segunda-feira, 20 de abril de 2026


  Tabata Tesser: Trump ataca Papa Leão XIV em busca do catolicismo que apoia a extrema direita

O que se viu nos últimos dias, com o presidente dos Estados Unidos chamando o Papa Leão XIV  de “fraco” e “terrível” em política externa, não foi um desvio repentino de conduta, mas um método discursivo bélico oriundo das “chamadas batalhas espirituais”. Foi a repetição de um padrão antigo que Trump aprendeu nos bastidores da especulação imobiliária: ele especula por meio da linguagem, causa polêmica e volta – um pouco atrás – quando o calo especulativo aperta demais.
Mas ele não se arrepende. Palavras cristãs como perdão e misericórdia não cabem no seu vocabulário político. Trump utiliza o cristianismo como linguagem de poder e reage com agressividade sempre que qualquer autoridade cristã confronta seu programa de guerra, deportação, exclusão e culto à força.

Foi assim também com outras lideranças cristãs. Basta lembrar do sermão da bispa Mariann Edgar Budde, da Igreja Episcopal de Washington, durante o culto da posse presidencial, em 21 de janeiro de 2025, na Catedral Nacional de Washington. Com Trump sentado na primeira fila, ela pediu misericórdia para imigrantes e para a população LGBTQIA+ e falou do medo que esse discurso bélico de guerra produz nas comunidades. Logo depois, Trump a chamou de “radical de esquerda” e exigiu um pedido de desculpas.

Com a Igreja Católica, o desgaste do governo Trump tem data, endereço e financiamento, e o centro do problema não é simples. 

<><> O catolicismo que interessa ao Maga

O contramovimento trumpista Maga, Make America Great Again em inglês (Torne a América grande de novo), nunca quis a teologia católica por inteiro, quis apenas a parte que lhe interessa: as pautas morais, sobretudo a pauta antiaborto. O restante sempre foi tratado como excesso, desvio, ameaça ou, no vocabulário da nova direita, como algo “woke”.

Quando o papa Francisco criticou o capitalismo predatório em sua primeira exortação apostólica, a Evangelii gaudium, a reação da direita conservadora norte-americana foi imediata. Rush Limbaugh, um dos comentaristas mais influentes desse campo, disse que o texto era “marxismo puro” saindo da boca do papa.

A frase ajuda a entender o conflito. O problema nunca foi apenas Francisco, mas o fato de um papa recolocar no centro do discurso católico temas como pobreza, desigualdade, migração, destruição ambiental e crítica à lógica do mercado.

Francisco percebeu cedo o tamanho dessa máquina do Maga contra ele. Em 2019, afirmou que a oposição ao seu pontificado nos Estados Unidos não vinha apenas de bispos e padres, mas também de leigos, veículos de mídia católicos conservadores e redes de poder muito bem financiadas (como o Instituto Napa e a EWTN).

Em 2023, papa Francisco voltou ao tema e chamou parte do catolicismo norte-americano de “reacionário” e “capturado pela ideologia”. Não é novidade que uma parcela importante do Maga seja formada por católicos nacionalistas, midiáticos e militantes que são mais próximos da gramática da extrema direita do que de Roma. 

Quando Robert Francis Prevost foi eleito papa no conclave, Laura Loomer, católica do Maga e trumpista de carterinha, chamou Leão XIV de “anti-Trump, anti-Maga, favorável à imigração e “marxista”, quase repetindo a mesma linguagem que já havia sido usada por católicos conservadores contra Francisco. Steve Bannon, estrategista de Trump, chegou a dizer que Prevost era “indesejado” para a ala ultraconservadora norte-americana. 

<><> Uma guerra que não começou agora

Tudo começou em 2016. Num primeiro capítulo, Papa Francisco criticou a obsessão de Trump por muros na fronteira com o México e afirmou que “uma pessoa que pensa apenas em construir muros, e não pontes, não é cristã”. Trump respondeu dizendo que era “vergonhoso” que um líder religioso colocasse em dúvida a fé de alguém. Já ali estava dado o script que atravessaria a década da relação conflituosa da Casa Branca contra o Vaticano.

O segundo capítulo veio com a retomada de Trump ao poder e a nova escalada anti-imigração. Em 11 de fevereiro de 2025, Francisco enviou uma carta incomum aos bispos dos Estados Unidos para condenar a criminalização de migrantes e advertir que políticas baseadas em força e deportação em massa “terminarão mal”. A carta também soou como resposta ao uso seletivo da tradição católica por J.D. Vance (vice-presidente dos EUA), convertido ao catolicismo em 2019, que vinha mobilizando argumentos religiosos para justificar prioridades excludentes do estado.

