quinta-feira, 8 de outubro de 2026

Reynaldo Aragon: O algoritmo venceu

A eleição de 2026 não produziu apenas um Congresso mais conservador. Ela transferiu poder para forças que já demonstraram capacidade de bloquear a regulação das plataformas, fortaleceu no Senado parte do núcleo mais ativo contra limites às Big Techs e entregou à próxima legislatura decisões sobre inteligência artificial, cibersegurança, mercados digitais, data centers e minerais críticos. Por trás de agendas que parecem separadas emerge uma única disputa sobre quem comandará a cadeia que liga o subsolo brasileiro ao algoritmo e, com ela, uma parcela crescente do poder econômico, informacional e político do país.

<><> A noite em que o veto ganhou oito anos

Na noite de 4 de outubro de 2026, uma mudança maior do que a distribuição de cadeiras apareceu no mapa eleitoral. O PL havia elegido 19 senadores e caminhava para iniciar 2027 com 28 dos 81 lugares do Senado. Na Câmara, chegava a 121 deputados. Bia Kicis, Gustavo Gayer e Marcel van Hattem, nomes recorrentes nas disputas contra diferentes formas de regulação digital, passavam da Câmara para mandatos de oito anos. Não era apenas uma vitória partidária. A Casa que revisa leis e participa da escolha de autoridades permanentes do Estado ficava mais favorável às forças que, na legislatura anterior, já haviam mostrado capacidade de bloquear ou retardar limites ao poder das plataformas.

A mudança chega depois de quatro anos em que Lula tentou deslocar tecnologia do lugar de simples mercado para o terreno da soberania. O governo apoiou a regulação das plataformas, defendeu novas regras para inteligência artificial, fortaleceu a proteção de dados, criou incentivos para infraestrutura computacional e colocou minerais críticos dentro de uma política nacional de industrialização. Perdeu a batalha mais ampla do PL 2630, não conseguiu concluir o marco da inteligência artificial nem a regulação concorrencial dos mercados digitais e viu a cibersegurança chegar ao fim do ciclo sem uma arquitetura nacional consolidada. Ainda assim, deixou instrumentos que não existiam ou eram frágeis quando tomou posse, entre eles o ECA Digital, a nova estrutura da ANPD, o Redata e a política de minerais críticos.

O balanço é menos confortável do que parece. Lula conseguiu abrir frentes de soberania, mas não alterou a estrutura de poder que tornou necessárias essas políticas. O próximo ciclo começa com o problema maior e a margem parlamentar menor. O Senado que tomará posse em fevereiro terá entre seus integrantes parlamentares que atravessarão toda a década enquanto o Estado brasileiro tenta decidir quem regula os dados, quem controla a infraestrutura digital, onde fica o valor extraído dos minerais estratégicos e até onde empresas estrangeiras podem determinar as condições do mercado brasileiro.

A eleição de 2026 decidiu tudo isso sem que quase nada disso aparecesse na cédula. A partir de 2027, a soberania tecnológica brasileira será discutida diante de um Congresso mais hostil às formas de regulação que procuram limitar poder econômico, exigir transparência e criar capacidade estatal própria.

<><> A Bancada do Like deixa de ser metáfora

A influência das empresas de tecnologia em Brasília nunca coube perfeitamente no modelo das bancadas tradicionais. Não existe uma porta com o nome Bancada do Like. Existe algo mais eficiente. Frentes parlamentares, associações empresariais, audiências, produção técnica, acesso permanente ao Congresso e parlamentares que, por razões ideológicas ou econômicas distintas, convergem quando a regulação alcança o modelo de negócios das grandes plataformas.

A Frente Parlamentar Mista da Economia e Cidadania Digitais foi registrada em 2023 com 204 assinaturas e reúne parlamentares de quase todo o espectro político. Assinar a frente não transforma ninguém em representante de empresa alguma. O dado relevante está na infraestrutura que se formou ao redor dela. O Instituto Cidadania Digital foi criado por associações do setor para secretariar a frente, depois passou a aceitar empresas diretamente e se transformou no Conselho Digital do Brasil. Em 2026, entre seus associados estavam Amazon, Google, Meta, OpenAI e TikTok.

O PL 2630 mostrou o que essa capacidade significava quando o conflito saiu dos gabinetes. Às vésperas da votação, o Google usou sua própria página de busca para divulgar argumentos contra o projeto. Google e Meta foram investigados pelo Cade diante de denúncias de uso indevido de suas plataformas na campanha. Ao mesmo tempo, parlamentares apresentavam alternativas que retiravam mecanismos de responsabilização e ampliavam a autorregulação. O projeto não chegou ao voto final.

Foi ali que a expressão Bancada do Like deixou de ser apenas provocação. O poder não estava numa ordem centralizada. Estava na convergência. Um levantamento independente da CTRL+Z acompanhou sete disputas regulatórias e identificou mais de vinte parlamentares com pelo menos três ações classificadas como favoráveis aos interesses das grandes plataformas. Treze apareceram em quatro ou mais. Parte desse núcleo sobreviveu intacta à eleição de 2026 e três de seus nomes mais conhecidos chegaram ao Senado.

O PL 4675 confirmou que o padrão não terminou com o PL 2630. O projeto trata de concorrência, permite ao Cade identificar empresas com relevância sistêmica e impor obrigações quando a concentração ameaça o mercado. A Câmara aprovou sua urgência por 276 votos a 186. A lei, porém, não veio. Novas audiências foram abertas, entidades empresariais reagiram e o Conselho Digital passou a atacar pontos centrais da proposta.

É isso que a Bancada do Like nomeia. Não uma conspiração, mas uma relação de forças. As empresas não precisam escrever cada voto. Basta que tenham recursos para produzir conhecimento, ocupar o debate, pressionar, oferecer enquadramentos e tornar certas decisões mais custosas. Quando essa capacidade encontra parlamentares dispostos a transformar a mesma visão em emendas, obstrução e voto, a influência deixa de depender de uma ordem explícita. Ela passa a funcionar como ambiente.

<><> O algoritmo tem subsolo

A imagem mais enganosa da inteligência artificial é a nuvem. Ela sugere leveza, abstração, algo que paira acima da matéria. Na prática, cada resposta produzida por um sistema de IA depende de mineração, metal refinado, semicondutor, servidor, fibra óptica, refrigeração, eletricidade, propriedade intelectual e capital. O algoritmo começa muito antes do código.

Essa materialidade aproxima agendas que Brasília ainda insiste em separar. Cobre, grafita, lítio, níquel e terras raras alimentam baterias, redes elétricas, eletrônica avançada, sistemas militares e infraestrutura computacional. O Brasil possui recursos minerais e energia em escala rara, mas continua dependente justamente das etapas em que se concentram tecnologia, conhecimento e maior valor. Exporta matéria e importa compostos refinados, ligas especiais, ímãs, componentes e equipamentos. Entre a jazida e o chip existe uma cadeia que decide quem participa e quem comanda.

A Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, sancionada por Lula em 2026, tentou atacar essa distância ao incluir beneficiamento, industrialização e agregação de valor entre seus objetivos. O Redata fez movimento semelhante na infraestrutura digital ao criar incentivos para data centers com contrapartidas de pesquisa, desenvolvimento e atendimento ao mercado interno. São políticas importantes. Nenhuma delas, sozinha, altera a posição brasileira na cadeia.

Um data center pode estar no Ceará e continuar subordinado a hardware, software, nuvem, propriedade intelectual e decisões tomadas fora do país. Território não é comando. Da mesma maneira, possuir lítio ou terras raras não significa controlar baterias, ímãs ou semicondutores. A soberania não está apenas no recurso. Está nas etapas capazes de transformar recurso em capacidade de decisão.

