quinta-feira, 22 de outubro de 2026

Para vencer o fascínio fácil do fascismo

O fascismo exerce um fascínio insidioso sobre as massas que vitima, mas também sobre as elites que alimenta ou constrói. Por abjeto que o seja, não é um inimigo fácil. Pensamos vê-lo derrotado, exibimos suas mazelas, e eis que ele teima em ressurgir com força como uma solução simples e falsa para problemas complexos e muito verdadeiros — problemas que ele torna ainda mais graves. É um enigma assustador e, mais uma vez, urgente, a desafiar teóricos e militantes.

Em agosto de 1935, Georgi Dimitrov apresentou seu célebre informe sobre o sentido da ofensiva fascista e as tarefas da classe trabalhadora. Outro o tempo, outra a realidade, diverso até o lugar da classe operária, mas persistentes alguns traços do fascismo. Em particular, sua capacidade de fascinar os que estão destinados a ser coletivamente suas vítimas, ao tempo que podem, distributivamente, ser nossos algozes.

O fascismo fascina. Esse um dos seus traços perenes. Ele parece carregado de vitalidade. Se preferirem, de virilidade. Por isso, apresenta-se em momentos de crise como um caminho para o capitalismo, quando este já não consegue “manter sua ditadura sobre as massas com os antigos métodos da democracia burguesa e do parlamentarismo”.  A dominação política exibiria com o fascismo as suas entranhas, de sorte que sua brutalidade, longe de excepcional, seria seu caráter verdadeiro. Explícito e dissimulado, justificar-se-ia quando escassas as justificativas, como uma espécie de demagogia social, que comporta “a possibilidade de arrastar consigo as massas da pequena burguesia desajustadas pela crise, e até de alguns setores das camadas mais atrasadas do proletariado que jamais seguiriam o fascismo se tivessem compreendido seu verdadeiro caráter de classe, sua verdadeira natureza”.

Duas questões se colocam naturalmente. Como pode nos fascinar nosso potencial inimigo? Também, qual a verdadeira natureza de classe do fascismo? A última questão parece a Dimitrov quase trivial. O fascismo implica a substituição de uma forma estatal de dominação, a democracia burguesa, por uma ditadura terrorista declarada. Mais precisamente, seria a quintessência do poder do próprio capital financeiro. Ora, em sendo assim, se esta, com sua crueza, é a resposta à segunda questão, o que pode responder à primeira? Como essa forma insípida de puro poder pode exercer algum fascínio? Em suma, “de onde nasce a influência do fascismo sobre as massas?” A resposta de Dimitrov é direta: O fascismo consegue atrair para si as massas, porque apela de forma demagógica para suas necessidades e exigências mais candentes. O fascismo não só instiga os preconceitos profundamente arraigados nas massas, como especula também com os melhores sentimentos destas, com sua sede de justiça e, às vezes, até com suas tradições revolucionárias

O fascismo conquista, portanto. Mais que dominar, é capaz de seduzir. Oferece doces e promessas, antes de conduzir a prisões ou campos de concentração. Ele pode lançar “as palavras de ordem mais sedutoras em determinado momento para as massas que não alcançaram a maturidade política”; em geral, prometendo liberdade ao preço da retirada de direitos.

A virilidade que o fascismo ostenta, ao atentar contra direitos, mostra-se uma forma de impotência, a saber, a incapacidade de dialogar com o outro, de lhe fazer frente, com ou sem razão. É típica sua recusa da construção de solos comuns e, não por acaso, é visceralmente inimigo de uma democracia que seja mesmo radical, enquanto pode se tornar a face explícita do encobrimento de direitos que subjaz à justificação da mera democracia burguesa. A realidade nele se apresenta nua e crua, mas como que em um espelho distorcido: O fascismo entrega o povo à voracidade dos elementos mais corrompidos e venais, mas apresenta-se diante dele com a reivindicação de um “governo honrado e insubornável”. Especulando com a profunda desilusão das massas em relação aos governos da democracia burguesa, o fascismo se indigna hipocritamente em face da corrupção.

Eis um traço que conhecemos bem, e ele beira o paradoxo. Sua personagem prototípica é o político que desdenha da política e, por isso, quer o benefício de toda indignação (amiúde justa) com os políticos. O fascismo leva essa ambiguidade ao paroxismo. Logo, mesmo as palavras mais elevadas são esvaziadas de sentido, podendo o discurso afirmar ora um aspecto, ora sua negação, sendo difícil de agarrar um discurso que pode enunciar com força uma proposição e, em segundos, de forma ainda mais contundente, pode brandir a sua contrária.

Um discurso sobre a liberdade é vazio, caso redunde na supressão de direitos, proteções, prerrogativas. São seduzidos, porém, aqueles que se desejam livres por não terem mais qualquer proteção e se sentem protegidos porque confiantes em uma fúria que os faria sobreviver em meio ao caos e à insegurança. Em meio ao desespero, suscita a promessa de que alguns eleitos merecem os postos mais elevados e a salvação, ao preço da indiferença pelo destino do outro, da outra pessoa, da outra raça, do outro povo. A contradição, porém, não está apenas no nível do discurso — algo que uma análise teórica interna seria suficiente para desvelar. A história mostra a contraposição entre discurso e realidade, que o fascismo absorve embora, como se não houvesse contradição alguma. Fazendo o diagnóstico daquela época, Dimitrov decanta um enigma que ainda nos assusta. Uma espécie tosca de servidão voluntária se adensa, fazendo com que a afirmação apolínea da vontade justifique uma servidão nada dionisíaca.

Dimitrov desenha assim o descompasso entre promessa e realidade. Para a juventude, a promessa de um porvir esplendoroso trouxe, na realidade, “dispensa em massa das fábricas, campos de trabalho e exercícios militares incessantes, visando a uma guerra de rapina”. Para os modestos funcionários, para os intelectuais (e como esses se iludem com facilidade!), a promessa de acabar com as corporações e a burocracia se transfigura na criação de uma nova burocracia, semeando “em proporções nunca vistas a corrupção e a decomposição”. Aos camponeses depauperados, a promessa de acabar com a vassalagem das dívidas entrega-lhes a uma escravidão sem precedentes e aumenta “até o indizível a exploração das grandes massas camponesas pelos grandes agricultores, os bancos e os usurários”.

Essa diferença tão tangível entre promessa e realidade não deveria abolir toda capacidade de sedução? Ora, ao que parece, essa distância faz parte da força da retórica fascista, sempre trabalhando em um descompasso, em relação ao qual toda informação é impotente e em cuja função todo desejo pulsa, alimentando seu mito e ilusão. E, enfim, é talvez de mito que se trate, de uma política que desdenha o real e se consolida pela manipulação da própria vontade de poder. O desenho do mito (no caso, uma distorção constitutiva, capaz embora de organizar a experiência da vontade política) talvez nos aproxime mais de quanto pode operar como fascinante a degradante experiência do fascismo como uma força política sempre atual.

Que o fascismo esteja embebido de pulsões da guerra, do método alexandrino de resolução pela força, de golpes que rompem os nós que não se dispõe a desatar, isso pode parecer um tanto óbvio. Entretanto, aumenta a estranheza de haver fascínio no ambiente “civilizado” da produção acadêmica, no qual a carência eventual de vitalidade estaria mais do que satisfeita pela força da palavra e deslizaria pelo traçado sinuoso do lógos. Não precisamos sequer fazer menção a nomes como o de Martin Heidegger ou de Mircea Eliade. Podemos evitar suas deploráveis e historicamente inconsistentes justificativas de adesão, como as que imaginaram o nazismo capaz de se contrapor à dissolução de alguma essência europeia, infundindo energia simbólica a um niilismo cultural. Longe de qualquer esforço de justificação, basta-nos lembrar um caso, o do genial Gottlob Frege, um pensador cuja obra está para lógica contemporânea como a de Aristóteles esteve para a lógica clássica, que se deixou seduzir, do modo mais primário, pelo discurso nazista.

Michael Dummett, seu mais devotado leitor, nos dá seu testemunho de quão chocado ficara ao ler o diário de Frege, a cuja obra dedicara tantos anos de sua vida e que reverenciava como um indivíduo absolutamente racional: Ora, trata-se exatamente dessa obviedade, a existência de uma cisão na qual o fascismo opera. Não há contradição entre sofisticação técnica e grande inteligência, por um lado, e uma queda ideológica e até um fascínio pela pura e simples degradação cultural. Esse documento do diário de Frege (que, aliás, fora supresso da edição de seu espólio) é dos mais ilustrativos da condição humana. “Com esse documento — afirma Dummett —, aprendi algo sobre os seres humanos que eu lamentaria não saber; talvez também algo sobre a Europa.” Ensina-nos algo, portanto, o mistério de uma cisão que pervade a humanidade inteira, para cuja compreensão a lógica talvez tenha oferecido a Dummett bem menos respostas do que as cartas do tarot.

A lição é simples. Esse escândalo que outrora vimos na sociedade em seu conjunto (e que se repete) pode bem instalar-se no âmago de cada indivíduo. Neste sentido, não são seduzidas apenas as massas, mas também suas supostas elites, não havendo cura para essa tentação pela introdução pura e simples de mais informações ou pelo recurso idólatra à ciência, incapaz de nos oferecer por si uma suficiente blindagem subjetiva. O lugar retórico do fascismo seria talvez a redoma característica do mito, retomando aqui lições de Ernst Cassirer — em especial, no capítulo “A técnica dos mitos políticos modernos”, de seu livro O Mito do Estado, redigido em 1945. Também Cassirer ajuda-nos a entender o fato do fascismo, mesmo que não concordemos com sua explicação desse fato. Nosso interesse, porém, está mais em detectar quão facilmente pôde e pode esse fenômeno capturar massas e atrair ou formar certas elites, pois está em seu âmago a promessa de ser elite, ou seja, a invenção de diferenças que permitiriam o exercício de prerrogativas nobiliárquicas, seja como direito a alguma pretensa superioridade, seja pela pretensão de que a liberdade individual se justifica sem qualquer considerando e à revelia do outro.

