Raízes
no Irã: como o zoroastrismo, religião persa, pode ter moldado o cristianismo e
o judaísmo
Quando
criança, acreditei que todos nasciam da cegonha e presentes de Natal provinham
de Papai Noel… Assim, crescemos ouvindo mitos sem saber que também as
narrativas religiosas têm raízes míticas e históricas, embora sob inspiração
divina. Sabia que a fé cristã e hebraica têm raízes no Irã? Até 1527, devido ao
lucrativo comércio de pau-brasil, nosso país era chamado pelos invasores
portugueses de Terra de Santa Cruz. E o Irã, até 1935, era conhecido com o nome
de Pérsia, um exônimo, denominação que os gregos davam àquela nação. Naquele
ano, o xá Reza Pahlavi mudou o nome do país para Irã, que significa “terra dos
arianos”, como as várias etnias se referiam ao seu território.
A
influência persa sobre os textos bíblicos aconteceu principalmente durante e
após o exílio babilônico do povo hebreu, ocorrido no século 4 a.C., quando o
Império Persa dominava o mundo antigo. Naquele século, o reino de Judá foi
invadido pelos babilônios e grande parte da população de Israel levada à força
para a Babilônia, atual Iraque, então governada pelo rei Nabucodonosor II. Em
586 a.C., os babilônios destruíram Jerusalém, e o Templo, edificado pelo rei
Salomão, foi arrasado.
No
Antigo Testamento são encontrados, no Segundo Livro dos Reis (cap. 24 e 25), o
relato histórico do cerco a Jerusalém, a destruição do Templo (os cap. 5 a 7 do
Primeiro Livro dos Reis descrevem a construção do Templo), a queima das casas e
a deportação do povo. Vide também o cap. 36 do Segundo Livro de Crônicas.
O
profeta Jeremias, que viveu durante o cerco de Jerusalém, descreve a cidade
sitiada (cap. 37-39) e o exílio (40-44). O poético texto Lamentações narra a
destruição de Jerusalém, o sofrimento dos habitantes e a derrubada do Templo.
Dois profetas bíblicos, Ezequiel e Daniel, descrevem a vida dos hebreus no
exílio. Ecos do sofrimento do povo no cativeiro ressoam nos Salmos.
O
exílio só terminou quando Ciro, rei da Pérsia, conquistou a Babilônia em 539
a.C. e libertou os hebreus que, portanto, têm uma dívida de gratidão com o povo
do Irã. Essa libertação está descrita na Bíblia, nos livros de Esdras e
Neemias.
O
contato direto entre hebreus e persas foi um evento histórico real. Após
conquistar a Babilônia, o rei persa Ciro permitiu que os israelitas retornassem
à Judeia e reconstruíssem o Templo de Jerusalém, em 516 a.C. Este evento é
celebrado na Bíblia, no livro de Isaías, onde o próprio Ciro é descrito como um
libertador, ungido por Deus.
Os
persas eram um povo culto e religioso. Praticavam religiões politeístas até que
Zaratustra (ou Zoroastro), nascido no século 7 a.C., centrou o culto em um Deus
único, Ahura Mazda. Muitos pesquisadores atribuem a esta fonte persa o
monoteísmo bíblico, já que descobertas arqueológicas, como inscrições em tumbas
do século 8 a.C., indicam que, outrora, hebreus adoravam Javé e sua esposa
Asherah, deusa cananeia da fertilidade.
Muitas
noções recorrentes na Bíblia, como livre-arbítrio, juízo final, hierarquia de
anjos, paraíso, inferno, ressurreição dos mortos e a luta permanente entre o
Bem e o Mal estão no livro sagrado do zoroastrismo, o Avesta, e tornaram-se
mais proeminentes no judaísmo posterior ao exílio. Na obra aparece também a
figura de um salvador universal, Saoshyant, que significa “aquele que traz
benefícios”. Ele ressuscitará os mortos, liderará o julgamento final e trará a
imortalidade aos humanos. Restaura o mundo à sua perfeição original, sem
doenças, velhice ou morte. Seria um dos três salvadores nascidos de virgens no
fim dos tempos. O conceito de Saoshyant influenciou a escatologia de outras
religiões, inclusive a crença no Messias no judaísmo e no cristianismo. Tais
fatores motivam muitos estudiosos a investigar se o contato com a religião
persa, o Zoroastrismo, teria de alguma forma influído na teologia judaica e,
por sua vez, também na teologia cristã.
