sexta-feira, 25 de setembro de 2026

Fascismo do fim dos tempos

Neste verão, à medida que o calor implacável e a seca faziam baixar seus níveis de água, o Danúbio começou a revelar seus segredos. Como se fossem monstros surgindo da lama do tempo, começaram a aparecer destroços afundados da Segunda Guerra Mundial.

Na Sérvia, ao secar, o rio deixou à mostra pelo menos 20 navios nazistas, alguns deles ainda carregados de munição não detonada. Na Hungria, revelou uma motocicleta militar nazista coberta de lama quente, ao lado das medalhas e placas de identificação enferrujadas de dois soldados alemães. Na Eslováquia, um transeunte avistou, no rio quase inexistente, uma enorme bomba de 680 quilos lançada pela Royal Air Force. As autoridades tiveram que transportar com cuidado a arma, que estava submersa há mais de 80 anos, e detoná-la no subsolo, a grande profundidade.

Muitos observadores têm a sensação de que estas aparições fantasmagóricas e ameaçadoras do passado da Europa são, mais do que uma curiosidade histórica, uma metáfora demasiado literal: a maneira que a natureza tem de confirmar a frase de William Faulkner de que “o passado nunca morre. Nem mesmo é passado”.

A impressão de que a história se repete está baseada em muitos fatos. Ao longo de todo o Danúbio, na última década, houve um auge da nostalgia por uma época em que a “civilização europeia” dominava de forma absoluta, e cada nova onda da extrema-direita flerta, com mais descaramento do que a anterior, com políticas e slogans raciais que se supunha terem sido enterrados com o fim do Terceiro Reich.

A magnitude desse renascimento ficou evidente no início de 2025, na Conferência de Segurança de Munique. Lá, o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, recém-empossado, repreendeu os líderes europeus por manterem uma barreira política que isolava partidos de extrema-direita antes intocáveis. Além disso, ele fez de tudo para reunir-se com o partido alemão Alternativa para a Alemanha (AfD), que divulgou propostas para a “remigração” de grandes quantidades de pessoas e cujo antigo co-líder chegou a dizer que a época nazista não passava de um “cocô de pássaro” na história do país. Em setembro deste ano, o partido obteve um avanço eleitoral histórico na Saxônia-Anhalt, conquistando 43,8% dos votos.

Mais a leste, às margens do Danúbio, o Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), fundado em 1956 por um ex-funcionário nazista, goza da maior popularidade de sua história, e Walter Rosenkranz, membro de destaque do partido, ocupa o segundo cargo mais importante do país. No ano passado, o chefe de gabinete de Rosenkranz teve que renunciar quando se soube que uma investigação oficial sobre os “Separatistas Saxões”, de extrema-direita, tinha descoberto um estoque de munição e parafernália nazista numa propriedade ligada a ele, embora ele tenha negado morar lá.

Por coincidência, o grupo que está no centro da polêmica tem as iniciais “SS”, assim como por coincidência Elon Musk, defensor ferrenho da AfD e de outros grupos da extrema-direita europeia, expressou sua gratidão aos eleitores de Donald Trump em janeiro de 2025 com um gesto que muitos interpretaram como uma saudação nazista. (Elon Musk minimizou as críticas e publicou em sua plataforma X: “Francamente, vocês precisam de truques melhores. A crítica de que ‘todo mundo é Hitler’ está muuuito batida”).

Assim como os navios de guerra naufragados que estão vindo à tona à medida que o nível do Danúbio baixa, o fascismo parece estar ressurgindo na Europa, nos Estados Unidos e em outros países. No entanto, depois de termos acabado de escrever um livro sobre as características distintivas do fascismo contemporâneo, não nos agradam muito as comparações históricas lineares. Pelo contrário, se quisermos compreender a extrema-direita atual, seria melhor não nos limitarmos às relíquias enferrujadas e prestarmos mais atenção à seca alarmante do leito do rio.

O fascismo sempre aparece em épocas de crises agudas. Foi o que aconteceu, sem dúvida, com Benito Mussolini e Adolf Hitler quando abriram caminho à força até o poder. A Primeira Guerra Mundial tinha ceifado a vida de milhões de pessoas, destruído economias e lotado as cidades de órfãos, viúvas e veteranos mutilados que viviam na pobreza.

No entanto, ver hoje sistemas fluviais tão poderosos e importantes submetidos a uma pressão semelhante (enquanto, a milhares de quilômetros, inundações glaciais arrasam vilarejos inteiros) lembra-nos que as crises atuais são muito diferentes das que, há um século, levaram as populações a buscar líderes autoritários e bodes expiatórios. Hoje, elas têm uma escala mais planetária e, consequentemente, uma dimensão mais existencial e apocalíptica.

Hitler e Mussolini demonstraram que estavam dispostos a desencadear uma violência monstruosa e ilimitada. Mas ambos morreram antes do famoso Teste Trinity, o primeiro teste nuclear: eles não conheceram um mundo em que os seres humanos controlassem o poder das armas nucleares. Também não sabiam que os escapamentos e as chaminés poderiam alterar a química do nosso planeta. Nem aqueles ditadores podiam imaginar que um único cidadão pudesse possuir mais riqueza e poder tecnológico do que a grande maioria dos países.

Os fascistas de hoje não conheceram um mundo sem essas armas e esses perigos de dimensão planetária e construíram sua ideologia violenta paralelamente a isso.

Tal fato, por si só, significa que não estamos diante de uma repetição do autoritarismo histórico. Trata-se, antes, de uma continuação que nos leva a todos a cenários nos quais nunca tínhamos estado. Esse novo e assustador fenômeno é o que chamamos de “fascismo do fim dos tempos”.

