quarta-feira, 25 de março de 2026

A pré-campanha eleitoral – é o petróleo, estúpido!

Donald Trump está dando uma aula de estratégia de sobrevivência para a humanidade com seus tarifaços e com a guerra contra o Irã. A afirmação deve surpreender a todos, mas é bem explicável.

Faço parte dos que acham que vai ser preciso “desglobalizar” a economia do planeta se quisermos sobreviver à catástrofe anunciada pelas crises simultâneas que nos assolam: aquecimento global, mudanças climáticas, destruição da biodiversidade e dos habitats, pandemias, poluição de solos, águas e do ar, déficits de água potável e em especial, o fim do uso de combustíveis fósseis e muitas outras.

É claro que a salvação do planeta dependerá de muitas medidas radicais para além da desglobalização, todas elas apontando para a substituição do sistema capitalista que organiza (ou desorganiza) a economia mundial há dois séculos ou mais.

O que o psicopata da Casa Branca vem fazendo, ataca o modo dominante do capitalismo desde o último quarto do século passado, chamado por alguns de hiper globalização. Obviamente, o todo poderoso (mas cada vez menos) chefe do imperialismo americano parece não ter a mínima ideia do que está fazendo, mas o efeito é o mesmo: um tiro certeiro no coração do sistema globalizado.

Ao criar a ilusão de trazer de volta as indústrias para o território americano através dos tarifaços, Donald Trump ignora a profunda interdependência dos empreendimentos econômicos globalizados, que passaram a ignorar fronteiras para buscar as maiores margens de lucro das empresas. As empresas globalizadas aumentaram seus lucros exponencialmente, relocalizando mundo afora tanto os seus fornecedores, como as próprias fábricas que finalizam os produtos.

Tomemos como exemplo a produção do café para o consumo dos americanos, os maiores bebedores deste produto no planeta. As empresas americanas, ou de outro país que entregam o produto final para os gringos, compram café em vários níveis de processamento em diferentes partes do mundo, já que as condições climáticas dos EUA não permitem o seu cultivo local. Algumas compram café em grão, apenas secado. Estas compras podem vir do Brasil, Colômbia, Vietnam. África, América Central.

Em geral, as compras incluem tipos diferentes de café, grosso modo os gêneros robusta, arábica e um tipo menos conhecido, chamado tecnicamente de arábicas não lavados. Estas empresas fazem a torrefação, moagem, mixagem e embalagem nos EUA, ajustando a composição em função dos gostos do público. Muitas fazem ainda um processamento extra para produzir cafés solúveis. Outras empresas têm diferente estratégia e compram produtos semitransformados, já torrados e moídos, fazendo apenas a mistura e embalagem nos EUA.

Quando Donald Trump taxou as importações de café em bloco, ele prejudicou mais as empresas que importavam o café menos processado, sobretudo as que compravam o produto brasileiro exportado em grão, que receberam a maior taxação no plano internacional devido às tramoias de Eduardo “bananinha” Bolsonaro. As empresas que importavam café processado do México ou da Colômbia saíram ganhando na concorrência, ameaçando fechar suas concorrentes em solo americano.

Este é um exemplo bastante simples, já que em indústrias mais complexas o número de componentes adquiridos em outros países e até finalizados em outros países pode chegar a milhares. Fábricas americanas se transferiram para a China, entre outros lugares do chamado sul global para aproveitar a mão de obra mais barata e mais disciplinada ou com uma legislação ambiental menos restritiva ou impostos mais baixos ou ainda taxas de câmbio mais favoráveis. Além disso, elas compram seus componentes e insumos seguindo o mesmo critério, preços mais baixos.

Ficou para o território americano o controle das finanças, do know how e das patentes e a realização dos lucros com vendas para os próprios americanos ou outros consumidores no mundo. É esta a raiz do gigantesco déficit comercial americano que Donald Trump quis derrubar com seus tarifaços. Obviamente, não podia dar certo e o todo poderoso teve que ceder em muito da sua estratégia ou a consequência seria uma inflação pesada para o bolso do consumidor (e eleitor) americano.

No coração da globalização encontra-se um elemento chave da economia. A multiplicação das compras de componentes de cada produto colocado no mercado por países espalhados em todo o planeta aumentou em muito o peso dos transportes no custo final. Hoje em dia existem organizações especializadas em calcular a “milhagem” de cada produto de mercado, somando o quanto cada parte teve que viajar até chegar à forma final e sua compra pelo consumidor. Os números são estonteantes, seja para uma lata de tomate ou para um computador.

Não vou tratar aqui de um outro calcanhar de Aquiles da globalização, mas que também é crucial: a logística cada vez mais complexa para permitir que uma fábrica “finalística” receba todos os seus componentes, vindos de toda parte, ajustando o fornecimento dos componentes em um cronograma preciso do processo produtivo. Qualquer perturbação no fluxo internacional de cargas (atrasos provocados por mau tempo nos oceanos, greves nos portos, infraestruturas inadequadas de armazenamento ou de embarque) tem um efeito cascata de atrasos na produção final, obviamente aumentando os seus custos.

Voltando ao problema do aumento da demanda de transporte de cargas, a chave é o preço do petróleo. E foi exatamente neste fator que Donald Trump deu o seu passo mais infeliz. Ao atacar o Irã, achando que seria um passeio como na Venezuela, ele ignorou os avisos de seus aliados no Oriente Médio, os maiores fornecedores de petróleo do mundo quando tomados em conjunto.

Ignorou também os avisos da inteligência militar e econômica dos EUA. Todos apontavam o risco do bloqueio do estreito de Ormuz (por onde passam 30% das exportações de petróleo no mundo) pelos iranianos e o risco de uma expansão da guerra para os países vizinhos e a destruição de infraestruturas de extração, processamento e embarque de petróleo e outros derivados como os fertilizantes.

Pois foi o que aconteceu. Apesar de pesadas perdas, os iranianos adotaram uma estratégia de guerra assimétrica e fecharam o estreito (bloqueando a passagem, até agora, de mais de mil navios) e agora atacam os poços, refinarias e portos dos vizinhos. O efeito imediato foi o estancamento das exportações de petróleo da região, aumentando em 60% o preço desta comodity em três semanas de guerra, sem que exista um horizonte previsível para o fim da escalada.

Ainda não se pode calcular a queda mais prolongada das exportações de petróleo causada pela destruição do potencial produtivo de petróleo dos países árabes, pois isto ainda está em curso, podendo piorar muito com o prolongamento da guerra.

O tiro no pé dos americanos é ainda mais espetacular porque o Irã continua exportando petróleo, sobretudo para a China, com seus navios tanque cruzando o estreito interditado para as exportações de outros países. Mais ainda, o desespero de Donald Trump com o caos que provocou e seu impacto nos postos de gasolina dos EUA (e no humor dos eleitores), levou-o a propor a suspensão dos embargos às exportações de petróleo da Rússia, para aliviar a pressão sobre os preços, para horror de Volodymyr Zelensky. Os eleitores de Donald Trump devem estar amargando seu voto a cada vez que enchem o tanque de seus carros.

A estupidez de Donald Trump, na verdade, está antecipando o golpe mortal na globalização anunciado por muitos analistas especializados no mercado petrolífero: a tendência inevitável da ocorrência do esgotamento do fornecimento de petróleo.

Já escrevi sobre este assunto em outros artigos e só vou lembrar que o pico de produção do petróleo dito convencional ocorreu entre 2005 e 2008 e hoje, apesar de investimentos maciços, o máximo que as empresas petrolíferas conseguiram foi manter um platô de oferta deste tipo de óleo no mesmo nível do volume alcançado no período citado acima. De lá para cá o que cresceu na oferta de petróleo foi a produção dos chamados óleos não convencionais, obtidos pelo “fraking” (Estados Unidos), pela exploração de areias betuminosas (Canadá), pelo petróleo pesado (Venezuela) ou pela exploração de petróleo em águas ultra profundas (Brasil e Suriname).

A produção americana do que eles chamam de tight oil e outros de shale oil disparou, com um forte apoio financeiro dos governos americanos desde 2010, reduzindo impostos e facilitando crédito com taxas de juros mínimas. Mas mesmo com todo o apoio e o sucesso no curto prazo desta produção americana, o máximo que se conseguiu foi adiar a crise de fornecimento de petróleo no plano mundial. A produção do tight oil estancou a partir de 2018 e já se aponta para um teto, a partir do ano passado ou, no cálculo mais otimista, para 2030.

Os analistas da geopolítica do petróleo vêm prevendo que um estancamento da oferta do “ouro negro”, sem que se tenham tomado medidas para uma transição que levasse à sua substituição paulatina, provocará um golpe definitivo na economia mundial globalizada, cuja demanda por este combustível só faz crescer. A expectativa é uma reação dos países mais poderosos buscando garantir o controle da produção remanescente no mundo.

Uma das “saídas”, necessariamente com curta duração será uma exacerbação da exploração dos combustíveis fósseis que ainda tem prazos maiores de esgotamento, como o gás e o carvão ou a ampliação da exploração dos óleos não convencionais como as areias betuminosas do Canadá, cujas reservas são imensas, ou o petróleo do pré-sal, com reservas bem mais modestas.

A Petrobras acredita que pode chegar a uma produção de 7 a 8 milhões de barris por dia se todos os investimentos previstos no plano atual derem certo, mas isto não será alcançado antes de 2035, quando a crise já deverá estar instalada. Embora esta seja uma produção importante para nós, ela fica longe de compensar a queda de oferta prevista de outras fontes, sendo menos de que 8% do consumo mundial projetado para meados da próxima década, de 105/110 Mb/dia.

