quinta-feira, 16 de abril de 2026

Por que o FMI prevê que Brasil crescerá mais por causa da guerra no Irã

O Fundo Monetário Internacional (FMI) revisou para baixo suas projeções para a economia global e alertou que a guerra no Oriente Médio pode levar o mundo a um cenário próximo de recessão — especialmente se o conflito se prolongar e provocar novos choques nos preços de energia.

No relatório Panorama Econômico Mundial (WEO, na sigla em inglês), divulgado em abril, o FMI reduziu a estimativa de crescimento global para 2026 de 3,3% para 3,1%. Ao mesmo tempo, elevou sua projeção para o Brasil, prevendo uma expansão de 1,9% neste ano — acima da estimativa anterior.

No relatório do ano passado, o cenário era diferente: o FMI descrevia uma economia global relativamente estável, ainda que 'modesta', após uma sequência de choques, com crescimento em torno de 3% e expectativa de continuidade desse ritmo.

O principal risco então vinha da escalada de tensões comerciais (especialmente tarifas dos Estados Unidos), vistas como um "choque negativo de oferta" capaz de reduzir produtividade, aumentar custos e frear a atividade.

Agora, em 2026, o foco sai da fragmentação comercial e passa para um choque geopolítico ligado à guerra, com impacto direto sobre energia e cadeias de suprimento.

À primeira vista, pode parecer contraditório que um conflito com efeitos negativos para a economia mundial beneficie, ainda que marginalmente, um país específico. Mas, segundo o próprio FMI, há uma explicação clara: o papel do Brasil como exportador de commodities, especialmente energia.

O ponto de partida da análise do FMI é o impacto direto do conflito sobre os preços internacionais. A guerra no Oriente Médio, uma região central para a produção e o transporte de petróleo, tende a provocar interrupções na oferta e aumentar a incerteza nos mercados.

No cenário-base do Fundo, os preços de energia devem subir de forma relevante. O petróleo, por exemplo, é projetado para registrar alta significativa em 2026, refletindo justamente as dificuldades de produção e transporte na região.

Esse choque de preços se espalha pela economia global.

Energia mais cara também encarece transporte, produção industrial e alimentos — especialmente em países dependentes de importações. Por isso, o FMI destaca que economias importadoras de commodities tendem a ser as mais prejudicadas, enfrentando inflação mais alta, desvalorização cambial e perda de renda.

<><> Por que o Brasil se beneficia no curto prazo

É nesse contexto que aparece o caso brasileiro. Diferentemente de muitos países emergentes, o Brasil é considerado pelo FMI um exportador líquido de energia— ou seja, vende mais petróleo e derivados ao exterior do que compra.

Isso significa que, quando os preços internacionais sobem, o país tende a receber mais receitas com exportações. Esse efeito melhora os chamados "termos de troca" (a relação entre preços de exportação e importação), e pode impulsionar o crescimento econômico.

O próprio relatório resume esse mecanismo ao afirmar que a guerra deve ter "um pequeno efeito líquido positivo" sobre o Brasil em 2026, elevando o crescimento em cerca de 0,2 ponto percentual.

Esse tipo de impacto não é exclusivo do Brasil. O FMI indica que, de forma geral, economias exportadoras de energia ou commodities podem ter revisões positivas ou neutras de crescimento, em contraste com perdas mais acentuadas em países importadores.

Apesar desse efeito positivo inicial, o FMI enfatiza que o benefício é modesto e tende a se dissipar rapidamente.

Isso ocorre porque os impactos negativos da guerra sobre a economia global acabam se espalhando. Com o tempo, a desaceleração do crescimento mundial reduz a demanda por exportações brasileiras. Ao mesmo tempo, o aumento de custos de insumos — como fertilizantes, fortemente ligados ao mercado internacional — pressiona a produção doméstica.

O relatório aponta ainda que condições financeiras mais restritivas, com juros mais altos no mundo, podem limitar investimentos e consumo. Por isso, o efeito positivo observado em 2026 tende a ser revertido.

Segundo o FMI, em 2027 esses fatores devem prevalecer, levando a uma redução do crescimento brasileiro em relação às projeções anteriores.

<><> Um mundo mais frágil

O pano de fundo dessa dinâmica é um cenário global mais incerto e frágil. O FMI avalia que a guerra interrompeu uma trajetória de crescimento relativamente estável e introduziu novos riscos para a economia mundial.

Em cenários mais adversos, com conflito prolongado e preços de petróleo acima de US$ 100 por barril, o impacto pode ser significativamente mais severo. O Fundo projeta que o crescimento global poderia cair para até 2,5% — ou mesmo próximo de 2% em um cenário extremo, o que historicamente se aproxima de uma recessão global.

Além do choque direto de preços, há efeitos indiretos importantes: aumento da inflação, deterioração das condições financeiras e maior aversão ao risco nos mercados. Esses fatores tendem a atingir com mais força países emergentes e economias mais vulneráveis.

<><> O que explica a diferença entre países

A análise do FMI deixa claro que o impacto da guerra não é uniforme. Ele depende principalmente de três fatores: se o país é exportador ou importador de energia, qual o grau de exposição a choques externos, como preços de alimentos e fertilizantes, e a capacidade de resposta econômica, incluindo política fiscal e monetária.

No caso brasileiro, a combinação de exportações de commodities, reservas internacionais robustas e menor dependência de dívida externa em moeda estrangeira ajuda a amortecer o impacto inicial do choque.

Mas o próprio Fundo ressalta que essas condições não eliminam os riscos — apenas os tornam mais administráveis no curto prazo.

¨      Por que a economia cresce, mas o dinheiro não sobra? Por Luís Nassif

Os dados e tabelas mostram que o Brasil passa por um momento econômico bastante positivo, com queda do desemprego e aumento da renda média. Entretanto, para muitas famílias, a sensação é de que a conta simplesmente não fecha.

Como explica a economista Juliane Furno, o cenário atual é marcado por um grande “descompasso”: existe uma falha grave na tradução dos números do PIB para o bem-estar social. 

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A percepção de piora econômica, mesmo com a inflação sob controle, é o reflexo de uma renda que cresce no papel, mas é drenada antes mesmo de chegar à despesa.

<><> Quando os Dados não Enchem o Prato

Esqueça os manuais que mandam apenas “cortar o cafezinho”. Em 2026, a educação financeira tornou-se uma ferramenta bruta de sobrevivência. Segundo Victor Pagani, diretor adjunto do DIEESE, as famílias brasileiras operam hoje sob uma “estratégia de guerra”.

