segunda-feira, 9 de março de 2026

Frei Betto: Feminicídio e Igreja Católica - como discursos e doutrinas legitimam a violência contra a mulher

O Brasil segue entre os países que registra o maior número de assassinatos de mulheres no mundo. A cada dia, em média, quatro são mortas em razão do gênero, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública. O feminicídio — crime tipificado em 2015 — é o estágio final de um ciclo de violências sustentado por desigualdades históricas, culturais e simbólicas. 

Embora as causas sejam múltiplas, especialistas afirmam que estruturas patriarcais profundamente enraizadas continuam a legitimar a subordinação feminina, tanto no espaço privado quanto no público. Nesse contexto, instituições sociais de grande influência, como a Igreja Católica, tornam-se parte fundamental do debate.

A Igreja Católica tem papel central na formação cultural do país desde o período colonial. Sua presença vai além da esfera religiosa. Alcança a educação, a política e a moral social. Ao mesmo tempo em que desenvolve ações relevantes de assistência social e defesa da vida, mantém uma posição rígida quanto ao papel das mulheres em sua hierarquia: elas são oficialmente impedidas de exercer o sacerdócio. A justificativa teológica se baseia na tradição e na interpretação de que Jesus teria escolhido apenas homens como apóstolos, argumento reiterado pelo Vaticano ao longo dos séculos.

Para os críticos, essa exclusão não é apenas simbólica. Ao impedir mulheres de ocupar posições de autoridade espiritual, a Igreja reforça uma lógica da hierarquia de gênero que ecoa para além dos muros do templo.

“Quando uma instituição que prega valores morais universais sustenta a ideia de que mulheres não podem liderar espiritualmente, contribui para a naturalização da desigualdade”, avalia a socióloga Maria Clara Azevedo, pesquisadora das questões de gênero. Segundo ela, não se trata de responsabilizar diretamente a Igreja pelo feminicídio, mas de reconhecer como discursos e práticas institucionais moldam mentalidades.

O feminicídio, em grande parte dos casos, ocorre no ambiente doméstico e é cometido por parceiros ou ex-parceiros. Antes da morte, há quase sempre um histórico de violência psicológica, física ou simbólica. Nesse percurso, a ideia de posse sobre o corpo e a vida da mulher aparece como elemento recorrente. É justamente nesse ponto que a crítica feminista se conecta ao debate religioso: a persistência de narrativas que associam a mulher à obediência, ao sacrifício e ao silêncio pode dificultar a ruptura de relações abusivas.

A Igreja Católica vive hoje tensões internas sobre o papel feminino. Embora mulheres sejam maioria entre fiéis e responsáveis por grande parte do trabalho pastoral, continuam afastadas das decisões centrais. O papa Francisco deu sinais de abertura ao permitir maior participação feminina em cargos administrativos no Vaticano, mas manteve intacta a proibição da ordenação sacerdotal. Para teólogas feministas, trata-se de um limite estrutural. “Enquanto o poder sacramental for exclusivamente masculino, a igualdade será sempre parcial”, afirma a teóloga Ivone Gebara.

Representantes da Igreja argumentam, porém, que a doutrina não implica inferioridade. Em documentos oficiais, o Vaticano sustenta que homens e mulheres têm “dignidade igual, mas funções diferentes”. Essa distinção é questionada por setores da sociedade civil que veem nela uma forma sofisticada de segregação. Em um país onde mulheres ainda lutam por igualdade salarial, segurança e representação política, a manutenção de espaços exclusivamente masculinos em instituições de grande influência simbólica é questionável e reprovável.

O enfrentamento do feminicídio exige políticas públicas eficazes, educação sobre igualdade de gênero e transformação cultural profunda. Nesse processo, o diálogo com instituições religiosas é essencial. Reconhecer sua influência não significa negar sua importância social, mas convocá-las à reflexão crítica sobre seus limites. Em um Brasil marcado por cruzes nos altares e o número cada vez maior de mulheres nas estatísticas de mortes violentas, a pergunta que permanece é até que ponto tradições podem ser preservadas quando colidem com o direito fundamental à vida e à dignidade.

Entre o altar, que ainda exclui, e o túmulo, que se multiplica, está o desafio de romper estruturas que, direta ou indiretamente, continuam a dizer às mulheres qual é e qual não deve ser o lugar delas.

A escolha da bispa Sarah Mullally, de 63 anos, para chefiar a Igreja Anglicana no Reino Unido, em outubro de 2025, representa um dos momentos mais significativos da história recente do cristianismo ocidental. Mais do que uma decisão administrativa ou espiritual, esse gesto simboliza uma ruptura com séculos de tradição patriarcal que associaram liderança religiosa exclusivamente à figura masculina. A presença feminina no mais alto cargo da Igreja confronta não apenas estruturas internas, mas também valores culturais profundamente enraizados na sociedade britânica.

Desde a autorização para a ordenação de mulheres como sacerdotes e, posteriormente, como bispas, a Igreja Anglicana vive tensões constantes. Setores conservadores aceitaram essas mudanças de forma relutante, muitas vezes criando mecanismos paralelos para evitar a autoridade feminina. Agora, a eleição de uma mulher como líder máxima, contudo, ultrapassou qualquer possibilidade de acomodação simbólica. Para grupos abertamente machistas, isso foi visto como uma “traição” à tradição, provocando reações intensas, que vão desde boicotes internos até ameaças de ruptura institucional.

Essas reações não se limitaram ao campo religioso. Parlamentares conservadores, comentaristas e formadores de opinião alinhados a visões patriarcais tendem a explorar o tema como sinal de decadência moral ou submissão da Igreja a pautas progressistas. Ao mesmo tempo, a eleição fortalece movimentos feministas e setores reformistas, que enxergam no gesto um avanço histórico na luta por igualdade de gênero.

A ruptura causada pelos machistas na Igreja Anglicana, embora barulhenta, também revela um paradoxo: ao resistirem à liderança feminina, esses grupos expõem a fragilidade de uma fé sustentada mais por hierarquias de poder do que por princípios espirituais. A eleição de uma mulher divide a Igreja Anglicana, mas obriga o Reino Unido a rever seu atual conservadorismo político.

¨      Além das Flores: a luta das mulheres na Rússia e na América Latina

O Dia Internacional da Mulher, celebrado anualmente em 8 de março, transcende a mera formalidade de uma data comemorativa e se consolida como um símbolo da luta histórica por direitos, equidade e respeito. As raízes da data estão profundamente ligadas aos movimentos trabalhistas e feministas do final do século 19 e início do século 20, desde a marcha de 15 mil mulheres em Nova York, em 1908, até a greve histórica das trabalhadoras russas em 1917. Naquele momento, uma série de protestos denunciou as precárias condições de trabalho, a escassez de alimentos e o envolvimento da Rússia na Primeira Guerra Mundial, sob o lema “Pão e Paz”, marcando um ponto crucial na história das mulheres.

É importante lembrar que, de acordo com o calendário juliano então vigente na Rússia, a greve teve início em 23 de fevereiro — data que corresponde ao 8 de março no calendário gregoriano, hoje adotado internacionalmente como o Dia Internacional da Mulher. Décadas depois, em 1975, a data foi oficialmente reconhecida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Hoje, o 8 de março permanece como um lembrete de que cada direito conquistado pelas mulheres foi fruto de mobilização e resistência — um marco que deve ser lembrado não apenas uma vez ao ano, mas de forma permanente.

<><> Brasil

O Brasil carrega uma marcante trajetória de luta. O país viu avanços fundamentais como a conquista do voto feminino em 1932 e os avanços da Constituição de 1988, que garantiu a igualdade de gênero perante a lei. Mais recentemente, em 2006, a sanção da Lei Maria da Penha tornou-se um pilar no combate à violência doméstica. Por isso, o 8M brasileiro mantém a perspectiva de reconhecimento e valorização das mulheres.

A celebração brasileira é marcada por uma dualidade entre o caráter festivo difundido socialmente e o político e reivindicativo. Nas ruas, o movimento 8M mobiliza multidões em atos organizados por movimentos feministas e sindicatos. As pautas são urgentes, como o combate ao feminicídio — uma mulher é vítima a cada seis horas no país —, a luta por igualdade salarial — em média, as mulheres ganham 22% a menos que os homens em funções semelhantes — e a defesa dos direitos reprodutivos.

Na política, as mulheres ocupam apenas 17,7% das cadeiras no Congresso Nacional. Soma-se a isso a dupla jornada de trabalho, sob a qual elas dedicam cerca de 10 horas semanais a mais do que os homens às tarefas domésticas.

