terça-feira, 8 de setembro de 2026

Kit Antiautoritário: Como varrer a ultradireita

Contar as histórias das pessoas, não ideias abstratas. Comunicar por meio de emoções. Redefinir a polarização em torno de valores, não de identidades. Não falar de política: melhor misturá-la com outros conteúdos (cultura, estilos de vida, entretenimento, saúde). Construir uma rede de influenciadores digitais. Não se limitar a desmentir a desinformação. Esses são alguns dos antídotos incluídos no Kit Antiautoritário, uma verdadeira caixa de ferramentas para derrotar os novos líderes autoritários.

A caixa de ferramentas, recém-lançada pela organização Democracy Hub (D-Hub), denuncia que políticos como Javier Milei, Donald Trump, Jair Bolsonaro, o primeiro-ministro indiano Narendra Modi ou o húngaro Viktor Orbán não improvisam. “Eles mudam sua forma para se adaptar ao lugar”, seguindo “os mesmos padrões e estratégias”. “Diante desse novo fenômeno, vimos que havia muito diagnóstico (acadêmico, jornalístico). O que faltava eram os antídotos. Nós colocamos o foco nisso, há lugares onde se conseguiu freá-los”, afirma ao El Diario o argentino Agustín Frizzera, coordenador do projeto. O projeto foi cozinhado ao longo de dois anos, a partir de 130 entrevistas em 30 países e do estudo de 159 exemplos concretos. O kit está repleto de casos de sucesso contra os novos autoritarismos. Na França, atores democráticos trabalharam com influencers para mobilizar jovens eleitores. Na Índia e no Brasil, usaram-se grupos de WhatsApp para organizar voluntários e transformar apoio em ação.

O kit antiautoritário reúne 10 grandes estratégias (reunidas em 10 manuais), 59 jogadas e 141 conselhos para fortalecer a ação democrática. Entre elas, destacam-se jogadas narrativas, de comunicação digital, de construção de movimentos sociais, de coordenação da oposição e de mobilização eleitoral. Para evitar linguagens excessivamente formais, o projeto apostou em formatos multimídia: manuais baixáveis em pdf, podcasts e vídeos. Além disso, conta com uma wiki para leitura online em sete idiomas (inglês, espanhol, francês, alemão, húngaro, português e chinês mandarim simplificado).

<><> O manual autoritário

O Manual Autoritário — volume 1 da coleção, capa preta — explora como líderes autoritários ganham popularidade, vencem eleições e corroem instituições. A primeira jogada, Um novo estilo disruptivo, revisa como esses líderes tentam “se distanciar da imagem dos políticos tradicionais, desde o vocabulário até a vestimenta, modos e práticas”. Em uma campanha ininterrupta, tudo gira em torno da personalidade de um grande líder que compartilha sua intimidade para parecer mais humano (Modi fazendo ioga, Donald Trump pedindo comida num McDonald’s, Eduardo Bolsonaro, filho do ex-presidente brasileiro, compartilhando o parto de sua filha).

A frase “flood the zone with shit” (inunde a zona com merda), pronunciada pelo ideólogo da extrema direita global Steven Bannon, é uma de suas principais estratégias. Eles saturam a mídia com conteúdo interminável — falso, exagerado ou descontextualizado — para criar confusão e desviar a atenção. “Como nossos cérebros tendem a associar repetição com veracidade”, alerta o manual, “eles usam seus canais para inundar o ecossistema com histórias — verdadeiras ou falsas — para controlar a conversa”.

Cada jogada do manual conclui com conselhos para combatê-la. Diante do Inunde a zona com desinformação, por exemplo, recomenda-se não reagir sempre. “Já não estamos na era do fact checking (verificação de fake news): quando desmentimos, chegamos tarde. O segredo é antecipar-se e desmascarar a narrativa antes que ela se imponha”, afirma ao El Diario a italiana Federica Vinci, da D-Hub.

<><> Comunicar com emoção

A jogada Ideias fortes, apelo emocional disseca como os novos autoritarismos combinam ideias com emoções. O coquetel emocional — uma mistura de medo, esperança, fúria e até empatia — reforça sua mensagem. Enquanto as forças progressistas usam uma “comunicação excessivamente técnica e pouco emocional que não conecta com a experiência cotidiana das pessoas”, pondera Federica Vici, “a extrema direita consegue impor narrativas simples e repetitivas”. Esse apelo emocional provoca uma resposta visceral e fervorosa entre seus seguidores, algo que contrasta com a apatia dos democratas. O manual detalha a campanha do presidente argentino Javier Milei, repleta de alegria e entusiasmo. Milei desfilava num conversível, desdobrando rituais, slogans, símbolos e objetos que serviam como metáforas. Com uma motosserra e uma nota de dólar, sintetizava todos os problemas em um inimigo, o banco central, a quem acusava de roubar todos os argentinos por meio da inflação.

O manual 4, intitulado Narrativa, adverte que fatos e argumentos racionais não bastam por si só. “As mensagens ressoam quando dialogam às emoções reais das experiências cotidianas”. Um dos conselhos narrativos consiste em não contar, mas mostrar. “Ideias ninguém escuta, se antes não forem tornadas visíveis. Símbolos, metáforas, imagens concretas. A política que se vê, se entende e se compartilha”, argumenta Agustín Frizzera. Além disso, convém fazê-lo com humor. “O humor quebra o medo, desarma a épica autoritária e expõe o ridículo do poder”, completa Frizzera. Por outro lado, a pesquisa revelou que a extrema direita usa em toda parte apenas doze temas para alimentar suas teorias da conspiração: corrupção, aborto, comunismo, perseguição religiosa, ideologia de gênero, drogas, impunidade, doutrinação nas escolas, regulação da mídia, invasão da propriedade e invasão da privacidade. Federica Vici alerta que o erro é responder com complexidade demais: “As forças democráticas devem simplificar, unificar a mensagem e voltar a falar do que realmente importa — custo de vida, aluguéis, inflação — com propostas claras”.

<><> Influencer chefe

O kit descreve em detalhe como a extrema direita construiu um sofisticado ecossistema de comunicação digital. Os líderes se comportam como “influencers chefes”. Por exemplo, Nayib Bukele, presidente de El Salvador, replica diariamente mensagens de seus seguidores na rede social X, ajudando-os a monetizar seus perfis. O volume 2, Comunicação digital, é dedicado a como criar um novo ecossistema de comunicação descentralizado. Uma de suas principais jogadas é construir uma rede de influencers. O brasileiro Pedro Telles, diretor de programas da D-Hub, confessa ao El Diario que parte do sucesso do bolsonarismo residiu em seu ecossistema de comunicação: “Você abre o WhatsApp e no grupo da família aparece uma mensagem do seu tio que chegou de um grupo extremista. Aí, você liga o rádio ou um podcast indo para o trabalho e escuta alguém falando algo parecido. Depois, almoçando com a galera do trabalho, alguém te conta a mesma coisa porque ouviu de um influencer…”.

A grande estratégia do manual: Colocar brócolis no arroz”. O “arroz” é o conteúdo que naturalmente atrai a atenção. O “brócolis” é a mensagem política que queremos transmitir. “Inserir conteúdo político em formatos que as pessoas já consomem e apreciam. Não forçar a conversa: misturá-la com cultura, entretenimento e vida cotidiana”, pondera Agustín Frizzera.

<><> Construir movimento, conseguir votos

O volume 3 é dedicado à promoção do voto. Pedro Telles destaca o papel que a sociedade civil organizada teve na derrota de Jair Bolsonaro em 2022: “O maior exemplo foi o Pacto pela Democracia, que une mais de duzentas organizações. Foi a própria sociedade civil quem convocou as pessoas a irem votar, especialmente os jovens”. O volume é baseado em exemplos de sucessos como You can vote (Estados Unidos), Meu primeiro voto (Brasil) ou French civil society campaigners (França), entre outros.

O volume 5 é dedicado à Coordenação da oposição, porque “derrotar o autoritarismo exige estrutura, colaboração e propósito compartilhado”. O melhor caso de sucesso da coordenação da oposição, segundo Pedro Telles, foi o de Lula da Silva na campanha de 2022. “O principal símbolo disso foi o convite de Lula a Geraldo Alckmin (político conservador) para ser vice-presidente e construir uma frente ampla, tanto nos partidos políticos quanto na sociedade civil”, pondera Telles.

O volume 6 é focado na Construção de movimentos, já que em contextos polarizados, os partidos frequentemente aprofundam a divisão. Os movimentos devem, segundo o kit, “redefinir a polarização em torno de valores, não de identidades partidárias”. Instituições & Espaço Cívico, Apoio internacional e Liderança também já foram lançados. O Manual Democrático, cujo podcast já está disponível, foi lançado julho. Com capa branca, reune as jogadas mais eficazes de todo o kit para contra-atacar. “Jogadas”, usando palavras da D-Hub, “que chegam às pessoas não apenas pela razão, mas pela emoção; não apenas por discursos, mas por histórias; não apenas nas eleições, mas na vida cotidiana”. Todas as jogadas do kit antiautoritário, conclui Frizzera, apontam para o mesmo: “sair do modo reativo, reconectar com como as pessoas vivem e consomem política hoje, não para ‘ter razão’, mas para construir poder de verdade”.

