terça-feira, 21 de abril de 2026

Não é sobre PCC: é sobre transformar o Brasil em ameaça global

O debate sobre narcoterrorismo ganhou força, mas a discussão central está sendo deslocada. Ao importar a lógica da guerra ao terror, o Brasil passa a ser empurrado para uma leitura externa que não distingue segurança pública de ameaça global. Esse movimento reorganiza a forma como o país é percebido e tratado no cenário internacional, criando condições para pressões jurídicas, financeiras e políticas que ultrapassam o combate ao crime. O que está em jogo é a capacidade do Estado brasileiro de manter o controle sobre suas decisões em um ambiente cada vez mais condicionado por interesses externos.

<><> A linguagem como tecnologia de poder

O debate sobre “narcoterrorismo” não começa onde parece. Ele não nasce da necessidade de compreender o crime organizado, nem da urgência legítima de enfrentá-lo. Ele surge como uma forma de reorganizar o próprio campo de interpretação da realidade. Ao fundir, de maneira artificial, duas categorias distintas, crime e terrorismo, o termo não esclarece o fenômeno, ele o desloca. E esse deslocamento não é neutro. O crime organizado opera por lógica econômica, territorial e relacional. O terrorismo, por sua vez, é enquadrado no sistema internacional como ameaça política de alta intensidade, passível de respostas excepcionais, inclusive fora dos limites tradicionais da soberania. Ao transformar um em outro, não se está aprimorando a análise, está-se alterando o regime de resposta possível. É essa mudança que importa.

O conceito de narcoterrorismo, portanto, funciona como um dispositivo. Ele não descreve a realidade, ele a reconfigura. Ele cria as condições para que um problema interno seja reinterpretado como risco internacional. E, ao fazer isso, abre espaço para que instrumentos que não caberiam no campo da segurança pública passem a ser considerados legítimos. Sanções, restrições financeiras, pressões diplomáticas e enquadramentos jurídicos deixam de parecer excessos e passam a ser tratados como respostas proporcionais. Esse movimento não é novo na história recente. Ele já foi utilizado em diferentes contextos para justificar a expansão de mecanismos de controle e intervenção sem a necessidade de confrontos diretos. O que o torna particularmente sensível no caso brasileiro é a sua aplicação sobre um país que, até aqui, tratou o crime organizado como questão de soberania interna, ainda que com cooperação internacional.

Ao importar a lógica do terrorismo para esse campo, o que se altera não é apenas a forma de nomear o problema, mas a posição do Brasil no sistema internacional. Um país que lida com criminalidade passa a ser percebido como potencial vetor de ameaça. E essa mudança de percepção não é apenas simbólica. Ela tem efeitos concretos, porque redefine como atores externos podem se relacionar com o Estado brasileiro. É nesse ponto que o debate deixa de ser técnico e se torna estratégico. Não se trata de discutir se facções são violentas ou perigosas, isso já é evidente. Trata-se de compreender por que, neste momento, há um esforço para alterar o enquadramento dessa violência. E, sobretudo, quem ganha com essa alteração.

<><> Quando o nome muda, o jogo muda junto

A mudança de linguagem não fica no plano simbólico. Ela aciona uma cadeia concreta de efeitos que opera fora do alcance imediato do debate público. Quando um ator é enquadrado na categoria de terrorismo, o que entra em funcionamento não é apenas uma nova interpretação, mas um conjunto de mecanismos jurídicos e financeiros capazes de atravessar fronteiras e reorganizar comportamentos institucionais.

O primeiro movimento é a designação. A partir dela, qualquer relação direta ou indireta com o ente classificado passa a ser potencialmente enquadrável. Não se trata apenas de punir a organização em si, mas de ampliar o raio de vigilância sobre redes, fluxos e vínculos. Essa expansão altera o ambiente de risco e redefine a forma como bancos, empresas e instituições passam a operar. Na sequência, entra o sistema financeiro. Estruturas de compliance globais são acionadas automaticamente diante de qualquer associação com categorias de alto risco. Transferências passam a ser monitoradas com maior rigor, operações são bloqueadas preventivamente, instituições evitam exposição. Não é necessário um ato formal de sanção para que o efeito comece a se produzir. O risco percebido já é suficiente para gerar retração.

Esse processo não depende de intervenção direta. Ele funciona por indução. Ao alterar o enquadramento jurídico, altera-se o comportamento dos agentes que operam dentro do sistema. Bancos evitam, empresas recuam, investidores recalculam. O resultado é um ambiente progressivamente mais restritivo, no qual o custo de operar com determinado país ou sob determinada condição passa a ser visto como elevado. Ao mesmo tempo, o plano diplomático se ajusta. Um país associado, ainda que indiretamente, a categorias de ameaça global passa a ser tratado sob outra lógica. A cooperação deixa de ser apenas técnica e passa a incorporar dimensões de vigilância, condicionamento e pressão. O diálogo não desaparece, mas muda de natureza.

O ponto central é que essa engrenagem não precisa ser declarada. Ela opera de forma difusa, distribuída, sem um único centro visível. E é exatamente por isso que é eficaz. Quando o enquadramento muda, os efeitos se espalham antes mesmo que a decisão política seja explicitada. É nesse nível que o debate sobre narcoterrorismo precisa ser compreendido. Não como um rótulo mais duro para descrever o crime, mas como uma chave de ativação de um sistema que ultrapassa o campo da segurança pública. O que está em jogo não é a intensidade da resposta ao crime, mas a natureza dos instrumentos que passam a ser considerados legítimos. Uma vez acionada, essa máquina não distingue com precisão o alvo inicial de seus efeitos colaterais. E é exatamente nesse deslizamento que reside o risco maior.

A consequência direta desse mecanismo é o deslocamento do foco. O que começa como uma discussão sobre organizações criminosas rapidamente se transforma em uma reclassificação do próprio país dentro da hierarquia de risco internacional. Esse é o ponto que costuma passar despercebido. Não se trata apenas de ampliar o rigor contra determinadas facções, mas de alterar o ambiente no qual o Brasil é interpretado por atores externos que operam com base em critérios de segurança.

Países não são tratados apenas por suas instituições formais, mas pela forma como são enquadrados nos sistemas de avaliação global. Quando um território passa a ser associado, ainda que indiretamente, a categorias como terrorismo, a leitura dominante deixa de ser jurídica e passa a ser estratégica. O país deixa de ser visto apenas como um Estado soberano que enfrenta desafios internos e passa a ser percebido como um possível vetor de instabilidade. Essa mudança de percepção reorganiza o campo de ação internacional. Decisões que antes seriam consideradas desproporcionais passam a ser justificadas sob o argumento de prevenção. Medidas de contenção, monitoramento e restrição deixam de ser exceção e passam a integrar o repertório normal de resposta. O problema deixa de estar localizado e passa a contaminar a leitura do todo.

É nesse ponto que o Brasil começa a ser empurrado para uma posição que não corresponde à sua realidade institucional. O país possui um sistema de justiça funcional, coopera internacionalmente no combate ao crime e mantém instrumentos próprios de investigação e repressão. Ainda assim, ao ser deslocado para a gramática da ameaça, esses elementos perdem peso diante da nova moldura interpretativa. O resultado é um desalinhamento entre o que o país é e o que ele passa a representar. Esse desalinhamento não é apenas simbólico. Ele tem efeitos concretos sobre decisões de investimento, relações diplomáticas e grau de autonomia política. Quanto mais o Brasil é associado a uma lógica de risco, maior a tendência de que seja tratado sob parâmetros de contenção.

Esse processo não exige ruptura institucional nem declaração formal de hostilidade. Ele se constrói por acumulação de sinais, por repetição de enquadramentos e pela internalização progressiva de uma leitura externa. Quando se consolida, torna-se difícil revertê-lo, porque passa a operar como referência implícita para decisões que não se apresentam como políticas, mas como técnicas. É por isso que a discussão sobre narcoterrorismo não pode ser tratada como uma disputa semântica. O que está em curso é uma tentativa de reposicionar o Brasil dentro de um sistema que responde de forma diferente a países classificados como problema de segurança. Uma vez dentro dessa lógica, o espaço de decisão se estreita. E é exatamente esse estreitamento que precisa ser compreendido antes que se torne irreversível.

