Murilo
Rocha Souto Maior: Capital, dívida e tempo
Recentemente,
autores e militantes levantam questionamentos sobre a possibilidade da
reeleição do Presidente Lula, para seu quarto turno, partindo de distintas
análises sobre o balanço econômico do governo. Ao longo de muito tempo, nas
ciências políticas, compreende-se a importância do fator inflação para disputas
políticas institucionais de grande porte, principalmente, para chefes de
Estado. Nos Estados Unidos, por exemplo, o impacto inflacionário pré-eleição,
foi uma das, senão a principal causa para a rejeição ao Bideneconomics, favorecendo
a eleição de Donald Trump. O salto de uma taxa de 1%, quando assumiu, para uma
taxa de 3%, quando deixa o cargo, passando por taxas elevadíssimas para o
padrão estadunidense, como de 9%, resultaram no recuo político de uma ampla
parcela do eleitorado, para setores mais reacionários e fascistas. Ocasionado
pela diminuição do poder de compra e da qualidade de vida, que se misturam em
uma cultura baseada no consumo. O que fomentou a possibilidade de crédito
político para setores da extrema direita no país, em razão da promessa de um
dia como ficou no passado, o retorno a uma memória ainda fresca, que não se
concretiza no presente, o Make America Great Again, principal
slogan da campanha fascista de Trump, mobiliza sentimentos, esperanças e
afetos, principalmente com as frações da população mais deslocadas e
pauperizadas, que não conseguem sustentar a mesma dinâmica de consumo e de
vida, como no passado.
Esse
cenário não se restringe aos Estados Unidos, mas perpassa uma dinâmica política
crescente em todo mundo, principalmente na periferia do capital, como em países
latino-americano-caribenhos, cuja subserviência ao centro do capital, implica
na coordenação de movimentos políticos fascistas em momentos similares, caso
que aconteceu na Argentina e Chile recentemente, por exemplo. O que não
justifica qualquer tipo de causalidade, de forma que a política esteja
submetida ao movimento inflacionário, mas demonstra, que existe uma conexão
direta, sendo um fator, extremamente, pertinente para pensar os rumos
políticos. No caso brasileiro, ao contrário, as recentes pesquisas que apontam
para perspectivas eleitorais na disputa de 2026, todavia, podem demonstrar que
outros critérios estão começando a ganhar mais espaço na escolha política, do
que o inflacionário.
O
aspecto inflacionário foi alvo de comentários constantes debates ao longo de
todo governo Lula III, setores mais à esquerda que o governo, colocavam em
debate não a inflação total, que estava normalizada para os padrões do governo
de Jair Bolsonaro, 4,56% (Jan/2025) em comparação à 10,54% (Jan/2022). Todavia,
no mesmo período, observando apenas a inflação sobre os alimentos temos 7%
(2025), contra 9,12% (2022), que demonstra uma menor diferença, significativa,
entre os percentuais inflacionários entre os governos. Múltiplos fatores podem
ser levados em consideração para compreender o que responde essa questão, a
baixa do estoque de grãos, por exemplo, foi um fator determinante para o
governo não agir para controlar o preço das commodities no mercado, o que foi
esvaziado ao longo do Governo Bolsonaro, mas que, simultaneamente, não possui
prioridade para o Governo Lula, para estar na pauta da ordem do dia. A
explosão dos conflitos mundiais, em importadores desses alimentos e
exportadores de petróleo, a eleição de Trump, com a implementação de tarifas
econômicas para os produtos brasileiros, também dificultaram tanto a importação
de maquinários, quanto a exportação e produção dessas mercadorias, afetando
toda a cadeia produtiva. Apesar dessas diferentes explicações e do que foi ou
deixou de ser feito pelo governo, importante dar atenção à avaliação da
população, que recebe os reflexos da postura governamental. Nota-se,
justamente, que o período inicial de 2025, quando a inflação do preço dos
alimentos atinge seu auge, com relativa, estabilização do índice inflacionário,
a avaliação do Governo atinge os níveis mais baixos desde sua
reeleição, não apenas com baixa da aprovação, como com alta da reprovação.
