Quem
está por trás da mineração em terras indígenas no Brasil?
Há
conflitos que dizem respeito a um país. Outros revelam um tempo histórico. A
disputa em torno da mineração em terras indígenas no Brasil se insere nesse
segundo caso. O que está em jogo vai além de uma controvérsia entre crescimento
econômico e ações de proteção dos direitos territoriais e do meio ambiente.
Trata-se da possibilidade de que a transição energética global, apresentada
como resposta à crise climática, se converta em justificativa para uma nova
rodada de roubos e invasões territoriais, agora revestida de linguagem técnica,
alinhada com ambição geopolítica e promessas de futuro.
No
Brasil, essa mudança já aparece com força. Impulsionada pela corrida por
minerais como lítio, níquel, cobre, cobalto e terras raras, usados em baterias,
eletrificação e outras tecnologias, a mineração passou a se apresentar como
setor central para um futuro não mais dependente de combustíveis fósseis. Em
nome da transição energética e da descarbonização, o setor procura se afirmar
como estratégico para o país e para sua posição no cenário global. Esse
movimento amplia sua presença dentro do Estado e fortalece uma rede de
influência que articula interesses econômicos com decisões políticas. O
relatório “Desmascarando o lobby mineral em terras indígenas no Brasil”,
produzido pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) em parceria com
a cosmopolíticas e lançado durante o ATL 2026, no dia 8 de abril, mostra que o
avanço da mineração em terras indígenas não acontece apenas por demanda de
mercado, mas por meio de uma engrenagem de financiamento, lobby e captura
institucional que alcança os três poderes da República.
Os
dados reunidos no relatório mostram que esse cerco não é abstrato. Apenas na
Amazônia, há mais de 5 mil requerimentos minerários em aberto. Mais de 1.300
atingem terras indígenas, seja por sobreposição direta, seja por extrema
proximidade. Em 2024, centenas desses pedidos continuavam ativos, aguardando
nova brecha política ou jurídica para avançar com a exploração dos chamados
minerais críticos que cercam mais de 45 povos. O lobby se articula muito antes
de qualquer autorização formal e se instala como frente permanente de ameaça
sobre os territórios.
No
Congresso Nacional, essa engrenagem aparece de forma especialmente visível.
Segundo a Apib, o Legislativo funciona como máquina de reapresentação contínua
da mesma agenda: quando uma proposta encontra resistência, outra reaparece com
nova redação, novos argumentos e os mesmos interesses. A isso se soma o Mandado
de Injunção nº 7490, em que o Supremo referendou, em junho de 2025, liminar do
ministro Flávio Dino dando prazo de 24 meses para o Congresso regulamentar a
exploração mineral nos territórios. O atual Grupo de Trabalho sobre mineração
em terras indígenas (GTMTI) no Senado não é, portanto, um espaço técnico
neutro. Criado por iniciativa do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União
Brasil/AP) a partir da demanda do Supremo, o GT foi instalado para elaborar, em
seis meses, um projeto de lei de regulamentação da pesquisa e da lavra mineral
em terras indígenas. Sua coordenação ficou com a senadora Tereza Cristina
(PP/MS), ex-ministra da Agricultura do governo Bolsonaro e liderança da Frente
Parlamentar Agropecuária, enquanto a relatoria foi atribuída ao senador Rogério
Carvalho (PT/SE). Os PLs nº 1331/2022 e nº 6050/2023, ambos favoráveis à
ampliação de atividades econômicas e minerais em terras indígenas, foram
indicados para análise do colegiado. Em vez de encerrar a pauta, o GT a
reorganiza e lhe dá novo fôlego institucional.
O
alerta da Apib é que esse GT inaugura uma nova etapa de discussão que pode
abrir caminho para a legalização da mineração em terras indígenas, com impacto
direto sobre direitos garantidos na Constituição e sobre a proteção dos
territórios. Esse movimento acontece dentro de um ambiente político já marcado
por iniciativas que avançam nessa direção, com apoio de setores ligados à
mineração, ao agronegócio e a grupos conservadores, que atuam para apresentar
interesses privados como se fossem de interesse nacional.
Nesse
cenário, o relatório também destaca o papel do Instituto Brasileiro de
Mineração (Ibram). Com mais de 210 associados, responsáveis por grande parte da
produção mineral do país segundo dados do próprio instituto, o Ibram atua como
articulador dessa agenda dentro do Estado, com presença junto ao Executivo, ao
Legislativo e ao Judiciário, além da participação em conselhos estratégicos,
acesso a ministérios e atuação em eventos internacionais do setor, como a
canadense PDAC (sigla em inglês para Prospectores e Desenvolvedores do Canadá).
Essa atuação fortalece a transformação de interesses empresariais em posições
institucionais.
No
Executivo, o avanço da mineração aparece de forma contínua e atravessa
diferentes governos. O relatório mostra que, ao mesmo tempo em que o Congresso
discutia regras sobre o tema, políticas e marcos foram sendo construídos em
diálogo direto com o setor minerário. Ainda nos governos Lula e Dilma, a
formulação do Novo Código Mineral contou com participação do Ibram, e o Plano
Nacional de Mineração 2030 consolidou a atividade como prioridade para o país,
associando áreas com reservas minerais à lógica da exploração.