Vance ganha importância neste cenário pois se trata de um tradutor católico do trumpismo. Em vez de defender a integralidade da tradição da Igreja, passou a administrá-la seletivamente a partir das pautas morais “pró-vida” e da aliança com estes grupos. E, no confronto com Leão XIV, deixou isso ainda mais claro ao sugerir que o Vaticano deveria se limitar às “questões morais”, como se guerra, migração e vidas destruídas não fossem matéria moral e, recentemente, disse que o papa “deveria ter cuidado ao falar de  teologia” .

O terceiro momento ocorreu no funeral de Francisco, em 26 de abril de 2025. Diante de Trump na plateia, a homilia retomou de forma explícita a velha reprimenda papal contra os muros e a favor das pontes. Foi uma lembrança que o conflito entre Roma e Trump não era episódico, pontual e nem pessoal, mas uma divergência de fundo entre a teologia política do trumpismo e a doutrina social católica sobre migração e fraternidade. 

O quarto episódio foi ainda mais grosseiro. Em 3 de maio de 2025, poucos dias após a morte de Francisco e às vésperas do conclave, Trump publicou uma imagem gerada por IA em que aparecia vestido como papa. A imagem foi repostada pela Casa Branca em sua conta oficial, ampliando o deboche institucional. A Conferência Católica do Estado de Nova York reagiu de forma dura, afirmando que não havia “nada inteligente ou engraçado” naquilo. O cardeal Timothy Dolan chamou a postagem de “brutta figura”, um vexame. Não era um humor inocente num momento de luto e sucessão. 

Agora chegamos ao quinto capítulo, o mais recente e mais grave, porque mira diretamente a autoridade do papa Leão XIV. Em 11 de abril de 2026, Leão presidiu uma vigília de oração pela paz no mundo inteiro, direto na Basílica de São Pedro, e pediu o fim da “loucura da guerra”, condenando o uso de linguagem religiosa para justificar violência, guerras e armamentos. Dois dias depois, Trump partiu para o ataque aberto, chamando o papa de  “fraco no combate ao crime” e “terrível para a política externa”. 

<><> Católicos conservadores brasileiros aderem ao trumpismo católico

No Brasil, setores do conservadorismo católico que dizem defender a Igreja Católica, o papa e a tradição, estão politicamente mais próximos de Trump e Bolsonaro do que de Francisco e Leão XIV. A produtora Brasil Paralelo é um dos exemplos mais visíveis dessa convergência entre catolicismo conservador, guerra cultural e linguagem política inspirada no trumpismo. Nesse campo, a afinidade com Roma nunca foi integral: ela se concentra quase exclusivamente na pauta moral, sobretudo no aborto e nos costumes, além de propor um revisionismo histórico sobre a colonização que nem a própria Igreja Católica refuta, pelo contrário, tenta combater – vide o Sinôdo da Amazônia e pautas ambientais com povos indígenas e quilombolas.

A contradição ficou ainda mais explícita para os católicos conservadores quando, logo após condenarem os ataques de Trump ao papa, o deputado federal católico Eros Biondini e a deputada estadual Chiara Biondini foram visitar presos do golpe do 8 de Janeiro e passaram a tratá-los publicamente como “presos políticos”, defendendo a falsa anistia por “dosimetria humanitária”. Este gesto reconecta o conservadorismo católico bolsonarista ao mesmo repertório político que se viu nos Estados Unidos depois da invasão do Capitólio em 6 de Janeiro de 2021: a reinterpretação de uma ação golpista como “perseguição a patriotas e cristãos”. Cabe à nós perguntar, quando a autoridade do papa entra em choque com a extrema direita transnacional, com quem esses setores se alinham de fato: com Leão XIV ou com o trumpismo tropical?

Frente Parlamentar Católica lançou uma nota sobre os ataques de Trump ao Papa. O texto condena o “ataque desrespeitoso” de Trump, afirma que o papa é referência “espiritual e moral” para milhões de católicos e reafirma apoio ao seu pontificado, destacando a paz, justiça e dignidade humana. Mas a Frente Parlamentar Católica seleciona quais partes do catolicismo quer representar. A Igreja só serve para os católicos conservadores quando pode falar de aborto, sexualidade e reprodução. Mas, quando a Igreja Católica fala de bombas, fronteiras, refugiados, desigualdade e crianças mortas em guerra, vira um problema e é “woke”. Foi isso que Francisco enfrentou e é isso que Leão XIV está enfrentando agora. Por isso a surpresa dos católicos conservadores agora soa cínica. A questão é: estes católicos extremistas vão continuar se vinculando ao discurso bélico de líderes autoritários ou vão seguir os valores da Doutrina Social da Igreja Católica e os ensinamentos do Papa Leão XIV? A escolha está posta e neste caso, os dois lados são inconciliáveis.

