sexta-feira, 17 de julho de 2026

Políticas públicas e poder popular

O Brasil chegará às eleições de 2026 diante de um paradoxo. Os indicadores recentes do mercado de trabalho registram avanços na formalização, no rendimento médio e na massa salarial, mas essa melhora convive com uma experiência cotidiana ainda marcada pela insegurança e pela precariedade. Segundo a PNAD Contínua do primeiro trimestre de 2026, 38,1 milhões de brasileiros permanecem na informalidade, cerca de 16 milhões encontram-se em situação de subutilização da força de trabalho e 26 milhões trabalham por conta própria. Trata-se de um contingente equivalente à população da Alemanha e que evidencia a permanência de uma ampla zona de trabalho marcada por vínculos frágeis, instabilidade ocupacional e baixa proteção social.

A distância entre a melhora dos indicadores e as condições concretas de vida da classe trabalhadora ajuda a explicar um dos principais desafios do campo popular e democrático: políticas públicas capazes de melhorar a vida das maiorias não produzem, por si mesmas, organização coletiva, participação política ou vínculos duradouros com um projeto de transformação social. É diante dessa contradição que uma questão ganha renovada urgência: podem as políticas públicas, além de garantir direitos e enfrentar desigualdades, contribuir para construir poder popular?

Entre 2024 e 2026, a Escola Nacional Paulo Freire e a Fundação Rosa Luxemburgo, em parceria com o Governo Federal Brasileiro, desenvolveram a pesquisa Políticas públicas, trabalho sociocomunitário e educação popular na América Latina. O estudo identificou um conjunto de experiências estruturadas pela articulação entre participação social, trabalho e território, evidenciando o potencial de políticas públicas voltadas ao fortalecimento da capacidade de ação e decisão de sujeitos historicamente marginalizados. Nessa perspectiva, o território é compreendido não apenas como espaço de intervenção estatal, mas como lugar de vida, relações e disputas sociais, em consonância com as contribuições de Milton Santos (1996) e Bernardo Mançano Fernandes (2008).

Os resultados revelam que as políticas do “povo cuidando do povo”, ou aquilo que denominamos alianças público-populares, expressam uma conquista histórica dos movimentos populares incorporada por governos progressistas recentes na América Latina. Inseridas no contexto do avanço da extrema direita e da reorganização das estratégias das esquerdas, essas experiências apontam para novas formas de articular políticas públicas, organização popular e territorialização. Embora este seja um primeiro mapeamento, ainda limitado pela dificuldade de apreender mais profundamente as representações e contradições vividas pelos sujeitos envolvidos, os casos analisados permitem identificar tanto o potencial quanto os limites dessas experiências como mediações para o acúmulo de forças do campo popular e democrático.

<><> O território no centro da luta de classes

Ao longo da história, o território esteve ao centro das disputas políticas, se não como elemento principal das reivindicações, como elemento que coroava a vitória de um grupo sobre outro. Mais do que um espaço físico delimitado, o território constitui-se como o espaço em disputa, onde se manifestam relações de poder, dinâmicas econômicas, vínculos sociais, identidades culturais e processos históricos que conformam a vida coletiva. Nesse sentido, sua configuração resulta da interação permanente entre diferentes agentes, interesses e projetos societários.

Atuar sobre os territórios e junto às populações que os constituem pressupõe a compreensão das relações que os atravessam e que concretizam as condições de existência e de experiência humana. O que exige, portanto, uma abordagem que reconheça sua natureza multidimensional e dinâmica; e é neste ponto que as políticas estudadas se destacam: ao se propor a superar uma perspectiva em que o território é mais que um mero espaço de governança.

Elas superam uma lógica de descentralização administrativa limitada e superficial – na qual as políticas vem de cima para baixo para serem aplicadas nos territórios – e configuram-se como ações de via de mão dupla, promovendo políticas de participação sociocomunitária que se territorializam fortalecendo vínculos coletivos e solidários como base de reconstrução do tecido social. Mais que isso, constituem-se enquanto um conjunto de ações que consideram a territorialidade, ou seja, a multidimensionalidade do vivido pelos membros de determinada coletividade, colocando tais sujeitos como centro das tomadas de decisão e de ação.

Em um contexto marcado pelo avanço da extrema direita em paralelo à amplificação da precarização do trabalho, políticas públicas que se articulam de forma territorializada tornam-se fundamentais também para o fortalecimento da democracia. Isto porque, ao incorporar as dinâmicas territoriais como elemento central do planejamento, da gestão e da participação social, amplificam a capacidade de Estado de, junto à sociedade civil e organizações populares, promover serviços e execução de programas que contribuem também para recuperar a centralidade da política como instrumento de transformação social.

Logo, a territorialização de políticas públicas torna-se instrumento essencial para consolidar uma democracia ancorada na participação popular e na apropriação social dos processos de desenvolvimento social. Construir políticas públicas territorializadas é abrir caminhos para a construção de processos duradouros de coesão social, participação popular e fortalecimento da organização popular em diferentes contextos territoriais. Por isso, é necessário assumir uma abordagem socioterritorial como dimensão estratégica para o desenvolvimento e para a materialização das políticas públicas, permitindo uma intervenção capaz de articular os aspectos sociais, econômicos, técnicos e culturais da realidade brasileira.

<><> O que as experiências latino-americanas podem nos ensinar: combinação das formas de luta e poder popular

Resultado do acúmulo histórico das lutas dos movimentos operários e populares ao longo da década de 1980, a Constituição de 1988 institucionalizou um amplo conjunto de direitos e princípios voltados ao enfrentamento das desigualdades históricas no Brasil. “Constituição Cidadã” e “tudo pelo social” tornaram-se expressões recorrentes para definir a Carta Magna. A perspectiva universalista do acesso aos direitos sociais materializou-se na criação da Seguridade Social – integrando assistência, previdência e saúde – e no reconhecimento da educação pública como dever do Estado. Ao mesmo tempo, a garantia de mínimos constitucionais e de fundos para o financiamento das políticas sociais foi acompanhada da criação de mecanismos de participação e controle social.

Conselhos, conferências e fundos públicos passaram a compor um mesmo desenho institucional, articulado ao pacto federativo e à descentralização das políticas públicas. À época, esse modelo respondia a uma reivindicação histórica das forças populares, que buscavam romper com décadas de administração centralizada e marcada pelo autoritarismo e pela corrupção herdados da ditadura civil-militar.

A consolidação tardia da hegemonia neoliberal, ao longo da década de 1990, desmontou boa parte da agenda social inscrita na Constituição. Por meio de sucessivas contrarreformas, sobretudo na relação entre Estado e sociedade, a ampliação de direitos, a participação popular e o financiamento público das políticas sociais foram gradualmente substituídos pela lógica do ajuste fiscal permanente, da desresponsabilização estatal e das privatizações.

