Um
retorno a 1964?
Dormimos
em 2026, acordamos em 1964 e, no dia 25, mesmo uma improvável virada apenas
adiará um novo 22 de abril de 1500. Será uma inovação e tanto: um povo escolher
voltar a ser colônia.
Vendida
como algo revolucionário, vivemos uma ruptura reacionária da extrema direita
com o fantasma moribundo da democracia liberal. Mas estamos tratando tudo como
normal. Em nenhum momento reagimos à altura dessa ruptura, acreditando numa
institucionalidade que já está morta.
Sim, a
mídia corporativa, de forma escandalosa e calculada, deu muito menos destaque
do que deveria aos fatos e denúncias sobre a trajetória de Flávio Bolsonaro,
enquanto ele se apresenta claramente como administrador de colônia. Sim, as
redes sociais criaram um mundo em que a verdade factual perde relevância e as fake
news se tornaram uma realidade normalizada.
Sim,
enfrentamos uma conjuntura geopolítica internacional marcada pela ascensão da
extrema direita, com elites latino-americanas sabendo trabalhar para se
tornarem suas representantes locais. Sim, a sociedade brasileira, com seu
crescente neopentecostalismo que sequestrou boa parte do cristianismo, assim
como os diversos projetos de guerra cultural, simbolizados por iniciativas como
o Brasil Paralelo, além do cinturão do agronegócio que se expandiu para novas
regiões do país, tornou-se cada vez mais conservadora.
Mas
também é verdade que a política econômica liderada por Fernando Haddad foi de
uma ineptidão política colossal. Um erro desde o começo; uma tragédia
anunciada: como ter tido como principal projeto de governo, no início do
mandato com toda a força de uma nova gestão com o fôlego recente das urnas, uma
reforma tributária cujos frutos, como a redução dos impostos da cesta básica,
só apareceriam em 2027, podendo ser politicamente colhidos por Flávio
Bolsonaro?
Como
negociar a queda de um quase criminoso teto de gastos em prol de um arcabouço
fiscal menos pior, capitulando mansamente diante da restrição da capacidade de
investimento público? Como entrar em brigas totalmente impopulares, como a taxa
das blusinhas? Como não encarar, sob o pretexto de manter o controle
inflacionário, a desastrosa manutenção da política de juros do Banco Central
sob Gabriel Galípolo, tornando o crédito inviável e incrementando de forma
dramática o endividamento do consumidor e do pequeno e médio empreendedor?
E,
sobretudo, como não olhar para 2022 e se dar conta de que as mulheres
beneficiárias do BPC foram, de muitas maneiras, decisivas para evitar nossa
derrota e a reeleição de Jair Bolsonaro? Em nome da redução do déficit fiscal e
de uma tal “responsabilidade econômica” a ser vendida para um tal “mercado”, o
governo fez questão de economizar bilhões, justamente prejudicando aquelas
mulheres, chefes de família, que nos salvaram em 2022? Quem não conhece alguém
que deixou de conseguir sacar esses benefícios abruptamente ou que, depois de
uma doença, deficiência ou situação de extrema vulnerabilidade, encontrou todo
tipo de dificuldade para receber um benefício?
Antes
de ser eleito em 2022, Lula prometeu travar as boas batalhas. Prometeu governar
“do seu jeito”. Pautar projetos de interesse nacional, como enfrentar o
criminoso orçamento secreto.
Não se
tratava de dizer que seria fácil ou que dependia apenas de sua vontade, mas de
assumir, percebendo os novos tempos, a necessidade de mobilizar uma narrativa
em defesa de um projeto de nação. As prováveis derrotas no Congresso não
significariam uma derrota para o seu governo. Significariam demonstrar
claramente que, ao menos, assumia sem medo a disputa pelos interesses
populares.
Nem
sequer uma política ousada de democratização do acesso à terra e à moradia foi
pautada, algo que poderia ter sido feito de forma bem menos traumática do que
imaginamos se houvesse disposição para avançar além da covardia diante da
deturpação de seu significado material.
