sábado, 25 de julho de 2026

Brasil é há décadas fonte de superávit recorde para os EUA

Novamente na mira de tarifas impostas pelo governo Donald Trump, o Brasil acumula um déficit de 144 bilhões de dólares (R$ 734 bilhões) em quatro décadas de comércio de bens com os Estados Unidos. Ou seja, a balança entre os dois parceiros favorece Washington, que registrou saldo positivo em 26 dos 41 anos da série histórica disponibilizada pelo Departamento do Censo dos EUA.

Ao incluir bens e serviços, os EUA chegaram a lucrar 480 bilhões de dólares (R$ 2,4 trilhões) com o Brasil entre 2000 e 2025, mostram dados do Departamento de Análise Econômica (BEA) dos EUA, o que não impediu a imposição de uma nova tarifa de 25% contra as exportações brasileiras ou de uma taxa de 12,5% por suposta falha no combate ao trabalho escravo.

Questionado durante sabatina no Senado americano sobre esse desequilíbrio que favorece os americanos, o indicado para a embaixada dos EUA em Brasília, Daniel Perez, reconheceu nesta semana que seu país mantém um superávit expressivo. Contudo, evitou justificar a nova sanção. "Essa tarifa foi implementada quando eu estava dormindo. Vou me informar melhor nas próximas semanas", afirmou.

Jamieson Greer, chefe do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR), também contornou o argumento de que o superávit americano deslegitimaria a medida tomada por seu órgão. "Temos superávit nessa relação. Mas há muitas barreiras aos Estados Unidos, sejam tarifárias, regulatórias ou não tarifárias", disse ao Atlantic Council em dezembro do ano passado.

<><> Conta acumulada há quatro décadas

As declarações das autoridades são sintoma da evolução das trocas entre os dois países ao longo do último século, uma relação marcada por oscilações e que se tornou mais intensa nas últimas quatro décadas.

"Essas oscilações independem, do lado americano, de ser um governo democrata ou republicano. O que elas vão levar em conta é o nível de autonomia do Brasil", diz a cientista política e professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) Cristina Pecequilo.

"Porque o Brasil, sendo autônomo e não se alinhando com os Estados Unidos, vai buscar muitas vezes objetivos de reforma da ordem mundial e também um reposicionamento regional. E isso afeta o interesse americano", continua.

Entre 1985 e 1995, por exemplo, Brasília chegou a registrar saldos positivos nas trocas comerciais com os EUA. O cenário muda gradualmente durante o governo de Fernando Henrique Cardoso (FHC), período marcado pela ampliação das compras de aeronaves, veículos, equipamentos eletrônicos e aparelhos de telecomunicações americanos.

A balança comercial passa então a alternar momentos de superávit e déficit nos anos seguintes. O Brasil retoma vantagem em 2002 e atinge um lucro recorde em 2005, impulsionado pelas vendas de minério de ferro, ouro, petróleo e café.

A inflexão definitiva ocorre em 2008, ano da crise financeira americana. Desde então, os Estados Unidos não voltaram a registrar déficit no comércio de bens com o Brasil. O saldo positivo alcançou recordes de 16,5 bilhões de dólares (R$ 81 bilhões) em 2014 e de 15,75 bilhões de dólares (R$ 80 bilhões) em 2021, considerados valores nominais.

O padrão se repete nos últimos dois anos. Em 2025, o déficit brasileiro chegou a 14,4 bilhões de dólares (R$ 73,4 bilhões), mais que o dobro do ano anterior. 

Já no setor de serviços, a balança favorece os americanos ao menos desde 1999. Em valores nominais, 2025 marcou o maior superávit dos EUA dos últimos 26 anos: foram 27,4 bilhões de dólares (R$139 bilhões) obtidos com o mercado brasileiro.

Os dados para 2026, considerados apenas cinco meses, indicam que este ano os valores devem ser ainda maiores. Se considerado o mês de maio, o país se tornou o sexto maior gerador de superávit para os Estados Unidos. Ainda assim, figura como o segundo parceiro comercial mais taxado pela Casa Branca, com tarifa média de 18,2%, atrás apenas da China.

<><> Sanções extrapolam trocas comerciais

"A balança comercial, assim como o comércio exterior, não se trata somente do produto em si. Não é sobre os bens, mas sobre os ganhos relativos dessa relação comercial", afirma o economista Tomás Marques, pesquisador do German Institute for Global and Area Studies (GIGA), em Hamburgo.

Para o pesquisador, o superávit dos EUA mostra que as tarifas não visam corrigir um déficit inexistente, mas reorientar os fluxos comerciais em meio à perda de competitividade de Washington em vários setores, como o de tecnologia.

"Os percentuais [tarifários] são arbitrários. O objetivo é mexer no jogo e renegociar a partir da posição dos Estados Unidos como grande importador. [...] Tarifas e comércio exterior são instrumentos para tentar reorganizar a indústria e recuperar competitividade", completa. 

Isso se traduz na lista de exceções elaborada pelo USTR, por exemplo, que inclui cerca de 2.100 itens, como commodities agrícolas, minerais e metais. Trata-se de produtos cuja demanda interna os EUA não conseguem suprir e que não têm relação com as práticas sob investigação.

Segundo o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio ERosa, isso faz com que apenas 18% das exportações destinadas aos Estados Unidos sejam efetivamente atingidas pela nova medida.

"O comércio é o que está menos em jogo", diz Pecequilo, da Unifesp. "Os Estados Unidos usam o ambiente comercial para pressionar o Brasil em outros setores. [...] Conter o Brasil no campo dos organismos multilaterais, das alianças de geometria variável com os outros países emergentes." Disputas políticas também alimentam as sanções.

<><> Etanol e novos mercados na mira

A justificativa apresentada pelo USTR para taxar o Brasil também é representativa dessa equação. Na investigação contra práticas brasileiras, o escritório cita temas que extrapolam o comércio de mercadorias e a balança comercial. Entre eles, o sistema de pagamentos Pix, a regulação das plataformas digitais e questões ligadas à corrupção.

Já entre os produtos, parte das disputas alfandegárias recai sobre automóveis, autopeças e minerais. Na avaliação americana, acordos firmados pelo Brasil favorecem concorrentes como México e Índia, por exemplo.

Mas é o etanol concentra maior esforço da investigação americana. O USTR acusa o Brasil de interromper seu tratamento tarifário especial ao combustível importado dos EUA em 2017. As importações só voltaram a crescer em 2023. Nas contribuições enviadas durante a consulta pública, representantes da indústria americana defendem que a tarifa de 25% ajuda a recuperar participação de mercado perdida ao longo dos últimos anos. Com outras tarifas genéricas acumuladas, o etanol brasileiro deve entrar nos EUA com taxas acima de 30%.

Para o historiador e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing Leonardo Trevisan, o etanol é rotula de um problema mais amplo. "Eles gostariam de entrar aqui no Brasil, que é um consumidor forte de etanol, mas [o problema] não é o etanol. O 'xis' da história é o brutal crescimento do agronegócio brasileiro", diz.

"A agricultura norte-americana está sentindo fortemente a concorrência da agricultura brasileira. Nos Estados Unidos, isso tem um peso político enorme", conclui.

