Sinésio
Ferraz Bueno: Fascismo à brasileira e o pobre de direita
O
filósofo e sociólogo alemão Theodor Adorno integrou uma equipe multidisciplinar
que nos anos 1940 pesquisou a personalidade autoritária e o fascismo junto à
população norte-americana. Através de questionários, entrevistas clínicas e
testes projetivos, a pesquisa produziu a chamada “escala F”, um indicador
empírico destinado a quantificar a vulnerabilidade do cidadão comum a discursos
e práticas fascistas. Adorno estudou o fenômeno fascista através de conceitos
originados da psicanálise freudiana, priorizando a centralidade do caráter
emocionalmente projetivo da hostilidade dirigida contra populações socialmente
marginalizadas. Um conceito da psicanálise freudiana assume grande importância
para a compreensão da agressividade fascista: o “estranho”.
“Estranho”
é a palavra em língua portuguesa que mais se aproxima do conceito freudiano
denominado unheimlich, que significa “estranho”, “estrangeiro”, “assustador”,
mas também “próximo” e “familiar”. A expressão unheimlich sintetiza sentimentos
próprios a uma estranheza que assusta, incomoda, mas que é ao mesmo tempo
íntima e familiar ao sujeito. A síndrome agressiva que é própria ao fascismo
envolve a projetividade emocional associada ao unheimlich, e isso significa que
as qualidades negativas que são projetadas nas vítimas (inferioridade,
malignidade, perversidade, promiscuidade, periculosidade, etc.) representam
estranheza, mas também profunda familiaridade, pois pertencem à própria
estrutura emocional dos agentes do preconceito. Uma frase de Freud, citada por,
Adorno, ilustra a ambiguidade do fenômeno: “o que repele por sua estranheza é,
na verdade, demasiado familiar”1 A relevância do cruzamento entre a pesquisa
sobre o fascismo realizada nos anos 1940 pelos teóricos da Escola de Frankfurt
e o conceito sociológico do pobre de direita, elaborado pelo pesquisador Jessé
Souza, torna-se evidente quando consideramos que um ser humano somente se torna
consciente de si e de seu próprio valor por meio de seu reconhecimento por
outros. A identidade pessoal não é uma propriedade puramente interna do
sujeito, mas o resultado de processos de reconhecimento recíproco, que tornam
sua própria autoestima dependente de mediações intersubjetivas.
O
caráter ambivalente da projeção emocional envolvida na síndrome fascista é
muito esclarecedor sobre a natureza patológica da personalidade autoritária.
Ela mobiliza conteúdos reprimidos de seu próprio interior para justificar,
antes de mais nada para si própria, a segregação agressiva e perseguidora
voltada contra minorias no registro étnico, de gênero, de religião e de
nacionalidade. Em outras palavras, o racismo, o sexismo e outros preconceitos
envolvidos na síndrome fascista, são representações perversas da diferença
social, que encobrem os próprios conteúdos emocionais reprimidos do sujeito
agressor. O preconceito atua como um mecanismo emocional de defesa do indivíduo
contra suas próprias dificuldades e desejos que parecem ameaçadores. A
estigmatização obsessiva da diferença oculta, portanto, a incapacidade de
aceitação e de elaboração de uma grande parte de si mesmo, que é condenada a
permanecer estranha, embora seja insuportavelmente íntima e familiar.
O
fascismo é um delírio social de enfrentamento muito difícil, pois sua percepção
é encoberta pelo próprio padrão de normalidade da sociedade de massas. Para
muitas pessoas, é “normal” ser moralista, racista, machista, homofóbico,
discriminar a religião alheia, etc. É um delírio que se identifica com a
normalidade, o que dificulta justamente que ele possa ser compreendido como
problema a ser superado. Notadamente em sociedades culturalmente autoritárias e
precariamente democráticas, como é o caso do Brasil, é normal ser fascista. A
questão nevrálgica do fascismo como delírio social não está somente na
segregação social que ele produz, mas também em proporcionar a satisfação de
necessidades de reconhecimento social que são altamente relevantes para a
identidade psicológica e autoestima dos sujeitos. Quando se estuda os motivos
que levam à adesão ao fascismo, é preciso considerar que as relações
intersubjetivas de reconhecimento mútuo são fundamentais para a formação da
identidade das pessoas. Em outras palavras: ninguém se constitui plenamente
como sujeito isoladamente, mas mediante o reconhecimento do outro. Esse é o
vínculo entre a pesquisa sobre o fascismo realizada pela Escola de Frankfurt
nos anos 1940 e a análise do fenômeno social do pobre de direita realizada pelo
sociólogo Jessé Souza nos dias atuais.
