segunda-feira, 27 de julho de 2026

A Copa terminou; em outubro, vamos escolher o Brasil que queremos

Com o fim da Copa do Mundo, inicia-se a contagem regressiva para as eleições de outubro. Durante pouco mais de um mês, o futebol monopolizou atenções e paixões, inclusive daqueles que se ligam nesse esporte somente em tempos de Copa. Agora, encerrado o espetáculo esportivo, o jogo político volta naturalmente ao centro do debate nacional. Essa edição do Mundial será lembrada por um contraste permanente entre o encanto proporcionado pelo futebol e as profundas distorções e mazelas que cercam sua organização. Ao mesmo tempo em que milhões de torcedores testemunharam uma das edições mais disputadas da história, o torneio revelou como interesses geopolíticos, comerciais e institucionais podem atropelar os princípios mais elementares do esporte.

Não faltaram situações que colocaram em dúvida a credibilidade da competição em razão da agressiva lógica de mercado que orientou sua organização. O ambiente internacional tensionado por forte instabilidade refletiu-se diretamente nos bastidores. Seleções sob constante embate geopolítico sofreram severas restrições migratórias e burocráticas impostas pelos EUA. O caso do Irã foi uma entre tantas situações discriminatórias desse mundial. Esse tipo de tratamento demonstrou a inclinação oportunista da FIFA por não assegurar a isonomia e igualdade de condições entre todas as suas federações filiadas, dividindo as delegações entre as que gozaram de livre trânsito global e as que foram tratadas sob suspeita.

A busca desenfreada por lucratividade, refletida nos preços proibitivos dos ingressos, elitizou o evento e afastou grande parte do público dos estádios. Como consequência, o espetáculo popular converteu-se em um privilégio reservado à parcela da população com maior poder aquisitivo. Embora o futebol moderno tenha sido organizado pela elite inglesa do século XIX, foi a apropriação do esporte pela classe trabalhadora que o transformou no fenômeno cultural mais popular do planeta. Ao dificultar o acesso aos estádios por meio de ingressos excessivamente caros, a FIFA e seus parceiros comerciais resgataram um caráter excludente que a própria história do futebol havia superado. 

Nesse ambiente seletivo, as situações de discriminação racial não se limitaram às manifestações hostis dirigidas às seleções africanas, que repercutiram internacionalmente sem uma resposta firme da FIFA. O clima de intolerância também atingiu individualmente atletas negros.Após a vitória da França sobre o Paraguai, o atacante francês Kylian Mbappé foi alvo de um ataque racista da senadora paraguaia Celeste Amarilla, que publicou ofensas de cunho racial e questionou sua identidade nacional. Ao contrário da FIFA, Mbappé repudiou o episódio, classificando a parlamentar como “indigna do cargo” e afirmando que jamais permitirá que pessoas como ela disseminem ódio e racismo pelo mundo. Sua postura reafirmou o compromisso que vem assumindo ao longo da carreira no enfrentamento ao racismo e a toda forma de discriminação.

Outra distorção marcante foi a vergonhosa submissão da federação às exigências norte-americanas. A polêmica revisão da pena do atacante Folarin Balogun ocorrida após interferência direta de Donald Trump provocou forte repúdio e acusações de ingerência sobre a autonomia dos órgãos disciplinares da entidade.  Esse alinhamento atingiu o suprassumo da bizarrice quando a FIFA concedeu a Trump o “Prêmio da Paz FIFA”. Como resposta a esse conjunto de situações, marcadas pelas posturas questionáveis da FIFA e pelas interferências de Donald Trump, o público manifestou sua insatisfação durante a cerimônia de encerramento da Copa, com sonoras vaias dirigidas ao presidente dos Estados Unidos e ao presidente da FIFA, Gianni Infantino.

Contudo, apesar das distorções que marcaram a organização do torneio, seria injusto reduzir a Copa apenas às suas controvérsias políticas. Dentro de campo, o futebol reafirmou sua capacidade única de desafiar desigualdades e revelar histórias de superação. A expansão para 48 seleções abriu espaço para campanhas históricas protagonizadas por nações de menor expressão econômica. Países como a República Democrática do Congo, Haiti e Cabo Verde protagonizaram momentos emocionantes de superação e encanto, demonstrando a garra de povos que encontram no futebol um canal de afirmação.

Entre os nomes que simbolizaram essa essência popular, sobressaiu-se o jogador Lamine Yamal. Criado em bairro operário da Catalunha, e filho de imigrantes do Marrocos e da Guiné Equatorial, sua ascensão traduz a força transformadora do futebol frente às dificuldades financeiras. De forma similar, a trajetória de superação do goleiro Vozinha uniu as ilhas de Cabo Verde em torno de um feito épico, transformando a seleção estreante na grande sensação da Copa. Essas trajetórias revelam que, apesar das desigualdades econômicas e sociais que ainda atravessam o futebol mundial, o talento e a determinação continuam capazes de romper barreiras históricas. É desse contraste entre a determinação de nações historicamente relegadas a um papel secundário, expressa na campanha marcante de seleções como Cabo Verde, e os interesses do poder econômico e geopolítico que emerge uma reflexão oportuna sobre as eleições de outubro.

Assim como o Mundial desperta a paixão de milhões de torcedores e demonstra que o futebol preserva sua capacidade de emocionar e surpreender mesmo sob a influência de interesses alheios ao esporte, a disputa eleitoral recoloca em primeiro plano escolhas de consequências muito mais profundas, como decidir quem conduzirá a presidência da República, os governos das unidades federativas e quem ocupará as cadeiras do Congresso Nacional e das assembleias estaduais. Se, nos gramados, ainda há espaço para que o talento desafie as desigualdades, nas urnas caberá aos eleitores impedir que a lógica dos privilégios continue determinando os destinos do país. 

Para que essa escolha seja feita de forma consciente, será indispensável compreender também o papel desempenhado pela mídia corporativa na construção das versões dos fatos eleitorais. Nas últimas semanas, como era de se esperar, a mídia corporativa redefiniu sua preferência sobre quem deverá governar o país. Isso ocorreu depois da frustração com a perda de seu candidato dos sonhos, o bolsonarista raiz Tarcísio de Freitas, que disputará a reeleição em meio a uma gestão marcada por uma política de privatizações amplamente questionada e por sucessivos problemas na prestação de serviços públicos essenciais, a exemplo das concessões da Sabesp e das linhas de trens metropolitanos, que nesta semana foram notícia após um incêndio provocar pânico e risco aos passageiros. 

Depois de flertar até mesmo com o pré-candidato Flávio Bolsonaro e abandoná-lo posteriormente em razão de seu envolvimento sucessivo em graves escândalos, o Partido da Imprensa Golpista (PIG) passou a dedicar sutilmente sua atenção ao pré-candidato Ronaldo Caiado, como se ele fosse a sua aguardada terceira via.

A interpretação de Caiado como uma suposta terceira via passou a ocupar editoriais do Estadão e de outros veículos da mídia corporativa, como a Rede Globo, que passa a direcionar seu olhar para um candidato apresentado como palatável, embora historicamente vinculado aos setores mais conservadores da direita liberal. Como bem pontuou o ex-deputado José Genoino, em entrevista ao programa Giro das Onze, da TV Brasil 247: “Chamar o Caiado de terceira via é um desrespeito à língua portuguesa. Ele é um reacionário da direita radical ideológica extremada, da direita da UDR, do agro, da violência no campo e da direita do massacre de camponeses”.

A atuação desses veículos vai ainda mais longe, ao emitir avaliações que ressaltam a imagem de outro pré-candidato, Renan Santos, apesar de suas posições extremistas e de suas ideias de caráter autoritário.

A falta de escrúpulos éticos da mídia hereditária, comprometida com os interesses de seus proprietários e com os patrocínios dos segmentos mais ricos e conservadores, torna-se evidente para o eleitor que acompanha criticamente o debate público. Essa percepção, porém, não alcança uma parcela expressiva da população, cuja visão sobre os candidatos é frequentemente formada pelo conteúdo mais apelativo que circula nas redes sociais, muitas vezes produzido ou impulsionado para induzir determinadas interpretações. Ao fim e ao cabo, a suposta lisura ética exigida das concessionárias públicas de radiodifusão reduz-se a uma esquecida nota de rodapé. 

Eleição após eleição, o partido da comunicação, embora não possua registro no Tribunal Superior Eleitoral, atua com notável empenho para construir e legitimar candidaturas da direita ou do centro-direita comprometidas com a preservação de uma ordem liberal que concentra privilégios e poder nas mãos de uma reduzida parcela da sociedade, em prejuízo dos interesses da ampla maioria da população. Essa atuação revela uma lógica semelhante à observada em outros espaços de poder, nos quais interesses econômicos e políticos frequentemente se sobrepõem ao interesse coletivo. Trata-se de uma conduta tão censurável quanto as práticas questionáveis patrocinadas pelo governo norte-americano durante a Copa do Mundo.

