sábado, 8 de agosto de 2026

A política sem culpa: por que o escândalo já não derruba ninguém

Durante décadas, acreditou-se que grandes escândalos destruíam carreiras políticas. Hoje, em muitos casos, ocorre exatamente o contrário. Este ensaio investiga a arquitetura psicológica, cultural e tecnológica dessa inversão histórica e propõe uma interpretação original: o escândalo não perdeu importância; ele mudou de função. Em uma sociedade moldada pela fricção zero, pela metaintermediação algorítmica e por operações permanentes de engenharia da subjetividade, a denúncia pode deixar de produzir vergonha para produzir pertencimento.

<><> O escândalo mudou de função

As grandes transformações políticas raramente anunciam a própria chegada. Elas preservam as instituições, mantêm o vocabulário da democracia e reproduzem a aparência da normalidade. O que muda é mais difícil de perceber. Mudam as relações invisíveis que organizam o comportamento coletivo. Foi exatamente isso que aconteceu com o escândalo político.

Durante muito tempo, a denúncia pública de um ato de corrupção, de um abuso de poder ou de uma grave transgressão ética acionava um mecanismo relativamente previsível de responsabilização. O escândalo produzia desgaste, o desgaste comprometia a confiança e a perda da confiança limitava a capacidade de um líder preservar sua legitimidade. Essa relação jamais foi automática. A história sempre conheceu governantes capazes de sobreviver a crises profundas. O que existia era outra coisa: um horizonte compartilhado segundo o qual a acumulação de escândalos elevava progressivamente o custo político de permanecer ao lado do acusado.

Esse horizonte começou a desaparecer. Não porque a corrupção tenha deixado de existir, nem porque as denúncias tenham perdido visibilidade. O que se alterou foi a maneira como elas passaram a ser incorporadas ao comportamento político. Em vez de produzir afastamento, passaram frequentemente a fortalecer vínculos. Em vez de corroer lideranças, consolidaram identidades. Em vez de ampliar o isolamento dos acusados, reforçaram comunidades inteiras organizadas em torno deles. O escândalo permaneceu o mesmo. Mudaram as condições históricas que determinam seus efeitos.

As interpretações mais correntes continuam procurando respostas onde o problema já não está. Ora atribuem essa transformação à ignorância do eleitor, ora ao poder das plataformas digitais, ora à disseminação da desinformação. Nenhuma dessas explicações é suficiente. Todas descrevem dimensões importantes da realidade, mas permanecem prisioneiras da mesma premissa: a de que o escândalo continua desempenhando a função política que desempenhava antes e que apenas alguns fatores externos passaram a impedir seu funcionamento. Talvez a hipótese correta seja exatamente a inversa. Talvez não estejamos diante de um mecanismo interrompido, mas de um mecanismo transformado.

Essa mudança desloca completamente a investigação. O problema já não consiste em compreender por que determinados líderes sobrevivem aos escândalos, mas por que o próprio escândalo deixou de exercer a função política que desempenhou durante boa parte da experiência democrática moderna. É essa a hipótese que organiza este ensaio. O escândalo não perdeu importância. Mudou de função. E, quando muda a função política do escândalo, muda também a forma como a democracia produz responsabilização, pertencimento e poder.

<><> A reorganização da subjetividade política

Se o escândalo mudou de função, a transformação não pode ser explicada apenas pela política institucional. Nenhuma sociedade altera tão profundamente seus mecanismos de responsabilização porque determinados líderes aprenderam a comunicar melhor ou porque novas tecnologias passaram a circular informações com maior velocidade. Mudanças dessa natureza atingem um plano muito mais profundo. Elas reorganizam a maneira como indivíduos constroem vínculos, atribuem confiança, reconhecem autoridades e produzem sentido para a experiência coletiva. Antes de modificar eleições, modificam subjetividades.

Esse deslocamento rompe uma das ilusões mais persistentes da política moderna. Costumamos imaginar que primeiro acreditamos e só depois agimos. A experiência histórica sugere o inverso. Comportamentos não permanecem porque parecem verdadeiros. Permanecem porque ambientes inteiros aprendem a recompensá-los. É nesse terreno que a política deixa de ser apenas uma disputa entre ideias e passa a ser uma disputa pelas condições que tornam determinados comportamentos mais prováveis do que outros.

Essa percepção aproxima a psicologia do problema clássico da hegemonia. Nenhuma ordem social permanece porque convence continuamente todos os indivíduos. Ela se estabiliza quando determinados modos de perceber, interpretar e agir deixam de ser experimentados como escolhas e passam a parecer naturais. A hegemonia não habita apenas os discursos. Habita hábitos, expectativas, rotinas, afetos e formas de reconhecimento que, repetidas diariamente, transformam relações históricas em evidências aparentemente espontâneas. É justamente nesse ponto que comportamento e hegemonia deixam de ser temas distintos. Ambos tratam da produção histórica daquilo que uma sociedade aprende a considerar normal.

A identidade é o ponto em que essa transformação se torna politicamente decisiva. Nenhum indivíduo julga um escândalo a partir de um vazio psicológico. Julga a partir dos vínculos que o reconhecem, das comunidades às quais pertence e da posição que ocupa dentro delas. Quando a identidade passa a organizar a experiência política, a denúncia deixa de atingir apenas um líder. Atinge também aqueles que aprenderam a reconhecer parte de si mesmos nesse vínculo. É nesse momento que defender um projeto político pode ser vivido, antes de tudo, como uma forma de defender a própria identidade.

