segunda-feira, 20 de abril de 2026

Movimento quer fiscalizar igrejas durante a campanha eleitoral

Criado oficialmente em 2021, mas surgido, na prática, em 2018, o Movimento Brasil Laico representa uma resposta organizada da sociedade civil a um fenômeno que vem ganhando força nas últimas décadas: a crescente presença de agentes religiosos no campo político brasileiro, especialmente durante períodos eleitorais. O movimento surgiu em Recife, no ambiente das redes sociais, impulsionado por denúncias recorrentes de propaganda eleitoral realizada dentro de templos religiosos.

A motivação inicial esteve diretamente ligada ao contexto das eleições daquele ano, marcadas pela vitória do ex-presidente Jair Bolsonaro, quando diversos episódios de apoio político explícito em igrejas vieram à tona. A percepção de que essas práticas não eram pontuais, mas estruturais, levou à necessidade de organização. Segundo seu idealizador e atual diretor-presidente, Leandro Patrício, a proposta sempre foi dupla: mobilizar a sociedade em defesa do Estado laico e, ao mesmo tempo, criar mecanismos práticos de fiscalização e denúncia.

No centro da atuação do movimento está o princípio constitucional da laicidade. O artigo 19 da Constituição Federal de 1988 estabelece que o Estado não pode “estabelecer ou subvencionar cultos religiosos ou igrejas”, garantindo a separação administrativa entre religião e poder público. É com base nessa diretriz que o movimento estrutura suas ações, defendendo que a liberdade religiosa só é plenamente assegurada quando o Estado mantém neutralidade diante das crenças.

Apesar dessa previsão legal, o movimento aponta que, na prática, há uma zona cinzenta frequentemente explorada por lideranças religiosas e candidatos. Um dos principais focos de atuação tem sido justamente a denúncia da propaganda eleitoral em templos — prática vedada pela legislação eleitoral brasileira, mas que, segundo a organização, ocorre de forma recorrente e, muitas vezes, naturalizada.

Para enfrentar esse cenário, a Diretoria Executiva da associação instituiu formalmente a campanha “Eleições Laicas”, que passa a orientar sua atuação nos anos eleitorais, incluindo o pleito de 2026. A campanha tem caráter bienal e começa sempre em janeiro dos anos em que há eleições, funcionando como uma grande mobilização nacional.

Entre seus objetivos principais está a identificação sistemática de práticas de propaganda eleitoral em espaços religiosos, a formalização de denúncias junto à Justiça Eleitoral e o estímulo à participação da sociedade civil nesse processo. A estratégia combina atuação institucional e engajamento digital, refletindo a origem do próprio movimento.

Um dos pilares da campanha é a criação e manutenção de um canal específico para recebimento de denúncias. Por meio desse mecanismo, cidadãos podem relatar casos que presenciem em igrejas ou cultos. Essas denúncias passam por um filtro jurídico interno antes de serem encaminhadas às autoridades competentes, garantindo consistência e viabilidade legal.

Além disso, o movimento disponibiliza modelos de denúncia para que qualquer pessoa possa acionar diretamente o Ministério Público ou a Justiça Eleitoral. A iniciativa busca reduzir barreiras de acesso à denúncia e ampliar a fiscalização popular, transformando cidadãos em agentes ativos na defesa da legalidade eleitoral.

Outro eixo importante é a pressão institucional. A organização afirma que pretende incidir junto à Justiça Eleitoral e a outros órgãos da República para que haja maior rigor na fiscalização dessas práticas. A avaliação interna é de que a recorrência das irregularidades criou uma percepção equivocada de normalidade, o que torna ainda mais urgente uma resposta firme das instituições.

Para as eleições de 2026, o movimento projeta uma atuação ampliada, tanto em volume quanto em alcance. A expectativa é que o aumento da presença digital e o fortalecimento das redes de apoio permitam uma maior capilaridade das denúncias. Em casos de grande volume, a diretriz será priorizar episódios com maior repercussão pública ou que envolvam lideranças de grande influência.

Paralelamente à agenda eleitoral, o movimento também atua em uma frente mais ampla de conscientização política e jurídica. Uma de suas principais bandeiras é a criação do “Dia Nacional do Estado Laico”, a ser celebrado em 5 de outubro — data da promulgação da Constituição de 1988. A proposta já vem sendo articulada em câmaras municipais e assembleias legislativas pelo país, como forma de fomentar o debate público sobre o tema.

