Quando
a política habitacional vira “máquina financeira”
Foi a
partir de um susto que escrevi esse ensaio. Um susto que me deixou entre mundos
de melancolia e desespero, no qual fui tomado pela sensação de que nada muda no
Brasil. A opção pelo erro não é ausência de inteligência, mas opção consciente
pelo desastre político e social como projeto de nação.
Parece
que estou vivendo um remake quando vejo a imprensa corporativa, a imprensa
progressista e a imprensa governamental — que no Brasil tem enorme dificuldade
em ser realmente pública — comemorando, de forma natural e sem qualquer
ressalva, o anúncio do Governo Federal sobre a atualização dos limites de renda
bruta familiar para as famílias atendidas pelo programa Minha Casa, Minha Vida.
A
mudança foi publicada no dia 1º de abril de 2026 no Diário Oficial da União,
por meio da Portaria MCID nº 333. Os novos valores foram aprovados pelo
Conselho Curador do FGTS em 24 de março, ocasião em que também foi definido o
teto de preço dos imóveis enquadrados nas faixas 3 e 4 do programa.
Tudo
isso repetindo, de forma voluntária e no dia da mentira, os mesmos erros dos
governos militares. Naquela época, por meio do Banco Nacional de Habitação,
para garantir a sustentabilidade financeira da política habitacional e do
sistema financeiro habitacional — que precisava assegurar a rentabilidade do
FGTS —, optaram por priorizar as camadas médias em mobilidade social, no
contexto de afirmação do capitalismo dependente, periférico e associado. Além
disso, nem vamos discutir a semelhança do uso político e eleitoral da política
habitacional, retroalimentando a ideologia da casa própria e o marketing social
da vida bem-sucedida. Navegando nessas imagens, ideias e personagens, rascunhei
o ensaio abaixo, que divido com vocês. Não me peçam isenção, equilíbrio,
neutralidade e objetividade.
A
cidade brasileira contemporânea não é o resultado neutro do crescimento
econômico nem o produto natural dos processos de urbanização; ela é, antes de
tudo, uma escolha política — escolha que, reiteradamente, privilegia a lógica
do capital em suas diversas formas (produtiva, comercial, especulativa,
imobiliária, parasitária e financeira) em detrimento do direito à moradia, da
autonomia dos trabalhadores e da democratização do espaço urbano.
Compreender
a política habitacional brasileira demanda, portanto, recusar as ilusões do
discurso oficial — que a apresenta como conquista social, como porta de acesso
à cidadania e como materialização do sonho da casa própria — e encarar, sem
eufemismos, o que ela efetivamente produz: não moradores, mas devedores; não
cidades, mas mercados; não direitos, mas mercadorias.
Desde a
criação do Banco Nacional de Habitação (BNH), em 1964, passando pelo programa
Minha Casa, Minha Vida, lançado em 2009, até as versões mais recentes sob o
governo Lula, a política habitacional brasileira tem operado como um dos
principais vetores do crescimento econômico, do estímulo à cadeia produtiva da
indústria da construção civil, como fonte de produção de emprego, trabalho e
renda, além de estímulo à financeirização da economia nacional (atualmente com
articulações internacionais e transnacionalização dos negócios imobiliários e
urbanos).
Sob
diferentes siglas e retóricas — ora desenvolvimentistas, ora progressistas, ora
pautadas pela solidariedade e pela caridade (assistência e ajuda social) —, o
Estado brasileiro tem sistematicamente articulado o fundo público, os recursos
dos trabalhadores e o crédito habitacional como instrumentos de valorização do
capital financeiro e imobiliário, transferindo renda da classe trabalhadora
para especuladores, latifundiários urbanos, bancos, construtoras e
incorporadoras.
O
problema, portanto, não é apenas de escala ou de eficiência: trata-se de um
problema estrutural e político, sendo, em sua essência, uma questão de classe,
raça, território, gênero e indiferença diante da multidimensionalidade da
pobreza urbana no Brasil. Nesse sentido, recomendamos a leitura dos trabalhos
das professoras e professores Maria da Penha Smarzaro Siqueira, Lena Lavinas,
Lúcio Kowarick, Vera Telles, Maria Célia Paoli e Sonia Rocha para uma
compreensão mais complexa, ética e plural dessa questão social brasileira.
