terça-feira, 15 de setembro de 2026

O pecado capital do poder

Em 1975, Janete Clair entregou ao Brasil uma novela sobre dinheiro, consciência e autoengano. Em Pecado Capital, exibida pela Globo entre 24 de novembro de 1975 e 5 de junho de 1976, assaltantes esquecem no táxi de Carlão uma mala contendo 800 mil cruzeiros. O motorista interpretado por Francisco Cuoco sabe que o dinheiro não lhe pertence. Ainda assim, decide conservá-lo, compra automóveis, monta uma frota e passa a ser chamado de Rei do Méier. A mala não resolve sua vida: oferece-lhe poder suficiente para que ele revele quem escolheu ser.

Aí reside a diferença entre ter e ser. Ter é necessário: significa alimentar a família, morar com dignidade, estudar, viajar, cuidar da saúde e não depender da caridade alheia. A pobreza involuntária não enobrece ninguém; restringe escolhas, produz sofrimento e pode esmagar talentos. O problema começa quando aquilo que se tem deixa de servir ao que se é. Nesse momento, patrimônio, saldo bancário e posição social ocupam o lugar do caráter. O indivíduo já não quer possuir coisas para viver melhor. Precisa exibi-las para convencer os outros — e talvez a si mesmo — de que vale mais.

O ter também pode ampliar o ser. Recursos empregados em educação, cultura, cuidado, ciência ou solidariedade aumentam a autonomia e permitem que capacidades humanas se realizem. Mas a relação se inverte quando a pessoa passa a extrair dos bens sua identidade, seu prestígio e a sensação de superioridade. Quem possui sem se deixar possuir conserva a liberdade; quem precisa acumular para existir torna-se dependente do patrimônio. A conta bancária cresce enquanto a individualidade se reduz ao saldo.

Carlão não se transforma subitamente em outro homem ao encontrar a mala. O dinheiro apenas remove limitações externas que continham suas inclinações. Com recursos para agir, ele passa a fabricar justificativas: sofreu muito, trabalhou demais, foi desprezado, merece uma oportunidade. O erro é convertido em reparação pessoal. O dinheiro roubado compra táxis legais, prestígio comunitário e identidade empresarial. A ilegalidade inicial recebe documentos, aparência de sucesso e aprovação social. Janete Clair percebeu algo que permanece atual: a riqueza pode esconder a origem da fortuna, mas não consegue alterá-la.

A quantia encontrada era imensa. Em maio de 1975, o salário mínimo valia Cr$ 532,80. Os Cr$ 800 mil representavam aproximadamente 1.502 salários mínimos. Pelo mesmo critério, considerando o mínimo de R$ 1.621 vigente em 2026, corresponderiam hoje a cerca de R$ 2,43 milhões. Não é simples conversão nominal — o Brasil atravessou seis mudanças de moeda no período —, mas uma medida de poder econômico. Carlão não encontrou recursos para pagar algumas contas. Encontrou dinheiro capaz de modificar seu lugar na sociedade.

É exatamente isso que Paulinho da Viola compreendeu ao compor, em cerca de 24 horas, a canção encomendada para a abertura. “Dinheiro na mão é vendaval” não condena a riqueza em si. A composição apresenta o dinheiro como solução, movimento e solidão. A mesma quantia que liberta uma pessoa de necessidades concretas pode aprisioná-la à obrigação de acumular, aparentar e dominar. Ao situar o vendaval “na vida de um sonhador”, Paulinho identifica o ponto vulnerável: o desejo sem medida.

Carlão poderia devolver a mala no primeiro dia. Não o faz porque começa a imaginar o homem que será com aquele dinheiro. Quando finalmente decide entregá-la à polícia, já está cercado pelas consequências de suas escolhas e é morto a tiros. Seu erro não foi desejar uma vida melhor. Foi aceitar que um crime pudesse constituir o alicerce dessa vida. O dinheiro lhe proporcionou bens, mas cobrou o controle de sua consciência.

<><> O anel que possui

Aristóteles distinguia a riqueza voltada às necessidades da acumulação transformada em finalidade absoluta. A primeira sustenta a casa e a comunidade; a segunda desconhece limite, porque o dinheiro passa a gerar o desejo de mais dinheiro. Epicuro chegou ao mesmo problema por outro caminho: rico não é quem possui infinitamente, mas quem consegue estabelecer uma medida para seus desejos. Aquele que jamais pronuncia a palavra “basta” continuará carente mesmo cercado de milhões.

No século XIX, Karl Marx analisou a capacidade do dinheiro de converter qualidades, relações e prestígio em mercadorias. Quem acumula capital suficiente pode acreditar que também comprará acesso, reconhecimento, silêncio, proteção e influência. No século XX, Zygmunt Bauman mostrou que a sociedade de consumo depende da insatisfação permanente. O desejo atendido precisa ser substituído por outro, pois uma pessoa satisfeita consome menos e se deixa conduzir com maior dificuldade.

O mito germânico e nórdico reelaborado por Richard Wagner em O Anel do Nibelungo oferece uma explicação ainda mais pedagógica. Alberich rouba o ouro do Reno e forja um anel que concede poder sobre o mundo. Para conquistá-lo, renuncia ao amor. Essa condição não é um detalhe fantástico: contém o fundamento moral da narrativa. A dominação absoluta exige que o outro deixe de ser reconhecido como pessoa e seja reduzido a instrumento.

Depois do roubo, deuses, gigantes e homens mentem, traem e matam para possuir o anel. Cada novo dono acredita controlar o objeto, quando já está controlado pelo desejo de conservá-lo. O anel concede poder e, simultaneamente, instala o medo de perdê-lo. A riqueza sem limite produz contradição semelhante: quanto mais se acumula, maior se torna a insegurança diante de qualquer redução. O proprietário passa os dias protegendo aquilo que deveria proporcionar-lhe tranquilidade.

A maldição, portanto, não está no ouro, no dinheiro ou na propriedade. Está na decisão de sacrificar vínculos humanos em troca de domínio. Alberich renuncia ao amor; Carlão compromete a consciência; certos milionários sacrificam reputação, relações e liberdade tentando acrescentar mais cifras a fortunas suficientes para várias gerações. Não acumulam porque precisam. Acumulam porque confundiram patrimônio com identidade e influência com grandeza.

<><> Um senador ao telefone

Cinquenta anos depois do último capítulo de Pecado Capital, a mala não precisaria ocupar o banco traseiro de um táxi. Poderia atravessar fundos de investimento, empresas de participação, escritórios, contratos de consultoria, estruturas no exterior e operações apresentadas como negócios privados. O elenco incluiria ministros do STF, senadores, um presidenciável, dirigentes do Banco Central e banqueiros interessados em circular perto de quem fiscaliza, legisla e julga.

Em 13 de maio de 2026, o Intercept Brasil divulgou mensagens e áudios da negociação conduzida por Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro para financiar Dark Horse, cinebiografia de Jair Bolsonaro. O acerto previa US$ 24 milhões, equivalentes então a aproximadamente R$ 134 milhões. Documentos indicaram que pelo menos US$ 10,6 milhões — cerca de R$ 61 milhões — foram enviados aos Estados Unidos, entre fevereiro e maio de 2025, por meio de seis operações destinadas ao fundo Havengate, sediado no Texas. Relatório posterior do Coaf apontou novo repasse e elevou o total atribuído a Vorcaro para mais de US$ 12,3 milhões, cerca de R$ 63,7 milhões.

A aproximação começou a aparecer nos registros em dezembro de 2024. Em 8 de setembro de 2025, cinco dias depois de o Banco Central rejeitar a venda do Master ao BRB, Flávio enviou áudio cobrando os pagamentos restantes. Falou sobre o risco de não pagar o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh e advertiu que a produção não poderia vacilar nem deixar de honrar os compromissos. Em 7 de novembro, agradeceu a Vorcaro, afirmando que o filme somente estava sendo possível por causa dele.

O registro mais revelador é uma mensagem de 16 de novembro de 2025. Flávio escreveu: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”. Pediu que Vorcaro lhe desse “uma luz”. No dia seguinte, o banqueiro foi preso no aeroporto de Guarulhos. Em 18 de novembro, o Banco Central liquidou o Master. Quando foi solto pelo Tribunal Regional Federal da 1ª Região, em 28 de novembro, Vorcaro passou a cumprir medidas cautelares, entre elas o uso de tornozeleira eletrônica.

O problema não está em um senador chamar um banqueiro de “irmão”. Relações pessoais não constituem crime. A gravidade está no contexto, na dependência financeira e na promessa de fidelidade. Quando escreveu a mensagem, Flávio falava com o controlador de um banco já submetido a investigação, cuja situação financeira havia provocado uma intervenção de enorme interesse público. E falava como alguém que dependia dele para concluir um projeto de promoção familiar financiado com dezenas de milhões de reais.

