segunda-feira, 6 de julho de 2026

João dos Reis Silva Júnior: Escolha sitiada – conciliação oligárquica

2026 está deixando de ser apenas disputa eleitoral e está se tornando uma negociação antecipada de regime. Não se trata só de saber quem vence. Trata-se de saber em que condições sociais, parlamentares, econômicas e simbólicas o vencedor governará. E aí a sua hipótese é forte: há sinais de que o país pode estar repetindo, em nova forma, um velho movimento brasileiro – um pacto social de superfície que, na estrutura, preserva o pacto oligárquico.

A semana trouxe quatro sinais principais. Primeiro, Lula segue competitivo e ainda aparece à frente de Flávio Bolsonaro em pesquisas recentes: o Datafolha divulgado em 20 de junho indicou Lula com 41% no primeiro turno contra 31% de Flávio, e 47% a 43% em eventual segundo turno; a CNT/MDA, poucos dias antes, mostrou vantagem mais larga, 49,3% a 36,8%. Segundo, a extrema direita não desapareceu; ela se reorganiza como herança familiar, ressentimento social, antipetismo moral e candidatura de continuidade.

A candidatura de Flávio Bolsonaro foi apresentada como sucessão escolhida por Jair Bolsonaro, que segue influente mesmo condenado e inelegível, segundo cobertura da agência Associated Press. Terceiro, há deslocamento geracional importante: a Reuters registrou nesta semana crescimento da rejeição a Lula entre jovens, sobretudo homens jovens, combinando frustração econômica, descrédito institucional e atração por discursos de ordem, anticorrupção e direita radicalizada.

Quarto, o Congresso continua operando como centro real de veto: a Agência Brasil registrou a semana com PEC da escala 6×1 travada no Senado, troca de liderança do governo após saída de Jaques Wagner, agenda do MEI, depoimento de Jair Bolsonaro e movimentos do governo em torno de defesa, saúde e segurança.

A tendência, portanto, não é linearmente favorável nem à esquerda nem à direita. A tendência é mais grave: a política brasileira está sendo reorganizada por uma dupla contenção. De um lado, a contenção da extrema direita pela via eleitoral e institucional. De outro, a contenção de qualquer transformação social substantiva pela via parlamentar, fiscal, midiática e financeira. É aqui que aparece o perigo da repetição histórica: a democracia pode derrotar eleitoralmente o autoritarismo e, ao mesmo tempo, preservar o núcleo oligárquico que o produz.

O que ocorreu nesta semana, em termos profundos, foi a confirmação de que o voto continua decisivo, mas cada vez menos soberano. Ele decide o governo, mas não decide sozinho o regime de acumulação, a forma do Estado, o orçamento, a dívida, a estrutura tributária, o sistema de comunicação, a propriedade da terra, o comando das polícias, a captura do fundo público, nem a temporalidade real da vida popular.

O voto aparece como momento de escolha; a estrutura aparece como sistema de bloqueio. Essa é a chave de leitura do meu artigo “A escolha sitiada”: o voto popular é indispensável para barrar a herança autoritária, mas ele opera dentro de uma cidadania incompleta e de uma democracia cercada. O voto popular de 2026, embora decisivo contra a herança autoritária, esbarra nas contradições de uma cidadania marcada pela modernização dependente.

A pergunta decisiva, então, não é apenas: Lula vence? A pergunta é: o que fica depois da vitória? Essa já era a pergunta do artigo, “O que fica?”, divulgado em 7 de junho no site A Terra é Redonda: para além das pesquisas e do marketing de campanha, o pleito de 2026 testa a capacidade política brasileira de produzir algo que permaneça. A semana parece responder de modo inquietante: pode ficar uma vitória defensiva, necessária, mas socialmente insuficiente. Pode ficar a contenção do pior, sem abertura efetiva do novo.

A hipótese do pacto social que repete, na estrutura, o pacto oligárquico é plausível porque o Brasil tem uma forma histórica recorrente: quando a crise ameaça sair do controle, as classes dominantes aceitam alguma recomposição política desde que o núcleo material da dominação seja preservado.

Foi assim em vários momentos: conciliação pelo alto, cidadania regulada, modernização conservadora, abertura lenta e segura, redemocratização pactuada, Constituição social tensionada por política econômica conservadora, lulismo como inclusão via consumo sem ruptura com os grandes pactos da propriedade, e agora talvez uma nova etapa: antifascismo eleitoral com acomodação oligárquico-financeira.

O ponto não é acusar moralmente Lula ou o governo. A questão é estrutural. O lulismo governa um país em que o Congresso se autonomizou como poder orçamentário, o mercado financeiro opera como tribunal permanente, a mídia converte estabilidade em sinônimo de moderação fiscal, e a extrema direita monopoliza parte da linguagem popular do ressentimento.

O jornal Folha de S. Paulo registrou em maio que 70% viam a relação entre Lula e Congresso mais como confronto do que colaboração, sinalizando que a percepção social já identifica o Legislativo como força de bloqueio e barganha. A Agência Brasil também mostrou na semana passada que pautas de apelo popular, como a PEC da escala 6×1, permanecem travadas no Senado, enquanto o governo reorganiza sua articulação parlamentar.

A forma nova do pacto oligárquico não é mais apenas café com leite, coronelismo ou mando agrário direto. Hoje ela combina cinco elementos: Congresso-orçamento, mercado-dívida, mídia-plataforma, judicialização seletiva e segurança como gramática social. A oligarquia contemporânea não precisa aparecer como aristocracia rural. Ela aparece como “responsabilidade fiscal”, “governabilidade”, “empreendedorismo”, “combate à corrupção”, “segurança pública”, “modernização administrativa” e “paz institucional”. A linguagem muda; a estrutura permanece.

Por isso, o perigo de 2026 é a produção de um pacto social regressivo com aparência democrática. Ele poderia assumir a seguinte forma: setores populares votam para impedir a volta plena do bolsonarismo; setores médios aceitam Lula como mal menor; frações empresariais aceitam estabilidade; o Congresso exige controle de orçamento, cargos e emendas; o mercado exige disciplina fiscal; a mídia exige “moderação”; e os movimentos sociais são chamados a defender a democracia, mas não a expandir seu conteúdo material. O resultado seria uma democracia defendida contra o fascismo, mas administrada em favor da ordem.

Essa é a repetição estrutural do pacto oligárquico: o povo entra como força eleitoral, mas não como sujeito constituinte. Ele é convocado para barrar a catástrofe, mas não para redefinir a propriedade, o orçamento, o trabalho, a cidade, a universidade, o crédito, o tempo social. A cidadania aparece no momento do voto; desaparece no momento da decisão estrutural. O pacto social, nesse caso, seria social apenas na retórica: defesa da democracia, combate à fome, proteção dos pobres, ampliação de políticas públicas. Mas sua arquitetura permaneceria oligárquica se a repartição real do poder continuasse intocada.