Já a produção canadense cobrará investimentos gigantescos para se expandir e implicará em uma espetacular destruição ambiental em uma área superior ao estado de Minas Gerais naquele país. Por outro lado, o petróleo obtido do betume é o de pior qualidade e de maior custo em toda a história do petróleo.

Alguns países poderão se voltar para explorar jazidas de carvão e processá-lo para gerar um sucedâneo líquido do petróleo, mas com custos muito mais altos e com uma fortíssima emissão de gases de efeito estufa, salvando a economia por um lado e ferrando o planeta por outro. Deve ser o caso da China e da Índia, mas os hoje poderosos países da União Europeia vão ficar a descoberto já que sua dependência de importações de combustíveis fósseis é total.

O que se espera é um movimento de disputa que vai levar a guerras mais ou menos localizadas. Os analistas gostam de lembrar que a disputa pelo petróleo foi definidora da maior parte das guerras travadas no século passado e no início deste em que estamos.

A história mostra que a Segunda Guerra mundial foi ganha pelos dois países com acesso às maiores reservas de petróleo, os Estados Unidos e a União Soviética, com a Alemanha e o Japão tentando tomar conta de áreas capazes de fornecer petróleo para o esforço de guerra, a primeira tentando chegar aos poços de Baku (e travada pela derrota em Stalingrado) e a segunda tentando destruir a frota americana em Pearl Harbor para garantir o acesso ao maior produtor da Ásia naquele momento, Sumatra.

Mais recentemente, a queda do regime do apartheid na África do Sul só ocorreu quando o embargo internacional de petróleo levou à capitulação dos dirigentes brancos daquele país. E não esqueçamos das ações bélicas americanas no Kuwait, no Iraque, na Líbia e no Afeganistão, todas relacionadas a esforços de controle de fontes de petróleo ou (no último caso) de gás. Ou ainda, apenas dias atrás, o ataque de Donald Trump à Venezuela.

Tudo isso levanta a preocupação sobre o futuro da nossa exploração no pré sal. Independentemente da correção ou não das intenções expansionistas da Petrobras (acho que os quase 100 bilhões de dólares previstos poderiam ser mais bem utilizados para financiar a transição para uma economia descarbonizada) não duvidemos que os nossos irmãos do norte” não deixarão de mirar na nossa riqueza subaquática, explorada ou a explorar.

O choque de oferta de petróleo atual pode ficar catastrófico se a guerra se prolongar a ponto das reservas estratégicas existentes, sobretudo nos EUA, se esgotarem. Com a oferta de petróleo caindo abaixo da demanda os preços vão subir para níveis estratosféricos, batendo os 150 dólares por barril do auge da crise de 2008. Os primeiros a pagar pela crise vão ser os países mais pobres e os sem recursos energéticos próprios, no primeiro caso a maior parte do Sul Global e, no segundo, a União Europeia.

Uma diminuição brusca da oferta de combustíveis replicaria em escala mundial o impacto do fim do bloco soviético em 1989. Em países que dependiam inteiramente do petróleo russo subsidiado por razões políticas, como Cuba e Coreia do Norte, o baque na economia, nos transportes e na produção agrícola foi brutal e a fome tornou-se endêmica, enquanto as pessoas passaram a se deslocar em bicicletas e a iluminação passou a ser racionada.

Nunca é demais lembrar que o petróleo não é “apenas” a base de todo o transporte no mundo, mas está presente em inúmeros objetos de consumo corrente: alimentos, produtos eletrônicos, tecidos, plásticos, cosméticos, medicamentos, outros. Raros são os objetos que não são produzidos (e transportados) graças ao petróleo. O essencial do modo de vida contemporâneo repousa sobre a oferta abundante de petróleo.

Para resumir, o peso do petróleo no mundo atual basta saber que a energia contida em um galão de 50 litros corresponde à força física fornecida por mil pessoas ao fim de uma diária de trabalho árduo.

Além de substituir trabalho físico, o petróleo, como vimos acima, está presente em milhares de produtos de consumo corrente e temos a tendência a esquecer que, embora seja possível encontrar substitutos para o uso desta comodity como combustível, o seu papel nas indústrias é muito mais difícil de ser substituído. Devíamos estar economizando petróleo para este uso mais “nobre”, em vez de queimá-lo nos transportes e na produção de energia elétrica.

Para um país como o Brasil, com acesso a petróleo suficiente para cobrir as necessidades do mercado interno, o problema vai ser a insuficiência da nossa capacidade de refino que nos faz exportadores de óleo cru e importadores de gasolina e diesel. Construir refinarias seria um caminho, se não fosse o tempo, quatro a cinco anos, para entrarem em produção.

Uma outra debilidade menos percebida é a nossa dependência da importação de fertilizantes, hoje da ordem de 80% do consumo. Podemos produzir fertilizantes nitrogenados (já o fizemos no passado, mas abandonamos este investimento), mas também neste caso há um delay entre a decisão de construir novas refinarias e a sua entrada em operação. Mais difícil vai ser resolver a falta de fosfatos e potássio, quase inexistentes na geologia do país.

A transformação em larga escala de lixo orgânico e lodo de esgoto em fertilizantes poderia resolver uma boa parte da nossa demanda de nitrogênio, fósforo e potássio, mas, mais uma vez, há prazos mais ou menos longos para se implantar biodigestores em várias escalas em todo o país e o agronegócio não pode esperar. Sem fertilizantes a produção agrícola convencional vai entrar em colapso e o impacto na oferta e nos preços dos alimentos vai ser gigantesco, exigindo importações de produtos básicos e derrubando exportações que tem sido uma âncora para a nossa balança de pagamentos.

Para piorar, uma crise internacional do petróleo vai reduzir a oferta de alimentos no mundo e o custo do seu transporte vai fazer com que as exportações se dirijam para quem pode pagar preços bem mais altos. Neste caso, vamos disputar as compras com blocos mais ricos, como a União Europeia.

A solução estratégica para a produção de alimentos e outros produtos agrícolas vai ser a adoção de um modelo agroecológico que dispensa o uso de fertilizantes químicos, mas isso vai cobrar uma radical transformação agrária no país, pois a agroecologia opera na escala da agricultura familiar, hoje em queda no número e na participação no produto agropecuário total. Leva tempo fazer uma reforma agrária radical e mais ainda construir respostas técnicas diversificadas para os diferentes ambientes produtivos e a sua aplicação pelos agricultores familiares.

Todas estas considerações são hipotéticas e a crise imediata pode ser superada antes da catástrofe, se Donald Trump arriar a bandeira e parar a guerra. Mas a ameaça fica apenas adiada e não superada, até a próxima crise. Faz falta pensarmos desde já em uma política de transição energética e do modelo produtivo agropecuário para escaparmos da dependência dos combustíveis fósseis e dos adubos químicos. Não é isso que estamos vendo no contexto atual do debate pré-eleitoral.

Para completar, o quadro fica ainda mais aterrorizante se introduzirmos na equação a ameaça muito concreta da emergência climática. A crise do petróleo pode levar à exacerbação das emissões de gases de efeito estufa (com o aumento do uso de combustíveis com emissões ainda maiores de gases de efeito estufa (como o carvão, o tight oil e as areias betuminosas) com todos os efeitos desastrosos que já identificamos em outros artigos.

O que precisamos para escapar do desastre ou para minimizá-lo é pensar em um novo modelo de desenvolvimento de forma holística, sem querer tapar o sol com a peneira e sem buscar soluções paliativas.

No imediato, o governo está “esvaziando o oceano com um balde”, tentando impedir que o espetacular aumento de preços no mundo chegue aos nossos postos de gasolina e diesel. Seria mais racional elevar os preços internos dos combustíveis para os particulares e subsidiar os serviços essenciais. Isto exigiria outras medidas incontornáveis, como expandir os serviços de mobilidade urbana coletiva.

Tudo isso leva tempo e custa dinheiro de investimentos pesados. Vamos pagar o preço da falta de visão estratégica do governo (e de todos os governos anteriores) que estimularam sistematicamente a expansão do transporte individual em automóveis e o uso de caminhões no transporte de cargas.

Precisamos de um plano de emergência para o Brasil com foco nas necessidades básicas do nosso povo e não na medíocre (e suicida) busca de gerir a crise terminal do capitalismo (Lula + esquerda) ou aprofundá-la (Bolsonaro + Centrão).

 

Fonte: Por Jean Marc von der Weid, em A Terra é Redonda

 

Como um país em guerra pode ser sede de uma Copa do Mundo?

Uma dos países-sede da Copa deste ano, os EUA estão em conflito com o Irã, um das nações classificadas para o torneio. A cada semana aumentam questionamentos éticos sobre o torneio e o papel da Fifa.

O presidente dos EUA, Donald Trump, disse que o Irã ainda é bem-vindo para participar da Copa do Mundo 2026, mas que talvez não devesse fazê-lo, por segurança. O Irã afirmou que os EUA deveriam ser expulsos do torneio, não eles. E o presidente da Federação Internacional de Futebol (Fifa), Gianni Infantino, diz que a Copa pode unir as pessoas.

Não há nada nos estatutos da Fifa que proíba que países-sede estejam em guerra. No entanto, o Artigo 3 dos estatutos da entidade promete defender padrões internacionais de direitos humanos. Mesmo assim, Infantino concedeu a Trump o primeiro Prêmio de Paz da Fifa e também esteve presente no lançamento do Conselho da Paz de Trump. Isso apesar de o Artigo 4 dos estatutos "determinar neutralidade em relação à política".

