Ângela
Carrato: A verdade, a primeira vítima da cobertura do JN sobre a guerra dos EUA
e Israel contra o Irã
É fato
que Estados Unidos e Israel bombardearam o Irã na madrugada de 28 de fevereiro,
dando início a uma guerra que não precisava acontecer.
O Irã
não ameaçava em nada os EUA e os dois países estavam em meio a negociações,
cuja nova rodada aconteceria na semana seguinte.
Os
bombardeios ignoraram o direito internacional e deixaram claro quais eram os
agressores e qual o país agredido.
Apesar
desta verdade acaciana, o JN passou a se referir à guerra dos
EUA e Israel contra o Irã como Conflito no Oriente
Médio ou Guerra do Irã.
Percebe,
caro (a) leitor (ra) como essa simples mudança tem o papel de apagar quem foi o
agressor?
A
operação seguinte foi a de caracterizar o Irã como um país bárbaro, uma
ditadura sanguinária e seus dirigentes, os aiatolás, como religiosos
retrógrados, violadores dos direitos humanos e inimigos das mulheres.
Não foi
complicado obter sucesso nesta operação, uma vez que desde 1979, quando através
de uma revolução, os aiatolás chegaram ao poder, toda a mídia ocidental passou
a descrevê-los como retrógrados e inimigos da democracia.
A visão
que a mídia ocidental passa sobre os aiatolás é a que interessa aos seus
governos e às suas empresas multinacionais.
Basta
lembrar que, no poder, os aiatolás expulsaram as multinacionais do Irã e
reestatizaram suas reservas de petróleo, a segunda maior do mundo.
Reservas
que o xá Reza Pahlevi, após derrubar o então primeiro-ministro Mohammed
Mossadegh, em 1953, havia entregue de bandeja aos interesses ingleses e
estadunidenses.
Não é
de agora a desumanização que a mídia faz dos aiatolás, o que facilita em muito
a naturalização dos ataques contra eles, especialmente quando apresentados como
responsáveis por um “regime ditatorial”.
É
importante observar como o JN caprichou ao enfatizar a justeza
da ação dos Estados Unidos e de Israel, sob o argumento de que o Ocidente
“jamais poderia permitir” que ditadores como os aiatolás tivessem acesso a
artefatos nucleares.
Ao
dizer isso, o JN tenta imputar ao governo do Irã algo que ele
sempre negou: buscar o domínio da tecnologia nuclear para fins bélicos.
Até
hoje, o único país que lançou duas bombas nucleares foi os Estados Unidos.
Mais
ainda: Israel, seu protegido, é suspeito de, há décadas, possuir a bomba
atônica e não há qualquer registro de que o assunto tenha sido levado à Agência
Internacional de Energia Atômica (AIEA), órgão da ONU responsável por este tipo
de fiscalização.
Todas
as notícias sobre a “guerra do Irã” no telejornal da família Marinho seguem o
mesmo roteiro.
Independente
de quem esteja levando a melhor, a notícia começa por Israel ou Estados Unidos
revidando ataques do Irã. As reportagens contam com entrevistas com
especialistas ocidentais e os “fatos” são detalhados por seus correspondentes a
partir dos EUA e da Europa.
A Globo
não tem correspondentes fora do circuito Estados Unidos (Nova York-Washington)
– Europa (Londres, Paris, Roma, Genebra) e tudo o que é dito parte da
perspectiva e dos interesses do imperialismo estadunidense e de Israel.
O Irã,
no enquadramento editorial do JN, sempre aparece como estando em
desvantagem ou atacando indiscriminadamente Israel e os países vizinhos do
Golfo Pérsico.
Frases
como “Irã toca o terror nos países do Golfo” ou “Irã escala a crise” estiveram
presentes na abertura (escalada) de duas edições do JN, nos dias 16
e 17/3.
No
entanto, nada mais distante da realidade. O Irã não ataca alvos civis,
diferentemente dos Estados Unidos e de Israel, e tem denunciado ataques de
“falsa bandeira” que lhes são atribuídos.
Igualmente
foi naturalizado pelo JN o fato de que no primeiro dia da
guerra ter sido assassinado todos os principais dirigentes iranianos, a começar
pelo aiatolá Khamenei, líder supremo, e a maioria dos seus familiares.
Neste
mesmo dia, EUA e Israel bombardearam uma escola de ensino fundamental, na
cidade de Minab, no sul do país, matando 180 meninas, com idade entre 7 e 12
anos.
O JN se
referiu à morte dessas meninas en passant. Limitou-se, cinco dias
depois, a mostrar que a escola era próxima de um suposto alvo militar e que
pode ter sido atingida “por engano”.
Pior
ainda: tentou passar pano para Israel, que disse não ter nada a ver com a morte
das crianças, e deu espaço para Trump dizer o mesmo, anunciando que iria mandar
“apurar os fatos”.
Desde
então, a morte dessas meninas sumiu do JN.
