As
digitais de Vorcaro, Zettel e do governo Zema na destruição da Serra do Curral
em Minas
Aos pés
da Serra do Curral, em Belo Horizonte, Minas Gerais, Makota Cassia Kidoiolê
passou anos tentando entender por que a mineração continuava avançando sobre um
território tombado, mesmo após sucessivas autuações e embargos. Com 56 anos, a
líder do quilombo Manzo Ngunzo Kaiango, localizado na vizinhança da serra, viu
caminhões, poeira e explosões se tornarem parte da rotina, enquanto o quilombo
buscava, na Justiça, interromper a atividade minerária.
Em mais
de uma ocasião, o que os moradores encontraram do outro lado do processo foi o
próprio governo de Minas Gerais, posicionado contra a reivindicação da
comunidade e ao lado das empresas, embora a Serra do Curral, suas matas e
nascentes sejam tombadas pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico
Nacional (Iphan). “Nos sentimos impotentes. A lei nos amparava, mas o Estado,
mesmo assim, concedia as licenças às mineradoras”, contou Makota à Agência
Pública.
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Por que isso importa?
• A reportagem mostra como o governo Zema
triplicou o uso de TACs e TCs — instrumentos que permitem a mineradoras operar
sem licença ambiental —, beneficiando empresas ligadas a Daniel Vorcaro e
Fabiano Zettel na destruição da Serra do Curral, patrimônio tombado pelo Iphan
e território de comunidades quilombolas
As
mineradoras em questão — Tamisa, Empabra, Gute Sitch e Fleurs Global —
extraíram bilhões de reais de minério de ferro da Serra do Curral até pelo
menos setembro de 2024, quando foram interditadas pelo Ministério Público pela
última vez. Fizeram isso amparadas em duas modalidades de acordo ambiental que
se expandiram desde janeiro de 2019, quando Romeu Zema assumiu o governo
mineiro: os termos de ajustamento de conduta (TACs) e os termos de compromisso
(TCs).
A
Tamisa, instalada a menos de cinco quilômetros do quilombo Manzo, também
descumpria as regras da Organização Internacional do Trabalho (OIT), ligada às
Nações Unidas, segundo as quais povos tradicionais têm o direito de serem
consultados sobre empreendimentos que os afetem diretamente. É nesse ponto que
Daniel Vorcaro e Fabiano Zettel entram na história.
Enquanto
a Tamisa explorava a vizinhança do Manzo, a WJ Consultoria, administrada por
Zettel, era uma das acionistas da empresa. Até setembro de 2025, mês em que foi
deflagrada a Operação Rejeito, que investiga corrupção no setor minerário, o
Victoria Falls Fundo de Investimento era o sócio majoritário da mineradora. O
controlador do Victoria Falls era o Banco Master, cujo dono era Vorcaro, que
foi liquidado pelo Banco Central em novembro de 2025, quando vieram à tona
fraudes bilionárias.
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A explosão dos TACs
Os TACs
e os TCs foram instituídos em Minas em 2006. A lei estabelece que esses
instrumentos tratam de “medidas de proteção, conservação e melhoria do meio
ambiente”, prevendo multas, perda de incentivos fiscais e suspensão de
atividades econômicas flagradas em irregularidades ambientais.
Mas um
dos artigos da mesma lei determina que a empresa flagrada operando sem
autorização ambiental deve ser punida com a “suspensão de atividades, a qual
prevalecerá até que o infrator obtenha a licença ou autorização devida ou firme
termo de ajustamento de conduta com o órgão ambiental”.
Na
prática, esse dispositivo abriu a possibilidade de que empresas que exploram o
meio ambiente sem licença municipal ou estadual continuem operando e lucrando,
desde que assinem acordo com o Estado. Nesses termos, ficam definidos prazos,
medidas de reparação, contrapartidas pelos danos e sanções em caso de
descumprimento.
Antes
da chegada de Zema ao governo, esses acordos apareciam com menos frequência. Em
2008, o governo de Minas firmou seis TACs com mineradoras. Em 2009, foram dois.