Uma autoridade se apequena não pela palavra usada, mas quando transforma lealdade pessoal a um financiador sob investigação em compromisso aparentemente superior à prudência exigida pelo mandato. Um senador representa um estado, participa da elaboração das leis e fiscaliza o Executivo. Pode ter amigos e conversar informalmente com eles. O que não pode é permitir que amizade, dinheiro, gratidão e interesse eleitoral se tornem indistinguíveis. O mandato não pertence ao ocupante; pertence à República.

A situação se torna ainda mais séria porque Dark Horse não era um projeto cultural neutro. Tratava-se de uma produção destinada a exaltar Jair Bolsonaro, interpretado por Jim Caviezel, e apresentar sua trajetória segundo a narrativa construída por seus aliados. O lançamento fora anunciado para 11 de setembro de 2026, apenas 23 dias antes do primeiro turno da eleição presidencial, marcado para 4 de outubro.

Os beneficiários políticos não eram desconhecidos. Seriam Jair Bolsonaro, convertido em personagem heróico, e, por extensão direta, seu filho Flávio, candidato à Presidência e herdeiro eleitoral do mesmo sobrenome. Um filme com orçamento milionário, financiado por um banqueiro e lançado durante a campanha, poderia funcionar como propaganda política de longa duração, aparência cinematográfica e alcance internacional. Não seria necessário formular um pedido explícito de voto. Bastaria reconstruir a imagem do pai para fortalecer eleitoralmente o filho.

A investigação também procura determinar se valores formalmente destinados à produção custearam despesas relacionadas a Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. Eduardo morava no Texas e exercia poder sobre o dinheiro como produtor-executivo. As suspeitas incluem lavagem de dinheiro, evasão de divisas e ocultação de beneficiários. Não existe condenação, mas a pergunta permanece: que interesse econômico justificaria a um banqueiro financiar, em escala milionária, a construção cinematográfica da imagem de um ex-presidente cuja família continuava disputando o poder?

Há um elemento adicional que torna a operação ainda menos explicável como patrocínio comercial comum. A Polícia Federal apura informações segundo as quais Vorcaro teria pedido que nem seu nome nem o do Banco Master aparecessem nos créditos de Dark Horse. A suspeita precisa ser confirmada por documentos e depoimentos, mas contraria a lógica elementar do patrocínio. Quem investe dezenas de milhões numa produção comercial normalmente exige visibilidade, associação da marca ao elenco e reconhecimento público. Não solicita o próprio desaparecimento.

Se o financiador oferece o dinheiro, acompanha os pagamentos e, ao mesmo tempo, procura ocultar sua participação, é legítimo perguntar qual contrapartida esperava obter fora da tela. Patrocínio secreto não produz publicidade; produz dívida. E uma dívida de gratidão envolvendo banqueiro, senador, presidenciável e cinebiografia eleitoralmente conveniente pode valer muito mais do que alguns segundos nos créditos finais. Nesse ponto, Dark Horse deixa de parecer apenas uma produção mal explicada e passa a reunir indícios de interesses escusos, possíveis operações criminosas e objetivos políticos que seus participantes ainda não esclareceram satisfatoriamente.

<><> O dinheiro dos aposentados

É igualmente insuficiente classificar toda essa movimentação como “dinheiro privado”. Tecnicamente, recursos captados pelo Master junto a investidores particulares não se tornam públicos apenas por circularem no mercado financeiro. Mas parte relevante do dinheiro aplicado em ativos ligados ao banco veio de regimes próprios de previdência e de empresas estatais. São recursos destinados a garantir aposentadorias e pensões. Seus administradores não podem tratá-los como capital disponível para apostas políticas, remunerações ocultas ou investimentos sem segurança.

O Rioprevidência aplicou cerca de R$ 2,6 bilhões em fundos e operações ligados ao grupo Master, segundo dados divulgados pelo RJ1. O Tribunal de Contas do Estado apontou riscos para aposentados e pensionistas. No Amapá, a Amapá Previdência investiu aproximadamente R$ 400 milhões em ativos do banco. Somados, apenas esses dois casos alcançam R$ 3 bilhões pertencentes a estruturas previdenciárias que sustentam servidores depois de décadas de trabalho.

Quando um fundo previdenciário é conduzido a adquirir papéis de risco elevado, sem garantias proporcionais ou mediante interferência política, o lesado não é uma abstração chamada “mercado”. É o professor aposentado, a enfermeira, o policial, o servidor administrativo e a viúva que recebe pensão. O dinheiro reúne contribuições descontadas durante anos e aportes do poder público. Desviá-lo, administrá-lo fraudulentamente ou utilizá-lo em troca de vantagens pode configurar, conforme as provas, gestão fraudulenta ou temerária, peculato, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e organização criminosa.

Na corrupção ativa, alguém oferece ou promete vantagem indevida ao agente público. Na passiva, o agente solicita, recebe ou aceita a promessa. Aplicações suspeitas dos fundos, isoladamente, não provam esses crimes. Mas a hipótese ganha gravidade diante da informação de que Vorcaro alegou, em proposta de colaboração, que intermediários políticos receberiam comissões de 10% sobre aportes previdenciários. Ele mencionou captação próxima de R$ 2 bilhões no Rio de Janeiro, Amapá e Amazonas. Os citados negam irregularidades, e a acusação exige comprovação independente.

A proximidade de Vorcaro com integrantes do Judiciário e da fiscalização completa o quadro institucional. O fundo Arleen recebeu R$ 35 milhões ligados ao banqueiro e adquiriu participação no Tayayá, resort do Paraná associado à família de Dias Toffoli. Em 2024, o Master assinou contrato que previa R$ 131 milhões ao escritório Barci de Moraes, dirigido pela esposa de Alexandre de Moraes. No Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza vendeu por quase R$ 5 milhões um sítio no Sul de Minas a uma pessoa apontada pela PF como ligada a Vorcaro. Todos têm direito à defesa, mas a República também tem direito a respostas completas.

O enfrentamento do caso exige medidas concretas. Primeiro, auditoria independente em todos os investimentos de regimes próprios de previdência, estatais e bancos públicos em ativos do conglomerado Master e em fundos administrados pela Reag. Segundo, divulgação dos pareceres que autorizaram cada aplicação, com nomes, datas, votos, avaliações de risco e eventuais intermediários remunerados. Terceiro, identificação dos beneficiários finais dos fundos utilizados nas operações, inclusive no exterior.

Também é necessário afastar cautelarmente dos processos decisórios autoridades com relações familiares, econômicas ou profissionais capazes de gerar conflito de interesses; bloquear bens quando houver fundamento judicial; buscar a restituição prioritária dos recursos previdenciários; proibir aplicações de regimes próprios em estruturas sem transparência sobre lastro e beneficiário final; e responsabilizar administradores, consultores, agentes públicos e empresários na extensão comprovada de suas condutas. Uma comissão parlamentar independente poderia reunir dados hoje dispersos, desde que não fosse convertida em mecanismo eleitoral para proteger aliados e perseguir adversários.

A questão central de Pecado Capital nunca foi saber apenas quem ficou com a mala. Era compreender o sistema de justificativas que permitiu ao personagem utilizá-la e continuar considerando-se digno. Em 2026, a mala adquiriu linguagem financeira, assessoria jurídica e trânsito institucional. Para abri-la, não basta indignação seletiva. São necessários investigação, transparência, recuperação do dinheiro e julgamento com garantias.

Carlão, ao final, tentou devolver o que não lhe pertencia. O Brasil precisa fazer mais: recuperar os recursos dos aposentados, revelar quem lucrou com as operações e impedir que dinheiro de origem suspeita compre acesso às autoridades. Caso contrário, o vendaval cantado por Paulinho da Viola deixará de descrever apenas a perdição de um homem. Passará a explicar o rebaixamento de uma República inteira.

 

Fonte: Por Washington Araújo, em Brasil 247

 

Um novo futuro para os brasileiros

Uma ciência política comprometida com os valores da democracia não pode se limitar a analisar os resultados de pesquisas eleitorais. Ela deve ser capaz de identificar as dinâmicas políticas que, a cada momento, dão origem aos movimentos de opinião em uma conjuntura nacional e internacional marcadas por profunda instabilidade.

As pesquisas eleitorais recentes indicam uma diminuição do favoritismo da candidatura Lula, um crescimento da possibilidade de segundo turno, uma ênfase maior na indeterminação dos resultados, sem que se forme propriamente uma onda favorável a Flávio Bolsonaro. Como explicar politicamente estas dinâmicas recentes?

