segunda-feira, 16 de março de 2026

Entre a escalada imperialista e a crise política do regime brasileiro

A política externa dos Estados Unidos sob Trump aponta para um endurecimento crescente em relação à América Latina e ao Caribe. O sequestro de Nicolás Maduro teve impacto direto sobre a Venezuela, mas também serviu como recado para toda a região. A mensagem era clara. A ingerência norte-americana iria crescer, em uma atualização da Doutrina Monroe para o século XXI.

Nesse contexto, a tentativa de classificar PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas se apresenta demagogicamente como política de segurança, mas serve para legitimar intervenções políticas e militares dos Estados Unidos na região. A proposta do chamado escudo das Américas aponta na mesma direção, criando um mecanismo permanente de pressão sobre governos não alinhados.

Ninguém menos do que Darren Beattie, conselheiro de Trump, solicitou uma visita a Bolsonaro na prisão, o que foi inicialmente aceito por Moraes. Agora ele voltou atrás, após o Itamaraty entrar em cena e se opor à visita por ela indicar possibilidade de influência externa nas eleições. São sinais da retomada de confrontos mais abertos. Vale lembrar que foi Beattie que chamou Moraes de ’principal arquiteto’ da ’perseguição’ contra o ex-presidente, e o governo Trump decidiu enviar esse emissário para um encontro anunciado. É um recado político de que pretendem manter relações e ajudar a extrema-direita nacional.

A criminosa escalada militar contra o Irã expressa a tentativa de reafirmar uma hegemonia que já não possui a mesma estabilidade de décadas anteriores. O comportamento do próprio Trump diante da disparada do preço do petróleo ilustra esse dilema. Quando o barril ultrapassou a marca de 120 dólares, o presidente norte-americano rapidamente afirmou que a guerra estaria próxima do fim. O objetivo era conter os efeitos inflacionários internacionais e evitar pressões internas que poderiam atingir sua própria base política. Agora, retirou até mesmo os embargos às petrolíferas russas, um sinal de que Teerã vêm conseguindo impor enormes problemas para Trump. A inflação mundial que gerada pela escassez de petróleo inclusive fez Lula adotar medidas emergências, exonerado o diesel e impondo taxações sobre a exportação de petróleo brasileiro, para evitar que isso também possa ter efeitos eleitorais no Brasil.

Diante desse quadro, é cada vez mais urgente a necessidade de construir uma força política e social capaz de enfrentar verdadeiramente a política imperialista e o interesse das grandes maiorias sociais. Iniciativas como a campanha do Sindipetro do Rio de Janeiro exigindo petróleo brasileiro e da Petrobrás para Cuba já expressam a importância de articular uma série de iniciativas concretas para preparar a classe trabalhadora para atuar em uma perspectiva anti-imperialista.

<><> Caso Master escancara a podridão do regime

No plano interno, o escândalo do banco Master e de Daniel Vorcaro revelou uma teia de relações entre o sistema financeiro, o Judiciário e diversos setores do regime político. As investigações apontam conexões com o STF, colocando Alexandre de Moraes no centro da crise, e também com o Banco Central, onde dois ex-homens de Vorcaro chegaram ao alto escalão na gestão Campos Neto. A rede se estende ainda a Ibaneis Rocha, ao BRB, ao grupo de ACM Neto, a fundos de pensão ligados ao governo Cláudio Castro e ao cunhado de Vorcaro, preso e maior doador privado das campanhas de Bolsonaro e Tarcísio.

Apesar dessas conexões múltiplas, a crise tende a atingir com mais força o governo Lula porque o Supremo Tribunal Federal é percebido por grande parte da população como aliado do governo após ter conduzido o processo que levou à prisão de Bolsonaro. O fato de Alexandre de Moraes aparecer no centro das revelações aprofunda essa percepção.

O episódio revela de forma quase literal a velha formulação de Marx segundo a qual o Estado é um balcão de negócios da burguesia. O mais impressionante é que Vorcaro é considerado um banqueiro relativamente pequeno diante da estrutura do sistema financeiro brasileiro. Se um ator desse porte conseguiu construir relações tão amplas dentro do Estado é inevitável imaginar o que fazem os grandes grupos financeiros do país. Basta lembrar que existem cerca de setenta bilionários brasileiros na lista da Forbes com influência econômica gigantesca. Figuras como Jorge Paulo Lemann ou André Esteves acumulam fortunas que crescem de forma vertiginosa enquanto mantêm relações constantes com o poder político.

O desdobramento da crise é incerto e pode escalar, sobretudo se houver a delação de Vorcaro. A condução dos vazamentos pela Polícia Federal também levanta dúvidas sobre os interesses em jogo. Não se pode descartar nem a interferência de interesses imperialistas, dadas as relações históricas da PF com agências norte-americanas, nem a ação de grandes grupos financeiros interessados em conter bancos menores e fintechs. Diante de muitas dúvidas, o fato é que os superpoderes atribuídos ao judiciário estão mostrando seu verdadeiro caráter de classe, sendo um dos pilares de sustentação do capitalismo brasileiro.

<>< As bases do bolsonarismo são alimentadas pela Frente Ampla

Considerando as perspectivas eleitorais, o Brasil vive uma situação política profundamente polarizada que tem razões estruturais. Pesquisas recentes indicam um eventual segundo turno entre Lula e Flávio Bolsonaro com uma diferença muito pequena nas intenções de voto. A eleição de 2022 já havia mostrado como disputas desse tipo podem ser decididas por margens extremamente estreitas, quando o segundo turno se decidiu por uma diferença mínima de 1,8%.

Flávio Bolsonaro procura se apresentar como uma versão mais moderada do bolsonarismo. Trata-se, claro, de pura demagogia eleitoral vindo do representante do reacionário clã Bolsonaro. Mas é muito importante analisar os discursos desses setores para identificarmos quais são seus objetivos e pretensões políticas. Flávio fica tentando se apresentar com posições próprias e destaca “diferenças” pontuais com o pai, como o fato de ter tomado vacina durante a pandemia. O que ele quer é buscar ampliar sua influência sobre setores do eleitorado mais moderado ao mesmo tempo em que mantém o apoio da base bolsonarista mais ideológica.

A questão central, porém, é entender por que o bolsonarismo conserva sua força eleitoral mesmo após a derrota em 2022 e com sua principal figura presa.

A resposta passa pela forma como o país foi governado nos últimos anos. Muitos acreditaram que a prisão de Bolsonaro resolveria automaticamente o problema da extrema direita no Brasil e essa ideia foi defendida e propagada pelo PT. No entanto, a realidade está mostrando algo diferente. O bolsonarismo possui raízes estruturais profundas na sociedade brasileira e faz parte de um fenômeno internacional mais amplo. E o que fez o governo de Frente Ampla foi não apenas manter, mas fortalecer os pilares do bolsonarismo, que se mostra também nos escandalosos casos de feminicídios, além das chacinas e violência policial - como fica evidente com seu governo no estado da Bahia, o estado com maior letalidade policial.

O peso político do agronegócio é um exemplo disso. Estamos falando de uma força econômica, política e ideológica com enorme capacidade de influência. Nas regiões onde esse setor é mais forte, como o interior de São Paulo, o Centro-Oeste e o Sul, candidaturas ligadas ao bolsonarismo mantêm grande presença política. Ao mesmo tempo, o governo Lula aprovou o maior Plano Safra da história com cerca de 516 bilhões de reais destinados ao setor. Para efeito de comparação, todo o orçamento federal da saúde gira em torno de 245 bilhões de reais.

Outro exemplo está na política de financiamento público. O BNDES liberou bilhões para projetos do governo Tarcísio que incluíram privatizações, apoio que o próprio governador agradeceu publicamente. Ao mesmo tempo, partidos como Republicanos, MDB, PP, União Brasil e PSD, todos com forte presença bolsonarista, controlam ministérios e recursos no interior do governo Lula.

Poderíamos ainda citar também a relação com grandes conglomerados dos empresários da fé, o papel dos militares, do judiciário e a macro-política neoliberal que garantem os interesses de grandes grupos capitalistas, a começar pelo religioso pagamento da dívida pública. Tudo isso garantido pelo governo de Lula e da Frente Ampla.

Como diz um dos ditados mais populares, todo mundo colhe o que planta. Fortalecendo sistematicamente todos os pilares do bolsonarismo, e seu enraizamento no regime político, o desaparecimento da extrema-direita estaria mais em função de obra divina do que da realidade concreta. E como a realidade da política não faz milagres…

Há ainda as medidas econômicas, que produzem efeitos de inúmeras ordens. As reformas aprovadas nos governos anteriores de Temer e Bolsonaro foram todas mantidas e a política econômica, essencialmente neoliberal, continuou orientada pela busca do sagrado “equilíbrio fiscal” e pelo atendimento dos interesses do mercado financeiro, sendo o Arcabouço Fiscal seu poderoso guardião.

