sexta-feira, 9 de outubro de 2026

Oito anos de alertas. A cegueira tinha comando

Durante oito anos, os alertas se acumularam, enquanto a extrema-direita transformava redes de confiança em votos, representação parlamentar e poder institucional. Do outro lado, a direção governista chegou a 2026 reconhecendo falhas que já não podia ignorar. O primeiro turno expôs muito mais que um erro eleitoral. Revelou o custo político de confundir informação com inteligência, comunicação com organização e autoridade com capacidade estratégica. Às portas do segundo turno, permanece uma questão incontornável: quem tinha a responsabilidade de enxergar os sinais, por que não respondeu à altura e o que ainda pode ser corrigido?

<><> O erro tinha nome, data e responsáveis

Em 10 de setembro de 2026, faltando 24 dias para o primeiro turno, Edinho Silva, presidente nacional do PT e coordenador-geral da campanha de Lula, reconheceu publicamente um “erro de planejamento”. A produção de material eleitoral havia sido descentralizada para estruturas estaduais que não conseguiram atender à demanda. Sob pressão, a direção voltou a concentrá-la nos grandes centros e anunciou a correção do problema. Na véspera, a imprensa já registrara reclamações sobre a falta de bandeiras, panfletos e adesivos, além da irritação de Lula com vazamentos de reuniões reservadas. A crise não foi descoberta na contagem dos votos. Era conhecida por quem comandava a operação.

O reconhecimento tampouco encerrou as dificuldades. Em 18 de setembro, a direção do PT cobrou dos candidatos proporcionais a inclusão de Lula e dos demais nomes majoritários nos materiais de campanha e ameaçou exigir a devolução de recursos eleitorais em casos de descumprimento. Ainda circulavam peças sem referência às candidaturas da própria aliança, enquanto dirigentes relatavam escassez de material. Numa eleição que escolheria presidente, governadores, dois senadores por estado e parlamentares, articular esses nomes era parte da organização do voto. A questão não era a quantidade de propaganda impressa, mas a dificuldade de converter decisões nacionais em ação coordenada nos territórios.

Em 4 de outubro, Flávio Bolsonaro recebeu 47,03% dos votos válidos, contra 45,16% de Lula, diferença superior a 2,2 milhões de votos. Três dias depois, diante de parlamentares aliados, o presidente classificou aquela como a campanha menos organizada de que participara desde 1989. Admitiu também sua surpresa por não terminar à frente do adversário, considerando as realizações do governo. Uma declaração tratava da execução eleitoral. A outra mostrava a distância entre aquilo que o Planalto julgava ter entregado à sociedade e a resposta política que esperava receber.

Não existe base para atribuir a escassez de material ou as disputas internas à diferença final de votos. A responsabilidade política não exige essa simplificação. Houve problemas reconhecidos antes da eleição, medidas anunciadas como corretivas e novas reclamações na reta final, até a avaliação pública do próprio candidato. Edinho ocupava a coordenação-geral, mas decisões e recursos circulavam por instâncias partidárias, equipes de comunicação e pelo entorno presidencial. O que precisa ser explicado é como uma estrutura dotada de autoridade e meios de execução deixou persistir falhas que seus dirigentes já haviam identificado.

<><> Oito anos de sinais que não se transformaram em inteligência

Em 2018, Jair Bolsonaro chegou à Presidência. Quatro anos depois, Lula recuperou o governo por uma diferença de 2,14 milhões de votos, mas o presidente derrotado recebeu 58,2 milhões de votos. A alternância no Planalto não havia desfeito sua base social. Em estudo publicado em 2026, o cientista político Jairo Nicolau mostrou que a geografia eleitoral de 2018 e 2022 permaneceu relativamente estável. O resultado se inverteu sobretudo porque diminuíram as vantagens bolsonaristas nas grandes cidades do Sudeste. A vitória de Lula não significava, portanto, que o campo adversário tivesse perdido sua capacidade de organização.

Em junho de 2023, o Tribunal Superior Eleitoral declarou Jair Bolsonaro inelegível por oito anos. A decisão restringiu sua trajetória pessoal nas urnas, não a atuação das estruturas que gravitavam em torno dele. Nas municipais de 2024, o PL conquistou 516 prefeituras, ante 345 em 2020. Prefeitos da mesma legenda não formam necessariamente um bloco ideológico uniforme, nem uma eleição local antecipa a presidencial. O crescimento, porém, indicava a expansão de uma infraestrutura territorial capaz de permanecer ativa sem a candidatura de seu principal líder.

Em maio de 2026, o Datafolha registrava 45% para Lula e 45% para Flávio Bolsonaro numa simulação de segundo turno. Era um retrato daquele momento, não uma previsão de outubro. Mas bastava para impedir que a campanha tratasse uma disputa apertada como hipótese remota. Não dispomos das avaliações internas completas nem sabemos que providências foram tomadas diante de cada pesquisa. O histórico eleitoral, o desempenho municipal do PL e os levantamentos públicos ofereciam, contudo, informação suficiente para planejar cenários adversos muito antes da reta final.

É aí que se mede a qualidade de uma inteligência política. Conhecer um risco não equivale a incorporá-lo às decisões. A questão já não era saber se o bolsonarismo tinha condições de disputar o poder depois da derrota de 2022. Sua permanência fora demonstrada nas urnas e nas organizações locais. Cabia examinar como a direção governista traduziu esse conhecimento em coordenação, presença territorial e capacidade de rever expectativas. O primeiro turno tornou impossível continuar confundindo informação disponível com resposta construída.

<><> O comando e a máquina que não respondiam ao mesmo problema

A coordenação da campanha de Lula foi ampliada em julho e restringida em setembro. Em 22 de julho, diante de atritos internos, o presidente incorporou auxiliares do Planalto para reforçar agenda, comunicação e logística. Marco Aurélio Santana Ribeiro, chefe de gabinete, passou a atuar na agenda ao lado de Gilberto Carvalho; Tiago Cesar dos Santos, então secretário-executivo da Secom, foi deslocado para a campanha. Em setembro, insatisfeito com vazamentos e com a estagnação da avaliação do governo, Lula limitou as discussões centrais a Edinho Silva, Sidônio Palmeira, Guilherme Boulos e, eventualmente, Paulo Okamotto. Mudar o tamanho do comando não resolvia, por si, a relação entre diagnóstico, decisão e execução.

Segundo a Folha de S.Paulo, três núcleos influenciavam a comunicação. Sidônio defendia valorizar o legado do governo. Nicole Briones, responsável pelas redes do PT, preferia uma abordagem mais combativa, enquanto Ricardo Stuckert exercia influência relevante sobre o conteúdo dos canais presidenciais. Divergências estratégicas não constituem defeito em si. Tornam-se um problema quando não há instância capaz de convertê-las em orientação comum, ou quando o acesso ao candidato pesa mais que a circulação de avaliações críticas. Os relatos disponíveis mostram desacordo sobre prioridades e dificuldades de entrosamento, não uma cadeia completa de decisões que autorize responsabilizações indiscriminadas.

A mesma reportagem descreveu um episódio revelador. Lula recebeu empresários no Palácio da Alvorada sem que Gilberto Carvalho, encarregado da agenda, e José de Filippi, tesoureiro da campanha, soubessem do encontro até a noite anterior. Também relatou atritos entre Edinho e Sidônio sobre medidas relacionadas às plataformas de apostas. Não é possível determinar o efeito eleitoral de cada episódio. Eles mostram, porém, como decisões e informações podiam circular fora dos canais destinados a executá-las. O problema de comando deixava de ser uma abstração.

