terça-feira, 26 de maio de 2026


 

“O SNI é suspeito de matar JK”, afirma o jornalista Ivo Patarra, que investiga o caso há 29 anos

De acordo com a investigação realizada pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério de Direitos Humanos, a morte do ex-presidente da República Juscelino Kubitschek de Oliveira não foi acidental, como se supunha até então. Uma nova perícia constatou haver fortes indícios de um atentado político, no âmbito da Operação Condor, que foi criada nos Estados Unidos, pela CIA, para eliminar os principais opositores dos regimes ditatoriais no Brasil, no Chile, na Argentina e no Uruguai. O jornalista Ivo Patarra descobriu algo mais: os possíveis mandantes do atentado.

>>>> Leia a entrevista

·        O que aconteceu naquele dia com o ex-presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira?

IVO: Dia 22 de agosto de 1976. Era um domingo. O acidente, entre aspas...

·        Não, peraí, peraí, era um domingo, era um domingo. Onde estava o Juscelino e para onde ele foi?

IVO: Ele estava hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo. E, por volta das 14:00, viajou ao Rio de Janeiro, de carro.

·        Qual era o carro? Quem era o motorista?

IVO: Era o Opala dele, quer dizer, o Opala que ele deu para o Geraldo Ribeiro, que era o motorista dele há 36 anos, motorista executivo da mais alta confiança, e eles pegaram esse carro para ir ao Rio de Janeiro. No caminho, pararam em Resende, onde Juscelino tinha uma reunião.

·        Quem o chamou para essa reunião?

IVO: Ele foi chamado para essa reunião por pessoas que se apresentaram como emissários do governo do general-presidente Ernesto Geisel. Juscelino, supondo que poderia ser candidato, digamos assim, nas eleições de 78, mesmo que fosse no Colégio Eleitoral, achava que tinha que fazer uma ponte com os setores militares, a gente estava num regime militar, ele não poderia encarar uma eleição sem o mínimo apoio militar. Então, ele foi para essa reunião, que se deu no Hotel Fazenda Villa-Forte, em Resende, logo após a divisa São Paulo-Rio. Era um hotel que ficava a 500 metros da pista São Paulo-Rio e lá ele ficou por 90 minutos, das 16h30 às 18h00.

·        Quem era o dono do hotel?

IVO: O proprietário era o Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte (*), e o hotel ficou conhecido como “o Hotel do SNI”. O Brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte foi um dos organizadores, um dos criadores do temível SNI, o Serviço Nacional de Informações, a Polícia Secreta do Regime Militar, que foi criado em 1964. O primeiro chefe do SNI foi o general Golbery do Couto e Silva. É importante dizer isso porque, em 1976, esse mesmo Golbery era o braço direito do general presidente Ernesto Geisel como ministro-chefe da Casa Civil. E lembrando que, em 1955, o mesmo Golbery foi preso numa rebelião militar que tentou impedir a posse de Juscelino Kubitschek. Então, já tinha um problema entre os dois.

·        Quem estava nessa reunião no Hotel Fazenda Villa-Forte?

IVO: Não se sabe. Não se sabe quem estava nessa reunião.

·        Enquanto Juscelino ficou lá dentro... onde ficaram o carro e o motorista?

IVO: Havia um estacionamento no local. E o motorista, como todo motorista executivo, não só de presidente da República, de governador, prefeito, deputado, senador, vereador, o motorista executivo fica sempre do lado do carro porque a autoridade chega e vai embora e está sempre com pressa e, além de tudo, ele guarda o carro estando ao lado do veículo sem que ninguém chegue perto. E aí você tem já uma contradição enorme na saída do JK desse hotel, onde ele ficou noventa minutos, não se sabe o que aconteceu lá dentro, eu entendo que ele pode ter sido humilhado ali, e quando o Geraldo Ribeiro, o motorista dele, engata a marcha ré, para tirar o carro do estacionamento - e quem contou à Comissão da Verdade foi o jornalista Carlos Heitor Cony - perguntou ao encarregado do estacionamento se alguém havia mexido no carro.

·        Mas espera aí, o Geraldo não ficou o tempo todo ao lado do carro?

IVO: O Geraldo foi provavelmente atraído para dentro do hotel. para tomar um café, será que ele foi drogado?, será que ele foi envenenado?... o fato é que ao perguntar isso para o guardador, e pela resposta que o guardador dá, ele também não estava lá, porque ele não é um cara assertivo e categórico, claro que não mexeram no carro, estava aqui tomando conta, não, ele simplesmente disse, “não, eu não vi nada”.

·        O Cony contou se o Geraldo em algum momento saiu de perto do carro?

IVO: Não. O Cony só contou que esteve lá e, conversando com o guardador de carros, o guardador relatou isso para ele, que quando o Geraldo Ribeiro engatou a ré no Opala, perguntou se alguém tinha mexido no carro.

·        Cony conversou com mais alguém no hotel?

IVO: Até onde se sabe, só com o encarregado do estacionamento.

·        Bom, se o estacionamento tinha um guardador e o motorista perguntou se alguém tinha mexido no carro, é óbvio que ele não ficou o tempo todo ao lado do carro, não é?

IVO: Sim, isso é o mais provável.

·        Então pronto, agora... o Juscelino entra no carro, o Geraldo já estranhou alguma coisa no carro, e eles pegam a Via Dutra em direção ao Rio de Janeiro. E o que acontece, então?

IVO: Eles vão andar só três quilômetros. E aí você tem o acidente. O que acontece? Na hora que o Opala entra na Dutra, pelo trevo, ali em Resende, onde está o hotel, está vindo pela esquerda de São Paulo um ônibus da Viação Cometa, e ele vem em alta velocidade, porque saiu com atraso de São Paulo, ele estava descontando o atraso. O motorista da Cometa, Josias Nunes de Oliveira, viu o Opala entrando na Dutra, mas ele vinha pela esquerda e passou e foi embora. Três quilômetros adiante, numa manobra arriscada, que um motorista com a competência do Geraldo Ribeiro, com a responsabilidade de estar levando o Juscelino Kubitschek dentro do carro, não faria em circunstâncias normais, ele ultrapassa o ônibus do Josias Nunes de Oliveira pela direita. Lembrando que o ônibus vinha razoavelmente rápido, porque ele estava atrasado. Numa situação normal, o carro do Juscelino esperaria atrás do ônibus, que iria passar dois caminhões que estavam logo à frente à direita, e normalmente o ônibus iria para a direita e o carro do Juscelino passaria o ônibus pela esquerda. Não. O carro do Juscelino faz uma manobra arriscada, temerária, de passar em alta velocidade o ônibus pela direita, lembrando que a Dutra ainda é assim, são duas pistas só, pista da esquerda e pista da direita. Então, ele comete esse ato grave, temerário, e logo…

·        Sabe-se a quantos quilômetros por hora ele estava?