No ano seguinte, nenhum. Entre 2015 e 2018, período em que Fernando Pimentel
(PT) governou Minas, o estado firmou 98 acordos desse tipo com empreendimentos
minerários. No primeiro mandato de Zema, a prática mais do que triplicou: a
administração estadual chancelou 358 TACs ou TCs entre 2019 e 2022. Os dados
foram levantados pela reportagem com base em informações do site da Secretaria
de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (Semad).
Entre
as mineradoras beneficiadas estavam justamente as que operam de forma irregular
na Serra do Curral. A Tamisa, ligada a Vorcaro e Zettel, firmou um termo de
compromisso em maio de 2022. A Empabra, da qual um dos donos é Lucas Kallas —
sócio de Vorcaro em empreendimentos farmacêuticos —, recebeu um TAC em julho de
2021. A Fleurs assinou dois acordos em novembro de 2020 e em abril de 2022. A
Gute alcançou o seu TAC em maio de 2022.
Em
2019, para investigar a facilidade com que essas mineradoras obtinham a
chancela do Estado para permanecer na Serra do Curral, a Câmara Municipal de
Belo Horizonte instalou a Comissão Parlamentar de Inquérito da Mineração. Aos
vereadores, chamou a atenção o fato de que, aparentemente, as quatro empresas
não agiam como concorrentes, mas em conluio. Em visitas técnicas à área da
Empabra, foram encontrados materiais com a inscrição da Cowan, construtora que
também figurava entre as acionistas da Tamisa. Já Fleurs e Gute, segundo
concluiu a PF no inquérito da Operação Rejeito, pertencem ao mesmo grupo: Alan
Cavalcante, Helder Freitas e o ex-deputado estadual João Alberto Lages (MDB).
A
Empabra afirmou, em nota à reportagem, que “não tem nenhuma relação
empresarial, logística, comercial ou administrativa com a Tamisa”. Já a Tamisa
respondeu que “o empreendimento minerário, até essa data, não iniciou nenhuma
das atividades às quais fora anteriormente permitido”. As demais citadas na
reportagem não se manifestaram.
Em
entrevista à Pública, a advogada Maria Vitória Calais, integrante do núcleo de
direito ambiental do Manuelzão, projeto da Universidade Federal de Minas Gerais
que atua pela preservação da bacia hidrográfica do Rio das Velhas, disse que as
leis do estado sempre foram favoráveis às mineradoras.
“A
legislação de Minas Gerais apresenta muitas flexibilizações no processo de
licenciamento ambiental. O que as mineradoras fazem, muitas vezes, é firmar um
TAC ou um TC e operar sem a licença, o que viola os princípios do direito
ambiental, como os de precaução e de prevenção. Infelizmente, a lei permite
esse tipo de conduta”, diz Calais. “Além disso, como vêm mostrando as
investigações da PF, os órgãos estaduais e federais, como a Agência Nacional de
Mineração (ANM), que deveriam atuar em defesa do processo de licenciamento,
estariam supostamente atuando em favor das mineradoras”, afirma.
Em
2023, um grupo de 12 deputados e deputadas estaduais de oposição a Zema
apresentou um projeto de lei para proibir que mineradoras operem por meio de
TACs e TCs. Na justificativa, argumentam que tais “instrumentos têm sido
vulgarmente utilizados pelo Poder Executivo para autorizar atividades
minerárias a despeito do rigoroso processo de licenciamento ambiental”. A
proposta ainda não foi votada pelo plenário da Assembleia Legislativa de Minas
Gerais.
A
Secretaria de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais foi
procurada pela reportagem para esclarecer a proliferação de TACs e TCs nos
últimos oito anos. Em nota, respondeu que “não há TACs vigentes para as
empresas citadas” e que os acordos previamente assinados foram “cancelados pela
própria Semad em razão do descumprimento de obrigações constatadas em ações de
fiscalização”. Ressaltou ainda que “não há nenhum ato autorizativo dos órgãos
ambientais estaduais que permita a extração mineral na Serra do Curral”.