Depois do primeiro turno, a estrutura voltou a mudar. Em 8 de outubro, o UOL noticiou a convocação de Camilo Santana para a coordenação política, Rui Costa para a agenda e Rafael Fonteles para a comunicação. Na véspera, Kátia Abreu, coordenadora no Tocantins, criticara a concentração da área comunicacional e defendera a participação de quadros de outras regiões. A redistribuição de funções poderá corrigir parte das falhas, mas também evidencia que a configuração anterior estava sob contestação. O risco de uma direção excessivamente fechada não é ouvir opiniões divergentes. É impedir que os fatos incômodos modifiquem as decisões a tempo.

<><> A realidade material que a campanha não conseguiu traduzir

Em setembro de 2026, a taxa de desemprego estava em 5,3% no trimestre encerrado em agosto, o menor patamar para aquele período desde o início da série do IBGE. Na pesquisa referente a agosto, a Confederação Nacional do Comércio registrou 82% das famílias endividadas e 29,9% com contas em atraso. O mercado de trabalho melhorava sem eliminar a pressão sobre os domicílios. Um emprego formal ou uma renda maior podem coexistir com parcelas vencidas, aluguel elevado e crédito caro. Não há contradição estatística entre esses resultados. Há uma experiência material da economia que os números agregados não conseguem descrever sozinhos.

A distância apareceu nas pesquisas. Em julho, saúde era apontada como principal problema do país por 21% dos entrevistados pelo Datafolha; segurança aparecia com 17%, e economia e inflação, com 14%. Entre 29 de setembro e 1º de outubro, 69% disseram sentir insegurança ao pensar no Brasil, 57% manifestaram medo do futuro e 43% foram classificados como pessimistas. Na mesma pesquisa, 41% avaliavam negativamente o governo, contra 35% de avaliação positiva. Nenhum desses indicadores estabelece, sozinho, a direção do voto. Eles mostram que os avanços administrativos não haviam dissolvido a insegurança social.

Entre uma condição de vida e sua interpretação política há famílias, igrejas, amizades, ambientes de trabalho, lideranças locais e redes digitais. O Datafolha registrou que 43% dos entrevistados atribuíam alguma influência a amigos próximos, 39% a perfis acompanhados nas redes e 30% a líderes religiosos. Essas respostas não revelam quem influenciou quem nem provam uma operação coordenada. Ajudam a compreender por que uma percepção econômica pode ganhar sentidos políticos distintos conforme o círculo em que é discutida. A tecnologia acelera a circulação dessas leituras, mas não substitui as relações de confiança que lhes dão credibilidade.

O problema começava quando essa distância era tratada apenas como uma dificuldade de comunicação. Os indicadores de emprego e endividamento descreviam a mesma sociedade, mas não a mesma experiência para todos os trabalhadores. A direção precisava distinguir quem havia conquistado alguma segurança material de quem continuava vivendo sob o peso de juros, serviços precários e renda insuficiente. Pesquisas identificam tendências, e a publicidade lhes dá circulação. Nenhuma substitui a escuta organizada dos conflitos sociais nem a capacidade de rever diagnósticos quando a vida cotidiana contraria o discurso oficial. Sem esse retorno, uma campanha passa a responder à imagem que construiu do país, não necessariamente ao país que encontrará nas urnas.

<><> Enquanto se disputava a Presidência, o poder já mudava de lugar

Na noite de 6 de outubro, Flávio Bolsonaro reuniu-se com a Frente Parlamentar da Agropecuária, que havia formalizado apoio à sua candidatura. O encontro tratou de crédito rural, seguro agrícola, regularização fundiária e infraestrutura. Questionado sobre a escolha do ministro da Agricultura num eventual governo, respondeu que a bancada faria a indicação. Dois dias depois, reportagens já registravam negociações sobre as presidências da Câmara e do Senado, com Rogério Marinho e Pedro Lupion entre os nomes cogitados. Eram articulações, não nomeações. Ainda assim, mostravam representantes de interesses econômicos discutindo espaços de decisão antes mesmo do segundo turno.

O primeiro turno havia alterado as condições desse jogo. O PL elegeu 121 deputados e 19 senadores, alcançando projeção de 28 cadeiras no Senado em 2027. Os novos mandatos se estenderão até 2035. Com 28 integrantes, uma bancada que atue conjuntamente pode reunir as 27 assinaturas necessárias para propor uma emenda constitucional ou requerer uma CPI, atendidas as demais exigências legais. Para aprovar uma emenda são necessários 49 votos no Senado e 308 na Câmara, em dois turnos; para condenar um ministro do Supremo em processo de impeachment, 54 senadores. Iniciativa, negociação e decisão não são poderes equivalentes.

A presença parlamentar também altera a base material da competição política. Pela legislação vigente, 95% do Fundo Partidário são distribuídos proporcionalmente à votação das legendas para a Câmara, observadas as condições de acesso e as regras específicas de cálculo. Votos ajudam a definir recursos para diretórios, equipes e atividades permanentes. A representação amplia ainda a interlocução com governos, empresas e organizações sociais. Nada disso constitui uma maioria automática ou uma aliança imutável. Constitui, porém, uma infraestrutura que pode sobreviver às oscilações da campanha presidencial e pesar nas disputas seguintes.

A dimensão democrática desse movimento não é abstrata. Em setembro de 2025, o Supremo Tribunal Federal condenou Jair Bolsonaro e integrantes da trama de tentativa de golpe de Estado. Flávio Bolsonaro, que apresenta sua agenda como uma reforma institucional, defende mudanças constitucionais no Judiciário e prometeu indulto ao pai. São medidas juridicamente distintas, sujeitas a regras e controles próprios, mas sua combinação com a nova correlação de forças no Congresso exige exame rigoroso dos limites entre responsabilização penal, exercício do poder presidencial e independência dos tribunais. Também estão em disputa as condições de trabalho, a exploração dos recursos naturais, a política industrial e a margem de decisão do Brasil nas relações internacionais. O resultado de 25 de outubro definirá a Presidência, não eliminará essas disputas nem dará a qualquer coalizão autorização para ultrapassar a Constituição.

<><> O segundo turno não absolve oito anos de erros

O segundo turno, marcado para 25 de outubro, ocorrerá sob condições distintas das que definiram as bancadas parlamentares. Parte da distribuição de poder já está estabelecida por mandatos que atravessarão os próximos anos, enquanto as alianças da disputa presidencial continuam em negociação. Depois de reconhecer falhas no primeiro turno, Lula anunciou mudanças na coordenação. Flávio Bolsonaro, por sua vez, pediu que parlamentares e governadores eleitos mantivessem ativas as estruturas mobilizadas na primeira votação. Nenhuma dessas providências assegura, por si, o apoio individual dos eleitores. A distância entre decisão de cúpula e comportamento social, que atravessou toda esta investigação, continuará sendo decisiva para compreender o que ocorrer nas urnas.

Mais de 33 milhões de eleitores não compareceram ao primeiro turno. Cerca de seis milhões votaram em branco ou anularam o voto. Não sabemos como decidirão em 25 de outubro, nem é legítimo tratar as escolhas feitas por outros candidatos como propriedade transferível por suas lideranças. Comparecimento, decisões individuais e alianças estaduais serão observados dentro de uma composição parlamentar já definida em parte. O segundo turno escolherá o próximo presidente, mas não refará a votação que distribuiu mandatos legislativos até 2031 e 2035.

A integridade do processo também exige vigilância institucional. O NetLab/UFRJ encontrou 568 anúncios políticos veiculados em período proibido nas plataformas da Meta e identificou peças que imitavam comunicações do TSE para divulgar a falsa possibilidade de votar pela internet. Não há prova de que tenham alterado o resultado. Há prova de vulnerabilidade na circulação de informação sobre o próprio procedimento de votar. Quando anúncios enganosos procuram confundir o eleitor, a questão deixa de ser apenas persuasão partidária e passa a envolver a proteção das condições de exercício dos direitos políticos.

