segunda-feira, 20 de abril de 2026

João Filho: Alessandro Vieira brincou de Sergio Moro na CPI do Crime Organizado

Não é raro ver uma Comissão Parlamentar de Inquérito, uma CPI, ser transformada em palco eleitoral e acabar por não investigar nada do que se propôs inicialmente. Mas a palhaçada protagonizada pelo senador de Sergipe Alessandro Vieira, do Movimento Democrático Brasileiro, o MDB, foi algo inédito. Pouco antes de a CPI do Crime Organizado encerrar os trabalhos, o parlamentar apresentou um relatório com o pedido de indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal, o STF, além do procurador-geral da República.

Ainda que o texto final de Vieira tenha sido rejeitado pela CPI, trata-se de uma aberração sob qualquer ponto de vista. Primeiro, porque não propôs o indiciamento de nenhum dos muitos políticos e empresários ligados ao crime organizado, mesmo tendo aparecido uma pororoca de indícios nos últimos dois anos. Segundo, porque, até onde se sabe, não há nada que incrimine qualquer ministro do STF em relação a facções criminosas. É fato que alguns dos ministros do Supremo, principalmente Alexandre de Moraes, têm muito o que explicar sobre a promiscuidade com Daniel Vorcaro, presidente do Banco Master. Há manchas nas biografias, mas não há crime até o momento. Nenhuma decisão de qualquer ministro está sob suspeita de favorecer o crime organizado.

O ministro do STF Gilmar Mendes reagiu rapidamente e apontou uma obviedade: o relatório é uma aberração jurídica. Mesmo que houvesse crimes de responsabilidade, como acredita Vieira, uma CPI não tem competência constitucional para indiciar ministros do Supremo sobre esse tema. O senador é formado em direito e sabe muito bem disso. O que levaria Vieira a cumprir esse papelão a não ser querer afrontar o poder judiciário e faturar politicamente em cima disso em ano eleitoral? Essa é a única explicação possível.

Alessandro Vieira não se vê como um bolsonarista. Votou em Bolsonaro no segundo turno da eleição de 2018, mas se arrependeu logo nos primeiros meses de governo. Em 2022, votou em Lula pelo respeito democrático. Mas nos últimos anos a sua tara anti-STF tem combinado demais com o bolsonarismo. O seu moralismo lavajatista também. Em nome de uma pretensa limpeza ética, Vieira violou a Constituição e afrontou um dos poderes da República. O relator brincou de Sergio Moro na comissão.

O fato é que, apesar de se apresentar como um ex-delegado implacável contra o crime, o senador poupou todo o crime organizado e sua rede política no relatório. É ridículo imaginar que, na CPI do Crime Organizado, o crime organizado foi poupado. Não teve um indiciado do PCC, do CV, da milícia, dos garimpos ilegais, do PL ou da Faria Lima. O relatório de Vieira poupou mais bandidos que o PowerPoint da Globo. Na prática, a CPI serviu para livrar a cara das facções criminosas e alimentar o golpismo bolsonarista contra o STF em ano eleitoral.

Dois dias depois, a Polícia Federal mostrou como é que se combate o crime organizado de verdade: prendeu o ex-presidente do Banco de Brasília, o BRB, Paulo Henrique Costa, envolvido no escândalo do Master. Ele é uma das peças centrais do caso, mas também foi completamente ignorado pelo relatório de Alessandro Vieira. Outro nome muito pouco mencionado no texto é o do ex-governador do Distrito Federal Ibaneis Rocha, do MDB, que pediu documentos para defender a compra do Banco Master. Os indícios de mutreta na relação do governador com Vorcaro são infinitamente maiores e evidentes que os do STF, mas Vieira os ignorou porque atuou na CPI com uma agenda eleitoral debaixo do braço. Não pegaria bem para o senador que busca a reeleição indiciar um governador do seu partido. A implacabilidade de Vieira contra o crime é bem mais flexível do que se imagina.

As motivações eleitorais do relator ficaram ainda mais claras pelos nomes do STF que foram indiciados: Alexandre de Moraes, Gilmar Mendes e Dias Toffoli. Os ministros ligados ao bolsonarismo foram poupados. Ora, por que o ministro Kassio Nunes Marques foi poupado? O seu filho, com apenas 25 anos de idade e só um ano de registro na Ordem dos Advogados do Brasil, a OAB, diz ter atuado em vários processos e seu escritório recebeu pagamentos de uma consultoria que trabalhou em defesa da JBS e do Banco Master. Ele recebeu uma bolada em honorários, mas parece que, para o relator da CPI, a família do ministro bolsonarista tem imunidade para trabalhar em favor do Master.

<><> Nada suspeito?

André Mendonça foi outro poupado pela CPI. Vieira não achou estranha a decisão do ministro de desobrigar o ex-CEO do Banco Master de comparecer ao seu depoimento na CPI do Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS? E o filho do ministro do STF Luiz Fux, que foi convidado VIP do camarote de Vorcaro no carnaval de 2025? Também não há nada suspeito?

