Eduardo
Bolsonaro sugere que o Brasil troque o Pix pelo Zelle, sistema ineficiente dos
Estados Unidos
Eduardo
Bolsonaro, irmão de Flávio Bolsonaro, sugeriu que o Brasil negocie com os
Estados Unidos uma alternativa ao Pix, sistema público, gratuito e amplamente
utilizado pelos brasileiros, em favor de um modelo inspirado no Zelle,
mecanismo privado de pagamentos usado no mercado estadunidense. A declaração
foi feita em vídeo nas redes sociais.
E o
Bananinha dizendo que os EUA têm o Zelle, que é muito semelhante ao Pix, e dá
pra negociar, hein?
"Os
Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o
Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra
uma mesa de… pic.twitter.com/Lb2Hd0PScq
— Allan dos Panos (@allandospanos) June 3, 2026
A fala
de Eduardo Bolsonaro ocorre em meio à ofensiva do governo Donald Trump contra o
Brasil, que colocou o Pix no centro de questionamentos comerciais feitos por
autoridades dos Estados Unidos. O sistema brasileiro passou a ser alvo de
críticas no contexto das pressões norte-americanas sobre o país.
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Eduardo Bolsonaro cita Zelle como “Pix dos Estados Unidos”
No
vídeo, Eduardo Bolsonaro afirma que os Estados Unidos possuem mecanismos
semelhantes ao Pix e cita o Zelle como exemplo. Para o deputado, essa
semelhança permitiria que o Brasil levasse o tema a uma mesa de negociação com
os norte-americanos.
“Os
Estados Unidos têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o
Zelle, que é o Pix dos Estados Unidos, aqui é o Zelle. Então dá pra você ir pra
uma mesa de negociação com os americanos”, disse Eduardo Bolsonaro.
A
declaração foi interpretada por críticos como uma sinalização de submissão aos
interesses dos Estados Unidos em um setor estratégico para a soberania
financeira brasileira. O Pix, criado e operado pelo Banco Central do Brasil,
tornou-se uma das ferramentas mais populares do país, sendo usado diariamente
por milhões de pessoas e empresas.
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Pix virou símbolo de soberania financeira
A
comparação entre Pix e Zelle provocou reação porque os dois sistemas têm
naturezas distintas. O Pix é uma infraestrutura pública de pagamentos
instantâneos, integrada ao sistema financeiro brasileiro e disponível de forma
ampla para a população. Já o Zelle é operado por instituições privadas nos
Estados Unidos e não possui o mesmo grau de universalização, eficiência e
alcance social do modelo brasileiro.
Ao
sugerir que o Brasil negocie com os Estados Unidos a partir de um sistema como
o Zelle, Eduardo Bolsonaro reforçou a percepção de que setores do bolsonarismo
estariam dispostos a flexibilizar uma das principais inovações financeiras
brasileiras para atender pressões externas.
Para
críticos, a proposta equivale a prestar vassalagem a Washington em um tema
diretamente ligado ao cotidiano da população. O Pix é utilizado para compras,
transferências, pagamentos de serviços, pequenos negócios, comércio popular e
operações bancárias de milhões de brasileiros.
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Bolsonarismo sob pressão após tarifaço de Trump
A fala
de Eduardo Bolsonaro se soma ao desgaste enfrentado por Flávio Bolsonaro (PL),
que tentou justificar o tarifaço de 25% anunciado pelo governo Trump contra
produtos brasileiros. O senador afirmou que a medida não teria como alvo as
empresas nacionais, mas o presidente Lula.
“Então,
não são as empresas brasileiras que estão sendo tarifadas. Quem está sendo
tarifado é o presidente Lula: é ele e o seu comportamento, são as suas ameaças
aos Estados Unidos e o seu sentimento anti-americano. É a sua ideologia sendo
colocada na frente do interesse do povo brasileiro que pode fazer com que as
empresas brasileiras sejam mais uma vez tarifadas”, declarou Flávio Bolsonaro.
A
tentativa de responsabilizar Lula por uma medida tomada pelos Estados Unidos
gerou forte reação política. Nos bastidores, aliados do governo avaliam que o
bolsonarismo passou a ser associado à defesa de interesses estrangeiros contra
o Brasil, especialmente depois que o Pix apareceu entre os pontos questionados
por autoridades estadunidenses.