A semana passada também mostrou uma contradição geracional importante. A matéria da agência Reuters sobre jovens brasileiros afastando-se de Lula é um sinal grave porque indica que parte da juventude não se sente herdeira da inclusão lulista. O jovem precarizado, endividado, com diploma desvalorizado ou sem expectativa de ascensão, pode não reconhecer a democracia social como promessa concreta.

A extrema direita entra justamente nesse vazio: ela oferece culpados, masculinidade compensatória, ordem moral, anticorrupção performática e promessa de pertencimento. Quando a esquerda não consegue traduzir futuro, a direita oferece vingança. Quando a política não organiza esperança material, o ressentimento organiza identidade.

Aqui entra sua categoria da duração bloqueada. O pacto oligárquico contemporâneo não apenas distribui desigualmente renda e poder; ele bloqueia a experiência do futuro. A juventude não sente que a história está aberta. O trabalhador não sente que o esforço vira estabilidade. O professor não sente que a universidade forma futuro. O morador da cidade não sente que pertence ao lugar onde vive. O eleitor não sente que seu voto se prolonga em mudança. A democracia, sem duração social, vira evento periódico. E evento periódico, sozinho, não sustenta projeto histórico.

A tendência, então, é de polarização administrada. A extrema direita continuará existindo como ameaça indispensável para disciplinar o campo democrático. O centro oligárquico usará essa ameaça para exigir moderação da esquerda. A esquerda institucional usará a ameaça autoritária para pedir unidade. Os movimentos sociais serão pressionados a adiar demandas. E o Congresso converterá cada urgência democrática em moeda de troca. Essa é a engrenagem mais perigosa: o fascismo ameaça; a oligarquia arbitra; a esquerda administra; o povo espera.

Mas há uma diferença importante em relação aos pactos anteriores. O Brasil de 2026 não vive apenas sob pacto oligárquico nacional; vive sob dependência financeirizada. Isso significa que o pacto interno é subordinado a uma temporalidade externa: juros, dívida, agências, fundos, câmbio, commodities, plataformas, cadeias globais, orçamento capturado. A oligarquia nacional não governa sozinha; ela administra localmente uma forma mundial de coerção. Por isso, seu conceito de capital fictício como forma de bloqueio do tempo histórico ilumina a conjuntura. A política nacional parece decidir; mas decide sob chantagem permanente da valorização financeira.

O risco, portanto, é que 2026 produza uma vitória progressista sem progressão histórica. Uma vitória que impeça a regressão aberta, mas normalize a regressão lenta. Uma vitória que diga “derrotamos o autoritarismo”, enquanto mantém a escala 6×1 bloqueada, a reforma tributária limitada, a universidade subfinanciada, a cidade financeirizada, a juventude sem futuro, o trabalho precarizado, a comunicação concentrada e o fundo público disputado por frações parlamentares. Isso não seria derrota imediata. Seria algo mais brasileiro: vitória sitiada.

Mas a hipótese não deve ser fechada como fatalismo. Há brechas. A primeira é que Lula ainda mantém força popular real, e as pesquisas mostram que a extrema direita não conseguiu converter automaticamente a herança de Jair Bolsonaro em maioria nacional. A segunda é que a candidatura de Flávio Bolsonaro carrega o peso de uma sucessão familiar, judicializada e moralmente desgastada, não uma novidade histórica. A terceira é que temas como escala de trabalho, renda, saúde, segurança, educação e custo de vida podem recolocar a materialidade no centro da disputa. A quarta é que a juventude em deslocamento não está necessariamente consolidada à direita; ela está disponível para quem conseguir nomear sua frustração sem desprezá-la.

A tarefa teórica e política, portanto, seria distinguir frente democrática de pacto oligárquico. A frente democrática é necessária para derrotar o autoritarismo. O pacto oligárquico é perigoso quando, em nome dessa derrota, bloqueia o conteúdo social da democracia. A frente democrática deve ser tática de defesa e abertura; o pacto oligárquico transforma a defesa em limite. A primeira protege a possibilidade da história; o segundo administra o fim da história.

A formulação central poderia ser esta: O Brasil pode estar caminhando para uma nova conciliação pelo alto: o povo é chamado a salvar a democracia pelo voto, mas não a reorganizar a sociedade pelo poder. O pacto aparece como defesa republicana contra o fascismo; sua estrutura, porém, pode repetir o velho acordo oligárquico que admite a presença popular desde que ela não toque no comando do orçamento, da propriedade, do trabalho, da comunicação e do tempo social.

A tendência mais provável, se nada deslocar o quadro, é esta: Lula segue favorito ou altamente competitivo; a extrema direita permanece capaz de organizar medo e ressentimento; o centro parlamentar aumenta seu preço; o mercado exigirá garantias; e a campanha tenderá a empurrar o campo democrático para uma moderação cada vez mais defensiva. A vitória, se vier, virá cercada. A derrota, se vier, será catastrófica. O problema é que a vitória cercada pode preparar a próxima catástrofe se não produzir duração histórica.

Em termos conceituais, eu diria assim: o pacto oligárquico brasileiro se modernizou. Antes bloqueava a entrada do povo; agora administra sua entrada para impedir que ela se converta em poder histórico. Essa é a passagem fundamental. A oligarquia aprendeu a conviver com eleições, políticas sociais limitadas e linguagem democrática. O que ela não aceita é que o povo governe a estrutura.

Por isso, 2026 não deve ser lido apenas como pleito. Deve ser lido como teste da democracia dependente sob capital fictício. Se a democracia for reduzida à derrota eleitoral da extrema direita, ela sobreviverá como forma sitiada. Se conseguir transformar a defesa institucional em reorganização social do tempo, pode abrir outro ciclo. Mas, hoje, a tendência dominante é a primeira: preservação defensiva da democracia com recomposição oligárquica da governabilidade.

Fecho com uma formulação mais literária, no seu tom: O Brasil talvez esteja diante de sua velha astúcia histórica: chama o povo às urnas quando a casa ameaça incendiar, mas entrega a chave da casa aos mesmos administradores do incêndio. A democracia aparece como salvação; a oligarquia, como condição da salvação. O voto barra o abismo, mas não reconstrói a ponte. E, enquanto a ponte não for reconstruída, cada eleição será menos uma escolha de futuro do que uma operação de resgate do presente.

¨     Quem se comunica com o Trump também se trumbica. Por Gilberto Menezes Côrtes

O velho guerreiro, Abelardo “Chacrinha” Barbosa, dizia a cada programa: “Quem não se comunica se trumbica”. Chacrinha morreu em 30 de junho de 1988. Na passagem do velho guerreiro, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato ungido pelo pai, Jair Bolsonaro, tinha apenas sete anos (nasceu em 30 de abril de 1981). Aos 45 anos, formado em advocacia e com mandatos de deputado estadual (de 2003 a 2018) e senador (desde 2019), o filho 01 do ex-capitão já deveria ter mais capacidade de avaliação política. É o mínimo que se espera de quem sonha ser presidente.

