Golpe
da austeridade afronta 64 milhões de votos
Nunca
antes na história deste país houve uma eleição presidencial como a de 2026.
Nunca antes houve uma virada tão espetacular entre o primeiro e o segundo
turno. Nunca antes um governante de 81 anos, com altas taxas de rejeição,
desmentiu estatísticas e viu o jogo virar a seu favor.
Nunca o
povo brasileiro havia dado tão exuberante capacidade de alterar a conjuntura,
derrotando a extrema direita interna e externa, com destaque para sabotagens
das big techs e a violenta política imperial do governo de Donald Trump.
Nunca antes o cinismo do chamado mercado ficou tão evidente. Nunca antes, nunca
etc. etc.
Há
ineditismos em penca na jornada que culminou na quarta vitória do presidente
Lula, com destaque absoluto para a surpreendente, intensa e decisiva entrada em
cena de multidões que atropelaram institutos de pesquisas, autoproclamados
especialistas em estatísticas eleitorais, o comando de campanha, a direção do
Partido dos Trabalhadores e, em certa medida, o próprio candidato.
Até o
início da apuração, poucos se arriscavam a colocar todas as suas fichas num ou
noutro postulante, dado o cipoal de incertezas que se acumularam nesse outubro
flamejante.
Após
jornadas somente compreensíveis pelo uso de superlativos, o mercado não se
contém: exige que o governo eleito baixe a bola e invista na mediocridade de
sempre, em favor dos interesses da minoria endinheirada. Ou seja, o
aprofundamento do ajuste fiscal, com cortes orçamentários e de investimentos e
a retomada de privatizações, diretrizes que quase levam o presidente à derrota.
Mal apurados os votos, teve início um terceiro turno selvagem, que pode
resultar em novo estelionato eleitoral. Vamos aos detalhes.
<><>
O 8 de janeiro do mercado
Em
ruidosa tentativa de mostrar quem manda, o mercado produziu um 8 de janeiro
para chamar de seu. Sem as chocantes cenas de depredação de sedes dos poderes
na Esplanada dos Ministérios em Brasília, como ocorreu em 2023, a malta da alta
finança promoveu arruaça na Bolsa de Valores de São Paulo, ao longo do 26 de
outubro, pouco mais de 12 horas após o anúncio oficial do resultado das urnas.
O
lumpesinato da especulação derrubou o Ibovespa em 13,88%, o dólar decolou 8,21%
e os juros futuros dispararam, em típica chantagem contra o presidente eleito.
Tendo apostado na semana anterior em Flávio Bolsonaro, que prometera um
tesouraço de R$ 250 bilhões no orçamento público, a manobra de puro terrorismo
financeiro gerou ganhos monstruosos para poucos felizardos e rombos expressivos
para outros.
Ao
longo da semana, a movimentação arrefeceu, mas o recado estava dado: o quarto
mandato de Lula que não ousasse nomear uma equipe para dirigir o Ministério da
Fazenda em desacordo com os interesses da Faria Lima.
O golpe
já funcionou em outras ocasiões, em especial nos governos Lula I, Dilma II e
neste Lula III, quando a coalizão vencedora cedeu às pressões. Em 2023, o
arcabouço final foi definido pela equipe econômica governamental como
substituto ao teto de gastos do governo Michel Temer, ao gosto das facções
endinheiradas, eufemisticamente tratadas como “investidores” pela mídia
corporativa.
O
financismo já apontou Rafael Fonteles, governador do Piauí pelo PT, como seu
preferido, e chega ao desplante de impor barreiras a possíveis interlocutores
do presidente da República. Detalhe: Luís Inácio Lula da Silva mereceu o voto
de 64.256.232 brasileiros e brasileiras. O mercado não foi votado e nem vota,
mas quer desfrutar do poder de veto. Explica-se.
Raras
vezes se viu no Brasil uma frente tão ampla, composta por neoliberais assumidos
e enrustidos, como a formada para atacar as ideias de André Lara Resende, que
aponta caminho alternativo na estruturação da política econômica. Ex-presidente
do BNDES e um dos pais do Plano Real, ALR publicou em setembro o artigo “Eu acuso” – republicado no site A Terra é Redonda – no
qual denuncia que o verdadeiro déficit público é causado pelo pagamento de R$
1,4 trilhão de juros para o rentismo e apresenta uma proposta heterodoxa
destinada a baixar a atual taxa Selic de 13,25% para algo em torno de 7,5% ao
ano.