Mas,
como em 2004 ou 2009, tentou-se uma composição. Dessa vez, porém, com um
Congresso que sequestrou uma parcela mais que expressiva do orçamento e que, em
boa parte, já não representava apenas interesses fisiológicos: havia ali um
inequívoco projeto ideológico de extrema direita claramente antidemocrático.
Lula
tentou conciliar com quem já não queria conciliação. Lula não se deu conta de
que os tempos mudaram e de que teria de abraçar aquilo que, pejorativamente, se
chama de “populismo”. Falhou em ter lutado por um projeto de apelo popular que
respondesse ao anseio pela diminuição da criminalidade. Combater a lavagem de
dinheiro enfrentando determinados agentes e setores do mercado financeiro é
necessário e louvável, mas nada ressoa para quem vive com o medo da violência
na rua. A cegueira da esquerda quanto à acusação de que compactuamos com o
crime não deveria ser tão mansamente aceita, o que está longe de significar
qualquer demagogia penal ou assassina.
Talvez
Lula tivesse perdido em todas essas empreitadas. Mas perderia de uma maneira
que não legitimaria propagarmos, com tanta cegueira e prepotência, que há um
pobre de direita burro e ignorante.
Mas, se
não fomos nós que pautamos o debate público, se desistimos de lutar por um
projeto nacional assumidamente nosso, não sejamos nós os ignorantes incapazes
de compreender os fatos. Repitamos isso em voz alta.
A
verdade é que a extrema direita capta, com cinismo, um diagnóstico verdadeiro:
para milhões de pessoas, alguma coisa precisa romper com “tudo que está aí”.
Ela percebe que a ordem existente já não consegue oferecer a promessa de
integração, prosperidade e segurança que legitimava o capitalismo e a
democracia liberal.
E é
justamente aí que ocorre uma inversão extraordinária e reveladora: a extrema
direita passa a ocupar o lugar da ruptura, enquanto a esquerda passa a assumir
um imaginário conservador e envelhecido. Eles são, nesse sentido, mais sinceros
no diagnóstico, não na solução. Assumem que nesse modelo de sociedade não há
lugar para todos, que o Estado atrapalha, que os direitos sociais são falhos,
que os conflitos não serão resolvidos pela conciliação e que, de uma forma ou
outra, alguém terá de perder.A solução que oferecem para a crise é destruidora,
por isso se apresenta como ruptura.
Enquanto
isso, a esquerda liberal responde defendendo uma institucionalidade falida
prometendo, com grande dose de derrotismo e até prepotência, administrá-la com
maior humanismo, sem acusar seus inequívocos limites e contradições. Diante
disso, quem hoje parece radical e quem é visto como conservador?
É nesse
sentido que a extrema direita vence por parecer mais sincera: não porque revela
qualquer solução viável para o mundo, mas porque explicita, sem qualquer
verniz, um antagonismo que nós abdicamos de enfrentar.
Não por
acaso, esse discurso encontra terreno fértil porque o cidadão comum, desgostoso
com qualquer apelo a um corpo social – visto como armadilha para a letargia
corruptora – e identificado com um conceito altamente neoliberal de liberdade,
quer apenas não ser atrapalhado para poder “cuidar do próprio nariz em paz”.
É aí
que o conservadorismo moral e o discurso individualista conseguem acomodar uma
aparente contradição funcional: de um lado, a exigência de valores pétreos e
sagrados na vida privada como refúgio diante da crueldade competitiva de um
mundo corrompido; de outro, a legitimação de que, na selva da disputa
capitalista, cada um possa ser implacável ao lutar pelos próprios interesses,
sem que o Estado ou aqueles considerados culpados pela própria miséria o
atrapalhem.
O
reacionarismo moral e o individualismo oferecem, assim, refúgios normativos que
validam a conduta de um indivíduo ainda mais perverso, pois ele percebe, sem
qualquer filtro, que vive no estado de natureza hobbesiano, sem que o Estado
hobbesiano se ofereça para protegê-lo.
O que
estamos deixando de compreender quando parcelas expressivas dos mais jovens
caminham para a extrema direita em diferentes partes do mundo? Quando os
líderes mais boçais e mitômanos são justamente jovens que angariam apoio
justamente por assumirem um tom que acomoda tão bem terrorismo moral,
autoritarismo e aparente insubordinação ao sistema?
