terça-feira, 18 de agosto de 2026

Amapá pode se tornar um dos estados mais prósperos e sustentáveis do Brasil com petróleo na Margem Equatorial

A descoberta de petróleo pela Petrobras na costa do Amapá abre a possibilidade de uma transformação econômica de grandes proporções em um dos estados ambientalmente mais preservados do Brasil. Se a presença de hidrocarbonetos na Margem Equatorial resultar em reservas comercialmente viáveis, os investimentos privados, a geração de empregos e, sobretudo, as futuras receitas públicas associadas à produção poderão oferecer ao estado uma oportunidade histórica: utilizar a riqueza do petróleo para elevar o desenvolvimento humano e, simultaneamente, preservar seu extraordinário patrimônio ambiental.

O desafio será converter uma riqueza finita, o petróleo, em ativos permanentes para as próximas gerações. Educação, saúde, saneamento, ciência e tecnologia, infraestrutura, energias renováveis e bioeconomia estão entre as áreas que poderiam receber recursos caso a exploração avance para a produção comercial. Essa estratégia permitiria ao Amapá perseguir um modelo no qual prosperidade e preservação ambiental não sejam objetivos contraditórios.

A dimensão ambiental desse desafio é particularmente relevante. Dados divulgados pelo Ministério do Meio Ambiente já apontaram que o Amapá mantém mais de 90% de sua vegetação, sendo que 72% do território estava protegido sob a forma de unidades de conservação e terras indígenas. Trata-se, portanto, de um estado que parte de uma condição ambiental excepcional para discutir como uma eventual riqueza petrolífera poderá financiar um novo ciclo de desenvolvimento.

<><> Petróleo pode financiar salto no desenvolvimento humano

A descoberta na Margem Equatorial cria uma oportunidade que vai muito além da indústria de óleo e gás. Se forem confirmadas reservas comercialmente exploráveis, a questão central será como transformar a renda extraordinária gerada pelo petróleo em melhoria efetiva das condições de vida da população.

Royalties e outras receitas petrolíferas podem financiar investimentos estruturantes em educação básica e técnica, universidades, hospitais, atenção primária à saúde, saneamento, habitação, mobilidade, conectividade digital e infraestrutura logística.

O objetivo estratégico poderia ser claro: usar o petróleo para elevar o IDH do Amapá e preparar sua economia para o período posterior ao petróleo.

Essa transformação exigiria planejamento de longo prazo. Recursos extraordinários provenientes de commodities podem gerar desenvolvimento quando são investidos em capital humano e infraestrutura, mas também podem criar dependência fiscal e econômica quando utilizados predominantemente para financiar despesas permanentes.

Por isso, uma eventual nova riqueza petrolífera permitiria ao Amapá discutir mecanismos capazes de preservar parte dessas receitas para as próximas gerações, ao mesmo tempo em que outra parcela seria direcionada a investimentos com elevado retorno econômico e social.

<><> Um estado preservado pode financiar a economia verde

O diferencial do Amapá é justamente sua capacidade de combinar uma eventual nova riqueza energética com um patrimônio ambiental já amplamente preservado.

Isso abre espaço para um modelo diferente daquele observado historicamente em várias regiões produtoras de recursos naturais. Parte das receitas do petróleo poderia financiar diretamente uma economia de baixo carbono baseada em biodiversidade, manejo florestal sustentável, pesquisa científica, biotecnologia, produção de alimentos da floresta, turismo ecológico e energias renováveis.

Em vez de escolher entre petróleo e floresta, o estado poderia utilizar temporariamente a renda petrolífera para aumentar o valor econômico da própria floresta preservada.

Investimentos em universidades e centros de pesquisa também poderiam transformar a biodiversidade amapaense em fonte de conhecimento, inovação e geração de renda. Cadeias ligadas ao açaí, produtos florestais, fármacos, cosméticos e biotecnologia poderiam receber infraestrutura, financiamento e tecnologia.

Nesse modelo, a riqueza produzida no mar ajudaria a manter a floresta em pé.

<><> Guiana mostra dimensão da transformação possível

A poucos milhares de quilômetros da costa brasileira, a Guiana oferece uma referência concreta da dimensão econômica que uma grande província petrolífera pode alcançar.

A descoberta de enormes reservas offshore transformou uma pequena economia sul-americana em uma das que mais crescem no planeta. Segundo o Fundo Monetário Internacional, o PIB real da Guiana cresceu, em média, impressionantes 47% ao ano entre 2022 e 2024, impulsionado pela rápida expansão da produção de petróleo, pelo crescimento das atividades não petrolíferas e pelos investimentos em infraestrutura.

Para 2026, as projeções do FMI indicam novamente uma expansão superior a 20%: cerca de 23%, seguida de aproximadamente 21% em 2027. Portanto, embora não seja correto afirmar que a economia guianense cresce mais de 20% em todos os anos, o país vive uma trajetória extraordinária de expansão associada à nova indústria petrolífera.

O petróleo acelerou a transição da Guiana em direção ao grupo das economias de alta renda, segundo o próprio FMI. Ao mesmo tempo, as receitas petrolíferas vêm permitindo investimentos públicos de grande escala em infraestrutura e outros setores da economia.

O paralelo com o Amapá deve ser feito com cautela, já que se trata de estruturas institucionais, populações e economias diferentes. Mas a experiência guianense demonstra a dimensão da transformação que grandes descobertas offshore podem produzir.

<><> A mesma grande fronteira energética

A experiência da Guiana também ajuda a explicar por que existe tamanho interesse econômico e geopolítico pela Margem Equatorial.

A faixa marítima situada ao norte do Brasil integra uma grande fronteira geológica que ganhou projeção mundial após as descobertas realizadas nas Guianas. No lado brasileiro, a Petrobras aposta que áreas da Margem Equatorial possam representar uma nova fronteira capaz de contribuir para a reposição das reservas nacionais.

A descoberta no Amapá representa, portanto, um primeiro sinal concreto de potencial, mas não significa ainda a existência de uma reserva comercial.

