terça-feira, 16 de junho de 2026

A mentira como método e a chantagem como projeto de poder

A mentira, além de ser um sério desvio ético, transformou-se em método, estratégia de comunicação e instrumento de desgaste coletivo. Seu objetivo já não é convencer, mas exaurir. Não pretende conquistar a inteligência do interlocutor, e sim fatigá-lo até que perca a disposição de reagir. O subproduto malicioso dessa asfixia planejada é a generalização de uma desesperança quase crônica. Ao anestesiar a capacidade de indignação, o sistema empurra uma parcela significativa da população para o ceticismo, consolidando a crença de que a representação política está tão apodrecida que essa degeneração não se desfará.

A mentira jamais foi um acidente de percurso na história do poder. Desde a Antiguidade, a manipulação dos fatos, a dissimulação e o ardil para obtenção de vantagens atravessaram impérios, alimentaram guerras e derrubaram governos. O que distingue nosso tempo não é apenas a existência da fraude política, mas a sua prática contumaz. Um expoente dessa prática é Donald Trump, que transformou o ato de mentir em uma rotina diária de governo e de campanha. Ao despejar uma enxurrada ininterrupta de mentiras, posteriormente desmentidas por fontes fidedignas, Trump é um super adepto da pós-verdade" como política de Estado, demonstrando que essa atitude repetida à exaustão pode criar realidades paralelas para o consumo de parcelas expressivas do movimento MAGA “Make America Great Again” e até fora dele. Daí ter sido eleito em 2024.

No Brasil, um exemplo eloquente dessa prática foi a ficção jurídica das chamadas pedaladas fiscais, convertida em pretexto para remover uma presidente sem crime de responsabilidade comprovado. Tanto Dilma, quanto os milhões de brasileiros que a elegeram foram atingidos por um processo conduzido pelo então vice-presidente golpista Michel Temer com o apoio decisivo de Eduardo Cunha que mais tarde foi cassado por quebra de decoro parlamentar após mentir à CPI da Petrobras ao negar ser titular de contas bancárias secretas no exterior. Sua queda nos lembra o velho ditado de que a mentira tem perna curta. Ao tentar blindar seu patrimônio, o ardiloso parlamentar viu o feitiço virar contra o feiticeiro. O mesmo arranjo mentiroso que ele liderou para destituir um governo eleito acabou por triturá-lo.

Essa pedagogia da mentira encontrou sua expressão mais grotesca quando Roberto Alvim, então secretário de Cultura de Jair Bolsonaro, reproduziu trechos de um discurso do nazista Joseph Goebbels em rede nacional, ao som de Richard Wagner. A cena foi grotesca. Não se tratava apenas de uma infeliz coincidência estética. Foi a demonstração de como parcelas da extrema direita que ascenderam ao poder, após o impeachment da ex-presidente Dilma, já se sentiam suficientemente confortáveis para flertar abertamente com referências que, em qualquer sociedade minimamente consciente de sua história, seriam motivo de vergonha alheia e de absoluto vexame. Na mesma direção, o governo extremista de direita de Trump, superando até mesmo o nazista Adolf Hitler, que na Copa de 1936 pelo menos se submeteu às regras olímpicas, Trump faz da Copa do Mundo de 2026, símbolo de exclusão política e segregação racial ao impedir a entrada de juízes, de dirigentes e ao humilhar jogadores de seleções que ele despreza.

Mas o traço mais persistente dessas correntes políticas não está apenas em suas demonstrações de autoritarismo. Assistimos diariamente a parlamentares inundarem seus discursos com elogios às próprias reputações obscuramente ilibadas, apresentando-se quase como figuras santificadas da vida pública. Entre eles, destacam-se nomes como Ciro Nogueira (PP-PI), Flávio Bolsonaro (PL-RJ), Sergio Moro (PL-PR), Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), Júlia Zanatta (PL-SC) coincidentemente da extrema direita ou da direita oportunista, sempre pródigos em pregações moralistas quando o assunto é a conduta alheia. Ciro Nogueira chegou a prometer que abandonaria a vida parlamentar caso alguma acusação de desvio ético contra ele fosse comprovada. O desfecho, porém, foi bem diferente de sua promessa. Após as revelações do Caso Master, não apenas permaneceu no exercício do mandato, como ainda foi agraciado pelo presidente do Senado com a missão de representar o senado no Fórum Político de Alto Nível das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável, em Nova York. No Brasil, ao que parece, certas promessas têm prazo de validade menor que um discurso de campanha, e determinadas controvérsias funcionam menos como obstáculo e mais como credencial para novas honrarias.

Nesse ambiente de narrativas movediças, o pré-candidato Flávio Bolsonaro protagonizou recentemente um exemplo didático da mentira como método. Negou reiteradamente qualquer vínculo relevante com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Tratou as acusações como invenções de adversários e motivo de deboche. Poucas horas depois do surgimento de mensagens e áudios comprometedores do Intercept, porém, admitiu negociações milionárias que antes classificava como fantasiosas. Antes disso, repetia o slogan “o Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula”, numa tentativa de transferir para o seu adversário um escândalo que se aproximava perigosamente de seu próprio círculo político. O problema é que a realidade costuma ser pouco cooperativa com versões improvisadas. 

O mesmo padrão esteve presente durante o governo de seu pai Jair. Mentiras sobre fraude nas urnas eletrônicas numa mesma falácia usada por Trump quando não se reelegeu em 2020, falsas promessas de cura para a Covid-19 e narrativas infundadas sobre vacinas repetidas à exaustão. A estratégia não era provar os fatos, mas desgastar a própria noção de realidade por meio da repetição contínua da desinformação. Sob o desgoverno de Bolsonaro, o país registrou os piores índices de vacinação em mais de duas décadas, um retrocesso que empurrou o Brasil de volta a índices incompatíveis com sua tradição histórica de imunização.

É justamente nessa realidade controversa que ainda existe uma parcela do eleitorado impermeável aos fatos. A repetição contínua enfraquece a capacidade de questionamento do público. No ano passado, o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) utilizou as redes sociais para disseminar uma narrativa distorcida que associava o governo Lula a uma suposta taxação do Pix, explorando ruídos de comunicação para inflar o pânico econômico na população, a operação cumpriu exatamente seu objetivo, o de produzir desgaste político imediato ao governo, apostando que a velocidade da mentira sufocaria qualquer tentativa posterior de restabelecer a verdade. Entretanto, o mesmo deputado não teve o mesmo entusiasmo para publicizar nas redes sociais todas as viagens cortesia que fez no jatinho do dono do banco Master.

Nesse movimento permanente de sonegação da verdade, esses políticos se servem de tudo e de todos que possam lhes garantir vantagens particulares. Deixam-se comprar por quem lhes oferece benefícios em troca de favores, como ocorreu nas relações de vários políticos com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.  Todavia, os fatos frequentemente revelam uma proximidade desconcertante com práticas que dizem combater. Notícias publicadas na revista Veja (11/06) revelaram uma suposta propina de nada menos que R$ 155 milhões paga por Vorcaro ao presidente do Congresso, Davi Alcolumbre, valor que, por si só, dispensa maiores comentários sobre a dimensão do escândalo. O parlamentar negou veementemente ter recebido tal valor.

Nesse horizonte de engodos e chantagens, as pautas eleitoreiras da direita oportunista e da extrema direita se multiplicam na mesma velocidade em que falseiam a realidade. O exemplo mais recente é a aprovação, na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara, da PEC que reduz a maioridade penal de 18 para 16 anos. Vendida como solução para a criminalidade, a proposta ignora o consenso de especialistas e pesquisadores de que encarcerar adolescentes em um sistema penitenciário hiperlotado e falido, que funciona como verdadeira escola do crime, não reduz a violência. Ao contrário, tende a ampliar os índices de reincidência. Trata-se de mais um impropério programado para o consumo eleitoral, escondendo o fracasso das políticas de ressocialização atrás do clamor punitivista e convertendo a barbárie em plataforma de campanha.