O
importante, neste momento, na realidade é observar que, mesmo mantendo índices
econômicos – aparentes – estáveis, a percepção da população sobre o governo é
negativa. A partir desse panorama de 2025, o governo passa a realizar medidas
para reduzir a inflação dos alimentos, aumentando crédito agrícola e
financiamentos para o setor agrário, ainda que questionáveis e problemáticos, o
que diminui, significativamente, o índice inflacionário sobre os alimentos, que
sai de 7,44% (Jul/2025) para 1,76% (Fev/2026). Sob a tentativa de reverter o
índice de desaprovação, aumentando o índice de aprovação, algo que não
aconteceu, no mesmo salto que a inflação sobre os alimentos, visto que a
aprovação aumentou de 43% (Jul/2025) para 45% (Fev/2026), com uma maior
diminuição da rejeição de 53% (Jul/2025) para 49% (Fev/2026). O que não
chega, nem próximo, dos patamares do início do governo, em que a aprovação
contava com 54% (Ago/2023) contra 42% de desaprovação (Ago/2023). Poder-se-ia
afirmar que os efeitos inflacionários sobre os alimentos ainda não foram
sentidos pela população, o que seria justo de ser compreender, todavia não se
confirma pela alteração dos índices de aprovação do governo. O que se verifica
é a diminuição substantiva da rejeição, mas esses não passam a aprovar o
governo, ao contrário, mantém-se como “Não sabem”. Apesar do movimento
contrário, como ocorrido no início de 2025, disparou, desproporcionalmente, o
índice de reprovação sobre o de aprovação. Ou seja, o governo possui ampla
facilidade em perder apoiadores, mas imensa dificuldade de recuperá-los.
Algumas
hipóteses podem emergir, como a falta de comunicação do governo, seguindo a
máxima: “a prática é o critério da verdade”. Caso, as ideias colocadas por essa
hipótese se coloquem verdadeiras, deveria ter havido alguma mudança
significativa, o movimento de mudança sobre a percepção sobre o governo teria
sido outro no início deste ano, com o retorno dos apoiadores, visto que, desde
o começo do impacto da baixa inflacionária sobre os alimentos, um dos setores
com maior investimento do governo foi a comunicação. Fornecendo, inclusive,
verbas adicionais às Big Techs, que apoiaram e agiram para a eleição de Trump,
sobre outros sistemas de comunicação. Assim, se confirma, que a
comunicação não é o fator central, nem o único fator que estrutura a
dificuldade de o governo aumentar sua aprovação ao longo do tempo, a ideia não
se concretiza na prática real. Partindo-se da ideia de que a comunicação não
poderia ter efeito tão imenso sobre a realidade do governo, outra hipótese que
surge sobre o fenômeno é que existe outro aspecto, ainda não muito observado
que teria tamanho impacto sobre a avaliação do governo, quanto a inflação.
Analisar a sociedade, a política e a realidade não é simples tarefa, ao
contrário, como parte de qualquer pensamento, que se propõem ao debate, deve
haver diálogo, disputa e desavenças.
A
partir das hipóteses colocadas, pretendo dialogar com alguns autores para
compreender o aspecto da dívida como algo fundamental de se compreender o tempo
presente, ou melhor, o tempo passado e o tempo futuro. Compreender a
centralidade do crédito e do endividamento no atual processo eleitoral é, ao
final do dia, compreender a relevância do poder de compra e qualidade de vida
na decisão do eleitorado no voto. Mas mais que a influência sobre o voto,
a dívida e o poder de compra, também, modificam as formas de ser da realidade
cotidiana. Robert Kurz, ao longo de sua obra, demonstra a forma como a
dinâmica da expansão dos mercados e da privatização de espaços, modifica as
múltiplas relações da vida cotidiana, a partir da comercialização, dentre
outros atributos, do lazer, o que expressa, em outras palavras, a máxima
marxiana, compreendida pelos processos de alienação e fetichização, que
analisam a forma como a sociedade baseada na exploração de classes estrutura,
não apenas uma forma de troca, como uma própria concepção de ser, uma própria
razão-instrumental, nas palavras dos frankfurtianos.