O resultado de outubro não extinguirá o dever de explicar os erros conhecidos antes da votação. A responsabilidade não pertence indistintamente a todo o campo democrático, nem pode ser atribuída a um único dirigente sem examinar a autoridade de cada um. Ela acompanha as decisões, os recursos e as funções de quem recebeu avisos e dispunha de meios para agir. Depois de uma tentativa de golpe julgada pelo Supremo, e diante de uma composição parlamentar que influenciará o país até 2035, a defesa da democracia exige transparência também daqueles que afirmam protegê-la. É preciso saber quais alertas chegaram ao comando, quais medidas foram adotadas, como sua execução foi verificada e por que as falhas reapareceram na reta final. Autocrítica sem prestação de contas não é correção de rumo. Não é a surpresa que exige explicação. É o fato de ela ter sobrevivido a oito anos de avisos.

 

Fonte: Por Reynaldo José Aragon, em Código Aberto

 

Milícias, Faria Lima e governos: a zona cinza

A leitura dominante do crime organizado cai numa armadilha liberal e moralista: trata narcotráfico e milícias como desvios, anomalias do mercado, invasores que corrompem um Estado originalmente sadio. Essa leitura oculta o dado fundamental. O crime organizado territorial, em suas formas consolidadas, é fração do capital e tecnologia de gestão urbana e política.

Para situar a milicianização brasileira às vésperas de 2027, o paralelo com a Itália do fim do século XX é útil, desde que preciso. A lição italiana não é a de um político que entregou o Estado à máfia, mas a de um sistema político em colapso que normalizou uma contiguidade já existente entre capital legal e capital violento.

O fio condutor desta leitura é a obra de Roberto Saviano. Em Gomorra, os camorristas não chamam sua organização de máfia, mas de Sistema: o crime não é exceção à ordem econômica, é um de seus modos de funcionamento. A lógica do empresário criminoso e o pensamento dos chefões, escreve Saviano, coincidem com o neoliberalismo mais radical.

<><> A zona cinzenta e a lição italiana

Em Gomorra (2006), Saviano mostrou que a força da Camorra está menos na violência que na capacidade de convertê-la em capital imobiliário, industrial e de serviços: construção civil, confecção para grifes, descarte de resíduos tóxicos. Em ZeroZeroZero (2013), seguiu a mesma lógica na escala global da cocaína, e fez da ‘Ndrangheta calabresa protagonista.

A penetração das máfias meridionais no Norte não começou com Silvio Berlusconi. Remonta ao soggiorno obbligato, que a partir dos anos 1960 mandou mafiosos para o exílio forçado no Norte, aos sequestros dos anos 1970 e à lavagem de dinheiro na Milão dos anos 1980. A Operação Infinito (2010) encontraria dezenas de células da ‘Ndrangheta na Lombardia.

Berlusconi chegou ao poder em 1994 sobre os escombros do sistema partidário demolido pela Mani Pulite. Seu braço direito e cofundador da Forza Italia, Marcello Dell’Utri, foi condenado em definitivo pela Corte de Cassação, em 2014, a sete anos por concorso esterno em associação mafiosa — a participação de quem, sem ser membro, presta serviços à organização. A sentença o reconheceu como mediador entre Berlusconi e a Cosa Nostra de 1974 a 1992, período que inclui a contratação do mafioso Vittorio Mangano na mansão de Arcore, a residência do então primeiro-ministro nos arredores de Milão.

Os fatos posteriores a 1992 não foram considerados provados, e Berlusconi nunca foi condenado por crimes de máfia. O ponto é estrutural, não judicial: a desregulamentação, o ataque sistemático à magistratura e a retórica do empreendedor contra o Estado deram à contiguidade um ambiente em que ela pôde se normalizar.

A sociologia italiana chamou esse espaço de zona grigia, tomando a expressão de Primo Levi. Rocco Sciarrone a define como a área em que empresários, profissionais liberais, políticos e mafiosos trocam favores sem fronteiras nítidas. A máfia não invadiu o Norte; foi incorporada à economia formal pela construção, pelo setor imobiliário, pelos resíduos e pelas obras públicas.

<><> A forma brasileira: a milícia como mercadoria política

Michel Misse chamou de “mercadorias políticas” os bens cuja troca combina recursos econômicos e poder de coerção. A milícia vende a própria capacidade coercitiva do Estado, privatizada por seus agentes e convertida em renda.

Ao contrário do tráfico de varejo, que opera à margem e em confronto com a polícia, a milícia nasce dentro do aparato repressivo: policiais, ex-militares, bombeiros, agentes penitenciários. José Cláudio Souza Alves, em Dos barões ao extermínio, e Bruno Paes Manso, em A República das Milícias, reconstituem a passagem do esquadrão da morte ao domínio territorial de negócios — a milícia como franquia de extrativismo urbano.

Roberto Saviano chega ao Rio em ZeroZeroZero. Ali as milícias surgem como autodefesa contra o tráfico e acabam como suas concorrentes na venda de proteção, sob a complacência de uma política que, enquanto pôde, as tratou como mal menor. A origem na autodefesa é a versão que as milícias contam de si mesmas; a pesquisa brasileira as situa dentro da polícia. O diagnóstico político, porém, coincide: o “mal menor” foi a forma pela qual o Estado as incorporou.

Sua base de acumulação é o confisco direto da renda da classe trabalhadora periférica: taxas de “proteção”, monopólio do gás de cozinha, controle da água, da TV a cabo e da internet, transporte alternativo e, sobretudo, grilagem e incorporação imobiliária. Na Muzema, zona oeste do Rio, onde dois prédios erguidos sob domínio miliciano desabaram em 2019 e mataram 24 pessoas, repete-se o que Saviano descreveu na Campânia: o cimento liga a violência ao capital fixo.

A atualização de 2025 do Mapa Histórico dos Grupos Armados (GENI/UFF e Instituto Fogo Cruzado) mostra que, em 2024, 34,9% dos moradores da Grande Rio — perto de 4 milhões de pessoas — viviam sob domínio ou influência armada. O domínio tem cor e classe: na capital, a renda per capita nessas áreas é de R$ 1.267, pouco mais de um terço dos R$ 3.521 das áreas livres; na metrópole, pretos, pardos e indígenas são 69,1% dos moradores sob controle miliciano, ante 55,2% no restante.

Nenhum grupo cobre mais chão que as milícias: 49,4% da área sob domínio armado, cerca de 201 km², mais de quatro vezes o que controlavam em 2007. O método é chegar antes — ao loteamento sem título, ao bairro sem asfalto, à franja onde a cidade cresce — e cobrar pedágio sobre tudo o que a urbanização traz. É a expansão urbana convertida em renda armada.

A fronteira entre milícia e tráfico, nítida no discurso, é porosa na prática. Desde o fim dos anos 2010, investigações documentam “narcomilícias” que vendem drogas e se aliam a facções como o Terceiro Comando Puro. A lógica é a do negócio, não a da identidade.

<><> Um processo estrutural, uma aceleração política

Se o crime territorial é estrutura, sua expansão não pertence a um único governo. As milícias cariocas cresceram sob governos estaduais de várias colorações, inclusive o de Sérgio Cabral, aliado do governo federal petista — o mesmo período em que a CPI das Milícias da Alerj, em 2008, indiciou mais de duzentas pessoas sem desmontar o negócio.

O maior surto de crescimento registrado pelo Mapa, de 31,6% na área dominada, ocorre entre 2016 e 2020: o estado do Rio quebra, as UPPs são desmontadas e a intervenção federal de 2018 assiste ao avanço sem detê-lo.

A partir de 2020, a curva miliciana se inverte. A Operação Intocáveis, do Ministério Público, a morte de Wellington da Silva Braga, o Ecko, e as brigas pela sucessão deixaram territórios desguarnecidos, que o Comando Vermelho ocupou: hoje ele domina 47,2% da população sob controle armado. Um poder que depende de redes com o Estado cresce depressa e se quebra quando elas são cortadas.