Outro mecanismo da fraude política que opera em ritmo de urgência eleitoral foi o lançamento das velhas pautas-bomba cujo o custo será de R$ 2 trilhões em 10 anos, segundo cálculos do Ministério da Fazenda. Desta vez, Davi Alcolumbre superou seu estilo truculento contra o governo.  O exemplo mais impactante em custo trata da aprovação do Projeto de Lei (PL 5.122/2023), que cria uma linha especial para renegociação de dívidas de produtores rurais. Ao ampliar os gastos em pleno período eleitoral, a extrema-direita e a direita fisiológica desmascaram a própria farsa, a austeridade tão propalada por eles morre na praia quando o objetivo é fazer média com o agronegócio, entre outros seguimentos em troca de dividendos nas urnas. Ao aprovar medidas sem apontar a fonte de financiamento, o Senado abriu espaço para questionamentos constitucionais. Como ressaltou o ministro do STF, Gilmar Mendes, o Congresso não pode criar despesas sem indicar de onde virão os recursos. O governo, por sua vez, prepara uma reação baseada em vetos, articulação política e eventual acionamento do STF.

Essa mesma lógica de transformar direitos em moeda de barganha orienta os movimentos de Davi Alcolumbre no Senado. Não por acaso, Alcolumbre sentou sobre a pauta do fim da escala 6x1, adiando uma discussão de enorme interesse para milhões de trabalhadores brasileiros. O bloqueio ocorre justamente quando o cerco da Polícia Federal no caso Master se aproxima de figuras relevantes, como aconteceu poucos dias após com a revelação da propina dada por Vorcaro a Alcolumbre, além da intensificação desse parlamentar em disputas de poder com o governo federal. 

Para variar, o andar de cima, que jamais perde a oportunidade de sapatear sobre os trabalhadores, tratou de engrossar o coro contra o fim da escala 6x1. Em entrevista à GloboNews, o presidente da Fiesp, Paulo Skaf, declarou, num tom característico de quem jamais precisou bater cartão de ponto, que a extinção imediata da jornada representaria um retrocesso. Criticou a ausência de diálogo com o setor produtivo e atribuiu à proposta forte motivação eleitoral. O argumento, entretanto, é velho conhecido dos trabalhadores brasileiros. Sempre que se propõe ampliar direitos, anuncia-se uma catástrofe econômica iminente. Foi assim com as férias remuneradas, com a licença-maternidade, com o 13º salário e com inúmeras outras conquistas trabalhistas. Nenhuma delas destruiu a economia. Pelo contrário, contribuíram para ampliar o consumo, fortalecer o mercado interno e melhorar as condições de vida da população. O colapso prometido nunca se concretizou.

Contudo, como a dinâmica da história é feita de choques e contradições, na contramão do projeto de poder de Davi Alcolumbre, prejudicial ao país, mais uma pesquisa reforça a tendência observada em levantamentos recentes. A pesquisa da Genial Quaest divulgada em 10/06 aponta avanço nas intenções de voto do presidente Lula em cenários eleitorais frente a Flávio Bolsonaro. Esse movimento reflete o desgaste político do bolsonarismo e a crescente percepção de parte do eleitorado acerca das controvérsias que cercam a trajetória política do senador. Com uma atuação parlamentar frequentemente marcada por controvérsias e escassez de iniciativas de interesse público, Flávio Bolsonaro transformou a atividade política em vetor de negócios privados. O crescimento expressivo do patrimônio familiar, incompatível aos olhos de muitos observadores com os rendimentos da atividade parlamentar, alimenta questionamentos que se somam ao histórico das rachadinhas e das operações imobiliárias suspeitas. Seus vínculos com personagens do submundo financeiro ampliaram ainda mais essas dúvidas, projetando sobre sua trajetória sombras que insistem em acompanhá-lo. 

A mudança de humor entre eleitores sem alinhamento ideológico rígido sugere uma avaliação cada vez mais crítica sobre sua figura. Afinal, para muitos brasileiros, pesa mais o legado de uma família que transformou a política em patrimônio privado do que a propaganda cuidadosamente construída em torno dela. Como diz o velho ditado, quem sai aos seus não degenera. Filho de um ex-parlamentar que passou quase três décadas no baixo clero sem produzir realizações relevantes para a maioria da população, Flávio apenas sofisticou o método.

Convém ressaltar ainda, que ao divulgar os resultados da pesquisa Genial Quaest, a mídia corporativa tratou de enquadrar a defesa da soberania nacional pelo governo, como oportunismo eleitoral do PT "e não como a obrigação elementar de qualquer governo comprometido com os interesses do país. Logo surgem insinuações sobre conveniência política. Os comentários veiculados na GloboNews evidenciam essa tendência. Essa mesma mídia raramente destacou com igual ênfase o papel dos governos de esquerda na redução das desigualdades, na ampliação do acesso à educação, no fortalecimento de programas sociais ou na valorização da renda dos trabalhadores. Há quase sempre um "mas" à espera. Se a economia cresce, o mérito é do mercado, se a pobreza diminui, trata-se de populismo, se políticas públicas corrigem distorções sociais, a suspeita recai imediatamente sobre interesses eleitorais. O benefício concreto à população costuma ocupar menos espaço que a desconfiança sobre quem o promove.

A distorção chega a ser ofensiva para quem acompanha minimamente a realidade nacional. Procuram nivelar políticas públicas de interesse coletivo às manobras oportunistas da direita e da extrema direita, como se tudo não passasse de disputa eleitoral. Programas como o Desenrola, que enfrentou o endividamento de milhões de brasileiros, ou a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais são frequentemente tratados como pacotes de bondade, quando na verdade respondem a problemas concretos que afetam a vida cotidiana da população. Afinal, qual seria a alternativa desejada por esses comentaristas? Que o governo permanecesse inerte diante dos problemas sociais? Curiosamente, o mesmo rigor raramente foi aplicado aos governos da direita. Já quando pesquisas indicam recuperação da popularidade de Lula, não passa despercebido o desconforto de alguns analistas. Afinal, reconhecer avanços concretos de um governo progressista parece, para alguns setores da imprensa, uma tarefa muito mais difícil do que encontrar razões para relativizá-los.

Por fim, é necessário chamar a atenção de que ao longo dos últimos anos, a mentira tornou-se um método político estruturado. Entre falsas promessas, teorias conspiratórias, chantagens legislativas e pautas bomba para produzir dividendos eleitorais, políticos da extrema direita e a direita oportunista se locupletam ao longo de seus mandatos.  Argumentos torpes e falaciosos podem até produzir vitórias escorchantes, como a da senadora Damares Alves (Republicanos-DF) ao conseguir aprovar no Senado (em votação simbólica) a suspensão de uma norma de 2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente para dificultar o aborto legal em crianças vítimas de estupro, mas cobra um preço elevado por corroer a confiança pública, degradar a vida e transformar a política em um permanente exercício de manipulação e de fins obscuros. Quando a falsificação dos fatos na política vira estratégia de poder, a verdade torna-se vítima e uma ameaça contínua para aqueles que dependem da sua ausência: o povo, aquele que mais depende da sua existência, que paga a conta mais cara e duradoura.

 

Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

 

Violência doméstica cresce e desafia rede de proteção pelo país

Na última sexta-feira, Dia dos Namorados, o presidente Lula mandou um recado para os homens. Disse que para os maridos aproveitarem a data para darem demonstrações de afeto às mulheres. Ao lado da primeira-dama, Janja da Silva, Lula defendeu a ideia de que é preciso expressar o amor para afastar o ódio no ambiente familiar.

A preocupação do presidente tem justificativa. O avanço persistente da violência de gênero no Brasil ganha contornos ainda mais graves, como revela o Atlas da Violência 2026, desenvolvido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP). A publicação acende um alerta sobre o crescimento das Mortes Violentas por Causa Indeterminada (MVCI) no país, um "apagão estatístico" que funciona como uma camuflagem para milhares de homicídios ocultos e crimes de gênero.

De acordo com os cruzamentos metodológicos do relatório, caso essas mortes sem causa básica identificada pelo Estado fossem devidamente reclassificadas, o real volume de assassinatos e feminicídios no país revelaria uma estabilidade linear preocupante dentro dos lares, contrariando leituras oficiais mais otimistas e evidenciando a urgência de políticas públicas voltadas não apenas para conter a letalidade doméstica, mas para amparar as vítimas indiretas que ficam invisíveis após o crime.