Jessé
Souza analisa o fenômeno aparentemente paradoxal de uma parcela das classes
populares apoiarem e votarem em candidatos de direita e extrema-direita mesmo
que esse voto contrarie seus interesses econômicos imediatos, pois esses mesmos
políticos, uma vez eleitos, promovem ações que favorecem pautas neoliberais
concentradoras de renda. Para o sociólogo, o apoio à direita e à extrema
direita entre populações economicamente pobres se explica porque a ênfase em um
discurso moralista oferece dignidade, status e validação simbólica a pessoas
cotidianamente humilhadas e excluídas, que não se reconhecem no discurso das
esquerdas. Isso ocorre porque os partidos de esquerda, historicamente
concentrados em questões econômicas ou identitárias, se desconectaram da experiência
cotidiana de pessoas economicamente desfavorecidas que são afetadas
profundamente por feridas morais, relacionadas a necessidades de reconhecimento
social.
O
vínculo entre a atmosfera agressiva do fascismo e o fenômeno político do pobre
de direita foi antecipado por Adorno, pois este expôs a manipulação fascista
exercida pelos líderes de massas como um acontecimento que envolve o apoio
popular a objetivos completamente incompatíveis com seu próprio autointeresse
racional. Jessé Souza chama atenção para a dimensão simbólica e moral da
política entre os pobres, na medida em que valores relacionados a honra,
reconhecimento, vergonha e respeito têm enorme importância para a formação da
preferência política. Da mesma forma, Adorno abordou os diversos tipos de
preconceito como formas de compensação narcísica para a humilhação cotidiana. A
“vingança dos bastardos”, denominação empregada pelo sociólogo brasileiro para
designar o apoio das camadas populares à direita e à extrema direita, se
alimenta de fortes necessidades de reconhecimento social que são suficientes
para tornar quase irrelevante a questão infraestrutural da exploração
econômica. Adorno explicita a relação de grande proximidade entre o fascismo e
o pobre de direita: “o ganho narcísico fornecido pela propaganda fascista é
óbvio. Ela sugere continuamente que o seguidor, simplesmente por pertencer ao
in-group, é melhor, superior e mais puro que aqueles que são excluídos”2
O tema
adquire contornos trágicos a partir de uma interrogação proposta por Jessé
Souza no último capítulo de seu livro: por que parte significativa dos pobres
negros, especialmente os que se identificam como evangélicos, apoiaram a
direita e a extrema direita no Brasil, mesmo quando essa opção política
contraria seus interesses materiais imediatos? A resposta a essa pergunta
remete ao fenômeno social do “negro evangélico”, que o sociólogo brasileiro
analisa a partir da condição do negro pobre no Brasil como sendo marcada não só
por pobreza, mas por humilhação simbólica e negação sistemática de
reconhecimento. Contrariando a hipótese antropológica mais imediata, associada
ao reconhecimento étnico, e ao pertencimento comunitário marcado pela
valorização simbólica, política e social da diferença, grande parte da
população negra pobre encontra no moralismo evangélico formas compensatórias de
reconhecimento intersubjetivo.
A
filiação religiosa evangélica surge como um meio de resgate simbólico, pois a
igreja oferece laços de comunidade, valor, presença, e um discurso moral que
permite ao indivíduo negro pobre se sentir como “homem de bem”, “gente de
valor”. Jessé Sousa analisa o fenômeno do embranquecimento simbólico, pelo qual
o negro evangélico adota a moralidade branca e conservadora para se sentir
socialmente reconhecido. Por meio de um moralismo ostensivo contra as minorias
sociais, o negro evangélico se posiciona como “pobre, honesto, decente e
trabalhador”, em oposição ao “bandido”, ao “maconheiro”, ao “gay”, à
“feminista”, etc3. Esse esquema simbólico reforça uma identificação com a ordem
conservadora que é compatível com o repúdio a políticas sociais voltadas para minorias,
e também às reivindicações de reparação racial, que são encaradas como
“privilégios inadmissíveis”.
