sexta-feira, 13 de março de 2026

Entenda os possíveis impactos econômicos no Brasil da guerra no Irã

A disparada do preço do petróleo esta semana provocou temores no mundo todo sobre as possíveis consequências da guerra no Oriente Médio na economia global.

Os bombardeios a refinarias e instalações de petróleo em países como Irã, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Catar e o fechamento pelo Irã do Estreito de Ormuz — por onde costuma passar um quinto do petróleo do mundo — geraram dúvidas sobre o abastecimento global.

Nesta quarta-feira (11/3), três navios no Estreito de Ormuz foram atingidos por 'projéteis desconhecidos', segundo autoridades marítimas, em meio à intensificação da pressão sobre uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.

No começo da semana, o preço do barril de petróleo Brent, que é referência no mercado, saltou de menos de U$ 90 para US$ 120. Após declarações do presidente americano Donald Trump sugerindo que a guerra pode acabar em breve, os preços voltaram a cair e vêm operando em um nível estável desde então, próximo de US$ 90.

Líderes e analistas não sabem dizer neste momento qual será o impacto real da guerra nas economias.

O governo britânico já alertou que o custo de energia deve subir por causa do conflito. Trump disse esta semana que aumentos de curto prazo no preço do petróleo são "um preço muito pequeno a pagar pela segurança e paz dos EUA e do mundo".

No Brasil, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse que sua equipe está avaliando a situação e elaborando diferentes cenários para orientar decisões do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um dos problemas para analistas econômicos é entender se as turbulências atuais são choques passageiros ou mudanças estruturais.

"A grande dúvida que fica é se esse movimento de petróleo mais alto é algo técnico e pontual, ou se é realmente algo estrutural, ou seja, o novo patamar do petróleo é mais perto de U$ 100 do que de US$ 60 ou US$ 70 de antes do conflito", disse Jerson Zanlorenzi, sócio do BTG Pactual, em análise a investidores.

"Se você tem um movimento mais técnico, específico e de curto prazo, pode haver choque na inflação com gasolina mais cara, mas não é algo que vai trazer inflação para toda a cadeia. Se o petróleo é negociado a US$ 100 ou US$ 110, isso certamente vai levar a uma reprecificação da inflação projetada no mundo todo, porque o petróleo é matéria-prima da indústria."

Diante dos impactos ao redor do globo, a Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou nesta quarta que vai liberar 400 milhões de barris de petróleo para compensar a perda de abastecimento.

O anúncio foi feito na quarta-feira pelo diretor-executivo da agência, Fatih Birol, que indicou que os 32 países membros votaram unanimemente a favor da maior liberação de reservas de petróleo da história da AIE.

"Os desafios que enfrentamos no mercado de petróleo são de uma escala sem precedentes; portanto, estou extremamente satisfeito que os países membros da AIE tenham respondido com uma ação coletiva de emergência sem precedentes", afirmou o diretor-executivo.

A AIE é um órgão internacional que coordena a política energética e as reservas estratégicas de petróleo de 32 países industrializados, em sua maioria economias avançadas da Europa, América do Norte e região Ásia-Pacífico.

<><> Gasolina vai subir no Brasil?

Um dos problemas mais imediatos para consumidores no mundo é o aumento de combustíveis — que já está sendo sentido nos EUA e em países da Europa por conta do encarecimento do barril do petróleo, o que é consequência dos bloqueios em Ormuz e ataques a refinarias no Oriente Médio.

Dados da associação de motoristas AAA revelam que o preço dos combustíveis aumentou 11% nos EUA durante a primeira semana do conflito, atingindo o patamar mais alto em mais de um ano.

No Brasil, já há relatos de oscilações dos preços nos combustíveis, mas o impacto ainda não é totalmente conhecido. Na terça-feira (10/3), a Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) pediu ao Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) que investigue os recentes aumentos registrados no país.

Sindicatos de combustíveis em Estados como Rio Grande do Sul, Distrito Federal, Bahia, Minas Gerais e Rio Grande do Norte relataram que já estão percebendo aumentos de combustível da ordem de R$ 0,80 por litro no diesel e R$ 0,30 na gasolina.

Segundo a Senacon, esses aumentos não deveriam estar acontecendo porque, até agora, não houve um reajuste oficial do preço praticado pela Petrobras.

O Brasil é autossuficiente na produção de petróleo — mas não é autossuficiente no refino, etapa em que o petróleo bruto é transformado em combustíveis. Isso faz com que o preço da gasolina doméstico seja impactado por choques externos.

A Petrobras é determinante no preço da gasolina e do diesel no Brasil porque controla a maior parte da capacidade de refino.

Até 2023, a empresa mantinha uma paridade de preços do petróleo – e dos combustíveis derivados, como gasolina e diesel – com o dólar e o mercado internacional. O preço dos combustíveis no Brasil acompanhava flutuações internacionais, em uma política conhecida como Preço de Paridade de Importação (PPI).

Mas o governo Lula encerrou a PPI e passou a adotar critérios diferentes — como custo alternativo do cliente e valor marginal da Petrobras — que deram à companhia maior flexibilidade para estabelecer seus preços.

Neste momento de grande flutuação internacional dos preços e dúvidas sobre a duração do conflito no Oriente Médio, não está claro o que a Petrobras vai fazer.

Pedro Rodrigues, sócio do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), diz que a Petrobras consegue "amortecer" o choque do preço internacional para o consumidor brasileiro — mas que existe grande incerteza no mercado doméstico.

"A Petrobras vive um dilema hoje sobre o qual ninguém sabe a resposta: se, quando e a que velocidade repassar [os aumentos do preço do petróleo internacional ao consumidor brasileiro]. Enquanto isso, surgem volatilidade e incerteza", disse Rodrigues à BBC News Brasil.

"Se o petróleo continuar subindo e os preços se estabilizarem num patamar mais alto, é muito difícil a Petrobras não repassar para esse aumento de preço para o consumidor em algum momento, senão vivemos risco até de apagão de produto, porque ninguém vai conseguir importar e o produto acaba faltando em alguns lugares, o que seria uma situação pior ainda."

<><> Inflação, juros e contas públicas

Para Rodrigues, o maior risco para a economia brasileira é que o preço do petróleo fique em um patamar alto — acima de US$ 100 — por um período prolongado. Isso teria efeitos não só na gasolina, mas também na inflação, juros e contas nacionais.

"A inflação pode vir de vários itens da cesta, mas o maior efeito ocorre se os combustíveis forem repassados ao consumidor", diz o especialista do CBIE.

"Há risco de inflação maior e juros mais altos, mas isso é um processo. É preciso distinguir se o choque é pontual ou se o preço vira algo mais estrutural."

Se a guerra se prolongar, já há alguns estudos e análises prevendo esses impactos.

Um estudo recente da XP traça diferentes cenários.