IVO: Eu imagino que o carro estivesse talvez a 120 por hora, o ônibus a 90, que é uma velocidade razoável, e passageiros que estavam dentro do ônibus repararam que o carro estava instável, meio descontrolado, não a ponto de estar desgovernado ainda. Mas, assim que ele ultrapassa o ônibus pela direita, faz uma inflexão radical para a esquerda e já passa quase que imediatamente para a outra pista da Dutra. Ele pula um canteiro central que tinha dez ou doze centímetros e cai na pista da contramão da Dutra. De repente.

·        Quem contou isso? O motorista do ônibus?

IVO: Sim, isso está, inclusive, nas perícias feitas na época.

·        O motorista depôs na Comissão da Verdade?

IVO: Sim, localizamos o Josias em Campinas. Mas deixa eu te explicar. O carro vai para a outra pista da Dutra, a pista Rio - São Paulo. Agora, vamos tentar congelar essa cena. Você tem um Opala, uma situação gravíssima, quer dizer, ele atravessa o canteiro central e entra na contramão na Dutra. Vamos congelar ali, para a gente tentar entender. Se fosse uma situação normal, pela velocidade que ele estava, em meio segundo ele atravessaria a faixa da esquerda, a faixa da direita e o acostamento da Dutra, e estaria do outro lado da pista, onde até hoje é assim, e você tem um campo de gramíneas no mesmo nível, ou seja, não teria acontecido nada se ele depois de atravessar o canteiro central tivesse atravessado a Dutra, mas ele não faz isso, o carro desgovernado começa a andar para a direita na contramão e ele começa a andar exatamente contra os carros ou veículos que viriam na pista Rio - São Paulo! Uma loucura! Não há nas perícias sinal de marca de pneu brecando. Então, o carro simplesmente começa a andar na contramão e vai andar nessa contramão por quatro, talvez cinco segundos, até se chocar contra uma carreta carregada com 30 toneladas de gesso. Um detalhe. Depois da Comissão da Verdade, o motorista que estava numa outra carreta, exatamente atrás da carreta contra a qual o carro do Juscelino bateu, relata ter visto Geraldo Ribeiro, o motorista do Juscelino Kubitschek, com a cabeça tombada entre o volante e a porta. Ou seja, se isso realmente aconteceu, ele já não estava consciente, talvez ele já não estivesse nem vivo, se isso for verdade.

·        Então, com esse choque, com essa colisão, os dois morreram na hora, o motorista e o Juscelino?

IVO: Morreram, tiveram mortes ali praticamente na hora.

·        O Juscelino estava no banco da frente?

IVO: Não, no banco de trás, mas foi uma pancada muito forte. Agora, é interessante notar o que fez o regime militar na época. As autoridades acusaram o motorista da Viação Cometa de ter batido no carro do Juscelino, e isso é que desgovernou o carro e fez com que ele fosse para o outro lado da pista. Mas isso não aconteceu, porque ele não foi demitido. Nem advertido. No dia seguinte, levou o mesmo ônibus para São Paulo, porque não tinha nenhum problema no ônibus. Depois ele foi julgado e absolvido. E mais uma vez julgado. Foi julgado pela segunda vez. Os promotores entraram com recursos, ele foi julgado de novo. E mais uma vez foi inocentado. Não houve a batida e, portanto, não havia uma explicação razoável para o que levou o carro do JK ir para o outro lado da pista, para a pista da contramão. Os passageiros que estavam dentro do ônibus, nenhum disse que houve a batida. Um deles, o Paulo Oliver, prestou um depoimento no ano seguinte, para a Justiça e tudo mais, e falou num clarão sobre o Opala na hora que ele estava passando na frente do ônibus, como se aquilo pudesse ter sido um tiro, uma explosão. O fato é que Juscelino saiu do Hotel Fazenda e rodou três quilômetros em alta velocidade, mas o carro havia sido sabotado, provavelmente, dentro do estacionamento. Não levaria muito tempo para alguém entrar debaixo de um Opala e cortar a mangueira alimentadora do freio da roda dianteira direita, que é a hipótese mais provável, nós nunca vamos saber isso com certeza, porque esse carro depois foi mexido, foi adulterado, etc. Mas o fato é que, quando ele precisou frear, logo após passar o ônibus da Cometa, talvez para dar uma ajustada no carro e voltar para a pista da esquerda, ele devia estar em fuga, não é?

·        Então, espera aí, essa informação eu não conhecia. Alguém estava perseguindo o carro do Juscelino?

IVO: A gente não sabe que tipo de coisa aconteceu ali. Na época se falou numa Caravan amarela, mas isso nunca foi confirmado, mas o fato é que o carro estava em alta velocidade fazendo uma ultrapassagem temerária e isso indica que ele poderia estar fugindo. E quando ele pisa no freio e ele não tem o freio na roda dianteira direita, porque em um segundo alguém cortou aquela mangueira no carro do estacionamento, quando o carro estava no estacionamento, ele, naturalmente, para diminuir a velocidade do carro, pisa mais no freio. É instintivo. E aí o que ele faz? Não tem freio na roda dianteira direita, trava a roda dianteira esquerda e o carro vai para a esquerda. E é um movimento que ele faz para cair na outra pista da Dutra, na pista da contramão. Então, essa é uma hipótese.

·        Foi aberto um inquérito policial para apurar as causas, não é?

IVO: Sim, foi feito.

·        Houve perícia no Opala, na carreta? Nos corpos?

