segunda-feira, 11 de maio de 2026

Bertha Maakaroun: Crimes da ditadura - JK e a verdade interditada, o laudo que faltava

“A sua respiração ofegante e em alto volume tomava conta do quarto. Um som horrível. Maria Thereza deu a volta na cama e foi para o lado dele. Tentou acordá-lo. Jango estava com a boca aberta, buscando ar de maneira aflita, mas não conseguia respirar. Segurava com força o travesseiro. Deu um gemido mais alto e seco. Maria Thereza começou a sacudi-lo e gritou o seu nome. Como ele não reagia, saiu correndo em busca de ajuda.” Naquela madrugada de 6 de dezembro de 1976, aos 57 anos, morria o ex-presidente da República João Belchior Marques Goulart (1918-1976), o Jango, em sua fazenda La Villa, no município argentino de Mercedes. O relato é de Wagner William, na obra “Uma mulher vestida de silêncio – A biografia de Maria Thereza Goulart” (editora Record).

Três meses antes, em 22 de agosto de 1976, aos 74 anos, morria Juscelino Kubitschek em alegado acidente na Via Dutra, à altura do município de Resende (RJ), quando se deslocava em sentido do Rio de Janeiro, em um Opala conduzido por seu leal motorista de mais de três décadas, Geraldo Ribeiro. JK, construtor de Brasília, admirado pela alegria e pelo otimismo daqueles “Anos Dourados”, ali encerrava a sua trajetória: prefeito de Belo Horizonte (1940-1945), deputado federal constituinte (1945-1946), governador de Minas Gerais (1951-1955), presidente do Brasil (1956-1961), senador por Goiás (1962-1964), cassado em 8/6/1964 pela ditadura militar, teve os direitos políticos suspensos por 10 anos. Do exílio, em outubro de 1966, JK reunia Jango e o udenista Carlos Lacerda – outrora adversário e articulador do golpe militar – em torno de uma Frente Ampla pela reabertura democrática e convocação de eleições gerais.

Em 21 de maio de 1977, foi a vez de Carlos Lacerda sofrer um infarto fulminante. Morreu sem recuperar os seus direitos políticos. Ditaduras, assim como a guilhotina, costumam se voltar também contra os seus criadores. Nos anos 1970, as ditaduras de Brasil, Argentina, Uruguai, Paraguai e Chile, com o apoio norte-americano, firmaram parceria de serviços de inteligência para monitorar, sequestrar e por vezes matar adversários políticos em ações clandestinas.

A cooperação ficou conhecida como Operação Condor. É nesse contexto que as mortes de Jango e de JK foram eivadas de questionamentos: a suspeita de que teriam sido vítimas de uma ação de Estado nunca foram totalmente afastadas. Em 2001, em seu depoimento na comissão especial que investigava a morte de João Goulart, o ex-governador Leonel Brizola afirmou que Jango e JK foram vítimas da Operação Condor. Em 2013, os restos mortais de Jango foram exumados a pedido da Comissão Nacional da Verdade, para apurar a suspeita de que ele teria sido envenenado. O trabalho de perícia foi realizado pela Polícia Federal. O laudo apresentado teve resultado inconclusivo.

Também o caso JK jamais foi pacificado. Diversas investigações buscaram elucidar por que o motorista perdeu o controle do Opala. Enquanto aquelas conduzidas pela ditadura concluíram que o Opala teria sido atingido por um ônibus da Viação Cometa ao tentar ultrapassá-lo – veredito acompanhado por comissão externa da Câmara dos Deputados em 2001 e pela Comissão da Verdade em 2014 – três outras comissões demonstraram que JK foi vítima de um atentado político. Foi o caso da Comissão Estadual da Verdade de São Paulo, da Comissão Estadual da Verdade de Minas Gerais e da Comissão Municipal da Verdade de São Paulo. Esses trabalhos de pesquisa reuniram indícios de que carro se desgovernou por alguma ação externa —sabotagem mecânica ou mesmo um tiro ou envenenamento do motorista.

ROBUSTAS PROVAS

Foi a partir de novas e robustas provas extraídas de um inquérito conduzido pelo Ministério Público Federal entre 2013 e 2019 que a Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), que atua no âmbito do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, decidiu reabrir em 2025 o caso JK para reexame. A historiadora Maria Cecília Adão foi designada relatora do caso. Em carta dirigida em 30 de abril de 2026 à ministra dos Direitos Humanos e da Cidadania, Janine Mello dos Santos, fizeram apelo público para a ampla divulgação das conclusões do caso Gilberto Natalini, presidente da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog (São Paulo, 2013-2014); Adriano Diogo, presidente da Comissão Estadual da Verdade Rubens Paiva (São Paulo, 2013-2015); Robson Sávio Reis Souza, coordenador da Comissão da Verdade em Minas Gerais (Belo Horizonte, 2016-2018); Serafim Jardim, secretário-particular de Juscelino Kubitschek (1967-1976); e Ivo Patarra, consultor da Comissão da Verdade Vladimir Herzog (2013-2014).

Eles assinalaram que na investigação do Ministério Público Federal foi decisivo o trabalho de Sérgio Ejzenberg, perito e mestre em Engenharia de Transportes pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), que apresentou “categórico laudo de 222 páginas”, que demonstrou serem falsas as teses sobre colisão do ônibus com a traseira do Opala como causa do acidente que vitimou JK. Em vídeo 3D que simula o ocorrido, o perito derrubou tecnicamente tal hipótese. “Além disso, a investigação do Ministério Público Federal revelou também, por meio de uma sólida perícia médico-legal, as fraudes referentes aos exames toxicológicos, exames de sangue, quebra da cadeia de custódia dos corpos, entre outros elementos de prova até então inéditos. A conclusão é inequívoca: a ditadura produziu investigações destinadas a encobrir a verdade”, registra a carta.

