segunda-feira, 20 de abril de 2026

Gustavo Tapioca: "Narcisismo maligno" e um Trump em "declínio cognitivo"

O que antes era tratado como estilo passou a ser visto como fator de instabilidade global. E o Brasil pode estar no centro dessa engrenagem.  

A reportagem publicada em 16 de abril de 2026 pelo NYT marca mais do que uma mudança de tom. Marca uma ruptura. Pela primeira vez de forma consistente, o jornal que melhor expressa o pensamento do establishment americano deixa de tratar o comportamento de Donald Trump como excentricidade política e passa a descrevê-lo como variável de risco. 

Sem recorrer a termos clínicos, o NYT registra um padrão inequívoco: decisões erráticas, impulsividade crescente, escalada simultânea de tensões internacionais e esvaziamento dos mecanismos tradicionais de contenção. Mais importante do que a descrição são as fontes — assessores, diplomatas, especialistas em segurança e relatos internos do próprio processo decisório. 

O que emerge não é opinião. É percepção institucional. E ela aponta para um fato incômodo: a previsibilidade — base mínima de qualquer sistema internacional estável — está se dissolvendo no centro do poder. 

<><> Da instabilidade ao risco sistêmico 

Não se trata de episódios isolados, mas de recorrência. Irã, China e América Latina aparecem como frentes simultâneas de tensão, articuladas por uma lógica de confronto permanente. Ameaças sobrepostas, recuos abruptos, contradições públicas e decisões desalinhadas formam um padrão que não estabiliza — intensifica. 

Em termos estratégicos, isso significa aumento do risco de erro de cálculo. Em termos reais, significa a possibilidade concreta de crises produzidas não por necessidade, mas por descontrole. O que está em jogo já não é apenas a política externa americana. É a estabilidade do sistema internacional. 

<><> “Profundamente desinformado” e “sem compreensão das consequências” 

Se o NYT abriu a porta, são vozes como Jeffrey Sachs e John Gartner que expõem o que há por trás dela — sem mediação, sem eufemismo, sem concessão. 

Sachs, economista de renome internacional, professor da Columbia University, Nova York, e ex-conselheiro de organismos como a ONU, tem sido direto: Trump é “extremamente perigoso” em matéria de guerra e paz. Não por estratégia, mas por incapacidade de operar dentro de parâmetros racionais estáveis. Em suas análises, Sachs afirma que Trump “é de um líder profundamente desinformado” e “sem compreensão das consequências”, cuja impulsividade converte decisões de Estado em apostas de alto risco. Não há cálculo consistente. Há volatilidade. 

<><> Trump apresenta traços de “narcisismo maligno” e “declínio cognitivo” 

John Gartner, psicólogo clínico e ex-professor da Johns Hopkins University, além de um dos articuladores do movimento Duty to Warn (Dever de Alertar) vai além da política e entra no território mais sensível: o da estrutura psíquica do poder. Ele sustenta que Trump apresenta traços de narcisismo maligno — um padrão descrito na psicologia como a combinação de grandiosidade extrema, ausência de empatia, paranoia e impulso para dominar ou destruir adversários. 

Mais grave ainda: Gartner identifica sinais de declínio cognitivo — perda progressiva de capacidade de concentração, coerência e processamento de informações complexas. Em um líder comum, isso já seria um problema. No comando da maior potência militar do planeta, torna-se uma ameaça. 

A convergência entre Sachs e Gartner não é apenas teórica. É estrutural. 

Quando economia e psicologia passam a descrever o mesmo fenômeno — por caminhos distintos — o debate deixa de ser interpretativo. 

Passa a ser um alerta. 

<><> A “Teoria do Louco” saiu do controle 

Durante décadas, a chamada “Teoria do Louco”, associada a Richard Nixon, foi usada para explicar a simulação de irracionalidade como instrumento de pressão geopolítica. 

Mas havia um limite: o controle. No cenário atual, esse limite desaparece. 

A imprevisibilidade não é mais encenação estratégica. 

É padrão de comportamento. 

E isso elimina a última margem de previsibilidade do sistema. 

Brasil 2026: entre autonomia e vulnerabilidade 

Nesse contexto, o Brasil deixa de ser espectador. Passa a ser peça. 

A eleição presidencial de 2026 ocorre sob essa nova lógica global. De um lado, Luiz Inácio Lula da Silva defende uma ordem multipolar, com fortalecimento dos BRICS e aprofundamento das relações com a China, buscando preservar autonomia e ampliar margem de decisão soberana. 