A
partir de 2016, essa direção se intensificou. No governo Temer, o Decreto nº
9.406/2018 regulamentou o Código de Mineração e autorizou o uso de títulos
minerários como garantia financeira, ampliando o acesso a crédito e estimulando
a especulação. No governo Bolsonaro, a mineração foi classificada como
atividade essencial durante a pandemia, mantendo operações mesmo em áreas
sensíveis. Em 2020, o Programa Mineração e Desenvolvimento buscou acelerar a
exploração e reduzir regras, e, em 2021, o Programa Pró-Minerais Estratégicos
colocou dezenas de projetos como prioridade nacional em nome da transição
energética, incluindo áreas em conflito com comunidades indígenas. Esse
conjunto de medidas evidencia o envolvimento de diferentes correntes políticas
na construção de um ambiente institucional que favorece a expansão da mineração
no país.
No
Judiciário, a ofensiva assume formas menos visíveis, mas igualmente graves. O
relatório afirma ter identificado intensa presença de representantes do lobby
mineral e de argumentos favoráveis ao setor nas audiências da Câmara de
Conciliação do Marco Temporal, além de disputas interpretativas no STF que
indicam a Corte como novo campo de atuação para uma regulamentação indireta da
mineração em terras indígenas. O risco apontado pelas lideranças indígenas é
nítido: uma mudança dessa dimensão pode avançar sem participação efetiva dos
povos e sem direito de veto.
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Incidência jurídica
A Apib,
junto ao lançamento do relatório durante o 4º Seminário de Mineração e Terras
Raras no Congresso Nacional, aproveitando as mobilizações do ATL, protocolou,
no dia 8 de abril, uma manifestação no STF dentro de uma ação que trata da
mineração na área do povo Cinta Larga, entre Rondônia e Mato Grosso. Essa ação
acontece depois de uma decisão do ministro Flávio Dino que reconheceu a demora
do Congresso em criar uma lei sobre mineração em terras indígenas e levantou a
possibilidade de avançar nesse tema por outros caminhos. Para a Apib, esse
movimento abre um risco concreto de liberar a exploração sem garantir os
direitos dos povos.
Na
manifestação, a Apib sustenta que a Constituição não permite mineração em
terras indígenas sem uma lei específica aprovada pelo Congresso e sem consulta
livre, prévia e informada aos povos afetados. O documento também chama atenção
para o fato de que essa consulta não pode ser tratada como um simples
procedimento formal. Ela precisa respeitar o tempo, a decisão coletiva, os
modos de organização de cada povo e, principalmente, o direito ao veto à lei. A
Apib alerta que avançar nesse tema sem essas garantias pode agravar violências
e ampliar a destruição de formas de vida que já vêm sendo impactadas por
garimpo e outras atividades ilegais.
Outro
ponto central da ação é o questionamento da ideia de que a mineração pode ser
tratada como interesse nacional e público acima dos direitos indígenas. A Apib
argumenta que esse tipo de leitura ignora o papel dos povos na proteção dos
biomas e no enfrentamento da crise climática. Também aponta que abrir esse
caminho pode beneficiar interesses privados e estrangeiros, sem retorno real
para os povos e para o país.
Ao
levar essa disputa ao STF durante o ATL, a Apib conecta a mobilização nas ruas
com a atuação no campo jurídico e reforça que as denúncias do relatório sobre
as pressões feitas em diferentes instâncias de poder pelas mineração não
acontece só nos territórios, mas também dentro das decisões do Estado. O que
está em jogo é quem define o uso dessas áreas e quais interesses orientam essas
decisões.
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Mobilizações e ameaças
Nos
territórios, são os povos indígenas que vêm puxando essa denúncia para o centro
da cena e enfrentando, na prática, o avanço da mineração. Em Altamira, no Pará,
mulheres indígenas ocuparam a sede da Funai para denunciar os impactos do
projeto da mineradora canadense Belo Sun, na Volta Grande do Xingu, e exigir a
cassação da licença de instalação da empresa. A mobilização também cobra a
retirada de invasores da Terra Indígena Cachoeira Seca, do povo Arara, e da
Terra Indígena Trincheira Bacajá, do povo Mebêngôkre-Xikrin. Mais do que reagir
a um empreendimento, essas mulheres estão enfrentando uma nova camada de
pressão sobre um território já violentado por grandes obras, pela invasão e
pela presença continuada de interesses minerários.
No
Espírito Santo, o povo Tupinikim sustenta há meses uma mobilização prolongada
contra a Vale, a Samarco e a BHP, cobrando reparação pelos danos do rompimento
da barragem de Fundão, em Mariana. Mais de dez anos depois, cerca de 1.600
indígenas seguem fora dos processos de reparação, enquanto a presença da
ferrovia dentro da terra indígena, somada à vigilância constante e às
restrições de circulação, é denunciada como forma permanente de controle do
território.
Essas
lutas ganharam projeção nacional durante o ATL 2026, em Brasília, onde
lideranças de diferentes regiões se somaram para afirmar uma mesma denúncia: a
mineração não é uma promessa abstrata de desenvolvimento, mas uma ameaça
concreta à vida, à autonomia e ao futuro dos povos indígenas. Nesse contexto, o
lançamento do relatório da Apib fortaleceu a incidência política do movimento
ao conectar as violências vividas nos territórios à engrenagem institucional
que as sustenta.
O que o
relatório revela é que a mineração em terras indígenas não avança apenas porque
há empresas interessadas. Ela avança porque se organiza simultaneamente nos
três poderes e porque passa a se apresentar, sob a retórica da transição
energética, como se fosse solução climática e de interesse nacional e público.
Em nome do futuro, tenta-se normalizar a destruição. No entanto, a extração de
minérios ameaça justamente a segurança climática do planeta ao condenar
territórios e povos indígenas em zonas de sacrifício para atender interesses,
principalmente, do Norte Global. A resposta dos povos indígenas, porém, já está
colocada nas ruas e nos territórios: nosso futuro não está à venda.
Fonte:
Por Midori Hamada, no Le Monde

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