sábado, 7 de março de 2026

A importância de uma super federação de esquerda no Brasil

No final de 2025, o PT anunciou que fez um convite para o PSOL compor uma federação partidária já para as eleições de 2026. Esse debate foi esquentando na medida em que se aproximava o prazo para a formação de instrumentos deste tipo, que acontece seis meses antes da eleição, no começo de abril de 2026.  

Federações partidárias são um instrumento legal em que diferentes partidos se juntam para fins de cálculos da cláusula de barreira, tendo como obrigação atuar juntos nas eleições e nos parlamentos por 4 anos.  Como qualquer decisão política, a composição de uma federação deste tipo tem ônus e bônus para os envolvidos, com riscos e vantagens que são colocados na balança.  

Nesse texto, organizo em três eixos os argumentos favoráveis à formação de uma super federação da esquerda brasileira. São eles: a unidade contra a extrema-direita para avançar na democracia brasileira; o papel que a super federação pode ter na renovação da esquerda no Brasil e o potencial eleitoral que essa unidade dos partidos tem para aumentar a força da esquerda no Congresso Nacional.  

<><> 1 – Unidade contra o fascismo para avançar na democracia  

A força e persistência do bolsonarismo no Brasil e no mundo e o risco real de vitória de Flávio Bolsonaro nas eleições de 2026, é o principal elemento importante que coloca a urgência de um aprofundamento da unidade.  

A coligação eleitoral realizada em 2022 foi importante para vencer as eleições, mas se mostrou insuficiente para construir uma ação mais coordenada das esquerdas partidárias no Brasil. Foram vários os momentos de crise da conjuntura em que o campo progressista se viu paralisado e dividido. 

Por exemplo, na crise do PIX, as esquerdas ficaram sem resposta e a extrema-direita atuou sozinha até a deputada Erika Hilton soltar um vídeo, com mais de 15 dias de defensiva. Outro exemplo foi a PEC da Blindagem, em que parte dos parlamentares de esquerda apoiaram, contrariando o sentimento da base.  

Uma federação com regras democráticas tem o potencial de superar esse problema, ampliando nossa capacidade de reagir aos ataques da extrema-direita e da direita tradicional. Com isso vamos ao segundo eixo dos argumentos favoráveis.  

<><> 2 – Mobilização democrática das bases com manutenção da autonomia dos partidos  

A criação das federações partidárias foi um avanço democrático apoiado pela esquerda, porque protege partidos ideológicos como o PC do B e o PSOL. Mas uma federação pode ser um instrumento de renovação democrática para além dessa dimensão de proteger partidos ideológicos.  

Uma super federação da esquerda pode ter regras que estimulam a mobilização democrática e, ao mesmo tempo, preservam a autonomia dos partidos, uma vez que há um receio que o maior partido (o PT) “engula” os menores.  

Pegando o exemplo da Frente Ampla Uruguaia, temos um estatuto com algumas regras e procedimentos que podem ser aplicados em uma super federação  

  • Mecanismos de consulta – a FA prevê primárias para decidir candidatos e plebiscitos para tomar decisões em temas importantes caso seja convocado por 25% dos filiados. Primárias abertas não somente aos filiados, mas a todos os eleitores de esquerda para decidir candidatos a prefeito, governador e presidente são um método já testados em muitos países (Argentina, Colômbia, Chile, Uruguai) com muito sucesso, porque mobiliza as bases e fortalece as lideranças. Hoje, as decisões são restritas às cúpulas partidárias e a super federação pode mudar isso e contribuir para reoxigenar os partidos.  
  • Liberdade de ação – Qualquer setor da FA pode ser liberado de seguir uma decisão a maioria em casos especiais. A super federação pode prever casos desse tipo.  
  • Proteção da minoria – No Estatuto da Frente Ampla, se um quinto dos componentes qualificam um assunto como fundamental, só se poderá adotar uma decisão pelo voto aprovativo de três quintos dos componentes do corpo. Na super federação, por exemplo, o PSOL com certeza será pelo menos 1/5, pelo número de deputados e filiados e pode colocar barreiras deste tipo para se proteger.  

Em suma, uma super federação com primárias abertas e proteção das minorias fortaleceria os laços dos partidos com as bases, permitindo mais unidade e mobilização para aumentar a força da esquerda na sociedade e no Congresso, que é o terceiro eixo.  

<><> 3 – Aumento da bancada da esquerda como um todo  

As federações partidárias forçam os partidos a montar uma chapa única de candidatos a deputado federal. Isso leva os partidos a “juntar” seus votos e a concentrar os candidatos em nomes mais fortes, nomes que serão muito bem votados, sem a necessidade de pulverizar em vários candidatos com poucos votos. Isso tem o potencial de aumentar as bancadas e é por essa razão que setores da direita vem apostando na federação.  

Por exemplo, na direita tradicional, o União Brasil (UB) e o Progressistas se juntaram em uma super federação de direita, intitulada UP. Nenhum desses partidos corre risco de não alcançar a cláusula de barreira em 2026 ou 2030. Por que então eles optam por esse caminho da federação? 

Seu objetivo principal com essa unidade é aumentar suas bancadas de deputados federais e com isso disputar com o PL, partido de Jair Bolsonaro e que concentra o acúmulo da extrema-direita.  

Em um cenário em que o Congresso Nacional chantageia o presidente Lula todos os dias e não aprova as medidas que o governo envia para melhorar a vida do povo, é de suma importância aumentar a bancada da esquerda e a super federação é a melhor estratégia para conseguir isso.  

Cada eleição é uma eleição e não temos como prevê o que sai das urnas, mas pegando os números das eleições de 2022, podemos fazer algumas projeções de como ficaria a bancada de esquerda em caso de unidade entre PT, PC do B, PV, PSOL e Rede, que foram duas federações distintas.  

São dois principais cenários que emergem da análise do quadro eleitoral de 2022. Nos estados em que a esquerda fez menos deputados, a unidade em uma super federação provavelmente levaria ao aumento da bancada da esquerda como um todo. É o caso de Santa Catarina, Paraná, Espírito Santos, Pernambuco, Ceará, Pará e Distrito Federal. 

Já nos estados em que a esquerda fez bancadas grandes, a super federação “protege” essas bancadas, aumentando as chances de manutenção do número de eleitos mesmo que a super federação da direita aumente sua bancada.  

Nesse cenário, UB e PP ao se juntarem aumentariam suas bancadas, mas “roubariam” deputados de outros partidos da direita e não da esquerda. 

Abaixo segue um detalhamento em cada Estado.  

<><> Cenário de aumento das bancadas: SC, PR, ES, PE, CE, PA, DF  

>>> Santa Catarina  

O PT fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. O MDB fez 3, tendo 100 mil votos a menos que o PT. Porque o PT perdeu uma vaga na sobra.  

Uma federação provavelmente pegaria essa terceira vaga na sobra, uma vez que os dois juntos fariam ainda mais votos que o MDB.  

