sábado, 11 de abril de 2026

Brasil sob polarização: avaliação e perspectivas

Ao longo da última década, a democracia no Brasil esteve sob pressão, passando por diversos períodos em que foi questionada, ameaçada e até mesmo corroída internamente.O evento mais recente e simbólico nesse sentido foi a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, poucos dias após o início do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e a condenação dos envolvidos, incluindo o ex-presidente Jair Bolsonaro, em setembro de 2025, pelo STF. Ainda é cedo para dizer se isso marca uma virada, mas a decisão histórica do STF de condenar o ex-presidente e vários generais é certamente encorajadora em um país com uma longa tradição de impunidade. O cenário político permanece turbulento. A situação do Brasil em 2025 foi caracterizada por tensões entre os três poderes, polarização política e incerteza econômica — elementos que geram considerável inquietação. Recentemente, um relatório da Polícia Federal, resultado de uma extensa investigação, revelou a existência de um plano, denominado Punhal Verde Amarelo, com o objetivo de assassinar o presidente Lula da Silva, o vice-presidente Geraldo Alckmin e o ministro do STFl Alexandre de Moraes. A proximidade das eleições presidenciais de 2026, marcadas para outubro, também exacerba as disputas e intensifica a campanha eleitoral. A relação entre o governo e o Congresso Nacional, especialmente com o chamado "centro" — um grupo informal de parlamentares de diferentes partidos cuja principal característica é o pragmatismo extremo e a ambição por cargos e recursos — enfrenta diversos desafios. O apoio, ainda que parcial e minoritário, como tem sido o caso ao longo do atual governo, é fundamental para garantir a governabilidade. A ruptura com a coalizão governista por partidos como União Brasil e Progressistas (ambos membros do centro , que formou uma federação com vistas às eleições de 2026 e detém um bloco de 109 deputados federais — o maior da Câmara — e 14 senadores) é um exemplo notável, afetando a estabilidade da coalizão e a relação entre os Poderes Executivo e Legislativo na reta final do governo Lula. Isso representa novos desafios para o Presidente da República, cujo mandato termina em 31 de dezembro de 2026. Também é notável o crescente envolvimento do judiciário: questões que deveriam ser resolvidas na esfera política acabam sendo levadas aos tribunais, especialmente ao Supremo Tribunal Federal (STF), que, por sua vez, tem adotado uma postura mais ativa na tomada de decisões que afetam a política interna e, ocasionalmente, até mesmo a política externa.

O ritmo acelerado da política internacional também traz consigo mudanças geopolíticas significativas e desafia acordos e alianças de longa data. Na esfera econômica, as preocupações com as finanças públicas e a sustentabilidade fiscal pairam sobre o governo, especialmente após a desaceleração do crescimento projetada para 2025 e o aumento da dívida pública. Além disso, os avanços e os desafios na esfera social assumem nova importância diante de um Poder Legislativo com enorme influência política e poder orçamentário sem precedentes na história republicana do país. Por fim, as Forças Armadas são outro ator que não pode ser negligenciado e merece nossa análise sobre o que se pode esperar – ou não – em 2026. Assim, examinando as dimensões externa, política, econômica, social e militar, buscaremos compreender a caleidoscópica e desafiadora situação atual do Brasil, construindo uma visão geral do que poderá se desenrolar ao longo de 2026.

<><> A paisagem externa

A aceleração da história, como alguns historiadores denominam o período atual em que múltiplos processos globais se desenrolam de forma interconectada, intensa e imprevisível, também teve repercussões no Brasil e em suas relações com o mundo exterior. O presidente Lula da Silva reforçou seu compromisso com o Sul Global, concebido inicialmente durante seus anos no Palácio do Planalto, entre 2003 e 2010, sem prejuízo das alianças tradicionais com os Estados Unidos, a União Europeia e os países vizinhos da América Latina, entre outros. Sem pretender ser exaustivo, eventos como a cúpula do G-20 no Rio de Janeiro em novembro de 2024 (que marcou o fim da presidência brasileira do grupo), a presidência do BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul) ao longo de 2025 e a presidência do Mercado Comum do Sul (Mercosul) a partir de julho de 2025 – de onde foram feitos esforços para finalizar a assinatura do acordo de livre comércio com a UE , há muito adiado – sem esquecer a COP30, realizada em Belém, no coração da Amazônia, em novembro de 2025, dão uma ideia da intensa agenda externa do Brasil nos últimos meses do terceiro ano de mandato de Lula. Com relação à 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (Conferência das Partes), o Brasil tentou, por meio da agenda ambiental, reativar um antigo e poderoso trunfo diplomático: alcançou uma redução no desmatamento em comparação com 2024, no segundo ano consecutivo de declínio, com uma diminuição de 32,4% em relação a 2023, e tem demonstrado, em termos gerais, uma maior preservação de seus seis biomas (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal).

O governo tem sido frequentemente criticado por manter laços estreitos com os países membros do BRICS — grupo que hoje compreende muito mais países do que aqueles que deram origem à sigla —, vários dos quais são, na verdade, autocracias. Mas Lula da Silva respondeu que se tratam de alianças pragmáticas que priorizam benefícios econômicos e diplomáticos. A posição oficial brasileira tem sido a de não se alinhar ideologicamente a esses regimes, mas sim a de buscar reforçar a autonomia estratégica do país e o multilateralismo no cenário global, caracterizado pela erosão da democracia liberal em diversos países. Outros preferem apontar uma contradição, visto que a política externa do terceiro mandato de Lula da Silva tem como um de seus princípios centrais a promoção e o fortalecimento da democracia, incluindo a criação de um mecanismo permanente de diálogo para coordenar sua defesa, anunciado em março de 2024 após a visita do presidente espanhol Pedro Sánchez a Brasília, e que atualmente conta com a participação de diversos países.

Este é um momento de declínio do multilateralismo no sistema internacional e de ressurgimento das relações de poder entre os Estados — a guerra entre Rússia e Ucrânia, o conflito entre Israel e Palestina, que Lula classificou como “genocídio”, e o ataque israelense-americano ao Irã — e de agravamento da deterioração das relações diplomáticas desde o retorno de Donald Trump à presidência da maior potência econômica e militar do mundo, em janeiro de 2025. No caso do Brasil, em uma clara tentativa de interferência, o presidente dos EUA tomou medidas unilaterais contra o país nas esferas econômica, comercial e diplomática, em decorrência dos processos judiciais contra seu aliado Jair Bolsonaro. O resultado tem sido uma maior dependência do Brasil em relação à China, seu maior parceiro comercial desde 2009, que atualmente absorve cerca de 25% de suas exportações e responde por aproximadamente 40% do superávit comercial brasileiro. Essa é uma consequência indesejável para Brasília, que preferia manter uma distância pragmática entre Washington e Pequim, negociando vantagens estratégicas e investimentos conforme seus interesses nacionais.

