Capitalismo
superindustrial e os limites da crítica reformista
“Chegamos
a um momento em que a crítica do capitalismo deixou de ser apenas um exercício
teórico e se tornou uma questão de sobrevivência histórica. Ela tem que ser
precisa”. O artigo é de Arlindenor Pedro, ex-preso político e anistiado,
professor de história, filosofia e sociologia, além de editor do Blogue Utopias
Pós Capitalistas-Ensaios e Textos Libertários, publicado por Agenda do Poder.
Segundo
ele, "o capitalismo não é apenas injusto. Ele se tornou
historicamente perigoso para a própria continuidade da vida civilizada. É por
isso que a tarefa do pensamento crítico, hoje, não pode limitar se a
imaginar remédios para a administração de um sistema agonizante. Ela precisa
ousar pensar, com toda a radicalidade que o momento exige, as formas de vida
que possam nascer para além dele".
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Eis o artigo.
Quando
me detenho sobre “Capitalismo Superindustrial” o mais recente livro
de Fernando Haddad, vejo diante de mim
um esforço sério e intelectualmente ambicioso de decifrar as mutações do
capitalismo no nosso tempo. Não se trata de um livro menor, nem de uma
reflexão passageira. Haddad quer compreender o modo como o capitalismo se reorganiza
numa época em que ciência, tecnologia e inovação deixaram de ocupar um lugar
apenas auxiliar e passaram a instalar se no próprio coração do processo de
acumulação.
Seu
argumento central é este: o capitalismo contemporâneo já não pode ser descrito
apenas como industrial. Ele teria ingressado numa etapa nova, em que o
conhecimento organizado, a pesquisa científica e a capacidade de inovar se
transformam diretamente em forças produtivas.
Ao
acompanhar o debate público que cercou o lançamento da obra, sobretudo a
conversa de Haddad com Lilia Moritz
Schwarcz e Celso Rocha de
Barros,
essa formulação se torna ainda mais nítida. O que ele chama de capitalismo
superindustrial não é apenas uma economia digital, nem tampouco uma etapa
vaga do chamado pós-industrialismo. Trata se, mais exatamente, de um momento
histórico em que o conhecimento deixa de ser simples apoio da produção e se
converte ao mesmo tempo em mercadoria e em meio de produção. Ciência,
tecnologia e informação entram de forma direta no circuito da valorização e
passam a reorganizar o funcionamento da economia global.
Se sigo
esse fio, percebo que Haddad não está interessado apenas em descrever
inovações técnicas. Ele procura mostrar que essa mutação atinge também
a estrutura social do capitalismo. O mundo do trabalho, segundo ele,
tornou se mais fragmentado. Ao lado do proletariado tradicional, emerge o
chamado cognitariado, composto por trabalhadores do conhecimento,
pesquisadores, engenheiros, técnicos e profissionais ligados aos setores de
ponta da inovação. Ao mesmo tempo, cresce o precariado, isto é, uma massa de trabalhadores
submetidos à instabilidade, à informalidade e à insegurança permanente. A
consequência política desse quadro, como o próprio Haddad sublinha, é bastante
grave: a fragmentação da classe trabalhadora dificulta a constituição
de sujeitos coletivos capazes de agir politicamente com força transformadora.
Há
ainda outro eixo do livro que merece atenção. Refiro me à releitura
que Haddad faz das experiências socialistas do século XX. Para ele,
regimes como a União Soviética e a China maoísta não
configuraram uma ruptura efetiva com o capitalismo. No debate público, essa
ideia aparece de maneira ainda mais direta e despojada. Segundo Haddad, essas
experiências funcionaram como formas de industrialização acelerada organizadas
pelo Estado. Em vez de constituírem sistemas realmente alternativos, teriam
operado historicamente como mecanismos de acumulação primitiva aptos a retirar
países atrasados da condição agrária e inseri-los no universo industrial
moderno.
Nesse
movimento, Haddad também reconhece o papel decisivo de formas de exploração
brutal, como o escravismo, na constituição do capitalismo moderno. O tráfico
atlântico, as plantations e a ordem
colonial aparecem como componentes centrais dos processos de acumulação que
acompanharam a expansão inicial do sistema. A escravidão, portanto, não surge
em sua análise como algo exterior ao capitalismo, mas como parte constitutiva
das formas históricas que alimentaram sua formação.
Se
reúno esses elementos, a imagem que o livro produz diante de mim é a de um
capitalismo dotado de notável elasticidade histórica. Trajetórias muito
distintas, experiências nacionais diversas, regimes ideologicamente
antagônicos, tudo isso teria podido convergir para um mesmo destino estrutural.