É por isso que denúncias frequentemente deixam de produzir os efeitos esperados. Não porque as pessoas ignorem os fatos, mas porque esses fatos chegam a indivíduos cuja experiência política já está organizada por vínculos afetivos, identidades coletivas e mecanismos permanentes de reconhecimento. A racionalização, descrita por Leon Festinger, e o desengajamento moral, desenvolvido por Albert Bandura, deixam de ser anomalias psicológicas para se tornarem respostas previsíveis em ambientes que recompensam a fidelidade mais do que a revisão crítica das próprias posições. O comportamento protege a identidade porque a identidade passou a organizar o comportamento.

Seria um equívoco, contudo, compreender esse processo como um fenômeno exclusivamente individual. A subjetividade não nasce encerrada na consciência. Ela é produzida nas relações sociais, na linguagem, no trabalho, na cultura e nas formas concretas de participação na vida coletiva. É nesse terreno que a psicologia social crítica de Sílvia Lane e Martín-Baró amplia decisivamente o problema. O sujeito não é apenas alguém que reage ao mundo. É alguém continuamente produzido por relações históricas de poder. Quando essas relações se transformam, transformam-se também as formas pelas quais medo, confiança, pertencimento e lealdade passam a organizar o comportamento político.

Talvez essa seja a mudança menos visível da democracia contemporânea. A disputa deixou de concentrar-se apenas na conquista da opinião pública. Ela passou a incidir sobre os próprios processos de formação da subjetividade. Antes de convencer, tornou-se necessário organizar os ambientes nos quais as pessoas aprendem quem merece confiança, quais vínculos devem ser preservados e que tipo de comportamento será reconhecido como legítimo. O centro de gravidade da política deslocou-se silenciosamente da persuasão para a produção das condições sociais que tornam a persuasão quase desnecessária.

É nesse ponto que emerge a questão decisiva deste ensaio. Se a subjetividade passou a ser organizada por novas formas de reforço, reconhecimento e pertencimento, quem reorganizou esse ambiente? É essa pergunta que nos conduz ao verdadeiro centro da transformação política contemporânea.

<><> A arquitetura invisível do comportamento

Nenhuma transformação descrita até aqui ocorreu espontaneamente. Se a subjetividade política passou a organizar-se de outra maneira, é porque também se transformaram os ambientes responsáveis por selecionar comportamentos, distribuir reconhecimento e produzir confiança. Toda ordem social depende de uma arquitetura que orienta, de forma mais ou menos invisível, aquilo que seus membros percebem como normal, desejável ou legítimo. A novidade do capitalismo informacional não está apenas na capacidade de produzir informação em escala inédita. Está na capacidade de organizar, em tempo real, os ambientes onde essa informação será interpretada.

A transformação decisiva não ocorreu na circulação das informações, mas na reorganização dos ambientes onde elas passam a adquirir significado. É esse deslocamento que denomino metaintermediação algorítmica. As plataformas deixaram de intermediar apenas conteúdos. Passaram a intermediar as próprias mediações, selecionando antecipadamente os circuitos de confiança, os enquadramentos da realidade e as comunidades de pertencimento. A consequência mais profunda dessa reorganização é a redução contínua da fricção necessária ao pensamento crítico. Quanto menor o intervalo entre estímulo e resposta, menor o espaço para comparação, hesitação e revisão. A fricção zero deixa, assim, de ser apenas uma característica técnica das plataformas. Torna-se a forma dominante de organização da experiência política.

É nesse contexto que emerge a ideologia da fricção zero. Toda experiência crítica depende de algum grau de atrito. A dúvida, a comparação, a demora e a hesitação não representam obstáculos ao pensamento democrático. Constituem sua condição de existência. A fricção obriga o sujeito a confrontar diferenças, revisar certezas e sustentar a complexidade do real. A lógica dominante das plataformas segue o caminho inverso. Seu objetivo permanente consiste em reduzir o intervalo entre estímulo e resposta, tornando a interação cada vez mais fluida, previsível e contínua. O resultado não é apenas uma aceleração da comunicação. É uma transformação da própria ecologia cognitiva onde decisões políticas passam a ser produzidas.

Essa mudança altera profundamente o funcionamento do escândalo. A denúncia já não chega a um espaço aberto de deliberação. Ela desembarca em ambientes previamente organizados por vínculos afetivos, comunidades de confiança e sistemas permanentes de reforço. O fato continua importante, mas deixa de ocupar sozinho o centro da interpretação. Antes que qualquer reflexão se desenvolva, a arquitetura do ambiente já oferece enquadramentos, distribui recompensas simbólicas e orienta respostas emocionalmente estáveis. A disputa desloca-se do conteúdo da informação para as condições que determinam sua recepção.

Talvez seja esse o aspecto mais invisível da política contemporânea. O poder já não depende apenas da capacidade de convencer. Depende, sobretudo, da capacidade de organizar os ambientes onde o convencimento se torna desnecessário. Quando pertencimento, reconhecimento e identidade passam a ser continuamente reforçados por arquiteturas capazes de antecipar expectativas e reduzir a fricção cognitiva, o comportamento político adquire uma estabilidade inédita. A lealdade deixa de depender da força dos argumentos. Passa a depender da qualidade do ambiente que a sustenta.

É justamente por isso que o escândalo mudou de função. Ele não encontrou apenas novos eleitores. Encontrou uma nova arquitetura do comportamento. E toda arquitetura produz, inevitavelmente, uma nova forma de poder.

<><> A política sem culpa

Toda ordem política produz uma determinada economia moral. Não porque elimine os conflitos ou uniformize consciências, mas porque estabelece quais comportamentos serão reconhecidos, quais desvios serão tolerados e quais limites não poderão ser ultrapassados sem consequências. Durante grande parte da experiência democrática moderna, o escândalo ocupou um lugar central nessa economia. Funcionava como um mecanismo de responsabilização pública. Não impedia a corrupção, nem garantia a integridade das instituições. Ainda assim, preservava a expectativa de que determinadas transgressões produziriam custos políticos capazes de limitar o exercício do poder.