A Petrobras precisará continuar os estudos e testes para determinar o volume, a qualidade e a viabilidade econômica dos hidrocarbonetos encontrados. Somente depois dessas avaliações será possível dimensionar efetivamente a importância econômica da descoberta.

<><> Royalties podem deixar legado permanente

Caso uma produção relevante seja confirmada, uma das principais discussões deverá envolver a destinação das receitas públicas.

O Amapá teria a possibilidade de utilizar os recursos para enfrentar gargalos históricos sem abandonar sua vocação ambiental. Investimentos em saneamento básico, por exemplo, produziriam simultaneamente ganhos sociais e ambientais. Educação e qualificação profissional permitiriam que trabalhadores amapaenses ocupassem empregos de maior produtividade na própria indústria energética e em outros setores.

Infraestrutura digital poderia conectar comunidades e estimular empresas de tecnologia. Investimentos em ciência poderiam ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade amazônica. Energia renovável poderia reduzir custos e ajudar a criar novas atividades industriais.

Outra possibilidade seria estruturar mecanismos de poupança de longo prazo para que uma parcela da riqueza permaneça disponível mesmo depois do declínio da produção petrolífera.

A meta seria evitar que o petróleo se transforme apenas em um ciclo passageiro de expansão econômica.

<><> Do petróleo para uma economia pós-petróleo

A aparente contradição entre uma nova fronteira petrolífera e a transição energética pode ser enfrentada justamente pela forma como a renda será utilizada.

O petróleo pode representar uma fonte temporária de recursos para financiar uma economia que, no futuro, dependa cada vez menos dele.

O Amapá reúne condições singulares para testar essa estratégia. Possui vasto patrimônio ambiental, baixa pressão histórica de desmatamento em comparação com outras áreas amazônicas e agora se encontra diante da possibilidade de participar de uma das principais novas fronteiras energéticas do continente.

A oportunidade, caso a viabilidade comercial da descoberta seja confirmada, será transformar recursos subterrâneos e marítimos em capital humano, infraestrutura e preservação.

O exemplo da Guiana demonstra o poder econômico de uma grande descoberta de petróleo na região. Para o Amapá, porém, o objetivo pode ser ainda mais ambicioso: aproveitar a riqueza da Margem Equatorial para elevar o IDH, reduzir desigualdades e financiar uma economia sustentável capaz de sobreviver ao próprio ciclo do petróleo.

Se essa combinação for bem planejada, o estado poderá construir um modelo singular de desenvolvimento brasileiro: uma das regiões mais preservadas do país tornando-se também uma das mais prósperas, usando a riqueza do petróleo para financiar seu futuro sustentável

<><> Chegou a hora do Norte

É aqui que essa história ganha sua dimensão mais emocionante.

O Norte brasileiro é uma das regiões mais ricas em recursos naturais e, paradoxalmente, uma das que menos se beneficiaram economicamente dessa riqueza.

O Amapá é um caso emblemático.

É um estado extraordinariamente preservado, dono de biodiversidade incomparável, mas ainda marcado por enormes carências de infraestrutura, saneamento, educação, saúde, conectividade e oportunidades econômicas.

A riqueza da Margem Equatorial pode ajudar a mudar essa história.

Se a descoberta for confirmada como comercialmente viável, os investimentos da Petrobras e de toda a cadeia de petróleo e gás poderão gerar empregos, infraestrutura, conhecimento, formação profissional e renda. Royalties futuros poderão financiar escolas, hospitais, saneamento, universidades, ciência e tecnologia.

E deveriam financiar também a própria sustentabilidade.

O petróleo pode ajudar a financiar a economia pós-petróleo.

A renda produzida no mar pode financiar a preservação da floresta, a bioeconomia, a pesquisa científica, as energias renováveis e a formação de uma geração de jovens amapaenses altamente qualificados.

O objetivo não deve ser simplesmente extrair petróleo. Deve ser transformar petróleo em desenvolvimento humano.

<><> Orgulho nacional

Monteiro Lobato sonhou com um Brasil capaz de controlar suas riquezas.

Getúlio Vargas criou a instituição que permitiria realizar esse sonho.

Gerações de trabalhadores transformaram a Petrobras em uma das empresas tecnologicamente mais sofisticadas do planeta.

Lula presidiu o Brasil quando o pré-sal foi descoberto e agora, em seu terceiro governo, assiste à abertura de uma nova possibilidade histórica na Margem Equatorial.

A Petrobras atravessou campanhas de descrédito, tentativas de enfraquecimento, políticas de desmonte e projetos de privatização.

Sobreviveu porque é maior do que qualquer governo.

Ela pertence à história brasileira.

Agora, a empresa poderá cumprir novamente sua missão mais nobre: usar tecnologia, conhecimento e recursos naturais para puxar o desenvolvimento de uma região brasileira que durante séculos recebeu muito menos do que merecia.

Que o petróleo do Amapá seja convertido em escolas, hospitais, saneamento, ciência, infraestrutura, empregos e preservação ambiental. Que cada barril produzido, caso a viabilidade comercial seja confirmada, ajude a elevar a qualidade de vida de quem vive na Amazônia.

E que daqui a algumas décadas possamos olhar para trás e constatar que a riqueza descoberta na Margem Equatorial não apenas aumentou a produção brasileira de petróleo, mas ajudou a construir no Norte do País uma sociedade mais desenvolvida, mais justa e mais sustentável.

Essa é a Petrobras que faz sentido. Uma Petrobras forte, pública, tecnológica e brasileira. Um verdadeiro orgulho nacional.

 

Fonte: Por Leonardo Attuch, em Brasil 247

 

Marco Rubio tem um poder único para promover a paz, mas não o fez. Ele é quase tão ruim para o mundo quanto Trump

Visto do Departamento de Estado em Washington, o mundo está em chamas – mas as ondas de calor recordes não são as culpadas. A guerra não resolvida com o Irã prejudicou seriamente Donald Trump. Sua campanha militar fracassou de forma conclusiva , os preços da energia e dos alimentos continuam subindo e uma derrota esmagadora dos republicanos nas eleições de meio de mandato em novembro se aproxima. De forma humilhante, Israel rejeitou categoricamente suas últimas propostas de paz para Gaza esta semana, dias depois de Trump se congratular por uma “conquista histórica”. Na Europa, os ataques da Rússia contra aliados da OTAN tornam-se cada vez mais descarados, ameaçando uma escalada ainda maior. A guerra na Ucrânia, que Trump prometeu encerrar, já dura cinco anos, com civis de ambos os lados presos no campo de batalha. E esses são apenas os maiores focos de tensão. Há muitos outros.