Capitalismos clássicos, socialismos de Estado e economias periféricas em
modernização acabariam, cada qual a seu modo, integrando se à lógica
global da acumulação. O capitalismo aparece, assim, como um sistema extraordinariamente
adaptável, capaz de metabolizar diferenças históricas profundas e reconduzi-las
à sua própria dinâmica de expansão.
Haddad faz
aqui uma crítica ao conceito mecanicista do chamado materialismo
histórico que analisa a história humana num continuum do
mais primitivo para o mais complexo, tal como a leitura de modos de produção
que se sucedem como sociedades
primitivas, escravismo, feudalismo, capitalismo e
finalmente o socialismo, que abriria as portas da humanidade para o
comunismo.
Eu
reconheço sem hesitar a força dessa leitura. Haddad identifica algo
que muitas interpretações envelhecidas do capitalismo ainda custam a admitir: a
ciência e a tecnologia deixaram de ser simples acessórios do desenvolvimento e
passaram a ocupar posição decisiva na reprodução ampliada do sistema. Ao
insistir que o conhecimento se converteu em força produtiva central, ele toca
num dos nervos mais expostos do presente. Mas é justamente nesse ponto que, a
meu ver, começam também os limites mais profundos de sua análise.
Quando
leio o livro de Haddad à luz da crítica do valor dissociação, ferramenta
analítica de autores como Robert Kurz, Moishe
Postone, Anselm Jappe, Roswitha Scholz, entre outros, percebo que
o problema não está no que Haddad vê, mas no modo como enquadra teoricamente
aquilo que vê.
Sua
leitura continua tratando o capitalismo, em grande medida, como um sistema
econômico definido pela industrialização, pela inovação tecnológica e pela
expansão da produtividade. O que me incomoda nisso é que tal definição acaba
aproximando demais capitalismo e progresso técnico, capitalismo e
desenvolvimento das forças produtivas, como se o essencial do sistema estivesse
na potência de seu aparato produtivo.
A crítica
do valor parte de outro ponto. Para ela, o núcleo do capitalismo não
reside nem na indústria, nem na tecnologia, nem mesmo no mercado entendido em
sentido vulgar. O núcleo do capitalismo está numa forma social específica,
baseada na produção de valor. Dito de outro modo: o capitalismo não se define
apenas porque existem mercadorias, dinheiro ou propriedade privada, mas porque
o trabalho abstrato se tornou o
mediador central da vida social. Mercadoria, dinheiro, capital e Estado não são
apenas instrumentos econômicos ou instituições políticas. São formas sociais
historicamente determinadas que organizam a reprodução da sociedade como um todo.
É aqui,
leitor, que a diferença de perspectiva se torna decisiva. Quando esse ponto de
partida se perde, a crítica do capitalismo muda de natureza. Em vez
de questionar a própria forma social da produção mercantil, passamos a discutir
apenas modelos mais ou menos eficientes de desenvolvimento, formas mais ou
menos equilibradas de gestão econômica, modalidades mais ou menos inclusivas de
administração do sistema. O horizonte deixa de ser a superação da ordem social
do capital e passa a ser o seu aperfeiçoamento institucional. Insisto neste
ponto: a abordagem teórica tem então que ser precisa e dotada de elementos que
nos permitam entender a real natureza do capitalismo, e como ele se apresenta
no mundo contemporâneo! Se isto não ocorrer ingressamos em caminhos tortuosos
que nos levarão a um beco sem saídas.
É
exatamente esse deslocamento que encontro em Capitalismo
Superindustrial. Ao descrever o capitalismo principalmente
como um regime de inovação tecnológica e acumulação
produtiva, Haddad desloca a questão fundamental. O problema histórico
do capitalismo deixa de ser a lógica social do valor e passa a ser a busca de
formas institucionais capazes de regular o crescimento econômico, conter
desigualdades excessivas e administrar os conflitos produzidos pelo próprio
sistema. E, convenhamos: isto não nos apresenta uma saída real.
Esse
mesmo deslocamento ajuda a entender a maneira como ele interpreta
o socialismo do século XX. Quando Haddad sustenta que
a União Soviética e a China foram apenas caminhos distintos
de industrialização, ele acerta ao afirmar que essas experiências não superaram
o capitalismo. Mas a crítica do valor chega a essa conclusão por razões mais
profundas. Para Robert Kurz, por exemplo, o
fracasso do socialismo estatal não decorreu apenas de autoritarismo
político, deformação burocrática ou atraso econômico. Ele decorreu do fato de
que tais experiências conservaram intocadas as categorias centrais da sociedade
da mercadoria. O trabalho continuou sendo o mediador social supremo. A produção
permaneceu organizada por metas quantitativas de acumulação. O Estado assumiu o
lugar de administrador geral de um sistema ainda subordinado ao imperativo
fetichista do valor.