 

Fonte: Por Bernardo Gutierrez, em Outras Palavras

 

Quanto custa viver com diabetes nos EUA? Seguro de saúde pode mudar toda a conta

“Quanto custa não morrer de diabetes nos Estados Unidos? Depende de quem te contratou.”

A frase foi dita por um médico que vive nos Estados Unidos e também tem diabetes. Em um vídeo que viralizou nas redes sociais, ele mostrou os produtos que utiliza no tratamento e comparou o preço dos itens sem seguro com o valor que efetivamente paga.

Entre os produtos apresentados estão a insulina Lyumjev, de ação ultrarrápida, e um sensor para monitoramento contínuo da glicose. Segundo o relato, a conta chegaria a quase US$ 600, cerca de R$ 3.060. Com o plano de saúde oferecido pelo empregador, porém, ele afirma ter desembolsado US$ 35, aproximadamente R$ 179, pela insulina e nada pelo sensor.

O exemplo chama atenção, mas não representa uma regra para todas as pessoas com diabetes que vivem nos Estados Unidos. O valor pago pelo paciente pode mudar conforme o tipo de seguro, o empregador, o estado onde mora, as regras do plano e os medicamentos e dispositivos utilizados.

<><> O diabetes representa um alto custo para o sistema de saúde

O impacto financeiro do diabetes nos Estados Unidos é expressivo. Um estudo publicado pela American Diabetes Association na revista Diabetes Care estimou que, em 2022, pessoas diagnosticadas com diabetes tiveram despesas médicas médias de US$ 19.736 por ano, o equivalente a aproximadamente R$ 100.700.

Desse total, US$ 12.022, cerca de R$ 61.300, foram atribuídos diretamente ao diabetes. O levantamento considerou gastos com consultas, hospitalizações, medicamentos, insulina, materiais para o tratamento e outras despesas relacionadas à assistência médica.

O estudo também estimou que as despesas médicas das pessoas com diabetes eram, em média, 2,6 vezes maiores do que seriam esperadas para pessoas de idade e sexo semelhantes sem a doença.

Esses números representam os gastos médicos totais e não necessariamente quanto o paciente paga do próprio bolso, já que incluem valores pagos por seguradoras, programas públicos e pacientes.

<><> O seguro define parte importante da conta

Nos Estados Unidos, uma parcela do tratamento pode ser coberta pelo seguro, mas o paciente ainda pode pagar mensalidades, franquia, copagamentos ou uma porcentagem do valor de determinados serviços.

A franquia é o valor pago antes que o plano passe a assumir determinadas despesas. O copagamento corresponde a uma quantia fixa cobrada em alguns atendimentos ou medicamentos. No cosseguro, o paciente paga uma porcentagem do custo.

Também existe o limite anual de despesas do próprio bolso para determinados serviços cobertos. Nos planos do Marketplace, esse limite pode chegar, em 2026, a US$ 10.600, aproximadamente R$ 54 mil, para uma pessoa. Para uma família, pode chegar a US$ 21.200, cerca de R$ 108 mil.

Esse limite não inclui necessariamente a mensalidade do seguro nem despesas com serviços não cobertos ou realizados fora das condições previstas pelo plano.

Por isso, ter seguro não significa tratamento gratuito. A cobertura pode reduzir o valor pago diretamente pelo paciente, mas ainda pode existir uma parcela significativa de despesas.

<><> O emprego pode influenciar o acesso ao tratamento

O seguro oferecido pelo empregador é uma das principais formas de cobertura de saúde para adultos em idade de trabalhar nos Estados Unidos.

Segundo a KFF, o custo médio anual de um plano de saúde empresarial em 2025 era de US$ 9.325, aproximadamente R$ 47.600, para cobertura individual. Na cobertura familiar, a média chegou a US$ 26.993, cerca de R$ 137.700.

O trabalhador, porém, não necessariamente paga todo esse valor. Em média, sua contribuição anual foi de US$ 1.440, aproximadamente R$ 7.300, para cobertura individual e US$ 6.850, cerca de R$ 34.900, para cobertura familiar. O restante é financiado pelo empregador.

Para uma pessoa com diabetes, o tipo de plano pode fazer diferença na rotina. As regras determinam quais medicamentos são cobertos, quanto será pago por consultas e exames e quais dispositivos de monitoramento estão incluídos.

Uma mudança de emprego também pode significar uma mudança na cobertura de saúde. É nesse contexto que o vídeo viralizado ganha relevância. O médico mostra como o plano oferecido pelo empregador pode transformar o valor que chega ao bolso do paciente.

<><> O estado onde a pessoa mora também faz diferença

Os Estados Unidos não possuem uma única regra para todos os seguros de saúde privados.

Alguns estados estabeleceram limites para o valor que determinados segurados podem pagar pela insulina. Segundo a American Diabetes Association, 29 estados e o Distrito de Columbia possuem algum tipo de limite para copagamentos de insulina em planos comerciais regulamentados pelos estados.

Os valores variam.

No Alabama, por exemplo, existe limite de US$ 100 para uma quantidade de insulina suficiente para 30 dias. Em Connecticut, o limite é de US$ 25. Na Califórnia, determinados planos têm limite de US$ 35 para 30 dias de insulina.

Essas regras não significam que qualquer pessoa nesses estados pagará automaticamente aquele valor. Os limites dependem do tipo de plano e da legislação aplicável.

Assim, duas pessoas que usam a mesma insulina podem ter despesas diferentes mesmo vivendo no mesmo país.

<><> O preço sem seguro pode ser muito diferente do valor pago

Outra característica do sistema norte-americano é a diferença entre o preço de referência de um medicamento ou dispositivo e o valor efetivamente desembolsado pelo paciente.

O preço apresentado no mercado não necessariamente será o valor final pago por quem possui seguro. O plano pode negociar preços, estabelecer copagamentos ou assumir parte da despesa.

Também existem programas de desconto e assistência oferecidos por fabricantes para determinados medicamentos e grupos de pacientes.

Por isso, o valor mostrado no vídeo deve ser entendido como um exemplo individual. A comparação feita pelo médico mostra a diferença entre o preço considerado sem a cobertura do plano e aquilo que ele pagou dentro das condições específicas do seu seguro.

Para quem não possui cobertura adequada, entretanto, medicamentos e insumos usados continuamente podem representar uma despesa importante, incluindo insulina, medicamentos, tiras de glicemia, agulhas, sensores, consultas e exames.

<><> Medicare tem regras específicas para a insulina

A situação também muda para pessoas atendidas pelo Medicare, programa federal destinado principalmente a pessoas com 65 anos ou mais e a alguns outros grupos que atendem aos critérios de elegibilidade.

Desde 2023, determinados beneficiários do Medicare passaram a contar com limite de US$ 35 por mês para a insulina coberta. Em 2026, a regra estabelece que o valor máximo de participação para um mês de fornecimento de cada insulina coberta pelo Medicare Part D é o menor entre US$ 35, 25% do preço máximo definido no programa de negociação de medicamentos ou 25% do preço negociado pelo plano.

O valor de US$ 35 mostrado no vídeo, portanto, não deve ser apresentado como preço universal da insulina nos Estados Unidos. Ele corresponde à situação específica relatada pelo médico e também pode aparecer em determinados contextos de cobertura previstos na legislação.

<><> Medicaid também depende do estado

O Medicaid é outro programa público de saúde disponível para pessoas que atendem aos critérios de elegibilidade, principalmente relacionados à renda e a determinados grupos.

Em agosto de 2026, 41 estados, incluindo Washington, D.C., haviam adotado a expansão do Medicaid prevista pela Affordable Care Act. Outros 10 estados ainda não haviam adotado a expansão.

A expansão ampliou a possibilidade de cobertura para adultos de baixa renda dentro de critérios definidos pelo programa. Como os estados participam da administração do Medicaid, existem diferenças nas regras e na cobertura disponível.

Para uma pessoa com diabetes e renda mais baixa, isso pode representar uma diferença importante nas possibilidades de acesso ao cuidado.

<><> As regras atuais protegem pessoas com diabetes de uma condição preexistente

Outra mudança importante veio com a Affordable Care Act.

Nos planos do Marketplace, as seguradoras não podem recusar uma pessoa ou cobrar um valor maior simplesmente porque ela possui uma condição de saúde preexistente. O diabetes está entre as condições que entram nessa proteção.

Isso significa que uma pessoa que já tinha diabetes antes de contratar o plano não pode ser excluída da cobertura por esse motivo.