E
argumenta objetivamente: “O Brasil tem problemas sociais e institucionais
graves. Nenhum deles tem solução fácil. Exigem inteligência na formulação de
propostas, bom senso na costura de apoio político e competência na
implementação. A economia tem um problema básico: a extraordinariamente alta
taxa básica de juros. Um problema que tem solução clara. Só é preciso vencer os
preconceitos associados a uma teoria monetária e fiscal anacrônica”.
Poucos
leram na época. Não é nosso propósito aqui discutir as ideias do economista,
mas apontar a volta da ditadura do pensamento único. Bastou o colunista Lauro Jardim, de O Globo, anunciar no
domingo 1º. de novembro um encontro entre Lula e Lara Resende para o mundo
desabar. O veto uniu em frente ampla o mercado, a mídia, Marcos Lisboa. Dario
Durigan, Aloísio Mercadante e Edinho Silva, entre outros.
Atacaram
o texto com fúria e baixeza. É proibido denunciar a parasitagem. Tudo para
manter no Lula IV o mesmo rumo neoliberal da gestão atual, que quase leva o PT
à derrota eleitoral. Apesar dos rumos da economia se constituírem no principal
problema a ser tratado nos próximos dias, o governo vai se deparar, a partir da
posse, em 5 de janeiro, com outro, na seara política: um Congresso que contará
com a extrema-direita como força principal.
<><>A
dança das cadeiras no Legislativo
Embora
o Partido Liberal (PL) tenha alcançado vitória notável nas disputas
legislativas, o impacto da derrota de Flávio Bolsonaro abre uma crise de
liderança na extrema direita, potencializada por sua desmoralizante fuga do
país dois dias após o segundo turno. O PL elegera 98 deputados num total de 513
em 2022 e passa para 121, controlando sozinho 23,6% da Câmara.
No
Senado, a legenda salta de 14 para 29 cadeiras num total de 81, alcançando 38%
delas, proporção não vista desde o final da ditadura. Além disso, comanda seis
estados. O centrão perde espaço para o extremismo reacionário. Movido a doses
cavalares de fisiologismo, é bem possível que esse campo abrigado em vários
partidos se desloque em direção ao governo reeleito, a partir de 2027.
O
progressismo não muda substancialmente. O PT tinha 69 e agora terá 70
deputados, O PSB mantém 15 assentos, o PSOL passa de 13 para 14, o PCdoB salta
de 7 para 11, o PDT encolhe de 10 para 6 e a Rede cai de 2 para 1. No Senado,
esse bloco recua de 17 para 15 cadeiras.
Se é
verdade que uma campanha de reeleição equivale a um plebiscito no meio de um
mandato estendido, as pesquisas de intenção de voto realizadas nos primeiros
meses de 2026 indicavam que Lula enfrentaria dificuldades em sua jornada. A
razão? A desaprovação que seu governo enfrentava diante das expectativas de uma
população que emergira de uma década de desastres econômicos, causados pelas
gestões Dilma II, Michel Temer e Jair Bolsonaro.
Os
levantamentos do BTG/Nexus atestam que desde o final de março até a primeira
quinzena de outubro de 2026, a porcentagem dos que avaliavam o governo como
ruim ou péssimo permaneceu sempre acima de 42%, seguida de oscilações em torno
de 20% na classificação regular. A uma semana do pleito, apenas 32, 4%, ou um
terço do total do eleitorado, avaliava a gestão Lula como ótima ou boa. No
mesmo período, a rejeição ao presidente oscilava entre 48% a 50%.
Para
uma liderança que subira a rampa no início de 2023 acompanhado por oito
personagens que simbolicamente representariam a diversidade brasileira – um
líder indígena, uma catadora de resíduos, um menino negro, um rapaz portador de
deficiência, um trabalhador metalúrgico, uma cozinheira, um professor e um
artesão – a desaprovação afigurava-se como obstáculo sério às pretensões
eleitorais petistas.
<><>
A trava nos gastos
A
multiplicidade de promessas não cumpridas tem origem na opção oficial pela manutenção de uma variante do teto de
gastos aprovado em 2016, pelo governo Temer, como afirmou o então ministro
Fernando Haddad, em entrevista à Monica Bérgamo, em 2024. Apesar de Lula
garantir o fim da medida na campanha de 2022, sua equipe econômica apresentou
uma nova regra ao gosto do mercado financeiro, meses após a posse. O mesmo Fernando Haddad, admitiu em
março de 2023 que “não é fácil tomar medidas impopulares”.
