quinta-feira, 2 de julho de 2026

Brasil na mira: A ofensiva digital de Trump contra as democracias latino-americanas

A declaração de Trump de que a eleição do Brasil é o seu próximo desafio na recente rodada de eleições na América Latina coloca enormes responsabilidades para todos os nossos povos e, em especial, para nós brasileiros.

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Mais do que a influência política tradicional, o que se observa é a construção de uma intervenção imperialista da extrema direita americana, em que a desregulação, a vigilância por IA e a disputa de narrativas contra os candidatos e políticos que defendem a democracia e a soberania dos Estados nacionais foram elevadas a outro patamar.

Sob pretexto de combate à influência geopolítica da China, a intervenção direta das plataformas, data centers, think tanks e softwares de inteligência, chantagem financeira e diplomacia hostil, além de todos os demais e conhecidos meios de manipulação de pesquisas e controle das mídias, novos métodos são usados para remodelar e desarticular democracias frágeis e para criar uma extensão dos interesses dos conglomerados americanos na América Latina.

A atuação das IAs, como Anthropic e Grok, e de think tanks americanos como a Heritage Foundation, regada por bilhões de dólares de aliados de Trump, como o bilionário Peter Thiel, e pelo próprio governo Trump, configura uma nova e sofisticada intervenção política na América Latina.

Depois da onda expansionista das “missões evangelistas” promovidas por “bispos businessmen” nas periferias das nossas cidades, propalando a “teologia do enriquecimento”, o culto ao negacionismo e ao ódio; e da ocupação das rádios AM e FM, dos programas de televisão, das concessões de canais de TV a cabo, do recrutamento de militares do Exército e das polícias por movimentos evangélicos afiliados a organizações religiosas americanas, da organizada invasão de candidaturas de missionários e pastores e seus partidos na política e nos Congressos de deputados, regados a desvios bilionários de dízimos, extraídos em cultos de fanatismo e manipulação política da boa-fé do povo, espalhando o medo e o terror demoníaco contra a ciência, a educação pública e o trabalho honesto, assistimos à ocupação das redes sociais por milhões e milhões de postagens falsas, mentirosas, sediciosas, manipuladoras e mobilizadoras do que há de mais reacionário no espírito antissocial.

<><> O desembarque dos “Profetas” da desregulação

O movimento mais evidente dessa nova geopolítica é a aproximação entre o bilionário da tecnologia Peter Thiel e o governo de Javier Milei na Argentina. Cofundador do PayPal e da Palantir Technologies — empresa especializada em mineração de dados e vigilância em massa — Thiel não é apenas um investidor: ele é um ideólogo e interventor,  que há muito declarou que “não acredita mais que a liberdade e a democracia sejam compatíveis”. Sua mudança temporária para Buenos Aires e a compra de uma mansão na capital argentina transcendem o gesto simbólico.

Para Thiel, a Argentina se tornou um “porto seguro”, uma nova “Israel”, um laboratório prático para suas ideias fascistas travestidas de anarcocapitalistas. A conexão ideológica com Milei é imediata: “É um anarcocapitalista que encontra outro anarcocapitalista disposto a levar suas ideias à prática”, celebrou o presidente argentino.

O fascismo com nova roupagem, o “anarcocapitalismo”, mais atraente para os desiludidos e despossuídos, sob a bandeira da plena “liberdade individual”, busca destruir tudo que é público, tudo que é conquista social, todas as proteções e direitos conquistados pelos cidadãos. Seus defensores abertamente declaram-se inimigos dos direitos humanos.

Nada é mais capitalista e radicalmente pró-sistema do que os fascistas autoproclamados de “anarcocapitalistas”.

Essa aliança já produziu frutos concretos, como o anúncio do governo de criar um regime jurídico para “sociedades automatizadas” — empresas geridas inteiramente por inteligência artificial, sem funcionários humanos — além do programa “Gêmeo Digital Social”, uma plataforma de IA que integrará dados pessoais de cidadãos, incluindo participação em protestos.

A presença da Palantir na região e o potencial de contratos com o Estado argentino acendem alertas. A empresa, que fornece software como o Gotham para agências como a CIA e o FBI, permite cruzar bancos de dados de forma a criar perfis de inteligência detalhados. A Argentina se tornou um “espaço de experimentação” para um modelo de vigilância estatal, sob controle privado estrangeiro, que corrói as liberdades civis, exatamente o oposto do que eles dizem ser: “defensores da liberdade individual ou privada”. Na prática, submetem todos ao poder das grandes corporações financeiras, bélicas e digitais dos EUA.

“Se o Estado argentino decidir firmar contratos com a Palantir para vigilância em massa e análise preditiva, estaremos claramente diante de uma situação de deterioração da democracia”, alertava o especialista Sebastián Di Domenica. Isso já aconteceu!

<><> A ofensiva ideológica e financeira do “Project 2025” e a guerra híbrida

Enquanto Thiel atua no campo privado e ideológico, o governo Trump e seus think tanks aliados operam em uma frente governamental e geopolítica, com a América Latina como peça central. O Project 2025, o manual de políticas da Heritage Foundation que guia o segundo mandato de Trump, revela uma estratégia clara de intervenção.

O documento enquadra a América Latina como um campo de batalha crucial na disputa contra a China. Para os conservadores americanos, o avanço chinês na região, via compras, investimentos e empréstimos, é uma ameaça direta à segurança nacional dos EUA.

A resposta proposta não é apenas diplomática, mas uma ofensiva para desestabilizar governos considerados hostis. O Project 2025 defende abertamente que os EUA devem “investir em atores locais para desestabilizar governos de esquerda”.

Os instrumentos para isso são a USAID, think tanks “pró-livre mercado” e universidades. A pauta é clara e alinhada com a agenda conservadora: promover reformas trabalhistas e previdenciárias que reduzam direitos e desregulamentar a economia.

Isso se traduz em apoio a forças políticas locais que defendem o livre mercado e a austeridade, como o próprio Milei, e na criação de uma infraestrutura ideológica que legitime a retirada de direitos como um caminho para a “estabilidade”.

Essa interferência se soma ao histórico documentado de ações do Departamento de Justiça dos EUA (DOJ) na região, desde o apoio a golpes militares até a atuação no lawfare contra governos progressistas, como na Operação Lava Jato no Brasil.

A atual administração Trump, com sua agenda “America First” e forte conexão ideológica com o bolsonarismo, promove uma nova ofensiva para proteger aliados e enfraquecer instituições que resistem a essa agenda, como o Supremo Tribunal Federal brasileiro.