Ela pode ser explicada fundamentalmente por dois grandes movimentos políticos. O primeiro é a brutal normalização como legítima de uma candidatura frontalmente contrária à democracia e vinculada comprovadamente a toda uma rede de personagens do crime organizado. A ciência política internacional estabelece a diferença fundamental entre uma candidatura de direita que concorre na democracia e uma candidatura de extrema-direita que é contra a democracia e os direitos humanos. Esta diferença básica não está sendo feita nas eleições brasileiras.

O gravíssimo episódio recém protagonizado por André Mendonça, chegando a decidir ao arrepio da Constituição o afastamento de diretores da Polícia Federal, além de claramente proteger o candidato Flávio Bolsonaro e a si próprio da investigação de suas relações profundas e sistêmicas com Daniel Vorcaro, dono do Master, é um exemplo evidente das tentativas bolsonaristas de criar uma crise institucional no processo democrático das eleições brasileiras.

A candidatura de Flávio Bolsonaro contra a democracia e vinculada ao crime organizado está sendo legitimada em primeiro lugar pelo governo Donald Trump, como tem feito aliás com outras candidaturas da extrema-direita ou mesmo vinculadas ao crime na América Latina. Neste momento das eleições, ela está se tornando a referência dos setores que compõem as classes dominantes brasileiras, vinculadas ao grande capital financeiro e ao grande agronegócio, como demonstrou recentemente uma reunião recém realizada com o selo da Faria Lima.

O grande capital primeiro procurou um candidato alternativo aos Bolsonaros (o governador de São Paulo), depois flertou com alternativas próximas da extrema direita (Romeu Zema, Ronaldo Caiado) e agora toma a opção por Flávio Bolsonaro como o anti-Lula possível. Além disso, a candidatura Flávio Bolsonaro tem tido o apoio da grande mídia empresarial brasileira cuja linha editorial unificada é, em um sentido fortemente neoliberal, muito convergente com o programa apresentado pelo candidato.

É esta rede de legitimação e de apoio que explica não apenas a resiliência do bolsonarismo como a sua capacidade eleitoral competitiva. Apesar de sua crise evidente ao não unificar como antes as candidaturas presidenciais, ao perder o apoio oficial dos partidos do mal chamado “Centrão”, ao perder o controle político e eleitoral em seu estado raiz, o Rio de Janeiro. E, sobretudo, por ver em crise os seus mitos de identidade como anti-sistema, nacionalista e favorável ao povo brasileiro.

<><> Continuidade e aposta no futuro

O segundo grande movimento político que organiza a conjuntura é aquele liderado pela candidatura Lula à reeleição. Este movimento tem sido capaz de organizar até agora uma maioria de votos no primeiro turno (com uma distância variando de 7 a 9 % pontos sobre o adversário, o que significa de 8 a 10,3 milhões de votos), com esta vantagem ascendendo a 11 % entre as mulheres e até a 13 % entre os não brancos, com larga margem de dianteira entre os nordestinos, entre os que recebem até dois salários mínimos (que compõem cerca de 50 % do eleitorado), entre os católicos.

Se comparada com as eleições presidenciais de 2022, a candidatura Lula nestas eleições, além de manter a grande vantagem entre os eleitores nordestinos, apresenta seguramente muitas melhores condições de disputa na região Sudeste, que é a mais densa eleitoralmente: isto é claro no Rio de Janeiro, também em Minas Gerais onde o bolsonarismo apresenta-se dividido nas eleições estaduais e mesmo em São Paulo onde a força das candidaturas de Fernando Haddad e das senadoras Marina Silva e Simone Tebet aparece em crescimento na disputa.

Mas, ao mesmo tempo, este movimento político tem demonstrado limites importantes em sua capacidade de migrar de sua condição de vantagem eleitoral para uma condição de clara maioria, diminuindo sua rejeição ao voto em um eventual segundo turno e ampliando assim o seu favoritismo. Por que isto está ocorrendo?

Uma resposta possível a esta pergunta complexa é que a votação majoritária de Lula no primeiro turno, que lhe dá atualmente uma frente de no mínimo oito milhões de votos – dois milhões a mais do que no primeiro turno das eleições de 2022, resulta das conquistas de seu governo que atuou através de sua política econômica e de suas políticas e programas sociais junto aos brasileiros em situação de extremos carecimentos, após os governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro.

Some-se a isso uma larga margem majoritária de votos entre as mulheres, as quais compõem mais da metade do eleitorado, repercutindo aqui no Brasil um fenômeno internacional de uma repulsa majoritária das mulheres aos candidatos e governos de extrema direita, que trazem pautas agressivamente hostis aos direitos já conquistados pelas mulheres.

A mesma avaliação do governo serve para entender por que a candidatura Lula não conseguiu obter até agora uma maioria tendencialmente vitoriosa no primeiro turno ou já capaz de confirmar um amplo favoritismo no segundo turno. Pois o atual governo Lula foi profundamente limitado na aplicação de seu programa eleito pela deterioração da democracia brasileira, pela plena captura do Banco Central pelos poderes financeiros e por um ainda severo ajuste fiscal, pela continuidade de uma rede digital bolsonarista que mina a formação de uma esfera pública de opinião minimamente democrática.

Em síntese, o terceiro governo Lula se deu sob um forte constrangimento de um regime neoliberal de Estado: uma maioria conservadora, adversária e mais empoderada através do controle de emendas impositivas no Congresso Nacional, pelas direções de um Banco Central que elevaram escandalosamente as taxas de juros básicas da economia e por um teto de gastos que, mesmo tendo suavizado bastante a chamada PEC do Fim do Mundo, ainda manteve severas limitações a um maior investimento orçamentário em desenvolvimento e em políticas sociais.

O que resultou disso é que a maioria dos trabalhadores brasileiros que recebem acima de dois salários mínimos ainda não desfrutam de uma clara melhoria em seu poder de compra, em suas perspectivas de emprego de qualidade e de uma melhoria qualitativa nas políticas sociais fundamentais.

Vivem ainda em um país ainda fortemente marcado pela desigualdade social, de gênero e racial, pela violência cotidiana do crime, por escândalos frequentes de corrupção dos políticos e de privilégios inaceitáveis, além de enfrentarem as catástrofes de uma crise climática cada vez mais aguda. Assim, o atual governo Lula nunca pôde contar, à parte os meses iniciais, de uma avaliação claramente positiva, nitidamente superior às suas avaliações negativas.

Esta dupla condição – a de receber o voto majoritariamente preferencial dos brasileiros e a de ainda estar sujeito a uma alta rejeição – revela que a maioria dos brasileiros reconhece o trabalho feito pelo atual governo, mas, ao mesmo tempo, quer uma nova dinâmica de governo que, a partir do conquistado, imprima claramente uma mudança de rumos no país.

Uma campanha que apenas reitere a liderança histórica de Lula e os feitos de seu terceiro governo não contempla as aspirações e os votos da maioria dos brasileiros. E deixa o espaço para que um outro futuro seja disputado pela extrema direita, explorando as insatisfações democráticas, econômicas e sociais dos brasileiros.

<><> Um novo futuro para os brasileiros

Esta percepção – a defesa entusiasmada das conquistas do governo, mas também a de um programa antineoliberal capaz de abrir um novo horizonte de futuro para o país – organizou o Programa de governo aprovado praticamente por consenso no recente Congresso do PT.

Ela se iniciava justamente pela afirmação que a disputa nas eleições presidenciais de 2026 seria travada não no interior na democracia, não entre esquerda e direita, mas entre aqueles que propunham manter e aprofundar a democracia brasileira e aqueles que claramente procuravam destruí-la e, com ela, a própria soberania do país em prol do colonialismo norte-americano.

Procurava iniciar com a retomada de sentido da maior vitória obtida durante o terceiro governo do presidente Lula: a condenação de Jair Bolsonaro e do alto comando militar que conspirou em favor de um golpe na democracia, que pretendia assassinar o presidente e o vice-presidente eleitos, além de membros do Superior Tribunal Federal.

Não à normalização do golpismo, agora revelado em suas entranhas, em suas relações com o crime organizado no país! Contra o senso promovido pela mídia empresarial brasileira de que o bolsonarismo faz uma oposição legítima, trata-se de criar um circuito sanitário democrático, isolando o bolsonarismo como uma força política incompatível com a democracia.

Se a defesa da democracia e da soberania estão no centro da disputa eleitoral de 2026, não se trata de defender um sistema político deformado de partido, de eleições, de representação, de corrupção e privilégios que têm justamente dos brasileiros uma clara maioria de repúdio. O governo Lula não pode se confundir com o status quo atual da política brasileira.

