segunda-feira, 20 de abril de 2026

Sinésio Ferraz Bueno: Fascismo à brasileira e o pobre de direita

O filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno integrou uma equipe multidisciplinar que nos anos 1940 pesquisou a personalidade autoritária e o fascismo junto à população norte-americana. Através de questionários, entrevistas clínicas e testes projetivos, a pesquisa produziu a chamada “escala F”, um indicador empírico destinado a quantificar a vulnerabilidade do cidadão comum a discursos e práticas fascistas. Adorno estudou o fenômeno fascista através de conceitos originados da psicanálise freudiana, priorizando a centralidade do caráter emocionalmente projetivo da hostilidade dirigida contra populações socialmente marginalizadas. Um conceito da psicanálise freudiana assume grande importância para a compreensão da agressividade fascista: o “estranho”.

“Estranho” é a palavra em língua portuguesa que mais se aproxima do conceito freudiano denominado unheimlich, que significa “estranho”, “estrangeiro”, “assustador”, mas também “próximo” e “familiar”. A expressão unheimlich sintetiza sentimentos próprios a uma estranheza que assusta, incomoda, mas que é ao mesmo tempo íntima e familiar ao sujeito. A síndrome agressiva que é própria ao fascismo envolve a projetividade emocional associada ao unheimlich, e isso significa que as qualidades negativas que são projetadas nas vítimas (inferioridade, malignidade, perversidade, promiscuidade, periculosidade, etc.) representam estranheza, mas também profunda familiaridade, pois pertencem à própria estrutura emocional dos agentes do preconceito. Uma frase de Freud, citada por, Adorno, ilustra a ambiguidade do fenômeno: “o que repele por sua estranheza é, na verdade, demasiado familiar”1 A relevância do cruzamento entre a pesquisa sobre o fascismo realizada nos anos 1940 pelos teóricos da Escola de Frankfurt e o conceito sociológico do pobre de direita, elaborado pelo pesquisador Jessé Souza, torna-se evidente quando consideramos que um ser humano somente se torna consciente de si e de seu próprio valor por meio de seu reconhecimento por outros. A identidade pessoal não é uma propriedade puramente interna do sujeito, mas o resultado de processos de reconhecimento recíproco, que tornam sua própria autoestima dependente de mediações intersubjetivas.

O caráter ambivalente da projeção emocional envolvida na síndrome fascista é muito esclarecedor sobre a natureza patológica da personalidade autoritária. Ela mobiliza conteúdos reprimidos de seu próprio interior para justificar, antes de mais nada para si própria, a segregação agressiva e perseguidora voltada contra minorias no registro étnico, de gênero, de religião e de nacionalidade. Em outras palavras, o racismo, o sexismo e outros preconceitos envolvidos na síndrome fascista, são representações perversas da diferença social, que encobrem os próprios conteúdos emocionais reprimidos do sujeito agressor. O preconceito atua como um mecanismo emocional de defesa do indivíduo contra suas próprias dificuldades e desejos que parecem ameaçadores. A estigmatização obsessiva da diferença oculta, portanto, a incapacidade de aceitação e de elaboração de uma grande parte de si mesmo, que é condenada a permanecer estranha, embora seja insuportavelmente íntima e familiar.

O fascismo é um delírio social de enfrentamento muito difícil, pois sua percepção é encoberta pelo próprio padrão de normalidade da sociedade de massas. Para muitas pessoas, é “normal” ser moralista, racista, machista, homofóbico, discriminar a religião alheia, etc. É um delírio que se identifica com a normalidade, o que dificulta justamente que ele possa ser compreendido como problema a ser superado. Notadamente em sociedades culturalmente autoritárias e precariamente democráticas, como é o caso do Brasil, é normal ser fascista. A questão nevrálgica do fascismo como delírio social não está somente na segregação social que ele produz, mas também em proporcionar a satisfação de necessidades de reconhecimento social que são altamente relevantes para a identidade psicológica e autoestima dos sujeitos. Quando se estuda os motivos que levam à adesão ao fascismo, é preciso considerar que as relações intersubjetivas de reconhecimento mútuo são fundamentais para a formação da identidade das pessoas. Em outras palavras: ninguém se constitui plenamente como sujeito isoladamente, mas mediante o reconhecimento do outro. Esse é o vínculo entre a pesquisa sobre o fascismo realizada pela Escola de Frankfurt nos anos 1940 e a análise do fenômeno social do pobre de direita realizada pelo sociólogo Jessé Souza nos dias atuais.