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Zelle não é Pix
A frase
de Eduardo Bolsonaro também reacendeu o debate sobre a diferença entre os
sistemas. Ao chamar o Zelle de “Pix dos Estados Unidos”, o deputado ignorou que
o modelo brasileiro é reconhecido por sua rapidez, gratuidade para pessoas
físicas e ampla integração nacional.
O
Zelle, por outro lado, é frequentemente apontado como um sistema mais limitado,
dependente da adesão de bancos privados e sem o mesmo alcance social do Pix. A
comparação, portanto, foi vista por críticos como uma tentativa de reduzir a
importância estratégica de uma tecnologia brasileira que se tornou referência
internacional.
A
sugestão de levar o Pix à mesa de negociação com os Estados Unidos amplia o
desgaste político do bolsonarismo em meio à crise provocada pelo tarifaço de
Trump. Para o governo Lula, a defesa do Pix passou a fazer parte de uma agenda
mais ampla de soberania nacional, proteção da economia brasileira e resistência
a pressões externas.
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O que é o Zelle, sistema de pagamentos citado por Eduardo
Bolsonaro para negociação entre Brasil e EUA
Em meio
às críticas do
governo de Donald Trump ao Pix, o ex-deputado federal Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) sugeriu na quarta-feira (3/6) que o Brasil pode "ir para
a mesa de negociação" ao mencionar o uso do Zelle, que ele chamou "o
Pix americano".
Ao
canal TMC News, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro disse que os "EUA
têm mecanismos muito semelhantes ao Pix, como por exemplo o Zelle".
"Então
dá pra você ir para uma mesa de negociação com os americanos com bons
argumentos", seguiu o ex-deputado cassado que vive nos EUA há mais de um
ano fazendo articulações políticas que buscam favorecer o campo bolsonarista.
A
declaração de Eduardo foi dada em meio à pressão americana sobre o Pix, que
foi um dos alvos
do documento em que governo Trump propõe uma nova taxação de
25% sobre produtos brasileiros.
"O
Brasil tem prejudicado injustamente as empresas americanas que atuam em
serviços concorrentes de pagamento eletrônico, inclusive por meio de políticas
que favorecem seu campeão nacional, o Pix", afirma o documento da
investigação comercial iniciada contra o Brasil em julho do ano passado.
O
governo americano acusou o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo no
Pix — "como regulador e proprietário/operador" do Pix — criando um
"conflito de interesses, na ausência de salvaguardas processuais
adequadas".
As
críticas americanas seguem citando a exigência do uso do Pix por instituições
financeiras com mais de 500 mil contas e a de que o sistema de pagamentos seja
exibido na tela principal do aplicativo dos bancos no Brasil.
Em
pré-campanha à reeleição, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) vem
usando o argumento de que os Estados Unidos e a família Bolsonaro seriam contra
o Pix.
O
senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ), por sua vez,
tem citado que o Pix foi lançado em 2020, durante o governo de Jair Bolsonaro
(PL) — apesar de o projeto ter sido
iniciado ainda no governo Michel Temer (MDB), em 2018.
As
declarações de Eduardo Bolsonaro repercutiram no campo governista, com o
deputados do PT acusando os filhos do ex-presidente de agir contra o Brasil.
O
deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) os chamou de "entreguistas":
"Eduardo Bolsonaro confessa que quer entregar nosso Pix público e
gratuito, operado pelo nosso Banco Central, aos americanos. Nós não vamos
permitir".
Já a
ex-ministra Gleisi Hoffmann (PT-PR), disse que Eduardo "quer trocar o
nosso Pix pelo sistema americano chamado Zelle, como ponto de negociação pra
retirar a taxação americana, que eles ajudaram articular".
Diante
das críticas, Eduardo publicou nas redes sociais que jamais falou em substituir
o Pix pelo Zelle.
"Pix
foi criado pelo meu pai, sem taxas e assim deve permanecer. Sou pró-PIX",
escreveu na rede social X.
