sexta-feira, 6 de novembro de 2026

O Outubro Brasileiro - como as ações dos jovens mudaram tudo

Os jovens estão se revelando uma grata surpresa para aqueles que pensavam que a extrema-direita os tinha do seu lado. Sabemos como o movimento dos inquilinos está mudando a apatia em relação à participação política na Espanha, a ponto de forçar Pedro Sánchez, em uma manobra eleitoral, a convocar eleições antecipadas para tentar estancar a sangria de votos para o seu partido e resistir ao avanço da extrema-direita.

Do acampamento na Puerta del Sol e de outros que ocorreram em diversas cidades do país, os jovens estão enviando sinais claros de seu compromisso com o futuro político da nação. Vemos também como, na França, estudantes do ensino médio estão literalmente arriscando suas vidas na luta por uma educação de qualidade que lhes permita um futuro negado pelo governo militarista do presidente Emmanuel Macron. Ou, como na Itália, a mesma juventude organizada enfrenta a polícia truculenta da primeira-ministra Giorgia Meloni. Na Sérvia, o movimento estudantil impulsionou a vitória eleitoral da oposição sobre o primeiro-ministro Aleksandar Vučić, que estava no poder há 14 anos. E na vizinha Portugal, os jovens também lutam por moradia digna para todos.

Não devemos nos desesperar com o suposto apoio ao Vox por parte de uma parcela do eleitorado jovem; eles não representam a maioria. Devemos confiar na capacidade deles de reverter a inércia que desmobiliza. Em todo o mundo, da Índia ao Brasil, a maioria dos jovens está conectada à realidade política, lutando por um futuro mais digno por meio de mobilizações populares.

Na noite de 4 de outubro, na coletiva de imprensa do presidente Lula da Silva para reconhecer sua derrota no primeiro turno das eleições brasileiras, o clima era de luto profundo e do fim de uma era. Os políticos veteranos presentes — o ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad; o presidente e coordenador de campanha do PT, Edinho Silva; e a primeira-dama Rosângela da Silva, apoiadora de longa data do PT, entre outros — exibiam as expressões de quem sucumbiu à mais profunda depressão pós-derrota.

A exceção, claro, foi o presidente Lula da Silva, que discursou para a multidão, incentivando seus apoiadores e o público. Uma simples observação da linguagem corporal revelou que a batalha era considerada perdida pela grande maioria. Vale lembrar as palavras de profundo pesar dos jornalistas do canal independente Brasil 247, que exigiram uma mudança drástica nos rumos da caótica campanha do segundo turno. Alguns chegaram a pedir algum gesto da campanha para acalmar os mercados financeiros, algo que, felizmente, não aconteceu.

As previsões dos analistas eleitorais também não eram positivas para o segundo turno, pois a diferença de votos do primeiro turno garantiria uma vitória tranquila para Flávio Bolsonaro. O drama se desenrolou quando os candidatos conservadores Augusto Cury, Ronaldo Caiado e Romeu Zema, assim como a maioria dos governadores, deputados, senadores e prefeitos, não só apelaram para seus eleitores, como também começaram a trabalhar incansavelmente para garantir o sucesso de Bolsonaro. Desta vez, nem mesmo a onda de votos da região Nordeste do país, onde o presidente Lula da Silva havia conquistado mais de 70% dos votos em alguns estados, conseguiu deter a extrema direita.

Mas a arrogância típica da família do candidato da oposição o levou ao primeiro grande erro em uma série de deslizes infelizes durante sua campanha no segundo turno. Da sede do Partido Liberal (PL), confiante na vitória, foi anunciado que emendariam a Constituição de 1988 e restringiriam os programas sociais do governo. Em seguida, vazaram nomes para cargos ministeriais, como os de Economia e Segurança Pública, juntamente com convites a chefes de Estado estrangeiros para a posse em 5 de janeiro, incluindo o presidente da Colômbia, Abelardo de la Espriella.

No Brasil, políticos experientes sabem que o eleitorado não perdoa quem tenta prever o resultado final da votação. O exemplo mais notório disso foi quando o ex-presidente Cardoso ousou se candidatar à prefeitura de São Paulo antes do fim da campanha eleitoral de 1985 e perdeu para Jânio Quadros.

A mudança paradigmática fundamental da primeira para a segunda rodada da campanha foi a conquista das redes sociais pela esquerda. Graças à iniciativa do deputado André Janones, o canal do WhatsApp "Exército de Lula" tornou-se uma arma crucial para o sucesso da campanha digital do PT, ostentando quase onze milhões de seguidores. As ruas alimentaram as redes sociais, e as redes sociais amplificaram a ação nas ruas. Enquanto isso, os jovens parlamentares recém-eleitos — Ana Elisa (PT), Pedro Rousseff (PT), Guilherme Cortez (PSOL), Rosa Amorim (PT) e Luna Zaratinni (PT) — juntaram-se ao grupo responsável pela bem-sucedida mobilização da esquerda nas plataformas digitais. Esse grupo, autodenominado "Vingadores", ampliou o apoio à candidatura de Lula da Silva introduzindo conteúdo digital em plataformas como Instagram, TikTok, WhatsApp e YouTube.

No entanto, o que ninguém poderia ter imaginado foi a verdadeira "surpresa de outubro" que transformou completamente o cenário do segundo turno das eleições. A mudança veio de forma inesperada, espontânea e como uma avalanche. Começou como uma revolta juvenil em todo o país, seguida por um tsunami popular que sacudiu as ruas do Brasil.

Tudo começou em 5 de outubro, com o que deveria ser uma mobilização juvenil espontânea, quase sem grandes ambições. A União Nacional dos Estudantes (UNE), tradicionalmente ligada ao Partido Comunista, convocou encontros estudantis entre seus parceiros setoriais em todo o país: os Centros Acadêmicos (CA) e as Diretorias de Empreendedorismo Estudantil (DCE). A UNE esperava pouco mais do que uma resposta morna, já que este era apenas um dos inúmeros apelos à mobilização estudantil em defesa da democracia. Manifestações isoladas eram esperadas, visto que, desde 2014, a extrema direita controlava as ruas do Brasil.

As coisas mudaram quando o Movimento Brasil Livre (MBL), de centro-direita e apoiado pelos EUA, capitalizou-se em uma mobilização popular contra o aumento das tarifas de serviços públicos e os gastos excessivos com a Copa do Mundo de 2014. Esses protestos cresceram e pressionaram o governo da então presidente Dilma Rousseff. O MBL liderou manifestações que se tornaram uma plataforma para o golpe parlamentar e judicial que culminou na prisão do presidente Lula da Silva. O resultado foi uma década quase desastrosa, com a extrema direita controlando as ruas e as instituições do país.

