sábado, 26 de setembro de 2026

E se Lula ganhar a eleição? A disputa pelo dia seguinte já começou

O Brasil chega à eleição sob alerta de interferência estrangeira, radicalização política e uma disputa cada vez mais dura sobre a própria legitimidade das urnas. Se Lula vencer, no primeiro ou no segundo turno, a questão pode deixar de ser apenas quem ganhou. Será também quem reconhecerá o resultado, quem tentará contestá-lo e até onde essa disputa poderá avançar nas primeiras horas depois da apuração.

<><> Quando vencer não basta

Há uma vaga aberta em Doral, na Flórida. A General Dynamics Information Technology procura um profissional com português nativo, experiência em inteligência e autorização de segurança para trabalhar na disseminação de informações do US BICES-X, sistema usado pelo aparato de defesa americano para compartilhar inteligência com parceiros e forças aliadas. Entre as tarefas estão tradução, interpretação e pesquisa sobre segurança nacional, infraestrutura, tecnologia e vulnerabilidades geopolíticas. O anúncio prevê atuação com países da área do Comando Sul dos Estados Unidos.

Em New Orleans, outra contratação chama atenção. Uma empresa que presta serviços ao governo americano procura um especialista em guerra informacional para trabalhar junto à MARFORSOUTH, braço dos Marines voltado à área do Comando Sul. A função exige experiência em operações psicológicas, análise de públicos, construção de mensagens, avaliação de efeitos e dissimulação militar. O início está previsto para outubro de 2026.

Essas duas vagas não provam uma operação americana contra Lula nem contra a eleição brasileira. Não autorizam esse salto. O que revelam é algo mais concreto. Existe capacidade instalada, há profissionais sendo recrutados, o português aparece como requisito operacional e estruturas de inteligência e guerra informacional estão voltadas para a mesma região em que o Brasil se prepara para votar.

É por isso que a pergunta deste artigo ganha peso. E se Lula ganhar?

Ela não surge de uma abstração. Há meses, o sistema eleitoral brasileiro voltou ao terreno em que esteve antes de 2022. As urnas são colocadas sob suspeita sem que exista fraude comprovada. O Supremo virou alvo permanente. Cada crise institucional encontra um ambiente digital pronto para converter desconfiança em combustível político. Antes mesmo da votação, parte da disputa já deixou de ser apenas sobre quem terá mais votos. Passou a envolver quem terá autoridade para dizer, no fim da noite, que a eleição acabou.

Em julho, esse conflito atravessou a fronteira. O governo brasileiro recusou vistos a dois integrantes da administração Trump que pretendiam vir ao país antes da eleição. Autoridades brasileiras disseram à Reuters que a visita serviria para questionar a integridade do sistema eleitoral. Washington negou e afirmou que se tratava de uma viagem de rotina. A divergência é, por si só, relevante. Dois governos passaram a disputar publicamente o sentido de uma iniciativa americana ligada ao processo eleitoral brasileiro antes de o primeiro voto ser contado.

Pouco depois apareceu outro sinal, agora dentro do país. Segundo reportagem de Daniela Lima, do UOL, um relatório da Abin datado de 18 de setembro identificou a rápida expansão de grupos em WhatsApp e Telegram discutindo ações violentas contra o STF e outras instituições. Parte dessas redes fala em “nepalização do Brasil”, referência aos protestos violentos que derrubaram o governo nepalês em 2025. O relatório, de acordo com a reportagem, menciona estratégias de mobilização, possíveis alvos e um nível alto de alerta para ameaças ao processo eleitoral.

Não é necessário encaixar essas peças numa operação única para perceber o problema. Se Lula vencer, o resultado chegará a um país em que a legitimidade da eleição já vem sendo disputada antes da abertura das urnas.

No dia 22 de setembro, em Nova York, essa tensão ganhou uma moldura continental. Trump reuniu governos do Escudo das Américas, iniciativa criada para coordenar ações contra organizações criminosas e narcotráfico no Hemisfério Ocidental. A declaração assinada pelos participantes não se limita à segurança. Economia, segurança e coordenação multilateral aparecem como os três pilares do arranjo.

O texto reúne Estados Unidos, Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guiana, Honduras, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago. Prevê maior compartilhamento de inteligência, acesso a tecnologias e capacidades de segurança, treinamento, coordenação de sanções e atuação conjunta em organismos internacionais. Também inclui assistência de comunicação ligada à defesa daquilo que os signatários definem como vontade popular. PCC e Comando Vermelho aparecem entre as organizações tratadas pelo grupo como ameaças narcoterroristas.

Há ainda a intenção de levar parte dessa articulação ao sistema do Tratado Interamericano de Assistência Recíproca. O Brasil não integra o Escudo, mas duas das suas maiores organizações criminosas estão no centro de uma estrutura de segurança que reúne vários países vizinhos e foi construída sem Brasília.

A Colômbia oferece um precedente mais incômodo do que parece. Depois da vitória apertada de Abelardo de la Espriella, candidato apoiado publicamente por Trump, o governo de Gustavo Petro e o campo derrotado de esquerda levantaram denúncias de fraude, compra de votos, interferência estrangeira e manipulação por conteúdos produzidos com inteligência artificial. Iván Cepeda reconheceu a derrota, mas manteve essas acusações. Não apresentou provas capazes de demonstrar fraude sistêmica, e uma auditoria internacional posterior também não encontrou manipulação sistemática dos dados. Ainda assim, eram questionamentos sobre temas que, pela própria gravidade, exigiam apuração. O Escudo das Américas não anunciou investigação independente nem abriu qualquer mecanismo próprio de verificação. Limitou-se a classificar as dúvidas como não suficientemente fundamentadas e a exigir respeito imediato ao resultado oficial. Num cenário em que Trump havia endossado o vencedor, essa rapidez política importa. O precedente colombiano mostra que o Escudo não é apenas uma estrutura de segurança. É também uma instância capaz de intervir na disputa sobre qual versão de uma eleição deve ser reconhecida como legítima. Se algo semelhante ocorrer no Brasil, a rede regional já estará pronta para agir.

Seria igualmente errado transformar esse mapa num cerco fechado ao Brasil. Enquanto Trump reforçava sua articulação hemisférica, Lula fazia um movimento em outra direção. Em 21 de setembro, Brasil, Canadá, Austrália, União Europeia, Índia, Quênia e Barbados lançaram em Nova York o Partners for Multilateralism. Não é uma aliança militar e não foi concebido para proteger a eleição brasileira. Seu documento reafirma soberania, igualdade entre Estados, integridade territorial, solução pacífica de conflitos e rejeição à ameaça ou ao uso da força. Reconhece ainda que relações econômicas vêm sendo usadas como instrumento de pressão entre países.

No dia seguinte, diante da Assembleia Geral da ONU, Lula levou a eleição brasileira para o mesmo terreno. Alertou contra interferências internas e externas, defendeu a integridade do sistema eleitoral e afirmou que o país precisa de cooperação para combater o crime organizado, não de intervenção estrangeira. A fala estabeleceu, antes do voto, os termos com que o governo brasileiro pretende enquadrar uma eventual crise.

O Brasil não está isolado diante de Washington. Há redes, interesses e concepções de soberania e segurança em choque no continente. A articulação liderada pelos Estados Unidos dispõe de instrumentos de inteligência, segurança e coordenação política. Lula se apoia numa rede mais difusa, sem comando único, mas com governos e instituições capazes de impedir que Washington imponha sozinho a leitura internacional do que vier a acontecer no Brasil.

Se Lula vencer, essa disputa pode atravessar a fronteira em questão de horas. Reconhecer o resultado deixará de ser apenas um gesto protocolar caso a legitimidade da eleição seja colocada em dúvida. O tempo político será comprimido. Antes que a maioria das pessoas tenha terminado de acompanhar a apuração, governos, partidos, autoridades, plataformas e redes de influência já estarão produzindo interpretações sobre o que aconteceu.

As primeiras horas importam por isso. É nelas que surgem os primeiros reconhecimentos, os silêncios, eventuais pedidos de auditoria e acusações de irregularidade. Também é quando versões ainda frágeis podem circular em massa antes de qualquer resposta institucional. Uma contestação pode morrer ali ou ganhar escala internacional quase no mesmo instante em que nasce. Hoje existem canais políticos, diplomáticos e comunicacionais capazes de encurtar esse caminho.