A verdade que vem à tona reescreve a história. No ano do cinquentenário da morte de um dos presidentes da República mais marcantes do Brasil, o relatório da historiadora que será submetido à Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP) afirma que JK foi morto em 1976 pela ditadura. É um relatório de cinco mil páginas que, neste momento, está sendo examinado pelos conselheiros que, em data ainda não definida. O arcabouço jurídico para a tese de responsabilidade do Estado apontada no novo relatório se respalda na teoria do “in dubio pro victima” –, ou seja, na dúvida, a favor da vítima –, defendida por juristas como o professor titular de direito da USP Gilberto Bercovici e o argentino Luis Moreno Ocampo, ex-procurador-chefe do Tribunal Penal Internacional.

Nas palavras de Milan Kundera: “A luta do homem contra o poder é a luta da memória contra o esquecimento.”

¨      Os fatos que reabrem suspeita sobre acidente que matou JK

Um novo relatório da Comissão sobre Mortos e Desaparecidos Políticos (CEMDP), elaborado pela relatora e historiadora Maria Cecília Adão, concluiu que o ex-presidente Juscelino Kubitschek (JK) foi assassinado pela ditadura militar. O documento será votado pelo colegiado e, se aprovado, pode reformular as certidões de óbito de JK e de seu amigo e motorista, Geraldo Ribeiro.

As informações são da Folha de S. Paulo. Segundo o jornal, o relatório baseia-se em perícias recentes que apontam contradições em relação a investigações anteriores, além da análise do contexto político da época. Uma comissão externa da Câmara dos Deputados, em 2001, e a Comissão Nacional da Verdade, em 2014, haviam acatado outra tese, a de que a morte ocorreu por um acidente. O mesmo veredito foi dado por uma reabertura do caso conduzida pela polícia em 1996.

"A relatora tem trabalhado de forma articulada com pesquisadores do tema a fim de oferecer um relatório sobre o caso tendo comunicado aos familiares que o caso estava em análise", afirmou o CEMDP em nota divulgada nesta sexta-feira (08/05). O texto foi apresentado ao colegiado em 1º de abril, mas a votação foi adiada "diante do extenso número de documentos para análise e da necessidade de dar conhecimento aos familiares sobre o conteúdo das apurações".

<><> A polêmica sobre a morte de JK 

JK morreu em agosto de 1976, há quase 50 anos, em um acidente no km 165 da Via Dutra. O Opala em que estava, conduzido pelo amigo Geraldo Ribeiro, saiu da pista, atravessou o canteiro central, invadiu a via oposta e trafegou por 50 metros na contramão antes de colidir frontalmente com uma carreta.

Desde então, o motivo da perda de controle do veículo alimenta diferentes perspectivas sobre o caso.

A investigação conduzida por autoridades da ditadura, em 1976, sustentou que o Opala havia tocado em um ônibus da Viação Cometa durante uma ultrapassagem, o que teria provocado o descontrole.

Já o novo relatório retoma uma tese defendida por pesquisadores da Faculdade de Direito da USP e da Universidade Presbiteriana Mackenzie, produzida em parceria com as Comissões Estaduais da Verdade de São Paulo, Minas Gerais e do município de São Paulo.

Os pesquisadores argumentam que o descontrole do veículo decorreu de causa externa — como uma sabotagem mecânica — ou até de um mal súbito provocado por envenenamento do motorista.

Diferentemente de colegiados anteriores, o novo relatório também incorpora uma análise do Ministério Público Federal (MPF), produzida entre 2013 e 2019 e divulgada apenas em 2021, portanto após as conclusões da Comissão da Verdade. Segundo a CEMDP, o documento da relatora se baseia em provas já públicas dispostas neste inquérito.

A CEMDP havia sido encerrada em 2022, no governo Bolsonaro, e reaberta por Lula dois anos depois. Criada em 1995 por Fernando Henrique Cardoso, atravessou quase oito mandatos com a missão de reconhecer mortes e desaparecimentos políticos e promover reparação às famílias.

Em fevereiro de 2025, a comissão decidiu revisitar o caso e voltou a ouvir familiares de JK e de Geraldo Ribeiro. Um manifesto de membros da extinta Comissão da Verdade de São Paulo cobrava uma nova análise federal. O colegiado estadual havia sugerido que a morte foi resultado de atentado político.

Leia abaixo o que de fato se sabe sobre o acidente que vitimou JK e Geraldo Ribeiro.

<><> Colisão entre ônibus e Opala

O inquérito produzido pelo MPF já havia ganhado publicidade em 2025, quando a CEMDP decidiu reabrir o caso.

Os laudos policiais de 1976 afirmavam ter encontrado vestígios de impacto e transferência de tinta no flanco direito do ônibus, além de marcas no paralama traseiro esquerdo do Opala. Fotos da época registram esses danos no veículo de JK.

A investigação do MPF, porém, descartou a tese de colisão. Para os técnicos, não há elementos que expliquem a perda de controle do carro.

O órgão identificou erros graves e contradições nos laudos produzidos em 1976 pelo Instituto de Criminalística Carlos Éboli (ICCE). Entre eles, a constatação de que o enrugamento do paralama, apontado como prova do choque com a Viação Cometa, teria sido provocado, na verdade, pela colisão frontal. Ao comparar imagens do local do acidente com fotos feitas após a remoção do veículo, o MPF ainda concluiu que outros danos na traseira do Opala ocorreram após o guinchamento.

"Jamais a avaria na extremidade do para-lama traseiro esquerdo e na respectiva lanterna poderia ter sido considerada como prova da hipotética e não comprovada colisão com suposto 'terceiro veículo', pois simplesmente não existia no momento imediato após a colisão, o que é mais uma das graves falhas técnicas dos laudos do ICCE", diz o MPF.

O MPF ainda produziu uma reconstrução 3D do acidente, com base nos laudos e em depoimentos de testemunhas. Nela, não há qualquer contato entre o ônibus e o carro. Segundo os peritos, naquelas condições, seria fisicamente impossível que um choque do ônibus no carro causasse tal desvio de rota.

"O estudo da velocidade crítica de derrapagem de veículos leves e pesados na curva que precede o local dos fatos, juntamente com o estudo das avarias do Opala, possibilitam afirmar categoricamente que ele não foi atingido pelo ônibus".

