sexta-feira, 24 de julho de 2026

Trabalho no capitalismo – crítica e resignação

No capítulo IV do livro primeiro de O capital, Marx expõe o movimento de “circulação do dinheiro”, definindo-o como a “fórmula geral” do modo de produção capitalista. O processo sintetizado na forma D – M – D (“transformação do dinheiro em mercadoria e retransformação da mercadoria em dinheiro”) discrepa radicalmente de seu ponto de partida e pressuposto, a circulação de mercadorias. A diferença deve-se não só à alteração da finalidade – a “valorização do valor” configura um desenvolvimento muito distinto da troca cujo objetivo não ultrapassa o mero consumo, a satisfação de necessidades –, mas também concerne aos agentes sociais que impulsionam os dois procedimentos.

A figura do capitalista, um indivíduo que adota a acumulação monetária como meta subjetiva, operando como “capital personificado” – “dotado de vontade e consciência” –, constitui, segundo ele, uma condição tão necessária ao funcionamento do moderno processo de produção como a existência e disponibilidade do “trabalhador livre”.

No capítulo XXIV de O capital, intitulado “A assim chamada acumulação primitiva”, Marx investiga a origem histórica do proletariado moderno. Procura reconstituir a gênese de uma massa de indivíduos proprietários de sua capacidade de trabalho (isto é, de sua pessoa) que não dispõem de outra mercadoria para vender a não ser sua força de trabalho.

Ele não deixa de chamar a atenção para as características bastante singulares do empreendedor capitalista. Descreve-o como um “entesourador racional” que sacrifica os prazeres da carne ao fetiche do ouro, adotando como “virtudes cardeais” “a abstenção, a laboriosidade e a avareza”, mas que, uma vez acumulado o capital, coloca-o incessantemente em circulação, visando a expansão infinda de sua grandeza. No entanto, Marx não se deteve ou mesmo não se preocupou em esclarecer o surgimento desse agente, tão decisivo para o funcionamento do capitalismo quanto distinto dos hábitos cristalizados em outras formas sociais de produção.

Max Weber considerou, no âmbito de suas investigações acerca da especificidade do capitalismo no Ocidente, o preenchimento dessa lacuna como um momento imprescindível. A ética protestante e o “espírito” do capitalismo (1904-1905), marco inicial dessa pesquisa, elegeu a compreensão do comportamento peculiar do empresário capitalista como um de seus eixos principais.

Etapa de um programa orientado para o estabelecimento de uma “tipologia” das modalidades de determinação da mentalidade econômica por crenças religiosas, e em particular pela busca de “correlações do ethos econômico moderno com a ética racional do protestantismo ascético”, o livro procura mapear as afinidades existentes entre as concepções religiosas que emergiram no bojo da Reforma protestante e as máximas da vida econômica. Nessa perspectiva, Max Weber observa que a exigência de ação conforme a vontade divina, implantada pelo puritanismo, desembocou na louvação da ocupação mundana, da ação metódica, mais precisamente, na glorificação do “trabalho profissional racional”. Concomitantemente, desqualificou-se o ócio, o prazer de viver, a contemplação, o gozo e até mesmo a perda de tempo, concebidos como manifestações de uma forma de vida impura.

O desenvolvimento do “estilo de vida capitalista” teria sido, por conseguinte, influenciado diretamente pela “concepção puritana de vocação profissional”. A mentalidade própria à exigência de uma conduta ascética modelou tanto o portador do capital, liberando-o dos entraves da ética tradicionalista para a busca e ampliação de seus ganhos, como o trabalhador, educando-o para a regularidade e disciplina da produção.

Nas palavras de Max Weber: “Surgiu um ethos profissional especificamente burguês. Com a consciência de estar na plena graça de Deus e ser por ele visivelmente abençoado, o empresário burguês, com a condição de manter-se nos limites da correção formal, de ter sua conduta moral irrepreensível e de não fazer de sua riqueza um uso escandaloso, podia perseguir os seus interesses de lucro e devia fazê-lo. O poder da ascese religiosa, além disso, punha à sua disposição trabalhadores sóbrios, conscienciosos, extraordinariamente eficientes e aferrados ao trabalho como se finalidade de sua vida, querida por Deus”.

Na “Introdução” aos Ensaios reunidos de sociologia da religião (1920) – uma breve meditação sobre o significado de uma das vertentes de sua obra – Max Weber conecta suas investigações com a questão da especificidade do racionalismo ocidental. Conduziu essa tarefa, em parte, como uma contraposição aos procedimentos de racionalização forjados em outras civilizações, em especial na judaica, na hindu e na chinesa. Entre outros desenlaces, a comparação entre as “éticas econômicas das religiões universais” teria possibilitado o delineamento de uma sociologia da “capacidade e disposição dos homens para determinadas formas de conduta prática e racional”.

Os movimentos de racionalização no Ocidente, em suas esferas principais – economia, administração, política, direito, ciência e arte –, desenrolaram-se sob a forma de desenvolvimentos simultâneos e conexos, seguindo, no entanto, em paralelas, lógicas internas próprias e diferenciadas. Engendrou-se assim uma indeterminação que Max Weber qualificou de “politeísmo de valores”. Ele, todavia, não se eximiu de uma avaliação geral desses processos de longa duração, apresentada sob o diagnóstico de um “desencantamento do mundo”.

Com esse conceito, Max Weber designa uma forma específica de racionalização, característica da sociedade ocidental, decorrente da combinação da eliminação progressiva da magia como “meio de salvação” com os efeitos da ciência moderna – considerada como o fragmento mais importante de um movimento multissecular de “intelectualização”.

Tal conjunção, ao reduzir o universo a mero “mecanismo causal”, (noção confirmada, no âmago da religião reformada, pelo abandono de qualquer tentativa de “salvação eclesiástico-sacramental”) possibilitou a intensificação do domínio – por meios técnicos bem como pelo cálculo e previsão – da natureza e da vida social. Esse cosmos da “causalidade natural”, despojado de pressupostos últimos, destituiu as prevalecentes “imagens de mundo” que o concebiam como uma ordem orientada eticamente.

Na conferência A ciência como vocação (1917), Max Weber conclui assim o trecho em que discute o valor e o significado dessa atividade para a vida humana: “Qual é afinal, nesses termos, o sentido da ciência enquanto vocação, se estão destruídas todas as ilusões que nela divisavam o caminho que conduz ao “ser verdadeiro”, à “verdadeira arte”, à “verdadeira natureza”, ao “verdadeiro deus”, à “verdadeira felicidade”? Tolstói dá a essa pergunta a mais simples das respostas, dizendo: ela não tem sentido, pois não possibilita responder à indagação que realmente nos importa – “Que devemos fazer? Como devemos viver?”. De fato, é incontestável que a resposta a essas questões não nos é tornada acessível pela ciência”.

Com a expansão do capitalismo, a “profissão como vocação”, exaltada pelo protestantismo ascético e componente decisivo na configuração do homo oeconomicus, assume outras funções, extravasando o âmbito estrito da auto-conservação material, desdobrada em domínio técnico-prático da natureza. As investigações conduzidas por Max Weber destacam que o trabalho racional, metódico, tornou-se, para o indivíduo moderno, enquanto sucedâneo da ética religiosa num mundo desmagificado e esvaziado de sentido objetivo, a principal forma de orientação da conduta e de ação significativa na vida.

Diferentemente da compreensão resignada de Max Weber, o marxismo se constituiu como uma crítica da sociedade do trabalho. Uma comprovação dessa atitude pode ser atestada pela presença, recorrente ao longo da obra de Karl Marx, do tópico “alienação do trabalho”.

Dentre os textos iniciais, redigidos na década de 1840, o comentário dessa questão não pode deixar de salientar os Manuscritos econômico-filosóficos (1844). Nestes cadernos, publicados apenas em 1932, Karl Marx distingue duas modalidades de estranhamento do trabalhador: diante do resultado de seu trabalho e no “ato de produção, dentro da própria atividade produtiva”.

Karl Marx conecta a primeira dessas formas de alienação com determinados princípios, estruturantes da ordem social moderna. Ele observa que os produtos do trabalho, para além de sua existência como objetos externos, apartados do indivíduo, surgem também como algo “independente e estranho ao trabalhador, tornando-se uma potência autônoma diante dele”. Assim, a “vida que ele concedeu ao objeto se lhe defronta hostil e estranha”.

Parte dessa hostilidade explica-se pelo fato de que o trabalhador não é proprietário dos resultados de seu trabalho, atributo essencial da produção de bens no capitalismo. Na exposição de Karl Marx, porém, essa estranheza decorre também e principalmente da consideração de que “o trabalho não produz somente mercadorias; ele produz a si mesmo e ao trabalhador como uma mercadoria”, movimento que redunda no seguinte paradoxo: “quanto mais objetos o trabalhador produz, tanto menos pode possuir e tanto mais fica sob o domínio de seu produto, do capital”.

A alienação do trabalhador durante a produção, por sua vez, deriva do caráter “externo” de sua atividade, patente na constatação de que o trabalho no capitalismo consiste simplesmente em um meio para a satisfação de outras necessidades. Inserido nas malhas de uma ação compulsória, o trabalhador – conforme o diagnóstico dos Manuscritos econômico-filosóficos – “só se sente junto a si fora do trabalho e [sente-se] fora de si no trabalho”. Afora isso, no ato de produção, “o trabalho aparece para o trabalhador como se […] não pertencesse a si mesmo, mas a um outro”.

