sexta-feira, 3 de julho de 2026

O enigma de Lula 3 (Parte II)

O primeiro artigo da série foi concluído com uma pergunta: atender à pressão política de exportadores locais de produtos primários por subsídios e tratados comerciais feitos às custas do projeto de reindustrialização que está no centro da ideologia socialdesenvolvimentista seria suficiente para negar a existência de dimensões neoliberais nas políticas econômicas de um governo presumidamente antineoliberal?

Creio que não. Alegar que a defesa governamental dos interesses particularistas do agronegócio às custas do aprofundamento da desindustrialização expressa algum tipo de “desenvolvimentismo” contradiz a melhor formulação do próprio Boito (1999) que, em sua tese de livre-docência sobre o neoliberalismo dos anos 1990, afirmava com todas as letras que a desindustrialização era um desejo das forças imperialistas na reconfiguração das economias e Estados dependentes latino-americanos.

Defender o contrário hoje, acusando os que continuam relacionando desenvolvimento econômico com algum ganho de autonomia nacional associado ao domínio de capacitações tecnológicas industriais como “empiricistas”, é abandonar exatamente o terreno em que um embate estratégico com o imperialismo sempre se travou e, assim, fazer concessões exageradas à sua hegemonia ideológica.

A abertura comercial sempre foi defendida pelos ideólogos neoliberais como o meio mediante o qual a estrutura produtiva com baixo valor agregado no Sul “complementaria” a (leia-se: seria subordinada à) estrutura produtiva de alto valor agregado no Norte.

Não estavam errados: as políticas econômicas (e não o “modelo” em abstrato) de apreciação cambial e abertura comercial provocaram evidente especialização regressiva da estrutura produtiva desde a década de 1990, em tendência praticamente sem interrupção até hoje – e que até se aprofundou depois de 2010 –, pois as políticas socialdesenvolvimentistas fracassaram em compensar o efeito das políticas neoliberais (Moreira & Bastos, 2023; Bastos, 2022).

Uma vez que relações de poder e hegemonia também se expressam no campo ideológico (e na autopercepção dos sujeitos “sujeitados”), marxistas inspirados por Louis Althusser sempre evitaram equacionar a preferência revelada dos “sujeitos” ao seu interesse objetivo. Não me parece correto equacionar o interesse objetivo e a preferência revelada das frações burguesas industriais que, a despeito de apoiarem ativamente a abertura comercial “em geral” no Brasil, buscam proteção estatal particularista diante de um modelo capitalista dependente que devasta estruturalmente suas condições de sobrevivência.

Precisamos investigar como a própria estrutura hegemônica bloqueia a emergência de interesses objetivos contrários ao modelo capitalista que os devasta ou, pelo menos, os limita de modo a permitir sua incorporação subordinada em um modelo e em um bloco no poder sobre o qual não têm a hegemonia, como veremos.

É claro que não estou sugerindo que todos os governos administram um certo modelo capitalista da mesma forma: Boito e seus diversos alunos e alunas (que ajudei a formar em várias bancas de avaliação e seminários em grupo de pesquisa comum há quase quinze anos, como ele também ajuda a formar os meus) são insuperáveis na investigação sistemática das políticas “neodesenvolvimentistas” e de seus suportes sociais.

O que alego é que os governos liderados pelo PT “herdam” um modelo de capitalismo, uma forma de Estado, e um tipo de política econômica hegemônica que continuam reproduzindo ativamente, inclusive com o trabalho ideológico necessário para tal.

O modelo capitalista e a forma de Estado resultantes das reformas neoliberais dos anos 1990 implicaram a preservação de políticas econômicas neoliberais hegemônicas – metas de inflação pouco flexíveis, autonomia (real ou formal) do Banco Central para elevar juros muito acima do necessário, regras fiscais que limitam estruturalmente o gasto público, abertura financeira nunca revertida, amplo nível de abertura comercial, apreciação cambial para estimular importações baratas de bens, serviços e capitais – mesmo em governos que não são inteiramente comprometidos com o neoliberalismo. Quem o diz, aliás, é o próprio presidente Lula, ao reconhecer em Barcelona que governos progressistas se limitavam a administrar o neoliberalismo.

Se devem ser rejeitadas as caracterizações dualistas dos governos do PT – neoliberal ou “neodesenvolvimentista” – qual o diagnóstico alternativo? E que tipo de prática política esse diagnóstico pode orientar?

<><> Como entender o socialdesenvolvimentismo dos governos do PT?

Não é possível criticar a “conciliação” como método dos governos liderados pelo PT sem reconhecer que a conciliação não envolve apenas cooptar políticos clientelistas para que apoiem a agenda ideológica imaculada do governo – presumidamente, algum tipo de desenvolvimentismo.

A conciliação sempre envolveu concessão ao neoliberalismo e aos interesses por ele legitimados, contendo e “contaminando” desde dentro a agenda ideológica do PT – o socialdesenvolvimentismo – quanto se converte concretamente em políticas dos governos liderados pelo PT. O principal árbitro dessa contenção neoliberal do socialdesenvolvimentismo, e da síntese complexa e cambiante resultante, foi o próprio presidente Lula, como veremos.

Essa operação arbitral sempre envolveu autonomia relativa do Estado – que é uma composição complexa de aparelhos contraditórios que não é dirigida harmonicamente, nos mínimos detalhes, desde a cúpula do Executivo – para organizar interesses societais por meio de políticas públicas.

Tal organização não se limita a reagir pontualmente a demandas particularistas (frequentemente contraditórias) dos interesses coletivos e individuais que recebe: a política econômica e social do Estado, em cada governo, também executa decisões que não atendem a demandas específicas vindas de fora, pois tem autonomia relativa para impor, induzir e vetar comportamentos privados, muitas vezes os liderando e coordenando para ações coletivas que vão além dos que os atores privados estavam dispostos a fazer sem a ação estatal.

Dada a importância da autonomia relativa do Estado, não devemos analisar a reprodução de um modelo capitalista, muito menos um modelo neoliberal dependente, sem abordar o estatuto das ideologias que orientam os condutores das políticas de Estado nem as expressões concretas dessas ideologias. Em particular, tampouco devemos falar de neoliberalismos e desenvolvimentismos sem definir minimamente seu significado.

Curiosamente, os governos liderados pelo PT são caracterizados por muitos interpretes com diversas matizes de liberalismo e desenvolvimentismo sem que deem a devida atenção à ideologia e à complexidade de suas expressões práticas concretas, como se as decisões dos governos se limitassem a atender demandas economicistas externas.

Sejamos breves: os liberalismos econômicos afirmam o primado do indivíduo na alocação “livre” do trabalho e da riqueza social através de relações de mercado que devem ser minimamente distorcidas pelo Estado que deve protegê-las (Bastos & Belluzzo, 2020). No capitalismo legitimado pelo liberalismo, contudo, os indivíduos só chegam a ser iguais perante a lei.

Como o conjunto de cidadãos é dividido em classes sociais, a liberdade do proprietário do capital é mais substantiva e menos formal do que a do trabalhador despossuído, tanto na esfera privada quanto na esfera pública: “na esfera privada, o proletário não tem opção real ao aluguel de sua força de trabalho em troca de um salário, submetendo-se à vontade do contratante abastado. Na esfera pública, dinheiro compra influência política e, no passado, até o direito ao voto” (idem, p. 20).

No século XIX, o liberalismo econômico inspirou e legitimou o capitalismo de “livre” mercado e, no século XX, a sua radicalização neoliberal, que universaliza a concorrência como princípio de organização social. Contra o liberalismo, porém, duas grandes tradições legitimaram práticas de resistência e de transformação do capitalismo por meio do próprio Estado capitalista – e é delas que o socialdesenvolvimentismo herda parte de seu repertório. A primeira é o nacionalismo econômico, e a segunda é o reformismo social-democrata (Bastos & Belluzzo, 2020).

O nacionalismo representa uma evolução do mercantilismo do Antigo Regime e foi teorizado por Alexander Hamilton e Friedrich List. A rigor, ele já embutia uma ideia vulgar de subdesenvolvimento: na descrição dos estágios pelos quais passariam os países, Friedrich List sustentava que cada estágio requeria uma política distinta – proteção ou liberalização do mercado nacional –, pois o país não houvesse alcançado o estágio já atingido pela Inglaterra não poderia competiria em pé de igualdade (em situação de livre comércio) sem interromper o próprio desenvolvimento.

O desenvolvimentismo do século XX, contudo, vai além do nacionalismo protecionista do século XIX. Emerge depois do capitalismo monopolista, quando a escala das empresas dos ramos líderes nos países desenvolvidos aumentava drasticamente ao mesmo tempo em que o número de empresas concorrentes diminuía – produzindo uma situação de concorrência oligopolística mais do que propriamente monopólios. O montante mínimo de capital investido para entrada no ramo oligopólico também se elevou significativamente, exigindo novas formas de centralização financeira em articulação das empresas com bancos e o mercado de capitais.