IVO: Olha, os encarregados do inquérito trocaram o perito, tem uma série de irregularidades. Nós temos, por exemplo, uma fotografia do Opala, depois do acidente, o Opala todo destruído, uma pancada de frente, só que a lanterna traseira do lado esquerdo está intacta. No dia seguinte, de manhã, essa lanterna esquerda está destruída.

·        Mas teve alguma perícia assinada por alguém?

IVO: Não. Nem exame toxicológico eles fizeram. Tem uma série de irregularidades nisso. Agora, nós pedimos a reabertura do caso porque, em 2019, foi feita uma perícia de 200 páginas pelo Sérgio Ejzenberg, um dos peritos mais competentes do país, que provou por A mais B que não houve a batida do ônibus contra o Opala. Portanto, ficou em aberto o que fez com que o Opala fosse parar na pista da contramão. E com base nessa perícia e outras investigações que foram feitas agora pela Comissão Especial sobre Mortos e Desaparecidos Políticos do Ministério de Direitos Humanos, e que nós esperamos que seja votada nos próximos dias, é que fica claro que JK foi vítima de um atentado político. E quem ganha a eleição seguinte é justamente João Figueiredo, o chefe do SNI, que havia sido aluno do brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte na Escola Militar do Realengo no Rio de Janeiro.

·        E como é que os jornais noticiaram esse acidente?

IVO: Como um acidente normal, era a versão da época.

·        Os jornais foram censurados?

IVO: Acho que não. E até recentemente, em 2014, a Comissão Nacional da Verdade corroborou a versão do regime militar, de que havia sido um acidente de trânsito normal.

·        Os corpos do Juscelino e do motorista foram submetidos a algum exame?

IVO: Muito pouco, quase nada. Não foram periciados. Na época da nossa Comissão Municipal da Verdade, aqui em São Paulo, concluída em 2014, eu fiz um relatório com 114 fatos que questionavam a versão oficial. Então, tem todo um rol de coisas. Inclusive, uma coisa que a gente está discutindo agora no Brasil - a anistia - eu gostaria de comentar rapidamente. Juscelino cometeu dois erros, que foi anistiar as duas rebeliões militares, as duas tentativas de golpe que houve no governo dele, em 1956 e 1959, Aragarças e Jacareacanga. Foram duas tentativas de golpe. Na primeira, eles tentaram controlar o estado do Pará e, a partir daí, dar o golpe. E, na segunda, planejaram até bombardear Brasília. Mas qual foi o erro do Juscelino? Ele anistiou os golpistas. E, ao anistiar os golpistas, ele praticamente incentivou, estimulou o golpe próximo, que foi o de 64. Ele anistiou os brigadeiros, os generais do ar. E o dono do Hotel Fazenda Villa-Forte era um brigadeiro.

·        Esse brigadeiro prestou algum depoimento?

IVO: Não. Naquela época, obviamente que não. Em tese, não teve nada a ver com isso. Foi um acidente de trânsito, né?

·        Ninguém foi investigar o local de onde o Juscelino saiu na época?

IVO: Nada. Eles centraram fogo no motorista negro. Ele bateu no carro do Juscelino, ele é o responsável.

·        E o motorista da carreta?

IVO: O motorista da carreta ficou ferido, quebrou o braço. O da outra carreta, que viu a cabeça do Geraldo Ribeiro tombada entre o volante e a porta só foi ouvido muitos e muitos anos depois. Nós o ouvimos na Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, em 2014. Trouxemos ele de Santa Catarina para depôr.

·        Mas o motorista da carreta que bateu no carro, o carro que bateu na carreta, esse nunca depôs?

IVO: Ele simplesmente contou que o carro veio e bateu nele. Ele é vítima também.

·        Sim, mas tem o depoimento dele ou na polícia, ou na Comissão da Verdade?

IVO: Não, na Comissão da Verdade não, porque ele morreu já faz algum tempo. Eu cheguei a entrevistá-lo em 1999, quando fiz a matéria para a revista Caros Amigos, que foi a primeira matéria sobre o caso, mas ainda era superficial, quer dizer, já estava claro...

·        O que ele disse para você?

IVO: Ele não disse nada de relevante. Ele simplesmente recebeu um impacto forte no caminhão dele.

·        E o que ele fez em seguida? Ele foi ver o que aconteceu, fugiu?

IVO: Quem acudiu mais, inclusive ajudou a desligar o caminhão, que ficou todo arrebentado, foi o Ademar Jahn, que era o motorista da carreta de trás, e que foi ver as condições dos dois passageiros do Opala já agonizando.

·        E o motorista da Cometa, fez o quê?

IVO: Ele parou o ônibus, também foi tentar socorrer os acidentados, ele e alguns passageiros. E aí ele retoma a viagem, e pára em seguida no primeiro posto da Polícia Rodoviária Federal e avisa “olha, teve um acidente gravíssimo ali, você precisa correr para lá e tal”. Se o ônibus seguiu viagem foi porque não esbarrou no Opala. Caso contrário, teria que esperar a perícia da Cometa. Avaliar o prejuízo. Não houve a batida do ônibus contra o Opala, isso foi uma fraude, e isso, na verdade, justifica, em parte, toda essa investigação que se fez, porque se as autoridades da época centraram fogo numa tese mentirosa, foi porque estavam escondendo alguma coisa. Por que insistir em responsabilizar o motorista do ônibus da Cometa? Por quê? Para esconder o atentado que provavelmente foi executado a mando do general, do brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte, que tinha relação com esses dois generais estratégicos do Geisel - Golbery e Figueiredo.

·        Como o Golbery entra nessa história?

IVO: O Golbery entra na história já em 1955, quando participa de uma rebelião que tenta impedir Juscelino de assumir a presidência da República. Em 1964, depois de JK ter anistiado duas vezes militares golpistas, eles dão o golpe e Golbery é o primeiro chefe do SNI. Em 1976, Golbery é o segundo homem mais importante da República.

·        Qual é a ligação desses fatos com a Operação Condor? Ou seja, tem alguma prova, algum indício de que Figueiredo e Golbery tinham vínculos com a Operação Condor, cujo comando estava no Chile?