Esse processo ganhou força com a chamada reforma do Estado, implementada durante o governo FHC. Embora impulsionada pelo governo federal, sua consolidação ocorreu no cotidiano da prestação dos serviços públicos. A gestão e a execução de políticas passaram a ser transferidas ao chamado “setor público não estatal”, formado por organizações sociais, ONGs e outras entidades privadas.

Mesmo durante os governos populares, que ampliaram investimentos sociais e expandiram programas e políticas públicas, esses avanços não se converteram em uma articulação territorial das ações do Estado nem em processos duradouros de organização popular enraizados nos territórios.

Essa trajetória ajuda a explicar por que a melhora das condições de vida proporcionada pela ampliação das políticas públicas não foi acompanhada por uma mudança significativa na correlação de forças entre as classes. Em outras palavras, o avanço social não se traduziu, necessariamente, em maior capacidade de organização política da classe trabalhadora.

Ao mesmo tempo, profundas transformações atingiram o mundo do trabalho. A desindustrialização, a financeirização e a plataformização remodelaram as formas de inserção produtiva e de reprodução social da classe trabalhadora brasileira. O resultado é uma classe mais fragmentada, submetida a vínculos mais precários e com perspectivas cada vez mais reduzidas de ascensão social, especialmente a partir da década de 2010.

Embora os indicadores mais recentes apontem crescimento da formalização e da massa salarial, a precariedade estrutural do mercado de trabalho brasileiro permanece. Mesmo entre os trabalhadores formais, a inserção produtiva está longe de garantir melhores salários e direitos, sobretudo após a contrarreforma trabalhista de 2017.

Essa realidade também vem sendo analisada por pesquisas recentes do Cesit (Unicamp), que defendem a criação de um Programa de Garantia de Emprego com Estabilidade de Preços. Diante do excedente estrutural de força de trabalho e da precarização das relações laborais, os pesquisadores argumentam que o Estado deve assumir o papel de “empregador em última instância”. Segundo essa proposta, a economia brasileira organiza-se em quatro grandes núcleos: o primeiro, tipicamente capitalista e mercantil, absorve cerca de 35% da força de trabalho; o segundo corresponde à administração pública, com aproximadamente 15%; o terceiro reúne os arranjos de subsistência e a informalidade, concentrando cerca de 40% dos trabalhadores; e o quarto abrange as chamadas ocupações sociais, voltadas para áreas como cultura, cuidados, produção urbana de alimentos e outras atividades produtoras de valor social.

É justamente nesse ponto que as experiências latino-americanas se tornam especialmente relevantes. A pesquisa identificou um conjunto de políticas públicas que procuram responder ao mesmo desafio: articular o reconhecimento de trabalhos concretos produtores de valores de uso, a organização popular de base, a participação social e a territorialização da ação estatal.

Evidentemente, apesar das semelhanças históricas, do elevado grau de informalização do mercado de trabalho e do avanço da extrema direita em diversos países da região, o Brasil possui particularidades em sua formação socioeconômica e em seu desenho institucional que impedem qualquer transposição mecânica dessas experiências.

Ainda assim, diante da persistente hegemonia acadêmica, política e cultural do chamado “Norte Global”, torna-se fundamental fortalecer o intercâmbio de experiências e a construção de perspectivas comuns entre os projetos populares latino-americanos e os demais países do Sul Global. Mais do que modelos a serem reproduzidos, essas experiências oferecem pistas concretas para pensar novas formas de combinar políticas públicas, organização popular e poder territorial. 

<><> Entre a gestão da miséria capitalista e uma via popular de acúmulo de forças na contemporaneidade

Embora políticas associativas não sejam novidade nos governos progressistas latino-americanos, as experiências analisadas revelam uma inflexão qualitativa. Mais do que mitigar a pobreza, articulam reconhecimento do trabalho comunitário, fortalecimento de arranjos produtivos territoriais e ampliação da participação e do controle popular sobre as políticas públicas.

Sua tradução para a realidade brasileira, contudo, exige considerar nossas especificidades históricas e institucionais. A Constituição de 1988 consolidou uma concepção universal de seguridade social e descentralização das políticas públicas, posteriormente tensionada pela consolidação do neoliberalismo e pela centralidade do ajuste fiscal permanente. Apesar da reprimarização e da financeirização da economia, o Brasil preserva uma base industrial ainda expressiva, elevados níveis de assalariamento e um amplo mercado interno, características que reforçam a impossibilidade de qualquer transposição mecânica das experiências analisadas. O desafio comum, entretanto, permanece: responder às transformações contemporâneas do mundo do trabalho reconhecendo formas historicamente invisibilizadas de trabalho, sobrevivência e reprodução da vida nos territórios.

Essas iniciativas ampliam as possibilidades de democratização ao fortalecer a participação social e a organização territorial. Seus limites – como a fragilidade institucional, os riscos de burocratização e a desresponsabilização estatal – não anulam seu potencial para contribuir com o acúmulo de forças populares no contexto do capitalismo dependente. Em um cenário marcado pela crise estrutural do capitalismo, pelo avanço da extrema direita e pelas dificuldades das esquerdas em construir horizontes para além da defesa da democracia liberal, elas recolocam a necessidade de articular a disputa institucional às transformações das relações sociais produzidas nos territórios.

Nos termos de Gramsci, trata-se de fortalecer o desenvolvimento do “bom senso” no interior do senso comum, fazendo emergir, das experiências concretas das classes trabalhadoras, capacidades duradouras de organização, participação e disputa hegemônica. É precisamente nesse ponto que nossa pesquisa apresenta uma proposição para a realidade brasileira. A educação popular pode constituir o método orientador dessas políticas públicas, conferindo unidade entre territorialização, participação e organização popular. Ao integrar formação crítica, trabalho sociocomunitário e construção coletiva do conhecimento, ela amplia as possibilidades de que usuários das políticas públicas se constituam como sujeitos históricos capazes de fortalecer as organizações de base, ampliar o autogoverno dos territórios e disputar os rumos do desenvolvimento.

Mais do que experiências inovadoras de gestão pública, as iniciativas analisadas recolocam uma questão estratégica para a esquerda latino-americana: como reconstruir os vínculos entre políticas públicas e organização popular. Em uma conjuntura marcada pela fragmentação da classe trabalhadora e pela hegemonia neoliberal, a articulação entre reconhecimento do trabalho sociocomunitário, territorialização, participação e educação popular pode constituir uma mediação concreta para o acúmulo de forças e a construção do poder popular. Não como substituição das demais formas de luta, mas como parte de uma estratégia capaz de conectar as necessidades imediatas das maiorias trabalhadoras a um projeto de transformação socialista enraizado nas particularidades históricas da América Latina.

