terça-feira, 21 de abril de 2026

Hiperplasia prostática benigna atinge até 90% dos homens após os 70 anos

Ir ao banheiro várias vezes durante a noite, perceber que o jato de urina já não é o mesmo ou sentir que a bexiga nunca esvazia completamente. Para muitos homens, esses sinais passam despercebidos e acabam sendo encarados como parte natural do envelhecimento. No entanto, podem indicar a presença da hiperplasia prostática benigna (HPB), uma condição comum, mas que merece atenção.

Dados de sociedades médicas internacionais indicam que cerca de 50% dos homens aos 50 anos apresentam aumento da próstata, índice que pode chegar a 90% após os 70 anos. Embora frequente, o quadro não deve ser automaticamente tratado como algo sem importância. "O aumento da próstata faz parte do envelhecimento masculino, mas deixa de ser considerado natural quando passa a provocar sintomas urinários ou complicações", explica o urologista Rodrigo Trivilato.

O que define a necessidade de tratamento é o impacto na rotina. "Não é apenas o crescimento em si que determina o problema, mas o comprometimento funcional. Dificuldade para urinar, jato fraco e sensação de esvaziamento incompleto da bexiga são sinais de alerta", afirma.

Entre os sintomas mais comuns também estão a necessidade de acordar várias vezes durante a madrugada e a urgência urinária — quando o paciente precisa ir ao banheiro rapidamente para evitar perdas. Ainda assim, muitos homens tendem a ignorar esses sinais. "Existe uma tendência de normalizar esses sintomas como 'coisas da idade', além de constrangimento em falar sobre o tema e uma cultura de baixa procura por cuidados médicos preventivos", destaca.

Esse atraso no diagnóstico pode trazer consequências mais sérias. Sem acompanhamento adequado, a condição pode evoluir para retenção urinária, infecções recorrentes e até comprometer a função da bexiga. Ricardo complementa que, em casos mais graves, pode haver impacto nos rins, o que mostra que não se trata apenas de uma questão de qualidade de vida, mas de saúde como um todo.

Além da idade, a hiperplasia prostática benigna pode estar associada a outras condições, como obesidade, síndrome metabólica, diabetes e doenças cardiovasculares. "Esses fatores contribuem para um estado inflamatório crônico e alterações hormonais que favorecem o crescimento da próstata", explica. Por isso, segundo o especialista, o acompanhamento regular é essencial — tanto para controlar os sintomas quanto para descartar outras doenças e garantir mais qualidade de vida ao paciente.

<><> Sintomas

Aumento do número de micções noturnas

Jato unifraco

Interrupção enquanto urina

Ocorrência de gotejamento no fim da micção

Perda urinária

Fazer força para esvaziar a bexiga

Necessidade frequente de urinar

Dor e sangramento na hora de urinar

<><> Diagnóstico

Avaliação dos sintomas do trato urinário inferior, frequentemente usando questionários como o IPSS (Escore Internacional de Sintomas de Próstata) para classificar em leve, moderada ou grave.

Exame de toque retal: crucial para avaliar o tamanho, a consistência e o contorno da próstata, permitindo ao urologista diferenciar o aumento benigno do câncer.

Antígeno Prostático Específico: exame de sangue realizado para auxiliar na diferenciação entre HPB e câncer de próstata.

Ultrassonografia: utilizada para medir o volume prostático e verificar o resíduo urinário pós-miccional (urina que fica na bexiga).

Urofluxometria: teste simples que mede a velocidade e o volume do jato urinário.

Estudo Urodinâmico: exame mais invasivo que avalia a pressão e o fluxo urinário, geralmente indicado quando há dúvidas sobre a causa da obstrução.

<><> Prevenção

Controle de doenças metabólicas (diabetes, hipertensão) e a prática de exercícios ajudam a conter o aumento da próstata.

Aumentar o consumo de vegetais, fibras e alimentos antioxidantes é recomendado.

Urinar antes de dormir e evitar retenção urinária prolongada ajuda a reduzir sintomas.

Diminuir a ingestão de álcool e cafeína, especialmente à noite, melhora o fluxo urinário e reduz a a necessidade de acordar durante a madrugada para urinar.

Homens acima de 40 a 50 anos devem realizar consultas regulares com urologista para monitoramento da saúde da próstata.

