segunda-feira, 20 de abril de 2026

Não é culpa dos neopentecostais – Parte 01

Há um diagnóstico confortável — e por isso mesmo perigoso — que parte significativa da esquerda brasileira adotou nos últimos anos: o problema chama-se neopentecostalismo. A explicação parece simples. Igrejas midiáticas, teologia da prosperidade, líderes com forte presença política e discursos agressivos nas redes sociais. Está pronto o vilão.

Apesar de ser uma série de textos de caráter informativo, peço licença para alistar 3 fatores que me motivaram a embarcar nessa empreitada: a experiência pessoal em eventos de esquerda onde o desconhecimento do fenômeno evangélico é quase total, mas apresentado como conhecido; um vídeo do meu amigo e também pastor Filipe Gibran, onde mostra uma fala do presidente Lula repetindo ideias equivocadas sobre os evangélicos no documentário “Apocalipse nos trópicos”, da Petra Costa; e a fala repleta de falhas do presidente do PT, Edinho Silva, na mesa de inter-religiosidade no aniversário do Partido, em Salvador, no último dia 06. Edinho, como muitos, coloca sobre os neopentecostais (termo que repetiu inúmeras vezes em sua fala) todas as mazelas do mundo evangélico e a dificuldade de diálogo da esquerda com o mundo protestante. O que mostra que as lideranças do maior partido de esquerda da América Latina não sabem quase nada e estão muito mal assessoradas em relação ao universo evangélico brasileiro.

Mas a realidade é bem mais complexa — e muito mais antiga.

O neopentecostalismo surge no Brasil nos anos 1970 e 1980, com ênfase em batalha espiritual, prosperidade material e forte estrutura empresarial-midiática. É um fenômeno relevante, sem dúvida. Contudo, as próprias pesquisas demográficas indicam que os neopentecostais representam uma parcela minoritária do universo evangélico — algo em torno de 10% a 15% dos evangélicos brasileiros, dependendo da metodologia adotada. A maioria permanece vinculada ao pentecostalismo clássico (Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Deus é Amor) e às igrejas históricas ou tradicionais (batistas, presbiterianos, metodistas, p.ex.).

Ou seja: o “problema” não pode ser reduzido ao neopentecostalismo.

Ao concentrar sua crítica nesse segmento específico, a esquerda deixa de perceber que o conservadorismo político e o fundamentalismo religioso atravessam praticamente todas as tradições protestantes — inclusive as mais antigas e teologicamente sofisticadas.

O fundamentalismo religioso, por exemplo, não nasceu nas periferias brasileiras nem nas igrejas da teologia da prosperidade. Ele surge no início do século XX, nos Estados Unidos, como reação conservadora à teologia liberal e ao avanço da ciência moderna. O movimento recebeu esse nome por defender os “fundamentos” inegociáveis da fé: inerrância bíblica, nascimento virginal, expiação substitutiva, ressurreição física de Cristo e segunda vinda literal.

Missionários formados nesse ambiente chegaram ao Brasil ainda na primeira metade do século XX. Igrejas batistas, presbiterianas e assembleianas foram profundamente influenciadas por essa matriz teológica. Portanto, o literalismo bíblico, a leitura apocalíptica da história e a desconfiança da modernidade não são traços recentes — nem exclusividade neopentecostal.

Há ainda outro elemento pouco debatido: a chamada Teologia do Domínio (ou dominionismo), corrente que defende que cristãos devem ocupar posições de poder para “governar” a sociedade segundo princípios bíblicos. Essa ideia tem raízes no reconstruccionismo cristão norte-americano (Rousas Rushdoony, Gary North) e em leituras específicas do mandato cultural de Gênesis. Ela antecede o bolsonarismo e também não é produto do neopentecostalismo brasileiro.

Quando lideranças evangélicas falam em “tomar a nação para Cristo”, “restaurar princípios cristãos” ou “governar as sete montanhas da sociedade” (educação, política, mídia, artes, economia, religião e família), estão ecoando uma teologia que atravessa denominações — inclusive históricas.

