quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

“A esquerda é boa em apontar injustiças, mas isso não pode ser desculpa para não fazer nada”, diz jornalista

O historiador e jornalista Rutger Bregman (Westerschouwen, Holanda, 1988) tornou-se uma pedra no sapato das elites nos últimos anos. Em 2019, seu discurso no Fórum de Davos viralizou, no qual argumentou perante as elites mais poderosas do mundo que os ricos "não pagam sua justa parcela" e defendeu a justiça tributária. Há apenas uma semana, um discurso crítico ao presidente dos EUA, Donald Trump, que o tem na mira, foi censurado. Tributação e renda básica universal são centrais em seu discurso, mas com seu livro mais recente, "Moral Ambition" (publicado pela Península), este intelectual holandês se concentra no que os indivíduos podem fazer em seu dia a dia.

Bregman criou uma Escola de Ambição Moral, onde investiu metade de suas economias e com a qual pretende atrair talentos para colocá-los a serviço do bem comum e combater o "desperdício de talento" que ocorre em algumas das indústrias mais poderosas do planeta, "que não tornam o mundo um lugar melhor".

<><> Eis a entrevista.

·        O que você chama de 'ambição moral'?

Como espécie, enfrentamos problemas enormes, como a colossal ameaça das mudanças climáticas; a próxima pandemia, que pode estar logo ali; a pobreza global, que provavelmente vai piorar; e os bilhões de animais que sofrem em fazendas industriais, uma das maiores atrocidades morais do nosso tempo. A lista é vasta, e ainda assim, pouquíssimas pessoas trabalham para resolver esses problemas. É um enorme desperdício de talento, com milhões presos em empregos que não tornam o mundo um lugar melhor. O antídoto é a ambição moral — o desejo de usar seu tempo e talento, mas também seu acesso a certas redes, seu capital cultural e financeiro e todos os seus privilégios, para fazer a diferença.

·        17% da população acredita que o trabalho que realizam não contribui em nada para a sociedade. O que essas pessoas fazem para ganhar a vida e o que isso revela sobre o sistema econômico atual?

Na verdade, é pior. Oito por cento têm certeza de que seu trabalho não tem impacto social algum. Se entrassem em greve, ninguém se importaria. Dezessete por cento duvidam que seu trabalho agregue qualquer valor ao mundo. Somando tudo, um quarto da força de trabalho acredita que está perdendo tempo. Um amigo meu, que estuda na Universidade de Oxford, fala sobre o Triângulo das Bermudas: o que ele observa em Harvard, Princeton e Yale — as universidades mais prestigiosas do mundo — é que a maioria dos alunos acaba trabalhando em consultoria, finanças ou direito corporativo. Ganham muito dinheiro, mas são diplomas tediosos que não fazem diferença na resolução de problemas reais.

·        Existe alguma relação entre salário e imoralidade no ambiente de trabalho?

Tenho um estudo que cruza os salários de certos profissionais com a percepção da população em relação à moralidade ou imoralidade desses setores. Quanto mais dinheiro você ganha, maior a probabilidade de seu trabalho ser considerado imoral. Um exemplo simples é a indústria do tabaco. Provavelmente é a indústria mais cruel que existe, responsável por milhões de mortes por ano, e ainda assim com salários bem acima da média. Se você parar para pensar, é compreensível, porque trabalhar na Philip Morris pode ser uma das coisas mais patéticas que alguém pode fazer na vida: basicamente, você está sendo pago para viciar jovens. Para superar essa vergonha, é necessária uma compensação.

·        Considerando que a população precisa ter suas necessidades básicas atendidas, até que ponto um indivíduo pode gerar mudanças reais diante de um sistema econômico e estruturas de poder muito fortes?

A primeira observação é que existem muitos livros sobre mindfulness que ensinam como ser mais feliz, mais relaxado, mais produtivo e assim por diante, mas este não é necessariamente um deles. É um livro difícil, que escrevi inicialmente para mim mesmo quando senti que precisava de um empurrão. A segunda é que existem muitas pessoas muito boas na esquerda que apontam os problemas do sistema e as injustiças estruturais do capitalismo, do patriarcado e assim por diante, mas há o risco de isso se tornar uma desculpa para a inação. Ao longo da minha carreira, fiquei fascinado por esses pequenos grupos de cidadãos comprometidos que alcançaram algumas das maiores mudanças da história, dos abolicionistas às sufragistas. Todos eles começaram com um pequeno grupo de pessoas, então sempre me pareceu muito superficial e desesperançoso acreditar que as pessoas não podem gerar mudanças ou pensar que os indivíduos não podem fazer a diferença. O comportamento é contagioso; podemos inspirar uns aos outros.

·        A pureza ideológica de um segmento da esquerda contribui para alcançar mudanças reais ou impede um progresso mais viável, porém menos estrutural?

Os últimos 10 anos foram catastróficos. Vimos o surgimento de movimentos muito importantes, como Black Lives MatterMeTooFridays for Future e Occupy Wall Street, que geraram resultados — mistos, para dizer o mínimo, porque alguns não resultaram em nenhuma mudança legal. Isso contrasta fortemente com os movimentos pelos direitos civis da década de 1960, liderados por pessoas como Rosa Parks e Martin Luther King Jr., que mudaram a vida dos negros americanos com grandes reformas legislativas. Há alguns anos, o mundo se tornou politicamente correto, mas o que estamos vendo hoje, especialmente nos Estados Unidos, é o colapso total das organizações progressistas, que são completamente ineficazes para alcançar resultados.

Por exemplo, a direita tem sido muito estratégica na luta contra o aborto. Começaram há 30 anos e construíram todo um ecossistema de oposição, impulsionando milhares de processos judiciais que abriram caminho para a revogação da lei em todo o país. Enquanto isso, o que a esquerda está fazendo? Em vez de estar nas barricadas, está brigando entre si. As pessoas que sofrem opressão, desigualdade ou pobreza não se importam se você está certo ou é moralmente puro; o que elas querem é que você vença, mesmo que isso signifique fazer coisas contraintuitivas ou formar alianças com pessoas de quem você não gosta.

·        O livro afirma que o protesto moderno consiste em "cliques e curtidas na esperança de que outros façam algo". Qual o papel das redes sociais, onde vemos campanhas muito bem estruturadas, geralmente da extrema-direita?

No livro, uso o exemplo da Marcha sobre Washington na década de 1960. Foi muito difícil organizá-la porque as pessoas não tinham Twitter, Facebook ou Instagram. Havia todo um aparato trabalhando com listas, endereços, números de telefone e tentando distribuir todas essas informações. Isso garantiu que o que aconteceu fosse mais duradouro e sustentável, e essas redes não desapareceram após o protesto. A ironia do Twitter é que, quando foi lançado, todos pensavam que seria a era de ouro dos movimentos sociais e que as pessoas no poder tremeriam diante das massas. Vimos que foi, mais ou menos, o oposto. Houve um aumento nos protestos, mas eles se tornaram cada vez menos eficazes.

·        Ele afirma que o progresso moral não é linear. Qual é a sua interpretação da ascensão de governos reacionários, de Trump e Milei, ou da ascensão da extrema-direita na Europa?

É muito mais preocupante do que as pessoas parecem perceber. Se você pegasse um livro sobre a explosão do autoritarismo e a queda da democracia, os primeiros capítulos descreveriam o que está acontecendo no mundo agora. Passei um ano morando em Nova York, e um dos motivos pelos quais voltei para a Holanda foi que, como imigrante, eu estava preocupado com a minha família e com a possibilidade de expressar minhas opiniões abertamente. Quando desembarquei em Amsterdã, meu rosto estava na primeira página do Daily Mail com uma manchete dizendo que a Casa Branca não estava satisfeita comigo porque eu havia dito que Trump era o presidente mais corrupto da história dos EUA.