"Estimamos um impacto de 0,25 a 0,40 pontos percentuais para cada aumento de 10% nos preços do petróleo, assumindo um cenário de câmbio estável. Se o petróleo se estabilizar em torno de US$ 100 por barril [acima dos US$ 60 de antes da guerra], nossa projeção para o IPCA de 2026 subiria de 3,8% para quase 5,0%", diz o relatório.

O relatório afirma que cada aumento de 10% no preço da gasolina nas refinarias levaria a um aumento de 0,12 pontos percentuais no IPCA.

"Ainda é incerto se a Petrobras repassará totalmente o aumento dos preços internacionais para os combustíveis domésticos, especialmente considerando que receitas com exportação de petróleo aumentam em um cenário de preços elevados", diz o relatório.

As dúvidas sobre um impacto da guerra na inflação geram outra incerteza — se os bancos centrais no mundo (inclusive no Brasil) vão seguir cortando os juros, como vinham fazendo, diante do arrefecimento das expectativas de inflação antes da guerra.

"Sem dúvida [a alta do petróleo] deixou uma incerteza grande para os Bancos Centrais. No Brasil, antes disso tudo acontecer, tínhamos uma probabilidade esmagadora de o Copom começar o corte com 0,5 pontos percentuais e isso migrou para 0,25", disse Zanlorenzi. "Mesmo se o petróleo retomar o patamar anterior, vai ficar sobre a mesa do Banco Central um comentário de que o ambiente está mais incerto."

Por outro lado, a balança comercial e as contas públicas brasileiras poderiam até ser beneficiadas pelo choque no mercado como consequência da guerra.

No caso da balança comercial, o petróleo se tornou o principal produto de exportação do Brasil, representando cerca de 13% das exportações totais.

Já no caso das contas públicas nacionais, o Estado brasileiro recebe royalties e participações governamentais com a exploração do petróleo, então em um cenário de alta internacional, a arrecadação pública cresce.

Uma projeção do BTG Pactual afirma que a alta do petróleo para o patamar de US$ 80 por barril poderia cortar o déficit primário praticamente pela metade em 2026, se isso se manter até o fim do ano.

Mas outro estudo da XP alerta que nem todo dinheiro dos royalties vai para o governo federal.

"É importante notar que 55% a 60% dessa receita é transferida a Estados e municípios, assim, o efeito líquido para o governo federal seria de aproximadamente R$ 4,5 bilhões", diz.

Mas todos esses cenários — de impacto em inflação, juros, balança comercial e contas públicas do Brasil — só se consolidaria se houvesse uma mudança de patamar no nível do preço do petróleo de mais longo prazo. E esse cenário é incerto.

Nesta quarta-feira, os preços do petróleo pareciam ter se estabilizado por ora, após o salto de segunda-feira e a queda de terça-feira.

Além disso, há outras soluções sendo estudadas internacionalmente para se evitar que a guerra provoque problemas no abastecimento de petróleo.

Os países do G7 vem estudando medidas para liberar reservas estratégicas de petróleo, em meio à volatilidade dos preços causada pela guerra com o Irã. Todos os países membros da Agência Internacional de Energia (AIE) são obrigados a manter reservas de petróleo para o caso de interrupções globais — o equivalente a aproximadamente 90 dias de suprimento.

"Esses efeitos [da guerra] nos juros, inflação e desemprego é um processo. É preciso entender se esse momento da guerra é algo esporádico ou se essa mudança de preço é estrutural", diz Rodrigues.

¨      Governo Lula zera impostos do diesel para tentar segurar alta do combustível com guerra no Irã

O governo federal anunciou nesta quinta-feira (12/3) um conjunto de ações para tentar conter a pressão que a alta do petróleo pode exercer na economia.

Uma delas é zerar os impostos sobre o diesel — PIS e Cofins —, eliminando as duas tarifas federais que incidem sobre o combustível. De acordo com o Planalto, a medida representa redução de R$ 0,32 por litro.

O governo também dará subvenção — uma espécie de auxílio financeiro — a produtores e importadores de diesel no valor de R$ 0,32 por litro. Na prática, o governo prevê que as duas medidas reduzirão R$ 0,64 por litro nas bombas.

Outra medida será taxar as exportações, no intuito de aumentar o refino interno e financiar as desonerações.

A disparada do preço do petróleo nesta semana provocou temores no mundo todo sobre as possíveis consequências da guerra no Oriente Médio na economia global.

Os bombardeios a refinarias e instalações de petróleo em países como Irã, Bahrein, Kuwait, Emirados Árabes, Arábia Saudita e Catar e o fechamento pelo Irã do Estreito de Ormuz — por onde costuma passar um quinto do petróleo do mundo — geraram dúvidas sobre o abastecimento global.

No começo da semana, o preço do barril de petróleo Brent, que é referência no mercado, saltou de menos de U$ 90 para US$ 120. Após declarações do presidente americano Donald Trump sugerindo que a guerra pode acabar em breve, os preços voltaram a cair e vêm operando em um nível estável desde então, próximo de US$ 90.

Líderes e analistas não sabem dizer neste momento qual será o impacto real da guerra nas economias.

O governo britânico já alertou que o custo de energia deve subir por causa do conflito. Trump disse esta semana que aumentos de curto prazo no preço do petróleo são "um preço muito pequeno a pagar pela segurança e paz dos EUA e do mundo".

Um dos problemas para analistas econômicos é entender se as turbulências atuais são choques passageiros ou mudanças estruturais.

"A grande dúvida que fica é se esse movimento de petróleo mais alto é algo técnico e pontual, ou se é realmente algo estrutural, ou seja, o novo patamar do petróleo é mais perto de U$ 100 do que de US$ 60 ou US$ 70 de antes do conflito", disse Jerson Zanlorenzi, sócio do BTG Pactual, em análise a investidores.

"Se você tem um movimento mais técnico, específico e de curto prazo, pode haver choque na inflação com gasolina mais cara, mas não é algo que vai trazer inflação para toda a cadeia. Se o petróleo é negociado a US$ 100 ou US$ 110, isso certamente vai levar a uma reprecificação da inflação projetada no mundo todo, porque o petróleo é matéria-prima da indústria."

Diante dos impactos ao redor do globo, a Agência Internacional de Energia (AIE) anunciou nesta quarta que vai liberar 400 milhões de barris de petróleo para compensar a perda de abastecimento.

O anúncio foi feito na quarta-feira pelo diretor-executivo da agência, Fatih Birol, que indicou que os 32 países membros votaram unanimemente a favor da maior liberação de reservas de petróleo da história da AIE.

"Os desafios que enfrentamos no mercado de petróleo são de uma escala sem precedentes; portanto, estou extremamente satisfeito que os países membros da AIE tenham respondido com uma ação coletiva de emergência sem precedentes", afirmou o diretor-executivo.

A AIE é um órgão internacional que coordena a política energética e as reservas estratégicas de petróleo de 32 países industrializados, em sua maioria economias avançadas da Europa, América do Norte e região Ásia-Pacífico.