Que a
relação tempo-sujeito, na sociedade contemporânea, modificou isso é
incontestável, ter 15, 20, 30, 40 anos hoje não é o mesmo, cultural e
simbolicamente, que no século XIX-XX, por exemplo. Além disso, temos os maiores
índices de ansiedade, que tendem a crescer cada vez mais, uma patologia
psíquica que retraça uma dinâmica social-temporal distinta nos indivíduos. Uma
dinâmica de conviver no presente, enquanto se analisa o futuro, partindo do
passado, um amontoado de pensamentos e de questões colocadas que evocam a
incerteza do tempo presente, baseada nas possibilidades, múltiplas, do tempo
futuro. A sublimação da fração financeira do capital, a partir da expansão do
crédito, as novas dinâmicas digitais e o avanço produtivo do capital financeiro
agravam, ainda mais, esse movimento de destruição da temporalidade, construindo
uma relação destrutiva com o tempo, de forma que a negação é sempre presente,
se nega o tempo presente, em detrimento de pensar o futuro, a partir do
passado, assim, o hoje se torna ontem em apenas algumas horas, e as dimensões
das distâncias entre o ontem, hoje e amanhã são diluídas. A produtividade do
capital financeiro empurra isso, a partir do momento, que a métrica avaliada de
resultado é com garantia de rendimentos para o próximo período, não
convenientemente, é comum que empresas de médio/grande porte, realizem
previsões métricas de resultado palpável, de 3, 4, 5 e até 6 anos para frente.
A produtividade, as métricas, o resultado, sempre almejam uma manutenção
produtiva do futuro, ou seja, se pensa, de todo modo, no setor financeiro, os
arranjos futuros sobre o presente, para que se concerte o passado.
O
presente é deslocado de seu eixo transformativo, dando espaço para um futuro
que ainda não aconteceu, sobre uma leitura mecânica de um passado que não é
compreendido como força-motriz. O tempo, assim, é comprimido às mínimas frações
possíveis para que se possa, de todo modo, garantir o resultado a prazo, seja
em 1 mês, ou 10 anos. A percepção sobre a realidade temporal acaba sendo
flagelada pela dinâmica de produtividade exacerbada no cotidiano do trabalho,
que incitam uma condição de subjugação subjetiva do sujeito para com seu
próprio trabalho, de forma tal que a condicionante da percepção sobre o tempo é
colocada à mercê da produtividade. Em uma reunião de um grupo de estudos
escutei que “2023, para o mercado, para a Faria Lima, foi ontem”, toda essa
construção epistemológica gira em torno desse movimento analítico que
compreende que a temporalidade foi dissolvida, a partir das relações de
mercado, alicerçadas, dentre outros quesitos, pela expansão do crédito. Que,
também, é fomentador da compressão do tempo, de forma que a preocupação do hoje
é de conseguir realizar a liberação de uma dívida emitida para uma finalidade
passada, se vive o presente em razão de um futuro que existe por conta do
passado. Assim, o que vive sobre a dívida, nada mais está do que em um
movimento de colapso-temporal, em que o hoje é submetido para o amanhã, em
razão do ontem. A expansão do capital financeiro, como Robert Kurz coloca,
incita uma nova relação dinâmica dos sujeitos com a própria sociedade, de forma
que laços de socialização são remodelados e dinâmicas políticas são adaptadas
para se estruturarem, a partir de outras formas, voltadas para a ampliação da
reprodução e a expansão do próprio mercado. Com o avanço tecnológico, após os
anos 1950/1960, a dinâmica de aceleração da produção alavancou, imensamente,
seu ritmo.