Na década de 1950, após escapar dos nazistas, o filósofo judeu-alemão Günther Anders refletia em seus escritos sobre a mudança drástica introduzida pela era atômica: “Como somos os primeiros seres humanos responsáveis pelo apocalipse, também somos os primeiros a viver sob sua ameaça”. Pela primeira vez, observou ele, estava em jogo a perspectiva da extinção humana, do omnicídio. “Todas as outras supremacias representavam uma ameaça parcial; aniquilavam apenas entidades concretas: ‘apenas’ seres humanos, ‘apenas’ cidades, ‘apenas’ reinos, ‘apenas’ culturas; mas nós continuávamos nos livrando disso (se interpretarmos que esse ‘nós’ significa a humanidade)”.

Hoje, essas garantias não existem, sobretudo porque a inteligência artificial agrava uma série de riscos existenciais: entre outras coisas, consome quantidades enormes de energia que contribuem para o aquecimento global, facilita níveis de concentração de riqueza que colocam a democracia em risco e aumenta a ameaça de uma tecnologia incontrolável.

Há 30 anos, o filósofo e teórico italiano Umberto Eco – que viveu durante o regime de Benito Mussolini na Itália – observou que o fascismo sempre tem “um complexo de Apocalipse” e explicou que, “se for preciso derrotar os inimigos, deverá haver uma batalha final, após a qual o movimento terá o controle do mundo”.

Mas, como Günter Anders compreendia, embora a violência que os fascistas exerciam contra os grupos marginalizados de seu próprio país e contra seus inimigos externos fosse, de fato, apocalíptica, mais do que o verdadeiro fim do mundo, o que eles estavam imaginando era a destruição de partes concretas dele. Em geral, eles previam um futuro em que as guerras terminariam e surgiria uma entidade nacional purificada, rica e estável.

É importante destacar que essa promessa de um futuro estável não era apenas para os ricos, mas também para a classe trabalhadora. Os nazistas prometiam a seus seguidores arianos terras agrícolas confiscadas dos eslavos e casas confiscadas dos judeus, conectadas por infraestruturas novas e sólidas, construídas graças a gigantescas obras públicas. Era um sonho terrível e sanguinário, mas, para os membros do grupo ao qual se dirigiam, trazia benefícios tangíveis.

É isso que diferencia completamente Donald Trump e os demais líderes de extrema direita de sua órbita de predecessores. Durante as campanhas eleitorais, exibem-se diversas promessas de uma era de ouro: o retorno ao emprego industrial dos anos 1950, com esposas tradicionais e filhos obedientes esperando em casa, ou a esperança de que as criptomoedas deem asas à liberdade econômica. Mas dá a impressão de que os robôs querem monopolizar os empregos e, além de enriquecerem esplendidamente a família Trump, as criptomoedas também não estão se mostrando o que se esperava.

Enquanto isso, não parece que os políticos e as elites empresariais que sustentam o fascismo do fim dos tempos tenham qualquer plano para um futuro ao alcance daqueles que não são ricos. Em vez disso, eles preveem “tempos difíceis” permanentes, como disse certa vez o diretor executivo da Palantir, Alex Karp, e imaginam um mundo em que grupos relativamente pequenos sobreviverão, protegendo a si mesmos e sua riqueza em meio ao caos, aos conflitos e aos desastres sucessivos.

Ou seja, o fascismo do fim dos tempos oferece pouco mais do que a oportunidade de acreditar numa de suas visões de sobrevivência entrincheirada. Talvez essa visão seja o sonho de fundir-se com máquinas “superinteligentes” para não fazer parte do que os programadores do Vale do Silício já chamam naturalmente de “classe marginal permanente”. Talvez seja a ideia de manter “os nossos” a salvo dentro de um Estado-nação racialmente purificado, fortificado e protegido contra os necessitados num mundo em chamas. Talvez seja (se a pessoa for rica o suficiente) uma vaga em um dos foguetes de Elon Musk e um chip da Neuralink, já que ele afirma querer salvaguardar o destino de nossa espécie transformando-nos em “multiplanetários”. Em nenhum desses casos não se considera nem o destino deste mundo nem a possibilidade de um futuro compartilhado e sustentável.

É preciso deixar claro que o fascismo do fim dos tempos não é um bloco monolítico; o fascismo é sempre muito mais caótico. Na verdade, trata-se de uma aliança conflituosa e perigosa entre três grandes facções: os fundamentalistas religiosos, os defensores da aceleração tecnológica e os etnonacionalistas militantes.

Não faz muito tempo, a visão verdadeiramente apocalíptica do mundo era patrimônio exclusivo dos recônditos mais marginais da direita religiosa. Seus teocratas e crentes sinceros examinavam a atualidade em busca de sinais de que o dia do Juízo Final se aproximava, convencidos de que seriam levados para o céu enquanto os restos da civilização humana afundavam no caos e no Armagedom.

Agora, esses extremistas conseguiram tornar-se uma força de peso nos governos dos Estados Unidos e de Israel, onde exercem uma política de conflito militar estratégico com o objetivo de cumprir o que consideram uma profecia bíblica. Durante uma entrevista recente para um podcast evangélico, D. J. Vance refletiu sobre a possibilidade de que suas ações pudessem provocar “o fim dos tempos” e confessou que não ficaria “surpreso se o Anticristo estivesse entre nós”; exatamente o que diz seu patrocinador e mentor, Peter Thiel.

Na verdade, o Vale do Silício está impregnado de uma atitude messiânica e milenarista, e os gigantes da tecnologia competem para criar divindades digitais que, segundo dizem, ou trarão a terra prometida ou destruirão tudo. (Sam Altman disse certa vez que a inteligência artificial “provavelmente, quase com toda segurança, provocará o fim do mundo, mas, enquanto isso, haverá empresas fantásticas”). Um niilismo muito semelhante é o que sustenta a obsessão pelas “invasões” nas fronteiras e a ideologia da “grande substituição”, bem como a afirmação apocalíptica de que a imigração é uma forma de “suicídio” e de “apagamento” cultural (que é a única parte dessa aliança com verdadeiro apelo para as massas).

É notável que, em todas essas visões isolacionistas, não haja nenhum plano para abordar seriamente as razões de nossas crises coletivas mais prementes; ao contrário, parece haver certo empenho em acelerar a catástrofe em todas as frentes.