Podemos imaginar cada armação teórica como uma explicação insuficiente, inclusive a de Cassirer, mas as melhores nos deixam entrever algum aspecto substantivo ou saliente desse fenômeno. Imaginar, ao contrário, que algum aspecto seja capaz de explicar tudo seria aceitar uma má abstração, como quando se tenta uma explicação psicológica para um fenômeno da política. Tinha boas razões Poulantzas, em suas reflexões sobre o impacto popular do fascismo, ao reagir a reduções do fenômeno complexo do fascismo a alguma explicação psicológica. Uma explicação psicológica pouco diria acerca de suas condições materiais as mais concretas ou de sua natureza de classe, cujo desvelamento poderia indicar que, ao fim e ao cabo, o estado liberal e o estado fascista não se distinguiriam em essência. De todo modo, mesmo uma boa redução sociológica ou econômica poderia se tornar uma má abstração, incapaz de capturar o fenômeno, enquanto, por outro lado, cada fragmento abstrato pode nos desvelar algo de sua força estranha.

Em Cassirer, enfatiza-se o aspecto do recurso ao mito, compreendido como tentativa humana de preencher um vazio deixado pela explicação racional. O recurso ao mito remontaria à mais banal das ações, que pode conviver com soluções técnicas e até ser complementar ao próprio discurso racional. O mito não desponta apenas perante o surgimento de personagens messiânicas, líderes carismáticos ou chefes de partido, mas amiúde envolve pessoas as mais comuns — aquelas mais semelhantes a nós mesmos, disciplinados que somos por uma rotina que, com mais ou menos competência, segue seu curso inexorável. O que espantou especialmente a Cassirer foi perceber uma nova técnica da política, reeditando no presente mitos os mais primevos, como se, com novos expedientes, o fascismo reeditasse o procedimento de oferecer justificativas aparentemente racionais e sobretudo respostas diretas para o que escapa a qualquer racionalidade e beira o absurdo. Ou seja, o fascismo comportaria alguma teoria que promete “uma justificação racional para certas concepções que, na sua origem e tendência, eram tudo menos racionais”.

Nesse movimento, não estaria mais o inimigo em um recanto distante e exótico; passava a estar bem próximo, na sala ao lado, no escritório comum. Não seria um estranho, mas alguém que pode conosco celebrar aniversários, estar nas mesmas palestras, trabalhar nos mesmos prédios. Podemos até ser colegas de departamento.

Nessa proximidade distante, já não se valeria apenas da agressão explícita, mas sim da mais bem cultivada ironia. O fascista pode, sim, ser um colega bem cultivado, sem ser ele verdadeiramente culto. Pensar, então, o fascismo, procurar entender o fascismo implica aceitar uma desconcertante proximidade do mal. O fascismo tem esse traço perene da produção sistemática de diferenças irredutíveis, mesmo quando encobertas por práticas comuns e rotineiras. Ele funciona comprometendo a possibilidade de conciliações, inclusive as mais tensas, de acordos e desacordos qualificados e, por isso, torna-se incapaz de estabelecer pontes até entre os mais próximos.

Premonitoriamente, Cassirer identifica um novo traço do mito, sua possível fabricação artificial, algo que parece cair como uma luva como descrição da produção de celebridades nas redes sociais: “A partir de agora, os mitos podem ser fabricados no mesmo sentido e de acordo com os mesmos métodos utilizados no fabrico das outras armas — as metralhadoras e os aviões”. Esse fato novo muda tudo, já reconhecendo Cassirer esse rearmamento beligerante até em mudanças introduzidas na própria língua — o que parece sugerir a um só tempo o esvaziamento e a ressignificação fluida de conceitos antes capazes de dar liga ao tecido social. Um novo tecido retórico reconstruía a organização da experiência no universo do nazismo hitlerista. Cassirer dá como exemplo a sutil e quase imperceptível diferença entre Siegfriede e Siegerfriede, por meio da qual, entretanto, na nova retórica, a paz ofensiva seria a que acaso não fosse o resultado de uma vitória alemã. A arma política do linguajar fascistóide imantava assim o mais racional discurso de uma gama superlativa de emoções, exigindo posicionamento no que antes poderia servir a um diálogo.

Em suma, a retórica fascista é uma arte de alimentar o desacordo permanente, da beligerância permanente, até mesmo na mais corriqueira descrição da experiência humana: “Se ouvirmos essas novas palavras, descobriremos nelas toda a gama das emoções humanas — ódio, cólera, fúria, altivez, desprezo, arrogância e desdém”.16

Não é difícil ver uma semelhança de família entre esse espírito da propaganda nazista e o modo com que se reveste a atual discussão nas redes sociais, a consolidação de desacordos que se aprofundam mais e mais, a exemplo da anatematização de coletivos, por meio da qual o comportamento do outro, do diferente, passa a ser lido segundo algum código penal orientado para a classificação de delitos e inimigos. A taxonomia deixa de ser recurso de análise e passa a ser arma de guerra. O mais assustador da análise de Cassirer, agora que nos debruçamos brevemente sobre o fascínio do fascismo, é perceber como a própria educação formal pode estar indefesa e ser a mais impotente, caso engolfada por esse modo de descrever a experiência. Também o homem educado, “quando exposto às mesmas forças, pode facilmente ser reduzido a um estado de aquiescência. Perde a curiosidade; aceita as coisas como se lhes apresentam.”

O fascínio da inação pode se tornar raiva ativista; a cumplicidade da indiferença em relação ao destino do outro pode tornar o homem comum, qualquer o seu status, em um cúmplice da violência e, muita vez, em um direto agente destruidor. Cassirer faz uma analogia com os companheiros de Ulisses transformados em animais: Mas aqui são homens, homens de educação e inteligência, honestos e decentes, que subitamente renunciam ao mais alto privilégio humano. Deixaram de ser agentes pessoais e livres. Realizando os mesmos mitos, começam a sentir, a pensar e a falar da mesma forma. Os seus gestos são vivos e violentos; contudo, isso não passa de uma vida artificial.

Podem alguns duvidar que essa renuncia à subjetividade de sujeitos derramados no espaço político e agora nas redes sociais possa ser descrita como uma vida artificial. Afinal de contas, indivíduos que antes em nada viviam para a política parecem ter saído do território da mera responsabilidade com a lida da vida (desemprego ou eleições, como alguns descreveram) para o suposto exercício de uma liberdade, instalada esta não se sabe onde. Agem como se a liberdade não fosse, como insiste Cassirer com sofisticação e sabedoria, uma tarefa coletiva e não um dado prévio à vida social. Em nome de uma liberdade presuntiva, o fascismo parece desobrigar amplas camadas do verdadeiro exercício da liberdade. Afinal, não sendo a liberdade uma promessa inata, “para possuí-la temos de criá-la”. Se quisermos resistir, então, ao fascínio fácil do fascismo, precisamos afastar a retórica que nos obvia a realização de nossa mais persistente tarefa, qual seja, “uma participação ativa na construção e reconstrução cultural do homem”.

Tinha deixado de lado os muitos textos sobre o fascismo que compulsara durante os governos Temer e Bolsonaro. O resultado das urnas obrigou-nos a reler alguns trechos, muito rapidamente, indagando então como é possível que ainda fascine tantos brasileiros, uma vez que, muito recentemente, um obscurantismo absurdo nos legou um rastro nítido de irresponsabilidade, violência e morte. As respostas são diversas. Cada uma delas, insuficiente; porém, todas elas juntas nos permitem imaginar um sentido, organizar uma experiência na qual podemos construir possibilidades autênticas de diálogo. Todas as respostas enfrentam, todavia, esse grande mistério, com o qual nos deparamos a todo instante, o da impotência dos discursos, da inanição da palavra, mesmo em seu território mais sagrado. Todas as respostas se confrontam com a possível escolha da humanidade pela barbárie, como se decididas as pessoas à pressa, às respostas rápidas, a abandonarem os outros à própria sorte ou mesmo, em casos extremos, a usarem os corpos alheios como um meio, quando é definidor da condição humana ser um fim comum para todos nós e nunca um mero instrumento.

Qualquer nossa leitura, não podemos deixar de nos aliar ao sentimento de Cassirer quando advoga uma filosofia que não renuncie a seus próprios ideais éticos e teóricos fundamentais. Mesmo se não aceitarmos de todo sua leitura, vale aqui concluir com a citação longa de um trecho desse escrito composto no exílio, em 1945 — trecho que nos surpreende pela atualidade de seu alerta ao fascínio amiúde exercido pelo fascismo e por outras manifestações obscurantistas assemelhadas. Ao nos desenhar bem os limites e a necessidade renovada do bom trabalho da filosofia, indicando estar além de seu poder destruir os mitos políticos, exatamente por eles se revestirem de uma redoma impenetrável aos argumentos racionais, não podendo, pois, ser refutado por silogismos, Cassirer resgata uma tarefa da filosofia, a de fazer-nos compreender o adversário. Neste caso, essa compreensão nos obriga a aceitar que esse inimigo enigmático tem também sua força, que não pode ser reduzida a seus efeitos e fraquezas: Todos nós menosprezamos essa força. Quando ouvimos pela primeira vez falar de mitos políticos achamo-los tão absurdos е incongruentes, tão fantásticos e idiotas, que dificilmente os tomaríamos a sério. Mas agora todos nós reconhecemos que cometíamos um erro. Não devemos repeti-lo. Devemos estudar cuidadosamente a origem, a estrutura, os métodos e a técnica dos mitos políticos. Devemos olhar o adversário bem de frente a fim de saber como derrotá-lo.