Essa expectativa deixou de organizar a democracia contemporânea da mesma maneira.

A mudança não reside na perda dos valores morais nem na incapacidade dos cidadãos de distinguir o certo do errado. Tampouco resulta exclusivamente da ascensão das plataformas digitais ou da circulação de desinformação. O que se transformou foi a arquitetura histórica que conecta julgamento moral, identidade, pertencimento e comportamento político. A culpa continua existindo. A responsabilização continua sendo um ideal democrático. O que deixou de existir, em muitos contextos, foi a relação relativamente direta entre uma denúncia pública e a reorganização do comportamento eleitoral.

É precisamente nesse deslocamento que o escândalo muda de função. Quando comunidades políticas passam a organizar-se em torno de identidades continuamente reforçadas por ambientes de reconhecimento permanente, a denúncia deixa de representar apenas um fato que exige avaliação. Ela passa a disputar espaço com vínculos afetivos, lealdades acumuladas e formas de pertencimento cuidadosamente produzidas ao longo do tempo. O comportamento deixa de responder prioritariamente à gravidade da acusação e passa a responder às consequências sociais de aceitá-la ou rejeitá-la. A política deixa de ser organizada principalmente pela culpa. Passa a ser organizada pela administração do pertencimento.

Talvez essa seja a transformação mais profunda da democracia no século XXI. O centro da disputa política deslocou-se silenciosamente das instituições para a subjetividade. Já não basta conquistar governos, maiorias parlamentares ou espaços de comunicação. Torna-se decisivo organizar os ambientes onde identidades são produzidas, afetos são distribuídos e comportamentos são continuamente selecionados. É nesse terreno que a extrema-direita demonstrou uma capacidade estratégica superior à de seus adversários. Sua principal vitória não consistiu em convencer milhões de pessoas de que seus líderes são inocentes. Consistiu em construir ecossistemas sociais nos quais a lealdade produz mais reconhecimento do que a responsabilização.

Essa constatação possui consequências que ultrapassam em muito o destino eleitoral de qualquer liderança. Se o escândalo deixou de cumprir a função disciplinadora que durante décadas estruturou parte da imaginação democrática, talvez não seja apenas a política que esteja mudando. Talvez tenham mudado também as premissas sobre as quais continuam operando o jornalismo, o sistema de justiça, os partidos e grande parte das instituições que ainda apostam na simples exposição dos fatos como mecanismo suficiente de transformação da realidade. A informação permanece indispensável. Mas já não basta. Nenhuma democracia consegue sustentar-se apenas produzindo evidências quando outras forças passaram a organizar, antecipadamente, as condições sob as quais essas evidências serão percebidas.

É por isso que compreender o presente exige deslocar o olhar. O problema já não consiste apenas em denunciar mentiras, revelar escândalos ou desmontar campanhas de desinformação. Tudo isso continua indispensável. Mas a disputa decisiva deslocou-se para outro lugar: as condições históricas que organizam confiança, pertencimento e lealdade. Enquanto continuarmos combatendo apenas as mensagens, permanecerá intacta a arquitetura que produz seus efeitos.

O escândalo continua existindo. A corrupção continua existindo. A mentira continua existindo. O que deixou de existir foi a expectativa de que sua simples revelação bastasse para reorganizar o comportamento político. Talvez essa seja a transformação mais profunda da democracia contemporânea. A maior vitória da extrema-direita não foi convencer milhões de pessoas de que seus líderes eram inocentes. Foi alterar as condições históricas sob as quais a democracia produz lealdade.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

'Milei e Trump compartilham antipatia por Lula e ficariam satisfeitos com eleição de Flávio Bolsonaro'

Primeiro, o governo brasileiro negou a entrada no país de uma delegação oficial dos Estados Unidos por suspeitas de que ela pretendia lançar dúvidas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral.

Depois, o presidente da Argentina, Javier Milei, chamou Luiz Inácio Lula da Silva (PT), de "ladrão e corrupto". Em resposta, o presidente brasileiro retirou o embaixador do Brasil de Buenos Aires.

E, nesta semana, os Estados Unidos cancelaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, sob a alegação de que o governo Lula estaria demorando a aceitar o novo representante diplomático americano no país.

Talvez essa sequência de acontecimentos incomuns envolvendo três dos maiores países do continente em menos de duas semanas seja apenas uma coincidência.

Mas o fato é que as tensões entre Brasil, Estados Unidos e Argentina atingiram níveis extraordinários após uma série de atritos diplomáticos, críticas políticas e demonstrações de desconfiança.

Segundo analistas, por trás desse cenário pode estar o interesse de dois presidentes de direita — o americano Donald Trump e o argentino Javier Milei — em ver o candidato da oposição, Flávio Bolsonaro, derrotar o presidente Lula, de esquerda, nas eleições de outubro, permitindo que outro governo alinhado a eles assuma o poder no maior país da América do Sul.

"Não há evidência de que se trate de um ataque coordenado [contra Lula] por parte de Trump e Milei, mas isso não me surpreenderia", afirma Cynthia Arnson, professora adjunta de relações internacionais da Universidade Johns Hopkins, em Washington.

"Milei e Trump compartilham uma antipatia em relação a Lula e ficariam satisfeitos se Flávio Bolsonaro fosse eleito", disse Arnson à BBC News Mundo, serviço em espanhol da BBC.

Mas até que ponto tudo isso pode influenciar as eleições no Brasil?

<><> 'Cascas de banana'

A ideia de que os Estados Unidos estariam tentando interferir de forma indevida nas eleições brasileiras foi levantada pelo governo Lula e rejeitada pelo governo Trump.

