Massacre
de Eldorado do Carajás ainda deixa perguntas sem respostas: ‘O caso precisa de
uma comissão da verdade’
Trinta
anos após o massacre de Eldorado do Carajás, um dos episódios mais emblemáticos
da violência no campo no Brasil segue cercado por lacunas, investigações
inconclusas e perguntas que a Justiça nunca respondeu. Embora o caso tenha
resultado na condenação de dois comandantes da operação policial, a apuração
deixou de fora linhas relevantes sobre a preparação da ação, o suporte
logístico à operação, o eventual envolvimento de fazendeiros da região e os
interesses políticos e econômicos beneficiados pelo massacre.
Em 17
de abril de 1996, a Polícia Militar do Pará reprimiu uma marcha do Movimento
dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) na Curva do S, em Eldorado do Carajás,
no sudeste do estado. Dezenove trabalhadores rurais foram mortos e dezenas de
pessoas ficaram feridas naquele dia. Outros dois morreram depois em decorrência
dos ferimentos, elevando para 21 o número de vítimas fatais.
No
relatório Massacres no Campo, da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do
Instituto de Pesquisa, Direitos e Movimentos Sociais (IPDMS), Eldorado aparece
como um caso paradigmático porque concentra, num único episódio, alguns dos
traços mais persistentes da violência agrária no país: repressão policial,
pressão de elites regionais, criminalização das vítimas e impunidade dos
mandantes.
Passadas
três décadas, o caso continua a produzir uma disputa não apenas judicial, mas
também histórica e política: o que, de fato, foi apurado, o que foi abandonado
pelo caminho e por que tantas perguntas relevantes jamais chegaram a uma
resposta conclusiva.
“O caso
Eldorado precisa de uma comissão da verdade”, resume Diego Diehl, advogado
popular, professor da Universidade de Brasília (UnB) e um dos coordenadores do
projeto Memória dos Massacres no Campo. Diehl está à frente da equipe que
revisita justamente a história do massacre de Eldorado, esquadrinhando
depoimentos, documentos e processos judiciais buscando histórias apagadas ao
longo dos últimos 30 anos. Para ele, o massacre foi parcialmente julgado, mas
não plenamente esclarecido.
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Da versão de confronto à suspeita de execução
Desde
as primeiras horas após o massacre, a versão oficial propagada justificava que
o episódio teria sido resultado de um confronto entre policiais e trabalhadores
sem-terra. Os elementos reunidos ao longo da apuração, porém, desmontam essa
narrativa. Trinta anos depois, o que permanece não é a dúvida sobre se houve
confronto, mas sobre quem planejou e sustentou uma operação cujos indícios
apontam para execução.
Segundo
Diehl, a dinâmica da ação, os testemunhos colhidos à época e os elementos
periciais reunidos no processo são incompatíveis com a ideia de um simples
confronto. Para ele, houve um esforço para apresentar o massacre como reação da
polícia, apesar de indícios de execuções e do uso desproporcional da força.
Outro
ponto central, afirma, é o que chama de “apagamentos” produzidos já no
pós-massacre. Entre eles, a remoção dos corpos e a falta de preservação da cena
do crime, o que comprometeu a reconstituição exata do que ocorreu naquele 17 de
abril.
Helena
Rocha, codiretora do programa para o Brasil do Centro pela Justiça e o Direito
Internacional (Cejil), organização que acompanha o caso de Eldorado do Carajás
no sistema interamericano de direitos humanos, afirma que as falhas começaram
no momento inicial da apuração, com problemas na obtenção e preservação das
provas, fragilidades na perícia e limitações de independência investigativa.
“Se
você não tem uma investigação robusta, fica muito mais difícil de conseguir que
a Justiça responda de forma adequada”, diz Rocha. Para ela, as condenações
obtidas no caso “não dão conta da análise dessa estrutura, de todas as
responsabilidades inerentes ao caso em si”.
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Quem financiou, articulou e se beneficiou?
Ao
longo da apuração do crime surgiram relatos e suspeitas sobre o financiamento
do deslocamento da tropa e sobre quem teria garantido apoio logístico à ação.
Essa linha, no entanto, não foi plenamente esclarecida pela investigação.
Um dos
registros mais específicos dessa frente aparece em depoimento do tenente Manoel
Mendes de Melo à Polícia Judiciária da Secretaria de Estado da Segurança
Pública do Pará. Segundo ele, “a tropa foi conduzida em dois ônibus da empresa
Transbrasiliana”, sendo que esses veículos teriam sido “cedidos pela Companhia
Vale do Rio Doce”. Uma possível participação da empresa no suporte à operação,
porém, não avançou de forma conclusiva na investigação.
O
jornalista Eric Nepomuceno, autor do livro O Massacre: Eldorado dos Carajás:
Uma história de impunidade, sustenta que a participação da Vale não foi
devidamente investigada, apesar de elementos que, segundo ele, ligavam a
empresa ao caso.