O risco brasileiro é repetir no século XXI uma estrutura conhecida. Fornecer minério, energia, água, território e agora dados para depois comprar capacidade computacional, inteligência e decisão na forma de serviço. A dependência digital não substitui a velha divisão internacional do trabalho. Ela pode aprofundá-la.

Por isso, mineração, data centers, inteligência artificial e cibersegurança são partes da mesma disputa. Um Estado que protege dados em sistemas que não controla, executa políticas públicas em nuvens de terceiros e industrializa minerais sem dominar as etapas tecnológicas de maior valor pode ter leis soberanas e continuar materialmente dependente.

A nuvem tem chão. O algoritmo tem subsolo.

<><> Quando a empresa chega acompanhada do Estado

Em 7 de julho de 2026, representantes da Embaixada dos Estados Unidos foram ao gabinete do deputado Aliel Machado, relator do projeto de regulação concorrencial dos mercados digitais. Segundo o parlamentar, pediram o adiamento da votação depois de terem sido procurados por empresas de tecnologia. A embaixada confirmou a reunião e não comentou o conteúdo da conversa. Nenhuma empresa assumiu publicamente ter solicitado a intervenção.

Poucos dias depois, o governo Donald Trump adotou medidas comerciais contra o Brasil ao final de uma investigação baseada na Seção 301 da legislação norte-americana. Entre os temas examinados pelo USTR estava o comércio digital e o tratamento dado no Brasil a empresas de tecnologia dos Estados Unidos. Não há prova de que os dois episódios tenham sido partes de uma operação única. O que importa é o patamar alcançado pela disputa. Regular empresas norte-americanas passou a ter custo potencial na relação entre Estados.

Esse deslocamento revela o que a retórica da tecnologia global costuma esconder. Google, Meta, Amazon, Microsoft e outras gigantes operam no mundo inteiro, mas possuem centros de comando, propriedade intelectual e interesses estratégicos ancorados nos Estados Unidos. Quando esses interesses entram em contenciosos diplomáticos, a tecnologia deixa de parecer desterritorializada. Ela reaparece como instrumento de poder nacional.

É nesse terreno que guerra informacional e operação psicológica deixam de ser sinônimos de notícia falsa. O objetivo mais eficiente é alterar a percepção do conflito. Regulação vira censura. Política industrial vira protecionismo. Controle de concentração econômica vira hostilidade à inovação. O debate se desloca da propriedade da infraestrutura para a liberdade do serviço, do domínio dos dados para a conveniência do aplicativo, da dependência material para a promessa de eficiência.

As plataformas possuem uma vantagem que nenhum lobby clássico teve. Participam da disputa política e controlam parte relevante das infraestruturas por onde a sociedade percebe essa disputa. São empresas privadas capazes de operar serviços indispensáveis ao Estado, organizar fluxos massivos de informação e negociar em escala maior do que a economia de muitos países. A noção de company-state ajuda a entender esse salto sem confundir empresa e governo. O poder surge quando funções materiais antes concentradas no Estado passam a depender de corporações que o próprio Estado tem dificuldade de regular.

O Vale do Silício não precisa governar Brasília. Basta tornar determinadas escolhas soberanas economicamente caras, tecnologicamente difíceis e politicamente minoritárias.

<><> A soberania que chegará ao Congresso em fevereiro

Quando o novo Congresso tomar posse, encontrará decisões que a legislatura anterior deixou abertas e políticas recém-criadas que ainda precisam existir fora do papel. O marco da inteligência artificial continua sem conclusão. A regulação concorrencial dos mercados digitais não virou lei. O Marco Legal da Cibersegurança permanece em tramitação. Redata e a política de minerais críticos ainda terão de provar se conseguem transformar incentivo e recurso natural em capacidade tecnológica brasileira.

Lula passou quatro anos tentando abrir essas frentes num Congresso que já resistia à regulação. Ganhou instrumentos importantes, perdeu batalhas decisivas e deixou uma agenda que dependerá de implementação, orçamento, fiscalização e maioria política. A partir de 2027, a correlação de forças piora justamente quando a disputa deixa o papel e passa a decidir quem controla as estruturas.

O Brasil tem energia, água, território, mercado interno, minerais estratégicos, universidades, empresas públicas e instituições de pesquisa. O que nunca conseguiu resolver de forma permanente foi a passagem entre possuir recursos e controlar as cadeias que transformam esses recursos em poder. A tecnologia torna essa contradição mais severa porque concentra valor justamente onde o país é mais dependente, no processamento, no hardware, na nuvem, nos modelos, nas patentes e no capital.

É nesse espaço entre possuir recursos e controlar a cadeia que o próximo ciclo será decidido. Uma política pode chamar um mineral de estratégico e continuar exportando sua inteligência. Um data center pode gerar investimento e continuar sendo uma extensão física de uma nuvem estrangeira. Uma lei pode exigir proteção de dados e depender de infraestrutura sobre a qual o Estado não possui domínio. Soberania escrita não basta.

O conflito, portanto, não é entre tecnologia e atraso. É entre formas diferentes de inserção tecnológica. Uma aceita que as infraestruturas decisivas do século sejam controladas por poucas corporações estrangeiras e procura negociar condições dentro dessa dependência. A outra tenta usar território, energia, ciência, mercado e recursos naturais para conquistar posições de comando nas cadeias que organizarão informação, indústria e segurança.

O algoritmo não venceu porque uma máquina derrotou a política. Venceu quando relações econômicas construídas ao redor da tecnologia se tornaram fortes o suficiente para condicionar as instituições encarregadas de regulá-las.

A partir de 2027, o Brasil descobrirá se ainda consegue inverter essa relação.

 

Fonte: Viomundo

 

Eleição de 2026: O 1º turno acabou, mas a disputa para definir quem é o “povo brasileiro” está só começando

Ao amanhecer após um dia de votação, a crônica política costuma se apressar em produzir suas tabelas de acertos e erros. Multiplicam-se as análises de gabinete empenhadas em responder às perguntas de sempre: Quem venceu? Quem perdeu? Qual marqueteiro acertou o tom? Qual candidatura errou a estratégia na reta final? Essa aritmética eleitoral, contudo, é insuficiente para apreender a transformação mais profunda que se move por baixo do resultado das urnas.

Tomar o resultado de um primeiro turno apenas pelo prisma da eficiência das campanhas é confundir a febre com a infecção. A eleição não é o ponto de partida para explicar o Brasil; é um sintoma que revela, no momento, o estágio de transformação em que a sociedade se encontra.

>>>> I. Para além das urnas: a eleição como sintoma

Para interpretar o cenário desenhado pelas urnas, é preciso deslocar o eixo da pergunta. O debate relevante não está apenas em saber por que determinado candidato obteve êxito ou naufragou em sua estratégia, mas em formular uma questão sociológica essencial: que sociedade é esta que tornou possível, desejável e representativo esse resultado?

A urna eletrônica registra uma escolha feita em um determinado momento, mas aquilo que ela expressa não foi produzido nos poucos meses de campanha e de propaganda oficial. O voto é o resultado de processos sociais, econômicos, culturais e simbólicos que se acumulam muito antes da abertura das urnas.

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Ele é atravessado pelas experiências concretas do cotidiano, pelas relações de trabalho, pela percepção de segurança e de pertencimento, pelas igrejas, pelas redes sociais, pelas conversas nos aplicativos de mensagem e pelas formas como cada indivíduo interpreta o mundo e reconhece a si mesmo dentro dele.

Por isso, reduzir a eleição ao cálculo das alianças, ao desempenho dos marqueteiros ou ao tempo de televisão é olhar apenas para a superfície de um processo muito mais amplo. A política não se organiza exclusivamente em torno de programas, propostas e interesses materiais.