O contexto dessa contradição, a situação na qual o trabalho, em oposição à sua definição clássica, não pode mais ser concebido como “autoatividade”, encontra-se formulado numa passagem do Manifesto comunista (1848) em que Marx, após saudar a liberação de “colossais” forças produtivas “adormecidas no seio do trabalho social”, comenta a condição do trabalhador no interior da grande indústria: “O trabalho dos proletários perdeu, pela expansão da maquinaria e pela divisão do trabalho, todo caráter autônomo e, com isso, todo atrativo para o operário. Este torna-se um mero acessório da máquina, do qual é exigido apenas o mais simples movimento de mãos, o mais monótono, o mais fácil de aprender. […] Massas de operários, aglomeradas nas fábricas, são organizadas de forma soldadesca. Como soldados rasos da indústria, são colocados sob a supervisão de uma hierarquia completa de suboficiais e oficiais”.

Karl Marx qualifica o modelo de organização do trabalho na fábrica moderna de “despotismo”. A submissão do trabalhador à gerência da produção é apresentada como um momento chave em sua enumeração das figuras da dominação social no capitalismo – “eles não apenas são servos da classe burguesa, do Estado burguês, diariamente e a cada hora eles são escravizados pela máquina, pelo supervisor e, sobretudo, por cada um dos fabricantes burgueses”.

No primeiro volume de O capital (1867), essa designação é retomada e generalizada com a definição, assertiva, da forma da direção empresarial capitalista como “despótica”. Karl Marx sugere que somente o obscurecimento desse controle “encarniçado” possibilita a inversão por meio da qual a “força produtiva social do trabalho desenvolvida pela cooperação aparece como força produtiva do capital”, e a própria cooperação – gestada “em oposição à economia camponesa e ao exercício independente dos ofícios” – passa a ser considerada como um procedimento específico do processo de produção capitalista.

De modo geral, no decorrer de sua obra, em especial nos textos de crítica da economia política ensaiados durante e após a década de 1850, Karl Marx projeta a produção de bens no socialismo como o avesso da cooperação instituída sob o comando do capital. Sua expectativa é de que numa “associação de homens livres” desapareça a superintendência despótica da atividade produtiva e, com ela, o trabalho reificado.

Karl Marx delineia assim um cenário em que o metabolismo do homem com a natureza não seja mais vivenciado como “auto-sacrifício, mortificação”, mas, ao contrário, desenvolva-se plenamente por meio da livre aplicação das energias humanas, físicas e espirituais. Na “fase superior do comunismo”, imagina Marx, uma vez ultrapassado “o estreito horizonte do direito burguês, a sociedade poderá inscrever em suas bandeiras: de cada um conforme sua capacidade, a cada um segundo suas necessidades”.

A recepção do capítulo VIII de O capital, no entanto, forjou uma interpretação um pouco diferente da posição de Marx acerca da questão do trabalho no mundo moderno. Nessa parte do livro, ele condensa e exemplifica a luta de classes no capitalismo como um conflito em torno da jornada de trabalho: “O capitalista afirma seu direito como comprador, quando procura prolongar ao máximo a jornada de trabalho e transformar se possível uma jornada em duas. Por outro lado, a natureza específica da mercadoria vendida implica um limite de seu consumo pelo comprador, e o trabalhador afirma seu direito quando quer limitar a jornada a determinada grandeza normal. Ocorre aqui, portanto, uma antinomia, direito contra direito, ambos apoiados na lei do intercâmbio de mercadorias. Entre direitos iguais decide a força. E assim a regulamentação da jornada de trabalho apresenta-se na história da produção capitalista como uma luta ao redor dos limites da jornada – uma luta entre o capitalista coletivo, isto é a classe dos capitalistas, e o trabalhador coletivo, ou a classe trabalhadora”.

A inserção deste capítulo na terceira seção do primeiro volume, intitulada “A produção da mais-valia absoluta”, por si só indica que a disputa principal gira em torno da taxa de mais-valia, uma grandeza que pode ser aumentada ou diminuída conforme a extensão da jornada diária de trabalho. O capítulo, porém, um dos mais longos de O capital, envereda por outros assuntos. Desdobra-se como uma narrativa histórica recheada de informações e estatísticas e, ao mesmo tempo, como um libelo contra os abusos impingidos aos trabalhadores durante e após a Revolução industrial inglesa.

O decisivo, entretanto, consiste no fato de que foi recebido também como um relato da formação da classe operária, numa notação distinta do itinerário delimitado no Manifesto comunista. A maioria dos teóricos da Segunda Internacional compreendeu essa exposição como uma nova versão, substancialmente alterada, de um percurso no qual se mapeia uma trajetória de constituição do proletariado que não desemboca na ação revolucionária. Esse juízo permitiu que Karl Marx fosse apresentado como fiador de um programa político cujo objetivo primordial consiste na redução da jornada de trabalho.

Algumas passagens de O capital prescrevem a ampliação do tempo livre como pré-condição indispensável ao fortalecimento material e intelectual dos trabalhadores. No trecho citado abaixo, por exemplo, recorrendo à sua figura literária predileta, a ironia, Karl Marx destaca os interesses do proletariado por intermédio de uma contraposição à perspectiva do capital, segundo a qual, o trabalhador, durante toda a sua existência, nada mais é que força de trabalho e que, por isso, todo o seu tempo disponível é por natureza e por direito tempo de trabalho, portanto, pertencente à auto-valorização do capital: “Tempo para educação humana, para o desenvolvimento social, para o jogo livre das forças vitais físicas e espirituais, mesmo o tempo livre de domingo – e mesmo no país do sábado santificado – pura futilidade!”.

É mais plausível, tendo em vista o espírito de sua obra, que Karl Marx esteja, mais uma vez, indicando características próprias do “reino da liberdade” como o negativo da situação vigente no capitalismo. Todavia, a indeterminação deste e de outros trechos semelhantes não deixaram de contribuir para fornecer credibilidade às propostas elaboradas no campo da Segunda Internacional.

Além disso, as intervenções de Karl Marx no âmbito da Associação Internacional dos Trabalhadores endossam, como estratégia preferencial da classe operária, os esforços para restringir legalmente a extensão da jornada. Não resta dúvida de que ele considerava esse combate apenas como a primeira batalha na caminhada em direção a uma transição para o socialismo. Essa convicção, porém, não impediu que os sindicatos e, com eles, os partidos de massa da social-democracia transformassem a bandeira da redução da jornada de trabalho, seguindo o mote de Eduard Bernstein, de meio em meta principal da luta pela emancipação do proletariado.

 

Fonte: Por Ricardo Musse, em Outras Palavras 

 

Indústria têxtil: como frear a superexploração?

Cerca de 90 milhões de pessoas, a grande maioria mulheres, trabalham na indústria têxtil ao redor do mundo com salários que não cobrem nem mesmo suas necessidades mais básicas, porque os gigantes da importação pagam só um pouco mais por uma camiseta básica de algodão do que pagavam há vinte anos. Porém, em termos reais, o valor pago por esses gigantes torna-se ainda mais irrisório quando se considera o impacto da inflação. Claramente, uma tendência de queda foi alcançada às custas do trabalho e da viabilidade econômica dos próprios fabricantes. Esse problema afeta especialmente o continente asiático, pois dois terços dessa indústria estão concentrados nessa região.

<><> Camisetas a 13 dólares o quilo

Os importadores que abastecem as lojas europeias pagam aos fabricantes na Ásia entre 2 e 3 dólares por unidade, e, às vezes, apenas 1 dólar. Se, em vez de unidades, for calculado em quilos, o preço médio que esses importadores pagaram em 2025 foi de 16 dólares por quilo, e apenas 13 dólares pelas camisetas feitas em Bangladesh, seu principal fornecedor.

No entanto, os preços mais baixos dessas mesmas camisetas nas principais lojas da Suíça, da França, da Espanha e no restante da Europa Ocidental variam de 10 a 20 dólares por unidade. Em outras palavras, com a venda de uma única camiseta, as lojas europeias praticamente pagaram um quilo de camisetas. Como explicar uma diferença tão grande entre o que os fabricantes recebem e o que as pessoas que usam essas camisetas pagam?

Uma investigação conjunta da organização não governamental Public Eye (Olhar Cidadão) e da International Clean Clothes Campaign (Campanha Internacional Roupa Limpa) –uma rede de ativistas que defendem a melhoria das condições de trabalho na indústria mundial de confecção/vestuário e artigos esportivos– oferece uma resposta tão sólida quanto reveladora. Seu relatório, recentemente publicado, intitulado Squeezed Dry (Espremidos até a última gota), conclui que, longe de ser uma simples anomalia do mercado, os custos de fabricação extremamente baixos dessas camisetas –ou seja, o que os importadores estão dispostos a pagar aos fabricantes– constitui o mecanismo fundamental pelo qual as grandes marcas de roupas preservam e reproduzem o tão questionado modelo de lucro da indústria têxtil.

Um modelo que perpetua não apenas salários de pobreza, mas também condições de trabalho precárias em toda a cadeia de suprimentos, desde o pequeno e rústico ateliê com alguns trabalhadores em alguma região remota da Ásia até a formidável força de trabalho de enormes fábricas em zonas francas, onde praticamente não pagam impostos nem precisam ajustar-se a qualquer tipo de convenção sindical.