<><> Máquina de desinformação: IAs e a criação de bolhas

Paralelamente à atuação de think tanks e bilionários, a inteligência artificial generativa tornou-se uma ferramenta poderosa para manipular o debate público e a própria democracia na América Latina.

O salto de 300% nos casos de conteúdos falsos gerados por IA no Brasil entre 2024 e 2025, conforme dados do Observatório Lupa, é um sinal inequívoco de que a tecnologia está sendo usada de forma estratégica e política.

Ferramentas de IA, como a Anthropic e a Grok, embora em tese neutras, operam em um ecossistema onde as Big Techs, com estreitos laços com o governo Trump e a extrema direita americana, têm demonstrado resistência à regulação e à moderação de conteúdo.

Isso cria um ambiente fértil para a disseminação de deepfakes e notícias falsas, capazes de criar bolhas de desinformação que distorcem a percepção da realidade e influenciam o voto de eleitores.

A preocupação é tamanha que o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) do Brasil alertou para os riscos de manipulação eleitoral com o avanço da IA e a disseminação de “mentiras tecnicamente otimizadas”.

A conjunção desses fatores — a chegada de ideólogos da vigilância, a pressão geopolítica dos EUA e o uso tático da desinformação por IA — cria uma tempestade perfeita.

As democracias latino-americanas, muitas vezes já frágeis e excludentes, tornam-se presa fácil para um projeto que não busca apenas influenciar eleições, mas redefinir o papel do Estado e o próprio conceito de liberdade, alinhando a região aos interesses de uma nova direita tecnológica e geopolítica, a serviço dos multimilionários dos EUA.

Para além da influência ideológica, a atuação da direita estadunidense na América Latina estrutura-se por meio de métodos e recursos financeiros concretos, que corrompem os processos políticos da região no contexto da disputa geopolítica conduzida pelos grandes monopólios dos Estados Unidos.

A estratégia combina a atuação de think tanks, o uso de lobistas e um fluxo de capital privado e estatal, frequentemente opaco, para desmontar Estados e reorientar políticas.

>>> Métodos e mecanismos de atuação

A ação é sistêmica e envolve múltiplas frentes, indo muito além do simples apoio eleitoral.

<><> Plataforma ideológica e manual de ação:

O Project 2025, da Heritage Foundation, é o principal documento-guia. Com mais de 900 páginas, ele serve como um manual para desmontar o “Estado administrativo”, centralizar o poder no executivo, e substituir servidores públicos de carreira por nomeações leais à agenda conservadora.

A Argentina de Javier Milei é citada como o primeiro “laboratório” vivo dessas políticas, onde cortes de 30% nos gastos públicos, a eliminação de ministérios (como o da Mulher e da Educação) e a venda de empresas estatais foram implementadas rapidamente.

<><> Conexões e lobbies diretos:

A transmissão do manual não é simbólica. O vice-presidente executivo da Heritage Foundation entregou pessoalmente uma cópia do Mandate for Leadership a Javier Milei.

Essa conexão é facilitada por lobistas, como Damián Merlo, da Latin America Advisory Group, que já atua em nome de líderes autoritários na região e intermediou o vínculo entre Milei e a Heritage Foundation.

<><> Guerra híbrida e coerção econômica:

A estratégia transcende a política interna. A dissolução da USAID (Agência dos EUA para o Desenvolvimento Internacional) é um movimento calculado para desarticular redes de solidariedade e ONGs progressistas, transferindo a influência para redes privadas.

Paralelamente, a imposição de tarifas punitivas de até 50% sobre produtos estratégicos de países como o Brasil serve como ferramenta de coerção geoeconômica, com o objetivo de desestabilizar governos que não se alinham com a agenda.

A avaliação precisa dos recursos financeiros mobilizados para a guerra híbrida é complexa devido à opacidade do sistema, mas é possível mapear suas principais fontes e magnitudes.

<><> Capital privado de bilionários:

A atuação é financiada por uma constelação de bilionários e fundações, como Peter Thiel, Rebekah Mercer e Charles Koch. Eles utilizam suas fundações, super PACs (como o Club for Growth and Save America PAC) e empresas (como a Palantir, de Thiel) como instrumentos diretos de influência e “guerra híbrida”, muitas vezes com menos transparência do que a antiga atuação estatal.

<><> Redirecionamento de fundos públicos:

O desmonte da USAID não significa o fim do financiamento, mas sim uma reconfiguração. Em vez de serem canalizados por agências estatais, os recursos e a influência são transferidos para “redes privadas de influência ligadas ao Vale do Silício, aos think tanks ultraconservadores e às corporações financeiras”.

<><> Custos e impactos da implementação:

Os recursos “disponibilizados” para essa agenda também podem ser medidos pelos custos sociais e econômicos nos países-alvo. Na Argentina, em menos de um ano, os cortes de gastos geraram um aumento de 11 pontos percentuais na pobreza, enquanto o índice de ações (S&P Merval) batia recordes, evidenciando o caráter regressivo da medida e seus beneficiários diretos.

A atuação na América Latina não é um subproduto, mas um eixo central da estratégia da nova direita americana. Ela se vale de um arsenal de métodos que vão desde a captura ideológica por think tanks até a coerção econômica e a interferência direta em políticas domésticas. O financiamento para essa operação combina capital privado de bilionários, que veem na desregulação um nicho de lucro, com o redirecionamento de fundos estatais americanos, criando uma maquinaria de influência opaca e poderosa.

O resultado é a construção de uma nova arquitetura de poder na região, onde a soberania popular é submetida aos interesses de uma elite tecnológica e conservadora transnacional.

<><> Brasil: o último baluarte da democracia na América Latina?

O cerco à democracia na América Latina se intensifica.

Uma a uma, as nações foram capturadas por uma ofensiva do que podemos chamar de Capitalismo Digital — uma aliança entre bilionários da tecnologia, think tanks conservadores americanos e títeres da extrema direita alinhados a Trump. Nesse contexto, o Brasil emerge como a última grande esperança de resistência, posição que torna o país o principal alvo da próxima ofensiva.

O avanço da direita fascista e radical é uma tendência inegável e documentada. Atualmente, governos de direita, em suas variadas formas, estão no poder em 12 dos 16 países da América Latina que realizaram eleições recentes. O que se vê é uma nova direita, muito distinta da liberal dos anos 2000.

<><> Um novo perfil:

Essa direita é menos liberal e mais focada em guerras culturais, pautas de segurança e ataques às minorias. Seus líderes, como Javier Milei (Argentina), Nayib Bukele (El Salvador) e Abelardo de la Espriella (Colômbia), são admiradores declarados de Trump e adotam discursos personalistas, antissistema e de “lei e ordem”.

