quarta-feira, 22 de abril de 2026

Luis Felipe Miguel: O escândalo do Banco Master

A esta altura do campeonato, não resta dúvida que o escândalo do Banco Master vai nos acompanhar até as eleições de outubro e será um de seus temas maiores. Serão meses de novas revelações, enquanto as múltiplas ramificações do caso vão emergindo.

O escândalo se desenrola em duas dimensões, naturalmente interconectados – e ambas importantes, embora de formas diversas. A primeira dimensão diz respeito a como os diferentes agentes políticos reagem ao caso, tentando proteger a si (ou a seus aliados) e jogar a conta no colo dos adversários. Por agentes políticos eu me refiro não apenas a partidos e candidatos, mas também ao Judiciário, a altos funcionários dos três poderes, às igrejas e à imprensa.

Os meses de novas revelações serão meses também de narrativas truncadas, de acusações seletivas, de esquecimentos marotos.

A outra dimensão se refere ao deciframento da promiscuidade entre a elite política e os donos do dinheiro no Brasil. Daniel Vorcaro era um gângster, com métodos de mafioso e maus modos de nouveau riche. Operando de forma tão ostensiva, revelou uma parte de um sistema de relações que integra o setor financeiro, o crime organizado e altas autoridades da República.

É comum, em setores da esquerda, o discurso de que a corrupção é um problema menor, transformado em grande questão nacional para desviar a atenção dos conflitos estruturais. Existe um ponto de verdade nesta abordagem; a temática da corrupção favorece um discurso moralista, que enquadra os problemas como sendo responsabilidade de pessoas más que fazem coisas más, não da organização geral da sociedade, e cuja solução, portanto, é simplesmente “tirar as maçãs podres do cesto”, isto é, a punição.

Muitos anos atrás, fui coautor de um artigo sobre o escândalo do mensalão que mostrava como este era enquadramento dominante nos editoriais dos jornalões. Mais de 90% deles indicavam que o comportamento de determinados agentes políticos eram a causa exclusiva da crise.

No entanto, um caso como o do Banco Master tem o condão de revelar vários dos mecanismos pelos quais a burguesia captura o Estado brasileiro. Não é a simples corrupção que nos vem à cabeça quando se usa o termo, pela qual um empreiteiro coloca alguns milhões no bolso de um gestor público para ganhar uma licitação e superfaturar uma obra qualquer. É um sistema de construção de lealdades e dependências que atravessa toda a gestão do poder público no Brasil, da definição das leis às decisões judiciais. Se Ralph Miliband apontava a constituição de uma “elite do poder”, consolidada pelos laços interpessoais entre capitalistas e políticos, aqui muitos destes laços eram estreitados nas festas em Trancoso, regadas a uísque Macallan e ornamentadas pela presença de prostitutas europeias.

Costumo dizer, a partir da obra de Nicos Poulantzas, que a corrupção é uma das “falhas constitutivas” do Estado capitalista: algo que é formalmente vetado e punido, mas integra o funcionamento esperado do sistema. É um recurso que a classe burguesa tem para fazer valer seus interesses quando as regras ostensivas não bastam. Mas, uma vez que a ferramenta está à disposição, naturalmente é usada também por operadores em defesa de seus interesses próprios, na concorrência uns com os outros.

De todo jeito, nesse contexto, a luta contra a corrupção é uma luta para que sistemas de controle, que visam garantir uma aproximação mínima com a igualdade prevista nos códigos legais, tenham efetividade. A luta contra a corrupção é parte, assim, da luta pela distribuição do fundo público, logo da luta de classes.

A semana passada começou com o relatório da CPI do crime organizado e terminou com a prisão do ex-presidente do Banco Regional de Brasília (BRB).

É óbvio que o relatório do senador Alessandro Vieira foi um despropósito, voltado apenas a agradar os setores da direita que hoje se colocam contra o Poder Judiciário, não pelos seus muitos erros e malfeitos, mas pelos seus acertos. Uma CPI sobre o crime organizado sem propor o indiciamento de um único chefe de facção, de um único operador de lavagem de dinheiro, em vez disso apontando apenas exclusivamente para três ministros do STF e para o procurador-geral da República, é um escárnio.

(E, para não sobrar nenhuma dúvida, deixando de fora um dos ministros do Supremo cujas vinculações com Daniel Vorcaro são mais estreitas, o bolsonarista Kássio Nunes.)

Mas não é de hoje que as comissões parlamentares de inquérito se tornaram um circo. Entre conchavos, acertos para proteger fulano em troca da imunidade ao beltrano, e desvios de finalidade, elas se mostram quase invariavelmente inúteis para os propósitos que as justificam. O que causa espécie é que o Supremo, que nunca se preocupou em moralizar o funcionamento da CPIs, resolva propor medidas drásticas agora que foi afetado.

Não é uma exceção, é a regra. O Supremo Tribunal Federal sempre se mostra muito cioso dos direitos de seus integrantes. Quanto aos outros cidadãos brasileiros, nem tanto.

A intenção de jogar o foco no Supremo é esperta. De fato, a vinculação do mais alto órgão do Judiciário, sobre quem pesa a responsabilidade de garantir o cumprimento da Constituição, com os esquemas de Daniel Vorcaro é muito grave. Não dá – e isso Lula, o PT e a esquerda em geral têm que assumir – para passar pano para os negócios de Dias Toffoli e do escritório da família de Alexandre de Moraes com o banqueiro hoje na Papuda. Qualquer hesitação em exigir investigação séria e punição de eventuais culpados ajuda a direita na sua estratégia, que é associar o Supremo ao PT, construindo equivalências que fazem da esquerda o polo da corrupção.

O que sustenta esta narrativa é que Gilmar Mendes, Alexandre de Moraes e Dias Toffoli foram empurrados para uma posição de enfrentamento dos abusos de poder da Lava Jato e das intentonas golpistas de Jair Bolsonaro e seu bando. Se isso os credencia como defensores da institucionalidade democrática em um momento de ameaça, mérito que não lhes pode ser negado, não autoriza que seu passado seja esquecido, muito menos que sejam considerados de esquerda.

Gilmar Mendes foi não um coadjuvante, mas um dos artífices do golpe de 2016. Naquela época, avalizava todas as presepadas do então juiz Sérgio Moro. Foi o responsável pela proibição de que Lula assumisse a Casa Civil do governo Dilma Rousseff, considerada a pá de cal na esperança de recomposição da relação entre o governo e o Congresso. Alexandre de Moraes chegou ao STF pelas mãos do usurpador Michel Temer. Dias Toffoli cortejou o governo de Jair Bolsonaro. Todos apoiaram a absurda prisão de Lula. Seu compromisso com a democracia é, quando muito, circunstancial. Seu vínculo com o ideário da esquerda é nulo.

Lula é adepto da amnésia, está sempre pronto a abraçar quem o atraiçoou. O povo brasileiro não pode se dar esse luxo.

O passo seguinte, na construção da narrativa da direita, acompanhada pela imprensa corporativa, também já foi testado e usado muitas vezes. É um discurso seletivo de contaminação, pelo qual o envolvimento de uma única pessoa considerada de esquerda em um escândalo de corrupção serve para condenar toda a esquerda, ao passo envolvimento de direitistas é desprezado como casos isolados. Aliás, isso não vale só para a corrupção.

Quando a gente vê a Brasil Paralelo, o MBL, esse povo todo, cada pessoa de esquerda parece pessoalmente responsável por cada morte no gulag, mesmo que tenha um histórico irrepreensível de crítica ao stalinismo. Já o nazismo eles nem aceitam que tenha sido de direita, até mesmo quando estão reproduzindo uma grande parte de seu discurso e de suas práticas.

A culminação dessa manobra (até agora) foi o infame PowerPoint da GloboNews, em que Lula – sobre quem o escândalo simplesmente não respingou – era representado como o mais próximo de Daniel Vorcaro.

Há, sim, pessoas ligadas ao PT e/ou ao governo envolvidas: Guido Mantega, Ricardo Lewandowski, o senador Jaques Wagner. Seria uma boa ocasião para que o PT e a esquerda em geral repensassem a tolerância que adquiriram quanto a ver seus quadros de chamego com a burguesia. Isto nunca fez bem, em nenhum tempo e nenhum lugar, para um partido que se quer à esquerda do centro, mesmo que seja reformista e moderado.

Mas o grosso das relações do Master está com a direita. Tem gente até fazendo “placares” e eles sempre chegam a, sei lá, 40 a 5 em favor da direita. Nikolas Ferreira, Ciro Nogueira, Tarcísio de Freitas, Roberto Campo Neto, Ibaneis Rocha, Cláudio Castro, Tony Rueda, ACM Neto, Ratinho Jr., Fábio Wajngarten… A lista é enorme.

