segunda-feira, 20 de abril de 2026

Guerra eleva temor de desemprego e pobreza no Irã

Após 6 semanas de bombardeios, população do Irã teme deterioração ainda maior do quadro econômico. Fábricas destruídas paralisam a produção em vários setores, impactando gravemente centenas de milhares de trabalhadores.

No Irã, mais de 93 milhões de pessoas vivem sob a sombra de uma guerra que pode voltar a explodir a qualquer momento. Após o colapso temporário das negociações de paz entre os Estados Unidos e o Irã no Paquistão, Washington passou a bloquear o Estreito de Ormuz. O objetivo é cortar as receitas iranianas com as exportações de petróleo e impedir que Teerã cobre pedágios pela passagem pelo estreito.

Muitos no país temem que dias ainda mais difíceis estejam por vir.

<><> A situação humanitária em meio à guerra

"A continuação da guerra, seja no nível militar ou na forma de bloqueios e tensões regionais, é o maior fator de pressão sobre as pessoas comuns, especialmente trabalhadores, professores e outros assalariados", escreveu o sindicalista iraniano Ismail Abdi à DW.

O professor e ativista de direitos humanos era membro do conselho da Associação de Professores do Irã quando, há onze anos, seu ativismo em defesa dos direitos dos professores o colocou sob a vigilância das autoridades iranianas. Ele passou vários anos na prisão sob a acusação de promover "propaganda contra o sistema político".

Após pressão internacional, em particular de sindicatos em todo o mundo, Abdi foi finalmente libertado. Desde março de 2025, ele vive exilado na Alemanha, onde continua seu trabalho pelos direitos educacionais e pela liberdade de expressão.

"Nas últimas semanas, recebemos relatos angustiantes sobre o sofrimento da classe trabalhadora em condições de guerra no Irã", acrescentou. "Quando fábricas, oficinas ou projetos de serviços fecham ou são reduzidos, os trabalhadores terceirizados, diaristas e aqueles do setor informal são os primeiros a sofrer. Esse processo enfraquece o poder de negociação dos trabalhadores e leva os salários a um verdadeiro colapso."

A guerra vem tendo um impacto devastador na economia iraniana, que há muito sofre com má gestão, corrupção e sanções.

Teerã já estima os danos da guerra em cerca de 229 bilhões de euros (R$ 1,7 trilhão). Trata-se de uma estimativa preliminar, afirmou a porta-voz do governo iraniano Fatemeh Mohajerani em entrevista à agência de notícias estatal russa RIA Novosti, em 14 de abril.

No entanto, a verdadeira extensão dos danos às maiores fábricas, que funcionam como o motor da economia, ainda não é totalmente conhecida.

<><> Dezenas de milhares de diaristas sem trabalho

A siderúrgica Mobarakeh, em Isfahan, a maior produtora de aço do país, foi forçada a fechar completamente após um segundo ataque conjunto dos EUA e de Israel.

Os Estados Unidos e Israel declararam que os ataques ao setor siderúrgico enfraqueceram as capacidades militares do Irã. O aço é uma matéria-prima essencial para a produção de bens militares, como mísseis, drones e navios; mas também desempenha papel crucial em indústrias civis, incluindo o fornecimento para a indústria automotiva, a produção de eletrodomésticos e a fabricação de embalagens e produtos enlatados. O aço também é indispensável na construção civil, por exemplo, em telhados.

A indústria siderúrgica é considerada um dos principais motores da economia iraniana. De acordo com a Associação Mundial do Aço, em 2025 o Irã figurava entre os dez maiores produtores do mundo – ao lado de países como China, Estados Unidos e Alemanha – e exportava anualmente em torno de 31,8 milhões de toneladas. Entre março de 2025 e janeiro de 2026, as receitas de exportação atingiram 860 milhões de dólares (aproximadamente R$ 4,2 bilhões).

Com a paralisação da produção, milhares de trabalhadores foram mandados para casa – por quanto tempo, ainda é incerto. Pelo menos 10 mil funcionários da indústria siderúrgica são diaristas.

A paralisação da produção também pode desencadear uma reação em cadeia, forçando dezenas de outras empresas dependentes dessas fábricas a interromperem suas operações.

O bombardeio de fábricas petroquímicas também terá um impacto enorme no mercado de trabalho, analisou Umud Shokri, estrategista de energia e pesquisador da Universidade George Mason, nos Estados Unidos.