O apelo da UNE foi ecoado horas depois pela Universidade Federal Fluminense (UFF) em Niterói, Rio de Janeiro. Estudantes de Direito da UFF organizaram um evento em seu campus, mas, como compareceram muitas pessoas, decidiram ir às ruas em uma manifestação massiva em apoio à reeleição do presidente, que surpreendentemente contou com a adesão de moradores locais. Esse evento espontâneo desencadeou um movimento nos campi das maiores universidades do Brasil e, a partir daí, o movimento jovem continuou a ocupar as ruas do país em manifestações massivas em apoio à reeleição do presidente, espalhando-se para outros setores da sociedade brasileira. O nível de mobilização popular pela reeleição de Lula da Silva, visto entre 5 e 25 de outubro, é agora uma história que merece ser contada.

Outro desenvolvimento inesperado foi a integração dos chamados fandoms às manifestações espontâneas de rua. Esse grupo de jovens, antes considerado apolítico, tornou-se uma força motriz central por trás das mobilizações em larga escala em São Paulo. Sob o lema "Fandoms na rua com Lula: Marcha pela democracia", fã-clubes de mais de 70 grandes artistas brasileiros e internacionais, incluindo Madonna, Taylor Swift, Xuxa, Daniela Mercury, Luisa Sonza e muitos outros, declararam seu apoio a Lula da Silva e ajudaram a lotar a Avenida Paulista com uma multidão inesperadamente grande.

Em 11 de outubro, ocorreu na cidade de São Paulo a maior manifestação de apoio a um candidato em décadas, mas em 24 de outubro, no comício de encerramento da campanha, a multidão superou até mesmo essa. O mesmo aconteceu no centro de Belo Horizonte, na praia de Copacabana, no Rio de Janeiro, na orla de Salvador, Belém, Fortaleza, Recife, Brasília e em diversas capitais, cidades grandes, médias e pequenas por todo o país. A mobilização popular em favor de Lula da Silva atingiu proporções sem precedentes; dos 5.500 municípios brasileiros, mais de 800 realizaram manifestações com mais de 3.000 participantes. Considerando que metade dos municípios do país tem menos de 20.000 habitantes, é possível ter uma ideia bastante precisa do nível de mobilização nas três semanas entre o primeiro e o segundo turno das eleições.

A participação da campanha de Lula da Silva no movimento pode ser considerada meramente simbólica. O Partido dos Trabalhadores (PT) foi um mero observador do extraordinário movimento que tomou as ruas do país. Até mesmo materiais de campanha, como bandeiras e adesivos, eram praticamente inexistentes. Nada parecido havia sido visto desde a campanha presidencial direta de 1984, após o fim da ditadura militar.

São Paulo é considerada um barômetro do Brasil; aquelas manifestações massivas na maior cidade do país, governada pelos apoiadores mais militantes de Bolsonaro — o governador Tarcísio de Freitas e o prefeito Ricardo Nunes — pareciam sinalizar que algo significativo estava prestes a acontecer. Os institutos de pesquisa não refletiram isso: o prestigiado instituto Data Folha projetou 51% dos votos para Bolsonaro contra 49% para Lula da Silva apenas um dia antes do segundo turno.

Os veteranos líderes do PT que acompanharam Lula da Silva no dia de sua derrota no primeiro turno — políticos legítimos com inegável histórico de serviços prestados ao país — não compartilham a trajetória política e de vida singular que conferiu a Lula da Silva uma conexão tão especial com a classe trabalhadora brasileira, conexão essa comprovada inúmeras vezes. O político octogenário, apesar de todos os erros cometidos no primeiro turno e durante seu mandato anterior, compreendeu seu papel na transformação sísmica que tomou conta do país nas últimas três semanas de outubro.

O presidente foi impulsionado pelo movimento democrático avassalador liderado pela juventude e esteve ao lado dela, inspirando a convulsão social que varreu a sociedade. Ele é, sem dúvida, um estadista de primeira grandeza que entende melhor do que ninguém que batalhas árduas precisam ser travadas. Não nos esqueçamos de que, antes de chegar à presidência pela primeira vez, o ex-operário perdeu três eleições e que, em 2023, poucos meses após ser libertado da prisão, conquistou uma vitória apertada contra toda a máquina corrupta do governo de Jair Bolsonaro, apenas para, nos primeiros dias de seu mandato, enfrentar com sucesso uma tentativa de golpe e um atentado contra sua vida.

Apesar das críticas justificadas às políticas econômicas do chamado "Lula 3", sem dúvida um dos motivos que dificultaram sua vitória no primeiro turno, um dos maiores trunfos do presidente é sua extraordinária visão política, evidente na escolha de jovens, mulheres e idosos como aliados durante o difícil segundo turno. Nas três semanas finais, a campanha eleitoral cedeu espaço ao povo e, pela primeira vez na história do país, permitiu que este assumisse o controle do processo eleitoral. O aspecto mais extraordinário da onda popular de outubro foi a retomada das ruas pela juventude de esquerda no Brasil, com o resultado inesperado de um aumento incrível de mais de dez milhões de votos em apenas três semanas.

Desta vez, o povo brasileiro venceu uma batalha existencial contra seus tradicionais inimigos internos e externos, em uma eleição cuja vitória tem conotações épicas na história do país.

¨      Outra vez, os jovens. Por Rudá Ricci

O Exército do Janones não teve relação direta com as mobilizações dos jovens pró-Lula no segundo turno. Tanto que tiveram início em situações e mobilizações distintas. A dos jovens começou com mobilização estudantil.

Tudo começou com a mobilização de estudantes da Universidade Federal Fluminense (UFF)  que partiram da Faculdade de Direito da universidade no Ingá até a reitoria da instituição logo no dia 5 de outubro, após a divulgação dos resultados do primeiro turno. Saíram gritando "a juventude pode mudar o mundo".

Ali, a campanha de Lula ganhava um formato de 2013 e a coordenação da campanha perdia o controle político. Em 2013, a cúpula do PT se assustou com tal descontrole e criou uma versão falaciosa de que se tratava de ataque da direita contra o governo Dilma.

Agora, estando ao lado da campanha petista, a tolerância veio à tona. Mas, continua o mesmo "ethos" de 2013: comando descentralizado, espontaneidade, estilo mais irreverente e agressivo, agenda que vai além do quadrado lulista. Decretaram o fim "da esquerda paz e amor"

A manifestação dos jovens transbordou e dominou todo segundo turno e chegou à imagem mais emocionante e surpreendente com a juventude carregando idosos até as urnas.

O que quero sugerir é que este tipo de manifestação juvenil quebra, de certa maneira, o conceito clássico de movimento social. Antes de tratar do conceito, lembro que há uma onda em curso envolvendo jovens no mundo todo.

Jovens tomam, neste momento, as ruas da França, Espanha, Portugal, Itália, Albânia, Sérvia, América Latina e Ásia. Todos lutam por políticas públicas inclusivas. Assim como ocorreu de 2011 a 2013.

Retomo a crise do conceito de movimento social. O termo surgiu em 1840, quando Lorenz Van Stein sugeriu estudos que explicassem os movimentos sociais e, em especial, o movimento operário francês e movimentos socialistas europeus.