O ciclo bolsonarista no governo federal (2019–2022) acrescentou aceleração e legitimação. A flexibilização das armas multiplicou os registros de colecionadores, atiradores e caçadores (CACs), até ser revertida pelo Decreto 11.615/2023. O enfraquecimento da fiscalização ambiental e fundiária abriu espaço à violência privada nas fronteiras agrícolas. E o discurso da autodefesa armada deu cobertura moral à coerção paraestatal.

O decreto conteve novas compras; o arsenal acumulado ficou.

Os dados são do painel da Polícia Federal, que em julho de 2025 herdou do Exército a base de registros. São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná concentram os maiores acervos. A pistola é o tipo mais comum, e o 9 mm, o calibre mais registrado — o mesmo que mais ganhou espaço nas apreensões, como mostra o gráfico mais abaixo.

Os casos reunidos pelo Instituto Sou da Paz aparecem em 19 unidades da federação, com São Paulo, Espírito Santo e Rio Grande do Sul na frente, e atendem a clientelas variadas: PCC e CV, milícias urbanas e rurais, grupos de extermínio, grileiros. No caso-limite, um casal esgotou a cota de CAC comprando 26 fuzis idênticos para o Comando Vermelho.

Ao igualar atiradores novatos e veteranos e ampliar as cotas, as regras de 2019 a 2022 abriram caminho ao que o crime mais procura: fuzis e pistolas 9 mm.

A proximidade entre esse campo político e o mundo miliciano tem registro público. Como deputado estadual, Flávio Bolsonaro homenageou na Alerj o policial Adriano da Nóbrega, depois apontado como chefe do Escritório do Crime, e empregou em seu gabinete a mãe e a ex-mulher dele. As investigações sobre o gabinete foram anuladas pelos tribunais superiores por razões processuais, sem julgamento de mérito.

Fora do Rio, a expansão do modelo é desigual. Belém é o caso mais documentado, com chacinas atribuídas a grupos de extermínio e uma CPI das Milícias na Assembleia do Pará em 2015. Em outras regiões avançam a hegemonia de facções e a letalidade policial, fenômenos aparentados, mas distintos.

<><> Do território à Faria Lima

Se a milícia é o equivalente brasileiro do controle territorial mafioso, o equivalente da ‘Ndrangheta em Milão é o Primeiro Comando da Capital. A Operação Carbono Oculto, lançada em agosto de 2025 pela Receita, pela Polícia Federal e pelo Ministério Público paulista, mostrou o dinheiro da facção circulando por importadoras, distribuidoras e postos de combustível até desaguar em gestoras e fintechs no centro financeiro de São Paulo.

O balanço da Transparência Internacional – Brasil dá a escala: mais de 350 investigados, mais de quatro dezenas de fundos sob suspeita, um patrimônio que ia de usinas de etanol e um terminal portuário a imóveis e caminhões. No dia em que os alvos vieram a público, a Reag Investimentos perdeu mais de 15% em bolsa.

O Estado respondeu na linguagem da regulação, não da polícia: a Instrução Normativa nº 2.278/2025 da Receita estendeu às fintechs os deveres de informação dos bancos, e o Congresso aprovou o projeto do devedor contumaz, contra empresas que fazem da sonegação um método.

É a zona cinzenta em sua forma acabada. O dinheiro do varejo de drogas e do contrabando entra em postos, distribuidoras e veículos financeiros legais, operados por profissionais que não portam armas. A fronteira deixa de ser geográfica, entre a favela e o asfalto, e passa a ser contábil.

Saviano descreveu esse movimento em ZeroZeroZero. Nenhum papel cotado em bolsa, escreve, gera o lucro da cocaína, “o último bem que permite a acumulação originária de capitais”. E esse dinheiro encontra os bancos quando eles mais precisam: o livro lembra que, em dezembro de 2009, Antonio Maria Costa, então responsável pelo escritório da ONU sobre drogas e crime, declarou que os ganhos das organizações criminosas tinham sido, para alguns bancos, o único capital de investimento líquido disponível para escapar da falência. A Faria Lima é a versão brasileira dessa regra.

<><> Até onde o capital legal tolera o ilegal?

A zona cinzenta levanta uma pergunta que a crítica moralista não formula: até onde o capital legal convive com a acumulação ilegal? A tolerância não é moral, mas condicional. Depende de quem paga os custos e de se o capital ilegal complementa ou concorre com o legal.

Quando o complementa, a tolerância é alta. O capital ilegal oferece liquidez, demanda para a construção e o mercado imobiliário, disciplina sobre a força de trabalho e “limpeza” de terras. Na Lombardia, a crise de crédito pós-2008 tornou o dinheiro da ‘Ndrangheta atraente para pequenas e médias empresas sem acesso a bancos. O custo recai sobre os trabalhadores das periferias, não sobre o capital.

Quando o tributa ou concorre com ele, a tolerância cai: a extorsão atinge empresas, o roubo de cargas encarece a logística, concessionárias de energia e telecomunicações perdem áreas inteiras para o “gatonet” e as ligações clandestinas, postos ligados a facções derrubam preços sonegando impostos. Aí as empresas legais passam a cobrar o Estado.

A Carbono Oculto marcou esse ponto de virada. Numa sondagem da Transparência Internacional – Brasil com o Datafolha, em dezembro de 2025, empresas apontaram o crime organizado como ameaça crescente, mas só 57% disseram confiar que seus parceiros comerciais têm controles específicos contra ele.

A Itália conheceu os dois lados desse limite. Por décadas, o pizzo foi custo operacional. Em 2007, a Confindustria siciliana passou a expulsar associados que pagassem extorsão, na esteira do Addiopizzo, criado por jovens de Palermo em 2004: a máfia passara a custar mais do que rendia ao empresariado.

Uma coalizão antimáfia pode nascer do próprio capital, mas é seletiva: combate o crime que ameaça a concorrência e os lucros e tolera o que se limita a extrair renda dos pobres. O confisco miliciano da renda popular é justamente a acumulação ilegal que menos incomoda o capital formal.

<><> A eleição e a estrutura

O primeiro turno de 4 de outubro de 2026 levou ao segundo turno Flávio Bolsonaro (PL), com 47,03% dos votos válidos, e Luiz Inácio Lula da Silva (PT), com 45,16%. A disputa será decidida em 25 de outubro.

A integração do crime territorial ao poder não se apresenta como caos, mas como reorganização do Estado: confisco da renda popular legalizado na prática, acumulação ilegal blindada pela política. Ela já se converteu em mandatos — a CPI das Milícias de 2008 tinha entre seus alvos um deputado estadual e um vereador. Na Itália, as marcas desta integração foram a pressão contra a magistratura, as anistias fiscais e a desregulamentação das obras públicas; no Brasil, são o controle sobre as polícias, o desmonte da fiscalização financeira e territorial e a política de armas.

A eleição não decide o fenômeno; apenas o encontra. Quem tomar posse em 2027 governará sobre milícias consolidadas, facções financeirizadas e polícias com baixo controle civil. O que se disputa nas urnas não é a existência da zona cinzenta, mas o grau em que ela se traduz em governo.

<><> O que a punição não alcança

A Mani Pulite, “Operação Mãos Limpas” italiana, prometeu purificar a política e abriu o vácuo ocupado por Berlusconi. A Lava Jato percorreu trajetória semelhante: desorganizou o sistema partidário, relativizou garantias processuais e preparou o terreno para a extrema-direita de 2018.

