sábado, 18 de abril de 2026

Elaine Tavares: América Latina e as sociedades fascistizadas

Desde o primeiro mandato de Donald Trump observam-se claramente os rasgos de uma sociedade fascistizada. O movimento QAnon, corrente da extrema-direita criado nos Estados Unidos para, segundo eles, defender o mundo de pedófilos, assassinos de crianças e adoradores de satanás, disseminou essa ideologia de maneira massiva a ponto de contaminar todo o continente americano. O QAnon, paradoxalmente, apoiava de maneira radical a Donald Trump, justamente o que é hoje acusado de praticar todos estes crimes dos quais o movimento queria livrar o mundo.

O fato é que este discurso de um “mundo satânico” se espalhou fazendo com que pessoas da pior índole fossem se levantando politicamente em apoio aos políticos da extrema-direita que pregavam essa “limpeza” do mal. Foi assim no Brasil, que elegeu Jair Bolsonaro, em El Salvador, que elegeu Bukele, na Argentina, que elegeu Milei e assim por diante. As propostas contidas nesses programas eram todas muito parecidas: eliminar os comunistas (sic), os homossexuais, os indígenas, as mulheres que não se submetem, os negros. Apostando no medo e pregando a violência essa gente acendeu a chama do fascismo que já vivia em muitas pessoas.

E a sociedade fascistizada gerou governantes “monstros” tanto quanto liberou os piores instintos. Não é sem razão o aumento estrondoso de crimes contra a mulher, massacres da população negra, assassinatos por motivos torpes, perseguição a homossexuais, a religiões fora do cristianismo e por aí vai.

No campo da política esse giro ao autoritarismo e ao fascismo foi galgando posições na América Latina. Nayibe Bukele, presidente de El Salvador, decidiu acabar com o crime encarcerando milhares de pessoas, entre as quais, obviamente, não estavam só os conhecidos membros das maras (gangues), mas também adversários políticos. Construiu o maior presídio das Américas, hoje com 90 mil detentos, e, desde 2022, quando instituiu um regime de exceção, mais de 520 prisioneiros morreram dentro da prisão, entre eles pastores, sindicalistas e menores de idade.

Contando todo o período de Bukele a denúncia é de que mais de duas mil pessoas morreram no presídio, 90% deles sem ligação com as pandilhas. E, sem surpresa, Bukele tem o apoio da população, afinal, havia tanto medo que a mão-dura de hoje parece ser o melhor. Mesmo que ela esteja pegando gente que não tem qualquer ligação com crimes ou com as gangues.

O exemplo de Bukele foi tomando corpo na América Latina e muitos candidatos presidenciais nas últimas eleições o tomaram como modelo. O atual presidente do Chile, José Antônio Kast, fez sua campanha baseada no ódio aos migrantes, prometendo colocar todo mundo na prisão. A sociedade chilena, desencantada com o governo Boric, assustada com o discurso de que os migrantes eram o próprio demônio, votou nesta proposta. E já nos primeiros dias de governo Kast começou a levantar muros na fronteira, visando impedir que migrantes entrem no país. A sociedade aplaude.

Milei, que fez sua campanha dizendo claramente que ia acabar com as políticas públicas de caráter social, eliminando os pobres do orçamento, privatizando universidades (lugar de comunistas, segundo ele) e hospitais, agora coloca seu país à disposição de famílias sionistas, apoiando o genocídio praticado por Israel e até oferecendo seus jovens para irem “lutar” contra os palestinos. E parte da sociedade segue apoiando esse desvario.