Em entrevista ao Atlantic Council, o chefe do USTR, Jamieson Greer, não escondeu esse interesse. "Eles [Brasil] são concorrentes dos Estados Unidos, especialmente na agricultura. Sempre que tentamos vender nossas commodities no exterior, competimos com os brasileiros", disse.

Especialistas também contestam a crítica à abertura comercial brasileira para outros mercados. Com a ascensão da China e outros parceiros dos Brics nas cadeias globais de valor, alguns segmentos passaram a competir com áreas tradicionalmente dominadas por americanos e europeus. No caso brasileiro, porém, o aumento das exportações ocorreu para diferentes destinos.

"Não houve substituição dos Estados Unidos pela China. Houve crescimento dos dois lados", afirma Tomás Marques. Dados do Banco Central mostram que quase um terço de todo o capital estrangeiro investido no Brasil tem origem americana.

<><> Quem vai resistir mais?

Para os especialistas, o nível de vulnerabilidade do Brasil nas negociações é maior, mas ambos saem prejudicados com as sanções.

"O Estado brasileiro não tem uma capacidade ampla de barganha com os Estados Unidos", destaca Marques, considerando amplo controle da economia brasileira por empresas estadunidenses. 

Por outro lado, o país é atualmente o principal fornecedor de pelo menos 11 produtos para o mercado americano, destaca Trevisan.

"Esse ponto é essencial para entender essa relação. O Brasil compõe cadeias produtivas integradas. São produtos que começam a ser feitos aqui, porque têm uma série de vantagens, e terminam lá. São 6 mil empresas americanas que têm essa relação com o Brasil, algumas delas imensas", conclui.

"Quem vai resistir mais? Os Estados Unidos, do ponto de vista interno, têm um custo alto ao perder um parceiro importante com o qual mantêm superávit e ao aumentar a autonomia política e econômica do Brasil", questiona Pecequilo. Mas o impacto no mercado brasileiro também é evidente, diz. 

¨      Isenções do tarifaço são 'brecha interessante' para Brasília explorar, afirmam analistas

Itens brasileiros que poderiam mexer com a inflação nos EUA — laranja, café, carne, ferro-gusa, aviões e peças de aeronaves — o que representaria quase dois terços das exportações brasileiras para o país norte-americano, foram poupados da sobretaxa de 25%.

Sob pressão das eleições de meio de mandato, em novembro, e os impactos da inflação no bolso dos cidadãos, a Casa Branca foi conservadora em comparação com o primeiro tarifaço, em meados de 2025, tendo taxado o Brasil em 50% em todas as importações.

O escopo reduzido dessa rodada mostra a importância da economia brasileira para os EUA?

<><> Mesmo nome, dois tarifaços

A princípio, diz Juliana Inhasz, professora e coordenadora do curso de graduação em Economia do Insper, embora as tarifas norte-americanas impactem a economia brasileira, a nova rodada de medidas terá um efeito mínimo com a do ano passado, uma vez que mais de 60% das exportações brasileiras para os Estados Unidos estão de fora, seja por já contar com outros regimes tributários ou por estar na lista de exceções.

Com isso, o impacto tende a se concentrar em segmentos específicos da economia. Cerca de 18% das exportações brasileiras destinadas ao mercado norte-americano foram efetivamente atingidas pela sobretaxa, envolvendo aproximadamente US$ 7 bilhões (mais de R$ 35 bilhões) em vendas.

"Não é um choque generalizado […] É um impacto que existe, mas é bem concentrado em alguns setores. Não é sistêmico, como seria o primeiro tarifaço, sem exceções, se tivesse sido implementado."

Esse movimento já se reflete nos números do comércio exterior. As exportações brasileiras em contêineres para os Estados Unidos perderam participação nos últimos anos, caindo de quase 13% em 2022 para cerca de 9% em 2025, segundo dados da consultoria Solve Shipping Intelligence. Em sentido oposto, a participação da Ásia avançou de 27% para 33%, enquanto a do Oriente Médio chegou a aproximadamente 20% no mesmo período.

A reconfiguração dos fluxos comerciais também alterou a logística marítima. Entre janeiro de 2023 e janeiro de 2026, a capacidade mensal de transporte entre Brasil e Ásia cresceu cerca de 127%, alcançando 355 mil TEUs — unidade equivalente a um contêiner de 20 pés. Em contraste, a capacidade da rota para a Costa Leste dos Estados Unidos recuou aproximadamente 22%.

Como os navios chegam ao Brasil carregados de produtos asiáticos e retornam com espaço disponível, o frete de volta tende a ser mais competitivo, reforçando a migração gradual das exportações brasileiras para novos mercados.

"O fato de haver mais de um ano desde que as tarifas começaram a ser impostas nesse patamar sem dúvida ajudou a que o exportador pudesse construir essas outras parcerias", afirma à reportagem Armando Manuel da Rocha Castelar, professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e da Fundação Getulio Vargas (FGV Direito Rio). "A própria aplicação da Seção 301 era esperada há algum tempo."

"O impacto nos dois casos, do consumidor estadunidense e do exportador brasileiro, depende um pouco de haver alternativas", afirma. O economista ressalta, contudo, que essa adaptação não ocorre de forma homogênea e que as isenções dadas a muitos produtos refletem, sobretudo, casos em que o impacto seria mais significativo para o consumidor estadunidense.

"Em geral é mais fácil redirecionar as exportações de commodities, e mais difícil as de bens manufaturados."

Complementando a análise, Inhasz avalia que o maior peso da medida tende a recair sobre o empresário brasileiro mais dependente do mercado norte-americano e com menor capacidade de redirecionar suas vendas.

"Se o preço aumentar, o consumidor americano simplesmente não compra e sofre pouco. Quem acaba arcando com o custo é o produtor brasileiro, que precisa apertar a margem para continuar competitivo."

<><> Lista de vulnerabilidades de Washington?

Ao retirar vários itens brasileiros da mira do tarifaço, a economista enxerga uma "brecha interessante" que o Brasil pode utilizar nas negociações, tanto no sentido político quanto econômico.

"Se a gente está falando que 60 e poucos por cento das exportações brasileiras que são feitas para os Estados Unidos estão saindo da tarifa, isso mostra que a economia americana não consegue se dar ao luxo de fechar as portas das negociações com o Brasil de maneira estrita."

Assim, Brasília teria espaço para pressionar Washington, seja para evitar uma nova rodada de tarifas por meio da Lei da Reciprocidade Econômica, seja para ampliar sua margem de negociação sem necessariamente recorrer ao instrumento jurídico brasileiro. Contudo, Inhasz considera que uma resposta baseada em retaliações diretas tende a produzir mais custos do que benefícios para o Brasil.

"No longo prazo, o caminho mais estratégico e mais inteligente continua sendo a negociação. Retaliar importações americanas pode até parecer uma vantagem no curto prazo, inclusive politicamente, mas aumenta muito o risco inflacionário e o custo para as cadeias produtivas aqui no Brasil."

Na sua avaliação, uma escalada das tensões comerciais encareceria insumos, dificultaria a produção nacional e poderia elevar os preços para os consumidores brasileiros. Por isso, defende que o país utilize a reciprocidade de forma calibrada.

