quinta-feira, 6 de agosto de 2026

O neoliberalismo e o antineoliberalismo

Como caracterizar aos governos antineoliberais, como os do Brasil, do México, da Colômbia, da Venezuela, do Uruguai, de Honduras? O que eles têm em comum?

Esses governos atuam nas linhas de menor resistência dos governos neoliberais, atacam seus pontos mais significativamente mais frágeis. O neoliberalismo propõe uma politica de ajuste fiscal como forma de, ao mesmo tempo, combater a inflação, diminuir os gastos do Estado e abrir o mercado interno. Pretende que, com a contenção da inflação, o poder aquisitivo dos salários suba e se produza uma distribuição de renda. A redução dos gastos do Estado permitiria diminuir a carga tributária, enquanto a abertura da economia pressionaria os preços para baixo.

Todos os presidentes neoliberais tiveram uma lua de mel relativamente longa, conseguiram se eleger e se reeleger por conta do combate à inflação. Para isso foi necessária uma intensa campanha que promovesse o combate à inflação – e não as questões sociais – como a preocupação central das pessoas. A inflação sintetizaria todos os problemas da sociedade e faria do Estado o alvo a atacar, porque e’ o Estado quem emite dinheiro, quem inflaciona.

Tendo acumulado responsabilidades a cumprir, especialmente no campo dos direitos sociais durante o longo ciclo do desenvolvimento econômico contínuo, recaiam sobre o Estado os ônus desses gastos, quando a estagnação e a recessão econômica, além do pagamento da divida externa, multiplicada pela alta taxa de juros, diminuíam drasticamente a capacidade de arrecadação e a disponibilidade geral de recursos. Para fechar as contas, os governos inflacionam e desvalorizam continuamente tanto a moeda, quanto os salários.

O neoliberalismo chegou à América Latina pela via da promoção da inflação como tema central a combater e, como responsável dela, ao Estado. A tese do Estado mínimo é onde desemboca a tese da ingovernabilidade, que se refere ao desequilíbrio entre direitos acumulados e capacidade do Estado de responder por eles. Ao invés de promover mais produção, o neoliberalismo se propõe a cortar gastos estatais.

Esse diagnóstico se impôs como consenso a partir da campanha sistemática dos agentes do capital financeiro contra a inflação e contra o Estado, a qualquer preço. Cortar recursos do Estado representa cortar direitos, empregos, rebaixar a qualidade das políticas sociais de educação, de saúde, e de todas as demais.

Uma vez promovido o combate à inflação como objetivo prioritário, assumido pela opinião pública, forjada pelos meios de comunicação, todo o resto se justificaria, todos os esforços e sacrifícios valeriam a pena para equilibrar as contas publicas, como meio para conter a inflação e impor a estabilidade monetária.

Essa foi uma transformação de fundo das preocupações de construção da democracia e do enfrentamento dos problemas sociais para o combate à inflação, o que privilegia as ações governamentais de ajuste fiscal. Foi uma mudança de projeto hegemônico na sociedade, ancorada na mudança da opinião publica, com um novo tipo de consenso e de sentido comum.

A esquerda foi pega de surpresa, não encontrou resposta para o tema da inflação e da crise fiscal do Estado. Ainda mais que o argumento de que “a inflação e’ um imposto aos pobres”, que são os que não conseguem se defender da inflação, tem uma raiz profunda na realidade e na cabeça das pessoas.

Esses novos consensos deixaram a esquerda na defensiva. A iniciativa na nova agenda passou totalmente para as mãos da direita, que redefiniu termos até ali monopolizados pela esquerda, como o das reformas. Reformas passaram a significar nãos mais reformas democráticas das estruturas de poder tradicionais, como reforma agraria, reforma urbana, reforma tributária, entre outras, mas reformas de desmantelamento do Estado, na ótica dos ajustes fiscais. Que na verdade são contra-reformas.

A esquerda, de progressistas, passou a ser taxada de conservadora, defensora do Estado e das suas regulamentações, dos direitos sociais e dos gastos correspondentes, do fechamento do mercado interno à economia internacional.

Todas as determinações na contramão da globalização neoliberal, que aparecia como a via que iria desbloquear a expansão econômica. Aos olhos do senso comum, a esquerda passava a encarnar uma resistência ao progresso econômico, promovido pela globalização. A historia parecia retomar um processo de universalização das relações econômicas, diante da qual os Estados nacionais, os sindicatos e a própria política pareciam ser obstáculos a ser superados.

A diminuição do direito do Estado mediante as privatizações, o enfrentamento das politicas sociais e os gastos correspondentes, a diminuição dos servidores públicos, o afrouxamento das regulações estatais – tudo levou a uma redefinição das relações de poder na sociedade. Com o mercado assumindo a centralidade e, com ele, as grandes empresas nacionais e estrangeiras, enfraqueceram também a vida política, esvaziada das maiores definições sobre os grandes temas nacionais.

Assim, a mercantilização geral das relações sociais chegou à politica, em que o peso dos recursos econômicos foi fazendo com que os Congressos foram ocupados, e, grande parte, por lobbies, que representam diretamente os interesses das grandes corporações econômicas e de outros interesses privados.

De repente surgira governos sui generis, que pareciam impossíveis poucos anos antes. Governos eleitos como expressão das mobilizações de resistência aos governos neoliberais.

Os governos neoliberais combinaram políticas de elevação dos salários acima da inflação – que segue sendo o mecanismo mais eficiente e direto de distribuição de renda – com a criação de grande quantidade de empregos com carteira assinada, de politicas complementares para setores específicos. O Bolsa Família permaneceu como um símbolo dessas políticas.

¨      Proselitismo liberal. Por Alexandre Linares

Quando Deirdre Nansen McCloskey ocupa suas colunas na Folha de S. Paulo para debochar da luta pelo fim da exaustiva escala 6×1, ela não está fazendo uma análise econômica séria: está performando o velho e desgastado proselitismo liberal. Na sua coluna “A mágica semana de 5 dias” de 22 de julho de 2026, a postura fica evidente.