Para
dar impressão de que Trump está vencendo a guerra, o JN faz de
tudo. Ao invés de abrir sua edição de 16/3, com um Trump patético, pedindo
apoio aos líderes de países europeus e do Japão para desobstruir o estreito de
Ormuz, fechado parcialmente pelo Irã, jogou esta informação crucial para o meio
da reportagem, passando por cima do que há de mais elementar em se tratando de
técnica de edição.
Aos que
podem argumentar que tudo não passou de erro ou descuido, no dia seguinte,
o JN repetiu a mesma lógica.
Jogou a
principal informação, a de que Joseph Kent, diretor do Centro Nacional de
Contraterrorismo dos Estados Unidos (NCTC) havia renunciado ao cargo devido a
divergências sobre a guerra contra o Irã para o meio da reportagem, tentando
diminuir o seu impacto.
Ao
contrário da mídia internacional e da própria mídia estadunidense, o JN não
deu qualquer relevância à afirmação de Kent de que esta guerra interessa mais a
Israel do que aos Estados Unidos.
Ao
passar pano para Nethanyaru, seja em se tratando desta guerra contra o Irã,
seja no genocídio em curso contra os palestinos na Faixa de Gaza, o JN dá
razão aos que apontam para a prevalência do lobby sionista em seu noticiário.
Some-se
a isso que o JN esconde do seu público que a guerra de Trump e
de Nethanyaru têm o apoio de apenas 30% da população estadunidense.
Esconde
que tem havido protestos diários nas principais cidades dos EUA e da Europa
contra esta guerra.
Esconde
que militares dos Estados Unidos estão denunciando a falta de sentido de uma
guerra que interessa apenas a Israel.
Não
satisfeitos, os editores do JN e seus âncoras falam sobre o
fechamento do Estreito de Ormuz, por onde passa 25% do carregamento de petróleo
bruto mundial e grande parte do gás natural liquefeito (GNL) produzido na
região, como se fosse algo que surgiu do nada e é da exclusiva responsabilidade
do Irã.
Desde o
início da guerra, o Irã anunciou que poderia fechar o Estreito de Ormuz. Trump
e Nethanyaru não acreditaram e ampliaram os bombardeios.
O Irã
cumpriu a promessa e agora, com o barril de petróleo chegando aos US$ 120,0 e
com indicação de mais alta, o JN faz de tudo para jogar “esta
crise econômica de proporções mundiais” nas costas do Irã e no Brasil tenta
responsabilizar o presidente Lula pela alta no preço dos combustíveis.
Novamente
divulgam inverdades. Infelizmente sabemos que uma mentira repetida à exaustão
pode se tornar uma verdade.
O JN fez
infográficos para mostrar quais líderes iranianos foram mortos, apresentando-os
como se fossem integrantes de facções criminosas com suas respectivas
ramificações.
Detalhe:
a cor predominante nos infográficos era sépia, que no espectro cromático está
associada à coisa antiga.
Os
aiatolás seriam, por esta lógica, antigos, atrasados, retrógrados, merecedores
de serem varridos da face da terra. Aliás, foi algo semelhante o que disse
Trump, anunciando que matará qualquer novo líder do Irã que assumir o poder e
se negar a aceitar os termos determinados por ele.
Nem
Hitler chegou a tanto em seus pronunciamentos, mas o JN não
viu nada de errado e novamente naturalizou mais esta fala absurda e criminosa
de Trump, que pretende ser “o dono do mundo”, como assinalou o presidente Lula
em pronunciamento em meados de janeiro.
Como
o JN visa justificar crimes de guerra praticados pelos Estados
Unidos e Israel, uma vez que constitui agressão suprema ao direito
internacional um país sequestrar ou matar dirigentes de outros países, ele
esconde todas as críticas que Lula ou outros líderes, como Gustavo Petro, da
Colômbia, ou Pedro Sanches, da Espanha, façam à insensatez desta guerra, a
Trump ou a Nethanyaru.
Pode
demorar, mas Trump e Nethanyaru vão responder pelos seus crimes, mas o JN não
parece muito preocupado com isso.
Como
sempre, aposta na memória curta das pessoas.
É
impressionante como a suposta cobertura do JN apresenta
também, sem qualquer contraditório, as bravatas de Trump como verdades
inquestionáveis, a exemplo de que o próximo país no qual ele pretende mudar o
governo, depois da Venezuela e do Irã, é Cuba.
Vale
perguntar: não seria o caso do JN fazer uma efetiva reportagem
sobre Cuba, abordando as hostilidades dos Estados Unidos contra a ilha
caribenha desde a década de 1960?
Esta
reportagem que o JN não fez, acabou sendo realizada pelo Fantástico do
domingo (22/3).
A
melhor definição para o que foi mostrado é “patético”.
Sob o
argumento de que a Globo pediu visto ao governo cubano para seus jornalistas
realizarem a reportagem e não obteve resposta, o Fantástico terceirizou
a reportagem para os profissionais da Associated Press, uma agência de notícias
fundada em 1846, cujos proprietários são jornais, estações de rádio e de TV
estadunidenses.