Em comunicado divulgado na terça-feira (4/8), a Presidência da República afirmou que os dois funcionários do Departamento de Estado dos EUA que tiveram o visto de entrada no Brasil negado em 24 de julho pretendiam "colocar em dúvida a integridade do sistema eleitoral brasileiro".

Lula defendeu a decisão na quarta-feira (5/8).

"O Brasil não está apenas preparado, mas vai enfrentar qualquer pessoa de fora que queira interferir no nosso processo eleitoral", afirmou.

O Departamento de Estado, por sua vez, afirmou que "qualquer insinuação de uma 'manobra' para minar as eleições de uma nação democrática é uma mentira sem fundamento".

O governo americano acrescentou que os dois funcionários que tiveram os vistos negados — um deles responsável por fortalecer os vínculos de Washington com a direita radical europeia — pretendiam se reunir com autoridades no Brasil para discutir a integridade eleitoral e as liberdades religiosa e de expressão.

Washington também afirmou que a decisão de cancelar o visto da embaixadora do Brasil nos Estados Unidos, Maria Luiza Ribeiro Viotti, foi motivada pela demora do governo brasileiro em conceder o agrément ao novo embaixador indicado por Trump, Daniel Perez, deputado estadual republicano da Flórida.

Lula, porém, classificou o cancelamento do visto de sua diplomata como "irresponsável" e afirmou que os Estados Unidos passaram um ano e meio sem enviar um embaixador ao Brasil.

Segundo especialistas, a medida adotada por Washington não tem precedentes na relação bilateral com Brasília e parece ter como objetivo pressionar o governo Lula.

"A sensação que tenho é que o governo dos Estados Unidos está lançando cascas de banana, na expectativa de que o Brasil escorregue em alguma delas e reaja de uma forma que justifique novas medidas restritivas por parte dos EUA", disse Guilherme Casarões, especialista em relações internacionais da Universidade Internacional da Flórida em entrevista à BBC News Brasil.

O governo Trump também impôs, em julho, tarifas de 25% sobre a importação de diversos produtos brasileiros, sob o argumento de que o país adota práticas comerciais desleais.

"Já foram mobilizados tantos instrumentos políticos, econômicos e jurídicos contra o Brasil que é difícil afirmar que os Estados Unidos não têm interesse nestas eleições (brasileiras)", acrescentou Casarões. "Não consigo deixar de classificar isso como uma tentativa de interferência."

<><> 'Um jogo muito complexo'

Para Trump e Milei, uma vitória da direita nas eleições brasileiras seria especialmente importante devido ao peso político do Brasil em uma região onde as forças conservadoras têm expandido seu poder.

Os dois presidentes já demonstraram interesse em favorecer a chegada ao poder de governos ideologicamente alinhados a eles na América Latina.

Antes do segundo turno da eleição presidencial no Chile, em dezembro, por exemplo, Milei declarou apoio a José Antonio Kast, o político ultraconservador que venceu a disputa e hoje governa o país.

O presidente argentino participou, no dia 25 de julho, da convenção partidária do PL em São Paulo, que oficializou a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. Na ocasião, Milei fez os primeiros ataques a Lula e pediu aos eleitores que "parassem o lixo socialista" nas urnas.

Em resposta, o governo brasileiro chamou para consultas seu embaixador em Buenos Aires e pediu explicações ao representante da Argentina em Brasília.

Mas Milei voltou a atacar Lula publicamente e, na última terça-feira, o Brasil decidiu rebaixar as relações diplomáticas com a Argentina ao nível de encarregado de negócios, na pior crise entre os dois maiores parceiros comerciais do Mercosul em vários anos.

Enquanto Lula tentou evitar um confronto direto com Milei — "Quem é esse cara?", perguntou há alguns dias durante um evento público —, a chancelaria argentina afirmou, em comunicado, que o Brasil está se isolando "do restante da região por questões puramente ideológicas".

Trump também manifestou apoio explícito a candidatos de direita em eleições recentes na América Latina, como na Colômbia e em Honduras. Em maio, recebeu Flávio Bolsonaro na Casa Branca, quando a campanha do senador enfrentava uma crise devido à revelação de ligações suas com o banqueiro Daniel Vorcaro.

No ano passado, Trump também impôs tarifas ao Brasil na tentativa de interferir no julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, um antigo aliado seu que acabou condenado a 27 anos de prisão por golpe de Estado e outros crimes.

A medida provocou o primeiro grande embate entre Trump e Lula, que passou a acusar Washington de tentar interferir indevidamente nos assuntos internos do Brasil.

Mas as pesquisas indicaram que esse confronto acabou beneficiando politicamente Lula no país. Depois disso, Trump buscou se aproximar do presidente brasileiro: os dois se reuniram em duas ocasiões, em um movimento que parecia indicar um entendimento crescente entre ambos.

Agora, porém, as tensões bilaterais voltaram a afastá-los e levantam dúvidas sobre os efeitos desse cenário nas eleições brasileiras, em que Lula tentará conquistar um novo mandato.

"A opinião pública pode ser volátil, então a Casa Branca e a Casa Rosada provavelmente apostam que essa hostilidade acabará favorecendo Flávio Bolsonaro", avalia Arnson.

Maurício Santoro, cientista político do Centro de Estudos Político-Estratégicos da Marinha do Brasil, não acredita que as declarações de Milei sejam capazes de alterar o voto dos brasileiros, mas avalia que as ações de Trump têm um impacto diferente.

"Em alguns casos, como na questão das tarifas e do comércio, elas podem acabar beneficiando Lula, na medida em que o presidente se apresentou como defensor da soberania brasileira diante de interferências externas", disse Santoro à BBC Mundo.

Mas ele ressalta que, por outro lado, a decisão dos Estados Unidos de classificar, em junho, contra a vontade de Lula, duas facções criminosas brasileiras — o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital (PCC) — como organizações terroristas teve um efeito positivo sobre uma parcela da opinião pública preocupada com a insegurança.