>>> Paraná  

O PT elegeu 6 deputados federais com 971 mil votos. Juntando com o PSOL, faria 1.012 milhões de votos. O PSD fez 7 deputados federais com 1 milhão e 51 mil votos. Juntos, PT e PSOL igualariam o PSD e provavelmente fariam 7 deputados federais.  

>>> Espírito Santo  

O PT fez dois deputados federais com 220 mil votos. Junto com o PSOL, faria 260 mil e disputaria uma terceira vaga na sobra.  

>>> Pernambuco  

Em Pernambuco, o PSB fez 5 deputados com 730.000.  

O PT fez 3 deputados federais e o PSOL/Rede fez 1. Juntos, a super federação faria 800 mil, ou seja, mais votos que o PSB. Isso significa que com certeza haveria uma ampliação para 5 deputados federais e poderia inclusive ampliar mais um beliscando a sobra.  

Pernambuco, aliás, antecipou o cenário da super federação: a primeira suplência do PSOL, em 2022, foi a Robyoncé, com 80 mil votos. Na grande maioria dos estados, o primeiro nome que não entrou tem uma votação pequena, fruto da dispersão de candidaturas. Com a concentração de candidaturas, a votação de todo mundo cresce.  

>>> Ceará  

No Ceará, a UB teve 720 mil e fez 4 deputados federais.  

Já o PT fez 3 deputados federais e o PSOL nenhum. Só que a soma dos votos desses partidos é de 745 mil, mais que a UB. Ou seja, com certeza a super federação faria 4 parlamentares.  

>>> Pará  

No Pará, O PL fez 3 deputados federais com 540 mil votos.  

Já o PT fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. Juntos, esses partidos totalizaram os mesmos votos. Ou seja, com certeza a super federação faria 3 parlamentares.  

>>> Distrito Federal  

 No DF, o Republicanos fez 3 deputados federais com 300 mil votos.  

Já o PT fez dois deputados federais e o PSOL nenhum. Juntos, totalizaram 340 mil votos, mais que o Rep. Ou seja, com certeza a super federação faria 3 parlamentares.  

<><> Cenário proteção das bancadas diante da super federação da direita: RS, MG, RJ, SP, BA   

>>> Rio Grande do Sul  

No RS, PT e PSOL tiveram juntos 8 deputados. O PSOL fez um por Quociente Partidário (QP), que é quando o candidato faz sozinho os votos para se eleger. O PT fez 5 por QP e 2 na sobra. A última na sobra foi a Denise Pessoa, com 45 mil votos.  

Juntos, a super federação teria 1 milhão e 500 mil votos, aumentando a probabilidade de manutenção da última vaga conquistada pelo PT.  

>>> Minas Gerais 

Em Minas, UB e PP fizeram 6 separados. Juntos, somariam 1 milhão e 300 mil e avançariam para 7 deputados.   

Separados, a esquerda poderia perder um deputado na sobra. Juntos, somando 2 milhões de votos, provavelmente a esquerda garantiria esse último nome mesmo com o crescimento da federação UB e PP.  

>>> São Paulo  

Em São Paulo, a UB e PP provavelmente saíram de 10 para 11 deputados, uma vez que juntos tiveram 3 milhões de votos, mesmo número do PT que fez 11 parlamentares.  

Juntos, a super federação da esquerda faria mais de 5 milhões de votos em SP, garantindo a mesma bancada, sem perder nenhum para o crescimento da direita.  

>>> Rio de Janeiro 

No Rio de Janeiro, a super federação da direita somaria 1.500.000 votos, o que levaria ao aumento de 9 para 10 deputados federais.  

A super federação da esquerda somaria 1.700.000 votos, mesmo número do PL, o que garantiria a manutenção dos eleitos mesmo com o crescimento de UB e PP.  

>>> Bahia  

Na Bahia, O PT fez 10 deputados com 1.755.000 votos, sendo dois na sobra.  

A federação UB e PP faria 1.850.000 votos, o que poderia levar esses partidos a “roubar” do PT a última vaga na sobra.   

A super federação de esquerda faria 1.810.000, aumentando a chance de manutenção da vaga na sobra, levando a super federação da direita a “roubar” a vaga de outro partido. 

Em suma, a formação de uma super federação de esquerda é uma oportunidade histórica para avançar na unidade, na mobilização democrática e na renovação do campo progressista. E o ano de 2026, com sua importância e o risco de retrocesso na eleição presidencial, é o tempo político para um avanço desse tipo.  

 

Fonte: Por Josué Medeiros, no Le Monde

 

“Vinte contra um” e a gramática oculta da polarização

Vira e mexe circula nas redes o mesmo comentário: “colocaram vinte pessoas de esquerda contra uma de direita” ou o inverso. A cena muda de canal, de programa, de formato, mas a sensação é parecida. Um lado se diz vitorioso, o outro se diz injustiçado. E vice-versa. Cada campo acredita que o debate foi desequilibrado, manipulado ou enviesado. O curioso é que, mesmo quando os números se invertem, a percepção de falta de compreensão mútua permanece: e nos fatos mais básicos.

O mesmo ocorre em podcasts políticos que se tornaram palco relevante do debate público recente. Convidados de campos opostos passam horas trocando argumentos, citando dados, evocando estudos, mas raramente há deslocamento real de posição. Ao final, cada lado sai mais convicto de que o outro é desinformado ou age de má-fé.

A explicação mais comum para esse impasse é a ignorância. Se o outro não concorda comigo, deve estar mal informado, enganado por fake news ou não tem acesso aos dados relevantes. A solução pareceria simples: mais fatos, mais números, mais evidências. Mas e se o problema não for falta de informação?

Talvez estejamos diante de algo mais profundo do que desinformação ou ignorância. Em 1985, o filósofo Robert Fogelin chamou de “desacordo profundo” aquelas situações em que as partes não compartilham sequer os critérios básicos do debate. Não discordam apenas das conclusões; discordam do que conta como evidência relevante, argumento legítimo, critério apropriado ou valor prioritário.

Nesses casos, insistir em mais dados não resolve, porque os próprios dados devem ser avaliados a partir de regras e critérios distintos, ou seja, a partir de uma gramática distinta. Ludwig Wittgenstein, em Sobre a Certeza, ajuda a entender por quê. Ele argumenta que nossas práticas repousam sobre “certezas fulcrais”, algumas crenças que não funcionam como hipóteses testáveis, ou empíricas, mas como dobradiças, fulcros, ou eixos que tornam possível o próprio jogo de argumentar, conhecer, e duvidar. Elas não são verificadas como fatos comuns. Na verdade, estas certezas fulcrais organizam o que conta como fato. Essas certezas são aprendidas socialmente. Estruturam critérios, procedimentos e valores, ou seja, nossa gramática. E não mudam simplesmente porque alguém apresentou um gráfico melhor. Mudam quando formas de vida se transformam.