"Usar a reciprocidade com inteligência, de uma maneira bem-equilibrada, com apoio dos setores e diversificação de mercados, preserva muito a margem que o Brasil tem para negociar. O ideal é responder de uma forma estratégica, mantendo a pressão e pedindo negociação, sem transformar esse momento numa guerra comercial. Nós temos muito mais a perder do que eles."

Na mesma linha, Castelar aponta que o Brasil já tem tarifas bem elevadas de importação e a reciprocidade não mudaria muito o quadro de disputa comercial, podendo complicar mais a questão diplomática com os EUA.

"Acho que a resposta está em traçar uma estratégia mais de longo prazo que reflita esse mundo diferente que passou a prevalecer, não em dar respostas imediatas cujo impacto seria mais emocional que prático."

Nesse sentido, avalia, a opção hoje disponível, usar a Lei da Reciprocidade, teria um impacto negativo maior do que o positivo. Em paralelo, a agenda de negociação teria um foco maior em áreas como terras raras do que café ou suco de laranja. Por isso, o ideal seria repensar a agenda geopolítica brasileira.

"Não me parece que esses bens tenham um impacto suficiente sobre o consumidor americano para funcionar como alavanca de negociação até as eleições de novembro. […] Mas isso vai ser muito influenciado pelo resultado das eleições presidenciais do Brasil."

 

Fonte: DW Brasil/Sputnik Brasil

 

Agressão comercial de Trump não mira apenas o Brasil e atinge 60 países

A nova ofensiva tarifária do governo de Donald Trump não tem o Brasil como alvo exclusivo. Os Estados Unidos passaram a aplicar tarifas adicionais de 10% e 12,5% sobre produtos provenientes de cerca de 60 países e da União Europeia, numa medida que atinge praticamente toda a rede de parceiros comerciais da maior economia do mundo.

Sob a alegação de combater o trabalho forçado e práticas comerciais consideradas injustas, Washington ampliou drasticamente o alcance de suas barreiras alfandegárias. As novas tarifas abrangem 99,4% das importações norte-americanas, embora o governo tenha criado uma extensa lista de exceções para evitar prejuízos às cadeias produtivas, ao abastecimento e à inflação interna.

As informações são da Reuters.

<><> Trabalho forçado é usado como justificativa para protecionismo

A administração Trump afirma que as tarifas foram adotadas para punir países que supostamente não aplicam de maneira adequada proibições relacionadas ao trabalho forçado.

A justificativa, no entanto, foi rechaçada por diversos governos atingidos, que acusam os Estados Unidos de manipular uma pauta ligada aos direitos humanos para sustentar uma política essencialmente protecionista.

União Europeia, Brasil, Austrália e Noruega estão entre os países que contestaram as acusações e classificaram as medidas como injustificadas e sem fundamento consistente.

No caso brasileiro, o governo destacou que o país ratificou todos os principais instrumentos da Organização Internacional do Trabalho voltados ao combate ao trabalho forçado, enquanto os Estados Unidos aderiram a apenas uma parte limitada dessas normas.

<><> Tarifas atingem quase todas as importações americanas

As novas medidas foram implementadas com base na Seção 301 da Lei de Comércio dos Estados Unidos, de 1974.

O dispositivo permite ao governo norte-americano investigar e retaliar práticas estrangeiras consideradas discriminatórias ou prejudiciais aos interesses comerciais dos Estados Unidos.

Com o uso da Seção 301, a administração Trump conseguiu preservar tarifas sobre quase todas as importações do país, mesmo depois de decisões judiciais que haviam colocado em dúvida outros instrumentos utilizados anteriormente para sustentar o tarifaço.

Analistas citados pela Reuters avaliam que as medidas baseadas na Seção 301 poderão ser mais difíceis de derrubar nos tribunais norte-americanos, uma vez que o mecanismo já resistiu a contestações jurídicas anteriores.

<><> Déficits comerciais estão no centro da estratégia

Embora o governo Trump apresente argumentos trabalhistas e humanitários, a ofensiva tarifária ocorre em meio à preocupação dos Estados Unidos com seus persistentes déficits comerciais.

A administração norte-americana tenta reduzir importações, estimular a produção doméstica e forçar outros países a abrir seus mercados às empresas dos Estados Unidos.

A política rompe com princípios que orientaram a globalização econômica nas últimas décadas, como a redução negociada de tarifas, o tratamento não discriminatório entre parceiros e a solução de controvérsias por meio de instituições multilaterais.

Em lugar desses mecanismos, Washington passou a adotar ameaças, sanções e exigências unilaterais, utilizando o tamanho do mercado norte-americano como instrumento de pressão.

<><> Produtos essenciais foram poupados

Apesar da amplitude das tarifas, o governo dos Estados Unidos criou exceções para produtos considerados indispensáveis à economia interna.

Entre os itens poupados estão petróleo, gás natural, fertilizantes, determinados alimentos, aeronaves, componentes industriais, minerais críticos e mercadorias altamente integradas às cadeias produtivas norte-americanas.

Também foram preservados produtos que atendem às regras do Acordo Estados Unidos-México-Canadá, em razão da forte integração econômica entre os três países.

As exceções evidenciam que Washington procurou evitar aumentos de preços e problemas de abastecimento dentro dos próprios Estados Unidos.

<><> Brasil e União Europeia protestam

O Brasil rechaçou as novas tarifas e anunciou que deverá contestá-las no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

O governo brasileiro também iniciou os procedimentos para utilizar os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, que permite responder a medidas consideradas arbitrárias ou discriminatórias.

A União Europeia afirmou que as acusações relativas ao trabalho forçado não correspondem à realidade de sua legislação e de seus mecanismos de fiscalização.

Austrália e Noruega também questionaram a fundamentação das medidas, advertindo que barreiras unilaterais podem provocar retaliações e aprofundar a instabilidade no comércio mundial.

<><> Canadá adota tom moderado

O Canadá preferiu inicialmente uma reação mais cautelosa.

Mesmo diante de tarifas adicionais sobre aproximadamente US$ 20 bilhões em produtos canadenses, o governo afirmou estar disposto a manter um diálogo construtivo com Washington.

A postura reflete a profunda integração econômica entre os dois países e o temor de que uma escalada comercial comprometa setores que dependem de cadeias produtivas transfronteiriças.

<><>Tarifas especiais atingem a China

Os Estados Unidos também pretendem retomar tarifas sobre produtos chineses na faixa de 20%.

Segundo a Reuters, Washington deverá respeitar o limite estabelecido no entendimento firmado entre Trump e o presidente chinês, Xi Jinping, em novembro de 2025, sem ultrapassar o patamar negociado naquele momento.

Mesmo assim, a China permanece como um dos principais alvos da política comercial norte-americana, especialmente em áreas estratégicas como tecnologia, energia, veículos elétricos, baterias e minerais críticos.

<><> Exceções revelam interesses econômicos

O desenho das tarifas demonstra que os critérios adotados não se limitam às acusações sobre trabalho forçado.

Diversos países receberam tratamentos específicos em função de acordos comerciais, características de seus mercados e importância de determinados produtos para a indústria americana.

No setor de vestuário, por exemplo, exportações de países como Bangladesh, Camboja, Indonésia e Malásia poderão utilizar cotas especiais e escapar de parte das tarifas, desde que empreguem insumos produzidos nos Estados Unidos, como o algodão norte-americano.

