Gustavo
Tapioca: A sombra de Washington sobre a eleição brasileira
Em
2022, Biden ajudou a fechar a porta ao golpismo no Brasil. Em 2026, com Trump
de volta à Casa Branca, a aproximação entre Washington e o bolsonarismo levanta
uma pergunta inquietante: o que acontece se Lula continuar crescendo nas
pesquisas? Uma das razões pelas quais o golpe de 8 de janeiro fracassou
raramente aparece com a força que merece nas análises sobre a crise brasileira.
Naquele momento decisivo, os Estados Unidos eram governados por Joe
Biden.
Enquanto
Jair Bolsonaro colocava em dúvida o sistema eleitoral, alimentava a suspeição
contra as urnas e seus aliados conspiravam contra a democracia, Washington
reconheceu rapidamente a vitória de Lula. Diplomatas, emissários e militares
americanos enviaram sinais claros de que os Estados Unidos não apoiariam
qualquer aventura golpista no Brasil. Esse fator internacional ajudou a
isolar a extrema direita brasileira. Não foi o único. Mas foi importante. A
mensagem era inequívoca: a maior potência militar do planeta reconhecia o
resultado das urnas brasileiras. Em 2026, o cenário é outro. Donald Trump
voltou à Casa Branca. E o bolsonarismo voltou a Washington.
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O mundo mudou desde 2022
A
eleição presidencial brasileira de 2026 ocorrerá em condições internacionais
muito diferentes das que marcaram a vitória de Lula quatro anos antes. Naquele
momento, o governo Biden tinha interesse explícito em conter a onda autoritária
estimulada por Trump, Bolsonaro e outras lideranças da extrema direita
internacional. Hoje, a Casa Branca é comandada pelo próprio Trump. E
Trump não observa o Brasil como um país qualquer. O Brasil é a maior economia
da América Latina. É membro dos BRICS. Ampliou sua aproximação com a
China.
Tem
peso estratégico em energia, alimentos, minerais, meio ambiente, tecnologia
financeira e diplomacia global. É também governado por Lula, um
presidente que defende uma ordem internacional multipolar e resiste à submissão
automática aos interesses de Washington. Nada disso é irrelevante.
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Punhal Verde e Amarelo
Há um
ponto que não pode ser apagado da memória recente. O golpe de 8 de janeiro
fracassou também porque, em 2022, a extrema direita brasileira não encontrou em
Washington o respaldo que talvez esperasse. O governo Biden reconheceu a
vitória de Lula e enviou sinais claros aos militares brasileiros: os Estados
Unidos não apoiariam ruptura institucional. Esse fator ajudou a conter a
aventura golpista. O que estava em jogo não era apenas uma disputa de palácio.
A
Polícia Federal revelou depois o plano Punhal Verde e Amarelo, que incluía
Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes como alvos centrais. O Brasil
esteve muito mais perto do abismo do que muitos ainda admitem. Se o golpe
tivesse avançado, o país poderia ter mergulhado numa tragédia institucional
comparável, ou pior, aos anos que se seguiram a 1964, quando a ditadura
brasileira contou com apoio decisivo dos Estados Unidos.
É por
isso que a pergunta de 2026 é tão inquietante. Se em 2022 Biden ajudou a
fechar a porta ao golpismo, o que acontece agora, com Trump na Casa Branca e o
bolsonarismo novamente buscando apoio em Washington? E Lula novamente
candidato?
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O elo permanente com Washington
Existe
um personagem que conecta praticamente todos os capítulos dessa história.
Eduardo Bolsonaro, o filho 03 de Jair, um deputado que perdeu o mandato por
“excesso de faltas”. Estava – e continua nos Estados Unidos – como embaixador
“ad hoc” para lutar contra a soberania do Brasil. Desde 2025, o deputado
passou a atuar politicamente a partir dos Estados Unidos, aprofundando relações
construídas ao longo dos anos com o universo político do trumpismo. Sua
proximidade com Steve Bannon, assessores de Donald Trump e figuras influentes
da direita americana nunca foi segredo. Enquanto Flávio Bolsonaro se
apresenta como candidato presidencial, Eduardo desempenha outro papel: o de
principal articulador internacional do bolsonarismo.
Essa
divisão de tarefas ajuda a explicar por que os acontecimentos recentes não
podem ser analisados isoladamente. De um lado, Flávio tenta consolidar uma
candidatura presidencial. De outro, Eduardo mantém canais permanentes com
setores influentes da nova administração americana. Nenhum desses fatos,
isoladamente, prova a existência de um plano de interferência eleitoral. Mas
todos ajudam a formular a pergunta que realmente importa. Se em 2022 os
Estados Unidos atuaram para reforçar o respeito ao resultado das urnas, qual
será a postura de uma Casa Branca comandada por Donald Trump diante de uma
eventual reeleição de Lula?