“Para quem ganha perto de um salário mínimo, cortar gastos significa cortar serviços essenciais como água/luz/gás ou cortar a própria alimentação. Então, não tem de onde cortar”, pontua Pagani. “Somado a isso, tivemos o advento das bets, totalmente desreguladas, e que provavelmente contribuíram para o aumento dessa situação de endividamento das famílias, sobretudo das mais pobres”.

Dentro desse contexto, a educação financeira não está nos conceitos transmitidos por muitos economistas e especialistas nas redes sociais, e sim na decisão entre os gastos essenciais e urgentes.

É a adoção de táticas como frequentar a “xepa” da feira, ou substituir a compra de alimentos frescos por ultraprocessados, mais baratos e menos nutritivos, ou gerenciar o atraso de contas de consumo — como água e luz — em um rodízio perigoso para evitar o corte de serviços básicos enquanto tentam escapar da “bola de neve” dos juros.

A fotografia atual das finanças domésticas mostra o tamanho do desafio estrutural que enfrentamos:

  • Percentual de famílias endividadas: 80,2% (maior nível desde 2010).
  • Percentual de inadimplentes (contas em atraso): 29,6%.
  • Comprometimento da renda com o serviço da dívida: 29,2% (quase um terço do salário vai direto para o sistema financeiro).

(Fonte: CNC/Bacen, Fev/2026)

<><> A Taxa Selic: A “Visita Indesejada” no Orçamento Familiar

Recentemente, o Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic de 15% para 14,75% ao ano. Embora o movimento pareça positivo, ele carrega um peso histórico: foi o primeiro corte desde maio de 2024. O Brasil ainda ostenta um dos maiores juros reais do mundo, funcionando como um freio de mão puxado para quem precisa de crédito.

A Selic alta impacta diretamente o seu dia a dia:

  • Encarecimento do crédito: Empréstimos como CDC, consignados e financiamentos de veículos permanecem proibitivos.
  • Impacto no custo das dívidas antigas: A queda lenta da taxa básica não alivia de imediato o estoque de dívidas já contraídas, dificultando a quitação.
  • Desestímulo ao emprego e investimento: Com juros altos, as empresas investem menos, travando a criação de postos de trabalho e a circulação de riqueza real.

Um dado técnico explica visualmente por que o aumento do salário não é sentido de fato no bolso da população: a “Boca de Jacaré”. Desde a pré-pandemia, o rendimento médio real do brasileiro cresceu 12%.

No entanto, após o pagamento de dívidas com o Sistema Financeiro Nacional (SFN), esse ganho real despenca para apenas 3%. Ou seja: 9% de todo o ganho real de rendimento da população foi “engolido” pelos bancos e financeiras.

Na prática, o esforço do trabalhador para produzir e ganhar mais não resulta em consumo ou poupança, mas serve para alimentar o rentismo. O SFN “capturou” a melhora da renda, impedindo que o crescimento econômico circule no comércio do bairro.

O cartão de crédito continua sendo o principal ralo financeiro, apontado por 85% das famílias endividadas como o grande problema. O cenário é alarmante: os juros do rotativo saltaram de 330% ao ano em 2021 para 425% ao ano em 2026.

“A gente fala muito da taxa Selic, mas quando a gente vai ver o real patamar dos juros elevados, a alta da Selic resulta em alta dos juros para pessoa física, o tomador do crédito final”, lembra Pagani, do Dieese.

“Se pegarmos a taxa de juros rotativa do cartão de crédito, em janeiro/26 segundo BC, ela estava em média 425% ao ano – e com a alta da Selic ela saltou de 330% em janeiro/21 para 425% em janeiro/26”, afirma o economista. “Mas também tem cheque especial, crédito consignado, consignado, crédito para compra de veículos, motocicletas, todas as taxas de juros aumentam quando BC aumenta a taxa Selic”.

É importante destacar que, embora exista um Teto do Rotativo de 100% implementado pelo governo, ele só vale para dívidas contraídas a partir de janeiro de 2024. 

Isso explica por que a média de juros ainda é tão alta, já que o estoque de dívidas antigas continua sob as regras abusivas de outrora, asfixiando milhões de brasileiros.

Para enfrentar essa crise, o governo federal tem lançado mão de medidas para desafogar o orçamento das famílias:

  • Desenrola: Já promoveu a renegociação de R$ 53 bilhões em dívidas, beneficiando 15 milhões de pessoas.
  • Novo Programa de Reconciliação: Com foco em quem ganha até 3 salários mínimos, o programa prevê o perdão de até 80% das dívidas e refinanciamento do saldo com juros reduzidos.
  • Crédito do Trabalhador: Um robusto programa de consignado vigente desde 2025, que já movimentou R$ 117,1 bilhões, tentando oferecer uma alternativa ao crédito abusivo do varejo.

<><> Dicas Práticas de Sobrevivência Financeira

A educação financeira individual é um passo importante, mas ela não faz milagres diante de um sistema desenhado para concentrar renda.

A política de valorização do salário mínimo está no caminho correto, mas seu efeito é neutralizado pela “boca de jacaré” do sistema financeiro. É urgente que o Banco Central colabore com quedas consistentes e profundas nos juros e que haja uma regulamentação mais rígida contra os juros abusivos.

Sem essas mudanças estruturais, o suor do trabalhador brasileiro continuará servindo apenas para alimentar o lucro recorde dos bancos, enquanto o crescimento da economia segue sem chegar ao prato de quem mais precisa.

Para as famílias que estão no limite, a gestão financeira deve ser tática e analítica:

  1. Priorização Absoluta: O foco deve ser a soberania alimentar e as contas que geram interrupção de serviço (água, luz e gás). A alimentação da família e a manutenção do teto são inegociáveis.
  2. Troca de Dívida “Cara” por “Barata”: Se o endividamento no rotativo ou cheque especial é insustentável, buscar linhas como o consignado ou o novo “Crédito do Trabalhador” é o caminho. Contudo, fica o alerta: o consignado é uma ferramenta de alívio, mas não é milagrosa; as taxas ainda pesam e devem ser usadas com cautela extrema.
  3. Uso Estratégico de Programas Sociais: O Bolsa Família e o Gás para Todos não são apenas auxílios, são pilares de manutenção da alimentação mínima. Use-os para proteger o prato de comida enquanto renegocia as dívidas bancárias.

 

Fonte: BBC News Brasil/Jornal GGN

 

“A Inteligência Artificial cheira a morte”, afirma filósofo francês

Em 30 de novembro de 2022, dia em que o ChatGPT chegou aos nossos dispositivos, Sadin não conseguiu pregar o olho. O filósofo francês, uma das principais vozes na resistência contra as mudanças tecnológicas descontroladas, acredita que a inteligência artificial é uma catástrofe que deveria ter sido banida: ela ameaça a criatividade, o talento e o intelecto — os próprios alicerces da civilização humana.

