Jaldes
Menezes: O PowerPoint da GloboNews
A
extrema direita venceu a estrutura do discurso majoritário na mídia tradicional
brasileira, cujo principal empenho não é a verdade possível desentranhada dos
acontecimentos, mas a descrição do impacto no “cidadão comum” das “narrativas”
da guerra política em torno desses acontecimentos. Mídias e extrema direita
seguem o mesmo padrão. A diferença, quando existe, é meramente tonal: uma
modula o escândalo com a gravata do comentarista isento; a outra o faz com o
dedo em riste do militante digital.
Quem
cunhou o termo “narrativa” (ou metanarrativa) foi o filósofo francês
Jean-François Lyotard, lá nos idos de 1979, num dos textos matrizes de
nascimento do pastiche filosófico pós-moderno, originalmente uma conferência
encomendada ao Conselho de Reitores das Universidades do Canadá Francês, sobre
as “novas condições do saber” em um tempo de mudança de época — da modernidade
e do modernismo ao pós-moderno e ao pós-modernismo.
Que
metas narrativas Jean-François Lyotard considerava superadas nos novos tempos
pós-modernos? O que Lyotard diagnosticava era uma interessada e nada ingênua
“falência”, uma exaustão dos grandes relatos/narrativas unificadores da
modernidade – o progresso, a razão, a revolução –, especialmente das “grandes
narrativas” do marxismo e do Iluminismo, seguidas do idealismo alemão
hegeliano.
Essas
narrativas são consideradas superadas porque, para Jean-François Lyotard,
fragmentaram-se em jogos de linguagem locais e pequenas narrativas
(parcialmente inspirado em Ludwig Wittgenstein e na pragmática da linguagem).
Acrescento a essa referência o Max Weber de A ciência como vocação, para quem,
no dilema da modernidade de apelar sempre ao profeta ou às estruturas sem
rosto, resta o consolo do conforto íntimo dos pequenos grupos, sem pretensão de
verdade universal ou sentido totalizante da história.
Jean-François
Lyotard – que foi mais um pós-moderno da celebração do que um pós-moderno
crítico – não se preocupou em deslindar a especialidade da metanarrativa do
fascismo. Ao contrário do marxismo ou do liberalismo, cuja origem se dá no
século XIX, o fascismo é uma forma política que surgiu no período entre guerras
do século XX – o fascismo histórico.
Na
época do pós-guerra, tratava-se de um assunto fora do radar das modas
intelectuais, embora persistisse em pequenos círculos de vanguarda. Continuou
havendo quem pressentisse o perigo. É o caso do cineasta e escritor neomarxista
Pier Paolo Pasolini, que profetizou a latência de um “novo poder” ou “novo
fascismo” – certamente a inspiração para a radicalidade do roteiro do filme Os
120 Dias de Sodoma, uma alegoria do caos e da liberação da energia negativa
sadomasoquista que acompanhou os últimos dias da República Social Italiana (ou
República de Salò), regime fascista nos estertores da Segunda Guerra Mundial.
Houve
também autores pós-estruturalistas, como Michel Foucault, que abordou, no
famoso prefácio de O Anti-Édipo, a possibilidade de uma “vida não fascista”,
referindo-se a uma “arte de viver contrária a todas as formas de fascismo”. A
vivência, e não a política, surge como antídoto ao fascismo. Essas críticas
eram sintoma de que as regulações do antigo Estado de Bem-Estar Social estavam
se exaurindo pelo neoliberalismo, contraparte filosófica da “crise fiscal do
Estado” ou da “crise de legitimação do capitalismo tardio”.
No
cerne de tudo, havia um tipo social emergente nesse sistema de desregulações:
alguém que Hannah Arendt, com muita soberba, chamava de “ralé”, que nada mais é
que o “indivíduo-mônada” do jovem Marx em A questão judaica. Em suma, o
indivíduo não organizado – desregulado pelo capitalismo de plataformas – na
sociedade civil do século XXI transforma-se em presa fácil para o discurso do
líder, do novo fascista, de Donald Trump a Jair Bolsonaro.
