 bilhões do orçamento. E o pequeno agricultor rural que é esse segurado especial rural, é essencial para a produção de alimentos nas grandes cidades, nas periferias de Minas Gerais, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraná, todo o Brasil. Eles levam o Brasil nas costas em termos de segurança alimentar. Temos que protegê-los”, ressaltou.

Bauer também advertiu para o risco iminente de desmantelamento de benefícios assistenciais essenciais, como o Benefício de Prestação Continuada (LOAS/BPC). “Com corte de Flávio Bolsonaro de mais de 250 bilhões, como a própria [chefe da campanha de Flávio] Daniela Marques coloca, nós estamos em risco de perder o LOAS, o benefício que atende idosos e pessoas com deficiência e agora também mulheres vítimas de violência. Então vamos para cima. Nenhum direito a menos”, pontuou.

<><> Pluralidade e risco de autoritarismo

Para além das perdas socioeconômicas, Luciana Bauer chamou atenção para as propostas de revisão constitucional defendidas pela ala bolsonarista, avaliando que a tentativa de impor dogmas religiosos ao texto constitucional fere o Estado laico e a convivência democrática.

“Precisamos falar sobre perseguição religiosa. Por quê? Porque o grande desafio das novas constituições é como gerenciar a pluralidade. E esse gerenciamento justamente é feito de forma magnífica pela nossa Constituição. Quando Flávio Bolsonaro ameaça mudar a Constituição e fazer de Jesus Cristo o personagem central desta Constituição, nós temos a nossa religião católica, budista, umbandista, e os nossos direitos sociais em perigo. Por quê? Porque uma minoria bolsonarista, que não é nem a direita racional e nem à esquerda, vão estar no poder para implementar uma ditadura. Sim, uma ditadura. Porque quando a minoria não respeita a maioria e quando a maioria não respeita a minoria, num estado plural, isso é ditadura”, concluiu.

<><> Governo desmente viabilidade do corte sem atingir aposentadorias

O alerta de Luciana Bauer vai ao encontro das avaliações do Ministério do Planejamento. Em entrevista recente à Folha de S.Paulo, o ministro Bruno Moretti, escalado pelo presidente Lula para analisar a proposta econômica de Flávio Bolsonaro, afirmou ser impossível alcançar uma tesourada de R$ 200 bilhões a R$ 250 bilhões sem cortar despesas obrigatórias.

Segundo Moretti, para atingir o montante prometido, a equipe bolsonarista teria obrigatoriamente de extinguir a política de valorização do salário mínimo e desvincular o piso nacional dos benefícios da Previdência Social e do BPC. Na avaliação do ministro, a medida jogaria milhões de idosos e pessoas com deficiência diretamente na pobreza.

 

Fonte: Jornal GGN

 

Na Bahia, fascista não se cria

Nesse segundo turno das eleições, os enormes atos e manifestações de massa em apoio à reeleição de Lula, que vêm ocorrendo em todo o Brasil, têm uma marca comum, qual seja: os jovens brasileiros são a “ponto de lança” dessas manifestações. A sua disposição de luta, combatividade e criatividade está criando um poderoso movimento antifascista de baixo para cima, que vai muito além dos partidos de esquerda e de suas direções, e que poderá produzir novas lideranças populares nos próximos anos.

A ameaça do fascismo chegar à Presidência da República mais uma vez, tendo em vista a trágica experiência dos quatro anos do Governo Bolsonaro e a ameaça de uma nova tentativa de um golpe de Estado, acendeu o alerta para amplos segmentos do povo brasileiro, em especial parte significativa de sua juventude. Esse protagonismo tem sido decisivo para a articulação das ruas com as redes sociais, uma nova forma de fazer política, que as gerações mais velhas de militantes têm dificuldade de entender e acompanhar, mas que estão aprendendo no calor da luta.

E essa articulação não diz respeito apenas ao período eleitoral; ela vem sendo feita diariamente. A política nunca mais será como antes. As novas tecnologias de comunicação e informação (TICs) e o seu domínio e monopólio por parte da big techs, com o controle das redes sociais, vêm mudando a cultura e a forma de vivenciar e fazer política. Não há separação ou distinção entre o “mundo real” e as redes sociais; as redes sociais fazem parte do mundo real, para o bem ou para mal. As novas gerações estão demonstrando que a organização permanente do povo e sua mobilização ainda são decisivas para a educação e ação política, atuando, ao mesmo tempo, nas ruas e nas redes sociais, em uma sinergia em que ambas se alimentam reciprocamente.