IVO: Tem uma carta do Manuel Contreras, o general chileno, cabeça da Operação Condor, em que fala da ameaça que Juscelino Kubitschek, entre outros, como Orlando Letelier, que também morreu num atentado com carro, eles chamavam de “Código 12” os atentados feitos em carros. A Zuzu Angel é outra vítima disso daí também. Você forja um acidente de trânsito para eliminar um inimigo. E o Contreras escreveu essa carta para o Figueiredo, falando da importância deles se unirem para combater os radicais de esquerda no Cone Sul, entre eles o Juscelino Kubitschek, que nunca foi nem radical e nem homem de esquerda, né? Ele era um cara de centro.

·        Você teve acesso a essa carta? Essa carta existe?

IVO: Sim, ela foi publicada, faz parte do relatório, é um dos 114 pontos, por exemplo, do nosso trabalho, o relatório JK da Comissão Municipal da Verdade Vladimir Herzog, presidida pelo vereador Gilberto Natalini e que concluiu os trabalhos em 2014.

·        E há nos autos algum vínculo entre Figueiredo, Golbery e o Brigadeiro dono do hotel, eles conversavam?

IVO: O que se sabe é que Golbery era frequentador do hotel e que o Figueiredo foi aluno do Brigadeiro na Escola Militar do Realengo. Mas a ligação deles passa pelo SNI. O Brigadeiro, Newton Junqueira Villa-Forte é um dos criadores do SNI, Golbery do Couto Silva é o primeiro chefe do SNI, e Figueiredo é o chefe do SNI em 1976.

·        E o que se sabe sobre as visitas do Golbery a esse hotel?

IVO: Sabe-se que ele era um frequentador do hotel, e isso quem diz é o próprio filho do Brigadeiro. Quando a gente fez a Comissão Municipal da Verdade, o Brigadeiro já havia morrido, ele é de uma geração que antecede a geração do Golbery e do Figueiredo, ele já havia morrido, mas o filho dele depõe, e diz que Golbery era frequentador do hotel. Não conta mais detalhes. Só diz que era um frequentador.

·        Houve uma versão anos depois de um tiro no motorista. Isso foi descartado?

IVO: Os corpos não foram periciados. Porque quem mandava ali era o Instituto de Criminalística Carlos Éboli, do Rio de Janeiro. E aquilo era tudo dominado por eles. Eles que deram a versão do acidente, eles que foram atrás do motorista. Foi tudo falseado ali, né? Não tem fotografia dos corpos, nada disso, o que é um absurdo! A gente tem relatos de que o corpo do Geraldo Ribeiro foi imediatamente colocado num caixão, no Instituto Médico Legal de Resende, e fechado ali, e deixaram o corpo do ex-presidente Juscelino Kubitschek jogado no chão!

·        Quando os corpos foram removidos para o IML de Resende?

IVO: Na noite de domingo. Inclusive, antes disso, mexeram na cena do caminhão… do Opala… segundo testemunhos de repórteres que já estavam na Dutra, antes da perícia chegar já tinha gente do Exército, da AMAN, Academia Militar das Agulhas Negras, que fica ali do lado, e os militares mexeram no posicionamento do Opala e do caminhão.

·        De onde vem essa informação, que o corpo do Juscelino estava no chão?

IVO: De depoimentos de funcionários, que a gente recuperou. Eu recuperei isso anos depois.

·        Os funcionários da ML não depuseram no inquérito, nem na Comissão da Verdade?

IVO: Não.

·        O que aconteceu com o corpo do Juscelino depois?

IVO: O caixão do Juscelino foi fechado e ele foi velado em Brasília. O país praticamente parou nos dias seguintes para o enterro dele em Brasília.

·        Ele foi colocado no caixão no próprio IML de Resende?

IVO: Sim, caixão simples. E o caixão foi remetido a Brasília.

·        E o que aconteceu nesse enterro do JK? Quando foi? Como é que foi?

IVO: Foi em seguida, em Brasília e teve uma certa comoção popular, quer dizer, não deixaram o caixão ser levado no carro do corpo de bombeiro, os populares levaram o caixão no ombro. Ele foi um presidente muito popular, né? E apesar de ter 74 anos quando morreu, é possível que ele tivesse condições de saúde para enfrentar uma presidência da República a partir de 1976, ele, Jango e Carlos Lacerda formaram a Frente Ampla por isso, com vistas à redemocratização do país. Ele apostava nisso, ele em tese estava bem de saúde.

·        Como eram os encontros dele com Jango e com Lacerda? O que você sabe desses encontros?

IVO: Eles tiveram poucos encontros, mas foi um movimento que assustou, eu imagino, o regime militar, porque eram três políticos importantes, à direita o Carlos Lacerda, à esquerda o Jango e, pelo centro político, o Juscelino Kubitschek. Quer dizer, a união deles poderia ser uma união poderosa para tirar o poder das mãos dos militares e... coincidentemente ou não, eles morrem, os três, num período de nove meses. Sendo que a morte do JK é a mais flagrante. O atentado político contra o JK é o mais flagrante, ele é inquestionável, o relatório tem 1000 páginas, mais 6000 páginas de anexos e que inclui a grande novidade que foi a perícia de 222 páginas feita pelo engenheiro Sérgio Ejzenberg.

·        Nesse relatório de 1000 páginas tem algum tipo de incriminação do brigadeiro dono do hotel, ou do Figueiredo, ou do Golbery? Há alguma menção a eles? Ou são suas conclusões?

IVO: São as minhas conclusões de quem investiga isso há 29 anos. Não se sabe o teor das 1000 páginas. Quem sabe são os sete integrantes dessa comissão especial, sendo que foi feito, pelo que eu estou informado, um resumo de 150 páginas, para que eles pudessem ler e entender.

·        A tua conclusão, o que você pode afirmar como manchete? O SNI mandou matar JK?

IVO: Olha, eu digo a você que a minha conclusão é essa, agora, nós jamais vamos poder saber os detalhes. Para você ter uma ideia, quando reabriram o caso, no governo Fernando Henrique Cardoso, no ano 2000 e foram periciar o Opala, que deveria estar nesse pátio da delegacia de polícia, o que se verificou foi que o número do motor não era o do carro do Geraldo Ribeiro. Ou seja, trocaram o Opala, botaram outro Opala lá. E, portanto, não deu para verificar nada ali. Essa é mais uma evidência, um indício... ou mesmo uma prova de que nós temos um conjunto indiciário tão grande que não dá para ter outra conclusão que o regime de exceção é responsável pelo que aconteceu.