Nesse cenário, o papel das lideranças deixa de ser apenas administrativo e passa a ser estrutural. O que está em disputa não é somente a condução de políticas públicas, mas a capacidade de manter o país fora de um enquadramento que altera profundamente suas margens de ação. É nesse ponto que a figura de Lula ganha centralidade, não por construção retórica, mas pela posição concreta que ocupa nesse tabuleiro. Lula já atravessou um ciclo intenso de pressão interna, marcado por uma operação político-judicial que foi posteriormente revista nas instâncias superiores, com reconhecimento de vícios processuais e parcialidade. Esse percurso não apenas o recolocou na disputa política, mas consolidou uma percepção internacional específica. Trata-se de um líder que enfrentou um processo de desestabilização institucional e emergiu com legitimidade reforçada em diferentes arenas globais.

Essa legitimidade não é simbólica. Ela se traduz em capacidade de interlocução, em inserção diplomática e em reconhecimento por parte de governos e organismos internacionais. Ao mesmo tempo, sua atuação no campo da segurança pública e do combate ao crime organizado não se dá por negação do problema, mas por uma abordagem que combina cooperação internacional com preservação da soberania jurídica. Esse equilíbrio é o que entra em tensão quando se tenta deslocar o Brasil para a lógica do terrorismo. Um país que mantém controle sobre seus instrumentos de investigação, que coopera sem subordinação e que sustenta uma política externa autônoma se torna menos permeável a enquadramentos externos. E é exatamente essa menor permeabilidade que precisa ser contornada para que o novo regime de interpretação avance.

O ataque, portanto, não se organiza a partir de uma acusação direta, que dificilmente se sustentaria, mas por meio da construção de um ambiente no qual o país como um todo passa a ser visto sob suspeita. Ao ampliar o campo de risco, dilui-se a necessidade de vínculo específico. Não é preciso provar uma relação concreta quando se consegue alterar a moldura geral. É nesse ponto que a estratégia se torna mais sofisticada. Ao invés de confrontar frontalmente uma liderança que possui reconhecimento e histórico de enfrentamento ao crime sem associação com ele, desloca-se o debate para um terreno onde a distinção entre realidade e percepção perde nitidez. A pressão deixa de ser dirigida e passa a ser difusa, atingindo o ambiente no qual essa liderança opera.

Lula, nesse contexto, não é apenas alvo eventual, mas obstáculo estrutural. Sua presença no comando do Estado dificulta a consolidação de um enquadramento externo que dependa de adesão interna. E é por isso que a disputa em torno da narrativa de segurança pública se intensifica no momento em que o país se aproxima de um novo ciclo eleitoral. Não se trata de antecipar cenários, mas de compreender a lógica. Quanto maior a possibilidade de continuidade de um projeto que combina autonomia política, inserção internacional e controle soberano sobre instrumentos de Estado, maior tende a ser a pressão para reconfigurar o ambiente em que esse projeto se desenvolve. E é exatamente nesse ambiente que a gramática do narcoterrorismo começa a operar com mais força.

Essa operação não se sustenta sem tradução interna. Nenhuma estratégia de reposicionamento internacional se consolida apenas por pressão externa. Ela depende de agentes locais capazes de reproduzir, adaptar e legitimar a linguagem que vem de fora. É nesse ponto que a discussão sobre segurança pública deixa de ser apenas técnica e passa a ser instrumentalizada como eixo de disputa política.

O que se observa é a incorporação progressiva da gramática da guerra ao terror no debate doméstico. Termos, categorias e soluções que não pertenciam à tradição jurídica brasileira começam a ser apresentados como inevitáveis. O problema não é a gravidade da violência, que é real, mas a importação de um modelo de interpretação que desloca o foco da investigação para o enquadramento.

Esse deslocamento tem função. Ao transformar o crime organizado em ameaça de natureza terrorista, cria-se um ambiente no qual respostas excepcionais passam a ser defendidas como únicas alternativas possíveis. O debate deixa de girar em torno de eficácia e passa a ser dominado por urgência e medo. Nesse terreno, a pressão externa encontra ressonância interna.

A sincronização não precisa ser explícita para ser eficaz. Basta que atores políticos, analistas e setores da mídia passem a operar com o mesmo vocabulário e as mesmas premissas. Quando isso acontece, o enquadramento deixa de parecer imposto e passa a ser percebido como consenso emergente. A estratégia externa ganha corpo interno sem necessidade de coordenação formal visível. É nesse ambiente que a segurança pública se transforma em instrumento de disputa eleitoral. A promessa de soluções rápidas, baseadas em categorias mais duras, tende a ganhar espaço em contextos de insegurança. Ao mesmo tempo, a adoção dessas categorias aproxima o país de um modelo que amplia sua exposição a mecanismos de controle externos.

O risco não está na discussão sobre como enfrentar o crime, que deve ser permanente, mas na redução dessa discussão a um único caminho possível. Quando a complexidade do problema é substituída por uma solução padronizada, abre-se espaço para que interesses que não são necessariamente nacionais passem a orientar o debate.

Esse movimento não anula a responsabilidade interna sobre a segurança pública, mas altera o eixo da decisão. O que antes era definido a partir de necessidades locais passa a ser condicionado por expectativas externas. E, nesse ponto, a autonomia deixa de ser apenas um princípio e passa a ser um fator de disputa concreta. É assim que uma agenda aparentemente doméstica se conecta a um processo mais amplo. O que se discute na superfície como combate ao crime pode, em outra camada, estar alinhado a uma reconfiguração mais profunda do lugar do país no mundo. A etapa final dessa engrenagem não se dá no plano visível da política, mas na camada estrutural da economia global. É ali que os efeitos se consolidam com maior intensidade e menor possibilidade de reação imediata. O sistema financeiro internacional opera a partir de critérios de risco que não dependem de decisões soberanas isoladas. Ele responde a classificações, percepções e sinais que, uma vez acionados, passam a orientar comportamentos em cadeia.

Quando um país é progressivamente associado a categorias de ameaça, ainda que de forma indireta, o impacto não se limita ao campo jurídico. Instituições financeiras ajustam seus protocolos, operações passam a ser filtradas com maior rigor, fluxos são monitorados com mais intensidade. Não é necessário um bloqueio formal para que o ambiente se torne mais restritivo. A antecipação do risco já produz efeitos concretos. Esse tipo de pressão é silencioso, mas profundo. Ele incide sobre a capacidade do país de operar com fluidez no sistema internacional. Linhas de crédito podem se tornar mais caras, operações mais lentas, parcerias mais cautelosas. O resultado não aparece como sanção explícita, mas como deterioração gradual das condições de funcionamento. Nesse contexto, a posição dos ativos estratégicos ganha relevância. Parte significativa das reservas internacionais está inserida em circuitos que não se encontram sob controle direto do Estado brasileiro. Elas dependem de sistemas, instituições e regras que operam a partir de centros de decisão externos. Isso não é anormal no funcionamento do sistema global, mas se torna sensível quando o ambiente de risco se altera.

O mesmo vale para os fluxos financeiros e para a infraestrutura que sustenta transações internacionais. O País opera dentro de uma rede que não controla integralmente. Quando essa rede passa a interpretar o Brasil sob uma lógica de maior risco, ainda que sem ruptura formal, a margem de manobra se reduz. É nesse ponto que a discussão deixa de ser abstrata. O deslocamento semântico inicial, que parecia restrito ao campo da linguagem, encontra aqui sua consequência material. A reclassificação simbólica abre caminho para uma reconfiguração prática das condições de operação do país.

Não se trata de afirmar que esse processo já esteja plenamente consolidado, mas de reconhecer que os elementos que o tornam possível estão sendo colocados em movimento. E, uma vez acionados, tendem a operar com inércia própria, independentemente de decisões pontuais. A soberania, nesse cenário, deixa de ser apenas uma questão de afirmação política e passa a depender da capacidade de antecipar e conter mecanismos que atuam de forma difusa. Quando a pressão se materializa nesse nível, a resposta já não pode ser apenas reativa. E é exatamente essa transição que precisa ser compreendida enquanto ainda há margem para decisão.

O que está em jogo, portanto, não é uma disputa de interpretação, mas a preservação de um espaço de decisão que, uma vez comprimido, dificilmente se recompõe. O país não está diante de uma escolha entre ser mais duro ou mais flexível no combate ao crime. Está diante da possibilidade de ver esse combate ser convertido em outra coisa, em um vetor de enquadramento que desloca o centro das decisões para fora de suas próprias instituições. Esse processo não se anuncia como ruptura. Ele avança por acumulação, por naturalização, por adesão progressiva a uma lógica que parece inevitável. Quando se torna visível, já produziu efeitos. É por isso que o momento decisivo não é o da consolidação, mas o da identificação do mecanismo enquanto ele ainda está em formação.