Autoproclamada defensora do mercado “livre”, a autora é professora da Universidade de Illinois em Chicago e ligada ao Cato Institute, um think tank ultra-fundamentalista e ultraliberal estadunidense financiado pelos irmãos Koch, magnatas conhecidos por bancar a negação da crise climática, o desmonte de direitos trabalhistas e a ascensão de falanges ultraliberais, reacionários e fascistas pelo mundo, como o MBL no Brasil e a experiência desastrosa de Javier Milei na Argentina. Aqui no Brasil, esse tipo de atitude grotesca é normalizado pelos proprietários da imprensa como a Folha de S. Paulo.

Para desqualificar o anseio vital da classe trabalhadora por descanso e vida digna, McCloskey recorre ao mais rasteiro dos sofismas: a reductio ad absurdum (redução ao absurdo). Compara a regulamentação do tempo de trabalho ao arredondamento matemático do número Pi para 3,0 ou à promulgação de uma lei que proíba a tristeza. Essa piada de mau gosto busca naturalizar a jornada exaustiva de seis dias como se ela fosse uma lei inviolável da física, e não uma construção histórica imposta pelo capital para extrair até a última gota de mais-valia de quem é obrigado a vender sua força de trabalho para viver.

A “Chicago girl“, replicando docilmente os dogmas formulados por Milton Friedman e pela escola que aparelhou as mais sangrentas ditaduras da América Latina, finge esquecer que o mesmo argumento mofado foi utilizado no século XIX contra a proibição do trabalho infantil, contra a proteção ao trabalho de mulheres grávidas e contra a jornada de 8 horas. Naquela época, os mesmos ideólogos alarmavam que proibir crianças de trabalhar em minas de carvão “quebraria a economia”. Se dependesse dessa trupe, a classe trabalhadora ainda estaria operando 16 horas diárias em troca de um prato de sopa.

Para embasar seu falacioso pânico econômico nas páginas da Folha de S. Paulo, a autora cita triunfante um artigo de Mariana Trujillo publicado na revista Reason Magazine, cujo subtítulo é “Free minds and free markets” (mentes livres e mercados livres). A jovem diretora da publicação fez parte da equipe de instituições como o banco de investimentos J.P. Morgan, o Mercatus Center e o próprio Cato Institute. O que a Folha não mostra é que a Reason é uma emblemática trincheira ultraliberal financiada por bilionários contra tudo e todos que se opunham a o único direito que consideram legítimos: o de explorar e lucrar.

A grande indústria do tabaco, por exemplo, passou décadas publicando “estudos” nessa esfera para negar a relação entre o cigarro e o câncer de pulmão, e esses mesmos atores se tornaram combatentes contra qualquer política de proteção ambiental. É essa a “ciência” que os ultraliberais (também chamados de libertarianos) e os proprietários da Folha de S. Paulo vendem ao público: a manipulação paga por bilionários para proteger a exploração e as margens de lucro às custas das condições de vida de quem vive do trabalho.

<><> O grito do povo e o medo dos exploradores

Ao contrário do contorcionismo retórico dos ideólogos de gabinete do libertarianismo, os dados reais desmistificam a propaganda patronal.

Levantamentos do instituto AtlasIntel e pesquisas de opinião pública revelam que mais de 73% da população brasileira é amplamente favorável ao fim da escala 6×1 e à redução da jornada sem diminuição salarial. A petição promovida e organizada pelo Movimento VAT (Vida Além do Trabalho) já ultrapassa 3 milhões de assinaturas, evidenciando um grito represado da sociedade.

Estudos do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (CESIT/Unicamp) demonstraram que a redução da jornada tem um impacto residual e perfeitamente absorvível pelos custos empresariais (menos de 2,5% do custo operacional médio). Esse pequeno ajuste é rapidamente compensado pelo ganho de produtividade, pela redução drástica do absenteísmo, pela diminuição do burnout e dos acidentes de trabalho, além do aquecimento do mercado interno pelo consumo das famílias no tempo livre.

A essência do debate não é uma “mágica legal”, mas a luta de classes tal como ela é. Em todo o mundo, a luta da maioria que vive do próprio trabalho resume-se a disputar a valorização e a propriedade do seu tempo de vida. Enquanto a produtividade global aumentou exponencialmente nas últimas décadas graças à acentuação da exploração com o uso da tecnologia e do avanço técnico, a riqueza gerada ficou concentrada no topo da pirâmide, enquanto quem produz padece sob jornadas massacrantes.

O resultado do dogma neoliberal professado por Deirdre McCloskey está visível na Argentina de Javier Milei, incensado pela mesma corja libertária. Não há nenhuma racionalidade sob sua condução: é a vontade de executar sem medo um programa antissocial de cortes. Sob a receita desta figura degradante, o país vizinho viu a pobreza ultrapassar 50%, com pessoas buscando comida no lixo e famílias de classe média comprando carne de burro para se alimentar.

Isso tudo enquanto porta-vozes desta mesma escola de pensamento de Deirdre McCloskey e Javier Milei chegam ao absurdo de defender o livre comércio de órgãos humanos (algo que alguns liberais já começam a defender na imprensa brasileira). O próximo passo dessa turma será defender o direito de pais venderem filhos para exploradores de crianças ou de pessoas venderem partes de si para canibais. É a barbárie social maquiada de “liberdade econômica”.

Dizer que “os brasileiros só conseguirão mais se produzirem mais” é uma das mentiras patronais mais cínicas. O trabalhador brasileiro já produz muito e ganha pouco, enquanto a vida se esvai no transporte público e na escala 6×1.

Reduzir a jornada sem corte de salários não é mágica parlamentar: é reparação histórica, distribuição de renda e humanização da vida. Os propagandistas do mercado podem ser pagos em dólares por grandes fundações capitalistas para mentir e grunhir contra os direitos sociais, mas a história continuará sendo movida pela força daqueles que produzem toda a riqueza do mundo.

¨      O que se entende mesmo por crise? Por Leonardo Boff

Atualmente parece estar tudo em crise: a ordem do capital, a economia, a política, as ciências, as éticas, os valores, as religiões e, entre nós, no Brasil até o futebol. Numa palavra, temos a ver com uma crise de civilização, vale dizer, da nossa forma de estar no mundo, como organizamos a sociedade e estabelecemos os valores e leis que nos regem. Não há campo livre, especialmente concernente ao futuro.

Ela pode representar uma tragédia cujo desfecho pode ser destrutivo, como no teatro grego ou um drama cujo termo pode ser bem-aventurado como na liturgia cristã que celebra a páscoa da ressurreição depois da sexta-feira santa da paixão.

