Pode
o Brasil preservar sua soberania em uma nova era de intervencionismo?
A
política externa brasileira enfrenta um dos maiores desafios desde a
redemocratização. Em um cenário internacional marcado pelo retorno do
unilateralismo dos Estados Unidos, pela fragmentação política da América do Sul
e pelo enfraquecimento das instituições multilaterais, o Brasil precisa
encontrar um delicado equilíbrio entre a defesa histórica da soberania dos
Estados, a condenação de violações democráticas e a preservação de seus
próprios interesses estratégicos.
Essa é
a principal conclusão do artigo "Entre a
altivez e a sensatez: os dilemas brasileiros pós-intervenção dos Estados Unidos
na Venezuela",
assinado pelas pesquisadoras Marsílea Gombata (FAAP/Nupri-USP) e Carolina
Pedroso (Unifesp), publicado na edição nº 40 da revista Tempo do Mundo, lançada
nesta semana pelo Ipea, em Brasília.
O
estudo parte de um cenário prospectivo em que os Estados Unidos realizam uma
intervenção militar na Venezuela e capturam Nicolás Maduro. Embora se trate de
um exercício analítico de caráter prospectivo, as autoras utilizam esse cenário
para discutir questões extremamente atuais: o futuro da política externa
brasileira, a crise da integração sul-americana, a revitalização da Doutrina
Monroe sob Donald Trump e os limites da capacidade diplomática brasileira
diante da crescente competição geopolítica entre grandes potências.
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A política externa brasileira diante de um mundo mais hostil
Segundo
as autoras, o terceiro governo Lula encontrou um ambiente internacional muito
diferente daquele que permitiu ao Brasil exercer uma política externa
"ativa e altiva" durante os anos 2000.
Naquele
período, havia uma conjuntura favorável: crescimento econômico, expansão do
multilateralismo, fortalecimento dos BRICS e governos progressistas ocupando
boa parte da América do Sul.
Hoje,
argumentam, o cenário é praticamente oposto.
A
região vive um processo de fragmentação política, as instituições regionais
perderam força, a rivalidade entre Estados Unidos e China passou a organizar a
geopolítica mundial e Washington voltou a tratar a América Latina como espaço
prioritário de influência estratégica.
Diante
desse novo contexto, defendem que o Brasil precisa substituir parte da antiga
"altivez" por uma combinação de firmeza diplomática e pragmatismo
estratégico.
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O colapso da integração sul-americana
Um dos
eixos centrais do trabalho é a análise da deterioração do projeto de integração
regional construído durante os primeiros governos Lula.
As
pesquisadoras recordam que iniciativas como a Unasul e a Celac nasceram em um
ambiente político favorável à cooperação regional e à busca de maior autonomia
em relação aos Estados Unidos.
Entretanto,
mudanças eleitorais, polarização ideológica, crises econômicas e a própria
crise venezuelana contribuíram para desmontar esse processo.
Hoje,
argumentam, a América do Sul apresenta níveis inéditos de fragmentação
política, dificultando qualquer resposta coletiva diante de crises
internacionais.
Segundo
o artigo, essa falta de coordenação reduz significativamente a capacidade do
Brasil de exercer liderança regional.
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Venezuela tornou-se o principal fator de divisão
Outro
ponto desenvolvido pelas autoras é o papel desempenhado pela Venezuela na
polarização política regional.
Elas
reconhecem que o governo Maduro foi responsável por um processo acelerado de
deterioração democrática, acompanhado de forte crise econômica, hiperinflação,
êxodo populacional e concentração crescente de poder nas mãos do Executivo.
Ao
mesmo tempo, observam que as sucessivas tentativas internacionais de mediação
fracassaram, aprofundando as divisões entre os países latino-americanos.
Enquanto
alguns governos passaram a defender maior pressão sobre Caracas, outros
insistiram na busca de soluções negociadas e na defesa do princípio da não
intervenção.
Nesse
contexto, o Brasil passou a enfrentar um dilema permanente: preservar sua
tradição diplomática de defesa da soberania sem deixar de reconhecer os
problemas democráticos existentes na Venezuela.
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Trump e a retomada da Doutrina Monroe
O
artigo dedica ampla atenção à política externa do segundo governo Donald Trump.
Na
avaliação das autoras, Washington passa a recuperar elementos clássicos da
Doutrina Monroe, reinterpretando a América Latina como área prioritária de
segurança nacional.
Nesse
novo contexto estratégico, a Venezuela seria tratada simultaneamente como:
- foco do
narcotráfico;
- espaço de
influência chinesa, russa e iraniana;
- produtor
estratégico de petróleo;
- ameaça à
segurança hemisférica.
Segundo
o estudo, essa combinação serviria como justificativa para uma intervenção
militar norte-americana inédita na América do Sul.
As
autoras observam ainda que o combate ao narcotráfico aparece como elemento
central da nova estratégia norte-americana, associado à ampliação dos poderes
presidenciais para realizar operações militares extraterritoriais.