Entre 2001 e 2025, conforme documenta Public Eye em sua investigação, a economia global cresceu cerca de 3% ao ano, enquanto a inflação mais que dobrou o custo de vida. No entanto, no setor têxtil, os preços de importação de uma camiseta quase não mudaram. Na União Europeia, por exemplo, embora essa variação tenha sido de +0,9% ao ano em termos nominais, devido à inflação foi reduzida para -1,4% em termos reais. As grandes marcas europeias embaralham essas porcentagens de forma enganosa para justificar seus elevados preços de varejo. Na verdade, eles alegam que, nos últimos 25 anos, as camisetas ficaram 25% mais caras, quando, na verdade, custaram 30% menos.

Esse cenário poderia ser ainda mais problemático se incluísse a complexa rede do muito lucrativo setor das camisetas de marcas estritamente esportivas, vendidas com o logo “oficial”, como aquelas que estão atingindo um boom particular com a Copa do Mundo de 2026 e, em geral, em todo o amplo setor esportivo.

<><> Tudo para conseguir preços mais baixos

Nas últimas décadas, as grandes marcas de roupa trasladaram, gradualmente, a sua produção para países onde os custos de fabricação são mais baixos. Um exemplo é Bangladesh, principal fornecedor de camisetas para a União Europeia e para o Reino Unido, e o segundo no mundo, logo atrás da China.

Essa crescente concentração do setor têxtil em países ou regiões com custos de produção mais baixos intensificou a relação de dependência entre a indústria local e as empresas de comercialização no restante do mundo, com resultados extremamente prejudiciais para as primeiras. Fundamentalmente, devido à enorme pressão para reduzir seus preços o máximo possível. Essa é uma das principais conclusões da Public Eye após investigar de forma aprofundada e transparente o comportamento dos gigantes do setor.

Entre os atores com os maiores preços de venda –sempre levando em conta os casos estudados– estão a japonesa Fast Retailing, proprietária da marca Uniqlo (que ficou famosa graças à parceria com o tenista suíço Roger Federer), e o grupo dinamarquês Bestseller, proprietário da Jack & Jones e da Vero Moda. No entanto, essas empresas raramente pagam aos fornecedores em Bangladesh mais do que 18 dólares por quilo (cerca de 3 dólares por camiseta). No outro extremo da tabela, as cadeias de desconto como a Primark e o grupo polonês LPP custam cerca de 10 dólares por quilo. A gigante espanhola da fast-fashion Inditex, que possui a marca Zara, bem como a empresa sueca H&M se situam em um segmento intermediário.

Quando confrontadas pela Public Eye com essas informações, várias empresas argumentaram que a diferença marcante entre os preços de produção e os de varejo não levou em conta fatores-chave como a variedade de produtos, maior eficiência, flutuação nos custos das matérias-primas e tarifas, entre outros. Tampouco os custos associados às obrigações sindicais e salariais em Bangladesh, que, segundo elas, têm sido respeitadas pontualmente. No entanto, como alega a Public Eye, “nenhuma [dessas empresas] forneceu seus próprios dados”, ou seja, elas não abriram o jogo para passar da pura retórica para números de custos e benefícios.

<><> Pressões sobre o Sul

As entrevistas da Public Eye realizadas em Bangladesh com gerentes de fábricas e agentes de compras das empresas analisadas revelam a magnitude da pressão que elas exercem sobre os fabricantes, com exigências de preços extremamente baixos e praticamente inegociáveis. Às vezes, com exigências por reduções adicionais de preço após o acordado. De uma forma ou de outra, as margens de lucro para os fabricantes acabam sendo inexistentes.

Para evitar desaceleração das linhas de produção, para preservar o fluxo de caixa e continuar pagando os salários, muitos fabricantes até aceitam pedidos a preço de custo, ou até mesmo com prejuízos, especialmente durante a entressafra. Diante da estagnação dos preços nominais e do aumento dos custos, os fabricantes estão recorrendo à única ferramenta flexível que lhes resta: a mão de obra, resultando na intensificação do trabalho, com jornadas mais longas e uma pressão constante sobre os salários, para reduzi-los ainda mais.

Dessa forma, os preços extremamente baixos de venda das camisetas contribuem para manter os salários de pobreza, ao mesmo tempo em que enfraquecem a capacidade das fábricas de absorver as flutuações da demanda e limitam os investimentos sociais e ambientais.

<><> Imperativo: preços mais justos

Na indústria têxtil, duas décadas de padrões voluntários, códigos de conduta e iniciativas em direção a preços mais justos não conseguiram acabar com a degradação do setor. Portanto, como argumenta a Public Eye, a precificação concertada dos preços que pagam aos fabricantes deve converter-se em um pilar fundamental para o abastecimento responsável. Esses preços, em outras palavras, devem refletir custos reais de produção, estar em conformidade com os padrões da indústria e respeitar os direitos humanos e o meio ambiente. De forma alguma devem ser impostas pelos objetivos de vendas e lucratividade dos gigantes da indústria.

O relatório da Public Eye identifica metas de preço mínimo como um marco para negociações e como uma ferramenta concreta para integrar o abastecimento responsável nas práticas empresariais. Um limite de 30 dólares por quilo, por exemplo, financiaria salários dignos, condições de trabalho seguras e sem estresse, e conduta ambiental crível. Esse valor equivaleria a 5 dólares por camiseta, um preço que parece totalmente razoável.

Paralelamente a essas demandas, vários atores sociais europeus estão lidando com diferentes métodos para exigir mais justiça e equidade na indústria têxtil e nas relações comerciais Norte-Sul. Uma fórmula original é, por exemplo, a do Fair Fashion Award (Prêmio à Moda Justa), que é promovido na Suíça. Oferece uma plataforma para os pioneiros da sustentabilidade no setor têxtil; inspira uma produção e comercialização responsáveis; e representa credibilidade, relevância e viabilidade futura. É apoiado pela Swiss Fair Trade Network (Rede Suíça do Comércio Justo), que é a plataforma que reúne todas as iniciativas de intercâmbio equitativo/comércio justo existentes no país.

Camisetas de algodão: um símbolo emblemático do comércio estruturalmente injusto e uma bandeira de denúncia de um setor ativo da sociedade civil internacional que confronta os gigantes têxteis e, ao mesmo tempo, exige correções com justiça.

 

Fonte: Por Raíssa Araújo Pacheco, em Outras Palavras

 

Câncer não é mais sentença, mas ainda é descoberto muito tarde

O câncer mudou. Nas últimas décadas, os avanços no diagnóstico e no tratamento transformaram a forma de enfrentar a doença, aumentando significativamente as chances de controle e sobrevida. Ainda assim, um problema persiste – e, em muitos casos, se agrava: o diagnóstico continua acontecendo tarde demais. E, ao mesmo tempo, cada vez mais cedo.

Dados da Organização Mundial da Saúde indicam que entre 30% e 50% dos casos de câncer poderiam ser evitados com mudanças no estilo de vida e estratégias de prevenção. Apesar disso, hábitos de risco seguem em alta, enquanto a adesão a exames de rastreamento ainda está longe do ideal.

<><> A medicina avançou, mas o comportamento não acompanhou

Hoje, a oncologia vive uma revolução silenciosa. Terapias mais precisas, tratamentos personalizados e maior compreensão do comportamento dos tumores têm mudado o prognóstico de muitos pacientes. Em diversos casos, o câncer deixou de ser uma sentença imediata para se tornar uma doença tratável e, em algumas situações, controlável por longos períodos.

Mas esse avanço não tem sido acompanhado na mesma velocidade pela população. O medo, a negação, a rotina acelerada e a falsa sensação de que “está tudo bem” fazem com que sinais iniciais sejam ignorados e consultas preventivas sejam adiadas.

Play Video

Na prática, isso significa que muitos pacientes ainda chegam ao consultório em estágios mais avançados da doença, quando as possibilidades de tratamento se tornam mais limitadas.

Hoje temos muito mais recursos do que tínhamos há alguns anos. O problema é que ainda encontramos pacientes que demoram a procurar ajuda, mesmo diante de sintomas persistentes.

<><> Casos em adultos jovens entram no radar

Outro fenômeno que tem chamado a atenção da comunidade médica é o aumento da incidência de câncer em adultos mais jovens. Embora o envelhecimento continue sendo o principal fator de risco, estudos recentes mostram crescimento em faixas etárias abaixo dos 50 anos.

Publicações da American Cancer Society já apontam essa tendência, especialmente em tumores relacionados ao estilo de vida. Entre os fatores associados estão:

•        aumento da obesidade;

•        alimentação rica em ultraprocessados;

•        sedentarismo;

•        consumo de álcool;

•        alterações metabólicas precoces.

Além disso, mudanças no padrão reprodutivo, níveis de estresse elevados e distúrbios hormonais também entram na equação, especialmente quando se fala em saúde feminina. Esse cenário reforça um ponto importante: o câncer não é mais uma doença exclusiva da terceira idade.

<><> Entre o excesso de informação e a falta de ação

Nunca se falou tanto sobre saúde. Redes sociais, aplicativos e conteúdos digitais ampliaram o acesso à informação como nunca antes. Ainda assim, isso não tem se traduzido, necessariamente, em atitudes práticas de prevenção.