A proteção, entretanto, não elimina os custos do seguro. O beneficiário continua sujeito às regras financeiras do plano, incluindo mensalidades, franquias, copagamentos e cosseguro.

<><> No Brasil, o tratamento segue outra lógica de financiamento

A comparação com o Brasil ajuda a entender por que a experiência pode ser diferente.

No país, uma pessoa com diabetes pode buscar atendimento pelo Sistema Único de Saúde sem precisar contratar um seguro privado. O Ministério da Saúde informa que o SUS oferece acompanhamento integral e gratuito para pessoas com diabetes, incluindo tratamento medicamentoso e insulinas.

Para o monitoramento da glicemia, a rede pública também disponibiliza determinados insumos dentro dos critérios estabelecidos. O Programa Farmácia Popular oferece gratuitamente medicamentos e insulinas para diabetes em farmácias credenciadas.

Isso não significa que toda tecnologia ou medicamento disponível no mercado esteja automaticamente disponível para todos os pacientes pelo SUS. A incorporação de novas tecnologias depende de avaliações e critérios específicos.

A principal diferença está na forma de financiamento. No Brasil, existe uma rede pública universal que permite o acesso ao cuidado independentemente da contratação de um seguro de saúde. Nos Estados Unidos, a cobertura é dividida entre diferentes modelos, como seguros empresariais, planos individuais e programas públicos.

<><> O seguro pode determinar o acesso ao tratamento

O caso mostrado pelo médico evidencia como a cobertura de saúde pode alterar significativamente o custo do tratamento de uma pessoa com diabetes nos Estados Unidos.

O valor de medicamentos e dispositivos pode ser alto, mas a parcela efetivamente paga pelo paciente depende das regras do plano, da cobertura oferecida pelo empregador, do estado onde a pessoa vive e dos programas públicos ou de assistência aos quais tem acesso.

Para quem convive com diabetes, essa diferença pode representar centenas ou milhares de dólares ao longo do ano. No sistema norte-americano, o custo do tratamento está diretamente ligado à forma como cada pessoa está inserida no sistema de saúde.

 

Fonte: Um Diabético

 

Mendonça incendeia o STF para Flávio colher votos

A quem interessa a maior crise enfrentada pelo Supremo Tribunal Federal em muitos anos? A pergunta deixou de ser apenas jurídica quando o caso Banco Master atravessou a Praça dos Três Poderes e entrou na campanha presidencial.

Falta um mês para o primeiro turno. Lula e Flávio disputam uma eleição cada vez mais apertada. O Datafolha divulgado nesta quinta-feira,3, mostra Lula com 38% e Flávio com 33% no primeiro turno. Numa eventual segunda rodada, 46% a 44%. A vantagem do presidente diminuiu. 

É nesse cenário que explode a crise. E Flávio Bolsonaro não perdeu tempo.

Sua campanha pretende transformar o 7 de Setembro em ponto de inflexão da disputa. A palavra de ordem contra Alexandre de Moraes junta-se ao ataque contra Lula. A estratégia é associar o desgaste do ministro do STF ao presidente da República e mobilizar a base bolsonarista. A operação política é simples: colar Moraes em Lula.

Quanto mais Alexandre de Moraes aparecer como adversário do bolsonarismo, mais Flávio poderá tentar transformar a eleição presidencial numa revanche contra o ministro que comandou processos que atingiram Jair Bolsonaro e seus aliados. E quanto mais a eleição falar de Moraes, menos falará de Flávio.

<><> O adversário que Flávio escolheu

Para Lula, interessa discutir quatro anos de governo, emprego, renda, inflação, programas sociais, política externa, soberania nacional, Donald Trump e, sobretudo, o que significaria a volta de um Bolsonaro ao Palácio do Planalto.

Para Flávio, a crise oferece a oportunidade de mudar o assunto. O candidato pode voltar a uma narrativa conhecida de seu eleitorado: Jair Bolsonaro não seria o chefe de uma organização criminoso que tentou por várias vezes o golpe contra a Democracia. E ,por isso, está preso condenado a 27 anos pela Justiça brasileira. 

Moraes deixaria de ser o ministro que relatou processos contra o bolsonarismo para se transformar no símbolo de um sistema que, segundo essa narrativa, perseguiu Bolsonaro. A anistia poderia deixar de ser apresentada simplesmente como a libertação de Jair Bolsonaro e dos militares condenados e passar a ser vendida como reparação de uma injustiça. 

Não é coincidência que o governo faça o movimento inverso. Lula conversou com o presidente do STF, Edson Fachin, e sua campanha procura estabelecer distância em relação a Moraes. A linha adotada é a de que ninguém está acima da lei.  A equação eleitoral aparece com nitidez: Flávio tenta colar Moraes em Lula. Lula tenta impedir que Moraes seja colado nele.

<><> Um soldado e um cabo

A ofensiva dos Bolsonaro contra o Supremo não começou agora. Em 2018, Eduardo Bolsonaro pronunciou uma frase que atravessou os oito anos seguintes. Perguntado sobre a possibilidade de o STF impedir a posse de Jair Bolsonaro, respondeu: “Se quiser fechar o STF, sabe o que você faz? Você não manda nem um jipe. Manda um soldado e um cabo.”

A frase parecia uma bravata. Três anos depois, em 7 de Setembro de 2021, Jair Bolsonaro elevou o confronto a outro patamar. Presidente da República, diante de uma multidão na Avenida Paulista, anunciou que não mais cumpriria decisões de Alexandre de Moraes. Ministro do STF e, então, presidente do Superior Tribunal Eleitoral, TSE.

O confronto com o Supremo já não vinha apenas do filho de um candidato. Partia do chefe do Poder Executivo. Depois vieram os ataques às urnas eletrônicas, a contestação antecipada da eleição de 2022 e os acontecimentos que desembocariam nas investigações e processos sobre as tentativas de golpe para impedir a posse do governo eleito e matar Lula, Alckmin e Alexandre de Moraes.

Agora, em 2026, o método mudou. O alvo permaneceu. Eduardo queria fechar o Supremo com um cabo e um soldado. Jair ameaçou desobedecer ao ministro do STF e do TSE. Flávio quer retirar Moraes do caminho.

A diferença é que Flávio Bolsonaro não fala em mandar um soldado e um cabo ao STF. Ao contrário, apresenta-se como defensor da instituição enquanto concentra o ataque em Alexandre de Moraes. É uma formulação politicamente mais sofisticada. Não é mais necessário dizer: “Fechem o STF.” Pode-se dizer: “Salvem o STF de Alexandre de Moraes.”

<><> A crise veio de dentro

Há, entretanto, uma diferença fundamental entre os ataques anteriores e a situação atual. Desta vez, a crise não foi criada simplesmente por manifestações bolsonaristas contra o Supremo. Ela nasceu e cresceu dentro do próprio sistema de Justiça.

O caso Banco Master atingiu ministros do STF, expôs relações que precisam e exigem ser esclarecidas e colocou integrantes da Corte em confronto aberto.

André Mendonça, indicado por Jair Bolsonaro ao STF depois de ter sido seu ministro da Justiça e advogado-geral da União, tornou públicos elementos da investigação que atingem Alexandre de Moraes. Moraes reagiu contra Mendonça.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, questionou juridicamente a maneira como a investigação foi conduzida. E Fachin determinou agora que Moraes, Mendonça, Gonet e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, prestem esclarecimentos. 

A crise, portanto, é real. Reduzi-la a uma invenção bolsonarista seria um erro. Também seria um erro confundir a necessidade de investigar rigorosamente tudo o que aconteceu no caso Master com a exploração eleitoral dessa investigação. 

São coisas diferentes. O STF precisa responder pelos atos de seus integrantes. E o eleitor precisa saber quem pretende utilizar essa crise para chegar ao Palácio do Planalto.

<><> O círculo se fecha

Aqui cabe o que escrevemos no artigo “Derrotar, eleger, libertar, anistiar”, publicado no dia 2. Mostrávamos que a atuação de André Mendonça não poderia ser analisada apenas como uma disputa jurídica dentro do Supremo. Suas consequências chegariam inevitavelmente à eleição presidencial.

As manobras de Flávio Bolsonaro e André Mendonça não se limitam à tentativa de ganhar a eleição de outubro. Elas convergem para um projeto muito mais amplo: derrotar Lula, eleger Flávio, libertar Jair Bolsonaro e anistiar os militares e demais condenados pela tentativa de golpe. É esse objetivo que reúne o clã e transforma a crise do Supremo numa peça central da disputa pelo poder.

Mendonça passou pelo Executivo de Jair Bolsonaro e chegou ao Judiciário por escolha dele. Agora controla investigações capazes de atingir Lula, destruir Alexandre de Moraes e interferir na eleição que poderá devolver o Palácio do Planalto aos Bolsonaro. 

Flávio tenta colher nas urnas o resultado do incêndio provocado dentro do STF. Se vencer, não chegará à Presidência comprometido apenas com um programa de governo, mas com a libertação do pai, a anistia dos golpistas e a vingança contra quem os condenou.