A humanidade está posta diante desta decisão: ou continuar como está e poderemos ir ao encontro de uma tragédia civilizatória ou abrir um novo caminho, marcado, certamente, por um drama, mas que promete um futuro melhor.

A Carta da Terra, um dos principais documentos da ONU pensando o futuro do planeta Terra afirma: “As bases da segurança global estão ameaçadas; essas tendências são perigosas, mas não inevitáveis. A escolha é nossa: ou formar uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros ou arriscar a nossa destruição e a destruição da diversidade da vida” (preâmbulo). Eis com que crise radical somos confrontados.

Expliquemos primeiramente o que entendemos por crise. A maioria recorre ao ideograma chinês de crise: como risco e como oportunidade, o que julgo iluminador. Mas prefiro a rica significação de crise em sânscrito, por ser a matriz de nossa língua e por possuir ressonâncias em outras palavras derivadas daí.

Em sânscrito, crise vem de kir ou kri que significa purificar e limpar. De kri vem crisol, o cadinho para depurar o ouro das gangas. Acrisolar, na linguagem elegante, quer dizer também decantar. Uma doença grave produz uma crise profunda no enfermo. Ao sair da crise, reavalia o sentido da vida e resgata o valor das coisas mais cotidianas. Então, a crise significa um processo crítico, de depuração de tudo o que não é essencial. O acidental permanece acidental.

Abordemos a natureza da crise. Quem primeiro aprofundou a associação entre crise e angústia foi Sören Kierkegaard, considerado um dos fundadores do existencialismo. Era filósofo e teólogo. Escreveu um ensaio o título “A crise e uma crise na vida de uma atriz”. Para ele a vida é entendida como processo permanente de angústias e crises e de superação de angústias e de crises.

Outro pensador fundamental da crise foi o filósofo espanhol Ortega y Gasset (1883-1955), conhecido como o autor da frase “eu sou eu e minha circunstância”. Escreveu um ensaio de 1942, mais tarde publicado como Ao redor de Galileo Galilei: esquemas das crises históricas. Mostrou que a história, por causa de suas rupturas e retomadas, possui a estrutura da crise.

Esta obedece, segundo o Ortega y Gasset, à seguinte lógica:

(i)          a ordem dominante deixa de realizar um sentido evidente;

(ii)         anuncia-se a percepção de que um muro se levanta à nossa frente, por isso reinam dúvida, ceticismo e uma crítica generalizada;

(iii)        urge uma decisão que cria novas certezas e um outro sentido; mas como decidir se não se vê claro? mas sem decisão não haverá saída para a crise;

(iv)        tomada a decisão, mesmo sob risco, então abre-se, novo caminho e outro espaço para a liberdade. Superou-se a crise. Nova ordem pode começar.

Ela se traduzirá por um curso diferente das coisas. Depois, seguindo a lógica da crise, esta ordem também entrará em crise. E permitirá, após processo crítico de acrisolamento e purificação, a emergência de nova ordem. E assim sucessivamente se estrutura a história humana.

A crise possui também uma dimensão pessoal, especialmente, a grande crise representada pela morte. Ela revela também uma dimensão cósmica que é o fim do universo. Este, creio eu, não acaba na morte térmica e no completo vazio, mas numa explosão e implosão para dentro da suprema realidade.

Entretanto, todo processo de purificação não se faz sem cortes e rupturas. Daí a necessidade da de-cisão. A de-cisão opera uma cisão com o anterior e inaugura o novo. Assim resgatemos o sentido grego de crise.

Em grego krísis, crise, significa o processo de decisão tomada por um juiz ou um médico. O juiz pesa e sopesa os argumentos prós e os contra e o médico conjuga os vários sintomas da doença. À base deste processo ambos tomam suas decisões pelo tipo de sentença a ser proferida ou pelo tipo de doença a ser tratada. Esse processo decisório é chamado “crise”. Encontrada a solução, a crise desaparece.

O evangelho de São João usa 30 vezes a palavra crise no sentido de decisão que a maioria dos tradutores, insensíveis às riquezas da palavra original krísis, traduzem por juízo. O fato real é que Jesus compareceu como “a crise do mundo” (krisis tou cósmou), pois obrigava as pessoas a se decidirem em favor ou contra sua mensagem e pessoa.

O Brasil vive, há séculos, protelando suas crises porque as lideranças não possuem a ousadia histórica de tomar decisões que cortassem com o passado perverso. Sempre se fizeram e se fazem conciliações negociadas a pretexto da governabilidade. Desta forma sutilmente se preservam os privilégios das elites do atraso e novamente as grandes maiorias são condenadas continuar na sua miséria ou na marginalidade.

A crise do capitalismo é notória. Como mostrou Carl Polanyi em sua obra A grande transformação, de uma sociedade com mercado se passou para uma sociedade de mercado. Tudo é feito mercadoria (até órgãos humanos), coisa que Karl Marx em 1847 o previu e chamou de “o tempo da corrupção geral e da venalidade universal” em A miséria da filosofia. Hoje predomina o capital especulativo que não produz sequer um prego, apenas dinheiro e mais dinheiro. Seguramente terminará numa crise fenomenal afetando cruelmente milhões de pobres.

Bem disse Platão em meio à crise da cultura grega: “as coisas grandes só acontecem no caos, na krisis”. Com a de-cisão, o caos e a crise desaparecerão e pode nascer a nova ordem. Assim terminava Martin Heidegger, feito nazista por um tempo, sua preleção inaugural como reitor da universidade de Friburgo, na Alemanha.

Oxalá desta crise planetária, surja um novo ensaio civilizatório que, esperamos, seja mais integrador, mais humanitário, mais espiritual e mais cuidadoso.

Caso contrário…

 

Fonte: Por Emir Sader, em A Terra é Redonda

 

A dois meses da eleição, Brasil enfrenta crises diplomáticas inéditas com EUA e Argentina

A dois meses das eleições presidenciais, o Brasil enfrenta um momento sem precedentes nas relações internacionais, com conflitos diplomáticos abertos com dois de seus mais tradicionais parceiros: Argentina e Estados Unidos.

No mesmo dia em que o governo brasileiro decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com Buenos Aires, os EUA revogaram o visto da embaixadora do Brasil em Washington, em mais sinais do desgaste nas relações entre os países.