Jessé Souza analisa o fenômeno aparentemente paradoxal de uma parcela das classes populares apoiarem e votarem em candidatos de direita e extrema-direita mesmo que esse voto contrarie seus interesses econômicos imediatos, pois esses mesmos políticos, uma vez eleitos, promovem ações que favorecem pautas neoliberais concentradoras de renda. Para o sociólogo, o apoio à direita e à extrema direita entre populações economicamente pobres se explica porque a ênfase em um discurso moralista oferece dignidade, status e validação simbólica a pessoas cotidianamente humilhadas e excluídas, que não se reconhecem no discurso das esquerdas. Isso ocorre porque os partidos de esquerda, historicamente concentrados em questões econômicas ou identitárias, se desconectaram da experiência cotidiana de pessoas economicamente desfavorecidas que são afetadas profundamente por feridas morais, relacionadas a necessidades de reconhecimento social.

O vínculo entre a atmosfera agressiva do fascismo e o fenômeno político do pobre de direita foi antecipado por Adorno, pois este expôs a manipulação fascista exercida pelos líderes de massas como um acontecimento que envolve o apoio popular a objetivos completamente incompatíveis com seu próprio autointeresse racional. Jessé Souza chama atenção para a dimensão simbólica e moral da política entre os pobres, na medida em que valores relacionados a honra, reconhecimento, vergonha e respeito têm enorme importância para a formação da preferência política. Da mesma forma, Adorno abordou os diversos tipos de preconceito como formas de compensação narcísica para a humilhação cotidiana. A “vingança dos bastardos”, denominação empregada pelo sociólogo brasileiro para designar o apoio das camadas populares à direita e à extrema direita, se alimenta de fortes necessidades de reconhecimento social que são suficientes para tornar quase irrelevante a questão infraestrutural da exploração econômica. Adorno explicita a relação de grande proximidade entre o fascismo e o pobre de direita: “o ganho narcísico fornecido pela propaganda fascista é óbvio. Ela sugere continuamente que o seguidor, simplesmente por pertencer ao in-group, é melhor, superior e mais puro que aqueles que são excluídos”2

O tema adquire contornos trágicos a partir de uma interrogação proposta por Jessé Souza no último capítulo de seu livro: por que parte significativa dos pobres negros, especialmente os que se identificam como evangélicos, apoiaram a direita e a extrema direita no Brasil, mesmo quando essa opção política contraria seus interesses materiais imediatos? A resposta a essa pergunta remete ao fenômeno social do “negro evangélico”, que o sociólogo brasileiro analisa a partir da condição do negro pobre no Brasil como sendo marcada não só por pobreza, mas por humilhação simbólica e negação sistemática de reconhecimento. Contrariando a hipótese antropológica mais imediata, associada ao reconhecimento étnico, e ao pertencimento comunitário marcado pela valorização simbólica, política e social da diferença, grande parte da população negra pobre encontra no moralismo evangélico formas compensatórias de reconhecimento intersubjetivo.

A filiação religiosa evangélica surge como um meio de resgate simbólico, pois a igreja oferece laços de comunidade, valor, presença, e um discurso moral que permite ao indivíduo negro pobre se sentir como “homem de bem”, “gente de valor”. Jessé Sousa analisa o fenômeno do embranquecimento simbólico, pelo qual o negro evangélico adota a moralidade branca e conservadora para se sentir socialmente reconhecido. Por meio de um moralismo ostensivo contra as minorias sociais, o negro evangélico se posiciona como “pobre, honesto, decente e trabalhador”, em oposição ao “bandido”, ao “maconheiro”, ao “gay”, à “feminista”, etc3. Esse esquema simbólico reforça uma identificação com a ordem conservadora que é compatível com o repúdio a políticas sociais voltadas para minorias, e também às reivindicações de reparação racial, que são encaradas como “privilégios inadmissíveis”.