O
chamado arcabouço fiscal, sancionado no final de agosto daquele ano, restringe
o gasto público e trava qualquer ação desenvolvimentista, penalizando
fortemente o orçamento do Estado e, por extensão, os serviços públicos. Os
passos seguintes foram todos na mesma direção.
Em 31
de janeiro de 2025, o jornal O Estado de S. Paulo informava que “o
ministro Fernando Haddad indicou que é preciso
desacelerar a economia para que o País não seja prejudicado em outros aspectos,
como na questão inflacionária”. No mês anterior, o Banco Central passara a ser
comandado por Gabriel Galípolo, indicado por Lula. Tendo a maioria de sua
diretoria composta por membros afinados com o governo, a instituição dava
início a um ciclo altista de juros, inédito em duas décadas.
A Selic
passaria de 12,25% ao ano, no final de 2024, para 15%, seis meses depois.
Contratava-se ali uma contração econômica que adentraria o ano eleitoral.
Pesquisas
do Datafolha e da Genial Quaest, divulgadas na primeira quinzena de abril de
2026 exibiram uma característica que marcaria toda a disputa presidencial:
qualquer um que se colocasse contra o petista apareceria com indicadores
próximos ao empate num hipotético segundo turno. Mesmo exibindo intenções de
voto que não ultrapassavam 5% nas simulações de primeiro turno, Ronaldo Caiado
e Romeu Zema aproximavam-se do ex-metalúrgico nas sondagens da volta seguinte.
Ali
ficou patente que Lula tinha como principal oponente sua própria rejeição. Os
indicadores resultavam da frustração das expectativas geradas na campanha de
2022, quando se tornou claro que o candidato que prometia desenvolvimento e
melhoria de vida entregara depois de eleito um duro programa de austeridade
fiscal.
<><>
Melhorias limitadas
É
injusto, no entanto, dizer que o governo Lula III não apresentou melhorias
significativas na qualidade de vida da população. Houve avanços nos patamares
de emprego e renda, embora os salários sejam muito baixos. Fenômenos como
uberização e empreendedorismo mascaram acentuada precarização laboral, que
implica aumento de jornadas e obriga trabalhadores e trabalhadoras a buscarem
várias ocupações para garantir ingressos de subsistência.
Apesar
de não existirem mais desastres como as 700 mil mortes da pandemia, o
negacionismo vacinal, a fila do osso e a volta do país ao mapa da fome, as
quebras de expectativas, as promessas não atendidas e a sensação de que a vida
das maiorias não mudara muito desde o início de 2023 acabou se impondo, em que
pese a série de estatísticas exibidas por representantes oficiais.
Entre
outras, essas percepções negativas se originam em fenômenos como a
inadimplência de 29% das famílias, motivada por juros estratosféricos, no
congelamento dos valores do bolsa família desde 2023, no fato da vida estar
muito cara, em que pese a inflação baixa. A fila do INSS foi reduzida de cerca
de 3 milhões de pessoas em janeiro para 1,3 milhão em setembro deste ano, mas o
descontentamento se mantém.
Há
ainda planos deixados de lado, como a reestatização da Eletrobrás, da BR
distribuidora e a revogação da reforma trabalhista de 2017. Some-se a isso o
fato de não haver sinal do mais forte anúncio difundido na campanha de 2022:
“picanha e cerveja para todos”. Sem tomar iniciativas para recompor a política
de estoques reguladores, algo que implica aumento de gastos e enfrentamento com
o agronegócio, a atual gestão não interveio no mercado sequer para regular
preços de produtos da cesta básica.
No
início de setembro, diante da perspectiva de derrota, Lula decidiu jogar para o
alto a opção contracionista e apresentou uma dezena de medidas expansivas, com
destaque para o reajuste parcial do bolsa família e a aprovação pelo Senado do
fim da jornada 6×1. Há também medidas de impacto na base da sociedade, como a
suspensão da chamada taxa das blusinhas (impostos sobre compras internacionais
de até US$ 50), a proibição das bets, a desoneração dos combustíveis, o
perdão de dívidas tributárias dos microempreendedores individuais (MEIs), a
distribuição de canetas emagrecedoras pelo SUS, entre outras.