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Brasil entre Washington e Caracas
A
hipótese da intervenção coloca o governo brasileiro diante de uma situação
extremamente delicada.
Condenar
a ação militar significaria reafirmar princípios históricos da diplomacia
brasileira.
Mas
ignorar os problemas internos da Venezuela também poderia gerar custos
políticos internos e externos.
Segundo
as pesquisadoras, o governo Lula tenderia a optar por uma posição
intermediária: rejeitar a violação da soberania venezuelana, ao mesmo tempo em
que reconheceria os graves problemas institucionais acumulados pelo chavismo.
Essa
posição, entretanto, dificilmente produziria consenso regional, dada a profunda
polarização existente na América do Sul.
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O impacto da política doméstica
Outro
aspecto relevante destacado pelo artigo é a crescente influência da política
interna sobre a política externa brasileira.
As
autoras observam que temas internacionais — especialmente Venezuela e relações
com os Estados Unidos — passaram a influenciar diretamente o debate eleitoral
brasileiro.
Pesquisas
de opinião citadas no estudo mostram que parte significativa da sociedade
considera que o governo Lula demonstrou excesso de proximidade com Maduro,
enquanto outra parcela vê preocupação na crescente influência norte-americana
sobre a região.
Essa
divisão limita a margem de manobra diplomática do governo.
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Conter e engajar
Inspirando-se
nos trabalhos do cientista político Feliciano de Sá Guimarães, o artigo propõe
que o Brasil adote uma estratégia baseada em dois movimentos simultâneos:
- conter
iniciativas unilaterais capazes de ameaçar a soberania regional;
- manter canais
permanentes de diálogo com Washington, evitando isolamento diplomático.
Essa
política permitiria ao Brasil preservar autonomia sem romper relações com os
Estados Unidos, especialmente em temas como comércio, tecnologia, segurança e
combate ao crime organizado.
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A sensatez como complemento da altivez
Na
conclusão, Marsílea Gombata e Carolina Pedroso sustentam que o Brasil já não
dispõe das mesmas condições estruturais que permitiram sua projeção
internacional durante os primeiros governos Lula.
Num
ambiente internacional mais conflituoso, marcado pela crise do
multilateralismo, pela competição entre grandes potências e pela fragmentação
política da América do Sul, a diplomacia brasileira precisaria combinar firmeza
na defesa da soberania com flexibilidade para negociar em condições adversas.
A
"sensatez", afirmam as autoras, não substitui a tradicional
"altivez" da política externa brasileira. Ela passa a ser seu
complemento indispensável diante de um mundo cada vez mais instável, no qual
preservar autonomia exige não apenas princípios, mas também capacidade de
adaptação estratégica.
¨ Washington Araújo:
Brasil amplia autonomia ao acessar capital chinês
Há
notícias que faço questão de ler duas ou três vezes antes de escrever. Aprendi,
depois de décadas acompanhando economia e relações internacionais, que algumas
decisões aparentemente técnicas acabam revelando mudanças muito mais profundas
do que deixam transparecer na primeira leitura. Foi exatamente essa impressão
que tive ao conhecer a intenção do governo brasileiro de emitir, pela primeira
vez, títulos soberanos em yuan no mercado doméstico chinês. Quem enxergar
apenas uma operação financeira estará olhando para a árvore e ignorando a
floresta.
Durante
muito tempo, acostumei-me a ver o Brasil recorrer quase sempre aos mesmos
caminhos quando precisava dialogar com o mercado internacional de capitais.
Nova York ocupava posição central. Londres aparecia logo depois. Em alguns
momentos, Frankfurt ampliava esse circuito. Era como se o mapa financeiro
mundial tivesse poucos endereços realmente relevantes. A realidade de hoje é
outra. A economia global tornou-se mais distribuída, a Ásia consolidou-se como
centro de produção, investimento e inovação, e a China deixou de ser apenas a
grande fábrica do planeta para transformar-se também em uma das maiores fontes
de crédito e liquidez internacionais. Ignorar essa transformação seria
interpretar o presente com categorias do passado.
É por
isso que considero tão importante a decisão brasileira. O Tesouro Nacional
prepara uma emissão de até 5 bilhões de yuans, cerca de US$ 735 milhões, por
meio dos chamados Panda Bonds, títulos colocados diretamente no mercado
financeiro chinês. Em termos fiscais, a operação pouco altera o perfil da
dívida pública brasileira, medida em trilhões de reais. Seu alcance, porém, vai
muito além do valor captado. Pela primeira vez, o Estado brasileiro convida
investidores chineses a participarem diretamente do financiamento de sua dívida
soberana. Isso altera a natureza da relação entre os dois países. Até agora, a
China era principalmente nossa maior compradora de produtos. Passa,
gradualmente, a tornar-se também financiadora do Estado brasileiro.
