terça-feira, 23 de junho de 2026

Stathis Kouvelakis: O que é a extrema direita?

Forças reacionárias estão agravando as tendências autoritárias do neoliberalismo e minando a democracia ao redor do mundo. Para derrotar o seu projeto, é necessário entender a sua natureza.

Há uma tendência crescente de rotular a extrema-direita atual, de Donald Trump a Giulia Meloni e Javier Milei, como “fascista”, citando seu racismo, seu recurso à repressão, sua centralização do poder e seu desrespeito pelas normas legais – algo que se intensificou nos últimos anos.

O rótulo é usado por esquerdistas que querem se apresentar como sucessores dignos dos heróis antifascistas do passado, mas também por liberais que querem minimizar o fato de que a sua política levou à ascensão da extrema-direita. Em ambos os casos, porém, esse recurso retórico esconde mais do que revela sobre a natureza do nacionalismo reacionário atual; ademais, diz pouco sobre sua visão ideológica, seus compromissos programáticos e o perigo real que representa. A hipérbole abafa a boa análise.

E, ainda assim, seria igualmente imprudente rejeitar tais analogias históricas e insistir em uma abordagem focada exclusivamente no contemporâneo. Há, pois, muito a ser ganho com uma comparação entre o período entre guerras e o nosso tempo: as trajetórias da crise capitalista, antes e agora, assim como as possíveis respostas socialistas que porventura abram. Não é necessário assimilar a extrema direita à categoria de fascismo para afirmar que ela deve ser combatida pelos meios necessários. Mas aquele mais eficaz em pôr resistência só pode ser desenvolvido lendo o presente à luz do passado.

<><> Convergência

O núcleo racional da analogia é que, em situações de crise, a ordem capitalista produz – ou pelo menos é perfeitamente compatível com – regimes políticos extremistas: bonapartismo, ditaduras militares, fascismo e outros “estados de exceção”, todos eles qualitativamente distintos da democracia liberal. O fascismo entre guerras foi um movimento de massa que surgiu em sociedades brutalizadas pela “guerra total” e diante da possibilidade de uma revolução social.

Os seus componentes essenciais eram o nacionalismo étnico, o anticomunismo, a ação violenta nas ruas e a vontade de derrubar regimes parlamentares e substituí-los por uma forma total de Estado: uma sociedade militarizada orientada para a guerra e para a expansão imperial. O racismo e mais especificamente o antissemitismo desempenharam um papel central no nazismo, mas foram menos decisivos para a ascensão do fascismo italiano e foram apenas uma característica secundária dos outros regimes “fascistas” daquele período: Hungria, Romênia, Espanha, Portugal e Grécia.

Hoje, em contraste, a “direita radical” aparece principalmente como um fenômeno eleitoral, com fraca presença nas ruas. Praticamente todas as suas manifestações são caracterizadas por racismo virulento, o qual tem sido apresentado como se fosse uma posição defensiva, para proteger a “nação” ou “civilização ocidental” de várias ameaças fantasmas, como a de imigrantes ou de muçulmanos.

A sua promessa “social” às classes populares consiste numa espécie de redistribuição racializada de renda, por meio da qual os “verdadeiros nacionais” supostamente serão favorecidos em relação aos de fora no acesso aos serviços públicos e ao mercado de trabalho. Diferente do período entre guerras, os belicistas na Europa de agora são mais numerosos no campo centrista – incluindo partidos nominalmente social-democratas e verdes – do que na extrema direita.

Há também um nível muito maior de consenso entre a classe política atual do que havia na época do fascismo histórico. Nenhuma grande força política no Ocidente sustenta uma visão política de rompimento com as instituições parlamentares. Os discursos anti-imigrantista e islamofóbicos, assim como as políticas que os acompanham, são onipresentes, de Viktor Orbán a Emmanuelle Macron. Isso está alinhado com uma defesa cínica dos “direitos das minorias”.

Tanto o centro neoliberal quanto as forças mais agressivas da extrema-direita apresentam os de fora de modo racializado como um risco para mulheres, pessoas LGBT, comunidades judaicas e assim por diante. Líderes como Marine Le Pen e Giulia Meloni usam um nacionalismo “feminista” para se posicionarem de acordo com os requisitos da “modernidade”, enquanto outros como Alice Weidel e Heinz-Christian Strache invocam a própria homossexualidade para afirmar que são protetores de grupos vulneráveis – não agressores.

A convergência entre neoliberalismo e extrema direita não é coincidência. Este último ganhou força em parte como resultado da virada autoritária nas sociedades ocidentais que começou nos anos 1970, com a crise terminal do engajamento social keynesiano. A sua ascensão, por sua vez, acelerou esse processo e levou à sua radicalização progressiva. O sucesso da direita demonstra que as duas dimensões da dominação burguesa, consentimento e repressão, não são mutuamente exclusivas.

É possível ver prosperar tanto mais repressão quanto mais consentimento para essa repressão. Embora essa coerção tenha vindo de cima – da tentativa do Estado neoliberal de desmontar o que restou do acordo pós-guerra –, ela também alimentou pânicos morais que se espalharam “entre os de baixo”: as preocupações com o crime e a imigração crescem quando a vida cotidiana se degrada e o declínio econômico se torna evidente, e quando a esquerda não consegue oferecer uma contranarrativa convincente.

<><> Situação e estrutura

Para entender melhor as razões de sua força, precisamos combinar dois níveis de análise: um conjuntural e outro mais estrutural ou pelo menos de longo prazo. Após a crise financeira de 2008, houve uma corrida entre a esquerda radical e a direita radical para ver quem poderia oferecer uma alternativa crível. No entanto, essas duas forças começaram de pontos muito diferentes.

No virar do milênio, a direita radical já estava bem estabelecida na França, Itália, Áustria, Holanda e Escandinávia; nos Estados Unidos, ela podia contar com a influência tradicional dos nacionalistas cristãos dentro do Partido Republicano.

Sem uma base equivalente, a esquerda antineoliberal tentou aproveitar a energia dos protestos em massa que eclodiram em ambos os lados do Atlântico em 2011. Mas quando o Syriza capitulou para a Troika em 2015 – uma traição acompanhada pelo Podemos e por outras forças políticas semelhantes – esse ciclo de resistência terminou.

Assim, a direita pôde entrar em cena e aproveitar o descontentamento popular, ajudada pela constante radicalização das políticas racistas e xenófobas aplicadas por todos os governos de centro-extremo e institucionalizadas pela UE, com suas políticas de “externalização das fronteiras”. A gestão de cima para baixo da crise da Covid só agravou essa tendência, já que a esquerda mais uma vez não conseguiu desenvolver uma posição firme ou diferenciada.

Essa é a situação atual. Para uma perspectiva estrutural, teríamos que voltar quatro décadas atrás, quando a ofensiva neoliberal começou a esvaziar os partidos políticos e as organizações de massa de conteúdo. Verificou-se, então, um aumento da taxa de abstenção a níveis sem precedentes, assim como uma gradual erosão da autoridade moral e intelectual do establishment.

Tudo isso gerou o que Antonio Gramsci chamaria de “crise hegemônica”: uma ruptura nas relações existentes entre grupos sociais e classes e suas formas usuais de expressão política. “Quando tais crises ocorrem”, escreveu Gramsci, “a situação imediata se torna delicada e perigosa, porque o terreno está aberto a soluções violentas, às atividades de forças desconhecidas, representadas por “sujeitos” carismáticos, “homens predestinados”.