O relatório registra que o motorista do ônibus, Josias Oliveira, foi inocentado em processo por homicídio culposo. Ele sempre negou a primeira colisão, afirmando que o Opala cruzou sua frente em alta velocidade. Passageiros ouvidos pela Comissão da Verdade de São Paulo também relataram não ter sentido ou ouvido qualquer impacto no trajeto.

<><> Marcas de frenagem e carro "mexido"

As perícias destacam que não havia marcas de frenagem na pista, o que seria esperado caso o motorista tivesse tentado evitar a colisão. Na conclusão do MPF, o engenheiro Sérgio Ejzenberg afirmou que a hipótese de sabotagem não poderia ser descartada.

O acidente ocorreu pouco mais de dois quilômetros após o Hotel Villa-Forte, de onde JK havia saído minutos antes após reunião com o filho do brigadeiro Newton Villa-Forte. Segundo depoimento do filho de Newton, o motorista Geraldo Ribeiro reclamou, antes de partir, que alguém havia "mexido no carro". É notório que as autoridades à época não realizaram perícia em busca de alterações nos componentes mecânicos do carro.

Também foi concluído que o Opala não trafegava acima da velocidade permitida e acelerou a 100 km/h apenas segundos antes do impacto. "O Opala não frenou durante a rota de colisão, nem mesmo diante da iminente batida frontal. Pelo contrário, manteve velocidade elevada até o choque. [...] O condutor não realizou nenhuma manobra evasiva", diz o relatório.

A hipótese de envenenamento do motorista foi considerada possível, mas prejudicada devido à ausência de exames toxicológicos na época. Outras teorias afirmam que Geraldo teria tido um mal súbito por causas naturais. 

<><> Socorro policial e aparato militar

Outro fato comprovado até o momento foi a demora do socorro policial. O motorista do ônibus, Josias, parou o veículo após testemunhar o acidente e constatou que uma das vítimas seria JK. Ao seguir viagem, informou o ocorrido a um posto policial. O agente, porém, seguiu primeiro à Academia Militar das Agulhas Negras.

Testemunhas afirmam que diversos militares chegaram ao local antes mesmo da Polícia Rodoviária Federal. Segundo o jornalista Ivan Barros, que reportou o caso, foram eles que assumiram o controle da situação e usaram um guincho para levantar os escombros do veículo antes mesmo da chegada da perícia. O Opala foi posteriormente totalmente desmantelado, impedindo a revisão do caso, em 1996.

<><> Contexto político é levado em consideração

Em 1976, JK ascendia como uma das principais lideranças da resistência à ditadura, por meio da Frente Ampla.

O relatório do MPF cita documentos da Operação Condor, aliança entre ditaduras sul-americanas para coordenar perseguições e desaparecimentos, que tratavam o ex-presidente como uma ameaça. 

Entre os elementos dispostos está uma carta do coronel Manuel Contreras, da inteligência chilena, a João Figueiredo, antes de se tornar presidente do Brasil, em que sugere ações contra a ascensão do diplomata chileno Orlando Letelier e de Kubitschek. Quase um ano após a correspondência, ambos morreram — Letelier em uma explosão de seu veículo.

A decisão da subprocuradoria-Geral da República em 2019, porém, foi a de arquivar o caso, já que, assim como não se poderia comprovar a teoria do acidente, também não haveria elementos de prova suficientes para se abrir uma ação criminal por homicídio.

Segundo a Folha de S.Paulo, a conclusão da historiadora Maria Cecília Adão vai além ao entender que, em casos como este, quando há dúvida, a decisão é favorável à vítima. Se a Comissão acatar essa perspectiva, o Estado poderá emitir novas certidões de óbito de JK e Geraldo Ribeiro como vítimas da ditadura.

¨      As suspeitas sobre a morte de João Goulart

A morte do ex-presidente brasileiro João Goulart, o Jango, em 6 de dezembro de 1976, na Argentina, é envolta em suspeitas de assassinato por envenenamento, envolvendo as ditaduras do Cone Sul e a Operação Condor.

  • Causa Oficial:

Jango faleceu oficialmente de um ataque cardíaco (infarto) na sua fazenda em Mercedes, Argentina, sem ter passado por autópsia antes do sepultamento.

  • Suspeita de Envenenamento:

A família de Jango suspeita que ele foi envenenado por agentes da [Operação Condor], uma aliança secreta entre as ditaduras da América do Sul para eliminar opositores.

  • Depoimento Chave:

Em 2008, um ex-agente de inteligência uruguaio, Mario Neira Barreiro, afirmou que os medicamentos para o coração de Jango foram trocados por substâncias tóxicas, como parte de um plano conjunto entre agentes brasileiros e uruguaios.

  • Perícia Inconclusiva (2014):

Em 2013, o corpo foi exumado e analisado por peritos internacionais. O laudo final, divulgado em 2014, não encontrou vestígios de veneno, mas não descartou a hipótese de envenenamento, pois o tempo decorrido (37 anos) prejudicou as análises.

  • Indícios de Monitoramento: Documentos do SNI (Serviço Nacional de Informações) brasileiro e depoimentos apontam que Jango era vigiado de perto no exílio por agentes da ditadura brasileira.
  • Ação de Limpeza: Relatos indicam que, logo após a morte, a fazenda de Jango foi "limpa", com a retirada de equipamentos de monitoramento e dos frascos de remédios.

Embora a ciência não tenha conseguido confirmar o envenenamento devido ao tempo, o caso continua sendo considerado suspeito e parte das investigações sobre os crimes das ditaduras militares na América Latina.

¨      Exumação e perícias

A exumação e as perícias realizadas nos restos mortais de João Goulart (Jango), ex-presidente do Brasil deposto pelo golpe de 1964, não trouxeram uma conclusão definitiva sobre sua morte, tornando-se um tema de debates contínuos.

