quinta-feira, 23 de abril de 2026

O 'Super El Niño' está chegando?

Talvez você tenha encontrado recentemente notícias sobre um "Super El Niño", que pode estar vindo na nossa direção ainda este ano. Em algumas menções, ele chega a ser chamado de "El Niño Godzilla".

Um evento típico de El Niño normalmente eleva as temperaturas globais e traz mais tempestades tropicais para algumas regiões e condições mais secas para outras.

Por isso, quando falamos em um fenômeno particularmente forte, é compreensível que surjam preocupações a respeito.

Mas cientistas climáticos declararam à BBC que é preciso ter cautela em relação a essas previsões.

Atualmente, existem incertezas sobre qual poderá ser a gravidade do evento e, por isso, não se sabe até que ponto ele poderá afetar os padrões climáticos do planeta.

A cientista atmosférica Kimberley Reid, da Universidade de Melbourne, na Austrália, descreveu a expressão "El Niño Godzilla" como "um absurdo".

"Ouvi meteorologistas australianos dizerem que agricultores entraram em contato com eles, muito preocupados com esta expressão", contou ela à BBC.

"Eles acham que irão sofrer uma grave seca, prejudicando sua subsistência. Esta expressão pode ser muito alarmante para pessoas que podem ser seriamente afetadas pelo impacto do El Niño."

<><> O que é o El Niño?

O El Niño e seu homólogo La Niña são dois estados opostos de um fenômeno climático natural, chamado El Niño Oscilação Sul (ENSO, na sigla em inglês).

Eles não necessariamente se alternam e costumam ser identificados pelas temperaturas da superfície do mar na parte central e oriental do oceano Pacífico. Durante o El Niño, estas águas são mais quentes; e, no caso do La Niña, elas ficam mais frias.

Esses fenômenos costumam ocorrer a cada dois a sete anos e normalmente duram de nove a 12 meses. Mas podem permanecer por mais tempo.

O último La Niña ocorreu entre 2024 e 2025. No momento, as condições no Pacífico são "neutras". Não temos nem El Niño, nem La Niña.

Nem todos os eventos são iguais e suas consequências variam entre diferentes regiões e épocas do ano. Mas os cientistas já observaram alguns efeitos em comum.

As consequências mais claras do El Niño são normalmente encontradas em locais próximos das águas incomumente quentes do oceano Pacífico.

Países do lado oeste do Pacífico, como a Austrália, a Indonésia e as Filipinas, costumam ficar mais secos que o normal. Com isso, secas e incêndios florestais podem causar problemas sérios na região.

Já no outro lado do Pacífico, países sul-americanos como o Peru e o Equador podem vivenciar tempo muito mais úmido, gerando enchentes.

Mas o El Niño também pode trazer consequências muito mais profundas. Ele pode enfraquecer as monções na Índia e causar intensas chuvas de inverno no sudoeste dos Estados Unidos.

<><> Super El Niño?

No dia 9 de abril, o Centro de Previsão Climática dos Estados Unidos afirmou que há 61% de possibilidade de surgimento do El Niño entre maio e julho, persistindo pelo menos até o final de 2026. E destacou que a possibilidade de um evento "muito forte" é de apenas 25%.

Tim Stockdale, do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas a Médio Prazo (ECMWF, na sigla em inglês), afirma que a expressão "Super El Niño" é relativamente nova para ele.

"As pessoas criaram isso, eu acho, para indicar um evento El Niño muito grande, como os que vimos em 1997-98 ou 2015-16, quando as anomalias ultrapassaram cerca de 2 °C, digamos, na região central do Pacífico", declarou ele ao Serviço Mundial da BBC.

Os modelos atuais indicam que é provável a ocorrência de um El Niño moderado, segundo Stockdale, e alguns apontam que é possível que ocorra um evento forte.

Ele destaca que existem inúmeras possibilidades, dependendo de condições imprevisíveis como o vento.

Kimberley Reid explica que a força do El Niño não se reflete, necessariamente, na escala dos impactos resultantes em toda a parte.

Ela destaca que lugares como o continente americano, próximo à água mais quente do Pacífico, podem ser mais afetados. Mas, para lugares como a Austrália, a Ásia e a África, "temperaturas acima do normal em 0,5 °C, 1 °C ou 2 °C naquela região do Pacífico têm menos importância que a ocorrência ou não do El Niño por ali."

Para Reid, é importante observar diversos fatores que podem influenciar o clima de uma região específica.

"Quando nos concentramos apenas no El Niño, não temos toda a história", explica ela.

"Gosto de comparar isso com o IMC, o índice de massa corporal. Se você observar o IMC de um fisiculturista, provavelmente dirá que ele é obeso, mesmo tendo percentual de gordura muito baixo."

<><> Não há garantias

Nem sempre as previsões se materializam. Em 2017, por exemplo, elas apontavam para a ocorrência de um El Niño, que causaria, portanto, aquecimento das águas do Pacífico.

Com o passar do tempo, contudo, as condições se reverteram e o que se acabou observando foi a emergência de um La Niña.

Kimberley Reid afirma que "previsões fracassadas" como essa são muito raras, mas destaca que "mesmo quando todos os modelos indicam uma probabilidade elevada... isso não significa que irá necessariamente acontecer".

"A história nos orienta a ter cautela com as previsões de março e abril, mesmo se elas aparentarem ter alto nível de confiança", destaca ela.

A dificuldade de se prever o El Niño no período entre março e maio tem até um nome: "barreira de previsibilidade da primavera", no hemisfério norte, ou "do outono", no hemisfério sul.

Stockdale escreveu, no site do ECMWF, que as previsões precoces "costumam chamar a atenção", mas não garantem resultados específicos.

"É importante compreender onde a confiança é justificada e onde há incertezas, para interpretar com responsabilidade as manchetes atuais sobre o El Niño", explica ele.

Reid aconselha às pessoas "relembrar que frases como 'El Niño Godzilla' terão muito mais cliques do que 'El Niño meio que incerto nesta época do ano'". Ela destaca que é preciso aguardar até perto de maio ou junho, antes de dar muita importância às previsões.

"Estamos observando eventos climáticos extremos com maior frequência devido às mudanças climáticas. É importante ficarmos atentos ao que poderá acontecer e nos prepararmos para isso fazendo o melhor possível para reduzir nossas emissões e diminuir a probabilidade desses eventos extremos", conclui Reid.