Nesse contexto, o discurso racista e pretensamente antissistêmico da direita radical mostrou-se bem capaz de conquistar o apoio de amplos setores das classes trabalhadora e populares abandonados pela esquerda. Por quê? Porque a esquerda, com poucas exceções, se refugiou em uma zona de conforto político-eleitoral, sem querer ir muito além.

O núcleo de sua base social remanescente é composto pelas classes médias educadas e pelas gerações mais jovens de graduados que sofrem com o declínio social. A presença das classes trabalhadora e popular é escassa entre seu eleitorado e ainda mais entre seus membros e quadros. Enquanto essa configuração persistir, a esquerda não conseguirá igualar a força da extrema-direita como uma força capaz tanto de questionar o status quo quanto de articular uma visão alternativa de “ordem” em meio a uma crise hegemônica em andamento.

<><> Assimilação à direita

O resultado dessas tendências – o sucesso eleitoral da direita e a aceleração das tendências autoritárias existentes – é gritante: a democracia, por qualquer definição, está em recuo ao redor do mundo. O tipo de democracia liberal há muito associada aos países do núcleo capitalista está desmoronando.

Está-se, agora, diante de um estágio avançado do que Nicos Poulantzas chamou de “estatismo autoritário”: um processo de transformação estrutural que começou nos primeiros dias do neoliberalismo, no qual os níveis superiores da burocracia estatal assumiam um papel mais diretamente político; o poder executivo foi fortalecido às custas das instituições representativas; as formas estabelecidas de mediação política foram enfraquecidas; a mídia de massa preencheu cada vez mais o vazio deixado pelos partidos políticos tradicionais; e as novas tecnologias de vigilância e repressão reforçaram seu controle sobre a sociedade.

O neoliberalismo, nesse sentido, nunca significou “menos Estado”, mas sim a desdemocratização do Estado e sua subordinação mais direta às necessidades da acumulação. A recente radicalização da direita pode ser vista tanto como uma reação quanto como uma adaptação a essa tendência autoritária-estatista. Trata-se de uma reação que visa expressar o descontentamento das classes populares e médias mais pobres que foram excluídas desse acordo neoliberal.

Trata-se, também, de uma adaptação no sentido de que o apoio deles à direita não é uma tentativa de derrubar esse acordo, mas simplesmente alcançar a inclusão nele. A direita radical abraçou plenamente as políticas do extremo centro e defendeu uma versão ainda mais autoritária delas, ao mesmo tempo em que afirma que o custo deve ser pago pelos “invasores” ou “encrenqueiros”, enquanto grupos privilegiados serão mais protegidos.

É uma estratégia poderosa porque captura e remodela o “senso comum” de amplos setores sociais e contribui para fornecer ao Estado autoritário neoliberal dando-lhe a base de massas que até agora lhe faltava. No entanto, também é frágil, pois medo, ressentimento e a promoção de identidades reacionárias são meios limitados de construir consenso e um bloco social coeso.

Fundamentalmente, as promessas sociais da direita carecem de conteúdo real: elas simplesmente piorarão a vida de alguns sem melhorar a vida dos demais. Nessa frente, as forças reacionárias permanecem vulneráveis. O que é necessário é que a esquerda saia de sua zona de conforto e aproveite essa vulnerabilidade.

Uma forma de fazer isso é montar uma defesa ousada da democracia. Essa demanda deveria estar no topo da agenda da esquerda. Historicamente, a tradição da Terceira Internacional (com exceção de Antonio Gramsci) tendia a menosprezar a “democracia liberal”, não reconhecendo que os elementos genuinamente democráticos dos regimes burgueses – direitos e liberdades – não eram simplesmente formas de enganar ou manipular o proletariado, mas o resultado de lutas populares bem-sucedidas, cujas vitórias foram conquistadas a um preço alto. Esse erro teve um efeito devastador no movimento comunista do século XX, e devemos ter cuidado para não o repetir hoje.

No entanto, a defesa da democracia também deve envolver mais do que a mera defesa dos direitos e liberdades, por mais crucial que essa batalha institucional e legal possa ser. Para a esquerda anticapitalista, esse combate deveria significar lutar também pela autonomia das classes subalternas: atacar tudo que as reduz a um estado de passividade, afrouxar o controle do capital sobre a vida social. Essa é a única forma de construir uma contra-hegemonia e lançar as bases para a democracia socialista. Posto isso, é preciso ir em frente para mostrar como essa proposta pode ser traduzida em prática: quais forças teriam que se unir, em quais configurações, para tornar que ela se torne realidade.

<><> Três estratégias

Se nossa situação atual não pode ser entendida como uma repetição, ou mesmo uma variante, daquilo que ocorreu nas décadas de 1920 e 1930, então precisamos repensar a estratégia. Novamente, porém, a melhor forma de fazer isso é por meio de uma compreensão autocrítica do passado: os métodos anteriores de luta socialista e como eles podem ou não ser aplicados hoje.

Se olharmos para o período entre guerras, as três estratégias propostas então apresentadas foram, de forma muito esquemática, a do “terceiro período”, a da “frente unida” e a da “frente popular”.

A estratégia do “terceiro período” foi aquela da linha ultra-sectária adotada pela Comintern em 1928, na qual se presumia que haveria uma crise terminal iminente do capitalismo. E que, ela seria seguida por uma revolta revolucionária dos trabalhadores. Frente a essa visão, portanto, não era inaceitável formar alianças com qualquer força política que pudesse ser classificada como um obstáculo à revolução. A social-democracia era equiparada ao fascismo e qualquer tipo de unidade da esquerda era descartada. Isso levou a um desastre imenso: a ascensão do nazismo ao poder e a total esmagação do movimento operário mais poderoso da Europa.

As outras duas estratégias não podem ser descartadas tão facilmente. A estratégia da “frente unida”, entendida de forma ampla, foi uma tentativa de construir um movimento que abraçasse toda a atividade autônoma das classes subordinadas, não apenas aquela do partido revolucionário dos trabalhadores. Essa ampliação do movimento continua sendo parte indispensável de qualquer estratégia de esquerda interessada em conquistar vitórias significativas.

Contudo, já no momento de sua criação na década de 1920 havia uma certa ambiguidade quanto ao seu escopo. Seria essa uma tentativa de criar uma estratégia revolucionária distinta do “cenário de outubro de 1917”? Postulava a existência de uma lacuna entre Oriente e Ocidente, exigindo assim uma estratégia alternativa para alcançar o poder tal como fora alçado na Rússia. Ou seria simplesmente uma posição tática e temporária que seria mantida enquanto os socialistas estivessem na defensiva, para depois ser substituída por uma linha mais ofensiva que reafirmaria o papel de liderança do partido revolucionário?

Para Leon Trotsky, a linha correta era essa última: quando a revolução se aproximasse, os sovietes se tornariam “a forma mais combativa da frente unida” e a aliança entre comunistas e sociais-democratas daria lugar a algo mais parecido com a sequência do caminho bolchevique.

A estratégia da “frente popular” surgiu a partir de 1934, quando a Comintern começou a defender amplas alianças que incluíam não apenas diferentes setores do movimento trabalhista, mas também setores do que era considerado a esquerda pequeno-burguesa e até mesmo burguesa. Como o núcleo dessa aliança era composto por partidos comunistas e socialistas fortes, conseguiu desencadear uma mobilização de massa genuína contra o fascismo.