"Talvez nunca uma eleição brasileira tenha sido tão marcada por questões internacionais", observa Santoro.

"É um jogo muito complexo, cujas regras ainda não compreendemos plenamente. O Brasil não é o Irã nem a Rússia; não estamos acostumados a sofrer sanções. É a primeira vez que isso acontece, e ainda estamos um tanto perplexos."

¨      Lula diz que Trump o trata com respeito e que Marco Rubio é bolsonarista e não gosta do Brasil

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta sexta-feira (7) que o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o trata com respeito e que Marco Rubio, secretário de Estado, é um bolsonarista que não gosta do Brasil.

"Ele [Trump] tem um cidadão que não gosta do Brasil. Que não gosta da América Latina. E que é um bolsonarista. Que é o homem secretário de Estado, que é o Marco Rubio. Sabe, ele não gosta", afirmou o presidente.

"Ele é um anti-latino-americano ou um latino-americano frustrado porque ele foi embora de Cuba, o avô dele, o bisavô, é de lá, ele nunca morou em Cuba.Mas ele foi embora, ele é um descendente de cubano de Miami, então ele odeia.Odeia Cuba, odeia a Colômbia, odeia o Brasil. E ele faz as coisas diferentes daquilo que a gente conversa com o Trump", disse Lula.

O presidente deu a declaração durante visita ao Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), em São José dos Campos (SP).

No evento, o presidente brasileiro lembrou seus encontros com o americano e reforçou que foi bem tratado por Donald Trump.

"Eu e o Trump já tivemos algumas reuniões. Ele sempre me tratou com muito respeito.Eu trato ele com muito respeito.Quando eu encontrei com o Trump na Malásia, eu disse ao Trump: olhe Trump, nós somos dois homens de 80 anos. Eu já fiz 80 anos. Ele fez agora dia 14 de julho.Então eu sou um pouco mais velho que você. E a gente tem que passar para o mundo a responsabilidade das duas maiores democracias do mundo, que tem uma relação diplomática com 201 anos", afirmou.

Afirmou ainda que disse a Trump que Brasil e EUA tinham responsabilidade de manter a harmonia entre "das duas maiores democracias do mundo".

A crise ganhou novo capítulo nesta terça-feira (4), após os EUA revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti.

Segundo o Departamento de Estado, a medida seria uma resposta à demora das autoridades brasileiras em conceder o aval diplomático para que Daniel Perez assuma a embaixada dos Estados Unidos no Brasil.

O nome da Daniel Perez foi aprovado pelo Senado americano nesta sexta-feira (7) para o posto. Agora, seu nome segue para aval do Itamaraty, que poderá conceder – ou não – o agrément, a autorização necessária para que um embaixador estrangeiro assuma suas funções.

<><> Foto para Trump

Lula também falou que quer mandar para Trump uma fotografia dos dados do INPE que mostram a queda do desmatamento no Brasil.

"Mas porquê que eu vim aqui, porquê que eu vim aqui tirar uma fotografia com vocês? Depois eu preciso colocar aqueles gráficos que vocês colocaram, que eu quero tirar uma fotografia para mandar para o Trump", afirmou Lula.

O presidente relacionou os gráficos do INPE, que mostram queda no desmatamento do país, a uma das justificativas dadas pelos Estados Unidos para o tarifaço.

Desde o início da campanha eleitoral, a relação entre Brasil e Estados Unidos passou por uma escalada de tensão política e diplomática, especialmente após as medidas tarifárias contra produtos brasileiros – o "tarifaço".

🔎 O desmatamento ilegal foi um dos principais argumentos usados pelo governo americano para a imposição das tarifas. Segundo a investigação dos EUA, a oferta de produtos como madeira e carne do Brasil seria mais competitiva porque eles eram produzidos em áreas associadas a crimes ambientais.

Lula também alfinetou o presidente americano em relação ao seu posicionamento sobre a pauta verde.

"Eu vi o Trump falando na ONU que não acredita nesse negócio de questão climática, que é tudo mentira", disse Lula.

 

Fonte: BBC News Brasil/g1

 

Projetos para alterar Lei Maria da Penha podem piorar proteção às mulheres

No aniversário de duas décadas, a Lei Maria da Penha (LMP) é alvo constante de mudanças, nem sempre positivas. Entre junho de 2025 e junho de 2026, 89 propostas de alteração da lei foram apresentadas pelo Poder Legislativo. Uma em cada quatro é avaliada como desfavorável aos direitos das mulheres por organizações da sociedade civil especializadas no enfrentamento e na prevenção da violência doméstica.  

Apenas 5,6% dos projetos são voltados a campanhas de prevenção e educação, consideradas fundamentais para reduzir a violência doméstica e as altas taxas de feminicídio no país. A maior parte das propostas apresenta medidas que entram em cena apenas quando a violência já aconteceu, priorizando o monitoramento dos agressores e o auxílio financeiro às mulheres agredidas.

O levantamento foi baseado na QuitérIA, a inteligência artificial da Elas no Congresso, plataforma d’AzMina que monitora a atividade legislativa relacionada aos direitos de meninas, mulheres e pessoas LGBTQIAPN+. 

POR QUE ISSO IMPORTA?

A Lei Maria da Penha foi um marco na legislação brasileira que trata de violência contra a mulher. Parte das propostas para alterar a lei repete mecanismos já previstos ou pode dificultar o acesso à proteção.

<><> Partidos alinhados à direita concentram propostas desfavoráveis

No levantamento, cinco parlamentares lideraram a apresentação de propostas classificadas como desfavoráveis aos direitos das mulheres: Julia Zanatta (PL/SC), Delegado Caveira (PL/PA), Romero Rodrigues (Podemos/PB), Jonas Donizette (PSB/SP) e Amom Mandel (Cidadania/AM). Cada um deles tem pelo menos dois projetos negativos.