O punitivismo territorial tampouco toca a estrutura. Operações de alta letalidade, como a Operação Contenção, na Penha e no Alemão em outubro de 2025, com 121 mortos segundo o próprio governo estadual, matam operadores substituíveis e deixam intactos o fluxo de renda e os circuitos financeiros. Segundo o Mapa, o Comando Vermelho cresceu quase sem interrupção ao longo de duas décadas de megaoperações — e os grupos já não ocupam áreas vazias, tomam territórios uns dos outros, numa disputa feita à bala onde mais gente mora.

A experiência italiana mostra o limite da própria resposta penal. O combate às máfias foi, em parte, duramente penal: o maxiprocesso de Palermo, o regime carcerário 41-bis, a tipificação do método mafioso. E foi enquanto a Cosa Nostra era desmontada nos tribunais que a ‘Ndrangheta se tornou a mais poderosa das máfias italianas. O direito penal alcança o mafioso; a acumulação se desloca para onde a lei não olha e sobrevive a ele.

<><> O que a milícia é

Quando passou a confiscar o patrimônio mafioso, com a Lei Rognoni-La Torre, de 1982, o Estado italiano descobriu que o poder da máfia era, antes de tudo, propriedade: fazendas, imóveis, empresas, contratos. A violência era o meio; o patrimônio, a substância.

O mesmo vale para a milícia. Ela não é a ausência do Estado nas periferias, mas uma de suas formas de presença: coerção pública, exercida por agentes públicos, convertida em renda privada. O chamado “poder paralelo” não corre em paralelo a nada; está cravado no orçamento doméstico do trabalhador, do qual retira uma parcela fixa todo mês.

Daí que parte dos moradores de áreas milicianas descreva a milícia como ordem preferível à do tráfico. Não é engano. A milícia vende previsibilidade num mercado em que o Estado é apenas mais um ofertante armado, e nem sempre o mais confiável. A preferência reconhece que, ali, a proteção é mercadoria.

Milícia e facção financeirizada são os dois polos de um mesmo circuito. Num extremo, a renda é extraída no varejo da vida cotidiana; no outro, reaparece como cota de fundo, ação de gestora, usina de etanol. A zona cinzenta não é a fronteira entre os dois, mas o espaço em que a acumulação se realiza.

No capítulo de Gomorra dedicado ao cimento, Saviano vai a Casarsa, ao túmulo de Pier Paolo Pasolini, e retoma o célebre “eu sei” com que Pasolini, em 1974, acusou os responsáveis pelos massacres que ensanguentaram a Itália, num texto que admitia não ter provas. Saviano articula o “eu sei” de seu tempo e o completa: eu sei e tenho as provas. As dele eram as do testemunho, o que os olhos viram nos canteiros de obra. No Brasil, as provas são também públicas: estão nos mapas, painéis, inquéritos e sentenças citados neste texto.

A zona cinzenta não é o que o Brasil pode vir a ser. É o que o Brasil já é: um país em que voto, território e vida cotidiana se organizam, em parte crescente, segundo a franquia do crime com carimbo oficial.

 

Fonte: Por Marcelo Phintener, em Outras Palavras

 

Perguntas incômodas sobre os que não votaram

Talvez seja difícil encontrar frase melhor para pensar o Brasil que chega a este segundo turno. Não porque as pessoas estejam simplesmente “perdidas” – e muito menos porque exista eleitor moralmente superior a outro –, mas porque uma democracia começa a adoecer quando uma parcela enorme da população deixa de enxergar na política um lugar onde sua vida possa efetivamente mudar.

Em 4 de outubro, mais de 33,4 milhões de eleitores não compareceram às urnas no primeiro turno, uma abstenção de 21,08% do eleitorado – a maior em uma eleição presidencial desde 1998. O segundo turno, marcado para 25 de outubro, será disputado por Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva. Antes de perguntar em quem essas pessoas votariam, talvez seja necessário fazer uma pergunta anterior: o que precisaria acontecer para que elas voltassem a acreditar que a política merece seu tempo?

A resposta certamente não cabe em uma única explicação. Há desinteresse, dificuldades materiais, problemas de transporte, trabalho, doença, distância, desinformação, desencanto – e há também uma percepção cada vez mais disseminada de que “não importa quem ganhe”. Essa talvez seja a mais perigosa, porque uma democracia não se enfraquece apenas quando alguém tenta tomar o poder pela força; ela também se desgasta quando as pessoas deixam de acreditar que participar faz diferença. É nesse ponto que a velha discussão sobre o chamado “pobre de direita” precisa ser refeita, não para repetir o diagnóstico fácil, mas para perguntar o que ele não explica.

<><> A pergunta errada: quando o diagnóstico vira obstáculo

“Como pode existir pobre de direita?” Uma pessoa pobre pode ser conservadora, liberal, socialista, religiosa, nacionalista, progressista ou qualquer combinação dessas coisas. Classe social não determina automaticamente consciência política, assim como renda não vem acompanhada de manual de instruções ideológicas. O problema é transformar “pobre de direita” em explicação: a expressão descreve uma posição eleitoral, mas não explica por que ela existe.

Quando a esquerda olha para um trabalhador que vota à direita e responde apenas “ele não entendeu os próprios interesses”, comete um erro duplo – primeiro, transforma o eleitor em objeto de tutela; segundo, deixa de investigar por que suas próprias propostas deixaram de produzir identificação. Talvez a pergunta correta seja outra: o que aconteceu para que pessoas que dependem de políticas públicas deixassem de enxergá-las como expressão de seus próprios direitos? Essa pergunta dói mais, porque obriga a olhar para dentro.

<><> Política social não é esmola: quando o direito parece favor e o futuro parece impossível

A Constituição de 1988 não trata educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, transporte, segurança, previdência e assistência social como favores: reconhece direitos sociais e estabelece deveres e objetivos para o Estado. O próprio texto constitucional define entre os objetivos fundamentais da República a construção de uma sociedade livre, justa e solidária, a redução das desigualdades e a erradicação da pobreza. Isso deveria ser banal, mas não é. Quando uma família recebe uma transferência de renda, não está recebendo uma gentileza pessoal do governante; quando uma criança frequenta uma escola pública, não está recebendo uma concessão; quando alguém entra em um hospital público, o Estado não está fazendo caridade. Está cumprindo uma função que a Constituição lhe atribui.

Defender direitos sociais não significa transformar toda política social existente em sucesso absoluto: uma política pode reduzir a fome sem eliminar a pobreza, ampliar o acesso à universidade sem enfrentar a precarização do trabalho, garantir renda sem produzir autonomia, impedir que alguém caia no abismo sem construir uma ponte para sair dele. Essa diferença é fundamental, porque a vida não pode ser organizada eternamente entre sobreviver e esperar.

<><> O Estado que chega tarde

Há uma dimensão da pobreza que aparece pouco nas estatísticas: a experiência da espera. Esperar pela consulta, pela vaga na creche, pelo ônibus, pela casa, pelo emprego, pelo saneamento – esperar que o filho consiga uma oportunidade, que a violência diminua, que alguém olhe para aquele bairro. Esperar, esperar, esperar. E esperar não é apenas uma condição material; é também uma pedagogia política que ensina, todos os dias, ao cidadão a desconfiar da promessa pública. Quando o Estado chega tarde demais, deixa de ser percebido como garantia e passa a ser percebido como promessa – e promessa repetida sem entrega produz descrença. É nesse terreno que discursos autoritários podem prosperar – não porque todo cidadão que vota à direita seja autoritário, mas porque o sofrimento social cria demanda por explicações, e a extrema direita frequentemente oferece algumas das mais simples: há sempre um culpado. O criminoso, o imigrante, o professor, a universidade, a esquerda, o servidor público, o “sistema”, a minoria. O alvo muda; a estrutura permanece.