Na França, as vitórias eleitorais da Frente Popular deram enorme confiança às massas e desencadearam a onda de greves de junho de 1936, o primeiro grande movimento da classe trabalhadora industrial desse país. Os comunistas reconheceram a dimensão emancipatória da tradição democrática francesa, que remontava à Grande Revolução e ao momento jacobino, e se apresentaram tanto como uma força nacional-popular quanto como o partido da classe trabalhadora: o único ator capaz de liderar um amplo bloco social para a mudança.

Mas as dimensões emancipadoras da Frente Popular entraram em conflito com sua estratégia política. Para construir alianças com as forças burguesas, os comunistas abandonaram posições anticolonialistas e adotaram uma perspectiva rígida, dita “etapista”, que adiou o socialismo para um futuro distante.

Nesse sentido, eles rejeitaram a ideia de integrar demandas democráticas imediatas em um programa transitório mais radical. À medida que a polarização de classes se aprofundava, eles se viram trabalhando para atenuar contradições em vez de acentuá-las. A prioridade de manter a “unidade antifascista” levou a um reformismo inviável. A Frente Popular não conquistou o favor das classes dominantes, já que estava baseada na política de massas, nem avançou a causa da revolução.

O resultado previsível foi uma derrota generalizada que encontrou o fascismo no fim do caminho. A aliança francesa desmoronou quando a ala burguesa mudou de lado, abrindo caminho para a contraofensiva de uma classe capitalista traumatizada pelas greves de 1936. Na Espanha ocorreu algo muito pior, pois, ao contrário da França, um processo revolucionário já estava se desenvolvendo antes mesmo do sucesso eleitoral da Frente Popular.

Lá, os comunistas se aliaram à ala moderada da Frente. Em nome de manter um antifascismo estreito e defender a República burguesa, eles reprimiram violentamente outras forças mais radicais. Logo, eles próprios foram marginalizados por seus aliados burgueses, que buscavam chegar a um compromisso com os fascistas e acabaram dispostos a capitular.

<><> Lições para o presente

Uma dupla lição pode ser tirada dessa experiência. Por um lado, os socialistas devem evitar as armadilhas do sectarismo e do ultraesquerdismo, derrotismos que comprometeram a estratégia do “terceiro período”. Devem fazê-lo mesmo se hoje esse risco seja apenas marginal, dado o estado atual da luta de classes nos países do núcleo capitalista. Por outro lado, eles devem se recusar a se tornar uma força subalterna dentro de um bloco neoliberal em declínio.

A tentação de desempenhar o papel de força auxiliar ao mainstream liberal sempre se difunde entre alguns setores da esquerda, que justificam essa posição como o imperativo do “antifascismo”. Mas está claro para onde esse pastiche da Frente Popular histórica levará: à derrota certa tanto para a esquerda quanto para os liberais, sem criar nada remotamente comparável às dinâmicas políticas de massas dos anos 1930.

Essa forma de “antifascismo” contemporâneo, movida pelo pânico, perde o ponto crucial sobre a direita radical do presente: que ela não é uma repetição do fascismo, mas sim o resultado da transformação do campo político moldada pelo consenso neoliberal das décadas anteriores. Note-se que esse consenso sempre incluiu o racismo, o militarismo, as intervenções imperialistas e a cumplicidade com os genocídios. Apenas uma oposição resoluta a essa ordem neoliberal – cujos pilares são o império dos EUA, a OTAN e a União Europeia – pode oferecer uma perspectiva galvanizadora e positiva.

Os experimentos de esquerda mais promissores no Norte Global hoje são aqueles que seguiram esse caminho: La France Insoumise, Zohran Mamdani e, até certo ponto, os Verdes na Grã-Bretanha. No seu melhor, esses projetos eleitorais reuniram uma série de elementos: um programa baseado na solidariedade com a Palestina, antirracismo e antimilitarismo, com uma agenda social sólida e concreta; uma interação constante com mobilizações e movimentos de base; e uma visão progressista da nação e da soberania nacional-popular, como componentes fundamentais dessa emergente da “nova esquerda”.

Se a esquerda leva a sério a política, isso tem que significar a vontade de fazer política de massa. Os marxistas devem ser parte orgânica desse movimento e contribuir para sua radicalização em direção anti-imperialista e socialista.

Mas isso implica abandonar formas obsoletas de pensar: a vontade de repetir os cenários revolucionários do passado, o apelo da vanguarda estéril ou purismo ideológico, a visão abstrata do internacionalismo que dificilmente difere do cosmopolitismo liberal. Derrotar a direita radical significa rejeitar essas distorções e se reconectar com os sujeitos sociais e políticos realmente existentes, principalmente com as classes trabalhadora e popular.

 

Fonte: Tradução: Eleutério F. S. Prado, em A Terra é Redonda

 

O movimento católico ultraconservador que desafia o papa e cresce no Brasil com missa em latim e padre de costas

A cena é muito diferente das que se costumam repetir nas manhãs de domingo nas milhares de igrejas católicas espalhadas pelo Brasil.

Depois de um silêncio solene, o som de sinos e um cheiro forte de incenso anunciaram o início da missa das 9h na pequena capela da Fraternidade Sacerdotal São Pio X no bairro da Vila Mariana, em São Paulo, no último domingo de Pentecostes, no fim de maio.

O padre entrou com seus diáconos pelo corredor principal carregando um turíbulo, um objeto de metal com correntes que ele balançava para frente e para trás, como uma espécie de metrônomo no ritmo das preces que recitava de forma melodiosa em latim.

Parou de frente para o altar e lá ficou por cerca de uma hora, os olhos voltados para o Jesus crucificado, as flores e os castiçais sobre o altar enquanto celebrava a cerimônia.

Atrás dele, casa cheia: com os bancos todos ocupados, os fiéis se amontoavam de pé nas laterais da igreja e nas escadas que davam para o mezanino do segundo andar. A maioria não precisava da ajuda dos livrinhos de traduções disponíveis no caixote na entrada para acompanhar as rezas em latim.

Tirando o vermelho com dourado das vestes do padre, predominavam as cores sóbrias. As mulheres e meninas vestiam saias e vestidos longos e usavam lenços de renda para cobrir os cabelos.

A Fraternidade Sacerdotal São Pio X é uma das congregações que se recusam a aceitar as reformas modernizantes que o Vaticano fez nos anos 1960. Continua celebrando missas como no período medieval, em latim, com o padre de costas para os fiéis na maior parte do tempo.

Nasceu em 1970 na Suíça, e desde então desafia a Santa Sé. Em 1988, seu fundador, o arcebispo francês Marcel Lefebvre, chegou a receber o castigo mais severo da Igreja Católica: foi excomungado depois de nomear quatro novos bispos sem autorização do papa João Paulo 2º.

Mesmo com a punição, que proíbe a participação na comunhão e em outros ritos e sacramentos católicos, a congregação cresceu. Se internacionalizou, entrou na América do Sul pela Argentina e nos últimos 20 anos vem ganhando força no Brasil, embalada pelo avanço de correntes conservadoras entre católicos brasileiros.

Diante da expansão, o grupo quer novamente nomear bispos. Mais uma vez, o Vaticano não autoriza.

A celebração está marcada para o próximo dia 1º de julho na cidade suíça de Écône. Na missa da Vila Mariana, no breve momento em que falou português, o padre convidou os fiéis que quisessem se juntar à comitiva brasileira a irem ao evento na Europa. E pediu a todos orações pelos novos bispos.

