Thiago
Turibio: Morrer por uma causa justa - o individualismo encantado da extrema
direita
“Se eu
tivesse morrido, também não teria problema. Morreria por uma causa justa,
nobre”. Estas palavras não foram ditas por um bolchevique ao lembrar da ousada
tomada do Palácio de Inverno, não foi algum membro da ALN ao recordar do
levante armado contra a ditadura quem as proferiu. São palavras de Lucia Helena
Canhada Lopes, militante de extrema direita atingida por um raio ao participar
da caminhada convocada por Nikolas Ferreira que exigia a libertação de Jair
Bolsonaro, preso por articular um golpe de Estado contra a precária democracia
brasileira. O deputado se apressou em exaltar a coragem de Lucia Helena, cuja
frase escancarava “uma verdade que muita gente foge: a vida não vale nada
quando é vivida sem sentido. Quem acha exagero é porque já trocou a própria
consciência pelo conforto”. Apesar de oportunista, do ponto de vista da
política que se propõe transformadora, a declaração do deputado não deixa de
carregar um núcleo de verdade.
Ao
tomar conhecimento da frase de Lucia Helena restou em mim a sensação de
paradoxo. Bolsonaro nunca prometeu o assalto aos céus e zombava sempre de quem
falava em mobilizar o Estado para buscar a igualdade social. Sintomaticamente,
quando no governo, o mito lembrou a passagem em que Jesus dividiu o pão para
repudiá-lo: assim Cristo criou um grupo que só o seguia por dependência, tal
como teriam feito Lula e o PT. O espírito da nova gestão foi cristalizado na
fala do então ministro da economia Paulo Guedes quando em reunião interpelou
Damares Alves sobre a possibilidade da liberação de jogos de azar no Brasil:
“deixa cada um se foder. […] O presidente não fala em liberdade? Deixa cada um
se foder do jeito que quiser”.
A
promessa era una e inequívoca: retirar toda a mediação do Estado para que a
concorrência desabrida, a luta de todos contra todos, definisse o jogo e
distribuísse as moedas. Como esta visão desencantada do mundo social abre
espaço ao entusiasmo político de se morrer por uma causa justa?
Embora
o termo tenha caído em desuso, o bolsonarista se vê fundamentalmente como
cidadão de bem. Categoria genérica e abstrata, a cidadania envolve virtualmente
a todos. O corte (de bem) é estritamente moral. Tanto por isso o bolsonarismo
pode se apresentar como manifestação do povo, entidade política mais universal.
O bolsonarista é criação eminentemente política. Ele não é mediado por um
particular. Ninguém está ali, em tese, como policial, evangélico, garimpeiro,
operário ou empresário. Ali estão indivíduos submetidos a uma ofensa (o outro
lado é imoral) e só por isso se reconhecem como a parte universal da vida
pública. Assim o bolsonarismo criou uma máquina de identificação e afecção
muito flexível, dinâmica e mesmo solidária. Para participar dela basta
assumir-se como parte do ofendido sem precisar se livrar dos anéis que carrega.
O
bolsonarismo, evidentemente, realiza uma operação ideológica. A sociedade de
classes não admite a autonomia do indivíduo senão na aparência. Como já o
demonstrou Karl Marx, no capitalismo todos aparecem como indivíduos livres em
relações de troca, mas são objetivamente subsumidos à rede de interdependência
em que alguns são proprietários e outros, por não dispor senão da força de
trabalho, ou se vendem ao preço do dia ou perecem depois de perlustrar com a
mão espalmada pelas esquinas. Sob a fantasia do povo sem arestas subsistem as
partes interessadas que o compõem – classes e frações de classes. O que denota
um feito e tanto: como o bolsonarismo pôde soldar, com o fogo do entusiasmo, o
favelado e o rentista bilionário, o precário e o dono da fábrica, o sem terra e
o barão da soja? Em tempos comuns, esse tipo de prestidigitação desmoraliza o
mágico, não convence. Algo na materialidade brasileira, e do mundo, deve ter
mudado para que a comunidade de interesse fascista voltasse a ter capilaridade
e poder de encantamento.
No
capitalismo atual a concorrência generalizada penetrou os poros da sociedade, a
fragmentação é objetiva. Desde que Margaret Thatcher sugeriu à classe dominante
do mundo inteiro que não havia alternativa, o neoliberalismo se consolidou
amplamente como a melhor alternativa. No processo, a terceira revolução
industrial amadurece. Novas forças produtivas se consolidam, expandindo a
automação em diversos ramos industriais. As massas que sobram são resgatadas
como empreendedores individuais na nova economia de plataforma que emerge das
ruínas do fordismo. A viração deixa de ser o signo dos restos do sistema. Ela é
subsumida aos seus circuitos high-tech. Passa então a figurar como parte de seu
núcleo de acumulação. No Brasil, em que a informalidade é estrutural, o terreno
já estava posto. A uberização assume a sua face mais predatória. O trabalho
formal, por sua vez, tende à mesma deriva após a reforma trabalhista de 2017. A
ideologia da extrema direita, portanto, não é mera falsidade, mas a hipostasia
de uma das dimensões reais do objeto (o individualismo) que o faz colapsar
dentro de si mesmo. A extrema direita recupera e dá estatuto ontológico à luta
de todos contra todos. Se não há alternativa, é este o mundo que vamos viver:
peguem suas armas, não as deixem cair. Como argumentou Wendy Brown, ela promete
expurgar o social e a política como categorias mediadoras para que a sociedade
possa ser regulada pela ordem espontânea do mercado e da moral, onde cada um
vai receber a sua parte e ocupar o lugar que lhe cabe de fato.