"Ambos fazem o que querem, sem compromisso sério com os princípios democráticos das organizações que representam", afirma Alan Tomlinson, professor da Universidade de Brighton, no Reino Unido, especializado na Fifa e em história social do esporte.

<><> Guerra com o Irã é ponto de virada?

A decisão dos EUA de entrar em conflito com o Irã, juntamente com Israel, não é o primeiro motivo que fez torcedores se perguntarem se deveriam viajar para o torneio ou se os jogos deveriam mesmo acontecer.

Nos meses anteriores, ações de agentes do ICE, proibições de viagem, dificuldades com vistos e preços de ingressos geraram inúmeros debates e preocupações sobre o torneio que se aproxima. De fato, conversas sobre um boicote europeu ficaram muito fortes no final de janeiro, em meio à ameaça de Trump de invadir a Groenlândia. A questão é: a guerra no Irã será o momento decisivo para a Copa do Mundo de 2026?

"Não acho que o Irã será o ponto de virada, mas talvez devesse ser", disse Jake Wojtowicz, pesquisador e autor na área de filosofia do esporte, com foco na ética da torcida esportiva. Ele acredita que boa parte da discussão envolve uma questão de percepção. "No Ocidente, os EUA têm um impacto cultural enorme, enquanto o Catar [sede da Copa de 2022] não tem importância cultural. Então, quando chega uma nação que vai sediar a Copa e você descobre que ela faz coisas ruins às quais não estamos acostumados, é mais fácil criticá-la. Os Estados Unidos fazem coisas ruins, e estamos acostumados com isso."

O esporte global é frequentemente confrontado com questões éticas – como provaram as últimas duas Copas do Mundo, na Rússia e no Catar –, mas a guerra dos EUA com o Irã cria uma nova dimensão de reflexão para todos os envolvidos? "Um país-sede em guerra, liderado por um político orgulhoso de aceitar um prêmio de paz falso, e agora a poucos meses de um espetáculo esportivo global de cinco semanas, é sem dúvida uma linha moral que não deveria ser cruzada", pondera Tomlinson. "Mas linhas morais não são considerações econômicas ou comerciais."

"Penso que o problema surge quando você acredita que a guerra no Irã é algo ruim e, mesmo assim, vai à Copa do Mundo ou a assiste e acaba pensando: 'Os EUA até que são legais'", afirma Wojtowicz. "Você passa a pensar nos EUA como o país onde Harry Kane [capitão e atacante da Inglaterra] marcou dois gols para afundar o Brasil na final, em vez de pensar no ICE ou no fato de que cidadãos estão sendo deportados. E essa é a preocupação: que a Copa do Mundo atrapalhe o pensamento moral normal."

<><> O papel da Fifa

A DW entrou em contato com a Human Rights Watch (HRW) e com a Anistia Internacional para este artigo, mas nenhuma respondeu. As preocupações dessas organizações sobre decisões da Fifa foram tornadas públicas no final de 2025, com ambas as ONGs pedindo que a entidade do futebol agisse em questões de direitos humanos.

"As ações de Infantino são, em muitos aspectos, politicamente e eticamente sem precedentes", acrescentou Tomlinson. Isso não era o caso quando o dirigente chegou ao cargo, sucedendo o ex-presidente da Fifa Sepp Blatter, que não deixou exatamente um histórico limpo. Porém, desde então, Infantino, de muitas maneiras, empurrou ainda mais os limites do que muitos antes dele.

"Infantino aceitou um prêmio de Vladimir Putin após a Copa do Mundo masculina de 2018 na Rússia; apoiou o Catar, chegando a residir no país, em todas as etapas da preparação para a controversa Copa de 2022; e, com pouco debate, concedeu o evento de 2034 à Arábia Saudita. Na preparação para 2026, Infantino passou a residir em Miami, praticamente na porta de seu mentor, Trump", explica Tomlinson. "Essa não é a conduta de um representante de uma organização global e democrática. Infantino, sem dúvida, intensificou os conflitos éticos que caracterizam o futebol contemporâneo", conclui.

<><> O show tem que continuar?

Muitos eventos esportivos ao redor do mundo enfrentaram desafios éticos ou sombras políticas, mas, na maioria dos casos, o jogo acontece no campo.

Um artigo de 2025, de Paul Bertin e Pauline Grippa, publicado na revista Political Psychology, revelou que muitos torcedores que pretendiam boicotar a Copa de 2022 não o fizeram. Essa pesquisa é uma das razões pelas quais Wojtowicz acredita que o apelo do futebol torna boicotes éticos improváveis, embora torcedores devam se engajar proativamente.

"Se alguém vira e diz: 'Trump organizou uma ótima Copa, não foi?' A resposta correta deveria ser: 'Do que você está falando? Ele não tem nada a ver com isso – e está usando isso para ter uma melhor imagem'", afirma Wojtowicz. "Acho que o ponto é: você precisa se engajar. Precisa refletir e garantir que não deixe isso passar despercebido só porque a Copa está acontecendo", completa. "Acho que pequenos atos de resistência ética podem ser úteis."

•        Copa 2030: Marrocos é alvo de denúncia por suspeita de abate de 3 milhões de cães

Marrocos enfrenta crescente pressão internacional após denúncias de que estaria promovendo uma campanha de extermínio de cães de rua como parte dos preparativos para a Copa do Mundo de 2030. O país vai sediar o torneio ao lado da Espanha e de Portugal.

Segundo organizações de proteção animal, até três milhões de cães podem estar sob risco de abate com o objetivo de “limpar” áreas urbanas e turísticas antes da competição internacional. As acusações têm gerado reações de ativistas, celebridades e entidades de defesa dos direitos dos animais.

Relatórios da International Animal Welfare and Protection Coalition (IAWPC) apontam que cerca de 300 mil animais já eram mortos anualmente no país antes mesmo da confirmação do Mundial. Após o anúncio oficial de Marrocos como sede, em 2023, o número de casos teria aumentado significativamente, segundo a entidade.

<><> Denúncias detalham métodos e citam centro de abate

De acordo com a IAWPC, os métodos denunciados incluem envenenamento com estricnina e disparos de arma de fogo. A organização afirma ter reunido imagens e documentos que indicariam execuções sistemáticas em diferentes cidades marroquinas.

Uma investigação publicada pelo The Athletic relatou a existência de um suposto centro de abate nos arredores de Marrakech. Ativistas sustentam que as ações estariam ocorrendo inclusive à vista de moradores e turistas.

A repercussão nas redes sociais impulsionou pedidos de boicote ao torneio. O ator Mark Ruffalo classificou as denúncias como uma “falha moral” e declarou que eliminar milhões de cães para sediar um evento esportivo global “não é progresso”, defendendo alternativas humanitárias de controle populacional.

<><> Governo marroquino nega plano de extermínio

Em resposta às acusações, a embaixada de Marrocos em Londres negou qualquer plano de abate em massa. Em nota, o governo afirmou manter compromisso com políticas de gestão animal consideradas “humanas e sustentáveis”.

Um porta-voz declarou ser “totalmente falso” que haja preparação para eliminar cães de rua antes da Copa. Segundo as autoridades, o país já implementa programas de controle populacional baseados na captura, esterilização, vacinação e posterior soltura dos animais.

A Fifa informou que acompanha o caso e está em contato com as autoridades marroquinas e com a IAWPC para garantir que compromissos relacionados ao bem-estar animal sejam respeitados. A entidade destacou que, durante o processo de candidatura, Marrocos apresentou iniciativas iniciadas em 2019 voltadas ao manejo ético da população de rua.

<><> Pressão internacional deve continuar

Apesar das negativas oficiais, organizações de proteção animal afirmam que seguem documentando mortes e cobram transparência nas ações do governo. As entidades defendem políticas amplas de esterilização e vacinação em larga escala como alternativa ao extermínio.

O caso amplia o debate sobre os impactos sociais e ambientais da organização de megaeventos esportivos e coloca o país sob escrutínio internacional a quatro anos da Copa do Mundo de 2030.

 

Fonte: DW Brasil/Agenda do Poder

 

O momento mais difícil de ver seus pais envelhecerem é quando você percebe que começam a depender de você

O envelhecimento dos pais marca uma transição profunda na dinâmica familiar, exigindo maturidade emocional para lidar com a nova realidade. Esse processo envolve a aceitação de que aqueles que outrora cuidaram agora necessitam de amparo constante. É um ciclo natural que transforma profundamente os laços afetivos e a percepção de tempo presente.

<><> Por que a inversão de papéis gera tanto impacto emocional?

A psicologia destaca que essa transição desafia a identidade do filho, que passa a assumir a responsabilidade pela segurança dos genitores. Sentir o peso invisível dessa dependência é como carregar um espelho que reflete nossa própria finitude e vulnerabilidade. O choque de ver a autoridade se tornar fragilidade exige uma reconstrução interna constante para suportar o cotidiano.

Aceitar que os pais agora dependem de cuidados básicos pode gerar sentimentos contraditórios de tristeza e dever cumprido. Essa mudança de dinâmica é como o entardecer que chega sem pedir licença, alterando as sombras de uma convivência longa. Adaptar-se a essa nova estrutura familiar requer paciência para acolher as limitações físicas e cognitivas que surgem agora.

<><> Como lidar com a percepção da fragilidade dos pais?