Não é por acaso que grande parte da população não percebe melhora significativa em sua vida cotidiana. O governo quer se vangloriar que os índices de desemprego estão apresentando índices baixos históricos, mas o que não dizem é que esses empregos são marcados por baixos salários e alta precarização. A superexploração do trabalho permanece como uma característica central marcante da sociedade brasileira, com tendência a aumentar. Com a precarização crescente do trabalho, não surpreende que aumente o número de pessoas que dizem ter piorado de vida. O alto endividamento das famílias confirma isso. Em São Paulo, cerca de 70% estão endividadas.
Esse conjunto de fatores ajuda a explicar por que o cenário eleitoral se torna cada vez mais disputado. As bases sociais que sustentam o bolsonarismo permanecem presentes e em muitos casos continuam fortalecidas. E por outro lado, o grande ativo de Lula na eleição passada, que com ele as pessoas iriam melhorar sua condição de vida, não está sendo sentido por amplos setores sociais.

Ao mesmo tempo, o país também é atravessado por lutas importantes. A mobilização dos povos indígenas do baixo e médio Tapajós contra a privatização dos rios mostrou essa força. Depois de mais de um mês de protestos e ações diretas, o governo revogou o decreto, numa derrota importante para Lula e também para Boulos e Sônia Guajajara, duramente questionados pelos próprios indígenas.

Greves em universidades e institutos federais dos trabalhadores técnico-administrativos, paralisações de trabalhadores da educação e outras mobilizações indicam que o terreno social permanece em movimento. Além dos mais, o enorme fenômeno favorável ao fim da escala 6x1 é um termômetro social que mostra disposição e maiores ambições por setores amplos da classe trabalhadora, e inclusive é por isso que Lula dialoga tanto com essa pauta.

Muitas dessas lutas no entanto enfrentam limites impostos pela atuação das burocracias sindicais e pela falta de articulação política mais ampla, promovida pelas burocracias sindicais que blindam o governo. Essa força social, livre dessas amarras, poderia operar uma grande força social à esquerda na sociedade, criando maiores problemas e dificuldades inclusive para a extrema-direita e sua demagogia eleitoral. No entanto, o PT e sua administração do decadente capitalismo brasileiro, atua para conter e neutralizar qualquer processo de luta que possa ter um impacto nacional maior.

É preciso considerar ainda que as tensões geopolíticas, a crise econômica e as contradições sociais podem produzir abalos importantes, inclusive por meio da irrupção da luta de classes. Nos Estados Unidos, a mobilização de trabalhadores e imigrantes em Mineápolis já impôs dificuldades a Trump e o obrigou a retirar o ICE do estado. Ao mesmo tempo, o fechamento do Estreito de Hormuz e a alta do petróleo ampliam os riscos de inflação e tensão social nos EUA, abrindo fissuras inclusive na base do MAGA.

Diante desse quadro, a conclusão que se impõe é que é necessário a construção de uma saída política dos trabalhadores e das grandes massas populares em enfrentamento com o imperialismo. O escândalo do banco Master expõe de maneira brutal o grau de decomposição do regime político brasileiro. As relações entre banqueiros, setores do Judiciário, do sistema financeiro e da política institucional revelam um funcionamento do Estado profundamente subordinado aos interesses do capital.

<><> Por uma esquerda que enfrente o sistema político e aposte numa saída independente e dos trabalhadores

Diante dessa crise do regime político brasileiro, o que menos se necessita é de uma esquerda integrada a esse mesmo regime e que se apresente como parte de sua engrenagem. O desafio colocado é exatamente o contrário. É preciso uma esquerda disposta a enfrentar esse sistema político marcado pela influência do capital financeiro e pela decomposição institucional.

Nesse contexto ganhou importância o recente debate sobre a proposta de federação entre o PSOL e o PT. Encabeçado por figuras importantes com Guilherme Boulos à frente, ao lado de figuras como Erika Hilton e Sônia Guajajara, estiveram na linha de frente da campanha para que o PSOL aderisse a essa federação. No entanto, na reunião do Diretório Nacional realizada no último final de semana essa posição foi derrotada por ampla maioria. Caso tivesse sido aprovada, a federação teria representado na prática uma quase fusão entre os partidos durante quatro anos, com a obrigação de manter candidaturas comuns para cargos executivos. Isso significaria, por exemplo, o PSOL fazendo campanha para figuras como Eduardo Paes no Rio de Janeiro ou para oligarquias regionais como a família Barbalho no Pará. Em diversas cidades o PT já chegou a se coligar inclusive com o PL nas eleições municipais, o que demonstra até que ponto esse tipo de arranjo poderia levar o PSOL a apoiar ou compor governos com setores profundamente conservadores.

O que permanece em aberto agora é se o processo de integração do PSOL ao regime político, que vem se aprofundando ao longo dos últimos anos, sofrerá algum tipo de inflexão. A legenda ocupa hoje dois ministérios no governo federal, o que representou um salto qualitativo na transformação do PSOL em partido integrante do governo. E foi justamente a ala ligada aos ministros que defendeu a federação e que agora ameaça discutir novos caminhos após a derrota no Diretório Nacional. A nota pública divulgada por esse setor indica inclusive a possibilidade que rompam com o PSOL. Ao mesmo tempo, o voto majoritário contra a federação foi visto como uma forma de resistência dentro do PSOL à completa submissão à Frente Ampla. No entanto, vale dizer, entre setores que se opuseram à federação também estão aqueles que têm uma política muito parecida com a ala de Guilherme Boulos mas que se opõem à federação por motivos mais pragmáticos e eleitorais do que por querer uma política mais independente do PT.

Ao contrário de uma maior submissão ao regime é necessário construir uma força de independência de classe que aponte uma verdadeira saída política para o país. É necessário colocar na ordem do dia a convocação de uma verdadeira Assembleia Constituinte Livre e Soberana. Não uma reforma controlada pelo próprio regime que produziu essa crise, mas uma constituinte imposta pela mobilização social, com representantes eleitos por sufrágio universal e com liberdade para discutir os fundamentos do país. Para que isso se torne possível é fundamental que a classe trabalhadora e os setores oprimidos se afirmem como sujeito político nacional. Isso exige fortalecer as lutas existentes, cercá-las de solidariedade e transformá-las em causas nacionais, como ocorreu na mobilização dos povos indígenas do Tapajós, usando este ponto de apoio para exigir e impor para as direções burocráticas sindicais, que não organizam nenhuma luta, a ruptura com essa política de subordinação ao governo e paralisia. É através da construção concreta de uma correlação de forças favorável às grandes lutas sociais que poderemos impor uma saída política de fundo. Do contrário, é abrir espaço para a extrema-direita se aproveitar de maneira demagógica das crises do regime político para seus interesses próprios.

Isso deve estar articulado com um plano de luta que inclua a revogação de todas as reformas neoliberais, de todas as privatizações, o fim do arcabouço fiscal e o não pagamento da dívida pública. Articulado a isso o controle de todas as riquezas naturais, do petróleo aos minerais raros, que estão na mira do imperialismo. Medidas desse tipo colocariam diante das grandes massas um debate real sobre os limites da democracia burguesa e do regime político atual. A experiência demonstraria que propostas capazes de enfrentar as desigualdades estruturais do país não seriam aceitas pela burguesia, pelos grandes grupos empresariais e pelo imperialismo. É justamente nesse terreno de confronto político e social que pode se abrir espaço para uma alternativa mais profunda. Uma saída que aponte para a construção de um governo dos trabalhadores em ruptura com o capitalismo, baseado em amplos organismos de auto-organização e autodeterminação das massas.

 

Fonte: Por Danilo Paris, em Esquerda Diário

 

Quem é o 'Caranguejo', neto de Raúl Castro que surge como interlocutor de Cuba junto aos EUA

O presidente de Cuba, Miguel Díaz-Canel, informou na sexta-feira (13/3) que seu país e os Estados Unidos iniciaram conversas em meio à grave crise econômica que atravessa a ilha, em um momento de pressão cada vez maior do governo Donald Trump sobre Havana.

O anúncio confirma as recentes informações sobre possíveis contatos entre os dois países, que trouxeram a público uma figura até então pouco conhecida.

Trata-se de Raúl Guillermo Rodríguez Castro, de 41 anos. Conhecido como "Raulito" e El Cangrejo ("O Caranguejo", em espanhol), ele é neto, braço direito e guarda-costas do ex-presidente cubano Raúl Castro, de 94 anos — e sobrinho-neto de Fidel Castro, líder da Revolução Cubana.

"Raulito" não ocupa nenhum cargo no governo Díaz-Canel, mas alguns órgãos de imprensa indicam que ele seria o interlocutor de Cuba em reuniões confidenciais realizadas com assessores do secretário de Estado americano, Marco Rubio. Havana não desmentiu explicitamente esta informação.

Raúl Guillermo Rodríguez Castro aparece sentado atrás de Díaz-Canel, entre funcionários do Partido Comunista, no vídeo do pronunciamento de sexta-feira. O mandatário declarou que o objetivo das conversas é "buscar soluções pela via do diálogo para as diferenças bilaterais que temos entre as duas nações".