 

Fonte: Por Luís Eduardo Fernandes, Emilly Firmino Oliveira de Lima, João Oliveira, Maria Angélica Paixão Frazão, Teresa M Maia de Carvalho e Thays Santos Carvalho, no Le Monde

 

A reação do governo Lula ao novo tarifaço de Trump: 'Seguiremos sem viralatice'

Um dia após os Estados Unidos anunciarem tarifas de 25% sobre a importação de uma série de produtos brasileiros, o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) escalou nesta quinta-feira (16/7) um grupo de ministros de Estado e o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) para responder diretamente tanto ao novo tarifaço quanto às críticas feitas pelo secretário de Estado americano, Marco Rubio, ao presidente brasileiro.

A reação conjunta do governo brasileiro combinou acusações de suposta interferência política promovida pelos EUA, críticas à família Bolsonaro e o anúncio de que o governo brasileiro dará início aos procedimentos previstos na Lei de Reciprocidade, aprovada pelo Congresso no ano passado.

Por outro lado, integrantes do governo afirmam que continuarão aberto a negociações com os Estados Unidos.

Um dos mais contundentes foi o ministro da Fazenda, Dario Durigan, que classificou o novo tarifaço como uma tentativa de interferência dos EUA no Brasil. Ele declarou que o governo não iria "baixar a cabeça" e nem agir com "viralatice".

A reação organizada dos ministros ocorre depois de Rubio responsabilizar Lula pelo fracasso das negociações comerciais e afirmar que as novas tarifas seriam uma consequência da postura do presidente brasileiro.

"Que não haja dúvidas sobre o motivo [das tarifas]: o presidente Lula e seu governo não negociaram com os EUA de boa fé", escreveu Rubio no X (antigo Twitter).

"Suas políticas econômicas são ruins para os americanos e ruins para os brasileiros. Durante o último ano, Lula priorizou seu próprio ego em detrimento de um acordo que vise o bem-estar do povo brasileiro, e essas tarifas são o preço a pagar por isso."

Um diplomata brasileiro ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado afirmou que o tom da resposta brasileira foi calibrado para rebater o que o governo entendeu como um "desrespeito" por parte de Rubio.

Segundo ele, a manifestação de Rubio quebrou uma regra implícita da diplomacia segundo a qual, por hierarquia, ministros de Estado não devem criticar chefes de Estado.

Além disso, a resposta foi uma tentativa de desmontar o argumento lançado pelo ministro americano e reforçado pelo senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

<><> Reação em conjunto: 'Sem baixar a cabeça'

O primeiro a reagir diretamente à fala de Rubio foi o ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira.

Em um pronunciamento no início da tarde, ele classificou os ataques ao presidente brasileiro como incompatíveis com as relações entre países considerados amigos.

"As declarações do Secretário de Estado Marco Rubio veiculadas na madrugada de hoje nas redes sociais a respeito das tarifas adotadas contra o Brasil são inaceitáveis e ofensivas ao povo e ao governo brasileiros. Rubio ataca, de forma grosseira e arrogante, o chefe de Estado de um país amigo", disse Vieira.

Para o chanceler, as críticas de Rubio revelariam uma insatisfação do governo americano com a suposta resistência brasileira às exigências apresentadas durante as negociações entre os dois países.

"Claramente, o que incomoda o governo dos Estados Unidos é o fato de o Brasil não ter se curvado às pretensões desmedidas e às demandas irrazoáveis apresentadas durante o curso das negociações", complementou Vieira.

Mais tarde, o governo brasileiro organizou uma uma entrevista coletiva na sede do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em Brasília.

A entrevista reuniu Durigan, Vieira, o titular do MDIC, Márcio Elias Rosa, o ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, o vice-presidente Geraldo Alckmin e a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães.

Durigan chamou as tarifas de "interferência externa".

"A gente precisa colocar em pratos claros que (as tarifas) se tratam de uma interferência externa do ponto de vista do governo (...) É inadmissível que isso aconteça nessa altura do campeonato", disse o ministro.

Durigan afirmou ainda que a política econômica brasileira não poderia ser orientada pelas prioridades de autoridades estrangeiras ou por compromissos assumidos por grupos políticos com outro governo.

"A política econômica de um país é feita para os seus cidadãos, não para atender o secretário de Estado de um outro país, sinalizando com um programa de governo de transição para atender as suas prioridades estrangeiras."

A fala foi interpretada como uma menção direta a Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que, há poucas semanas, enviou uma carta a Marco Rubio oferecendo a formação de um grupo de transição junto o governo americano caso ele vença as eleições deste ano.

"E por fim, nós seguiremos sem baixar a cabeça, sem nos dobrar a interesses estrangeiros. Com isso a gente vai seguir protegendo o Pix. Nós seguiremos protegendo a nossa soberania geológica sem viralatice e nós seguiremos protegendo a nossa democracia contra a interferência internacional indevida", complementou Durigan.

O ministro disse, contudo, que o governo brasileiro ainda está disposto a negociar com os Estados Unidos.

"Com isso, nós não estamos dizendo que nós não estaremos abertos à negociação, pois seguiremos abertos a diplomacia à negociação, seja com os Estados Unidos, seja com qualquer outro país que nos trate com o devido respeito".

<><> Reciprocidade e família Bolsonaro

A crítica de Durigan reforça a estratégia do governo Lula de vincular as tarifas à atuação política da família Bolsonaro.

Na primeira manifestação oficial após o anúncio, divulgada ainda na quarta-feira (15/7), o governo classificou a decisão americana como um marco negativo na relação bilateral e mencionou, diretamente, a suposta ação da família Bolsonaro pelas tarifas.

"É triste constatar que o lamentável desfecho das investigações baseadas na Seção 301 faz parte do enredo construído com a ativa colaboração da família Bolsonaro. São falsos patriotas que arquitetaram e defenderam publicamente ações contra o nosso país, movidos por objetivos eleitoreiros."

Nos últimos dias, porém, Flávio Bolsonaro tem dito que foi Lula quem provocou a imposição de tarifas para tirar proveito eleitoral e que chegou a tentar convencer Rubio e outros oficiais do governo americano a não tarifar produtos brasileiros.

Em uma segunda nota, divulgada no final da tarde, o governo rebateu a acusação de Rubio de que o Brasil não teria se empenhado ou negociado de boa-fé.

"O Governo brasileiro se manteve aberto ao diálogo com as autoridades americanas desde o início das investigações da seção 301, mesmo não reconhecendo a legitimidade desse instrumento sem amparo nas regras multilaterais de comércio. Desde julho de 2025, foram mais de 30 reuniões entre as duas partes."

Hoje, Durigan voltou a mencionar que o governo poderá adotar retaliações comerciais contra os Estados Unidos em resposta às tarifas.

"Para concluir, nós levaremos esse grupo de ministros ao presidente Lula a retomada do processo de reciprocidade conforme determina a lei aprovada por unanimidade por todos os partidos políticos, por todas as lideranças políticas nacionais, aprovado por unanimidade no Congresso Nacional e o presidente Lula nos dará orientação a respeito disso."

