quarta-feira, 22 de abril de 2026

O projeto que queria criar uma "nova Alemanha" no Paraguai

O professor berlinense Bernhard Förster vociferava no final do século 19 que a cultura e as virtudes alemãs estariam em perigo. Segundo ele, a culpa seria dos judeus. O fervoroso antissemita respondeu a vários processos em tribunais do Império Alemão por incitação ao racismo. Sua escola iniciou processos disciplinares contra ele e, eventualmente, ele chegou a ser procurado pela polícia.

Förster não via futuro em sua terra natal. Ele sonhava com uma nova Alemanha, "livre de judeus", que, sob sua liderança, floresceria "revigorada e cheia de força".

Para isso, ele já havia encontrado um lugar ideal: transplantaria a cultura alemã para "um solo novo e promissor": no Paraguai, na confluência dos rios Aguaraymí e Aguaray-Guazú. Durante dois anos, de 1883 a 1885, Förster percorreu o país sul-americano a cavalo, em busca de um local onde pudesse realizar sua utopia.

"É claro que o que o movia era sua motivação política ou ideológica", contou a arqueóloga Natascha Mehler. "Da perspectiva atual, no entanto, também se diria que ele era um típico marginalizado social que tentava construir uma nova vida para si em outro lugar", observou.

Para essa nova vida, ele levou consigo sua esposa Elisabeth, irmã do filósofo Friedrich Nietzsche. "Criaremos uma raça ariana superior nas florestas da América do Sul. Somente os mais fortes, de sangue mais puro, nos acompanharão. A velha Alemanha está corrompida, mas a Nova Germânia durará para sempre", disse ela, concordando com o marido.

<><> Propaganda do "refúgio paradisíaco"

O governo do Paraguai disponibilizou 20 mil hectares de terra, a cerca de 150 quilômetros ao norte da capital Assunção, para que Förster fundasse a primeira colônia privada do país. Somente alemães podiam se estabelecer na chamada Nova Germânia, sendo muito bem recebidos.

Após a Guerra do Paraguai contra Brasil, Uruguai e Argentina (1864-1870), o país não só perdeu 50% de seu território, como, pior ainda, cerca de 70% de sua população. Colonos investidores, portanto, eram muito bem vistos.

No contrato com o governo paraguaio, Förster comprometeu-se a assentar pelo menos 140 famílias em dois anos. Assim, antes de partir para o Paraguai, em 1886, o casal fez intensa campanha para atrair colonos para colonos e doações em dinheiro com direito a propaganda em jornais e palestras.

<><> Pouco interesse na Nova Germânia

Mas o tão alardeado "refúgio paradisíaco" atraiu pouco interesse. Förster conseguiu convencer apenas 14 famílias a emigrar. Não se sabe se os colonos que o seguiram compartilhavam sua ideologia racista, embora ele já os tivesse doutrinado durante a viagem da Alemanha com palestras sobre a "purificação e o renascimento da raça humana" e a "salvação da cultura humana".

De acordo com Mehler, há informações sobre quais lotes de terra esses colonos receberam e onde moraram, mas não há indicações sobre os motivos que os levaram a emigrar. "Eram, em sua maioria, pessoas com pouco ou nenhum dinheiro. Certamente estavam insatisfeitas com o Império Alemão e se sentiam deixadas para trás pela industrialização", analisou.

"Então, acreditaram nas promessas de Bernhard Förster, juntaram suas últimas economias para comprar passagens de navio e terras e foram para o Paraguai com suas famílias."

<><> Crise no paraíso

No Paraguai, os colonos, em sua maioria famílias de artesãos saxões, foram confrontados com a realidade. Rapidamente perceberam que as promessas de Förster de um solo excepcionalmente fértil e um clima particularmente saudável não passa de uma ficção.

"A região é insuportavelmente quente e úmida durante a estação chuvosa, além de ser pantanosa", contou Mehler, que realizou duas viagens de campo seguindo os vestígios da antiga colônia. "Durante a estação seca, os solos são muito arenosos e secos. Portanto, cultivar não era fácil; era preciso arrancar cada plantação da terra com muita dificuldade."

"Criaremos uma raça ariana superior nas florestas da América do Sul", disse Förster, ao propagandear sua iniciativaFoto: Klassik Stiftung Weimar

As colheitas de Nova Germânia eram miseráveis. Parasitas e doenças tropicais tornavam a vida ainda mais difícil para os colonos. Enquanto os mais ricos se mudavam, a maioria dos imigrantes teve que ficar e continuar lutando pela sobrevivência.