Embora a tese de Jessé Souza não seja construída a partir de dados quantitativos sistemáticos, mas de acordo com uma análise sociológica baseada em elementos culturais e históricos relativos à consciência política das classes populares, ela é respaldada por evidências empíricas. De acordo com estimativas extraídas de dados do IBGE e de pesquisas eleitorais do Instituto Datafolha relativas ao segundo turno das eleições presidenciais de 2022, uma parcela expressiva do eleitorado popular votou no candidato representativo da direita e extrema direita. Considerando como pobres as famílias que dispõem de até dois salários mínimos mensais, no segundo turno das últimas eleições presidenciais, 25% dos brasileiros pobres votaram na direita, o que significa que 1 em cada quatro brasileiros pobres se enquadra na tipologia apresentada pelo autor. Além disso, tais estimativas apontam que 5% da população brasileira é pobre, negra, evangélica e votou em Jair Bolsonaro.

Mesmo que a maioria da população pobre e/ou negra no Brasil realize escolhas eleitorais identificadas com candidaturas de esquerda, a parcela que endossa a tese de Jessé Souza é digna de muita preocupação, em virtude dos aspectos fascistas que são subjacentes a esse fenômeno social. O voto do pobre de direita não é o resultado de uma reflexão cuidadosa, e por esse motivo ele não reflete uma escolha política e ideológica consciente. Em virtude do ressentimento social nele implicado, o voto do pobre de direita reflete uma atitude desesperada de reconhecimento social por parte de seres humanos cotidianamente humilhados e profundamente frustrados. O caráter emocionalmente projetivo associado ao estranho (unheimlichfreudiano) evidencia aspectos reprimidos da própria personalidade, que em vez de serem elaborados, são escoados sob a forma de preconceitos e comportamentos agressivos voltados contra as minorias sociais.

Ainda que os indivíduos em questão demonstrem capacidade de racionalizar suas posições políticas e de encobrir os múltiplos preconceitos sociais nelas implicados, não se deve subestimar o papel desempenhado pela dissonância cognitiva enquanto mecanismo psíquico responsável por obscurecer dimensões essenciais da realidade social e política. Quando sujeitos afetivamente predispostos ao preconceito veem suas convicções confrontadas por dados objetivos da realidade, eles procuram preservar tais crenças profundamente enraizadas. Por esse motivo, recorrem com frequência a processos de seleção enviesada das informações disponíveis, privilegiando apenas aquelas que confirmam suas disposições prévias e descartando ou desqualificando evidências dissonantes. Então, torna-se possível afirmar que fascismo, circulação de desinformação (fake news) e dinâmicas de dissonância cognitiva constituem elementos estruturalmente interligados.

O enfrentamento do fascismo exige, como condição fundamental, o exercício da autorreflexão, direcionada para a estrutura psíquica e as disposições subjetivas do próprio agente persecutório. Nesse sentido, a superação do preconceito pressupõe que o indivíduo reconheça e aceite que a origem do problema não se encontra no mundo exterior ou nas características das vítimas, mas em sua própria constituição subjetiva. Mas é precisamente a necessidade desse deslocamento que torna o preconceito particularmente resistente à transformação. O fascismo engendra, simultaneamente, mecanismos de defesa psíquica que bloqueiam ou dificultam processos de autorreflexão, os quais seriam indispensáveis para sua superação. Em outras palavras, a própria dinâmica fascista produz barreiras internas que impedem o sujeito de confrontar criticamente suas disposições emocionais e seus impulsos projetivos, consolidando a implicação mais nefasta da violência fascista, que é a produção e perpetuação da incapacidade de espelhamento de si mesmo no Outro.

Hegel foi o filósofo que originariamente postulou o reconhecimento intersubjetivo como a meta mais elevada a ser alcançada pelo espírito. Em sua perspectiva, é indissociável do desenvolvimento do espírito na história que o desejo de reconhecimento seja deslocado da busca monótona e incessante de riquezas materiais e objetos mundanos, e assuma que sua meta maior e mais verdadeira é de natureza espiritual. Mas esse reconhecimento genuíno é sistematicamente travado pelos processos de coisificação da consciência, que são sociais, e afetam tanto as populações economicamente pobres, quanto a classe média e as elites. Entre estas, a perseguição insana de reconhecimento, mediante ostentação econômica ou status social, não é menos precária para o espírito do que a validação simbólica almejada pelo cidadão de baixa renda. O que há de trágico na questão em pauta é que a exclusão econômica e social, em vez de engendrar consciência politica, compaixão e reconhecimento entre os oprimidos, acaba se convertendo em ferida moral que se torna terreno fértil para a barbárie fascista.

