segunda-feira, 22 de junho de 2026

Há 100 anos, Brasil desafiou potências por vaga permanente na Liga das Nações, antecessora da ONU

Muito antes da atual e persistente campanha para ocupar um assento permanente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas, o Brasil já travou uma batalha parecida na Liga das Nações, a entidade que antecedeu a ONU.

Há exatos cem anos, o desejo obstinado de se tornar membro permanente do Conselho Executivo da Liga das Nações levou o Brasil a um dos atos mais ousados de sua história diplomática, que paralisou a organização.

O que o governo do presidente Artur Bernardes fez foi vetar a entrada da Alemanha justamente na condição de membro permanente. Se os alemães fossem admitidos, o sonho brasileiro estaria enterrado. O país tinha poder de veto por ser membro temporário do Conselho Executivo.

A medida foi ousada porque o Brasil, apesar da posição periférica no tabuleiro internacional e da limitada força econômica e militar, contrariou diretamente os interesses de gigantes como Grã-Bretanha e França, que queriam a admissão da Alemanha.

A Liga das Nações (ou Sociedade das Nações) havia sido criada pouco tempo antes, em 1919, logo após a carnificina da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), com a missão de impedir novos conflitos armados e, assim, garantir a “paz universal”. O Brasil foi um dos fundadores da organização.

O veto à Alemanha foi anunciado por diplomatas brasileiros numa assembleia extraordinária na sede da entidade, em Genebra, em 17 de março de 1926. Dadas as esperanças depositadas na Liga das Nações, a paralisia provocada pelo Brasil deixou o mundo apreensivo por algumas semanas.

As atividades na Suíça só voltaram à normalidade após uma decisão drástica. Em 12 de junho, isolado, o Brasil anunciou que não faria mais parte da Liga das Nações. A medida foi tomada para evitar a humilhação de o país ser removido da cadeira provisória pelas potências. Até ser fechada, em 1946, a liga nunca mais teve a presença do Brasil.

Documentos da época guardados hoje no Arquivo do Senado, em Brasília, mostram que os senadores se envolveram apaixonadamente na questão.

Numa sessão do Congresso Nacional às vésperas da saída do país, o deputado Azevedo Lima (DF), um dos fundadores do Partido Socialista do Brasil, disse que a crise foi provocada pela “inépcia internacional do senhor Artur Bernardes”:

— O Brasil representou um imensamente ridículo papel pleiteando a honra de sentar-se ao lado das grandes potências, participar das intrigas internacionais, servir à burguesia exploradora do trabalho e conspirar contra a tranquilidade universal em nome dos suspeitos princípios de paz que orientam os trabalhos da Liga das Nações.

Consumada a saída do Brasil, o senador Antônio Muniz (BA) avaliou que o presidente Bernardes agiu de forma equivocada:

— O atual chefe da nação faz uma política internacional altamente nociva aos interesses nacionais. Além de ter cedido parte do nosso território com o tratado da Bolívia e estabelecido que o Uruguai exerça atos de soberania no território nacional, nos levou a sair da Liga das Nações de um modo que não é nada airoso [digno] para a nossa diplomacia.

Indo na direção oposta, o senador Antônio Azeredo (MT) afirmou que o Brasil merecia, sim, o título de membro permanente:

— O nosso país é possuidor de uma população de 35 milhões de habitantes e um território fertilíssimo, maior do que a Inglaterra europeia, a França, a Alemanha, a Itália, a Espanha, a Holanda e a Dinamarca reunidas. Por que não ser um membro permanente nessa gloriosa sociedade criada exclusivamente para garantir e defender os interesses supremos da humanidade?

Azeredo esclareceu que a Alemanha não deveria interpretar o veto como um ato de hostilidade e que o Brasil continuava considerando o povo alemão “amigo e colaborador do nosso progresso”. Ele explicou:

— Foi um ato de defesa dos nossos interesses, ou melhor, do nosso amor próprio, porque, muito antes de esse grande país [Alemanha] pretender associar-se à Liga das Nações, já pleiteávamos o lugar de membro permanente, tendo disso conhecimento outros governos, que nos aconselhavam a aguardar o momento oportuno.

No momento da crise de 1926, 55 países faziam parte da Liga das Nações. Desses, 10 compunham o seu Conselho Executivo — quatro permanentes e seis temporários.

Os membros permanentes eram a Grã-Bretanha, a França, a Itália e o Japão — grandes potências que haviam vencido a Primeira Guerra Mundial. O Brasil, por sua vez, era membro temporário desde a fundação da liga, reeleito ano após ano.

O poderoso Conselho Executivo era o centro das decisões da Liga das Nações, encarregado de elaborar planos para desarmar o mundo e traçar medidas de defesa coletiva como resposta a agressões aos países-membros.

O presidente Artur Bernardes e seu ministro das Relações Exteriores, Félix Pacheco, estavam tão empenhados em incluir o Brasil naquele seleto clube de potências que, em 1924, o governo enviou ao Congresso Nacional uma proposta de criação de uma representação diplomática permanente na Liga das Nações.

Os senadores e deputados aprovaram a proposta, e o diplomata escolhido para as negociações em Genebra para a inclusão do Brasil foi Afrânio de Melo Franco.

Essa não foi a primeira vez que o Congresso votou um tema relacionado à Liga das Nações. Qualquer alteração feita no pacto original da organização tinha que ser validada pelo Parlamento, por envolver compromissos de soberania nacional.

Uma das alterações foi a criação da Corte Permanente de Justiça Internacional, encarregada de resolver litígios entre países de forma arbitral ou judicial. O Congresso brasileiro aprovou o estatuto do tribunal em 1921.

Entre as personalidades brasileiras que a Liga das Nações escolheu para juízes da corte figuraram o ex-presidente Epitácio Pessoa e o senador Rui Barbosa (BA).

O senador Félix Pacheco (PI), antes de ser ministro e protagonista da saída do Brasil da liga, ficou emocionado com a eleição do colega baiano e discursou:

— Os 38 votos dados espontaneamente a Rui Barbosa no escrutínio em Genebra representam uma vitória tão imensurável e tão sem paralelo na vida diplomática da totalidade dos países do globo que não há no Brasil quem não sinta a estas horas o coração desbordando de júbilo e de ufania.

Em tom exagerado, ele disse que a eleição colocava Rui acima não apenas dos demais juízes da corte, mas de todos os reis e presidentes do mundo.

— A investidura que recebeu não lhe veio de nenhum deles [reis ou presidentes] isoladamente nem de um povo só, mas da unanimidade dos povos — explicou.

O senador, contudo, não chegou a assumir a posição na Corte Permanente de Justiça Internacional por causa da idade avançada e de problemas de saúde. Rui morreria logo em seguida, em 1923, aos 73 anos.

Outro brasileiro na Liga das Nações foi o médico e cientista Carlos Chagas, famoso por descobrir a doença que levaria o seu nome. Ele integrou o Comitê de Higiene, considerado o embrião da Organização Mundial da Saúde (OMS). Mesmo com a saída do Brasil da liga, Chagas permaneceu no comitê, como especialista independente, dado o seu prestígio internacional.

Durante a crise, a Grã-Bretanha e a França acionaram seus embaixadores no Rio de Janeiro para tentar convencer o governo Artur Bernardes a recuar no veto à Alemanha. O Brasil estava irredutível.

O principal argumento do país em busca da vaga permanente foi o de que as Américas precisavam de pelo menos um representante permanente no Conselho Executivo. Embora a Liga das Nações tenha sido idealizada pelo presidente Woodrow Wilson, os Estados Unidos não se associaram porque o Congresso americano optou pelo isolacionismo e não ratificou o tratado de criação da organização.

Na mensagem presidencial enviada ao Congresso no início de 1926, Artur Bernardes escreveu:

“Aceitamos a Liga das Nações como o esboço dos Estados Unidos do Mundo. Dessa convicção decorre para a América a necessidade de estar convenientemente representada nas várias esferas do seu Conselho Executivo”.

Em outro trecho da mensagem, o presidente acusou as potências de insistirem nos pactos secretos que levaram à Primeira Guerra Mundial, em vez de se adaptarem à nova ordem internacional que a liga prometia consolidar:

“A nossa pretensão chocou-se com oposições inesperadas e intransigentes, que se julgaram dispensadas de justificar-se. Fortalecido pelo apoio unânime da nação, o governo [do Brasil] manteve o seu conhecido ponto de vista, em homenagem à própria liga, que perderia de interesse no dia em que se visse sotoposta aos pactos secretos, modalidade mais recente dos antigos tratados de aliança, que se mostraram contraproducentes para a preservação da paz”.

O senador Antônio Azeredo avaliou que a inclusão da Alemanha não poderia ser aprovada porque havia sido acertada pelas potências europeias fora da Liga das Nações, no Tratado de Locarno, sem consulta aos membros temporários do Conselho Executivo, que também tinham poder de veto.