O 8 de março no Brasil representa a força da resistência de vozes diversas — mulheres negras, indígenas, periféricas e trabalhadoras rurais — que seguem em busca de uma sociedade onde a igualdade não seja apenas uma letra morta na lei, mas uma realidade cotidiana. A data expõe no país as contradições de uma sociedade que avançou em direitos, mas que ainda convive com desigualdades profundas.

<><> América Latina

Em outros países da América Latina, o Dia Internacional da Mulher também é celebrado no dia 8 de março. Entretanto, a luta pelos direitos das mulheres é muito mais do que uma data no calendário: cada país possui suas próprias mobilizações ao longo do ano. Ao impulsionar movimentos feministas, esse dia se transformou em um poderoso grito por direitos e justiça, onde a cor roxa do feminismo se faz símbolo onipresente nas ruas.

O epicentro dessa transformação pode ser apontado na Argentina, berço do movimento Ni Una Menos (Nem Uma a Menos, em tradução livre), que em 3 de junho de 2015 deu voz à indignação contra o feminicídio e a violência de gênero na América Latina. As marchas em Buenos Aires que ocorrem no dia 8 de março são massivas, unindo gerações na defesa das conquistas feministas e na resistência a qualquer retrocesso.

O movimento Marea Verde, também argentino, com seus lenços verdes, simboliza a luta pela legalização do aborto e pela autonomia reprodutiva, influenciando fortemente países como o Chile, que se destacou por intervenções artísticas e performances impactantes, como Um Violador em Teu Caminho, criada no final de 2019. Já no México, a urgência da luta contra o feminicídio e os desaparecimentos de mulheres impulsiona manifestações marcadas pela ocupação simbólica de espaços públicos.

No Paraguai, o Paro de Mujeres (Greve de Mulheres) reúne mobilizações no 8 de março para reivindicar direitos e denunciar desigualdades, a violência de gênero e injustiças sociais. Na Colômbia, marchas são realizadas nas principais cidades do país, celebrando conquistas e também chamando atenção para a proteção de líderes sociais e mulheres em zonas de conflito.

É fundamental reconhecer que o 8 de março na América Latina possui um caráter profundamente interseccional, abordando não apenas questões de gênero, mas também a defesa de territórios indígenas e camponeses, a busca por memória e justiça para vítimas de conflitos e ditaduras e o reconhecimento do trabalho doméstico não remunerado. Para países com significativas populações afrodescendentes, como Colômbia, República Dominicana e Honduras, o 25 de julho — Dia da Mulher Afro-Latino-Americana e Caribenha — complementa o 8 de março ao destacar a luta contra o racismo que atravessa a vida dessas mulheres.

Portanto, o 8 de março na região é marcado por mobilização, memória e reivindicação. Os contrastes sociais presentes nos diferentes países revelam que, apesar de avanços importantes, a América Latina ainda enfrenta índices alarmantes de violência e desigualdade de gênero. A verdadeira celebração da data está no compromisso contínuo de transformar as estruturas que ainda impedem as mulheres de ocupar plenamente todos os espaços da vida social, política e econômica.

<><> Rússia

Na Rússia, cada menina, sem exceção, espera pelo dia 8 de março e sabe exatamente qual feriado é comemorado nesse dia. Claro, inicialmente essa data tinha a mesma ideia original que em todo o mundo — a proteção dos direitos, a afirmação da liderança feminina no desenvolvimento da sociedade e a compreensão de que o progresso das mulheres é parte do progresso do mundo. Mas na consciência coletiva russa contemporânea, o 8M se consolidou, antes de tudo, como o “dia da mulher” no sentido mais amplo e cotidiano. Não é, de forma alguma, um dia de mobilização em massa e de simbologia de rua, habitual na América Latina. Para os russos, este é o dia de celebrar a mulher como figura em geral. No centro estão a beleza, a feminilidade e a ternura, embora por trás dessa suavidade externa, de uma forma ou de outra, também estejam implícitas a força e a fortitude de espírito. De forma geral, ainda assim, os traços femininos das moças é que vêm para o primeiro plano.

Seja uma menina de três anos, uma estudante, uma mãe cansada ou uma avó de 97 anos, não há exceção: o 8 de março na nação russa é um feriado para qualquer mulher. Parece que o país inteiro, neste dia, ajusta o foco nelas, como se o cotidiano pausasse por um instante suas preocupações para reconhecer publicamente a existência e a importância de cada representante do sexo feminino. Em Moscou, essa atenção ganha uma forma especialmente visível num detalhe que se repete literalmente a cada passo: homens com flores. As flores são, provavelmente, o principal atributo do feriado, um símbolo quase inevitável. Isso é particularmente expressivo no metrô: você entra e é como se a cidade inteira estivesse se deslocando com buquês nas mãos, como se cada vagão transportasse pequenas declarações e gestos de atenção, para casa, para o trabalho, para um encontro, para uma visita. Se quiser ver isso, definitivamente procure por vídeos nas redes sociais, e perceberá a dimensão do que acontece.

Neste dia, há sempre presentes, surpresas, reservas em restaurantes, promoções e ofertas especiais. Muitos homens se esforçam para organizar uma homenagem para suas esposas. Muitas mulheres esperam por este dia com antecipação, porque sabem que ele traz um tipo especial de atenção, socialmente estabelecido. E ninguém fica sem homenagem: se não tem marido, namorado ou parceiro, certamente haverá um pai, colegas, um chefe, um professor, um departamento universitário, um grupo de estudo. Em algum lugar e de alguém, certamente virão palavras calorosas, uma flor, um chocolate ou uma mensagem. Para os homens, a regra é se preparar para este dia com especial cuidado. Não basta apenas parabenizar. É importante escolher o presente certo, cobrir a mulher de atenção e criar para ela uma verdadeira festa. Muitos estrangeiros expressam opiniões diferentes sobre esses “caprichos” da cultura russa, mas o fato é um fato. As moças eslavas sempre esperam pela festa vinda dos homens neste dia.

Para muitas pessoas, o 8 de março é um feriado tão importante quanto o aniversário ou o Ano Novo. E quando as russas precisam explicar aos estrangeiros que dia é comemorado no 8 de março, acredite, ficam simplesmente perplexas, pois para a população russa este é um feriado que toda pessoa conhece. Você não encontrará um único russo que não saiba o que exatamente se comemora nesse dia. Assim, o 8M russo se torna um espelho cultural: por um lado, ele afasta a data das suas origens mais combativas e, por outro, a transforma num raro consenso social, num dia em que o reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna visível e quase impossível de ignorar. Assim, o 8M russo se torna um espelho cultural: por um lado, ele afasta a data das suas origens mais combativas e, por outro, a transforma num raro consenso social, num dia em que o reconhecimento das mulheres, de todas, sem exceção, se torna visível e quase impossível de ignorar.

 

Fonte: Diálogos do Sul Global

 

Os cachorros da ditadura

Estes são o título e o subtítulo do livro mais recente de Marcelo Godoy. Esse repórter tem a marca da boa estirpe da profissão: a obsessão pela informação, pela pesquisa incansável, a checagem das fontes até o extremo das possibilidades. Sua primeira pesquisa consumiu dez anos, de 2004 a 2014, e resultou no premiado livro A Casa da Vovó – uma biografia do DOI-CODI 1969-1991. Ele trabalhou mais dez anos para entregar Cachorros. O autor diz que aproveitou muita informação obtida na primeira pesquisa. Portanto, foram 20 anos de trabalho para produzir o novo livro, abrangente, caudaloso, às vezes repetitivo, mas nunca monótono, de 550 páginas.

Recomenda-se atenção para essa leitura. Primeiro, porque apesar de na capa o destaque ser dado para o militante que se tornou espião do seu partido, o PCB (Partido Comunista Brasileiro), na verdade ele é um dos personagens numa trama muito mais ampla e complexa. Uma trama que envolve a trajetória histórica desse partido desde sua origem no tenentismo dos anos 1930 até sua crise e descaracterização na década de 1990.

Mas não só isso. É ao mesmo tempo a narrativa de como os serviços secretos do Exército (CIE), da Aeronáutica (CISA) e da Marinha (CENIMAR) se aplicaram em uma sanha fanática para acompanhar, estudar, reprimir, torturar e matar os quadros e dirigentes daquele partido. Essa atenção privilegiada, segundo o autor, se devia ao fato de que os militares consideravam o PCB como a maior ameaça ao regime em vigor, seja por sua doutrina, tática e estratégia, seja por sua íntima ligação (e dependência política e material) com a União Soviética e o Partido Comunista da União Soviética (PCUS). Os militares consideravam o PCB como instrumento de um poder estrangeiro infiltrado na sociedade brasileira. Para combatê-lo, utilizavam todos os métodos, “até os legais”, diziam.