Desde então, os estudos se dividiram em duas correntes: aqueles que entendiam os movimentos sociais como formas de expressão de grupos, como formas de ação social, como Marx, Weber, Durkheim, Parsons e Gramsci.

E a vertente que concebia os movimentos sociais irracionais, que tenderiam a romper com a ordem social e, portanto, com a moral, as instituições e as formas de sociabilidade construídas historicamente em cada sociedade (é o caso de Le Bon, Tarde e Ortega y Gasset).

As duas correntes, entretanto, concebem os movimentos sociais como frutos de tensões sociais que ocorrem em sociedades desiguais e que, geralmente, estão inseridos num processo de mudança, o que gera formas de solidariedade alternativas.

O que é comum quando se falou de movimentos sociais? Que eram lutas por direitos (novos ou não realizados, embora inscritos nas leis), que se impunham pelo conflito, que tinham certa organização e perenidade. Mas, é isso que vimos em 2013 e agora?

Para mim, o que estamos vendo no século 21 são mobilizações sociais: atos, protestos ou eventos pontuais, conjunturais e muitas vezes espontâneos de reunião de pessoas. Seu foco se relaciona à urgência, crise ou pauta imediata. Não são movimentos constituídos

Os movimentos sociais que ainda existem no Brasil foram todos forjados no final do século passado. Agora, temos mobilizações provisórias que ninguém consegue garantir que continuarão na próxima semana ou se conseguirão se constituir em organizações

Se o que estou sugerindo tem sentido, então, as formas atuais de representação social - incluindo os partidos políticos - não conseguem acompanhar tal velocidade e provisoriedade.

Termino por aqui. Tem algo de muito novo que foi explicitado ou insinuado no segundo turno das eleições que terminaram há algumas horas. Vamos tatear algum tempo até entendê-lo. Enquanto isso, o novo continua por aí.

 

Fonte: Por Zainer Pimentel, em El Salto/IHU

 

As vozes das periferias que contribuíram para a eleição de Lula

Diversas análises apontam múltiplos fatores que contribuíram para a virada histórica que resultou na eleição do presidente Lula em 2026. Muito se fala sobre o papel da juventude, das mulheres, das pessoas idosas e de diferentes setores da sociedade nesse processo. Entretanto, há um segmento que ainda recebe pouca visibilidade nas análises sobre a mobilização política e eleitoral: a juventude que atua por meio das manifestações culturais das periferias brasileiras. Destaco, particularmente, as batalhas de rima, que demonstraram sua capacidade de mobilização, conscientização e defesa da democracia. 

Para quem ainda não conhece, as batalhas de rima são encontros culturais nos quais MCs se enfrentam por meio de versos improvisados, em duelos que combinam criatividade, domínio da palavra, argumentação e capacidade de responder ao adversário. Embora tenham características próprias em cada território, essas batalhas integram a cultura hip hop e se consolidaram como espaços de expressão artística, convivência e reflexão sobre a realidade social. No Brasil, essa manifestação ganhou força nas ruas, nas praças e nos espaços públicos, constituindo uma importante forma de expressão da juventude periférica.  

Mais do que disputas entre artistas, as batalhas se tornaram fenômenos culturais e sociais que mobilizam milhares de jovens em todo o país. Elas combinam uma atuação nas ruas e nas redes, onde alcançam números expressivos de visualizações e interações, inclusive furando bastante a bolha do campo progressista. Nas ruas, é nítido que o público tem um viés mais à esquerda. Já nas redes, esse público se divide, tornando o debate bastante acalorado. 

Uma dimensão dessa capilaridade pôde ser identificada a partir do prêmio “Vozes Periféricas”, realizado pela Secretaria-Geral da Presidência da República, no início do ano de 2026. Por meio dessa iniciativa, foi possível mapear aproximadamente 1.700 experiências culturais, entre batalhas de rima, slams – competições de poesia falada – e saraus, distribuídas por cerca de 500 municípios, em todos os estados brasileiros. São iniciativas que revelam a força e a diversidade da produção cultural periférica. 

Na prática, isso significa que, em todos os dias da semana, em diferentes cidades e territórios brasileiros, jovens se reúnem para rimar, declamar poesia, compartilhar experiências e debater suas realidades. São rodas que podem começar com dez ou quinze pessoas e chegar a centenas de participantes. Esses encontros criam vínculos comunitários, fortalecem identidades e constroem espaços de participação que nem sempre são reconhecidos pelas instituições tradicionais da política. 

Foi justamente essa força social que se manifestou durante o processo eleitoral de 2026. Organizadores de batalhas, MCs e outros artistas ligados ao hip-hop passaram a se posicionar publicamente em defesa da democracia. Desde o primeiro turno, ganhou visibilidade a ideia de que “o hip-hop tem lado”, uma afirmação que buscava conectar as raízes históricas dessa cultura às lutas da classe trabalhadora, da população negra e das periferias, e também se expressou em um Manifesto com mais de 250 assinaturas. 

No segundo turno, essa mobilização ganhou ainda mais força. Artistas históricos do rap e do hip-hop se manifestaram, MCs levaram o debate eleitoral para as batalhas e diversos encontros passaram a abordar diretamente as eleições. Trechos de duelos foram publicados nas redes sociais, circularam amplamente e alcançaram públicos muito maiores do que aqueles presentes nas rodas nos territórios. 

Um dos momentos mais emblemáticos desse processo foi a “Batalha do Viravoto”, realizada em São Paulo. A iniciativa contou com uma etapa online, em uma grande transmissão ao vivo, com a participação de MCs e a articulação de importantes batalhas da cidade. Ao final da transmissão, ocorreu a “Passeata das Batalhas pela Democracia”, que reuniu mais de mil pessoas em uma caminhada pelo centro paulistano, da região de Santa Cecília até a Praça da República. 

A imagem de jovens que habitualmente ocupam praças e espaços culturais reunidos em uma manifestação pública em defesa da democracia é bastante significativa. Ela mostra que as batalhas podem ultrapassar os limites do entretenimento e da competição artística para assumir um papel ativo na vida social e política do país. 

Outro aspecto interessante foi o debate que essa tomada de posição provocou dentro da própria cena. A nova geração do hip-hop que se expressa nas batalhas de rima não possui necessariamente a mesma trajetória de gerações anteriores, cuja relação com o movimento negro, os movimentos populares e a organização política foi, em muitos casos, mais direta. As batalhas contemporâneas ganharam projeção em um contexto marcado pela expansão da internet, pela circulação de vídeos e pela formação de grandes comunidades digitais. 

Essa expansão transformou o perfil do público. Hoje, as batalhas e o rap chegam a pessoas com experiências, interesses e posicionamentos políticos muito diferentes. Nem todo mundo que acompanha essa cultura se identifica com a esquerda ou com pautas progressistas. Há também setores conservadores que consomem essa produção artística e se apropriam de aspectos de sua linguagem e de seu discurso. 