As tecnologias, por sua vez, tornaram-se muito mais complexas e menos acessíveis à medida que os departamentos de pesquisa e desenvolvimento (P&D) das empresas se articulavam a sistemas nacionais de ciência e tecnologia, sistemas educacionais para formar trabalhadores mais qualificados e escritórios de oferta de patentes monopólicas para as empresas inovadoras nas novas tecnologias da Segunda Revolução Industrial (química, petróleo, combustão interna, eletricidade, siderurgia avançada, automobilística, máquinas elétricas etc).

O ramo de bens de produção, em particular, se diferenciava horizontalmente do ramo de bens de consumo, que por sua vez se dividia em sub-ramos de bens de consumo duráveis e não-duráveis. No ramo de bens de produção, o sub-ramo de bens de capital se diferenciava do sub-ramo de insumos intermediários. Essas transformações estruturais do capitalismo aumentaram tanto a intensidade de capital, escala e complexidade dos empreendimentos individuais quanto a interdependência entre os mercados.

Assim, a industrialização não pode ser liderada mais pela indústria leve de bens de consumo, mas passa a significar internalizar um parque industrial da indústria pesada e avançar em direção ao ramo de bens de produção e, em particular, bens de capital muito mais do que aos ramos de bens de consumo. Na posse de capacitações financeiras e tecnológicas monopolizadas, as empresas oligopolistas passam a exportar capitais e dividir o mercado mundial com o apoio de seus Estados nacionais na primeira época da concorrência imperialista moderna, concluída com o desastre de duas Guerras Mundiais e a emergência da superpotência dos EUA no chamado bloco Ocidental na Guerra Fria.

Nesse mundo novo, a superação do subdesenvolvimento passa a exigir uma coordenação estatal que não se resume a alterar preços relativos pela proteção comercial, para que os sinais de mercado orientem as decisões empresariais protegidas de importações concorrentes como queria o velho nacionalismo econômico.

O Estado precisa fornecer um novo mecanismo de coordenação, que substitui – e não apenas inflete – o preço de mercado: a coordenação direta de decisões de investimento (estatais, nacionais e estrangeiras) cuja interdependência, escalas, requisitos tecnológicos e montante de capital inicial, próprios da concorrência oligopolista posterior à conclusão da Segunda Revolução Industrial, tornam indispensável o plano nacional de desenvolvimento.

Enquanto o nacionalismo gravitava em torno da proteção comercial, o desenvolvimentismo implica uma ação estatal muito mais invasiva sobre o investimento, generalizada a partir do exemplo da experiência soviética e das economias de guerra das duas guerras mundiais. No caso brasileiro, Fonseca (2004) mostra como o embrião do desenvolvimentismo nasce quando o velho nacionalismo se associa ao positivismo e ao papelismo em uma nova forma de intervenção estatal direta que visa transformar a estrutura produtiva do Rio Grande do Sul rumo à indústria e à diversificação agropecuária.

No Brasil, o desenvolvimentismo precisa dar um salto de estrutura produtiva e autonomia nacional a um patamar superior ao do nacionalismo do século XIX, requerendo não qualquer expansão industrial integrada aos complexos primário-exportadores regionais e sim a industrialização pesada que transforma a estrutura produtiva arcaica – fonte de vulnerabilidade externa e de estrangulamento de balanço de pagamentos sobre o crescimento (Bastos, 2008).

Convém precisar a tríade conceitual que sustenta meu argumento. Crescimento é o mero aumento do produto real, qualquer que seja a causa; desenvolvimento econômico, em abstrato, é o crescimento causado pela ampliação das capacitações tecnológicas e organizacionais que elevam a produtividade a partir de uma ação coletiva liderada pelo Estado para orientar a acumulação de capital e redistribuir parte do excedente que ela gera.

Mais decisivo, porém, é que o desenvolvimento é, concretamente, relativo ao sistema internacional: no século XX, torna-se aspiração política de certas economias “atrasadas” num sistema mundial hierarquizado em centros e periferias, no qual o subdesenvolvimento não é etapa prévia, mas estrutura persistente produzida pelo próprio desenvolvimento dos centros (Prebisch, 1949; Furtado, 1961).

É nesse ponto que a definição puramente produtiva e economicista de desenvolvimento precisa ser completada pela questão nacional: para uma economia “atrasada”, desenvolver-se não é apenas elevar a produtividade, mas conquistar graus de autonomia nacional pela transformação industrializante da estrutura produtiva – superar a condição primário-exportadora, a dependência de tecnologias militares modernas, a vulnerabilidade do balanço de pagamentos, e o estrangulamento externo que subordinam as decisões soberanas. Esse ganho de autonomia pretendido ocorre mesmo quando a autonomia é estruturalmente limitada pela “nova dependência”, como veremos.

Além de vincular-se à questão nacional, a ideologia desenvolvimentista concretamente não existe no singular, mas sempre no plural de desenvolvimentismos que disputam a forma de orientação da acumulação de capital para diferentes finalidades propiciadas pelo aprofundamento industrial. Cada desenvolvimentismo é uma ideologia que defende uma certa política econômica capaz de incitar um certo tipo desenvolvimento e orientá-lo, ao menos em parte, segundo objetivos normativos, e de redistribuir parte do excedente gerado.

No Brasil, seu núcleo comum reuniu nacionalismo, intervencionismo e defesa da industrialização (Fonseca, 2015), mas a disputa pela direção do desenvolvimento foi ininterrupta (Bielschowsky, 1985; Saes, 2025). De fato, o termo é plural – desenvolvimentismos –, porque a orientação do desenvolvimento e do excedente é sempre disputada: cada projeto desenvolvimentista mobiliza intelectuais orgânicos, no sentido gramsciano, que lutam para tornar exclusiva a sua definição de desenvolvimento, adjetivando as rivais (os “falsos” desenvolvimentos) e legitimando sua interpelação dos interesses privados que organiza em ação coletiva e coordenada.

Por isso, o desenvolvimentismo não é técnica neutra, e sim expressão ideológica de interesses de classes e frações de classe – a mesma abertura normativa que, no Brasil, permite caracterizar os governos do PT com matizes diversas de desenvolvimentismo.

Ao sair do plano do debate de ideias para a implementação como política de Estado, nenhum desenvolvimentismo permanece “puro”. Mesmo o nacional-desenvolvimentismo varguista não nasceu “pronto” no Rio Grande do Sul como sugere Fonseca (2004), mas foi uma construção sujeita a idas e voltas, contradições e mutações depois que Vargas confrontou os desafios da industrialização pesada no Estado nacional (Bastos, 2005; 2008).

Armando Boito (2026) pretende limitar arbitrariamente o desenvolvimentismo à América Latina. No século XX, porém, o que condiciona a emergência dos desenvolvimentismos não é a região geográfica e sim o contexto histórico: o que ele tem de mais geral é a resposta característica dos capitalismos tardios – os que enfrentam o desafio da industrialização pesada já sob o capitalismo monopolista e o imperialismo, como na lição de João Manuel Cardoso de Mello (1982).

A problemática desenvolvimentista, porém – industrialização pesada coordenada pelo Estado em nome da autonomia nacional –, atravessa também a Índia, Taiwan e Coreia do Sul (Moreira & Bastos 2024a,b), com graus distintos de dependência. Restringi-la a uma única região é perder a sua determinação histórico-estrutural: é a época monopolista e imperialista do capitalismo mundial que torna a industrialização tardia um problema comum a todos os que a enfrentam fora do pequeno núcleo originário.

Ademais, com ou sem revolução perante o capitalismo monopolista e o imperialismo, um capitalismo tardio nacional simplesmente não consegue assegurar a industrialização sem dependência, ainda que seus governos possam tentar maximizar ganhos nacionalistas na negociação das formas de dependência (Bastos, 2008, Moreira & Bastos 2024).

Daí um ponto que Boito desconsidera ao enfatizar o anti-imperialismo do desenvolvimentismo latino-americano clássico: o desenvolvimentismo na região resistiu ao velho imperialismo, mas se articulou à nova dependência. No Brasil, o desenvolvimentismo nunca foi avesso ao capital estrangeiro per se (e sim de formas específicas dele), ainda que buscasse regulá-lo de diferentes maneiras – foi, desde Getúlio Vargas e JK, um desenvolvimentismo associado e dependente.