Nos vinte anos de pesquisa, o autor realizou 34 entrevistas com militares e policiais de órgãos de operações e informações; 9 entrevistas com outros militares e policiais; 70 entrevistas com militantes do PCB e outros. Foram realizadas pesquisas e consultas em 33 jornais, 48 sites e 13 filmes e documentários. A pesquisa se estendeu a seis grandes arquivos, inclusive de Portugal, Itália e Estados Unidos. E foram extraídas informações de cerca de 300 livros.

O texto é ágil e passa de um tema a outro rapidamente como, por exemplo, do desaparecimento de Rubens Paiva para o sequestro de Charles Elbrick, embaixador dos Estados Unidos. E daí para a morte de Marighela e de Lamarca. O relato refere a uma infinidade de nomes que aparecem e desaparecem num instante. Voltam a aparecer mais adiante, ora por extenso, ora pelo prenome ou então só o sobrenome, o que obriga o leitor a uma atenção especial para não perder o fio da meada. Por exemplo, o agente do CISA, Antonio Pinto, num momento é Pirilo, em outro, Azambuja. O seu cachorro, o militante que se tornaria quadro dirigente do PCB, Theodoro de Mello Severino, será o agente Vinicius a serviço do CISA.

Tanto os militantes como os agentes da repressão usavam nomes de guerra. Por exemplo, os torturadores do ex-deputado federal Marco Antonio Coelho eram os doutores Edgar e Homero, na verdade os capitães do Exército André Pereira Leite Filho e Otoniel Eugênio Aranha Filho, que mais adiante vão ser citados apenas como doutor Edgar ou doutor Homero. O cruel capitão Ênio Pimentel da Silveira, chefe do DOI de São Paulo, era o doutor Ney e assim aparecerá várias vezes. Para se guiar nesse labirinto, o leitor pode fazer consultas no enorme índice onomástico. Verá, por exemplo, que o dirigente Diógenes Arruda Câmara (citado 27 vezes) ora é referido por extenso, ora por Arruda Câmara, ora ainda, por Arruda.

<><> O grande cenário

O leitor impaciente vai demorar para chegar até a história do militante Mello infiltrado nos mais relevantes postos da direção do PCB. Porque é da história do PCB que o texto trata, especialmente a partir dos anos 1940, as idas e vindas da linha política, a curta legalidade, a volta à clandestinidade, a ilusão de estar próximo ao poder e o golpe militar de 1964. Trata da trajetória do partido na clandestinidade sob a ditadura militar e também de suas relações com o Partido Comunista da União Soviética, os cursos de formação de quadros em Moscou, a ajuda financeira, o chamado “ouro de Moscou”. É também ali que se refugiam os dirigentes para escapar do extermínio.

Sem esquecer os solavancos históricos após a morte de Stalin e as denúncias de Kruschov que abalaram o movimento comunista internacional, pondo em questão a tática e a estratégia para a busca do socialismo.

É notável que o autor não se refira ao grande racha que se deu no partido após este alterar seu programa, mudar de nome (de Partido Comunista do Brasil para Partido Comunista Brasileiro) e adotar o caminho pacífico para a conquista do poder. Não há uma palavra sobre a decisão de dirigentes históricos liderados por João Amazonas, Maurício Grabois e Pedro Pomar de conservarem o nome e a doutrina do Partido, mantendo a continuidade da organização revolucionária, o PCdoB.

Uma importante qualidade do livro é que também conta a história dos serviços secretos militares, permanentemente ocupados em se informar, tentar antecipar e reprimir cada passo do partido. Do seu empenho em estudar a teoria revolucionária. Para eles, a chave estava na teoria do italiano Gramsci e, como contrapartida, tentavam disseminar, por todos os meios, ideias em oposição. Surpreendidos pelo magistral trabalho produzido por um grupo de intelectuais em torno do arcebispo Evaristo Arns, sobre os crimes da ditadura, Brasil Nunca Mais, replicaram produzindo sua própria versão das ações da ditadura no livro Orvil e nas peças de propaganda que chamaram de Terrorismo Nunca Mais. Entretanto, fica evidente que a infiltração nos vários níveis e principalmente na mais alta direção do PCB foi a sua principal arma de combate.

Ao cabo de sua exaustiva pesquisa, o autor retrata com riqueza de detalhes, que chega às vezes aos dias e às horas dos acontecimentos, cada passo do PCB e dos seus algozes. Para chegar a esse resultado, foi ao encontro dos protagonistas, fez sucessivas entrevistas, falou com eles presencialmente ou pela internet. Leu tudo que lhe caiu nas mãos. Mergulhou nas narrativas dos dois lados.

<><> Os personagens

Talvez o personagem mais destacado dessa história hedionda seja o agente cujo nome de guerra era Pirilo. Fazia parte do CISA, o organismo de repressão da Aeronáutica, militar reformado que se especializou obsessivamente no PCB. Seu nome verdadeiro era Antonio Pinto, mas isso o autor desse livro só conseguirá descobrir muito tempo mais tarde e após pesquisas exaustivas.

Pirilo desenvolveu uma expertise parase relacionar com os militantes do partido que, havendo sido presos, se viam diante de uma escolha fatal: ou morriam ou se tornavam agentes infiltrados. No entanto, nas entrevistas com o autor, ele sempre se defendeu dizendo hipocritamente que nunca torturou nem matou ninguém, que isso era trabalho de outros, e que ele fazia o papel do policial “bonzinho”.

Pirilo era “dono” de vários cachorros, como eram chamados os que preferiram trair do que morrer. Seu principal cachorro foi o alto dirigente do PCB Theodoro de Mello Severino, preso em 1974 e que, por muitos anos, o manteve informado de cada passo da direção do partido. O que resultou, entre outros prejuízos, na morte ou desaparecimento de praticamente a maioria do Comitê Central e de outros quadros partidários.

Mello, que para o CISA era o agente Vinicius, passou de guarda-costas de Luis Carlos Prestes a fazer o chamado trabalho de fronteira, isto é, responsável pela produção de documentos e pela entrada e saída de militantes do país. Por causa de suas delações, o jornal Voz Operária deixou de ser impresso no Brasil após o sequestro e morte dos militantes envolvidos.

Era como a raposa tomando conta do galinheiro. Só para dar um exemplo, enquanto era responsável pelo trabalho de fronteira entregou Davi Capistrano, dirigente do partido que voltava de Moscou e foi preso na chegada, morto e esquartejado na Casa da Morte de Petrópolis.

Em Moscou, Mello esteve sempre próximo e era de absoluta confiança de Prestes. E também foi interlocutor de altos dirigentes do PCUS, o que permitia ao CISA dividir informações sobre o partido soviético com a CIA dos Estados Unidos. Foi promovido ao secretariado do comitê central, o mais alto posto na hierarquia do partido.

Apelidado de Pacato por seus modos calmos, era de uma habilidade e frieza extraordinárias. Na cara de pau, conseguiu que Pirilo publicasse um artigo na Tribuna de Debates do partido, assinando como Azambuja, sob o título de “O PCB se burocratizou”. Mello conseguiu até infiltrar Pirilo nas assembleias do 9º. Congresso do Partido. Foi tão competente que todas as suspeitas ou denúncias de que era um infiltrado foram sempre repelidas vigorosamente por Prestes e outros dirigentes. Não acreditaram nem quando uma reportagem de Expedito Filho na revista Veja de 20/05/1992, intitulada “Na cabeça do PCB”, publicou entrevista do sargento Marival Chaves, que participara dos grupos de torturadores. Nessa entrevista, Marival contava que Mello era agente policial infiltrado.

O partido só aceitou que era um traidor anos depois do final da ditadura militar. Foi então excluído e teve cancelado seu salário, o “socorro vermelho”. Porém, continuou sempre amigo e confidente de seu “dono”, o Pirilo, ou Azambuja, e jamais soube que seu nome verdadeiro era Antonio Pinto.

Morreu com 105 anos, sozinho, e ninguém foi ao seu enterro. No enterro de Antonio Pinto, comparsas do CISA compareceram, mas nenhum registrou o nome na lista de presentes. Nessa ocasião, a URSS havia deixado de existir e o que havia restado do PCB passara a se chamar Partido Popular Socialista, PPS, fundado em 1992.

 

Fonte: Por Carlos Azevedo, em Outras Palavras

 

Emendas parlamentares para a saúde enfim sob controle?