O círculo realmente se fechou: derrotar, eleger, libertar, anistiar.

<><> Terra arrasada

Na reportagem de capa “Terra arrasada”, publicada pela CartaCapital, André Barrocal sustenta que a ofensiva contra Moraes é o ponto culminante de uma atuação seletiva de Mendonça nas investigações sobre o Banco Master. Enquanto expôs os elementos que atingem Alexandre de Moraes, o ministro manteve sob seu controle frentes que podem alcançar Flávio Bolsonaro, o filme Dark Horse e o caminho percorrido nos Estados Unidos pelos milhões de dólares enviados por Daniel Vorcaro para, segundo vários veículos de comunicação, o advogado de Eduardo Bolsonaro.

A diferença de tratamento exige explicação.

No fim de agosto, Mendonça recebeu Vorcaro e tomou seu depoimento a pedido da defesa. O banqueiro manifestou disposição para delatar integrantes do “núcleo do atual governo”. Depois de expor as relações de Moraes com Vorcaro, o gabinete do ministro também tornou pública a oferta capaz de atingir o governo Lula — exatamente a um mês da eleição.

Barrocal revela ainda que a produtora responsável pelo filme e o deputado Mário Frias pediram que investigações relacionadas ao caso fossem submetidas justamente a André Mendonça. Ambos parecem confiar no ministro “terrivelmente evangélico” escolhido por Jair Bolsonaro.

Mendonça também precisa explicar suas próprias relações com Vorcaro. Em março de 2025, recebeu o banqueiro durante duas horas no Iter, instituto fundado pelo ministro. Posteriormente, o Iter firmou contratos com órgãos públicos vinculados a governos e personagens que aparecem no universo do Master.

Nada disso apaga ou reduz a obrigação de Moraes esclarecer suas relações com Vorcaro. O comportamento do ministro é grave e precisa ser investigado até o fim. Mas investigar Moraes não autoriza Mendonça a escolher quais personagens serão expostos, quais investigações avançarão e quais permanecerão sob silêncio.

A suspeita política levantada por CartaCapital é devastadora: André Mendonça estaria tentando retirar o escândalo do colo do bolsonarismo e depositá-lo no colo de Lula, exatamente quando Flávio Bolsonaro precisa mudar o assunto da eleição. 

Mendonça acendeu o incêndio dentro do Supremo. Flávio correu para levar as chamas ao palanque.

<><> Quem indicou Moraes ao STF 

Alexandre de Moraes não foi indicado ao Supremo por Lula. Foi indicado por Michel Temer em 2017. Antes disso, havia sido ministro da Justiça do governo Temer e secretário de Segurança Pública de São Paulo no governo Geraldo Alckmin.

Associá-lo politicamente a Lula exige apagar sua própria trajetória. Mas eleições não são disputadas apenas com biografias. São disputadas também com símbolos. E o bolsonarismo transformou Moraes, ao longo dos últimos anos, no símbolo de tudo aquilo que pretende atribuir ao sistema que teria perseguido Jair Bolsonaro.

Por isso é eleitoralmente útil chamá-lo de “ministro de Lula”. Não importa que historicamente não seja. Importa produzir a associação.  Lula. Moraes. STF. Sistema. De um lado.  Bolsonaro. Perseguição. Anistia. Mudança. Do outro. É a polarização que Flávio tenta reconstruir.

<><> O perigo para Flávio

Mas há um limite. A guerra contra Moraes pode incendiar o eleitorado bolsonarista. Isso não significa necessariamente conquistar quem decidirá a eleição. A DW ouviu analistas que consideram que o impacto eleitoral da crise pode ser limitado. Para grande parte do eleitorado, as disputas internas do Supremo permanecem distantes das preocupações cotidianas. 

Existe ainda um risco maior. Se Flávio exagerar na ofensiva, poderá ressuscitar justamente o passado do qual procura se afastar.

O eleitor poderá voltar a ouvir: “Para fechar o STF basta um soldado e um cabo”, de Eduardo Bolsonaro. Poderá recordar os ataques de Jair Bolsonaro ao Supremo. Poderá recordar o 8 de Janeiro. Poderá perguntar se a retirada de Alexandre de Moraes é apenas o primeiro passo de uma nova ofensiva contra a instituição.

É a fronteira delicada da estratégia de Flávio. Ele precisa atacar Moraes sem parecer atacar a democracia. Precisa defender Jair Bolsonaro sem transformar a eleição de 2026 numa repetição de 2022. Precisa explorar o Master sem deixar que Vorcaro alcance André Mendonça e, sobretudo, o alcance.

<><> A quem interessa?

Voltamos à pergunta inicial. Hoje, a crise interessa mais a Flávio Bolsonaro. Não porque existam provas de que tenha sido produzida para beneficiá-lo. Ainda não foram divulgadas. Interessa porque oferece ao candidato a oportunidade de mudar o eixo da eleição.

Lula quer uma eleição sobre seu governo e sobre o que será o Brasil nos próximos quatro anos. Flávio quer uma eleição seja um julgamento de Alexandre de Moraes. Lula quer enfrentar Flávio. Flávio quer enfrentar Lula e Moraes. 

Mendonça incendeia o STF para Flávio colher os votos. Mas nenhum dos dois pode escolher o que ainda sairá da caixa-preta de Daniel Vorcaro.

 

Fonte: Por Gustavo Tapioca, em Brasil 247

 

A fascinante e caótica história do dólar

Em 1516, na pequena cidade de Joachimsthal, na Boêmia, abriu-se uma mina de prata que dará origem ao nome da moeda que ainda hoje domina as trocas econômicas do planeta. Da prata daquela jazida são cunhadas moedas pesadas, com quase trinta gramas de metal puro, que os comerciantes chamam de Joachimsthaler, depois, por comodidade de pronúncia, simplesmente thaler. É dessa palavra, deformada ao longo dos séculos através de metade da Europa e depois através do Atlântico, que nascerá o termo “dólar”. Quando os colonos britânicos começam a usá-lo, estão anglicizando o nome da única moeda de prata que circula em seus bolsos: o “peso de oito” espanhol, o real de a ocho, que o Império Ibérico distribui pelas rotas do comércio global, de Manila a Sevilha. O dólar nasce como moeda imperial e supranacional muito antes de se tornar moeda de uma república; os Estados Unidos não o criaram, herdaram-no. Essa genealogia complicada, uma nação que toma emprestado o nome de sua moeda de uma mina boêmia e de um império rival, nos obriga a rever uma ideia que damos como certa: a de uma moeda uniforme, fungível, livremente negociável e garantida pelo Estado. A realidade histórica, como frequentemente acontece quando se olha de perto, é, ao contrário, muito mais desordenada.

Tudo começa nas florestas da Boêmia central, quando um grupo de exploradores descobre, perto de um povoado até então insignificante, Joachimsthal, o “vale de Joaquim”, uma jazida de prata de riqueza surpreendente. O território pertence à família nobre dos Schlick, e o conde Stephan compreende imediatamente o que tem em mãos. Para financiar a exploração da mina, endivida-se pesadamente com diversos banqueiros europeus e convoca para o local mineiros e especialistas de Leipzig, numa verdadeira corrida à prata como só se verá depois, no século XIX, em relação ao ouro: ins Tal, ins Tal, mit Mutter mit All (“para o vale, para o vale, com a mãe, com tudo”), dizia uma poesia popular saxônica da época. O crescimento, porém, é rápido demais para ocorrer sem sofrimento: a grande massa de mineiros atraída trabalha em condições desumanas, em poços úmidos e perigosos e por salários miseráveis. Para piorar as coisas, acrescenta-se um problema aparentemente marginal: a moeda miúda, aquela que serve para comprar o pão e a cerveja. Quando se coloca em circulação uma quantidade excessiva dela e sua liga é adulterada, pode eclodir uma revolta; quando se coloca em circulação moeda de boa qualidade, mas em quantidade insuficiente, também pode eclodir uma revolta. E, de fato, a revolta eclode, e o conde Schlick vê-se obrigado a mediar entre os credores, que querem sua prata, e os mineiros, que querem também seus salários em boa prata, e não em moeda de liga adulterada.