Há, contudo, uma diferença fundamental entre essas duas realidades. As arbitrariedades ocorridas na Copa do Mundo, realizada sob a influência do governo Trump, despertaram indignação porque foram amplamente expostas à avaliação pública. Já as interferências da mídia corporativa no processo eleitoral, embora igualmente graves, costumam permanecer naturalizadas ou invisibilizadas. Não raro, nos indignamos com aquilo que ela denuncia, mas deixamos de perceber o que ela própria oculta ao atuar como militante de bastidor, engajada abertamente em barrar qualquer projeto de esquerda.

A influência deletéria da mídia corporativa se torna particularmente nítida na forma como seus veículos tratam de modo desigual as informações. Quando governos progressistas obtêm resultados positivos nas esferas federal, estadual ou municipal, esses avanços frequentemente são acompanhados de ressalvas que reduzem sua relevância, apresentados de maneira secundária ou diluídos em meio a críticas. Em sentido oposto, diante de erros ou resultados negativos de administrações alinhadas à direita, observa-se, muitas vezes, uma cobertura menos incisiva, com menor destaque ou até mesmo com a ausência de uma abordagem proporcional à gravidade dos fatos. 

Um exemplo recente foi a pouca repercussão dada ao relatório O Estado da Segurança Alimentar e Nutrição no Mundo 2026 (SOFI), divulgado nesta semana pela Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), segundo o qual o Brasil manteve abaixo de 2,5% a proporção da população sem acesso ao mínimo de calorias necessário para uma vida saudável. Esse resultado foi alcançado pelo trabalho qualificado pelo atual governo progressista em um ambiente de forte resistência da oposição no Congresso Nacional e diante de um sistema de emendas parlamentares que concentra parcela significativa do orçamento público e que, reiteradamente, tem sido alvo de investigações da Polícia Federal e de outros órgãos de controle por suspeitas de desvios de recursos, fraudes em licitações e outras irregularidades.

Em sentido oposto, veículos independentes da imprensa progressista transmitidos por meio de plataformas digitais e redes sociais, mobilizaram sua programação para destacar o resultado alcançado pelo governo Lula, concedendo ao fato o espaço e a relevância que seriam compatíveis com qualquer conquista de alta importância nacional, independentemente do governo responsável por ela, pois primam por um jornalismo verdadeiro, sem segundas intenções. A dinâmica, presente nos diferentes segmentos da imprensa escrita, televisiva e radiofônica, passou a encontrar um contraponto nas redes sociais, que permitem a circulação mais rápida de informações e podem romper, em parte, o controle do conteúdo das divulgações exercido pelos grandes conglomerados de comunicação.

Nas eleições deste ano, já se vislumbra também interferências do governo da extrema direita norte-americana. A relação entre Brasil e Estados Unidos atravessa um momento de tensões políticas, evidenciado por declarações públicas de autoridades norte-americanas com críticas pessoais a Lula, entre elas o problemático e prepotente secretário de Estado Marco Rubio. A história das relações internacionais registra inúmeras situações de tentativa de influência norte-americana sobre processos políticos na América Latina. Nesse ambiente, é legítimo acompanhar com atenção possíveis ingerências indevidas e pressões diplomáticas, econômicas e informacionais que possam repercutir no ambiente eleitoral brasileiro, inclusive ações destinadas a tumultuar o pleito em favor de Flávio Bolsonaro ou de outro candidato que ofereça alinhamento incondicional aos interesses dos Estados Unidos.

Diante desse panorama e dos movimentos do PIG, que já não disfarça sua atuação, embora insista em repetir a desgastada justificativa de que sua missão jornalística seria pautada pela isenção e pela transparência princípios que, na prática, historicamente foram questionados por sua atuação alinhada aos interesses do poder oligárquico, toda atenção às suas estratégias é necessária. Com raríssimas exceções, parcela significativa dos profissionais que atuam nesses conglomerados encontra-se submetida às diretrizes editoriais definidas por seus proprietários, fazendo com que a manipulação da apresentação dos fatos se torne um instrumento de disputa política. Essa mídia já iniciou sua campanha contra a reeleição de Lula. Por isso, é imprescindível não sucumbir às armadilhas recorrentes e de última hora frequentemente utilizadas para influenciar o eleitorado.

Ao longo da história recente, a mídia corporativa foi alvo de críticas por sua atuação em processos eleitorais. Não podemos esquecer o papel desempenhado pela Rede Globo, durante os anos das práticas jurídicas indevidas da Operação Lava Jato, quando o Partido dos Trabalhadores e sua principal liderança política, o presidente Lula, foram alvos de uma intensa cobertura de descredibilidade. Os efeitos desse processo ainda se fazem sentir anos depois, uma vez que parte do eleitorado ainda preserva uma rejeição ao Partido dos Trabalhadores, fenômeno que diversos pesquisadores associam, ao menos em parte, ao ambiente informacional produzido naquele período.

A decisão do eleitor, portanto, deve ser resultado de informação e reflexão crítica. O país, ao contrário do panorama da atual composição do Congresso formada majoritariamente por parlamentares do Centrão e da extrema direita bolsonarista, necessita renovar essa bancada com representantes que compreendam o mandato parlamentar como uma função de natureza pública, orientada pelo planejamento, pela responsabilidade fiscal e pelo compromisso com políticas estruturantes, e não como instrumento de promoção pessoal ou de construção de projetos privados de poder. 

Entretanto, a profunda distorção provocada pela crescente concentração de recursos orçamentários sob controle do Congresso Nacional somente poderá ser revertida com a formação de uma maioria parlamentar comprometida com a revisão do Projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), de modo a restabelecer o equilíbrio entre as prerrogativas do Legislativo e do Executivo na definição e execução do orçamento público. A destinação de valores cada vez mais elevados às emendas parlamentares, frequentemente associadas a investigações sobre desvios de recursos envolvendo, em grande medida, parlamentares do Centrão e da extrema direita evidencia a necessidade de um novo modelo de gestão orçamentária, pautado pela transparência, pela rastreabilidade dos recursos, pelo controle social e pela prevalência do interesse público sobre conveniências eleitorais ou patrimoniais.

No âmbito do Poder Executivo, a Presidência da República deve ser confiada a quem tenha uma trajetória pública que constitua, por si só, a principal credencial para o exercício do cargo. Alguém que não faça da mitomania seu projeto de poder e nem desse transtorno seu principal escudo. Importa um histórico de compromisso com o interesse público, de respeito ao patrimônio coletivo e de independência em relação a interesses privados. A condução do país não pode ser entregue a quem tenha utilizado a política como instrumento de enriquecimento pessoal, de apropriação dos recursos públicos ou de submissão do interesse nacional a geopolíticos estrangeiros em troca de benefícios pessoais ou políticos. 

A presidência deve recair sobre uma liderança que tenha demonstrado, ao longo de sua vida pública, coerência e firmeza na defesa da soberania nacional, da autonomia decisória do Estado brasileiro e da preservação de suas riquezas estratégicas, compreendendo que governar é colocar o poder público a serviço da redução das desigualdades, da ampliação de direitos e da melhoria concreta da vida de toda a população.

 

Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

 

26/07 - Dia dos Avós: transmitir a ternura de Deus a cada idoso

Em uma sociedade marcada pela pressa, pela tecnologia e pelo culto à juventude, os idosos podem frequentemente sentir solidão ou a sensação de terem sido deixados de lado. Diante dessa realidade, a Irmã Rosa Parra, das Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados, convida a resgatar o valor da presença, da escuta e dos pequenos gestos de proximidade.

No âmbito do VI Dia Mundial dos Avós e dos Idosos, que este ano foicelebrado neste domingo, 26 de julho, a religiosa destaca que a atenção aos idosos não pode se limitar ao atendimento de suas necessidades físicas. Implica também acompanhá-los em sua dimensão espiritual, reconhecer a dignidade e ajudá-los a viver essa etapa com fé e esperança.

Para a religiosa, este Dia Mundial, instituído pelo Papa Francisco em 2021 e confirmada pelo Papa Leão XIV, representa uma oportunidade para voltar o olhar para aqueles que podem ser esquecidos. As celebrações, as visitas aos doentes e as iniciativas promovidas pelas comunidades são, em sua opinião, uma forma concreta de lembrar que os idosos continuam fazendo parte da grande família da Igreja. “É sempre como uma lembrança”, observa ela. Para a religiosa, essa data permite “tirar a poeira” de realidades que, durante o resto do ano, podem ficar mais esquecidas.

Visitar, ouvir e acompanhar

Nesse contexto, a partir da Santa Sé, o Dicastério para os Leigos, a Família e a Vida convida as comunidades paroquiais e diocesanas a se dedicarem de maneira especial àqueles que vivem sozinhos, àqueles que passam os dias em centros de assistência e àqueles que não recebem visitas. Em comunicado, o prefeito e o próprio secretário, cardeal Kevin Farrell e Dario Gervasi, desejam que a data “seja para todos — e, em particular, para os mais jovens — uma ocasião concreta para ir ao encontro de seus próprios avós, dos idosos de sua família e, sobretudo, daqueles que não têm ninguém ao seu lado”.

Além disso, o Dicastério propõe algumas orientações pastorais para as visitas a pessoas que estão sozinhas: por exemplo, quem fizer essas visitas não permaneça apenas nas áreas comuns, mas se aproxime dos quartos; pedir aos ministros extraordinários da Eucaristia que prolonguem as visitas habituais aos idosos e dediquem um tempo mais tranquilo à escuta; convidar as famílias a visitar os idosos solitários que moram em seu próprio prédio ou bairro, entre outras orientações.