O estranhamento de Vieira é seletivo e atinge apenas ministros do STF que são considerados inimigos do bolsonarismo. Vieira não se considera bolsonarista, mas sabe exatamente qual é o tipo de eleitorado que precisa agradar para conseguir se reeleger.

É uma vergonha que parentes de membros do STF desfrutem de liberdade total para exercer a advocacia. Também é vergonhoso que ministros façam viagens nababescas ao exterior para participar de eventos patrocinados por grandes empresários. Há que se ter regras claras para acabar com essa promiscuidade imoral entre a corte e o alto empresariado. Mas tudo isso mora no campo da imoralidade, e não da criminalidade.

Desmoralizada por motivos óbvios, a CPI foi engavetada e agora Alessandro Vieira terá que lidar com a sede de vingança do STF. No dia seguinte à palhaçada eleitoreira do senador, o ministro Gilmar Mendes acionou a Procuradoria-Geral da República, a PGR, para que Vieira seja investigado por abuso de autoridade. Muitos colegas na imprensa consideraram a reação do Supremo exagerada. Bom, a fúria de Gilmar está sustentada pela Constituição. O indiciamento de um membro do STF por crime de responsabilidade é uma ilegalidade flagrante e configura abuso de poder. Não se trata de ilação. O que Alessandro Vieira fez é grave, flerta com o golpismo e não pode passar batido.

•        O powerpoint que não foi feito. Por Oliveiros Marques

Há escândalos que não explodem - eles se revelam aos poucos. São fragmentos que, quando observados isoladamente, parecem dispersos, mas que, ao serem conectados, desenham uma estrutura, um organismo vivo. O caso envolvendo o Banco Master caminha exatamente nessa direção: não como um episódio pontual, mas como parte de uma engrenagem que precisa ser exposta.

O que falta, neste momento, é a organização das informações acerca da organização criminal que me parece estar por trás do escândalo do Banco Master. Falta aquilo que permita à sociedade enxergar o todo. É preciso, sim, o tal “powerpoint”. Não como peça de espetáculo e de mentira como outrora, mas como instrumento de clareza. Um mapa das relações. Quem são os personagens, como se conectam, por onde circula o dinheiro e qual é o papel da política nesse circuito?

Porque quando se começa a organizar os elementos já conhecidos, as conexões aparecem.

Há relações que passam por figuras próximas à extrema-direita, atravessam estruturas financeiras e chegam ao entorno político de Flávio Bolsonaro. Isso já é bastante evidente. E não se trata de um ponto isolado. Há registros públicos de nomeações controversas em seu gabinete, envolvendo personagens associados a atividades criminosas. Esse dado, por si só, já exigiria explicações mais consistentes.

Somam-se a isso operações financeiras que levantaram questionamentos relevantes. O caso do financiamento imobiliário de alto valor para a compra da mansão por Flávio Bolsonaro em Brasília, viabilizado pelo BRB, sob gestão de um dirigente que se encontra preso na Papudinha, segue sem respostas convincentes. A quitação acelerada do empréstimo, em condições consideradas atípicas, reforça a necessidade de esclarecimento.

E é nesse cenário que surgem também menções à atuação de instituições financeiras privadas, como a REAG, citada em investigações relacionadas ao Banco Master. Ela teria dado a garantia para tal empréstimo imobiliário. A coincidência de nomes e estruturas orbitando os mesmos ambientes políticos e econômicos não pode ser tratada como acaso.

O problema central é que, sem a visualização organizada dessas relações, tudo parece episódico. Um fato aqui, outro ali. E é justamente essa fragmentação que impede a compreensão do todo. O que pode existir, na prática, é uma rede de interesses que se sustenta na sobreposição entre política, sistema financeiro e relações pessoais.

Não se trata de antecipar conclusões – apesar de que a partir do que já se conhece seja perfeitamente possível fazê-lo -, mas de reconhecer a necessidade de transparência. Quando os mesmos atores aparecem em diferentes episódios, quando instituições se cruzam em operações que levantam dúvidas e quando há vínculos políticos claros, o mínimo que se exige é investigação profunda e exposição clara dessas conexões.

O “powerpoint” que não foi feito é, na verdade, o que está faltando para que o país compreenda a dimensão do que pode estar em curso.

Porque, se essas relações forem devidamente organizadas e apresentadas, o impacto não será apenas jurídico. Será político. Estrutural. Vai atingir narrativas, reposicionar forças e influenciar diretamente o cenário eleitoral.

No fim, não se trata apenas de nomes ou episódios específicos. Trata-se de entender como se organizam determinadas engrenagens de poder.

E quando esse desenho finalmente vier à tona, não será mais possível tratar tudo como coincidência.

Será possível enxergar o sistema.

•        Vorcaro vira cabo eleitoral de Lula graças à mídia neoliberal. Por César Fonseca

A midia corporativa transformou executivos finaceiros em deuses, oráculos aos quais recorre para tratar de economia.