Na Bolívia, que desde o primeiro governo de Evo Morales, iniciou um processo de recuperação da dignidade indígena e camponesa, essa onda fascistizante também chegou. Na última eleição, com a esquerda esfacelada, o caminho ficou aberto para o conservadorismo outra vez. Rodrigo Paz se elegeu com o discurso de acabar com a corrupção (sic) e de garantir o “capitalismo para todos”, seja lá o que isso signifique. Tão logo chegou ao palácio, liberou os golpistas de 2019, começou a “limpeza” das marcas indígenas e já está implantando a velha e conhecida mão-dura. Alegando crescimento do narcotráfico e do crime organizado lançou a proposta de construir um presídio gigante aos moldes do de El Salvador. A sociedade aplaude, porque tem medo. Mas, como em El Salvador, os presídios logo podem se encher de adversários políticos.

No Brasil, a onda fascistizante que chegou com Bolsonaro tampouco passou. Boa parte da população segue acreditando que o discurso da extrema-direita é o que serve ao povo. Apesar de Lula ter vencido as eleições há quatro anos, os “soldados” fascistoides seguem aí, com força e com poder. Basta vermos como se movem o Senado, na Câmara Federal, nas Assembleias Legislativas, nas Câmaras de Vereadores e até nas Universidades. A turma está aí, pregando o ódio e alimentando nas gentes a ideia de que os comunistas são os terroristas, que comem criancinhas e pertencem a satanás. Poucos acreditam que esses, os quais tanto temem e odeiam, são os amiguinhos do Trump, como já está sendo evidenciado pelos Arquivos Epstein.

Agora, estamos às portas de novas eleições no Brasil. Tudo segue bastante polarizado e as hostes bolsonaristas seguem firmes, produzindo propaganda rápida e eficaz, inoculando medo, despertando os piores sentimentos. Muitos seguem acreditando que a família Bolsonaro realmente é a que representa o bem e a ordem.

Há um credo religioso aí, no qual nem os argumentos, nem a realidade tocam. Dias difíceis para nós, uma vez que as fileiras da esquerda estão cada vez mais diluídas em propostas liberais, socialdemocratas e cirandeiras.

Largas lutas se anunciam…

•        Errático, Trump acelera perda de hegemonia dos EUA e fica sem saída política favorável. Por Gabriel Brito

A inesperada e ilegal entrada dos EUA na confrontação militar de Israel e Irã reforça o caráter personalista e imprevisível de sua presidência, que passou por cima da exigida autorização do Congresso para entrar em uma guerra. Assim, sua ação o coloca num beco sem saída: permanecer ou sair da guerra representa uma derrota. Na análise do historiador Sidnei Munhoz, entrevistado pelo Correio da Cidadania, assim como Israel, os EUA parecem reféns de ir até o fim em uma guerra que desmoraliza de forma talvez definitiva a hegemonia global dos chamados “valores ocidentais”. De outro, a teocracia conservadora do Irã ganha força e se legitima perante o próprio povo. E para entender este processo é necessário visitar as origens do atual regime islâmico. “EUA e a Grã-Bretanha conspiraram, desestabilizaram e sepultaram a jovem democracia iraniana em 1953. Adicionalmente, deram suporte ao autoritarismo imposto pelo xá Reza Pahlevi ao país. Desse ponto de vista, são os maiores responsáveis pela destruição da democracia em edificação no Irã e os culpados pelos autoritarismos que sobrevieram ao país”, contextualizou Munhoz.

<><> Leia a entrevista completa com Sidnei Munhoz.

•        Quais são as origens do atual regime vigente no Irã?