E isso nos leva de volta a este verão europeu de calor e seca sem precedentes. Durante o mesmo verão brutal que trouxe à tona essas relíquias nazistas, a Europa registrou um excedente de mortalidade de 16 mil pessoas em apenas uma semana, e enormes extensões do continente foram consumidas pelas chamas, com o consequente deslocamento de centenas de milhares de residentes. Enquanto os espanhóis fugiam em busca de segurança, Santiago Abascal, líder do partido de extrema direita espanhol Vox, apontou o dedo para o “fanatismo climático” e para a corrupção governamental que, segundo ele, teriam facilitado os incêndios.

Santiago Abascal também se apressou em mudar de assunto e desviar a atenção das catástrofes climáticas que os europeus estavam enfrentando para a suposta emergência migratória no norte da África. Ele classificou falsamente as dezenas de milhares de migrantes que entraram em Ceuta no final de julho como um “exército invasor” dedicado a violar e saquear (sem levar em conta que Ceuta faz parte da Espanha apenas devido a séculos de verdadeiras invasões, nem que quase todos os migrantes foram devolvidos ao Marrocos quase imediatamente, embora muitos tenham se afogado durante a tragédia).

Santiago Abascal contou com o apoio do coro da direita mundial, no qual estavam todos, desde Donald Trump até o presidente argentino, Javier Milei, alimentando um clima de pânico e histeria em torno do espetáculo de Ceuta, que desencadeou protestos contra os imigrantes na Espanha.

É uma estratégia que já conhecemos: Donald Trump sempre fala da “invasão” iminente como parte fundamental de suas campanhas eleitorais. José Antonio Kast, o presidente chileno eleito em março, prometeu durante a campanha construir trincheiras e muros nas fronteiras com a Bolívia e o Peru. Marine Le Pen, que hoje desfruta de um retorno talvez imparável na França, atacou em 2019 os imigrantes e disse que eram uns “nômades” que “não se importam com o meio ambiente; não têm pátria”.

Tudo isso nos leva a pensar que o fascismo do fim dos tempos – com suas fronteiras fortificadas, sua ajuda externa dizimada e sua obsessão por se apoderar dos recursos ocultos sob o gelo que derrete na Groenlândia – é talvez uma forma distorcida e sádica de adaptação às mudanças climáticas. Agora que a realidade do aquecimento global já é inegável, a única coisa que resta para negar é a humanidade de nossos semelhantes. De que outra forma, afinal, se poderia justificar que deixemos tantas pessoas morrerem de fome nas terras áridas da Somália, ou que se afoguem tentando sobreviver na costa do norte da África, ou que morram nos centros de detenção do ICE nos Estados Unidos?

Estudos demonstram que os partidos de extrema direita atraem, em especial, os jovens do sexo masculino. Eles fazem parte de uma geração que teme nunca conseguir ter uma casa própria, mas que se consola com o prazer de irritar os progressistas por meio de provocações constantes na internet. Convencidos de que lhes roubaram o futuro, compartilham memes que apresentam uma imagem romântica dos autoritarismos históricos.

Assim como os teóricos da conspiração não têm razão sobre os dados, mas acertam nas emoções, os fascistas do fim dos tempos sabem conectar-se com sentimentos profundamente arraigados de insegurança e mal-estar, incluindo a estranheza de um mundo em que as estações do ano se confundem e fica cada vez mais difícil distinguir o real do falso. Dizem-nos que a razão pela qual já não reconhecemos nossas cidades é a quantidade de lanchonetes de kebab e minaretes e os imigrantes que vêm para “nos substituir”, e não, por exemplo, os padrões climáticos irreconhecíveis, nem os executivos do setor de tecnologia que têm tanta pressa em substituir-nos por robôs e invocar suas divindades digitais.

Por sua vez, os líderes da extrema direita enxergam o lado positivo de toda essa incerteza e desorientação. Eles compreendem muito bem como a política reacionária prospera em períodos de instabilidade e conflito, e como a precariedade pode levar as pessoas a voltarem-se umas contra as outras enquanto se agarram, cada vez com mais desespero, a qualquer migalha de proteção e privilégio que possuam.

Há um século, surgiram dinâmicas semelhantes com consequências desastrosas em toda a Europa. Por outro lado, os Estados Unidos, diante de crises igualmente graves, seguiram um caminho diferente. Enquanto o país se recuperava com esforço da Grande Depressão e os demagogos racistas encontravam um público receptivo, os sindicalistas e os líderes políticos construíram uma alternativa.

Franklin Delano Roosevelt defendeu que o Congresso deveria aumentar os gastos públicos para combater o fascismo no país. “A democracia” – disse ele num discurso radiofônico – “desapareceu em outras grandes nações, não porque os cidadãos dessas nações não gostassem da democracia, mas porque se cansaram do desemprego e da insegurança, de ver seus filhos passando fome enquanto eles ficavam paralisados e impotentes diante da confusão e da fraqueza do governo, por falta de liderança.

No fim, desesperados, preferiram sacrificar a liberdade na esperança de ter algo para comer”. O New deal ajudou a tirar força dos extremistas políticos, pois promoveu a estabilidade e atendeu às necessidades reais do povo.

Como vimos, a história não se repete num ciclo infinito. No entanto, a lição fundamental de Franklin Delano Roosevelt continua válida: não é possível enfrentar a ameaça fascista sem combater as causas materiais reais que tornam mais difícil para as pessoas resistirem a líderes autoritários e bodes expiatórios. Hoje, essas causas têm um aspecto diferente daquele da década de 1930.

É claro que continuamos precisando financiar generosamente os serviços essenciais que atendem às necessidades básicas da vida e investir em empregos bem remunerados e socialmente produtivos. Mas, além disso, devemos fazê-lo sem deixar de enfrentar os riscos existenciais globais que definem nossa época: as mudanças climáticas, as armas nucleares, a inteligência artificial generativa e a riqueza e o poder sem controle.