Por sua vez, afirmam que seria desejável que, a partir da data, começassem a ser organizados momentos de reflexão sobre a mensagem do Pontífice, que pode ser distribuída a todos os participantes. Consideram que “pode-se pedir aos idosos uma oração especial pelos jovens e pela paz” e incentivam a promover a participação do maior número possível de idosos na missa dominical celebrada por ocasião da Jornada.

<><> Cuidar do corpo e acompanhar a alma

A Congregação das Irmãzinhas dos Anciãos Desamparados surgiu em 1873, a partir da preocupação do Pe. Saturnino López Novoa com a situação de muitos idosos que ficavam sozinhos e desamparados. Seu carisma, explica Parra, consiste em acompanhar os idosos, atendendo tanto às suas necessidades materiais quanto espirituais. Elas contam com uma ampla rede de cerca de 197 lares em aproximadamente 21 países.

“Nossa missão concreta é essa assistência, não apenas material”, afirma. O cuidado integral se expressa nas tarefas mais simples da vida cotidiana: alimentar, higienizar, acompanhar, ouvir ou simplesmente segurar a mão. Mas também em levar o idoso à Eucaristia, rezar o terço e criar um ambiente no qual ele possa viver essa etapa a partir da fé. “Cada irmãzinha, cada voluntário, nosso objetivo é transmitir essa ternura de Deus”, explica.

Para a religiosa, essa missão pode ser comparada à casa de Betânia. Da mesma forma, as residências devem ser locais onde os idosos possam se sentir acompanhados e acolhidos, mesmo quando a doença ou a dependência limitam suas capacidades. O carisma da congregação, lembra ela, então, resume-se a uma expressão que tem orientado a missão: “cuidar dos corpos para salvar as almas”.

Uma sabedoria de que as novas gerações precisam

A Ir. Rosa também alerta para o risco de reduzir a velhice à fragilidade física e à deterioração. Diante dessa visão, ela convida a descobrir a riqueza da experiência e da sabedoria que os idosos podem transmitir. Em seu trabalho com jovens voluntários, ela procura que sejam justamente os idosos a ocupar o centro. “Nós, jovens, gostamos de ser protagonistas, os melhores, os líderes, os mais rápidos, mas aqui viemos para que os protagonistas sejam os idosos”, relata.

As histórias daqueles que trabalharam durante décadas, formaram uma família, enfrentaram dificuldades ou aprenderam um ofício podem se tornar uma escola para as novas gerações. “Todo idoso, por mais limitado que seja, nos dá uma lição”, afirma. Pode ser um ensinamento de paciência, de aceitação da dor ou de capacidade de enfrentar o sofrimento.

Para a religiosa, o encontro entre jovens e idosos permite, além disso, superar uma visão superficial sobre a fragilidade. “Eu não cuido de um idoso por causa de seus títulos, porque ele seja mais ou menos bonito, porque tenha conquistado mais ou menos na vida, mas porque ele é Filho de Deus”, comenta.

Nessa perspectiva, a dignidade de uma pessoa não depende de suas capacidades nem do que tenha conquistado ao longo da vida. Mesmo quando já não consegue falar ou manter uma conversa, ela continua merecendo cuidado, respeito e amor. “O fato de eu poder apenas dar a mão a ele e que ele sinta minha força, que ele sinta meu calor, já é uma bênção de Deus”, explica.

<><> Diante da cultura do descarte

A religiosa também chama a atenção para a tendência da sociedade contemporânea de marginalizar aqueles que já não conseguem acompanhar o ritmo acelerado da vida. “O idoso, o jeito do idoso não é a rapidez, é antes de tudo a calma”, observa. As novas tecnologias e as mudanças nas formas de comunicação podem fazer com que alguns idosos se sintam deslocados ou até mesmo como um fardo, mesmo que suas famílias os amem.

Diante dessa realidade, a Ir. Rosa considera fundamental cultivar a empatia e buscar novas formas de aproximação. A resposta, afirma ela, nem sempre requer grandes ações. Pode começar com gestos cotidianos: ajudar um idoso a atravessar a rua, acompanhá-lo com as sacolas de compras ou simplesmente parar para cumprimentá-lo.

“Que gestos tão bonitos e tão simples”, afirma ela. Pois por trás de uma ação aparentemente pequena pode haver uma experiência profunda: a certeza de que “alguém se lembra de mim”. Nessa tarefa, a religiosa considera que os cristãos têm uma responsabilidade especial. “Quando fizestes isso a um destes meus irmãos mais pequenos, a mim o fizestes”, lembra ela, evocando as palavras do Evangelho.

A Pastoral dos Idosos, portanto, não é apenas uma tarefa daqueles que trabalham em lares ou instituições. É uma responsabilidade que envolve as famílias, as paróquias, os voluntários e toda a comunidade.

<><> “Eu não vou te esquecer”

O lema do Dia Mundial dos Avós e dos Idosos deste ano, “Eu nunca te esquecerei”, escolhido pelo Papa Leão XIV, ganha um significado especial nas palavras da Ir. Rosa. Para a religiosa, essa expressão lembra que Deus permanece próximo de cada pessoa e que a Igreja é chamada a tornar visível essa proximidade, especialmente entre aqueles que passam por momentos de fragilidade.

“Deus não se esquece de nós e Deus ama cada um de nós”, afirma ela. Por isso, a missão daqueles que acompanham os idosos consiste também em ajudá-los a descobrir que continuam sendo importantes, que suas vidas têm valor e que ainda têm um lugar dentro da comunidade. A Ir. Rosa também convida os jovens a se aproximarem, sem medo, dos idosos. Não se trata de realizar grandes ações, mas de dedicar tempo a eles. Sentar-se ao lado de um idoso, deixar de lado, por um momento, o celular e o relógio e simplesmente estar presente, sem pressa.

“Meu tempo é para você”, propõe ela como uma atitude concreta de acompanhamento. A religiosa afirma que os idosos sabem reconhecer quando uma pessoa está verdadeiramente presente e quando a visita é feita com pressa. Por isso, ela considera que recuperar o valor da presença constitui uma das respostas mais importantes diante da solidão.

<><> A missão junto aos idosos

“Dediquemos tempo aos outros, dediquemos tempo à terceira idade”, insiste ela. Aos idosos, por outro lado, ela os incentiva a confiar na misericórdia de Deus e a viver com paz essa etapa da vida. A partir da sua experiência acompanhando idosos doentes e nos últimos momentos de vida, ela relembra o testemunho de um deles que, apesar de suas limitações físicas, falava com serenidade sobre sua família, sobre o bem que havia podido realizar e sobre a esperança de se encontrar em breve com Deus.

Para a Ir. Rosa, essa experiência expressa o sentido profundo da pastoral dos idosos: acompanhar até o fim, cuidar com ternura e lembrar que nenhuma pessoa, por mais frágil que seja, deve se sentir esquecida. “Deus é amor”, lembra a religiosa. E, a partir dessa certeza, ela convida a encarar os idosos não como um fardo, mas como filhos de Deus, portadores de uma história e de uma sabedoria que ainda têm muito a oferecer à Igreja e à sociedade.

 

Fonte: Por Sebastián Sansón Ferrari, para  Vatican News

 

Agronegócio empobreceu valor nutricional do que comemos

Saber como se alimentar de forma saudável é fácil. As redes sociais estão repletas de dicas e a maioria de nós já conhece o básico: diga não aos salgadinhos e refrigerantes; coma frutas e verduras frescas. A questão é colocar isso em prática no dia a dia.

Mas e os alimentos "bons para a saúde", como frutas frescas, verduras, grãos integrais e leguminosas? Eles ainda fazem jus à sua reputação?

A resposta curta é: não necessariamente.

"O teor de minerais diminuiu em uma ampla variedade de alimentos", afirma David Montgomery, geólogo do departamento de Ciências da Terra e do Espaço da Universidade de Washington, nos Estados Unidos.

A pergunta é: por quê?

<><> Práticas agrícolas reduziram níveis de nutrientes em alguns alimentos 

Montgomery pesquisou como diferentes práticas agrícolas afetam o solo e, consequentemente, os alimentos que consumimos. Para seu livro What Your Food Ate ("O que seu alimento comeu", em tradução livre), ele analisou cerca de mil estudos revisados por pares sobre os níveis de nutrientes em alimentos, incluindo frutas, verduras e grãos.  

Ele constatou que não houve uma mudança consistente nas últimas décadas nos níveis de macronutrientes dos alimentos. Isso inclui carboidratos, proteínas e gorduras. Mas o mesmo não pode ser dito dos micronutrientes, como vitaminas e minerais, entre eles ferro e zinco. 

"Não precisamos de grandes quantidades deles, mas são fundamentais para a nossa saúde", diz Montgomery. "Os níveis de minerais, em especial, são afetados pelas práticas agrícolas." 

Por exemplo, quando os grãos são selecionados para produzir o dobro da quantidade de trigo, isso pode levar a níveis menores de nutrientes por espiga. 