 

Fonte: Por Catherine Heathwood, do Serviço Mundial da BBC

 

Sem segredos na consulta: veja 7 omissões que podem afetar a saúde

Em uma consulta médica, o silêncio pode ser tão perigoso quanto um diagnóstico errado. Omissões — como esquecer de mencionar um sintoma, minimizar um hábito ou não comentar dificuldades com o tratamento — podem distorcer exames, confundir o raciocínio clínico e atrasar tratamentos.

Embora muitas dessas situações pareçam inofensivas, elas têm impacto direto na tomada de decisão médica. Isso porque grande parte do diagnóstico se baseia na história clínica relatada pelo paciente. Quando ela é incompleta, o profissional pode interpretar sinais de forma isolada, sem acesso ao contexto necessário para uma avaliação mais precisa.

Uma comunicação clara com o profissional de saúde ajuda a montar o quebra-cabeça do diagnóstico de forma correta e propor tratamentos mais assertivos. A seguir, conheça alguns dos casos mais comuns no consultório e por que podem custar caro.

1. “Estou tomando certinho”

Não tomar o remédio como prescrito é uma das omissões mais comuns — e perigosas. “É muito frequente o paciente afirmar que toma a medicação corretamente, mas quando conversamos com mais calma percebemos esquecimentos frequentes, pausas no tratamento ou mudanças de dose feitas por conta própria”, relata o cardiologista Murilo Meneses Nunes, do Einstein Hospital Israelita em Goiânia.

Quando isso ocorre, o médico pode concluir que a doença piorou ou que o tratamento não funciona, levando a troca de medicamentos, aumento de dose ou exames desnecessários. “Quando essa informação não aparece, o raciocínio clínico pode seguir um caminho errado”, alerta Nunes.

Em alguns casos, o impacto vai além. “Falhas no uso de anti-hipertensivos podem elevar de 20% a 30% o risco de infarto ou AVC [acidente vascular cerebral] ao longo do tempo”, exemplifica o cardiologista Angelo Amato Vincenzo de Paola, docente da Escola Paulista de Medicina da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

>>> 2. “Tá tudo bem com o tratamento”

Muitos pacientes não contam que discordam do tratamento, seja por custo do medicamento, medo dos efeitos colaterais ou dificuldade de seguir os horários. O resultado costuma ser um abandono silencioso.

“Se o médico não tem acesso a essas dificuldades, pode interpretar que o tratamento não está funcionando e acabar modificando a conduta sem perceber que a principal barreira era a adesão”, alerta o médico do Einstein. Com o tempo, isso afeta o controle de doenças e aumenta o risco de complicações.

Por isso, é importante que o paciente se sinta à vontade para dizer quando algo no plano estabelecido pelo profissional de saúde não está funcionando. Muitas vezes, existem alternativas ou ajustes que tornam o tratamento mais simples e viável.

>>> 3. “Minha rotina é saudável”

Será? Alimentação ruim, sedentarismo, sono inadequado e consumo de álcool, outras drogas ou cigarro são frequentemente minimizados. Quando essas informações não aparecem na consulta ou são diminuídas, o médico pode interpretar um exame alterado sem entender o contexto real que gerou aquele resultado. E o paciente perde a oportunidade de entender melhor sobre os impactos daquilo na saúde.

O consumo de álcool, tabaco e outras substâncias pode alterar o metabolismo de medicamentos, aumentar efeitos adversos ou modificar a resposta ao tratamento. Omitir o hábito de fumar, por exemplo, pode também interferir nos cálculos de risco cardiovascular. “De dois a cinco cigarros por dia aumentam em 20% o risco de arritmias e em 50% o de insuficiência cardíaca”, alerta o professor da Unifesp.

Todos esses hábitos estão associados a uma série de doenças crônicas e podem modificar o risco global do paciente. Quando o médico desconhece esse contexto, pode escolher um tratamento que não seja o mais adequado para aquela realidade.

>>> 4. “São só coisinhas bobas”

Muitas doenças crônicas se desenvolvem lentamente e com sintomas iniciais discretos. Informações como histórico familiar, alterações no peso, fadiga persistente, mudanças no sono, sede excessiva ou episódios ocasionais de mal-estar podem parecer detalhes isolados, mas ajudam a orientar o raciocínio diagnóstico.

“Quando essas informações não aparecem, o médico pode não perceber sinais iniciais que justificariam investigação mais aprofundada. Isso pode atrasar o diagnóstico e, consequentemente, o início do tratamento”, adverte Murilo Nunes.

>>> 5. “Prefiro não comentar algo tão íntimo”

A vergonha ainda é um grande filtro no consultório, mas ela pode levar a atraso em diagnósticos. Escape de urina, diarreia frequente ou problemas nas relações sexuais podem parecer desconectados da queixa principal, mas muitas vezes são sinais importantes de diversas condições médicas.

“Alterações intestinais persistentes, sintomas urinários, dor nas relações sexuais ou disfunção erétil podem indicar desde alterações hormonais e metabólicas até problemas urológicos, ginecológicos, neurológicos ou psicológicos”, afirma Nunes. Em alguns casos, também podem estar associados a efeitos colaterais de medicamentos. Doenças cardíacas e diabetes, por exemplo, podem desencadear a disfunção erétil.

Quando o paciente evita falar sobre isso por constrangimento, o médico perde uma informação que poderia direcionar a investigação. Além disso, esses sintomas frequentemente têm impacto importante na qualidade de vida, nos relacionamentos e na saúde mental. Ao não serem abordados na consulta, os pacientes continuam lidando com o problema sem orientação adequada.

>>> 6. “É só um chá/suplemento”

Muitos pacientes não mencionam chás, fitoterápicos, suplementos e fórmulas manipuladas porque acreditam que não são relevantes ou que são produtos sem risco. O problema é que essas substâncias podem interagir com outros medicamentos ou alterar exames laboratoriais.

Também podem conter hormônios, estimulantes ou até substâncias com efeito metabólico importante. Se o médico não sabe que o paciente está usando esses produtos, pode atribuir alterações laboratoriais a outras causas e acabar conduzindo a investigação de forma menos precisa.