A candidatura vem em descendente, desde 13 de maio, quando o site “Intercept Brasil” revelou suas conversas para pedir R$ 134 milhões ao então banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, em fins de 2024, num relacionamento (negado num primeiro momento, seguido de contradições) que se prolongou até depois de ter a candidatura confirmada pelo PL. Pego na mentira, vem descendo a ladeira sem esclarecer totalmente sua relação com Daniel Vorcaro.7

E a situação só piorou quando tentou desautorizar a articulação da madrasta, Michelle Bolsonaro, no final do ano passado, na formação da chapa do PL ao Senado pelo Ceará. A mágoa criou o distanciamento da ex-primeira-dama dos quatro filhos de Jair Bolsonaro. Michelle aproveitou a data do jogo do Brasil com a Escócia para postar vídeo com pesadas acusações contra o enteado senador. Evangélica, ela presidia o PL Mulher há três anos e ampliou a filiação de mulheres e evangélicos ao PL. As mulheres representam 53% do eleitorado e os evangélicos beiram os 30%.

Pois os aliados de Flávio Bolsonaro, a começar pelo economista Paulo Figueiredo, neto do último ditador brasileiro, o general João Batista Figueiredo, que mora nos Estados Unidos onde trama contra o Brasil e o governo Lula com o filho 03, o ex-deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro (PL-SP), fez disparos pesados e machistas contra Michelle. As balas perdidas atingiram a credibilidade do senador no meio feminino e evangélico.

Desesperado, mas desconhecedor da história, no dia 1º de julho de 2026, 38 anos depois da morte de Abelardo Barbosa, o senador tentou mais uma vez recorrer ao apoio do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e lhe enviou carta. Talvez escrita a seis mãos. Possivelmente, o irmão Eduardo, que Flávio pretende nomear chanceler, se for eleito, e o parceiro Paulo Figueiredo, participaram da redação e das tratativas para encaminhar o e-mail ao Departamento de Estado, chefiado por Marco Rubio, e à Casa Branca.

<><> Atestado de entreguista

Trump, como mostrou a melhora da aprovação ao presidente Lula após o tarifaço do ano passado, que o clã Bolsonaro e os bolsonaristas aprovam saudando até a bandeira americana, está em baixa nos Estados Unidos e se tornou um ativo tóxico no Brasil e no mundo.

Clamar para o presidente Trump suspender, "até depois da eleição", a nova onda de tarifas ao Brasil, alegando que as restrições às exportações brasileiras favoreceriam "a reeleição de Lula", mas admitindo os tributos, se for eleito, prometendo, de antemão, favorecimento de pleitos americanos, foi uma confissão de entreguismo.

Getúlio Vargas se suicidou e passou à história com a “Carta Testamento”, cujos contornos escritos à mão pelo presidente foram burilados e amplificados em letra de forma, datilografada pelo amigo e secretário particular da Presidência, José Soares Maciel Filho, e lida na Rádio Nacional pelo ministro da Fazenda Oswaldo Aranha.

Já na carta-confissão de vassalagem, Flávio Bolsonaro informa que as tarifas propostas por Trump poderiam “recompensar os próprios infratores que pretendem punir”. O argumento central é que a retaliação comercial fortaleceria Lula eleitoralmente, porque permitiria ao governo brasileiro converter o conflito com os EUA em ativo político interno.

O posicionamento dos Bolsonaro e dos bolsonaristas está sendo devidamente explorado à larga pelo presidente Lula, e deve refletir em novas pesquisas que aumentam a distância entre o presidente e o senador, com chances crescentes de a fatura ser decidida no primeiro turno, em 4 de outubro

Os bolsonaristas deviam dizer a seu atual líder que a música sertaneja “Nóis trumpica (sic) mas não cai” é perigosa agora.

<><> Mancada com as mulheres

Decididamente, Flávio Bolsonaro é um personagem que “mídia training” e processos de suavização da imagem não conseguem burilar, tão enraizados são os traços truculentos e misóginos do clã Bolsonaro.

Imagina, caro (a) leitor (a). que precisando cativar o eleitorado feminino solidário com o desacato a Michelle Bolsonaro por Paulo Figueiredo, o senador participou, sexta-feira, 3 de julho, de evento na seção fluminense do PL Mulher, no Rio de Janeiro, e tratou de saudar "a mulherada”.

Lá, também ensaiou uma dancinha ao som de um funk com letra em sua homenagem. Como já foi criticado por falta de ritmo, à tarde foi aprimorar dancinha e passos de funk com o influenciador Pulga Chora Boy (?!) Planos para o país, nada.

Os tempos mudaram muito. Mas a falta de trato com o eleitorado feminino custou muitos dissabores ao então governador de São Paulo, Ademar de Barros, na campanha presidencial de 1955. Num comício em Recife, que era a maior capital do Nordeste, o candidato do PSP aproveitou para também saudar em alto e bom som “a mulherada”.

Foi uma gafe total. Afastou do palanque as mulheres das autoridades presentes, o cardeal, e esvaziou a plateia feminina. O desastrado Ademar desconhecia que, no Nordeste, em especial no Recife, “mulherada” era sinônimo das mulheres que exerciam a mais antiga das profissões.

Em tempo, a eleição de 1955 foi vencida por Juscelino Kubitscheck, da coligação PSD-PTB, com 3,077 milhões de votos (35,68% dos votos válidos). O marechal Juarez Távora, da UDN, ficou em segundo, com 2,610 milhões de votos (30,27). Ademar foi terceiro, com 2,222 milhões (25,77%).


Fonte: A Terra é Redonda/JB 

 

Washington Araújo: O fracasso chamado desenvolvimento

Passei a desconfiar da palavra desenvolvimento toda vez que ela aparece cercada de gráficos, siglas, metas e discursos satisfeitos. Em geral, quanto mais elegante a apresentação, menos se pergunta quem ficou de fora. O livro organizado por Arash Fazli e Amitabh Kundu acerta exatamente nesse ponto: desmonta a ilusão de que progresso possa ser calculado apenas por renda, produtividade, infraestrutura e crescimento econômico.

Há décadas, governos, bancos, consultorias e organismos internacionais repetem a mesma liturgia. Anunciam projetos, exibem números, prometem inclusão, inauguram obras e, depois, seguem adiante. Ficam para trás trabalhadores sem proteção, mulheres sobrecarregadas, rios negociados como mercadoria, povos tradicionais empurrados para a margem, jovens tratados como mão de obra barata e comunidades convocadas apenas para legitimar decisões já tomadas.

Leio esse documento como uma acusação direta contra a arrogância tecnocrática. Desenvolvimento sem justiça é só administração da desigualdade. Sustentabilidade sem mudança real no modo de produzir, consumir e governar é propaganda. Participação popular usada como ornamento de relatório é fraude elegante. E crescimento econômico que exige silêncio dos pobres merece outro nome: espoliação.