A política deixa de perguntar como distribuir riqueza, poder e oportunidades e passa a perguntar quem merece ser punido. É nesse mesmo movimento que a segurança pública se converte em um dos principais terrenos da fabricação de inimigos. Mas segurança pública também é direito, e combater o crime não é sinônimo de autoritarismo. O problema começa quando a proteção do cidadão é substituída pela produção de suspeitos – quando pobreza, diferença ou pertencimento político passam a funcionar como prova de culpa. É uma troca perigosa, porque o ressentimento mobiliza, mas não constrói escola, não constrói hospital, não transforma pesquisa em tecnologia. Não constrói soberania.

Há uma memória que o Brasil ainda não conseguiu elaborar. Mais de 700 mil pessoas morreram na pandemia de COVID-19 – e morreram em uma pandemia agravada por decisões, omissões e escolhas do governo federal: minimização da doença, promoção de tratamentos sem eficácia comprovada e uma condução da vacinação que foi objeto de graves críticas e investigação parlamentar. A CPI da Pandemia atribuiu ao governo federal papel preponderante na condução da resposta à crise e recomendou indiciamentos, inclusive do então presidente. A pandemia não terminou quando os hospitais esvaziaram. Ela permanece como um trauma não elaborado, como uma pergunta sem resposta: como foi possível que um país inteiro assistisse, em tempo real, à produção industrial da morte e ainda assim, anos depois, um campo político associado àquele governo volte a disputar a Presidência com força suficiente para chegar ao segundo turno?

Talvez porque a memória, no Brasil, seja tratada como assunto de arquivo, não como matéria de disputa. Talvez porque o luto tenha sido privatizado – cada família enterrando seus mortos em silêncio, sem que a sociedade pudesse dizer em voz alta: isso não foi apenas um acidente sanitário. Houve escolhas políticas, omissões e decisões que tiveram consequências concretas sobre a vida de centenas de milhares de pessoas. Disputar a memória da pandemia não é revanchismo. É impedir que o esquecimento prepare o terreno para a repetição. É dizer que as mais de 700 mil pessoas que morreram não são números: são pessoas de carne e osso, histórias, ausências que continuam a organizar a vida de quem ficou. E é por isso que o segundo turno não é apenas uma eleição. É uma escolha sobre o que faremos com essa memória.

<><> Quando a austeridade estreita o futuro: orçamento é política

Não é correto afirmar que toda política de austeridade produz fascismo – embora determinadas políticas de austeridade, em certos contextos, possam alimentar condições sociais e políticas favoráveis ao crescimento da extrema direita. Tampouco existe uma equação automática entre contenção fiscal e extrema direita. Mas existe uma questão política incontornável: o que acontece quando a capacidade do Estado de responder aos problemas sociais é permanentemente comprimida?

O Novo Arcabouço Fiscal é objeto de uma disputa legítima entre diferentes correntes econômicas – David Deccache, por exemplo, argumenta que as regras do novo regime fiscal restringem a capacidade do governo de ampliar gastos sociais, reduzir desigualdades e realizar investimentos necessários ao desenvolvimento. Essa é uma interpretação situada em uma determinada corrente do debate econômico e está longe de ser consensual. Justamente por isso, essa disputa deveria sair dos círculos especializados e entrar no debate público.

O problema não é reconhecer que existem limites fiscais; o problema é transformar esses limites em uma variável puramente técnica que encerra, antes mesmo de começar, uma discussão que é essencialmente política. Quanto gastar? Onde investir? Quem proteger? Quem tributar? Que setores desenvolver? Que futuro financiar? Orçamento não é apenas contabilidade – orçamento é escolha. Se existe um limite para determinado gasto, existe também uma escolha sobre aquilo que não será feito. Por isso, a pergunta não deveria ser apenas “quanto o Estado pode gastar?”, mas: que Estado queremos construir – e quanto estamos dispostos a financiar para que ele exista?

<><> A dívida também precisa ser discutida

É preciso falar de dívida pública sem slogans – mas também sem esconder seus números. Segundo os cálculos de Paulo Kliass, elaborados a partir das estatísticas oficiais do Banco Central, as despesas com juros da dívida pública somaram R$ 1,2 trilhão nos doze meses encerrados em junho de 2026. Apenas naquele mês, foram cerca de R$ 111 bilhões. Dados oficiais divulgados posteriormente ajudam a dimensionar essa escala: em agosto de 2026, a dívida pública federal alcançou R$ 9,29 trilhões, enquanto os juros incorporados naquele mês chegaram a R$ 88,39 bilhões; com dados até julho, a Consultoria de Orçamento da Câmara registrava R$ 1,15 trilhão em juros acumulados em doze meses. Os números variam conforme o período e a metodologia, mas ajudam a dimensionar a escala do problema. A pergunta, portanto, não é se a dívida custa caro. É quem paga essa conta e o que deixa de ser feito quando ela chega a essa escala.

Esses dados não significam que “todo o dinheiro vai para os bancos”. Tampouco permitem concluir que a dívida pública possa simplesmente ser ignorada. Juros, amortizações e refinanciamento são conceitos diferentes, e uma discussão séria precisa respeitar essa diferença. Mas os números permitem formular uma pergunta que não deveria ser ignorada: por que as despesas sociais precisam justificar continuamente sua existência enquanto a despesa financeira parece escapar, no debate público, do mesmo escrutínio político e midiático?

Em 2026, essa escala tornou-se difícil de ignorar. Enquanto o debate gira em torno de cortes, contingenciamentos e limites para políticas sociais e investimentos, as despesas com juros da dívida ultrapassam a escala de um trilhão de reais em doze meses. A questão, portanto, não é escolher entre “responsabilidade fiscal” e “irresponsabilidade fiscal”. É perguntar: responsabilidade fiscal para quem, para quê e com quais prioridades?

Se o país precisa reorganizar suas contas, essa reorganização deveria alcançar o conjunto do orçamento. Se existem limites para financiar políticas públicas, também é legítimo discutir os mecanismos que determinam o custo financeiro do Estado. A dívida precisa deixar de ser um assunto reservado a especialistas e tornar-se uma questão democrática. Não para produzir uma conclusão antecipada. Mas para que a sociedade possa perguntar quanto paga, por que paga, quem recebe e que projeto de país esse pagamento torna possível.

<><> O problema também está dentro da esquerda

É aqui que a autocrítica se torna indispensável. A extrema direita não cresce apenas pelo que diz; também cresce nos espaços que outras forças políticas deixam de ocupar. Se a esquerda promete transformação e entrega apenas administração da escassez, produz frustração; se promete democratização e não democratiza o poder, produz cinismo; se defende direitos, mas não consegue melhorar a experiência concreta de quem depende deles, permite que alguém apareça dizendo “eu sei por que sua vida está ruim” e ofereça uma explicação simples. Uma esquerda que pede confiança apenas porque é menos ruim que a alternativa corre o risco de transformar a própria política em gerenciamento permanente do medo. Ela precisa fazer uma pergunta mais difícil: o que ainda falta para que a vida das pessoas seja digna?

Transferência de renda não substitui emprego digno; acesso à universidade não substitui política industrial; escola pública não pode funcionar como depósito de crianças enquanto os adultos trabalham jornadas intermináveis; o SUS precisa de financiamento, mas também de capacidade tecnológica; habitação não pode significar simplesmente construir unidades distantes de tudo; combater a fome sem transformar a estrutura produtiva mantém milhões de pessoas permanentemente vulneráveis. O desafio não é apenas fazer o Estado chegar – é fazer com que ele chegue antes que a esperança vá embora.

<><> O futuro precisa voltar ao orçamento

É aqui que a discussão fiscal encontra a discussão sobre futuro – e é aqui que a imagem do Estado que chega tarde retorna com força. Não se trata de revogar uma regra e imaginar que todos os problemas desaparecerão; a pergunta mais interessante é: que pacto fiscal seria necessário para financiar um projeto de país que não seja apenas administração da escassez? Isso não abre um programa de governo, mas um conjunto de perguntas que qualquer projeto de país precisaria enfrentar.