O Brasil possui instrumentos, instituições e capacidade para enfrentar o crime organizado dentro dos marcos de sua soberania. O que está em disputa é se continuará a fazê-lo a partir desses marcos ou se aceitará operar dentro de um enquadramento que redefine seus limites de ação. Essa diferença é estrutural. Não se trata de negar a gravidade da violência, nem de minimizar a necessidade de resposta. Trata-se de recusar uma solução que, ao prometer resolver um problema, cria outro de escala maior. Quando a linguagem que organiza o combate muda, muda também o horizonte de consequências.

A experiência recente demonstra que deslocamentos desse tipo não ocorrem por acaso. Eles respondem a interesses, a disputas de poder e a projetos que ultrapassam o campo imediato da segurança. Ignorar essa dimensão é abrir mão de compreender o processo em sua totalidade. É nesse ponto que a responsabilidade deixa de ser apenas de quem governa e passa a alcançar todos os que participam da formação do debate público. A forma como o problema é nomeado, interpretado e difundido condiciona as respostas que se tornam possíveis. Quando o enquadramento se consolida, o campo de alternativas já foi reduzido.

O Brasil ainda se encontra em uma posição em que pode decidir os termos dessa discussão. Essa possibilidade não é permanente. Ela depende da capacidade de reconhecer o que está em curso antes que a lógica externa se imponha como única via. Não é sobre intensidade no combate ao crime. É sobre quem define as regras desse combate e até onde elas podem ir. E, quando essa definição escapa, o País inteiro passa a operar sob condições que não escolheu.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Brasil 247

 

População brasileira envelhece e demanda maiores cuidados

O Brasil envelhece de forma cada vez mais acelerada, enquanto o ritmo de crescimento da população diminui. É o que mostrou a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua Domicílios e Moradores, divulgada no final da semana passada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Entre 2012 e 2025, o número de pessoas com menos de 30 anos de idade caiu 10,4%, enquanto o número de idosos, com 60 anos ou mais, subiu 58,7% no mesmo período. O dado ilustra uma mudança profunda na sociedade brasileira, que requer novas formas de se pensar desde o acesso a serviços públicos, como o transporte e a saúde, até a própria economia, segundo especialistas ouvidos pelo Correio.

Em termos numéricos, a população com menos de 30 anos passou de 98,2 milhões, em 2012, para 88 milhões, em 2025. A queda, de 10,2 milhões de pessoas, equivale a quase a população de São Paulo, o município mais populoso do país, que tem 11,4 milhões de habitantes. Já a população de idosos saiu de 22,2 milhões para 35,2 milhões no mesmo período. Essa mudança se reflete na distribuição etária da população. A parcela de menores de 30 anos passou de 49,9% para 41,4%, e a de idosos, de 11,3% para 16,6%.

De acordo com o professor de Economia da Faculdade Eseg Maurício Nakahodo, o envelhecimento é um fenômeno ligado diretamente à maior sobrevida, com mais pessoas atingindo a marca de 80 anos ou mais. Isso, porém, reduz a força de trabalho ativa e desacelera a expansão da economia. O analista destaca que a taxa de natalidade, de cerca de 1,7 filho por mulher, está abaixo do nível necessário para repor a perda da população, em todas as classes sociais. Nakahodo também alerta para o aumento da informalidade entre idosos, motivada pela insuficiência da renda previdenciária e pelo etarismo no mercado formal.

"De um lado, teremos menos pessoas entrando no mercado de trabalho ao longo das próximas décadas. De outro, uma população envelhecida crescente. Como a entrada de jovens na força de trabalho é um dos motores do crescimento econômico, essa mudança demográfica tende a desacelerar a expansão da economia. Além disso, há efeitos sobre a produtividade média, que pode ser pressionada por esse desequilíbrio", explica.

A economista e pesquisadora da PUC-SP Cristina Helena Pinto de Mello, ressalta que, no curto prazo, o envelhecimento pressiona os sistemas de saúde e previdência, assim como as famílias, já que parentes, muitas vezes, precisam deixar o mercado para cuidar de idosos. No longo prazo, a menor proporção de pessoas em idade ativa diminui o dinamismo econômico e a base de contribuintes, situação agravada pela "uberização" do trabalho, ou seja, atividades mediadas por plataformas digitais e sem vínculo formal.

Mello sugere que o país deve investir em aumento de produtividade, educação e políticas de incentivo à natalidade, como a ampliação de creches, para mitigar esses efeitos.  Ao todo, a população brasileira cresceu 7,9% entre 2012 e 2025, segundo o IBGE, saindo de 197,1 milhões para 212,7 milhões. Observa-se, porém, uma desaceleração do crescimento anual desde 2013: desse ano até 2015, foi de 0,8%; oscilou entre 0,7% e 0,6% até 2020; e manteve-se  em 0,4% entre 2021 e 2025. Essa desaceleração é explicada, principalmente, pela queda na natalidade.

"Há aumento da demanda por atendimento de doenças crônicas, maior uso de serviços médicos e crescimento dos gastos públicos nessas áreas. Em algumas faixas de renda, há um tensionamento em relação ao cuidado com o idoso que pode subtrair o mercado de trabalho. Alguém da família deixa de trabalhar fora para cuidar", disse.

Já o professor da Faculdade Eseg Johnny Mendes conecta a demografia ao planejamento urbano, defendendo que o Plano Diretor das cidades deve ser encarado como uma ferramenta de política fiscal indireta. Segundo Mendes, cidades planejadas sob o conceito de "15 minutos", como Paris, onde serviços essenciais estão a curtas distâncias, promovem a autonomia dos idosos e reduzem gastos públicos com internações e mobilidade ineficiente. Ele aponta que estados como Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul já vivem esse perfil envelhecido, antecipando os desafios nacionais.

<><> Escala 6x1

O fim da escala 6x1 é tido como uma ferramenta importante para incentivar o aumento da natalidade e, assim, diminuir o ritmo de envelhecimento da população. Os analistas apontam, contudo, que a medida não pode ser encarada como uma solução central. A economista Cristina de Mello destaca que uma jornada de trabalho mais equilibrada tem, sim, impacto na qualidade de vida, incentivando a escolha por filhos.

"O fim da escala pode ter efeitos indiretos, mas não é uma solução central para o envelhecimento. Uma jornada de trabalho mais equilibrada pode melhorar a qualidade de vida, produtividade e até influenciar decisões familiares, mas, isoladamente, não resolve o desafio demográfico. O impacto dependeria de como essa mudança afetaria emprego, renda e organização do mercado de trabalho", conclui, Cristina

O professor Johnny Mendes, por sua vez, aponta que a mudança de escala, isoladamente, não resolveria nem o desafio demográfico, nem as pressões sobre o sistema previdenciário, com cada vez mais dificuldade de se sustentar ante à queda da população economicamente ativa.

<><> Maioria feminina

O levantamento trouxe ainda dados importantes sobre a divisão de gênero na população, mantendo a prevalência feminina em todas as faixas etárias. Em 2025, as mulheres correspondiam a 51,2% da população, enquanto os homens totalizaram 48,8%. Em todas as regiões, há mais mulheres do que homens. As Regiões Nordeste (51,7%) e Sudeste (51,3%) foram as que apresentaram maiores proporções femininas, seguidas das Regiões Centro-Oeste (50,7%), Sul (50,9%) e Norte (50,6%).

O relatório mostra, ainda, que a mortalidade dos homens segue maior que a das mulheres em cada grupo etário. Por isso, a proporção masculina tende a diminuir com o aumento da idade. Há mais mulheres idosas do que homens. Entre os que têm 65 anos ou mais, o instituto aponta que há, aproximadamente, 75,9 homens para cada 100 mulheres. O dado alerta para a necessidade de maior cuidado com a saúde masculina.

•        O que novas pesquisas revelam sobre o envelhecimento e por que ele pode não ser inevitável como se pensava

A visão tradicional de que o corpo humano possui uma data de validade programada está sendo desafiada por descobertas disruptivas no campo da biotecnologia. Pesquisas recentes sugerem que o processo de envelhecer pode ser tratado como uma condição biológica passível de intervenção, e não apenas como um destino certo.