Um dos principais focos de corrupção dos últimos anos, as emendas parlamentares atingiram patamares altíssimos no orçamento federal. E a Saúde é a mais afetada, uma vez que metade destas verbas são impositivas para o setor: neste ano, as emendas totalizam R$ 27,4 bilhões, sendo R$ 25 bi destinados à Atenção Primária. No total, a Lei Orçamentária Anual de 2026 prevê R$ 61 bilhões em emendas parlamentares.

No primeiro debate da série Diálogos sobre o SUS – Emendas Parlamentares no SUS: Execução e exigências em 2026, organizada pelo Instituto Walter Leser da Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo, que focou nas emendas parlamentares, Cidinha Pimenta, Mariana Alves Melo e Francisco Funcia analisaram as mudanças recentes na regulação. Consideram que as últimas medidas tomadas pelo Poder Executivo e o Ministério da Saúde, somada às decisões do ministro do STF Flavio Dino – de exigir transparência no uso de tais recursos e proibir que sejam sacados em dinheiro vivo – criaram proteções relativas ao setor da sanha de parlamentares que, via de regra, operam à margem dos princípios do SUS.

Mariana, economista da Associação Brasileira de Estudos de Saúde (ABrES), começou sua intervenção explicando o trajeto que vai do “libera geral” até o presente momento, quando o Estado tenta criar controles sobre verbas bilionárias.

“Houve uma flexibilização das normas de transferência de recursos de emendas. A partir de 2019, há três emendas constitucionais homologadas cujo efeito é ampliar as possibilidades de automatização das transferências de recursos – as ‘emendas pix’. Depois, começa o aumento vertiginoso das emendas do relator. Ao lado do já conhecido subfinanciamento do SUS, colocam em risco objetivo a sustentabilidade da rede de saúde”, contextualizou Mariana.

Francisco Funcia, economista e presidente da ABrES, corrobora seu ponto de vista: “A nova normatização foi muito importante porque começa a efetivar a interface das emendas parlamentares com o planejamento do SUS. Emendas parlamentares podem e devem ser garantidas, mas com respeito à Constituição e à legislação do <><> Burocracia necessária

Em resumo, são ao menos três medidas dos poderes executivo e judiciário que parecem por um freio à farra de parlamentares com dinheiro do SUS: a Portaria 8283/2025, a Resolução 798 de 11/12/25 (publicada no último dia 4), além da decisão de Flavio Dino no STF de impor normas de publicização das emendas e seus projetos no Portal da Transparência.

Por fim, no dia 26 de fevereiro a Comissão Intergestores Tripartite (CIT) definiu em reunião que as emendas deverão passar pelo seu crivo e ser aprovadas pelo Conselho Nacional de Saúde (CNS), órgão de participação social que participa da formulação de políticas públicas.

Para os economistas, é necessário colocar um teto nas emendas, cuja liberalidade configura o que classificam “austeridade fiscal seletiva”. Além disso, o próprio paradigma da participação e controle social vinha sendo corroído pelo apetite de deputados e senadores.

O “municipalismo forte”, ideia cinicamente defendida pelo ex-presidente da Câmara Arthur Lira ao justificar o aumento exponencial das emendas, mostrou-se uma estratégia para garantir a reeleição de parlamentares em seus territórios. Tal lógica acentuou o desfinanciamento crônico do SUS, imposto por medidas de austeridade fiscal a partir de 2016, com um subfinanciamento por dentro.

“Os recursos se tornam imprevisíveis e variáveis. Política pública se garante com previsibilidade de receitas. Parâmetros ficam descolados do planejamento e da lógica da equidade. Espaços de participação social diminuem e espaços tripartites parecem se tornar cartoriais, sem debates e solidariedade entre gestores”, expôs Mariana Melo.

Dessa forma, o avanço conquistado em 2023, como a retomada de padrões mínimos de financiamento do SUS, acabava parcialmente neutralizado.

“Com a EC-86/2015, passamos a ter destinação mínima de emendas ao SUS, que complementavam o piso federal. Naquele momento, o total era de 1,2% das Receitas Correntes Líquidas, metade para a saúde. Um ano após o golpe parlamentar de 2016, os valores dobraram”, complementou Mariana.

Desde então, como explica Funcia, as emendas se multiplicaram por 12 no orçamento, o que chegou ao limite do insustentável em termos de planejamento e gestão. 

“Houve um crescimento muito exagerado das emendas parlamentares a partir de 2013. Foi o ano imediatamente anterior à definição desse caráter impositivo para a execução orçamentária das emendas parlamentares. Ali, representava 1% do orçamento do Ministério da Saúde. Hoje está em 12%”, contou Funcia.

<><> O subfinanciamento diminui, mas persiste

Apesar da pequena vitória do SUS, as regras de austeridade renovadas pelo Novo Arcabouço Fiscal proposto pelo governo Lula, que substituiu o Teto de Gastos de Temer, mantêm o subfinanciamento crônico do sistema. O orçamento de R$ 271 bilhões da Saúde em 2026 deixam o país muito longe dos 6% do PIB em investimentos públicos no setor, uma das mais caras bandeiras dos movimentos em defesa do SUS.

Sob o tacão de um modelo econômico engessado pelo rentismo financeiro, a disputa por tais recursos do SUS se tornou mais decisiva para a garantia de serviços mínimos de saúde.

“Passamos pela EC-86 e a partir de 2023 recuperamos os volumes de investimentos. Mas o desfinanciamento é crônico, o orçamento não é suficiente para garantir a totalidade das necessidades em saúde e do sentido universal do SUS”, alertou Mariana Melo.

Num contexto em que as demandas por saúde se ampliam e a população envelhece, o aumento do investimento público na área é mais urgente do que muitos podem perceber. Mas, para Cidinha Pimenta, coordenadora do Instituto Walter Leser, esta é uma luta política estrutural, que dependerá da correlação de forças políticas e pressão social. O que se coloca no momento, para ela, é mais modesto: mecanismos essenciais de controle de dinheiro público – e com contrapartidas claras.

“As políticas dependem da capacidade instalada de cada município. Não adianta pedir coisas que não se pode oferecer. As emendas têm de dizer respeito às capacidades reais de serviços do local”, explicou, em clara referência a casos de serviços fantasmas contratados em nome de municípios pequenos que não tinham tal demanda.

<><> Começa a corrida por recursos

Publicada no dia 2 de março, a Portaria 10.297 regulamenta as exigências e cronogramas para execução de emendas individuais, cuja transferência é mediada pelo Fundo Nacional de Saúde.

“Emendas individuais serão abertas nesta semana. Municípios que atingiram teto orçamentário podem ter complementos. Dentro do InvestSUS, teremos possibilidades de reunir informações para destinação das emendas. Gestores e técnicos podem passar a incluir informações sobre a execução, a meu ver a grande novidade da reunião da CIT”, explicou Mariana Melo.

Como ressaltado, os órgãos interfederativos recuperaram terreno perdido e voltam a exercer poder de regulação sobre as verbas de saúde.

“Agora precisa de aval da CIT para homologar todas as destinações. A obrigatoriedade é para todas as emendas, mas algumas precisam de deliberações, a partir de planos regionais e necessidades específicas. Não é possível aglutinar emendas para uma mesma proposta. Exige-se plano de trabalho e adequação orçamentária. Os municípios não podem alterar finalidade declarada da emenda”, complementou a economista ligada ao Instituto Walter Leser.

De acordo com Francisco Funcia, as medidas aqui expostas abrem a possibilidade de recuperar a validade da Lei Complementar 141, promulgada em 2012, que regulamenta o orçamento do SUS, define percentuais mínimos de aplicação (15% da receita própria para municípios e União, 12% para estados) e recupera o chamado caráter ascendente do sistema.

“Do jeito que estava, era uma deterioração do subfinanciamento do SUS, porque o recurso está lá, mas seu uso era descontrolado. Era uma forma de agravar o subfinanciamento. Agora, recupera-se um padrão de ‘qualidade do gasto’, para usar jargão de mercado”, sintetizou Funcia.

 

Fonte: Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

 

Romi M. Bencke: Bancada Cristã - a tomada do Estado e o ódio às mulheres

A relação entre religião e política no Brasil sempre foi marcada por elevada permeabilidade. Desde o período colonial até a contemporaneidade, instituições religiosas atuam como agentes relevantes na conformação de valores morais, na organização da sociedade civil e na disputa por influência sobre políticas públicas. Embora essa presença não seja nova, nas últimas décadas ela assume formas renovadas, mais explícitas e institucionalizadas, revelando a capacidade adaptativa das organizações religiosas diante das transformações do campo político.

