terça-feira, 11 de agosto de 2026

Brasil de 2027: mesma armadilha - orçamento sequestrado pelo Congresso e uma sociedade exausta de esperar

As eleições presidenciais de 2026 não podem ser compreendidas apenas como disputa entre candidatos, partidos ou programas. Elas condensam um processo histórico mais longo, no qual se encontram a formação peculiar do Estado brasileiro, a permanência das elites políticas e econômicas, a transformação recente do capitalismo, a crise da representação, o crescimento da extrema direita e a crescente dificuldade do Estado nacional de controlar as condições materiais sobre as quais pretende governar. O presidente eleito em outubro de 2026 assumirá em 1º de janeiro de 2027 não simplesmente a administração federal, mas um país submetido a restrições econômicas, políticas e internacionais que reduzem sua margem de autonomia.

Quem vencer encontrará um Congresso fortalecido, orçamento mais disputado pelas emendas parlamentares, dívida pública elevada, juros reais altos, demandas sociais reprimidas, estrutura produtiva vinculada à exportação de commodities, pressões ambientais crescentes, organizações criminosas que ultrapassaram os limites tradicionais da segurança pública e uma sociedade politicamente dividida. Governará também em um mundo mais instável do que aquele encontrado pelos governos brasileiros no início deste século. Por isso, a pergunta fundamental de 2026 não é apenas quem vencerá as eleições, mas o que ainda significa vencer uma eleição presidencial no Brasil.

<><> Uma independência que preservou a ordem

O Estado brasileiro nasceu de uma transição política profundamente distinta das rupturas que produziram boa parte das repúblicas hispano-americanas. A Independência de 1822 preservou a monarquia, manteve a escravidão, conservou estruturas econômicas coloniais e acomodou os interesses das elites proprietárias. Mudou-se a relação formal com Portugal sem que se produzisse transformação equivalente nas estruturas sociais.

Essa característica marcou profundamente a história brasileira. A Abolição extinguiu juridicamente a escravidão sem realizar reforma agrária nem integrar a população negra à cidadania econômica. A República derrubou a monarquia sem democratizar profundamente a sociedade. A Revolução de 1930 modernizou o Estado e impulsionou a industrialização, mas preservou estruturas oligárquicas. O golpe de 1964 interrompeu um processo de reformas sociais quando a modernização econômica produzia pressões por transformações estruturais.

Há, portanto, uma continuidade importante: o Estado brasileiro modernizou-se inúmeras vezes sem romper integralmente com as estruturas de poder que o sustentavam. O país tornou-se moderno sem deixar de ser dependente.

A Constituição de 1988 representou a maior tentativa histórica de construir uma cidadania social universal no Brasil. O Sistema Único de Saúde, a seguridade, a educação pública e a ampliação dos direitos políticos estabeleceram um pacto constitucional de enorme alcance. Entretanto, esse pacto nasceu quando o capitalismo mundial caminhava para a financeirização, a liberalização dos fluxos de capital e a crescente subordinação dos Estados às expectativas dos mercados financeiros. Essa tensão atravessou toda a Nova República.

Os governos Lula, iniciados em 2003, operaram dentro dessa estrutura institucional, mas encontraram condições internacionais favoráveis. A expansão chinesa elevou a demanda por commodities, ampliou as exportações brasileiras e permitiu combinar crescimento, políticas sociais, valorização real do salário mínimo e ampliação do consumo. Milhões de brasileiros foram incorporados ao mercado consumidor; universidades federais expandiram-se; programas de transferência de renda produziram resultados sociais relevantes; o desemprego diminuiu.

A crise internacional de 2008 marcou transformação mais profunda. A expansão extraordinária da liquidez financeira, o crescimento do capital fictício, a ascensão dos fundos de investimento, das plataformas digitais e dos grandes conglomerados tecnológicos alteraram a própria temporalidade do capitalismo. Empresas, governos, universidades e indivíduos passaram a organizar decisões mediante expectativas permanentemente atualizadas. O futuro tornou-se objeto de apropriação no presente.

Para países dependentes como o Brasil, essa transformação produz efeitos particulares. A política econômica precisa considerar expectativas de investidores, taxas internacionais, movimentos cambiais e fluxos de capitais capazes de se deslocar em segundos. A soberania política formal permanece, mas a capacidade de controlar o próprio tempo econômico diminui.

A eleição de 2022 mostrou até onde essa dinâmica poderia chegar. A vitória de Lula encerrou eleitoralmente o governo Bolsonaro, mas não eliminou o bolsonarismo. Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 demonstraram que uma parcela radicalizada da sociedade deixara de considerar a alternância eleitoral como mecanismo suficiente de legitimidade política. A democracia sobreviveu, mas não voltou ao ponto anterior.

 <><> O que está em disputa em 2026

A eleição de 2026 não será mera repetição de 2022. Jair Bolsonaro não está pessoalmente na urna, mas sua força política permanece organizada e procura transferência eleitoral para seu campo. Lula chega à disputa carregando simultaneamente a força histórica de sua liderança e o desgaste inevitável de quem governa.

As pesquisas divulgadas no início de agosto confirmam uma disputa competitiva e mostram que a polarização continua organizando o sistema eleitoral. Mas há uma diferença substantiva. Em 2022, a defesa das instituições democráticas teve papel central na construção da frente que sustentou Lula. Em 2026, a democracia continua importante, porém o cotidiano econômico, a segurança pública, o custo de vida e a capacidade de oferecer perspectivas de futuro ganham peso maior. Não basta defender a democracia. Será necessário responder à pergunta sobre o que a democracia consegue entregar socialmente.

O vencedor receberá uma economia contraditória. O mercado de trabalho permanece forte e as projeções para 2026 indicam crescimento positivo e moderado. Não será necessariamente uma economia em recessão que chegará às mãos do novo governo.

Mas os obstáculos aparecem quando se observa a estrutura fiscal. A dívida bruta encontra-se em patamar elevado e deverá continuar pressionando o governo seguinte. O resultado nominal permanece negativo e a despesa com juros absorve parcela expressiva da riqueza produzida no país. O novo presidente terá de investir em infraestrutura, saúde, educação, ciência, defesa, transição energética e segurança pública ao mesmo tempo que enfrentará pressão permanente pela estabilização da dívida.

O problema não é apenas contábil. Uma dívida elevada numa economia que opera por períodos prolongados com juros reais altos transfere quantidade extraordinária de recursos ao circuito financeiro. Mesmo com eventual redução da Selic, os juros continuarão condicionando investimento e orçamento.

Parte importante das decisões do próximo governo dependerá, portanto, de variável que o presidente não controla diretamente: a política monetária conduzida por um Banco Central autônomo. Temos aqui uma transformação fundamental do poder presidencial. O presidente será eleito por dezenas de milhões de cidadãos, mas parcela decisiva das condições econômicas de seu governo será determinada por estruturas institucionais e expectativas financeiras que não estão submetidas ao mesmo ciclo eleitoral.

Indicadores macroeconômicos e experiência social não são equivalentes. A inflação pode diminuir sem que os preços retornem ao patamar anterior. O cidadão não compara apenas índices; compara o dinheiro que recebe com aquilo que consegue comprar. Moradia, alimentação, planos de saúde, medicamentos, transporte e serviços constituem a experiência cotidiana da economia.

Por isso, um país pode apresentar desemprego relativamente baixo e, simultaneamente, produzir percepção de insegurança econômica. Essa será uma das heranças de 2027: uma sociedade empregada em proporção relativamente elevada, mas insegura quanto ao futuro.

A expansão do trabalho por plataformas, a informalidade, a automação e a inteligência artificial tornarão ainda mais importante discutir a qualidade do trabalho, não apenas a quantidade de empregos. O próximo governo precisará enfrentar uma pergunta que vai além dos indicadores conjunturais: como organizar proteção social numa economia em que as fronteiras entre emprego, trabalho autônomo e prestação de serviços digitais tornam-se cada vez mais instáveis?