¨      Guerra no Oriente Médio pode deixar setor agrícola do Brasil sem diesel, alerta FAEP

O agravamento das tensões no Oriente Médio ameaça a agropecuária do Paraná e do Brasil, com riscos de desabastecimento de diesel, combustível essencial para atividades mecanizadas, além de elevação dos preços e aumento dos custos logísticos do frete rodoviário, informou a Federação da Agricultura do Estado do Paraná (FAEP).

A entidade destaca que sindicatos rurais do interior do Paraná já registram escassez de combustíveis, insumo fundamental para a produção mecanizada no campo.

"O motivo da preocupação envolve a situação no estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo e do gás natural comercializados no mundo. A instabilidade na região já começou a provocar turbulências no mercado internacional de energia, com reflexos nos preços dos combustíveis utilizados em diversos setores da economia", ressalta o texto.

Segundo a matéria, o diesel é um insumo essencial para o agronegócio brasileiro, estando presente em praticamente todas as etapas da produção e no transporte dos produtos rurais.

Os combustíveis fósseis, sobretudo o diesel, respondem por 73% da energia utilizada na agropecuária, movimentando máquinas e sustentando a logística do setor.

No Brasil, o transporte rodoviário responde por mais de 60% do escoamento de cargas, como grãos, fertilizantes e ração, e 29% do diesel utilizado no país é importado. Assim, a escassez ou a alta nos preços do combustível elevam os custos da produção mecanizada e do frete, podendo atrasar o plantio e a colheita.

No Paraná, a intensa mecanização da produção de soja, milho, trigo e cana-de-açúcar, além das cadeias de avicultura e suinocultura, tende a agravar esses impactos devido à constante dependência de diesel.

Dessa forma, o texto conclui que um forte aumento no preço do diesel, provocado pela atual escalada militar no Oriente Médio, pode gerar impactos significativos no agronegócio brasileiro.

Anteriormente, a CNN Brasil informou que um eventual fechamento do estreito de Ormuz pode afetar significativamente o mercado global de fertilizantes, com reflexos para o setor agrícola brasileiro.

Segundo a reportagem, caso a instabilidade persista, os impactos no transporte de fertilizantes nitrogenados, essenciais para a agricultura, poderão se tornar mais relevantes. Além disso, possíveis restrições à navegação podem afetar a logística das exportações e a formação de preços.

¨      Países liberam reservas de petróleo para conter alta

Agência Internacional de Energia (AIE) disse nesta quarta‑feira (11/03) que seus países‑membros vão desbloquear 400 milhões de barris de petróleo de suas reservas para amenizar o impacto da guerra no Oriente Médio. Esta é a maior liberação da commodity já registrada na história da organização, que conta com 32 países-membros, a maioria deles nações ricas da Europa e também os EUA e Austrália, entre outros.

"O desafio que estamos enfrentando no mercado de petróleo é sem precedentes em escala, portanto fico muito satisfeito que os países‑membros da IEA tenham respondido com uma ação coletiva de emergência de tamanho igualmente inédito", afirmou o diretor‑executivo da AIE, Fatih Birol.

A injeção de petróleo no mercado supera os 182 milhões de barris que os países‑membros da entidade liberaram em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia.

"As reservas de emergência serão disponibilizadas ao mercado em um prazo adequado às circunstâncias nacionais de cada país‑membro e serão complementadas por medidas emergenciais adicionais por parte de alguns países", disse a AIE.

<><> Alemanha e Japão puxam liberações

O anúncio ocorreu enquanto líderes do G7 discutiam, em videoconferência presidida pelo presidente francês Emmanuel Macron, os impactos econômicos da guerra entre Estados Unidos e Israel contra o Irã, que agora entra em sua segunda semana.

Países em todo o mundo mantêm grandes quantidades de petróleo que podem usar em caso de crise. Como se trata de uma commodity global e inundar o mercado com um fluxo repentino de novos suprimentos tem implicações internacionais, os países costumam conversar entre si antes de recorrer às reservas. Isso inclui a coordenação com a AIE, organização criada justamente após a crise do petróleo de 1973.

Mais cedo, o Japão, cujas reservas estratégicas de petróleo estão entre as maiores do mundo, e a Alemanha disseram que recorreriam de forma unilateral aos seus estoques.

"Dada a dependência excepcionalmente alta do Japão em relação ao Oriente Médio (para petróleo) e considerando que seremos severamente afetados, planejamos utilizar nossas reservas estratégicas", afirmou a primeira‑ministra japonesa Sanae Takaichi. Os barris serão desbloqueados já no dia 16, sem "sem esperar por uma decisão formal" da AIE, completou.

No caso da Alemanha, 2,4 milhões de toneladas serão liberadas, ainda sem data definida.

<><> Volatilidade de preços

O mercado de petróleo tem sido atingido por forte volatilidade desde que Estados Unidos e Israel começaram a atacar o Irã no final de fevereiro. A retaliação iraniana atingiu alvos em todo o Golfo Pérsico, inclusive navios petroleiros. O Estreito de Ormuz, por onde passa cerca de 20% do petróleo e gás do mundo, também foi praticamente fechado.

A ação disparou os preços do petróleo, que modularam desde o início do conflito e chegaram a um pico de 120 dólares o barril. O anúncio da AIE, porém, não arrefeceu o custo futuro do Brent, com os mercados ainda incertos sobre o plano da agência. Nesta quarta-feira, a commodity é negociada acima de 4% em relação ao dia anterior, ultrapassando os 90 dólares por barril. 

Ao atacar novo navio cargueiro também nesta quarta-feira, um porta-voz militar iraniano disse esperar que o preço do petróleo chegue a 200 dólares o barril. 

Já o secretário do Interior dos EUA, Doug Burgum, afirmou que o problema de trânsito é "temporário". "O que temos aqui não é uma escassez de energia no mundo. Temos um problema de transporte", afirmou.

<><> Ações domésticas contra a crise

A analista sênior da Swissquote Bank, Ipek Ozkardeskaya, entende que 400 milhões de barris ainda seriam uma quantidade "modesta" em comparação com os cerca de 45 milhões de barris consumidos diariamente pelos países da AIE.

Países ao redor do mundo têm corrido para responder ao aumento dos preços do petróleo.

Bangladesh mobilizou o Exército para proteger depósitos de petróleo, a Índia impôs controles mais rígidos sobre gás natural e gás de cozinha, e autoridades francesas realizaram inspeções em postos de gasolina, multando aqueles que foram flagrados inflando preços.

Os 32 membros da AIE mantêm mais de 1,2 bilhão de barris de reservas públicas de emergência, além de 600 milhões de barris de estoques industriais mantidos sob exigência governamental.