A principal suspeita, investigada intensamente entre 2013 e 2014, é que Jango foi vítima de envenenamento como parte da Operação Condor, uma ação conjunta de ditaduras do Cone Sul para eliminar opositores.

Aqui estão os pontos principais sobre o caso:

  • A Morte Original (1976):

Jango morreu no exílio, na Argentina, em 6 de dezembro de 1976, aos 57 anos. A versão oficial foi de infarto do miocárdio, mas não houve autópsia na época.

  • A Suspeita de Envenenamento:

Relatos, incluindo o de um ex-agente de inteligência uruguaio, sugeriram que medicamentos de Jango para o coração teriam sido trocados por substâncias venenosas.

  • Exumação e Laudo (2013-2014):

O corpo foi exumado em 2013 e periciado por especialistas brasileiros, espanhóis e portugueses. O laudo final, divulgado em dezembro de 2014, foi considerado inconclusivo.

  • Resultados da Perícia:

Os peritos não encontraram substâncias tóxicas, mas também não descartaram a hipótese de envenenamento devido ao tempo decorrido (37 anos) entre a morte e a exumação, o que prejudicou a detecção de vestígios.

  • Situação em 2016:

A investigação permaneceu aberta, com o Ministério Público Federal analisando o caso e as suspeitas de que o óbito foi uma ação política da ditadura.

Em resumo, a perícia não conseguiu provar nem a morte por causas naturais (infarto) nem o envenenamento

 

Fonte: Jornal Estado de Minas/DW Brasil/CNV

 

A música sertaneja filha do agronegócio

Começando com um comentário simplório: onde a vaca vai, o boi vai atrás; onde o negócio vai, a cultura vai atrás.

Como se sabe, o modo de produção e as relações econômicas e sociais que dele derivam desenham a cara da sociedade. Os caminhos que a música sertaneja seguiu desde o começo do século XX são evidências disso. Ela já foi a música de caipiras, cuja origem era a zona rural de uma agricultura atrasada. Hoje ela se diz universitária e se ancora no agronegócio, que nos nossos dias é a principal atividade da economia do país.

A música caipira, também chamada de sertaneja, começa por ser o modo de expressão de artistas originários do meio rural do interior paulista, dominado pelo latifúndio do café — à margem do qual se produziam em pequenas propriedades os alimentos do dia a dia, o leite, o porco, o frango, ovos, a verdura, as frutas, para as cidades e para a subsistência.

Naqueles terreiros se encontravam o caipira paulista, vindo do indígena, do negro e do português, suas modas e danças como o cateretê, com os descendentes do italiano e do espanhol e suas memórias musicais. Deles vai nascer um tipo de música, a moda de viola, que faz o elogio da vida no campo em contraste com a vida na cidade, que trata da relação do peão com o gado, da beleza da natureza, das tristezas do caboclo, o amor, o drama.

Esses artistas, de um falar diferente do falar urbano, chamado de caipira com um tom de desdém, apesar disso encontraram um público nas cidades, divulgaram essas músicas, as levaram para o disco e a rádio. São aqueles mesmos chamados jecas, de mãos calejadas pela foice e a enxada, saídos da roça pela força de sua poética e o som de suas violas. Como Tonico e Tinoco, Alvarenga e Ranchinho e tantos outros.

Nas décadas seguintes, o país se industrializou, as cidades cresceram, a sociedade mudou. Expressando essas mudanças, a cultura musical encontrou outras formas. A música sertaneja de São Paulo incorporou influências nordestinas e gaúchas, do México e do Paraguai, do country dos Estados Unidos. Foram introduzidos outros instrumentos, como o acordeon (sanfona), bateria e guitarra, mas manteve seus temas principais. Posteriormente, iria passar por grandes modificações.

O agronegócio nasceu na ditadura militar. No final da década de 1960, o governo da época, a ditadura militar, acossado pela pressão do excedente de camponeses sem terra e pelos nordestinos flagelados pela seca, tentou induzi-los a imigrar para o Centro-Oeste e Norte, Mato Grosso, então vazios populacionais. Os camponeses resistiram. Queriam terra, mas no Centro-Sul, perto das cidades e estradas, onde havia (e há) enormes latifúndios improdutivos. Sem alternativa, uma parte deles seguiu para o Norte. Acabaram como mão de obra nos latifúndios modernizados instalados por ali.

Porque a política do governo tinha outra abordagem, a de promover a implantação de empresas agropecuárias para ocupar o enorme vazio. Fez estradas, deu grandes extensões de terra, promoveu incentivos fiscais para estimular os investimentos no Pará, Rondônia, Mato Grosso. Foi o PIN (Plano de Integração Nacional), um processo de modernização conservadora. Pecuaristas de São Paulo, Minas Gerais e até multinacionais como a Volkswagen participaram de imenso desmatamento e implantação de pastagens para criação de gado.

Depois, na década de 1980, vieram os agricultores, muitos vindos do Rio Grande do Sul e Paraná. Trouxeram sua cultura gaúchesca e a música vanerão. Começaram a plantar soja, milho e algodão para a exportação. O mercado internacional estava sedento dessas commodities. Grandes multinacionais se envolveram no processo, instalando-se no centro do sistema — Cargill, Dreyfus, Bunge etc. — passaram a controlar os investimentos para os grandes agricultores, a produção e venda de adubos, venenos, máquinas e tratores. Desde a década de 1980, dominam os preços do produto colhido, valorado na Bolsa de Chicago, e se encarregam de sua exportação, seja para a China ou qualquer outra parte.

Esse sistema internacional associado aos grandes produtores brasileiros se tornou conhecido como agronegócio. Isso porque não envolve apenas a agricultura, mas um sistema industrial de financiamento, produção e comércio de máquinas, adubos e agrotóxicos, importação de insumos e exportação da produção.