A frase foi censurada uma semana depois pela BBC, o que dá uma ideia da covardia dessas instituições. Coisas que dávamos como certas até pouco tempo atrás, como a liberdade de reunião ou a liberdade de expressão, estão claramente ameaçadas porque existe um ecossistema dentro da direita que acredita que a democracia precisa ser destruída. No livro, falo sobre Peter Thiel, que liderou a construção dessa aliança e financiou diretamente as políticas de Bush. Eles foram muito claros sobre isso e estão muito mais bem organizados, financiados e ideologicamente preparados.

·        A BBC reconheceu a autocensura. Eles entraram em contato com você novamente?

É incrivelmente irônico, porque a própria BBC me pediu para dar quatro palestras sobre os desafios que enfrentamos como humanidade. A primeira foi sobre a covardia das instituições que se curvam ao autoritarismo... eles censuraram a palestra sobre censura, depois de ela ter passado por um longo processo editorial. Claramente, eles se sentiram ameaçados pelo governo Trump e pelo Conselho Jurídico dos EUA. É um princípio de ditadura; nunca vi nada parecido. Na gravação de áudio, minha voz desaparece; você ouve o momento do corte e, dois ou três minutos depois, me ouve falando sobre a covardia das elites ocidentais. Achei uma experiência incrível, mas eles vão transmitir as outras três palestras. Não culpo os jornalistas da emissora, que fizeram um trabalho incrível. É uma decisão que obviamente vem de cima.

·        Alguns avanços tecnológicos derivam dessa ambição moral. Num contexto de grandes revoluções em torno de temas como a inteligência artificial e a automação, que políticas garantem que esses avanços não concentrem ainda mais a riqueza?

Sou um social-democrata europeu da velha guarda que acredita em uma economia mista. Isso significa dar espaço para os empreendedores inovarem. Ao mesmo tempo, é necessário um setor público forte e poderoso, porque as maiores inovações e o bem-estar da população são garantidos pela saúde, pelo combate à pobreza e assim por diante. O que vemos hoje é que o equilíbrio desapareceu completamente e a desigualdade saiu do controle. Há especulação por toda parte e os mercados estão fora de controle, mas temos a solução. Eu disse isso há seis anos em Davos: impostos, impostos, impostos. É tudo o que precisamos — impostos muito mais altos para os ricos. Posso repetir isso até o dia da minha morte, e a maioria das pessoas concorda. Oitenta por cento da população acha que os ricos deveriam pagar mais. Para ir do ponto A ao ponto B, você precisa de talento, e é por isso que estamos tentando recrutar pessoas inteligentes que trabalham para grandes empresas. Somos os Robin Hoods do talento. Estamos fazendo lobby e trabalhando, por exemplo, com Gabriel Zucman, um economista francês que está liderando esse esforço. É algo extremamente complexo, mas a solução é que os ricos paguem mais impostos.

·        Ao discutir justiça tributária, o argumento predominante costuma ser outro: que os impostos não são bem administrados ou, no caso da Espanha, que se trata de um inferno tributário — algo que os dados contradizem. Como podemos combater esse discurso?

Começamos a entrevista falando sobre empregos terríveis. Se analisarmos os dados, veremos que os funcionários do setor privado têm três vezes mais probabilidade de considerar seu trabalho terrível do que os do setor público. Precisamos transmitir a mensagem de que o setor público gera muito mais riqueza do que o setor privado, segundo as pessoas que trabalham nele. Isso faz sentido, já que o governo financia grande parte da saúde e da educação, serviços extremamente essenciais. Ao mesmo tempo, precisamos exigir excelência de nossos gestores, para que as pessoas não queiram trabalhar na McKinsey, mas sim no governo, a empresa mais prestigiosa de todas. Para alcançar esse objetivo, podemos criar programas de bolsas de estudo para atrair jovens e oferecer salários mais altos. Isso é mais controverso entre a esquerda, mas se você trabalha para uma agência governamental em uma questão social crucial, não entendo por que deveria ganhar menos do que alguém que vende Coca-Cola. Se você paga pouco, atrai incompetentes. Precisamos cultivar uma cultura de excelência dentro do governo para que ele atraia as pessoas mais inteligentes e talentosas.

 

Entrevista com Rutger Bregman para David Noriega, em El Diario

 

O 'papa negro da umbanda' que transformou o culto a Iemanjá e 'inventou' o Réveillon de Copacabana

Iemanjá é uma das divindades mais reverenciadas nas religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda. Conhecida como rainha do mar e deusa da fertilidade, da maternidade e da proteção, ela é originária da mitologia iorubá.

A data de sua celebração, 2 de fevereiro, é um exemplo concreto do resultado do sincretismo religioso tão comum na sociedade brasileira. No mesmo dia, católicos veneram Nossa Senhora dos Navegantes — a protetora dos perigos das águas, na piedade popular.

No entanto, se Iemanjá se apropriou de uma data católica, o deslocamento de uma homenagem à divindade afro acabou resultando na criação de uma das maiores festas populares do Brasil: o Réveillon de Copacabana.

Tancredo, que será homenageado no Carnaval pela Estácio de Sá, voltou à evidência no último Réveillon carioca, quando o evento teve um palco gospel com programação voltada para evangélicos.

Lideranças de religiões afro criticaram o ato citando justamente a trajetória de Tancredo e cobrando o que diziam ser uma coerência histórica com o que se pretendia, originalmente, com a multidão trajando branco à beira-mar.

A festa de Réveillon no Rio é considerada pelo Guinness, o livro dos recordes, como o maior do mundo, movimentando mais de cinco milhões de pessoas em toda a cidade do Rio de Janeiro — metade se concentra na praia de Copacabana.

Isso não existia na primeira metade do século 20. Foi quando, mobilizados por um pai de santo umbandista, um pequeno grupo de praticantes dessa religião foi até a badalada praia na virada do ano de 1949 para 1950. Eles vestiam branco, saudavam iemanjá e levavam oferendas para serem lançadas ao mar pouco antes da meia-noite. Era o evento Flores de Iemanjá.

A tradição vingou. A cada ano, o grupo ficava maior e o que era uma celebração umbandista e candomblecista se tornava uma festa mais plural e menos associada a qualquer religião diretamente.

O pai de santo responsável por essa ideia é uma referência gigante para os seguidores de religiões de matriz africana no Brasil. Tancredo da Silva Pinto (1904-1979) nasceu em Cantagalo e foi uma das mais importantes lideranças umbandistas do século 20. Acabou conhecido como "o papa negro da umbanda".

Geralmente ele é chamado de Tata Tancredo. Tata — lê-se como se tivesse um acento agudo no segundo "a", como "Tatá". É um título usado, sobretudo por linhagens religiosas de matriz banto, para designar sacerdotes ou líderes.

"A ligação do Réveillon de Copacabana com a atuação cultural, religiosa e política de Tancredo da Silva Pinto é notória", afirma o historiador Diego Uchoa de Amorim. "Aqueles que olham para os festejos de virada de ano que ocorrem atualmente na orla mais famosa do mundo com seus megashows, milhões de pessoas e turistas do mundo todo podem não ter noção de suas raízes."

O historiador lembra que, se "o costume de levar flores ao mar, entregar balaios e barcos de Iemanjá no final do ano nas praias não foi uma criação de Tata Tancredo, pois encontramos fontes que nos mostram esse costume do povo carioca desde finais do século 19 em diferentes praias como Caju, Ramos, Glória, Flamengo, Ilha do Governador, entre outras", o grande mérito do líder umbandista veio "com a idealização e articulação das Flores de Iemanjá na orla de Copacabana, principalmente, nas décadas de 1950 e 1960."