Anteriormente, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, afirmou que seu governo está "conversando" com autoridades cubanas e sugeriu a possibilidade de uma "tomada amistosa" do controle da ilha, que, segundo ele, "não tem energia, não tem dinheiro" e enfrenta sérios problemas humanitários.

Os órgãos de imprensa que noticiaram supostos contatos antes da confirmação desta sexta-feira indicaram que um desses encontros teria ocorrido em fevereiro, à margem de uma reunião de líderes caribenhos em São Cristóvão e Névis, onde assessores de Marco Rubio teriam se reunido com o neto do histórico dirigente cubano.

Do lado americano, o congressista republicano Mario Díaz-Balart declarou que o governo dos Estados Unidos conversou com "diversas pessoas do entorno de Raúl Castro", mas que não se tratava de negociações oficiais.

A menção do nome de Raúl Guillermo como interlocutor pela parte cubana colocou em evidência o peso do sobrenome Castro em uma opaca elite política, na qual os equilíbrios internos de poder continuam sendo um mistério.

Mas quem é Raúl Guillermo Rodríguez Castro? E qual é o seu papel na estrutura do regime comunista de Cuba?

<><> O favorito de Raúl Castro

Fidel Castro (1926-2016) concentrou o poder em Cuba por décadas, como líder absoluto do sistema político comunista instaurado após a Revolução Cubana de 1959, que segue em vigor na ilha.

Oito anos antes de morrer, Fidel passou o poder para seu irmão mais novo, Raúl Castro.

"Fidel havia mantido a família bastante afastada", explica à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC, o cientista político e historiador cubano Armando Chaguaceda.

"Fidel era ele e ponto. A família ficava de fora. Mas, com Raúl, os familiares adquiriram maior notoriedade."

Raúl Guillermo Rodríguez Castro, o "Caranguejo", é filho de Déborah Castro Espín, a mais velha dos quatro filhos de Raúl Castro, e do ex-general de divisão Luis Alberto Rodríguez López-Calleja (1960-2022), uma das figuras mais influentes do regime cubano.

Rodríguez López-Calleja dirigia o conglomerado empresarial militar Gaesa, uma holding que controla amplos setores da economia da ilha, do turismo e do comércio varejista até as remessas financeiras e serviços portuários.

Seu filho Raúl Guillermo foi o primeiro neto de Raúl Castro. O ex-presidente manteve com ele uma relação especialmente próxima desde a infância, como revela à BBC seu primo do lado paterno, Carlos Rodríguez Halley, que é três anos mais novo.

"Por ser o primogênito dos netos de Raúl Castro, Raulito sempre foi muito apegado ao avô", ele conta. "Muito novo, quando tinha 11 anos e estava na sexta série, foi morar com ele."

A decisão foi importante dentro da família. Afinal, ela fez com que o jovem crescesse ao lado do então líder cubano e contribuiu para consolidar um vínculo que, com o tempo, facilitaria sua integração ao círculo de poder.

"Nem mesmo seu pai esteve muito presente", segundo o primo. "Seu pai trabalhava muito e, desde que ele era muito jovem, eles apenas se viam."

Raúl Guillermo seguiu uma formação que combinava educação civil e militar.

Ele estudou na escola conhecida como Los Camilitos, uma instituição que prepara os jovens cubanos para carreiras nas forças armadas. Posteriormente, ele cursou contabilidade e finanças na Universidade de Havana.

"Ele foi criado em um ambiente muito específico, sempre rodeado de jovens militares que eram trazidos do campo e doutrinados nas forças armadas", conta Rodríguez Halley. "Estes homens eram o seu entorno."

Ele destaca que, da mesma forma que os outros netos de Raúl Castro, Raúl Guillermo cresceu em entorno privilegiado, com pouco contato com a vida cotidiana de um país atingido por décadas de escassez e deterioração dos serviços públicos.

Seu apelido El Cangrejo surgiu quando ele era criança, dentro da própria família, por ter nascido com polidactilia.

"Ele nasceu com seis dedos", conta o primo. "Foi operado quando era muito pequeno e ficou uma cicatriz que, agora, quase não se nota."

Em termos de personalidade, Rodríguez Halley o descreve como um homem "tímido no seu ambiente mais fechado, mais familiar, mas que também projeta uma imagem pública de extroversão em certos ambientes".

Raúl Alejandro foi casado mais de uma vez e tem duas filhas, segundo fontes próximas.

<><> O guarda-costas

Raúl Castro transferiu a presidência de Cuba para Díaz-Canel em 2018 e se retirou formalmente da primeira linha da política em 2021. Mas muitos analistas consideram que ele mantém intacto seu poder de decisão no aparato político e nas forças armadas.

O cientista político Chaguaceda destaca que, em um sistema fechado como o cubano, a proximidade pessoal com a figura que concentra o poder pode ser um fator decisivo.

"A elite está concentrada em um pequeno grupo de anciãos envelhecidos, militares ou civis, que fazem parte do setor político", explica ele. "E há um componente familiar, que é a família de Raúl Castro."

Por isso, a influência do "Caranguejo" teria origem, mais que em uma trajetória política própria, na mencionada proximidade com seu avô, segundo especialistas e fontes próximas.

Diferentemente do seu pai, um general que se destacou pela sua notável trajetória acadêmica e militar, Raúl Alejandro Rodríguez Castro não foi particularmente brilhante nos estudos nem na sua carreira no exército.

De qualquer forma, sua única ocupação conhecida é a de guarda-costas do próprio Raúl Castro.

"Os militares com quem ele cresceu eram sua referência, a ponto de ele próprio ter decidido que queria ser guarda pessoal do avô", explica seu primo.

Diversas fontes posicionam Raúl Guillermo como alto funcionário do Ministério do Interior de Cuba, com patente de tenente-coronel ou coronel, sempre vinculado à segurança pessoal de Raúl Castro.

Relatos mencionados pelo BBC Monitoring (o serviço de monitoramento da BBC) indicam que seu avô o teria promovido em 2016 a chefe da Direção Geral de Segurança Pessoal, uma unidade chave do aparato de segurança cubano, encarregada de proteger os dirigentes do país.

Desde então, sua presença ao lado do ex-presidente se tornou habitual.

Fotografias e vídeos difundidos pela imprensa estatal cubana mostram frequentemente Raúl Alejandro ao lado do avô em atos oficiais, reuniões ou viagens ao exterior. Ele costuma aparecer vestido com uniforme verde-oliva e óculos escuros.

Em algumas ocasiões, ele é visto um passo atrás de Raúl Castro ou inclinado na sua direção, aparentemente transmitindo informações ou orientando o ex-presidente durante atos públicos.

Este papel o coloca em uma posição singular dentro do sistema político cubano. "Raulito" controla o acesso físico ao histórico ex-dirigente e participa da logística, segurança e organização dos seus deslocamentos.

Da mesma forma que os outros netos do ex-presidente, Raúl Alejandro também desperta atenção devido às informações que o vinculam ao privilegiado estilo de vida da elite governante de Cuba, diferente das dificuldades econômicas enfrentadas pela maioria da população da ilha.

Sua vida social nos últimos anos foi marcada, segundo fontes próximas, pela sua proximidade com a elite esportiva e cultural de Cuba.

"Como qualquer cubano, ele era fanático por beisebol", recorda seu primo.

"Mas, claro, ele não ia ao beisebol, como eu e você, para se sentar e assistir a uma partida. Ele andava com os melhores jogadores."

"No seu primeiro casamento, estavam todos os artistas da [banda] Charanga Habanera; também estavam Alexander e o outro músico do [grupo] Gente de Zona", ele conta, em referência a dois populares grupos musicais cubanos.

A falta de informação sobre Raúl Guillermo é um fato comum quando se tenta analisar o funcionamento interno do poder em Cuba.

"Sempre foi um sistema muito opaco e o que se sabe é pouco mais do que especulação", afirma Armando Chaguaceda.

<><> O diálogo com os Estados Unidos

A aparente participação de Raúl Guillermo Castro nos contatos com Washington também trouxe de volta uma questão mais ampla: quem realmente toma as decisões em Cuba?

Fontes mencionadas pelo jornal americano Miami Herald indicam que os contatos do governo Donald Trump não se limitaram a um único interlocutor, mas sim a "diversas pessoas do entorno de Raúl Castro", incluindo familiares e altos militares.

Neste sentido, o presidente cubano, Díaz-Canel, afirmou na sexta-feira estar à frente dos diálogos por parte de Cuba, ao lado de Raúl Castro e de outros altos funcionários do Partido Comunista e do governo.

Díaz-Canel não detalhou quem faz parte da delegação americana.

O congressista americano Mario Díaz-Balart comparou estes diálogos com os contatos anteriores entre Washington e o governo da Venezuela, antes da captura do presidente Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro.

Segundo as mesmas fontes, não se trataria de negociações formais, mas de intercâmbios sobre possíveis mudanças econômicas e políticas na ilha.