As pessoas já estão pressionando para que esse tipo de solução seja adotado. Vemos isso na rápida expansão do movimento que exige uma governança democrática da inteligência artificial e que está conseguindo paralisar a construção de centros de dados até que essa governança seja realidade; nas campanhas mundiais para cobrar mais impostos dos bilionários e até mesmo estabelecer um limite à riqueza; e no número histórico de políticos estadunidenses que votam a favor da suspensão do envio de armas a Israel e se opõem à escalada do conflito no Irã.

Também vemos isso no interesse renovado pela ação climática por parte dos candidatos rebeldes do Partido Democrata, defensores de um New deal verde e de um sistema de saúde universal.

Ainda há um longo caminho a percorrer até que tenhamos respostas proporcionais às crises que enfrentamos, mas cada vez mais pessoas comuns e líderes políticos estão conscientes de algo simples e urgente: que a melhor maneira de ajudar seus vizinhos a resistir ao apelo do fascismo apocalíptico é melhorar suas vidas aqui e agora.

 

Fonte: Por Naomi Klein e Astra Taylor, em A Terra é Redonda

 

Marcelo Zero: Escudo para a traição

O recém-anunciado apoio de 14 países da América Latina e do Caribe, todos com governos aliados, de modo canino, com os interesses imperiais de Trump, ao chamado “Escudo das Américas”, uma iniciativa em tese destinada a combater o “narcoterrorismo” em nosso continente, é algo tragicômico.

Com efeito, essa iniciativa é, sobretudo, o mero “requentamento” de um prato bastante antigo e indigesto que fez passar muito mal os comensais aos quais ele foi servido à força.

Refiro-me, é claro, à infame “Guerra às Drogas”.

A “Guerra às Drogas” foi declarada por Richard Nixon em 17 de junho de 1971. Lá se vão 55 anos. Dois anos depois, em 1973, Nixon criou a Agência de Combate às Drogas (DEA), uma força policial especial criada especificamente para combater o uso e o contrabando de drogas ilegais nos Estados Unidos.

Ronald Reagan reforçou a Guerra às Drogas com a aprovação da Lei de Combate ao Abuso de Drogas de 1986. Essa legislação federal destinou US$ 1,7 bilhão para que as forças policiais combatessem a Guerra às Drogas e estabeleceu penas mínimas obrigatórias muito mais rigorosas para crimes relacionados a tais substâncias ilícitas.

Até mesmo Clinton deu sua contribuição ao enrijecimento da “Guerra às Drogas” quando promulgou a Lei do Crime de 1994, uma legislação que financiou 125.000 novas celas em prisões estaduais, instituiu novas penas de prisão perpétua e adicionou 60 novos crimes passíveis de pena de morte.

Calcula-se que o governo dos EUA já tenha gasto bem mais de um trilhão de dólares com essa brincadeira toda.

Mas qual foi o resultado efetivo?

Nos EUA, a principal consequência foi a explosão da população carcerária. Desde o seu início, a Guerra às Drogas fez a população carcerária dos EUA aumentar em mais de 500%. Hoje, os EUA têm a maior população carcerária do mundo.

São cerca de 2 milhões de pessoas encarceradas. Quase metade desse total (47%) está presa em razão de crimes não violentos associados ao tráfico de drogas.

Esse encarceramento massivo afeta, de forma inteiramente desproporcional, as comunidades negras e latinas dos EUA. Adultos negros são presos a uma taxa aproximadamente cinco vezes maior que a de adultos brancos e, embora a população negra represente somente 13% da população total dos EUA, os negros desse país representam quase 40% dos encarcerados estadunidenses. Além disso, eles são submetidos a penas 20% mais longas do que as dos brancos condenados por crimes assemelhados.

O policiamento ostensivo em bairros urbanos de baixa renda destinado a reprimir o tráfico fragmentou famílias, criou ciclos intergeracionais de pobreza e privou indivíduos do direito ao voto e de oportunidades de emprego após o encarceramento.

Dados do Bureau of Justice Statistics indicam que aproximadamente 26,6% dos homens negros estadunidenses cumprirão pena em uma prisão estadual ou federal até os 40 anos de idade, em comparação com 3,5% dos homens brancos. Suas vidas e as das suas famílias ficarão marcadas para sempre.

Funcionou, ao menos, para os objetivos pretendidos?

Não.

Hoje, há praticamente um consenso, entre os especialistas no assunto, de que a Guerra às Drogas foi um fracasso monumental. Além de ter causado um problema social gravíssimo e de ter aumentado as disparidades raciais nos EUA, a Guerra às Drogas não diminuiu significativamente o consumo de drogas ilícitas nos EUA.

Na realidade, com a introdução dos opioides sintéticos no mercado dos EUA, a partir, frise-se, da sua própria indústria farmacêutica, o número de mortes por overdose cresceu drasticamente naquele país.

E na América Latina?

Em nossa região, que foi forçada a entrar nessa “guerra”, as consequências foram ainda piores.

Aqui, a Guerra às Drogas resultou em aumento da violência criminal, encarceramento em massa e profunda corrupção política.

No caso de países como México e Colômbia, essa corrupção estendeu-se às forças armadas, com sérios prejuízos à soberania nacional.

Conforme os especialistas, a criminalização dos mercados de drogas aumentou as margens de lucro, o que fez surgir cartéis mais poderosos e violentos, tal como aconteceu durante a Lei Seca nos EUA, o que provocou aumento massivo de homicídios em países produtores ou de trânsito, como México, Colômbia, Peru, Equador e Brasil.

A militarização estatal e a repressão armada levaram a dezenas de milhares de mortes e desaparecimentos, transformando regiões inteiras em zonas de conflito e de disputa.

Observe-se que os cartéis, fortalecidos por essa política desastrada, contornam facilmente os esforços de interdição subornando ou ameaçando a polícia local, as forças militares e os políticos, o que mina a confiança pública nas instituições democráticas.