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A nova Doutrina Trump
Nos
últimos meses, uma sequência de movimentos começou a redesenhar o ambiente
político em torno do Brasil. Primeiro, a aproximação explícita entre
Flávio Bolsonaro e a Casa Branca. Depois, a classificação do PCC e do Comando
Vermelho como organizações terroristas pelos Estados Unidos. Em seguida, as
pressões comerciais, os questionamentos ao Pix e a proposta de tarifas de 25%
contra produtos brasileiros. Separadamente, cada medida possui sua
justificativa. Juntas, formam um padrão. O Brasil passou a ser tratado
por Washington não apenas como parceiro comercial ou aliado regional. Passou a
ser tratado como tema estratégico.
E essa
talvez seja a principal diferença entre 2022 e 2026.
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Narcoterrorismo: o novo nome da velha pressão
A
classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas foi
celebrada por setores da extrema direita brasileira como uma vitória de Flávio
Bolsonaro. Mas seu significado jurídico e político é muito mais amplo. Quando
um grupo deixa de ser tratado apenas como organização criminosa e passa a ser
enquadrado como organização terrorista, entram em cena instrumentos
extraordinários de pressão diplomática, financeira, policial e de
inteligência. Isso não significa intervenção automática. Mas significa a
criação de um ambiente político e jurídico que amplia o alcance da legislação
americana para além de suas fronteiras.
Foi
esse mecanismo que, ao longo das últimas décadas, permitiu aos Estados Unidos
justificar sanções, bloqueios, operações clandestinas, ações militares e
pressões sobre governos considerados hostis. A questão, portanto, não é
defender facções criminosas. A questão é compreender o que se autoriza quando
Washington decide enquadrar problemas brasileiros dentro de sua própria
doutrina de segurança nacional.
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A América Latina conhece esse roteiro
A
preocupação não nasce de teorias conspiratórias. Nasce da História. Os Estados
Unidos nunca foram observadores neutros dos processos políticos
latino-americanos. Durante a Guerra Fria, Washington apoiou ou participou
diretamente de operações que influenciaram governos, eleições e golpes no
continente. Foi assim na Guatemala, em 1954, quando a CIA apoiou a
derrubada de Jacobo Árbenz. Foi assim em Cuba, com a invasão da Baía dos Porcos
em 1961. Foi assim no Brasil, em 1964, quando Washington apoiou o golpe contra
João Goulart e preparou a Operação Brother Sam. Foi assim na República
Dominicana, em 1965. Foi assim no Chile, em 1973, no processo de
desestabilização que antecedeu a derrubada de Salvador Allende. Depois
vieram a guerra às drogas, o Panamá, a guerra ao terror, o Afeganistão, o
Iraque, a Síria, o Iêmen, a Somália e o Paquistão.
Os
nomes mudam. As justificativas mudam. Mas a lógica permanece.
Uma
ameaça é identificada. Uma estrutura jurídica é criada. Os instrumentos de
pressão se ampliam. E a margem de atuação de Washington cresce.
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A região sob nova ofensiva
A
América Latina voltou a ser tratada como terreno prioritário da disputa
internacional. A ascensão de Javier Milei na Argentina foi celebrada por
Trump, por Steve Bannon e pela extrema direita global como um modelo de vitória
política no continente. Em outros países, a disputa entre projetos
soberanos e projetos alinhados à nova direita americana tornou-se cada vez mais
explícita. O método não precisa ser o mesmo da Guerra Fria.
A
pressão pode vir por tarifas. Por sanções. Por plataformas digitais. Por
campanhas de desinformação. Por questionamentos eleitorais. Por cooperação
seletiva em segurança. Por apoio político a aliados internos. E é
exatamente por isso que o caso brasileiro merece atenção. Nenhum outro país da
América Latina reúne simultaneamente o peso econômico, territorial, energético,
agrícola, ambiental, tecnológico e diplomático do Brasil. Se Trump atua
para influenciar o rumo político de países menores da região, o que poderá
fazer diante do maior país latino-americano, integrante dos BRICS, parceiro
estratégico da China e governado por Lula?
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Lula cresce. E agora?