Muitas pessoas conhecem termos, sintomas e até tratamentos, mas não realizam exames básicos, não mantêm acompanhamento médico regular e subestimam sinais do próprio corpo. O resultado é um paradoxo: mais informação, mas nem sempre mais cuidado.

<><> Prevenção e diagnóstico precoce ainda são decisivos

Apesar de todos os avanços, dois fatores continuam sendo determinantes no enfrentamento do câncer: prevenção e diagnóstico precoce. Medidas como alimentação equilibrada, prática regular de atividade física, controle do peso, redução do consumo de álcool e abandono do tabagismo têm impacto direto na redução do risco.

Da mesma forma, exames de rotina e acompanhamento médico permitem identificar alterações ainda em fases iniciais, quando as chances de tratamento eficaz são significativamente maiores.

O desafio, hoje, não está apenas na evolução da medicina – mas na capacidade de transformar conhecimento em ação. Porque, embora o câncer já não seja mais sinônimo imediato de morte, ele ainda cobra um preço alto quando descoberto tarde demais.

<> Estudo mostra que 25% dos brasileiros não sabem sobre prevenção do câncer

Um novo estudo nacional, aponta que um a cada quatro brasileiros não sabe que o câncer pode ser evitado. A pesquisa, realizada com 6,5 mil adultos em todo o país, mostrou que há muita desinformação sobre a doença — que registrará 781 mil novos casos por ano no Brasil até 2028.

O relatório "Mais Dados Mais Saúde", obtido pela CNN Brasil, aponta que 40% dos casos de câncer poderiam ser evitados com algumas mudanças de hábito. Assim como o hábito de fumar, outras atividades e comportamentos costumam contribuir para a incidência da doença.

Os dados mostram que 27% dos brasileiros sequer sabem que o câncer pode se desenvolver de acordo com a rotina de uma pessoa. O nível de conhecimento varia e envolve tópicos mais conhecidos, como tabagismo, herança genética e exposição solar excessiva.

No entanto, alguns comportamentos acabam ficando de lado no que diz respeito à conscientização na luta contra o câncer. São menos abordados temas como consumo de bebidas alcoólicas, de alimentos embutidos, ultraprocessados e carne vermelha.

A parte comportamental também não é reconhecida por grande parte da população como fator de risco. O sedentarismo e o excesso de peso podem contribuir para o surgimento da doença.

De acordo com o estudo, o nível de conhecimento dos brasileiros sobre os fatores de risco se configura da seguinte maneira:

•        Tabagismo: 90,5%;

•        Herança genética: 89,4%;

•        Exposição solar excessiva: 88,3%;

•        Bebidas alcoólicas: 71,3%;

•        Alimentos embutidos: 70,7%;

•        Ultraprocessados: 65,6%;

•        Excesso de peso: 54,1%;

•        Sedentarismo: 48,3%;

•        Carne vermelha: 27,5%.

Um ponto levantado sobre o estudo sugere que o alto conhecimento sobre herança genética como fator de risco aponta para uma sensação de "inevitabilidade" da doença; ou seja, para algumas pessoas, não há como evitar o câncer.

A pesquisa também sugere que 61,3% dos entrevistados acreditam que consumir suplementos vitamínicos pode diminuir drasticamente o risco de ter câncer no futuro. Já 40% não sabem que o aleitamento materno é um dos grandes aliados contra o desenvolvimento de câncer de mama.

Mesmo sem ter conhecimento sobre os fatores de risco, grande parte da população já evitou ou não consome alimentos e bebidas que podem levar ao câncer.

O estudo mostra que:

•        45% das pessoas que comem ultraprocessados já tentaram diminuir o consumo;

•        45% das pessoas que comem carne vermelha não pensam em diminuir o consumo;

•        86,3% da população afirmam consumir frutas e verduras;

•        Jovens de até 24 anos são o grupo que está mais em contato com fatores de risco para ter câncer.

•        Brasileiros reconhecem, mas não tratam sintomas do câncer colorretal

O câncer colorretal ainda está distante do cotidiano da maioria dos brasileiros, apesar disso, uma pesquisa da A.C.Camargo e da Nexus apontou que, oito em cada dez brasileiros reconhecem a gravidade dos sintomas da doença.

Para a pesquisa — “A saúde do brasileiro, hábitos de vida e o uso de tecnologia em diagnósticos médicos” —, foram ouvidas mais de 2 mil pessoas em todo o país.

Segundo o levantamento, 8 em cada 10 brasileiros reconhecem como grave a presença de sangue nas fezes ou a mudança de funcionamento no intestino por mais de um mês, dois dos principais sintomas da doença. Mas na maioria dos casos, o conhecimento não vem a partir da proximidade: apenas 21% dos entrevistados conhecem alguém que já teve a doença, sendo 15% um parente muito próximo e 6% um amigo ou conhecido. Outros 75% disseram que nunca tiveram contato com pacientes desse tipo de câncer.

O tema ganha ainda mais relevância diante dos números recentes da doença no país. Em fevereiro deste ano, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) estimou 53.810 novos casos de câncer colorretal por ano no Brasil para o triênio 2026-2028, o que o torna o segundo tumor com maior incidência entre os brasileiros. A doença é a mesma que a cantora Preta Gil, que faleceu em julho do ano passado, enfrentou durante dois anos.

Dos 80% de entrevistados que reconhecem a gravidade de sangue nas fezes ou uma mudança no funcionamento intestinal que persista por mais de um mês, 42% consideram esses sintomas “muito grave”. Esse reconhecimento chega a 44% entre quem já conviveu de perto com a doença.

A pesquisa também indica que a associação entre esses dois sintomas e o câncer de intestino é majoritária, mas ainda carece de firmeza. São 67% dos brasileiros que concordam que sangue nas fezes ou alterações intestinais prolongadas podem indicar a doença, mas apenas 24% concordam “muito”. A maior parte (43%) demonstra concordância apenas moderada.

<><> Sintomas reconhecidos

Um dos achados mais relevantes do estudo diz respeito à distância entre reconhecer o risco e agir diante dele. Na vida real, 9% dos entrevistados afirmam já ter notado a presença de sangue nas fezes.

Desse grupo, embora 59% tenham buscado atendimento médico imediatamente, uma parcela expressiva de 40% não teve essa reação: 19% não fizeram nada e esperaram o sintoma passar, 10% aguardaram dias ou semanas antes de procurar um médico, 7% recorreram a remédios caseiros ou mudanças na alimentação, 3% foram à farmácia buscar medicação por conta própria e 1% pesquisou na internet antes de buscar orientação profissional.

A busca imediata por um diagnóstico é maior entre quem tem melhores condições financeiras (86%), brasileiros acima dos 60 anos (72%) e moradores do Sudeste (72%). As mulheres (63%) também costumam buscar mais ajuda imediata do que os homens (54%). Entre os moradores do Norte/Centro-Oeste, chega a 43% o número de entrevistados que apenas esperou o sintoma passar.

<><> Exame de rastreamento

Outra descoberta da pesquisa, é o desconhecimento sobre ferramentas de rastreamento precoce. Dois em cada três brasileiros (67%) nunca ouviram falar do exame “Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes” (PSO), recurso simples e utilizado para identificar sinais da doença antes mesmo do aparecimento de sintomas evidentes. Apenas 11% já realizaram o exame, enquanto 21% conhecem o procedimento, mas nunca o fizeram.

O desconhecimento chega a 85% entre os mais jovens, de 16 a 24 anos, e também é maior do que a média entre homens (76%), pessoas com menor renda (73%) e que estudaram apenas até o ensino fundamental (72%).

Entre quem teve ou conhece alguém que teve câncer colorretal o desconhecimento do exame cai para 56% e o percentual de entrevistados que realizaram o PSO quase triplica: 8% dos brasileiros que não têm contato com a doença já realizaram o exame contra 21% de quem já teve.

Diante do crescimento da doença no país, especialistas do A.C.Camargo reforçam a importância de não ignorar sinais como sangramento, alteração no ritmo intestinal, dor abdominal persistente e perda de peso sem causa aparente, além da realização de exames preventivos a partir dos 45 anos ou antes, conforme orientação médica e histórico familiar.

 

Fonte: CNN Brasil

 

Modelo do Pix desafia controle financeiro dos EUA sobre o Brasil, avalia especialista

O Pix brasileiro virou um dos alvos do governo dos Estados Unidos, entre outros motivos, por desafiar o controle financeiro de Washington sobre a infraestrutura brasileira de pagamentos eletrônicos. A avaliação é de especialistas em economia e relações internacionais consultados pela Agência Brasil.

A razão do governo de Donald Trump para incluir o Pix entre as justificativas para o tarifaço de 25% seria, em primeiro lugar, geopolítica, e não estritamente econômica motivada pela concorrência com empresas dos Estados Unidos como Visa, MasterCard ou Whatsapp Pay.

O professor de economia da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro (UFRRJ) Maicon Cláudio da Silva destaca que o ataque ao Pix tem relação direta com a perda de poder e controle dos Estados Unidos sobre o sistema financeiro do Brasil.

“Esse tipo de medida deixa evidente que os Estados Unidos não querem perder esse poder que eles têm hoje sobre o sistema financeiro em boa parte do mundo. Não à toa, a China não usa Visa e Mastercard. Ela tem sistemas próprios, e isso tem a ver com uma maior soberania e autonomia desse país”, disse.