Nessas circunstâncias, classificar organizações criminosas comuns, especialmente de narcotraficantes, como “organizações terroristas” vai fazer alguma diferença?

Se fizer, será para pior.

A primeira consequência será a de dificultar a cooperação entre os países da América Latina e os EUA nesse tema.

Tal classificação vai tornar, com efeito, a cooperação técnica entre os EUA e os países latino-americanos mais difícil e complexa, já que a cooperação será tocada, agora, do lado dos EUA, pela CIA, outras agências de inteligência e os militares, entes que costumam atuar em sigilo e com extrema violência, e não mais pela via tradicional e jurídica do DOJ.

Todd Robinson, ex-secretário de Estado adjunto para narcóticos internacionais e segurança durante o governo de Joe Biden, criticou essa equiparação entre organizações criminosas comuns e terrorismo.

Esse ex-integrante do Departamento de Estado defendeu que o enfrentamento ao narcotráfico seja concentrado em mecanismos policiais, financeiros e judiciais, com rastreamento de recursos, produção de provas, apresentação de acusações e responsabilização criminal dentro do Estado de Direito.

Entretanto, creio que o governo Trump sabe que, para os objetivos publicizados, o Escudo das Américas vai fracassar.

Na realidade, a constituição desse Escudo está muito mais relacionada ao controle geopolítico da nossa região, sob a égide da nova Doutrina Donroe, do que a um efetivo combate às drogas.

É preciso entender que as leis antiterrorismo dos EUA têm caráter extraterritorial. Isto é, elas permitem que os EUA promovam ações nos territórios de outros países, sem que isso passe, necessariamente, por mecanismos de cooperação.

Os EUA podem decidir fazer isso de forma inteiramente unilateral.

A Executive Order 13224, publicada logo após o 11 de setembro de 2001, é especialmente rigorosa.

Entre as muitas coisas que os EUA estão facultados a fazer, segundo essas leis, estão o congelamento de ativos de instituições financeiras brasileiras, o congelamento de fundos soberanos, a proibição de operações financeiras, por parte de instituições brasileiras, usando o sistema internacional, novas sanções comerciais e econômicas, deportações, prisões, ações de inteligência no território de outro país, ações operativas clandestinas nos territórios de outros países, operações híbridas para desestabilizar governos que seriam supostamente” negligentes” com o combate ao terrorismo etc.

Empresas, bancos, indivíduos, ONGs etc. podem entrar na dança macabra. Na Venezuela, até inocentes pescadores artesanais submergiram fatalmente na vala comum do terrorismo. Em Cuba, entraram até os médicos.

A classificação de uma organização criminosa comum como “terrorista” obedece, normalmente, apenas a uma necessidade política de possuir instrumentos legais e desculpas jurídicas para fazer intervenções em países ou governos que não se alinham aos interesses da atual administração dos EUA. É simplesmente uma ferramenta geopolítica bastante útil.

Em última instância, pode-se passar, em nossos países, até mesmo o que aconteceu na Venezuela. Uma intervenção militar para sequestrar o Presidente da República e levá-lo a uma corte de justiça dos EUA, sob a alegação, mentirosa, de que tal Chefe de Estado seria um perigoso “narcoterrorista”.

Tudo depende do ânimo político de gente extremamente reacionária e desinformada, como Marco Rubio, por exemplo. Quem sabe uma intervenção na Baía de Guanabara, como sugeriu candidamente Flávio Bolsonaro.

O que se sabe, de fato, é que drones militares de alto poder destrutivo estão sendo deslocados para a nossa região. Forças especiais já estariam operando, na surdina, no México, país soberano que não aderiu ao “Escudo”. Em breve, poderão voltar os porta-aviões. Aliás, Trump declarou recentemente que poderia enviar um porta-aviões para Cuba, país que não exporta um grama de droga.

E sabe-se também que os principais objetivos do Escudo das Américas (SotA) — apoiado por seu braço operacional, a Coalizão das Américas contra os Cartéis (A3C) — são os de unir governos regionais no Hemisfério Ocidental para desmantelar cartéis transnacionais de drogas, combater o narcoterrorismo, impedir a migração ilegal em massa e conter a interferência estrangeira em uma zona geográfica que é considerada historicamente como “quintal” dos EUA.

Esse último objetivo parece ser a finalidade máxima e verdadeira do Escudo.

O próprio The Wall Street Journal, bastante conservador, reconhece que a “Doutrina Donroe” de Trump “visa dominar as Américas”.

O caráter ideológico e geopolítico dessa iniciativa dos EUA é evidente e desavergonhado.

Segundo Pete Hegseth, Secretário da “Guerra” dos EUA, os países membros do Escudo são “descendentes da civilização ocidental”, unidos por “nossa herança, nossa história e geografia neste novo mundo”. O desafio, segundo ele, é “se nossas nações serão e permanecerão nações ocidentais com características distintas, nações cristãs sob Deus, orgulhosas de nossa herança compartilhada, com fronteiras fortes e povos prósperos, governadas… pela lei, pela ordem e pelo bom senso” ou se sucumbirão ao “narcocomunismo radical (!) e a narcotirania, que ameaçam nosso povo, nossas fronteiras e terras soberanas em nome de uma falsa soberania ou de uma falsa paz”.

É o suficiente, não é?

Estamos em ano eleitoral. É óbvio que o governo Trump tentará favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro e criar, por outro lado, problemas para a candidatura de Lula.

Por isso mesmo, a extrema direita brasileira, traindo os interesses do Brasil, vem, há tempos, buscando, de maneira desavergonhada, estabelecer uma associação esdrúxula entre o governo Lula e a criminalidade e o “narcoterrorismo”.

Repito que, se considerar necessário ou conveniente, o governo dos EUA fará o que desejar nestes “tristes trópicos”, com base nessa desculpa esfarrapada e historicamente fracassada.

Ninguém sabe o que poderá acontecer no Brasil, depois dessa decisão.