A
política habitacional contemporânea é, nesse sentido, uma indecência social e
política, sustentada por governos ditos progressistas. Mais uma vez, em nome da
democracia e da vitória eleitoral, setores progressistas passaram pano (fizeram
vistas grossas, silenciaram diante de ou foram coniventes com) para os governos
progressistas e suas alianças com o grande capital. Tal postura política e
institucional tem como meta não apenas financeirizar a moradia —
transformando-a e reduzindo-a à casa própria e aquela em única forma oficial de
provisão habitacional (unidade habitacional), inquestionável, diante da
escassez artificial de moradia (Hermes Laranja, Gabriel Bolaffi, Ermínia
Maricato, Milton Santos, Eduardo Fagnani, Nabil Bonduki, Francisco de Oliveira,
Adauto Lucio Cardoso, Clara Luiza Miranda, Maria Clara da Silva e muitas outras
e outros que estudaram a temática). Enfim, o que observamos é uma promoção da
financeirização da vida urbana e de toda a cidade em todos os níveis sociais:
da autoconstrução nas periferias, cortiços e favelas à indústria da construção
civil de condomínios de alto padrão e bairros ditos nobres e sofisticados.
A
verdadeira cidadania que se consolida na cidade contemporânea é a do
endividamento exponencial com financeiras e bancos, sustentada por uma política
de juros elevados e pelo comprometimento de salários e aposentadorias,
fragilizando — ainda que de modo desigual e diferenciado — todos os moradores e
moradoras das grandes cidades e espaços metropolitanos brasileiros.
Tudo
isso apesar das pressões dos movimentos sociais e de parte da sociedade civil
organizada, tais como: E-Changer Brasil, Fundação Ford, MISEREOR, Movimento de
Trabalhadoras e Trabalhadores Sem-Teto (MTST), Movimento Sem-Teto do Centro
(MTSC-SP), Fundação João Pinheiro, Coordenadoria Ecumênica de Serviço (CESE),
Fórum Nacional da Reforma Urbana, Movimento Nacional de Direitos Humanos,
Campanha Nacional Despejo Zero, União Nacional por Moradia Popular (UNMP),
Aliança Internacional de Habitantes, Organizações Não Governamentais (ONGs),
Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), Frente de Luta por Moradia,
Movimento de Luta nos Bairros, Vilas e Favelas (MLB), Rede Mulher e Habitat
(RMH), Habitat International Coalition (HIC), Secretaria Latinoamericana
Vivienda y Habitat Popular (SELVIP), Movimento pelo Direito à Moradia (MDM),
entidades privadas sem fins lucrativos (terceiro setor), bem como as redes
políticas e sociais que se engajam nas instâncias de participação cidadã e
democrática, no controle social das políticas públicas e na efetivação dos
direitos fundamentais, políticos, sociais e humanos (Sistema Nacional de
Habitação de Interesse Social, Estatuto da Cidade, Fundo de Desenvolvimento
Social – FDS, Programa Bolsa Família).
O
leitor pode até acreditar que seja inútil ou sem sentido citar tantas
instituições, entidades e movimentos sociais que lutam em prol do direito à
moradia digna, do direito à cidade para todos e todas e pela reforma urbana
digna, participativa, sustentável e justa.
Entretanto,
o intuito deste texto é realçar sua existência e ampliar sua visibilidade, uma
vez que o texto circulará nas redes sociais e na internet, ampliando seu
alcance e possibilidade de acesso, permitindo ao leitor comum reconhecer a
permanente luta social e política pela melhoria das condições de vida e
trabalho nas cidades brasileiras, bem como discutir as decisões tomadas pela
coalizão — chamada tecnicamente de governança e governabilidade — entre Estado,
mercado e grupos de interesses (heterogêneos, hierarquizados e com alianças
instáveis e contingentes) para manter e consolidar o processo de monopolização
dos usos, das ocupações, dos fluxos, dos objetos, das relações sociais, das
riquezas coletivas, do mundo do trabalho. Dessa forma, marginalizando,
expulsando, precarizando, tutelando e expropriando “a coletividade, grupos
sociais desfavorecidos e vulneráveis, minorias e das futuras gerações.”
Essa
lógica de dominação financeira e de controle da força de trabalho, na servidão
por precariedade e por baixos salários, mantém o trabalhador preso ao mundo do
trabalho para pagar seus empréstimos consignados — seja funcionário público ou
trabalhador da iniciativa privada —, criando, de fato, com o apoio do Estado e
da política econômica, um profundo processo de mercadorização das relações
sociais urbanas.
Para o
leitor poder compreender os dilemas e limites da política habitacional
brasileira, em especial o Programa Minha Casa, Minha Vida no período de 2009 a
janeiro de 2021 (sua primeira extinção), sugerimos a leitura e o estudo da
pesquisa realizada pelos pesquisadores e pesquisadoras Fillipe Maciel Euclydes,
Vinicius de Souza Moreira, Suely de Fátima Ramos Silveira divulgada no artigo
“O processo de política pública do ‘Minha Casa, Minha Vida’: criação,
desenvolvimento e extinção”, publicado na Revista de Sociologia e Política
(2022).