— A Liga das Nações é uma sociedade que interessa o mundo inteiro, e não somente a Europa. A obra política de Locarno, que é incontestavelmente um tratado regional, não pode, a despeito de sua grande importância, interessar da mesma maneira as nações de outros continentes nem influir decisoriamente na Liga das Nações. O Tratado de Locarno não podia impor suas deliberações ao Supremo Conselho da liga — criticou.

Na época, ganhou força a interpretação de que Artur Bernardes insistiu tanto na ofensiva diplomática por causa da grande oposição política que sofria dentro do Brasil. O político José Carlos de Macedo Soares, adversário do governo, publicou em 1927 o livro O Brasil e a Sociedade das Nações, em que acusou Bernardes de fabricar essa cruzada patriótica apenas com o intuito de angariar o apoio da população.

O diplomata e historiador Eugênio Garcia, autor do livro O Brasil e a Liga das Nações: vencer ou não perder, considera fraco o argumento. Ele entende que a busca por apoio popular pode até ter sido levada em conta, mas não foi determinante, já que a campanha pelo assento permanente existia desde 1923 e era um objetivo genuíno de política externa.

Garcia aponta uma contradição nos discursos de Bernardes durante a campanha e depois da saída da Liga das Nações:

— Primeiro, insistia em ser membro permanente porque considerava a Liga das Nações imprescindível para o mundo. Mas, quando não conseguiu, passou a dizer que não servia para nada, a não ser para atender aos interesses europeus. Essa mudança de discurso não escapou aos olhos dos opositores, que acusaram o governo de ter duas caras, ora exaltando a liga como um espaço de idealistas comprometidos com a paz, ora desqualificando-a por completo.

A Liga das Nações logo começou a definhar. Admitida no Conselho Executivo após a saída do Brasil, a Alemanha abandonou a organização em 1933, depois da chegada do nazismo ao poder. A Itália fascista saiu em 1937. O fracasso ficou ainda mais evidente em 1939, quando não conseguiu impedir a deflagração da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Após o fim do conflito, a liga foi extinta. Em seu lugar, criou-se a ONU.

O atual Conselho de Segurança da ONU equivale, com algumas diferenças, ao antigo Conselho Executivo da Liga das Nações. Desde 2003, no primeiro governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Brasil pleiteia um assento permanente no conselho da ONU, para juntar-se ao chamado P5 — Estados Unidos, Grã-Bretanha, França, Rússia e China, países vitoriosos na Segunda Guerra Mundial. Existem ainda dez países com assento temporário, mas apenas o P5 tem poder de veto.

A professora Norma Breda dos Santos, que atua no Instituto de Relações Internacionais da Universidade de Brasília (UnB) e tem estudos sobre a Liga das Nações, diz que o pleito do Brasil na ONU é legítimo e faz parte do jogo diplomático:

— Lembro que, anos atrás, praticamente toda autoridade estrangeira que desembarcava aqui, fosse presidente, fosse ministro, fazia questão de declarar apoio à candidatura do Brasil.  Mesmo sendo pequenas as chances de sucesso, a própria manutenção da candidatura é uma ferramenta útil para projetar-se internacionalmente e manter-se em evidência na agenda diplomática global.

De acordo com ela, o sucesso é praticamente impossível porque esbarra na lógica da manutenção do poder, que já existia em 1926 e permanece ainda hoje:

— Nas organizações internacionais, reforçam-se as hierarquias já existentes. Aceitar a entrada de um novo membro permanente no Conselho de Segurança significaria diluir o poder das cinco grandes potências. Elas não abrem mão do seu monopólio. A resistência não é ao Brasil especificamente. Qualquer país que entrasse afetaria essa hierarquia dentro da ONU.

Eugênio Garcia enxerga nos dois casos um curioso comportamento do Brasil no cenário internacional:

— Existe uma oscilação contraditória na nossa mentalidade diplomática, que vai do excesso de autocrítica à forte ambição de ser uma potência. O complexo de vira-lata convive com a crença arraigada de que o país está destinado a grandes coisas por causa do seu amplo território e da sua imensa população.

O diplomata e historiador afirma que pleitear um assento permanente em uma organização internacional exige realismo e estratégia. Para ele, a candidatura não pode ser tratada como mera questão de prestígio:

— É preciso clareza de objetivos, saber para que serve o conselho, o papel de um membro permanente e, sobretudo, por que o país deseja essa posição. Na década de 1920, o Brasil errou a mão e investiu pesadamente sem avaliar a viabilidade política nem ler corretamente o contexto. A falta de uma meta clara levou à frustração e, por fim, à saída abrupta da Liga das Nações.

Garcia diz que, ao contrário do que aconteceu em 1926, o Brasil hoje não se atreveria a abandonar a ONU, porque a organização tem mais influência que a Liga das Nações e o contexto internacional é diferente daquele do passado.

— Ninguém sai da ONU hoje porque só teria a perder, já que se trata da principal organização internacional existente. Uma decisão assim traria isolamento e alto custo político, com consequências severas e desvantajosas — acrescenta.

A professora Norma dos Santos explica que, por muito tempo, a Liga das Nações foi considerada um fiasco total, mas aponta que estudos históricos produzidos nas últimas três décadas reavaliaram essa visão e mostraram que a organização teve, sim, sucessos, especialmente fora da esfera militar. Ela enumera:

— Embora limitada na segurança coletiva, a Liga das Nações obteve avanços significativos na área humanitária, na saúde e na cooperação internacional. Tratou pioneiramente das minorias e dos refugiados. Pelo sistema de mandatos, impôs regras que buscaram diminuir o poder das potências mandatárias sobre as antigas colônias dos países que perderam a Primeira Guerra. Sua estrutura serviu de modelo direto para a criação da ONU.

 

Fonte: Por Ricardo Westin – Agência Senado

 

Teologia vermelha: sobre a tradição cristã comunista

Comparações entre o comunismo e o cristianismo não são uma novidade, e vários pensadores marxistas fizeram essas conexões ao longo da história. Infelizmente, muitas das tentativas de estabelecer pontes entre essas tradições acabam por ser idealistas, descolando-se do materialismo-histórico e inevitavelmente centrando-se em algumas palavras atribuídas a Jesus de Nazaré ou em relatos sobre a igreja primitiva. A maior parte destas comparações, embora bem intencionadas, terminam em vagos apelos pela justiça social ou na prática da ajuda mútua – projetos de caridade que têm muito mais em comum com o Exército da Salvação do que com o marxismo-leninismo. É aqui que a obra indispensável de Roland Boer, Red Theology: On the Christian Communist Tradition (“Teologia vermelha: sobre a tradição cristã comunista” em tradução livre), deve ser tomada em conta: uma pesquisa muito bem feita, que argumenta não só que o cristianismo e o marxismo oferecem perspectivas críticas similares do mundo, mas também que ambas as tradições têm uma história compartilhada de luta revolucionária, cada uma delas com seu exemplos gloriosos de viradas de mesa.

O livro descreve uma história convincente do que Boer chama de “cristianismo comunista”. Com base nas análises de Kautsky e Rosa Luxemburgo, o autor levanta um ponto crucial: enquanto o que começou com a igreja primitiva – um coletivo de crentes que “compartilhavam todas as coisas” – poderia ser reivindicado pela tradição comunista, não se pode esquecer que essa experiência se tratou de comunismo de consumo, não de produção, um fenômeno que não emergiria de fato até a URSS. Esse “comunismo de consumo”, que foi modelado primeiro pela tradição mosaica, e mais tarde dentro das comunas judaicas essênias, atraiu em grande parte os pobres, os escravos e os desempregados, mas também incluía membros mais ricos. Divisões étnicas e de classe eram suavizadas até certo ponto através de partilha das posses, da esmola e da “ajuda mútua”, muitas vezes no contexto de um ódio compartilhado em relação aos ricos. Um elemento central disso, é claro, era a expectativa por uma ordem social radicalmente diferente onde os primeiros seriam os últimos e os últimos os primeiros. Boer analisa o desenvolvimento dessas comunidades no contexto de um aumento na tensão social dentro da Judéia, confinada à economia política de subsistência-sobrevivência agrícola e colonização romana.  Seu argumento fundamental aqui é que o sucesso da igreja primitiva estava ligado à sua ressonância entre as classes exploradas da Judéia, com seu “comunismo de consumo” sustentado por meio de uma atitude militante de venda das posses para sustentar as comunidades de fé. Essa ameaça vermelha aparece repetidamente na tradição do cristianismo heterodoxo, caminhando lentamente para um comunismo de produção com o advento do marxismo-leninismo – que Boer vê como o cumprimento das aspirações comunistas primitivas da igreja primitiva. No entanto, Boer também lembra-se de ser cauteloso aqui, notando que a análise de Luxemburgo, que identificava a tendência do cristianismo comunista à “ajuda mútua” e os limites do comunismo de consumo demonstrados claramente em sua degeneração na caridade ou na esmola. Além disso, como Luxemburgo alegou, a maior fraqueza de qualquer comunismo de consumo (ou comuna anarquista) é a facilidade com que ela pode ser acomodada nas estruturas de exploração ou até mesmo gerar novas estruturas do tipo. Para qualquer um que tente estabelecer pontes entre comunismo e fé, é crucial compreender estes pontos.