Nesse contexto, em 22 de outubro de 2025, o Congresso Nacional aprovou o regime de urgência para o projeto que cria a Bancada Cristã na Câmara dos Deputados, iniciativa apresentada conjuntamente pelas Frentes Parlamentares Evangélica e Católica Apostólica Romana. O pedido foi aprovado por 398 votos favoráveis e 30 contrários. Caso a proposta seja aprovada, a Bancada Cristã passará a ter direito a voz e voto no Colégio de Líderes, além de outras prerrogativas institucionais relevantes, como a influência direta sobre a definição da agenda legislativa.

Dois argumentos principais foram mobilizados para justificar a criação da Bancada. O primeiro sustenta que aproximadamente 80% da população brasileira se declara cristã. O segundo invoca a garantia constitucional da liberdade de manifestação da fé. Nenhum desses argumentos, contudo, é suficientemente consistente para fundamentar a institucionalização de uma bancada religiosa com poder formal de interferir na definição de prioridades do Parlamento. A representatividade numérica de uma identidade religiosa não autoriza sua tradução automática em representação política confessional, assim como a liberdade religiosa não implica o direito de capturar estruturas estatais para a promoção de agendas morais particulares.

Na esteira dessa proposição, ao longo de 2025, diversos municípios apresentaram e aprovaram projetos de lei que autorizam o uso da Bíblia como livro didático ou paradidático em escolas públicas e privadas. Municípios como Joinville (SC), Divinópolis (MG), Belo Horizonte (MG) e Rio Branco (AC), e os estados do Rio Grande do Norte e do Ceará, adotaram iniciativas dessa natureza. O principal argumento mobilizado é o de que a Bíblia teria exercido forte influência na formação da civilização ocidental. Foram rejeitadas, entretanto, emendas que propunham a inclusão de textos sagrados de outras tradições religiosas — como a Torá, o Alcorão, o Livro dos Espíritos, além de cantos e narrativas de religiões de matriz africana e de povos originários — evidenciando o caráter seletivo e excludente dessas propostas.

Esses exemplos ilustram a persistente e assimétrica relação entre religião e política no Brasil. Ainda que essa relação seja historicamente constituída, sua configuração atual revela novas estratégias de ocupação do espaço público, legitimadas por discursos de defesa da moral, da identidade cultural e da liberdade religiosa.

<><> Alianças intercristãs e reconfigurações do campo religioso-político

Entre as estratégias contemporâneas de ampliação da influência religiosa na política, destaca-se a aproximação e a formação de alianças pontuais entre grupos que, até poucas décadas atrás, se percebiam como adversários. Trata-se, sobretudo, da convergência entre diferentes movimentos pentecostais, oriundas de variadas denominações evangélicas, e o movimento carismático católico romano.

Historicamente, a disputa pelo chamado “mercado religioso” incentivou a demarcação de fronteiras doutrinárias e simbólicas entre essas correntes. No âmbito da representação política, autoridades católicas passaram a interpretar o avanço evangélico como ameaça ao status, ainda que extraoficial, da Igreja Católica como “igreja dos brasileiros”. Nessa lógica, os privilégios historicamente naturalizados pela hegemonia católica não eram percebidos como problema democrático, mas como expressão legítima de uma tradição nacional.

Por muito tempo, parte significativa da produção intelectual e do debate público operou com uma dicotomia simplificadora: de um lado, um catolicismo progressista, democrático e comprometido com os direitos humanos; de outro, um evangelicalismo conservador, autoritário e antidemocrático. Essa leitura invisibilizou tanto o papel de organizações católicas tradicionalistas, como a Tradição, Família e Propriedade (TFP), quanto às contribuições históricas de protestantes para a defesa da laicidade do Estado, a organização sindical e a educação popular.

Nesse cenário polarizado foi, sobretudo, o movimento feminista não religioso e a teologia feminista que demonstraram maior acuidade analítica ao perceber que, quando estão em jogo a autonomia das mulheres e a igualdade de gênero, o cristianismo institucionalizado — em suas versões católica romana, ortodoxa ou protestante — tende a convergir na defesa de uma moral patriarcal. Essa moral atua como princípio ordenador destinado a conter aquilo que é interpretado como caos social decorrente das reivindicações feministas por igualdade jurídica, controle sobre o próprio corpo, participação política, liberdade sexual e direito a uma vida livre de violência.

<><> Plataforma político-religiosa, guerra espiritual e bem público

Na segunda metade do século XXI, intensificam-se os discursos religiosos estruturados em torno da noção de guerra espiritual. Segundo essa perspectiva, os processos de secularização nas sociedades ocidentais estariam corroendo valores considerados fundamentais de uma suposta moral cristã. A guerra espiritual, nesse sentido, não se limita a uma metáfora teológica, mas opera como dispositivo mobilizador para ações políticas concretas, orientadas ao enfrentamento das transformações culturais associadas à modernidade.

Nesse enquadramento, proliferam narrativas de perseguição aos cristãos e de ameaça à liberdade religiosa. Os alvos privilegiados desses discursos são a ideia de uma sociedade plural e diversa, além dos movimentos que sustentam a pluralidade, como o feminista, o antirracista, os movimentos socioambientais, os de defesa dos direitos das pessoas LGBTQIA+, e os movimentos anticapitalistas. Esses atores são compreendidos pela direita cristã como responsáveis pela desintegração da ordem social.

É nesse contexto que católicos e evangélicos (protestantes) passam a estabelecer alianças estratégicas com o objetivo declarado de enfrentar o mal que, segundo essa narrativa, estaria corroendo as estruturas morais do Ocidente. A proposta de criação de uma Bancada Cristã deve ser compreendida à luz desse cenário mais amplo. Ela constitui uma cruzada moral institucionalizada, conduzida por meios formais e democráticos, contra agendas interpretadas pela direita cristã como ameaças existenciais.

No século XXI, essas alianças deixam de se organizar prioritariamente em torno de disputas doutrinárias e passam a se estruturar a partir da ideia de que o cristianismo, em suas múltiplas expressões, seria o principal provedor e guardião da identidade cultural ocidental. Essa reconfiguração desloca o foco da concorrência religiosa para a ação política coordenada.

<><> A Declaração de Manhattan como plataforma transnacional

Um marco relevante, ainda pouco conhecido no debate público brasileiro, dessa convergência intercristã é a “Declaração de Manhattan: um chamado à consciência cristã”, lançada em 2009, nos Estados Unidos e assinada por cerca de 150 lideranças, incluindo bispos católicos romanos, cristãos ortodoxos, pastores evangélicos e intelectuais cristãos.

A Declaração pode ser interpretada como uma plataforma político-religiosa de alcance transnacional, voltada à orientação da ação pública de lideranças religiosas conservadoras e de atores políticos com vinculação confessional. O documento está estruturado em três grandes eixos: vida, casamento e liberdade religiosa.

No preâmbulo, as lideranças signatárias se apresentam como herdeiras de cristãos da Antiguidade que teriam confrontado a tirania do Império Romano, combatendo práticas como o infanticídio e a servidão. O texto reivindica ainda o papel dos mosteiros na preservação da Bíblia, da arte e da cultura ocidentais, menciona bulas papais dos séculos XVI e XVII que condenaram a escravidão. O documento recupera o papel de figuras como John Wesley e William Wilberforce na luta contra o tráfico de pessoas escravizadas. Ao mobilizar esse repertório histórico, a Declaração constrói uma narrativa de autoridade moral destinada a legitimar sua atuação contemporânea no espaço público.

No eixo da vida, o documento afirma que, apesar de um suposto sentimento público pró-vida nos Estados Unidos, o governo da época — liderado por Barack Obama — promoveria uma ideologia favorável à legalização do aborto. Critica a decisão da Suprema Corte no caso Roe v. Wade (1973). Para os signatários da Declaração, a decisão da Suprema Corte americana é interpretada como a retirada da proteção legal do nascituro. Aborto, eutanásia, suicídio assistido e pesquisas com embriões são enquadrados como expressões de uma “cultura da morte”, legitimada pelo Estado.

No eixo do casamento, apenas a união entre homem e mulher é reconhecida como válida. O casamento é apresentado como instituição central para a saúde, a educação e o bem-estar social. A dissolução da chamada cultura matrimonial é associada ao surgimento de patologias sociais, entre as quais se incluem o divórcio e as uniões entre pessoas do mesmo sexo.