Raramente a necessidade de uma diplomacia eficaz e profissional foi tão premente. É nesse contexto que surge Marco Rubio, secretário de Estado dos EUA e principal diplomata americano. Esses são desafios que, se superados com sucesso, podem impulsionar o filho de imigrantes cubanos de 55 anos e ex-senador americano pela Flórida à pole position na corrida pela indicação republicana à presidência em 2028. Esta é a chance de Rubio desafiar os críticos que o consideram um bajulador e um fantoche de Trump, e se transformar em um respeitado estadista global. Seu chefe o ridicularizou, chamando-o de "pequeno Marco" e "perdedor" quando foram rivais nas eleições de 2016 (Rubio o chamou de vigarista). Agora é a oportunidade de Rubio ir além, ser corajoso e provar que é um vencedor.

Ou talvez não.

Rubio é diferente dos secretários de Estado americanos recentes – pesos-pesados ​​como Hillary Clinton e Anthony Blinken, ou John Kerry, famoso por sua diplomacia dinâmica e incansável. Rubio tem pouca paciência para processos de paz. Em vez disso, ele projeta o poderio bruto dos EUA para impor soluções do tipo aceitar ou rejeitar que promovam os interesses americanos, conforme definidos por Trump. É uma forma moderna de imperialismo. Os países-alvo têm uma escolha: tornarem-se estados clientes , como a Venezuela e, possivelmente, Cuba e a Groenlândia, ou serem esmagados. No Irã, a política não é a mudança de regime, muito menos a renovação democrática. É a submissão ao regime. Rubio se comporta menos como um mediador da paz e mais como um vice-rei colonial de capacete colonial exigindo fidelidade de sátrapas subservientes.

Em um discurso em Munique, em fevereiro, Rubio expôs sua doutrina belicista e retrógrada de primazia dos EUA. Ele lamentou o declínio dos “grandes impérios ocidentais… acelerado por revoluções comunistas ateus e levantes anticoloniais” e alertou que a Europa enfrentava um “apagamento civilizacional”. Os EUA não queriam aliados fracos, “acorrentados pela culpa e vergonha” de seu passado imperial, disse ele. “Queremos aliados que se orgulhem de sua cultura e herança… e que, junto conosco, estejam dispostos e aptos a defendê-las.” Tratava-se de uma afirmação familiar da hegemonia americana, porém desprovida de falso altruísmo e fingimento. Soou como um toque de finados para a diplomacia. Trump atacou oito países no último ano. Cuba, a obsessão de Rubio, pode ser a próxima .

A relutância de Rubio em se envolver pessoalmente na busca pela paz pode ser parcialmente explicada por seu outro papel, contraditório, como conselheiro de segurança nacional de Trump. Ele aceitou que a Casa Branca terceirizasse as negociações sobre a Ucrânia e a Palestina para enviados amadores com capacidade limitada – nomeadamente o genro de Trump, Jared Kushner, e o seu aliado empresarial, Steve Witkoff. De um modo geral, Rubio também se manteve afastado do envolvimento direto nas negociações com o Irã, deixando JD Vance, o vice-presidente e seu principal rival em potencial em 2028, a arcar com as críticas. A postura distante de Rubio cheira a cálculo. Ou talvez ele simplesmente não tenha a menor ideia do que pensa sobre essas questões e esteja apenas cumprindo as ordens erráticas de Trump.

Essa percepção de um camaleão político, sem princípios firmes, opiniões consistentes e uma bússola moral forte, é reforçada por seu histórico. Seu biógrafo, Manuel Roig-Franzia , acredita que a instabilidade pessoal e política de Rubio – ele chegou a se tornar mórmon e depois retornou ao catolicismo – tem raízes em uma necessidade infantil de pertencer, de estar do lado vencedor, não importando o preço. O senador Rubio era um defensor ferrenho da China. Agora, ele segue a linha conciliadora de Trump em relação a Pequim. Ele costumava criticar a Rússia; agora é um apaziguador. Ele defendeu a ajuda externa, mas, no cargo, desmantelou a USAID e busca desmantelar o Tribunal Penal Internacional , uma pedra angular da ordem global. Ele criticou duramente o acordo nuclear com o Irã de Barack Obama. Agora, ele apoia um acordo que ofereceria concessões adicionais a Teerã. Acusado pelo Vaticano de travar uma guerra imoral e injusta, ele viajou a Roma e esclareceu as coisas para o papa.

A ironia, ou tragédia, do dilema de Rubio é que ele tem o poder de fazer muito bem, se ao menos se dispusesse a se posicionar e assumir a responsabilidade. Vladimir Putin, da Rússia, perdendo no campo de batalha e internamente , está mais fraco do que em qualquer outro momento desde 2022. Volodymyr Zelenskyy, da Ucrânia, carece de interceptores de mísseis , soldados e apoio político. Um acordo de cessar-fogo que congele o conflito está ao alcance do único país – os EUA – capaz de pressionar significativamente ambos os lados. Da mesma forma, em Israel, o arquiteto do genocídio em Gaza e das guerras desastrosas contra o Hamas, o Irã e o Hezbollah – Benjamin Netanyahu – enfrenta a derrota nas eleições de outubro. Esta é uma rara oportunidade para arquivar discretamente as idiotices do Conselho da Paz de Trump, interromper a violência dos colonos judeus na Cisjordânia e começar de forma nova e inclusiva, com base nas resoluções da ONU.