Sendo ele um teólogo Reformado, Boer tem uma visão positiva em relação à Reforma Protestante e às figuras de Calvino e Lutero. Ele baseia essa visão no argumento de Engels de que a tradução de Lutero da Bíblia, do latim para o alemão, foi a faísca para a aparição de Thomas Müntzer e as revoltas camponesas contra os senhores feudais na Alemanha. Embora o protestantismo não tenha resolvido de forma alguma o aparato religioso opressivo, Boer vê nas inovações de Lutero uma honesta “constatação do problema” da tirania do poder eclesiástico. Ele também reconhece a contribuição de Lutero para o reavivamento da tradição do Novo Testamento do “sacerdócio de todos os crentes”, transformando “padres em leigos e leigos em sacerdotes”. Além disso, ele enaltece o assalto de Lutero contra a cegueira da devoção eclesial, a substituindo pelo fogo da convicção. A inovação de Lutero (que Lutero também combateu!) é evidenciada pelo fruto da Reforma Radical do século 16, que levou à insurreição hussita, ao movimento anabatista e às guerras camponesas alemãs. Esses movimentos – fundamentados na heterodoxia cristã apocalíptica – abalaram a cristandade feudal. Como Boer argumenta, antes do socialismo científico, o horizonte da ideologia alemã era completamente teológico. Somente após o advento da Reforma Protestante este horizonte foi aberto aos trabalhadores, camponeses e mulheres, permitindo sua real participação neste reino de luta ideológica por meio das interpretações heréticas das escrituras. Essas leituras que faziam estavam inquestionavelmente enraizadas nas suas experiência de opressão de classe, seus desejos por uma redistribuição das riquezas, e seu sonho de uma reorganização radical da sociedade. Esse sonho foi buscado de várias maneiras criativas durante a reforma radical, muitas vezes retornando ao comunismo de consumo que surgiu pela primeira vez na igreja primitiva. O principal avanço durante a turbulência do século 16 foi que esses experimentos foram conquistados por meio da luta armada dos camponeses e resultaram em grandes vitórias militares contra a classe dominante, por vezes chegando à tomada de cidades inteiras.

Em sua avaliação do comunismo cristão durante a Revolução de Outubro, Boer rejeita a leitura liberal padrão: a de que militantes bolcheviques ateus tomaram o poder com o objetivo fundamental de destruir a religião. Embora os bolcheviques tenham certamente suprimido e lutado contra os elementos reacionários da igreja, Boer está mais interessado na forma como os bolcheviques acharam uma causa comum com o campesinato, cuja visão de mundo era inteiramente teológica e cuja subsistência econômica era feudal. O autor destaca a breve história do socialismo camponês russo, uma tradição que tinha suas origens em Tolstói durante o czarismo. O escritor foi o primeiro a atacar o conluio da igreja ortodoxa com a classe dominante feudal contra o campesinato, e de Tolstói veio o lema “a terra é de Deus”: a primeira demanda real por reforma agrária sob a Rússia czarista. Na prática, o socialismo camponês foi uma experiência do comunismo cristão; firmemente comprometido com o coletivismo e disposto a respeitar a boa autoridade do governo no espírito de Romanos 13. Apesar de suas motivações serem em grande parte idealistas, o socialismo camponês apresentou um modo de vida comunista alternativo, que funcionou na prática como uma crítica real dos principados e poderes, até o ponto da ruptura revolucionária. Ao ansiar pela futura vinda do Reino, o socialismo camponês russo baseou-se nos exemplos da igreja primitiva. Ele constituiu uma das primeiras formas de vida comunal no Império Russo, um experimento que mais tarde evoluiu para o projeto bolchevique de agricultura coletiva.

Uma das inovações dos bolcheviques na luta por unir a classe trabalhadora industrial às lutas do campesinato pode ser vista no nascimento de um grupo chamado “Construtores de Deus”, um agrupamento de marxistas cujo objetivo era multiplicar a potência emocional do marxismo baseando-se no mito cristão. Embora os Construtores de Deus invocassem os profetas hebreus em suas proclamações revolucionárias, eles também compreendiam as limitações de tais invocações. Já que o impulso profético só é possível no contexto de uma sociedade reacionária, os profetas ficam assim “tropeçando” como críticos, incapazes de propor um programa verdadeiramente revolucionário para a sociedade. Com uma leitura única da Bíblia, o grupo reivindicava a Revolução de Outubro como uma vitória espiritual mundial histórica, comparável ao Pentecostes e ao derramamento do Espírito Santo. Seu inimigo espiritual era o gnosticismo, visto como uma corrupção anti-materialista do cristianismo. O grupo também tinha grande admiração pelo apóstolo Paulo e sua capacidade de remodelar a crucificação e a ressurreição de Cristo em um novo mito, realizando-as assim como categorias políticas do sujeito revolucionário, um sujeito salvo pela justificação através apenas da convicção, negando as reivindicações de salvação dos ricos e poderosos do mundo.

Como professor de Filosofia na Universidade Renmin da China, Boer dedica uma parte significativa de seu livro à história da sinificação do cristianismo, tendo interesse particularmente pelos experimentos revolucionários que ocorreram nesse processo. Um desses movimentos – a Rebelião Taiping, que formou a base das revoluções antifeudais e antiimperialistas posteriores na China –, chama sua atenção em particular.

Essa rebelião foi desencadeada por Hong Xiuquan, inspirado por sua interpretação de uma Bíblia que recebeu de um missionário. Furioso com os males do sistema imperial, ele foi atraído pela ideia do Reino de Deus como meio de libertação dos oprimidos; uma mensagem que ressoou entre um conjunto de camponeses cada vez mais militantes, muitos dos quais já estavam adotando o banditismo contra o imperador como meio de sobrevivência. À medida que o movimento crescia, a Bíblia tornou-se sua inspiração central (significativamente editada para atender aos seus propósitos), oferecendo as diretrizes básicas para uma reorganização radical da sociedade que incluía a reforma agrária, a igualdade de gênero e a partilha de todos os bens. Fundamental na Rebelião Taiping foi a interpretação heterodoxa das escrituras, centrada em um monoteísmo radical, na qual o reino vindouro de Deus tornou-se uma régua para a sociedade de fato existente; um movimento radical que soou o primeiro sinal para a morte do sistema imperial. Embora Mao Tsé-Tung tenha afirmado que a Rebelião Taiping não foi nativa (vendo-a como uma incursão ocidental), ele também reconheceu que o movimento iniciado por Hong Xiuquan foi, a seu tempo, o pico máximo de séculos de revoltas camponesas, marcando o primeiro golpe contra o sistema imperial e a colonização estrangeira. Ainda mais significativamente, a Revolução Republicana de 1911 se auto-identificava como herdeira da Rebelião Taiping.

Observando a invasão posterior de missionários protestantes estrangeiros, que, como as guerras do ópio, funcionou como uma ferramenta de colonização ocidental durante o “século de humilhação” da China, Boer nota como a Levante dos Boxers (com seu ataque frontal e justificado aos ocupantes coloniais) às vezes atacava mais do que seu alvo central. Por vezes suspeitos de colaborar com as forças coloniais, os cristãos chineses muitas vezes também foram alvejados pela rebelião. O efeito disso foi levar muitos cristãos revolucionários a esclarecerem suas posições, declarando apoio à luta.

A partir da obra de Kautsky “Fundamentos do Cristianismo”, o teólogo Zhu Weizi escreveu “Jesus, o Proletário” na década de 1950, enquanto Wu Yaozong ofereceu uma análise única do Evangelho através das lentes do materialismo histórico. Enquanto isso, Wu Leichuan atacou a hegemonia da “harmonia social” confucionista, desenterrando um universalismo compartilhado entre Moisés e Cristo – figuras que ele argumentou serem revolucionários lutando para transcender a ordem social de seus tempos. Um dos pontos comuns desses teólogos era a revelação de Jesus como um revolucionário proletário, uma figura que ofereceu um risco direto a Roma em seus ataques a centros de poder políticos, econômicos e religiosos de Jerusalém. Outro tema fundamental era a proclamação de uma nova ordem social por Jesus: o Reino de Deus. Esses pensadores estabeleceram comparações diretas entre Jesus e Marx, argumentando que o cristianismo e o materialismo tinham muito em comum. Reconhecendo o universalismo do cristianismo, eles o viam como um sistema com imenso potencial revolucionário. Ainda mais importante era o fato desses teólogos marxistas terem trabalhado com sucesso para realizar a sinificação tanto de Jesus quanto de Marx, pegando o que eles achavam útil no pensamento ocidental e adotando-o como seu, dentro da cultura chinesa, em apoio à revolução.