Os agentes da economia financeirizada neoliberal ganharam uma respeitabilidade que não  possuem para flar de tudo com a mais profunda irresponsabilidade.

Depois que o Consenso de Washington passou a determinar as linhas básicas da política econômica,  nos anos 1990 em diante, com Collor, seguido por FHC, foi desmontado o antigo Conselho Monetário Nacional(CMN).

Até final da ditadura(1964-1984), o CMN era amplamente representativo em relação às  classes sociais antagonicamente divergentes no cenário econômico.

Conviviam conflitivamente capital e trabalho, dentro do Conselho, para fixar salários,  inflação,  juros, câmbio, enfim, as metas orçamentárias.

O FMI e Banco Mundial, as vozes de Washington, dava as cartas, especialmente, na fixação do salário mínimo, reajustado como média  da inflação, em nome do controle inflacionário.

Depois, da ditadura, rasgou-se a fantasia.

O CMN, no ambiente do Consenso de Washington, pós 1989, queda da União  Soviética, passou a ser composto, apenas, pelos Ministérios da Fazenda, do Planejamento e Banco Central.

O neoliberalismo passa a dar as cartas com o tripé  neoliberal: metas inflacionárias, câmbio  flutuante, superavit primário.

Eram as novas ordens do império depois que Paul Volcker puxou a taxa de juros de 5% para 20% para enxugar a liquidez mundial que havia crescido demais depois que Washington descolou o dólar do ouro e deixou a moeda flutuar.

A farra do dólar barato produziu dívidas externas impagáveis  que passaram a ser cobradas a juros altos pelos banqueiros americanos.

Resultado: inflação, quebradeiras, privatizações, enxugamentos econômicos e financeiros, desemprego, sucateamento industrial etc.

<><> Nova República neoliberal

A ditadura militar caiu e se iniciou a Nova República neoliberal democrática coordenada pelo Centrão, que enquadra a esquerda, impondo-lhe característica conciliatória, anti-revolucionária, levando-a ao conservadorismo, onde se encontra, atualmente.

Economicamente, a política monetária passa  mirar as ordens do Banco Central dos bancos centrais(BIS), sediado em Basileia, Suissa, coordenado, em última instância,  pelo Banco Central dos Estados Unidos - o FED, dominado, fundamentalmente, por Wall Street, pelo mercado especulativo.

A banca, e não  o tesouro, imprime o dólar.

O novo status quo, no cenário histórico neoliberal, expressa-se, na prática   na ampla financeirização economica global, descolada da economia real.

Ele sofre o primeiro revés na crise financeira especulativa de 2008.

O Banco Central FED salva, precariamente, o sistema, aumentando, brutalmente  a oferta monetária, trocando dívida velha por dívida nova, derrubando a zero ou negativo a taxa de juros.

Evita, dessa forma, estouro hiperinflacionário da divida pública,  oxigênio do Pentagono para fazer guerras, que puxa a demanda global imperialista americana.

A lei neoliberal de que inflação decorre do exesso de demanda, do descontrole monetário, foi desmoralizada pela crise de 2008.

Diante do aumento da oferta de moeda na circulação, a inflação não subiu, mas caiu.

<><> Periferia estrandulada

Desmoralizou-se as bases neoliberais, que continuaram validas, apenas, para a periferia capitalista, escravizada pelo rentismo bancado por arcabouço fiscal imposto por Wall Street.

A bancocracia impõe a lei do dinheiro.

A financeirização  especulativa é a parteira da Faria Lima e dos seus escandalosos penduricalhos, que se articulam com organizações  criminosas, como comprovam investigações da Polícia Federal sob comando do Governo Lula.

O Banco Master, de Daniel Vorcaro, centro do escândalo financeiro que abala o Brasil, neste momento em que inicia campanha eleitoral, é o retrato do colapso neoliberal, aprofundado pelo Banco Central, descolado dos Ministérios  da Fazenda e do Planejamento, no processo de total desmoralização do CMN.

O que se vê, portanto,é  o esgarçamento do fio da história neoliberal que se rompe e que puxa para o fundo do abismo a direita e a ultradireita fascista, que deram o golpe em 2016, levando a economia ao impasse político antidesenvolvimentista.

<><> Autoengano midiático tupiniquim

O autoengano da mídia conservadora neoliberal, trapaceada pelos filhotes da Faria Lima, levados, até agora, a sério como intérpretes da política econômica por repórteres  alienados, como Oinegue e cia ltda, é o retrato da tragédia nacional.

Até quando?

O fascismo econômico midiático,  que cria power points falsos, como fez a Globo, para tentar envolver Lula no escândalo  vorcarista, é aliado do trumpismo, que colhe derrota fragorosa no Irã, ao se afogar no Estreito de Ormuz, no simbolismo neoliberal que vira lixo da história.

Lula só tem a ganhar dando novo grito de independência, à lá D. Pedro I,  para faturar seu quarto mandato.

É a receita nacionalista para conquistar verdadeira soberania nacional, ameaçada pelo rentismo neoliberal.

 

Fonte: The Intercept/Brasil 247

 

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