A condição transforma a política tarifária também em um instrumento para ampliar as vendas de produtos dos próprios Estados Unidos.

<><> Comércio mundial entra em período de incerteza

A aplicação de tarifas sobre 60 países representa uma ruptura significativa com as regras multilaterais construídas ao longo das últimas décadas.

Especialistas temem que a medida provoque uma onda de retaliações, eleve preços, reduza investimentos e prejudique cadeias globais de produção.

Países atingidos poderão buscar novos mercados, ampliar acordos regionais e reduzir sua dependência dos Estados Unidos, acelerando uma reorganização do comércio internacional.

Ao atacar simultaneamente aliados, rivais e parceiros estratégicos, Trump coloca em risco não apenas as relações dos Estados Unidos com países como Brasil e China, mas também as próprias bases da globalização e de um sistema comercial internacional baseado em regras.

•        Brasil é o maior perdedor das tarifas adicionais de Trump, diz Financial Times

O Brasil é o país mais prejudicado pela reformulação da política tarifária dos Estados Unidos, segundo análise do Financial Times.

"De longe, o maior perdedor é o Brasil", afirma reportagem do jornal britânico, publicada nesta sexta-feira (24/7). A publicação destaca ainda que o país já havia sido alvo de tarifas impostas por Donald Trump no início deste mês.

Na quinta-feira (23/7), os Estados Unidos anunciaram uma nova tarifa de 12,5% sobre as exportações brasileiras, sob a alegação de que o país falhou em combater adequadamente o trabalho forçado.

Além do Brasil, outros 59 parceiros comerciais dos EUA são afetados pela medida, com taxas que variam de 10% a 12,5% e entram em vigor nesta sexta-feira (24/7).

A nova tarifa de 12,5% aplicada ao Brasil se soma à taxa adicional de 25% anunciada por Trump neste mês. As duas medidas têm origem em investigações diferentes e, juntas, podem elevar a carga tarifária sobre determinados produtos brasileiros para até 37,5%, excluídas as exceções previstas pelo governo americano.

Em nota, o governo brasileiro classificou a ação como "arbitrária" e "injustificada" e afirmou que o governo americano "optou por manipular tema caro aos direitos humanos e à luta dos trabalhadores e trabalhadoras em todo o mundo para acusar 59 países e a União Europeia de práticas desleais."

Em coletiva de imprensa na noite de quinta-feira, o ministro do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (MDIC), Márcio Elias Rosa, afirmou que cerca de 2 mil produtos exportados pelo Brasil para os Estados Unidos não estarão sujeitos a nenhuma das duas tarifas, mas que muitos setores serão atingidos pela dupla taxação.

Segundo levantamento da organização independente Global Trade Alert, reproduzido pelo Financial Times, a tarifa efetiva aplicada às exportações brasileiras para o mercado americano sobe agora de 11% para 17,7%, tornando o Brasil, de longe, o maior perdedor entre os parceiros comerciais atingidos pelas novas medidas.

A tarifa efetiva representa a média da carga tarifária incidente sobre o conjunto das exportações brasileiras aos EUA. A alíquota nominal máxima de até 37,5% pode atingir produtos específicos sujeitos às duas medidas.

Enquanto diversos países europeus tiveram redução nas tarifas, diz o Financial Times, o Brasil foi alvo de sobretaxas adicionais anunciadas por Trump, o que ampliou sua desvantagem competitiva no comércio com os Estados Unidos.

No texto, o jornal afirma que França, Reino Unido, Alemanha e Espanha passaram a enfrentar tarifas efetivas menores, enquanto Bélgica, Espanha e Itália estão entre os países que mais se beneficiam das mudanças.

Segundo o jornal britânico, essa vantagem decorre da composição das exportações europeias para os Estados Unidos e pelo fato de terem se beneficiado das diversas isenções concedidas a produtos como diamantes, cortiça e ferro-gusa.

Pelas novas regras, a tarifa de 10% aplicada à União Europeia também deixará de ser cumulativa com outras tarifas, como ocorria no regime provisório, conferindo ao bloco de 27 países uma vantagem relativa.

Além do Brasil, outros países da América Latina, como Chile e Colômbia, também registraram aumento das tarifas, assim como China, Vietnã e Indonésia. Ainda assim, de acordo com a reportagem, nenhum deles foi tão afetado quanto o Brasil.

"As tarifas aumentam, especialmente para o Brasil, mas também para a China. Em geral, elas caem para os europeus, ainda que apenas ligeiramente", afirmou ao Financial Times o diretor-executivo da Global Trade Alert, Johannes Fritz.

As novas tarifas foram impostas com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, em uma tentativa da Casa Branca de dar maior respaldo jurídico à política tarifária de Trump, depois que a Suprema Corte dos Estados Unidos considerou ilegais, em fevereiro, as tarifas anunciadas após o chamado "Dia da Libertação", em abril de 2025.

Segundo o Financial Times, a estratégia substitui as tarifas globais provisórias de 10% por um sistema de medidas individualizadas contra 60 parceiros comerciais, dificultando que uma eventual contestação judicial derrube todo o regime tarifário de uma só vez.

•        Setor produtivo rejeita retaliação e pede diálogo após tarifaço dos EUA

A nova tarifa imposta pelo governo de Donald Trump sobre produtos brasileiros provocou reação imediata das principais entidades do setor produtivo, que defenderam nesta sexta-feira (24) a intensificação das negociações entre Brasil e Estados Unidos para evitar o agravamento da disputa comercial.

A medida anunciada pelo governo estadunidense acrescenta uma tarifa de 12,5% às alíquotas já aplicadas anteriormente, fazendo com que determinados produtos brasileiros passem a enfrentar uma tributação de até 37,5% ao entrarem no mercado dos Estados Unidos.

Enquanto o setor empresarial pede uma solução negociada, o Palácio do Planalto classificou a decisão como de “caráter completamente arbitrário e injustificado” e anunciou que recorrerá aos mecanismos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, além de levar o caso à Organização Mundial do Comércio (OMC).

O governo dos Estados Unidos justificou a nova cobrança alegando que o Brasil não possui legislação suficientemente rígida para impedir a entrada de produtos fabricados com trabalho forçado.

<><> Setor produtivo prioriza negociação com Washington

As principais entidades empresariais convergiram na defesa do diálogo entre os dois países e descartaram apoiar uma escalada de retaliações comerciais.

Para a Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham Brasil), a nova tarifa agrava significativamente o ambiente de negócios. Segundo a entidade, 85,3% das exportações brasileiras destinadas aos Estados Unidos passarão a enfrentar a sobretaxa máxima de 37,5%.

Na avaliação da Amcham, o novo cenário reduz a competitividade dos produtos brasileiros, enfraquece cadeias produtivas integradas, retrai o comércio bilateral e pode elevar custos para empresas e consumidores estadunidenses.

O presidente da entidade, Abrão Neto, defendeu a retomada das negociações entre os dois governos. “A nova tarifa amplia os impactos negativos sobre as exportações brasileiras, com diversos setores sujeitos a sobretaxas expressivas de 37,5%. A reversão desse cenário passa necessariamente pela retomada das negociações entre os dois governos. O entendimento bilateral é o caminho mais eficaz para atender aos interesses de ambos os lados”, disse.

<><> Abimaq prevê queda nas exportações aos EUA

A Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq) avalia que o setor será um dos mais afetados pela nova política tarifária. Em 2025, a indústria brasileira de máquinas e equipamentos exportou US$ 13,8 bilhões, sendo os Estados Unidos o principal destino individual das vendas, com aproximadamente US$ 3,2 bilhões, o equivalente a 23% do total.

O presidente executivo da entidade, José Velloso, afirmou que a justificativa apresentada pelo governo norte-americano possui motivação política. “Entendemos que a motivação do governo norte-americano em tarifar produtos importados alegando trabalho forçado é uma decisão que tem um cunho político. Foi uma resposta à Suprema Corte norte-americana, que em fevereiro proibiu o governo americano de taxar produtos sem uma motivação clara. Agora tem a motivação, que é o trabalho forçado.”

“Estamos imaginando que devemos ter uma queda entre 10% e 11% nas nossas exportações para os EUA”, ressaltou Velloso.

O dirigente também ressaltou que a tributação de 37,5% compromete diretamente a competitividade da indústria nacional. “No caso do Brasil, isso é ruim porque nós já tínhamos uma tarifa de 25% e agora passamos a ter uma tarifa de 37,5% com a soma dos 12,5%. Isso tira a nossa competitividade frente às máquinas e aos equipamentos fabricados nos EUA”, afirmou.

Além da negociação diplomática, a Abimaq defende medidas de apoio ao setor, como a regulamentação do Plano Brasil Soberano 3, o diferimento de tributos federais, a ampliação do Reintegra para 5% e políticas de diversificação dos mercados de exportação.

A entidade também se posicionou contra o uso da Lei da Reciprocidade Econômica como resposta às tarifas, por considerar que uma escalada comercial aumentaria custos, reduziria a previsibilidade dos negócios e afetaria cadeias produtivas integradas entre os dois países.

<><> CNI reforça apoio às negociações do governo

Após reunião com o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Márcio Elias Rosa, o presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, reiterou o apoio do setor industrial à estratégia diplomática do governo brasileiro.

“Saímos daqui muito satisfeitos com a afirmação categórica do ministro de que o Brasil vai continuar negociando. Essa é a opção número um que existe neste momento: continuar negociando”, disse Alban

Segundo Alban, governo e indústria discutem a criação de uma missão específica dentro da política Nova Indústria Brasil (NIB) para apoiar empresas afetadas pela nova política tarifária. “Conversamos sobre como podemos ser efetivos de forma emergencial e de forma planejada. Estamos trazendo o apoio imediato do SESI, do SENAI e da CNI para apoiar as empresas afetadas”, afirmou.

A CNI avalia que os produtos manufaturados sofrerão os maiores impactos, pois possuem margens menores e enfrentam maior concorrência internacional, dificultando a absorção da sobretaxa sem perda de mercado.

<><> Fiemg cobra resposta rápida para proteger empresas

A Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) também defendeu uma atuação rápida do governo brasileiro para ampliar a lista de exceções às tarifas impostas pelos Estados Unidos.

A coordenadora de Negócios Internacionais da entidade, Verônica Winter, afirmou que a prioridade deve ser preservar a competitividade da indústria nacional. “O Brasil precisa agir com firmeza, rapidez e capacidade técnica para evitar que essa nova tarifa comprometa ainda mais a competitividade da indústria nacional. A prioridade deve ser ampliar as exceções, garantir previsibilidade às empresas e construir uma solução negociada que preserve contratos, investimentos e emprego”, disse.

 

Fonte: Brasil 247/BBC News Brasil

 

A universidade operacional

A universidade brasileira contemporânea vive um paradoxo: ao mesmo tempo em que se expande e se diversifica, vê-se encurralada por uma lógica de gestão que ameaça sua função primordial de crítica social, atravessada por uma herança colonial que se recusa a morrer. Este ensaio analisa a trajetória do conhecimento nas instituições de ensino superior brasileiras, partindo do mito fundador até a consolidação da universidade operacional.

Sob uma perspectiva crítica e decolonial, investiga-se como representações teológicas e teleológicas da formação social brasileira sustentam continuidades históricas que validam o epistemicídio. Por meio do diálogo entre Marilena Chaui e Sueli Carneiro, o texto examina o dispositivo de racialidade e a transformação da universidade em organização, identificando seus impactos sobre a autonomia intelectual e sobre os limites da descolonização curricular, mesmo diante das ações afirmativas. Argumenta-se que o projeto de saber no Brasil é, em última instância, um projeto de poder e exclusão.

A universidade brasileira contemporânea encontra-se em uma tensão estrutural permanente. De um lado, carrega uma herança colonial que jamais foi plenamente superada; de outro, sofre a pressão de uma racionalidade neoliberal que tende a esvaziá-la como instituição de pensamento crítico. A produção do conhecimento no Brasil nunca foi um processo neutro. Ela se constituiu historicamente como parte integrante do projeto de nação das elites, operando como mecanismo de legitimação simbólica e política de hierarquias sociais.

Nesse sentido, o mito fundador não atua apenas como narrativa identitária ou cultural, mas como operador epistêmico. Ele estrutura os critérios de validade do saber, define quem pode falar, pesquisar e teorizar, e estabelece os limites do que é reconhecido como conhecimento legítimo. A universidade não escapa a esse arranjo. Ao contrário, torna-se um de seus principais dispositivos de reprodução.

Este ensaio propõe uma anatomia crítica dessa arquitetura acadêmica. Mobiliza-se o conceito de mito fundador, formulado por Marilena Chaui, para compreender a teologia política que naturaliza a desigualdade brasileira. Em seguida, analisa-se a transição para a universidade operacional, na qual a autonomia intelectual é progressivamente sacrificada em nome da eficácia gerencial. Elemento central dessa discussão é o dispositivo de racialidade, elaborado por Sueli Carneiro, que permite compreender o epistemicídio como fundamento estrutural da validação científica no Brasil.

O Brasil é regido por uma representação mítica que antecede sua própria existência histórica. A imagem da nação cordial, pacífica e abençoada opera como narrativa que encobre a violência constitutiva do genocídio indígena, da escravidão africana e da expropriação sistemática de corpos e territórios. Essa teleologia do atraso naturaliza as relações sociais e desloca a desigualdade para o campo da fatalidade histórica.

No universo universitário, essa lógica manifesta-se na ideia de que o atraso brasileiro decorre de insuficiências internas, e não de uma estrutura histórica de dominação. A universidade surge, assim, não como espaço de ruptura, mas como mecanismo de modernização conservadora. Importam-se modelos institucionais e teóricos do Norte global como forma de distinção simbólica, preservando-se intactas as hierarquias sociais que sustentam a dependência.

Essa postura expressa uma consciência alienada, na qual o intelectual periférico passa a interpretar o Brasil por meio de categorias exógenas, convertendo o conhecimento em signo de prestígio e não em instrumento de transformação. A modernização universitária, longe de romper com esse padrão, apenas o reconfigura sob novas roupagens institucionais.

A partir da década de 1990, a universidade brasileira passa por uma inflexão decisiva. O modelo institucional orientado por valores públicos e autonomia intelectual cede lugar à universidade organização, regida por critérios de produtividade, desempenho e mensuração. Não se trata da extinção da universidade como instituição, mas de sua subordinação crescente à lógica gerencial.

Nesse contexto, instala-se a heteronomia. A universidade perde sua lei própria e passa a obedecer a imperativos externos, como rankings internacionais, agências de fomento e demandas de mercado. O docente transforma-se em gestor de projetos e operador de métricas, enquanto o pensamento crítico é substituído pelo processamento contínuo de informações.

A noção de excelência torna-se central nesse modelo. Trata-se, contudo, de um conceito vazio, que mede eficiência sem interrogar finalidades. A universidade passa a ser avaliada por indicadores que não dizem respeito ao conteúdo do que se ensina ou pesquisa, mas à sua capacidade de adequação a parâmetros abstratos. O resultado é uma instituição altamente produtiva e intelectualmente empobrecida.

O saber, submetido à técnica perversa do neoliberalismo, perde seu enraizamento territorial e comunitário. As agendas de pesquisa passam a ser orientadas por critérios externos de validação, enquanto o imperativo do publique ou pereça corrói a autonomia intelectual e redefine o sentido do trabalho acadêmico.

A crítica à universidade operacional ganha densidade quando articulada ao pensamento de Sueli Carneiro. A universidade não é apenas uma máquina produtivista; ela é também um dispositivo de racialidade. O racismo não constitui uma distorção ocasional do sistema universitário, mas um de seus fundamentos estruturais.

O epistemicídio designa o processo sistemático de inferiorização, silenciamento e destruição de saberes que não se enquadram na matriz eurocêntrica. Ao negar a negros e indígenas a condição de sujeitos do conhecimento, a universidade produz uma forma de morte simbólica que legitima a exclusão social e política. O conhecimento reconhecido como científico reflete, assim, a imagem do sujeito branco, ocidental e colonizador.

Negros e indígenas são admitidos como objetos de estudo, mas raramente como produtores legítimos de teoria. Para serem reconhecidos, precisam adotar máscaras epistêmicas que apaguem suas experiências, territórios e cosmologias. O epistemicídio não rompe com o mito fundador; ele o atualiza sob a forma da racionalidade científica moderna.

A implementação das ações afirmativas no ensino superior brasileiro representa mais do que uma política de reparação social. Trata-se de uma insurgência cognitiva que tensiona as bases da universidade operacional. A entrada de estudantes negros, indígenas e quilombolas introduz a diferença como critério de validade científica, desestabilizando a lógica da homogeneidade produtivista.

Esse processo desafia o narcisismo epistêmico que sustenta a universidade. Ao ocuparem o lugar de sujeitos produtores de conhecimento, esses novos atores forçam a instituição a confrontar seu histórico de silenciamento. A pesquisa deixa de ser apenas um exercício técnico voltado à acumulação de métricas e passa a dialogar com comunidades, territórios e trajetórias históricas concretas.

A autonomia universitária, frequentemente invocada para proteger currículos coloniais, revela seus limites. Uma autonomia efetivamente democrática só pode existir quando orientada pela pluralização dos saberes e pela abertura a conhecimentos ancestrais, populares e territorializados.

Desoperacionalizar a universidade não significa abdicar do rigor, mas refundar o próprio conceito de conhecimento. Enfrentar o epistemicídio exige recuperar a universidade como instituição crítica, capaz de interrogar suas próprias bases históricas e políticas.

A autonomia universitária não pode ser reduzida a uma blindagem corporativa ou à liberdade de gerir métricas. Ela só se legitima quando expressa um projeto coletivo de democratização do saber. Isso implica promover uma ecologia de conhecimentos, reconhecer matrizes negras e indígenas como fundamentos do pensamento social brasileiro, reorientar a extensão universitária como eixo epistemológico e instituir uma justiça epistêmica que confronte o produtivismo acadêmico.

Desoperacionalizar a universidade é, em última instância, um ato de insubordinação intelectual. Trata-se de romper com o mito fundador para que a universidade brasileira deixe de ser um centro de processamento de dados e se torne um território plural, crítico e comprometido com a produção de vida e futuro.

 

Fonte: Por Carlos A. P. Vasques, em A Terra é Redonda

 

Tratamento de câncer de próstata severo: "Quanto tempo me resta de vida?"

“Quanto tempo me resta de vida?”

Quando digo a um paciente que ele tem câncer de próstata, esta é geralmente a primeira coisa que ele me pergunta.

No caso de câncer de próstata em estágio inicial ou de baixo grau, posso oferecer uma garantia sólida: sua expectativa de vida é boa — espere uma taxa de sobrevida relativa de cinco anos superior a 99% com o tratamento. Em outras palavras, a maioria dos homens não morrerá de câncer de próstata de baixo grau.

No entanto, quando o câncer se espalha para além da próstata, atingindo os ossos e outros órgãos, a resposta torna-se mais complexa. O tratamento do câncer de próstata avançado mudou drasticamente na última década. Novos medicamentos, exames de imagem mais precisos e o uso precoce de terapias combinadas estão ajudando os homens a viverem mais tempo.

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Em um vídeo divulgado em 15 de julho, o ex-presidente Joe Biden atualizou as informações sobre seu câncer de próstata, afirmando que os tratamentos que recebeu têm apresentado bons resultados. Em maio de 2025, Biden anunciou oficialmente que tinha uma forma agressiva de câncer de próstata que havia se espalhado para os ossos. Desde então, de acordo com informações oficiais, ele continuou a terapia hormonal, concluiu um ciclo de radioterapia e manteve sua presença pública ativa.

Seu diagnóstico trouxe atenção renovada para o rastreamento e tratamento do câncer de próstata. Agora, mais de um ano depois, sua jornada contra o câncer oferece uma oportunidade para examinar o que mudou no tratamento do câncer de próstata avançado — e a esperança que isso oferece aos homens que vivem com a doença.

Recentemente, atendi um paciente que foi diagnosticado há três anos com um câncer que já havia se espalhado para várias áreas dos ossos. Desde então, ele fez cruzeiros, viajou com a família e passou os fins de semana cuidando dos netos.

Ele se cansa e não consegue mais cuidar do jardim como antes. Mas ainda está vivo e considera cada dia uma bênção. Sua experiência, e o que vemos com Biden, mostra como é viver com câncer de próstata metastático hoje em dia.

<><> Entendendo as taxas de sobrevivência

Se ainda não consultaram seu médico, muitos pacientes pesquisam online e encontram taxas de sobrevida de cinco anos, mas todos os números encontrados na internet vêm com um enorme asterisco.

A Sociedade Americana do Câncer relata uma sobrevida relativa de cinco anos superior a 99% quando o câncer de próstata é encontrado na próstata ou próximo a ela. Esse número cai para 38% quando o câncer se espalha para outras partes do corpo.

Mas esse número se baseia em grandes grupos de homens tratados anos atrás. Ele não reflete totalmente o impacto dos tratamentos mais recentes — nem leva em conta a idade, a saúde geral e a resposta individual à terapia de cada homem.

As estatísticas de sobrevivência descrevem grupos de pacientes, mas não preveem o que acontecerá com uma pessoa individualmente. É por isso que a taxa de 38% não pode nos dizer quanto tempo Biden — ou qualquer paciente individual — viverá. O prognóstico desses pacientes depende das características do câncer e de como eles estão respondendo aos tratamentos.

<><> Agora é tratado de forma mais agressiva

Um homem diagnosticado com câncer de próstata metastático há dez anos e um homem diagnosticado hoje não receberiam o mesmo tratamento. A ideia agora é usar nossos melhores tratamentos precocemente, em vez de adiá-los.

Durante anos, os médicos iniciavam o tratamento com terapia hormonal — geralmente injeções que reduzem a testosterona — e reservavam outros tratamentos para quando o câncer parasse de responder.

Hoje em dia, essas injeções são frequentemente combinadas desde o início com um medicamento bloqueador hormonal mais recente e/ou quimioterapia. Essas combinações ajudaram os homens a viver mais tempo e representam uma das maiores mudanças da última década.

<><> O que o diagnóstico de Biden nos revelou

Há três detalhes sobre o câncer de Biden que ajudam médicos como eu a entender o quão agressivo ele é e como tratá-lo eficazmente. Declarações oficiais destacaram que seu câncer tinha uma pontuação de Gleason de 9. O câncer havia se espalhado para os ossos e foi classificado como sensível a hormônios .

A pontuação de Gleason é atribuída após um patologista examinar amostras de biópsia. As pontuações geralmente variam de 6 a 10, sendo que números mais altos indicam um câncer mais agressivo. Uma pontuação de 9 se enquadra na categoria mais agressiva. No entanto, a pontuação sozinha não pode nos dizer se o câncer se espalhou para fora da próstata.

Quando o câncer de próstata se espalha, o destino mais comum são os ossos — particularmente a coluna vertebral, a pélvis e as costelas. Ele também pode atingir órgãos como os pulmões ou o fígado. Uma vez que atinge partes distantes do corpo, geralmente não é curável, mas o tratamento pode retardar sua progressão por anos.

O câncer de próstata também pode ser hormônio-sensível ou hormônio-resistente. Como normalmente depende da testosterona para crescer, reduzir o nível desse hormônio ou bloquear seus efeitos pode ajudar a controlar o câncer. Ser hormônio-sensível significa que ele ainda responde a esses tratamentos.

Com o tempo, a maioria dos cânceres de próstata avançados ou metastáticos encontra maneiras de crescer apesar dos baixos níveis de testosterona, o que significa que agora são resistentes aos hormônios. Reduzir apenas a testosterona não é mais suficiente para controlar o câncer, então os médicos precisam recorrer a terapias adicionais.

<><> Saber se o câncer se espalhou

O exame de imagem mais sensível disponível atualmente é a tomografia por emissão de pósitrons (PET) com PSMA. Ele utiliza um traçador radioativo que detecta uma proteína presente na superfície das células cancerígenas da próstata. Áreas com células cancerígenas podem aparecer como pontos brilhantes, auxiliando na identificação da disseminação do câncer. A Associação Americana de Urologia recomenda o uso desse exame de imagem para determinar se o câncer de próstata de alto risco se disseminou e para auxiliar no estadiamento da doença.

A cintilografia óssea tradicional, utilizada há décadas, destaca áreas onde o osso está reagindo a lesões ou doenças. Ela continua sendo uma opção de imagem alternativa, mas a PET com PSMA está substituindo cada vez mais seu uso.

As áreas afetadas e a sua localização são fatores importantes na escolha do tratamento. Um único foco de câncer na coluna e um câncer que se espalhou para o fígado são ambos considerados estágio 4, mas não são a mesma doença e podem não ser tratados da mesma forma.

Os médicos também consideram o quanto o câncer se espalhou. Classificamos como doença de "baixo volume" quando o câncer atingiu um número limitado de áreas. Alto volume ocorre quando a disseminação é mais ampla ou atingiu outros órgãos, como o fígado ou os pulmões.

Ambas as condições requerem tratamento que atue em todo o corpo. O tratamento para doença metastática geralmente inclui terapia que atua em todo o corpo. Para homens com doença de baixo volume, adicionar radioterapia à próstata também pode ajudá-los a viver mais tempo.

Biden concluiu um ciclo de radioterapia, mas sua equipe não divulgou qual área foi tratada nem detalhes suficientes para determinar se seu câncer seria considerado de baixo ou alto volume.

<><> O tratamento tornou-se mais preciso

Além de iniciar tratamentos mais cedo, os médicos podem, cada vez mais, adaptar a terapia à biologia do câncer de cada paciente. Agora podemos testar tanto o tumor quanto o DNA do próprio paciente em busca de mutações que ajudam a orientar o tratamento.

Aproximadamente 1 em cada 10 homens com câncer de próstata metastático apresenta uma mutação hereditária que afeta a capacidade do corpo de reparar o DNA. As mais conhecidas são os genes BRCA1 e BRCA2, os mesmos genes associados a alguns tipos de câncer de mama e de ovário.

Certas mutações encontradas no tumor ou no DNA herdado podem tornar os medicamentos direcionados, chamados inibidores de PARP, uma opção viável. Se uma mutação for herdada, ela também fornece aos familiares informações que podem ser utilizadas por meio de aconselhamento genético, testes e rastreamento precoce.

Outro avanço é a terapia com radioligandos . Se um exame mostrar que as células cancerígenas expressam uma proteína chamada PSMA, os médicos podem ligar a radiação a uma molécula que se liga a essa proteína. Administrada por via intravenosa, essa terapia atinge as células cancerígenas em todo o corpo. Essa abordagem foi expandida no ano passado para incluir mais homens cujo câncer se tornou resistente a hormônios.

<><> Viver mais tempo pode ter um custo

Todo tratamento pode causar efeitos colaterais. Com a terapia hormonal, um dos primeiros efeitos colaterais costuma ser o aparecimento de ondas de calor, semelhantes às que as mulheres sentem durante a menopausa. Essas ondas de calor não são perigosas, mas podem afetar a qualidade de vida do homem.

A fadiga também é comum. A testosterona ajuda a manter a massa muscular, portanto, sua redução pode diminuir a força e a energia. Caminhadas regulares e exercícios de resistência podem ajudar a preservar a massa muscular e reduzir a fadiga.

Um efeito colateral que quase ninguém menciona é a perda do desejo sexual ou a baixa libido. No momento do diagnóstico, a maioria dos homens pensa em sobreviver, não na libido. Mas meses depois, isso costuma fazer diferença. Vale a pena conversar sobre o assunto com sua equipe médica e sua parceira, em vez de presumir que seja simplesmente o preço a se pagar pelo tratamento.

O efeito colateral que mais me preocupa é o enfraquecimento dos ossos. A baixa testosterona reduz a densidade óssea, enquanto os depósitos de câncer podem enfraquecer a estrutura óssea. O acompanhamento deve incluir exercícios, densitometria óssea e a garantia de níveis adequados de cálcio e vitamina D. Para homens com câncer resistente a hormônios que se espalhou para os ossos, medicamentos que protegem os ossos podem reduzir o risco de fraturas e outras complicações.

Dor lombar nova ou agravada, especialmente acompanhada de fraqueza nas pernas, dormência ou dificuldade para controlar a bexiga ou os intestinos? Esses sintomas podem indicar que o câncer está pressionando a medula espinhal. Trata-se de uma verdadeira emergência médica que requer atenção imediata.

