A
Anatomia do Caos: como se fabrica a percepção política nas eleições brasileiras
A
batalha eleitoral já não acontece apenas nos palanques, debates ou programas de
governo. Ela atravessa sistemas de recomendação, redes de influência, operações
coordenadas, conteúdos sintéticos e mecanismos capazes de selecionar o que
milhões de pessoas veem, repetem, temem e consideram verdadeiro. Esta
investigação disseca a infraestrutura política do caos e revela como a disputa
pelo poder passou também a ser uma disputa pela fabricação da percepção.
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O fato não precisa ser falso
O vídeo
era verdadeiro. A voz era verdadeira. Alexandre de Moraes havia pronunciado
aquelas palavras. O que era falso era o acontecimento construído ao redor
delas. Em setembro de 2026, imagens antigas do ministro circularam como se
registrassem uma reação à crise envolvendo o Banco Master e um agradecimento a
Flávio Dino. A gravação era de agosto e tratava de outro assunto. Ninguém
precisou alterar o rosto de Moraes, clonar sua voz ou fabricar uma imagem.
Bastou arrancar um fragmento verdadeiro de seu tempo e encaixá-lo em outra
história.
Esse
deslocamento expõe um dos problemas centrais das eleições contemporâneas.
Durante anos, aprendemos a procurar manipulação na mentira evidente: fotografia
adulterada, número inventado, frase nunca pronunciada. Tudo isso continua
existindo. Só que a fabricação da percepção pode ser mais simples. Um vídeo
autêntico muda de data; uma estatística correta recebe uma causalidade que não
demonstra; uma declaração sobrevive ao corte enquanto desaparecem o contexto e
a sequência que lhe davam sentido. O fato continua verdadeiro. O que foi
reconstruído é a relação entre os fatos.
Reduzir
essa disputa a uma guerra entre verdade e fake news já não basta. A realidade
também pode ser matéria-prima da manipulação. Recortada, deslocada,
emocionalizada e repetida, uma parte começa a ocupar o lugar do todo. A questão
deixa de ser apenas quem mente e alcança algo mais difícil de enxergar: quem
consegue selecionar quais pedaços da realidade serão vistos, em que ordem
aparecerão e quantas vezes voltarão diante dos mesmos olhos. Fabricar
percepção, nesse ponto, deixa de ser apenas um problema de conteúdo. Torna-se
um problema de poder.
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A máquina que organiza o visível
Na tela
de um celular, quase nada chega em estado bruto. Entre um acontecimento e os
olhos de quem o recebe existe uma infraestrutura que classifica, recomenda,
repete e descarta. O feed não é uma fila neutra de fatos. É uma seleção
contínua, refeita a cada gesto do usuário. Modelos calculam quais conteúdos têm
maior chance de prender atenção, gerar interação ou prolongar a permanência na
plataforma. O poder começa antes do convencimento, na disputa pelo que será
visto.
Jornais,
rádios e televisões sempre selecionaram a realidade, mas essa escolha era
relativamente estável e reconhecível: havia uma primeira página, uma grade, um
editor. Nas plataformas, a hierarquia é personalizada e móvel. Duas pessoas no
mesmo país, no mesmo dia, podem atravessar sequências profundamente diferentes
de acontecimentos. O que aparece dez vezes para uma talvez nunca chegue à
outra.
Em
2026, William J. Brady e colegas publicaram na Nature um experimento realizado
durante a eleição presidencial norte-americana de 2024. Ao comparar feeds
ordenados por engajamento com feeds cronológicos, encontraram maior exposição a
conteúdo político marcado por indignação moral, conflito entre grupos, emoção e
toxicidade. Os participantes também passaram a perceber maior animosidade entre
os campos políticos. O algoritmo não precisou mandar ninguém odiar ninguém.
Bastou alterar a amostra da sociedade que aparecia diante de seus olhos.
A
tecnologia encontra a psicologia social justamente nesse terreno. Ninguém mede
objetivamente a frequência de tudo o que acontece ao redor. O mundo também é
julgado pelo que está disponível, pelo que reaparece, pelo que ocupa espaço. Se
os exemplos mais agressivos de um grupo são justamente os mais visíveis, eles
podem acabar servindo como retrato do grupo inteiro. Não é preciso imaginar um
engenheiro escolhendo a cada minuto quem favorecer. Sistemas de recomendação
trabalham com objetivos, métricas e probabilidades. Isso não torna seus efeitos
neutros.