A urgência desse cenário é reforçada pelos dados trazidos na pesquisa Retratos dos Feminicídios no Brasil, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que registrou 1.468 vítimas de feminicídio no Brasil em 2025, um crescimento de 4,7% em relação ao ano anterior. Desde a tipificação da lei em 2015, o país já soma pelo menos 13.703 mulheres assassinadas por sua condição de gênero, com uma inflexão recente que rompeu a estabilidade observada entre 2022 e 2024.

A partir desse panorama estatístico, a coordenadora temática do Fórum, Juliana Brandão, argumenta que a persistência na subida desses indicadores rompe com a tese de que o fenômeno decorre apenas de melhorias nos canais de denúncia, revelando uma incapacidade crônica do poder público em mapear e conter as agressões domésticas antes do desfecho letal.

"Esse crescimento que a gente observa ano a ano de forma persistente não é mais apenas uma melhora de notificação, é um aumento real da violência, o que mostra as limitações que o Estado brasileiro tem tido nas frentes de prevenção e proteção", explicou.

No ano retrasado, o estado do Acre apresentou a maior taxa de letalidade, com 3,2 casos por 100 mil mulheres, seguido por Rondônia (2,9) e Mato Grosso do Sul (2,7), enquanto São Paulo concentrou o maior volume absoluto, com 270 vítimas — 17,2% do total nacional.

A conexão com a realidade estatística se torna ainda mais profunda ao analisar o perfil socioeconômico das vítimas, que revela que o feminicídio atinge majoritariamente mulheres em plena idade produtiva e reprodutiva: 50% das vítimas tinham entre 30 e 49 anos, faixa etária em que muitas são as principais responsáveis pelo sustento e cuidado dos filhos.

O ambiente doméstico permanece historicamente o mais perigoso para as mulheres, com os homicídios em residências respondendo por mais de 35% dos óbitos. Estatísticas consolidadas apontam que cerca de 66,3% dos feminicídios ocorrem dentro da casa da vítima, sendo que em 59,4% dos casos o autor é o atual companheiro e em 21,3% o ex-companheiro.

<><> Por uma mudança estrutural

Para Juliana Brandão, o crescimento da violência intrafamiliar expõe a urgência de uma mudança estrutural na rede de proteção às vítimas. Na visão da especialista, as forças de segurança falham ao tentar lidar com a violência de gênero sob a mesma ótica da criminalidade comum das ruas. "A violência urbana responde a certas dinâmicas de policiamento, mas o feminicídio acontece dentro de casa. Quando a letalidade doméstica aumenta, significa que o Estado falhou em interromper trajetórias de violência que muitas vezes ele já tinha conhecimento", afirmou a especialista.

Dados do FBSP indicam que cidades com até 20 mil habitantes registram taxas de feminicídios de 1,8 por 100 mil, um índice 28,5% superior à média nacional, mas mais de 70% desses municípios não possuem nenhum serviço especializado de atendimento à mulher.

Juliana Brandão complementa o alerta sobre a interiorização do problema destacando que metade das mortes violentas de mulheres aconteceu em localidades de pequeno e médio porte. Os recortes do Atlas corroboram a gravidade da violência nos municípios de médio porte (entre 100 mil e 500 mil habitantes), que já superam as grandes metrópoles em taxas de letalidade estimada.

Na esfera federal, a Defensoria Pública da União (DPU) enfrenta um desafio similar de capilaridade, estando presente em apenas 30% das unidades judiciárias federais. Essa lacuna institucional descumpre a meta da Emenda Constitucional n° 80/2014.

Ao Correio, a defensora pública-geral federal, Tarcijany Linhares, endossou as preocupações sobre o impacto das barreiras geográficas no acesso à Justiça, classificando o atual deficit de atendimento da instituição como uma "omissão inconstitucional".

Para ela, a expansão da DPU rumo ao interior não é uma mera meta de gestão, mas sim o pagamento de uma "dívida constitucional". "As soluções e respostas frutos da criatividade e ampla disponibilidade e prontidão da DPU e seus quadros não podem servir como justificativa para mantê-la cronicamente subfinanciada e ausente de 70% do território.

A Emenda Constitucional 80 já estabeleceu que a Defensoria deve cobrir o país inteiro. Cabe ao STF analisar se, diante do estado de coisas inconstitucional em relação à presença da DPU em todas as unidades jurisdicionais, as medidas de austeridade vigentes devem reger também essa ampliação da DPU", enfatizou, vinculando a sustentabilidade da instituição ao debate da ADI 7792 no Supremo.

<><> Amparo aos órfãos

Como resposta a essa realidade de desamparo daqueles que perdem a mãe dentro do próprio lar, o Poder Judiciário e a DPU estruturaram um mecanismo para mitigar a vulnerabilidade social dos dependentes. O Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Defensoria Pública da União formalizaram um memorando de entendimento voltado à proteção integral de crianças e adolescentes órfãos do feminicídio. O acordo estabelece um fluxo nacional para garantir que esses jovens tenham acesso à pensão especial instituída pela Lei n° 14.717/2023.

O mecanismo, defendido pelo presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do CNJ, ministro Edson Fachin, determina que tribunais do júri, juizados de violência doméstica e varas da infância comuniquem de ofício às defensorias a existência de dependentes menores sempre que um crime de feminicídio for registrado, viabilizando a regularização da representação legal e o suporte financeiro ágil para as vítimas que, até então, permaneciam "invisíveis" ao sistema de Justiça.

Para dar efetividade à assistência do Estado e garantir que a pensão especial chegue onde não há um defensor físico, Tarcijany Linhares ressaltou que a DPU atuará preferencialmente de forma extrajudicial junto ao INSS para destravar a burocracia, além de mobilizar canais tecnológicos para absorver as notificações dos juízes de forma imediata.

"Para quem mora a 400 quilômetros de uma cidade com defensor federal, a ausência da DPU significa que o direito existe no papel e não existe na vida", destacou.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Do peso ao vício: os múltiplos efeitos das canetas GLP-1

A lista de usos para medicamentos agonistas de GLP-1 , conhecidos também como "canetas emgracedoras" continua crescendo. Começou como tratamento para diabetes tipo 2 e depois ganhou destaque como indutor de perda de peso.

Há também evidências de que os agonistas do GLP-1, como a semaglutida e a tirzepatida, comercializados como Mounjaro, Ozempic, Wegovy e Zepbound, trazem os seguintes benefícios:

• reduzem o risco de doenças cardiovasculares

• protegem os rins e o fígado

• reduzem a inflamação e a dor

• previnem o vício e a dependência química

• ajudam pessoas com artrite

• ajudam pessoas com apneia do sono

Se observarmos por uma perspectiva mais ampla, veremos um caso clássico do que é conhecido como reposicionamento de medicamentos, ou seja, múltiplos usos para um mesmo medicamento.

<><> Reposicionamento de medicamentos em uma crise de saúde

O que pode parecer para alguns uma maneira inteligente de lucrar com um medicamento já popular é, para outros, uma forma eficaz em termos de custo e tempo para salvar vidas.

A pandemia de covid-19 é um exemplo disso. Quando o coronavírus surgiu, a dexametasona e o baricitinibe – medicamentos anti-inflamatórios – já existiam.

A dexametasona tem diversas aplicações; pode ser usada contra artrite, asma, problemas no sangue ou na medula óssea, problemas renais, doenças de pele e casos agudos de esclerose múltipla.

O baricitinibe é usado para tratar artrite reumatoide moderada a grave, dermatite atópica moderada a grave e alopecia areata grave, uma doença autoimune que causa queda de cabelo.

Os médicos testaram esses medicamentos para tratar a inflamação em pacientes com covid-19, antes e nos estágios iniciais das vacinas contra a doença.

Em 2021, o Serviço Nacional de Saúde do Reino Unido informou que a dexametasona salvou 22 mil vidas no país e cerca de um milhão em todo o mundo.

Enquanto isso, o baricitinibe controla os níveis elevados de citocinas e a inflamação. Durante a pandemia, médicos e pesquisadores observaram "tempestades de citocinas" em pacientes – quando o sistema imunológico se torna hiperativo, causando, em última análise, inflamação grave.

Após essas experiências durante a covid-19, a Comissão Europeia planejou aumentar o apoio à reutilização de medicamentos para a busca de tratamentos para o câncer.