 

Fonte: BBC News Brasil/Sputnik Brasil/DW Brasil

 

Educação: o nó estrutural do magistério no Brasil

O Brasil universalizou o acesso à escola ao longo das últimas décadas, especialmente a partir da expansão do ensino fundamental nos anos 1990. Mas não universalizou o direito efetivo à aprendizagem. Construiu-se um sistema formalmente abrangente, porém estruturalmente desigual em resultados, permanência escolar e trajetórias pós-escolares.

Quase todas as crianças entram na escola. Saem, entretanto, para destinos profundamente distintos. O paradoxo é persistente: mais escolarização convive com desigualdade extrema, frustração social e corrosão da promessa meritocrática.

Desde a Constituição de 1988, a educação ocupa um lugar central no discurso democrático. Esse reconhecimento, porém, não se converteu em uma arquitetura institucional capaz de tratar a desigualdade educacional como um problema sistêmico. Consolidou-se uma sucessão de políticas fragmentadas, que administram a desigualdade, mas não a enfrentam. Os mecanismos de reprodução social descritos pela sociologia da educação seguem operando quase intactos.

O diagnóstico é conhecido. A transformação, reiteradamente adiada.

<><> O nó estrutural do magistério

Nenhuma reforma educacional profunda ocorreu sem enfrentar as condições materiais, profissionais e simbólicas dos professores. No Brasil, esse é o núcleo duro do bloqueio reformista.

A formação inicial é fragmentada. A formação continuada é episódica. As carreiras são instáveis. A remuneração é incompatível com a centralidade social da função. As condições de trabalho favorecem o adoecimento e a evasão profissional.

Exige-se da escola que absorva problemas sociais crescentes mantendo o magistério em condição estrutural de precariedade.

As experiências internacionais mostram o contrário. Na Finlândia, a valorização docente foi o ponto de partida, não a consequência. Na Coreia do Sul, políticas de equalização caminharam em conjunto com a construção de um corpo docente profissionalizado e socialmente prestigiado. Não há equidade educacional sem um pacto explícito com os professores.

<><> Desigualdade territorial e material

A desigualdade educacional brasileira é também territorial. As condições de funcionamento das escolas variam drasticamente entre regiões, centros urbanos e periferias, áreas urbanas e rurais. Infraestrutura precária, ausência de bibliotecas e laboratórios, conectividade limitada e problemas básicos de saneamento ainda são realidade em milhares de escolas.

Falar em equidade sem enfrentar essas assimetrias materiais esvazia o próprio conceito. Países que reduziram desigualdades combinaram financiamento redistributivo com padrões nacionais mínimos de infraestrutura escolar. No Brasil, a persistência dessas disparidades revela menos escassez de recursos e mais ausência de prioridade política continuada.

<><> A fratura entre público e privado

Há ainda uma contradição estrutural raramente enfrentada: a segmentação entre redes públicas e privadas. Enquanto os grupos de maior renda recorrem majoritariamente ao ensino privado, a escola pública tende a ser percebida como política “para os outros”.

Essa clivagem corrói a base social da escola pública. Onde as classes médias se retiram do sistema, enfraquece-se a pressão política por qualidade, financiamento e proteção institucional. Reformas orientadas à equidade exigem, em algum grau, a preservação da escola pública como referência compartilhada.

<><> Plataformas, dados e soberania cognitiva

A escola deixou de ser o principal ambiente de circulação do saber. Crianças e jovens vivem imersos em plataformas, redes, algoritmos e sistemas de recomendação. Torna-se incontornável ampliar a conectividade educacional, mas com infraestrutura pública robusta e capacidade soberana de gestão de dados educacionais.

Sem um projeto educacional explícito, a tecnologia tende a amplificar desigualdades pré-existentes. Ao mesmo tempo, a incapacidade de formar competências críticas sustenta circuitos de desinformação, negacionismo científico e erosão democrática. Nesse contexto, a educação passa a operar também como política de soberania cognitiva.

<><> Política de longo curso

O Estado brasileiro produziu diagnósticos corretos. O Plano Nacional de Educação identificou com clareza a valorização docente, o financiamento e a desigualdade territorial como eixos centrais.

Seu problema não foi a ausência de diretrizes, mas a falta de instrumentos políticos capazes de sustentá-las ao longo do tempo. Sem coordenação federativa robusta, financiamento previsível e capacidade institucional de correção de rumos, o PNE operou mais como referência normativa do que como força organizadora.

Reformas educacionais profundas são intergeracionais. Um horizonte plausível exige tratar a educação como política de Estado de longo curso, por exemplo, com uma perspectiva que se estenda de 2027 a 2050.

<><> Escolha civilizatória

A relevância das eleições de 2026 ultrapassa a de uma simples disputa eleitoral. Elas representam a escolha entre reconstruir um pacto democrático baseado em ciência, educação e fortalecimento institucional e aprofundar trajetórias de desmonte, obscurantismo e negacionismo.

A educação não é uma política setorial. É escolha civilizatória.

Sem enfrentar simultaneamente o pacto docente, a desigualdade territorial e a fragmentação social do sistema, o Brasil continuará adiando sua revolução educacional – e, com ela, a possibilidade de uma democracia socialmente sustentável.

 

Fonte: Por Celso Pinto de Melo, em Outras Palavras

 

Covid, 6 anos: anjos da memória e do esquecimento

Exatamente seis anos atrás, no dia 12 de março de 2020, morria na zona leste da cidade de São Paulo a primeira vítima da covid-19 no Brasil: Rosana Aparecida Urbano, diarista de 57 anos, falecida no mesmo hospital em que visitou sua mãe no dia anterior. Até 2023 somaram-se 700 mil mortes por covid-19 reportadas, vítimas do projeto negacionista do ex-presidente Jair Bolsonaro que transformou o país com o maior sistema público de saúde do mundo em um laboratório a céu aberto, no qual estratégias comprovadamente falsas – como a “imunidade de rebanho” ou o “tratamento precoce” – deixaram rastros de destruição.

Ainda em 2021, os esforços investigativos da Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia (ou CPI da Pandemia) recomendaram o indiciamento de dezenas de pessoas ligadas ao governo Bolsonaro. Os últimos atos de relevância foram o anúncio, pelo Ministério da Saúde, da criação do “Memorial da Pandemia de Covid-19”, no Rio de Janeiro, e a instauração do Grupo de Trabalho dedicado ao aprimoramento das estratégias brasileiras de resposta às emergências de saúde. É marcante, porém, que nenhuma dessas iniciativas tenha se traduzido ainda em iniciativas tangíveis .

<><> O Anjo marca o lugar

Firmou-se como símbolo da pandemia no Brasil a cidade de Manaus, palco de uma das faces mais marcantes da crise pela abertura de covas coletivas em 2020 e pelo esgotamento dos suprimentos de oxigênio que resultou na morte por asfixia de pelo menos 40 pessoas. O caso foi um dos focos principais das investigações realizadas pela CPI da covid-19, que revelou depoimentos e documentos que comprovaram a negligência do Centro de Coordenação das Operações do Comitê de Crise da covid-19 (CCOP), então responsável pela resposta federal à pandemia, e dos demais órgãos competentes.