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Na
Bíblia hebraica mais antiga, o mal não aparece como uma força independente. Mas
textos posteriores mostram um desenvolvimento maior da figura de Satanás como
adversário, o que pode refletir essa visão dualista vinda dos persas. A noção
de ressurreição coletiva no fim dos tempos é pouco destacada nos textos
bíblicos antigos, mas surge mais tarde, também possivelmente motivada por
crenças persas.
Não há
consenso absoluto entre estudiosos da Bíblia sobre suas raízes persas. É
constrangedor aceitá-la para quem julga que a Bíblia foi diretamente inspirada
por Deus a autores hebreus e cristãos. O que a maioria concorda é que houve um
diálogo cultural entre as fontes do zoroastrismo e as dos textos bíblicos. Essa
adaptação de conceitos persas ao monoteísmo hebreu seria hoje qualificada de
“plágio”.
À
pergunta que amigos me fazem se tais pesquisas desacreditam a fé, respondo que
é frágil a fé que se baseia em narrativas míticas e bibliográficas, e não em
uma relação pessoal com Deus centrada no amor ao próximo.
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Fontes de Pesquisa
Estudiosos
como Shaul Shaked, da Universidade Hebraica de Jerusalém, documentam como o
aramaico — língua oficial persa — e o persa estão presentes no vocabulário e
nas ideias judaicas com exemplos de palavras de origem persa que também constam
do vocabulário religioso hebraico.
A obra
Persepolis and Jerusalem: Iranian Influence on the Apocalyptic Hermeneutic, de
Jason M. Silverman, é uma análise aprofundada e direta sobre o tema. Investiga
especificamente como a ideologia e a religião persa podem ter moldado a
literatura apocalíptica judaica, que inclui livros como Daniel e Ezequiel.
Iranian
Influence on Judaism: First Century B.C.E. to Second Century C.E., de Shaul
Shaked, publicado pela Cambridge University Press, mapeia meticulosamente as
áreas de presença linguística e conceitual entre as duas tradições religiosas.
O
artigo Creation in Collision?: Isaiah 40-48 and Zoroastrianism, Babylonian
Religion and Genesis 1, de Tina D. Nilsen, foca em uma passagem específica
(Isaías 40-48) para discutir se o conceito de um Deus criador único, central ao
monoteísmo judaico, foi desenvolvido em diálogo com tradições persas e
babilônicas.
Os
outros da Bíblia: História, fé e cultura dos povos antigos e sua atuação no
plano divino, de André Daniel Reinke, investiga as interações culturais entre
os hebreus e os povos vizinhos (mesopotâmicos, egípcios, cananeus, persas,
gregos e romanos). Analisa como crenças e culturas pagãs se fazem presentes na
fé do antigo Israel e na própria construção da Bíblia. Ver do mesmo autor Nós e
a Bíblia: História, fé e cultura do judaísmo e do cristianismo.
A
Bíblia com e sem Jesus, de Amy-Jill Levine e Marc Zvi Brettler, analisa as
narrativas bíblicas no seu contexto original. Compara interpretações judaicas e
cristãs, e explora raízes compartilhadas com o Próximo Oriente Antigo.
O que
Escondem de Você, de Ben Yahmim Gavri’el, aborda as raízes judaicas e aramaicas
da Bíblia. Discute o contexto da “lei” (Torá) e a graça (Hessed) em contraste
com visões ocidentais.
Fonte:
Frei Betto, em Diálogos do Sul Global

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