A Santa Sé já avisou que as sagrações sem consentimento papal vão ser interpretadas como uma ruptura formal com a Igreja — e que serão novamente punidas com excomunhão.

"A excomunhão é algo raríssimo de acontecer", diz o historiador Vinícius Couzzi Mérida, mestre e doutor em Ciências da Religião. "Uma coisa que acontece uma ou duas vezes por século."

Por que agora então?

<><> Choque entre tradição e modernidade

A explicação passa pela maior reforma da história moderna da Igreja Católica, o Concílio do Vaticano 2º, uma assembleia de bispos que aconteceu entre 1962 e 1965 e mudou profundamente a maneira como se celebra a missa católica.

Até aquela data, o padre só rezava em latim, mesmo que os fiéis não entendessem o que ele falava, e a leitura e interpretação da Bíblia estava concentrada nos membros da hierarquia da Igreja, como sacerdotes e bispos.

Com o concílio, a língua oficial passou a ser o idioma local de cada paróquia. A Igreja começou a incentivar a aproximação dos fiéis da Bíblia, a formação de grupos leigos de leitura dos textos religiosos, e se abriu "ao diálogo com as religiões não cristãs e à liberdade de consciência [a ideia de que a religião é uma escolha individual e não deve ser imposta, por exemplo, pelo Estado]", como explica Mérida.

Foi um movimento progressista, que desagradou a ala católica mais conservadora.

Uma dessas figuras foi o arcebispo francês Marcel Lefebvre, que em 1970 fundou na cidade suíça de Friburgo o Seminário Internacional São Pio X como uma reação a essas mudanças.

A ideia era que o local se tornasse um centro para formação de padres que desejassem conservar o modelo de Igreja "tradicional", que existia antes do concílio.

Foi um entre diversos movimentos que nasceram em um período em que o moderno e o antigo entraram em choque no catolicismo. Segundo Mérida, mais de 40 mil padres deixaram o sacerdócio nessa época.

"Muitos padres e seminaristas entenderam que a Igreja estava num processo de ruptura para o nascimento de uma outra igreja, mais progressista, alinhada ao mundo moderno. Isso, de fato, causou muita confusão", ressalta.

Da Suíça, a FSSPX se expandiu para a França, Alemanha, Estados Unidos, Argentina e até para a Oceania.

<><> A chegada no Brasil

A entrada e crescimento da FSSPX no Brasil tem relação com outro grupo de católicos tradicionais, a Diocese de Campos dos Goytacazes, no Rio de Janeiro.

Assim como a Fraternidade Sacerdotal São Pio X, a Diocese de Campos também rejeitava o Concílio do Vaticano 2º e celebrava a missa tridentina, em latim.

As duas congregações eram bastante próximas, aliás. Um dos bispos da diocese, Dom Antônio de Castro Mayer, chegou a participar da ordenação dos bispos da Fraternidade e foi excomungado junto com Lefebvre em 1988.

Depois de anos de ruptura, contudo, em 2002 a diocese fez as pazes com o Vaticano. Aceitou a proposta de reconciliação do papa João Paulo 2º, que permitiu que seus párocos continuassem celebrando a missa tridentina, desde que finalmente aceitasse o Concílio Vaticano 2º.

"Os 'padres de Campos' pediram perdão e voltaram à plena comunhão com a Santa Sé — e por isso foram chamados de traidores pelos antigos aliados da Fraternidade Sacerdotal São Pio X", afirma Mérida.

Um grupo de fiéis que também desaprovou o aceno da diocese ao Vaticano e não queria mais assistir às missas celebradas por seus padres pediu então que a Fraternidade passasse a atuar no Brasil.

Via de regra, são os bispos das dioceses que determinam quando e onde uma nova igreja é aberta, mas como a FSSPX está em situação canônica irregular, ou seja, não está de acordo com as normas do Vaticano, essa decisão geralmente é tomada por iniciativa da própria Fraternidade quando há pedidos de devotos.

"Eles começaram então a atuar no norte fluminense, em São Paulo e na região Sul do Brasil", diz o historiador, que há mais de 20 anos pesquisa sobre o catolicismo tradicional no país.

Hoje estão em 14 capelas em quatro das cinco regiões. A congregação só não está presente no Norte, conforme os endereços listados nos boletins distribuídos a fiéis: São Paulo, Indaiatuba (SP), Ribeirão Preto (SP), Sorocaba (SP), Itapetininga (SP), São José do Rio Preto (SP), Passos (MG), Curitiba (PR), Cuiabá (MT), Campo Grande (MS), Fortaleza (CE), Parnaíba (PI), Teresina (PI), São Luís (MA).

"Trata-se de um movimento crescente", afirma Mérida, apontando que o grupo reúne hoje cerca de um milhão de fiéis pelo mundo e conta com cerca de 700 padres.

"Além do crescimento da Fraternidade, existem os grupos dissidentes, que também não param de se dividir e multiplicar."

O número é relativamente pequeno se comparado ao universo de 1,4 bilhão de católicos, mas representativo do avanço do chamado catolicismo tradicional. Não é o caso da Fraternidade, mas alguns desses grupos, ainda que pequenos, são bastante ativos nas redes sociais e influenciam o debate público em torno de pautas conservadoras.

O pesquisador explica que tanto a Fraternidade quanto os grupos tradicionalistas que não aceitam o concílio continuam sendo considerados católicos mesmo estando em situação canônica irregular porque o Vaticano, segundo ele, segue tentando promover uma reconciliação com eles.

Essa postura vai ser agora pela primeira vez testada no papado de Leão 14.

"Ao que tudo indica, a Santa Sé permanecerá irredutível, exigindo que a Fraternidade aceite o Concílio Vaticano 2º para que, assim, possa receber a anuência do papa", opina Mérida.

Como a congregação também não dá sinais de que vá recuar, provavelmente "os bispos, sacerdotes e os futuros bispos que serão sagrados serão excomungados".

Os folhetos com as preces pelos novos bispos recomendadas pelo padre na capela da Vila Mariana estavam disponíveis na pequena livraria na entrada da igreja, mas esgotaram rápido no início da manhã daquele domingo.

Restaram os livros à venda nas prateleiras, entre eles 1492: O fim da Barbárie, Começo da Civilização na América, do argentino Cristian Iturralde, que defende a colonização espanhola como um evento positivo para o continente americano.

Do mesmo autor, A Inquisição, Um Tribunal de Misericórdia, se propõe como uma resposta aos críticos dos tribunais religiosos criados pela Igreja Católica no período medieval com o objetivo de investigar, julgar e punir pessoas acusadas de heresias.

Na saída da missa, a reportagem tentou conversar com um dos padres que circulava entre os fiéis na calçada. Ele respondeu a algumas perguntas sobre a igreja — uma casa doada há quase 20 anos que passou por sucessivas reformas para ser ampliada —, mas afirmou que as questões relacionadas aos novos bispos deveriam ser tratadas com o Padre Juan María de Montagut Puertollano, superior da congregação no Brasil.

A BBC News Brasil tentou contato com ele por telefone e por e-mail, sem sucesso. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) também não retornou os pedidos de entrevista.