A fragilidade não é apenas física, mas também uma mudança na forma como as decisões são tomadas dentro da família. Ver quem sempre nos guiou agora hesitar em passos simples traz uma melancolia profunda e inevitável. É necessário transformar essa dor em uma forma ativa de presença, garantindo que a dignidade deles seja sempre preservada durante todo processo.

A dependência física exige adaptações práticas no lar, mas o apoio emocional continua sendo o pilar mais importante de todos. Cada gesto de cuidado é uma oportunidade de retribuir o afeto recebido durante os anos de formação e crescimento. Encarar essa fase com serenidade ajuda a diminuir o estresse causado pelas transformações naturais que o tempo impõe diariamente.

<><> Quais sentimentos surgem ao cuidar de quem cuidou?

O cuidar envolve uma mistura de gratidão profunda e exaustão física que testa os limites da nossa própria paciência diária. Esse desafio exige que encontremos um propósito maior em cada tarefa realizada, desde a alimentação até o acompanhamento médico constante. A experiência de ser o porto seguro de seus pais redefine completamente o conceito de amor incondicional hoje.

Esta jornada de cuidados contínuos revela aspectos fundamentais sobre a natureza humana e a força dos vínculos que nos unem.

<><> Como equilibrar o cuidado parental e a vida pessoal?

Manter a própria saúde mental é indispensável para oferecer um cuidado de qualidade aos pais que estão envelhecendo agora. O esgotamento do cuidador é um risco real que pode comprometer a harmonia familiar e o bem-estar de todos os envolvidos. Buscar redes de apoio e dividir as tarefas ajuda a aliviar a carga emocional dessa fase tão complexa hoje.

Estabelecer limites saudáveis permite que o filho continue vivendo sua própria vida enquanto cumpre o seu papel de amparo. O cuidado não deve significar a anulação total dos próprios sonhos ou da carreira profissional conquistada com esforço. Encontrar esse ponto de equilíbrio é o segredo para uma assistência humanizada, respeitosa e também muito sustentável emocionalmente agora.

<><> O que dizem os especialistas sobre o apoio ao idoso?

A ciência moderna enfatiza a importância da manutenção da autonomia do idoso pelo maior tempo possível dentro de suas capacidades. Incentivar pequenas tarefas domésticas e manter a vida social ativa retarda o declínio cognitivo e melhora o humor geral. Oferecer suporte sem retirar a dignidade é a base para um envelhecimento saudável e muito mais feliz hoje.

As diretrizes de saúde pública oferecem manuais completos para orientar as famílias sobre os melhores cuidados paliativos e preventivos necessários. A Organização Mundial da Saúde disponibiliza diversos materiais que ajudam a entender as necessidades específicas da terceira idade. Você pode consultar essas orientações em sua página oficial para garantir o melhor atendimento aos seus entes queridos com segurança.

•        A psicologia diz que a parte mais difícil de ver seus pais envelhecerem não é a idade, é perceber que você se tornou a pessoa forte da família

O ciclo natural da vida reserva um momento de transição profunda que costuma ocorrer sem avisos ou preparos formais. A psicologia do desenvolvimento explica que o impacto emocional de observar o declínio físico dos genitores é, na verdade, o reflexo do fim da nossa própria infância psicológica. Assumir o papel de suporte central exige resiliência.

<><> Como a inversão de papéis impacta o equilíbrio emocional dos filhos?

A percepção de que os pais não são mais as figuras invulneráveis que protegiam o lar gera um luto simbólico pela segurança do passado. Esse fenômeno força o indivíduo a amadurecer abruptamente, assumindo decisões financeiras, médicas e logísticas que antes eram delegadas aos mais velhos. A responsabilidade de ser a Pilar da Família traz um peso emocional.

Durante essa fase, o filho deixa de ser o receptor de cuidados para se tornar o provedor de estabilidade e segurança. Essa mudança de hierarquia emocional pode causar sentimentos de solidão e sobrecarga, pois o apoio que antes era garantido agora depende exclusivamente da sua força. Compreender essa dinâmica é o primeiro passo para exercer o cuidado com equilíbrio e serenidade.

<><> Por que a percepção da própria força gera sentimentos de isolamento?

Ser a pessoa forte da família significa, muitas vezes, carregar as angústias dos outros sem ter um porto seguro imediato para desabafar. O medo de demonstrar vulnerabilidade diante de pais envelhecidos ou irmãos mais jovens cria uma barreira de isolamento emocional que desgasta a saúde mental. A força, nesse contexto, pode ser sentida como uma solidão necessária.

A mente precisa processar a perda da proteção parental ao mesmo tempo em que gerencia as demandas práticas do presente conturbado. Esse acúmulo de funções exige um alto nível de inteligência emocional para não permitir que o estresse se transforme em ressentimento ou exaustão crônica. Reconhecer os próprios limites é fundamental para manter a integridade física e mental.

<><> De que maneira organizar o cuidado preserva a dignidade dos pais?

Exercer a força não significa anular a autonomia dos pais, mas sim criar um ambiente onde eles se sintam seguros e respeitados. Delegar tarefas e organizar uma rede de apoio externa permite que o papel de “pessoa forte” não se torne um fardo insustentável a longo prazo. O respeito à história deles é o Pilar do Cuidado.

Para que você consiga gerenciar essa transição com a sabedoria e a empatia necessárias para manter a harmonia familiar, considere as seguintes práticas:

       Estabeleça momentos de diálogo sincero sobre as necessidades reais e desejos futuros.

       Organize documentos e informações médicas em locais de fácil acesso para emergências.

       Busque auxílio profissional ou grupos de apoio para compartilhar experiências e angústias.

       Reserve um tempo semanal para o seu próprio autocuidado e descanso restaurador.

<><> Quais são as estratégias para evitar o esgotamento do cuidador familiar?

O esgotamento, conhecido tecnicamente como estresse do cuidador, ocorre quando o filho ignora suas próprias necessidades em prol da sobrevivência emocional do grupo. É vital entender que ser a pessoa forte não significa ser inesgotável ou imune ao cansaço e à tristeza profunda. Aceitar ajuda externa é uma demonstração de inteligência e maturidade psicológica.

A manutenção da própria vida social e profissional atua como uma válvula de escape essencial para processar o luto da inversão de papéis. Encontrar prazer em atividades fora do núcleo familiar ajuda a recarregar as energias necessárias para enfrentar os desafios do envelhecimento parental. O equilíbrio entre o dever filial e a preservação pessoal garante um cuidado mais humano.

<><> O que os estudos de gerontologia sugerem sobre o apoio aos cuidadores?

A ciência reconhece que o suporte psicológico ao cuidador é tão importante quanto o tratamento médico direcionado ao idoso em declínio. Portais de saúde e organizações internacionais oferecem guias detalhados sobre como enfrentar a finitude e as mudanças comportamentais típicas da terceira idade. Informar-se sobre o processo de envelhecimento reduz a ansiedade e melhora a qualidade do convívio.

O National Institute on Aging disponibiliza recursos abrangentes sobre os desafios de cuidar de pais idosos e a importância do suporte emocional para a família. Você pode acessar orientações técnicas sobre a saúde do cuidador e o manejo do estresse nas páginas oficiais do NIA destinadas ao público. A informação correta é a base da resiliência.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

Radiografia da engenharia nacional no pós-Lava Jato

A engenharia pesada dá liga às cidades. Há sempre uma camada anterior, silenciosa, de obras, redes e estruturas que tornam a vida urbana possível: sistemas de saneamento, drenagem, mobilidade, viadutos, barragens, redes de energia, pontes, túneis, estradas. Quando abrimos a torneira e a água chega, quando acendemos a luz, quando atravessamos a cidade, quando a rua não vira rio — ou quando vira —, há um complexo de decisões técnicas e políticas operando nos bastidores. Há canteiros de obra!

Sem essa liga, a cidade se desfaz em partes que não se articulam — bairros isolados, serviços que não chegam, fluxos interrompidos. Quando a engenharia funciona bem, quase não é percebida; quando falha, a cidade inteira pode entrar em colapso. E ela decide algo simples e brutal: o que funciona e para quem. Quem se move, quem acessa, quem permanece à margem — e que tipo de vida urbana é possível construir.

Tradicionalmente, porém, grandes obras são decididas de forma tecnocrática, com pouca transparência e controle social sobre prioridades e execução. Durante décadas, essa engenharia foi operada por um grupo restrito de empresas. Quatro delas tornaram-se “campeãs nacionais” do setor — praticamente toda obra de grande porte passava por suas mãos: Odebrecht (hoje Novonor), OAS, Camargo Corrêa e Andrade Gutierrez. Negócios de origem familiar, consolidados durante a ditadura, cultivaram estreita proximidade com governos de diferentes espectros políticos, financiaram campanhas, diversificaram atividades e expandiram-se globalmente. Ao menos até a Operação Lava Jato.

“A Operação trouxe uma ruptura: representou a quebra da barreira do mercado doméstico e do controle que as grandes empreiteiras tinham. O que ocorreu, depois, foi uma abertura às estrangeiras”, aponta o historiador Pedro Henrique Pedreira Campos, professor da UFRRJ. “Com isso, há hoje uma desnacionalização significativa do setor de engenharia no Brasil.”

Deflagrada em 17 de março de 2014 pela Polícia Federal, a operação partiu de investigações sobre lavagem de dinheiro envolvendo doleiros como Alberto Youssef e avançou sobre contratos da Petrobras. A ideia de um grande esquema sistêmico, porém, é controversa.