Isso pode ocorrer com variedades de grãos que não aumentam a quantidade de minerais e nutrientes absorvidos do solo, mas que são desenvolvidas para produzir o dobro de trigo. A mesma quantidade de nutrientes acaba sendo distribuída por uma colheita maior. 

Esse é o chamado efeito de diluição. E é uma das razões pelas quais, segundo Montgomery, alguns alimentos saudáveis de hoje não são tão nutritivos quanto aqueles consumidos pelos nossos avós. 

<><> Como cultivar alimentos mais nutritivos

O solo em que os alimentos crescem também desempenha um papel importante no valor nutricional do que chega ao nosso prato. 

Técnicas agrícolas modernas, como o revolvimento da terra e o uso de fertilizantes sintéticos e agrotóxicos, alteram o equilíbrio dos fungos e microrganismos presentes no solo. Quando esse equilíbrio é comprometido, as plantas podem ter mais dificuldade para absorver nutrientes e fitoquímicos, substâncias com propriedades anti-inflamatórias e antioxidantes. 

Por isso, Montgomery defende "práticas de agricultura regenerativa, que envolvem minimizar a perturbação física e química do solo, manter raízes vivas no solo o tempo todo e cultivar uma diversidade de culturas agrícolas". 

Segundo ele, isso fortalece o chamado ciclo de nutrientes e a produção de fitoquímicos. Como resultado, "mais desses compostos que queremos nos alimentos acabam realmente presentes nos alimentos". 

E por que queremos essas substâncias nos alimentos? Embora os fitoquímicos não sejam essenciais para a saúde e não sejam classificados como nutrientes, eles protegem nossas células contra danos causados por toxinas ambientais e ajudam a neutralizar radicais livres que podem danificar o DNA. 

Todas as plantas produzem fitoquímicos. Por isso, eles estão presentes em alimentos como grãos, vegetais e frutas. 

Além disso, quanto mais rico em fitoquímicos é um alimento, mais intenso tende a ser seu sabor. 

Entre os micronutrientes mais conhecidos estão: 

  • Vitamina C: faz bem à saúde dos dentes e do sistema cardiovascular, além de contribuir para um sistema imunológico saudável. Está presente em frutas como acerola, goiaba, caju, limão, laranja e em vegetais como a couve.
  • Zinco: o corpo não produz zinco por conta própria, mas precisa dele para o crescimento saudável e a cicatrização de feridas. Está presente em frutos do mar, carne vermelha, aveia, castanhas (do pará e de caju) e ovos.

<><> Como comer bem

Astrid Donalies, cientista da nutrição do Centro Federal de Nutrição da Alemanha, não está preocupada com os nutrientes dos alimentos que produzimos. Para ela, a mensagem mais importante para os consumidores é manter uma alimentação variada. 

Donalies aponta que na Alemanha é mais fácil alcançar uma dieta equilibrada hoje do que era para gerações anteriores, dado o acesso a uma variedade maior de frutas e verduras ao longo do ano. No passado, por exemplo, o inverno significava consumir grande quantidade de beterrabas e batatas e poucas frutas além de maçãs e peras. 

Mas isso não significa que os alemães deveriam comer morangos no inverno apenas porque podem encontrá-los no mercado. "As pessoas devem escolher produtos regionais e sazonais", diz Donalies. "Dessa forma, frutas e verduras estarão especialmente frescas, e trajetos mais curtos de transporte ajudam a proteger o meio ambiente." 

Silke Restemeyer, nutricionista da Sociedade Alemã de Nutrição, uma ONG independente, também enfatiza a importância de uma alimentação variada. Ela tem algumas recomendações sobre o que essa dieta deve conter. 

"Pessoas que consomem muitas frutas e verduras sofrem com menos frequência de hipertensão, doenças cardíacas e derrames", afirmou Restemeyer à DW. "Também observamos indícios de que doenças como câncer e demência são menos comuns entre pessoas que consomem mais frutas e verduras." 

<><> Mais grãos integrais e menos carne 

Mas isso não é tudo o que compõe uma alimentação saudável. Restemeyer também recomenda leguminosas como feijão e lentilha devido ao alto teor de fibras. Elas também fornecem micronutrientes como vitamina B1, vitamina B6, ferro, zinco e magnésio. 

Além disso, não provocam aumentos repentinos nos níveis de açúcar no sangue. Isso significa que uma porção regular de sopa de lentilha, por exemplo, mantém a sensação de saciedade por mais tempo do que um doce ou um hambúrguer. 

A nutricionista sugere comer um punhado de nozes ou castanhas por dia — elas contêm ácidos graxos essenciais e fazem bem ao coração. 

Ao escolher produtos à base de trigo, como pão ou macarrão, é melhor optar pelas versões integrais, pois elas contêm mais fibras. Isso "reduz o risco de diabetes tipo 2, distúrbios no metabolismo das gorduras, câncer de cólon e doenças cardiovasculares", aponta Restemeyer. 

Esses são apenas alguns exemplos do que pode ajudar a manter a saúde. De modo geral, diz ela, a ideia é consumir mais alimentos de origem vegetal, mais produtos integrais, menos carne e menos bebidas industrializadas.

 

Fonte: DW Brasil

 

O tariFlávio e a hora do Brasil

A opinião do presidente Donald Trump não deve ter tido grande influência na vitória dos candidatos de extrema-direita nas recentes eleições presidenciais sul- americanas. Esta é uma ideia que pode afagar o ego do presidente americano e assustar setores da esquerda mais ressabiada, mas, no mundo real, Trump é hoje uma figura cada vez mais impopular no mundo todo, e também na América do Sul. Não quer dizer que algumas grandes big techs e grupos financeiros de extrema-direita não tenham intervindo nessas eleições, mas isto não chega a ser uma grande novidade. Durante a Guerra Fria, os EUA promoveram 72 intervenções diretas e mudanças de regime em todo o mundo, e só na América Latina, participaram de 18 golpes de Estado entre 1952 e 1973. 

O que é realmente novo é o governo americano apoiando abertamente candidatos de direita ou extrema-direita, sem propor ou oferecer nenhum tipo de projeto, estratégia ou utopia de desenvolvimento nacional no caso de vitória de seus candidatos. Ao longo da Guerra Fria, os EUA encomendaram às FFAA sul-americanas o “combate aos comunistas”, mas ao mesmo tempo propuseram aos governos locais, pelo menos até a década de 70, um grande projeto ou “utopia desenvolvimentista”. E depois dos anos 80 e 90, os EUA propuseram e defenderam a “utopia da globalização” e das “reformas neoliberais” em troca do apoio à sua “guerra imperial contra o terrorismo. Mas agora, nesta terceira década do século XXI, o único projeto proposto pela Administração Trump aos seus seguidores é o da “caça aos narcotraficantes” e aos “imigrantes ilegais” e, sempre que possível, seu confinamento em campos de concentração, ao estilo do presidente Nayib Bukele, de El Salvador. 

Como consequência quase direta dessa falta de projeto, logo depois da vitória, muitos desses novos governos vêm enfrentando situações de ruptura e “convulsão social”, com queda rapidíssima de popularidade, uma vez que só propõem repressão e desmontagem de seus próprios Estados, sem contar com nenhum tipo de ajuda dos EUA que não seja policial ou militar, com exceção da Argentina, que foi salva da falência pela intervenção financeira direta dos EUA. Pelo contrário, quase todos esses novos vassalos norte-americanos foram penalizados com a imposição das tarifas de Donald Trump, que reduziram seu acesso aos mercados norte-americanos. E mesmo no caso da catástrofe venezuelana recente, os EUA não forneceram nenhuma ajuda excepcional, nem mesmo se dispuseram a suspender ou aliviar suas sanções que paralisam a capacidade de ação do governo venezuelano. Além disso, apesar de sua suposta unidade ideológica, esses novos governos de direita e extrema-direita carecem de qualquer tipo de unidade ou objetivo estratégico comum. E o mais provável, na próxima década, é que sigam na condição de pequenos Estados com economias “primário-exportadoras” isoladas e irrelevantes do ponto de vista geoeconômico — e mais ainda, do ponto de vista das grandes questões da geopolítica mundial. 

O Brasil é uma grande exceção nesse quadro declinante do continente sul-americano. É o quinto maior país do mundo, e sua economia inclui-se entre as 10 maiores do sistema capitalista. No início do século, era um país agrário, com um Estado fraco e fragmentado, e com um poder econômico e militar muito inferior ao da Argentina. Hoje, na terceira década do século XXI, o Brasil possui um produto que representa cerca de 50% do PIB total do continente sul-americano, é o país mais industrializado da América do Sul, e o principal player internacional do continente sul-americano. Além disso, é o país do continente com maior potencial de crescimento, se tomarmos em conta seu território, população, capacidade de produção agrícola e dotação de recursos energéticos, de minerais estratégicos e de “terras raras” (com a segunda maior reserva do mundo). Dispõe de uma matriz energética limpa e de uma gigantesca reserva hídrica que o candidata a uma posição de destaque na chamada “quarta revolução industrial”, comandada pelos avanços no campo da robótica e da inteligência artificial. 