O documento revelou, por exemplo, que a empresa responsável pela maior parte do suprimento de oxigênio disponível em Manaus havia feito inúmeras tentativas de contato com o Governo Federal para notificar sobre a escassez de recursos – a última em 11 de janeiro de 2021, três dias antes dos estoques de oxigênio se esgotarem. No entanto, o governo federal buscou responsabilizar a população manauara pela falta de adesão ao “tratamento precoce”.

Apesar desse atravessamento dramático entre a pandemia e a cidade de Manaus, o primeiro memorial financiado pela Prefeitura surgiu apenas em 2025. A praça Anjo da Esperança foi inaugurada no dia 02 de novembro como parte das homenagens do Dia de Finados. Localizada na entrada do cemitério Nossa Senhora Aparecida, o monumento central é a representação de um anjo (de fisionomia próxima a imagem clássica de Jesus) com três metros de altura, no rosto a máscara facial e nas mãos pulmões – “símbolo do respiro da humanidade”.

O artesão, o gari Luiz Cláudio Azevedo da Silva, é responsável por outras esculturas presentes na sede da Secretaria Municipal de Limpeza Urbana (SEMULSP), entre elas a réplica do touro dourado de Wall Street. A iniciativa foi apresentada pela Secretaria como uma “homenagem às vítimas da covid-19 e aos profissionais da saúde que atuaram na linha de frente durante a pandemia”.

<><> Disputas pelas lembranças

A inauguração teve pouca repercussão na mídia nacional. Um memorial já havia sido prometido durante as campanhas eleitorais do ex-prefeito Arthur Virgílio Neto (à época no PSDB) e do atual prefeito David Almeida (Avante) nas eleições de 2020 e era uma demanda ativa de familiares de vítimas da covid-19 ao longo dos anos.

Ainda assim, não existem documentos ou notícias que identifiquem algum tipo de iniciativa de participação da população e/ou das associações de vítimas na idealização e realização do monumento ou na inauguração, na qual reporta-se apenas a fala do vice-prefeito Renato Junior (Avante). Vale notar ainda que, meses antes da inauguração, o Ministério Público do Estado do Amazonas havia formalizado uma investigação contra a SEMULSP pelo descaso com a limpeza e manutenção das covas no cemitério que viria a sediar o memorial, principalmente na seção onde estão as covas coletivas abertas para receber as vítimas da covid-19.

Nas redes sociais da SEMULSP, entre os comentários elogiosos, existem comentários que questionam a homenagem, refletindo o sentimento de insatisfação quanto ao potencial do monumento de representar o que aconteceu na cidade durante a pandemia. Em depoimento, familiares de vítimas afirmaram que o memorial deveria ter sido idealizado “não apenas para ser visto, mas para ser sentido.”

É marcante que nesse campo santo estão 74,94% (4.679) de todas as vítimas da covid-19 enterradas em cemitérios públicos da cidade, muitas dessas em covas coletivas com demarcações degradadas ou ausentes. De fato, o “Anjo da Esperança” e a sua praça não foram capazes de nomear as vítimas ali representadas, o que aconteceu com elas e, principalmente, os motivos que centralizam a crise que levou à sua morte. Nesse sentido, nos resta perguntar sobre qual versão do passado a esperança do anjo representado está construída.

Uma maneira de justificar essa pergunta é entender o anjo através do simbolismo comparado ao anjo da história de Walter Benjamin, representado na pintura de Paul Klee Angelus Novus. O anjo nega, para Benjamin, a história linear no qual os acontecimentos encadeados se orientam ao progresso; olhando involuntariamente para o passado, “ele vê uma catástrofe única, que acumula incansavelmente ruína sobre ruína e as dispersa a nossos pés”. Esse olhar contínuo do anjo permite que se faça surgir o passado no presente, conexão que se evidencia através do testemunho.

É o testemunho sobre o passado que permite que a ação no presente aconteça, contrariando a renúncia ao fatalismo do que já se foi, protagonista de uma perspectiva linear da história. Pensando sobre a relação dos países latino-americanos com a memória após as suas ditaduras militares, José Carlos M. da Silva Filho remonta essa alegoria para explicar que: “Não se trata de reproduzir o fato com documentos, mas sim de fazer justiça escutando quem fala [as testemunhas] do seu sofrimento”. No caso da pandemia, reivindicar uma política de memória demanda significar essas mortes para além do choque quantitativo, tornando presente o testemunho dos mortos e dos vivos sobre as suas tragédias.

<><> “Para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça”

Ainda nas palavras do Professor Silva Filho, “recuperar o passado é tarefa da memória, de uma memória que se põe à escuta daquilo que foi esquecido”. Sob ela está a responsabilidade da humanidade sobre as suas mazelas e aqueles que sofrem as suas consequências. Como ecoa o lema da justiça de transição que temos repetido, a memória serve para que não se repitam os erros, as negligências, as ignorâncias e os crimes do passado.

Nisso é necessário considerar que “a política da memória não é monopólio do Estado” (ou de nenhum dos seus representantes) e, sim, parte de uma rede complexa e ampla de diferentes testemunhos que juntos constroem a história. Por isso, familiares de vítimas, ativistas e especialistas da saúde se unem hoje, novamente na demanda por justiça e na luta contra o esquecimento.

Como marcou Deisy Ventura em entrevista ao Outra Saúde, é necessária uma “cultura de reconhecimento das violações de direitos ocorridas”, aliada e constituinte dessa política. Afinal, os responsáveis hoje presos não o foram pelos crimes cometidos durante a pandemia, seis anos após a primeira morte por covid-19 no Brasil. O olhar do “Anjo da Esperança” precisa ser reorientado da rua para dentro do cemitério, reconhecendo e nomeando as consequências de escolhas cruéis.

Será o esquecimento necessário para o “respiro da humanidade”? Ou precisamos considerar se é possível respirar sem lembrar?

 

Fonte: Por Mariana Cabral Campos, em Outra Saúde

 

“Momento político”: reflexões do marqueteiro Paulo de Tarso responsável por diversas campanhas de petistas a tucanos

O avanço da direita no cenário internacional, especialmente encabeçado pelo projeto "Maga" (Make America Great Again, ou Torne a América Grande de Novo, evocado por Donald Trump), interferiu na popularidade do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). É como avalia Paulo de Tarso da Cunha Santos, marqueteiro político há mais de 40 anos, responsável por diversas campanhas nas últimas décadas, de petistas a tucanos. Lula está encurralado, diz Tarso em entrevista à BBC News Brasil. Sua avaliação é que iniciativas no campo administrativo, como programas sociais e investimento em infraestrutura, não chamam mais a atenção do eleitor."O povo está cansado da demora que a democracia liberal propõe", diz Tarso. "Uma obra, que às vezes leva quatro anos para ser entregue, traz um sentimento eterno de que as coisas não andam."