<><> O Congresso não será coadjuvante

O presidente eleito receberá uma Presidência distinta daquela dos anos 1990 ou do início dos anos 2000. O Palácio do Planalto continua poderoso, mas perdeu parte da centralidade sobre a execução do orçamento. O presidencialismo de coalizão não desapareceu; foi reorganizado em bases mais favoráveis ao Legislativo.

Há nisso um paradoxo. A sociedade continuará atribuindo ao presidente responsabilidade quase absoluta pelo desempenho do governo. Entretanto, parcela crescente dos recursos estará submetida a negociações com um Congresso que possui agenda própria e interesses territoriais. O presidente de 2027 poderá vencer a eleição nacional e, ainda assim, começar o mandato politicamente minoritário.

A composição da Câmara e do Senado será, portanto, tão importante quanto o resultado presidencial. Governar não será simplesmente executar o programa legitimado pelas urnas. Será reconstruí-lo permanentemente dentro de uma correlação parlamentar que poderá ter orientação distinta daquela do presidente. A velha questão brasileira reaparece sob nova forma: quem governa efetivamente o Estado?

O próximo presidente terá de tratar a segurança como política nacional sem destruir o federalismo. Será necessário integrar inteligência financeira, Polícia Federal, Receita Federal, forças estaduais, controle de fronteiras e investigação patrimonial. A resposta exclusivamente repressiva pode produzir efeitos eleitorais imediatos, mas não desmonta a estrutura econômica das organizações criminosas.

O país necessita manter relações estratégicas com Washington sem romper com Pequim, defender o multilateralismo numa ordem cada vez menos multilateral, participar dos BRICS sem transformar essa presença em alinhamento automático e recuperar capacidade de liderança latino-americana num continente politicamente fragmentado.

<><> A dependência ganhou nova forma

A dependência contemporânea já não pode ser compreendida apenas como relação comercial entre países industrializados e exportadores de matérias-primas. Ela incorporou dimensões financeiras, tecnológicas, cognitivas e temporais.

O Brasil exporta alimentos, minérios e energia em escala extraordinária, mas depende das grandes plataformas internacionais para comunicação, circulação de informações e processamento de dados. Depende de tecnologias externas em setores estratégicos e de cadeias internacionais para componentes industriais complexos. Parcela importante de seu horizonte econômico é condicionada pela movimentação do capital financeiro internacional.

A inteligência artificial torna essa questão ainda mais urgente. Nos próximos quatro anos, sistemas de inteligência artificial deverão alterar profissões, pesquisa científica, administração pública, indústria, serviços e educação. Um país que não possuir infraestrutura computacional, energia, formação científica e domínio sobre seus dados poderá tornar-se consumidor de tecnologias produzidas em outros centros.

A dependência, nesse caso, não será apenas econômica. Será dependência sobre a produção do conhecimento e sobre as condições de imaginar o futuro. Desenvolvimento, portanto, não significa apenas ampliar o PIB. Significa possuir capacidade de decisão. Um país pode crescer enquanto perde autonomia tecnológica, industrial e científica.

A ciência, entretanto, não obedece ao calendário eleitoral. Uma universidade não é construída em quatro anos. Um sistema científico não amadurece em uma legislatura. Um pesquisador leva décadas para formar-se.

Essa é também uma disputa sobre o tempo. O capitalismo contemporâneo exige retorno cada vez mais rápido; a ciência exige duração. O mercado financeiro reorganiza expectativas diariamente; a universidade trabalha com gerações. Se o Estado se submeter integralmente à temporalidade imediata do mercado, perderá a capacidade de produzir aquilo que somente pode existir no longo prazo.

O bolsonarismo demonstrou capacidade de sobreviver à derrota de 2022 e à impossibilidade de candidatura de Jair Bolsonaro. Isto significa que não se trata apenas da biografia de um homem. Existe uma base social conservadora que encontrou representação política duradoura.

Da mesma maneira, o lulismo não pode ser reduzido ao Partido dos Trabalhadores. Lula conserva vínculos com parcelas importantes dos trabalhadores, setores populares, Nordeste, movimentos sociais e segmentos que associam seus governos à ampliação do consumo e das políticas sociais.

A eleição ocorrerá entre identidades políticas que possuem memória. O vencedor assumirá um país no qual dezenas de milhões terão votado contra ele. Se interpretar maioria eleitoral como autorização para negar a existência política da minoria, aprofundará a crise. Governar o Brasil exigirá governar também aqueles que perderam a eleição.

<><> O país que será entregue em 2027

O presidente eleito receberá um Brasil economicamente relevante, dotado de enorme capacidade agrícola, energética e ambiental; uma das maiores democracias eleitorais do mundo; sistema público de saúde de dimensão continental; universidades e instituições científicas consolidadas; reservas internacionais importantes; matriz elétrica relativamente limpa; grande mercado interno e posição geopolítica singular.

Não receberá um país arruinado. Mas receberá um país bloqueado por contradições. A dívida pública estará elevada. Os juros continuarão pressionando as contas públicas e o investimento. O Congresso administrará parcela relevante do orçamento. A sociedade permanecerá polarizada. A criminalidade organizada exigirá coordenação nacional. A indústria enfrentará problemas de produtividade e competitividade. A transformação tecnológica pressionará o mercado de trabalho. E a disputa entre Estados Unidos e China reduzirá as possibilidades de neutralidade passiva.

Ao mesmo tempo, inflação, preços e custo de vida continuarão influenciando a experiência cotidiana da população. O presidente poderá mostrar indicadores positivos e ainda assim enfrentar descontentamento social. Porque o problema brasileiro já não pode ser medido apenas pela presença ou ausência de crescimento. A questão é quem participa desse crescimento, quais serviços consegue acessar, quanto de sua renda é consumido pela sobrevivência e que expectativa possui para os filhos.

A história brasileira demonstra isso de maneira quase pedagógica. A Independência alterou o centro político sem destruir a estrutura social colonial. A República mudou o regime sem democratizar imediatamente a sociedade. A industrialização modificou a economia sem eliminar a dependência. A Constituição de 1988 ampliou extraordinariamente os direitos sem garantir permanentemente os recursos necessários para financiá-los.

O risco de 2026 é repetirmos a mesma forma: uma eleição intensíssima, capaz de mobilizar milhões de pessoas, seguida por um governo obrigado a negociar dentro de estruturas que permanecerão essencialmente inalteradas.

Se Lula vencer, não poderá simplesmente reproduzir 2003. O mundo das commodities em expansão, da globalização relativamente cooperativa e do crescimento chinês acelerado não existe mais da mesma forma. Se vencer a oposição, também não haverá liberdade para uma ruptura simples. Será necessário construir maioria parlamentar, administrar a dívida, conviver com o Banco Central, preservar relações internacionais, negociar com governadores, manter políticas públicas nacionais e responder às instituições de controle.

O presidente que subir a rampa do Palácio do Planalto em 1º de janeiro de 2027 encontrará uma sociedade ansiosa por respostas rápidas para problemas construídos ao longo de décadas. Essa diferença entre o tempo das expectativas e o tempo necessário às transformações será uma das principais fontes de instabilidade do novo governo.

A população exige resultados imediatamente. As redes sociais julgam diariamente. Os mercados reagem em minutos. O Congresso negocia semanalmente. Pesquisas de opinião transformam-se rapidamente em avaliação de governo.

Está aí talvez a questão mais profunda do Brasil contemporâneo: o país perdeu parte da capacidade de administrar o próprio tempo. Governos tornaram-se gestores de urgências. Administram orçamento, juros, crises ambientais, preços, conflitos políticos, redes sociais e emergências sucessivas. Pouco tempo resta para construir aquilo que ainda não existe.

É nesse sentido que a dependência contemporânea pode ser compreendida como controle do tempo histórico. Uma sociedade dependente não é apenas aquela que transfere riqueza para o centro do sistema. É também aquela cuja capacidade de decidir sobre o próprio futuro se encontra limitada por estruturas econômicas, financeiras, tecnológicas e cognitivas que não controla.

A eleição de 2026 colocará projetos políticos em confronto. Mas, qualquer que seja o resultado, permanecerá uma pergunta anterior aos candidatos: o Brasil ainda consegue produzir um projeto histórico próprio?