No campo das relações internacionais, o Brasil mudou de rumo várias vezes nas últimas décadas. Mas com relação aos EUA, suas elites conservadoras e liberais, civis e militares têm mantido um apoio majoritário à Doutrina Monroe, desde os tempos de Joaquim Nabuco, um dos patriarcas de sua política externa. Mais recentemente, entretanto, mesmo com algumas interrupções, o governo vem construindo uma nova estratégia de inserção internacional do Brasil, lutando por aumentar seus graus de autonomia em um mundo cada vez mais “multipolar”, sem aceitar qualquer tipo de alinhamento automático com relação às Grandes Potências que dominam o sistema internacional. Foi com esta perspectiva que o Brasil se associou à China, Índia, Rússia e África do Sul, para constituir o grupo do BRICS, o bloco internacional que mais cresceu nos últimos anos, tornando-se hoje num dos maiores obstáculos ao mandonismo do governo de Donald Trump. 

Esta estratégia atual do Estado brasileiro não se enquadra no “terceiro-mundismo” do século XX, nem parece ser a de um candidato apenas à liderança da “periferia mundial”, ou mesmo do chamado Sul Global. Suas posições e pronunciamentos têm apontado na direção de um universalismo cosmopolita e igualitário, e de um multilateralismo que respeita as diferenças civilizatórias e assimetrias de poder no sistema interestatal. O Brasil tem se movido entre as nações do Norte e do Sul, do Leste e do Oeste, sem fazer distinções ideológicas ou discriminar países em função de seus regimes políticos, ou pertencimentos culturais e religiosos. Além disso, o Brasil tem se oposto radicalmente a todas as tentativas de bipolarização do sistema mundial, com base em qualquer tipo de posicionamento ou estratégia das atuais Grandes Potências. 

Em uma perspectiva histórica e comparativa de mais longo prazo, pode-se antecipar que, para seguir por esse caminho, o Brasil necessitará de enorme persistência e continuidade, e de uma estreita coordenação entre suas políticas externa e de defesa, e sua política econômica interna. Difícil também será o Brasil descobrir um novo caminho de afirmação de sua liderança e poder internacional, dentro e fora da América do Sul, que não utilize a mesma arrogância e violência que europeus e norte-americanos empregaram para conquistar, submeter e “civilizar” suas colônias e protetorados. 

Por tudo e com tudo, não há dúvida de que a grande batalha geopolítica sul-americana será travada no Brasil neste segundo semestre de 2026. Nesse embate, o Brasil precisa ter claro que é próprio dos impérios desrespeitar sistematicamente as fronteiras dos Estados nacionais, e que países que têm projetos autônomos lutam permanentemente por suas soberanias. 

Soberania não é algo estático nem definitivo, é uma condição que se conquista exercendo-a e defendendo-a continuamente, sem jamais considerá-la assegurada, nem mesmo pelo Direito Internacional ou pelas instituições multilaterais que vêm sendo sistematicamente atacadas e desrespeitadas. O Brasil vem enfrentando uma disputa em defesa de sua soberania, contra um poder assimétrico e imperial, e contra setores de sua própria elite civil e militar, que é “binária” e subserviente por sua própria natureza, incapaz de entender a complexidade do mundo contemporâneo. Trata-se de uma conjuntura extremamente complexa e desafiadora, mas é também a hora em que o Brasil poderá abandonar sua longa dependência externa, assumindo seu próprio comando, dentro do sistema mundial e frente à história da humanidade. 

¨      Brasil vai à OMC contra tarifaço dos EUA para “marcar posição” contra Trump

A diplomacia do governo do presidente Lula (PT) avalia que um eventual recurso do Brasil à Organização Mundial do Comércio (OMC) contra o novo pacote de tarifas imposto pelos Estados Unidos terá um caráter essencialmente “simbólico” e servirá para “marcar posição” diante de Washington.

A análise interna de diplomatas brasileiros ocorre após o anúncio feito pelo governo de Donald Trump, na última quinta-feira (23), sobre a aplicação de um segundo conjunto de tarifas direcionado às exportações do Brasil. A primeira medida do governo americano estabeleceu uma taxa de 25%, justificando que o Brasil adotaria práticas econômicas desleais contra empresários dos EUA. Já o novo tarifaço adicionou uma taxa de 12,5%, baseada na conclusão de autoridades americanas de que dezenas de nações, incluindo o Brasil, supostamente falharam ao proibir ou fiscalizar a importação de mercadorias produzidas em locais com ocorrência de trabalho forçado.

Em resposta imediata às taxas impostas pelos norte-americanos, o Palácio do Planalto divulgou uma nota classificando a medida de Washington como de “carácter completamente arbitrário e injustificado”. Diante do impasse, a gestão do presidente Lula comunicou que daria início “imediatamente” aos trâmites necessários para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade, além de levar a disputa ao fórum multilateral da OMC.

Entretanto, integrantes do corpo diplomático brasileiro destacam que o acionamento da OMC funciona mais como um gesto político do que como uma ferramenta com efetividade prática no contexto atual. “Mostra que é um recurso à mão. Simbólico, hoje em dia. Para marcar posição”, resumiu um integrante do governo que acompanha de perto as estratégias do país contra a medida tarifária norte-americana.

O ceticismo da diplomacia em relação ao recurso reside na paralisia enfrentada pelo próprio órgão internacional. Criada em 1995 com o objetivo de reduzir barreiras comerciais e mediação de disputas globais em condições justas, a OMC teve um papel decisivo na solução de grandes conflitos no passado. Em 2004, por exemplo, o Brasil venceu uma disputa histórica contra os subsídios concedidos pelos EUA a produtores de algodão norte-americanos, garantindo o direito de impor retaliações comerciais da ordem de US$ 830 milhões contra Washington.

Contudo, o cenário atual é significativamente diferente. Desde 2019, o Órgão de Apelação — a instância máxima do mecanismo de solução de controvérsias da OMC — está inteiramente paralisado. O travamento foi provocado pelo próprio Donald Trump durante seu primeiro mandato na Casa Branca, ao bloquear sistematicamente a nomeação de novos juízes para a corte. Sem essa estrutura funcionando, as chances de o Brasil alcançar um entendimento ou uma solução prática sobre as tarifas por meio da OMC são consideradas quase nulas.

<><> Entidades empresariais rejeitam retaliação e pedem negociação

Enquanto o Planalto sinaliza o uso da Lei de Reciprocidade e o acionamento do organismo internacional, representantes de entidades empresariais brasileiras manifestaram oposição a qualquer tipo de retaliação contra os Estados Unidos. O setor produtivo defende que o país insista na via das negociações diretas para conter o risco de uma escalada de tensão com a administração de Donald Trump.

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) divulgou posicionamento em que expressa “preocupação” com o tarifaço, mas renova a confiança na habilidade da diplomacia brasileira para formular saídas negociadas. “A entidade ressalta que não apoia a adoção de medidas de retaliação comercial nem a aplicação da Lei de Reciprocidade como resposta às iniciativas adotadas pelos Estados Unidos”, afirmou a Abimaq no documento. A associação completou ressaltando que “o momento exige a retomada do diálogo e o fortalecimento dos canais diplomáticos e institucionais entre Brasil e Estados Unidos, de modo a evitar a escalada de medida que possam agravar o ambiente”.

A Câmara Americana de Comércio para o Brasil (AmCham Brasil) manifestou avaliação equivalente. A instituição destacou em comunicado que a decisão dos EUA “agrava” as condições para que os produtos brasileiros acessem o mercado norte-americano, mas frisou seu posicionamento contrário a medidas espelhadas. “A AmCham Brasil reitera que medidas de reciprocidade não contribuem para superar as divergências atuais e apresentam elevado risco de provocar uma escalada política e comercial, agravando os impactos econômicos para empresas, trabalhadores e consumidores brasileiros”, ponderou a entidade.

¨      Negociações do tarifaço devem permanecer em compasso de espera até depois das eleições

 O governo dos Estados Unidos, na avaliação de interlocutores do Palácio do Planalto familiarizados com as negociações que antecederam os mais recentes tarifaços, deve adotar uma postura de espera em relação à retomada de negociações, até que as eleições brasileiras de outubro definam o novo cenário político do país. Os negociadores americanos devem aguardar o resultado das urnas para saber com quem, de fato, vão negociar a partir de 2027.

No Planalto, a avaliação é de que o Brasil não pretende mudar sua estratégia diante dessa expectativa, e não fará movimentos adicionais para acelerar as tratativas antes do pleito. Uma fonte palaciana foi categórica ao afirmar que o governo brasileiro não vai enviar uma delegação para “mendigar” junto aos Estados Unidos, lembrando que já foram realizadas cerca de 30 reuniões entre representantes brasileiros e o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) ao longo do processo que antecedeu o mais recente tarifaço.

A leitura é de que a pausa nas negociações com o USTR pode estar relacionada a um cálculo político do lado norte-americano, que aguardaria o desfecho eleitoral brasileiro antes de definir seus próximos movimentos, na expectativa de um cenário com um interlocutor considerado mais “dócil” e alinhado aos seus interesses no país.