¨      Católicos dos EUA divididos em conflito entre o presidente e o papa

Maryellen Lewicki se reúne uma vez por semana para estudar a Bíblia com um grupo de mulheres católicas em Decatur, Geórgia, em um espaço que elas tentam manter livre de política. Mas o nome de Donald Trump surge mesmo assim.

“Temos uma pessoa por quem oramos durante a semana”, disse ela. “Minha amiga disse que ora pelo presidente todos os dias, para que Deus remova esse coração endurecido dele e o substitua por um mais sensível e amoroso.”

Lewicki frequenta a St. Thomas More em um bairro nobre de Atlanta. A maioria dos membros da congregação da igreja e escola jesuíta é politicamente progressista, o que condiz com a comunidade ao redor. Uma imagem de Trump como Cristo curando os enfermos, publicada e posteriormente retirada por ele em sua página nas redes sociais esta semana, não mudou a opinião de muitos sobre o presidente por aqui.

Uma era de indignação política corroeu a capacidade dos americanos de se chocarem. Mas a resposta de Trump e de outros líderes e apoiadores republicanos às críticas do Papa Leão XIV contra a guerra no Irã pôs essa proposição à prova.

O Papa tem sido amplamente e consistentemente crítico da guerra, mas especialmente crítico dos ataques americanos no Irã. No Domingo de Ramos, o Papa, que é americano, condenou o uso da religião para justificar a violência. Deus “não ouve as orações daqueles que fazem guerra”, disse ele na missa na Praça de São Pedro.

Seus comentários vêm na sequência de meses de críticas papais sobre o tratamento dado aos refugiados nos Estados Unidos, e de uma declaração de arcebispos americanos em fevereiro, em oposição às ações do governo em relação à política de refugiados e imigração – uma declaração incomumente enérgica para os padrões históricos da Igreja.

Os comentários de Trump em reação à homilia do Domingo de Ramos, na qual descreveu Leão como "fraco no combate ao crime" e sugeriu que o papado de Leão se deve a Trump, têm sido polarizadores.

“Se você é americano, não quer ver seu presidente em conflito com o papa”, disse Taylor Marshall, um católico conservador declarado com um número considerável de seguidores no YouTube. “E se você é católico, é meio difícil. Se você votou em Trump três vezes e quer ser católico, ser fiel e se submeter ao Santo Padre, ao bispo de Roma, ao papa, ao vigário de Cristo, é uma situação complicada ver o líder da sua nação em conflito com o líder da Igreja Católica na Terra. Para mim, é.”

Marshall atribuiu a conduta de Trump nesta semana à dificuldade fundamental do presidente em processar o poder brando de um papa americano e ao desafio que isso representa para a autoimagem de Trump como a pessoa mais poderosa do mundo.

O papa “é responsável por 1,4 bilhão – não milhões, bilhões – de pessoas e tem a audácia de impor sua autoridade moral nas atividades do presidente Trump? Eu realmente acho que essa é a origem de tudo. É um dilema filosófico para o qual o presidente Trump nunca esteve preparado e acho que ele ainda está tentando descobrir como lidar com ele.”

Cerca de 53 milhões de americanos são católicos, constituindo a maior denominação cristã nos Estados Unidos, de acordo com pesquisas do Pew Research Center e outras instituições. Aproximadamente um em cada cinco eleitores é católico. Os eleitores católicos têm dividido seus votos entre os partidos ao longo dos anos, em comparação com outros cristãos americanos, e nenhum candidato à presidência obteve mais de 60% dos votos católicos nos últimos 50 anos. A maioria dos eleitores católicos apoiou o vencedor da presidência nas últimas seis eleições.

Trump obteve 52% dos votos católicos em 2016 e 55% em 2024, uma vantagem de 12 pontos percentuais sobre Kamala Harris. Mas 52% dos eleitores católicos escolheram Joe Biden, que se tornou o segundo presidente católico da história americana.

Os padrões de votação dos católicos brancos e dos católicos hispânicos divergem acentuadamente. Os católicos brancos têm se alinhado com os republicanos com maior frequência na última década. O mesmo ocorre com os católicos hispânicos, mas a mudança tem sido menos acentuada. Mais de 60% dos católicos hispânicos votam nos democratas. Cerca de 40% dos católicos são hispânicos, segundo o Pew Research Center.

O papado tornou-se mais crítico da política americana desde o fim da liderança de Bento XVI na Igreja, com Francisco colocando o tratamento de imigrantes e refugiados no centro dos ensinamentos da Igreja. Mesmo assim, cerca de metade dos católicos ainda optou por votar em Trump.