O governo americano aumentou, nos últimos meses, as pressões sobre Cuba, que já atravessava a maior crise econômica e energética das últimas três décadas.

Washington interrompeu o fornecimento de petróleo procedente da Venezuela, um tradicional parceiro e fornecedor do regime cubano. E ameaçou impor tarifas de importação aos países que fornecerem combustível para a ilha.

Paralelamente, setores da diáspora cubana em Miami, no Estado americano da Flórida, expressaram preocupações com a possibilidade de que Washington permita a manutenção da família Castro e seu entorno no poder.

Sobre esta possibilidade, Díaz-Balart afirmou que "o conceito de 'Raúl sem Raúl' não é aceitável para este governo". Ele faz referência à possibilidade de que outros membros da família, incluindo o "Caranguejo", continuem controlando o país após um possível acordo.

 

Fonte: BBC News Mundo

 

Ter um propósito na vida e paz interior pode melhorar a saúde do coração

Ter um propósito na vida e a sensação de “paz interior” pode estar associado a uma melhor saúde dos vasos sanguíneos e, consequentemente, a um menor risco de doenças cardiovasculares.

A constatação é de um estudo brasileiro, realizado por pesquisadores da Unirio (Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro) e publicado em dezembro na revista científica PLOS One.

A pesquisa investigou a relação entre bem-estar espiritual e disfunção endotelial, um marcador precoce de risco cardiovascular. O endotélio é uma camada fina de células que reveste o interior dos vasos sanguíneos e desempenha papel essencial no funcionamento da circulação. Ele ajuda a controlar a dilatação e a contração das artérias, além do fluxo sanguíneo, da inflamação e até a formação de coágulos. 

Quando perde a capacidade de funcionar adequadamente, surge a chamada disfunção endotelial. “Os vasos passam a ter mais dificuldade de se dilatar, há maior inflamação vascular, vasoconstrição, aumento da permeabilidade e coagulação", explica o cardiologista Marcelo Franken, do Einstein Hospital Israelita.

No estudo, observou-se que níveis mais elevados de bem-estar espiritual estavam associados a menor probabilidade de disfunção endotelial, inclusive considerando fatores como IMC (índice de massa corporal), ansiedade e depressão. A espiritualidade foi analisada a partir de um questionário.

“Investigamos três dimensões principais da experiência espiritual: paz interior, sentido ou propósito de vida e fé. Por meio de perguntas simples, o questionário busca captar como a pessoa vivencia essas dimensões no dia a dia, permitindo transformar uma experiência subjetiva em um indicador mensurável para pesquisa científica”, detalha o cardiologista André Casarsa, um dos autores do estudo.

Os autores avaliaram 148 adultos saudáveis, com idades entre 18 e 60 anos. Os participantes passaram por exames para avaliar a saúde dos vasos sanguíneos e responderam sobre sintomas de ansiedade, depressão e espiritualidade, sem relação com alguma religião específica. 

A diferenciação entre espiritualidade e religiosidade é importante.

“A religiosidade refere-se ao quanto cada pessoa acredita, segue ou pratica uma ou mais religiões. Já a espiritualidade é um conceito mais amplo, presente em todas as pessoas, independentemente de serem religiosas ou não. Envolve a busca por significado, propósito e conexão consigo mesmo, com os outros ou com aquilo que a pessoa considera sagrado”, analisa Julio Tolentino, professor de medicina do Hospital Universitário dos Servidores do Estado, da Unirio, e orientador do estudo.

Entre os achados, as sensações de paz interior e sentido de vida foram as que mais se associaram à saúde vascular. A fé religiosa, isoladamente, não mostrou o mesmo benefício.

“Isso sugere que o que parece ter maior impacto biológico não é necessariamente a prática religiosa em si, mas um estado interno de equilíbrio, significado e coerência com a própria vida”, analisa Casarsa.

<><> Estresse e saúde do coração

Na cardiologia, já existem evidências mostrando que fatores psicológicos, estresse, ansiedade e depressão influenciam na saúde cardiovascular. Na investigação da Unirio, uma das hipóteses levantadas é de que estados associados a paz interior e propósito de vida ajudariam a reduzir mecanismos biológicos ligados ao estresse. “A redução do estresse e da inflamação é um dos principais mecanismos de proteção vascular, e isso vem sendo estudado há muitos anos”, frisa Franken.

Embora a espiritualidade ainda seja pouco discutida nas consultas médicas de rotina, a saúde emocional e psicológica tem ganhado espaço na prevenção cardiovascular. “Cada vez mais se recomenda que a saúde psicológica seja abordada durante as consultas, incluindo fatores como senso de propósito, otimismo, gratidão, pertencimento, mindfulness, estresse crônico, depressão e ansiedade”, relata o cardiologista do Einstein.

Ainda assim, os pilares clássicos da saúde do coração continuam fundamentais. “Podemos destacar oito: alimentação saudável, atividade física, não fumar, boa qualidade do sono, controle do peso, da pressão arterial, do colesterol e do diabetes”, afirma Marcelo Franken. “Além disso, também é importante lembrar da saúde psicológica e dos determinantes sociais de saúde, como condições de moradia, trabalho e relações sociais.”

Os pesquisadores da Unirio pretendem avançar na investigação e acompanhar os mesmos participantes por mais tempo para avaliar se níveis mais elevados de bem-estar espiritual se associam a menor risco de desenvolver alterações vasculares ou doenças cardiovasculares. O grupo também planeja estudos de intervenção baseados em espiritualidade.

“Estamos desenvolvendo pesquisas com estratégias como meditação, visualização terapêutica e experiências imersivas com realidade virtual, que podem promover relaxamento profundo e reduzir o estresse”, relata Tolentino.

•        Ficar muito tempo parado pode afetar metabolismo, coração e saúde mental

Nas últimas décadas, a modernização do trabalho, o aumento do tempo diante de telas e a redução da atividade física no cotidiano mudaram profundamente o padrão de movimento da população. Como consequência, o nível médio de atividade física diminuiu de forma significativa.

No Brasil, o cenário é preocupante. Dados epidemiológicos indicam que cerca de 47% dos adultos são sedentários, e entre os jovens a situação é ainda mais alarmante: aproximadamente 84% não atingem níveis adequados de atividade física. Esses números colocam o país entre os mais sedentários da América Latina. O problema é que o organismo humano não foi projetado para permanecer parado por longos períodos.

<><> Sedentarismo: um fator de risco metabólico silencioso

A falta de movimento interfere diretamente no metabolismo. Quando o corpo permanece inativo por muito tempo, ocorre redução do gasto energético, piora do controle glicêmico e maior tendência ao acúmulo de gordura corporal. Além disso, o sedentarismo está associado a alterações metabólicas importantes, como resistência à insulina, aumento da inflamação sistêmica de baixo grau e disfunção endotelial – mecanismos que participam do desenvolvimento de doenças cardiovasculares e metabólicas.

Estudos epidemiológicos robustos mostram que indivíduos fisicamente inativos apresentam maior risco de desenvolver diabetes tipo 2, hipertensão arterial, doença cardiovascular e alguns tipos de câncer. O impacto também se estende à saúde mental. A prática regular de atividade física está associada à redução de sintomas de ansiedade e depressão, melhora do humor e melhor qualidade do sono.

<><> Quanto movimento já faz diferença na prática

Muitas pessoas ainda associam o exercício físico apenas ao controle do peso corporal. No entanto, seus benefícios vão muito além da estética ou da balança.

A atividade física regular melhora a sensibilidade à insulina, fortalece músculos e ossos, estimula a circulação sanguínea e contribui para a manutenção da autonomia funcional ao longo do envelhecimento.

Do ponto de vista fisiológico, o movimento atua como um verdadeiro modulador metabólico, influenciando positivamente sistemas hormonais, inflamatórios e cardiovasculares.

<><> Quanto exercício é necessário?

A boa notícia é que não é preciso se tornar atleta para colher benefícios importantes. A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda pelo menos 150 minutos semanais de atividade física moderada para adultos. Na prática, isso pode ser alcançado com cerca de 30 minutos de exercício em cinco dias da semana.

Caminhadas, ciclismo, dança, esportes recreativos ou qualquer atividade que aumente a frequência cardíaca já trazem benefícios significativos. Mais importante do que a intensidade extrema é a regularidade. Pequenas mudanças no cotidiano, como subir escadas, caminhar mais e reduzir o tempo sentado, já representam um passo importante.

<><> O corpo humano foi feito para se mover

O Dia Nacional de Combate ao Sedentarismo, comemorado esta terça-feira (10), é um lembrete importante de que o movimento não é apenas uma escolha de estilo de vida – ele é uma necessidade biológica.

A prática regular de atividade física continua sendo uma das intervenções mais eficazes para preservar a saúde metabólica, prevenir doenças crônicas e melhorar a qualidade de vida ao longo dos anos.