Do outro, o campo bolsonarista — representado por Flávio Bolsonaro — reforça, em fóruns como o CPAC, o alinhamento direto ao projeto político de Donald Trump. Analistas veem nessas posições a disposição de integrar o Brasil a uma estratégia mais ampla de reorganização hemisférica sob liderança americana, inclusive em áreas sensíveis como recursos naturais estratégicos. 

Mas há um problema que atravessa essa escolha: 

o centro dessa estratégia é instável. 

E um eixo instável não organiza. 

Desorganiza. 

<><> A opinião pública já respondeu 

Se há dúvida no plano institucional, ela não existe no plano social. As pesquisas mais recentes mostram que Donald Trump governa sob rejeição majoritária consistente. Levantamentos de abril de 2026 indicam aprovação na faixa de 36% a 40%, enquanto a desaprovação oscila entre 55% e 60%. 

Não se trata de oscilação conjuntural. Trata-se de padrão. 

A queda vem sendo contínua ao longo do ano, impulsionada por fatores concretos: desgaste com a guerra no Irã, pressão inflacionária — especialmente no custo de vida — e perda de apoio em segmentos decisivos, como eleitores independentes e parte da classe trabalhadora. 

O dado central não é apenas a baixa aprovação, mas sua estabilidade negativa. Trump mantém uma base fiel, mas governa com maioria contrária — um cenário que historicamente fragiliza qualquer presidência. Em termos políticos, isso significa uma coisa que: Trump perdeu o país antes de perder o cargo. 

<><> Existe saída institucional? 

A resposta curta é sim. Mas ela é menos jurídica do que política. 

Nos Estados Unidos, há dois caminhos formais para afastar um presidente. O primeiro é o impeachment, previsto para casos de crimes graves e abusos de poder. Foi o mecanismo que levou à queda de Nixon — não por incapacidade, mas por ilegalidades. Esse caminho não depende de diagnóstico psicológico. Depende de maioria política no Congresso. 

O segundo — mais sensível ao debate atual — é a 25ª Emenda da Constituição dos Estados Unidos. Ela permite afastar o presidente quando ele é considerado incapaz de exercer suas funções. A formulação é ampla — e pode incluir incapacidade mental. Mas há um ponto decisivo: não se trata de um processo clínico. Trata-se de uma decisão de poder. 

Para que isso ocorra, o vice-presidente e a maioria do gabinete precisam declarar a incapacidade. O presidente pode contestar. E, nesse caso, o Congresso decide. Ou seja: não basta haver instabilidade. É preciso haver ruptura dentro do próprio núcleo que sustenta o presidente. 

<><> Diagnósticos de Gartner não derrubam governos 

É nesse terreno que entram as análises de John Gartner. Seus diagnósticos — narcisismo maligno e sinais de declínio cognitivo — não derrubam governos. Mas corroem o ambiente político, alimentam a pressão pública e ampliam o custo de sustentação de um líder. 

Nos bastidores de Washington, o desconforto já não é discreto. Crescem as discussões, as investigações e as articulações. Ainda não há um processo consolidado capaz de levar ao afastamento imediato de Trump. Mas há algo mais importante — e mais perigoso: a erosão da sustentação política. 

Na história americana, presidentes não caem quando erram. Caem quando deixam de ser sustentáveis. E quando esse ponto é atingido, a queda deixa de ser hipótese. Passa a ser questão de tempo. 

<><> O ponto de não retorno 

A questão já não é se Trump é “insano”. Essa é uma palavra pequena para um problema grande. A questão é outra — e não admite mais fuga: 

o que acontece quando o principal fator de instabilidade do sistema internacional deixa de ser o conflito entre Estados e passa a ser o comportamento do líder da maior potência militar do planeta? 

O The New York Times começou a admitir. Jeffrey Sachs alertou. John Gartner diagnosticou. E o mundo, lentamente, começa a encarar o que durante anos evitou dizer. 

Não se trata mais de divergência política. Não se trata mais de estilo de liderança. Não se trata mais de interpretação. Trata-se de risco. 

Risco real. Risco crescente. Risco concentrado. 

E, pela primeira vez em décadas, um risco que não nasce do confronto entre nações — mas da instabilidade no topo do poder global. Se isso não for contido, o próximo erro não será apenas mais um episódio. Será um ponto de ruptura. E, quando esse tipo de ruptura acontece, a história não pergunta quem estava certo. 