  1. Que indústria o Brasil quer ter? Que medicamentos, equipamentos médicos, semicondutores, sistemas de energia, tecnologias agrícolas, satélites e tecnologias de defesa queremos ser capazes de produzir? Indústria, ciência e tecnologia não deveriam ser departamentos separados – são partes da mesma pergunta: quanto de autonomia um país quer possuir? Política industrial é também política de soberania. E qual é o custo de não produzir?
  2. Que cidade estamos construindo quando entregamos cada casa? Construir moradia significa construir cidades – emprego, infraestrutura, transporte, saneamento, arquitetura, engenharia, materiais, energia. Uma política habitacional robusta pode ser simultaneamente política social e política econômica. Mas também exige escolhas: onde construir, para quem, com que padrão de urbanização e a que custo ambiental.
  3. Quem ficará com o tempo economizado pela tecnologia? A redução da jornada e o fim da escala 6×1 não são apenas reivindicações trabalhistas – são uma pergunta sobre o destino dos ganhos de produtividade. Se máquinas, softwares e inteligência artificial aumentam a produtividade, quem fica com o tempo que a tecnologia economizou? Se a sociedade produz mais em menos horas, por que o trabalhador necessariamente precisa trabalhar mais para continuar vivendo? Se a tecnologia economiza tempo, o trabalhador também deveria receber parte desse tempo de volta.
  4. De quem o Estado arrecada? Não basta perguntar quanto o Estado arrecada; é preciso perguntar de quem arrecada. Uma sociedade em que o consumo pesa proporcionalmente mais sobre os pobres do que sobre os mais ricos precisa discutir progressividade tributária, renda, patrimônio, lucros e dividendos. Tributação não é apenas mecanismo de arrecadação – também é mecanismo de distribuição de poder.
  5. Que conhecimento um país precisa produzir para poder decidir? Um país que importa tecnologia estratégica compra também parte de sua autonomia. Universidades, institutos de pesquisa e centros tecnológicos precisam ser tratados como infraestrutura nacional. Ciência não é luxo – é capacidade de decidir. Um país que não pesquisa suficientemente não apenas sabe menos; escolhe menos.
  6. Qual é o limite entre autonomia técnica e responsabilidade democrática? O Brasil precisa discutir quais limites fiscais e monetários está disposto a estabelecer para preservar sua capacidade de escolha. O Novo Arcabouço Fiscal deve ser revogado e substituído por uma regra compatível com investimento, crescimento e redução das desigualdades? A autonomia do Banco Central, tal como estabelecida atualmente, produz o equilíbrio adequado entre autonomia técnica, estabilidade de preços, emprego, crescimento e responsabilidade democrática? Essas perguntas não são técnicas – são políticas. E precisam ser respondidas no debate público.
  7. Quais ativos são estratégicos demais para serem mercadorias? Energia, água, mineração, infraestrutura, tecnologia e comunicações devem estar submetidos apenas à lógica de mercado? O que o país perde quando transfere ao setor privado capacidade produtiva, infraestrutura, conhecimento e poder de decisão? E, quando uma privatização compromete interesses estratégicos, não deveria existir também a possibilidade de recuperar o controle público? O Brasil precisa decidir o que não pode ser tratado apenas como mercadoria.
  8. Que transição energética queremos construir? Se minerais como lítio, níquel, cobre, grafita, manganês, nióbio e terras raras serão cada vez mais importantes para a transição energética, o Brasil continuará exportando minério e importando tecnologia? Ou usará esses recursos para desenvolver indústria, ciência e cadeias produtivas de maior valor agregado? A recém-criada Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos já reconhece sua importância para a transição energética, a soberania tecnológica e a redução de emissões. Mas será que ela basta? É possível combater a crise climática criando novas zonas de sacrifício ambiental? Mineral crítico deve ser apenas commodity de exportação ou instrumento de soberania?
  9. Como controlar um Estado maior? Se defendemos mais capacidade estatal para enfrentar os dramas da população, surge uma pergunta legítima: como impedir captura, desperdício, corrupção e burocratização? Nenhum projeto de Estado democrático pode ignorar essa questão. A resposta não pode ser simplesmente reduzir o Estado, mas torná-lo transparente, participativo e submetido ao controle social.
  10. Como democratizar as decisões? Democracia não pode começar e terminar na urna. Orçamento participativo, conselhos, consultas públicas, controle social – a própria Constituição, em seu art. 193, parágrafo único, prevê a participação da sociedade na formulação, no monitoramento, no controle e na avaliação das políticas sociais. A democracia precisa sair do calendário eleitoral e entrar na vida cotidiana.

<><> Soberania também é decidir o próprio orçamento

Existe uma conexão que costuma desaparecer quando economia e política externa são discutidas separadamente: capacidade produtiva é também capacidade diplomática. Um país que não possui capacidade produtiva suficiente depende de outros; um país dependente tecnologicamente possui menos margem de negociação; um país que precisa recorrer permanentemente a estruturas externas para financiar, produzir ou adquirir bens estratégicos possui menos alternativas; e um país com menos autonomia econômica possui menos espaço para exercer soberania política.

A disputa global por minerais como lítio, terras raras e nióbio é uma das novas fronteiras da soberania – e o Brasil precisa decidir se será fornecedor de matéria-prima ou protagonista da transição energética. A transição energética não pode significar apenas substituir a dependência do petróleo pela dependência de minerais críticos importados. Significa construir capacidade produtiva, tecnológica e industrial para que o país não troque uma forma de dependência por outra.

Por isso, soberania não significa fechar fronteiras – significa construir alternativas, cooperar sem depender, negociar sem obedecer, produzir aquilo que é estratégico sem depender de fornecedores externos, pesquisar para ampliar a própria capacidade de escolha, defender interesses nacionais sem transformar o mundo em uma guerra permanente de blocos.

O debate sobre iniciativas de segurança e cooperação promovidas pelos Estados Unidos na América Latina – como o Escudo das Américas, lançado em março de 2026 e que hoje reúne os Estados Unidos e outros 14 países da América Latina e do Caribe – precisa ser feito nesse horizonte: não como escolha simplista entre “ser pró-EUA” ou “ser anti-EUA”, mas como discussão sobre qual margem de autonomia o Brasil deseja possuir no sistema internacional. Soberania é capacidade de escolha, e capacidade de escolha exige capacidade material.

<><> E os mais de 33 milhões que não foram votar?

Talvez seja aqui que o segundo turno encontre sua questão mais profunda. Não deveríamos olhar para quem não votou como uma massa a ser conquistada – deveríamos perguntar o que precisaria acontecer para que essas pessoas voltassem a acreditar que a política merece seu tempo. Talvez alguns estejam indiferentes, talvez outros estejam decepcionados, talvez muitos simplesmente não acreditem que a política consiga alterar suas vidas. Essa última hipótese deveria assustar mais do que qualquer pesquisa eleitoral, porque uma democracia não pode depender eternamente da capacidade de seus candidatos de mobilizar medo contra medo. Ela precisa oferecer razões para participar – razões materiais, razões políticas, razões de futuro. Não basta dizer “vote porque a outra opção é pior”; uma democracia precisa ser capaz de dizer algo maior: “participe porque existe algo que podemos construir”.

<><> Ainda há tempo

Talvez a tarefa deste segundo turno seja maior do que escolher entre dois nomes: é descobrir se a política brasileira ainda consegue produzir uma conversa sobre futuro. Uma conversa em que o pobre não seja tratado como eleitor irracional, em que o beneficiário de uma política social não seja tratado como devedor de gratidão, em que o trabalhador não seja transformado em empreendedor por decreto, em que o jovem não seja obrigado a escolher entre precariedade e emigração, em que ciência seja entendida como soberania, em que responsabilidade fiscal não signifique abrir mão da responsabilidade social do Estado, em que tecnologia não seja apenas uma promessa de produtividade para empresas, mas também uma possibilidade de devolver tempo às pessoas, em que democracia não seja apenas o direito de votar, mas também o direito de participar das decisões que organizam a vida coletiva.

