O
enigma de Lula 3 (Parte IV)
No
artigo anterior (o terceiro da série), discutiu-se a
estratégia social-desenvolvimentista implementada pelos primeiros governos de
Lula, sua conciliação subordinada à forma de Estado e à política macroeconômica
neoliberal hegemônica até a crise financeira global de 2008, e o impacto dessa crise
no sentido de produzir superprodução em escala global. Diante dela – a “guerra
cambial” de que falava Guido Mantega – o governo Dilma Rousseff procurou
promover uma inflexão limitada nas políticas macroeconômicas neoliberais
hegemônicas para criar condições para o avanço do programa
social-desenvolvimentista.
Atendendo
parcialmente a reivindicações do empresariado industrial (Singer, 2015),
Rousseff foi além delas e ativou a autonomia relativa do Estado para mudar a
direção de parte das políticas macroeconômicas sob inspiração
novodesenvolvimentista (a corrente desenvolvimentista liderada por Luiz Carlos
Bresser-Pereira): “poupar” mais para reduzir juros e induzir depreciação
cambial rápida (Bastos, 2015).
Como
mostrei ao analisar o projeto econômico e político do governo Dilma Rousseff
(Bastos, 2017; 2024), seu governo buscou, no final de 2011, modificar a
política macroeconômica para apoiar um projeto de reindustrialização e expansão
da infraestrutura combatendo o rentismo na dívida pública e a tendência de
apreciação cambial. No entanto, seu sucesso foi limitado de partida porque, de
início, o governo aprofundou o programa de corte de gastos públicos e limitação
do crédito iniciado no final do segundo governo de Lula, com impactos imediatos
sobre a desaceleração rápida e estagnação do PIB por um ano, embora não tão
sérios quanto a austeridade comandada por Joaquim Levy em 2015.
Mais
importante do que isso é que seu sucesso foi limitado estruturalmente pelo
contexto internacional, pela estrutura produtiva transformada pelo
neoliberalismo, e pela ausência de um plano coordenado de investimentos
públicos e privados que a recomposição gradual das capacitações estatais
desmontadas pelo neoliberalismo ainda não provera.
Depois
da contração fiscal sugerida pelos novodesenvolvimentistas como condição para
redução da taxa de juros e para a depreciação cambial desejada, as políticas
monetária e cambial realmente se modificaram, e a política fiscal voltou ao
território expansivo. Como procurei mostrar em artigo acadêmico (Bastos, 2017)
– e em autocrítica do que defendera na época (Bastos, 2012 vs Moreira &
Bastos, 2023a, e Bastos, 2024) –, a aposta industrializante via mudança de
preços relativos operava quase no vácuo, sem a base industrial de bens de
capital comandada pelo capital nacional que aumentaria sua eficácia, destruída
que fora pelo próprio neoliberalismo.
Recompor
a profundidade e diversificação da estrutura industrial demandaria uma sucessão
de planos coordenados de investimentos por longo tempo, com elevação de custos
a curto prazo como condição para aquisição de economias de escala e dinâmicas a
longo prazo – como o Estado desenvolvimentista original praticara. Sem isso, a
reindustrialização não pode avançar ao contar apenas com a modificação de
preços relativos sugerida pela ideologia novodesenvolvimentista, que produzia
uma rápida elevação de custos sem poder induzir, per se, o impacto estrutural
pretendido.
A queda
de lucratividade das empresas que dependiam de bens de produção importados
rapidamente as levou a lamentar a depreciação cambial que alguns de seus
líderes demandaram (Diegues, 2021).
O que o
combate do rentismo liderado por Dilma Rousseff queria induzir é a conversão de
capitais aplicados na dívida pública para investimentos industriais e em
infraestrutura com grande suporte financeiro público. O ministro da Casa Civil
no início do mandato de Dilma Rousseff foi Antonio Palocci, desde a década de
1990 considerado neoliberal por grupos petistas exatamente por causa das
concessões realizadas pela prefeitura de Ribeirão Preto (a venda de 49% da
Ceterp, em 1996, e concessões de saneamento).
