quinta-feira, 13 de agosto de 2026

O último mandato de Lula

A necessária vitória de Lula em outubro próximo abre a discussão a respeito de qual seria a orientação política de seu último mandato à frente do Palácio do Planalto. Afinal, caso seja mesmo escolhido pela quarta vez, ele deixaria o governo com 85 anos de vida e muito provavelmente sem condições de disputar mais um quadriênio.

Por diversas ocasiões, Lula afirmou sua disposição em melhorar os legados proporcionados por suas passagens anteriores pela Presidência da República. Ao apresentar sua candidatura em 2022, ele dizia que só havia aceitado aquela incumbência pois gostaria de realizar mais e melhor do que havia feito durante os dois primeiros mandatos, entre 2003 e 2010. Além disso, ele dizia que as necessidades do País eram de tal ordem, que ele desejaria realizar “40 anos em 4”. Era uma clara inspiração no bordão da campanha de Juscelino Kubitschek na década de 1950, época em que o mandato presidencial era quinquenal: “fazer 50 anos em 5”.

Ocorre que a sua terceira passagem como responsável máximo do governo federal está bem aquém das promessas do então candidato, das expectativas geradas no interior da sociedade e das necessidades mais gerais do País.

É bem verdade que Lula venceu as últimas eleições no fio da navalha, com uma diferença de pouco mais de 1% de votos. E para isso foi obrigado a montar uma articulação política bem mais ampla do que uma eventual base de apoio de perfil mais progressista.

No entanto, sob vários aspectos ele abriu a mão de implementar políticas públicas que implicassem mudanças mais efetivas na alocação de recursos governamentais e que rompessem com a lógica neoliberal vigente desde a edição do Plano Real em 1994.

<><> Lula na economia: mais do mesmo do ajuste neoliberal

Os aspectos mais problemáticos de tal opção efetuada por Lula residem no âmbito da política econômica. É bem razoável considerar que Lula tenha se inspirado na estratégia por ele adotada no primeiro mandato, quando governou com base nos compromissos que havia assumido há alguns meses das eleições.

Refiro-me à divulgação da “Carta ao Povo Brasileiro”, na verdade um documento dirigido às elites do País, onde o candidato buscava, em junho de 2002, acalmar os espíritos de quem imaginava que sua gestão seria uma guinada mais profunda na condução da economia.

(…) “Premissa dessa transição será naturalmente o respeito aos contratos e obrigações do país’ (…) “Vamos preservar o superávit primário o quanto for necessário para impedir que a dívida interna aumente e destrua a confiança na capacidade do governo de honrar os seus compromissos.”

Em 2022, as promessas de campanha de Lula estavam voltadas a se apresentar como verdadeira oposição a todos os malefícios que haviam sido implementados no Brasil durante aos governos Temer e Bolsonaro.

Assim, para consolidar um movimento pelo restabelecimento do ambiente democrático e que permitisse alguma esperança de um projeto de desenvolvimento, o candidato dizia que iria revogar o maior empecilho para o desenvolvimento de políticas públicas voltas à maioria da população e o grande obstáculo à retomada dos investimentos públicos na escala do necessário:

(…) “Acabou o teto de gastos quando eu for Presidente da República”.

Além disso, Lula prometeu reverter o processo de liquidação da Petrobrás que estava em curso desde 2016, comprometendo-se com a reestatização das refinarias que haviam sido privatizadas, bem como pelo retorno da BR Distribuidora para os braços do Estado brasileiro.

(…) “vão sugerir ações para o fortalecimento do refino da Petrobras que incluem a abertura de conversas para a reversão de vendas de refinarias já realizadas pela empresa”.

<><> Campanha de 2022: quase nada foi cumprido

Por outro lado, o candidato prometeu também reverter as reformas trabalhista e previdenciária que haviam sido implementadas nos 6 anos anteriores ao pleito.

Em diversas ocasiões, ele se utilizou do processo ocorrido na Espanha para exemplificar como seriam feitas as mudanças em nosso País:

(…) “O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou, na terça-feira (4), que os brasileiros deveriam “acompanhar de perto” o que está acontecendo com a reforma trabalhista na Espanha. No país europeu, governo, sindicatos de trabalhadores e empresários fizeram um acordo para revisar alterações nos direitos dos trabalhadores feitas em 2012. Agora, haverá regras mais rígidas para as terceirizações, por exemplo”.

Infelizmente, nenhum de tais compromissos assumidos por Lula foram cumpridos ao longo do atual mandato, que entra em sua fase final.

No que se refere à política de contenção de gastos, o que se observou foi a mudança do “Teto de Temer” pelo “Teto do Haddad”, com a manutenção e mesmo com o aprofundamento da austeridade fiscal. No quesito reversão das vendas das empresas do grupo Petrobrás ao capital privado tampouco nada foi feito, sendo que o governo federal deu continuidade aos processos de privatização de empresas de metrô em Recife e Porto Alegre. Finalmente quanto às promessas relativas às questões trabalhista e previdenciária, nada foi revogado.

Para o processo eleitoral em curso, foi lançado oficialmente um programa para o próximo mandato de 2027 a 2030.

O documento “Diretrizes para o programa de transformação do Brasil: um país soberano, democrático, desenvolvido, sustentável e criativo” foi registrado junto à Justiça Eleitoral e vem sendo apresentado como a fonte de referência para as principais propostas de Lula para seu quarto mandato.

Trata-se de um texto longo, contendo mais de 80 páginas, mas que pode ser bastante decepcionante para quem imaginava que o candidato finalmente iria se valer desta última passagem pela Presidência da República para realizar as mudanças tão necessárias no Brasil.

<><> Programa de governo para 2027/2030: compromisso com a austeridade fiscal

O texto oscila entre um discurso de oposição e um compromisso com a manutenção do status quo. O documento parece desconhecer que Lula e o Partido dos Trabalhadores estiverem à frente do governo federal por 18 anos desde 2003. A exceção esteve por conta dos 6 anos posteriores ao golpeachment contra Dilma Roussef e o desastre de Jair Bolsonaro.

(…) “Somos o verdadeiro novo porque enfrentamos o velho sistema que mantém o Brasil no atraso, na desigualdade e na dependência. Queremos continuar perseguindo esses objetivos, o que exige enfrentar as forças políticas do passado, que atuam para conservar privilégios e não democratizar o uso adequado dos recursos públicos, com transparência e foco nas grandes questões nacionais.”

E o documento segue como se Lula nunca houvesse presidido o governo nem coordenado equipes na Esplanada dos Ministérios. Afinal, ele se propõe tarefas que deveriam ter sido colocadas em ação há muito tempo.

(…) “Estamos prontos para continuar as tarefas de ampliar a capacidade de planejamento do Estado brasileiro, fortalecer a base produtiva e tecnológica, democratizar o orçamento público, reafirmar a soberania nacional e enfrentar as ameaças externas que desconsideram os interesses do povo brasileiro. Não há desenvolvimento sem soberania em áreas estratégicas, capacidade industrial, domínio tecnológico e projeto nacional. Por isso, a disputa por recursos estratégicos, tecnologias, conhecimento e fontes de energia impõe novos desafios ao desenvolvimento do nosso país, e temos todas as condições de enfrentá-los. Seguimos com um projeto de desenvolvimento para o Brasil e pelo Brasil, baseado nos nossos interesses, e não nos interesses de outras potências.”