Sob o
discurso do acesso ao direito à cidade, direito ao consumo, do
empreendedorismo, da autonomia do trabalho e das melhorias urbanas,
subordinam-se a política habitacional e as políticas públicas como
sustentáculos do processo de financeirização da economia brasileira e da
destituição de autonomia dos trabalhadores e trabalhadoras ao realizarem o
sonho da casa própria — entrando em uma espiral de dívidas vantajosas para os
bancos, para o mercado financeiro e para as financeiras, mas negativas e incontroláveis
para as cidades e para os cidadãos de baixa renda, com diminuto, restrito e
seletivo acesso às arenas de poder e de gestão da vida coletiva e individual
das grandes cidades e espaços metropolitanos.
Diante
do exposto neste ensaio, não basta denunciar a financeirização da política
habitacional como patologia do capitalismo dependente, periférico e
globalizado: é necessário nomear seus responsáveis, identificar seus mecanismos
e construir alternativas que coloquem o direito à cidade — e não a
rentabilidade do capital — no centro da agenda política e urbana.
Isso
significa, em primeiro lugar, romper com o consenso que transforma a casa
própria em horizonte único e inquestionável da política habitacional e do
mercado imobiliário (formal e informal), reconhecendo que morar não é sinônimo
de ser proprietário e que o aluguel social, a locação acessível, a
requalificação de imóveis vazios e a regularização fundiária plena são
respostas igualmente legítimas — e frequentemente mais justas — ao déficit
habitacional brasileiro.
Em
segundo lugar, exige-se enfrentar a especulação imobiliária como problema
político, e não apenas como consequência inevitável do mercado: tributar
progressivamente a propriedade urbana ociosa, democratizar o acesso à terra e
fazer cumprir a função social da propriedade — conforme determinam a
Constituição Federal de 1988 e o Estatuto da Cidade de 2001 — são medidas
concretas, legalmente respaldadas e politicamente postergadas por décadas de
conivência entre o Estado e o capital imobiliário, como demonstraram, ao longo
de décadas de pesquisa, Luciana Lago, Raquel Rolnik, Luiz César Queiroz
Ribeiro, Marcelo Lopes Souza, Pedro Abramo, Nabil Bonduki, Suzana Pasternak,
Lucia Maria Machado Bógus e Cláudio Zanotelli.
Em
terceiro lugar, é indispensável reconhecer que a financeirização da moradia não
é um fenômeno isolado: ela é parte de uma racionalidade mais ampla que
transforma direitos em produtos, cidadãos em consumidores e cidades em
portfólios de investimento.
Combatê-la
requer, portanto, uma agenda política que articule reforma urbana,
democratização do crédito, fortalecimento da habitação de interesse social e
controle popular sobre o uso e a ocupação do solo.
A
cidade que queremos — justa, diversa, plural, acessível, ecumênica e
democrática — não virá do mercado, do voluntarismo político nem da benevolência
dos governos progressistas que se rendem às exigências do capital financeiro.
Ela virá, como sempre veio, da organização, da luta e da insistência dos que
moram nas periferias, nas favelas, nos cortiços e nos territórios que o poder
insiste em ignorar, remover ou criminalizar.
É
desses lugares e dessas pessoas que emerge a única política habitacional
verdadeiramente legítima: aquela que começa pelo reconhecimento incondicional
do direito de todos e todas a habitar a cidade com dignidade, autonomia e
pertencimento (Carlos Bernardo Vainer, Ana Clara Torres Ribeiro, Eduardo
Marques, Ana Fani Alessandri Carlos e Maria Encarnação Beltrão Sposito).
Como
afirma o advogado Cristiano Muller, ex-consultor jurídico do Centro pelo
Direito à Moradia contra Despejos – COHRE (2007-2010), ex-conselheiro no
Conselho Nacional das Cidades (2008-2010), ex-conselheiro no Conselho Estadual
de Direitos Humanos do estado do Rio Grande do Sul (2017-2020) e assessor
jurídico no Centro de Direitos Econômicos e Sociais-CEDES: “Usufruir da cidade
significa, portanto, ter acesso a todos os recursos que uma cidade deveria
disponibilizar para os seus moradores, como ter um lugar onde viver
adequadamente”
Com
isso, destacamos as conflituosidades, limitações e contradições que envolvem as
políticas habitacionais, compartilhando a postagem de protesto e de desabafo,
com o título “Por que o Governo Prioriza as empreiteiras em detrimento do
movimento popular?”, no Instagram do Movimento Nacional de Luta pela Moradia
(MNLM) do Rio de Janeiro, no qual se denuncia e se cobra do Governo Federal
reconsiderações políticas, administrativas e sociais diante das medidas
recentes no desenho do Programa Minha Casa Minha Vida no qual houve a
priorização considerável das demandas dos segmentos socioeconômicos
pertencentes às classes médias urbanas:
“Enquanto
a burocracia trava a habilitação das entidades do movimento popular e paralisa
a seleção e contratação de seus projetos, o governo segue “adoçando” a boca da
classe média e das empreiteiras.