Éric Sadin (Paris, 1973) levanta-se e caminha de um lado para o outro na sala de seu apartamento parisiense sempre que uma discussão o cativa. Sua própria voz o incita a fazê-lo. Ele desenvolveu uma mente crítica, repleta de manchetes e belas análises do futuro que surfam na onda do pensamento filosófico e social do século passado para chegar a uma conclusão mordaz em uma dúzia de livros. Tornamo-nos idiotas e estamos a caminho de nos tornarmos ainda mais. Longe de sermos ameaçados por uma inteligência suprema que nos aterrorizará, como aquela Skynet de O Exterminador do Futuro — "é o pensamento de um adolescente retardado", esclarece ele, ainda de pé —, somos subjugados por nossa própria preguiça, que acabará por entregar nossas armas — intelectuais e criativas — à inteligência artificial generativa.

Éric Sadin é um dos 10 maiores pensadores de tecnologia do mundo, recentemente selecionado por um júri da revista Ideas.

<><> Eis a entrevista.

•        Então, o apocalipse começou em 30 de novembro de 2022?

Normalmente durmo como um bebê, mas naquele dia não preguei o olho. Os dias seguintes foram piores. Todas aquelas pessoas dizendo que era fantástico, super legal. Eu não conseguia entender como ninguém previa a catástrofe civilizacional que estava por vir. É estranho observar um fenômeno como a IA generativa envolto em tal verniz de modernidade e praticidade sem analisar as consequências imediatas e extremamente graves. E quanto mais isso continuar, mais grave se tornará.

•        Você argumenta que deveria ter sido proibido.

Desde o início. Mas aconteceu o contrário. Sam Altman, cofundador da OpenAI, saiu em turnê de palestras e foi recebido por chefes de estado com tapete vermelho. A resposta, inclusive da França com a Mistral, foi nos inscrever nessa corrida rumo ao nosso próprio deserto. Muitas palavras vazias e absurdas são ditas sobre IA: "Viveremos em um mundo melhor." "Tudo será mais fácil..." Com base em quê? Eu analiso com base em princípios como sociabilidade, dignidade, integridade humana, liberdade, expressão de nossas faculdades... e tudo isso será destruído. Se considerarmos as consequências atuais e as que estão sendo previstas, a situação é extremamente grave.

•        Quais serão as consequências disso?

Existe uma inteligência artificial que começou a ser desenvolvida na década de 2000. Ela analisa fenômenos do mundo real em tempo real e revela resultados para interpretar determinadas situações: Waze, o aplicativo de trânsito. Ele coleta informações que nenhum ser humano conseguiria obter.

•        Bem, isso não parece tão ruim.

Mas não era só isso. O Waze também sugere uma rota ou outra. Pela primeira vez, estamos sendo aconselhados a agir de uma determinada maneira. A tecnologia está começando a nos impor uma ideia. Nem tudo é negativo, é claro. Na indústria aeronáutica, permite o ajuste fino da aerodinâmica; na indústria farmacêutica, aprimora moléculas. Mas na gestão, por exemplo, tem efeitos inaceitáveis. Tudo isso deveria ter feito parte de um arcabouço legal, político e social que ainda não foi desenvolvido. E, há três anos, surgiu um novo tipo de IA: a IA operacional.

•        Pior, é claro.

Esses são sistemas que lidam com tarefas que, até agora, mobilizaram nossas faculdades intelectuais e criativas — a verdadeira dimensão da civilização. A IA generativa é indefensável.

•        O governo francês está debatendo esta semana a proibição do uso de redes sociais por crianças menores de 15 anos. Parece que sempre chegamos atrasados à festa.

Macron quer regulamentá-las agora, mas até então concedeu a essas plataformas todas as vantagens possíveis. Elas surgiram em 2010 e, 15 anos depois, estamos reconhecendo a catástrofe. A sociedade, quando se trata de questões digitais, sempre acorda tarde demais.

•        Já perdemos algumas gerações de jovens?

Muitos adultos também foram afetados; a sociedade foi patologizada. E o mesmo acontecerá com a IA generativa. Já estamos vendo as consequências: perda de empregos, isolamento social e danos à nossa imagem. Mas também a dependência emocional de adolescentes que conversam diretamente com a IA generativa, que lhes diz a verdade sobre tudo, agindo como uma espécie de coach psicológica. E isso é só o começo.

•        Conversamos com a IA, pedimos conselhos, temos conversas emocionantes. Mas a linguagem, embora possa parecer a mesma, é diferente.

São sistemas que analisam todo o corpus digitalizado: livros de biblioteca, artigos de jornal e dados da internet para revelar leis semânticas. São caminhos formais construídos com estatísticas, equações e fórmulas matemáticas. É uma linguagem que cheira a morte porque opera sob o regime da correlação. Analisam todos os dados e sabem que certas palavras seguirão outras. Na IA, tudo o que já aconteceu sempre acontece. Ela responde à conformidade da lógica. É um futuro que já existiu. E isso é o oposto da linguagem humana, que funciona por associação de ideias. Eu não sei qual palavra vou usar depois da que estou dizendo agora, porque a linguagem humana depende do nosso pensamento; ela é única. Ninguém percorre o mesmo caminho.

•        Isso poderia definir a liberdade humana.

Claro. Por um lado, temos uma linguagem morta, necrosada, matematizada, fruto do capitalismo linguístico. E, por outro, uma linguagem que fala de um infinito indeterminável, da nossa liberdade e singularidade. E essa mudança que estamos vivenciando também modificará as relações pessoais, cada vez mais ausentes em favor de um sistema onisciente e pretensioso. Nas últimas eleições municipais na França, descobriram que havia candidatos e prefeitos escrevendo seus discursos com o ChatGPT. Você tem noção da gravidade disso?

•        A impressão é que a cultura gerada pela IA será como a comida de má qualidade, o tabaco, o açúcar… Uma narrativa comercial para as classes desfavorecidas que não podem pagar pelo autêntico, pelo verdadeiro. Uma distinção social e econômica. A realidade, com todas as suas falhas, para os ricos; a IA, para os pobres.

Você tem razão, mas a distinção será entre os preguiçosos e aqueles que estão ansiosos para usar suas faculdades. Essas pessoas podem existir também entre os menos afortunados. E haverá pessoas ricas que escolherão esse caminho por preguiça ou apatia. Mas não será fácil distinguir entre os dois mundos; nasce o reino da imagem fantasmagórica. Cada um produzirá imagens que correspondem ao seu próprio ponto de vista.

