João
Filho: Alessandro Vieira brincou de Sergio Moro na CPI do Crime Organizado
Não é
raro ver uma Comissão Parlamentar de Inquérito, uma CPI, ser transformada em
palco eleitoral e acabar por não investigar nada do que se propôs inicialmente.
Mas a palhaçada protagonizada pelo senador de Sergipe Alessandro Vieira, do
Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, foi algo inédito. Pouco antes de a CPI
do Crime Organizado encerrar os trabalhos, o parlamentar apresentou um
relatório com o pedido de indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal
Federal, o STF, além do procurador-geral da República.
Ainda
que o texto final de Vieira tenha sido rejeitado pela CPI, trata-se de uma
aberração sob qualquer ponto de vista. Primeiro, porque não propôs o
indiciamento de nenhum dos muitos políticos e empresários ligados ao crime
organizado, mesmo tendo aparecido uma pororoca de indícios nos últimos dois
anos. Segundo, porque, até onde se sabe, não há nada que incrimine qualquer
ministro do STF em relação a facções criminosas. É fato que alguns dos
ministros do Supremo, principalmente Alexandre de Moraes, têm muito o que
explicar sobre a promiscuidade com Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master.
Há manchas nas biografias, mas não há crime até o momento. Nenhuma decisão de
qualquer ministro está sob suspeita de favorecer o crime organizado.
O
ministro do STF Gilmar Mendes reagiu rapidamente e apontou uma obviedade: o
relatório é uma aberração jurídica. Mesmo que houvesse crimes de
responsabilidade, como acredita Vieira, uma CPI não tem competência
constitucional para indiciar ministros do Supremo sobre esse tema. O senador é
formado em direito e sabe muito bem disso. O que levaria Vieira a cumprir esse
papelão a não ser querer afrontar o poder judiciário e faturar politicamente em
cima disso em ano eleitoral? Essa é a única explicação possível.
Alessandro
Vieira não se vê como um bolsonarista. Votou em Bolsonaro no segundo turno da
eleição de 2018, mas se arrependeu logo nos primeiros meses de governo. Em
2022, votou em Lula pelo respeito democrático. Mas nos últimos anos a sua tara
anti-STF tem combinado demais com o bolsonarismo. O seu moralismo lavajatista
também. Em nome de uma pretensa limpeza ética, Vieira violou a Constituição e
afrontou um dos poderes da República. O relator brincou de Sergio Moro na
comissão.
O fato
é que, apesar de se apresentar como um ex-delegado implacável contra o crime, o
senador poupou todo o crime organizado e sua rede política no relatório. É
ridículo imaginar que, na CPI do Crime Organizado, o crime organizado foi
poupado. Não teve um indiciado do PCC, do CV, da milícia, dos garimpos ilegais,
do PL ou da Faria Lima. O relatório de Vieira poupou mais bandidos que o
PowerPoint da Globo. Na prática, a CPI serviu para livrar a cara das facções
criminosas e alimentar o golpismo bolsonarista contra o STF em ano eleitoral.
Dois
dias depois, a Polícia Federal mostrou como é que se combate o crime organizado
de verdade: prendeu o ex-presidente do Banco de Brasília, o BRB, Paulo Henrique
Costa, envolvido no escândalo do Master. Ele é uma das peças centrais do caso,
mas também foi completamente ignorado pelo relatório de Alessandro Vieira.
Outro nome muito pouco mencionado no texto é o do ex-governador do Distrito
Federal Ibaneis Rocha, do MDB, que pediu documentos para defender a compra do
Banco Master. Os indícios de mutreta na relação do governador com Vorcaro são
infinitamente maiores e evidentes que os do STF, mas Vieira os ignorou porque
atuou na CPI com uma agenda eleitoral debaixo do braço. Não pegaria bem para o
senador que busca a reeleição indiciar um governador do seu partido. A
implacabilidade de Vieira contra o crime é bem mais flexível do que se imagina.
As
motivações eleitorais do relator ficaram ainda mais claras pelos nomes do STF
que foram indiciados: Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Os
ministros ligados ao bolsonarismo foram poupados. Ora, por que o ministro
Kassio Nunes Marques foi poupado? O seu filho, com apenas 25 anos de idade e só
um ano de registro na Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB, diz ter atuado em
vários processos e seu escritório recebeu pagamentos de uma consultoria que
trabalhou em defesa da JBS e do Banco Master. Ele recebeu uma bolada em
honorários, mas parece que, para o relator da CPI, a família do ministro
bolsonarista tem imunidade para trabalhar em favor do Master.
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Nada suspeito?
André
Mendonça foi outro poupado pela CPI. Vieira não achou estranha a decisão do
ministro de desobrigar o ex-CEO do Banco Master de comparecer ao seu depoimento
na CPI do Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS? E o filho do ministro do
STF Luiz Fux, que foi convidado VIP do camarote de Vorcaro no carnaval de 2025?
Também não há nada suspeito?
O
estranhamento de Vieira é seletivo e atinge apenas ministros do STF que são
considerados inimigos do bolsonarismo. Vieira não se considera bolsonarista,
mas sabe exatamente qual é o tipo de eleitorado que precisa agradar para
conseguir se reeleger.