Ela também mobiliza valores, identidades, afetos, medos, expectativas e formas de pertencimento. O eleitor não escolhe apenas entre diferentes maneiras de administrar o Estado; em determinadas circunstâncias, escolhe também a comunidade política à qual deseja pertencer e a visão de sociedade que reconhece como legítima.

É nesse deslocamento que a eleição deixa de ser apenas um resultado a ser explicado e passa a ser um fenômeno a ser interpretado. O voto do último domingo não revela somente quem venceu ou perdeu uma disputa eleitoral. Ele expõe, ainda que de maneira fragmentária, as fraturas e transformações que atravessam a sociedade brasileira. Para compreender o mapa das urnas, é preciso olhar menos para os candidatos e começar a encarar a sociedade que os produziu.

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>>>> II. O nó do pertencimento: a fratura entre o material e o simbólico

A política não deixou de ser uma disputa entre programas de governo. Mas, para parcelas importantes da sociedade, ela passou a incorporar com força crescente dimensões de identidade, pertencimento, comunidade, reconhecimento e modo de vida. É nesse terreno que aparece um dos paradoxos centrais das últimas décadas: conquistas sociais importantes não foram acompanhadas, na mesma proporção, por uma transformação das estruturas que produzem e reproduzem as desigualdades brasileiras.

Os avanços sociais foram reais. Milhões de pessoas tiveram acesso a direitos, renda, educação, consumo e políticas públicas que alteraram concretamente suas condições de vida. O problema foi interpretar esses avanços como se eles, por si mesmos, fossem capazes de enfrentar as raízes mais profundas do subdesenvolvimento brasileiro.

Melhorar a conjuntura da vida das pessoas não significa, necessariamente, transformar as estruturas que organizam a sociedade. A concentração de renda e patrimônio, a desigualdade territorial, a concentração fundiária, o racismo estrutural, a dependência econômica e a precarização do trabalho continuaram operando, ainda que sob novas formas.

Mudou-se muito na vida cotidiana, mas não se transformou suficientemente a estrutura que produz as desigualdades. E essa contradição teve consequências que ultrapassam a dimensão econômica.

Enquanto se imaginava que a inclusão material seria capaz de consolidar uma nova experiência de cidadania, enfraqueciam-se os espaços coletivos nos quais essa cidadania poderia produzir vínculos, solidariedade e identidade política.

Sindicatos, associações comunitárias, organizações de trabalhadores e bases partidárias perderam parte de sua capacidade de organizar a vida coletiva, pressionados pela precarização do trabalho, pela fragmentação social, pela uberização e pelo individualismo associado à lógica neoliberal.

Não se trata de idealizar essas estruturas nem de supor que tenham desaparecido. Trata-se de reconhecer que se enfraqueceram algumas das instituições que historicamente transformavam indivíduos em sujeitos coletivos.

É nesse ponto que a dimensão simbólica ganha centralidade. A política não se sustenta apenas na entrega de políticas públicas. Ela também precisa produzir vínculos, reconhecimento, identidade e sentido de comunidade. Quando essas formas de pertencimento se enfraquecem, abre-se um espaço que será necessariamente disputado.

E nenhum espaço social permanece vazio por muito tempo.

Na ausência dos laços comunitários tradicionais, o sentimento de desamparo e o desejo de comunidade foram acolhidos por novas estruturas.

Redes de templos neopentecostais, ecossistemas de influenciadores digitais, fóruns em redes sociais e movimentos de reação conservadora passaram a oferecer não apenas um discurso político, mas uma verdadeira comunidade imaginada.

Uma rede de solidariedade concreta, acolhimento espiritual, suporte econômico informal e uma gramática moral capaz de dar sentido ao caos do mundo cotidiano, oferecendo algo que muitas vezes é mais poderoso do que um programa de governo: a sensação de pertencimento a um “Nós” coeso contra o “Eles”.

A força eleitoral de candidaturas tão distintas quanto as de Nikolas Ferreira (jovem articulador das pautas cristãs, conservadoras e antipetistas), Lucas Pavanato (igualmente jovem, alinhado ao antifeminismo e à oposição às pautas identitárias) e Erika Hilton (expressiva voz da população LGBTQIA+, dos movimentos negros e do campo progressista) é altamente simbólica e ajuda a revelar essa transformação. Seus eleitorados não são homogêneos, nem podem ser reduzidos a uma única identidade. Mas suas trajetórias expressam, em campos políticos distintos, a capacidade de transformar identidade, reconhecimento e pertencimento em linguagem de mobilização.

A questão, portanto, não é afirmar que os eleitores deixaram de se preocupar com políticas públicas ou interesses materiais. É perceber que esses elementos passaram a ser interpretados, cada vez mais, a partir de comunidades de pertencimento e de visões de mundo compartilhadas.

Essa reorganização do pertencimento reflete-se diretamente no perfil da representação política eleita. A força de candidaturas tão distintas quanto as de Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Erika Hilton é altamente simbólica e ajuda a revelar essa transformação. Seus eleitorados não são homogêneos, nem podem ser reduzidos a uma única identidade. Mas suas trajetórias expressam, em campos políticos distintos, a capacidade de transformar identidade, reconhecimento e pertencimento em linguagem de mobilização.

Por isso, o que se manifesta nas urnas não pode ser compreendido simplesmente como rejeição às conquistas sociais ou como uma reação irracional a elas. Há algo mais profundo em movimento. Melhoramos a conjuntura, mas não transformamos suficientemente a estrutura. E a estrutura permaneceu produzindo condições sociais, econômicas e simbólicas para que diferentes projetos de sociedade disputassem o imaginário brasileiro.

>>>> III. A batalha pelo imaginário e a invenção do “povo”

Deslocar a leitura da eleição da engenharia partidária para o campo das disputas por identidade e pertencimento conduz a uma questão ainda mais profunda: quem tem o poder de definir o que é o povo brasileiro?

Ao refletir sobre a formação histórica e cultural do país, Darcy Ribeiro mostrou que o povo brasileiro não é uma realidade pronta, anterior à própria história. Ele é resultado de um processo longo, contraditório e violento, no qual povos indígenas, populações africanas e europeias, submetidos a relações profundamente desiguais de dominação, produziram uma sociedade nova, marcada simultaneamente pela mistura e pela hierarquia, pela diversidade e pela desigualdade. A brasilidade, nesse sentido, não é uma essência imutável: é uma construção histórica.

É justamente por isso que a identidade nacional não pode ser tratada como algo neutro ou definitivamente estabelecido. Se o Brasil foi historicamente construído por diferentes povos e experiências, permanece aberta a disputa sobre qual Brasil deve ser reconhecido como legítimo. Quem pertence verdadeiramente à comunidade nacional? Quais valores podem ser apresentados como autenticamente brasileiros? Quem pode falar em nome do povo? E, sobretudo, quem tem autoridade para definir quem pertence ao “nós”?

O imaginário nacional participa diretamente dessa disputa. Ele não se resume a símbolos folclóricos, hinos ou imagens oficiais. É uma estrutura de representação que organiza a maneira como uma sociedade interpreta a si mesma: de onde veio, quais valores considera legítimos, quais ameaças reconhece, quem identifica como parte de sua comunidade e que futuro considera desejável. Disputar o imaginário, portanto, é disputar a própria definição da realidade nacional.

É nesse terreno que parte dos conflitos políticos contemporâneos ganha uma dimensão que ultrapassa programas de governo. Religião, família, pátria, raça, gênero, tradição e moralidade deixam de ser apenas dimensões da vida social e passam a funcionar como marcadores de pertencimento. A disputa já não consiste somente em definir quais políticas públicas devem ser implementadas, mas em estabelecer quais valores podem falar em nome da sociedade e quais grupos podem reivindicar a condição de representantes legítimos do Brasil.