·        Mas você daria essa manchete? “O SNI mandou matar JK”?

IVO: Eu teria que ver o teor desse relatório, mas eu não tenho dúvida que o SNI é suspeito de matar. Eu lembro a você que depois das Comissões da Verdade, veio a público um documento da Secretaria de Estado dos Estados Unidos, de um informante deles, que diz que quando o Geisel assume a presidência da República, ele recebe a informação de quase 100 execuções que foram feitas no período anterior, do general presidente Médici, e que a resposta do Geisel, porque ele é perguntado pelo Serviço de Informações do Exército, se podem continuar essas operações para eliminar inimigos do governo militar, Geisel diz que sim, desde que tudo passe pelo Figueiredo, que estava assumindo a chefia do SNI. Então, tudo passava pelo SNI. Se você me pergunta, mas o Geisel está por trás disso? Eu acho que até estrategicamente era bom que ele não soubesse, que o Golbery e o Figueiredo fizessem isso sem o Geisel saber, talvez um dia eles tenham contado isso para ele. Também não acredito que deixaram de contar isso para ele depois de resolvido o problema. E uma das formas de resolver o problema, só para te trazer mais um dado, é que o JK tinha um diário. E esse diário caiu na mão de um interlocutor do Golbery. E isso foi usado como pressão contra a dona Sara Kubitschek para não pedir a investigação sobre a morte do marido, porque tinha ali nas páginas diálogos, enfim, reflexões do JK sobre a relação dele com a namorada. Então, para evitar esse escândalo, a dona Sara não deixa, quer dizer, não pede uma investigação, é um obstáculo para isso, e as investigações só começam após a morte da dona Sara, por meio do Serafim Melo Jardim, que era o secretário particular do Juscelino Kubitschek, que foi o grande incentivador das investigações para descobrir o que de fato aconteceu naquele final de tarde de domingo na Via Dutra.

·        O diário está com o Serafim?

IVO: Não, esse diário eles, na verdade, devolveram, mas eles xerocaram, e por isso eles ameaçavam a dona Sara com a cópia do diário. Isso atrapalhou as investigações na época, foi uma forma habilidosa de barrar as investigações sobre o que aconteceu com o JK.

·        Mas não se sabe onde está esse diário?

IVO: Deve estar com a família, hoje em dia. Mas como eles tiraram cópia, chegaram para a dona Sara e disseram assim, “olha, se a senhora fizer alguma coisa, infelizmente isso aqui vai cair nas mãos da imprensa”. Alguma coisa do gênero, eu imagino. Então, a dona Sara não foi um agente ativo para que se investigasse a morte do JK.

·        Nesse diário poderia ter o porquê ele foi naquela reunião?

IVO: Não, aquilo foi marcado um dia antes.

·        Alguém da comissão de que você participou teve acesso ao diário?

IVO: Não, não tivemos acesso, mas aquela reunião teria sido marcada quando Juscelino estava hospedado na Casa da Manchete, em São Paulo, no dia anterior, ou pelo menos foi confirmada no dia anterior, talvez já estivesse pré-marcada, mas no sábado que ela fica confirmada.

·        Sim, mas ele poderia ter escrito alguma coisa a respeitos dias antes, não precisa ser no dia exatamente anterior. Mas ninguém teve acesso a esse diário, então?

IVO: Eu não saberia dizer a você se ele punha questões políticas ali dentro e não apenas questões pessoais. Mas acredito que não, porque senão isso viria à tona, porque a própria Márcia Kubitschek nunca engoliu esse acidente. Enquanto viveu, ela pediu, ela reclamou e ela afirmou que o pai foi vítima de um atentado político. Então, ela certamente teve acesso a esse diário, e dali nunca saiu nada.

·        Quem poderia ter esse diário?

IVO: Talvez, hoje, a Ana Cristina, que é a filha da Márcia, que é a presidente do Memorial JK, e que se manifestou nesses últimos dias francamente favorável à tese de que o avô dela não foi vítima de um acidente de trânsito.

·        Ela é a única parente viva do JK, direta, a única neta?

IVO: Tem uma filha adotiva dele que também está viva.

·        Mas a única neta é a Ana Cristina?

IVO: Isso, exatamente, Ana Cristina Kubitschek.

·        A comissão nunca pediu esse diário?

IVO: Não, nunca pediu. Posso tentar verificar. Eu vou tentar verificar isso com o Serafim Mello Jardim e entro em contato com você e digo se ele sabe alguma coisa do diário.

·        Você acha que o Serafim me daria uma entrevista também?

IVO: Claro que sim.

·        Então, por favor, faça contato com ele.

IVO: O Serafim é o grande incentivador dessas investigações. Ele publicou um livro, “Onde Está a Verdade sobre a Morte de JK?”.

·        E você, vai escrever um livro?

IVO: Talvez. Vamos ver. Tem uma das teorias também, que eu não dou muito valor, mas é uma hipótese para o que pode ter acontecido, é um tiro na cabeça do Geraldo Ribeiro. Anos depois, foi descoberto um resto metálico dentro do crânio dele quando houve a autópsia, mas as autoridades disseram que foi um resto do prego do caixão onde ele foi enterrado. Então ficou sempre essa dúvida também sobre se teria sido um tiro. Eu acho mais provável que ele tenha sido drogado ou envenenado no momento em que levaram ele lá para dentro para oferecer um café, um suco, sei lá, que foi o tempo que precisaram para sabotar a suspensão do automóvel, mais o freio dianteiro direito, e eles fizeram várias coisas, e ainda por cima deram um susto neles, fizeram uma tocaia ali na hora que ele entra na Dutra, para que ele saísse em disparada, e é o que explica ele estar naquela velocidade, passando pela direita, pelo ônibus, quer dizer, não há o que explique aquilo. É o crime mais grave cometido pelo regime militar.

·        Bom, eu vou dar o título “SNI é suspeito de matar JK”. Você concorda?

IVO: Sim, não tenho dúvida nenhuma. Não tenho dúvida nenhuma. É isso mesmo.