A
pergunta já não é apenas o que acontece se Lula vencer. A pergunta talvez seja
anterior. O que acontece se Lula continuar crescendo? O
que acontece se as pesquisas passarem a apontar uma vitória cada vez mais
provável do atual presidente? É nesse ponto que os episódios
recentes deixam de parecer isolados. O narcoterrorismo. O tarifaço. Os
ataques ao Pix. A investigação comercial contra o Brasil. A aproximação entre
Flávio Bolsonaro e Trump. A presença permanente de Eduardo Bolsonaro nos
Estados Unidos. A pressão sobre temas estratégicos da economia
brasileira. Tudo isso pode ser interpretado como fatos separados. Mas
também pode ser lido como parte de um ambiente crescente de pressão sobre o
Brasil antes mesmo da eleição. Não é preciso afirmar que existe uma intervenção
em curso para reconhecer que há sinais de alerta. Basta observar os
acontecimentos.
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E se Flávio perder?
A
pergunta mais incômoda talvez seja esta. Se Flávio Bolsonaro for derrotado por
Lula nas urnas, a Casa Branca aceitará o resultado sem contestação? Talvez sim.
Talvez Trump reconheça imediatamente a vitória brasileira, como Biden fez em
2022. Talvez as tensões atuais se dissipem. Talvez o comércio volte ao centro
da relação bilateral. Mas também é possível que a eleição brasileira de
2026 ocorra sob uma pressão internacional muito mais pesada do que a de 2022. A
diferença é brutal. Em 2022, Washington ajudou a fechar a porta ao golpismo. Em
2026, Washington é governada por Trump. E Trump tem ao seu comando um
bolsonarismo que nunca aceitou plenamente a derrota de 2022, que viu seu líder
condenado por tentativa de golpe e que agora tenta voltar ao poder por meio de
Flávio Bolsonaro.
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O Brasil precisa olhar para o perigo
Não se
trata de alarmismo. Trata-se de memória histórica. O Brasil sabe o que acontece
quando elites internas buscam apoio externo para derrotar projetos populares e
soberanos. Sabe porque viveu 1964. Sabe porque enfrentou 21 anos de ditadura.
Sabe porque viu perseguições, prisões, cassações, torturas, assassinatos e
exílios serem justificados em nome da ordem, da segurança nacional e do combate
ao comunismo. Agora, o vocabulário mudou. Não é mais o comunismo. É o
narcoterrorismo. Não são mais os tanques nas ruas como primeira cena. São
tarifas, sanções, investigações comerciais, bloqueios, pressões diplomáticas,
espionagem, guerra digital e articulações políticas internacionais. Mas
o risco de fundo permanece o mesmo: a tentativa de submeter a soberania
brasileira a interesses definidos fora do país.
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A eleição que já começou fora das urnas
A
eleição presidencial de outubro ainda não começou oficialmente em sua fase
decisiva. Mas a pressão sobre o Brasil já começou.
Começou
quando o bolsonarismo levou sua agenda para Washington. Começou quando
Eduardo Bolsonaro transformou os Estados Unidos em base permanente de
articulação política. Começou quando Flávio Bolsonaro tentou apresentar
Trump como fiador de sua candidatura. Começou quando PCC e Comando
Vermelho foram enquadrados na doutrina americana do narcoterrorismo. Começou
quando o Pix entrou na mira. Começou quando tarifas de 25% passaram a ser
usadas como instrumento de pressão. Começou quando o Brasil, por sua
relação com os BRICS, com a China e com uma ordem internacional multipolar,
passou a ser tratado como problema estratégico.
A
pergunta de 2026, portanto, não é apenas quem vencerá a eleição. A pergunta é
outra. O que fará Trump se Lula continuar crescendo? E o que fará o
Brasil para impedir que sua soberania volte a ser negociada nos corredores do
poder em Washington?
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Como Trump está infiltrando suas forças armadas na
América Latina com uma nova coalizão militar contra o narcotráfico
Três
datas dos primeiros cinco meses de 2026 ilustram o
renovado intervencionismo dos EUA na América Latina: em 3 de janeiro, as
tropas de elite da Força Delta dos EUA invadiram Caracas e sequestraram Nicolás
Maduro,
presidente da Venezuela. Em 3 de março, helicópteros militares equatorianos,
com apoio militar dos EUA, incendiaram supostos esconderijos de
narcotraficantes na província de Sucumbíos, perto da Colômbia. "Sim,
também estamos bombardeando narcoterroristas em terra", declarou Pete Hegseth, então Secretário de
Defesa dos EUA. Em 30 de abril, o presidente argentino Javier Milei desembarcou no
porta-aviões nuclear americano USS Nimitz para participar de
exercícios navais conjuntos com os EUA em Mar del Plata. Poucos dias antes,
havia autorizado a presença de militares americanos em solo argentino para o
Exercício Daga Atlántica. O fluxo de intervenções militares
dos EUA na América Latina ocorre no âmbito da Operação Escudo das Américas, uma nova coalizão
militar lançada em 7 de março no campo de golfe Trump National Doral, em Miami,
para combater o narcotráfico e a imigração ilegal. Doze governos
nacionais alinhados a Donald Trump já aderiram à Operação, incluindo
Argentina, Equador, Bolívia, El Salvador, Paraguai e Costa Rica — um país
historicamente neutro e sem exército, onde o debate sobre a presença de bases
militares americanas em seu território já começou.