Essa pergunta não pode ser respondida apenas por uma eleição. Ela exige recuperar a capacidade do Estado de planejar, da universidade de pensar, da ciência de investigar, da sociedade de debater e da política de olhar além da próxima pesquisa eleitoral.

O presidente eleito herdará uma democracia resistente, mas tensionada; uma economia capaz de crescer, mas submetida a severas restrições financeiras; um país socialmente moderno, mas ainda profundamente desigual; uma potência ambiental sem pleno domínio tecnológico; e uma sociedade que deseja futuro enquanto suas instituições são obrigadas a funcionar na temporalidade permanente da urgência.

Administrar esse Brasil será difícil. Transformá-lo será ainda mais. O verdadeiro desafio do governo iniciado em 2027 não será apenas equilibrar orçamento, formar maioria no Congresso ou produzir crescimento. Será reconstruir a possibilidade de que decisões tomadas no presente possam produzir efeitos duradouros no futuro.

Talvez seja justamente aí que as eleições de 2026 adquiram sua dimensão histórica. Não estarão em disputa apenas quatro anos de governo. Estará em disputa a possibilidade de o Brasil recuperar, ainda que parcialmente, o controle sobre seu próprio tempo histórico.

 

Fonte: Por João dos Reis Silva Júnior, em A Terra é Redonda 

 

O que o espera, Brasil

A frase “O que o espera, Brasil” foi publicada neste domingo, 9 de agosto, por Carlos Giménez. Acompanhava uma montagem em que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva aparece vendado e imobilizado, reproduzindo a imagem de Nicolás Maduro durante o sequestro, prisão e transferência por forças dos Estados Unidos na Venezuela. Na mão, uma garrafa de cachaça 51.

Giménez não escreveu que os Estados Unidos pretendem invadir o Brasil ou capturar Lula. Foi o influenciador Lucas Mantovani quem traduziu assim a imagem: “Os Estados Unidos vão invadir o Brasil e prender Lula do mesmo jeito que invadiram a Venezuela e prenderam Maduro?”.

E respondeu: “Parece que o deputado Giménez respondeu sim”.

A interpretação é de Mantovani. A montagem e a legenda — “O que o espera, Brasil” — são de Giménez. E saber quem é seu autor ajuda a dimensionar a mensagem.

Nascido em Havana, Giménez é deputado republicano pela Flórida e integra os comitês de Serviços Armados e Segurança Interna da Câmara, além do comitê especial dedicado à competição estratégica entre Estados Unidos e China. É também próximo de Marco Rubio.

<><> Querido amigo

Quando Donald Trump escolheu Rubio para comandar o Departamento de Estado, Giménez comemorou publicamente a indicação de seu “querido amigo”. A relação entre os dois ganhou significado especial em janeiro. Depois da operação americana que sequestrou Maduro, Rubio telefonou para Giménez às 4h27 da madrugada. Disse apenas: “We got him” (“Nós o pegamos”).

Sete meses depois, Giménez utilizou justamente a imagem daquele Maduro capturado para representar Lula em mensagem no X sob o título “O que o espera, Brasil”.

Não há evidência de que Rubio tenha participado da postagem ou sequer soubesse dela previamente. Mas seu autor não está na periferia do trumpismo. Pertence ao núcleo republicano cubano-americano da Flórida que exerce influência sobre a política de Washington para Cuba, Venezuela e América Latina.

Giménez já havia atacado Lula no dia anterior. Em 8 de agosto, chamou o presidente brasileiro de “corrupto” e “criminoso”, também no X, e responsabilizou-o pela deterioração das relações entre Brasil e Estados Unidos. O presidente da Argentina, Javier Milei, republicou a mensagem em sua própria conta. No dia seguinte, Giménez publicou a montagem com Lula no lugar de Maduro: “O que o espera, Brasil”.

Guga Chacra resumiu recentemente essa disputa em O Globo com um título direto: “A guerra de Rubio contra Lula”. Segundo Chacra, Trump entregou a Rubio enorme influência sobre a política para o Hemisfério Ocidental. Nesse projeto, uma vitória de Flávio Bolsonaro consolidaria o avanço político da direita no continente. A reeleição de Lula representaria uma derrota estratégica.

Neste fim de semana, The Economist acrescentou um dado expressivo: desde a volta de Trump à Casa Branca, candidatos de direita venceram as sete eleições realizadas na América Latina. A revista registra também a interferência política de Trump nas disputas eleitorais da região. Agora vem o Brasil.

<><> A joia da coroa

No artigo “A disputa pelas urnas brasileiras”, publicado no último sábado, procurei mostrar que a eleição de 2026 deixou de ser apenas uma disputa nacional e passou a integrar a nova disputa geopolítica pelas Américas. Não é preciso repetir aqui toda aquela história.

O Brasil é a maior economia latino-americana, integrante dos BRICS, detentor de recursos estratégicos e principal parceiro da China na América do Sul. Lula acaba de manter longas conversas com Xi Jinping e Vladimir Putin e insiste numa política externa autônoma em relação a Washington.

Para Trump e Rubio, um Brasil governado por Lula significa algo muito diferente de um Brasil governado por uma direita alinhada aos Estados Unidos. É a joia da coroa. E faltam apenas 55 dias para a eleição.

A Venezuela tornou-se uma metáfora recorrente nessa disputa. Em 6 de agosto, Eduardo Bolsonaro publicou um vídeo em inglês dirigido à “comunidade internacional”, comparando o Brasil à Venezuela e associando Lula ao caminho de Maduro. Três dias depois, a mensagem fez o percurso inverso.

Eduardo falou do Brasil para o exterior. Giménez falou do exterior para o Brasil. E transformou em imagem a associação entre Lula e Maduro. Talvez seja apenas mais uma provocação das redes sociais. Não fosse por outro personagem ligado ao chavismo cujo nome começou a circular nas últimas semanas.

<><> Anote este nome

Em 31 de julho, Renato Rovai publicou na Revista Fórum um vídeo com um título explosivo: “EXCLUSIVO: Trump vai usar homem de Chávez e Maduro para dar golpe contra Lula”. E recomendou:

“Anote este nome: Alex Saab”.

Segundo Rovai, Saab estaria sendo preparado para produzir acusações contra Lula. O conteúdo de uma eventual delação seria vazado e transformado em material político durante a campanha brasileira. A informação é grave — e ainda não encontramos confirmação para ela.

Mas existem elementos concretos que justificam acompanhá-la: Saab está novamente sob controle da Justiça americana, já colaborou anteriormente com autoridades dos Estados Unidos e conhece por dentro as estruturas financeiras do chavismo. E há o calendário. Seu julgamento federal está previsto para 8 de setembro. A eleição brasileira será em 4 de outubro.

<><> Outro delator

Saab não é o único antigo personagem do chavismo sob controle da Justiça americana. Luiz Carlos Azenha chamou atenção na Fórum para Hugo El Pollo Carvajal, general venezuelano e antigo chefe da inteligência militar de Hugo Chávez. Carvajal já acusou Lula.

Em 2021, quando estava preso na Espanha e tentava impedir sua extradição para os Estados Unidos, afirmou que o governo venezuelano havia financiado clandestinamente políticos e partidos de esquerda em vários países e incluiu Lula entre os nomes citados. A acusação jamais foi comprovada. Era mentira. Tampouco há evidência pública de que Carvajal a tenha repetido posteriormente em sua colaboração com a Justiça americana.

Temos, portanto, dois personagens que conheceram áreas sensíveis do poder chavista submetidos ao sistema judicial dos Estados Unidos. Um já acusou Lula. O outro poderia fazê-lo.

<><> Do vazamento ao celular

Há uma segunda parte na hipótese. Uma eventual acusação não precisaria ser anunciada pela Casa Branca. Poderia surgir como vazamento — um trecho de depoimento, documento ou informação atribuída a investigadores — e entrar imediatamente na campanha brasileira.

É aqui que aparecem as reuniões promovidas pelo Consulado dos Estados Unidos em São Paulo com influenciadores brasileiros, apresentadas dentro de uma agenda relacionada à “liberdade de expressão”. As reuniões existiram. Não existe prova de qualquer ligação entre elas e Saab, Carvajal ou uma eventual delação.