Os símbolos nacionais tornam-se, assim, objetos de disputa. Nossa Senhora Aparecida é um exemplo particularmente revelador. Ao longo da história, sua imagem foi incorporada a diferentes representações da identidade brasileira, inclusive como símbolo de uma sociedade marcada pela diversidade e pela experiência religiosa popular.

Mais recentemente, porém, outros discursos procuram associar a identidade nacional a uma determinada concepção cristã de sociedade, sintetizada em expressões como “Brasil de Jesus”. Não se trata apenas de uma disputa teológica. Trata-se também da tentativa de estabelecer quais valores religiosos, morais e culturais devem ocupar o centro da representação legítima do país.

É nesse contexto que a recuperação contemporânea de expressões como “Deus, Pátria e Família” ganha significado político. O lema, associado historicamente ao integralismo brasileiro, movimento de inspiração fascista dos anos 1930, reaparece ressignificado em novos contextos e linguagens, especialmente no campo conservador brasileiro. O que importa analiticamente não é apenas sua origem histórica, mas aquilo que sua recuperação revela: a tentativa de articular religião, nacionalidade, família e ordem em uma determinada representação do que deveria ser o Brasil. Sob essa lógica, a pátria deixa de ser o espaço comum da pluralidade para se tornar o monopólio de uma maioria moral legítima.

O debate eleitoral, portanto, descola-se das propostas de gestão e atinge o seu núcleo mais inflamável. Quando categorias como religião, raça, classe, família e patriotismo são instrumentalizadas para estipular a “autenticidade” do cidadão, a disputa do primeiro turno revela sua dimensão mais radical: o embate não é mais apenas sobre qual projeto de governo aplicar, mas sobre quem tem o direito de ser e de falar em nome do Brasil.

>>>> IV. Imaginário é poder: a infraestrutura da hegemonia

Constatar que a política se converteu, em parte, em uma disputa pelo imaginário nacional e pelo sentido de pertencimento é apenas metade do diagnóstico. Para não recair em uma leitura idealista da realidade, é preciso dar um passo adiante e reconhecer uma premissa fundamental: imaginários não flutuam no ar. Eles são produzidos, sustentados e difundidos por relações materiais de poder.

Disputar quem é o “povo brasileiro” ou qual moralidade deve reger a nação não é um mero exercício de oratória. Essa disputa exige infraestrutura, financiamento, presença territorial e controle sobre os meios de mediação da vida social. O imaginário é o terreno no qual a hegemonia se constrói, mas a hegemonia depende de uma infraestrutura capaz de fazer determinadas visões de mundo circularem, encontrarem comunidades que as reconheçam e se transformarem em senso comum.

É nesse ponto que a dimensão estrutural do poder aparece em sua forma mais concreta. A pergunta sobre quem tem autoridade para definir o Brasil desdobra-se em outra, talvez ainda mais decisiva: quem dispõe dos meios para fazer essa definição prevalecer? Quem controla ou influencia os canais de comunicação e as plataformas digitais que organizam a circulação das informações?

Quem dispõe de recursos econômicos para financiar redes permanentes de comunicação, produção cultural e formação de opinião? Quem possui presença capilarizada nos territórios e oferece, por meio de igrejas, associações, redes de solidariedade e outros espaços comunitários, não apenas serviços, mas também acolhimento, sociabilidade e sentido de pertencimento? E quem consegue ocupar instituições e espaços de formação de opinião a ponto de transformar valores particulares em referências aparentemente universais?

A questão, portanto, não é apenas quem fala, mas quem consegue ser ouvido, por quem, em quais espaços e com quais recursos. É essa desigualdade na capacidade de produzir e fazer circular sentidos que transforma determinadas interpretações do país em referências dominantes, enquanto outras permanecem restritas, marginalizadas ou invisíveis.

A vitória eleitoral de um projeto de sociedade, nesse sentido, não começa no período oficial de campanha. As urnas registram, em determinado momento, o resultado de processos de socialização política que se desenvolvem muito antes delas. Enquanto a política institucional frequentemente se concentra no calendário eleitoral, nas alianças partidárias e nas disputas imediatas pelo governo, outras formas de organização atuam continuamente sobre a vida cotidiana, articulando recursos econômicos, presença territorial, redes comunitárias, comunicação e tecnologias digitais.

A disputa pelo poder passa, assim, também pela capacidade de construir comunidades, produzir identidades e definir aquilo que parece natural, legítimo ou desejável.

É sob essa perspectiva que o resultado eleitoral não pode ser explicado apenas pela eficiência de uma campanha ou pela escolha racional entre diferentes programas de governo. A eleição expressa também uma disputa anterior e mais profunda pela produção de sentidos: quem consegue oferecer uma interpretação do país na qual determinados indivíduos se reconhecem, quem consegue transformar inseguranças e expectativas em uma narrativa comum e quem consegue estabelecer os limites simbólicos entre o “nós” e os “outros”.

Por essa razão, reconhecer que a política se tornou também uma disputa pelo pertencimento e pelo imaginário não significa abandonar a luta por transformações econômicas e sociais. Significa compreender que não há transformação estrutural duradoura sem disputar também as formas de pertencimento, os vínculos comunitários e os sentidos por meio dos quais uma sociedade interpreta a si mesma. A estrutura produz desigualdades, mas a permanência dessas desigualdades também depende das representações que as tornam aceitáveis, naturais ou inevitáveis.

A eleição passa. O resultado das urnas também. A disputa pelo poder de definir o Brasil, porém, continua no dia seguinte — nos territórios, nas igrejas, nas redes, nas instituições, nas escolas, nos meios de comunicação e em todos os espaços nos quais se produz aquilo que uma sociedade reconhece como seu “nós”. É ali, muito antes da próxima eleição, que continua sendo disputado o direito de dizer o que é o Brasil e quem tem o direito de falar em seu nome.

 

Fonte: Por Maurício Alfredo, em Diálogos do Sul Global

 

 

'Mais um golpe de Estado'? Crescem os temores com as promessas de Flávio Bolsonaro de 'redemocratizar' o Brasil

Flávio Bolsonaro, o favorito da extrema-direita para se tornar o próximo presidente do Brasil , prometeu "redemocratizar" o país sul-americano, aumentando os temores de uma possível guinada para um regime autoritário caso chegue ao poder.

O Brasil foi redemocratizado na década de 1980, após uma brutal ditadura de 21 anos que o pai de Flávio, o ex-presidente Jair Bolsonaro, há muito elogia.

No ano passado, Jair Bolsonaro , um ex-soldado que serviu sob aquele regime militar, foi condenado a 27 anos de prisão por tentar arquitetar um golpe de Estado após perder a eleição de 2022 para o atual presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva.

Flávio, de 45 anos, derrotou Lula, de 80, no primeiro turno das eleições presidenciais de domingo e entra no segundo turno, em 25 de outubro, como favorito. Na terça-feira, o político de direita prometeu capitalizar sobre a presença da extrema-direita, que aumentou consideravelmente no Congresso após as eleições, para mudar a Constituição e “redemocratizar este país”.

“A única coisa que impede o Brasil de se tornar uma barbárie é Flávio Bolsonaro como presidente”, afirmou ele em um evento de campanha em Goiânia, cidade próxima à capital, Brasília.

Os comentários incendiários causaram indignação entre historiadores e opositores do movimento populista radical de Bolsonaro, que o acusaram de se apropriar da linguagem da democracia para disfarçar uma guinada antiliberal.

Talíria Petrone, congressista de esquerda, escreveu no X: “Isto é o anúncio de um golpe de Estado.”