No âmbito da política econômica, o documento é bem cristalino ao defender a austeridade fiscal e considerar o arrocho nas contas públicas não-financeiras como algo positivo. Além disso, impressiona a quantidade de menções elogiosas ao controle do gasto primário ao longo das páginas.

(…) “Adotamos uma estratégia fiscal inovadora com o novo arcabouço fiscal, que controlou o crescimento das despesas sem prejudicar a recomposição de gastos sociais. Entre 2023 e 2026, fizemos um enorme esforço fiscal, de aproximadamente 2% do PIB, R$ 240 bilhões. As projeções indicam que o déficit primário encerrará 2026 próximo de 0,4% do PIB, bastante próximo do equilíbrio fiscal.” (…) [GN]

(…) “Para isso, manteremos o novo arcabouço fiscal, que controlou o crescimento das despesas sem prejudicar as políticas sociais e permitiu uma redução significativa do déficit primário. O resultado fiscal virá, como fizemos até aqui, da retomada do crescimento econômico, do controle do aumento do gasto primário.”

Ao que tudo indica, o documento final é fruto de uma derrota daqueles que defendem uma reversão na natureza conservadora e fiscalista da política econômica.

As posições do coordenador do programa de governo, José Sérgio Gabrielli, parecem que foram desconsideradas em favor da abordagem mais identificada com os pressupostos do neoliberalismo, tal como propugnado pelo atual Ministro da Fazenda, Dario Durigan.

<><> Gabrielli: alternativa progressista foi descartada

Gabrielli divulgou um texto assinado apenas por ele, logo após a publicação do Programa de Governo. As diferenças entre os dois caminhos ficam bastante explícitas:

(…) “A busca pelo equilíbrio fiscal no Brasil é extremamente importante, mas ela não deve ser compreendida como um fim em si mesmo, mas sim como parte integrante e fundamental de um projeto nacional de desenvolvimento sustentável. O debate econômico contemporâneo exige superar a visão restrita que trata o Estado apenas como uma fonte de desequilíbrio e a política fiscal como um mero exercício de corte de gastos. Para assegurar a sustentabilidade dinâmica da economia, é imperativo promover uma estratégia abrangente que combine a estabilidade macroeconômica com a transformação estrutural, o aumento da produtividade e, sobretudo, a redução das profundas desigualdades que marcam a sociedade brasileira.”

Por outro lado, Gabrielli coloca o foco também na questão das despesas com juros, aspecto completamente ignorado na versão final do Programa. E insiste na tecla de que é preciso mudar o rumo da política econômica conservadora:

(…) “Surge de início uma dúvida: quem é mais responsável fiscalmente? Aqueles que definem que o controle dos gastos é o principal mecanismo para garantir a estabilidade das contas ou aqueles e aquelas que consideram que o principal responsável pela trajetória da dívida são os encargos financeiros da própria dívida?” 

(…) “A política econômica não pode ficar prisioneira dessa tarefa: enxugar gelo. O governo do Lula já mostrou que pode combinar a estabilidade fiscal com crescimento e políticas sociais crescentes. Pode fazer mais! Estabilidade fiscal é resultado, não é o início da política econômica que, promovendo o crescimento, acaba acelerando a expansão das receitas e melhorando as contas públicas.”

E, finalmente, o ex-presidente da Petrobrás aponta para as necessidades de superar a lógica do arcabouço fiscal contracionista caso haja realmente a intenção de buscar algum projeto de desenvolvimento:

(…) “A retomada do crescimento econômico demanda o fortalecimento do papel coordenador do Estado e expansão dos seus próprios volumes de investimentos. A estabilidade fiscal não deve ser vista como um obstáculo a eles, mas como um alicerce que proporciona a previsibilidade necessária para a expansão dos investimentos sociais e produtivos. Um ambiente macroeconômico estável atrai o capital privado para projetos de longa maturação, essenciais para a modernização da infraestrutura e a transição energética. A contração dos investimentos induz a redução do crescimento e agrava as dificuldades fiscais, pelo lado das receitas. Quanto mais contração, mais contração será necessário.”

<><> Lula tem a chance de entrar para a História como grande estadista

Lula tem diante de si a oportunidade de deixar sua marca como grande estadista na História brasileira. Como ele mesmo afirmou recentemente em Convenção Nacional que homologou sua candidatura, não gostaria de ficar conhecido apenas pelo sucesso do importante Programa Bolsa Família.

(…) “Eu não quero mais ser o presidente do Bolsa Família. É preciso mais, mais, mais, e mais. E nesse ‘ser mais’ a gente precisa ser mais ousado para a gente mudar muita coisa. Nós precisamos definir o que é prioridade para o país. Aquilo que nós precisamos entregar em um projeto de 10, 15 anos, mas nós precisamos dizer ao povo o que a gente vai fazer definitivamente”.

Assim, se ele quer mesmo “mais e mais”, terá que organizar seus próximos 4 anos com uma equipe disposta a romper com a lógica da austeridade fiscal e com a encomenda de colocar em marcha um programa de investimentos públicos de peso. Afinal, essa é a única forma possível e conhecida para que o Brasil dê um salto para frente.

O problema é que as amarras do Novo Arcabouço Fiscal impedem esse movimento. Ele precisa ser abandonado de forma urgente. Se assim for feito, Lula deixará sua contribuição para o futuro das próximas gerações. A ousadia que ele menciona acima poderá transformar efetivamente a cara do País e seu nome será lembrado para além dos programas de natureza assistencial e de transferência de renda que ele implementou até agora.

 

Fonte: Por Paulo Kliass, em Viomundo

 

Comunismo x Capitalismo: guerra ideológica redividida

O medo do comunismo volta a assombrar a Casa Branca, sob domínio do imperador fascista Donald Trump. O fantasma comunista, do ponto de vista do império, ganha ares assustadores quanto mais a potência americana se vê ameaçada pelo seu maior adversário, a China. Os chineses não se abalaram com o tarifaço trumpista; pelo contrário, reagiram com a mesma moeda, prometeram retaliações, especialmente ao levantar possibilidades de suspender exportações de terras raras aos Estados Unidos, delas dependentes, para desenvolvimento de vanguardas tecnológicas avançadas. Diante disso, o imperador voltou atrás, reconhecendo sua impotência diante do colosso chinês.

O receio maior de Washington se faz sentir mais intensamente diante da disposição da China de aliar-se ao Brasil, alvo do tarifaço trumpista, na defesa dos interesses recíprocos de ambos os países, no âmbito da OMC.

Trump reage, brandindo o que considera sua arma invencível norte-americana: a nova Doutrina de Segurança Nacional, para se defender da ameaça comunista chinesa ao hemisfério ocidental, nas Américas, por meio, especialmente, dos BRICS, em ação na América Latina.