Os ataques a importantes centros petroquímicos em Asaluyeh, Mahshahr e Shiraz causaram danos significativos e paralisaram diversas fábricas.

Em centros industriais como Mahshahr, que emprega mais de 30 mil pessoas, muitos trabalhadores enfrentam demissões repentinas e cortes salariais, afirmou Shokri. "Os danos vão muito além das próprias fábricas e também afetam as cadeias de suprimentos, a arrecadação do governo e o sustento da população", explicou.

"Mesmo em condições ideais, avaliações de complexos industriais comparáveis indicam que a reconstrução de um grande centro como Mahshahr poderia levar cerca de dois anos", disse o especialista. Para isso, o país precisa de melhor acesso a tecnologia estrangeira, capital, peças de reposição e conhecimento técnico – pré-requisitos difíceis de atender sob as sanções atuais.

<><> Aumento da pobreza

A perda de empregos na indústria já levou a uma sensação generalizada de insegurança. Em 14 de abril, a Agência de Notícias do Trabalho Iraniana (Ilna) demitiu todos os seus jornalistas e os reclassificou como funcionários autônomos.

Muitas outras empresas já iniciaram demissões em massa. Um exemplo é o setor de serviços digitais, com plataformas como o Snapp, frequentemente chamado de "Uber iraniano". Esses serviços continuam operando no país apesar do bloqueio da internet imposto pelas autoridades desde o início da guerra para evitar possíveis protestos. No entanto, menos pessoas os utilizam devido à guerra e muitas não dispõem dos recursos necessários para tal.

"Somente por causa das restrições à internet, milhares de autônomos, programadores e produtores de conteúdo perderam oportunidades de trabalho. Agora, estão sendo forçados a retornar ao mercado de trabalho tradicional, já fragilizado", observou o representante sindical Abdi. "A curto prazo, essa situação leva à queda da renda real e ao aumento da pobreza entre os trabalhadores. A longo prazo, ameaça criar uma sociedade explorada, menos qualificada e mais dependente."

Ele advertiu que a guerra levará principalmente ao aumento da pobreza e da insegurança para os grupos populacionais mais vulneráveis. "Essa guerra precisa terminar antes que seus custos humanos e sociais se tornem irreversíveis." Mesmo em meio ao conflito, Abdi não desistiu do sonho de mudança política no Irã.

No entanto, quase ninguém parece estar pensando no povo iraniano – tampouco a liderança da República Islâmica, que quer se manter no poder, ou o presidente dos EUA, Donald Trump, que prometeu apoio irrestrito.

Desde o início da guerra, em 28 de fevereiro, até 8 de abril, quando um frágil cessar-fogo foi acordado, 3.636 pessoas foram mortas no Irã, segundo a organização de direitos humanos Hrana, com sede nos EUA. Desses, 1.701 eram civis, incluindo pelo menos 254 crianças.

¨      Desbloqueio do estreito de Ormuz não resolve problema energético global, diz mídia

A abertura do estreito de Ormuz não constitui uma solução para a questão do fornecimento de energia, uma vez que armadores e seguradoras permanecem inseguros quanto à possibilidade de retomada imediata das hostilidades, informa a mídia ocidental.

O artigo destaca que, mesmo que os Estados Unidos e o Irã alcancem uma paz duradoura, é provável que sejam necessários meses para se estabelecer uma aparência de normalidade.

"Outros atrasos podem decorrer da logística de reabastecimento de navios que permanecem ancorados no Golfo há mais de um mês", ressalta a publicação.

Segundo o texto, a destruição em grande escala no golfo Pérsico, mesmo no caso do desfecho diplomático mais otimista, deve gerar consequências duradouras. O tráfego marítimo pelo estreito de Ormuz pode não voltar a níveis próximos do normal até o final de junho, com as entregas levando semanas a mais para chegar aos seus destinos.

Ao mesmo tempo, os atrasos no transporte continuam afetando significativamente as operações, uma vez que as remessas podem levar até 20 dias para chegar ao Sudeste Asiático e até 40 dias para regiões mais remotas do Pacífico.

Os danos à infraestrutura energética são graves, especialmente em instalações-chave de produção e exportação, algumas das quais podem levar anos para serem totalmente restauradas devido à disponibilidade limitada de equipamentos especializados.