Se a expectativa do governo Trump é a de que surjam opções políticas mais dóceis às demandas dos Estados Unidos após a eleição, a orientação no Palácio do Planalto é clara: ‘que aguardem’.

¨      Apesar das tarifas de Trump, FMI reconhece que governo Lula está fortalecendo a economia

Apesar dos ataques do presidente dos EUA, Donald Trump, contra o Brasil e da imposição de tarifas, o Fundo Monetário Internacional (FMI) reconheceu o crescimento da economia brasileira durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

A organização internacional que historicamente exigiu cortes nos direitos sociais e nas economias da América Latina declarou na quinta-feira (23/07) a resiliência da economia brasileira e projetou que o Produto Interno Bruto (PIB) crescerá 2,4% este ano.

“A projeção é de que o crescimento aumente para 2,4% em 2026, impulsionado por uma melhoria nos termos de troca associada a preços globais mais altos do petróleo e apoio fiscal, antes de desacelerar em 2027 devido à continuidade das condições monetárias restritivas destinadas a trazer a inflação de volta à meta”, destacou a agência.

O FMI destacou que a economia brasileira demonstrou “notável resiliência diante de múltiplos choques”. Observou também que o sistema bancário permanece sólido, com instituições bem capitalizadas, alta liquidez e riscos sistêmicos sob controle.

A entidade destacou a normalização da política monetária e fatores estruturais, como a reforma do IVA aprovada em 2023 e o aumento da produção de hidrocarbonetos.

A agência prevê, no entanto, que a inflação aumentará temporariamente este ano para 5,6% em termos homólogos até o final de 2026, em parte devido aos elevados preços internacionais do petróleo.

Posteriormente, a inflação deverá convergir gradualmente para a meta de três por cento até meados de 2028. Nesse contexto, os cortes na taxa de juros têm sido compatíveis com o regime de metas de inflação do Brasil.

Ao comentar sobre as pressões inflacionárias decorrentes do aumento dos preços globais da energia, o FMI, em sua intervenção, afirmou que o Banco Central deveria manter “flexibilidade” em suas próximas decisões .

A entidade considerou que o Brasil deveria aproveitar a receita extraordinária do petróleo para reduzir de forma sustentável a dívida pública e gerar espaço para investimentos prioritários.

 

Fonte: Por José Luís Fiori, em Outras Palavras/Brasil 247/TeleSUR

 

A nova face do imperialismo: o poder corporativo que disputa a soberania brasileira

Vinte parlamentares republicanos dos Estados Unidos enviaram ao governo Donald Trump um pedido que deveria acender todos os alarmes em Brasília. Eles querem que Washington pressione o Brasil a modificar ou abandonar o Projeto de Lei 4.675, criado para permitir que o Estado brasileiro enfrente práticas anticoncorrenciais nos mercados digitais. Caso o Congresso Nacional insista em aprová-lo, defendem a adoção de novas medidas comerciais contra o país. A carta foi encaminhada ao chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, no mesmo dia em que o governo norte-americano anunciou tarifas adicionais de 25% sobre produtos brasileiros. É difícil encontrar uma imagem mais nítida do poder contemporâneo. Um projeto discutido dentro do Parlamento brasileiro, destinado a regular empresas que operam em território nacional, passa a ser tratado em Washington como ameaça aos interesses dos Estados Unidos. Congressistas estrangeiros arrogam-se o direito de determinar até onde pode avançar a legislação de outro país. E corporações privadas, algumas das mais ricas e poderosas da história, deixam de aparecer apenas como empresas sujeitas às leis brasileiras para emergir como ativos estratégicos protegidos pelo poder econômico, diplomático e coercitivo da principal potência do sistema internacional.

Não se trata de uma controvérsia técnica sobre concorrência. Tampouco de um conflito ocasional provocado por excessos regulatórios. O que está em curso é uma disputa sobre quem possui autoridade para estabelecer as regras da economia digital brasileira: as instituições eleitas pelo povo brasileiro ou conglomerados estrangeiros capazes de mobilizar o aparelho de Estado de seu país de origem contra qualquer limite que ameace seus modelos de acumulação. As Big Techs não são empresas convencionais. Controlam infraestruturas pelas quais circulam informação, publicidade, dinheiro, conhecimento, relações sociais e parte crescente da vida política. Conhecem populações inteiras por meio de volumes de dados que nenhum governo democrático jamais concentrou. Organizam a visibilidade pública por sistemas opacos, definem as condições de acesso a mercados e podem alterar unilateralmente as regras imposedas a cidadãos, empresas e instituições. Seu poder já não cabe nas categorias confortáveis com que o liberalismo costumava separar mercado, Estado e sociedade. Durante anos, elas venderam essa concentração brutal como inovação. Apresentaram dependência como conveniência, vigilância como personalização e monopólio como eficiência. Quando os Estados começaram a reagir, a máscara caiu. A retórica libertária cedeu lugar ao lobby agressivo; a promessa de conectar o mundo revelou uma máquina privada de disciplinar governos; e a suposta neutralidade tecnológica mostrou sua natureza material: propriedade concentrada, interesses monopolistas e capacidade de transformar poder econômico em pressão política.

A notícia não inaugura esse processo. Apenas ilumina sua etapa mais avançada. Antes de recorrerem abertamente à força comercial dos Estados Unidos, essas corporações já haviam testado, dentro do Brasil, sua capacidade de deformar o debate público, intimidar parlamentares, paralisar regulações e transformar seus próprios interesses em falsas causas universais. O caminho que liga o PL 2630 à ofensiva contra o PL 4.675 revela algo maior do que uma sequência de disputas legislativas. Revela a formação de uma arquitetura imperial adaptada ao século XXI.

Durante muito tempo, atribuiu-se às Big Techs o papel de protagonistas de uma revolução tecnológica destinada a democratizar a informação, ampliar liberdades e reduzir barreiras entre sociedades. Essa narrativa cumpriu uma função política decisiva. Enquanto o debate público celebrava inovação, conectividade e empreendedorismo, um processo muito mais profundo avançava silenciosamente: a concentração inédita de poder econômico, informacional e político nas mãos de um número cada vez menor de corporações privadas.

O caso do Projeto de Lei 2.630 expôs esse processo de maneira inequívoca. Ao contrário da narrativa construída por seus opositores, o projeto não nasceu como uma iniciativa improvisada nem foi produto de uma decisão isolada do Congresso Nacional. Sua tramitação atravessou quatro anos de debates, audiências públicas, negociações e sucessivas reformulações. Parlamentares, juristas, pesquisadores, representantes da sociedade civil, veículos de comunicação e as próprias plataformas participaram intensamente da construção do texto. Ao longo desse percurso, diversos dispositivos foram alterados, flexibilizados ou simplesmente retirados para acomodar críticas e ampliar consensos. Poucos projetos de lei passaram por um processo de maturação institucional tão extenso na história recente do país. Ainda assim, quando a possibilidade concreta de aprovação se aproximou, as principais plataformas digitais abandonaram qualquer aparência de neutralidade. O Google utilizou sua própria página inicial para atacar o projeto. O Telegram disparou mensagens diretamente a milhões de usuários brasileiros. Outras empresas recorreram a seus ecossistemas digitais para ampliar narrativas que associavam a proposta à censura e ao cerceamento da liberdade de expressão. A discussão deixou de ocorrer apenas no Parlamento e passou a ser travada dentro das próprias infraestruturas controladas pelas empresas que seriam reguladas. Esse talvez seja o aspecto mais perturbador de toda a história. As Big Techs não atuavam apenas como grupos econômicos tentando influenciar uma decisão política, algo relativamente comum em qualquer democracia. Elas ocupavam simultaneamente posições que jamais deveriam coexistir em uma sociedade democrática. Eram as empresas sujeitas à futura regulação, as proprietárias dos meios pelos quais bilhões de pessoas recebiam informação, as administradoras dos algoritmos que determinavam alcance e visibilidade, as intermediárias das relações sociais e, ao mesmo tempo, participantes ativos da disputa política que definiria os limites de seu próprio poder.

Nenhum setor econômico tradicional dispõe de uma vantagem comparável. Bancos não controlam o sistema pelo qual a população forma sua opinião sobre a regulação bancária. Montadoras não administram os canais que organizam o debate nacional sobre a indústria automobilística. Empresas de energia não determinam quais argumentos ganharão maior alcance quando sua atividade estiver em discussão. As Big Techs, sim. Essa assimetria representa uma ruptura histórica na relação entre poder privado e democracia. É justamente por isso que reduzir esse episódio à palavra “lobby” significa subestimar sua gravidade. Lobby pressupõe a tentativa de convencer quem decide. O que se viu no caso brasileiro foi algo qualitativamente diferente: corporações privadas utilizando as próprias infraestruturas que controlam para moldar a percepção pública sobre a legislação destinada a limitar seu poder. Não se tratava apenas de defender interesses econômicos. Tratava-se de influenciar as condições sob as quais a própria sociedade compreenderia o debate. As empresas costumam apresentar seus algoritmos como ferramentas neutras, guiadas exclusivamente por critérios técnicos. A experiência brasileira demonstrou o contrário. Quando interesses econômicos estruturais entraram em risco, a suposta neutralidade desapareceu. As plataformas revelaram aquilo que sempre foram: atores políticos de primeira grandeza, capazes de transformar arquitetura tecnológica em instrumento de pressão institucional. A inovação deixou de ser apenas um modelo de negócios. Tornou-se uma forma de exercício de poder. O fracasso do PL 2.630, portanto, não deve ser compreendido apenas como a derrota de um projeto específico. Ele marcou a primeira demonstração explícita, em escala nacional, da capacidade dessas corporações de utilizar seu domínio sobre as infraestruturas digitais para elevar o custo político da regulação. O que estava em jogo nunca foi apenas uma lei. Era a definição de um precedente: saber se, no século XXI, sociedades democraticamente organizadas ainda conservariam o direito de estabelecer limites ao poder econômico de empresas que passaram a controlar parcelas essenciais da vida pública.