Sendo
forçado a abandonar o governo de Dilma Rousseff em junho de 2011, viu de fora a
implementação de seu maior projeto, o programa federal de concessões de
serviços públicos e de infraestrutura à iniciativa privada – o Programa de
investimento em logística – anunciado em agosto de 2012.
Logo,
enquanto aprofundava temporariamente políticas macroeconômicas propostas pelo
Consenso de Washington, para revertê-las em seguida, o governo Rousseff
procurava criar as condições para a realização do Consenso de Wall Street
(Gabor, 2021; Schindler et al., 2023), reduzindo riscos privados para induzir a
participação do capital estrangeiro (em consórcio com parceiros locais ou não)
nos leilões das concessões realizadas, com participação ou não de investimentos
públicos. Não se trata de homogeneidade neoliberal: ao mesmo tempo, o governo
apoiava investimentos da Petrobrás e a expansão do crédito pelos bancos
públicos contra os respectivos concorrentes privados.
Tudo
isso foi feito sem mudança institucional no regime de livre mobilidade
internacional de capitais com câmbio flutuante, na política monetária baseada
no regime de metas de inflação e superávit primário estimado de modo que a
economia de recursos fiscais compensasse, pelo menos em parte, os custos sobre
a dívida pública associados à elevação de taxas de juros. Dada a regra de ouro
da Constituição (art. 167, III) – que impede o financiamento de gastos
correntes com endividamento, salvo autorização extraordinária do Congresso por
maioria absoluta, sob pena de crime de responsabilidade do presidente (Lei
10.028/2000) –, o “tripé” institucionaliza a austeridade macroeconômica, no
sentido de só permitir o atendimento de novas demandas de gasto público em conjunturas
excepcionais de crescimento da arrecadação tributária e baixa inflação.
Diante
de redução de taxa de crescimento ou de choques inflacionários, o regime
institucionalizado requer uma reação automática da política econômica: elevação
das taxas de juros e redução da taxa de crescimento do gasto público e, quando
necessário, cortes absolutos.
Logo,
quando a conjuntura econômica piorou em 2013 e incitou a reação automática no
sentido da austeridade que, se implementada, reverteria as alterações na
política econômica batizadas de “nova matriz econômica” em nome da preservação
do velho modelo macroeconômico, de novo o governo Rousseff evitou confrontar as
regras institucionais diante de forte resistência política à possibilidade. A
retórica dura da presidente talvez levasse muitos a imaginar a possibilidade de
uma ruptura mais importante, considerando a forte reação neoliberal na mídia
tradicional desde fins de 2012, como se o próprio neoliberalismo estivesse em
questão.
Se
esteve em questão, o desafio hegemônico foi revertido antes mesmo do golpe do
impeachment. Quando a conjuntura econômica e política mudou com os protestos de
Junho e o início da Operação Lava Jato, a opção do governo foi apenas a de
postergar o “ajuste” até as eleições de 2014, atrasando a transferência de
recursos fiscais para cobrir subsídios implícitos em empréstimos de bancos
públicos (o objeto da acusação no impeachment) e contendo a pressão
inflacionária através do controle de preços administrados.
Nenhum
esforço foi feito para modificar as regras fiscais no sentido de autorizar
déficits primários e reformar a “regra de ouro”, ou reformar o regime de metas
de inflação, nem sequer para excluir choques de preços de commodities do índice
de inflação relevante para a política monetária, como em vários outros países.
Em condições de abertura comercial e produtiva estrutural, a depreciação
cambial contribuiu para a pressão inflacionária, mas era incapaz de resistir à
forte pressão concorrencial na indústria de transformação empreendida pelos
países capitalistas desenvolvidos e pela China diante da desaceleração
provocada pela crise financeira de 2008-9 (Bastos & Hiratuka, 2020).
