Não
é culpa dos neopentecostais – Parte 01
Há um
diagnóstico confortável — e por isso mesmo perigoso — que parte significativa
da esquerda brasileira adotou nos últimos anos: o problema chama-se
neopentecostalismo. A explicação parece simples. Igrejas midiáticas, teologia
da prosperidade, líderes com forte presença política e discursos agressivos nas
redes sociais. Está pronto o vilão.
Apesar
de ser uma série de textos de caráter informativo, peço licença para alistar 3
fatores que me motivaram a embarcar nessa empreitada: a experiência pessoal em
eventos de esquerda onde o desconhecimento do fenômeno evangélico é quase
total, mas apresentado como conhecido; um vídeo do meu amigo e também pastor
Filipe Gibran, onde mostra uma fala do presidente Lula repetindo ideias
equivocadas sobre os evangélicos no documentário “Apocalipse nos trópicos”, da
Petra Costa; e a fala repleta de falhas do presidente do PT, Edinho Silva, na
mesa de inter-religiosidade no aniversário do Partido, em Salvador, no último
dia 06. Edinho, como muitos, coloca sobre os neopentecostais (termo que repetiu
inúmeras vezes em sua fala) todas as mazelas do mundo evangélico e a
dificuldade de diálogo da esquerda com o mundo protestante. O que mostra que as
lideranças do maior partido de esquerda da América Latina não sabem quase nada
e estão muito mal assessoradas em relação ao universo evangélico brasileiro.
Mas a
realidade é bem mais complexa — e muito mais antiga.
O
neopentecostalismo surge no Brasil nos anos 1970 e 1980, com ênfase em batalha
espiritual, prosperidade material e forte estrutura empresarial-midiática. É um
fenômeno relevante, sem dúvida. Contudo, as próprias pesquisas demográficas
indicam que os neopentecostais representam uma parcela minoritária do universo
evangélico — algo em torno de 10% a 15% dos evangélicos brasileiros, dependendo
da metodologia adotada. A maioria permanece vinculada ao pentecostalismo
clássico (Assembleia de Deus, Congregação Cristã, Deus é Amor) e às igrejas
históricas ou tradicionais (batistas, presbiterianos, metodistas, p.ex.).
Ou
seja: o “problema” não pode ser reduzido ao neopentecostalismo.
Ao
concentrar sua crítica nesse segmento específico, a esquerda deixa de perceber
que o conservadorismo político e o fundamentalismo religioso atravessam
praticamente todas as tradições protestantes — inclusive as mais antigas e
teologicamente sofisticadas.
O
fundamentalismo religioso, por exemplo, não nasceu nas periferias brasileiras
nem nas igrejas da teologia da prosperidade. Ele surge no início do século XX,
nos Estados Unidos, como reação conservadora à teologia liberal e ao avanço da
ciência moderna. O movimento recebeu esse nome por defender os “fundamentos”
inegociáveis da fé: inerrância bíblica, nascimento virginal, expiação
substitutiva, ressurreição física de Cristo e segunda vinda literal.
Missionários
formados nesse ambiente chegaram ao Brasil ainda na primeira metade do século
XX. Igrejas batistas, presbiterianas e assembleianas foram profundamente
influenciadas por essa matriz teológica. Portanto, o literalismo bíblico, a
leitura apocalíptica da história e a desconfiança da modernidade não são traços
recentes — nem exclusividade neopentecostal.
Há
ainda outro elemento pouco debatido: a chamada Teologia do Domínio (ou
dominionismo), corrente que defende que cristãos devem ocupar posições de poder
para “governar” a sociedade segundo princípios bíblicos. Essa ideia tem raízes
no reconstruccionismo cristão norte-americano (Rousas Rushdoony, Gary North) e
em leituras específicas do mandato cultural de Gênesis. Ela antecede o
bolsonarismo e também não é produto do neopentecostalismo brasileiro.
Quando
lideranças evangélicas falam em “tomar a nação para Cristo”, “restaurar
princípios cristãos” ou “governar as sete montanhas da sociedade” (educação,
política, mídia, artes, economia, religião e família), estão ecoando uma
teologia que atravessa denominações — inclusive históricas.