Rovai, entretanto, levanta a hipótese de que informações vazadas poderiam ser amplificadas por influenciadores e chegar rapidamente ao eleitor. O episódio Giménez mostra como esse circuito pode funcionar. Uma imagem é publicada nos Estados Unidos. Influenciadores brasileiros a interpretam. As redes a distribuem. Em poucas horas, está dentro da campanha.

Não é necessário provar uma conspiração para reconhecer a transformação tecnológica: uma acusação verdadeira, falsa ou descontextualizada pode alcançar milhões de eleitores antes que jornalistas, tribunais ou instituições consigam verificar sua procedência. Com inteligência artificial, vídeos sintéticos e microssegmentação, a distância entre Miami e os milhões de celulares brasileiros desapareceu.

<><> Não se metam

É nesse ambiente que Lula vem endurecendo o discurso sobre soberania. Em entrevista recente, afirmou: “Quem manda no nosso país é o povo brasileiro. Quem governa este país sou eu. Qualquer um pode disputar as eleições, mas não se metam no processo eleitoral”.

Lula não falava de Saab. Falava de algo maior: a tentativa de interferência externa no processo político brasileiro. Enquanto o presidente diz “não se metam”, um congressista republicano próximo a Marco Rubio publica Lula no lugar de Maduro capturado. E há outro relógio correndo.

Faltam 55 dias para 4 de outubro, primeiro turno da eleição presidencial brasileira.

Não sabemos se Saab fará uma delação contra Lula nem há evidência de que as reuniões do Consulado ou a postagem de Giménez façam parte de uma operação coordenada para interferir na eleição. Mas o contexto existe.

Trump voltou à Casa Branca decidido a reafirmar a influência dos Estados Unidos sobre a América Latina. Marco Rubio tornou-se personagem central dessa política. Governos de direita avançaram pelo continente. E o Brasil tornou-se a grande eleição que falta para eles.

Uma vitória de Flávio Bolsonaro aproximaria o maior país da América Latina do eixo político de Washington. Uma vitória de Lula manteria no comando do Brasil um presidente que fortalece os BRICS, amplia relações com a China, conversa diretamente com Xi Jinping e Vladimir Putin e reivindica autonomia para o Sul Global.

É nesse cenário que se disputa a joia da coroa. E há um relógio correndo. O julgamento de Saab está previsto para começar em Miami em 8 de setembro. O primeiro turno brasileiro será em 4 de outubro. Entre as duas datas existem apenas 26 dias — justamente o período mais intenso da campanha.

Se Saab decidir “colaborar” e fizer acusação contra Lula, isso não a transformará em verdade. Será preciso perguntar: há documentos? Registros bancários? Testemunhas? Provas independentes?

A Justiça pode levar meses para responder. A campanha digital precisará de minutos.

Esse é o ponto central da hipótese levantada por Rovai. Uma acusação pode produzir consequências eleitorais antes que sua veracidade seja estabelecida. Se depois da eleição ficar demonstrado que era falsa, o efeito político talvez já seja irreversível. Não sabemos se isso acontecerá.

Mas sabemos que hoje uma informação produzida pode alcançar milhões de celulares brasileiros instantaneamente.

<><> Militares brasileiros entram no palco

Enquanto aumenta a pressão externa, surgiu um movimento dentro do país. Em 3 de agosto, os clubes Naval, Militar e da Aeronáutica divulgaram a nota “Os riscos à Nação”, criticando o governo Lula em plena campanha presidencial. Não é uma manifestação oficial das Forças Armadas. Os clubes representam principalmente militares da reserva.

Benedito Tadeu César chamou atenção, no portal RED, para o significado histórico de entidades militares voltarem a se apresentar como intérpretes dos riscos enfrentados pela Nação. O episódio ganha relevância por ocorrer na primeira eleição presidencial depois do 8 de Janeiro e da condenação de militares de alta patente por participação na tentativa de impedir a transferência constitucional do poder.

Não há evidência de ligação da nota com Trump ou os acontecimentos aqui investigados. Mas setores organizados da reserva também entraram no ambiente político de uma eleição submetida a fortes tensões externas.

<><> A verdadeira pergunta

No sábado, ao concluir “A disputa pelas urnas brasileiras”, escrevi que prudência significa não transformar hipóteses em certezas — mas também não ignorar sinais que merecem atenção. Um dia depois, um deputado republicano próximo a Marco Rubio publicou Lula vendado e imobilizado no lugar de Nicolás Maduro e escreveu:

“O que o espera, Brasil”.

Não sabemos se Alex Saab fará uma delação contra Lula. Não sabemos se a hipótese se confirmará. E não há evidência, até agora, de uma operação coordenada envolvendo esses diferentes acontecimentos.

Mas talvez a verdadeira questão já não seja saber apenas o que acontecerá em Miami em 8 de setembro. É saber o que pode acontecer no Brasil nos 55 dias que nos separam das urnas. Em 4 de outubro, os brasileiros decidirão quem será o próximo Presidente da República. Carlos Giménez perguntou — ou talvez tenha advertido: “O que o espera, Brasil.” Certamente uma ameaça explícita à possível reeleição de Lula.

A resposta não pertence a ele. Nem a Donald Trump. Nem a Marco Rubio. Nem a qualquer governo estrangeiro. Pertence aos brasileiros.

E será dada nas urnas, em 55 dias, no mês de outubro: dia 4 ou, se houver segundo turno, 20 dias depois.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

Soberania em questão

No início dos anos 1950, as ruas brasileiras foram tomadas por um grito que unia generais, operários, escritores e poetas na campanha “O petróleo é nosso”. Aquela mobilização não se limitava à disputa por uma fonte de energia; representava a afirmação simbólica de uma nação que reivindicava o direito de decidir seu próprio destino.

A partir do regime militar implantado em 1964, entretanto, o aparato de comunicação dominante operou uma profunda transmutação semântica. Assim, a defesa da soberania sobre recursos estratégicos, antes celebrada como expressão de patriotismo, passou a ser apresentada como um resquício de nacionalismo ultrapassado ou um fetiche anacrônico. Em muitos casos, inverteu-se o sentido do chamado “complexo de vira-latas”: o apego à autodeterminação nacional passou a ser retratado como sinal de atraso, enquanto a dependência externa passou a ser revestida de modernidade e pragmatismo.

Longe de representar uma questão superada, o tema retorna hoje com renovado vigor – e com uma urgência inversamente proporcional à acomodação em que parte da esquerda parece mergulhada. Tomo como exemplo a compra da mineradora Serra Verde por US$ 2,8 bilhões pela empresa norte-americana USA Rare Earth (20.04.2026). O episódio guarda paralelos significativos com a controvérsia sobre a exploração das reservas do Quadrilátero Ferrífero de Minas Gerais pela Hanna Mining, em um contexto marcado pela reorientação política, econômica e ideológica do país.

Embora separados por mais de meio século, ambos os casos levantam uma questão fundamental sobre o papel das riquezas estratégicas em um projeto nacional de desenvolvimento. Afinal, o que é melhor para o país – priorizar a soberania econômica ou atender às demandas dos mercados globais e dos investidores internacionais? Para compreender melhor essa questão, é preciso recuar no tempo.

O assédio da Hanna ao minério brasileiro ganhou dimensões de escândalo nos governos Jânio Quadros e João Goulart, mas era apenas o derradeiro capítulo de uma disputa iniciada décadas antes. A Constituição de 1937, promulgada por Getúlio Vargas, consagrava o princípio de que o subsolo constituía patrimônio estratégico da nação. Sua exploração estava reservada a brasileiros ou empresas constituídas por brasileiros natos.

Ao tomar posse em 1946, o presidente Eurico Gaspar Dutra flexibilizou essas restrições ao firmar um acordo com os Estados Unidos sobre a exploração do Quadrilátero ferrífero. Os trabalhos seriam conduzidos pelo DNPM (Departamento Nacional de Produção Mineral) e pelo U.S. Geological Survey.