<><> O cenário político

Com a inelegibilidade de Jair Bolsonaro para cargos públicos em 2023 (até 2030) e sua condenação por conspiração golpista, que resultou em uma pena de mais de 27 anos de prisão, a oposição buscou um novo líder, gerando tensões políticas no período pré-eleitoral. Em ordem de proximidade e importância, os governadores de São Paulo (Tarcísio de Freitas), Paraná (Ratinho Júnior), Minas Gerais (Romeu Zema) e Goiás (Ronaldo Caiado), e até mesmo a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, tentaram ocupar seu lugar. Por fim, o senador Flávio Bolsonaro, filho do ex-presidente, será um dos candidatos à presidência do Brasil, apoiado por seu pai. O processo de impeachment contra Bolsonaro resultou em sanções contra o Brasil, incluindo uma tarifa de 50% sobre as exportações brasileiras para os Estados Unidos, a suspensão de vistos para ministros do Supremo Tribunal Federal e membros do governo Lula (estendendo-se a seus familiares) e a aplicação da Lei Magnitsky (criada para punir estrangeiros por graves violações de direitos humanos e práticas corruptas). O ex-presidente Bolsonaro foi condenado à prisão, enquanto Trump continua a caracterizar os eventos como uma "caça às bruxas" e tenta interferir diretamente na política e no judiciário brasileiros. Vale a pena relembrar, ainda que brevemente, a tentativa de golpe de janeiro de 2023 e suas repercussões na atualidade. Em 8 de janeiro daquele ano, o Brasil foi surpreendido pela invasão — e vandalismo — do Congresso Nacional, do Palácio do Planalto e do Supremo Tribunal Federal, em Brasília, por apoiadores de Bolsonaro, com o objetivo de impedir a reeleição de Lula da Silva.

Naquele dia em que a democracia foi ameaçada, os indignados com a derrota nas urnas, que estavam acampados em frente ao quartel-general do Exército desde o revés eleitoral, exigiram o cancelamento das eleições, a intervenção militar, o retorno do AI -5 (um conjunto de medidas decretadas pela última ditadura para consolidar seu poder) e a demissão do Ministro Supremo Federal Alexandre de Moraes. Uma parte significativa da turba foi rapidamente condenada, enquanto as sentenças contra seus líderes foram anunciadas em 11 de setembro de 2025, na Ação Penal (AP) 2668, pelo Supremo Tribunal Federal (STF). A sentença envolveu os oito membros do Núcleo 1 da tentativa de golpe, ou Núcleo Crucial, de acordo com a Procuradoria-Geral da República (PGR). Desses, sete réus foram condenados pelos crimes de tentativa de abolição violenta do Estado de Direito democrático, golpe de Estado, participação em organização criminosa armada, danos graves e deterioração do patrimônio protegido. Mesmo antes do veredicto final e do anúncio das sentenças, o Centrão começou a circular no Parlamento uma proposta de anistia para os envolvidos nos acontecimentos de 8 de janeiro de 2023. Isso está em consonância com uma longa tradição brasileira de impunidade para esse tipo de crime, como se viu durante o período de redemocratização do país. As pesquisas indicam que a maioria da sociedade rejeita uma anistia, mas membros do Congresso apresentaram diferentes formatos e propostas (incluindo a forma mais "branda", por meio da redução de penas). Cabe ressaltar que essa proposta mantém acesa a chama da polarização. Além disso, a um ano das eleições, a posição de Lula como favorito é repleta de riscos. É importante lembrar que, das nove eleições presidenciais realizadas desde o retorno da democracia em 1985, em quatro delas os candidatos que lideravam as pesquisas um ano antes acabaram perdendo nas urnas. Diferentemente das democracias, onde a previsibilidade é a norma, no Brasil a volatilidade é estrutural. O sistema de representação proporcional por lista aberta, a fragmentação partidária, a instabilidade econômica, os laços partidários frágeis e um alto grau de ambivalência ideológica explicam esse fenômeno.

A ciência política internacional estabelece que, em eleições em que o incumbente tem 40% ou mais de aprovação, há 75% de chance de reeleição. Lula está exatamente nesse patamar. Seu governo mantém cerca de 45% de aprovação, e pouco mais da metade do eleitorado avalia o desempenho pessoal do presidente como "bom/excelente" ou "regular". Trata-se de uma posição de equilíbrio instável: qualquer movimento pode empurrá-lo para dentro ou para fora da zona de conforto estatístico.

Atualmente, o presidente brasileiro, que vinha sofrendo um declínio histórico persistente em seus índices de aprovação, começou a recuperar uma parcela significativa de sua popularidade após os episódios de interferência de Donald Trump. Invocando a soberania e afirmando que ela é inegociável, Lula e seus ministros usam bonés azuis com o slogan "Brasil pertence aos brasileiros" e a bandeira brasileira, em contraste com os bonés vermelhos com a inscrição "Make America Great Again" e a bandeira americana, juntamente com a bandeira israelense, usados ​​por uma parcela significativa da direita brasileira desde o início de 2025. O governo lançou o Plano Brasil Soberano, que destinará 40 bilhões de reais (aproximadamente US$ 7,6 bilhões) para compensar os exportadores pelas perdas afetadas pelo aumento das tarifas americanas em vigor desde agosto de 2025, e se reposicionou lançando uma nova marca governamental que mudou "Brasil: União e Reconstrução" para "Governo do Brasil, ao lado do povo brasileiro". No entanto, Flávio Bolsonaro está se aproximando de Lula nas pesquisas para um possível segundo turno . O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, afirmou que a disputa será entre "Lula e Fávio, ponto final". Assim, a eleição colocará mais uma vez Lula da Silva contra Bolsonaro, com resultado completamente incerto.

<><> O cenário econômico decisivo

Enquanto a política permanece em suspenso, a economia emerge como a arena decisiva onde a batalha eleitoral será travada. De 1,5% durante o governo Bolsonaro (2019-2022), o crescimento médio do PIB subiu para 3,2% em 2023 e 3,4% em 2024, já sob a presidência de Lula. Mas em 2025, além da frágil situação fiscal interna, o cenário internacional trouxe novas instabilidades que, somadas às altas tarifas de Trump, causaram uma desaceleração da economia. Como resultado, o crescimento em 2025 foi de 2,3%, e o Banco Central e o mercado projetam um crescimento de 1,5% para 2026. E nesse horizonte, muitas nuvens negras ainda pairam.

Embora seja verdade que a taxa de desemprego esteja em seu nível mais baixo na série histórica (em torno de 5,5% da população economicamente ativa), a renda média do trabalhador continue a crescer e, em 2024, o Brasil tenha atingido um estoque de cerca de um trilhão de dólares em investimento estrangeiro direto (um recorde na série histórica do Banco Central, com os EUA liderando com mais de três vezes o investimento do segundo colocado), há outros fatores que devem ser considerados para se obter um panorama mais claro de como a economia poderá afetar a sucessão em 2026. Com a dívida bruta do governo (incluindo as obrigações dos governos federal, estaduais e municipais) em torno de 78% do PIB e um déficit em conta corrente equivalente a 3,5% do PIB , o Banco Central tem justificado a manutenção das taxas de juros em 15% (que não devem começar a cair antes de 2026), o que inibe o consumo, a produção e a expansão das atividades produtivas. O quadro fiscal, sancionado em 2023 para substituir a regra anterior de teto de gastos, acumulou quase 20 exceções em dois anos, como resultado da pressão do Executivo e do Congresso Nacional. A cada exceção, a regra perde credibilidade.