Cresceu de tal forma que, após 40 anos, se tornou o principal contribuinte para o PIB da economia brasileira, ao mesmo tempo em que a indústria nacional mergulhava em uma crise prolongada, perdendo espaço e atrasando-se tecnologicamente. Trata-se de uma reprimarização da economia do país. Isto é, as atividades econômicas primárias passaram a predominar, o país retornando a uma condição de fornecedor de matérias-primas para o mercado internacional e sendo obrigado a importar produtos industrializados, muitos dos quais antes produzia. Exemplo: o Brasil produzia seus trens: locomotivas, vagões, trilhos; hoje importa.

O agronegócio se desenvolveu a partir do Centro-Sul, São Paulo, Paraná, Rio Grande do Sul, e se expandiu para o Centro-Oeste e Norte, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, Goiás, Pará, Rondônia, depois para o Leste: Bahia, Piauí, Tocantins, Maranhão. Grande desmatamento da floresta e do cerrado, cobrindo o solo com produção de soja, milho, algodão e pastagens para o gado, quase tudo para a exportação.

Essa agroindústria torna-se responsável por transformações como a expansão da malha rodoviária e o surgimento de centros produtivos em torno de seu território em cidades de pequeno e médio porte que funcionam como agrofornecedores, as oficinas, hotéis, escritórios de assessoria agronômica. E emergem como símbolos ideológicos de modernidade (amplo uso da internet), riqueza, sucesso.

À sombra desse sistema de hegemonia capitalista, se desenvolveu um ambiente cultural próprio, presente nas relações sociais, inclusive na música, como se verá adiante, e que se caracteriza pelo posicionamento político conservador, cujos representantes nas entidades de governo e do Parlamento irão se tornar predominantes no cenário tanto local como nacional. Em 2026, a maior bancada no Congresso Nacional é a do agronegócio.

A modernização das práticas agrícolas com a inclusão de novas tecnologias, equipamentos sofisticados e novos métodos de tratamento do solo exigia mão de obra mais desenvolvida. Essa demanda foi atendida não só pela imigração dos centros urbanos do Centro-Sul como pela implantação massiva de novas universidades pelo interior do país promovida pelos governos do PT (com Lula de 2003 a 2010 e Dilma até 2016). Assim, os jovens do interior ganhavam oportunidade de se preparar para atender à procura dessa nova mão de obra, formando-se majoritariamente em agronomia, medicina veterinária e zootecnia, entre outras disciplinas.

A música sertaneja predomina nesse ambiente rural. Ela será absorvida, mas também modificada pelos novos artistas que vão surgindo à sombra do agronegócio, procurando atender a um novo público, pela primeira vez majoritariamente jovem e, como os novos artistas, eles também fazendo parte da juventude universitária.

Estudantes não só estudam, mas se divertem. Foi nesse contexto, através de jovens artistas que tocavam em festas e barzinhos em cidades-chave do agronegócio, como Campo Grande, no Mato Grosso do Sul, que o sertanejo universitário despontou. Sua origem se localiza entre 2003 e 2005, com o lançamento de álbuns precursores como Palavras de Amor, de Cesar Menotti e Fabiano. Tratam de “expressão em formação” na medida em que incorporam elementos da música sertaneja anterior tanto quanto os que se gestavam.

O agronegócio, preocupado com sua própria imagem, criticado como “conservador”, “atrasado”, “destruidor do meio ambiente”, buscou estratégias de marketing para se apresentar positivamente com expressões como “O agro é tech, o agro é pop, o agro é tudo”. E, principalmente no início, incentivou o sertanejo universitário como uma expressão representativa do ambiente rural modernizado.

O surgimento desse subgênero se deu em um momento de crise da indústria fonográfica. Os novos artistas, fazendo gravações sem sofisticação, se apresentando ao vivo em bares, festas, foram além: encontram caminhos alternativos para divulgar amplamente sua música por meio da internet, pela pirataria, plataformas de streaming como Netflix, Spotify e redes sociais como TikTok, Facebook e Instagram. Foi o gênero musical que melhor aproveitou a grande janela da internet.

Logo, essa vertente foi abraçada pelo mercado musical capitalista, que investiu nos artistas e em marketing e propaganda. Não foi a primeira vez que concepções artísticas surgiram atreladas a estratégias de mercado. A arte no capitalismo, transformada em mercadoria, está sujeita às imposições da indústria de bens culturais, cuja meta prioritária é o lucro.

Assim, o sertanejo universitário teve amplificada sua presença junto ao público, em feiras e exposições agropecuárias, e nos rodeios, como os de Barretos (SP) e Expo Londrina (PR), AgroShow e muitos outros eventos. Em seguida, seus artistas chegaram a mega shows na TV e no rádio, sua música virou trilha de novela da TV Globo, tornando-se o fenômeno musical de maior repercussão, não só nas regiões do agronegócio, mas em todo o país, empolgando principalmente a juventude.

Para teóricos como Theodor Adorno, em Introdução à Sociologia da Música, tais músicas não são autênticas manifestações de cultura de massas produzida pelo povo. Trata-se de um produto da indústria cultural.

De fato, hoje o cenário sertanejo é de um processo de intensificação da divisão de trabalho por meio de startups e escritórios especializados nas composições de hits, de onde surgem todo dia canções compostas e em seguida lançadas no mercado. Realizadas por grupos de autores, eles repartem a renda obtida através de direitos autorais.

Isso só foi possível a partir da concentração de capitais investidos no setor, o que o tornou o centro da indústria cultural brasileira do século XXI. Os investimentos nessa vertente musical foram além dos festejos agropecuários, desenvolveram uma série de festivais próprios de música sertaneja, como o Caldas Country e o Villa Mix, ambos oriundos de Goiás.

A estratégia de lançamentos faz uso generalizado do tradicional “jabá”, que é a compra de espaço na emissora de TV ou rádio, que torna visível o artista ou uma canção específica em detrimento de outras produções. Um artista que fatura de 20 a 40 milhões por ano sustenta sua visibilidade gastando 500 mil reais para cada faixa que divulga no rádio. O único risco que corre é de a música dar errado.

Esse subgênero musical tem encontrado muitas resistências, a começar por parte de artistas sertanejos tradicionais como Zezé de Camargo, que o qualificou de “mentira marqueteira”, e críticos musicais como Mário Marques, que disse: “é uma praga!” Na população, há quem não goste e o chame de “sertanojo” e outros epítetos depreciativos.