Seria um erro imaginar que a paralisação do PL 2.630 representou uma vitória definitiva das plataformas digitais ou o encerramento do conflito. Na realidade, ela apenas inaugurou uma nova etapa. Como ocorre em toda disputa estratégica, quando um campo se torna desfavorável, o conflito é deslocado para outro. Essa capacidade de transitar entre diferentes arenas de poder talvez seja uma das características mais sofisticadas do capitalismo digital contemporâneo. Enquanto parte da opinião pública interpretava o adiamento do projeto como o fim do debate, as corporações reorganizavam sua estratégia. A ausência de uma legislação específica manteve aberto um vazio regulatório que rapidamente passou a ser ocupado por outros atores institucionais. O Supremo Tribunal Federal foi chamado a enfrentar questões que permaneceram sem resposta no Congresso. Novos projetos de lei surgiram com escopos mais delimitados. Órgãos como o Cade, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados e a Anatel passaram a discutir aspectos distintos do mesmo problema. A disputa não desapareceu. Apenas deixou de ocorrer em um único espaço. Esse movimento revela uma lógica recorrente das Big Techs. Ao contrário da imagem de empresas movidas apenas por inovação e eficiência, elas desenvolveram extraordinária capacidade de navegar pelas estruturas do Estado moderno. Quando não conseguem impedir completamente uma regulação, procuram fragmentá-la. Quando perdem espaço no Parlamento, deslocam o embate para o Judiciário. Quando decisões judiciais lhes são desfavoráveis, intensificam a pressão sobre agências reguladoras. Quando um país fortalece seus instrumentos institucionais, recorrem a organismos internacionais, associações empresariais ou governos estrangeiros. O objetivo permanece o mesmo: impedir que qualquer centro de poder concentre autoridade suficiente para impor limites efetivos ao seu modelo de negócios.

Foi exatamente isso que ocorreu no Brasil. A discussão sobre responsabilidade das plataformas migrou para o Supremo Tribunal Federal, que acabou estabelecendo parâmetros provisórios diante da incapacidade do Congresso de concluir a atualização do marco regulatório. Paralelamente, propostas específicas avançaram em temas como proteção de crianças e adolescentes, concorrência nos mercados digitais e inteligência artificial. Cada uma delas passou a enfrentar, em maior ou menor grau, resistência organizada dos mesmos grupos econômicos. Esse contraste é revelador. O chamado ECA Digital conseguiu avançar porque tratava de um tema cuja rejeição pública teria custo político elevadíssimo para qualquer empresa: a proteção da infância. Já propostas mais amplas, capazes de alterar estruturalmente o funcionamento das plataformas, passaram a ser enquadradas como ameaças à liberdade de expressão, à inovação ou à própria democracia. Não se trata de uma coincidência discursiva. Trata-se de uma estratégia cuidadosamente construída para transformar interesses econômicos privados em valores universais aparentemente incontestáveis.

Outro aspecto raramente observado é que o tempo também produz poder. Cada ano sem regulação significa bilhões de novos dados coletados, mercados ainda mais concentrados, maior dependência tecnológica, expansão da inteligência artificial proprietária e aumento da capacidade de influência política dessas corporações. A demora regulatória não representa neutralidade. Ela beneficia, de forma objetiva, quem já ocupa posição dominante. Em mercados digitais altamente concentrados, adiar decisões frequentemente equivale a decidir em favor do monopolista. Essa talvez seja uma das maiores ilusões produzidas pelo debate contemporâneo. Costuma-se afirmar que a tecnologia evolui mais rapidamente do que o Estado. A afirmação contém apenas parte da verdade. O que evolui com extraordinária velocidade é a capacidade das grandes plataformas de explorar as diferenças de tempo entre Parlamentos, tribunais, agências reguladoras e organismos internacionais. Enquanto as instituições públicas precisam respeitar procedimentos, transparência e controle democrático, essas corporações atuam de forma simultânea em todas as frentes, adaptando sua estratégia sempre que uma delas se torna desfavorável. É justamente nessa capacidade de deslocar permanentemente o conflito que reside uma das maiores forças do poder corporativo contemporâneo. Não porque ele seja inevitável, mas porque aprendeu a transformar a fragmentação institucional dos Estados em uma vantagem estratégica permanente.

Se a disputa em torno do PL 2.630 revelou a capacidade das Big Techs de influenciar o ambiente político brasileiro, os acontecimentos mais recentes mostram que esse poder não termina nas fronteiras nacionais. Pelo contrário. Ele alcança sua forma mais sofisticada justamente quando interesses corporativos deixam de aparecer como demandas privadas e passam a ser incorporados por instrumentos oficiais de política externa. Esse deslocamento não acontece de forma abrupta nem por meio de decisões espetaculares. Ele é construído gradualmente. Associações empresariais produzem estudos, elaboram pareceres, organizam audiências, apresentam diagnósticos e defendem determinadas interpretações sobre projetos legislativos. Esses argumentos circulam entre organizações internacionais, câmaras de comércio, escritórios especializados, representantes diplomáticos e órgãos governamentais até adquirirem a aparência de posições institucionais. Ao final desse percurso, aquilo que nasceu como interesse econômico de um pequeno grupo de empresas retorna ao país de origem da controvérsia sob a forma de pressão comercial, diplomática ou regulatória. É exatamente essa engrenagem que começa a aparecer com nitidez no caso brasileiro. O debate sobre a regulação das plataformas deixou de ser tratado apenas como uma discussão doméstica para ser enquadrado como um obstáculo aos interesses econômicos norte-americanos. A linguagem muda. O objetivo permanece. O que antes era apresentado como defesa da inovação passa a ser descrito como proteção ao livre comércio. O que era resistência empresarial transforma-se em preocupação diplomática. O que era lobby corporativo converte-se, pouco a pouco, em política de Estado. Essa transformação merece atenção porque altera profundamente a natureza do conflito. Empresas privadas sempre buscaram influenciar governos. Essa é uma característica conhecida das democracias contemporâneas. O problema surge quando governos passam a mobilizar seu peso econômico e geopolítico para proteger, além do razoável, interesses particulares de conglomerados empresariais que dominam setores estratégicos da economia digital. Nesse momento, a assimetria deixa de ser apenas econômica. Torna-se uma assimetria de soberania.

A carta enviada por parlamentares republicanos ao governo dos Estados Unidos representa exatamente esse salto qualitativo. Ao solicitar que Washington utilize instrumentos comerciais para pressionar o Brasil a rever uma proposta legislativa em discussão no Congresso Nacional, seus signatários deixam implícita uma premissa profundamente inquietante: a de que decisões soberanas tomadas pelas instituições brasileiras podem ser submetidas ao escrutínio e à coerção de uma potência estrangeira sempre que afetarem interesses de suas grandes corporações tecnológicas. Não se trata de afirmar que empresas privadas comandem automaticamente a política externa norte-americana, nem de reduzir a complexidade das relações internacionais a uma teoria conspiratória simplista. A realidade é mais sofisticada e, justamente por isso, mais preocupante. O que os documentos revelam é um processo contínuo de convergência entre interesses corporativos e instrumentos estatais. Ao longo desse caminho, fronteiras entre lobby empresarial, diplomacia econômica e política comercial tornam-se progressivamente mais tênues, produzindo uma arquitetura de influência capaz de operar com enorme legitimidade institucional. Nesse contexto, mecanismos como a Seção 301 do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos deixam de ser apenas instrumentos de política comercial. Passam a funcionar, na prática, como dispositivos de pressão sobre países que buscam estabelecer regras próprias para setores dominados por empresas norte-americanas. A mensagem transmitida é inequívoca: determinadas escolhas regulatórias podem acarretar custos econômicos e diplomáticos suficientemente elevados para desestimular sua adoção. É nesse ponto que a discussão ultrapassa definitivamente os limites do debate tecnológico. O centro da disputa já não é apenas como regular plataformas digitais. O verdadeiro conflito consiste em definir quem possui legitimidade para decidir sobre o funcionamento da economia digital dentro do território brasileiro. Se essa decisão puder ser condicionada pela ameaça permanente de retaliações comerciais ou pressões internacionais, estaremos diante de uma limitação concreta da capacidade do Estado de exercer uma de suas atribuições mais elementares: legislar em nome de sua própria sociedade. É precisamente aí que o conceito de imperialismo readquire atualidade. Não como repetição mecânica das formas clássicas de dominação territorial, mas como a capacidade de converter superioridade econômica, tecnológica e institucional em mecanismos permanentes de condicionamento político sobre outros Estados. No século XXI, não é necessário ocupar territórios quando se consegue influenciar as regras que organizam seus mercados, suas infraestruturas digitais e, em última instância, os limites de sua própria soberania.