Dessa urgência prática nasce a solução: Schlick obtém do imperador e do rei da Boêmia o direito de cunhar moeda por conta própria, convertendo imediatamente toda a prata extraída de suas minas. De um lado, consegue assim moedas miúdas de boa qualidade com as quais pagar os mineiros; de outro, cria para seus credores uma peça grande e pesada, com quase trinta gramas de prata puríssima. Chamam-na Joachimsthaler, logo abreviada para thaler, e ela se difunde com uma rapidez que ninguém pode prever. Em poucas décadas, torna-se o nome pelo qual, em grande parte da Europa setentrional, na Alemanha, nos Países Baixos e na região báltica, passa a ser chamada qualquer moeda de prata de grandes dimensões e de liga quase pura. Do outro lado da Europa, na Península Ibérica, acontece algo semelhante, mas em uma escala consideravelmente maior. Se em 1530 as minas europeias de prata haviam produzido 11.000 kg de prata por ano, as americanas, em 1580, produzem 34.000 kg. A Espanha é inundada pela prata que chega das minas de Potosí e do México e decide cunhar uma moeda de peso e pureza quase idênticos aos do thaler boêmio: o peso de ocho, o peso de oito, que herda o papel de moeda por excelência nas trocas comerciais internacionais. E aqui a história toma um rumo que aos espanhóis da época deve ter parecido incompreensível, porque toda aquela prata, em vez de enriquecer o país, o empobrece. Sancho de Moncada, teólogo e observador perspicaz de seu tempo, compreende isso com clareza e, em seus escritos dirigidos à corte, denuncia como a abundância de metais preciosos está produzindo, paradoxalmente, pobreza generalizada e paralisia produtiva. É o retrato de um mecanismo econômico real, que hoje chamamos de “doença holandesa”. A prata aflui, os preços sobem, os salários sobem junto com eles, e as manufaturas espanholas se veem obrigadas a produzir a custos que nenhum mercado externo está disposto a pagar.

O caso de Toledo, célebre em toda a Europa por suas espadas e seus tecidos de lã e seda, talvez seja o exemplo mais nítido desse processo. Antes da chegada maciça da prata americana, Toledo possui uma classe artesanal próspera e competitiva; depois, seus produtos manufaturados tornam-se caros demais até mesmo para os espanhóis, que preferem comprá-los no exterior, pagando, naturalmente, em prata, em vez de adquiri-los nas caras oficinas de sua própria terra, que, por isso, fecham; os artesãos empobrecem, e o metal precioso que deveria ter sido uma bênção revela-se, ao contrário, um agente de desindustrialização. Ninguém em Madri havia planejado esse resultado. A Espanha do século XVI descobre, na própria pele, que riqueza monetária e riqueza real são duas coisas muito diferentes. A prata tampouco para na Europa. Prossegue sua viagem até a China, onde a dinastia Ming, após a reforma fiscal conhecida como “lei do chicote único”, que impõe o pagamento dos impostos exclusivamente em prata, absorve quantidades colossais. Os comerciantes europeus compram seda, porcelana e chá chineses pagando quase exclusivamente com pesos de oito, porque a China não tem nenhum interesse em importar manufaturas ocidentais. O resultado é que o Império Celestial funciona, na economia mundial da época, como um poço sem fundo que absorve a prata extraída dos Andes e cunhada na Europa sem jamais devolvê-la. É justamente esse circuito, Potosí, Sevilha, Amsterdã, Cantão, que faz do peso de oito a primeira autêntica moeda global da história, muito antes de alguém pensá-la como uma “reserva internacional de valor”, e explica como também o yuan chinês de hoje seja outro descendente do “dólar” espanhol, do qual a palavra é, de fato, uma tradução.

<><> A América colonial

Em 1767, em Maryland, um governador às voltas com as dívidas de guerra faz algo que nenhuma outra colônia britânica havia tentado antes: imprime papel-moeda denominado não em libras esterlinas, mas diretamente em dólares. Partimos dessa data precisa porque, nesse gesto aparentemente burocrático, mas na realidade revolucionário, concentra-se o paradoxo da moeda colonial americana: um continente que vive constantemente sem prata e, ainda assim, pensa, contrata e discute usando como unidade de medida mental justamente essa moeda de prata que não possui, exceto em quantidades muito limitadas. As colônias britânicas vivem na periferia de um império que deseja, por lei, despojá-las de todo metal precioso. As regras mercantilistas britânicas impõem que ouro e prata fluam para Londres para pagar as importações das colônias e, ao mesmo tempo, proíbem a exportação de moeda inglesa para elas. Os poucos pesos de oito espanhóis que os comerciantes coloniais conseguem obter por meio do comércio, legal ou de contrabando, com o Caribe, são quase imediatamente reenviados para o outro lado do oceano para saldar as dívidas com a metrópole. Mas a palavra “dólar” não desaparece de modo algum da linguagem colonial; pelo contrário, permanece como a “moeda de conta” com a qual plantadores e comerciantes avaliam tudo em seus registros, mesmo quando não há sequer um dólar físico em suas gavetas. Para manter a economia de pé, os colonos inventam aquilo que se poderia chamar de um capitalismo da confiança: letras de câmbio que transferem fundos de uma conta para outra, com a garantia de uma carga de tabaco a caminho da Inglaterra, ou então promissórias privadas que passam de mão em mão como se fossem moeda, sustentadas apenas pela reputação de quem as assina. É um sistema frágil, que se sustenta enquanto dura a confiança, enquanto a escassez crônica de moeda física leva as colônias a competirem até mesmo entre si, desvalorizando cada uma seu próprio papel-moeda local na esperança de atrair os poucos dólares espanhóis em circulação. Guerras cambiais em miniatura travadas entre vizinhos que deveriam, ao contrário, ser aliados contra a mesma metrópole.

É nesse cenário de escassez que Horatio Sharpe precisa atuar, nomeado governador de Maryland justamente nos anos em que a guerra Franco-Indígena impõe à colônia enormes despesas militares: é preciso pagar as tropas, fortificar as fronteiras, conter as incursões inimigas. O caminho principal da tributação revela-se impraticável. A assembleia dos colonos resiste e, de todo modo, eles literalmente não têm as moedas com que pagar os impostos. Sharpe recorre então aos bills of credit, títulos de crédito governamentais de curso legal forçado, mas garantidos pelas cotas que a colônia detém no Banco da Inglaterra e, sobretudo, por um sinking fund alimentado por impostos futuros. No início, funcionam e a lei que os institui prevê uma amortização rígida, com prazos fixos para a retirada e a destruição dos títulos, a ponto de eles começarem também a ser acumulados como “reserva de valor”, na ausência de moedas físicas. Mas em Londres pensam de outra maneira: o governo e o Parlamento ingleses, influenciados pelas ideias de Hume, segundo as quais a deflação não é um problema porque os preços se ajustarão e, além disso, isso favorecerá uma maior circulação de moedas físicas de prata, proíbem, com o Currency Act de 1764, a emissão de papel-moeda de curso legal nas colônias. Como previsto, a massa monetária se contrai de repente, mas a deflação que se segue, em vez de estimular a economia, leva à sua desaceleração: os preços agrícolas se ajustam, como dizia Hume, é verdade, mas, ao despencarem, bloqueiam o comércio, e os colonos, que nesse meio-tempo haviam se endividado confiando naquela liquidez, veem-se soterrados por dívidas que não sabem como honrar.

A solução que Sharpe concebe em 1767 é elegante em sua simplicidade: se o problema é que já não se podem emitir títulos de curso legal denominados em libras, por que não ancorá-los diretamente ao dólar espanhol, a moeda que os colonos já utilizam na mente, antes mesmo de utilizá-la nos bolsos? Embora o nobre inglês proprietário da colônia de Maryland por meio de uma royal charter, Frederick Calvert, sexto Lord Baltimore, não lhe dê nenhuma autorização explícita, Sharpe manda emitir o primeiro papel-moeda da história norte-americana denominado oficialmente em dólares, garantindo sua conversibilidade em libras esterlinas, à taxa de 4 xelins e seis pence, e, sobretudo, produzindo muitas cédulas de valores menores para facilitar os pagamentos miúdos. O experimento dá certo, os preços se estabilizam, o comércio recupera o fôlego, e tanto os comerciantes locais quanto os credores ultramarinos depositam confiança nas novas cédulas. É uma pequena revolução que passa quase despercebida nos manuais de história política, mas que antecipa em quase trinta anos a escolha que a república americana fará depois da independência. Sharpe não terá tempo de colher os frutos políticos desse sucesso. Em 1769, é chamado de volta a Londres, deixando para trás uma colônia economicamente saneada, mas que começa a deslizar em direção às tensões com a metrópole que levarão à revolução. O destino de seu antigo “empregador”, Frederick Calvert, Lord Baltimore, é ainda mais impiedoso. Ele é arrastado por escândalos judiciais e por uma conduta privada que a Londres da época considera intolerável e precisa fugir para o continente, onde morre no exílio poucos anos depois, marcando o epílogo de uma dinastia que havia governado Maryland por um século e meio.

<><> De dólares de prata a dólares bancários

Há um momento, na história de toda moeda, em que ela deixa de ser um pedaço de metal e se torna uma promessa escrita em um pedaço de papel; para o dólar, esse momento pode ser associado, não sem alguma simplificação, à Constituição americana de 1787. Vale a pena deter-se nessa passagem, porque ela é menos linear do que parece à primeira vista e porque diz respeito diretamente à maneira como o dinheiro ainda hoje é criado: não pelas casas da moeda, mas pelos bancos, cada vez que concedem um empréstimo e, no mesmo instante, fazem surgir um depósito do nada. Um mecanismo que hoje governa os mercados mundiais e sobre o qual, um século e meio mais tarde, discutem os banqueiros centrais reunidos em Jackson Hole.