Qualquer episódio de violência tornaria esse intervalo mais perigoso. Até aqui, não há evidência pública de uma operação de false flag preparada para a eleição brasileira. Afirmar isso seria substituir análise por invenção. O risco real está na velocidade com que um ataque, uma morte ou um confronto pode receber autoria política antes de receber investigação. Em ambientes radicalizados, a narrativa ocupa o vazio. Quando os fatos chegam, muitas vezes encontram uma história já pronta circulando por milhões de telas.

Uma vitória de Lula pode encerrar a disputa eleitoral sem encerrar imediatamente a disputa política. A questão deixaria de ser quantos votos cada candidato recebeu e passaria, em caso de contestação, para outro plano. Quem consegue fazer sua leitura do resultado prevalecer dentro do país e quem consegue transformá-la em posição reconhecida fora dele.

Há barreiras concretas contra uma ruptura. O processo eleitoral de 2026 será acompanhado por missões da OEA, União Europeia, Parlasul, Uniore, organizações dos países de língua portuguesa, Liga dos Estados Árabes e Carter Center. Parte dessas equipes observa não apenas a votação, mas tecnologia eleitoral, legislação, campanhas, redes sociais, apuração e divulgação dos resultados. Instituições brasileiras continuam funcionando e governos estrangeiros não agem como peças automáticas de um mesmo mecanismo.

Não se trata de prever golpe, intervenção ou crise inevitável. Não há evidência pública para isso. O que já está à vista é um terreno muito mais internacionalizado e conectado, com estruturas capazes de amplificar uma contestação que ainda nem existe. Ter os meios não significa ter decidido usá-los. Significa apenas que, se a crise começar, boa parte do caminho já estará aberta.

O Brasil já viu uma derrota eleitoral ser transformada em tentativa de crise política. Em 2026 há um componente novo. A eleição está inserida numa reorganização de poder que ultrapassa Brasília e atravessa o continente. Inteligência, segurança, diplomacia, plataformas e guerra informacional já fazem parte desse tabuleiro antes do resultado.

Daqui a poucos dias saberemos quem recebeu mais votos.

A pergunta mais difícil pode vir depois.

Se Lula ganhar, quem estará disposto a aceitar que ele ganhou?

¨      Parlamentares democratas acusam governo Trump de interferência nas eleições brasileiras

Um grupo de 31 congressistas democratas dos EUA enviou uma carta ao secretário de Estado, Marco Rubio , criticando o governo Trump por "uma aparente tentativa de interferir e potencialmente minar" as eleições brasileiras .

O maior país da América Latina realizará o primeiro turno de sua eleição presidencial em 4 de outubro, com as pesquisas mostrando um empate técnico entre o atual presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva , e o senador de extrema direita Flávio Bolsonaro .

Na carta enviada a Rubio na quinta-feira, 30 membros da Câmara dos Representantes e o senador Bernie Sanders listaram uma série de medidas tomadas pelo governo dos EUA que interpretam como tentativas de garantir uma vitória para Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente Jair Bolsonaro .

Eles escreveram que essas ações “refletem um padrão mais amplo e profundamente preocupante de interferência do governo Trump nos recentes processos eleitorais em toda a América Latina”, citando as recentes eleições de meio de mandato na Argentina e as eleições presidenciais em Honduras e na Colômbia .

Em julho, um grupo de 11 membros democratas do Congresso enviou uma carta semelhante argumentando que Trump estava tentando interferir nas eleições da Colômbia em favor do milionário de extrema-direita e ex-advogado Abelardo de la Espriella , que acabou vencendo o segundo turno .

Na carta enviada na quinta-feira, os parlamentares escreveram que autoridades americanas sob o governo Trump têm se engajado em uma “campanha sustentada e multifacetada de interferência e desestabilização no Brasil”.

Eles observaram que, quando Trump impôs suas primeiras tarifas ao Brasil no ano passado, deixou claro que um dos motivos era o julgamento de Bolsonaro por sua tentativa de golpe após perder a eleição de 2022 para Lula. O ex-presidente foi condenado e, impossibilitado de concorrer por estar em prisão domiciliar, nomeou seu filho para sucedê-lo.

Eles também citaram as novas tarifas que Trump impôs ao Brasil em julho, com base na seção 301 da lei comercial americana, bem como os planos do governo dos EUA de enviar dois funcionários ao Brasil para "lançar dúvidas sobre a integridade do sistema eleitoral do país, considerado por muitos especialistas como um dos mais confiáveis ​​do mundo". O governo Lula acabou negando os vistos à delegação americana.

O presidente brasileiro tem reclamado repetidamente que Trump está tentando interferir nas eleições brasileiras e, em seu discurso de abertura da Assembleia Geral da ONU nesta semana, disse, sem citar nomes: “Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos ou externos, ajam contra a vontade do povo”.

Na carta enviada a Rubio na sexta-feira, os parlamentares democratas escreveram que “em vez de ajudar a defender a democracia brasileira”, os EUA estão “agindo como agentes de interferência e desestabilização – usando pressão diplomática, econômica e política de maneiras que correm o risco de enfraquecer as instituições democráticas do país, minar a confiança no processo eleitoral brasileiro e causar ainda mais danos à nossa relação com um aliado estratégico e parceiro comercial dos EUA”.

Eles perguntaram a Rubio se o governo Trump se comprometeria a respeitar o processo eleitoral brasileiro e solicitaram uma resposta até 1º de outubro.

 

Fonte: Por Reinaldo José Aragon, em Código Aberto/The Guardian

 

Voto envergonhado de bolsonaristas é mito ou verdade? Especialista da Universidade de Michigan explica

Há institutos que fazem "um excelente trabalho" de pesquisa eleitoral no Brasil, mas, de modo geral, o mercado peca por falta de transparência sobre as metodologias e falta de inovação, afirma o estatístico Raphael Nishimura em entrevista à BBC News Brasil. Radicado nos Estados Unidos, Nishimura é especialista em sondagens eleitorais e atua como diretor de operações de amostragem da Universidade de Michigan. Ele ilustra seu argumento: hoje, diz, é comum que institutos americanos combinem diferentes métodos de coleta de dados em uma mesma pesquisa, pois cada um tem suas vantagens e desvantagens. Ou seja, parte da amostra é entrevistada presencialmente, parte por telefone, e parte online, por exemplo. Isso, explica, permite compensar as limitações de cada método com as vantagens dos outros. "Eu sei até que existem alguns institutos [no Brasil] que estão tentando fazer isso, então fazendo testes, mas nenhum deles, atualmente, pelo menos, está publicando pesquisas utilizando esses métodos [combinados]. Então, esse é um exemplo do que poderia ser aprimorado", diz Nishimura. "Outro problema no Brasil é a questão da transparência metodológica. Apesar de os institutos serem todos obrigados a colocar no TSE [Tribunal Superior Eleitoral] quais são os métodos, na minha opinião, a maioria deles empurra com a barriga. Eles botam o mínimo para passar."

LEIA A ENTREVISTA:.

  • Como avalia a qualidade das pesquisas hoje no Brasil?

Raphael Nishimura - Vou fazer comparações com Estados Unidos, que é onde eu tenho experiência e onde esse tipo de indústria está mais avançada no mundo.

O Brasil tem uma variabilidade relativamente grande de institutos. Tem desde institutos fazendo um excelente trabalho até institutos que não vou dizer que fazem um trabalho pobre, mas que é difícil de avaliar porque eles não informam de forma transparente o que exatamente estão fazendo. Comparados aos dos Estados Unidos, os institutos do Brasil estão num estágio de nível ok, mas que dá ainda para aprimorar bastante. Acho que são poucos os institutos no Brasil, infelizmente, que têm tentado fazer algo realmente mais inovador, mais de vanguarda. Eu evito citar muitos nomes, mas, citando alguns, eu acho que a Quaest, por exemplo, tem tentado métodos que, para o mercado brasileiro, são inovadores. São métodos que talvez aqui nos EUA sejam quase uma coisa de padrão, mas que nunca foram implementados ou que foram raramente implementados no Brasil. Então, um exemplo: em 2022, eles começaram a testar um modelo de eleitor provável, o likely voter model, para tentar entender a abstenção nas eleições. Isso é uma coisa que nenhum instituto no Brasil fazia na época.