A raiz disso não é arbitrária, e sim histórico-estrutural. Depois da Segunda Revolução Industrial na virada do século XIX para o XX, nenhuma indústria pesada tardia surge espontaneamente da expansão do consumo: internalizar o departamento de bens de produção exige escalas, tecnologias e massas de capital que a burguesia nacional, isolada, não reúne, e impõe uma coordenação estatal que precede e organiza a associação com o capital estrangeiro detentor das tecnologias (Mello, 1982; Tavares, 1975). O conceito de capitalismo tardio especifica alguma variante de desenvolvimento na qual a dependência não é superada, mas internalizada.

Historicamente, a segunda tradição que resistiu ao liberalismo (econômico e político) foi o socialismo. Convertido, por uma ala da social-democracia e de partidos socialistas, de ideologia de revolução em ideologia de reforma do capitalismo, resultou nos welfare states e na administração da demanda agregada no pós-guerra. O neoliberalismo, ao radicalizar o liberalismo, atacaria as duas heranças: o desenvolvimentismo nacionalista nas periferias e a social-democracia nos centros (Bastos & Belluzzo, 2020).

Onde, então, se situa o socialdesenvolvimentismo? Ele não é mera adaptação do desenvolvimentismo ao neoliberalismo, mas uma crítica ao neoliberalismo. Esse será o tema da terceira parte deste artigo.

 

Fonte: Por Pedro Paulo Zahluth Bastos, em A Terra é Redonda

 

O que Flávio prometeu a Trump caso seja eleito sobre Pix, Mercosul e redes sociais

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto, apresentou ao governo dos Estados Unidos, nesta quinta-feira (2/7), uma manifestação tentando convencer a gestão do presidente Donald Trump a aguardar as eleições brasileiras de outubro antes de decidir se impõe novas tarifas contra produtos importados do Brasil. Na carta, ele pede que a possível punição seja suspensa por ao menos 180 dias.

No documento, ele argumenta que um novo tarifaço acabaria fortalecendo a campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que tem classificado as retaliações americanas como ataques à soberania nacional.

Flávio promete, caso eleito, "nomear imediatamente um negociador para conduzir as negociações de boa-fé" e indica ações do seu governo para resolver as acusações de comércio desleal contra o Brasil.

Entre as medidas prometidas estão não conectar o PIX a meios de pagamento instantâneos internacionais não ocidentais, desonerar o setor de cartões de crédito (beneficiando grandes empresas americanas) e buscar acordos bilaterais de comércio com os EUA, libertando o Brasil das "amarras do Mercosul".

Ele também diz que, caso a atual oposição ganhe mais cadeiras no Senado em outubro, será possível cassar ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) que têm tomado decisões contra plataformas americanas de redes sociais, uma das questões que irritam a gestão Trump — e que o campo bolsonarista chama de censura.

A manifestação de Flávio Bolsonaro foi enviada ao Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR), órgão que iniciou uma investigação comercial contra o Brasil em julho passado, após o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL) articular junto à Casa Branca retaliações ao país para tentar evitar a condenação do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pelo STF — ele acabou condenado em setembro por tentativa de Golpe de Estado.

A investigação foi concluída no início de junho, recomendando tarifas retaliatórias de 25% a produtos brasileiros, com o argumento de que certas práticas do governo brasileiro são "irrazoáveis" e "oneram ou restringem o comércio dos EUA".

Depois disso, foi aberto prazo até 1º de julho para que partes interessadas se manifestassem sobre o tema, contexto em que Flávio Bolsonaro enviou suas considerações. Ele também está inscrito para participar de uma audiência pública nos EUA no dia 6 de julho.

Já o governo Lula contesta as acusações dos EUA contra o Brasil e tem feito rodadas de negociações com autoridades americanas para tentar convencer a Casa Branca a não impor as novas tarifas.

Além disso, também enviou uma manifestação a USTR, assinada pelo ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, argumentando que "amplas tarifas sobre produtos brasileiros imporiam custos reais à economia dos EUA".

As supostas práticas brasileiras condenadas na investigação americana incluem o PIX, visto como um concorrente desleal a outros meios de pagamento, e tarifas de importação mais benéficas para outros países com os quais o Brasil tem acordos, como México e Índia.

A investigação apontou ainda como problemáticas supostas falhas no combate à corrupção e à proteção da propriedade intelectual no país, assim como a atuação do Judiciário brasileiro no controle de plataformas digitais.

Entenda a seguir o que Flávio prometeu ao governo Trump em quatro pontos.

<><> Pix: o que dizem os EUA e o que promete Flávio

A gestão Trump diz que o governo brasileiro "tem prejudicado injustamente as empresas americanas" ao favorecer o Pix e acusa o Banco Central brasileiro de exercer papel duplo "como regulador e proprietário/operador" do meio de pagamento instantâneo.

"O banco tem atuado como regulador para desfavorecer provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA e privilegiar o Pix. Por exemplo, o Banco Central exige o uso do Pix por instituições financeiras com mais de 500 mil contas e requer que o Pix seja exibido na tela principal do aplicativo das instituições participantes com destaque igual ou superior a qualquer outra funcionalidade de pagamento ou transferência."

Além disso, há críticas pelo fato de o Banco Central exigir que o Pix seja ofertado sem taxas aos clientes. Segundo a conclusão da investigação, as autoridades brasileiras obrigam empresas americanas a promover o sistema brasileiro sem compensações às instituições americanas.

"Os atos, políticas e práticas do Brasil relacionados ao tratamento preferencial dado ao Pix são injustos e discriminatórios. É injusto exigir que os concorrentes ofereçam vantagens ao Pix, como disponibilidade, visibilidade e limites de taxas, e o Brasil discrimina os fornecedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA ao conceder essas vantagens apenas a seu campeão nacional do Brasil."

Em sua manifestação, Flávio Bolsonaro defende o Pix como uma das principais inovações do governo de seu pai, Jair Bolsonaro, embora o então presidente tenha indicado não conhecer a ferramenta quando ela foi implementada, ao ser questionado por apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada.

A ferramenta começou a ser desenvolvida no governo anterior, de Michel Temer, por técnicos do Banco Central e foi lançada em 2020.

O senador também rebate críticas sobre possível conflito de interesses ao comparar o Pix ao sistema norte-americano FedNow, sustentando que ambos cumprem funções semelhantes como plataformas operadas por bancos centrais.

O parlamentar também argumenta que o crescimento do Pix não prejudica empresas dos Estados Unidos no Brasil, já que ampliou a inclusão financeira e o mercado consumidor, beneficiando companhias norte-americanas de comércio eletrônico, tecnologia e fintech.

Apesar de contestar as queixas americanas, Flávio promete que "o Pix não será interconectado a arranjos de liquidação transfronteiriça não ocidentais", numa aparente sinalização de que, caso eleito, não avançará em acordos com a China nesse campo — a potência asiática já manifestou interesse nesse sentido, mas as discussões são iniciais.

Além desse compromisso, Flávio disse que há margem significativa para tornar mais leve a regulamentação e a tributação do setor, destacando que outros meios de pagamento, como cartões de crédito, oferecem funções que o Pix não substitui, incluindo crédito ao consumidor e financiamento parcelado.

"Esses instrumentos hoje suportam uma carga regulatória e tributária que suprime a concorrência em vez de promovê-la. Reduzir essa carga não privilegiaria nenhuma empresa; ampliaria a escolha do consumidor, reduziria o custo das trocas voluntárias e apoiaria o crescimento econômico — resultados que beneficiam o consumidor brasileiro e a economia em geral de forma tão direta quanto o próprio setor", defendeu, na manifestação ao USTR.

Já a Federação Brasileira de Bancos (Febraban) defendeu o Pix em nota divulgada em junho e disse que a conclusão da investigação dos EUA decorre de "informações incompletas acerca dos seus objetivos e funcionamento".

"O Pix é uma infraestrutura de pagamento, e não um produto comercial, que favorece a competição e o bom funcionamento do sistema de pagamentos e, consequentemente, da atividade econômica. Trata-se de um modelo aberto e não discriminatório, com participação de bancos, fintechs, instituições financeiras nacionais e estrangeiras", afirmou a entidade.

<><> Flávio e EUA contra supostas interferências nas redes socias

Segundo o governo americano, "tribunais brasileiros emitiram decisões sigilosas determinando que empresas americanas de redes sociais removam determinados conteúdos políticos e suspendam perfis de residentes nos Estados Unidos — em alguns casos, com alcance global —, além de proibirem as plataformas de informar os usuários sobre essas ordens".

O documento com a conclusão da investigação do USTR fala em imposição de multas elevadas, restrições ao acesso a ativos, contas e sistemas de pagamento no Brasil e, em pelo menos um caso, o bloqueio total de um site.