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O que é o Zelle e como se compara ao Pix
Diferentemente
do Pix — um sistema de pagamentos público, criado e operado pelo Banco Central
brasileiro —, o Zelle é um sistema privado de pagamentos e transferências,
operado por bancos americanos.
O
serviço é operado desde 2017 pela Early Warning Services, empresa que é
copropriedade de sete dos maiores bancos americanos: Bank of America, Capital
One, JPMorgan Chase, PNC Bank, Truist, U.S. Bank e Wells Fargo.
Segundo
a empresa, o Zelle está disponível em mais de 2,4 mil aplicativos bancários no
país. Ou seja, depende de cada banco a decisão de usar ou não.
Já no
Brasil, a participação no Pix é obrigatória para todas as instituições
financeiras autorizadas pelo Banco Central com mais de 500 mil contas ativas.
O
serviço americano anunciou que alcançou 151 milhões de usuários cadastrados em
2024, entre consumidores e pequenos negócios, fazendo mais de US$ 1 trilhão
(cerca de R$ 5 trilhões) em transferências naquele ano.
O Pix,
por sua vez, é usado por mais de 170 milhões de pessoas físicas no Brasil, ou
80% da população do país, movimentando R$ 35,4 trilhões em transferências
somente em 2025.
A CBS
News, parceira da BBC nos Estados Unidos, classifica o Zelle como uma
"resposta da indústria bancária ao crescente sucesso de serviços de
pagamento entre pessoas, como PayPal", uma plataforma global de pagamentos
online separada dos bancos.
Uma
limitação de serviços como PayPal, Venmo e Cash App é que os usuários precisam
usar o mesmo serviço para transferir dinheiro. Já com o Zelle, qualquer pessoa
com uma conta bancária em uma instituição financeira participante pode enviar
dinheiro.
Assim
como o Pix, o serviço americano permite que um cliente bancário envie recursos
rapidamente para outra pessoa usando apenas seu endereço de e-mail ou número de
telefone. No Brasil, os clientes podem usar ainda o CPF ou uma "chave
aleatória" para as transferências.
De
acordo com a Early Warning Services, o dinheiro é depositado diretamente na
conta bancária "em poucos minutos". Já o Pix é um serviços
instantâneo, que realizar pagamentos em segundos, estando disponível 24 horas
por dia, 7 dias por semana, inclusive em fins de semana e feriados.
O Bank
of America ressalta também em seu site que, "em algumas situações, a
instituição financeira do destinatário pode causar um atraso no processamento
da transferência" via Zelle.
Ainda
segundo a Early Warning Services, "normalmente não há tarifas para
consumidores enviarem ou receberem dinheiro por meio do Zelle", mas essa
não é uma regra. É possível que bancos cobrem taxas para transações, por isso é
preciso verificar com as instituições financeiras.
No
Brasil, o Pix é gratuito para pessoas físicas, microempreendedores individuais
(MEIs) e empresários individuais, e cobra taxas baixas de pessoas jurídicas,
que variam de 0,89% a 1,45% por transação, dependendo do banco, do volume de
recebimentos e do canal utilizado.
Os
limites de envio e recebimento de dinheiro pelo Zelle são definidos por cada
banco ou cooperativa de crédito participante.
No Pix,
os limites para pessoas físicas são definido pelas instituições financeiras,
com base no perfil de risco e de comportamento do usuário.
Em
um artigo
publicado em 2025 em que elogiou o Pix, o economista americano
Paul Krugman, vencedor do prêmio Nobel, disse que "o Pix é uma espécie de
versão pública do Zelle".
"Mas
o Pix é muito mais fácil de usar. E, embora o Zelle seja grande, o Pix se
tornou simplesmente enorme, sendo usado por 93% dos adultos brasileiros. Parece
estar rapidamente substituindo dinheiro em espécie e cartões", escreveu
Krugman.
Após a
citação do Pix no relatório produzido pelo Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) nesta semana, a
Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o meio de pagamento e disse
que a conclusão da investigação dos EUA decorre de "informações
incompletas" acerca dos objetivos e funcionamento do sistema financeiro.
"O
Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece
a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e consequentemente
da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com
participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e
estrangeiras", afirmou a entidade.