Outro problema no Brasil é a questão da transparência metodológica. Apesar de os institutos serem todos obrigados a colocar no TSE quais são os métodos, na minha opinião, a maioria deles empurra com a barriga. Eles botam o mínimo para passar. E o que o TSE solicita é realmente muito pouco. São poucos os institutos que efetivamente colocam nos relatórios deles informações adicionais que nos ajudariam inclusive a entender o que eles estão fazendo efetivamente. Para dar um outro exemplo: eu tenho colaborado cientificamente, metodologicamente, com a Palver, mas não estou sendo remunerado em nada para isso. É uma motivação puramente científica e metodológica. A Palver entrou nesse mercado de pesquisa recentemente e a proposta deles é fazer uma pesquisa que seja o mais transparente possível, ainda que com uma série de limitações e problemas metodológicos. Não vejo nenhum outro instituto, por exemplo, com esse tipo de abertura metodológica, infelizmente, no Brasil. Então, de forma geral, acho que a maioria dos institutos faz um trabalho ok, mas que precisa melhorar tanto em termos de inovação metodológica quanto de transparência.

  • Que outras inovações metodológicas poderiam estar sendo usadas, por exemplo?

Nishimura – Cada metodologia de pesquisa, quanto ao modo de coleta dos dados, tem suas vantagens e desvantagens. Por exemplo, pesquisa presencial é ótima, porque consegue abranger, teoricamente, qualquer [perfil de] pessoa. Mas tem limitações em certas áreas. Não tem um acesso tão fácil a pessoas que moram em condomínios fechados ou em comunidades dominadas pelo tráfico, por exemplo.

Pesquisas telefônicas, por outro lado, até conseguiriam captar pessoas que moram em condomínio ou nesse tipo de comunidade, mas têm um problema grande de não resposta. Muita gente, hoje em dia, nem atende ligação de números que não conhecem. E a pesquisa online, por exemplo, conseguiria abranger também, mas depende muito do método que você está recrutando. Geralmente, esse recrutamento é feito por meio de anúncios patrocinados em redes sociais, como Instagram, Facebook e Google. Acontece que, de forma geral, sabemos pela literatura de metodologia de pesquisa que pessoas mais politicamente engajadas tendem a responder pesquisas de opinião pública, principalmente eleitorais, a taxas muito maiores do que pessoas desengajadas ou alienadas politicamente. Em geral, essas pessoas podem ter um comportamento de voto diferente, o que acaba causando um viés de autosseleção. E esse pode ser um problema difícil de se corrigir, mesmo utilizando técnicas estatísticas mais sofisticadas. Além disso, os algoritmos de anúncios dessas redes sociais não foram desenvolvidos para recrutamento de amostras de pesquisas. Eles parecem justamente exacerbar ainda mais esse tipo de problema, procurando maximizar a distribuição dos anúncios entre usuários que apresentam uma maior chance de clicar neles. Então, uma forma que os institutos deveriam tentar melhorar é em combinar esses diferentes métodos [presencial, telefônico e online]. Aqui nos Estados Unidos, hoje em dia, muitos institutos não estão trabalhando com um único método de coleta de pesquisas. Eles combinam diferentes métodos para, inclusive, tentar compensar os problemas de um método com os do outro e vice-versa. E eu sei até que existem alguns institutos [no Brasil] que estão tentando fazer isso, então fazendo testes, mas nenhum deles, atualmente, pelo menos, está publicando pesquisas utilizando esses métodos. Então, esse é um exemplo do que poderia ser aprimorado. Também tem toda uma parte de estatística, de estimação, que eu acho que os institutos estão meio que parados no tempo. Hoje em dia tem muitos métodos estatísticos de ponta que estão sendo utilizados aqui nos Estados Unidos, por alguns institutos, pelo menos, e, aqui no Brasil, me parece que eles pararam lá nos anos 2000. Desde então, há 20 anos, muita coisa foi desenvolvida em métodos estatísticos para melhorar a qualidade dessas pesquisas.

  • Sobre essa parte de modelos estatísticos, poderia exemplificar melhor?

Raphael Nishimura – Por exemplo, a própria forma como você ajusta a amostra para refletir a população em diversas características. Você pode fazer isso de duas formas. As pesquisas no Brasil, hoje em dia e desde sempre, contavam muito com o uso de cotas. Então, se a população é composta por 50% de homens e 50% de mulheres, a gente vai garantir que a amostra reflita essa distribuição por sexo, idade, escolaridade, etc. Uma outra forma de fazer isso é fazer ajustes na amostra depois que você coleta os dados, em que você atribui um peso um pouco maior ou um pouco menor para certos respondentes, certos entrevistados, para que o perfil da amostra, usando esses pesos, reflita a distribuição da população. Métodos de ponderação, aqui nos EUA, são extremamente utilizados, porque eles ajudam a refinar a amostra para refletir a população, o que essas cotas sozinhas não conseguem fazer. Então, esse ajuste estatístico que chamam de ponderação de dados, eu acho que muitos institutos ainda têm uma resistência em utilizar. Ou, se eles usam, são ajustes muito mais simples do que hoje em dia a gente tem na literatura estatística.

  • Críticos dos institutos dizem que, nas eleições de 2018 e 2022, as pesquisas teriam subestimado os votos em Jair Bolsonaro, porque a votação dele no primeiro turno veio acima do que as pesquisas realizadas perto do pleito indicavam. Por que isso acontece? Isso pode indicar algum problema de metodologia?

Nishimura – Uma coisa que insisto muito é que pesquisa não tem esse papel prognóstico das eleições. Então, em parte, o que pode estar acontecendo ali é que o eleitor que estava mais indeciso nos últimos dias da eleição acaba decidindo o seu voto na noite anterior ou no próprio dia da eleição [e por isso seu voto não é captado na pesquisa]... Ou alguém que pensava em votar em um candidato, mas, chegando na reta final, quer evitar que outro candidato tenha uma vantagem muito grande ou mesmo vença no primeiro turno, acaba mudando o voto para fazer voto útil. Então, eu acho que isso [a diferença entre a pesquisa e o resultado das urnas] acontece porque a pesquisa está retratando um momento, um ou dois dias antes da eleição, e, entre a pesquisa e a eleição, os eleitores podem mudar o seu voto. Entretanto, não dá também para a gente redimir os institutos completamente disso. Pode haver problemas metodológicos? Pode. Só que, para avaliar isso de uma forma mais justa e correta, deveria ser feito um estudo especial, uma coisa que eu tenho proposto para alguns institutos. O que seria isso? Você faz uma pesquisa dias antes da eleição, com uma amostra. Depois que passou o primeiro turno, você volta e entrevista essas mesmas pessoas e vê em quem elas efetivamente votaram. Então, vê se existe ali um movimento desses respondentes, de que, antes da eleição, eles falaram que iam votar no candidato X, mas acabaram votando no candidato Y. Se o estudo mostra que houve essa mudança, isso explica a diferença entre o que as pesquisas antes da eleição mostravam e o que a eleição mostrou. Então, perfeito, não existe um problema metodológico. Mas, se, mesmo depois de controlar isso, o estudo mostrar uma certa diferença [entre o resultado das urnas e os votos dos entrevistados], aí pode ser que seja realmente um caso de ter algum problema metodológico e tem que se investigar o que pode efetivamente ser feito para tentar melhorar isso.

  • Ou seja, se as respostas colhidas após a votação convergirem para o resultado das urnas, é porque não houve falha metodológica na pesquisa. Mas, se o resultado colhido após as eleições continuar divergindo do resultado das urnas, é sinal de algum problema. Correto?

Nishimura – Exatamente.

  • Esse tipo de estudo é feito nos Estados Unidos?

Raphael Nishimura – Não pelos institutos de pesquisa que fazem pesquisas eleitorais. Tem um estudo muito especial, acadêmico, que a gente faz aqui em Michigan desde 1948. Chama-se American National Election Study. Mas esse é um estudo completamente acadêmico. Tem uma pesquisa pré-eleição e a pesquisa pós-eleição. Na pré-eleição, é aplicado um questionário bem longo. O objetivo é tentar entender como e por que as pessoas votam. E, depois da eleição, eles voltam para essas mesmas pessoas e perguntam, inclusive, em quem ela votou. Então, dá para se comparar, por exemplo, os movimentos do eleitorado usando esse tipo de estudo. Mas esse é um estudo completamente acadêmico, não tem essa intenção de tentar avaliar institutos de pesquisa.