O pré-candidato do PL concorda, em sua manifestação, com as queixas americanas sobre atuação de instituições brasileiras que interferem no funcionamento das redes sociais, criticando decisões do STF e do governo Lula nessa área. O campo bolsonarista tem se posicionado contra o endurecimento da regulamentação e das obrigações dessas empresas e se coloca como vítima de decisões do Judiciário que, nos últimos anos, tem derrubado postagens e contas que envolveriam conteúdo criminoso.

Flávio Bolsonaro argumenta, porém, que a imposição de tarifas contra o Brasil não vai alterar esse cenário. Ele diz que a solução está no Legislativo e que ministros do STF poderão ser cassados caso a oposição a Lula ganhe espaço no Congresso após as eleições de outubro.

"O Senado recebeu dezenas de pedidos de impeachment contra membros da Corte ligados a esse suposto abuso de autoridade — pedidos que estão parados, mas poderiam avançar caso a oposição ganhe força em outubro", escreveu ao governo dos EUA.

Além disso, o senador argumenta que "uma abordagem mais adequada" à implementação de tarifas amplas contra o Brasil é a adoção de "medidas direcionadas", como "sanções financeiras e restrições de visto contra autoridades responsáveis, retaliações que já foram usadas contra ministros do STF.

<><> Acordo bilateral e libertação das "amarras do Mercosul"

O USTR acusa o Brasil de privilegiar alguns países no comércio internacional.

"Por meio de acordos comerciais preferenciais de escopo limitado com México e Índia — que abrangem setores nos quais esses países são produtores avançados e competitivos globalmente —, o Brasil concede tarifas mais baixas e tratamento preferencial a centenas de produtos mexicanos e indianos em diversos setores", disse o órgão, na conclusão da investigação.

Ao comentar esse tópico, Flávio Bolsonaro prometeu negociar condições melhores paras a trocas entre Brasil e EUA. Ele disse que vai "buscar de forma mais agressiva formas de estabelecer acordos bilaterais que promovam comércio e investimento entre ambos os países".

"O Brasil busca maneiras de se desvincular das amarras do Mercosul que impediram administrações anteriores de negociar com os Estados Unidos. O caminho adotado pela Argentina de Javier Milei oferece um precedente útil que o autor afirma estar disposto a examinar e seguir", disse ainda.

<><> Corrupção: Flávio cita Master, mas ignora dinheiro de Vorcaro para filme sobre Bolsonaro

O governo dos EUA também diz que empresas americanas seriam prejudicadas porque "o Brasil não adota medidas de fiscalização suficientes para enfrentar práticas de suborno e corrupção".

Sobre essa queixa, Flávio Bolsonaro reconhece que há grandes escândalos de corrupção no Brasil, mas diz que isso não é um problema estrutural do país, mas um problema relacionado a governos do PT, citando os escândalos do Mensalão e da Lava Jato, e, mais recentemente, as fraudes bilionárias envolvendo o INSS e o Banco Master.

Em sua carta, o senador não cita que ele próprio sofreu desgaste ao ser revelado que solicitou ao banqueiro Daniel Vorcaro aportes de dezenas de milhões de reais do Master para a gravação de um filme em homenagem ao seu pai — R$ 61milhões foram liberados até a liquidação do banco, em novembro.

Ele também ignorou em sua manifestação que, segundo as investigações da Polícia Federal, as fraudes no INSS começaram antes do atual governo, incluindo a gestão de Jair Bolsonaro.

Apesar disso, Flávio diz que o governo de seu pai não teve escândalos de corrupção.

"A gestão do presidente Jair Bolsonaro, de 2019 a 2022, transcorreu sem qualquer esquema de corrupção sistêmica de escala comparável [aos escândalos do PT]. O objetivo é tornar isso uma característica estável do Estado, e não um traço de uma administração específica", prometeu na manifestação ao governo Trump.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Abrir uma bet ilegal custa menos de R$ 1 mil no Brasil

Montar um cassino online ilegal no Brasil pode custar menos do que uma conta de luz. A Agência Pública encontrou o código necessário para rodar uma plataforma sendo oferecido até de graça, em grupos de pirataria no WhatsApp e Telegram. Também identificamos exemplos de programas que fazem o apostador perder quase sempre e maneiras de esconder pagamentos fraudulentos.

Essas características – e a facilidade de acesso a elas – tornaram as bets ilegais uma indústria criminosa que já abocanha quase metade das apostas online do país, segundo o Tribunal de Contas da União (TCU), e que as autoridades têm enfrentado dificuldades para combater.

O designer paulista Bruno*, de 33 anos, viveu os bastidores desse mundo. Em 2024, ele recebeu uma proposta de se tornar sócio de uma plataforma de apostas online. Parecia tentador: ele só teve que desembolsar R$ 100 para comprar um domínio (o endereço do site). Depois, criou um logotipo, customizou as cores da página e fez a campanha de divulgação. Por 200 dólares, distribuiu anúncios do cassino online em sites de conteúdo adulto.

As apostas começaram a entrar e logo a plataforma já se pagava sozinha. “Nas primeiras semanas, já tinha dado papo de R$ 10 mil”, afirma.

Os outros custos para colocar a plataforma no ar foram pagos por um dos sócios de Bruno, que tinha mais recursos e depois foi reembolsado com os primeiros faturamentos. Foram R$ 40 mil pelo sistema – o código que roda a plataforma de apostas. Depois tiveram que comprar outro, por R$ 25 mil, quando o primeiro apresentou problemas. O sistema já vinha com o cassino configurado em português, pronto para ser jogado.

O lucro poderia ser maior caso os donos decidissem manipular os resultados das apostas – uma prática comum entre as bets ilegais, em que a engrenagem é distorcida para os jogadores perderem mais do que ganham. O designer, que falou com a Pública sob condição de anonimato, diz que eles mantiveram a integridade do sistema.

A operação durou três meses. Bruno decidiu deixar o negócio por medo de ser pego cometendo um crime, já que a bet não era regularizada. Também sentiu pressão dos colegas para aplicar golpes nos jogadores, o que diz não compactuar. Depois disso, a página foi fechada e ele diz não saber se os sócios seguiram no ramo.

Mas, diante de tudo o que viu, o designer afirma que o processo para abrir e operar uma bet ilegal no Brasil é bem mais fácil, rápido e barato do que ele imaginava. “Sobre o custo, acho grátis. Diante do retorno potencial, é muuuuito barato”, disse, alongando a sílaba para enfatizar.

<><> Investimento baixo, lucro garantido

A Pública encontrou opções ainda mais baratas para colocar uma bet ilegal no ar. Localizamos ofertas de venda de scripts – que costuma ser o maior custo operacional de uma casa de apostas online – por valores muito baixos como R$ 9,90. Ainda há casos de modelos oferecidos até de graça em grupos de pirataria no WhatsApp e Telegram.

Felix Elmada, que atua no mercado de iGaming há 12 anos, fez uma estimativa de quanto custa para montar uma bet ilegal: menos de R$ 1 mil, ao todo. Ele tem conhecimento do mercado porque, após anos em grandes empresas de apostas, hoje se dedica à BetFiscal.

Segundo ele, o script sai por cerca de R$ 300. Uma API de jogos, que é o sistema que permite ao operador interagir com jogos de uma plataforma externa (e que pode permitir a manipulação de resultados), custa entre R$ 300 e R$ 350. Um domínio de internet, em torno de R$ 100. A hospedagem em um servidor privado virtual, o chamado VPS, cerca de R$ 120 por mês. A integração com o meio de pagamento geralmente é gratuita, porque o fornecedor desconta uma taxa por transação, ou seja, só cobra quando o dinheiro entra.

A título de comparação, plataformas de apostas regularizadas costumam ser muito mais caras. As mais bem conceituadas geralmente desenvolvem os próprios sistemas operacionais e têm gastos altos com licenciamento e outorga para operar segundo a lei de cada país. Há ainda as empresas que compram os seus sistemas a partir de modelos já prontos, que custam entre 25 mil e 50 mil dólares, segundo cotações feitas pela Pública. As fornecedoras geralmente ficam sediadas em países como Malta, Curaçao e Suíça, mas adaptam seus produtos aos pedidos dos clientes, incluindo brasileiros. Ou seja, de qualquer maneira, o custo dessas empresas é bem maior.

Estes valores, porém, são relacionados apenas aos custos operacionais – à estrutura digital necessária para que a plataforma funcione. Mas as bets ilegais ainda têm outras facilidades em relação às regularizadas: não pagam impostos, não são auditadas ou responsabilizadas judicialmente e, muitas vezes, sequer pagam os prêmios oferecidos. Tudo isso torna esse tipo de crime atrativo e difícil de fiscalizar.