É uma
vergonha que parentes de membros do STF desfrutem de liberdade total para
exercer a advocacia. Também é vergonhoso que ministros façam viagens nababescas
ao exterior para participar de eventos patrocinados por grandes empresários. Há
que se ter regras claras para acabar com essa promiscuidade imoral entre a
corte e o alto empresariado. Mas tudo isso mora no campo da imoralidade, e não
da criminalidade.
Desmoralizada
por motivos óbvios, a CPI foi engavetada e agora Alessandro Vieira terá que
lidar com a sede de vingança do STF. No dia seguinte à palhaçada eleitoreira do
senador, o ministro Gilmar Mendes acionou a Procuradoria-Geral da República, a
PGR, para que Vieira seja investigado por abuso de autoridade. Muitos colegas
na imprensa consideraram a reação do Supremo exagerada. Bom, a fúria de Gilmar
está sustentada pela Constituição. O indiciamento de um membro do STF por crime
de responsabilidade é uma ilegalidade flagrante e configura abuso de poder. Não
se trata de ilação. O que Alessandro Vieira fez é grave, flerta com o golpismo
e não pode passar batido.
• O powerpoint que não foi feito. Por
Oliveiros Marques
Há
escândalos que não explodem - eles se revelam aos poucos. São fragmentos que,
quando observados isoladamente, parecem dispersos, mas que, ao serem
conectados, desenham uma estrutura, um organismo vivo. O caso envolvendo o
Banco Master caminha exatamente nessa direção: não como um episódio pontual,
mas como parte de uma engrenagem que precisa ser exposta.
O que
falta, neste momento, é a organização das informações acerca da organização
criminal que me parece estar por trás do escândalo do Banco Master. Falta
aquilo que permita à sociedade enxergar o todo. É preciso, sim, o tal
“powerpoint”. Não como peça de espetáculo e de mentira como outrora, mas como
instrumento de clareza. Um mapa das relações. Quem são os personagens, como se
conectam, por onde circula o dinheiro e qual é o papel da política nesse
circuito?
Porque
quando se começa a organizar os elementos já conhecidos, as conexões aparecem.
Há
relações que passam por figuras próximas à extrema-direita, atravessam
estruturas financeiras e chegam ao entorno político de Flávio Bolsonaro. Isso
já é bastante evidente. E não se trata de um ponto isolado. Há registros
públicos de nomeações controversas em seu gabinete, envolvendo personagens
associados a atividades criminosas. Esse dado, por si só, já exigiria
explicações mais consistentes.
Somam-se
a isso operações financeiras que levantaram questionamentos relevantes. O caso
do financiamento imobiliário de alto valor para a compra da mansão por Flávio
Bolsonaro em Brasília, viabilizado pelo BRB, sob gestão de um dirigente que se
encontra preso na Papudinha, segue sem respostas convincentes. A quitação
acelerada do empréstimo, em condições consideradas atípicas, reforça a
necessidade de esclarecimento.
E é
nesse cenário que surgem também menções à atuação de instituições financeiras
privadas, como a REAG, citada em investigações relacionadas ao Banco Master.
Ela teria dado a garantia para tal empréstimo imobiliário. A coincidência de
nomes e estruturas orbitando os mesmos ambientes políticos e econômicos não
pode ser tratada como acaso.
O
problema central é que, sem a visualização organizada dessas relações, tudo
parece episódico. Um fato aqui, outro ali. E é justamente essa fragmentação que
impede a compreensão do todo. O que pode existir, na prática, é uma rede de
interesses que se sustenta na sobreposição entre política, sistema financeiro e
relações pessoais.
Não se
trata de antecipar conclusões – apesar de que a partir do que já se conhece
seja perfeitamente possível fazê-lo -, mas de reconhecer a necessidade de
transparência. Quando os mesmos atores aparecem em diferentes episódios, quando
instituições se cruzam em operações que levantam dúvidas e quando há vínculos
políticos claros, o mínimo que se exige é investigação profunda e exposição
clara dessas conexões.
O
“powerpoint” que não foi feito é, na verdade, o que está faltando para que o
país compreenda a dimensão do que pode estar em curso.
Porque,
se essas relações forem devidamente organizadas e apresentadas, o impacto não
será apenas jurídico. Será político. Estrutural. Vai atingir narrativas,
reposicionar forças e influenciar diretamente o cenário eleitoral.
No fim,
não se trata apenas de nomes ou episódios específicos. Trata-se de entender
como se organizam determinadas engrenagens de poder.
E
quando esse desenho finalmente vier à tona, não será mais possível tratar tudo
como coincidência.
Será
possível enxergar o sistema.
• Vorcaro vira cabo eleitoral de Lula
graças à mídia neoliberal. Por César Fonseca
A midia
corporativa transformou executivos finaceiros em deuses, oráculos aos quais
recorre para tratar de economia.
Os
agentes da economia financeirizada neoliberal ganharam uma respeitabilidade que
não possuem para flar de tudo com a mais
profunda irresponsabilidade.