A
Febraban pontuou ainda que "não há qualquer restrição à entrada de novos
participantes, de qualquer porte ou segmento da indústria financeira, desde que
operem no mercado nacional".
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Por que PIX incomoda tanto o governo Trump?
A
menção ao Pix no relatório publicado pelo USTR nesta semana não foi o primeiro
ataque dos EUA ao sistema de pagamentos.
O Pix
foi mencionado em outro relatório do USTR de 31 de março em que os EUA listam o
que consideram barreiras comerciais de mais de 60 países contra empresas
americanas. Na ocasião, o governo brasileiro reagiu e o presidente Lula afirmou
que "o Pix é do Brasil".
No
relatório de março do ano passado, no entanto, o sistema de pagamentos não foi
mencionado diretamente, ao contrário do que aconteceu no deste ano.
Uma
fonte ouvida pela BBC News Brasil que tem proximidade com as negociações entre
Brasil e EUA comenta que uma das hipóteses para o endurecimento no tom agora
foi o desfecho de uma reunião recente da Organização Mundial do Comércio (OMC)
em que o Brasil bloqueou uma proposta dos EUA e outros países para estender a
moratória de tarifas aduaneiras sobre transmissões eletrônicas, que inclui
serviços digitais como streamings, softwares e jogos.
Há
ainda a grande derrota que o tarifaço de Trump sofreu no judiciário americano
em fevereiro deste ano, quando a Suprema Corte considerou que o instrumento que
vinha sendo usado para embasar as medidas (a Lei de Poderes Econômicos de
Emergência Internacional, ou IEEPA, na sigla em inglês), na verdade não
autorizava o governo americano a instituir as tarifas.
Em um
artigo de março deste ano, duas analistas do centro de pesquisas americano
Brookings Institute pontuaram que, diante desse revés, a Seção 301, usada na
investigação contra o Brasil, poderia entrar no cardápio do governo americano
como opção para voltar a taxar seus parceiros comerciais.
Do lado
do setor financeiro, a jurista Camila Villard Duran chama atenção para a
expansão do Pix no Brasil, "que altera diretamente o equilíbrio
competitivo para empresas americanas, como Visa e Mastercard", mas
especialmente para o fenômeno mais amplo no qual ele está inserido, de
transformação estrutural e reorganização da ordem monetária e financeira
internacional.
"O
Pix já não é apenas um sistema de pagamentos eficiente. Ele representa um
modelo de infraestrutura pública, que reduz a dependência de redes privadas
estrangeiras e concentra, no âmbito doméstico, o controle jurisdicional sobre
dados e fluxos financeiros", destaca Duran.
A
professora aponta que, no relatório do USTR, os EUA fazem críticas semelhantes
às feitas ao Brasil a países como Índia, Tailândia e Paquistão, "onde
políticas públicas nacionais promovem sistemas domésticos de pagamento, impõem
requisitos de localização de dados ou criam barreiras regulatórias à atuação de
empresas estrangeiras".
"Em
todos esses casos, o argumento dos EUA é semelhante: tais medidas seriam
discriminatórias e restringiriam o acesso de empresas americanas a mercados
nacionais", completa.
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Da economia à política
Diante
desse panorama, Duran avalia que a pressão sobre o Pix e sobre sistemas de
pagamentos de outros países também está ligada a uma questão ainda mais ampla,
de soberania.
O que
está em jogo, diz ela, já não é apenas a concorrência entre empresas, "mas
o controle sobre infraestruturas consideradas como críticas".
"Nas
minhas pesquisas, tanto sobre a criação do euro digital como sobre os projetos
de plataformas alternativas para transações financeiras transfronteiriças, noto
que a ideia de 'soberania monetária' está se deslocando muito rapidamente da
autonomia da política monetária para o controle jurisdicional sobre as
infraestruturas de pagamento e dos dados monetários que elas geram",
afirma Duran.
"A
moeda, na economia digital, torna-se cada vez mais informação e, nesse
contexto, o controle jurisdicional sobre esses dados passa a ser um elemento
central do poder monetário estatal."
Fonte: Brasi
247/BBC News Brasil