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil classificaram o momento como inédito, tanto pela gravidade dos últimos acontecimentos, como pela simultaneidade dos fatos.

Na terça-feira (05/08), após repetidos ataques do presidente Javier Milei a Luiz Inácio Lula da Silva (PT), o Itamaraty informou ao embaixador argetino, Guillermo Daniel Raimondi, que agora o governo fará tratativas apenas com o encarregado de negócios argentino em Brasília.

Segundo diplomatas, com o rebaixamento, Raimondi não deve continuar no Brasil, mas a decisão brasileira não representa uma expulsão formal.

Também na terça, o governo de Donald Trump revogou o visto da embaixadora do Brasil em Washington, Maria Luiza Ribeiro Viotti. Com isso, a diplomata terá que solicitar um novo visto para entrar no país, caso saia dos EUA.

O ato, segundo apurou a BBC, foi em resposta à demora do governo brasileiro em autorizar o nome indicado pela Casa Branca para chefiar a embaixada americana em Brasília, Daniel Perez. No rito diplomático, essa autorização é a concessão de um agrément.

Fontes ouvidas pela reportagem afirmam que o governo brasileiro não tinha a intenção de bloquear a indicação de Perez. Contudo, os Estados Unidos anunciaram o nome do embaixador antes de solicitar formalmente o agrément ao Brasil, contrariando a praxe diplomática.

Segundo uma fonte do governo americano ouvida pela BBC News Brasil, a gestão do republicano ainda avalia novas medidas diplomáticas caso o governo brasileiro não autorize a nomeação do novo embaixador americano.

Rubens Barbosa, diplomata aposentado e ex-embaixador em Londres e Washington, afirma que o Brasil jamais enfrentou uma crise diplomática com os Estados Unidos como a atual ao longo do período republicano.

Da mesma maneira, diz, apesar de muitos momentos de tensão e desencontro ao longo dos anos, a relação diplomática entre Brasília e Buenos Aires nunca havia sido rebaixada desta maneira, pelo menos nas últimas décadas.

"Partidarismos e ideologia estáo tendo um papel muito importante em ambas as crises, e isso não deveria acontecer. A diplomacia existe para resolver questões pontuais, não agravar a crise", avalia.

Para Felipe Krause, professor da Universidade de Oxford e coordenador do Programa de Estudos Brasileiros mantido pela instituição acadêmica britânica, o atual momento também é sintoma da aliança de líderes conservadores na América do Sul ao redor de Donald Trump.

"É um momento gravíssimo para as relações internacionais do Brasil com EUA e Argentina, e um momento muito grave, infelizmente, para as relações internacionais na nossa região, nas Américas", diz.

O analista aponta também para a crescente internacionalização das eleições brasileiras, com mais declarações de líderes estrangeiros e atenção no exterior.

"A internacionalização das eleições e a crescente importância das relações internacionais e da política externa para o processo eleitoral brasileiro são bastante inéditos", afirma.

Andreza Aruska de Souza Santos, diretora do Instituto Brasil da universidade King's College London, argumenta ainda que as atuais crises, embora inéditas até pela sua simultaneidade, não chegam a ser uma surpresa.

"E o Brasil já vem diversificando ou tentando as suas relações e parcerias internacionais. A extrema direita está mais organizada mundialmente, resta saber como governos progressistas vão se apoiar, as respostas não tem sido tão coordenadas como tem sido a aliança da extrema direita internacional", afirma.

<><> 'Pior momento entre Brasil e Argentina desde os anos 70'

A crise atual entre Brasil e Argentina foi impulsionada por comentários feitos por Milei durante o evento de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência da República em São Paulo no mês passado.

Na ocasião, o presidente argentino criticou Lula e suas políticas sociais e chamou o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes de "lixo careca".

O magistrado havia negado um pedido de Milei para visita a Jair Bolsonaro (PL), que está em prisão domiciliar.

Logo após as declarações, o Ministério das Relações Exteriores convocou o embaixador da Argentina no Brasil, Daniel Raimondi, para "transmitir a repulsa" do governo brasileiro.

O embaixador do Brasil em Buenos Aires, Julio Bitelli, também foi chamado para prestar esclarecimentos ao Itamaraty sobre a relação entre os dois países.

A convocação de um embaixador estrangeiro para uma conversa com o chanceler é uma medida séria nas relações internacionais e uma demonstração de desagrado com a outra nação.

E chamar um embaixador brasileiro que está em missão no exterior para consultas, como fez o Itamaraty, também demonstra, na linguagem diplomática, enorme descontentamento com o país anfitrião.

Na semana seguinte, porém, Milei voltou a fazer duras críticas a Lula, chamando o brasileiro de "ladrão" e "corrupto" durante um programa de televisão argentino no domingo (02/08).

"Ele foi solto [da prisão] devido a um erro processual. Ele não é inocente", disse Milei, em referência à condenação de Lula na operação Lava Jato, que foi anulada em 2021.

O presidente argentino defendeu suas declarações anteriores sobre Lula e disse que foram dadas de forma espontânea. "Eles falam sobre interferência política na região. Se alguém está interferindo politicamente na região, é Lula, contaminando tudo com as ideias imundas do socialismo."

A resposta brasileira veio nesta terça, com o rebaixamento das relações. Segundo o jornal Folha de S.Paulo, Raimondi teria sido convocado ao Itamaraty, onde recebeu a informação de que poderia voltar para casa.

Já o jornal argentino Clarín reportou que Bitelli, que está em Brasília desde 26 de julho, não voltaria a Buenos Aires, pois o governo decidiu manter apenas um encarregado de negócios enquanto persistirem os ataques de Milei.

Para Felipe Krause, o atual momento pode ser classificado como "o pior ponto das relações entre Brasil e Argentina desde o final dos anos 70".

"É um momento gravíssimo", diz. "Mas é positivo que o lado argentino tenha decidido não fazer uma retaliação e tenha mantido o embaixador em Brasília para tentar normalizar as coisas."

<><> Uma medida 'agressiva' dos EUA

O desgaste entre os governos de Donald Trump e Luiz Inácio Lula da Silva começou ainda no início do mandato do presidente americano, em janeiro de 2025.