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O público e o privado na mineração na Serra do Curral
No
segundo mandato de Zema, de janeiro de 2023 a março deste ano, quando o
político renunciou ao cargo para disputar as eleições de 2026, os TACs e os TCs
assinados com mineradoras caíram quase pela metade, embora tenham permanecido
em patamar alto: foram 187 acordos.
A queda
não indica, necessariamente, uma revisão da política ambiental do governo.
Desde 2020, a PF e o MP investigam corrupção no setor minerário no estado. Até
agora, as apurações resultaram em três operações: Poeira Vermelha, deflagrada
em setembro de 2020; Parcours, que cumpriu mandados de busca e apreensão em
março de 2025; e Rejeito, que prendeu 22 pessoas em setembro do ano passado,
entre elas funcionários do alto escalão da Semad, como Rodrigo Franco,
ex-presidente da Fundação Estadual do Meio Ambiente, e Breno Lasmar, diretor do
Instituto Estadual de Florestas.
Os
dois, além de outros funcionários citados pela PF, são suspeitos de receber
propina para favorecer empresas em busca de licenças ambientais e de assinatura
de TACs e TCs junto ao Estado.
Também
foram presos empresários do setor, como Alan Cavalcante, Helder Freitas e o
ex-deputado estadual João Alberto Lages (MDB). Em dezembro de 2025, por decisão
do ministro do STF, Dias Toffoli, eles saíram em liberdade condicional.
Vorcaro
e Zettel, até o momento, não foram citados nas investigações da PF sobre
corrupção na mineração. Ainda assim, a Tamisa, empresa à qual estavam ligados,
figura entre as mineradoras favorecidas por decisões tomadas durante o governo
Zema.
Em maio
de 2022, como também reportou a Pública, Zema empossou na presidência do
Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico (Iepha) a arquiteta
Marília Palhares Machado, que permaneceu no cargo até maio de 2024. Marília é
prima em primeiro grau de Guilherme Augusto Gonçalves Machado, que, no CNPJ da
Tamisa, consta como diretor responsável pela mineradora. O Iepha é um dos
órgãos consultados na concessão de licenças a mineradoras.
Em
resposta à reportagem, o governo mineiro argumentou que “a nomeação de
servidores e gestores observa critérios técnicos e legais” e que “a atuação dos
profissionais é pautada por normas rigorosas de integridade, não havendo
nenhuma relação ou atendimento a interesses privados”. Por fim, reiterou que
“todos os processos de licenciamento ambiental em Minas Gerais são conduzidos
com base em critérios técnicos, em estrita observância à legislação vigente e
aos princípios da legalidade, impessoalidade, publicidade e eficiência”.
Para a
PF e o MP, no entanto, a proximidade entre empresários e chefias de órgãos
ambientais estaduais e federais, os acordos e licenças concedidos às
mineradoras e as trocas de mensagens nas quais pagamentos de propina eram
acertados compõem alguns dos “fortes indícios de corrupção sistêmica no setor
de mineração e meio ambiente em Minas Gerais”.
Em 9 de
março de 2026, uma decisão da Justiça Federal acolheu os argumentos de uma ação
civil pública proposta pelo quilombo Manzo e determinou a suspensão das
atividades minerárias na Serra do Curral. Todos os 57 processos de
licenciamento de mineradoras que tramitavam nos órgãos governamentais foram
interrompidos, afetando, entre outras, a Tamisa. A ANM, por haver ignorado
ordens judiciais anteriores e ter liberado a exploração na região, foi multada
em R$ 4 milhões.
A
decisão tem caráter liminar, ou seja, pode ser revertida em outras instâncias
da Justiça. Para Makota Cassia Kidoiolê, no entanto, já produziu efeito na
comunidade nessa disputa. “A nossa vida mudou toda desde que a Tamisa chegou
aqui”, disse, citando o trânsito intenso de caminhões, a poeira que tomou conta
da região e as explosões, próprias da atividade minerária, que aconteciam
inclusive de madrugada. “Agora, entendemos que não estamos mais descartados
pela Justiça”, concluiu.
Fonte:
Por Leandro Aguiar, da Agencia Pública

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