Quando um debatedor liberal insiste em liberdade individual, mérito e responsabilidade pessoal, ele não está apenas defendendo uma política pública. Está operando com uma gramática em que o indivíduo é a unidade central da análise social. Se há desigualdade, a pergunta é: quais escolhas foram feitas? Quais incentivos estão distorcidos? Já quando alguém da esquerda fala em desigualdade estrutural, racismo histórico e concentração de renda, parte de outra gramática. O foco não é a escolha individual isolada, mas as condições históricas que determinam as oportunidades e acessos. “Mérito” e “esforço” já são vistos como categorias atravessadas por relações de poder.

O conflito, então, não é apenas factual. É gramatical. Cada lado opera com critérios distintos sobre o que é problema, o que é solução e o que conta como evidência relevante. Isso não significa que fatos não importem ou que tudo seja relativo. Significa que fatos falam dentro de uma gramática. E quando as gramáticas divergem profundamente, o debate empaca.

No Brasil periférico, esse impasse é agravado por desigualdades históricas profundas. Não estamos diante de uma sociedade homogênea com desacordos pontuais. Estamos diante de formas de vida que experimentam Estado, mercado, violência e cidadania de maneiras radicalmente distintas. Tratar a polarização como mera ignorância sobre fatos é politicamente confortável. Supõe que o problema está no nível da informação. Mas muitas vezes estamos diante de embates sobre regras básicas do jogo.

É por isso que proponho um giro normativo. Em vez de perguntar apenas “quem está certo?”, “o que é verdadeiro?”, deveríamos perguntar: quais regras estão organizando estas imagens de mundo? Quais certezas estão sendo tomadas como óbvias?

Quando alguém afirma que “o mercado é naturalmente mais eficiente que o Estado”, isso não é apenas uma hipótese empírica. É a expressão de uma certeza fulcral, de uma regra de leitura do mundo. Organiza antecipadamente o que será considerado desperdício, intervenção indevida ou liberdade econômica. Da mesma forma, quando alguém sustenta que “o Estado deve garantir direitos sociais”, não está apenas defendendo uma política específica, mas explicitando uma prioridade normativa que articula sua imagem de mundo.

O erro recorrente é tratar esses embates como se fossem apenas disputas sobre dados. Mas muitas vezes estamos vendo colisões entre gramáticas diferentes, entre formas de vida distintas. Se a disputa é gramatical, ela também é política no sentido mais profundo. Não basta convencer o outro com informações e mais dados. É preciso disputar as regras que definem o que conta como legítimo, racional e desejável em seus jogos de linguagem mais básicos.

Isso é o que podemos chamar de soberania gramatical (Silva, 2026): a capacidade coletiva de participar da definição das regras que organizam a vida comum. Não se trata de relativismo, mas de reconhecer que regras não são neutras. São sustentadas por instituições, mídias, mercados e estruturas de poder. A gramática liberal, por exemplo, não se mantém apenas por argumentos bem formulados. Ela é reforçada por práticas econômicas e pedagógicas, por sistemas jurídicos e por dispositivos midiáticos. Gramáticas críticas, por sua vez, dependem materialmente também de movimentos sociais, universidades públicas, sindicatos e redes comunitárias.

Se queremos compreender a polarização brasileira, precisamos ir além da explicação epistêmica da ignorância de informações ou do acesso a dados. O que está em jogo não é apenas quem tem mais dados, mas quais regras organizam e queremos que organizem nossa vida coletiva (Praxedes e Silva, 2025; Santana e Silva, 2025).

Disputar a linguagem da política é disputar a política da linguagem (Silva, 2026). E isso exige algo mais difícil do que apresentar estatísticas: exige tornar visíveis os eixos conceituais e certezas fulcrais que estruturam nossos desacordos. Enquanto não fizermos isso, poderemos continuar colocando vinte contra um — ou um contra vinte — que o resultado será o mesmo: muito barulho, pouca transformação.

 

Fonte: Por Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

 

Cristália: laboratório da polilaminina vendeu cloroquina e fez fortuna sob Bolsonaro

O laboratório Cristália expandiu os negócios vendendo medicamentos usados no tratamento da covid, que incluiu a cloroquina, durante o governo Jair Bolsonaro – que propagandeava o remédio ineficaz contra o coronavírus. A empresa é a responsável pela produção da polilaminina, substância em fase de testes que se popularizou pela promessa de ajudar a restaurar os movimentos em pessoas com lesão na medula.

Apesar de ser uma fornecedora antiga do Sistema Único de Saúde (SUS), as vendas da Cristália ao governo federal aumentaram 68% naquele período – passando de R$ 849,4 milhões entre 2015 e 2018 para R$ 1,4 bilhão entre 2019 e 2022, segundo dados do governo. A própria empresa divulgou que seu faturamento total foi de R$ 3 bilhões em 2020, primeiro ano da pandemia, com a produção de anestésicos e dos medicamentos para tratamento da covid.

Foi durante essa bonança, em 2021, que a Cristália se tornou co-proprietária da polilaminina junto com a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), onde atua a pesquisadora Tatiana Sampaio, a “mãe” da substância. A empresa afirma que já investiu R$ 100 milhões para produzir e comercializar o medicamento. Também solicitou as patentes nacional e internacional, que estavam em vias de serem perdidas pela UFRJ.

Hoje, o fundador da Cristália, Ogari Pacheco, afirma que foi contra o uso do “tal kit para covid” e que nunca defendeu isso. Mas, quando contraiu a doença – e chegou a ser internado –, fez uso de cloroquina, da qual é fabricante, segundo O Estado de São Paulo.

A Cristália foi um dos laboratórios credenciados pelo Ministério da Saúde para vender cloroquina ao SUS durante a pandemia. Um ofício de abril de 2020 assinado por Antonio Barra Torres, ex-diretor da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), aponta que a empresa dispunha de 377 mil comprimidos de difosfato de cloroquina em estoque e previsão de liberação de mais 1,3 milhão de comprimidos em 15 dias.

<><> Por que isso importa?

•        A polilaminina está sendo liberada em alguns pacientes via decisão judicial no país. Pelo menos 55 pedidos na Justiça foram aprovados.

•        Associações médicas e entidades científicas têm se manifestado pedindo cautela no uso da substância antes da finalização dos testes.

Em nota, a empresa afirma que, durante a pandemia, também foi fornecedora do chamado “kit-intubação”, conjunto de sedativos, analgésicos e bloqueadores neuromusculares usados em pacientes graves que precisam de ventilação mecânica em UTIs. Segundo o laboratório, dos 30 medicamentos desse conjunto, 24 são produzidos pela companhia. A Cristália afirma que o kit-intubação foi o principal motivo do impacto no faturamento, mas não detalhou valores.

Na época, contrariando a Organização Mundial da Saúde (OMS), a Cristália foi uma das únicas fabricantes de cloroquina a não explicitar que o remédio não era recomendado para a covid. A empresa limitou-se a informar que “qualquer recomendação fora das especificadas na bula deve ser feita sob responsabilidade do médico, como ocorre com qualquer medicamento”. A outra exceção foi o Laboratório do Exército, que produziu o medicamento à pedido do governo.

Agora, a resposta mudou. A empresa disse, em nota, que a cloroquina é utilizada “no tratamento de ataques agudos de malária, artrite reumatoide e lúpus eritematoso sistêmico. Nunca fornecemos o medicamento para tratamento de covid-19 ou qualquer outra doença que não esteja descrita na bula”. Acesse a íntegra da nota.