Além dos mercados de energia, interrupções no fornecimento de materiais essenciais, como fertilizantes e gases industriais, podem impactar as indústrias globais e elevar os custos, especialmente para os países mais pobres que buscam reconstruir e expandir suas reservas.

Portanto, a publicação conclui que os impactos do conflito bélico podem perdurar por meses ou até anos, afetando setores que vão da eletrônica à construção civil.

Na sexta-feira (17), o ministro das Relações Exteriores da República Islâmica, Abbas Araghchi, escreveu na rede social X que o Irã abriu a passagem pelo estreito de Ormuz para todos os navios comerciais durante a trégua entre Israel e o Hezbollah.

Segundo o ministro, a autorização de passagem de todos os navios comerciais foi anunciada pela Organização Marítima e de Portos do Irã.

¨      Divisão entre Alemanha e Israel cresce após crítica a Merz

No início desta semana, quando o chanceler federal alemão, Friedrich Merz, falou por telefone com o primeiro‑ministro israelense, Benjamin Netanyahu, parecia se tratar de mais um expediente rotineiro entre líderes mundiais.

Depois da conversa, o porta‑voz de Merz, Stefan Kornelius, divulgou um comunicado à imprensa sobre a ligação. As duas frases finais diziam: "Na conversa, o chanceler expressou sua profunda preocupação com os desdobramentos nos territórios palestinos. Não pode haver anexação parcial 'de facto' da Cisjordânia."

O chanceler federak compartilhou a mesma mensagem em sua conta na plataforma X, em alemão e em inglês: "Deixei claro: não pode haver anexação 'de facto' da Cisjordânia."

Nada disso é realmente novo. Após uma ligação entre os dois chefes de Estado em meados de julho de 2025, por exemplo, o governo alemão informou: "O chanceler enfatizou que não pode haver passos em direção a qualquer anexação da Cisjordânia", deixando claro que se opunha a qualquer ação unilateral israelense.

Berlim continua a apoiar uma solução de dois Estados para israelenses e palestinos. O governo israelense, no entanto, já havia deixado essa solução de dois Estados de lado muito antes dos ataques terroristas do Hamas em 7 de outubro de 2023.

<><> Escalada verbal

Desta vez, porém, o alerta alemão foi seguido por uma escalada verbal, com o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, criticando Merz de forma dura nas redes sociais.

"Os dias em que alemães ditavam aos judeus onde era permitido ou proibido viver acabaram e não voltarão. Vocês não vão nos forçar novamente a viver em guetos, certamente não em nossa própria terra", escreveu o político de extrema direita de 46 anos na rede X na noite de segunda‑feira (13/04), em resposta à publicação do líder alemão.

Smotrich, neto de sobreviventes do Holocausto, é um dos vários políticos de extrema direita no gabinete de Netanyahu. Ele nasceu nas Colinas de Golã, ocupadas por Israel, e hoje vive numa colônia na Cisjordânia palestina, também sob ocupação de Israel.

Smotrich tem chamado a atenção não apenas por declarações racistas, xenófobas e homofóbicas, mas por se posicionar algumas vezes contra a Suprema Corte de Israel.

Com as eleições parlamentares israelenses previstas para o segundo semestre, ele busca se diferenciar politicamente de Netanyahu.

Smotrich divulgou sua declaração na véspera do Yom HaShoah, o Dia da Lembrança do Holocausto em Israel, quando o país para em memória aos 6 milhões de judeus assassinados pela Alemanha nazista durante a Segunda Guerra Mundial.

Smotrich fez alusão a esse dia em sua crítica a Merz, mencionando os guetos e encerrando com as palavras "Am Yisrael Chai" — "O povo de Israel vive".

<><> Embaixador israelense em Berlim apoia Merz

Numa tenativa de botar panos quentes, o embaixador de Israel na Alemanha, Ron Prosor, rebateu Smotrich, chamando Merz de um "grande amigo de Israel" em entrevista à emissora israelense Kan, na terça (14/04).

"É possível e totalmente legítimo discutir com os alemães — especialmente neste dia, que é muito emotivo", disse Prosor. Ele acrescentou, porém, que declarações como as feitas por Smotrich eram "exatamente o que mina a memória do Holocausto e apresenta as coisas sob uma luz completamente distorcida".

Prosor, que frequentemente rebate com veemência críticos de Israel nos debates alemães sobre as políticas israelenses, acusou Smotrich de instrumentalizar o assassinato em massa dos judeus.