>>> 7. “Meus outros tratamentos não são importantes”

Sem acesso à lista completa de medicamentos em uso, o médico pode prescrever fármacos semelhantes ou da mesma classe terapêutica sem perceber. Isso pode levar à duplicidade de tratamento, além de elevar o risco de efeitos adversos e atrapalhar a análise de determinados sintomas ou alterações em exames.

<><> Como ter uma consulta mais eficiente

Preparar-se para a consulta ajuda a extrair o melhor daquele momento. Uma estratégia simples e eficaz é montar um “relatório pessoal”, anotando os sintomas que vêm sendo percebidos, quando começaram, com que frequência aparecem e se existe algo que parece piorar ou aliviar o quadro. Também é fundamental levar uma lista completa e atualizada de todos os medicamentos em uso, incluindo vitaminas, chás, suplementos e fórmulas manipuladas.

Ter em mãos exames anteriores e registrar previamente as principais dúvidas ajuda a tornar a conversa mais objetiva e produtiva. Durante a consulta, é importante se sentir à vontade para abordar até os temas mais delicados. Se algo causa vergonha, vale sinalizar isso ao médico para abrir espaço ao diálogo.

Não tenha receio de dizer que não entendeu termos técnicos e explicações confusas. A honestidade sobre hábitos de vida e discordância do tratamento proposto é outro ponto essencial. “O objetivo não é julgar o paciente, mas compreender o cenário real de saúde para tomar decisões mais seguras”, resume o cardiologista do Einstein em Goiânia.

 

Fonte: Agencia Einstein

 

Gilberto Lopes: Venezuela, Cuba, Oriente Médio – a desordem do mundo

Saio de casa de manhã e encontro-o ao dobrar a esquina. O menino dorme à beira da calçada. Um cobertor vermelho separa-o do chão de cimento. A mãe, enrolada na bandeira da Venezuela, pede ajuda aos carros parados no semáforo. Como esse menino verá o mundo quando acordar no chão da calçada? O que pensará? Não seria de estranhar que tenha sonhado em ter algo para comer. Talvez algo saboroso.

No dia 1º. de maio do ano passado, Valentina Oropeza publicou, no BBC Mundo, uma entrevista com o economista Omar Zambrano sobre as conclusões do estudo intitulado “Crise econômica e o colapso do acervo de capital humano venezuelano”. Omar Zambrano afirma que o pior da crise foi a hiperinflação. Entre 2015 e 2017, ninguém queria trabalhar porque o salário não valia nada.

Os dados são avassaladores; a desordem, enorme: “A Venezuela perdeu 75% do tamanho de sua economia entre 2013 e 2021. Uma das contrações econômicas mais severas registradas na história moderna. Pelo menos 7,7 milhões de pessoas emigraram na última década”, afirma.

“A desvalorização dos salários e a onda migratória levaram mais de 4 milhões de pessoas em idade ativa a abandonar o mercado de trabalho, incluindo os trabalhadores mais jovens, mais qualificados e com maior experiência”.

<><> Venezuela – a desordem do mundo

Será parte desse grupo a família que agora pede ajuda nas ruas de San José? Na entrevista, não há uma única palavra sobre as causas desta desordem. A jornalista também não pergunta. É preciso procurar a informação em outras fontes. Por sorte, elas são abundantes. Quem quiser saber tem à sua disposição todo tipo de informação, das mais diversas fontes.

“Desde o início, o governo de Hugo Chávez enfrentou ações imperialistas destinadas a destituí-lo. O governo dos Estados Unidos sempre apoiou política e financeiramente as tentativas da direita venezuelana de derrubá-lo, começando pelo golpe de Estado de abril de 2002 e pelo bloqueio empresarial do petróleo que praticamente paralisou o país durante dois meses entre 2002 e 2003”, afirmou o sociólogo venezuelano Edgardo Lander. Chavista no início do processo, hoje está mais próximo da oposição liderada por María Corina Machado.

Como pode um país ter um desenvolvimento político “normal”, em que cada setor tenha a representação que lhe corresponde, se um setor é subjugado pelas pressões de Washington, enquanto o outro conta com todo seu apoio? É impossível.

O desequilíbrio que isso gera distorce o cenário político, provocando, como no caso da Venezuela, todo tipo de desordem. Primeiro, a econômica, com suas repercussões dramáticas, incluindo a migração, de que tanto se queixa Donald Trump. Mas também a política. Como se pode pretender a realização de “eleições livres” com um setor submetido às maiores pressões econômicas e políticas, que lhe tornam impossível governar? E se a oposição vence, essa vitória não representa um equilíbrio político interno, mas o resultado do desequilíbrio provocado pela intervenção estrangeira.

A intervenção dos Estados Unidos na Venezuela tem sido permanente. Desde o final do século passado, como já vimos. Em 2017, pouco antes de deixar o poder, o presidente Barack Obama renovou a declaração abusiva de que a Venezuela constitui uma “ameaça inusual e extraordinária à segurança nacional e à política externa dos Estados Unidos”. Posteriormente, Donald Trump, em seu primeiro mandato, ampliou o bloqueio financeiro à Venezuela, estendendo-o para além dos Estados Unidos.

Em fevereiro de 2021, a relatora especial das Nações Unidas sobre os efeitos das sanções à Venezuela, Alena Douhan, apresentou um relatório detalhado sobre os efeitos dessas medidas: “As sanções unilaterais impostas cada vez com maior frequência pelos Estados Unidos, pela União Europeia e por outros países agravaram os problemas”, afirma. As receitas do governo “diminuíram 99%, e atualmente o país vive com apenas 1% das receitas anteriores às sanções”.

Este não é um trabalho sobre a economia venezuelana e não pretende, portanto, debater as diversas interpretações sobre as causas e as origens de seus problemas. Nosso interesse é outro: mostrar a desordem que a intervenção estrangeira – principalmente norte-americana e europeia – provoca na vida dos venezuelanos e no funcionamento das instituições do país.

Em abril de 2019, Mark Weisbrot e Jeffrey Sachs expuseram, num trabalho sobre “Economic sanctions as collective punishment: the case of Venezuela”, as consequências dessas políticas: “Constatamos que as sanções infligiram, e seguem infligindo cada vez mais, danos muito graves à vida e à saúde humanas, incluindo uma estimativa de mais de 40 mil mortes entre 2017 e 2018”, afirmaram.