Um diplomata ouvido pela BBC News Brasil afirmou que o governo ainda analisa o impacto prático das novas tarifas, que só deverá se manifestar sobre isso nas próximas semanas.

¨      Governo reage ao tarifaço com pacote de defesa da economia, apoio às empresas e ofensiva diplomática

O governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva apresentou nesta quinta-feira (16) um amplo conjunto de medidas para proteger a economia brasileira diante da decisão dos Estados Unidos de impor uma tarifa adicional de 25% sobre parte das exportações nacionais. Em coletiva realizada no Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), em Brasília, ministros da área econômica, diplomática, ambiental e financeira detalharam uma estratégia que combina apoio aos setores produtivos, preservação de empregos, diversificação de mercados, contestação jurídica internacional e manutenção do diálogo diplomático com Washington.

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A resposta brasileira demonstra que o governo optou por uma estratégia de múltiplas frentes. Em vez de retaliar imediatamente, a administração Lula decidiu fortalecer empresas exportadoras, ampliar instrumentos de financiamento, acelerar a abertura de novos mercados internacionais e preparar medidas jurídicas e comerciais caso as negociações com os Estados Unidos não avancem. Segundo o governo, todas as providências serão adotadas de forma coordenada para minimizar impactos sobre trabalhadores, empresas e cadeias produtivas brasileiras.

<><> Programa emergencial para proteger empresas e empregos

O vice-presidente Geraldo Alckmin anunciou que o governo estruturará um programa específico para atender os setores diretamente afetados pelas tarifas norte-americanas.

Entre as medidas em elaboração estão:

  • ampliação dos instrumentos do Plano Brasil Soberano;
  • novas linhas de financiamento para empresas;
  • mecanismos adicionais de apoio produtivo;
  • reforço das ações de promoção comercial;
  • aceleração da abertura de novos mercados internacionais.

Segundo Alckmin, instituições como a ApexBrasil e o BNDES terão papel central nesse processo, intensificando missões comerciais e ações voltadas à diversificação dos destinos das exportações brasileiras. A estratégia busca reduzir a dependência do mercado norte-americano e ampliar a presença dos produtos brasileiros na Ásia, Oriente Médio, África, América Latina e Europa.

<><> Fazenda prepara crédito e medidas para preservar empregos

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou que o governo possui instrumentos suficientes para proteger empresas e preservar postos de trabalho.

Segundo ele, representantes dos setores afetados participarão de novas reuniões para definir políticas específicas para cada cadeia produtiva.

Entre as alternativas estudadas estão:

  • ampliação do Plano Brasil Soberano;
  • expansão de linhas de crédito;
  • instrumentos de apoio financeiro;
  • mecanismos de estímulo à produção.

Durigan ressaltou que, embora determinados segmentos possam sofrer impactos relevantes, a avaliação da equipe econômica é de que o tarifaço não compromete a estabilidade macroeconômica brasileira.

<><> Setores prioritários receberão apoio

O ministro do MDIC, Márcio Elias Rosa, informou que o governo concentrará inicialmente seus esforços nos segmentos mais atingidos.

Entre eles estão:

  • madeira;
  • máquinas e equipamentos elétricos;
  • móveis;
  • produtos cerâmicos;
  • calçados;
  • açúcar.

O objetivo é impedir perdas de competitividade enquanto novos mercados são consolidados e as negociações diplomáticas prosseguem.

<><> Governo prepara reação jurídica internacional

Uma das principais frentes da estratégia brasileira será jurídica.

Alckmin confirmou que o governo utilizará, “no momento adequado”, os instrumentos previstos na Lei da Reciprocidade Econômica, aprovada pelo Congresso Nacional.

Além disso, o Brasil retomará o questionamento da medida norte-americana no mecanismo de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio (OMC), argumentando que as novas tarifas violam regras do comércio internacional.

<><> Itamaraty afirma que Brasil buscou negociação durante mais de um ano

O ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, apresentou um histórico detalhado das tratativas com Washington.

Segundo ele, desde março de 2025 o governo brasileiro realizou mais de 30 contatos com autoridades norte-americanas em níveis presidencial, ministerial e técnico.

O Brasil também:

  • apresentou propostas formais;
  • participou das consultas promovidas pelo USTR;
  • encaminhou manifestações técnicas;
  • manteve disposição permanente para negociar.

Mesmo após o anúncio das tarifas, o chanceler afirmou que o governo Lula continuará aberto ao diálogo diplomático e comercial.

<><> Defesa do Pix ganha protagonismo

O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, rebateu uma das principais críticas apresentadas pelos Estados Unidos durante a investigação comercial.

Segundo ele, o Pix é uma infraestrutura pública disponível a todas as instituições financeiras que operam no país.

Galípolo destacou que:

  • desde a criação do Pix, o mercado brasileiro de cartões de crédito cresceu 150%;
  • o sistema não eliminou outros meios de pagamento;
  • mais de 47 autoridades monetárias internacionais estudam o modelo brasileiro;
  • o Pix continuará gratuito para pessoas físicas, seguro e em constante evolução tecnológica.

A defesa do sistema de pagamentos instantâneos tornou-se um dos principais pontos da resposta brasileira à investigação conduzida pelo USTR.

<><> Impacto é relevante, mas limitado

O MDIC apresentou também uma estimativa dos efeitos econômicos das tarifas.

Segundo os dados oficiais:

  • considerando a pauta exportadora de 2024, cerca de US$ 7,4 bilhões em exportações seriam afetados;
  • utilizando os números de 2025, o valor cairia para aproximadamente US$ 5,8 bilhões.

Ao mesmo tempo, o governo destacou que:

  • aproximadamente 57% das exportações brasileiras para os Estados Unidos continuarão sem novas tarifas;
  • outros 24% já estavam sujeitos a medidas específicas anteriormente, especialmente nos setores de aço, alumínio e automóveis.

Outro dado considerado importante pelo governo é que cerca de 2,4 mil empresas brasileiras exportam para os Estados Unidos e aproximadamente 74% delas já possuem clientes em outros países, o que facilita uma estratégia de diversificação comercial.

<><> Governo rebate críticas ambientais e sobre corrupção

A coletiva também foi utilizada para contestar argumentos empregados pelos Estados Unidos durante a investigação comercial.

O ministro do Meio Ambiente, João Paulo Capobianco, afirmou que toda a madeira exportada pelo Brasil possui certificação e passa por rigoroso sistema de fiscalização. Destacou ainda que o desmatamento foi reduzido em cerca de 50% nos últimos três anos, contestando a utilização de informações ambientais consideradas desatualizadas pelas autoridades brasileiras.