O
desenvolvimento tecnológico recente, ano após ano, acelera, ainda mais o ritmo
da expansão produtiva do mercado, de forma tal que, como mesmo expressada na
frase que motiva o presente texto, 2023 se torna um ontem, apesar de termos
passado 3 anos de distância, os saltos tecnológicos, a expansão do mercado
financeiro e as dinâmicas de crédito, acabam por comprimir o tecido temporal da
sociedade, de forma que o lastro ano, mês, dia, hora, minuto, segundo, não
possuem mais efeito suficiente para provocar qualquer tipo de afecção em nós no
tempo presente. Muitos, ainda, se surpreendem ao compreender que o período
pandêmico foi encerrado há 4 anos, em 2022, com o fim das medidas restritivas
de isolamento social. Como Karl Marx desenvolve, ao longo do livro O
capital, existe um imperativo que se coloca superior ao do capital,
que é a dinâmica biofisiológica do ser humano, tal como a dinâmica biológica da
própria natureza, o dia se encerra com o pôr do Sol e começa com o nascer do
Sol. Dentro de um ciclo solar, nosso corpo, ao longo de todo processo
evolutivo, se estruturou a descansar, por cerca de 8 horas diárias.
Apesar
de parecer um devaneio distante da realidade concreta, o ponto central é que, a
compressão temporal exigida pelo capital sobre a vida cotidiana vai além da
possibilidade da realidade sensível da humanidade, de forma que ultrapassa
barreiras fisiológicas da humanidade, algo que o capital já realiza desde os
primórdios. Mas que neste momento, eclode a partir de diferentes fenômenos
psicossociais, desde a explosão do número de pessoas ansiosas no Brasil, até a
utilização, ampla, de medicamentos, em comparação com um número baixo de
pessoas realizando acompanhamento psicológico. Isso é um fator central, não apenas para o
processo eleitoral, como para a realidade cotidiana, a expansão do capital
financeiro estrutura uma dinâmica de sociabilidade baseada na compressão do
tempo presente, a partir de distintos mecanismos, seja a produtividade do
trabalho imposta, a expansão do mercado de crédito e a ampliação das
tecnologias produtivas, o que resulta em um movimento de ampliação de
patologias sociais, que, sem a estrutura de saúde necessária, com a pressão
produtiva do trabalho, faz os sujeitos recorrerem à medicamentos, ao invés de
acompanhamentos psicológicos. Esse fenômeno, como explicado ao início, não
apenas se expressa na dinâmica psicossocial, como, e principalmente, política,
a compressão do tempo presente, modifica a visão de um futuro distinto, se os
esforços realizados pelo meu tempo presente se voltam para sanar uma dívida
passada, no futuro, esse futuro, assim, significa apenas uma continuação, infernal,
do presente, de forma que, também, a redução do esforço do presente para uma
dívida passada, à ser quitada no futuro, também, introduz um sentimento de
repulsa sobre o que se reproduz no presente, como se nada fizesse sentido, o
trabalho não pode ser usufruído, porque o poder de compra foi reduzido, ao
passo que toda a renda se desloca para a dívida.
E esse
ciclo se repete, incessantemente, a facilitação de cartões de crédito, com
outras modalidades de crédito rotativo, como o crédito por pix, acabam por
facilitar a reprodução dessa dinâmica, se toda a dívida foi paga no futuro, não
resta nada para conseguir assegurar que se consiga permanecer e sobreviver ao
longo dos próximos dias, nessa dinâmica, se recorre, novamente, ao crédito, e
esse ciclo se reproduz e continua. Ao final, esse ciclo se reproduz a partir da
estruturação e fortificação do capital financeiro, uma ramificação das demais
do capital, que se mobiliza a partir da expropriação e exploração do valor das
demais frações do capital, a partir da mercantilização e privatização da vida
cotidiana. Após tentar destruir a natureza e com a humanidade, o capital lança
mão para destruir o próprio tempo.
¨
Os juros altos e a desculpa esfarrapada do 0,1%. Por Luiz
Martins de Melo
A
inflação que afeta o Brasil é impulsionada por turbulências geopolíticas,
preços de energia em alta e cadeias de suprimentos frágeis, em vez de excesso
de demanda. No entanto, os formuladores de políticas continuam a tratar isso
como um problema monetário, confiando em uma ferramenta que não pode abordar as
causas subjacentes. O Banco Central continua com a sua decisão de manter as
taxas de juros elevadas como um exercício de prudência. Com a inflação voltando
a subir, mesmo com o crescimento desacelerando, a autoridade monetária enfatiza
a paciência e a “dependência dos dados” como o caminho responsável – uma
abordagem moldada sobretudo por temores persistentes de repique inflacionário.