Ela cobra quem ignorou os sinais.

¨      Guerra no Irã expõe fragilidade econômica dos EUA e eleva pressão interna

Trump busca uma saída diplomática após semanas de guerra com o Irã, pressionado pela disparada dos preços da energia, pela inflação e pelo desgaste político interno, enquanto Teerã usa o controle do estreito de Ormuz para expor a vulnerabilidade econômica dos EUA e influenciar as negociações.

Sete semanas de guerra expuseram um ponto sensível do governo dos Estados Unidos: a vulnerabilidade econômica. Embora os ataques conjuntos de Washington e Israel não tenham derrubado a liderança iraniana nem forçado Teerã a aceitar todas as exigências apresentadas, o conflito deixou claro para aliados e rivais que a pressão interna sobre a economia norte-americana limita o alcance das ações militares do presidente Donald Trump.

Mesmo com o anúncio da reabertura do estreito de Ormuz, a crise revelou os limites da disposição da Casa Branca em suportar custos domésticos, segundo a Reuters.

O aumento dos preços da gasolina, a inflação em alta e a queda nos índices de aprovação levaram Trump a buscar rapidamente uma saída diplomática, após semanas defendendo a ofensiva com base em supostas ameaças iminentes ligadas ao programa nuclear iraniano.

O Irã sofreu danos militares significativos, mas demonstrou capacidade de impor custos econômicos globais, desencadeando o que analistas descrevem como o pior choque energético da história.

Embora os EUA não dependam diretamente do petróleo que deixou de circular pelo estreito, o impacto sobre os preços da energia atingiu consumidores e elevou o risco de recessão, segundo alertas do Fundo Monetário Internacional (FMI).

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pressão política também cresceu. Com as eleições de meio de mandato se aproximando, parlamentares republicanos temem o desgaste provocado por uma guerra impopular. De acordo com a apuração, Teerã percebeu essa fragilidade e usou o controle sobre a rota estratégica para forçar Washington a negociar.

A Casa Branca insiste que mantém o foco na agenda econômica, mesmo enquanto tenta fechar um acordo com o Irã. Mas a guinada abrupta de Trump, que passou de ataques aéreos à diplomacia em 8 de abril, refletiu a pressão dos mercados financeiros e de setores de sua própria base, especialmente agricultores afetados pela interrupção no fornecimento de fertilizantes e consumidores impactados pelo aumento das passagens aéreas.

trégua de dez dias entre Israel e Líbano mediada pelos EUA trouxe alívio temporário aos mercados, com queda acentuada nos preços do petróleo. Trump declarou rapidamente o estreito seguro e afirmou que um acordo estava próximo, embora fontes iranianas tenham indicado que ainda havia divergências importantes.

Especialistas afirmaram à reportagem que, mesmo com um cessar-fogo duradouro, os danos econômicos levarão meses ou anos para serem revertidos. Um ponto central das negociações envolve o estoque iraniano de urânio altamente enriquecido, que autoridades norte-americanas afirmam ter sido enterrado por ataques anteriores.

Trump disse que o acordo prevê cooperação para recuperar o material e levá-lo aos EUA, algo que Teerã nega ter aceitado. Paralelamente, o apelo inicial do presidente para que iranianos derrubassem seu governo não teve qualquer efeito.

<><> A condução unilateral da guerra deixou aliados desconfortáveis.

Países europeus e asiáticos foram surpreendidos pela decisão de Trump de iniciar o conflito sem consulta prévia, apesar dos riscos diretos que o fechamento do estreito representava para eles.

<><>Erros de cálculo também marcaram a estratégia inicial.

Assim como na disputa comercial com a China, autoridades afirmam que Trump subestimou a capacidade iraniana de retaliar economicamente, atacando infraestrutura energética no Golfo e bloqueando uma das rotas marítimas mais importantes do mundo.

O desgaste político interno cresce. Embora a maioria da base MAGA (em referência ao lema "Make America Great Again") permaneça fiel, vozes dissidentes se multiplicam, e analistas avaliam que Trump enfrenta dificuldades para recuperar apoio entre os independentes antes das eleições de meio de mandato. A percepção de que o país está pagando um preço elevado por uma guerra evitável pode ter consequências duradouras para o governo, concluiu a mídia.