A contribuição mais forte do livro está em recolocar o tempo dentro da política. Holly Hanson trabalha a ideia de ética duracional, isto é, a capacidade de ligar passado, presente e futuro. Parece elementar, mas boa parte das políticas públicas fracassa exatamente porque opera como se o mundo começasse no dia da assinatura do contrato. O projeto dura três anos; a comunidade viverá cinquenta anos com os efeitos dele. O consultor entrega o relatório; a família local permanece com a água contaminada, o emprego precário ou a terra perdida.

Essa é uma ferida brasileira também. Conhecemos bem a linguagem das grandes promessas. Já nos venderam integração nacional, modernização agrícola, choque de gestão, parceria público-privada, mineração responsável, transição energética e inovação social. Muitas dessas expressões nasceram bonitas. Algumas se tornaram senha para concentrar renda, destruir vínculos comunitários e empurrar os custos ambientais para quem nunca participou da decisão.

Augusto Lopez-Claros recoloca pobreza e desigualdade no lugar de onde nunca deveriam ter saído. Não basta aliviar a miséria por alguns anos, enquanto a máquina que fabrica exclusão continua intacta. Ritu Dewan mostra como leis trabalhistas podem transformar precarização em norma. Sudeshna Sengupta revela o peso brutal carregado por mulheres do setor informal, presas entre trabalho mal pago, cuidado doméstico invisível e abandono estatal.

Não falo disso como quem observa um problema distante. No Brasil, essa cena tem endereço, sotaque, cor, gênero e CEP. Está na trabalhadora que atravessa a cidade antes do amanhecer, no entregador que paga a própria ferramenta de exploração, na agricultora familiar sem assistência técnica, no jovem que recebe curso de empreendedorismo quando precisava de escola decente, transporte público e emprego protegido.

O livro também confronta outra mentira persistente: a de que tradição significa atraso. Pastores do Himalaia, artesãos indianos, comunidades Bhil Adivasis, guardiões de sementes, agricultores guiados por saberes locais e povos que preservam a biodiversidade aparecem como portadores de inteligência social acumulada. A modernização predatória costuma olhar para essas experiências com condescendência. Depois destrói solos, seca rios, padroniza alimentos, mata idiomas e convoca seminários para lamentar a crise que ajudou a produzir.

A pergunta de Paul Hanley — se conseguiremos alimentar mais de 10 bilhões de pessoas de modo sustentável — deveria constranger os donos das respostas fáceis. Não haverá saída apenas com máquinas, fertilizantes, aplicativos e algoritmos. A produção de alimentos exigirá ciência, sim, mas também justiça fundiária, agroecologia, conhecimento indígena, cooperação local e governos dispostos a enfrentar interesses poderosos. Sem isso, a fome continuará sendo tratada como acidente, quando é decisão política acumulada.

G.N. Devy amplia ainda mais o debate ao tratar das línguas ameaçadas. Quando uma língua desaparece, perde-se uma forma inteira de organizar memória, afeto, trabalho, território e pertencimento. O mundo fica mais pobre por dentro. Nenhum país pode se dizer desenvolvido enquanto transforma povos vivos em nota de rodapé de sua própria história.

Saio dessa leitura com uma certeza dura: precisamos parar de aplaudir qualquer crescimento que venha acompanhado de devastação social. O verdadeiro teste do desenvolvimento não está no tamanho da obra, no brilho do investimento ou na fotografia da inauguração. Está na vida concreta de quem trabalha, planta, cuida, ensina, pesca, costura, cria filhos, protege nascentes e mantém de pé aquilo que a economia oficial raramente enxerga.

Desenvolvimento digno começa quando perguntamos quem decide, quem ganha, quem perde e quem carregará as consequências. Sem essas perguntas, progresso é apenas uma palavra cara a serviço de velhos privilégios. Com elas, ainda poderemos transformar política pública em reparação, economia em cooperação e futuro em compromisso com os que chegam depois de nós.

¨      O brasileiro é desenvolvimentista na economia e conservador nos costumes. Por Leonardo Attuch

A mais recente pesquisa Datafolha sobre o perfil ideológico dos brasileiros merece uma leitura que vá muito além da manchete segundo a qual a direita voltou a superar a esquerda na identificação política da população. Quando se observam os dados em profundidade, a principal conclusão é outra: o brasileiro continua sendo essencialmente desenvolvimentista na economia, mas revela posições cada vez mais conservadoras nos costumes.

Essa combinação pode parecer contraditória para quem enxerga a política a partir de categorias importadas de outras sociedades. No entanto, ela faz enorme sentido na história brasileira.

O brasileiro quer um Estado capaz de oferecer saúde pública de qualidade, educação eficiente, infraestrutura moderna, crédito para a produção, proteção ao emprego, investimentos e crescimento econômico. Em outras palavras, deseja um Estado forte nas áreas em que o mercado fracassou historicamente.

Ao mesmo tempo, manifesta crescente desconforto com aquilo que percebe como interferência excessiva em temas relacionados ao comportamento, à família, à religião ou à sexualidade. Não significa necessariamente intolerância, mas uma disposição maior para defender valores tradicionais e cobrar prioridade para problemas considerados mais urgentes, como segurança pública, renda e qualidade dos serviços públicos.

É justamente essa aparente contradição que ajuda a explicar a política brasileira das últimas décadas.

Durante os anos 1990, Fernando Henrique Cardoso costumava dizer que sonhava com um Brasil liberal na economia e liberal nos costumes. Era uma formulação coerente com a onda neoliberal que varria o mundo após o fim da Guerra Fria. A experiência brasileira, contudo, mostrou os limites desse projeto.

As privatizações, a desindustrialização, a financeirização da economia e a redução da capacidade de investimento do Estado não produziram o salto de desenvolvimento prometido. Ao contrário, o país perdeu dinamismo industrial, aumentou sua dependência da exportação de commodities e viu crescer a desigualdade regional e social.

O fracasso do receituário neoliberal produziu um efeito curioso.

Como defender abertamente a redução do Estado deixou de ser eleitoralmente atraente para grande parte da população, setores da direita e, sobretudo, da extrema direita passaram a deslocar o centro do debate para a chamada guerra cultural.

Foi nesse ambiente que ganharam força slogans como o combate ao “kit gay”, ao “banheiro unissex” e a outras pautas simbólicas que passaram a dominar campanhas eleitorais e redes sociais. Independentemente da existência concreta ou da dimensão real desses temas, eles cumpriram uma função política muito eficiente: mobilizar o eleitorado em torno de questões identitárias enquanto o verdadeiro programa econômico permanecia sendo a defesa da agenda neoliberal.

Em outras palavras, o conservadorismo comportamental tornou-se, muitas vezes, o veículo para a implantação de um projeto econômico que dificilmente venceria eleições se fosse apresentado de forma isolada.

