Juan
Chingo: Um dano (não colateral) da guerra - a erosão do vínculo entre Israel e
Estados Unidos
Há
momentos em que a percepção internacional muda lentamente. E depois há os
pontos de ruptura. O que está acontecendo com Israel pertence à segunda
categoria. Durante décadas, sua posição nos Estados Unidos resistiu a guerras,
ocupações e denúncias constantes. Era um aliado quase intocável, protegido por
um consenso bipartidário excepcional. Mas algo se rompeu. Desta vez, de forma
visível.
O
episódio mais recente no Senado dos Estados Unidos confirma isso. Nesta
quarta-feira, uma iniciativa impulsionada por Bernie Sanders buscou bloquear a
venda de bombas de 450 quilos e escavadeiras blindadas ao exército israelense,
no contexto da guerra em Gaza e de sua extensão regional em direção ao Líbano e
ao Irã. As resoluções não prosperaram. Mas o dado verdadeiramente relevante não
foi o resultado formal, e sim o que ele deixou exposto.
Pela
primeira vez em anos, uma maioria significativa da bancada democrata se afastou
do apoio automático a Israel. Em particular, 40 dos 47 senadores democratas se
opuseram ao fornecimento de escavadeiras, e 36 dos 47 ao envio de bombas. Mais
ainda: nenhum senador democrata com aspirações presidenciais apoiou a
transferência de armamento. Embora a política oficial não mude de imediato, a
mensagem política é difícil de ignorar: a sustentação interna de Israel em
Washington deixou de ser um reflexo automático.
Essa
ruptura institucional não surge do nada. É a expressão de um desgaste mais
profundo, acumulado ao longo da guerra. Gaza — com dezenas de milhares de
mortos — foi o estopim mais brutal. Depois veio o envolvimento direto na
escalada contra o Irã e a continuidade das operações no Líbano. Em conjunto,
esses episódios alimentaram uma percepção crescente: a de que o governo de
Benjamin Netanyahu já não é percebido apenas em chave defensiva, mas cada vez
mais como um fator de instabilidade regional.
Essa
mudança se reflete com clareza na opinião pública. Pela primeira vez em
décadas, os Estados Unidos já não demonstram uma simpatia predominante por
Israel. Uma pesquisa recente da Gallup indica que 41% dos americanos se sentem
mais próximos dos palestinos, contra 39% que apoiam Israel. A diferença é
estreita, mas seu significado é profundo: o equilíbrio histórico se inverteu.
Em 2001, a vantagem a favor de Israel era de 35 pontos e, durante mais de duas
décadas, manteve-se estável.
A
tendência se confirma com outros dados. Segundo o Pew Research Center, 60% dos
americanos têm hoje uma opinião desfavorável sobre Israel, contra 53% no ano
anterior e cerca de 40% há apenas quatro anos. Trata-se de um aumento de vinte
pontos em um período extraordinariamente curto. O detalhamento é ainda mais
revelador: 80% dos simpatizantes democratas expressam uma visão negativa, mas o
fenômeno também atravessa o eleitorado republicano, onde 57% dos adultos
menores de 60 anos compartilham essa rejeição.
A
fratura é, sobretudo, geracional. Entre os jovens de 18 a 29 anos, a rejeição
atinge 75% na população em geral, 85% entre os democratas e 64% entre os
republicanos. Mesmo em grupos historicamente pró-Israel, como os evangélicos
brancos, as novas gerações mostram níveis de apoio muito mais baixos do que os
mais velhos. Já não há nenhum segmento jovem claramente alinhado com Israel. E
esse dado, mais do que descrever o presente, antecipa o futuro.
Durante
anos, o apoio a Israel nos Estados Unidos se sustentou em uma combinação de
fatores: alianças estratégicas, afinidades políticas e uma narrativa reforçada
após o 11 de Setembro, que tendeu a homogeneizar a percepção do Oriente Médio.