São milhões e milhões de reais jorrando de um lado. Do outro, projetos de lei sob medida para facilitar as mutretas vorcarianas, fiscalizações fajutas, pareceres malandros. O dinheiro era repassado por meio de pagamentos assombrosamente inflados por serviços diversos. Assim, o ex-diretor do Banco Central na gestão Campos Neto, Belline Santana, ganhou 2 milhões para elaborar um estudo de 50 páginas sobre educação financeira, aparentemente um compilado de resumos de artigos científicos que um estudante estagiário faria com uma mão nas costas. (Ganhou mais R$ 2 milhões com outro serviço ordinário.)

Dois milhões por 50 laudas. Dá R$ 40 mil por página. Fazendo as contas, somando os livros que publiquei e os artigos em revistas acadêmicas, chego a umas 9 mil páginas. Meu erro foi não ter vendido esse material para Daniel Vorcaro, daria R$ 360 milhões. Garanto que pelo menos o trabalho não é tão picareta quanto o de Santana.

Para Daniel Vorcaro, como estamos vendo, seria um trocado, mas para mim faria toda a diferença!

Ou ACM Neto. Alguém acha honestamente que uma “consultoria” dele, sobre qualquer tema que seja, pode valer R$ 3,6 milhões – sem envolver tráfico de influência?

O que me leva ao assunto que dominou os últimos dias da semana, os mais de R$ 100 milhões em imóveis escondidos por Paulo Henrique Costa – que, na qualidade de presidente do Banco de Brasília, tentou comprar os ativos podres do Master, passando o prejuízo para os cofres públicos.

O então governador, hoje candidato (ou talvez ex-candidato) ao Senado, o bolsonarista Ibaneis Rocha, aparece envolvido, não apenas por uma questão de simples lógica, mas por registros de conversas. Sua defesa é um monumento à cara-de-pau: disse que não sabe “nem fazer um pix”, logo não seria capaz de entender as maracutaias financeiras do Master.

Ele parecia bem mais atilado quando amealhava uma grande fortuna em um punhado de anos. Mas, mesmo que sua incompetência fosse real, ele seria culpado no mínimo de uma negligência criminosa na gestão das finanças do Distrito Federal.

Um sujeito desagradabilíssimo, Ibaneis Rocha está sendo descartado como peso morto pela direita do DF, que se apressou a substituí-lo em sua nominata preferencial para o Senado – agora, a chapa é Michelle Bolsonaro e Bia Kicis. Com o escândalo batendo às portas de sua sucessora, a vice-governadora efetivada no cargo, Celina Leão, ainda mais visceralmente bolsonarista que ele, já começou o assanhamento por uma candidatura alternativa para o governo, com o atual senador Izalci Lucas lançando seu próprio nome. (Sim, um relato sobre a política local se assemelha a um daqueles velhos tratados sobre demonologia.)

O fio da meada é claro: operando com gente como Ciro Nogueira e Felipe Barros, ambos bolsonaristas, no Congresso, para promover mudanças na legislação que o beneficiassem, e garantindo o beneplácito do Banco Central do bolsonarista Campos Neto para suas manobras, o Master contava com o governo dos bolsonaristas Ibaneis Rocha e Celina Leão no Distrito Federal para assumir suas dívidas bilionárias e sair limpo da história.

Lula tem que deixar claro que ele é o maior interessado no desvendamento de todo o esquema.

•        Banco Master: o escândalo que escancara o abismo brasileiro. Por Paulo Cannabrava Filho

Mais uma vez, não é possível silenciar diante do escândalo envolvendo o Banco Master. Os números impressionam, mas o que mais choca é a naturalidade com que esquemas dessa magnitude parecem operar dentro das estruturas do poder.

Fala-se em uma propina de R$ 146 milhões, dos quais R$ 74,6 milhões teriam sido efetivamente pagos, convertidos em imóveis de alto padrão em Brasília e São Paulo. Beneficiário direto: Paulo Henrique Costa, então presidente do Banco de Brasília (BRB), instituição pública que deveria servir ao interesse coletivo.

Ao mesmo tempo, o BRB teria injetado cerca de R$ 12 bilhões no Banco Master para adquirir carteiras de crédito consignado inexistentes. Uma operação que, se confirmada, revela não apenas má gestão, mas uma engrenagem sofisticada de desvio de recursos públicos.

A prisão de Paulo Henrique Costa, no dia 17 de abril, durante a quarta fase da Operação Compliance, que investiga os crimes atribuídos a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, é apenas a ponta visível de um esquema que, ao que tudo indica, vinha sendo alimentado há anos.

A relação entre o BRB e o Master não é recente. Já em 2024, o banco estatal teria atuado para injetar recursos e evitar a quebra da instituição privada, levantando sérias dúvidas sobre cumplicidade, conivência e uso indevido de recursos públicos.

Tudo isso ocorre sob o olhar das autoridades locais. É difícil acreditar que operações dessa escala tenham ocorrido sem conhecimento das mais altas instâncias do governo do Distrito Federal.

Mas há um outro lado dessa história, talvez ainda mais revelador do país que estamos nos tornando.

Enquanto bilhões circulam em esquemas suspeitos, cerca de 82 milhões de brasileiros estão inadimplentes, acumulando dívidas que somam R$ 539 bilhões. Quase 80% dessas pessoas têm renda de até dois salários mínimos.

A taxa de desemprego atinge níveis historicamente baixos, mas isso não se traduz em alívio para a população. Ao contrário: a taxa Selic permanece em patamares próximos de 15% ao ano, impondo um custo financeiro insuportável.

Na prática, isso significa que o cidadão comum destina, em média, 70,5% de sua renda para pagar dívidas e despesas básicas como água, luz, telefone e aluguel. Trabalha-se para sobreviver, não para viver.

De um lado, jatinhos, imóveis de luxo e cifras milionárias. De outro, um povo esmagado pelo endividamento e pela ausência de perspectivas.

Esse contraste não é acidental. Ele revela a lógica de um sistema que protege o privilégio e transfere o peso da crise para os de baixo.

O escândalo do Banco Master não é um episódio isolado. É mais um sintoma de um modelo que naturaliza a promiscuidade entre o público e o privado, enquanto condena a maioria da população à precariedade.

Estamos em ano eleitoral. É o momento de exigir dos candidatos não apenas discursos, mas propostas concretas e soluções sistêmicas para enfrentar a corrupção, que não é um desvio ocasional, mas um traço estrutural de um sistema que se alimenta da desigualdade.

O campo democrático, se quiser se afirmar como alternativa real, precisa mudar de rumo. Não basta administrar a crise: é necessário apresentar um projeto de salvação nacional, capaz de recuperar a soberania, reorganizar a economia e colocar o Estado a serviço da maioria.

Sem isso, os escândalos continuarão a se repetir — e o abismo seguirá se aprofundando.

 

Fonte: A Terra é Redonda/Diálogos do Sul Global

 

Massacre de Ludlow: Rockefeller ordena a matança de trabalhadores do Colorado

Há 112 anos, em 20 de abril de 1914, dezenas de mineiros em greve e seus familiares eram assassinados por soldados da Guarda Nacional do Colorado e por milícias particulares a serviço da família Rockefeller.

Empregados pela Colorado Fuel and Iron Company, os mineiros protestavam contra os salários baixos, as jornadas abusivas e as condições de trabalho perigosas. Incomodado com o movimento, John Davison Rockefeller ordenou que a Guarda Nacional atacasse o acampamento onde os mineiros viviam com suas famílias.

O Massacre de Ludlow foi um dos mais sangrentos conflitos trabalhistas da história dos Estados Unidos. A matança indignou os trabalhadores, que se insurgiram em rebelião armada, violentamente esmagada pelos militares norte-americanos.

<><> A greve dos mineiros

O Massacre de Ludlow foi o ápice da chamada “Guerra Carbonífera do Colorado”, um levante operário motivado pelas péssimas condições de vida a que eram submetidos os trabalhadores das minas de ferro e carvão no oeste estadunidense.

A revolta foi liderada por trabalhadores da Colorado Fuel and Iron Company (CF&I), empresa de mineração de ferro e de produção de combustíveis pertencente a John Davison Rockefeller, magnata do petróleo e herdeiro de uma das famílias mais ricas e influentes do país.

A CF&I dominava completamente as operações no sul do Colorado. Os trabalhadores da empresa enfrentavam condições brutais, com jornadas de 10 a 14 horas diárias, salários baixos e ausência de protocolos mínimos de segurança. Eram forçados a viver em alojamentos da companhia, sob estrito controle dos patrões. Os mineiros sindicalizados eram perseguidos, expulsos dos alojamentos e demitidos.