Por isso, o Programa de governo aprovado no Congresso do PT aponta como centrais a defesa de uma reforma política (a adoção do voto em lista com paridade para as mulheres e quotas de representação étnica), medidas fortes de participação popular como o orçamento participativo, o combate aos privilégios e contra a corrupção, a reforma do Judiciário. A criação do Ministério da Segurança Pública e o combate sistêmico ao crime organizado eram defendidos como prioridade.

É esta defesa programática que neutraliza a estratégia da extrema direita que atribui justamente aos governos do PT que mais combatem a corrupção o de serem sua raiz no Estado brasileiro. É esta manobra de inversão da realidade que se faz hoje abertamente em relação ao caso Master e do escândalo da Previdência.

O Programa aprovado no Congresso do PT punha uma ênfase especial no combate ao feminicídio, pauta prioritária da Segurança Pública, e na implantação decidida da chamada Política de Cuidados, em benefício das famílias e especialmente das mulheres brasileiras. O protagonismo desta pauta, aprofundando a identidade da candidatura Lula com os direitos das mulheres, ataca talvez o ponto mais fraco do bolsonarismo e sua tradição patriarcal e de violência de gênero.

Toda uma ênfase do Programa aprovado no Congresso do PT era posta na aprovação da jornada de 5 x 2, com dois dias de descanso semanal, sem redução de salários. Esta agenda prioritária abria-se a uma defesa aberta de um novo ciclo de defesa dos direitos do trabalho, de aumento do salário-mínimo, de defesa dos sindicatos e do emprego digno. Hoje, após a aprovação em comissão no Senado, a luta pela imediata votação em plenário da redução da jornada deveria estar no centro das campanhas e ir às ruas, abrindo uma conquista decisiva para 14,8 milhões de trabalhadoras e trabalhadores brasileiros.

O Programa de Governo aprovado no Congresso do PT, na mesma linha do que tem sido defendido publicamente pelo coordenador do Programa da Campanha Lula, Sérgio Gabrielli, enfrenta centralmente a política dos juros escandalosos e a política conduzida pelo Banco Central, vinculando a sua redução histórica como necessidade incontornável para criar um novo ciclo de desenvolvimento, sustentável e com reforma agrária, e de políticas sociais.

Este enfrentamento pela soberania democrática do orçamento da União, hoje em grande medida sequestrado pelo pagamento de juros escandalosos da dívida pública e pelas emendas impositivas, é ali defendido como incontornável e necessário para abrir um novo período histórico do país, para além de um regime neoliberal de Estado.

Por fim, o Programa de Governo aprovado no Congresso do PT, além de comemorar a redução do desmatamento no país, chama a atenção para um enfrentamento necessário e central do ecocídido em curso no Brasil. A consciência desta necessidade já está amadurecida entre a maioria dos brasileiros.

Este programa, ao ir ao encontro do pensamento e das aspirações da maioria dos brasileiros, tem o potencial de formar uma larga maioria de votos nestas eleições. Os brasileiros vão votar, em sua maioria, na esperança de construção de um novo país.

 

Fonte: Por Juarez Guimarães, em A Terra é Redonda

 

A universidade pune quem pensa devagar

Uma universidade pode premiar a publicação de um pensamento e punir o tempo necessário para pensá-lo. A contradição começa quando a pesquisa ainda não terminou, mas o período de avaliação já está fechando. Há documentos por confrontar, uma hipótese que deixou de convencer, resultados que exigem nova interpretação. O trabalho avançou justamente porque encontrou dificuldades que antes não conseguia formular. No formulário, entretanto, esse avanço pode aparecer como ausência. Falta o produto que o tornaria reconhecível. O pesquisador precisa então decidir se acompanha o movimento de seu objeto ou antecipa uma conclusão para atender ao calendário. Nesse intervalo, aparentemente pequeno, instala-se uma questão política: quem tem autoridade para determinar quanto tempo o conhecimento pode levar? A resposta decide o destino de pesquisas, orientações e trajetórias. Também decide quais perguntas chegarão a existir dentro da instituição que deveria acolhê-las.

Pensar devagar não significa possuir uma inteligência lenta. Significa admitir que a velocidade de uma investigação deve responder às dificuldades que ela encontra. Há descobertas rápidas e textos longamente preparados que nada acrescentam. A demora não concede certificado de qualidade a ninguém. O que precisa ser protegido é a possibilidade de trabalhar no ritmo exigido pelo problema em cada investigação, incluindo o direito de descobrir que o caminho escolhido estava errado. Uma ciência incapaz de reconhecer esse trabalho recompensa a segurança retrospectiva: depois de encontrar, o pesquisador escreve como se sempre tivesse sabido aonde chegaria. O projeto apresenta uma trajetória sem acidentes; o relatório confirma sua execução; o currículo registra o resultado. Entre esses documentos pode desaparecer precisamente aquilo que fez da atividade uma pesquisa: a resistência do mundo ao que se pretendia dizer sobre ele.

Não é preciso imaginar uma ordem administrativa mandando alguém deixar de pensar. O governo do tempo acadêmico pode operar por procedimentos ordinários, aprovados em colegiados e apresentados como necessários à continuidade de um programa. Uma janela de avaliação delimita o que será considerado; um requisito define a produção esperada; o resultado condiciona a possibilidade de continuar orientando. A punição, nesse caso, precisa ser entendida em seu sentido institucional: perda ou restrição de condições para exercer o trabalho. Nem toda cobrança produz esse efeito, e nenhuma regra, isoladamente, demonstra a extensão nacional do problema. Mas a passagem entre avaliação e acesso às condições de pesquisa pode ser documentada. É por ela que devemos começar, antes de atribuir intenções a gestores ou transformar uma experiência individual em retrato de toda a universidade brasileira.

A Norma Complementar 001/2019 do Programa de Pós-Graduação em Educação da UFSCar, aprovada pelo colegiado em dezembro de 2019 e pela comissão de pós-graduação em junho de 2020, oferece um registro dessa passagem. O artigo 6º vincula os quatro anos do credenciamento ao relatório quadrienal da Capes. O artigo 13 inclui produção qualificada entre os requisitos de recredenciamento. Nos artigos 20 e 21, o descumprimento das exigências pode levar ao descredenciamento, após apreciação colegiada, com impedimento de abrir vagas e oferecer disciplinas, preservada a conclusão das orientações em andamento. A norma também considera pesquisa, ensino e participação administrativa, além de admitir carta de aceite como publicação. Trata-se de um documento daquele período, não de uma afirmação sobre a regra atualmente vigente. Seu interesse é mostrar que a produção registrada pode participar da decisão sobre quem continuará dispondo de determinadas condições de trabalho (UFSCar, 2019/2020, arts. 6º, 13, 20 e 21).

Esse vínculo não prova que um professor determinado tenha sido penalizado por realizar uma pesquisa difícil. Para chegar a essa conclusão seriam necessários o processo de avaliação, o parecer, a trajetória da investigação e as condições oferecidas para desenvolvê-la. A distinção importa porque a crítica perde força quando atribui ao documento aquilo que ele não contém. O que se pode formular, a partir dessa organização, é um problema a investigar: como o pesquisador escolhe seus projetos quando sabe que sua permanência dependerá de resultados reconhecíveis dentro de um intervalo? A regra não precisa mencionar os temas. Basta que altere os riscos de escolhê-los. Uma investigação cujo resultado é incerto pode tornar-se profissionalmente mais perigosa do que outra capaz de alimentar, com regularidade, o registro da produção. O controle alcança a pergunta antes de alcançar a resposta.

O livro ajuda a perceber essa diferença. Há obras cuja contribuição depende de uma arquitetura que só se torna inteligível quando suas partes se encontram. Um capítulo desloca o anterior, uma documentação tardia obriga a refazer o início, a conclusão modifica o problema de partida. Publicar resultados parciais pode enriquecer esse processo, submetendo-os ao debate. Também pode fragmentá-lo quando cada parte precisa justificar sua existência como unidade autônoma de desempenho. Não é o número de capítulos ou artigos que decide a questão. É a relação entre a forma da publicação e a necessidade da investigação. Se a divisão acompanha descobertas efetivas, ela faz o conhecimento circular. Se antecipa artificialmente conclusões para multiplicar registros, a forma de reconhecimento começa a comandar a forma do pensamento. O livro aparece como conjunto de produtos antes de conseguir existir como obra.

