Atrás
do trio elétrico
“Atrás
do trio elétrico só não vai quem já morreu”, diz a música de Caetano Veloso.
Nós morremos porque fomos atrás do tripé macroeconômico, superávit fiscal,
câmbio flutuante e regime de meta de inflação. A fé cega no livro, na teoria e
a troca entre estabilidade monetária e o desmonte da infraestrutura brasileira
montada a duras penas entre 1930 e 1980. O Plano Real nunca teve como meta um
projeto de desenvolvimento econômico e, muito menos, um plano estratégico para
o Brasil.
O
mantra da eficiência econômica somada a alocação eficiente dos recursos pela
iniciativa privada colocaria o Brasil rumo ao crescimento sustentável! A partir
desse momento é decretado o cancelamento da palavra planejamento e a repetição
“ad naseum” que investimento público é sinônimo de gasto. 50 anos de
experiências de planejamento desde Getúlio Vargas, Juscelino Kubitschek e
regime militar foram jogados no lixo da história. Quem foi atrás do trio
elétrico não morreu, quem foi atrás do tripé desmantelou a capacidade produtiva
desse país!
Para
quem já teve nosso maior economista Celso Furtado como ministro do
planejamento, contemplou uma mera secretaria do Planejamento, com função
específica de execução do orçamento federal no governo Jair Bolsonaro. Onde a
palavra planejamento virou símbolo do bolchevismo rasteiro. Um palavrão! O país
que produzia fertilizantes, tinha um setor petroquímico completo, até o governo
Fernando Henrique, hoje importa diesel e fertilizantes!
Uma
privatização feita de forma binária, tudo o que é privado é bom e eficiente,
tudo o que é estatal é ruim e ineficiente. Assim foi o fim da Ultrafértil
produtora de fertilizantes e a Petroquisa, e as refinarias “vendidas” ao setor
privado. Qual era o plano estratégico e planejamento de nação de um dos maiores
produtores de alimentos do mundo? Nenhum! A mão invisível resolve com maior
eficiência. A mão invisível procura mercados rentáveis e lucrativos.
Ficou
mais barato importar, 50 anos de construção e articulação dos setores
produtivos morreram atrás do tripé macroeconômico. A herança maldita que
sobrevoa Brasília e a mídia nacional, grita todo santo dia contra qualquer
tentativa de planejamento estratégico e urra espirrando bílis de apenas
mencionar o termo investimento público!
Nesse
período, os países que mais cresceram e se desenvolveram, como China, Índia,
Coreia do Sul e Vietnã, abriram mão da fé cega da mão invisível, fugiram do
tripé, sem abrir mão da estabilidade de preços, do planejamento e,
principalmente, da coordenação e indução do Estado. Não caíram no truque
ideológico binário da conjugação das estrelas dos mercados eficientes. Ao
contrário, mostraram um pragmatismo eficiente, sem abrir mão de mercado
eficiente e coordenação estatal.
Pelos
resultados, mostraram que é possível fazer os dois, não são excludentes.
Escolheram ir atrás do trio elétrico e não morreram! Escolheram combater as
restrições de oferta, produzir! Tanto com investimento público e privado, sem
preconceitos teóricos! Nesses países, conjugar o verbo planejar não é palavrão!
O
Brasil que já foi referência mundial de planejamento e execução, seguiu
cegamente o tripé macroeconômico. Morreu, crescimento medíocre nos últimos
trinta anos, custo alto e produtividade baixa logística, e foi dominado por um
discurso repetido a exaustão de restrição de demanda. O país do investimento e
preocupado em aumentar sua capacidade produtiva e precisa voltar a ir atrás do
trio elétrico! Antes tarde do que nunca!
“Cortar
gastos públicos é um exercício que envolve riscos de desabamento. Nunca se sabe
qual é o gasto que sustenta o edifício todo” (Mário Henrique Simonsen).
No
momento, o sucesso das medidas de coordenação e planejamento nacional depende
crucialmente de uma reforma estrutural radical dos métodos e das instituições
brasileiros. Primeiro, a criação, junto ao gabinete da Presidência da
República, dos Grupos Executivos, à semelhança do governo Juscelino Kubitschek
durante o Plano de Metas. Por exemplo, um Grupo Executivo do Complexo
Econômico-Industrial da Saúde seria extremamente necessário. Nesta crise, é
recomendável a criação de comitês com participação de trabalhadores,
empresários e profissionais.
Pouca
gente, muito qualificada, administrando um sistema de coordenação
público-privada. Os programas de financiamento e de incentivos ao investimento
devem, sim, contemplar cláusulas de conteúdo nacional, com metas e
contrapartidas rigorosamente cobradas dos beneficiários privados.
Portanto,
não é o momento de meias palavras ou de meias medidas. É imprescindível
estigmatizar o debate que impera nos escaninhos da mediocridade, aquele que
suscita suspeitas sobre o gasto público.
A
verdadeira responsabilidade fiscal é com os brasileiros e suas vidas. Somente a
rápida expansão do gasto público, coordenada a outras ações centralizadas pelo
planejamento nacional, pode evitar que a crise econômica se transforme em uma
depressão, numa crise social mais grave, com potencial imprevisível para a
ordem social e política no país.
O
debate brasileiro sobre o desenvolvimento está encolhido nos calabouços das
políticas econômicas neoliberais. Sofrem prejuízo as investigações que tomam
como guia a “dinâmica das estruturas”, ou seja, as transformações financeiras,
tecnológicas, patrimoniais e espaciais determinadas pela interação entre os
movimentos da economia internacional e as estratégias nacionais
Em seu
livro Três industriais brasileiros, o grande Heitor Ferreira Lima reproduz o
artigo de um comentarista da imprensa paulistana. Dizia o sábio: “Não temos
condições para o desenvolvimento industrial, porque somos um país de
analfabetos, com imigração de analfabetos e ainda em anarquia política,
econômica e financeira. o problema do Brasil consiste em aproveitar suas
terras, as mais vastas, inexploradas do globo”.
Não
foram outros os argumentos de Eugênio Gudin, também engenheiro-economista como
Roberto Simonsen, na célebre Controvérsia do Planejamento Econômico de 1944.
Fonte:
Por Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo, em A Terra é Redonda

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