Embora
a tese de Jessé Souza não seja construída a partir de dados quantitativos
sistemáticos, mas de acordo com uma análise sociológica baseada em elementos
culturais e históricos relativos à consciência política das classes populares,
ela é respaldada por evidências empíricas. De acordo com estimativas extraídas
de dados do IBGE e de pesquisas eleitorais do Instituto Datafolha relativas ao
segundo turno das eleições presidenciais de 2022, uma parcela expressiva do
eleitorado popular votou no candidato representativo da direita e extrema
direita. Considerando como pobres as famílias que dispõem de até dois salários
mínimos mensais, no segundo turno das últimas eleições presidenciais, 25% dos
brasileiros pobres votaram na direita, o que significa que 1 em cada quatro
brasileiros pobres se enquadra na tipologia apresentada pelo autor. Além disso,
tais estimativas apontam que 5% da população brasileira é pobre, negra,
evangélica e votou em Jair Bolsonaro.
Mesmo
que a maioria da população pobre e/ou negra no Brasil realize escolhas
eleitorais identificadas com candidaturas de esquerda, a parcela que endossa a
tese de Jessé Souza é digna de muita preocupação, em virtude dos aspectos
fascistas que são subjacentes a esse fenômeno social. O voto do pobre de
direita não é o resultado de uma reflexão cuidadosa, e por esse motivo ele não
reflete uma escolha política e ideológica consciente. Em virtude do
ressentimento social nele implicado, o voto do pobre de direita reflete uma
atitude desesperada de reconhecimento social por parte de seres humanos
cotidianamente humilhados e profundamente frustrados. O caráter emocionalmente
projetivo associado ao estranho (unheimlichfreudiano) evidencia aspectos
reprimidos da própria personalidade, que em vez de serem elaborados, são
escoados sob a forma de preconceitos e comportamentos agressivos voltados
contra as minorias sociais.
Ainda
que os indivíduos em questão demonstrem capacidade de racionalizar suas
posições políticas e de encobrir os múltiplos preconceitos sociais nelas
implicados, não se deve subestimar o papel desempenhado pela dissonância
cognitiva enquanto mecanismo psíquico responsável por obscurecer dimensões
essenciais da realidade social e política. Quando sujeitos afetivamente
predispostos ao preconceito veem suas convicções confrontadas por dados
objetivos da realidade, eles procuram preservar tais crenças profundamente
enraizadas. Por esse motivo, recorrem com frequência a processos de seleção
enviesada das informações disponíveis, privilegiando apenas aquelas que
confirmam suas disposições prévias e descartando ou desqualificando evidências
dissonantes. Então, torna-se possível afirmar que fascismo, circulação de
desinformação (fake news) e dinâmicas de dissonância cognitiva constituem
elementos estruturalmente interligados.
O
enfrentamento do fascismo exige, como condição fundamental, o exercício da
autorreflexão, direcionada para a estrutura psíquica e as disposições
subjetivas do próprio agente persecutório. Nesse sentido, a superação do
preconceito pressupõe que o indivíduo reconheça e aceite que a origem do
problema não se encontra no mundo exterior ou nas características das vítimas,
mas em sua própria constituição subjetiva. Mas é precisamente a necessidade
desse deslocamento que torna o preconceito particularmente resistente à
transformação. O fascismo engendra, simultaneamente, mecanismos de defesa
psíquica que bloqueiam ou dificultam processos de autorreflexão, os quais
seriam indispensáveis para sua superação. Em outras palavras, a própria
dinâmica fascista produz barreiras internas que impedem o sujeito de confrontar
criticamente suas disposições emocionais e seus impulsos projetivos,
consolidando a implicação mais nefasta da violência fascista, que é a produção
e perpetuação da incapacidade de espelhamento de si mesmo no Outro.
Hegel
foi o filósofo que originariamente postulou o reconhecimento intersubjetivo
como a meta mais elevada a ser alcançada pelo espírito. Em sua perspectiva, é
indissociável do desenvolvimento do espírito na história que o desejo de
reconhecimento seja deslocado da busca monótona e incessante de riquezas
materiais e objetos mundanos, e assuma que sua meta maior e mais verdadeira é
de natureza espiritual. Mas esse reconhecimento genuíno é sistematicamente
travado pelos processos de coisificação da consciência, que são sociais, e
afetam tanto as populações economicamente pobres, quanto a classe média e as
elites. Entre estas, a perseguição insana de reconhecimento, mediante
ostentação econômica ou status social, não é menos precária para o espírito do
que a validação simbólica almejada pelo cidadão de baixa renda. O que há de
trágico na questão em pauta é que a exclusão econômica e social, em vez de
engendrar consciência politica, compaixão e reconhecimento entre os oprimidos,
acaba se convertendo em ferida moral que se torna terreno fértil para a
barbárie fascista.