A
pergunta que importa para a sociedade não é por quanto tempo os bancos centrais
podem manter as taxas de juros elevadas ou o ritmo do aperto monetário. É se os
formuladores de políticas conseguem manter a ficção de que taxas de juros mais
altas são uma resposta eficaz, ou até neutra, às pressões inflacionárias que o
Brasil enfrenta atualmente. As pressões inflacionárias de hoje não são
alimentadas por mercados de trabalho superaquecidos ou demanda crescente dos
consumidores. Elas refletem preços mais altos da energia, conflitos
geopolíticos, perturbações relacionadas ao clima, cadeias de suprimentos
frágeis e, cada vez mais, o poder de precificação das grandes corporações.
Aumentar as taxas de juros pouco faz para atacar as causas subjacentes da
inflação. Essas pressões de oferta provavelmente vão se intensificar. A recente
decisão dos Emirados Árabes Unidos de sair da Organização dos Países
Exportadores de Petróleo – OPEP sinaliza uma mudança estrutural mais profunda
na economia política da energia, marcada por mudanças nas dinâmicas de poder
nos mercados globais de petróleo e pelo enfraquecimento da capacidade das
instituições existentes de gerenciar um recurso altamente financeirizado e
geopoliticamente importante.
A saída
dos Emirados Árabes Unidos mina o papel tradicional da OPEP na gestão do
fornecimento. Com um de seus maiores e mais flexíveis produtores se separando,
a coordenação se torna mais difícil de sustentar, aumentando a volatilidade do
mercado. Os mercados de petróleo, por sua vez, estão cada vez mais fragmentados
e respondendo menos à estratégia coletiva do que ao risco geopolítico e à
tomada de decisão unilateral. Nessa situação, a concepção de política monetária
que domina o Banco Central torna central o dilema de, no caso de manter as
taxas de juros baixas por muito mais tempo, correr o risco de corroer sua
credibilidade à medida que a inflação sobe gradualmente. Por outro lado,
aumentar as taxas de forma muito agressiva pode aprofundar as pressões recessivas,
agravar os encargos da dívida privada e pública e comprimir ainda mais famílias
já afetadas pelo aumento dos custos de alimentos, moradia e energia e pelo
endividamento dos juros bancários excessivos.
A
verdade é que a distopia do Banco Central o faz pensar que está definindo
livremente a taxa de juros entre outras opções de políticas que seriam
populistas. Mas, ao contrário, ele opera dentro de restrições estruturais
rígidas, impostas pelos mercados financeiros, fragilidade fiscal e pressões
políticas, especialmente no que diz respeito à taxa de desemprego. Os mercados,
por sua vez, antecipam cada vez mais aumentos de juros não porque resolvam a
inflação, mas porque o Banco Central se sente compelido a agir, mesmo quando
sua ferramenta é inadequada para a tarefa. As consequências distributivas desse
reflexo político muitas vezes são negligenciadas. Taxas de juros mais altas
atuam como um mecanismo disciplinar: protegem o valor dos ativos, recompensam
credores e transferem o ônus do ajuste para trabalhadores, aumentam o
endividamento, especialmente na compra de bens duráveis e habitação, aumenta o
endividamento público e pressão para mais aperto monetário para controlar a
demanda, quando o problema não é de demanda. Encarar a inflação como um
problema do mercado de trabalho, mesmo que seja impulsionada por monopólios de
energia, tensões geopolíticas e interrupções no fornecimento logístico, é uma
escolha política, não uma necessidade econômica. Na realidade, taxas de juros
mais altas não eliminam a inflação, mas redistribuem seus custos por meio de
maior desemprego, aumento da dívida das famílias e redução fiscal. Isso não é
um efeito colateral não intencional da política monetária, mas o mecanismo pelo
qual a inflação é normalmente gerenciada. Isso causa um mal-estar na população,
mesmo quando os números agregados podem ser positivos, mas o impacto na vida
concreta é de formar expectativas negativas sobre o futuro da ascensão social e
melhoria de vida.
A
concepção hegemônica de política macroeconômica continua tratando a inflação
como um problema monetário, e não estrutural e de distribuição de renda. O
Banco Central, ao endurecer as condições financeiras com taxas de juros mais
altas, não faz nada para reduzir os preços dos alimentos, que refletem o
aumento dos custos de fertilizantes e energia. No entanto, eles aumentam o
risco de perda de empregos, dificuldades com dívidas e pobreza estrutural. Se a
inflação permanecer alta por anos, o problema se torna de exaustão social. As
famílias não podem continuar absorvendo custos mais altos sem danos a longo
prazo, desde o aumento do endividamento até a pior nutrição e o agravamento dos
resultados de saúde. Nesse ponto, a inflação não é mais apenas uma questão
econômica, mas uma fonte de instabilidade política, potencialmente levando a
uma crise de legitimidade institucional. Essas dinâmicas ressaltam os limites
da abordagem atual do Banco Central e da política monetária. À medida que a
inflação se torna intimamente ligada a choques climáticos, guerra e ao controle
estratégico de recursos essenciais, a política monetária sozinha não pode
estabilizar preços sem impor sérios custos sociais e econômicos. Taxas de juros
mais altas podem suprimir a demanda, mas não podem produzir petróleo e gás
natural, desbloquear portos, reparar cadeias de suprimentos ou reduzir as
margens corporativas.
Os
formuladores de políticas estão usando um instrumento tecnocrático projetado
para a gestão da demanda para conter aumentos de preços, impulsionados por
forças estruturais e políticas. Até que essa contradição seja resolvida – por
meio de política energética coordenada, investimento público, regulação de
preços, estratégia industrial ou intervenção fiscal ativa –, as taxas de juros
continuarão oscilando sem resolver o problema que deveriam resolver. O aperto
monetário continuará sendo um gesto simbólico para transmitir controle, e não
uma solução real. Essa é a distopia central da atual política macroeconômica. A
dissonância cognitiva está relacionada diretamente com a política
macroeconômica. Em grande parte, porque o relativo sucesso de Lula I e II foi
tomado como base para a aplicação da mesma política em condições distintas.
Assim, para evitar que a dissonância cognitiva aumente, temos que dar por
encerrado o ciclo de políticas baseadas em altas taxas de juros, restrição
fiscal e abertura das contas de capital. Voltar a pensar em uma política de
inovação industrial direcionada para resolver os problemas da sociedade através
dos serviços públicos de cidadania. Para isso ser efetivo, a prioridade do
poder de compra do Estado tem que estar voltada para atender a demanda
originada pela política de inovação industrial com prioridade para resolver os
problemas da sociedade definidos em articulação com a participação popular.
Essa é a base para a formação de empresas de capital nacional e a afirmação da
soberania nacional pelo fortalecimento do processo democrático. O modelo que
teve relativo sucesso no início dos anos 2000 – macroeconomia liberal com
transferência de renda social já esgotou a sua efetividade.
No seu
cerne, a contínua dependência dos formuladores de políticas nas taxas de juros
para gerenciar crises decorrentes da interação entre mercados de energia, poder
corporativo e conflitos geopolíticos reflete a forma como a inflação é
enquadrada. Tratar a inflação estrutural como um problema de gestão da demanda
permite que os formuladores de políticas pareçam decisivos, evitando um
confronto mais difícil com aqueles que definem preços, controlam recursos e
extraem rendas. Essa também é uma escolha política, cujos custos sociais estão
se tornando cada vez mais difíceis de ignorar. Finalmente, é preciso deixar de
normalizar certos conceitos vazios de concretude histórica da mesma forma que a
política macroeconômica dominante é uma abstração a histórica, resultado de uma
dissonância cognitiva. Reindustrializar é um deles. Reindustrializar para
manter a mesma estrutura industrial que vigora desde JK e que nos levou à
situação atual? Redemocratizar? O Brasil já foi uma democracia? Portanto, sem
alterar a política macroeconômica atual, as altas taxas de juros, a austeridade
fiscal e a abertura da conta de capitais, não se terá uma política de inovação
industrial para aumentar e melhorar os serviços públicos de cidadania e
fortalecer a esperança na melhora da vida concreta e no processo democrático.
Fonte:
A Terra é Redonda/Terapia Política