Silva lembrou que o Pix aumentou a bancarização da população brasileira, trazendo ganhos econômicos também para as empresas dos Estados Unidos.

“Movimentos econômicos que antes ocorriam só no dinheiro passaram a ocorrer via sistema financeiro, através do Pix. Isso facilita o acesso das pessoas a contas bancárias e, eventualmente, também a cartão de crédito”, explicou.

Em 2025, os cartões movimentaram R$ 4,5 trilhões na esteira da expansão do Pix. Um crescimento de 10,1%, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Cartões de Crédito e Serviços (Abecs).

<><> Perdas econômicas imediatas

Como os EUA têm superávit comercial com o Brasil, o tarifaço tende a prejudicar mais as empresas americanas, observou o professor da UFRRJ. Nesse contexto, os interesses econômicos imediatos são deixados de lado.

“Do ponto de vista imediato, essas taxas acabam prejudicando mais os Estados Unidos. Por isso, essa é uma política econômica internacional focada em exercer poder por meio das sanções e tarifaços de maneira a pressionar os países a se submeterem aos Estados Unidos”, finalizou.

<><> Pix como instrumento de poder

O professor de geopolítica da Escola Superior de Guerra (ESG) Ronaldo Carmona destacou que o Pix se tornou um instrumento de poder do Brasil, ampliando a soberania econômica e financeira do país.

“Ao aumentar a autonomia e a soberania do país, o Brasil promove o comércio exterior bilateral com outros países em moedas nacionais, fugindo da arbitragem e da senhoriagem [receita oriunda da emissão de moeda] do dólar”, comentou.

Carmona citou ainda o fato de o Banco Central ter acordos de cooperação técnica com 47 países para implementação de sistemas semelhantes ao Pix em outras nações, o que pode fragilizar ainda mais o controle de Washington sobre as transações financeiras em outras partes do mundo.

<><> Pix barra sanções

Sistemas de pagamentos nacionais, como o Pix, limitam a aplicação de sanções econômicas dos Estados Unidos contra instituições e indivíduos, “diferentemente do que ocorre com sistemas americanos”, explicou Ronaldo Carmona.

Isso porque os sistemas de pagamento com sede nos Estados Unidos costumam cumprir todas as sanções da Casa Branca.

Maicon Cláudio da Silva, professor de economia da UFRRJ, citou as sanções contra o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes e o bloqueio a Cuba como casos em que Washington projeta poder sobre países soberanos por meio de bloqueios financeiros.

“O avanço do bloqueio econômico dos Estados Unidos contra Cuba acabou levando a Visa e a Mastercard a deixar de operar na ilha. Ao controlar os meios de pagamento, os Estados Unidos podem, a qualquer momento, tomar algum tipo de sanção econômica contra países ou indivíduos”, explicou.

<><> Europa busca soberania financeira

Em artigo publicado dias antes do anúncio do tarifaço contra o Brasil, a revista inglesa The Economist afirma que o Pix brasileiro, assim como outras iniciativas da União Europeia, tem ameaçado a “supremacia” financeira dos Estados Unidos.

“A ascensão de sistemas ‘soberanos’, especialmente na Europa – uma grande fonte dos negócios internacionais da Visa e da Mastercard –, poderia corroer suas invejáveis margens operacionais de mais de 50%”, diz a revista especializada em finanças globais.

Recentemente, a União Europeia anunciou o Euro Digital, sistema de pagamentos eletrônicos semelhante ao Pix, de acesso gratuito e público, com previsão de lançamento do projeto-piloto em 2027.

A presidente do Banco Central Europeu (BCE), Christine Lagarde, não escondeu que o objetivo é reduzir a dependência dos sistemas estrangeiros.

“Dependemos predominantemente das redes americanas, mas também, por vezes, das chinesas, para organizar os pagamentos. Precisamos de uma solução europeia porque queremos ser soberanos internamente”, afirmou ao portal Euronews.

¨      As fissuras do dólar. Por Celso Pinto de Melo

Conta a lenda que um menino holandês caminhava ao longo dos diques que protegiam sua cidade quando percebeu um pequeno vazamento na estrutura. A fenda era quase invisível. Ainda assim, compreendendo o risco, colocou o dedo na fissura e permaneceu ali durante toda a noite, impedindo que a pressão da água ampliasse a abertura.

A imagem ajuda a compreender um dos fenômenos mais importantes da geopolítica contemporânea: a crescente preocupação de Washington com as tentativas de construir mecanismos econômicos parcialmente independentes do dólar.

As declarações de Donald Trump contra os BRICS, as ameaças de tarifas punitivas e a crescente utilização das sanções econômicas como instrumento de política externa não constituem fenômenos isolados. Elas refletem uma percepção crescente, dentro do próprio establishment americano, de que a hegemonia monetária dos Estados Unidos já não é inteiramente incontestável.

Durante décadas, o dólar foi tratado quase como um fenômeno natural da economia mundial. Questionar sua centralidade parecia um exercício acadêmico distante da política concreta. No entanto, a história mostra que nenhuma divisa ocupa indefinidamente o centro do sistema internacional.

A força de uma moeda raramente deriva apenas da economia. Ela costuma refletir uma combinação mais ampla de poder produtivo, liderança tecnológica, influência política e capacidade militar. Em diferentes épocas, as moedas dominantes expressaram a posição ocupada por seus países no sistema internacional.

Após a Segunda Guerra Mundial, Bretton Woods consolidou o dólar como eixo da economia internacional. Em 1971, Richard Nixon rompeu unilateralmente a conversibilidade dólar-ouro. Muitos imaginaram uma crise estrutural da moeda americana. O oposto ocorreu.

Os Estados Unidos reorganizaram a centralidade global do dólar através do petróleo. Ao longo da década de 1970, especialmente após os acordos com a Arábia Saudita, consolidou-se o sistema dos petrodólares. O petróleo passou a ser negociado majoritariamente em dólares, enquanto os excedentes financeiros dos exportadores retornavam ao sistema financeiro americano, sobretudo por meio de títulos do Tesouro dos EUA.

 Desde os acordos firmados entre Washington e Riad na década de 1970, a precificação internacional do petróleo em dólares tornou-se um dos pilares da arquitetura financeira global. Por isso, qualquer diversificação monetária iniciada justamente nessa região possui um significado que vai muito além do seu volume econômico imediato.

O dólar deixou de ser apenas moeda. Tornou-se a principal infraestrutura monetária internacional, constituindo um dos pilares do poder americano. Como toda infraestrutura, o dólar tornou-se quase invisível. Durante décadas, governos, empresas e mercados simplesmente passaram a utilizá-lo sem questionar sua centralidade. É justamente quando uma infraestrutura começa a ser contornada que sua importância se torna plenamente visível.

Mais do que um instrumento financeiro, passou a funcionar como a linguagem operacional da economia mundial. Bancos, reservas internacionais, contratos de energia, mercados financeiros, cadeias globais de suprimentos e sistemas internacionais de pagamento foram progressivamente organizados em torno dele.

Além de organizar a economia mundial, essa infraestrutura passou também a funcionar como instrumento de coerção internacional. Irã, Cuba, Venezuela e Rússia enfrentaram bloqueios financeiros, congelamento de ativos e restrições ao sistema internacional de pagamentos. O congelamento das reservas russas após a guerra da Ucrânia teve um efeito particularmente importante: muitos governos passaram a perceber que a ordem monetária global possuía um centro político claramente identificado.

É nesse contexto que os movimentos recentes dos BRICS passam a adquirir relevância. A China acelerou a internacionalização do yuan. Diversos países ampliaram acordos bilaterais em moedas locais. Sistemas alternativos ao SWIFT começaram a surgir. Os países do Golfo aprofundaram as relações econômicas com Pequim. E cresceu a percepção de vulnerabilidade associada à dependência exclusiva da infraestrutura financeira americana.

O objetivo desses movimentos não parece ser substituir o dólar por uma nova moeda global. Trata-se, antes, de ampliar as margens de autonomia estratégica e reduzir vulnerabilidades diante de um sistema percebido como excessivamente concentrado

Nenhuma dessas mudanças, isoladamente, ameaça o domínio do dólar. O sistema financeiro americano continua sendo o maior e mais líquido do planeta. Ainda não existe um substituto pleno para a moeda americana.

Os números ajudam a colocar essa discussão em perspectiva. Segundo o FMI, aproximadamente 58% das reservas cambiais mundiais continuam denominadas em dólares, enquanto a pesquisa trienal do Banco de Compensações Internacionais (BIS) mostra que a moeda americana participa de cerca de 88% das operações no mercado global de câmbio. O dólar permanece, portanto, a principal infraestrutura monetária internacional.

É justamente aí que reside o paradoxo. Se nenhuma das mais recentes iniciativas, considerada isoladamente, é capaz de substituir o dólar, por que despertam uma reação tão intensa em Washington?

A estabilidade de uma moeda internacional depende tanto da confiança quanto da escala. Quanto maior for o número de agentes que a utilizam, maior tende a ser sua utilidade para todos os demais, criando um poderoso efeito de rede. Quando diversos atores passam a construir alternativas, ainda que pequenas, esse mecanismo começa lentamente a perder força. Não se trata apenas do volume atual das transações, mas também da possibilidade de que a dependência deixe de parecer inevitável.

