segunda-feira, 20 de abril de 2026

120 anos do pentecostalismo: da Rua Azusa ao poder político no Brasil

Em pouco mais de um século, o pentecostalismo saiu de um galpão improvisado nos Estados Unidos para se tornar a principal força do protestantismo brasileiro — e uma das mais influentes da sociedade contemporânea. Sua trajetória combina espiritualidade intensa, capacidade de adaptação cultural, crescimento explosivo e, mais recentemente, uma presença cada vez mais visível na política.

<><> O fogo que começou na Rua Azusa

A história moderna do pentecostalismo costuma ser datada de 1906, com o chamado Avivamento da Rua Azusa, em Los Angeles. Liderado pelo pastor afro-americano William J. Seymour, o movimento se caracterizava por experiências espirituais como falar em línguas, curas e manifestações consideradas sobrenaturais.

Embora suas raízes estejam no chamado Movimento de Santidade do século XIX e até em interpretações do cristianismo primitivo, foi em Azusa que o pentecostalismo ganhou forma como fenômeno global.

O que tornava aquele movimento singular não era apenas sua teologia, mas seu caráter social: reuniões multirraciais, linguagem simples e forte apelo emocional. Em um mundo marcado por desigualdades, o pentecostalismo oferecia algo direto: experiência espiritual acessível a qualquer pessoa, sem mediação institucional rígida.

<><> A chegada ao Brasil: periferia, Amazônia e improviso

O pentecostalismo chega ao Brasil poucos anos depois. Em 1910, os missionários suecos Daniel Berg e Gunnar Vingren desembarcam em Belém do Pará e fundam a Assembleia de Deus, considerada a principal matriz do movimento no país.

O crescimento inicial foi lento, mas consistente. Em 1911, pequenas comunidades já se organizavam na região amazônica, dando início a um processo que, décadas depois, alcançaria todo o território nacional.

Ao contrário do protestantismo histórico — mais ligado às elites e à educação formal — o pentecostalismo encontrou terreno fértil entre as camadas populares. Sua linguagem oral, emocional e direta facilitou a expansão em um país ainda marcado por altos índices de analfabetismo.

Era uma religião que cabia na periferia, no interior, nos espaços onde o Estado muitas vezes não chegava.

<><> Crescimento em ondas: da fé popular ao fenômeno de massa

Os estudiosos costumam dividir o pentecostalismo brasileiro em três grandes fases:

•        Pentecostalismo clássico (início do século XX): com igrejas como Assembleia de Deus e Congregação Cristã.

•        Deuteropentecostalismo (meados do século): expansão urbana e consolidação institucional.

•        Neopentecostalismo (a partir dos anos 1980): forte presença midiática, teologia da prosperidade e novas formas organizacionais.

Ao longo desse processo, o crescimento foi vertiginoso. Já no ano 2000, cerca de 67% dos evangélicos brasileiros eram pentecostais.

Hoje, o segmento não apenas domina o campo evangélico, como também se tornou uma das maiores forças religiosas do país, com dezenas de milhões de fiéis e presença capilar em praticamente todos os municípios.

Esse crescimento não ocorreu por acaso. O pentecostalismo mostrou uma capacidade incomum de adaptação: criou novas igrejas, reinventou linguagens, incorporou elementos culturais locais e se fragmentou em milhares de denominações.

<><> Entre o púlpito e o palanque

Se durante grande parte do século XX o pentecostalismo manteve distância da política institucional, esse cenário mudou radicalmente nas últimas décadas.

A partir dos anos 1980, com a redemocratização, lideranças religiosas começaram a disputar espaços no Legislativo. Com o avanço do neopentecostalismo — especialmente de igrejas com forte estrutura midiática — essa presença se consolidou.

Hoje, a chamada “bancada evangélica” é uma das mais influentes do Congresso Nacional. O discurso religioso passou a dialogar diretamente com pautas políticas, morais e eleitorais.

Cristãos aversos à politicagem nas igrejas apontam que esse movimento representa uma desvirtuação do propósito original do pentecostalismo, transformando a fé em instrumento de poder. A lógica espiritual, centrada na experiência individual com o divino, teria sido substituída — em parte — por estratégias de mobilização política e eleitoral.

Por outro lado, defensores argumentam que se trata de uma consequência natural do crescimento: grupos religiosos numerosos tendem a buscar representação política. Apesar das críticas, é impossível ignorar o papel social do pentecostalismo no Brasil.

Em comunidades periféricas, igrejas funcionam como redes de apoio, oferecendo acolhimento, disciplina, pertencimento e, muitas vezes, assistência material. Elas atuam em áreas onde políticas públicas são insuficientes, ajudando na recuperação de dependentes químicos, na mediação de conflitos e na construção de vínculos comunitários.

Essa presença cotidiana ajuda a explicar seu crescimento: o pentecostalismo não é apenas uma crença, mas uma estrutura social ativa.

<><> O maior campo eleitoral do país?

Com milhões de fiéis e forte capilaridade, o pentecostalismo se tornou também um dos maiores potenciais eleitorais do Brasil.

A capacidade de mobilização — seja por meio de cultos, redes de comunicação ou lideranças locais — faz com que igrejas tenham peso significativo em campanhas. Em muitos casos, candidatos ligados ao segmento conseguem converter capital religioso em votos.

No entanto, essa relação levanta debates importantes:

- até que ponto a fé deve influenciar decisões políticas?

- onde termina a liberdade religiosa e começa o uso eleitoral da religião?

120 anos depois: entre fé, poder e futuro

Ao completar cerca de 120 anos desde a Rua Azusa, o pentecostalismo mostra-se um fenômeno multifacetado. É, ao mesmo tempo: uma experiência espiritual intensa; uma força social relevante; um motor de crescimento religioso e um ator político cada vez mais presente.

Seu futuro no Brasil dependerá de como equilibrará essas dimensões. Se, por um lado, sua força reside na proximidade com o povo, por outro, sua credibilidade pode ser desafiada pela crescente associação com projetos de poder.

O que começou como um movimento de avivamento espiritual em um galpão simples tornou-se uma das engrenagens centrais da sociedade brasileira contemporânea — e, possivelmente, uma das mais decisivas para seu futuro político e cultural.

 

Fonte: Fórum

 

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