Hoje, a
operação da Vale em Carajás articula mina, ferrovia e porto. É lá onde está o
maior projeto de minério de ferro da história da empresa, com capacidade de 90
milhões de toneladas por ano. Em 2024, a companhia destacou produção recorde no
S11D e no complexo de cobre de Salobo, ambos no sudeste paraense. Em 2025,
anunciou R$ 70 bilhões em investimentos no programa Novo Carajás até 2030, com
foco em ampliar a produção atual.
O
relatório Massacres no Campo vai na mesma direção ao afirmar que a participação
da Transbrasiliana no deslocamento dos policiais e no traslado de vítimas foi
comprovada e que havia “indícios de financiamento pela Companhia Vale do Rio
Doce”, sem que houvesse investigação sobre a eventual autoria ou participação
das empresas envolvidas.
O
documento ainda registra suspeitas do Ministério Público sobre a participação
de comerciantes locais de Curionópolis e Parauapebas no crime e em seu
acobertamento, trilhas que também não avançaram.
Também
permaneceram sem resposta conclusiva as suspeitas sobre o grau de envolvimento
de fazendeiros da região, num contexto em que a pressão contra o avanço da
reforma agrária se cruzava com disputas fundiárias, interesses econômicos e
influência política local.
Diego
Diehl chama atenção para o fato de que, antes do massacre, já existia disputa
em torno da Fazenda Macaxeira, área no centro do conflito, ocupada pelo MST em
março de 1996, cerca de um mês antes do massacre. Depois do massacre, a fazenda
foi desapropriada. “Duas semanas depois do massacre, o Incra [Instituto
Nacional de Colonização e Reforma Agrária] desapropriou a Fazenda Macaxeira, e
havia denúncia de que essa desapropriação foi superfaturada”, diz Diehl.
Para
Ayala Ferreira, da direção nacional do MST pelo Pará, o massacre atendeu a
interesses que iam além da repressão imediata à marcha dos trabalhadores.
Segundo ela, houve uma ação deliberada das forças políticas e econômicas da
região para impedir o fortalecimento e a territorialização do movimento no sul
e sudeste paraense.
“Quem
se beneficiou foi a lógica da exploração mineral com a grande empresa Vale,
foio o latifúndio da pecuária e de grãos, foram as elites que operam os grandes
projetos de estradas, hidrovias e ferrovias”, afirma. Na leitura da dirigente,
trata-se de uma aliança entre mineração, latifúndio e grandes obras de
infraestrutura que segue sustentando, na região, um “projeto de morte”.
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O que ficou fora da investigação
Outra
pergunta que atravessa o caso é por que testemunhas e depoimentos considerados
relevantes para esclarecer a preparação da operação e seus possíveis
articuladores foram desqualificados, descartados ou perderam centralidade ao
longo do processo.
Segundo
Diehl, a questão não está apenas no fato de o caso ser complexo ou de haver
versões contraditórias, mas no modo como determinadas frentes de apuração foram
deixadas de lado. Na prática, afirma, a investigação e o julgamento produziram
uma resposta parcial, incapaz de dar conta do conjunto de responsabilidades
envolvidas.
Entre
as linhas de investigação que não avançaram está a suspeita de atuação, no
massacre, de pistoleiros conhecidos na região como Jamaica e Carioca, ligados à
Fazenda Macaxeira. Segundo Diego Diehl, testemunhas os apontaram no contexto da
operação, e uma das versões surgidas à época é que estariam inclusive fardados
como policiais. O Ministério Público chegou a denunciá-los, mas a acusação não
prosperou até o julgamento final.
Entre
as alegações mais graves surgidas à época estavam relatos de que mulheres e
crianças também teriam sido atingidas durante a ação e de que corpos foram
retirados do local antes da perícia. Segundo Diego Diehl, testemunhas citaram
uma caminhonete D-20 associada à PM de Parauapebas como veículo usado nesse
recolhimento. A suspeita, porém, não avançou a uma apuração conclusiva e segue
entre os pontos mais sensíveis e mal esclarecidos do caso.
O
relatório da CPT e do IPDMS afirma que há “indícios e suspeitas que jamais
foram investigados a fundo”, em meio a uma “relação promíscua entre Estado e
poder econômico local, regional e nacional”. No mesmo documento, Carlos Guedes,
advogado do MST à época do massacre e ouvido pela pesquisa como testemunha da
atuação jurídica e política no caso, sustenta que o que foi planejado para
Eldorado dos Carajás foi “um assassinato de toda a direção do MST no Pará”.
A
diretora do Cejil, Helena Rocha, afirma que “nunca houve uma investigação penal
adequada sobre todas as responsabilidades e não só daqueles policiais que
estavam no dia naquela operação”. Para ela, o processo penal tende a analisar
responsabilidades individuais, mas não alcança, sozinho, a dimensão conjuntural
do caso.