Esse quadro está se desfazendo. As novas gerações viram outra guerra: a
devastação em Gaza, em tempo real.
Não é
apenas uma questão ideológica. É também visual e emocional. As imagens de
destruição em massa, de bombardeios em áreas densamente povoadas e de civis
encurralados corroeram a narrativa tradicional. E o fizeram de forma
persistente. Mesmo entre setores que não adotam posições radicais, crescem as
dúvidas sobre se as ações de Israel respondem a interesses compartilhados ou
se, ao contrário, arrastam os Estados Unidos para conflitos que não lhes
pertencem.
É aí
que convergem, de forma inesperada, críticas de origens distintas. Na esquerda,
o questionamento se articula em torno dos direitos humanos. No campo
republicano, especialmente entre setores vinculados ao universo MAGA, emerge
outra crítica: a ideia de que Israel arrasta os Estados Unidos para conflitos
que não respondem a seus interesses diretos. Figuras influentes do ecossistema
conservador, como Tucker Carlson ou Steve Bannon, contribuíram para consolidar
um discurso que combina isolacionismo, desconfiança em relação às alianças
tradicionais e, em alguns casos, deriva para teorias conspiratórias.
O
resultado é uma transformação profunda: Israel deixou de ser um ponto de união
na política americana para se tornar um eixo de divisão. O debate sobre a ajuda
militar — durante décadas incontestável — entra agora em uma fase de revisão. O
memorando de assistência de 38 bilhões de dólares até 2028 já não parece
intocável, e começam a surgir vozes que propõem condicioná-lo ou até mesmo
repensá-lo por completo.
No
entanto, a contradição é evidente. No plano militar, a cooperação entre os dois
países continua estreita e altamente sofisticada. Mas esse vínculo técnico
convive com uma erosão política e social cada vez mais profunda.
Porque
o verdadeiro dano não está em uma votação pontual nem em uma pesquisa isolada.
Está na perda progressiva de uma base de apoio estável dentro da sociedade
americana. Se as tendências atuais se consolidarem, Israel poderá se deparar,
em um futuro próximo, com uma realidade inédita: a ausência de um apoio
político sólido e duradouro em ambos os partidos.
Nesse
cenário, o dano deixa de ser colateral. Passa a ser estrutural. E,
diferentemente dos efeitos imediatos da guerra, suas consequências serão mais
duradouras, redefinindo não apenas a relação entre Estados Unidos e Israel, mas
também o lugar do Oriente Médio na política global de Washington.
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Trump não queria destruir a civilização iraniana, só
buscava controlar o petróleo, diz Lavrov
A
aliança atlântica atravessa um período de fraqueza, mas a Rússia não interfere
em assuntos internos da organização, afirmou o ministro das Relações Exteriores
da Rússia, Sergei Lavrov, durante o seu discurso no Fórum Diplomático de
Antália.
Trump
não queria destruir a civilização iraniana, só buscava controlar o petróleo,
analisa Lavrov. Ao comentar as ameaças do presidente dos EUA sobre a
"destruição da civilização iraniana", o chanceler russo, Sergei
Lavrov, avaliou que a expressão foi apenas uma figura de retórica e que os
reais objetivos da agressão americana eram menos malignos.
©
telegram SputnikBrasil
O
chanceler Sergei Lavrov ironizou o estado da chamada "coalizão dos
dispostos" europeia que visa ajudar a Ucrânia, acreditando que ela em
breve se tornará uma "coalizão dos já indispostos".