<><> Casos Concretos:

A vitória de De la Espriella na Colômbia, revertendo o governo de esquerda de Gustavo Petro, e de Keiko Fujimori no Peru, são exemplos recentes desse avanço.

Na Argentina, Milei se tornou o “laboratório” vivo das políticas ultraconservadoras, marcadas pela utilização do aparato repressivo contra a população que resiste à perda de direitos, por meio de cortes drásticos nos gastos públicos e de uma aliança explícita com Trump, o bilionário-interventor Peter Thiel e a Heritage Foundation.

<><> O Brasil é o alvo central

A eleição de Lula em 2022 foi um freio nessa onda, mas o bolsonarismo, com apoio internacional, nunca deixou de atuar para retomar o poder. O segundo turno de 2022 representou a primeira grande derrota dessa ofensiva, mas a batalha está longe de acabar.

<><> Pressão externa:

O governo Trump impõe desafios diretos ao Brasil para enfraquecer o governo Lula. Isso inclui tarifas protecionistas que afetam a indústria brasileira, a preferência por uma aliança com a Argentina em detrimento do Mercosul, e a nomeação de um secretário de Estado linha-dura, que já chamou Lula de “líder de extrema-esquerda”.

<><> Resistência digital brasileira

Enquanto o Capital Digital avança, o Brasil não apenas resiste politicamente, mas também desenvolve respostas próprias no campo da tecnologia e da soberania digital, que são fundamentais para a luta.

<><> Tecnopolíticas dissidentes:

Existe um debate ativo na academia e na sociedade civil sobre “tecnopolíticas dissidentes” que desafiam o controle algorítmico e a colonialidade digital. Eventos como o Simpósio Internacional da LAVITS (Rede Latino-Americana de Estudos sobre Vigilância, Tecnologia e Sociedade) no Rio de Janeiro, em 2026, mostram que o Brasil é um polo de discussão sobre alternativas à hegemonia tecnológica.

<><> Resistência algorítmica:

A produção artística e intelectual brasileira também se manifesta contra a captura digital. Exposições como ANTAGONISTAS: resistências algorítmicas, realizada no MAC USP, traçam uma linha histórica de resistência às tecnologias hegemônicas, desde os anos 1960 até projetos contemporâneos de vigilância algorítmica e valorização dos saberes indígenas, demonstrando que sempre houve outras formas de imaginar e construir o futuro tecnológico.

<><> Alternativas concretas:

Coletivos como o MariaLab, o Núcleo de Tecnologia do MTST e as Señoritas Courier estão, na prática, construindo infraestruturas digitais autônomas e alternativas ao capitalismo de dados. Eles reconfiguram o campo tecnológico ao introduzir práticas de cuidado, segurança integral e soberania digital, disputando os rumos das tecnologias contemporâneas a partir do território e da cooperação.

<><> O Brasil como fronteira

A democracia brasileira, apesar de suas fragilidades, tornou-se a principal barreira para a consolidação de um novo projeto autoritário e fascista na América Latina.

A derrota do bolsonarismo em 2022 não foi apenas uma vitória doméstica, mas um revés estratégico para um movimento que conta com o apoio explícito da extrema direita americana e de seus aliados bilionários no setor de tecnologia.

O cerco se fecha, e a eleição de 2026 será o campo de batalha decisivo.

De um lado, uma ofensiva orquestrada, com recursos financeiros e ideológicos gigantescos, que vê no Brasil a última peça a ser dominada. Do outro, o governo brasileiro e os defensores da democracia, que precisam não apenas resistir, mas também se reinventar, fortalecendo suas instituições, construindo alianças amplas, desenvolvendo alternativas tecnológicas autônomas e estabelecendo pontes com outros focos de resistência na região.

A capacidade do Brasil de liderar essa contra-ofensiva definirá o futuro da democracia nas Américas.

E você, já entrou nessa batalha pelo futuro das próximas gerações?

 

Fonte: Por Miguel Manso, em Brasil 247

 

Quatro lições de junho de 2013 para a esquerda

O marco divisório das manifestações de junho de 2013 na história brasileira só foi possível graças à ação consciente e planejada de um movimento social com anos de experiência política. A trajetória do Movimento Passe Livre (MPL) revela a potência de um movimento social que, com tempo e dedicação militante, toma para si a tarefa de gerar uma revolta popular. Ao mesmo tempo, essa trajetória revela a falência de projetos espontaneístas que renegam o papel da organização de massas no direcionamento das lutas. Isto porque, para transformar a revolta popular em poder popular, seria fundamental contar com uma organização pronta para se enraizar nas bases da sociedade. Algumas pessoas que participaram na organização dessas lutas afirmam, até hoje, que o MPL fez tudo o que dava para fazer. É da nossa opinião que o movimento abriu uma oportunidade de ouro para se impor no cenário político brasileiro como uma força permanente de formação e mobilização da esquerda radical, que ele podia ter assumido seu protagonismo para ampliar e fortalecer as causas populares, mas optou pela retaguarda. O MPL viu chegar o cavalo da história, viu ele cravar os cascos no chão, baixar o corpo e relinchar manso, mas não montou nele porque o cavalo é uma metáfora da hierarquia.

Esta é uma análise crítica, 13 anos depois, de dois ex-militantes do MPL que participaram da construção das manifestações de junho de 2013 em São Paulo. Propomos expandir aquela pergunta do Mark Fisher: “E se você convocasse um protesto e todo mundo aparecesse?” E se você soubesse que todo mundo ia aparecer? Aproveitaria o fato para politizar e organizar quem apareceu? É preciso recuperar dessa história o seu agente principal para identificar que lições podemos tirar de sua experiência. No que compartilhamos a seguir, as três primeiras lições dizem respeito aos acertos do MPL, sobre como um movimento pequeno foi capaz de gerar um acontecimento tão determinante na história brasileira. A quarta lição, mais longa, diz respeito a contradições internas do MPL de São Paulo naquela época. Não queremos menosprezar o seu papel na história recente, mas fomentar o debate sobre as possibilidades e limites da mobilização popular. Desejamos, enfim, contribuir para a construção de novos movimentos que, para além de marcar um momento na nossa história, possam tornar-se protagonistas de uma nova era.