O papel da senescência celular na longevidade moderna

Um dos pilares das novas descobertas em 2026 foca nas chamadas células senescentes, também conhecidas como “células zumbis”, que param de se dividir mas não morrem. O acúmulo desses elementos no organismo gera inflamações crônicas que aceleram a degradação dos tecidos e órgãos em humanos.

Cientistas estão desenvolvendo compostos senolíticos capazes de eliminar essas células de forma seletiva, permitindo que o corpo mantenha sua vitalidade por muito mais tempo. Dica rápida: manter uma rotina de exercícios intensos ajuda a reduzir naturalmente a carga dessas células, complementando os avanços das terapias genéticas atuais.

Estudos avançados demonstram que a proteção das extremidades dos cromossomos, os telômeros, é a chave para evitar o colapso celular. Quando essas estruturas ficam muito curtas, a célula perde a capacidade de se replicar, o que desencadeia os sinais visíveis do envelhecimento.

A ativação controlada da enzima telomerase tem mostrado resultados promissores na reversão de danos biológicos em tecidos específicos, funcionando como um verdadeiro botão de reset celular. Essa técnica promete não apenas estender a vida, mas garantir que os anos adicionais sejam vividos com plena capacidade física e cognitiva.

<><> Estratégias científicas para retardar o relógio biológico

A ciência da longevidade não se limita apenas a tratamentos complexos, mas também à compreensão de como moléculas específicas sinalizam a reparação do nosso código genético. O uso de precursores metabólicos tem se mostrado eficaz para manter os níveis de energia celular equivalentes aos de indivíduos jovens.

       NMN e NAD+: Moléculas que otimizam a função das mitocôndrias e reparam o DNA danificado.

       Reprogramação Epigenética: Técnica que “reinstala” o software celular para um estado de juventude.

       Restrição Calórica Mimetizada: Compostos que ativam as sirtuínas, proteínas responsáveis pela autofagia.

       Inteligência Artificial: Algoritmos que identificam biomarcadores de idade antes mesmo dos sintomas aparecerem.

       Bioimpressão de Órgãos: Substituição de tecidos desgastados por versões novas criadas em laboratório.

Se você gosta de curiosidades, separamos esse vídeo do canal do Regenerati – Dr. Willian Rezende mostrando mais sobre os aspectos do envelhecimento:

A influência da medicina de precisão na saúde preventiva

Com o mapeamento genético acessível, a medicina de precisão permite que cada indivíduo ajuste seu estilo de vida com base em suas vulnerabilidades biológicas únicas. Isso significa que a prevenção de doenças degenerativas em países como o Brasil está se tornando muito mais assertiva e personalizada.

Atenção: o foco da ciência em 2026 mudou da cura de doenças para a manutenção da homeostase prolongada do organismo. Entender como seu corpo reage ao estresse oxidativo é o primeiro passo para utilizar essas novas ferramentas tecnológicas a favor da sua saúde duradoura.

<><> O futuro da biotecnologia e a redefinição da vida humana

O conceito de que o envelhecimento é uma doença tratável ganha força à medida que os testes clínicos apresentam taxas de sucesso sem precedentes na Europa e na Ásia. Estamos entrando em uma era onde a escolha de como envelhecer estará, pela primeira vez, nas mãos da humanidade.

Embora ainda existam debates éticos importantes, a trajetória da inovação científica aponta para um horizonte onde a fragilidade física será opcional. Acompanhar esses avanços é essencial para quem deseja planejar um futuro com mais qualidade, autonomia e uma saúde verdadeiramente renovada.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Hiperplasia prostática benigna atinge até 90% dos homens após os 70 anos

Ir ao banheiro várias vezes durante a noite, perceber que o jato de urina já não é o mesmo ou sentir que a bexiga nunca esvazia completamente. Para muitos homens, esses sinais passam despercebidos e acabam sendo encarados como parte natural do envelhecimento. No entanto, podem indicar a presença da hiperplasia prostática benigna (HPB), uma condição comum, mas que merece atenção.

Dados de sociedades médicas internacionais indicam que cerca de 50% dos homens aos 50 anos apresentam aumento da próstata, índice que pode chegar a 90% após os 70 anos. Embora frequente, o quadro não deve ser automaticamente tratado como algo sem importância. "O aumento da próstata faz parte do envelhecimento masculino, mas deixa de ser considerado natural quando passa a provocar sintomas urinários ou complicações", explica o urologista Rodrigo Trivilato.

O que define a necessidade de tratamento é o impacto na rotina. "Não é apenas o crescimento em si que determina o problema, mas o comprometimento funcional. Dificuldade para urinar, jato fraco e sensação de esvaziamento incompleto da bexiga são sinais de alerta", afirma.

Entre os sintomas mais comuns também estão a necessidade de acordar várias vezes durante a madrugada e a urgência urinária — quando o paciente precisa ir ao banheiro rapidamente para evitar perdas. Ainda assim, muitos homens tendem a ignorar esses sinais. "Existe uma tendência de normalizar esses sintomas como 'coisas da idade', além de constrangimento em falar sobre o tema e uma cultura de baixa procura por cuidados médicos preventivos", destaca.

Esse atraso no diagnóstico pode trazer consequências mais sérias. Sem acompanhamento adequado, a condição pode evoluir para retenção urinária, infecções recorrentes e até comprometer a função da bexiga. Ricardo complementa que, em casos mais graves, pode haver impacto nos rins, o que mostra que não se trata apenas de uma questão de qualidade de vida, mas de saúde como um todo.

Além da idade, a hiperplasia prostática benigna pode estar associada a outras condições, como obesidade, síndrome metabólica, diabetes e doenças cardiovasculares. "Esses fatores contribuem para um estado inflamatório crônico e alterações hormonais que favorecem o crescimento da próstata", explica. Por isso, segundo o especialista, o acompanhamento regular é essencial — tanto para controlar os sintomas quanto para descartar outras doenças e garantir mais qualidade de vida ao paciente.

<><> Sintomas

Aumento do número de micções noturnas

Jato unifraco

Interrupção enquanto urina

Ocorrência de gotejamento no fim da micção

Perda urinária

Fazer força para esvaziar a bexiga

Necessidade frequente de urinar

Dor e sangramento na hora de urinar

<><> Diagnóstico

Avaliação dos sintomas do trato urinário inferior, frequentemente usando questionários como o IPSS (Escore Internacional de Sintomas de Próstata) para classificar em leve, moderada ou grave.

Exame de toque retal: crucial para avaliar o tamanho, a consistência e o contorno da próstata, permitindo ao urologista diferenciar o aumento benigno do câncer.

Antígeno Prostático Específico: exame de sangue realizado para auxiliar na diferenciação entre HPB e câncer de próstata.

Ultrassonografia: utilizada para medir o volume prostático e verificar o resíduo urinário pós-miccional (urina que fica na bexiga).

Urofluxometria: teste simples que mede a velocidade e o volume do jato urinário.

Estudo Urodinâmico: exame mais invasivo que avalia a pressão e o fluxo urinário, geralmente indicado quando há dúvidas sobre a causa da obstrução.

<><> Prevenção

Controle de doenças metabólicas (diabetes, hipertensão) e a prática de exercícios ajudam a conter o aumento da próstata.

Aumentar o consumo de vegetais, fibras e alimentos antioxidantes é recomendado.

Urinar antes de dormir e evitar retenção urinária prolongada ajuda a reduzir sintomas.

Diminuir a ingestão de álcool e cafeína, especialmente à noite, melhora o fluxo urinário e reduz a a necessidade de acordar durante a madrugada para urinar.

Homens acima de 40 a 50 anos devem realizar consultas regulares com urologista para monitoramento da saúde da próstata.

<><> Tratamento

Expectante: indicado para pacientes com sintomas leves, em que o urologista acompanha o caso sem intervenção imediata, recomendando mudanças de estilo de vida, como reduzir líquidos à noite e evitar cafeína/álcool.

Medicamentoso: alfa-bloqueadores relaxam a musculatura da próstata e do colo da bexiga, melhorando o jato urinário rapidamente.

Inibidores da 5-alfa-redutase: reduzem o tamanho da próstata a longo prazo (seis meses a um ano).

Terapia combinada: uso conjunto dos dois tipos de medicamentos para alívio rápido e redução do volume prostático.

Inibidores da fosfodiesterase-5: úteis para pacientes com sintomas moderados e disfunção erétil associada.