As manifestações de massa, que vêm acontecendo diariamente, E QUE ESTÃO APONTANDO PARA A VIRADA ELEITORAL DE LULA, estão passando por cima de discussões teóricas sobre se o bolsonarismo é, ou não, um fenômeno de natureza neofascista. Nelas, as faixas, cartazes, cantos e palavras de ordem não deixam dúvidas: o bolsonarismo é um movimento antinacional e antidemocrático, com vínculos com as milícias e o crime organizado, reacionário moral e culturalmente, violento e obscurantista, inimigo das artes e da ciência. Um movimento que prosperou apoiado nos preconceitos e valores regressivos do senso comum presentes e arraigados na sociedade brasileira; como o fascismo histórico, o neofascismo bolsonarista mobiliza raivas, medos, inseguranças, frustrações e ressentimentos, difundidos em muitas parcelas do povo e que, embora tenham raízes históricas na formação da sociedade brasileira, hoje são resultados de quase quatro décadas de reformas e políticas neoliberais. Enquanto um movimento político de massa, o bolsonarismo é a sua expressão política.

Na Bahia, as manifestações produziram uma síntese do bolsonarismo e do momento que estamos vivendo, expressa em uma palavra de ordem repetida sistematicamente e com todo entusiasmo e convicção, qual seja: “AQUI É A BAHIA… E NA BAHIA FASCISTA NÃO SE CRIA”. Os seus participantes evidenciam, claramente, a compreensão que têm sobre a natureza do bolsonarismo, que só poderá ser derrotado nas urnas e, principalmente, na sociedade, com o povo mobilizado permanentemente, e não apenas no período eleitoral.

*Professor Titular da Faculdade de Economia da UFBA. Pesquisador na área de Economia Política, Desenvolvimento e Economia brasileira.

**Professora titular do Programa de Pós-graduação em C. Sociais da Faculdade de Filosofia e C. Humanas e do Programa de Serviço Social da Universidade Federal da Bahia, pesquisadora do Centro de Estudos e Pesquisas em Humanidades/CRH/UFBa, Bolsista Produtividade do CNPq, estudiosa do campo da sociologia do trabalho.

 

Fonte: Por Luiz Filgueiras e Graça Druck, em Outras Palavras

 

Dieta rigorosa e treino intenso podem atingir o sistema hormonal; entenda

A busca pelo emagrecimento, definição muscular e alto rendimento na academia pode ser benéfico, mas também pode sair caro para a saúde. Especialistas alertam que, dietas muito restritivas e rotinas pesadas de treino podem comprometer, além da mentalidade e do corpo, o sistema hormonal.

Um exemplo é a tenista norte-americana Emma Navarro, de 25 anos, que anunciou uma pausa na carreira após ser diagnosticada com RED-S (Deficiência Relativa de Energia no Esporte) e Tireoidite de Hashimoto.  Segundo os atleta, os quadros, decorrentes em parte de uma alimentação inadequada, provocavam tonturas, dores de cabeça, fadiga constante e dificuldade de concentração.

De acordo com o endocrinologista Rodrigo Gomes de Souza, quando o organismo recebe menos energia do que gasta por um longo período, ele aciona um mecanismo de defesa que passa a economizar, reduzir o ritmo do metabolismo e, consequentemente, isso compromete o sistema hormonal.

Nessas situações, o organismo reduz a atividade do eixo que controla a tireoide. Na prática, é como se o organismo percebesse que ‘está faltando combustível’ e diminuísse o ritmo do metabolismo para gastar menos energia.- Rodrigo Gomes de Souza, gerente médico corporativo de centros clínicos ambulatoriais da Hapvida

Isso mostra que comer pouco e treinar muito não, necessariamente, significa ser saudável. Por este motivo, aqueles que querem manter uma dieta saudável precisam manter um acompanhamento médico com um endócrino ou nutricionista.

Rotina pode influenciar no diagnóstico de Hashimoto

A Tireoidite de Hashimoto é uma doença autoimune onde o sistema imunológico atinge as próprias células da tiroide, impulsionado por distúrbios endócrinos. Segundo o especialista, dietas severas podem influenciar na falta contínua de energia, na inflamação da glândula e contribuir para o surgimento ou o agravamento da doença.

É como se o organismo já estivesse no limite e a falta de energia tornasse a situação aparente.

É possível que a tireoide já esteja funcionando abaixo do ideal, de forma discreta, antes mesmo de aparecerem sintomas claros. Nesse cenário, dietas muito restritivas ou rotinas de treino excessivamente intensas podem funcionar como um gatilho. - Rodrigo Gomes de Souza, gerente médico corporativo de centros clínicos ambulatoriais da Hapvida

<><> Segue uma rotina severa? Veja os sinais de alerta

Segundo o especialista, quando o corpo entra em colapso energético, os principais sinais estão:

  • Cansaço persistente, que não melhora com o descanso;
  • Dificuldade para perder peso, mesmo comendo pouco;
  • Perda de massa muscular;
  • Queda de libido;
  • Falhas ou ausência do ciclo menstrual;
  • Lesões por estresse repetidas.

<><> Como tratar?

Nos casos as doenças são impulsionadas pela baixa disponibilidade energética, o endocrinologista recomenda medidas além dos medicamentos. Não basta simplesmente ‘repor o hormônio’. É preciso também corrigir a falta de energia disponível para que o organismo volte a funcionar adequadamente”, afirma o especialista.