O absurdo bastante tangível dessas formas múltiplas de obscurantismo (que, no Brasil, chegou ao questionamento da esfericidade da Terra ou à rejeição das vacinas) não parece suprimir sua capacidade de galvanizar os traços conservadores de nossas sociedades e de inclusive obter vitórias eleitorais. O acesso fácil à informação, que não nos falta e também nos socorre, não serve para lhe quebrar um fascínio, mesmo quando assume a figura tosca de indivíduos que elogiam ditadores e condecoram milicianos. Sem esgotar as explicações, importa manter a guarda, insistir que a tarefa, sempre concreta, nunca está completa e que fascismo, enfim, continua sendo um enigma a ser decifrado. Seu fascínio é fácil, ademais, porque se entranha em nós, embebido que está do legado conservador e autoritário da história brasileira, estando próximo demais de nossas vidas e muito distante de nossos valores. É preciso, então, dia a dia, em atos e elucubrações, desatar-lhe internamente os nós, acompanhar sua trama conceitual e, onde quer que se esconda, dissolver seu amálgama de conceitos esvaziados e paixões tristes.

 

Fonte: Por João Carlos Salles, em Outras Palavras

 

Não sou cabo eleitoral, mas não sou neutro entre a Constituição e quem promete anistiar quem tentou destruí-la

Streck recusa o papel de cabo eleitoral, e o diz com toda a clareza na segunda resposta. A cabeça deste texto não tem a mesma obrigação. Quando Tomás de Aquino definiu a lei, na Suma Teológica, escreveu que ela não é outra coisa senão uma ordenação da razão ao bem comum, promulgada por quem tem o cuidado da comunidade.

>>>> Confira a entrevista. 

·        Em 2021 o senhor listou os custos de rasgar a Constituição, e em 2025 a conta foi efetivamente cobrada, por organização criminosa armada, abolição violenta do Estado democrático de Direito e golpe de Estado. O que muda para a Constituição de 1988 quando a fatura de um golpe é de fato paga, e não perdoada como em 1979? E, indo ao ponto desta eleição: o que um quarto mandato de Lula acrescentaria a isso, além de não desfazê-lo? Existe agenda constitucional para 2027, ou o horizonte encolheu para a pura conservação do que foi salvo?

Lenio Streck – Em 2021 eu fiz a seguinte conta. Quem quisesse rasgar a Constituição teria de fechar metade dos jornais, prender metade do Congresso, fechar o Supremo, aguentar o isolamento do mundo e, no limite, prender milhares de pessoas. Era a lista de custos de quem desse o golpe. Esqueci um item, talvez por achá-lo óbvio demais: o custo de tentar e não conseguir. Bom, esse cálculo a Primeira Turma do STF fez, aplicando vinte e sete anos e três meses de prisão. O que muda? Pela primeira vez, a Constituição cobrou. E isso não é pouca coisa num país cuja tradição é a do perdão entre pares. Veja a nossa história. Lembremos da anistia de 1979, que, aliás, o Supremo, na ADPF 153, em 2010, achou por bem manter, poucos meses antes de a Corte Interamericana condenar o Brasil no caso Gomes Lund. Anistia a golpista, por aqui, sempre funcionou como vitamina para o autoritarismo. O golpe seguinte agradecia. Em 2025 essa corrente se quebrou. Mas já veio a lei da dosimetria, que é uma anistia 1.0. E o STF não tem muita alternativa a não ser aceitar como constitucional. Essa é parte da conta. Quanto à eleição. Não sou cabo eleitoral, e não é esse o meu papel aqui. Também não sou neutro entre a Constituição e quem promete anistiar quem tentou destruí-la. Não desfazer já seria muito, admito. Já um quarto mandato só acrescenta alguma coisa se não repetir o erro do terceiro, que foi terceirizar ao Supremo a defesa da Constituição. Isso sem considerar que Lula deixou o STF mais de um ano sem um ministro. Ele não tem o direito de fazer isso. E um quarto mandato terá de cuidar da segurança pública, tema que a esquerda não gosta de enfrentar. Gostam demais de Rousseau, quando o problema está mais para Hobbes. Existe agenda para 2027? Bom, depende de quem vence a eleição. No primeiro turno Lula perdeu. Já o STF enfrentará tempos difíceis. Seja quem for o vencedor. O Senado será um algoz do Supremo. A menos que o eleito consiga costurar um acordo entre as Instituições que poupe o STF de uma retaliação que provoque uma crise institucional. Por enquanto, o que temos é uma tensão institucional. Mas poderemos ter uma crise.

·        O terceiro mandato de Lula conviveu com um Supremo que ganhou peso político justamente por ter segurado a linha democrática. O governo corrigiu aquela inversão em algum grau, ou se beneficiou dela e, por isso, tratou de preservá-la? E há um problema mais incômodo embutido aí: um tribunal que salva a democracia fica mais difícil de criticar doutrinariamente, e o que isso custa à teoria do direito no Brasil?

Lenio Streck – Governo nenhum corrige essa inversão. Nem é tarefa dele: doutrina se corrige com doutrina. Ou não. E então o direito se degenera (e uso a palavra no sentido de Michael Stolleis e Bernd Rüthers). Governos lançam mão de um contramajoritarismo ad hoc, como se o Supremo fosse um órgão auxiliar. Às vezes funciona, às vezes não. Quando perdeu no Congresso a briga da desoneração da folha, em 2024, Lula foi ao Supremo e saiu com uma liminar. Quando o Congresso derrubou o decreto do IOF, em 2025, foi ao Supremo de novo e recuperou o decreto quase inteiro. Nada disso é ilegal. Mostra, porém, que o Supremo virou uma espécie de terceira casa legislativa, e quem ganha jogo nesse campo não tem interesse nenhum em diminuir o campo. Bolsonaro, diga-se, também gostava do Supremo quando o Supremo lhe dava razão. A diferença é que, quando perdia, queria fechá-lo. Agora, a parte incômoda, que é a melhor da pergunta. Sim, um tribunal que segurou a democracia fica mais difícil de criticar. Quem critica corre o risco de ser confundido com quem quer fechá-lo, e muita gente se aproveita dessa confusão, dos dois lados. Há muito oportunismo. Muita gente se fingindo de imparcial e aproveitando para “jogar pedra na Geni”. Há quem ataque o Supremo pelos acertos e se fantasie de crítico técnico. E há o contrário, o sujeito que o defende pelos acertos e conclui que, por isso, tudo lhe é permitido. Às vezes, o STF toma decisões que deixam os seus defensores constrangidos. Eu sofro muito em face de minha defesa institucional. Isso deve ser registrado. Escrevo algo nas redes e vêm os haters e bradam: “e aí, não vai falar do STF e sua ditadura”? E coisas assim. Minha posição sempre foi dupla, e não vejo contradição nela. Defendo a instituição contra quem quer destruí-la e critico suas decisões por dentro; uma coisa sustenta a outra. Tribunal que não aceita crítica doutrinária perde a única legitimidade que tem, a das razões. E doutrina que só aplaude vira assessoria de imprensa de gabinete. O custo para a teoria do direito, se não tomarmos cuidado, é a volta do consequencialismo pela porta dos fundos. Salvou a democracia, logo decidiu bem. Isso é realismo jurídico puro: direito é o que os tribunais dizem, desde que o resultado nos agrade. Passei trinta anos dizendo que não é assim, e não vou mudar de ideia porque gostei do resultado. Aplaudir tribunal por resultado tem um problema elementar: a composição muda, e o argumento fica. Amanhã alguém vai dizer que salvou a pátria de outra coisa, e vai citar o precedente.

·        Numa hipótese de quarto mandato, qual seria o mínimo constitucional, e aqui pergunto pela obrigação, não pelo programa de governo, que seria de fato executável? Ou a Constituição dirigente virou, na prática, programa sem destinatário, e o senhor já a lê assim?

Lenio Streck – Não leio assim. Se lesse, teria de jogar fora boa parte do que escrevi, e não é por teimosia que não jogo. Quando Canotilho disse, ainda no século passado e no começo dos anos 2000, que a Constituição dirigente tinha morrido, ele tinha razão num ponto: morria a ilusão de que o texto, sozinho, faria a transformação social. Concordo. Mas respondi, e mantenho, que em países periféricos, onde o Estado Social foi promessa e nunca realidade, o núcleo dirigente continua valendo. Chamei isso de Teoria da Constituição Dirigente Adequada a Países de Modernidade Tardia. O nome é comprido, mas a ideia, simples. Portugal podia discutir o enterro porque tinha tido o que enterrar. Nós não tivemos. Hoje temos um arremedo de programas assistenciais, sem políticas públicas que, de fato, coloquem o Brasil em um segundo ou primeiro mundo. Cadê as ferrovias? Cadê as grandes fábricas que deveriam empregar os filhos e netos do Bolsa Família? E assim por diante. O próprio empresariado é chapa branca. Vive de subsídios. Quanto ao destinatário, a pergunta acerta o alvo. A Constituição dirigente tem destinatário, sim: o legislador e o administrador. O juiz vem depois. Quando eles não cumprem e o Judiciário vira o único endereço, entramos no ativismo, e a Constituição dirigente vira licença para que cada juiz faça política pública conforme sua consciência. Não quero isso. Nunca defendi isso. Por isso, insisto nas minhas perguntas antes que um juiz conceda um direito social: há um direito fundamental exigível? O que se concede a um pode ser concedido a todos na mesma situação? Para atender um, não se está transferindo ilegalmente o que é de outros? Se o judiciário levasse a sério essas três perguntas, o ativismo encolheria bastante. Mas, será que o establishment deseja isso? Não é cômodo para o executivo e o legislativo que o judiciário adote “políticas ad hoc”? O mínimo como obrigação, então. Fico no que é exigível hoje. Não retroceder, para começar: os pisos de saúde e educação dos arts. 198 e 212 não estão à disposição de nenhuma equipe econômica, por mais criativa que seja. Depois, pagar a dívida tributária da Constituição. O imposto sobre grandes fortunas está no art. 153, VII, desde 1988, e o próprio Supremo reconheceu no ano passado, na ADO 55, que o Congresso está em mora.  Reconheceu a dívida e não fixou prazo, o que é mais ou menos como protestar o título e esquecer de executá-lo. A reforma do imposto de renda aprovada em 2025 seguiu na direção da progressividade do art. 145, e isso conta. E há o art. 7º, I, a proteção contra a despedida arbitrária, aguardando lei complementar há trinta e oito anos. Nada disso é plataforma de campanha. Está no texto. Constituição dirigente sem sistema tributário que a financie é carta de intenções e, aí, sim, vira o que a sua pergunta sugere: correspondência devolvida ao remetente. Atualmente, a reforma tributária é boa para entupir o judiciário de ações contra a Viúva.

