sábado, 25 de abril de 2026

Luis Felipe Miguel: Cinquenta anos de crise

Para a ciência política, o início da “crise da democracia” tem data e hora certas: 9 de novembro de 2016, às três da madrugada (no horário da Costa Leste dos Estados Unidos). Foi quando a contagem dos votos garantiu a Donald Trump a maioria de delegados no Colégio Eleitoral para se tornar o próximo presidente da maior potência mundial. Tratado como piada de mau gosto quando lançou sua candidatura às primárias do Partido Republicano, ao vencer ele mostrou que algo estava funcionando mal naquela que era considerada a democracia mais sólida do mundo.

No mesmo momento, a ideia de que as democracias liberais estavam ameaçadas se tornou um tema dominante para jornalistas e cientistas políticos. Usando mais que uma pitada de ironia, Adam Przeworski escreveu, no início de seu livro intitulado precisamente Crise da democracia: “Se Donald Trump tivesse perdido, muitas pessoas que estão agora correndo para escrever livros semelhantes a este, eu mesmo incluído, estariam ocupadas em outras atividades”.

Colocado dessa maneira, parece que a crise foi um acontecimento mais ou menos súbito, que colocou sob ameaça um regime que estava trabalhando a contento. No entanto, a percepção que as democracias liberais se tornavam disfuncionais é constante desde a década de 1970, retornando desde então em diferentes ondas. A “crise” parece ser, assim, o modo de operação normal das democracias ocidentais, um efeito necessário da acomodação entre um ordenamento político nominalmente democrático e uma estrutura econômica capitalista.

A excepcionalidade a ser explicada é o breve período de bonança, quando, em alguma medida, em alguns lugares de mundo, o sistema parecia funcionar com reduzidas tensões – as três décadas chamadas, com exagero, de les trente glorieuses (os trinta gloriosos).

O ordenamento político que hoje é correntemente aceito como “democrático” foi o fruto de uma longa evolução, pela qual princípios liberais (como um governo aberto à competição e responsivo ao público) cederam às pressões por inclusão política de grupos dominados (a classe trabalhadora, as mulheres, as minorias étnico-raciais). Concretamente, ela evoluiu como um pacto interclassista em que os direitos políticos formais e as eleições competitivas permitiram à classe trabalhadora ter sua voz ouvida nos processos decisórios, mas a burguesia manteve um poder de veto, respeitado por todos ainda que apenas tácito, em relação a possíveis políticas anticapitalistas.

Fica claro que o sistema não depende de um consenso abstrato quanto às “regras do jogo”, como diz a ciência política convencional, mas da correlação de forças na sociedade. Precisa de uma classe trabalhadora com capacidade de pressão e de uma burguesia que entende que é necessário comprar a pacificação da sociedade para perpetuar sua própria dominação. Uma economia em expansão facilita a composição dos diversos interesses e, portanto, a estabilidade do arranjo.

Por isso, as três décadas de relativa estabilidade e prosperidade após o fim da Segunda Guerra Mundial são vistas como a época de ouro da democracia liberal. Altos índices de crescimento econômico combinavam-se com progressiva integração da classe trabalhadora à sociedade do consumo e aparente consenso sobre as estruturas básicas da sociedade. O capitalismo parecia capaz de regular a si mesmo e de minimizar algumas de suas principais contradições. Havia estabilidade política, com a disputa ocorrendo de forma relativamente tranquila, entre partidos que, não importa quais fossem os seus rótulos, compartilhavam desse compromisso básico.

O relato é esquemático e, claro, se refere à situação dos países capitalistas avançados. Na periferia do mundo capitalista, estes 30 anos pouco têm de gloriosos. Foram um período de ditaduras sangrentas, apoiadas pelas potências imperialistas, e de profunda concentração da riqueza.

Mesmo nos países centrais, a realidade correspondeu plenamente ao relato edulcorado dos “trinta gloriosos”. Formas de perseguição política ostensiva manchavam a democracia liberal onde ela existia, como as leis alemãs que vetavam a presença de pessoas de esquerda em cargos no sistema educacional. Nos Estados Unidos, além do macarthismo, nos anos 1950, havia a segregação racial e a violência sistemática perpetrada contra a população negra no Sul.

Ainda assim, a percepção dominante já na época é que se havia encontrado um modelo acertado e sustentável de organização política. A ciência política anglófona desenvolveu o tema por diferentes aspectos, mas sempre entendendo que a perda de dramaticidade das escolhas eleitorais, uma vez que as opções tinham compromisso com a manutenção do arranjo existente e diferiam apenas no acessório, era um ganho civilizatório a ser festejado.

As agitações de maio de 1968 serviram de alerta de que nem tudo funcionava tão bem. À rebelião juvenil juntaram-se setores importantes da classe trabalhadora e os movimentos feminista e negro, numa onda de protestos que tomou conta da Europa Ocidental e chegou não só aos Estados Unidos, mas também a países do bloco soviético, ao Japão, ao Brasil da ditadura empresarial-militar. Um sentimento comum era a ausência de autonomia, a ideia de que não se podia participar da definição do próprio destino. Por trás da acomodação e da apatia louvadas pela literatura que advogava uma democracia não participativa parecia se esconder uma sensação opressiva de impotência e de frustração.

A situação foi consideravelmente agravada pelas crises do capitalismo mundial no início dos anos 1970 – o fim do sistema de Bretton Woods em 1971, quando os Estados Unidos decidiram unilateralmente pelo fim da convertibilidade do dólar em ouro, e o primeiro choque do petróleo, em 1973, que quadruplicou o preço do barril. A era de ouro da democracia liberal estava chegando a seu fim.

Feitas as contas, essa época áurea durou apenas um punhado de anos, existiu em um punhado de países capitalistas desenvolvidos e, mesmo neles, nunca correspondeu perfeitamente à descrição de suas características. Ainda assim, a Ciência Política tende a apresentar o funcionamento “normal” da democracia liberal como aquele das três décadas de relativa estabilidade e prosperidade que se seguiram ao fim da Segunda Guerra Mundial. Todo o resto é crise, equívoco, desacerto.

A obra que inaugurou definitivamente a era da crise foi o relatório elaborado por Samuel Huntington e seus colegas para a Comissão Trilateral (espécie de think thank multinacional, fundado por David Rockefeller e unindo grandes corporações da América do Norte, da Europa Ocidental e do Japão). Embora os problemas econômicos servissem de pano de fundo, a tese ali desenvolvida vê a democracia dos países centrais ameaçada por mecanismos que são internos à sua própria operação.

A possibilidade de participação popular pelo voto, mesmo que limitada, como que inevitavelmente leva à sobrecarga do sistema. Incapaz de atender às demandas crescentes de diferentes grupos da população, o Estado se tornaria também incapaz de cumprir sua função básica de garantir a dominação política: estava decretada a ingovernabilidade das democracias.

O relatório identifica dois problemas principais, relacionados entre si. O primeiro é a responsividade dos governantes ao eleitorado – uma decorrência necessária do fato de que a permanência no poder depende da anuência dos governados. Com isso, cada grupo social é estimulado a fazer exigências cada vez maiores (de direitos, de políticas sociais, de prerrogativas e privilégios, de proteções). O excesso de pressões empurra o Estado para aumento de gastos, hipertrofia, crescimento da carga tributária.

O segundo problema é o entranhamento da ideia de igualdade, que desliza do acesso ao direito de voto e da formalidade jurídica (o “todos são iguais perante a lei”) para a materialidade da vida social. Isso alimenta as demandas apresentadas ao Estado, que deveria agir para combater as desigualdades, e também, uma vez mais, ameaça a reprodução do capitalismo, que tem a ampliação da desigualdade material tanto como resultado inevitável quanto como incentivo necessário.

A solução encontrada para a ingovernabilidade da democracia foi o neoliberalismo. Ele reduziu a capacidade de ação do Estado, que, sendo um regulador ostensivo, hierarquizado e comandado por pessoas identificáveis, é suscetível a reivindicações. Em seu lugar, foi entronizado o mercado, um regulador oculto, impessoal e impermeável ao controle democrático. A solução, portanto, foi a retração do espaço da democracia.

Isso produziu um declínio generalizado da confiança nas instituições da democracia liberal. Os objetivos de redução da responsividade e desmobilização foram alcançados em grande medida, com os Estados agindo de forma cada vez mais indisfarçada em favor dos já privilegiados. O preço foi que os cidadãos passaram a entender que o sistema era insensível às suas pressões. Estava aberta a “crise da representação”: o sentimento de que não se estava representado nas instituições representativas.

Os sinais de que havia uma crise da representação política em democracias que, no entanto, se definiam como “representativas” eram abundantes desde os anos 1980. Taxas declinantes de comparecimento eleitoral, padrões reduzidos de identificação partidária e respostas a surveys convergiam para o mesmo cenário. Por mais que certo civismo convencional lesse a desconfiança como um déficit de cidadãos inadaptados à ordem democrática, ela era bem sustentada pela vivência em regimes que se mostravam cada vez mais inacessíveis e invulneráveis às pessoas comuns.

O que a ciência política identificou, a partir sobretudo de 2016, como a crise da democracia é, portanto, o fruto de um longo processo de erosão do pacto que permitiu o florescimento da ordem liberal competitiva nos países do Norte global. Na literatura acadêmica e no jornalismo, é frequente sua associação com o “populismo”, um termo pouco preciso que indica, em geral, um tipo de liderança política que evoca permanentemente o povo como sujeito real de suas decisões, apresentando-se como sua encarnação perfeita.

O populismo é uma manifestação da dificuldade crescente da compatibilização entre a fachada democrática do sistema e sua operação efetivamente censitária. Na leitura de Pierre Bourdieu, a solução passava pela abstenção, apatia e desinteresse de um eleitorado que introjetava sua própria impotência, lendo a impermeabilidade do campo político às demandas vindas de baixo como a demonstração de uma incapacidade pessoal. Mas agentes políticos souberam mobilizar essa situação em benefício próprio, sem desafiar – ou apenas fingindo que desafiavam – as assimetrias de fundo que limitam o alcance das democracias realmente existentes.

Fica claro que o casamento da democracia com o capitalismo está cada vez mais insustentável. O neoliberalismo, que leva à tomada de consciência sobre esta situação, é a resposta da classe dominante a uma mudança de condições que tanto estimulou quanto permitiu que dobrasse suas apostas, reduzindo espaço para as concessões aos dominados. A democracia política pode ser enumerada entre essas concessões e, ao mesmo tempo, ser vista como o mecanismo necessário para calibrar a extensão e profundidade delas. No novo cenário, ela se torna tanto inoperante quanto um estorvo.

A democracia dos “trinta anos gloriosos” nos países centrais, apresentada como modelo a ser recuperado, é melhor entendida como excepcionalidade histórica do que como padrão. As condições que permitiram seu florescimento – sempre parcial, como se viu – estão erodidas.

É necessário pensar em novas formas de organização democrática, entendendo que elas só têm como emergir com uma mudança da correlação de forças na sociedade, que permita frear, regular e, e idealmente, superar o capitalismo.

¨      Os Grupos de Trabalho de JK e o método do desenvolvimento. Por Celso P. de Melo

O Plano de Metas do governo Juscelino Kubitschek (1956–1961) costuma ser lembrado pelas obras: rodovias, usinas, siderúrgicas, a indústria automobilística e, sobretudo, Brasília. Mas reduzir aquela experiência a um catálogo de empreendimentos seria perder de vista seu traço mais inovador. O Plano foi, antes de tudo, uma reorganização do modo de decidir e de executar no Estado brasileiro. Foi uma inovação institucional.

O Brasil dos anos 1950 tinha ministérios robustos, mas pouco articulados entre si. Cada pasta operava verticalmente, defendendo seu território administrativo. Grandes projetos esbarravam em conflitos burocráticos, na lentidão decisória e em disputas de competência. Juscelino percebeu que, sem alterar o método, o país continuaria crescendo aos solavancos. A resposta veio com a criação dos Grupos de Trabalho (GTs): instâncias técnicas interministeriais encarregadas de integrar diagnósticos, harmonizar prioridades e acelerar as decisões.

A lógica era simples e poderosa. Planejamento horizontal para definir metas; execução vertical para implementá-las. Os ministérios mantinham seus orçamentos e prerrogativas formais, mas as diretrizes estratégicas eram articuladas no topo, sob coordenação presidencial, com o Conselho do Desenvolvimento e o BNDE funcionando como eixo político-financeiro. O resultado foi um modelo híbrido: centralização decisória combinada com execução descentralizada.

É fundamental distinguir esses GTs dos chamados Grupos Executivos, como o GEIA na indústria automobilística. Enquanto os GTs organizavam a coordenação transversal, os Grupos Executivos operavam diretamente nos diferentes setores. No caso do automóvel, estabeleceram-se índices progressivos de nacionalização, cronogramas de produção e exigências de conteúdo local. Não se tratava apenas de atrair montadoras, mas também de estruturar uma cadeia produtiva doméstica. O Plano de Metas, assim, combinava coordenação estratégica, instrumentos regulatórios e financiamento público. Não foi improvisação: foi engenharia institucional.

A escolha das metas foi deliberadamente seletiva. Energia, transportes e indústria de base foram priorizados porque representavam gargalos sistêmicos. A agricultura não foi esquecida, mas sim tratada de forma subordinada, em parte porque se supunha que poderia responder à expansão da demanda via ganhos extensivos e pelos efeitos indiretos da infraestrutura – uma leitura que, à luz posterior, revela tanto seu pragmatismo quanto seus limites. Supunha-se que o crescimento agrícola viria como uma consequência da expansão da infraestrutura e da industrialização. A construção de Brasília sintetizou essa lógica: integração territorial, afirmação simbólica e reorganização do centro decisório do país.

Comparar Juscelino a Getúlio Vargas ajuda a compreender o salto metodológico. Vargas construiu instituições estruturantes – a CSN, a Petrobras, a legislação trabalhista – por meio de decisões políticas fortes e incrementais. Seu planejamento era implícito, institucional. JK sistematizou: transformou prioridades em metas numeradas, acompanhadas, integradas. Se Vargas lançou os pilares, Juscelino organizou a expansão.

Essa expansão não ocorreu sem tensões. A equipe econômica reunia correntes distintas. De um lado, economistas associados ao nacional-desenvolvimentismo – como Rômulo Almeida, Celso Furtado e Ignácio Rangel – defendiam o papel ativo do Estado e tolerância a custos macroeconômicos de curto prazo. De outro, Roberto Campos e Otávio Gouveia de Bulhões enfatizavam riscos inflacionários, endividamento e credibilidade externa. Lucas Lopes desempenhou um papel crucial na coordenação operacional, mantendo o sistema em funcionamento, apesar das divergências. A inflação crescente do período não foi fruto de um desajuste técnico isolado, mas da combinação entre o ritmo acelerado da expansão, as limitações institucionais do financiamento e escolhas políticas conscientemente assumidas.

As críticas vieram com intensidade. Carlos Lacerda denunciava o que via como irresponsabilidade fiscal, dependência excessiva de capital estrangeiro e concentração de poder no Executivo. Para ele, o Plano de Metas misturava voluntarismo e populismo. Sua oposição refletia não apenas divergências econômicas, mas também o clima político polarizado da época.

Quando Jânio Quadros assumiu a Presidência, o pêndulo deslocou-se. O discurso passou a enfatizar a austeridade, o combate à inflação e a moralização administrativa. O foco saiu de uma expansão coordenada para o ajuste macroeconômico. O modelo de coordenação por metas perdeu a centralidade, substituído por uma agenda de contenção e estabilização. Embora seu governo tenha sido breve, a mudança de ênfase revelou a fragilidade política do arranjo desenvolvimentista: um crescimento acelerado, sustentado por decisões centralizadas, exigia uma coesão política que rapidamente se esgarçou no início dos anos 1960.

Há também os limites estruturais do Plano. A desigualdade social não foi tratada como eixo central. Não houve política redistributiva abrangente nem constituição de um sistema nacional robusto de ciência e tecnologia. A educação apareceu principalmente como formação de quadros técnicos para sustentar a industrialização. A premissa implícita era clara: primeiro crescer, depois distribuir. Essa aposta gerou resultados industriais notáveis, mas deixou tensões sociais que se tornariam cada vez mais evidentes nas décadas seguintes.

Ainda assim, é crucial reconhecer que tudo isso ocorreu sob um regime democrático. Congresso ativo, imprensa vibrante, oposição combativa. O Plano de Metas demonstra que o planejamento estatal ambicioso não é incompatível com a democracia. Ao contrário, pode florescer à luz de um debate público intenso – ainda que conflituoso.

O legado de Juscelino não está apenas nas obras visíveis ou nas estatísticas de crescimento. Está no método: coordenação por metas, integração interministerial, capacidade decisória concentrada e orientação estratégica clara. Foi uma etapa histórica específica da industrialização tardia brasileira, com virtudes e limitações próprias de seu tempo.

Atualizar esse legado hoje não significa repetir o passado. Significa aprender com a capacidade de organizar o Estado em torno de prioridades estratégicas, reconhecendo que o desenvolvimento exige coordenação, escolhas políticas e disposição para enfrentar gargalos estruturais. Em um contexto internacional em que a convergência entre países não ocorre de forma automática, mas depende de trajetórias institucionais e decisões estratégicas, essa lição ganha ainda mais relevância.

O Plano de Metas não foi uma solução definitiva para todos os problemas do país. Mas foi uma demonstração de que o Brasil pode, quando decide, alinhar estratégia, organização institucional e ambição histórica.

E talvez essa seja a lição mais duradoura: desenvolvimento não é apenas investimento; é método.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Jornal GGN

 

Vitória de Lula pode ser estratégica para Trump, diz professor Guilherme Casarões

O recente desentendimento entre Brasil e Estados Unidos em torno da prisão e soltura do ex-deputado Alexandre Ramagem em Orlando evidencia o acesso que o bolsonarismo mantém ao governo de Donald Trump, mesmo após a boa "química" entre o líder americano e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), nota o especialista em relações internacionais Guilherme Casarões, professor da Florida International University (EUA), em entrevista à BBC News Brasil. Isso não significa, ressalta, que o episódio vá escalar para uma crise diplomática, nem que Trump dará apoio expresso ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na eleição de outubro, quando o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) deve enfrentar o petista."A sensação que eu tenho é de que o governo americano vai preferir jogar parado, porque, no fim das contas, ainda que fosse muito interessante para o governo Trump ter um aliado carnal, submisso aos Estados Unidos, eu não sei se é exatamente isso que o Trump está procurando nesse momento", afirma Casarões, em referência à aliança da família Bolsonaro com o americano.

>>>> Confira a seguir os principais trechos da entrevista.

·        O que significa a decisão do governo americano de expulsar o policial federal que atuou na prisão do Ramagem?

Guilherme Casarões – Não é incomum que oficiais de outros países sejam retirados do território nacional a pedido de um governo. Isso pode acontecer quando há alguma questão diplomática envolvida, algum receio de que esses agentes estrangeiros possam estar atuando de maneira ilegal. No caso de Brasil-Estados Unidos, eu não me recordo de nenhum tipo de precedente, mas não é um absurdo jurídico, não é uma ruptura diplomática ou algum tipo de agravamento diplomático. Me parece que a decisão do governo americano foi muito reativa e tem a ver com o trabalho feito por brasileiros que vivem nos Estados Unidos, como o jornalista Paulo Figueiredo, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que têm acesso direto a membros da Casa Branca e que conseguiram, a partir desse acesso, colocar uma outra versão da história do ex-deputado Alexandre Ramagem, defendê-lo da acusação de que ele, por estar nos Estados Unidos ilegalmente, por ter um mandado de prisão no Brasil, deveria ser extraditado. Parece que corrigiram ali a situação dele, que, aparentemente, tem um pedido de asilo pendente. Isso tudo mostra que a Casa Branca ainda está muito permeável a essa pressão colocada pelo bolsonarismo. A gente achou que isso tinha, de alguma maneira, se esvaído depois do encontro entre o presidente Lula e o presidente Trump [em setembro], a química que foi mutuamente declarada com relação aos dois presidentes, e, aparentemente, não, ainda existe esse acesso que coloca uma pressão grande sobre a Casa Branca para que ela reaja a situações entendidas como incômodos para o bolsonarismo. Isso não quer dizer, necessariamente, que o governo Trump vai escalar essa situação. Acho que o momento político nos Estados Unidos é um momento muito difícil, porque envolve questões internas, externas, a guerra do Irã, os impactos disso sobre a economia, sobre principalmente a inflação dos combustíveis nos Estados Unidos. Então, dificilmente o Brasil vai se tornar uma prioridade do governo americano.

·        E como avalia a resposta do governo Lula, com a decisão de retirar as credenciais de trabalho de um policial americano que atuava no Brasil junto à PF?

Casarões – O governo Lula decidiu finalmente aplicar a lógica da reciprocidade, que era algo que já havia sido anunciado pelo presidente. Aparentemente, isso se deu porque o governo americano não ofereceu ao Brasil nenhum tipo de explicação sobre a ordem de que o delegado Marcelo Lino deixasse os Estados Unidos. Então, me parece que foi algo percebido pelo governo como justificado: não foi uma retaliação arbitrária, não foi uma tentativa de escalar a situação, mas sim o reflexo de uma falta de explicação por parte do governo americano. O que a gente espera daí pra frente é que ambos os governos esclareçam as suas motivações, até como forma de evitar uma repercussão diplomática mais ampla desse caso, que teria implicações importantes para o cenário eleitoral brasileiro. De novo, esse tema parece muito mais importante para a disputa política interna no Brasil do que para a Casa Branca. Não me parece ser uma prioridade do governo americano, nesse momento em que os americanos estão vivendo, ter uma escalada diplomática, tarifária que seja, contra o Brasil.

·        Qual pode ser o peso da relação Brasil-Estados Unidos para a eleição deste ano?

Casarões – Parodiando a economista Maria da Conceição Tavares, as pessoas não comem soberania no café da manhã e no almoço. Então, soberania não é exatamente um tema que pode ancorar uma campanha eleitoral. Soberania, claro, é uma afirmação geral, uma resposta política a uma ameaça externa ou algo percebido como ameaça externa, mas o Lula não vai conseguir estruturar uma campanha à reeleição exclusivamente ancorado no tema da soberania. Esse tema da relação com os Estados Unidos, ele se manifesta nesse campo mais geral, mais abstrato, mas ele também tem implicações para a vida real e para temas que são muito caros ao governo Lula nesse momento, e eu destaco dois. O primeiro é a questão econômica, aquilo que os americanos chamam de affordability, que, no Brasil, seria o poder de compra do cidadão, e isso já tem sido afetado pela guerra no Irã. Isso pode ser afetado ainda mais numa eventual retomada das tarifas contra o Brasil, o que eu pessoalmente não acho que vai acontecer, porque também tem um efeito inflacionário sobre os Estados Unidos. De todo modo, a mera ameaça que bagunça o mercado financeiro, que gera insegurança jurídica, que gera incerteza política, tem um potencial de prejudicar a campanha do presidente Lula à reeleição e, enfim, a própria relação com os Estados Unidos, que sempre foi muito essencial para a política externa brasileira.

·        Qual seria o segundo tema?

Casarões – A segurança pública. Existe outro tema transversal a tudo isso que é o da classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras [cogitada pelo governo Trump], que é um tema muito delicado da perspectiva brasileira, porque abriria a possibilidade de violação de soberania do Brasil para o suposto combate ao terrorismo internacional. O grande esforço da diplomacia brasileira neste momento tem sido de evitar essa classificação e até com o temor de que isso possa abrir um precedente à la Venezuela, que a gente acompanhou no começo desse ano [quando o presidente Nicolás Maduro foi deposto e levado aos EUA]. Então, no tema da segurança pública e do crime organizado, eu acho que reside a grande vulnerabilidade do governo [Lula]. Primeiro, porque, ainda que a gente saiba que existe uma divisão federativa de competências policiais, o governo federal acaba sendo responsabilizado por todo tipo de problema ligado ao combate ao crime. E a esquerda, no geral, tem muito mais dificuldade de lidar com o tema da segurança pública do que a direita, ainda que a gente possa também considerar que as soluções oferecidas pela direita e, principalmente pelo bolsonarismo, não vão resolver o problema. De todo modo, a gente percebe que, desde o retorno das relações bilaterais, a química do Trump com Lula, um dos temas que, da perspectiva brasileira, sempre foi estratégico incluir nas conversas, foi a cooperação no combate ao crime organizado. Em abril de 2025, foi assinado um memorando de cooperação policial, que foi inclusive o que permitiu a presença de um delegado como adido em Miami, que resultou nessa detenção do Ramagem. E, em abril de 2026, foi assinado um memorando de cooperação no caso de crimes financeiros. Ou seja, faz-se de tudo para evitar a questão que seria mais delicada, que seria a nomeação de certas facções do crime organizado no Brasil como agentes terroristas internacionais. Agora, para a campanha do Flávio Bolsonaro, a gente tem que considerar o valor que isso tem. Embora a política externa, como um grande tema de política pública, não costume aparecer no debate eleitoral do dia a dia, entra muitas vezes na conversa por vias tortas. Quando o ex-presidente Jair Bolsonaro dizia, lá em 2018, "a gente não pode eleger o PT porque senão o Brasil vira Venezuela", traz uma referência de fora para embasar um discurso de dentro. No caso dessa recente controvérsia com o governo americano, o que pode acontecer? A campanha do Flávio Bolsonaro começar a acusar o presidente Lula e o seu governo de serem cúmplices do crime organizado, de estarem querendo minimizar os efeitos das ações americanas sobre o Comando Vermelho e o PCC por ter alguma ligação com eles. Não necessariamente de maneira factual, porque, ainda mais numa disputa polarizada e acirrada como essa, os fatos acabam perdendo sua relevância, infelizmente. Mas o que a gente pode ver é a apropriação de determinados símbolos, um boné escrito CPX [que o Lula usou na eleição de 2018 e cuja sigla significa "complexo de comunidades", não uma facção], para poder voltar à ideia de que existe um lado que é forte no combate ao crime, que quer uma parceria com os Estados Unidos, uma cooperação muito mais ampla, e o outro lado seria fraco. Mesmo que a relação com os Estados Unidos não esteja diretamente implicada no debate eleitoral, ela vai chegar por vias tortas, e isso pode ter um efeito na percepção do eleitor mais ao centro, que ainda não se decidiu por Lula ou Flávio Bolsonaro. Então, acho que vai ser algo muito calculado daqui para frente, para que a reação seja uma defesa da soberania nacional, por óbvio, mas que não atrapalhe a relação bilateral como um todo, num momento em que, para o Lula, manter uma boa imagem junto aos Estados Unidos é crucial também.

·        Há uma percepção de que o Lula teve um ganho de popularidade no ano passado justamente na época do tarifaço, quando ele reagiu a Trump reforçando a soberania brasileira. Então, isso pode não se repetir agora, é uma situação mais complexa?

Casarões - É bem mais complexo. Tem muitos caminhos pelos quais essa relação pode ser instrumentalizada em direção às eleições de outubro. E eu vou além: na crise do tarifaço, era muito claro que o Brasil era vítima de uma ação arbitrária por parte dos Estados Unidos. Mesmo aqueles que acreditam que o Alexandre Morais merecia ser sancionado por violar direitos humanos ou coisa do tipo, quer dizer, mesmo no campo da direita, as tarifas não tiveram uma justificativa de natureza comercial. E os impactos que começaram a ser observados por causa dessas tarifas e a apreensão, tanto do mercado financeiro quanto no setor produtivo, sobre o que aconteceria daí pra frente, isso tudo acabou gerando um desgaste muito grande. O Brasil, naquele caso, era vítima muito clara de uma ação considerada desproporcional, injusta, despropositada. É diferente da situação de agora. Ainda que ela seja muito menor do ponto de vista diplomático, ela envolve uma disputa de narrativa em que você tem, de um lado, a Polícia Federal dizendo: "havia uma cooperação, nosso delegado atuou da maneira como deveria atuar, e isso incorreu na detenção do Alexandre Ramagem". E tem o outro lado dizendo: "sabe aquela perseguição sobre a qual a gente sempre esteve falando? Do Alexandre de Morais contra cidadãos de bem brasileiros? Aqui uma prova de que não passou de perseguição". Então, a maneira como esse problema do Ramagem tem sido enquadrado é uma maneira que coloca o governo Lula e, talvez, em junção com o STF, como os algozes, não mais como as vítimas. Talvez essa mudança de enquadramento seja o que o bolsonarismo esteja querendo construir para poder dizer: "olha, quem errou agora foi o governo Lula e quem está agindo de maneira injustificada agora, ao sugerir, por exemplo, a expulsão de agentes americanos no Brasil, é o próprio governo Lula."

·        No caso das facções criminosas, pelo que entendi, o senhor vê um duplo risco para Lula: se forem declaradas organizações terroristas, seria uma derrota para Lula, e, se não forem, a campanha do Flávio poderia atacar a resistência do governo Lula a essa ação?

Casarões - Sim, e a maneira de reduzir um pouco esses desafios é justamente de maneira proativa se oferecer para cooperar com os Estados Unidos. E tudo indica que é o que o governo Lula vem fazendo desde a primeira ligação telefônica entre os dois: o tema do crime organizado já aparece na nota à imprensa [sobre a ligação].

Qual é a questão por trás da nomeação como grupo terrorista? Isso é um problema real porque são dois tipos penais fundamentalmente diferentes. Grupos de crime organizado têm um modus operandi particular, têm objetivos muito específicos, que, obviamente, têm que ser combatidos, mas a partir dos instrumentos nacionais e internacionais que nos permitem combater o crime organizado. Isso é uma coisa. Terrorismo virou uma categoria, sobretudo depois do 11 de setembro de 2001, que deu aos Estados Unidos uma possibilidade de ingerência global muito ampla. Ou seja, em nome do combate ao terrorismo, os Estados Unidos muitas vezes se arvoram o poder de intervir em território estrangeiro sem nenhum processo legal. A maneira, por exemplo, como Trump bombardeou embarcações pequenas no mar do Caribe, num processo que escalou e culminou no sequestro do Nicolás Maduro no começo de janeiro, foi toda ela ancorada na luta contra o terrorismo. E aí, ao dizer que Comando Vermelho e PCC são grupos terroristas, isso não só daria aos Estados Unidos a possibilidade de intervir unilateralmente no Brasil, não necessariamente sequestrar o presidente da República, mas certamente fazer ações militares contra o território brasileiro, numa flagrante violação de soberania, mas, mais do que isso, as implicações, inclusive financeiras, de mudar a classificação, são enormes. Qualquer empresa que possa ter, em algum pedaço da cadeia produtiva, alguma outra empresa que possa ter ligações com o Comando Vermelho, com o PCC, por maneiras indiretas, essa empresa pode ser proibida de operar nos Estados Unidos, vender para os Estados Unidos. Agora, imagina como é isso ser discutido no contexto de eleições, em que as mensagens têm que ser transmitidas em uma questão de segundos, é um vídeo de rede social. Qualquer elaboração que produza um pouco mais de reflexão do que poucos segundos, ela fica interditado no debate eleitoral. E aí tudo se transforma numa discussão de grandes estereótipos. E é justamente nesses estereótipos que eu intuo que o bolsonarismo queira atuar, dizendo aquilo que parece até mais simples e lógico na cabeça do brasileiro que não está tão bem informado: "olha, o Lula tá defendendo o PCC e o Comando Vermelho, os Estados Unidos querem apertar o combate a esses grupos, o Lula está dizendo não. Logo, o Lula tem alguma ligação com esses grupos. E, se eles são terroristas aos olhos americanos, a gente também pode chamar o Lula de terrorista". Quer dizer, é uma lógica absolutamente torta, mas ela pode desembocar num problema real.

·        Está em andamento, também, uma investigação comercial aberta pelo governo Trump contra o Brasil no ano passado. A expectativa é que termine nos próximos meses, podendo gerar desdobramentos perto da eleição. Qual é sua expectativa sobre isso?

Casarões - Essa investigação fez parte do pacote original de ataques contra o Brasil [que começa] lá em julho de 2025: a suspensão de visto de autoridades brasileiras, as tarifas, a investigação com base na seção 301 da Lei de Comércio Americano, e as sanções da Lei Magnitsky. Essas investigações tiveram uma repercussão muito grande no Brasil, porque a gente estava no auge da crise e, sobretudo, porque tocava em questões que são muito sensíveis a determinados grupos de brasileiros, em alguns casos, sobretudo aos mais pobres. A investigação tocava no tema do etanol, que é uma questão importante, porque quando sobe o preço da gasolina, o etanol acaba sendo o caminho de muita gente continuar abastecendo seu carro. O Brasil é uma nação de carros flex. Um outro tema que apareceu foi o de falsificação de produtos, e cita-se abertamente a Rua 25 de Março de São Paulo como um centro de comércio de produtos falsificados. Isso é complicado porque isso pega um setor de varejo importante no Brasil, porque a 25 de março muitas vezes supre a loja do interior de São Paulo, do interior de Minas Gerais, do interior do Rio de Janeiro, mesmo de grandes capitais. E o mais delicado de tudo nessa investigação, o tal do Pix. O Lula tem feito uma defesa muito ampla do Pix, até porque a gente entende os benefícios econômicos gerados pelo sistema integrado. Eu estou morando nos Estados Unidos e o Pix dá um baile em qualquer sistema bancário que a gente tenha por aqui. Mas, mais do que isso, o governo Bolsonaro é quem reivindica a paternidade do Pix, ainda que não tenha sido criado ali exatamente, ele foi [desenvolvido a partir do governo Michel Temer pelo Banco Central e] lançado durante o governo Bolsonaro, mas o fato é que o Pix é um tema transpartidário. O Pix é um tema que pega todo mundo. Então, a grande questão dessas investigações é que, se elas chegam à conclusão de que o Brasil está violando interesses empresariais ou comerciais americanos em todas essas áreas, aí fica muito fácil defender o lado brasileiro dessa história. Se os legisladores americanos e, sobretudo, os burocratas do Departamento de Comércio chegarem à conclusão de que algumas coisas violam e algumas não e deixam o Pix de fora, isso pode tornar a coisa um pouco mais complicada [para o governo Lula reagir]. Mas eu tampouco sei se hoje quem trabalha no departamento de comércio americano está totalmente inteirado sobre essas nuances. Então, pode ser que simplesmente façam um relatório acusando o Brasil de fazer um monte de coisa, e aí o governo Lula vai ter uma situação oportuna pra dizer "não, olha, vocês estão querendo acabar com milhões de empregos informais que ainda fazem a roda da economia girar". Agora, que fique claro, tarifa e sanção não são exatamente a mesma coisa. Elas se parecem nos efeitos gerados, mas, nesse caso, o que o governo americano poderia fazer, é impor sanções comerciais ao Brasil em determinados setores, seja de impedir a entrada de produtos brasileiros nos Estados Unidos, mas por uma decisão de natureza da lei do comércio. É diferente de aplicar uma tarifa generalizada por uma decisão unilateral.

·        Havia uma expectativa de que Lula e Trump se encontrariam em março, mas isso não ocorreu, em meio a outras prioridades para os Estados Unidos, como a guerra contra o Irã. Seria importante para Lula esse encontro?

Casarões - Para o presidente Lula, é importante manter uma boa relação com Trump. Seria importante ter essa visita, desde que transcorresse de maneira tranquila e harmoniosa. Em outubro do ano passado, quando começou a se cogitar uma visita do Lula, logo depois da Assembleia Geral da ONU, à Casa Branca, muitos especulavam que essa visita poderia ser uma pegadinha, uma armadilha para o Lula, e que o Trump poderia dispensar ao presidente brasileiro o mesmo tratamento que havia dispensado ao Zelensky, da Ucrânia, e ao Ramaphosa, da África do Sul. Foram reuniões muito constrangedoras, uma humilhação pública generalizada. Eu não acho que o Trump tenha sequer argumentos para colocar o Lula nesse tipo de saia justa, mas, da parte do governo brasileiro, acho que isso também é parte do cálculo: "a gente quer uma foto com o Trump, essa foto seria valiosa, por exemplo, pra neutralizar uma parte importante da narrativa da campanha do Flávio Bolsonaro, segundo a qual, ele é o único político que tem uma boa relação com o presidente americano... agora, tudo vai depender do clima do que está rolando do lado de lá". Então, se esse encontro acontecer num contexto em que há vários pontos de crise que podem ser explorados pelo Trump, pelo [vice-presidente dos EUA] JD Vance, pelo [secretário de Estado] Marco Rubio, numa sessão de humilhação pública ao Lula, isso ficaria muito mal e poderia ter um peso eleitoral importante. Agora, se houver a percepção de que essa conversa vai ser tranquila, ela vai simplesmente reafirmar a química, ela não vai comprometê-la, aí seria uma oportunidade para o governo Lula. Mas o timing vai ficando cada vez pior, porque em algum momento a gente sabe que vai estar muito próximo da eleição, e o Trump também tem eleições [para o Congresso americano] de meio de mandato em novembro. Quer dizer, a gente vai estar próximo dos ciclos eleitorais de cada país e isso torna praticamente inviável qualquer possibilidade de encontro bilateral de grande magnitude. E, de novo, toda essa questão é muito mais importante para o Brasil do que para o governo americano. Então, se os americanos ficarem esses próximos seis meses sem falar nada sobre o Brasil, eles não vão perder absolutamente nada. Agora é o Brasil que tem que controlar em que medida ele quer a participação direta ou indireta dos Estados Unidos nessa conversa eleitoral.

·        Considerando como Trump já atuou em eleições de outros países, qual sua expectativa sobre algum outro tipo de interferência no pleito brasileiro? Ele poderia, por exemplo, declarar apoio a Flávio Bolsonaro?

Casarões - Eu diria que o Trump está calejado depois de um ano e meio quase de governo, porque, em praticamente todos os países onde ele apoiou abertamente uma candidatura, essa candidatura perdeu. E o exemplo mais visível disso aconteceu agora, há poucos dias, na Hungria [com a derrota de Viktor Orbán]. Então, acho que o governo Trump vai ser muito cauteloso ao declarar apoio. O fato de Flávio Bolsonaro ter ido à conferência da CPAC [importante fórum do movimento conservador americano], por exemplo, o fato de haver inúmeras fotos do Eduardo Bolsonaro com Trump, com membros da alta cúpula da Casa Branca, eu acho que isso já vai poder ser mobilizado pelo lado bolsonarista de maneira sistemática até as eleições sem que o Trump precise fazer mais absolutamente nada com relação a isso, porque o apoio já está subentendido. A única forma pela qual Trump poderia reequilibrar esse lugar que os Estados Unidos ocupam na conversa eleitoral é se ele tiver o encontro com o Lula e se esse encontro for bom. Mas, de novo, essa possibilidade tem se tornado cada vez mais remota. A sensação que eu tenho é de que o governo americano vai preferir jogar parado, porque, no fim das contas, ainda que fosse muito interessante para o governo Trump ter um aliado carnal, submisso, aos Estados Unidos, eu não sei se é exatamente isso que o Trump está procurando nesse momento. O caso do Brasil é especial porque o Brasil tem um impacto geopolítico muito grande na América do Sul e o Trump tem uma renovada abordagem com relação à América do Sul e à América Latina, que ficou conhecida como corolário Trump. Nesse contexto, um Brasil forte, um Brasil com algum diálogo, por exemplo, com a Venezuela, um Brasil que ainda tem alguma ascendência regional relevante, pode ser tão estratégico quanto ter um aliado submisso.A gente tem que levar em conta também que, independentemente da preferência da Casa Branca, neste momento é uma eleição muito próxima [entre Lula e Flávio Bolsonaro]. Então, os Estados Unidos muito dificilmente vão ser os fiéis da balança sobre o resultado dessas eleições. E, enfim, corre o risco de o Lula ainda assim ganhar, e aí o Trump vai perder um potencial aliado estratégico, seja para conter a expansão chinesa na região, seja para estabilizar a Venezuela no médio prazo. E certamente não é isso que o Trump quer.

·        O que seria exatamente o corolário Trump?

Casarões - O corolário Trump foi uma doutrina enunciada no mais recente documento da Estratégia da Segurança Nacional, que foi lançado em dezembro de 2025, em que se enuncia, a cada quatro anos, o grande quadro geopolítico do mundo a partir da percepção norte americana e as estratégias norte-americanas para lidar com esse mundo.Nesse último documento, chamou a atenção que a América Latina ganhou prioridade nominal e a América Latina foi enquadrada a partir do que o próprio Trump chamou de um renascimento da Doutrina Monroe, ao qual o documento somou o corolário Trump, que é a possibilidade de os Estados Unidos controlarem a infraestrutura, os fluxos de pessoas e as decisões políticas da América Latina como parte do quintal do hemisfério que pertence ali, estrategicamente, aos Estados Unidos.Tudo isso tem a ver com a tentativa de combate à China na América Latina, mas também mostra que os Estados Unidos se sentem muito livres, inclusive pela nomeação de grupos de crime organizado como grupos terroristas, de intervir de maneira direta em situações políticas na América Latina, em nome dos interesses norte-americanos e em nome de supostos interesses hemisféricos.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Eleições: Para quê as IAs poderiam ser úteis

A inteligência artificial (IA) assumiu importância central no debate contemporâneo sobre o futuro das democracias em todo o mundo. No ciclo eleitoral de 2026, no Brasil, o tema ganhou ainda mais relevância em virtude da capacidade dessas ferramentas de ampliar a velocidade, a escala, a personalização e a credibilidade aparente dos conteúdos divulgados. O problema com potencial para afetar a integridade informacional do processo eleitoral reside: na produção de mensagens, na opacidade dos algoritmos, na baixa transparência das plataformas e na dificuldade de responsabilizar atores que difundem conteúdos enganosos, manipulados ou descontextualizados.

Do ponto de vista analítico, existem pelo menos quatro modalidades de uso da IA em contextos eleitorais democráticos:

1) produção sintética de conteúdos, como textos, imagens, áudios e vídeos;

2) sistemas conversacionais e mecanismos de recomendação, como chatbots, assistentes de IA e buscadores generativos;

3) usos analíticos, organizacionais e operacionais por campanhas, plataformas, meios de comunicação e instituições eleitorais; e

4) usos cívicos e institucionais orientados à ampliação do acesso à informação, à transparência, à acessibilidade e à participação pública.

Essa classificação genérica permite avaliar com mais precisão quando a IA pode fortalecer a democracia e quando tende a fragilizá-la.

Em uma perspectiva positiva, a IA pode contribuir para o fortalecimento democrático quando empregada de modo a ampliar o acesso a informações eleitorais confiáveis, facilitar a compreensão de regras e programas, traduzir conteúdos para diferentes idiomas, produzir recursos de acessibilidade, apoiar a checagem de fatos, qualificar a moderação de conteúdo e melhorar a gestão administrativa das eleições. Entretanto, relatórios recentes da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) e da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) destacam precisamente esse caráter ambivalente: as mesmas tecnologias que podem ampliar a informação e a participação social também podem contribuir para intensificar desinformação, falta de transparência e violência política, sobretudo em períodos eleitorais.

No campo da comunicação, campanhas e candidaturas podem utilizar IA para redação assistida, adaptação da linguagem, organização de bases de informação, monitoramento de tendências, planejamento de comunicação e produção de peças digitais. O emprego destes usos, em si, não é necessariamente antidemocrático. Tornam-se, de fato, problemáticos quando ocultam processos de mediação tecnológica, simulam pessoas reais, exploram perfis falsos, reforçam discriminações ou são mobilizados para produzir deliberadamente contextos enganosos. Por essa razão, a transparência no uso da tecnologia e a responsabilização de quem produz e impulsiona conteúdos são dimensões centrais da integridade eleitoral em qualquer país de base democrática.

Já em uma perspectiva negativa, a IA pode ser empregada para criar ou manipular conteúdos com aparência de autenticidade, intensificar campanhas de desinformação, produzir deepfakes, disseminar assédio e violência política, inclusive de gênero, automatizar ataques coordenados e focalizados, amplificar discursos de ódio e explorar vulnerabilidades cognitivas e emocionais do conjunto e, em especial, de parcelas do eleitorado.

Em democracias francamente polarizadas, esses usos reduzem sobremaneira o custo de produção de conteúdo enganoso, aceleram sua circulação em amplas redes e dificultam a distinção entre crítica política legítima, sátira, propaganda e fraude informacional deliberada. De fato, a IA tende a profissionalizar e baratear a disputa por atenção, engajamento e enquadramento narrativo, favorecendo quem combina volume, repetição, segmentação e circulação coordenada em múltiplas plataformas, especialmente em ambientes de mensagens privadas e de redes de vídeos curtos. Instaura-se, portanto, uma dinâmica intensificada de geração contínua de conteúdos assistidos por IA. Esses materiais passam a desempenhar um papel central na definição das pautas cotidianas e na mobilização do engajamento nas redes sociais e em outros espaços de interação social.

No Brasil, episódios recentes mostram que atores governistas e oposicionistas já incorporaram, em graus distintos, linguagens, formatos e repertórios associados à IA em suas estratégias digitais. No atual contexto pré-eleitoral, percebe-se que tanto o Governo quanto o Partido dos Trabalhadores (PT) têm se reposicionado no ambiente digital4. Neste mês de abril, após vários ataques à imagem do presidente Lula nas redes sociais por meio de conteúdos gerados por IA, intensificaram-se o investimento e a participação em plataformas como o WhatsApp, o Instagram e o TikTok. Assim, nas últimas duas semanas, cresceram tanto os conteúdos que retiram o candidato à presidência da República, Flávio Bolsonaro, da sua zona de conforto, relembrando episódios como o da “rachadinha”, quanto os de impulsionamento de agendas cruciais para ampliar o alcance de propostas centrais do Governo junto à população, como o fim da escala 6×1. A IA não é utilizada apenas no contra-ataque; também é vista como uma aposta para ampliar a adesão às políticas governamentais.

É importante salientar que o Governo já demonstrou sua capacidade de utilizar a IA para superar situações difíceis em momentos complexos, o que gerou efeitos positivos na avaliação do Governo e do Presidente Silva. Cabe relembrar a rápida reação do governo diante da resistência do Congresso Nacional ao aumento do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF), a partir da qual foram elaborados enquadramentos que simplificaram e tornaram mais visível a disputa política em torno da tributação e das políticas sociais. Também em 2025, o uso da IA foi altamente útil quando implementado rapidamente para criar conteúdos que contrapuseram-se às imposições de taxação das exportações brasileiras para os EUA, impostas por Donald Trump e apoiadas pela família do ex-presidente da República Jair Messias Bolsonaro.

Por outro lado, a extrema-direita tem demonstrado evidências de estratégias permanentes e consistentes de investimento em desinformação e na deterioração da imagem de seus adversários. Um aspecto relevante de preocupação é a constituição de estruturas organizadas de mobilização digital que articulam treinamento informal, padronização de comandos, replicação em massa e coordenação distribuída por meio de aplicativos de mensagens e redes sociais. Nesses arranjos, a IA funciona menos como ferramenta isolada e mais como infraestrutura para acelerar a propaganda, a militância digital e, em alguns casos, a manipulação. A combinação entre conteúdo sintético, lógica algorítmica de recomendação e circulação em redes fechadas tende a aumentar a dificuldade de monitoramento público e de resposta institucional em tempo hábil. Assim, o uso de conteúdos gerados artificialmente, de fácil replicação, tende a ampliar e potencializar a polarização política, mas, sobretudo, a prática de ações que fragilizam a dinâmica democrática.

Em conjunto, estes fatos ajudam a compreender, inclusive, por que pode haver dissociação entre indicadores objetivos e percepções sociais sobre temas como a economia, a corrupção, a segurança ou as políticas públicas. Um exemplo é a comemoração, pelo Governo Federal, do baixo desemprego, da queda do dólar, da valorização da bolsa de valores e da inflação sob controle, mas com percepção, entre cidadãos e cidadãs, de que a economia piorou, como indicado no último levantamento da Quaest Pesquisa e Consultoria. Mensagens contínuas que enfatizam a crise, o aumento dos preços e o endividamento contribuem sobremaneira para a ampliação de uma visão negativa do governo federal e da vida cotidiana. Nesse contexto, observa-se o recurso recorrente a estereótipos e à mobilização de afetos na esfera pública, muitas vezes associado à circulação de violências simbólicas e de desinformação.

Ressalta-se que a IA não cria sozinha essas percepções, mas pode intensificar sua produção, circulação e adaptação a públicos específicos, inclusive por meio de testes rápidos de linguagem, imagens emocionalmente carregadas, simplificação de conflitos complexos e repetição automatizada de enquadramentos que reforçam crenças prévias. Em termos democráticos, o risco maior é a deterioração da esfera pública informacional, bem como a fragilização das condições mínimas para a deliberação baseada em fatos.

Uma modalidade particularmente sensível a ser considerada é o uso de plataformas conversacionais para consultas sobre regras eleitorais, comparação de candidaturas, interpretação de propostas e busca de orientação política. Ferramentas como ChatGPT, Gemini, Grok e outras podem oferecer respostas úteis, mas também podem apresentar informações incompletas, desatualizadas, enviesadas ou excessivamente assertivas. Quando uma pessoa passa a terceirizar a mediação informacional a sistemas privados, cujos critérios de priorização e de formulação de respostas são pouco transparentes, amplia-se o poder de intermediação de grandes empresas de tecnologia na formação de preferências políticas. Ainda assim, esses sistemas podem ter utilidade pública quando orientados por fontes oficiais e consistentes, com limites de escopo e mecanismos de correção e auditoria.

Por isso, é importante reconhecer os usos da IA com potencial de fortalecimento democrático, bem como os de fragilização. Para o Brasil de 2026, a agenda estratégica combina pelo menos 6 frentes: transparência, responsabilização, integridade informacional, proteção contra violência política digital, regulação proporcional e fortalecimento da alfabetização digital da população. O campo progressista precisa tanto se apropriar destes usos potenciais quanto ampliar seu empoderamento na utilização da tecnologia, na capacidade de comunicação e na difusão de informações, sempre de forma ética, priorizando a regulação responsável da IA no campo da política.

Não há um único efeito da IA sobre as democracias. Seu impacto depende do contexto, da finalidade, do desenho institucional e da capacidade regulatória. Questões como o ator que a utiliza, a finalidade do uso, o grau de transparência, os mecanismos de controle social e institucional, as salvaguardas regulatórias e a capacidade coletiva de educação midiática e digital tornam-se cada vez mais centrais para um país que se diz democrático.

 

Fonte: Por Carmen Leitão, em Outras Palavras

 

Por que o corpo pode ter resistência à insulina? Quais são os sinais e o que fazer antes que vire diabetes

O corpo manda sinais. Cansaço fora do comum, fome que não passa, energia que oscila sem motivo claro são sintomas que muita gente atribui ao estresse ou ao ritmo acelerado do dia a dia. No entanto, em muitos casos, esses sinais podem estar ligados a uma condição metabólica silenciosa e cada vez mais prevalente: a resistência à insulina. Entender o que ela é, como identificá-la e o que fazer diante do diagnóstico é o primeiro passo para proteger a saúde e evitar o diabetes tipo 2.

<><> O que é a resistência à insulina e por que ela importa

A insulina é um hormônio produzido pelo pâncreas com uma função essencial: ela permite a entrada da glicose nas células para ser usada como energia. Quando o organismo desenvolve resistência à insulina, esse mecanismo começa a falhar. As células passam a responder de forma menos eficiente ao hormônio e o pâncreas passa a produzir quantidades maiores para compensar.

Por um período, esse esforço consegue manter a glicose sob controle. Com o tempo, o pâncreas pode não acompanhar a demanda e os níveis de açúcar no sangue aumentam. Nesse cenário, o quadro pode evoluir para pré-diabetes e, sem intervenção, para diabetes tipo 2.

<><> Os sinais que o corpo dá e que muita gente ignora

Um dos desafios da resistência à insulina é que ela pode não apresentar sintomas claros. Muitas pessoas convivem com a condição sem diagnóstico. Quando aparecem, os sinais são inespecíficos e podem ser confundidos com cansaço ou rotina intensa. Entre os principais estão:

Cansaço excessivo, mesmo sem esforço físico

Fome frequente e dificuldade de saciedade

Aumento da sede

Oscilações de energia ao longo do dia

Dificuldade de concentração

Manchas escuras nas dobras do corpo, como pescoço, axilas e virilha, conhecidas como acantose nigricans

Ao identificar esses sinais, é indicado procurar avaliação médica. O diagnóstico é feito por exames laboratoriais, como o teste de tolerância à glicose oral e a dosagem de insulina.

<><> A relação com o diabetes tipo 2 e o pré-diabetes

A resistência à insulina é considerada uma etapa anterior ao pré-diabetes, quando os níveis de glicose já estão acima do normal, mas ainda não configuram diabetes tipo 2.

Nesse momento, a intervenção pode alterar a evolução do quadro. Mudanças no estilo de vida podem melhorar a sensibilidade à insulina, reduzir a sobrecarga do pâncreas e diminuir o risco de progressão. Os fatores de risco incluem obesidade, sedentarismo, histórico familiar e envelhecimento.

<><> O que favorece o desenvolvimento da resistência à insulina

A resistência à insulina resulta da combinação de fatores metabólicos, alimentares e comportamentais ao longo do tempo:

Consumo elevado de açúcar e carboidratos refinados;

Sedentarismo e baixa prática de atividade física;

Acúmulo de gordura abdominal;

Sono irregular ou insuficiente;

Estresse crônico;

Histórico familiar de diabetes tipo 2;

Envelhecimento.

<><> O que fazer: estratégias para melhorar a sensibilidade à insulina

A resistência à insulina pode ser controlada com mudanças no estilo de vida e acompanhamento médico. Na alimentação, a redução de ultraprocessados, o aumento do consumo de fibras e o controle de açúcares simples ajudam a diminuir a sobrecarga metabólica.

A atividade física regular contribui para o aumento da captação de glicose pelos músculos. Além disso, ajustes no sono e no controle do estresse auxiliam na regulação hormonal. Em alguns casos, o médico pode indicar medicamentos como parte do tratamento.

<><> Resumo: o que você precisa saber

Atenção a sinais como cansaço persistente, fome frequente e manchas escuras nas dobras do corpo;

Procure avaliação médica para confirmação por exames laboratoriais;

A resistência à insulina pode anteceder o diabetes tipo 2;

Alimentação equilibrada, atividade física e sono adequado fazem parte do controle;

O acompanhamento médico é necessário para ajuste do tratamento;

A condição pode ser controlada com mudanças no estilo de vida;

A orientação de um endocrinologista é recomendada para cada caso.

        6 dicas para evitar picos de glicose depois do café da manhã

O café da manhã glicose é um dos momentos mais críticos do dia para quem vive com diabetes. Logo nas primeiras horas, muitos pacientes enfrentam um cenário comum: a glicemia sobe rapidamente mesmo após uma refeição aparentemente simples, como pão com café ou frutas.

Esse comportamento tem explicação fisiológica. Pela manhã, o organismo costuma apresentar maior resistência à ação da insulina, o que favorece elevações mais rápidas da glicose no sangue. No entanto, além dessa condição natural do corpo, há um fator determinante que passa despercebido: a forma como os alimentos são combinados.

A gente não precisa deixar de comer nada, desde que faça um equilíbrio entre fibra, carboidrato e proteína para evitar um pico glicêmico”, afirma a nutricionista e educadora em diabetes Juliana Baptista

Na prática, isso significa que o problema não está necessariamente no pão, na fruta ou no leite, mas na ausência de nutrientes que ajudam a desacelerar a absorção da glicose.

<><> Por que o café da manhã pode elevar mais a glicose?

Durante a manhã, o corpo exige mais insulina para lidar com a mesma quantidade de carboidrato. Isso explica por que alimentos consumidos nesse período podem gerar picos mais intensos em comparação com o almoço ou jantar.

Além disso, há um padrão alimentar comum entre brasileiros: iniciar o dia com carboidratos simples e de rápida absorção, muitas vezes consumidos isoladamente. Esse cenário favorece uma elevação abrupta da glicemia.

A proteína serve como um freio, ela vai retardar a absorção. Então a glicemia não sobe tão rápido e o pico não é tão alto”, explica a especialista .

Portanto, ajustar a composição do café da manhã pode fazer diferença direta no controle glicêmico ao longo do dia.

<><> 6 estratégias no café da manhã para evitar picos de glicose

>>> 1. Não consumir carboidrato isolado

Alimentos como pão, frutas ou tapioca, quando ingeridos sozinhos, tendem a elevar rapidamente a glicose. O ideal é sempre combiná-los com proteína ou fibra.

>>> 2. Incluir proteína logo na primeira refeição

Adicionar proteína no início do dia ajuda a reduzir a velocidade de absorção da glicose.

A pessoa pode comer o iogurte ou o ovo antes do pão, isso já ajuda a segurar a glicemia”, orienta Juliana Baptista .

>>> 3. Apostar em fibras para reduzir o impacto glicêmico

As fibras desaceleram a digestão e ajudam a evitar picos de glicose.

Entre as principais opções estão aveia, chia, frutas com casca e pães integrais.

>>> 4. Evitar sucos, mesmo os naturais

Apesar de saudáveis em outros contextos, os sucos concentram açúcar e perdem a fibra presente na fruta.

No suco, a fibra vai embora e fica só a parte doce. Isso faz com que a glicemia suba mais rápido”, alerta a nutricionista .

>>> 5. Controlar a quantidade de frutas

Frutas são importantes, mas devem ser consumidas com atenção à quantidade e ao horário.

O consumo de várias porções no mesmo momento, especialmente no café da manhã, pode elevar significativamente a glicose.

>>> 6. Ajustar a ordem dos alimentos

A sequência em que os alimentos são consumidos também interfere na resposta glicêmica.

Começar pela proteína ou pela fibra e deixar o carboidrato para depois pode ajudar a reduzir o pico glicêmico.

<><> O que acontece no corpo durante o pico glicêmico

Quando a glicose sobe rapidamente, o organismo precisa responder com maior liberação de insulina. Em pessoas com diabetes, essa resposta pode ser insuficiente ou desregulada.

Como consequência, podem ocorrer níveis elevados de glicose após a refeição e maior dificuldade de controle ao longo do dia. Além disso, picos frequentes aumentam o risco de complicações a longo prazo.

<><> Combinações simples que ajudam no controle

Segundo a especialista, não é necessário recorrer a alimentos caros ou restritivos. O foco deve estar na combinação adequada.

Entre as opções práticas estão:

        pão com ovo e fruta

        iogurte com banana e aveia

        omelete com fruta

Essas combinações equilibram carboidrato, proteína e fibra, contribuindo para uma resposta glicêmica mais estável.

<><> Nem sempre o problema é o alimento

Um dos principais equívocos é tratar determinados alimentos como proibidos. O impacto na glicemia depende de fatores como quantidade, combinação e resposta individual.

A alimentação é uma das coisas que mais impactam na curva glicêmica, mas depende de qual grupo de alimento e de como ele é combinado”, reforça Juliana Baptista .

Nesse contexto, a educação alimentar se torna uma ferramenta essencial para o controle do diabetes.

<><> Importante entender

O controle da glicose no café da manhã não depende de restrições severas, mas de escolhas mais estratégicas. Combinar corretamente os alimentos pode reduzir picos glicêmicos e melhorar a estabilidade ao longo do dia.

Para quem convive com diabetes, entender esse mecanismo é fundamental para transformar a alimentação em uma aliada no cuidado diário.

 

Fonte: Um Diabético