“Pega
no laço”: violência contra mulher indígena no Brasil
Não é
incomum ouvir brasileiros que possuem linhagem indígena compartilharem a
história de que uma ancestral distante "foi pega no laço”. Esse é um mito
que ilustra como mulheres indígenas foram ao longo de séculos submetidas a
relacionamentos forçados geralmente com homens brancos.
“‘Minha
avó foi pega no laço’ é uma resposta da história de colonização que aconteceu e
ainda acontece nesse lugar chamado Brasil, que os povos indígenas chamam de
Abya Yala ou Pindorama”, conta Mirna Kambeba Omágua Yetê Anaquiri, doutora em
arte e cultura visual pela Universidade Federal do Sul da Bahia (UFSB),
pertencente ao povo Kambeba Omágua do Amazonas.
Apesar
de que a palavra "mito” acabou sendo ressignificada no imaginário popular
como um sinônimo de mentira, Suelen Siqueira Julio, especialista em história do
Brasil Colonial e das relações de gênero, com ênfase em história indígena,
conta que o termo se refere a uma narrativa para explicar a origem de algo.
Ela
afirma que esse mito se propagou principalmente nas regiões Sul e Sudeste.
"O imaginário é do gaúcho em áreas de fronteira em contato com indígenas.
É aquele cara que tem um laço boleadeira que, para caçar, joga-o e laça a pata
de um animal”.
No
Norte e no Nordeste há outras variantes, como a de que foi pega a "dente
de cachorro” ou "casco de cavalo". Todas as narrativas trazem a mesma
ideia de captura brutal de mulheres indígenas.
Suelen
problematiza, porém, a forma trivial como esse mito é muitas vezes
compartilhado. "É uma história que precisa ser contada com multiplicidade,
precisa ser contada com crítica. Isso não é uma história da Disney, muitas
mulheres foram, sim, pegas à força.”
Por
essa razão, Mirna Anaquiri afirma que se incomoda quando a abordam e contam
essa história na tentativa de estabelecer alguma conexão por compartilharem a
mesma ascendência. Esse tipo de relato, segundo ela, mostra como as pessoas
ainda veem os povos originários. “Desejo profundamente que outras mulheres
indígenas, assim como eu, sejam relacionadas com outras questões, além de um
ato de extrema violência.”
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As evidências no DNA brasileiro
O
artigo Admixture's impact on Brazilian population evolution and health (O
impacto da miscigenação na evolução e na saúde da população brasileira, em
tradução livre), publicado em 2025 na revista Science, detalhou a pesquisa que
realizou o sequenciamento completo e em larga escala do genoma nacional. Foram
analisados 2,7 mil brasileiros de todas as regiões do Brasil.
Em
termos da estrutura genética da população, os resultados evidenciaram que a
linhagem paterna, expressa no cromossomo Y, presente apenas nos homens, é
predominantemente (71%) europeia. Já a linhagem materna, registrada no DNA das
mitocôndrias, que é transmitida apenas da mãe para os filhos, carrega 42% de
ancestralidade africana e 35% indígena.
Esses
dados genéticos comprovam o que já havia sido documentado historicamente, sobre
como homens brancos se apoderaram de mulheres negras e indígenas.
Suelen
Siqueira Julio lembra, porém, que apesar de essa realidade ter sido
predominante, é um erro generalizar, como se todo início de família e toda
relação entre mulheres indígenas tivessem sido de forma compulsória.
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‘Brasil Colônia' na contemporaneidade
Apesar
de remeter aos anos de Brasil Colônia, afirmar que hoje as mulheres indígenas
estão protegidas de violência também pode ser um equívoco. Um levantamento da
Gênero e Número revelou que os registros de violência contra elas aumentaram
258% entre 2014 e 2023. A média nacional é de 207% entre as brasileiras de
todas as raças no mesmo período.
Os
dados extraídos do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (SINAN) do
Ministério da Saúde mostram que os registros de violência sexual –que englobam
casos de assédio, estupro, pornografia infantil e exploração sexual– subiram
297% entre as mulheres indígenas. Já entre as brasileiras em geral, o aumento
chegou a 188%.
Anaquiri
cita o caso de duas mulheres Pataxó, que moravam na Aldeia Xandó, na região de
Corumbau, no extremo sul da Bahia, que foram encontradas mortas na terça-feira
(14/4), em Porto Seguro, para enfatizar que a violência contra mulheres
indígenas ainda persiste.
A
artista afirma que a sociedade brasileira não deveria se calar diante dessa
realidade vivenciada pelos povos originários e ainda sugere criar novos contos
sobre mulheres indígenas. “Se muitas foram pegas no laço, a gente tem desatado
esse nó. Se essa história foi silenciada, eu vou erguer minha voz e vou criar
outras narrativas além dessas de violências e de desgraça.”
Suelen
comenta que essa violência contra mulheres indígenas também pode ser associada
à apropriação ilegal de áreas demarcadas. "Os dados são muito alarmantes e
as invasões de terra permanecem. Não são casos de 1600. E essas invasões são
acompanhadas de estupro”.
Além
disso, a especialista conta que essas mulheres, assim como o povo indígena no
geral, estão expostas à vulnerabilidade social em contextos aldeados e não
aldeados. “A favela é um espaço também de pessoas indígenas que migram para
cidades como o Rio de Janeiro. Elas não vão morar no Leblon, elas vão morar nas
favelas e nas periferias junto com a população negra.”
Fonte:
DW Brasil

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