<><> O tratamento do câncer exige uma abordagem multidisciplinar

Idealmente, vários médicos trabalham em conjunto para coordenar o tratamento de um paciente. O urologista costuma ser o ponto de partida. Um oncologista clínico gerencia os tratamentos que atuam em todo o corpo, enquanto um radiooncologista foca em áreas específicas, seja a própria próstata ou uma lesão óssea dolorosa. O médico de atenção primária ajuda a proteger o coração e os ossos do paciente e cuida da sua saúde geral.

A idade do paciente, outras condições médicas, a capacidade de tolerar efeitos colaterais e os objetivos do tratamento são fatores que influenciam os planos de tratamento. Dois homens com resultados de exames quase idênticos podem receber — ou escolher — caminhos diferentes com base em sua saúde e prioridades.

Uma boa comunicação entre os médicos é essencial, mas falhas podem ocorrer. Ser seu próprio defensor significa saber quem faz parte da sua equipe de atendimento, fazer perguntas e entender suas opções.

Recomendo também levar alguém de confiança às consultas importantes para lhe dar apoio, tomar notas e ajudar a lembrar-se do que foi discutido.

<><> Mais tratamentos e melhores testes oferecem esperança

Para homens preocupados com câncer de próstata, converse com seu médico sobre os benefícios e riscos do exame de PSA. Homens negros e aqueles com forte histórico familiar devem iniciar essa conversa a partir dos 40 anos. Novos sintomas urinários geralmente não indicam câncer, mas ainda assim merecem atenção, assim como sangue na urina ou no sêmen, perda de peso inexplicável e/ou dor persistente nas costas ou nos ossos.

Para homens que vivem com câncer de próstata avançado, há motivos para ter esperança. Existem mais tratamentos e melhores exames do que havia há uma década, e um bom atendimento leva em consideração como o homem se sente, e não apenas o que os exames mostram.

•        Novo tratamento reduz em 83% risco de avanço do mieloma e busca cura

Uma nova combinação de imunoterapias aprovada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) pode mudar o tratamento do mieloma múltiplo, um tipo de câncer do sangue que, embora ainda não tenha cura, costuma apresentar recaídas ao longo da vida. Em estudo clínico internacional, o tratamento reduziu em 83% o risco de progressão da doença ou morte em comparação com as terapias padrão e manteve oito em cada dez pacientes vivos e sem avanço do câncer após três anos.

A CNN Brasil acompanhou, nesta quinta-feira (23), um evento promovido pela Johnson & Johnson, em São Paulo, que reuniu especialistas e pacientes para discutir os avanços da nova terapia e o cenário do mieloma múltiplo no Brasil.

A aprovação da Anvisa permite o uso da combinação entre teclistamabe e daratumumabe - que ficou conhecido como "Tec-dara" em pacientes adultos com mieloma múltiplo recidivado ou refratário que já tenham recebido pelo menos uma linha de tratamento. O Brasil se tornou o segundo país do mundo a autorizar essa estratégia terapêutica.

Os resultados são baseados no estudo de fase 3 MajesTEC-3, o primeiro ensaio clínico desse porte com um anticorpo biespecífico para mieloma múltiplo. Além da redução de 83% no risco de progressão da doença ou morte, a pesquisa mostrou taxa de sobrevida global de 83,3% após três anos de acompanhamento.

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Segundo a hematologista Vania Hungria, professora da Santa Casa de São Paulo e investigadora do estudo, o avanço representa uma mudança importante na forma de tratar pacientes cuja doença voltou após o tratamento inicial.

Além da eficácia, a combinação utiliza menos corticoides, é administrada por via subcutânea e pode ser aplicada em ambiente ambulatorial, o que tende a melhorar a qualidade de vida dos pacientes.

<><> O que é o mieloma múltiplo?

O mieloma múltiplo é um câncer hematológico que afeta os plasmócitos, células da medula óssea responsáveis pela produção de anticorpos. Quando essas células se tornam cancerígenas, passam a se multiplicar de forma descontrolada, comprometendo a produção normal das células do sangue e o funcionamento do sistema imunológico.

Entre os sintomas mais comuns estão:

•        Dores e fraturas ósseas

•        Anemia

•        Fadiga intensa

•        Infecções recorrentes

•        Problemas renais

Apesar de ainda ser considerado incurável, os tratamentos disponíveis têm ampliado o controle da doença e a expectativa de vida dos pacientes.

<><> Pacientes vivem mais e com melhor qualidade de vida

Durante o evento, duas pacientes que participaram do estudo clínico compartilharam como a nova terapia transformou suas rotinas após a recaída da doença.

Diagnosticada com mieloma múltiplo em 2017, a engenheira civil e advogada Mônica Deganello, de 58 anos, enfrentou dois transplantes de medula óssea e cinco anos de tratamento de manutenção antes de descobrir que o câncer havia retornado.

Foi nesse momento que recebeu o convite para integrar o estudo clínico da nova combinação de imunoterapias. Quatro anos depois, ela permanece em remissão completa e afirma ter recuperado a qualidade de vida.

O tratamento permitiu que retomasse antigos planos, como concluir a faculdade de Direito, conquistar a carteira da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) e conciliar a advocacia com a administração da empresa de engenharia da família. Além da rotina de trabalho, mantém hábitos saudáveis, com musculação, caminhadas e alimentação regrada.

A história de Nícia Dalfre, de 67 anos, moradora de Limeira, no interior paulista, também é marcada pela retomada da autonomia.

Supervisora de controle de qualidade, ela descobriu o mieloma múltiplo em 2019, após meses de dores persistentes e um percurso difícil até o diagnóstico.

Passou por cirurgia, transplante de medula óssea e tratamentos intensivos, mas voltou a apresentar progressão da doença dois anos depois. Indicada pela equipe da hematologista Vania Hungria, ingressou no estudo clínico e, desde então, está em remissão completa.

Com a melhora, retomou atividades que haviam se tornado inviáveis durante o tratamento, como participar de caminhadas, fazer pilates e fisioterapia e até assistir a shows.

"Achei que a doença já estava controlada quando veio a recaída. Foi um choque, mas aceitei participar da pesquisa e hoje tenho uma vida relativamente normal", relatou.

<><> Acesso do medicamento

À CNN Brasil, Vania Hungria afirmou que o ritmo das descobertas científicas é muito superior ao da incorporação de novos medicamentos pelo Sistema Único de Saúde (SUS).

"No SUS, os pacientes continuam sem acesso. A lenalidomida foi, teoricamente, incorporada, mas ainda não é uma realidade. Tem várias drogas. Infelizmente, a nossa política não está favorável às incorporações dessas medicações e ao acesso para esses pacientes."

A hematologista acrescenta que a diferença entre o avanço da pesquisa e a oferta de tratamentos no sistema público tem aumentado.

"Eu diria que os estudos caminham muito mais rápido que a incorporação no sistema público de saúde. É uma tremenda injustiça ver pacientes do SUS sem acesso."

Como alternativa, ela afirma que muitos pacientes da rede pública conseguem receber terapias inovadoras por meio da participação em estudos clínicos.

"O que eu faço, particularmente, é levar muitos pacientes do sistema público para participar de estudos clínicos. Não resolve o problema, mas conseguimos beneficiar alguns pacientes."

 

Fonte: CNN Brasil