Em setembro de 1913, respondendo à convocatória da United Mine Workers of America — UMWA, sindicato dos trabalhadores de minas que congregava 11 mil funcionários da Colorado Fuel and Iron Company — os mineiros iniciaram uma campanha por melhores condições de trabalho e salários dignos.

Diante da recusa da empresa em ouvir as queixas, os trabalhadores deflagraram uma greve, paralisando parte substancial da atividade mineira do estado. Os mineiros reivindicavam reajuste salarial de 10%, limitação da jornada de trabalho a 8 horas diárias, cumprimento da legislação trabalhista em vigor e a melhoria das condições sanitárias dos alojamentos.

<><> O acampamento de Ludlow

Como retaliação à greve, a empresa ordenou que os funcionários fossem despejados de seus alojamentos. Os mineiros montaram então uma série de acampamentos com barracas improvisadas, erguidos no entorno das minas de ferro e carvão.

Ludlow, o maior desses acampamentos, reunia cerca de 1.200 mineiros e suas famílias. A maioria dos trabalhadores era composta por imigrantes italianos, gregos, sérvios e mexicanos, contratados para substituir outros mineiros que haviam sido demitidos por participarem de uma mobilização grevista na década anterior.

Para intimidar os trabalhadores, os Rockefeller contrataram milicianos que atacavam regularmente os acampamentos com disparos de rifle e espingarda. Os mineiros também passaram a ser assediados e agredidos pelos membros da Guarda Nacional do Colorado, que era financiada pela família Rockefeller.

Resistindo ao assédio e às ameaças, os mineiros prosseguiram com a greve ao longo de vários meses, causando prejuízos e indisfarçada irritação em John Davison Rockefeller. Em abril de 1914, durante uma audiência no Congresso dos Estados Unidos, Rockefeller afirmou que acabar com a greve era “uma questão nacional”.

O oligarca advertiu os parlamentares norte-americanos sobre o “grave precedente” que seria “permitir aos trabalhadores escolherem as condições em que desejam trabalhar” e criticou severamente a presença dos sindicatos nas mobilizações trabalhistas.

<><> O massacre

No dia 20 de abril de 1914, um dia após a celebração da Páscoa Ortodoxa, a Guarda Nacional do Colorado cercou o acampamento de Ludlow e iniciou uma repressão brutal contra os trabalhadores.

Uma milícia antigrevista contratada pela família Rockefeller ingressou no acampamento armada com metralhadoras e abriu fogo contra os mineiros e suas famílias.

Os três principais líderes da greve, incluindo o sindicalista Louis Tikas, foram capturados e assassinados pela Guarda Nacional. Os trabalhadores ainda tentaram reagir ao massacre, mas logo foram subjugados.

Tentando fugir da violência, mulheres e crianças se esconderam em cavas usadas como depósitos no interior das tendas. Os soldados da Guarda Nacional, entretanto, jogaram querosene sobre as barracas e atearam fogo, incendiando todo o acampamento e matando dezenas de pessoas.

Ao menos 13 trabalhadores que tentaram escapar do incêndio foram baleados e mortos pelos soldados. Julia May Courtney, uma sobrevivente do massacre, afirmou ter presenciado os militares espancando e atirando propositalmente as crianças nas chamas.

Em uma única cava, foram encontrados os corpos de 11 crianças e quatro mulheres, uma das quais gestante. A vítima mais jovem era um bebê com quatro meses de vida.

A quantidade exata de vítimas do massacre não é conhecida, variando entre 25 e 55 pessoas conforme as fontes. Outras 66 pessoas morreriam nos dez dias seguintes, quando os mineiros sobreviventes, indignados com a chacina, se armaram e iniciaram o ataque às instalações da Colorado Fuel and Iron Company e aos postos da Guarda Nacional do Colorado.

Os trabalhadores atacaram minas e organizaram uma série de escaramuças contra os soldados na região entre Las Animas e Walsenburg. Receando uma escalada da violência e pressionado a proteger as propriedades dos Rockefeller, o presidente Woodrow Wilson despachou tropas federais até o Colorado para debelar a revolta operária.

O massacre foi abafado pela imprensa para evitar danos à imagem da família Rockefeller. O Congresso dos Estados Unidos chegou a realizar audiências, mas nenhuma medida concreta foi tomada e os proprietários e gestores da empresa sequer foram convocados a depor.

Determinado a minar os sindicatos independentes, John Davison Rockefeller investiu na criação de um novo sistema de representação sindical, composto por associações cooptadas e subordinadas aos interesses patronais, até hoje bastante difundido.

O Massacre de Ludlow permanece como um dos mais sangrentos conflitos trabalhistas da história dos Estados Unidos, bem como um símbolo do autoritarismo e da violência patronal e das consequências nefastas do poder ilimitado e desregrado concedido às corporações.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

Por que nos tornamos amigos melhores quando envelhecemos

Você prefere conhecer muitas pessoas novas ou passar o tempo com um pequeno círculo de amigos próximos?

Talvez você imagine que sua resposta dependerá do seu grau de introversão ou extroversão. Mas saiba que existe outro fator fundamental, mas pouco conhecido, que influencia nossas preferências sociais: a idade.

As amizades beneficiam pessoas de todas as idades. Elas chegam a melhorar nossa saúde e aumentar nosso tempo de vida, segundo indicam diversas pesquisas.

À medida que a idade avança, as amizades podem passar a ser uma importante fonte de felicidade e satisfação com a vida. E as interações frequentes com um amigo próximo, de fato, podem aumentar a felicidade entre os idosos, mais do que com a própria família.

Uma explicação simples é que as amizades podem ser mais engraçadas, menos tensas e carregadas do que outros relacionamentos.

Um estudo realizado entre norte-americanos com mais de 65 anos de idade concluiu que os encontros com os amigos eram considerados mais agradáveis do que com familiares. Estas descobertas contradizem estudos mais antigos, que se concentravam mais na família próxima como a principal fonte de apoio para os adultos, durante o envelhecimento.

Mas existe uma diferença importante na forma em que as pessoas mais velhas escolhem e mantêm suas amizades, em comparação com os jovens.

Os jovens tendem a procurar ativamente novos contatos. Já os idosos reduzem deliberadamente suas redes sociais, segundo a professora de psicologia Katherine Fiori, da Universidade Adelphi, em Nova York, nos Estados Unidos.

Esta redução do número de relacionamentos na nossa vida traz importantes benefícios, mas também algumas desvantagens que merecem ser detalhadas, segundo ela e outras fontes.

Uma das vantagens de cultivar um círculo menor de amizades é que os laços restantes, cuidadosamente selecionados, costumam ser de alta qualidade.

"À medida que as pessoas envelhecem, sua perspectiva sobre o futuro muda", explica Fiori. "Essencialmente, elas têm menos tempo para viver. Suas prioridades se alteram e elas tendem a se concentrar nos propósitos socioemocionais."

Este fenômeno é conhecido como teoria da seletividade socioemocional.

Os adultos mais jovens observam seu futuro em expansão e se concentram em formar novas conexões. Já os mais velhos têm como prioridade passar seu tempo com as pessoas que os conhecem bem e, com isso, reduzem suas conexões.

Fiori explica que a restrição dos laços mais fracos é proposital. A intenção das pessoas é se concentrar nos laços próximos, quando o fim da vida se aproxima.

<><> Expansão vs. contração

Pesquisadores concluíram que, como parte desta redução, os adultos com mais idade chegam a excluir deliberadamente seus conhecidos mais distantes das suas redes sociais. Isso aumenta a chamada "densidade emocional" do seu círculo social – ou seja, eles trabalham para criar um grupo menor e mais coeso.

Os idosos também costumam perdoar mais e ser mais positivos com os contatos escolhidos, já que eles estão tentando saborear a vida e o tempo que lhes resta juntos, segundo indicam as pesquisas.

Este foco na alegria confirma outras descobertas sobre o papel da positividade na terceira idade.

Em comparação com os adultos mais jovens, por exemplo, os idosos geralmente têm postura mais positiva e se concentram nos eventos e recordações positivas da vida. Este fenômeno é conhecido como o "efeito da positividade".

Mas você não precisa ser idoso para se concentrar mais nos relacionamentos próximos, alegres e positivos.

Quando os mais jovens são levados a pensar sobre a fragilidade da vida e seu tempo limitado na Terra, eles também mudam seus propósitos sociais. Eles abandonam sua estratégia mais expansiva e passam a adotar maior concentração, segundo um estudo de 2016.

Este efeito foi particularmente agudo durante a pandemia de covid-19. No pico da pandemia, pessoas de todas as faixas etárias privilegiaram os parceiros emocionalmente significativos, segundo demonstraram diversos estudos.