As diferenças ideológicas entre os dois líderes, somadas à proximidade de Trump com o ex-presidente Jair Bolsonaro, criaram um ambiente de crescente tensão diplomática. Desde então, sucessivos episódios de atrito contribuíram para aprofundar a crise entre Brasília e Washington.

O mais recente, porém, é visto por especialistas como inédito e um precedente perigoso.

"Nunca houve isso [a revogação do visto da embaixadora] na história do Brasil na relação com os Estados Unidos", disse o ex-embaixador Rubens Barbosa à BBC Brasil.

A revogação do visto da embaixadora brasileira Maria Luiza Ribeiro Viotti segue uma troca de acusações entre os dois países em torno da aprovação do novo chefe da embaixada dos EUA em Brasília.

Daniel Perez foi indicado por Trump para o posto em 1º de junho, mas ainda não teve seu nome aprovado pelo governo brasileiro.

Diante de relatos não confirmados publicados pela imprensa brasileira de que a avaliação da indicação seria deixada para depois das eleições presidenciais de outubro, o governo americano reagiu e acusou o Brasil de tentar interferir em processos internos.

Em nota, o governo brasileiro repudiou a decisão dos EUA e afirmou que as justificativas apresentadas pelo Departamento de Estado são falsas.

O Itamaraty disse que Washington rompeu a praxe diplomática ao anunciar o indicado para a embaixada em Brasília antes de solicitar formalmente o agrément e afirmou que não há prazo definido para a concessão da autorização.

O governo também acusou os EUA de adotar medidas hostis contra o Brasil e de tentar interferir nas eleições do país.

"A decisão de hoje não é um fato isolado. Faz parte de uma escalada deliberada de medidas hostis ao Brasil, motivadas por razões ideológicas incompatíveis com uma parceria bilateral que sempre foi pautada pelo respeito mútuo. Fica óbvio também o interesse descabido de interferir na próxima eleição para presidente", diz um trecho da nota.

Além de adiar a aprovação de Perez, o Itamaraty recusou, no mês passado, pedidos de visto de Riley Barnes e Samuel Samson, funcionários do Departamento de Estado dos Estados Unidos, após o jornal The Washington Post ter publicado uma reportagem afirmando que a visita ao Brasil poderia ser utilizada para levantar suspeitas sobre a confiabilidade do sistema eleitoral brasileiro.

Barnes e Samson visitariam Brasília de 27 a 30 de julho para se reunirem com autoridades governamentais, líderes religiosos e representantes da sociedade civil para discutir a integridade eleitoral, a liberdade religiosa e a liberdade de expressão.

Para Rubens Barbosa, foi um problema o governo americano ter ignorado o rito normal da diplomacia e ter anunciado seu novo embaixador para o Brasil sem antes ter solicitado o agrément ao governo brasileiro.

"Na praxe diplomática, a forma é importante. A primeira coisa que têm que fazer é pedir o agrément", destaca.

"E o agrément demora uns 30 dias. Então, é uma forçação um pouco de barra para antecipar a chegada do embaixador aqui", continuou.

Mas segundo o diplomata, a ação americana é resultado de meses de troca de farpas e acusações mútuas, não apenas de um conflito em torno da nomeação de oficiais em missões no exterior.

"Houve uma evolução gradual da crise político-diplomática", disse, citando acusações feitas por Trump contra Lula e um artigo do presidente brasileiro publicado no jornal americano Washington Post no final de julho.

Felipe Krause, professor em Oxford, classifica ainda a medida americana recente contra o Brasil como "agressiva", mas ao mesmo tempo "bizarra".

"O movimento de expulsar um diplomata é considerado muito grave, mas é algo já conhecido", diz.

"Agora revogar o visto, apesar de menos grave, é algo bem estranho", aponta. "Parece que eles tentaram buscar um meio-termo para mandar uma mensagem [para o Brasil]."

"De toda forma, é uma medida muito agressiva."

<><> O futuro das relações

Mas o que esperar a partir de agora?

Para Rubens Barbosa, as relações tanto com os EUA quanto com a Argentina devem se normalizar após as eleições de outubro, pois existem muitos interesses econômicos e financeiros em jogo que precisam ser levados em conta.

"Isso vai continuar até a eleição e depois os países vão ter que se ajustar ao novo governo, seja qual for", diz o diplomata.

E quando se trata do governo argentino, diz Barbosa, é preciso relevar algumas das declarações e posturas de Javier Milei, que é conhecido por seu comportamento errático.

"Ele tem um estilo meio desvairado, não tem o que fazer", diz o ex-embaixador. "O Brasil precisa colocar isso em perspectiva, sem dramatizar."

Já Felipe Krauser aposta mais na normalização das relações com a Argentina do que com os Estados Unidos.

Segundo o especialista, Buenos Aires tem muito a perder se afastando do Brasil, especialmente considerando os laçõs comerciais históricos e a ligação por meio do Mercosul.

"Brasil e Argentina tem um relacionamento histórico e econômico muito importante, comparitlham uma fronteira, participam do Mercosul e de diversos outros mecanismos regionais bilaterais importantíssimos", aponta. "A relação tende a melhorar e os argentinos já estão demonstrando interesse."

Por outro lado, argumenta Krauser, o governo Trump "tem menos a perder".

"Claro que existe investimento americano pesado no Brasil e interesses financeiros e econômicos em jogo que fazem pressão para manter a relação, mas eles têm menos a perder e estão jogando pesado agora em busca de mais uma vitória na América Latina com a eleição de mais um governo pró-Trump na nossa região."

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Qual será o peso da religião nas eleições presidenciais de 2026?

A presença da religião em eleições presidenciais não é algo novo na política brasileira. Ao menos desde 1989, a primeira eleição direta para presidente após 21 anos de ditadura civil-militar, candidatos e lideranças religiosas utilizam argumentos baseados na fé cristã para convencer o eleitorado. O evento mais simbólico daquele ano ocorreu no dia 15 de novembro. Do centro do gramado do estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, diante de um público de cerca de 200 mil fiéis, o fundador da Igreja Universal, Edir Macedo, profetizou a vitória de Collor e demonizou Lula.