<><> Alerta de saúde sobre medicamentos reaproveitados

Nada do que foi dito acima deve ser interpretado como uma sugestão – e certamente não é uma recomendação da DW – de que alguém use agonistas de GLP-1, ou qualquer outro medicamento, para tratar qualquer condição off-label ou não aprovada, sem aconselhamento médico profissional e pessoal. Existem riscos no uso de qualquer medicamento e, à medida que o uso de GLP-1 aumentou, por exemplo, também surgiram riscos menos conhecidos.

Mas também não deve ser surpresa que os agonistas de GLP-1 tenham benefícios tão universais para a saúde.

Se os medicamentos podem ajudar as pessoas a perder peso ou impedir o ganho de peso, reduzir o comportamento viciante, eles também diminuirão o risco de diabetes tipo 2 – que está associada principalmente a "escolhas de estilo de vida", como comer em excesso – e isso, por sua vez, diminuirá a sobrecarga em todos os órgãos do corpo.

É quase como se os desenvolvedores originais do primeiro agonista de GLP-1 tivessem planejado uma série de continuações. Eles, no entanto, não inventaram o reaproveitamento de medicamentos.

Mas, como observamos acima, a reutilização de medicamentos geralmente ocorre por acidente ou em um momento de grande desespero, como durante a pandemia.

<><> Breve histórico da reutilização de medicamentos

A lista a seguir não é de forma alguma exaustiva. Talvez seja melhor lê-la como uma ilustração da interconexão do corpo humano, já que somos um sistema e, portanto, é lógico que um medicamento possa ter múltiplos usos.

No tratamento do câncer, há dois exemplos notáveis, o primeiro é o medicamento raloxifeno, originalmente desenvolvido para tratar a osteoporose.

Em seguida, um grande estudo realizado em 25 países mostrou potencial para reutilização da droga em pessoas com alto risco de câncer de mama. No estudo, o risco de câncer de mama invasivo diminuiu 76% durante três anos de tratamento em mulheres pós-menopáusicas com osteoporose. A Administração de Alimentos e Drogas (do inglês, Food and Drug Administration – FDA) dos EUA – considerada o padrão mundial para aprovação de medicamentos e vacinas – aprovou o raloxifeno para a prevenção do câncer de mama invasivo.

A talidomida – medicamento talvez mais conhecido por sua história controversa na década de 1950 como sedativo para gestantes com enjoos matinais, que foi retirado do mercado após se descobrir que causava graves defeitos ósseos congênitos – foi reaproveitada e aprovada pela FDA cerca de 60 anos depois para uso em combinação com dexametasona em pacientes com mieloma múltiplo recém-diagnosticado. O mieloma múltiplo é um câncer de sangue incurável, mas tratável.

Mais recentemente, têm sido realizados estudos sobre o reposicionamento de medicamentos para a doença de Alzheimer, que é uma forma de neurodegeneração ou demência. A prevalência de demência vem aumentando rapidamente.

Uma vacina centenária contra a tuberculose, chamada Bacilo de Calmette-Guérin, demonstrou regular o açúcar no sangue e, portanto, a necessidade de insulina em pessoas com diabetes tipo 1.

Mas talvez o caso mais famoso – ou infame – de reaproveitamento de medicamentos seja o do Viagra, ou sildenafil.

O medicamento foi originalmente desenvolvido para tratar doenças cardiovasculares, como dor no peito ou angina. Descobriu-se então – resumindo a história – que ajudava homens com disfunção erétil. Posteriormente, ficou conhecido como o "comprimido azul".

<><> Outro alerta — desta vez da história

Escrevendo no na publicação científica British Medical Journal em 1998, Abi Berger, uma médica de clínica geral, observou: "certamente deve ser o sonho de toda empresa farmacêutica ter um produto tão atraente que a necessidade de marketing e relações públicas tenha sido eliminada por uma onda de propaganda na mídia."

É como se a propaganda em torno dos agonistas do GLP-1 fosse um caso de "repetição da história".

Concluímos, então, com um alerta da história: a propaganda não só pressionou a produção de sildenafil no passado, como também foi constatado que ele causa arritmias cardíacas em estudos mais recentes.

O mesmo pode ser verdade para os agonistas do GLP-1: a comprovação de seus usos reposicionados, seus verdadeiros prós e contras, poderá ser observada apenas daqui a muitos anos.

 

Fonte: DW Brasil

 

Extrema-direita e governo petista estão disputando Trump

Quem não se deixa inebriar pelos discursos ideológicos da extrema-direita e da esquerda e analisa a realidade a partir da complexidade vivida, percebe que estamos num labirinto. Essa foi a imagem que José Cláudio Alves usou para dizer que estamos “num cenário muito ruim” quando o assunto é segurança pública, violência e propostas para o enfrentamento do crime.  “A insegurança que a população identifica cada vez mais não é falsa. Não é uma percepção equivocada, deturpada, manipulada. É uma percepção real. As pessoas estão vivendo essa insegurança”, afirma José Cláudio Alves na entrevista a seguir concedida por telefone ao Instituto Humanitas Unisinos – IHU. 

<><> Confira a entrevista. 

·        O que significa a classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos?

José Cláudio Alves – Vejo por trás dessa designação um jogo muito mais político do que efetivamente um jogo de políticas públicas para resolver o problema em si mesmo. Essa classificação faz com que as cooperações que já existiam entre as forças brasileiras e estadunidenses saiam da alçada das polícias e passem para outra esfera, que é a que vai definir políticas de segurança nacional. Tudo indica que a cooperação que existia começará a sofrer modificações e estará sob a análise do Departamento de Segurança Nacional.

·        A decisão do Departamento de Estado americano foi anunciada depois do encerramento da viagem de Flávio Bolsonaro a Washington. Há correlação entre os acontecimentos? A decisão tem influência da extrema-direita ou Trump pode estar tentando favorecer a futura candidatura de Flávio no Brasil?

José Cláudio Alves – As duas coisas. A extrema-direita tem influenciado isso e, ao mesmo tempo, Trump tem interesse em se aproximar dela por mais que faça acenos para Lula e estabeleça uma linha de diálogo bastante contraditória. As notícias anteriores a esse fato informavam que as tarifas tinham sido apaziguadas. Lula tinha se aproximado de Trump. Ele foi aos EUA tentar uma mediação. O Brasil está numa posição de diálogo e de interesses econômicos. Mas, de repente, tem-se uma configuração paralela àquele cenário mais favorável.  Há um jogo de empurra-empurra para ver quem consegue pressionar mais e obter mais favorecimento discursivo e midiático para a sua bandeira. Logo após as aproximações e conquistas de Lula, que se mostrou um estadista, as matérias apresentam que a extrema-direita está dizendo o que os bolsonaristas precisam ouvir: possibilidade de intervenção, de transformar as facções em organizações terroristas, aumento das tarifas para determinados produtos por causa do Pix ou uma suposta política protecionista que prejudica os interesses americanos.  Parece um campo de guerra onde a extrema-direita e o governo petista estão disputando a mesma figura: a figura de Trump. É impressionante, mas é disso que se trata, hoje, na política nacional. É uma forma de usar essa dimensão a seu favor. Agora é a vez da extrema-direita fazer isso com esse discurso. No caso das taxações e da crítica ao Pix, Lula está se saindo melhor. Ele mostra que isso vai prejudicar a economia, mostra o vínculo disso com o projeto bolsonarista e Trump, enquanto o bolsonarismo tenta se desvincular da ideia de que quer bloquear o Pix.  Na questão da classificação das facções como organizações terroristas não há essa disputa tão intensa de dizer que isso é responsabilidade do PT. O discurso da extrema-direita é que o Lula, o PT e a esquerda se aproximam das facções e, por isso, Trump interfere para impedi-las. Há uma manipulação nesse sentido, mas, concretamente, não existe essa vinculação entre governo e facções. 

·        Há quem veja nessa classificação uma ameaça à soberania e riscos de uma futura intervenção norte-americana aqui, como aconteceu na Venezuela. Esse raciocínio é plausível? Abre-se essa brecha?