É impossível imaginar desordem maior. Não é necessário alongar-nos aqui sobre os efeitos desastrosos das sanções na vida política e econômica do país, nem sobre a população venezuelana.

<><> Cuba – a desordem do mundo

A desordem mais escandalosa na América Latina é a provocada pelo embargo a que Cuba está submetida há mais de 60 anos.

Outra vez, como se pode pretender um desenvolvimento político “normal” – em que cada força política interna tenha a representação que lhe corresponde – se o governo está submetido a sanções que, em qualquer outro caso, não teriam permitido a nenhum governo da região sobreviver mais do que alguns meses?

Não foi assim no caso de Cuba. Também não vou discutir aqui se o governo acertou sempre. Mas é evidente que acertou no fundamental, de modo que nem as sanções norte-americanas, nem o fim do mundo soviético, no qual estava profundamente inserido, significaram a queda do governo.

É inútil atribuir isso à repressão. Sabemos muito bem (e os casos latino-americanos são prova disso) que nenhuma repressão, por si só, explica essa resistência. Sugiro que as transformações realizadas são a base da explicação, apesar da desordem monumental que as sanções provocam na vida dos cubanos.

Em 2024, o governo de Cuba apresentou à Assembleia Geral das Nações Unidas um relatório sobre os efeitos do bloqueio econômico, comercial e financeiro a que está submetida, condenado nesse ano por 187 países, com apenas dois votos a favor: o dos Estados Unidos e o de Israel.

Só entre março de 2023 e fevereiro de 2024, o bloqueio representou perdas para a ilha de pouco mais de cinco bilhões de dólares. O relatório cubano estima, em dólares correntes, em mais de 164 bilhões os danos causados por mais de seis décadas de sanções. Atualizado, o número é de 1,5 trilhão de dólares. É fácil imaginar a desordem que sanções como essas causam a qualquer economia.

O resultado é que o país nem sequer é capaz hoje de manter em funcionamento um sistema elétrico indispensável para sua economia, hospitais e escolas, e para que os cubanos possam manter as geladeiras funcionando em suas casas.

A intervenção estrangeira gera uma desordem extraordinária que torna impossível um desenvolvimento político interno “normal”, que reflita o peso real de cada setor na vida política do país.

Se a oposição conta com o apoio tão formidável de Washington, como pedir ao governo cubano que jogue como se o campo estivesse nivelado? Como pedir-lhe eleições “livres”, se durante 60 anos o governo nunca conseguiu desenvolver um projeto sem sabotagem externa.

<><>  A desordem na América Central

A história da América Central – talvez com exceção da Costa Rica – é um bom exemplo dos resultados dessas intervenções. Um caso especial é o da Guatemala, onde um golpe de Estado promovido por Washington, em 1954, fortaleceu os militares, desarticulou a vida política do país, marginalizou a população indígena majoritária e interrompeu o desenvolvimento normal de reformas que os proprietários norte-americanos das plantações de banana no país não estavam dispostos a aceitar.

A desordem provocada por esse golpe repercute até hoje. O ministro das relações exteriores do governo deposto de Jacobo Arbenz, Guillermo Toriello, conta essa história num livro notável, “A batalha da Guatemala”, texto indispensável, mas difícil de conseguir hoje em dia. De qualquer forma, um texto mais recente, do jornalista norte-americano Stephen Kinzer, ex-correspondente do New York Times na América Central (e em muitos outros países), conta essa história em “Bitter Fruit: The Story of the American Coup in Guatemala”, publicado em 2005.

Stephen Kinzer também escreveu sobre a guerra na Nicarágua – “Blood of Brothers”, publicado em 1991 –, onde a intervenção norte-americana alimentou a guerra contra a revolução sandinista que, além dos milhares de mortos e da desordem provocada nos programas de desenvolvimento do país, acabou por se resolver em eleições nas quais os nicaraguenses foram avisados: se a oposição não ganhasse, os Estados Unidos manteriam a guerra contra um país já exausto e sangrando.

A oposição venceu, mas a desordem política criada por essa vitória mantém-se até hoje, sem que o país tenha conseguido reencontrar um equilíbrio político, nem um modelo de desenvolvimento adequado. Pelo contrário, como sabemos, hoje imperam as regras severas com as quais o regime de Ortega devorou até seus aliados mais antigos e próximos. Que ordem é essa, que regime pode sobreviver nessas condições?

<><> A desordem causada pelo genocídio de Gaza e pela guerra contra o Irã

A desordem no mundo tem outras manifestações mais recentes, avassaladoras, com repercussões universais.

Uma delas é o genocídio de Gaza, herança dramática que lembra o genocídio perpetrado pelos alemães na Segunda Guerra Mundial. É avassaladora a evidência da devastação provocada por Israel, principalmente em Gaza, mas também na Cisjordânia.

Num artigo sobre a pobreza endêmica em Gaza e na Cisjordânia, publicado em 30 de dezembro de 2004, a BBC afirmava: “As estatísticas de morte, destruição e pobreza não conseguem transmitir o verdadeiro sofrimento da população nos territórios ocupados. Bairros inteiros (…) foram arrasados. Nas nossas escolas, uma geração inteira cresce num ambiente de violência aterradora. A maldição da pobreza endêmica atinge agora dois terços da população”.

Dito em 2004! O que aconteceu desde então? O relatório de Francesca Albanese, relatora especial das Nações Unidas sobre a “Situação dos Direitos Humanos nos Territórios Palestinos”, publicado em outubro passado, mostra a dimensão da desordem causada.

A tortura estendeu-se muito além das prisões e das salas de interrogatório. “O território palestino ocupado tornou-se um espaço de castigo coletivo”, afirma. Ou seja, num campo de concentração.

A cumplicidade internacional, em particular dos Estados Unidos, contribuiu para o genocídio em Gaza, assinala o relatório. Só o número de mortos na Faixa de Gaza já ultrapassava os 75 mil, consequência da ofensiva militar lançada por Israel há mais de dois anos. À destruição de Gaza, juntou-se o cerco à Cisjordânia, onde os colonos israelenses têm ocupado território, destruído propriedades e assassinado antigos habitantes.

Em dezembro passado, a imprensa noticiou que crianças palestinas congelavam até a morte nos campos de refugiados, enquanto Israel bloqueava a ajuda humanitária, sem a qual não conseguem sobreviver. Ao restringir a entrada de alimentos, um plano meticuloso do governo israelense implantou a fome nos territórios ocupados desde 1967.