No eixo da liberdade religiosa, o documento afirma que somente Deus é senhor da consciência cristã. A partir disso, reivindica que indivíduos e instituições religiosas não sejam obrigados a agir de modo contrário às suas convicções morais. Direitos como o aborto legal e seguro e o reconhecimento do casamento entre pessoas do mesmo sexo são reinterpretados como violações da liberdade religiosa daqueles que se opõem a essas práticas. Políticas antidiscriminatórias são descritas como restrições ao livre exercício da religião. O texto invoca explicitamente o direito à desobediência civil diante de leis consideradas “anti-vida”.

Embora elaborada em 2009 e situada no contexto político norte-americano, a Declaração de Manhattan pode ser lida como uma plataforma exportável e de pretensão atemporal, especialmente em razão da capilaridade das instituições religiosas e da diversidade de interesses econômicos e políticos que financiam a direita cristã em diferentes países.

<><> Bem público, liberdade religiosa e ódio às mulheres

Um aspecto central dessa plataforma é a redefinição do conceito de bem público. Ele deixa de ser compreendido como resultado do equilíbrio entre direitos fundamentais em uma sociedade plural e passa a ser identificado com políticas públicas que reforçam concepções restritivas de vida, família e sexualidade. Trata-se de um bem público particularista, ancorado em uma moral religiosa específica e apresentado como universal.

De modo semelhante, a liberdade religiosa é reinterpretada de forma absolutizada e hierarquizada, desvinculada de sua interdependência com outros direitos fundamentais. Em vez de garantir a convivência entre diferentes crenças e convicções em um Estado laico, ela é mobilizada como instrumento político para bloquear direitos sexuais e reprodutivos e para legitimar práticas discriminatórias.

É nesse ponto que se torna possível compreender o sentido da expressão “ódio às mulheres” no contexto das alianças político-religiosas. Não se trata apenas de atitudes individuais de misoginia, mas de uma estrutura simbólica e institucional que opera para restringir a autonomia das mulheres, controlar seus os corpos e deslegitimar suas reivindicações por igualdade. Esse ódio manifesta-se na oposição sistemática ao direito ao aborto legal e seguro, na resistência à educação sexual, na naturalização da violência de gênero e na exclusão das mulheres dos espaços de poder e decisão.

A possibilidade de criação de uma Bancada Cristã no Congresso Nacional deve, portanto, ser analisada à luz dessa configuração mais ampla. O fortalecimento da democracia brasileira exige o enfrentamento transparente e crítico da histórica permeabilidade entre religião e política. Não é compatível com um regime democrático que critérios de vinculação religiosa ou de conservadorismo moral orientem a ocupação de cargos públicos estratégicos, como as indicações para o Supremo Tribunal Federal. Enquanto persistirem alianças político-religiosas que, sob o discurso do bem público e da liberdade religiosa, perpetuam a subordinação estrutural e o ódio às mulheres, a democracia permanecerá incompleta.

¨      Feminicídio no Brasil: O que está por trás dos números recordes? Por Arlindenor Pedro

Precisei resolver uma questão administrativa e tive que passar algumas horas nas dependências de um distrito policial em um município do Estado do Rio de Janeiro. Durante o tempo em que estive ali, algo me chamou, profundamente, a atenção: o fluxo constante de mulheres que entravam na delegacia para registrar denúncias.

Eram, em sua maioria, jovens. E, muitas, visivelmente abaladas, relatando violências cometidas por seus companheiros, namorados, ex-parceiros. Um desfile silencioso de dor e de coragem, também. Todas apelavam para a Lei Maria da Penha e, por ela, eram acolhidas naquele espaço policial.

Dias depois, me deparei com a publicação de uma pesquisa do Ministério da Justiça, que apontava um dado estarrecedor. Quatro mulheres são assassinadas por dia no Brasil vítimas de feminicídio.

A leitura desse dado me transportou imediatamente à cena que presenciei na delegacia. Naquele momento, entendi, com mais nitidez que a violência contra mulheres não é exceção. É estrutural.

Esses números não são meros acidentes estatísticos. Eles não apontam para uma “onda de violência” momentânea. Revelam algo muito mais profundo: a falência da forma social que organiza nossas relações, nossos afetos e nossas subjetividades.

Um fato que precisa ser analisado com maior profundidade, e fora dos clichês moralistas a que a mídia nos submete. A partir dessa experiência concreta, comecei a me perguntar: O que esse número revela, de fato? Que tipo de sociedade permite que mulheres sejam assassinadas todos os dias apenas por serem mulheres? E, mais que isso: Por que esse número segue crescendo?

Os dados do Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública (Sinesp) confirmam uma tendência brutal. Em 2025, o país alcançou a marca recorde de 1.470 feminicídios, a maior desde que a lei passou a registrá-los. Foram 1.459 casos em 2024, 1.449 em 2023, 1.451 em 2022. A média de quatro mulheres mortas por dia se mantém com uma constância que grita.

Além disso, o Mapa Nacional da Violência de Gênero mostra que, só no primeiro semestre de 2025, já haviam sido registrados 718 feminicídios e 34 mil casos de estupro. Não é difícil imaginar o perfil predominante dessas vítimas: mulheres jovens, negras e periféricas, aquelas que vivem em lugares em que o Estado raramente chega com proteção, mas sempre aparece com repressão.

A filósofa Leni Wissen, em um texto marcante publicado em 2025, propõe uma leitura instigante da violência masculina como sintoma da crise do sujeito moderno. Segundo ela, o homem foi educado para ser autônomo, forte, invulnerável. Sua identidade foi construída em oposição à dependência, à fragilidade :ou seja, ao feminino. Mas à medida que a realidade concreta desmorona sob o peso da crise social, econômica e afetiva, esse sujeito entra em colapso.

E, o que acontece quando alguém formado para exercer controle absoluto percebe que perdeu o controle de tudo? Leni Wissen responde: Ele entra em desespero. E o desespero, muitas vezes, vira violência. A mulher se torna o alvo simbólico. Ela representa tudo aquilo que o homem foi ensinado a reprimir em si mesmo, e que agora odeia ver refletido no outro. O feminicídio, nesse quadro, aparece como uma afirmação perversa de potência em uma vida marcada pela impotência real.

Essa leitura, já perturbadora em si, se torna ainda mais devastadora quando aplicada ao Brasil. Aqui, o capitalismo, um capitalismo retardatário e periférico, nunca cumpriu suas promessas de inclusão, cidadania ou estabilidade. Como destaca o teórico alemão Robert Kurz, vivemos sob uma modernização negativa, que destrói sem construir, precariza sem reorganizar.

Em um país marcado por desigualdade estrutural, racismo sistêmico e colapso das redes de proteção social, a crise do sujeito masculino assume contornos explosivos. A masculinidade tradicional não desaparece. Ela se transforma em ressentimento, raiva, agressividade difusa. E, o corpo da mulher se torna o campo de batalha dessa frustração.

A filósofa Roswitha Scholz oferece, nesse caso, outra chave analítica decisiva. Segundo ela, o capitalismo se estrutura a partir de uma dissociação entre o valor (associado ao masculino, à produção) e a reprodução (associada ao feminino, ao cuidado, ao corpo). Essa cisão foi naturalizada pela modernidade patriarcal e se torna ainda mais violenta em tempos de colapso.

No Brasil, essa dissociação se traduz em abandono. O feminino dissociado é descartável, violável, disponível. E quando se recusa a cumprir esse papel, quando rompe com a obediência, quando tenta sair de uma relação abusiva, vira alvo da violência letal. O feminicídio é, muitas vezes, a punição final por uma tentativa de liberdade.

Enquanto a violência cresce, uma transformação silenciosa também acontece. As mulheres estão se tornando o pilar econômico de muitas famílias. Dados recentes indicam que mais da metade dos lares brasileiros é chefiada por mulheres, e que grande parte dessas chefias ocorre sem a presença de um parceiro homem.

Essa mudança se deve à maior participação feminina no mercado de trabalho e, também, à crise prolongada do emprego formal, à queda da renda masculina e à substituição de funções patriarcais tradicionais por estratégias de sobrevivência feminina.

O paradoxo é cruel. As mulheres acumulam sobre si o peso do cuidado, do sustento e ainda se tornam vítimas da violência daqueles que não suportam sua autonomia crescente.

De acordo com o Relatório Anual Socioeconômico da Mulher (RASEAM 2025), as mulheres chefes de família são maioria entre os mais pobres, enfrentam os maiores índices de informalidade e recebem, em média, cerca de 22% menos que os homens. Mesmo assim, sustentam seus lares, muitas vezes, sozinhas.

Esse deslocamento econômico não foi acompanhado por uma reconfiguração simbólica das relações de poder. O homem perde o “lugar de provedor”, mas não perde o privilégio social da dominação. E quando se sente ameaçado em seu poder, a resposta pode ser violenta e fatal

Cada feminicídio é mais do que um crime, é um sinal de alerta de uma sociedade em ruínas. O silêncio diante desses assassinatos é ensurdecedor, e em certa medida, cúmplice.