Os constituintes da Filadélfia, lembrando-se do caos do papel-moeda dos anos da revolução, que havia levado a desvalorizações impressionantes do papel-moeda emitido pelos diversos estados, decidem cortar pela raiz: aos estados é retirado o poder de cunhar moedas, emitir papel-moeda e considerar legais pagamentos que não sejam feitos em moedas de ouro ou prata. Ponto. Nenhum Estado poderá celebrar Tratado, Aliança ou Confederação; conceder Cartas de Corso e de Represália; cunhar moeda; emitir Títulos de Crédito; declarar qualquer coisa, exceto moedas de ouro e prata, como meio legal de pagamento de dívidas; aprovar qualquer Bill of Attainder, lei ex post facto ou lei que prejudique a obrigação dos contratos; ou conceder qualquer Título de Nobreza. Parece uma solução definitiva, mas a Constituição não diz uma palavra sobre os bancos privados. Não os proíbe, não os regulamenta, simplesmente não os considera. E essa distração ou silêncio calculado — e seria interessante saber até que ponto os constituintes tinham consciência disso, mas essa é uma pergunta à qual as fontes não permitem responder com certeza — abre a porta para todo um século de cédulas emitidas por instituições privadas, formalmente conversíveis em metal precioso, mas, na prática, cada vez mais distantes dele. As pessoas se acostumam assim a pagar com a promessa de um banco em vez de pagar com prata de verdade.

De 1806 a 1835, de fato, não é cunhada sequer uma moeda de um dólar nos EUA. É verdade que o Congresso fundou uma casa da moeda federal que começou a operar já em 1792, reproduzindo em valor e peso as moedas de prata espanholas. Mas nunca conseguirá produzir o suficiente para as necessidades internas e, sobretudo, as moedas de um dólar acabam regularmente exportadas, como acontecia também com as europeias, para os mercados orientais, razão pela qual deixam justamente de ser cunhadas, concentrando-se a produção nas moedas de valor mais baixo, que são extremamente procuradas para as transações cotidianas. Para ver o que isso significa na prática, deslocamo-nos para Nova Orleans, cidade portuária que, na primeira metade do século XIX, talvez ofereça o mais belo exemplo de desordem monetária de todos os Estados Unidos. Nos mercados da cidade circula o picayune, uma pequena moeda de prata espanhola que vale um décimo sexto de dólar, a clássica “moeda pequena”, indispensável para quem precisa comprar o pão de cada dia. Ao lado desse trocado de prata circulam as cédulas dos chamados property banks, instituições cujo capital não é constituído por reservas líquidas, mas por títulos garantidos por terras e seres humanos escravizados: as propriedades dos plantadores de algodão e açúcar da Louisiana. Esses bancos imprimem, de fato, cédulas de todos os valores para financiar a expansão agrícola e mercantil, mas são tão frágeis quanto seus ativos são imobilizados. Quando, em 1837, as exportações de algodão são interrompidas e as entradas de prata do exterior param, desencadeia-se uma verdadeira bank run para converter as cédulas em prata nos bancos. Estes ficam, depois de poucos dias, sem prata física, e as cédulas perdem praticamente todo o seu valor. Os únicos que ainda as aceitam, com enorme desconto, são os donos de tavernas, em troca de bebidas alcoólicas e outras bebidas. Nunca se bebeu tanto em Nova Orleans quanto naqueles dias. A crise de liquidez torna-se tão grave que a prefeitura precisa intervir, imprimindo por conta própria cédulas rudimentares de pequeno valor, posteriormente chamadas, com o típico understatement americano, de “shinplasters”, “emplastros para a canela”, apenas para manter vivos os pequenos intercâmbios.

Enquanto a América enfrenta essas dificuldades bancárias, do outro lado do mundo apaga-se um mecanismo que durante três séculos havia regulado a economia mundial da prata. A China da dinastia Qing exige, para seus impostos e seu comércio, moedas de prata de fabricação muito precisa: os chamados dólares “cabeça de Buda”, que, na realidade, trazem a efígie não de Buda, mas do rei da Espanha Carlos III, cujo perfil os comerciantes chineses consideravam semelhante, ou as moedas com o desenho conhecido como “asas de morcego”, cunhadas no México e na Boêmia. Para obter essas moedas específicas, os ocidentais que querem comprar chá e seda precisam fazê-las chegar de meio mundo de distância, alimentando aquele escoamento de prata em direção ao Oriente de que já falamos. Mas agora acontece algo que inverte trezentos anos de equilíbrios: o comércio de ópio, promovido por todos os meios pelos britânicos, inclusive por meio de verdadeiras guerras, começa a obrigar os consumidores chineses a pagar pela droga em prata e, pela primeira vez na história, o fluxo do metal se inverte, da China para o Ocidente. O grande poço de absorção da prata mundial, aquele que havíamos visto se formar com a reforma fiscal dos Ming, deixa de funcionar. Não porque a China tenha deixado de querer prata, mas porque começou a ter de devolvê-la. Como se isso não bastasse, justamente nesses mesmos anos ocorre um fato que, em solo americano, encerra definitivamente a era do dólar de prata: em 1848, descobre-se ouro na Califórnia.

O afluxo repentino do metal amarelo altera a relação de valor entre ouro e prata, tornando esta última, paradoxalmente, mais valiosa do que seu valor oficial de cunhagem. Aplica-se então a velha lei de Gresham, segundo a qual a moeda ruim expulsa a moeda boa: quem possui dólares de prata prefere fundi-los e revendê-los como metal, ou enviá-los para o exterior, onde valem mais, em vez de gastá-los pelo valor nominal. As moedas de prata, em suma, não são confiscadas nem abolidas por lei; simplesmente desaparecem porque se torna mais conveniente fazê-las desaparecer, e o mundo ocidental, inclusive os EUA, adota um novo sistema monetário, o Gold Standard. É um epílogo perfeitamente coerente com tudo o que contamos até agora: o dólar de prata, nascido em uma mina boêmia, desenvolvido ao longo das rotas espanholas e chinesas, morre como moeda de uso comum não por um decreto, mas por um cálculo de conveniência feito por milhares de pessoas comuns, cada uma por conta própria. Daqui em diante, o dólar será cada vez mais uma questão de bancos e cada vez menos uma questão de metal.

<><> Da nota bancária à moeda global

Em 1907, durante algumas semanas do outono, todo o sistema financeiro americano corre o risco de parar. Basta o colapso de uma tentativa especulativa com as ações de uma empresa de mineração de cobre para que a desconfiança se espalhe de banco em banco. As agências fecham, os pagamentos são interrompidos, os depositantes se aglomeram para retirar dinheiro que, simplesmente, não existe, porque os bancos, como sempre acontece, mantêm em caixa apenas uma fração do que foi depositado. É o pânico que finalmente convence o Congresso a fazer aquilo que a América havia adiado por um século: criar um banco central. Nasce assim, em 1913, o Federal Reserve, pensado para emprestar liquidez emergencial aos bancos em dificuldades.

Funciona, mas apenas até certo ponto. Quando chega a Grande Depressão, vinte anos depois, milhares de bancos fecham as portas e, com eles, desaparecem as economias de milhões de americanos e boa parte da moeda em circulação. A lição é que ter um banco central não basta para tornar realmente seguro um sistema baseado no crédito privado. Nessa crise repete-se, como um déjà-vu, a história que já havíamos visto em Nova Orleans um século antes: quando falta dinheiro oficial, alguém o inventa. O economista Irving Fisher, um dos mais importantes teóricos monetários de seu tempo, defende o uso de moedas locais de emergência, os scrip. Quem os coloca em prática, em uma pequena cidade de Iowa chamada Hawarden, é um funcionário municipal chamado Charles Zylstra, que manda imprimir cédulas locais às quais deve ser aplicada uma marca fiscal a cada transação; sua arrecadação financiará o resgate final do papel-moeda. Um mecanismo um tanto complicado, se quisermos, mas eficaz, e sua difusão em outras comunidades demonstra mais uma vez que a moeda nunca é apenas uma questão técnica, mas também sempre um produto de decisões políticas.

A guerra, como frequentemente acontece, resolve aquilo que a paz não havia conseguido resolver. Durante a Segunda Guerra Mundial, o Federal Reserve trabalha em estreita colaboração com a Casa Branca para manter baixo o custo da dívida pública, financiando o esforço de guerra por meio da expansão do crédito bancário. No pós-guerra, com os acordos de Bretton Woods, o dólar sai definitivamente das fronteiras americanas para se tornar o eixo de todo o sistema mundial de câmbios. As demais moedas se ancoram ao dólar e o dólar, apenas para os bancos centrais estrangeiros, note-se, permanece conversível em ouro à taxa fixa de 35 dólares por onça. É o momento de máxima glória da velha equação entre moeda e metal; mas, como veremos, é também o início de seu fim.