<><> O Comunismo, desta vez, tem nome: China

Aliados ao Brasil, para juntos lutarem contra o protecionismo imperialista trumpista — estratégia para tentar reviver a industrialização americana —, os chineses se transformam no principal obstáculo à competitividade dos Estados Unidos para combaterem seu déficit comercial acumulado desde o fim da Segunda Guerra Mundial, graças ao superávit financeiro, assegurado pela hegemonia do dólar. Agora, o superávit financeiro imperial somente produz financeirização especulativa e instabilidade global. Nesse novo contexto, financeiramente explosivo, o império transpõe a luta econômica para o plano ideológico, objetivando derrotar os chineses, enquanto joga o mundo em nova guerra fria.

<><> Nova guerra fria

Antes, o mundo viveu a guerra fria, no pós-guerra, para que Washington mobilizasse o Ocidente contra o perigo comunista soviético marxista-leninista, que havia derrotado o nazismo hitlerista. O socialismo virou o inimigo ideológico mortal, o grande adversário do capitalismo desde então, no embate dos dois regimes ideologicamente conflitantes, em disputa para apresentar à sociedade a melhor alternativa política para os povos em busca da utopia pela felicidade social.

O nazismo, que, no poder, revelou-se maior inimigo dos trabalhadores, ao tentar destruir o Comunismo Soviético, despertara o ser humano contra o horror emergente, mas a questão ficou irresolvida; afinal, Hitler perdeu a guerra, mas ganhou a paz, como mostra o renascimento global da direita nazifascista no século 21. No Brasil, por exemplo, ela ganhou a cara do bolsonarismo entre 2018-2022. De nada adiantaram os julgamentos de Nuremberg para destruir o monstro e interromper sua jornada, que continua, nos dias atuais, com Donald Trump e aliados, como Javier Milei, Jair Bolsonaro, Espriela, Bukele etc.

O capitalismo, depois da Revolução Francesa (1789), que pôs fim ao feudalismo e ao absolutismo monárquico, criaria a República democrática e a economia do laissez-faire, ao longo dos séculos 19 e 20, com o advento da Revolução Industrial, como opção preferida dos povos. Submetido à propaganda inglesa e americana, nesses dois séculos, o capitalismo se popularizou; basicamente, o regime de propriedade privada conseguiu, nos últimos quase 250 anos, seduzir a maioria da população mundial, estimulando o individualismo e o espírito empreendedor como alavanca da riqueza social. Mas a solução, na prática, viraria problema.

<><> Germe comunista

Desde 1847-48, no entanto, a proposta alternativa dos trabalhadores, feita por Marx e Engels, intitulada “Manifesto Comunista”, veio ao ar. Ela defendia o socialismo e o comunismo, com a previsão fatídica de que o sistema capitalista tinha e tem, como motor, desde sua origem e no curso do seu desenvolvimento, o processo irreversível de superacumulação de capital. Ele, segundo o Manifesto, submete o trabalho à lógica da exploração da mais-valia (trabalho não pago, com extensão absurda da jornada de trabalho), produzindo, simultaneamente, riqueza, num polo, e pobreza, no outro; ou seja, leva o sistema às contradições insanáveis e, consequentemente, às guerras.

<><> A utopia capitalista virou farsa

No “Manifesto Comunista”, os marxistas propõem o oposto do individualismo capitalista: o espírito solidário para iniciar o processo de supressão da propriedade privada. A providência inicial para conquistar tal propósito humanista seria seguir adiante, radicalmente, com o que o capitalismo havia iniciado na Inglaterra, como pressuposto da Revolução Industrial: a expropriação da terra, acumulada pelos senhores feudais; democratizá-la, eis o ponto de partida para a nova economia, via formação do mercado interno consumidor para produção de bens e serviços, no modo de produção burguês.

Assim, Marx, autor de O Capital, criador da Economia Política burguesa, cujas contradições denuncia como empecilho à criação de uma sociedade igualitária, enumera, com Engels, o que julgam ser o futuro da sociedade socialista, expresso no Decálogo Comunista, como bandeira de luta dos trabalhadores contra a burguesia:

1 – Reforma agrária;
2 – Imposto fortemente progressivo;
3 – Abolição do direito de herança;
4 – Centralização do crédito nas mãos do Estado, por meio de banco nacional com capital estatal e monopólio exclusivo;
5 – Organização conjunta da agricultura e da indústria, com o objetivo de suprimir paulatinamente a diferença entre cidade e campo;
6 – Centralização do sistema de transportes nas mãos do Estado, tarifa zero para permitir mobilização social;
7 – Multiplicação das fábricas e dos instrumentos de produção pertencentes ao Estado, destravamento das terras incultas e melhora das terras cultivadas segundo um plano geral;
8 – Trabalho obrigatório para todos, constituição de brigadas industriais, especialmente para a agricultura;
9 – Confisco da propriedade de todos os emigrados e sediciosos; e
10 – Educação pública e gratuita para todas as crianças, supressão do trabalho fabril de crianças e integração da educação com produção material (educação profissional) etc.

As disputas ideológicas entre capitalismo x comunismo produziram duas guerras mundiais, a social-democracia, a Revolução Bolchevique, a restauração capitalista na União Soviética, com a decadência do stalinismo, e a emergência do neoliberalismo, no final do século 20, adentrando o século 21, em confronto, dessa vez, com a China, onde vigora a transição entre capitalismo e socialismo, sob comando do Partido Comunista Chinês.

No século 21, a debacle capitalista se acentua a partir da crise de 2008, que se estende até o momento, sob a anarquia geral da financeirização global especulativa, com aprofundamento da crise do capitalismo americano e ascensão da China.

<><> Comunismo chinês x capitalismo de guerra trumpista

A Era Trumpista representa tentativa desesperada de recuperação do capitalismo americano, na luta contra a proposta de desenvolvimento socialista chinês, comandado pelo Partido Comunista, criado em 1949 pelo seu maior ideólogo: Mao Tsé-Tung.

Efetivamente, o trumpismo protecionista registra, historicamente, de forma objetiva, na prática, a debacle do sistema capitalista, ancorado na produção de guerras, que se aprofundam, como a que se desenrola no Oriente Médio.

Trump, porém, apenas amplia a distância entre a realidade de um retorno à barbárie e um sonho utópico da busca da felicidade, teoricamente multipolar, perseguida atualmente pela China, que adotou as teses do Manifesto Comunista em suas linhas gerais.

A agressividade trumpista unipolar se acentua no compasso da perda de competitividade do capitalismo, com a destruição do mundo organizado em regras institucionais, em completo despedaçamento, frente à proposta chinesa de cooperação multipolar como pretensa nova alvorada global.

O imperador laranja, no topo do colosso da Nova Pompeia despedaçada, ergue neodoutrina de segurança nacional unipolar imperialista contra a multipolar resistência chinesa, mas os resultados da sua investida agressiva, como mostra a realidade, estão dando com os burros n’água, enquanto sua popularidade nos Estados Unidos vai ladeira abaixo.

O presidente americano, pragmaticamente, já está sendo visto e sentido como tremendo pato manco, caso perca as eleições parlamentares de novembro nos Estados Unidos.