Rubio também poderia fazer um grande bem ao Oriente Médio, à economia global, aos consumidores americanos e a si mesmo, assumindo o comando das negociações de paz estagnadas com o Irã e ressuscitando o memorando de entendimento de junho, que Teerã insiste ser a única saída para o impasse no Estreito de Ormuz. Ao fazer isso, Rubio teria o apoio entusiasmado da maioria dos americanos, dos governos europeus e dos países do Golfo, dos produtores e empresas de energia e dos apoiadores do MAGA, que temem, com razão, que Trump tenha arrastado os EUA para outra guerra sem fim. Até mesmo Trump pode ficar grato. Ele sabe que está em apuros . Ele precisa de alguém para tirá-lo de lá.

O fato de Rubio, apesar de sua posição aparentemente única e poderosa, dificilmente fazer qualquer uma das coisas acima o destaca como o homem mais perigoso da administração americana depois do próprio Trump. Ele é perigoso porque permite e facilita os piores instintos de Trump – e negligencia seu dever. Ele é perigoso porque confere uma respeitabilidade pseudo-intelectual às fantasias da extrema-direita sobre a supremacia irrestrita dos EUA. Mais do que o impetuoso Vance, que se entrega a insultos pueris nas redes sociais, e o “secretário de guerra” Pete Hegseth, um ultranacionalista delirante, Rubio é perigoso porque pode parecer e soar razoável. Ele tem boas chances de se tornar o sucessor escolhido por Trump e herdeiro da marca MAGA.

Talvez, antes que isso aconteça, ele mude novamente. Talvez redescubra alguns princípios, encontre uma espinha dorsal diplomática, apague alguns incêndios. Ele já demonstrou repetidamente que suas opiniões são infinitamente maleáveis. Rubio ainda pode realizar grandes feitos. Ou pode se tornar um problema tão grande ou maior que Trump.

¨      O desânimo de Trump nas eleições de novembro: guerras intermináveis ​​e preços altos significam a ruína dos republicanos

Ele sempre esteve um passo à frente. Donald Trump venceu a presidência dos EUA como um azarão totalmente inesperado em 2016 e protagonizou um retorno surpreendente para vencê-la novamente em 2024. Até mesmo seus adversários, a contragosto, o chamavam de gênio político com uma intuição para explorar queixas que deixava os chamados especialistas perplexos.

Mas agora questionam se o gênio sombrio perdeu o jeito. Trump está atolado no atoleiro de uma guerra impopular, obcecado por monumentos em Washington e à procura de um novo porta-voz após a renúncia de sua secretária de imprensa da Casa Branca . Se o político de 80 anos estava deliberadamente tentando sabotar o Partido Republicano nas eleições de meio de mandato de novembro, não está claro o que ele faria de diferente.

“Ele sempre teve um instinto político reptiliano para a opinião pública que lhe serviu bem”, disse Charlie Sykes , autor e radialista conservador. “Não se vê mais isso. Não se vê mais sua capacidade de perceber o clima do momento. Ele parece insensível a questões como o custo de vida, a guerra e a imagem de ostentar em tudo e banalizar Washington, e não se importa.”

Trump fez campanha com a promessa de baixar os preços e manter os EUA fora de envolvimentos estrangeiros e guerras intermináveis. O oposto aconteceu. Os eleitores dizem estar sofrendo com uma crise no custo de vida, agravada pelas amplas tarifas de Trump. Comprar comida para consumo doméstico ficou 33% mais caro nas cidades americanas desde o início de 2019, segundo dados do governo .

Os preços da gasolina estão em níveis recordes para esta época do ano, em parte devido à guerra dos EUA no Irã, que se arrasta sem previsão de término. Enquanto Trump afirma ter destruído as capacidades militares do Irã, veio à tona esta semana que ele foi forçado a se esconder em um caminhão de catering e a trocar secretamente de avião após uma cúpula da OTAN na Turquia por causa de um possível plano de assassinato por parte do Irã.

O envolvimento da administração com o Irã se transformou em uma sangria diária e exaustiva de recursos, que atualmente custa aos contribuintes cerca de US$ 1 bilhão por dia. Os críticos argumentam que a administração fortaleceu a determinação do Irã e lhe conferiu influência global, principalmente sobre o Estreito de Ormuz. Eles veem isso como uma traição à postura não intervencionista que impulsionou a ascensão de Trump ao poder e atraiu uma geração de eleitores descontentes.

Kurt Bardella , comentarista político e ex-assessor do Congresso, disse: O que estamos vendo agora é o completo desmoronamento de tudo o que Donald Trump, o movimento MAGA e os republicanos diziam defender. Eles eram contra conflitos intermináveis ​​no Oriente Médio e iniciaram um conflito no Oriente Médio sem uma estratégia de saída. Eles supostamente eram contra o gasto de dólares americanos no exterior ; estamos gastando um bilhão de dólares por dia nesta guerra sem fim .”

No entanto, o presidente parece ter outras preocupações, de cunho mais estético. Desde que retornou ao poder no ano passado, o veterano incorporador imobiliário investiu muito tempo e energia em projetos de construção em Washington, incluindo um salão de baile e heliponto na Casa Branca, um arco triunfal e uma reforma malfadada do espelho d'água do Lincoln Memorial.

Bardella acrescentou: "Enquanto ele continua essa aventura desastrosa no Oriente Médio, que resultou no aumento do custo de vida, e continua a investir recursos em colocar seu nome em tudo e construir salões de baile e monumentos em sua homenagem, o povo americano está pensando: 'Que porra é essa?' Essa é a única reação realista que se pode ter ao analisar objetivamente as circunstâncias."

O segundo mandato de Trump foi marcado por ambições grandiosas – Groenlândia, Venezuela, Irã – e também por ambições pequenas. O conselho que ele nomeou para o Centro John F. Kennedy para as Artes Cênicas adicionou seu nome ao complexo, mas um juiz ordenou sua remoção; esta semana, o conselho votou para acrescentar “Restaurado e Renovado pelo Presidente Donald J. Trump” abaixo da placa principal.

De acordo com o livro "Regime Change: Inside the Imperial Presidency of Donald Trump" (Mudança de Regime: Por Dentro da Presidência Imperial de Donald Trump), escrito pelos jornalistas do New York Times Maggie Haberman e Jonathan Swan, o presidente foi visto com um tubo de supercola tentando colar decorações douradas na lareira de mármore do Salão Oval.