<><> Lição 1: mobilização se constrói com legitimidade histórica

O MPL segue a tradição dos movimentos altermundistas que travaram batalhas históricas na virada do século contra a Organização Mundial do Comércio, a Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a invasão imperialista dos Estados Unidos no Iraque. São movimentos formados principalmente pelo anarquismo e pelo autonomismo, com menor influência do marxismo. Desde sua fundação, o MPL é um movimento de âmbito nacional com núcleos em diferentes cidades pelo país. Ele foi fundado em 2005 em Porto Alegre, no contexto do 5º Fórum Social Mundial, mas sua história precede esse encontro. Antes de se organizarem como um movimento nacional, havia em diferentes cidades os “Comitês de Luta Contra o Aumento”, que já tinham barrado aumentos e provocado grandes revoltas. As mais marcantes e influentes foram a Revolta do Buzú (em Salvador em 2003) e as Revoltas da Catraca (em Florianópolis em 2004 e 2005). O salto que foi dado em Porto Alegre, em 2005, foi o reconhecimento de que o transporte público é um problema estrutural para a luta de classes na cidade e que seria necessária a organização de um movimento social permanente para politizar a questão e tratá-la com a devida seriedade. A partir de então, sempre que a tarifa aumentava, era um movimento social organizado que mobilizava as lutas.

Apesar de ser um grupo pequeno, o MPL de São Paulo sempre foi muito ativo e articulado. Além de mobilizar as lutas contra o aumento, o movimento tinha proximidade com os metroviários, com sindicatos de professores, com a Marcha da Maconha, dava suporte em manifestações de lutas por moradia, por saúde, de causa ambiental, antimanicomial, abolicionista penal, entre outras. No começo dos anos 2010, São Paulo vivia uma nova geração de lutas e o MPL estava no cerne dela. Para alguns, como o Reinaldo Azevedo, essas manifestações constantes pareciam vir de um bando de “vagabundos” ingênuos sem nada melhor para fazer. Nada mais longe da realidade. A participação e suporte para essas manifestações tiveram pelo menos duas consequências fundamentais para o MPL. Primeiro, formou um enorme acúmulo de conhecimento prático sobre como ocupar as ruas e de conhecimento especializado sobre transporte, mobilidade e direito à cidade. Segundo, o movimento cresceu sua base de apoiadores e formou sua legitimidade histórica. Suas lutas se tornaram cada vez mais conhecidas e passaram a compor a memória coletiva da população de São Paulo. Quando havia aumento, a esquerda combativa se juntava ao MPL e a população em geral sabia que haveria luta.

Depois da luta contra o aumento de 2011, entre agosto daquele ano e o começo de 2013, o MPL de São Paulo esteve em campanha por um “projeto de lei de iniciativa popular” pela Tarifa Zero. Essa campanha envolveu diversas atividades, como mutirões de coleta de assinaturas, articulação política (inclusive com a deputada federal Luiza Erundina e o Secretário de Transporte de sua gestão na prefeitura paulistana, Lucio Gregori), discussões com acadêmicos e sindicalistas, produção de cartilhas informativas e vídeos de agitação, até experimentos cênicos e intervenções performáticas como a entrega do Troféu Catraca pelo personagem Barão Catraca, uma anti-homenagem ao então prefeito Gilberto Kassab. A campanha pela tarifa zero teve pouco alcance, mas a atividade militante, as articulações políticas e as discussões frequentes mantiveram o núcleo duro do MPL coeso e preparado para um novo salto de qualidade no debate público.

<><> Lição 2: ocupar as ruas é uma arte

Você lembra do Churrascão da Gente Diferenciada, em 2011? Foi um dos primeiros atos convocados de forma espontânea como um “evento” no Facebook, talvez o primeiro em São Paulo. Ele apareceu primeiro como uma sátira, uma provocação que tomava como referência a fala elitista de uma moradora do Higienópolis (um bairro rico de São Paulo) que disse, em entrevista, que não queria metrô na região porque ele atrairia “drogados, mendigos, uma gente diferenciada”. O que começou como uma sátira no Facebook virou um ato com quase 1.000 pessoas em clima festivo. As mídias digitais não cumpriram o trabalho de forma mágica. Quem segurou a festa do Churrascão foi a bateria do MPL, que marcou sua presença e sustentou a música do evento do começo ao fim. O ato foi mobilizado inicialmente de maneira espontânea, mas foi mantido vivo por horas graças à participação de um movimento social com anos de experiência em manifestações de rua.

Entre 2011 e 2013, a própria bateria de rua do MPL, que desde meados dos anos 2000 era composta por um surdo, duas caixas e latas velhas de tinta amarradas na cintura com barbante, transformou-se na Fanfarra do M.A.L. (sigla para movimento autônomo libertário). A bateria se especializou, adotou instrumentos de sopro, comprou novos instrumentos de percussão e começou a ensaiar semanalmente. A bateria que tocou no Churrascão da Gente Diferenciada, a mesma que tocou nos atos contra o aumento da passagem de 2011, e em tantos outros atos, agora, em 2013, tocava muito melhor e mais alto. Então, em 6 de junho de 2013, na concentração do primeiro grande ato daquele ano, o MPL ateou fogo em três catracas de papelão enquanto a Fanfarra do M.A.L. batucava seus instrumentos e gritava: “Pu-la ca-tra-ca!”. Algumas pessoas se atreviam a pular as catracas em chamas. Ao mesmo tempo, descia do Viaduto do Chá um imenso bandeirão preto, onde se lia: “Se a tarifa não baixar a cidade vai parar”. O cenário composto pelo MPL virou foto de capa dos jornais Folha de São Paulo e Estado de São Paulo no dia seguinte.

O ritual com fogo, batucada e palavras de ordem, mais do que produzir boas imagens, instigava os ânimos de revolta, de unidade e de que aquele evento não era normal, que ele era significativo e, portanto, que seria possível sair alguma mudança dali. Essa mística acompanhou todos os atos, do começo ao fim, com a fanfarra, as faixas, cartazes, com palavras de ordem e orientações para os manifestantes pelo megafone, até com uma catraca velha de ferro, muito pesada, que o MPL sempre levava para os atos e carregava ao longo de quilômetros como se fosse um butim de guerra arrancado do território inimigo. A ausência de carros ou caminhões de som também era uma escolha calculada. Mesmo havendo recursos suficientes para o aluguel de um carro de som, eles seriam destinados a materiais como faixas, bandeiras e instrumentos musicais. A tradição autonomista sempre reforçou a importância do povo tomar e celebrar as ruas. Isso é ainda mais forte para o MPL, que tem o direito à cidade como pauta central. Obviamente, o MPL não tem nada contra veículos automotores (a luta é por transporte), mas é simplesmente mais instigante acompanhar um ato quando dançamos com a fanfarra do que passivamente ouvindo discursos de um palanque. Os poucos informes do MPL são feitos por jograis em que uma pessoa em lugar de destaque, como uma escadaria, grita (muitas vezes sem megafone) frases curtas para que todas as pessoas ao redor possam repetir e amplificar o que é dito. Essas são escolhas estéticas e políticas, pois colocam a multidão no papel de mobilizadora ativa. A mística do MPL estava em coerência com a estratégia política do MPL. Se a estratégia é de combate, é necessária uma mística combativa. Se a mística é recuada, como vemos em manifestações de centro-esquerda, a tendência é que os resultados sejam recuados.