(*) No dia 23 de dezembro de 2024, o senador Flávio Bolsonaro participou da inauguração de um busto em homenagem ao brigadeiro Newton Junqueira Villa-Forte, no Aeroporto Municipal de Resende, que leva o nome desse militar, durante a entrega de obras naquele aeroporto, feitas com dinheiro de emenda parlamentar do senador.

 

Fonte: Por Alex Solnik, em Brasil 247


Por que Lula ou Flávio Bolsonaro podem vencer no 1º turno, segundo especialista em pesquisas

As eleições presidenciais deste ano podem acabar ainda no primeiro turno, avalia Maurício Moura, doutor em Economia e Política e fundador do instituto de pesquisa Idea.

Em entrevista à BBC News Brasil, o especialista detalha os fatores que o levam a apostar neste cenário, discute os impactos do escândalo envolvendo o Banco Master e o senador Flávio Bolsonaro (PL) e destaca o comparecimento às urnas como elemento importante na definição do vencedor.

"Essa é essencialmente uma eleição de reeleição, e a pergunta que a população responderá em outubro é se o presidente Lula merece ou não continuar", aponta Moura.

Segundo o especialista, após as convenções partidárias, que definirão os candidatos de cada partido e devem terminar até 15 de agosto, será possível traçar um cenário mais concreto.

Mas, se o quadro atual se mantiver — isto é, com Lula e Flávio Bolsonaro como principais concorrentes —, é possível que o resultado seja selado já em 4 de outubro, diz ele.

"Se continuarmos com as atuais peças do tabuleiro, acredito que existe uma enorme chance de acabar no primeiro turno", argumenta Moura.

A última vez em que um presidente venceu as eleições no Brasil no primeiro turno foi há quase 30 anos, em 1998, quando o presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) foi reeleito.

<><> Vitória no primeiro turno?

Para Maurício Moura, tanto Lula quanto Flávio Bolsonaro poderiam sair vitoriosos já no primeiro turno pelo que apontam as pesquisas mais recentes, em que os dois pré-candidatos aparecem com mais de 30% das intenções de voto.

Esse quadro, a mais de cinco meses da eleição, é "inédito", afirma o especialista.

"Nunca tivemos dois candidatos acima de 30 pontos no primeiro turno. Já estamos em um patamar quase de reta final de primeiro turno."

Lula ultrapassou o senador Flávio Bolsonaro (PL) nas estimativas de intenção de voto para presidente no segundo turno no Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil após a revelação da ligação entre o filho de Jair Bolsonaro (PL) e o banqueiro Daniel Vorcaro, e se mantém à frente desde então.

Com os resultados das pesquisas nacionais divulgadas até a sexta-feira (22/5), a estimativa de intenção de votos no petista no segundo turno no início desta semana estava em torno de 46%, enquanto Flávio Bolsonaro tem cerca de 42%.

Observando os resultados anteriores do agregador, é possível notar ainda que Lula aparecia com 38% das intenções em 12 de janeiro, quando o levantamento começou. O petista não esteve abaixo dos 30% desde então.

Já Flávio chegou aos 30% em 14 de janeiro e, em 18 de março, o senador alcançou sua maior estimativa de intenção de voto: 46%.

O agregador indica as estimativas de intenções de voto para os pré-candidatos à Presidência — uma "média" das pesquisas, mas que leva em conta pesos diferentes para cada levantamento.

Moura aponta ainda que as pesquisas espontâneas de intenção de voto, nas quais os nomes dos candidatos disponíveis não são listados aos entrevistados, apontam que boa parte da população já escolheu seu candidato, o que é bastante significativo e também aponta uma tendência de resolução da eleição no primeiro turno.

"O grau de voto espontâneo hoje, tanto do Lula quanto do Flávio [Bolsonaro] supera quase 2/3 do eleitorado. É um grau de decisão muito acima da média", diz o economista.

<><> Esquerda livre, antipetismo e abstenção

Ainda segundo o especialista em opinião pública, a conjuntura atual apresenta outros três grandes sinais que apontam para esse cenário.

O primeiro deles é o domínio do campo da esquerda pelo PT, que não possui concorrentes diretos dentro do seu espectro político nesta eleição.

"O partido nunca ganhou no primeiro turno, porque sempre teve um concorrente direto para roubar seus votos", diz Moura.

Em 2002, diz ele, Anthony Garotinho (PSB) teve uma votação expressiva e pode ter desviado votos de Lula no primeiro turno. Em 2006, Heloísa Helena (PSOL) exerceu esse papel, também em uma eleição com a participação do atual presidente.

Já em 2010 e 2014, Marina Silva (então no PV) tirou potenciais votos petistas de Dilma Rousseff (PT), argumenta Moura. Em 2018, a esquerda tinha Guilherme Boulos (PSOL), e, em 2022, Ciro Gomes (então no PDT), que teriam atraído votos do mesmo eleitorado de Fernando Haddad (PT) e Lula, respectivamente.

"Do lado do PT, há uma grande chance de vitória no primeiro turno", diz o economista.

Moura aponta ainda que, caso a eleição não seja resolvida em 4 de outubro, Lula provavelmente terá uma margem de votos muito semelhante nos dois turnos, porque dificilmente atrairá eleitores de candidatos como Romeu Zema (Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), que podem terminar em terceiro ou quarto lugar na corrida para presidente.

Por outro lado, afirma o fundador do Instituto Idea, o PL se beneficia de outro fator, que chama de "antipetismo de chegada".

"O eleitor antipetista até gostaria de votar em outro candidato [que não Flávio Bolsonaro] no primeiro turno, mas ele acaba aglutinando votos no candidato com a maior probabilidade de ganhar do PT", diz Moura.

"E quanto mais forte estiver o Lula no primeiro turno, mais o antipetismo vai se mobilizar."

Dessa forma, argumenta o especialista, Flávio Bolsonaro pode acabar vitorioso já em 4 de outubro.

Segundo a pesquisa Meio/Idea de maio, o presidente Lula tinha a maior rejeição entre os pré-candidatos à Presidência, com 44,8%. Flávio aparecia em seguida, com 38%.

No entanto, em levantamentos feitos posteriormente, como Datafolha e Atlas, em que a consulta foi feita após a revelação do elo entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, dono do Master, o senador registrou uma rejeição maior: de 52%, contra 50,6% para Lula, na Atlas; e de 46% e 45%, respectivamente, no último Datafolha.