Na área institucional, a secretária nacional de Justiça, Maria Rosa Guimarães, declarou que o Brasil encaminhou informações detalhadas sobre suas políticas de prevenção e combate à corrupção, mas sustentou que esses esclarecimentos não foram devidamente considerados na conclusão da investigação norte-americana.

<><> Governo vê apoio internacional contra as tarifas

Outro elemento destacado pelo governo diz respeito à própria investigação conduzida pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR).

Segundo a nota oficial, durante o processo o Brasil apresentou duas manifestações escritas e participou das consultas bilaterais realizadas em Washington.

Nas consultas públicas promovidas pelo USTR, 63 das 78 manifestações apresentadas por empresas e entidades dos dois países posicionaram-se contra a imposição das novas tarifas, indicando que parte expressiva do próprio setor empresarial considera a medida prejudicial às relações econômicas bilaterais.

<><> Estratégia combina firmeza e negociação

Ao final da coletiva, o governo reafirmou que continuará acompanhando diariamente os efeitos do tarifaço, mantendo diálogo permanente com os setores produtivos e adotando, quando necessário, medidas comerciais, diplomáticas e jurídicas para defender os interesses nacionais.

A estratégia anunciada sinaliza que a resposta brasileira buscará preservar empregos, proteger a competitividade das empresas, ampliar a inserção internacional da economia e defender instrumentos considerados estratégicos para o desenvolvimento do país, como o Pix, ao mesmo tempo em que mantém abertas as portas para uma solução negociada com os Estados Unidos.

 

Fonte: BBC News Brasil/Brasil 247

 

Epistemologias do Sul, esquerda e comunismo

Na atual curva da história, a situação da humanidade é de tal modo volátil que tudo o que pode nos esperar além da curva é de tal dimensão que assusta e paralisa. Caminhamos sonâmbulos para uma terceira guerra mundial e para um colapso ecológico de proporções e consequências inimagináveis. A concentração da riqueza em um pequeno grupo de plutocratas está transformando conceitos e soluções nos quais a humanidade havia depositado alguma esperança em caricaturas cruéis, em mutantes perversos ou em simples ruínas de boa memória. É o caso de conceitos e soluções como progresso, democracia, paz, soberania, diplomacia, ciência, direito e direitos humanos. A voragem destruidora e o poder que ela ostenta são tanto mais avassaladores quanto é certo que as elites políticas governantes, em geral, oscilam entre uma mediocridade tão desarmante e uma agressividade tão arrogante que são apenas mais uma dimensão da catástrofe que espera a humanidade. Durante muito tempo, o conceito de Estado Profundo (Deep State) — o governo subterrâneo exercido por poderes de fato que controlam as principais decisões políticas nacionais sem nenhuma legitimidade democrática — foi estigmatizado por ser considerado um delírio produzido por teorias da conspiração. Hoje, sem correr o risco de estar delirando com teorias da conspiração, pode-se falar de um Governo Global Profundo, com as mesmas características do Estado Profundo, só que agora em escala global. As recentes notícias sobre a quase secreta sociedade Bilderberg são um sinal notório dessa realidade.

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A humanidade, em seu conjunto, está precisando de ajuda humanitária, ainda que uma parte dela precise dessa ajuda com mais urgência.

<><> O interregno e o otimismo trágico

Inspirado em Antonio Gramsci, tenho caracterizado este momento da curva da história como interregno, mas reconheço que muita gente, sobretudo mais jovem, imagine o atual momento mais como fim do que como interregno. É a ideia de fim que, em última instância, alimenta o atual crescimento da extrema direita. Sob o disfarce de propor um novo começo, ela apenas acelera o fim do fim. Depois dele, há um nevoeiro denso.

Mantenho a ideia de interregno, o que significa que, para mim, para além da curva, tanto pode estar um precipício como um caminho menos pedregoso e com mais abrigos. Nisso consiste o meu otimismo trágico. Só que este interregno pouco tem a ver com o de Gramsci. Para Gramsci, o velho que ia morrendo aos poucos era ética, social e politicamente inferior e pior do que o novo que igualmente ia nascendo aos poucos. Para que isso acontecesse, era necessário lutar, mas valia a pena lutar, conheciam-se os objetivos pelos quais lutar e os instrumentos para atingi-los.

A nossa condição é bem mais complexa e, por isso, as exigências para navegar neste interregno são muito maiores. O que podemos conhecer com alguma precisão é o que existe atualmente. O que existe atualmente é uma mistura insondável de condições materiais, percepções e ideias sobre essas condições. E, como nada existe senão em relação ao que não existe, a relatividade do nosso presente consiste no passado que já não vivemos e no futuro que nunca viveremos. Desde o século XVI, o capitalismo tem dominado as condições materiais da grande maioria da população mundial. No tempo de Gramsci, o capitalismo ainda não dominava inteiramente as percepções e ideias sobre essas condições e, pelo contrário, estava perdendo o domínio que ainda tinha. Nessa disjunção entre o domínio material e o domínio ideológico e perceptivo residia a possibilidade da ruptura revolucionária.

Nos últimos quarenta anos, o capitalismo tratou de “equilibrar” o domínio material e o domínio ideológico e perceptivo, potencializando ambos e confundindo-os a ponto de fundi-los. Para isso, incidiu em cinco áreas principais para aumentar o domínio ideológico e perceptivo: a mídia, a educação, a ciência, a cultura e o entretenimento e a religião. Hoje, a maioria da população mundial considera que o velho é — ou era — ruim, mas que o novo pode ser pior. Essa expectativa descendente leva à resignação e a uma atitude política conservadora. Talvez a população mundial nunca tenha sido tão conservadora como atualmente.

A extrema direita aproveita-se desse sentimento de mal-estar para excitá-lo e provocar uma ruptura, uma ruptura não revolucionária, mas reacionária. A extrema direita não é conservadora; é, pelo contrário, radical em seu corte com o passado recente. Só que a ruptura pretende cortar com o passado recente para legitimar o regresso a um passado mais remoto, um passado pré-Revolução Francesa, ainda mais desigual, mais colonialista e mais patriarcal. É por isso que alguns críticos designam a ruptura de extrema direita como um regresso a um novo tipo de feudalismo, uma designação bastante eurocêntrica.

Os líderes invisíveis da extrema direita são os representantes da atual versão plutocrática do capitalismo. Essa versão é incompatível com a democracia e com os direitos sociais conquistados pelas lutas do passado, tanto democráticas como revolucionárias. A ruptura proposta é, assim, simultaneamente verdadeira e falsa. É verdadeira porque vem ao encontro de um mal-estar que os empresários da negatividade potencializam, mas é falsa porque a promessa de um futuro melhor é um embuste. Não será cumprida nem neste mundo — embuste laico — nem no outro mundo — embuste religioso. E a verdade é que a extrema direita, quando chega ao poder, rapidamente faz aumentar o mal-estar da esmagadora maioria da população. Os líderes fascistas eleitos democraticamente são, em geral, os que mais rapidamente perdem popularidade e, se não perdem mais, é porque a sociedade foi, entretanto, expropriada da possibilidade de pensar em uma alternativa melhor. É por essa razão que, em texto anterior, defendo que, a curto prazo, ser de esquerda é defender a democracia e o pouco de bem-estar que as mudanças reformistas e revolucionárias do passado recente conquistaram.