Após
décadas de presença limitada a bases isoladas, as forças armadas dos Estados
Unidos estão de volta à América Latina. Donald Trump está forçando diversos
governos a assinarem acordos militares em uma sequência carregada de
simbolismo. Em fevereiro de 2024, o Acordo sobre o Estatuto das
Forças (SOFA) foi assinado com o Equador, país que fechou a base militar
de Manta em 2009. Em abril de 2025, um memorando de entendimento militar foi
assinado com o Panamá, país onde Washington administrou o Canal do Panamá até
2000 e onde se localizava a Escola das Américas, que treinava os exércitos de
ditaduras. O Peru e a República Dominicana autorizaram o destacamento
temporário de tropas americanas em seus territórios até o final de 2025. No
entanto, o acordo que mais gerou preocupação foi o SOFA assinado com
o Paraguai. Aprovado em março, o acordo não só protege os soldados
americanos da justiça paraguaia, como também permite a circulação de veículos e
armamentos militares sem qualquer inspeção. "O acordo representa uma
verdadeira base militar secreta. É humilhante", declarou o deputado da
oposição Raúl Benítez ao elDiario.es.
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Protestos eclodem no Paraguai
Em um
evento na Plaza Italia, em Assunção, membros de movimentos indígenas e
camponeses se reuniram para formar uma frente unida de resistência. Eles
discursaram em guarani, usando ocasionalmente palavras em espanhol:
"Resistência", "camaradas", "privatização",
"narcopoder". Uma palavra se repetia constantemente: SOFA. "Este
acordo viola os direitos das comunidades. Um soldado americano pode estuprar
uma menina e nada acontece. O narcotráfico é a desculpa deles",
disse Camila Mas, da Coordenação Paraguaia de Direitos Humanos (CODEHUPY),
ao elDiario.es. Rosa Toledo, da La Vía Campesina, declarou que a
revogação do SOFA é uma das principais reivindicações dos povos indígenas e dos
movimentos camponeses: "Viola o Artigo 143 da Constituição (relativo à
soberania nacional). Permite que comunidades de pequenos agricultores sofram
despejos violentos." Os EUA têm um longo histórico de danos colaterais
decorrentes de supostas operações antidrogas. Uma investigação do New
York Times revelou que o alvo do ataque em Sucumbíos, em março, não
era um acampamento de narcotráfico, mas sim uma fazenda leiteira. A
congressista de esquerda Johanna Ortega, do Partido Solidariedade País
(PPS), denuncia o acordo SOFA como um insulto ao povo paraguaio. "Antes, a
cooperação com os militares dos EUA era implementada em etapas. O acordo SOFA
transforma oficialmente o Paraguai no quintal dos EUA, permitindo a entrada de
qualquer veículo e beneficiando apenas alguns poderosos", disse ela
ao elDiario.es. A congressista explica que o acordo prevê o
levantamento das sanções impostas pelos EUA contra o ex-presidente Horacio
Cartes por seu envolvimento em "corrupção desenfreada". "É
paradoxal: a maioria dos deputados conservadores implicados em contrabando e
narcotráfico votou a favor do acordo", observa Raúl Benítez. Pelo menos 26
deputados de Cartes foram investigados judicialmente por seu
envolvimento com o narcotráfico.
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Alarme em Brasília
O
acordo SOFA assinado pelo Paraguai soou o alarme em Brasília. Apenas
alguns dias antes de sua aprovação, o jornalista brasileiro Jamil
Chade noticiou que o Departamento de Estado dos EUA havia declarado a
região da tríplice fronteira entre Paraguai, Argentina e Brasil como
uma das "principais áreas de atividade na América Latina", incluindo
a cidade brasileira de Foz do Iguaçu. Poucos dias após a assinatura do
acordo SOFA, o ministro das Relações Exteriores brasileiro, André Vieira,
reuniu-se em Assunção com o presidente paraguaio Santiago Peña para
expressar sua preocupação. A recente designação, pelos Estados Unidos, das
organizações criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro
Comando da Capital (PCC) como grupos terroristas representou um grande revés
para o Brasil. O encontro do presidente Lula com Donald Trump na Casa
Branca, no início de maio, não conseguiu reverter a decisão.