<><> Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

·        Como o senhor enxerga esse crescimento do senador Flávio Bolsonaro na disputa presidencial?

Paulo de Tarso da Cunha Santos - A situação internacional, com o projeto Maga, deu uma interferência na tendência lulista de crescer naturalmente. Com isso, uma argumentação poderosa do Lula sobre o multilateralismo ficou muito prejudicada.

Acho que o Lula está muito sem iniciativa, está muito preso no canto da parede. Coisas administrativas que eles tinham pensado, parece que o povo não está dando muita atenção. O povo está cansado da demora que a democracia liberal propõe. Uma obra, que às vezes leva quatro anos para ser entregue, traz um sentimento eterno de que as coisas não andam. Estamos vivendo um momento em que o povo está meio cansado da propaganda petista, que não tem mais a eficiência que tinha no passado.

·        O senhor acha que o Lula sabe disso?

Paulo de Tarso - A impressão que dá é que não. Acho que ele vai começar a se preocupar agora que as coisas estão ficando mais apertadas, e isso vai obrigá-lo a fazer uma revisão do projeto do partido. Não adianta fazer campanha com prestação de contas do que foi feito, é preciso olhar para o futuro. O Flávio [Bolsonaro] é um cara novo, ele sintetiza o futuro e o antipetismo. Há também uma guerra midiática. A impressão que dá é que a mídia liberal comprou o projeto do Flávio [Bolsonaro], algo que não deveria ser estranho para o Lula, porque a vida política dele sempre foi assim. Além de tudo isso, há a rejeição direta ao PT e ao Lula, que representa metade do país. Do ponto de vista técnico, não é tão grande, dado o tempo que o PT está no poder, é até explicável.

·        O senhor fez campanhas para diferentes políticos, de diferentes partidos. Dada as particularidades de cada campanha e candidato, o que uma campanha vitoriosa tem que ter?

Paulo de Tarso – A primeira coisa é entender o que é vitorioso numa campanha. A campanha vitoriosa não é sempre a que vence. Campanha vitoriosa é a da Marina [Silva, em 2010], que começou com 4% e acabou com 20% [dos votos]. Existe uma vitória de credenciamento também. Se a pessoa fica para a próxima eleição melhor do que ela entrou, você fez uma campanha que ganhou credenciamento. Isso não satisfaz muito a mídia, em geral, todo mundo pensa só nos vencedores, mas nós, estrategistas, temos que preparar o nosso candidato para voos futuros. É quase que uma escalação. Vejo o caso do Lula, que quase ganha uma [eleição, em 1989], perde a segunda para o Plano Real [1994], perde a terceira [1998], a quarta [ganha, em 2002], é como se ele tivesse sido escalado, ao olhar do povo, para jogar na seleção.

Existe um estudo acadêmico sobre isso, o efeito "agora é Lula" [jingle da campanha de 2002]. Ali é dito que o recall é muito grande, as propostas, questões de rejeição já foram muito tratadas nas campanhas anteriores. Enfim, o processo político leva com que ele [Lula] pareça ao eleitorado maduro. Isso se o caminho for feito com qualidade. Essa percepção de vitória, como a gente chama, é o que conduz à vitória de verdade. Tem uma pergunta nos questionários quantitativos, que é assim: independente de quem o senhor vota, quem acha que vai ganhar a eleição? Essa resposta é a mais importante para os profissionais de planejamento. Se a gente está crescendo na expectativa de vitória, é que a campanha está indo bem. Não importa crescer na intenção de voto, porque você pode perder a intenção de voto no último minuto. Mas a expectativa de vitória é construída como uma decisão mais sólida. E muita gente usa a expressão que no Brasil é muito conhecida, que é "não quero perder meu voto".

·        O senhor disse em 2018 que a TV tinha dez vezes mais importância do que as redes sociais. Naquele ano, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) ganhou a eleição tendo oito segundos de TV. Era uma avaliação equivocada?

Paulo de Tarso - Sou teimoso. Não conheço nenhum projeto internético que tenha vencido pela internet. Estou falando de projetos majoritários. Projetos proporcionais, eu conheço vários. Não acho Trump um fenômeno da internet, não acho a [Georgia] Meloni na Itália um fenômeno de internet, não acho a direita um fenômeno da internet. No Brasil, não creio que o Bolsonaro tenha vencido na internet. A internet colaborou, deu mais recall, deu um espaço que antes ele não tinha. Mas, mesmo com esses [poucos] segundos, ele poderia vencer, por causa da demanda cidadã que havia pelo projeto que eu acho que recebeu ajuda, foi formatado, pelo projeto Maga.

·        Existe uma avaliação de que a esquerda ainda não aprendeu a usar a internet. O senhor concorda?

Paulo de Tarso - Não concordo. Porque acho que usar a internet de repente está sendo percebido pela sociedade como "a internet tem que ser ruim, tem que ser do mal". Só funciona a internet que eu te agrido, que minto sobre você, que desinformo.

As pessoas parecem não ver os grupos de fóruns de debate, o novo jornalismo, a juventude se manifestando. Evidente que o que chama muito atenção é essa violência própria descoberta, como atribuem, ao Steve Bannon, que é o profissional de marketing do Trump. Acho que ele só percebeu que o Goebbels [Joseph Goebbles, ministro da propaganda nazista] tinha percebido antes, e que outras dezenas de profissionais que fazem assessoria de imagem perceberam, que é o discurso mais simples, mais formatado em poucas palavras, mais dentro da humanidade, visceral.

Pátria, família e Deus. Isso eu e você que nos conhecemos agora, concordamos. Mas se a gente falar de igualdade, já não concordamos. O que é igualdade? Você vai querer saber e, até eu te explicar, vai demorar. Queria terminar essa avaliação com um fenômeno: a direita tem tido mais presença na internet, medida pelas pesquisas. Em todo o período desse terceiro mandato do Lula, a direita tem mais presença na internet, mas não consegue ultrapassar o índice de intenção de votos do Lula.

·        Ou seja, essa presença não se reflete em votos?

Paulo de Tarso - Não se reflete em voto. Like não é igual a voto. Isso é uma coisa objetiva. Você faz política fazendo política, com os fatos políticos. A repercussão que o Bad Bunny teve, citando todos os países da América na abertura do Superbowl, aquilo não é impulsionamento gratuito. Aquilo é um gesto político de grande poder que toma conta de toda a sociedade.

·        Qual meio de comunicação vai ser mais importante na eleição desse ano?

Paulo de Tarso - Um mix. Qualquer estrategista que conheça um pouquinho do Philip Kotler [professor universitário americano, chamado informalmente de "pai do marketing"] vai te dizer: você pode perder por 1%, porque trabalhou mal no rádio. Todos os países estão trabalhando com diferenças [de vitória] muito pequenas. Tirando Portugal, que deu uma diferença grande [nas eleições do início do mês], tudo é 2% ou 3%. Então, um erro que você cometa em um dos meios é o suficiente para você perder.