Procedimentos minimamente invasivos e cirúrgicos:

RTUP (Ressecção Transuretral da Próstata): padrão-ouro, remove parte da próstata via uretra;

Laser/Enucleação: remoção do tecido prostático com menor sangramento;

Vaporização/Rezum: uso de vapor d'água para destruir o tecido aumentado, com baixa taxa de efeitos colaterais sexuais.

<><> Complicações de longo prazo

Retenção urinária aguda: incapacidade repentina de urinar, exigindo uso de sonda e atendimento de emergência.

Infecções urinárias de repetição: o esvaziamento incompleto da bexiga favorece o crescimento bacteriano.

Insuficiência renal: a pressão crônica da urina represada pode subir para os rins, causando danos.

Cálculos na bexiga: o acúmulo de urina pode levar à formação de pedras.

Danos na bexiga: a bexiga pode perder sua capacidade de contração devido ao esforço contínuo.

>>>> Palavra do especialista - Marcelo Wroclawski é urologista do Hospital Israelita Albert Einstein, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (seção São Paulo), chefe da Comissão de Ensino e Treinamento da Sociedade Brasileira de Urologia e diretor da Oficina de Inteligência Artifical em Urologia da Confederação Americana de Urologia (CAU)

•        Com o avanço de tecnologias e procedimentos minimamente invasivos, o tratamento da HPB mudou significativamente nos últimos anos. O que, de fato, representa uma mudança de paradigma hoje?

O tratamento da HPB evoluiu para um modelo personalizado, com diversas opções que vão desde medicamentos até procedimentos minimamente invasivos e cirurgias avançadas. Entre os remédios, a silodosina se destaca por sua ação mais direcionada à próstata, melhorando os sintomas urinários com menor impacto na pressão arterial. Já os procedimentos menos invasivos são rápidos, feitos sem internação e podem preservar a função sexual. Nos casos mais complexos, cirurgias como a HoLEP e a robótica oferecem resultados duradouros. O foco atual não é apenas tratar a doença, mas também garantir qualidade de vida ao paciente.

•        Você também atua com inovação e inteligência artificial em urologia. Como a inteligência artificial pode impactar, no futuro, o diagnóstico e a condução dos casos de HPB?

Ao meu ver, a inteligência artificial tem potencial para impactar principalmente três áreas. Na conscientização da população sobre HPB/ STUI. Cada vez mais os pacientes chegam ao consultório já tendo pesquisado sobre sua condição nas ferramentas de IA. O uso de algoritmos e calculadoras podem auxiliar no diagnóstico precoce, ajudando a identificar padrões de sintomas e risco de deterioração da bexiga, permitindo melhor triagem e eventual priorização de casos em grandes populações. A IA pode ser um suporte à tomada de decisão por parte do médico no momento de escolher o tratamento mais adequado, com base nas características individuais de cada paciente.

•        Diante do envelhecimento da população brasileira, qual é o principal alerta que deveria ser feito em termos de saúde pública em relação à hiperplasia prostática benigna?

O principal alerta é que a HPB pode impactar significativamente a qualidade de vida de um grande número de homens! Os sintomas urinários acabam afetando o sono, a disposição, a autonomia e até a segurança do paciente, especialmente pela noctúria (acordar à noite para urinar), que aumenta o risco de quedas, principalmente em idosos, justamente o grupo etário mais afetado. Com o envelhecimento acelerado, o número de homens com sintomas urinários tende a crescer de forma expressiva. Portanto, é fundamental investir em conscientização, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento adequado. Tratar HPB não é apenas aliviar sintomas, mas também preservar funcionalidade, independência e bem-estar ao longo do envelhecimento.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Entre a percepção e a realidade: como o camaleonismo político captura a insatisfação social

O camaleão é um réptil que por sua estrutura biológica altera sua aparência para se adaptar ao ambiente e garantir sua sobrevivência. De modo análogo, certos políticos mudam várias vezes de partido e relativizam o discurso conforme as circunstâncias, adaptando suas posições não por convicção, mas por conveniência. Ciro Gomes insere-se nessa categoria de comportamento político essencialmente oportunista. 

Contudo, há uma diferença fundamental. O camaleão altera sua aparência como um mecanismo natural de sobrevivência, uma resposta instintiva e necessária para preservar a própria vida diante de ameaças do ambiente. Já no caso de certos políticos, a exemplo de Ciro Gomes, essa mudança de posicionamento não decorre de uma necessidade vital, mas de um cálculo estratégico orientado por um desmedido projeto de poder. Enquanto o réptil se adapta para continuar existindo, o político adapta seu discurso e suas alianças por conveniência, muitas vezes a qualquer preço, visando manter ou ampliar sua influência no cenário político.

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Nesta semana, o PSDB voltou ao noticiário. O deputado Aécio Neves convidou o contraditório Ciro Gomes a considerar uma candidatura à Presidência. Aécio justificou o convite como um apelo para que Ciro lidere um caminho "liberal na economia e inclusivo no social". Trata-se de uma formulação populista que esconde ambiguidades profundas, tentando conciliar um projeto de mercado que historicamente amplia desigualdades com promessas de justiça social.

Essas razões são apenas uma construção discursiva para suavizar contradições estruturais. Ao mesmo tempo em que privilegia o capital, o discurso reivindica um compromisso social que suas próprias diretrizes econômicas tendem a inviabilizar. Em síntese, é uma falácia neoliberal que se sustenta mais na aparência do equilíbrio do que na viabilidade concreta da justiça.

Nesse ambiente marcado por oportunismos, surge um personagem cuja trajetória recente é definida por uma crescente descredibilidade. Desde 2018, Ciro constrói um percurso permeado por inconsistências ideológicas. Sua longa peregrinação passando por PDS (herança da ditadura), PMDB, PSDB, PPS, PSB, PDT e retornando agora ao ninho tucano evidencia uma adaptação meramente ajustada às conveniências do momento, e não um amadurecimento político.

Em eleições presidenciais anteriores, apesar de manter uma pequena fatia resiliente do eleitorado, Ciro se sustentou por meio de um discurso desenvolvimentista que, à primeira vista, aparentava consistência. No entanto, seus resultados eleitorais revelaram limites claros, pois jamais ultrapassou 12,47% dos votos válidos e, em 2022, obteve apenas 3,4%. Esse desempenho decrescente não pode ser dissociado de sua inconstância política. Para agravar o quadro, em 2025 buscou aliança com o PL no Ceará, partido associado ao bolsonarismo, explicitando a elasticidade de seus princípios frente ao desejo de poder. Ao manter uma indecisão calculada sobre o convite de Aécio, Ciro preserva capital em múltiplas frentes, convertendo o dilema ético em instrumento de autopromoção. Sua candidatura, caso se concretize possivelmente acirrará mais ainda a corrida eleitoral. 

O quadro se agrava ao se constatar que os demais candidatos da direita e extrema direita estão profundamente alinhados a agendas neoliberais, ultra privatistas e submissos a interesses estrangeiros. É alarmante que figuras como Flávio Bolsonaro apareçam nas pesquisas de intenção de voto, com pontuações elevadas, beirando um empate técnico com Lula, apesar de uma trajetória marcada por denúncias de "rachadinhas", patrimônio incompatível com a renda e uma postura política submissa e entreguista a interesses externos, especialmente aos Estados Unidos.

É nessa materialidade que se aprofunda o contraste entre a proposta progressista de reeleição e a alternativa da extrema direita. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva, cuja trajetória transcende o plano interno e se projeta internacionalmente como a de um estadista. Além desses atributos, seu governo tem se projetado por um desenvolvimento econômico sustentável, com indicadores relevantes traduzidos por níveis consistentes de emprego, controle inflacionário dentro de parâmetros administráveis e retomada de políticas redistributivas, com maior incidência tributária sobre as camadas mais ricas.

Do outro lado, emerge o legado do bolsonarismo, que fragilizou instituições e deteriorou a economia. Esse estilo deletério de governar desdobra-se em figuras como Romeu Zema. Sua atuação em Minas Gerais foi marcada pelo enfraquecimento de políticas para grupos vulneráveis e cortes na saúde e educação, enquanto ampliava gastos com publicidade.