Haberman estima que Trump agora dedica 70% do seu espaço mental a projetos de reforma e “monumentos a si mesmo”. Ela contou à série de vídeos Behind the Curtain, da Axios , que ela e Swan visitaram Trump no Salão Oval em março. “Você pensaria que, no 17º dia da guerra, ele teria mapas do Oriente Médio ou mapas de posicionamento de tropas – quem sabe”, disse ela. “Ele pega essas fotos, e [elas são] de bordos, e diz: 'Estou escolhendo bordos para a Casa Branca. Sou bom em escolher árvores.' Estou parafraseando, mas foi basicamente isso que ele disse.”

A preocupação do presidente em saber se as colunas de seu salão de baile evocam mais Atenas ou Roma, e com outros esforços para preservar seu legado em mármore, não surpreende Tara Setmayer, ex-diretora de comunicação republicana no Capitólio e crítica de longa data de Trump.

Ela disse: “Donald Trump tem sido um egomaníaco, um narcisista, por toda a sua vida. Mesmo no setor privado, ele estampou seu nome em prédios e em uma infinidade de negócios fracassados, desde os bifes Trump à companhia aérea Trump, da Universidade Trump à água Trump e ao vinho Trump. Por que alguém se surpreende que ele leve esse mesmo tipo de narcisismo para o seu segundo mandato como presidente, gastando o dinheiro dos outros para isso?”

“O problema é que o Partido Republicano permitiu que ele se safasse disso, para seu próprio prejuízo, e é por isso que cada vez mais pessoas em seu círculo íntimo estão preocupadas com o impacto disso nas eleições de meio de mandato e no controle do Congresso.”

De fato, diz-se que os republicanos estão em pânico discreto com a possibilidade de Trump lhes custar a Câmara dos Representantes e colocar em risco até mesmo o Senado. Uma pesquisa nacional da Universidade Quinnipiac, divulgada no final do mês passado, mostrou que seu índice de aprovação caiu para o mínimo histórico de 32%, com 58% de desaprovação. A pesquisa também constatou que seis em cada dez americanos se opõem à ação militar dos EUA no Irã.

Presidentes anteriores, como George W. Bush em 2006 e Barack Obama em 2010, enfrentaram eleições de meio de mandato desafiadoras, mas trabalharam com seus partidos em um esforço para, pelo menos, conter as perdas. Rick Wilson , cofundador do Lincoln Project, um grupo anti-Trump, disse: “Em ambos os casos, seus esforços não foram bem-sucedidos, mas é assustador pensar o que teria acontecido se Barack Obama tivesse dito: 'Vou construir uma arena de basquete na Casa Branca', ou se George Bush tivesse dito: 'Vou construir um campo de golfe'.”

“Em vez disso, temos uma imagem muito diferente desta Casa Branca, e essa imagem é: 'não nos importamos com nada além do salão de baile, do arco e de todas as coisas descartáveis ​​e efêmeras em que ele quer se concentrar'. É uma imagem política terrível e bastante perigosa para o partido, porque eles não têm nada para apresentar em sua campanha agora.

A sensação de mal-estar se intensificou esta semana quando Karoline Leavitt, a pessoa mais jovem a ocupar o cargo de secretária de imprensa da Casa Branca, anunciou que deixará o cargo no final do mês . A explicação oficial foi que a jovem de 28 anos deseja passar mais tempo com sua família, mas o momento foi infeliz para uma administração que luta para se livrar de uma crise após a outra.

Para um presidente cuja autoimagem se baseia inteiramente na vitória, a constatação de que enfrenta uma derrota eleitoral em casa e uma humilhação no exterior pode ser motivo para uma crise existencial. Sykes observou que, embora o conhecimento histórico de Trump seja notoriamente superficial, ele começou a se obcecar com os fantasmas de presidências arruinadas por erros políticos no exterior.

“É muito interessante que no livro de Maggie Haberman ele se compare a Napoleão, Alexandre, o Grande, e César, mas seu maior medo agora é se tornar um Herbert Hoover ou um Jimmy Carter”, disse ele.

Apesar de tudo, Trump tem um lado positivo. Ele faturou cerca de US$ 2,2 bilhões no primeiro ano de seu segundo mandato, graças a investimentos em criptomoedas, interesses estrangeiros e sua empresa Truth Social.

Sykes acrescentou: "Ele não reduziu o custo de vida, não tornou os Estados Unidos mais respeitados, não venceu a guerra, mas conseguiu se tornar bilionário várias vezes abusando de seu cargo."

 

Fonte: Por Simon Tisdall, em The Guardian

 

A Toga desalmada, ou o mercenarismo de toga

O juiz de Direito Mário Márcio de Almeida Sousa, da 8ª Vara Cível de São Luís, decidiu escrever uma carta para anunciar a morte de sua “alma de magistrado”. Segundo ele, depois de quase 24 anos de carreira, essa alma teria sucumbido quando o Supremo Tribunal Federal restringiu parte dos chamados “penduricalhos” e sua remuneração mensal caiu para R$ 41,6 mil líquidos.

O magistrado diz ter chorado. Fala em angústia, aflição e humilhação. Afirma que suas reservas financeiras estão próximas do fim e que os compromissos assumidos ao longo da vida foram estabelecidos na expectativa de manutenção das vantagens que recebia. Em fevereiro deste ano, sua remuneração líquida chegou a R$ 88,5 mil. Em janeiro, havia sido de R$ 74,8 mil. Com a redução para R$ 41,6 mil, declarou que poderá abandonar a magistratura.

Sua carta, entretanto, não comunica a morte de uma alma de magistrado. Revela algo muito mais grave: talvez essa alma jamais tenha verdadeiramente existido.

Não me refiro ao conhecimento jurídico do juiz, à sua produtividade ou à correção formal de suas decisões, aspectos que não estão aqui sob exame. Refiro-me àquela disposição moral indispensável a quem recebe do Estado o poder de decidir sobre o patrimônio, o salário, a moradia, a liberdade e, por vezes, a própria sobrevivência de outras pessoas.