A cloroquina fazia parte do chamado “tratamento precoce” defendido pela administração Bolsonaro, que só no primeiro ano da pandemia chegou a gastar R$ 90 milhões com esses medicamentos, antes mesmo de investir nas vacinas produzidas pelo Instituto Butantã.

Pacheco tem histórico ligado ao bolsonarismo. Em 2018, ele foi eleito pelo DEM como 2º suplente do senador Eduardo Gomes (PL-TO), então líder do governo Bolsonaro no Senado. O empresário chegou a assumir a cadeira por quatro meses em 2022.

Naquele pleito, foi um dos candidatos mais ricos do Brasil, com patrimônio declarado de R$ 407 milhões. Ele e outros executivos da Cristália doaram R$ 2,1 milhões para a campanha de Gomes, o que representa quase 90% do que ele arrecadou, segundo a Repórter Brasil. Ao veículo, ele disse que, apesar de ser suplente, teria um “sub-gabinete” junto à equipe de Gomes e seria responsável pelas questões ligadas à saúde. Segundo a empresa, naquele período Pacheco se afastou do laboratório e “se dedicou, no Senado, à formulação do projeto para a criação do Complexo Industrial da Saúde do país”.

Em 2019, primeiro ano do governo Bolsonaro, o ex-presidente agraciou o aliado com uma visita à inauguração de uma planta da Cristália em Itapira, interior de São Paulo. E não poupou elogios a ele: “o espírito do Pacheco nos faz rejuvenescer, nos faz mais crente, mais objetivo e mais lutador”, disse Bolsonaro na ocasião.

“É uma satisfação estar aqui. Há poucas semanas, adentrou meu gabinete o senhor Pacheco e o senador Eduardo Gomes, do Tocantins, e me fizeram esse convite. A minha agenda realmente é complicada, mas tínhamos um evento em São Paulo, e eu aproveitei para voltar um pouquinho para esse meu querido interior de São Paulo”, continuou.

Apesar da proximidade com nomes da direita, Pacheco e sua empresa também têm trânsito com outras legendas. Executivos da companhia já fizeram doações a partidos como PT, PSDB e DEM. A ex-presidente Dilma Rousseff (PT) também já esteve em um evento da Cristália, em 2013, quando chamou Pacheco de “um brasileiro valoroso”, que “sempre acreditou em nosso país”. No ano passado, o empresário foi recebido pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos).

A empresa afirma que a visita de autoridades faz parte de eventos institucionais comuns e que diferentes presidentes e governadores já estiveram em suas instalações nas últimas décadas.

<><> Polilaminina: a nova aposta

Polilaminina é estudada para tratar lesão medular, mas resultados ainda são iniciais

Pacheco pode até negar o seu passado “cloroquiner”. Mas agora investe todas as fichas na polilaminina – que, apesar dos indícios promissores, ainda está em fase inicial de testes e não se sabe qual será a sua eficácia em humanos. “Agora, com a polilaminina, teremos a maior descoberta da ciência em décadas. Os benefícios são de tamanha ordem que, assim que a droga estiver disponível à população, terei cumprido minha missão na Terra”, afirmou o empresário à IstoÉ Dinheiro.

A expectativa com o medicamento é tão alta que a Cristália está comprando uma nova unidade fabril em Jaguariúna (SP) para dar conta da possível demanda. “O laboratório Cristália está trabalhando para que a polilaminina esteja disponível de maneira democrática para todos os pacientes, incluindo os crônicos, o quanto antes. Os resultados dos testes em andamento guiarão o caminho para essa disponibilização”, disse a empresa em um comunicado.

No programa Roda Viva, Tatiana Sampaio disse que a Cristália é responsável pela produção e comercialização do medicamento, que a empresa não interferiu em seu trabalho, e que a intenção de Pacheco seria vender a polilaminina ao SUS.

No início deste ano, o Ministério da Saúde e a Anvisa anunciaram o início do estudo clínico de fase 1 para avaliar a segurança do uso da substância. Os testes serão realizados em cinco pacientes voluntários, com idades entre 18 e 72 anos, até 72 horas após sofrerem lesões entre as vértebras T2 e T10 da medula espinhal. Ainda haverá novas etapas e não há previsão de conclusão.

Sampaio se tornou uma celebridade após os resultados iniciais de sua pesquisa, desenvolvida por quase 30 anos, viralizarem nas redes sociais. Elogiada tanto pela esquerda como pela direita, ela foi recebida pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que pediu prioridade para a pesquisa pelo Ministério da Saúde.

A pesquisadora também recebeu elogios do provável opositor de Lula na disputa eleitoral de 2026, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Flávio deu ênfase ao formato da proteína – que se parece com uma cruz – e disse que seu governo iria investir em “ciência de verdade”.

Tanta euforia fez com que a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC) e a Academia Brasileira de Ciências (ABC) emitissem um editorial conjunto pedindo “cautela” sobre a polilaminina. O conteúdo alerta que a substância ainda está sendo estudada e precisa cumprir os ritos científicos de segurança. Também recomendam que se evite judicialização ou exposição midiática prematura.

 

Fonte: Por Amanda Audi, em Agencia Pública

 

Renda Básica Universal: entre o fetiche do dinheiro e a necessidade de serviços públicos consolidados

A renda básica universal (RBU) emergiu nas últimas décadas como uma das propostas mais ambiciosas no campo das políticas de redistribuição de renda. A RBU promete, em tese, romper com a lógica assistencialista e estigmatizante dos programas focalizados. No entanto, o debate contemporâneo – especialmente no Brasil – revela que sua viabilidade e eficácia dependem de condicionantes estruturais que vão muito além da boa vontade política ou da disponibilidade fiscal. 

A diferença fundamental entre programas focalizados, como o Bolsa Família, e a renda básica universal reside nos critérios de acesso, na abrangência e na lógica que orienta cada política pública. O Bolsa Família é um programa de transferência condicionada de renda, direcionado exclusivamente a famílias em situação de pobreza ou extrema pobreza, mediante comprovação de renda (focalização) e cumprimento de contrapartidas, como frequência escolar e acompanhamento de saúde. Trata-se, portanto, de um benefício ex post, concedido após verificação da situação socioeconômica do núcleo familiar, com objetivos claros de alívio imediato da pobreza e estímulo ao acesso a direitos sociais básicos. Já a renda básica universal, conforme a definição de Van Parijs, é um pagamento em dinheiro feito pelo Estado a todos os membros da comunidade política individualmente, de forma regular, independentemente da renda familiar (sem verificação de meios) e sem qualquer contrapartida ou condicionamento. 