Nos anos 1950, quase silenciosamente, abre-se em Londres uma fissura que ninguém sabe, no início, até onde irá se ampliar: o mercado de eurodólares. Trata-se, em palavras simples, de depósitos em dólares mantidos em bancos europeus, fora da jurisdição do Federal Reserve e, portanto, fora do alcance de suas regulamentações sobre reservas e taxas de juros. A City de Londres descobre nesse vazio normativo uma oportunidade de ouro e, em pouco tempo, são os próprios bancos americanos, por meio de suas filiais no exterior, que passam a utilizar esses dólares offshore para contornar as restrições de crédito impostas em seu país. Na Fed, alguém percebe isso e não gosta nem um pouco. Andrew Brimmer, membro do conselho de governadores, lança mais de um alerta sobre esse mercado paralelo que, na prática, escapa ao controle do banco central que deveria governar a moeda americana. Propõe medidas de contenção; mas as autoridades da Fed, mais interessadas em não dificultar a expansão dos mercados financeiros internacionais do que em defender a ortodoxia monetária, deixam correr.

O ponto de ruptura chega em 1971. Alguns bancos centrais europeus, em particular o alemão e o francês, sentados sobre montanhas de dólares acumulados graças às exportações para os EUA e preocupados com a inflação americana, começam a pedir sua conversão em ouro. E o ouro, simplesmente, corre o risco de não ser suficiente. Richard Nixon, diante do risco de ver Fort Knox esvaziado, decide suspender, de um dia para o outro, sua conversibilidade. É o fim de Bretton Woods e é um momento em que muitos — economistas, banqueiros, observadores — esperam o pior. Um dólar sem ouro, pensa-se, corre o risco de perder toda a credibilidade no mercado de câmbio. Dois anos depois, a crise do petróleo de 1973 parece oferecer uma ocasião perfeita àqueles que queriam ver o dólar afundar. O que farão os países árabes, repentinamente enriquecidos pelo aumento do preço do petróleo, com todos aqueles dólares em suas mãos? A resposta, para desgosto dos pessimistas, é que os reinvestem em títulos do Tesouro americano e os depositam nos bancos ocidentais, consolidando, em vez de enfraquecer, o papel internacional da moeda dos EUA. Privado da ancoragem ao ouro, o dólar não desaba, portanto, mas descobre-se simplesmente que ele é aquilo em que já havia se transformado muitas décadas antes, desde os tempos das cédulas de Nova Orleans: não um pedaço de metal, mas uma rede de confiança e contratos, sustentada pela profundidade e pela estrutura dos mercados financeiros americanos mais do que por qualquer outra garantia. O fim da conversibilidade não é, portanto, um colapso, mas o desvelamento de uma natureza que o dólar já possuía havia muito tempo, sem que ninguém tivesse tido coragem ou necessidade, até aquele momento, de admiti-la abertamente.

 

Fonte: La Storia e Le Idee | Tradução: Lucas Scatolini, para Outras Palavras

 

O Brasil à beira do precipício outra vez

Este economista que vos escreve não escapa da polarização política generalizada que marca o Brasil dos últimos tempos. Do centro para direita, é provável que poucas pessoas me leiam com o coração aberto. Assim, devo supor que o leitor ou leitora que me lê agora é de esquerda ou centro-esquerda. Hoje quero conversar com vocês direta e confidencialmente sobre a emergência nacional que enfrentamos nas eleições de outubro. Portanto, se houver algum bolsonarista extraviado por esta página, peço a ele a gentileza de se retirar imediatamente.

E prossigo. Creio que podemos dividir a esquerda brasileira atual em três grandes blocos. Um primeiro é a esquerda lulista, totalmente fiel ao presidente da República. Não faz críticas a ele e rejeita liminarmente quem as faça, pela direita e mesmo pela esquerda. Tem ódio visceral ao “fogo amigo”, que considera inoportuno, quase uma traição.

O segundo bloco é à esquerda radical, geralmente marxista ou quase marxista. Revoltada com o Lula 3, declara enfaticamente que ficará neutra em 2026. Os mais extremados chamam o presidente de “pelego”, “neoliberal” e “traidor”.

O terceiro é a esquerda crítica, que também está desiludida com o Lula 3. Vinha fazendo críticas ao governo, e não renega essas críticas, mas vai votar pela reeleição do presidente.

Faço parte do terceiro. E queria me dirigir hoje sobretudo ao segundo bloco.

Amigos da esquerda radical, faço um apelo: não se deve perder de vista que a eleição de 2026 representa um risco existencial para o Brasil, particularmente por sua dimensão internacional. Não é a primeira vez que estamos à beira de um precipício, verdade. Estávamos assim em 2018 e, de novo, em 2022. Em 2018, Jair Bolsonaro foi eleito, o que levou a tremendo retrocesso no País em inúmeras áreas. Em 2022, Lula derrotou Jair Bolsonaro por margem apertada, o que nos permitiu interromper a destruição e reiniciar a reconstrução do Brasil.

Temos, portanto, experiência com precipícios. Mas desta vez há um agravante: o Imperialismo dos Estados Unidos entrou em nova fase, de muita agressividade, em especial para com a América Latina, que é apresentada oficialmente como área de influência e até mesmo quintal estado-unidense. O que aconteceu com a Venezuela em 2026 é um alerta gigantesco para toda a região. O sequestro do presidente venezuelano e a posterior transformação do país vizinho em protetorado dos Estados Unidos é algo inédito na história da América do Sul nos tempos pós-coloniais. E abriu as portas para uma verdadeira pilhagem dos recursos petrolíferos da Venezuela.

Nesse ambiente, eleger um candidato entreguista é um risco enorme. Permitiria ao Império submeter o Brasil, maior país da América Latina, à sua influência e controle sem disparar um único tiro. Flávio Bolsonaro combina exatamente com os planos dos Estados Unidos. Trata-se de um candidato a vassalo, condição que ele revela sem nenhuma vergonha.

Relembro um episódio recente e verdadeiramente estarrecedor. Veio a público uma carta de Marco Rubio, o ministro das relações exteriores de Donald Trump (aquele que parece ter sido escalado para ser uma espécie de vice-rei da América Latina), em que ele agradece a Flávio Bolsonaro – veja bem, leitor ou leitora – por ter oferecido em carta, caso eleito, a criação de um grupo de transição com o governo dos Estados Unidos!

Não é boato. Cito a carta de Rubio diretamente: “We note your optimism regarding the upcoming October elections and your generous offer to place a transition team at our disposal should you be elected.” (Tomamos nota do seu otimismo em relação às próximas eleições de outubro e da sua generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso seja eleito).

É uma oferta inacreditável. Grupos de transição podem se constituir como ponte entre dois governos nacionais para facilitar a transição do governo que está saindo para o governo eleito. Não me consta que haja precedente para a oferta de Flávio Bolsonaro. Perto disso, Roberto Campos (o avô), o grande defensor do alinhamento aos Estados Unidos em outros tempos, faz figura de fervoroso patriota. Já podemos reimaginar Roberto Campos (que ficou conhecido em sua época com “Bob Fields”) hierático, perfilado sem pestanejar perante a bandeira e o hino nacionais.

Em contraste, Lula oferece um nacionalismo discreto, equilibrado. Verdade que esse nacionalismo é mais retórico do que prático. Mas o fato é que ele oferece alguma contestação, ainda que cautelosa, ao projeto imperial dos Estados Unidos. Justiça seja feita a Lula. Embora infestado de neoliberais e conservadores, o seu terceiro governo enfrentou bem algumas questões desafiadoras.

Dou apenas um exemplo marcante: a postura do presidente brasileiro perante o genocídio praticado por Israel contra os palestinos. Lula poderia ter silenciado, mas botou a boca no trombone, provocando reações duras da parte de Israel e do lobby sionista. As suas repetidas críticas ao governo Benjamin Netanyahu repercutiram mundialmente.

Já Flávio Bolsonaro, a exemplo do seu pai, é um sionista desbragado. Fez diversos gestos e pronunciamentos de adesão a Israel. Anunciou, orgulhoso, o primeiro nome do seu ministério: ninguém menos que Cláudio Lottenberg, o presidente da principal organização sionista no Brasil – a Conib, Confederação Israelita do Brasil. Só esse apoio vergonhoso a Israel e ao sionismo, já seria suficiente para não votar nunca nessa figura deplorável – e para não facilitar a sua eventual eleição optando pelo voto nulo.

Preciso dizer algo mais? Em caso afirmativo, um derradeiro argumento, também acachapante. Quem é o principal eleitor de Flávio Bolsonaro? Ninguém menos que o pai, que vem a ser o pior presidente da história do Brasil – e olha que a concorrência é grande! Jair Bolsonaro destronou, sem cerimônia, Fernando Collor, aquele que ocupava até então a posição de pior presidente da história. O estrago realizado no governo Bolsonaro, o pesado legado que deixou para o seu sucessor, não deve ser esquecido. Se Jair Bolsonaro, recomenda o voto em alguém, é exatamente neste alguém que não se deve votar em nenhuma hipótese.