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Um julgamento de alcance limitado
Ao fim
do processo criminal, apenas o coronel Mário Pantoja e o major José Maria
Pereira de Oliveira, considerados os comandantes da operação, foram condenados.
A responsabilização de outros policiais não avançou, e o caso terminou sem uma
apuração mais ampla sobre a cadeia de comando, a preparação da operação e os
interesses que cercavam o conflito agrário na região.
Ayala
afirma que o sentimento, entre os sobreviventes e o movimento, é de que a
justiça não foi feita. Segundo ela, o processo foi marcado desde o início por
falhas que limitaram a responsabilização dos envolvidos, como a retirada dos
corpos da cena do crime, o desaparecimento do livro de registro das armas
usadas na operação e a ausência de identificação dos policiais que atuaram no
massacre, já que eles teriam retirado as tarjetas das fardas.
A
dirigente também critica o fato de que o governador da época, Almir Gabriel; o
secretário de Segurança Pública, Paulo Sette Câmara, e o comandante-geral das
forças de segurança do Pará, coronel Fabiano Diniz Lopes, não tenham sido
incluídos na investigação. “Imperou e segue presente até hoje o que a gente
chama de impunidade”, diz. Os três já faleceram.
Diego
Diehl pondera que houve mais atores responsáveis por instigar, ou até mesmo
financiar a ação dos policiais na Curva do S, e que a participação de políticos
e de fazendeiros locais no massacre também deve ser ressaltada.
O
pesquisador chama atenção para o fato de que foi completamente desconsiderada à
época das investigações o depoimento de um delator que denunciou um suposto
“caixinha” de fazendeiros locais que estaria sendo coletado dias antes do
massacre, e que teria o objetivo de financiar a matança de lideranças locais do
MST.
“Essas
condenações não dão conta da análise dessa estrutura, de todas as
responsabilidades inerentes ao caso em si. Quando a gente tem alguma
responsabilização, ela não traz o contexto mais amplo da responsabilidade do
Estado”, resume Helena Rocha, do Ciejil.
Ela
lembra ainda que, além da responsabilização penal parcial, o caso acumulou um
número incomum de atos de reconhecimento de responsabilidade civil do Estado,
com decretos, portarias e acordos voltados a pensões e indenizações.
O caso
teve mudanças de juízes, controvérsias sobre o local do julgamento e
absolvições em massa da maior parte dos denunciados. O relatório da CPT e do
IPDMS sustenta que o estudo de Eldorado revela “elementos de uma impunidade
estrutural dos poderosos viabilizada pelo Sistema de Justiça Criminal” e aponta
a dificuldade em responsabilizar autoridades públicas e oligarquias locais, em
meio à influência das elites regionais.
A
violência, além disso, não terminou em 17 de abril. O relatório registra a
continuidade de episódios graves na região, incluindo ameaças a testemunhas e
jornalistas, a morte de uma menina próxima ao local do massacre, o assassinato
de Francisco de Assis Ferreira e um despejo posterior na Fazenda Goiás 2, em
1998, com participação de policiais que já estavam indiciados no processo de
Eldorado e que teve como resultado a morte de duas lideranças sem-terra.
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Reparação incompleta e luta
Trinta
anos depois, as lacunas do caso também aparecem no campo da reparação. Segundo
Ayala, parte dos sobreviventes mutilados pelo massacre segue sem atendimento
adequado do Estado.
Ela
afirma que as pensões pagas às vítimas não foram atualizadas, que mais de 20
mutilados ainda não foram indenizados e que falta assistência médica
especializada para quem convive até hoje com sequelas e dores provocadas pelos
ferimentos. Para o MST, esse quadro revela “negligência” e “abandono” do poder
público diante de decisões judiciais que determinaram reparação aos
sobreviventes.
Helena
Rocha observa que essa dimensão também ajuda a explicar por que o caso não pode
ser lido apenas a partir das condenações criminais. Segundo ela, houve
reconhecimento de responsabilidade civil do Estado, com pensões e indenizações,
mas isso não resolveu as falhas no esclarecimento do caso nem encerrou as
pendências de reparação.
Para
Ayala, o principal legado político de Eldorado foi a capacidade de transformar
luto em organização. “A nossa melhor forma de fazer valer a memória dos que
tombaram no massacre de Eldorado dos Carajás é seguir na luta pela reforma
agrária”, afirma.
A
dirigente lembra que o 17 de abril foi transformado em Dia Internacional da
Luta Camponesa e, no Brasil, em Dia Nacional da Reforma Agrária. Na leitura do
MST, manter viva a memória do massacre significa também insistir nas perguntas
que seguem sem resposta e cobrar do Estado não apenas responsabilização, mas
uma política efetiva de democratização da terra.
Fonte:
Brasil de Fato

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