A corrupção existia — mas não era, para Pedro, o centro da questão. Durante os anos áureos da Lava Jato, ele concedeu entrevistas a jornalões, ávidos por ouvir sobre a “roubalheira petista”. O professor, no entanto, provocava: tudo aquilo, por mais inaceitável, não era o cerne da questão. Afinal, ele havia mergulhado fundo para tentar compreender a relação umbilical entre Estado brasileiro, grandes empreiteiras e desenvolvimento nacional — das raízes históricas ao modus operandi na Nova República. Desse esforço nasceram livros como Estranhas Catedrais: as empreiteiras brasileiras e a ditadura civil-militar (1964-1988), vencedor do Prêmio Jabuti de 2015 na categoria Economia; O voo do Ícaro, em que analisa a internacionalização das construtoras brasileiras; Os Donos do Capital, que traça a trajetória das principais famílias empresariais do capitalismo brasileiro; e A Miragem do Brasil, onde debate os governos do PT até o golpe de 2016 e a ascensão da ultradireita. Sua tese é incisiva: o que se viu não foi apenas uma punição de empresas envolvidas em corrupção, mas o colapso de um modelo de engenharia nacional, a perda de capacidade estatal indireta de induzir cadeias produtivas e uma mudança estrutural no papel da infraestrutura na economia.

Mais do que executar obras, as grandes empreiteiras operavam como braços de uma política desenvolvimentista no ciclo de governos petistas: da geração de empregos diretos e indiretos ao estímulo de indústrias como a do aço e cimento, além de induzir a inovação tecnológica. E tornaram-se players internacionais. “No mercado global, a competição, embora pareça uma disputa entre grupos econômicos, é, em última instância, uma concorrência interestatal. Os Estados estão por trás, bancando uma disputa pesada”, diz Pedro. A Odebrecht, por exemplo, construía para as Forças Armadas dos Estados Unidos no Iraque enquanto erguia o Porto de Mariel em Cuba. Levava junto material, engenheiros e equipamentos brasileiros — e com eles, a capacidade de disputar mercados com norte-americanos e europeus.

No pós-Lava Jato, no entanto, a derrocada dessas construtoras foi seguida por mais concessões, PPPs e fundos de investimento em obras de infraestrutura com participação internacional. E saneamento básico, hoje, parece ter se tornado o novo filão, segundo o professor.

Mas a saída seria apenas substituir grupos de fora por poderosas empresas nacionais, como era antes? Resgatar um poder de fogo que se perdeu após a Lava Jato? Ou é preciso recolocar o Estado como coordenador estratégico — e a engenharia como política pública, orientada pelo direito à cidade a partir da justiça social, da sustentabilidade e da participação popular? Afinal, não se trata apenas de construir mais, mas de decidir para quem, onde e sob quais prioridades fazer cidades.

<><> Em 17 de março de 2014, foi deflagrada a Operação Lava Jato, em Curitiba. Lá se vão doze anos. Direito e reto: quais foram os impactos para a engenharia, as construtoras e a indústria brasileiras?

A Lava Jato tem múltiplas dimensões, obviamente. Tinha uma conotação política, que buscava atingir o Partido dos Trabalhadores, setores progressistas e o governo Dilma Rousseff. Tanto que vários envolvidos viraram políticos, como Sérgio Moro e Deltan Dallagnol. Mas, por outro lado, há também a dimensão da relação entre as empreiteiras e o Estado. Avaliar as consequências da Lava Jato sobre essa dinâmica público-privada e o uso do fundo público pelas empresas de engenharia é importante.

A Operação trouxe uma ruptura: representou a quebra da barreira do mercado doméstico e do controle que as grandes empreiteiras tinham. O que ocorreu, depois, foi uma abertura às estrangeiras: o Linhão de Belo Monte, por exemplo, é feito pela State Grid [chinesa], e outros projetos seguem o mesmo caminho, com concessões e obras sendo assumidas aqui e acolá. Com isso, há uma desnacionalização significativa do setor de engenharia no Brasil. Empresas estrangeiras — espanholas, chinesas e de outras origens — atualmente compram ativos e ganham força no mercado interno. Esse é um dos efeitos, além de ter havido a paralisação de boa parte das obras. E, pensando em viés classista, não foram grandes empresários como o Marcelo Odebrecht, que inclusive pegou um pouco de prisão, que se deram mal: foram os trabalhadores, que perderam os empregos, lidaram com a compressão salarial, a precarização e os refluxos políticos

Foi uma operação bem pensada que usou a bandeira anticorrupção para criminalizar a política e abrir caminho para projetos de extrema-direita, como vimos depois. A Lava Jato deu força ao projeto privatista, que já estava em curso no país, nos governos que se seguiram. Vieram as privatizações da BR Distribuidora e refinarias. E o saneamento parece ser o novo filão. A mensagem é de que o público é sujo e o privado é eficiente — o que não é verdade, claro. Não há corrupção na CBF e na FIFA? Um caso exemplar, hoje, é o do escândalo do Banco Master: num editorial recente, O Globo pediu a  privatização da Petrobras como remédio contra a corrupção. Isso lembra o caso da Sudene no governo FHC: diante de denúncias, a solução foi extinguir a agência, criada em 1957 e fundamental para a política regional no Nordeste. Havia desvios, sim, mas o caminho deveria ser corrigi-los, não acabar com um instrumento de política pública. 

<><> Com as grandes empreiteiras numa espiral de crises, além da investida de grupos estrangeiros, outras construtoras brasileiras se fortaleceram?

Há uma verdadeira dança das cadeiras. Abriu-se espaço recentemente para a ascensão da MRV [de Minas Gerais] e de algumas outras empresas de médio porte, como o Grupo Arena [do Paraná], que cresceram nesse processo, aproveitando o vácuo deixado pela fragilização das principais empreiteiras do país. Afinal, não é só o capital estrangeiro que preenche esse espaço — entram também outros atores do capital doméstico. Em momentos de reformulação do mercado, volta e meia isso acontece: algumas empresas ascendem e, pouco depois, entram em declínio. E, com a fragilização das grandes empreiteiras, abriu-se margem para que grupos antes mais às margens do mercado ocupassem uma posição central. 

É interessante notar como as empreiteiras passam por ondas. Porém, Odebrecht, Andrade Gutierrez e Camargo Corrêa são mais perenes no cenário nacional, pois são empresas muito antigas. A Camargo Corrêa, por exemplo, já era a maior empreiteira do Brasil desde os anos 1950. Uma gigante, poderosa, fundada por Sebastião Camargo, um homem ligado à família Penteado [uma “linhagem quatrocentona” paulista]. É ligada a Antônio Ermírio de Moraes, ao Bradesco, à nata do grande capital paulistano, com uma ascendência enorme sobre órgãos como a Dersa [Desenvolvimento Rodoviário S/A, fundada em 1969], o DER [Departamento de Estradas de Rodagem], a Sabesp e as principais agências estaduais, além de ser contratada por empresas privadas.

<><> As grandes construtoras tinham significativa atuação internacional. O que o Brasil perdeu com a Lava Jato neste campo?

A Odebrecht chegou a contabilizar mais de 500 contratos no exterior — um negócio muito significativo. Estava presente em mais de 30 países. Em praticamente todos os países da América do Sul, talvez com exceção das Guianas. Tinha presença na América Central, em Cuba, na República Dominicana e em outros países. Ainda é poderosa em Angola. Na Europa, construiu a ponte Vasco da Gama, sobre o rio Tejo, em Portugal, e vários outros empreendimentos que poderíamos citar. Teve grande atuação também nos Estados Unidos. Levantei que a Odebrecht tinha 40 contratos com as Forças Armadas norte-americanas e  trabalhava com a Halliburton [uma das principais prestadoras de serviços do mundo para a indústria de petróleo e gás natural] em muitos projetos. Tanto que, na Segunda Guerra do Golfo, em 2005, um engenheiro da Odebrecht morreu no Iraque logo no começo do conflito. Aliás, a atuação em Cuba, com o Porto de Mariel, criou problemas para a Odebrecht nos Estados Unidos devido ao bloqueio, pois empresas que operam em Cuba não podem atuar na Flórida. Mas o Itamaraty chegou junto para tentar desatar esse nó. Enfim, a Odebrecht conseguiu entrar em mercados extremamente fechados. 

É interessante notar o caráter multiplicador disso. Tenho um orientando [da UFRRJ], Pedro Moura, que mostra que a Odebrecht, no mundo todo, usava apenas fechaduras e dobradiças da Ágara — uma metalúrgica de Nova Friburgo, no interior do Rio. Essa internacionalização fomentava a indústria nacional, levando equipe técnica e equipamentos, ativando setores produtivos e repatriando recursos. Um círculo virtuoso, portanto. Não à toa, o BNDES financiava isso. Havia uma justificativa — por mais que se possa questionar a predominância da Odebrecht ou os termos dos contratos — de que se estava exportando engenharia brasileira e haveria retorno.