Mas existem outros números, ainda menos animadores: 72 milhões de brasileiros estão inadimplentes (ou seja, 43% dos adultos, o maior índice desde o início da pesquisa); a taxa de juros dos cartões de crédito rotativo ultrapassa há tempos os 450% ao ano (e a inadimplência já passou de 60%), em uma economia com inflação em torno de 5% ao ano. A sensação de exaustão e a dificuldade que uma parcela considerável da sociedade tem em vislumbrar uma saída complicam ainda mais a situação e levam a respostas sociais que exacerbam a crise atual. A busca por uma solução nas apostas eletrônicas tornou esse cenário ainda mais desafiador e sombrio: o percentual de brasileiros maiores de 16 anos (ou seja, aqueles que já podem votar) que relatam ter feito algum tipo de aposta subiu de 24% em outubro de 2024 para 36% em setembro de 2025, o que dobrou o índice de endividamento devido às apostas online e à drenagem de recursos do mundo do consumo. Em resumo, existem problemas macroeconômicos e microeconômicos que podem ter impacto em 2026, e o atual governo carece tanto da vontade política quanto da maioria parlamentar para alcançar soluções estruturais e duradouras. Além disso, há uma clara tensão entre uma "ala técnica" liderada pelo Ministro da Fazenda, Fernando Haddad, e uma "ala política" chefiada pelo Chefe da Casa Civil, Rui Costa, ambos membros do Partido dos Trabalhadores (PT) e ambos candidatos à presidência, em relação aos rumos da agenda econômica. Da mesma forma, a promessa de reindustrialização não está se concretizando, e o setor agroindustrial responde por grande parte do crescimento econômico. Vale sempre lembrar que a sensação de bem-estar é mais decisiva do que a curva do PIB, e aí reside um problema central que o atual governo deve enfrentar nas próximas eleições.

<><> A esfera social (sempre desafiadora)

Em um país como o Brasil, marcado por uma desigualdade estrutural e estruturante em sua sociedade, com uma das maiores concentrações de renda do planeta, a questão social, sempre volátil, surge como uma variável importante. Em 2022, Lula foi eleito com a promessa de resgatar a democracia e incluir os pobres no orçamento federal e os ricos no imposto de renda (apesar da alta carga tributária, esta é fundamentalmente regressiva). Nos dois primeiros anos (2023-2024), a classe média cresceu 18% (de 32,8 para 38,6 milhões de pessoas), enquanto o número de pessoas classificadas como "miseráveis" caiu 33% (de 19,3 para 12,9 milhões). Apesar desses indicadores positivos, Waldir Quadros, economista da Universidade Estadual de Campinas, aponta que a popularidade do governo não reflete os dados: "Trabalho com esse banco de dados e metodologia há mais de 20 anos. Esta é a primeira vez que vejo essa discrepância, porque normalmente, a mobilidade social aumenta e a popularidade do governo melhora.".

O Brasil alcançou um progresso histórico na luta contra a pobreza. Em dois anos, o número de famílias vulneráveis ​​cadastradas no Cadastro Único diminuiu 25%. Em maio de 2023, eram 26,1 milhões de domicílios, e em julho de 2025, esse número havia caído para 19,56 milhões. Isso representa uma melhora na vida de 6,55 milhões de famílias. Individualmente, 14,17 milhões de pessoas saíram da pobreza, segundo dados do Ministério do Desenvolvimento Social. Em julho de 2025, a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) anunciou que o Brasil havia sido novamente removido do Mapa da Fome. Isso ocorre quando o risco de desnutrição cai abaixo de 2,5% da população (o país havia retornado a essa categoria durante o primeiro ano do governo Bolsonaro, em 2019, mesmo antes da pandemia global de Covid-19, que exacerbou a situação). O retorno da política de aumento do salário mínimo, com reajustes anuais reais acima da inflação, sem dúvida também contribuiu para essa situação. No início de outubro de 2025, foi aprovada uma isenção do imposto de renda para quem ganha até 5.000 reais por mês (aproximadamente US$ 950), que entrará em vigor em janeiro de 2026, em comparação com a faixa atual de tributação em torno de 3.000 reais (US$ 570), beneficiando diretamente 15 milhões de pessoas.

O programa Bolsa Família (criado durante o primeiro mandato de Lula da Silva) foi completamente reformulado, ampliando sua abrangência. O governo sabe que precisa de programas sociais concretos para ser competitivo até 2026 e, além da já mencionada isenção do imposto de renda, planejou iniciativas como Gás do Povo (que garante botijões de gás gratuitos para 17 milhões de famílias) e Luz do Povo (que oferece energia elétrica gratuita para usuários vulneráveis ​​cadastrados no Cadastro Único), entre outras. Na área da saúde, ampliou os programas Mais Médicos, Brasil Sorridente (programa odontológico) e Agora Tem Especialistas, que agiliza consultas e exames no Sistema Único de Saúde (SUS). Na área da educação, houve um aumento no investimento em mensalidades para o ensino fundamental e médio, e foi criado o programa Pé-de-Meia, que incentiva os alunos a concluírem o ano letivo com auxílio financeiro de até R$ 1.750 para aqueles que forem aprovados nas três etapas e prestarem o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). Além disso, às vésperas do ciclo eleitoral, o governo promete mobilizar esforços para aprovar uma emenda constitucional que aboliria a jornada de trabalho 6x1 (o regime de trabalho padrão no Brasil, em que seis dias de trabalho são seguidos por um dia de descanso), bem como implementaria a gratuidade no transporte público. Contudo, a percepção de uma melhoria na qualidade de vida não é garantida e, até o momento, muitos desses avanços (em sua maioria isolados e não estruturais) — e sua sustentabilidade a longo prazo — são vistos com ceticismo por grande parte da sociedade brasileira. A margem de manobra do governo é bastante limitada: aproximadamente um quarto dos gastos não discricionários é controlado pelo Poder Legislativo por meio de emendas tributárias, o que agrava a falta de transparência, a corrupção, a fragmentação e a incoerência das políticas públicas, além de enfraquecer a capacidade do Poder Executivo de definir a agenda.

<><> A politização das forças armadas

A transição na área da Defesa, de Bolsonaro para Lula, foi particularmente tensa, com nomeações tardias para o Exército, Marinha e Força Aérea, e com comandantes militares indicados pelo presidente Bolsonaro recusando-se a entregar seus cargos na presença do recém-eleito comandante supremo, além de demonstrarem total tolerância a extremistas de direita que continuavam a protestar em frente aos quartéis em favor de um golpe militar. Essa foi a única área da equipe de transição sem membros indicados por Lula, que nomeou José Múcio, político de direita que mantém diálogo com Bolsonaro, como novo ministro da Defesa. Ainda assim, por exemplo, o novo comandante do Exército, Júlio Cesar de Arruda, permaneceu menos de um mês no cargo, já que o chefe militar manteve uma postura corporativista e desafiadora diante da necessidade de recuperar a confiança pública em um Exército questionado. Como já mencionamos, a tentativa fracassada de golpe de Estado em 8 de janeiro de 2023, o plano Punhal Verde Amarelo — concebido em novembro de 2022, com equipes formadas por militares das Forças Especiais, os chamados "Kids Pretos", que monitoravam o cotidiano e os itinerários do ministro, do presidente e do vice-presidente com a intenção de assassiná-los — e oficiais de alta patente envolvidos em atividades ilícitas, culminaram na já mencionada condenação histórica de 11 de setembro de 2025, na qual, pela primeira vez na história brasileira, oficiais superiores e generais foram condenados por um tribunal civil. Contudo, os quartéis permanecem altamente politizados e ainda simpáticos ao ex-presidente Bolsonaro, e não há, efetivamente, controle civil democrático ou direção política por parte das autoridades civis sobre esse instrumento de força do Estado.