Além de promover esse rito, ele mobilizou outros terreiros, de todas as regiões da cidade, para que participassem juntos. Gradualmente, também ganhou a adesão de representantes de outros Estados, como São Paulo e Minas Gerais, além de autoridades públicas e policiais.

Ele conseguiu, diz Amorim, atribuir "um sentido político de afirmação do povo de terreiro no espaço público", e isso se tornou "tática na luta pela liberdade religiosa e no combate ao preconceito".

"A história do Brasil deve ainda muitas páginas à Tata Tancredo", diz a jornalista e cientista da religião Claudia Alexandre, dirigente umbandista e pesquisadora do Centro de Estudos de Religiosidades Contemporâneas e das Culturas Negras da Universidade de São Paulo (USP).

Alexandre é autora dos livros Orixás no Terreiro Sagrado do Samba e Exu-Mulher e o Matriarcado Nagô. Para ela, a atuação de Tata Tancredo foi política, cultural e religiosa no combate à intolerância religiosa, ao racismo religioso e ao embranquecimento da umbanda e do candomblé.

"Ele foi um importante personagem da época em que os negros, na cidade do Rio, buscavam maneiras de enfrentar a marginalização social, reafirmando valores coletivos através dos sambas, das escolas de samba e dos terreiros, para resistir às opressões sociais e ao racismo estrutural", afirma Alexandre.

<><> De ritual religioso à festa para todos

"Segundo a cobertura da imprensa na época, identificamos com o passar dos anos cada vez mais umbandistas se articulando para participar com suas indumentárias na cor branca, fios de conta, tambores, presentes e velas para a rainha do mar", diz o historiador Amorim. Logo, o Réveillon reunia mais de 800 terreiros.

"Observamos relatos do crescimento de pessoas abastadas do próprio bairro que passaram a descer para as areias perto da virada para tomarem seus passes nas giras que aconteciam, deixar suas oferendas e pular suas ondinhas. Então, podemos afirmar sim que o Réveillon mais famoso do mundo e agora recordista está intimamente ligado às ocupações do espaço público pelos povos de axé e contou com o protagonismo de Tancredo", ressalta o historiador.

Amorim estuda a trajetória do líder umbandista há praticamente dez anos, desde seus tempos de graduação, na Universidade Federal Fluminense. Tata Tancredo foi tema de seu mestrado e, agora, vem sendo analisado em sua pesquisa de doutorado, desenvolvida na Universidade Salgado de Oliveira, em Niterói.

"Tata Tancredo era uma sumidade", diz Alexandre, acrescentando que os moradores do entorno da praia de Copacabana, "um bairro de elite", em um primeiro momento reagiram mal ao evento afro de Réveillon. "Mas em pouco tempo a tradição passou a atrair simpatizantes que, influenciados pelo clima festivo e religioso, iam à praia repetindo o traje na cor branca e o gesto de entregar flores ao mar, saudando o novo ano e fazendo pedidos à rainha do mar".

Alexandre comenta que, nos primeiros anos, alguns entendiam aquilo como "uma invasão" dos terreiros "para a região nobre. Ficavam indignados". Mas nos anos 1960 a festa já atraía 400 mil pessoas.

<><> Um articulador

Tancredo nasceu em uma família de ex-escravizados que já praticavam ritos de matriz africana. Ainda jovem, mudou-se para o Rio e lá acabou sendo um dos responsáveis pela consolidação da umbanda como uma religião.

Mas o contexto era de repressão estatal. O Código Penal de 1890 criminalizava o que eram chamadas de "práticas de espiritismo, magia e seus sortilégios". Na Era Vargas, de 1930 a 1945, a repressão era intensa.

A Constituição de 1946 passou a garantir liberdade religiosa, mas intolerância e preconceito contra religiões africanas seguiram. Tancredo cada vez mais se tornava uma referência no meio religioso afro. Articulou, fundou e integrou diversas associações e federações da área, sobretudo umbandistas.

Assim, ele buscava um amparo jurídico e político, ao mesmo tempo em que procurava quebrar o estigma social — e a festa na virada do ano não deixava de ser, em seus primórdios, uma maneira de os rituais transcenderem os terreiros e estarem à vista da alta sociedade carioca.

Na definição de Amorim, Tancredo foi "sem dúvidas um dos nomes mais importantes na luta pela liberdade religiosa no Brasil do pós-abolição". "Ele se destacou no processo de legitimação da umbanda enquanto religião, entre as décadas de 1930 e 1950", diz o historiador.

Além de ter, de certa forma, "inventado" o Réveillon carioca, Tancredo esteve à frente de outros grandes eventos, como a histórica gira de umbanda que reuniu 40 mil adeptos no Maracanã em maio 1965. Gira é uma reunião ritualística em que médiuns, em círculo, incorporam entidades.

O historiador explica que havia um "processo de desafricanização" da religião entre as décadas de 1940 e 1960, e Tancredo empreendeu um combate a isso, situando as raízes do culto na região centro-ocidental africana e reforçando "seus fundamentos, como o uso de tambores, os pontos em línguas africanas, o uso de indumentárias tradicionais e a manutenção dos cortes de animais com fins ritualísticos, entre outros".

"Quando pensamos em Tancredo e sua relação com as religiões de matriz africana, precisamos contextualizar sua luta, pois estamos falando do Brasil durante o século 20, no qual o preconceito, a discriminação e a repressão policial ainda eram realidades vivas para os povos de terreiros em decorrência do racismo estrutural que caracteriza o país", lembra o historiador.

"Tancredo, mesmo com toda dificuldade que encontrou e passou por cima com suas táticas e articulações, conseguiu conquistas em relação ao espaço público com seus eventos religiosos."

Entre essas instituições estão a Confederação Espírita Umbandista do Brasil, de 1950, e a Congregação Espírita Umbandista do Brasil, de 1968.

Tancredo também esteve na fundação da União das Escolas de Samba, da União Brasileira de Compositores e da Federação Brasileira das Escolas de Samba. "Foi um defensor da preservação das tradições afrobrasileiras", diz Alexandre.

Em 1956, ele e outras lideranças reportaram à Organização das Nações Unidas (ONU) o contexto das religiões de matriz africana no Brasil, dando visibilidade internacional à luta contra a tolerância religiosa.

Tancredo também foi autor ou coautor de livros sobre a história e as práticas da religiosidade afrobrasileira, como Origens da Umbanda, de 1970, e Negro e Branco na Cultura Religiosa Afrobrasileira, de 1976.

"Ele não apenas defendeu uma origem africanista para a umbanda como inseriu neste campo uma nova vertente, a umbanda omolocô, que seria a junção das práticas omolocô, do povo de Luanda Quiôco, com outras tradições africanas, indígenas, católicas e kardecistas, que ocorreram no Brasil", conta Alexandre.

Autor do livro Apropriação Cultural, o sociólogo, antropólogo e babalorixá Rodney William Eugênio comenta que Tancredo "não recebeu à toa o título de papa negro da umbanda". "Teve grande importância para a manutenção de uma raiz afro-indígena e na resistência contra o embranquecimento dessa religião", afirma.

<><> Sambista

A atuação de Tancredo não se limitou à seara religiosa. Ele foi compositor de sambas e um dos fundadores da Federação Brasileira das Escolas de Samba, em 1947.

Morava no morro de São Carlos, no bairro do Estácio, uma das favelas mais antigas do Rio. A comunidade é considerada o berço do samba moderno. Ali vivia o compositor e cantor Ismael Silva (1905-1978), entre outros sambistas. Era o grupo conhecido como "os bambas do Estácio" — e Tancredo também fazia parte dessa turma.