José Cláudio Alves – No caso venezuelano tinha um interesse mais concreto e preciso, como a crise da democracia venezuelana, a questão das eleições não reconhecidas e um bem que os Estados Unidos sempre quiseram colocar a mão, que é o petróleo. A economia brasileira tem uma pujança e uma dimensão diferentes. A estrutura política brasileira e sua presença no mundo em termos internacionais é muito diferente da venezuelana.  As pessoas falam do risco de uma intervenção, mas não vejo, concretamente, como isso seja possível hoje. A ideia de uma intervenção ou ameaça à sociedade brasileira e à política nacional pode ser parte desse jogo. Talvez, o uso de uma possibilidade de intervenção seja mais plausível do que a intervenção em si mesma. Escalar uma guerra numa dimensão desse porte é pouco provável. Trump está mal politicamente desde a escalada da guerra do Irã. Ele tem afundado nas pesquisas e se colocado cada vez em posições piores. Mas ele tem um neoimperialismo absoluto. Há uma imprevisibilidade porque a decisão dele prevalece sobre tudo e sobre todos. Nesse cenário conturbado, ele é muito mais parte de um jogo que pode ser usado e simbolicamente manipulado pela direita brasileira para nos colocar numa situação de fragilidade, de indeterminação e incapacidade. Mas uma intervenção como aconteceu na Venezuela é pouco provável.

·        Que efeitos concretos podem ser esperados a partir dessa classificação?

José Cláudio Alves – Economicamente, as implicações disso podem ser mais graves. Se qualquer estrutura do sistema financeiro brasileiro (bancos, fintechs) for identificada como parte da estrutura do tráfico ou das facções, essas contas financeiras podem ser bloqueadas, causando muito prejuízo. Isso impede ações de cooperações e pode fazer com que haja mudanças na estrutura financeira em função dos impactos na própria dimensão financeira nacional, mas a estrutura em si, de onde vem a grana do crime organizado, das facções, não será impactada por essa classificação. Não vejo como a classificação como terroristas vai dificultar realmente ou impedir a ação das facções. Esse é um jogo discursivo, politizado, que está sendo jogado para favorecer Flávio Bolsonaro. A estrutura criminal das facções é cada vez mais ampla. Em todas as esferas temos notícia dessa amplitude de uso do setor financeiro, de produção de bens de serviços, ou seja, de uma lógica cada vez mais ampliada e diversificada. Nesse momento, tudo vai se encaminhar para o debate político eleitoral. Não sei como vai ser daqui para frente, mas tenho observado uma dinâmica de intensificação de disputa de território – assassinatos no campo político têm ocorrido em função dessa disputa. Mercados do tráfico e da estrutura miliciana têm sido intensificados em termos de disputa territorial e tudo está voltado à disputa eleitoral: obtenção de voto e grana que se volta para o voto. Tanto as facções quanto as milícias são acionadas para isso. Tudo indica que essa mudança de nomenclatura está associada a essa disputa. Agora, isso não é algo imediato. Não é que o CV vai votar no Lula ou as milícias vão votar no Flávio Bolsonaro. Não existe essa vinculação imediata. Existem territórios em disputa.

·        IHU – Onde a esquerda está falhando quando se trata de enfrentar o tráfico de drogas e os problemas relativos à segurança pública? Alguns críticos avaliam que o PT e a esquerda em geral estão dissociados dos problemas reais da população, como insegurança e a violência. É isso mesmo? 

José Cláudio Alves – Fala-se muito – através de matérias – de uma sensação de insegurança da população que não corresponde à realidade, porque a realidade mostra que os homicídios diminuíram. A série histórica do Atlas da Violência mostra que em 2024 foram registrados os mais baixos índices em termos de homicídios dolosos. A partir disso, questiona-se por que a população tem essa sensação de que a insegurança e a violência estão crescendo. A sociedade tem essa sensação não porque a população é manipulável, mas porque a realidade tem sido esta: tem sido muito mais complexa e mais difícil; é uma realidade onde os dados não são dados. O maior exemplo é o que estudo: os desaparecimentos forçados. Eles estão submersos num índice muito maior que é o de “pessoas desaparecidas” – mas não se dá a conhecer a causa do desaparecimento. Então, não tem como provar o desaparecimento forçado, mas esse é um dado que está no meio dos desaparecimentos em geral, que podem ter várias causas. É um dado que está ali, escondido, ocultado, ou seja, não se consegue ter firmeza de que aquilo é aquilo mesmo.  Isso vale para os outros indicadores de segurança. Se formos falar de morte por intervenção policial, veremos que elas estão aumentando. Não estão diminuindo. Embora os homicídios dolosos estejam caindo como um todo, os homicídios por intervenção policial têm aumentado. Ou seja, esse é um dado escondido que ninguém vai debater, mas que amplia a sensação de insegurança da população. Os dados que não são coletados são sub-registros. Os sub-registros indicam que as pessoas não estão registrando as dimensões da violência. Elas têm muito receio porque estão em territórios muito mais controlados e violentos. Logo, a população não vai registrar esses casos porque ela não é louca e porque está se escondendo dessa estrutura extremamente violenta. 

A estrutura é violenta e está cada vez mais próxima das pessoas: é o vizinho, o parente. O mundo do crime se tornou realmente uma alternativa num cenário onde as pessoas não têm salário, não têm emprego, não têm estabilidade. O mundo do crime se amplia, cresce e está ao lado da vida das pessoas. Como as pessoas vão registrar as dimensões criminais estando essas dimensões na sua porta, ao seu lado? Quando querem fazer o registro, as pessoas se deparam com os perpetradores da violência dentro da estrutura de segurança. As facções têm aproximações com a estrutura de segurança pública. As facções não estariam onde estão se não fossem as próprias dimensões da segurança pública do Estado, como os presídios, onde estão os agentes penitenciários. As milícias têm conexão com tudo: com o mercado imobiliário, com estruturas das prefeituras, com as Organizações da Sociedade Civil (OSCs) que prestam serviço na área da saúde no Rio de Janeiro. Então, ao tentar fazer algum tipo de denúncia, as pessoas se deparam com a estrutura estatal envolvida naqueles esquemas. O que as pessoas vão fazer? Vão recuar.  A insegurança que a população identifica cada vez mais não é falsa. Não é uma percepção equivocada, deturpada, manipulada. É uma percepção real. As pessoas estão vivendo essa insegurança. Os índices e os indicadores é que não captam isso e não estão sendo capazes de captar. Essa situação está muito mais subterrânea dentro da sociedade. Isso tudo está desembocando num discurso mais generalizado, neste que hegemoniza tanto a direita quanto a esquerda, o discurso da necessidade de um punitivismo maior. Nesse sentido, o discurso do governo não confronta o discurso do punitivismo.  Não se faz um debate mais intenso e eficaz, esclarecedor e mais qualificado. Se o governo tivesse o mesmo interesse e empenho que tem no debate sobre programas sociais e econômicos para a população, numa dimensão de comunicação governamental voltado à segurança pública, ele não estaria enfrentando o que está enfrentando agora. Isso virou uma área comum meio acinzentada entre a direita e a esquerda no Brasil e, no fundo, isso contribui para uma dimensão de insegurança e percepção de insegurança muito maior porque ela é muito maior. 

·        Em várias cidades do país os comerciantes denunciam a cobrança de pedágios e ameaças por parte de facções locais. O governo apresenta o Programa Brasil contra o Crime Organizado como uma nova estratégia de combate ao tráfico. Trata-se de uma nova estratégia? Os quatro eixos propostos têm potencial de atacar a estrutura que permite, organiza e expande o funcionamento do crime organizado?