O
reconhecimento de um espírito por outro constitui um horizonte metafísico e
ético, sendo a única maneira pela qual é possível revestir a vida de sentido
existencial. Na sociedade capitalista, essa meta espiritual é sistematicamente
frustrada, pois os seres humanos buscam reconhecimento por meio de formas
simbólicas de prestígio social e de ostentação de riqueza material, que são
artifícios precários, pois mantêm o espírito carente de formas autênticas de
reconhecimento. O desejo de reconhecimento pressupõe a aceitação do Outro como
diferença radical, para que todo tipo de estranheza no registro cultural,
religioso, de nacionalidade ou de gênero possa ser superada. Dessa forma, tanto
as modalidades hegemônicas de reconhecimento praticadas pelas elites econômicas,
quanto o pertencimento simbólico almejado pelo pobre de direita estão fadados
ao fracasso. O insucesso na realização do reconhecimento implica o
enfraquecimento das pulsões de vida, pois quando as relações entre sujeitos são
mediadas exclusivamente pelo cálculo utilitário, o resultado é a disseminação
de ódio e frieza. No tocante ao tema específico do pobre de direita, quando a
busca por pertencimento simbólico se alimenta da hostilização ostensiva dos
“anormais” que são a bola da vez do fascismo à brasileira, temos a sedimentação
da recusa sistemática da mais nobre realização ética de um ser humano, que é o
reconhecimento genuíno da humanidade do Outro.
• Banda podre. Por Alexandre Aragão de
Albuquerque
Diante
dos últimos lances no tabuleiro geopolítico da guerra do consórcio Epstein
contra o Irã, o presidente estadunidense Donald Trump partiu para uma agressão
desleal contra o Papa Leão XIV, publicando um longo ataque direto, em sua rede
social, debochando do pontífice ao afirmar que “Leão XIV é fraco no combate ao
crime (weak on crime), terrível em política externa (terrible for foreign
policy) e alguém que não deveria criticar o presidente dos Estados Unidos”. E
acrescentou: “Se eu não estivesse na Casa Branca, Leão não estaria no Vaticano.
Não quero um papa que critique o presidente dos EUA”.
Tal
canalhice trumpista aconteceu imediatamente após Leão XIV condenar a guerra do
consórcio EUA-Israel contra o Irã, classificando as ameaças de destruição total
da civilização iraniana (persa) como moralmente inaceitáveis e pedindo
publicamente a união de todos os países pelo fim imediato da guerra e pela
retomada do diálogo.
Perguntado
se iria pedir desculpas ao Papa, Donald Trump retrucou dizendo que não era fã
de Leão XIV, esbravejando que ele não está fazendo um bom trabalho na Igreja
Católica, recusando-se terminantemente a desculpar-se. Em seguida, publicou em
sua rede uma imagem gerada por Inteligência artificial na qual ele, Donald
Trump, se identifica com Jesus Cristo, autointitulando-se “o médico curador das
pessoas”.
Esses
desvarios trompistas podem parecer isolados, sem nexo. Porém, se retornarmos no
tempo, iremos constatar que o comportamento de Jair Bolsonaro e seu clã, ao
longo de toda a sua carreira política, demonstrou publicamente sua inimizade
com a Igreja Católica, principalmente contra aqueles setores mais comprometidos
com as causas sociais e os direitos das pessoas empobrecidas, quando, por
exemplo, da tribuna do Congresso Nacional afirmou que o Cardeal Paulo Evaristo
Arns, um dos grandes baluartes da luta contra a ditadura militar (1964-1985),
era alguém “sem honestidade e um aproveitador”.
No mês
de outubro de 2018, o então candidato Jair Bolsonaro, em seus canais de
comunicação social, por meio de um vídeo amplamente difundido, insultou a CNBB
(Conferência Nacional dos Bispos do Brasil) e o CIMI (Conselho Indigenista
Missionário), dizendo que “são a parte podre da Igreja Católica”.
Em Nota
Pública de resposta às infames declarações de Jair Bolsonaro, os Conselheiros e
Conselheiras, Coordenação Executiva Nacional e Diretoria da Comissão Pastoral
da Terra (CPT), após reunião do Conselho Nacional, desagravaram a injúria,
afirmando que “as ofensas dirigidas a estes organismos se estendem também a
todos os católicos e católicas do Brasil e do mundo, já que somos muitos e
muitas, mas formamos um só corpo”.