A
infraestrutura importa tanto quanto a mensagem. Uma narrativa só convence
depois de ser encontrada; o medo ganha força quando reaparece; um adversário
parece maior quando seus traços mais ameaçadores ocupam continuamente o campo
de visão. A disputa eleitoral começa, portanto, antes da escolha entre
candidatos. Começa na disputa material pelo que uma sociedade consegue ver.
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O medo chega antes do argumento
Ver
muitas vezes não é o mesmo que acreditar, mas muda o terreno sobre o qual a
crença se forma. Em 2023, Valentina Vellani, Sarah Zheng, Dilay Ercelik e Tali
Sharot mostraram, em experimentos com informações de saúde e conhecimento
geral, que uma exposição anterior podia aumentar a percepção de precisão de uma
afirmação e, por essa via, sua chance de ser compartilhada. A repetição não
transformava mentira em verdade. Tornava a informação familiar, e familiaridade
pesa quando julgamos rapidamente aquilo que vemos.
Nas
redes, essa familiaridade encontra emoção. Medo, raiva e indignação não são
ruídos laterais da política; funcionam como sinais de prioridade. Aquilo que
ameaça exige atenção, aquilo que revolta pede resposta e aquilo que confirma um
perigo já imaginado encaixa-se com facilidade em narrativas disponíveis. Um
crime pode deixar de ser apenas um crime para virar prova de que ninguém está
seguro. Uma decisão judicial pode ser lida como sinal de perseguição. Uma
declaração isolada, repetida no enquadramento certo, passa a representar um
grupo inteiro.
O
conflito também muda de escala quando é visto por esse filtro. Se os episódios
mais agressivos são os que recebem maior circulação, o adversário começa a
parecer mais hostil e mais onipresente do que a experiência cotidiana
sugeriria. A rede não precisa inventar a divisão. Basta concentrar o olhar
sobre aquilo que melhor a dramatiza.
Repetição,
emoção e identidade acabam então se reforçando. A mensagem volta até perder
parte do estranhamento; a emoção seleciona o que merece atenção; o
pertencimento ajuda a decidir de quem desconfiar. A eleição pode começar muito
antes da pergunta sobre em quem votar. Começa quando se estabilizam respostas
para perguntas mais primitivas: quem deve ser temido, quem merece confiança,
quem é percebido como parte do grupo e quem passa a representar ameaça. Quando
esse mapa emocional já está montado, o argumento chega tarde.
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Quando a propaganda aprende a conversar
Durante
grande parte do século XX, propaganda política significava produzir uma
mensagem e lançá-la sobre uma população. Rádio, televisão, outdoor, comício.
Mesmo quando públicos diferentes recebiam discursos diferentes, a lógica era
industrial: poucos emissores falando para muitos receptores. As plataformas
digitais quebraram parte desse modelo ao transformar comportamento em dados e
públicos em segmentos. A inteligência artificial acrescentou outra mudança. A
mensagem já pode ser produzida, modificada e respondida durante a própria
interação.
Em
2025, Hause Lin, Gabriela Czarnek, David Rand e uma equipe internacional
testaram essa possibilidade nas eleições dos Estados Unidos, do Canadá e da
Polônia. Participantes conversaram com sistemas de inteligência artificial
instruídos a defender candidatos. O experimento, publicado na Nature, encontrou
mudanças mensuráveis nas preferências declaradas, maiores do que os efeitos
normalmente observados em anúncios políticos tradicionais em vídeo. O estudo
não mediu votos depositados em urnas, e esse limite importa. Mostrou, porém,
que uma máquina capaz de responder argumentos individualmente pode produzir
persuasão política observável.
A
mudança decisiva talvez esteja menos na fantasia de uma inteligência artificial
irresistível do que na economia dessa persuasão. Os sistemas recorreram
sobretudo a argumentos, fatos e evidências adaptados à conversa, alguns deles
inexatos. A novidade material é poder produzir variações, responder objeções e
sustentar interações persuasivas em escala por um custo muito menor. Isso não
transforma cada eleitor numa fechadura para a qual os dados oferecem a chave.