·        O que é cometer um erro?

Paulo de Tarso - A organização de um projeto de campanha tem que ser para preencher as necessidades que as pessoas detectam em pesquisa — segurança, o preço dos alimentos, enfim —, mas também tem que envolver, trazer a possibilidade da pessoa se encher de vontade, nem digo de esperança, mas de vontade de seguir o caminho. Na verdade, a campanha é uma grande tradutora de utopia. O que vai acontecer agora em 2026 será uma utopia enfrentando uma outra utopia. E vai prevalecer quem traduzir melhor. Se na televisão vier com problema muito difícil, muito cheio de pensamentos, não vai traduzir, o povo não vai se identificar, não vai dar nada. Se vier com excesso de agressividade, produz rejeição também.

·        Os debates exercem um papel central ainda nas camapanhas?

Paulo de Tarso - Sim. Acho que hoje, para fixar o conceito entre os diversos targets [públicos-alvo], o que sobra de mais livre de expressão são os debates. E agora com uma circunstância que não existia, que são os cortes na internet. Os candidatos não debatem mais para o momento do debate, debatem para o corte da internet. Ele é preparado para isso. O corte democratiza o debate, amplifica, bota em um horário mais acessível, ao mesmo tempo que apresenta expressões curtinhas. Enfim, ganhos e perdas. O debate frente a frente, não tem nada igual, do ponto de vista da percepção que a gente tem dos candidatos, seus defeitos e qualidades.

·        Essas avaliações que saem pós-debate, sobre quem foi melhor, importam para a campanha?

Paulo de Tarso - Temos medições que mostram que a avaliação é mais importante que o debate. Quando o telejornal define quem ganhou, a tendência do povo é achar que aquele candidato foi melhor. Em 1989, tivemos uma questão da edição de um debate nosso feito pela TV Globo, que é um caso de repercussão internacional e que deu origem ao documentário Muito Além do Cidadão Kane (1993). Mais que o debate e os próprios cortes, que deu um minuto e meio a mais para o [Fernando] Collor, que é tecnicamente uma coisa inexplicável, o que funcionou foi uma pesquisa Vox que eles puseram no final, com 584 entrevistados. Não dão amostra, não dão nada na proporção de cidades nem nada. O Collor ganhava em tudo: melhor debatedor, melhor proposta... Aquilo ali definiu que o Collor era o mais preparado para vencer. Mais do que propriamente a comparação entre os candidatos.

·        Por que o jingle "Lula Lá" se difere dos demais?

Paulo de Tarso da Cunha Santos - "O Lula lá" é um jingle que foi pensado para a militância. Não era pensado para público universal e nem para ser tocado na televisão, com cenas captadas em estúdio, cenas de rua, etc. Era pensado para a militância vibrar. Ele tem um quê de canção gospel brasileira. Foi complicado a gente achar, eu e o Hilton [Acioli, compositor], esse formato. Primeiro trabalhamos em um samba enredo, mas depois virou uma cantiga, um cântico, quase um hino. E, aí, o Hilton, com o talento dele, pôs os versos. Tem uma repetição, não tem um refrão chiclete. Normalmente, os compositores para [uma música] pegar, fazem um refrão chiclete, e "Lula lá" não tem, ele tem a repetição, tem um introito, e depois "Lula lá, Lula lá". Isso faz com que as pessoas aprendam a cantar com muita facilidade. E deu muito certo, porque foi uma campanha em 1989 que mobilizou muito a militância.

·        Os jingles hoje ocupam o mesmo lugar de importância que ocupavam no passado?

Paulo de Tarso - A capilaridade que a internet traz, junto com a televisão, com o jornal, enfim, todos os meios, faz com que seja mais difícil determinar um mote. A competição é muito grande, na rede e fora da rede. O quanto a rede ocupa e o quanto a televisão ocupa? A competição ainda está meio igual, o que mostra um pouco como você tem que pensar o trabalho. O planejador tem que pensar num trabalho com eficiência em tudo. Hoje, você pode perder a eleição no YouTube. Outra razão é que estamos em uma política mais distanciada da população. Houve uma despolitização, uma ascensão neoliberal muito forte no mundo todo e não houve possibilidade de educação do povo. E o resultado disso foi um lento distanciamento da população.

·        Mas essa ausência de educação do povo é também uma consequência dos governos do próprio PT, não?

Paulo de Tarso - Acredito que o PT tenha feito muito pela educação, no sentido dos limites impostos pelo golpe de 1964, que até hoje permeiam a política brasileira. Acredito que o PT fez várias coisas, posso citar programas aqui, como o Prouni, mas ele não conseguiu implantar uma educação que tivesse mais força na conscientização, que é a proposta do doutor Paulo Freire. O PT não teve foco, objetivo, em uma educação para a liberdade. Acho que o grande desafio do Brasil para o próximo decênio, a partir de agora, é realmente educar o povo. E acho que isso está unindo esquerda e direita. A questão é como e onde?

·        O marqueteiro João Santana disse recentemente que Lula deve ganhar já no primeiro turno, pois levar a decisão para o segundo turno será arriscado. Como o senhor está avaliando essa pré-candidatura à reeleição do Lula nesse momento?

Paulo de Tarso - Seguramente, não concordo com o João Santana. Acho que ele vem sendo movido pelo ressentimento há um tempo. Sou solidário a ele, acho um grande profissional, mas essa determinação de "se não ganhar no primeiro turno, não ganha" não tem razão técnica. A não ser que ele mostre números e questões objetivas, não apenas a opinião dele. Pelo contrário, acho que o Lula deve ir para o segundo turno. Então, a campanha tem que ser pensada, de saída, já com o segundo turno. É importante que o eleitorado não entenda o segundo turno como uma decepção. É importantíssimo preparar o nosso exército para uma batalha mais longa. Não vamos ganhar na saída das primeiras trincheiras. É importantíssimo isso. O presidente tem tudo na mão para se reeleger no segundo turno: tem governo, tem a maturidade e tem, principalmente, a situação internacional. Acho que, da comunicação que cerca o presidente hoje, falta um pouco de verniz. É uma comunicação que está muito centrada na figura do próprio presidente. Precisa construir elementos de sonho, elementos de realização.

·        Lula vai tentar a reeleição agora, mas, daqui a quatro anos o PT não parecer ter um candidato.