  • Analistas como Mauricio Moura, do instituto Idea, dizem que os votos em Jair Bolsonaro no primeiro turno de 2018 e de 2022 ficaram acima do que as pesquisas captavam por causa de um fenômeno chamado de "antipetismo de chegada". Segundo ele, isso ocorre quando eleitores que têm rejeição ao Lula e ao PT convergem na reta final do primeiro turno para o candidato que pareça mais forte para derrotar o candidato petista. Essa tese faz sentido? Isso pode se repetir esse ano com Flávio Bolsonaro?

Raphael Nishimura – Estudo metodologia estatística, não sou cientista político, mas, por conta inclusive do que eu estava falando agora há pouco, posso dizer que sim, parece existir esse tipo de movimento. O que posso falar, do ponto de vista metodológico, é que isso poderia ser estudado inclusive pelos institutos. Só que a melhor forma de pesquisar isso é fazendo um painel de respondentes ao longo de toda a campanha, seguir esse grupo de eleitores e ver como se comportam ao longo do tempo para, inclusive, detectar esse tipo de movimento. Ninguém faz no Brasil esse tipo de estudo. Aqui nos Estados Unidos teve uma vez, em 2016, um instituto que acabou fazendo uma coisa semelhante a essa. Tem suas limitações. Mas, enfim, eu gosto de trabalhar com evidências empíricas. Então, me parece que o que as pesquisas indicam parece confirmar em parte essa asserção, mas, para ter realmente evidências robustas disso, teria que fazer esse tipo de estudo mais específico para isso.

  • Por outro lado, outros analistas dizem que o resultado do Flávio pode vir melhor que o esperado, como aconteceu com Jair Bolsonaro, por causa do chamado "voto envergonhado". O que seria esse voto envergonhado? Há evidência científica sobre esse fenômeno?

Raphael Nishimura – A hipótese de voto envergonhado não é recente. Ela ressurge em 2016, mas antes disso já existia. Essa hipótese é calcada em algo que a gente chama em metodologia de pesquisa de viés de desejabilidade social, em que as pessoas, ao responderem à pesquisa, querem se portar de uma forma que é socialmente desejável. Isso acontece principalmente quando você tem pesquisas sendo conduzidas por entrevistadores, seja presencialmente, seja por telefone, porque existe ali uma interação social. Exemplos disso são, por exemplo, perguntar para a pessoa se ela já usou drogas ilícitas. Bom, o uso de drogas lícitas é um comportamento socialmente indesejável. Então, ela vai responder que não, numa pesquisa, mesmo se ela já tiver usado. Em eleição, existe um comportamento socialmente desejável, que é você ir votar. Então a gente sabe que, em geral, quando você pergunta às pessoas se elas foram votar na última eleição ou se elas pretendem votar, as taxas de abstenção da pesquisa, em geral, são bem menores do que as que você observa efetivamente na eleição. Isso é bem documentado. Aí, em 2016, essa hipótese do voto envergonhado ressurgiu porque muita gente achava que, pelo menos, alguns eleitores do Trump considerariam que era socialmente indesejável dizer que iam votar por conta da figura dele.

A American Association for Public Opinion Research (AAPOR), ao final de cada ciclo eleitoral, reúne um comitê de pesquisadores para fazer avaliação de todas as pesquisas eleitorais daquele ciclo. Em 2016, fizeram esse comitê, principalmente porque 2016 foi um ano considerado desastroso para as pesquisas aqui, e uma das hipóteses que eles testaram foi justamente essa questão do voto envergonhado, do shy Trump effect. E aí o que eles fizeram foi comparar pesquisas conduzidas por entrevistadores, em geral pesquisas telefônicas, com pesquisas de alto preenchimento, em geral, pesquisas online. E o que eles encontraram é que não existia diferença entre as duas. Segundo essa hipótese, a gente deveria encontrar uma intenção de voto maior para o Trump nessas pesquisas de alto preenchimento do que nas pesquisas telefônicas. Não foi o que eles encontraram. Então, basicamente, a conclusão do relatório que eles escreveram é que "olha, a gente não tem aqui evidências suficientes que sustentem essa hipótese do voto envergonhado".

Depois, em 2020, a mesma coisa se repetiu. Eles testaram essas mesmas coisas, nunca foi encontrado nada. Então, sou muito cético com relação a isso, porque, do que a gente conhece de evidência, nunca vi nada que suporte isso.

  • A repetição dessa suposta subestimação dos votos da direita, que estaria acontecendo tanto no Brasil quanto nos Estados Unidos, tem sido um combustível para as críticas aos institutos de pesquisas.

Nishimura – Tem um problema, sim, não vou redimir os institutos completamente disso, mas é um problema mais complicado do que possa parecer, inclusive de se resolver, que é o problema de não resposta [pessoas que se recusam a responder a pesquisas]. Então, o que a gente tem observado, e essa foi a conclusão do relatório da AAPOR de 2020, é que, desde 2016 nos Estados Unidos e de 2018 no Brasil, esses movimentos Maga, do Trump, ou bolsonarista, são muito anti-establishment. Eles não veem com legitimidade qualquer tipo de instituição, inclusive institutos de pesquisa. Eles acham que é tudo parte de um grande complô contra seus candidatos. O que acaba acontecendo é que eleitores desses candidatos acabam também respondendo a pesquisas a taxas bem menores do que eleitores de candidatos da esquerda, que acreditam mais nesse tipo de instituição. Esse é um problema que, em tese, pode ser contornável. Aqueles ajustes estatísticos de que eu estava falando podem, de certa forma, ajustar isso, mas existe um limite para isso. Se a não resposta, ela pode ser explicada por variáveis que a gente observa na pesquisa.... Por exemplo, as mulheres respondem a pesquisas em taxas maiores do que homens; pessoas mais velhas respondem mais do que pessoas mais novas; ou pessoas mais escolarizadas respondem mais que pessoas menos escolarizadas. Então, você consegue ajustar isso porque você sabe qual é a distribuição na população dessas variáveis. Agora, se a probabilidade de a pessoa não responder à pesquisa depende unicamente ou quase completamente do fato de que ela vai votar naquele candidato, e não depende de outras variáveis, aí você não consegue controlar isso porque você não sabe [quantos são esses eleitores], você está justamente tentando estimar isso. Então, é meio que um problema circular. Em estatística, a gente chama que é um problema de não resposta não ignorável. Você não consegue ignorá-lo mesmo controlando, mesmo ajustando por outras variáveis. Então, não existe um bom ajuste estatístico para isso.

  • Você costuma dizer que pesquisas não foram feitas para acertar o resultado das eleições. Por que não?

Nishimura – O argumento é relativamente simples, mas eu acho que as pessoas não levam muito a sério isso. O objetivo da pesquisa é fazer inferência para uma população definida geograficamente e definida no tempo. Eu, por exemplo, vou fazer a coleta entre os dias 16 e 18 de setembro. Olha, eu estou capturando a opinião das pessoas nesses dias. Se o eleitor, daqui a dois dias, uma semana, duas semanas, mudar de opinião, eu não consigo [prever]. Não tem como a pesquisa naquele momento refletir algo no futuro. É aquilo que eu sempre falo: a pesquisa é um retrato do momento. Não só eu falo, é o clichê [sobre pesquisas], mas é um clichê que é muito verdade do ponto de vista técnico. Aí algumas pessoas falam: "Mas as pesquisas divulgadas às vésperas da eleição deveriam refletir o resultado das urnas". Mais ou menos. Tem duas coisas a se considerar. Primeiro, uma boa parte do eleitorado, como falei, decide o voto na noite anterior ou no próprio dia da eleição. A Quaest fez um estudo em que eles perguntavam: "Quando você decide o seu voto?". E 10% disse que decide o voto para presidente no dia da eleição. Para senador e para governador, esse índice é ainda mais alto. Então, para presidente, 10% [decidem] no dia da eleição. Outros 10%, alguns dias antes da eleição. Outra coisa que as pessoas também não levam em conta é que não é porque uma pesquisa é divulgada no sábado à noite que ela vai retratar o eleitorado no sábado à noite. A pesquisa começa a ser feita na quinta-feira. Ela finaliza o campo ali no sábado de manhã ou no começo da tarde. Então, ela vai retratar, na verdade, não o eleitorado ali da noite da véspera da eleição. Ela está retratando o eleitorado que começou na quinta, sexta-feira, até no sábado. E, como falei, cerca de 10% a 20% do eleitorado ainda está decidindo seu voto.

  • A abstenção é um fator importante no Brasil que impacta nessa diferença entre pesquisa e resultado das urnas?