Persuasão continua sendo probabilística, desigual e dependente do contexto. O
que mudou foi a capacidade de multiplicá-la.
A
propaganda não ganhou poderes sobrenaturais. Ganhou capacidade industrial para
falar como se não fosse industrial.
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O Brasil dentro da máquina
O
Brasil não chegou a 2026 de repente. O ecossistema distribuído entre
plataformas foi sendo construído eleitoralmente ao longo de quase uma década.
Em 2018, Victor Piaia e Marcelo Alves examinaram 194.710 mensagens de 21 grupos
de apoio a Jair Bolsonaro no WhatsApp. Encontraram forte concentração das
postagens em poucos participantes, circulação constante de links para YouTube e
Facebook e ações centralizadas para reagir a danos à imagem do candidato e
coordenar votos para sua base parlamentar. O dado decisivo era outro: o
WhatsApp não funcionava como ilha. Era uma estação dentro de um circuito.
Esse
circuito importa porque plataformas diferentes oferecem possibilidades
diferentes de ação. Grupos de mensagens favorecem recorrência e circulação por
relações de confiança. Redes abertas projetam narrativas para fora desses
círculos. O vídeo comprime argumento em imagem, gesto e emoção. Influenciadores
emprestam rosto, linguagem e autoridade. Uma narrativa pode nascer num espaço,
ganhar escala em outro e voltar ao grupo privado carregada da impressão de que
todo mundo está falando daquilo.
Nas
disputas seguintes, esse trânsito ficou ainda mais visível. Conteúdos saltam de
grupos fechados para redes abertas, reaparecem em vídeos, cortes, memes e
transmissões, recebem novas legendas e retornam aos mesmos círculos com
aparência de confirmação. Nem toda convergência significa coordenação, e
coordenação localizada não prova a existência de um comando único. O que a
circulação multiplataforma oferece é outra coisa: velocidade para transformar
uma narrativa particular em presença recorrente.
Há
ainda uma dimensão que os números de alcance quase nunca capturam. Uma mensagem
encontrada numa timeline chega como conteúdo. A mesma mensagem enviada por
parentes, amigos, lideranças ou integrantes de uma comunidade política chega
acompanhada de confiança, pertencimento e validação. O conteúdo não circula
sozinho; viaja dentro de relações sociais. Por isso a mesma frase pode produzir
efeitos diferentes conforme o caminho que percorre até encontrar alguém.
Em
2026, essa infraestrutura já havia entrado no próprio desenho da governança
eleitoral brasileira. As regras passaram a alcançar recomendação,
impulsionamento, monetização, mensageria pública e inteligência artificial
generativa. Isso não demonstra que as medidas sejam suficientes, nem prova a
existência de uma operação centralizada sobre a eleição. Mostra que circulação
algorítmica e conteúdo sintético deixaram de ser questões laterais e passaram a
integrar formalmente o problema eleitoral.
O que
amadureceu entre 2018 e 2026 não foi apenas uma técnica de propaganda. Foi um
ambiente no qual mensagens privadas e redes públicas, algoritmos, vídeos,
comunidades, influenciadores e sistemas generativos podem formar circuitos de
visibilidade, repetição, confiança e conflito. Quando a política começa a
trabalhar deliberadamente sobre atenção, percepção, emoção, identidade e
comportamento, seu vocabulário se aproxima de um campo bem mais antigo: o da
guerra psicológica.
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Quando a política encontra a linguagem da guerra
Atenção,
percepção, emoção, identidade, comportamento, vulnerabilidade cognitiva. As
palavras que atravessam a política digital também ocupam hoje um lugar
explícito no pensamento militar. Em janeiro de 2026, Marek Havlík e Jiří
Horáček escreveram, em estudo publicado pelo NATO Defense College, que a guerra
cognitiva envolve a instrumentalização da informação para explorar
vulnerabilidades da cognição e interferir na percepção da realidade. A
formulação é recente; a ambição, não. Propaganda, engano e operações
psicológicas acompanham conflitos há séculos. O que mudou foi a capacidade
técnica de alcançar grandes populações, observar respostas e recalibrar
mensagens em velocidade muito maior.