Sidnei Munhoz: A questão é complexa. Primeiro, precisamos situar a atual agressão ao Irã em um contexto de média e longa duração. De início, eu sublinho que, desde o imediato pós-Segunda Guerra Mundial, emergiram tensões entre o Irã e o denominado mundo ocidental. Nos anos que seguiram a guerra, ganhou força no Irã o sentimento popular de que o país deveria buscar um caminho próprio e se desprender da dominação econômica e política britânica. Em março de 1951, um movimento nacionalista liderado por Mohammed Mossadegh ganhou corpo de tal modo que o parlamento aprovou a nacionalização da Anglo-Iranian Oil Company – AIOC. Naquele contexto, o xá Reza Pahlevi, profundamente alinhado aos interesses britânicos, havia perdido força política e teve que sancionar a lei. Em abril do mesmo ano, Mossadegh foi eleito primeiro-ministro do Irã. Assim, o país começou a buscar um caminho próprio e se libertar da dominação econômica e política britânica. Imediatamente, a Grã-Bretanha, apoiada pelos EUA, iniciou um embargo e o boicote internacional ao petróleo iraniano, além de levar o caso à Corte Internacional de Justiça e ao Conselho de Segurança da ONU. O embargo do petróleo do Irã produziu uma profunda crise no país. Em paralelo, em agosto de 1953, a CIA e o MI6 organizaram a operação Ajax, por intermédio da qual foi perpetrado um golpe de Estado que destituiu Mossadegh e devolveu os poderes absolutos ao Xá. A construção democrática em andamento foi completamente revertida e destruída. Mossadegh foi preso, julgado e condenado por um regime de exceção. Em decorrência, o Irã experimentou um longo período autoritário sob o comando do xá Reza Pahlevi.

É no contexto da resistência ao regime autoritário patrocinado pelos EUA e pela Grã-Bretanha que se deu a revolução iraniana de 1979. De fato, o processo revolucionário no Irã foi marcado por duas fases bastantes distintas. Alguns historiadores e analistas chegam a falar de duas revoluções. O primeiro foi um movimento popular amplo e plural, que uniu liberais, agrupamentos de esquerda, inclusive o Tudeh (Partido Comunista do Irã) e islâmicos. Esse movimento tinha o objetivo comum de derrubar o xá e abrir caminho para uma república democrática. A vitória desse movimento, que ganhou corpo em 1978, concretizou-se em fevereiro de 1979, com a fuga do xá e a formação de um governo provisório liberal. Não obstante, a natural instabilidade política reinante nessa fase inicial de transição do poder propiciou um segundo e decisivo ato revolucionário, liderado pelo Aiatolá Khomeini, que havia retornado do exílio no início de fevereiro de 1979. O seu projeto não era a democracia secular, mas a instauração de um Estado teocrático. Com uma organização superior alicerçada nas mesquitas e em milícias populares, os islâmicos marginalizaram sistematicamente os seus antigos aliados (que foram brutalmente perseguidos e eliminados ou aprisionados). Dois golpes profundos desestabilizaram o governo liberal e consolidaram o novo poder: o referendo que estabeleceu a República Islâmica (30-31 de março de 1979) e, posteriormente, a tomada da embaixada dos Estados Unidos (4 de novembro de 1979). A crise da ocupação da embaixada dos Estados Unidos foi marcada pela captura de 52 reféns estadunidenses, entre diplomatas e outros cidadãos que viviam no Irã. A crise somente foi solucionada em 20 de janeiro de 1981, com a posse de Ronald Reagan, por intermédio de complexas negociações que começaram muito antes da sua posse, por meio das quais certos ativos iranianos congelados nos EUA foram desbloqueados. Assim, a revolução islâmica não foi simplesmente a fase final de um processo único, mas uma segunda revolução que suplantou a primeira e transformou uma insurreição nacional e plural em um regime teocrático que persiste até hoje. Sublinho que os EUA e a Grã-Bretanha conspiraram, desestabilizaram e sepultaram a jovem democracia iraniana em 1953. Adicionalmente, deram suporte ao autoritarismo imposto pelo xá Reza Pahlevi ao país. Desse ponto de vista, são os maiores responsáveis pela destruição da democracia em edificação no Irã e os culpados pelos autoritarismos que sobrevieram ao país.

•        Como analisa o movimento de Donald Trump de se somar a Israel na ação militar e entrar numa confrontação direta com o Irã?