Jornais da época afirmam que Macedo e Collor conversaram dias antes da eleição em um encontro no Hotel Caesar Park, em Ipanema. O líder da Universal se ofereceu para rezar uma “missa evangélica” da vitória, caso Collor ganhasse. A celebração jamais foi realizada. Receoso diante do impacto social e político que provocaria, o candidato do PRN não permitiu o evento. É bom lembrar que, no início dos anos 90, o eleitorado evangélico somava apenas 10%.

Quatro anos depois, em 1994, o trágico fim do governo Collor traria dor de cabeça à Igreja Universal. Para se desfazer do legado negativo do ex-presidente, Macedo acionou o bispo Rodrigues, seu homem de confiança. Rodrigues então passou a declarar que os evangélicos haviam sido traídos por Collor. Não tardou, e a igreja reiniciou os ataques a Lula, em uma clara demonstração de apoio a Fernando Henrique Cardoso, eleito no primeiro turno. Já na disputa seguinte, em 1998, a Universal e o meio evangélico mantiveram relativa neutralidade na disputa presidencial. Os esforços foram centrados na ampliação das bancadas parlamentares. Ainda assim, nas páginas da Folha Universal foram publicadas críticas ao governo FHC e, pela primeira vez, elogios a Lula, oferecendo sinais de uma aproximação que aconteceria em 2002.

Porém, no primeiro turno de 2002, a Universal optou pelo presbiteriano Antony Garotinho, do PSB. Do lado petista, Lula argumentava em favor da aliança com a igreja de Macedo como um modo de ultrapassar as fronteiras da esquerda. No entanto, houve resistências internas do partido e de aliados da Igreja Católica, que viam com ressalvas a aproximação do PT com a Universal. Naquele segundo turno, o meio evangélico ficou dividido: enquanto a Universal apoiou Lula, a Assembleia de Deus e a Igreja do Evangelho Quadrangular preferiram José Serra. Com a vitória do petista no segundo turno, 2002 ficou marcado como o início de uma aliança do PT com setores evangélicos que se repetiria em 2006 e seguiria até março de 2016. Às vésperas do impeachment, o PRB, partido da Universal, desembarcou do governo Dilma e, até o momento, não retornou ao polo petista.

<><> O paradigma de 2010

Ainda que as eleições anteriormente tenham assistido à presença de temas e atores religiosos, o ano de 2010 foi paradigmático. Alguns analistas atribuem, erroneamente, a Jair Bolsonaro, em 2018, a entrada maciça da temática religiosa em eleições presidenciais. Porém, o fato é mais antigo. Foi pelas mãos de José Serra, do PSDB, que o assunto se tornou, pela primeira vez, agenda eleitoral e ocupou um lugar de destaque nos debates e nos discursos dos presidenciáveis. Para compreender as razões de tal feito, é preciso lembrar a conjuntura da época. O segundo mandato de Lula batia recordes de aprovação, cerca de 80% da população considerava o seu governo ótimo ou bom. Em um contexto de alta popularidade, era uma tarefa difícil para Serra antagonizar com a candidata governista Dilma Rousseff. Até mesmo as propagandas eleitorais do tucano buscavam associar a imagem dele à de Lula como o mais indicado para dar continuidade às políticas sociais do chamado “lulismo”.

Porém, a saída encontrada por Serra para se diferenciar de Dilma foi pela via religiosa. Valendo-se da publicação, no final de 2009, da terceira edição do Programa Nacional de Direitos Humanos, o PNDH-3, o tucano se utilizou das controvérsias acerca do aborto levantadas por líderes evangélicos e de declarações polêmicas de Dilma para antagonizar com sua rival. O documento mencionava o aborto como questão de saúde pública e direito das mulheres à gestão de seus corpos. Assim, o tema se tornou o principal assunto eleitoral. Pela primeira vez na história da Nova República o centro das discussões dos candidatos à Presidência não foi a redistribuição de renda, a inflação ou as políticas de segurança, de educação e de cultura. Em vez disso, a agenda eleitoral gravitou em torno da crença e dos predicados religiosos dos presidenciáveis, do apoio ou da condenação ao aborto.

O que se viu em seguida foi uma onda de usos políticos da religião, e vice-versa. Enquanto Serra assumiu uma postura combativa, direcionando ataques a Dilma e Marina, as duas candidatas buscavam se defender. Dilma temia perder votos por posicionamentos do passado; já Marina tentava se desvencilhar da pecha de evangélica e do teto eleitoral que esse rótulo trazia. A religião dominou o debate nas eleições de 2010. Desde então, se tornou um tema de interesse das campanhas e dos analistas políticos. Os institutos de pesquisa, que até aquele ano perguntavam apenas ocasionalmente a religião dos entrevistados, passaram a incluir a pergunta de modo obrigatório em seus questionários, possibilitando o estudo mais sistematizado da relação entre religião e voto.

<><> Em 2026, como fica?

Não cabe aos sociólogos e cientistas políticos fazerem exercícios de futurologia. Contudo, é possível aprender com o passado e compreender padrões de comportamento, incluindo o comportamento eleitoral e as estratégias de campanha. Ao analisar as eleições anteriores, observa-se que o tema da religião surgiu como uma maneira de Serra se opor a um governo bem avaliado. Ora, se não há grandes questões nacionais a serem debatidas, se a população está contente com os rumos do país e do governo, não existe margem para as candidaturas de oposição se apresentarem como uma alternativa eleitoral viável. Esse é o primeiro ensinamento: para germinarem temas religiosos em eleições presidenciais, é preciso que o terreno esteja propício e que o governo que disputa a reeleição seja bem avaliado pela maioria da população. Assim, uma das saídas para a oposição é usar a religião como retórica eleitoral.

Isso não quer dizer que os temas religiosos não existam em outras conjunturas eleitorais, mas sim que eles “pegam menos”. Em 2014, o volume dos usos religiosos nas campanhas foi menor em comparação a 2010 devido à avaliação intermediária do governo Dilma, pouco abaixo de 40% de ótimo e bom. Assim, o centro do debate não girou em torno da religião, como em 2010. O mote do debate naquele ano foi a corrupção. Assim, não era necessário que a oposição recorresse à religião como a única tábua de salvação.