Entretanto, Getúlio Vargas voltou ao poder em 1951 pelo voto popular, restabelecendo as diretrizes relativas ao controle nacional dos recursos minerais e energéticos. Ao instalar a Comissão Mista Brasil–Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, Getúlio Vargas procurou preservar a visão de que as riquezas estratégicas deveriam servir ao fortalecimento da economia nacional e ao desenvolvimento do país.

Essa orientação foi posteriormente mantida, com diferentes nuances, pelos governos de Jânio Quadros e João Goulart. Cada um a seu modo, os três presidentes compartilhavam a convicção de que as gigantescas reservas de minério de ferro deveriam funcionar como instrumento de industrialização e de independência econômica.

Nesse período histórico, o governo Juscelino Kubitschek foi o único a adotar uma linha divergente: defendeu a ampliação das exportações de minério de ferro, sustentando a necessidade de atrair grandes investimentos. Em 24 de novembro de 1957, o diretor do DNPM, Mário Silva Pinto, argumentou publicamente que o Brasil possuía reservas de ferro suficientes para abastecer o mundo por quatro mil anos. Para ele, urgia explorar esse potencial exportador. Uma semana antes de seu pronunciamento, havia sido criada a Mineração Hannaco Ltda., braço brasileiro da Hanna Mining Company.

Sob orientação de Roberto Campos e Lucas Lopes, a Hanna adquiriu o controle da St. John d’El Rey Mining, empresa que durante mais de um século explorou ouro em Minas Gerais. A revista Time destacou na ocasião que a compra visava o aproveitamento de mais de dois bilhões de toneladas de minério de alto teor no território antes controlado pelos ingleses. Paralelamente, Lucas Lopes tornou-se ministro da Fazenda e Roberto Campos assumiu a presidência do BNDE. Contudo, a posse de Jânio Quadros interromperia o projeto.

Por trás da aparência histriônica, Jânio Quadros defendia o fortalecimento da siderurgia nacional, a proteção da Companhia Vale do Rio Doce e a prioridade ao transporte ferroviário estatal. No início de sua gestão, o Conselho de Segurança Nacional emitiu parecer considerando o projeto da Hanna inaceitável sob os aspectos econômico, político e psicossocial. Em 21 de agosto de 1961, Jânio aprovou integralmente o relatório contrário à empresa norte-americana. Quatro dias depois, em 25 de agosto, ele renunciou à Presidência da República, denunciando pressões de grupos internos e externos.

No início do governo João Goulart, Lucas Lopes assumiu a presidência da Companhia de Mineração Novalimense, tendo como vice-presidente executivo o brasilianista John W. F. Dulles. Para dar continuidade ao projeto interrompido, a empresa propôs um novo estudo sobre a exportação de minério, mas não obteve o sucesso esperado.

Nesse contexto, empresários e militares criaram o Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais (IPES), em novembro de 1961, com o objetivo de articular um movimento para desestabilizar o governo. Entre seus principais fundadores destacavam-se Augusto Trajano de Azevedo Antunes e o general Golbery do Couto e Silva.

Em 1º de abril de 1964, os militares tomaram o poder. As resistências à Hanna aos poucos foram relaxadas, mas não totalmente abolidas. Na reunião do Conselho de Segurança Nacional realizada em 15 de dezembro de 1964, o general Peri Costa Beviláqua classificou o projeto como uma ameaça aos interesses nacionais. O presidente Castelo Branco discordou, ao classificar a posição de Peri Beviláqua como “impertinência nacionalista”. Em 22 de dezembro de 1964, Castelo Branco assinou o Decreto nº 55.282, eliminando os principais obstáculos jurídicos e políticos que limitavam a atuação da Hanna Mining no Brasil.

Acreditava-se que Costa e Silva reverteria o quadro ao tomar posse na Presidência em substituição a Castelo Branco. Estava enganado. Nada foi alterado. Hoje, a aquisição feita pela USA Rare Earth já não causa indignação ou protesto. Há no país uma etiqueta neoliberal a ser obedecida.

 

Fonte: Por Paulo Carneiro, em A Terra é Redonda 

 

Estudo começa a desvendar desenvolvimento da fibrose pulmonar idiopática

Há pouco mais de uma década, receber o diagnóstico de fibrose pulmonar idiopática significava ter de lidar com uma doença potencialmente letal e sem tratamento específico. No início dos anos 2010, a chegada ao mercado de medicamentos que freiam o crescimento da cicatriz nos pulmões mudou o prognóstico dos pacientes que, pela primeira vez, tinham opções terapêuticas além do manejo dos sintomas, como falta de ar e tosse seca. Porém, a enfermidade permanece incurável e de causa desconhecida. 

Agora, cientistas na Austrália acreditam ter descoberto um mecanismo que, se confirmado em estudos clínicos, poderá representar um avanço promissor para as cerca de 5 milhões de pessoas que sofrem, globalmente, com a enfermidade. No Brasil, a estimativa da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) é de 14 mil a 18 mil casos. 

"Na fibrose pulmonar, o processo normal de cicatrização de feridas no corpo falha", explica Gang Liu, professor da Universidade de Tecnologia de Sydney (UTS) e coautor do estudo publicado na revista Science Advances que descreve um mecanismo então desconhecido da doença. "Em vez de a cicatriz reparar o tecido danificado, começa a ser produzido tecido cicatricial nos pulmões", diz.

<><> Proteína

O experimento identificou uma proteína nos pulmões, a vitronectina, que ativa a cicatrização causadora da fibrose pulmonar. Em ratos, suprimir essa macromolécula evitou a formação de lesões, mesmo quando os pesquisadores estimulavam o tecido cicatricial. "Existe um tipo importante de célula imunológica, conhecida como macrófago, que ajuda a reparar o tecido após uma lesão. Descobrimos que esses macrófagos às vezes são reprogramados para produzir cicatrizes em vez de promover a cicatrização normal de feridas", esclarece Liu. 

Katrina Binger, principal autora e pesquisadora do Departamento de Bioquímica e Biologia Molecular da Universidade de Monash, criou um sistema de cultura de tecido tridimensional que imita o ambiente fibrótico e identificou a vitronectina como causadora do problema. A proteína induz os macrófagos a causarem a lesão, em vez de promoverem a cicatrização. "Normalmente, pensamos na vitronectina como uma proteína estrutural que mantém a integridade de órgãos como os pulmões. Mas descobrimos que ela também pode atuar como um sinalizador", afirma. 

Segundo Binger, a vitronectina altera a forma como os macrófagos produzem energia, o que os leva a um estado fibrótico exagerado. A autora afirma que esse é um mecanismo completamente novo para entender como a fibrose ocorre. "É importante ressaltar que o que observamos em nossas culturas 3D foi perfeitamente reproduzido pelos modelos animais conduzidos pela equipe de Liu e em amostras de tecido de pacientes com fibrose pulmonar idiopática."

Embora o estudo sobre o mecanismo ainda esteja em fase pré-clínica — testado apenas em animais e células —, Liu diz que o objetivo da equipe é identificar novos tratamentos baseados nas descobertas do laboratório para tratar a doença de forma mais efetiva.  "Agora, podemos trabalhar para identificar novos medicamentos que possam inibir a vitronectina com maior eficácia, para que possamos traduzir essa pesquisa em prática clínica e ajudar a encontrar uma nova cura para essa doença debilitante."

<><> Tabagismo

Como não se conhece a causa da doença e há pouca opção terapêutica para a fibrose pulmonar, médicos reforçam a necessidade de se obter diagnóstico precoce e evitar fatores de risco. O tabagismo é um deles. Segundo Rodrigo Urresti, pneumologista do Hospital Albert Sabin (HAS), em São Paulo, o cigarro duplica a probabilidade de se desenvolver a enfermidade. Outros fatores modificáveis incluem a exposição a poeiras no ambiente de trabalho (como resíduos de madeira, metal e sílica) e o refluxo gastroesofágico. "Quando o suco gástrico 'sobe' e é microaspirado para os pulmões, ele causa uma irritação crônica que pode favorecer a cicatrização", diz.