Enquanto o Bolsa Família opera na lógica do assistencialismo focalizado e temporário (ainda que possa ser continuado), a RBU se pretende um direito de cidadania universal e incondicional, pago ex ante, sem distinguir pobres e ricos e sem exigir comportamentos específicos dos beneficiários. Essa distinção tem implicações profundas: a focalização permite maior eficiência no curto prazo com recursos limitados, mas carrega estigmas e burocracias; a universalização promete dignidade e simplicidade administrativa, mas exige montantes fiscais muito mais elevados e, no limite, pode conviver com a manutenção de desigualdades se não vier acompanhada de outras políticas redistributivas e serviços públicos universais. 

A literatura especializada é convergente ao apontar que a renda básica universal tem maior chance de ser implementada em países desenvolvidos, com elevada renda per capita, baixa desigualdade social e sistemas de proteção social consolidados. Como argumentam Chagas e Proni (2022), nesses países o debate é frequentemente pautado por temas de teor mais sofisticado, como vulnerabilidade, justiça e igualdade sociais – e não pela urgência do combate à fome e à pobreza extrema.

Na Europa, onde o Estado de bem-estar social já está estabelecido, a RBU é discutida como um avanço no processo histórico de consolidação dos direitos sociais, ou seja, como complemento a outras políticas sociais universais, não como alternativa para reduzir o gasto público. Thomas Piketty (2020), em “Capital e ideologia”, propõe que a renda básica nos países desenvolvidos seja financiada por uma tributação progressiva que arrecade 45% da renda nacional, e que venha acompanhada de outras ferramentas redistributivas, como a garantia de emprego remunerado de forma justa. Essa perspectiva reforça que, nos países centrais, a RBU não é vista como solução milagrosa que dispensaria outros dispositivos institucionais. Pelo contrário: ela é pensada no interior de um arcabouço robusto de políticas públicas que garantem acesso universal à saúde, educação, moradia e previdência. A sofisticação do debate europeu, contudo, não encontra aderência imediata no terreno nacional brasileiro, onde as carências são mais elementares e as restrições fiscais, mais severas. 

O Brasil encontra-se no que De Wispelaere e Yemtsov (2020) denominaram “paradoxo da capacidade”: possui um grau de desenvolvimento econômico que, em tese, viabilizaria a adoção de uma RBU para beneficiar grande parcela da população, mas seus governos enfrentam restrições fiscais severas para implementá-la. Trata-se de uma economia de renda média alta, com elevada desigualdade, mercado de trabalho heterogêneo e alto grau de informalidade – características que tornam a universalização de qualquer política social um desafio monumental. A isso se soma o que Chagas e Proni identificam como “cultura do privilégio e preconceito estigmatizante” em relação à população mais pobre, combinados com o “culto ao mercado e a crença na meritocracia”, que enaltecem estratégias individuais e enfraquecem a defesa da solidariedade e de políticas universais de proteção social. Nesse ambiente cultural e político, a RBU é frequentemente vista como proposta utópica ou fiscalmente irresponsável. 

Um dos argumentos mais contundentes contra a implementação apressada da RBU no Brasil vem de Lena Lavinas e seus colaboradores. Em texto de 2021, Lavinas, Rubin e Bressan advertem que “uma renda básica de cidadania, por si só, não é suficiente, em nenhum lugar do mundo, para garantir todas as necessidades e equalizar as oportunidades para o conjunto da população”. No caso brasileiro, com seus múltiplos déficits sociais, “uma provisão pública, universal, que equalize aquilo que todos nós compartilhamos – ou deveríamos compartilhar, como educação, saúde, segurança etc. – deve preceder a implementação de um programa de renda básica universal incondicional”. A advertência é crucial: sem serviços públicos consolidados e de qualidade, a renda básica corre o risco de se tornar um mecanismo perverso de transferência de recursos da população mais pobre para o setor financeiro, via endividamento. É o que Lavinas (2018) denomina “colateralização da política social”: a renda estável garantida pelo Estado, com risco quase zero, serve como garantia

para a expansão do crédito consignado e de outros produtos financeiros, aprofundando a dependência das famílias em relação ao setor bancário. 

O exemplo é concreto: como os autores lembram, a reforma do Programa Bolsa Família proposta pelo Ministério da Economia previa que até 40% do benefício pudesse ser usado para honrar dívidas junto ao setor bancário. Ou seja, a política social deixa de ser instrumento de emancipação e autonomia para se tornar peça na engrenagem da acumulação financeira. Outro condicionante estrutural que inviabiliza a RBU no Brasil é a natureza regressiva do sistema tributário. Como apontam Chagas e Proni, persiste no país “um sistema tributário regressivo, que reforça as desigualdades”. Isso significa que os mais pobres pagam proporcionalmente mais impostos do que os ricos – principalmente via tributação indireta sobre o consumo. 

Para financiar uma renda básica universal com valor digno – suficiente para alinhar-se ao salário mínimo ou garantir o acesso a necessidades básicas como alimentação, moradia, vestuário e transporte, conforme propõe Lavinas – seria necessária uma reforma tributária “verdadeiramente progressiva e revolucionária”. Sem ela, qualquer RBU implementada no Brasil tende a reproduzir o que Piketty (2020) identificou como risco: um benefício de valor modesto (entre metade e três quartos do salário mínimo) que, em vez de reduzir desigualdades, acaba por legitimá-las. 

Ainda, a crítica de Lavinas à colateralização da política social encontra ressonância profunda na teoria marxista do fetichismo da mercadoria. Como expõe Marx, no capitalismo “as relações sociais não se apresentam como vínculo entre pessoas, e sim como vínculo entre coisas, assumindo as qualidades objetivas das coisas, especialmente sua aparência de força externa ao mundo humano, de realidade natural e eterna”. O dinheiro, enquanto equivalente geral, sintetiza esse processo: “O poder que cada indivíduo exerce sobre a atividade dos outros ou sobre as riquezas sociais existe nele como o proprietário de valores de troca, de dinheiro”. E Marx arremata: seu “poder social, assim como seu nexo com a sociedade, [o indivíduo] traz consigo no bolso”. 

O que Lavinas identifica na financeirização da renda básica é a manifestação contemporânea desse fetiche. A renda transferida pelo Estado – que deveria ser expressão de um direito de cidadania, de um vínculo social e político – transforma-se em mercadoria, em colateral, em instrumento de integração subordinada ao mercado financeiro. O dinheiro recebido como direito parece ter “poder misterioso” de alavancar crédito, de abrir portas no sistema bancário, quando, na verdade, esse “poder” decorre de sua função de equivalente geral em uma economia financeirizada. A aparência fetichista oculta o essencial: a renda básica, nesse contexto, não emancipa; antes, aprofunda a dependência. As famílias pobres passam a ter acesso ao crédito – mas às custas de seu endividamento estrutural. O “poder social” que o dinheiro confere é, na verdade, o poder de comandar trabalho alheio via juros e amortizações, transferindo renda dos mais pobres para o setor financeiro.