Esse cenário tornou-se ainda mais preocupante diante de declarações públicas que colocaram em xeque marcos históricos e direitos básicos. Ao relativizar a existência da ditadura militar no Brasil, tratando-a como uma “questão de interpretação” e afirmando desconhecimento sobre o tema, Zema evidenciou não apenas lacunas significativas em sua formação política, mas também um discurso que tangencia o revisionismo histórico. Seu plano de governo, caso seja eleito para presidir o país, propõe mudanças estruturais no STF. Fica clara sua intenção de "fazer média" com o eleitor em meio a críticas recorrentes à instituição, potencializadas pela mídia corporativa no sentido de descredibilizar o STF junto à opinião pública. Também prevê a anistia a Jair Bolsonaro, a privatização absoluta das empresas públicas e aprofundamento das reformas trabalhista e previdenciária. 

Na mesma direção, outras lideranças desse espectro político, como Ronaldo Caiado (PSD), historicamente vinculado a interesses do latifúndio e a uma agenda conservadora, privatista e de redução de gastos com políticas públicas. Durante seu governo foi alvo de acusações de nepotismo e marcado por índices elevados de letalidade policial, elementos que reforçam um padrão de gestão associado à violência institucional e à fragilização de mecanismos de controle democrático. Caiado também promete, entre suas propostas de governo, a anistia ampla, geral e irrestrita não apenas a Jair Bolsonaro, mas a todos os envolvidos em tentativas de ruptura institucional. Fica visível sua pretensão de angariar votos da ala bolsonarista.

Nesse sentido, a comparação entre trajetórias, capacidades de governança e compromissos históricos expõe diferenças substantivas que não podem ser obscurecidas por estratégias eleitorais, pela desinformação disseminada em larga escala ou por discursos calculistas que se alimentam da instabilidade e da confusão social.

Ao retomarmos os dados mais recentes dos institutos de pesquisa, observamos que os avanços do atual governo não estão se refletindo automaticamente em estabilidade eleitoral, especialmente diante de uma guerra de narrativas digitais impulsionada pela oposição. Diante desse fenômeno, surge uma indagação recorrente acerca do crescente distanciamento político entre os jovens e segmentos da classe média brasileira. Não se trata de um fenômeno superficial, mas de um sintoma claro de desgaste na relação dessas parcelas da sociedade com a política institucional. 

No caso da classe média, a insatisfação está fortemente associada ao custo de vida, ao endividamento e à inadimplência, fatores que se mantêm mesmo diante de sinais de recuperação da renda, produzindo um sentimento difuso de frustração. Soma-se a isso o impacto de variáveis externas, como tensões geopolíticas que pressionam preços estratégicos, e a manutenção de taxas de juros elevadas no Brasil, que corroem o poder de compra e empurram famílias para mecanismos de crédito oneroso, como o rotativo do cartão e o cheque especial. Esse conjunto de fatores gera uma percepção contraditória: ainda que indicadores macroeconômicos apresentem melhora, o orçamento doméstico segue pressionado, diluído por dívidas acumuladas. 

Entre os jovens, o quadro é igualmente preocupante. Pesquisas indicam que mais de 70% da chamada geração Z não se sente representada pelos políticos tradicionais, o que alimenta apatia, descrença e afastamento do processo eleitoral. Diferentemente de gerações anteriores, observa-se uma tendência maior de identificação com posições de centro ou até de direita, acompanhada por um ceticismo crescente à medida que avançam na vida adulta. Esse deslocamento está diretamente relacionado à percepção de um futuro incerto, no qual a necessidade de trabalhar por mais tempo, a instabilidade previdenciária e o enfraquecimento de garantias sociais projetam um horizonte de insegurança permanente.

Todavia, o ponto crítico, reside no fato de que essa insatisfação vem sendo instrumentalizada por forças políticas que oferecem respostas fáceis para problemas complexos, ao mesmo tempo em que defendem agendas que aprofundam exatamente as condições que geram esse mal-estar. Há, portanto, um evidente descompasso entre a causa da insatisfação e a direção do voto de parte do eleitorado.

É nesse panorama que a escolha eleitoral assume um caráter decisivo. Trata-se de uma disputa entre propostas antagônicas de sociedade. De um lado, um projeto progressista que, ainda que sob fortes pressões internas e externas, busca recompor políticas públicas, reduzir desigualdades e preservar instrumentos de proteção social. De outro, um projeto neoliberal que, sob o discurso de eficiência e modernização, promove o desmonte do Estado, a privatização de direitos com a transferência sistemática de renda para uma minoria privilegiada financeiramente.

A contradição é evidente. Ao canalizar sua insatisfação em direção a projetos que aprofundam a desigualdade, parte significativa da população acaba votando contra seus próprios interesses materiais. E é justamente aí que reside o risco maior. 

Ao contrário do que sugerem as promessas de mudança apoiadas no ideário de mercado, a evidência empírica recente indica que tais orientações não produzem alívio distributivo, mas tendem a aprofundar assimetrias exponenciais. Diferente do camaleão, que muda de cor para se proteger do predador, o camaleonismo político muda de discurso para predar a esperança de quem está insatisfeito. A experiência argentina sob Milei prova que ajustes radicais não produzem alívio, mas precariedade perversa. 

Diante disso, a escolha que se impõe não se circunscreve ao plano estritamente político eleitoral, mas na continuidade da busca de qualidade de vida dos brasileiros. Ou se fortalece um projeto comprometido com inclusão, redistribuição de renda e desenvolvimento social, ou se aprofunda um modelo que transforma a frustração presente em precariedade permanente.

 

Fonte: Por Elisabeth Lopes, em Brasil 247

 

Ruaridh Nicoll: Cubanos se automedicam enquanto a crise afeta sua saúde mental

Cris Sánchez acreditava ter deixado Cuba para sempre quando se mudou para Londres em 1994, mas a preocupação com seus pais doentes o trouxe de volta em 2018. Desde então, o estresse da vida em Havana o levou a recorrer a medicamentos controlados – “Só para aliviar a tensão”, disse ele. Ele não está sozinho. Atualmente sob um bloqueio de petróleo imposto pelos EUA e após anos de declínio econômico, os cubanos estão se automedicando com drogas controladas em números crescentes, enquanto uma crise de saúde mental assola a ilha.

Existem poucas estatísticas oficiais – o governo cubano há muito tempo faz questão de enfatizar a “resiliência” de seu povo – mas o Guardian conversou com profissionais de saúde em toda a ilha, que relataram que a maioria das famílias inclui pelo menos um membro que recorre ao mercado negro para comprar antidepressivos, estabilizadores de humor ou estimulantes. “Minha mãe tinha uma queda por remédios controlados”, disse Sánchez, que se formou em linguística e lecionou no University College London. “Ela decidiu que precisava deles todos os dias.” Sua mãe sofre de Alzheimer, então ele se esforçou para ajudá-la a se livrar do vício – mas acabou recorrendo a antidepressivos ele mesmo. Ele não é viciado, mas fez questão de falar abertamente e destacar como é fácil recair no uso regular. "Não me arrependo de ter voltado para cuidar dos meus pais, mas há muito pouco que eu goste em Cuba", disse ele. "Eu gostava da minha vida em Londres e não gosto muito desta."

A dependência de medicamentos controlados não é novidade em Cuba, mas os eventos recentes levaram a um aumento significativo dessa dependência. “Estamos vivenciando uma situação econômica que tem repercussões, quer queiramos ou não”, disse um professor de psicologia em Santiago, a segunda maior cidade de Cuba, que pediu para permanecer anônimo para poder falar livremente. “Diariamente, alguém pode acordar sem eletricidade, sem a certeza de ter café da manhã ou sem saber como chegará ao trabalho. Isso gera muito estresse, que é acompanhado por inúmeras manifestações psicológicas: depressão, ansiedade intensa e fadiga mental. Como resultado, os problemas de saúde mental aumentaram tremendamente.” Um funcionário sênior de uma organização humanitária em Havana disse: "Estou testemunhando isso todos os dias."

Após o sequestro do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, pelo governo dos EUA em 3 de janeiro, Donald Trump assinou uma ordem executiva impondo tarifas a qualquer país que forneça combustível a Cuba. Como resultado, os apagões que já assolavam a ilha pioraram. Postos de gasolina estão fechados e o transporte público é escasso. A maioria dos órgãos públicos, onde se concentra 50% da população economicamente ativa, está fechada, deixando as pessoas com poucas preocupações além da sobrevivência e da incerteza quanto ao futuro. “Estamos em tempos difíceis, mas também em tempos decisivos, e aqui está um povo que prefere morrer de pé a viver de joelhos”, disse o presidente Miguel Díaz-Canel no mês passado a um grupo de apoiadores estrangeiros que o visitavam, incluindo o ex-líder trabalhista britânico Jeremy Corbyn.