Um dos projetos de Julia Zanatta, o PL 4954/2025, propõe que a Lei Maria da Penha estenda a proteção aos homens, o que enfraquece a centralidade da proteção às mulheres vítimas de violência de gênero. Homens em situação de violência ou ameaça já podem buscar proteção por outros instrumentos jurídicos. 

Entre os projetos desfavoráveis destacam-se o PL 167/2026, do senador Wilder Morais (PL/GO), e o PL 1400/2026, de Flávio Bolsonaro (PL/RJ). As propostas são similares e buscam permitir que os delegados de polícia decretem medidas protetivas de urgência contra agressores. Ao transferir ao delegado a decisão sobre medidas protetivas, o acesso da vítima pode ficar condicionado à capacitação, sensibilidade e avaliação da autoridade policial, o que pode gerar desigualdades e dificultar a proteção em locais com atendimento precário.

Projetos como o PL 243/2026, que quer aplicar a Lei Maria da Penha para todas as situações de violência praticada contra mulher, foram entendidos como desfavoráveis porque desvinculam a aplicação da lei do contexto doméstico, familiar ou de relação íntima de afeto. Outros, como o PL 5128/2025, exigem ampla defesa do acusado no procedimento de concessão de medidas protetivas de urgência, o que pode gerar morosidade e enfraquecer uma resposta emergencial. 

Essas propostas desconsideram a complexidade dos ciclos de violência, podem reforçar discursos de descrédito às vítimas, inibir a busca por proteção, gerar insegurança interpretativa da lei ou reduzir o espaço para que cada caso seja analisado conforme suas características específicas. 

Na direção oposta, temos Ana Paula Lima (PT/SC), Defensor Stélio Dener (Republicanos/RR), Delegada Ione (Avante/MG), Denise Pessôa (PT/RS), Laura Carneiro (PSD/RJ), Marcos Tavares (PDT/RJ) e Pastor Henrique Vieira (PSOL/RJ). Cada um desses parlamentares tem duas ou mais propostas consideradas favoráveis ao fortalecimento da LMP. 

O PL 5279/2025, por exemplo, quer levar conteúdos específicos de prevenção da violência contra a mulher para a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB). Já o PL 1708/2026 inclui medidas voltadas à autonomia econômica da mulher em situação de violência doméstica e familiar, como acesso facilitado a programas de qualificação profissional, linhas de microcrédito produtivo, programas habitacionais e de transferência de renda. 

<><> Nem toda proposta de mudança traz uma novidade

“A Lei Maria da Penha não é perfeita, mas é completa, porque ela é uma lei de cultura de prevenção e de construção do enfrentamento à violência”, disse Regina Célia, cofundadora e vice-presidente do Instituto Maria da Penha. A LMP entrou em vigor em 7 de agosto de 2006 e estabelece seis tipos de violência doméstica: moral, patrimonial, psicológica, sexual, física e vicária. 

Para Regina, a prevenção é um aspecto fundamental porque, desde o início, a luta era contra a naturalização da violência doméstica e do feminicídio. “Precisamos entender até que ponto as pessoas, especialmente os autores de violência, estão sendo intimidadas pelo rigor da lei a ponto de evitar a prática da violência”, completa a ativista.

Parte das propostas também tenta apresentar como novidade mecanismos que já estão previstos na legislação. O PL 1038/2026, por exemplo, torna obrigatória a participação de autores de violência em programas de reeducação e acompanhamento, medida contemplada pela LMP desde 2006. No entanto, o PL não prevê o financiamento para a ampliação desses programas.

<><> Assistência à mulher é um dos temas com mais alterações

Desde que entrou em vigor, a Lei Maria da Penha passou por 26 alterações: os artigos 7º, 9º, 12º, 22º e 24º foram os mais impactados. As mudanças ficaram concentradas em trechos que tratam da assistência à mulher em situação de violência, dos procedimentos adotados pela polícia após o registro, das formas de violência doméstica e familiar, das medidas protetivas de urgência e de proteção patrimonial, respectivamente. 

Entre as recentes alterações da LMP, a que teve maior visibilidade foi a inclusão da violência vicária. O termo descreve o uso da violência contra pessoas próximas à mulher — principalmente seus filhos — como forma de atingi-la. A discussão ganhou popularidade após um homem atirar contra os dois filhos e, em seguida, tirar a própria vida. 

Regina defende que é preciso pensar nos ciclos da violência doméstica no momento de propor uma política pública. “A grande questão é saber se essas alterações vão ajudar a evitar novas agressões. É preciso fazer com que a informação alcance as mulheres, os agentes da Justiça e a segurança pública”, diz.

 

Fonte: Por Anne Meire Ribeiro, Maria Ísis Santos, Revista AzMina e Agencia Pública

 

Entenda os riscos do consumo de ultraprocessados

Ultraprocessados, como definido pela classificação Nova, da Universidade de São Paulo, “não são propriamente alimentos, mas, sim, formulações de substâncias obtidas por meio do fracionamento de alimentos do primeiro grupo” — esse contendo alimentos naturais ou minimamente processados, como frutas e vegetais. 

Os produtos são caracterizados como formulações industriais compostas principalmente de substâncias quimicamente modificadas extraídas de alimentos. Juntamente com aditivos para melhorar o sabor, a textura, a aparência e a durabilidade, com inclusão mínima ou nenhuma de alimentos integrais.

Ou seja, os alimentos ultraprocessados ​​são normalmente produtos com alta densidade energética, alto teor de gordura saturada, açúcar e sal, não saudáveis ​​e pobres em fibras alimentares, proteínas, vitaminas e minerais. Além de passarem por processos de fracionamento, aquecimento e adição de outras substâncias. 