A aliança Xi Jinping-Lula contra o protecionismo trumpista é mais uma fase aguda do funeral imperialista.

 

Fonte: Por César Fonseca, em Brasil 247

 

Como o movimento feminista se tornou tão dividido – e como pode se reunir?

Em um dia de junho de 2015, eu estava em frente ao centro de detenção de imigrantes de Yarl's Wood, perto de Bedford, e ouvi as mulheres lá dentro cantando. "Libertem-na", dizia o grafite nas paredes. "Fechem o centro." Eu já havia visitado o local diversas vezes e ouvido as histórias desesperadas das mulheres que ali estavam detidas. Mas naquele dia, a sensação era de esperança, e não de desespero, pois centenas de mulheres – refugiadas, ativistas, advogadas, parlamentares, atrizes, escritoras – se reuniram ao redor do centro para exigir a liberdade das mulheres presas.

Quando fundei a organização Mulheres por Mulheres Refugiadas , fui motivada pela minha fé na solidariedade entre as mulheres. A organização trabalha com mulheres que buscam asilo na Grã-Bretanha, ajudando-as a contar suas histórias e a lutar por justiça e segurança. Durante anos, senti essa fé sendo comprovada na prática. As mulheres compareciam em eventos e manifestações em apoio umas às outras; elas se voluntariavam, faziam campanha, marchavam e apoiavam.

Uma das minhas colegas da Women for Refugee Women, Marchu Belete, é agora diretora da Migration Exchange. "Naquela época, as mulheres eram tão abertas, entusiasmadas e criativas em relação ao ativismo com mulheres migrantes", diz ela. "Não nos dávamos conta de como aquele período era incrível. Foi maravilhoso."

A confiança das feministas no Reino Unido, naqueles anos, em exigir um mundo melhor para todas as mulheres fez parte de um fenômeno mundial na década de 2010, época em que as mulheres estavam construindo novas conexões entre si em todo o mundo. Mulheres protestaram pelos direitos ao aborto na Irlanda, pelo direito de dirigir na Arábia Saudita, contra crimes sexuais digitais na Coreia do Sul e contra a violência sexual e o feminicídio na Índia, Argentina, Brasil, Itália, Turquia, em todos os lugares.

Não vou idealizar aqueles anos, mas havia um brilho no rumo que nosso trabalho feminista estava tomando, um otimismo em relação às conexões que poderíamos forjar e às mudanças que poderíamos realizar. Agora, em todos os lugares que você olha nos movimentos de mulheres, encontra divisão.

Sempre existiram divisões entre mulheres que aparentemente lutam por uma libertação compartilhada. Divisões entre sufragistas e sufragettes, entre colonizadores e colonizados, entre mulheres da classe trabalhadora e da classe média, entre as que são contra e as que são a favor da pornografia. Mas, recentemente, as divisões entre as mulheres se tornaram extremamente desgastantes, e muitas me confidenciaram o quanto isso as esgota. Uma mulher negra na casa dos 60 anos, cofundadora de uma organização para mulheres migrantes sobreviventes de violência, me disse recentemente sobre o movimento feminista na Grã-Bretanha: “Perdemos o rumo. Costumava haver uma visão que unia as mulheres. Não se tratava apenas de ascensão pessoal ou de comunidades separadas. Não sei se isso ainda existe.”

E, repetidamente, fico chocada com a forma como mulheres que se autodenominam feministas descartam levianamente as lutas e experiências de mulheres que não são como elas. Essa rejeição pode vir de todos os lados dos nossos debates polarizados. Se você é de esquerda, por que se solidarizar com Ann Widdecombe enfrentando seu agressor na cozinha de casa? Se você é de direita, por que se importar com mulheres que fogem da opressão ao redor do mundo? Você consegue abrir seu coração para mulheres palestinas e israelenses que são alvos de homens armados? Você consegue levar a sério a experiência de meninas abusadas por gangues de aliciadores e mulheres espancadas por homens que protestam em frente a hotéis para refugiados?

As redes sociais são em grande parte responsáveis ​​por essas divisões crescentes. É verdade que as feministas, assim como qualquer outra pessoa, percebem que a raiva é recompensada online. A intransigência resulta em mais atenção, mais cliques, mais seguidores. Os debates sobre o lugar das mulheres transgênero no feminismo tornaram-se particularmente dolorosos e destrutivos devido à espiral de indignação das redes sociais. E uma vez que as mulheres se enfrentam nesse mundo online polarizado, fica cada vez mais difícil se unirem para lutar, mesmo pelas causas mais importantes.

Mas, embora as divisões online sejam óbvias, offline as mulheres continuam construindo alianças, tijolo por tijolo. Essas alianças podem não ser tão imediatamente visíveis para observadores externos, mas acredito que estão crescendo silenciosamente.

Jessie Brinton, ex-jornalista, é a fundadora de um projeto chamado Mothership, que reúne mulheres de toda a Grã-Bretanha para conversas presenciais, como em uma mesa de cozinha, sobre assuntos que lhes são importantes.

Ela fica impressionada com a ânsia que testemunha entre as mulheres de simplesmente se encontrarem e conversarem. “Perdemos o 'comunidade'. As mulheres estão sozinhas. É o que ouvimos repetidamente. Precisamos reconstruir os espaços onde as mulheres se encontram.” Este ano, Brinton tem passado muito tempo em Wigan, onde se inspirou profundamente na força do trabalho comunitário pouco reconhecido que as mulheres realizam juntas, preenchendo as lacunas deixadas pela falta de serviços públicos. “As mulheres que estão na linha de frente das crises têm muito conhecimento para compartilhar”, afirma.

Gill Wright, da Northern Heart and Soul em Wigan, concorda que o trabalho de linha de frente que as mulheres realizam para apoiar umas às outras e suas comunidades é o trabalho mais importante para as feministas atualmente. Wright cofundou a Northern Heart and Soul depois de liderar um grupo de ajuda mútua durante a pandemia. A organização não é apenas para mulheres, mas é liderada por mulheres e busca empoderar mulheres que enfrentam os maiores desafios da pobreza, da falta de moradia e da saúde precária. Com projetos que incluem dias de atividades recreativas para pessoas com necessidades educacionais especiais, projetos artísticos, jardinagem e apoio entre pares em saúde mental, Wright vê as pessoas se reconectando. "Não estamos investindo nossa energia em mudar o sistema", diz ela. "Estamos focando nossa energia em construir alternativas."

Esse foco na organização local muitas vezes se transforma em intervenções políticas mais diretas, onde as mulheres buscam revitalizar a democracia. Cullagh Warnock está envolvida com a organização de mulheres no nordeste da Inglaterra há décadas. Com a criação da Autoridade Combinada do Prefeito do Nordeste – que concedeu maiores poderes aos conselhos locais e ao prefeito do nordeste – em 2024, ela e outras mulheres de sua rede viram uma oportunidade de garantir que as vozes e preocupações das mulheres fossem ouvidas. O resultado é a organização Um Milhão de Mulheres e Meninas , uma rede que conecta mulheres a políticos locais em todo o nordeste da Inglaterra por meio de debates e eventos presenciais.