A
esquerda, no entanto, ao não conhecer essa genealogia, construiu uma
caricatura: o evangélico médio seria manipulado por pastores midiáticos
neopentecostais. Essa leitura ignora que muitos dos formuladores intelectuais
do conservadorismo religioso brasileiro vêm de igrejas tradicionais, com
formação teológica sólida, trânsito acadêmico e discurso sofisticado.
Ignora
também que o pentecostalismo clássico — majoritário — é socialmente diverso e
politicamente menos homogêneo do que se imagina.
Ao
simplificar, a esquerda erra o alvo.
E, ao
errar o alvo, fecha portas.
• Não é culpa dos neopentecostais – Parte
02
Se o
neopentecostalismo não é o único — nem o principal — responsável pela
consolidação do conservadorismo político evangélico, onde está o núcleo duro do
fenômeno?
Uma
análise mais cuidadosa revela que parte significativa do bolsonarismo religioso
encontrou sustentação nas igrejas históricas e tradicionais — principalmente
batistas e presbiterianas. Não se trata de dizer que essas denominações sejam
homogêneas ou oficialmente bolsonaristas, mas que nelas se formou um ambiente
teológico favorável a determinadas pautas.
O
fundamentalismo teológico, presente nesses segmentos desde o século passado,
produz uma visão de mundo marcada por três elementos centrais:
1. Leitura literal e inerrante da Bíblia
2. Moral sexual rígida
3. Percepção de conflito espiritual
permanente entre “Igreja” e “mundo”
Essa
estrutura mental facilita a construção de narrativas políticas binárias: bem
contra mal, cristianismo contra comunismo, família contra ideologia de gênero.
Ao
contrário do estereótipo do pastor midiático carismático, muitas das
formulações ideológicas mais articuladas vieram de ambientes acadêmicos
protestantes tradicionais — seminários reformados, centros de teologia
conservadora e influenciadores com formação intelectual robusta. Vide o evento
(que começa neste final de semana, em Campina Grande/PB) “Encontro para a
Consciência Cristã”, que envolve dezenas de milhares de pessoas em torno de
temas fundamentalistas (e não há nenhum neopentecostal entre preletores/organizadores).
Além
disso, há um fator sociológico relevante: igrejas históricas concentram parcela
significativa da classe média evangélica urbana, com alto capital educacional.
Esse segmento teve papel estratégico na legitimação pública do discurso
conservador, oferecendo linguagem jurídica, filosófica e constitucional para
pautas morais.
Já o
pentecostalismo clássico — majoritário — manteve historicamente uma postura
mais pragmática e menos ideologizada. Seu foco sempre esteve mais voltado à
experiência religiosa, à espiritualidade cotidiana e à sobrevivência material
das camadas populares. Seu alinhamento político costuma ser mais circunstancial
do que doutrinário.
Reduzir
o conservadorismo evangélico ao neopentecostalismo invisibiliza esse dado
crucial: o bolsonarismo religioso não é apenas fruto de manipulação midiática,
mas também de convicções teológicas profundamente enraizadas em tradições
centenárias.
E aqui
está o ponto central: combater apenas o neopentecostalismo é como atacar a copa
de uma árvore sem tocar nas raízes. Sem compreender o fundamentalismo histórico
e o dominionismo como matrizes ideológicas transdenominacionais, qualquer
estratégia política será superficial.
Um
exemplo concreto dessa matriz mais antiga pode ser visto na própria composição
do governo Bolsonaro. O ministro “terrivelmente evangélico” indicado ao Supremo
Tribunal Federal, André Mendonça, é presbiteriano. O ex-ministro da Educação,
pastor Milton Ribeiro, também vinha da tradição presbiteriana. Damares Alves,
figura central na pauta moral do governo, é ligada ao meio batista. Nenhum
deles representa o neopentecostalismo midiático; todos emergem de tradições
históricas, com formação teológica conservadora e trânsito institucional
qualificado. Isso revela que o núcleo formulador do bolsonarismo religioso não
estava apenas nos púlpitos eletrônicos, mas também nos bancos acadêmicos e nas
estruturas eclesiásticas clássicas.