•        O impacto será enorme no mundo audiovisual e cultural.

Claro. Isso vai varrer séries e filmes. Haverá atores, cenários, iluminação, maquiagem, figurinos gerados por IA… Estamos caminhando para um desaparecimento massivo de profissões: editor, maquiador, diretor. Estamos caminhando para a autocriação. Produtos que nos contêm. Automúsica, ou o autolivro. Em vez de descobrir, construiremos nossa própria pequena ficção. E esse é um furacão que vai atingir o mundo da cultura.

•        Haverá perda de empregos, mas talvez uma nova indústria seja criada. Outra forma de entender o trabalho, menos absorvente.

A R. Society foi fundada no conceito de destruição criativa de Joseph Schumpeter. Alguns desenvolvimentos tecnológicos destroem empregos, mas, a médio ou longo prazo, levam a novos tipos de trabalho, como aconteceu com o surgimento do setor de serviços nas décadas de 1970 e 1980. Trabalhos muito árduos passaram a ser domínio das máquinas. Hoje, quase 80% dos empregos vêm do setor de serviços, que se caracteriza pela mobilização de faculdades intelectuais e criativas: advogados, tradutores, arquitetos… Mas desta vez não haverá um setor quaternário. Pense no seu trabalho como jornalista, que você ama e que lhe dá reconhecimento social.

•        Acho que você está confundindo a época. Ou a profissão.

Vamos lá, você assina, você faz coisas pessoais.

•        Se existe uma tecnologia que executa tarefas mecânicas ou rotineiras muito melhor do que os humanos, por que nos oporíamos a ela?

Não podemos proibir nem regular. Mas podemos defender o valor do nosso trabalho. Sei que apenas um critério importa: o ser humano como variável contábil. Os sistemas farão o trabalho de forma mais confiável, rápida e barata. Mas existe um conhecimento insubstituível. O problema é que estamos caminhando para um mundo onde os humanos pedirão respostas a um sistema. Sam Altman, um ano após o lançamento do ChatGPT, disse àqueles tolos que o aplaudiam: "Relaxem, isso não é nada comparado ao que está por vir". Refiro-me aos superassistentes. E isso deixará um mundo com humanos cada vez mais excluídos de sua organização.

•        Os defensores dessa ideia dizem que acabaremos recebendo uma espécie de renda básica sem fazer nada.

Que ótimo! Isso lhe parece um futuro de tirar o fôlego? Os seres humanos são seres criativos. Nós só queremos expressar nossas habilidades.

•        Encontramo-nos numa fase semelhante à de Deus no sexto dia da sua obra. Criamos uma inteligência à nossa imagem e semelhança, e agora tudo o que nos resta é deitarmo-nos e desfrutar do descanso dominical.

Claro, mas a beleza do domingo é que o dia seguinte é segunda-feira. Imagine um domingo sem fim, e além disso, subsidiado por gurus da tecnologia. Prefiro que meus filhos sejam criativos; esse é o futuro. O futuro é a mão [levanta-se da cadeira novamente e acena com a mão no ar, estendendo todos os cinco dedos].

•        Tenho uma filha de três anos e outra de oito. Você acha que elas sobreviverão a esse furacão? O que posso fazer?

O futuro deve ser coletivo: no trabalho e no lazer. A primeira consequência do liberalismo não é a desigualdade, mas a morte do espírito. Se você quiser ver o inferno, vá a certos escritórios. As pessoas ficam deprimidas, enlouquecem. Nunca houve um sentimento coletivo de saturação tão disseminado. E um desejo tão forte de fazer algo diferente. Depois da Covid, 20 milhões de americanos pediram demissão. Mas é difícil fazer qualquer outra coisa. O Estado, em vez de subsidiar todas essas startups inúteis que todos querem transformar em mercadoria, deveria apoiar coletivos ou estruturas que não estejam sujeitas à automação. O futuro deve ser de pequenos coletivos.

•        O que nossos filhos devem aprender para evitar essa morte em vida?

Artesanato. Veja bem, essa dicotomia já existia durante a Revolução Industrial. Karl Marx, por um lado, e William Morris, por outro. Marx defendia a reapropriação dos meios de produção, mas isso aumentou os desastres ecológicos e levou ao trabalho em linha de montagem. Morris, por outro lado, uma pessoa incrível, um socialista na origem do movimento Arts and Crafts, dizia que era preciso ser criativo. E isso poderia ser alcançado através do artesanato, da excelência, de obras assinadas e únicas.

•        Um pouco elitista, não é? Nem todo mundo pode comprar uma cadeira feita à mão, uma camisa de grife ou um jantar gourmet. Muitos só podem pagar pelo McDonald's ou comprar em sites como Temu e AliExpress.

Precisamos defender o que você tem dentro de si [ele bate no peito]. Mas é verdade que estamos caminhando para um mundo de duas velocidades. Uma automatizada, prática… e outra onde algumas pessoas dirão que há algo único nos seres humanos, e nem tudo pode ser processado por sistemas. Há afinidades no poder da criação, na colaboração entre iguais. E é isso que precisamos defender.

•        Parece não haver muita esperança.

A esperança reside em crianças da mesma idade que os seus próprios filhos, que, quando crescerem, escolherão outro caminho, como em Matrix. Esse momento chegará. Chegará para algumas almas puras. Mas já perdemos muitas. Crianças que passam o dia todo no TikTok e nem sequer conseguem escrever direito. São robôs que só respondem a sinais, impulsos. São corpos sem autonomia.

•        Essa criatura pode se tornar independente e nos subjugar como a Skynet em O Exterminador do Futuro?

Isso é um absurdo. Uma ilusão infantil de ficção científica. Uma visão antropomórfica adolescente. Mas o que estou lhe dizendo é muito pior. A rendição de nossas faculdades fundamentais! Estamos ameaçados em todos os níveis, e cada ameaça força a humanidade a recuar do exercício daquilo que a torna grandiosa. Imagine um mundo sem escritores, sem escolas, sem artistas. É isso que desaparece. E garanto-lhe, é muito pior do que a Skynet. Mas você sabe quem pode impedir isso?

•        Pela sua expressão, estou começando a imaginar.

Você. Quer dizer, os pais! Vocês não podem usar o ChatGPT para enviar e-mails nem nada do tipo. Como vão ensinar seus filhos a escrever? Salvar o mundo hoje depende da conscientização dos pais.

•        Você não usa nenhuma IA generativa?

Aquelas máquinas de matar? Não, obrigado. Eu amo a vida. Escrever uma frase é difícil, mas que alegria. E vejo jovens começando a se destacar, a rejeitar isso. Acho que haverá heróis do dia a dia e escravos da própria preguiça. E esses verão sua individualidade despedaçada em nome de uma verdade artificial. Enfim, estou falando demais. Quanto espaço você vai me dar?