Sidnei Munhoz: Confesso que é difícil analisar as decisões de Donald Trump, pois elas, muitas vezes, parecem erráticas. Nem sempre é possível perceber a existência de um plano detalhado, de uma lógica e de uma coerência. Outras vezes, essas decisões ocultam interesses privados do seu grupo econômico ou de aliados. Apesar disso, é possível tecer algumas considerações. Em primeiro lugar, o ataque ao Irã significa a quebra das promessas de campanha de que ele colocaria um ponto final às guerras sem-fim nas quais os EUA estavam enredados. Em segundo lugar, representou uma traição ao Irã que, aparentemente, negociava de boa fé. Observem que os EUA e Israel atacaram o Irã em meio às negociações que estavam a avançar. Participantes da mesa de negociação chegaram a afirmar que o Irã havia feito concessões robustas e um acordo deveria ser firmado. Foi exatamente nesse contexto que o Irã foi atacado e as suas principais lideranças assassinadas. Em terceiro lugar, é uma guerra de agressão ilegal tanto perante o direito internacional quanto as leis estadunidenses. Nos Estados Unidos, muitos analistas, em especial aqueles mais simpáticos ao Partido Democrata, têm insistido que essa guerra nada tem a ver com a segurança ou com os interesses dos EUA. Alguns têm afirmado que esta guerra foi arquitetada por Netanyahu e hoje o governo dos EUA foi capturado por Israel.

•        Qual o impacto político e social da morte do aiatolá Ali Khamenei na sociedade iraniana?

Sidnei Munhoz: Não sou um especialista em história ou cultura do Irã, no entanto vou alinhavar uma análise desse processo. Em primeiro lugar, Trump partiu do pressuposto equivocado de que faria no Irã o mesmo que fez na Venezuela. Todavia, o Irã não é a Venezuela e a lealdade ao regime vai muito além da política. Ela é, mais do que tudo, religiosa. Além disso, o regime possui uma sólida sustentação social alavancada em uma economia moderna que praticamente acabou com o analfabetismo no país, investiu no desenvolvimento científico e tecnológico e na criação de uma sólida infraestrutura no país. Somente assim o regime pode suportar e avançar ao longo dos 47 anos de embargos e sanções impostas ao país em consequência de revolução de 1979. Adicionalmente, e isso é muito importante, no xiismo a figura do mártir possui extrema relevância. Desse modo, o assassinato de Khamenei, Ahmadinejad e outros líderes pode, ao contrário do esperado por Trump, Netanyahu e seus assessores, haver alimentado o desejo de combate e a disposição de luta para vingar a morte de seus mártires.

•        Como você caracteriza os meses anteriores de disputas políticas neste país, quando uma onda de protestos sociais por causas econômicas se tornou uma sangrenta conflagração nacional com um número de mortes até hoje obscurecido?

Sidnei Munhoz: O regime vigente no Irã é autoritário, mas ao longo dos anos tem efetuado concessões, como parte de uma estratégia de conter as manifestações de oposição ao regime e, se possível, incorporar parte dos descontentes ao sistema vigente. Essas manifestações recentes foram precedidas de maciças interferências estrangeiras por meios das redes sociais, como ocorreu nas manifestações da chamada Primavera Árabe. O regime reagiu e reprimiu violentamente as manifestações e as conteve. Os manifestantes que acreditaram nas conclamações, grande parte delas vindas de fora, ficaram abandonados ao seu destino. Não temos informações claras sobre o número de mortos, feridos e de manifestantes presos.

•        Diante da reação do Irã e primeiros impactos globais, acredita que se trata de um erro de cálculo brutal de Trump? O que esse conflito pode significar para os EUA e sua ainda considerável hegemonia global?