Ou
seja: deixou a cobertura da guerra nas mãos de um dos lados da guerra.
Após
mostrar Trump dando um ultimato ao Irã e um Nethanyaru visitando áreas de
Israel atingidas por bombardeios do Irã, a reportagem emendou lembrando que
Trump bombardeou o Irã na linha do que fez na Venezuela, onde “capturou” o
ditador Nicolás Maduro e pode fazer algo parecido com a “ditadura cubana”.
Foi
sobre Cuba, no entanto, que a reportagem se estendeu mais. Mostrou que o país
esteve pela segunda vez em menos de uma semana às escuras, fruto da falta de
petróleo, pois não há mais o fornecimento da Venezuela.
A
reportagem da Associated Press, exibida pelo Fantástico, ouviu
vários moradores da ilha para confirmar os graves problemas que enfrentam, pois
“falta quase tudo”.
Até um
retrospecto da história de Cuba, desde os tempos de colônia espanhola, foi
exibido para tentar convencer o público que derrubar o governo Diaz- Canel e o
regime socialista será um “ato humanitário”.
O
problema é que o tal retrospecto estava marcado por mentiras.
A
primeira é de Cuba estava livre após deixar de ser colônia da Espanha. Em 1901,
os Estados Unidos impuseram à Constituição cubana a emenda Platt, que
subordinava a ilha aos interesses dos Estados Unidos. Ela concedia aos EUA o
direito de intervir militarmente no país e exigia o arrendamento de terras para
bases navais, como Guantánamo.
Ao
abordar a Revolução que derrubou o corrupto e ditatorial governo de Fulgêncio
Batista, em 1959, afirmou que Cuba “trocou uma ditadura por outra”,
referindo-se à vitória de Fidel Castro.
Sobre o
embargo econômico dos Estados Unidos, que Cuba vive desde 1962, apenas algumas
poucas referências, mas nada que lembre o fato de que, há décadas, a quase
totalidade dos países que integram a ONU se pronuncia contra ele. Mesmo assim,
o embargo é mantido pelo veto dos EUA, com o apoio de Israel.
Como a
maioria das pessoas não sabe e nem pesquisa sobre o que é a Associated
Press, acaba aceitando o que é mostrado. E, neste caso, o que foi mostrado
não passou da mais descarada propaganda dos Estados Unidos contra o que
considera seus adversários.
Se
tivesse o mínimo compromisso com os fatos, era para o Fantástico ter
exibido que exatamente naquele mesmo domingo, Cuba recebia uma missão de
solidariedade composta por representantes de dezenas de países, que lá chegaram
com alimentos e remédios.
Vários
brasileiros integram esta missão, a começar por Thiago Ávila. Mais ainda, pelo
menos um cargueiro chinês está a caminho de Cuba com toneladas de alimentos.
Na
caradura, o Fantástico escondeu tudo isso, para passar a ideia
de que a população cubana está abandonada à própria sorte.
Escondeu
também o contundente pronunciamento do presidente Lula durante o Fórum
Celac-África, realizado em Bogotá, na Colômbia, no dia anterior.
Em seu
discurso, Lula afirmou: “não somos mais colônias. Não aceitamos mais ser apenas
exportadores de minerais. Temos que ter a chance de desenvolver nossos países”,
diante de uma plateia que o aplaudiu entusiasticamente.
Nada
disso apareceu no Fantástico e nem aparece no JN.
Para a
família Marinho o importante é esconder a importância de Lula e do Sul Global e
fazer de tudo para manter em evidência o império em declínio e seus aliados.
Mesmo quando este império pode jogar o mundo numa catástrofe ou dar início à
Terceira Guerra Mundial.
Em
síntese, a cobertura da guerra dos EUA e de Israel contra o Irã pela TV Globo,
seja JN ou Fantástico, confirma tudo aquilo que o
experiente jornalista australiano Phillip Knightley (1929-2016) já havia
escrito: “além da mídia e seus correspondentes serem propagandistas e
fabricantes de mitos, a primeira vítima sempre é a verdade”.
Seu
livro tem exatamente o título de “A Primeira Vítima” e mesmo publicado em 1975,
permanece de uma atualidade impressionante.
No caso
as vítimas são o Irã, a Venezuela, Cuba e todo o Sul Global.
Os dois
primeiros países sendo atacados para que seu petróleo seja surrupiado, Cuba
para que os Estados Unidos consigam derrotar um país que ousou buscar o
socialismo como caminho e o Sul Global por apostar no mundo multipolar.
Parodiando
Knightley, as reportagens do JN sobre a guerra dos EUA e de
Israel contra o Irã parecem ter sido editadas nos gabinetes do pessoal do
Mossad e da CIA.
A
da Associated Press exibida pelo Fantástico certamente
foi.
Fonte:
Viomundo