A manipulação dos resultados é outra característica desses negócios ilegais. Plataformas licenciadas são obrigadas por lei a manter uma taxa de retorno ao apostador, o chamado RTP – do inglês Return to Player – em um percentual pré-definido, auditável e transparente. Já os operadores ilegais usam APIs para clonar e falsificar jogos, a fim de controlar quanto dinheiro vai ser distribuído em prêmios. Essas APIs também são facilmente acessadas em fóruns online – até de graça, de acordo com Elmada. Isso significa que os jogos são viciados.

Além disso, as plataformas irregulares geralmente utilizam intermediadores de pagamento para receber as apostas dos usuários. Essas empresas não são credenciadas ao Banco Central (BC). O limbo jurídico em que elas operam dificulta o rastreio dos recursos.

Um levantamento da BetFiscal, que monitora plataformas de apostas irregulares e envia denúncias aos órgãos competentes, com 358 plataformas irregulares mostrou que haviam 13 intermediadoras de pagamento que se revezavam entre elas. A que mais apareceu, a Cartwave Hub, em 88 casos, tem diversas reclamações no site ReclameAqui de usuários relatando problemas com apostas, como prêmios que não são pagos.

A empresa nega irregularidades e afirma que não possui controle ou responsabilidade sobre as práticas de seus clientes. “Nossa função limita-se a garantir a eficiência e a segurança do fluxo de pagamentos, mantendo neutralidade em relação às atividades de negócio de cada contratante”, disse, em nota. “Ressaltamos, entretanto, que possuímos rigorosos protocolos de compliance e medidas de monitoramento contínuo”, continua. Também diz que as soluções são disponibilizadas para operadores licenciados pela SPA e sob as diretrizes do BC.

Com tantas facilidades para operar às margens da lei, os grupos que operam bets ilegais enchem os bolsos com as apostas dos usuários, quase não têm custos, dificilmente são importunados pela fiscalização e não têm nenhuma obrigação legal de operar com honestidade. É caminho aberto para lavagem de dinheiro, fraude e outros ilícitos.

Essa economia é repassada ao apostador, com odds – um índice que define quanto o apostador recebe caso acerte uma aposta – mais atrativas, promoções agressivas, facilidade de cadastro e formas de pagamento. Mais clientes são seduzidos. E, assim, forma-se um ciclo vicioso que desafia as medidas de combate do poder público.

<><> Como as plataformas ilegais chegam aos apostadores

As estratégias dessa indústria criminosa para parecer atrativa aos usuários ficam claras em uma investigação do Ceará. Em março de 2025, um grupo de influenciadores e pessoas ligadas a eles, que costumavam divulgar marcas de roupa e cosméticos nas redes sociais, foram presos em uma operação contra plataformas clandestinas de apostas. Os influenciadores, que somavam milhares de seguidores no Instagram, eram contratados para fazer publicações sobre jogos como o Fortune Tiger (o popular tigrinho), mesmo sabendo se tratar de sites ilegais.

Segundo a investigação da Polícia Civil cearense, a qual a Pública teve acesso, os acusados usavam artifícios para fingir que os apostadores teriam vantagens. Diálogos entre Victória Haparecida de Oliveira e Milena Peixoto, duas das influenciadoras investigadas, por exemplo, revelam a promessa de sorteios de pix para seguidores que acessassem as plataformas pelos links divulgados. Os sorteios, porém, não eram realizados ou eram postados comprovantes falsos de depósito.

Alguns réus também criavam grupos de WhatsApp com “dicas” para ganhar dinheiro no jogo, com uma lista de horários em que o “tigrinho soltava a carta”, como se o jogo fosse programado para distribuir lucros em determinados momentos do dia – o que não é verdade.

O principal recurso era o uso de contas “demo”, cedidas pelos donos dos sites ilegais. Os acusados divulgavam filmagens da própria tela do celular em que “ganhavam” milhares de reais com o jogo do tigrinho. No entanto, as contas eram pré-programadas para apresentar ganhos que não correspondiam à realidade. Essas versões “demo” não são acessíveis ao público.

Ao contrário do que os influenciadores induziam seus seguidores a acreditar, jogos como o do tigrinho, mesmo em sua versão regulamentada, são feitos para perder dinheiro no longo prazo. Os sites autorizados pela Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA) só têm obrigação de devolver 85% do valor das apostas convertidos em prêmios. Nos sites irregulares, não há nenhum controle.

O inquérito do Ceará cita apostadores que ganharam dinheiro e não conseguiram sacar, além de vários usuários que perderam milhares de reais com os jogos – e que chegaram a ser ridicularizados por uma das influenciadoras. Em um áudio enviado no Instagram e obtido pela investigação, a influenciadora Victória Oliveira conta que uma seguidora, que havia perdido R$ 3 mil, entrou em contato para pedir conselho sobre como parar de jogar. “Ah, meu Deus, como diabo essa menina conseguiu meu número? Ela fez um escândalo. Se eu soubesse que era isso…”, diz.

Os sites eram hospedados no exterior e novos links eram lançados em média a cada três dias – tática comum às bets ilegais, com o objetivo de evitar a derrubada das plataformas, escapar de reclamações de apostadores e dar a falsa sensação de que o “site novo” pagaria melhor.

No auge, alguns dos influenciadores ganhavam até R$ 15 mil por semana por plataforma divulgada. De acordo com o processo, Victória Oliveira conseguiu quase três mil  depositantes em um site. Considerando que o depósito mínimo é de R$ 20, o faturamento pode ter chegado a quase R$ 60 mil apenas nesta plataforma. Um dos denunciados chegou a dizer que divulgou mais de 100 plataformas em apenas nove meses – dando uma escala milionária ao esquema.

Para ocultar a origem ilícita, os depósitos eram feitos por meio de intermediadoras de pagamento. Com o dinheiro, os influenciadores ostentavam luxo nas redes sociais. Eram recorrentes as publicações sobre viagens – uma delas, para Dubai, bancada pelo dono de uma das plataformas, de acordo com o processo –, compras de imóveis e carros de até R$ 500 mil.

Os 13 envolvidos foram denunciados por organização criminosa, estelionato, crime contra a economia popular, exploração de jogo de azar, entre outros. Sete réus foram acusados de lavagem de dinheiro. Parte deles encontra-se atualmente em prisão domiciliar, enquanto outros estão em liberdade condicional, sendo monitorados por tornozeleira eletrônica. Eles foram proibidos de acessar contas no  Instagram e no WhatsApp, porém os perfis continuam ativos, e tiveram bloqueio de bens. A denúncia, aceita pela Justiça cearense em maio do ano passado, ainda não foi julgada.

A Pública contatou a defesa das duas influenciadoras citadas na reportagem. Os advogados de Victória Oliveira disseram que não vão se manifestar. Já os de Milena Peixoto não responderam ao contato.

<><> Por que é tão difícil impedir?

No último dia 19 de junho, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou um decreto que prevê que as instituições financeiras terão que bloquear dinheiro de bets ilegais. O governo federal já bloqueou milhares de sites não autorizados. Ainda assim, é fácil constatar que plataformas ilegais continuam operando com facilidade no Brasil.

Em grupos de Facebook, há dezenas de posts divulgando sites irregulares – com links de indicação, que remuneram quem angariou o apostador. No Telegram, além da propaganda de plataformas ilegais, ainda há instruções sobre como virar um “parceiro” – para cada R$ 10 depositados por um indicado, o agente recebe R$ 15 na plataforma.

E o usuário pode nem perceber se está usando uma plataforma regulamentada ou não. A diferença visual é mínima – as ilegais costumam copiar os nomes, cores e até os jogos para simular credibilidade. Por exemplo, além do “Fortune Tiger” há outros parecidos, como o “The Little Tiger Game”. Uma pesquisa do Instituto Locomotiva do início de 2025 mostrou que 78% das pessoas que apostam online têm dificuldades para saber se a plataforma em que jogam é legalizada.

“O meio digital não exige uma estrutura física, não exige funcionários ou imóveis, de forma que é muito fácil você se fazer passar por uma instituição legalizada”, afirma o advogado Pierpaolo Bottini, professor de direito penal da Universidade de São Paulo (USP) e especialista em crimes financeiros.

Bottini explica que as plataformas irregulares não seguem regras de proteção ao consumidor e nem oferecem qualquer garantia de retorno financeiro. “É possível a existência de fraudes, ou mesmo da não devolução de recursos. É o mundo do crime.”

O que acontece é que, até o momento, a capacidade de reação dos órgãos responsáveis por combater as plataformas ilegais tem ficado aquém da velocidade em que estas operam e de seu poderio econômico. Essa é a principal conclusão de uma auditoria do TCU, que veio a público em 19 de maio. O órgão avalia que falta coordenação institucional entre os diferentes entes e que a capacidade da SPA de identificar e interditar operadores irregulares “apresenta deficiências estruturais que comprometem substantivamente a efetividade do sistema de fiscalização”.