Por que
insistimos em destacar a hipocrisia de tais discursos e não nos questionamos
por que somos vistos como sendo o tal do “sistema”? Para o jovem sufocado por
uma realidade sem horizontes do capitalismo digital, a extrema direita encarna
a ousadia da recusa.
Enquanto
isso, a esquerda, engessada em sua defesa mansa de uma institucionalidade, é
percebida como delirante ou cínica, pois defende um horizonte social sem
definir claramente o que almeja.
Quanto
às elites econômicas nacionais, todo o projeto da extrema direita representa,
com novas roupagens de velhos projetos, os compromissos com a mesma elite
econômica que Florestan Fernandes, Celso Furtado, Darcy Ribeiro e Caio Prado
Jr., cada um a seu modo, já haviam identificado: uma pequeníssima minoria
interessada na preservação de seus próprios privilégios, incapaz de converter
desenvolvimento econômico e industrialização em um projeto autônomo de nação,
sendo historicamente disposta a associar seus interesses aos do capital externo
em vez de confrontar a posição dependente do país na ordem internacional.
Isso
não é novidade e sempre contou com o apoio das mídias tradicionais, que, em
grande medida, trabalharam em favor desses interesses. O que é novo é assumirem
tão escancaradamente a disposição de entregar tudo o que é do Brasil,
resignando-se criminosamente a que uma família assuma tal projeto.
Enquanto
nos preocupávamos em denunciar a hipocrisia e as associações autoritárias do
lema “Deus, pátria, família e liberdade”, apontando a contradição entre a
defesa de um modelo autoritário e a hipocrisia moral, subestimamos sua
contradição mais profunda: o ódio profundo ao Brasil. O suposto patriotismo
dessa extrema direita é o que despreza o próprio povo, não reconhece suas
conquistas históricas e desvaloriza sua cultura e sabota qualquer possibilidade
de construir um futuro soberano. É o patriotismo de quem sonha viver em Miami.
Nesse
aspecto, nossa extrema direita consegue ser pior que suas congêneres
estrangeiras: além de autoritária e excludente, é entreguista e profundamente
patética. Sequer admite qualquer projeto de desenvolvimento nacional. Sua
pátria é uma abstração; o Brasil real e seu povo são obstáculos a serem
superados. Por isso, a derrota nas eleições legislativas e na disputa pelo
Executivo, já no primeiro turno, pode se revelar o maior revés da nossa
história.
Vamos
ser realistas, sabendo dimensioná-la para poder enfrentá-la com as armas
certas, pois foi nada menos que catastrófica. Pois, dessa vez, a extrema
direita não terá qualquer pudor de destruir os ganhos sociais, econômicos e
civilizatórios do país. Michel Temer, ainda com a cínica retórica de quem
sempre representou, já produziu estragos catastróficos nos direitos sociais, na
Petrobras e na indústria da construção civil, sob o impulso do lavajatismo.
Jair
Bolsonaro tentou ir além, promovendo não apenas a corrosão de direitos e da
nossa infraestrutura econômica e social, mas também a degradação moral da
sociedade brasileira, simbolizada pela pandemia e pelas imagens de fome e
adoecimento dos povos Yanomami. Se Jair Bolsonaro não avançou mais, foi apenas
por sua inaptidão, preguiça e incompetência.
Mas
agora não há qualquer razão para supor que esta jovem e motivada extrema
direita que chega ao poder tenha a mesma timidez. As mangas já estão
arregaçadas. Eles tentarão destruir e colocar sob seu controle, sem qualquer
constrangimento, o STF; corroer a Polícia Federal; aparelhar joias nacionais
como o IBGE; desidratar ainda mais as agências reguladoras submetendo-as aos
interesses financeiros; dinamitar os direitos conquistados pelas mulheres ao
longo de décadas; perseguir, sem qualquer verniz, toda a elite intelectual
representada pelas universidades.
Política
ambiental, apoio aos indígenas ou proteção às populações mais vulneráveis?