José Cláudio Alves – Não adianta o governo dizer que vai atuar contra as estruturas financeiras simplesmente. É preciso elencar isso dentro de uma dimensão organizativa de combate, de uma governança e arranjo de várias instituições e de um comprometimento muito maior com a estrutura de planejamento, orçamento e operacionalização.  Primeiro, essa proposta chega num momento muito atrasado. O governo resolve se aproximar do problema e tentar propor coisas no momento final, próximo das eleições, o que reduz muito a capacidade de interferir, de fato, na situação. Segundo, olha-se para o problema de forma hegemonizada pelo discurso punitivista, que virou hegemônico, sem entender que a estrutura criminosa emerge no país a partir da lógica punitivista. As grandes facções, como o CV, surgida nos anos 1970, e o PCC, surgida no início dos anos 1990, só se transformaram no que são graças à nossa estrutura punitivista gigantesca – somos o terceiro país mais encarcerador do mundo e permitimos que elas se organizassem por dentro da estrutura estatal prisional. A repressão aumenta o mercado e tende a aumentar o valor das mercadorias criminais, sobretudo na lógica do tráfico de drogas e do tráfico de armas. Também tem as questões relacionadas às milícias: a milícia opera em vários mercados. Hoje, isso tudo se transformou num volume muito maior e muito mais amplo. As dimensões da pobreza e da insegurança em termos econômicos da população crescem ao longo desse período e tudo se cruza nesse momento.  Hoje, trava-se um debate dentro de um campo minado, onde uma resposta mais adequada, coerente e eficaz se vê tolhida. Não vamos avançar nesse cenário. Primeiro porque ele é fragmentado e não há uma governança federal como um todo. Os governos querem tocar suas políticas de segurança e não querem intervenções do governo federal que, por sua vez, tenta organizar isso e não consegue.  

·        O terceiro dos quatro eixos apresentados pelo governo federal trata da qualificação da investigação dos homicídios, que é um tema para o qual o senhor chama atenção há muitos anos, ao denunciar a não investigação de muitos casos. Esse eixo específico pode significar uma mudança de rota na investigação dos homicídios não investigados, por exemplo? 

José Cláudio Alves – Tudo vai depender de como as coisas vão se desenrolar. Para fazer uma política de esclarecimento de homicídios que funcione, de fato vários passos são necessários. Um deles é vontade política para, de fato, chegar à estrutura dos homicídios. Isso significa cruzar com interesses políticos de outros grupos numa determinada região. Não tem saída. Toda estrutura criminal existente no país hoje – facções, milícias, grupos de extermínio, jagunçagem que prospera no interior, tráfico de drogas e de armas, toda a dimensão dos corredores de bens e serviços criminais, como tráfico de madeira, de ouro, de minério, de seres humanos, de exploração sexual, de caça de carnes exóticas, roubo de terra, grilagem, invasão – está vinculada às estruturas políticas. Elas não existiriam na proporção, na intensidade e nos impactos sob a população que têm hoje se não tivessem esses vínculos políticos. Isso é disseminado no país. Faz parte da dimensão criminal. Ela existe a partir disso.  Então, ficamos num cenário muito mais complicado porque se quer avançar e fazer investigação dos homicídios. Nessas investigações, chegando nesses grupos, vão cruzar os interesses dos grupos políticos que querem manter as estruturas criminais próximas de si porque têm benefícios imediatos para os grupos organizados politicamente?  Tem um prefeito na cidade X, um deputado estadual na cidade Y, e isso tudo cortado por partidos que se dissolvem para configurar dimensões regionais de apoio a essas estruturas criminais que darão benefícios econômicos que são fundamentais na época da eleição, além de benefícios eleitorais, ou seja, votos. O homicídio vai incidir diretamente nessa estrutura. Se quiserem, de fato, investigar homicídios, darão de cara contra essa muralha. 

Vou dar um exemplo. Acompanho mães que tiveram seus filhos assassinados e desaparecidos. Uma mãe me contou que o filho não tinha pai e se aproximou de um vereador, que chegou a ser secretário de ordem pública, mas era líder de uma milícia na mesma cidade. A partir de uma interação paternal, esse homem virou uma espécie de pai para o garoto. Aproveitou-se dele e, num determinado momento, o matou. O vereador foi preso, ficou anos na prisão e foi solto depois de cumprir parte da pena. A mãe sabe de tudo o que aconteceu, mas ninguém na cidade vai denunciar esse homicídio porque essa pessoa tem muito poder.  Então, se houver a vontade de investigar os homicídios no Brasil, precisará haver, fundamentalmente, uma vontade política de prejudicar as pessoas que são aliadas dessa estrutura e que contam com prefeitos e deputados. Segundo, precisa haver uma estrutura de perícia autônoma, capaz de investigar e trazer os elementos reais do que aconteceu para atingir aqueles que cometeram o homicídio. Mais uma vez aqui é uma questão política: vão dar autonomia real para as perícias investigarem e trazerem à luz todos os elementos envolvidos numa morte? Terceiro, precisa ter um judiciário que não esteja comprometido com essa estrutura. 

Lembro de um caso que ocorreu em Duque de Caxias nos anos 1980, em que uma promotora pública descobriu que um juiz acautelava armas apreendidas de outros crimes na mão de um oficial de justiça que era um matador. A política vai se contrapor a essa estrutura? Numa tese de doutorado que ajudei a orientar na Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), o pesquisador disse que nos casos em que os milicianos foram levados ao tribunal de júri, não foram condenados porque o standard probatório das provas do crime é muito pobre e, portanto, o júri não os condena. Quem deveria produzir provas para levar à condenação não as produz porque é parceiro nessa estrutura. É a própria estrutura policial que vai investigar. Nesse sentido, é muito mais fácil condenar à prisão os mais pobres ligados ao crack do que os milicianos. Então tem aí um conjunto de fatores para atuar no campo dos homicídios que é um leque de interações com outras instituições interinstitucionais do Estado, com grupos da sociedade e grupos políticos. Se não houver, de fato, investimento, vontade política, autonomia de perícia e uma dimensão do judiciário capaz de atuar e criar material que o próprio judiciário possa utilizar para levar à condenação, as coisas irão permanecer como estão.

Tânia Maria Sales Moreira, que foi promotora pública por sete anos em Duque de Caxias, só saiu quando Zito, que foi líder de grupo de extermínio na cidade, virou prefeito. Ocorreu o que costumamos chamar de queda para o alto. Ela foi tirada de lá. Antes disso, ela levou para julgamento 34 matadores da Baixada Fluminense e conseguiu condenar 27 deles. O que ela fez é algo que ninguém nesse país consegue fazer. O que ela fez? Ela protegia as testemunhas. Como ela fazia isso? Conseguiu uma parceria com o bispo da diocese à época, dom Mauro Morelli, e colocava as testemunhas dentro da casa de fiéis da Igreja Católica. Ela escondia as testemunhas. Elas não eram identificadas nem ameaçadas. Iam direto para o tribunal de júri e conseguiam depor e condenar os matadores. Quem é que faz uma atuação desse porte no Brasil? Ninguém. Essa mulher fez isso na década de 1990. Estou dizendo isso para mostrar como esse debate é difícil, é travado. Aí o governo quer, meses antes das eleições, fazer ações para investigar homicídios. É muito complicado, é muito difícil, muito frágil.

·        Concretamente, como pensa que poderia ser feito um debate sério entre os candidatos à eleição sobre o enfrentamento do tráfico, da violência e da insegurança pública, para além da lógica punitivista e das disputas ideológicas entre esquerda e extrema-direita? Vislumbra a possibilidade de pautar esse debate em uma nova perspectiva?

José Cláudio Alves – Nós somos bons em diagnosticar. Eu moro no meio do problema, convivo com ele e tenho uma percepção mais aguçada que foi sendo acumulada ao longo do tempo. Para fazer algo mais complexo, o diagnóstico tem que ser mais complexo e não essa simplificação de diagnósticos que vemos por aí.  Como produzir dados a partir de tudo isso que relatei para você? Para isso, é necessário construir uma metodologia de produção de informações, de reflexão, de dados, de análises. É isso que teríamos que fazer. Teríamos que ter um Ministério de Segurança Pública, o que não existe. Hoje, a Segurança Pública está dentro do Ministério da Justiça. Seria preciso ter mais investigação, estudo, pesquisa, produção de dados e uma visão mais complexa da realidade. Seria também preciso abandonar o discurso maniqueísta do bem contra o mal, no sentido de que o Estado é quem traz as soluções para nos proteger, e começar a entender o Estado como parte essencial do problema. Ou seja, necessitamos pensar o Judiciário, o Legislativo e o Executivo como parte da estrutura criminal, se não diretamente envolvida, pelo menos atuando no campo do não funcionamento, da não condenação, da não investigação. Precisaria haver uma forma diferente de abordar a segurança pública, de modo mais complexo para gerar uma proposta mais adequada. Mesmo entre meus pares, muitos têm uma visão próxima da lógica governamental imediata e punitivista. Outros ficam restritos aos interesses de cada região. Eu moro na Baixada Fluminense, mas o Rio de Janeiro tem seus interesses. Então, como dar para cada área, com suas especificidades, uma capacidade de ter dados, metodologia, reflexão e construção de práticas que possam ser eficazes e eficientes para cada realidade sem subsumir-se dentro de um discurso populista punitivista que está no campo da direita?

