sábado, 11 de julho de 2026

A guerra começa antes da mina:  o lugar que o Brasil ocupará na reorganização da ordem internacional

A reportagem parece tratar da corrida pelas terras raras brasileiras. Não trata. Ao dissecar o artigo da Foreign Policy, este ensaio revela que a primeira batalha do século XXI acontece muito antes da mineração: ela começa na disputa pela forma como o Brasil será pensado na reorganização da ordem internacional.

<><> A pergunta está errada

À primeira vista, o artigo Everyone Wants in on Brazil’s Rare Earths. Is Brasília Ready for the Moment? parece tratar apenas da corrida global pelas terras raras brasileiras. Não trata. Em um cenário marcado pela competição tecnológica entre Estados Unidos e China, pela reorganização das cadeias industriais e pela busca de novas fontes de minerais críticos, o texto parecia seguir um roteiro conhecido: o Brasil possui uma das maiores reservas do planeta e precisa decidir como responder ao crescente interesse internacional.

Essa, porém, é apenas a superfície.

A principal contribuição do artigo não está nas informações que apresenta, mas na pergunta que escolhe fazer. Ao questionar se Brasília está pronta para o momento, o texto desloca o centro do debate. A discussão deixa de ser quem disputa os recursos brasileiros e passa a ser se o Estado brasileiro possui capacidade para responder às expectativas produzidas por essa disputa. A mudança parece sutil. Não é. Ela redefine completamente o problema.

Toda estratégia começa pela definição das perguntas consideradas legítimas. Perguntas não organizam apenas respostas. Organizam prioridades, distribuem atenção, estabelecem critérios de racionalidade e delimitam os horizontes dentro dos quais governos, empresas e formuladores de políticas passam a pensar. Antes mesmo de qualquer conclusão, elas já selecionaram o terreno sobre o qual o debate poderá acontecer.

É justamente por isso que este ensaio parte de uma hipótese diferente. O artigo da Foreign Policy não deve ser lido apenas como uma análise sobre minerais críticos. Ele deve ser compreendido como uma peça de jornalismo estratégico que participa da construção de um determinado enquadramento sobre o Brasil em um momento de profunda reorganização da economia política internacional.

Se o problema fosse apenas geológico, bastaria medir reservas. Se fosse apenas econômico, bastaria comparar investimentos. Se fosse apenas tecnológico, bastaria discutir processamento e cadeias produtivas. Mas nenhuma dessas dimensões explica por que a pergunta central do artigo não é quem definirá o futuro desses recursos, e sim se Brasília está preparada para administrá-los.

Talvez porque a disputa mais importante comece muito antes da mineração. Ela começa quando se define quais perguntas parecerão naturais e quais deixarão, silenciosamente, de ser feitas.

<><> Como se fabrica uma orientação estratégica

A força de um artigo estratégico raramente está no que ele diz. Ela está na maneira como organiza o terreno sobre o qual determinadas conclusões passam a parecer naturais. Antes de persuadir, um texto desse tipo redefine prioridades, estabelece critérios de relevância e reorganiza a atenção do leitor. É nesse movimento silencioso que reside sua principal capacidade de influência.

Isso explica por que determinados conceitos aparecem hoje com tanta frequência em documentos governamentais, relatórios de organismos multilaterais, centros de pesquisa, consultorias estratégicas e veículos especializados em política internacional. Expressões como critical minerals, economic security, resilient supply chains, de-risking e diversification não são apenas descrições técnicas. Elas compõem uma gramática comum que reorganiza a forma como recursos naturais, cadeias produtivas e políticas industriais passam a ser percebidos. Quando essa linguagem se estabiliza, ela deixa de parecer uma escolha histórica e passa a funcionar como se fosse a própria realidade.

A mudança de vocabulário não elimina o conflito. Apenas muda a forma de percebê-lo. O conflito geopolítico não desaparece. Apenas muda de vocabulário. A disputa entre Estados cede espaço à linguagem da governança; a dependência torna-se problema de resiliência; a competição estratégica converte-se em diversificação de cadeias; interesses nacionais passam a ser apresentados como desafios de coordenação. O efeito não é esconder a política, mas reorganizá-la sob categorias que parecem neutras, universais e inevitáveis.

É nesse terreno que o jornalismo estratégico opera. Seu objetivo não é apenas informar acontecimentos, mas participar da construção dos referenciais pelos quais esses acontecimentos serão interpretados. O poder de um texto não está apenas no que afirma, mas na capacidade de tornar determinadas perguntas mais plausíveis do que outras, certos caminhos mais racionais do que alternativas que, pouco a pouco, deixam de ocupar espaço no debate público.

Essa é a camada menos visível da disputa contemporânea. Antes que governos decidam políticas industriais, empresas assinem contratos ou investidores direcionem bilhões de dólares, ocorre uma disputa muito mais silenciosa: a definição das categorias que orientarão essas escolhas. Recursos estratégicos não adquirem significado apenas por suas propriedades físicas ou por seu valor econômico. Tornam-se estratégicos dentro de uma arquitetura intelectual que define como deverão ser compreendidos, quais problemas deverão resolver e quais expectativas passarão a organizar. É nesse terreno que começa a primeira e talvez mais importante batalha pela soberania.

<><> Quando o mapa substitui o projeto nacional

Toda arquitetura intelectual produz consequências materiais. É justamente por isso que a linguagem estratégica nunca permanece restrita às páginas de revistas especializadas ou aos relatórios de grandes centros de pesquisa. Ela atravessa governos, orienta investimentos, reorganiza cadeias produtivas e redefine prioridades nacionais. A produção de conhecimento e a produção material caminham juntas.

A reorganização das cadeias globais de minerais críticos oferece um exemplo preciso desse movimento. À medida que Estados Unidos, União Europeia, Japão e outras economias industrializadas passaram a reduzir sua dependência do processamento chinês, consolidou-se uma nova geografia da competição. O debate deixou de girar apenas em torno da existência de reservas minerais e passou a concentrar-se na capacidade de controlar processamento, tecnologia, financiamento, propriedade intelectual e destinos industriais. Em outras palavras, a disputa nunca foi simplesmente pelo minério, mas pelo comando da cadeia que transforma o minério em poder econômico, tecnológico e geopolítico.

É nesse contexto que casos como o da Serra Verde precisam ser compreendidos. O empreendimento, frequentemente apresentado como exemplo do potencial mineral brasileiro, revela algo mais importante do que sua capacidade produtiva. Ele demonstra como financiamento público estrangeiro, contratos de longo prazo, garantias de fornecimento e estratégias nacionais de outras potências podem se articular antes mesmo que o Brasil consolide um projeto próprio para esses recursos. O caso revela uma lógica que tende a se repetir.

Esse talvez seja o ponto mais sensível de toda a discussão. Países não disputam apenas jazidas. Disputam a capacidade de definir o destino econômico, tecnológico e político dessas jazidas. Reservas minerais, isoladamente, não produzem soberania. O que produz soberania é a capacidade de decidir onde processar, quem financiará, quem dominará as tecnologias associadas, quem agregará valor industrial e quem capturará os benefícios estratégicos dessa cadeia.

Essa distinção altera completamente a forma de interpretar o debate contemporâneo. Quando o mapa geológico passa a ocupar o lugar do projeto nacional, o risco deixa de ser apenas econômico. Um país pode possuir algumas das maiores reservas do planeta e, ainda assim, continuar ocupando uma posição subordinada na divisão internacional do poder. A riqueza permanece no território. O comando, porém, desloca-se para outro lugar.

<><> O Brasil como função ou como sujeito

A partir daqui, a mineração deixa de ser o objeto da discussão. A verdadeira questão não é saber quem terá acesso às reservas brasileiras, mas qual papel o Brasil aceitará desempenhar na reorganização da economia política internacional. Essa talvez seja a pergunta mais importante que o debate contemporâneo evita formular.

Ao longo da história, países periféricos raramente foram definidos apenas pela riqueza de seus territórios. Foram definidos, sobretudo, pela função que lhes foi atribuída na divisão internacional do trabalho. Exportadores de matérias-primas, fornecedores de energia, produtores de alimentos ou mercados consumidores. Hoje, os minerais críticos correm o risco de ocupar o mesmo lugar histórico que o açúcar, o ouro, a borracha, o café, o minério de ferro e o petróleo ocuparam em diferentes momentos da formação do capitalismo mundial: riquezas extraordinárias incorporadas a estratégias concebidas em outros centros de decisão.