•        Como se motivar para sair do sedentarismo? Veja dica para se manter ativo

O sedentarismo é hoje um dos maiores inimigos da saúde pública. Estima-se que, no Brasil, mais de 40% da população não pratica a quantidade mínima de exercício recomendada pela Organização Mundial da Saúde.

Essa inatividade está diretamente ligada ao aumento de doenças cardiovasculares, obesidade, diabetes e até transtornos emocionais como ansiedade e depressão. No entanto, a boa notícia é que nunca é tarde para mudar — e a superação começa com passos simples e realistas.

<><> Construindo uma rotina sem depender apenas da academia

Muitos associam atividade física a horas na academia, mas a verdade é que existem inúmeras formas de movimentar o corpo. Caminhar no bairro, subir escadas em vez de usar o elevador, andar de bicicleta ou praticar esportes em grupo já ajudam a manter o organismo ativo.

O importante é escolher algo compatível com a rotina e com as condições de saúde de cada pessoa. Dessa forma, o exercício deixa de ser uma obrigação e passa a fazer parte natural do dia a dia.

<><> Motivação interna: o combustível da mudança

Encontrar motivação é um desafio comum. Nesse processo, a motivação interna — aquela que nasce do desejo de cuidar de si e de sentir prazer na prática escolhida — costuma ser mais duradoura do que depender de fatores externos.

Participar de atividades prazerosas, como dançar, caminhar em parques ou praticar esportes coletivos, aumenta as chances de manter a regularidade. Estabelecer metas realistas, como percorrer determinada distância ou melhorar o condicionamento em algumas semanas, também ajuda a manter o foco.

O impacto da mudança de hábitos não precisa esperar meses para aparecer. Estudos mostram que apenas 30 minutos de caminhada, cinco vezes por semana, já reduzem o risco de doenças cardiovasculares e ajudam no controle do peso. Além disso, movimentar-se melhora a qualidade do sono, reduz o estresse e amplia a disposição para as tarefas do dia.

Adotar pequenas metas, como estacionar o carro mais longe ou realizar alongamentos durante o expediente, pode parecer insignificante, mas gera resultados cumulativos. Aos poucos, esses ajustes constroem uma rotina mais ativa e saudável.

<><> Conclusão: movimento como estilo de vida

A superação do sedentarismo não depende de fórmulas milagrosas, mas da decisão de dar o primeiro passo e de manter constância. O segredo está em transformar o movimento em parte da identidade de cada pessoa.

Ao enxergar a atividade física não apenas como uma obrigação, mas como fonte de prazer e bem-estar, é possível conquistar saúde, energia e qualidade de vida em qualquer fase da vida.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Lula e a estratégia da soberania contra a falsa pacificação da extrema-direita

Quando Washington atacou o Brasil com tarifas, pressões diplomáticas e retórica contra instituições, o país reagiu com unidade e o governo Lula atingiu seu auge de popularidade. Agora, a extrema-direita tenta deslocar o eixo do debate com uma falsa conciliação institucional destinada a tornar Flávio Bolsonaro um candidato aceitável e recolocar o Brasil na órbita da dependência. A resposta estratégica passa por recolocar no centro da disputa aquilo que realmente mobiliza o povo brasileiro: soberania, autodeterminação e liberdade para se desenvolver.

<><> Soberania como eixo da disputa política brasileira

Quando os Estados Unidos passaram a pressionar o Brasil com tarifas, ameaças diplomáticas e ataques retóricos a instituições brasileiras, o país reagiu com algo raro na política contemporânea. Surgiu um sentimento amplo de defesa da soberania nacional. Foi nesse contexto que o governo Lula atingiu seu auge de popularidade no terceiro mandato. Washington criticava o Brasil, setores da extrema-direita reproduziam internamente essa pressão e o conflito se tornava claro para a sociedade. De um lado estava a defesa da autonomia nacional. Do outro, um campo político disposto a alinhar o país aos interesses estratégicos dos Estados Unidos. Agora, diante da reorganização eleitoral da extrema-direita, surge uma nova narrativa. A chamada pacificação institucional. Apresentada como conciliação, ela cumpre uma função muito mais concreta. Reabilitar o bolsonarismo, tornar Flávio Bolsonaro um candidato aceitável e deslocar o eixo do debate para longe do que realmente mobiliza o povo brasileiro. Soberania, autodeterminação e liberdade para se desenvolver.

Esse quadro ajuda a compreender por que a narrativa atual de pacificação não pode ser analisada fora do contexto histórico recente. Durante o governo Jair Bolsonaro, o alinhamento político e diplomático com Washington tornou-se um dos traços mais marcantes da política externa brasileira. Em 2019, o Brasil anunciou a isenção unilateral de vistos para cidadãos dos Estados Unidos, Canadá, Japão e Austrália, abrindo mão de exigir reciprocidade imediata. No mesmo período, o governo brasileiro apoiou a estratégia norte-americana de isolamento da Venezuela e acompanhou iniciativas diplomáticas lideradas pela Casa Branca na região. Em março daquele ano, Bolsonaro foi recebido por Donald Trump em Washington e o encontro resultou em uma série de compromissos que incluíam cooperação militar ampliada, apoio dos Estados Unidos à entrada do Brasil na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico e o reconhecimento do país como aliado preferencial extra-OTAN. Esses movimentos foram apresentados como avanços diplomáticos, mas também indicaram uma mudança significativa de orientação. Pela primeira vez em décadas, setores importantes da política externa brasileira passaram a operar sob a lógica de alinhamento automático a Washington, rompendo com a tradição histórica de autonomia relativa que havia marcado a atuação internacional do país desde a redemocratização.

Esse histórico ajuda a entender por que os acontecimentos recentes devem ser analisados com atenção. A relação entre Brasil e Estados Unidos voltou a entrar em uma fase de tensão aberta nos últimos anos. Tarifas comerciais, pressões diplomáticas e declarações públicas de autoridades norte-americanas voltaram a colocar o Brasil no centro de disputas geopolíticas que ultrapassam a política interna. Ao mesmo tempo em que Washington busca preservar sua influência estratégica na América Latina, o Brasil passou a afirmar com mais clareza uma política externa voltada para a multipolaridade, ampliando relações com países do Sul Global, fortalecendo os BRICS e defendendo maior autonomia nas decisões econômicas e tecnológicas. Esse movimento inevitavelmente produz fricções. Grandes potências operam a partir de interesses concretos e raramente aceitam sem resistência a expansão da autonomia de países com o peso econômico e político do Brasil. Nesse cenário, cada disputa comercial, cada pressão diplomática e cada tentativa de influenciar o debate político interno revelam algo mais profundo. Revelam que a soberania brasileira continua sendo um tema central na disputa internacional.

Foi justamente nesse ambiente de tensão que um fenômeno político importante começou a se tornar visível. À medida que os Estados Unidos intensificavam pressões comerciais, declarações críticas e movimentos diplomáticos dirigidos ao Brasil, a reação interna não foi de isolamento do governo brasileiro, mas de fortalecimento do sentimento nacional. A defesa das instituições e da autonomia do país passou a ocupar o centro do debate público. Nesse contexto, o governo Lula registrou seu momento de maior popularidade no terceiro mandato. A razão não é difícil de compreender. Quando um país percebe que sua autonomia está sendo questionada por pressões externas, a política deixa de ser apenas uma disputa entre partidos e passa a ser interpretada como uma questão de dignidade nacional. Foi nesse momento que o eixo soberania voltou a organizar o debate político brasileiro. E foi também nesse momento que se tornou evidente algo que parte da extrema-direita prefere ignorar. Donald Trump atacou instituições brasileiras, criticou decisões do Estado brasileiro e aplicou medidas econômicas contra o país, mas evitou dirigir ataques pessoais a Lula. A razão é simples. Trump conhece o peso político internacional de Lula e compreende que transformá-lo em alvo direto poderia fortalecer ainda mais a percepção de que o Brasil estava sendo pressionado externamente. O resultado foi claro. Em vez de enfraquecer o governo brasileiro, a escalada de tensões acabou reforçando o sentimento de defesa nacional dentro do país.

É justamente nesse ponto que a narrativa da chamada pacificação começa a ganhar espaço. Diante das dificuldades políticas acumuladas após os episódios de ruptura institucional e das investigações que atingiram o núcleo do bolsonarismo, setores da extrema-direita passaram a defender uma nova linguagem pública. Em vez do confronto permanente que marcou os anos anteriores, surge agora o discurso da conciliação institucional, da moderação e da necessidade de superar divisões políticas. À primeira vista, essa mudança pode parecer um sinal de amadurecimento democrático. Mas uma análise mais atenta revela outra dinâmica. A pacificação proposta nesse momento não nasce de uma revisão crítica do passado recente nem de um compromisso efetivo com a reconstrução institucional do país. Ela surge como instrumento de reorganização política. Seu objetivo é deslocar o eixo do debate público, reduzir o peso das responsabilidades históricas associadas ao bolsonarismo e reconstruir as condições para que esse campo político volte a disputar o poder sob uma nova aparência.