A alma da magistratura não se forma apenas com a aprovação em um concurso público. Não nasce com a posse, não acompanha automaticamente a toga e não é depositada na conta bancária juntamente com o subsídio. Ela pressupõe a capacidade de enxergar o mundo para além da própria classe social. Exige sensibilidade para compreender a distância existente entre a linguagem abstrata dos autos e a vida concreta das pessoas submetidas às decisões judiciais.

A carta demonstra justamente o contrário.

O juiz chama de “humilhação” receber líquidos, em um único mês, R$ 41,6 mil. Isso representa aproximadamente 25 salários mínimos, considerando o mínimo nacional de R$ 1.621 em 2026. Um trabalhador que recebe o salário mínimo precisaria trabalhar por mais de dois anos, sem gastar um único centavo, para alcançar o que o magistrado recebeu em julho.

O contraste é ainda mais perturbador porque o juiz exerce suas funções no Maranhão. Segundo o IBGE, o rendimento domiciliar mensal per capita do estado foi de R$ 1.219 em 2025. Assim, os R$ 41,6 mil líquidos que produziram lágrimas no magistrado correspondem a aproximadamente 34 vezes a renda mensal por pessoa da população maranhense.

Quantos trabalhadores que compareceram perante sua vara receberam, durante toda a vida, um salário equivalente a apenas uma fração do seu contracheque? Quantas mães sustentam seus filhos com menos de R$ 1.621? Quantos aposentados escolhem, todos os meses, entre comprar alimentos ou medicamentos? Quantas famílias maranhenses jamais tiveram “reservas” que pudessem estar próximas de acabar?

A carta não responde. Seu universo começa e termina no próprio autor.

O magistrado afirma que escolheu a carreira em busca de “estabilidade funcional e financeira”. A frase é reveladora. Não diz que escolheu julgar para realizar a Justiça, assegurar direitos ou proteger os vulneráveis. A motivação confessada é patrimonial. A magistratura aparece como investimento pessoal, contrato de segurança econômica e instrumento para a construção de uma velhice confortável.

Nada há de errado em desejar estabilidade e conforto para a família. O problema surge quando alguém transforma o exercício de uma função pública em título de propriedade sobre vantagens pecuniárias indefinidas, inclusive pagamentos que ultrapassam o teto constitucional. O problema torna-se moralmente insustentável quando a redução dessas vantagens é apresentada como uma violência comparável às privações suportadas diariamente pela população.

O juiz não está sem salário. Não perdeu o emprego. Não foi despejado. Não teve a energia cortada. Não está escolhendo entre o aluguel e a alimentação dos filhos. Não enfrenta a fila do Sistema Único de Saúde por falta de recursos. Continua protegido pela vitaliciedade, pela inamovibilidade e pela irredutibilidade do subsídio. Recebe mensalmente um valor líquido inalcançável para a esmagadora maioria dos brasileiros.

Sua “humilhação” consiste em ter sido obrigado a reorganizar um padrão de vida edificado sobre remunerações que, em determinados meses, chegaram a quase duas vezes o teto constitucional do funcionalismo.

Não é sofrimento social. É frustração de expectativa de classe.

A carta também chama o Brasil de “república de bananas”, de “espertalhões, hipócritas, corruptos” e de toda sorte de bandidos. É curioso que alguém investido da autoridade do Estado descreva com tamanho desprezo o país que lhe garantiu uma das carreiras mais protegidas e bem remuneradas do mundo público brasileiro. Mais curioso ainda é que esse desprezo se manifeste justamente quando o Estado tenta impor algum limite aos benefícios da própria corporação.

Enquanto os privilégios eram incorporados ao contracheque, a República aparentemente ainda era tolerável. Quando o STF procurou restringi-los, ela se transformou em “república de bananas”.

Não é a República que aparece diminuída nessa passagem. É a concepção de magistratura exposta pelo autor.

Há, além disso, uma contradição social que a carta torna impossível ignorar. O mesmo Poder Judiciário que acolhe com tanta facilidade a linguagem da responsabilidade financeira, da satisfação do crédito e da efetividade da execução demonstra extraordinária sensibilidade quando a renda ameaçada pertence aos seus próprios integrantes.

Para os trabalhadores endividados, a palavra de ordem tem sido outra.

O artigo 833, inciso IV, do Código de Processo Civil protege salários, aposentadorias, pensões e outras verbas destinadas à sobrevivência do devedor e de sua família. Essa proteção deveria expressar uma escolha civilizatória: antes do interesse econômico do credor, existe o direito humano do trabalhador de viver com dignidade.

Entretanto, a jurisprudência passou a flexibilizar essa proteção. Em 2023, a Corte Especial do Superior Tribunal de Justiça admitiu a penhora de parte do salário até para o pagamento de dívidas não alimentares, independentemente do valor da remuneração, desde que preservada, segundo a avaliação judicial, a subsistência digna do devedor e de sua família. O próprio STJ anunciou expressamente a “flexibilização” da impenhorabilidade salarial.

Na prática, multiplicaram-se decisões autorizando a retenção de 10%, 20% ou 30% dos rendimentos de trabalhadores e aposentados. Percentuais aparentemente neutros para quem os escreve em um gabinete podem significar o remédio que deixa de ser comprado, a mensalidade que não será paga ou a alimentação que será reduzida.

A fórmula tornou-se conhecida: desde que preservado o “mínimo existencial”, penhora-se uma parte do salário.

Mas quem define esse mínimo? Com que experiência concreta da pobreza? A partir de qual mundo social?

É precisamente por isso que a carta do juiz é tão perturbadora. Quem considera “humilhante” receber R$ 41,6 mil líquidos possui condições subjetivas para avaliar quanto deve restar a um aposentado de R$ 3 mil ou a uma trabalhadora que sustenta os filhos com dois salários mínimos?

Se R$ 41,6 mil mensais provocam angústia e lágrimas em um magistrado, o que imagina ele acontecer com uma família depois que uma decisão judicial entrega 20% ou 30% de seu salário a um banco?