Esqueçamos. Eles não serão covardes como em 2022. Aprenderam bem as lições. Não
subestimemos sua inteligência ou habilidade. Não subestimemos quem, ao vivo, no
Jornal Nacional, soube explorar o peso de anunciar quem será seu
ministro. Eles sabem para quem trabalham e, com o apoio – e a chantagem – de
quem quer nos recolonizar, não hesitarão em passar a boiada sobre nós.
Por
isso, devemos compreender, de uma vez por todas, que, historicamente, o limite
da extrema direita foram os tanques soviéticos em Berlim. No século XXI emergiu
uma extrema direita que assumiu o desejo de enterrar os compromissos sociais
que o capitalismo foi obrigado a assumir no pós-segunda grande guerra graças à
concorrência ideológica do estado soviético.
Mas
agora, já não há espaço ou barreira, em seu projeto, sequer para a
social-democracia, um mínimo Estado de bem-estar social ou para políticas
keynesianas. Eles não mais admitem conceder nada. Sua hipocrisia acabou; suas
intenções estão escancaradas. E nós, iremos nos resignar? A luta de classes,
como luta entre dois lados, nunca foi pretendida dentro da institucionalidade
petista. Até então, poderia ser compreensível.
Mas
agora a realidade nos massacra. Nós devemos explicitá-la, e é nossa culpa se
não o fizermos. Pois, para que exista uma luta, é preciso que haja quem
resista. Senão, é apenas um massacre.
Pois,
devemos saber que a tudo isso se soma a pós-verdade, que é muito mais sutil do
que a simples mentira. É a decadência completa da relevância da verdade
factual. O mundo informacional foi segmentado, sobretudo pelos algoritmos, em
realidades que quase não precisam mais se encontrar.
Parte
da população não toma conhecimento de determinados fatos da forma como eles
realmente se apresentam – algo que, de outra maneira, já ocorria sob a mídia
tradicional. Mas agora há algo mais sutil e perverso: mesmo quando o fato
chega, pode chegar recortado, deslocado de contexto, reinterpretado ou
inteiramente reorganizado dentro de uma narrativa que lhe dá outro sentido.
Basta o uso de boa retórica e verossimilhança, vide o sucesso de Nikolas.
E disso
não pode se subtrair uma sociedade cada vez mais conservadora, na qual parcelas
significativas da população passaram a se mobilizar muito mais intensamente por
pautas morais e de costumes do que pela conquista de ganhos materiais concretos
para suas próprias vidas. Isso não aconteceu espontaneamente. Foi resultado
também de uma longa disputa pela formação do senso comum, pela linguagem e
pelos valores através dos quais a realidade passa a ser interpretada.
O
diagnóstico que devemos inferir é: hoje nós discutimos uma gramática que não é
nossa. Um tipo de luta já perdida, combatida no campo de batalha dos inimigos.
Mas será que devemos continuar tentando disputar o discurso da extrema direita
em seus próprios termos, ajustando o nosso ao deles? Ou devemos pautar, sem
meias palavras nem pudor, de forma atualizada e sem anacronismos, a nossa
própria gramática, o nosso discurso?
Há
nisso uma ironia histórica: a extrema direita, sob influência olavista de quem
caçoávamos com presunção, parece ter compreendido muito bem uma lição
gramsciana que parte da esquerda teve medo de colocar em prática por fleuma – o
poder não se disputa apenas nas eleições ou dentro do Estado; disputa-se também
na cultura, nas instituições, no humanismo do que é sagrado e religioso, na
profundidade politizadora da mídia e na própria produção cotidiana do senso
comum.
Quem
nunca se assustou, por exemplo, ao descobrir que um prestador de serviço comum
se informa a partir de documentários como os do Brasil Paralelo, que lhe
revelariam a verdade secreta de um Brasil dominado pela esquerda? Ou com o fato
de soar cada vez mais comum, sobretudo entre os mais jovens, dizer que o
nazismo é de esquerda? Será que não percebemos o quanto isso ajuda a produzir
uma sociedade progressivamente cega e alheia à própria relevância factual? Será
que continuaremos debochando da ignorância alheia, ignorando que isso se torna
cada vez mais um fato?