O ódio
à mediação deriva da correta intuição de que o trabalho não garante a dignidade
que deveria. Como o capital, mecanismo impessoal de dominação, permanece
obscuro, a extrema direita nomeia e dá materialidade ao desconforto. Se você
não recebe a sua justa parte é porque outros indevidamente a tomaram para si:
políticos, artistas, funcionários públicos, beneficiários de programas sociais.
Não por acaso um dos principais alvos do bolsonarismo é o Bolsa Família. Além
de conspurcar o mecanismo do voto, ele evita a fome daqueles que, por não
trabalhar, não merecem comer.
Para
alcançar os seus fins, a extrema direita abdica do governo e entra em conflito
com o Estado enquanto mediação, mas dentro do Estado mesmo. A sua tarefa,
paradoxalmente, é desfazer a política pela política. Os militantes
bolsonaristas acreditam que uma vez eliminada a política como mediação do mundo
social, necessariamente corrompida, cada um será reconhecido pelo seu mérito e
a ordem natural das coisas será reposta.
O caso
paradigmático de desmediação da política continua sendo a gestão da pandemia.
Iniciada a calamidade pública, o governo resistiu a conceder um auxílio
emergencial à população. Quando sob pressão apresentou uma proposta ofereceu
míseros 200 reais por três meses. Foi a oposição no Congresso que à revelia da
ortodoxia neoliberal de Guedes elevou o valor para R$ 600,00. Em paralelo,
Bolsonaro insistia que a população continuasse trabalhando, independente das
mortes que diariamente se acumulavam aos milhares. Com certo regozijo,
martelava que a fome era o destino certo daqueles que se recusavam a se expor
ao vírus.
Ao
invés de políticas públicas, o presidente instava as famílias a cuidar dos
idosos e se automedicar com hidroxicloroquina e ivermectina, remédios
comprovadamente ineficazes. Era como se a pandemia fosse um problema individual
que cada um devesse resolver em sua luta pela sobrevivência. Se a Organização
Mundial da Saúde, Congresso, STF, imprensa ressaltavam a gravidade da doença e
estimulavam o isolamento social, era apenas para colapsar seu governo e impedir
que a população continuasse ganhando a vida com o suor de seu rosto.
A
desmediação não se restringiu à luta pela sobrevivência. Ela permitiu também a
abertura de um novo horizonte político. Basta recordar algumas manifestações
organizadas pela extrema direita ainda quando governo. Numa delas, a marcha do
foda-se do dia 15 de março de 2020, o Congresso foi alvo de escracho; noutra,
no dia do trabalho do mesmo ano, milhares de manifestantes tomaram as ruas para
gritar a Bolsonaro que o autorizavam a dar um golpe contra a pretensa usurpação
de seu poder na pandemia; já em 2021 houve um grande ato pela aprovação do voto
impresso e no 7 de setembro daquele ano Bolsonaro anunciou a uma multidão em
transe que não respeitaria mais qualquer determinação do STF.
Trata-se,
portanto, de vida ou morte. Aqui a política não é meramente gestão. Ela se
torna arena em que se desenrola um conflito existencial. É essa a chave que
explica o sentido de solidariedade presente na extrema direita. Ela projeta uma
luta em que está em jogo a totalidade de sentido da sociedade. Se por acaso a
morte vier, a causa será justa.
Por
isso, não espanta a resiliência que a extrema direita demonstra na sociedade
brasileira. A aposta brutal na desmediação da política em plena pandemia cobrou
o seu preço. Bolsonaro foi eleitoralmente derrotado e preso por conspirar
contra o Estado de Direito. Mas transferiu todo o custo da gestão política para
o outro lado. A esquerda institucional, resignada à administração do presente,
ainda promete que há salvação no interior da sociedade atual. Se o desconforto
permanece, é fácil culpá-la. Não por acaso, cada escândalo que desponta desaba
sobre seus ombros, ainda que tenham começado no governo Bolsonaro e envolvam
uma maioria absoluta de políticos de direita. A corrupção é uma forma espúria
de mediação, é mais fácil atribuí-la a quem ainda acredita ser possível
organizar o mundo social a partir de políticas públicas. Nesse quadro, apenas
bons índices macroeconômicos já não garantem nada, nem mesmo sobrevida
eleitoral. A grande política regressiva da extrema direita só vai ser obrigada
a recuar quando reencantarmos nós mesmos o horizonte político da esquerda.