Boer conclui sua pesquisa sobre o cristianismo comunista com uma exposição sobre o chondoísmo na República Popular Democrática da Coreia (Coreia do Norte). Uma forma de religião revolucionária nativa da Coreia, paralela em alguns aspectos ao cristianismo, o chondoísmo é uma fé que se tornou um recurso espiritual imenso na construção do comunismo coreano. Seus pilares incluem a crença na imanência divina de todos, patriotismo e anticolonialismo, bem como visões sobre a construção do Reino de Deus como um projeto político emancipatório a ser construído na terra. Ele se tornou popular entre o campesinato, particularmente na luta da Coreia contra o Japão, oferecendo aos oprimidos um senso de valor próprio negado a eles pelo confucionismo e pela ocupação japonesa. Chamando-a de “Teologia Juche”, Boer conclui que a religião coreana prova que o cristianismo comunista pode realmente ir além das margens, desempenhando um papel construtivo onde o socialismo conquista o poder, como é o caso da religião na RPDC. No chondoísmo e no cristianismo coreano, ele identifica sistemas religiosos maduros que se centram na intervenção subjetiva na história, ousando afirmar que, coletivamente, a humanidade pode se tornar o próprio destino.

Apesar do livro de Boer não tratar da rica tradição da Teologia da Libertação, ele oferece uma ampla visão geral da história do cristianismo e do socialismo, particularmente no oriente. O livro é uma excelente fonte para qualquer um que se interesse pela interseção entre teologia, história e marxismo, com uma leitura bastante acessível. Mais uma vez, com esse livro Boer se prova um dos grandes pensadores modernos capazes de reunir a luz da tradição marxista com a história da práxis cristã.

 

Fonte: Opera Mundi

 

Muito além do futebol

Na Copa de 1974, o Brasil enfrentou a Holanda sem procurar saber como o adversário jogava. É o mesmo erro dos que falam de paz no Oriente Médio sem considerar os valores das tribos locais...

A vitória por 3 a 0 sobre a frágil equipe do Haiti, na noite de sexta-feira passada, foi insuficiente para devolver ao torcedor a confiança perdida na seleção brasileira. Além de não construir um placar mais amplo e de perder uma oportunidade de gol atrás da outra, o time dirigido pelo italiano Carlo Ancelotti ainda pareceu meio perdidão em campo — sem passar a impressão de ter força suficiente para enfrentar os adversários mais fortes e bem treinados que terá pela frente nas próximas etapas do torneio. Essa é a opinião de um analista frio, que prefere ver o cenário pelo lado das dificuldades e não apostar todas as fichas em um time que, é inegável, conta com jogadores talentosos e capazes de resolver uma partida na base do talento individual.

O lado torcedor, é claro, deseja e considera possível que os convocados de Ancelotti se acertem, passem a dar um show de bola atrás do outro e consigam voltar desta Copa com uma imagem diferente das que os times brasileiros deixaram nas competições anteriores. E que deem exemplos mais positivos do que deram nas competições passadas, quando pareciam mais preocupados em ensaiar dancinhas para comemorar gols do que em se empenhar para marcá-los. Seja como for, é impossível não se envolver com o clima da disputa e ficar indiferente diante de um evento tão mobilizador quanto uma Copa do Mundo de Futebol.

Para se sair bem em um torneio dessa dimensão é preciso não apenas reconhecer as próprias deficiências — para corrigi-las enquanto há tempo — como, também, olhar para os adversários, ver o que eles têm de melhor e considerar a melhor maneira de lidar com eles. A propósito, uma atitude que — no futebol, na política, nos negócios e nas relações internacionais — não leva ninguém a lugar algum é a de encarar um determinado problema contando apenas com a própria visão sobre ele — sem tentar entender o cenário em profundidade e sem levar em conta o que o outro lado tem a dizer sobre o assunto. Foi o que aconteceu, por exemplo, na Copa do Mundo de 1974, na Alemanha.

Com o prestígio do tricampeonato conquistado na Copa anterior, no México, e sob comando de um treinador que tinha méritos, mas agia como se não tivesse nada a aprender com quem quer que seja, a seleção brasileira precisava derrotar o time da Holanda para chegar à final. Àquela altura, o prestígio do time do Brasil era muito superior ao do adversário. Só que os holandeses, comandados pelo treinador Rinus Michels, vinham encantando torcedores do mundo inteiro com um futebol ágil e moderno, baseado na troca de passes em alta velocidade — que ficou conhecido como Carrossel Holandês.

Todos queriam ver aquele time jogar — menos uma pessoa. O treinador da seleção brasileira, Mário Jorge Lobo Zagallo. Chegou a dizer que seu time nada tinha a aprender com a “Laranja Mecânica” — apelido baseado no filme de Stanley Kubrick, que havia feito sucesso e causado incômodo naquela época. Pois bem... Quando se encontraram para medir forças, na reta final do torneio, foi um fiasco para o Brasil. A partida, disputada na cidade de Dortmund, terminou em 2 a 0 para a equipe da Holanda e a impressão que ficou foi a de que Johan Neeskens, Johan Cruyff (autores dos gols) e seus companheiros só não ampliaram o placar porque pouparam para o jogo seguinte. Zagallo jamais admitiu o erro que cometeu por ter ignorado solenemente o adversário — e o Brasil iniciou ali a um jejum de títulos que se estenderia por 20 anos.

A lição desse tipo de comportamento é evidente e, infelizmente, não se aplica apenas ao futebol. Entrar em qualquer frente de batalha sem levar em conta as características de quem está do outro lado, sem procurar saber como o oponente pensa e age — e, pior, sem procurar conhecer os valores que o inspiram — é um erro que pode custar caro. No caso do Oriente Médio, por exemplo, a arrogância das potências ocidentais, que no início do Século 20 quiseram impor à força um modelo político baseado em seus próprios valores, princípios e modelos de organização foi um erro que vem cobrando um preço elevado do mundo inteiro.

No domingo passado, esta coluna abordou a raiz profunda do fracasso crônico das políticas ocidentais no Oriente Médio. Foi mostrado, aqui, como a insistência arrogante em exportar o modelo europeu de Estado Nação para uma região de sociologia estritamente tribal e baseada em clãs resultou em Estados artificiais e disfuncionais. Países como a Síria, o Iraque e a Líbia, desenhados a régua e esquadro por potências coloniais, são hoje sinônimo de caos, guerra civil e ditaduras brutais — precisamente porque tentaram forçar a convivência de dezenas de tribos e etnias rivais sob um mesmo teto institucional.

Foi discutido, também, como a Autoridade Palestina sofre exatamente do mesmo mal de origem: é uma estrutura imposta de cima para baixo, desenhada nos gabinetes de Oslo e Washington, e liderada por figuras frequentemente vistas como forasteiras e ilegítimas pelas próprias tribos locais que deveriam governar. Se o diagnóstico, fundamentado na brilhante e implacável análise do doutor Mordechai Kedar — acadêmico e ex-oficial da Inteligência Militar de Israel —, é o de que a governança no mundo árabe só funciona quando respeita a sociologia orgânica da região, qual é, afinal, a saída para o labirinto israelo-palestino?

LEALDADE E RESPEITO

A resposta não está nos corredores acarpetados da ONU em Nova York, nem em novas rodadas de negociações baseadas em concessões territoriais utópicas, que ignoram a realidade do terreno. A resposta está na observação empírica e pragmática do que já deu certo no mundo árabe. Basta olhar para o Golfo Pérsico. Os Emirados Árabes Unidos, o Catar, o Kuwait e Omã são exemplos inquestionáveis de estabilidade, segurança e prosperidade econômica.

O segredo do seu sucesso não é apenas a abundância de petróleo — afinal, como já foi dito aqui, o Iraque e a Líbia também nadam no ouro negro, mas vivem num inferno de violência. O verdadeiro diferencial do Golfo é estrutural: nestes países, a fronteira política coincide milimetricamente com a fronteira tribal. Cada emirado é governado por um clã hegemônico e consolidado ao longo de séculos.

Em Abu Dhabi, governa a família Al-Nahyan; em Dubai, os Al-Maktoum; no Catar, os Al-Thani. Não há conflito de identidade nacional, não há disputas sectárias pelo controle do Estado, porque o Estado é, pura e simplesmente, a extensão natural da tribo. A autoridade do governante não deriva de uma eleição ao estilo ocidental, mas do respeito sociológico e histórico que o seu clã impõe.

Aplicada ao mundo corporativo e dos negócios, essa lógica equivale a reconhecer que uma grande fusão forçada entre empresas de culturas incompatíveis está fadada ao fracasso e à destruição de valor. A solução mais inteligente para destravar esse valor e garantir a viabilidade da operação não é insistir teimosamente na fusão, mas sim promover spin-offs. É descentralizar a gestão, entregando o controle das unidades de negócio a quem tem a verdadeira autoridade orgânica, o conhecimento íntimo do terreno e o respeito das equipes locais.