Afinal, que música é essa? Apropria-se da rítmica e sonoridade da música sertaneja tradicional. E acrescenta à viola e violão o acordeon e a guitarra, absorvendo um toque country. Importa outras características, como o chapéu e botas de cowboy e cinturão com largas fivelas. A temática varia desde a crônica da vida universitária, como em Faculdade da Pinga: “da faculdade não sei quando que eu saio formado/mas na escola da pinga eu já tenho doutorado”.

O tema do “amor” aparece combinado com o universo das festividades dos rodeios, festas de peão, feiras e exposições agropecuárias e até referências ao sucesso econômico individual, como no caso de:

Eu vou fazer um leilão/Quem dá mais pelo meu coração…

Um exemplo significativo desse subgênero musical, fruto cultural do agronegócio e de um ambiente universitário voltado para o rural, é a música Aceito sua decisão/Pois é, da dupla João Bosco & Vinicius. Em um vídeo, seis músicos estão sentados em banquinhos e caixotes num gramado, tendo ao fundo uma casa em ruínas tipicamente rural. Dois cantores com sotaque caipira, carregado nos erres, acompanhados por parceiros no acordeon, viola, violão e guitarra. A melodia tem toques de guarânia. Descreve a cena de um casal se separando:

tudo bem, pode ir, eu aceito sua decisão/abro a porta da sala e a ajudo com as malas (…) finalizo nosso caso tudo entre nós acabado/ porta aberta para a solidão…

O sertanejo universitário foi assim chamado porque a maioria dos artistas veio desse meio universitário que se formou em capitais do interior do país, como Campo Grande. E também porque, principalmente no início, seu público era majoritariamente jovem e em grande parte universitário.

Hoje esse subgênero faz parte de um grande complexo da indústria cultural do país. Cobrando cachês milionários, seus artistas têm acumulado fortunas. Muitas de suas músicas alcançaram sucesso nacional e, pelo menos uma, Ai se eu te pego! do paranaense Michel Teló, teve repercussão internacional. Michel Teló veio das origens desse gênero musical, apresentando-se nos barzinhos do início dos anos 2000, em Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Talvez seja o maior representante do sertanejo universitário. Mas nunca frequentou a universidade.

 

Fonte: Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

 

Como o consumo de doce pode impactar a glicemia de quem tem diabetes ou pré-diabetes? Entenda

Basta um pedaço de bolo para surgir a dúvida: isso vai descontrolar tudo? A relação entre comer doce glicemia ainda gera confusão entre quem vive com diabetes ou pré-diabetes. Enquanto alguns evitam qualquer açúcar por medo de picos, outros acreditam que pequenas quantidades não fazem diferença. Nenhum desses extremos explica o que acontece de fato.

O impacto do doce depende menos do alimento isolado e mais do contexto, como tipo de diabetes, quantidade, combinação no prato e até o momento do dia. Sem esse entendimento, o controle vira tentativa e erro, muitas vezes acompanhado de frustração.

<><> O que acontece no corpo quando você come doce

Quando você come doce, a glicose entra rapidamente na corrente sanguínea. É como se vários carros entrassem ao mesmo tempo em uma avenida. A insulina funciona como o agente que organiza esse fluxo, permitindo que a glicose entre nas células.

No entanto, quando essa organização falha, a glicose se acumula no sangue. Além disso, a velocidade dessa subida depende do tipo de alimento e do que acompanha o doce. Um doce consumido sozinho tende a gerar uma resposta mais rápida. Por outro lado, quando ele vem junto com fibras, proteínas ou gorduras, essa absorção pode ser mais lenta.

Segundo a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, “a resposta glicêmica não depende apenas do açúcar, mas de outros ingredientes e também de como o organismo consegue lidar com essa carga ao longo do tempo”.

Portanto, o impacto não é fixo. Ele varia conforme o cenário.

<><> Comer doce glicemia no diabetes tipo 1: exige estratégia

No diabetes tipo 1, o corpo não produz insulina. Isso significa que qualquer ingestão de doce precisa ser acompanhada de insulina aplicada.

Nesse contexto, comer doce exige planejamento. A contagem de carboidratos ajuda a estimar a quantidade de glicose que vai entrar no sangue e, assim, ajustar a dose de insulina.

No entanto, nem sempre o cálculo é simples. Doces ricos em gordura, como chocolate, podem atrasar a absorção da glicose. Como resultado, a glicemia pode subir horas depois.

Além disso, erros na dose podem provocar tanto hiperglicemia quanto hipoglicemia. Portanto, o desafio não é o doce em si, mas a precisão no manejo.

<><> Diabetes tipo 2: impacto mais prolongado e silencioso

No diabetes tipo 2, o corpo ainda produz insulina, mas ela não funciona de forma eficiente. Esse quadro é conhecido como resistência à insulina.

Nesse cenário, o doce representa um aumento de carga em um sistema que já está sobrecarregado. A glicose sobe e pode permanecer elevada por mais tempo.

Além disso, o consumo frequente de açúcar tende a agravar essa resistência. Com o tempo, isso dificulta ainda mais o controle da glicemia.

Segundo a nutricionista Carolina Netto, doutora pela Unicamp, “o problema não está apenas no pico imediato, mas na repetição de padrões alimentares que mantêm a glicose elevada”.

Portanto, o impacto do doce no diabetes tipo 2 pode ser imediato e a cumulativo.

<><> Pré-diabetes: uma janela de oportunidade

No pré-diabetes, o corpo já apresenta sinais de dificuldade no controle da glicose, mas ainda há margem para reversão.

Nesse estágio, comer doce pode gerar picos mais frequentes. No entanto, mudanças no estilo de vida têm grande impacto na resposta do organismo.

Além disso, combinar o doce com outros alimentos pode reduzir a velocidade de absorção. Isso ajuda a evitar picos mais intensos.