O segundo turno pode ser tratado apenas como uma batalha eleitoral, mas também pode ser uma oportunidade para fazer perguntas maiores. Que Estado queremos? Quem deve financiar esse Estado? O que queremos produzir? Quanto queremos trabalhar? Quem ficará com os ganhos da tecnologia? Como queremos viver? Que lugar queremos ocupar no mundo? Que futuro queremos oferecer aos nossos filhos? Essas perguntas não pertencem a um partido – pertencem à sociedade. E não serão respondidas sozinhas. Precisam ser discutidas nos bairros, nas escolas, nas universidades, nos sindicatos, nas associações, nos locais de trabalho, nos movimentos sociais, nos espaços culturais e nas ruas. Não para substituir a democracia eleitoral, mas para fazê-la respirar. Porque o problema do Brasil não é apenas quem está perdido – é quanta gente passou tempo demais esperando. Esperando a consulta, a casa, o emprego, a escola, o ônibus, a oportunidade, a política cumprir o que prometeu.

Quando a espera se torna permanente, a esperança começa a parecer ingenuidade, e nesse momento qualquer promessa de ordem pode parecer mais concreta do que uma promessa de futuro. Talvez seja por isso que a frase de Criolo permaneça tão necessária: “As pessoas não são más, elas só estão perdidas. Ainda há tempo.” Mas tempo não é uma política pública – é apenas a possibilidade de começar antes que seja tarde.

 

Fonte: Por Rafael Guerra de Oliveira, em Outras Palavras

 

Estudo indica que jejum universal para exames de sangue é desnecessário

Um estudo recente publicado na revista científica JAMA International Medicine avaliou a influência do tempo de jejum em testes laboratoriais de rotina. Os resultados demonstraram que a maioria dos exames sofreu alterações mínimas decorrentes do período sem alimentação.

Além disso, constatou-se que o jejum prolongado além de doze horas não proporcionou nenhuma vantagem mensurável para os testes analisados.

No estudo, os cientistas analisaram dados de 101.148 pacientes adultos atendidos no setor ambulatorial do hospital Ilsan Paik, na região metropolitana de Seul, somando quase 9,8 milhões de resultados de exames de sangue coletados entre fevereiro de 2021 e dezembro de 2023.

No momento de cada coleta, o tempo exato decorrido desde a última refeição era registrado em intervalos de trinta minutos, permitindo dividir os testes em três grupos: menos de 8 horas, entre 8 e 12 horas e mais de 12 horas de jejum.

Além de comparar grupos diferentes de pessoas, o grande diferencial metodológico do trabalho foi analisar os mesmos pacientes em visitas distintas sob diferentes tempos de jejum.

Para determinar se as alterações eram clinicamente importantes, as variações foram comparadas com os limites de erro permitidos pela EFLM (Federação Europeia de Química Clínica e Medicina Laboratorial).

<><> Sem alteração no resultado

Os resultados do estudo demonstraram que a imensa maioria dos exames de rotina não sofreram alterações significativas com a variação do tempo de jejum.

Parâmetros essenciais como o hemograma completo, os níveis de sódio e potássio, a avaliação da função renal por meio da ureia e creatinina, a maioria das enzimas do fígado e o colesterol total mantiveram-se estáveis.

Apenas quatro exames apresentaram aumentos importantes quando a coleta foi feita com menos de 8 horas de jejum:

  • Glicose (Açúcar no sangue): ficou 10,8% mais alta sem jejum. Ela cai cerca de 4,3 mg/dL a cada hora de jejum nas primeiras 4 horas após comer;
  • Triglicérides (Gordura no sangue): ficaram 20,1% mais altos sem jejum;
  • GGT (Uma enzima do fígado): ficou 14,8% mais alta sem jejum;
  • Lipase (Uma enzima do pâncreas): ficou 36,4% mais alta sem jejum

Por outro lado, o jejum prolongado acima de 12 horas causou apenas elevações discretas na bilirrubina total e na vitamina D, sem trazer qualquer ganho na precisão diagnóstica.

De fato, a comparação direta entre o jejum de 8 a 12 horas e o jejum superior a 12 horas não revelou nenhuma diferença relevante em nenhum dos exames avaliados.

<><> Conclusões do estudo

Os pesquisas concluíram que a exigência rígida e universal de jejum para qualquer exame de sangue é ultrapassada e desnecessária.

Eles recomendam adotar uma orientação específica por exame, mantendo a necessidade de pelo menos 8 horas de jejum prioritariamente para a medição da glicose e dos triglicérides, enquanto garantem flexibilidade para os demais exames de rotina.

Além disso, o estudo destaca que exigir que o paciente fique mais de 12 horas sem comer não acrescenta nenhum benefício médico e gera apenas um desconforto desnecessário.

A pesquisa foi realizada por uma equipe de pesquisadores e médicos sul-coreanos, vinculados a importantes instituições como o Asan Medical Center, a Faculdade de Medicina da Universidade de Ulsan e os hospitais universitários Ilsan Paik, Haeundae Paik e Uijeongbu Eulji.

¨      Por que Testemunhas de Jeová não aceitam transfusões de sangue? Entenda

As Testemunhas de Jeová são uma denominação cristã que baseia suas doutrinas na Bíblia e rejeita alguns dogmas tradicionais do cristianismo histórico. Entre suas principais crenças está a recusa às transfusões de sangue, inclusive em tratamentos médicos.

Segundo o Corpo Governante das Testemunhas de Jeová, a posição contra as transfusões tem fundamentação religiosa, e não médica. A interpretação adotada pela religião se baseia em passagens do Antigo e do Novo Testamento.

Uma das principais justificativas é a compreensão de que o sangue representa a vida e, por isso, é considerado sagrado. A interpretação é associada, entre outros trechos, a Levítico 17:14. Os fiéis entendem que a Bíblia dá orientações claras para se absterem de sangue, inclusive na alimentação.

Segundo a interpretação da religião, a vida está representada no sangue e pertence a Deus, razão pela qual o consumo ou uso de sangue seria incompatível com seus princípios religiosos.

Em procedimentos médicos, a religião defende o uso de alternativas às transfusões. Segundo o Corpo Governante, técnicas de conservação de sangue e procedimentos cirúrgicos que dispensam transfusões evoluíram ao longo dos anos não sendo necessário, portanto, qualquer tipo de utilização do sangue.

<><> Regra flexibiliza recebimento e doação de sangue

Uma nova determinação do Corpo Governante das Testemunhas de Jeová permite que os fiéis decidam individualmente sobre o recebimento e a doação de componentes do sangue.

A regra foi divulgada no site oficial da denominação cristã na última sexta-feira (18) e estabelece que a decisão sobre aceitar glóbulos vermelhos, glóbulos brancos, plasma ou plaquetas de outra pessoa é uma “questão de consciência pessoal”.

Essa flexibilização dá continuidade a atualizações anteriores sobre o papel da consciência individual na decisão de utilizar frações do sangue ou o próprio sangue em procedimentos médicos.

<><> Transfusão total continua proibida

As transfusões de sangue total, por outro lado, continuam expressamente proibidas. O Corpo Governante afirma que a proibição total é uma questão religiosa, e não médica.

“Tanto o Velho como o Novo Testamento claramente nos ordenam a nos abster de sangue. [...] Além disso, para Deus, o sangue representa a vida. [...] Então, nós evitamos tomar sangue por qualquer via não só em obediência a Deus, mas também por respeito a ele como Dador da vida”, afirma a organização.

 

Fonte: CNN Brasil