Para José Francisco Manssur, ex-assessor especial da Secretaria-Executiva do Ministério da Fazenda e um dos arquitetos da lei que regulamentou as bets no Brasil, a chave está nos meios de pagamento. “O Banco Central tem que ficar no dia a dia dizendo: ‘olha, se você fizer uma operação para uma empresa ilegal, a gente vai tirar a autorização. Você não vai poder fazer nenhum tipo de operação, nem para a bet nem para nada’”, aponta. Ele também sugere que se proíba publicidade e contratos com casas ilegais no Brasil.

Dias depois da reportagem entrevistar o ex-assessor especial e da auditoria do TCU vir a público, o Banco Central anunciou que passaria a rastrear apostadores que façam depósitos em bets ilegais e as empresas que intermediam esses pagamentos. O monitoramento depende de adaptações das instituições financeiras, que têm até 1º de dezembro para implementar a medida.

O governo federal reconhece o problema, mas enfrenta dificuldades frente à dinâmica das plataformas clandestinas. Em parceria com a SPA, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) já retirou do ar 44 mil sites de apostas ilegais. Mas o problema é que, assim que uma bet é tirada do ar, seus operadores podem retomá-la imediatamente com outro domínio, tornando a missão interminável.

A Anatel informou em nota que, para remover novos domínios ilegais, precisa ser acionada pela SPA. O órgão, porém, reconhece a dificuldade de zerar o número de plataformas clandestinas. “O ambiente digital apresenta dinâmica elevada, com possibilidade de criação frequente de novos domínios e mecanismos tecnológicos para contornar restrições de acesso. Nesse contexto, a Anatel atua para dar cumprimento, com a maior agilidade possível, às determinações de bloqueio de sites e plataformas de apostas ilegais emitidas pela autoridade competente.”

Em entrevista à Pública, a titular da Secretaria de Prêmios e Apostas, Daniele Cardoso, aponta que o vácuo regulatório entre a liberação das bets pelo Governo Temer e a regulamentação pelo governo Lula facilitou a proliferação de bets clandestinas. Ela defende, porém, que o órgão tem canalizado esforços para fazer frente ao desafio, citando a agenda regulatória, parcerias com outros órgãos e um avanço no bloqueio de sites ilegais – que ela reconhece não ser, sozinha, uma medida suficiente.

Em relação à auditoria do TCU, Cardoso ressalta a importância das recomendações do órgão, mas afirma que o processo em questão aborda fatos de 2024 e 2025, e que a SPA “avançou bastante nessa frente nesses últimos meses”.

Quanto ao dado de que 40% do mercado estaria nas mãos de operadores ilegais, citado na auditoria, a secretaria da SPA apresenta uma informação confrontante: segundo a H2 Gambling Capital, 72% das apostas brasileiras estariam com plataformas legalizadas.

“Para nós, é um dado bastante importante, animador, considerando que estamos falando de um ano e cinco meses de mercado regulado. Embora a gente persiga uma meta ousada de 100%, quando olhamos para outras jurisdições, nenhuma [chegou nesse nível]”, afirma.

A discussão legal versus ilegal, no entanto, não é o único problema quando se fala em apostas online. Reflexo disso é o anúncio de restrições para apostas por beneficiários do Bolsa Família e do BPC, além dos optantes do programa de renegociação de dívidas Desenrola, anunciada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, em uma tentativa de frear o crescente endividamento das famílias. No entanto, essas medidas também têm obstáculos: elas valem apenas para as bets legalizadas e a responsabilidade por impedir as apostas é das próprias empresas – e não há nenhuma punição em caso de descumprimento.

Para Bottini, o marco legal precisa avançar em pelo menos duas frentes. A primeira é o aprimoramento das regras para empresas de intermediação de pagamento, que operam em um limbo jurídico e por isso conseguem mascarar transações ilegais. A outra é melhorar a comunicação entre os órgãos de controle, como o Ministério da Fazenda, Banco Central e Receita Federal, que cuidam cada um de uma parte do problema, mas ainda não falam entre si de forma sistemática.

 

Fonte: Por Amanda Audi e Rafael Oliveira, da Agência Pública

 

Avanço promissor na detecção do câncer

Um exame de sangue de alta sensibilidade pode ser o novo aliado do tratamento do câncer de pâncreas ao identificar vestígios que escapam dos métodos usados atualmente. A tecnologia foi capaz de detectar DNA tumoral circulante em um número muito maior de pacientes do que o sequenciamento de nova geração (NGS), técnica amplamente utilizada para monitorar esse tipo de neoplasia. Os resultados indicam que muitos doentes podem apresentar câncer residual mesmo quando os exames de imagem sugerem ausência de alterações, permitindo um acompanhamento mais preciso e intervenções mais precoces.

As conclusões são de um estudo realizado por pesquisadores da Northwestern Medicine, nos Estados Unidos e publicado nesta terça-feira (30/06), na revista Clinical Cancer Research. Para o trabalho a equipe acompanhou 106 pessoas com câncer pancreático localizado desde o diagnóstico até a conclusão do tratamento. Durante esse período, amostras de sangue foram coletadas para avaliar a presença de DNA liberado pelas células malignas, conhecido como ctDNA.

Os cientistas compararam duas abordagens para identificar essas alterações genéticas. A primeira foi o sequenciamento de nova geração, método que analisa simultaneamente diversos genes relacionados ao desenvolvimento de tumores. A segunda utilizou a reação em cadeia da polimerase digital em gotas (ddPCR), técnica direcionada para mutações específicas e reconhecida por oferecer maior sensibilidade em situações nas quais a quantidade de material genético é extremamente baixa. O foco da análise foi o gene KRAS, responsável por mais de 90% dos casos de câncer de pâncreas.

<><> Nova abordagem

Os resultados mostraram grandes diferenças entre os dois testes. No momento do diagnóstico, a ddPCR identificou DNA tumoral em 65% dos participantes, enquanto o NGS encontrou o mesmo marcador em apenas 17% dos voluntários. Após a quimioterapia, a superioridade da técnica permaneceu evidente: o exame mais sensível detectou sinais da doença em 60% dos pacientes, contra apenas 5% do método convencional. Depois da cirurgia, os índices foram de 56% e 9%, respectivamente.

Para o cirurgião oncológico Akhil Chawla, autor sênior do trabalho e professor associado da Universidade Northwestern, "a combinação pode mudar fundamentalmente a forma como identificamos pacientes de alto risco, monitoramos a doença microscópica e, potencialmente, intervirmos mais cedo, antes que a recorrência se torne clinicamente visível, resultando, em última análise, na cura de mais pacientes".

De acordo com os autores, essas informações sugerem que uma parcela significativa dos pacientes continua apresentando a doença mesmo após completar o tratamento. Em muitos casos, esse quadro não é percebido pelos exames de imagem nem pelos testes moleculares, o que pode atrasar terapias adicionais.

Além da maior capacidade para detectar o ctDNA, o estudo demonstrou que os resultados do exame também foram associados ao prognóstico. Os pacientes com testes positivos, tanto na ddPCR quanto no NGS, apresentaram sobrevida média de 11 meses após o diagnóstico. Em contrapartida, aqueles com exames negativos viveram, em média, 41 meses.

Outro achado chamou a atenção dos pesquisadores. Um grupo de participantes teve resultado negativo pelo NGS, mas positivo pela ddPCR. Essas pessoas apresentaram sobrevida média de 27 meses, desempenho inferior ao observado entre os pacientes sem nenhuma detecção de DNA tumoral. Segundo os autores, esse conjunto representa indivíduos de maior risco que poderiam permanecer sem identificação caso apenas o teste convencional fosse utilizado.

Para Caio Neves, coordenador da oncologia do Hospital Anchieta Taguatinga, a ddPCR representa um avanço muito promissor porque aumenta significativamente a sensibilidade na detecção de doença residual mínima. "O grande desafio no câncer de pâncreas é que muitos pacientes apresentam exames de imagem aparentemente normais após a quimioterapia e a cirurgia, mas ainda possuem doença microscópica que acaba levando à recidiva. Este estudo mostrou que a ddPCR foi capaz de identificar DNA tumoral circulante em um número muito maior de pacientes do que o NGS convencional, inclusive após o tratamento, sugerindo que podemos identificar precocemente aqueles com maior risco de recorrência."

<><> Identificação precoce

"Sem dúvida, essa tecnologia tem potencial para ser utilizada em diversos outros tumores. Já existem estudos bastante avançados em câncer colorretal, mama, pulmão e melanoma, entre outros. Sempre que houver uma mutação bem definida e passível de monitoramento, a ddPCR pode desempenhar um papel importante na detecção de doença residual mínima, monitoramento da resposta ao tratamento e identificação precoce de recaídas", finalizou o especialista.