Embora submeter pessoas sem sintomas ao exame de tomografia do tórax, uma das ferramentas de detecção, não seja recomendado pelos médicos, o rastreamento direcionado a grupos de alto risco é essencial. "Se temos uma pessoa com parentes de primeiro grau que tiveram a doença, ou se identificamos alterações cicatriciais 'escondidas' em tomografias feitas por outros motivos, conseguimos agir antes que o pulmão perca muita capacidade de respiração", afirma o pneumologista do Hospital Albert Sabin. 

Radiologista especialista em imagem torácica da Fundação Instituto de Diagnóstico por Imagem (Fidi), a médica Claudia Friedrich explica que, hoje, os exames são capazes de detectar alterações antes de os sintomas aparecerem. "Isso muda completamente a condução clínica porque amplia as possibilidades de tratamento, reduz o risco de evolução silenciosa e ajuda a evitar que muitos pacientes cheguem aos serviços de saúde em quadros mais graves", observa a médica. 

<><> "Momento histórico"

O pneumologista Rodrigo Urresti destaca que, mesmo incurável, a doença pode ser controlada com muito mais eficácia do que há uma década. "Estamos vivendo um momento histórico na pneumologia. Os primeiros antifibróticos já haviam mudado a história da doença, funcionando como um freio de emergência para desacelerar a cicatrização do pulmão", diz. Ele conta que, recentemente, o arsenal foi reforçado com uma substância, a nerandomilaste, de uma nova classe medicamentosa. "Em grandes ensaios clínicos, esse remédio provou que preserva a capacidade respiratória com excelente tolerabilidade", descreve.

Porém, embora aprovado pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o nerandomilaste ainda não está disponível para venda em farmácias nem no Sistema Único de Saúde (SUS). O medicamento ainda precisa passar por etapas governamentais obrigatórias: primeiro, a definição do preço pela Câmara de Regulação do Mercado de Medicamentos (Cmed), depois a avaliação de cobertura pelos planos pela Agência Nacional de Saúde e, por fim, a análise de incorporação no SUS. "Trata-se de um avanço científico extraordinário, mas que ainda exige um tempo de trâmite até chegar efetivamente aos pacientes", diz Urresti.

>>> Quatro perguntas para Marcelo Fouad Rabahi, professor de pneumologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), chefe do serviço de pneumologia do Hospital das Clínicas da UFG e presidente eleito da Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia (SBPT) para 2027-2028.

  • A inibição da vitronectina, abordagem testada em um estudo com animais, é promissora?

Existe um espaço entre os alvéolos que a gente chama de matriz extracelular. Uma proteína, a vitronectina, que fica dentro dessa matriz, influencia o comportamento dos macrófagos, que são células do sistema imunológico, fazendo com que haja piora na cicatrização da matriz. Então, o que acontece: vem uma agressão aos pulmões, às vezes sem causa (como é na fibrose idiopática), e o processo de reparação acaba sendo exagerado pela vitronectina. No experimento, os pesquisadores neutralizaram essa proteína. Em camundongos sem a vitronectina, não houve a formação da fibrose. O estudo é experimental, então é importante que, agora, haja novos avanços para a gente poder dizer se a inibição da vitronectina será um alvo terapêutico. Mas é assim que a ciência caminha, com esse tipo de experimento.

  • Nos últimos anos, houve avanços no tratamento da doença?

O tratamento mudou drasticamente. Há 10 anos, foram lançados os únicos dois medicamentos que, até agora, estavam disponíveis no mundo e no Brasil: nintedanibe e pirfenidona. Antes deles, não existia absolutamente nenhum tratamento específico para essa doença. Há uma década, nós fazíamos um diagnóstico, mas tínhamos muito pouco a oferecer. Se esse paciente não pudesse ser incluído numa fila de transplante, não havia um tratamento direcionado. Com a introdução dos antifibróticos, a perspectiva desses pacientes mudou muito. Alguns já usam o antifibróticos há 10 anos: ou seja, estão vivos, fazendo tratamento. Agora, recentemente, foi aprovado um novo medicamento, o nerandomilaste, para o tratamento de pacientes com fibrose pulmonar idiopática, então acredito que eles poderão se beneficiar, tendo uma doença mais controlada do que há uma década.

  • O transplante pulmonar é a única alternativa para casos avançados?

Não, os antifibróticos já são para casos avançados. Acontece que, se o paciente tem indicação de transplante, a resposta à doença é melhor do que a obtida com os medicamentos. Entretanto, não são todos os pacientes que são candidatos e o transplante não é acessível na maioria dos estados brasileiros, o que cria um obstáculo muito grande para os pacientes.

  • Há expectativa de terapias capazes de interromper ou até reverter a fibrose, em vez de apenas retardar a progressão?

Hoje, os tratamentos medicamentosos não revertem a fibrose. O que nós temos é o retardamento da progressão. Mas a nova terapia (nerandomilaste) traz uma possibilidade de alguns grupos específicos de pacientes com fibrose terem a doença estabilizada. Então, isso já é um avanço em relação aos anteriores.

<><> Depoimento

>>> Uma nova forma de caminhar

Meu nome é Norma Sônia Fernandes Dias. Sou viúva, mãe de três filhos e avó de uma neta. Sou de Belo Horizonte e completo 80 anos em 13 de novembro. Sou pós-graduada em saúde pública, aposentada, religiosa, alegre, vaidosa e sempre gostei de viajar e de arte.

Sempre fui uma pessoa saudável, mas, desde criança, tinha crises de tosse que me tiravam o fôlego. Ninguém imaginava que aquilo fosse algo tão sério. Aos 67 anos, comecei a sentir falta de ar e muito cansaço. Procurei um médico, que suspeitou de uma doença autoimune e pulmonar e me encaminhou a um pneumologista.

Minha vida e a da minha família viraram de ponta-cabeça. Fui internada por três dias, que viraram 33. E, então, veio o pior momento: o diagnóstico de fibrose pulmonar intersticial. Falar dessa doença é falar de muitos exames, biópsia de pulmão, remédios fortes, antibióticos, corticoides, oxigênio 24 horas por dia, exercícios respiratórios. E ainda vieram outras doenças, como uma miocardite grave, que me levou a colocar um marca-passo.

Receber alta foi um presente, mas parecia um presente embrulhado em um papel sem cor, rasgado e amassado. Mas minha família e meus amigos se uniram e nunca me deixaram sozinha. A rede de apoio é fundamental.

Aos poucos, fui recuperando minha autonomia, minha liberdade de ir e vir, de agir, de pensar. Tive que reconhecer que a doença limita. Tive que aprender que respirar era difícil, mas possível. Aos poucos, fiz o desmame do oxigênio e, hoje, não preciso mais desse suporte.

Procuro ajudar outros pacientes na Associação de Fibrose Pulmonar de Minas, para desmistificar a doença, porque muitos chegam achando que vão morrer logo. 

Todo meu tratamento é feito pelo Sistema Único de Saúde. O SUS foi fundamental no acolhimento, no cuidado, no tratamento e nos medicamentos. A atividade física e o lazer foram essenciais. O cuidado com as pessoas me mostrou que eu nunca desisti de amar. Voltar às atividades me deu a certeza de que ainda é possível ser uma pessoa feliz.

A doença está controlada, mas, é claro, não posso dizer que não tenho mais nada. Eu não tenho um novo caminho, mas tenho uma nova forma de caminhar.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Faltam três meses para as eleições. E aí?

Faltando pouco tempo para as eleições nacionais e estaduais, persistem muitas indecisões entre os eleitores e também interpretações equivocadas sobre as tendências eleitorais no Brasil. Parte delas nasce de uma leitura inadequada das regras do jogo e da geografia do nosso sistema político. Três falácias, em especial, precisam ser esclarecidas.