>>>> Não se preocupe, vamos resumir tudo com o ChatGPT.

 

Fonte: Entrevista com Eric Sadin para Daniel Verdú, no El País

 

Como uma nova onda de imunoterapia está eliminando cânceres

Maureen Sideris tem 71 anos e mora em Nova York, nos Estados Unidos.

Em 2008, ela recebeu tratamento de câncer do cólon e precisou passar por uma cirurgia. Seu tratamento foi bem sucedido, mas o processo de recuperação do pós-operatório foi cansativo.

Quatorze anos depois, Sideris foi diagnosticada com câncer do esôfago. Mas, desta vez, seu tratamento, baseado em um teste clínico, parecia radicalmente diferente.

A cada três semanas, ela se dirigia ao Centro do Câncer Memorial Sloan Kettering, em Nova York, onde recebia infusões de uma droga chamada dostarlimab por 45 minutos.

Após apenas quatro meses de tratamento, o tumor de Sideris desapareceu, sem necessidade de cirurgia, quimio ou radioterapia. E o seu único efeito colateral importante foi insuficiência adrenal, que causa fadiga.

"É inacreditável", relembra ela. "É quase como ficção científica." Mas, ainda assim, é real.

Sideris faz parte de um grupo cada vez maior de pacientes que se beneficiam da imunoterapia para o tratamento de câncer, um método que, agora, acerta o passo após mais de um século de desenvolvimento.

Ele traz consigo a promessa de terapia personalizada, remissão do câncer a longo prazo e menos efeitos colaterais do que outros tratamentos, como a quimioterapia e a radioterapia.

"Fico emocionada e arrepiada", afirma a professora de oncologia cirúrgica Jennifer Wargo, pesquisadora de imunoterapia do Centro do Câncer MD Anderson, no Estado americano do Texas.

"As pessoas estão sobrevivendo e com boa qualidade de vida. Estamos falando de curas", comemora ela.

O corpo tem a capacidade natural de "detectar e eliminar células que parecem não ser você", explica Karen Knudsen, CEO (diretora-executiva) do Instituto Parker para Imunoterapia do Câncer, uma organização americana sem fins lucrativos que promove o desenvolvimento da imunoterapia.

E, se tudo estiver certo, isso deve incluir as células que se tornaram cancerosas.

Mas, às vezes, as células cancerosas escapam ou ludibriam o sistema, gerando crescimento descontrolado, o que é perigoso. Elas se escondem, à plena vista, sem que sejam diferenciadas das células saudáveis à sua volta.

O objetivo da imunoterapia é desmascarar essas células cancerosas, para que o sistema imunológico possa observá-las como elas são. Ela reforça as defesas do sistema imunológico para poder localizar as células cancerosas e destruí-las, com resultados potencialmente inacreditáveis.

<><> Como a imunoterapia funciona atualmente

Duas das formas mais conhecidas de imunoterapia são as terapias de células CAR-T e os inibidores de checkpoint imunológico.

As células T são as células imunológicas altamente específicas que caçam e matam determinados invasores externos.

As terapias de células CAR-T envolvem a extração de células T do sangue do paciente e sua modificação em laboratório, para que elas possam encontrar e atacar células cancerosas, deixando as células T agirem livremente no corpo.

Estas terapias estão sendo utilizadas atualmente para o tratamento de câncer no sangue.

Já os inibidores de checkpoint imunológico são drogas que "desligam" uma chave embutida no sistema imunológico. Esta proteção tem um propósito importante, pois evita reações imunológicas excessivamente agressivas, que prejudicam as células saudáveis.

Algumas células cancerosas podem desligar essa chave, fazendo com que as células T se afastem sem detectá-las.

Os inibidores de checkpoint imunológico evitam que isso aconteça, fazendo com que as células T identifiquem as células cancerosas como ameaça e deem início a um ataque.

Os cientistas pioneiros desta inovação ganharam o prêmio Nobel em 2018 e as drogas, atualmente, são usadas para combater muitos tipos de câncer. Mas os dois métodos têm limitações.

As pesquisas estão em andamento, mas os cientistas têm dificuldade para fazer as terapias com células CAR-T funcionarem contra tumores sólidos, que representam mais de 90% dos novos diagnósticos (ao contrário dos cânceres no sangue). E a administração do tratamento também é cara e trabalhosa.

Já os inibidores de checkpoint imunológico podem ter um "caleidoscópio de efeitos colaterais", segundo a médica oncologista Samra Turajlic, do Instituto Francis Crick, em Londres.

Isso ocorre porque o desligamento das chaves do sistema imunológico se destina a evitar que o corpo ataque seus próprios tecidos. Por isso, a retirada deste mecanismo de defesa pode colocar em risco células não cancerosas, além dos tumores.

Segundo o Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos, efeitos colaterais comuns incluem erupções cutâneas, diarreia e fadiga. Mas, em casos raros, o tratamento pode causar inflamações do fígado, coração e pulmões.

Estes efeitos colaterais podem valer a pena, se a droga controlar um câncer agressivo. Mas nem sempre funciona assim.

Um problema importante enfrentado por todo o campo da oncologia, segundo Turajlic, é que nenhuma imunoterapia funciona em 100% dos pacientes.

Existem muitas possíveis razões, que variam da estrutura do tumor, que pode reduzir sua acessibilidade ao sistema imunológico, até as características das próprias células imunológicas.

De forma geral, 20% a 40% dos pacientes reagem à imunoterapia. Isso significa que muitos pacientes (a maioria deles, na verdade) estão se abrindo aos seus efeitos colaterais, sem mencionar a perda de tempo e de esperança, sem resultados positivos.

<><> Abordagem multifacetada

Como mais pacientes podem se beneficiar da imunoterapia? Os pesquisadores vêm abordando esta questão de muitas formas diferentes.

Embora preliminar, a pesquisa de Wargo indica que os pacientes que seguem dietas com alto teor de fibras podem observar melhores resultados, devido a mudanças da microbiota intestinal que podem afetar o sistema imunológico e o tumor.

Outra pesquisa surpreendente indica que as estatinas, que são medicamentos acessíveis e de baixo custo para a redução do colesterol, podem aumentar os efeitos da imunoterapia, por meio de mudanças inesperadas da comunicação celular.

O próprio horário do tratamento pode influenciar os resultados. Pesquisas recentes indicam que os pacientes que recebem a dosagem no início do dia apresentam melhores resultados que os tratados mais tarde.