É aqui que o materialismo histórico e o realismo político encontram um mesmo diagnóstico. Recursos estratégicos nunca possuem significado em si mesmos. Seu valor depende da posição que ocupam nas estruturas de poder que organizam a produção, a tecnologia, o financiamento, o comércio e a capacidade de decisão. A posse de uma riqueza natural pode ampliar o poder de um Estado, mas também pode aprofundar sua dependência, caso os principais elos da cadeia permaneçam sob comando externo.

Essa distinção torna insuficiente a ideia de que o desafio brasileiro consiste apenas em aproveitar uma oportunidade aberta pela transição energética ou pela competição tecnológica entre grandes potências. O verdadeiro desafio consiste em decidir se o país pretende continuar desempenhando uma função previamente esperada na reorganização das cadeias globais ou se pretende construir um projeto capaz de redefinir sua própria posição nessa arquitetura. A primeira adapta o Brasil às transformações do sistema internacional. A segunda procura influenciar a forma como esse sistema será reorganizado.

Sob a perspectiva do Sul Global, essa diferença deixa de ser apenas brasileira. Ela diz respeito à capacidade de países historicamente posicionados na periferia ampliarem sua autonomia em um momento em que recursos naturais, tecnologia, inteligência artificial, energia e infraestrutura voltam a ocupar o centro da disputa geopolítica. A questão estratégica do século XXI, portanto, não é apenas quem controlará os recursos críticos do planeta, mas quem terá legitimidade para definir o papel político que esses recursos desempenharão na construção da próxima ordem internacional.

<><> Antes da mina existe uma ideia

Talvez o maior equívoco do debate contemporâneo seja imaginar que a disputa pelos recursos estratégicos começa quando máquinas entram em operação ou contratos são assinados. Nessa altura, uma parte decisiva da batalha já foi travada. Muito antes da extração, da industrialização ou da circulação do capital, alguém já definiu quais recursos seriam considerados estratégicos, quais perguntas pareceriam razoáveis, quais prioridades ocupariam o centro do debate e quais possibilidades permaneceriam invisíveis.

Essa constatação modifica profundamente a forma de compreender o próprio conceito de soberania. Durante muito tempo, ela foi associada ao controle do território, das fronteiras, das riquezas naturais ou das capacidades militares. Tudo isso continua indispensável. Mas o século XXI acrescentou uma dimensão anterior a todas elas: a capacidade de produzir, interpretar e disputar os referenciais por meio dos quais essas riquezas passam a adquirir significado político. Nenhum país exerce plenamente sua soberania quando depende de outros para definir o sentido estratégico de seus próprios recursos.

Foi essa camada que o artigo da Foreign Policy, involuntariamente, tornou visível. Ao analisar uma reportagem aparentemente dedicada às terras raras brasileiras, descobrimos algo muito mais profundo do que uma discussão sobre mineração. Encontramos um exemplo de como a produção internacional de conhecimento participa da construção dos horizontes estratégicos que orientam governos, investidores, instituições e centros de decisão em um período de reorganização da ordem mundial. O objeto nunca foram apenas os minerais. O objeto sempre foi a forma de pensar os minerais.

Esse talvez seja um dos maiores desafios colocados hoje ao Brasil e ao Sul Global. Não basta disputar investimentos, desenvolver tecnologia, ampliar o processamento industrial ou fortalecer cadeias produtivas nacionais. Tudo isso será insuficiente se continuarmos aceitando, como naturais, categorias produzidas para interpretar interesses que nem sempre coincidem com os nossos. A autonomia política começa quando uma sociedade recupera a capacidade de formular suas próprias perguntas, construir seus próprios diagnósticos e definir, por si mesma, o significado estratégico de suas riquezas.

É por isso que, antes da mina, existe uma ideia. E é exatamente por isso que a primeira batalha do século XXI não acontece no subsolo. Ela acontece no terreno onde se decide como o mundo será pensado.

¨      Lula discute minerais críticos em meio a negociações com os EUA sobre tarifaço

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu ministros na manhã desta sexta-feira (10) para discutir a gestão dos minerais críticos brasileiros, em um momento em que o governo intensifica as negociações com os Estados Unidos sobre o tarifaço imposto a produtos nacionais. As informações foram publicadas pelo jornal O Globo.

A reunião ocorre em meio ao interesse da Casa Branca em estabelecer um acordo para a exploração de minerais críticos em território brasileiro. O tema ganhou relevância nas conversas entre Lula e Donald Trump, atual presidente dos Estados Unidos, durante encontro realizado no início de maio, na Casa Branca, quando a cooperação no setor mineral esteve entre os assuntos debatidos.

Os chamados minerais críticos, especialmente os elementos de terras-raras, são considerados estratégicos para a transição energética e para a produção de tecnologias de ponta, como baterias, veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e sistemas de defesa. Segundo dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), o Brasil possui cerca de 21 milhões de toneladas de reservas de elementos de terras-raras, a segunda maior do planeta.

Enquanto conduz as negociações comerciais com Washington, o governo brasileiro também avança na definição de uma política nacional para fortalecer a exploração desses recursos. No início deste mês, o Ministério de Minas e Energia apresentou ao Conselho Nacional de Política Energética (CNPE) um plano que estabelece diretrizes e metas para o setor mineral até 2050.

Entre os principais objetivos está a ampliação da participação brasileira na produção mundial de minerais críticos, passando dos atuais 8,3% para 12,2% até 2050. A projeção foi elaborada com base nas estimativas de demanda da Agência Internacional de Energia (AIE) e no potencial produtivo das reservas conhecidas no território nacional.

O plano busca alinhar a expansão da capacidade de produção brasileira ao crescimento esperado da demanda global por esses insumos, considerados essenciais para a economia de baixo carbono e para a indústria de alta tecnologia.

O CNPE, presidido pelo ministro de Minas e Energia, Alexandre Silveira, atua como órgão de assessoramento da Presidência da República na formulação de políticas públicas para os setores de energia e mineração. O colegiado reúne representantes de diversos ministérios e coordena as diretrizes estratégicas da área.

Como parte dessa estratégia, o governo prepara a publicação do Plano Nacional de Mineração (PNM) 2050, documento que reúne orientações para investimentos, regulação, pesquisa mineral e sustentabilidade. A expectativa é que o plano seja divulgado entre esta sexta-feira e sábado. Após sua publicação, um documento complementar deverá detalhar as ações necessárias para atingir as metas estabelecidas, no prazo de até 180 dias.

A discussão sobre minerais críticos ganhou ainda mais relevância diante da crescente disputa internacional pelo acesso a esses recursos. Em abril deste ano, a mineradora Serra Verde, localizada em Goiás e considerada a única operação fora da Ásia capaz de produzir em escala os quatro principais elementos magnéticos de terras-raras, foi adquirida pela empresa americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões.

Lula tem defendido que o Brasil está disposto a negociar acordos de exploração mineral com os Estados Unidos, mas mantém a posição de que o país continuará aberto a investimentos provenientes de outras nações, preservando uma estratégia de diversificação de parceiros no setor mineral.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

Movimento de 1932 foi contrarrevolução da elite paulista contra direitos dos trabalhadores, diz historiadora

O feriado de 9 de julho marca a chamada Revolução Constitucionalista de 1932, quando a oligarquia paulista decidiu se insurgir contra Getúlio Vargas. Houve luta armada e esse processo, que deixou 2.100 mortos, é reverberado pela memória de muitos como ato heroico.

Contudo, outras camadas dessa história mostram, na verdade, que o movimento foi uma contrarrevolução por parte das elites paulistas contra a ampliação de direitos mínimos aos trabalhadores e trabalhadoras. A historiadora Jullyana Luporini de Souza destrincha estes aspectos no livro Revolução e Contra-Revolução: a burguesia industrial paulista e o governo Vargas (Maria Antonia Edições, 2025).

O movimento contrarrevolucionário começa, na realidade, com a deposição de Washington Luís em 1930 – que sepulta de vez a República Oligárquica, representada pela elite cafeeira de São Paulo e Minas Gerais – e a nomeação de Getúlio Vargas como líder do governo provisório.