Ao
contrário de liberar um modelo de acumulação liderado pelo investimento
produtivo, os limites estruturais do neoliberalismo se impuseram sobre a
política econômica do governo de Dilma Rousseff para determinar a estagnação do
produto industrial entre 2011 e 2014, muito antes do desastre provocado pelo
“ajuste” de 2015-6.
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Das concessões de 2015 às amarras do novo arcabouço fiscal
Se os
limites estruturais já sufocavam o modelo desenvolvimentista antes mesmo de
2015, que forças e concessões políticas moldariam os rumos da economia no
período imediatamente posterior à reeleição? Após a reeleição, a presidenta
capitulou às propaladas pressões de Lula para substituir Guido Mantega e nomear
o banqueiro Luiz Carlos Trabuco, do Bradesco, aceitando Joaquim Levy no final –
antes, em 2013, Lula sugerira Henrique Meirelles para comandar a Fazenda,
claramente um neoliberal (Traumann, 2022).
Se
mesmo a principal representante do socialdesenvolvimentismo – Dilma Rousseff –
pilotou uma unidade contraditória permeada pelo neoliberalismo até em
instituições e práticas do seu “contrário”, como podemos negar os aspectos e
dimensões neoliberais no terceiro governo Lula?
Não
deveria surpreender que Lula tenha alegado em Barcelona, em entrevista ao
canal Calma Urgente em abril de 2026, que prefira o Estado
regulador ao Estado produtor. É exatamente essa a justificativa que Fernando
Haddad sempre deu à necessidade de coordenação entre a política fiscal da
Fazenda e a política monetária de Campos Neto e Gabriel Galípolo: criar o
horizonte de “credibilidade” sobre a trajetória “austera” das contas públicas e
o ambiente institucional para que os investimentos privados liderem o crescimento
brasileiro em época de novo arcabouço fiscal (Bastos, 2023a,b).
É por
isso que André Singer e Fernando Rugitsky (2023), citando minha crítica ao
neoliberalismo do arcabouço fiscal, alegaram que o reformismo fraco
característico do lulismo é ainda mais fraco do que o original.
O que
importa reter é o padrão de arbitragem. Assim como Lula arbitrou o conflito
original entre Antonio Pallocci e Dilma Rousseff elevando-a à condição de “mãe
do PAC” e sua sucessora presidencial, o sentido da arbitragem mudou em 2013 e
2014. As insatisfações empresariais e bancárias com a Nova matriz econômica – a
queda dos juros conduzida por Tombini, a batalha dos spreads travada pelos
bancos públicos, o efeito da depreciação cambial sobre a inflação e os custos
empresariais – encontraram um árbitro em Lula, que exigiu a demissão de Guido
Mantega e o retorno das políticas hegemônicas.
Assim
como o neoliberalismo fora restrito pelas pressões socialdesenvolvimentistas em
2005, agora a contenção do socialdesenvolvimentismo pelo neoliberalismo não foi
obra apenas de um polo externo, mas foi mediada pelo principal árbitro interno
à própria coalizão.
No
terceiro mandato de Lula, a arbitragem opera em sentido mais restritivo: agora
é o próprio socialdesenvolvimentismo que a política de Fernando Haddad contém
desde o início. A meta de inflação austera e o novo arcabouço fiscal – saudado
pelo ministro Haddad como um “novo teto de gastos” – comprimem estruturalmente
o espaço do gasto e travam o círculo virtuoso entre socialdesenvolvimentismo e
superávits fiscais primários que a primeira década lulista ativara, a ponto de
forçar a escolha entre romper os pisos de saúde e educação ou asfixiar o
restante do orçamento.
O
arcabouço não resultou, como o ajuste de 2003, de um constrangimento absoluto
do balanço de pagamentos, mas de uma barganha equivocada, que não testou os
limites da negociação possível – em parte porque se leu o êxito do primeiro
governo Lula como fruto da “credibilidade” da austeridade de Antonio Palocci,
quando foi fruto do círculo virtuoso entre distribuição e crescimento.