A combinação de imunoterapia com outros tratamentos contra o câncer, como radiação ou ultrassom, pode ser outra forma de aumentar os índices de reação.

"A radiação, na verdade, pode... fazer com que o tumor fique visível para o sistema imunológico", explica Sandra Demaria, do Centro Médico Weill Cornell. Ela pesquisou esta combinação de tratamentos.

Já a terapia com ultrassom, que utiliza ondas sonoras de alta frequência para atacar os tumores, pode fazer o mesmo.

Outros pesquisadores utilizam a capacidade de customização da imunoterapia e selecionam cuidadosamente os pacientes para oferecer o melhor tratamento possível.

A medicina personalizada gera entusiasmo em muitas disciplinas. Mas Knudsen destaca que ela é particularmente importante para a oncologia, considerando a heterogeneidade da doença.

"O câncer não é uma doença", explica ela. "São 200 doenças diferentes e todas elas surgem por diferentes motivos e precisam receber tratamentos diferentes."

Dois pacientes com exatamente o mesmo tipo e estágio de câncer podem ter doenças diferentes em nível celular.

Para Demaria, "este campo se encontra em um ponto de inflexão. Podemos avançar tratando não o câncer, mas o paciente."

Cientistas do Centro do Câncer Memorial Sloan Kettering já testaram uma estratégia promissora, baseada na descoberta de que os tumores com um perfil genético específico tendem a reagir bem aos inibidores de checkpoint imunológico, como dostarlimab.

Em dois testes pequenos, realizados entre 2022 e 2024, em casos de câncer retal com este perfil, o tratamento erradicou completamente os tumores.

A equipe expandiu sua pesquisa para incluir 117 pacientes com diversos tipos de tumores, incluindo do esôfago, bexiga e estômago, com a mesma assinatura genética.

Dentre as 103 pessoas que terminaram o tratamento, 84 pacientes, incluindo Sideris, observaram o desaparecimento completo dos seus tumores. Apenas dois necessitaram passar também por cirurgia.

Pesquisadores da MD Anderson relataram resultados similares para uma técnica utilizando um inibidor de checkpoint diferente. E outros grupos demonstraram que, mesmo se os pacientes realmente acabarem passando por cirurgia, seus resultados operativos podem ser melhores, pelo menos em alguns casos, se os tumores forem tratados primeiramente com imunoterapia.

Mais pesquisas são necessárias, mas essas descobertas são promissoras. Elas abrem as portas para uma era de tratamentos menos invasivos e altamente eficazes, segundo o chefe de oncologia de tumores sólidos do Centro de Câncer Memorial Sloan Kettering, Luis Diaz.

"Precisamos sair da era medieval para os tempos modernos", afirma ele. "Retirar seu reto, estômago ou bexiga — precisamos fazer melhor do que isso."

A ressalva é que apenas cerca de 5% dos tumores possuem a composição genética necessária para que eles sejam adequados para tratamento com imunoterapia livre de cirurgia, segundo estudos de Diaz e seus colegas.

"Os outros 95% precisam de algo tão bom quanto isso", segundo ele.

<><> A promessa de vacinas

Com este objetivo em mente, os pesquisadores continuam buscando novas técnicas de imunoterapia e tentando aprimorar as antigas, como vacinas contra o câncer.

As vacinas tradicionais apresentam ao corpo partes de um patógeno, como um vírus, para que ele possa praticar, produzindo uma reação imunológica à ameaça real.

Um conceito similar pode funcionar para o câncer, segundo Karen Knudsen, mas poderá ser usado para tratar a doença, em vez de evitá-la.

As células cancerosas possuem diversas proteínas de superfície.

Usando a tecnologia de vacinas, os pesquisadores podem conseguir treinar o sistema imunológico do paciente para reconhecer e atacar essas proteínas, acionando forte reação contra seu câncer específico, explica Knudsen.

E já existem evidências preliminares que apoiam esta técnica. Pesquisadores do Instituto do Câncer Dana-Farber, nos Estados Unidos, criaram recentemente vacinas personalizadas para nove pessoas com um tipo de câncer renal.

Após a retirada cirúrgica dos seus tumores, os pacientes foram vacinados, para eliminar do corpo eventuais células de tumor remanescentes.

Em uma pesquisa publicada em 2025, a equipe relatou que todos os nove pacientes tiveram reação imunológica contra o câncer e permaneceram livres do tumor por anos após a cirurgia. E as vacinas personalizadas também se mostraram promissoras para o tratamento de melanoma.

"É um mundo totalmente novo", segundo Knudsen. "É a definição da medicina de precisão."

"Talvez possamos, agora, desenvolver estratégias de vacinação contra o tumor específico do paciente com muita rapidez."

Mas, apesar de todo este entusiasmo, existe um longo caminho pela frente.

São necessários mais estudos para respaldar alguns dos métodos encorajadores sendo investigados e chegar a um futuro em que os médicos poderão oferecer aos pacientes, de forma precisa e confiável, tratamentos que funcionarão contra seus cânceres específicos.

"Existem muitos alvos muito promissores e novos agentes que não progrediram além dos testes clínicos de fase inicial", alerta Sandra Demaria.

É possível que um subconjunto de pacientes não reaja a nenhum tipo de imunoterapia, segundo Diaz. Os cânceres têm "superpoderes" diferentes, que permitem seu crescimento e expansão, explica ele, e o sistema imunológico é um oponente melhor para algumas pessoas do que outras.

Mas, para os pacientes que reagem ao tratamento, a imunoterapia já está mostrando que pode salvar e mudar vidas.

Maureen Sideris, a paciente de Nova York que participou do teste de Luis Diaz, se sente parte de um futuro brilhante para a oncologia.

"Estamos seguindo em uma direção ótima", segundo ela.

"Um dos médicos me disse que, em questão de 10 anos, passar por qualquer tipo de quimio e radioterapia será como fazer sangria: algo muito antiquado."

 

Fonte: BBC Future

 

Por que o Brasil não é tão feliz quanto parece — e como a Finlândia lidera ranking mundial da felicidade

PraiassolCarnavalsambafunk e futebol. É difícil falar do Brasil sem citar esses elementos, símbolos da identidade do país intrinsicamente ligados à ideia de alegria.

Frionevesilêncio e meses inteiros com dias de apenas duas horas de luz. Essas, por outro lado, são as imagens associadas à Finlândia — e muitas vezes vinculadas, inclusive pelos próprios finlandeses, à tristeza e à solidão.

De um lado, está o país mais feliz do mundo; do outro, aquele que ocupa a 32ª posição, segundo o World Happiness Report, estudo produzido pela Gallup, uma consultoria internacional conhecida por suas pesquisas de opinião.