O risco de implementar a renda básica universal no Brasil sem observar os pré-requisitos fundamentais – isto é, sem dispor de serviços públicos universais consolidados, sem realizar uma reforma tributária progressiva e sem reduzir as profundas desigualdades sociais – é que ela se converta em instrumento de legitimação da agenda neoliberal de compressão das despesas públicas. Nesse cenário, a RBU poderia ser utilizada como justificativa para o achatamento ou mesmo a substituição dos serviços públicos já existentes, sob o argumento de que, uma vez que o cidadão recebe um montante em dinheiro, caberia a ele próprio adquirir educação, saúde, moradia e demais necessidades no mercado. Trata-se da lógica da “voucherização” denunciada por Lavinas, na qual a política social deixa de ser ofertada universalmente pelo Estado para se tornar um subsídio individual que alimenta o setor privado. Em um país onde a esfera pública já é débil e o sistema tributário permanece regressivo – onerando os mais pobres e preservando privilégios dos mais ricos —, a adoção de uma renda básica sem o devido lastro em serviços públicos robustos tenderia a aprofundar a mercantilização das necessidades básicas, transferindo responsabilidades estatais para as famílias e para o mercado, enquanto o discurso neoliberal celebraria a “liberdade de escolha” e a “eficiência” do setor privado, ocultando o fato de que os mais vulneráveis permaneceriam desassistidos e ainda mais expostos à lógica da financeirização. 

O debate sobre a renda básica universal no Brasil revela, assim, uma tensão insolúvel nos marcos atuais. De um lado, há defensores entusiasmados que veem na RBU a possibilidade de superar o assistencialismo focalizado e garantir dignidade a todos os cidadãos. De outro, há críticos que apontam os riscos de sua implementação prematura em um país com serviços públicos débeis, sistema tributário regressivo e população altamente vulnerável à financeirização. 

A lição que se extrai das referências analisadas é que a universalização da proteção social continua sendo um objetivo válido e necessário – mas o caminho para alcançá-la não pode ignorar os condicionantes estruturais. Como sintetizam Lavinas, Rubin e Bressan: “Temos de consolidar um sistema público e universal de provisão, cujo financiamento, por si só, já demanda uma reforma tributária verdadeiramente progressiva e revolucionária. Quando isto estiver assentado e funcionando de forma condizente com as demandas da população, então podemos passar a marcha para o que mais nos pareça indispensável”. Ou seja: a renda básica universal, para ser genuinamente emancipatória, não pode prescindir de serviços públicos universais de qualidade nem de um sistema tributário progressivo. Caso contrário, corre o risco de se converter em mais um instrumento de reprodução das desigualdades – agora sob o fetichista disfarce de um direito que, na prática, alimenta a engrenagem da acumulação financeira.

 

Fonte: Por Bianca Valoski, para Opera Mundi

 

A guerra contra o Irã escancara o declínio da democracia estadunidense

Na noite de sexta-feira, Donald Trump anunciou o início de uma guerra sem prazo definido contra o Irã. Em seu discurso confuso de oito minutos, ele enumerou uma série de crimes, supostos e reais, cometidos pelo Irã, remontando à crise dos reféns de 1979. No entanto, ele fez pouco esforço para argumentar que o país representa uma ameaça iminente aos Estados Unidos em 2026, a ponto de a guerra ser a única opção. Aliás, como disse Branko Marcetic, da revista Jacobin, a guerra parece tão manifestamente desnecessária que “nem mesmo o homem que a está travando parece saber por que a iniciou”.

Uma semana antes, seu embaixador em Israel, Mike Huckabee, concedeu uma entrevista ao comentarista de direita Tucker Carlson. Nunca disse uma palavra gentil sobre Carlson antes, e não pretendo começar agora, mas a entrevista incluiu uma troca de ideias notável sobre a opinião pública.

Carlson: Qual a porcentagem de estadunidenses que apoiam uma guerra com o Irã?

Huckabee: Não sei. Você sabe?

Carlson: Sim. Vi os números ontem. Acho que estava em torno de 21%.

Huckabee: Certo.

Carlson: Isso é suficiente para justificar uma guerra com o Irã?

Huckabee: Não vivemos num mundo em que se faz uma pesquisa para descobrir se a nossa polícia deve seguir uma determinada direção.

Este é um nível de indiferença declarada em relação às opiniões da população que se poderia esperar de um diplomata do século XVIII a serviço do Antigo Regime francês pré-revolucionário. A grande maioria do público discorda das decisões do rei? Bem, e daí? Não é da conta deles!

Na preparação para a invasão do Iraque por George W. Bush em 2003, ele e sua administração passaram vários meses trabalhando arduamente para conquistar o apoio da opinião pública. No discurso sobre o estado da União, proferido dois meses antes do início da guerra, Bush dedicou dezenas de parágrafos a alegações de que o ditador iraquiano Saddam Hussein possuía “armas de destruição em massa” (ADM) que ele poderia compartilhar com a Al-Qaeda. Seu vice-presidente, Dick Cheney, advertiu de forma sombria que, se os estadunidenses esperassem por uma “prova irrefutável” sobre as ADM do Iraque, essa “prova irrefutável” poderia ser uma “nuvem em forma de cogumelo” sobre uma cidade estadunidense.

Um mês antes do início da invasão, o secretário de Estado de Bush, Colin Powell, amplamente considerado um dos moderados mais confiáveis dentro do governo, fez um discurso no Conselho de Segurança das Nações Unidas apresentando os argumentos a favor da guerra. Powell exibiu um frasco de antraz e compartilhou gravações interceptadas de motoristas de caminhão iraquianos falando sobre “caminhões especiais”, que Powell garantiu aos seus espectadores serem referências a um laboratório móvel de armas químicas.

Tudo não passou de uma teia de mentiras. Mas o que se destaca, em contraste com a guerra que Trump acabou de iniciar no Irã, é que o governo Trump parece não se importar em fabricar consenso. Trump, Huckabee e o resto da turma simplesmente não consideram o consentimento do público relevante.

Na semana passada, Trump fez o discurso sobre o estado da União mais longo da história dos EUA. A transcrição tem dez mil palavras. Nela, há apenas dois parágrafos sobre o Irã. Três dias antes de iniciar uma guerra para mudar o regime em um país quatro vezes maior que o Iraque e com uma capacidade de autodefesa muito maior do que os iraquianos tinham em 2003, o Irã parecia ser a última coisa na

“A atitude de Trump aqui, como em tantos outros assuntos, parece ser: ‘Quem vai me impedir?’”

Nos últimos meses, o governo não só deixou de fazer campanha para angariar apoio público, como também não se dá ao trabalho de apresentar uma versão coerente dos fatos. Quando Trump bombardeou o Irã no ano passado, o governo alegou que a operação havia destruído “completamente” o programa nuclear iraniano e atrasado em uma geração qualquer perspectiva de desenvolvimento da bomba pelo país. Quando Trump anunciou uma guerra com objetivos extremamente vagos, uma guerra que começou com o assassinato do líder supremo do Irã, Ali Khamenei, o máximo que ele conseguiu fazer foi insinuar vagamente que o Irã estava tentando retomar o desenvolvimento do programa. Mas, de alguma forma, essa é considerada uma ameaça tão grave, tão urgente, que a guerra precisava ser iniciada imediatamente, enquanto as negociações entre os Estados Unidos e o Irã estavam em curso.