Quando pergunto a ela quais são as principais preocupações levantadas pelas mulheres, Warnock me diz que, ao contrário das discussões nas redes sociais, elas são concretamente práticas. “A segurança das mulheres é um tema constante – segurança no transporte público, nas ruas. E empregos – os políticos falam sobre empregos verdes, mas eles são frequentemente dominados por homens. As mulheres querem saber como essa transição vai funcionar para elas.” É verdade que as previsões sugerem que os futuros empregos verdes, da energia eólica à gestão de resíduos, podem ter uma proporção de até três para um a favor dos homens. Warnock acredita que, ao se concentrarem nessas questões práticas, as mulheres podem ir além da retórica inflamada dos debates online e voltar ao que realmente precisam para construir vidas mais dignas e seguras. “O que funciona para as mulheres funciona para todos.”

Este trabalho para melhorar a vida das mulheres comuns ganhou nova urgência devido à ascensão da extrema-direita, que se aproveita da insegurança feminina para promover políticas cada vez mais divisivas. Em Belfast, Elaine Crory, da Agência de Recursos e Desenvolvimento para Mulheres, trabalha há muitos anos para apoiar mulheres vítimas de violência masculina. Ela agora considera a ascensão da extrema-direita o “principal fator que agrava a situação das mulheres. Isso desvia a atenção das pessoas da luta contra o patriarcado e torna o ambiente menos seguro para elas.”

Ela também destaca a necessidade de conversas presenciais, onde facilitadores podem combater a radicalização online, embora reconheça o quão lento e árduo esse trabalho é, dada a enxurrada de desinformação corrosiva nas redes sociais. Mas, acima de tudo, ela se sente encorajada pela forma como as mulheres estão na vanguarda da organização contra a extrema-direita. Durante os recentes "pogroms racistas", como ela os chama, em Belfast , "as comunidades se uniram rapidamente, lideradas por mulheres – mulheres migrantes e mulheres brancas – todas fazendo o que podiam. As mulheres se organizavam, preparavam refeições, davam caronas, levavam crianças para a escola, literalmente apareciam em casas em chamas e levavam as famílias para um lugar seguro. E mesmo agora que a necessidade imediata de comida e abrigo diminuiu, estamos preparadas. Se e quando a situação se agravar novamente, as mulheres se organizarão."

Assim, apesar das tentativas da extrema-direita de distorcer os medos das mulheres em relação à sua segurança, transformando-os em raiva e racismo, as mulheres estão construindo alternativas de Belfast a Londres e Newcastle, assim como em todo o mundo. Belete acredita que essas conexões de base são agora o trabalho mais importante e que elas detêm a chave para um futuro melhor. “As feministas precisam estar nas comunidades, precisamos estar na linha de frente, reagindo. A maneira de derrotar a extrema-direita é através do movimento feminista.”

É fundamental não cair em um otimismo ilusório ao observar esses exemplos de trabalho resiliente e inspirador que as mulheres estão realizando. Este é um momento de crise inegável para as mulheres. Nossos direitos estão ameaçados por autoritários e misóginos em todos os lugares. À medida que os recursos se tornam mais escassos devido à emergência climática, ao aumento da desigualdade e aos conflitos, essas ameaças se multiplicam. Podemos ver que uma resposta possível é se inclinar para a divisão, focar apenas no indivíduo ou na nação, construir muros, se entrincheirar. Mas a outra resposta é insistir que o cuidado e a conexão podem ser mais fortes do que o ódio e a hostilidade, trabalhar dia após dia para tecer essas conexões – e as mulheres estão fazendo isso em todos os lugares.

 

Fonte: Por Natasha Walter, em The Guardian

 

SUS: da gestão à política, o plano da Abrasco

Em evento no auditório da Faculdade de Saúde Pública da USP, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva lançou seu 1o Plano Diretor da Área de Políticas Públicas, Planejamento e Gestão da Saúde. Mais do que um guia para a administração pública e para o SUS, o documento é um manifesto de entrada em um novo tempo histórico.

No evento público, mesas com diversos sanitaristas fizeram falas enfáticas sobre a atual etapa neoliberal do sistema capitalista. Dessa forma, o Plano Diretor visa colocar o campo da Saúde Coletiva em um novo momento prático, fiel ao referencial teórico que deu origem à Reforma Sanitária Brasileira.

O documento oficial do Plano Diretor considera não ser possível falar em direito à saúde sem compreensão da conjuntura histórica: “sob esse panorama, enfrentamos desafios urgentes e globais para a saúde das populações derivados da crise climática, do desmatamento, do uso intensivo de agrotóxicos, da emergência de pandemias, das tecnologias digitais desregulamentadas, da escassez de água e da extração predatória de recursos naturais. Esses processos, inerentes à lógica predatória do capital neoextrativista, produzem impactos diretos à saúde e ao meio ambiente, exigindo respostas estratégicas e inovadoras de governos e da sociedade”.

Apesar de o Brasil viver o período eleitoral, a disputa política das urnas não foi objeto de debate. O movimento da Abrasco soa como uma reorganização do campo da Saúde Coletiva com sentido histórico ampliado.

“Nossa organização é singular, inclusive pela construção do SUS e processo de saída da ditadura. A Saúde Coletiva é um movimento que construiu um campo científico. Planos diretores fortalecem a noção do que somos e atualizam nossa agenda”, explicou Rômulo Paes de Sousa, presidente da Abrasco.

De acordo com a leitura política expressada, há um esgotamento generalizado das formas de governança da democracia liberal. A iniciativa da Abrasco visa a recuperar o elo entre a atuação cotidiana na gestão dos serviços de saúde e a concepção política.

“O plano aproxima a reforma sanitária do SUS. Períodos mais democráticos podem ‘acomodar’ um pouco e dão a ideia de compatibilidade do capitalismo com ampliação de direitos. Gera-se um maior foco em políticas específicas. Mas o momento nos impede de olhar ações específicas e exige um olhar geral”, disse Ana Luiza D’Avila Viana, economista e professora do Instituto de Saúde Coletiva da UFBA.

<><> O que diz o plano

Com base no documento, há dez temas críticos e transversais que orientam todas as ações do plano. Eles representam as questões mais urgentes e complexas que a área de PPGS deve incorporar em suas análises, pesquisas, formação e atuação política. Alguns deles são: Colonialidade e opressões (racismo, patriarcado); Estratégias de acumulação do setor privado (financeirização e oligopolização); Iniquidades e populações vulnerabilizadas; Emergência climática como emergência sanitária; o Papel do Estado e das instituições políticas no SUS; a Precarização do Trabalho; a Soberania Digital; a crítica ao Modelo de produção de vida e cuidado; o combate ao Ultraconservadorismo/Novos fascismos; e a Soberania alimentar. Estes temas devem ser transversais a todos os eixos estratégicos.