A direita domina esse campo e a esquerda não foi capaz de produzir nada melhor do que esse punitivismo. Não fomos capazes de fazer esse debate. Somos criticados como os que protegem bandidos. Sempre vamos ser acusados de coniventes, ineficientes, incapazes, cúmplices porque há uma construção, desde o fim da ditadura militar, de que se resolve desta forma: matando, atirando, torturando. Isso nunca foi desmontado dentro da estrutura da Segurança Pública do país como um todo.

Com a estrutura bolsonarista isso foi amplificado. Estamos, hoje, num campo muito minado e retrocedido. Não há uma saída fácil. Eu não conseguiria dar uma receita. Apresento as linhas gerais do que vejo e sinto.

 

Fonte: Entrevista com José Cláudio Alves para Patricia Fachin, em IHU

 

Por que ditaduras dependem de pessoas com "baixo desempenho"

Pesquisadores explicam como "perdedores" e "desqualificados" se tornam úteis para autocratas e seus planos de extermínio. Fenômeno foi visto durante o governo de Jair Bolsonaro, apontam...

Não há remorso nos olhos de Waldemar Klingelhöfer.

Uma foto tirada no julgamento dos membros das unidades móveis de extermínio nazistas (Einsatzgruppen) mostra o major da SS (Schutzstaffel, organização paramilitar) olhando calmamente para a câmera. Sua camisa xadrez está abotoada até o pescoço; as sobrancelhas estão franzidas, mas o rosto não revela emoção.

A imagem foi registrada entre 1947 e 1948, pouco antes de Klingelhöfer ser condenado à morte por crimes contra a humanidade e por integrar uma organização criminosa. O processo fez parte dos julgamentos de Nurembergue, que condenaram líderes nazistas por crimes cometidos durante a Segunda Guerra Mundial.

<><> De cantor de ópera a assassino nazista

Antes de integrar a máquina de extermínio de Hitler, Klingelhöfer era cantor de ópera. Em 1935, deixou o Teatro Estatal de Kassel, no centro da Alemanha, para assumir o departamento cultural do SD, o serviço de inteligência nazista liderado diretamente por Reinhard Heydrich e, indiretamente, por Heinrich Himmler – apontados como arquitetos do Holocausto. Uma de suas funções era analisar a eficácia da propaganda do regime.

Fluente em russo, Klingelhöfer migrou em 1941 para o Einsatzgruppe B, inicialmente como tradutor, segundo seu próprio depoimento. Esses grupos foram responsáveis pelo extermínio da população judaica no Leste Europeu e de outras populações consideradas inimigas.

Ali, ele foi promovido ao cargo de líder de unidade de assalto — um dos mais altos — no Vorkommando Moscow, um destacamento do Einsatzgruppe B. Nesse posto, ele ordenou e participou pessoalmente de inúmeras execuções de civis.

O que leva um cantor de ópera a abandonar o palco — e depois um emprego burocrático cômodo — para matar a mando de Hitler?

<><> "Homens comuns" e carreiras moldadas pela lealdade

Para Christian Gläßel, cientista político do Centro de Segurança Internacional da Hertie School, em Berlim, e coautor do livro Making a Career in Dictatorship ("Fazendo Carreira em uma Ditadura", em tradução livre), a resposta é direta: "O desejo de ascender na carreira".

Por muito tempo, pesquisadores consideraram que a ideologia era o principal motor daqueles dispostos a cometer crimes pelo regime. No livro Os Carrascos Voluntários de Hitler: O Povo Alemão e o Holocausto, publicado na Alemanha em 1996, Daniel Goldhagen defendeu que o antissemitismo explicava a transformação desses homens em assassinos.

Décadas antes, a filósofa política alemã Hannah Arendt chegou a outra conclusão ao analisar o criminoso nazista Adolf Eichmann: "Não acho que ele fosse especialmente ávido por poder. Era um burocrata típico. Não creio que a ideologia tenha desempenhado papel tão grande", afirmou, em 1964.

<><> Desempenho ruim por trás da motivação

Gläßel e seu coautor, Adam Scharpf, encontraram na Argentina evidências empíricas para as suas suspeitas. 

Ao analisar dados de milhares de oficiais do Exército argentino desde 1870, eles identificaram um padrão: quanto pior o desempenho de um oficial, maior o risco de exclusão — e maior a probabilidade de ingresso na polícia secreta.

Durante a ditadura militar argentina, esses quadros eram formados por oficiais com baixo desempenho. Ao torturar e matar em nome do regime, eles conseguiam provar lealdade e impulsionar a própria carreira.

"Eles são frequentemente pessoas rejeitadas por um sistema ou que não conseguem mais avançar", explica Gläßel. "Nesse ponto, recorrem a medidas extremas para demonstrar lealdade."

<><> Pressão profissional se sobrepõe à ideologia?

O interesse dos pesquisadores surgiu de um comentário solto por acaso: durante uma visita à Argentina, alguém disse a Scharpf que a polícia secreta durante a ditatura militar era formada por "idiotas".

A princípio, Scharpf interpretou a frase como puro insulto. Só que quanto mais discutia o assunto com Christian Gläßel, mais desconfiados ficavam de que deveriam considerar a hipótese de forma literal.

"É um enigma: por que um ditador dependeria de idiotas para sua polícia secreta?", questiona Gläßel.

Os dados mostraram que o Exército argentino operava com base meritocrática: bons desempenhos eram recompensados; maus resultados levavam à exclusão.

"Em outras palavras, aqueles que têm um bom desempenho sobem na hierarquia; aqueles que não têm, acabam sendo expulsos", explica Gläßel.

Para os funcionários com baixo desempenho, a polícia secreta funcionava como um atalho para subir na carreira. Aqueles com antecedentes ruins podiam salvar suas carreiras por meio desse desvio.

Após passar alguns anos nesse sistema, esses indivíduos conseguiam voltar ao Exército com melhores cargos e salários, em outras áreas das Forças Armadas. Então, quanto maior a pressão que enfrentavam, maior a probabilidade de torturarem e matarem para salvar suas carreiras

<><> Meritocracia como fator de risco

Para Gläßel, esse é um efeito colateral de sistemas que produzem vencedores e perdedores. "Os perdedores se tornam um recurso que pode ser explorado por autocratas."

Gläßel acredita que a meritocracia nao é uma proteção nem contra a erosão das instituições democráticas nem contra o autoritarismo. Pelo contrário, a pesquisa dele e de Scharpf sugere que sistemas baseados em desempenho podem levar pessoas comuns a cometer crimes extremos.

"O perverso é que o desempenho motiva — quem fica para trás tende a ir mais longe para compensar."

<><> Perfil de novato

Os pesquisadores analisaram também casos da Alemanha nazista, Gâmbia e União Soviética. Entre eles, o de Klingelhöfer.

Não existe uma base de dados abrangente sobre a Alemanha nazista comparável aos registros argentinos. Mas algumas biografias permitiram a Gläßel e Scharpf conhecer mais sobre os "homens comuns" da Alemanha nazista.

A maioria tinha pouca ou nenhuma experiência em trabalho policial e, portanto, sentia uma necessidade maior de provar seu valor, argumentam os pesquisadores. Segundo eles, líderes nazistas como Reinhard Heydrich e Heinrich Himmler exploraram deliberadamente essa dinâmica.

Entre os comandantes nazistas havia advogados, professores, historiadores da arte, dentistas e até um pastor: Ernst Biberstein.

Biberstein foi um dos primeiros pastores protestantes a se filiar ao Partido Nazista. Ele galgou posições até chegar ao Ministério de Assuntos Eclesiásticos dos Nazistas, enquanto simultaneamente espionava para o SD.

Mas o ministério acabou insatisfeito com seu trabalho, de modo que ele fez carreira no SD e na SS. Em 1942, tornou-se comandante do Einsatzkommando 6, subordinado ao Einsatzgruppe C, em Kiev, na Ucrânia, onde ordenou o assassinato de milhares de pessoas inocentes.. 