Nishimura – Essa seria uma pergunta que poderia ser respondida por aquele tipo de estudo que mencionei, feito no pré e no pós-eleição, porque a gente, em tese, não tem como saber se quem respondeu à pesquisa que ia votar em um candidato, na verdade, chegou no dia da eleição e não votou, né? Mas a hipótese que se tem é que, sim, tem um impacto porque, pelos dados do TSE, existe um certo perfil de eleitor que tende a ter mais abstenção. São eleitores com renda menor, em áreas mais pobres no Brasil, que também é correlacionado com certos eleitores, por exemplo, do Lula. Então a hipótese que se tem é que, no caso do voto para presidente, a abstenção tende a prejudicar mais o Lula do que candidatos da direita.

  • Que dicas você daria para um eleitor comum analisar se uma pesquisa é confiável?

Nishimura – Primeiro, diria para as pessoas não se aterem tanto a uma única pesquisa, mas sim a olhar para agregadores de pesquisa. Aí tem a BBC, que tem um ótimo agregador desenvolvido com o meu colega Neale [Ahmed El-Dash, fundador da PollingData]. Dê uma olhada na média das pesquisas agregadas, porque algumas pesquisas vão ser discrepantes, vão ter outliers, etc. Além disso: toda pesquisa também produz estimativas para subgrupos, por exemplo, por sexo, idade, escolaridade. Também não se atenha tanto a esses números, porque esses números têm uma margem de erro grande. Evita mergulhar nesses cruzamentos. É bom dar uma olhada, mas não leve muito ao pé da letra aquelas estimativas. Por fim, sei que, para o eleitor médio, é difícil você avaliar as pesquisas metodologicamente, porque você não tem um treinamento técnico para isso. Mas, se você tem curiosidade sobre como a pesquisa é feita, pelo menos existe um mínimo do mínimo [que você pode consultar]. Toda pesquisa, quando é publicada no período eleitoral, tem um código no TSE. Pegue esse código e procure em uma ferramenta chamada PesqEle. Dê uma olhada, veja o que está escrito ali na metodologia da pesquisa, dê uma olhada no questionário... Por que na Quaest tem um índice de indecisos tão mais alto do que no Datafolha, por exemplo? Bom, é por causa do questionário, da forma que eles fazem as perguntas. Então, dá uma olhada no questionário das pesquisas, se tiver curiosidade. Mesmo pessoas que não estão treinadas, há certas coisas que intuitivamente você acaba entendendo.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

O mito como arsenal da humanidade: como aprendemos a pensar antes de aprender a transformar

Em tempos de eleições, a verdade aparece ainda mais nebulosa. O marketing político busca esconder ou modificar os fatos, apresentando a realidade sempre como convém aos interesses de quem detém o capital e a mídia. E ela parece ficar ainda mais distante. Manipular números, distorcer contextos e fabricar narrativas nos faz refletir sobre a tênue fronteira entre mito e verdade. Afinal, desde que o ser humano começou a contar histórias sobre o início de tudo, aprendemos que toda narrativa é também uma forma de poder: quem conta o mito, define o mundo. Está parece ser a regra principalmente da extrema direita.

Lembremos que para o mito, no princípio, era tudo caos. Ou, pelo menos, é o que contam os antigos mitos sobre o mundo. Na Grécia, era chamado de Khaos, o vazio primordial de onde emergiram Gaia, Urano e tudo que vem depois a partir dos chamados deuses primordiais. Já os babilônios acreditavam que tudo começou com uma luta cósmica entre deuses: Marduk, o herói, rasga o corpo de Tiamat, a deusa do caos, e com suas partes cria o céu e a terra. Por sua vez, os hebreus criam na força da palavra. Eles afirmam que Deus disse “faça-se a luz”. E a luz, obediente, fez-se. E fez o homem à sua imagem e semelhança.

Já no berço de Lucy, o esqueleto de 3,2 milhões de anos, na África Subsaariana, os iorubás contam que Obatalá desceu do céu com um punhado de terra, uma galinha de cinco dedos e uma concha, e foi assim que a terra se espalhou sobre as águas. A nação dos Tupinambás diz que Monã, o espírito criador, moldou o mundo a partir do nada e, depois de ver que os homens não lhe davam ouvidos, destruiu tudo com fogo.

Não são só histórias que ajudam a criação de filmes e coleções literárias. São belas, potentes, às vezes revestidas de muita crueldade. Mas, acima de tudo, necessárias. Porque antes mesmo de existir ciência, o telescópio ou o acelerador de partículas, já existia essa necessidade ardente de entender o mundo, de preencher o escuro com alguma centelha de sentido e de explicar os fenômenos mesmo que prosaicos da vida cotidiana. 

Hoje, quando olhamos para o céu, já não imaginamos deuses brigando, mas galáxias se afastando, átomos se condensando, poeira estelar se agrupando em planetas. A ciência, com sua paciência teimosa e seu olhar meticuloso, construiu outra narrativa para o início de tudo: o Big Bang. Mas é crucial lembrar que a ciência não brotou do vazio. Ela só pôde ser imaginada porque o mito, antes dela, havia ensinado a humanidade a pensar o invisível. A imaginar o porquê das coisas.
Não houve som, nem explosão no sentido comum. Foi uma expansão vertiginosa, há cerca de 13,8 bilhões de anos, de um ponto de densidade e temperatura infinitas. A matéria nasceu do vazio, o tempo começou a contar, e o universo, que antes era nada, ou o caos, virou tudo. Mais tarde, em algum braço espiral da galáxia, uma poeira cósmica se juntou, virou planeta, e num canto azul surgiram moléculas autorreplicantes, vida, gente. Nós, a humanidade e, com ela, a razão.

A razão é bela também. Talvez não tão poética quanto um deus moldando o homem do barro, mas, de certo modo, a ciência também conta histórias. Usa gráficos em vez de metáforas, fórmulas e conceitos teóricos em vez de rimas, mas continua sendo um esforço de compreensão. E, às vezes, até ela recorre a mitos para nomear seus mistérios: “partícula de Deus”, buracos negros, matéria escura, conceitos quase mágicos, ainda que descritos por equações. Reconhecer isso não diminui a ciência, ao contrário: a humaniza, mostrando que ela também é uma narrativa, ainda que a mais rigorosa que já construímos é a que mais se aproxima da noção de “verdade” e não uma desculpa para mentir e agredir como o fazem a extrema direita por meio de governos como o de Donald Trump ou o estado sionista de Israel.

Não se deve, portanto, tratar os mitos como meras “explicações primitivas” ou “ciência que deu errado”. O mito foi o primeiro e mais fundamental salto da consciência humana. Uma forma necessária de apropriação simbólica do mundo num estágio em que a humanidade ainda não dominava materialmente as forças da natureza. Foi a imaginação mitológica que forjou o pensamento complexo, ensinando nossa espécie a lidar com o abstrato, a conceber a temporalidade, a estabelecer relações de causa e efeito e a imaginar o que os olhos não podiam ver. Os deuses, os monstros e as cosmogonias foram os primeiros modelos teóricos da humanidade; o mito foi o arsenal cognitivo que nos preparou para, milênios depois, decifrar a radiação cósmica.

No fundo, mito e ciência não são inimigos, mas momentos dialéticos do mesmo processo de desenvolvimento humano. Um nasceu do espanto diante da natureza indomável; o outro, da capacidade de transformá-la. Ambos filhos da mesma inquietação humana: de onde viemos, para onde vamos e, afinal, por que tudo isso existe?

A ciência não suprime o mito; ela o supera, conserva sua função de compreensão do mundo, mas o transcende através do domínio material das forças naturais e da intervenção e transformação da natureza.

Entre o barro de Obatalá e a radiação cósmica de fundo, entre o Gênesis e o telescópio James Webb, seguimos, como sempre, inventando mundos para suportar o mistério de estarmos neles. A ciência não matou o mito; ela apenas o traduziu para outra linguagem. E em tempos de negacionismo e fundamentalismos, lembrar dessa filiação histórica é um ato de resistência: contra a arrogância de quem acha que a ciência dispensa a imaginação, e contra a ingenuidade de quem acha que o mito pode substituir o método. O pensamento complexo, em sua essência mais profunda, continua sendo um ato de criação, mas agora, com os pés firmes na história concreta.

Como afirmou Aristóteles, a verdade é a adequação entre o pensamento e a linguagem na realidade dos fatos, o que muda conforme a perspectiva filosófica.
Para Karl Marx, a verdade não é uma adequação abstrata entre ideia e coisa, mas resultado prático-histórico da atividade humana sobre o mundo e sua transformação.