A objeção mais séria precisa entrar aqui, sem caricatura. Uma universidade pública tem de prestar contas. Recursos, bolsas, laboratórios e jornadas de trabalho não podem ficar protegidos por uma declaração indefinida de que algo importante está amadurecendo. A invocação da complexidade pode encobrir negligência; o prestígio de um professor pode transformar tolerância institucional em privilégio. Há estudantes que esperam respostas de orientadores ausentes e equipes sobrecarregadas pelo trabalho que outros deixam de realizar. Defender o tempo da pesquisa exige enfrentar essas situações, inclusive quando envolvem colegas próximos. A pergunta não é se devemos avaliar, mas como distinguir trabalho difícil, impedimento material e abandono de responsabilidade. Uma contagem pode indicar que há algo a examinar. Ela se torna insuficiente quando pretende resolver sozinha o exame, dispensando a leitura do que foi feito e das condições em que se trabalhou.

Uma avaliação substantiva precisaria reconhecer o percurso. Que fontes foram reunidas? Qual hipótese foi abandonada, por que razão e com quais consequências? Que dificuldade técnica permanece? O que os estudantes aprenderam, quais materiais ficaram disponíveis, que colaboração tornou a investigação possível? Essas perguntas não dispensam prazos nem resultados; tornam mais exigente sua apreciação. Permitem cobrar de quem se omite e sustentar quem enfrenta um problema real. Exigem, porém, tempo dos próprios avaliadores. Ler um projeto, acompanhar suas alterações e confrontar relatórios demanda trabalho que a instituição precisa reconhecer. Caso contrário, pede-se avaliação qualitativa a pessoas pressionadas a concluir rapidamente dezenas de pareceres. O indicador reaparece como atalho. A universidade declara que deseja julgar o conteúdo, mas organiza o julgamento de tal modo que conhecer esse conteúdo se torna uma dificuldade adicional.

A crítica de Maurício Tragtenberg à delinquência acadêmica permanece fecunda justamente por deslocar a atenção para a relação entre saber, poder e finalidade social. Na leitura de Fabiana de Cássia Rodrigues, a separação entre meios e fins ocupa posição central nessa crítica: ensino e produção de conhecimento podem continuar funcionando sem interrogar radicalmente para quem e para quê funcionam (RODRIGUES, 2022). Isso nos permite formular uma pergunta incômoda para o presente: o que acontece quando uma instituição demonstra eficiência em procedimentos cujo sentido já não consegue discutir? A delinquência acadêmica não deve virar insulto de ocasião contra um dirigente, nem explicação universal para qualquer decisão da qual discordamos. Seu alcance crítico depende de reconstruir relações e consequências. Uma palavra dura sem demonstração apenas substitui o exame pela indignação. O problema exige mais: descobrir como o cumprimento regular das obrigações pode conviver com o abandono das finalidades que deveriam orientá-las.

Essa possibilidade alcança a própria comunidade científica. Seria cômodo atribuir tudo a uma burocracia exterior, como se os pesquisadores permanecessem intactos diante das regras que aplicam. Participamos de comissões, classificamos trabalhos, aconselhamos estudantes, disputamos recursos e redigimos pareceres. Podemos criticar a produtividade abstrata numa conferência e, na reunião seguinte, perguntar quantos artigos um colega publicou antes de perguntar o que investigou. A contradição não desaparece pela sinceridade de nossas convicções. Ela entra nos critérios práticos pelos quais reconhecemos competência. A autocrítica começa quando examinamos esses critérios em nossos próprios atos. Quem defende a liberdade intelectual precisa responder pelo tempo que concede aos outros, pela abertura que oferece à divergência e pelo cuidado com que distingue um trabalho inconcluso de um trabalho inexistente. O poder acadêmico também se exerce naquilo que aprendemos a não ler.

Os gestores ocupam uma posição específica nessa trama. Precisam responder a exigências externas, distribuir recursos escassos e preservar condições de funcionamento. Essas responsabilidades são reais; não autorizam, entretanto, a tratar toda escolha interna como execução inevitável de uma ordem superior. Entre a agência e o professor existem regulamentos, comissões, interpretações e decisões colegiadas. Nesse percurso podem ser criadas salvaguardas, reconhecidas circunstâncias e negociadas mudanças. Também podem ser endurecidas exigências, eliminadas exceções fundamentadas e convertidas recomendações em barreiras automáticas. A análise institucional deve localizar cada uma dessas operações. A explicação pela pressão externa fica incompleta quando deixa de perguntar por que determinados agentes aderem ao critério, que segurança encontram nele e quais alternativas recusam. A necessidade de defender o programa pode tornar atraente uma conformidade que transfere ao pesquisador os custos da própria defesa.

Há ainda uma desigualdade dentro do tempo disponível. Dois professores podem ter jornadas formalmente equivalentes e condições profundamente distintas para pesquisar. Preparar uma disciplina nova, responder pela manutenção de um laboratório, acompanhar estudantes em dificuldades e assumir tarefas administrativas ocupa horas concretas. Fora da instituição, cuidado familiar, deslocamentos e condições de saúde também participam da duração possível do trabalho. Não se trata de deduzir o desempenho de uma identidade ou de presumir a trajetória de cada pessoa. Trata-se de exigir que a comparação conheça aquilo que compara. Quando condições desiguais desaparecem da avaliação, o resultado pode apresentar como mérito individual uma vantagem de infraestrutura e como insuficiência pessoal uma sobrecarga institucional. A justiça exige tornar visível a distribuição do trabalho necessário à universidade, inclusive daquele que oferece a outros a tranquilidade para produzir.

O estudante conhece essa disputa por outra entrada. Uma bolsa permite organizar a vida por determinado período; o prazo de defesa estabelece um horizonte; o projeto dá forma a uma expectativa. Tudo isso é necessário. Mas basta que uma condição material falhe para que o calendário deixe de ser simples instrumento de organização. Um equipamento indisponível, o acesso interrompido ao campo ou a demora de uma autorização pode consumir meses sem que a dificuldade decorra de desinteresse. Numa situação assim, encurtar a pergunta talvez seja a única maneira de concluir. Isso pode ser feito com rigor, desde que a instituição reconheça a alteração e seu motivo. O problema aparece quando o atraso institucional é devolvido ao estudante como incapacidade individual. A universidade preserva sua aparência de regularidade e entrega à pessoa o peso de explicar por que não conseguiu trabalhar nas condições que lhe faltaram.

A espera adquire, então, uma dimensão política. Ela não é apenas o estado de quem ainda não recebeu alguma coisa. É uma relação entre quem pode decidir e quem precisa suspender sua atividade até que a decisão aconteça. Um processo pode permanecer parado enquanto a bolsa continua correndo; a compra pode não chegar enquanto o prazo permanece intacto. Nesses casos, diferentes instâncias controlam partes de uma duração que só o pesquisador precisa recompor como totalidade. A análise deve perguntar onde o tempo ficou retido, por qual procedimento e com qual possibilidade de recurso. Também deve reconhecer que algumas esperas protegem direitos e qualidade: avaliação ética e fiscalização não são obstáculos descartáveis. O que precisa ser combatido é a irresponsabilidade temporal que cobra pontualidade de quem não dispõe dos meios para determinar quando poderá começar.

Chamo de controle do tempo histórico a capacidade socialmente desigual de decidir quais atividades terão continuidade e quais deverão se ajustar à duração imposta por outros. Essa formulação não pretende transformar qualquer atraso em dependência nem substituir a investigação das relações econômicas por uma metáfora do relógio. Seu valor depende de identificar agentes, instrumentos e efeitos. No caso universitário, a pergunta é precisa: quem pode assegurar a duração de uma pesquisa e quem pode interrompê-la, abreviá-la ou condicionar sua continuidade? O controle pode passar por financiamento, vínculo de trabalho e critérios de reconhecimento. Para que a categoria acrescente explicação, é necessário demonstrar como essas mediações modificam o futuro praticável da instituição. Não basta que o tempo passe depressa. É preciso que a capacidade de dispor dele esteja distribuída de modo desigual e produza consequências que possamos reconstruir.

Essa perspectiva também exige cuidado ao aproximar avaliação acadêmica e capital fictício. Um indicador de publicação não é um título financeiro; um coordenador de programa não se converte em agente do mercado de capitais porque cobra um relatório. A ligação, quando existe, precisa atravessar as formas de financiamento do Estado, as prioridades do fundo público, as restrições orçamentárias e sua tradução em decisões universitárias. A semelhança entre calendários curtos não demonstra identidade entre processos. O ponto de investigação é outro: em que condições a obrigação de preservar compromissos financeiros restringe a capacidade pública de sustentar atividades cujo retorno social não cabe no mesmo horizonte? Somente depois dessa reconstrução poderemos mostrar como uma determinação econômica alcança a duração da pesquisa. A crítica ganha densidade quando permite verificar a mediação, em vez de fazer do conceito uma resposta anterior ao documento.