A
engrenagem é reconhecível: conhecer uma audiência, identificar
vulnerabilidades, escolher estímulos, observar respostas e adaptar a ação
seguinte. As tecnologias digitais tornaram esse ciclo mais rápido e mais
barato, além de aproximar ferramentas comerciais de capacidades antes
associadas a estruturas especializadas de influência. A fronteira conceitual,
porém, precisa permanecer nítida.
Uma
campanha eleitoral que utiliza segmentação, emoções ou persuasão não se
transforma automaticamente numa operação psicológica militar. Encontrar nas
redes mecanismos estudados pela guerra cognitiva também não prova a existência
de um comando clandestino por trás deles. Confundir semelhança de método com
identidade de operação destruiria o critério de prova que sustenta esta
investigação.
O
problema é bem concreto. Dados comportamentais, redes de relações, sistemas de
recomendação, geração automática de mensagens e monitoramento de reação já
fazem parte do cotidiano comercial das plataformas. Capacidades úteis para
disputar atenção e percepção não pertencem exclusivamente a forças armadas.
Estão embutidas em infraestruturas privadas que intermedeiam comunicação,
consumo e política.
Para
países do Sul Global, essa disputa carrega uma assimetria adicional. A UNCTAD
mostrou em 2025 que as cinco maiores multinacionais digitais passaram de 21%
para 48% das vendas globais do setor entre 2017 e 2025, enquanto sete das dez
empresas mais valiosas do mundo já eram gigantes digitais. O poder de organizar
fluxos informacionais repousa sobre propriedade, capital, centros de dados,
modelos e regras de distribuição concretas. Antes da batalha pelas ideias
existem os meios de produção, processamento e circulação dessas ideias, e eles
estão longe de ser distribuídos igualmente.
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O poder de organizar a realidade
No
início deste artigo havia apenas um vídeo verdadeiro colocado no tempo errado.
Nenhuma tecnologia extraordinária, nenhuma máquina capaz de controlar uma
mente. Bastava deslocar um acontecimento de seu contexto para alterar aquilo
que ele parecia significar. Depois de algoritmos, repetição, medo, identidade,
inteligência artificial, redes de influência e guerra cognitiva, aquele gesto
simples ganha outra dimensão: disputar percepção não exige controlar tudo o que
uma sociedade pensa. Basta conquistar algum poder sobre aquilo que ela consegue
ver, sobre a frequência com que algo retorna e sobre as relações que passam a
ligá-lo a fatos, personagens e emoções.
Esse
poder não nasce apenas do discurso. Tem infraestrutura, proprietários, modelos
de negócio e centros de decisão. Isso não significa que plataformas determinem
resultados eleitorais ou que algoritmos fabriquem automaticamente eleitores. A
evidência disponível não autoriza uma conclusão desse tipo. Os efeitos são
desiguais e dependem do contexto. Ainda assim, definir critérios de
recomendação altera distribuição; estabelecer regras de moderação muda
circulação; reduzir o custo de produzir variações persuasivas modifica as
condições materiais da disputa. Poder não precisa ser absoluto para produzir
consequências.
A
questão central ultrapassa, portanto, a tecnologia. A democracia representativa
se acostumou a perguntar quem governa, quem financia, quem possui os meios de
produção, quem controla instituições e quem decide sobre recursos. A sociedade
algorítmica acrescentou outra pergunta: quem organiza o ambiente dentro do qual
milhões de pessoas decidem o que está acontecendo?
A
disputa pela percepção não substitui salário, classe, propriedade, território,
interesses econômicos ou relações de força. Ela atravessa essas estruturas e
interfere na maneira como chegam à experiência política, convertidas em medo,
esperança, ressentimento, confiança ou adesão.
A
anatomia do caos se completa nesse terreno. Caos não precisa ser ausência de
ordem. Pode ser uma ordem difícil de enxergar por quem vive dentro dela:
decisões contínuas de seleção, recomendação, segmentação e circulação
construindo ambientes informacionais distintos para pessoas que continuam
habitando a mesma sociedade. Nenhuma narrativa apaga a realidade material. Mas
a realidade política nunca chega às pessoas sem mediação. Quando essa mediação
passa por estruturas capazes de decidir o que aparece, o que desaparece, o que
volta e o que parece estar em toda parte, disputar o poder significa também
disputar as condições pelas quais uma sociedade consegue enxergar a própria
realidade.
Fonte:
Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247