Já s objetivos estratégicos do plano estão organizados em três eixos principais, que resumem as frentes de atuação da Comissão: O Eixo 1 – Ensino e Formação em PPGS: com o objetivo fortalecer a formação crítica e interseccional na área, superando a fragmentação curricular e a desconexão com a realidade do SUS. O Eixo 2 – Pesquisa, Produção e Disseminação do Conhecimento, que visa fortalecer a pesquisa em PPGS com desenvolvimento teórico-metodológico, fomentar pesquisas estratégicas para o SUS e a redução de iniquidades. E o Eixo 3 – Articulação com a Política Pública e com a Sociedade, para promover a defesa do SUS e a incidência política, fortalecendo o diálogo com gestores e movimentos sociais, ampliando a participação social e a comunicação acessível.

O plano também se destaca por sua natureza operacional ao prever a criação de diversos dispositivos institucionais concretos e permanentes, como um Fórum Permanente de assessoramento a gestores do SUS, um Fórum Abrasco-Movimentos Populares para formulação conjunta de propostas, um espaço digital interativo para publicização de produções técnicas, um observatório para compartilhamento de experiências educacionais, e até mesmo a criação de um periódico específico da Abrasco para a área de PPGS. Para embasar essas intervenções, o plano estabelece ações concretas de mapeamento e diagnóstico da própria área, incluindo estudos para mapear o ensino e as pesquisas em PPGS, diagnósticos curriculares e da oferta de cursos por instituições públicas e privadas, além do mapeamento de docentes atuantes nas graduações e residências em saúde.

Paralelamente, o plano não se restringe ao âmbito interno da Abrasco, articulando-se com instâncias externas fundamentais, como os ministérios da Saúde, da Educação e da Ciência, Tecnologia e Inovação, o CAPES e agências estaduais para ampliar o financiamento à pesquisa. Braços mais específicos do Estado, como a Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde – do MS e o Conselho Nacional de Saúde fazem parte do escopo de parceiros para discutir e monitorar as diretrizes curriculares em planejamento e gestão e ampliar estratégias formativas para o SUS. Por fim, o Plano prevê pontes com conselhos de saúde e movimento sindical com o objetivo construir um diagnóstico nacional sobre as condições de trabalho dos profissionais do SUS. No âmbito interno, haverá modificação da composição dos grupos de trabalho da Abrasco para incluir mais movimentos sociais e comunitários.

<><> Reencontrar as utopias

O Plano Diretor de Políticas, Planejamento e Gestão da Saúde aparece pouco mais de um ano após outro movimento político da Abrasco: o V Plano Diretor de Epidemiologia. Essencialmente, ambos os trabalhos condensam anos de pesquisas iniciadas após a hecatombe da pandemia, quando a ação socialmente destrutiva da extrema-direita deixou de ser ameaça para se tornar uma experiência prática.

Na elaboração do campo sanitarista brasileiro, os acontecimentos não se devem ao acaso e representam um processo de degeneração da sociabilidade capitalista e sua esfera política.

“Estamos num momento no qual a sociedade solidária está sob risco em favor da opção por ações individuais e patrimoniais, onde tudo é privado: não só saúde, mas segurança, investimentos etc. E estamos fazendo essa passagem muito rapidamente. O Plano também conecta diversas áreas que compõem a saúde e é um esforço essencial para organizar o futuro da área”, complementa Viana.

Para Oswaldo Tanaka, professor aposentado e veterano da reforma sanitária, a racionalidade técnica propalada pelos setores neoliberais, expressa em seu projeto de permanente redução do Estado, é meramente ideológica. E assim deve ser enfrentada.

“O Plano Diretor deve iluminar caminhos e contextos políticos. E serve para abrir brechas que impedem a realização mais ampla de nossos objetivos ético-políticos. O contexto é o ponto mais determinante das ações sociais, não a suposta racionalidade técnica”, defendeu.

Em tempos onde se ouve falar do “desencanto” com a política, dar início a uma nova etapa de lutas e ações é visto como solução. “A importância de um plano que nunca vai para a gaveta é o processo; mais que o produto, é nos colocar juntos em movimento. O SUS precisa se encontrar mais com a vida das pessoas, e ter profissionais no campo da política e gestão capazes de direcionar isso é de grande potencial”, explicou Marília Louvison, professora da Faculdade de Saúde Pública da USP.

Ao levar em conta o mal estar da civilização neoliberal, o movimento sanitário coloca em pauta um novo horizonte “ético-político”, tal como se destaca no documento. Nesse sentido, a defesa de um SUS público e estatal com promoção da carreira dos profissionais de saúde e aprofundamento da presença territorial e da participação social é o caminho para alcançar a população.

Como dito várias vezes no evento, a conquista de espaço no aparelho de Estado para a implementação de um sistema com as características do SUS gerou um afastamento entre gestores, usuários e movimento social.

“O Plano Diretor é reconhecimento de que o universal do SUS só se concretizará quando for capaz de olhar para as particularidades e desigualdades que estruturam a experiência de saúde e doença no Brasil. O Plano poderá representar o paradigma necessário, com as lentes da equidade bem focadas”, afirmou o cientista político Carlos Alberto de Paulo.

<><> A contribuição teórica e prática da Saúde Coletiva

Apesar de focar na gestão de serviços de saúde, todo o Plano Diretor se sustenta a partir de um olhar geral do sistema social e econômico. E nesse sentido o caráter multidisciplinar do campo da Saúde Coletiva tem um amplo leque de conhecimento e material humano a oferecer.

Para Nivaldo Carneiro Junior, sanitarista e professor na Faculdade da Santa Casa de São Paulo, a crise entre a relação prática e teórica se divide em quatro partes.

“Como fatores internos à formação do profissional de Saúde Coletiva, há uma inércia crítica e precarização da docência; no plano externo houve fragmentação curricular causada por descompasso dos cursos com a ação política e um isolamento das instituições em relação aos territórios”, analisou.

Ao final do evento, Ana Lígia Meira, também professora da Santa Casa, sintetizou a encruzilhada do SUS e da Saúde Coletiva. “Há problemas estruturais como financiamento e pouca transparência em contratos com setor privado, problemas organizacionais de precarização, fragmentação dos serviços e adoção de racionalidade gerencialista, o que gera um afastamento entre sistema e usuários”.

O Plano Diretor da Área de Políticas Públicas, Planejamento e Gestão da Saúde coloca uma lista de 8 objetivos para a transformação da gestão do SUS, em acordo com as premissas da Reforma Sanitária. Reverter o subfinanciamento e a privatização são os objetivos centrais, para os quais busca-se uma nova estratégia.

“Para os próximos anos devemos defender o SUS com comunicação acessível, com combate à desinformação e letramento de saúde, articulação com movimentos sociais e populares a fim de melhorar a formulação de pautas, absorção de tais movimentos pelo campo da Saúde Coletiva e criação de grupos de trabalho para saúde digital, com foco em equidade tecnológica”, concluiu Ana Lígia.

 

Fonte: Por Gabriel Brito, em Outra Saúde

 

O que está em jogo nas eleições de 2026?

Frente aos efeitos da sua crise, o capitalismo tem se reorganizado para recompor as taxas de acumulação do capital e reproduzir as relações de poder da classe dominante. Isso, evidentemente, não se dá de forma descolada da política, já que é através do Estado que se articulam e se legitimam as condições necessárias para a reprodução da acumulação capitalista e a dominação de classe.