É nesse contexto que a figura de Flávio Bolsonaro passa a ocupar um lugar central na reorganização da extrema-direita. Filho do ex-presidente Jair Bolsonaro e senador da República, Flávio aparece como a peça capaz de preservar o núcleo político do bolsonarismo ao mesmo tempo em que oferece uma imagem pública menos associada ao confronto permanente que marcou os anos anteriores. A estratégia é clara. Manter o capital político construído pelo bolsonarismo, mas apresentá-lo sob uma linguagem de moderação institucional e de suposta responsabilidade política. A chamada pacificação cumpre exatamente essa função. Ela permite reconstruir pontes com setores do sistema político, reduzir a resistência de parte da opinião pública e preparar o terreno para que o bolsonarismo retorne à disputa eleitoral com uma aparência renovada. Nesse processo, a candidatura de Flávio Bolsonaro surge como instrumento de normalização de um projeto político que, na prática, continua profundamente vinculado à lógica de alinhamento externo e de enfraquecimento da autonomia estratégica do Brasil.

O problema central dessa operação política não está apenas na tentativa de reorganização eleitoral da extrema-direita. Ele está no deslocamento do eixo do debate público que essa narrativa produz. Quando a política brasileira passa a ser apresentada como uma disputa que precisa ser pacificada a qualquer custo, o conflito real tende a desaparecer do centro da discussão. E esse conflito é claro. De um lado está a defesa da soberania nacional, da autonomia política e da capacidade do país de definir seus próprios caminhos de desenvolvimento. Do outro está um campo político que, ao longo dos últimos anos, demonstrou disposição para alinhar o Brasil a interesses estratégicos externos, mesmo quando isso implicava tensionar instituições democráticas internas. Ao transformar essa disputa em um problema de polarização que precisaria ser superado por meio de uma conciliação institucional, a narrativa da pacificação acaba produzindo um efeito político concreto. Ela dilui o debate sobre soberania e enfraquece justamente o elemento que mais mobilizou a sociedade brasileira diante das pressões externas recentes.

Diante desse cenário, a estratégia para o campo democrático e soberanista precisa ser clara. O Brasil não enfrenta apenas uma disputa eleitoral convencional. O que está em jogo é o lugar do país em um sistema internacional cada vez mais marcado por disputas de poder e influência. A tentativa de deslocar o debate para uma falsa pacificação institucional não resolve esse problema. Pelo contrário, tende a obscurecer a questão central que hoje organiza a política brasileira. Sempre que a soberania nacional esteve no centro do debate, o país demonstrou capacidade de se unir em torno da defesa de sua autonomia, de suas instituições e de seu direito de decidir os próprios caminhos de desenvolvimento. Esse continua sendo o eixo estratégico capaz de mobilizar a sociedade brasileira. A verdadeira resposta à falsa pacificação não é o silêncio diante das tensões políticas do presente. É recolocar no centro da vida pública aquilo que realmente define o futuro do país. Soberania, autodeterminação e liberdade para que o Brasil cresça e se desenvolva de acordo com os interesses do seu próprio povo.

¨      Jeferson Miola: Grande mídia, Três Poderes e elites contra Lula - a história está se repetindo

O escândalo é Master-bolsonarista, mas a mídia, a oposição e os tentáculos de Daniel Vorcaro no Congresso, na Polícia Federal (PF) e no judiciário desviam o foco para Lula, o verdadeiro alvo a ser atingido e destruído.

O esquema mafioso de Daniel Vorcaro se sedimentou e se expandiu de modo exponencial com Bolsonaro, Paulo Guedes e Roberto Campos Neto.

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Esse tipo de máfia financeira é um produto genuinamente bolsonarista; é resultado do afrouxamento das regras do sistema financeiro na gestão Guedes-Campos Neto que abriu espaço para máfias, esquemas fraudulentos e o crime organizado no mercado financeiro.

Em fevereiro de 2019 o Departamento de Organização do Sistema Financeiro do Banco Central (BC) negou a transferência do controle do Banco Máxima para Daniel Vorcaro depois de dois anos de análises técnicas e exigências não atendidas, inclusive de natureza criminal.

Entretanto, em outubro de 2019, após Roberto Campos Neto assumir a presidência do BC por designação de Bolsonaro, Vorcaro conseguiu reverter a negativa anterior, mesmo sem resolver as pendências levantadas por técnicos do BC durante dois anos. A gestão de Campos Neto tomou a decisão em menos de 6 meses de análise do processo, autorizando a transferência do Máxima para Vorcaro.

Já em julho de 2021, com autorização do BC, o Banco Máxima foi rebatizado como Banco Master, para se reposicionar no mercado “como um banco múltiplo e digital, focado em crédito consignado e estruturado.”

O Banco Central não poderia ter autorizado a operação por inúmeros motivos, um dos quais a existência de mandado de prisão de abril de 2020 contra Daniel Vorcaro por fraudes e desvios em institutos de previdência de municípios investigados na Operação Fundo Fake, da PF.

Conforme a jornalista Mariana Barbosa, do UOL, Vorcaro “ficou foragido, entrou com habeas corpus – até que em 2021 uma decisão da desembargadora Maria do Carmo Cardoso, do Tribunal Regional Federal da 1ª Região, impediu que ele fosse denunciado criminalmente”.

Mariana entende que “a prisão de Daniel Vorcaro nesta quarta-feira [4/3] chega com pelo menos seis anos de atraso. Se a Operação Fundo Fake tivesse ido às últimas consequências, não teria havido Banco Master” e o desfalque que pode alcançar mais de 100 bilhões de reais.

Na eleição de 2022, Vorcaro apostou suas fichas na reeleição de Bolsonaro. Contribuiu com milhões para as campanhas dele, do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP) e de candidatos da direita e extrema-direita ao Congresso.

O cunhado Fabiano Zettel e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), da igreja Lagoinha, usaram avião de Vorcaro para agendas de campanha sem prestação de contas à justiça eleitoral.

Com a derrota do Bolsonaro e o fim da rede de proteção e blindagem institucional propiciada a ele por Guedes e Campos Neto, Vorcaro precisou ampliar a “sociabilidade política” até então restrita ao bolsonarismo.

A partir de 2023, portanto, ele começou a expandir seus tentáculos nos moldes de Jeffrey Epstein para além do espectro da direita e ultradireita, como estratégia de ampliação da rede de influência na mídia, no Congresso, no Executivo, no Judiciário e no mundo jurídico.

Em paralelo, Vorcaro continuou contando com a ajuda providencial de prefeitos e governadores bolsonaristas e lavajatistas do PP, PL, MDB, União Brasil, Republicanos, etc., que causaram rombos de bilhões de reais nos fundos de aposentadorias e pensões de servidores públicos para comprar títulos podres do Master. O caso do governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB) com o BRB é o mais notório.

Apesar dessa realidade que vincula o mafioso ao coração do bolsonarismo, a mídia abriu uma guerra narrativa para arrastar Lula e o governo para o centro do escândalo.

A Globo, por exemplo, entrou em modo Deltan com um powerpoint infame que coloca Lula encabeçando o organograma de “Acessos e Conexões de Daniel Vorcaro”.

Estão tentando alvejar Lula com as falsificações sobre seu filho Fábio Luís, e, também, nos ataques ao STF.

Apostam em debilitar a já frágil governabilidade institucional e democrática do país, e, assim, abrir caminho para um projeto de poder extremista, fundamentalista e autoritário.

Lula é o fator vital que as forças democráticas e civilizadas do país ainda podem contar para deter o avanço do fascismo e da barbárie no país, por isso ele é o alvo central a ser destruído.

A ingenuidade diante desses sinais e sintomas típicos da cultura lavajatista poderá ser fatal.

A história está se repetindo mais uma vez como farsa e tragédia neste escândalo que envolve centralmente políticos, governantes, rentistas, empresários e outros mafiosos vinculados ao bolsonarismo, mas cujo alvo da mídia, da PF e de certos juízes é, outra vez, o Lula!

 

Fonte: Brasil 247/Diálogos do Sul Global

 

Missão cumprida? A bravata de 2003 que assombra os EUA na guerra com o Irã

Em 9 de abril de 2003, uma estátua do líder do Iraque, Saddam Hussein, foi derrubada no centro de Bagdá. A placa de metal na base da estátua foi arrancada e o pedestal de mármore foi atacado com uma marreta. Civis iraquianos inicialmente tentaram derrubá-la, escalando a estátua para colocar uma corda em seu pescoço, mas não conseguiram desmontá-la. Foi necessária a ajuda de tropas americanas usando um veículo blindado para finalmente derrubá-la.

Foi um momento que simbolizou a mudança de regime. As forças americanas e aliadas haviam lançado seu ataque ao Iraque apenas 20 dias antes, começando com uma intensa campanha de bombardeio e uma tentativa de derrubar o governo usando mísseis de cruzeiro que tinham como alvo o líder iraquiano.