Portanto, o pré-diabetes é um momento estratégico para ajustar hábitos e melhorar a sensibilidade à insulina.

<><> O contexto muda o impacto do doce na glicemia

Nem todo doce provoca o mesmo efeito. Comer sobremesa após uma refeição equilibrada tende a gerar uma resposta diferente de consumir açúcar isolado.

Além disso, fatores como atividade física, sono e estresse influenciam diretamente a glicemia. Por exemplo, caminhar após comer pode ajudar a reduzir o pico glicêmico. Por outro lado, noites mal dormidas podem dificultar o controle.

Nesse contexto, olhar apenas para o alimento pode levar a interpretações equivocadas. O corpo responde ao conjunto de fatores.

<><> Não existe alimento proibido, mas escolhas que fazem sentido

A ideia de que pessoas com diabetes não podem comer doce já não reflete a abordagem atual. O foco está na individualização.

Isso significa entender como o corpo reage e fazer escolhas mais conscientes.

Se a decisão for comer doce, algumas estratégias ajudam:

•        Preferir pequenas porções

•        Evitar consumo em jejum

•        Combinar com fibras, proteínas ou gorduras

•        Monitorar a glicemia antes e depois

•        Ajustar medicação ou insulina quando necessário

Além disso, planejar o consumo ao longo do dia reduz impactos.

Por outro lado, transformar o doce em hábito frequente pode comprometer o controle, especialmente no diabetes tipo 2 e no pré-diabetes.

<><> Conclusão

Comer doce não é automaticamente um erro, mas também não é neutro. O impacto na glicemia depende do tipo de diabetes e do contexto em que ele é consumido.

Portanto, mais importante do que proibir alimentos é entender como o corpo responde e adaptar as escolhas à realidade de cada pessoa.

•        Glicose alta pode atrapalhar tratamentos dentários em pessoas com diabetes, alerta dentista

A glicose alta pode interferir em tratamentos dentários em pessoas com diabetes, principalmente quando o procedimento exige cicatrização, cirurgia ou resposta do organismo.

O alerta é da dentista Bruna Ricci, especialista em doenças periodontais e dentística, que também convive com diabetes tipo 1 há 29 anos. Em entrevista ao DiabetesCast, ela explicou que a saúde bucal e o controle glicêmico precisam ser avaliados juntos no consultório odontológico.

<><> Tratamentos dentários em pessoas com diabetes exigem controle glicêmico

Segundo Bruna Ricci, muitos pacientes chegam ao consultório com problemas bucais e diabetes tipo 2. Em alguns casos, o tratamento envolve implantes, cirurgias ou outros procedimentos eletivos.

Esses procedimentos exigem um controle glicêmico adequado. A dentista cita o exemplo de um paciente com hemoglobina glicada de 13%. Nesse cenário, um implante odontológico tende a não apresentar resultado esperado.

A explicação está na cicatrização, na formação dos tecidos e na defesa do organismo. Quando a glicose fica elevada, esses processos podem ficar comprometidos. Por isso, o planejamento odontológico precisa considerar o estado geral do paciente.

<><> Quando o procedimento dentário pode esperar

Bruna explica que tratamentos eletivos, como implantes e cirurgias programadas, podem precisar de adiamento quando a glicemia está fora do controle. A decisão depende da avaliação do dentista e do quadro de saúde do paciente.

Nesses casos, o encaminhamento ao endocrinologista faz parte do cuidado. O objetivo é melhorar o controle glicêmico antes de realizar o procedimento. Essa etapa pode reduzir riscos e aumentar a chance de um resultado adequado no tratamento odontológico.

A orientação também reforça a importância da comunicação entre dentista, endocrinologista e paciente. O diabetes não deve ser avaliado apenas pelo olhar odontológico. O tratamento precisa considerar a saúde como um todo.

<><> Dor e abscesso não devem ser ignorados

Nem todo procedimento dentário pode esperar. Segundo Bruna Ricci, casos de dor, abscesso e infecção precisam de atenção. Essas situações podem impactar a saúde geral do paciente.

Quando há dor ou abscesso, o tratamento pode ser realizado mesmo em pessoas com diabetes. A diferença é que o cuidado odontológico deve caminhar junto com o acompanhamento médico.

A dentista explica que o paciente deve ser encaminhado ao endocrinologista para melhorar o controle da glicose. Assim, o tratamento da urgência e o ajuste do diabetes acontecem de forma conjunta.

<><> Cáries e diabetes não têm relação direta

No episódio, Bruna Ricci também explicou a relação entre cáries e diabetes. Segundo ela, a glicose alta no sangue não aumenta diretamente a chance de ter cáries.

A cárie ocorre pela desmineralização do dente. Esse processo acontece quando bactérias produzem ácido na boca. Essas bactérias se alimentam do açúcar, incluindo o açúcar dos doces e dos carboidratos que ficam retidos nos dentes.

Mesmo sem uma relação direta, pessoas com diabetes podem ter fatores de rotina que aumentam o risco. Por isso, a avaliação individual tem papel central na prevenção.

<><> Salivação, lanches e hipoglicemia podem influenciar a saúde bucal

Pessoas com diabetes podem apresentar menor salivação. A saliva ajuda a regular o pH da boca. Quando a salivação diminui, a boca pode ficar mais ácida, o que favorece problemas dentários.

Outro ponto citado é o consumo frequente de lanches. Quando a pessoa come várias vezes ao dia, os dentes ficam mais expostos ao açúcar e aos resíduos de carboidratos.

A correção da hipoglicemia também entra nessa discussão. Muitas pessoas usam açúcar ou bebidas açucaradas para tratar uma queda de glicose. Quando isso acontece à noite, a escovação nem sempre vem depois.

Bruna relatou que, em uma pesquisa informal feita por ela, todos os pacientes com diabetes consultados disseram não escovar os dentes após uma hipoglicemia noturna. Esse hábito pode aumentar o risco para a saúde bucal.

<><> Escovação correta e fio dental fazem parte do cuidado

A dentista orienta que a escovação seja feita três vezes ao dia. Escovar mais do que isso não é indicado para todos, porque pode causar desgaste dental.