Mas, pelo que acabo de analisar, torna-se claro que essa solução não é mais do que a ajuda humanitária de emergência que referi anteriormente. Não tem condições de resolver os problemas com os quais a humanidade se defronta. Daí a necessidade de pensar o médio prazo.

<><> As epistemologias do Sul, a esquerda e o comunismo

Não conseguimos conhecer acima daquilo que somos. A nossa condição existencial confunde-se com a nossa condição epistêmica. Para pensar o médio prazo, não basta pensar o que ainda não foi pensado; é necessário pensar aquilo que, à luz da epistemologia dominante, é impensável. A ruptura epistêmica implica uma ruptura ontológica. Ou seja, para pensar o impensável e atuar em consonância, temos de nos reinventar como seres humanos. As duas rupturas não serão rápidas. Irão se realizando ao longo de várias gerações, retroalimentando-se uma à outra. Se acontecerão antes, durante ou depois de uma nova Grande Guerra, ninguém saberá. As duas rupturas constituem, em seu conjunto, a revolução paradigmática.

A escala temporal da revolução paradigmática é o longo prazo. A médio prazo, o conceito-chave é o de transição. Em termos epistemológicos, a transição significa que o impensável vai se anunciando na exploração das ruínas-sementes do presente, isto é, por meio de dispositivos pensantes e agentes que, tendo sido alvos de destruição, sobrevivem como ruínas e, mesmo como ruínas, incomodam os donos do status quo. E, ao incomodar, deixam de ser apenas ruínas e tornam-se também sementes. Daí o conceito de ruínas-sementes.

O sistema de dominação moderna, constituído por três modos principais de dominação — capitalismo, colonialismo e patriarcado —, foi se globalizando à medida que destruía o mundo de pensamento e de ação que existia anteriormente e que se opunha a ele. Essa destruição ocorreu tanto no centro do sistema, o mundo europeu e eurocêntrico, como no mundo não europeu e não eurocêntrico. É nesses dois mundos que devemos escavar as ruínas-sementes. Repito que são ferramentas da transição paradigmática, ou seja, para nos guiar no médio prazo. A longo prazo, não fazemos ideia do que existirá e muito menos do modo como será designado.

Identifico três ruínas-sementes, mas certamente há mais. O que as une é o fato de continuarem incomodando as classes e o pensamento dominantes. O incômodo manifesta-se de modo contraditório. Por um lado, insiste-se em que, se existiram no passado, já não existem ou, se ainda existem, são irrelevantes e facilmente descartáveis. São objeto do que chamo de sociologia das ausências. Por outro lado, combate-se quem as defende como se fossem perigosas, uma ameaça existencial ao status quo. Em suma, teme-se que possam ser anúncios ou sinais de uma desestabilizadora sociologia das emergências.

As três ruínas-sementes são as epistemologias do Sul, a esquerda e o comunismo. A primeira tem seu fundamento no mundo não eurocêntrico; a segunda, no mundo eurocêntrico; e a terceira tem origem nos dois mundos, ainda que em versões diferentes. Como disse, a única coisa que têm em comum é incomodar o sistema de dominação. Para este, propor as epistemologias do Sul é defender o obscurantismo e ser inimigo do progresso; ser esquerdista é ser um utópico inconsequente ou um perigoso subversivo; ser comunista é ser um saudosista fossilizado ou um perigosíssimo subversivo.

<><> As epistemologias do Sul

As epistemologias do Sul não põem em causa a validade do conhecimento científico moderno, apenas insistem em que ele não é o único sistema de conhecimento válido. Reivindicam a validade dos conhecimentos nascidos nas lutas contra o capitalismo, o colonialismo e o patriarcado por parte das populações, classes, povos ou grupos que mais têm sofrido com a injustiça social, a opressão e a destruição que esses três modos principais de dominação causaram e continuam causando. Para as epistemologias dominantes, esses conhecimentos não são válidos. Se o foram no passado, deixaram de sê-lo com a emergência da ciência moderna e, de todo modo, seria perigoso utilizá-los. A inteligência artificial parece poder eliminar de vez esses conhecimentos. A inteligência artificial pode usá-los como matéria-prima, mas nunca como conhecimentos que rivalizem com o conhecimento padronizado produzido pela razão mecânica dos algoritmos.

<><> Esquerda

A esquerda é, em sua origem, uma posição no hemiciclo da Assembleia Nacional na França depois da Revolução de 1789. Com o tempo, passou a designar todo pensamento ou ação contra um status quo considerado injusto e excludente, em nome da possibilidade de uma sociedade mais justa e mais inclusiva. Desde então, ser de esquerda ou esquerdista incomodou e continua incomodando as classes dominantes. Como referi anteriormente, para mim, a esquerda é uma constelação de esquerdas porque a dominação atinge diferentes classes, povos, grupos e culturas de maneiras e com intensidades diferentes. É uma possível designação para identificar as tarefas de libertação que mencionarei adiante.

Nos últimos cem anos, houve muitas divisões no interior da esquerda, especialmente a divisão entre esquerda moderada, democrática ou social-democrata e extrema esquerda, revolucionária, comunista ou anarquista. A segunda só existe hoje como memória ou como ruína-semente. A primeira, como referi no texto anterior, é importante a curto prazo para salvar o que resta da democracia, mas não tem qualquer viabilidade a médio prazo. Será progressivamente absorvida pela direita, tal como esta será absorvida pela extrema direita. Pode sobreviver mais algum tempo como direita moderada, mas nunca como esquerda. A esquerda moderada é a direita moderada do futuro próximo.

Para ser um instrumento útil na transição, a esquerda tem de ser concebida como uma ruína-semente, um nome possível para nomear as tarefas de libertação. Certamente combinará componentes eurocêntricos, tanto democráticos como revolucionários, com componentes de resistência não eurocêntrica. Para sublinhar o caráter confrontacional da esquerda, talvez seja preferível falar de esquerdismo.