Pesquisas apontam que esses alimentos constituem mais de metade da energia alimentar total consumida em países de rendimento elevado, como os EUA, o Canadá e o Reino Unido. E entre um quinto e um terço da energia alimentar total em países de rendimento médio, como o Brasil.

E, apesar de terem sido criados para aumentar o tempo de prateleira dos produtos dos supermercados, os alimentos ultraprocessados podem oferecer riscos à saúde quando consumidos em excesso. 

<><> Exemplos de alimentos ultraprocessados

Alguns exemplos desses alimentos incluem: 

  • Macarrão instantâneo;
  • Biscoitos recheados; 
  • Salgadinhos de pacote; 
  • Energéticos e outras bebidas gaseificadas; 

>>>> Ilusão de escolha 

A maioria dos supermercados parece expor uma grande variedade de opções de alimentos. Porém, ao prestar atenção, é possível concluir que essa variedade é preenchida majoritariamente por alimentos ultraprocessados e processados. 

De fato, uma pesquisa de 2025 comprovou que esses alimentos ocupam cerca de 70% das prateleiras de supermercados, principalmente no exterior. 

Para medir a prevalência de ultraprocessados nas prateleiras, os pesquisadores usaram um algoritmo de aprendizado para analisar mais de 50 mil itens em três grandes supermercados nos EUA. Os resultados demonstraram que opções altamente processadas dominavam o estoque em todos os três varejistas.

Ter uma grande variedade de marcas nas prateleiras dá aos compradores a “ilusão de escolha”, diz a coautora do estudo Giulia Menichetti, física estatística e computacional do Brigham and Women’s Hospital e da Harvard Medical School.

<><> Riscos à saúde 

Como já mencionado, os ultraprocessados são ricos em gorduras, açúcar e sal, compostos comumente associados a inúmeras doenças crônicas. 

Uma revisão, publicada no British Medical Journal (BMJ) analisou 45 estudos envolvendo quase 10 milhões de participantes. Os autores da revisão sugerem que comer mais alimentos ultraprocessados ​​está ligado a um risco maior de morte. Além disso, tem ligações com 32 condições de saúde, incluindo doenças cardiovasculares, transtornos de saúde mental, diabetes tipo 2 e outros problemas.

“Um problema com os estudos que eles analisaram é que os riscos relativos não são muito altos. Eles são aumentos de 1,1 a 1,5 vezes. No entanto, se você estiver falando sobre um problema de saúde sério, como um ataque cardíaco, um aumento de 1,5 vezes ainda é muito,” explica Avlin Imaeda, MD, gastroenterologista da Yale Medicine.

<><> Consumo controlado 

Devido à alta disponibilidade de ultraprocessados no mercado, esses alimentos são altamente acessíveis. Portanto, acabam sendo uma opção de melhor custo por parte da população. Além disso, muitas pessoas não têm o hábito ou tempo de preparação culinária necessária para aproveitar alimentos naturais ou minimamente processados. 

A necessidade de alimentos acessíveis é um dos motivos pela predominância de ultraprocessados em casas ao redor do mundo. 

Embora as evidências que sugerem que alimentos ultraprocessados são prejudiciais à saúde, o tipo e a qualidade da pesquisa significam que ainda não está claro se precisamos excluí-los completamente.

De fato, nem todos esses alimentos apresentam o mesmo risco. Um estudo de 2024 descobriu que dietas ricas em bebidas açucaradas e carnes processadas estavam associadas a um risco maior de doenças cardiovasculares do que dietas pobres nesses alimentos, mas o oposto era verdadeiro para pães, cereais, iogurtes e sobremesas lácteas.

Assim, é possível concluir que, embora não sejam a melhor escolha para uma alimentação saudável, podem ser consumidos em moderação como parte de uma dieta saudável. 

“Culpar apenas o ultraprocessamento dos alimentos pode simplificar demais o problema. Dietas ricas em alimentos ultraprocessados ​​são frequentemente dominadas por itens carregados com gorduras saturadas, sal e açúcar adicionado, o que sugere que alguns danos podem vir do equilíbrio nutricional ruim em vez do processamento sozinho. 

Mas algumas pesquisas sugerem que o consumo excessivo de alimentos ultraprocessados ​​ que frequentemente carecem de proteína e são projetados para serem fáceis de comer e altamente palatáveis ​​ pode levar ao ganho de peso também, explica Maya Vadiveloo, professora associada de nutrição na Universidade de Rhode Island, ao Scientific American

<><> Como substituir os ultraprocessados? 

Se a substituição desses alimentos for uma possibilidade na sua vida, existem diversos minimamente processados e naturais que podem substituí-los. Como: 

  • Grãos de aveia ou aveia cortada em flocos adoçada com mel — para substituir cereais matinais.
  • Água com gás ou mineral com um pouco de suco de fruta ou fatias de fruta — substitui bebidas gaseificadas. 
  • Pão caseiro — para substituir pães de forma brancos.
  • Chocolate meio-amargo — para substituir barras de chocolates saborizadas com longa lista de ingredientes.
  • Café sem açúcar — para substituir energéticos; 
  • Granola caseira — para substituir barras de granola saborizadas com adição de açúcar e conservantes.

E, lembre-se, para seguir uma alimentação saudável e equilibrada, o ideal é seguir recomendações profissionais. Uma dieta para adultos inclui: 

  • Frutas, vegetais, legumes, nozes e cereais integrais;
  • Pelo menos cinco porções (400g) de frutas e vegetais por dia; 
  • Menos de 10% da ingestão total de energia de açúcares livres;
  • Menos de 30% da ingestão total de energia de gorduras; 
  • Menos de 5g de sal por dia; O sal deve ser iodado.