O reconhecimento de um espírito por outro constitui um horizonte metafísico e ético, sendo a única maneira pela qual é possível revestir a vida de sentido existencial. Na sociedade capitalista, essa meta espiritual é sistematicamente frustrada, pois os seres humanos buscam reconhecimento por meio de formas simbólicas de prestígio social e de ostentação de riqueza material, que são artifícios precários, pois mantêm o espírito carente de formas autênticas de reconhecimento. O desejo de reconhecimento pressupõe a aceitação do Outro como diferença radical, para que todo tipo de estranheza no registro cultural, religioso, de nacionalidade ou de gênero possa ser superada. Dessa forma, tanto as modalidades hegemônicas de reconhecimento praticadas pelas elites econômicas, quanto o pertencimento simbólico almejado pelo pobre de direita estão fadados ao fracasso. O insucesso na realização do reconhecimento implica o enfraquecimento das pulsões de vida, pois quando as relações entre sujeitos são mediadas exclusivamente pelo cálculo utilitário, o resultado é a disseminação de ódio e frieza. No tocante ao tema específico do pobre de direita, quando a busca por pertencimento simbólico se alimenta da hostilização ostensiva dos “anormais” que são a bola da vez do fascismo à brasileira, temos a sedimentação da recusa sistemática da mais nobre realização ética de um ser humano, que é o reconhecimento genuíno da humanidade do Outro.

•        Banda podre. Por Alexandre Aragão de Albuquerque

Diante dos últimos lances no tabuleiro geopolítico da guerra do consórcio Epstein contra o Irã, o presidente estadunidense Donald Trump partiu para uma agressão desleal contra o Papa Leão XIV, publicando um longo ataque direto, em sua rede social, debochando do pontífice ao afirmar que “Leão XIV é fraco no combate ao crime (weak on crime), terrível em política externa (terrible for foreign policy) e alguém que não deveria criticar o presidente dos Estados Unidos”. E acrescentou: “Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano. Não quero um papa que critique o presidente dos EUA”.

Tal canalhice trumpista aconteceu imediatamente após Leão XIV condenar a guerra do consórcio EUA-Israel contra o Irã, classificando as ameaças de destruição total da civilização iraniana (persa) como moralmente inaceitáveis e pedindo publicamente a união de todos os países pelo fim imediato da guerra e pela retomada do diálogo.

Perguntado se iria pedir desculpas ao Papa, Donald Trump retrucou dizendo que não era fã de Leão XIV, esbravejando que ele não está fazendo um bom trabalho na Igreja Católica, recusando-se terminantemente a desculpar-se. Em seguida, publicou em sua rede uma imagem gerada por Inteligência artificial na qual ele, Donald Trump, se identifica com Jesus Cristo, autointitulando-se “o médico curador das pessoas”.

Esses desvarios trompistas podem parecer isolados, sem nexo. Porém, se retornarmos no tempo, iremos constatar que o comportamento de Jair Bolsonaro e seu clã, ao longo de toda a sua carreira política, demonstrou publicamente sua inimizade com a Igreja Católica, principalmente contra aqueles setores mais comprometidos com as causas sociais e os direitos das pessoas empobrecidas, quando, por exemplo, da tribuna do Congresso Nacional afirmou que o Cardeal Paulo Evaristo Arns, um dos grandes baluartes da luta contra a ditadura militar (1964-1985), era alguém “sem honestidade e um aproveitador”.

No mês de outubro de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro, em seus canais de comunicação social, por meio de um vídeo amplamente difundido, insultou a CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e o CIMI (Conselho Indigenista Missionário), dizendo que “são a parte podre da Igreja Católica”.

Em Nota Pública de resposta às infames declarações de Jair Bolsonaro, os Conselheiros e Conselheiras, Coordenação Executiva Nacional e Diretoria da Comissão Pastoral da Terra (CPT), após reunião do Conselho Nacional, desagravaram a injúria, afirmando que “as ofensas dirigidas a estes organismos se estendem também a todos os católicos e católicas do Brasil e do mundo, já que somos muitos e muitas, mas formamos um só corpo”.