Marcelo Freixo, deputado recém-eleito pelo Partido dos Trabalhadores (PT) de Lula, afirmou: “O Brasil foi redemocratizado em 1988. Quem tentou desfazer isso foi o pai dele, que foi condenado por tentativa de golpe. O que eles querem, mais uma vez, é um golpe.”

Bolsonaro não especificou o que queria dizer com “redemocratizar” o Brasil, uma democracia multipartidária vibrante, embora polarizada, que o instituto V-Dem, com sede na Suécia, classifica em 28º lugar em seu índice de democracia liberal , duas posições à frente do Reino Unido e 23 à frente dos EUA.

Mas Jair Bolsonaro, que já elogiou líderes autoritários, incluindo o ex-ditador chileno Augusto Pinochet, há muito tempo almeja o retorno ao regime militar.

Em setembro passado, o Supremo Tribunal Federal considerou Jair Bolsonaro culpado de tentar convencer chefes militares a ajudá-lo a se manter no poder no final de seu mandato presidencial de 2018-2022. A conspiração culminou nos distúrbios de 8 de janeiro de 2023 em Brasília, uma insurreição de extrema direita aparentemente inspirada pela invasão do Capitólio dos EUA em 6 de janeiro de 2021.

Em artigo publicado no jornal O Globo, Míriam Leitão, renomada jornalista política e econômica, alertou que, caso Bolsonaro vencesse, o Brasil enfrentaria “o perigo extremo e concreto de… outra tentativa de golpe de Estado”.

“Flávio segue as mesmas ideias do pai e já disse que é necessária uma intervenção nas instituições”, escreveu Leitão. “Se Flávio Bolsonaro for eleito, terá mais ferramentas à sua disposição para levar adiante o projeto autoritário do pai: bancadas robustas na Câmara dos Deputados e no Senado, um Supremo Tribunal Federal enfraquecido e o apoio do governo Donald Trump.”

“A ciência política demonstra que é no segundo mandato que um autocrata intensifica seu plano. Veja o caso de Donald Trump. O risco não é o filho repetir o pai, mas sim superá-lo.”

Miguel Lago, cientista político, afirmou que o triunfo eleitoral da extrema-direita no domingo – em que o Partido Liberal (PL) de Bolsonaro garantiu a maior bancada do Senado, com 28 das 81 cadeiras – permitiria mudanças radicais, incluindo o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal considerados inimigos do movimento bolsonarista.

Jair Bolsonaro e seus cúmplices presos provavelmente serão libertados se seu filho vencer as eleições, e espera-se que o ex-presidente se torne um ministro influente, capaz de escolher os novos chefes das Forças Armadas.

“É melhor do que um golpe de Estado… é quase como um golpe de Estado com o apoio da maioria da população”, disse Lago.

Nayib Bukele, o presidente autoritário de El Salvador, foi acusado de "matar" a democracia ao usar o controle sobre o congresso e as instituições do país para aprovar mudanças constitucionais drásticas, incluindo a eliminação dos limites de mandato presidencial para que ele possa buscar a reeleição indefinidamente.

Recentemente, Flávio Bolsonaro se reuniu com o ministro da Segurança de Bukele, Gustavo Villatoro, em São Paulo, elogiando as políticas de segurança linha-dura do país centro-americano, sob as quais milhares foram presos durante um estado de exceção que já dura quase cinco anos.

Bolsonaro disse a repórteres que, durante a conversa, Villatoro “ressaltou a importância” de usar o controle do Congresso para fazer as “mudanças legais necessárias”.

Celso Rocha de Barros, cientista político, afirmou acreditar que, ao usar a palavra “redemocratizar”, Flávio Bolsonaro buscou “disfarçar seus objetivos autoritários em uma linguagem aceitável”.

Barros afirmou que Bolsonaro, ao contrário de seu pai, que sempre pareceu favorecer uma “revolta à moda antiga nos quartéis” para tomar o poder, aparentava fazer parte de “uma nova geração de autoritários” que buscavam desmantelar a democracia por dentro, minando e ocupando as instituições.

“Então você não precisa infringir nenhuma lei para alcançar o autoritarismo… porque você é a lei”, acrescentou Barros, citando o ex-primeiro-ministro de extrema-direita da Hungria, Viktor Orbán, como exemplo. “Claramente, o plano de Flávio é uma corrosão da democracia para que [o Brasil] se torne um sistema no estilo da Hungria ou de Bukele.”

O historiador Danilo Araújo Marques afirmou que a palavra “democracia” já havia sido cooptada anteriormente no Brasil por forças antidemocráticas, quando os militares e políticos por trás do golpe de 1964 chamaram suas ações de “intervenção para democratizar o país”.

“Todos falavam de democracia… [mas] democracia tem um significado diferente na boca de um golpista”, disse Marques, que faz parte de uma unidade de pesquisa da Universidade Federal de Minas Gerais chamada Projeto República.

Marques observou que, durante a campanha, Bolsonaro afirmou que seu oponente octogenário, Lula, representava o passado, enquanto ele vendia o futuro. “Mas esse futuro significa voltar ao que [o Brasil] era antes”, disse Marques. “É um ‘futuro’ baseado na ordem anterior à Constituição de 1988, que é precisamente a ditadura militar.”

Questionado sobre seus planos na quarta-feira, Bolsonaro rejeitou as especulações de que estaria buscando terminar “o que seu pai não fez”. “Vamos parar de mentir. Vamos pousar no mundo real”, disse ele a repórteres, acrescentando: “O Brasil precisa voltar ao normal, só isso”.

 

Fonte: The Guardian

 

Saúde mental: por que investir nos projetos de vida

E se, além de resistirmos, ousássemos sonhar mais?

Quantas vezes, nos Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), os trabalhadores se deparam com situações em que, se houvesse a possibilidade de dispor de um recurso financeiro para fortalecer o Projeto Terapêutico Singular (PTS) e um projeto coletivo, a trajetória de cuidado e de direitos de pessoas e territórios poderia mudar?

Quantas vezes, na construção dos PTS, os trabalhadores já tiveram que abandonar um caminho de cuidado que promoveria o direito ao trabalho com renda e valor social porque isso exigiria um recurso financeiro para, por exemplo, a pessoa se inscrever em um curso de costura ou viabilizar um empreendimento econômico-solidário do CAPS?

Quantas vezes os trabalhadores testemunharam o agravamento de problemas vividos pelas pessoas, tornando o percurso de cuidado muito mais complexo e desafiador, porque a pessoa ficou sem casa? Situações discutidas em reuniões de equipes e que todos ali sabem que, se aquela pessoa tivesse garantido seis meses de aluguel de um quarto, o seu percurso de vida poderia ser completamente diferente.

Para quem acompanha de perto os CAPS, em seu cotidiano e histórias, sabe que um grande desafio é viabilizar os projetos singulares e coletivos. Garantir que a pessoa possa se matricular em uma bela inciativa de um centro de cultura ou construir um projeto coletivo e comunitário que fortaleceria redes sociais demanda muitas vezes de um aporte financeiro – seja para um único pagamento, seja para sustentabilidade do projeto.

E se ousássemos criar condições para isso mudar?

<><> Projeto Terapêuticos Singulares e Territoriais

Primeiro e de maneira muito sintética, é preciso lembrar: os PTS são voltados para a construção de um percurso de cuidado e de cidadania, envolvendo a própria pessoa nessa construção e considerando a sua história e necessidades em seu contexto de vida. A dimensão da projetualidade – por isso “projeto” – é fundamental: o PTS é a ferramenta para projetar sonhos, projetar outros futuros, e projetar caminhos para um objetivo se tornar realidade. E este projeto é singular porque diz respeito àquela pessoa, àquela história, àquelas necessidades que estão relacionadas a uma história de vida, de experiências subjetivas e de relações sociais e afetivas, história de direitos negados e de pertencimentos possíveis, história presente e de futuros projetados.

