segunda-feira, 20 de abril de 2026

Por que o Golfo Pérsico tem mais petróleo do que qualquer outro lugar do planeta?

Costuma-se dizer que os países do Golfo Pérsico são simultaneamente abençoados e amaldiçoados por suas vastas reservas de petróleo e gás.

Ao longo de milhões de anos, forças geológicas fizeram da região um polo energético global, o que explica por que uma guerra como a atual pode desencadear uma crise energética mundial.

Como geólogo do petróleo que estudou a área, ainda me surpreendo com a dimensão de seus depósitos de hidrocarbonetos. Há, por exemplo, mais de 30 campos supergigantes, cada um com 5 bilhões ou mais de barris de petróleo bruto, ao redor do Golfo Pérsico.

Os poços na região produzem entre duas e cinco vezes mais petróleo por dia do que até mesmo os melhores poços do Mar do Norte e da Rússia.

A geociência moderna identificou diversos fatores-chave nas rochas que tornam uma região particularmente rica em petróleo, incluindo sua capacidade de gerar e reter hidrocarbonetos.

Na região do Golfo Pérsico, todos esses fatores estão presentes em níveis ideais ou próximos disso.

Por sua enorme abundância e facilidade de produção, a região é, simplesmente, incomparável.

<><> Uma breve história

Os humanos já conheciam a presença de hidrocarbonetos na região muito antes de as inundações formarem o golfo Pérsico, no final da última Idade do Gelo, entre 14 mil e 6 mil anos atrás.

Exsudações naturais de petróleo e gás são frequentes ao longo de rios e vales em diversas partes da região.

Milhares de anos antes da Era Comum (período posterior a Cristo), populações utilizavam o betume, um tipo de petróleo pesado, para produzir argamassa e impermeabilizar embarcações.

A primeira descoberta moderna de petróleo ocorreu em 1908, em um conhecido ponto de exsudação no oeste do Irã.

Nas décadas de 1950 e 1960, período de rápida expansão da exploração de petróleo e gás, ficou evidente que nenhuma outra região do planeta apresentaria tamanha abundância.

Outras áreas com enormes volumes de petróleo e gás foram descobertas, como o oeste da Sibéria, na Rússia, e, mais recentemente, a bacia do Permiano, nos EUA, mas nenhuma se compara à magnitude das reservas no Golfo Pérsico nem ao alto rendimento com que o petróleo e o gás podem ser produzidos na região.

<><> Cenário geológico

A região do Golfo Pérsico está situada no ponto de encontro de duas placas tectônicas: a placa Arábica, ao sul, e a placa Eurasiática, a leste e ao norte.

Essa colisão aconteceu há cerca de 35 milhões de anos e resultou em um cenário dinâmico, no qual as camadas rochosas foram dobradas e fraturadas e, em níveis mais profundos, transformadas por intenso calor e pressão.

As características geológicas diferem significativamente entre os dois lados do golfo. No lado iraniano, a cordilheira de Zagros se estende por cerca de 1,8 mil km, do Golfo de Omã até a fronteira com a Turquia.

Parte do grande sistema alpino-himalaio, a Cordilheira de Zagros é formada por rochas intensamente dobradas e fraturadas, criadas nos últimos 60 milhões de anos pelas colisões das placas da África, Arábia e Índia com a Eurásia.

Na costa arábica do Golfo Pérsico, esse tipo de dobramento e fraturamento não ocorreu.

Em vez disso, as forças compressivas da colisão deformaram uma plataforma rígida de rocha dura e profunda, conhecida como "rocha basal", criando amplas estruturas em forma de domo, de grande dimensão, que se estendem por dezenas, até centenas, de quilômetros quadrados.

Sob o Golfo Pérsico encontra-se uma bacia preenchida por sedimentos erodidos a partir da elevação da Cordilheira de Zagros. Em suas áreas mais profundas, a bacia foi submetida às altas temperaturas e pressões necessárias para a geração de petróleo e gás.

Em síntese, é um ambiente altamente favorável à geração e ao armazenamento de hidrocarbonetos em grande escala.

<><> Rochas que geram petróleo

O petróleo e o gás se formam a partir de material orgânico, como zooplâncton e fitoplâncton marinhos, acumulado em rochas como folhelhos e calcários, submetidas a altas temperaturas e pressões.

Quando essas rochas têm pelo menos 2% de material orgânico, são consideradas de boa qualidade para gerar petróleo e gás.

A região do golfo tem muitas camadas desse tipo de rocha, algumas muito espessas, abundantes e ricas em matéria orgânica.

Exemplos disso são as formações de Hanifa e Tuwaiq, na costa arábica do golfo, formadas durante o período Jurássico, entre 200 milhões e 145 milhões de anos atrás, e a formação de Kazhdumi, no Irã, formada no período Cretáceo, entre 145 milhões e 66 milhões de anos atrás.

Essas rochas apresentam entre 1% e 13% de conteúdo orgânico e, em alguns pontos, até mais.

<><> Estruturas de petróleo e gás

As camadas de rochas dobradas e fraturadas da região, assim como seus domos, são altamente favoráveis ao aprisionamento de hidrocarbonetos.

As dobras da Cordilheira de Zagros — consideradas emblemáticas entre geólogos pelas formas impressionantes visíveis em imagens de satélite — abrigam centenas de bilhões de barris de petróleo e grandes volumes de gás.

Uma observação rápida de um mapa de petróleo e gás da região do Golfo Pérsico revela campos com formato alongado, semelhantes a "salsichas", que se estendem de noroeste a sudeste e refletem importantes estruturas dobradas.

Essas formações incluem centenas de jazidas individuais de diferentes tamanhos, que se estendem do sul do Irã atravessando o nordeste do Iraque.

Na placa arábica, as grandes estruturas em forma de domo deram origem a acumulações particularmente vastas de petróleo e gás. Entre elas está o campo petrolífero de Ghawar, na Arábia Saudita — o maior do mundo —, que pode produzir mais de 70 bilhões de barris de petróleo.

O campo de gás natural South Pars–North Dome, compartilhado entre Irã e Catar, pode produzir ao menos 46 trilhões de metros cúbicos de gás — um conteúdo energético equivalente a mais de 200 bilhões de barris de petróleo.

As rochas-reservatório mais importantes são os calcários, nos quais algumas porções foram parcialmente dissolvidas, o que facilita o fluxo de petróleo e gás.

Nos reservatórios de Zagros, os fluidos escoam por fraturas formadas pelo dobramento e por falhas resultantes da colisão entre placas tectônicas.

Em locais como o reservatório Arab-D, no campo de Ghawar, na Arábia Saudita, e o calcário de Asmari, presente em diversos campos de Zagros, essas rochas de alta qualidade para armazenamento de petróleo se estendem por áreas vastas — de centenas a até milhares de quilômetros quadrados.

Não há nada dessa magnitude em nenhuma outra parte do planeta, nem em terra nem no mar, o que evidencia a singularidade da geologia petrolífera da região do golfo Pérsico.

<><> Possibilidades futuras

O efeito combinado desses fatores é que cerca de metade das reservas convencionais de petróleo do mundo e 40% do gás estão concentrados em apenas 3% da superfície terrestre.

Avaliações do Serviço Geológico dos EUA indicam que, mesmo após mais de um século de perfuração e produção, ainda há grandes jazidas de petróleo e gás a serem descobertas na região do Golfo Pérsico.

Em um relatório de 2012 que analisou a Península Arábica e a Cordilheira de Zagros, a agência estimou que poderia haver até 86 bilhões de barris de petróleo e 9,5 trilhões de metros cúbicos de gás nas rochas, além das quantidades já descobertas.

Mais petróleo e gás também poderiam ser produzidos com o uso de técnicas de perfuração horizontal e fracking (fraturamento hidráulico), desenvolvidas nos EUA nas décadas de 2000 e 2010.

A Arábia Saudita e os Emirados Árabes Unidos vêm testando esses métodos em seus campos petrolíferos. Ainda é cedo para avaliar o grau de sucesso, mas estudos indicam que eles podem ampliar ainda mais a produção.

•        Teerã fecha novamente o Estreito de Ormuz, em resposta ao bloqueio dos EUA a seus portos

A sucessão de anúncios contraditórios sobre o Estreito de Ormuz nas últimas 24 horas expõe um cenário de incerteza crescente no Golfo Pérsico, com impactos diretos sobre o comércio global de energia.

Segundo a mídia estatal iraniana, o Irã voltou a fechar a passagem estratégica neste sábado (12/4), por volta das 05h30 (horário de Brasília), em resposta à decisão dos Estados Unidos de manter o bloqueio naval aos portos iranianos.

Autoridades iranianas afirmam que o fechamento ocorre porque os EUA "não cumpriram sua parte" no entendimento mais recente, ao manter o bloqueio de navios com destino ou origem em portos iranianos.

A medida representa uma reviravolta em relação ao que havia sido anunciado poucas horas antes. Na sexta-feira, por volta das 10h (horário de Brasília), o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o estreito permaneceria "completamente aberto" para navios comerciais durante o período de cessar-fogo.

Minutos depois, o presidente dos EUA, Donald Trump, agradeceu a declaração, mas deixou claro que o bloqueio americano continuaria "até que um acordo com o Irã esteja 100% concluído".

Segundo informações compartilhadas pelo Comando Central dos EUA (CentCom) neste sábado (18/4), 23 navios foram forçados a mudar de rota nas proximidades do Estreito de Ormuz desde o início do bloqueio, em 13 de abril — um indicativo do impacto direto da medida sobre o tráfego marítimo na região.

A situação atual contrasta diretamente com o discurso da Casa Branca, que havia indicado uma normalização rápida do tráfego marítimo na região, e a troca de mensagens marcou o início de uma sequência de declarações desencontradas entre Washington e Teerã.

Horas mais tarde, por volta das 19h (horário de Brasília), o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou Trump de fazer "sete afirmações falsas em uma hora" e indicou que, com a continuidade do bloqueio, o estreito não permaneceria aberto.

Na manhã de sábado, a situação voltou a mudar.

Por volta das 05h30 (horário de Brasília), as Forças Armadas iranianas anunciaram que retomariam o controle total da via marítima, afirmando que a passagem de embarcações passaria a depender de autorização do Irã. Em comunicado, autoridades iranianas classificaram o bloqueio americano como "pirataria" e "roubo marítimo".

Os iranianos afirmam que a situação voltou ao estado de alguns dias atrás, com o estreito sob controle estrito das forças armadas do país.

Um petroleiro no Estreito de Ormuz relatou ter sido abordado e alvejado por duas lanchas operadas pela Guarda Revolucionária Islâmica do Irã, segundo as Operações de Comércio Marítimo do Reino Unido (UKMTO).

O incidente ocorreu a cerca de 37 km a nordeste de Omã, e o navio e sua tripulação estão a salvo. Em outro episódio, ao menos dois navios mercantes relataram terem sido atingidos por disparos enquanto tentavam cruzar a rota, de acordo com fontes ouvidas pela agência Reuters.

Dados do site de monitoramento MarineTraffic indicam que alguns petroleiros chegaram a cruzar o estreito nas primeiras horas do dia. No entanto, após os novos anúncios, várias embarcações parecem ter alterado suas rotas. Um dos casos é o do petroleiro Minerva Evropi, de bandeira grega, que teria feito um retorno em direção ao porto de origem.

Fontes do setor marítimo também disseram à Reuters que embarcações comerciais receberam mensagens de rádio da Marinha iraniana informando que o Estreito de Ormuz havia sido novamente fechado. Segundo essas fontes, os petroleiros foram avisados de que nenhuma embarcação está autorizada a atravessar a passagem.

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, por onde passa uma parcela significativa do petróleo global. Qualquer interrupção no fluxo de navios na região tende a gerar volatilidade nos mercados internacionais.

A escalada ocorre em meio a negociações frágeis entre EUA e Irã. Trump afirmou recentemente que Teerã teria "concordado com tudo", incluindo a remoção de urânio enriquecido do país — alegação negada por autoridades iranianas.

O presidente americano também sugeriu que um acordo histórico com Teerã poderia estar próximo — avaliação que não se confirma com a nova decisão iraniana.

Para a correspondente internacional da BBC, Lyse Doucet, o cenário atual é marcado por uma "avalanche de declarações contraditórias", refletindo negociações ainda longe de um consenso.

Apesar da retórica intensa, não há, até o momento, sinais de confronto direto na região. Um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah no Líbano parece estar sendo mantido, o que pode ajudar a evitar uma escalada maior — embora incidentes isolados ainda tenham sido registrados.

No terreno, a situação interna do Irã também chama atenção.

Um apagão digital imposto pelo governo já dura 50 dias, segundo a organização NetBlocks, isolando o país da internet global. O acesso alternativo, via sistemas como o Starlink, tem custo elevado — cerca de US$ 6 por gigabyte — em um país onde o salário médio mensal gira entre US$ 200 e US$ 300. O uso dessas conexões pode levar a penas de até dois anos de prisão.

Ao mesmo tempo, o Irã começou a reabrir parcialmente seu espaço aéreo. A medida entrou em vigor às 04h30 (horário de Brasília), com a retomada gradual de voos internacionais em partes do território, após semanas de fechamento devido aos ataques envolvendo forças americanas e israelenses.

Ainda assim, há expectativa de que uma segunda rodada de negociações possa ocorrer, após uma primeira reunião maratona entre representantes dos dois países no Paquistão, no fim de semana passado, que terminou sem acordo.

Em meio à escalada, uma mensagem atribuída ao líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, foi divulgada por veículos estatais por ocasião do Dia do Exército. O texto não faz menção direta nem ao Estreito de Ormuz nem às negociações com os Estados Unidos — dois dos temas centrais do momento —, mas afirma que as forças navais iranianas estão prontas para fazer "os inimigos provarem o gosto de novas derrotas", sem dar mais detalhes. Khamenei não aparece em público desde que assumiu o cargo, no início de março.

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o país está "determinado a monitorar e controlar" o trânsito no Estreito de Ormuz até o fim definitivo da guerra e o estabelecimento de uma paz duradoura na região. Segundo o órgão, isso incluirá a coleta de informações das embarcações, a emissão de certificados de trânsito e a cobrança de taxas.

Em outra declaração, o órgão disse que o bloqueio naval dos EUA é visto por Teerã como uma "violação do cessar-fogo" e que, enquanto a restrição à navegação continuar, o Irã impedirá qualquer reabertura — ainda que parcial — da passagem.

O conselho acrescentou que novas propostas apresentadas pelos Estados Unidos para encerrar o conflito estão sendo analisadas, mas que ainda não há resposta oficial.

Falando a jornalistas na Casa Branca, o presidente dos EUA, Donald Trump, disse, na manhã deste sábado, que há "conversas muito boas" em andamento com o Irã, mas acusou Teerã de agir de forma provocativa.

Segundo ele, os líderes iranianos querem fechar o Estreito de Ormuz, mas os Estados Unidos não vão permitir ser "chantageados". Trump acrescentou que o país está adotando uma postura firme diante da crise.

Para analistas, há sinais de algum avanço diplomático, como a possibilidade de um memorando de entendimento entre EUA e Irã para viabilizar novas negociações. Ainda assim, um acordo mais amplo — especialmente diante de décadas de hostilidade entre os dois países — permanece distante.

 

Fonte: Por Scott L. Montgomery, para The Conversation/BBC News

 

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