·        O senhor combateu por décadas o solipsismo judicial, o decisionismo e o direito penal do inimigo e foi um dos críticos mais duros da Lava Jato e de Sergio Moro. Há quem diga que, no julgamento do golpe, o senhor aceitou os atalhos que condenava quando o réu era outro. Em junho, o senhor escreveu que o STF é mais atacado pelos acertos do que pelos erros. Em termos estritamente hermenêuticos, de integridade e coerência, a condenação de Bolsonaro é uma decisão adequada à Constituição ou é o mesmo solipsismo, com o beneficiário trocado? O que, na fundamentação, sustenta a diferença? E, já que a revisão criminal foi distribuída a Nunes Marques, o que faria dessa revisão um ato de jurisdição e não uma manobra política?

Lenio Streck – Não recuso. É a pergunta que eu mesmo me faço. Integridade serve exatamente para isto: o critério que usei quando o réu era Lula tem de valer quando o réu é Bolsonaro. Se não valer, eu estava errado antes ou estou errado agora. Mantenho o que disse em junho: o Supremo apanha mais pelos acertos do que pelos erros, e acho esta condenação um dos acertos. Só que acerto se demonstra na fundamentação, e não na arquibancada. Vamos a ela, ponto por ponto, sem torcida. Mas sem neutralidade. Começo pelo juiz natural. Na Lava Jato, a competência da Justiça de Curitiba dependia da ligação do caso com a Petrobras. O próprio Moro, nos embargos à sentença do triplex, escreveu que jamais havia afirmado que o dinheiro dos contratos da Petrobras fora usado para pagar vantagem a Lula. Ora, se não foi, Curitiba não era competente, e o Supremo reconheceu isso em 2021. No caso do golpe, a competência do Supremo decorre de uma tese sobre a permanência do foro, que começou a ser julgada em 2024, num habeas corpus sem qualquer relação com Bolsonaro, e foi concluída em março de 2025, antes do recebimento da denúncia. A volta das ações penais para as Turmas é de dezembro de 2023. Pode-se discordar das duas regras, e há quem discorde com bons argumentos. O que não se pode dizer é que foram feitas para o caso. Na Lava Jato a regra era moldada ao réu. Aqui o réu encontrou a regra pronta. Depois, a imparcialidade. Moro teve a suspeição declarada pelo Supremo, e o que se soube depois (a combinação com a acusação, o grampo de Lula e Dilma divulgado, o ministério no governo do adversário do réu) só confirmou o diagnóstico. Contra Moraes, o argumento é outro: ele seria vítima do plano. É o argumento mais sério da defesa, e não o desprezo. Mas pense no que ele implica se for universalizado. Se o juiz ameaçado pelo réu fica impedido, o réu passa a escolher o juiz; basta ameaçar os que não lhe servem. Ninguém se beneficia da própria torpeza. O Supremo enfrentou a arguição e a rejeitou. De mais a mais, a vítima do golpe era o Estado democrático de Direito, do qual todos os juízes do país fazem parte.

Agora, a prova. Na Lava Jato condenou-se por ato de ofício indeterminado (sic), e a palavra de corréu interessado fazia as vezes de prova. No golpe, há uma delação, a de Mauro Cid, e ela é frágil, cheia de idas e vindas que qualquer advogado exploraria. Chamei de delação Sherazade. Só que a lei de 2013 proíbe condenar apenas com base em delação, e o teste é simples. Tire Cid do processo e veja se a condenação para em pé. Para. Ficam a minuta, o plano impresso dentro do Planalto, as mensagens, as reuniões e o depoimento dos comandantes do Exército e da Aeronáutica, que não delataram nada e contaram o que ouviram do presidente. Há até um livro escrito por um dos comandantes das Forças Armadas que confirma a tese do golpe. Fato. Por fim, o tal direito penal do inimigo. Na formulação de Jakobs, inimigo é quem perde a condição de pessoa e, com ela, as garantias. Bolsonaro teve defesa técnica, prazos, sustentação oral e embargos; tem revisão criminal em curso; e cumpre a pena em casa desde março, em prisão domiciliar humanitária concedida pelo relator, que dizem ser seu inimigo. Inimigo, no sentido de Jakobs, não tem direito à domiciliar humanitária. Deixo uma ironia registrada. Os tipos penais pelos quais Bolsonaro foi condenado estão na Lei 14.197, que ele mesmo sancionou em 2021. Tenho reservas? Tenho, e digo quais. Mas, vamos lá: não estamos em um colégio de freiras (desculpe-me se ainda se pode usar essa alegoria). Há uma realpolitik e uma realjuridik. O inquérito das fake news é uma anomalia que só a excepcionalidade explica, e excepcionalidade tem prazo de validade. Algumas penas de executores do 8 de janeiro foram pesadas, e a individualização poderia ter sido mais fina. Nenhuma dessas reservas, porém, contamina a fundamentação da condenação dos chefes. E a resposta a eventuais excessos na pena dos pequenos não pode ser uma lei que usa o caso do batom como vitrine para, nos fundos da loja, livrar os generais do concurso de crimes. O que sustenta a diferença, então? Na Lava Jato a decisão vinha antes e a fundamentação servia de embalagem. No julgamento do golpe, com todos os defeitos que se queira apontar, cada passo se apoia em regra anterior ao caso e em prova que sobrevive sem a delação. É isso que chamo de resposta adequada à Constituição. Pode até coincidir com o que eu queria. O ponto é que se sustentaria mesmo se eu quisesse o contrário. E a revisão criminal? Revisão não é segunda apelação. Simples. Outra coisa: se a defesa quer os efeitos da Lei da Dosimetria, o caminho é a execução penal, como diz a Súmula 611 do Supremo, e não a revisão. Não presumo parcialidade de ninguém, nem do relator indicado pelo réu. Cobro fundamentação. Foi o que cobrei de Moro.

·        O senhor defendeu o devido processo quando o réu era Lula e denunciou o vazamento seletivo como método. Agora a suspensão parcial do sigilo no caso Master revelou Flávio Bolsonaro investigado por corrupção e lavagem de dinheiro no financiamento de “Dark Horse”, em material liberado por André Mendonça, ministro indicado pelo próprio Jair Bolsonaro. Como a sua doutrina lê isso, a semanas do voto? o que a Constituição diz sobre um candidato investigado no Supremo que venha a ser eleito presidente? O mandato suspende o processo, o foro o absorve, existe resposta adequada à Constituição, ou há aqui uma lacuna que ninguém quis enfrentar porque a hipótese parecia remota?

Lenio Streck – Leio do mesmo jeito que li em 2016 e em 2018, e é por isso que a pergunta é justa. Investigado não é culpado. Eu disse isso de Lula quando pouca gente queria ouvir. Digo agora de Flávio Bolsonaro, que, até onde sei, não me encomendou a defesa. Vamos separar as coisas. A Lava Jato vazava. O juiz liberava o que lhe convinha, na hora que lhe convinha: o grampo de Lula e Dilma em 2016; a delação de Palocci, tornada pública a seis dias do primeiro turno de 2018. Depois, o juiz virou ministro do candidato beneficiado. Aqui houve uma decisão assinada, que levantou o sigilo de 39 processos ligados ao Master, e não de um só, tomada por um ministro que Jair Bolsonaro indicou. Quem quiser falar em perseguição vai ter de explicar o endereço. Isso não me dispensa de ler a decisão com lupa. Sigilo de investigação protege a investigação e protege o investigado; levantá-lo exige razão. Pelo que se publicou, o fundamento foi a ausência de impedimento ao levantamento dos sigilos. Acho pouco. Ausência de impedimento é falta de razão contrária, e a Constituição pede razão a favor. É a mesma cobrança que fiz a Moro, e faço aqui sem desconto. O calendário incomoda? Sim. Mas calendário eleitoral não suspende o direito, nem para acelerar nem para segurar. Juiz que engaveta decisão por causa da eleição também faz política, só que com o sinal trocado.

O teste que proponho é o de sempre. A decisão seria a mesma se o investigado fosse do outro lado? E veio a público tudo, inclusive o que ajuda a defesa, ou só o trecho que dá manchete? Vazamento seletivo é seletivo porque escolhe o pedaço. Se aparecer o pedaço escolhido, serei o primeiro a dizer. Resta a parte que ninguém está perguntando, e que é das mais interessantes. A Constituição tem resposta textual no art. 86, §4º: na vigência do mandato, o presidente não pode ser responsabilizado por atos estranhos ao exercício de suas funções. Os fatos apurados são de 2025, anteriores ao mandato e alheios à função presidencial. Eleito, Flávio não poderia ser processado por eles enquanto durasse o mandato. O foro não absorve nada. O inquérito já está no Supremo, porque ele é senador, e ali ficaria. Dormindo. E não creio que o STF mexeria nisso. Minha resposta: a ação penal trava-se, a prescrição suspende-se, a investigação pode seguir e, no fim do mandato, o processo acorda. Se, durante o mandato, surgir fato novo ligado à função (por exemplo, usar a Presidência para obstruir a investigação), aplica-se o caput do art. 86, com a autorização de dois terços da Câmara. Ninguém enfrentou porque a hipótese parecia remota? Pode ser. Em 1991 também parecia remoto que um presidente caísse. Constituição existe justamente para as hipóteses remotas. Para as prováveis, qualquer regimento dá conta.