Aos trabalhadores, diz-se que devem adaptar seu padrão de vida, honrar os compromissos assumidos e suportar a penhora em nome da efetividade da Justiça. Ao magistrado, entretanto, a redução dos rendimentos extraordinários seria uma agressão a seus “legítimos projetos de vida”.

E os projetos de vida dos trabalhadores?

Não são também legítimos os planos de quem deseja alimentar os filhos, conservar uma moradia, pagar um plano de saúde ou atravessar a velhice com dignidade? Por que os compromissos financeiros de um juiz mereceriam ser preservados pelo Estado, enquanto os salários daqueles que recebem vinte ou trinta vezes menos podem ser capturados para satisfazer os interesses econômicos das instituições bancárias?

Os bancos conhecem bem essa Justiça. Seus contratos são apresentados como manifestação intocável da vontade. Seus créditos são tratados como exigências de ordem pública. Sua capacidade de suportar perdas raramente é comparada à vulnerabilidade da pessoa endividada. Quando pleiteiam a penhora de salários, encontram uma jurisprudência disposta a “ponderar” a dignidade do trabalhador com a eficiência da cobrança.

A dignidade, nesse raciocínio, torna-se fracionável. O lucro, não.

Não se afirma que toda dívida deva ser perdoada ou que o salário jamais possa ser atingido em qualquer circunstância. O que se denuncia é a assimetria moral de um sistema que exige austeridade dos pobres e preserva o sentimento de merecimento das castas superiores. Um sistema capaz de retirar parte da aposentadoria de uma pessoa idosa para atender a um banco, mas que se comove internamente quando um magistrado passa a receber “apenas” R$ 41,6 mil líquidos.

A independência judicial exige remuneração adequada. Juízes não devem ser mal pagos nem submetidos à insegurança econômica. Essa garantia protege a sociedade e a imparcialidade da jurisdição. Mas remuneração adequada não se confunde com remuneração ilimitada; independência não é privilégio; e a toga não confere imunidade ética diante da realidade nacional.

O teto constitucional não é uma punição contra magistrados. É uma norma republicana. Os “penduricalhos” que o contornam não são manifestações naturais da independência do Judiciário, mas mecanismos pelos quais determinadas corporações se afastam do padrão de vida da sociedade que as sustenta.

O Poder Judiciário brasileiro custou R$ 164,6 bilhões em 2025, conforme o relatório Justiça em Números 2026, do Conselho Nacional de Justiça. Trata-se de uma estrutura mantida por uma população que enfrenta baixos salários, tributação regressiva e serviços públicos insuficientes. Reconhecer essa realidade não representa hostilidade ao Judiciário. Representa exigir dele responsabilidade republicana.

Ao escrever que sua “alma de magistrado” morreu, Mário Márcio de Almeida Sousa talvez tenha pretendido despertar solidariedade. Produziu, involuntariamente, uma confissão.

A alma do magistrado não deveria depender da manutenção de parcelas remuneratórias. Se desaparece quando o contracheque cai para R$ 41,6 mil líquidos, não era uma alma dedicada à Justiça. Era o espírito de um mercador que calculava sua fidelidade à função pública segundo o retorno financeiro que dela extraía.

O verdadeiro magistrado não é aquele que se declara apaixonado pela carreira enquanto recebe R$ 88 mil líquidos e anuncia a morte dessa paixão quando a remuneração diminui. É aquele que conserva a consciência de que cada processo contém vidas humanas; que entende o salário como condição material de existência; que não transforma o devedor pobre em simples patrimônio disponível; e que não mede a dignidade alheia com uma régua que jamais aceitaria aplicar sobre si mesmo.

O juiz afirmou que estaria disposto a aderir a um plano de demissão voluntária. É um direito seu. Talvez, fora da magistratura, descubra quanto o mercado remunera seu trabalho e como vivem aqueles que não possuem vitaliciedade, inamovibilidade, férias diferenciadas, licenças especiais nem verbas indenizatórias.

Talvez então compreenda o verdadeiro significado das palavras “angústia”, “aflição” e “humilhação”.

Essas palavras pertencem às mães que não conseguem alimentar os filhos; aos trabalhadores que veem o salário desaparecer antes do fim do mês; aos aposentados que têm parte dos proventos penhorada; aos desempregados; aos moradores sem teto; e às famílias submetidas a decisões judiciais formalmente corretas, mas socialmente cegas.

Aos que recebem R$ 41,6 mil líquidos e ainda se consideram humilhados não falta dinheiro.

Falta-lhes a medida do mundo.

E, sobretudo, falta-lhes aquilo que nenhuma verba indenizatória, nenhum penduricalho e nenhum contracheque jamais poderá comprar: a verdadeira alma de um magistrado.

 

Fonte: Por João Lister, em Brasil 247

 

Mulheres superam recordes de homens em provas extremas

Foram 29 dias de corrida por oito países, cruzando os Alpes entre Trieste, na Itália, e Mônaco. Ao longo de cerca de 2.000 quilômetros e mais de 100 mil metros de desnível acumulado, a neozelandesa Sophie Grant dormiu, em média, apenas três a quatro horas por noite.

Ao concluir o percurso da chamada Via Alpina, Grant estabeleceu um novo recorde geral da ultramaratona, superando tanto a melhor marca feminina quanto a masculina. Seu tempo foi mais de sete dias inferior ao antigo tempo alcançado por um homem.

"Quando penso nisso, fico arrepiada, "disse à DW. "Conquistar o recorde geral é algo incrível."

<><> Mulheres quebram recordes em diferentes provas

Grant não é a única mulher a superar marcas masculinas em provas de resistência nos últimos anos.

Em 2026, a americana Rachel Entrekin venceu a prova Cocodona 250, nos Estados Unidos, e estabeleceu um novo recorde geral do percurso.

No ano anterior, a ultramaratonista Tara Dower, também americana, completou o Long Trail, uma prova disputada no estado de Vermont, nos EUA. Ela concluiu o trajeto em 3 dias, 18 horas e 29 minutos, superando o recorde masculino anterior por 2 horas e 40 minutos.