Já em 2018, outro momento de intenso uso religioso nas campanhas, o descontentamento generalizado da população com o governo Michel Temer, considerado ruim ou péssimo por cerca de 80% dos eleitores, inviabilizou o candidato governista Henrique Meirelles (MDB). Isso colaborou para que os dois polos daquela conjuntura fossem Bolsonaro e o PT, na figura de Fernando Haddad, dada a prisão de Lula. Desse modo, a segunda lição que podemos aprender é que governos muito mal avaliados também oferecem um solo fértil para que assuntos religiosos germinem. Ainda que haja divergências quanto às soluções, os problemas já estão postos. Além disso, o sucesso do segundo mandato de Lula impôs uma agenda de políticas de longo prazo, incluindo o Bolsa Família e os programas de acesso estudantil e demais políticas redistributivas. Dificilmente um candidato se opõe a tais políticas de forte apelo social. Os debates giram em torno da expansão, da destinação de recursos e da nomenclatura dos programas, sem grandes desavenças a respeito da implementação, ou não, dessas políticas sociais.

Portanto, os dois extremos – avaliação positiva próxima a 80% ou avaliação negativa próxima a 80% do eleitorado – indicam momentos propícios à maior presença da religião em eleições presidenciais por meio de discursos, manifestações de apoio de religiosos e circulação social desses assuntos. Também é preciso mencionar que a centro-direita, desde 2010, aprendeu que a religião tem o poder de ativar parte do eleitorado fiel ao lulismo, um tema que merece outro momento para discussão. Em suma, a resposta para a questão posta no título deste texto – “Qual será o peso da religião nas eleições de 2026?” – é: depende. Depende da conjuntura de aprovação ou desaprovação do governo Lula. Caso a popularidade fique em torno de 50%, como está nos levantamentos atuais, a tendência é que ela “pegue menos”, não sendo a “pedra de toque” eleitoral em 2026. Nesse caso, resta saber qual tema ocupará a posição de agenda eleitoral em seu lugar.

 

Fonte: Por Alexandre Landim, no Le Monde

 

Brasil "definha" em saúde mental e recorre à IA para tratamento, diz estudo

Um estudo internacional revelou que brasileiros estão com a saúde mental cada vez pior e, agora, recorrendo à inteligência artificial como alternativa de tratamento.

O resultado aparece no Mind Health Report 2026, uma pesquisa anual da seguradora AXA que mapeia o estado da saúde mental e do bem-estar psicológico globalmente. O Brasil foi incluído em um cenário complexo inédito: ao mesmo tempo em que a população demonstra grande abertura para inovações tecnológicas no autocuidado, reflete índices severos de esgotamento profissional e vulnerabilidade emocional. 

O coração do estudo é o Mind Health Index (MHI), uma métrica da empresa que varia de 0 a 100 e divide a população em quatro níveis emocionais: flourishing (saúde mental positiva), getting by (mantendo equilíbrio), languishing (desanimado) e struggling (sofrimento psicológico).

  • Saúde mental positiva: Acima de 74 pontos
  • Mantendo equilíbrio: Entre 61 e 74 pontos
  • Desanimado: Entre 46 e 61 pontos
  • Sofrimento psicológico: Abaixo de 46 pontos

Enquanto a média global do índice ficou em 61,8 pontos, indicando bem-estar, o Brasil registrou 59,8 pontos. Essa pontuação coloca o país na categoria “definhando emocionalmente”, que significa que as pessoas não estão vivendo em sua capacidade máxima.

Segundo o estudo, pessoas que estão nesse estado têm um risco maior de desenvolver doenças mentais. Com isso, o país ficou atrás de países como Tailândia (66,5), México (63,5) e Estados Unidos (63,0), mas superando o Reino Unido (59,5), Coreia do Sul (58,5) e Japão (58,1).

Apenas 19% dos entrevistados brasileiros se encontram no estado ideal, empatados com a parcela que está na situação mais crítica (19%). A maior parte dos brasileiros está dividida entre os que estão apenas mantendo equilíbrio (30%) ou já sofrendo com a falta de vitalidade (32%).

O relatório também revela que 80% dos entrevistados afirmam que sua saúde mental é negativamente afetada por múltiplos fatores. Entre os principais apontados estão instabilidade financeira e insegurança no emprego (56%) e a incerteza sobre o futuro em um mundo em rápida transformação (56%).

<><> Barreiras e IA

Outro dado que chama atenção é que 40% dos brasileiros autoafirmam sofrer atualmente de alguma condição de saúde mental, sendo os mais prevalentes os distúrbios de ansiedade, fobias ou TEPT (23%), e a depressão (16%). Porém, apenas 27% possuem um diagnóstico médico formal.

Quando questionados sobre os motivos para não buscarem ajuda de profissionais de saúde, o bolso pesa mais e é apontado como o principal entrave por conta do custo das consultas médicas e tratamentos (39%). Em segundo lugar aparece o acesso limitado a profissionais da saúde (23%), seguido por restrições de tempo e rotina de trabalho (18%).

Como resposta, muitos brasileiros têm buscado suporte psicológico por meio de novas tecnologias. O país é um dos líderes globais no uso de IA para a saúde mental. Nada menos que 70% dos brasileiros declaram já utilizar ferramentas de inteligência artificial para gerenciar questões psicossociais, um índice significativamente superior à média mundial, de 63%.

O país fica atrás de mercados como China (88%) e Turquia (83%), mas supera amplamente nações como Estados Unidos (48%), França (47%) e Japão (44%).

De acordo com o relatório, cerca de 27% da população brasileira utiliza alguma ferramenta de IA regularmente para múltiplas tarefas de saúde mental: busca de informações, orientação de comunicação ou até mesmo como um confidente virtual. No entanto, há um alerta: 40% dos usuários brasileiros de inteligência artificial confiam mais nas plataformas tecnológicas do que em profissionais para receber conselhos.

Para Alexandre Campos, vice-presidente da AXA no Brasil, a saúde mental passou a fazer parte das principais discussões sobre qualidade de vida e desenvolvimento econômico. "O Mind Health Report nasce justamente desse compromisso de antecipar tendências, compreender os riscos emergentes e transformar esse conhecimento em soluções concretas de prevenção, cuidado e proteção para clientes, empresas e sociedade", afirmou.

<><> Saúde mental e o trabalho

O estudo aponta um paradoxo entre a necessidade de apoio e o receio de exposição. Entre a população economicamente ativa, 59% relatam ter enfrentado estresse de moderado a severo na vida profissional nos últimos 12 meses (com 36% classificando o estresse em níveis máximos, de 8 a 10).