<><> Considerações finais

Independentemente do rumo e da forma que a situação política assumir em 2026, a polarização permanecerá uma realidade, dada a sua importância para os dois principais líderes da atualidade, Lula da Silva e Jair Bolsonaro. Um Lula revigorado por Trump vem ganhando terreno, mas é sempre importante lembrar que ele terá 81 anos nas eleições de 2026, e a memória de Joe Biden, que teve de desistir da corrida presidencial por problemas de saúde relacionados à idade avançada, lança uma sombra sobre a candidatura do ex-metalúrgico (mesmo que ele seja apenas alguns meses mais velho que Trump). Especialistas apontam que, de modo geral, o eleitorado brasileiro está dividido entre um terço que apoia a direita e um terço que apoia a esquerda. Os 30% restantes são o elemento central da equação. Estima-se que, desse grupo, dois terços se abstenham de votar, e os 10% restantes sejam compostos por eleitores indecisos, que podem pender para qualquer um dos lados. Lula tem um piso alto, mas um teto baixo, já que quase metade do eleitorado reitera consistentemente que não votaria nele. O bolsonarismo, por sua vez, tornou-se um legado tóxico para muitos de seus aliados: atrai votos, mas repele alianças. Portanto, a eleição de 2026 provavelmente será acirrada, na qual o candidato que conseguir se conectar com o público, mostrando-lhe um caminho para uma vida melhor, e não apenas agendas abstratas em favor do institucionalismo e da promoção da democracia, conquistará o voto dos indecisos.

Na esfera econômica, a reforma tributária, considerada a mudança mais significativa no sistema tributário das últimas décadas, entrou em vigor em janeiro de 2026 com a implementação experimental da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Isso poderá levar a uma redução da pesada carga tributária suportada por empresas, trabalhadores e consumidores. Espera-se que o PIB continue crescendo, com uma provável redução nas taxas de juros, o que beneficia diretamente os cidadãos comuns. No entanto, a inflação anual persistente em torno de 5% está impactando as receitas do governo e continua sendo um desafio que precisa ser enfrentado. Os indicadores sociais, em particular a redução da pobreza e da pobreza extrema, devem continuar a melhorar, com a criação de mais empregos e o aumento do rendimento médio. A segurança pública, o controlo das despesas e os cuidados de saúde continuam a ser os calcanhares de Aquiles do atual governo, e a sociedade no seu conjunto exige reformas profundas nestas áreas.

Para concluir nossa avaliação, na véspera de 7 de setembro, Dia da Independência do Brasil, Lula da Silva se reuniu em um churrasco informal com o Ministro da Defesa, comandantes militares da ativa e ex-comandantes de seus mandatos anteriores. Na pauta, no que o Ministro Múcio chamou de "encontro entre amigos", estava um pedido de um plano estratégico de defesa para os próximos 20 anos, levando em conta as atuais mudanças tectônicas no sistema internacional. Na prática, foi uma demonstração de apreço institucional às vésperas do julgamento de Jair Bolsonaro e de militares conhecidos por seu envolvimento em tentativas de golpe, e uma forma de tentar apaziguar as tropas em vista do período eleitoral iminente. A rápida concessão da vitória por Biden em 2022 e as mensagens diretas e indiretas de que, caso ocorresse qualquer tipo de colapso institucional, toda a cooperação militar com os EUA cessaria, desempenharam um papel significativo na posse de Lula. Com Trump na Casa Branca até 2029, o cenário muda substancialmente. Em resumo, nesta breve avaliação e perspectiva para 2026, acreditamos que provavelmente teremos um ano marcado pela normalidade institucional, sem grandes convulsões, aguardando o resultado da candidatura de Flávio Bolsonaro. As esferas econômica e social, apesar dos desafios e crises ocasionais, devem, em geral, continuar apresentando números e indicadores positivos. A questão militar permanece uma variável indefinida, mas, por ora, foi apaziguada por sinais orçamentários e planos de defesa mais robustos. A corrida presidencial já começou e, de fato, se estende a todas as áreas da vida política, econômica e social do país, sob a sombra da polarização.

 

Fonte: Por Esther Solano e Alexandre Fuccille, em Nueva Sociedad

 

Por que é tão difícil taxar super-ricos e grandes fortunas?

A discussão sobre a taxação de grandes fortunas voltou ao centro do debate político. A proposta costuma ganhar força entre eleitores que defendem que pessoas extremamente ricas contribuam mais para o financiamento do Estado – seja por meio de um imposto de renda mais alto ou de um imposto patrimonial, cobrado anualmente ou de forma extraordinária sobre patrimônios acima de um determinado limite.

Governos que apoiam a medida argumentam que a tributação da riqueza extrema poderia aliviar a carga fiscal sobre a classe média, pressionada por anos de estagnação de renda, além de ajudar a reduzir desigualdades sociais crescentes. Para outros, trata-se de uma forma de diminuir déficits orçamentários sem recorrer a cortes profundos em serviços públicos.

Há ainda quem defenda o imposto sob um ponto de vista mais filosófico: em níveis muito altos, a acumulação de riqueza deixaria de produzir benefícios reais para seus detentores e passaria a concentrar poder econômico de forma desproporcional. Isso, por si, justificaria uma intervenção do Estado.

<><> "Taxe os ricos como eu"

Em geral, é considerado rico quem possui um patrimônio líquido de pelo menos 30 milhões de dólares (R$ 154 milhões) em ativos, enquanto os super-ricos detêm US$ 300 milhões (R$ 1,5 bilhão) ou mais.

Nos Estados Unidos, um dos defensores dessa medida é o republicano Mitt Romney, empresário e ex-governador de Massachusetts. Segundo ele, há um grande problema nas brechas relacionadas aos ganhos de capital.

"Chegamos a um ponto em que qualquer combinação de soluções para os problemas econômicos do nosso país vai envolver fazer com que os americanos mais ricos contribuam mais", escreveu ele em um artigo de opinião intitulado "Tax the Rich, Like Me" ("Taxe os ricos como eu", em tradução livre), publicado no New York Times em dezembro de 2025.

Zohran Mamdani, o novo prefeito da cidade de Nova York, propôs aumentar a alíquota do imposto de renda municipal de 3,9% para 5,9% para rendas anuais acima de 1 milhão de dólares.

No início de março, parlamentares do Estado de Washington aprovaram um novo imposto sobre rendas acima de 1 milhão de dólares (R$ 5,15 milhões). A medida aguarda ser sancionada pelo governador. Outros estados também estão avaliando iniciativas semelhantes.

Essas propostas são importantes porque os Estados Unidos têm a maior economia do mundo. O país também abriga o maior número de milionários e bilionários, segundo cálculos da Forbes.

<><> Quem tem medo de pagar imposto?

"Tributar os super-ricos é justo, economicamente eficiente e, em alguns países, promove outros objetivos importantes, como fortalecer a democracia", aponta Brian Galle, professor na Faculdade de Direito da Universidade da Califórnia em Berkeley, especializado em tributação.

De acordo com Galle, em muitos países, os super-ricos controlam uma parcela tão grande dos recursos sociais que conseguem influenciar resultados políticos e econômicos. Isso, continua ele, pode levar a dinâmicas políticas problemáticas e a consequências econômicas desastrosas.

Um dos principais obstáculos para tributar os super-ricos está nos próprios sistemas tributários atuais, já que, na maioria dos casos, o imposto só é cobrado quando ativos de investimento são vendidos, explica o professor em Berkeley.

"Famílias super-ricas podem se dar ao luxo de vender apenas uma pequena parte de sua riqueza, o que lhes permite escolher quando e muitas vezes onde pagar impostos", acrescenta.

<><> E a taxação sobre a riqueza?

Em vez de um imposto sobre a renda, outra possibilidade é somar todos os ativos e, então, tributar esse valor. O nome disso é imposto sobre o patrimônio.