¨      A exibição de força de uma potência em declínio. Por Rogério do Nascimento Carvalho

O recente ataque militar a diversas cidades do Irã, protagonizado pela aliança Israel-EUA, culminou com a morte do aiatolá Ali Khamenei e é apenas mais um capítulo da escalada agressiva da política externa de Washington em busca de sinalizar aos demais países do globo sua supremacia de poder.

A ação dos EUA está em consonância com a doutrina de segurança nacional, que preza pelo intervencionismo de maneira a defender interesses de cunho político-estratégico. O Irã é somente um capítulo que, somado às intervenções na Venezuela e ao discurso de adquirir a Groenlândia, tem um objetivo claro: enfraquecer a arquitetura russo-chinesa que desafia a hegemonia estadunidense, enfraquecendo-a em esfera global.

O desafio, portanto, não está exclusivamente em entender o desfecho da morte do aiatolá como elemento central da disputa, mas sim em alertar potências que estão sujeitas ao poderio militar dos EUA e seus aliados. Considerando num primeiro olhar o Oriente Médio, a frágil costura entre países muçulmanos, ao se aliarem a Washington, não lhes garante segurança suficiente em eventual ataque às instalações militares, pois estes não possuem o “domo de ferro” presente em Israel. Portanto, são mais suscetíveis a ataques deliberados como resposta à ação, questionada sob a ótica do direito internacional, em território iraniano.

Há, porém, um recado sutil direcionado a endereços para além da região: Moscou e Pequim. O compromisso chinês com a Nova Rota da Seda e o da Rússia com o poderio militar pós-URSS afetam diretamente os interesses dos EUA, que enxergam o colapso de seu próprio domínio econômico. Recentes iniciativas de desdolarização em países do Brics, do qual o Irã faz parte, dão um recado para os EUA: a necessidade de intervenção. A arquitetura de Donald Trump busca atuar nas periferias em ações pontuais, com utilização de tecnologia superior, e, assim, trazer euforia aos mercados, que precificam as ações com aumento de insumos, o que perturba a economia global.

Nesse sentido, as ações do Irã se desdobram em segmentos que dificultam a construção da paz mundial. Sob a ótica econômica, o impacto mais sensível se localiza no transporte de produtos dos países vizinhos, visto que a nação iraniana se encontra sob sanções internacionais. O bloqueio do Estreito de Ormuz, um canal natural cujo ponto de estrangulamento é controlado pelo governo de Teerã, afeta o preço dos insumos no mercado internacional de forma sem precedentes, encarecendo produtos, serviços e o transporte global.

Na dinâmica da aviação civil, a constituição de hubs estratégicos nos últimos anos, em aeroportos de Doha e Dubai — cuja restrição do uso do espaço aéreo se reflete nas rotas —, aliada ao aumento da aviação, influencia o custo das passagens aéreas em nome da segurança internacional. Desta feita, os países são atingidos em escalada crescente, pois o modo de conexão não será mais seguro. Isso impacta a China pela utilização das conexões que faz com Europa, Américas e África.

Paralelamente, a política de enfrentamento contribui para desestabilizar os países do Oriente Médio, que vivem sob acordos frágeis e, ainda, com as incertezas de Trump — quem, após invocar a destruição da civilização iraniana, conclama para um inesperado cessar-fogo. Essa postura mostra que os rumos da maior potência global são instáveis, contaminando todo o mercado financeiro global.

De toda forma, a nuance geopolítica aparece de maneira clara aos países do hemisfério norte: aumentar a porcentagem de seu Produto Interno Bruto (PIB) em defesa e segurança, contribuindo para maiores investimentos militares, os quais também contam com fundos privados que aproveitam esta janela de oportunidade para fornecer meios e equipamentos aos países de ambos os lados — um lado sombrio do conflito, uma vez que demandas importantes para o futuro da civilização, como a transição energética, ficam relegadas a segundo plano.

E não podemos esperar que tréguas possam normalizar rapidamente o fluxo do transporte marítimo. Há incertezas quanto ao alcance dos recentes acordos e, ainda, quanto à precificação de seguros sobre as embarcações, à segurança da tripulação e à cobrança de pedágio pelo uso do Estreito de Ormuz, cuja utilização vem se destacando como fiel da balança no presente conflito. A retomada da segurança da navegação nos próximos dias será o desafio e definirá os contornos das narrativas dos países beligerantes nesta questão.

 

Fonte: Brasil 247/Sputnik Brasil/Diálogos do Sul Global

 

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