Portanto, não se trata de fato isolado. Mas é a forma de ação estrutural da extrema direita brasileira e internacional, a partir de sua perspectiva de poder autoritário e total. Conforme tivemos a oportunidade de expor em nosso livro Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética), os fundamentos religiosos que os movem centram-se, por exemplo, nas teologias da prosperidade e do domínio, por meio das quais buscam legitimar sua violência visando implantar um mundo desigual.

O fascismo, como doutrina política, ancora-se na devoção a um líder todo-poderoso, mitificado pela manipulação ideológica, que busca a homogeneização de um povo por meio de ideais nacionalistas e militaristas, de forma totalitária, impondo o domínio do líder e de seu grupo, numa autoridade sem limites, com poderes de controle da vida pública e da vida privada.

Não há diversidade de ideias e comportamentos, apenas uniformidade de pensamento e costumes. Para tanto desenvolve uma prática violenta, incitando agressões contra todos seus opositores que os declara como sendo inimigos do Estado. Consequentemente, o fascismo é o grande apoiador e promotor da guerra, das violências, seja por ações de indivíduos ou de grupos paramilitares.

Neste sentido, é importante registrar que a religião se situa no coração da sociedade, portanto, na cultura. As manifestações e estímulos vindos de outras realidades sociais, econômicas, políticas e culturais afetam diretamente esse coração, o movimento da religião conectado com esses contextos.

Mas, ao mesmo tempo, como a religião tem o seu próprio ritmo, dialeticamente ela exerce sua influência nas outras áreas da vida humana. A pergunta que se faz, diante da banalidade do mal do tempo presente, é: por que explode o sentimento religioso no tempo presente, principalmente nas hostes neofascistas da extrema direita?

Ampliando nosso universo reflexivo acerca da relação entre religião e política, vamos encontrar o pensador florentino Nicolau Maquiavel, em seu clássico Discursos sobre a primeira década de Tito Lívio. Para Nicolau Maquiavel, todos os homens possuem tendências à prática do mal, chegando à disposição em agir com perversidade sempre que haja ocasião. Os homens só fazem o bem somente quando necessário, por isso é indispensável e imperiosa a existência da lei.

Consequentemente, a religião passa a ser um agente estruturante poderoso da manutenção de uma determinada ordem, em virtude do temor de Deus. Em seus estudos ele constatou que os romanos respeitavam mais seus juramentos aos deuses do que suas obrigações para com a lei humana, convencidos de que a potência dos deuses é maior do que a dos homens.

Segundo o autor florentino, a antiga religião romana foi introduzida por Numa Pompílio (753-673 a. C.), servindo para comandar os exércitos, levar concórdia ao povo, zelar pela segurança dos justos e fazer com que os maus pagassem por suas infâmias.

Para este imperador romano, nos Estados onde a religião é todo-poderosa, pode-se facilmente introduzir o espírito militar. Ele criou uma narrativa espiritual na qual encontrava-se pessoalmente com a Ninfa Conselheira Egéria (não numa goiabeira, nem no Monte Sinai) de quem recebia conselhos e leis para serem transmitidos ao povo, pois sabia que não bastava sua própria autoridade para governar Roma. Nicolau Maquiavel assevera que um legislador sábio compreende que para outorgar leis de caráter extraordinário ao seu povo é fundamental apelar para a autoridade divina, caso contrário tais leis não seriam aceitas, devido ao temor de Deus.

O curioso é que, mesmo com os ataques disparados contra as lideranças católicas, como chamando-os de “banda podre”. Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 com votos de padres, freiras e leigos católicos.

Será que, ao saber dos votos dos católicos brasileiros a Jair Bolsonaro em 2018, mesmo depois de tamanha humilhação aos seus líderes, Donald Trump se entusiasmou e partiu para um ataque truculento ao Papa Leão XIV? Afinal, pelo menos aqui no Brasil, eles não se constituíram em 2018 como “um só corpo”, como foi dito acima. Vale a pena investigar a hipótese.

 

Fonte: Outras Palavras/A Terra é Redonda

 

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