O próximo capítulo dessa história deve começar a ser escrito na próxima semana, com a nomeação dos novos bispos da congregação em Écône, com ecos que podem repercutir no pontificado do novo papa e no jogo de forças entre as diferentes correntes ideológicas que disputam espaço e poder no catolicismo.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Carro zero por R$ 13 mil, gasolina a R$ 1,70: como era o mercado de carros quando o Brasil ganhou a Copa

O torcedor brasileiro convive com um jejum de 24 anos sem conquistar a Copa do Mundo. Voltar a 2002 é lembrar do bom futebol e também tomar um choque de realidade.

O Brasil de 2002 não tinha redes sociais — Facebook e o finado Orkut só seriam criados em 2004. O iPod ainda engatinhava e não existiam smartphones.

No máximo, havia o jogo da cobrinha em um celular Nokia. E esse aparelho, quando caía no chão, era capaz de trincar o azulejo.

O mercado automotivo brasileiro também era bem diferente. Por isso, o g1 reuniu algumas curiosidades de 2002 para relembrar aqueles tempos.

<><> Carro zero km por preço de celular

O automóvel mais barato do Brasil em julho de 2002 era o Fiat Uno Mille três portas a álcool (veja abaixo por que ele ainda não era chamado de etanol), vendido por R$ 13.577.

Mas sejamos justos: corrigido pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA), o modelo custaria hoje o equivalente a R$ 55.589.

Outro dado importante é que, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a renda média do brasileiro era de R$ 636 em 2002. Corrigido pelo IPCA, o valor equivale hoje a R$ 2.604.

O hatch tinha motor 1.0 aspirado de quatro cilindros e rendia 61 cv. De série, oferecia vidros verdes, cintos traseiros laterais de três pontos e... só. Apoios de cabeça no banco traseiro, travas elétricas e vidros elétricos faziam parte de um pacote que custava R$ 671.

Limpador, lavador e desembaçador do vidro traseiro, além do controle interno manual do retrovisor, custavam R$ 424. Já a pintura metálica acrescentava R$ 294 ao preço final.

O opcional mais curioso era o ar-condicionado. No Uno Mille, era preciso desembolsar R$ 2.407 para ter a cabine climatizada. Isso equivalia a quase 18% do valor do carro.

<><> Sai álcool, entra etanol

Em 2002, os postos de combustíveis usavam o nome “álcool”, e isso seguiu sem questionamentos por décadas. Em 2008, algumas entidades ligadas ao setor sucroenergético passaram a defender a troca do nome para etanol.

•        🔎 O argumento da União da Indústria de Cana-de-açúcar (Unica) era que o slogan “Álcool e direção não combinam”, usado na campanha da Lei Seca, confundia o público.

Além disso, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) queria padronizar a nomenclatura para alinhá-la ao mercado internacional.

“A palavra álcool é uma denominação generalizada [há vários tipos de álcool] e o etanol é um produto específico, de maior valor comercial”, disse Haroldo Lima, presidente da ANP na época.

A padronização só veio em dezembro de 2009, por meio de uma resolução da ANP, e passou a valer em todo o Brasil em 2010.

Em um momento de combustíveis caros, vale lembrar que o litro da gasolina custava R$ 1,77 em 2002. O etanol saía por R$ 0,94 e o diesel custava R$ 1,07. Os dados são da ANP.

Outra curiosidade: quando o Brasil conquistou o pentacampeonato, ainda não existiam carros flex no mercado. O primeiro foi o Volkswagen Gol, lançado em 2003.

<><> Líder durante o penta

Por falar nele, entre 1987 e 2013 o Gol foi o carro mais vendido do Brasil. No ano do pentacampeonato, o hatch encerrou 2002 com 208,3 mil unidades vendidas.

Na Europa, o carro mais vendido foi o Volkswagen Golf, com mais de 587 mil unidades emplacadas, seguido de perto pelo Peugeot 206.

Nos Estados Unidos, o carro mais vendido de 2002 foi o Toyota Camry, com mais de 434 mil unidades. Entre todos os veículos, porém, a liderança ficou com a Ford F-150, que somou mais de 813 mil unidades emplacadas naquele ano.

<><> Picape campeã

Em 2002, a Fiat Strada era a picape mais vendida do Brasil, com 26.053 unidades emplacadas. O volume representava cerca de 40% do segmento de picapes compactas.

Em 2026, a história não mudou: a picape da Fiat vendeu mais de 142 mil unidades e respondeu por mais de 67% do segmento.

Mas é preciso contextualizar: hoje as picapes compactas mudaram de patamar. O foco passou a ser quase exclusivamente o trabalho.

Para quem busca uma picape para uso particular, há versões mais equipadas da Strada, mas principalmente modelos como Fiat Toro, Renault Oroch e Chevrolet Montana. Em breve, o mercado também verá a chegada da Volkswagen Tukan e da BYD Mako.

<><> Sem nome de Copa

Em 2002, como a Volkswagen não tinha os direitos da competição, não podia usar a designação “Copa” no Gol. A solução foi batizar a versão de Sport e adotar o tom Amarelo Solar como cor exclusiva.

O hatch vinha com motor 1.0 aspirado a gasolina, que gerava 76 cv e 9,7 kgfm de torque. A lista de equipamentos de série tinha direção hidráulica e limpador de vidro traseiro com desembaçador. Travas e vidros elétricos, por exemplo, eram opcionais.

Em 2026, a Volkswagen patrocina as equipes da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). O modelo alusivo à competição é o T-Cross Seleção, que tem lista de equipamentos interessante e visual com frases e estrelas.

<><> China ainda distante

A Copa do Mundo de 2002 foi disputada na Coreia do Sul e no Japão, e marcas japonesas e coreanas faziam sucesso por aqui. Carros chineses sequer eram considerados no Brasil.

•        A BYD produzia apenas veículos pesados e só lançou seu primeiro carro em 2005.

•        A JAC Motors, que chegou ao Brasil em 2011 prometendo revolucionar o mercado nacional com o J3, também atuava no segmento de caminhões. Seu primeiro veículo de passageiros foi a van Refine, lançada em 2002.

•        GWM e Geely foram fundadas nos anos 1980 e só passaram a produzir carros de passeio no fim da década de 1990.

•        A Chery surgiu em 1997, enquanto as subsidiárias Omoda e Jaecoo nasceram em 2022 e 2023, respectivamente.

O cenário em 2026 é bem diferente. Entre janeiro e abril deste ano, quase metade dos veículos importados pelo Brasil veio da China. Só em abril, mais de 17% das vendas no país foram de marcas chinesas.

<><> Nada de SUV

Segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave), 43,1% dos veículos vendidos no Brasil em 2025 eram SUVs.

Em 2002, esse segmento era praticamente irrelevante no Brasil. A oferta se concentrava em utilitários esportivos grandes e modelos derivados de picapes. O modelo importado mais vendido no ano do pentacampeonato foi o Mitsubishi Pajero, com 4.028 unidades.

A história começou a mudar justamente no Salão do Automóvel de 2002, quando a Ford apresentou a primeira geração do Ecosport.

Derivado do Fiesta, o modelo chegou às lojas em 2003 e inaugurou no Brasil o segmento dos SUVs mais acessíveis, baseados em plataformas de carros compactos.

A mesma receita é aplicada até hoje em SUVs como Fiat Pulse, Chevrolet Tracker, Renault Duster, Citroën C3 Aircross, Volkswagen T-Cross e outros.

<><> Cardápio interessante

Se hoje o mercado automotivo passa a sensação de ser “mais do mesmo”, em 2002 havia várias opções que hoje parecem curiosas.