<><> Lição 3: a revolta tem fôlego curto

Foi com seu trabalho continuado ao longo de anos, tanto nas suas próprias mobilizações quanto nas de outros grupos, que o MPL desenvolveu maestria na arte de ocupar as ruas. Esse conhecimento foi fundamental na gestação da revolta, mas não era suficiente. Naquele ano, o MPL de São Paulo não chamou suas organizações parceiras para compor um Comitê de Luta Contra o Aumento, como costumava fazer. Dessa vez, o movimento assumiu sozinho a responsabilidade de organizar a luta. Alguns grupos foram convidados a participar em funções pontuais, como nas comissões de segurança dos atos. Essa decisão pode soar antidemocrática para um movimento de raízes autonomistas, mas o MPL conhecia melhor do que ninguém as razões pelas quais, no passado, outras lutas contra aumentos de tarifa foram bem-sucedidas. Sabia bem, também, que a intervenção de outros grupos políticos na preparação dos atos levava a modelos mais recuados, como aconteceu em 2010, quando um partido barrou a proposta do movimento de tomar a Avenida 23 de Maio.

O calendário de mobilizações em São Paulo foi propositalmente intenso. Do dia 06 ao 18 de junho de 2013, no decorrer de nove dias úteis, houve seis grandes atos no centro da cidade. Essa opção foi decisiva. Em uma reunião de planejamento, antes de tudo começar, desenhamos o calendário completo e tínhamos já a nossa aposta de quando o aumento seria revogado. Nós acertamos a aposta. Como outros dois ex-militantes do MPL de São Paulo escreveram mais tarde em uma avaliação crítica sobre a “tática da revolta”, o movimento aprendeu que só uma revolta popular poderia barrar o aumento, e que uma revolta popular (como foram a Revolta do Buzú e as Revoltas da Catraca) exigiria a mobilização de atos constantes. Não toda semana, mas todo dia: uma luta de “fôlego curto”.

Essa tática impediu que o sentimento de revolta se dissipasse e garantiu que as manifestações fossem pautas constantes nos noticiários e nas redes digitais. O intervalo entre um ato e outro era apenas o suficiente para que circulassem as fotos e vídeos da repressão policial. A revolta de fôlego curto infla os meios de comunicação com informações e imagens, um elemento que, como notaríamos anos depois (em particular com a tática “flood the zone with shit” de Steve Bannon, que busca inundar as mídias com desinformação), tornou-se cada vez mais central para a disputa de hegemonia política. Um movimento com legitimidade histórica, uma mística combativa na ocupação das ruas, mobilização constante todos os dias. Longe de ser receita pronta para o sucesso, entendemos que essas são três condições na construção da revolta popular. Não significa que sejam suficientes, pois há sempre um fator de mistério no que são os “ânimos” da população. De todo modo, o que é importante notar é que as revoltas de 2013 nada tiveram de espontâneas. Era o movimento que determinava data, hora e local dos atos, dava os informes à multidão por jogral, e mobilizava os recursos necessários para a mística. As manifestações não cresceram porque vários grupos difusos de pessoas espontaneamente resolveram adotar a tática black bloc, nem porque agora tínhamos as redes digitais, muito menos por conspiração ianque, mas porque um movimento organizado e experiente sabia como e com que frequência devia organizar os atos para instigar a revolta.

<><> Lição 4: a organização é um compromisso de quem mobiliza a luta

A tática da revolta não garante, de forma alguma, a continuidade da luta nem o acúmulo de forças para as lutas posteriores. Para garantir essa continuidade, o trabalho de base enraizado na sociedade é fundamental. No texto citado acima assinado por outros dois ex-militantes do MPL, eles admitem esse limite na tática da revolta, mas atribuem a falta de enraizamento da esquerda ao PT e à esquerda marxista, ignorando a responsabilidade do MPL. Com a enorme notoriedade que conquistou com as manifestações de 2013, o MPL chegou a organizar três atividades simultâneas, ainda em 23 de junho, com o nome Por dentro do Movimento Passe Livre. Cada uma delas teve entre 200 e 400 pessoas. Após as atividades, apesar do grande número de pessoas interessadas em participar organicamente do movimento, o MPL deliberou por maioria que não daria continuidade ao processo de ingresso de novos militantes. Mesmo a campanha do projeto de lei de iniciativa popular pela Tarifa Zero, que tinha sido interrompida poucos meses antes, não foi retomada. Depois das manifestações de junho de 2013, a campanha poderia contar com o esforço coletivo das multidões que ocuparam as ruas. Tarefa para distribuir entre novos militantes é o que não faltava: mutirões de coleta de assinaturas, articulação com outras organizações para dar maior visibilidade ao projeto de lei, produção de material impresso e audiovisual, gestão das mídias digitais etc. Nada disso foi feito.

O movimento recusou sua responsabilidade em relação àquela grande massa de pessoas que encontrou nele uma importante referência de mobilização política. Por quê?

Uma primeira resposta apressada é que o MPL era composto por um grupo pequeno de pessoas e que, por isso, não teria condições para organizar tanta gente. De fato, nas suas melhores épocas, as reuniões do MPL de São Paulo, sem contar sua rede de apoiadores que se reunia nos “Comitês de Luta”, não passavam de 20 pessoas. Contudo, o movimento não cresceu. Mais grave que isso, ele tornou-se menor e cada vez mais irrelevante, a ponto do MPL de São Paulo ter sido incapaz, por falta de militantes, de mobilizar uma luta contra o aumento da tarifa em 2026. É verdade que o movimento era pequeno em 2013, mas nunca foi inapto e, como vimos, não faltou oportunidade.