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Confira mais declarações do chanceler russo:
As
guerras que ocorrem hoje no mundo não faziam parte dos planos da Rússia, mas
foram organizadas pelo Ocidente, que há anos planeja esses confrontos;
Entre
as metas da operação dos EUA no Irã estava colocar sob controle o petróleo
que passa pelo estreito de Ormuz, reforçando seus interesses energéticos
na região;
Os
países ocidentais buscam transformar a Ucrânia em um gatilho de ameaça
global, utilizando o conflito como fator de instabilidade internacional;
O
Ocidente preparava a Ucrânia para uma guerra contra a Rússia já no final
de 2021, mesmo após compromissos assumidos de não expandir sua influência
militar;
A
filosofia do nazismo está sendo revivida na Alemanha e na Finlândia, e o
Reino Unido também nunca se afastou totalmente dessas ideias.
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Maria Luiza Falcão: Rico em recursos, pobre em poder
A crise
no Estreito de Ormuz recoloca o petróleo no centro da disputa global — e, nesse
tabuleiro, o Brasil passa a ocupar um lugar muito mais estratégico do que
costuma reconhecer.
A
China, maior importadora de energia do mundo, depende estruturalmente do fluxo
que atravessa Ormuz. Qualquer ameaça àquele corredor — seja por escalada
envolvendo o Irã, seja por intervenção direta dos Estados Unidos — cria um
risco imediato de desorganização energética global. É exatamente nesse ponto
que o petróleo brasileiro ganha centralidade.
Não se
trata de um detalhe comercial. Trata-se de reposicionamento geoeconômico.
Ao
ampliar as compras de petróleo brasileiro, a China não está apenas
diversificando fornecedores — está reduzindo sua vulnerabilidade a um dos
principais gargalos estratégicos do planeta. O pré-sal brasileiro, nesse
contexto, funciona como uma espécie de “seguro geopolítico” fora do raio direto
de conflito. Para o Brasil, isso se traduz em demanda robusta, entrada de
divisas e valorização de seus ativos energéticos. Até aqui, parece um ganho
inequívoco.
Esse
movimento já está em curso. Em março de 2026, a China elevou suas importações
de petróleo brasileiro para cerca de 1,6 milhão de barris por dia — o maior
volume já registrado — em um contexto em que reduziu significativamente sua
dependência do Oriente Médio diante da instabilidade no Golfo. Não se trata de
uma oscilação pontual, mas de uma realocação estratégica de fornecedores em
meio à crise.
O que
está em curso não é simplesmente um ciclo favorável de exportações. É a
incorporação do Brasil a uma engrenagem global de segurança energética
desenhada por outra potência. Ao atender à demanda chinesa em um momento de
tensão no Golfo, o país passa a desempenhar um papel funcional dentro da
estratégia de contenção de riscos da Ásia — sem, no entanto, controlar os
termos dessa inserção.
Há um
ganho econômico claro, mas há também uma perda de autonomia silenciosa.
Porque
quanto mais o Brasil se consolida como fornecedor de petróleo bruto para a
China, mais reforça uma inserção primário-exportadora, dependente de preços
internacionais voláteis e de decisões estratégicas tomadas fora de seu
território. Não estamos falando apenas de comércio: estamos falando de uma
especialização regressiva em um momento em que o mundo disputa tecnologia,
cadeias industriais e poder financeiro.
A crise
no Estreito de Ormuz escancara essa contradição.
De um
lado, o Brasil se beneficia diretamente da instabilidade — preços mais altos,
maior demanda, centralidade energética. De outro, torna-se ainda mais atrelado
a um modelo de inserção que limita sua capacidade de definir o próprio projeto
de desenvolvimento. Quanto maior a tensão no Golfo, maior a importância do
petróleo brasileiro — e maior também o risco de o país se acomodar nesse papel.
O ponto
central, portanto, não é celebrar o aumento das exportações.
É
perguntar o que o Brasil faz com esse momento.
Se
transformar essa janela em estratégia — agregando valor, expandindo refino,
articulando política industrial e usando a renda do petróleo para
diversificação produtiva — o país pode, de fato, converter crise externa em
fortalecimento interno.
Se não,
corre o risco de repetir o padrão histórico: ganhar no curto prazo e perder no
longo.