A desordem imposta no Oriente Médio por Israel e seus aliados é inimaginável. O que se pretende construir sobre essas ruínas? Poderá o mundo seguir desviando o olhar por muito mais tempo? É impossível imaginar a solução de qualquer problema com o genocídio imposto por Israel na Palestina.

Mas as bombas continuam explodindo. Israel volta a atacar o Líbano. Em 28 de fevereiro, os Estados Unidos e Israel atacaram o Irã. Até hoje continuam as discussões sobre os objetivos dessa guerra, sem que haja clareza sobre quais são.

<><> Escolas e hospitais em ruínas, estreito de Ormuz fechado

Em meados de abril, foi anunciado um cessar-fogo precário na guerra que os Estados Unidos travam contra o Irã. O New York Times também decidiu fazer uma pausa na cobertura da guerra e dar uma olhada na destruição provocada pelos bombardeamentos no Irã: “Iran’s Schools and Hospitals in Ruins, Times Analysis Shows”, é o título do artigo, publicado em 9 de abril.

É provável que a escala da devastação seja muito maior do que a estimada pelo New York Times, afirma a nota. A Sociedade do Crescente Vermelho declarou, em 2 de abril, que pelo menos 763 escolas e 316 centros de saúde tinham sido danificados ou destruídos durante a guerra.

No primeiro dia do ataque, em 28 de fevereiro, a escola primária Shajarah Tayyebeh, na cidade de Minab, no sul do Irã, foi bombardeada. O ataque deixou pelo menos 175 mortos, a maioria crianças. Os militares tinham classificado a escola como um alvo militar, utilizando informações desatualizadas, de pelo menos dez anos antes, afirma o jornal.

O direito internacional humanitário obriga os comandantes militares a levar em consideração os possíveis danos colaterais a civis e a infraestruturas civis quando planejam um ataque, lembra o New York Times.

O jornal utilizou imagens aéreas de alta definição para analisar o resultado dos ataques. As imagens foram revelando o caos provocado: centenas de escolas, hospitais e centros de saúde destruídos ou danificados. Centenas de crianças mortas.

Cerca de metade das escolas e centros de saúde danificados situavam-se em Teerã, uma cidade densamente povoada, onde os bombardeios têm sido intensos.

Donald Trump prometeu, em determinado momento, enviar o Irã para a “idade da pedra”. No domingo, 19 de abril, com as negociações num impasse, ameaça novamente destruir pontes e centrais elétricas do Irã. Suas forças capturaram um cargueiro de bandeira iraniana no Golfo de Omã. É difícil imaginar um caos maior do que o provocado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A China, particularmente afetada pelo fechamento da via, pediu ao Irã que a reabrisse, mas indicou que a causa do fechamento é a guerra provocada pelos Estados Unidos e por Israel.

Em 1 de abril, o jornal espanhol El país lembrava o caos provocado pela guerra do Iraque em 2003, com o apoio do espanhol José María Aznar e do britânico Tony Blair. “O declínio de Bagdá duas décadas após a guerra, um espelho para Teerã”, afirma o artigo. Um caos semelhante foi provocado pelo assassinato do líder líbio, Muammar Kadhafi, em outubro de 2011.

Embora não tenham conseguido derrubar o governo iraniano – algo que já se tentara antes da guerra através de protestos populares estimulados pelas dificuldades econômicas criadas no país pelas sanções norte-americanas –, os antecedentes citados mostram as consequências caóticas dessas guerras e sanções.

<><> A necessidade de uma nova ordem

Parece-me que não devemos fechar este percurso pelo caos sem mencionar o mais recente esforço para criar uma nova ordem internacional, que o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, convocou, sob o lema “Não à guerra”.

Em 17 e 18 de abril, Pedro Sánchez realizou, em Barcelona, juntamente com os presidentes do Brasil, México, Colômbia, Uruguai, África do Sul e uma lista de representantes de diversos países e organizações políticas, uma Cúpula Global Progressista.

Tem particular relevância para a América Latina, onde Donald Trump proclamou a pretensão de um controle renovado sobre seu “quintal”. A América Latina nunca deixou de ser isso, submetida à pressão permanente de Washington e à submissão da “quinta coluna” em que se baseia essa dominação.

Mas, se nunca deixou de ser isso, também nunca deixou de haver resistências. A cúpula de Barcelona revela o quão persistentes e renovadas elas são. O mundo mudou muito para que as pretensões anunciadas em 1823 de submeter a América Latina possam ser renovadas sem problemas hoje.

“Ninguém deve ter vergonha de ser de esquerda”, afirmou Lula em Barcelona. Donald Trump está jogando um jogo muito perigoso, pensando que pode ditar suas próprias regras. Ou, como disse a presidente mexicana, Claudia Sheinbaum: o México tem como princípios constitucionais “o respeito pela autodeterminação dos povos, a não intervenção, a resolução pacífica de controvérsias, a rejeição ao uso da força, a igualdade jurídica dos estados, a necessidade da cooperação internacional para o desenvolvimento, o respeito pelos direitos humanos, a luta permanente pela paz”.

“Os Estados Unidos estão utilizando armas criadas para combater o narcotráfico como instrumento de pressão contra os que não compartilham suas políticas na América Latina”, afirmou, por sua vez, o presidente colombiano, Gustavo Petro. “Qual é nossa resposta?”, perguntou-se ele: rebelião. É isto que acontecerá se o governo norte-americano não rever o caos provocado por suas políticas em relação à América Latina, assegurou.

Dessa forma, aquele menino, adormecido na calçada em San José, poderá  acordar e descobrir outro mundo, em que tenha uma cama onde dormir.

 

Fonte: A Terra é Redonda

 

Anistia vê "nova era perigosa" com multilateralismo em crise

O mundo está à beira de uma nova era perigosa, impulsionada pelos ataques de Estados poderosos, corporações e movimentos transnacionais contra o multilateralismo, o direito internacional e os direitos humanos. É o que afirma a Anistia Internacional (AI), que publicou nesta quarta-feira (21/04) o seu relatório anual, no qual analisa o contexto em 144 países. Para a secretária-geral da organização, Agnès Callamard, "o que torna este momento fundamentalmente diferente é que já não estamos apenas registrando uma erosão nas margens do sistema". "Trata-se de um ataque direto aos alicerces dos direitos humanos e à ordem internacional baseada em regras, perpetrado pelos atores mais poderosos com o objetivo de obter controle, impunidade e lucro," afirmou.