Vargas começa um processo de centralização do poder. Uma das decisões é criar o Ministério do Trabalho, que passaria a ser responsável por mediar as relações entre empregador e empregado.

É justamente a elite agrícola paulista que, dois anos depois, se alia à burguesia industrial de São Paulo para tentar retomar esse domínio. Em conversa com o BdF Entrevista, Souza explica que, apesar das origens distintas, os dois blocos vão se unir contra o novo “inimigo comum”: as camadas populares.

“A gente vê uma heterogeneidade nessa formação dessa burguesia industrial paulista, que faz com que eles até tenham uma dificuldade de se posicionar ideologicamente. Só que daí, em momentos de grande tensão, em 1932, eles assumem um discurso exatamente igual ao discurso e à posição da burguesia cafeicultora, dos importadores, dos comerciantes com dinheiro. O que une todos eles é a aversão a qualquer tipo de mobilização da classe trabalhadora que possa trazer uma democracia mais ampliada”, explica, adicionando que este tipo de união das elites “é uma constante na história do Brasil”.

Os primeiros anos de Vargas no poder são marcados por grande ebulição social. “Existe uma tentativa de entender que esses operários fabris, essa classe operária, estão no cenário político e precisam ser representados. É uma ideia que não tem anteriormente. E daí, nesse momento, obviamente, é uma boa conjuntura para as pessoas se mobilizarem. Então a gente tem o avanço de greves. A classe operária percebe que tem a possibilidade de negociar, e isso para a burguesia é inconcebível”, avalia.

Por isso, a historiadora define o levante de 1932 como uma contrarrevolução. “A gente está vivendo um período de modificações muito importantes, inclusive nessa relação entre capital e trabalho. O governo Vargas, principalmente nesse período do governo provisório, não é um governo popular; enfim, ele tem os interesses próprios dele. É uma disputa de poder, uma disputa de hegemonia que está ocorrendo ali”, explica.

<><> ‘Cara do sistema’

Nesse sentido, Jullyana Luporini de Souza também reflete sobre o epíteto que Getúlio Vargas acabou carregando de “pai dos pobres”. Embora ostente em seu currículo ações práticas na direção dos trabalhadores, como a Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT), a verdade, como aponta a historiadora, é que Vargas era um “cara do sistema” e que, desde o governo provisório, trabalhou no sentido de se articular e realizar mediação com as elites.

Souza também analisa um possível paralelo entre os movimentos de 1932, o golpe civil-militar que instaurou a ditadura em 1964, e o golpe institucional em 2016 contra a presidenta Dilma Rousseff: em todos esses momentos, houve protagonismo das elites e da manutenção do discurso reacionário. No caso do contexto paulista, a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) aparece em todos esses momentos históricos.

“É muito interessante, porque a gente vê que as pautas, às vezes, continuam as mesmas. Mesmo nessa questão do fim da escala 6×1, você vai ver o empresariado, não só o paulista, outras associações. Mas eu acho que a Fiesp tem um papel também bastante crucial, porque ela realmente é uma federação que tem uma importância histórica, pelo tamanho da indústria em São Paulo. Só que são os mesmos discursos, não muda muito”, pondera.

•        Saiba por que via da Zona Leste de SP homenageia líder socialista que combateu fascismo. Por Raissa Neves

Quem transita pela atual Avenida Marechal Tito, uma das mais movimentadas da Zona Leste de São Paulo, não imagina as histórias por trás dessa via, e como ela acabou ganhando o nome de um importante líder socialista, combatente antifascista e herói da Segunda Guerra Mundial.

Em 8 de setembro de 1980, a antiga Estrada Velha São Paulo–Rio foi oficialmente renomeada como Avenida Marechal Tito, em homenagem a Josip Broz Tito, líder político e militar da antiga Iugoslávia.

A decisão de mudar o nome da avenida foi tomada pela  Prefeitura de São Paulo por meio do Decreto nº 16.880, de 9 de agosto de 1980, durante a gestão do prefeito Reynaldo Emygdio de Barros.

<><> Líder da Iugoslávia

Nascido em 7 de maio de 1892, na atual Croácia, Tito ganhou destaque durante a Segunda Guerra Mundial ao liderar a resistência iugoslava contra a ocupação nazista.

Após esse período, e devido ao seu papel na luta contra os invasores, ele assumiu a Presidência da Iugoslávia e permaneceu no poder por mais de três décadas, até a sua morte, em maio de 1980, tornando-se uma das principais lideranças políticas do século 20.

Ele é lembrado por manter a unidade da Iugoslávia apesar das diferenças étnicas e regionais entre seus povos. Seu falecimento marcou o início de um processo de enfraquecimento do país, que anos depois acabaria se fragmentando.

<><> Trajeto

Atualmente, a Avenida Marechal Tito tem início na Praça Padre Aleixo Monteiro Mafra e é um dos principais corredores de comércio, transporte e circulação da Zona Leste.

O percurso acompanha a própria expansão da cidade de São Paulo, preservando marcas de diferentes períodos da história brasileira, desde os caminhos coloniais até a formação da metrópole contemporânea.

Em outros tempos, esse trajeto passava por regiões como São Miguel Paulista, Itaim Paulista e seguia até Jacareí.

Antes de receber o nome atual, em 1980, a via era conhecida como Estrada Velha São Paulo–Rio, tem origem em antigos caminhos utilizados desde o período colonial para ligar a capital paulista ao Rio de Janeiro e desempenhou papel importante na integração entre as duas cidades.

O apelido surgiu porque a rodovia aproveitava rotas históricas utilizadas por viajantes durante o período imperial. Ademais, registros históricos indicam que Dom Pedro I também percorreu esse caminho.

A história da estrada está ligada ao projeto de modernização das rodovias paulistas iniciado pelo então governador Washington Luís. Em 1920, foram iniciadas obras para melhorar a ligação terrestre entre São Paulo e Rio de Janeiro, culminando na inauguração da Estrada São Paulo–Rio, em 1928.

Mapas produzidos pela empresa SARA Brasil, em 1928, demonstram a relevância da estrada para a ocupação e o desenvolvimento da zona leste da capital. Ao longo das décadas, a via se consolidou como um importante eixo de circulação e crescimento urbano da região.

Além de sua relevância histórica, a Avenida Marechal Tito desempenhou papel fundamental no desenvolvimento urbano do extremo leste da capital paulista.

Ao longo das décadas, a via se consolidou como o principal eixo de circulação do Itaim Paulista, conectando bairros, serviços e equipamentos públicos em uma região marcada pelo rápido crescimento populacional e pela expansão de loteamentos residenciais.

Estudos urbanísticos apontam que a avenida também se tornou um importante corredor comercial e de transporte, concentrando atividades econômicas e facilitando o acesso da população à estação da CPTM, escolas, unidades de saúde e centros de compras.

Sua importância é tamanha que o Plano Regional Estratégico da região prevê a integração da Marechal Tito a projetos de mobilidade, áreas verdes e parques lineares, reforçando seu papel como uma das principais artérias da Zona Leste paulistana.

 

Fonte: Por Lucas Estanislau e Maria Teresa Cruz, em Brasil de Fato/Opera Mundi

 

Nova combinação reduz em 60% risco de volta do câncer de bexiga

Dois novos estudos apontam que a combinação de dois medicamentos utilizada antes e após a cirurgia de retirada da bexiga, em casos de câncer, mostrou uma redução de aproximadamente 60% no risco de recorrência tumoral, progressão ou morte.

A combinação passou a ser aprovada pela Anvisa para o uso perioperatório em pacientes inelegíveis à cisplatina, medicamento quimioterápico, no Brasil.

As análises feitas pela Pfizer estudam o tratamento para o câncer de bexiga, que é o nono tipo mais comum no mundo, com mais de 614 mil novos casos diagnosticados todos os anos, com dados que podem mudar a abordagem da doença depois de 20 anos com o mesmo padrão de tratamento. 

<><> O primeiro estudo avalia o uso da combinação e a taxa de redução de recorrência

Um dos estudos avaliou pacientes com câncer de bexiga que precisaram retirar a bexiga por cirurgia e que não podiam receber a quimioterapia padrão à base de cisplatina. Os pesquisadores compararam os resultados de quem foi submetido apenas ao procedimento com os de pacientes que receberam a combinação dos medicamentos enfortumabe vedotina (Padcev) e pembrolizumabe antes e depois da operação.