Esse estresse gerou impactos práticos na rotina de 77% dos trabalhadores, manifestando-se em irritabilidade e mudanças de humor (32%), sintomas físicos como dores de cabeça (29%) e insônia (28%).

Diante de desafios psicológicos, 46% dos profissionais brasileiros afirmaram que não discutiriam seus problemas de saúde mental no ambiente corporativo. Embora o índice seja melhor que a média global de silêncio (48%), os motivos para se calar são profundos: 40% consideram a saúde um assunto estritamente privado e 16% temem repercussões diretas na carreira ou na segurança do emprego.

Apesar do alto nível de respondentes que afirmam que não trazem o tema para o horário comercial, 88% dos trabalhadores brasileiros afirmam que participariam de programas de saúde mental se oferecidos pelos empregadores (84% é a média global), embora 42% das empresas no Brasil não oferecem nenhuma política de bem-estar.

<><> Metodologia

Os resultados do Mind Health Report 2026 são fruto da participação de 19 mil pessoas em 18 países (sendo 1.000 entrevistas no Brasil), com amostras representativas da população adulta na faixa etária de 18 a 75 anos. As entrevistas foram realizadas no início deste ano por meio de método de cotas (gênero, idade, ocupação e região) e ponderações estatísticas para refletir com precisão o perfil demográfico de cada nação.

Desde 2020, o levantamento é uma importante ferramenta para a compreensão das dinâmicas emocionais modernas para auxílio a empresas, governos e indivíduos na criação de soluções de suporte mais eficazes.

¨      IA x saúde mental: algoritmos dificultam a desconexão digital?

A internet ultrapassou a marca de 6 bilhões de usuários em todo o mundo, enquanto as redes sociais já reúnem cerca de 5,8 bilhões de perfis ativos. O avanço da conectividade ocorre em paralelo à expansão de sistemas cada vez mais baseados em algoritmos e inteligência artificial, que organizam conteúdos, personalizam experiências e influenciam a forma como as pessoas consomem informação diariamente. Dados do relatório Digital 2026, da DataReportal, também apontam que mais de 2,4 bilhões de pessoas já utilizam ferramentas de inteligência artificial generativa regularmente.

No Brasil, o cenário ajuda a dimensionar o tamanho dessa transformação. O país encerrou o último ano com cerca de 185 milhões de usuários de internet, o equivalente a 86,9% da população, além de 150 milhões de identidades ativas em redes sociais. O número representa mais de 70% dos brasileiros e coloca o país entre os mercados digitais mais relevantes do mundo.

Ao mesmo tempo em que a tecnologia amplia o acesso à informação, comunicação e serviços, pesquisadores observam o crescimento de sinais associados à hiperconectividade.

A dificuldade de ficar longe do celular, a necessidade constante de verificar notificações e a sensação de desconforto ao se desconectar de aplicativos e redes sociais estão entre os comportamentos que passaram a chamar atenção de especialistas em saúde mental e tecnologia. O fenômeno tem sido associado ao que pesquisadores descrevem como ansiedade de desconexão.

Para Celso Camilo, professor e pesquisador da Universidade Federal de Goiás (UFG) e doutor em Inteligência Artificial, a discussão não deve se limitar ao tempo de tela. Segundo ele, é preciso observar como as plataformas digitais utilizam recursos tecnológicos cada vez mais sofisticados para ampliar engajamento e retenção de atenção.

"Hoje existe uma assimetria muito grande entre o poder tecnológico de engajamento e a capacidade das pessoas de compreenderem o processo e os impactos desse uso equivocado", afirma.

Segundo ele, a discussão sobre dependência digital deixou de ser um tema ligado apenas ao comportamento individual e passou a envolver questões relacionadas à saúde pública, educação e desenvolvimento tecnológico.

Essa avaliação ocorre em um cenário de crescimento das preocupações com sintomas como dificuldade de concentração, redução da produtividade, alterações de humor, piora da qualidade do sono e impactos nos relacionamentos pessoais. Embora esses efeitos possam ter múltiplas causas, pesquisadores observam que o excesso de estímulos digitais aparece com frequência entre os fatores associados ao problema.

Parte desse debate envolve justamente o papel dos algoritmos e dos sistemas de inteligência artificial que organizam conteúdos, recomendam vídeos, selecionam publicações e personalizam experiências digitais. O objetivo dessas tecnologias é tornar plataformas mais relevantes para os usuários, mas o resultado também pode ser um ambiente de estímulo constante e difícil de abandonar.

"Vivemos em um mundo Figital, a integração do físico com o digital, e isso cria desafios importantes para as pessoas. Não existe mais uma separação clara entre esses mundos, a nossa vida acontece nas duas dimensões ao mesmo tempo", diz Camilo.

A partir dessa percepção, pesquisadores das áreas de inteligência artificial, psiquiatria, educação e comportamento humano criaram o projeto Mente Figital. A iniciativa pretende discutir os impactos da hiperconectividade por meio de conteúdos voltados ao público geral e traduzir descobertas científicas para uma linguagem acessível.

"O principal objetivo é prevenção e conscientização, mas o projeto também busca acolhimento e apoio. Muitas pessoas ainda não percebem que estão entrando em um quadro de dependência digital ou desgaste psicológico associado ao uso excessivo de tecnologia", afirma o pesquisador.

A proposta inicial abrange um podcast com participação de especialistas de diferentes áreas para discutir os efeitos da tecnologia sobre atenção, bem-estar e saúde mental. Em uma segunda etapa, o grupo avalia a criação de ferramentas de autoavaliação que possam ajudar usuários a identificar sinais de risco relacionados ao uso excessivo de ambientes digitais.

Entre os comportamentos observados pelos pesquisadores estão perda de controle do tempo online, alteração de humor associada ao uso digital, prejuízo no sono, queda de produtividade, ansiedade de desconexão e impactos nas relações pessoais.

Para os especialistas envolvidos no projeto, o avanço da inteligência artificial torna essa discussão ainda mais necessária. O objetivo, porém, não é tratar a tecnologia como ameaça, mas compreender como ela influencia comportamentos e como pode ser utilizada de forma mais consciente em uma sociedade cada vez mais conectada.

 

Fonte: CNN Brasil