‘Goiás
faz parte do que eu acho que é o câncer do Brasil: o agronegócio’, critica
Jessé Souza
Marcado
pela expansão da monocultura, pastagem de gado, pela concentração fundiária e
por altos índices de violência e letalidade policial nas periferias urbanas, o
sociólogo Jessé Souza insere Goiás em um modelo que, segundo ele, leva ao
atraso e à miséria. Em entrevista concedida ao Brasil de Fato DF durante a sua
passagem pelo estado, o autor defendeu que o modelo econômico baseado na
produção agroexportadora não apenas molda a paisagem local, mas também
influencia diretamente a organização social e política.
O
cenário descrito pelo sociólogo ganha relevância no contexto das eleições
presidenciais, para este ano, especialmente com a presença de ex-líderes
políticos do estado no debate nacional, como é o caso do ex-governador Ronaldo
Caiado (PSD), que recentemente lançou sua pré-candidatura à Presidência da
República. Historicamente associado a pautas do agronegócio e a discursos de
endurecimento na segurança pública, Caiado tem projetado sua atuação para além
das fronteiras estaduais, inserindo Goiás de forma mais direta na disputa
política nacional, em um contexto marcado por discursos recorrentes de ordem e
segurança pública.
Para
Souza, a elite econômica goiana se desenvolve em um padrão de reprodução do
sudeste do país, não sendo considerada mandatória “no próprio modelo
socioeconômico do qual ela participa”. Localizando, assim, Caiado como figura
com “nenhuma ingerência efetiva na forma como o país nem a nação se desenrola”.
O que, na leitura do sociólogo, não é um movimento isolado, mas parte de uma
articulação mais ampla entre elites econômicas voltadas à legitimação política.
Goiânia
recebeu o autor de Por que a esquerda morreu, na noite da segunda-feira (13),
para a discussão a partir da narrativa do livro lançado no ano passado. A
programação faz parte de uma série de debates gratuitos promovidos pela 17ª
edição da Mostra O Amor, a Morte e as Paixões, que acontece até 22 de abril no
Cinex, no Centro Cultural Oscar Niemeyer. Até o final deste mês, nomes como dos
escritores Vladimir Safatle, Heloísa Seixas e Jussara Santos passam pela
capital goiana.
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Confira a entrevista na íntegra:
• Quando chegamos em Goiás, uma das
primeiras coisas que vemos é uma grande área de ocupação de pastagem de gado e
também uma grande área desmatada para soja. O que esses cenários acrescentam à
impressão que você já tem de Goiás?
Jessé
Souza: Eu, pessoalmente, sempre gostei muito da cidade. Morei 20 anos em
Brasília, tinha amigos aqui e vinha sempre. Agora, obviamente, Goiás faz parte
do que eu acho que é o câncer do Brasil, que é o agronegócio. É por conta do
agronegócio e a sua associação com o capital financeiro que não temos
indústria, não temos projeto de desenvolvimento, estamos condenados ao atraso e
à miséria. O agronegócio é responsável por 50% disso. O outro é o pessoal que
rouba lá na Faria Lima também. Todos os agrotóxicos aqui são liberados, isso é
um negócio absurdo. Queimam florestas de modo também louco, isso tudo é o
agronegócio. Há alguns anos, houve cinzas em São Paulo vindas de uma queimada
daqui. Pegaram uma área enorme e queimaram para grilar depois. Ou seja, ladrões.
O
latifúndio, historicamente, é assassino, porque é isso que ele faz. Ele
assassina posseiros, indígenas, gente vulnerável. Onde o agronegócio invade,
contamina a sociedade como um todo. E eles têm um projeto articulado e cultural
de defender as suas pseudovirtudes, que têm a ver com feminicídio, machismo,
etc.
• O nosso estado é marcado por oligarquias
históricas e por essas forças do ‘agronejo’, que são dimensões que dialogam
diretamente com a herança escravista. Goiás já foi, em alguma medida, um
recorte para compreender a elite do Brasil contemporâneo? Qual a centralidade,
ou limite, da nossa região para interpretar essas dinâmicas hoje?
O
Goiás? Não. Obviamente, existe uma elite local, mas essa elite local, enfim,
não é ela que manda, no próprio modelo socioeconômico do qual ela participa. O
Brasil tem, no fundo, uma elite só, essa elite é de São Paulo. Por que isso?