A esquerda, no entanto, ao não conhecer essa genealogia, construiu uma caricatura: o evangélico médio seria manipulado por pastores midiáticos neopentecostais. Essa leitura ignora que muitos dos formuladores intelectuais do conservadorismo religioso brasileiro vêm de igrejas tradicionais, com formação teológica sólida, trânsito acadêmico e discurso sofisticado.

Ignora também que o pentecostalismo clássico — majoritário — é socialmente diverso e politicamente menos homogêneo do que se imagina.

Ao simplificar, a esquerda erra o alvo.

E, ao errar o alvo, fecha portas.

•        Não é culpa dos neopentecostais – Parte 02

Se o neopentecostalismo não é o único — nem o principal — responsável pela consolidação do conservadorismo político evangélico, onde está o núcleo duro do fenômeno?

Uma análise mais cuidadosa revela que parte significativa do bolsonarismo religioso encontrou sustentação nas igrejas históricas e tradicionais — principalmente batistas e presbiterianas. Não se trata de dizer que essas denominações sejam homogêneas ou oficialmente bolsonaristas, mas que nelas se formou um ambiente teológico favorável a determinadas pautas.

O fundamentalismo teológico, presente nesses segmentos desde o século passado, produz uma visão de mundo marcada por três elementos centrais:

1.       Leitura literal e inerrante da Bíblia

2.       Moral sexual rígida

3.       Percepção de conflito espiritual permanente entre “Igreja” e “mundo”

Essa estrutura mental facilita a construção de narrativas políticas binárias: bem contra mal, cristianismo contra comunismo, família contra ideologia de gênero.

Ao contrário do estereótipo do pastor midiático carismático, muitas das formulações ideológicas mais articuladas vieram de ambientes acadêmicos protestantes tradicionais — seminários reformados, centros de teologia conservadora e influenciadores com formação intelectual robusta. Vide o evento (que começa neste final de semana, em Campina Grande/PB) “Encontro para a Consciência Cristã”, que envolve dezenas de milhares de pessoas em torno de temas fundamentalistas (e não há nenhum neopentecostal entre preletores/organizadores).

Além disso, há um fator sociológico relevante: igrejas históricas concentram parcela significativa da classe média evangélica urbana, com alto capital educacional. Esse segmento teve papel estratégico na legitimação pública do discurso conservador, oferecendo linguagem jurídica, filosófica e constitucional para pautas morais.

Já o pentecostalismo clássico — majoritário — manteve historicamente uma postura mais pragmática e menos ideologizada. Seu foco sempre esteve mais voltado à experiência religiosa, à espiritualidade cotidiana e à sobrevivência material das camadas populares. Seu alinhamento político costuma ser mais circunstancial do que doutrinário.

Reduzir o conservadorismo evangélico ao neopentecostalismo invisibiliza esse dado crucial: o bolsonarismo religioso não é apenas fruto de manipulação midiática, mas também de convicções teológicas profundamente enraizadas em tradições centenárias.

E aqui está o ponto central: combater apenas o neopentecostalismo é como atacar a copa de uma árvore sem tocar nas raízes. Sem compreender o fundamentalismo histórico e o dominionismo como matrizes ideológicas transdenominacionais, qualquer estratégia política será superficial.

Um exemplo concreto dessa matriz mais antiga pode ser visto na própria composição do governo Bolsonaro. O ministro “terrivelmente evangélico” indicado ao Supremo Tribunal Federal, André Mendonça, é presbiteriano. O ex-ministro da Educação, pastor Milton Ribeiro, também vinha da tradição presbiteriana. Damares Alves, figura central na pauta moral do governo, é ligada ao meio batista. Nenhum deles representa o neopentecostalismo midiático; todos emergem de tradições históricas, com formação teológica conservadora e trânsito institucional qualificado. Isso revela que o núcleo formulador do bolsonarismo religioso não estava apenas nos púlpitos eletrônicos, mas também nos bancos acadêmicos e nas estruturas eclesiásticas clássicas.