Sidnei Munhoz: Os Estados Unidos ainda são o grande hegemon global, mas cada vez mais são desafiados pelo contínuo e paciente avanço da China. A estratégia de Beijing não é a do confronto, mas do envolvimento. É como a água do rio que contorna, envolve e ultrapassa as rochas que estão pelo caminho. Ao final, o rio segue o seu curso, com pequenas alterações de rota definidas pelos obstáculos, mas segue em frente. Eu disse que os EUA ainda mantêm uma hegemonia global, mas sublinho que é uma hegemonia em um longo processo de erosão, que começou lentamente lá durante a Guerra da Indochina (Vietnã). O predomínio estadunidense ganhou fôlego com uma nova expansão global do capitalismo, em decorrência da crise e do desmoronamento do sistema soviético. Contudo, as promessas não cumpridas levaram à contínua erosão da sua capacidade de exercer um soft power. Cada vez mais, os EUA precisam fazer o uso da força para conquistar aquilo que antes conseguiam pela atração e pela sedução. Potências decadentes tendem, cada vez mais, a necessitar de empregar a força para conseguir os seus objetivos. Observem as transições de hegemonia nos últimos 5 séculos. Elas sempre levaram à expansão de guerras e, em alguns casos, à globalização delas. Ainda no início dos anos 2000, expliquei aos estudantes do curso de História e até escrevi um pouco sobre o lento e contínuo processo de expansão de conflitos locais e regionais. À época, já os alertava para os riscos futuros da possível globalização daqueles conflitos. As guerras não começam mundiais. Elas se tornam mundiais. Para ficar apenas em um exemplo, basta atentarmos para a Segunda Guerra Mundial. Ela resultou de um processo contínuo de expansão das tensões provocadas por questões mal resolvidas durante e ao fim da I Guerra Mundial.

De volta ao cerne da indagação, eu diria que ainda há muita água a passar por debaixo dessa ponte. Os EUA são incomensuravelmente mais poderosos do que o Irã. Além disso, há Israel, além das monarquias autoritárias do golfo aliadas aos EUA. O Irã não possui aliados de peso. Pode receber algum apoio russo ou chinês, mas esses países não parecem intencionar entrar no conflito. A Rússia não quer que esse problema afete a sua guerra na Ucrânia. Uma intervenção mais direta poderia levar Trump a auxiliar, de modo mais robusto, a sua adversária. A China sabe que, em algum momento no futuro, haverá uma grande possibilidade de conflito com os EUA. A sua estratégia é evitar e postergar o máximo possível esse conflito. O tempo está a seu favor. Enquanto os EUA se envolvem em conflitos, a China cresce e estabelece alianças e planos estratégicos. Quando mais tempo evitar o conflito, mais forte estará. Na hipótese de os EUA saírem moralmente derrotados desse conflito, inclusive em casa, com a expansão das manifestações contra a guerra em seu território e mundo afora, isso não será uma derrota apenas para o trumpismo, mas para os EUA, pois a sua capacidade de liderança internacional (o que inclui a sua hegemonia) sofrerá uma considerável degradação. Esse é o dilema. Se os EUA mantiverem o conflito a qualquer custo, isso poderá enfraquecer a sua hegemonia, mas se saírem, também. Em outras palavras, a decisão de atacar o Irã, além de covarde (em meio a uma negociação que, segundo o próprio Trump, ia bem), foi completamente equivocada. Trump só tem uma saída: vencer, derrubar o governo do Irã e impor um títere no comando do novo regime. Aparentemente, isso será difícil.

•        A confrontação do Oriente Médio, com ataques do Irã a países vizinhos e desestabilização política de tais países, pode descortinar processos políticos e sociais ainda pouco visíveis?