Três semanas após a remoção da estátua, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, estava a bordo de um porta-aviões americano, ancorado na costa da Califórnia, atrás de uma faixa com os dizeres "Missão Cumprida". Só que a realidade era bem diferente.

A sombra da guerra do Iraque paira sobre o atual conflito com o Irã. Foi uma guerra que deixou profundas cicatrizes no Iraque, desencadeando uma série de eventos que saíram do controle de uma forma que ninguém previu. Deixou um rastro de morte e destruição: estima-se que 461 mil pessoas morreram no Iraque por causas relacionadas à guerra entre 2003 e 2011 e que o conflito custou aos EUA US$ 3 trilhões (R$ 15,7 trilhões).

A guerra remodelou o Oriente Médio e também teve um profundo efeito na confiança do público nos políticos dos países que iniciaram a guerra.

Hoje, os EUA embarcaram no que muitos consideram mais uma "guerra de escolha" na região, desta vez contra o Irã, vizinho do Iraque. Os ecos e paralelos entre os dois conflitos certamente existem, mas também há diferenças profundas que nos dizem muito sobre como o mundo mudou desde então e se uma repetição dos fracassos do Iraque pode ser evitada.

<><> O motivo

Havia muitos motivos sobrepostos para Washington invadir o Iraque, alguns não reconhecidos publicamente na época. Mas, no cerne da questão, estava o desejo de mudança de regime.

Para alguns próximos ao presidente dos EUA, George W. Bush, havia um sentimento de assuntos inacabados da Guerra do Golfo de 1991, quando Saddam Hussein havia sido expulso do Kuwait, mas permanecido no poder.

Para o presidente Bush, isso pode ter sido ainda mais pessoal, já que seu pai, o presidente George H.W. Bush, havia liderado aquela campanha e Hussein havia planejado matá-lo depois.

Enquanto isso, alguns acreditavam que a mudança de regime era justificada por razões de direitos humanos. Eles queriam a derrubada de Hussein por causa da maneira como ele havia infligido terrível violência ao seu próprio povo — chegando a usar armas químicas contra civis curdos na década de 1980.

Tudo isso se encaixava na era do intervencionismo liberal que o Reino Unido apoiou desde a década de 1990 sob o governo do primeiro-ministro Tony Blair, intervindo nos Bálcãs para evitar derramamento de sangue no Kosovo. Os exilados iraquianos também queriam a chance de um novo futuro para seu país, sem o regime que odiavam.

Havia também aqueles "neoconservadores" que queriam remodelar o Oriente Médio, trazendo a democracia e removendo ditaduras hostis aos EUA. Primeiro Bagdá, depois Teerã, diziam alguns, um lembrete de quanto tempo o Irã está na agenda.

E, finalmente, após os ataques de 11 de setembro de 2001, que mataram 2.977 pessoas (sem contar os 19 sequestradores) depois que aviões foram lançados contra as Torres Gêmeas, o Pentágono e um campo na Pensilvânia, havia falcões em Washington que queriam restaurar o poder de dissuasão dos Estados Unidos e mostrar o que o país era capaz de fazer.

Os ataques da Al-Qaeda em 11 de setembro alteraram os cálculos em relação ao nível de destruição que poderia ser infligido aos Estados Unidos e seus aliados, e o Iraque logo passou a ocupar o topo da agenda, mesmo sem ter tido qualquer participação nos ataques. O sucesso na expulsão do Talebã do controle do Afeganistão no final de 2001, em resposta aos ataques ocorridos alguns meses antes, também aumentou a confiança de Washington em suas capacidades.

Mas, no fim das contas, a justificativa para a guerra girava em torno de outra coisa: as supostas capacidades do Iraque em produzir armas de destruição em massa, com planos para armas nucleares, químicas e biológicas, bem como capacidades de mísseis. Quando se tratava do público britânico e americano, enfatizar a ameaça representada por essas armas era a maneira mais fácil de obter apoio público para a ação militar. Internacionalmente, o descumprimento, por parte do Iraque, das resoluções da ONU sobre suas armas também fornecia um meio de buscar legitimidade.

As armas nunca foram o verdadeiro motivo, como Luis Rueda, chefe do Grupo de Operações do Iraque da CIA na época, me disse mais tarde. "Teríamos invadido o Iraque mesmo que Saddam Hussein tivesse um elástico e um clipe de papel. Teríamos dito: 'Ah, ele vai arrancar seu olho. Vamos eliminá-lo.'"

<><> Por que o Irã foi atacado?

Os ataques atuais ao Irã também parecem surgir de uma complexa mistura de motivações — degradar suas forças armadas, impedir a aquisição de armas de destruição em massa, promover a mudança de regime para criar um Estado mais dócil e apoiar o povo contra um regime que lhes infligiu violência, foram todas justificativas citadas por membros do governo Trump.

De muitas maneiras, foram os ataques do Hamas contra Israel em 7 de outubro de 2023 que iniciaram um processo de mudança de cálculos em Washington sobre o que poderia ser feito ao Irã, à medida que o cálculo de risco de Israel mudava e o país começava a mirar o Irã e seus aliados. Isso abriu caminho para que Washington também agisse.

Mas, desta vez, nos EUA, não houve nenhuma tentativa de resolver publicamente os desejos, por vezes contraditórios, de agir. Na verdade, o próprio presidente dos EUA, Donald Trump, pareceu oscilar entre eles, dependendo do dia em que estava falando e com quem estava falando.

Também não houve nenhuma tentativa de vender a guerra ao público americano — um processo que se desenrolou ao longo de meses com o Iraque. E também não houve nenhuma tentativa de buscar legitimidade internacional por meio da ONU. Em 2003, houve discussões intermináveis ​​sobre quais Estados poderiam apoiar a ação.

Desta vez, a ONU e o direito internacional pareceram irrelevantes para os tomadores de decisão. Tudo isso revela um mundo diferente, um mundo em que a antiga ordem internacional está praticamente em colapso e em que um presidente volúvel não sente a necessidade de conciliar as diferentes motivações em jogo e apresentar uma justificativa coerente.

<><> O papel do Reino Unido e outros aliados

Em 2003, os EUA entraram ns guerra ao lado de seus aliados, principalmente o Reino Unido. O primeiro-ministro Tony Blair esteve ao lado do presidente Bush durante o período que antecedeu a guerra, tendo inclusive lhe escrito uma famosa carta particular no verão de 2002, dizendo que estaria com o líder americano "aconteça o que acontecer". Sua crença — expressa novamente nos últimos dias em relação ao Irã — era de que o Reino Unido precisava maximizar sua influência sobre a política americana, mantendo-se próximo a ela.

"Quando eu era primeiro-ministro, não havia dúvida, nem sob o governo do presidente Clinton nem sob o do presidente Bush, sobre quem o presidente americano ligava primeiro. Era o primeiro-ministro britânico", me disse ele em uma entrevista para marcar o 20º aniversário da invasão.

Mas até mesmo alguns dos mais próximos a ele estavam receosos com o nível de comprometimento demonstrado por Blair. A carta "aconteça o que acontecer" "não foi uma boa ideia", afirmou mais tarde seu então secretário de Relações Exteriores, Jack Straw.

E os críticos questionaram quanta influência Blair conseguiu obter em troca naquela época. Ele persuadiu Washington a buscar a aprovação da ONU. Mas essa iniciativa foi hesitante por parte de Washington e acabou não tendo sucesso.

Quando lhe ofereceram a oportunidade de se retirar, Blair recusou, dizendo que acreditava na guerra. "É aqui que você precisa tomar essas decisões como primeiro-ministro na época", me disse ele em 2003. "Eles estavam me oferecendo a saída porque sentiam pena da situação politicamente difícil em que eu me encontrava."

E, de fato, o preço político para ele seria alto, especialmente quando as armas de destruição em massa sobre as quais ele havia argumentado se revelaram inexistentes. Isso o prejudicou e, de forma mais ampla, reduziu a disposição das pessoas em acreditar no que lhes era dito. "Isso minou a confiança na vida pública", refletiu o ex-secretário de Relações Exteriores, Jack Straw. "Não tenho dúvidas disso."

Lidar com o Iraque também consumiria os últimos anos da presidência de George W. Bush e mancharia seu legado, remodelando a política americana. O presidente Barack Obama assumiu o cargo com o claro desejo de não se envolver novamente em tais intervenções. E, surpreendentemente, Trump também.

Desta vez, os EUA trabalharam com Israel, e não com o Reino Unido ou outros aliados, para atacar o Irã. O primeiro-ministro Keir Starmer decidiu manter distância de Washington, recusando o uso de bases britânicas durante o ataque inicial, embora depois tenha mudado de ideia e permitido seu uso para fins "defensivos".

A mudança pode ser atribuída às memórias persistentes do Iraque para um Partido Trabalhista fragilizado, mas também reflete o cálculo sobre quanta influência Starmer realmente poderia ter sobre Trump.