E é
nesse ponto que emerge uma questão central do livro e das falas públicas
de Haddad: o papel da política. Haddad insiste, e com razão, que o
capitalismo contemporâneo gera desigualdades profundas, tensões sociais
explosivas e formas cada vez mais duras de fragmentação social. Mas, ao mesmo
tempo, ele aposta que a política democrática pode atuar como força corretiva
dessas distorções, seja por meio da regulação estatal, da redistribuição de
renda, do fortalecimento institucional ou da reconstrução de pactos inclusivos.
Confesso
ao leitor que entendo o apelo dessa aposta. Em tempos de sofrimento social
agudo, ela parece oferecer um chão mínimo, um caminho de contenção da
catástrofe, um esforço de civilização diante da brutalidade do mercado. No
entanto, a análise feita à luz da crítica do valor me obriga a olhar para essa
esperança com muito mais cautela. Para os autores que aqui citei a política
moderna não nasce fora da sociedade da mercadoria, como se fosse uma
instância soberana pairando acima da economia. Ela nasce no interior da própria
forma social capitalista e como seu complemento necessário. Estado e política
são momentos internos da reprodução fetichista, não forças exteriores capazes
de reorganizá-la livremente.
Isso
significa que a autonomia da política é sempre relativa.
O Estado pode regular, amortecer, conter, disciplinar, redistribuir
parcialmente e administrar crises. Pode até, em determinadas conjunturas
históricas, construir sistemas de proteção social, ampliar direitos e limitar
momentaneamente os efeitos mais destrutivos da concorrência e da acumulação. O
século XX forneceu exemplos eloquentes disso. Mas todas essas conquistas se
deram dentro dos limites permitidos pela própria valorização do capital. Onde
havia expansão econômica e base fiscal sólida, as reformas eram viáveis. Quando
a crise estrutural se aprofundava, o que antes parecia conquista histórica
tornava-se alvo de desmonte. E estes são os contornos da sociedade em que
vivemos na atualidade!
É por
isso que eu vejo a política moderna aprisionada num paradoxo severo. Ela é
indispensável para administrar as crises do
capitalismo,
mas é incapaz de suprimir as categorias que geram essas crises.
Enquanto mercadoria, trabalho
abstrato, dinheiro e capital continuarem sendo os
mediadores centrais da reprodução social, a política seguirá reduzida ao papel
de gestão dessas formas. Isso vale também para a experiência do chamado
socialismo real. A estatização da economia não aboliu a lógica da
mercadoria. Apenas a administrou burocraticamente, subordinando a sociedade
inteira a um regime de acumulação quantitativa comandado pelo Estado.
Esse
problema retorna quando observo como Haddad trata questões candentes
do presente, como racismo estrutural, patriarcalismo e violência social. Ele
reconhece, e corretamente, a persistência dessas formas de dominação.
Relaciona-as ao escravismo, ao colonialismo e
às desigualdades históricas que marcaram a formação das sociedades
modernas, especialmente no Brasil. O racismo aparece como
herança estrutural do passado escravista. O patriarcalismo, como dimensão
histórica que atravessa a organização do trabalho e da reprodução da vida.
Mas
aqui também percebo um limite. Essas questões aparecem sobretudo como camadas
históricas e sociológicas que acompanham o desenvolvimento do capitalismo, e
não como dimensões internas à própria lógica de sua forma social. A crítica do
valor dissociação vai além. Roswitha Scholz, por exemplo, mostra que o
patriarcado moderno não pode ser tratado apenas como resíduo de épocas
pretéritas. Ele está articulado à própria forma valor. A sociedade da
mercadoria organiza-se pela dissociação entre a esfera da produção de
valor, vinculada historicamente ao trabalho abstrato e à visibilidade pública,
e a esfera da reprodução social, atribuída às mulheres e rebaixada à condição
de suporte invisível do sistema.
O mesmo
pode ser dito, com as mediações necessárias, do racismo moderno. A
expansão colonial do capitalismo e os sistemas
de escravidão atlântica não foram simples anexos brutais de uma
história econômica neutra. Eles ajudaram a construir hierarquias raciais que
organizaram a divisão global do trabalho e a própria arquitetura social do
mundo moderno. O racismo não é apenas herança externa ao capitalismo. Ele
participa de sua constituição histórica.
Vejo
ainda outro limite importante no livro. Ao acentuar o papel da tecnologia
e da ciência, Haddad tende a tratar a transformação tecnológica como
motor relativamente autônomo da história. Automação, digitalização e inovação
científica aparecem como processos que reorganizam a economia e transformam a
estrutura social. A crítica do valor, no entanto, exige um passo além. A
tecnologia não é neutra, nem paira acima das relações sociais. Ela é
desenvolvida sob a coerção da valorização. O capital não inova para libertar a
humanidade do trabalho penoso ou para universalizar o florescimento humano. Ele
inova para elevar a produtividade do trabalho e ampliar a produção de valor.