Quando houve o ataque à Venezuela, o secretário-geral da ONU, António Guterres, emitiu a seguinte Nota:

“O secretário-geral está profundamente alarmado com a recente escalada na Venezuela, que culminou na ação militar dos Estados Unidos no país hoje, a qual traz implicações potencialmente preocupantes para a região.

Independentemente da situação na Venezuela, esses acontecimentos constituem um precedente perigoso. O secretário-geral continua a enfatizar a importância do pleno respeito — por parte de todos — ao direito internacional, incluindo a Carta da ONU.”

Em uma coletiva de imprensa realizada em 1º de dezembro do ano passado, a Casa Branca reiterou que “o presidente deixou bem claro que, se narcoterroristas estiverem traficando drogas ilegais para os Estados Unidos, ele tem autoridade para matá-los”.

Assim sendo, o perigo de alguma intervenção militar no Brasil, por parte dos EUA, é concreto, muito embora o PCC e o Comando Vermelho não exportem drogas para os EUA. Essas organizações criminosas exportam drogas principalmente para a África e a Europa. Frise-se, ademais, que as autoridades brasileiras sempre cooperaram ativamente com os EUA e outros países para combater o narcotráfico e outros ilícitos internacionais.

Porém, Trump é capaz de tudo. Tem completo desprezo pela soberania de outros países e pelas regras mais elementares do direito internacional. Só um parvo duvida disso.

Se o governo Trump considerar que o Brasil “não está fazendo o suficiente”, agirá unilateralmente, como de hábito. De forma aberta ou clandestina. Mesmo em período eleitoral ou, melhor, preferencialmente em período eleitoral. A desinformação faz parte do arsenal diversificado do “Escudo”.

Os bolsonaristas, é óbvio, aplaudirão. É da natureza dos traidores.

 

Fonte: Viomundo

 

O trabalho numa sociedade ferida

Há uma cena que tenho encontrado com frequência nas minhas conversas pelas ruas, nos cafés modestos, nas universidades e até nas filas silenciosas onde a vida parece esperar sua vez: uma pessoa jovem, diploma na mão, olhos cansados e uma pergunta que não precisa ser pronunciada para ser compreendida — “foi para isso que eu estudei?”.

Eu observo a geração Z e os últimos anos da geração dos millennials com uma mistura de tristeza e curiosidade sociológica. Eles cresceram ouvindo que a educação seria uma ponte, que o esforço construiria uma estrada, que a dedicação seria recompensada. Ao chegar ao mercado de trabalho, muitos encontraram uma ponte incompleta, uma estrada de terra e uma placa curiosa dizendo: “experiência necessária para o primeiro emprego”. É uma pequena ironia do nosso tempo, quase digna de uma página de Machado de Assis: pede-se ao viajante que chegue ao destino antes mesmo de iniciar a viagem.

Não escrevo estas linhas para condenar uma geração anterior, nem para transformar a juventude em símbolo de pureza. Toda geração carrega suas contradições. Mas, como sociólogo que observa o cotidiano, percebo uma ferida coletiva: o ambiente de trabalho foi deteriorado e sua recuperação não será obra de uma estação. Será necessário tempo, paciência e uma reconstrução profunda das relações entre capital e trabalho.

Entre 2016 e 2026, uma década pareceu suficiente para revelar uma transformação importante: o emprego deixou de ser apenas uma fonte de renda e passou a ser também uma fonte de insegurança. A discussão sobre as reformas trabalhistas e sobre novas formas de contratação mostrou uma sociedade tentando responder a um dilema antigo: como produzir riqueza sem transformar o trabalhador em uma peça descartável da engrenagem? A reforma trabalhista de 2017 alterou diversos pontos da legislação trabalhista brasileira e abriu debates entre especialistas sobre seus efeitos na geração de empregos, na informalidade e na proteção social.

Meu olhar, porém, não começa nos textos legais. Começa na padaria onde o funcionário mais antigo explica ao recém-chegado como sobreviver ao turno; começa na pequena empresa familiar onde o dono trabalha junto com seus empregados; começa também nas grandes estruturas empresariais onde planilhas decidiram substituir conversas humanas. A sociedade capitalista não é uma máquina distante: ela tem rosto, hábitos, vícios e memórias.

E uma dessas memórias, a meu ver, é a história de como parte do empresariado brasileiro se acostumou com uma facilidade perigosa: a disponibilidade permanente de mão de obra barata.

Quando uma sociedade passa muitos anos permitindo que o custo humano seja a principal ferramenta de competitividade, cria-se uma espécie de conforto empresarial. O empresário aprende a resolver problemas reduzindo salários, aumentando jornadas ou substituindo vínculos estáveis por relações mais frágeis. Aos poucos, aquilo que deveria ser uma exceção transforma-se em método. O improviso vira modelo de gestão.

É como um homem que passa anos usando uma cadeira quebrada porque ela ainda suporta seu peso. Um dia, ele percebe que não tem mais uma cadeira; tem apenas um hábito. A economia também cria hábitos. E alguns deles são difíceis de abandonar.

Foi assim que muitos processos produtivos passaram a depender de um trabalhador barato para permanecer de pé. Não porque o trabalhador seja barato por natureza, mas porque durante muito tempo construímos uma lógica em que o preço da força de trabalho era tratado como variável de ajuste. A empresa que deveria buscar inovação, qualificação e eficiência muitas vezes encontrou um caminho mais curto: pressionar quem estava na base.

O resultado é uma contradição curiosa. A mesma sociedade que exige produtividade do trabalhador frequentemente oferece pouca estabilidade para que ele desenvolva sua própria produtividade. Queremos profissionais criativos, mas oferecemos contratos que alimentam ansiedade. Queremos inovação, mas conservamos estruturas que premiam o corte imediato de custos.

