Hiperplasia
prostática benigna atinge até 90% dos homens após os 70 anos
Ir ao
banheiro várias vezes durante a noite, perceber que o jato de urina já não é o
mesmo ou sentir que a bexiga nunca esvazia completamente. Para muitos homens,
esses sinais passam despercebidos e acabam sendo encarados como parte natural
do envelhecimento. No entanto, podem indicar a presença da hiperplasia
prostática benigna (HPB), uma condição comum, mas que merece atenção.
Dados
de sociedades médicas internacionais indicam que cerca de 50% dos homens aos 50
anos apresentam aumento da próstata, índice que pode chegar a 90% após os 70
anos. Embora frequente, o quadro não deve ser automaticamente tratado como algo
sem importância. "O aumento da próstata faz parte do envelhecimento
masculino, mas deixa de ser considerado natural quando passa a provocar
sintomas urinários ou complicações", explica o urologista Rodrigo
Trivilato.
O que
define a necessidade de tratamento é o impacto na rotina. "Não é apenas o
crescimento em si que determina o problema, mas o comprometimento funcional.
Dificuldade para urinar, jato fraco e sensação de esvaziamento incompleto da
bexiga são sinais de alerta", afirma.
Entre
os sintomas mais comuns também estão a necessidade de acordar várias vezes
durante a madrugada e a urgência urinária — quando o paciente precisa ir ao
banheiro rapidamente para evitar perdas. Ainda assim, muitos homens tendem a
ignorar esses sinais. "Existe uma tendência de normalizar esses sintomas
como 'coisas da idade', além de constrangimento em falar sobre o tema e uma
cultura de baixa procura por cuidados médicos preventivos", destaca.
Esse
atraso no diagnóstico pode trazer consequências mais sérias. Sem acompanhamento
adequado, a condição pode evoluir para retenção urinária, infecções recorrentes
e até comprometer a função da bexiga. Ricardo complementa que, em casos mais
graves, pode haver impacto nos rins, o que mostra que não se trata apenas de
uma questão de qualidade de vida, mas de saúde como um todo.
Além da
idade, a hiperplasia prostática benigna pode estar associada a outras
condições, como obesidade, síndrome metabólica, diabetes e doenças
cardiovasculares. "Esses fatores contribuem para um estado inflamatório
crônico e alterações hormonais que favorecem o crescimento da próstata",
explica. Por isso, segundo o especialista, o acompanhamento regular é essencial
— tanto para controlar os sintomas quanto para descartar outras doenças e
garantir mais qualidade de vida ao paciente.
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Sintomas
Aumento
do número de micções noturnas
Jato
unifraco
Interrupção
enquanto urina
Ocorrência
de gotejamento no fim da micção
Perda
urinária
Fazer
força para esvaziar a bexiga
Necessidade
frequente de urinar
Dor e
sangramento na hora de urinar
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Diagnóstico
Avaliação
dos sintomas do trato urinário inferior, frequentemente usando questionários
como o IPSS (Escore Internacional de Sintomas de Próstata) para classificar em
leve, moderada ou grave.
Exame
de toque retal: crucial para avaliar o tamanho, a consistência e o contorno da
próstata, permitindo ao urologista diferenciar o aumento benigno do câncer.
Antígeno
Prostático Específico: exame de sangue realizado para auxiliar na diferenciação
entre HPB e câncer de próstata.
Ultrassonografia:
utilizada para medir o volume prostático e verificar o resíduo urinário
pós-miccional (urina que fica na bexiga).
Urofluxometria:
teste simples que mede a velocidade e o volume do jato urinário.
Estudo
Urodinâmico: exame mais invasivo que avalia a pressão e o fluxo urinário,
geralmente indicado quando há dúvidas sobre a causa da obstrução.
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Prevenção
Controle
de doenças metabólicas (diabetes, hipertensão) e a prática de exercícios ajudam
a conter o aumento da próstata.
Aumentar
o consumo de vegetais, fibras e alimentos antioxidantes é recomendado.
Urinar
antes de dormir e evitar retenção urinária prolongada ajuda a reduzir sintomas.
Diminuir
a ingestão de álcool e cafeína, especialmente à noite, melhora o fluxo urinário
e reduz a a necessidade de acordar durante a madrugada para urinar.
Homens
acima de 40 a 50 anos devem realizar consultas regulares com urologista para
monitoramento da saúde da próstata.
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Tratamento
Expectante:
indicado para pacientes com sintomas leves, em que o urologista acompanha o
caso sem intervenção imediata, recomendando mudanças de estilo de vida, como
reduzir líquidos à noite e evitar cafeína/álcool.