Em 2019, a médica alemã Fiona Kolbinger tornou-se a primeira mulher a vencer a Transcontinental Race. Após quase 4.000 quilômetros de bicicleta pela Europa, terminou cerca de oito horas à frente do segundo colocado. No mesmo ano, a britânica Jasmin Paris venceu a Spine Race, no Reino Unido, tornando-se a primeira mulher a conquistar a prova de 430 quilômetros e quebrando o recorde do percurso por mais de 12 horas.

<><> Quanto maior a distância, menor a diferença

Uma análise ampla realizada pela RunRepeat, um site que avalia e compara calçados de corrida, em parceria com a Associação Internacional de Ultramaratonistas examinou mais de cinco milhões de resultados de mais de 15 mil ultramaratonas. A conclusão foi clara: quanto maior a distância, mais as mulheres se aproximavam do desempenho masculino.

Nas maratonas, os homens registraram tempos, em média, 11,1% mais rápidos. Em provas de 100 milhas (cerca de 160 quilômetros), a diferença caiu para apenas 0,25%. Em distâncias superiores a 195 milhas (aproximadamente 314 quilômetros), as mulheres foram, em média, 0,6% mais rápidas.

É o que acontece nas provas de ultramaratona, que podem variar de 50 quilômetros a centenas ou até milhares de quilômetros, sendo disputadas em estradas, trilhas, montanhas ou ambientes extremos. Além da resistência física, os atletas precisam administrar fatores como sono, alimentação, hidratação, dores e desgaste mental. Na maioria dos casos, o sucesso depende não apenas da velocidade, mas também da capacidade de suportar dias ou semanas de esforço contínuo e de tomar decisões estratégicas sob condições extremas.

<><> Vantagens físicas e capacidade de adaptação

Tais fatores indicam que as mulheres conseguem competir em igualdade de condições quando o esforço se torna mais extremo.

Algumas características fisiológicas podem contribuir para isso. Em média, mulheres apresentam maior proporção de fibras musculares do tipo I, mais resistentes à fadiga, e tendem a utilizar mais gordura como fonte de energia durante atividades de longa duração.

As vantagens masculinas associadas à maior massa muscular e à maior capacidade máxima de absorção de oxigênio podem perder relevância em provas extremamente longas.

"Provavelmente conseguimos queimar gordura de forma mais eficiente e, por isso, resistir por mais tempo", afirmou Grant. Para ela, porém, os fatores físicos explicam apenas parte do desempenho. "Acho que conseguimos deixar o ego de lado. E também somos boas em resolver problemas", avalia, sobre o intenso processo de tomada de decisão em uma ultramaratona.

Durante a travessia da Via Alpina, Grant confiou essas decisões à equipe de apoio.

"Eu simplesmente coloquei minha vida nas mãos deles", afirmou. Ela começava a correr pela manhã e só parava quando os integrantes da equipe julgavam necessário." Você tenta controlar tudo o que é possível controlar. Depois, simplesmente mergulha no caos e vê o que acontece."

<><> Três horas de sono e até 7 mil calorias por dia

A intensidade do desafio ficou evidente na rotina de descanso. Grant dormiu, em média, apenas três ou quatro horas por noite. Nos últimos dias, chegou a descansar apenas 90 minutos. Quando o cansaço se tornava insuportável, deitava por alguns minutos ao lado da trilha.

"Você simplesmente se encolhe em algum lugar na beira do caminho, numa pequena depressão coberta de musgo, e espera que ninguém pense que você morreu, "contou. "A privação de sono foi uma das partes mais difíceis de toda a experiência."

Ao mesmo tempo, era necessário repor a enorme quantidade de energia consumida diariamente. Segundo sua equipe, a corredora ingeria entre 6.000 e 7.000 calorias por dia.

A dieta incluía bebidas esportivas, refrigerantes à base de cola, eletrólitos, burritos, wraps de falafel, sanduíches, massas e até produtos do McDonald's. Grande parte das refeições era feita enquanto ela continuava correndo.

Nas Dolomitas, o calor e as dores aumentaram ainda mais o sofrimento. "Nas Dolomitas eu chorei muito, "relatou. "Estava com muito calor. Sentia dores fortes. Meu corpo estava extremamente inchado. Eu apenas me arrastava para frente e pensava: não sei se vou conseguir."

<><> Mulheres ainda são sub-representadas na pesquisa esportiva

Para Grant, seu recorde levanta uma questão mais ampla: até onde as mulheres poderiam chegar nos esportes de resistência se seus corpos fossem estudados com a mesma profundidade que os dos homens.

Durante décadas, grande parte da pesquisa esportiva e médica concentrou-se em atletas masculinos.

"Como mulher, é preciso observar atentamente quem participou dos estudos, porque muitas vezes estamos falando simplesmente de dez ciclistas homens", afirmou.

Segundo a ultramaratonista, mulheres foram consideradas por muito tempo participantes mais complexas para a pesquisa científica, em parte por causa das variações hormonais associadas ao ciclo menstrual.

"Nós fomos negligenciadas durante décadas", disse. "Como mulheres, continuamos disputando as migalhas que sobram no esporte. Lutamos por mais cobertura da imprensa, mais pesquisa e mais patrocínio."

Os resultados de casos individuais não permitem concluir que mulheres sejam, em termos gerais, atletas de resistência superiores aos homens. Eles continuam detendo grande parte dos recordes e, em distâncias mais curtas, apresentam desempenho médio significativamente melhor.

Ainda assim, em provas extremamente longas, a diferença tende a diminuir. Em entrevista à BBC, o fisiologista do esporte Nicholas Tiller descreveu as provas de resistência como "o grande nivelador", porque, em esforços prolongados, fatores que vão além das capacidades físicas máximas podem se tornar decisivos.

Grant, porém, diz estar menos interessada em discutir quem tem vantagem biológica. "Acho que a coisa mais corajosa que alguém pode fazer é tentar. Tenha coragem de enfrentar aquilo que causa medo. Não importa qual será o resultado, porque pelo menos você tentou."

 

Fonte: DW Brasil