Porque foi uma elite que não apenas tinha mais dinheiro, mas se construiu
simbolicamente enquanto elite. Ou seja, inventando mentiras que hoje em dia
todo mundo acredita, o negócio do bandeirante, como se fosse americano, isso
tudo é deles. Nós somos os americanos, nós vamos americanizar, modernizar o
Brasil, etc. E a fronteira agrícola também parte de São Paulo. É a partir de
São Paulo que se dá a expansão para Goiás, para o Paraná. São Paulo domina
econômica e culturalmente o país, e manda nas outras elites.
Ou
seja, não é que elas não tenham poder local, pois você tem um Caiado aqui, esse
pessoal e tudo, mas ele não tem nenhuma ingerência efetiva na forma como o país
ou a nação se desenrola.
• Goiás está entre os estados com maior
letalidade policial do país e existe um apoio social significativo a políticas
de endurecimento na segurança pública, e agora com as eleições esse assunto
também tem sido foco de palanque para disputa presidencial. O discurso de
“ordem” e “proteção” parece operar como uma chave de leitura dominante. Na sua
avaliação, ele cumpre hoje uma função semelhante ao que você compara com o
poder do discurso anticorrupção, podemos esperar isso nessas eleições?
É o
falso moralismo, é isso que podemos dizer. Esses caras são os maiores canalhas,
sabemos disso. Nenhum vale nada, um centavo, mas eles têm que se pôr exatamente
como o contrário. No fundo, o aspecto da corrupção é a única, não existe outra,
bandeira dessa elite do atraso, do saque, o que, obviamente, é uma mentira.
Essas pessoas são as mais corruptas, são elas que fazem a corrupção no país.
São as pessoas que estão no mercado. Eles compram juízes, compram políticos.
Eles vão dizer o quê para o povo? ‘A gente vai continuar explorando vocês,
vocês vão continuar sem nenhum futuro, miserável, e ainda vamos mandar a
polícia bater em vocês’? Eles não podem dizer isso. No fundo, isso tem a ver
com o racismo. A gente sabe.
As
formas do racismo entre nós nunca se mostram abertamente, porque ele pega mal.
Isso tem a ver com Getúlio Vargas e a ascensão que ele fez da influência da
africanidade na identidade nacional brasileira. Isso mudou, mas o racismo
continua por máscaras. Uma das máscaras é a de povo corrupto ou eleitor de
corrupto, são só os negros e os mestiços que estão nessa turma. E a classe
média branca aplaude e os outros pobres aplaudem porque não querem ser vistos
como bandidos e vagabundos e eles procuram embranquecer adotando os valores da
classe que os oprime como se fossem deles.
• Uma dessas representações estruturais do
racismo e da herança escravista está no trabalho análogo a escravidão. Em Goiás, recentemente tivemos o caso Amado
Batista, que é uma figura cultural conhecida no estado, assim como na política,
tivemos duas inserções na lista do trabalho sujo vinculado à família Caiado.
Quando olhamos para casos contemporâneos de trabalho escravo envolvendo figuras
centrais, o que isso revela sobre a permanência dessa lógica? Por que isso não
abala de forma mais profunda a legitimidade dessas lideranças?
Porque
estamos em um contexto onde o machismo é naturalizado, onde a misoginia é
naturalizada, o ódio a pretos e pobres é institucionalizado, faz parte de uma
visão geral. E não existe uma construção, um embate simbólico a isso, que é a
grande falha da esquerda; qual é a alternativa? Nada. Não apresenta, não
discute nada.
• E qual seria a solução para isso,
principalmente neste contexto de eleições?
Precisamos
ressuscitar a esquerda brasileira. Estou achando muito legal que tem gente aí,
influencers de esquerda comunista, normalmente, que têm tentado fazer isso com
ideologia. O PT não tem nenhuma, mas ele é Lula, ele é uma pessoa. Não tem um
projeto de país, não diz onde vai. É isso que mata a esquerda, no fundo.
É claro
que a esquerda vai se reduzir; afinal a extrema direita mundial conta com uma
campanha com muito dinheiro e conta com a imprensa, com as redes sociais –
imbecilizando o povo, porque assim eles podem roubar mais. Esse é o projeto.
Mas a esquerda não tem nenhuma reação a isso, não tem nenhuma alternativa, não
montou.
• Com recursos do governo Trump, empresa
dos EUA compra única mineradora de terras raras no Brasil. Por Jamil Chade
Um
acordo bilionário coloca uma das empresas americanas do setor de terras raras
com um acesso privilegiado aos minérios brasileiros. Nesta segunda-feira, a USA
Rare Earth anunciou que irá adquirir a mineradora brasileira de terras raras
Serra Verde, em Goiás, por US$ 2,8 bilhões em dinheiro e ações.
Num
comunicado, a empresa afirma que se trata de “mais um passo em sua estratégia
de criar uma operação que inclua mineração, processamento e fabricação de
ímãs”.
“A mina
Pela Ema da Serra Verde é um ativo único e a única produtora fora da Ásia capaz
de fornecer os quatro elementos de terras raras magnéticos em escala”, afirmou
Barbara Humpton, CEO da USA Rare Earth.
“A
empresa americana pagará US$ 300 milhões em dinheiro e 126,9 milhões em novas
ações próprias pela transação, que deve ser concluída no terceiro trimestre de
2026”, diz o comunicado.
O setor
é considerado como estratégico para os EUA, principalmente em sua disputa com a
China pela hegemonia militar e tecnológica.
O
governo de Donald Trump chegou a convidar o Brasil a fazer parte de uma aliança
anti-China no setor de terras raras, mas Brasília declinou. O acordo previa que
os participantes teriam de fornecer, de forma preferencial, os minérios ao
mercado dos EUA.
Com o
acordo anunciado nesta segunda-feira, a mineradora Serra Verde indicou ainda
que firmou um acordo de 15 anos para fornecer 100% de sua produção durante a
fase inicial da mina para uma Sociedade de Propósito Específico capitalizada
pelo governo dos EUA e por fontes privadas.
Em
janeiro, a empresa que adquiriu a mineradora brasileira recebeu uma injeção de
US$ 1,6 bilhão do governo Trump, que passou a controlar 10% da companhia.
Naquele
momento, o Secretário de Comércio, Howard Lutnick, afirmou que o investimento
“garante que nossas cadeias de suprimentos sejam resilientes e não dependam
mais de países estrangeiros.”
O
compromisso inclui um empréstimo de US$ 1,3 bilhão do Departamento de Comércio,
bem como US$ 277 milhões em financiamento federal.
Mas o
acordo entre a mineradora e o governo Trump ligou um alerta entre os
democratas.
Uma das
questões é a relação entre a USA Rare Earth e a Cantor Fitzgerald, a empresa
financeira que tinha a participação do próprio Lutnick e que foi contratada
pela mineradora como intermediária no negóciio.
Com
Lutnick no governo, são seus filhos que tocam a empresa.
Em uma
carta de 10 páginas, a deputada Zoe Lofgren, do Comitê de Ciência, Espaço e
Tecnologia da Câmara dos Representantes, alertou:
“Este
acordo cria um enorme conflito de interesses pessoal, concedendo ao Secretário
de Comércio uma influência desproporcional sobre o comportamento de uma empresa
privada, ao mesmo tempo que o coloca em posição de promover os interesses de
seus filhos como condição para seu apoio”.
Segundo
ela, os termos do acordo criariam o risco de uma influência indevida por parte
do secretário de Comércio na empresa e em seus investimentos. “A interação
entre a vulnerabilidade da empresa e seu conflito pessoal é um sinal de alerta
gritante”, escreveu Lofgren.
Em
fevereiro, os senadores Elizabeth Warren, de Massachusetts, Chris Van Hollen,
de Maryland, e Ron Wyden, do Oregon, enviaram outra carta ao secretário de
Comércio alertando que o acordo levanta questões sobre se membros da família
imediata de Lutnick podem ter se beneficiado financeiramente.
“É
imprescindível que os investimentos federais em setores críticos sejam feitos
sem conflitos de interesse e com base no mérito”, disseram os senadores a
Lutnick.
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Quem banca a empresa “brasileira”
Serra
Verde, segundo fontes do mercado, sempre contou com investidores estrangeiros.
Em 2010, foi o Fundo de Private Equity Denham Capital quem comprou o projeto.
Anos depois, foi o fundo britânico Vision Blue que desembarcou.
Para
aportar capital, os europeus solicitaram um contrato para assegurar o fluxo de
caixa. A saída veio da China, com exclusividade de compra do fluxo até 2028.
Já em
2025, a mineradora recebeu um apoio adicional do Departamento da Guerra dos
EUA, de US$ 565 milhões, para aumentar a escala de produção.
Fonte:
Por João Palhares, Brasil de Fato/ICL Notícias

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