Quanto
ao dominionismo — frequentemente tratado como sinônimo de neopentecostalismo —
trata-se, na verdade, de uma corrente teológica muito anterior à explosão
neopentecostal brasileira das décadas de 1980 e 1990. Suas raízes estão no
protestantismo reformado norte-americano do século XX, especialmente no
reconstrucionismo cristão de autores como Rousas John Rushdoony, que defendia a
aplicação dos princípios bíblicos à organização da sociedade e do Estado. A
ideia de que os cristãos devem exercer “domínio” sobre as estruturas culturais,
jurídicas e políticas nasce nesse ambiente teológico conservador, não nos
cultos televisionados das grandes igrejas neopentecostais.
O
neopentecostalismo pode ter amplificado eleitoralmente essa agenda, mas não a
criou. Ele forneceu capilaridade popular e capacidade de mobilização. A
arquitetura conceitual — a noção de guerra cultural, de restauração moral da
nação, de ocupação estratégica das instituições — já circulava há décadas nos
círculos reformados conservadores. Ignorar essa genealogia é repetir o erro
analítico que transforma fenômeno estrutural em caricatura midiática.
• Não é culpa dos neopentecostais – Parte
03 – Final
Ao
longo desta série, a tese central foi clara: reduzir o fenômeno do
conservadorismo evangélico brasileiro ao neopentecostalismo é um erro analítico
— e um equívoco político. Na primeira parte, vimos que o fundamentalismo
religioso e a chamada Teologia do Domínio são muito anteriores à explosão
neopentecostal dos anos 1980 e 1990. Eles já circulavam em seminários, púlpitos
e editoras vinculadas a igrejas históricas e pentecostais clássicas. Na segunda
parte, identificamos que o núcleo duro do bolsonarismo religioso não nasceu
apenas nas megacatedrais midiáticas, mas encontrou sustentação sólida em
tradições batistas, presbiterianas, assembleianas e em setores do
protestantismo tradicional que, há décadas, cultivam uma cosmovisão de guerra
cultural.
Portanto,
é preciso reiterar: este texto não é uma defesa do neopentecostalismo. Tampouco
ignora seus excessos, sua teologia da prosperidade, sua espetacularização da fé
ou sua instrumentalização política. O que se propõe aqui é algo diferente:
deslocar o foco da caricatura para a estrutura. O neopentecostalismo é, em
muitos aspectos, a face mais desavergonhada — mais explícita, mais midiática —
de convicções que sempre estiveram presentes em meios tradicionais e
pentecostais, mas que antes se expressavam de forma mais contida, institucional
ou doutrinariamente sofisticada.
A
retórica do “Brasil cristão”, a defesa de uma moral pública baseada numa
leitura literalista da Bíblia, a compreensão de que a igreja deve “ocupar”
espaços de poder para cumprir um mandato divino — nada disso foi inventado por
líderes neopentecostais. Essas ideias circulam há décadas em congressos
teológicos, literaturas importadas do fundamentalismo norte-americano e
projetos missionários de matriz conservadora. O neopentecostalismo apenas soube
traduzir essa visão em linguagem de massa, com apelo popular e eficácia
comunicacional.
O maior
erro estratégico da esquerda talvez não tenha sido discordar dos evangélicos —
isso faz parte da democracia. O erro foi não estudá-los seriamente.
Durante
décadas, setores progressistas trataram o crescimento evangélico como fenômeno
meramente emocional, alienado ou manipulável. Supuseram que se tratava apenas
de uma religiosidade performática, desprovida de elaboração intelectual.
Ignoraram sua produção teológica, suas redes de sociabilidade, sua ética
comunitária e sua impressionante capacidade organizacional. Enquanto a academia
progressista subestimava o campo religioso, teologias conservadoras
estruturavam institutos, formavam quadros, traduziam autores estrangeiros,
produziam literatura própria, ocupavam espaços na mídia e consolidavam uma
narrativa de pertencimento nacional cristão. Houve método onde muitos
enxergaram improviso.