<><> E também havia uma geopolítica das empreiteiras, não? Afinal, exportava-se tecnologias de alta complexidade e manufaturas brasileiras, até estreitando laços com o Mercosul e o Sul global…

No mercado global, a competição, embora pareça uma disputa entre grupos econômicos, é, em última instância, uma concorrência interestatal. Os Estados estão por trás, bancando uma disputa pesada. Um grande projeto, como uma megahidrelétrica num país produtor de petróleo — a exemplo da usina de Guri [inaugurada em 1986, fornece cerca de 70% da energia venezuelana], nos anos 1970, que seria a maior do mundo — não é uma disputa qualquer. Não é uma empresa simplesmente disputando uma obra, mas um projeto do Estado brasileiro com os países envolvidos. Envolve remessa de lucros, materiais, equipamentos e mão de obra — algo que gera divisas expressivas, exportação de serviços, um filão poderosíssimo no mercado internacional. No caso de Guri, aliás, as empreiteiras brasileiras chegaram a ganhar a concessão para a obra. Depois perderam: os Estados Unidos jogaram pesado para tirá-las do consórcio. Foi uma grande disputa, e é óbvio que o Brasil não tem condições de bater de frente com o Departamento de Estado e as empreiteiras norte-americanas.

<><> Para além das grandes empreiteiras, como reconstruir um setor de construção civil soberano que, desta vez, pudesse aliar desenvolvimento econômico à geração de empregos de qualidade, justiça ambiental e bem-estar social?

A primeira coisa é compreender que não é o mercado que deveria reorganizar essa cadeia produtiva, mas o Estado, elaborando projetos, refletindo sobre como fazer e atuando de fato. Reforço que o principal problema das grandes empreiteiras não é a corrupção. Muito mais graves são outros aspectos: elas foram sócias da ditadura, sempre foram truculentas com os trabalhadores, pautam políticas públicas conforme seus interesses — e não segundo os anseios da população. Tudo isso pesa muito mais do que o pagamento de comissões a intermediários, parlamentares, secretários ou ministros. 

O grave, no fundo, é o papel dessas grandes construtoras na definição do modelo de desenvolvimento. Construir uma megahidrelétrica de milhares de megawatts é ótimo… Para elas. Mobiliza muito capital  e a margem de lucro sobre uma obra de 30 bilhões de dólares é maravilhosa. Mas e o impacto socioambiental? Para quem a energia precisa ser tão barata? O consumidor eletrointensivo adora, mas a conta não deveria ser somente essa. O Emílio Odebrecht escreveu um livro num tom meio nacionalista, como se sua empresa tivesse sofrido uma agressão contra o Brasil. Não posso compactuar com essa fala. O que está em jogo é uma guerra intercapitalista. De um lado, um grande capital brasileiro; de outro, um ainda maior: os grupos internacionais, especialmente norte-americanos, que começaram a achar incômodo haver grupos brasileiros tão poderosos. Não há problema em deixar a Odebrecht atuar em Angola, em Cuba, na Venezuela. Mas na Petrobras e no Pré-sal, sim, pois querem esse filão. Os Estados Unidos têm informações — obviamente espionam todo mundo — e sabem da malversação, do desvio de recursos, do pagamento de propina. E, inclusive, treinaram promotores, procuradores e juízes que deflagraram a Lava Jato, construindo redes de networking. O próprio Sérgio Moro fez curso na Embaixada dos Estados Unidos [o Projeto Pontes, como revelou o WikiLeaks].

O resultado foi uma cadeia produtiva inteira desmontada. Obras foram paralisadas, um monte de gente demitida, famílias desamparadas, trabalhadores se precarizando… Podemos até questionar algumas dessas obras — precisa dessa hidrelétrica? Não sei, mas desempregar milhares de pessoas é algo criminoso, extremamente danoso para o Brasil.

<><> Mas, frente a um círculo vicioso para os interesses públicos, o que fazer?

Uma coisa de que os empreiteiros morrem de medo são as iniciativas estatais. Já na época da ditadura, quando o Estado aparecia para fazer alguma obra, eles gritavam, reclamavam, chiavam bastante. Acompanhei isso nas entidades patronais da época, como o Sinicon [Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada]. Mas quando há um grande ciclo de obras públicas, nos anos 1970, durante o Milagre Econômico e o 2º PND [Plano Nacional de Desenvolvimento], ninguém reclama. Praticamente não existe concorrência e, às vezes, nem licitação — simplesmente dão a obra para a empreiteira.

Por exemplo, na construção da Transamazônica, distribuíram os lotes para todas as grandes empreiteiras. Porém, a BR-163 Cuiabá-Santarém — uma obra gigantesca, que cruza a Transamazônica — foi construída pelo Batalhão de Engenharia do Exército, sem participação de nenhuma empresa privada. Ou seja, o Estado brasileiro a fez. Afinal, o Exército tem a Arma da Engenharia [que atua, também, na construção de estradas, pontes, ferrovias, barragens etc.], que pode ir com os tratores, as máquinas, contratar os operários e tocar qualquer obra. Naquela época, os empreiteiros não reclamavam porque havia obra de sobra. Mas, em época de crise, se o Estado atua diretamente, eles vão chiar e acusar o governo de estatista

Veja o caso da ponte Rio-Niterói: originalmente, a obra foi contratada pelo DNER [Departamento Nacional de Estradas de Rodagem] junto a um consórcio privado. Deu problema e, na segunda fase, a obra foi estatizada. Criaram a Ecex [Empresa de Engenharia e Construção de Obras Especiais], que passou a gerir os serviços e contratava empresas privadas apenas para tarefas específicas. A tensão com as empreiteiras foi grande. Concluída a obra, a Ecex foi mantida. Passou a cobrar os pedágios e a fazer outras intervenções: um viaduto aqui, uma rodovia ali, coisas pequenas. Mas as empreiteiras já começaram a se indignar: por que uma estatal está fazendo obras? O governo tentou acalmar os ânimos: ela só vai completar algumas coisas. E, ao final, cedeu. Isso mostra que quem tem que reconstruir a política de infraestrutura e a política habitacional brasileira é o Estado. Inclusive, acho que o Estado pode — e deve — se aventurar a atuar no mercado.

<><> Parece, hoje, ainda haver pouca disposição de governos em enfrentar o capital, menos ainda de concorrer com eles… Há uma grande batalha por lutar. Como começá-la?

A Dilma, quando era chefe da Casa Civil do governo Lula — o pessoal a chamava de “primeira-ministra”, porque conduzia o governo em boa medida —, estava numa negociação com empreiteiros. Ela dizia: “Cada quilômetro dessa rodovia precisa custar tal valor.” Os empreiteiros respondiam: “Esse valor é muito baixo”. Ela tentava: “Dá para diminuir um pouquinho aqui.” Eles: “Não. Tem que ser esse custo.” Por fim, Dilma disse: “Vocês se entendam, volto daqui a pouco, quero que cheguem a esse custo.” Jogando super pesado. Dez minutos depois: “Conseguiram chegar ao custo?”. Mas os empreiteiros não aceitaram uma redução do valor e, então, a ministra os dispensou. Nesse meio tempo, Dilma já tinha ligado para o ministro da Defesa e dito: “Quero que o batalhão do Exército faça essa obra. Esses caras estão nos engabelando.” Os empreiteiros exigiam uma margem de lucro muito elevada. Esse é um problema recorrente das empresas privadas.

Lembro de uma CPI nos anos 1980, a partir de uma denúncia do [jornalista] Jânio de Freitas sobre a Ferrovia Norte-Sul. O resultado da concorrência vazou no dia anterior e foi publicado de maneira cifrada na seção de classificados da Folha de SP, o que gerou uma CPI. Durante os depoimentos, um agente do setor revelou que a margem de lucro média das empreiteiras era de 30%, um patamar que não é praticado em nenhum ramo e em nenhuma parte do mundo. A média costuma ser 10%. É por isso que o Estado poderia entrar. Os bancos públicos, pensados como agentes de política pública, também atuariam nessa empreitada. Se o Bradesco, Santander e outros praticam juros altíssimos, o Banco do Brasil e a Caixa podem cobrar menos. Logo, os bancos privados vão ter que baixar suas taxas para competir com os públicos.

A venda da BR Distribuidora [adquirida por fundos de investimentos, inclusive estrangeiros, em 2021, durante o governo Bolsonaro], por exemplo, foi criminosa, pois o Brasil perdeu um mecanismo essencial de controle sobre o mercado de distribuição de combustíveis. O contexto atual de guerra no Oriente Médio, com o fechamento do Estreito de Ormuz e o Golfo Pérsico paralisado, mostra como é fundamental ter um instrumento de política pública para atuar nesse e em outros setores. 

Uma opção ao Estado poderia ser pegar uma das empreiteiras que faliram e transformá-la em estatal. Os empresários vão fazer escarcéu, claro, mas é algo necessário. Não se trata de estatizar o setor inteiro — isso é um sonho — mas pelo menos ter uma empresa estatal forte para poder conduzir e civilizar um pouco a lógica de lucros do setor e a forma como os trabalhadores são tratados. O Estado, se tivesse instrumentos de política pública e presença forte no setor de engenharia, poderia atuar para tocar e, inclusive, melhorar a qualidade das obras públicas, como as do Minha Casa Minha Vida e as de infraestrutura.

 

Fonte: Pedro Henrique Pedreira Campos em entrevista a Rôney Rodrigues, em Outras Palavras

 

Ricardo Partington: como uma guerra prolongada com o Irã poderia abalar a economia global

os dias que se seguiram ao primeiro bombardeio conjunto dos EUA e de Israel ao Irã, os mercados financeiros apostaram que as consequências econômicas da " pequena excursão " de Donald Trump ao Oriente Médio seriam de curta duração.

“Existem riscos decorrentes da alta dos preços do petróleo a longo prazo. Mas este é um risco extremo”, disse um gestor de fundos baseado nos EUA após o ataque aéreo que matou o líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei . “A história tem mostrado repetidamente que conflitos geopolíticos como este tendem a ser de curta duração. Este não deve ser uma exceção.”