A AI denuncia a formação de uma nova ordem internacional "predatória", criticando explicitamente alguns líderes políticos, a exemplo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, e o presidente da Rússia, Vladimir Putin. O foco das críticas repousa na proliferação e manutenção de conflitos pelos seus governos, enquanto "a vasta maioria dos outros Estados não tem se mostrado disposta ou capaz de consistentemente denunciar" violações da legislação internacional.

Já no Brasil, o relatório destaca o aumento da violência contra defensores dos direitos humanos, sobretudo indígenas e quilombolas, bem como a aprovação da lei do licenciamento ambiental, apelidada por ambientalistas de "PL da Devastação". Segundo a AI, a legislação intensificou a ameaça contra o direito humano a um ambiente saudável.

<><> Dupla pressão sobre iranianos

A ofensiva de EUA e Israel no Irã, iniciada há quase dois meses, recorreu ao "uso ilegal da força", numa violação à Carta da Organização das Nações Unidas (ONU), diz a AI. Desde então, o Oriente Médio foi arrastado para um novo conflito que, alerta a organização, "ameaça causar danos civis e ambientais vastos, previsíveis e de longo prazo, afetando o acesso à energia, à saúde, à alimentação e à água." Especialistas da ONU vêm também apontando às violações da lei internacional pelos ataques militares contra o Irã, cujo regime, por sua vez, viola os direitos humanos da própria população. O relatório da AI destaca que "autoridades massacraram manifestantes em janeiro de 2026, no que foi provavelmente a repressão mais letal em décadas".

"No Irã, as pessoas vivem sob uma dupla ameaça: por um lado, os ataques contrários ao direito internacional realizados pelos EUA e por Israel, inclusive contra a população civil e a infraestrutura; por outro, as repressões do próprio governo, que já levaram a milhares de mortes," disse Julia Duchrow, secretária-geral da AI na Alemanha.  A pressão sobre o regime iraniano não resultou em melhora para os direitos humanos a nível doméstico, embora os EUA tenham justificado a operação militar com o argumento de que era necessário proteger a população dos abusos de Teerã. "Justamente agora, tememos novos e ainda mais fortes ataques da liderança iraniana contra a própria população," diz Duchrow.

<><> Persistente guerra em Gaza

A análise global da AI ressalta, ainda, a manutenção do que vê como um genocídio em curso em Gaza – repetindo o vocabulário que, no ano passado, usaram outras organizações de direitos humanosestudiosos e uma comissão independente nomeada pela ONU. Segundo a comissão de três membros, quatro dos cinco critérios da Convenção das Nações Unidas para a Prevenção e Punição do Crime de Genocídio para essa classificação haviam sido praticados por autoridades israelenses. O artigo 2° da convenção define genocídio como qualquer ação "cometida com a intenção de destruir, total ou parcialmente, um grupo nacional, étnico, racial ou religioso". Rejeitando as acusações, Israel trava desde 2023 a guerra contra o Hamas, classificado como organização terrorista pelos EUA, pela União Europeia (UE) e diversos países no mundo. Um frágil cessar-fogo foi acordado em outubro.

Ganhou tração ainda, também no ano passado, a expansão de assentamentos israelenses na Cisjordânia sob uma atmosfera de crescente hostilidade, amplamente documentada pela imprensa. Hoje, mais de 700 mil colonos judeus israelenses vivem na Cisjordânia ocupada e em Jerusalém Oriental, segundo as Nações Unidas. "As autoridades israelenses têm, cada vez mais, permitido ou incentivado os colonos a atacar e aterrorizar os palestinos com impunidade, e autoridades de destaque têm elogiado e glorificado a violência contra os palestinos, incluindo prisões arbitrárias e tortura de detidos," diz o texto da AI.  A ONU considera todos os assentamentos israelenses além da linha de armistício de 1949, a chamada Linha Verde, uma violação do direito internacional. Num parecer consultivo de 2024, a Corte Internacional de Justiça considerou a ocupação ilegal.

<><> Brasil: avanços e retrocessos

O caso brasileiro foi marcado em 2025, pela avaliação da AI, por avanços e retrocessos na garantia dos direitos humanos.  Na agenda ambiental, o documento destaca a redução do desmatamento na Amazônia e no Cerrado. Mas, também, aponta para uma série de riscos derivados da lei do licenciamento, incluindo "a ampliação dos motivos para isenção de licença, a redução dos prazos para avaliação de projetos e a limitação da participação social e do envolvimento das agências locais de proteção."  Além disso, a organização enxerga uma contradição entre os planos do Brasil de se afastar dos combustíveis fósseis, impulsionados no contexto da COP30 em Belém, e a prospecção de petróleo na Margem Equatorial da Foz do Amazonas. Segundo a AI, projetos exploratórios como este vão "contra uma transição energética justa centrada nos direitos humanos" e contribuem para "a criação de 'zonas de sacrifício' em territórios explorados".

Outro destaque foi para as invasões e atos de violência ligados a conflitos pela terra em áreas de expansão do agronegócio dentro e fora da Amazônia, afetando particularmente os povos Guarani Kaiowá, no Mato Grosso do Sul, Avá Guaraní Paranaense, no Paraná, e Pataxó e Pataxó Hã-hãhãe, na Bahia. Os conflitos vêm acompanhados de assassinatos de líderes comunitários e defensores dos direitos humanos – segundo estudo das organizações Justiça Global e Terra de Direitos, houve pelo menos um caso a cada 36 horas, em média, entre 2023 e 2024. No fim do ano passado, o governo federal lançou um novo plano nacional de proteção a estas pessoas. 

Mais pontos de preocupação para a AI no Brasil incluem a brutalidade policial – o relatório destaca a megaoperação que deixou pelo menos 121 mortos no Rio de Janeiro –, a discriminação contra pessoas LGBTQIA+ e a violência contra mulheres. Foram 1.568 feminicídios tipificados no ano passado, na contabilização do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.  Por outro lado, diminuíram a pobreza e a desigualdade, caindo aos menores níveis em 30 anos, aponta a AI. Em julho, o Brasil saiu novamente do Mapa da Fome da ONU depois de três anos.