Para crianças, a composição da dieta saudável é similar, mas com valores menores. Contudo, a OMS sugere outros elementos a serem considerados, como:

  • Bebês devem ser amamentados exclusivamente durante os primeiros 6 meses de vida e continuamente até os 2 anos de idade e além;
  • Aos seis meses, o leite materno deve ser complementado por alimentos ricos em nutrientes, mas sem açúcar ou sal. 

¨      Consumo paterno de ultraprocessados pode influenciar peso e medidas corporais do bebê ao nascer. Por Maria Fernanda Ziegler

A dieta do pai pode influenciar a  saúde e a composição corporal dos filhos antes mesmo do início da gestação. Foi o que mostrou um estudo realizado com 43 grupos de pais, mães e recém-nascidos atendidos na rede pública de saúde de Ribeirão Preto (SP). De acordo com a análise, quanto maior o consumo de alimentos ultraprocessados pelos pais (homens), maior o peso ao nascer e maior o acúmulo de gordura na coxa e na região suprailíaca (popularmente conhecida como pneuzinho) do bebê. O alto peso ao nascer e a adiposidade elevada no início da vida são fatores de risco para doenças cardiovasculares e metabólicas na vida adulta.

“A alimentação e a saúde materna antes, durante e após o nascimento do bebê sempre receberam atenção, mas pouco se fala sobre o papel da alimentação paterna. Nosso estudo mostra que ela também importa muito para a saúde do bebê”, afirma Daniela Sartorelli, professora da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (FMRP-USP) que coordenou o estudo, publicado na revista Nutrition Research.

O trabalho é o primeiro a demonstrar em humanos a associação entre a ingestão paterna de ultraprocessados e a composição corporal do recém-nascido. Os chamados ultraprocessados são formulações industriais feitas majoritariamente de substâncias extraídas de  alimentos e aditivos químicos sintéticos, com pouco ou nenhum  alimento inteiro em sua composição, como salgadinhos de pacote, biscoitos recheados e refrigerantes, por exemplo.

A hipótese levantada pelas pesquisadoras é que o consumo de ultraprocessados impacte negativamente a formação dos espermatozoides, ou seja, em um processo anterior à concepção. “Dietas ricas em alimentos ultraprocessados podem gerar um ambiente pró-inflamatório no organismo, afetando a qualidade dos espermatozoides e modificando a expressão de genes que serão transmitidos ao bebê. Esse processo é conhecido como epigenética: por meio dele, os genes podem ter sua atividade ‘ativada’ ou ‘desativada’ de acordo com os hábitos alimentares do pai”, explica Mariana Rinaldi Carvalho, bolsista de doutorado da FAPESP e coautora do estudo.

Um dos genes citados no estudo é o IGF-II, responsável pelo crescimento fetal e expresso exclusivamente a partir da cópia herdada do pai. “Estudos anteriores já haviam demonstrado que hábitos alimentares paternos podem modificar bioquimicamente esse gene no esperma, num processo conhecido como metilação [ou a inclusão de uma molécula química, o grupo metil, na região promotora do gene], influenciando o desenvolvimento do feto”, diz a pesquisadora.

A pesquisa integra um projeto maior, apoiado pela FAPESP, que investiga como a alimentação de mães e pais influencia a saúde dos bebês.

De acordo com os resultados, enquanto o consumo paterno de ultraprocessados esteve associado ao maior peso dos filhos ao nascer, o impacto da dieta materna mostrou o efeito oposto. A ingestão desses alimentos pelas mães no início da gestação (até a 16ª semana) foi associada a menor peso, menor altura e menor circunferência da cabeça do bebê ao nascer.

“Acreditamos que o impacto do consumo materno de ultraprocessados no peso e medidas corporais do bebê ao nascer possa estar relacionado à formação da placenta, que depende de muitos nutrientes. E ultraprocessados são alimentos pobres em nutrientes”, avalia Carvalho.

<><> Preditor de saúde

O peso do bebê ao nascer é considerado um preditor importante para a saúde não só na infância, mas em toda a vida adulta. Além do maior risco de morte, diversos estudos já demonstraram que bebês que nascem com baixo (ou alto) peso podem vir a desenvolver doenças não transmissíveis ao longo da vida, incluindo complicações cardiovasculares, diabetes do tipo 2 e alguns tipos de câncer.

“Embora o estudo não tenha encontrado aumento da adiposidade total, apenas o acúmulo de gordura em algumas regiões do corpo do bebê, os resultados sugerem que a qualidade da alimentação paterna também pode influenciar o desenvolvimento fetal. Isso é importante, pois, em média, os ultraprocessados representaram 30% da energia total consumida pelos pais que tiveram sua dieta analisada na pesquisa, com destaque para embutidos, bebidas açucaradas e biscoitos”, ressalta Sartorelli.

Em trabalho anterior, a mesma equipe de pesquisadoras havia observado que pais com excesso de peso tendiam a ter bebês com menor peso ao nascer. No entanto, ao analisar especificamente a qualidade da dieta, elas demonstraram que não é apenas o peso do pai que importa, mas também o que ele come.

“Com esses dois estudos mostramos que não se trata apenas de uma questão de o pai estar acima do peso ou não. A qualidade da dieta paterna antes da concepção tem grande influência na  saúde do bebê”, diz Sartorelli.

Apesar de ser uma amostra pequena, com apenas 43 famílias, o estudo é pioneiro em investigar o impacto dos ultraprocessados no contexto da saúde paterna e neonatal. “Os resultados abrem caminho para pesquisas maiores e reforçam a necessidade de incluir os homens, e não apenas as mulheres, nas orientações de planejamento familiar”, afirma Sartorelli.

 

Fonte: eCycle/Agência FAPESP