<><> Tratamento

Expectante: indicado para pacientes com sintomas leves, em que o urologista acompanha o caso sem intervenção imediata, recomendando mudanças de estilo de vida, como reduzir líquidos à noite e evitar cafeína/álcool.

Medicamentoso: alfa-bloqueadores relaxam a musculatura da próstata e do colo da bexiga, melhorando o jato urinário rapidamente.

Inibidores da 5-alfa-redutase: reduzem o tamanho da próstata a longo prazo (seis meses a um ano).

Terapia combinada: uso conjunto dos dois tipos de medicamentos para alívio rápido e redução do volume prostático.

Inibidores da fosfodiesterase-5: úteis para pacientes com sintomas moderados e disfunção erétil associada.

Procedimentos minimamente invasivos e cirúrgicos:

RTUP (Ressecção Transuretral da Próstata): padrão-ouro, remove parte da próstata via uretra;

Laser/Enucleação: remoção do tecido prostático com menor sangramento;

Vaporização/Rezum: uso de vapor d'água para destruir o tecido aumentado, com baixa taxa de efeitos colaterais sexuais.

<><> Complicações de longo prazo

Retenção urinária aguda: incapacidade repentina de urinar, exigindo uso de sonda e atendimento de emergência.

Infecções urinárias de repetição: o esvaziamento incompleto da bexiga favorece o crescimento bacteriano.

Insuficiência renal: a pressão crônica da urina represada pode subir para os rins, causando danos.

Cálculos na bexiga: o acúmulo de urina pode levar à formação de pedras.

Danos na bexiga: a bexiga pode perder sua capacidade de contração devido ao esforço contínuo.

>>>> Palavra do especialista - Marcelo Wroclawski é urologista do Hospital Israelita Albert Einstein, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (seção São Paulo), chefe da Comissão de Ensino e Treinamento da Sociedade Brasileira de Urologia e diretor da Oficina de Inteligência Artifical em Urologia da Confederação Americana de Urologia (CAU)

•        Com o avanço de tecnologias e procedimentos minimamente invasivos, o tratamento da HPB mudou significativamente nos últimos anos. O que, de fato, representa uma mudança de paradigma hoje?

O tratamento da HPB evoluiu para um modelo personalizado, com diversas opções que vão desde medicamentos até procedimentos minimamente invasivos e cirurgias avançadas. Entre os remédios, a silodosina se destaca por sua ação mais direcionada à próstata, melhorando os sintomas urinários com menor impacto na pressão arterial. Já os procedimentos menos invasivos são rápidos, feitos sem internação e podem preservar a função sexual. Nos casos mais complexos, cirurgias como a HoLEP e a robótica oferecem resultados duradouros. O foco atual não é apenas tratar a doença, mas também garantir qualidade de vida ao paciente.

•        Você também atua com inovação e inteligência artificial em urologia. Como a inteligência artificial pode impactar, no futuro, o diagnóstico e a condução dos casos de HPB?

Ao meu ver, a inteligência artificial tem potencial para impactar principalmente três áreas. Na conscientização da população sobre HPB/ STUI. Cada vez mais os pacientes chegam ao consultório já tendo pesquisado sobre sua condição nas ferramentas de IA. O uso de algoritmos e calculadoras podem auxiliar no diagnóstico precoce, ajudando a identificar padrões de sintomas e risco de deterioração da bexiga, permitindo melhor triagem e eventual priorização de casos em grandes populações. A IA pode ser um suporte à tomada de decisão por parte do médico no momento de escolher o tratamento mais adequado, com base nas características individuais de cada paciente.

•        Diante do envelhecimento da população brasileira, qual é o principal alerta que deveria ser feito em termos de saúde pública em relação à hiperplasia prostática benigna?

O principal alerta é que a HPB pode impactar significativamente a qualidade de vida de um grande número de homens! Os sintomas urinários acabam afetando o sono, a disposição, a autonomia e até a segurança do paciente, especialmente pela noctúria (acordar à noite para urinar), que aumenta o risco de quedas, principalmente em idosos, justamente o grupo etário mais afetado. Com o envelhecimento acelerado, o número de homens com sintomas urinários tende a crescer de forma expressiva. Portanto, é fundamental investir em conscientização, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento adequado. Tratar HPB não é apenas aliviar sintomas, mas também preservar funcionalidade, independência e bem-estar ao longo do envelhecimento.

 

Fonte: Correio Braziliense

 

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