<><> Sociedade civil: repressão e resistência

Ao redor do mundo, a documentação da AI registrou o aprofundamento dos ataques contra movimentos sociais e a sociedade civil no ano passado. 

Nas Américas, autoridades dos EUA são acusadas de lançarem uma campanha de "repressão ilegal contra migrantes, refugiados e requerentes de asilo, com uso desnecessário e excessivo da força, discriminação racial, detenções arbitrárias e práticas que constituíram tortura e desaparecimento forçado".  Enquanto isso, Equador, El Salvador, Nicarágua, Paraguai, Peru e Venezuela "adotaram ou reformaram marcos legais que impõem controles desproporcionais às organizações da sociedade civil, afetando diretamente sua capacidade de operar, acessar recursos, apoiar comunidades e defender os direitos humanos". 

Ao mesmo tempo, "milhões de pessoas ao redor do mundo estão resistindo injustiças e práticas autoritárias", citando protestos liderados pela Geração Z em mais de uma dezena de países, incluindo Peru, Indonésia, Quênia, Madagascar, Marrocos e Nepal. 

"No Irã, as pessoas foram às ruas apesar de saberem que corriam perigo de vida. Na Hungria, a política desumana de Viktor Orbán acaba de ser derrotada nas urnas. E, repetidamente, pessoas são libertadas da prisão, como Maria Kolesnikowa, em Belarus," diz ainda Duchrow.  Kolesnikowa, conhecida musicista e ativista de direitos civis bielorrussa foi libertada da prisão em dezembro, após cinco anos detida.

¨      "Brasil e Alemanha querem paz e multilateralismo"

Mais comércio, mais cooperação e mais laços políticos. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o chanceler federal Friedrich Merz propagandearam ao longo de uma agenda de dois dias o desejo de estreitar ainda mais as relações entre Brasil e Alemanha diante dos desafios provocados pela deterioração da ordem mundial e a intensificação da política de força dos Estados Unidos. "Multilateralismo" foi a palavra mais repetida após a série de encontros travados por Lula e Merz em Hannover, na Alemanha, onde os dois líderes abriram a tradicional feira industrial da cidade e realizaram uma reunião de trabalho que contou com mais de uma dezena de ministros dos dois governos. "Brasil e Alemanha querem paz, querem o multilateralismo, querem o desenvolvimento, e não a destruição. Queremos vida e não morte”, disse Lula nesta segunda-feira (20/04) na reta final da agenda – o presidente desembarcou no domingo e deixa a Alemanha na terça-feira.

Em sintonia com Lula, Merz afirmou que não vê a parceria com o Brasil apenas em termos econômicos, mas também como uma cooperação estratégica na manutenção de um mundo baseado em regras. "Compartilhamos com o Brasil um interesse fundamental em uma ordem política na qual possamos confiar em acordos, possamos contar com tratados, possamos contribuir para a resolução conjunta de problemas globais e, acima de tudo, desejemos resolver conflitos somente por meios pacíficos", disse Merz durante a abertura do 42º Encontro Econômico Brasil-Alemanha, um dos eventos em Hannover que contou com os dois líderes. "Os laços estreitos entre nossos dois países são mais necessários do que nunca em um momento em que a ordem mundial passa por mudanças tão fundamentais."

<><> Acordo Mercosul-UE é celebrado por Alemanha e Brasil

Ao longo de dois dias, Merz e Lula assinaram acordos de defesa, meio ambiente, bioeconomia, infraestrutura e inteligência artificial, entre outros temas. Os dois líderes ainda celebraram a entrada em vigor provisória do acordo de livre-comércio entre o Mercosul e a União Europeia, um tratado que foi defendido por décadas pela Alemanha e Brasil, duas economias fortemente voltadas para a exportação.

Falando ao lado de Lula na abertura do estande brasileiro na Feira de Hannover, o chanceler federal Friedrich Merz deixou claro que a Alemanha vê a possibilidade de ganhos com o tratado e que o enxerga como um contraponto à política baseada em pressão de grandes potências como os EUA, que sob Donald Trump têm promovido tarifaços e intervenções militares unilaterais. "Esta é a nossa resposta às grandes convulsões que estamos vivenciando. É uma resposta a todos aqueles que hoje querem substituir a ordem baseada em regras, tratados e confiabilidade pela política de poder no mundo, utilizando meios militares", afirmou Merz.

O alemão também disse esperar que o volume comercial entre a Alemanha e o Brasil, que totalizou 20 bilhões de euros em 2024, dobre nos próximos anos. "Considerando a dimensão dessas duas economias, esse valor é muito baixo. Queremos aumentá-lo significativamente e apoio integralmente a meta ambiciosa de dobrar esse volume comercial nos próximos anos."

Negociado por mais de duas décadas, o acordo vai finalmente entrar em vigor de forma provisória no início de maio e tem o potencial de criar uma zona de livre-comércio com 715 milhões de pessoas e 20% da produção econômica global. Com uma economia exportadora industrial e com peso menor do setor agrário, A Alemanha sempre foi uma forte apoiadora do tratado, não compartilhando da posição de países como França e Irlanda, que explicitaram várias objeções. No entanto, o tratado só entrará em vigor de forma provisória a partir de 1° de maio, aguardando ainda a ratificação do Parlamento Europeu e do Conselho Europeu, um processo que promete se arrastar. "Continuaremos a trabalhar arduamente para garantir que o processo de ratificação seja concluído rapidamente", disse Merz.

<><> Feira de Hannover como vitrine do Brasil

No seu segundo dia na Alemanha, Lula participou, ao lado de Merz, da abertura do estande brasileiro na Feira de Hannover, que neste ano tem o país sul-americano como parceiro na tradicional feira industrial, o maior evento do setor no mundo. "As relações econômicas entre Brasil e Alemanha não só possuem uma longa tradição, mas também um futuro promissor", disse Lula na segunda-feira. O estande brasileiro na feira conta com cerca de 2.700 metros quadrados de exposição, organizados em seis áreas temáticas: transição energética, hidrogênio, digitalização, indústria avançada, economia circular e inteligência artificial. A feira propagandeia a presença de 140 empresas brasileiras e outras 300 apoiadas indiretamente.

