Quando o consenso se rompe, são as mulheres negras que sustentam os direitos
Recentemente,
Nova York recebeu pessoas do mundo inteiro para debater igualdade de gênero e
garantia de direitos, discussão ainda mais essencial em um cenário de escalada
da violência contra mulheres que vivemos nos dias de hoje. Na 70ª sessão da
Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU (CSW70), principal instância
intergovernamental das Nações Unidas, vimos as Conclusões Acordadas, carta de
intenções assinadas pelos participantes da CSW, serem finalizadas de forma
inédita: historicamente adotadas por consenso, foram submetidas e estabelecidas
por meio de votação, ainda no início do primeiro dia da sessão.
O
desequilíbrio multilateral que se revelou foi, em grande parte, gerado pela
postura antidireitos dos Estados Unidos, quase um plano de governo do atual
presidente, Donald Trump. No entanto, a investida de representantes do país
contra os direitos das mulheres realizada durante a Conferência – com
retrocessos em ações afirmativas e sem políticas de reconhecimento e reparação
para grupos raciais e étnicos – não ocorre no vazio. Ela está articulada com a
retirada do país da ONU Mulheres e de outros organismos internacionais, como a
OMS, o Acordo de Paris, a Unesco e a Unfpa (Fundo de População das Nações
Unidas), além da defesa da agenda que associa gênero a questões meramente
biológicas e das infindáveis tentativas de distorção e contestação de marcos
normativos internacionais.
Foram
mulheres negras, LBTs e feministas as protagonistas da ofensiva que impediu que
a perda de direitos ganhasse escala global, conseguindo o feito histórico de se
chegar a uma Conclusão Acordada por meio de votação. Com um ampla mobilização e
incidência, antes e durante a CSW70, junto às missões diplomáticas e delegações
nacionais, tiveram conquistas como a proposição, para os países signatários, de
sistemas jurídicos mais inclusivos e equitativos para meninas e mulheres, com
eliminação de leis, políticas e práticas discriminatórias.
CRIOLA,
organização de mulheres negras que, há mais de trinta anos, atua, dentre outras
frentes, na incidência política em esferas nacionais e internacionais como
forma de assegurar que suas propostas estejam refletidas em políticas públicas,
esteve presente na Conferência. Por meio do People of African Descent
Stakeholder Group (PAD-SG), mecanismo oficial de participação da sociedade
civil no sistema da ONU do qual CRIOLA faz parte, a organização somou-se a
outras entidades para reforçar o posicionamento de que o acesso à justiça não
pode ser reduzido ao plano procedimental, devendo incluir redistribuição de
recursos, reparações, enfrentamento ao racismo institucional, financiamento
adequado e reconhecimento explícito de mulheres afrodescendentes na governança
global.
Além
disso, CRIOLA reitera a importância da presença política de mulheres, em
especial as racializadas e LBTs, no arranjo global da promoção, defesa e
proteção de direitos, fundamental para a conquista de resultados como os
obtidos na CSW70. Seus conhecimentos ganham ainda mais robustez a partir de
experiências concretas dos territórios, trazendo esse olhar para espaços de
debate nacionais e internacionais, permitindo que sejam desdobrados em ações
concretas em busca do bem viver – uma filosofia ancestral que valoriza a
justiça social, a coletividade, a relação harmônica com a natureza e o respeito
à diversidade. É o caso da proposta apresentada pela África do Sul, e aprovada
quase de forma unânime, sobre direitos de mulheres e meninas em casos de
HIV/Aids. Ao reconhecer que a vulnerabilidade à doença está diretamente
relacionada a desigualdades econômicas, violência de gênero e ausência de
acesso a serviços, a proposta reforçou a interdependência entre justiça, saúde
e condições materiais de vida.
No
entanto, é importante ressaltar que as Conclusões Acordadas da CSW70, ainda que
estabeleçam um importante Mapa do Caminho para disparar processos de redução de
desigualdades, só serão efetivas com a criação de mecanismos internos de
implementação e monitoramento por parte das três esferas de poder, em todos os
entes federativos. Nesse sentido, CRIOLA, ao lado de outras dezesseis
organizações brasileiras, em sua Agenda Antirracista para a Transformação do
Sistema de Justiça, propôs mudanças desafiadoras e estruturais, baseadas na
fundação de uma nova governança e estrutura com efetiva participação e controle
social para o enfrentamento ao racismo institucional.
Por
fim, percebemos que os des dias de articulação intensa na CSW70 revelam bem
mais do que um impasse diplomático, expondo um deslocamento mais profundo. Os
direitos das mulheres deixaram de operar como um campo de consenso normativo e
passaram a constituir um terreno de disputa política aberta e declarada. Nesse
cenário, a pergunta que se impõe é: quem sustenta, na prática, a continuidade
desses direitos? O que experienciamos na Conferência não representa o colapso
do sistema internacional de direitos das mulheres, mas indica, de forma
inequívoca, o que nós, mulheres organizadas pelas nossas vidas e de nossas
comunidades, aprendemos no longitudinal da luta: consensos tácitos não são e
nunca foram suficientes. Outra matéria de ação será cada vez mais exigida nas
ações dos governos, nos desenhos intra e interregionais, bem como nos
redesenhos globais, para garantir os direitos de meninas e mulheres como
própria substância de defesa de nossas democracias.
Fonte:
Por Lia Manso, no Le Monde

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