Em outras palavras, as pessoas mais velhas mantiveram sua estratégia padrão, típica da idade, de se concentrar em manter menos laços e mais próximos. Já os mais jovens mudaram seu comportamento, antes aberto e expansivo, passando a agir como os mais velhos, em termos de preferências sociais.

"As conclusões indicam que as diferenças amplamente documentadas de motivação social entre as idades refletem horizontes de tempo, mais do que a idade cronológica", segundo o estudo. Ou seja, o tempo que pensamos ter afeta mais a nossa estratégia social do que a nossa idade real.

<><> Abraçando novos amigos

Mas, mesmo entre as pessoas que cultivam esses laços próximos, também é uma boa ideia permanecer aberto para novas amizades, segundo os pesquisadores.

Fiori e seus colegas descobriram que reduzir demais a rede de amigos nem sempre é saudável. Pode ser surpreendente, mas ela afirma que não existem evidências que indiquem que o foco exclusivo nos laços próximos seja benéfico para a saúde física ou mental, em nenhuma idade.

"As amizades são muito benéficas para o bem-estar das pessoas ao longo da vida", explica ela. "Parte disso ocorre porque diferentes relacionamentos preenchem funções diferentes."

"Nossos laços mais próximos tendem a ser aqueles que nos oferecem apoio social, suporte emocional e suporte instrumental. Mas outras funções que conseguimos dos nossos relacionamentos costumam ter importância igual ou maior. Ocorre que, muitas vezes, elas vêm de tipos de laços diferentes."

Nossas amizades podem oferecer estímulo intelectual, por exemplo, ou simplesmente nos trazer diversão. A principal diferença é que as amizades são relacionamentos voluntários, não obrigatórios, que podem começar ou terminar a qualquer momento.

A pesquisadora de saúde mental Alexandra Thompson, da Universidade de Newcastle, no Reino Unido, concorda.

"As amizades oferecem benefícios levemente diferentes dos nossos relacionamentos familiares, por uma série de motivos", explica ela. "Os relacionamentos familiares podem ser tensos e baseados na obrigação. Mas a amizade envolve interesses comuns, o que pode melhorar o estado de espírito."

<><> Convergências culturais

A importância da amizade é mais relacionada à saúde e à felicidade entre os idosos, as mulheres, pessoas com menores níveis educacionais e que moram em culturas individualistas, segundo um estudo de 2021.

O estudo envolveu 300 mil pessoas de 99 países. Ele indica que, entre os idosos, depositar mais importância nos relacionamentos sociais pode servir de "estratégia de sobrevivência bem sucedida, que aumenta o bem-estar frente às adversidades trazidas pela idade".

<><> Amigos podem ser a família escolhida

Algumas amizades podem se tornar tão próximas que a própria palavra pode não parecer suficiente para definir a profundidade do relacionamento. Um amigo pode se sentir mais como um irmão, por exemplo.

Os amigos podem se tornar "parentes fictícios" e oferecer toda a confiança e calor humano da família, além do prazer da amizade, segundo Fiori.

"O parentesco não deve se resumir apenas ao sangue ou ao casamento", explica ela. "Quando aquela pessoa se torna família, aquele relacionamento muda e passa a ser mais obrigatório."

Entre a comunidade LGBTQIA+, as pessoas podem depender das famílias "escolhidas" ou "intencionais" para terem apoio à medida que envelhecem.

Este pode ser especialmente o caso das gerações mais velhas, que, muitas vezes, sofreram extrema discriminação ao longo da vida, incluindo a rejeição pela família, e podem não ter tido a oportunidade de criar filhos.

As pessoas que decidiram não ter filhos também podem, de forma geral, confiar mais nos amigos do que na família biológica, à medida que envelhecem.

Mas, enquanto cultivamos laços próximos e até de parentesco fictício, Thompson indica que também podemos usufruir dos laços mais distantes. A chave é dar preferência à qualidade, não à quantidade.

"Não é questão de ter centenas de amigos", explica ela.

"Não é verdade que, se acrescentarmos sempre novos amigos, observaremos redução da solidão, melhoria da saúde mental, melhoria da saúde física... Acho que sempre será questão de ter experiências e interesses comuns."

<><> Quatro é o número mágico?

A pesquisa de PhD de Thompson examinou qual seria o número ideal de amigos para o bem-estar psicológico dos idosos, combatendo a solidão.

Ela concluiu que ter quatro amigos próximos seria o número ideal. Ultrapassando este número, a pesquisadora não encontrou benefícios substanciais para o nosso bem-estar.

"É questão de como incentivamos as pessoas para que estabeleçam conexões íntimas, próximas e de boa qualidade – ou para que reforcem as conexões que elas já possuem, aumentando sua qualidade e intimidade", explica Thompson, "para que elas recebam esses benefícios e diferentes tipos de disponibilidade social dos seus amigos atuais."

Este esforço vale a pena por muitas razões. Os benefícios da amizade na terceira idade se estendem além do simples bem-estar psicológico. Eles incluem melhor funcionamento cognitivo e saúde mental.

De fato, as pesquisas indicam frequentemente que as amizades são tão importantes quanto os laços familiares para prever o bem-estar na idade adulta e na terceira idade.

Uma meta-análise que reuniu estudos com cerca de 309 mil indivíduos, acompanhados em média por 7,5 anos, concluiu que pessoas com relacionamentos sociais adequados possuem 50% mais probabilidade de sobrevivência, em comparação com relações sociais pobres ou insuficientes.

As amizades também podem ser uma fonte de estabilidade – o que é especialmente importante, já que as tendências demográficas indicam um afastamento do "núcleo familiar" tradicional rumo à monoparentalidade, divórcios e novos casamentos, o que torna a vida familiar mais complexa.

Como, então, criamos esta pequena rede benéfica de almas gêmeas, amigos e conhecidos?

<><> Abrindo portas para a amizade

Apesar de todos os aspectos positivos do envelhecimento nas relações sociais, os idosos realmente enfrentam uma série de obstáculos que podem dificultar muito para que as pessoas se encontrem, segundo Fiori.

Eles não têm as oportunidades sociais da escola, universidade ou do ambiente de trabalho, por exemplo. Eles podem enfrentar o luto e a solidão por terem perdido parceiros e amigos queridos.

O declínio das funções cognitivas ou questões de mobilidade podem trazer ainda mais dificuldades. E, se uma pessoa for naturalmente introvertida, aproximar-se de novas pessoas, por si só, pode parecer assustador.

O gênero também pode influenciar a questão. Homens mais idosos costumam relatar maior isolamento social do que as mulheres. Pesquisas indicam que as mulheres tradicionalmente mantêm os laços familiares. Por isso, elas mantêm laços mais fortes com os amigos e a família na idade avançada.

Mas existe também um fator mais relacionado com a nossa mentalidade – particularmente, com a nossa percepção do envelhecimento, segundo Fiori.

"Se alguém se vê e pensa '[minha saúde] está em declínio, ninguém quer mais ser meu amigo e não tenho mais motivo para viver' – este tipo de pessoa não irá sair e tentar fazer amigos", explica ela. "Mas alguém que tem uma percepção mais positiva do envelhecimento irá fazer isso."

Fiori sugere que intervenções cognitivas podem ser úteis para combater estes efeitos – não apenas terapia, mas, de forma geral, qualquer tipo de intervenção direcionada à mudança cognitiva, para ajudar os adultos mais velhos a terem percepções mais positivas do envelhecimento.

"A autopercepção do envelhecimento pode funcionar como profecia autorrealizadora", prossegue ela, "porque as pessoas mais idosas que acreditam que o fim da vida está associado ao risco de ficar solitário são menos propensas a investir em relacionamentos."

"Por outro lado, as pessoas mais velhas que observam sua idade com visão mais positiva e acreditam que ainda é possível fazer novos planos e se dedicar a novas atividades irão investir mais. E estes investimentos em relações sociais trazem consequências positivas para o bem-estar."

De certa forma, deveria ser mais fácil para nós fazer amigos na terceira idade. Afinal, à medida que a nossa personalidade amadurece, nossa perspectiva passa a ser mais voltada à alegria e costumamos ser mais agradáveis.

"Ao longo do tempo, as pessoas ganham habilidades sociais. Os idosos são socialmente mais hábeis do que os jovens adultos", segundo Fiori. "Por isso, de certa forma, eles podem ser mais capazes de evitar conflitos."

<><> Desfazendo mitos sobre a solidão

A solidão não é sinônimo de estar sozinho. Ela define o desejo de conexão social, aliado à sensação de angústia quando ela é inatingível.

O isolamento social é frequentemente associado a pessoas idosas que "vivem uma existência solitária". Mas ele pode ser vivenciado em qualquer etapa da vida.