O sociólogo francês Pierre Bourdieu lembrava que as desigualdades não se mantêm apenas pela força econômica, mas também pela reprodução de hábitos e expectativas sociais. No mundo do trabalho brasileiro, isso aparece quando a precariedade começa a parecer normal. O jovem que aceita qualquer condição porque precisa pagar o aluguel aprende uma lição amarga: a sobrevivência vem antes do projeto de vida.

O sociólogo brasileiro Ricardo Antunes, ao estudar as transformações do trabalho contemporâneo, chama atenção para a expansão de formas de precarização e para a transformação do trabalhador em alguém permanentemente disponível. Essa disponibilidade constante cria uma nova figura social: a pessoa que trabalha o tempo inteiro, mas nunca sente que possui segurança suficiente.

Eu encontro essa figura nas histórias da geração Z: pessoas fazendo entregas pela manhã, cursos à noite e trabalhos temporários nos intervalos. Encontro também entre millennials que entraram no mercado acreditando que uma carreira seria construída degrau por degrau, mas descobriram que a escada poderia desaparecer antes do próximo passo.

Há uma diferença importante entre as gerações anteriores e as atuais. Muitos trabalhadores mais velhos, especialmente aqueles que ingressaram no mercado em períodos de maior estabilidade industrial, ainda carregam a memória de uma relação mais previsível entre emprego e futuro. Não era um mundo perfeito; havia desigualdades, exclusões e dificuldades. Mas existia uma expectativa mais clara de permanência.

Hoje, a promessa mudou. O trabalhador é incentivado a ser uma empresa de si mesmo, uma marca ambulante, um currículo sempre atualizado. A pessoa precisa administrar sua carreira como se fosse uma pequena startup, mesmo quando mal consegue administrar as contas do mês. É uma grande ironia moderna: pedimos espírito empreendedor até de quem apenas deseja um salário digno.

Nas redes sociais, essa angústia ganhou humor porque, às vezes, o humor é a última ferramenta dos que não possuem poder. Vejo jovens compartilhando a expressão “é sobre isso e tá tudo bem” para transformar pequenas derrotas diárias em uma espécie de abraço coletivo. Mas também percebo a outra face: muitas vezes não está tudo bem; apenas aprendemos a rir para suportar.

Outro fenômeno curioso é o uso do “do nada” para descrever mudanças repentinas: “do nada, perdi o emprego”; “do nada, meu contrato acabou”; “do nada, preciso começar novamente”. A expressão parece simples, quase infantil, mas revela uma experiência profunda: a sensação de que a vida profissional perdeu continuidade.

Não devemos interpretar esses sinais como reclamações vazias. Eles são documentos sociais. Uma sociedade também escreve sua história através das frases que seus cidadãos repetem.

O problema não está apenas no trabalhador. Está no modelo de desenvolvimento que se acostumou a depender da fragilidade de milhões de pessoas. Um sistema econômico saudável precisa de empresas fortes, mas empresas fortes não são aquelas que sobrevivem eternamente pagando pouco. São aquelas capazes de criar valor, formar pessoas e construir relações duradouras.

Por isso, quando falo em reconstrução do emprego, não penso em retornar a um passado idealizado. O passado também tinha seus defeitos. Penso em recuperar uma ideia simples: trabalho não deve ser apenas uma atividade para manter alguém vivo até o próximo pagamento; deve ser parte de uma existência digna.

A recuperação desse ambiente será lenta porque a destruição foi cultural antes de ser apenas econômica. Quando empresários, trabalhadores e instituições se acostumam com determinada lógica, mudar leis não basta. É preciso mudar expectativas.

O empresário acostumado com mão de obra barata precisará reaprender a competir. O trabalhador acostumado com insegurança precisará recuperar confiança. A sociedade acostumada com soluções rápidas precisará aceitar que algumas feridas exigem tempo.

Machado de Assis talvez dissesse que o problema brasileiro nunca foi apenas o buraco, mas a elegante maneira como aprendemos a decorá-lo. Eu acrescentaria: chegou o momento de parar de enfeitar a queda e começar a reconstruir o chão.

Entre 2016 e 2026, vimos uma década em que o trabalho foi submetido a fortes transformações. A próxima década deveria ser dedicada a perguntar menos quanto custa o trabalhador e mais quanto vale o trabalho humano.

Porque uma sociedade que economiza demais sobre seus próprios trabalhadores acaba descobrindo, cedo ou tarde, que também economizou sobre seu próprio futuro.

 

Fonte: Por Victor Rodrigues, em Outras Palavras

 

Como os presidenciáveis querem melhorar a saúde pública

A redução das filas do Sistema Único de Saúde (SUS) aparece como prioridade comum entre os principais candidatos à Presidência da República de acordo com as pesquisas de intenção de voto. Em 2024, o tempo médio de espera para atendimento especializado era de 57 dias, segundo levantamento do jornal O Globo com base em dados do Ministério da Saúde.

Embora as propostas variem, os presidenciáveis apostam em digitalização, uso de inteligência artificial (IA) e telemedicina para ampliar o acesso a consultas, exames e especialistas. As diferenças aparecem sobretudo no papel da rede privada, nas prioridades na reorganização do sistema público, e nas estratégias dedicadas a saúde mental e saúde da mulher.

Veja o que propõe cada presidenciável nos principais temas da área da saúde.

<><> Redução das filas do SUS

Se reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) promete impulsionar o Agora tem Especialistas, lançado em 2025 para oferecer consultas, exames e cirurgias em serviços especializados. O programa faz parcerias entre o SUS e hospitais privados por meio de créditos financeiros ou de dívidas. Suas propostas mencionam ainda o investimento em novos equipamentos na rede pública, uma maior integração entre atenção primária, especializada e farmacêutica, e o uso da tecnologia para trazer transparência e organização às filas de atendimento.

O programa apresentado por Flávio Bolsonaro (PL) tem um capítulo inteiro dedicado ao combate às filas em diversos serviços públicos. Na saúde, promete aproveitar equipamentos da rede privada para realizar exames em horários ociosos, e utilizar a inteligência artificial para agilizar o agendamento de consultas e exames.