Enquanto
a extrema direita trava essa guerra sem pudor, instituindo despudoradamente
colégios militares ou instrumentalizando a religião, parte da esquerda recua
até mesmo diante da possibilidade de realizar, em sentido verdadeiramente
emancipador, aquilo que o tão atacado e incompreendido Paulo Freire propunha:
formar sujeitos capazes de compreender criticamente o mundo em que vivem.
Para
além do ProUni, do Pé-de-Meia e das políticas de cotas, iniciativas legítimas e
importantes para a inclusão social, o PT termina seus governos sem deixar ao
país um legado de formação crítica e emancipadora à altura de um partido que se
diz de esquerda. Sem propor um projeto nacional de educação de base
verdadeiramente transformador, capaz de elevar o patamar educacional
brasileiro.
O
resultado está diante de nós: uma sociedade em que parcelas da população podem
se mobilizar apaixonadamente por uma guerra cultural mesmo quando dela não
resulta qualquer melhoria concreta em sua renda, seu trabalho, sua segurança ou
sua qualidade de vida.
E é por
isso que a experiência da pandemia funcionou como marco estruturante desse
processo. Pode parecer contraintuitivo que governos de extrema direita tenham
embarcado no negacionismo sanitário, mas tal retórica legitimou profundamente
um ideal de feroz liberdade individualista, capaz de romper com qualquer
concepção de liberdade fundamentada em um corpo social coletivo. A mensagem
deixada foi clara: absolutamente nada poderia impedir a economia de continuar
funcionando, mesmo que isso significasse que o próprio indivíduo ou os outros
ao seu redor morressem.
Foi a
consagração da ideia de que essa liberdade não carrega mais nenhuma obrigação
coletiva, apenas direitos absolutos sobre si mesmo. É o caráter fatalista do
capitalismo levado às últimas consequências, em uma lógica que remete ao
realismo capitalista de Mark Fisher ou à concepção do capitalismo como religião
em Walter Benjamin.
Foi o
golpe final contra qualquer ideia de corpo social. O erro do nosso discurso?
Tratar o temor pela própria sobrevivência econômica dos cidadãos comuns como
expressão dos interesses mesquinhos do empresário “malvado”, ignorando que
todos, dos mais pobres à classe média, sofriam com os efeitos da paralisação
econômica.
A
retórica conta. Por isso, devemos compreender que a pandemia e o negacionismo
das vacinas não representaram apenas um crime contra a população, mas também um
profundo ataque ao espírito crítico do corpo social, de cujo alcance simbólico
não nos demos conta.
E
tamanha perda jamais será recuperada apenas pela apresentação racional dos
fatos. O que se atacou durante a pandemia também foi a legitimidade da ciência,
da razão e do bom senso, em prol de um discurso messiânico e altamente
individualista que beirou o darwinismo social. A Dialética do Esclarecimento
não nos ensinou que a própria racionalidade tem suas contradições? Nosso erro
não pode ser achar que basta demonstrar os fatos para que a verdade se imponha.
A razão não vence simplesmente porque dispõe dos fatos.
Pois o
que há de mais explícito nos fascismos – e que torna toda essa conjuntura tão
próxima do neofascismo, do qual a extrema direita sabe se utilizar tão bem –
não é apenas a linguagem ou qualquer outra característica forçosamente
comparada com aquilo que se viu na Europa. É também a construção permanente de
conflitos internos, de inimigos e de uma sensação de perigo iminente, crise
contínua e decadência moral.
Nada
disso precisa ser materialmente experimentado por cada indivíduo para produzir
efeitos políticos. As pessoas não precisam presenciar a ameaça em suas próprias
vidas; basta que sejam mantidas sob a sensação permanente de que ela está em
toda parte e pode alcançá-las a qualquer momento. E isso eles sabem fazer muito
bem.
Se
dormimos em 2026 e acordamos, no dia 4 de outubro, em 1964, apenas um
enfrentamento claro e incansável, a partir de agora e pelos próximos anos,
poderá impedir que, no dia 25, despertemos novamente em 22 de abril de 1500,
retrocedendo mais de cinco séculos em nossa história.
Fonte:
Por Sérgio Atieh, em A Terra é Redonda