Desde 1965, 13 países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) instituíram um imposto sobre o patrimônio líquido, ressalta Cristina Enache e Alex Mengden, economistas da Tax Foundation, centro de pesquisa independente especializado em política tributária.

Hoje, apenas quatro países ainda mantêm um imposto sobre a riqueza – entre eles Noruega, Espanha e Suíça.

De modo geral, esses tributos arrecadaram pouca receita e criaram grandes dificuldades administrativas, afirmam Enache e Mengden. Outro problema recorrente foram os questionamentos legais.

O Tribunal Constitucional da Alemanha decidiu, em 1995, que o imposto sobre patrimônio violava o princípio da igualdade e o declarou inconstitucional. Como consequência, a Alemanha suspendeu a cobrança em 1997.

Já a Suprema Corte da Holanda determinou, em 2021, que o imposto patrimonial do país violava a legislação europeia sobre direitos de propriedade e não discriminação.

<><> Dificuldades no cálculo

Quando se trata de impostos sobre o patrimônio, um grande problema é calcular a riqueza de alguém.

Dinheiro em espécie é fácil de se contabilizar, mas e todas as casas, carros, jatos particulares e investimentos? Sem mencionar coleções de arte ou o conteúdo de cofres privados. Isso se torna ainda mais difícil (e caro) se precisar ser feito todos os anos.

Segundo estudos da Tax Foundation, um imposto sobre o patrimônio desestimula a poupança e o investimento, prejudicando o empreendedorismo no longo prazo.

Além disso, um imposto desse tipo "pode levar à fuga de capitais e à mudança de pessoas ricas para países ou estados vizinhos", apontaram Mengden e Enache. "Após um aumento de 0,1 ponto percentual no imposto sobre patrimônio da Noruega, o país viu um êxodo de indivíduos com patrimônio elevado para lugares como Suíça e Reino Unido."

Brian Galle, da Universidade da Califórnia em Berkeley, é menos convencido de que os superricos possam simplesmente mover sua riqueza para evitar tributos. "Um bom desenho jurídico pode, por exemplo, tornar muito mais difícil para investidores ricos escaparem da tributação", diz o professor de direito.

<><> A Califórnia pode ter a resposta?

Quando se trata de um novo tributo sobre grandes fortunas, a Califórnia pode estar mostrando o caminho com um imposto único de 5% sobre pessoas com patrimônio superior a 1 bilhão de dólares.

Se essa proposta for incluída na cédula de votação de novembro, será um grande teste para uma grande economia. Em 2024, graças a um forte crescimento, o Estado se tornou a quarta maior economia do mundo, atrás apenas dos EUA como um todo, da China e da Alemanha.

Os defensores da ideia afirmam que a medida aumentará a arrecadação. Já os críticos dizem que ele expulsará pessoas ricas, que podem se mudar para Texas, Flórida ou Nevada.

O governador Gavin Newsom é contra a ideia, assim como líderes do setor de tecnologia e, provavelmente, muitos dos cerca de 200 bilionários que vivem no estado. A maior preocupação deles é que o imposto incluia riqueza ilíquida e ganhos não realizados.

Isso significa que "ganhos de papel" – teóricos – em ações ou imóveis seriam tributados. Os mais alarmistas temem que isso possa forçar algumas pessoas a vender suas casas ou participações de controle nas empresas que fundaram apenas para pagar a conta de impostos.

 

Fonte: DW Brasil

 

Do açúcar à noite aos ultraprocessados: os vilões ocultos que travam seu metabolismo

Em muitas rotinas modernas, pequenos hábitos alimentares passam despercebidos, mas exercem grande influência sobre o metabolismo e o acúmulo de gordura corporal. Mudanças aparentemente inofensivas, como pular refeições, beliscar doces várias vezes ao dia ou jantar muito tarde, podem alterar a forma como o organismo utiliza e armazena energia. Assim, especialistas em endocrinologia apontam que, mais do que uma lista de "alimentos permitidos" ou "proibidos", o que pesa é o padrão alimentar repetido todos os dias.

Nos últimos anos, diretrizes de saúde de organizações internacionais têm enfatizado que dietas extremas, excesso de produtos ultraprocessados e horários desorganizados para comer criam um cenário favorável à resistência à insulina, ao aumento da gordura abdominal e à redução do gasto energético. Ao mesmo tempo, proliferam nas redes sociais promessas de "alimentos milagrosos" capazes de resolver problemas metabólicos em poucos dias. Assim, isso afasta muita gente de mudanças realmente eficazes e sustentáveis.

<><> Metabolismo lento: o que realmente acontece no corpo?

Quando se fala em "metabolismo lento", muita gente pensa em algo fixo, quase como um defeito permanente. No entanto, o metabolismo é dinâmico e responde ao ambiente, ao padrão de sono e ao nível de atividade física. Além disso, principalmente à forma como a alimentação é organizada. Por isso, dietas muito restritivas em calorias, por exemplo, ativam um mecanismo conhecido como adaptação metabólica: o corpo passa a economizar energia para preservar funções vitais.

Estudos em endocrinologia mostram que, diante de cortes calóricos bruscos, o organismo reduz a taxa metabólica de repouso. Além disso, diminui a produção de alguns hormônios relacionados à saciedade e estimula uma sensação de fome mais intensa. Em termos práticos, isso significa que a pessoa gasta menos calorias ao longo do dia e, ao interromper a dieta extrema, tende a recuperar o peso perdido com mais facilidade, muitas vezes acumulando ainda mais gordura.

<><> Hábitos alimentares que sabotam o metabolismo e favorecem gordura

Alguns comportamentos alimentares cotidianos têm impacto direto na regulação da glicose, da insulina e dos hormônios da fome e da saciedade. Assim, a repetição desses hábitos, mesmo em pessoas que não consomem grandes quantidades de comida, pode alterar a forma como o corpo administra energia e estoques de gordura, especialmente na região abdominal.

# Consumo frequente de açúcares refinados: refrigerantes, sucos industrializados, confeitaria, biscoitos recheados e cereais matinais açucarados elevam rapidamente a glicemia. Em resposta, o pâncreas libera grandes quantidades de insulina, hormônio que facilita a entrada de glicose nas células e estimula o armazenamento de gordura.

# Beliscar doces o dia inteiro: a glicose no sangue oscila com frequência, mantendo a insulina constantemente alta. Esse cenário, mantido por meses ou anos, favorece a resistência à insulina, quadro em que as células passam a não responder adequadamente ao hormônio, exigindo ainda mais insulina para controlar a glicemia.

# Falta de proteínas nas principais refeições: refeições com muito pão, massas, salgados e poucas fontes de proteína (como ovos, feijões, peixes, frango ou laticínios) reduzem a sensação de saciedade e diminuem o estímulo para manutenção da massa muscular, um dos principais determinantes do gasto energético diário.

# Excesso de produtos ultraprocessados: embutidos, snacks, pratos prontos congelados e salgadinhos trazem alta densidade calórica, muitos aditivos químicos, além de combinações de gordura, sal e açúcar que estimulam o consumo automático e dificultam a percepção de saciedade.

Diretrizes atualizadas de sociedades de nutrição e endocrinologia recomendam priorizar alimentos in natura ou minimamente processados, com atenção especial à quantidade de proteínas de boa qualidade distribuídas ao longo do dia. Essa abordagem favorece a preservação de massa muscular e contribui para um metabolismo mais eficiente.

<><> Crononutrição: comer tarde da noite atrapalha a queima calórica?