Mas aí
está a contradição fatal. Quanto mais a tecnologia expulsa
trabalho vivo do processo produtivo, mais enfraquece a própria substância social
do valor. A automação generalizada corrói o fundamento da acumulação
ao mesmo tempo em que parece aperfeiçoá-lo. O capitalismo torna se mais
produtivo e, por isso mesmo, mais incapaz de sustentar sua própria lógica. A
crise contemporânea não é mero problema distributivo, nem simples falha
institucional. Ela expressa a contradição entre o desenvolvimento das forças
produtivas e a permanência de uma forma social que depende do trabalho abstrato
como medida de riqueza.
Sob
esse ângulo, o chamado capitalismo superindustrial pode ser visto
menos como novo ciclo estável de expansão e mais como forma avançada da crise
estrutural do capital. A centralidade da ciência, da automação e da tecnologia
não revela apenas a incrível plasticidade do sistema. Revela também o
esgotamento histórico de sua base social.
É por
isso que, no fim das contas, o limite mais profundo do livro me parece político
e histórico ao mesmo tempo. Haddad reconhece com clareza que o
capitalismo produz desigualdades explosivas. Vê que a desorganização do
trabalho, a financeirização, a revolução tecnológica
e a fragmentação social aprofundam tensões que podem corroer a
própria vida democrática. No entanto, sua resposta continua inscrita no
horizonte da administração do capitalismo. A política, em sua perspectiva,
aparece como motor de regulação, redistribuição e contenção dos excessos
sistêmicos. Em vez de colocar no centro a extinção histórica do capitalismo, o
livro permanece apostando em sua reforma civilizada.
É aqui
que sinto a insuficiência dessa obra diante do tempo em que vivemos. E isto tem
um caráter fundamental: uma obra deste tipo deve refletir os tempos que
vivemos, na sua totalidade. A intervenção teórica, sobretudo em um intelectual
que tem uma inegável inserção política no país, não nos deve conduzir a
caminhos tortuosos, impossíveis de serem percorridos. Chegamos a um momento, em
que a crítica do capitalismo deixou de ser apenas um exercício
teórico e se tornou uma de sobrevivência histórica. Ela tem que ser precisa!
E digo
isso sem qualquer prazer apocalíptico. A realidade é que o capitalismo parece
ter atingido suas fronteiras históricas. Suas bases de reprodução são corroídas
pela substituição estrutural do trabalho vivo, enquanto sua expansão ilimitada
devasta os próprios fundamentos naturais da vida. A crise climática, a
devastação ambiental, a guerra disseminada, o avanço de formas autoritárias de
poder, o colapso dos vínculos sociais e a produção massiva de populações
descartáveis indicam que já não estamos diante de uma crise cíclica qualquer.
Estamos diante de um processo histórico que pode desembocar em formas cada vez
mais profundas de barbárie.
Quando
digo barbárie, não falo em figura
retórica. Falo de um mundo em que vastas regiões se tornam inabitáveis, em que
guerras permanentes normalizam o extermínio, em que multidões são relegadas à
inutilidade econômica, em que a devastação ecológica corrói as condições elementares
da vida e em que a técnica, submetida à lógica cega da valorização, já não
emancipa, mas ameaça. O risco extremo, hoje, não é apenas o de uma sociedade
mais injusta. É o de uma humanidade incapaz de sobreviver aos resultados da
própria forma social que produziu.
Por
isso, a alternativa já não me parece situar-se entre modelos distintos de
gestão do capitalismo. O verdadeiro dilema se desenha de maneira mais nua e
mais dura: ou ultrapassamos a lógica da mercadoria, do valor e
do trabalho abstrato como princípios de organização da vida social,
ou continuaremos avançando por uma trilha em que a barbárie deixa de ser ameaça
e se converte em horizonte. A essa altura da história, talvez a questão central
já não seja saber como administrar melhor o capitalismo, mas se ainda haverá
tempo histórico para superá-lo antes que ele arraste consigo as bases
materiais, sociais e simbólicas da existência humana.
Esse,
para mim, é o ponto em que a crítica reformista revela seus limites.
E é também o ponto em que a crítica do valor dissociação, com toda a sua
dureza, nos obriga a encarar o presente sem ilusões. O capitalismo não é
apenas injusto. Ele se tornou historicamente perigoso para a própria
continuidade da vida civilizada. É por isso que a tarefa do pensamento
crítico, hoje, não pode limitar se a imaginar remédios para a administração de
um sistema agonizante. Ela precisa ousar pensar, com toda a radicalidade que o
momento exige, as formas de vida que possam nascer para além dele.
Fonte: IHU