 

Fonte: Alexandre Machado Rosa, em Brasil 247

 

O luto da pandemia não passa

Mais de cinco anos após aquele dramático dia 14 de janeiro de 2021, durante a pandemia da Covid-19 em Manaus, capital do Amazonas, os leitores ainda revisitam a reportagem “Caos na Pandemia: Sem oxigênio, pacientes morrem asfixiados em Manaus”, do repórter Leanderson Lima, no site da agência Amazônia Real, deixando comentários e a indignação como as vítimas da doença foram tratadas pelos governos aliados ao bolsonarismo. O luto não passa.

Minha memória nunca esqueceu. Eram pessoas ligando, denunciando à redação, relatando mortes de parentes, amigos, vizinhos… Naquela ocasião, só quem ia para rua eram os fotógrafos. As e os repórteres estavam trabalhando em home office, dentro de casa. Então os fotógrafos foram para as portas dos hospitais.

Manaus não recebeu uma orientação do poder público de como proceder no isolamento da pandemia, apesar dos apelos da Organização Mundial de Saúde (OMS). Na realidade, as autoridades chegaram mesmo a negligenciar os alertas. O governador Wilson Lima descartou  o lockdown, pressionado pelo comércio local. Nas festas de fim de ano, na virada de 2020 para 2021, muitas famílias fizeram confraternização social, consumidores foram às compras como se fossem dias normais. A contaminação pelo vírus foi disseminada de maneira veloz e mais letal. 

As informações sobre o que aconteceu nos hospitais em janeiro de 2021 em Manaus não fluíam das Secretarias de Comunicação (Secom) em nível federal, estadual e municipal. Em meio ao silêncio e negacionismo, um médico decidiu falar.

Mário Vianna, presidente do Sindicato dos Médicos do Amazonas (Simeam), me disse que seriam de 20 a 40 óbitos por falta de oxigênio nos hospitais públicos: 28 de Agosto, Platão Araújo e Getúlio Vargas, este universitário.  

A tragédia deu seu sinal na madrugada de uma quarta-feira (13) e avançou pelo dia seguinte. “Falam em 20 a 40 pessoas que morreram na madrugada, mas não temos como precisar. Temos a impressão que as pessoas estão ocultando. Não temos serviço de verificação de óbitos. Não tem acesso a informação. Se eu ligar para a Fundação de Vigilância em Saúde e pedir, não vão me dar”, desabafou o médico na ocasião.

O drama piorou com uma medida impensável do então governador do Amazonas. Em vez de fazer uma declaração pública, Wilson Lima (União) determinou que a Polícia Militar (PM) protegesse as portas dos hospitais para impedir a invasão de pacientes com o novo coronavírus. As pessoas foram às portas dos hospitais buscar informações de seus parentes. Muitos foram hostilizados por policiais.  

Wilson Lima deixou o mandato em 5 de abril deste ano para concorrer às eleições ao Senado, em outubro próxímo. 

Conforme levantamento realizado pela Agência Pública, além de Wilson Lima, mais 12 políticos são candidatos nesta eleição e que têm seus nomes listados no relatório final da Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) da Covid, no Senado, com pedido de indiciamento. Todos estão impunes. Veja a lista:

Flávio Bolsonaro (PL), candidato à presidência da República, Wilson Lima (União-AM), Marcelo Queiroga (PB), Carlos Jordy (RJ), Bia Kicis (DF) e Carlos Bolsonaro (SC), filiados ao PL, que concorrem ao Senado. Eduardo Pazuello (RJ), Nise Yamaguchi (SP) e Osmar Terra (RS), todos também do PL, Onyx Lorenzoni (RS) e Ricardo Barros (PR), pelo PP – todos disputam uma vaga a deputado federal. Mayra Pinheiro “a capitã cloroquina” (PL-CE) e Marcellus Campêlo (União-AM), que concorrem às assembleias estaduais.

Em outra reportagem, a Amazônia Real denunciou que Jair Bolsonaro e Eduardo Pazuello insistiram no tratamento dos pacientes de Covid-19 com os medicamentos cloroquina e ivermectina (remédio que mata piolho), em Manaus e no interior do Amazonas, transformando o estado numa espécie de laboratório. 

Pazuello foi recebido em uma sinistra cerimônia por Wilson Lima e pelo prefeito de Manaus, David Almeida (Avante), que também concorre às eleições deste ano, como candidato ao governo estadual. O ex-ministro recomendou o “tratamento precoce”, o chamado KIT Covid, com medicamentos sem eficácia comprovada cientificamente. 

“Ouvi o David [prefeito de Manaus David Almeida]  falar aqui sobre tratamento precoce. Senhores, senhoras, não existe outra saída. Avisei ao Wilson [Lima], ontem que hoje eu seria um pouco mais incisivo em algumas palavras”, disse o general Pazuello, que foi inocentado das acusações de negligência pela Justiça Federal, que arquivou uma ação de improbidade administrativa contra o ex-ministro da Saúde. 

No Amazonas, cerca de 14.474 pessoas morreram contaminadas por Covid-19, segundo dados da Fundação de Vigilância em Saúde. Esses são dados oficiais, notificados, mas especialistas afirmam que o número de subnotificações é incomensurável. Muitas pessoas morreram em casa, sem registro e sem atendimento médico. 

Assim como os leitores, que continuam em luto e até hoje lamentam, trazem lembranças, expressam suas dores na caixa de comentários da Amazônia Real, todo esse cenário ainda é presente em mim. Minha casa em Manaus ficava muito próxima ao Hospital e Pronto-Socorro 28 de Agosto, para onde iam milhares de pessoas por dia atrás de atendimento. Nossas madrugadas eram ao sons das ambulâncias.

Muitas pessoas morreram na porta do hospital sem atendimento médico. Essas cenas se repetiram em outras unidades de saúde. Outra cena inesquecível são as filas gigantes para a compra de oxigênio nas ruas.  

Na reportagem que divulgou a crise por falta de oxigênio já são mais de 80 comentários, só este ano, sendo que a maioria escritos por mulheres. Deixo registrados alguns registros abaixo para reflexão:

“Foi um descaso total com a população, tanto governamental como os particular, governamental com o cuidado tardio deixando padecer a saúde e os outros querendo lucrar em cima do desespero das famílias”, diz Taynara Gomes.

Em seu comentário, Luziana Escobar fez uma reflexão. “Essa matéria retrata um dos momentos mais críticos da pandemia no Brasil, evidenciando como a falta de planejamento e de estrutura na saúde pública pode ter consequências extremamente graves. A situação em Manaus mostrou que, além do vírus em si, a ausência de recursos básicos — como o oxigênio — também pode se tornar uma causa direta de mortes. Isso levanta uma reflexão importante sobre a responsabilidade dos gestores públicos, a importância de políticas preventivas e o impacto da desigualdade regional no acesso à saúde. Ao mesmo tempo, chama atenção para a força das famílias, que, mesmo em meio ao caos, tentaram salvar seus entes queridos por conta própria.”

“Nesta matéria vejo um dos momentos mais delicados, e posso dizer que doloroso, onde faltava oxigênio, pois não tinha pra todos, não era sobre quem era rico ou baixa renda. E sim sobre salvar vidas. Famílias desesperadas, a falta de estrutura em unidades, leitos ocupados. Todo corpo técnico de grande, média e pequena unidade hospitalar vivendo um verdadeiro caos. (…) Que os governantes olhem mais pela saúde. E vejam o quanto é necessário ter uma saúde digna. O Sistema Único de Saúde (SUS) precisa ser tratado de formas para atender as demandas, com mais rigor, pensando que Vidas importa”, escreveu Tatiane Santana Santos.

Ane Aparecida Barnak das Neves disse: “a tragédia em que vivemos na pandemia nunca será esquecidas, pois se não perdemos entes queridos vimos nossos amigos em desespero e choramos muitas vezes lágrimas de completo descaso e desesperança, mas Deus teve misericórdia novamente da nossa nação e nos deu livramento.”

“Infelizmente houve um descaso muito grande pelos nossos governantes, vidas e mais vidas foram levadas à morte como se fossem nada, famílias não tinham notícias dos parentes que estavam internados, médicos sobrecarregados, trabalhando dia após dia”, postou seu comentário Cláudia Araújo.