·        O senhor escreveu que qualquer anistia aos golpistas é inconstitucional, e descreveu o caminho inteiro. Se Flávio vencer em 25 de outubro, o veto desaparece da equação. O que sobra, constitucionalmente, para barrar a anistia então? A inconstitucionalidade que o senhor afirma é autoaplicável, ou depende de um Supremo que passaria a enfrentar um presidente eleito exigindo a liberdade do próprio pai, com uma revisão criminal já em curso?

Lenio Streck – Permito-me corrigir o pressuposto. O veto nunca foi a trincheira, e a dosimetria mostrou isso. Lula vetou o projeto inteiro no dia 8 de janeiro (a data não foi acaso), o Congresso derrubou o veto em 30 de abril, a lei foi promulgada e está com a aplicação suspensa no Supremo, à espera do plenário. Portanto, não basta veto. Em maio, eu disse que o tribunal, pressionado, tenderia à autocontenção e que também torcia contra mim mesmo. Sigo torcendo. O veto é um degrau. Resta saber se a trincheira, que é a Constituição, resiste. Se Flávio vencer, a primeira coisa a lembrar é que presidente não concede anistia. Anistia é lei, competência do Congresso (art. 48, VIII). O que o presidente tem na caneta é a graça e o indulto (art. 84, XII), e para isso o precedente já existe e tem nome: Daniel Silveira. Em 2023 o Supremo anulou a graça que Bolsonaro deu ao deputado, por desvio de finalidade. Se indulto a aliado é desvio de finalidade, indulto ao próprio pai seria o quê? Desvio de finalidade com certidão de nascimento. Seria talvez o maior teste para o Supremo depois do 8 de janeiro. Já a inconstitucionalidade da anistia tem pé no texto. A ação de grupos armados, civis ou militares, contra a ordem constitucional e o Estado democrático é crime inafiançável e imprescritível (art. 5º, XLIV). Seria um despropósito a Constituição proibir o Estado de desistir desse crime pela passagem do tempo e deixá-lo desistir por lei ordinária, votada por maioria simples. Democracia não faz haraquiri. E o Estado tem o dever de proteger aquilo que a Constituição protege; lei que o impede de proteger a própria democracia viola a proibição de proteção deficiente, a Untermaßverbot de que falo há mais de vinte anos. Ingo Sarlet e eu fomos os primeiros a tratar desse princípio. Você pergunta se isso é autoaplicável. Não é, e nenhuma inconstitucionalidade é. Norma não se aplica sozinha, alguém tem de dizê-la. É o velho debate de 1931 entre Schmitt e Kelsen sobre quem deve ser o guardião da Constituição [10]. Schmitt respondeu: o presidente do Reich. Kelsen respondeu: um tribunal. O quadro que você descreve seria a versão brasileira da resposta de Schmitt, com um detalhe que nem ele imaginou. O presidente guardião, guardando a liberdade do pai. Então, sim, depende do Supremo. E de mais gente: da doutrina, da OAB, do Ministério Público, da imprensa, de uma cultura jurídica que não aceite chamar de pacificação o que é autoperdão. Um Supremo sozinho, diante de um presidente recém-eleito, com uma revisão criminal em curso e três cadeiras a preencher até 2030, seria um tribunal sitiado. É por isso que eu defendo o Supremo e, ao mesmo tempo, o critico. Tribunal desacreditado não segura nada.

·        A Constituição pressupõe Estado laico e uma esfera pública em que o poder se justifica por razões. O que acontece com a interpretação constitucional quando parte decisiva do eleitorado lê a política por gramática sagrada, em que a prisão do líder é martírio e não pena? A hermenêutica tem o que dizer a isso, ou aqui ela para na porta?

Lenio Streck – Vou pela ordem, e a primeira parte me pesa mais.

A Constituição tinha instrumento, e mais de um. Havia o crime de responsabilidade, com a velha Lei 1.079, e o crime comum, com denúncia da PGR. E havia o dever de proteção da saúde do art. 196, que não é conselho, além da proibição de proteção deficiente, pensada justamente para o Estado que deixa de proteger. A CPI fez o seu trabalho e pediu o indiciamento do presidente. Os pedidos de impeachment ultrapassaram uma centena. Faltaram as chaves. Uma estava na gaveta do presidente da Câmara, que não tem prazo para despachar pedido de impeachment e simplesmente não despachou. A outra estava na PGR, que arquivou a maior parte do que a CPI mandou. A Constituição tinha a resposta; os porteiros não abriram a porta. Se eu tivesse de fazer uma única reforma neste episódio, seria esta: dar prazo ao presidente da Câmara para decidir. Nenhum agente público deveria ter o poder de não decidir. Onde a Constituição funcionou, funcionou pelas bordas. Pelo federalismo, o Supremo garantiu, em 2020, que estados e municípios pudessem adotar medidas sanitárias. Tem gente viva por causa disso. E digo mais. O que houve não se encaixa bem no termo “omissão”. A Constituição conhece a omissão inconstitucional, mas a pensou como omissão de legislar. Dezenas de e-mails da Pfizer sem resposta têm outro nome: escolha. A conta de 2025 é a do golpe. Que pode vir com juros. A da pandemia continua aberta.

Vamos à segunda parte, a que mais lhe interessa e, confesso, a mim também.

A hermenêutica não para na porta do templo. Ela saiu de lá. Schleiermacher era teólogo, a hermenêutica moderna nasce da leitura da Escritura, e Gadamer, em Verdade e Método, toma a hermenêutica jurídica e a teológica como modelos justamente porque, nas duas, não há compreensão sem applicatio. A hermenêutica sabe muito bem o que acontece quando um texto passa a ser lido como sagrado. O que acontece é uma troca de pergunta. A pena responde a uma pergunta: o que ele fez? O martírio responde a outra: quem ele é? Quando a prisão do líder vira martírio, pede-se que ele seja julgado pelo que é, o ungido, e não pelo que fez. Isso tem nome no direito penal. Chama-se direito penal de autor, aqui de ponta-cabeça: em vez de condenar alguém pelo que ele é, absolve-se alguém pelo que ele é. Passei a vida combatendo o direito penal de autor e não vou aceitá-lo agora só porque veio invertido. O filme ajuda a ver. Dark Horse conta a campanha de 2018, com a facada de Juiz de Fora no centro, e a facada foi o primeiro ato dessa paixão; a prisão seria o segundo. Para o papel principal, chamaram o ator que fez Jesus em A Paixão de Cristo. Escolha de elenco que é, antes de tudo, escolha teológica. E, se a investigação confirmar o que está sendo apurado, feita com dinheiro de um banco que o Banco Central liquidou. Paixão com patrocínio, isso? Volto a Schmitt, que anda por toda parte. Ele dizia que os conceitos centrais da moderna teoria do Estado são teológicos secularizados. O que vemos agora é o caminho de volta, a política dessecularizada. E a Constituição de 1988 pressupõe, no art. 19, um Estado que não se alia a nenhum culto. O Estado laico deixa em paz a fé do eleitor e cobra outra coisa das instituições: que se justifiquem com razões que valham tanto para quem crê quanto para quem não crê. O que a hermenêutica tem a dizer? Muito. Mas não converte ninguém, e nem deve tentar; não é catequese às avessas. O que ela pode fazer, e o que o Supremo tem de fazer, é continuar fundamentando, dando razões, inclusive a quem não quer ouvi-las, de modo que até quem acredita no martírio possa ler a decisão e encontrar ali argumento, em vez de vingança. É lento e não dá filme. Responder liturgia com liturgia seria pior. O juiz vira sacerdote e a democracia perde nas duas pontas. Sei que parece pouco. É o que a democracia tem. E, até aqui, tem funcionado melhor do que previam os profetas.

 

Fonte: Entrevista com Lenio Luiz Streck, em IHU

 

Relembrando: Alimentos subiram 56,6% no governo Jair Bolsonaro, mais que o dobro da alta sob Lula

A inflação dos alimentos durante o governo de Jair Bolsonaro (PL) foi mais que o dobro da registrada até agora na gestão do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), considerando o ritmo médio mensal de aumento dos preços. Entre janeiro de 2019 e dezembro de 2022, os alimentos ficaram 56,6% mais caros na cidade de São Paulo, enquanto a alta acumulada entre janeiro de 2023 e setembro de 2026 foi de 16,7%.

Os dados são da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas (Fipe) e foram apresentados pela coluna Vaivém das Commodities, da Folha de S.Paulo. O levantamento foi divulgado em meio à disputa presidencial entre Lula e Flávio Bolsonaro (PL), após os dois candidatos abordarem o custo da alimentação no debate da TV Bandeirantes, realizado no domingo (18).

A comparação considera períodos de duração diferente e leva em conta uma projeção para os últimos meses de 2026. Segundo a análise, a inflação dos alimentos pode acumular pelo menos mais 6% até dezembro, elevando a alta estimada durante o governo Lula para 23,7%.

Nesse cenário, o aumento médio mensal seria de 0,44% na atual gestão, diante dos 0,94% registrados durante o governo Bolsonaro.

Os números indicam que, apesar da continuidade da pressão sobre os preços de produtos básicos, o ritmo de encarecimento da alimentação foi significativamente maior entre 2019 e 2022.

<><> Pandemia e conflitos internacionais pressionaram os preços

Parte da inflação dos alimentos nos dois governos está relacionada a fatores externos, como conflitos geopolíticos, aumento dos custos de transporte e produção e oscilações na oferta internacional de produtos agrícolas.