A principal vantagem da biópsia líquida é permitir o monitoramento da doença por meio de uma simples coleta de sangue, dispensando procedimentos invasivos. Como o exame pode ser repetido em diferentes fases do tratamento, é possível acompanhar a resposta à quimioterapia, avaliar a eficácia da cirurgia e identificar precocemente sinais de recorrência antes mesmo que apareçam alterações detectáveis em exames radiológicos.

Apesar dos resultados promissores, os pesquisadores ressaltam que a ddPCR ainda precisa ser validada em estudos com um número maior de participantes antes de ser incorporada à prática clínica. A expectativa é de que novos trabalhos confirmem o benefício da estratégia.

•        Pesquisa global aponta vacinas de mRNA como seguras e eficazes

Revisão global, liderada por pesquisadores da Universidade da Colúmbia Britânica, no Canadá, concluiu que as vacinas de mRNA, administradas diariamente ao redor do planeta, são seguras e altamente eficazes na prevenção de doenças infecciosas como a covid-19, e têm aplicações potenciais para uma série de outras doenças, incluindo gripe, vírus sincicial respiratório, câncer e doenças autoimunes.

Publicado, ontem, na revista The Lancet, o trabalho se baseia em ciência laboratorial, ensaios clínicos e dados de eficácia no mundo real para fornecer uma das avaliações mais abrangentes de vacinas de mRNA, até o momento. Ela abrange todo o ciclo de vida da vacina, desde o desenvolvimento e a fabricação, até o desempenho e o monitoramento no mundo real.

Segundo a revisão, as vacinas de mRNA são cerca de 87% eficazes contra qualquer infecção documentada por SARS-CoV-2, o vírus da covid-19. Além de funcionarem em 93% dos casos contra hospitalização e serem 94% eficientes na prevenção de morte pela doença.

"Após bilhões de doses, agora temos uma quantidade extraordinária de evidências científicas", disse a autora principal, Anna Blakney, professora da Universidade da Colúmbia Britânica. "Essa revisão confirma que as vacinas de mRNA são uma plataforma segura e altamente eficaz, apoiada por testes rigorosos e monitoramento no mundo real. Ela fornece uma base sólida em evidências à medida que essa tecnologia continua a se expandir para novas áreas da medicina", completou.

<><> Combater equívocos

Os resultados confirmam que as vacinas de mRNA oferecem forte proteção contra doenças infecciosas, incluindo a covid-19 grave, em uma ampla gama de grupos: crianças, gestantes e pessoas imunocomprometidas. Doses de reforço demonstraram prolongar e fortalecer com eficiência essa ação ao longo do tempo, e atualizações regulares na formulação da vacina mantiveram sua eficácia à medida que novas variantes surgiram.

"Com qualquer nova vacina ou medicamento, é importante que comuniquemos, de forma clara e transparente, os dados de segurança e os testes rigorosos que comprovam sua eficácia", disse o coautor Manish Sadarangani, professor de pediatria da universidade e diretor do Centro de Avaliação de Vacinas do Instituto de Pesquisa do Hospital Infantil da Colúmbia Britânica. "Isso é essencial para construir a confiança do público, combater a desinformação e apoiar decisões informadas sobre a vacinação."

A revisão aborda equívocos persistentes sobre o funcionamento das vacinas de mRNA, esclarecendo que elas não alteram o DNA de uma pessoa. Em vez disso, o mRNA fornece instruções temporárias que permitem que as células humanas produzam um fragmento inofensivo do vírus, treinando o sistema imunológico para reagir. Tanto o mRNA quanto as nanopartículas lipídicas são rapidamente degradados e eliminados do corpo.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Dois caminhos para o Brasil, na nova transição global

A ideia de que o Brasil pode viver um novo superciclo de riqueza é sedutora. O mundo ingressa em uma era de transformações estruturais marcada pela transição energética, pela inteligência artificial, pela emergência climática, pela reconfiguração geopolítica e pela reorganização das cadeias globais de produção.

Em quase todas essas frentes, o Brasil aparece como potência possível. Reúne, simultaneamente, abundância de água, biodiversidade, energia renovável, capacidade agroalimentar, minerais estratégicos, território continental e uma base científica capaz de transformar recursos naturais em conhecimento, tecnologia e desenvolvimento. Poucos países dispõem de tantas condições objetivas para ocupar lugar central na nova economia mundial.

Mas a história brasileira recomenda prudência diante do entusiasmo fácil. O país já foi apresentado, muitas vezes, como território do futuro. E, quase sempre, esse futuro foi sequestrado por elites internas associadas a interesses externos. A promessa de riqueza nacional converteu-se, repetidamente, em prosperidade privada para poucos e dependência estrutural para muitos.

A América Latina talvez seja a maior evidência histórica de que riqueza e desenvolvimento não são sinônimos. Como demonstrou Eduardo Galeano em As Veias Abertas da América Latina, o continente foi construído pelo sistema colonial europeu sobre um paradoxo brutal: produzir riquezas extraordinárias para o mundo e conservar pobreza, exclusão e dependência para grande parte de seu próprio povo.

O ouro brasileiro ajudou a financiar a expansão europeia. O açúcar, o café, a borracha e os minérios alimentaram sucessivos ciclos de acumulação de capital nos países do Norte Global. Mais recentemente, as commodities agrícolas e minerais voltaram a sustentar parte importante do crescimento mundial, agora cada vez mais demandado também pelo Oriente.

Em troca, a América Latina recebeu uma herança marcada pela concentração extrema da propriedade, pela exclusão social, pela dependência tecnológica, pela baixa capacidade de inovação, pela desigualdade territorial e pela fragilidade das instituições de planejamento. A lógica colonial não desapareceu com a independência política. Ela se reorganizou sob novas formas, enquanto enclaves exportadores, elites rentistas, subordinação financeira e Estados nacionais impedidos de comandar plenamente seus próprios destinos.

No Brasil, essa estrutura foi apenas parcialmente enfrentada durante o projeto nacional-desenvolvimentista das décadas de 1930 a 1970. Naquele período, a industrialização, o planejamento estatal, a infraestrutura, a formação de empresas públicas estratégicas e a ampliação do mercado interno permitiram ao país ensaiar uma ruptura com a condição primário-exportadora. Mesmo de forma desigual, autoritária em alguns momentos e socialmente incompleta, havia uma aposta de nação.

Ainda assim, as ilhas de prosperidade permaneceram cercadas por vastos oceanos de desigualdade. O Brasil industrializou-se, mas não democratizou plenamente a propriedade, a renda, o conhecimento e o poder. Construiu fábricas, universidades, empresas estatais e infraestrutura, mas não completou a revolução social capaz de transformar crescimento econômico em cidadania substantiva para todos.

Neste primeiro terço do século XXI, a demanda crescente por minerais estratégicos, energia limpa, alimentos, biodiversidade e dados recoloca, em novas bases, o velho risco histórico do Brasil retornar ao papel de grande fazendão, grande mina, grande reserva ambiental e grande plataforma de extração para o capitalismo global.

No passado, exportavam-se ouro, prata, açúcar, café, borracha e minério. Hoje, pode crescer a exportação de lítio, nióbio, terras raras, hidrogênio verde, energia renovável, créditos de carbono, biodiversidade, conhecimento genético e dados. Mudam os produtos. Muda a tecnologia. Mudam os compradores. Mas pode permanecer a mesma lógica do Brasil fornecer a base material da riqueza mundial, enquanto importa tecnologia, plataformas, patentes, máquinas, algoritmos, financiamento e decisões estratégicas.

As antigas metrópoles não desapareceram. Foram substituídas, em parte, por fundos globais, plataformas digitais, gigantes tecnológicos, bancos transnacionais, cadeias produtivas comandadas de fora e novos impérios corporativos. As novas veias abertas da América Latina podem não ser apenas minas, florestas, plantações ou poços de petróleo. Podem ser também os dados, a biodiversidade, o conhecimento genético, a capacidade de produzir energia limpa, os recursos minerais estratégicos e até o comportamento cotidiano da população convertido em ativo econômico.

A nova dependência é mais sofisticada. Não chega apenas com navios, tropas ou administradores coloniais. Chega por contratos, algoritmos, patentes, plataformas, acordos financeiros, regimes de propriedade intelectual, mecanismos de arbitragem internacional e narrativas aparentemente neutras sobre eficiência, competitividade e modernização. O velho saque tornou-se mais limpo, mais jurídico, mais digital e mais elegante. Mas continua sendo saque quando impede a maioria de se apropriar da riqueza que ajuda a produzir.