A crononutrição estuda a relação entre horários das refeições e o relógio biológico. Assim, pesquisas recentes indicam que comer grandes quantidades de alimentos tarde da noite, especialmente ricos em gordura e açúcar, altera o ritmo de hormônios como insulina, melatonina e cortisol. À noite, o corpo tende a gastar menos energia e a sensibilidade à insulina costuma ser menor, favorecendo maior armazenamento de gordura.

Estudos clínicos comparando grupos que concentram a maior parte das calorias pela manhã com grupos que fazem isso à noite mostram, em geral, melhor controle glicêmico e menor acúmulo de gordura abdominal em quem mantém refeições mais robustas no início do dia. Além disso, jantares muito tardios frequentemente se associam a sono de pior qualidade, outro fator ligado à resistência à insulina e ao aumento do apetite no dia seguinte.

Grandes refeições após a meia-noite tendem a ser menos bem aproveitadas como energia e mais direcionadas ao armazenamento.

Lanches noturnos ricos em açúcar e gordura saturada estão relacionados a picos de glicose e alterações nos hormônios da fome.

Rotinas irregulares de sono e alimentação prejudicam a sincronização entre metabolismo e ciclo claro-escuro.

<><> Mitos vs. verdades sobre "alimentos milagrosos" e metabolismo

A popularização de conteúdos rápidos sobre nutrição fez crescer a crença em produtos ou ingredientes isolados capazes de "acelerar o metabolismo" de forma imediata. Informações desse tipo costumam ignorar a complexidade hormonal envolvida na regulação do peso corporal e levam muitas pessoas a apostar em soluções pouco efetivas.

>>> Mito: "Um único alimento termogênico é suficiente para queimar gordura, mesmo sem ajustes no restante da dieta."

>>> Verdade: substâncias como cafeína ou capsaicina podem elevar discretamente o gasto energético, mas o efeito é pequeno se comparado ao impacto do conjunto da alimentação, do sono e da atividade física.

>>> Mito: "Determinados chás detox limpam o organismo e derretem gordura localizada."

>>> Verdade: fígado, rins e intestino são os principais responsáveis pela eliminação de substâncias, e não precisam de "limpezas" específicas. O que influencia o peso é o balanço entre energia ingerida e energia gasta, aliado à qualidade dos alimentos.

>>> Mito: "Cortar totalmente carboidratos garante metabolismo mais rápido."

>>> Verdade: ajustes na quantidade e na qualidade dos carboidratos podem ser úteis, mas cortes radicais costumam favorecer a adaptação metabólica, perda de massa muscular e recuperação rápida do peso.

<><> Proteínas, ultraprocessados e saciedade: onde está o desequilíbrio?

A falta de proteínas adequadas em refeições diárias é um fator frequentemente negligenciado. As proteínas ajudam a prolongar a saciedade, exigem mais energia para serem digeridas e são fundamentais para manter tecido muscular, que por sua vez aumenta o gasto calórico em repouso. Quando a alimentação é rica em pães, massas e doces, mas pobre em fontes proteicas, a tendência é sentir fome em intervalos curtos e consumir mais calorias ao longo do dia.

Ao mesmo tempo, a presença constante de aditivos químicos e combinações palatáveis em ultraprocessados pode alterar a percepção natural de fome e saciedade. Pesquisas apontam que dietas baseadas em produtos ultraprocessados levam a uma ingestão calórica maior, mesmo quando as pessoas são orientadas a comer "até ficar satisfeitas". A textura macia, o sabor intenso e a baixa necessidade de mastigação facilitam a ingestão rápida e em grandes quantidades, o que favorece o acúmulo de gordura.

Refeições com proteínas em quantidade adequada tendem a reduzir beliscos entre os horários principais.

Alimentos pouco processados exigem mais mastigação, o que dá tempo para o cérebro registrar a saciedade.

Produtos ultraprocessados frequentemente combinam açúcar, gordura e sal em níveis que estimulam consumo automático.

<><> Como reativar a eficiência metabólica de forma sustentável?

Diretrizes atuais enfatizam que retomar um metabolismo mais eficiente não depende de soluções imediatistas, mas de ajustes consistentes no cotidiano. Em vez de cortes radicais, a prioridade recai sobre a construção de um padrão alimentar que favoreça estabilidade hormonal, boa qualidade de sono e manutenção de massa muscular, sempre levando em conta condições de saúde pré-existentes.

# Organizar horários das refeições: concentrar parte maior das calorias nas primeiras horas do dia e evitar jantares muito tarde, sempre que possível.

# Aumentar o consumo de proteínas: incluir fontes proteicas em café da manhã, almoço e jantar, como ovos, feijões, lentilhas, leite e derivados, carnes magras e peixes.

# Reduzir ultraprocessados: dar preferência a alimentos in natura ou minimamente processados, limitando produtos prontos, snacks e bebidas açucaradas.

# Evitar dietas extremamente restritivas: optar por reduções calóricas moderadas, acompanhadas por profissionais de saúde, para minimizar a adaptação metabólica.

# Cuidar do sono e da rotina: manter horários semelhantes para dormir, acordar e se alimentar ajuda a sincronizar o metabolismo com o relógio biológico.

Ao identificar e ajustar hábitos alimentares ocultos que sabotam o metabolismo, cria-se um ambiente mais favorável para o controle do peso, da composição corporal e dos marcadores metabólicos, como glicemia e perfil lipídico. Mudanças graduais e consistentes costumam produzir efeitos mais duradouros do que intervenções radicais, preservando a saúde e a estabilidade do organismo ao longo do tempo.

 

Fonte: Giro10

 

Congresso: Por onde avançam as bancadas religiosas

Desde as primeiras décadas do século XXI, observa-se, em diversas regiões do Ocidente, a consolidação de uma política antidemocrática marcada pelo crescimento da extrema direita em múltiplos setores da sociedade. Trata-se de um fenômeno mundial, heterogêneo em suas expressões nacionais, mas dotado de traços comuns que permitem compreendê-lo como parte de uma mesma racionalidade política e cultural. Em muitas regiões do mundo (inclusive no Brasil e outras regiões das Américas) forças de extrema direita chegaram ao poder em regimes de democracia liberal. Discursos sustentados pelo ódio ao outro, valorizando sentimentos de supremacia étnica e racial, de cunho racista e xenófobo contra a população negra, indígena, migrante. Discursos de afirmação e poder sustentados pela violência, pelo uso da força contra mulheres e crianças, contra populações vulneráveis que vivem em territórios disputados pelo crime organizado; discursos que desprezam a realidade de famílias em situação de precarização social (em sua maioria chefiadas por mulheres).

Uma realidade vivenciada no Brasil e em diversas partes do mundo, onde a racionalidade neoliberal da exclusão e das violências se entrelaçam com novos arranjos e configurações conservadoras que rechaçam as conquistas por direitos das mulheres, da população LGBTQIA+ em alianças com o autoritarismo armamentista, o punitivismo, grupos religiosos e não religiosos conservadores que defendem a moral tradicionalista em defesa da família tradicional heteropatriarcal. São movimentos políticos que não são novos, mas se reaglutinam em torno de uma “nova ordem” que se coadunam com interesses econômicos cada vez mais concentrados num sistema “canibal” (Fraser, 2024) que vem devorando a democracia, o cuidado com as pessoas e o ambiente e cada vez concentra mais a riqueza nas mãos de muito poucos, eliminando direitos, precarizando a vida, o trabalho, ampliando as violações de direitos, desmontando o Estado Social.