Não
interpreto esse movimento como simples diversificação cambial. Vejo nele uma
mudança estratégica de posicionamento internacional. Em abril deste ano, o
Brasil voltou ao mercado europeu depois de mais de uma década sem emissões
naquele ambiente, captando 5 bilhões de euros. A procura superou 16 bilhões de
euros, demonstrando forte confiança dos investidores internacionais na economia
brasileira. Agora surge uma terceira avenida financeira. O país deixa de
depender exclusivamente dos mercados tradicionais para construir uma presença
também no maior mercado de capitais da Ásia. Essa sequência não parece casual.
Ela revela planejamento.
Sempre
desconfiei da ideia de que autonomia nacional se constrói apenas com discursos
diplomáticos. Países fortalecem sua soberania quando ampliam suas
possibilidades de escolha. Quem depende de uma única moeda, de um único mercado
financeiro ou de um único centro de crédito aceita, consciente ou
inconscientemente, viver sob limitações que não controla. Diversificar não
significa romper relações com parceiros históricos. Significa reduzir
vulnerabilidades. É exatamente isso que as grandes economias procuram fazer
quando o cenário internacional se torna mais imprevisível.
Os
números ajudam a compreender essa decisão. Desde 2009, a China ocupa a posição
de maior parceiro comercial do Brasil. Em 2025, o intercâmbio entre os dois
países ultrapassou US$ 170 bilhões, respondendo por mais de um quarto de todo o
comércio exterior brasileiro. Nenhum outro parceiro possui hoje essa dimensão
econômica nas relações com o Brasil. Continuar concentrando nossas fontes de
financiamento apenas nos mercados ocidentais, enquanto a maior relação
comercial brasileira se fortalece na Ásia, passou a representar uma assimetria
difícil de justificar.
Também
não estamos diante de uma experiência isolada. Portugal abriu esse caminho em
2019, tornando-se o primeiro integrante da zona do euro a emitir títulos
soberanos em yuan. A Hungria aprofundou essa estratégia e lançou uma emissão de
5 bilhões de yuans em 2025. O Egito captou 3,5 bilhões de yuans em 2023. A
Eslovênia realizou uma emissão de 4 bilhões de yuans neste ano. O Cazaquistão
estreou recentemente nesse mercado com 3,4 bilhões de yuans, registrando
demanda muito superior à oferta. O Paquistão também prepara sua entrada. Cada
país possui motivações distintas, mas todos chegaram à mesma conclusão: ampliar
as alternativas de financiamento fortalece a posição internacional do Estado.
O caso
brasileiro, contudo, possui uma característica própria. Diferentemente de
alguns desses países, o Brasil não enfrenta sanções econômicas, não perdeu
acesso aos mercados em dólar nem necessita recorrer ao yuan por falta de
opções. Está fazendo uma escolha, não respondendo a uma emergência. Essa
diferença muda completamente a leitura geopolítica da operação. Não se trata de
procurar uma saída. Trata-se de construir novas possibilidades antes que elas
se tornem indispensáveis.
Outro
aspecto merece atenção. Empresas brasileiras como Vale e WEG já demonstraram
interesse em acessar o mercado financeiro chinês. Para grupos que produzem,
investem e vendem intensamente naquele país, captar recursos em yuan reduz
riscos cambiais e aproxima receitas das obrigações financeiras. A emissão
soberana do Tesouro cria uma referência importante para futuras operações
privadas, funcionando como porta de entrada para um relacionamento financeiro
muito mais amplo entre as duas economias.
Vejo um
erro recorrente em parte do debate brasileiro. Ainda insistimos em interpretar
qualquer aproximação com a China como se representasse, automaticamente, um
afastamento dos Estados Unidos. Essa lógica talvez tenha feito sentido durante
a Guerra Fria. Hoje ela empobrece a análise. As grandes potências defendem seus
interesses nacionais com clareza. A China faz isso. Os Estados Unidos também. A
União Europeia, igualmente. Não encontro razão para que o Brasil seja o único
país chamado a justificar permanentemente suas escolhas estratégicas.
Ao
observar essa emissão em yuan, não penso em substituição de moedas nem em
disputas ideológicas. Penso em autonomia. Penso na capacidade de um país
negociar simultaneamente com diferentes centros financeiros, diferentes
investidores e diferentes moedas, preservando maior liberdade para tomar
decisões. Essa me parece ser a verdadeira novidade.
Continuo
convencido de que o futuro pertencerá às nações capazes de ampliar suas opções,
e não às que permanecerem presas às estruturas que organizaram a economia
mundial durante tantas décadas. O Brasil possui alimentos, energia, água,
biodiversidade, capacidade industrial e um mercado interno entre os maiores do
planeta. Não há razão para comportar-se como economia periférica quando pode
atuar como protagonista. A emissão soberana em yuan não muda, sozinha, a
posição brasileira no mundo. Mas sinaliza que começamos, finalmente, a
compreender que independência econômica não nasce de discursos. Nasce da
coragem de construir alternativas.
Fonte:
Brasil 247