Depois
que o Consenso de Washington passou a determinar as linhas básicas da política
econômica, nos anos 1990 em diante, com
Collor, seguido por FHC, foi desmontado o antigo Conselho Monetário
Nacional(CMN).
Até
final da ditadura(1964-1984), o CMN era amplamente representativo em relação
às classes sociais antagonicamente
divergentes no cenário econômico.
Conviviam
conflitivamente capital e trabalho, dentro do Conselho, para fixar
salários, inflação, juros, câmbio, enfim, as metas orçamentárias.
O FMI e
Banco Mundial, as vozes de Washington, dava as cartas, especialmente, na
fixação do salário mínimo, reajustado como média da inflação, em nome do controle
inflacionário.
Depois,
da ditadura, rasgou-se a fantasia.
O CMN,
no ambiente do Consenso de Washington, pós 1989, queda da União Soviética, passou a ser composto, apenas,
pelos Ministérios da Fazenda, do Planejamento e Banco Central.
O
neoliberalismo passa a dar as cartas com o tripé neoliberal: metas inflacionárias, câmbio flutuante, superavit primário.
Eram as
novas ordens do império depois que Paul Volcker puxou a taxa de juros de 5%
para 20% para enxugar a liquidez mundial que havia crescido demais depois que
Washington descolou o dólar do ouro e deixou a moeda flutuar.
A farra
do dólar barato produziu dívidas externas impagáveis que passaram a ser cobradas a juros altos
pelos banqueiros americanos.
Resultado:
inflação, quebradeiras, privatizações, enxugamentos econômicos e financeiros,
desemprego, sucateamento industrial etc.
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Nova República neoliberal
A
ditadura militar caiu e se iniciou a Nova República neoliberal democrática
coordenada pelo Centrão, que enquadra a esquerda, impondo-lhe característica
conciliatória, anti-revolucionária, levando-a ao conservadorismo, onde se
encontra, atualmente.
Economicamente,
a política monetária passa mirar as
ordens do Banco Central dos bancos centrais(BIS), sediado em Basileia, Suissa,
coordenado, em última instância, pelo
Banco Central dos Estados Unidos - o FED, dominado, fundamentalmente, por Wall
Street, pelo mercado especulativo.
A
banca, e não o tesouro, imprime o dólar.
O novo
status quo, no cenário histórico neoliberal, expressa-se, na prática na ampla financeirização economica global,
descolada da economia real.
Ele
sofre o primeiro revés na crise financeira especulativa de 2008.
O Banco
Central FED salva, precariamente, o sistema, aumentando, brutalmente a oferta monetária, trocando dívida velha por
dívida nova, derrubando a zero ou negativo a taxa de juros.
Evita,
dessa forma, estouro hiperinflacionário da divida pública, oxigênio do Pentagono para fazer guerras, que
puxa a demanda global imperialista americana.
A lei
neoliberal de que inflação decorre do exesso de demanda, do descontrole
monetário, foi desmoralizada pela crise de 2008.
Diante
do aumento da oferta de moeda na circulação, a inflação não subiu, mas caiu.
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Periferia estrandulada
Desmoralizou-se
as bases neoliberais, que continuaram validas, apenas, para a periferia
capitalista, escravizada pelo rentismo bancado por arcabouço fiscal imposto por
Wall Street.
A
bancocracia impõe a lei do dinheiro.
A
financeirização especulativa é a
parteira da Faria Lima e dos seus escandalosos penduricalhos, que se articulam
com organizações criminosas, como
comprovam investigações da Polícia Federal sob comando do Governo Lula.
O Banco
Master, de Daniel Vorcaro, centro do escândalo financeiro que abala o Brasil,
neste momento em que inicia campanha eleitoral, é o retrato do colapso
neoliberal, aprofundado pelo Banco Central, descolado dos Ministérios da Fazenda e do Planejamento, no processo de
total desmoralização do CMN.
O que
se vê, portanto,é o esgarçamento do fio
da história neoliberal que se rompe e que puxa para o fundo do abismo a direita
e a ultradireita fascista, que deram o golpe em 2016, levando a economia ao
impasse político antidesenvolvimentista.
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Autoengano midiático tupiniquim
O
autoengano da mídia conservadora neoliberal, trapaceada pelos filhotes da Faria
Lima, levados, até agora, a sério como intérpretes da política econômica por
repórteres alienados, como Oinegue e cia
ltda, é o retrato da tragédia nacional.
Até
quando?
O
fascismo econômico midiático, que cria
power points falsos, como fez a Globo, para tentar envolver Lula no
escândalo vorcarista, é aliado do
trumpismo, que colhe derrota fragorosa no Irã, ao se afogar no Estreito de
Ormuz, no simbolismo neoliberal que vira lixo da história.
Lula só
tem a ganhar dando novo grito de independência, à lá D. Pedro I, para faturar seu quarto mandato.
É a
receita nacionalista para conquistar verdadeira soberania nacional, ameaçada
pelo rentismo neoliberal.
Fonte:
The Intercept/Brasil 247

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