Seria igualmente equivocado escrever como se nada mudasse na avaliação. Em notícia de maio de 2025, reproduzida pela Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais da USP, a Capes anunciou para o ciclo 2025–2028 uma ampliação dos procedimentos de classificação da produção intelectual. O foco passa aos artigos, com possibilidades de uso de indicadores bibliométricos e análise qualitativa, conforme as escolhas das áreas. Entre os procedimentos, permanece uma modalidade apoiada nos indicadores dos veículos; outra combina informações do periódico e do artigo; uma terceira admite apreciação qualitativa definida pela área (CAPES, 2025). Reconhecer essa mudança é uma obrigação da crítica. Seu alcance dependerá da aplicação: apreciar melhor um resultado não equivale, por si só, a assegurar as condições para que resultados difíceis amadureçam. A pergunta sobre o conteúdo precisa encontrar a pergunta sobre a duração que tornou esse conteúdo possível.

A Declaração de São Francisco sobre Avaliação da Pesquisa, conhecida como DORA, oferece outro ponto de apoio. Suas recomendações rejeitam o uso das métricas dos periódicos como substituto da qualidade de trabalhos individuais e defendem a consideração de contribuições diversas, inclusive para além dos artigos. Também dirigem responsabilidades às instituições e aos próprios pesquisadores, não apenas às agências (DORA, 2012). O debate, portanto, não precisa começar do zero. Há critérios públicos para discutir os limites da avaliação por aproximações. Mas uma declaração só se realiza quando altera decisões: seleção, progressão, financiamento e reconhecimento do trabalho. A adesão simbólica não informa como um parecer foi escrito, que material foi examinado ou por que uma trajetória foi interrompida. O teste de uma mudança está no tratamento oferecido ao caso que antes seria descartado sem leitura suficiente.

Uma política universitária capaz de proteger o pensamento precisaria articular duração e responsabilidade. Projetos longos poderiam ser acompanhados por etapas pertinentes ao objeto, sem que cada etapa tivesse de simular uma descoberta publicável. Um acervo organizado, um procedimento corrigido ou um resultado negativo bem demonstrado poderia receber apreciação substantiva, com critérios explícitos. Impedimentos provocados pela própria instituição precisariam entrar na decisão sobre os prazos. A carga de ensino, orientação e administração deveria ser considerada na distribuição das condições de pesquisa. Nada disso pode depender apenas da benevolência de um coordenador: favores são revogáveis, direitos requerem procedimentos. O objetivo é tornar possível exigir trabalho e, ao mesmo tempo, impedir que a instituição destrua as condições do trabalho que exige. A autonomia se materializa quando uma decisão coletiva consegue sustentar esse compromisso para além da disposição ocasional de seus dirigentes.

Uma universidade precisa saber reconhecer o momento em que continuar trabalhando é mais responsável do que anunciar um resultado. Precisa também saber cobrar a entrega quando a demora se tornou abandono. A dificuldade desse julgamento é parte de sua responsabilidade pública; não pode ser transferida integralmente a uma planilha. Quando a medida decide antecipadamente o que merece existir, a avaliação começa a selecionar as perguntas que a instituição será capaz de fazer. O futuro acadêmico vai sendo organizado por aquilo que consegue apresentar comprovante dentro do período, enquanto o restante precisa justificar sua permanência. É aí que a autonomia se decide: na possibilidade de sustentar uma investigação antes que ela disponha do prestígio de seu resultado. A universidade que só reconhece o pensamento depois de publicado pode terminar premiando uma obra que suas próprias regras não teriam permitido escrever.

 

Fonte: Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda

 

Quem está amamentando pode tomar creatina? Veja o que diz especialista

A popularização da creatina se deve ao aumento do público fitness nas redes sociais. Mas, não são só os marombeiros que contribuem para o consumo do suplemento, a tendência também alcança mulheres no pós-parto que desejam alinhar a maternidade com uma vida mais saudável.

Influenciadoras como Virgínia Fonseca e Carol Borba já compartilharam conteúdos sobre o produto e outros suplementos relacionados à prática de exercícios. A influência recaí sobre as mães que as acompanham: será que é possível amamentar e tomar whey? como manter uma vida fitness alinhada à maternidade?

Em entrevista à CNN Brasil, a ginecologista e obstetra Núbia Fontes, contou que ainda não há evidências suficientes para determinar como a suplementação altera a concentração no leite materno ou quais seriam os efeitos sobre o bebê. Apesar disso, o uso não é proibido, mas deve ser moderado.

“Sabemos que a creatina e compostos relacionados fazem parte da fisiologia normal do organismo, mas não há evidências suficientes para estabelecer com segurança quanto uma suplementação modifica sua concentração no leite materno ou quais seriam os efeitos de uma exposição adicional no lactente. Por isso, não considero adequado recomendar o suplemento de maneira indiscriminada durante a lactação”, explicou a especialista.

A creatina deixou de ser associada exclusivamente à prática esportiva e se tornou um dos suplementos mais consumidos no mundo. No Brasil, o crescimento também é observado entre as mulheres, que representam uma em cada quatro compras do produto, segundo pesquisa da Soldiers Insights, divulgada no primeiro trimestre de 2026.

No entanto, para a especialista, o ideal é não iniciar o consumo apenas pela popularidade nas academia ou nas redes sociais: " A mulher que está amamentando deve conversar com o obstetra e, quando necessário, com o pediatra e o nutricionista. Precisamos avaliar a fase do puerpério, alimentação, prática de exercícios, função renal, uso de medicamentos, outras suplementações e o estado de saúde da mãe e do bebê.", contou.

<><> A creatina pode trazer benefícios?

Fora do contexto específico da amamentação, a creatina é estudada por sua participação na produção rápida de energia e por possíveis vantagens relacionados à força, ao desempenho físico e à preservação ou ganho de massa muscular quando associada ao treinamento adequado.

Segundo Núbia, os efeitos despertam interesse entre mulheres no pós-parto que buscam recuperar força e condicionamento. No entanto, esses "benefícios" precisam ser olhados com cuidado pelas mães.

"Uma possível vantagem para a mãe não elimina a necessidade de avaliar a segurança para o bebê durante a lactação. No pós-parto, também precisamos considerar individualmente alimentação, qualidade do sono possível nessa fase, recuperação obstétrica, retorno ao exercício e condições clínicas da mulher antes de pensar em suplementação", disse.

<><> Como manter uma rotina saudável após a maternidade?

Para a especialista, manter uma rotina saudável após a gravidez não significa recuperar rapidamente o corpo de antes da gestação. A prioridade deve ser a alimentação adequada, a hidratação, o acompanhamento médico e o retorno gradual às atividades físicas.

“O organismo passou por gestação, parto e agora enfrenta as demandas da amamentação e dos cuidados com o bebê. A recuperação pós-parto é um processo, e saúde nessa fase está muito mais relacionada a oferecer ao corpo condições para se recuperar do que a cumprir metas estéticas ou de performance”, conclui.

¨      Quem toma Mounjaro pode beber? Médica alerta sobre efeitos da combinação

O remédio e o álcool não costumam formar uma boa combinação, pois ambos são metabolizados pelo fígado e podem sobrecarregar o órgão, além de reduzirem a eficácia do tratamento e aumentarem os efeitos colaterais. Mas, será que o com o Moujaro isso é diferente? Com o aumento do consumo de canetas emagrecedoras no Brasil, essa dúvida persiste entre os usuários.

Em entrevista à CNN Brasil neste sábado (12), a endocrinologista Marcele Quesada explicou que quem faz tratamento de tirzepatida deve ter cautela ao consumir bebidas alcoólicas, pois a combinação pode intensificar ainda mais os efeitos gastrointestinais.

Além disso, não há estudos clínicos robustos que determinem uma quantidade de álcool considerada segura durante o tratamento.

"O uso da tirzepatida já pode causar efeitos gastrointestinais, conforme informado na própria bula do medicamento: como náusea, diarreia, vômitos, constipação, dispepsia/indigestão e dor abdominal. O álcool pode piorar esses sintomas e também favorecer desidratação, principalmente quando há vômitos ou diarreia", aponta.

Segundo Quedasa, a atenção também deve ser maior entre pessoas com diabetes que utilizam o medicamento. A tirzepatida, quando utilizada isoladamente, apresenta baixo risco de hipoglicemia. Esse perigo aumenta, porém, quando o produto é associado a medicamentos para diabéticos.

"Esse risco aumenta quando o paciente utiliza simultaneamente outras classes medicamentos para controle de glicemia, como insulina ou sulfonilureias. O álcool, especialmente quando consumido em jejum ou em quantidade elevada, também pode favorecer hipoglicemia", aponta a endocrinologista.