Liderados por Silva, eles foram os criadores da Deixa Falar, a primeira escola de samba da história, que nasceu como bloco em 1928.

Tancredo compôs, em parceria com Sátiro de Melo (1900-1957) e José Alcides (1918-1978), um samba-marcha aclamado como o maior sucesso do Carnaval de 1950: General da Banda, que ganhou as rádios na voz de Blecaute, nome artístico de Otávio Henrique de Oliveira (1919-1983).

"A inspiração da composição, segundo Tancredo, veio do pedido do orixá rei Xangô para que ele criasse uma instituição para defender o povo de terreiro", conta Amorim. "Após o sucesso da canção, parte da arrecadação dos direitos autorais foram investidos na criação da Confederação Espírita Umbandista, em 1950."

"As encruzilhadas entre o samba, a política e a religiosidade marcaram a trajetória de Tata Tancredo", acrescenta o historiador.

<><> Estátua e Carnaval

"Além de grande sambista e compositor, Tancredo tinha uma facilidade em dialogar em diversas camadas da sociedade e uma ousadia típica das grandes lideranças", diz Eugênio.

"Tancredo não só defendeu uma umbanda negra, como foi o visionário nas estratégias de crescimento, difusão e popularização do culto. Além de ter dado início ao Réveillon festivo e profundamente conectado com nossa ancestralidade em Copacabana, lotou o Maracanã e promoveu as macumbas cariocas de uma forma tão eficiente que, apesar de tantas tentativas, nunca conseguiram apagar seu legado."

Esse debate voltou à tona no final do ano, quando o prefeito do Rio, Eduardo Paes, rebateu as críticas ao evento para evangélicos no Réveillon, dizendo "é impressionante o nível de preconceito dessa gente". A expressão "essa gente" caiu mal. Para muitos umbandistas e candomblecistas, soou ofensivo e até intolerante.

Depois o prefeito voltou ao tema em suas redes sociais fez um aceno aos religiosos de matriz africana. "Não foram poucas vezes em que saí em defesa dessas tradições, do respeito à fé e do combate à intolerância religiosa", disse, prometendo que iria dialogar com lideranças do segmento para decidir como viabilizar uma homenagem a Tancredo que, segundo ele, ganhará uma estátua no Rio.

Hoje cristão evangélico, o escritor, palestrante e pesquisador Oliver Dara era babalaô — sacerdote do rito iorubá — e frequentador de terreiros de candomblé e de umbanda.

Ele reconhece que Tancredo "sofreu forte resistência e preconceito" nos primeiros anos do evento em Copacabana e cobra um discurso de tolerância e paz entre as vertentes religiosas.

"Como cristão, confesso que é triste observar que ainda existe muito atrito ideológico nessas questões e muitas pessoas buscam se posicionar, debatendo temas sem sentido, como no último Réveillon em que lideres de matriz africana questionaram a prefeitura do Rio, sobre o palco gospel", afirma Dara, que é autor do livro Jesus Me Aceitou! E Agora?

"Os evangélicos seguem se apropriando dos espaços e das festas com conivência e apoio do poder público. O prefeito se desculpou, dizendo que vai instalar uma estátua em homenagem a Tancredo, mas as manobras que sempre investem contra a umbanda e o candomblé ainda ditam as regras numa cidade que se veste quase que inteiramente de branco no Réveillon enquanto oprime e reprime as manifestações da cultura negra", critica Eugênio.

"Tancredo fez história e o Réveillon brasileiro tornou-se o que é hoje, ou seja, uma mistura de festa, espiritualidade e misticismo, em razão de sua coragem em levar seu povo para fazer macumba na beira da praia, em plena zona sul carioca", diz o sociólogo. "É fato que ele deu origem a tudo isso."

No Carnaval deste ano, o líder umbandista será homenageado. A escola de samba Estácio de Sá, da série ouro (equivalente à segunda divisão do Carnaval do Rio), levará para a avenida o enredo Tata Tancredo — O Papa Negro no Terreiro do Estácio.

Amorim, o historiador, está desde o início da concepção envolvido no processo de construção do enredo.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Quais são as verdadeiras causas da enxaqueca

Cerca de duas vezes por semana, o lado esquerdo da minha cabeça dá a impressão de ter muito espaço entre o meu cérebro e o crânio. E, quando me inclino, aquele espaço se enche com uma dor fluida e monótona. A dor desliza para trás do meu globo ocular, onde permanece como um punhal. Depois, ela percorre todo o caminho até a mandíbula. Às vezes, ela queima e repercute atrás da cabeça se eu piscar. E, em outras ocasiões, ela pulsa e bate, como se estivesse pedindo para sair de lá de dentro. Quanto mais eu deixo a dor correr solta antes de tomar medicamento, mais tempo ele levará para fazer efeito — e maior a probabilidade de que ela retorne assim que passar o efeito dos comprimidos. Assim é a enxaqueca.

Mais de 1,2 bilhão de pessoas em todo o mundo poderão se identificar com alguma versão da minha experiência. Esta condição neurológica é a segunda causa mais comum de incapacidade em todo o mundo. E, apesar da sua ocorrência comum e efeitos debilitantes, a enxaqueca permanece, em grande parte, um mistério.

Existem muitas questões sem resposta sobre o que, na verdade, é a enxaqueca, quais as suas causas e o que pode ser feito para eliminar esta condição da vida dos pacientes. "Eu diria que, provavelmente, é um dos menos conhecidos transtornos neurológicos, ou dentre os transtornos em geral", afirma o professor de ciências do cérebro e comportamentais Gregory Dussor, da Universidade do Texas em Dallas, nos Estados Unidos. Agora, os pesquisadores começam a desvendar as causas da enxaqueca. Recentemente, eles chegaram a observar um episódio se desenvolver em tempo real, na forma de sinais elétricos no cérebro do paciente.

Realizando estudos sobre os genes, vasos sanguíneos e o coquetel molecular que rodopia na cabeça dos pacientes, os cientistas estão chegando mais perto de compreender os motivos que levam à enxaqueca, como ela pode ser tratada e por que ela é uma experiência crônica que envolve todo o corpo — longe de ser apenas uma dor de cabeça irritante.

<><> Definição

Os especialistas não usam mais o termo "enxaquecas", no plural, como se as dores de cabeça fossem a condição. Agora, eles recomendam o uso da expressão "transtorno de enxaqueca". Os estudiosos também chamam as crises de "ataques de enxaqueca". Eles se apresentam com uma série de sintomas diversos, que incluem a dor de cabeça. A enxaqueca episódica é aquela em que o paciente tem menos de 15 dores de cabeça por mês. Já a enxaqueca crônica ocorre quando elas superam este número.

<><> Por que é tão difícil estudar a enxaqueca

Nos séculos 18 e 19, a enxaqueca era tipicamente considerada um capricho feminino. Ela atingiria apenas mulheres bonitas, charmosas e inteligentes, com "personalidades de enxaqueca". Embora 75% das pessoas que sofrem de enxaqueca sejam mulheres, este estigma centenário retardou as pesquisas sobre a condição e gerou escassez crônica de recursos para o seu estudo. "As pessoas achavam que fosse uma doença de histeria", explica Teshamae Monteith, chefe da divisão de dores de cabeça do Sistema de Saúde da Universidade de Miami, nos Estados Unidos.

Ainda hoje, muito poucas universidades contam com centros estáveis de pesquisa da enxaqueca e investimentos no setor, em comparação com outras condições neurológicas. Mas os impactos psicológicos, físicos e econômicos da enxaqueca são muito palpáveis, explica Monteith.