Pesquisas indicam que a distribuição da solidão ao longo da vida tem forma de U – níveis elevados de solidão são verificados entre os jovens e na terceira idade.

Existem alguns períodos de transição no final da vida, como o luto, que geram "maior capacidade de conexão". A aposentadoria também pode liberar tempo para os adultos mais velhos e, por isso, oferecer a oportunidade de se socializar com seus vizinhos e praticar o voluntariado.

As pesquisas indicam que os idosos são mais "resilientes a eventos potencialmente isoladores" e continuam encontrando conexões significativas até o fim da vida.

<><> Amigos e fitness

Alexandra Thompson defende a criação de oportunidades sociais. Ela trabalhou com a organização Rise, no nordeste da Inglaterra, em um programa para idosos chamado Todos os Movimentos Importam.

Os participantes eram recrutados através do seu consultório médico. Eles participavam de quatro sessões semanais que envolviam uma atividade física, seguida pelo tempo de socialização. A ideia era incentivar a atividade física e a conexão emocional.

Os participantes declararam que as sessões eram divertidas e 81% relataram melhorias, como a redução da solidão.

"Simplesmente ter aquele incentivo, aquela oportunidade que foi oferecida, pode ser suficiente para fazer você sair para fazer algo como aquilo", afirma Thompson. "E as pessoas que fizeram adoraram."

<><> Reduzir o abismo digital

Ter acesso à internet pode também ser útil para o bem-estar dos idosos, especialmente se eles sofrerem declínio físico.

A tecnologia pode oferecer aos idosos a possibilidade de ter acesso a uma ampla variedade de recursos, além de compartilhar assuntos com seus amigos. Mas eles são mais lentos para adotar as novas tecnologias, em comparação com os mais jovens.

Um estudo observacional procurou verificar como os idosos de comunidades independentes, entre 69 e 91 anos de idade, usam a tecnologia.

Cada participante já possuía um tablet ou aparelho similar, depois de observar outras pessoas ou por recomendação de amigos e parentes.

A amostra foi pequena, mas o estudo concluiu que a tecnologia pode ajudar a conectá-los com a família, os amigos e com o mundo em geral. Por isso, os pesquisadores defendem o aumento do conhecimento tecnológico dos idosos, na esperança de trazer melhorias positivas para suas vidas.

Harold foi um dos participantes do estudo. "Eu me sinto mais bem informado; sinto que tenho mais contato com minha família. Simplesmente gosto muito... para [saber das] notícias e manter contato com nossos amigos."

<><> Novas mudanças à frente?

Existem indicações de que novas mudanças sociais estão por surgir – para melhor.

Katherine Fiori afirma que as faixas etárias mais novas estão passando muito mais tempo com os amigos até o fim da vida, em comparação com os nascidos há mais tempo.

"Uma das coisas que achamos que também está causando esta mudança é a percepção do envelhecimento, que ficou menos negativa", explica ela.

"Meu colega [Oliver Huxhold, do Centro Alemão de Gerontologia] prevê que, no futuro, os idosos provavelmente não irão apenas mencionar mais amigos na sua rede de apoio... mas também passarão mais tempo com eles."

 

Fonte: Por Molly Gorman, da BBC Future

 

Xadrez de Pablo Marçal e a Operação Narco Fluxo

É hora das autoridades que investigam o crime organizado, agora que entenderam as relações da lavagem de dinheiro com os influenciadores, de olhar com atenção Pablo Marçal.

Ele transita não apenas no ecossistema dos influenciadores digitais como tem vários pontos de contato com personagens diretamente envolvidos nesse jogo — entre eles o pastor Itamar Vieira, ligado à rede da Igreja Lagoinha em Angola, e o fisiculturista Renato Cariani, réu por fornecer insumos para a produção de cocaína do PCC.

<><> 1. O Eixo Marçal–MC Ryan SP e a Operação Narco Fluxo

Em 15 de abril de 2026, a Polícia Federal deflagrou a Operação Narco Fluxo, desdobramento das investigações Narco Vela e Narco Bet. O alvo central foi o desmantelamento dos chamados “escudos de conformidade”: o uso estratégico de figuras de alta visibilidade para naturalizar a entrada de capital ilícito no sistema financeiro. Ao associar fluxos de dinheiro a artistas e influenciadores, organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) conferem aparência de legalidade a recursos provenientes do narcotráfico e de apostas ilegais.

>>> A conexão financeira: R66 Air Ltda

Dados de inteligência financeira revelaram que a R66 Air Ltda — empresa de Pablo Marçal e da Marçal Participações, com capital social de R$ 3,8 milhões, constituída em 5 de dezembro de 2023 e sediada em Alphaville, Barueri — efetuou uma transferência de R$ 4,4 milhões para o artista MC Ryan SP. Esse valor foi o maior recebido pelo funkeiro no período analisado pelo Coaf, entre maio de 2024 e outubro de 2025.

Quatro elementos merecem atenção na análise da empresa:

O nome. R66 é o modelo do helicóptero Robinson R66 Turbine — exatamente a aeronave que a PF aponta como objeto possível da transação. A empresa foi batizada com o nome do equipamento que, segundo os investigadores, pode ter sido o objeto real da negociação.

A data de constituição. Dezembro de 2023 — menos de um ano antes da transferência para MC Ryan SP e poucos meses antes do início da campanha eleitoral de 2024.

O CNAE. Holdings de instituições não financeiras (K-6462-0/00) é uma classificação ampla, típica de empresas de participação societária — não de compra de aeronaves ou imóveis. É uma estrutura que não revela operacionalmente o que a empresa faz, o que é comum em holdings patrimoniais mas também característica de empresas usadas para movimentação financeira opaca.

A estrutura em camadas. A sócia da R66 Air é a Marçal Participações — ou seja, Marçal não aparece diretamente como pessoa física, mas via outra empresa sua. É o padrão de distância formal recorrente em toda a sua rede.

A defesa de Marçal afirma tratar-se de compra de imóvel no Condomínio Aruã, em Mogi das Cruzes, totalizando R$ 7,3 milhões com permuta de veículo e outro imóvel. A PF contesta: o valor de R$ 4,4 milhões é compatível com o preço de mercado do helicóptero Robinson R66 Turbine, e o padrão da movimentação — em que a conta pessoal de Ryan atuou como “elo de trânsito para sua própria pessoa jurídica” — corresponde à tipologia de “uso de contas de passagem”, cuja função é dificultar a identificação do beneficiário econômico final.

>>> A estrutura de lavagem da Narco Fluxo

MC Ryan SP é apontado como peça-chave no núcleo de lavagem para o PCC, operando sob tutela financeira de Frank Magrini, operador da facção com histórico de tráfico e roubo a bancos, que teria financiado o início da carreira do funkeiro em 2014. A investigação, originada na análise de um backup do iCloud do contador Rodrigo Morgado — preso na Narco Bet anterior —, identificou três eixos de ocultação: pulverização de capital via venda de ingressos e ativos digitais sem lastro; dissimulação por criptoativos (USDT) e transferências fracionadas; e interposição de terceiros pelo “aluguel de CPFs” e empresas de fachada. O “operador de mídia” da organização era Raphael Sousa Oliveira, dono da página Choquei, responsável por promover os artistas e as plataformas de apostas que serviam de duto para a lavagem.

O Coaf rastreou R$ 1,6 bilhão em movimentações imediatas, mas a PF estima que a rede possa ter movimentado R$ 262 bilhões — evidenciando um sistema financeiro paralelo de proporções sistêmicas.

<><> 2. A Arquitetura das Fintechs e o Labirinto Societário

A criação de fintechs e bancos digitais é o pilar de infraestrutura de Marçal para converter influência em autonomia financeira. O objetivo declarado de “transformar o processo eleitoral em um modelo de negócio” — formulação do próprio relator que manteve sua inelegibilidade no TRE-SP em dezembro de 2025 — encontra nas zonas cinzentas do sistema bancário o ambiente ideal para operar sem o escrutínio do Banco Central.

Marçal é mais um que surfou na desregulação que abriu o sistema a organizações criminosas. Como apurou o Sindicato dos Bancários, fintechs expandiram sem as mesmas obrigações de KYC e AML dos bancos tradicionais. A brecha central, identificada pela Receita Federal nas Operações Quasar, Tank e Carbono Oculto (agosto de 2025), é a “conta-bolsão”: uma conta aberta em nome da própria fintech num banco comercial, por onde transitam de forma não segregada os recursos de todos os clientes, tornando quase impossível rastrear qualquer centavo. O secretário especial da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, foi direto na coletiva da Carbono Oculto: “Todos nós sabemos que no cerne de todas as operações aparecem as fintechs.” Para o promotor Lincoln Gakiya, do MP-SP, “melhor do que você ter laranjas para lavar o seu dinheiro é você ter o seu próprio banco. Infelizmente, é isso que a gente está assistindo.”