<><> Comunismo

Por último, o comunismo enquanto ruína-semente tem origens tanto eurocêntricas como não eurocêntricas. No mundo eurocêntrico, designou a resistência mais vigorosa e a alternativa mais consistente por parte das esquerdas contra a dominação capitalista, colonialista e patriarcal moderna. Utilizando o conceito de tipo ideal de Max Weber, refiro-me ao comunismo como o projeto de uma sociedade sem exploração — extração potencialmente sem limites do valor da força de trabalho — do ser humano pelo ser humano e sem exploração — extração potencialmente sem limites do valor dos recursos naturais — da natureza pelo ser humano. Nos termos das epistemologias do Sul, comunismo designa uma sociedade pós-abissal, uma sociedade que não divida os seres humanos entre seres tratados como plenamente humanos e seres tratados como sub-humanos, uma sociedade que não disponha da natureza como algo que temos ou que nos pertence, mas como algo que somos e ao qual pertencemos. Não me refiro aqui às experiências sociais concretas que se autodenominaram comunistas. Algumas aproximaram-se do tipo ideal; outras o perverteram de uma forma ética e politicamente repugnante.

No mundo não eurocêntrico, o comunismo designou formas pré-modernas e comunitárias de vida coletiva. Aliás, a versão verdadeiramente existente de comunismo nasceu no mundo pré-moderno, não eurocêntrico e, por isso, foi designada pela modernidade ocidental como comunismo primitivo. Para designar o comunismo como ruína-semente, sem fazê-lo ecoar primitivismos ou perversidades, talvez seja preferível falar de neocomunismo.

<><> As libertações-guias da transição paradigmática

As três ruínas-sementes — epistemologias do Sul, esquerda e comunismo — são os dispositivos principais da transição paradigmática. Se esta algum dia tiver fim, aquilo que vier a existir terá todo o direito de se autodenominar. A transição paradigmática tem por objetivo a libertação da potência agrilhoada ou oprimida. As dimensões dessa tarefa são hoje muito superiores às que poderiam ser imaginadas por Gramsci. Os nomes das libertações da potência agrilhoada são necessariamente inadequados porque partem das diferentes dimensões da opressão. Não podemos imaginar os nomes que essa potência assumirá uma vez libertada. Desenhadas no horizonte a partir do ponto de onde partimos, as principais libertações são: libertar a natureza, libertar o comum, libertar os sub-humanos, libertar o saber, libertar a democracia, libertar a educação e a cultura e libertar a divindade. Qualquer uma das libertações pressupõe as outras. Não haverá libertação se não houver lutas de libertação. Não haverá luta se não houver quem se disponha a lutar e a correr os riscos que isso envolve. Nos textos seguintes, mostrarei como as ruínas-sementes podem nos ajudar nas imensas tarefas de libertação que impacientemente nos esperam.

 

Fonte: Boaventura de Sousa Santos, em Brasil 247

 

A testosterona não significa o que a maioria das pessoas pensa

“Ei, doutor, pode pedir meus exames? Quero verificar meus níveis de testosterona.”

Como urologista, tenho recebido mensagens desse tipo com mais frequência nos últimos meses do que em todo o restante da minha carreira. O assunto “testosterona” saiu dos vestiários para os podcasts e, agora, ganhou as manchetes. Na quarta-feira (15), o Secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, anunciou o início de uma triagem para detectar níveis baixos de testosterona entre militares com 30 anos ou mais.

Homens que antes não se preocupavam com a saúde estão, de repente, fazendo perguntas reais sobre seus hormônios — e aqueles que nem sabiam da existência do exame podem logo passar a fazê-lo como procedimento de rotina.

Esse interesse é algo positivo. A questão mais complexa é o que fazer com um número isolado.

Se você tem curiosidade sobre seus níveis de testosterona, procure um urologista para avaliá-los. E, caso haja um padrão claro que sugira "testosterona baixa" — meses de baixa libido, fadiga, alterações de humor, perda de massa muscular e fraqueza —, não deixe de marcar uma consulta.

Você e seu médico devem considerar dois aspectos antes de discutir a terapia de reposição. Primeiro, descartem fatores importantes relacionados ao estilo de vida: sono, consumo de álcool, peso, estresse, apneia do sono e medicamentos que você já utiliza. Além disso, se você pretende ter filhos algum dia, converse sobre isso antes de tomar a primeira dose.

Afinal, o número apresentado no exame laboratorial é um ponto de partida, não a linha de chegada. Os homens que realmente se beneficiam ao conhecer seus níveis de testosterona não são aqueles obcecados por números mais altos. Estão no caminho certo os pacientes dispostos a entender o que aquele número realmente significa.

<><> O que é, de fato, a testosterona

Estimulados por sinais do cérebro, os testículos produzem testosterona — o principal hormônio responsável pelo crescimento e desenvolvimento masculino. Os níveis desse hormônio oscilam constantemente, atingindo o pico pela manhã e diminuindo ao longo da tarde. A quantidade de testosterona liberada pelo organismo varia de acordo com o sono, o peso, a prática de exercícios e até mesmo o estresse. Além disso, os níveis desse importante hormônio sexual caem naturalmente cerca de 1% ao ano a partir dos 30 ou 40 anos.

A maioria dos laboratórios considera normal uma faixa entre 300 e 1.000 nanogramas por decilitro. Trata-se de um intervalo amplo, e o limite para considerar o nível "baixo" depende das diretrizes seguidas pelo médico e do laboratório que realizou o exame.

Vale ressaltar que o diagnóstico de testosterona baixa nunca é definido com base em uma única coleta de sangue. O médico avaliará seus níveis de testosterona — juntamente com outros exames, como os de estradiol e da globulina ligadora de hormônios sexuais (SHBG) — pelo menos duas vezes. Esse procedimento ajuda a descartar outros fatores que podem elevar ou reduzir os resultados.

<><> Uma conversa que quase ninguém está tendo

Quando um homem apresenta níveis realmente baixos, o tratamento geralmente envolve a administração de testosterona via gel, adesivo ou injeção. Às vezes, o médico prescreve implantes subcutâneos (pellets). Se os níveis do paciente estiverem excessivamente altos — geralmente devido ao uso de suplementos ou doses exageradas —, a solução é reduzir a dosagem e permitir que o organismo se reajuste.

Para o homem que realmente apresenta níveis baixos e sintomas associados, os benefícios são reais: mais energia, disposição, melhora no humor e ganhos de massa muscular e densidade óssea. O objetivo é atingir níveis normais, e não elevados.

Aumentar esses níveis tem um preço. A terapia com testosterona interrompe a produção natural do hormônio pelo organismo e, consequentemente, a produção de espermatozoides. A fertilidade pode cair em questão de semanas e nem sempre é recuperada. Além disso, a maioria dos homens que atendo é jovem o suficiente para desejar ter filhos. Essa conversa precisa ocorrer antes da primeira dose, e não depois.

Elevar os níveis excessivamente traz riscos próprios: sangue mais espesso e maior risco de coágulos, pressão arterial elevada, agravamento da apneia do sono e, com o tempo, atrofia dos testículos, já que o corpo deixa de produzir o hormônio por conta própria.

<><> Um nível baixo geralmente tem uma história por trás.

Os bombeiros são um bom exemplo. Um estudo com 341 bombeiros profissionais na Flórida mostrou que cerca de 11% apresentavam níveis baixos de testosterona e outros 26% estavam em uma faixa limítrofe.