“Durante a maior parte dos últimos cem anos, os católicos estiveram no centro de todas as revoluções conservadoras que ocorreram neste país”, disse Matthew J. Cressler, historiador católico cujo livro, intitulado "Católicos e a Criação do MAGA: Como uma Igreja Imigrante se Tornou a Fé da Lei e da Ordem nos Estados Unidos", será publicado no próximo ano.

“O fato de ficar claro que o Papa Francisco se posicionava de um lado em certas questões de justiça, enquanto Trump se posicionava do outro, não afastou os católicos de Trump, claramente”, acrescentou Cressler.

A questão é se os comentários de Trump podem ser a gota d'água para alguns.

Segundo uma pesquisa realizada entre 20 e 23 de março pela Shaw & Company Research e pela Beacon Research, Trump já vinha perdendo apoio entre os eleitores católicos mesmo antes de seus comentários polêmicos sobre Leo ou da publicação de uma imagem gerada por inteligência artificial de si mesmo como Cristo nas redes sociais. O apoio havia caído para 48%, com 52% expressando desaprovação. A pesquisa também apontou divisões acentuadas dentro da fé católica em relação a Trump, com 40% dos eleitores católicos expressando forte desaprovação e 23% expressando aprovação.

Na época da pesquisa, esse índice ainda era sete pontos percentuais superior ao apoio público geral. O apoio à guerra – e a Trump – tem diminuído constantemente nas pesquisas desde que os EUA começaram a atacar o Irã e os preços do petróleo dispararam após o fechamento do Estreito de Ormuz em resposta.

Na semana passada, três cardeais católicos criticaram o conflito no programa 60 Minutes da CBS. Os aliados de Trump, por vezes, classificaram a guerra com o Irã como uma guerra santa, apesar de um coro de teólogos argumentar que a guerra não passa nos testes de justiça moral sob a doutrina religiosa cristã.

“O caminho do homem justo é cercado por todos os lados pelas injustiças dos egoístas e pela tirania dos homens maus”, disse Pete Hegseth, secretário de Defesa, citando o livro de Tarantino, em um sermão proferido na quarta-feira no Pentágono.

A recitação crédula de Hegseth de uma citação bíblica inventada do filme Pulp Fiction pode ser um pecado mais vil em comparação com a autoproclamação de Cristo por Trump.

Os comentários do papa em Camarões, após a publicação de Trump, indicaram que ele não tinha interesse em retirar suas críticas.

“Bem-aventurados os pacificadores!”, disse ele. “Mas ai daqueles que manipulam a religião e o próprio nome de Deus para obterem ganhos militares, econômicos e políticos, arrastando o que é sagrado para as trevas e a imundície.”

A resposta da própria administração e de seus apoiadores no governo às críticas do papa pouco contribuiu para consolidar o apoio católico.

O vice-presidente JD Vance, recém-convertido ao catolicismo, disse ao papa na terça-feira para "ter cuidado" ao discutir teologia. Mike Johnson, presidente da Câmara dos Representantes, sugeriu posteriormente que o pontífice não entendia a filosofia moral da "guerra justa", apesar de o papa ser um estudioso religioso de Santo Agostinho, o teólogo do século IV que primeiro articulou a ideia na teologia cristã.

“Logo no início do seu papado, Leo começou a falar para este tempo e esta época, dizendo: 'Eu entendo a sua política; não é disso que se trata'”, disse Michael Steele, ex-vice-governador de Maryland e presidente do Comitê Nacional Republicano (RNC), em um podcast promovido pela organização Catholic Charities. Steele é um seminarista católico formado na ordem agostiniana.

“Trata-se da sua responsabilidade de viver o evangelho, que não tem orientação política, que não tem raízes ideológicas”, disse Steele. “Está fundamentado na própria palavra de Deus, e se você não consegue fazer isso, talvez precise ficar mais um pouco no seu quarto e refletir antes de sair pelo mundo e atrapalhar as coisas para o resto de nós.”

A reação dos apoiadores de Trump tem sido frequentemente criticar o papa por não tratar o terrorismo islâmico e a repressão à dissidência no Irã com a mesma condenação moral que o militarismo americano. Mesmo essa mensagem encontra reações diversas entre os católicos politicamente conservadores.

“O papa agora está sendo criticado por supostamente ser leniente com o terrorismo islâmico. Isso é uma operação”, disse Michael Knowles, outro proeminente comentarista católico conservador, referindo-se a uma operação política. “Esta é uma operação anticatólica e, coincidentemente, anti-Trump para tentar separar os católicos do presidente e o presidente dos católicos.”

 

Fonte: The Intercept/Tne Guardian

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