<><>
O maremoto das multidões
Os
resultados do primeiro turno, realizado em 4 de outubro, representaram um baque
para o eleitorado lulista. Flávio Bolsonaro amealhou 47,03% dos votos contra
45,16% de Lula, totalizando uma diferença de 2.224.965 sufrágios.
A
direção do PT e a coordenação de campanha não se mostraram a altura do
enfrentamento com uma extrema direita articulada internacionalmente. Nada
explicita mais essa situação do que uma declaração do presidente Lula feita
dois dias depois da primeira votação: “Eu disse para o Edinho [Silva,
presidente do PT] que essa foi a campanha menos organizada de que eu participei
desde 1989.
E normalmente a gente colhe aquilo que planta. Eu tinha convicção de que ia
ganhar no primeiro turno”, declarou o presidente.
Na
noite de céu ameaçando chuva da segunda-feira, 5 de outubro, após articulações
e convocações entre diversos centros acadêmicos iniciadas na noite de domingo,
estudantes da Universidade Federal Fluminense, em Niterói, ainda impactados
pelos resultados, organizaram uma marcha iniciada na Faculdade de Direito,
próxima ao centro da cidade. A adesão resultou numa multidão que surpreendeu os
próprios jovens.
A
iniciativa viralizou pelo país nos dias seguintes. Dezenas de mobilizações
estudantis que logo foram engrossadas trabalhadores, tiveram lugar primeiro nas
capitais e em seguida por cidades médias e até pequenas de todo o Brasil. Foram
quase três semanas de tsunamis humanos que tingiram o país com uma mescla que
ia do vermelho ao verde e amarelo. Lula aderiu à onda e percorreu vários
estados, eletrizando milhões de ativistas impulsionados, pelo medo e pela raiva
que a vitória de Flavio Bolsonaro poderia representar.
As
passeatas não foram convocadas por algum tipo de direção ou marqueteiros
ligados aos partidos da coalizão lulista. As diferenças entre os dois
postulantes logo ficaram claras, politizando uma eleição anteriormente anódina
e vazia de propósitos, quando nenhum dos lados definiu projetos de país ou de
governo. Até então, Lula se preocupava com um hipotético “legado” e com a
comparação de biografias, enquanto Flávio Bolsonaro aderiu ao lavajatismo
moralista, que priorizava um campeonato de acusações de porta de cadeia.
Embora
atos públicos tenham ocorrido dos dois lados, os apoiadores da candidatura
petista protagonizaram os maiores e mais formidáveis. Tornaram-se expressões de
uma nova frente ampla que se forma pelo país. Seu viés foi nitidamente popular
e de repulsa à extrema direita e de oposição a maluquices fiscalistas.
O
impressionante espetáculo das massas em movimento exprime não apenas a retomada
das ruas por parte da esquerda, mas se constitui numa inédita forma de
democracia direta. Milhões “votaram com os pés”, como disse Vladímir Lênin,
conquistando uma espetacular vitória eleitoral de baixo para cima.
Individualmente,
o deputado André Janones (Rede-MG) revelou-se personagem central do
enfrentamento, assumindo o papel de coordenador de facto da campanha Lula. Seu
feito maior não é conhecer e atuar de forma competente no meio digital, mas o
de traduzir o clima das ruas – diverso, descentralizado e fervilhante – para as
redes.
A
partir da proclamação da vitória, uma nova e feroz disputa foi aberta, como
dito no início deste artigo, fazendo as vezes de um terceiro turno. Porta vozes
das grandes corporações e da alta finança dentro e fora do governo, como o
ministro da Fazenda Dario Durigan e o governador do Piauí Rafael Fonteles,
engrossam o coro do terror econômico. Buscam repetir a fórmula austericida que
quase levou o governo à breca nas eleições. A exigência é um novo estelionato
eleitoral que transforme as massas em figurantes de um novo pacto excludente.
Esse
caminho, já trilhado pelo PT, terminou em catástrofe em 2016 e não vale a pena
repeti-lo. A decisão sobre o rumo a seguir, o da capitulação ou o do
enfrentamento, está nas mãos de Lula. Seu gesto definirá a sorte do Brasil
pelos próximos anos.
Fonte:
Por Gilberto Maringoni, em A Terra é Redonda