• Milei como espelho: o bolsonarismo de
2026 e o projeto do choque permanente. Por Marcos Verlaine
A
Argentina de Javier Milei virou, para a direita radical latino-americana, mais
do que caso nacional: tornou-se experimento ideológico. Como foi o Brasil, na
trágica e triste “gestão” do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).
O
presidente argentino vende ao mundo a narrativa do “choque de capitalismo”, com
cortes drásticos no Estado, desregulamentação e ajuste fiscal apresentado como
cura inevitável para décadas de crise.
É
precisamente aí que o bolsonarismo mira: no modelo de “remédio amargo” aplicado
de cima para baixo, com aplausos do mercado e sofrimento concentrado nas
maiorias sociais. Milei virou vitrine. Bolsonaro, referência.
E
Flávio Bolsonaro, preposto mais “ameno” no estilo, tenta se apresentar como
herdeiro viável do mesmo projeto.
A forma
pode ser menos explosiva. O conteúdo, porém, segue tão ou mais radical.
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Reinvenção bolsonarista: retorno do “Posto Ipiranga”
A
agenda econômica desenhada para 2026 repete o coração do bolsonarismo:
austeridade fiscal, privatizações, desregulamentação e redução do papel do
Estado.
A busca
por um novo “Posto Ipiranga” não é detalhe técnico. É símbolo político.
Significa devolver a condução econômica ao receituário neoliberal, agora
embalado como solução “responsável”.
O
problema é que o Brasil já assistiu a esse filme. O governo Bolsonaro combinou
neoliberalismo retórico com desorganização administrativa, ataques
institucionais e Estado frequentemente capturado por interesses específicos. A
promessa de eficiência virou precarização. A “liberdade econômica” virou
permissividade para desigualdades estruturais.
Milei,
nesse sentido, surge como inspiração de ultraliberalismo sem freios: menos
Estado para direitos, mais Estado para repressão.
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Segurança pública: a nova vitrine emocional
Diferente
de 2022, quando costumes e guerra cultural dominaram o debate, o bolsonarismo
de 2026 tenta deslocar o eixo para a segurança pública.
É
escolha calculada: a violência urbana mobiliza medo, gera engajamento e permite
agenda de endurecimento penal e expansão do armamento civil. Uma das bandeiras
do bolsonarismo.
O
discurso é conhecido: ordem, punição, armas como liberdade individual. Mas por
trás da retórica está a lógica de sempre: a transformação do Estado social em
Estado policial.
Segurança
vira instrumento eleitoral, não política pública estruturada. E o risco é
evidente: soluções fáceis para problemas complexos, com alto custo democrático.
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Programas sociais sob lógica de mercado
Outro
movimento tático é reformular a política social sem abandoná-la formalmente. A
proposta bolsonarista aponta para programas de transferência de renda
vinculados à digitalização e à chamada “inclusão produtiva”.
Na
prática, trata-se de redesenho que mantém assistência mínima, mas reduz o
Estado como garantidor de direitos. O social deixa de ser cidadania e passa a
ser mecanismo de ativação econômica individual.
É a
pobreza tratada como falha de empreendedorismo. E não como desigualdade
estrutural.
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Vitimização e guerra contra instituições
No
plano político, o bolsonarismo mantém seu motor principal: a narrativa de
perseguição.
O STF
segue como inimigo simbólico. A democracia liberal, como obstáculo. A imprensa,
como adversária.
A
estratégia é dupla: mobilizar a base radical e ampliar bancada parlamentar para
bloquear pautas progressistas e tensionar o sistema por dentro.
É a
institucionalização do conflito permanente. Não se trata apenas de disputar
eleições, mas de deslegitimar previamente qualquer resultado que contrarie o
grupo.
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Flávio: “moderado” que carrega radicalismo
Flávio
Bolsonaro tenta operar como face menos intempestiva do bolsonarismo. Herdeiro
com tom controlado, sem os arroubos do pai. Mas a história recente ensina:
moderação estética não significa moderação política.
O
bolsonarismo não é temperamento. É projeto. Projeto de Estado mínimo para
direitos, máximo para repressão; de liberalismo para cima, dureza para baixo;
de mercado como moral e democracia como incômodo.
Flávio
pode parecer mais palatável. Mas é exatamente isso que o torna perigoso: a
radicalidade com embalagem institucional.
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Choque como destino
A
aproximação com Milei não é casual. É afinidade ideológica. O bolsonarismo vê
na Argentina laboratório do que deseja para o Brasil: ajuste fiscal severo,
Estado social encolhido, conflito político como método e conservadorismo como
cola cultural.
A
pergunta central para 2026 é simples e decisiva: o Brasil quer importar o
choque permanente como horizonte? Ou aprender com o que já viveu e com o
sofrimento que essas cartilhas costumam impor às maiorias?
Fonte:
Blog da Boitempo/Diap

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