É exatamente esta a "Solução dos Emirados" proposta pelo doutor Kedar para a Cisjordânia. Em vez de tentar construir um Estado palestino unificado — que, dadas as rivalidades tribais e a ausência de uma verdadeira coesão nacional, inevitavelmente se tornaria mais um palco de guerra civil entre facções rivais, à semelhança do que aconteceu em Gaza entre o Hamas e o Fatah —, a alternativa pragmática é criar cidades-estado baseadas nos clãs locais.

Na prática, isso significaria desmantelar a disfuncional e corrupta Autoridade Palestina e transferir o poder diretamente para as famílias que já detêm a lealdade e o respeito nas ruas. Hebron, por exemplo, uma das cidades mais importantes da região, seria um emirado governado pelos clãs dominantes locais, como os Jabari, os Qawasmeh ou os Tamimi. Jericó seria gerida pelo clã Arikat. O mesmo modelo de cidade-estado autônoma se aplicaria a Ramallah, Nablus, Jenin, Tulkarm e Qalqilya.

Cada uma destas cidades se tornaria um emirado independente, responsável pela sua própria administração, economia, educação e segurança interna. As áreas rurais e os espaços abertos entre estas cidades-estado permaneceriam sob o controle soberano de Israel, garantindo a segurança estratégica da região e oferecendo cidadania israelense aos residentes dessas zonas menos povoadas, que representam uma minoria demográfica.

Esta abordagem resolve, de uma só vez, o problema crônico da legitimidade. Um líder de clã em Hebron não precisa de eleições monitoradas por observadores europeus para ser reconhecido pelos seus; a sua autoridade é histórica, sociológica e inquestionável. Além disso, um emirado focado no desenvolvimento local, sem a ambição irrealista e teologicamente motivada de destruir o vizinho israelense, tem todos os incentivos para prosperar economicamente. Pode atrair investimentos, desenvolver infraestruturas e gerar riqueza para a sua população, exatamente como fez o Dubai, transformando-se de uma vila de pescadores num hub financeiro global.

Esta proposta resolve também, de forma elegante, uma das maiores farsas humanitárias do século XX e XXI: a questão dos refugiados palestinos. Como Kedar não se cansa de apontar, com uma indignação que se transmite no tom da sua voz, não existe em parte alguma do mundo um caso comparado de status de refugiado hereditário, transmitido de geração em geração, por décadas a fio. "Onde no mundo você vê refugiados dos anos 40 cujos bisnetos hoje ainda são refugiados?” pergunta o especialista. “Não existe tal coisa no mundo inteiro".

E, aqui, cabe um comentário: Kedar, como israelense, talvez observe esse fenômeno com menos desconforto do que nós, como ocidentais, devemos avaliar nossa atitude em relação a essa realidade. Ao longo de décadas, vimos financiando essa máquina de perpetuar o problema e chamamos isso de ajuda humanitária. O Brasil sempre se orgulhou do “equilíbrio” de uma diplomacia que, nos últimos anos, se deixou contaminar por uma postura ideológica claramente anti-israelense. E nunca se deu ao trabalho de questionar a lógica da UNRWA, a agência das Nações Unidas para refugiados palestinos. Preferiu a fotografia bonita e os discursos inflamados em favor da causa palestina do que encarar essa pergunta incômoda.

DIMENSÃO REGIONAL

A ONU criou, específica e exclusivamente para os palestinos, uma agência separada (a UNRWA) cuja lógica perversa é perpetuar indefinidamente o problema, em vez de resolvê-lo. Para todos os outros refugiados do planeta, do Vietnã ao Sudão, vale o ACNUR, cujo mandato é reassentar e integrar. Ao criar emirados-cidade soberanos, com economia própria e capacidade de absorver população, o problema dos refugiados deixa de ser uma arma política eterna e passa a ser, finalmente, uma questão de gestão demográfica e econômica solucionável.

Há ainda uma dimensão regional que torna esta solução particularmente atraente no momento atual da geopolítica. Os Acordos de Abraão, assinados em 2020 entre Israel, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Sudão e Marrocos, já demonstraram que existe um caminho viável de cooperação econômica e diplomática entre Israel e o mundo árabe sunita pragmático. Esses acordos não foram alcançados através da velha fórmula de "terra por paz", mas sim através do reconhecimento mútuo de interesses estratégicos comuns — especialmente, a contenção do expansionismo iraniano xiita. A "Solução dos Emirados" para a Cisjordânia se encaixaria perfeitamente nesta nova arquitetura regional. Um conjunto de cidades-estado palestinas pragmáticas, integradas economicamente com Israel, com a Jordânia e com os próprios Emirados Árabes Unidos, criaria um cinturão de prosperidade e estabilidade incomparável com o paradigma falido do "processo de paz" tradicional, que beneficiou apenas burocratas, organizações não-governamentais milionárias e líderes corruptos da Autoridade Palestina.

Evidentemente, essa solução exige que o Ocidente abandone suas ilusões românticas e o seu complexo de salvador. Quem acompanha a política europeia como eu acompanho percebe que o bloco padece com uma paralisia decisória crônica—em que se destaca a incapacidade de agir sem antes formar um consenso de 27 vozes que se anulam mutuamente. É a mesma lógica que trava

conselhos, fusões e governos: confunde-se debate infinito com prudência, e quando a decisão enfim chega, a situação já mudou.

No caso do Oriente Médio, é mandatório aceitar a realpolitik nua e crua da região, onde as regras do jogo são ditadas pela força, pela honra tribal e pela religião, e não por resoluções do Conselho de Segurança. Como Kedar faz questão de lembrar, citando o conceito islâmico da "Paz de Hudaybiyyah", no mundo árabe-islâmico a paz duradoura só é mantida com quem é percebido como forte demais e letal.

Os árabes não fazem a paz porque de repente se apaixonaram pelos valores do sionismo ou da democracia liberal. Fazem a paz por pragmatismo e instinto de sobrevivência. Qualquer sinal de fraqueza, qualquer hesitação ou concessão territorial feita em nome de apaziguamento, é imediatamente interpretada não como um gesto de boa vontade, mas como um convite à agressão. A estabilidade de Israel — e, por extensão, de toda a região — depende inteiramente da sua capacidade de projetar uma força dissuasora inquestionável. Naturalmente, os críticos desta proposta levantarão objeções previsíveis. Dirão que se trata de uma fragmentação, de uma "balcanização" da Cisjordânia, de uma violação do princípio sagrado da autodeterminação nacional palestina.

ESTRUTURAS ESTRANGEIRAS

A esses críticos, vale responder com uma pergunta simples e direta: que autodeterminação nacional? A de quem? A do clã Jabari, a do clã Masri ou a do clã Tamimi? A do Hamas em Gaza ou a da Autoridade Palestina em Ramallah? A nação palestina, no sentido moderno e ocidental do termo, simplesmente não existe e nunca existiu como entidade coesa. O que existe é um conjunto de clãs e cidades com identidades próprias, frequentemente em conflito entre si.

Reconhecer essa realidade não é fragmentar artificialmente uma nação; é simplesmente parar de fingir que essa nação existe e dar a cada clã a soberania que ele de fato consegue exercer sobre o seu próprio território. Outra objeção comum é que esta solução seria "imposta" por Israel à população palestina. Mas qual foi, exatamente, a alternativa que não foi imposta?

Os Acordos de Sykes-Picot foram impostos pelos colonizadores europeus. As fronteiras de 1948 foram impostas pela ONU. A Autoridade Palestina foi imposta por Oslo, com Arafat “parachutado” de Túnis. O Hamas, por sua vez, impôs-se pela força das armas em Gaza, em 2007, atirando rivais do Fatah dos telhados. A diferença fundamental da "Solução dos Emirados" é que ela não impõe estruturas estrangeiras a uma população local; pelo contrário, devolve o poder às estruturas locais que já existem e operam organicamente. É a única proposta que parte do princípio de respeitar quem realmente comanda no terreno, em vez de inventar lideranças fictícias para satisfazer a vaidade dos chanceleres.

A "Solução dos Emirados" não é perfeita para os padrões idealistas dos diplomatas de Genebra ou dos acadêmicos de esquerda nas universidades ocidentais. Não rende Prêmios Nobel da Paz nem aplausos em editoriais do New York Times. Mas tem uma vantagem imbatível sobre todas as outras propostas tentadas e fracassadas no último século: ela é compatível com a realidade.

Ao alinhar a estrutura política com a sociologia tribal profunda, substitui-se a utopia sangrenta pelo pragmatismo funcional. E, no fim do dia, seja na complexa geopolítica do Oriente Médio ou na gestão de um grande grupo empresarial, o que importa não é o quão bonita e moralmente edificante a teoria parece no papel, mas sim a sua capacidade de gerar resultados reais, estabilidade e prosperidade sustentável. É hora de rasgar o mapa velho e começar a ler o terreno como ele realmente é.