Há um equívoco recorrente que empobrece o debate sobre as plataformas digitais. Quase sempre, a discussão é apresentada como um confronto entre liberdade de expressão e regulação, inovação e burocracia, mercado e Estado. Essa narrativa é conveniente para quem deseja reduzir um conflito estrutural a um embate de slogans. O problema é que ela oculta precisamente aquilo que está em jogo. A verdadeira disputa nunca foi sobre publicações removidas, perfis suspensos ou regras de moderação. Esses temas existem e são relevantes, mas representam apenas a superfície de uma transformação muito mais profunda. O que está sendo disputado é quem controlará as infraestruturas sobre as quais se organiza a economia, a circulação da informação, a produção de conhecimento, o desenvolvimento da inteligência artificial e, progressivamente, o funcionamento da própria vida democrática. As Big Techs deixaram há muito tempo de ser empresas especializadas em tecnologia. Tornaram-se proprietárias das principais infraestruturas digitais do planeta. Controlam serviços de computação em nuvem utilizados por governos e empresas, administram mercados globais de publicidade, concentram volumes gigantescos de dados pessoais, desenvolvem os modelos de inteligência artificial mais avançados do mundo e operam plataformas que mediam diariamente bilhões de relações econômicas, sociais e políticas. Em outras palavras, passaram a ocupar uma posição semelhante à que, em outros momentos históricos, foi exercida por quem controlava portos, ferrovias, rotas marítimas, petróleo ou sistemas financeiros.

Nenhuma nação aceitaria entregar o controle de sua infraestrutura elétrica, de seu sistema monetário ou de suas comunicações estratégicas a um pequeno grupo de empresas estrangeiras sem estabelecer mecanismos de supervisão pública. No entanto, foi exatamente isso que aconteceu com grande parte da infraestrutura digital contemporânea. Em poucas décadas, Estados transferiram parcelas essenciais de sua capacidade tecnológica para conglomerados privados cuja prioridade jamais foi o interesse público, mas a maximização permanente do retorno aos seus acionistas. Esse deslocamento produziu uma inversão silenciosa. Durante séculos, mercados existiram porque Estados criavam regras para garantir seu funcionamento. No capitalismo digital, algumas corporações acumularam tamanho poder que passaram a pressionar Estados para definir quais regras estes podem ou não estabelecer. A lógica democrática foi parcialmente invertida. Em vez de empresas se adaptarem às decisões soberanas da sociedade, tornou-se cada vez mais frequente observar sociedades pressionadas a adaptar suas decisões aos interesses de empresas transnacionais.

Essa é a razão pela qual o debate brasileiro extrapola em muito a regulação das plataformas. Ele envolve a capacidade do país de proteger seus dados estratégicos, desenvolver inteligência artificial compatível com seus interesses nacionais, fortalecer sua indústria tecnológica, preservar a autonomia de instituições como o Banco Central, a Anatel, a Autoridade Nacional de Proteção de Dados e o Cade, garantir condições justas para o jornalismo e impedir que setores inteiros da economia passem a depender exclusivamente de infraestruturas controladas no exterior. Sob essa perspectiva, soberania digital não significa isolamento tecnológico nem rejeição à inovação. Significa assegurar que decisões fundamentais sobre dados, algoritmos, inteligência artificial, concorrência, tributação e infraestrutura sejam tomadas pelas instituições legitimadas pela sociedade brasileira, e não condicionadas pelos interesses econômicos de conglomerados privados sediados além de suas fronteiras. Existe, portanto, uma dimensão material frequentemente ignorada nesse debate. Dados são riqueza. Algoritmos são instrumentos de poder. Infraestruturas digitais são ativos estratégicos. Inteligência artificial tornou-se fator decisivo de produtividade, competitividade econômica e capacidade militar. Quem controla esses elementos controla uma parcela crescente da capacidade de desenvolvimento das nações. Tratar esse processo apenas como uma evolução natural da tecnologia é despolitizar uma das maiores concentrações de poder da história do capitalismo.

Talvez seja justamente esse o maior desafio colocado ao Brasil nas próximas décadas. A questão central não consiste em escolher entre inovação e regulação, como insistem os discursos mais simplificadores. A verdadeira escolha será entre exercer plenamente a soberania sobre as infraestruturas que organizarão o século XXI ou aceitar que decisões fundamentais para o futuro nacional sejam condicionadas por corporações que não respondem ao eleitor brasileiro, não se submetem ao interesse público brasileiro e não têm qualquer compromisso com o projeto histórico de desenvolvimento do país. A pressão exercida contra o Brasil em torno da regulação das plataformas digitais dificilmente será um episódio isolado. À medida que inteligência artificial, computação em nuvem, infraestrutura de dados e sistemas algorítmicos se consolidarem como os principais motores da economia mundial, a tendência é que as disputas em torno da soberania digital se intensifiquem. O país que controla essas infraestruturas não apenas produz riqueza. Define padrões tecnológicos, influencia mercados, condiciona cadeias produtivas, estabelece dependências e amplia sua capacidade de projetar poder muito além de suas fronteiras. Nesse cenário, imaginar que o Brasil poderá enfrentar esse desafio apenas por meio de respostas fragmentadas seria um equívoco estratégico. Nenhuma democracia consegue lidar com corporações dessa dimensão por intermédio de instituições isoladas. A defesa da soberania digital exige coordenação permanente entre Congresso Nacional, Poder Judiciário, Executivo, Cade, Autoridade Nacional de Proteção de Dados, Anatel, Banco Central e demais órgãos responsáveis por proteger o interesse público. Exige transparência sobre a atuação do lobby corporativo, fortalecimento da capacidade regulatória do Estado, investimentos em pesquisa, infraestrutura tecnológica, inteligência artificial, computação em nuvem e uma política industrial capaz de reduzir a dependência brasileira em setores cada vez mais decisivos para o desenvolvimento econômico. Esse também é um desafio que ultrapassa as fronteiras nacionais. Nenhum país do Sul Global, isoladamente, possui condições de equilibrar a relação de forças com conglomerados cujo faturamento supera o Produto Interno Bruto de dezenas de nações. A construção de marcos regulatórios, padrões técnicos e estratégias de desenvolvimento tecnológico dependerá, cada vez mais, da cooperação entre países que compartilham interesses semelhantes. América Latina, BRICS e outras iniciativas multilaterais deixam de ser apenas espaços diplomáticos. Tornam-se instrumentos concretos para ampliar a capacidade coletiva de negociação diante de um mercado digital extraordinariamente concentrado.

A história econômica demonstra que nenhuma potência ascendeu abrindo mão do controle sobre suas infraestruturas estratégicas. Ferrovias, energia, telecomunicações, petróleo, sistema financeiro e indústria sempre foram tratados como temas de soberania. Não existe razão objetiva para que dados, algoritmos, inteligência artificial e plataformas digitais recebam tratamento diferente. O que mudou foi a natureza da infraestrutura, não sua importância para o desenvolvimento nacional. Talvez essa seja a principal lição deixada pela sequência de acontecimentos que liga o PL 2.630, os julgamentos do Supremo Tribunal Federal, os novos projetos de regulação e a pressão exercida por autoridades norte-americanas contra o PL 4.675. Quando corporações privadas passam a mobilizar mecanismos de política externa para constranger decisões tomadas por instituições democraticamente constituídas, a discussão deixa de ser tecnológica, comercial ou jurídica. Ela se torna uma questão de soberania. O debate sobre as Big Techs nunca tratou apenas da moderação de conteúdo, da concorrência ou da inteligência artificial. Desde o início, discutiu-se algo muito maior: quem exercerá autoridade sobre as infraestruturas que organizarão a economia, a informação e a democracia no século XXI. Em última instância, a pergunta é simples, embora suas consequências sejam profundas. O Brasil continuará exercendo plenamente o direito de definir, por meio de suas instituições, as regras que governam seu próprio território, ou aceitará que esse espaço seja progressivamente condicionado por centros privados de poder que não respondem ao eleitor brasileiro, não se submetem ao ordenamento jurídico brasileiro e não compartilham qualquer compromisso com o projeto nacional de desenvolvimento?

Essa é a verdadeira dimensão do debate. O século XXI não será marcado apenas pela disputa por mercados, tecnologias ou cadeias produtivas. Será marcado, sobretudo, pela disputa em torno da capacidade dos Estados de preservar sua autonomia diante de conglomerados privados que acumulam recursos econômicos, tecnológicos e informacionais em escala sem precedentes. A soberania, que durante séculos foi defendida em fronteiras, mares e territórios, passou a ser disputada também em servidores, algoritmos, centros de dados e sistemas de inteligência artificial. Ignorar essa transformação talvez seja o erro estratégico mais caro que uma democracia possa cometer. Compreendê-la é o primeiro passo para impedir que o poder econômico, por mais sofisticado que se torne, substitua a vontade soberana dos povos.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247