>>> Red flags regulatórios: General Bank e BRM1

O General Bank, anunciado por Marçal como “seu banco autorizado pelo BC”, opera na realidade sem licença do Banco Central — a análise técnica revela uso de “conta-bolsão” via sistema Asaas, exatamente o mecanismo que a Receita Federal identificou como instrumento central de lavagem do PCC. A cadeia intermediária tem três camadas: a plataforma Asaas (com licença do BC) como infraestrutura de fundo; a BRM1 de Rogério Tavares Pierro como intermediária que monta fintechs para terceiros em regime de whitelabel — ou seja, fornece toda a estrutura técnica e regulatória para que qualquer um lance “seu banco” com marca própria sem precisar obter licença; e a B4A de Bruno Pierro (filho de Rogério) como desenvolvedor do produto que Marçal apresenta ao público.

>>> O nexo com a Operação Concierge

A BRM1 tem uma lista de clientes que vai além do General Bank. Um deles é o YouBanking, que compartilha CNPJ com a Zuri — antiga Blindei, fintech projetada especificamente para evitar bloqueios judiciais, com participação na sua concepção do delegado da PF José Navas Júnior. O modo de operação do Zuri/Blindei é, segundo investigadores ouvidos pelo Intercept, idêntico ao das fintechs da Operação Concierge, que investigou fraudes de R$ 7,5 bilhões e lavagem para o PCC via T10 Bank.

O T10 Bank operava por meio do banco Bonsucesso. Paulo Henrique Pentagna Guimarães, fundador do Bonsucesso/BS2, doou R$ 100 mil à campanha de Marçal via Pix. O histórico da família Pentagna Guimarães inclui: o Bonsucesso listado pela Receita Federal entre os bancos que emprestaram dinheiro ao Schahin, que movimentou propinas em contratos da Petrobras;  e o BS2 identificado pela PF na Operação Concierge como banco que deixou de reportar ao Coaf movimentações suspeitas do T10 Bank.

A recorrência de parcerias com entidades sob investigação não é acidental. Aponta para uma omissão deliberada nos protocolos de KYC e AML (protocolos para prevenir lavagem de dinheiro) — a chamada “cegueira deliberada”, termo usado pela própria PF para descrever a conduta de bancos que fecham os olhos para o que não querem ver.

<><> 3. Alianças de Risco e a “Negligência Reiterada”

Marçal formaliza relações com indivíduos que já figuram como réus em processos criminais graves, utilizando a prestação de serviços técnicos como camada de distanciamento jurídico. O padrão é consistente: em todos os casos, quando questionado, ele afirma desconhecer a situação judicial do parceiro.

>>> Renato Cariani (fisiculturismo / indústria química)

A PF indiciou Cariani por tráfico equiparado, associação para o tráfico e lavagem de dinheiro. Sua empresa Anidrol desviou aproximadamente 12 toneladas de insumos — acetona, éter etílico, ácido clorídrico, lidocaína, fenacetina — para a produção de cocaína e crack pelo PCC, entre 2014 e 2021. O elo com a facção era Fábio Spínola Mota, preso na Operação Downfall por tráfico internacional. Em junho de 2024, quando Cariani já era réu e a investigação da PF estava em curso, Marçal lançou com ele o curso “Super Humano” em Alphaville, a R$ 297 o ingresso, e vinha compartilhando publicamente nas redes o programa de emagrecimento elaborado pelo fisiculturista.

>>> Florindo Miranda Ciorlin (aviação)

A Operação Grão Branco (abril de 2021) desmontou a organização do megatraficante Ary Flávio Swenson Hernandes, suspeito de traficar mais de cinco toneladas de drogas. Florindo e seu irmão Ewerton foram presos: o empresário ministrava aulas de pilotagem para pilotos da organização criminosa, adquiria e regularizava aeronaves usadas no tráfico usando documentos falsos e laranjas. Em 28 de outubro de 2021 — seis meses após a prisão de Florindo, quando ele já era réu na 1ª Vara Federal de Cáceres —, Marçal assinou digitalmente uma procuração conferindo poderes a Florindo para representá-lo junto a órgãos do governo federal, conjuntamente com a empresa Aviation Participações. No Roda Viva, Marçal disse que Florindo atuou apenas como “despachante” numa compra de aeronave: “É igual você ir ao Detran.”

A utilização de procurações (caso Ciorlin) e parcerias de conteúdo (caso Cariani) permite a Marçal capturar expertise logística e técnica necessária para sua expansão, enquanto mantém disponível a justificativa de “desconhecimento” — uma estratégia de gestão de risco que prioriza a expansão de ativos sobre a integridade da rede.

<><> 4. Angola como Hub Estratégico e a Engenharia Social de Camizungo

Angola consolidou-se como peça-chave na logística do narcotráfico entre a América Latina e a Europa por sua vulnerabilidade institucional: ausência de acordos de extradição com o Brasil, corrupção em patentes militares e policiais, e portos de baixa fiscalização — Luanda e Lobito. O UNODC confirmou em seu relatório global de cocaína (2023) que o PCC controla diversas etapas da distribuição em países lusófonos africanos, usando a mesma logística do contrabando de produtos lícitos. A rota consolidada sai do Aeroporto de Guarulhos, passa pelo Aeroporto Quatro de Fevereiro em Luanda e segue para África do Sul, Namíbia e Moçambique — com destino final na Europa. Há informações de que André do Rap, número 2 do PCC e responsável pela logística internacional da facção, teria se refugiado em Luanda, país que não mantém acordo de extradição com o Brasil.

>>> A engenharia social de Camizungo

O projeto na comunidade de Camizungo, a 50 km de Luanda, é o exemplo máximo da instrumentalização da filantropia como vitrine de credibilidade. O que Marçal vende como “desfavelização” autoral é a cooptação de um projeto missionário preexistente: em 2010, o casal paraibano Itamar e Fernanda Vieira chegou à região como missionário da Igreja Nacional do Senhor Jesus Cristo, fundada pela pastora Valnice Milhomens. Em 2018, criaram o Instituto Atos para captar doações humanitárias. Em 2019, Itamar — hoje pastor da Igreja Diante do Trono em Angola, denominação da família criadora da Lagoinha — convidou Marçal a entrar como captador de recursos, após Marçal conhecer o projeto por meio de uma seguidora.

A discrepância é expressiva: dos R$ 4,5 milhões arrecadados por Marçal em dois leilões transmitidos ao vivo, apenas R$ 1,7 milhão chegou efetivamente à Angola segundo a contabilidade do próprio Itamar — restando mais de 300 famílias em barracos de lata que atingem 50°C durante o dia, de 350 prometidas. O Intercept Brasil rastreou as doações até dois CNPJs sediados em Prata, cidade de 4 mil habitantes no interior da Paraíba: a ONG Atos, cuja sede não existia até o jornal publicar a primeira reportagem (Itamar admitiu que o escritório foi “montado às pressas” após a publicação); e o Centro Vida Nordeste, registrado em nome de “Zé da Banca”, dono de uma banca de apostas ilegais local, cujo funcionamento em uma fazenda do ex-prefeito João Pedro Salvador de Lima — condenado por improbidade administrativa — levanta questões sérias sobre o destino final das doações.

A promessa não cumprida gerou um efeito colateral agravante: dezenas de novas famílias migraram para Camizungo atraídas pela expectativa de casas, sobrecarregando os escassos serviços e acirando conflitos territoriais. A filantropia opaca criou uma armadilha social onde a carência do Estado é substituída pelo interesse de marca do influenciador.

<><> 5. Conclusão

O que o conjunto das investigações revela é um ecossistema integrado em que cada camada protege e alimenta a seguinte: a influência digital serve como “escudo de conformidade” que naturaliza fluxos financeiros; as fintechs sem licença permitem a opacidade das transações pela conta-bolsão; a rede religiosa internacional fornece legitimidade moral e plataforma de captação; e o padrão de distância formal — sempre um intermediário entre Marçal e o nó mais problemático — garante a disponibilidade da justificativa de desconhecimento.

É a lógica da extração de valor via zona cinzenta, operada com sofisticação institucional suficiente para permanecer no limite da legalidade estrita — e que, pela primeira vez, começa a ser mapeada em conjunto pelas investigações em curso.

 

Fonte: Por Luís Nassif, no Jornal GGN

 

As suspeitas de uso de informação privilegiada que atingem a Presidência de Donald Trump

Ao longo do segundo mandato do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, iniciado em janeiro de 2025, operadores do mercado vêm apostando milhões de dólares pouco antes de ele fazer anúncios importantes.