Não se trata, simplesmente, de manifestar simpatia pela tese de Kedar. Minha posição é reflexo do que aprendi nos trinta anos em que tenho assento em mesas de negociações. Uma estrutura que ignora a realidade do terreno não sobrevive ao primeiro teste de força. Isso vale para uma fusão de bilhões, vale para um conselho, vale para um Estado.

 

Fonte: Nuno Vasconcellos, em O Dia

 

Por que o consumo diário de suplementos pode fazer mais mal do que bem

Eu não me via como uma grande consumidora de suplementos, mas depois dei uma boa olhada no meu armário.

Sem perceber, acumulei várias bolsas de creatina, vitamina D, magnésio, colágeno, um suplemento tudo-em-um e alguns comprimidos projetados para ajudar nos altos e baixos da perimenopausa.

Achei que estava imune aos anúncios constantes nas redes sociais. Mas não estava.

Uma pesquisa recente do grupo de consumidores Which? descobriu que 76% dos entrevistados tomavam pelo menos um suplemento regularmente — o que inclui vitaminas, minerais, ômega-3, probióticos e suplementos de ervas — e quase um quinto tomava quatro ou mais diariamente.

Embora os suplementos possam desempenhar um papel vital na melhoria de nosso bem-estar quando necessário, alguns especialistas alertam que estamos tão ansiosos para otimizar nossa saúde que agora podemos colocá-la em risco.

Eles disseram à BBC que estão atendendo a um número crescente de pacientes e clientes com problemas hepáticos, renais e gastrointestinais que, segundo eles, foram causados por pessoas que tomam um número crescente e uma variedade de suplementos.

Uma nutricionista me disse que é “insano” quantos suplementos as pessoas estão usando.

“Alguns estão começando a pensar que tomar uma pílula é melhor do que comer”, diz ela. “Não é.”

Quando Ginger Smith começou a tomar suplementos há três anos, ela pensou que estava melhorando sua saúde.

Como influenciadora da marca, várias caixas de produtos gratuitos chegavam regularmente à sua porta em Seattle, nos EUA. A jovem de 30 anos tomava os comprimidos, os pós e os géis e depois exaltava seus benefícios on-line.

“Eu tomava altas doses de vitamina C, vitamina D, cúrcuma, um suplemento especial para diminuir o inchaço e bebia regularmente água com eletrólitos”, explica Ginger.

Por alguns anos, ela diz que se sentiu saudável e energizada. Ela não sabia que, na verdade, estava colocando seus rins sob enorme pressão.

Depois de sentir dores lombares intensas, ela foi ao médico, que fez alguns exames de sangue. Em poucos dias, Ginger foi informada de que precisava de um ultrassom.

“Eu estava um pouco preocupada, mas não esperava que me dissessem que eu tinha uma pedra nos rins enorme. Tão grande que me disseram que precisariam operar para removê-la.”

A pedra nos rins media entre dois e três centímetros e havia sido causada, segundo Ginger, pelo coquetel de suplementos diários que ela estava tomando.

“Eu nunca teria pensado que, ao tentar melhorar minha saúde, eu acabaria de uma forma tão ruim”, diz ela. “Felizmente, eu tinha plano de saúde."

“Ainda assim me custou $6.000 (R$ 30,9 mil). Sem o plano, poderia ter sido $35.000 (R$ 180,3 mil).”

O gastroenterologista Pedro de Maria Pallares, do Hospital Universitário La Paz, em Madri, diz que um número cada vez maior de pacientes vem até ele com problemas hepáticos causados por suplementos de ervas.

“Perguntamos ao paciente se ele está tomando medicamentos. “Não”, dizem eles.

“Então temos que fazer um processo de eliminação. Depois de descartarmos tudo, perguntamos novamente e eles dizem: 'Bem, eu tomo vários suplementos diferentes'.”

Pesquisas nos EUA sugerem que 20% de todos os casos de danos ao fígado são causados por uma mistura de suplementos fitoterápicos e dietéticos.

Aqueles que são particularmente tóxicos para o fígado quando tomados em altas doses incluem vitamina A, glutamina, ashwagandha e extrato de chá verde.

O fígado pode se recuperar, mas o uso prolongado pode causar doenças crônicas.

O British Liver Trust (instituição sem fins lucrativos do Reino Unido focada na saúde do fígado) afirma que, embora haja poucos dados no país, tem havido casos de lesão hepática por causa de suplementação excessiva. A instituição pede às pessoas que considerem “se os benefícios potenciais superam os possíveis riscos”.

“Os suplementos podem mudar positivamente a vida”, diz Karan Rajan, cirurgião do NHS (o sistema público de saúde inglês) que cria conteúdo científico e de saúde para mídias sociais. “Mas todo suplemento merece ceticismo até que se prove o contrário.”

Nos últimos anos, Rajan diz que se tornou mais aberto em relação aos suplementos - tanto que lançou sua própria marca de suplementos de fibra - e acredita que eles podem ter um lugar na dieta das pessoas quando usados com sabedoria.

“Eu vi as evidências crescerem quando se trata de suplementos diferentes”, diz ele. “Sabemos que nosso solo não é tão denso em nutrientes quanto era décadas atrás - então, uma cenoura na década de 1950 será muito mais rica em nutrientes do que uma cenoura de 2026.”

Rajan toma vitamina D, um prebiótico, proteína, fibra e creatina, no que ele descreve como uma “pilha de suplementos”, para áreas onde ele poderia ter uma deficiência.

Ele diz que o equilíbrio funciona para ele, mas há riscos em misturar suplementos e os médicos agora atendem, com frequência, pacientes que tomam vários suplementos e pedem conselhos sobre quais tomar.

“Os pacientes podem não perceber que estão duplicando ingredientes, excedendo as quantidades recomendadas ou tomando produtos que podem interagir com medicamentos prescritos”, diz a professora Victoria Tzortziou Brown, presidente do Royal College of GPs (associação e órgão regulador de padrões para médicos de clínica geral no Reino Unido, ou general practitioners). “Nem sempre mais é melhor.”

Tomar um multivitamínico junto com um suplemento de vitamina B6, por exemplo, pode levar a uma dose dupla, e o excesso de vitamina B6 por um longo período de tempo pode resultar em danos nos nervos.

Tomar um coquetel de ferro, cálcio e magnésio juntos pode reduzir as taxas de absorção.

E algumas vitaminas, como A, D, E e K, são lipossolúveis, então o corpo as armazena por mais tempo, então pode não ser necessário tomá-las diariamente.

“As redes sociais estão convencendo as pessoas de que precisam desses suplementos para alcançar a saúde”, diz a nutricionista britânica Kristen Stavridis, que acha que está travando uma batalha perdida, “mas, na maioria das vezes, isso simplesmente não é verdade”.

Para um adulto sem problemas de saúde subjacentes, ela recomenda uma dieta balanceada, com suplementos de vitamina D nos meses de inverno e talvez um multivitamínico e óleo de peixe, se necessário.

Para algumas mulheres, que têm maior probabilidade de ter deficiência de ferro, os suplementos podem ajudar, mas devem ser tomados apenas por um curto período de tempo até que os níveis se recuperem.

A principal mensagem de Stavridis é priorizar os alimentos e, se você acha que é deficiente em um determinado nutriente, consulte um médico, pois não deve presumir que um suplemento o resolverá.

Certifique-se de verificar as quantidades diárias recomendadas no rótulo, acrescenta a especialista, e verifique se seus suplementos não estão em conflito com nenhum medicamento prescrito.

Demorou vários meses para Ginger se recuperar da operação para remover a pedra nos rins. Ela está se sentindo saudável novamente e está de volta ao trabalho.

“O engraçado é que eu me sinto tão energizada e saudável quanto quando estava tomando todos esses suplementos diferentes", diz.

“Agora eu só tomo um multivitamínico por dia. E espero que seja bom o suficiente.”

•        Café da manhã com mais proteína pode mudar a fome ao longo do dia, aponta estudo recente

O café da manhã com mais proteína pode influenciar a fome nas horas seguintes, ajudando algumas pessoas a sentir mais saciedade e menor vontade de beliscar. Esse efeito não depende apenas da quantidade de comida, mas também da composição da refeição, especialmente quando inclui fontes proteicas de boa qualidade.

Como a proteína muda a saciedade

A proteína demora mais para ser digerida do que carboidratos simples e pode estimular hormônios ligados à saciedade. Por isso, um café da manhã equilibrado pode ajudar a reduzir picos de fome antes do almoço.

Isso não significa cortar carboidratos ou exagerar nas porções. A ideia é combinar proteína, fibras e alimentos pouco processados para manter energia mais estável ao longo da manhã.

<><> O que diz o estudo recente

Segundo o estudo clínico The effect of consuming different dietary protein sources at breakfast on postprandial appetite and energy intake, publicado em 2025 e indexado no PubMed, pesquisadores avaliaram como diferentes fontes de proteína no café da manhã influenciam apetite e ingestão de energia após a refeição.