Os resultados mostraram que a combinação reduziu em cerca de 60% o risco de o câncer voltar, evoluir ou causar a morte do paciente. O risco de morte também foi aproximadamente 50% menor em comparação com a cirurgia isolada.

Após dois anos de acompanhamento, 74,7% dos pacientes que receberam os dois medicamentos continuavam sem sinais de progressão da doença. O estudo também apontou uma resposta patológica completa em cerca de 57% dos casos, índice superior ao observado entre os pacientes tratados apenas com cirurgia, que foi de aproximadamente 9%.

<><> Outro estudo estudou a atuação da combinação em pacientes com um câncer avançado

Já o segundo, que abrangeu 886 pacientes com carcinoma urotelial, tipo mais comum de câncer do trato urinário, avançado ou metastático não tratado, aptos à quimioterapia e sem exposição prévia a inibidores de PD-1/PD-L1.

Ele avaliou que pacientes com o câncer avançado, mostraram uma taxa de resposta de 67,5% com a combinação, em comparação com 44,2% com quimioterapia, além de uma taxa de resposta de 30,4%.

<><> Aprovação da combinação no Brasil

“Os resultados apresentados nos estudos EV-303 e EV-302 reforçam o potencial da combinação de enfortumabe vedotina com pembrolizumabe em diferentes etapas da jornada do câncer urotelial, desde a doença músculo-invasiva até o cenário localmente avançado ou metastático. São dados que contribuem para ampliar a discussão científica sobre novas possibilidades terapêuticas com potencial de impactar desfechos relevantes para os pacientes”, ressaltou Adriana Ribeiro, diretora médica da Pfizer Brasil.  

No Brasil, o uso combinado de 'enfortumabe vedotina' e 'pembrolizumabe' já está aprovado pela Anvisa para pacientes adultos com câncer urotelial localmente avançado ou metastático. Já o uso perioperatório da combinação em pacientes com câncer de bexiga músculo-invasivo inelegíveis à cisplatina acaba de ser aprovado para essa população.

•        Câncer de endométrio: novo tratamento mostra potencial de cura; entenda

A biofarmacêutica GSK, apresentou os resultados de quatro anos de sobrevida global do estudo fase 3 RUBY durante no Encontro Anual da Sociedade de Oncologia Ginecológica, a SGO 2026, em San Juan, Porto Rico.

Esta é a análise mais longa entre os estudos de fase 3 com imunoterapia para o tratamento de primeira linha do câncer de endométrio avançado/recorrente.

O estudo evidenciou que 72,8% das pacientes com câncer de endométrio primário avançado ou recorrente em tratamento com dostarlimabe em combinação com quimioterapia estavam vivas após 4 anos, em comparação com 40,3% das pacientes em uso de quimioterapia.

Além disso, houve uma redução de 66% do risco de progressão ou morte, em comparação com quimioterapia isolada. O câncer de endométrio é o sexto mais incidente entre as mulheres no Brasil, com 9.650 casos estimados para o ano de 2026.

Cerca de 32% dos casos são diagnosticados em estágio avançado, com prognóstico desfavorável, visto que somente 22% das pacientes estarão vivas em 5 anos.

Dentre as pacientes, cerca de 30% apresentam dMMR (Deficiência do Reparo de Incompatibilidade de DNA), sendo candidatas ideais ao tratamento com imunoterapia. Entretanto, há mais de uma década, o padrão de tratamento em primeira linha para câncer de endométrio primário avançado ou recorrente é a quimioterapia, mesmo com sobrevida global mediana sendo inferior a 3 anos.

“A apresentação [do estudo] representa um avanço significativo no paradigma de tratamento para o câncer de endométrio primário avançado ou recorrente dMMR/MSI-H, sendo até então o único ensaio clínico com o maior tempo de acompanhamento nessa indicação a mostrar um benefício de sobrevida global clinicamente relevante e estatisticamente significativo, com controle duradouro da doença", comenta Angelica Nogueira Rodrigues, oncologista e atual diretora de planejamento do Grupo Brasileiro de Tumores Ginecológicos (EVA).

Segundo ela, "os resultados a longo prazo do uso de imunoterapia em combinação com quimioterapia nessa população desafiam o prognóstico desfavorável da doença, trazendo novas perspectivas com potencial de intenção de cura para algumas pacientes”.

O benefício de sobrevida livre de progressão se manteve durante os quatro anos. Deu pra ver que a curva de sobrevida parou de cair por um tempo, como um “platô”.

Nesse período extra de dois anos e meio desde a última análise do estudo RUBY, só aconteceram quatro casos de progressão em quem recebeu dostarlimabe junto com quimioterapia — o que mostra que a doença ficou controlada por bastante tempo.

Também foi possível observar pelo estudo que as estimativas de sobrevida condicional melhoram a cada ano em que os pacientes permanecem vivos, oferecendo uma alternativa relevante com probabilidade de sobrevida a longo prazo.

“Os resultados de 4 anos de sobrevida global nos deixam ainda mais confiantes do potencial de dostarlimabe em combinação com quimioterapia para o tratamento de uma doença que tem um prognóstico tão desfavorável quando descoberta em estágio avançado, trazendo uma nova perspectiva para pacientes pelo significativo potencial para intenção curativa. Esses achados reforçam o propósito da GSK na oncologia de liderar resultados transformadores no tratamento do câncer”, reforça Tatiana Pires, líder médica de Oncologia na GSK Brasil.

Em comparação com estudo anteriores, não foi observado nenhum novo sinal de segurança, e as incidências de eventos adversos relacionados ao tratamento foram baixas no seguimento de longo prazo. Os cinco eventos adversos relacionados ao tratamento de qualquer grau mais comuns no braço dostarlimabe em combinação com quimioterapia versus quimioterapia isolada incluíram alopecia, fadiga, náusea, neuropatia periférica e artralgia.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Julimar Roberto: O fascismo troca de roupa, mas não de projeto

As eleições se aproximam e, mais uma vez, a extrema direita começa a se apresentar com voz mansa, roupa nova e discurso aparentemente simples. Diz que quer ordem. Diz que quer liberdade. Diz que quer proteger a família, combater o crime, acabar com a corrupção e devolver ao povo tudo aquilo que eles mesmos teriam roubado de nós. O truque é antigo. A fantasia muda, mas o personagem continua sendo o mesmo lobo travestido de cordeiro.

Mas essa situação não é um privilégio do Brasil. Na América Latina, esse roteiro tem se repetido com uma regularidade preocupante. Em países marcados pela desigualdade, pela violência, pela precarização da vida e pelo descrédito nas instituições, a extrema direita não chega oferecendo um projeto de futuro. Chega oferecendo um atalho. E todo atalho autoritário começa prometendo eficiência, coragem e limpeza moral. Foi assim que o fascismo se apresentou em outros momentos da história — não como barbárie assumida desde o primeiro dia, mas como promessa de salvação nacional. Primeiro inventa inimigos, depois transforma o medo em política e, por fim, tenta convencer a sociedade de que a democracia é lenta demais para resolver seus problemas.

O problema é que, por trás das palavras fáceis, quase sempre está escondido o mesmo pacote de menos direitos, mais repressão, menos Estado para proteger os pobres, mais Estado para vigiar e punir os pobres. Falam em liberdade, mas atacam professores, artistas, jornalistas, sindicatos, movimentos sociais, mulheres, povos indígenas, população negra, migrantes e qualquer pessoa que ouse discordar. Falam em pátria, mas se ajoelham diante dos interesses do mercado financeiro e de potências estrangeiras. Falam em povo, mas governam para poucos privilegiados.

A extrema direita latino-americana entendeu algo perigoso, que a política do medo dá voto. O medo da violência. O medo do desemprego. O medo da mudança. O medo do outro. O medo do futuro. Por isso, ela não precisa necessariamente apresentar soluções reais. Basta transformar angústias legítimas da população em raiva direcionada contra inimigos fabricados.

Para eles, quando falta segurança pública, a resposta é sempre mais prisão, mais arma, mais confronto e menos educação. Quando falta emprego decente, a resposta é sempre cortar direitos trabalhistas em nome de uma prosperidade que nunca chega para quem vive de salário. Quando falta confiança nas instituições, a resposta é atacar o Judiciário, a imprensa, o Congresso, as universidades e qualquer espaço de mediação democrática. Quando a vida fica mais difícil, a culpa nunca é da concentração de renda, das disparidades sociais, da exploração do trabalho ou das elites que lucram com a crise. A culpa é sempre de algum inimigo conveniente.