A BBC analisou dados de volume de negociações em diversos mercados financeiros e os cruzou com algumas das declarações mais relevantes de Trump com impacto sobre os mercados (e os valores negociados).

A análise feita pela BBC identificou um padrão consistente de picos de movimentações que ocorrem horas, às vezes minutos, antes de uma publicação em redes sociais ou de uma entrevista à imprensa se tornar pública.

Alguns analistas dizem que isso apresenta características de uso ilegal de informação privilegiada, quando operações são feitas com base em informações que não estão disponíveis para o público em geral.

Outros afirmam que o quadro é mais complexo e que alguns investidores se tornaram mais hábeis em antecipar as intervenções do presidente (sem, portanto, se valer de informações privilegiadas).

A seguir, cinco dos exemplos mais significativos identificados pela BBC.

<><> 9 de março de 2026: 'A guerra [no Irã] está praticamente concluída'

Alguns dos maiores movimentos ocorreram em operações com petróleo no mercado futuro.

Nove dias após o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, Trump afirmou à CBS News, emissora parceira da BBC nos EUA, em entrevista por telefone, que o conflito estava "praticamente concluído".

Os horários aqui estão de acordo com o fuso do meridiano de Greenwich (GMT, 3 horas à frente do horário de Brasília).

  • 18h29: apostas no petróleo disparam
  • 19h16: Trump diz que a guerra está praticamente concluída
  • 19h17: Cotação do petróleo cai 25%

A primeira vez que o público tomou conhecimento da entrevista foi às 19h16, quando um jornalista publicou sobre o assunto na rede social X (antigo Twitter).

Operadores do mercado reagiram à notícia de que o conflito poderia terminar muito antes do esperado, vendendo contratos, o que fez o preço cair cerca de 25%.

No entanto, dados de mercado mostram que houve um forte aumento nas apostas na queda do preço do petróleo às 18h29, 47 minutos antes da publicação do jornalista.

Os operadores que fizeram essas apostas teriam lucrado milhões de dólares com essa movimentação dos preços do petróleo.

<><> 23 de março de 2026: 'resolução completa e total das nossas hostilidades'

Em 23/3, apenas dois dias depois de ter ameaçado "aniquilar" as usinas de energia do Irã, Trump publicou na rede Truth Social que os EUA havia mantido "CONVERSAS MUITO BOAS E PRODUTIVAS" com o Irã sobre uma "RESOLUÇÃO COMPLETA E TOTAL" das hostilidades.

Foi uma grande surpresa para os especialistas em diplomacia e operadores do mercado.

  • 10h48 – 10h50: apostas em queda do petróleo disparam
  • 11h04: Donald Trump faz um post sobre "resolução total" das hostilidades
  • 11h05: petróleo cai 11%

Imediatamente, as bolsas subiram e o preço de referência do petróleo nos EUA, que vinha em alta, recuou de forma acentuada.

Como a BBC reportou à época, 14 minutos antes da publicação do presidente houve um número incomumente elevado de apostas sobre o preço do petróleo nos EUA.

O mesmo padrão foi observado em operações com contratos de petróleo Brent, o outro principal indicador de referência.

As negociações pareciam "anormais, com certeza", disse um analista de petróleo à BBC na ocasião.

<><> 9 de abril de 2026: pausa do 'Dia da Libertação'

Para além da guerra no Oriente Médio, há outros exemplos de atividade de negociação que levantaram suspeitas.

Em 2 de abril de 2025, Trump anunciou o que chamou de "Dia da Libertação" (Liberation Day, em inglês), um amplo pacote de tarifas sobre produtos de praticamente todos os países do mundo.

As bolsas ao redor do mundo despencaram.

Mas, uma semana depois, quando Trump anunciou uma "pausa" de 90 dias nas tarifas para todos os países, exceto a China, os mercados acionários dispararam.

O índice de referência S&P 500 subiu 9,5%, um dos maiores ganhos em um único dia desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Os horários aqui estão novamente de acordo com o fuso GMT (três horas à frente do horário de Brasília).

  • 17h00: operadores começam a fazer grandes apostas na alta do mercado acionário
  • 17h18: Trump anuncia pausa nas tarifas
  • 17h19: mercado de ações começa uma alta histórica

Mais uma vez, um padrão de negociações incomuns aconteceu esses eventos, com um número excepcionalmente alto de apostas antes do anúncio em um fundo que acompanha o S&P 500. O número de contratos negociados saltou para mais de 10 mil por minuto logo após as 17h. Mais cedo naquele dia, esse número estava na casa das centenas.

Alguns operadores apostaram mais de US$ 2 milhões (cerca de R$ 10 milhões) na alta do mercado naquele dia, mesmo após sete dias consecutivos de queda. A forte disparada pode ter gerado um lucro de quase US$ 20 milhões (cerca de R$ 100 milhões).

Mais tarde, naquela semana, vários senadores democratas dos EUA escreveram à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) pedindo que o órgão regulador investigasse se os anúncios do presidente "beneficiaram pessoas próximas à sua administração e aliados, às custas do público americano".

Questionado pela BBC se havia analisado essas alegações, um porta-voz da SEC se recusou a comentar.

A Casa Branca, por sua vez, não respondeu a um pedido de comentário da BBC sobre qualquer uma das atividades de negociação incomuns analisadas neste relatório.

<><> 3 de janeiro de 2026: Maduro é capturado

  • Dezembro de 2025: conta Burdensome-Mix é criada
  • 2 de janeiro de 2026: conta aposta US$ 32 mil (cerca de R$ 160 mil) na queda de Maduro
  • 3 de janeiro de 2026: Maduro é capturado e Burdensome-Mix ganha US$ 436 mil (cerca de R$ 2,2 milhões)

O crescimento recente dos mercados de previsão online também tem atraído atenção de observadores.

Plataformas baseadas em blockchain — uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para registrar transações —, como Polymarket e Kalshi, oferecem aos usuários a possibilidade de especular sobre temas que vão do clima e do beisebol à política externa dos EUA.

Donald Trump Jr., filho do presidente americano, é investidor da Polymarket e integra seu conselho consultivo. Ele também atua como conselheiro estratégico da Kalshi e foi procurado pela BBC para comentar.

Em dezembro de 2025, um usuário criou na Polymarket uma conta chamada Burdensome-Mix. Em 30 de dezembro de 2025, fez sua primeira aposta de que o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deixaria o cargo até o fim de janeiro de 2026.

Entre 30 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026, a conta apostou em um total de US$ 32,5 mil (cerca de R$ 160 mil).

Quando Maduro foi capturado por forças especiais dos EUA e retirado do poder no dia seguinte, a conta Burdensome-Mix ganhou US$ 436 mil (cerca de R$ 2,2 milhões).

Pouco depois, a conta mudou de nome de usuário e não fez mais apostas.

<><> 28 de fevereiro de 2026: ataques ao Irã

  • Fevereiro de 2026: seis contas são criadas na Polymarket e posteriormente apostam que ataque ao Irã ocorreria até 28 de fevereiro
  • 28 de fevereiro de 2026: EUA e Israel atacam o Irã e contas ganham US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6 milhões)

Segundo o site de análise de blockchain Bubblemaps, seis contas foram criadas na Polymarket em fevereiro.

Todas fizeram apostas de que um ataque dos EUA ao Irã ocorreria até 28 de fevereiro de 2026. Quando os ataques foram confirmados por Trump, nas primeiras horas daquele dia, as contas lucraram, juntas, cerca de US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6 milhões).

Cinco desses seis usuários não fizeram mais apostas desde então, mas a atividade recente de uma das contas indica que ela posteriormente ganhou US$ 163 mil (cerca de R$ 820 mil) ao apostar corretamente em um cessar-fogo entre EUA e Irã até 7 de abril de 2026, anunciado pelos países naquele dia.

A Polymarket afirmou à BBC que "estabelece, mantém e aplica os mais altos padrões de integridade de mercado", acrescentando que trabalha "de forma proativa" com reguladores e autoridades para isso.

Em março deste ano, tanto a Polymarket quanto a Kalshi anunciaram novas regras para combater o uso de informação privilegiada.

Os mercados de previsão estão sob a jurisdição da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC, na sigla em inglês).

A CFTC não respondeu a um pedido de comentário da BBC, mas seu presidente disse recentemente a um comitê do Congresso que a agência tem "tolerância zero" com fraude e uso de informação privilegiada.

Também veio à tona que a Casa Branca enviou um e-mail interno a funcionários no mês passado, alertando para que não utilizem informações privilegiadas para fazer apostas em mercados de previsão.