A enxaqueca é mais comum durante os anos mais produtivos da vida das pessoas, entre cerca de 25 e 55 anos de idade. Por isso, os que sofrem da condição são mais propensos a precisar faltar ao trabalho, perder seus empregos e se aposentar mais cedo.

Dados disponíveis no Reino Unido indicam que uma pessoa de 44 anos que sofre de enxaqueca custa para o governo 19.823 libras (US$ 27,3 mil, cerca de R$ 142 mil) a mais por ano, em comparação com alguém que não tem a condição. Isso significa que a enxaqueca custa US$ 17 bilhões (cerca de R$ 88 bilhões) para a economia pública, todos os anos.

Um dos desafios do estudo da enxaqueca é justamente como seus sintomas podem ter amplo alcance. Como a maioria das pessoas afetadas pela enxaqueca, sou uma mulher em idade de ter filhos. Os ataques são uma parte comum da minha vida durante a menstruação. Minha dor de cabeça, normalmente, atinge o meu lado esquerdo e piora com os movimentos. Ela é precedida de forte sensibilidade a odores e, às vezes, meu braço e meu ombro esquerdo ficam congelados. Mas outros pacientes sofrem sintomas como náuseas e vômitos, vertigens, dores de estômago e aumento da sensibilidade à luz e ao som. Mais da metade dos pacientes sofre fadiga extrema e outros têm desejos alimentares específicos. Ainda outros bocejam excessivamente nas fases iniciais. Cerca de 25% dos pacientes têm auras, visões brilhantes intensas e irregulares (ou cintilantes) ou borrões, parecidos com os vazamentos de luz nas câmeras de filme. "O ataque de enxaqueca como um todo é algo muito complicado", segundo Dussor. "Não é apenas a dor. É toda uma série de eventos que acontecem bem antes do início da dor de cabeça."

<><> Gatilhos vs. sintomas

Os gatilhos que se acredita darem início ao ataque também são tão variados quanto os sintomas. Falta de sono e jejum certamente disparam minha dor de cabeça, mas outros pacientes indicam chocolate, queijos curados, café ou vinho branco.

O estresse parece estar fortemente interligado com a enxaqueca para a maioria dos pacientes. E o interessante é que a liberação do estresse também serve de gatilho. Por isso, meus ataques no fim de semana são tão frequentes.

A imensa quantidade de gatilhos da enxaqueca deixa os cientistas perplexos há muito tempo. Mas, agora, o aumento das pesquisas indica que muitos desses gatilhos, na verdade, podem ser simplesmente manifestações de sintomas iniciais. Ou seja, um paciente pode buscar inconscientemente certos alimentos nos primeiros estágios de um ataque, como queijo ou chocolate, por exemplo. Por isso, é fácil considerar o consumo daquele alimento como um gatilho para um ataque que pode simplesmente já ter começado, segundo a professora de farmacologia e toxicologia Debbie Hay, da Universidade de Otago em Dunedin, na Nova Zelândia.

Pessoalmente, sempre me perguntei se o perfume seria responsável por causar meus ataques de enxaqueca. Mas eu uso perfume todos os dias e percebo que só observo seu odor o suficiente para tentar culpá-lo quando, de fato, tenho um ataque de enxaqueca. Se eu não sofrer a dor, não costumo me concentrar muito no meu cheiro.

"Bem, este é um exemplo clássico e a atribuição da causa, provavelmente, está errada", explica o professor de neurologia Peter Goadsby, do King's College de Londres. "E se, durante a fase premonitória de um ataque, você for sensível ao odor? Você irá sentir cheiros que normalmente não perceberia."

Goadsby analisou imagens do cérebro de pacientes de enxaqueca que acreditam que a luz causa seus ataques. Ele as comparou com pacientes que não costumam culpar a luz pelo início das dores. Os primeiros apresentaram hiperatividade na parte do cérebro responsável pela visão pouco antes da enxaqueca. Isso sugere que, naquele momento, eles foram biologicamente incentivados a serem mais sensíveis à luz do que o outro grupo. "Inquestionavelmente, algo acontece em nível biológico", explica Goadsby. Mas a longa busca para descobrir qual seria aquele mecanismo biológico ainda não chegou a uma conclusão.

<><> A origem genética da enxaqueca

Estudos com gêmeos demonstram que existe um forte componente genético. E, se seus pais ou avós sofrem de enxaqueca, é mais provável que você herde a condição neurológica, estatisticamente falando. Aparentemente, os genes hereditários são responsáveis por cerca de 30 a 60% das pessoas que sofrem de enxaqueca. Os demais casos surgem de outros fatores externos cumulativos, como histórico de vida, fatores ambientais e comportamentais, segundo o geneticista Dale Nyholt, da Universidade de Tecnologia de Queensland, na Austrália. Nyholt pesquisa milhares de pessoas para descobrir precisamente quais genes saem de controle. Mas sua busca tem sido "mais complexa que o idealmente esperado", afirma ele.

Em 2022, Nyholt examinou os genes de 100 mil pacientes que sofrem de enxaqueca e os comparou com 770 mil pessoas que não têm a condição. Ele identificou 123 "polimorfismos de risco", que são minúsculas diferenças no código do DNA humano, associadas à enxaqueca. Agora, ele está conduzindo outro exame com 300 mil pacientes, na esperança de descobrir mais. Ele calcula que "provavelmente existam milhares deles". Mas a análise de Nyholt já revelou que alguns dos marcadores genéticos envolvidos na enxaqueca aparentemente apresentam correlação próxima com a depressão e o diabetes, além do tamanho de diferentes estruturas do cérebro.

Ele suspeita que exista uma "constelação" de formas em que esses mesmos conjuntos genéticos podem causar diferentes condições no mundo real, devido à forma em que elas afetam o cérebro. Ainda assim, a equipe não conseguiu definir, até agora, nenhum dos genes específicos em jogo, o que poderia ajudar na produção de medicamentos.

<><> Sangue vs. cérebro

Devido à natureza pulsante da dor de cabeça de muitas pessoas, costumavam ficar entre os principais suspeitos dos ataques de enxaqueca os vasos sanguíneos que levam para a abertura cerebral, causando um fluxo de entrada de sangue. Mas os cientistas nunca conseguiram encontrar uma correlação conclusiva entre o fluxo sanguíneo e o início da enxaqueca. "Não pode ser algo tão simples, como 'o vaso sanguíneo faz X'", explica Dussor. "Você pode administrar a cada ser humano na Terra uma droga que cause a dilatação dos vasos sanguíneos e nem todos terão ataques de enxaqueca."

Isso não significa que os vasos sanguíneos não tenham nenhuma relação com o transtorno. Muitos dos genes de risco descobertos por Nyholt, no teste genético das origens da condição, são genes que ajudam a regular as veias. Os vasos sanguíneos, de fato, se dilatam de maneira anormal durante os ataques de enxaqueca e podem realmente ser contraídos com medicamentos para ajudar a diminuir a dor. Ou seja, embora certamente estejam envolvidos nos ataques, os vasos sanguíneos talvez não sejam a sua causa.

Seus efeitos sobre a enxaqueca podem se dever a outros fatores ocultos, como a liberação anômala de moléculas causadoras de dores nas paredes das veias ou outros sinais enviados das veias para o cérebro, segundo Dussor. Ou sua dilatação pode ser simplesmente um sintoma da enxaqueca, não a sua causa. "A enxaqueca fica na fronteira entre o que as pessoas chamam de neurologia e psiquiatria", segundo Goadsby. Os cientistas da sua escola de pensamento encontram correlações entre a enxaqueca e condições como convulsões, epilepsia ou AVC. "O desafio com tudo o que realmente envolve o sistema nervoso central é separar as suas partes", explica Goadsby, dos blocos de construção celular do cérebro, sua estrutura e até como a eletricidade corre através dos neurônios.