Não se trata apenas de “educar para o respeito”, nem de criar leis mais rígidas (a Lei Maria da Penha já é avançada). Trata-se de questionar radicalmente o modelo de masculinidade que o capitalismo produziu. E, que, agora, implodiu. Trata-se de repensar o que significa ser homem, ser mulher, ser sujeito em um mundo onde os vínculos sociais, afetivos e econômicos estão sendo corroídos. A cada dia, quatro mulheres são assassinadas no Brasil por seus companheiros ou ex-companheiros. Elas morrem por existirem

E nós, o que estamos dispostos a fazer com essa verdade?

 

Fonte: Outras Palavras/JB

 

Por que a Revolução Cubana enfrenta a maior ameaça da sua história

Uma importante exposição do Museu da Revolução da capital de Cuba, Havana, é dedicada às condições vividas no país antes da revolução tomar o poder, em 1959.

No interior do antigo e ornamentado palácio presidencial, fotografias e testemunhos orais detalham a pobreza extrema e a arraigada corrupção da ditadura do então homem forte do exército cubano, Fulgencio Batista (1901-1973).

A imagem mais impressionante é a de uma mulher em uma cabana de folhas de palmeira no chão de terra, cozinhando com lenha.

Imagens similares estão presentes nos museus estatais de toda a ilha, desde a Baía dos Porcos até Birán, o local de nascimento do pai da Revolução CubanaFidel Castro (1926-2016).

A conclusão é clara. Os revolucionários salvaram os cubanos da ignorância e da penúria da vida sob um líder de facto, apoiado por Washington, e os levaram para a dignidade, a educação e a verdadeira independência.

Mas, nos dias atuais, Lisandra Botey se identifica mais com a mulher empobrecida da fotografia do que com os revolucionários que libertaram seu país de Batista.

"Agora, vivemos assim, exatamente assim", afirma Botey, dona de casa, em frente à sua casa em Havana, construída com madeira e pedaços de chapas metálicas.

"Toda manhã, precisamos ir à praia [em Havana] para buscar lenha", ela conta. "Depois, trazemos para casa para fazer o café da manhã porque, quando temos eletricidade, é durante o horário escolar."

A filha de Botey tem nove anos de idade. Ela saiu para a escola esta manhã sem nada no estômago, explica a mãe, com lágrimas nos olhos.

Seu marido, Brenei Hernández, é operário da construção civil quase sem trabalho. Ele conta que, muitas vezes, eles não sabem de onde virá a próxima refeição.

"Todos os dias é a mesma fome, a mesma miséria", lamenta ele, enquanto mexe uma panela de arroz branco. Pelo menos sua filha chegará da escola e encontrará algo quente para comer.

Com a economia cubana em queda livre desde a pandemia de covid-19, a precária casa de Hernández, em um subúrbio de Havana, não recebe gás há meses.

Ele e seus vizinhos já cozinhavam com lenha e carvão antes das tropas americanas derrubarem à força o aliado mais próximo de Cuba, o presidente venezuelano Nicolás Maduro, no dia 3 de janeiro deste ano.

Desde então, Washington parece ter tomado total controle da indústria petrolífera da Venezuela e foi suspenso o fornecimento de petróleo para a ilha comunista.

embargo econômico americano a Cuba, vigente há décadas, se intensificou como nunca havia se visto antes.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ameaçou impor tarifas de importação a qualquer país que envie petróleo para a ilha.

Nenhum dos aliados tradicionais de Cuba — México, Rússia, China, Vietnã e Irã — se apresentou para preencher o vácuo deixado pela Venezuela.

Mas o Departamento do Tesouro dos Estados Unidos anunciou, no final de fevereiro, que iria reduzir as restrições a um número limitado de vendas de petróleo, para "apoiar o povo cubano, com fins comerciais e humanitários".

Esta medida surge em meio a uma tensão cada vez maior entre Washington e Havana.

O governo de Cuba informou que seus guardas de fronteira mataram a tiros quatro pessoas que viajavam em uma lancha rápida americana no final de fevereiro.

As autoridades cubanas afirmaram que se tratava de cidadãos cubanos moradores nos Estados Unidos. E, segundo uma autoridade americana, os guardas mataram pelo menos um cidadão dos EUA e feriram outro, durante a interceptação.

O secretário de Estado americano, Marco Rubio, declarou que seu país estava investigando o incidente, considerado "altamente incomum".

"As velhas estratégias de Washington em relação a Cuba já não se aplicam e quem ainda não compreendeu isso levará uma surpresa", segundo o economista cubano Ricardo Torres. "Trump está mudando as regras do jogo."

O presidente americano declarou que "Cuba está pronta para cair", intensificando as pressões sobre a ilha no seu momento mais vulnerável desde a Guerra Fria (1947-1991).

Comentaristas destacaram que um dos objetivos da destituição de Maduro por Washington era aprofundar a crise econômica cubana.

Aparentemente, o governo Trump espera debilitar a revolução (possivelmente, de forma terminal) e propiciar o colapso do socialismo estatal na ilha.

O cálculo por trás deste raciocínio é simples: o agravamento da crise interna poderia criar as condições para que a Revolução Cubana desmoronasse por dentro.

O que ainda é muito mais incerto é se essa estratégia irá forçar uma mudança de regime ou se o governo cubano, de tendência comunista, encontrará novas formas de sobreviver, como fez em crises anteriores.

<><> Apagões e 'racionamento extremo'

Os efeitos da crise do combustível podem ser sentidos em toda a ilha.

Os apagões em Havana podem durar 15 horas por dia ou mais. Os hospitais estão às escuras e só atendem casos de emergência. As escolas costumam ficar fechadas.

O lixo se amontoa nas esquinas porque os caminhões não têm combustível para fazer a coleta. Cidadãos esquálidos e anciãos são frequentemente encontrados remexendo os resíduos.

Cuba tem orgulho da rede de segurança social construída para o seu povo desde 1959. Ela inclui assistência médica universal, erradicação do analfabetismo, redução da mortalidade infantil e aumento da prevenção de doenças.

Por isso, o panorama atual é desolador e está se agravando.

A prisão de Nicolás Maduro trouxe uma questão insistente: quanto tempo Cuba poderá aguentar sem a chegada de novos fornecimentos de combustível?

"Os estoques de petróleo talvez possam durar de seis a oito semanas", calcula Ricardo Torres. Mas ele admite que é difícil saber com precisão.

"Cuba não publica números sobre os estoques de combustíveis", alerta ele.

Torres acredita que seria possível implementar um "racionamento extremo", mas as restrições existentes já são draconianas. As pessoas têm um limite de 20 litros de combustível nos postos de gasolina, que devem ser pagos em dólares americanos.

Eles são obrigados a usar um aplicativo governamental chamado Ticket, mas a espera pode durar dias ou até semanas.

Os motoristas entram em uma fila virtual com mais de 10 mil pessoas à sua frente para conseguir meio tanque de gasolina. E, nestas circunstâncias, o preço do combustível no mercado informal disparou, como era de se esperar.

Apesar de tudo, Brenei Hernández não dirige sua ira contra Washington. Pelo contrário: ele culpa o Estado cubano.

"Gostaria que Trump assumisse o controle deste lugar. Assim, veremos se as coisas melhoram", afirma ele, com total honestidade.

"O que vou dizer a vocês? Não vou mentir."

<><> Mudança de regime

Depois de passar anos ouvindo os cubanos repetirem slogans revolucionários banais quando perguntava sua opinião em frente às câmeras, é comovedor ouvir opiniões tão sinceras, expressas sem temor aparente sobre as repercussões.

O nível de desgosto e esgotamento entre os moradores é tão grande que o medo de represálias está começando a desaparecer.

"É demais", afirma Hernández. "Só comemos arroz branco."

"Tomara que eu consiga juntar dinheiro suficiente nos próximos dias para um pacote de salsichas, ou para três ou quatro ovos."

A preocupação de Lisandra Botey é que sua filha peça um bolo de aniversário este ano, o que está muito acima das suas possibilidades.

Este sofrimento talvez faça parte da estratégia do governo Trump para exercer "máxima pressão" sobre Cuba.

A metodologia pode ser nova, segundo Ricardo Torres, mas o objetivo de Washington em Cuba permanece o mesmo de sempre: a mudança de regime.

"Seja algo repentino ou uma solução negociada, no final, o que Trump quer é a mudança de regime em Cuba."

A questão para os cubanos é como Washington pretende conseguir essa mudança, destaca Torres. Eles observam mais sofrimentos à frente com o embargo petrolífero.

O governo de Cuba descreve repetidamente esta política como desumana, cruel e ilegal, à luz do direito internacional.

"Que direito tem uma potência mundial de negar o combustível e a capacidade de funcionamento a uma nação menor?", questionou o presidente cubano, Miguel Díaz-Canel.

Tudo isso está muito distante do otimismo de uma década atrás, sobre a política de Washington em relação a Cuba.

Em 2014, após muitos anos de inimizade, o então presidente americano Barack Obama (2009-2017) optou por restabelecer relações diplomáticas com a ilha em um degelo histórico, mas de curta duração.

Os setores mais linha-dura do governo cubano alertaram que as propostas de Obama equivaliam ao mesmo objetivo de mudança de regime, apresentado de forma mais gentil.

Mas os cubanos comuns que vivenciaram aquele período sentem que o restabelecimento diplomático de Obama parece totalmente oposto ao enfoque atual de Donald Trump.

No mês de março, a visita de Obama a Havana completa 10 anos. Ele se tornou o primeiro presidente americano em exercício a pisar na ilha em quase um século.

Frente ao então presidente cubano, Raúl Castro (2008-2018), Obama fez um discurso extraordinário, que foi transmitido ao vivo pela TV estatal da ilha.

Ele afirmou ter visitado Cuba para "enterrar o último vestígio da Guerra Fria nas Américas" e "estender a mão da amizade ao povo cubano".

O homem que supervisionou o degelo diplomático foi o então embaixador dos Estados Unidos em Cuba, Jeffrey DeLaurentis. Perguntei a ele se, agora, a Revolução Cubana enfrenta uma ameaça existencial.

"Isso dependerá do que outros países poderão fazer", respondeu o ex-embaixador.

O apoio da Venezuela representava cerca de 35 mil barris diários de petróleo para Cuba.

Houve sinalizações gerais de que a Rússia poderia enviar petróleo para a ilha. O ministro das Relações Exteriores de Cuba, Bruno Rodríguez, esteve recentemente em Moscou para conversar com seu homólogo russo e com o presidente Vladimir Putin.

Mas, até agora, nenhum petroleiro russo atracou em portos cubanos.

Rodríguez também viajou para a China, Vietnã e Espanha, em busca de apoio para a ilha.

"A corrida para defender e ajudar Cuba certamente não foi tão entusiástica nem significativa como vimos no passado", destaca DeLaurentis. "Mas ainda existe a possibilidade de que outros países possam tomar alguma medida."

Em relação ao que Trump deseja especificamente de Cuba, o ex-chefe da diplomacia americana na ilha afirmou que o governo está "tentando tomar medidas coercitivas para levar o governo para a mesa de negociações ou fazê-lo capitular, sem necessariamente provocar o seu colapso."

"Esta me parece uma estratégia bastante arriscada, com muito potencial de gerar consequências indesejadas", destaca ele.

Estas consequências já são visíveis na crise humanitária que se agrava rapidamente e levou o México a enviar toneladas de ajuda de emergência a Cuba, entre produtos como leite em pó e artigos de higiene pessoal.

A crise é sentida diariamente pelas famílias que são obrigadas a cozinhar com lenha e pelos motoristas que precisam de gasolina com urgência.

Esteban Bello Rodríguez dirige vários almendrones, os automóveis clássicos americanos dos anos 1950, usados para transportar turistas pelos locais emblemáticos de Havana.

Seus negócios foram gravemente afetados pela escassez de combustível e pela queda do turismo.

"Aqui, existe um problema — o problema do combustível. Por isso, sem dúvida, os que estão em cima, dos dois lados, precisam se sentar e resolver", declarou ele, com franqueza.

"Só o que sei é que é preciso encontrar uma solução, pois isso está afetando todo o país, as pessoas de toda a nação. Todos nós."

<><> O poder real

Do lado americano, a política em relação a Cuba está sendo liderada, em grande parte, pelo secretário de Estado Marco Rubio, que é cubano-americano, filho de exilados e ex-senador pela Flórida.

Trump afirma que Rubio está conversando com os mais altos níveis do governo cubano. E surgiram, nas últimas semanas, amplas especulações sobre quem poderia chefiar esta negociação por parte de Cuba.

O economista cubano Ricardo Torres defende que o único negociador com peso real na ilha é o ex-presidente e líder revolucionário Raúl Castro, mesmo com sua idade avançada (94 anos).

Para Torres, "os únicos com capacidade para estabelecer negociações significativas são as pessoas próximas a Raúl".

"O governo civil não tem nenhum poder real, incluindo o presidente Miguel Díaz-Canel. O verdadeiro poder em Cuba é Raúl e o círculo fechado que o rodeia."

No final de fevereiro, o portal Axios noticiou que seu neto, Raúl Rodríguez Castro (conhecido em Cuba como El Cangrejo, "O Caranguejo"), seria o ponto de contato do governo Trump dentro do círculo íntimo de Raúl Castro.

Ele é considerado um dos homens de maior confiança do seu avô, já que foi seu guarda-costas pessoal. Seu perfil é mais voltado aos negócios do que ideológico, embora não tenha experiência diplomática de alto nível.

Nenhuma das partes, especialmente a cubana, confirmou que Raúl Rodríguez Castro esteja em contato com Marco Rubio.

"No caso da Venezuela, o governo Trump foi muito pragmático", destaca Torres.

Aparentemente, Rubio está disposto a tratar com um governo interino em Caracas, chefiado pela presidente em exercício Delcy Rodríguez. E Washington parece estar tentando convencer o lobby conservador cubano-americano na Flórida sobre as vantagens de conversar com um regime igualmente separado do poder formal em Havana.

Mas, apesar da adesão pública à estratégia de "máxima pressão", os Estados Unidos parecem recear que uma mudança política total, da noite para o dia, seja na Venezuela ou em Cuba, possa causar desestabilização profunda e uma crise migratória e humanitária.

Diversos observadores destacaram que o tom de Rubio em relação à ilha foi sensivelmente mais suave nos seus recentes comentários durante a Conferência de Segurança de Munique, na Alemanha. Ele se concentrou nas reformas econômicas, não em uma transformação política profunda.

"De certa forma, soou quase como uma estranha variação de Obama 2.0, em termos de reformas econômicas e tudo o mais", opinou DeLaurentis.

"Para mim, isso indica que eles estão buscando uma figura similar a Delcy Rodríguez para negociar."

"Dez ou 20 anos atrás, a diáspora do sul da Flórida teria se oposto totalmente a este tipo de enfoque. Mas suponho que, agora, eles dariam ao presidente e ao secretário o benefício da dúvida, permitindo o desenvolvimento deste tipo de cenário."

Paralelamente, qualquer visitante que deseje ver a fotografia da mulher pré-revolucionária cozinhando com lenha precisará esperar. O museu está fechado para reforma há mais de um ano e, agora, não tem combustível para prosseguir com as obras.

Neste que já é o momento mais complexo da história moderna da ilha, ainda não está claro se só o Museu da Revolução será objeto de reformas este ano, ou se a própria Revolução Cubana como um todo.

¨      Trump começou a ameaçar Cuba para distrair atenção dos problemas internos, diz diplomata

O presidente dos EUA, Donald Trump, está ameaçando uma mudança de governo em Cuba para desviar a atenção dos problemas internos e da operação no Irã, disse o diplomata austríaco e ex-embaixador da UE, Klemens Fischer, em entrevista à revista alemã Focus.

"Tendo em conta a situação no Irã, surge a pergunta: faz algum sentido [uma mudança de governo] em Cuba? […] acho que Trump encontrou uma nova ocupação para distrair-se de seus problemas internos", disse ele.

De acordo com Fischer, Trump pode tentar repensar suas ações porque prometeu durante sua campanha evitar envolver os EUA em conflitos no exterior.

"Ele pode tentar justificar isso dizendo que ele não está realmente conduzindo guerras, mas quer estabelecer regimes humanos", explicou o diplomata.

Sábado (6), o líder da Casa Branca disse que os Estados Unidos queriam resolver a questão com o Irã primeiro e depois lidar com Cuba.

<><> Agravamento das relações entre Havana e Washington

Cuba está vivendo uma crise de combustível, que se agravou desde o decreto de Trump de 29 de janeiro. O governo cubano afirma que, através de um bloqueio energético, os EUA estão tentando estrangular a economia do país caribenho e tornar as condições de vida de seu povo insuportáveis.

 

Fonte: BBC News Mundo/Sputnik Brasil