A surpresa, para muitos brasileiros, é descobrir em qual dessas posições está o Brasil: a 32ª — e não a 1ª. Mas por quê? Em resumo, porque felicidade não se resume à alegria.

Uma consulta a dicionários pode ser útil: o Aurélio, um dos mais tradicionais do Brasil, define felicidade como um "estado de contentamento e satisfação"; o Houaiss, outro célebre guia lexicográfico do país, diz que feliz é quem tem "desejos, aspirações e exigências atendidos ou realizados" — e não apenas quem é alegre.

É possível afirmar que, em geral, os brasileiros têm seus desejos atendidos? A pergunta não tem resposta simples, mas esse cenário tende a ser mais comum em sociedades com estruturas mais sólidas, segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil.

<><> Como o ranking da felicidade é feito — e quais são suas limitações

O estudo se baseia em uma única pergunta, feita a cerca de mil pessoas em cada país: "Imagine uma escada de 0 (pior vida possível) a 10 (melhor vida possível). Em qual degrau você está hoje?"

A partir das respostas, os pesquisadores calculam uma média e, com base nela, ordenam 147 países.

Esse número, porém, leva em conta não só as respostas do ano em que a pesquisa foi feita, mas também as dos dois anos anteriores. Não reflete, portanto, a percepção de felicidade em um ano específico, apesar de o ranking ser anual.

Se analisada a posição do Brasil desde 2011, quando o estudo começou a ser feito, a variação de um ano para o outro é pequena, restrita à casa dos decimais.

É por isso que, embora tenha havido uma queda acentuada durante a pandemia, a forma como o ranking é elaborado dificulta a comparação entre anos e a associação dos níveis de felicidade a crises internas de natureza política ou econômica.

Mesmo na comparação com outros países, a diferença não é tão expressiva. Em média, brasileiros se colocam no degrau 6 da "escada da vida", enquanto os finlandeses, os mais felizes do mundo, dizem estar apenas um ponto acima.

Nenhum país se aproxima da satisfação plena, e a distância entre os integrantes do top dez é ainda menor, como mostra o gráfico abaixo. No pódio principal, a Finlândia aparece com 7,64, a Islândia com 7,54, e a Dinamarca, com 7,53.

Também são feitas perguntas sobre a percepção da população em relação à corrupção no governo e nas empresas, além de aspectos do dia a dia que buscam medir a rede de apoio e a liberdade de um país.

Esses questionamentos adicionais, contudo, servem para explicar a posição de cada país no ranking, e não para compô-lo diretamente. Ainda assim, há particularidades nacionais que ficam de fora.

No caso do trabalho voluntário, por exemplo — indicador em que o Brasil pontua mais baixo —, é preciso considerar a carga horária média de trabalho em cada país.

Os finlandeses trabalham 37,5 horas semanais, já incluindo o horário de almoço, então é esperado que na Finlândia tenha-se mais tempo disponível para atividades voluntárias. No Brasil, a carga é de 44 horas semanais sem contar o almoço.

Mas Jullie Ray, editora-chefe da Gallup para análises internacionais, afirma que o ranking é, em certa medida, imune a essas questões.

"Não dá para ignorar a cultura ao analisar a percepção desses indicadores, mas a pergunta central — em que degrau da vida a pessoa se coloca hoje — tende a ser menos influenciada por fatores culturais do que questões sobre emoções do dia a dia", diz. "Os rankings não se baseiam na percepção de alegria nem no humor das pessoas — esses, sim, são mais impactados pela cultura."

Ray acrescenta que a posição do Brasil não deve ser considerada baixa. Pelo contrário, o país está no primeiro terço da lista. "Entre 147 países, o Brasil está no 32º lugar. Não é algo a se lamentar ou a encarar como um fracasso."

<><> Felicidade no Brasil é ligada à fé, não à racionalidade, diz pesquisadora

O tema da felicidade despertou o interesse da executiva Renata Rivetti, fundadora da consultoria Reconnect – Happiness at Work, que assessora multinacionais com sede no Brasil sobre como melhorar a qualidade de vida de seus funcionários.

Ela acaba de realizar uma pesquisa com o Instituto Ideia. O estudo sugere que, no Brasil, a felicidade está mais associada à  do que à racionalidade. Em outras palavras, diz Rivetti, a percepção dos brasileiros nem sempre se sustenta sob escrutínio científico.

O levantamento quantitativo, realizado entre 20 de fevereiro e 1º de março com 1.500 brasileiros de dez recortes demográficos em todas as regiões do país, aponta que 90% dos entrevistados se consideram felizes, embora 29% relatem sentir-se preocupados e estressados.

O índice de felicidade é menor entre a geração Z (16 a 24 anos), grupo no qual 81% afirmam ser felizes.

Entre os fatores que contribuem para a felicidade, destacam-se salário, flexibilidade e estabilidade. Já os principais elementos associados à infelicidade são sobrecarga de trabalho, salário e liderança ruim.

Um dos achados mais curiosos, segundo Rivetti, é o alto nível de desconfiança nas instituições — 81% acreditam que a corrupção está disseminada no governo e 66% nas empresas — e, ainda assim, 94% mantêm a esperança em um futuro melhor.

Formada em administração pela Fundação Getulio Vargas (FGV) e com especialização pela Happiness Studies Academy, em Nova Jersey, a executiva distingue o que chama de "felicidade declarada" da "felicidade vivida".

"A gente associa felicidade à alegria, enquanto países como a Finlândia tratam o tema de forma científica, inclusive como política pública", afirma.

Ela defende que a felicidade se constrói a partir de três pilares: alegria — relacionada a momentos de conexão, afeto e pertencimento; satisfação — ligada à sensação de progresso e realização; e significado — associado à percepção de propósito e coerência na vida.

Esse modelo foi desenvolvido por Arthur C. Brooks, professor da Universidade de Harvard e uma das principais vozes da chamada ciência da felicidade. Ele escreve uma coluna sobre o tema no jornal The Atlantic e tem livros que figuram entre os mais vendidos nos Estados Unidos.

Brooks argumenta que felicidade não é um estado permanente de euforia, mas o resultado do equilíbrio entre esses três elementos. No Brasil, avalia Rivetti, é difícil afirmar que esses pilares se manifestem de forma plena — ao menos não a ponto de explicar os 90% de brasileiros que se declaram felizes.

É nesse contexto que a religiosidade — não contemplada pelo World Happiness Report — aparece como um fator relevante na pesquisa brasileira: entre pessoas religiosas, especialmente evangélicos, há maior proporção de indivíduos que se dizem felizes.