No ano do penta, era possível entrar em uma concessionária Volkswagen e levar para casa um Santana ou uma Parati Turbo. Para quem precisava trabalhar, a Kombi seguia firme e forte no catálogo da marca.

Os saudosistas devem lembrar que, em 2002, ainda era possível comprar modelos da Alfa Romeo no Brasil. O sedã 166 tinha motor 3.0 V6 de 226 cv, câmbio automático e suspensão traseira independente. O preço de US$ 59 mil assusta até em 2026.

A Chevrolet já vendia o Tracker por aqui em 2002, mas o SUV era, na prática, um Suzuki Vitara com detalhes e emblemas diferentes. No início da trajetória da dupla, o motor era um 2.0 turbodiesel de 87 cv fornecido pela Mazda.

Em 2002, porém, outro motor 2.0 turbodiesel entrou em cena, desta vez da Peugeot. O propulsor rendia 108 cv e 25,5 kgfm de torque.

Fiat Toro passa pela linha de produção da Stellantis em Goiana, Pernambuco — Foto: Divulgação / Stellantis

<><> Mercado cresceu

Em 2002, os brasileiros compraram quase 1,4 milhão de automóveis, segundo dados da Fenabrave. Em 2025, o mercado nacional registrou mais de 2,5 milhões de emplacamentos.

A produção nacional também cresceu: passou de 1,7 milhão de veículos no ano do penta para mais de 2,6 milhões no ano passado.

Dois dados curiosos aparecem no anuário da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). A estimativa para 2002 era de uma frota circulante de 18,4 milhões de veículos no Brasil.

Em 2024, ano mais recente disponível no documento, a estimativa é de que o Brasil tenha mais de 40,3 milhões de veículos em circulação.

 

Fonte: g1

 

Bibliocídio: como as big techs queimam livros

Para quem escreve livros que não se tornam best-sellers (com vendas excepcionalmente altas), nem long-sellers (com vendas consistentes e contínuas por longos períodos), nem mesmo sellers propriamente ditos (que vendam um mínimo aceitável), é comum receber, de vez em quando, um e-mail da editora avisando que os exemplares dos nossos livros em estoque serão enviados para a trituradora. Uma vez tomada essa decisão, pouco ou nada pode ser feito. A trituração de livros é, infelizmente, um reflexo muito comum da triste condição do mercado editorial (especialmente dos grandes consórcios que engoliram dezenas de pequenas editoras), das pressões econômicas e fiscais, do espaço limitado nos armazéns e da impaciência corporativa.

No entanto, as grandes editoras não são as únicas empresas que recorrem à destruição em massa de livros. O jornal The Washington Post publicou em janeiro de 2026 que, no início de 2024, a empresa de alta tecnologia Anthropic lançou uma iniciativa de forma praticamente secreta chamada Projeto Panamá. Os detalhes vieram a público com a divulgação de mais de quatro mil páginas de documentos apresentados como provas no processo de direitos autorais movido por um grupo de escritores contra a Anthropic. Esse processo fazia parte de uma série de ações judiciais movidas por artistas, autores, músicos, fotógrafos, designers, ilustradores e outros criadores que sentem que seu trabalho foi usado sem seu conhecimento ou autorização para treinar modelos de IA. Um documento interno de planejamento divulgado na segunda semana de janeiro de 2026 descrevia assim suas intenções: “O Projeto Panamá é nosso esforço para digitalizar de forma destrutiva todos os livros do mundo… Não queremos que se saiba que estamos trabalhando nisso”.

Este e outros documentos jurídicos utilizados em ações judiciais contra várias empresas que desenvolvem modelos de Inteligência Artificial generativa revelaram que a Anthropic e outras empresas de IA estão comprando em livrarias de segunda mão milhões de livros impressos para treinar seus sistemas. Os Grandes Modelos de Linguagem (LLM, na sigla em inglês) requerem textos de “alta qualidade” para treinar suas redes neurais. Isso consiste em fazer com que os modelos processem textos para construir relações estatísticas entre palavras e conceitos. Os programadores consideram que devem ser utilizadas bases de dados de boa “qualidade” (livros e artigos coerentes, bem escritos e editados) para que as capacidades dos modelos aumentem. Utilizar boa literatura proporciona respostas mais bem articuladas, bem como resultados mais eloquentes, precisos e convincentes. Os coordenadores deste projeto concluíram que era muito melhor usar livros do que comentários, opiniões e conversas extraídos de fóruns online, redes sociais ou do YouTube. Os livros, em grande quantidade, e não individualmente, tornaram-se o alvo da ambição dessas empresas que desejam “ensinar os modelos a escrever corretamente e não replicar a linguagem comum da internet”.

Há algo de fábula sórdida e ficção científica sombria nesse processo mecânico de ingestão e digestão literária que nos faz pensar nos clássicos Fahrenheit 451, de Ray Bradbury, e 1984, de George Orwell, mas que também evoca os vilões dos quadrinhos da Marvel que dominaram as telas de cinema nos últimos 20 anos e que alimentaram a imaginação perversa dos bilionários da indústria da tecnologia digital. A IA Claude é uma espécie de Thanos, o monstro destruidor de mundos, capaz de eliminar metade da cultura literária do universo para dar lugar a uma IA infalível.

Um documento legal divulgado descreve que a empresa Anthropic (que em 28 de maio de 2026 foi avaliada em 900 bilhões de dólares) usaria uma cortadora hidráulica de precisão para desarmar livros e recortar as páginas em um tamanho adequado para serem digitalizadas em equipamentos de alta velocidade. Posteriormente, uma empresa de reciclagem recolheria o papel processado. Quase parece comovente que, apesar da imoralidade de suas ações (eles próprios admitem que se trata de uma estratégia perturbadora ou questionável que tentaram manter em segredo), considerem importante reciclar o papel descartado e não simplesmente jogá-lo no lixo; é de se supor que isso sim seria considerado por eles uma imprudência imperdoável. Ao mesmo tempo, os centros de dados de que essas empresas necessitam são consumidores brutais de água e recursos, com um imenso impacto ambiental.

Em um ano, essa empresa gastou dezenas de milhões de dólares para adquirir livros, destruí-los e alimentar com suas palavras, frases e conhecimento os modelos de IA, como o chatbot Claude. De repente, podemos imaginar esses programas bajuladores e obsequiosos à exaustão como vorazes Molochs, trituradores das obras da inteligência e do espírito, como aquele que mantém a cidade em movimento no filme Metropolis, de Fritz Lang. O pensamento e o trabalho de milhares de pessoas ao longo dos séculos, reduzidos pela tecnologia digital e pelo reconhecimento óptico de caracteres a matéria-prima, a estruturas gramaticais e a preditores de palavras.

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Meta, Google, OpenAI, Anthropic e outras empresas estão competindo em uma corrida desenfreada para se apropriar da maior quantidade possível de “conteúdo”, conhecimento, ideias e textos, que consideravam “essenciais para serem competitivas com seus rivais”. Insatisfeitas com seu extrativismo desenfreado, optaram por um recurso ainda mais barato. O cofundador da Anthropic, Ben Mann, encarregou-se de baixar livros de sites piratas online por meio de torrents (um método descentralizado para compartilhar arquivos entre usuários). Assim, obtiveram cerca de cinco milhões de livros do site LibGen e mais cerca de dois milhões da Pirate Library Mirror. Ao mesmo tempo, a empresa Meta, com a aprovação de Mark Zuckerberg (suas iniciais aparecem em um documento interno), também começou a saquear sites de livros clandestinos. Um engenheiro da Meta escreveu em 2023: “Usar torrents em um laptop corporativo não parece certo”, e acrescentou um emoji sorridente.