Antonio
Gramsci levantou nos famosos Cadernos do carcére a importância da sociedade
civil nos Estados de capitalismo “ocidental”, intuições que foram adaptadas
pela esquerda do século passado para o Estado de bem-estar social e para o
Estado ampliado pelas organizações civis. É preciso hoje resgatar essa questão
em seus termos originais, ou seja, a emergência e a persistência do fascismo. O
indivíduo “solto no mundo”, desregulamentado e desorganizado, é a presa das
narrativas do fascismo ecoadas pelas mídias e redes sociais.
Quatro
décadas depois, o conceito de narrativa continuou em voga – não obstante seu
recuo e esgotamento no campo da filosofia profissional. Ele transbordou para o
que podemos chamar, convencionalmente, de uma “filosofia do cotidiano ou do
senso comum”. Os tempos fizeram a festa, nos anos 1980-1990, do “fim da
história”.
Essa
época foi suplantada pelos novos tempos do “fim do fim da história”,
especialmente depois da crise de 2008. Curiosamente, a ideia de metanarrativa
manteve-se resiliente. Dos salões da cultura filosófica da elite universitária,
o termo saltou e foi capturado pelo repertório da extrema direita e do novo
fascismo, e daí pulou para a banalidade imbecilizadora das mídias brasileiras –
sinalizando que nele havia, mais que uma boutade erudita, veias vivas do novo
“espírito do tempo” prenunciado pelas redes sociais, às quais as mídias
tradicionais buscam se adequar.
Diga-se,
logo, que o insuportável predomínio das narrativas linguísticas, no sentido que
Jean-François Lyotard prenunciava prevalecer na pós-modernidade, e não das
antigas metanarrativas da modernidade, vem a ser uma característica típica das
mídias tradicionais brasileiras. Procuro acompanhar, o mais que posso, as
mídias estrangeiras, que padecem de outros graves problemas – e inclusive deste
–, mas lá ainda há focos de resistência que desapareceram aqui. Há, na imprensa
internacional, bolsões onde a primazia do acontecimento ainda não foi
inteiramente substituída pela primazia da reação ao acontecimento. No Brasil,
esse processo parece ter se completado de forma avassaladora.
Pratica-se,
assim, uma espécie de epistemologia derivada, de segunda mão, cujo conhecimento
nunca se reporta diretamente ao conhecimento do objeto, mas à especulação dos
impactos das narrativas de um pseudobjeto subjetivo – a cena política – na
mente desse sujeito fictício, o “cidadão comum”, construído pelas pesquisas
contratadas que visam o aprimoramento desse discurso.
Houve
um interregno nessa epistemologia: o processo eleitoral de 2022. É importante
ressaltar que a GloboNews foi contra a política negacionista de Jair Jair
Bolsonaro na pandemia e, até certo ponto, permitiu uma cobertura simpática à
eleição de Lula 3, com o viés de mimetizar o discurso político de personagens
como Armínio Fraga, Pedro Malan e Fernando Henrique Cardoso, que declararam
voto em Lula 3 a partir de ideia de uma “frente ampla” contra o bolsonarismo.
Assim, a emissora passou a veicular em seus programas a “virtuosidade” dessa
ideia. Essa conjuntura, porém, já vai longe: agora a adesão à metanarrativa
esboçada neste texto é total.
Passada
a eleição e o primeiro ano de governo, a emissora chegou à conclusão, a partir
de pesquisas qualitativas contratadas, de que vinha perdendo espaço junto a um
tipo de espectador conservador moral e politicamente, e que seus programas e
comentaristas tinham feição “de esquerda” ou “progressista”. Por isso,
comenta-se que foi demitida a jornalista Daniela Lima.
A
circularidade desse procedimento é total e, por isso mesmo, paralisante.
Estabelece-se um jogo empático. Cria-se um “cidadão comum”, um tabula rasa
atomizado como uma entidade supostamente apartada das elites, dotado de um
senso de realidade jamais crítico e puramente reflexo. Em seguida, ela reporta
como esse mesmo “cidadão comum” estaria reagindo aos últimos lances da guerra
política – reação que, não raro, coincide exatamente com a pauta que a própria
mídia elegeu. Estabelece-se um jogo de reciprocidades.