O Goldman Sachs informou aos seus clientes que esperava uma interrupção temporária. "Os preços do petróleo devem cair ao longo do ano. Mas os riscos estão inclinados para o lado positivo", escreveram seus analistas. O UniCredit sugeriu que o preço do petróleo bruto seria limitado a cerca de US$ 80 por barril. "Dada a sua luta pela sobrevivência, o regime iraniano tem um incentivo para manter sua resposta moderada".

Três semanas depois, a perspectiva de uma guerra prolongada está causando crescentes problemas econômicos. Os preços do petróleo dispararam para mais de US$ 100 o barril, os preços da gasolina na Europa dobraram, a volatilidade assola os mercados financeiros e os consumidores em todo o mundo se preparam para um aumento no custo de vida. Bancos centrais, incluindo o Federal Reserve dos EUA, o Banco da Inglaterra e o Banco Central Europeu, alertam que a guerra pode ter um impacto significativo na inflação e prejudicar o crescimento global.

“A opinião geral do mercado ainda é de que a guerra terminará rapidamente, com a reabertura do Estreito de Ormuz em breve”, disse Albert Edwards, analista sênior do Société Générale. “Talvez o mercado esteja certo, mas, na minha opinião, os riscos são assimétricos e a estagflação pode estourar a bolha da complacência.”

A cada dia, mais problemas surgem. Desde o aumento exorbitante do preço da gasolina e do diesel para os motoristas, até voos cancelados e a pior perturbação nas viagens desde a pandemia da Covid.

A indústria pesada europeia – ainda se recuperando do choque dos preços da energia em 2022, após a invasão russa da Ucrânia – está sentindo o impacto de forma particularmente severa. A Huntsman declarou ao The Guardian que sua fábrica em Teesside, no nordeste da Inglaterra, está em risco, e a BASF, maior empresa química do mundo, está aumentando os preços. O custo dos fertilizantes – um importante subproduto da indústria petrolífera – está subindo acentuadamente, prejudicando agricultores em todo o mundo e preparando o terreno para uma forte alta nos preços dos alimentos.

O Irã ameaçou elevar o preço do petróleo para US$ 200 o barril com sua retaliação, visando a navegação na estreita passagem marítima entre sua costa sul e Omã, bem como refinarias e oleodutos em todo o Oriente Médio. Mísseis iranianos atingiram Ras Laffan , uma importante instalação de processamento de gás natural liquefeito (GNL) do Catar, levando analistas a alertarem que os mercados de energia estão caminhando para um cenário apocalíptico .

Em Washington D.C., a mensagem tem sido contraditória. Trump declarou a guerra "vencida", ao mesmo tempo que afirmou que ela poderia terminar "em breve" ou que poderia precisar ser "prolongada" – adicionando uma camada de incerteza para os mercados globais e a economia mundial, que contrasta com a situação no terreno.

Nesse contexto, empresas e investidores estão cada vez mais sem saber como reagir. O Barclays comparou os comentários do presidente a uma “névoa de guerra” típica do século XIX, que alimenta oscilações violentas no mercado. “Uma densa névoa foi induzida pela comunicação sobre a guerra: seus objetivos, sua duração, sua potencial expansão e/ou suas saídas”, escreveram seus analistas.

Especialistas afirmam que um conflito prolongado poderia se assemelhar a crises econômicas globais do passado. "A alta dos preços do petróleo e do gás é um prenúncio de problemas econômicos", disse Ian Stewart, economista-chefe da Deloitte no Reino Unido. "Preços mais altos de energia, desencadeados por guerras ou revoluções no Oriente Médio, foram fatores importantes nas recessões ocidentais de 1973, 1979 e 1990."

“A alta nos preços da energia após a invasão da Ucrânia pela Rússia fez com que a taxa de crescimento da Europa despencasse em 2023.”

Os paralelos mais claros, no entanto, são com a década de 1980. Naquela época, Ronald Reagan enviou navios de guerra americanos para o Estreito de Ormuz para proteger a navegação mercante durante a guerra Irã-Iraque. Em um episódio que ficou conhecido como a “guerra dos petroleiros”, Washington enviou o maior comboio naval desde a Segunda Guerra Mundial para manter o fluxo das exportações de petróleo e gás.

Quatro décadas atrás, Teerã e Bagdá sabiam que atacar o Estreito de Ormuz atrairia a intervenção dos EUA. Ao ameaçar os interesses econômicos ocidentais, buscavam obter vantagem. Num caso em que a história se repete, escoltas navais estão sendo cogitadas, após um aparente erro de cálculo da Casa Branca de Trump, que acreditava que desta vez seria diferente.

Cerca de um quinto do fornecimento mundial de petróleo passa por essa hidrovia de 126 km de extensão, que constitui a única rota marítima para embarcações que deixam o Golfo Pérsico em direção ao mar aberto. A Arábia Saudita, um importante aliado dos EUA, é o país que mais exporta por essa pequena passagem, seguida pelos Emirados Árabes Unidos.

A liberação recorde de 400 milhões de barris de petróleo estocados pelos países membros da Agência Internacional de Energia ajudou a acalmar os temores de escassez. Mas especialistas afirmam que as restrições de oferta logo voltarão à tona, afetando refinarias de petróleo bruto e produtos derivados de combustíveis fósseis em todo o mundo.

“Há uma crescente escassez de produtos refinados”, disse Mark Dowding, gestor de fundos da RBC BlueBay. “A China impôs uma proibição de exportação de produtos refinados, buscando proteger o consumo interno. Outros países, incluindo a Coreia do Sul, estão considerando medidas semelhantes e não nos surpreenderia se os EUA seguissem o exemplo.”

Em um conflito prolongado, espera-se que as restrições no fornecimento de energia afetem os subprodutos da queima de combustíveis fósseis, como fertilizantes. O Golfo Pérsico abriga algumas das maiores fábricas do mundo , sendo uma região crucial para a agricultura global. Cerca de metade de todas as exportações mundiais de ureia, um fertilizante de uso comum, e de enxofre, um ingrediente essencial para fertilizantes, provêm do Oriente Médio.

Antes da crucial época de plantio da primavera no hemisfério norte, analistas alertam que o aumento dos custos dos fertilizantes afetará a produtividade das colheitas e elevará os preços dos alimentos, prejudicando países de baixa renda e famílias pobres em todo o mundo.

Os setores de plásticos, produtos químicos e farmacêuticos também estão sendo afetados. O fornecimento de hélio – essencial para a produção de microchips e máquinas de ressonância magnética – foi impactado pela paralisação da produção no Catar. O país do Golfo responde por um terço do fornecimento global, sendo o hélio um importante subproduto do GNL (Gás Natural Liquefeito). Analistas afirmam que as cadeias de suprimentos globais da indústria manufatureira podem ser afetadas como consequência – da produção de automóveis à de eletrônicos.

“Os combustíveis fósseis e as matérias-primas petroquímicas permeiam a infraestrutura essencial da economia moderna”, escreveram analistas do Société Générale em um relatório para clientes. “As consequências desse conflito são enormes para a economia global.”

“Se o Estreito de Ormuz permanecer efetivamente bloqueado por meses, as interrupções nas cadeias de abastecimento além da energia – de alimentos a semicondutores – se tornarão tão críticas que o risco de um cenário semelhante ao da Covid-19 somado ao choque entre Rússia e Ucrânia seria difícil de descartar.”

Além da inflação mais alta, espera-se que o crescimento econômico seja afetado negativamente em todo o mundo. As famílias têm pouca margem para suportar preços mais altos, enquanto as empresas já estavam demitindo trabalhadores em vários países antes do início da guerra com o Irã.

O Barclays estima que, num cenário em que os preços do petróleo se mantenham em média a 100 dólares em 2026 – tal como aconteceu em 2022 – o crescimento global seria 0,2 pontos percentuais inferior, situando-se nos 2,8% este ano, enquanto a inflação geral seria 0,7 pontos percentuais superior, atingindo os 3,8%, em comparação com o cenário anterior.

Alguns economistas alertam que uma guerra prolongada poderia elevar os preços do petróleo acima de US$ 170 por barril, desencadeando uma recessão global. O Reino Unido, a zona do euro e o Japão estão em alerta. Especialistas advertem que uma queda mais acentuada nos mercados globais poderia amplificar o agravamento das perspectivas, expondo fragilidades no sistema financeiro. Crescem os temores em relação à falta de transparência nos mercados de crédito privado, enquanto o estouro de uma bolha impulsionada pela inteligência artificial nas avaliações de empresas de tecnologia poderia ser desastroso.

Os governos estão a estudar medidas de apoio energético de emergência para os consumidores, já afetados pela crise do custo de vida. No entanto, em meio às expectativas de que os bancos centrais aumentem as taxas de juro em resposta ao choque inflacionário, os custos de crédito estão a subir, o que poderá comprometer a sua capacidade de resposta.

Há esperança de que as consequências ainda possam ser contidas. Apesar da turbulência, a queda nos mercados financeiros globais permanece relativamente moderada. As ameaças de tarifas de Trump em abril do ano passado tiveram um impacto muito maior.

Parte da razão reside no contexto do recente choque nos preços da energia. As condições são diferentes das de 2022. Naquela época, os picos nos preços do petróleo e do gás, em meio à guerra da Rússia na Ucrânia, agravaram os efeitos inflacionários da retomada econômica pós-Covid. Os consumidores, com a demanda reprimida, tinham um apetite voraz por bens e serviços. Governos e bancos centrais pressionavam para estimular a atividade econômica, e o mercado de trabalho estava aquecido.