Foi nesse contexto que as manifestações eleitorais de parte dos artistas e organizadores provocaram tensões e confrontos nas redes sociais. Alguns integrantes do público questionaram o posicionamento político dos MCs, argumentando que o hip-hop sempre se apresentou como uma cultura antissistema, contrária às estruturas de poder e às formas tradicionais de representação política. 

Esse embate, longe de ser irrelevante, revelou uma questão fundamental: o que significa ser antissistema? É possível criticar as estruturas de poder sem discutir as desigualdades que organizam a sociedade? É possível defender a liberdade de expressão e, ao mesmo tempo, ignorar as ameaças à democracia? E até que ponto uma manifestação cultural pode se manter distante dos conflitos políticos que atravessam a vida de seus participantes? 

Essas questões não possuem respostas simples, mas o debate produzido durante as eleições abriu uma oportunidade de reflexão para a própria cena. Os confrontos demonstraram que as batalhas não são espaços politicamente neutros, ainda que sua função não seja a militância partidária. Quando artistas e organizadores assumem posições políticas públicas, também provocam seus públicos a pensar, questionar e elaborar seus próprios posicionamentos. 

Esse processo pode representar um importante amadurecimento do movimento. Uma cena que durante muito tempo foi percebida, inclusive por parte de seus próprios integrantes, principalmente como uma expressão cultural passa a reconhecer também sua dimensão social e sua capacidade de intervenção política. 

É justamente aí que reside uma de suas maiores potências. 

As batalhas de rima já possuem algo que muitos projetos institucionais de participação popular procuram construir: presença cotidiana nos territórios, capacidade de mobilização, linguagem acessível, identificação com a juventude e redes de relacionamento que ultrapassam os espaços formais da política. São ambientes nos quais jovens desenvolvem habilidades de argumentação, aprendem a sustentar posições, confrontam ideias e constroem formas próprias de expressão. 

Durante as eleições de 2026, essa estrutura foi mobilizada em torno de uma causa comum: a defesa da democracia e a disputa sobre os rumos do país. Ao se posicionarem, artistas e organizadores contribuíram para levar o debate eleitoral a espaços que nem sempre são alcançados pelas campanhas tradicionais e pelos discursos institucionais. 

É difícil dimensionar isoladamente o impacto eleitoral dessas iniciativas ou afirmar quantos votos foram diretamente influenciados por elas. Uma eleição presidencial é resultado de múltiplos fatores, de diferentes processos de mobilização. Entretanto, seria um erro desconsiderar a contribuição política e social de uma rede cultural tão capilarizada. 

As batalhas ajudaram a manter o debate político vivo nos territórios, ampliaram a circulação de argumentos nas redes e ofereceram a muitos jovens uma forma de participar de uma disputa que também dizia respeito ao seu futuro. Essa mobilização pode ter alcançado outros públicos, incluindo familiares e pessoas mais velhas, demonstrando como a participação política de uma geração pode estimular o envolvimento de outras. 

Assim como diferentes movimentos sociais, organizações populares, artistas, lideranças comunitárias e setores da sociedade civil desempenharam papéis relevantes na mobilização democrática, as batalhas de rima também contribuíram para esse esforço coletivo. Seu mérito está não apenas nos posicionamentos assumidos, mas na capacidade de transformar espaços culturais em ambientes de diálogo, mobilização e participação. 

O desafio agora é compreender o que essa experiência representa para além do calendário eleitoral. 

O presidente Lula, ao apontar para a importância de ampliar a participação social e governar em diálogo com a população, coloca em evidência a necessidade de fortalecer os canais de interlocução entre o Estado e a sociedade. Nesse cenário, a articulação entre as ruas e as redes, entre a participação presencial e a comunicação digital, ganha importância estratégica. 

As batalhas de rima podem desempenhar um papel relevante nesse processo.  

Uma política pública comprometida com essa perspectiva precisa respeitar a autonomia dos coletivos, garantir condições para a realização de suas atividades, ampliar o acesso a recursos e equipamentos culturais e criar mecanismos permanentes de participação. Também precisa reconhecer que esses espaços produzem conhecimento sobre os territórios e desenvolvem formas de organização que podem contribuir para a formulação e o acompanhamento de políticas públicas. 

É fundamental que esse reconhecimento não se limite aos períodos eleitorais. A juventude periférica não pode ser lembrada apenas quando sua mobilização interessa a uma disputa política. Ela precisa ser reconhecida como sujeito de direitos, produtora de cultura e protagonista na construção dos rumos do país. 

Há muito tempo, setores da esquerda brasileira discutem a necessidade de reconstruir o trabalho de base, fortalecer a presença nos territórios e desenvolver processos permanentes de formação e conscientização política. As batalhas de rima não substituem a organização política tradicional, nem devem ser reduzidas a uma ferramenta para alcançar objetivos eleitorais. Mas demonstram que já existe uma rede viva, diversa e territorializada, capaz de produzir vínculos, mobilizar pessoas e estimular debates sobre a realidade brasileira. 

Se essa potência for compreendida com a devida atenção, respeitando a autonomia dos coletivos e criando condições para seu desenvolvimento, as batalhas poderão contribuir de maneira ainda mais significativa para a participação social e para o fortalecimento da democracia. 

Se, durante as eleições, as batalhas demonstraram que têm voz e força política, o próximo passo é reconhecer que também podem ter um papel estratégico na construção do Brasil. Como expressão de uma juventude que, ao ocupar as ruas, as praças e as redes, reivindica o direito de participar das decisões que definem seu presente e seu futuro. 

¨      Exército do Lula: da mobilização digital à consciência crítica. Por Frei Betto

A política descobriu nas redes sociais um novo território de disputa. Já não basta ocupar praças, sindicatos, igrejas, universidades e ruas. É preciso recorrer também aos celulares, computadores e plataformas digitais, onde milhões de pessoas recebem informações, formam opiniões, manifestam sentimentos e, não raro, são capturadas pela desinformação. 

Nesse cenário, merece reconhecimento a iniciativa do chamado Exército do Lula, mobilização digital coordenada pelo deputado federal André Janones (Rede-MG). Sua importância não deve ser subestimada. Em um país no qual a extrema direita aprendeu a explorar com extraordinária eficiência os mecanismos das redes digitais, organizar uma militância capaz de disputar narrativas, responder a ataques, desmontar notícias falsas e defender um projeto político constitui um imperativo democrático. 

Há, nessa iniciativa, pelo menos quatro méritos. O primeiro, compreender que a comunicação deixou de ser uma atividade acessória da política. É parte constitutiva dela. Durante muito tempo, setores progressistas confiaram excessivamente na comunicação institucional, nos pronunciamentos oficiais e na cobertura da imprensa. Enquanto isso, seus adversários construíam redes capilares de disseminação de mensagens, exploravam emoções, criavam palavras de ordem e ocupavam o cotidiano das pessoas. 

O segundo mérito é democratizar a participação política. Nem todos podem comparecer a uma manifestação, frequentar reuniões partidárias ou integrar organizações sociais. Mas milhões de pessoas dispõem de um celular. A mobilização digital permite que cidadãos comuns participem da disputa pública, compartilhem argumentos, defendam conquistas sociais e façam circular informações que dificilmente encontrariam espaço nos grandes veículos de comunicação. 

O terceiro é a rapidez. Diante de uma mentira viralizada, o tempo de resposta é decisivo. Uma rede organizada pode identificar uma falsidade, localizar sua origem, apresentar informações corretas e impedir que a desinformação se consolide como verdade. Pode também dar visibilidade a iniciativas governamentais que beneficiam a população, mas nem sempre são devidamente conhecidas. 

O quarto mérito é romper o monopólio da palavra. A política não pode ser privilégio de quem dispõe de dinheiro para comprar espaços publicitários ou controla grandes empresas de comunicação. A multiplicação de vozes é, em princípio, uma conquista democrática. 

Entretanto, uma questão merece ser colocada: mobilizar pelas redes é suficiente? Compartilhar uma mensagem significa necessariamente compreender o seu conteúdo? Defender um governo equivale a desenvolver consciência política? É aqui que a experiência do Exército do Lula poderia ganhar uma dimensão ainda mais fecunda ao incorporar os princípios da educação popular de Paulo Freire. 

Este pedagogo e patrono da educação brasileira – abominado pelos bolsonaristas – nos deixou a lição de que não basta transmitir informações para produzir conhecimento. A educação não consiste em depositar conteúdos na cabeça dos educandos, como se fossem recipientes vazios. É preciso despertar a capacidade de perguntar, interpretar, relacionar fatos, identificar interesses e compreender as contradições da realidade. Aplicada à comunicação digital, essa concepção faz uma diferença enorme. 

Uma militância que apenas recebe mensagens e as reproduz, pode ser numerosa e eficiente, mas continua dependente de quem produz e distribui os conteúdos. Seus integrantes atuam como multiplicadores, não necessariamente como sujeitos conscientes da realidade que pretendem transformar. 

A proposta freireana permitiria dar um salto qualitativo: fazer de cada participante não apenas um divulgador de mensagens, mas também um educador popular, um protagonista, capaz de dialogar com outras pessoas e ajudá-las a compreender a realidade brasileira. 

Como fazer isso concretamente? Respondo com seis propostas. Primeira: substituir a mensagem pronta pela pergunta provocadora. Em vez de simplesmente distribuir um cartão do Bolsa Família, por exemplo, propor uma reflexão: por que, em um país que está entre as maiores economias do mundo, milhões de famílias ainda necessitam de transferência de renda para sobreviver? Qual é a relação entre concentração de riqueza, desemprego, salário e fome? 

Em vez de apenas divulgar números sobre a redução do desemprego, perguntar: por que tantos trabalhadores continuam a viver de trabalhos precários? O que significa emprego sem segurança econômica? A informação é indispensável, mas a pergunta abre caminho para o conhecimento. Interpelar faz raciocinar. 

Segunda proposta: criar pequenos círculos digitais de cultura. Paulo Freire desenvolveu sua metodologia valorizando a realidade concreta dos educandos. O Exército do Lula poderia estimular grupos de discussão sobre temas do cotidiano: preço dos alimentos, transporte público, moradia, saúde, educação, violência, feminicídio, homofobia, emprego e desigualdade. Cada grupo poderia escolher um problema, compartilhar experiências, consultar dados confiáveis e discutir suas causas históricas, econômicas e políticas. 

O importante é não oferecer respostas previamente determinadas, mas construir coletivamente a compreensão dos problemas. 

Terceira: ensinar a ler criticamente as notícias. A extrema direita não inventou a mentira na política, mas aperfeiçoou sua disseminação em escala industrial. Combater as fake news exige mais do que apresentar desmentidos. É preciso formar pessoas capazes de verificar a origem de uma informação, identificar manipulações de imagens, reconhecer interesses econômicos e políticos por trás de determinadas narrativas e distinguir opinião de fato. Uma atividade semanal poderia apresentar duas notícias sobre o mesmo acontecimento, provenientes de fontes diferentes, e convidar os participantes a investigar o que cada uma destaca, omite ou distorce. 

A meta seria desenvolver autonomia intelectual, não dependência de uma central de checagem. 

Quarta proposta: relacionar a realidade local às grandes questões nacionais. A educação popular começa pela vida concreta das pessoas. Aqui e agora. Parte-se da vida do educando. Quem mora na periferia de uma grande cidade tem problemas específicos. Quem vive no campo enfrenta outros desafios. Trabalhadores, estudantes, mulheres, aposentados e pequenos empreendedores possuem experiências distintas. 

A comunicação digital poderia acolher essas vozes e fazer delas matéria-prima para a reflexão coletiva. Por que falta médico no posto de saúde do bairro? Por que o ônibus demora? Por que o alimento está caro? Quem decide o orçamento municipal? Como funcionam os impostos? Quem se beneficia da atual política econômica? 

Não encontrou um candidato perfeito. Nem esperava encontrar. Democracia não é concurso de santos. É escolha entre alternativas concretas, com virtudes, limitações, promessas, riscos e contradições. 

Na véspera do segundo turno, sentou diante da TV. Observou os dois candidatos. Ouviu novamente as promessas. Algumas lhe pareciam convincentes; outras, frágeis. Releu trechos dos programas oficiais. 

Finalmente decidiu por Lula. Não porque tivesse deixado de reconhecer os problemas do candidato escolhido. Não porque tivesse passado a concordar com tudo o que ele defende. E tampouco porque considera o adversário incapaz de representar parte do eleitorado. 

Decidiu por Lula porque depois de comparar propostas e trajetórias, entendeu que havia um conjunto de compromissos que, para ele, deveria pesar mais na escolha. 

Seu voto não nasceu da paixão. Nasceu da dúvida. 

Talvez essa seja uma das coisas mais importantes de uma eleição: o eleitor não precisar transformar seu voto em profissão de fé. Pode votar com esperança, mas também com memória; com convicção, mas também com espírito crítico. 

Quando apertou 13 nas teclas da urna, sabia que não estava escolhendo um santo, um salvador ou um avatar. Optou por um presidente experiente e confiável. 

Justamente por isso, decidiu que seu voto deveria ser dado não ao candidato que lhe prometesse o paraíso, mas àquela cuja proposta de país, depois de examinada com o máximo de cuidado possível, lhe parecesse mais compatível com o futuro que desejava para o Brasil. 

 

Fonte: Por Joselicio Junior (Juninho), no Le Monde

 

Luís Eduardo Soares: Obrigado, André Lara Resende

Não é mais segredo para ninguém razoavelmente informado que são os juros que tornam a dívida pública um problema, mas as elites e seus ventríloquos midiáticos acusam os gastos, os gastos do governo – e todos sabemos a que se referem – o que pretendem cortar. A solução óbvia seria reduzir os juros, que paralisam a economia e tornam a taxa média de retorno da especulação financeira incomparavelmente superior à que os investimentos na economia real poderiam alcançar. Significa desestimulá-los, na melhor das hipóteses, e inviabilizá-los, na pior hipótese, quando o acesso ao crédito se torna proibitivo.

Os juros oscilam no mercado mas tomam como base a Selic, ditada pelo Banco Central, que se recusa a reduzi-la, significativamente, em nome da tese de que, se o fizesse, aquecendo a economia e, portanto, a demanda, provocaria inflação, no contexto de pleno emprego. A intenção é desaquecer, desempregar, aguardar sinais positivos dos fronts bélicos geopolíticos, exorcizar expectativas negativas e, então, lentamente, afrouxar as rédeas com que os juros sufocam a vitalidade econômica. O círculo vicioso concentra renda, aprofunda desigualdades, enriquece os rentistas e se realimenta da indigência, do desalento, da depressão generalizada – solo estéril, mas fertilíssimo para adesões pretensamente antissistema da extrema direita.

Por isso, o que parecia óbvio, reduzir a Selic, constituiria suprema heresia: eis o mantra reiterado ad nauseam pelos consultores do mercado, ouvidos e chancelados pela mídia corporativa, dia e noite, sem que se dê nenhuma chance ao contraditório.

Ao presidente, ainda refratário ao fiscalismo, ainda resistente às chantagens para que promova o “ajuste das contas públicas”, ainda não rendido a uma guinada rumo a “políticas de austeridade” – ao presidente, pedras e ameaças. A pior delas, mais radical do que o impeachment, seria a fuga de capitais, a desestabilização do câmbio (um maremoto superior ao contrapeso que o fundo soberano poderia lhe opor), provocando explosão inflacionária e seu cortejo de horrores. Nesse caso, o impeachment seria apenas o epílogo de um desastre que custaria perdas irreparáveis às forças democráticas e ao país.

Haveria razões para uma onda inflacionária? Se o câmbio fosse seriamente atingido, sim. Vê-se, então, que tudo converge para um ponto: haveria fuga de capitais? Haveria motivo para uma corrida ao dólar e a mercados mais atraentes à especulação, se os juros, mesmo caindo expressivamente, mantivessem um diferencial que garantisse a lucratividade oferecida pelo real? Os profetas do caos, escoteiros do apocalipse, rosnam, sádicos: sim, sim, porque mesmo a vantagem preservada por esse diferencial seria percebida pelos grandes especuladores como inferior aos riscos. Mas riscos de quê? Riscos de que sua corrida para o dólar acontecesse. Em outras palavras: riscos de que ocorresse o que eles fariam ocorrer. Ou seja, gestam a profecia e se condenam a cumpri-la, como se a sua própria ação fosse um destino inexorável e exterior à sua ação.

O jogo da expectativa existe e engendra paradoxos, é verdade: o que é racional, individualmente, pode tornar-se irracional, coletivamente. De fato, esses dilemas são correntes na sociologia. Mas justamente por serem triviais e muito comuns, a sociedade inventou um remédio bastante eficaz: chama-se política, acordo, pactuação, negociação, entendimento entre interesses contrários.

Entretanto, o puzzle da chantagem foi propositalmente plantado justamente como ação política, como vacina contra a política que as elites rentistas e seus ventríloquos lutam ferozmente para evitar: uma solução política que viabilizasse o entendimento transparente em torno de um projeto minimamente razoável e justo de país, esse projeto que as urnas anunciaram, para além das margens de erro. As elites sabem que o bloqueio a alternativas desenvolvimentistas é político, não é parte da natureza da economia, porque é política a chantagem econômica a que se devotam como adictos antecipando a abstinência. Aliás, isso nos leva à questão das bets, intrinsecamente ligada ao universo especulativo do capitalismo financeiro. Mas isso é matéria para o próximo artigo.

O papel notável nisso tudo de André Lara Resende foi simplesmente dizer que o rei está nu. Disse com coragem e autoridade, e pôs o dedo na ferida. Ele avalia que a indiferença com que foi tratado denota dogmatismo intelectual, além, eventualmente, de alguns compromissos. Eu prefiro nomear a negligência e depois os arroubos negacionistas de seus colegas, recorrendo a outra palavra: política, é de política que se trata, professor. Política, aquela cuja matriz é a luta de classes. Sei que sua persuasão liberal não o levaria tão longe. Obrigado por sua coragem e sua lucidez. Reconhecer a nudez real não é pouca coisa. Daí minha recomendação solidária: aperte o cinto. As reações são tão mais violentas quão mais incontestável for a voz.

¨      Jabbour diz que a taxa de juros brasileira é “o maior esquema de corrupção legalizado do mundo”

O economista e deputado federal eleito Elias Jabbour (PCdoB-RJ) fez duras críticas à decisão do Comitê de Política Monetária (Copom) de manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. Em publicação nas redes sociais, Jabbour classificou a decisão como política, acusou o Banco Central de estar capturado pelos interesses do sistema financeiro e questionou se o modelo brasileiro de remuneração da dívida pública não constituiria “o maior esquema de corrupção legalizada do mundo”.

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“A reunião do Copom trouxe um resultado esperado. Manutenção da taxa de juros em 13,75%. Uma evidente decisão política”, afirmou o economista, que relacionou a manutenção dos juros elevados ao peso do serviço da dívida pública sobre o orçamento federal.

Segundo Jabbour, o Brasil apresenta um dos menores déficits primários do mundo, mas enfrenta um custo extraordinariamente elevado com o pagamento de juros. Para ele, essa combinação demonstra que o principal problema das contas públicas brasileiras não está necessariamente nas despesas primárias, mas na estrutura financeira que determina o custo da dívida.

“Não seria o maior esquema de corrupção legalizada do mundo? Vocês tirem suas próprias conclusões”, escreveu.

<><> Jabbour acusa Banco Central de favorecer interesses financeiros

Na avaliação do economista, a política monetária brasileira não pode ser compreendida apenas como um instrumento técnico de controle da inflação. Ela também expressaria uma disputa política e distributiva em torno da apropriação dos recursos públicos.

Jabbour sustenta que, em uma economia marcada pela fragilidade de sua estrutura produtiva, setores das classes dominantes passaram a depender fortemente da remuneração financeira proporcionada pelo Estado.

“O objetivo é político e claro: em um país onde as classes dominantes não produzem um único parafuso, a base material que dialoga diretamente de seu poder vem diretamente do orçamento público”, afirmou.

A crítica aponta para o papel dos juros elevados na transferência de recursos públicos aos detentores de títulos da dívida, em um contexto no qual o financiamento da produção e do investimento enfrenta custos elevados.

Para Jabbour, essa estrutura reforça o poder econômico e político do sistema financeiro, ao mesmo tempo em que limita a capacidade do Estado de investir em infraestrutura, industrialização e desenvolvimento.

“O Banco Central é uma instituição de Estado capturada pelo sistema financeiro”, declarou.

A afirmação constitui uma avaliação política do economista sobre a atuação da autoridade monetária.

<><> Economista critica uso dos juros para combater diferentes tipos de inflação

Outro ponto central da manifestação de Jabbour é a crítica ao uso da taxa Selic como principal instrumento de enfrentamento da inflação, independentemente de suas causas.

O economista argumenta que pressões inflacionárias decorrentes de fenômenos climáticos, conflitos internacionais e encarecimento de commodities não podem ser tratadas da mesma maneira que aumentos de preços provocados por excesso de demanda.

Ao comentar a comunicação do Copom, Jabbour comparou a postura da autoridade monetária à de uma pessoa que encontra justificativas para repetir um comportamento compulsivo.

“Ao ler a ata do Copom, um corte e cola do Boletim Focus, ficamos com a mesma impressão de uma pessoa com algum vício e que encontra qualquer motivo para colocar em exercício sua adicção”, escreveu.

Ele citou os efeitos das mudanças climáticas sobre a produção agrícola e o impacto de conflitos externos nos preços do petróleo e de outras commodities como exemplos de fatores que não decorrem diretamente do aquecimento da demanda doméstica.

Na interpretação de Jabbour, elevar ou manter os juros em patamares muito altos diante desses choques pode comprometer a atividade econômica sem solucionar os problemas estruturais responsáveis pela alta dos preços.

O economista também criticou a referência do Copom aos estímulos à demanda agregada que poderiam ultrapassar a capacidade produtiva da economia.

Para ele, essa preocupação representa um recado político dirigido ao governo federal sobre os limites impostos à expansão da atividade econômica.

<><> “O Corinthians ganha, vou beber comemorando”

Jabbour recorreu a uma comparação com o futebol para ilustrar sua crítica à atuação do Banco Central.

“O Corinthians ganha, vou beber comemorando. O Corinthians perde, vou beber para afogar as mágoas…”, escreveu.

A analogia procura demonstrar sua percepção de que a autoridade monetária encontra justificativas para manter os juros elevados em diferentes circunstâncias econômicas.

Se a economia apresenta sinais de aquecimento, o argumento seria a necessidade de conter a demanda. Se a atividade desacelera, outros fatores, como câmbio, expectativas inflacionárias ou choques externos, seriam utilizados para justificar a continuidade do aperto monetário.

Jabbour também destacou que a decisão de manter a Selic em 13,75% foi unânime.

“Foi uma decisão unânime, daí a explicitude da decisão política”, afirmou.

<><> Inflação brasileira teria raízes estruturais

Na avaliação do economista, uma parte importante da inflação brasileira está relacionada a deficiências estruturais da economia, que não podem ser resolvidas exclusivamente por meio da política monetária.

Jabbour menciona a insuficiência de investimentos em infraestrutura logística, a ausência de uma rede mais ampla de ferrovias de alta velocidade, as limitações da produção industrial em escala e a falta de estoques reguladores como fatores que contribuem para o encarecimento dos produtos.

Ele também aponta a atuação de monopsonistas e oligopsonistas, estruturas de mercado nas quais poucos compradores concentram poder sobre os produtores, como uma das causas de distorções na formação dos preços agrícolas.

Segundo essa interpretação, o enfrentamento duradouro da inflação exigiria investimentos produtivos, ampliação da capacidade de oferta, modernização da infraestrutura e políticas públicas voltadas à redução dos custos estruturais da economia.

A crítica se insere em um debate mais amplo sobre os limites da política monetária convencional em países que apresentam gargalos logísticos, concentração econômica e dependência de insumos e commodities sujeitos a oscilações internacionais.

<><> Juros e dívida pública entram no centro da disputa econômica

Jabbour também questiona a interpretação de que os desequilíbrios fiscais brasileiros decorrem principalmente do excesso de despesas primárias.

O economista insiste na diferença entre o resultado primário, que considera receitas e despesas do governo antes do pagamento dos juros, e o resultado nominal, que incorpora os encargos financeiros da dívida pública.

Na publicação, ele afirma que o Brasil possui um dos menores déficits primários do mundo, ao mesmo tempo em que registra uma das maiores despesas com o serviço da dívida.

Essas comparações internacionais são apresentadas por Jabbour em sua manifestação, sem detalhamento das séries estatísticas utilizadas.

A partir dessa avaliação, o economista sustenta que o custo dos juros precisa ocupar posição central no debate sobre a sustentabilidade das contas públicas.

“Sempre é bom lembrar que o Brasil tem um dos menores déficits primários do mundo enquanto o nosso serviço com a dívida pública é o maior do mundo”, afirmou.

A manifestação termina com uma pergunta que sintetiza sua crítica à orientação da política econômica brasileira:

“Qual a real causa do déficit público?”

Para Jabbour, a resposta exige discutir não apenas a trajetória dos gastos governamentais, mas também o funcionamento do sistema financeiro, a política de juros e os mecanismos de remuneração da dívida pública.

Sua manifestação ocorre em um momento de intensificação do debate sobre a política monetária, após a decisão do Copom de manter a Selic em 13,75%, apesar dos sinais de desaceleração da atividade econômica.

O posicionamento do deputado eleito evidencia a existência de uma corrente crítica à política de juros elevados, que defende maior atenção às causas estruturais da inflação e ao impacto da remuneração da dívida sobre a capacidade de investimento e desenvolvimento do Estado brasileiro.

 

Fonte: Outras Palavras/Brasil 247

 

Ludopatia: Lobby das bets - o jogo ainda não terminou

Em audiência no Supremo, cartolas do futebol fazem chantagem emocional e apelam a ameaças de desemprego e calote para manter patrocínios. Mas dados do SUS, do TST e da economia real deixam evidentes os males da epidemia de ludopatia no país...

A cartolagem do futebol brasileiro decidiu apelar a uma espécie de chantagem financeira e emocional para tentar reverter a decisão que proíbe o funcionamento das casas de apostas online no Brasil. Durante a audiência pública realizada nesta terça-feira (3) no Supremo Tribunal Federal (STF), convocada para debater os impactos da Medida Provisória 1.394/2026, o que se viu foi, de um lado, dirigentes esportivos e representantes das bets focados exclusivamente na perda de receitas; do outro, autoridades governamentais e entidades expondo uma tragédia sem precedentes na saúde pública e na economia popular.

O vice-presidente do Flamengo, Flávio Willeman, chegou a dramatizar a proibição como um risco institucional. “O Brasil não pode romper com os ideários de liberdade econômica”, declarou. Em seguida, focou no planejamento do clube. “Foi com base nos contratos celebrados à luz da legislação vigente que o Flamengo planejou a sua estruturação financeira para os próximos quatro, cinco anos. O Flamengo acreditou que o Brasil, após amplo debate no Congresso Nacional, regulou as apostas neste país.”