<><> Consultas intergovernamentais entre Alemanha e Brasil

Ainda junto com o chanceler federal alemão, o presidente tomou parte na terceira rodada das consultas intergovernamentais de alto nível entre Brasil e Alemanha, um mecanismo de diálogo que o governo alemão mantém com poucos parceiros internacionais e que prevê reuniões regulares entre ministros. Oito ministros alemães se deslocaram de Berlim para encontrar sete membros da Esplanada em Hannover.

"É natural que a Alemanha volte a olhar para o Brasil. Apesar das múltiplas crises do mundo atual, vivemos um momento econômico muito favorável”, disse Lula. "A Alemanha é um parceiro indispensável para o Brasil. Não tenho dúvidas que a Alemanha pensa o mesmo sobre o Brasil."

Como parte dos encontros, o governo alemão confirmou uma contribuição de 500 milhões de euros (cerca de R$ 2,94 bilhões) ao Fundo Nacional sobre Mudança do Clima, instrumento financeiro federal brasileiro que financia projetos de mitigação e adaptação às mudanças climáticas. Já um aporte de 1 bilhão de euros (R$ 5,8 bilhões) prometido pela Alemanha para o Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) – um projeto formalizado por Lula na COP30 – deve ficar para o ano que vem, segundo declaração do governo alemão, e ainda vai depender de aprovação orçamentária e parlamentar.

<><> Lula defende biodiesel brasileiro

Ao longo da viagem à Alemanha, Lula só demonstrou contrariedade quando o tema dos biocombustíveis foi abordado. Falando a uma plateia de empresários brasileiros e alemães em Hannover, Lula advertiu contra o que chamou de "mitologia" contra biocombustíveis. "Há muito mito criado entre os países desenvolvidos e os em via de desenvolvimento. A Alemanha conhece o Brasil mais que qualquer outro país. Os alemães não podem acreditar na mitologia dita por alguns que são contra a inovação tecnológica na área de biocombustíveis, de que o biocombustível brasileiro atrapalha a produção de alimentos. Se alguém quiser acreditar nisso, eu convido a conhecer o Brasil", disse Lula.

A fala ocorreu após alguns movimentos de restrição na União Europeia, que tem se intensificado com a proximidade em vigor provisória do acordo de livre-comércio Mercosul-União Europeia. Em janeiro, a Comissão Europeia divulgou a intenção de reclassificar o biodiesel feito de soja, que poderia perder a partir de 2030 o status de recurso renovável na UE, e, portanto, não poderia ser mais usado por companhias de combustíveis para cumprir metas de redução de carbono. Tal medida impactaria diretamente a importação de biodiesel produzido no Brasil e na Argentina.

Uma restrição similar já atinge o óleo de palma, que é cultivado principalmente na Ásia. Defensores da restrição argumentam que o biodiesel de soja é tão nocivo para o meio ambiente quanto o petróleo e que a expansão do produto estaria sendo feita às custas de florestas e da produção de alimentos. "Não há hipótese de o Brasil deixar de produzir alimentos para produção de biocombustível", disse Lula, apontando para a quantidade de terras degradadas que, segundo ele, poderiam ser recuperadas para a produção de biocombustíveis.

Merz, que procura diversificar as fontes de energia da Alemanha após sucessivas crises de fornecimento na esteira das guerras na Ucrânia e no Irã, disse que seu país tem o que aprender com o Brasil nessa área. "Há um caminhão no estande da feira [de Hannover] movido a biocombustível. Sabemos que, no Brasil, essa tecnologia avançou muito e demonstra que nós podemos aprender com o Brasil também", disse.

<><> Recados a Trump

No domingo, Lula mandou recados indiretos ao governo do presidente Donald Trump, sem mencionar nominalmente o líder americano. "Nós não podemos permitir que o mundo se curve ao comportamento de um presidente que acha que por e-mail ou por Twitter pode taxar produtos, pode punir países, e pode fazer guerra”, disse Lula.

Ele ainda chamou a guerra no Irã, iniciada pelos EUA e Israel, de "maluquice". "O Brasil é um dos países menos afetados pela maluquice da guerra feita com o Irã", disse Lula.

Já sobre Cuba, Merz afirmou que a Alemanha não vê nenhuma base legal para qualquer intervenção no país caribenho. "Não vemos que exista algum tipo de perigo para países terceiros, então não sei por que seria necessário haver uma intervenção. Poder se defender não quer dizer poder interferir em outros países que têm sistemas políticos que não nos agradam", acrescentou.

<><> Recepção com pompa em solo alemão

Lula chegou no domingo (19/04) em Hannover, após cumprir uma etapa anterior na Espanha. Na cidade alemã, o presidente brasileiro foi recebido com pompa pelo chanceler federal Merz, com direito a uma cerimônia militar no palácio Herrenhausen e um jantar privado na antiga residência dos reis de Hannnover. Tal protocolo no local só havia sido estendido ao então presidente americano Barack Obama uma década atrás. Ainda no domingo, Lula e Merz participaram de uma cerimônia que marcou a abertura da Feira de Hannover 2026. Já o final da agenda de Lula na segunda-feira previa uma visita à sede mundial da montadora Volkswagen, em Wolfsburg, a cerca de 70 quilômetros de Hannover.

Ainda na segunda-feira, Lula se atrasou para a chegada na feira, deixando Merz esperando por pouco mais de 20 minutos na porta de um dos pavilhões. Parte da logística do encontro foi afetada por uma greve no transporte público em Hannover, que provocou engarrafamentos na cidade. A viagem também marcou a terceira vez que o chanceler federal e Lula se reuniram. Também foi o primeiro encontro que não ocorreu à margem de uma cúpula internacional.

Os dois já haviam se encontrado no ano passado na COP30, em Belém, e na reunião do G20, na África do Sul. À época, os dois encontros foram ofuscados por um comentário desabonador de Merz sobre a cidade de Belém, mas desde então tanto o chanceler federal quanto Lula minimizaram o incidente. Na segunda-feira, durante a abertura do estande brasileiro na Feira de Hannover, Merz agradeceu a Lula pela acolhida em Belém. A imprensa alemã tem destacado a visita de Lula, com vários jornais apontado que o estreitamento de laços com o Brasil promovido por Berlim pode trazer potenciais ganhos para o país europeu, que passa por um momento de estagnação e ansiedade econômica.

 

Fonte: DW Brasil