A segunda resposta diz respeito a um problema de segurança. O receio de deixar o movimento ganhar aderência e visibilidade se justifica em parte, porque os movimentos de esquerda radical sempre sofreram perseguições políticas e sempre correram o risco de receber infiltrados. Mas não justifica completamente o abandono do MPL, porque não faltam exemplos de movimentos sociais que cresceram de maneira controlada, preservando sua coesão e segurança interna. Um exemplo recente é o Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST), que mobiliza “brigadas” para ingresso de militantes todo ano desde 2016 e que, justamente na segunda metade dos anos 2010, tornou-se o segundo movimento social de maior projeção no Brasil, menor apenas que o MST, e relevante o suficiente para elevar duas lideranças (Guilherme Boulos e Ediane Maria) aos cargos de ministro e deputada estadual. Podemos fazer as críticas que quisermos à adesão do MTST ao projeto petista, mas isso não exclui o fato de que ele cresceu em número de militantes de maneira coesa. Já o MPL não só não cresceu: ele minguou.

A terceira resposta, que consideramos mais relevante, é um certo descompromisso com a organização popular de grande parte da esquerda autonomista. O ponto de partida para compreender isso é o posicionamento crítico ao “autoritarismo” e à “burocratização” dos movimentos sociais de larga escala. As críticas são muitas vezes justas, mas elas raramente vêm acompanhadas de um projeto alternativo de distribuição do poder. Em vez disso, o que encontramos é a contradição de uma esquerda que se diz anti-autoritária, mas prefere construir organizações pequenas e com o mínimo possível de estruturas internas, de modo a manter controle rígido sobre elas.

Repete-se o argumento de que “organizar o povo” seria uma pretensão autoritária, que o povo deveria se organizar “por si mesmo”. As ferramentas e recursos para isso, contudo, não estão dados, e é justamente aquele movimento social que se apresenta na arena pública como uma alternativa radical, aquele que se propõe a mobilizar e radicalizar a população, o que deveria apresentar também tais recursos para a organização. No clássico texto de 1970 A tirania das organizações sem estrutura, a ativista feminista Jo Freeman já dizia que, quando uma organização não se estrutura, ela não pode encontrar condições para crescer. Grupos sem uma estrutura formal podem ser úteis para juntar pessoas e para promover debates, e não há nada de errado nisso. A informalidade só vira um problema quando o grupo deseja crescer e ampliar suas ações, quando quer ir além da “conversa” e partir para a prática social (no caso do MPL, mobilizar a luta por transporte público gratuito de qualidade).

Se a organização não define uma estrutura formal, a tendência é que seja controlada por estruturas informais definidas por um grupo minoritário. Em geral, é um círculo estreito de amizades que se torna uma “elite” interna, nos termos da Jo Freeman: “uma elite refere-se a um pequeno grupo de pessoas que tem poder sobre um grupo maior do qual faz parte, normalmente sem responsabilidade direta perante ele e, frequentemente, sem seu conhecimento ou consentimento”. Apesar de conhecer bem esse texto e de ter discutido ele internamente, o MPL nunca formalizou uma estrutura interna de organização. O movimento sempre preservou a forma de organização horizontal mais simples possível: o assembleísmo. Todas as decisões eram tratadas pelo conjunto de pessoas presente na reunião. Por ser muito simples, o modelo de organização assembleista pode parecer óbvio e intuitivo, mas ele tem um grave limite de escala. A tomada de decisões já é difícil em uma assembleia com 100 pessoas, como acontecia nos Comitês de Luta Contra o Aumento. Se o MPL se atrevesse em 2013 a chamar as massas para compor o movimento, realizaria assembleias com centenas de pessoas? Talvez milhares? Seria impraticável decidir e realizar qualquer coisa. Uma organização que se pretende democrática deve se estruturar para isso. Isso não tem nada a ver com autoritarismo, nem mesmo com uma adesão automática ao modelo do “centralismo democrático”, e a militância do MPL sabia da existência de alternativas historicamente constituídas.

Desde sua fundação nacional, em 2005, o MPL adotou o princípio do “federalismo” visando a articulação entre os núcleos dispersos por diferentes cidades pelo país. Seguindo esse mesmo princípio, o MPL de São Paulo tinha a opção de se dividir em núcleos organizados por diferentes bairros ou regiões da cidade, coordenados por meio de uma instância representativa (um “conselho” federalista) com representantes rotativos. Esse modelo foi experimentado em São Paulo nos primeiros anos do movimento, mas ainda com um número muito pequeno de militantes. O experimento não funcionou daquela vez e nunca mais foi tentado. Em 2013, o MPL já tinha um longo acúmulo de experiências e era muito mais conhecido e respeitado. Ainda assim, a única opção para participar do movimento era frequentar as reuniões realizadas no centro da cidade (em um pequeno espaço na Rua Frei Caneca) e se “enturmar” com um grupo coeso de pessoas, a maioria jovens estudantes da classe média. Isso sempre dificultou a entrada e permanência de pessoas novas no movimento, especialmente de pessoas periféricas. Se o MPL optasse pela entrada de novos militantes, seria necessário dividir o núcleo do centro e distribuí-lo em diversos núcleos. Essa divisão resolveria o problema das assembleias impossíveis com centenas de pessoas, tornando viável o crescimento coeso do movimento. Por outro lado, diminuiria o poder de influência de cada membro, principalmente o poder decisório e de influência da “elite interna” do movimento, e diluiria sua rede de afetos. O que nos parece é que a militância do MPL estava disposta a perder o controle das ruas, mas não estava disposta a perder o controle interno sobre o próprio MPL.

<><> Da revolta ao poder popular

Até junho de 2013, passe livre era coisa de estudante. A discussão sobre tarifa zero nos transportes era tida como ingênua, quando não era simplesmente nula. Hoje vemos desde uma absorção da pauta pelo campo liberal até sua radicalização pela esquerda, como na PEC proposta por Luiza Erundina que visa implementar um Sistema Único de Mobilidade com tarifa zero em todo o território nacional. Se é possível discutir isso hoje, é porque treze anos atrás o MPL pôs em xeque a lógica mercantil do transporte público. Junho de 2013 é o resultado de um longo acúmulo de práticas militantes que envolveram desde discussões sobre transporte e cidade até experimentos contínuos na composição estética de um protesto. A experiência nos ensina que é possível para um movimento social (o que não significa que seja fácil, nem que possa ser feito em qualquer momento) planejar e ativar um processo de aceleração da transformação social. Mas isso não basta. É preciso não se contentar com o momento da revolta e partir para uma estratégia de crescimento e fortalecimento das organizações populares.