Quanto ao dominionismo — frequentemente tratado como sinônimo de neopentecostalismo — trata-se, na verdade, de uma corrente teológica muito anterior à explosão neopentecostal brasileira das décadas de 1980 e 1990. Suas raízes estão no protestantismo reformado norte-americano do século XX, especialmente no reconstrucionismo cristão de autores como Rousas John Rushdoony, que defendia a aplicação dos princípios bíblicos à organização da sociedade e do Estado. A ideia de que os cristãos devem exercer “domínio” sobre as estruturas culturais, jurídicas e políticas nasce nesse ambiente teológico conservador, não nos cultos televisionados das grandes igrejas neopentecostais.

O neopentecostalismo pode ter amplificado eleitoralmente essa agenda, mas não a criou. Ele forneceu capilaridade popular e capacidade de mobilização. A arquitetura conceitual — a noção de guerra cultural, de restauração moral da nação, de ocupação estratégica das instituições — já circulava há décadas nos círculos reformados conservadores. Ignorar essa genealogia é repetir o erro analítico que transforma fenômeno estrutural em caricatura midiática.

•        Não é culpa dos neopentecostais – Parte 03 – Final

Ao longo desta série, a tese central foi clara: reduzir o fenômeno do conservadorismo evangélico brasileiro ao neopentecostalismo é um erro analítico — e um equívoco político. Na primeira parte, vimos que o fundamentalismo religioso e a chamada Teologia do Domínio são muito anteriores à explosão neopentecostal dos anos 1980 e 1990. Eles já circulavam em seminários, púlpitos e editoras vinculadas a igrejas históricas e pentecostais clássicas. Na segunda parte, identificamos que o núcleo duro do bolsonarismo religioso não nasceu apenas nas megacatedrais midiáticas, mas encontrou sustentação sólida em tradições batistas, presbiterianas, assembleianas e em setores do protestantismo tradicional que, há décadas, cultivam uma cosmovisão de guerra cultural.

Portanto, é preciso reiterar: este texto não é uma defesa do neopentecostalismo. Tampouco ignora seus excessos, sua teologia da prosperidade, sua espetacularização da fé ou sua instrumentalização política. O que se propõe aqui é algo diferente: deslocar o foco da caricatura para a estrutura. O neopentecostalismo é, em muitos aspectos, a face mais desavergonhada — mais explícita, mais midiática — de convicções que sempre estiveram presentes em meios tradicionais e pentecostais, mas que antes se expressavam de forma mais contida, institucional ou doutrinariamente sofisticada.

A retórica do “Brasil cristão”, a defesa de uma moral pública baseada numa leitura literalista da Bíblia, a compreensão de que a igreja deve “ocupar” espaços de poder para cumprir um mandato divino — nada disso foi inventado por líderes neopentecostais. Essas ideias circulam há décadas em congressos teológicos, literaturas importadas do fundamentalismo norte-americano e projetos missionários de matriz conservadora. O neopentecostalismo apenas soube traduzir essa visão em linguagem de massa, com apelo popular e eficácia comunicacional.

O maior erro estratégico da esquerda talvez não tenha sido discordar dos evangélicos — isso faz parte da democracia. O erro foi não estudá-los seriamente.

Durante décadas, setores progressistas trataram o crescimento evangélico como fenômeno meramente emocional, alienado ou manipulável. Supuseram que se tratava apenas de uma religiosidade performática, desprovida de elaboração intelectual. Ignoraram sua produção teológica, suas redes de sociabilidade, sua ética comunitária e sua impressionante capacidade organizacional. Enquanto a academia progressista subestimava o campo religioso, teologias conservadoras estruturavam institutos, formavam quadros, traduziam autores estrangeiros, produziam literatura própria, ocupavam espaços na mídia e consolidavam uma narrativa de pertencimento nacional cristão. Houve método onde muitos enxergaram improviso.