I rest my case, como dizem os advogados anglo-americanos quando concluem a sua argumentação. Já não é necessário, acredito, acrescentar mais nada contra essa candidatura.

Para os correligionários do terceiro bloco, que chamei de esquerda crítica, digo apenas o seguinte: não faremos, eu sei, como fizemos na eleição de 2022, pelo menos não na mesma medida, o trabalho de formiguinha de conquistar alguns votos para Lula. Falta-nos a convicção decorrente da esperança que a volta de Lula então suscitava. Mesmo assim, meu apelo é: tentem ganhar nem que seja um voto, um único e mísero voto para ele. Assim, você trará pelo menos dois votos para nos afastar do precipício à beira do qual estamos.

Finalmente, um pedido aos lulistas do bloco 1: que a lealdade de vocês a Lula se traduza em luta corpo-a-corpo, renhida, junto aos indecisos para ganhar votos para a reeleição. Afinal, de que serve uma lealdade que não se traduz em esforços práticos?

Votar em Lula, conquistar votos para ele, é questão de salvação nacional!

•        Maior escárnio da corrupção moral na campanha eleitoral. Por César Fonseca

O que pensar dessa maravilhosa foto de Breno Carvalho, de O Globo, tirada de uma fresta de cortina atrás de uma janela; naquele momento, Suas Excelências haviam terminado seu trabalho nas sessões do STF, nesta quarta-feira?

Esperavam eles o elevador para irem para suas casas, depois do expediente, durante o qual analisaram o momento nacional em que o Judiciário se encontra mergulhado na lama.

Motivo para sorrir? — pergunta-se qualquer leigo diante dos fatos de que se tem notícia, emanados daquela Corte, dividida por interesses inconfessáveis.

Certamente, nenhum, quando se sabe que entre as quatro paredes pega fogo a relação de ministros envolvidos no escandaloso caso do Banco Master, cujo dono comprou com o dinheiro grosso as consciências da República, para tentar se livrar das acusações pra lá de cabeludas.

Gente do Judiciário, do Legislativo e do Executivo, sem contar demais instituições que pululam em torno dos três poderes republicanos, está envolvida no nebuloso caso que ganha ímpeto em plena campanha eleitoral, exigindo dos candidatos postura crítica diante do que escandaliza a sociedade neste momento.

De um lado estão os candidatos irmanados da direita, da ultradireita e do centro-direita, donos do poder semiparlamentarista inconstitucional que jogou por terra o presidencialismo constitucional ditado pela Constituição de 1988, parecida com um trapo velho fedorento.

De outro, parte do governo, alguns dos seus expoentes, acusados de terem sujado as mãos, também precisa ser exposta, sem piedade, para o justo julgamento legal.

Uma coisa parece certa, nesse instante: o chefe da nação, também candidato, não tem nada a ver com o negócio, visto que sua administração agiu corretamente ao mandar fechar o banco acusado de fraude e prender seu dono e comparsas.

Já seu maior adversário, fascista na visão das pesquisas eleitorais, está atolado até o pescoço: relacionou-se, desavergonhadamente, com o banqueiro, para obter recursos à realização de um filme sobre a vida do pai, recursos estes extraídos do bolso do contribuinte, como provam os fatos que abundantemente circulam na mídia.

Não há motivo nenhum para sorrisos sobre essa mancha que lança a certeza da falência dessa falida 6ª República, salpicada de corrupção por todos os lados.

Qual o discurso dos candidatos em disputa deve ganhar projeção para chamar a atenção do eleitorado que irá às urnas, nas próximas semanas?

Do lado dos envolvidos — os senhores do semiparlamentarismo corrupto, apoiados pelo dinheiro de um mercado financeiro inescrupuloso, cuja expressão maior se apresenta na pessoa do banqueiro Daniel Vorcaro —, pura hipocrisia, a pedir a cabeça do ministro que colocou sua mulher advogada a servir aos interesses do banqueiro corrupto.

Tanto dinheiro por um contrato que ficará para a história reveladora do momento nacional totalmente incompatível com a moralidade pública.

R$ 130 milhões!

Uma baba de dinheiro assustadora, sabendo que Sua Excelência revisou o contrato, dando seu aval, na certeza de que não havia impedimentos legais à feitura do trabalho, que, agora, se sabe sujo.

Resta ao presidente da República, contra o qual não se pode alegar nada até agora, fazer o que clama a sociedade: defender a honra de uma Nova República, capaz de remover o entulho imundo nas salas do poder, doa a quem doer, levando às grades quem deve ser levado, depois de transitados em julgado os trâmites legais.

Se não agir nesse sentido, uma mancha estará cobrindo suas ações no palácio do governo, de onde emanaria o enxofre insuportável que as cobriria de opróbio.

Não há como não mandar lavar com água sanitária tamanha sujeira, que, se mantida como está, virará empecilho à governabilidade no período pós-eleitoral.

Lula está com a chave na mão para fazer o serviço público número um que a sociedade exige: restaurar a moralidade pública, ele como o servidor público número um da nação.

A corrupção dos poderes republicanos ganha o pódio na disputa eleitoral.

Trata-se do fato mais assustador a incomodar a consciência nacional na disputa pelo voto popular.

O presidente, se fizer como fez o Cristo no Templo, brandindo o chicote contra os vendilhões da moralidade, estará saneando o seu terceiro mandato para se credenciar, com galhardia, ao quarto.

Do contrário, manterá misturado o joio com o trigo, o que leva ao escárnio expresso das risadas de Suas Excelências flagradas sensacionalmente por Breno Carvalho.

•        Esquerda: hora de lutar por uma reforma política radical para derrotar o sistema dos “podres poderes”. Por Milton Alves

Os escândalos são sucessivos, as maracutaias pululam em todos os escalões da República e um lúmpen-banqueiro comprou e seduziu autoridades no Judiciário, no Parlamento, nos Executivos estaduais, dirigentes partidários e, dizem as más línguas, até concursos de miss no interior de Minas Gerais. Um tsunami de corrupção que arrastou quase tudo e quase todos.

Aos olhos de um vasto setor da população brasileira, o sistema está podre, e o discurso antissistema é vocalizado pela extrema-direita. A esquerda, majoritariamente, aparece como uma força tributária na defesa do sistema, que apresenta na superfície uma crise prolongada das instituições e permanente instabilidade política, exigindo uma mudança radical para garantir um novo reordenamento institucional e a legitimidade dos atores políticos na disputa de projetos na sociedade.

O golpe de 2016 contra o mandato da presidente Dilma Rousseff foi mais um capítulo do impasse crônico e do esgotamento do modelo atual, oriundo do “pacto por cima” durante a chamada transição democrática da ditadura militar até a convocação da Assembleia Nacional Constituinte – em novembro de 1985 –, uma assembleia limitada, sem soberania, que adotou algumas medidas progressistas por pressão da força organizada dos sindicatos e movimentos sociais.

Atualmente, o choque e a usurpação de atribuições atravessam os Poderes Executivo, Legislativo e Judiciário — e são fatores que agravam o cenário de crise das instituições. Dois exemplos são mais gritantes: o Supremo Tribunal Federal (STF) opera abertamente na arbitragem de conflitos políticos no Congresso, e o Parlamento açambarcou uma gorda fatia do orçamento da União através do mecanismo criminoso das emendas secretas.

Além disso, permanece intocável a tutela militar, eternizada por um nefasto dispositivo constitucional, o fantasmagórico artigo 142, uma sombra que ameaça os anseios democráticos e de emancipação social do povo trabalhador.

A defesa de uma reforma política profunda no quadro da disputa eleitoral de 2026 e pela reeleição de Lula é uma pauta necessária para as forças de esquerda e democráticas. Esta reforma é uma medida estrutural, que será consolidada pela convocação de uma Assembleia Nacional Constituinte Soberana, no bojo de um amplo movimento democrático e popular, por bandeiras como a revogação das contrarreformas trabalhista e da previdência, o fim do arcabouço fiscal, a revogação das privatizações das refinarias e da Eletrobras, a criação da TerraBras e o imposto sobre as grandes fortunas. Ou seja, uma agenda transformadora e capaz de disputar os rumos do país.

Uma reforma política estrutural demanda o financiamento público exclusivo de campanha, o voto em lista pré-ordenada – com paridade de gênero, raça e etnia –, a revisão do critério de proporcionalidade das representações estaduais e mecanismos que favoreçam maior participação popular no processo político.

Uma tarefa de dimensão histórica para a esquerda ser a coveira dos podres poderes. Resta saber se será…

 

Fonte: Por Paulo Nogueira Batista Jr., em A Terra é Redonda/Brasil 247