A razão para a inquietação talvez esteja menos no volume atual dessas iniciativas do que na dinâmica que elas inauguram. Talvez porque o problema não seja o tamanho atual das rachaduras, mas o precedente que elas estabelecem.

Grandes ordens internacionais raramente entram em colapso quando surge um competidor equivalente. Elas começam a perder estabilidade quando atores cada vez mais numerosos descobrem que já não precisam depender exclusivamente do sistema existente.

Para países como o Brasil, essa discussão possui uma enorme relevância. Mudanças na arquitetura monetária internacional afetam o financiamento do desenvolvimento, o comércio exterior, a gestão das reservas internacionais e a margem de autonomia das políticas econômicas nacionais.

Mas hegemonias não costumam entrar em crise de maneira súbita. O que começa a emergir é algo mais sutil: a multiplicação gradual de pequenas fissuras. É por isso que os movimentos no Golfo Pérsico possuem um peso simbólico particular.

Talvez na região esteja o aspecto mais simbólico desse processo. Não por causa do volume imediato das transações, mas porque foi justamente ali que se consolidou, nos anos 1970, um dos pilares históricos da ordem dos petrodólares. Durante décadas, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Qatar atuaram como pilares centrais da ordem do petrodólar. Hoje, porém, começam a diversificar as moedas, a ampliar as negociações em moedas locais e a aprofundar as relações estratégicas com a China e os BRICS.

O movimento é importante não apenas financeiramente, mas também psicologicamente. O Golfo não estava na periferia da arquitetura monetária americana. Era parte central dela.

Ao mesmo tempo, energia, inteligência artificial, semicondutores, minerais críticos, data centers e infraestrutura digital passam a formar um único ecossistema geopolítico integrado. A disputa contemporânea deixou de ser apenas monetária. Tornou-se infraestrutural.

O dólar nunca existiu isoladamente. Assim como a libra esterlina em seu tempo, ele integra um ecossistema mais amplo de poder que articula finanças, tecnologia, energia, capacidade militar e influência diplomática. É justamente esse ecossistema que começa a sofrer pressões crescentes.

Sob essa perspectiva, muitas tensões aparentemente desconexas revelam uma coerência sistêmica: rivalidade tecnológica com a China, sanções econômicas, guerra tarifária, disputa por semicondutores, formação de corredores minerais e reorganização das cadeias produtivas integram um mesmo movimento histórico.

O verdadeiro adversário do dólar não é outra moeda. É a descoberta de que a atual infraestrutura monetária internacional deixou de ser a única possível. O sistema do dólar continua extraordinariamente poderoso. Nenhum acordo bilateral em moeda local destruirá a moeda americana. Nenhuma iniciativa isolada dos BRICS substituirá o sistema financeiro dos Estados Unidos.

Mas talvez o verdadeiro significado histórico do nosso tempo esteja justamente na multiplicação desses pequenos pontos de erosão. Grandes estruturas raramente desmoronam porque alguém as derruba frontalmente. Em geral, começam a enfraquecer quando o restante do mundo descobre maneiras alternativas de contorná-las.

Para o Brasil, a questão central não é apostar contra o dólar nem imaginar um colapso iminente da ordem financeira internacional. É compreender que períodos de transição sistêmica costumam abrir espaços inéditos para países intermediários.

A ampliação dos BRICS, a diversificação monetária e a reorganização das cadeias produtivas globais representam riscos, mas também oportunidades. Em momentos como este, a questão decisiva não é prever o fim de uma hegemonia, mas identificar quais capacidades nacionais precisam ser construídas para atuar em um mundo mais complexo, competitivo e multipolar.

O problema dos diques nunca foi a existência de uma única fissura. Sempre foi a pressão acumulada da água.

Toda hegemonia parece eterna até o dia em que deixa de parecer inevitável.

Grandes diques raramente cedem devido ao primeiro vazamento. Eles cedem quando a água descobre que existe uma passagem.

 

Fonte: Agencia Brasil/A Terra é Redonda

 

A galinha capitalista que “voltou para o poleiro”

Cinquenta anos atrás, em um verão, fui convidado a fazer uma apresentação para a celebração do bicentenário dos Estados Unidos na Universidade de Minnesota, onde trabalho desde 1971, e pela qual fui remunerado com a suntuosa quantia de 75 dólares (nada mal para alguém com um salário anual de cerca de 13 mil dólares). O fato de eu ainda ser capaz de refletir sobre aquele momento, meio século depois, não deve ser dado como garantido. A palestra, em retrospecto, foi a estreia pública marxista de um ex-positivista lógico. A leitura marxista da história estadunidense de Harry Frankel, em preparação, foi persuasiva, particularmente sua tese de que 1776 constituiu uma verdadeira revolução, a conquista do poder pela burguesia incipiente. Entretanto, 1787 – a redação da Constituição e sua promulgação – confirmou o seu Termidor, a contrarrevolução. A tese de Frankel, combinada com a economia marxista recém-estudada, forneceu uma explicação, o ponto central da palestra, para a incessante queixa liberal sobre a celebração do bicentenário: sua “comercialização”. A galinha capitalista, sarcasticamente, como interpretei Frankel, havia “voltado para o poleiro” (come home to roost) – a mercantilização de cada faceta da vida pelo capitalismo, até mesmo seus momentos sagrados. “Tudo o que é sagrado é profanado”, como melhor expressou o Manifesto comunista em 1848. O novo convertido, admito agora, teve prazer em apontar para uma audiência majoritariamente liberal: “vocês colhem o que plantam”, o que vem com o modo de produção capitalista, o fruto de 1776. (Hoje, melhor informado sobre o projeto de Marx e, portanto, com uma melhor apreciação do material humano que realizou 1776, ao contrário, por exemplo, do Projeto 1619 do New York Times, argumento ser necessária essa mesma perspectiva para julgar todos os momentos revolucionários, tanto antes quanto depois de 1776).

Se eu tivesse pensado na data de outro documento histórico, também celebrando seu semiquincentenário (250 anos), poderia ter apresentado um argumento ainda mais convincente sobre a galinha capitalista que voltou para o poleiro. Como o texto fundador do novo modo de produção explicou famosamente, não é a consideração pelo outro que permite ao seu padeiro, seu cervejeiro e seu açougueiro satisfazer suas necessidades, mas sim o “autointeresse” e a “mão invisível” do mercado. Defensores subsequentes do capitalismo que entusiasticamente se apoderaram e alardearam a perspicácia fecunda de Adam Smith em A riqueza das nações também colheriam o que semearam: o autointeresse desenfreado. Considero totalmente reveladora a angústia liberal e conservadora sobre a presidência de Donald Trump, em ambas as edições, o seu quase silêncio sobre o que há de menos controverso nele: o fato de ser o capitalista mais autêntico que já ocupou o cargo, um capitalista de fato de segunda, se não terceira geração. Os Roosevelts descendiam da aristocracia agrária holandesa do Vale do Hudson, no estado de Nova York. Franklin Delano Roosevelt certa vez descreveu sua ocupação como “fazendeiro”, enquanto Herbert Hoover e Jimmy Carter foram milionários que se fizeram por conta própria. A relutância da classe dominante em admitir o que é tão evidente sobre Trump trai, compreensivelmente, seu interesse de classe, e também o de seus apologistas, em evitar uma discussão sobre a lógica do sistema econômico que o gerou.

Sim, é verdade que nem todo capitalista se comporta como Trump. Igualmente verdadeiro, porém, é que o primeiro ocupante da Casa Branca a tratar o cargo como se fosse seu próprio negócio foi, não por coincidência, um septuagenário que nunca havia tido outro emprego além de chefe capitalista. John Kelly, o primeiro Chefe de Gabinete de Trump, resumiu perfeitamente: “Ele adoraria ser exatamente como era nos negócios, ele poderia dizer às pessoas para fazerem as coisas e elas fariam, e não se preocuparia muito com as legalidades e afins”. O mesmo vale, ainda mais, para a segunda presidência de Trump. Ao contrário do que sugeriu Kelly, Trump não estava se comportando como um fascista, mas simplesmente como um patrão, o que os marxistas chamam de ditadura do capital, seu caráter inerentemente autoritário, e sancionado pela Constituição, novamente, a contrarrevolução de 1787. O fato de os formuladores do documento terem isentado o setor privado de sua característica mais progressista, a Declaração de Direitos (Bill of Rights), e que a palavra “democracia” nunca tenha aparecido no documento não é nem erro nem omissão.  A comercialização do bicentenário meio século empalidece em comparação com o que já está em andamento para a celebração do semiquincentenário da administração Trump. Autointeresse em esteroides, sem remorso, talvez embaraçoso para aqueles que subscrevem a ética capitalista do “cada um por si” / “eu garanti o meu, você que se vire”. A galinha capitalista agora está empoleirada na própria Casa Branca.

<><> Mas como chegamos a este ponto?

Quando me deparei pela primeira vez com o movimento Impeach Bush em 2007, tive que pensar, como marxista, em como não soar estereotipadamente onisciente, mas sim pedagógico e não sectário. Comecei a dizer, “se não impugnarmos o sistema que colocou Bush na Casa Branca, teremos alguém lá que nos fará sentir saudades dele”. 