O estudo comparou bebidas e refeições ricas em proteína de origem vegetal e animal, observando respostas de fome, saciedade e hormônios intestinais após o consumo. Os resultados reforçam que a composição do café da manhã pode alterar a percepção de fome, embora a resposta varie conforme o alimento, o perfil da pessoa e o restante da dieta.

<><> Boas fontes para incluir de manhã

Para aumentar a proteína sem deixar a refeição pesada, vale escolher alimentos simples, acessíveis e que combinem com a rotina. O ideal é variar as fontes ao longo da semana.

       Ovos, mexidos, cozidos ou em omelete;

       Iogurte natural, kefir ou leite, quando bem tolerados;

       Queijos com menor teor de gordura e sal;

       Frango desfiado, atum ou pastas caseiras;

       Tofu, grão-de-bico, lentilha ou pasta de amendoim sem açúcar.

Erros que atrapalham o efeito

Um café da manhã com proteína pode não trazer o efeito esperado quando é acompanhado de muito açúcar, pouca fibra ou porções muito pequenas. Nesses casos, a fome pode voltar rápido mesmo após comer.

       Trocar a refeição por café puro com açúcar;

       Comer apenas pão branco, bolo ou biscoito;

       Usar bebidas proteicas como substituto diário sem orientação;

       Esquecer frutas, aveia ou sementes, que ajudam na saciedade;

       Exagerar em embutidos, como presunto e peito de peru.

<><> Como montar uma refeição equilibrada

Uma boa estratégia é combinar uma fonte de proteína com carboidrato de melhor qualidade e fibras. Por exemplo, iogurte natural com fruta e aveia, ovo com pão integral e fruta, ou tofu mexido com tomate e sementes.

Quem tem doença renal, diabetes, restrições alimentares ou busca perda de peso deve individualizar a quantidade com um profissional. Saiba mais sobre opções saudáveis para o café da manhã.

 

Fonte: Por Ruth Clegg, repórter de saúde e bem-esta da BBC/Tua Saúde

 

Avanço sem abrir mão da soberania: o que a nova fábrica de mísseis da SIATT representa para o Brasil?

Em meio ao avanço dos investimentos globais em defesa e ao aumento das tensões geopolíticas, o Brasil está aumentando sua Base Industrial de Defesa graças a parcerias externas.

Em entrevista à Exame, Rodrigo Torres, diretor financeiro do EDGE Group, multinacional emiradense que possui 50% da SIATT, empresa brasileira de tecnologia de defesa, afirmou que o grupo vai ampliar sua capacidade de produção até o fim do ano, com a inauguração da maior fábrica de mísseis da América Latina, em Caçapava (SP).

Com foco no atendimento a demandas das forças armadas brasileiras e do exterior, um dos principais produtos será o Míssil Antinavio Nacional de Superfície (MANSUP), desenvolvido para a Marinha do Brasil como um dos programas estratégicos da indústria nacional de defesa; e o MANSUP-ER, versão de maior alcance que pode ser utilizada em diferentes plataformas militares.

Com alto índice de nacionalização, o armamento busca reduzir a dependência de componentes estrangeiros e ampliar a autonomia tecnológica brasileira.

À Sputnik Brasil, o professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME) Rubens de Siqueira Duarte explica que a parceria entre a SIATT e o EDGE se encaixa na estratégia de diversificação de parceiros do Brasil em defesa, em especial com países que não são tradicionalmente alinhados à Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).

Outros exemplos são as duas joias da aviação militar brasileira, o caça F-39E/F Gripen e o cargueiro KC-390. A aeronave de transporte é fruto de cooperação com vários países, muitos deles fora da OTAN, e o acordo com a sueca Saab para o desenvolvimento do Gripen ocorreu quando Estocolmo ainda não fazia parte da OTAN.

Para Paulo Henrique Montini, pesquisador do grupo de pesquisa Estatística Aplicada e Computacional do Departamento de Estatística da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), esse tipo de cooperação fortalece a indústria de defesa brasileira, permitindo acesso a recursos e tecnologia sem abrir mão do controle sobre áreas estratégicas.

Segundo Montini, pesquisador do Grupo de Pesquisa em Conflitos, Estratégia e Inteligência da ECEME, a independência completa em defesa envolveria custos elevados e grandes desafios para acompanhar a fronteira tecnológica mundial. Por isso parcerias do tipo são importantes. "Áreas sensíveis, como as que o Brasil possui, não podem ser simplesmente compradas por qualquer um no mercado hoje."

"O que se deve fazer é a cooperação com vistas a não perdermos o controle dessas tecnologias críticas, enquanto se abre o Brasil para participar das cadeias globais de fornecimento, com vistas a captar recursos para financiar nossa indústria de defesa."

Para além de resultados no âmbito militar, investimentos na defesa geram impactos em diferentes setores da economia, e muitas vezes é nesse lado civil que as empresas devem se apoiar. Foi o caso da Embraer, que superou desafios em seu caixa ao desenvolver produtos para a aviação civil.

No caso da SIATT, Montini avalia que a empresa pode exercer papel semelhante ao criar os chamados "efeitos de transbordamento tecnológico", em especial para mercados de alta tecnologia, como o aeroespacial.

"Ela pode produzir produtos como sensores, inteligência artificial, eletrônica embarcada, navegação, telecomunicações."

Dessa forma, parcerias internacionais podem ajudar a manter conhecimento e capacidade produtiva no país, desde que acompanhadas por políticas públicas de incentivo à inovação, como programas de pesquisa, bolsas de estudo e apoio à criação de startups.

Duarte, que também é coordenador do Laboratório de Análise Política Mundial (Labmundo), compartilha à Sputnik Brasil uma visão semelhante.

Para ele, enquanto a nova fábrica é um grande passo para o Brasil, até mesmo em termos geopolíticos, dado o acirramento das tensões mundiais, é preciso acompanhar ações do tipo com investimentos na reindustrialização do país, com foco específico em pesquisa e tecnologia de ponta, assim como uma recuperação do ensino público universal.

"Essas medidas estruturantes são necessárias para evitar que o investimento na Base Industrial de Defesa não seja perdido no médio ou longo prazos."

<><> 'Misantropia': sistema da Defesa Civil é invadido e dispara mensagem falsa em regiões do Brasil

Uma mensagem falsa atribuída à Defesa Civil surpreendeu moradores de diferentes regiões do Brasil, após ser enviada por meio do sistema Cell Broadcast, utilizado para a emissão de alertas de emergência

O aviso, identificado como um "alerta extremo", continha apenas a palavra "misantropia" e foi recebido por usuários em estados como Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro, Mato Grosso do Sul, Bahia e no Distrito Federal.

O primeiro alerta falso foi registrado por volta das 23h45, no Paraná, e rapidamente se tornou assunto nas redes sociais e em grupos de mensagens, devido ao forte sinal sonoro emitido pelos aparelhos celulares e à ausência de qualquer informação sobre desastres naturais ou outras situações de risco.

Segundo relatos de moradores, a notificação fazia referência à Defesa Civil, mas não trazia detalhes sobre chuvas, temporais, alagamentos ou qualquer outro evento severo. Posteriormente, autoridades confirmaram que a mensagem não partiu dos órgãos oficiais.

Em nota, o governo do Paraná afirmou que o alerta "não saiu da Defesa Civil do Paraná" e informou que o órgão acionou a Defesa Civil Nacional e a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) para investigar o ocorrido.

"Não há nenhum evento severo previsto para Curitiba", destacou o comunicado. Em fevereiro deste ano, um episódio semelhante já havia causado preocupação entre moradores do Paraná, após outro aviso falso ser disparado pelo sistema.

O que significa 'misantropia'?

A palavra que apareceu na notificação se refere a um sentimento de aversão, desconfiança ou visão negativa em relação à humanidade. Na literatura acadêmica, o conceito também é associado à percepção de que os seres humanos seriam pouco confiáveis, injustos ou guiados predominantemente pelos próprios interesses.

¨      Brasil às vésperas do 'boom': terras raras tornariam país líder da economia verde mundial, diz mídia

Os metais de terras raras do Brasil têm o potencial de transformar a trajetória econômica do país e elevá-lo ao patamar das nações mais prósperas do mundo, escreve o jornal brasileiro Estado de Minas.

O jornal salienta que o avanço da cadeia de terras raras no Brasil tende a interiorizar a produção, gerando infraestrutura, serviços e arrecadação, e transformando municípios do interior em novos polos econômicos.

"Em 2026, as terras raras deixam de ser apenas um tema técnico e passam a ocupar um papel central na agenda econômica e estratégica do Brasil, em um cenário de transição energética, digitalização acelerada e busca por cadeias de suprimentos mais seguras, trazendo para o debate nacional questões de política industrial, soberania tecnológica e oportunidades de reposicionamento do país na economia verde e na indústria digital", destaca a publicação.