Apesar das diferenças históricas e institucionais entre países capitalistas, esses movimentos compartilham uma visão de mundo profundamente alinhado ao neoliberalismo. O individualismo radical, a meritocracia como narrativa justificadora das desigualdades (“eu me fiz sozinho”), a ostentação como símbolo de sucesso e o rechaço sistemático à alteridade constituem elementos centrais dessa lógica. Trata-se de uma perspectiva excludente, que naturaliza privilégios e transforma desigualdades estruturais em falhas individuais. E família tradicional, o enfrentamento à violência doméstica (com leis punitivistas) e a politização do religioso (MACHADO, VAGGIONE, BIROLI, 2020) vão se reconfigurando como estratégias discursivas para ocupar os espaços de deliberação política, como o parlamento, para maximizar agendas reativas aos avanços de políticas sexuais, de gênero e da família (idem, 2020) com grande impacto na formulação, revisão e aprovação de leis e implantação de políticas públicas.

A ascensão da extrema direita não ocorre no vazio. Ela é alimentada por fatores históricos e conjunturais que se combinam de forma explosiva: o racismo e a xenofobia, voltam a ser legitimados em discursos públicos; a aversão crescente aos sistemas democráticos liberais; a aliança entre extremismos religiosos e projetos nacionalistas supremacistas; e, sobretudo, o aprofundamento da crise do capitalismo global desde 2008. A agenda do capital especulativo internacional impõe reformas que fragilizam legislações trabalhistas, desmontam políticas públicas e corroem o Estado Social. O resultado é a precarização generalizada da vida, que se expressa no trabalho instável, na insegurança material e no esvaziamento das perspectivas de futuro — especialmente para jovens, mulheres e populações racializadas.

<><> Precarização da vida, produção do medo e subjetividades autoritárias

A precarização da vida não é apenas um fenômeno econômico; ela produz efeitos profundos na subjetividade. O medo e a incerteza gerados pela instabilidade permanente alimentam sentimentos de autopreservação, ameaça e ressentimento. Como analisa Wendy Brown (2019), trata-se de uma “produção subjetiva neoliberal”, na qual indivíduos são levados a competir entre si, internalizando o fracasso como culpa pessoal.

É nesse terreno que prosperam sentimentos autoritários e destrutivos em relação ao “outro”. Nacionalismos excludentes, discursos fascistas e posições segregacionistas são socialmente construídos a partir da instrumentalização da raiva e do ódio de sujeitos que tiveram suas vidas precarizadas. Muitos se percebem abandonados economicamente e ressentidos racialmente, especialmente em sociedades marcadas por hierarquias coloniais não superadas. O migrante que “rouba” seu emprego, as mulheres que “disputam” salários e empregos e o ataque às políticas de equidades de gênero, raça e diversidade sexual; o tradicionalismo e a “retidão” moral, a defesa da família tradicional em choque com movimentos sociais crescentes em busca de justiça, direitos e reparação: negros, indígenas, mulheres, pessoas não binárias, homossexuais, ambientalistas, entre outros grupos sub-representados na política, mas amplamente majoritários socialmente tornam-se “o outro” a ser destruído, ridicularizado, tratado como “minoritários”.

Nancy Fraser denomina esse estágio como “capitalismo canibal”: um sistema que devora as próprias bases sociais que o sustentam, ao mesmo tempo em que desloca conflitos estruturais para guerras culturais e morais. Assim, ataques aos valores democráticos, civilizatórios e humanistas tornam-se frequentes, acompanhados da demonização do social e do político.

A moral tradicionalista — centrada na família heteronormativa, branca e patriarcal — emerge como um ideal supostamente ameaçado. Essa visão de mundo estruturado no pensamento cristão conservador é um elemento central para destacar este novo momento de coalizões políticas de extrema direita. Ela opera como eixo organizador desses grupos, unificando-os em torno de uma agenda que se apresenta como defensiva, mas que, na prática, legitima racismos, misoginias e posicionamentos supremacistas sustentados num arcaísmo colonialista escravocrata e patriarcal. O movimento é reacionário porque estabelece um “ideal a ser recuperado”, que nunca existiu, de fato. E que combate os avanços de inclusão social e política (ainda que insuficientes) trazidos por movimentos feministas, antirracistas, direitos LGBTQIA e ambientalistas em torno de equidade de gênero, raça e diversidade. Essas novas estratégias têm objetivos definidos: restringir as conquistas plurais e reposicionar o Estado em torno retrocessos que redefinem normas e leis que passam a ser desvantajosas para os direitos das mulheres e das maiorias sociais sub-representadas.

O controle sobre a reprodução e a sexualidade, a defesa da família tradicional, hierárquica sob o “mando” masculino torna-se um valor a ser preservado em contraposição aos avanços de uma educação baseada no respeito às diferenças, voltada para a equidade de gênero, racial e sexualmente diversa. Esta reação conservadora está profundamente enraizada nas visões de mundo em que o papel do Estado social é cada vez menor, devolvendo às famílias as obrigações com o cuidado, educação e saúde, dos seus integrantes.

<><> Gênero, moralidade e revolução digital

Uma democracia secular liberal autoriza a proteção dos valores religiosos como um direito individual, mas limita esses direitos à legislação secular que protege o direito individual de crença. Ao mesmo tempo, é o Estado secular que protege o interesse coletivo, público, de respeitar as liberdades individuais de crença e louvor, sem que essas perspectivas se imponham como regra para terceiros. Seja para garantir a liberdade de expressão da diversidade religiosa, seja para garantir o direito e a autonomia das mulheres ao próprio corpo, à sua sexualidade e vida reprodutiva. No entanto, o que tem se observado nesta atualização conservadora é que a estratégia legal está aliada a valores cristãos tradicionalistas. A batalha em torno do aborto é reveladora do quão política e instrumentalizada está a atuação do campo religioso e não religioso conservador no parlamento brasileiro em relação ao combate à igualdade de gênero, aos direitos sexuais e reprodutivos e à diversidade sexual. E como ocupam lugar central na agenda da extrema direita.

Esses ataques se intensificam no contexto da revolução digital, em que algoritmos amplificam discursos de ódio, incentivam a cultura do confronto e minam valores fundamentais da cidadania democrática, como o diálogo, a solidariedade e o respeito ao voto consciente.

Esse ambiente é agravado pela presença crescente da violência armada, do crime organizado, das milícias e do militarismo, especialmente em territórios periféricos urbanos, áreas rurais, regiões de fronteira e florestas. A combinação entre armas, extremismos de direita e política institucional cria um cenário particularmente ameaçador para mulheres, população negra, indígenas e LGBTQIA, +. Embora heterogêneos, grupos de extrema direita se aglutinam em torno da percepção de um inimigo comum. A história política e social é reveladora do quanto o corpo das mulheres é esse “inimigo comum”, que é reificado e transformado em objeto de controle e poder de hierarquias religiosas, do Estado e das ideologias supremacistas masculinistas.