<><> Álcool pode cortar o efeito do Mounjaro?

Com outros medicamentos o álcool pode sim cortar o efeito do remédio. No entanto, a especialista explica que não há evidências de que uma quantidade moderada de álcool simplesmente anule o efeito da tirzepatida. O problema está, principalmente, nos efeitos metabólicos associados ao consumo excessivo.

"Pequenas quantidades de álcool, principalmente acompanhadas de alimentos, geralmente têm pouco impacto no controle glicêmico de longo prazo. Já o consumo excessivo pode aumentar a ingestão calórica, e isso favorece ganho de peso e provoca alterações da glicemia", diz ela.

<><> Há risco de pancreatite?

A possibilidade de pancreatite - inflamação do pâncreas - também é uma preocupação entre usuários da tizerpatida, já que o consumo de álcool influencia no diagnóstico, mas a relação não deve ser apresentada de forma direta.

"Não é correto dizer que álcool + Mounjaro causa pancreatite. O mais correto é dizer que o consumo excessivo de álcool é um fator de risco independente. O que temos de evidências científicas é que grandes ensaios clínicos e meta-análises mostram que pancreatite com tirzepatida é rara", aponta Marcele Quesada.

Apesar disso, a médica alerta que pessoas com histórico da doença precisam ter um cuidado maior no tratamento de Mounjaro: "Pacientes com histórico de pancreatite ou consumo elevado devem ser avaliados individualmente para uso da tirzepatida", conclui.

<><> Quais cuidados tomar?

A endocrinologista orienta evitar o consumo de álcool durante o tratamento, especialmente quando a pessoa apresenta sintomas gastrointestinais. Mas, se o paciente insistir na bebida alcóolica, é necessário seguir essas orientações:

  1. Evitar beber em jejum, principalmente se a pessoa tem diabetes ou utiliza insulina ou sulfonilureia;
  2. Evitar grandes quantidades de álcool de uma vez.
  3. Manter boa hidratação, alternando álcool com água.
  4. Ter atenção especial se estiver começando a tirzepatida ou progredindo a dose, período em que os sintomas gastrointestinais tendem a ser mais frequentes.
  5. E caso apresente sintomas como: náuseas, vômitos, diarreia ou não estiver conseguindo se alimentar bem, o ideal é não consumir álcool.
  6. Se apresentar dor abdominal intensa e persistente, especialmente irradiando para as costas, com ou sem vômitos, é necessário procurar avaliação médica.
  7. A medicação deve ser utilizada conforme prescrição; não se deve ajustar ou omitir doses por conta própria. E não suspender a tirzepatida simplesmente porque pretende beber.

 

Fonte: CNN Brasil

 

O Ungido: obscurantismo religioso partidário e vazamentos seletivos pautando a política

O Brasil enfrenta uma eleição decisiva entre projetos de sociedade opostos. De um lado, o único candidato do campo progressista de esquerda que busca a reeleição sustentado por propostas de inclusão social, redução de desigualdades, distribuição de renda, maior tributação dos ricos, aumento real do salário mínimo e soberania nacional. Do outro, uma ampla frente da extrema direita e da direita oportunista que defende um projeto ultraliberal que prioriza o mercado e o capital em detrimento das políticas públicas. A diferença crucial está na concepção de Estado. O campo progressista de esquerda defende um Estado capaz de promover desenvolvimento sustentável, distribuir renda e garantir direitos; os ultraliberais apostam na redução severa da presença estatal, contenção de gastos sociais e transferência de funções ao mercado, o que, na prática, aprofunda desigualdades, fragiliza serviços públicos e faz a maioria da população arcar com o custo de uma política que preserva privilégios e concentra renda e patrimônio.

É nesse cenário eleitoral tensionado que se aprofunda uma crise de grandes proporções, explorada pela extrema direita e transformada em munição eleitoral pelos candidatos da direita oportunista para desviar o foco do que realmente está em disputa. A sucessão de vazamentos excessivamente seletivos referentes a inquéritos submetidos à relatoria do ministro André Mendonça, indicado ao STF por Jair Bolsonaro, tem alimentado a crise e ocupa o mote da discussão pública. Sob a condução de Mendonça, as relatorias dos casos Master e Dark Horse ganharam repercussão política interessada em favor de Flávio Bolsonaro, enquanto questões essenciais à vida dos brasileiros e os projetos de país em confronto desaparecem do debate eleitoral. Chama atenção a disparidade no tempo dedicado por Mendonça à análise dos materiais e na condução das diligências envolvendo investigados na Operação do Banco Master, em movimentos que variaram conforme o perfil e o alinhamento político dos envolvidos.

No âmbito da crise no STF estão as infames decorrências do caso “Banco Master”, propulsor de um escândalo financeiro de proporções gravíssimas para o país, em meio à intrincada rede de relações políticas e institucionais construída pelo ex-banqueiro preso Daniel Vorcaro. O escândalo revela camadas ainda mais profundas de podridão, em uma trama na qual dinheiro, poder, influência e relações nos mais altos círculos da República se entrelaçam de maneira perturbadora, fazendo de Vorcaro uma espécie de “Epstein dos trópicos”. Sua atuação no sistema financeiro abrangia diferentes operações fraudulentas, entre elas a venda de títulos de alto risco e letras financeiras sem cobertura do Fundo Garantidor de Créditos a fundos de pensão de servidores públicos estaduais e municipais.

Fez também repasses de vultosas somas de dinheiro ao senador Flávio Bolsonaro para o financiamento de um filme, cuja prestação de contas sobre os gastos da produção cinematográfica, prometida pelo senador, jamais foi apresentada. Embora Flávio tenha inicialmente negado o recebimento dos valores, veio posteriormente à tona que cerca de US$ 12,3 milhões — aproximadamente R$ 69 milhões — foram transferidos para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas. Coincidentemente, esse fundo é administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, Paulo Calixto. Atualmente, Eduardo Bolsonaro vive numa mansão de luxo alugada, avaliada em cerca de R$ 6 milhões, em Southlake, no Texas. Longe das obrigações de um mandato e sem que se conheça uma atividade profissional que justifique tamanho padrão de vida, desfruta de uma rotina confortável, bancada por recursos cuja origem merece ser esclarecida.

Além dos milhões repassados por Vorcaro para a produção do que chegou a ser apontado como o filme mais caro do planeta, a PF investiga, em operação autorizada pelo ministro Flávio Dino, o percurso de R$ 2 milhões em emendas parlamentares destinadas pelo deputado federal Mario Frias (PL-SP), ex-ministro do governo Jair Bolsonaro, ao Instituto Conhecer Brasil (ICB), entidade comandada pela empresária Karina Ferreira da Gama, responsável pela produção do filme “Dark Horse”.

Convém assinalar que Vorcaro também construiu vínculos, por diferentes caminhos e circunstâncias, inclusive com 5 ministros do STF: André Mendonça, Kássio Nunes Marques, Alexandre de Moraes, Luiz Fux e Dias Toffoli. Em torno do Banco Master, formou-se uma teia de relações que alcançou o coração da Suprema Corte. E nas últimas semanas, a crise no Supremo ganhou repercussões ainda mais preocupantes, quando em 8 de setembro, por meio de uma decisão monocrática, o ministro André Mendonça determinou o afastamento preventivo de Andrei Rodrigues, diretor-geral da Polícia Federal, e de Leandro Almada da Costa, diretor de Inteligência Policial da corporação. Vale destacar que o ministro Mendonça não faz a menor questão de disfarçar a devoção partidária à família de quem lhe concedeu a cadeira no STF. Para o jurista e colunista Wálter Maierovitch, em declaração ao UOL News, a decisão foi “inconstitucional, arbitrária e ilegal”. Em tempo recorde, Luiz Fux e Kássio Nunes Marques votaram pela manutenção da medida, formando maioria para referendar a decisão de Mendonça. Em sentido oposto, o ministro Gilmar Mendes adotou uma postura mais cautelosa ao pedir vista.

Em meio às turbulências provocadas pela liminar de André Mendonça, cuja oportunidade política e eleitoral é impossível de ignorar, ficou cada vez mais claro o que estava em jogo. A decisão nitidamente política se sobrepôs à decisão constitucional, além de atingir frontalmente a estabilidade institucional e processual do país. Ao colocar na cena o afastamento de Andrei Rodrigues, diretor nomeado pelo presidente Lula, Mendonça trouxe para o picadeiro do circo que montou, o presidente do país. No mesmo dia, a Advocacia Geral da União contestou o afastamento determinado por Mendonça e sustentou que o ministro havia invadido uma prerrogativa constitucional do presidente da República ao interferir na permanência do diretor-geral da Polícia Federal.