Durante o governo Bolsonaro, a pandemia da Covid-19 provocou interrupções nas cadeias de abastecimento e dificuldades no comércio internacional.

Em fevereiro de 2022, a invasão da Ucrânia pela Rússia agravou o cenário, elevando os preços de produtos como trigo, milho e óleos vegetais.

Os dois países têm participação importante no comércio mundial de grãos, enquanto a Rússia também figura entre os principais fornecedores internacionais de fertilizantes.

Já em 2026, durante o governo Lula, os ataques dos Estados Unidos e de Israel ao Irã, iniciados em fevereiro, ampliaram as tensões no Oriente Médio e afetaram o comércio internacional.

A Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) registrou períodos de forte aceleração dos preços internacionais dos alimentos tanto em 2022 quanto em 2026.

<><> Picanha subiu 52% com Bolsonaro e 22% sob Lula

Um dos produtos mais presentes no debate político sobre o custo da alimentação é a carne bovina, especialmente a picanha, que ganhou destaque durante a campanha presidencial de Lula em 2022.

De acordo com os dados da Fipe, o preço da picanha aumentou 52% durante os quatro anos do governo Bolsonaro.

Na gestão Lula, a alta acumulada até setembro de 2026 foi de 22%, percentual que, embora inferior ao registrado no governo anterior, supera a inflação média dos alimentos no período.

Considerando a carne bovina de maneira geral, o aumento foi de 67% entre 2019 e 2022, contra 27% de janeiro de 2023 a setembro deste ano.

Nos dois períodos, a forte demanda internacional pela carne brasileira contribuiu para pressionar os preços no mercado interno, já que o crescimento das exportações influencia a disponibilidade e os valores cobrados dos consumidores brasileiros.

<><> Alimentos básicos chegaram a quase triplicar de preço no governo Bolsonaro

O levantamento também revela diferenças entre os produtos que mais pressionaram o orçamento das famílias em cada governo.

Durante a gestão Bolsonaro, alimentos básicos como cebola, batata, feijão, óleo de soja, fubá e café em pó registraram aumentos expressivos.

Todos esses produtos chegaram a dobrar de preço ao longo do período analisado.

A batata apresentou uma das maiores altas, de 189%, enquanto o óleo de soja acumulou encarecimento de 164%.

Isso significa que um produto que custava R$ 10 no início do governo Bolsonaro poderia ter chegado a R$ 28,90 no caso da batata, considerando exclusivamente a variação percentual registrada.

Os aumentos atingiram diretamente itens presentes na alimentação cotidiana da população, ampliando a pressão sobre o orçamento doméstico.

<><> Café, leite e refeições fora de casa pressionam inflação sob Lula

No governo Lula, os principais aumentos foram observados em produtos como café, leite, verduras e feijão, além das refeições consumidas fora de casa.

O café acumulou alta de 48% entre janeiro de 2023 e setembro de 2026, enquanto o leite longa vida ficou 24% mais caro.

O arroz, por sua vez, apresentou aumento acumulado de 11% durante o governo petista, mas voltou a registrar pressão recente.

Segundo os dados mais atualizados da Fipe citados pela coluna Vaivém das Commodities, o produto ficou 5,5% mais caro apenas nos últimos 30 dias.

A evolução dos preços mostra que a inflação dos alimentos continua sendo um desafio para o governo federal, especialmente por atingir despesas essenciais das famílias.

Ainda assim, a comparação histórica apresentada pela Fipe aponta que o encarecimento da alimentação foi consideravelmente mais intenso durante o governo Bolsonaro, tanto no acumulado quanto no ritmo médio mensal, do que no período analisado da gestão Lula.

 

Fonte: ICL Notícias

 

Ciência explica por que corpo acorda antes do despertador

Poucos minutos antes do despertador tocar, o corpo já está de olhos abertos. Para quem vive essa cena com frequência, a sensação é a de que o organismo "sabe" a hora certa de acordar, quase como se dispensasse o alarme.

O fenômeno não tem nada de sobrenatural: ele está diretamente ligado ao funcionamento do ritmo circadiano, o relógio biológico que regula sono, temperatura corporal, apetite e a liberação de hormônios ao longo de um ciclo de aproximadamente 24 horas.

<><> Como o relógio biológico organiza o despertar?

O mecanismo central desse processo é o núcleo supraquiasmático, uma estrutura localizada no hipotálamo que recebe informações da retina sobre a quantidade de luz no ambiente.

Quando escurece, o cérebro aumenta a produção de melatonina, hormônio que induz o sono; quando amanhece, essa produção é interrompida e o corpo passa a ativar funções ligadas à vigília, como o aumento da temperatura corporal, da pressão arterial e da frequência cardíaca.

Rotinas consistentes de sono reforçam esse ciclo: ao dormir e acordar sempre nos mesmos horários, o organismo passa a antecipar o momento do despertar, mesmo sem qualquer estímulo externo.

<><> O papel do cortisol na hora de acordar

Um dos protagonistas desse processo é o cortisol, hormônio associado ao estado de alerta. Nas horas finais do sono, geralmente entre 3h e 5h da manhã, os níveis desse hormônio começam a subir de forma gradual, preparando o corpo para a transição entre o sono e a vigília antes mesmo de qualquer som de alarme.

Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade Friedrich-Alexander Erlangen-Nürnberg, na Alemanha, demonstrou que essa antecipação hormonal ocorre de maneira consistente em pessoas com rotinas de sono regulares, reforçando a ideia de que o despertar precoce é um mecanismo aprendido pelo próprio organismo.

Uma revisão da Endocrine Society aponta ainda que a maior parte da liberação de cortisol acontece nas horas mais próximas ao horário habitual de acordar, com um novo pico entre 30 e 45 minutos após o despertar.

<><> Por que o corpo aprende a antecipar o alarme?

Além dos fatores hormonais, existe um componente comportamental nesse processo. O hábito de acordar antes do despertador está relacionado a mecanismos internos de regulação do sono que respondem à repetição de horários, às condições do ambiente de descanso e a fatores como o estresse cotidiano.

Quando uma pessoa mantém um padrão estável de sono por semanas ou meses, o cérebro registra esse compromisso e passa a preparar o organismo para o despertar de forma cada vez mais precisa, dispensando gradualmente a necessidade do estímulo externo do alarme.

<><> O que a ciência considera um bom sinal

Para especialistas em medicina do sono, acordar poucos minutos antes do despertador tocar costuma ser interpretado como sinal positivo. Alan Luiz Eckeli, professor de Neurologia e Medicina do Sono da Universidade de São Paulo (USP), defende que, em condições ideais de sono, o próprio corpo deveria funcionar como o principal instrumento de despertar, dispensando o uso do alarme.

Segundo o especialista, quando alguém só consegue se levantar com dificuldade e depende do som do despertador para sair da cama, isso costuma indicar que o tempo de descanso da noite anterior não foi suficiente.

<><> Quando o despertar precoce pode ser sinal de alerta

Nem sempre acordar antes da hora programada reflete um sono bem regulado. Em períodos de maior ansiedade ou estresse, os níveis de cortisol podem subir de forma antecipada e abrupta, interrompendo o sono muito antes do horário habitual e provocando um despertar acompanhado de cansaço, e não de disposição.

A diferença, segundo pesquisas na área, está na sensação que acompanha o despertar: se a pessoa acorda alerta e descansada minutos antes do alarme, o quadro tende a indicar bom ajuste do ritmo circadiano; se o despertar vem acompanhado de fadiga ou agitação, o sinal costuma apontar para uma noite de sono de qualidade inferior.

<><> Por que ainda dependemos do despertador?

Apesar do funcionamento preciso desse relógio interno, o despertador continua sendo indispensável para boa parte da população. Isso porque a vida em centros urbanos impõe horários rígidos de trabalho, estudo e compromissos que nem sempre coincidem com o ritmo natural de sono de cada pessoa.

Um levantamento da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) mostra que 72% dos brasileiros relatam algum tipo de problema relacionado ao sono, incluindo quadros de insônia, o equivalente a cerca de 146 milhões de pessoas. Nesse cenário, o alarme segue sendo um recurso necessário para manter rotinas e evitar atrasos, mesmo que a ciência aponte que, em condições ideais, ele poderia se tornar dispensável.

Especialistas em sono costumam recomendar que a melhor forma de reduzir a dependência do despertador é fortalecer a regularidade da rotina: dormir e acordar sempre em horários próximos, inclusive nos fins de semana, evitar a exposição a telas pouco antes de deitar e garantir tempo de sono suficiente para completar os ciclos naturais de descanso. Com o relógio biológico bem ajustado a esses hábitos, o próprio organismo tende a assumir, aos poucos, a função que hoje ainda cabe ao alarme.

¨      Sono excessivo pode ser sinal de problemas de saúde

Uma meta-análise constatou que pessoas que relataram dormir mais de oito horas por noite apresentam 28% mais risco de desenvolver demência. Especialistas ressaltam que dormir mais não é, essencialmente, o problema.

Apesar de horas excessivas dormindo serem associadas com doenças que afetam o cérebro e outros sistemas do organismo, dormir mais que o necessário também pode gerar efeitos imediatos, como a dificuldade de raciocinar de maneira rápida e sensações de que o corpo está dolorido.

O sono excessivo ainda pode ser sinal de doenças neurodegenerativas, depressão, apneia do sono e até mesmo doenças cardiovasculares.

O professor de Neurologia da FMRP (Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto) da USP, Alan Eckeli, explica que, mesmo que a duração do sono seja usada como indicador de descanso, isso não é o suficiente para declarar que uma pessoa está dormindo bem.

“Aspectos como despertares frequentes durante a noite, dificuldade para atingir fases profundas do sono e a sensação de cansaço ao acordar também interferem na recuperação do organismo e na saúde cerebral. Por isso, passar mais tempo na cama não significa, necessariamente, obter os benefícios esperados do sono”, declara o professor ao Jornal da USP. 

O docente ressalta também que quantidade e qualidade de sono são dimensões diferentes, mas que se complementam e são medidas pessoais. Contudo, ele alerta para a atenção redobrada com sonolência excessiva durante o dia, cochilo involuntários, dificuldades para manter a atenção, alterações de humor, irritabilidade e queixas sobre memória e concentração, que podem indicar que o sono não está adequado.

<><> O sono ideal

Apesar dessas variações sobre qualidade e quantidade de sono, Alan Eckeli avalia, a partir da meta-análise publicada pela York University na revista Plos One, que pesquisas como essa permitem identificar uma faixa de duração que é mais associada com melhores conclusões sobre estados de saúde.

O professor informa que “Estudos apontam que pessoas que dormem menos de seis horas ou mais de nove horas por noite costumam apresentar maior associação com desfechos desfavoráveis. Uma faixa associada a menores riscos para a saúde está no intervalo de sete a oito horas de sono. É o que mais frequentemente aparece associado a melhores desfechos de saúde.”

Para além da duração do sono, também é necessário avaliar outros hábitos diários que influenciam a saúde cerebral, como o sedentarismo, sendo necessária a prática regular de atividades físicas, manter uma alimentação equilibrada e outras medidas importantes para prevenção do declínio cognitivo.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Mesmo com 'Exército' de Janones, esquerda não se equipara à força digital do bolsonarismo, diz Marcos Nobre

No mundo digital, as campanhas para as eleições brasileiras expõem uma diferença significativa entre o bolsonarismo e o campo da esquerda.

De um lado, uma direita radical organizada há anos em um "partido digital" consolidado que surgiu dentro da própria arquitetura das redes sociais — e, por isso mesmo, as usa habilmente a seu favor.

Do outro, uma esquerda organizada em "ilhas", ainda tentando incorporar o algoritmo à sua estratégia e que só agora parece começar a perceber sua desvantagem e a reagir a isso.

Esta é a constatação de Marcos Nobre, professor de filosofia política da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e diretor-geral do Centro para Imaginação Crítica do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (CCI/Cebrap).

Nos últimos anos, o filósofo, junto a outros pesquisadores, tem se dedicado a difundir a tese de que existe o "Partido Digital Bolsonarista" (PDB), uma nova forma de partido que nasce digital, não tem CNPJ nem registro na Justiça Eleitoral, mas que se estrutura como uma legenda política, elegendo pessoas e pautando a agenda do país.

O PDB, explica Nobre em entrevista à BBC News Brasil, tem hierarquia, organização, mobilização, engajamento, coesão, agenda e projeto de poder. E se alinha a partidos tradicionais, da direita ao centrão, para eleger políticos, conseguindo acesso a recursos partidários .

"A gente pode dizer, sim, que o PDB é o maior partido do Congresso", defende o professor, que publicou o livro O Partido Digital Bolsonarista, organizado junto com a professora Ana Claudia Teixeira.

Um dos principais representantes desse ecossistema digital bolsonarista é Nikolas Ferreira (PL-MG), deputado federal mais votado do país. Ao longo dos últimos anos, o mineiro ajudou a popularizar um modelo de políticos que saiu das redes sociais e se multiplicou Brasil afora usando as plataformas digitais não apenas como instrumentos de divulgação, mas como parte central de sua atuação política.

Embora a esquerda também tenha eleito deputados que surgiram das redes sociais, como Jones Manoel (PSOL-PE) e Ana Elisa (PT-MG), Nobre defende que isso não quer dizer que haja um partido digital equivalente nesse campo político.

"Existe algum grau de articulação, mas é mais parecido com um arquipélago do que com um partido", explica.

Nem mesmo o canal de WhatsApp Exército de Lula, criado e promovido pelo deputado André Janones (Rede-MG) após o resultado do primeiro turno com a liderança de Flávio Bolsonaro (PL), representa o início de formação de algo equiparável.

"A ideia de exército é uma ideia que nada tem que ver com a arquitetura das redes. É justamente um tipo de ação que pode ter muito efeito numa eleição, pode ser importante, mas não pode ser uma estratégia de médio e longo prazo. É uma estratégia de curtíssimo prazo", comenta Nobre.

"Não vejo como isso poderia continuar após a eleição, a não ser como um canal de transmissão do próprio Janones, porque o PT não aceitaria esse comando paralelo de alguém que não está submetido à hierarquia do partido."

O canal de Janones contava mais de 6,6 milhões de inscritos na madrugada da quarta-feira (21/10), mas ficou sem atualizações quando o deputado foi internado com arritmia cardíaca após o debate presidencial na Band.

Esta campanha, porém, na avaliação do professor, pode representar um "divisor de águas" na forma como a esquerda enxerga o papel das redes na política.

"A impressão que eu tenho é que a consciência (na esquerda) do grau de organização da extrema-direita está chegando de uma maneira como não tinha chegado antes", diz.

>>>> Veja os principais trechos da entrevista:

  • O quanto o avanço da direita radical no Congresso que marcou essa eleição está relacionado ao Partido Digital Bolsonarista e ao bolsonarismo em si? Dá para fazer essa diferenciação?

Marcos Nobre - A gente precisa fazer essa análise com cuidado. Vamos pegar, por exemplo, o caso do PL. O PL é o partido preferencial do bolsonarismo. Mas nem por isso todo mundo que foi eleito pelo PL é PDB. Isso é uma das coisas que é importante a gente já deixar claro de saída.

No PL, 16% é de não bolsonaristas, que a gente classifica como Centrão. Esse levantamento não é meu, é da Daniela Costanzo, uma cientista política que trabalha no nosso grupo e é especializada no Centrão. Então, o levantamento da Daniela mostra que a gente tem 84% de bolsonaristas no PL. Mas, se você vai pegar, por exemplo, o Podemos, você tem um bolsonarista para dois centrão. Se você pegar o PSD, você vai ter um para nove.

Então, você tem de fato o bolsonarismo, o PDB, em vários partidos, porém, com aliança principal com o PL. Partindo disso, a gente pode dizer, sim, que o PDB é o maior partido do Congresso.

  • Existe bolsonarista e bolsonarismo sem estar ligado ao PDB?

Nobre - Sem dúvida. O bolsonarismo como fenômeno social é uma coisa hipercomplexa, com várias explicações. Para o nosso estudo, a gente usa uma definição operacional de bolsonarismo. Ou seja, é bolsonarista para a gente quem, em pesquisa de opinião, diz que é bolsonarista. Embora varie um pouco, é alguma coisa como um quarto do eleitorado, que é enorme.

O bolsonarismo não está destinado, por natureza, a ser liderado pela extrema-direita, mas hoje ele é liderado pela extrema-direita. Não necessariamente essa liderança é natural. Ela foi construída e pode mudar. Não sabemos.

Dentro do bolsonarismo, tem o que a gente chama de "ecossistema digital bolsonarista". Nem todo mundo que se identifica como bolsonarista está neste ecossistema. Embora seja de se supor que essas pessoas todas estejam de alguma maneira no ecossistema, não podemos pressupor isso.

E, dentro desse ecossistema, tem o Partido Digital Bolsonarista. E também várias coisas que não são o PDB. Você tem, por exemplo, o Missão, o MBL, o Ronaldo Caiado, um monte de outras forças políticas que estão ali.

Quem tem a liderança e a organização desse espaço digital é o PDB. É como uma matrioska, que tem uma dentro da outra. O objetivo do partido é liderar e hegemonizar o ecossistema digital bolsonarista. Com isso, hegemonizar e liderar o bolsonarismo e, partindo daí, ampliar esse seu alcance para o conjunto da sociedade em termos eleitorais para ganhar uma eleição. Então veja que é uma coisa que vai crescendo.

  • Pode se sobressair uma liderança desse ambiente digital que não seja da família Bolsonaro, como Nikolas Ferreira?

Nobre - Não tenho a menor dúvida, porque a organização independe da família. A família hoje lidera. Está no topo da hierarquia desse partido, mas não necessariamente vai se manter lá. A impressão que dá é que ela vai se manter por muito tempo lá, mas a gente não pode dizer isso para todo o sempre, como a gente não pode dizer que essa organização vai continuar existindo.

O bolsonarismo é alguma coisa que já independe do seu líder, embora tenha esse nome na origem, como vários outros movimentos que têm nome de pessoas e depois são liderados por outras pessoas. O bolsonarismo se tornou um movimento que não depende da figura do Bolsonaro ou da família Bolsonaro para existir. Mas a família Bolsonaro lidera.

Agora, é uma organização e, enquanto tal, pode ser ocupada por outras lideranças. O Nikolas é uma das pessoas que pode futuramente liderar o Partido Digital Bolsonarista, inclusive porque é muito jovem.

  • Entrevistei há algumas semanas a antropóloga Rosana Pinheiro-Machado, que conta como no Brasil se consolidou uma legião de influenciadores do chamado marketing digital que acabam surfando na capacidade que o brasileiro adquiriu de sonhar com as redes sociais. São influenciadores que propagam ideias caras à direita radical. O senhor vê, nesses influenciadores, como os coaches e vendedores de cursos para mudar o mindset, uma origem desse partido digital também?

Nobre - Não está na origem, porque na origem está Jair Bolsonaro, que decidiu digitalizar sua vida política muito cedo, lá em 2012. Ele é o primeiro político brasileiro que entende que essa era a tendência, que é isso que iria acontecer. Quando ele chega em 2018, já tem muito capital digital.

Mas, então, qual é a relação entre ser influenciador e o PDB? Não existe tradução automática entre capital digital e posição na hierarquia do partido, embora seja um requisito você ter um certo capital digital para ter a posição no partido e vice-versa.