A técnica em enfermagem Paedra Morais da Silva deixou seu depoimento. “Fui profissional de frente em muitos casos. Nem as próprias ambulâncias, os hospitais deram conta da falta de oxigênio para uso imediato aos pacientes com vírus da covid e suas comorbidades. Muitas vidas perdidas mediante ao descaso. Lamentável situação naquele momento. No decorrer da pandemia, além das vidas perdidas por falta de suporte, falta de atendimento ainda veio à tona o aproveitamento político mediante a desgraça.”

 

Fonte: Por Kátia Brasil, da Amazônia Real

 

IA vai decidir sua vez na fila do SUS? Propostas de candidatos da esquerda à direita são difíceis de implementar

Nas eleições de 2026, a inteligência artificial pipocou nos planos de governo. O termo foi citado pelos candidatos em propostas que vão da saúde à segurança. E uma proposta une a direita, a esquerda e o centro: o uso de IA no Sistema Único de Saúde (SUS).

Sem muitos detalhamentos e integrando os planos de governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Flávio Bolsonaro (PL), o uso da tecnologia é proposto para triagem e auxílio de diagnósticos.

Um dos exemplos é utilizar a IA para substituir a tradicional fila por ordem de chegada, implantando uma triagem orientada por algoritmos.

Ou seja, a vez de um paciente passaria a ser avaliada por uma IA com base em fatores como gravidade e risco de progressão da doença.

Em seu programa, Flávio Bolsonaro promete usar inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames e como apoio à prevenção.

"O sistema poderá identificar quem corre maior risco de adoecer e chamar essa pessoa para se cuidar a tempo, em vez de esperar que ela chegue ao pronto-socorro quando já é grave", diz o plano do candidato.

Lula afirma que quer aprimorar "ainda mais a regulação do acesso à atenção especializada", para garantir maior transparência das filas e utilizar inteligência artificial, "com fila única digital e ordenada pelo risco clínico".

Já Renan Santos (Missão) propõe a substituição do atual modelo de fila cronológica e cita diretamente uma plataforma de El Salvador criada pelo governo Bukele.

"Temos um programa de integração entre saúde e tecnologia, inspirado parcialmente no que foi operacionalizado em El Salvador, por meio do DoctorSV. O sistema deverá oferecer integração entre laboratórios, farmácias e centros de imagem com triagens", diz trecho do livro que reúne suas propostas.

Proposta por todos os espectros políticos, a adoção de IA na gestão da saúde é inevitável, diz Alexandre Chiavegatto Filho, professor de inteligência artificial na Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (USP). Ele aposta que a área vai ser a maior beneficiária da inteligência artificial.

Chiavegatto, que coordena o Laboratório de Big Data e Análise Preditiva da instituição, afirma que existe potencial de uso desde o primeiro contato do paciente com o sistema de saúde até a alta, principalmente no auxílio do diagnóstico.

"Os fatores que levam uma pessoa a ter um problema grave de saúde, ou até mesmo ir a óbito, normalmente são interações complexas, e é exatamente nisso que esses algoritmos funcionam tão bem", diz.

Um dos potenciais da IA que mais anima Chiavegatto é a possibilidade de ampliar o acesso a especialistas em regiões onde eles são escassos. Seu laboratório desenvolve algoritmos que aprendem com dados de pacientes brasileiros e podem auxiliar profissionais de saúde em locais mais remotos.

Mas há outros especialistas que não são tão otimistas quanto Chiavegatto.

Wagner Meira Jr., professor do Departamento de Ciência da Computação da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pesquisador do Centro de Inovação em Inteligência Artificial para Saúde, pesquisa aplicações de IA no diagnóstico, tratamento e organização dos serviços de saúde. Ele considera que as propostas apresentadas pelos candidatos são, em alguns casos, futuristas.

"Dificilmente se realizam em quatro anos de governo", diz. Para ele, a inteligência artificial tem obtido melhores resultados em situações "mais contidas e bem definidas", como a análise de exames. "Quanto menos específico o caso é, e quanto mais bem delimitado, mais a IA tem sucesso", afirma.

Meira Jr. chama atenção para um problema central da proposta de usar algoritmos para reorganizar as filas: a capacidade de atendimento. Segundo ele, não basta mudar a ordem dos pacientes se a quantidade de profissionais e serviços disponíveis continuar a mesma.

"Para você conseguir uma melhoria da fila, antes de qualquer coisa, você tem que aumentar o número de atendentes na fila. Depois você pensa em como vai priorizar a fila. Se você simplesmente mudar a posição das pessoas e continuar com a mesma restrição de capacidade, não vai melhorar muita coisa."

Outro obstáculo, segundo o pesquisador, é a própria qualidade dos dados disponíveis no SUS. Grande parte das informações existentes é formada por registros administrativos, produzidos originalmente para fins de faturamento, explica o professor.

"Ou seja, esses dados, na verdade, foram usados para pagar um prestador de serviço, em sua maior parte, e não necessariamente para serem usados do ponto de vista clínico. São dados muito ricos. Mas são muito limitados para toda essa gama de cenários", diz.

Segundo o Ministério da Saúde, não existe hoje um número nacional consolidado de quantas pessoas aguardam atendimento no SUS. Isso porque a gestão das filas de cirurgias, consultas e exames é de competência de Estados e municípios, e até pouco tempo atrás eles não eram obrigados a enviar essas informações ao governo federal.

Para tentar resolver essa lacuna, a pasta publicou uma portaria em 2025 que passa a exigir o envio periódico e padronizado desses registros à Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS). A medida, porém, ainda está em fase de implementação.

A única fonte de dados que o Ministério consegue oferecer hoje é o Sisreg, sistema de regulação usado para agendar consultas e procedimentos — mas que não é adotado por todos os municípios do país, o que o próprio governo reconhece que não representa a totalidade do território nacional.

Na prática, isso significa que uma IA pode não ter informações suficientes para determinar, para qualquer especialidade, qual paciente deveria ser priorizado.

"O problema não é nem a quantidade de coisas que você vai ser capaz de resolver [com a IA], que pode até ser um bom número. O problema é o falso negativo", diz Meira Jr.

Em sistemas de saúde, explica o especialista, um falso positivo pode gerar exames ou tratamentos desnecessários e aumentar os custos. Mas um falso negativo pode deixar de identificar justamente quem precisava de atendimento.

"O falso positivo é ineficiência, vai pegar custo e vai ser desperdiçado", afirma. "Agora, o falso negativo é o complicado. Com um falso negativo, você pode matar alguém."

Por isso, Meira Jr. diferencia o uso da tecnologia para organizar recursos do uso da IA para tomar decisões clínicas.

Na primeira categoria, ele vê aplicações mais imediatas, como identificar profissionais disponíveis, distribuir consultas e aproveitar estruturas que estejam ociosas.

"O uso em aspectos logísticos, administrativos, eficiência do sistema de saúde é uma coisa razoável", afirma.

Por exemplo, uma possibilidade seria combinar sistemas de saúde de diferentes regiões para aproveitar consultas disponíveis.

"Se eu sei que tenho teleconsultas vagas em São Paulo e tenho gente precisando de teleconsulta na Amazônia, então a IA poderia escalonar essa pessoa para ser atendida por teleconsulta, seria mais rápido do que esperar meses para ser atendida presencialmente."

Já a utilização da tecnologia para decidir quem deve ou não receber determinado tratamento envolve riscos diferentes. Para o cientista, o problema passa também por questões éticas e por definir quem será responsabilizado quando uma decisão automatizada der errado.

"Você tem que preparar os médicos para poder usar IA, você tem que ter mecanismos de acompanhamento, auditoria, rastreabilidade, e você tem que ter questões legais porque, na hora que alguém morrer, de quem que é a culpa?"

O pesquisador defende que o país comece a desenvolver essas tecnologias, mas de forma gradual e com mecanismos de controle.

"A gente não deve simplesmente fechar os olhos, mas a gente tem que fazer de uma forma que seja responsável."

<><> Lógica já existe, dados ainda não

Para o cardiologista Antonio Ribeiro, professor do Departamento de Clínica Médica da UFMG e coordenador da Rede de Teleassistência de Minas Gerais, a discussão sobre usar critérios de risco para organizar filas não começa com a inteligência artificial.

"Todo sistema público de saúde tem fila. Então, ela precisa ser alguma forma de organização", argumenta.

Segundo Ribeiro, o SUS já utiliza diferentes critérios de regulação. A ordem cronológica, portanto, não é o único mecanismo existente.

Ele cita como exemplo os transplantes, em que critérios de risco são usados há anos para definir a prioridade dos pacientes.