Segundo a matéria, a expansão da cadeia produtiva de terras raras no Brasil aumenta a demanda por profissionais especializados e cria oportunidades para a criação de polos de inovação voltados para a Indústria 4.0 e para a economia verde.

Esses elementos são fundamentais para a digitalização e a transição energética, pois estão presentes em motores eficientes, turbinas eólicas, veículos elétricos e infraestrutura de TI. Por isso, a diversificação de fornecedores se tornou uma prioridade global.

Portanto, o Brasil pode se tornar relevante em setores críticos, como os de defesa, espaço e energia limpa, desde que enfrente os desafios ambientais do refino e da gestão de rejeitos por meio de processos mais sustentáveis e com maior controle.

A verticalização da produção e a recuperação de materiais reciclados aumentam o valor agregado nacional e favorecem um modelo circular. No entanto, o Brasil ainda depende do exterior nas etapas mais avançadas de beneficiamento.

Para superar essa dependência, é essencial investir em pesquisa, na formação de mão de obra e em políticas públicas, aproveitando a janela de oportunidade antes que o mercado global se consolide sem a participação do Brasil, conclui a reportagem.

Anteriormente, a professora aposentada da Universidade de Brasília, Maria Luiza Falcão Silva, afirmou que por ser detentor do segundo maior volume de metais de terras raras do mundo, o Brasil deve declarar suas posições de forma mais firme e ousada no palco internacional.

Em artigo publicado no Brasil 247, a professora defendeu que com o aumento da importância das terras raras na economia moderna, o Brasil deve agir como protagonista em igualdade de condições com as demais potências mundiais.

¨      Minerais críticos: Do Congo ao Chile, economia verde quer “salvar o planeta” explorando o Sul Global

Enquanto o mundo acelera para as energias limpas, os minerais críticos – lítio, cobalto, grafite, níquel e cobre – tornaram-se o petróleo do século XXI e transformam o comércio global, afirma um novo informe da entidade ONU Comércio e Desenvolvimento (Unctad).

A demanda de lítio crescerá mais de 350% até 2040, enquanto a de grafite superará 130%. Neste contexto de febre extrativista, desencadeou-se uma autêntica corrida diplomática: 73 acordos e associações internacionais surgiram em matéria de minerais críticos, dos quais 58 foram assinados depois de 2022.

Os minerais críticos são utilizados na produção de baterias e armazenamento elétrico -fundamental com o auge dos veículos elétricos -, aços especiais, superligas, eletrodos e peças de eletrônica, computadores e celulares.

Só em 2023 o comércio mundial destes minerais críticos superou os 2,5 trilhões (milhões de milhões) de dólares, e a demanda continua aumentando.

Em seu informe de Atualização sobre o Comércio Mundial, deste mês de junho, a Unctad (antes denominada Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento) esboça um panorama de oportunidades históricas e ao mesmo tempo de riscos profundos para os países em desenvolvimento.

“Não podemos repetir os erros do passado com uma exploração sistemática dos países em desenvolvimento reduzidos à produção de matérias primas básicas”: - Rebeca Grynspan.

Estes países possuem a maior parte das reservas mundiais de minerais críticos – a África concentra 25% do total -, mas a história se repete: a grande maioria continua presa ao papel de meros extratores de matéria prima, enquanto a riqueza real é gerada nas usinas de processamento de uns poucos países.

O informe indica que a oferta de minerais críticos continua altamente concentrada. Em 2025, a República Democrática do Congo acaparou 74% da produção mundial de cobalto. A China produziu 78% do grafite natural. Austrália, Chile e China, juntos, produziram mais de 70% do lítio.

Mas a assimetria mais chocante se dá na refinação e no processamento, que é onde realmente se cria valor. Aí, a China desempenha um papel dominante no refino de vários minerais críticos, e a Indonésia já representa 43% da capacidade mundial de refino de níquel.

O desafio, insiste o informe, é que os países em desenvolvimento, ricos em minerais, continuam exportando matérias primas, enquanto o processamento e a fabricação de maior valor ocorrem em outras latitudes.

Assim, o auge dos minerais críticos pode ser uma benção para o desenvolvimento ou uma maldição mais. Os países com grandes reservas enfrentam o mesmo dilema histórico: como evitar ser meros exportadores de pedras, diz a Unctad.

O documento expõe um encontro da secretária geral da Unctad, Rebeca Grynspan, que na 16ª. conferência da entidade em outubro passado afirmou: “Não podemos repetir os erros do passado com uma exploração sistemática dos países em desenvolvimento reduzidos à produção de matérias primas básicas”.

A esse respeito, a Unctad expõe que um caminho possível está em seu “Informe de Madagascar”, em que analisa as possibilidades de agregar valor e diversificar a cadeia de valor nos minerais críticos que este país africano produz.

Madagascar – a quarta maior ilha do mundo – poderia criar pelo menos 20.000 empregos e desbloquear novas oportunidades industriais expandindo o valor agregado e diversificando mais, além da exportação de minerais em bruto.

As mulheres representariam 52% do emprego direto nos setores prioritários, especialmente na confecção têxtil e na indústria alimentícia.

Frente a este cenário de alta concentração e risco geopolítico, muitos governos passaram da retórica à ação, afirmou a Unctad depois de identificar 73 acordos e associações internacionais em matéria de minerais críticos, uma cifra que evidencia que o tabuleiro está em movimento.

Estas alianças, que abrangem desde a exploração até a reciclagem, são o sintoma de uma nova realidade: a transição energética não é só um imperativo climático, mas um campo de batalha comercial e de poder.

O informe conclui com uma pergunta inquietante: serão os minerais críticos outra fonte de fragmentação global ou a base de uma cooperação internacional mais resiliente e inclusiva?

¨      Sul Global já salvou o G7 da irrelevância mais de uma vez; veja quais países socorreram o grupo

A relevância do G7 minguou diante da perda demográfica e econômica de seus membros e da incapacidade do grupo de competir com a ascensão de potências médias do Sul Global.

Prova desse declínio é o desdém com que líderes como o presidente estadunidense, Donald Trump, vêm tratando as reuniões do grupo, com participações mornas e, em algumas ocasiões, limitadas. Em 2025, por exemplo, Trump defendeu o retorno da Rússia ao grupo, com a retomada do G8, e deixou a cúpula anual, realizada no Canadá, no segundo dia, antes do encerramento.

Na tentativa de manter alguma relevância, o G7 vem recorrendo a lideranças do Sul Global, principalmente do BRICS, grupo em expansão que hoje detém um contingente populacional, econômico e político muito mais representativo.

Ao contrário do que ocorre no BRICS ou no G20, os países do Sul Global não possuem assento permanente nem poder de decisão formal no G7. Suas contribuições ocorrem principalmente quando são convidados pelos anfitriões das cúpulas. Ainda assim, especialmente na última década, o G7 tem ampliado esses convites porque muitos dos desafios globais atuais, como clima, energia, segurança alimentar e desenvolvimento, dependem diretamente da participação de grandes economias do Sul Global.

A participação desses países é fundamental para moldar o debate em temas como financiamento climático, adaptação às mudanças climáticas, transição energética justa e desenvolvimento sustentável. A Sputnik Brasil preparou uma lista de ocasiões em que o G7 recorreu a participações de países do Sul Global para debater temas que norteiam o cenário geopolítico atual.

<><> Índia

A Índia foi convidada a participar em várias reuniões recentes do G7, incluindo as realizadas no Reino Unido (2021), na Alemanha (2022) e no Japão (2023). Suas contribuições envolveram segurança alimentar, cadeias globais de suprimentos, energia limpa, tecnologia digital e necessidades dos países em desenvolvimento.

<><> Indonésia

Em 2022, a Indonésia participou da cúpula do G7 na Alemanha em discussões sobre recuperação econômica pós-pandemia e cooperação entre economias desenvolvidas e emergentes. Como então presidente do G20, o país teve um importante papel na articulação entre diferentes blocos.

<><> Senegal

Também na cúpula de 2022, o Senegal participou dos debates sobre segurança alimentar global, especialmente devido aos impactos do conflito ucraniano sobre os preços de alimentos e fertilizantes em países africanos.

<><> União Africana

Em 2024, diversos líderes africanos e representantes da União Africana foram convidados a participar da cúpula do G7, realizada na Itália, para discutir desenvolvimento econômico, infraestrutura, migração, energia e segurança alimentar. Essa participação foi considerada uma tentativa de incorporar mais perspectivas do Sul Global às discussões do G7.

<><> Brasil

O Brasil foi convidado para algumas reuniões ampliadas do G7, especialmente para debater preservação ambiental, mudanças climáticas, proteção de florestas tropicais, segurança alimentar e transição energética. Na cúpula de Hiroshima, no Japão, em 2023, o Brasil participou de discussões sobre governança global e desenvolvimento sustentável.

 

Fonte: Sputnik Brasil/IPS