Como parte desse processo de reorganização e de busca pela saída da crise, observamos, no último período, o aprofundamento da agenda neoliberal através das políticas de austeridade, das privatizações e precarização dos serviços públicos, da retirada de direitos historicamente conquistados pelas classes trabalhadoras, da intensificação da exploração predatória dos recursos naturais e do alto investimento em conflitos militares – como é o caso das guerras em andamento na Ucrânia e no Irã, para além do genocídio em Gaza.

Por conta das contradições e dos limites do próprio processo de acumulação capitalista, sua reorganização demanda o aprofundamento de relações imperialistas. Desta forma, “mais capitalismo” equivale a “mais imperialismo”: é necessário que um Estado subjugue outras nações e povos, do ponto de vista econômico, político e militar, para garantir a manutenção dos interesses econômicos da burguesia monopolista. Essa expansão exige a abertura de novos mercados, acesso a recursos naturais e matérias-primas e intensificação da exploração da força de trabalho.

A perda de hegemonia do imperialismo estadunidense frente a ascensão do bloco liderado pela China, faz com que a sua atuação externa se torne ainda mais agressiva, voltando os olhos aos países da América Latina, historicamente considerada o seu quintal. A força do imperialismo estadunidense sobre a América Latina se coloca de diferentes formas, tanto dentro quanto fora da ordem. Ilustram essa afirmação as declarações e ameaças contra a soberania nacional; a imposição de taxas abusivas e unilaterais; as pressões por flexibilizações legislativas; o financiamento de organizações, agentes e processos de mobilização política interna; o monitoramento de dados e a perseguição de lideranças políticas; e as fraudes em processos eleitorais. São inúmeros os exemplos que poderíamos citar, nos últimos anos, de situações que expressam essa forma de controle – não apenas no caso brasileiro, mas também dos países vizinhos. Mais recentemente, o sequestro do presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, e de sua esposa, Cilia Flores, além das ameaças de invasão à Cuba, aprofundando os efeitos do embargo que já dura seis décadas, são duros exemplos da ofensiva imperialista perante a soberania dos povos latinoamericanos.

Na busca por recompor a hegemonia, a influência sobre os processos eleitorais na América Latina tornou-se uma tática central. Aquilo que restou da onda dos governos progressistas, eleitos na década de 2000, tem sido devastado diante da vitória de governos alinhados aos interesses dos Estados Unidos. Atualmente, a direita e a extrema-direita governam sobre a Argentina, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, El Salvador, Equador, Guatemala, Honduras, Panamá, Paraguai e Peru, com alinhamento e apoio político direto ou indireto de Trump e seus aliados.

O processo eleitoral no Brasil não está ileso. O país desempenha um papel geopolítico fundamental na América Latina e no bloco BRICS, apresenta um mercado consumidor e industrial relevante, e detém recursos naturais estratégicos para o desenvolvimento econômico e tecnológico. Por conta disso, ao ter um governo que seja subserviente aos interesses do imperialismo, o Brasil contribui para que os Estados Unidos tenham melhores condições em sua disputa mundial.

Mesmo não propondo um rompimento profundo – seja no plano programático, ou mesmo no âmbito das articulações políticas –, Lula da Silva, do Partido dos Trabalhadores (PT), é o candidato que representa o principal polo de resistência, no campo institucional brasileiro, aos interesses da Casa Branca. Por outro lado, Flávio Bolsonaro, do Partido Liberal (PL), personifica o campo neofascista e conta com o apoio direto de Donald Trump e de setores da direita estadunidense, além de não esconder sua disposição de subordinar os interesses nacionais aos Estados Unidos.

O neofascismo pode ser funcional à reorganização do capitalismo e à viabilização de interesses imperialistas. Afinal, se ambos convergem para a intensificação dos processos de exploração e expropriação, a ascensão de regimes e governos mais autoritários pode contribuir decisivamente para o controle da insatisfação e da resistência popular, ao mesmo tempo em que favorece a difusão de uma ideologia que naturaliza as desigualdades. Nessa perspectiva, a reorganização do capitalismo, o avanço do imperialismo e a consolidação do neofascismo articulam-se e retroalimentam-se, conformando um quadro particularmente complexo para a atuação da esquerda e das forças populares.

As pesquisas eleitorais mais recentes apontam que Lula lidera a intenção de votos sobre Flávio Bolsonaro – com uma margem estreita de diferença, embora ampliada nas últimas semanas –, assim como com todos os demais candidatos da direita, que tentam se colocar como uma via alternativa. Os números, no entanto, não podem nos iludir nem no sentido de acreditar que a vitória nas urnas está dada, e nem de considerar que o campo neofascista está enfraquecido.

Mesmo sofrendo alguns reveses – como a derrota na eleição presidencial de 2022, a tentativa frustrada de golpe em 2023, a prisão preventiva de Jair Bolsonaro e sua impossibilidade de aparição pública desde 2025, e as recentes denúncias de corrupção envolvendo Flávio –, o campo neofascista não perdeu sua capacidade de iniciativa e coesão. O projeto encampado pelo neofascismo têm sido construído cotidianamente através da disputa ideológica, da atuação e expansão nos espaços institucionais, do trabalho de organização política junto às massas populares e classes médias, da articulação internacional, da influência sobre as polícias e milícias e, não menos importante, da aproximação com os interesses da burguesia a partir do programa neoliberal.

Observamos que desde a eleição de 2022, o conjunto da esquerda tem avançado muito pouco do ponto de vista do fortalecimento da organização popular, da elevação no nível de consciência e educação política das massas e da construção de um projeto político que coloque a classe trabalhadora em melhores condições para enfrentar o neofascismo e o imperialismo. Ao contrário, vemos que a atuação hegemônica da esquerda se mantém restringida em propostas e saídas reformistas.

Nesse complexo quadro, com efeitos duradouros e inimigos poderosos, cabe refletir quais devem ser nossas tarefas mais imediatas, a curto prazo, que possibilitam acúmulos durante o processo eleitoral e que colocam o campo progressista em melhores condições para atuar no momento posterior às eleições.

A primeira tarefa é colocar o tema do imperialismo e do neofascismo no processo de campanha, traduzindo esses conceitos no diálogo com as massas populares e debatendo com o conjunto das organizações situadas no campo progressista a centralidade dessas dimensões na atual conjuntura. De modo geral, imperialismo e neofascismo são conceitos com pouca repercussão no conjunto da esquerda, o que traz efeitos políticos diretos e profundos: sem a apropriação conceitual, não há compreensão da gravidade dos problemas e desafios que enfrentamos, e nem da necessidade e urgência de se debater, apropriar e elaborar as saídas corretas para esses problemas e desafios.