A
pressão da família Bolsonaro sobre Donald Trump após o escândalo de corrupção
envolvendo o filme Dark Horse acelerou o processo. Será que o
SOFA paraguaio permitirá que os EUA desdobrem tropas em território brasileiro
sob o pretexto de combater o financiamento do Hezbollah ou os cartéis de drogas
brasileiros na tríplice fronteira? "É verdade que a medida faz parte de
uma política externa que busca expandir a influência dos EUA. Mas expandir os
instrumentos de pressão é uma coisa, e intervenção direta em território
brasileiro é outra", disse André Pasternak Glitz, procurador do
Ministério Público do Paraná, ao elDiario.es. Para Tallita
Lima, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal Rural do
Rio de Janeiro (UFRRJ), considerar o PCC e o CV como terroristas significa
enquadrá-los no contexto da segurança nacional, da defesa e da política
externa. "Quando Washington começa a classificar organizações criminosas
latino-americanas como terroristas, cria um ambiente político no qual medidas
extraterritoriais, sanções, cooperação assimétrica e formas mais intrusivas de
vigilância parecem mais aceitáveis", disse Lima a este jornal. Após o
anúncio do governo americano, o próprio Lula afirmou que os cartéis de drogas
"são terroristas para as comunidades brasileiras", mas "não são
os terroristas que Trump quer".
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Interesses ocultos
A
presença de Alexandre Silveira, Ministro de Minas e Energia do Brasil, na
reunião em Assunção fornece mais uma pista sobre as implicações do acordo
SOFA: recursos naturais e minerais. O deputado federal
paraguaio Billy Vaesken, do Partido Liberal, denunciou que o acordo SOFA
não apenas abre mão da soberania, mas também de "informações
valiosas" sobre os recursos naturais do país, referindo-se
ao lítio e aos aquíferos subterrâneos — o Paraguai
compartilha o vasto Aquífero Guarani com o Brasil, a
Argentina e o Uruguai. Vaesken afirma que o verdadeiro interesse dos EUA
"não é a cooperação desinteressada, mas o acesso a dados estratégicos e
recursos naturais críticos do Paraguai", que também incluem ouro e urânio.
Após a intervenção militar dos EUA na Venezuela, a Operação Escudo das
Américas foi recebida com suspeita em toda a região. "A doutrina de
segurança nacional dos EUA visa criar uma barreira contra potências
adversárias. Ela é claramente direcionada à China", disse à BBC o
chileno Carlos Solar, especialista em segurança e defesa no Royal United
Services Institute (RUSI).
Pablo
Ospina, professor da Universidade Andina Simón Bolívar, no Equador, afirma
que, embora o narcotráfico e a imigração não sejam meras cortinas de fumaça, os
novos acordos militares dos EUA têm outros objetivos. "O interesse
político mais evidente é consolidar contatos e parcerias entre projetos de
extrema-direita", declara. O especialista aponta que existem interesses em
comum entre o governo dos EUA e seus aliados para promover "agendas menos
populares, como cortes de impostos para os mais ricos, reduções em serviços
sociais e nos sistemas universais de saúde e educação pública, além da pilhagem
de recursos, da natureza e do patrimônio".
Da
Argentina, a principal preocupação é a Base Naval Integrada que o
governo de Javier Milei autorizou a ser construída em conjunto com os
EUA na península de Ushuaia, na Terra do Fogo. A visita de uma delegação
comercial americana a Ushuaia, em janeiro, não incluiu o narcotráfico em sua
agenda, mas sim o "processamento de licenças para a gestão de minas e o
processamento de minerais críticos", segundo a própria embaixada dos EUA.
Emiliano Fossatto, secretário jurídico da Terra do Fogo, governada pela oposição
peronista, declarou que a visita foi repleta de "muitas preocupações"
e não foi comunicada às autoridades locais. "A localização geográfica do
porto de Ushuaia, porta de entrada para a Antártica, é significativa. Pode
haver outros motivos em jogo." A Antártica, vítima do derretimento do
gelo causado pelo aquecimento global, está se tornando uma nova fronteira
para o Hemisfério Ocidental da era Trump.
Fonte:
Brasil 247/ elDiario.es