Essa ausência de diálogo qualificado gerou dois efeitos colaterais profundos. O primeiro foi a radicalização interna das igrejas. Ao se perceberem caricaturadas ou desprezadas no debate público, muitas comunidades passaram a internalizar a narrativa de que estavam culturalmente sitiadas. A retórica do “povo escolhido sob ataque” ganhou força. O conflito político foi reinterpretado como perseguição espiritual. E o fundamentalismo, que já existia como matriz teológica, encontrou combustível identitário.

O segundo efeito foi a perda de interlocução com evangélicos progressistas e moderados. Ao tratar “os evangélicos” como bloco homogêneo, parte da esquerda empurrou para a invisibilidade aqueles que defendem direitos humanos, justiça social, democracia e pluralismo dentro das igrejas. Há pentecostais progressistas, batistas comprometidos com pautas antirracistas, presbiterianos críticos ao autoritarismo, metodistas envolvidos com educação popular, jovens evangélicos engajados em causas ambientais e sociais. Eles existem — mas muitas vezes ficaram politicamente órfãos, sem reconhecimento e sem canal de diálogo consistente. É aqui que o debate precisa amadurecer.

Reconhecer que o neopentecostalismo não é o único nem o principal responsável pela consolidação do conservadorismo evangélico não significa absolvê-lo de suas responsabilidades. Significa apenas admitir que o problema é mais estrutural e mais antigo. Em termos numéricos, as igrejas históricas e o pentecostalismo clássico continuam sendo parcelas majoritárias do campo evangélico brasileiro. São nesses espaços que tradições teológicas foram formadas e transmitidas ao longo do século XX. O neopentecostalismo cresceu dialogando com esse terreno já preparado.

Ele radicalizou o que antes era sussurrado.

Ele explicitou o que antes era pressuposto.

Ele midiaticamente assumiu o que antes era teologicamente ensinado.

A chamada Teologia do Domínio — a ideia de que cristãos devem governar as estruturas da sociedade para instaurar princípios bíblicos — não nasceu nos programas de televisão neopentecostais. Ela foi desenvolvida em círculos reformados conservadores, articulada em ambientes acadêmicos confessionais e disseminada em redes internacionais muito antes de se tornar slogan eleitoral.

Quando a esquerda reduz tudo a “igrejas da prosperidade” ou “pastores midiáticos”, perde a dimensão do fenômeno. E quando fala genericamente em “os evangélicos”, reforça exatamente a lógica identitária que o fundamentalismo utiliza para se fortalecer: a noção de unidade ameaçada.

Conhecer melhor significa reconhecer diferenças internas, mapear tradições, distinguir fundamentalismo de fé evangélica, identificar onde há abertura ao diálogo e onde há projeto explícito de poder. Significa também investir em formação religiosa básica nos campos progressistas — não para aderir, mas para dialogar com precisão, desmontar generalizações e construir pontes reais. Política se faz com leitura de realidade, não com slogans.

Se a esquerda deseja reconstruir interlocução com o campo evangélico, precisará abandonar caricaturas e simplificações. Precisará compreender que a fé, para milhões de brasileiros, não é apenas identidade simbólica, mas estrutura de sentido, rede de apoio, linguagem moral e pertencimento comunitário. Ignorar isso é abrir mão de disputar imaginários.

O debate que esta série propõe não é sobre absolver tradições religiosas de seus erros. É sobre complexificar a análise. É reconhecer que o neopentecostalismo é a expressão mais visível — e por vezes mais agressiva — de uma cultura teológica conservadora que atravessa diferentes vertentes do protestantismo brasileiro. E que enfrentar esse cenário exige mais do que crítica moral: exige estudo, estratégia e diálogo qualificado.

Porque, ao fim, não é culpa dos neopentecostais.

É culpa da simplificação.

E política feita com simplificação quase sempre produz derrotas estratégicas — especialmente quando o adversário estudou, se organizou e soube falar a linguagem de quem você decidiu não ouvir.

 

Fonte: Por Zé Barbosa Júnior, na Fórum

 

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