<><> Construindo ondas cerebrais

A principal teoria entre os cientistas que estudam o papel do cérebro na enxaqueca é que o ataque é uma onda elétrica lenta e anormal, que se espalha através do córtex cerebral, conhecida como depressão cortical alastrante (CSD, na sigla em inglês). Esta onda suprime a atividade cerebral e faz disparar os nervos próximos que causam a dor, fazendo soar o alarme e gerando inflamações.

A depressão cortical alastrante, basicamente, "lança todo tipo de moléculas ruins para o cérebro", explica o professor de neurologia Michael Moskowitz, da Faculdade de Medicina Harvard em Cambridge, no Estado americano de Massachusetts. Mas o que desencadeia esta onda nociva? Para onde ela se espalha? E como essa onda elétrica gera tantos sintomas? São questões ainda difíceis de responder.

Em março de 2025, cientistas capturaram a onda em tempo real, enquanto monitoravam o cérebro de uma paciente de 32 anos, sendo preparada para cirurgia. Eles captaram a onda através de 95 eletrodos inseridos no seu crânio. Ela se espalhou a partir do seu córtex visual, o que explica por que algumas pessoas apresentam sensibilidade à luz e visões de auras, segundo Moskowitz. Dali, ela atravessou todo o cérebro por mais 80 minutos.

A variação da natureza da onda ajuda a explicar por que algumas pessoas veem apenas uma aura, outras veem uma aura antes da dor de cabeça e há um grupo que tem dor de cabeça antes da aura, segundo Moskowitz. Tudo depende dos padrões da onda. Mas a depressão cortical alastrante também explica outros sintomas neurológicos que surgem durante um ataque de enxaqueca, como a fadiga, bocejos, nevoeiro cerebral e vontade de comer alimentos específicos.

Outro estudo envolvendo uma única paciente também indicou que o hipotálamo — uma pequena região profunda no interior do cérebro — fica estranhamente ativado um dia antes de um ataque de enxaqueca. O hipotálamo também está envolvido na reação ao estresse e no ciclo de sono e vigília, que são gatilhos comuns para a enxaqueca. Mas são necessários estudos maiores para entender o que acontece. O fundamental é que nem o córtex visual, nem o hipotálamo, são o local da dor da enxaqueca.

A dor de cabeça ocorre nas fibras nervosas das meninges, aquela membrana externa do cérebro, espessa e gelatinosa, com três camadas. E também através de um feixe nervoso espesso chamado gânglio trigeminal, que conecta as meninges a estímulos do rosto, do couro cabeludo e dos olhos. Isso explica por que sinto meus ataques de enxaqueca atrás da órbita do olho, até a mandíbula. Por isso, alguns cientistas acreditam que esta bolsa pegajosa em volta do cérebro pode ser a chave para podermos entender a enxaqueca.

<><> Conheça as meninges

As meninges são repletas de células imunológicas, que servem para proteger o cérebro. E, quando estão excitadas, elas liberam moléculas que podem causar inflamações que podem afetar os neurônios no outro lado das meninges. Dussor e outros pesquisadores levantam a hipótese de que a reação hiperativa dessas células imunológicas pode ativar a enxaqueca. Isso poderá explicar por que os ataques da condição parecem ser estatisticamente mais comuns em pessoas com rinite alérgica e febre do feno, além da maior incidência da enxaqueca, empiricamente falando, durante a temporada das alergias. Os alérgenos, como o pólen, podem acionar essas células imunológicas. Existem outros sinais de que as meninges podem ser a ligação vital entre os gatilhos ambientais e o que acontece no cérebro.

Espalhadas ao longo dessa membrana, encontram-se estruturas capazes de detectar alterações da acidez. Elas podem ser causadas por flutuações fisiológicas, inflamações em volta do cérebro ou ondas elétricas nocivas que suprimem a atividade cerebral. Quando essas estruturas detectam que as meninges ficam mais ácidas, elas enviam sinais elétricos para disparar as fibras da dor envolvidas em ataques de enxaqueca.

Outras partes das meninges reagem ao frio e ao calor de forma similar. Isso pode ajudar a explicar por que alguns pacientes conseguem alívio das dores de cabeça com compressas de gelo ou almofadas quentes. Também se costuma responsabilizar as flutuações hormonais. Muitas pacientes relatam ataques de enxaqueca no início do seu ciclo menstrual e pesquisas demonstram que uma família de moléculas conhecida como prostaglandinas pode trazer efeitos significativos para a dilatação dos vasos sanguíneos do cérebro.

<><> O coquetel de moléculas da enxaqueca

Todos esses fatores provavelmente atuam de forma interligada. "Acho que, em última análise, pode haver um denominador comum, mas existem diversos caminhos para a enxaqueca", explica Amynah Pradhan, diretora do Centro de Farmacologia Clínica da Universidade Washington em Saint Louis, nos Estados Unidos. "Talvez ainda mais do que isso, penso em um indivíduo. Existem diversas formas de enxaqueca e, em todas elas, há um coquetel de coisas acontecendo." Ainda assim, a busca de um bioindicador molecular objetivo padrão do que torna o cérebro suscetível à enxaqueca permanece. E uma das descobertas mais significativas dos últimos anos veio da busca dessa molécula.

Pesquisadores identificaram níveis incomumente altos de um tipo de neuromodulador chamado peptídeo relativo ao gene calcitonina (CGRP, na sigla em inglês). Esta pequena proteína age como reguladora da atividade neuronal e da sensibilidade, para cima ou para baixo. Durante um ataque de enxaqueca, parece haver níveis mais altos desta substância. Mas este nível também parece ser mais alto em pessoas que sofrem da condição, mesmo quando não estão tendo o ataque, segundo as pesquisas de Goadsby e sua equipe. Esta descoberta levou à criação de novos medicamentos no mercado, dirigidos aos CGRPs, seja para impedir o ataque logo no seu início ou como prevenção. Este avanço farmacêutico já trouxe alívio das dores para uma vasta população de pacientes, o que era impossível com outras intervenções. Um estudo de outubro de 2025, envolvendo mais de 570 pacientes com CGRP por um ano, demonstrou que 70% deles atingiram redução de 75% da frequência dos seus ataques de enxaqueca, enquanto 23% ficaram totalmente livres da condição.

<><> 'Raspando a superfície'

"Seria ótimo se pudéssemos encontrar um marcador molecular para a enxaqueca, especialmente no início do tratamento, quando queremos descobrir qual paciente reage e qual não reage a ele", explica Teshamae Monteith.

Mas, ainda assim, os exames de sangue que avaliam os picos de CGRP refletem principalmente os mecanismos periféricos do cérebro, segundo Amynah Pradhan. Ninguém sabe ao certo por que os CGRPs se acumulam em tanta quantidade na região do cérebro durante o ataque.

Eles provavelmente ainda são pequenas peças de um grande quebra-cabeça, especialmente porque a enxaqueca é cada vez mais considerada uma condição crônica, em forma de espectro, que afeta todo o corpo. "Acho que existem muitas oportunidades para que as pessoas se aprofundem um pouco mais", segundo Pradhan.

Esta posição parece um tanto desanimadora e não diminui minha dor de cabeça quando chega o ataque semanal. Mas também me sinto empoderada ao saber que a ciência está lentamente desvendando os mistérios da enxaqueca. Embora não haja uma resposta única para todas as pessoas, podem vir a surgir diversas opções de solução. "Estamos apenas raspando a superfície do que acontece com a enxaqueca", conclui Pradhan.