"Na Finlândia, não é a fé que sustenta a felicidade, mas uma estrutura confiável. É um país onde as instituições funcionam. Lá, a racionalidade leva à felicidade. No Brasil, se formos muito racionais — e olharmos para corrupção, insegurança e pressões do trabalho —, vamos reduzir nossa sensação de felicidade", diz Rivetti.

Ela aponta ainda lacunas para termos uma felicidade consistente. "A confiança tem muito impacto na felicidade dos países nórdicos. Eles deixam carrinhos de bebê do lado de fora de supermercados enquanto fazem compras. No Brasil, não deixaríamos nem um cachorro sozinho, porque já houve casos de furto de animais."

"Desde que nascemos, ouvimos que o Brasil é o país do futuro. Isso molda nossa autopercepção de felicidade", ela acrescenta. "Mas que mudanças estruturais estamos promovendo para construí-la? Não estamos. Por isso, acaba sendo mais fácil acreditar que Deus — ou qualquer outra fé — vai cuidar de nós."

<><> A vida — às vezes sofrida — no país mais feliz do mundo

As avaliações de brasileiros que vivem na Finlândia ilustram as contradições sobre o que é ou não ser feliz. Eles não poupam os elogios, mas fazem ressalvas e dizem que não é fácil viver no país mais feliz do mundo.

Esse é o caso de Flávia Gontijo, de 31 anos, e Pablo Carvalho, de 34, mineiros que vivem no país desde 2020. O casal se mudou depois que ela teve a oportunidade de fazer doutorado por lá.

Carvalho, mestre em química, conseguiu emprego apenas um ano depois, mas diz que, desde o início, pôde sentir o apoio do governo finlandês em aspectos que, justamente, levam a Finlândia ao topo do ranking da felicidade.

"Cheguei e tive acesso a seguro-desemprego mesmo nunca tendo trabalhado aqui. Se eu quisesse estudar finlandês, o valor aumentava. Fiquei quase um ano só estudando finlandês e procurando emprego", diz Carvalho.

"Já faz uns seis anos, mas na época eram uns € 700, somados ao auxílio-transporte e alimentação. Também teria direito a auxílio-aluguel, mas não precisei pegar. Nesse sentido, eles foram super receptivos."

Gontijo, doutora em química, afirma que uma das facilidades foi ter uma profissão transferível para a Finlândia. Pesquisadores são hoje prioridade no país, que tem milhares de vagas abertas, segundo a Work in Finland, órgão governamental responsável por promover o mercado de trabalho finlandês e atrair estrangeiros.

No entanto, mesmo para quem está começando do zero, ela afirma, o governo fornece auxílios para tentar reduzir a desigualdade social. "A gente observa pelo estilo de vida: todo mundo tem o mesmo. Você vai ao mesmo restaurante que o pessoal da universidade, o das empresas, o da construção civil."

"Em Helsinque, você vai gastar muito com aluguel, se quiser morar bem, mas com o resto não há tanto gasto. O transporte público tem um valor acessível, a saúde é pública, a educação é gratuita e de qualidade, o lazer tem muita coisa de graça, como museus e parques."

Gontijo avalia que viver em um lugar onde não é preciso se preocupar com o básico necessário para a vida — como alimentação, transporte e educação — traz, sim, uma sensação de felicidade. Mas é algo mais ligado à satisfação do que à alegria.

"No Brasil, era sempre uma luta para ter acesso ao básico. Na Finlândia é o oposto. Mas o resto também é o oposto: o clima é horroroso, quando faz 2°C com sol a gente comemora e, depois de seis anos, ainda não sei lidar. E dificulta passar por tudo isso isolado, porque não é nossa cultura, nossa comida, nossa família", diz ela.

"Exige um esforço grande para ter contato humano. Fazer amizade com finlandês é difícil. Eles não têm a demanda da conversa", ela acrescenta. "É uma barreira que eu nunca superei, e isso me dói. É uma vitamina para a qual não tem reposição. A Finlândia não vai mudar. Ou a gente muda daqui, ou a gente muda aqui."

Embora o casal não planeje voltar ao Brasil, tampouco deseja viver a vida toda na Finlândia, principalmente agora que eles têm uma filha, de 2 anos. É "questão de terapia" a dificuldade de criar uma criança finlandesa que não deixe de ser brasileira.

"Antes, a gente vivia uma bolha, mas a criança te obriga a estourar essa bolha", diz ela.

"Com seis anos, a criança pode ir e voltar sozinha da escola e ficar sozinha em casa. É esperado que seu filho faça tudo sozinho o mais rápido possível. Com 12 anos, você perde os direitos médicos sobre seu filho. Se ele não quiser tomar uma vacina, você não pode obrigá-lo. Em termos até legais, é muito diferente."

A designer Jane Vita, de 47 anos, sabe bem dessas diferenças. Entre idas e vindas, com um intervalo de uma volta ao Brasil e outro de uma passagem pelo Canadá a trabalho, a paranaense vive na Finlândia há 18 anos.

Dois de seus filhos nasceram na Finlândia, e ela nota que, para eles, a vida no país é mais fácil. "Uma das coisas que sinto falta é de não ter amigos de infância aqui, não ter visto os mesmos desenhos, ter consumido as mesmas marcas, porque isso traz histórias. Eles têm histórias para dividir entre eles que, para mim, não fazem sentido", ela explica.

"Eu estou mais conformada do que adaptada", Vita acrescenta, entre risos. "No verão, tudo é lindo: é muito legal sair do trabalho às 16h e ir à praia. Você se distrai e, de repente, já são 22h e ainda tem luz. Mas o inverno é difícil. Se você não se mantiver ativo, se dispor a ir para a academia, a ir tomar um café, você hiberna, entra em depressão."

Jane considera que, para explicar todas essas diferenças, é preciso ir até a raiz da riqueza da Finlândia: o capital humano. É muito diferente de países como o Brasil, que se ancoram, diz, em riquezas naturais.

É por isso, ela afirma, que há tanto investimento em educação, incluindo bolsas de quase € 1.000 para estudantes pagarem seu próprio aluguel, viverem e, em última análise, serem independentes dos pais o mais cedo possível.

Embora considere que esteja criando cidadãos não do Brasil ou da Finlândia, mas do mundo, Vita reconhece que há diferenças profundas entre cada cultura e que as adaptações podem ser difíceis.

Ela cita o exemplo do happy hour: "No Brasil, às vezes é até cansativo, depois de ter trabalhado o dia inteiro, sair direto para o bar. Mas traz aquela energia. É um momento de restauração. Aqui na Finlândia, como não se tem esse dia exaustivo no trabalho, você vai para casa. Não há necessidade de se restaurar como no Brasil."

 

Fonte: BBC News Brasil