Ainda segundo Moura, tem sido comum no Brasil que incumbentes comecem o ano eleitoral com um desempenho mais fraco nas pesquisas. Mas, segundo o pesquisador, os números tendem a melhorar à medida que a votação se aproxima.

Isso não vinha acontecendo tão rapidamente com Lula. "A melhora do governo neste ano foi muito marginal quando comparada às vistas antes da vitória de Lula em 2006, de Fernando Henrique em 1998 e da própria Dilma Rousseff em 2014, que já estava em uma curva mais acelerada de melhora nessa altura", diz.

Porém, após a eclosão da crise na pré-campanha de Flávio por conta da ligação com o dono do Master, os levantamentos indicaram uma melhora destes índices para Lula.

O terceiro sinal usado por Maurício Moura para justificar sua teoria tem relação justamente com a percepção da população em relação à política e sua ligação com casos de corrupção.

Segundo o especialista, o envolvimento do PT na Operação Lava Jato e as recentes revelações sobre Flávio Bolsonaro e Vorcaro "afastam os eleitores".

"Para o eleitor, cria-se uma ideia de que todos os candidatos são iguais e corruptos, impactando os votos brancos, nulos e, eventualmente, até em abstenção", diz.

Moura explica que isso pode afetar a "matemática do voto válido" e ampliar as chances de uma eleição com apenas um turno.

O voto branco e o voto nulo não entram na conta dos chamados votos válidos, que definem a eleição. Já as abstenções representam o número de eleitores que não compareceram para votar.

Para vencer, um candidato precisa de maioria absoluta, ou seja, de 50% dos votos válidos mais um.

Sendo assim, se o número de pessoas que votam nulo ou branco ou não comparecem às urnas for alto, isso quer dizer que o total de votos válidos em disputa será menor. Ou seja, o vencedor vai precisar de menos votos para atingir a maioria absoluta e ganhar.

"Qualquer abstenção, seja de um ou dois pontos percentuais, em função de um sentimento ruim em relação à eleição, pode ser a diferença [para] acabar no primeiro turno", afirma Moura.

Em casos de alta abstenção, pondera o economista, o PT tende a sair mais prejudicado.

"Historicamente, a abstenção está focada na [população] de baixa renda e baixa escolaridade. Ou seja, as pessoas de mais baixa renda e baixa escolaridade votam menos. Inclusive, o grupo que menos vota no Brasil é o de analfabetos", diz Moura.

"Isso obviamente prejudica o PT, porque o presidente Lula tem uma característica de [atrair] um voto mais popular."

Moura afirma que esse, inclusive, é outro motivo que explica o PT nunca ter vencido uma eleição no primeiro turno.

"A abstenção, na equação de votos válidos, acaba dando uma proporção maior aos eleitores de mais alta renda e escolaridade na curva total", diz.

<><> O impacto do caso Master

Moura prevê ainda que o impacto negativo das revelações sobre a relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso acusado de comandar uma fraude financeira bilionária, se revelará aos poucos nas pesquisas públicas.

O analista afirma ainda que os vazamentos dos áudios e mensagens em que o senador mostra proximidade e pede dinheiro a Vorcaro para financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), ajudam a colocá-lo "em uma vala comum de políticos corruptos" na visão dos eleitores.

"Quando fazemos grupos focais de pesquisa qualitativa, vemos que muitas pessoas não têm noção de quem é o Flávio, além de que ele é o filho do [Jair] Bolsonaro", diz

"Mas esse escândalo do Master é ruim para a imagem dele, porque já de cara o coloca como parte de um sistema que, na percepção das pessoas, é um sistema corrompido."

Para Maurício Moura, diante da crise aberta na pré-candidatura de Flávio, uma eventual substituição do cabeça de chapa é uma possibilidade, mas apenas se o tema "intoxicar as candidaturas" do PL para o Congresso.

"O mundo político brasileiro hoje está mobilizado para eleger deputados federais, para que cada partido possa ter acesso a fundo partidário, eleitoral, às emendas parlamentares que são um poder econômico para o Congresso hoje", diz.

"Só vai ocorrer uma substituição se ficar muito evidente que o Bolsonaro, ou particularmente o Flávio, vai fazer mal à competitividade dos deputados."

Sobre a escolha da ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) para o lugar de Flávio, o especialista diz que ela pode ter um bom poder de mobilização, especialmente entre o eleitorado feminino.

Mas afirma que a indicação depende de uma "decisão quase que personalista" de Jair Bolsonaro, o que pode dificultar a escolha do seu nome: "Ele poderia ter já indicado a Michelle, mas escolheu o Flávio".

<><> Os 3% que podem definir a eleição

Independentemente de haver segundo turno ou não, Maurício Moura diz que a eleição será decidida por 3% do eleitorado, ou algo em torno de 4,5 milhões de pessoas, que representam os independentes ainda indecisos.

"São os eleitores que estão fora das bolhas" da polarização, explica o especialista.

"Já votaram no [Jair] Bolsonaro em 2018, foram fundamentais para a vitória do Lula em 2022, mas hoje ou desaprovam o governo, ou acreditam que ele não merece continuar, ou não têm certeza."

Segundo o especialista, diversos líderes incumbentes enfrentaram uma situação semelhante ao redor do mundo.

No caso brasileiro, porém, o candidato da oposição mais bem posicionado nas pesquisas — Flávio Bolsonaro — também apresenta uma rejeição alta, o que torna o cenário menos previsível.

"Flávio tem um ativo, que é um sobrenome muito forte, mas também um passivo, que é a rejeição que esse sobrenome traz", aponta, em referência à avaliação da população sobre o governo do seu pai.

Apesar disso, Moura afirma acreditar que, para os 3% de eleitores independentes, os temas econômicos devem pesar muito mais no momento da decisão do que qualquer escândalo de corrupção.

Por isso, a ala bolsonarista pode se prejudicar ainda mais se focar demais em rebater as acusações sobre o caso Master e deixar de lado outros temas.

"O governo está no modo campanha, tirando taxa de blusinha, oferecendo Desenrola, gerando benefício. E a oposição está basicamente tentando se reagrupar em função desse escândalo", aponta.