A primeira diz respeito à maneira como o voto é contado na eleição presidencial. Na última semana, vi especialistas afirmarem que Lula e Flávio Bolsonaro estariam em "empate técnico" no Rio de Janeiro, enquanto o segundo teria vantagem em São Paulo, apresentado como "o maior colégio eleitoral do Brasil". Não é apenas a expressão "colégio eleitoral" que está errada. Também é enganoso falar em vitória, derrota ou empate dentro de um estado como se isso tivesse valor próprio na disputa presidencial. No Brasil, o candidato não ganha nem perde São Paulo, Rio de Janeiro, Piauí ou Bahia. Ele ganha ou perde votos, que são somados nacionalmente.

Cada voto válido tem o mesmo peso, independentemente de onde tenha sido depositado. Se um candidato tem 60% das intenções de voto em um estado e seu adversário reduz essa vantagem para 57%, houve um ganho importante, ainda que ele continue longe de vencer naquele território. Como os estados não são conquistados em bloco, o objetivo de uma campanha presidencial não é necessariamente vencer em cada unidade da Federação, mas maximizar votos em todo o país. Isso não significa que os estados sejam irrelevantes: eles importam como espaços de organização da campanha, de construção de palanques e de mobilização política, mas não como unidades autônomas de contagem do resultado. Analisar o Brasil como se fossem os Estados Unidos é cafona, para dizer o mínimo.

Isso nos leva ao segundo ponto: o impacto político dos problemas sociais não é homogêneo no território. Ninguém espera que o Nordeste, tratado erroneamente como um bloco eleitoral, passe a dar maioria a Flávio Bolsonaro em 2026. Mas essa forma de enxergar ignora que o lugar específico em que o eleitor vive importa. A violência é um exemplo. O Atlas da Violência de 2026 mostrou que as 10 cidades mais violentas do Brasil estão no Nordeste. Ao compararmos as eleições de 2018 e 2022, Jair Bolsonaro ampliou sua participação nos votos válidos do segundo turno em sete desses 10 municípios. A associação do cidadão entre bolsonarismo e uma suposta maior capacidade de lidar com a segurança pública pode produzir efeitos territoriais diferentes daqueles sugeridos por uma leitura genérica do chamado "voto nordestino".

O que acontecerá em 2026? A expansão da violência e o fortalecimento de facções criminosas poderão reduzir a vantagem petista em determinados municípios? Embora a segurança pública seja atribuição principalmente dos governos estaduais, essa divisão constitucional raramente orienta a percepção cotidiana. Para quem vive sob medo, pouco importa qual esfera de governo tem formalmente a competência.

É justamente aí que o segundo ponto se conecta ao terceiro. Os problemas que mais afetam o voto são vividos de maneira local e desigual, mas os partidos brasileiros são obrigatoriamente nacionais. Interesses nacionais, estaduais e municipais precisam coexistir dentro das mesmas estruturas partidárias, mesmo quando apontam para direções opostas. Até em países pequenos, como Costa Rica e Eslovênia, podem existir partidos organizados apenas em escala regional ou local. No Brasil, isso não é permitido. 

Por isso, vemos candidatos à Presidência sem conseguir montar palanques nos estados e candidatos a governador evitando apoiar qualquer presidenciável. Declarar apoio nacional pode comprometer uma aliança estadual; a saída, muitas vezes, é a "neutralidade". Todos perdem, porque os partidos deixam de organizar consensos e de apresentar agendas articuladas entre as diferentes escalas de governo. 

Essa desconexão se aprofundou com a transformação recente do orçamento federal. O Brasil vive uma espécie de "descentralização centralizada". As emendas parlamentares permitem que municípios recebam recursos para obras e políticas públicas sem depender exclusivamente de negociações com o Palácio do Planalto. Porém, os recursos continuam concentrados em Brasília, agora sob controle crescente de deputados e senadores. O resultado é o fortalecimento de parlamentares com vínculos locais cada vez mais intensos, embora inseridos em partidos obrigatoriamente nacionais. Eles constroem suas bases destinando recursos a municípios específicos, mas nem sempre conseguem transformar essas relações territoriais em projetos partidários mais amplos.

Conhecer as regras do jogo é compreender que os votos para presidente são somados nacionalmente, embora as escolhas sejam construídas em realidades locais muito diferentes, e que partidos, alianças e recursos públicos deveriam conectar essas várias escalas da política. É também reconhecer o peso de cada escolha eleitoral: não apenas de quem ocupará a Presidência, mas de quem terá poder no Legislativo para apoiar seu projeto, modificá-lo, fiscalizá-lo ou impedir sua execução.

¨      Os partidos ainda não têm a cara do Brasil

É preocupante constatar que a maioria da população brasileira continua sub-representada nas chapas mais competitivas nas eleições deste ano. As principais candidaturas à Presidência da República são encabeçadas por homens brancos e, em grande parte, repetem esse perfil na escolha dos candidatos a vice. O mesmo ocorre nas disputas estaduais. Nos cinco maiores colégios eleitorais — São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Paraná —, o perfil se repete entre os nomes com maior possibilidade de vitória. O poder político permanece muito menos diverso do que a sociedade chamada a legitimá-lo pelo voto.

Os partidos ainda têm até 15 de agosto para registrar formalmente as candidaturas na Justiça Eleitoral. Entretanto, as convenções terminaram na última quinta, e o desenho político das principais disputas está praticamente definido. O contraste com a composição da sociedade é evidente. Segundo o Censo de 2022, do IBGE, 45,3% dos brasileiros se declararam pardos e 10,2%, pretos. Somados, são 55,5% da população, enquanto os brancos representam 43,5%. As mulheres, por sua vez, são 51,5% dos habitantes do país.

A maioria demográfica também é maioria no colégio eleitoral. Nas eleições municipais de 2024, as mulheres somaram 52,47% do eleitorado. Eram maioria em todos os estados e em quase 62% dos municípios. Apesar disso, apenas 12.331 foram eleitas, 17,92% do total. Nas prefeituras, a desigualdade foi ainda maior: somente 725 mulheres chegaram ao comando municipal, equivalentes a 13,23% dos prefeitos escolhidos naquele ano. 

Nas eleições gerais de 2022, foram eleitas 91 deputadas federais, apenas 17,7% dos 513 integrantes da Câmara. Levantamento publicado pela Escola Judiciária Eleitoral mostra uma desigualdade ainda mais profunda quando gênero e raça são considerados conjuntamente: apenas 10 cadeiras, ou 1,94% da Câmara, foram atribuídas a mulheres negras na classificação utilizada pelo estudo. No Senado, havia somente uma mulher negra entre os 81 integrantes. Nas assembleias legislativas, mulheres negras ocupavam 74 das 1.059 vagas, aproximadamente 7%. Não se trata, portanto, apenas de desigualdade entre homens e mulheres, mas de uma estrutura submetida aos efeitos do racismo e do machismo.

A legislação procurou corrigir parte dessa distorção ao estabelecer o mínimo de 30% de candidaturas de cada gênero nas eleições proporcionais e determinar a distribuição proporcional de recursos e propaganda para mulheres e pessoas negras. Mas as regras são insuficientes. São cumpridas de maneira burocrática, com candidaturas pouco competitivas, concentração do dinheiro nos mesmos grupos e tentativas de fraude às cotas. A igualdade formal na lista não produz automaticamente igualdade real na disputa. Em 2024, por exemplo, as mulheres eram cerca de 34% das candidaturas registradas, enquanto as mulheres negras representavam 17,7%. 

Não significa que somente mulheres possam representar mulheres ou que negros devam votar exclusivamente em negros. A democracia representativa não é feita de critérios raciais e de gênero. Entretanto, quando determinados grupos controlam sistematicamente as posições de comando, enquanto outros permanecem confinados às bases partidárias, às candidaturas sem recursos ou às funções subalternas, já não se pode atribuir o resultado apenas ao mérito individual ou à livre escolha dos eleitores.

Valorizar a participação proporcional dos diferentes segmentos da população não significa impor uma reprodução matemática do Censo em cada parlamento ou governo. Significa criar condições para que a diversidade brasileira possa chegar ao poder sem enfrentar barreiras adicionais de raça, gênero ou classe. Significa a presença de mulheres e negros nas direções dos partidos, nas chapas majoritárias e entre as candidaturas que recebem prioridade política e financeira.