É assim que o autoritarismo tenta se reciclar. Ele já não aparece, necessariamente, com farda, tanque na rua e discurso assumido contra a democracia. Agora, muitas vezes, aparece com live, meme, slogan, dancinha, estética jovem, fala indignada e promessa de “passar o país a limpo”. Mas a essência continua a mesma, reduzir a complexidade do mundo a uma guerra permanente entre “cidadãos de bem” e “inimigos internos”.

Essa divisão interessa a quem não tem compromisso real com a população e o país. Porque um povo com medo aceita perder direitos em troca de uma falsa sensação de proteção, de segurança. Um povo exausto pode ser convencido de que o problema é o vizinho, o imigrante, a mulher feminista, o jovem da periferia, o sindicato, o professor, o artista ou o ministro do Supremo. Enquanto isso, os verdadeiros algozes seguem intocados.

A democracia, com todos os seus limites, incomoda justamente porque abre espaço para conflito social organizado. Nela, trabalhador e trabalhadora podem reivindicar. Movimento popular pode ocupar as ruas. Sindicato pode denunciar. Jornalista pode investigar. Universidade pode produzir pensamento crítico. O voto pode mudar governos. A praça pode virar assembleia. A palavra pode circular.

Por isso, a extrema direita não precisa acabar com a democracia de uma vez. Basta esvaziá-la por dentro. Basta transformar eleição em guerra santa, adversário em criminoso, imprensa em inimiga, Justiça em conspiração, direitos humanos em privilégio e política social em gasto inútil. Quando se percebe, a democracia continua tendo calendário eleitoral, mas já perdeu parte de sua alma.

A esquerda brasileira precisa olhar para esse fenômeno sem ingenuidade. Não basta repetir que a extrema direita é perigosa. É preciso disputar o sentido da vida concreta. A segurança pública não pode ficar nas mãos de quem só oferece violência. A família não pode ser usada como discurso por quem nega comida, moradia, escola, saúde e tempo de convivência. A liberdade não pode ser sequestrada por quem defende patrão livre para explorar e trabalhador preso à necessidade. A pátria não pode ser bandeira de quem entrega a soberania do país e chama submissão de patriotismo.

A resposta democrática precisa ser firme, popular e enraizada. Firme para não normalizar golpismo, mentira e violência política. Popular para falar com quem pega ônibus lotado, paga aluguel caro, teme a violência no bairro, cuida dos filhos, vive de bico, trabalha seis dias por semana e já não aguenta promessas vazias. Enraizada porque não se enfrenta o fascismo apenas com nota pública, postagem bonita ou indignação de ocasião. Enfrenta-se com organização, presença nos territórios, escuta real e coragem de apresentar um projeto de país.

A extrema direita cresce quando a esperança desaparece. Cresce quando a política parece distante. Cresce quando a democracia vira apenas palavra de cerimônia e deixa de ser percebida como comida na mesa, salário digno, escola funcionando, posto de saúde aberto, transporte decente, cultura viva, proteção contra a violência e tempo para viver.

Por isso, defender a democracia hoje não é defender uma abstração. É defender a possibilidade do povo decidir seu destino sem medo, sem cabresto, sem manipulação e sem chantagem. É defender que a segurança pública seja construída com inteligência, prevenção, justiça social e enfrentamento ao crime organizado, não com espetáculo de sangue. É defender que desenvolvimento não seja sinônimo de retirada de direitos, mas de distribuição de oportunidades. É defender que a liberdade seja para todos, todas e todes, não apenas para os mais fortes.

As eleições que se aproximam serão mais do que uma disputa entre nomes. Serão uma disputa entre projetos de sociedade. De um lado, a política do medo, da punição, do ressentimento e da submissão ao dinheiro. De outro, a difícil, mas necessária, tarefa de reconstruir esperança, direitos, soberania e participação popular.

O lobo vem aí outra vez. Vem sorrindo. Vem falando em Deus, pátria, família, ordem ou prosperidade. Vem prometendo soluções rápidas para dores profundas. Mas a história ensina que quando o autoritarismo bate à porta dizendo que veio trazer a salvação, é o povo quem primeiro paga a conta.

A democracia não está garantida. Ela precisa ser defendida antes que seja tarde. E, sobretudo, precisa voltar a fazer sentido na vida de quem mais precisa dela.

¨      A extrema direita e a fábrica de cliques falsos. Por Renata Souza

Vivemos uma disputa política que também acontece nas redes sociais. Um levantamento recente do Instituto Nexus, divulgado pelo G1, mostra que parlamentares da direita e da extrema direita concentram mais da metade das interações entre os 15 deputados federais com maior presença digital do Brasil.

É um dado importante, que revela a força da comunicação digital na política. Mas também nos obriga a fazer uma pergunta: o que, de fato, está por trás desses números? Interação não é sinônimo de credibilidade e alcance não é prova de compromisso com a verdade.

As redes sociais são organizadas por algoritmos que premiam o conteúdo que provoca medo, revolta e indignação. E é justamente nesse ambiente que a extrema direita construiu, ao longo dos últimos anos, uma poderosa máquina de desinformação. Não se trata apenas de comunicar melhor. Trata-se, muitas vezes, de produzir mentiras, alimentar discursos de ódio e utilizar estruturas organizadas para amplificar artificialmente conteúdos por meio das chamadas “fazendas de cliques” e de redes coordenadas de perfis.

Esse modelo não fortalece a democracia. Pelo contrário, ele corrói a confiança nas instituições, ataca a imprensa, desumaniza adversários políticos e transforma a mentira em ferramenta eleitoral. Não é coincidência que inúmeras investigações e estudos tenham identificado a extrema direita como protagonista na circulação sistemática de fake news no Brasil. O objetivo nunca foi ampliar o debate público, mas manipular percepções e fabricar consensos.

Nós, da esquerda, não podemos cair na armadilha de disputar esse terreno reproduzindo os mesmos métodos. Nosso compromisso precisa continuar sendo com a verdade, com a ética e com a construção de um diálogo que organize o povo para defender seus direitos. Isso exige ocupar as redes com inteligência, criatividade e linguagem popular, sem abrir mão dos princípios que nos trouxeram até aqui.

A democracia não se fortalece quando uma mentira viraliza. Ela se fortalece quando a população tem acesso à informação de qualidade, consegue formar sua própria consciência crítica e participa da política de forma livre e informada. A luta contra a desinformação não é uma disputa de narrativas. É uma defesa da própria democracia. E essa batalha não pode ser perdida para quem transforma o ódio, a mentira e a manipulação em estratégia permanente de poder.

¨      Como derrotar os algoritmos neonazistas. Por Jair de Souza

Há quase um consenso entre os analistas do panorama político brasileiro de que os Estados Unidos de Donald Trump vão jogar pesado no próximo pleito eleitoral brasileiro, de modo a garantir a eleição de um candidato bolsonarista, ou de algum outro que lhe seja equivalente em entreguismo e subserviência aos interesses gringos.

As maiores dúvidas ainda não respondidas referem-se às formas que serão empregadas neste mais que provável processo de interferência. A respeito desta questão, vou tecer algumas reflexões, com a esperança de que possam lançar um pouco de luz na escuridão em que estamos submetidos.

Devido aos reveses sofridos nas últimas décadas pelo imperialismo estadunidense em várias esferas de atuação e zonas geográficas, os responsáveis por suas formulações políticas tomaram a decisão de se aferrar com unhas e dentes a esta região do planeta que consideram como parte integrante de seu próprio quintal. E, com isto, estão referindo-se ao Continente Americano, em especial à América Latina e ao Caribe.

Não obstante seja verdade que os Estados Unidos tenham sempre interferido nesta região com vista a fazer valer seus desígnios, na presente administração neonazista de Donald Trump, foram abandonados todos os pruridos de outrora, e já não há nenhum receio em escancarar publicamente suas intenções intervencionistas.