 

Fonte: BBC Future

 

Fascismo, totalitarismo e a classe trabalhadora sob o olhar da História

O século XX legou à humanidade um conjunto de experiências políticas que desafiaram – e continuam desafiando – as categorias analíticas tradicionais das ciências humanas. O fascismo e o totalitarismo, fenômenos que marcaram profundamente o período entre as duas guerras mundiais e cujas reverberações ainda se fazem sentir na contemporaneidade, constituem objetos de investigação que exigem abordagens historiográficas capazes de articular estruturas econômicas, dinâmicas políticas e experiências vividas pelos sujeitos históricos

A historiografia sobre o fascismo e o totalitarismo constituiu-se, ao longo do século XX, como um campo de intensos debates teóricos e metodológicos. Eric Hobsbawm, em sua obra Era dos Extremos (1994), caracterizou o período de 1914 a 1945 como a “Era das Catástrofes”, inserindo o totalitarismo não como anomalia histórica, mas como resposta política extrema à crise estrutural do capitalismo liberal deflagrada pela Primeira Guerra Mundial e pela Grande Depressão. Essa interpretação, ancorada no materialismo histórico, compreende os regimes fascistas como expressões das contradições internas do sistema capitalista em momentos de crise hegemônica.

Contrapondo-se parcialmente a essa leitura estrutural, Hannah Arendt, em Origens do Totalitarismo (1951), propôs uma interpretação que enfatiza a novidade qualitativa dos regimes nazista e stalinista. Para Arendt, o totalitarismo representou uma tentativa de transformação total da natureza humana e da realidade social, dissolvendo as fronteiras tradicionais entre Estado e sociedade civil. O terror sistemático e a ideologia totalizante emergem, nessa perspectiva, como elementos constitutivos de uma forma política sem precedentes na história.

A contribuição de Enzo Traverso, desenvolvida em obras como A Violência Nazista: uma genealogia europeia (2002) e À Fogo e Sangue (2007), introduz uma dimensão frequentemente negligenciada: a genealogia colonial da violência totalitária. Traverso conecta o genocídio nazista à história da violência moderna europeia, argumentando que as tecnologias de extermínio foram desenvolvidas e aplicadas previamente no contexto colonial. A violência colonial, nesse sentido, emerge como laboratório das práticas que seriam posteriormente aplicadas em território europeu.

Os sistemas coloniais, em sua implementação, assentavam-se em filosofias que tinham como objetivo primordial rentabilizar ao máximo as colônias em benefício exclusivo da economia metropolitana. Essa perspectiva permite compreender como práticas de dominação, desumanização e extermínio foram paulatinamente desenvolvidas nas periferias do sistema capitalista mundial antes de serem reimportadas para o centro europeu.

Robert O. Paxton, em A Anatomia do Fascismo (2004), oferece uma abordagem que privilegia as práticas concretas em detrimento das formulações ideológicas abstratas. Para Paxton, o fascismo deve ser definido por suas ações – a mobilização de massas, o culto à violência, as alianças políticas com elites conservadoras (industriais, militares) – e não por suas justificativas teóricas.

<><> Classes, Estado e exceção: a tradição marxista em debate

A tradição marxista produziu algumas das análises mais influentes sobre o fenômeno fascista, embora com divergências significativas quanto às mediações entre economia, política e cultura. Daniel Guérin, em Fascismo e Grande Capital (1936), desenvolveu uma interpretação que enfatiza a funcionalidade econômica do fascismo para a estabilização da acumulação capitalista em crise. Para Guérin, o fascismo constitui uma ditadura terrorista do grande capital contra o movimento operário, evidenciando a aliança estrutural entre as frações monopolistas da burguesia e os movimentos de extrema-direita. Essa leitura, produzida ainda no calor dos acontecimentos, permanece como referência fundamental para a compreensão das bases materiais do fenômeno.

Nicos Poulantzas, em Fascismo e Ditadura (1970), aprofundou a análise marxista ao propor o conceito de “Estado capitalista de exceção”. Para Poulantzas, o fascismo emerge em conjunturas de crise de hegemonia, quando a burguesia não consegue mais governar através das formas democráticas tradicionais e necessita recorrer à coerção extrema. Essa formulação permite compreender o fascismo não como simples instrumento da classe dominante, mas como forma específica de Estado que responde a contradições particulares do bloco no poder.

A historiografia de Hobsbawm, como demonstrou Michael Löwy, integra a riqueza da subjetividade sociocultural em sua análise dos acontecimentos históricos. Os fenômenos não são percebidos simplesmente como produtos do jogo “objetivo” das forças econômicas ou políticas, mas como processos mediados por crenças, sentimentos e emoções.

A questão da base social do fascismo permanece central para qualquer análise histórica consequente. O debate clássico sobre o papel das classes médias – enfatizado por autores como Wilhelm Reich e retomado por estudos contemporâneos. O fascismo histórico mobilizou amplos setores das classes médias, mas também encontrou apoio em frações da própria classe trabalhadora. Compreender essa aparente contradição exige uma análise que vá além das determinações estruturais e investigue as mediações culturais, ideológicas e organizativas que permitiram a construção de consensos em torno de projetos autoritários.

<><> Considerações finais: da análise histórica às questões contemporâneas

A análise histórica do fascismo e do totalitarismo não constitui exercício meramente acadêmico, desvinculado das urgências do presente. Os debates teóricos travados ao longo do século XX oferecem ferramentas conceituais indispensáveis para compreender fenômenos contemporâneos que, embora distintos em suas manifestações concretas, guardam afinidades estruturais com as experiências históricas do entreguerras. A ascensão de movimentos de extrema-direita em diferentes países, a erosão de instituições democráticas e a disseminação de discursos autoritários exigem uma historiografia capaz de articular a análise das estruturas com a compreensão das experiências vividas pelos sujeitos sociais.

A perspectiva da “história desde baixo” revela-se particularmente fecunda para esse esforço analítico. Ao colocar no centro da investigação as experiências dos trabalhadores e das classes subalternas, essa abordagem permite superar tanto os determinismos economicistas quanto as análises puramente ideológicas do fenômeno fascista. O fascismo não se impôs apenas pela força – embora a violência tenha sido elemento constitutivo – mas também através da construção de consensos, da mobilização de ressentimentos e da oferta de respostas (ainda que ilusórias) para crises reais vivenciadas por amplos setores da população.

O diálogo entre as diferentes tradições interpretativas – a filosofia política arendtiana, a história social britânica, o marxismo estruturalista, a genealogia da violência colonial – não deve ser pensado como ecletismo teórico, mas como esforço de construção de uma análise multidimensional que faça justiça à complexidade do fenômeno. Cada perspectiva ilumina aspectos específicos: as transformações na natureza do poder político, as experiências subjetivas do terror, as determinações econômicas, as continuidades coloniais. A articulação crítica dessas contribuições permite uma compreensão mais adequada do que foi – e do que pode voltar a ser – o fascismo.

A compreensão histórica dos fenômenos autoritários exige, portanto, uma atenção especial às condições materiais que possibilitam sua emergência. Crises econômicas profundas, desemprego massivo, desorganização das formas tradicionais de solidariedade de classe, fragmentação das experiências de trabalho – todos esses elementos criam um terreno fértil para a disseminação de ideologias que prometem restaurar uma ordem perdida. Não se trata, contudo, de relação mecânica: as mesmas condições objetivas podem gerar respostas políticas distintas, dependendo das mediações organizativas, culturais e ideológicas que se interpõem entre a estrutura e a ação.