Essas descobertas podem parecer uma prova de que a profissão prejudica os hormônios. Mas, analisando mais de perto, vê-se que os homens com níveis baixos de testosterona eram mais velhos, estavam acima do peso, apresentavam pior saúde metabólica e pressão arterial mais elevada. O nível baixo de testosterona acompanhava esses problemas, e não os causava.

Vejo a mesma situação no meu consultório semanalmente. Homens chegam convencidos de que seus hormônios estão desregulados, mas os exames de sangue mostram que está tudo bem. O verdadeiro problema, na verdade, é um paciente que dorme apenas cinco horas por noite e bebe diariamente para lidar com um trabalho de que não gosta. No ano passado, escrevi sobre o que chamei de "armadilha da testosterona": a maioria dos homens que acredita estar com níveis baixos, na verdade, não está.

<><> As forças armadas estudaram a testosterona

Mesmo quando você aumenta seus níveis de testosterona, pode não obter o resultado que esperava. As forças armadas dos EUA passaram anos testando exatamente essa ideia. O que os pesquisadores descobriram foi que aumentar esse número nem sempre equivale a uma melhora no desempenho.

Em dois estudos financiados pelo Exército dos EUA, intitulados "Otimização do Desempenho para Soldados" (*Optimizing Performance for Soldiers*), pesquisadores administraram testosterona a homens jovens e saudáveis ​​durante um longo período de exercícios e restrição calórica. Todos esses homens apresentavam níveis normais de testosterona.

Em um estudo de 2019, os homens que receberam testosterona preservaram mais massa muscular. No entanto, sua força e resistência diminuíram tanto quanto as dos homens que não receberam nada. Um estudo de acompanhamento realizado em 2022 constatou o mesmo: a testosterona evitou a perda de massa magra, mas não preservou o desempenho físico.

Isso não significa que a testosterona nunca ajude. Em homens mais velhos que apresentam níveis realmente baixos, pesquisas demonstraram que a terapia de reposição de testosterona pode melhorar a força e a função física, especialmente quando combinada com treinamento.

A mesma lógica se aplicaria a um militar com deficiência hormonal real — a terapia de reposição poderia ajudar. Mas não foi isso que os estudos militares avaliaram. Nesses estudos, os soldados não apresentavam deficiência. Eles eram jovens e estavam em boa forma física; elevar níveis que já eram normais resultou em ganho de massa muscular, mas não em melhora do desempenho.

A testosterona ajuda o homem que realmente apresenta níveis baixos. A terapia hormonal não transforma um nível normal em um nível melhor.

<><> Seu nível de testosterona diz mais sobre você do que imagina

Há um motivo real para se preocupar com os níveis de testosterona, além da libido e dos ganhos de desempenho.

O Dr. Mohit Khera — professor e titular da Cátedra F. Brantley Scott de Urologia no Baylor College of Medicine, em Houston, e coautor do importante estudo TRAVERSE sobre testosterona e segurança cardíaca — afirmou que a testosterona é um dos melhores indicadores da saúde geral do homem, e não apenas de sua vida sexual. Homens com níveis baixos de testosterona, observa ele, apresentam taxas mais elevadas de doenças cardíacas e fraturas ósseas.

Portanto, se sua testosterona estiver baixa, o aspecto mais útil desse resultado é o que o número revela sobre seu coração, peso, sono e metabolismo. Às vezes, a resposta clinicamente adequada é aumentar os níveis de testosterona. Com a mesma frequência, porém, a resposta correta é investigar por que seus níveis de testosterona caíram.

<><> Mas será que todo homem acima dos 30 anos deveria passar por essa triagem?

Para muitos homens, uma simples coleta de sangue representa o primeiro contato real com a própria saúde. A curiosidade em torno do exame pode ser uma forma de deixar muitos pacientes mais à vontade com a ideia de investigar outros problemas. Nenhum desses exames faz parte, atualmente, da prática clínica padrão, mas o assunto merece ser discutido.

As diretrizes da Associação Americana de Urologia recomendam examinar homens que apresentam sintomas, em vez de realizar uma triagem geral em todos. Pessoalmente, espero que as diretrizes acabem nos dando mais liberdade para realizar esses exames — acredito que há valor em identificar a deficiência de testosterona mais cedo em um número maior de homens. No entanto, a atualização da prática padrão só deve ocorrer se houver evidências que a justifiquem; estamos perto disso, mas ainda não chegamos lá. Enquanto os dados não mudam, a diretriz é a que vale, e tento segui-la da melhor maneira possível.

De qualquer forma, verificar o nível hormonal nunca foi a parte difícil. Nem todo nível baixo requer tratamento, e nem todo homem que aumenta seus níveis de testosterona obtém o resultado que esperava.

Há um interesse crescente em verificar os níveis de testosterona de forma generalizada assim que os homens atingem certa idade. À primeira vista, isso parece uma atitude proativa: mais triagem, mais detecção precoce, mais homens engajados com a própria saúde.

Mas realizar uma triagem em toda a população não é o mesmo que examinar um homem que apresenta sintomas. O critério é mais rigoroso, e por um bom motivo. Quando se examina todo mundo, encontram-se muitos níveis limítrofes ou na faixa inferior da normalidade em homens que se sentem perfeitamente bem; cada um desses resultados gera uma conversa — e, às vezes, uma prescrição — que pode não ser necessária.

Por outro lado, considere outra perspectiva. Sabe-se que os homens têm dificuldade em procurar o médico; se um exame de testosterona for o que finalmente leva um homem de 35 anos ao consultório, não vou fingir que isso não tem valor. O segredo é garantir que esse resultado abra caminho para uma avaliação de saúde real, em vez de se tornar apenas um atalho para uma prescrição.

<><> Por que os médicos realizam exames de rastreamento para algumas condições e não para outras

Os médicos realizam exames de rastreamento para diversas condições antes mesmo do surgimento de sintomas, levando em conta a idade e os fatores de risco. As colonoscopias começam a ser feitas por volta dos 45 anos. Os níveis de colesterol e glicose no sangue são monitorados periodicamente à medida que o paciente envelhece — ou mais cedo, caso haja histórico familiar. A discussão sobre exames para detecção de câncer de próstata ocorre por volta dos 50 anos.

O que esses exames de rastreamento têm em comum é que atendem a critérios específicos: a doença é comum e grave, e detectá-la precocemente altera o curso da condição. Além disso, o exame consegue distinguir com confiabilidade quem tem o problema de quem não tem.

O rastreamento da testosterona ainda não preenche esses requisitos. Não foi comprovado que um nível baixo em um homem que se sente perfeitamente bem indique uma condição cuja detecção precoce traga benefícios — e é essa a distinção entre rastreamento e diagnóstico, e não a importância da saúde masculina em si.

 

Fonte: CNN Brasil