O candidato Augusto Cury (Avante) propõe uma meta de 30 minutos de espera para atendimentos que possam ser feitos a distância, e uma plataforma nacional integrada, possibilitando que médicos possam atender online pacientes em outras regiões.

O plano de governo de Ronaldo Caiado (PSD) tem como meta reduzir em pelo menos 50% o tempo mediano das filas prioritárias nas regiões com maior espera até 2030. Para isso, o candidato deseja alterar os parâmetros da fila dando prioridade a fatores como risco, gravidade e vulnerabilidade para definir o atendimento.

A proposta é semelhante a defendida por Renan Santos (Missão). Já Romeu Zema (Novo) quer implementar parcerias com a rede privada na realização de exames, consultas e cirurgias, com metas de quantidade e qualidade dos atendimentos.

Todos os candidatos apresentam ainda propostas de teleatendimento e digitalização para ampliar o acesso à saúde pública.

<><> Saúde mental

A saúde mental é um dos grandes gargalos do SUS. Especialistas afirmam que o Sistema Único de Saúde enfrenta um histórico de dificuldades relacionadas ao tema. Esse problema tem ficado cada vez mais evidente, dizem especialistas, diante da crise de saúde mental no país, com cada vez mais brasileiros sofreram com esse tipo de doença.

Os candidatos Lula e Caiado propõe ampliar os investimentos na Rede de Atenção Psicossocial (RAPS). Sem detalhar propostas, os dois também mencionam ainda o combate e apoio a indivíduos viciados em apostas. O atual presidente cita ainda o cuidado psicossocial com mulheres vítimas de violência e o diagnóstico e acompanhamento de pessoas com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

Sem citar propostas específicas, o plano de governo de Flávio Bolsonaro menciona o cuidado com crianças com TDAH, pessoas com depressão e ansiedade, e idosos com Alzheimer e outras doenças neurológicas,

Augusto Cury defende a implantação de uma política nacional de saúde mental, envolvendo escolas, empresas, forças de segurança, unidades de saúde e comunidades. O plano defende a priorização da prevenção da ansiedade, automutilação e suicídio, e menciona atividades de "educação emocional", realizadas, por exemplo, na espera de serviços médicos.

Já Romeu Zema promete fortalecer a rede de atendimento, por meio do financiamento compartilhado entre União, estados e municípios. Renan Santos não apresenta a propostas específicas para a saúde mental.

<><> Atenção básica e prevenção

O programa de governo divulgado pela campanha de Lula fala na formação de profissionais dedicados a saúde da família, mencionando equipes multiprofissionais e a continuidade do programa Mais Médicos, com foco em áreas de maior vulnerabilidade. Também assegura o fortalecimento do programa de vacinação.

Flávio Bolsonaro propõe a ampliação da já existente Estratégia Saúde da Família (ESF), e a criação de um Programa de Atendimento aos Idosos. Promete também ampliar o acesso a exames preventivos e fomentar a produção nacional de vacinas. 

Augusto Cury promete investir na prevenção de doenças, no acompanhamento de famílias e na ampliação das equipes multiprofissionais. O plano de governo também dedica um capítulo inteiro a um projeto de prevenção e detecção precoce do câncer. 

O plano de Ronaldo Caiado baseia-se numa melhor integração entre os serviços de Atenção Primária, especialistas, hospitais, urgência e outros, garantindo a continuidade do cuidado. O candidato também defende uma política baseada na prevenção e antecipação de riscos, e propõe ações especificas para a saúde cardiovascular, para o câncer, e o cuidado de crianças e idosos. 

O programa de governo de Zema também fala em fortalecer a Estratégia de Saúde da Família, com a ampliação da cobertura e o uso de ferramentas digitais. Entre as prioridades, estão citados o programa de vacinação, a prevenção e acompanhamento de doenças crônicas a promoção de hábitos saudáveis e o cuidado com a população indígena e idosa.

Renan Santos quer que 80% dos casos sejam resolvidos pela Atenção Primária. Com o sistema de saúde digital proposto, o candidato quer realizar vigilância epidemiológica preditiva. Renan também propõe criar compensações tributárias relacionadas ao cuidado com a saúde física, citando especificamente atividades esportivas.

<><> Saúde da mulher

O plano de Lula promete reforçar os cuidados com mulheres que sofrem de doenças ginecológicas crônicas, como a endometriose, além do diagnóstico precoce e tratamento dos cânceres de mama e do colo do útero. Também fala na distribuição gratuita de métodos contraceptivos, como o Implanon, no SUS, e no acesso a insumos menstruais como absorventes e medicamentos. O programa promete ainda reduzir a mortalidade materna.

Já o programa de Flávio Bolsonaro promete ampliar o acesso a exames e levar a todo o país a já existente Unidade Móvel de Saúde da Mulher.

Augusto Cury promete políticas voltadas à saúde preventiva, atenção materno-infantil, prevenção do câncer e planejamento reprodutivo. Também defende uma atenção especial a questões de saúde mental e autoestima, com foco especial nas meninas, mencionando os efeitos negativos dos padrões estéticos e do bullying.

Ronaldo Caiado traçou a meta de reduzir em 30% a razão de mortalidade materna até 2030, além de propor uma política de rastreamento do câncer de mama e colo do útero, uma melhor organização do diagnóstico e tratamento de doenças ginecológicas como a endometriose e a criação de uma linha de cuidado para climatério e menopausa na Atenção Primária.

O plano de governo de Romeu Zema trata apenas do cuidado de gestantes, prometendo atendimento pré-natal de qualidade e redução de riscos e complicações durante e após o parto. O programa menciona também uma integração entre as redes de saúde e segurança no cuidado e acolhimento de mulheres vítimas de violência. 

O programa de Renan Santos afirma que a saúde é considerada pelas mulheres como um dos principais problemas atuais do Brasil. Apesar disso, o candidato não apresenta nenhuma proposta especifica focadas na saúde da mulher.

 

Fonte: DW Brasil