Não, eu não tinha uma bola de cristal que previu Donald Trump; tinha apenas a perspectiva de pensar sistêmica e estruturalmente, ou seja, como marxista. E a experiência de pelo menos duas décadas de saber, através do trabalho político pessoal ou de outros, quão desconectada a classe trabalhadora dos Estados Unidos estava em relação à política habitual. A taxa de abstenção quando se tratava do voto, especialmente, apesar da indiferença de meus colegas na subárea de política estadunidense sobre essa característica marcante da democracia liberal dos Estados Unidos. A hipermercantilização do próprio processo eleitoral na sede mundial do capital, juntamente com o desprezo concomitante pela inteligência dos eleitores, explicava em grande parte, em minha estimativa, a apatia do eleitorado. “Ração barata”, foi como um importante operador da classe dominante para a política burguesa dos Estados Unidos descreveu cinicamente os pontos de discussão que ele e sua equipe haviam preparado para os candidatos. Particularmente instrutivas foram as lições da campanha presidencial de Patrick Buchanan em 1992; uma figura da política burguesa com uma mensagem fascista incipiente que apelava a algumas camadas da classe trabalhadora. A campanha de Buchanan e a audiência que obteve revelaram um novo estágio na política dos Estados Unidos, o apelo do ressentimento devido, em grande parte, ao fim do “Sonho Americano”, as consequências das recessões de 1974-1975 e 1980-1981, o fim do boom econômico pós-Segunda Guerra Mundial. O melhor que o capitalismo tinha a oferecer ao proletariado dos Estados Unidos ficou para trás.

A política burguesa habitual esteve singularmente em exibição em 2000, no caso Bush v. Gore. O mais revelador foi a decisão das principais lideranças liberais no Congresso, no Partido Democrata, de não permitir sequer uma discussão na Câmara, permitida pela Constituição, sobre a decisão de 5 a 4 da Suprema Corte. Efetivamente, uma pessoa, não eleita e com cargo vitalício, a juíza Sandra Day O’Connor, decidiu quem seria o presidente. Nenhum político relevante do mainstream estava disposto a questionar essa decisão histórica e profundamente antidemocrática, tudo feito conforme as regras; um testemunho, novamente, do caráter contrarrevolucionário da Constituição. Nem Paul Wellstone, nem Russ Feingold no Senado, nem Bernie Sanders na Câmara, a esquerda na política burguesa, deram um passo à frente. Os representantes da classe dominante cerraram fileiras para proteger o sistema, antecipando o curso subsequente de Sanders. Uma decisão não tomada em algum canto isolado do Estado, mas feita publicamente; tudo pôde ser visto no canal de televisão pública C-SPAN.

Então veio a Grande Recessão de 2008, o que o autointeresse desenfreado ocasional, mas consequentemente, lega, a melhor explicação próxima para o momento Trump. Como confessou, sem dúvida, o estudante mais influente de Adam Smith: “Aqueles de nós que confiaram no autointeresse das instituições de crédito para proteger o patrimônio dos acionistas, eu incluído, estão em estado de choque e descrença”. Assim falou Alan Greenspan, o recém-aposentado presidente do Federal Reserve Board, perante um comitê do Congresso em outubro de 2008, enquanto Wall Street convulsionava. A vingança da economia baseada na fé do autointeresse. A história ensina que, em uma crise econômica capitalista, a classe trabalhadora estará aberta a uma alternativa à política habitual, não apenas à esquerda, mas à direita, o que as campanhas presidenciais de 2008 e 2016 exemplificaram. Primeiro, a eleição de Obama, a alternativa à esquerda, que registrou o quanto a classe trabalhadora estadunidense havia se tornado mais racialmente tolerante. Milhões de trabalhadores caucasianos estavam dispostos a votar nele na esperança de restaurar seu Sonho Americano. Eles, assim como seus colegas negros que votaram em Obama, ficaram, no entanto, decepcionados; a realidade do capitalismo tardio tornou essa esperança irrealizável. Dados recentes confirmam essa verdade sóbria. É por isso que, para as eleições de 2016, duas figuras fora do mainstream da política burguesa obtiveram uma audiência séria entre as camadas da classe trabalhadora, Sanders e Trump, um “socialista” e um capitalista que nunca havia ocupado um cargo público. Exatamente por que foram vistos como outsiders é que os dois apelaram para camadas cada vez mais alienadas de trabalhadores estadunidenses, operários e agricultores. 

Para a classe dominante, no entanto, o “socialista” era inadmissível, um mal maior do que o empresário vigarista. Daí a decisão das elites do Partido Democrata de garantir que Sanders não obtivesse a indicação do partido e lançar, em vez disso, uma candidata que tinha consideravelmente menos apelo entre os eleitores da classe trabalhadora. Uma candidata que certa vez disse que, caso se tornasse presidente, “colocaria”, em nome da energia verde, “muitos mineradores de carvão e empresas de carvão fora do negócio”, um comentário que a assombrou durante toda a campanha. Trabalhadores negros decepcionados o suficiente que votaram em Obama abstiveram-se na eleição de 2016, enquanto trabalhadores caucasianos decepcionados o suficiente que votaram em Obama decidiram arriscar com Trump, garantindo sua vitória. Trump deveu, em outras palavras, sua vitória à decisão da classe dominante de lançar uma candidata seriamente falha contra ele, Hillary Clinton, alguém que personificava a política burguesa habitual. E Sanders, como fizera antes, sem balançar o barco, aceitou obedientemente essa decisão. A disposição da classe dominante em arriscar uma Casa Branca com Trump, o mal menor em relação ao “socialista” Sanders, tem, argumento, longas raízes históricas.

As duas grandes lições políticas da modernidade originam-se em dois momentos-chave no século xɪx: as Revoluções de 1848-1849, a Primavera dos Povos, e a Guerra Civil dos Estados Unidos e suas consequências. A primeira é que os liberais não podiam mais ser considerados confiáveis, na verdade, deviam ser vistos com suspeita, para a realização da revolução democrática burguesa, devido ao seu medo dos trabalhadores. A segunda é que grandes questões políticas não podem ser resolvidas nas arenas eleitoral, parlamentar e judicial, mas apenas nas barricadas ou nos campos de batalha.

Alexis de Tocqueville, o autor de Democracia na América, exemplifica melhor as limitações do liberalismo, o protótipo da modernidade para a postura da liderança do Partido Democrata em relação a Sanders. Tocqueville, no lado oposto das barricadas de Marx e Engels durante a Primavera dos Povos, fez tudo o que pôde, como seus homólogos liberais na Alemanha e em outros lugares da Europa, para garantir que não houvesse uma revolução socialista na França. Ele admitiu em seu livro de memórias sobre aquele momento, Souvenirs, tornado público apenas em 1910 (cinquenta anos após sua morte), que, como ministro governamental, estava disposto a “tapar o nariz” e viabilizar o golpe de Estado de Luís Bonaparte, que derrubou a Segunda República em 1851, para impedir que a ala de Bernie Sanders da revolução chegasse ao poder: os socialistas rosados. É impressionante como a descrição de Marx de 1869 sobre Bonaparte, uma “mediocridade grotesca”, funciona bem para o atual ocupante da Casa Branca. Tocqueville, ao contrário da elite do Partido Democrata, foi pelo menos honesto sobre sua política quando confessou certa vez: “Minha mente é atraída por instituições democráticas, mas sou instintivamente aristocrata porque desprezo e temo as turbas […] as ações desordenadas das massas, sua intervenção violenta e desinformada nos assuntos públicos”. Melhor, novamente, o consenso da liderança do partido em 2016, arriscar Trump do que a “intervenção desinformada nos assuntos públicos” das “massas”. Essa decisão fatídica, em retrospecto, abriu o caminho para a segunda chegada de Trump, o caráter dependente da trajetória da política burguesa, potencialmente mais consequente que a primeira.

O medo liberal dos trabalhadores manifestou-se tragicamente de novo, duas décadas depois, do outro lado do Atlântico, outra contrarrevolução. Seguiu-se a uma revolução bem-sucedida e histórica, a tarefa inacabada de 1776. A derrota da escravocracia em 1865 constituiu o avanço mais significativo da modernidade após a Revolução Francesa de 1789 na milenar busca democrática. E nela reside a outra grande lição política do século xɪx: a maneira pela qual a abominável instituição da escravidão por bens móveis (chattel slavery) chegou ao fim. Não por uma infame decisão da Suprema Corte (Dred Scott em 1857), ou uma eleição presidencial (a de Lincoln em 1860), ou uma fútil ação do Congresso no final de 1860 para emendar a Constituição e manter os proprietários de escravos na União, mas sim no campo de batalha, Appomattox, 1865. Também digno de nota é que, às vésperas da Guerra Civil, a escravocracia rejeitou o projeto de 1776, o discurso “Cornerstone” de 1860 do vice-presidente confederado Alexander Stephens, por causa de cinco palavras na Declaração de Independência: “todos os homens são criados iguais”, as credenciais revolucionárias do documento. Mas os oligarcas escravistas continuaram a abraçar a Constituição, e é por isso que a constituição fundadora da Confederação, exceto por pequenas mudanças, assemelhava-se tanto ao documento original, mais evidência do caráter contrarrevolucionário deste último.