Essa iniciativa revela uma estratégia que vai além da fiscalização eleitoral imediata. Ao propor uma data simbólica, o movimento busca inserir a discussão sobre laicidade no cotidiano político e educacional, enfrentando o que considera ser uma compreensão ainda limitada da sociedade sobre o conceito.

Nas redes sociais, o grupo também atua como uma espécie de observatório de mandatos parlamentares ligados a bancadas religiosas. Monitorando discursos, projetos e posicionamentos, a organização procura dar visibilidade a ações que, em sua avaliação, tensionam a separação entre religião e Estado.

Com mais de 170 mil seguidores no instagram, essa presença digital tem sido fundamental para amplificar denúncias e mobilizar apoio. Vídeos, relatos e análises circulam como ferramentas de pressão pública, complementando a atuação jurídica.

Ao mirar as eleições de 2026, o Movimento Brasil Laico se posiciona como um ator relevante no debate sobre os limites entre fé e política no Brasil. Sua estratégia combina mobilização social, ação institucional e produção de conteúdo, com o objetivo de reforçar a aplicação das normas existentes e ampliar a consciência coletiva sobre a importância da laicidade.

Mais do que combater práticas específicas, o movimento busca consolidar uma cultura política em que a liberdade religiosa e a neutralidade do Estado não sejam vistas como princípios em disputa, mas como fundamentos indispensáveis da democracia brasileira.

As denúncias de propaganda eleitoral realizadas em templos religiosos podem ser encaminhadas pelo site do Movimento Brasil Laico, que também disponibiliza um modelo de representação a ser enviado ao Ministério Público. Além disso, o grupo pode ser contatado por meio de seu perfil no Instagram. De acordo com a legislação em vigor, especificamente a Lei 9.504/97 (artigo 37), esse tipo de prática é considerado irregular, sendo enquadrado como abuso de poder econômico e sujeito a sanções legais aos responsáveis.

•        “Nunca fui e nem sou bolsonarista”: a nova mentira de André Valadão

Arecente declaração do pastor André Valadão, negando ser bolsonarista ou ter vínculo político com o ex-presidente Jair Bolsonaro, reacendeu debates nas redes sociais e aqueles que acompanham o campo religioso e político. Líder da Igreja Batista da Lagoinha, o religioso afirmou em resposta a um seguidor que “nunca abandonou Bolsonaro porque não é bolsonarista”, acrescentando que não possui filiação partidária.

Segundo Valadão, sua postura se limita ao exercício do direito individual de escolha eleitoral. “Não sou filiado a nenhum partido político. Toda eleição, a única coisa que você como eleitor faz é posicionar-se a respeito do candidato que está mais próximo daquilo que você acredita”, declarou em vídeo publicado nas redes sociais.

A fala, no entanto, gerou reações imediatas. Internautas passaram a compartilhar registros fotográficos e audiovisuais que mostram o pastor ao lado de integrantes da família Bolsonaro em cultos e eventos desde 2022. Entre os episódios mais citados está a participação do senador Flávio Bolsonaro em um culto da Lagoinha em Orlando, nos Estados Unidos, em dezembro de 2025. Na ocasião, Valadão realizou uma oração pública pelo parlamentar, pedindo que ele “se reconciliasse com Deus”.

Outros registros remetem a janeiro de 2022, ano eleitoral, quando o pastor recebeu na sede norte-americana da igreja aliados do então presidente. Estiveram presentes o ex-ministro das Comunicações Fábio Faria, o então vereador Nikolas Ferreira — que meses depois seria eleito deputado federal — e o blogueiro Allan dos Santos, à época investigado por autoridades brasileiras. No mesmo período, o deputado Eduardo Bolsonaro também participou de culto na igreja, ocasião em que discursou sobre temas políticos.

É bom observar que, no contexto brasileiro recente, o apoio de lideranças evangélicas a candidaturas tem ocorrido com frequência por meio de manifestações públicas, convites a políticos para participarem de cultos e declarações em redes sociais, independentemente de filiação partidária formal.

A declaração de Valadão ocorre em um momento de reorganização do campo conservador e de redefinições estratégicas entre lideranças religiosas que ganharam projeção durante o governo Bolsonaro. A repercussão do caso evidencia a sensibilidade do tema e o papel das redes sociais na preservação de registros públicos que alimentam o debate.

Até o momento, o pastor não anunciou mudança de posicionamento político, mantendo o argumento de que suas manifestações se restringem ao exercício pessoal de cidadania. O tempo dirá.

 

Fonte: Por Zé Barbosa Junior, na Fórum

 

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