Sendo assim, nos CAPS, é reconhecendo a singularidade daquela experiência e projetando juntos sonhos que movimentam a vida, que são co-criadas estratégias para essa caminhada, objetivando um percurso de cuidados e de direitos que envolve necessariamente a ampliação de valor social da pessoa e de seu poder de trocas nas relações sociais – a tal contratualidade social –, e isso é terapêutico. E se a vida muda – e ela muda –, o PTS muda também.

Dentre muitas outras coisas que há para se falar sobre PTS, é preciso recordar: este projeto, sendo singular, se realiza em trocas compartilhadas nos territórios de vida, lá onde as pessoas vivem, se encontram e negociam.

Assim, para os PTS se realizarem, é preciso mapear e ativar recursos dos territórios: de associações que oferecem capacitações técnicas para o trabalho à grupos de hip hop para jovens experimentarem pertencimento, de centros de cultura e lazer para atividades, à feiras para viver relações; de espaços para criar um jardim comunitário à quartos para alugar por um preço barato. Ainda, é preciso identificar as pessoas – que também são recursos dos territórios – para construir parcerias e projetos coletivos.

Quando os CAPS desenvolvem projetos para além dos recursos institucionais, se abrem para descobrir que há recursos territoriais se soubermos localizá-los e que é possível colocá-los em rede, fortalecendo o tecido social.

É nesse contexto que faria muita diferença no trabalho dos CAPS dispor de recurso financeiro específico para, fortalecendo cada PTS, sustentar um empreendimento coletivo em uma rede de CAPS, assegurar a ida de uma pessoa usuária de um CAPS a uma exposição de sua obra em outro Estado – uma belíssima conquista que amplia valor social e poder nas relações –, ou garantir que uma pessoa tenha internet em sua casa e, assim, não precise desistir de seu curso de Ensino Superior tão importante para sua vida e que o ingresso foi parte de uma ação de seu PTS.

Parece utopia um recurso assim, ainda mais no momento atual. Mas é realidade em algumas regiões na Itália.

E nós precisamos, além de resistir, saber e sonhar que outras realidades são possíveis.

<><> Os “Budget di Salute” da Itália

O Budget di Salute (ou orçamento de saúde) é uma prática para apoiar projetos de vida em processos de reabilitação psicossocial orientados para a cidadania por meio do investimento em Projetos Terapêuticos Reabilitativos Individuais.

Em sua origem, como conta Franco Rotelli, a proposta é inventada em Palmanova, na Itália, no âmbito da estratégia de reconversão de recursos antes destinados às estruturas manicomiais. Ali, houve a composição dos recursos do terceiro setor com os de mulheres egressas do manicômio para constituir uma pequena cooperativa, do tipo pousada e bar, em uma transição da institucionalização para a autonomia.

Posteriormente, na província de Caserta e sob direção de Rotelli, em uma combinação de recursos, incluindo recursos públicos, foram ativados “orçamentos personalizados”, construindo pequenos empreendimentos sociais para criar respostas às necessidades de cada pessoa, desmontar estruturas de institucionalização e promover emancipação social e econômica.

Esta é a semente do Budget di Salute: tendo como horizonte a cidadania e a construção do bem comum, a despesa pública é reorientada para ser investida em pessoas e territórios, em resposta direta às necessidades de pessoas e coletivos de modo singularizado, ao mesmo tempo individualizando cuidado e promovendo desenvolvimento local. Um exemplo de prática que se desenvolveu com impulso do Budget di Salute é a Nuova Cucina Organizzata, em Nápoles.

A operacionalização do Budget di Salute ocorre de maneira articulada à construção de um Projeto Terapêutico Reabilitativo Individual, que conta com a participação da pessoa. E o investimento do recurso no projeto terapêutico precisa estar articulado, necessariamente, a um de três eixos: formação/trabalho, moradia/casa, sociabilidade/afetividade. Isto é estruturante da proposta porque parte-se do entendimento que o impedimento ao exercício dos direitos à formação, ao trabalho, à renda, à moradia, à participação no cotidiano de uma casa, à sociabilidade e às trocas afetivas é fator determinante para uma piora na situação de vida, incluindo situação de saúde.

Portanto, o Budget di Salute é acionado para (re)construir poder e oportunidades de exercício de direitos nesses eixos, que são cenários da vida real, e isso é feito em articulação com recursos dos territórios, como as cooperativas sociais, fortalecendo tais recursos.

O Budget di Salute é pensado como um instrumento de democratização da negociação de um percurso de cuidado e direitos junto às pessoas. Nos sistemas, requalifica gastos públicos, mobiliza rede articulada de recursos territoriais e transforma o lugar social de pessoas, que passam ser coautores do próprio cuidado e produtores de bens e serviços.

<><> A Rede de Atenção Psicossocial existe porque pessoas existem

Nunca é demais lembrar: os serviços de saúde existem porque pessoas com necessidades reais existem.

Quem olha a Rede de Atenção Psicossocial, a RAPS, com seus variados componentes de atenção e diversos serviços pode imaginar que agora que esta rede está aí o desafio consiste apenas em garantir a sua sustentação e promover a sua expansão. Sim, isso é necessário, mas não basta. Cada um dos componentes e estratégias foram criados para responder às necessidades reais das pessoas que usam ou precisam acessar esta rede. Ou seja, diante da identificação de novas necessidades reais que se apresentam para a construção de percursos de cuidado e de cidadania das pessoas, um novo serviço ou estratégia precisa ser constituído.

Porque é assim que a RAPS foi construída: com ousadia e colocando as pessoas em primeiro lugar.

O raciocínio é mais ou menos assim: porque pessoas estavam segregadas e violentadas em hospitais psiquiátricos e porque era (e é) necessário garantir cuidado, que só existe se for em liberdade, inventamos os CAPS. Porque pessoas foram isoladas e abandonadas em hospitais psiquiátricos por décadas, havendo uma dividida histórica do Estado com elas pela negação de todos os seus direitos, incluindo o de manter viver em comunidade, foram inventados os Serviços Residenciais Terapêuticos.

Agora, para se viver em liberdade e ter condições materiais de participar de espaços de trocas e de negociações, é preciso ter recurso financeiro; não unicamente, mas também considerando isso que era preciso inventar o Programa de Volta para Casa, um auxílio que consiste em um pagamento mensal diretamente ao beneficiário e é uma das conquistas mais bonitas da reforma psiquiátrica. Poderíamos seguir nesse raciocínio passando por cada um dos serviços e estratégias e a lógica será essa.

Claro que a história de criação de uma rede de serviços é mais complexa do que esta síntese, envolvendo movimentos, conflitos e disputas de projetos de sociedade, em um processo político e social crítico que demanda transformação de relações, invenção de práticas e busca por institucionalidades que assegurem o cuidado em liberdade.

O ponto aqui é apenas um: serviços e estratégias não existem por si só, mas foram e precisam ser inventados para responder a necessidades de pessoas, tendo como horizonte a construção de caminhos de liberdade e afirmação de direitos. Por isso a continuidade e expansão da RAPS não é apenas sobre expandir serviços e estratégias já previstas, mas reinventar – na medida da resposta às necessidades reais para melhores condições de vida e dignidade das pessoas – esses serviços e estratégias.

<><> Sem medo de ser feliz

O momento coloca a necessidade de se fazer uma observação: será preciso, primeiro, lutar para que a RAPS siga existindo tal como foi formulada. Os riscos de retrocessos são enormes. É preciso resistir. Em 2016 falávamos que, sem democracia, não existe saúde mental. Os anos seguintes mostraram que sem democracia o manicômio é realidade. Por isso, é preciso sustentar a RAPS.