Na sequência dos acontecimentos que abalaram o país, o ministro Flávio Dino reagiu à decisão de Mendonça e em 9/9 determinou a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada da Costa. Ao analisar o pedido apresentado por Andrei Rodrigues em processo que já tramitava no STF, Dino apontou violações ao devido processo legal, desrespeito a prerrogativas exclusivas do Ministério Público e riscos à segurança institucional e às investigações em andamento. A reação do ministro expôs a gravidade da decisão anterior. Não se tratava apenas do afastamento de dois servidores de alto escalão da PF, mas de uma intervenção com potencial para atingir diretamente o funcionamento de investigações em curso e a própria autonomia institucional da corporação. A demora do presidente da Corte Suprema em enfrentar a dimensão da crise acabou exigindo uma reação emergencial de Flávio Dino que, ao fim e ao cabo, levou o ministro Edson Fachin a tomar decisões imprescindíveis diante da grave crise institucional.

Em 9 de setembro, o presidente Lula, por meio de uma declaração republicana publicada nas redes sociais e elogiada inclusive por juristas identificados com a direita, foi direto ao ponto ao exigir total transparência. Diante da gravidade do caso, defendeu que não haja vazamentos seletivos capazes de interferir na disputa eleitoral e reivindicou a quebra completa do sigilo das investigações envolvendo todos os personagens do caso Master, “seja quem for, doa a quem doer”. A mensagem foi cirúrgica: se há irregularidades, que sejam conhecidas por todos; se há culpados, que respondam por seus atos; e se há inocentes, que também tenham o direito de demonstrar isso diante da sociedade. Lula agiu com maestria frente à grave situação e, sobretudo, sobre a armação provocativa do ministro terrivelmente bolsonarista.

À medida que essa crise foi ganhando novas dimensões, entidades empresariais e comerciais divulgaram um “Manifesto à Nação Brasileira” em 9/9, cobrando do plenário da Corte uma resposta pública e imediata. Diante dessas pressões dirigidas à presidência do STF, o ministro Edson Fachin, no decurso do mesmo dia 9/9, finalmente saiu do estado de letargia e começou a colocar em movimento os mecanismos institucionais para conter a crise. Fachin suspendeu as decisões de André Mendonça e Flávio Dino sobre o afastamento e a reintegração de Andrei Rodrigues e Leandro Almada, mantendo-os nos seus respectivos cargos. Também retirou de Alexandre de Moraes a relatoria do inquérito das fake news e marcou para 15 de setembro uma sessão extraordinária do plenário para analisar o relatório que revelou mensagens enviadas por Vorcaro ao ministro Alexandre de Moraes. Em 10/9, Fachin pediu a retirada de sigilo das investigações do Caso Master. Todavia, com a abertura do sigilo, ainda em parte até essa data, a população brasileira e, principalmente, a fração dos eleitores que ainda permanece iludida diante do assustador histórico que envolve a família Bolsonaro, descobriu que Flávio Bolsonaro está sendo investigado por suspeitas de lavagem de dinheiro, corrupção e evasão de divisas.

Contudo, somente essas medidas do presidente da Corte Constitucional não são suficientes para passar a limpo a condução dos processos referentes ao Banco Master e ao Dark Horse, ambos sob a relatoria de André Mendonça, cuja permanência à frente dos casos é questionável diante das suspeitas que recaem sobre sua atuação e da necessidade de que ele próprio seja investigado. A sucessão de vazamentos seletivos e a falta de transparência ampliaram a desconfiança em torno de processos que, pela gravidade dos fatos e pelo número de personagens envolvidos, deveriam estar submetidos ao mais amplo grau de transparência possível. Um novo desdobramento reforçou essa preocupação pelo fato de Mendonça ter encaminhado aos demais ministros somente parte das investigações envolvendo o Caso Master.

A dimensão dessa lacuna ficou evidente em 11 de setembro, quando a Procuradoria-Geral da República (PGR) encaminhou manifestação ao presidente do STF, Edson Fachin, reivindicando que o acesso às investigações relacionadas à Petição 15.556 e à Operação Compliance Zero seja amplo e sem qualquer restrição. Já o ministro Cristiano Zanin solicitou a Edson Fachin acesso integral ao material extraído do celular de Daniel Vorcaro. A medida pretende permitir que Zanin examine o conjunto das informações que integram as investigações do caso, em meio à análise das questões que deverão chegar ao Plenário da Corte e às manifestações apresentadas pela Procuradoria-Geral da República. O ministro Alexandre de Moraes também enviou ofício a Fachin cobrando essa mesma medida. Destacou que faltam 180 peças específicas no material disponibilizado e reiterou a necessidade de liberação integral dos documentos, acompanhada de uma contagem formalmente certificada pela Diretoria de Tecnologia da Informação do STF. Após pedido da PGR, Fachin deu 24 horas para Mendonça retirar sigilo de documentos do caso Master. Diante dessa solicitação, André Mendonça retirou o sigilo de novos documentos e processos que integram o caso Master. Entre esses estão os que envolvem o senador Flávio Bolsonaro (PL), Ciro Nogueira (PP), Cláudio Castro (PL), Jaques Wagner (PT) e Thiago Miranda.

O acúmulo dessas intercorrências torna imprescindível, portanto, que a relatoria de Mendonça seja transferida para outras mãos. Caso contrário, os conflitos, que ora afetam o STF, poderão perdurar, repercutindo, inclusive, nos rumos do processo eleitoral. O enfraquecimento do STF interessa apenas a Flávio Bolsonaro e a seus aliados na Corte, jamais às forças progressistas, que defendem uma Suprema Corte fortalecida, independente e capaz de preservar a credibilidade e a confiança da sociedade. Perante essa conjuntura preocupante, permanece urgente a reivindicação de Lula pela quebra absoluta dos sigilos das investigações, alcançando todos os envolvidos, sem exceção. A postura de cada ministro deverá ser republicana, sem favorecimentos a quem quer que seja e sem qualquer possibilidade de proteção seletiva diante dos atos que estão sendo investigados.

Nesse horizonte conturbado, é preciso dizer com todas as letras que há uma ofensiva da direita oportunista e da extrema direita em curso, auxiliada por decisões do ministro Mendonça que provocam suspeitas e aprofundam a instabilidade institucional. Ao ser alçado pelo bolsonarismo à condição de suposto guardião da Justiça, o ministro André Mendonça acabou por corroer a própria credibilidade do STF ao relegar a imparcialidade a segundo plano. Suas decisões extrapolaram os limites de sua atuação ao interferir na condução das investigações, selecionar os agentes responsáveis por executá-las e ter manejado o sigilo dos autos conforme conveniências que, em vez de jurídicas, revelam nítido viés político. Em igual medida, é necessário que Alexandre de Moraes seja investigado pelas suspeitas de envolvimento com Vorcaro.

Essa investida institucional, porém, não se limita aos embates no interior do STF. Ela se articula também no campo político e eleitoral, buscando mobilizar a base bolsonarista e ampliar a radicalização às vésperas do pleito. As manifestações da extrema direita bolsonarista no 7 de setembro evidenciaram a intenção de tensionar os poucos dias que antecedem as eleições, alimentando um ambiente de radicalização perigoso para o processo democrático. Essa ofensiva, porém, não se restringe à disputa institucional: ela mobiliza também a religião como instrumento de convencimento eleitoral, transformando a fé em argumento político e buscando conferir legitimidade divina a personagens e projetos de poder. Na manhã do dia 7, antes do comício na Paulista, Flávio Bolsonaro e Tarcísio de Freitas participaram de um culto ao lado do pastor Valdemiro Santiago, conhecido pelas controvérsias envolvendo suas práticas religiosas e pedidos de contribuições financeiras. No mesmo terreno desse obscurantismo, Michelle Bolsonaro voltou a defender o ministro André Mendonça, a quem atribuiu a condição de “escolhido e ungido do Senhor”. A cena expõe a promíscua mistura entre religião, política e poder institucional. A fé é instrumentalizada para a disputa eleitoral e um ministro da Suprema Corte passa a ser apresentado como escolhido por forças divinas. Em uma República laica, essa apropriação religiosa da política deveria causar absoluto estranhamento.

Há alguns meses, parece não existir outro assunto senão as decisões do STF e os ministros supostamente vinculados a Vorcaro. É preciso virar o disco. O debate eleitoral precisa voltar ao centro da pauta, e com extrema urgência. Afinal, o que está em jogo são os destinos do país e as condições de vida de milhões de brasileiros, em face do iminente risco apontado pelos institutos de pesquisa, a eleição para a Presidência da República de um candidato sobre o qual recaem graves suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas.

 

Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247