Socialdesenvolvimentismo contido, portanto, não por um inimigo externo, mas por
dentro, pela disciplina fiscal-monetária herdada e reposta pelo próprio
governo.
No que
tange à intensidade na execução da política econômica hegemônica, tampouco
podemos ser coniventes com o governo que vamos ajudar a reeleger e se esforçar
para mudar: à luz dos níveis de taxa de juros e superavit primário exigidos
pelo reinado do capital financeiro internacional de outros “mercados
emergentes” que não dispõem de reservas cambiais tão grandes quanto aquelas
controladas pelo governo brasileiro, nossa política macroeconômica é, entre
2024 e 2026, muito mais realista do que o rei neoliberal.
Juarez
Guimarães e Carlos Henrique Árabe (2025) dão a esse ponto uma formulação
programática: ao acomodar-se à institucionalidade macroeconômica neoliberal, o
PT teria perdido o próprio vocabulário para criticá-la, e recuperá-lo exigiria
tratar o neoliberalismo como regime de Estado – não apenas como ideologia
adversária. Essa formulação se aproxima demais da tese da homogeneidade
neoliberal para aceitarmos inteiramente, mas ela aponta para algo que a
separação rígida de Boito entre modelo e política impede de ver nos governos
liderados pelo PT: a forma de Estado neoliberal não é cenário externo, é o
terreno em que o governo pisa e que reproduz, contraditoriamente, por dentro,
com operadores que praticam, defendem e justificam a prática e a ideologia
neoliberal dessa forma de Estado.
Ou
vamos caracterizar como neodesenvolvimentistas nomes como Antonio Palocci,
Marcos Lisboa, Henrique Meirelles, no passado próximo, ou Fernando Haddad,
Rogerio Ceron, Gabriel Galípolo e Simone Tebet, hoje? Eles são, para dizer o
mínimo, como a unidade contraditória dos governos de que participaram, sujeitos
contraditórios oscilantes entre o neoliberalismo, o social-liberalismo, e o
socialdesenvolvimentismo.
Qual
deve ser, então, a nossa posição política? Não a de negar a existência do
neoliberalismo no seio do governo – o que nos desarma para identificá-lo e
enfrentá-lo –, mas a de negar praticamente a sua dominância na coalizão. Isso
deverá resultar, um dia, em uma política monetária, cambial e fiscal que
superará a austeridade, sem recair na ilusão novodesenvolvimentista de apostar
numa depreciação cambial incontrolável, que por si não pode produzir a
substituição de importações e as exportações industriais que seus defensores
preveem.
Não vou
encher a conclusão do artigo com tecnicalidades econômicas, nem repetir as
propostas que já apresentei em outro artigo (Bastos, 2026), visando aproveitar
o contexto de rivalidade estratégica entre Estados Unidos e China com um espaço
de política arrancado do novo arcabouço fiscal. Outras propostas podem ser
pensadas desde que lutemos contra o neoliberalismo desde dentro da coalizão que
devemos apoiar contra o neofascismo radicalmente neoliberal sem qualquer
hesitação.
Não se
trata de restringir o neoliberalismo com idealismo: as forças sociais e
políticas capazes de sustentar essa inflexão já existem e precisam ser
reforçadas. O que é preciso é convencê-las de que não há por que pagar tamanho
pedágio – inclusive ideológico – à reprodução da hegemonia neoliberal no modelo
capitalista brasileiro, na sua forma de Estado e na sua política econômica
hegemônica, inclusive no terceiro governo Lula.
É esse
pedágio que, a despeito do passado inconfessável no caminho de Flávio
Bolsonaro, ainda ameaça um quarto mandato, cuja missão não pode ser entregar
menos do mesmo.
Fonte:
Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em A Terra é Redonda