Trump enfatizou bastante a alegação, como afirmou no breve desvio sobre o Irã em seu discurso sobre o estado da União, de que o Irã “já desenvolveu mísseis que podem ameaçar a Europa e nossas bases no exterior, e está trabalhando para construir mísseis que em breve atingirão os Estados Unidos da América”. Mas qualquer pessoa cuja memória remonte a 2025 se lembrará de que a liderança iraniana é tão cautelosa que, mesmo após o último bombardeio surpresa de Trump, contentou-se com uma retaliação em grande parte simbólica, disparando alguns mísseis contra uma base estadunidense no Catar e avisando o país vizinho com antecedência para garantir que não causassem danos suficientes que levassem a uma escalada séria. Devemos acreditar que o mesmo regime está tão desesperado para cometer suicídio nacional que teria disparado mísseis balísticos intercontinentais contra os Estados Unidos no momento em que os desenvolveu?

Não é de admirar que apenas 21% do público — ou seja, apenas cerca de dois terços, mesmo da base mais fiel de apoiadores do MAGA, que normalmente apoia qualquer decisão do presidente — quisesse uma guerra com o Irã. Mas o presidente simplesmente não se importa.

Em 2002, o Congresso votou a favor da autorização para o uso da força militar no Iraque. Muitos democratas foram assombrados por seus votos a favor da guerra por muitos anos. Desta vez, Trump nem se deu ao trabalho de pedir a aprovação do Congresso. A Constituição especifica que os presidentes não podem entrar em guerra sem autorização do Congresso, mas a atitude de Trump aqui, como em tantos outros assuntos, parece ser: “Quem vai me impedir?”

<><> Guerra e democracia

No primeiro dia de combates, mais de cento e cinquenta meninas foram mortas quando um míssil atingiu uma escola. Uma imagem de uma mochila ensanguentada circulou amplamente nas redes sociais. Em meio à confusão da guerra, surgiram diversas alegações sobre a autoria do míssil. Dos Estados Unidos? De Israel, que participou do ataque? Do próprio Irã, que teria atingido a escola acidentalmente ao tentar revidar? As evidências atuais apontam para os Estados Unidos. Mas, seja qual for a verdade, uma coisa é certa: incidentes como esse se repetirão inúmeras vezes se a guerra se prolongar.

As principais vítimas da guerra serão o povo iraniano, bem como as populações dos outros países onde os combates já se alastraram. Mas esta guerra, como todas as outras guerras estúpidas do passado, será uma péssima notícia para a classe trabalhadora estadunidense.

Em seu discurso de sexta-feira à noite, Trump disse que devemos estar preparados para ver “heróis estadunidenses” morrendo no Irã. O que ele não disse, e nem precisava dizer, é que todos nós sabemos perfeitamente quem serão esses “heróis estadunidenses”.

“A guerra revela a extensão e a selvageria das desigualdades de uma sociedade de maneiras que poucas outras coisas conseguem.”

A guerra revela a extensão e a selvageria das desigualdades de uma sociedade como poucas outras coisas conseguem. Em países bombardeados, os ricos têm muito mais facilidade para se refugiar em locais seguros, enquanto os pobres são deixados para morrer. Em países que enviam soldados para lutar no exterior, os corpos que retornam em caixões cobertos com a bandeira estadunidense são sempre os de filhos da classe trabalhadora. E Trump sequer se deu ao trabalho de fazer uma campanha de propaganda para convencê-los de que seu sacrifício era necessário.

Declarar guerra contra um país que não representa nenhuma ameaça minimamente realista aos Estados Unidos seria ultrajante mesmo que apenas 21% da população fosse contra. Mas o que Trump está fazendo no Irã é ainda pior, porque a obscenidade da própria guerra é agravada pelo profundo desprezo de Trump pela democracia.

No sábado, Trump anunciou que a operação continuaria “durante toda a semana, ou pelo tempo que for necessário para atingirmos nosso objetivo de PAZ EM TODO O ORIENTE MÉDIO E, NA VERDADE, NO MUNDO TODO!” Em outras palavras, os combates, as mortes e o potencial sacrifício de “heróis estadunidenses” durarão o tempo que ele quiser.

O resto de nós não será consultado.

<><> EUA e Israel miram em civis enquanto o Irã intensifica a guerra por sobrevivência. Por Arron Reza Merat

Em resposta às alegações de Donald Trump de que o Irã estaria apelando a Washington para negociar, Ali Larijani, o homem mais poderoso da República Islâmica, emitiu uma declaração concisa em farsi: “Não haverá negociações com os Estados Unidos”. Teerã está receosa em aceitar um cessar-fogo como o que fez ao final da Guerra dos Doze Dias, iniciada pelos Estados Unidos e Israel em junho, pois calcula que isso simplesmente daria aos seus inimigos tempo para se reagruparem e atacarem novamente em questão de meses.

O assassinato do Líder Supremo Ali Khamenei esclareceu a situação para os estrategistas militares, deixando claro que o Irã precisa intensificar o conflito para sobreviver. A estratégia de Teerã é impor um custo suficientemente alto aos EUA e a Israel para garantir uma paz duradoura. Larijani descartou o objetivo de guerra de Trump de destruir o programa de mísseis balísticos móveis e a marinha iraniana como “fantasias delirantes” e acusou o presidente de sacrificar soldados estadunidenses por Israel.

Na sequência do ataque estadunidense que assassinou Khamenei, que pereceu juntamente com até duzentas figuras importantes das forças armadas e da sociedade civil, bem como duas gerações de sua família, a guerra no Irã está sendo conduzida pelo Conselho Supremo de Segurança Nacional, presidido por Larijani. Um novo Conselho de Liderança Provisória está sendo convocado, tendo como membros o presidente Masoud Pezeshkian, o chefe do judiciário Gholam-Hossein Mohseni-Ejei e o aiatolá Alireza Arafi. A Assembleia de Peritos, um órgão composto por clérigos nomeados direta e indiretamente pelo líder supremo, agora trabalha para selecionar seu sucessor. A República Islâmica é uma rede interligada de instituições que se controlam e se equilibram mutuamente, projetada para sobreviver à perda do líder supremo.

“Os Estados Unidos confirmaram que o Irã matou quatro soldados estadunidenses e feriu cinco em ataques em locais não identificados.”

O Estado iraniano permanece coeso e agora trabalha para defender a República Islâmica e impor sanções aos seus agressores. Nos dois primeiros dias de combates, pelo menos três jatos estadunidenses foram abatidos. O Ministério da Defesa do Kuwait afirmou que “vários” aviões de guerra dos EUA caíram em seu território. O Irã está cercado por bases estadunidenses, principalmente ao longo de sua costa sul, no Kuwait, Catar, Emirados Árabes Unidos e Arábia Saudita.