A luta não termina quando um lado mobiliza centenas de milhares de pessoas nas ruas, ela só se intensifica. Se o agente principal da mobilização não apresenta um projeto de organização, a discussão política levantada pelas ruas é abstraída e cooptada pelos setores da sociedade que estão mais organizados. Como os anos seguintes mostraram, quem estava mais preparado para ocupar o vácuo deixado pela revolta era a extrema-direita. Com isso não se deve concluir que as revoltas de junho de 2013 sejam responsáveis pela emergência do fascismo. O fascismo estava já muito vivo e atuante quando o jornalismo pinga-sangue celebrava, dia após dia, o genocídio da população preta, pobre e periférica; o fascismo se organizava em grupos neonazistas, mobilizava atos de rua sem sofrer consequências e chamava por Bolsonaro presidente já em 2011; o fascismo estava presente quando Marcos Feliciano foi eleito presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara Federal em março de 2013; e o fascismo se deleitava com a justificação, pelos governos petistas, do etnocídio em Belo Monte e da invasão no Haiti como simples dado da realpolitik. Dizer que junho de 2013 “gerou” o fascismo, se não é ignorância ou simplesmente má-fé, é se colocar no lugar de eterna vítima das condições históricas e se eximir da responsabilidade enquanto agente político. A novidade que as revoltas trouxeram não foi o fascismo, e sim o fim do pacto conciliatório, mas, como Vladimir Safatle já dizia em abril daquele mesmo ano, esse pacto sempre teve prazo de validade.

A lição mais simples e valiosa que o MPL deixou para a história brasileira é que, se vamos jogar para vencer, precisamos de mobilização constante e radicalizada. Junho de 2013 só foi um marco porque um movimento social com experiência e legitimidade histórica organizou atos dia após dia e porque, em cada ato, instigou nas massas um espírito insurrecionário. Mas é preciso reconhecer também que, se a esquerda quer jogar para vencer, ela tem o dever ético de se preparar para o que vem depois da vitória. Em oposição à política feita pela via do Estado, é lugar comum dizer que “política se faz nas ruas”. Essa é uma verdade parcial. A política “de baixo para cima” se faz sobretudo nas comunidades, sindicatos, escolas, casas de cultura, enfim, em todo espaço de convivência social, assim como na construção das estruturas internas dos partidos e movimentos sociais. É com atividades constantes nesses espaços, alinhadas a uma estratégia de crescimento organizacional, que caminhamos na construção do poder popular.

 

Fonte: Por Liga Anticatraca, em Jacobin Brasil

 

Dos games ao escândalo: milhões em emendas foram parar no centro de investigação da PF

A poucos quilômetros do Congresso Nacional, onde são decididos os rumos de bilhões de reais do orçamento público brasileiro, jovens da periferia do Distrito Federal convivem diariamente com a falta de oportunidades, evasão escolar e escassez de políticas públicas efetivas.

Foi justamente em nome desses jovens que um projeto financiado com mais de R$ 53 milhões em emendas parlamentares prometeu transformar vidas por meio da capacitação em jogos digitais. Entretanto, o que parecia uma iniciativa inovadora de inclusão tecnológica acabou se transformando em um dos maiores escândalos envolvendo recursos públicos no Distrito Federal.

No centro da investigação está a Associação Moriá, entidade que recebeu dezenas de milhões de reais para executar projetos de capacitação de adolescentes em jogos eletrônicos. Segundo a Polícia Federal e a Controladoria-Geral da União (CGU), há indícios de que os recursos foram utilizados em um sofisticado esquema de direcionamento de contratos, superfaturamento e desvio de verbas públicas.

O caso da Associação Moriá integra o documentário inédito “Orçamento Secreto”, produzido pelo ICL. A produção investiga o caminho percorrido por milhões de reais em recursos públicos destinados por meio de emendas parlamentares de norte a sul do país.

<><> A promessa da inclusão digital

Os projetos da Associação Moriá chegaram a regiões administrativas de Brasília, como Estrutural e Ceilândia, carregando um discurso atraente: preparar jovens da periferia para o mercado da tecnologia por meio dos chamados e-sports e da indústria de jogos digitais.

Na prática, entretanto, estudantes ouvidos durante a produção do documentário relataram uma realidade muito diferente daquela apresentada nos materiais de divulgação. Alguns afirmam que os monitores passavam grande parte do tempo apenas jogando. Outros relatam ausência de orientação pedagógica, problemas nas plataformas utilizadas e falta de estrutura adequada para aprendizagem.

Embora as atividades tenham efetivamente ocorrido em espaços de instituições reconhecidas, como o Instituto Federal de Brasília (IFB) e unidades do Sesc, ambas as entidades informaram que apenas cederam suas instalações e não participaram da gestão ou da aplicação dos recursos públicos envolvidos nos projetos.

<><> O que a Polícia Federal encontrou?

As investigações autorizadas pelo Supremo Tribunal Federal (STF) revelaram indícios de um esquema estruturado para direcionar contratações e inflar artificialmente os custos dos projetos.

De acordo com os relatórios da CGU e da Polícia Federal, foram identificadas cotações possivelmente forjadas, orçamentos de cobertura, propostas praticamente idênticas apresentadas por empresas que deveriam concorrer entre si e indícios de falsificação documental.

Os investigadores apontam ainda que empresas ligadas entre si se alternavam nas etapas de cotação e contratação, criando uma falsa aparência de concorrência. Em alguns casos, os preços contratados teriam superado em até 315% os valores de mercado.

Entre os exemplos apontados pela CGU, um dos que mais chamou a atenção dos auditores envolve a locação de equipamentos utilizados nos projetos de jogos eletrônicos.

<><> Preços de locação suspeitos

Segundo os relatórios da Controladoria, a Associação Moriá contratou computadores e celulares por valores que superavam o próprio custo de aquisição dos equipamentos. Em um dos convênios analisados, a entidade pagou cerca de R$ 2.780 pela locação de cada computador durante dez meses. Na pesquisa de mercado realizada pelos auditores, o preço médio para compra dos mesmos equipamentos era de aproximadamente R$ 1.349.

Situação semelhante ocorreu com os celulares utilizados nos projetos. O aluguel de cada aparelho custou R$ 2.570, enquanto o valor médio de aquisição encontrado pela CGU foi de R$ 868.

Em outros projetos analisados pelos órgãos de controle, os auditores identificaram contratos de locação de computadores gamers que chegaram a valores equivalentes a até onze vezes o preço de compra dos equipamentos.

Para a Controladoria, os contratos apresentam fortes indícios de sobrepreço e afrontam o princípio da economicidade, que deve orientar a aplicação dos recursos públicos.