Essa
ausência de diálogo qualificado gerou dois efeitos colaterais profundos. O
primeiro foi a radicalização interna das igrejas. Ao se perceberem
caricaturadas ou desprezadas no debate público, muitas comunidades passaram a
internalizar a narrativa de que estavam culturalmente sitiadas. A retórica do
“povo escolhido sob ataque” ganhou força. O conflito político foi
reinterpretado como perseguição espiritual. E o fundamentalismo, que já existia
como matriz teológica, encontrou combustível identitário.
O
segundo efeito foi a perda de interlocução com evangélicos progressistas e
moderados. Ao tratar “os evangélicos” como bloco homogêneo, parte da esquerda
empurrou para a invisibilidade aqueles que defendem direitos humanos, justiça
social, democracia e pluralismo dentro das igrejas. Há pentecostais
progressistas, batistas comprometidos com pautas antirracistas, presbiterianos
críticos ao autoritarismo, metodistas envolvidos com educação popular, jovens
evangélicos engajados em causas ambientais e sociais. Eles existem — mas muitas
vezes ficaram politicamente órfãos, sem reconhecimento e sem canal de diálogo
consistente. É aqui que o debate precisa amadurecer.
Reconhecer
que o neopentecostalismo não é o único nem o principal responsável pela
consolidação do conservadorismo evangélico não significa absolvê-lo de suas
responsabilidades. Significa apenas admitir que o problema é mais estrutural e
mais antigo. Em termos numéricos, as igrejas históricas e o pentecostalismo
clássico continuam sendo parcelas majoritárias do campo evangélico brasileiro.
São nesses espaços que tradições teológicas foram formadas e transmitidas ao
longo do século XX. O neopentecostalismo cresceu dialogando com esse terreno já
preparado.
Ele
radicalizou o que antes era sussurrado.
Ele
explicitou o que antes era pressuposto.
Ele
midiaticamente assumiu o que antes era teologicamente ensinado.
A
chamada Teologia do Domínio — a ideia de que cristãos devem governar as
estruturas da sociedade para instaurar princípios bíblicos — não nasceu nos
programas de televisão neopentecostais. Ela foi desenvolvida em círculos
reformados conservadores, articulada em ambientes acadêmicos confessionais e
disseminada em redes internacionais muito antes de se tornar slogan eleitoral.
Quando
a esquerda reduz tudo a “igrejas da prosperidade” ou “pastores midiáticos”,
perde a dimensão do fenômeno. E quando fala genericamente em “os evangélicos”,
reforça exatamente a lógica identitária que o fundamentalismo utiliza para se
fortalecer: a noção de unidade ameaçada.
Conhecer
melhor significa reconhecer diferenças internas, mapear tradições, distinguir
fundamentalismo de fé evangélica, identificar onde há abertura ao diálogo e
onde há projeto explícito de poder. Significa também investir em formação
religiosa básica nos campos progressistas — não para aderir, mas para dialogar
com precisão, desmontar generalizações e construir pontes reais. Política se
faz com leitura de realidade, não com slogans.
Se a
esquerda deseja reconstruir interlocução com o campo evangélico, precisará
abandonar caricaturas e simplificações. Precisará compreender que a fé, para
milhões de brasileiros, não é apenas identidade simbólica, mas estrutura de
sentido, rede de apoio, linguagem moral e pertencimento comunitário. Ignorar
isso é abrir mão de disputar imaginários.
O
debate que esta série propõe não é sobre absolver tradições religiosas de seus
erros. É sobre complexificar a análise. É reconhecer que o neopentecostalismo é
a expressão mais visível — e por vezes mais agressiva — de uma cultura
teológica conservadora que atravessa diferentes vertentes do protestantismo
brasileiro. E que enfrentar esse cenário exige mais do que crítica moral: exige
estudo, estratégia e diálogo qualificado.
Porque,
ao fim, não é culpa dos neopentecostais.
É culpa
da simplificação.
E
política feita com simplificação quase sempre produz derrotas estratégicas —
especialmente quando o adversário estudou, se organizou e soube falar a
linguagem de quem você decidiu não ouvir.
Fonte:
Por Zé Barbosa Júnior, na Fórum

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