Portanto,
não se trata de fato isolado. Mas é a forma de ação estrutural da extrema
direita brasileira e internacional, a partir de sua perspectiva de poder
autoritário e total. Conforme tivemos a oportunidade de expor em nosso livro
Religião em tempos de bolsofascismo (Editora Dialética), os fundamentos
religiosos que os movem centram-se, por exemplo, nas teologias da prosperidade
e do domínio, por meio das quais buscam legitimar sua violência visando
implantar um mundo desigual.
O
fascismo, como doutrina política, ancora-se na devoção a um líder
todo-poderoso, mitificado pela manipulação ideológica, que busca a
homogeneização de um povo por meio de ideais nacionalistas e militaristas, de
forma totalitária, impondo o domínio do líder e de seu grupo, numa autoridade
sem limites, com poderes de controle da vida pública e da vida privada.
Não há
diversidade de ideias e comportamentos, apenas uniformidade de pensamento e
costumes. Para tanto desenvolve uma prática violenta, incitando agressões
contra todos seus opositores que os declara como sendo inimigos do Estado.
Consequentemente, o fascismo é o grande apoiador e promotor da guerra, das
violências, seja por ações de indivíduos ou de grupos paramilitares.
Neste
sentido, é importante registrar que a religião se situa no coração da
sociedade, portanto, na cultura. As manifestações e estímulos vindos de outras
realidades sociais, econômicas, políticas e culturais afetam diretamente esse
coração, o movimento da religião conectado com esses contextos.
Mas, ao
mesmo tempo, como a religião tem o seu próprio ritmo, dialeticamente ela exerce
sua influência nas outras áreas da vida humana. A pergunta que se faz, diante
da banalidade do mal do tempo presente, é: por que explode o sentimento
religioso no tempo presente, principalmente nas hostes neofascistas da extrema
direita?
Ampliando
nosso universo reflexivo acerca da relação entre religião e política, vamos
encontrar o pensador florentino Nicolau Maquiavel, em seu clássico Discursos
sobre a primeira década de Tito Lívio. Para Nicolau Maquiavel, todos os homens
possuem tendências à prática do mal, chegando à disposição em agir com
perversidade sempre que haja ocasião. Os homens só fazem o bem somente quando
necessário, por isso é indispensável e imperiosa a existência da lei.
Consequentemente,
a religião passa a ser um agente estruturante poderoso da manutenção de uma
determinada ordem, em virtude do temor de Deus. Em seus estudos ele constatou
que os romanos respeitavam mais seus juramentos aos deuses do que suas
obrigações para com a lei humana, convencidos de que a potência dos deuses é
maior do que a dos homens.
Segundo
o autor florentino, a antiga religião romana foi introduzida por Numa Pompílio
(753-673 a. C.), servindo para comandar os exércitos, levar concórdia ao povo,
zelar pela segurança dos justos e fazer com que os maus pagassem por suas
infâmias.
Para
este imperador romano, nos Estados onde a religião é todo-poderosa, pode-se
facilmente introduzir o espírito militar. Ele criou uma narrativa espiritual na
qual encontrava-se pessoalmente com a Ninfa Conselheira Egéria (não numa
goiabeira, nem no Monte Sinai) de quem recebia conselhos e leis para serem
transmitidos ao povo, pois sabia que não bastava sua própria autoridade para
governar Roma. Nicolau Maquiavel assevera que um legislador sábio compreende
que para outorgar leis de caráter extraordinário ao seu povo é fundamental
apelar para a autoridade divina, caso contrário tais leis não seriam aceitas,
devido ao temor de Deus.
O
curioso é que, mesmo com os ataques disparados contra as lideranças católicas,
como chamando-os de “banda podre”. Jair Bolsonaro foi eleito em 2018 com votos
de padres, freiras e leigos católicos.
Será
que, ao saber dos votos dos católicos brasileiros a Jair Bolsonaro em 2018,
mesmo depois de tamanha humilhação aos seus líderes, Donald Trump se
entusiasmou e partiu para um ataque truculento ao Papa Leão XIV? Afinal, pelo
menos aqui no Brasil, eles não se constituíram em 2018 como “um só corpo”, como
foi dito acima. Vale a pena investigar a hipótese.
Fonte:
Outras Palavras/A Terra é Redonda

Nenhum comentário:
Postar um comentário