A pesquisa Datafolha mostra, porém, que essa estratégia não altera um dado essencial. Quando o assunto é economia, a maioria dos brasileiros continua esperando que o governo lidere os investimentos, fortaleça a infraestrutura, preserve direitos trabalhistas e ofereça serviços públicos de qualidade.

O brasileiro pode desejar menos interferência estatal em aspectos da vida privada, mas continua esperando muita presença do Estado quando o assunto é desenvolvimento nacional.

Essa talvez seja a principal lição para a esquerda brasileira.

Historicamente, foi a esquerda que defendeu a industrialização, os bancos públicos, a Petrobras, a Eletrobras, o BNDES, a ciência nacional, as universidades públicas, o SUS e os grandes projetos de infraestrutura. É esse campo político que preserva, de forma mais consistente, uma visão desenvolvimentista para o país.

Mas isso não significa que a esquerda esteja automaticamente em sintonia com a sociedade em todas as dimensões.

Se desejar construir maiorias estáveis nas próximas décadas, precisará compreender que o eleitor brasileiro não necessariamente acompanha a velocidade com que determinados debates comportamentais são formulados em setores acadêmicos, partidários ou militantes.

Isso não implica abandonar princípios democráticos, direitos individuais ou o combate à discriminação. Tampouco significa abrir mão da defesa das minorias ou da igualdade perante a lei.

Significa reconhecer que a política exige capacidade de interpretar a sociedade como ela é, e não como determinados grupos gostariam que ela fosse.

Governar um país continental como o Brasil exige construir consensos amplos em torno das prioridades nacionais. E essas prioridades continuam sendo crescimento econômico, geração de empregos, segurança pública, educação de qualidade, atendimento digno na saúde, infraestrutura moderna e oportunidades para todos.

A pesquisa do Datafolha talvez não revele uma guinada definitiva do Brasil para a direita. Ela pode estar revelando algo mais complexo e mais profundo: um país que continua desenvolvimentista na economia, mas que deseja preservar valores tradicionais na esfera privada.

Quem conseguir compreender essa combinação terá maiores condições de liderar o Brasil nas próximas décadas. Afinal, a política democrática raramente recompensa quem tenta mudar o povo; costuma premiar quem primeiro aprende a entendê-lo.

¨      Força da balança comercial vem transformando o Brasil em um país estruturalmente superavitário

A economia brasileira consolida uma transformação estrutural em suas contas externas. O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) elevou para US$ 90 bilhões a projeção de superávit da balança comercial em 2026, um resultado que, se confirmado, será o segundo maior da história do país. O desempenho reforça uma característica cada vez mais presente na economia brasileira: a geração recorrente de grandes superávits comerciais, que fortalecem a posição financeira do Brasil diante do mundo.

Os dados foram divulgados pelo MDIC e noticiados inicialmente pela Reuters. A nova estimativa representa um avanço expressivo em relação à projeção de abril, quando o governo esperava um saldo de US$ 72,1 bilhões. O resultado projetado também supera em 32,3% o superávit registrado em 2025, de US$ 68,1 bilhões.

Mais do que um número expressivo, a manutenção de elevados superávits comerciais tem importância estratégica para a economia brasileira. Ao exportar mais do que importa, o país amplia a entrada líquida de dólares, fortalece suas reservas internacionais, reduz a vulnerabilidade a choques externos e contribui para a estabilidade do câmbio. Essa dinâmica também melhora a percepção de risco do Brasil pelos investidores e amplia a capacidade de financiamento do crescimento econômico.

A melhora das projeções decorre da aceleração tanto das exportações quanto das importações, em um contexto de maior dinamismo da atividade econômica. “Observamos uma aceleração dos fluxos, tanto de exportação, quanto de importação, que ajudaram a elevar esse valor previsto”, afirmou o diretor de Estatísticas e Estudos de Comércio Exterior do MDIC, Herlon Brandão.

<><> Exportações batem recordes

Segundo a nova estimativa, o Brasil deverá exportar US$ 394,4 bilhões em 2026, valor US$ 30,2 bilhões superior ao previsto anteriormente. As importações também cresceram nas projeções, alcançando US$ 304,4 bilhões, alta de US$ 12,3 bilhões em relação à estimativa de abril.

O desempenho confirma que o fortalecimento da balança comercial não decorre de retração da economia doméstica, mas de uma expansão ainda mais vigorosa das vendas externas, preservando um saldo comercial elevado mesmo diante do aumento das importações.

Em junho, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 9,758 bilhões, praticamente em linha com as expectativas do mercado. As exportações alcançaram US$ 36,277 bilhões, crescimento de 24,9% sobre junho de 2025 e o maior valor já registrado para qualquer mês da série histórica. As importações somaram US$ 26,520 bilhões, avanço de 14,4%.

<><> Petróleo impulsiona desempenho

O principal destaque das exportações foi a indústria extrativa, cujos embarques cresceram 58,4%, impulsionados principalmente pelas vendas de petróleo bruto ao exterior.

Segundo Herlon Brandão, a valorização internacional da commodity teve papel decisivo. “O preço do petróleo, na comparação interanual, junho deste ano contra junho do ano passado, cresceu 67,6%. Então, o preço influenciou muito a receita. O volume cresceu também, 6,8%, e fez com que o valor de exportação de petróleo crescesse.”

O crescimento das exportações ocorreu mesmo após a adoção, pelo governo federal, de uma alíquota de 12% sobre as exportações de petróleo, implementada em março para estimular a oferta do produto no mercado interno em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio. A ampliação das vendas externas também tende a elevar a arrecadação pública, ainda que exista uma defasagem de aproximadamente dois meses para o recolhimento do tributo.

Além do petróleo, a agropecuária registrou expansão de 18%, impulsionada pelo aumento das exportações de soja. Já a indústria de transformação cresceu 14,7%, com destaque para carnes, combustíveis e farelo de soja.

<><> Economia mais sólida

Do lado das importações, o crescimento também reflete maior atividade econômica. As compras de bens de consumo avançaram 34%, enquanto combustíveis cresceram 11,6%, bens intermediários 10,9% e bens de capital 5,7%.

No acumulado do primeiro semestre, o Brasil registrou superávit comercial de US$ 42,357 bilhões, significativamente superior aos US$ 30,187 bilhões observados no mesmo período de 2025.

A sequência de grandes saldos comerciais reforça uma mudança estrutural na economia brasileira. Com reservas internacionais robustas, contas externas equilibradas e capacidade crescente de gerar divisas por meio das exportações, o país amplia sua margem de segurança diante das oscilações da economia global e cria condições mais favoráveis para sustentar investimentos, crescimento econômico e estabilidade macroeconômica nos próximos anos.