Os Estados Unidos e Israel tendem a evitar sobrevoar o espaço aéreo iraniano para não se exporem ao fogo antiaéreo, já que as capacidades do Irã foram reforçadas pela Rússia desde a guerra de junho. Os EUA e Israel preferem disparar mísseis de jatos pairando em espaços aéreos vizinhos. Os Estados Unidos alegam que os jatos foram abatidos por fogo amigo. De qualquer forma, dois dias após o início da guerra, parece que os EUA perderam mais recursos aéreos do que desde a guerra contra o Vietnã, há cinquenta anos. O Irã lançou ondas de mísseis balísticos contra Israel. Embora a censura militar israelense seja eficaz em ocultar os danos causados ​​pelos ataques, há relatos de que o número de vítimas é maior do que o divulgado por Tel Aviv.

O Irã, que possui uma força aérea da época da Guerra Fria, herdada do regime do xá, e para a qual enfrenta dificuldades na aquisição de novas peças, recebeu caças MiG-29 e Su-35, além de helicópteros de ataque Mil Mi-28 da Rússia. “Garanto que muitos desses MiGs e Su-35 estão sendo pilotados por russos”, afirmou Stanislav Krapivnik, ex-soldado estadunidense e comentarista de assuntos militares russos, em 1º de março, “porque leva cerca de um ano para treinar um piloto do zero”. Pequim também teria fechado um acordo com Teerã para o fornecimento de mísseis antinavio e informações sobre posições navais estadunidenses.

Mais da metade da população de Teerã, uma metrópole com cerca de dezessete milhões de habitantes, fugiu para o campo ou para cidades menores nos arredores. “Está deserto lá”, disse um morador. “Quando as pessoas souberam da notícia terrível [sobre o ataque a uma escola primária feminina, que matou 165 pessoas], ficaram com medo de que nos tornássemos palestinos.” O número de mortes de civis é consideravelmente maior do que durante a Guerra dos Doze Dias, com um hospital e várias delegacias de polícia bombardeadas, uma clara violação das leis dos conflitos armados.

Vídeos mostram dezenas de prédios arrasados ​​na Praça Ferdowsi, no centro de Teerã. Há relatos de ataques de “tiro duplo” contra delegacias de polícia, uma tática israelense característica que mata paramédicos e familiares que chegam ao local. Em um vídeo que circulou amplamente na internet, uma mulher iraniana pode ser ouvida dizendo: “Eles mataram todo o meu povo. Bombardearam uma vez. As pessoas entraram para ajudar; bombardearam de novo. Oh, nossa juventude, nossa juventude.” Um morador de Teerã, que está hospedado fora da cidade com sua família, dirigia a um quarteirão do complexo de Khamenei quando este foi atingido na manhã de 28 de fevereiro. “Eu estava no meu carro, parei no acostamento e vi uma bomba atingindo o local e uma grande coluna de fumaça. A poeira nos cobriu. Era uma bomba enorme e destruiu o quarteirão inteiro.”

A estratégia militar do Irã para desmoralizar os Estados Unidos tem duas vertentes. Por um lado, busca criar uma crise energética que afetará desproporcionalmente os EUA, o maior consumidor de petróleo e gás do mundo. O Irã está atacando portos, petroleiros e infraestrutura petrolífera na Arábia Saudita e no Catar. O Catar, maior exportador mundial de gás, paralisou completamente a produção após os ataques de 2 de março, e a maior refinaria de petróleo da Arábia Saudita também foi fechada em decorrência dos ataques.

“O Irã também tenta destruir o máximo possível de recursos militares caros e matar o máximo possível de soldados estadunidenses.”

A justificativa é que gerar uma crise econômica global pressionará os Estados Unidos a cessar sua guerra. O Irã também tenta destruir o máximo possível de recursos militares caros e matar o máximo possível de soldados estadunidenses, o que é visto como uma questão delicada para a base eleitoral de Trump, muitos dos quais criticam uma guerra de escolha dos EUA sem pretexto ou um plano realista. O Irã usa seus mísseis mais antigos para forçar os Estados Unidos e Israel a gastarem seus interceptores caros, reservando assim seus mísseis de combustível sólido mais avançados para quando seus inimigos estiverem mais vulneráveis. Parece priorizar radares para expor ativos navais e tripulações estadunidenses de alto valor à balística iraniana.

Os Estados Unidos confirmaram que o Irã matou quatro soldados estadunidenses e feriu cinco em ataques a locais não identificados. O próprio Trump afirmou esperar que o número de mortes de estadunidenses “seja bem maior”. É possível que esses soldados estivessem a bordo do porta-aviões Abraham Lincoln, que o Irã alega ter atingido, embora os EUA neguem que o ataque tenha atingido o alvo.

“O porta-aviões estadunidense Abraham Lincoln foi atingido por quatro mísseis balísticos”, afirmou um comunicado da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, que alertou que “a terra e o mar se tornarão cada vez mais o cemitério dos agressores terroristas”. Se as alegações iranianas forem verdadeiras, esta é a primeira vez que um porta-aviões estadunidense é atingido por fogo inimigo desde a Segunda Guerra Mundial.

Teerã também busca expandir a guerra. “Do ponto de vista iraniano, a expansão do campo de batalha tem um valor estratégico”, escreveu Ali Hashem, que visita o Irã regularmente, no Amwaj Media. “Ao espalhar o risco pela região, o Irã visa garantir que a pressão militar exercida sobre ele cause instabilidade no setor energético e entre os aliados dos Estados Unidos.” Além de atacar bases estadunidenses em países árabes do outro lado do Golfo Pérsico, o Irã atacou nas proximidades de instalações navais britânicas no Bahrein e no Chipre, levando o primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, a reverter sua posição de privar os militares estadunidenses do uso de Diego Garcia, sua base militar no Oceano Índico. O Irã também atacou a Base Naval de Al Salam, nos Emirados Árabes Unidos, sede da Marinha Francesa, e parece estar visando a lucrativa infraestrutura turística dos aliados estadunidenses no Golfo Pérsico, atingindo o icônico Burj Khalifa, o hotel Burj Al Arab, a ilha Palm Jumeirah e o aeroporto internacional de Dubai.

O assassinato de Ali Khamenei, que provocou uma mistura de raiva e júbilo no Irã e em todo o mundo xiita, desencadeou novos ataques contra os Estados Unidos e Israel em toda a região. Em países com minorias xiitas significativas, como Líbano e Bahrein, bem como na Caxemira controlada pela Índia, eclodiram protestos em massa em luto pela morte do segundo clérigo mais importante do islamismo xiita.

No Iraque, manifestantes e milícias xiitas tentaram sitiar a Zona Verde, onde cerca de mil soldados estadunidenses permanecem estacionados. O Hezbollah, enfraquecido pelo ataque de Israel contra sua alta liderança em 2024, atacou o norte de Israel com drones e mísseis.

Três dias após o início da guerra de Trump contra o Irã, o cenário já está fora de controle, e mais uma vez o destino de milhões depende de um cálculo interno conhecido apenas por um presidente arrogante e volúvel. Em janeiro, enquanto Trump reunia uma “bela armada” no Golfo Pérsico e no Oceano Índico, ele explicou como toma decisões. “Sim, há uma coisa. Minha própria moralidade. Minha própria mente”, disse o presidente. “É a única coisa que pode me deter.”

 

Fonte: Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil