terça-feira, 25 de agosto de 2026

A hora da escolha: o Brasil entra na eleição mais decisiva desde 2022

Há poucas semanas, escrevi que o Brasil se encontrava diante de uma nova encruzilhada. A imagem continua válida — mas a encruzilhada deixou de estar no horizonte. Chegamos a ela. As candidaturas estão registradas, a campanha começou, os palanques estão sendo montados, a propaganda no rádio e na televisão se aproxima e os debates colocarão frente a frente candidatos que, até agora, puderam controlar cuidadosamente suas aparições públicas. Em 4 de outubro, o país votará.

O quadro que emerge é simultaneamente favorável e perigoso para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Favorável porque Lula continua liderando as principais pesquisas nacionais. Perigoso porque sua vantagem sobre Flávio Bolsonaro diminui consideravelmente quando se projeta um segundo turno. Além disso, os níveis elevados de rejeição aos dois principais candidatos revelam que esta será uma eleição disputada num ambiente de forte polarização política, social e emocional.

Seria, portanto, um erro grave imaginar que a eleição está encaminhada.

Não está.

A campanha começa agora de verdade.

<><> Flávio ocupou o centro da direita

No início de julho, o traço mais evidente do campo conservador era a fragmentação. Havia o bolsonarismo familiar, dividido entre Flávio e Michelle Bolsonaro; a direita institucional de Ronaldo Caiado e Gilberto Kassab; a direita liberal de Romeu Zema; e a nova direita digital de Renan Santos, que tenta importar para o Brasil uma combinação de Javier Milei com Nayib Bukele.

Essa diversidade permanece. Mas ocorreu uma mudança fundamental: Flávio Bolsonaro conseguiu ocupar o centro eleitoral da direita.

Na pesquisa Quaest divulgada em 14 de agosto, Lula aparece com 38% das intenções de voto no primeiro turno, contra 31% de Flávio. Caiado e Renan Santos têm 4% cada; Zema, 2%.

A distância entre Lula e Flávio existe e é relevante. Mas não autoriza tranquilidade. No segundo turno, Lula aparece com 43% e Flávio com 40%. Outra pesquisa recente, da Futura, encontrou 46,5% para Lula e 44% para Flávio, configurando empate técnico.

A mensagem é inequívoca: apesar dos percalços e do desgaste associado ao caso Master/Vorcaro, Flávio Bolsonaro tornou-se eleitoralmente competitivo. Subestimá-lo seria repetir um dos erros mais frequentes diante da extrema direita: confundir rejeição política ou intelectual com inviabilidade eleitoral.

Jair Bolsonaro foi subestimado em 2018. Donald Trump foi subestimado nos Estados Unidos. Javier Milei foi tratado durante meses como uma excentricidade argentina. A extrema direita contemporânea cresceu repetidamente nos espaços deixados pela incapacidade de seus adversários de compreender que indignação, ressentimento, medo e frustração também produzem maiorias eleitorais.

Flávio não é Jair Bolsonaro. Não possui o mesmo carisma político do pai nem a mesma capacidade de transformar brutalidade em espetáculo. Mas dispõe de uma base bolsonarista já construída, de um sobrenome convertido em identidade política, de uma estrutura partidária poderosa e de um eleitorado para o qual a família Bolsonaro continua simbolizando a oposição radical ao PT.

E não precisa reproduzir integralmente o pai. Precisa apenas chegar ao segundo turno. Ali começa outra eleição.

<><> O paradoxo do “antissistema”

O caso Master/Vorcaro introduz uma contradição que Flávio terá dificuldade de administrar. O candidato que pretende se apresentar como voz do cidadão comum, inimigo das elites e representante de uma ruptura com “tudo o que está aí” terá de explicar sua relação com um episódio que envolve justamente os circuitos de poder, dinheiro e influência que o discurso antissistema costuma denunciar.

Esse é o paradoxo: o bolsonarismo se apresenta como oposição ao sistema, mas seus principais representantes já fazem parte, há anos, do sistema político; ocupam cargos, controlam estruturas partidárias, negociam apoios e dependem de redes econômicas e institucionais.

A retórica antissistema não pode ser apenas uma embalagem eleitoral. Flávio terá de responder às perguntas sobre o caso, esclarecer responsabilidades e demonstrar que a promessa de ruptura não significa apenas substituir grupos no comando, preservando os mesmos mecanismos de privilégio e opacidade.

A questão não é explorar eleitoralmente qualquer denúncia sem provas. É exigir transparência. Quem pretende governar o país precisa explicar suas relações, suas escolhas e os interesses que pretende representar.

<><> A eleição das rejeições

Talvez o dado mais preocupante das pesquisas atuais não esteja nas intenções de voto, mas nas rejeições.

Na Quaest, 54% afirmam que não votariam em Flávio Bolsonaro. Em Lula, são 52%. Esses números dizem muito sobre o país que chegará às urnas em outubro: o Brasil continua profundamente dividido.

Isso significa que Lula não poderá depender apenas da memória do desastre bolsonarista. Tampouco será suficiente organizar a campanha em torno da defesa das instituições democráticas, embora essa defesa continue absolutamente necessária.

Em 2022, derrotar Bolsonaro era, para milhões de brasileiros, uma urgência democrática. Havia um governo concreto a ser derrotado, uma tragédia sanitária ainda presente na memória coletiva, ataques ao Supremo Tribunal Federal, ameaças ao sistema eleitoral, isolamento internacional, destruição ambiental e uma atmosfera permanente de conflito institucional.

2026 é diferente.

Agora Lula é governo. O eleitor não compara apenas Lula com Bolsonaro. Compara as promessas de 2022 com sua própria vida em 2026.

Quanto custa o supermercado? Quanto custa o crédito? É possível comprar uma casa? Há emprego? O salário chega ao fim do mês? O filho consegue estudar? A escola é de qualidade? A família se sente segura? O pequeno empresário consegue financiar seu negócio? O jovem acredita que terá uma vida melhor que a dos pais?

É nesse terreno que a eleição será decidida.

A democracia precisa ser defendida. Mas, para sobreviver politicamente, precisa também chegar à mesa, ao salário, à escola, ao hospital, ao transporte e à esperança das pessoas.

<><> Lula precisa disputar o futuro

O governo possui realizações para apresentar. Recuperou políticas sociais, recompôs relações internacionais, restaurou instituições degradadas e devolveu ao Brasil uma presença diplomática compatível com a importância do país.

Mas uma eleição presidencial não é um relatório de governo. E tampouco se vence apenas dizendo ao eleitor que o adversário seria pior.

Lula precisa responder a uma pergunta simples: Para onde pretende levar o Brasil nos próximos quatro anos?

A resposta precisa ser tão clara que possa ser compreendida por um trabalhador de fábrica, uma mãe da periferia, um agricultor, um pequeno empresário, um estudante universitário e um jovem em busca do primeiro emprego.

A campanha precisa falar de salário, emprego, moradia, educação, segurança, crédito e desenvolvimento. Precisa enfrentar os juros extorsivos e explicar por que uma economia submetida durante anos ao custo exorbitante do dinheiro transfere renda da produção para o rentismo.

Precisa dizer que equilíbrio fiscal não pode significar paralisia do Estado. Que investimento público não é desperdício quando constrói infraestrutura, escolas, hospitais, universidades, capacidade tecnológica e oportunidades. E que desenvolvimento não pode continuar sendo uma palavra ausente do debate brasileiro.

O Brasil não pode se resignar a administrar pobreza, desigualdade e baixo crescimento um pouco melhor que os governos anteriores. Precisa voltar a imaginar sua transformação.

Essa é uma disputa na qual Lula possui uma vantagem histórica extraordinária. Poucos líderes brasileiros conseguem falar simultaneamente aos trabalhadores, aos empresários, aos movimentos sociais e ao mundo político.

Mas essa capacidade precisa ser mobilizada. A campanha não pode transmitir a sensação de que pede apenas mais quatro anos para continuar fazendo o que já faz. Precisa oferecer uma segunda etapa.

<><> Jovens e classe média não se conquistam pelo medo

Há um desafio adicional: reconquistar jovens e setores da classe média que não são bolsonaristas, mas estão insatisfeitos.

Esse eleitorado não necessariamente deseja a volta do passado. Muitas vezes, rejeita o bolsonarismo e, ao mesmo tempo, não se sente representado pelo governo. Está cansado da polarização, desconfia dos partidos, enfrenta dificuldades materiais e não vê uma perspectiva convincente de futuro.

Para os jovens, não basta falar em defesa da democracia. É preciso falar de autonomia, trabalho, ciência, tecnologia, cultura, saúde mental, mudança climática, mobilidade urbana e acesso à moradia. É preciso mostrar que o país terá lugar para eles — e que esse lugar não será apenas o de consumidores endividados ou trabalhadores submetidos à precarização.

Para a classe média, tampouco basta repetir que o adversário é uma ameaça. É necessário apresentar respostas para o custo de vida, a segurança, os impostos, a qualidade dos serviços públicos, o acesso ao crédito e a possibilidade de ascensão social.

A campanha de Lula precisa reconhecer a insatisfação sem tratá-la como ingratidão ou despolitização. Quem está frustrado não é automaticamente de direita. Mas pode ser capturado pela direita quando o campo progressista não oferece horizonte, linguagem nem respostas concretas.

<><> Soberania também estará em disputa

A eleição será atravessada ainda pela interferência trumpista. A extrema direita brasileira tentará importar não apenas slogans e métodos de comunicação, mas uma visão de mundo na qual a política externa se transforma em instrumento de lealdade ideológica e submissão a interesses estrangeiros.

A questão da soberania, portanto, não será abstrata.

O Brasil terá de decidir se pretende formular sua política externa de acordo com seus interesses nacionais — defendendo sua economia, seus recursos, sua democracia e sua capacidade de negociação — ou se aceitará que decisões estratégicas sejam condicionadas por pressões externas e pela agenda de governos estrangeiros.

A influência de Donald Trump sobre a direita radical internacional não se limita às redes sociais. Ela envolve ataques às instituições, deslegitimação de eleições, nacionalismo econômico seletivo, desprezo pelo multilateralismo e a ideia de que a força deve substituir regras e compromissos.

O Brasil não pode terceirizar sua democracia nem sua soberania.

Defender a autonomia nacional não significa isolamento. Significa negociar com todos sem se subordinar a nenhum. Significa compreender que relações internacionais, política industrial, proteção ambiental, segurança energética e desenvolvimento tecnológico fazem parte da mesma disputa sobre o futuro do país.

<><> O bolsonarismo tentará apagar a própria história

Flávio Bolsonaro enfrentará um problema inverso: terá de herdar Bolsonaro sem carregar integralmente o peso do governo Bolsonaro.

Precisará mobilizar a memória do pai e, simultaneamente, convencer parte do eleitorado moderado de que não significará a repetição de seus excessos.

É uma contradição enorme.

E é justamente aí que a campanha democrática precisa ser politicamente implacável. Não se pode permitir que o bolsonarismo reapareça em 2026 como se tivesse nascido ontem. Há uma história, responsabilidades e uma concepção de Estado, democracia, política social, relações internacionais e convivência institucional que foi colocada à prova quando esse grupo esteve no poder. O sobrenome Bolsonaro não pode servir simultaneamente como principal ativo eleitoral e como algo do qual o candidato se distancia quando a memória do governo anterior se torna inconveniente.

Flávio terá de responder pelo projeto político que pretende herdar.

O eleitor tem o direito de saber: o que permaneceria? O que mudaria? Qual seria sua relação com o Supremo Tribunal Federal? Qual sua posição diante dos ataques ao processo eleitoral? Qual sua política para a Amazônia? O que pensa sobre privatizações, universidades, SUS, salário mínimo e programas sociais? Qual seria sua política externa? Qual o papel do Estado?

É para isso que servem os debates.

Não para produzir frases de efeito destinadas às redes sociais, mas para obrigar os candidatos a responder pelo país que pretendem governar.

<><> Os debates e a guerra digital

A proximidade dos debates introduz uma variável nova. Até agora, as campanhas puderam controlar cenários, discursos, vídeos e aparições. O debate reduz esse controle. É quando o candidato precisa reagir, quando contradições aparecem e perguntas incômodas não podem ser resolvidas com uma postagem cuidadosamente editada.

A decisão de Flávio de limitar sua participação nos debates do primeiro turno é politicamente reveladora. Quanto menos se expuser ao confronto simultâneo com Lula e com candidatos de direita que precisam retirar votos dele para sobreviver, menor o risco de se transformar no alvo preferencial de todos.

É uma estratégia compreensível. Mas também pode se tornar uma fragilidade. Quem pretende governar um país com mais de 200 milhões de habitantes não deveria temer o contraditório.

Lula, por sua vez, não deve tratar os debates apenas como um risco a administrar. Eles podem ser uma oportunidade para recolocar a eleição no terreno em que historicamente é mais forte: a comparação entre projetos de país.

Haverá ainda um campo provavelmente mais difícil que em 2022: o ambiente digital. A inteligência artificial tornou muito mais simples produzir imagens, áudios e vídeos falsos. Conteúdos emocionais circulam mais rapidamente que desmentidos. Algoritmos recompensam indignação, medo e conflito. A mentira política adquiriu capacidade industrial.

A campanha ocorrerá nas ruas, na televisão e nos debates — mas também milhões de vezes por dia nas telas dos celulares.

Nesse ambiente, defender a democracia significa defender também uma realidade compartilhada. Uma sociedade na qual ninguém consegue distinguir fato de fabricação torna-se especialmente vulnerável ao autoritarismo.

O problema, entretanto, não poderá ser resolvido apenas pelo TSE. Será uma disputa política pela verdade.

<><> Não existe vitória antecipada

Há uma tentação perigosa no campo progressista: olhar as pesquisas, constatar que Lula aparece em primeiro lugar e concluir que a dinâmica fundamental da eleição está resolvida. Não está. Pesquisas são fotografias. Campanhas são filmes. E o filme de 2026 mal começou.

Nas próximas semanas haverá debates, propaganda eleitoral, denúncias, crises reais ou fabricadas, erros de campanha, acontecimentos internacionais, oscilações econômicas e uma guerra digital de intensidade provavelmente inédita.

O Brasil entrará em outubro submetido a uma disputa feroz pela interpretação da realidade.

De um lado estará um projeto que procura preservar a democracia, reconstruir políticas sociais, reduzir desigualdades, recuperar a capacidade de desenvolvimento e manter uma política externa soberana.

Do outro estará um campo político que tenta apresentar como novidade uma experiência que o Brasil já conhece — agora revestida de discurso antissistema e submetida à influência de uma extrema direita internacional.

É preciso dizer isso sem medo. Mas também é preciso reconhecer algo igualmente importante: o medo da volta do bolsonarismo não basta para construir o futuro. Uma campanha progressista precisa oferecer esperança. Precisa dizer não apenas aquilo que o Brasil não quer repetir, mas aquilo que o Brasil pode ser.

<><> A verdadeira encruzilhada

Em julho, escrevi que o país se aproximava de uma encruzilhada. Hoje é possível dizer algo mais: o Brasil já chegou a ela.

A escolha de outubro não será entre um país perfeito e outro desastroso. Democracias reais nunca oferecem escolhas tão simples. Será entre projetos, prioridades, valores e concepções profundamente diferentes sobre quem deve pagar pela crise, quem deve se beneficiar do crescimento e qual deve ser o papel do Estado na construção do futuro.

Será também uma escolha sobre democracia — mas não apenas sobre a democracia das instituições. Será sobre democracia econômica. Sobre quem tem acesso à riqueza que produz. Sobre quem paga impostos e quem recebe juros. Sobre quem tem direito à educação de qualidade, pode sonhar com uma casa e envelhecer com dignidade. Sobre as oportunidades oferecidas aos jovens. Sobre se o Brasil continuará sendo uma das sociedades mais desiguais do planeta ou transformará sua enorme riqueza em instrumento de desenvolvimento coletivo.

É essa dimensão que a campanha de Lula precisa colocar no centro da eleição.

Não basta perguntar aos brasileiros se querem voltar ao passado. É preciso convidá-los a construir o futuro.

E talvez essa seja a verdadeira encruzilhada brasileira de 2026: escolher entre administrar nossas frustrações ou recuperar a capacidade de imaginar um país.

A campanha começou. Agora começa também a disputa pelo futuro.

 

Fonte: Maria Luiza Falcão, em Brasil 247

 

Quando o emprego vira moeda de voto: como o coronelismo sobrevive na política brasileira

A democracia brasileira, que é burguesa, consolidou — especialmente a partir da Constituição de 1988 — um conjunto de princípios destinados a romper com práticas históricas de apropriação privada do Estado. A impessoalidade, a legalidade, a moralidade administrativa, a liberdade do voto e a igualdade das/os cidadãs/cidadãos perante as instituições constituem fundamentos de uma ordem republicana que, em tese, deveria impedir que o poder público fosse utilizado como instrumento de interesses particulares.

Entretanto, a realidade nos mostra outra coisa, como demonstra o mais recente exemplo ocorrido no Maranhão, quando um prefeito se achou no direito de “persuadir” servidoras/servidores a votarem em determinada candidatura.

A existência de instituições formalmente democráticas não significa, por si só, a superação de práticas políticas construídas ao longo da formação histórica brasileira. Ao contrário. Determinadas formas de exercício do poder demonstram a capacidade de adaptação às mudanças institucionais.

E, nesse sentido, o coronelismo talvez seja um dos melhores exemplos de como práticas políticas historicamente associadas ao Brasil rural sobrevivem sob novas formas, incorporadas à burocracia, às administrações municipais, aos partidos e até mesmo a instituições que, em princípio, deveriam funcionar segundo critérios estritamente impessoais.

<><> Dependência e autoridade pessoal

O episódio envolvendo o prefeito de Campestre do Maranhão, Fernando Oliveira da Silva, não me deixa mentir. Segundo acusações que circularam recentemente, servidoras/servidores municipais teriam sofrido pressão política relacionada ao apoio a determinado candidato, inclusive com a ameaça de perda do emprego.

É necessário, evidentemente, tratar essa informação como acusação enquanto não houver comprovação pelas instâncias competentes. O interesse político do episódio, contudo, ultrapassa a eventual responsabilidade individual do prefeito.

O que ele nos permite discutir é uma questão estrutural, qual seja, o que acontece quando quem ocupa temporariamente uma função pública passa a utilizar a estrutura administrativa como instrumento de fidelização política.

A resposta nos conduz diretamente a conceitos fundamentais para a compreensão da formação política brasileira, tais como coronelismo, clientelismo, mandonismo, personalismo e patrimonialismo.

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No livro Coronelismo, enxada e voto (um belo livro de ciência política), Victor Nunes Leal demonstrou que o coronelismo não poderia ser compreendido unicamente como o domínio arbitrário de grandes latifundiários sobre determinada população, porque se tratava de um sistema político construído a partir da articulação entre o poder privado dos chefes locais e as instituições públicas.

Dessa forma, o coronel estabelecia relações de dependência com a população e, ao mesmo tempo, mantinha compromissos com governos estaduais e com outras instâncias do poder.

Sob esse sistema, o voto não era, necessariamente, resultado de uma escolha política autônoma, mas podia estar condicionado por relações de dependência econômica e social.

A importância da interpretação de Leal reside no fato de ele demonstrar que o coronelismo não foi um resíduo arcaico em uma sociedade que caminhava rumo à modernidade, mas era, paradoxalm 2ente, uma forma de articulação entre instituições modernas — eleições, partidos e representação política — e estruturas sociais tradicionais baseadas na dependência e na autoridade pessoal. É essa característica que nos permite compreender sua permanência simbólica e institucional.

O coronelismo da Primeira República desapareceu como sistema político específico, mas algumas das relações sociais e políticas que o sustentavam não desapareceram com ele. Elas se transformaram. O “coronel contemporâneo” já não precisa ser um grande proprietário rural, possuir uma patente honorífica ou mesmo comandar homens armados.

Ele pode ser um prefeito, um deputado, um empresário, um dirigente partidário — ou qualquer indivíduo que consiga controlar recursos, cargos, contratos ou oportunidades e, a partir disso, estabelecer relações de dependência política. O velho coronel distribuía empregos, favores e proteção; o novo pode controlar nomeações, cargos comissionados, contratos, programas públicos e estruturas administrativas.

O antigo cabo eleitoral percorria ruas e propriedades; o atual mobiliza redes sociais e grupos de mensagens. A linguagem mudou, as instituições mudaram, os mecanismos tecnológicos mudaram, mas a lógica da dependência não desapareceu.

E é aí que o episódio de Campestre do Maranhão merece nossa análise. Caso se confirme que servidoras/servidores tenham sofrido ameaças de perda de seus empregos em razão de suas escolhas políticas, não estaremos diante de uma simples disputa eleitoral, ou mesmo de um comportamento inadequado de um administrador. Estaremos diante de uma prática incompatível com a própria ideia republicana de administração pública.

Porque o emprego público não pode ser convertido em instrumento de recompensa por lealdade política, porque as convicções políticas de quem serve não coincidem com as de quem governa/administra. O cargo público não constitui patrimônio particular de quem ocupa temporariamente o lugar de gestão.

Essa questão nos aproxima do conceito de patrimonialismo, brilhantemente discutido no livro Os donos do poder, do historiador Raymundo Faoro, que desenvolveu uma interpretação histórica segundo a qual a formação política brasileira foi marcada pela constituição de um estamento político capaz de apropriar-se do aparelho estatal e utilizá-lo para a reprodução de seu próprio poder.

No sentido proposto por Faoro, o patrimonialismo não deve ser confundido com corrupção, mas com um fenômeno mais profundo, qual seja, uma ausência de separação rigorosa entre aquilo que pertence à esfera pública e aquilo que pertence aos interesses privados dos indivíduos ou grupos que controlam o Estado. De acordo com o historiador, na ordem patrimonial, o cargo público pode ser percebido como extensão da autoridade pessoal; o recurso público, como instrumento de distribuição de favores; e a administração, como espaço de reprodução de alianças.

<><> Formação histórica marcada por relações de opressão

Essa característica ajuda a explicar uma das mais persistentes ambiguidades da cultura política brasileira, que é a tendência de transformar direitos em favores. Quando uma pessoa precisa recorrer a uma autoridade política para obter aquilo que deveria receber como consequência de um direito, a relação republicana se deteriora, pois quem governa/gere passa a aparecer como pessoa “benfeitora”, quando deveria ser, somente, gestora de recursos e políticas que pertencem à coletividade. Porque o favor gera gratidão; a gratidão produz dependência; a dependência favorece a lealdade política.

Por isso, não devemos interpretar o patrimonialismo unicamente como um problema das pequenas cidades do interior, ou mesmo como uma característica de determinadas regiões. Essa forma de enxergar e se comportar em relação ao público atravessa diferentes setores da sociedade brasileira. E manifesta-se sempre que relações pessoais substituem critérios institucionais. Quem ainda não presenciou/vivenciou uma situação na qual um agente político usou do cargo para beneficiar amizades, parentes? Quem não conhece uma história de nepotismo no serviço público? Quem não presenciou veículos oficiais serem utilizados a serviço de questões pessoais?

Essa mesma lógica pode aparecer em uma prefeitura, em uma universidade, em uma empresa, em um partido político, em uma organização profissional ou em qualquer espaço no qual o poder institucional seja confundido com poder pessoal.

Na cultura brasileira, infelizmente, é uma prática muito habitual, inclusive naturalizada por muitas pessoas.

Sérgio Buarque de Holanda, em Raízes do Brasil, também nos ajuda a compreender esse fenômeno. Ao analisar a formação histórica da sociedade brasileira, o autor chamou atenção para a força das relações pessoais e afetivas na organização da vida social e política.

A ideia do “homem cordial”, desenvolvida por Holanda, não significa que o brasileiro seja simplesmente afetuoso ou gentil, mas que determinadas relações pessoais tendem, historicamente, a invadir espaços que deveriam ser regidos por normas impessoais.

É importante ressaltar que o problema não é a existência de relações pessoais — inevitáveis em qualquer sociedade —, mas sua transformação em critério para o funcionamento das instituições. É importante, também, que evitemos uma interpretação determinista. Não existe uma suposta “natureza brasileira” condenada ao patrimonialismo.

O que existe é uma formação histórica marcada por escravidão, por concentração fundiária, por profundas desigualdades sociais, por fragilidade institucional em determinados períodos, por personalismo político e por relações de dependência que deixaram marcas profundas em nosso modus vivendi.

Mas o mais importante de salientar é que a cultura política é histórica e, por isso mesmo, pode ser transformada. A consolidação de instituições republicanas, a profissionalização do serviço público, a expansão dos mecanismos de controle, a transparência e a participação precisam se constituir em mecanismos importantes de resistência a essas práticas que sobrepõem o direito ao poder.

A existência de eleições livres não impede, automaticamente, que uma pessoa seja pressionada a votar de determinada maneira. A existência de concursos públicos não impede que cargos de confiança sejam utilizados como moeda política. A existência de órgãos de controle não impede que autoridades tentem transformar a máquina pública em extensão de seus interesses. A democracia burguesa formal, portanto, não garante, por si mesma, uma cultura política democrática.

<><> Cultura do favor ou cultura do direito?

Uma/servidora/servidor que teme perder o emprego por não apoiar determinado grupo político não se encontra na mesma condição de autonomia que aquela/aquele que pode escolher sem receio de retaliações. A liberdade política, infelizmente, não é somente uma questão de ausência de violência física; ela também pressupõe a ausência de mecanismos de dependência que transformem direitos econômicos e sociais em instrumentos de coerção política. E é por isso que práticas como a denunciada no Maranhão devem ser discutidas para além da disputa entre grupos partidários.

Em uma República (ao menos teoricamente), a alternância no poder significa justamente que quem governa hoje poderá ser oposição amanhã; e que os recursos e as instituições públicas precisam permanecer submetidos a regras que independam de quem ocupa o cargo. Quando a prefeitura, por exemplo, é tratada como patrimônio de um grupo, a alternância eleitoral deixa de produzir mudança institucional, pois muda-se a/o ocupante do poder, mas permanece a lógica de apropriação da máquina pública.

O nosso país avançou desde a sociedade predominantemente rural da Primeira República. E seria um erro histórico afirmar que vivemos sob o mesmo sistema coronelista do passado. Isso, porém, não significa pensar que as práticas de dominação política tenham desaparecido. A questão, portanto, não é afirmar uma continuidade absoluta entre o coronelismo e a política contemporânea. É compreender como antigas lógicas de poder foram transformadas e, em alguns casos, substituídas por mecanismos mais modernos de controle.

Podemos afirmar que o coronelismo desapareceu como estrutura histórica, mas que sobrevive como prática. O mandonismo pode ter abandonado a violência explícita, mas assumiu a forma de dependência econômica. O clientelismo pode ter deixado de ser apresentado como favor pessoal, mas passou a funcionar através da máquina administrativa. E o mesmo ocorre com o patrimonialismo, que se vestiu de legalidade sem abandonar completamente a lógica de apropriação privada do público. É claro que não se trata de uma regra geral. Mas, como vemos com o exemplo do Maranhão, não nos livramos desses vícios.

Esse caso de Campestre do Maranhão tem uma relevância que ultrapassa os limites daquele município, porque nos obriga a nos perguntar quanto de República existe efetivamente em nossas relações políticas cotidianas. Nos obriga a perguntar se somos tratadas/tratados como sujeitos de direitos ou como eleitoras/eleitores potencialmente disponíveis para a troca de favores.

Nos obriga, sobretudo, a reconhecer que a construção de uma sociedade baseada nos três princípios que, em tese, deveriam reger a democracia — igualdade perante a lei (isonomia), igualdade no direito de voz (isegoria) e igualdade na possibilidade de participar do poder (isocracia) — não depende, unicamente, de boas leis. Depende, sobretudo, da transformação de uma cultura política profundamente marcada pela personalização do poder.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

A reprimarização do Brasil e a possível virada

A história econômica do Brasil no século XX pode ser lida como a tentativa de transformar o agrarismo primário-exportador em sociedade urbana, industrial e tecnologicamente autônoma. Entre os anos de 1930 e 1980, o país construiu uma das estruturas produtivas mais complexas do mundo periférico, apesar de desigualdades persistentes.

A indústria de transformação, a expansão das cidades, o emprego formal, a engenharia nacional, as empresas estatais estratégicas e a organização sindical formaram a base material de uma sociedade salarial em consolidação. O Brasil não era apenas exportador de café, minério ou produtos agrícolas, participando da divisão internacional do trabalho também como exportador de manufaturas ao mundo.

A inflexão histórica começou no final dos anos 1970. A elevação abrupta das taxas de juros nos Estados Unidos, sob a política de Paul Volcker, presidente do Banco Central, transformou a dívida externa brasileira em uma armadilha financeira. O país passou da lógica da transformação estrutural para a lógica da gestão de emergências para a sobrevivência macroeconômica. A prioridade deixou de ser o investimento na ampliação da complexidade produtiva, para assumir cada vez mais a geração de superávits comerciais externos para pagar juros e amortizações do endividamento. Os anos de 1980 não foram apenas uma década perdida em termos de crescimento econômico, mas o período histórico em que o Brasil perdeu a continuidade de seu projeto de complexificação produtiva.

Naquele contexto, a política nacional de informática havia adquirido significado estratégico, pois expressava a tentativa de construir capacidade tecnológica própria em um setor que se tornaria central na economia do conhecimento. As pressões internacionais contra essa estratégia nacional revelaram que a disputa tecnológica não seria neutra. Países centrais defenderam a abertura quando já haviam consolidados suas vantagens competitivas ao passo que países periféricos como o Brasil enfrentavam enormes dificuldades quando tentam construir as suas, ademais dos obstáculos como os colocados pelos EUA nos anos de 1980.

A partir dos anos de 1990, a abertura comercial e financeira ocorreu sem uma política industrial de mesma intensidade. A valorização cambial recorrente, os juros elevados, a financeirização e a redução do investimento público enfraqueceram segmentos industriais intensivos em tecnologia e engenharia. O resultado terminou sendo uma desarticulação progressiva das cadeias produtivas nacionais com o aumento do conteúdo importado da produção e a perda de densidade da indústria de transformação.

O Brasil deixou de ampliar a sua presença como exportador de manufaturas e passou a depender crescentemente de produtos da natureza como a soja, milho, carne, minério de ferro, petróleo, celulose e outras commodities. O dinamismo externo passou a ser puxado por atividades baseadas em recursos naturais, muitas delas altamente eficientes, mas com menor capacidade de irradiar inovação tecnológica para o conjunto da economia. Consolidou-se, assim, uma estrutura produtiva mais especializada e menos complexa, com baixa produtividade agregada e empregos de menor remuneração.

Essa transformação alterou profundamente a posição do país na divisão internacional do trabalho. Enquanto economias asiáticas combinaram integração internacional com elevação do conteúdo tecnológico, o Brasil experimentou uma inserção externa mais subordinada, marcada pela exportação de bens primários e pela importação crescente de máquinas, equipamentos, componentes eletrônicos, semicondutores, softwares e tecnologias estratégicas. A dependência deixou de ser apenas comercial, tornando-se tecnológica, financeira e informacional.

A regressão não significa retorno ao passado agrário. O Brasil continua sendo uma economia urbana, com importante setor de serviços e ilhas de excelência industrial e científica. O ponto central é outro, pois relacionado à parte da capacidade de coordenar uma estrutura produtiva complexa, integrada e articulada. A indústria deixou de exercer o papel de eixo organizador do desenvolvimento nacional.

As consequências sociais foram profundas. A sociedade salarial, no sentido referido por Robert Castel em As metamorfoses da questão social: uma crônica do salário, depende de empregos relativamente estáveis, proteção social e negociação coletiva. A grande fábrica urbana, que organizava identidades coletivas, carreiras e formas de representação política, perdeu centralidade. A substituição de empregos industriais por ocupações mais precárias, terceirizadas, informais ou de baixa produtividade enfraqueceu a base material da organização sindical e da representação laboral.

O trabalhador da era industrial concentrava-se em espaços comuns e compartilhava ritmos de produção. O trabalhador da era digital e da fragmentação produtiva frequentemente atua de forma dispersa, intermitente ou plataformizada. A passagem da máquina ao algoritmo não significou automaticamente emancipação tecnológica, em muitos casos, significou individualização do risco e dificuldade de organização coletiva.

A verdadeira questão do século XXI supera a escolha entre a indústria e a natureza para se situar em torno da reconstrução da economia capaz de combinar recursos naturais abundantes com conhecimento, tecnologia e serviços avançados. Países líderes da transição energética, da bioeconomia e da economia digital não abandonaram suas vantagens naturais, pois as transformaram em plataformas de inovação.

O Brasil possui condições excepcionais para isso. Poucos países reúnem simultaneamente grande mercado interno, base científica diversificada, matriz energética relativamente limpa, biodiversidade, capacidade agroindustrial, sistema financeiro sofisticado e experiência industrial acumulada. A emergência climática, longe de representar apenas um risco, abre oportunidades em energias renováveis, hidrogênio verde, biocombustíveis avançados, química de base biológica, economia circular, monitoramento ambiental e infraestrutura resiliente.

Nesse contexto, a antiga ideia de complexidade produtiva precisa ser atualizada. No século XX, ela estava associada principalmente à grande indústria integrada, enquanto no século XXI, a complexidade avançou para a capacidade de articular manufatura avançada, serviços intensivos em conhecimento, inteligência artificial, dados, biotecnologia e sustentabilidade. A nova fronteira tecnológica tem sido menos vertical e mais conectada em redes.

Essa transformação também exige repensar a sociedade do trabalho. O enfraquecimento relativo do emprego industrial tradicional não significa necessariamente o fim da proteção social ou da representação coletiva. Significa que novas formas de trabalho como as digitais, criativas, científicas, tecnológicas, de cuidado e ambientais precisam ser incorporadas a um novo pacto de cidadania econômica. O desafio está em ampliar a qualificação, a proteção e a capacidade de organização em um mercado de trabalho mais heterogêneo.

O Brasil já demonstra sinais do curso dessa transição. O crescimento de setores ligados à tecnologia da informação, serviços empresariais, pesquisa aplicada, economia criativa, fintechs, saúde, educação e soluções ambientais revela que a economia brasileira não está apenas se simplificando, pois está se reorganizando. O risco existe sempre quando esses setores permanecem desconectados de uma estratégia nacional de desenvolvimento.

Por isso, o debate sobre desindustrialização deve avançar mais para o salto inteligente da industrialização. Não se trata de reproduzir o modelo dos anos 1970, mas o de ampliar a construção de capacidades em semicondutores, equipamentos para energia renovável, fármacos, defesa, agricultura de precisão, infraestrutura digital, computação em nuvem, inteligência artificial e bioindústria. O objetivo não está em fechar a economia, e sim aumentar sua capacidade de gerar tecnologia, produtividade e empregos qualificados.

A experiência histórica brasileira mostra que períodos de maior dinamismo ocorreram quando o país conseguiu articular Estado, empresas, ciência e sociedade em torno de um projeto de transformação produtiva. Essa lição continua atual. Em um mundo marcado pela disputa tecnológica, pela reorganização das cadeias globais e pela transição ecológica, o Brasil pode ocupar posição mais relevante do que ocupou nas últimas décadas.

O futuro brasileiro não precisa ser o de uma economia baseada apenas em produtos da natureza e mão de obra barata. A abundância de recursos naturais pode se tornar a base de uma nova economia do conhecimento tropical, capaz de combinar sustentabilidade, inovação e inclusão social. O país já demonstrou, em diferentes momentos de sua história, capacidade de construir instituições, ampliar mercados, formar competências e realizar transformações estruturais.

A grande oportunidade do nosso tempo é transformar a herança da industrialização do século XX e as vantagens naturais do século XXI em uma nova etapa de desenvolvimento. Não se trata de retornar ao passado e sim avançar para uma economia mais complexa, mais verde, mais digital e mais integrada ao conhecimento. O Brasil está diante da oportunidade inédita de reinventar o seu projeto nacional.

 

Fonte: Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras

 

Depressão funcional: quando a rotina esconde o sofrimento emocional

Acordar cedo, ir para o trabalho, depois à academia e ainda manter as redes sociais atualizadas. A rotina que estampa o manual do sucesso contemporâneo muitas vezes esconde uma realidade preocupante: o adoecimento mental mascarado pela eficiência. Mais do que isso, a vida de muitos regida no piloto automático. Não há prazer, tampouco alegria. São os dias passando em um enorme atropelo. Conhecida como depressão funcional, essa condição descreve indivíduos que, mesmo diagnosticados com sofrimento psíquico severo, continuam cumprindo obrigações sociais e profissionais. 

Esse fenômeno mais recente desafia o estereótipo clássico da depressão, que vira e mexe está sempre associado a um tipo de tristeza que mal permite levantar da cama. Além disso, faz uma pergunta importante sobre o tema: qual o limite de uma cultura que glamouriza o esgotamento? E embora não conste como um diagnóstico formal no DSM-5 (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), a expressão ganhou força nos consultórios para categorizar quem opera no chamado modo automático. 

"Na prática clínica, observamos pacientes que mantêm uma rotina de alta performance enquanto vivem um sofrimento silencioso, muitas vezes marcado por vazio emocional, exaustão e desconexão afetiva", explica Juliana Gebrim, psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (IPAF). Segundo a especialista, a dinâmica se torna um estado de sobrevivência psíquica. "Diferentemente da imagem clássica da depressão, aqui o sofrimento fica mascarado pela funcionalidade", aponta.

O termo "depressão funcional", vem sendo usado para descrever pessoas que continuam funcionando social e profissionalmente, mesmo vivendo sintomas depressivos importantes. E isso quebra, na visão de Juliana, um imaginário muito comum sobre a depressão, já que muitos acreditam que alguém deprimido necessariamente não consegue manter compromissos. "Mas, na prática clínica, existem pacientes que continuam produzindo, entregando resultados, cuidando da família e mantendo uma aparência de normalidade enquanto estão emocionalmente adoecidos."

De certa forma, a funcionalidade não elimina o sofrimento psíquico. Muito pelo contrário, pois apesar de muitos sintomas serem invisíveis, isso não significa que eles não estejam lá. Os sinais costumam ser sutis no início. Irritabilidade constante, perda de prazer nas atividades, sensação de vazio, dificuldade de concentração, lapsos de memória, alterações no sono, cansaço persistente e sensação de estar vivendo por viver, sem nenhum propósito aparente. De acordo com Juliana, o paciente relata que consegue cumprir tarefas, mas perdeu a capacidade de sentir satisfação genuína. É como se o cérebro permanecesse em estado de alerta contínuo, sem conseguir realmente descansar.

<><> A armadura do perfeccionismo

Para a psicóloga, existe um perfil mais vulnerável a desenvolver a depressão funcional. São pessoas exigentes consigo mesmas, perfeccionistas, com alto senso de responsabilidade e dificuldade de reconhecer os próprios limites. "Profissionais submetidos à pressão constante, que associam valor pessoal à produtividade e indivíduos acostumados a sustentar emocionalmente outras pessoas tendem a desenvolver esse padrão. Vejo isso com frequência em concurseiros, executivos, profissionais da saúde e mulheres sobrecarregadas. Muitas desses aprenderam ao longo da vida que demonstrar cansaço é sinal de fraqueza", completa a profissional.

E assim, mesmo diante de tanto esgotamento emocional, esses indivíduos continuam "funcionando". A diretora de marketing Helena Silva (nome fictício), 38 anos, é um dos casos que ilustra esse cenário. Por trás do disfarce da alta produtividade, ela lida com um cansaço que o sono não restaura. Mais do que isso, enxerga, agora, que o trabalho virou uma barreira mecânica para evitar o fracasso.

Mesmo sofrendo internamente, mantém as aparência porque acredita que esse 'modus operandi' é quase um escudo. "Acordo todos os dias com uma sensação de vazio profundo. Contudo, ainda assim, sinto que se parar, temo que esse abismo me engula por completo. As pessoas sempre acham que estou focada, mas na verdade estou exausta. E para piorar, quando saio do trabalho, preciso ser mãe e deixar a casa organizada. Não é fácil, mas a gente faz o que pode", ressalta Helena.

Na visão de Juliana, muitas dessas pessoas acreditam que só para pensar em parar quando tudo estiver resolvido. Ou, também, à medida em que alcançam as metas que elas mesmas estabelecem. Profissão, amor, família e atividade física. Não é mais sobre conseguir, mas sobre mostrar que conseguiu." O problema é que esse depois nunca chega", complementa a especialista. 

<><> Dicas para ajudar alguém com depressão funcional 

1) Esteja atento a mudanças, mesmo discretas, no comportamento, ainda que a pessoa continue cumprindo sua rotina normalmente;

2) Pergunte como ela realmente está e demonstre interesse na resposta;

3) Escute sem julgamentos, sem interromper ou tentar minimizar o sofrimento;

4) Evite frases como “isso é falta de força de vontade”, “vai passar” ou “você precisa reagir”;

5) Valide os sentimentos da pessoa, mostrando que o sofrimento dela é real e merece atenção;

6) Ofereça ajuda prática, como acompanhá-lá em consultas, ajudá-la em tarefas ou simplesmente estar presente;

7) Incentive a busca por ajuda profissional de um psicólogo ou psiquiatra, respeitando o tempo e a autonomia da pessoa. O apoio de amigos e familiares é importante, mas não substitui o tratamento médico;

8) Mantenha contato com frequência, mesmo que ela se isole ou responda pouco. Convide-a para caminhar, praticar algum esporte ou para um passeio ao ar livre;

9) Fique atento aos sinais de agravamento, como desesperança intensa, isolamento extremo dos programas coletivos ou falas sobre morte, e procure ajuda imediatamente se necessário;

10) Tenha muita paciência e mantenha seu apoio ao longo do tempo que for necessário. A recuperação é gradual, e saber que não está sozinha faz toda a diferença para quem enfrenta a depressão;

Sempre é bom lembrar que a depressão funcional não impede a pessoa de cumprir tarefas; ela faz com que cada tarefa custe um enorme esforço emocional. Quem parece forte também pode estar pedindo ajuda em silêncio. Por isso, estar atento (a) aos sinais e acolher sem julgar pode ser o primeiro passo para salvar a vida de alguém especial para você.

Fonte: psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (IPAF) Juliana Gebrim

<><> Quando o corpo fala

Em outros casos, o disfarce assume a forma de extroversão. Afinal, quem não tem aquele amigo que parece alérgico à tristeza? No fim, ele pode ser apenas alguém que enfrenta uma dor silenciosa. Bryan Santos, designer gráfico, 26, é conhecido por ser o coração da galera, usa o humor para camuflar uma solidão crônica e a síndrome do impostor. "Quando os meus amigos vão embora, e a porta de casa se fecha, eu me sinto muito triste comigo mesmo. Tento não mostrar porque tenho medo de as pessoas não entenderem", relata.

Sociável, engraçado e pronto para ouvir os problemas daqueles que o buscam. Ainda assim, Bryan conta que sente uma tristeza difícil de descrever, além de se utilizar das respostas automáticas para mentir sobre como realmente passa os dias. "Eu me vejo em uma desconexão profunda com as pessoas ao meu redor, como se estivesse assistindo à minha vida através de uma tela ou algo do tipo", desabafa. Para piorar, ele também lida com a tristeza que grita no corpo.

Quando se sente ansioso, Bryan aparece com manchas vermelhas nos braços e no pescoço. "Vou começar a ir ao psicólogo porque, de um tempo para cá, essa situação tem me preocupado muito", destaca o designer gráfico. A psicóloga Andréia Batista explica que as manifestações físicas mais comuns nesses casos incluem fadiga extrema, dores musculares, tensão cervical, dores de cabeça, alterações gastrointestinais, distúrbios do sono, queda de imunidade, taquicardia, sensação constante de exaustão e dificuldade de recuperação física.

"Existe, sim, uma explicação neurobiológica importante. Estados prolongados de estresse e sofrimento emocional aumentam a liberação de cortisol e outros mediadores ligados ao sistema de alerta do organismo. Quando esse sistema permanece ativado por muito tempo, o corpo começa a pagar um preço fisiológico. O organismo deixa de operar em equilíbrio e entra em desgaste contínuo. Por isso, hoje, já sabemos, cientificamente, que o sofrimento emocional crônico também impacta diretamente o corpo físico", detalha a especialista.

<><> A cultura da performance

O diagnóstico precoce da depressão funcional esbarra diretamente em fatores culturais. A validação social de jornadas de trabalho exaustivas e a cobrança por resultados constantes, impulsionada pelas redes sociais, criam um ambiente propício para a negação do cansaço. "Muitos interpretam esses sinais apenas como excesso de trabalho, cansaço ou fase ruim. E isso é reforçado por uma sociedade que normaliza exaustão como sinônimo de sucesso", complementa Andreia.

O problema é que o corpo, geralmente, começa a falar antes do colapso emocional consciente acontecer. E quando aparece, voltar atrás fica ainda mais difícil. "O corpo muitas vezes denuncia aquilo que a mente tentou silenciar por tempo demais", acrescenta a psicóloga. Hoje, a cultura da performance e da produtividade mascara os sintomas e cala os que pensam em parar. Ir à academia é necessário, não demonstrar fraqueza é fundamental e negligenciar as próprias dores é o jeito certo de fazê-las sumir. 

Nesse cenário, indivíduos adoecidos emocionalmente aprendem a ignorar limites porque sentem que interromper essa trajetória seria fracassar. "A sociedade costuma elogiar quem continua funcionando apesar do sofrimento, mas raramente pergunta qual é o custo emocional dessa sobrevivência permanente. Talvez uma das questões mais preocupantes da atualidade seja justamente essa: estamos identificando produtividade com saúde emocional, quando muitas vezes são coisas completamente diferentes", enfatiza Andreia.

Com isso, a normalização da exaustão como sinônimo de sucesso faz com que períodos de descanso sejam acompanhados por sentimentos de culpa. O ponto de virada e o limite do organismo costumam ocorrer quando os mecanismos de compensação falham, resultando em crises de choro, dores agudas sem causa clínica ou episódios de colapso emocional. "O corpo sempre cobra aquilo que a mente tenta ignorar. Quanto mais evitamos olhar para as emoções, mais elas encontram caminhos físicos para aparecer. Em muitos casos, a dor física é justamente o momento em que o emocional deixa de conseguir se manter mascarado", conclui a psicóloga Juliana Gebrim.

<><> Não é normal

Para Flávio Alves (nome fictício), 45, é difícil ter que aguentar tudo. Pai de dois filhos e professor de matemática, mal vê sentido nos dias que anda vivendo. Pilar de casa, é aquele que é obrigado a suportar as tempestades familiares, mas que mal consegue desabafar quando é preciso. "Não sinto aquela tristeza aguda ou tenho crises de choro, é só uma apatia constante e anestesiante", comenta.

A vida perdeu um pouco da cor que costumava ter, e os hobbies de antes, como tocar violão, foram abandonados por falta de energia vital. Nos deveres da rotina, ele continua dando conta, até porque a sobrevivência emocional e financeira do lar depende dele. E mesmo com tantos sentimentos acumulados, é resistente quanto a procurar ajuda profissional. "Acredito que esse é o peso normal de ser adulto", afirma. 

Para Juliana Gebrim, sorrir socialmente, trabalhar normalmente e manter a rotina é o que muitos fazem ao terem medo de falar sobre o que sentem. No fim, o que sobra é apatia, culpa e falta de sentido na própria existência. "Essas pessoas frequentemente minimizam o próprio sofrimento porque imaginam que esse momento vai passar. E isso pode atrasar muito a busca por suporte."

<><> Para ajudar a suportar 

Na ficção, esse abismo invisível ganha contornos viscerais em produções como Bojack Horseman, em que o protagonista mascara uma dor crônica com cinismo e autossabotagem, e na aclamada série Fleabag, cuja personagem principal usa o humor ácido e a quebra da quarta parede para desviar o olhar do espectador de seu luto e solidão. No cinema, filmes como Melancolia, de Lars von Trier, e As Horas, de Stephen Daldry, ilustram como o peso da depressão pode coexistir com as demandas da rotina e as interações sociais do dia a dia, mostrando que a incapacidade de chorar ou de parar as próprias atividades não significa a ausência de um sofrimento profundo.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

'Nuvens' e abstenção vão decidir a eleição

Esta coluna sempre lembra a velha máxima do ex-governador de Minas Gerais, José de Magalhães Pinto, também conhecido por ter fundado o Banco Nacional, de que “política é como nuvem; a cada hora está de um jeito”. Também já chamei a atenção para o nível da abstenção como fator decisivo na eleição de outubro. Sobretudo quando o índice de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest era de 51% na semana anterior.

A 43 dias do primeiro turno (4 de outubro) e a 64 dias do segundo turno (25 de outubro), se houver, a pesquisa DataFolha, divulgada sexta-feira, mostrou o quadro ainda embaralhado. Mas, tanto a pesquisa Quaest quanto a da Datafolha não tinham nas perguntas aos eleitores contatados um fato importante que pode ter influência fundamental nesta reta final do calendário eleitoral.

Falo da conversa de 1 hora e 20 minutos entre o presidente Lula e o presidente Trump, na manhã desta sexta-feira, 21 de agosto, que reabriu o diálogo entre os dois países sobre o último tarifaço (25% + 12,50%), aplicado há duas semanas. A reabertura das negociações, após Lula reiterar ao presidente americano que as alegações para o tarifaço imposto pelo USTR (o escritório de comércio dos Estados Unidos) são "infundadas”, veio por determinação de Trump.

No meio da tarde, o representante de comércio dos EUA, embaixador Jamieson Greer, ligou para o seu homólogo no governo Lula, o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Fernando Dias Rosa, convidando-o para uma reunião de trabalho para acerto de arestas no começo da próxima semana, em Washington. É mais uma mudança de nuvens no cenário externo e nas relações entre os governos Lula e Trump.

As nuvens estavam pesadas e fechadas, o que beneficiava Flávio Bolsonaro, que comemorou o tarifaço contra o Brasil em 2025 (derrubado pela Suprema Corte dos EUA, em fevereiro). Embora tenha plantado com o irmão Eduardo uma série de versões, que Lula disse a Trump serem "infundadas”, Flávio, para evitar o desgaste, disse que a culpa do “tariflávio”, como é citado nas redes sociais, “é de Lula”, por não ter negociado com Trump.

<><> O ‘ganha-ganha’ das conversas

Pois Lula está negociando com Trump. Talvez, com nova ajuda de Joesley Batista, do grupo Friboi, que obteve a suspensão, por 90 dias, das tarifas para a importação de até 300 toneladas de carne moída. A carne moída é essencial ao hambúrguer, e o fim da tarifa ajuda a segurar a inflação. E Trump percebeu que a inflação alta, gerada pela guerra do Golfo, que fugiu ao controle, prejudica os republicanos nas eleições de renovação parcial do Congresso em novembro.

É considerável o prejuízo dos tarifaços elogiados pelo clã Bolsonaro. Estudo do Bradesco apontou que as exportações para os Estados Unidos encolheram US$ 6,9 bilhões no ano passado. O estrago só não foi maior, em faturamento e empregos nas cadeias produtivas, porque o governo Lula fez enorme esforço de conquista de novos mercados, conseguindo exportar US$ 2,7 bilhões para terceiros países, reduzindo as perdas líquidas a US$ 4,2 bilhões. Conversando, os dois lados vão encontrar um “ganha-ganha”, como sempre sustentou o vice Geraldo Alkimin.

Há muitas questões de interesse mútuo dos dois maiores e antigos parceiros das Américas, e a moeda a ser preservada, além da soberania brasileira, é a democracia.

<><> Pesquisas não medem abstenção

Pesquisas eleitorais alegam ter margem de acerto de 95%. Mas, carecem de um fator fundamental em qualquer votação: não têm como estimar a taxa de abstenção. Na última eleição, de 2022, que estava mais polarizada que este ano, 20,9% dos eleitores (mais de 32 milhões de votantes) não compareceram às zonas de votação no primeiro turno. No segundo, foi um pouquinho menor: 20,59%.

Se tivemos 51% de indecisos na pesquisa espontânea da Quaest, quando é o pesquisado que indica sua preferência, sem ajuda de cartelas, e a última Datafolha indicou Lula com 39% contra 33% de Flávio no primeiro turno (brancos e nulos eram 6%, e 4% não sabiam em quem votar), e o placar de 47% a 43% para Lula no segundo turno (brancos e nulo aumentaram para 9% e 2% não sabiam), o segredo da vitória estará, certamente, vinculado à distribuição da abstenção entre os dois candidatos líderes das pesquisas.

Na eleição de 2022, à parte toda a retórica para desgastar a credibilidade do voto eletrônico, pois estava atrás de Lula nas pesquisas (desta vez o Tribunal Superior Eleitoral é presidido por Nunes Marques, ministro indicado para o Supremo Tribunal Federal por Jair Bolsonaro), o então presidente da República articulou com a Polícia Rodoviária Federal dificultar a chegada dos eleitores do Nordeste (principal força eleitoral de Lula) às zonas de votação, com “blitz” nas rodovias federais contra ônibus transportando votantes. Nas grandes cidades foi visível a redução dos ônibus em circulação por parte dos donos de frotas.

Assisti sexta-feira, no Hotel Fairmont, em Copacabana, interessante painel organizado pelo LIDE, iniciativa do ex-governador de São Paulo, João Doria Jr, com os diretores da Paraná Pesquisas, Murilo Hidalgo, e o diretor da Atlas Intel, Andrei Roman. Os dois institutos concorrem com a Quaest e o Datafolha. A conversa foi feita sobre o cenário anterior à reabertura de diálogo entre Lula e Trump, que claramente beneficia o presidente contra Flávio. Ambos assinalaram um certo desânimo dos eleitores com as duas candidaturas que polarizam o país.

Mas Hidalgo chamou a atenção para fato pouco considerado. Para ele (antes da conversa com Trump), Lula teria mais chance de vencer no primeiro do que no segundo turno. Porque as pesquisas estão indicando, nas campanhas para governador (que ajudam a manter a mobilização dos cabos eleitorais e eleitores no segundo turno), a possibilidade de a fatura ser liquidada em 4 de outubro em São Paulo, Rio de Janeiro e nos principais colégios eleitorais do Nordeste. Isso aumentaria a desmotivação (abstenção) até 25 de outubro, quando será o segundo turno. Em 2022, o eleitor de Lula, que foi “seguro” nas estradas pela PRF, veio com mais disposição ao segundo turno.

De novo, sem considerar o fato novo do diálogo Brasil-EUA, Andrei Roman, da Atlas Intel, citou três temas que estavam favorecendo Flávio Bolsonaro. 1- nuvens negras contra Lula, por denúncias de corrupção de seu filho (daí o PT fazer pressão pela prestação de contas dos R$ 61 milhões tomados pelo senador ao banqueiro Daniel Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro); 2 – criminalidade, que cresceu no Nordeste, com avanço das facções criminosas, o que explicaria a redução dos índices de Lula na região este ano. Roman arrisca dizer que uma chacina ou um assassinato de grande impacto na região poderia alterar o cenário eleitoral; e 3 – economia, o tempo está se encarregando de esvair os impactos de duas importantes medidas no campo econômico: a isenção do Imposto de Renda na fonte para quem ganha até cinco salários-mínimos (R$ 8.105) e o Desenrola. A oposição está aproveitando a quebradeira do varejo, com os altos juros do crediário, para levantar a pauta do ajuste fiscal.

<><> A praga da indexação

Não me canso de mostrar na coluna O Outro Lado da Moeda que a grande causa do crescimento da dívida pública bruta, que chegou a 81% do PIB – considero mais realista falar da dívida pública líquida que está em 67% do PIB, pois o Banco Central carrega diariamente quase R$ 1,5 trilhão em papéis para fazer operações de “open market” - são os juros reais (descontada a inflação) de 10% (agora está em 9,1%!). E desde 2022, o mundo sofre o impacto de duas fortes altas de petróleo e alimentos devidos a guerras (na Ucrânia e Irã).

E o ataque ao ajuste fiscal, que produziria amplo efeito no aumento do PIB e na redução do endividamento de empresas, famílias e governo, com nova queda de dois pontos na taxa Selic (o piso de captação do mercado, que está em 14% ao ano), vem dos economistas do mercado, que ganham mais sem fazer força, quanto maior for a Selic.

Dou 100% de razão ao ministro da Fazenda, Dario Duringan, quando diz que as causas da inflação (no Brasil e no mundo) são a alta do petróleo, causada pela guerra de EUA-Israel contra o Irã, e a especulação com preços dos alimentos, antecipando possíveis impactos do El Niño, no último trimestre. Juro alto não combate isso. Mas, com a praga da indexação (a jabuticaba brasileira que realimenta a inflação com os preços do passado) o mercado ganha motivos para apostar contra o país, impactando as expectativas e os juros.

<><> O telhado de vidro de Zema

Quem ouve o candidato Romeu Zema (Novo-MG), criticando a falta de ajuste fiscal e os juros altos, deveria conhecer um pouco mais o telhado de vidro do ex-governador de Minas Gerais. Em seus sete anos e meio de governo, deu o calote da dívida em cima do governo federal e não fez o ajuste fiscal (gastou usando a folga do calote).

Piores são as críticas ao nível dos juros no país. Levantamento do Banco Central junto a 78 instituições financeiras sobre os juros praticados no crédito pessoal não consignado, entre 3 e 8 de agosto, mostrou a Zema Financeira com a décima maior taxa de juros do país: 321,68% ao ano, ou 12,74% ao mês. O piso de captação do país está em 14% ao ano e a inflação atingiu 4,44% nos 12 meses terminados em julho. A maior taxa era da financeira Valor, com 746,41% ao ano!

A Zema Financeira é presidida por Romero Zema, irmão do ex-governador que é sócio da empresa. Nessas horas, sinto falta do ex-governador Leonel Brizola para exclamar: “Mas que cara de pau, hein!?”

¨      Não há economia que resista…Por Nuno Vasconcellos

Qualquer pessoa sensata, que reflita sobre as medidas mais urgentes que terão de ser tomadas pelo próximo presidente da República — independentemente de quem vier a ser eleito em outubro —, não terá dificuldades para fazer a lista de prioridades. Em primeiro lugar, será preciso resolver a situação fiscal. Em segundo lugar, será importante resolver a situação fiscal. Em terceiro, será obrigatório, e com a máxima urgência, resolver a situação fiscal.

Isso mesmo! Embora a pauta de necessidades seja extensa e inclua temas sensíveis — como a segurança pública, o retrocesso diplomático e o desarranjo institucional —, nenhuma ação do novo governo será eficaz se a realidade não for encarada. E a realidade é que a situação fiscal se deteriorou a tal ponto que transformou o Brasil em um ambiente hostil para a atividade econômica.

A voracidade de um Estado que arranca do cidadão tudo o que consegue e gasta sem saber se terá dinheiro para honrar os compromissos é a causa primária dos males nacionais. Contas públicas desajustadas, como consta dos manuais que Brasília insiste em ignorar, pressionam a inflação e mantêm os juros nas alturas. A necessidade permanente de cobrir o déficit público (que deveria ser combatido com cortes nas despesas federais) serve de desculpa para a cobrança de impostos escorchantes. A soma de tudo fez do Brasil um ambiente hostil a quem quer empreender. Esta é a verdade.

>>>> SINAL DOS TEMPOS

Um exemplo dramático dessa realidade foi exposto na semana passada. Pressionada por um endividamento de R$ 17,3 bilhões, a Casas Bahia se tornou mais uma entre as quase oito mil empresas brasileiras que, neste momento, se encontram em Recuperação Judicial — a maior quantidade da história.

O que torna o caso emblemático é a trajetória da Casas Bahia. Criada em 1952, a empresa nasceu e cresceu sob um modelo de negócios baseado na decisão de vender fiado. Ao abrir a primeira loja, no município de Santo André, no ABC Paulista, o imigrante polonês Samuel Klein — sobrevivente do holocausto — cometeu a ousadia de oferecer crédito aos trabalhadores que chegavam em busca de emprego nas indústrias que se instalavam em São Paulo. O nome Casas Bahia, por sinal, é uma homenagem à origem dos primeiros fregueses.

Em 74 anos de história, o carnê da Casas Bahia ofereceu a milhões e milhões de brasileiros de renda modesta a possibilidade de mobiliar a casa. Ninguém fazia contas para saber a taxa de juros do crediário. O importante era que a prestação “cabia no bolso” e era a única forma do trabalhador ter sua geladeira ou sua televisão. A inadimplência era baixíssima.

Deu certo? Ora, se deu!... A nacional moeda mudou sete vezes e perdeu 15 zeros desde a fundação da empresa. O Brasil enfrentou crise atrás de crise, mas a Casas Bahia resistiu às intempéries e cresceu. Desta vez, ela não conseguiu! Atenção! O pedido de Recuperação Judicial de uma empresa que tem a capacidade de superar crises impregnada no DNA, como é o caso da Casas Bahia, ao invés de um problema de gestão, revela que ela está operando num ambiente insalubre.

CONDENADAS AO CADAFALSO

O Brasil tem hoje uma legião de 84 milhões de inadimplentes — e os devedores da Casas Bahia estão entre eles. Pressionados pelo aumento dos preços dos alimentos e dos serviços, muitos clientes viram minguar o dinheiro de que dispunham para manter as contas em dia. Como não recebeu o dinheiro dos carnês, a rede varejista também ficou sem recursos para se acertar com os credores.

Antes de recorrer à Justiça, a empresa, é claro, foi atrás dos bancos para se financiar. A questão é que, no Brasil, pedir socorro à banca muitas vezes equivale a uma sentença de morte. Os juros são obscenos — e o problema, nesse ponto, vai além da taxa Selic. Atualmente, ela está 14% — o que representa uma taxa básica real de mais de 9% ao ano depois de descontada a inflação. É a segunda maior do mundo, atrás apenas da Turquia.

O problema está nos juros reais que o sistema financeiro cobra das empresas. A taxa financiamento de capital de giro oscila entre 20% a 24% ao ano. Se endividar a uma taxa lesiva como essa, com todo respeito, ao invés de resolver, acaba agravando o problema de quem precisa de dinheiro.

Pensa que acabou? Não! A todo instante, surge um novo imposto, uma nova taxa ou uma alíquota mais pesada para saciar o apetite tributário federal. Um levantamento da CNI e da CNC aponta que 22 tributos foram criados ou tiveram as alíquotas majoradas entre os anos de 2023 e 2025.

Nessa situação, não há empresa que resista. Para elas, é até suportável quando o governo aumente impostos quando os juros são razoáveis. Da mesma forma, os juros podem subir se os impostos são sensatos. Exagerar nos dois ao mesmo tempo é que não dá! Isso é o mesmo que empurrar todo o setor produtivo para o cadafalso.

 

Fonte: Por Gilberto Menezes Côrtes, no JB/O Dia