O tempo de escovação também importa. Segundo Bruna, o ideal é escovar por dois minutos, dividindo 30 segundos para cada quadrante da boca.

Ela também destaca o uso do fio dental pelo menos uma vez ao dia. Quando há alimento preso entre os dentes, o fio dental também deve ser usado.

No consultório, Bruna utiliza corantes para mostrar ao paciente onde a escovação falha. A estratégia ajuda a ensinar a técnica correta e mostra que apenas escovar não garante remoção adequada da placa.

<><> Enxaguante bucal não substitui escova e fio dental

Bruna Ricci também alerta que muitos enxaguantes têm função cosmética. Eles podem deixar o hálito refrescante, mas não removem placa bacteriana.

A remoção da placa depende da escova e do fio dental. O enxaguante pode ter indicação em situações específicas, como doença periodontal, pós-cirúrgico, estímulo salivar ou aumento de flúor.

O uso deve ser orientado pelo dentista. Nem todo paciente precisa incluir enxaguante na rotina.

<><> Dentistas também podem identificar sinais de diabetes

A entrevista também chama atenção para o papel do dentista na identificação de problemas de saúde. Bruna afirma que profissionais da odontologia devem observar sinais que podem indicar condições como diabetes e hipertensão.

Isso vale principalmente para pessoas com diabetes tipo 2 que ainda não receberam diagnóstico. Problemas bucais recorrentes, infecções e dificuldade de cicatrização podem exigir uma investigação mais ampla.

A saúde bucal e a saúde geral não devem ser tratadas separadamente. Para quem convive com diabetes, o consultório odontológico também pode ser um ponto de cuidado e orientação.

•        Vitamina de frutas no diabetes: a bebida pode ser consumida no café da manhã? Nutricionista explica

A vitamina de frutas com leite faz parte do café da manhã de muitos brasileiros, mas quem vive com diabetes precisa avaliar o impacto dessa combinação na glicose. A dúvida é comum: é possível consumir sem descontrole?

Segundo a nutricionista e educadora em diabetes Carol Netto, a resposta depende da quantidade de frutas, do tipo escolhido e da forma de preparo. Nesse contexto, entender como a vitamina interfere na glicemia ajuda a evitar picos.

<><> Vitamina de frutas com leite tem carboidrato e impacta a glicose

Ao preparar uma vitamina, é comum misturar banana, maçã e mamão. No entanto, essa combinação soma carboidratos. Em um copo de 200 ml, a bebida pode ter cerca de 26 gramas de carboidrato.

Além disso, o leite também contribui. Um copo com 200 ml adiciona aproximadamente 10 gramas de carboidrato, além de gordura e proteína. Portanto, o valor total consumido aumenta.

Enquanto isso, ao bater as frutas no liquidificador, a estrutura delas é modificada. As fibras continuam presentes, mas ficam mais fragmentadas. Isso facilita a absorção da glicose pelo organismo.

<><> Vitamina pode ser melhor que suco, mas depende da composição

De acordo com Carol Netto, a vitamina com leite tende a provocar uma elevação mais lenta da glicose quando comparada ao suco de fruta. Isso acontece porque a gordura e a proteína do leite ajudam a reduzir a velocidade de absorção.

Por outro lado, quando a vitamina é feita com suco de laranja no lugar do leite, o efeito muda. Nesse caso, a bebida passa a ter absorção mais rápida, o que pode levar a picos glicêmicos.

Além disso, a quantidade de frutas utilizadas faz diferença direta no resultado. Uma vitamina com muitas unidades de fruta concentra mais carboidrato, o que exige atenção.

<><> Quantidade de frutas na vitamina interfere no controle do diabetes

A forma como a vitamina é preparada influencia o controle glicêmico. Misturar várias frutas em grandes quantidades aumenta a carga de carboidratos da bebida.

Nesse sentido, Carol Netto orienta observar o total consumido. Por exemplo, usar várias bananas ou múltiplas frutas em um único preparo pode elevar a glicose de forma significativa.

Portanto, o equilíbrio na escolha e na quantidade das frutas é essencial. Ainda assim, incluir a vitamina ocasionalmente pode fazer parte da rotina alimentar.

<><> Estratégias para incluir vitamina no dia a dia com diabetes

Para pessoas com diabetes tipo 1, a contagem de carboidratos é uma ferramenta importante. Nesse caso, pode ser necessário aplicar insulina antes do consumo, conforme orientação médica.

Enquanto isso, quem tem diabetes tipo 2 pode usar estratégias de substituição alimentar. Ou seja, ao consumir a vitamina, é possível reduzir outros carboidratos da refeição, como pão.

Além disso, considerar o horário e o contexto da alimentação também ajuda no controle. Inserir a vitamina dentro de um plano alimentar organizado reduz variações bruscas da glicose.

<><> Quais frutas usar na vitamina para quem tem diabetes

A escolha das frutas interfere diretamente na resposta glicêmica. Banana, maçã e mamão são comuns, mas devem ser usadas com moderação.

Além disso, variar as frutas pode ajudar a equilibrar o consumo. Morango, por exemplo, costuma ter menor impacto glicêmico quando comparado a outras opções.

Ainda assim, o ponto central não é excluir frutas, mas ajustar a quantidade total. Nesse contexto, a vitamina pode ser consumida, desde que inserida dentro do controle diário de carboidratos.

<><> Vitamina não deve ser consumo diário sem avaliação

Embora a vitamina com leite possa ser incluída, o consumo frequente exige atenção. Isso porque a ingestão repetida de grandes quantidades de carboidrato pode dificultar o controle glicêmico.

Por outro lado, consumir ocasionalmente, com planejamento, tende a gerar menor impacto. Portanto, avaliar a rotina alimentar como um todo é necessário.

Nesse cenário, a orientação de um profissional de saúde contribui para decisões mais seguras. A individualização do plano alimentar faz diferença no controle do diabetes.

 

Fonte: Um Diabético