 

Fonte: Brasil 247

 

O desprezo pelas ciências humanas

Recentemente, em meus estudos de pré-vestibular, deparei-me com diversos comentários de estudantes que defendiam a ideia de que seria plausível, e até mesmo melhor, negligenciar a matéria de linguagens e humanas para que se possa focar totalmente nas ciências naturais e na matemática. Retirando a relação de proficiência estudantil e a questão do peso em notas, nota-se uma visão que, de certa forma, busca o isolamento das ciências humanas e linguísticas e que despreza o uso das mesmas.

Sob essa perspectiva, qual seria o motivo do desprezo por essas áreas específicas? Seria um caso de grande entendimento da matéria e, sendo assim, seria melhor focar nas fragilidades do estudante? Seria uma visão que discorda da importância dessas ciências para a humanidade? Seria uma combinação de ambos os fatores?

Certamente, não deixei de considerar a possibilidade de haver interferência do pensamento conservador nesse cenário. Há quem veja nas humanidades uma ameaça à ordem estabelecida, associando o pensamento crítico à doutrinação ideológica. Esse receio, ainda que velado, alimenta a desconfiança em relação ao conhecimento produzido por essas áreas. Comentarei, nesse texto, a relação de desprezo com as ciências humanas especificamente, porém, não desconsidero a tese de que as linguagens também são vítimas do mesmo processo.

Ademais, poucos se sentiriam autorizados a discordar de um engenheiro sobre a resistência de uma ponte ou de um médico sobre o diagnóstico de uma doença. No entanto, quando o tema é história, sociologia ou filosofia, a mesma deferência raramente é concedida. Ao contrário, o especialista nessas áreas vê sua autoridade questionada cotidianamente por vozes que se julgam igualmente competentes, como se a experiência de viver em sociedade bastasse para substituir anos de pesquisa metódica. Essa assimetria revela não uma suposta fragilidade das ciências humanas, mas uma profunda distorção epistemológica.

Outrossim, as pessoas confundem familiaridade com expertise. Todos vivem em sociedade, todos votam, todos falam uma língua, todos possuem experiências históricas. Essa proximidade produz a ilusão de que compreender cientificamente esses fenômenos é simples. No entanto, assim como possuir um corpo não torna alguém médico, viver em sociedade não transforma ninguém em sociólogo.

Logo, as ciências humanas sofrem uma desvalorização epistemológica: ao contrário de outras áreas do conhecimento, seus métodos e sua expertise frequentemente não são reconhecidos como científicos. Isso faz com que pessoas sem formação se sintam autorizadas a emitir opiniões categóricas sobre história, sociologia, filosofia ou direito, muitas vezes apresentando senso comum ou pseudociência como se fossem conhecimento especializado. Não se trata de um problema com interdisciplinaridade, mas da desconsideração dos métodos próprios dessas disciplinas e da autoridade construída por meio da pesquisa. Além disso, o caso é agravado pela forma com que a sociedade, equivocadamente, mistura opinião com saber e intuição com ciência.

A pesquisa realizada em 2025 pela More In Common, em parceria com a Quaest, demonstra as percepções conservadoras arraigadas na sociedade brasileira. Isso porque 54% dos brasileiros creem que as universidades públicas possuem mais viés ideológico do que, verdadeiramente, ensino de qualidade. Decerto, os resultados da pesquisa apontam uma crise de legitimidade das universidades públicas, crise essa que é amplamente abordada no artigo “A desqualificação das universidades públicas”, de Roberto Leher – postado no site A Terra é Redonda.

Todavia, o que é de extremo interesse para o caso do desprezo às ciências humanas é, na verdade, o fato de boa parte da premissa de desqualificação das humanidades está baseada na crença de viés ideológico. Por conseguinte, a pesquisa demonstra, com nitidez, a existência de uma forte presença da percepção conservadora em relação às universidades públicas brasileiras.

Outrossim, pode-se dizer que a polarização política contribui diretamente para o cenário comentado. Pois, uma vez que a população age com desconfiança perante a universidade pública e, obviamente, às humanidades, por conta de fatores ideológicos, é notório que o combate ao suposto viés político será consequência de tal desconfiança. Assim, surge a proliferação de discursos pseudo-científicos ou reducionistas que irão contrapor a imaginária doutrinação política.

Contudo, tal fenômeno não explicaria a disseminação de conteúdo anticientífico, pois, não faria sentido para um indivíduo cético em relação às ciências humanas, utilizar ela para contrapor problemas ideológicos. Sendo assim, seria lógico concluir que a desconfiança não é com as ciências sociais em si, mas, de fato, com a suposta posição política da ciência. Como uma pesquisa australiana revelou que, embora 80% da população demonstre interesse por história, mais de 75% acreditam que ela é suscetível a ser manipulada por políticos e pela mídia.

No Brasil, poderia ser observado um cenário similar, uma vez que a população também demonstra interesse em ciências humanas, porém, a rejeita por conta de uma crença já estabelecida que relaciona humanidades com doutrinação ideológica.

Com a polarização política interferindo, evidentemente, na posição ideológica do congresso, faz-se explícito que parlamentares – principalmente de direita – irão se alinhar com a visão conservadora comentada. Com base nisso, a lógica de austeridade, que continua assombrando a nação, irá ser utilizada como ferramenta para atacar as universidades e projetar uma economia desfavorável aos projetos das ciências sociais. Temos como prova disso o corte de orçamento de 69 universidades federais, em 2026, em meio à ampliação de gastos com emendas parlamentares.

Com efeito, emerge outro desafio aos profissionais de humanas: a lógica capitalista. Isto é, a lógica que compreende aqueles que não esbanjam recursos materiais como uma casta inferior na sociedade. Nesse sentido, conforme a sociedade se fecha para as ciências sociais, a economia molda um cenário extremamente competitivo e injusto para o exercício da profissão da área de humanas.

Dessa maneira, vítimas do baixo salário e da falta de perspectiva, a sociedade encara os conhecimentos dos profissionais de humanas como descartáveis, não só isso, mas encara, simultaneamente, os próprios profissionais como descartáveis, tendo em vista a realidade atual dos professores.

Entretanto, é de extrema ingenuidade tratar as humanidades como inúteis baseando-se, apenas, em questões financeiras. Da mesma forma, seria ingenuidade tratar a engenharia como fútil, desconsiderando todas as maravilhas provenientes da engenharia, por conta da falta de sucesso de seus profissionais. Na realidade, já é observável uma crise na engenharia e em outras áreas das ciências naturais, vítimas, também, da política de austeridade neoliberal.

Dentre outros aspectos, faz-se imprescindível compreender a repentina expansão de falsificadores da ciência e suas respectivas problemáticas. Pois, é inacreditável que existam influenciadores, com milhares de seguidores, que se trajem de “defensores da parcialidade” e “divulgadores da ciência”, porém, tudo que fazem é propagar a desinformação e lucrar em cima das falsificações.

Lamentavelmente, esses personagens influenciam diariamente centenas de milhares de indivíduos. Contaminando o planeta de seres vítimas do Efeito Dunning-Kruger. Além disso, criam-se semi-seitas que buscam defender o influenciador – que sequer possui graduação ou pesquisa científica na área – e disseminar sua fama.