A encruzilhada histórica está novamente diante dos brasileiros e latino-americanos. O Brasil possui condições excepcionais para protagonizar um novo ciclo de prosperidade. Mas a riqueza, por si só, não garante desenvolvimento. Sem projeto nacional, ela pode apenas renovar a dependência. Sem Estado forte, pode virar enclave. Sem indústria, pode virar exportação bruta. Sem ciência, pode virar patente estrangeira. Sem democracia social, pode virar concentração de renda. Sem soberania, pode virar mais uma rodada de subordinação.

O grande desafio deste início do século XXI não é apenas produzir riqueza sob novas bases. É decidir quem vai comandar essa riqueza, quem vai se apropriar dela e a serviço de qual projeto histórico ela será colocada.

A transição energética, por exemplo, não pode significar apenas transformar o Brasil em fornecedor barato de minerais e energia limpa para a descarbonização dos países ricos. Não basta exportar lítio, nióbio, terras raras ou hidrogênio verde. É preciso dominar as cadeias tecnológicas, produzir baterias, equipamentos, softwares, máquinas, semicondutores, sistemas de armazenamento, inteligência embarcada e conhecimento aplicado. Sem isso, a economia verde será apenas uma nova cor para a velha dependência.

O mesmo vale para a biodiversidade. A Amazônia, o Cerrado, a Caatinga, o Pantanal, a Mata Atlântica e os demais biomas brasileiros não podem ser tratados como almoxarifado biológico do capitalismo global. A biodiversidade deve ser base de uma bioeconomia soberana, com ciência nacional, indústria nacional, proteção dos povos originários, valorização dos saberes tradicionais e repartição justa dos benefícios. Transformar a natureza em ativo financeiro controlado de fora seria apenas uma forma renovada de colonialismo verde.

Também os dados se tornaram território de disputa. Na economia digital, quem controla dados controla mercados, comportamentos, inteligência artificial, consumo, comunicação e poder político. Um país que entrega seus dados, suas infraestruturas digitais e sua inteligência informacional a plataformas estrangeiras abdica de parte decisiva de sua soberania. No século XXI, soberania nacional não se mede apenas por fronteiras físicas, mas também por nuvens computacionais, cabos submarinos, centros de dados, algoritmos, semicondutores e capacidade própria de produzir inteligência.

Por isso, o Brasil precisa superar a ilusão neoliberal de que o mercado, sozinho, conduzirá o país ao desenvolvimento. O neoliberalismo foi vendido como modernização, mas produziu regressão produtiva, desindustrialização precoce, privatização de capacidades estratégicas, fragilização do Estado, precarização do trabalho e dependência tecnológica. Prometeu eficiência e entregou vulnerabilidade. Prometeu integração ao mundo e entregou subordinação. Prometeu liberdade econômica e entregou captura do futuro por interesses privados e financeiros.

Romper com essa herança não significa voltar ao passado. Significa recuperar a capacidade de planejar o futuro. O Estado brasileiro precisa ser reformulado para a era digital, ecológica e do conhecimento. Não um Estado mínimo, ajoelhado diante do rentismo. Tampouco um Estado burocrático incapaz de inovar. Mas um Estado planejador, indutor, tecnológico, democrático e comprometido com a soberania nacional e o bem-estar coletivo.

A riqueza decorrente da nova economia somente se converterá em desenvolvimento se estiver integrada a um projeto nacional capaz de articular industrialização verde, soberania tecnológica, ciência e inovação, infraestrutura digital pública, educação de qualidade, trabalho decente, redução das desigualdades e fortalecimento das capacidades estatais. O país precisa decidir se quer ser apenas exportador de recursos ou produtor de conhecimento. Se quer ser mercado consumidor de plataformas estrangeiras ou criador de tecnologias próprias. Se quer ser reserva de valor para fundos globais ou nação soberana.

Pela primeira vez em muitas décadas, o Brasil reúne condições materiais, ambientais, energéticas e científicas para realizar uma transição histórica. Pode deixar de ser apenas fornecedor de recursos naturais e tornar-se potência do conhecimento, da bioeconomia, da inteligência artificial, da energia limpa e da sustentabilidade. Mas essa passagem não ocorrerá espontaneamente. Ela exigirá conflito político, decisão estratégica e enfrentamento dos interesses que lucram com o país subordinado.

Porque o subdesenvolvimento não é uma fatalidade. É uma construção histórica. E, como toda construção histórica, pode ser desmontado. O que não se pode é continuar aceitando como destino nacional aquilo que interessa apenas a uma minoria rentista, associada e colonial em sua mentalidade. O Brasil não é pobre. Foi empobrecido por formas sucessivas de apropriação privada de sua riqueza coletiva.

Em síntese, o novo superciclo poderá representar o fechamento definitivo das veias abertas da América Latina. Mas também poderá abrir novas feridas, agora mais sofisticadas, anestesiadas por discursos tecnológicos, ambientais e digitais. A dependência do futuro talvez não tenha a aparência brutal do passado. Poderá vir embalada em contratos verdes, plataformas inteligentes, finanças sustentáveis e promessas de inovação sem soberania.

Essa é a grande disputa histórica do nosso tempo. O Brasil pode escolher entre ser objeto ou sujeito da nova ordem mundial. Pode aceitar a condição de fornecedor periférico da transição energética e digital ou construir um projeto nacional capaz de comandar sua própria riqueza. Pode repetir o ciclo colonial, agora com linguagem moderna, ou inaugurar uma etapa soberana de desenvolvimento.

A oportunidade histórica está posta. Mas oportunidade não é destino. Para que ela se realize, será necessário romper com anos de domínio neoliberal, reconstruir a capacidade de planejamento, reindustrializar o país em novas bases, democratizar o acesso ao conhecimento e colocar a riqueza nacional a serviço da maioria.

O desafio não é apenas crescer. É decidir para quem, por quem e com que projeto o Brasil crescerá. É transformar uma nação extraordinariamente rica em uma sociedade efetivamente próspera, democrática, soberana e menos desigual. É fechar as veias abertas não pela resignação, mas pela construção combativa de uma Nação Soberana.

¨      Ganhar as eleições e vencer Trump. Por Ronaldo Lima Lins

Desta vez, dizem, é para valer. Donald Trump se cansou da monotonia na Casa Branca e resolveu partir para feitos mais extraordinários. Quer competir com Lula na conquista do seu quarto mandato. Qualifica-o para tanto as vitórias no Chile, no Peru e na Colômbia. Além disso, considera nosso metalúrgico perigoso com o prestígio que alcançou na política internacional, onde o ouvem e o cercam de gentilezas. Acrescente-se a semelhantes argumentos o detalhe de que o “Júnior”, como chama o Flávio Bolsonaro, não está dando para o recado. E alguém que dispõe do peso da maior economia do mundo, afeito a guerras e imposições de Norte a Sul, com agências de espionagem para intimidar qualquer um, só pode demonstrar que não brinca em serviço. É certo que seus exércitos saíram corridos do Vietnã, do Afeganistão e, agora, do Irã. Continua, no entanto, contando com os melhores e mais sofisticados armamentos, o bastante para admirar os fãs sobretudo na América Latina.

Realmente, na condição de quadro político, com chances de chegar lá, o 01 decepciona. De uma hora para outra, depois de se envolver com o Daniel Vorcaro, de quem extorquiu milhões de dólares, arrumou confusão com a madrasta. Esta apareceu na TV queixando-se de maus tratos por parte do enteado e prometendo represálias. Se em casa a coisa não anda bem, imagine-se em Brasília? Claro que um dirigente da estatura de Trump não vê como engolir a choradeira com que o Júnior e seu irmão Dudu o enchem de cuidados. A química que julgara ter obtido com nosso ocupante do Planalto se dissipou em dois segundos. Bastou supor-se vitorioso e namorar com a ideia de quebrar a espinhal dos Brics para se deixar contaminar com um estado de euforia de fazer inveja a democratas e republicanos! 

Cumpre reconhecer que Paulo Figueiredo, através do Marco Rubio ultrapassa as medidas com as intrigas que, uma vez por semana, o cercam no Salão Oval. Sansões, afinal, não geram os efeitos desejados. A Lei Magnitiski funciona com dificuldades com quem não tem propriedades em território americano. Daí a necessidade de ir adiante, empenhar-se nas eleições locais e impor os interesses da maior economia do mundo. É verdade que a tática não resultou eficaz no Canadá e na Austrália. A pretendida posse da Groenlândia causou pesadelos na Dinamarca e na União Europeia. Foi melhor adiar. Só que a América do Sul com tantos apaixonados por Washington, talvez constitua o palco ideal para uma nova empreitada.

Brasileiros que prezam a nossa soberania têm de se acautelar. Nem sempre contamos com o apoio da imprensa corporativa em defesa da nacionalidade. Já assistimos um ex-presidente prestando continência à bandeira norte-americanas. Felizmente, cumpre pena na cadeia. 

 

Fonte: Por Marcio Pochmann, em Outras Palavras/Brasil 247