Mas parece que muitos cubanos estão com dificuldades até para sair da cama. Enquanto isso, mesmo antes da crise atual, o PIB de Cuba já havia contraído 17% desde 2019. O governo está praticamente sem dinheiro, e por isso as farmácias estatais estão vazias. Assim, agora as pessoas buscam alívio no mercado negro. "Houve um aumento no número de pessoas que consomem medicamentos psicotrópicos sem receita médica", disse o professor de psicologia. Basta um telefonema para que os medicamentos, frequentemente em embalagens com inscrições em cirílico, hindi ou chinês, sejam entregues por bicicletas elétricas, mas a um custo. A dependência dos cubanos em relação a medicamentos psicotrópicos remonta ao início da década de 1990, quando o governo comunista perdeu seu patrocinador, a União Soviética, no que o então presidente, Fidel Castro, chamou de "Período Especial em Tempo de Paz".

Em teoria, foi uma crise pior do que a atual, com a economia contraindo pelo menos 35%. A maioria dos lares cubanos carrega as marcas daquela época, nas fotografias de crianças saudáveis ​​rodeadas por adultos esqueléticos, nas conversas acaloradas sobre comida durante o almoço e na dependência de medicamentos controlados.

Clientes aguardam dentro de uma farmácia em Havana, no mês passado, enquanto o outrora prestigiado sistema de saúde cubano se deteriorava em meio a anos de crise econômica e sanções dos EUA, um declínio que se acelerou este ano com as restrições americanas ao fornecimento de petróleo. Fotografia: Norlys Perez/Reuters

Naquela época, os médicos prescreviam medicamentos rapidamente e as farmácias estatais podiam fornecê-los. Outro cuidador, que também pediu para permanecer anônimo, disse que, durante o período especial, as autoridades fizeram de tudo para financiar a fabricação de drogas psicoativas. "Eles sabiam que o país estava consumindo esses tipos de medicamentos em excesso e conheciam os efeitos que eles causavam, mas isso lhes convinha para manter as pessoas calmas."

Quando a situação se acalmou – o turismo foi introduzido, o dólar americano se tornou comum e um novo aliado foi encontrado na Venezuela de Hugo Chávez – o uso dessas drogas diminuiu. Por um tempo, os cubanos vislumbraram um futuro melhor, especialmente em 2016, quando o então presidente dos EUA, Barack Obama, chegou à ilha para “enterrar os últimos vestígios da Guerra Fria”. Mas essas esperanças foram frustradas. O governo cubano continuou protelando a reforma econômica, o primeiro governo de Donald Trump retomou a política de pressão máxima e a Covid chegou, juntamente com a hiperinflação, arruinando todos que recebiam salário ou aposentadoria do Estado.

Em julho de 2021, protestos contra o Estado se espalharam pela ilha, sendo reprimidos com violência. Muitas pessoas, principalmente jovens, começaram a deixar o país , com até 20% da população emigrando nos últimos cinco anos. Tudo isso aumentou o fardo psicológico daqueles que optaram (ou foram forçados) a permanecer. “O estresse está se manifestando de diversas maneiras”, disse o professor de psicologia. “Há pessoas perdendo cabelo sem nenhuma explicação fisiológica subjacente. Ou elas têm dificuldade de concentração – levando uma hora para concluir uma tarefa que antes levava 10 minutos.”

No campo, os problemas são igualmente graves, mas o custo dos medicamentos controlados no mercado negro faz com que as pessoas recorram a opções mais naturais. "Aqui, as pessoas fazem infusões de hortelã, camomila, manjericão, limão e capim-limão", disse Rosangela Reyes, de 28 anos, em El Cobre, uma cidade onde as pessoas vão rezar para a padroeira de Cuba, La Virgen de la Caridad del Cobre.

Ela observava o corpo de uma jovem vítima de câncer sendo descarregado e levado para o necrotério, uma morte que, segundo ela, não estava relacionada à situação econômica, mas que os cortes de energia e a falta de medicamentos não haviam ajudado. Nas cidades, e especialmente entre os jovens, tem havido uma tendência concomitante em direção ao uso de drogas ilícitas, há muito tempo um anátema em Cuba e tradicionalmente sujeitas a duras penas de prisão. "Há um segmento da população ao qual nós, profissionais, não temos acesso com muita facilidade", disse o professor de psicologia. "E é precisamente aí que ocorre o consumo de drogas pesadas, muito mais letais e potentes do que os medicamentos psicotrópicos."

O mais conhecido é o “ el químico ”, um canabinóide sintético conhecido em outros lugares como spice. O governo cubano, com razão, acusa os EUA – que geralmente criticam os países latino-americanos por serem a fonte das drogas – de serem a origem. A maioria dos usuários, no entanto, recorreu a muletas familiares: benzodiazepínicos como clordiazepóxido e clonazepam, ou então alprazolam (conhecido como Xanax), ou amitriptilina e sertralina.

Hoje em dia, as disparidades de riqueza em Cuba são óbvias para qualquer pessoa que caminhe pelas ruas de Havana. A geração que construiu a revolução viu suas aposentadorias reduzidas a menos de 10 dólares por mês, enquanto os donos de empresas privadas, autorizadas a circular desde o colapso da economia em 2021, passam dirigindo Mercedes. Gabriel Menéndez, professor em Santa Clara, cidade a 320 quilômetros de Havana, disse que o período especial foi muito difícil para ele: “Depois do nascimento do meu segundo filho, não tínhamos dinheiro suficiente para viver”. No entanto, ele considera esta crise ainda mais difícil. “Desta vez, não há nenhuma ideia à qual se agarrar, apenas a necessidade de aceitar a cruel realidade do que está por vir.”

Muitos idosos não só estão famintos e desiludidos, como também terrivelmente sozinhos, pois seus filhos partiram durante o êxodo, muitas vezes levando consigo os queridos netos. "Eu os vejo perambulando pelo bairro", disse Sánchez. "Eles estão tão solitários. Estão vendo os netos crescerem em uma tela, muitas vezes sem falar o mesmo idioma." Para o professor de psicologia em Santiago, não é surpresa que tantas pessoas tenham voltado a usar os medicamentos prescritos que deixaram de usar na década de 1990. “É justamente a incerteza – o não saber quanto tempo isso pode durar – que serve como fator agravante”, disse ele. “Se você sabe que um problema vai durar sete dias, pode pensar: 'Eu consigo lidar com isso'. Mas estamos vivendo uma situação em que o fim é incerto.”

¨      Membros da geração revolucionária de Cuba sentem-se abandonados pela sociedade que criaram

No centro de Havana, Martha Ortega está na fila para comprar carne moída. Ela sofre de osteoartrite e artrite reumatoide, o que faz com que seu pé arraste, mas ela continua elegante, com uma camisa xadrez e uma bolsa jeans que lhe dão ares de uma vaqueira de 80 anos. Até cinco anos atrás, Ortega era recepcionista em um escritório local do Partido Comunista de Cuba . Sua aposentadoria é de 1.575 pesos por mês, mas nos últimos três anos, a inflação reduziu seu valor para menos de 5 dólares. "Tento dividir o dinheiro entre comida, remédios, o que for possível", diz ela.

Ela é uma das muitas pessoas idosas em Cuba que se viram praticamente na miséria, à medida que o Estado comunista, em meio a uma profunda crise econômica , se volta para a iniciativa privada. Ortega vive com a filha, que é surda e muda. Elas estão sozinhas. Não há outros familiares para ajudá-las.

Não era para ser assim para a geração revolucionária de Cuba. Em troca de um compromisso altruísta com a sociedade, foi-lhes prometido alimentação subsidiada e assistência médica integral. "O homem começará a libertar a sua mente da necessidade incômoda de satisfazer as suas necessidades animais através do trabalho", prometeu Che Guevara. No entanto, à medida que lojas privadas surgem por toda a ilha caribenha e os armazéns que fornecem rações subsidiadas pelo Estado ficam cada vez mais vazios, muitos idosos ficam chocados com a rapidez com que foram abandonados pela revolução à qual se dedicaram, justamente no momento em que estão mais vulneráveis. “Vivíamos com um sonho, com devoção”, diz Ortega. “E então tudo acabou.”