Para levar adiante esse projeto, a Anthropic contratou Tom Turvey, que foi fundamental na criação do projeto Google Books, iniciado por volta de 2002 com a intenção de digitalizar uma grande quantidade de livros. O projeto do Google foi muito controverso na época, mas sobreviveu a uma série de processos judiciais e ataques. O Google Books (na época em que o lema da empresa ainda era “Don’t be evil” ou “Não seja mau”) empregou um sistema fotográfico não destrutivo com livros emprestados de bibliotecas que depois eram devolvidos. Esse método já havia sido usado anteriormente pelo Internet Archive. A Anthropic, por outro lado, optou por um processo mais barato e rápido, sem se importar com o material original nem com a preservação dos livros.

A digitalização destrutiva é uma prática comum em operações de digitalização; o incomum aqui foi o volume em que isso foi feito e a noção de que muitos livros usados poderiam ser exemplares únicos, raros ou de difícil acesso, que se encontravam em lotes imensos e caóticos, e não em coleções organizadas. Talvez nunca saibamos o que foi destruído. Um grupo de autores escreveu uma carta aberta de protesto contra o uso de seu trabalho: “Em vez de pagar aos escritores uma pequena porcentagem do dinheiro que nosso trabalho lhes gera, outra pessoa será paga por uma tecnologia construída sobre nosso trabalho não remunerado”.

Alguns juízes e especialistas jurídicos consideraram que o uso dessas obras se enquadra em um âmbito legal ainda não definido, enquanto outros acreditam que as empresas de IA não violaram a lei. No que diz respeito aos livros comprados legitimamente, as empresas de IA estão protegidas pelo recurso de “uso legítimo” (fair use). As empresas de IA se basearam na “Doutrina da primeira venda” (first sale doctrine), que autoriza o comprador de um livro a fazer o que quiser com ele. Isso permite a existência de um mercado de livros usados. O juiz William Alsup, do Distrito Norte da Califórnia (que abrange o Vale do Silício), deu razão à Anthropic no que diz respeito ao uso de livros para treinar modelos porque “eles processam o material de forma transformativa” (ao destruir os exemplares comprados legalmente e conservar a versão digital, sem distribuí-la, estavam apenas “economizando espaço por meio de uma conversão de formato, e isso equivalia a uma transformação”). O juiz Vince Chhabria, do mesmo distrito, concluiu que os autores que processavam a Meta não haviam provado que os modelos de IA daquela empresa poderiam prejudicar as vendas de seus livros.

No entanto, a Anthropic foi considerada culpada de violar a lei pelos livros piratas que “acumulou para uso futuro” e, para evitar ir a julgamento, aceitou pagar 1,5 bilhão de. dólares (3 mil d por cada um dos 500.000 livros) em agosto passado, sem admitir ter cometido qualquer crime. Dario Amodei, diretor executivo da Anthropic, tentou evitar o que ele mesmo chamou de “o tédio jurídico, prático e empresarial”, ou seja, as complexas negociações de licenças com as editoras. Ao comprar livros físicos, ele contornava completamente as licenças e negociações. A posição da Anthropic é que seus modelos não tentam replicar nem suplantar as obras nas quais são treinados, mas sim criar algo diferente. Eventualmente, eles serão penalizados (se é que isso realmente acontecerá) pela forma como obtiveram algumas das obras e não pelo uso que deram a elas.

Em junho de 2025, a OpenAI e a Microsoft anunciaram que trabalhariam com as bibliotecas de Harvard para digitalizar, de forma não destrutiva, milhões de livros de domínio público que datam do século XV. Isso, possivelmente, visa fazer com que sua tentativa de se apropriar de livros caia no esquecimento e apagando os rastros de sua existência. A única maneira de conhecer certas obras (boas, ruins, medíocres ou como quer que sejam) será consultando esses modelos generativos de IA que as engoliram.

Não há dúvida de que os livros são um problema: pesam muito, ocupam espaço demais, são frágeis e, no entanto, representam talvez melhor do que qualquer outro meio nossa forma mais acessível de adquirir conhecimento, prazer e nos aproximarmos da beleza. Quando os transformamos em uma espécie de forragem ou combustível para as máquinas, evaporamos universos inteiros. Estamos em um momento em que os bros multimilionários da tecnologia nos prometem construir ideias e argumentos a partir dos escombros da cultura. Não é por acaso que isso ocorra em uma era de renovadas censuras e proibições de livros e em um tempo de genocídio, domicídio e urbicídio. O impulso da indústria tecnológica nos empurra para a normalização do bibliocídio.

 

Fonte: CTXT

 

Uma epidemia silenciosa: número de jovens fumantes cresce no Brasil

Nas festas e calçadas universitárias, um velho conhecido da saúde pública retorna, dessa vez com uma nova roupagem e uma pitada de nostalgia. Mas, ainda assim, com a mesma preocupação de anos atrás. Após décadas de queda no consumo devido a campanhas de conscientização, o Brasil vê o tabagismo crescer entre os jovens, especialmente por contextos sociais e pela inserção das alternativas de cigarro nesse mundo moderno, como o cigarro de palha e os dispositivos eletrônicos.

O hábito de fumar voltou a fazer parte da rotina de uma geração que cresceu sabendo dos riscos, mas que, agora, parece não se importar em enfrentar armadilhas neurobiológicas e físicas silenciosas. Para o pneumologista William Schwartz, coordenador de pneumologia do Hospital Santa Lúcia, em Brasília, o corpo de quem fuma já está sofrendo, mesmo sem que o paciente comece a sentir. De acordo com o especialista, o monóxido de carbono resultante da queima do papel e do tabaco rouba o lugar do oxigênio no sangue, provocando disfunções imediatas nos vasos sanguíneos.

"O cigarro reduz de forma substancial a capacidade do sangue de nos proteger da formação de coágulos, tornando o organismo mais propenso a trombos. O jovem tem uma grande reserva pulmonar, então acaba pensando que não tem problema nenhum e que no futuro não vai ter dificuldade. Mas os sistemas respiratório e o cardiovascular já estão sendo comprometidos no presente", afirma o médico.

Para quem frequenta academias e busca uma vida ativa, a ilusão de que o exercício físico é capaz de "compensar" os danos do tabaco cai por terra diante dos dados clínicos. “O cigarro atua como um verdadeiro sabotador do rendimento esportivo, diminuindo drasticamente a capacidade de transporte e uso do oxigênio pelo corpo”, ressalta o pneumologista.

<><> Contexto

Na avaliação do pneumologista William Schwartz, o cenário atual do tabagismo é marcado por uma rotatividade perigosa de dispositivos. Segundo ele, muitos jovens utilizam o cigarro tradicional na tentativa de largar o vape ou migram para o cigarro de palha sob o pretexto de consumirem um produto supostamente "natural".

<><> Dados nacionais

Números da pesquisa preliminar anual da Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), feita em 2024, apontam que 11,6% da população adulta se declara fumante de cigarro convencional.

<><> Tratamento

De acordo com Sistema Único de Saúde (SUS), em 2025, 2,5 milhões de brasileiros buscaram, de forma voluntária, atendimentos relacionados ao tabagismo na atenção primária à saúde, nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). O número representa um aumento de 95% em relação a 2022, quando foram registrados 1,2 milhão de atendimentos.