"Transplantes têm outros critérios que não apenas cronológico. Então, nesse recurso tão caro e tão especial, que é o transplante, já se usa há muito tempo seus escores de risco."

Para o cardiologista, o desafio para ampliar esse tipo de tecnologia está menos na existência de algoritmos e mais na infraestrutura necessária para alimentá-los. "Não existe aplicação de IA sem sistemas integrados de informação em saúde", afirma.

Ou seja, hoje a fragmentação dos sistemas municipais, estaduais e federal é um dos principais obstáculos. E o país já vem trabalhando na integração dessas informações, mas, segundo Ribeiro, ainda há um caminho a percorrer.

"A existência de sistemas digitais interoperáveis, que forneçam uma informação de qualidade que possa ser utilizada, ainda é algo distante."

Por isso, ele considera mais realista começar por aplicações específicas. Um exemplo é um projeto desenvolvido por pesquisadores da UFMG, chefiado por Ribeiro, para priorizar exames de ecocardiograma.

Aqui a ideia é usar informações de eletrocardiogramas para identificar pacientes com maior probabilidade de apresentar alterações estruturais no coração, como insuficiência cardíaca ou doença de Chagas.

"Se você utiliza IA aplicada ao eletrocardiograma para reconhecer aqueles casos em que há maior chance de você encontrar uma alteração estrutural, você prioriza muito melhor do que se você deixar ao acaso."

Mas mesmo uma ferramenta que apresente bons resultados precisa passar por outra etapa antes de ser incorporada à assistência.

"A gente tem que mostrar que ela é capaz de mudar um contexto, que realmente tem a capacidade de priorizar, em estudos de validação prospectiva", defende Ribeiro.

"Qualquer intervenção na área da saúde, na medicina, na saúde pública tem que demonstrar que ela é efetiva, que ela é factível, mas que ela é custo-efetiva, porque ela vai realmente levar uma visão mais racional do uso dos recursos."

Antonio Ribeiro considera que projetos específicos podem começar como pilotos, mas rejeita a ideia de uma solução geral para todas as filas do SUS.

"Ela pode ser iniciada em locais ou situações específicas, mas isso está longe de ser uma panaceia ou uma solução pronta para resolver todos os problemas no curto prazo", afirma.

Para ele, além da integração dos sistemas, é necessário testar os modelos na prática e preservar a intervenção humana.

"Eu acho muito difícil que em saúde existam soluções que não incluam a possibilidade de você ajustar o que a máquina está fazendo", adiciona.

O cardiologista cita ainda um problema que pode reduzir filas antes mesmo da aplicação de algoritmos sofisticados: a própria dinâmica dos encaminhamentos.

Segundo ele, o apoio especializado à atenção primária também pode evitar encaminhamentos desnecessários a especialistas.

<><> O que pode mudar o SUS

Chiavegatto diferencia a IA generativa, usada para produzir textos, imagens, áudios e vídeos, dos algoritmos preditivos, que aprendem a partir de dados reais de pacientes.

Para ele, embora a IA generativa possa ser útil para profissionais de saúde, seu impacto estrutural tende a vir da outra tecnologia.

"A IA generativa já é uma área muito interessante e importante, que está ajudando muitos profissionais de saúde a tirar dúvidas sobre doenças raras. Mas não é isso que vai transformar o sistema de saúde", afirma o professor da USP.

"O que vai transformar o sistema de saúde é essa segunda área, que é a preditiva, que são algoritmos que aprendem com dados reais e detalhados de pacientes atendidos no sistema."

Esse tipo de algoritmo poderia, por exemplo, analisar a trajetória de um paciente dentro do SUS e auxiliar o médico a estimar riscos.

"A ideia é que, dentro do prontuário eletrônico, haja um histórico de todos os pacientes e que o médico consiga perguntar coisas para o algoritmo diretamente."

Mas o próprio Chiavegatto ressalta que o setor ainda tem como trava a disponibilidade e a padronização dos dados.

"O desafio que temos hoje no Brasil é: temos a tecnologia na área de machine learning em saúde, temos a tecnologia, temos os profissionais capacitados, mas falta a matéria-prima", explica.

"O gargalo hoje é digitalização e padronização dos dados."

<><> O risco de importar um modelo pronto

Em El Salvador, o governo de Nayib Bukele lançou uma plataforma de inteligência artificial para administrar a saúde pública em novembro de 2025. O DoctorSV funciona com tecnologia do Google Cloud e administra consultas, sugere diagnósticos, tratamentos e exames laboratoriais.

"Cada salvadorenho terá uma pessoa — vou chamar a inteligência artificial de pessoa — 24 horas por dia, sete dias por semana, acompanhando sua doença crônica", disse Bukele ao apresentar a iniciativa.

"Que na área da saúde possamos dizer que este sistema não existe em nenhum outro lugar do mundo é um grande tema [pelo qual podemos ser reconhecidos]."

Segundo o governo, o aplicativo foi baixado por 1,1 milhão de pessoas. Agora, ele também vai alertar automaticamente pacientes com doenças crônicas, como diabetes e hipertensão, sobre quando tomar seus medicamentos.

Até abril deste ano, a ferramenta havia gerado cerca de 1,5 milhão de consultas médicas, afirmam as autoridades. A segunda fase será financiada por um empréstimo de US$ 75 milhões do Banco de Desenvolvimento da América Latina e do Caribe, entidade anteriormente conhecida como Corporação Andina de Fomento (CAF).

Ao se cadastrar, o usuário responde a um questionário sobre fatores de risco. Com essas informações, o sistema classifica o paciente e gera uma solicitação de exames laboratoriais. Com os resultados em mãos, agenda uma consulta com um especialista, que recebe o histórico completo do paciente e uma sugestão de diagnóstico.

Quando uma receita é prescrita, o paciente recebe um código para retirar o medicamento em uma farmácia credenciada.

A referência a El Salvador em programas como o de Renan Santos também é vista com cautela pelos pesquisadores.

Chiavegatto questiona a possibilidade de usar um algoritmo generalista, como o de empresas como o Google, para orientar decisões em um sistema de saúde específico.

"Se eles estiverem usando um algoritmo generalista, corre o risco de o algoritmo que aprendeu basicamente com informações dos Estados Unidos e da Europa continuar replicando desigualdades no sistema, em vez de aprender as particularidades da complexidade do próprio sistema de saúde."

Para ele, modelos usados no SUS deveriam ser desenvolvidos no país e treinados com dados da população brasileira.

"O que é preciso é desenvolver algoritmos de aprendizado de máquina que aprendam a realidade de cada região."

Meira Jr. acrescenta outra diferença importante: a escala. "A população de El Salvador é próxima ao tamanho da região metropolitana de Belo Horizonte. Então não se deve comparar o SUS com isso, você poderia comparar a uma prefeitura."

El Salvador tem uma população de 6,4 milhões de habitantes — na verdade, quase a mesma da cidade do Rio de Janeiro, que tem cerca de 6,7 milhões de habitantes.

O país centro-americano faz cerca de 10,5 milhões de atendimentos por ano, uma escala muito menor dos 2,8 bilhões de atendimentos ao ano do sistema público brasileiro.

Outro ponto importante é uma questão de soberania e proteção dos dados. Meira Jr. questiona a possibilidade de uma empresa privada multinacional ter acesso a informações de pacientes brasileiros.

O contrato do governo de El Salvador com o Google terá duração de sete anos, segundo porta-vozes da empresa disseram à BBC News Mundo, o serviço em espanhol da BBC. Não se sabe, porém, quem ficará responsável pelo aplicativo após o fim do acordo.

Também não se sabe quais são os termos do contrato em relação ao uso dos dados dos pacientes. A empresa afirmou que os dados "pertencem ao cliente", mas não respondeu se recebe algum pagamento pelo uso de sua tecnologia.

O cardiologista Antonio Ribeiro também chama atenção para o caráter especialmente sensível das informações de saúde.

"Os dados de saúde são os mais sensíveis possíveis. Eles permitem que as pessoas sejam reconhecidas e discriminadas, que emprego seja negado a elas, por exemplo."

Para ele, qualquer iniciativa precisa garantir que essas informações sejam protegidas.

"Isso tem que estar devidamente guardado em servidores com segurança, com o maior esforço necessário possível, para que os dados não sejam tornados disponíveis sem autorização da pessoa para grupos ou pessoas que possam fazer um uso pernicioso dele."

 

Fonte: BBC News Brasil