O ataque sem precedentes de um ministro israelense ao chanceler federal alemão já havia sido sinalizado pouco mais de três semanas antes, durante um confronto semelhante. No fim de março, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, reagiu duramente a uma publicação no X de Steffen Seibert, embaixador da Alemanha em Israel.

Na publicação, Seibert mencionou, entre outras coisas, a violência de colonos israelenses contra palestinos na Cisjordânia, ocupada por Israel desde 1967.

Seibert, cujo mandato em Tel Aviv termina em alguns meses, não costuma ser um crítico da política israelense. Para o ex‑porta‑voz da ex-chanceler federal Angela Merkel, sua publicação sobre Israel parecia mais uma questão de convicção pessoal. Ele aprendeu hebraico e defendeu de forma contundente esforços para garantir a libertação dos reféns que foram sequestrados em Israel por terroristas do Hamas baseados em Gaza.

<><>Crescente distanciamento entre Alemanha e Israel

O que se desenrolou no X nas últimas semanas não é apenas um exemplo do tom inflamado típico das redes sociais — também reflete um distanciamento crescente entre Alemanha e Israel, que começou antes de 7 de outubro de 2023.

O primeiro exemplo é a falta de consultas governamentais recentes entre os dois países. Alemanha e Israel realizaram suas primeiras consultas governamentais em 2008. Naquele ano, Angela Merkel discursou no Knesset, o Parlamento israelense, para marcar o 60º aniversário da fundação de Israel — sendo a primeira chefe de governo alemã a fazê‑lo. E o fez em alemão.

Alguns parlamentares israelenses deixaram o plenário. Netanyahu, então líder da oposição, criticou até a presença de Merkel.

O formato dessas consultas governamentais — das quais participam os chefes de governo e todos os ministros — é visto como um sinal de cooperação excepcionalmente estreita. A Alemanha mantém esse tipo de consultas com cerca de uma dúzia de países. No entanto, a sétima e, até agora, última consulta germano‑israelense ocorreu em 2018, há oito anos. Apenas com a Rússia e a Turquia o intervalo sem consultas é mais longo.

Depois, em outubro de 2025, Merz distanciou‑se do termo "razão de Estado", que, no caso da Alemanha, se refere ao que membros da classe política chamam de "responsabilidade política especial" pela segurança de Israel, usado pelo menos desde uma declaração original de Merkel em 2008.

Merz disse ao jornal alemão Frankfurter Allgemeine Sonntagszeitung que sempre teve dificuldade com o termo, "porque todas as suas implicações nunca foram completamente explicitadas".

Desde então, a questão de como a Alemanha deveria definir concretamente sua responsabilidade em relação a Israel tem sido discutida com mais frequência, incluindo críticas à conduta de Israel na guerra em Gaza e debates sobre exportações alemãs de armas para Israel. A questão mais teórica de uma eventual participação alemã em uma força internacional de paz para Gaza, contudo, não foi debatida.

Por fim, Israel e Alemanha há muito tempo concordam em discordar sobre uma solução de dois Estados. Repetidamente, porta‑vozes do Ministério das Relações Exteriores da Alemanha descrevem novos projetos de novas colônias israelenses na Cisjordânia ocupada como violações do direito internacional.

O governo israelense rejeita explicitamente a criação de um Estado palestino. Com as colônias israelenses em constante expansão, as possibilidades para um Estado palestino encontram cada vez mais entraves. As Nações Unidas também consideram as colônias israelenses um grande obstáculo a um acordo de paz.

Enquanto isso, civis palestinos são rotineiramente atacados e até mortos em ataques de colonos israelenses radicais, que não raro queimam suas casas e plantações.

Foi nesse contexto que Merz expressou sua preocupação, sendo prontamente atacado pelo ministro das Finanças israelense.

O governo israelense tem atacado a Alemanha por esta "invocar os direitos humanos básicos dos palestinos", abservou Mairav Zonszein, especialista em Israel do International Crisis Group, uma organização não governamental sediada em Bruxelas. "Eles fazem isso mesmo com o custo de alienar seu aliado europeu mais forte", complementou, em sua conta no X.

Zonszein pediu ao governo alemão que reconsiderasse sua postura em relação ao governo Netanyahu.

 

Fonte: DW Brasil

 

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