A recomendação é reduzir a intensidade dos treinos, introduzir nutrientes e carboidratos em proporções adequadas e procurar um especialista para checar as taxas hormonais e metabólicas.

¨      Caneta emagrecedora: 65% dos pacientes não conseguem custear tratamento

Apesar de muito popularizado para tratar obesidade, o custo das canetas emagrecedoras ainda é um fator determinante para a adesão ao tratamento. Os médicos acreditam que cerca de 65% dos pacientes não conseguem manter a dosagem ou continuar com o método por não poderem comprar o medicamento.

A constatação está presente na análise feita pela Brace Pharma, que reuniu dados de diversas pesquisas, divulgada nesta quinta-feira (15). Ao todo foram entrevistados 1.067 médicos. Segundo eles, apenas 28% das pessoas aptas ao tratamento conseguem pagar para continuar o uso.

Os profissionais foram entrevistados por estudantes de medicina em fase final da IFEPEC/Febrafar. A pesquisa está incluída no relatório da Brace Pharma.

<><> Popularização nas redes

Nas redes, as menções às canetas cresceram 86% em apenas seis meses.

A comparação foi feita entre o primeiro semestre de 2026 e o segundo semestre de 2025, e analisa conversas públicas em português coletadas pela ferramenta Brandwatch.

<><> Canetas emagrecedoras ilegais

Pelo alto custo, muitos pacientes podem recorrer ao uso de medicamentos ilegais. Cerca de 91,4% das menções sobre canetas emagrecedoras incluem compra sem receita e conversas sobre conseguir acesso ao remédio.

Em entrevista à CNN, a endocrinologista Deborah Beranger alerta que o uso intermitente e sem acompanhamento médico pode resultar no chamado “efeito sanfona”, em que o paciente alterna entre perda e ganho de peso. “Para o corpo, é muito pior você ficar reganhando do que você não perder peso”, explica.

Entre os efeitos colaterais mais comuns estão vômitos, diarreia e constipação. Casos mais graves já foram registrados, como obstrução intestinal e laceração de esôfago por vômito.

A Anvisa também não recomenda o uso de medicamentos ilegais, pois os produtos não foram avaliados pela agência e podem apresentar riscos à saúde. O comércio ilegal de medicamentos injetáveis é crime previsto no Código Penal brasileiro.

¨      Estudo: canetas emagrecedoras reduzem risco de câncer ligado à obesidade

Medicamentos com o receptor do hormônio GLP-1, como os utilizados em canetas emagrecedoras, foram associados a uma redução no desenvolvimento de cânceres relacionados à obesidade em adultos, como os que envolve tumores pancreáticos, endometriais, colorretais e de tireoide.

A conclusão foi publicada em um estudo recente da edição de agosto da revista científica Annals of Oncology. A pesquisa analisou mais de 229 mil adultos com obesidade e sem diagnóstico de diabetes nos Estados Unidos. Desse total, 86 mil utilizavam os medicamentos, enquanto 143 mil receberam orientação para dieta ou prática de exercícios.

Durante dois anos, os pesquisadores observaram que os pacientes que utilizavam os fármacos com GLP-1 apresentaram uma incidência 41% menor do conjunto de 13 tipos de câncer associados à obesidade, em comparação com aqueles que receberam apenas orientação sobre dieta ou exercícios.

Os pesquisadores também analisaram diferentes medicamentos da classe do GLP-1. O uso de semaglutida foi associado a uma menor incidência de câncer, assim como o de tirzepatida. No entanto, não houve comparação direta entre os dois medicamentos e, por isso, não foi possível identificar qual deles seria mais eficaz na redução do risco de câncer.

Entre os tipos de tumores analisados, foram observadas associações de menor incidência para câncer de pâncreas, endométrio, colorretal e tireoide. Também foram identificadas reduções para mieloma múltiplo e câncer de mama.

Apesar dos resultados, especialistas alertam que o ideal é que os medicamentos utilizados sejam originais e que o paciente precisa manter um acompanhamento médico, para não gerar efeitos negativos no organismo.

https://www.youtube.com/live/BURZebvm6sg?si=vtv8LHTTUIiA0_Po

<><> Sobre a obesidade

A obesidade é uma doença crônica que envolve o acúmulo anormal ou excessivo de gordura no corpo.

Segundo dados do SISVAN (Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional), 34,98% da população está sobre peso, totalizando mais de 7 milhões de pessoas; outros 22,74%, ou seja, 5 milhões de pessoas estão com obesidade Grau I; em obesidade grau II e grau III o índice chega a mais de 3 milhões de pessoas, cerca de 15% da população.

  • Os dados foram analisados nesta segunda-feira (7) pela CNN Brasil e contabiliza os números até agosto de 2026. 

De acordo com o Ministério da Saúde, a obesidade está relacionada ao aumento do risco para outras doenças como as do coração, diabetes, hipertensão arterial sistêmica, doença do fígado e diversos tipos de câncer (como o de cólon, de reto e de mama), problemas renais, asma, agravamento da covid, dores nas articulações, entre outras.

 

Fonte: CNN Brasil