O
boneco de ventríloquo fala, e o ventríloquo anota a fala do boneco como se
fosse a voz das ruas. A operação é tão bem-sucedida que se torna invisível para
quem a executa. Até parece que estou vendo e ouvindo o Gerson Camarotti ou a
Ana Flor.
Essa
epistemologia de segunda mão tem consequências políticas profundas. Ao
abandonar o exame da primariedade dos acontecimentos – isto é, daquilo que
efetivamente ocorreu no mundo, com data, local e autoria –, o jornalismo abdica
de sua função mínima de estabelecimento de um solo comum de realidade. O que
resta é um mercado de versões, onde cada grupo político oferta a sua
“narrativa” e a mídia se limita a aferir qual delas gerou mais engajamento,
mais indignação ou mais identificação no tal “homem comum”.
A
verdade deixa de ser uma busca, ainda que imperfeita, para se tornar um
derivativo da popularidade. Nesse ambiente, a mentira bem contada – ou mal
contada, mas repetida à exaustão – adquire o mesmo estatuto do fato verificado.
Pior: adquire até mais valor, pois a mentira espetaculosa produz mais impacto,
e é o impacto que a mídia aprendeu a medir e a vender.
É um
discurso totalmente circular, que autoriza o vale-tudo, como, por exemplo, a
banalização da violência e da transgressão dos limites da lei comum nos
discursos. Assim, são plenamente aceitas atitudes como a calúnia – pois é disso
que se trata quando Flávio Bolsonaro “denuncia” Lula como traficante de drogas
e armas. Diz-se que “é do jogo”.
Note-se
a arquitetura do disparate: uma acusação sem prova alguma, desprovida de
qualquer lastro na realidade primária dos acontecimentos, é veiculada como
“narrativa” de um campo político. A mídia, fiel à sua epistemologia de segunda
mão, não pergunta “isso aconteceu?”, mas sim “qual o impacto dessa declaração
no cidadão comum?”. A pergunta correta é sonegada; a pergunta errada é
respondida com tabelas, gráficos e análises de comentaristas que, eles também,
já se renderam à lógica da circularidade. Lembram-se do famoso e falacioso
PowerPoint do Banco Master? O crime de calúnia se dissolve no ácido da
metanarrativa.
Por
isso – e este é o truque da GloboNews e das demais mídias –, o efeito do
discurso de seus comentaristas é tão insuportavelmente plano e repetitivo. Não
há ali pensamento se formando em tempo real, não há a fricção do intelecto
contra a aspereza do real. Há apenas a administração burocrática do impacto, a
gestão dos danos colaterais de uma guerra de narrativas da qual eles próprios
são, ao mesmo tempo, cronistas e combatentes.
O
telespectador que busca compreender o país é brindado com uma espécie de
boletim meteorológico da opinião pública: “A pressão atmosférica da rejeição
subiu dois pontos no Sudeste; a frente fria do descontentamento se desloca para
o Centro-Oeste.” Sobre os acontecimentos que geraram essa pressão, silêncio ou,
no máximo, um resumo apressado antes do intervalo comercial.
Não é
por acaso que a origem de Donald Trump é a cultura de massas, pois só dela pode
sair o Adolf Hitler do século XXI. Donald Trump não é uma aberração do sistema
político americano que o antecedeu; ele é a realização mais acabada de uma
lógica midiática que já operava há décadas. Antes de ser candidato, Donald
Trump era um personagem de reality show, um emblema da cultura de massas que
confunde autenticidade com performance e verdade com audiência. Quando essa
lógica migra do entretenimento para a política, o que se obtém é um líder que
não precisa governar sobre fatos – basta-lhe governar sobre narrativas.[5]
A mídia
tradicional brasileira, ao abraçar a epistemologia derivada do discurso,
digamos assim, de segunda mão, está pavimentando, pela segunda vez, o caminho
para o seu próprio Donald Trump tropical. Está, no fundo, treinando o “cidadão
comum” para aceitar que a realidade é apenas mais uma opinião entre tantas
outras, e que a mais ruidosa delas merece o microfone. Contra isso, só há um
antídoto: a obstinação pelo acontecimento primário, pela verdade desentranhada,
por mais incômoda e por menos “impactante” que ela seja.[6]
Fonte:
A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário