segunda-feira, 20 de abril de 2026

Pesquisadores fazem descoberta sobre vírus que afeta 95% das pessoas

Uma equipe de pesquisadores criou anticorpos que conseguem bloquear o vírus Epstein-Barr (EBV), uma infecção generalizada que afeta cerca de 95% das pessoas em todo o mundo e está ligada a vários tipos de câncer, condições neurodegenerativas e outras doenças de longo prazo.

O estudo publicado na Cell Reports Medicine detalhou o experimento que usou camundongos para criar anticorpos monoclonais — proteínas produzidas em laboratório que simulam o sistema imunológico — que conseguiriam impedir que o vírus EBV se conectasse e entrasse nas células imunológicas humanas.

Uma das dificuldades encontradas pelos cientistas é identificar anticorpos não humanos que não desencadeiem uma reação imunológica no organismo, como frequentemente acontece nos testes dessas terapias contra o EBV.

"Decidimos usar novas tecnologias para tentar preencher essa lacuna de conhecimento e acabamos dando um passo crucial para bloquear um dos vírus mais comuns do mundo", disse Andrew McGuire, PhD, bioquímico e biólogo celular na Divisão de Vacinas e Doenças Infecciosas do Fred Hutch Cancer Center, em um comunicado à imprensa.

O foco dos pesquisadores foi criar anticorpos monoclonais que bloqueassem duas proteínas virais, gp350 e gp42 — a primeira, que ajuda o vírus a se fixar nas células humanas, e a segunda, que permite que ele se funda e entre nessas células.

A pesquisa pode ser de extrema utilidade para pacientes imunossuprimidos, especialmente os que passam por transplantes de órgãos sólidos ou medula óssea, que tomam medicações imunossupressoras, que podem permitir que o vírus seja reativado.

"As doenças linfoproliferativas pós-transplante (DLPT), a maioria das quais são linfomas associados ao EBV, são uma causa frequente de morbidade e mortalidade após o transplante de órgãos", observou a Dra. Rachel Bender Ignacio, médica de doenças infecciosas no Fred Hutch e na Faculdade de Medicina da Universidade de Washington.

O objetivo dos pesquisadores é encontrar um modo de administrar esses anticorpos monoclonais por meio de infusões para prevenir a infecção ou reativação do vírus, especialmente nos grupos de alto risco.

<><> Saiba mais sobre o vírus Epstein-Barr

O vírus Epstein-Barr é o causador da mononucleose, uma doença conhecida popularmente como "doença do beijo". A infecção por esse patógeno é extremamente comum: estima-se que mais de 90% da população mundial foi ou será infectada em algum momento da vida pelo vírus. No entanto, na maioria das vezes, ele pode permanecer latente (inativo) no organismo, ou seja, sem manifestar sintomas.

Por outro lado, quando o vírus é ativado, ele pode causar sintomas semelhantes aos da gripe, como febre, dor de garganta, inflamação dos gânglios no pescoço, dor no corpo, dor muscular e tosse.

A doença se instala em diferentes células do corpo, escapando assim das defesas imunológicas. Consequentemente, permanece no corpo de uma pessoa infectada pelo resto da vida. O vírus pode reaparecer anos após a infecção inicial, inclusive quando o sistema imunológico está enfraquecido.

•        Vírus Oropouche já infectou mais de 5 milhões no Brasil, sugere estudo

O recente surto do vírus Oropouche, ocorrido em 2023, chamou atenção no Brasil e em outros países da América Latina não só pela magnitude (mais de 30 mil casos registrados no território nacional), mas também pela primeira morte confirmada no país causada pela doença e pela rápida disseminação para todos os estados, deixando de se restringir à região amazônica.

Diante desse cenário, no início do ano, a OMS (Organização Mundial da Saúde) também demonstrou preocupação e fez um apelo para acelerar o desenvolvimento de ferramentas de prevenção e controle contra esse patógeno, até então quase desconhecido.

Dois estudos publicados hoje (24/03) nas revistas Nature Medicine e Nature Health comprovaram que o impacto do vírus Oropouche é muito maior do que o retratado nos dados oficiais.

Por meio de cálculos matemáticos, dados históricos e análise de sangue de hemocentros, os pesquisadores estimam que, desde 1960, o vírus já tenha infectado cerca de 9,4 milhões de pessoas na América Latina e no Caribe. Só no Brasil, seriam aproximadamente 5,5 milhões de casos.

A doença, que provoca febre e sintomas semelhantes aos da dengue, pode evoluir para complicações graves, incluindo problemas neurológicos (meningite e meningoencefalite) e até microcefalia em casos de transmissão materno-fetal.

“Estamos diante de uma doença com magnitude muito maior do que se imaginava, o que requer mais atenção. Estimamos que um em cada mil diagnósticos da doença evolua para complicações graves, como doenças neurológicas, microcefalia, abortos e complicações hepáticas, o que eleva o nível de prioridade para saúde pública”, conta José Luiz Proença Módena, coordenador do Laboratório de Estudos de Vírus Emergentes (Leve) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e coautor dos estudos, que contam com apoio da FAPESP.

O trabalho também teve financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), do National Institutes of Health (NIH), dos Estados Unidos, da instituição filantrópica britânica Wellcome Trust e do Instituto Todos pela Saúde.

<><> Manaus, epicentro da crise

Em Manaus (AM), a maior metrópole da região amazônica, estima-se que 300 mil pessoas tenham sido infectadas entre 2023 e 2024, quase 260 vezes mais que os casos confirmados. De acordo com os pesquisadores, a prevalência de anticorpos contra o vírus saltou de 11,4% em novembro de 2023 para 25,7% em novembro de 2024, indicando ampla disseminação da doença.

“A capital do Amazonas é uma cidade com mais de 2 milhões de habitantes e considerada a porta de entrada para a região amazônica. A subnotificação impressionante ocorreu por vários fatores, principalmente pelo fato de o vírus ter circulado silenciosamente antes de atingir as bordas do centro urbano, com muitos casos sendo assintomáticos ou leves, e sem diagnóstico”, conta William de Souza, professor da Universidade do Kentucky, nos Estados Unidos, que também assina o estudo.

Essa dinâmica ajuda a explicar a disseminação do vírus por todos os Estados brasileiros e países vizinhos, além de reforçar o cenário que motivou a OMS a emitir alerta internacional.

Já no caso de pacientes em regiões remotas da Amazônia, os pesquisadores destacam a dinâmica e a logística da região. “Pacientes em regiões remotas da Amazônia muitas vezes enfrentam tempos de viagem de mais de 24 horas para chegar a uma unidade de saúde. Isso significa que muitos casos provavelmente não foram diagnosticados, permitindo que o vírus circulasse silenciosamente até atingir a borda de um grande centro urbano”, afirma Souza.

Os pesquisadores detectaram que o vírus Oropouche está em circulação contínua, embora muitas vezes em níveis tão baixos que se tornam quase indetectáveis pelos sistemas de vigilância comuns. “No trabalho, identificamos duas grandes ondas de Oropouche na capital amazonense, uma na década de 1980 e a de 2023, que infectaram, cada uma, mais de 12% de sua população”, diz Módena.

A partir desse rastreamento, os pesquisadores também identificaram que indivíduos infectados na década de 1980 ainda eram capazes de neutralizar a linhagem viral recente. “Isso sugere uma proteção cruzada duradoura, capaz de orientar futuras estratégias de vacinação”, explica Souza.

<><> Um vírus do mato

A reemergência do vírus Oropouche em 2023 confirmou sua expansão pelo país. O Estado do Espírito Santo apresentou a maior taxa acumulada, com 318 casos por 100 mil habitantes. Já a região Sudeste concentrou 57,9% das notificações, tornando-se o novo epicentro da doença.

Diferentemente de outras arboviroses mais conhecidas, ele é transmitido pelo mosquito-pólvora, porvinha ou maruim (Culicoides paraensis), o que faz com que a incidência da doença em áreas rurais seja 11 vezes maior do que nas cidades.

“Ao contrário do Aedes aegypti [mosquito transmissor da dengue, zika e chikungunya], que se reproduz em água parada, o maruim deposita seus ovos em solo úmido e rico em matéria orgânica. É um mosquito do mato, de áreas úmidas. Por isso, a predominância de casos em áreas rurais e não urbanas”, explica Souza.

“Historicamente, essa doença estava muito ligada a áreas com plantação de banana e cacau, mas, ao estudar a ecologia do vírus, identificamos que a questão não é a fruta em si, mas a condição ideal de solos úmidos e com bastante matéria orgânica. Altas temperaturas e chuvas também são condições propícias para a disseminação do maruim”, conta o pesquisador.

Os autores ressaltam que o caráter rural da doença impacta estratégias de políticas públicas. “O combate à doença se torna muito diferente das outras arboviroses transmitidas por mosquitos, que são mais urbanos. Estratégias como a fumigação [o fumacê] em praças e ruas asfaltadas são provavelmente pouco úteis contra o Oropouche. O maruim não vive nos ralos das casas, mas na umidade das áreas florestais e na vegetação periférica das cidades”, explica Souza.

Outra característica importante do maruim é que ele é três vezes menor que um pernilongo comum, tamanho ideal para atravessar mosquiteiros. Porém a razão por trás dessa reemergência agressiva não está apenas no clima, mas em uma nova recombinação viral (reassortment).

No trabalho, os pesquisadores também identificaram a emergência de uma nova linhagem viral, resultado de um processo de rearranjo ou reassortimento genético que ocorre quando dois vírus diferentes infectam uma mesma célula. Isso aumentou a capacidade de replicação e dificultou a neutralização por anticorpos de infecções anteriores, tornando o patógeno mais apto para novas expansões territoriais.

“A reemergência do Oropouche nos mostra que não podemos combater todas as arboviroses com a mesma receita, pois o maruim não segue as mesmas regras do Aedes. Isso torna a vigilância atual contra o vírus Oropouche insuficiente e subestima drasticamente a real dimensão da doença”, diz Módena.

Para ele, a vigilância precisa ir além das grandes cidades. “Embora a imunidade de longo prazo pareça existir para quem já foi infectado, a velocidade com que o vírus se expandiu por todos os Estados brasileiros mostra que o sistema de saúde precisa de novos sistemas de detecção, focados, inclusive, na vigilância distante dos grandes centros”, afirma.

Os pesquisadores ressaltam a necessidade de mudanças estruturais, como a adoção de estudos sorológicos contínuos, o uso de bancos de sangue como alerta precoce e a integração de ferramentas digitais e genômicas para acompanhar surtos e mutações.

Também destacam a importância da descentralização dos testes laboratoriais e da criação de uma vigilância ativa e permanente, capaz de combinar dados ambientais, sorológicos e genômicos para antecipar riscos e orientar estratégias de vacinação.

 

Fonte: CNN Brasil/Agencia Fapesp

 

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