A confirmação disto pode ser obtida por meio de um breve repasso dos recentes processos eleitorais que tiveram lugar nesta região, ou seja, os casos referentes à Argentina, a Honduras, ao Equador, à Bolívia, ao Peru e à Colômbia. Em todas essas situações, a influência da aparatagem estadunidense esteve muito presente, contribuindo decisivamente para produzir a vitória de seus obedientes aliados.

Entretanto, dentre todas as artimanhas utilizadas pelas hostes pró-imperialistas nessas contendas, a de maior impacto e relevância parece ter sido a exercida pelos conglomerados que controlam as redes sociais de comunicação digital, através da manipulação de seus algoritmos.

Não podemos nos esquecer que todos os gigantescos conglomerados que exercem o domínio da comunicação digital via internet em todo o planeta, as conhecidas Big Techs, estão na primeiríssima linha de frente dos principais propulsores do imperialismo estadunidense em sua etapa atual. Uma simples olhadinha nas fotos da cerimônia da assunção de Trump à chefia do governo deixará esta realidade bem evidenciada.

Como sabemos, é impossível erradicar uma doença sem que tenhamos ciência do funcionamento de seus elementos patogênicos. Por isso, só teremos condições de combater e eliminar os riscos destrutivos da manipulação algorítmica pelos representantes e agentes do imperialismo, se entendermos suas formas de agir e contaminar suas vítimas.

Mas, avanços científicos não implicam necessariamente em maior humanitarismo por parte de quem deles se utiliza. Há quase um século, as correntes de pensamento mais retrógradas, monstruosas e malignas têm estado na dianteira quanto ao emprego prático dos progressos tecnológicos nos meios de comunicação. Tanto assim que a invenção e consolidação do uso do rádio e, posteriormente, da televisão serviram para expandir e alastrar a força da mensagem cavernária dos tele-evangelistas, primeiro nos Estados Unidos e, de lá, no resto do mundo.

Porém, se os ativistas do campo popular sempre estiveram em inferioridade na disputa comunicacional contra as classes dominantes, agora, a coisa ficou ainda mais complicada. É que, na fase em que o rádio e a televisão constituíam os principais instrumentos de divulgação, nossa grande desvantagem era não dispor de recursos equivalentes para fazer que nossa mensagem também chegasse ao povo.

No entanto, diferentemente das expectativas iniciais, com o advento e massificação da internet, chegamos à conclusão de que não basta poder emitir nossas mensagens livremente. A questão vital passou a ser de outra índole: a quem elas serão transmitidas? Ou seja, embora todos possamos nos expressar do jeito que quisermos, são as corporações controladoras das plataformas, as quais, através de seus algoritmos, determinarão quem irá ou não ter acesso às mesmas.

Em razão de seu imenso controle de nossa atividade nas redes, esses conglomerados sabem quase tudo sobre quase todos (nossos gostos, nossas broncas, nossos costumes, nossa visão política, etc.). Então, vão enviar a cada qual aquilo que sabem que pode impactá-lo da maneira que eles desejam que impacte.

Por exemplo, como sabem que as pessoas detestam a corrupção, procurarão enviar a elas todas as mensagens que acusam de corruptos aqueles que são desafetos dos interesses do imperialismo. Por outro lado, evitarão fazer circular os atos reais de corrupção praticados por gente que consideram aliada.

Como cada qual recebe as mensagens em conformidade com sua visão de mundo, os ativistas do campo popular não sabem o que está sendo enviado para a imensa parcela de nossa população que ainda não participa do debate político. Em decorrência, como tem acontecido, vez por outra, somos surpreendidos pela vinda à tona de certas figuras ultrarreacionárias que nos eram completamente desconhecidas. Que os pablos marçais da vida nos desmintam!

Em sintonia com o visto no parágrafo anterior, a recente eleição realizada na Colômbia pode ajudar-nos a entender a dimensão do problema. Ali, o candidato que acabou sagrando-se vencedor era inteiramente desconhecido no mundo da luta política até as vésperas do pleito eleitoral. Na verdade, era desconhecido por aqueles que lutavam pelas causas populares, mas não pelos que haviam sido mantidos alheios a essa conscientização. E foram essas as vítimas preferenciais da manipulação algorítmica, que propiciou a vitória do neonazista que defendia os interesses do grande capital.

Portanto, o que foi esboçado mais acima tem o propósito de alertar-nos para os grandes riscos que podemos correr nas vindouras eleições no Brasil. Como não detemos nem a propriedade nem o controle das grandes plataformas digitais, nossa dificuldade de operar através das mesmas vai ser sempre muito maior do que a que os inimigos do povo enfrentam, já que os donos desses conglomerados e as forças políticas da extrema direita neonazista-bolsonarista são partes de um todo,

Assim, além de nos desdobrarmos no indispensável trabalho de comunicação digital, precisamos ter consciência de que nossa presença pessoal, real e ativa, ao lado das comunidades às quais queremos servir, torna-se um fator de máxima relevância. Somente por meio de nossa inserção e multiplicação no seio de nosso povo nos será possível cortar a cabeça do dragão neonazista que pretende reescravizar nossa nação.

 

Fonte: Brasil 247

 

O populismo de direita não acabou com o neoliberalismo

O neoliberalismo muitas vezes passa despercebido, mesmo estando à vista de todos. Seus defensores raramente se identificam como tal; o historiador Philip Mirowski o descreveu com perspicácia como o movimento que não ousa pronunciar o próprio nome. Seus apoiadores frequentemente sugerem que ele nunca existiu, exceto como um termo pejorativo cunhado pela esquerda. Recentemente, o economista Branko Milanovic foi além, argumentando que o neoliberalismo está morto, partindo da premissa de que a era da globalização — fundada no cosmopolitismo e na competição internacional — deu lugar a um mundo marcadamente protecionista e nacionalista.

No entanto, o erro nesse diagnóstico reside em identificar o neoliberalismo com a globalização ou o livre comércio. Estes foram meros instrumentos de política econômica, não sua característica definidora. Sua verdadeira matriz conceitual sempre foi a subordinação da política democrática à racionalidade de mercado e a proteção institucional do capital contra as demandas populares. Sob essa perspectiva, a ascensão do populismo de direita não marca o fim do neoliberalismo, mas sim uma de suas mutações mais recentes.

É verdade, como aponta Milanovic, que o antigo discurso do livre comércio e da integração cosmopolita já não descreve o comportamento das grandes potências. Os Estados Unidos e a Europa recorrem hoje a tarifas, subsídios, sanções, políticas industriais e controles geopolíticos com uma franqueza que pareceria implausível há poucas décadas. A reação política contra a desindustrialização, a desigualdade e as crises financeiras é real. Mas isso não significa que o neoliberalismo tenha chegado ao fim. Devemos ser cautelosos quanto ao alcance dessa mudança: a verdade histórica é que o Ocidente — e especialmente os Estados Unidos — jamais abandonou a política industrial. Na prática, a intervenção estatal em setores estratégicos tem sido uma constante macroeconômica, por mais que tenha sido sistematicamente negada retoricamente. É crucial distinguir o neoliberalismo dos slogans com os quais é frequentemente promovido. Não se trata de uma redescoberta da antiga doutrina do laissez-faire do liberalismo clássico, nem de um simples movimento político. Seu fundamento analítico repousa na economia neoclássica moderna; sobretudo, na premissa de que os mercados são mecanismos superiores para a coordenação da vida social e que as falhas do Estado são, por definição, mais perigosas do que as falhas de mercado. Essa distinção explica tanto a natureza do neoliberalismo quanto sua notável durabilidade. O sistema pode perfeitamente sobreviver ao abandono de agendas específicas — até mesmo do próprio livre comércio — desde que o mercado continue a operar como a norma soberana pela qual toda ação política é julgada, e o capital permaneça imune às demandas democráticas.

Para disfarçar a verdadeira natureza de suas ideias, os neoliberais recorrem a todo tipo de subterfúgio. Preferem se autodenominar “liberais clássicos”, “defensores da liberdade econômica” ou simplesmente “realistas” que entendem como os mercados funcionam. Tanto Milton Friedman quanto Friedrich Hayek — os porta-estandartes intelectuais do movimento — acabaram rejeitando o rótulo “neoliberal”. Ambos invocaram insistentemente a autoridade de Adam Smith, o pai da economia política, mas esse elo umbilical com o liberalismo clássico inicial sempre foi extremamente tênue. A Escola de Chicago absorveu o legado de Smith para impulsionar a ascensão do conservadorismo estadunidense: o mito do homem que se fez sozinho, o self-made man, as virtudes do empreendedor e os perigos do poder burocrático tornaram-se armas ideológicas (outro rótulo que Friedman rejeitou, apesar de ter sido o principal conselheiro do ultraconservador Barry Goldwater).

A narrativa neoliberal é rudimentar, mas eficaz: a sociedade prospera quando os indivíduos têm total liberdade para comprar, vender, investir e competir, enquanto o Estado permanece à margem. Essa narrativa tornou-se uma das batalhas culturais mais bem-sucedidas do último meio século. Fez com que a privatização soasse como libertação, a desregulamentação como modernização e os ataques aos sindicatos parecessem uma defesa legítima dos consumidores comuns. Em última análise, permitiu que transferências colossais de renda e poder para as camadas superiores da sociedade fossem apresentadas como o resultado neutro e objetivo de forças de mercado impessoais.

Adam Smith é frequentemente aclamado como o padroeiro do neoliberalismo e o apóstolo da “mão invisível”. No entanto, suas preocupações eram de natureza completamente diferente, moldadas por sua própria época histórica. Smith escreveu contra um mundo de privilégios aristocráticos, monopólios coloniais, restrições mercantilistas e resquícios feudais que sufocavam a ascensão da burguesia. Sua economia política focava na produção, na acumulação e na distribuição de renda entre as classes sociais. Para ele, salários, lucros e aluguéis não eram recompensas automáticas de um mercado perfeito, mas sim variáveis moldadas por relações sociais, instituições e conflitos. Smith defendeu a sociedade comercial porque intuía que a divisão do trabalho aumentaria a produtividade e corroeria os antigos sistemas de privilégio. Mas ele nunca formulou uma teoria demonstrando que os mercados levam inexoravelmente ao melhor resultado social possível, nem considerou o Estado uma entidade inerentemente ilegítima. Pelo contrário, atribuiu-lhe responsabilidades explícitas no âmbito de infraestrutura, educação, justiça e defesa. O liberalismo de sua época foi um ataque frontal contra uma ordem dominada por latifundiários, monopolistas e dinastias hereditárias. O neoliberalismo é outra coisa: não é uma revolta contra o privilégio, mas a defesa corporativa de novos privilégios associados à propriedade, às finanças, ao poder oligopolista e à liberdade do capital de se esquivar de qualquer controle democrático.

<><> Das classes sociais ao indivíduo: a virada neoclássica

A diferença torna-se clara ao examinarmos os fundamentos econômicos que sustentam cada escola de pensamento. A economia política clássica — de Smith e David Ricardo a Karl Marx — colocou a produção e a distribuição no centro de sua análise. Sua questão central era como as economias se reproduzem, como os lucros e os salários são distribuídos e como a acumulação transforma a estrutura social. Eles concebiam o capitalismo como um sistema permeado pelo conflito de classes, apesar de profundas divergências sobre se tal conflito era administrável ou desejável.

A revolução neoclássica subverteu a ordem estabelecida e alterou os termos do debate. Em vez de partir das classes sociais, da produção e da distribuição, adotou como axioma o indivíduo, suas preferências subjetivas e a escolha racional em um ambiente de escassez. Os preços passaram a ser vistos como meros sinais que coordenam decisões descentralizadas. Nesse modelo idealizado, os mercados alocam recursos com eficiência otimizada porque os indivíduos respondem a incentivos, e os preços carregam toda a informação necessária para orientar a produção e o consumo.

Curiosamente, essa estrutura conceitual não levou automaticamente a políticas neoliberais. Durante o século XX, grande parte da economia neoclássica serviu para justificar a intervenção pública. A economia do bem-estar social aceitou o modelo marginalista, mas demonstrou que os mercados frequentemente falham: monopólios distorcem preços, a poluição transfere custos para outros, bens públicos são negligenciados e o investimento privado muitas vezes é inferior às necessidades sociais. Nessa perspectiva, impostos, subsídios, regulamentações, investimento público e seguridade social melhoraram os resultados do mercado. O Estado não era o inimigo do mercado, mas seu corretor indispensável.

A virada neoliberal decisiva da Escola de Chicago (especialmente por meio das obras de Ronald Coase e George Stigler) consistiu em inverter os termos dessa premissa. A questão não era mais se os mercados falharam — um consenso claro —, mas se os governos poderiam ter um desempenho melhor. Eles argumentavam que as instituições políticas são capturadas por “interesses especiais”, que a burocracia busca apenas expandir seu próprio poder, que as agências reguladoras acabam dominadas pelas corporações que deveriam regular e que as demandas democráticas levam a gastos deficitários, inflação e desordem política. Essa estrutura transformou a doutrina das regulamentações antitruste. Figuras como Aaron Director (cunhado de Friedman), Stigler e seus discípulos Robert Bork e Richard Posner redefiniram o problema do monopólio: eles o afastaram da discussão sobre poder político e estrutura de mercado para subordiná-lo a um critério muito restrito: o padrão de bem-estar do consumidor. A partir desse momento, as megacorporações deixaram de ser consideradas perigosas simplesmente por concentrarem participação de mercado ou poder político. Para a Escola de Chicago, muitas dessas práticas corporativas eram soluções eficientes para as condições de concorrência. As empresas passaram a ser consideradas inocentes por definição, a menos que um impacto direto e prejudicial sobre os preços ao consumidor pudesse ser demonstrado, o que efetivamente paralisou a política antitruste por décadas. A conclusão intelectual foi clara: mesmo um mercado imperfeito é preferível a um governo que tenta corrigi-lo. A melhor regulação é aquela exercida pelas próprias corporações por meio de suas práticas de precificação. Este é o cerne ideológico do neoliberalismo: a tese central não é simplesmente que a iniciativa privada é eficiente, mas que o sistema de preços é o único mecanismo viável para organizar a sociedade, enquanto a ação coletiva por meio de instituições democráticas é inerentemente suspeita. O sistema de preços é soberano.

<><> A proteção constitucional do capitalismo

Nesse sentido, as contribuições de James M. Buchanan são fundamentais. Diferentemente de Friedman ou Hayek, que se concentraram em persuadir a opinião pública em relação às virtudes do mercado, Buchanan focou no desenho institucional. Seu objetivo era criar mecanismos constitucionais que protegessem o capitalismo das pressões democráticas, independentemente dos resultados eleitorais. Como demonstrou a historiadora Nancy MacLean, a escola da escolha pública (public-choice), liderada por Buchanan, dedicou-se a criar salvaguardas institucionais para restringir o escopo da deliberação democrática e limitar o controle social sobre o capital. Suas ferramentas preferidas: a independência dos bancos centrais, regras fiscais de déficit zero consagradas nas constituições e proteção judicial irrestrita da propriedade privada. O objetivo subjacente era tornar as maiorias populares impotentes.

Economistas austríacos, teóricos da Escola de Chicago e analistas do movimento Law and Economics (Direito e Economia) refinaram essa tese por meio de diversas abordagens. Alguns preferiam modelos matemáticos formais; outros os abominavam. Alguns exigiam um Estado mínimo; outros defendiam um Estado forte, capaz de impor disciplina competitiva com mão de ferro. Mas todos estavam unidos por uma crença comum: o mercado é a forma preferida de coordenação social; a política é a força que corrompe, distorce e destrói. Nesse contexto, Hayek ocupa um lugar especial. Seu argumento mais profundo contra a intervenção estatal era o de que nenhum planejador central pode possuir a informação fragmentada e dispersa detida por milhões de indivíduos. Os preços comunicam um volume de informação que nenhuma burocracia jamais conseguiria coletar ou processar. O mercado, segundo essa interpretação, não era apenas eficiente: era uma forma superior de inteligência social espontânea. Essa operação teórica foi devastadora porque conferiu ao mercado uma autoridade moral. Modificar preços por meio de regulamentações deixou de ser uma simples política de redistribuição de renda e tornou-se um ato sacrílego que desmantelou uma ordem superior de conhecimento. A democracia podia exigir melhorias, a classe trabalhadora podia se organizar e os eleitores podiam exigir justiça social; todas essas demandas foram descartadas como intrusões perigosas em um processo civilizatório supostamente mais sábio do que qualquer decisão coletiva. Por essa razão, o Estado neoliberal nunca foi concebido como um Estado fraco. Este é um de seus disfarces mais persistentes. O neoliberalismo não pede o desaparecimento do Estado; exige que ele reorganize a sociedade de cima a baixo para proteger o capital das pressões democráticas. O modelo requer tribunais rigorosos para fazer cumprir os contratos corporativos, bancos centrais independentes para disciplinar o trabalho e controlar a inflação, forças de segurança para proteger a propriedade privada, acordos de livre comércio para restringir as políticas nacionais de produção e instituições internacionais (como o FMI ou o Banco Mundial) para garantir a cobrança da dívida pública.

O neoliberalismo abomina os gastos sociais, mas não hesita em mobilizar o poder público quando se trata de resgatar bancos da falência, socializar prejuízos financeiros, reprimir greves, privatizar empresas estatais ou abrir novas vias de acumulação. É o que Quinn Slobodian chama de “encapsulamento” dos mercados: o estabelecimento de instituições técnicas que colocam a economia de mercado fora do alcance da soberania popular. Não deveria ser surpresa, portanto, que o neoliberalismo tenha historicamente estado intimamente ligado a regimes ditatoriais e autoritários. Seus primeiros experimentos em larga escala não ocorreram nas democracias parlamentares do Hemisfério Norte, mas sim no Cone Sul: no Chile de Pinochet, após o golpe de 1973, e na Argentina de Videla, após o golpe de 1976. Nesses países, programas-piloto de privatização, desregulamentação, políticas antioperárias e ortodoxia monetária foram implementados com brutalidade. A crise da dívida da década de 1980 forneceu a alavanca perfeita para universalizar essas políticas na América Latina e no Sul Global sob o rótulo técnico de Consenso de Washington. O ajuste estrutural foi vendido como uma medida de engenharia econômica, obscurecendo o fato de que se tratava de uma colossal transferência de poder político.

Essa é mais uma razão pela qual o neoliberalismo tem sido tão bem-sucedido politicamente: ele transforma decisões políticas em questões puramente técnicas. O debate não é mais sobre se os trabalhadores devem ter maior poder de negociação, mas sobre como permitir que os mercados de trabalho se ajustem de forma eficiente, o que na prática significa eliminar o poder dos sindicatos e promover maior flexibilidade. O dilema não é se os governos devem direcionar o crédito para habitação, infraestrutura ou indústria, mas se os funcionários públicos sabem mais do que os banqueiros. A discussão nunca gira em torno de se os serviços públicos são direitos universais, mas sim quais deles constituem bens públicos que os mercados não conseguem fornecer de forma eficiente. A encruzilhada não é se a riqueza deve ser tributada, mas se isso ameaçaria os empreendedores e distorceria os incentivos ao investimento. O efeito final dessa operação é o desaparecimento do conflito de classes. Nesse sistema, não existem mais trabalhadores e proprietários com reivindicações opostas em relação à renda e ao poder; restam apenas indivíduos tomando decisões isoladamente, empreendedores respondendo a incentivos, consumidores maximizando seu bem-estar e governos interferindo em um processo de auto-organização que, de outra forma, restauraria a ordem.

Nessa visão de mundo, o cidadão ideal não é um trabalhador com interesses coletivos, mas um empreendedor, ou mais precisamente, um empreendedor em potencial. O desempregado não é alguém que foi prejudicado pela economia, mas alguém que precisa se adaptar. A família endividada não está presa em um sistema de poder desigual, mas precisa aprender a ser financeiramente responsável. O trabalhador que exige melhores salários se torna uma ameaça à competitividade; o sindicato se transforma em um grupo de interesses corporativos ou extorsivos; o Estado de bem-estar social, em uma fábrica de dependência. O mito do empreendedorismo consegue explorar frustrações genuínas: diz às pessoas que elas não são impotentes, justamente quando as instituições que poderiam lhes garantir poder coletivo real estão sendo desmanteladas. Promete liberdade, reduzindo seu significado à mera liberdade de competir.

<><> As mutações do populismo de direita

É por isso que o populismo de direita contemporâneo não deve ser confundido com uma ruptura completa com o neoliberalismo. Tarifas, sanções e os ataques de Donald Trump à globalização são frequentemente apresentados como uma rejeição ao antigo consenso do livre mercado, mas a moral econômica subjacente permanece profundamente neoliberal. O empresário continua sendo o herói da narrativa. O governo é considerado legítimo apenas quando protege empresas nacionais, pune concorrentes estrangeiros ou remove obstáculos à acumulação privada. As tarifas são vendidas não tanto como um desafio aos mercados, mas como uma forma de restaurar uma suposta ordem de mercado justa contra estrangeiros corruptos, burocratas e elites globais. O mesmo se aplica, de forma mais geral, à nova política industrial, que — convém acrescentar — nunca foi totalmente abandonada nos Estados Unidos ou na Europa Ocidental. Os Estados podem subsidiar suas principais empresas nacionais, direcionar investimentos ou proteger certos setores; contudo, ainda consideram a rentabilidade, a competitividade, o valor para o acionista e os retornos privados como os critérios essenciais para o sucesso. O protecionismo, por si só, não é uma alternativa ao neoliberalismo, nem uma ampliação do Estado. Os Estados sempre intervieram nos mercados; a questão fundamental é se essa intervenção subverte a hierarquia social do poder ou simplesmente utiliza recursos públicos para garantir um capitalismo mais competitivo.

Duas decisões recentes da Suprema Corte dos EUA sobre a independência de agências reguladoras são simbólicas da persistência do neoliberalismo. Uma protege os funcionários nomeados do Federal Reserve (Fed) contra demissões, enquanto a outra permite intervenção semelhante na Comissão Federal de Comércio (FTC). A suposição implícita é que o Fed ocupa uma posição institucional única, cujo isolamento da política democrática é tanto desejável quanto necessário. A Corte, simultaneamente, expandiu o controle presidencial sobre agências como a FTC, preservando o status especial do Fed sob uma legislação específica. Trump desafiou aspectos do Estado administrativo do pós-guerra, mas nem o Judiciário nem grande parte da classe política questionaram o status constitucional e ideológico privilegiado do Federal Reserve. A decisão da Corte não apenas protege o Fed; ela reafirma a distinção neoliberal entre intervenção democrática aceitável — sobre agências reguladoras comuns — e intervenção inaceitável (sobre a política monetária). Isso é um forte indício de que, apesar da ascensão do populismo de direita, a ordem constitucional neoliberal provou ser notavelmente resiliente. O tribunal protege o Fed porque a disciplina monetária continua sendo fundamental para a ordem institucional neoliberal, mas submete a FTC mais diretamente ao controle presidencial, enfraquecendo a agência mais intimamente ligada à supervisão do poder corporativo. A assimetria é reveladora: o sistema bancário central está isolado da democracia, mas a aplicação das leis antitruste é enfraquecida. Este não é o fim do neoliberalismo, mas sim uma de suas mutações. O sistema funcionou para proteger as instituições que disciplinam os trabalhadores, ao mesmo tempo que reduziu a autonomia das instituições que poderiam disciplinar o capital.

O populismo de direita, que surgiu como resultado do sucesso do neoliberalismo e da incapacidade dos governos de centro-esquerda de romperem decisivamente com ele para lidar com as falhas de mercado que causou, não abandonou a lógica subjacente dos mercados livres. O projeto subjacente consistia em proteger o capital, enfraquecer a classe trabalhadora e isolar os mercados do controle democrático. O neoliberalismo não terminará simplesmente porque os governos impõem tarifas ou porque políticos nacionalistas denunciam a globalização. Ele terminará quando os Estados deixarem de tratar a racionalidade de mercado como a principal lógica de governança. Terminará quando o mito corporativo deixar de ser o modo dominante de se dirigir às pessoas e de governá-las. Isso exigirá que organizações pró-trabalhadores — partidos, sindicatos e organizações da sociedade civil — adquiram o poder estrutural necessário para confrontar o capital. Só então poderemos começar a construir uma sociedade em que o trabalho, a moradia, a saúde, a sobrevivência ecológica e a igualdade democrática não estejam subordinados à lógica do livre mercado.

 

Fonte: Por Matías Vernengo - Tradução Pedro Silva, em Jacobin Brasil