Quando parecia, no entanto, que os ex-escravizados poderiam unir-se aos brancos plebeus para ir além de uma revolução democrática burguesa, para uma “revolução permanente”, para empregar o termo de Marx e Engels sobre o possível resultado da agitação de 1848-1849 na Alemanha, as elites liberais ficaram com medo do que veio a ser conhecido como a Reconstrução Radical. As lições de 1848-1849 e 1857-1865 tiveram um grande impacto em Lênin. Jamais se deveria esperar que os liberais realizassem a igualdade social, e as arenas eleitoral/parlamentar/judicial tampouco poderiam ser utilizadas para o mesmo fim. “Assuntos políticos extremamente importantes”, como ele postulou mais tarde, “nunca poderiam ser resolvidos pelo voto. Tais problemas são resolvidos, na verdade, pela guerra civil”. Não há dúvida sobre qual “guerra civil” serviu de inspiração para ele. A ascensão bolchevique em 1917 tem, sustento, suas origens nessas duas conclusões históricas.

<><> Para onde vai o fenômeno Trump?

As presidências de Trump têm sido uma dádiva para a educação marxista, o capitalista autêntico que trata a política unicamente como transacional e de negociação, desvinculada de princípios que não sejam a obtenção de lucro. Trump é a própria personificação do caráter inerentemente narcisista/solipsista do capitalismo. O desafio que o nosso lado marxista frequentemente enfrentou com presidentes anteriores foi construir um argumento convincente de que eles não são desinteressados, como fingiam ser, quando se tratava de realidades de classe. Seu predecessor, por exemplo, o primeiro presidente negro, era particularmente hábil em representar papéis, sendo alguém para todos. O que Trump é naturalmente incapaz de fazer e uma das razões, suspeito, para sua inveja de Obama. “O que você vê”, quando se trata de Trump, para empregar uma letra popular na época do bicentenário, “é o que você recebe!”. A nudez desavergonhada de Trump sobre quem ele representa é singular, o que seu primeiro chefe de gabinete, John Kelly, soube em primeira mão. Daí a razão pela qual sua classe, desde o início, precisou de ideólogos inteligentes como Adam Smith para explicar seus interesses coletivos em vez de individuais. A necessidade, em outras palavras, do Estado capitalista e de todos os funcionários e apologistas meritocráticos que o acompanham. O que impediu a primeira edição de Trump de ser a catástrofe que muitos na classe dominante capitalista, tanto nacional quanto internacionalmente, temiam e, portanto, sua esperança de que ele fosse um presidente de um único mandato. Mas não foi o que aconteceu.

Pouco depois da segunda eleição de Trump, escrevi:  “A vitória de Donald Trump em 5 de novembro de 2024 é o preço que a classe trabalhadora dos Estados Unidos paga por não possuir seu próprio partido político”. Ainda assim, ela veio acompanhada de dois possíveis aspectos positivos. Como mencionei anteriormente, “uma pessoa que está se afogando, escreveu certa vez Karl Marx, agarrar-se-á a um graveto na esperança de que este a salve”. Eis por que milhões de trabalhadores votaram novamente em Donald Trump. Em momentos de crise, a história revela que os trabalhadores podem se abrir não apenas para soluções de esquerda, mas também para soluções de direita. Não existe, portanto, atalho para a clareza política. Apenas por meio do processo de tentativa e erro – o laboratório da luta de classes, como alguns de nós o chamamos – isso se torna possível Trump não é fascista – ele é apenas um autoritário comum. Podemos estar confiantes de que o Trump 2.0 não cumprirá as esperanças dos milhões de trabalhadores que votaram nele, devido à profundidade da crise em que o capitalismo se encontra. Somente através da experiência esses trabalhadores poderão aprender esse fato sobre o outro partido dos patrões. Comparado ao experimento de tentativa e erro verdadeiramente custoso que os trabalhadores na Europa e em outros lugares tiveram que suportar nos anos trinta, a repetição de Trump promete ser uma experiência de custo relativamente baixo.

Em retrospecto, fui talvez otimista demais quanto aos custos de uma segunda administração Trump. O mundo hoje é um lugar mais perigoso em grande parte por causa de Trump, um mundo que se assemelha cada vez mais ao período que antecedeu a Grande Guerra. Credenciais marxistas não eram necessárias para entender por que a conflagração começou. “Rivalidades econômicas (…) ganância territorial e comercial” serviram de explicação suficiente para Woodrow Wilson. “Ganância” capitalista, como explicou Lênin dois anos após o início da guerra em sua obra-prima teórica, Imperialismo. A lógica do modo de produção capitalista em sua fase madura e dado o seu caráter inerentemente predatório foi determinante. Competição por recursos naturais, mercados, esferas de influência e guerras tarifárias, o que veio com a segunda edição de uma presidência Trump, tornaram a conflagração virtualmente inevitável. Além da análise de Lênin e para nunca ser esquecido, o papel daquele antigo flagelo usado pelas elites modernas em todas as suas cores de pele e outras identidades para desviar a atenção de suas próprias ações nefastas através do bode expiatório de um povo: o ódio aos judeus. O fato de ser um capitalista convicto e autêntico, ao contrário dos monarcas em 1914, quem lidera o esforço de guerra desta vez não poderia ser mais esclarecedor. Sua transparência e incapacidade de ser outro que não ele mesmo, em busca de interesses econômicos, especialmente os seus próprios, faz de Trump, novamente, e de tudo o que vem com ele, a prova número um para a educação marxista. “Tudo o que é sólido desmancha no ar; tudo o que é sagrado”, novamente, “é profanado”, naquela percepção verdadeiramente presciente do Manifesto de 1848.

O perigo desta vez, porém, é que, ao contrário de 1914, a letalidade do armamento hoje torna a terceira “Grande Guerra” uma ameaça existencial à nossa espécie. Um quarto de século antes dos Canhões de Agosto, Friedrich Engels, que acompanhava de perto o desenvolvimento de armas, previu que na próxima guerra europeia “quinze a vinte milhões de homens armados se massacrariam e devastariam a Europa como ela nunca foi devastada antes”, uma previsão tragicamente confirmada. Apenas 25 anos após o fim da Primeira Guerra Mundial, armas nucleares foram empregadas. Um mergulho profundo na Primeira Guerra Mundial e em seus principais protagonistas deixou a conclusão arrepiante, mas inegável, de que, se essas armas estivessem disponíveis, também teriam sido empregadas, resultando em um número de mortos que excederia em muito, qualquer coisa que Engels pudesse ter imaginado. Mas Engels também disse que a guerra não era inevitável se os trabalhadores na Rússia derrubassem o Czar Nicolau, que iniciou a guerra, e tomassem o poder estatal. Infelizmente, isso não aconteceu, embora seja de suma importância perceber que somente quando os bolcheviques lideraram os trabalhadores e camponeses da Rússia ao poder em outubro de 1917 é que o início do fim do massacre começou um ano depois. E nela reside uma lição indispensável para Lênin e seus seguidores. Guerras capitalistas não são inevitáveis se a classe trabalhadora tomar o poder.

A derrota que a classe dominante dos Estados Unidos sofreu agora em sua guerra com o Irã, de acordo com seus principais porta-vozes (enquanto isto está sendo escrito), também é educativa. O que o comentarista capitalista não consegue dizer, mas apenas insinuar, se for verdade, é a razão real para o “debacle”, como alguns deles o chamam. Devido principalmente às suas “guerras sem fim” que Trump prometeu não repetir, apenas através de tentativa e erro, novamente, a classe trabalhadora aprende, o proletariado dos Estados Unidos é hoje mais anti-guerra do que nunca desde o fim da Segunda Guerra do Golfo. É esse sentimento que impediu Trump de sequer chegar perto de “colocar tropas no terreno”, a única maneira possível pela qual Wall Street/Washington poderia claramente emergir vitoriosa do atoleiro em que aparentemente se meteu.

<><> Motivo para celebração?

Há algo de redimível em 1776? Enfaticamente, sim. Assim como para a galinha agora empoleirada na Casa Branca, os rebeldes plebeus de 1776 também plantaram as sementes para o proletariado moderno dos Estados Unidos, a primeira camada social na história milenar da sociedade de classes que não apenas tem interesse em sua erradicação, mas também tem a capacidade real de fazê-lo, o que o distingue das classes subordinadas anteriores, como escravos e servos. Apenas com o modo de produção capitalista surge o proletariado moderno, os coveiros do capitalismo. A principal razão, nota bene, pela qual a Reconstrução Radical sofreu uma derrota sangrenta: o proletariado dos Estados Unidos, ainda em seus primórdios, foi, portanto, incapaz de oferecer assistência efetiva aos ex-escravizados que lutavam para defender o primeiro experimento do país em igualdade racial. Há cerca de três quartos de século, existe na cidadela do capitalismo mundial um proletariado hereditário de muitas cores de pele, gêneros e nacionalidades com todo o potencial revolucionário que isso implica. “Potencial” é a palavra-chave. Nunca deve ser esquecido ou deve ser para sempre lembrado que a palavra “inevitável”, unvermeidlich no texto original, aparece apenas uma vez no Manifesto Comunista, seguida imediatamente por instruções para a hegemonia proletária. Se a ascensão da classe trabalhadora fosse inevitável, não haveria necessidade, o que os dois autores do documento entenderam, do Manifesto e de suas instruções sobre como fazê-lo. Tudo o que o documento assegura é a luta de classes, não os vencedores e perdedores dela

 

Fonte: Por August H. Nimtz - Tradução Mario Soares Neto, em Jacobin Brasil