Uma questão mais profunda é o quanto o Reino Unido e os EUA estão começando a se distanciar. Autoridades que trabalham na relação de segurança e inteligência afirmam que ela permanece estreita, mas também há uma sensação de que essa proximidade pode ser parcialmente baseada na inércia, à medida que os EUA adotam cada vez mais uma postura de segurança diferente, minando ativamente a antiga ordem internacional na qual o Reino Unido investiu fortemente.

Primeiros-ministros anteriores às vezes mantiveram distância das guerras de Washington — por exemplo, Harold Wilson em relação ao Vietnã — mas desta vez a situação parece diferente.

<><> E agora?

O legado do Iraque é mais evidente na forma como os líderes em Washington têm se esforçado para enfatizar as diferenças entre o que aconteceu no passado e o conflito atual. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, foi explícito ao afirmar que o Irã é diferente do Iraque e não se transformará em uma "guerra sem fim".

Um aspecto disso é que, desta vez, os EUA estão falando em mudança de regime, mas até agora não mobilizaram tropas terrestres para concretizá-la, como fizeram em 2003, quando cerca de 150 mil soldados foram enviados, o que levou a uma derrubada rápida e eficaz de Saddam Hussein (que escapou do ataque inicial, mas foi capturado posteriormente).

O desejo explícito de evitar o tipo de comprometimento de tropas visto no Iraque limita as opções — a mudança de regime apenas por via aérea é muito mais difícil sem se aliar a algum tipo de força insurgente em terra.

Tem havido conversas sobre armar os curdos para lutar contra o governo iraniano hoje. Eles desempenharam seu papel em 2003, mas apenas ao lado do exército muito maior de tropas dos EUA e seus aliados.

Após a vitória inicial em 2003, veio uma longa e arrastada ocupação, enquanto uma insurgência e uma guerra civil se instalavam. Os EUA não querem se envolver nessa situação novamente, mas o problema é que alguns de seus objetivos mais abrangentes podem ser difíceis de alcançar sem um comprometimento mais profundo — principalmente se realmente desejam uma mudança de regime, em vez de apenas enfraquecer as forças armadas do Irã ou ter uma mudança de líder dentro do mesmo regime (como aconteceu na Venezuela).

Um grande paralelo entre aquela época e agora, no entanto, parece ser a falta de planejamento para o que pode vir a seguir. Isso, por sua vez, se relaciona à confusão sobre qual é o objetivo real. No caso do Iraque em 2003, diferentes visões para o futuro nunca foram resolvidas. Não houve um planejamento eficaz para o período posterior ao término dos conflitos militares.

"O erro foi tentar criar um novo governo para os iraquianos", me disse John Bolton, ex-conselheiro de Segurança Nacional dos EUA, duas décadas depois. "Deveríamos ter dito aos iraquianos: 'Parabéns, formem seu próprio governo. Aqui está uma cópia dos Artigos Federalistas. Boa sorte'."

Isso estava em desacordo com aqueles que apoiavam a ideia de espalhar a democracia pelo Oriente Médio e queriam construí-la primeiro no Iraque.

O Iraque está agora em uma situação muito melhor do que estava imediatamente após a guerra, e muitos estão felizes em ver Saddam Hussein fora do poder. Mas a democracia não se espalhou pelo Oriente Médio no período posterior à guerra, como alguns afirmavam que aconteceria.

Em vez disso, um dos maiores vencedores da invasão seria o Irã, cujo principal adversário foi removido, permitindo que estendesse sua influência para o Iraque e além nos anos após a guerra. E isso aumentaria a ameaça terrorista na Europa e no Ocidente em geral. As guerras nem sempre têm os resultados que as pessoas esperam ou desejam.

<><> Nenhum plano coerente

O Iraque e o Irã são países muito diferentes, mas será que existem lições a serem aprendidas com as experiências das invasões a cada um deles?

Até agora, há poucos indícios de um plano coerente sobre o que os EUA querem alcançar ou que tipo de futuro vislumbram para o Irã. Desta vez, a improvisação parece ser uma estratégia deliberada, pois deixa o presidente Trump com diferentes opções para o que ele pode declarar como vitória antes de seguir em frente, criando seu próprio momento de "Missão Cumprida".

Ele poderia simplesmente dizer que degradar a capacidade naval e de mísseis do Irã foi suficiente e que a mudança de regime sempre foi algo para o povo iraniano (embora ele tenha falado em desejá-la em alguns momentos).

Isso deixaria um regime iraniano fragilizado, porém amargurado, no poder, um resultado mais próximo da Guerra do Golfo de 1991, quando Saddam Hussein foi expulso do Kuwait, mas permaneceu no controle de Bagdá. O resultado foram anos de tensão, bombardeios ocasionais, temores de desenvolvimento de armas de destruição em massa e, eventualmente, outra guerra em 2003.

Uma lição do Iraque é que é mais fácil destruir um Estado em guerra do que construí-lo depois. E partes do Estado iraniano estão, sem dúvida, sendo desmanteladas. A guerra atual também está forçando os aliados dos Estados Unidos — como o Reino Unido, mas particularmente os países do Golfo, que têm sido alvo de ataques iranianos — a reconsiderarem o quão seguros realmente estão.

E as repercussões políticas internas para aqueles que embarcam em guerras, especialmente Trump, também podem ser imprevisíveis, à medida que as consequências econômicas se espalham de maneiras que ele não parecia esperar.

Uma possível conclusão é que a humildade pode ser útil ao embarcar em intervenções militares. As guerras são inerentemente imprevisíveis e seus resultados e legados podem repercutir por décadas.

¨      O saldo do fracasso norte-americano no Irã

Desde o prelúdio do ataque norte-americano e israelense ao Irã, era visível que não havia objetivo definido por parte de Trump no que tange a operação. O que se buscava atingir? Quais os motivos finais, quais os meios principais? Tudo era nebuloso, indefinido, e isso, agora, jogou os EUA num beco sem saída. O regime iraniano permanece estável, como era previsto. As estruturas de segurança, que se moldaram justamente sob a pressão de sobreviver a sanções e tentativas de golpe, não sofreu fraturas, cisões ou deserções, mesmo sendo fortemente punidas– ou alguém me dirá que há um ataque maior ao moral de um exército do que assassinar seu Líder Supremo?

Mas, essa noção última, que eu pontuo acima, é incompreendida pelos EUA, o que notavelmente ocasionou o fracasso da operação. Não se compreendeu a natureza do regime, moldado justamente para que líderes sejam substituídos, com um louvor religioso ao martírio e sacrifício e forte sentimento antiimperialista. O que resta aos EUA agora que munições se esgotam, crises econômicas se sucedem com o fechamento do Estreito de Ormuz e ataques pontuais continuam acontecendo a estruturas estratégicas no Golfo, apesar do aviso do Irã de fim da reciprocidade dos ataques?

Ou se escala o conflito, ou se encerra.

A primeira opção causaria uma derrota desmoralizante, visto que o Irã ainda possui a estrutura de produção de mísseis, mantém um estoque de novos armamentos não utilizados e se beneficiou da tática de lançamento de projéteis menores, destruição de radares e, quando havia espaço, podia usar seu armamento mais pesado. E mesmo que se vença esse regime, o que virá após isso? Se com o assassinato de Khamenei não se obteve o efeito político desejado, quem garante que a opção militar abrirá a brecha para esse objetivo político?

A segunda opção permitirá que o governo se recomponha, realize a reestruturação que já tem realizado durante a crise, continue com a produção de urânio enriquecido e reconstrução de suas capacidades nucleares e, de forma temporária, busque soluções para a crise econômica em que se encontra – motivo primário das manifestações do início do ano e ainda cruciais para a sobrevivência do regime, mas controlável, como vimos com a Guarda Revolucionária driblando sanções e se fortalecendo como um Estado dentro do Estado. As sanções, se aprofundadas agora, reforçaram o que as próprias tem feito desde sempre: fortalecerão a elite através do isolamento nacional, enfraquecerão parcialmente a sociedade civil – mas com pouca efetividade dada o nacionalismo causado pela guerra –, e ajudarão o governo a reforçar a economia de guerra que construiu ao longo dos anos.

Nacionalismo, reestruturação e com certeza uma linha mais dura para que se obtenha um poder de dissuasão maior: é isso que espera os EUA caso o conflito seja encerrado.
Digamos a verdade: os Estados Unidos perderam. Os objetivos políticos não foram alcançados. Superioridade militar, em outra via, não significa derrota militar, principalmente quando também se sofrem retaliações e não há clara rendição do inimigo. O que os EUA, materialmente, obtiveram como vitória? E Israel? A estratégia e os fins foram cumpridos? Não, pois nunca foram claros o suficiente para que fossem cumpridos. Os riscos estão aumentando: a regionalização da guerra para o Iraque, Líbano e Iêmen demonstram que conquistas sem objetivo se tornam somente operações vencidas, mas dentro de uma guerra perdida.

E o que importa, ao fim, é o resultado da guerra.

 

Fonte: BBC News/Opera Mudi