Medicamentoso:
alfa-bloqueadores relaxam a musculatura da próstata e do colo da bexiga,
melhorando o jato urinário rapidamente.
Inibidores
da 5-alfa-redutase: reduzem o tamanho da próstata a longo prazo (seis meses a
um ano).
Terapia
combinada: uso conjunto dos dois tipos de medicamentos para alívio rápido e
redução do volume prostático.
Inibidores
da fosfodiesterase-5: úteis para pacientes com sintomas moderados e disfunção
erétil associada.
Procedimentos
minimamente invasivos e cirúrgicos:
RTUP
(Ressecção Transuretral da Próstata): padrão-ouro, remove parte da próstata via
uretra;
Laser/Enucleação:
remoção do tecido prostático com menor sangramento;
Vaporização/Rezum:
uso de vapor d'água para destruir o tecido aumentado, com baixa taxa de efeitos
colaterais sexuais.
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Complicações de longo prazo
Retenção
urinária aguda: incapacidade repentina de urinar, exigindo uso de sonda e
atendimento de emergência.
Infecções
urinárias de repetição: o esvaziamento incompleto da bexiga favorece o
crescimento bacteriano.
Insuficiência
renal: a pressão crônica da urina represada pode subir para os rins, causando
danos.
Cálculos
na bexiga: o acúmulo de urina pode levar à formação de pedras.
Danos
na bexiga: a bexiga pode perder sua capacidade de contração devido ao esforço
contínuo.
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Palavra do especialista - Marcelo Wroclawski é urologista do Hospital Israelita
Albert Einstein, diretor-presidente da Sociedade Brasileira de Urologia (seção
São Paulo), chefe da Comissão de Ensino e Treinamento da Sociedade Brasileira de
Urologia e diretor da Oficina de Inteligência Artifical em Urologia da
Confederação Americana de Urologia (CAU)
• Com o avanço de tecnologias e
procedimentos minimamente invasivos, o tratamento da HPB mudou
significativamente nos últimos anos. O que, de fato, representa uma mudança de
paradigma hoje?
O
tratamento da HPB evoluiu para um modelo personalizado, com diversas opções que
vão desde medicamentos até procedimentos minimamente invasivos e cirurgias
avançadas. Entre os remédios, a silodosina se destaca por sua ação mais
direcionada à próstata, melhorando os sintomas urinários com menor impacto na
pressão arterial. Já os procedimentos menos invasivos são rápidos, feitos sem
internação e podem preservar a função sexual. Nos casos mais complexos,
cirurgias como a HoLEP e a robótica oferecem resultados duradouros. O foco
atual não é apenas tratar a doença, mas também garantir qualidade de vida ao
paciente.
• Você também atua com inovação e
inteligência artificial em urologia. Como a inteligência artificial pode
impactar, no futuro, o diagnóstico e a condução dos casos de HPB?
Ao meu
ver, a inteligência artificial tem potencial para impactar principalmente três
áreas. Na conscientização da população sobre HPB/ STUI. Cada vez mais os
pacientes chegam ao consultório já tendo pesquisado sobre sua condição nas
ferramentas de IA. O uso de algoritmos e calculadoras podem auxiliar no
diagnóstico precoce, ajudando a identificar padrões de sintomas e risco de
deterioração da bexiga, permitindo melhor triagem e eventual priorização de
casos em grandes populações. A IA pode ser um suporte à tomada de decisão por
parte do médico no momento de escolher o tratamento mais adequado, com base nas
características individuais de cada paciente.
• Diante do envelhecimento da população
brasileira, qual é o principal alerta que deveria ser feito em termos de saúde
pública em relação à hiperplasia prostática benigna?
O
principal alerta é que a HPB pode impactar significativamente a qualidade de
vida de um grande número de homens! Os sintomas urinários acabam afetando o
sono, a disposição, a autonomia e até a segurança do paciente, especialmente
pela noctúria (acordar à noite para urinar), que aumenta o risco de quedas,
principalmente em idosos, justamente o grupo etário mais afetado. Com o
envelhecimento acelerado, o número de homens com sintomas urinários tende a
crescer de forma expressiva. Portanto, é fundamental investir em
conscientização, diagnóstico precoce e acesso ao tratamento adequado. Tratar
HPB não é apenas aliviar sintomas, mas também preservar funcionalidade,
independência e bem-estar ao longo do envelhecimento.
Fonte:
Correio Braziliense

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