¨      A viagem de Flávio Bolsonaro aos EUA em busca de Trump: classe executiva, steak de carne, fotos e sorvete

O senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), chegou nesta segunda-feira (25/5) a Washington, capital dos Estados Unidos, para uma possível reunião com o presidente Donald Trump.

A reunião, caso aconteça, vai ocorrer no momento mais crítico da pré-campanha de Flávio à Presidência. Pesquisas de intenção de voto registraram uma queda nos índices de Flávio após a revelação de que o senador pediu dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do banco Master, para supostamente financiar um filme sobre seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-RJ).

A BBC News Brasil acompanhou a viagem de Flávio e estava a bordo do mesmo voo do senador. A reportagem conseguiu falar com Flávio na chegada dele ao Aeroporto Internacional de Guarulhos — de onde o voo partiu rumo à capital dos EUA — e durante a viagem.

Nas duas ocasiões, Flávio evitou dar detalhes sobre sua possível reunião com Trump.

"Não posso dar detalhes. A orientação é que não falássemos nada antes da reunião acontecer", disse Flávio à BBC News Brasil.

Nos bastidores, assessores e parlamentares próximos ao senador afirmam que o convite a Flávio teria sido feito pela Casa Branca após contatos intermediados pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP), que vive nos Estados Unidos desde o ano passado.

A BBC News Brasil entrou em contato com a Embaixada dos Estados Unidos no Brasil e a Casa Branca, mas não obteve retorno.

<><> A viagem

Nas nove horas do trajeto, Flávio Bolsonaro aparentou tranquilidade. Apesar da crise em sua campanha, o senador foi alvo de assédio, na classe executiva do avião — ele chegou a posar para fotos com uma passageira.

Flávio chegou ao portão de embarque 318 do Terminal 3 do Aeroporto Internacional de Guarulhos por volta das 20h30 do domingo (24/05), no final do embarque para o voo. O senador embarcou acompanhado de um segurança, que viajou com ele.

O embarque foi rápido. Flávio apresentou seu passaporte diplomático, e junto com seu segurança, passou à frente dos demais passageiros.

Como o portão 318 não tem ligação direta com a aeronave, Flávio e seu segurança tiveram que embarcar em um ônibus, em pé, até chegar ao avião.

Na aeronave, um Boeing 767-400, o senador se dirigiu para uma poltrona na classe executiva, enquanto seu segurança ficou logo atrás, na seção "Economy Premium".

Dentro da aeronave, Flávio foi assediado por alguns dos passageiros e chegou a posar para foto com outra ocupante, também da classe executiva.

Na classe executiva, o serviço de bordo inclui vinhos e champanhe e as passagens podem passar facilmente dos R$ 10 mil.

Não está claro se Flávio viajou por conta própria, se usou a cota parlamentar do Senado ou se utilizou fundos do PL, seu partido, para custear a viagem.

Flávio ficou em uma pequena cabine com reclinação quase completa. No jantar, o senador teria optado por um bife com arroz, farofa e couve no vapor. Na sobremesa, pediu sorvete.

<><> Em busca de um encontro com Trump

O voo, de nove horas entre São Paulo e Washington, chegou à capital norte-americana às 6h da segunda-feira.

A previsão é de que o encontro com Flávio aconteça na terça-feira (26/5) e de que o senador volte ao Brasil no dia seguinte.

A expectativa é de que, além da reunião com Trump, Flávio tenha reunião com integrantes do segundo escalão do Departamento de Estado. O secretário de Estado, Marco Rubio, não estará em Washington durante sua passagem pela cidade. Rubio está na Índia, enquanto os Estados Unidos negociam um possível acordo com o Irã.

No comando da campanha de Flávio, o plano é que o encontro com Trump interrompa uma sequência de semanas negativas, desde a revelação da ligação do senador com o banqueiro Daniel Vorcaro.

As duas pesquisas de intenção de voto mais recentes do Datafolha e da Atlas/Intel mostram que ele registrou uma queda tanto nas simulações de primeiro turno quanto no segundo.

Antes do caso, Flávio aparecia numericamente a frente de Lula nos cenários de segundo turno, agora, ele aparece atrás. O agregador de pesquisas da BBC News Brasil também aponta essa tendência.

<><> PCC e CV na pauta

No desembarque, Flávio Bolsonaro e seu segurança tomaram a fila destinada a passageiros com passaporte diplomático, como de praxe para autoridades, e passaram pela imigração.

Ele não quis revelar em que hotel ficaria e se encontraria seu irmão, Eduardo Bolsonaro.

Questionado pela BBC News Brasil, Flávio disse que ainda não tinha uma pauta definida para a reunião com Trump e que iria alinhar com auxiliares os temas a serem abordados no encontro.

A BBC News Brasil apurou que um dos temas que Flávio gostaria de abordar é a designação pelos Estados Unidos de organizações criminosas como PCC e Comando Vermelho como entidades terroristas.

Flávio vem defendendo essa tese enquanto o governo Lula rebate afirmando que isso poderia ser usado para justificar eventuais ações militares norte-americanas em território brasileiro.

<><> A relação Lula-Trump

Enquanto a comitiva de Flávio Bolsonaro se prepara para o possível encontro com Trump, o presidente Lula, que também é pré-candidato à Presidência, adota cautela diante de um encontro cujo resultado pode ser imprevisível, segundo um alto oficial do governo.

Apesar da recente aproximação entre o petista e Trump, parte do governo Lula expressa desconfiança sobre se o governo norte-americano vai manter sua neutralidade ao longo das eleições deste ano.

Um interlocutor do presidente Lula afirmou à BBC News Brasil em caráter reservado que a gestão do petista não pretende criar obstáculos à eventual visita de Flávio a Trump ou cobrar explicações da Casa Branca sobre o evento.

A avaliação de interlocutores do governo Lula é de que a ida de Flávio a Washington é uma tentativa da sua pré-campanha de mudar o foco das suspeitas sobre seu vínculo com Vorcaro e produzir alguma agenda positiva. Apesar disso, o governo deverá acompanhar o encontro à distância e avaliar os sinais enviados por Trump durante e após a reunião.

Só então, a BBC News Brasil apurou, o governo vai estudar se adotará algum posicionamento.

 

Fonte: Julia Braun, da BBC News Brasil em Londres