<><> Promoção nunca garantida

A pressão por desempenho também existia dentro da SS e do SD. Há relatos de que Heydrich e Himmler promoveram deliberadamente um clima de competição

Himmler, por exemplo, defendia a necessidade de "realizar um processo de seleção rigoroso e reduzir o efetivo para que os remanescentes trabalhassem ainda mais arduamente, pois sabiam que sua promoção não estava de forma alguma garantida".

Heydrich descrevia o serviço nos Einsatzgruppen como "uma oportunidade de se provar e conquistar distinção".

Ainda assim, ignorar o papel da ideologia seria simplista. As unidades eram fortemente doutrinadas, e seus líderes, escolhidos pessoalmente.

O próprio Klingelhöfer tinha histórico antissemita antes de integrar o regime. Ele havia se juntado à associação antissemita "Jovem Ordem Alemã" em 1920 e publicado um livro sobre a "influência de judeus e maçons nos acontecimentos políticos na Rússia" antes de sua passagem pelo SD.

<><> Lições para o presente

Gläßel vê seu trabalho como um alerta: mesmo democracias produzem desigualdades que podem gerar indivíduos dispostos a tudo para ascender, inclusive cometer crimes.

Nas democracias contemporâneas, não faltam exemplos de novatos a serviço de um projeto de destruição. Os autores lembram do caso do ex-policial Marcelo Xavier da Silva, nomeado presidente da Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai) pelo governo de Jair Bolsonaro, mesmo sendo um opositor declarado dos direitos indígenas.

Outro exemplo que ilustra bem esse fenômeno, segundo os pesquisadores, é o do secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, que anteriormente trabalhava como apresentador da Fox News.

"Quem não aprende com a história acaba sendo alcançado por ela", afirma Gläßel.

Mas esse não parece ter sido o caso do nazista Klingelhöfer. Condenado à morte em Nurembergue, em 1948, ele teve a pena comutada para prisão perpétua em 1951 e ganhou liberdade condicional em 1956. Depois, trabalhou como funcionário administrativo na cidade de Villingen, no sudoeste da Alemanha, onde morreu aos 76 anos.

¨      Guarda Revolucionária põe Irã rumo à ditadura militar

Estaria o Irã à beira de uma transição para uma ditadura militar? Após a morte do líder supremo, o aiatolá Ali Khamenei, em fevereiro, muitos analistas veem sinais de que o poderoso Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) teria assumido o poder e o controle em Teerã.

O cientista político e pesquisador da paz Damon Golriz, da Universidade de Ciências Aplicadas de Haia, na Holanda, resume a questão de maneira sucinta. "Sob a fachada clerical, o centro do poder se deslocou para os quartéis. [O filho de Khamenei, o aiatolá] Mojtaba Khamenei fornece a cobertura ideológica, enquanto a Guarda Revolucionária assume o trabalho real de governar."

Mojtaba Khamenei se tornou o líder supremo do Irã após a morte de seu pai em um ataque aéreo conjunto realizado pelos Estados Unidos e Israel, no início da guerra.

Desde então, cargos de alto escalão em ministérios, empresas estatais e instituições de propaganda vêm sendo sistematicamente preenchidos por comandantes da Guarda Revolucionária. O próprio Mojtaba Khamenei serviu no Batalhão Habib da IRGC durante a Guerra Irã-Iraque (1980-1988). Essa rede composta pela linha-dura do regime forma atualmente o núcleo da liderança da IRGC e coordena as atividades de inteligência.

<><> Paramilitares por trás das decisões

"Durante a repressão aos protestos de 2009, Mojtaba Khamenei assumiu o comando direto da milícia voluntária Basij, que luta em nome da Guarda Revolucionária, e transferiu as reuniões de segurança para a 'Casa do Líder'", explica Damon Golriz.

A Casa do Líder é um complexo de alta segurança no centro de Teerã onde o líder supremo trabalha com seu gabinete paralelo religioso. Ali Khamenei foi morto no bunker subterrâneo do complexo durante os ataques dos EUA e de Israel.

"Embora o poder executivo oficial resida no presidente, ele pode apenas executar as decisões do líder supremo, e não toma nenhuma decisão por conta própria. O poder real agora está nas mãos de Mojtaba Khamenei e de uma rede de militares linha-dura", afirma o especialista.

No entanto, ainda vigora no Irã a doutrina islâmica oficial Velayat-e Faghih – que significa "regência do jurista islâmico" – e o clero como seu representante. A doutrina foi formulada pela primeira vez pelo líder histórico do país, o aiatolá Ruhollah Khomeini, em 1970.

Um aiatolá é um clérigo xiita e jurista islâmico. O novo líder supremo foi eleito em março de 2026, embora não seja de fato um aiatolá. Seu título religioso é Hojatoleslam, um grau abaixo dos aiatolás. O homem de 56 anos nunca proferiu um sermão público. Tampouco participou de uma eleição ou ocupou um alto cargo religioso.

Especialistas suspeitam que sua eleição como líder espiritual possa ter ocorrido devido à forte pressão da Guarda Revolucionária. "A nomeação de Mojtaba Khamenei consolida a realidade de que o cálculo político e o equilíbrio de poder se tornaram o fator decisivo, e não mais a legitimidade religiosa", observou Damon Golriz. "Ele é um líder no papel, mas, na realidade, uma figura puramente decorativa."

<><> Tomada gradual de poder

Após a Guerra Irã-Iraque, a Guarda Revolucionária, fundada poucos anos antes como uma milícia ideológica, se tornou cada vez mais presente na vida econômica do país. Os esforços de reconstrução resultaram em grandes contratos para empresas intimamente ligadas ao grupo paramilitar. Isso deu à Guarda acesso à infraestrutura e aos recursos naturais, que ela transformou em riqueza e controle.

Esses lucrativos negócios paralelos da unidade militar, com seus aproximadamente 190 mil soldados ativos, foram posteriormente legalizados por uma emenda constitucional de 2004.

A Guarda Revolucionária foi então autorizada a assumir o controle de grandes porções de ativos estratégicos. Segundo estimativas, ela controla atualmente cerca de 50% da produção de petróleo do Irã. Dessa forma, esse Exército estruturado conseguiu criar um Estado paralelo autossuficiente.

O analista Faraj Sarkouhi afirma que, desde o início da guerra com o Iraque, a Guarda Revolucionária assumiu um "modelo híbrido de transição": a estrutura tradicional do Estado teocrático permanece como fachada, enquanto a Guarda Revolucionária controla os bastidores.

<><> Sem apoio popular

O povo iraniano, no entanto, está insatisfeito com o sistema. A população jovem, com idade média de 34,5 anos, foi praticamente forçada viver sob o regime Velayat-e Faghih desde a década de 1970. Os conflitos com o Ocidente e a guerra atual alimentam o descontentamento.

Com a economia estagnada, economistas preveem uma contração de 8,8% a 10% do PIB em 2026. A taxa de inflação em algumas partes do país ultrapassa os 80%. Estima-se que entre 22% e 50% dos iranianos já vivam abaixo da linha da pobreza.

"A maioria da população já se distanciou da ideologia dominante em sua vida privada", resumiu Faraj Sarkouhi. "O regime perdeu sua legitimidade política e ideológica há anos."

Segundo Golriz, cerca de 80% dos iranianos sentem profunda aversão ao sistema. A liderança religiosa reprimiu com violência armada as opiniões dissidentes da geração mais jovem, como, por exemplo, a ideia de que as mulheres não precisariam mais usar o véu islâmico em público.

Em 2022, jovem curda Mahsa Amini, de 23 anos, foi presa pela chamada polícia da moralidade por supostamente não usar o véu corretamente. Sua morte sob custódia policial, em decorrência da violência com que foi tratada, desencadeou uma onda de protestos que durou meses em todo o país.

As próprias instituições estatais já preveem novos protestos, à medida que o descontentamento continua a crescer. Ambos os analistas concordam que o país, em sua nova forma militar-religiosa, não é mais governável. Mas nenhum deles se atreve a prever como o país no Golfo Pérsico e seus 93 milhões de habitantes poderão encontrar o caminho para uma paz duradoura.

 

Fonte: DW Brasil