Vale ressaltar que não busco fortalecer o discurso elitista que defende a tese de que apenas acadêmicos da área devem compô-la. Sobretudo, a existência de indivíduos de outras áreas do conhecimento é essencial para o avanço da ciência, afinal, é o que significa interdisciplinaridade. Todavia, o que critico, nesse texto, é a confiança total que dão para indivíduos que não afirmam serem meros divulgadores – que possuem conhecimento superficial de determinado assunto.

Na verdade, passam a atuar e a ser vistos como verdadeiros profissionais da área, quando não são. Tal comportamento não só fortalece a pseudociência, a desinformação e a parcialidade científica, mas também alimenta a desconfiança em relação às ciências humanas e, por conseguinte, às teses dos verdadeiros profissionais da área.

Com efeito, o que surge com esse comportamento é o apagamento de pesquisas, artigos e até mesmo influenciadores que contribuem com a luta contra a desvalorização das ciências humanas. Uma vez que, diferentemente do que é propagado, as ciências humanas são, de fato, uma ciência e, por isso, necessitam de método científico. Nesse sentido, o trabalho com rigor científico é longo, cansativo e demanda esforço.

Logo, na sociedade que é marcada pelo conteúdo rápido, o trabalho que demora a ser publicado – graças ao tratamento correto com o método científico – é repentinamente ofuscado pela rapidez dos conteúdos propagados pelos influenciadores falsificadores da ciência – que não demandam elevado rigor técnico.

Nesse sentido, faz-se correto afirmar que até a estrutura do algoritmo favorece a desvalorização das ciências, em geral. Com isso, por conta da necessidade de fazer sucesso, financeiramente e popularmente, cria-se um cenário de desprezo ao método científico. Tal cenário se define pela mercantilização do conhecimento. Isto é, o processo de transformação do saber em mercadoria, priorizando sua aparência e forma de venda em detrimento do progresso técnico.

Conectando-se ao ponto de formação estudantil, dos 10 cursos mais concorridos do SISU, apenas três são das ciências sociais: direito, psicologia e arquitetura e urbanismo. O que conecta todos os três cursos é o fato de todos serem conhecidos como “financeiramente rentáveis”. Desconsiderando se a afirmação é verdadeira ou não, é evidente que a opinião pública presume os três cursos como interessantes monetariamente.

Portanto, fortalece-se a tese de que é de maior importância para um indivíduo a recompensa financeira do que o avanço acadêmico da área. Contudo, mesmo assim, a sociedade brasileira demonstra interesse pela área de humanas, porém, não é o bastante para fazer dela uma área de grande concorrência.

À guisa de conclusão, é explícito que todos os fatores comentados – a visão conservadora; o ataque neoliberal; a lógica econômica; o avanço da pseudociência; os falsificadores do conhecimento; e a desvalorização estudantil – contribuem para o desprezo às humanidades. Formando-se um cenário estrutural complexo de se desfazer, uma vez que cada fator se entrelaça um ao outro e o fortalece. Sobretudo, o desprezo caracteriza-se por uma desvalorização epistemológica. Pois, a sociedade se interessa pela área de humanas, entretanto, não busca o verdadeiro saber que a determinada área provém.

Assim, a sociedade se deixa levar pela grande massa de conhecimento infundado que existe nas redes sociais. Esse conhecimento, propagado por falsificadores da ciência, é dominado por ideologias hostis às ciências sociais. Por conseguinte, esse conhecimento se enraiza no pensamento do indivíduo que o consome e, posteriormente, forma um indivíduo ideologicamente cooptado.

Tal indivíduo irá, de forma estrutural, consumir o conteúdo pseudocientífico e impulsionar, mais ainda, a propagação dos falsificadores da ciência devido à lógica que compõe o algoritmo das redes sociais. Desse modo, o conhecimento alcançará mais seres e, assim, irá fortalecer o ciclo da ignorância.

Não é de se esperar uma mudança repentina no cenário. Pois, assim como Carl Sagan afirma em O mundo assombrado por demônios, a pseudociência apela fortemente para necessidades emocionais. Dessa forma, é mais comum enxergar um fortalecimento do saber pseudocientífico. Todavia, é de extrema importância e, por essência, o dever dos cientistas e acadêmicos combater a falsificação que aterroriza a sociedade contemporânea. É necessário crer na superioridade da ciência para desmascarar os propagadores da falsa ciência.

Nesse viés, quando cito a palavra “ciências” não pretendo dizer apenas as ciências sociais, mas sim, pretendo dizer todas as ciências do homem. Paralelamente, junto ao combate da pseudociência, o desprezo às ciências humanas deve ser enfrentado. Pois, em uma sociedade orientada pelo conhecimento científico, o exercício das humanidades será de maior importância e, consequentemente, maior facilidade. Diferentemente, a sociedade atual, vítima e, simultaneamente, cometedora de ataques às universidades, demonstra ser hostil à prática do saber.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o orçamento de universidades ou a distribuição de bolsas de pesquisa. É a própria concepção de conhecimento que uma sociedade elege como legítima. Quando as ciências humanas são sistematicamente desfinanciadas e seus métodos são desconsiderados sob a acusação vaga de “doutrinação ideológica”, não se está apenas cortando gastos, está-se cerceando a capacidade de uma nação de compreender a si mesma.

A história, a sociologia, a filosofia e o direito não são ornamentos culturais dispensáveis, são ferramentas essenciais para que uma civilização não se dissolva em achismos e paixões. Desprezar o rigor dessas disciplinas é, no fundo, desprezar a própria possibilidade de um debate público informado e de uma cidadania consciente. Se a ciência natural nos ensina a construir pontes, as ciências humanas nos ensinam para onde elas devem nos levar. E sem esse norte, de nada adiantam as ciências naturais. Uma sociedade necessita de ambas.

 

Fonte: Por Artur Sabino de Carvalho, em A Terra é Redonda

 

Estudo mostra que 25% dos brasileiros não sabem sobre prevenção do câncer

Um novo estudo nacional, divulgado nesta quarta-feira (3), aponta que um a cada quatro brasileiros não sabe que o câncer pode ser evitado. A pesquisa, realizada com 6,5 mil adultos em todo o país, mostrou que há muita desinformação sobre a doença — que registrará 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028.

O relatório "Mais Dados Mais Saúde", obtido pela CNN Brasil, aponta que 40% dos casos de câncer poderiam ser evitados com algumas mudanças de hábito. Assim como o hábito de fumar, outras atividades e comportamentos costumam contribuir para a incidência da doença.

Os dados mostram que 27% dos brasileiros sequer sabem que o câncer pode se desenvolver de acordo com a rotina de uma pessoa. O nível de conhecimento varia e envolve tópicos mais conhecidos, como tabagismo, herança genética e exposição solar excessiva.