A conta
é simples — e ignorada:
A faixa
de 0 a 3 salários mínimos concentra cerca de 80% do déficit habitacional.
Então,
fica a pergunta:
O que o
governo não está enxergando nessa matemática básica?
As
propostas dos movimentos populares representam menos de 2% do montante
destinado às empreiteiras. Ainda assim, são essas iniciativas que enfrentam
todos os tipos de entraves e dificuldades.
Hoje,
há cerca de 60 mil propostas presas no labirinto burocrático da Caixa, barradas
por análises que repetem o carimbo de “não viável” e resultam em habilitação
zero.
A quem
interessa inviabilizar a organização popular? Quem no governo prefere priorizar
as empreiteiras em detrimento do movimento popular?
Se
houvesse, de fato, prioridade em enfrentar o déficit habitacional, não faria
sentido avançar em outras faixas de renda sem antes garantir um planejamento
sólido para zerar o déficit da população mais vulnerável e empobrecida.
Hoje
temos um gargalo de 60 mil unidades, propostas pelos movimentos, paralisadas no
labirinto da Caixa Econômica e agarradas na sopa de letrinhas treinada para a
análise “não viável” e “não habilitada”. A quem interessa inviabilizar a
organização popular?
É uma
escolha política. Nós não aceitaremos calados!”
Diante
dessa denúncia social e política, ganham relevância e acuidade crítica as
observações de Gabriel Feltran no texto “A atualidade de ‘A espoliação urbana”
ao analisar a proposta teórica de Lúcio Kowarick para compreender a desordem
urbana do processo de produção das cidades e espaços metropolitanos
brasileiros:
“A
aparente desordem tem assim uma lógica: a pobreza segregada dos setores sociais
periféricos e a riqueza segregada das elites não são um desvio de um pretenso
modelo virtuoso de desenvolvimento urbano e, portanto, explicável pela ideia da
ausência (a propalada ‘ausência de Estado’, ou a ‘ausência de planejamento
urbano’) — algo que poderia ser sanado em segunda etapa, quando o bolo já
tivesse crescido e as tecnicalidades modernas disponíveis”.
Terminamos
com o alerta de Edésio Fernandes, em sua carta “Regularização Fundiária no
governo Lula” — enviada ao Ministério da Justiça sobre a proposta de
regularização fundiária exposta pelo Ministro da Justiça —, de que precisamos
dar uma maior atenção social, técnica e política para os efeitos negativos
sobre o acesso à moradia pelos grupos sociais mais vulneráveis política, social
e economicamente, os quais, ao não serem contemplados pelo mercado formal (de
aluguel e de imóveis) nem pelas políticas públicas de urbanização,
infraestrutura e habitação, tornam-se reféns do mercado informal. Fernandes
relata, de maneira reflexiva, crítica e didática — buscando, assim, fomentar o
debate público e dar visibilidade às contradições urbanas experimentadas pelas
grandes cidades e espaços metropolitanos diante de grandes investimentos
públicos e privados em políticas urbanas:
Do
ponto de vista jurídico, o que está em jogo é o reconhecimento pelo Estado do
direito social de moradia, que não pode ser reduzido tão somente ao
reconhecimento do direito individual de propriedade plena. O direito de
propriedade individual é apenas uma das muitas formas de direito que podem ser
consideradas quando do reconhecimento de direitos aos ocupantes das áreas
informais — sobretudo em áreas públicas (FERNANDES, 2003).
Efeitos
perversos, muitas vezes promovendo uma maior segregação socioespacial e a
gentrificação das áreas — ao invés de promover a inclusão das áreas e suas
comunidades. Políticas meramente formais de legalização podem até garantir a
segurança individual da posse/propriedade (no sentido de que os moradores não
serão removidos/despejados), mas não protegem os moradores da chamada expulsão
pelo mercado ou da crescente vulnerabilidade em áreas dominadas pelo tráfico de
drogas (FERNANDES, 2003).
Fonte:
Por Igor Vitorino da Silva, em Outras Palavras

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