“O resultado hoje, no caso de uma guerra prolongada, seria um choque intenso de oferta que se depararia com um crescimento da demanda muito mais fraco”, disse Kallum Pickering, economista-chefe da Peel Hunt.

Após o boom do gás de xisto, os EUA são em grande parte autossuficientes em energia. Menos de um décimo do seu abastecimento de petróleo passa pelo Estreito de Ormuz. A China acumulou vastas reservas de petróleo . Os países europeus – a maioria importadores líquidos de energia – provavelmente serão os mais afetados pelas consequências, mas têm se esforçado para diversificar suas fontes de abastecimento desde 2022. A capacidade de geração de energia renovável também aumentou.

Embora existam paralelos claros com os choques energéticos da década de 1970, a economia mundial em 2026 reduziu sua dependência de combustíveis fósseis. Algumas estimativas sugerem que a intensidade energética – consumo de energia por unidade de produção econômica – caiu cerca de 70% desde meados da década de 1970.

Diferentemente do que ocorreu após a invasão da Ucrânia pelo Kremlin, quando as nações ocidentais pressionaram para cortar permanentemente o fornecimento de energia russa, os analistas veem o fim da guerra no Irã como uma possibilidade de recuperação.

“A principal diferença é que as atuais interrupções no fornecimento são temporárias. Sim, existe muita incerteza quanto à duração da interrupção, mas, em última análise, o fornecimento retornará”, disse Warren Patterson, chefe de estratégia de energia para commodities do banco holandês ING.

No entanto, consequências a longo prazo ainda são prováveis.

A economia mundial está mais interconectada do que na década de 1970. Com o avanço da globalização e das cadeias de suprimentos just-in-time, o comércio global de bens e serviços cresceu de 42% do PIB mundial em 1980 para mais de 60% em meados da década de 2000. Mas um mundo interdependente, em uma era de crescentes conflitos e tensões geopolíticas, é mais arriscado e não oferece base para um modelo econômico sustentável.

Em resposta, os termos “nearshoring” e “friendshoring” tornaram-se palavras da moda para empresas multinacionais, à medida que estas direcionam suas cadeias de suprimentos para países vizinhos e com alinhamento político, visando fortalecer sua resiliência.

Antes do conflito com o Irã, esse imperativo já havia sido reforçado pelos gargalos no abastecimento após o relaxamento das medidas de confinamento da Covid; pela interrupção causada pelo bloqueio do Canal de Suez pelo Ever Given; e pelos ataques dos rebeldes houthis à navegação no Mar Vermelho após a invasão israelense de Gaza. O aumento das tensões geopolíticas e a guerra tarifária de Trump aceleraram ainda mais a situação.

Economistas afirmam que a fragmentação da economia global pode acarretar custos adicionais permanentes, com potencial para alimentar a inflação no curto prazo e prejudicar o crescimento no longo prazo.

Wei Yao, economista do Société Générale, afirmou que o conflito colocou os bancos centrais do mundo “à mercê da guerra”. “Há momentos em que é preciso chegar perto da beira para lembrar por que não se deve ultrapassá-la. Talvez estejamos vivendo um desses momentos.”

¨      Civis sofrem o impacto mais forte da campanha conjunta dos EUA e de Israel

Já se passou quase um mês desde que os EUA e Israel lançaram seus ataques contra o Irã , alegando que estavam agindo para eliminar a ameaça nuclear do país, destruir sua capacidade de produzir mísseis balísticos e libertar o povo iraniano de um regime teocrático tirânico. No entanto, são os civis iranianos que estão sofrendo cada vez mais com a campanha de Israel e dos EUA. Aqui está o que sabemos sobre o impacto da guerra na população iraniana.

<><> O início da guerra

>>> 28 de fevereiro a 7 de março

Pelo menos 175 pessoas morreram, a maioria crianças, em um ataque com míssil Tomahawk contra uma escola iraniana no primeiro dia de bombardeios israelenses-americanos. Investigadores americanos acreditam que as forças americanas sejam responsáveis .

No mesmo dia, 20 pessoas, incluindo adolescentes que jogavam vôlei, foram mortas após um ataque a um ginásio esportivo em Lamerd, na costa sul do Irã, segundo as autoridades iranianas. O Hospital Gandhi, em Teerã, sofreu grandes danos em ataques no dia seguinte, em um incidente que o diretor-geral da Organização Mundial da Saúde, Dr. Tedros Adhanom Ghebreyesus, descreveu como “extremamente preocupante”. Sítios históricos, incluindo o Palácio Golestan, Patrimônio Mundial da UNESCO, e o antigo Grande Bazar de Teerã, além de lojas e cafés em todo o país, também foram significativamente danificados na primeira semana de bombardeios ordenados pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e pelo primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu. Ataques a locais civis são ilegais segundo o direito internacional. Nos casos em que assumem a responsabilidade, Israel e os EUA argumentam que a devastação é consequência de ataques a alvos militares ou estratégicos próximos. A agência da ONU para refugiados informou que 100 mil pessoas fugiram da capital iraniana, Teerã, nas primeiras 48 horas após os ataques.

<><> Impacto ambiental

>>> 8 a 15 de março

Moradores de Teerã relataram nuvens negras e "chuva negra" em 8 de março, descrevendo aguaceiros contaminados com poluentes tóxicos, um dia depois de Israel ter anunciado o bombardeio de depósitos de combustível perto da capital. A OMS alertou que os impactos ambientais dos ataques à infraestrutura petrolífera poderiam ter graves efeitos na saúde de crianças, idosos e pessoas com doenças preexistentes. Enquanto isso, o Ministério da Cultura e do Patrimônio do Irã informou que ataques aéreos israelenses danificaram edifícios de grande importância cultural na cidade de Isfahan , conhecida por sua arquitetura islâmica histórica, incluindo o Palácio Ali Qapu, Chehel Sotoun e a Mesquita Jameh.

Os edifícios, que segundo as autoridades iranianas ostentavam bandeiras azuis indicando seu status de proteção, foram atingidos horas depois de o castelo de Shapur Khast, do século III, no oeste do Irã, ter sofrido danos estruturais. Mais de 40.000 edifícios civis, incluindo 10.000 residências no Irã, foram danificados em ataques aéreos nas duas primeiras semanas da guerra, informou a Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano, uma ONG humanitária, em 14 de março, acrescentando que recebeu 70.000 ligações de pessoas buscando “apoio em saúde mental, orientação… e aconselhamento”.

<><>Dificuldades, incertezas e medo

>>> 16 a 21 de março

O chefe de direitos humanos da ONU, Volker Türk, alertou em 18 de março que áreas urbanas densamente povoadas, juntamente com importantes instalações de energia, estavam sendo atacadas em todo o Oriente Médio, o que significava que muitas pessoas estavam celebrando o Eid em meio a “dificuldades, incertezas e medo”. O escritório do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Direitos Humanos afirmou que civis enfrentavam interrupções no fornecimento de eletricidade e escassez de medicamentos, fórmulas infantis e combustível, enquanto complexos habitacionais, instalações médicas, lojas, tribunais, sítios do Patrimônio Mundial da UNESCO, instalações de energia e cerca de 500 escolas foram atingidos por mísseis israelenses e americanos no Irã.

A ONU entende que o regime iraniano continuou a repressão contra os cidadãos, com presos políticos enfrentando condições mais severas, críticos sendo presos e o acesso à internet restringido. A inflação no Irã está em seus níveis mais altos desde a Segunda Guerra Mundial, exacerbando a crise do custo de vida que desencadeou os protestos que precederam a guerra , tornando os alimentos básicos inacessíveis para muitos. Em resposta, o governo iraniano aumentou o salário mínimo em 60% em 20 de março. No sábado, 21 de março, a emissora estatal do Irã informou que mais de 1.500 pessoas foram mortas no país desde o início da guerra.

<><> Aviso de Trump

>>> 22 de março

Donald Trump está ameaçando destruir a infraestrutura energética do Irã caso o país se recuse a reabrir o Estreito de Ormuz. O Irã alertou que restringiria a passagem pelo estreito, por onde normalmente passa 20% do petróleo mundial, poucas horas após a ofensiva conjunta EUA-Israel. Desde então, apenas cerca de cinco navios por dia têm conseguido atravessar o estreito com a permissão das autoridades iranianas, que estão abaladas pelo assassinato do aiatolá Ali Khamenei e de outros altos funcionários . Como consequência, os preços do petróleo dispararam. Neste fim de semana, Trump escreveu no Truth Social que os EUA "atacariam e obliterariam" as usinas de energia iranianas – "começando pela maior" – caso Teerã não reabrisse completamente o ponto de estrangulamento em 48 horas, ou às 23h44 GMT de segunda-feira, de acordo com o horário da sua publicação. No domingo, o Irã afirmou que fecharia completamente o estreito caso Trump levasse adiante suas ameaças, acrescentando, em um comunicado: “Não começamos a guerra e não a começaremos agora, mas se o inimigo danificar nossas usinas de energia, faremos tudo para defender o país e os interesses do nosso povo”. Também no domingo, a Sociedade do Crescente Vermelho Iraniano informou que mais de 80 mil alvos civis foram atingidos no país desde o início da guerra, incluindo 260 instalações médicas.

 

Fonte: The Guardian