Existem dois tipos de influenciadores. Os que têm como objetivo serem candidatos e que vão dirigir a sua influência para uma futura campanha eleitoral. E influenciadores que estão na rede simplesmente por causa da possibilidade de ganho financeiro e reputacional.

Como é que essas coisas se ligam? Existe uma afinidade eletiva entre um certo tipo de influenciador, que é esse influenciador de tipo coach, e o Partido Digital Bolsonarista, porque o partido é construído com um mindset, como você falou, digital.

Então, não é que a rede seja um instrumento, uma ferramenta para o partido. Ela é o partido, que funciona com base na arquitetura da rede. Isso significa que, se você é influenciador, tem a possibilidade de estar ali no meio do ecossistema digital bolsonarista e de ganhar com isso, seja em termos financeiros ou reputacionais.

É difícil dizer quem chegou primeiro, se foi o PDB ou esses influenciadores. Mas eles têm uma afinidade eletiva, uma proximidade. Isso significa que esses influenciadores que não vão ser candidatos estão falando de política o tempo todo? Não. Mas, no meio de um curso sobre mudança de mindset, tem um comentário sobre o detergente Ypê. Ou seja, você passa uma mensagem política de maneira subliminar, aparentemente falando sobre outra coisa.

  • Também há muitos influenciadores do outro lado do espectro político. Eles encontram alguma estrutura digital que permita que almejem ser políticos de fato e se elegerem? Existe alguma semente de partido digital de esquerda?

Nobre - Já temos influenciadores de esquerda que foram eleitos, talvez o caso mais evidente seja o do Jones Manuel [eleito deputado federal pelo PSOL em Pernambuco]. Ele se elegeu muito bem. Agora, ele faz parte de um partido digital de esquerda? Não.

Começamos no ano passado uma pesquisa sobre a presença digital de esquerda nas redes. Até o momento, a gente não achou indícios de que exista, de fato, uma organização do tipo partidária. Existe algum grau de articulação, mas é mais parecido com um arquipélago do que com um partido no sentido que a gente encontrou no caso do Partido Digital Bolsonarista, em que a gente faz uma análise de rede e a gente consegue ver que tem hierarquia, organização, mobilização, engajamento, coesão, agenda, projeto de poder, tudo isso.

Pode ser que a gente não esteja vendo. Como é uma organização que não é formal e institucional, a gente demora até para conseguir ver espacialmente nas redes o que está acontecendo agora. Tem também um problema de constituir um ecossistema digital de esquerda e progressista em que você tenha o mesmo tipo de oportunidades.

No caso de um influenciador progressista, mesmo que a sua base seja progressista, se eles declararem voto, eles vão perder, por exemplo, patrocínio. Estamos falando de coisas muito concretas. Como é que as pessoas vão sobreviver? Dentro do ecossistema digital bolsonarista, você não perde o seu patrocínio pelo fato de você ser bolsonarista. No caso da esquerda e do progressismo, isso é um temor por várias dessas pessoas com quem conversei.

Isso não significa que você não consiga produzir mecanismos de autofinanciamento, de outras maneiras inovadoras, de primeiro construir esse ecossistema digital de uma tal maneira que as pessoas possam sobreviver disso.

  • Além dessa dificuldade da esquerda, o senhor identifica no próprio algoritmo das redes sociais uma limitação para esse outro campo ter mais sucesso ou se igualar minimamente com o bolsonarismo? A estrutura da rede, como ela foi pensada, beneficia o outro lado?

Nobre - É preciso deixar claro que o algoritmo não é transparente. E o fato de não ser transparente faz com que ele seja parcial. A gente só pode ter um algoritmo transparente se a gente puder controlá-lo. Senão, ele necessariamente vai ser parcial.

Agora, o que acontece é que a extrema-direita lida com essa intransparência. Ela diz "tudo bem, é intransparente, mas essa é a regra do jogo e eu vou jogar segundo essa regra". Tem uma naturalidade para o Partido Digital Bolsonarista se organizar de acordo com a própria arquitetura da rede. A extrema-direita reclama também do algoritmo, mas ela reclama que o algoritmo não a beneficia o suficiente. Ela gostaria que beneficiasse mais.

Agora, do lado da esquerda, não é nem isso. Ela se sente prejudicada, porque é uma lógica que ela não domina, porque ela está organizada num partido tradicional. Para um partido tradicional, o algoritmo é um bicho estranho, externo. O partido tradicional vai sempre reclamar do algoritmo, porque ele não faz parte da sua própria organização. É como se tivessem de repente te jogado no meio de Marte e você tivesse que se virar. E aí você diz o quê? A culpa é do algoritmo.

Se a esquerda se organizar de maneira digital, ela vai se organizar a partir do próprio algoritmo. Mas a luta da esquerda tem que ser dupla. Tem que ser pela transparência do algoritmo e tem que ser também, ao mesmo tempo, por conseguir combater a extrema-direita dentro das redes. E isso é uma tarefa simultânea muito complicada, porque, por um lado, tem que jogar o jogo pelas ideias que são postas e, ao mesmo tempo, buscar transparência.

Claro que existe uma parte importante da esquerda que é nativa digital e que está tentando trabalhar isso. A gente viu isso nas eleições com várias pessoas que foram eleitas digitalmente, vamos dizer assim, seja pelo PT ou PSOL.

  •  A campanha do Lula tem tido novos movimentos agora no segundo turno, como o canal Exército de Lula, comandado pelo deputado André Janones, com engajamento. Esse empenho chega tarde demais para a campanha? Pode se traduzir em alguma espécie de organização de partido digital da esquerda?

Nobre - Qualquer mobilização que for feita quando você tem uma eleição tão apertada vale, seja para trazer as pessoas que não foram votar, para alguém que votou nulo ou branco. Agora, isso é parecido com o partido digital? Não. Porque continua a ser o raciocínio de que o digital é externo à atuação. É como se digital fosse uma ferramenta que você vai usar para produzir alguma coisa. E isso é completamente diferente do [partido] digital, porque, para ele, o mundo digital é onde ele habita, é o seu elemento, não é alguma coisa externa.

O negócio se chama "exército". Exército é alguma coisa que tem uma hierarquia pré-estabelecida. Se você está dentro do [partido] digital, a hierarquia não é pré-estabelecida. Ela tem que ser estabelecida dia a dia, hora a hora. É uma outra lógica. A lógica do digital é uma lógica do desafio. Você tem o direito de desafiar quem está acima de você na hierarquia. No exército, você não pode fazer isso. Se você desafiar a hierarquia, você está fora automaticamente.

A ideia de exército é uma ideia que nada tem a ver com a arquitetura das redes. É justamente um tipo de ação que pode ter muito efeito numa eleição, pode ser importante, mas não pode ser uma estratégia de médio e longo prazo. É uma estratégia de curtíssimo prazo. Não vejo como isso poderia continuar após a eleição, a não ser como um canal de transmissão do próprio Janones, porque também o PT não aceitaria esse comando paralelo de alguém que não está submetido à hierarquia do partido.

Agora, pode ser que, do reconhecimento de que a esquerda e o progressismo têm um déficit de organização em relação ao Partido Digital Bolsonarista que isso mude a forma da esquerda e do progressismo se pensarem? Pode... Pode acontecer que essa eleição seja um divisor de águas nesse ponto de vista. A impressão que eu tenho é que isso está acontecendo, que a consciência do grau de organização da extrema-direita está chegando de uma maneira como não tinha chegado antes. Mas pode ser que eu também esteja equivocado, que essa consciência não tenha chegado ainda.

  • E faz tempo que se fala disso, do domínio da direita radical do digital. Por que demora tanto? Tem a ver com uma dependência da esquerda em relação ao PT, que tem uma estrutura partidária tão consistente?

Nobre - É que o PT é muito forte... Mas também a gente acha que faz tempo, mas não faz. O Bolsonaro ganhou a eleição em 2018, faz oito anos só. É pouco tempo. E a gente pode falar de um partido digital bolsonarista consolidado a partir de 2022. Talvez, do ponto de vista da sociedade, da política, do momento que a gente vive, seja muito tempo, mas, do ponto de vista da investigação científica, não é.

O que a gente tentou fazer foi dizer: "Olha, essa organização existe", porque, como ela fica na sombra, você precisa trazê-la para a luz e precisa ser discutida. Isso tem consequências enormes para a democracia brasileira, porque, se a gente for olhar do ponto de vista da organização eleitoral e partidária, isso muda o jogo. A gente precisa discutir isso.

  • Além dessa mobilização digital pela campanha do Lula, também há uma forma antiga de fazer política, que é ir para as ruas. Como o senhor avalia o impacto dessas manifestações diante de uma eleição que se dá tanto no campo digital? Pode ter impacto eleitoral?

Nobre - Não tenho a menor dúvida disso. O Partido Digital Bolsonarista em nenhum momento abre mão de manifestação de rua. Pelo contrário, o que a gente tenta mostrar é que existe uma ligação muito relevante entre o digital e o físico, entre as ruas virtuais e as ruas reais. O Partido Digital Bolsonarista não vive só no digital. Ele vive na comunidade religiosa, na comunidade de bairro, na comunidade de desempregados, na comunidade de mães e pais que estão pensando na educação dos seus filhos.

Do ponto de vista da campanha do presidente Lula, as manifestações de rua são de um tamanho que não se via há muito tempo. Então, isso significa que você conseguiu, de fato, fazer com que haja esse tipo de relação entre a mobilização digital e a presença nas ruas.

A presença nas ruas não é só simbólica. Ela também é um momento em que essas pessoas que estão isoladamente presentes no digital se encontram. E esse encontro não é um encontro só de "estou aqui presente". Elas estão vendo outras pessoas, conversando com outras pessoas, e isso tem um efeito muito importante. E, inclusive, ele volta para o digital.

 

Fonte: BBC News Brasil