<><> A extrema direita no Brasil: autoritarismo estrutural e bolsonarismo

No Brasil, a reinserção da extrema direita na política institucional ganhou força com a eleição de Jair Bolsonaro em 2018 e se consolida com o avanço da representação parlamentar da extrema direita em 2022. O mesmo pleito que deu a vitória ao presidente Luís Inácio Lula da Silva, do campo progressista, elegeu um parlamento majoritariamente conservador e de direita ampliando, também, a representação de defensores de agendas da extrema direita. Do ponto de vista partidário, as siglas que elegeram, em 2022, as maiores bancadas estão nas posições de direita e extrema direita na Câmara Federal (a única exceção pela esquerda foi o Partido dos Trabalhadores, com 69 deputados e deputadas): Partido Liberal (99 deputados); União Brasil (59 deputados); Partido Progressista (47 deputados); Republicanos (41 deputados), chegando a 246 deputados (48% dos 513 deputados federais) (MANTOVANI, et.al, 2023). De acordo com o estudo sobre o perfil do Congresso eleito em 2022, são esses os partidos que abrigam a maioria de eleitos com posições conservadoras, defensores do armamentismo, de regimes autoritários, religiosos de posições antigênero, contrários aos avanços democráticos relacionados à igualdade de gênero, direitos sexuais e reprodutivos e à laicidade do Estado.

Outro dado colhido na análise dos perfis dos eleitos em 2022 no Instagram: a perspectiva religiosa. Dos 513 deputados federais eleitos, 63% deles/delas (323 parlamentares) declararam relação ou vínculo com alguma perspectiva religiosa. Desse grupo, 46% (152 deputados/as) apresentavam-se como católicos, 28,8% (95 deles) apresentavam-se em suas redes como cristãos/cristãs sem vincular com alguma denominação específica, 24,6% (81 deputados/as eleitos) apresentavam-se como evangélicos, em alguns casos apresentando a denominação a qual pertenciam. Dos 513 deputados eleitos, somente uma deputada declarou seu vínculo com tradições religiosas de matriz africana. No senado, dos 81 senadores observados, 56% (45 senadores) declararam algum vínculo com alguma matriz religiosa cristã.

Embora heterogêneos, esses grupos se aglutinam em torno de dois grandes polos: o libertarianismo neoliberal, que prega o Estado mínimo e naturaliza o trabalho precarizado como liberdade; e os grupos autodefinidos como defensores da pauta religiosa, que ganharam força na representação política institucional desde os anos 1990 com o avanço de lideranças pentecostais, mas também segmentos católicos tradicionalistas.

Esses grupos atuam em alianças estratégicas, frequentemente em articulação com atores internacionais, inclusive setores do Vaticano (CORRÊA, 2018). O avanço dos direitos humanos e da diversidade é apresentado como ameaça à “família tradicional”, reforçando pânicos morais e legitimando violências simbólicas e materiais.

De acordo com Mantovani, et.al (2023) a aproximação entre grupos armamentistas e religiosos extremistas representa cerca de um terço da Câmara dos Deputados na Legislatura 2023-2026, enquanto a aliança entre agendas neoconservadoras e fundamentalistas que combatem a igualdade de gênero alcança mais de 40% do parlamento. As redes sociais, com suas bolhas de ódio e fake news, intensificam esse cenário, especialmente em temas como aborto, violência sexual e direitos das mulheres.

<><> Feminismo, diálogo e alianças interseccionais

Nesse contexto, os feminismos enfrentam desafios internos e externos. De um lado, sofre ataques constantes, caricaturado como radical e intolerante. De outro, precisa reconhecer que parte de suas linguagens e práticas se distanciaram das vivências de muitas mulheres, especialmente aquelas que se entendem como conservadoras, religiosas ou, ainda, aquelas que desempenham atividades de cuidado reprodutivo de suas famílias e do trabalho doméstico não remunerado, o que produz uma importante assimetria econômica e, em muitos casos, impossibilitam que elas consigam romper ciclos de violências que se impõem sobre si e seus filhos.

É fundamental afirmar que fé não é incompatível com a luta das mulheres. Nem todas vivenciam a submissão como algo natural, e o preconceito contra feministas e as lutas feministas cria barreiras que precisam ser rompidas. O diálogo com mulheres não radicalizadas, mas conservadoras, é estratégico para ampliar alianças e enfrentar a captura da agenda de direitos pela extrema direita com um discurso em defesa de uma moral reprodutiva e matrimonial hierárquica, de rejeição à diversidade sexual e de revisão reacionária de conquistas regulatórias fruto das lutas feministas ao longo do século XX no campo do direito e da formulação de leis.

As redes sociais desempenham papel central nesse processo de reação conservadora e de extrema direta contra a vida das mulheres. Fake news e campanhas de desinformação criminalizam o aborto, incentivam violações e estupros virtuais e negam a violência sexual — especialmente contra meninas e mulheres —, além de reforçar estereótipos de radicalismo e destruição sobre o feminismo que utilizam o medo e a incerteza como ferramentas políticas.

Nesse contexto, figuras como Michelle Bolsonaro emergem como herdeiras políticas de um pensamento de extrema direita (onde o bolsonarismo tornou-se o elo de coesão dessa multiplicidade de interesses) que se ancora fortemente no campo religioso antifeminista, mobilizando valores tradicionalistas e assimétricos com a promessa de restauração da paz e da prosperidade da família tradicional.

O feminismo, por sua vez, enfrenta um duplo desafio. De um lado, é alvo constante de ataques, caricaturado como intolerante, radical e desconectado da “vida real”. De outro, precisa reconhecer que, em alguns momentos, suas linguagens e estratégias se distanciaram das vivências de muitas mulheres — especialmente daquelas que se identificam como conservadoras, religiosas ou ainda as mais vulneráveis economicamente, que dependem de benefícios para garantir o mínimo de sustento aos seus dependentes. Ou ainda, por dificuldades econômicas, não conseguem romper os ciclos de violência cotidiana de relações abusivas e violentas.

É fundamental afirmar que fé e luta das mulheres não são incompatíveis. Nem todas as mulheres vivenciam a submissão como destino, mesmo em contextos religiosos. O preconceito contra o feminismo e contra feministas cria barreiras que precisam ser enfrentadas com diálogo, escuta e construção de pontes — sem abrir mão de princípios.

A extrema direita tem tentado se apropriar de pautas comuns às mulheres, ressignificando esses discursos a partir de abordagens conservadoras e moralizantes. Questões como violência doméstica, hierarquias de gênero, estupro de meninas e mulheres, gravidez indesejada, responsabilidades individuais sobre o trabalho reprodutivo e de cuidado enquanto o Estado diminui políticas sociais, são alguns exemplos.

Por isso, ampliar alianças é urgente. Agendas como o enfrentamento das violências de gênero e raciais; a defesa da remuneração do trabalho doméstico e do cuidado para as mulheres (para além do auxílio financeiro à família), o fortalecimento da autonomia das mulheres, seja econômica, patrimonial, educacional com políticas de Estado voltada para as mulheres, a valorização do trabalho doméstico como atividade produtiva, a educação antirracista, anti-homofóbica nas escolas baseada no respeito às diferenças constituem agendas que podem fortalecer a presença das lutas feministas emancipatórias às realidades concretas da maioria das mulheres e são pontos de conexão fundamentais.

As alianças interseccionais são indispensáveis. Machismo e racismo aprofundam vulnerabilidades; machismo e homofobia intensificam a violência contra mulheres lésbicas e trans; e a condição socioeconômica agrava todas essas desigualdades, especialmente em territórios periféricos urbanos e rurais.

<><> Considerações finais

A ascensão da extrema direita representa uma ameaça concreta à democracia e aos direitos das mulheres. Enfrentá-la exige compreender suas raízes estruturais no neoliberalismo, no machismo e no racismo, mas também exige um feminismo capaz de dialogar, ampliar alianças e disputar sentidos na sociedade. Defender a democracia, hoje, é também defender a vida, a dignidade e a pluralidade das experiências femininas em toda a sua diversidade.

 

Fonte: Por Denise Mantovani, em Outras Palavras