O prejuízo estimado pela Controladoria-Geral da União ultrapassa R$ 13 milhões, valor que representa mais de 80% do montante analisado em um dos convênios investigados.

<><> Uma entidade sem histórico de atuação

Outro ponto que chamou a atenção dos investigadores foi a transformação repentina da Associação Moriá. Segundo a Polícia Federal, a entidade passou por mudanças significativas em 2023. Houve alteração de diretoria, mudança de endereço e uma reorientação de finalidade institucional, migrando de atividades esportivas tradicionais para projetos voltados ao universo dos jogos digitais.

Em pouco tempo, a associação passou a administrar valores superiores a R$ 53 milhões em recursos públicos. Para os investigadores, a velocidade da expansão não era compatível com a estrutura operacional demonstrada pela entidade.

A direção da associação era composta por pessoas sem histórico conhecido na gestão de projetos dessa magnitude, incluindo familiares do presidente da entidade e profissionais de áreas sem relação direta com os programas executados. A direção era composta por um motorista, uma esteticista e uma enfermeira.

<><> O papel do lobby político

A investigação também lançou luz sobre um aspecto central do funcionamento das emendas parlamentares: a influência política na ampliação dos recursos destinados aos projetos.

Segundo documentos analisados pela Polícia Federal, um dos personagens centrais nesse processo seria Adriano de Andrade Marrocos, contador da associação, apontado pelos investigadores como articulador político e empresarial com trânsito em gabinetes parlamentares.

As apurações indicam que o volume de recursos destinados à Associação Moriá cresceu rapidamente após articulações junto a parlamentares do Distrito Federal e de outros estados. Ao longo de poucos anos, a entidade passou a receber milhões de reais em emendas parlamentares de congressistas de diferentes partidos e regiões do país, tornando-se uma das principais beneficiárias de recursos federais voltados a projetos de inclusão digital e esportes eletrônicos.

Um dos exemplos mencionados nos autos envolve uma emenda inicialmente prevista em cerca de R$ 732 mil que, em menos de um ano, teve seu valor multiplicado diversas vezes.

O senador Izalci Lucas (PL-DF) nega qualquer irregularidade. Segundo ele, os recursos foram destinados por acreditar no potencial social do projeto, e a responsabilidade pela fiscalização da execução caberia ao Ministério do Esporte.

Já o Ministério do Esporte afirma que a destinação dos recursos foi definida pelos parlamentares e sustenta ter adotado medidas para interromper os repasses após o surgimento das suspeitas de superfaturamento e corrupção.

<><> Endereços vazios e estruturas inexistentes

Durante a investigação jornalística, visitas realizadas aos endereços registrados por empresas ligadas ao caso revelaram outro elemento que reforçou as suspeitas.

Em um dos locais indicados como sede de empresa contratada pela Associação Moriá, não foram encontrados funcionários, placas ou qualquer sinal de atividade empresarial. Moradores relataram desconhecer a existência de operações comerciais no imóvel residencial.

Situação semelhante foi observada no endereço utilizado pela própria associação em Brasília. Apesar da identificação visual da entidade, a administração do prédio informou que a entidade já não funciona no local há meses.

<><> O dinheiro das emendas

Os recursos destinados aos projetos da Associação Moriá partiram de parlamentares de diferentes estados e partidos. Segundo os documentos analisados pela Polícia Federal e reportagens sobre o caso, o maior volume de recursos veio do Distrito Federal.

O deputado federal Fred Linhares (Republicanos-DF), que também se mantém como apresentador da TV Record, aparece como o principal destinador de verbas, com aproximadamente R$ 27,6 milhões em emendas individuais e de bancada. Em seguida está o senador Izalci Lucas (PL-DF), responsável por cerca de R$ 15,5 milhões.

Também direcionaram recursos para projetos executados pela entidade a deputada federal Bia Kicis (PL-DF), com R$ 1,5 milhão; o deputado federal Gilvan Máximo (Republicanos-DF), com R$ 1,9 milhão; o deputado federal Júlio César Ribeiro (Republicanos-DF), com R$ 800 mil; a então deputada distrital Paula Belmonte (Cidadania-DF), com R$ 500 mil; e o deputado distrital Reginaldo Veras (PV-DF), com R$ 400 mil.

Além dos parlamentares do Distrito Federal, a Moriá também recebeu recursos de outras unidades da federação. Entre eles estão a deputada federal Perpétua Almeida (PCdoB-AC), com R$ 9,8 milhões; a senadora Rose de Freitas (MDB-ES), com R$ 5 milhões; o deputado federal Pedro Augusto (PP-RJ), com R$ 4,7 milhões; e o senador Rodrigo Cunha (Podemos-AL), com R$ 400 mil.

A distribuição dos recursos demonstra que a associação conseguiu ampliar significativamente sua captação de verbas públicas em curto espaço de tempo, alcançando apoio de parlamentares de diferentes espectros políticos e regiões do país.

Após a deflagração da operação da Polícia Federal e as decisões do Supremo Tribunal Federal, parte dos repasses foi suspensa.

Os parlamentares procurados afirmam não ter conhecimento das irregularidades apontadas pelos órgãos de controle e sustentam que os projetos apresentavam potencial para beneficiar jovens em situação de vulnerabilidade social. Já os investigadores buscam esclarecer se houve atuação de intermediários e articuladores políticos na expansão dos repasses destinados à entidade.

<><> O caso Moriá e o debate sobre o orçamento secreto

Mais do que um episódio isolado, o caso expõe fragilidades estruturais do modelo de distribuição de emendas parlamentares no Brasil.

Embora as emendas sejam instrumentos legítimos de destinação de recursos públicos, especialistas alertam que a falta de transparência, fiscalização insuficiente e dificuldades de controle sobre entidades privadas conveniadas criam um ambiente propício para desvios.

A investigação da Associação Moriá mostra como projetos socialmente atraentes podem servir de porta de entrada para a movimentação de grandes volumes de dinheiro público sem mecanismos de supervisão proporcionais aos riscos envolvidos.

Enquanto a Polícia Federal, a CGU e a Suprema Corte aprofundam as apurações, a população das regiões que deveriam ter sido beneficiadas continua convivendo com os mesmos problemas que justificaram a destinação dos recursos.

Na Estrutural, em Ceilândia e em outras áreas periféricas do Distrito Federal, o que permanece não são os resultados prometidos pela inclusão digital, mas a sensação de que, mais uma vez, o dinheiro público passou longe daqueles que mais precisavam dele.

 

Fonte: ICL Notícias