Os idosos representam uma parcela crescente da sociedade cubana. Um dos triunfos da revolução de 1959 foi o aumento da expectativa de vida da população para quase 80 anos, equiparando-se aos Estados Unidos e ao Reino Unido. Atualmente, os maiores de 60 anos compõem 22,6% da população, dos quais 221 mil vivem sozinhos, em sua maioria mulheres. Essas tendências foram recentemente intensificadas por um êxodo de jovens . Com a contração da economia, cubanos se juntaram às caravanas da América Latina rumo à fronteira com os EUA ou encontraram maneiras de migrar para a Europa. As estimativas variam, mas todos concordam que a população da ilha caiu bem abaixo dos 11 milhões registrados no censo de 2012. Um relatório de um demógrafo independente, divulgado na semana passada, apontou um número ainda menor, de 8,62 milhões. “Uma das coisas terríveis para os meus colegas é que os filhos deles estão fora de Cuba”, diz Carlos Alzugaray, de 81 anos, ex-embaixador. “E agora eles dependem financeiramente deles, depois de tanto sacrifício.”

Alzugaray, membro do Partido Comunista, está tão chocado com a situação que afirma: "Se amanhã alguns aposentados se reunissem e dissessem: 'Vamos fazer uma manifestação em frente ao Ministério do Trabalho e da Previdência Social', eu iria." Essa é uma declaração surpreendente em um país onde manifestações são raras – e quase nunca toleradas. “Tive duas profissões na vida”, diz Alzugaray. “Ambas a serviço do governo da Revolução Cubana. Uma foi um período de 35 anos no Ministério das Relações Exteriores. A outra foi de 15 anos como professor universitário. E recebo 2.330 pesos [US$ 6,50] por mês.”

O que surpreende Alzugaray é a falta de resposta do governo. "Não há qualquer indício de que se importem com o problema", afirma. "Ou de que vão fazer algo a respeito. Fazem o que fazem com todos os problemas: ignoram." O colapso da economia cubana pode ser atribuído ao embargo de seis décadas imposto pelos Estados Unidos , ao planejamento central ineficiente do Estado comunista e à incapacidade de se recuperar da pandemia. Por um tempo, pareceu que o governo não tinha recursos para importar alimentos e, portanto, em 2021, pequenas e médias empresas privadas (Mipymes) foram autorizadas a operar, incluindo lojas.

Essas lojas têm sido uma bênção para os cubanos que recebem dinheiro de parentes no exterior, mas esse não é o caso de todos. E quando nem mesmo a pensão mensal de um embaixador cobre uma bandeja de ovos (custo: 2.500 pesos), tornou-se comum ver idosos olhando para itens básicos como óleo de cozinha que não podem comprar. O governo atribuiu a culpa à “especulação” do Mipymes e, na semana passada, tomou medidas para limitar os preços de produtos básicos como frango desfiado e óleo de cozinha. Mas mesmo esses alimentos – se as lojas privadas continuarem a vendê-los – estão fora do alcance dos aposentados (o óleo de cozinha tem preço máximo de 950 pesos).

O Dr. Alberto Fernández Seco é chefe do departamento de idosos, assistência social e saúde mental do Ministério da Saúde Pública. Ele argumenta que Cuba, com seu “alto nível de educação, dieta equilibrada, prática de esportes e acesso à cultura”, continua em melhor posição para lidar com “um problema global” do envelhecimento do que outros países. Ele descreve os esforços históricos que Cuba tem feito para cuidar de seus idosos: existem 304 Casas de Abuelos – centros de acolhimento – onde os idosos podem se encontrar, receber refeições e aconselhamento médico. E 158 lares de idosos oferecem leitos para os mais necessitados. Ele descarta as notícias de que menos pessoas estão frequentando as Casas de Abuelos devido ao aumento dos preços e que os leitos em lares de idosos estão desaparecendo, afirmando que o oposto é verdadeiro. “Estamos começando a desenvolver políticas para compartilhar essa responsabilidade com o setor privado”, diz ele. São empresas privadas que, há poucos anos, seriam impensáveis. A TaTamania, por exemplo, oferece “atendimento personalizado” para idosos, utilizando “profissionais da área da saúde” em seis escritórios em Cuba, com mensalidades a partir de cerca de US$ 150, mas que aumentam rapidamente dependendo das necessidades.

O dinheiro vem predominantemente de parentes no exterior. O plano do governo é permitir que essas empresas expandam seus serviços, indo além do atendimento domiciliar e chegando a lares de idosos, destinando um décimo das taxas às necessidades daqueles que não têm parentes. “Compartilhar a responsabilidade com o setor privado não contradiz as conquistas da revolução”, afirma Fernández Seco.

Elaine Acosta, socióloga e fundadora do Cuido 60, projeto da Florida International University que estuda as condições dos idosos em Cuba, afirma que as famílias expatriadas sabem que 10% de suas mensalidades são redistribuídas, mas o valor arrecadado é insuficiente para resolver o problema. "Um problema ainda maior é que as organizações da sociedade civil, que poderiam ajudar, não conseguem receber verbas de fundações ou outras entidades estrangeiras", diz ela. Fernández Seco afirma que, entretanto, o governo está ampliando os direitos dos idosos, incluindo o direito de não se aposentar. "Se você tiver as condições físicas e mentais adequadas", diz ele, "pode ​​continuar trabalhando, recebendo sua aposentadoria e seu salário."

Pode não ser o que foi prometido, mas ele acrescenta que os cubanos devem se lembrar da sorte que têm em comparação com pessoas de países com problemas como roubo de órgãos, tráfico de pessoas e drogas. "Às vezes, nos falta a capacidade de valorizar o que temos", diz ele.

Empurrando uma cadeira de rodas pela rua San Lázaro, Elvio Agramonte de los Reyes está um pouco curvado, mas se porta como o camagüey que é, criado na mais refinada das províncias cubanas. A cadeira carrega uma cesta de mangas e coentro que ele vende aos transeuntes. “O governo me dá 1.100 pesos”, diz o homem de 85 anos. “Entre isso e o que eu consigo na rua, é com isso que eu vivo. Tenho uma vantagem. Não fumo, nem bebo café ou rum. Eu bebia muito rum, mas tive um AVC e me disseram: 'Não toque mais nisso'.” Ele, assim como Martha Ortega, tem apenas uma filha com deficiência como família. “Ela tem um problema mental desde o nascimento. Ela não trabalha e recebe uma pensão de 2.000 pesos.”

Quando jovem, ele ouviu o chamado de Che Guevara. “Trabalho voluntário – Che o inventou. Eu participei de tudo. Plantei, limpei e cortei cana. De certa forma, valeu a pena – construíram muitas escolas, construíram hospitais, com atendimento médico gratuito – mas agora está regredindo, como o rabo de uma vaca. Para aqueles que já são idosos e não têm família…” Ele faz uma pausa e uma mulher que parou para comprar coentro completa: “Eles estão morrendo de fome.”

¨      México, Espanha e Brasil afirmam que é necessário um diálogo sincero para aliviar a "grave crise humanitária" em Cuba

México, Espanha e Brasil manifestaram preocupação com a “situação dramática” em Cuba, que enfrenta meses de pressão do presidente dos EUA, Donald Trump , e o trio pediu um “diálogo sincero e respeitoso”.

Sem mencionar explicitamente os EUA, os três países liderados pela esquerda expressaram no sábado “profunda preocupação com a grave crise humanitária que o povo cubano está enfrentando e apelam à adoção das medidas necessárias para aliviar essa situação”.

Em uma declaração conjunta divulgada pelo Ministério das Relações Exteriores do México, os países apelaram para um “diálogo sincero e respeitoso”, em conformidade com o direito internacional.

O objetivo desse diálogo deve ser “encontrar uma solução duradoura para a situação atual e garantir que seja o próprio povo cubano quem decida seu futuro em plena liberdade”, diz o comunicado.

O apelo surge no momento em que decorre em Barcelona uma cimeira de líderes de esquerda, liderada pelo primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, um dos maiores críticos das campanhas de bombardeamentos dos EUA e de Israel no Médio Oriente.

A presidente mexicana Claudia Sheinbaum e o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva estavam entre os presentes e pediram esforços para “proteger a democracia”.

Cuba vem se preparando para um possível ataque em vista dos repetidos alertas de Trump de que Cuba é o "próximo alvo", após ele derrubar o líder venezuelano Nicolás Maduro e entrar em guerra contra o Irã.

Trump impôs um bloqueio petrolífero a Cuba , agravando a pior crise econômica e energética em décadas da ilha empobrecida.

 

Fonte: The Guardian