Mas a tentativa de colocar as finanças dos clubes acima da saúde mental dos brasileiros atingiu seu ápice na fala do presidente do Fluminense, Mattheus Montenegro. “Eu já vi muitas vezes a Suprema Corte discutir a ponderação de princípios, mas aqui, neste caso, infelizmente, nós teremos que fazer a ponderação entre os dramas. O drama de uma família endividada não pode ser maior do que o drama de uma família que vai ter que sofrer os efeitos do desemprego, que é o que vai acontecer na cadeia do futebol, especialmente das agremiações menores, com base nessa perda de receita”, afirmou.

A declaração do dirigente viralizou nas redes sociais e causou desconforto. “A fala do presidente do Fluminense, Matheus Montenegro, é séria candidata à pior desta audiência pública em defesa das bets no STF. São vários representantes de clubes defendendo o indefensável, mas relativizar o drama de famílias destruídas pelo vício foi um tremendo golaço contra. Cartão vermelho e rebaixamento!”, disse em seu perfil no X o deputado federal Chico Alencar (PSOL-RJ).

Por enquanto não há notícias de demissões no futebol provocadas pela proibição das bets, como disse o dirigente tricolor. Mas, de forma geral, o setor cria pouquíssimos empregos. O levantamento Dossiê das Bets, feito pelo Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IESP) e divulgado em 2025, mostrou que, segundo dados da Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) de 2024, a contribuição do setor para o mercado de trabalho é pífia, já que no subsetor em que o segmento de apostas atua, havia apenas 1.144 empregos formais ativos em 31 de dezembro de 2024 com 60 empregadores formais. Uma média de apenas 19 empregos por empresa.

“No setor de apostas online, de cada R$ 291 de receita obtida pelas empresas, apenas R$ 1 se transforma em salário formal. Enquanto cada trabalhador formal no setor gera cerca de R$ 3 milhões mensais em receitas para as empresas – já descontados os pagamentos de prêmios –, ele próprio, no Brasil, recebe uma fração mínima (0,34%) desse valor”, aponta ainda o dossiê. 

O setor também se caracteriza por um alto grau de informalidade, de acordo com a pesquisa. Dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNADc/IBGE) anual de 2024 mostram que 84% dos trabalhadores que atuam no setor não contribuem para a previdência, índice 48 pontos percentuais maior em relação à média nacional, de 36%. 

<><> Colapso na saúde pública

Seguindo a mesma cartilha de empurrar a conta para os elos mais fracos da corrente durante a audiência no STF, o advogado do Botafogo, Bichara Abidão Neto, tentou usar segmentos que, em geral, já são colocados em segundo plano pelos clubes de futebol, como escudo para defender o dinheiro das apostas. “As categorias de base e o futebol feminino serão os primeiros a sofrer”, alegou. 

Os argumentos dos cartolas em prol das receitas de seus clubes colidem com os dados apresentados por autoridades de saúde e defesa do consumidor. O Ministério da Saúde apontou que a ludopatia já é a terceira dependência mais frequente no país, atrás apenas do tabaco e do álcool. Entre 2018 e 2026, a procura por atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS) relacionada ao vício em jogos cresceu mais de 200%. Dos 28 milhões de brasileiros que apostaram nos últimos 12 meses, 10,9 milhões apresentam padrões de risco ou comportamento compulsivo.

“A minha briga é pelas mulheres que têm vergonha de procurar um serviço de saúde. Pelos que se suicidam, com 15 vezes mais risco de suicídio… Pelos profissionais de saúde que sentem na pele o crescimento exponencial da procura por ajuda no serviço de saúde”, pontuou o ministro da Saúde, Alexandre Padilha, como registrou o Outra Saúde.

O impacto dessa compulsão afeta também as relações trabalhistas e a produtividade. O presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST), Luiz Philippe Vieira de Mello Filho, alertou para o aumento de mais de cinco vezes nos afastamentos por incapacidade temporária relacionada à ludopatia no mercado formal, passando de 67 em 2023 para 361 em 2025. 

“Como Justiça do Trabalho e Tribunal Superior do Trabalho, reiteramos nosso compromisso inegociável com a preservação da dignidade humana. Nenhum ambiente, inclusive o profissional, pode ser espaço para o adoecimento silencioso decorrente de compulsões e vulnerabilidades ampliadas pelas novas tecnologias”, alertou o magistrado em nota.

Durante a audiência, a Confederação Nacional do Comércio (CNC) destacou um estudo do Centro de Pesquisa de Macroeconomia das Desigualdades da Universidade de São Paulo (USP), apontando que as apostas online retiraram da atividade econômica o equivalente a 1,5% do PIB. Já a Associação Brasileira de Supermercados (Abras) informou que as vendas do setor subiram 6,5% (com crescimento real em outubro) após a edição da MP, especialmente em locais frequentados pelas classes C, D e E. Sinal de que o dinheiro da comida estava sendo drenado para a jogatina.

A Secretaria Nacional de Segurança Pública reforçou ainda que a proibição, ao contrário do que dizem os clubes, facilita a identificação de operações ilegais e a responsabilização de redes sociais e bancos, restringindo uma fonte importante de lavagem de dinheiro do crime organizado. “Desafortunadamente, constatamos uma proximidade indesejável da atividade de bets com o crime organizado, com a lavagem de dinheiro”, contou o ministro da Justiça e Segurança Pública, Wellington César Lima e Silva, lembrando que já foram bloqueados R$ 3,3 bilhões em movimentações suspeitas ligadas às bets.

<><> Bastidores do jogo

Enquanto o STF analisa se mantém a proibição que protege a saúde pública, o lobby das bets já atua nos bastidores do Congresso Nacional. Parlamentares ligados a clubes e casas de apostas preparam emendas para tentar salvar ao menos as apostas esportivas, mantendo a proibição do cassino online. 

O ministro Luiz Fux, responsável por conduzir as ações que contestam a MP do governo Lula, rebateu críticas de que estaria privilegiando o setor esportivo, embora a grande maioria dos convidados para a audiência fossem favoráveis às demandas das plataformas de bets. No contexto, buscou mostrar-se crítico. “A exploração dos jogos constitui uma atividade que extrai seu lucro a partir da incapacidade das pessoas entenderem, são protagonistas inconscientes do seu próprio drama. Meu ponto de vista é que as bets devem ser banidas. Não procede a alegação de que só convoquei empresas e times de futebol”, afirmou o magistrado.

Contudo, a perspectiva das plataformas, tanto no Supremo como por conta de sua atuação no Legislativo, é construir uma espécie de saída negociada como uma transição, em que estariam autorizadas a funcionar, mesmo que parcialmente, durante um período. E, em uma futura possível mudança do ambiente político, voltar à carga. O jogo, para estas empresas, ainda não terminou. 

 

Fonte: Por Glauco Faria, em Outra Saúde