O uso dos termos, no entanto, não deve ser puramente mecânico. Deve ser acompanhado da articulação de uma perspectiva crítica, capaz de superar os limites do reformismo. A compreensão da gravidade das ameaças de Trump à soberania nacional, como parte de um projeto imperialista, deve vir acompanhada da defesa de um projeto nacional de desenvolvimento; assim como a compreensão da gravidade do discurso de ódio propagado pela família Bolsonaro, enquanto expressão do neofascismo, deve vir acompanhada da defesa da democracia, dos direitos sociais e da organização e mobilização popular. Em ambos os casos, trata-se de não restringir a crítica àquilo que se coloca como ameaça mais imediata, mas de articulá-la à construção de um projeto alternativo de sociedade.

A campanha eleitoral não deve ser resumida à distribuição de panfletos com pedidos de voto, e nem ao mero esforço cotidiano, desprovido de formação e articulação política, realizado por centenas de militantes e ativistas voluntários. A segunda tarefa fundamental trata justamente de se fortalecer a organização e o trabalho popular, contribuir para a formação de militantes e elevar o nível de consciência política dos diferentes sujeitos envolvidos. O período eleitoral abre uma janela de oportunidades para inserção nos territórios, realização de discussões cotidianas sobre a política e articulação com lideranças e pessoas engajadas. Trata-se, portanto, de aproveitar esse momento para avançar na ação, organização e formação política, criando condições para a continuidade e o fortalecimento do trabalho no período posterior às eleições.

Por fim, num âmbito mais institucional, temos como tarefa articular a denúncia dos nossos inimigos com a apresentação das candidaturas que identificamos serem capazes de contribuir com o avanço de um projeto alternativo, que tenha os interesses das classes trabalhadoras como centralidade. Ao mesmo tempo, é necessário dar visibilidade às demandas identificadas nos territórios e articulá-las às campanhas das candidaturas majoritárias e proporcionais em níveis federal e estaduais. A disputa eleitoral, portanto, deve ser compreendida não somente como um momento de conquistar votos, mas como uma oportunidade de se articular a disputa institucional à organização, à formação política e à mobilização popular.

A campanha em torno da candidatura de Lula da Silva é imperativa. Sua vitória, embora incerta, poderá nos proporcionar melhores condições de luta e atuação política diante de inimigos cada vez mais fortalecidos e de um cenário que gradualmente se apresenta mais hostil e violento. No entanto, a manutenção da frente ampla que sustenta o governo, sem a constituição de um polo de esquerda capaz de disputá-la – mesmo diante do desembarque de alguns atores –, somada à consolidação do neofascismo, indicam que muitas das contradições que enfrentamos atualmente tendem a permanecer e, inclusive, se aprofundar, caracterizando um cenário de grandes desafios às organizações políticas comprometidas com a transformação da sociedade. Nesse quadro, o fortalecimento da organização popular torna-se imprescindível.

¨      Fascismo não elegerá senadores suficientes para atacar democracia

Um dos objetivos da extrema direita nestas eleições é eleger um número de senadores e senadoras suficiente para aprovar processos de  impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e promover mudanças constitucionais que enfraqueçam o regime democrático, abrindo caminho para suas teses obscurantistas.

Mas, as últimas pesquisas indicam que esses planos autoritários caminham para o revés em 4 de outubro.

Podem até fazer a maior bancada e, em aliança com todo o bloco oposicionista, chegar a formar maioria entre os  81 senadores. Com isso, ocupariam as comissões mais importantes e disputariam a presidência da Casa.

Contudo, ficarão distantes não só dos dois terços de senadores (54) exigidos para  admissibilidade de processos de impeachment de ministros do STF, o sonho dourado de todo bolsorarista, como também dos três quintos (49) para mudar a Constituição através Propostas de Emenda Constitucional (PECs).

É que dessa vez as forças progressistas capricharam na escolha de seus candidatos, indicando nomes com mais densidade eleitoral do que em eleições anteriores.

A conta é simples: a extrema direita já tem 14 senadores que não precisam disputar essa eleição, já que estão em meio de mandatos. Pelos levantamentos mais recentes, os extremistas de direita do PL e o Centrão devem eleger entre 25 e 28 senadores, mas apenas nove do PL.e um ou dois do Novo. E, como não há unidade no Centrão e nem todos topariam aventuras antidemocráticas, fica mais difícil ser atingido o número capaz de ameaçar a democracia.

Já o campo de apoio ao presidente Lula pode conquistar entre 23 e 26 das 54 vagas em disputa. Cabe lembrar que a renovação será de dois terços, ou seja, dois senadores por estado.

O que mostram as pesquisas, estado por estado:

Acre : Gladson Cameli (PP) em primeiro e Jorge Viana (PT) em segundo.

Alagoas : Renan Calheiros (MDB) e Arthur Lira (PP).

Amapá: Raíssa Furlan (Podemos); Lucas Barreto (PSD) e Randolfe Rodrigues (PT) estão empatados em segundo.

Amazonas: Eduardo Braga  e Alberto Neto (PL).

Bahia: Rui Costa (PT) e Jaques Wagner (PT).

Brasília: Leila do Vôlei (PDT) e Michele Bolsonaro (PL)

Ceará : Cid Gomes  (PSB)  e Capitão Wagner (União Brasil),

Espírito Santo – Renato Casagrande (PSB) e Paulo Hartung (PSD).

Goiás – Gracinha Caiado (União Brasil) e Gustavo Gayer (PL).

Maranhão – Carlos Brandão (PSB) e Roseana Sarney (MDB).

Mato Grosso – Mauro Mendes (União Brasil) e Janaína Riva (MDB).

Mato Grosso do Sul: Reinaldo Azambuja (PL) e Capitão Contar (PL).

Minas Gerais: Marília Campos (PT) e Marcelo Aro (PP).

Pará: Helder Barbalho (MDB) e Celso Sabino (PDT).

Paraná: Alexandre Curi (Republicanos) e Gleisi Hoffmann (PT).

Paraíba : Veneziano Vital (MDB) e João Azevedo (PSB).

Pernambuco: Marília Arraes (PDT) e Humberto Costa (PT).

Piauí : Marcelo Castro (MDB) e Ciro Nogueira (PP).

Rio de Janeiro ; Benedita da Silva  (PT) e Marcelo Crivella (Republicanos).

Rio Grande do Norte: Styvenson Valentim (Podemos)  e Samanda Alves (PT).

Rio Grande do Sul : Manuela D’Ávila (PSOL) e Marcelo Van Hattem (Novo).

Rondônia: Fernando Máximo (PL) e Sílvia Cristina  (PP).

Roraima : Teresa Surita (MDB) e Antônio Denarium (PP).

Santa Catarina: Carlos Bolsonaro (PL) e Carolina de Toni (PL).

São Paulo: Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede)

Sergipe : Fábio Mitidieri (PSD) e Valmir de Francisquinho (Republicanos)

Tocantins: Eduardo Gomes (PL) e Alexandre Guimarães (MDB).

Claro que muita coisa ainda pode mudar, afinal pesquisa é pesquisa, eleição é eleição. E a campanha só começa oficialmente no próximo dia 16. Mas essas sondagens servem para dar uma ideia geral da disputa.

 

Fonte: Por Barbara Pontes e Eduardo Rezende Pereira, em Outras Palavras/Brasil 247