No entanto, alguns comportamentos acabam ficando de lado no que diz respeito à conscientização na luta contra o câncer. São menos abordados temas como consumo de bebidas alcoólicas, de alimentos embutidos, ultraprocessados e carne vermelha.

A parte comportamental também não é reconhecida por grande parte da população como fator de risco. O sedentarismo e o excesso de peso podem contribuir para o surgimento da doença.

De acordo com o estudo, o nível de conhecimento dos brasileiros sobre os fatores de risco se configura da seguinte maneira:

•        Tabagismo: 90,5%;

•        Herança genética: 89,4%;

•        Exposição solar excessiva: 88,3%;

•        Bebidas alcoólicas: 71,3%;

•        Alimentos embutidos: 70,7%;

•        Ultraprocessados: 65,6%;

•        Excesso de peso: 54,1%;

•        Sedentarismo: 48,3%;

•        Carne vermelha: 27,5%.

Um ponto levantado sobre o estudo sugere que o alto conhecimento sobre herança genética como fator de risco aponta para uma sensação de "inevitabilidade" da doença; ou seja, para algumas pessoas, não há como evitar o câncer.

A pesquisa também sugere que 61,3% dos entrevistados acreditam que consumir suplementos vitamínicos pode diminuir drasticamente o risco de ter câncer no futuro. Já 40% não sabem que o aleitamento materno é um dos grandes aliados contra o desenvolvimento de câncer de mama.

Mesmo sem ter conhecimento sobre os fatores de risco, grande parte da população já evitou ou não consome alimentos e bebidas que podem levar ao câncer.

O estudo mostra que:

•        45% das pessoas que comem ultraprocessados já tentaram diminuir o consumo;

•        45% das pessoas que comem carne vermelha não pensam em diminuir o consumo;

•        86,3% da população afirmam consumir frutas e verduras;

•        Jovens de até 24 anos são o grupo que está mais em contato com fatores de risco para ter câncer.

•        Dois terços das pacientes com câncer de mama podem evitar quimioterapia

Um estudo apontou que dois em cada três pacientes com o tipo mais comum de câncer de mama não obtêm benefício significativo com a quimioterapia e que um teste genético realizado no próprio tumor é capaz de identificar, com segurança, quem pode ser poupado desse tratamento.

A análise internacional OPTIMA, apresentada no congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO), avaliou mais de 4.400 pacientes em seis países.

A pesquisa também reuniu evidências para o uso do teste Prosigna em pacientes de maior risco clínico, incluindo mulheres com até nove linfonodos comprometidos, tumores em estágio mais avançado e pacientes na pré-menopausa a partir dos 40 anos, grupos que, quase sempre eram encaminhados para a quimioterapia.

O teste analisa a atividade de 50 genes no tecido retirado durante a cirurgia ou em uma biópsia e gera uma pontuação de risco. Pacientes com pontuação baixa são justamente aqueles que, provavelmente, não apresentam benefício clínico significativo com o tratamento.

Para avaliar a eficácia do Prosigna, um grupo recebeu o tratamento padrão, enquanto outro teve a decisão terapêutica guiada pelo teste. Os resultados mostraram que dois terços dos participantes obtiveram pontuação baixa e, nesse grupo, o tratamento foi realizado apenas com hormonioterapia.

"Estamos falando de poupar milhares de mulheres de um tratamento agressivo que, para elas, traria muito mais efeitos colaterais do que benefício real. O grande avanço é tomar essa decisão a partir da biologia do próprio tumor, e não apenas das características clínicas, oferecendo mais tratamento a quem precisa e menos a quem não precisa", afirma o Dr. Raphael Parmeggiani, vice-presidente LATAM de Assuntos Científicos em Oncologia da Centogene.

Outra conclusão foi que, após um acompanhamento médio de quatro anos, os resultados foram praticamente iguais entre os grupos.

Em cinco anos, a sobrevida livre de câncer de mama invasivo ficou em torno de 94% em ambos. Na prática, entre os pacientes com pontuação baixa, no máximo dois em cada 100 teriam a recorrência do câncer evitada pela quimioterapia.

A Centogene, empresa responsável por trazer o teste Prosigna ao Brasil, é uma das líderes globais em diagnóstico genético e medicina de precisão, com a missão de transformar dados em respostas para pacientes, médicos e sistemas de saúde.

•        Câncer de mama assusta, mas chance de cura é alta, diz médico

O diagnóstico de câncer de mama ainda provoca forte impacto emocional nas pacientes, frequentemente associado ao medo da morte. Durante o programa CNN Sinais Vitais, especialistas destacam que, quando detectada precocemente, a doença apresenta altas chances de cura e tratamentos cada vez mais eficazes.

"O paciente vem absurdamente ansioso e a gente fala: essa é uma doença potencialmente curável", diz Antonio Buzaid, oncologista do Hospital Nove de Julho e Samaritano.

Buzaid reforça a importância da detecção precoce do câncer de mamam para aumentar as chances de cura. Ele enfatiza que tumores pequenos, principalmente aqueles que não têm linfonodos envolvidos, apresentam taxas de cura muito elevadas. "Quanto menor o tumor, a cura é muito elevada. Para cada milímetro, 1%. Para cada linfonodo afetado, aumenta a mortalidade em 6%, se não tratar com alguma coisa a mais", explica.

O oncologista ressalta que o objetivo do tratamento em casos localizados é sempre a erradicação completa da doença. "Quando um paciente tem câncer de mama, vamos fazer de tudo para curar. O objetivo e missão de erradicar a doença. Querendo matar todo o câncer do paciente", afirma Buzaid.

<><> Avanços na reconstrução mamária

Fabrício Brenelli, mastologista do Hospital Beneficência Portuguesa, destacou os avanços na reconstrução mamária no Brasil, principalmente no sistema público de saúde. Ele participou de um estudo que modificou o acesso à reconstrução mamária no país, treinando mastologistas para realizar também esse procedimento.

"Nós conseguimos aumentar em quatro vezes o número de reconstrução mamária no SUS em menos de cinco anos", pontua Brenelli.

Ele enfatiza que a reconstrução não é apenas uma questão estética, mas parte fundamental do tratamento integral. "Reconstruir a mama é tão importante quanto o tratamento. A paciente tem que ficar curada, tanto da doença, quanto da sua imagem corporal", destaca.

Nos casos de câncer metastático, quando a doença já se espalhou para outros órgãos, o tratamento busca controlar a progressão e garantir qualidade de vida às pacientes. Buzaid explica que em alguns tipos específicos, como o HER2, já existem casos de pacientes que ficaram livres da doença por longos períodos. "Temos pacientes 8 anos, 10 anos, bem sem doença nenhuma nos exames", relata.

Os especialistas ressaltam que o diálogo aberto com as pacientes sobre as possibilidades de tratamento e cura é essencial para enfrentar o impacto emocional do diagnóstico.

 

Fonte: CNN Brasil