O porta-voz Davis Ingle disse à BBC, na ocasião, que "qualquer insinuação de que autoridades do governo estejam envolvidas nesse tipo de atividade sem evidências é infundada e irresponsável".

<><> Difícil de provar

O uso de informação privilegiada é ilegal para a maioria dos americanos desde a aprovação da Lei de Valores Mobiliários de 1933.

A legislação foi ampliada em 2012 para incluir autoridades do governo dos EUA, embora até hoje ninguém tenha sido processado com base nessa norma.

Paul Oudin, professor especializado em direito da regulação financeira na ESSEC Business School, na França, afirma que as regras são difíceis de aplicar.

"As autoridades financeiras não levam adiante um processo se não conseguem identificar a fonte da informação", diz Oudin.

Nenhuma das autoridades financeiras dos EUA contactadas pela BBC reconheceu as acusações de uso de informação privilegiada.

"É possível haver grandes operações em um ativo financeiro que indicam claramente que alguém tinha acesso prévio ao que Donald Trump estava prestes a anunciar", afirma Oudin.

"No entanto, há uma grande probabilidade de que ninguém seja processado", acrescenta.

¨      Apostas de milhões de dólares que 'preveem' anúncios de Trump na guerra no Médio Oriente continuam a levantar suspeitas

Na sexta-feira, 20 minutos antes de o Irão anunciar a abertura do estreito de Ormuz na sequência do cessar-fogo acordado com os Estados Unidos, um conjunto de investidores apostou cerca de 760 milhões de dólares na queda do preço do petróleo. Esta foi mais uma a juntar-se às recentes operações de grande volume que têm estado bem sincronizadas com as vésperas de anúncios importantes no contexto da guerra no Médio Oriente e que levantam suspeitas de que poderá estar a acontecer abuso de informação privilegiada.

BBC analisou um conjunto de dados relativos ao volume de transações em vários mercados financeiros. Nas flutuações, o jornal britânico encontrou um denominador comum: os picos de tráfego registados nas ações apenas algumas horas, ou até minutos, antes de uma publicação ou de declarações de Donald Trump.

Alguns especialistas consideram que o cenário apresenta todas as características de abuso de informação privilegiada (conhecido como "insider trading", em inglês), no qual as apostas são feitas tendo por base informações que não são do conhecimento nem estão ao alcance do público em geral.

Porém, há quem advogue que as situações aconteceram, porque os investidores tornaram-se mais hábeis a antecipar as declarações do Presidente norte-americano e a prever as suas repercussões nos mercados.

<><> Aposta mais recente de 760 milhões de dólares na queda do petróleo

Na sexta-feira, registou-se mais uma aposta avultada no petróleo que levantou dúvidas pela antecipação de um facto inesperado.

Entre as 12:24 e as 12:25 GMT (13:24 e 13:25 de Lisboa), os investidores venderam um total de 7.990 lotes de contratos futuros de petróleo Brent no valor de 760 milhões de dólares, de acordo com dados da LSEG, citados pela Reuters.

Cerca de 20 minutos depois, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano anunciou na rede social X que o Irão decidiu abrir totalmente o estreito de Ormuz à navegação comercial durante o período de cessar-fogo.

Minutos depois, o anúncio fez com que o preço do petróleo bruto caísse até 11% nesse mesmo dia.

<><> Momentos em que as apostas anteciparam declarações de Donald Trump

Para além deste, a BBC destacou outros exemplos mais significativos deste padrão.

Trump disse que a guerra estava "praticamente concluída": 47 minutos antes, o disparo nas apostas

A 9 de março, com nove dias de guerra no Médio Oriente até então, Donald Trump declarou à CBS News que considerava que a guerra contra o Irão estava "praticamente concluída" e que a operação norte-americana estava "muito adiantada" tendo em conta o prazo estabelecido inicialmente.

A entrevista foi publicada às 20:16 de Lisboa. Porém, os dados de mercado mostram que houve um grande aumento de apostas na queda do petróleo 47 minutos antes, às 19:29. Depois das declarações, o petróleo caiu cerca de 25% e os investidores somaram vários milhões de dólares graças ao 'palpite' certeiro.

Reação após o anúncio das "conversações produtivas" com o Irão

A 23 de março, dois dias após ter ameaçado "destruir" as centrais elétricas iranianas, Trump anunciou que Washington tinha mantido "conversações muito boas e produtivas" com Teerão em busca de uma resolução completa e total da guerra.

A declaração, considerada inesperada por vários especialistas, não foi assim tão imprevisível para alguns investidores, tendo em conta que 14 minutos antes da publicação do Presidente norte-americano, registou-se um número elevado de apostas sobre o preço do petróleo nos EUA e também sobre os contratos futuros de Brent. Cerca de 500 milhões de dólares foram vendidos em futuros de petróleo e o preço do crude caiu 15%.

Mais recentemente, a Reuters avançou que, a 7 de abril, foram realizadas apostas no valor de cerca de 950 milhões de dólares poucas horas antes de os EUA e o Irão anunciarem um cessar-fogo de duas semanas.

<><> Houve quem 'adivinhasse' início da guerra e cessar-fogo no Irão

Antes, em fevereiro, foram criadas seis contas na plataforma de jogo digital Polymarket, de acordo com o site de análise de blockchain Bubblemaps.

As seis contas apostaram em uníssono que um ataque dos EUA ao Irão iria acontecer até 28 de fevereiro, dia em que, precisamente, os ataques de Israel e dos EUA foram confirmados por Trump. Graças a isto, as contas ganharam, no total, 1,2 milhões de dólares.

Desde então, cinco desses seis utilizadores não fizeram mais apostas, mas a atividade recente de uma das contas mostra que esta ganhou 163 mil dólares ao apostar corretamente num cessar-fogo entre os EUA e o Irão até 7 de abril, anunciado por Washington e Teerão nesse dia.

De acordo com a Reuters, a Comissão de Negociação de Futuros de Mercadorias dos EUA está a investigar uma série de transações em contratos de futuros de petróleo, incluindo as realizadas a 23 de março e a 7 de abril, que foram efetuadas pouco antes de importantes mudanças políticas por parte de Trump relacionadas com a guerra no Irão, afirmou na quarta-feira uma fonte a par do assunto.

<><> Previsões aconteciam antes da guerra

Para além destes investimentos, determinadas operações nos mercados financeiros foram realizadas antes do início da guerra no Médio Oriente e partilham o mesmo padrão.

A 2 de abril de 2025, Trump anunciou uma série de tarifas aduaneiras sobre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. Os mercados financeiros e as bolsas de todo o mundo entraram em queda.

Uma semana depois, quando Trump anunciou uma "pausa" de 90 dias nas tarifas para todos os países, exceto para a China, os mercados voltaram a disparar. Mais uma vez, um padrão de negociação invulgar precedeu os eventos, com um número elevado de apostas realizadas antes do anúncio.

A mesma coisa aconteceu ainda antes, nesse mesmo ano, em dezembro. Um utilizador criou uma conta chamada "Burdensome-Mixna" na plataforma Polymarket. A 30 de dezembro, fez a primeira aposta: a de que o presidente da Venezuela, Nicolás

Entre 30 de dezembro e 2 de janeiro, a conta apostou um total de 32.500 dólares nessa posição. A 3 de janeiro, quando Maduro foi detido pelas forças especiais dos EUA e destituído no dia seguinte, o utilizador ganhou 436 mil dólares. Pouco tempo depois, a conta alterou o nome de utilizador e não realizou mais nenhuma aposta desde então.

<><> Abuso de informação privilegiada

Desde a aprovação da Lei dos Valores Mobiliários, em 1933, o abuso de informação privilegiada é ilegal para a maioria dos norte-americanos. Em 2012, a lei foi alargada aos funcionários do Governo.

À BBC, o professor especializado em direito da regulamentação financeira na ESSEC Business School, Paul Oudin, afirma que as regras são difíceis de aplicar e que "há uma forte probabilidade" de que ninguém seja processado.

"As autoridades financeiras não irão instaurar um processo se não conseguirem identificar quem é a fonte da informação", diz o especialista.

Sabe-se que a Casa Branca enviou recentemente aos funcionários um memorando interno, datado de 24 de março, avisando-os de que estão proibidos de jogar em aplicações de apostas ou mercados financeiros para lucrar com a guerra no Irão, utilizando informação privilegiada.

Em resposta à publicação do memorando no Wall Street Journal e na agência Bloomberg, o porta-voz da Casa Branca Davis Ingle insistiu que o Presidente Trump "deixou muito claro" que nem os membros do Congresso, nem os funcionários da Casa Branca podem usar informação privilegiada para seu benefício financeiro.

 

Fonte: Por Nick Marsh, da BBC News/SIC Notícias