"Querida pátria dos meus entes queridos, como sinto saudades de ti! Se eu tivesse ficado na Alemanha, quanto sofrimento teria evitado [...] A coragem de viver se esvai, a saúde definha, a mente e o corpo se atrofiam, e nós, colonos, provavelmente encontraremos nossos túmulos cedo", escreveu um emigrante desesperado numa carta.

Outro colono criticou o casal fundador, acusando os de não se importar com aqueles os seguiram. O casal residia em uma vila luxuosa, no coração de Nova Germânia, a chamada "Försteroda", enquanto os outros assentamentos ficavam, às vezes, a até cinco quilômetros de distância uns dos outros.

"Förster talvez pensasse que pessoas isoladas são menos propensas a se sentarem juntas e refletirem criticamente sobre o que realmente estava acontecendo, ou mesmo a organizarem uma revolta", contou Mehler.

<><> Utopia fracassada

A colônia não permaneceu "racialmente pura", como planejado, por muito tempo. Sem a ajuda dos indígenas Guarani que viviam na região, a primeira geração de colonos da Nova Germânia não teria sobrevivido, avalia a arqueóloga. Mesmo assim, o assentamento utópico estava fadado ao fracasso.

"Nunca foi possível torná-la financeiramente sustentável. Todas as cartas de Förster para a Alemanha, seus pedidos de apoio, ficaram sem resposta. Afinal, era uma iniciativa privada. Além disso, Förster, claramente, não era especialista em economia."

O irmão de Elisabeth, Friedrich Nietzsche, também se recusou a apoiar o projeto por rejeitar as visões antissemitas do cunhado. Sua irmã tentou convencê-lo, prometendo nomear uma área da colônia de "Friedrichshain" em sua homenagem. Nietzsche, porém, apenas zombou, sugerindo que a chamassem de "Lamaland" – "Lama" era o apelido que o filósofo dava à irmã.

Dois anos após a fundação da colônia, apenas 40 famílias haviam se estabelecido em Nova Germânia, em vez das 140 prometidas no contrato com o governo. Förster estava profundamente endividado e desesperado. Ele morreu em 3 de junho de 1889, supostamente por suicídio, embora isso nunca tenha sido comprovado. Elisabeth Förster disse a jornais alemães que seu marido havia morrido em decorrência de seus grandes esforços em prol da colônia. Ela tentou manter o local funcionando por mais alguns anos e depois retornou à Alemanha.

<><> Os descendentes e uma nova colônia

A antiga colônia de Nova Germânia ainda existe. Casas se alinham ao longo de uma ampla estrada antes de desaparecerem no rio marrom e lento que margeia a vila. Cerca de 2 mil pessoas vivem ali, muitas das quais falam alemão.

Quando questionadas sobre a história da fundação do lugar, conta Mehler, elas se surpreendem. Não gostam que a atenção da imprensa se concentre no passado sombrio. "Às vezes, eu tinha a sensação de que eles pensavam: 'Nós temos problemas completamente diferentes aqui. Eu preciso garantir que meu trator e meu galinheiro estejam funcionando e que minha estrada não seja destruída na próxima estação chuvosa. E sim, talvez meu avô ou bisavô tivessem visões nacionalistas até certo ponto. Mas para nós, tudo isso está muito distante hoje em dia.'"

Durante sua pesquisa sobre a Nova Germânia, a antropóloga descobriu um paralelo impressionante com os dias atuais. "Durante a pandemia de covid-19, o Paraguai foi o destino declarado de muitos antivacinas alemães. Nós encontramos um texto de Bernhard Förster onde ele critica a introdução da vacinação obrigatória contra a varíola no Império Alemão. 'Venham comigo para o Paraguai, lá não há vacinação obrigatória, vocês podem fazer o que quiserem', escreveu ele".

No voo para Assunção, a arqueóloga viajou ao lado de pessoas antivacina, e no aeroporto havia cartazes de propaganda de um lugar chamado El Paraíso Verde – uma colônia alemã para os antivacina. "Para mim, foi muito surpreendente que a história se repita de forma tão dramática em apenas 140 anos."

 

Fonte: DW Brasil

 

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