Mas também não se pode cair na armadilha de fim de mundo, apesar de ser essa a sensação. A reforma psiquiátrica é palco de resistências e reinvenções desde seu princípio.

A reinvenção para ampliar a potência e sustentação da RAPS passa por criar e melhorar as condições para que os PTSs construídos nos CAPS possam se desenvolver. E uma proposta do tipo “orçamento nos projetos de vida” pode qualificar a construção dos PTSs nos CAPS – isso pode se iniciar localmente com um gestor com compromisso democrático. Isso é necessário e está na própria lógica da RAPS.

Um orçamento para os projetos de vida singulares e coletivos, um orçamento dedicado e articulado aos PTSs e projetos territoriais, construídos para construir cuidado e cidadania articulados a eixos que historicamente constituem a proposta de reabilitação psicossocial como cidadania: formação e trabalho com renda e valor social, moradia digna com vivência de pertencimento, e redes sociais e afetivas presentes, reconstruindo em cada um desses eixos o poder das pessoas nas relações sociais.

Uma proposta do tipo também requer pensar a engenharia de financiamento para tal.

Mas não é impossível.

Nesse país ousamos “colocar o pobre no orçamento” e, mais recentemente, “o rico no imposto de renda”. E a vida de milhões de pessoas mudou e poderá melhorar por causa disso. Que em tempos de resistência a gente ouse manter as conquistas obtidas, colocando os projetos de vida no orçamento de saúde mental para uma vida mais digna para todos. E recurso existe, só não estão na RAPS: reconvertendo recursos, é preciso colocar fim ao orçamento para as comunidades terapêuticas e outras instituições de características asilares.

Sim, é tempo de resistir. Mas também é preciso ousarmos sonhar.

 

Fonte: Por Cláudia Braga, em Outra Saúde

 

Hugo Albuquerque: A normalidade foi a grande derrotada e o comunismo um dos vencedores

ontrariando as principais pesquisas, Flávio Bolsonaro largou na frente de Lula no primeiro turno das eleições presidenciais. Para piorar, a extrema direita fez inúmeras cadeiras no Senado e elegeu uma bancada substancial na Câmara. Apesar de tudo isso, no entanto, houve vitórias importantes da esquerda em todo país e, acima de tudo, características comuns desses êxitos, o que nos ajuda a pensar o futuro e a resistir.

Primeiramente, ainda que não fosse o mais provável, o resultado presidencial não foi nada fora da realidade ou impossível de acontecer. O choque com isso, na verdade, diz mais sobre os erros que levaram a essa derrota parcial do que sobre os fatos em si. Qualquer um sabia que a eleição seria disputada, e como os candidatos menores desidratariam na reta final: era possível que os principais candidatos chegassem assim na reta final.

Mas o mais importante foram as vitórias de Elias Jabbour (PC do B) para deputado federal no Rio de Janeiro, Jones Manoel (PSOL) e Renato Freitas (PT) para o mesmo cargo em Pernambuco e Paraná, com Humberto Matos (PC do B) ganhando para deputado estadual no Rio Grande do Sul. De comum entre eles não é apenas a presença nas redes sociais, mas a constância em debates diretos contra a extrema direita e um discurso comunista.

Em Minas Gerais, a surpreendente vitória de Ana Elisa, de 21 anos, foi um raro caso de renovação em partido muitas vezes resistente a isso, como o PT. No mesmo estado, a vitória de Marília Campos, apesar de não ser uma iniciante na política, mostra algo diferente sobretudo por ser uma mulher vencendo e, ainda mais, na contramão da política mineira dos últimos anos.

O que essas campanhas têm em comum com a extrema direita vencedora em tantas campanhas? Certamente, não o conteúdo, mas como elas dialogam organicamente com a realidade como ela se encontra, propondo mudanças e não a velha normalidade – que embora melhor que a distopia apocalíptica do bolsonarismo já não atrai mais ninguém: a maioria dos brasileiros está infeliz com a realidade que temos – e aceita arriscar.

<><> A revolução ainda é o melhor caminho para a crises

Liberais são apegados em demasia à institucionalidade, mas também aos seus velhos vícios. E hoje, depois de terem se tornado quase que totais à direita e à esquerda nas democracias representativas, veem seu castelo de cartas desabar rapidamente: o capitalismo, em seus nada incomuns solavancos, produz fascistas para simularem o papel de revolucionários e, assim, evitarem precisamente uma revolução.

Um corte do liberal Foro de Teresina viralizou recentemente, com o analista Miguel Lago falando que o resultado do primeiro turno brasileiro é expressão de “uma revolução” – e que o problema estaria nas esquerdas por romantizar o conceito. A questão é outra. Não há qualquer revolução em curso, seja no Brasil ou no mundo, inclusive porque a classe dominante continua a mesmíssima.

Por sinal, é o que diz o insuspeito João Moreira Salles, fundador, idealizador e durante muito tempo mecenas da Revista Piauí, da qual o Foro de Teresina é um subproduto. Quem se sentou à mesa com Flávio Bolsonaro não foi uma nova classe, mas a velha burguesia que Salles conhece tão bem – até por fazer parte dela. Quem quer ruptura não são apenas estudantes radicalizados de universidade pública.

O que a extrema direita faz no Brasil não é nada diferente do resto do mundo e, inclusive, muito parecido com a agenda europeia dos anos 1920-1930, quando o fascismo nasce vendendo uma versão dark das revoluções comunistas: o ditador italiano Benito Mussolini não se apresentava como um conservador, mas como um agente da ruptura e da transformação – ainda que fosse para mudar tudo para nada mudar.

Políticos liberais e social-democratas foram pouco capazes de fazer frente ao nazismo na Alemanha pelos mesmos motivos: inclusive porque em momentos de ruptura, setores da direita parlamentar se aliam à extrema direita rapidamente. Cordões sanitários democráticos e frentes amplas ou populares se desmontam em momentos de crise do capitalismo.

O discurso da extrema direita, ainda que explicavelmente incômodo para as esquerdas, traz na forma de mensagens simples uma proposta de ruptura contra uma realidade insuportável — ainda que da forma e pelas razões erradas. Um Lucas Pavanato ou um Nikolas Ferreira vendem a mudança, não a continuidade de uma realidade modorrenta, mas fazem isso jogando com preconceitos, ilusões e ambições. Nada de novo sob o Sol.

<><> Um caminho para o suicídio, outro para a vida

Gerir a normalidade em tempos de ruptura, ainda que pelas melhores razões, é atrair para si a ira difusa das multidões – sobretudo dos mais jovens.  Anos atrás, apontamos nesta mesma Jacobina como o Arcabouço Fiscal, enquanto um instrumento mais racional e ameno do Teto de Gastos de Michel Temer, terminaria descontentando burgueses e trabalhadores, em vez de produzir uma conciliação estável.

Ainda que adotando um discurso favorável ao governo, Elias Jabbour não se furtou de apontar caminhos por meio da utopia concreta da China, seu grande investimento público e sua aposta na ciência – inclusive no célebre debate de 2022 contra a economista neoliberal Renata Barreto, com mais de 4 milhões de views até hoje, e que abriu o caminho para outros debates icônicos de comunistas contra a extrema direita.

Jones Manoel, que já possuía uma dimensão gigantesca nas redes sociais, com comentários sobre política e análises sobre marxismo, também se tornou presença constante nesses debates e, assim, furou mais e mais bolhas – vencendo uma eleição bem difícil em Pernambuco, até pela necessidade de precisar fazer os votos da sua federação partidária praticamente sozinho.

É possível apontar que Jabbour e Jones – só pra ficar nesses dois exemplos – possuem personalidades muito diferentes – assim como estilos de comunicação quase opostos – e, ainda por cima, usem de táticas inclusive diferentes perante a conjuntura em que vivemos. Contudo, ambos lançam mão de um discurso de que as coisas devem mudar e é preciso seguir novos caminhos em termos de sistema – longe do discurso usual tolerado ou estimulado pelos liberais.

Grande parte desses mesmos liberais, ou aqueles que são coniventes com eles, estão em uma certa paralisiam justamente porque entre perder ou ousar romper, eles optam pela primeira posição. Nada estranho às reflexões sobre o realismo capitalista que Mark Fisher esboçou tão bem há alguns anos – e onde esses setores terminam viciados, restando incapazes de imaginar outra coisa a não ser alguma forma de capitalismo, ainda que mais humano.

Diante disso, o que esperar do segundo turno que nos aguarda? Basicamente, é possível que Lula vire, embora seja difícil. Isso, entretanto, não é qualquer mensagem de auto-ajuda: nem uma vitória, nem uma derrota muda o fato de que é preciso mais organização e mobilização e, acima de tudo, que elas apresentem um novo horizonte e uma superação do sistema em que vivemos.

Nada disso deveria ser uma novidade. A ascensão do PT se deu justamente por eventos disruptivos, que desafiavam os ritos e costumes das esquerdas dos anos 1970. É isso que alçou Lula à posição de liderança e futuramente presidente. Talvez não seja possível contar com uma epifania de Lula sobre isso. Mas é preciso organização e auto-organização agora contra o fascismo e depois em relação à normalidade falida, que serviu de armadilha nos últimos anos.

¨      Quais as chances de Lula obter virada histórica no 2° turno

Segundo colocado no primeiro turno das eleições deste ano, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) enfrenta o duro desafio de obter uma virada histórica nas urnas. Desde a redemocratização, nunca houve uma mudança desse tipo no fim da corrida presidencial.

Lula tem um ponto a favor quando comparado a candidatos que também terminaram o primeiro turno em segundo lugar anteriormente: ele encerrou essa fase da disputa presidencial com 2,2 milhões de votos a menos do que Flávio Bolsonaro (PL), uma diferença de 1,9 ponto percentual. É a menor diferença entre dois candidatos à Presidência no primeiro turno desde 1989, quando o Brasil voltou a ter eleições presidenciais diretas.

"Embora nunca tenha havido uma virada de segundo turno em eleições presidenciais no Brasil, também nunca houve uma diferença tão pequena", avalia o cientista político Leonardo Martins Barbosa, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap).

Para especialistas ouvidos pela reportagem, o presidente tem uma "missão improvável" pela frente. "Mas não é impossível", destaca o cientista político Creomar de Souza, professor da Fundação Dom Cabral.

Afinal, Lula atualmente tem uma situação mais favorável que segundos colocados de disputas anteriores?

<><> Os percalços do segundo lugar

A pouca diferença entre os primeiros colocados na disputa é um item destacado pelos especialistas ao avaliar aspectos positivos no segundo turno para Lula. Outro ponto é o recorde de abstenção, que alcançou 33,4 milhões de eleitores, o equivalente a 21,08% do eleitorado apto a votar.

"Em termos numéricos, o Lula está com vantagem [em comparação a eleições anteriores], porque ele tem, por exemplo, uma diferença muito menor do que o Jair Bolsonaro tinha dele no primeiro turno em 2022. Mas talvez seja a única diferença. Lula e Bolsonaro foram mandatários que estavam no poder, mas nenhum conseguiu se projetar à frente na disputa", diz a cientista política Luciana Fernandes Veiga, da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (Unirio) e da Fundação Getulio Vargas (FGV).

O atual cargo de presidente pode ser um diferencial na busca da vitória no segundo turno para Lula, avalia Barbosa. "Ele tem o uso da máquina, e vimos que isso pode ser um fato relevante mesmo em tempos digitais. Em 2022, por exemplo, o ex-presidente Jair Bolsonaro conseguiu diminuir significativamente a diferença para o Lula, que então estava na oposição, fazendo isso ao longo do segundo turno."

A força que Flávio demonstrou nas urnas, diz Barbosa, dificulta o futuro de Lula na Presidência do país. "O Flávio teve um desempenho acima do esperado. Terminou na frente do Lula. Vindo como candidato da oposição, ele está demonstrando uma força enorme. E eu penso que não apenas o desempenho dele foi melhor do que o do pai em 2022, como a direção geral das eleições está mostrando o crescimento do bolsonarismo no país."

O atual presidente tem poucos dias para mudar o cenário a seu favor, lembra Souza. "Qual é a dificuldade nesse processo? É que, basicamente, precisa ser feito em um espaço de tempo muito curto, de menos de 20 dias, para a campanha alcançar grupos que não alcançou até aqui ou que, em algum sentido, foram suavemente perdidos durante esse primeiro turno."

<><> O fator abstenção

A abstenção é citada por especialistas como uma possível esperança de melhora no desempenho de Lula no segundo turno. Mas parte dela também pode migrar para o adversário do petista.

"Esse nível de abstenção significa dizer que você tem alguma esperança, porque tem um estoque de votos alto. Lembrando que o Flávio também vai potencialmente ter um número maior de votos", diz Souza.

O apoio daqueles que não votaram é parte das metas dos candidatos no segundo turno. "Eu não acho que a abstenção seja tão fácil de tocar via campanha de um candidato, porque ela é histórica. As pessoas sabiam dos candidatos, elas já passaram por esses embates antes e podem ter, por diferentes motivos, decidido se abster", ressalta Veiga.

A cientista política não acredita que haverá mudança considerável na ausência de eleitores no segundo turno. Na eleição presidencial passada, por exemplo, a diferença de abstenção foi pouca: caiu de 32,7 milhões de eleitores no primeiro turno (20,95%) para 32,2 milhões no segundo (20,59%).

<><> O apoio de ex-adversários

Uma estratégia tradicional no segundo turno é buscar o apoio de candidatos derrotados, para tentar ampliar a coalizão política e alcançar parte do eleitorado. Neste ano, porém, os candidatos Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão), que obtiveram respectivamente 2,89% e 2,24% votos, disseram que não vão apoiar nem Lula e nem Flávio.

Já Ronaldo Caiado (PSD), que obteve 2,18%, e Romeu Zema (Novo), que obteve 0,27%, manifestaram apoio ao bolsonarista. Os especialistas avaliam que, enquanto os nomes de Caiado e Zema podem ajudar a fortalecer a candidatura de Flávio, as ausências de Cury e Santos podem favorecer Lula.

"Ao não ter a dinâmica de que são todos contra o Lula, o Lula pode dizer: ‘Olha, o Flávio não é um candidato tão bom à direita, porque, se ele fosse bom mesmo, esses outros caras que estão se colocando como direita estariam no palanque dele'", afirma Souza.

Já Veiga avalia que os eleitores de Renan e Cury têm tendência a seguir com o filho de Jair Bolsonaro. "Eleitores de Caiado, Cury e Santos escolheram não votar em Flávio no primeiro turno, aproveitando o sistema de dois turnos: no primeiro, vota-se em quem se vê representado. O voto útil, para evitar o que mais se rejeita, fica para o segundo. Ao final, dizem: ‘Nem Lula nem Flávio são meus preferidos'. Muitos, no entanto, já sabiam que, em um segundo turno, tenderiam a votar em Flávio, pela proximidade ideológica."

Para ela, o primeiro turno presidencial deste ano vai muito além de 1,9% de diferença de votos entre Lula e Flávio. "Não são apenas 2,2 milhões de votos a menos para Lula. O PL elegeu 121 deputados federais e 19 senadores. Foi uma vitória muito avassaladora para reduzirmos a análise a esses 2,2 milhões de votos", afirma.

 

Fonte: Jacobin Brasil/DW Brasil