Paulo de Tarso – Estamos no fim da era Lula. Precisamos estar preparados para um debate muito mais amplo, que não é sobre o fim da era Lula, mas sobre o começo da era Brasil. A era Brasil está exigindo um plano de país para nós. A China conseguiu tirar 400 milhões de pessoas da miséria em dez anos. Temos tudo para ter um projeto desse tipo, um projeto que foque na educação. Estamos atrasados em tecnologia, estamos bem em várias áreas, produção de commodities, mas, em tecnologia, estamos mal. Precisamos ter unidade política. É muito importante que o Brasil saia dessa bobagem dos extremos se chocarem todo o tempo e não sobrar espaço para as pessoas, as inteligências pensarem como ter um projeto Brasil. E não temos saída, não podemos não pensar nisso.

·        O PT está pensando nisso?

Paulo de Tarso - Que eu tenha noção, não está. A formulação de um pensamento desse tipo não combina com o exercício do poder. Mas se o PT não fizer isso, ele vai ser atropelado pela história. Não sei o que vai ser do PT... Vamos começar de novo a entrevista e a gente fala só sobre isso (risos).

·        O senhor votou em todos os candidatos para quem o senhor fez campanha para presidente?

Paulo de Tarso - Sim. Para presidente, votei sempre, todas as vezes. Só uma vez que não, mas não vou falar qual. Mas não estava fazendo campanha para presidente. Foi uma vez que eu achei que haveria espaço para o progressismo chegar mais rápido ao poder que o Lula. E votei contra o Lula. Está fácil de saber qual é. Mas, de forma geral, já trabalhei sim, com candidatos mais conservadores, duas vezes. Foi péssimo.

·        Por quê?

Paulo de Tarso - Porque é muito difícil. No trabalho com o candidato conservador, você tem que ensinar política para eles. Por mais que pareça que não, a questão da formação do candidato conservador é difícil. A direita tem uma formação muito aquém [da formação] dos candidatos progressistas.

·        A direita ou a direita radical?

Paulo de Tarso – A extrema-direita, de forma geral. A direita, se o liberalismo social se reunisse em torno das ideias pró-mercado, teria espaço para discutir esse projeto de país, sem dúvida. Não dá para pensar em uma democracia sem direita. É impossível. Mas também não dá para pensar numa direita que elimina todos os seus adversários. E estamos vendo Donald Trump fazendo um papelão. Vamos ver com calma o que vai acontecer, mas aparentemente a radicalidade não está sendo bem aceita.

·        O marketing político e a figura do marqueteiro ficaram um pouco manchados nos últimos anos, atrelado ao caixa dois. Existe uma maneira de melhorar essa imagem?

Paulo de Tarso - Essa é uma imagem falsa. Como toda imagem falsa, ela acaba se transformando. Esse estigma da comunicação política sempre houve e sempre vem da parte do perdedor. Os marqueteiros no Brasil acabaram estigmatizados porque o financiamento de campanha na democracia liberal é um buraco negro.

·        Por quê?

Paulo de Tarso - Porque você brinca de não aceitar que a política tem uma relação direta com o capital. Você faz de conta que a política é isenta, que a política é limpa, que a política é moral, vamos dizer assim, e quem tem dinheiro sabe que a definição é dada pelos interesses em disputa. O caixa dois é impossível de evitar.

·        Ainda hoje?

Paulo de Tarso - Sempre será. Não haverá possibilidade. Você vai ter que ter outras maneiras de domar os interesses. Entender que dinheiro não é poder é um entendimento liberal falso. Dinheiro é poder, principalmente, poder é dinheiro. Infelizmente, os marqueteiros entraram na roda de uma discussão que é muito mais profunda. Entraram na roda por vaidade. A própria ideia de marketing político não existe no resto do mundo, é só no Brasil. É que, para a gente, é tão vira-lata ao olhar para o irmão do Norte que para dar um ar de ciência, do que não é ciência, a gente optou por marketing. E a mídia nos carimbou como marqueteiro. Mas nós somos, na América Latina toda e mesmo nos Estados Unidos, consultores políticos.

·        E aproveitando o gancho de imagem manchada, como trabalhar a imagem de corrupção de alguns candidatos, que pegou tanto nos últimos anos, especialmente falando do PT? Como desassociar essa imagem?

Paulo de Tarso - Temos duas maneiras de olhar. A primeira é o lacerdismo, que funciona no Brasil há muito tempo, onde as acusações de corrupção são usadas como armas táticas para desmontar o outro lado. A segunda, é uma questão humana mesmo, da corrupção, porque são os donos do dinheiro que a promove. A corrupção é mais promovida por alguém que chega com o cheque de 100 milhões na sua mão, do que você propriamente trabalhar e desviar 100 milhões. Os empresários são diretamente ligados em fazer a diferença com o cheque. O gestor, com quem controla a licitação, e por aí vai. Aí é uma corrupção instrumentalizada e estrutural. Essa, a democracia liberal está buscando um jeito de vencer. Até hoje, a gente não conseguiu. Com relação aos casos, como no mensalão, as táticas para fugir são meio parecidas: negar, buscar provas, não comprar a pauta do seu adversário, não deixar o adversário pautar a versão que você está dando, apresentar provas contrárias, enfim, é uma gestão de crise. Em alguns casos, você tem espaço para realmente mostrar o outro lado e convencer a opinião pública e o povo. Outros não. Eu já fui surpreendido quando, faltando uma semana da eleição, o candidato foi preso. Não tem como você gerir uma crise como essa, ainda que, nos tribunais, ele tenha sido inocentado depois.

·        Já se arrependeu de ter eleito alguém ou de ter trabalho para a eleição de alguém?

Paulo de Tarso – Já.

·        De quem?

Paulo de Tarso - Não vou dizer. Mas já.

·        E por que se arrependeu?

Paulo de Tarso – Porque são corruptos. Basicamente eu só me arrependi de candidatos que depois se revelaram corruptos.

·        O senhor não sabia?

Paulo de Tarso - Não. Quer dizer, acho que eu me enganei. Tem uma questão também, que eu sou um profissional liberal, atuo no mercado remunerado. Fui contratado por uma imagem de candidato que eu acreditava que pudesse ser uma exceção. Ou pelo menos não fosse escancarado. Depois, ele assumiu o governo, e outras situações o levaram a ser desmascarado, e eu não tenho como defender. Isso eu acho que acontece com todos os profissionais. Você trabalha o candidato naquele momento. Você não é responsável pelo que ele faz. Infelizmente, preferia não ter [trabalhado para um candidato corrupto]. Mas eu não sou imune a um bom cachê.

·        Hoje tem alguém para quem o senhor não faria campanha de jeito nenhum? Nem por um bom cachê?

Paulo de Tarso - Não faria campanha para extrema-direita, pelo cachê que fosse. Morei no exílio. Meu pai foi um ministro progressista do Jango. Eu tenho uma tradição pessoal com relação a uma política de espírito público. Já recusei propostas do Paulo Maluf, do Delfim Neto. Recusei propostas de grandes expoentes da direita que eu achava que não tinha sentido. Ia me estigmatizar, e eu não queria. Não conseguiria levantar o número de argumentos que eu precisava para obter a vitória.

 

Fonte: BBC News Brasil