E,
desta vez, em um mundo muito mais instável — onde energia deixou de ser apenas
uma commodity e voltou a ser, como sempre foi, instrumento de poder.
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Terras raras e a disputa pelo futuro
Se o
petróleo reposiciona o Brasil na crise do Estreito de Ormuz, os minerais de
terras raras expõem, de forma ainda mais contundente, os limites desse
reposicionamento.
O país
detém uma das maiores reservas do mundo — frequentemente apontado como o
segundo maior em potencial — mas permanece à margem daquilo que realmente
importa: a transformação industrial desses minerais. Enquanto a China domina
não apenas a extração, mas sobretudo o refino e a cadeia de valor das terras
raras, o Brasil segue preso ao estágio mais primário do processo — quando
sequer o realiza plenamente.
E aqui
está o ponto decisivo: terras raras não são apenas mais uma commodity.
Elas
são insumo crítico para turbinas eólicas, carros elétricos, sistemas de defesa,
semicondutores e praticamente toda a base material da economia do século XXI.
Em outras palavras, estamos falando da infraestrutura física da transição
energética e da disputa tecnológica global.
O
paralelo com o petróleo é inevitável — e incômodo.
Assim
como no pré-sal, o Brasil possui o recurso. Assim como no petróleo, há demanda
externa crescente. E, novamente, o risco é ocupar o papel de fornecedor de
base, enquanto outros países controlam as etapas de maior valor, tecnologia e
poder.
A
diferença é que, no caso das terras raras, essa assimetria já está consolidada.
A China
construiu, ao longo de décadas, um domínio quase monopolista sobre o refino e a
manufatura desses minerais, transformando-os em instrumento estratégico de
política externa. Não se trata apenas de mercado — trata-se de capacidade de
pressão global. Quem controla terras raras controla cadeias produtivas
inteiras.
O
Brasil, por sua vez, assiste. Não por falta de recursos, mas por ausência de
estratégia.
A crise
no Estreito de Ormuz mostra como o petróleo pode elevar momentaneamente a
relevância brasileira. Mas as terras raras revelam o outro lado da equação: a
incapacidade histórica de transformar vantagem geológica em poder econômico e
tecnológico.
E isso
muda tudo.
Porque,
enquanto o petróleo garante fluxo de divisas, as terras raras definem quem
lidera — ou não — a próxima etapa da economia global. Permanecer fora dessa
cadeia significa abrir mão não apenas de riqueza, mas de soberania tecnológica.
O
risco, portanto, não é apenas repetir o padrão primário-exportador.
É
consolidá-lo em duas frentes simultâneas: na energia e na tecnologia.
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A ilusão da vantagem
O
Brasil nunca teve tantos ativos estratégicos ao mesmo tempo — petróleo em
escala global, reservas minerais críticas, posição geopolítica relativamente
estável em um mundo em conflito.
E,
ainda assim, permanece preso a uma lógica conhecida.
A
ilusão é achar que abundância de recursos é sinônimo de poder.
Não é.
Poder,
no mundo contemporâneo, não está na posse do recurso — está no controle da
cadeia, na capacidade de transformação, na tecnologia, no comando financeiro e
industrial que organiza esses fluxos.
Hoje, o
petróleo brasileiro ajuda a estabilizar a segurança energética da China em meio
à crise no Golfo. Amanhã, as terras raras brasileiras podem alimentar a
transição energética global — desde que outros países façam o que o Brasil não
faz.
Essa é
a escolha colocada, ainda que raramente explicitada.
Ou o
país transforma seus recursos em estratégia de desenvolvimento — industrializa,
agrega valor, constrói capacidade tecnológica e redefine sua inserção
internacional.
Ou
continuará desempenhando o papel que sempre lhe foi reservado: fornecedor
confiável de riqueza para os outros, enquanto adia, mais uma vez, o próprio
futuro.
Fonte:
Esquerda Diário/Sputnik Brasil/Brasil 247

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