¨      O que vem antes do voto? Por Ana Dubeux

A democracia já foi um sonho, uma luta e uma conquista. Hoje, é uma realidade. E as eleições são o exercício pleno desse direito e da construção da cidadania. Para mim, é sempre um momento de celebração. Olhando os arquivos do Correio Braziliense, garimpados pelos documentaristas do nosso Cedoc, vejo preciosidades, como, por exemplo, os 10 fascículos do curso Constituição e Constituintes feito pela Universidade de Brasília (UnB), todos publicados em nossas páginas. Um material riquíssimo com colaboradores de grandes nomes da nossa sociedade, da política à cultura. 

O curso tinha como objetivo o despertar para a educação política, algo que tentamos fazer a cada eleição por meio de reportagens, mas também de debates. Já ouvi de ministros do STF, como Carlos Velloso e Gilmar Mendes, que não perdiam nenhum fascículo. Tradicionalmente, o jornal acompanhou e reportou todos os grandes movimentos políticos do país, com destaque para a Assembleia Constituinte, quando nem banheiro para mulheres o Congresso Nacional tinha. Mas elas estavam lá, lutando pelo direito ao básico. Hoje, nas eleições do DF, três candidatas ao Senado lideram as pesquisas do Correio/Opinião. Outra candidata aparece em primeiro lugar na disputa pelo GDF.

Meu sonho, ao vir para Brasília, era fazer parte daquela equipe de cobertura. Bem jovem, uma foca como se diz no jargão jornalístico, fui impelida a começar por Cidades, editoria que me levou a conhecer as entranhas daquela cidade ainda em construção. Pouco depois, iniciava meus anos dedicados à política local, cobrindo o processo de autonomia política da capital federal.

O auditório do Correio, décadas atrás, foi palco de debates intensos até a aprovação de eleições diretas para escolher os governantes e deputados distritais da capital federal. Nesse mesmo espaço, na próxima terça-feira, às 9h, daremos a largada na cobertura da campanha eleitoral com a sabatina dos 10 postulantes ao Palácio do Buriti. Será transmitida ao vivo pelo YouTube.

É preciso lembrar sempre que, mais do que um ringue de disputas partidárias e ideológicas acaloradas, a campanha eleitoral é uma oportunidade ímpar de escolher os nossos representantes ouvindo e refletindo sobre suas propostas. No dia 1º de setembro, também vamos promover nosso tradicional debate com os governadores em parceria com TV Brasília. Também nos dedicaremos às eleições presidenciais, com a sabatina dos candidatos à presidência — já fizemos uma primeira rodada, e iniciaremos a segunda esta semana — e, posteriormente, no final de setembro, com o debate dos presidenciáveis. Todos têm sido convidados.

Mais um capítulo para o futuro de Brasília e do Brasil está se desenhando. Acho absolutamente fascinante acompanhar a história por dentro, produzindo informação responsável e escuta equilibrada de todos os lados. O jornalismo existe também para formar cidadãos responsáveis e conscientes que precisam escolher muito bem os seus votos. Muito mais do que um jornal, o Correio tem sido um guardião da história, sobretudo da política, em especial do ponto de vista de Brasília. Esperamos que vocês estejam conosco nesse momento tão especial da nossa democracia.

¨      Americanos, dívidas e eleição. Por André Gustavo Stumpf

As pressões norte-americanas contra o governo brasileiro, nas vésperas da eleição presidencial, não chegam a constituir surpresa. Trump e sua turma não gostam de Lula e seus auxiliares. As ações assustam pela falta de sutileza e pelo primarismo demonstrado pelas autoridades de Washington. A briga por intermédio de meios diplomáticos confunde embaixadores porque os argumentos são inventados e não resistem a exame mais preciso. O argumento de que o nome de Daniel Perez ainda não foi aceito por Brasília como embaixador no Brasil não resiste. Não há prazo para admitir embaixador estrangeiro.

O Brasil está constrangido pela pressão de Washington, que retirou as credenciais da embaixadora Maria Luiza Viotti, representante do país nos Estados Unidos. Ela poderá permanecer no seu atual endereço, mas perdeu a autoridade para falar em nome do governo brasileiro. O secretário de Estado, Marco Rubio, filho de migrante cubano fugido de Fidel Castro, pretende que os líderes latino-americanos estejam alinhados à sua política. E fiquem cada vez mais distantes de Pequim. Dentro dessa moldura, o presidente da Argentina, Javier Milei, abre a boca para xingar o presidente Lula. A Argentina está quebrada, sem dinheiro, e vai suplicar por novas ajudas com objetivo de manter sua economia funcionando. 

Eleições presidenciais costumam ser o momento de crise na democracia. O poder é questionado e novos nomes tentam ascender às posições de comando. Tudo dentro da lógica do sistema. O governante é obrigado a se submeter às vontades do eleitorado. A solução mais fácil é falar e fazer o que o povo quer ouvir e receber. Assim se sucedem ações cada vez mais objetivas para colocar dinheiro no bolso do contribuinte. Dinheiro e vantagens. Surgem planos inesperados para o cidadão renegociar suas dívidas, comprar gás de cozinha, adquirir imóveis com juros mais amigáveis ou entrar para o cadastro do governo onde encontra uma série de programas favoráveis a seu bolso. O problema é que essa política tem preço. Custa caro. E o país não tem os recursos necessários para suportar as despesas resultantes das bondades. Sem dinheiro, resta fazer dívida.

Esse é o caminho do Partido dos Trabalhadores (PT) no poder. Aumentar impostos e gastar mais, muito mais. O Brasil tinha enorme dívida externa, contraída em moeda forte. Era uma tremenda dor de cabeça porque ela aumentava ao sabor da variação do câmbio. E dos juros variáveis. Mudava ao sabor dos ventos da economia internacional. Foi o segundo governo Lula que resolveu o problema, depois que a equipe econômica do governo Fernando Henrique acabou com a inflação, criou o Plano Real e ofereceu os fundamentos para liquidar a dívida externa. A descoberta de petróleo na plataforma continental, no chamado Pré-sal, acabou com outro pesadelo econômico brasileiro. A conta petróleo. O Brasil comprava milhares de barris por dia, à vista, em moeda forte, nos vários mercados internacionais do produto. Sem dinheiro, só poderia recorrer aos bancos internacionais. Ou seja, contratava mais dívida.

A conta petróleo não existe mais. Hoje, o Brasil exporta petróleo, e a Petrobras ganha muito dinheiro com as crises no Oriente Médio. A dívida externa foi quitada. Mas se transformou em dívida interna. A trajetória da dívida pública brasileira foi de crescimento quase contínuo desde o Plano Real, com duas interrupções relevantes: entre 2003 e 2013, quando a relação dívida/PIB caiu ou ficou estável, e entre 2021 e 2022, após o pico provocado pela pandemia. Desde 2023, a tendência voltou a ser de elevação. A presidente Dilma Rousseff conseguiu a reeleição ampliando os gastos públicos. 

Começou seu segundo mandato, com novo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, que armou a cena para fazer breve recessão e modificar o cenário das contas brasileiras. Não conseguiu. Foi demitido. E o governo Dilma tentou soluções heterodoxas, chamadas de Nova Matriz Econômica. Reduziu arbitrariamente taxas de juros, preços de eletricidade e de combustível, o resultado foi uma recessão severa, desemprego alto e queda da atividade econômica. Dilma Rousseff sofreu impeachment.

O próximo governo terá que enfrentar o problema das contas nacionais para que o país volte a conviver com taxas de juros civilizadas. E com crescimento relevante acima de 3% ao ano. Alguma coisa, ou muita coisa, terá que ser cortada no cardápio de bondades do governo federal. Empresas deficitárias, como a dos Correios, não podem ser mantidas. O país precisa ser contemporâneo do presente. As soluções burocráticas petistas não são mais eficazes. Os governos de inspiração esquerdista ou populista perceberam a necessidade de mudar. Uns foram derrubados, alguns caminharam para o autoritarismo, outros para abertura econômica. Essa é a decisão que vai estar diante do novo governo brasileiro.

 

Fonte: Por Daniel A. de Azevedo, no Correio Braziliense