A violência constitui elemento central de qualquer análise consistente do fascismo e do totalitarismo. Não se trata apenas da violência física – embora esta seja constitutiva – mas também das formas mais sutis de coerção: a vigilância permanente, a destruição dos espaços de autonomia, a imposição de uma conformidade total. A experiência do terror transforma profundamente as relações sociais, atomizando os indivíduos e destruindo os laços de confiança que sustentam qualquer forma de resistência coletiva. Compreender essa dimensão experiencial da dominação totalitária é fundamental para não reduzir o fenômeno às suas determinações estruturais.

A memória histórica dos regimes autoritários permanece, ainda hoje, como campo de disputas políticas. As formas pelas quais sociedades contemporâneas elaboram – ou recusam elaborar – seu passado fascista ou ditatorial têm consequências diretas sobre a capacidade de reconhecer e resistir a manifestações atuais do autoritarismo. O silenciamento da violência colonial, a relativização dos crimes perpetrados por regimes de exceção, a nostalgia de supostas “ordens” perdidas: todos esses elementos participam de uma cultura política que facilita a emergência de novos autoritarismos. A história, nesse sentido, não é apenas disciplina acadêmica, mas também instrumento de luta política.

A classe trabalhadora ocupa posição central em qualquer análise consequente do fascismo. Seja como alvo privilegiado da repressão – sindicatos, partidos operários, organizações de classe foram sistematicamente destruídos pelos regimes fascistas –, seja como base social parcialmente mobilizada para o projeto autoritário, os trabalhadores constituem sujeitos históricos cuja experiência não pode ser ignorada. A pergunta sobre por que frações da classe trabalhadora aderiram ao fascismo – e por que outras resistiram – permanece fundamental para compreender tanto o passado quanto os riscos do presente.

As resistências ao fascismo – cotidianas e extraordinárias, individuais e coletivas, organizadas e espontâneas – constituem dimensão frequentemente negligenciada da historiografia tradicional.

O estudo histórico do fascismo e do totalitarismo, em última análise, não é exercício contemplativo sobre um passado encerrado, mas ferramenta para a compreensão crítica do presente e a construção de futuros possíveis. As lições da história não se apresentam como receitas prontas, mas como advertências e inspirações: advertências sobre as consequências catastróficas de determinadas configurações políticas; inspirações a partir das experiências de luta e resistência que, mesmo derrotadas, demonstram que outras formas de organização social são possíveis. A tarefa do historiador, nesse sentido, é também tarefa política: contra a naturalização do existente, reafirmar que a história é feita por sujeitos concretos, em condições determinadas, e que seu curso não está predeterminado por nenhuma lei inexorável.

¨      O pensamento autoritário é binário. Por Mauricio Rands

Todo pensamento autoritário é binário. Durante a ditadura, no colégio São Luís, eu não entendia a música que tocava no recreio: Brasil, ame-o ou deixe-o. Perguntava-me por que deveríamos sair do país se não o amássemos. Parecia-me que amar era algo que devíamos consagrar aos nossos pais e à menina que mal olhava para nós. Depois, vendo um “abaixo a ditadura” num muro, perguntei a papai: “ditadura não havia apenas na Uganda de Idi Amin Dada?”

Hoje, uns amam, outros odeiam o STF. Detestam-no todos os que não gostam dos indígenas, dos gays, da igualdade racial e do empoderamento feminino. Também os que adoram arminhas ou acham que a ultradireita nunca tramou uma intervenção militar. Amam o Supremo os que perderam as esperanças de avanço social nos costumes diante de um Congresso Nacional retrógrado, assim como os que reconhecem o papel do STF na preservação de uma democracia que esteve ameaçada por gente que chegou ao poder graças a ela.

A semana foi pródiga em desmentir a lógica do amor ou ódio. O ministro Fachin atraiu elogios ao anunciar que vai promover um código de conduta para os seus colegas, informado que deve estar sobre o que fizeram os seus pares no verão passado. O ministro Flávio Dino autorizou o avanço das investigações contra parlamentares corruptos, vendedores de emendas que sequestraram o orçamento federal. Determinou operação na principal assessora de Arthur Lira, o poderoso ex-presidente que hoje opera nas sombras. Mas foi esse mesmo tribunal que envergonhou o país ao ver um de seus ex-presidentes, o ministro Toffoli, viajando num jatinho para ver o jogo do Palmeiras com um advogado sócio do Banco Master. Para logo depois aceitar a competência do STF para o caso e decretar o sigilo máximo no processo. Mas foi mera coincidência. Só falaram dos infortúnios do amado Palestra Itália.

A opinião pública não ficou menos irritada ao saber que Viviane Moraes e os filhos do ministro Alexandre Moraes tinham um contratinho de R$ 3,6 milhões mensais com o mesmo Banco Master que acabara de surrupiar dezenas de bilhões dos fundos de aposentadoria dos servidores do Rio, DF, Amapá e Maceió. A lista de desvios é longa. A justa indignação cidadã contra esses abusos de ministros do STF é dupla. Primeiro, pela imoralidade em si. Depois, porque a má conduta de seus membros enfraquece a legitimidade das suas decisões. E isso debilita a punição à corrupção, ao golpismo e aos abusos do pior Congresso Nacional da história.

Mas a realidade não é binária. Nem toda instituição é sempre certa ou errada. Justa ou injusta. Honesta ou desonesta. Na mesma semana, o mesmo ministro da competente família de advogados brinda o país com uma decisão irretorquível. Depois do vexame da Câmara ao aprovar uma anistia parcial disfarçada de “PL da dosimetria” e depois de a Câmara manter o mandato de uma nobre deputada foragida, em desobediência à decisão expressa da instituição que a Constituição mandou falar por último em questões constitucionais.

Alguns se apressaram a enxergar um inexistente erro técnico na decisão do ministro Alexandre Moraes. A Câmara estaria certa porque a condenação de Carla Zambelli teria mesmo que ser apreciada pelo plenário, pois a hipótese do inciso VI do art. 55 da CF (“perderá o mandato o deputado ou senador que sofrer condenação criminal em sentença transitada em julgado”) deveria estar submetida ao procedimento do § 2º do mesmo artigo, ou seja, à decisão por maioria absoluta do plenário da Casa. Não viram os apressados que a condenação da deputada pelo STF na AP 2428, transitada em julgado, foi expressa ao determinar a perda do mandato com base no § 3º do referido dispositivo da CF. Sim, nessa decisão a deputada também foi condenada com base no inciso IV do art. 55, que prevê a suspensão dos direitos políticos. Ou seja, a decisão do STF, que deve ser cumprida por força da Constituição, foi clara ao determinar que a Mesa da Câmara (e não o plenário) deveria praticar o ato declaratório vinculado de perda do mandato da parlamentar.

Quando o presidente e o plenário da Câmara deliberaram pela manutenção do mandato de Carla Zambelli, descumpriram a decisão definitiva do STF e, portanto, violaram a CF. Quando o ministro Alexandre Moraes decidiu anular a deliberação inconstitucional, ele estava tecnicamente correto. Afinal, todos devem obediência à decisão definitiva da Corte Suprema. Se o Poder Legislativo a descumpre, quem mais também não vai querer descumprir as decisões judiciais?

A mão que afaga é a mesma mão que apedreja, como disse o poeta Augusto dos Anjos. Numa mesma semana, o STF acertou e errou em diferentes deliberações, provando que a realidade institucional não é binária. Que a democracia é complexa. Suas instituições erram e acertam. Não são perfeitas ou imperfeitas sempre. O tudo ou nada se coaduna mais com o pensamento autoritário e antidemocrático.

 

Fonte: Por Erik Chiconelli Gomes, no Le Monde/Brasil 247