<><> Nova geração

Uma pesquisa feita pelo Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad), de 2023, mostra que, entre os adolescentes fumantes, 37,6% começaram antes dos 14 anos e 45,2% têm pais que fumam ou fumaram.

<><> Prejuízos cognitivos

A psicóloga clínica e neuropsicóloga Juliana Gebrim afirma que o uso frequente de cigarro na adolescência pode estar associado a prejuízos em funções importantes, como atenção, memória de trabalho e velocidade de processamento das informações. “Também podem surgir dificuldades em habilidades fundamentais para os estudos e para a vida diária, como organização, planejamento e tomada de decisões”, destaca.

<><> Suporte e ajuda

Em cartilha disponível no site do Ministério da Saúde, há recomendações de quais passos seguir para aqueles que desejam travar uma luta contra o tabagismo. Apoio familiar, boa alimentação, apoio médico e mudanças de grupos sociais estão entre os alertas principais na hora de parar de fumar.

>>>> Palavra do especialista - Juliana Gebrim é psicóloga clínica e neuropsicóloga pelo Instituto de Psicologia Aplicada e Formação de Portugal (IPAF)

•        Por que os jovens e adolescentes são neurobiologicamente mais vulneráveis a desenvolver uma dependência mais rápida e intensa da nicotina?

O cérebro dos adolescentes responde de forma mais intensa aos estímulos de recompensa. A liberação de dopamina, neurotransmissor relacionado ao prazer e à motivação, costuma ser mais marcante nessa fase da vida. Ao mesmo tempo, os mecanismos responsáveis por avaliar riscos e controlar impulsos ainda estão em amadurecimento. Isso significa que o jovem tende a sentir mais fortemente os efeitos prazerosos da nicotina, enquanto ainda está desenvolvendo a capacidade de frear comportamentos prejudiciais. Por isso, a dependência pode surgir mais rapidamente, mesmo com um consumo aparentemente pequeno. Quando falamos dos dispositivos eletrônicos para fumar, esse risco pode ser ainda maior. A forma como a nicotina é administrada favorece uma instalação mais rápida do hábito e do reforço no cérebro, o que tem contribuído para quadros de dependência cada vez mais precoces entre adolescentes.

•        Muitos jovens relatam que fumam para “aliviar o estresse ou a ansiedade da rotina”. Como a neuropsicologia explica esse pensamento?

Algumas pessoas relatam uma sensação de relaxamento após fumar, mas esse efeito é temporário e faz parte do próprio mecanismo da dependência. A nicotina provoca um pico nos sistemas de recompensa do cérebro, com aumento da liberação de dopamina. Depois desse pico, o organismo tende a buscar novamente o equilíbrio, produzindo uma sensação de alívio ou calmaria. O problema é que esse efeito passa rapidamente. Com a queda dos níveis de nicotina, podem surgir irritação, inquietação, dificuldade de concentração e desconforto emocional. Ao fumar novamente, esses sintomas diminuem temporariamente, reforçando a ideia de que o cigarro “acalma”. Na prática, cria-se um ciclo em que a pessoa passa a precisar de doses cada vez mais frequentes para alcançar o mesmo efeito. É justamente esse reforço repetido que sustenta a dependência.

•        Não devemos aceitar a ideia de que o vício da nicotina não causa danos

Os argumentos a favor da proibição de cigarros são irrefutáveis em termos de saúde. Como afirmou Gro Harlem Brundtland, então diretora-geral da Organização Mundial da Saúde, em 2000: “o cigarro é o único produto de consumo que, quando usado conforme as instruções, mata o seu consumidor”. O tabagismo continua sendo a principal causa de morte evitável no mundo. Muitos países, incluindo o Reino Unido, adotaram medidas rigorosas para restringir e até mesmo proibir cigarros e outros produtos de tabaco. Nas últimas duas décadas, no entanto, produtos de nicotina sem tabaco, como cigarros eletrônicos e sachês de nicotina, que utilizam uma versão sintética do ingrediente viciante, explodiram em popularidade .

A regulamentação tem sido lenta. A nação de Palau incumbiu o comitê de especialistas da OMS em dependência de drogas de revisar a nicotina , o que levará a uma votação na ONU – provavelmente em 2028 – sobre sua proibição mundial. O caso depende, em parte, de decidir se o vício e a dependência em si – na ausência de outras consequências graves para a saúde – são prejudiciais. Certamente há argumentos a favor disso, e o tabagismo nos ensinou que, muitas vezes, é melhor eliminar hábitos altamente viciantes se as consequências puderem se tornar óbvias mais tarde. Mas também há motivos para cautela.

Os produtos com nicotina têm alguns benefícios. Ainda existem 1,2 bilhão de fumantes no mundo, e pessoas que trocam o cigarro eletrônico pelo vape têm o dobro de chances de parar de fumar, segundo uma recente revisão da Cochrane . O estudo de Palau inclui alguns dados que associam a nicotina a doenças cardiovasculares e outros problemas de saúde. Mas um relatório recente do Royal College of Physicians do Reino Unido concluiu que “as evidências atuais sugerem que a nicotina em si oferece pouco risco à saúde”.

No entanto, os órgãos reguladores não podem tomar decisões com base apenas na ciência atual. Lendo nas entrelinhas da petição de Palau, fica evidente a frustração com a forma como o mercado de produtos com nicotina surgiu rapidamente em uma zona cinzenta regulatória, visando especificamente as crianças. Um relatório da OMS constatou que as crianças têm, em média, nove vezes mais probabilidade de usar cigarros eletrônicos do que os adultos. Alguns cigarros eletrônicos contêm ingredientes nocivos, como metais pesados, e a nicotina comprovadamente prejudica o desenvolvimento cerebral dos adolescentes. Essa experiência é comum em todo o mundo. O Reino Unido não tinha legislação específica para cigarros eletrônicos até 2016: a lei anterior abrangia apenas o tabaco. É compreensível que os países não queiram continuar com esse jogo regulatório de "acertar a toupeira", avaliando separadamente cada novo produto altamente viciante somente depois que ele se consolida entre o público. Proibir a nicotina eliminaria esse problema pela raiz.

Existe um meio-termo. A proibição de fumar no Reino Unido, que entra em vigor no próximo ano, também restringirá a exibição e a publicidade de cigarros eletrônicos e permitirá restringir sabores atraentes para crianças. Os ministros deveriam ir além. A província canadense de Quebec proibiu totalmente os vapes aromatizados e limita a venda de sachês de nicotina a farmácias. Esse tipo de restrição deveria se aplicar a todas as formas de nicotina para evitar o surgimento de novas formas que burlem a regulamentação existente, ao mesmo tempo que permite o acesso limitado a fumantes que sofrem com o vício e a adultos que consentem.

A nicotina sintética – livre dos carcinógenos do tabaco – é um caso fascinante, aparentemente oferecendo dependência sem outros danos óbvios. Mas não há benefício claro em permitir que a nicotina se torne amplamente disponível, a ciência sobre o uso de nicotina pura ainda é limitada e produtos derivados, como cigarros eletrônicos, não são inócuos. Substâncias viciantes são, por definição, difíceis de controlar individualmente, razão pela qual os países podem precisar regulamentá-las.

 

Fonte: Correio Braziliense/The Guardian