Sidnei Munhoz: Nós, historiadores e historiadoras, trabalhamos bem com o passado e mesmo com o presente, mas prever o futuro é uma impossibilidade. Feita essa advertência, observo que as monarquias autoritárias da região, aliadas dos EUA, permitiram a instalação de bases militares em seus territórios sob a promessa de proteção. Isso não aconteceu, ao contrário. Essas instalações militares tornaram-se alvos do Irã e junto com elas os sistemas de energia desses países. Como vimos, o Irã demonstrou que os EUA não conseguem proteger os seus aliados e nem mesmo as suas bases, que também foram severamente afetadas. É possível, a depender dos rumos que o conflito venha a tomar, que haja algum tipo de reposicionamento desses governos. No entanto, é muito cedo para antever e analisar essas possibilidades. Além disso, em alguns desses lugares, poderá haver o crescimento da resistência popular à presença dos EUA nos seus territórios. Ainda, não é descartado o crescimento do apoio popular ao Irã em alguns desses países.

•        Quanto a Israel, o que você consegue imaginar para um futuro mais distante? Sua sociedade pode colapsar?

Sidnei Munhoz: A situação de Israel é singular. Netanyahu necessita da continuidade da guerra, pois está acossado com escândalos de corrupção e corre o risco de, inclusive, ser condenado e preso (observo também que, para Trump, a guerra retira o foco do caso Epstein, que o estava a acossar). Netanyahu está a levar à frente um projeto que não é só dele, mas ele é a sua grande expressão contemporânea: criar a Grande Israel. Além disso, é plausível supor que ele espere conseguir fragmentar o Irã e levar a região a uma espécie de balcanização, de tal modo que não haja mais um único país no chamado Oriente Médio que possa obstaculizar esse projeto. Embora seja possível observar o crescimento de manifestações em Israel contra o genocídio em Gaza e contra essa guerra ao Irã, a grande maioria da população israelense ainda apoia as atuais guerras. Não podemos confundir, de forma alguma, como fazem alguns defensores do regime vigente em Israel, antissionismo com antissemitismo. Aliás, isso é parte de uma estratégia denunciada inclusive por intelectuais israelenses, como, por exemplo, Illan Pappé.

Pappé enfatiza que o sionismo é um projeto político nacionalista moderno (surgido ao final do século 19), que definiu como objetivo estabelecer um Estado nacional para judeus na Palestina. Portanto, a crítica ao sionismo como ideologia e como um movimento político não é, em si, um ato de antissemitismo. Antissemitismo é empregado principalmente em relação ao ódio ou à discriminação contra judeus como grupo étnico ou religioso, independentemente de ações políticas. Ainda, é muito importante informar que a maioria dos povos árabes e os palestinos são predominantemente semitas. Por fim, há mais um complicador, pois muitos judeus antissionistas foram e continuam a ser completamente refratários à ideia de um Estado judeu. Para Pappé e outros intelectuais judeus críticos do Estado de Israel, o movimento antissionista resulta de uma reação legítima às consequências do projeto sionista, especialmente a partir da Nakba (catástrofe palestina de 1948) e das sucessivas ocupações e expansões israelenses, realizadas posteriormente. Muitos desses críticos declaram-se opositores do projeto colonial israelense, manifestam-se contra a discriminação étnica e as violações de direitos humanos associadas ao Estado de Israel. Sublinho que a crítica deles não é, em hipótese alguma, ao judaísmo como identidade, como querem fazer crer os sionistas. Em outras palavras, a crítica é ao projeto sionista, à limpeza étnica promovida na Palestina e ao projeto colonial de Israel, e não uma crítica aos judeus e ao judaísmo.

•        Você vislumbra uma mundialização dos conflitos militares?

Sidnei Munhoz: A síntese final é: os Estados Unidos enfrentam uma lenta e gradual erosão da sua capacidade de hegemonia. Em decorrência, como historicamente demonstrado em processos de transição de hegemonia ocorridos ao longo dos últimos séculos, o hegemon passa a necessitar, cada vez mais, do emprego da força para manter o que antes ele era capaz de realizar por intermédio da adesão. Desse modo, a probabilidade da expansão de conflitos é bastante plausível e poderá inclusive desembocar na sua globalização.

 

Fonte: Correio da Cidadania

 

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