'A
Riqueza das Nações': como livro escrito há 250 anos ainda influencia nossas
vidas
Em
1776, o escocês Adam Smith (1723-1790) publicou a obra intitulada Uma
Investigação sobre a Natureza e as Causas da Riqueza das Nações. Nela, ele não
só explicou como também transformou a economia.
O
sucesso foi imediato. O livro mudou a forma como entendemos a prosperidade e
passou a ser a pedra fundamental da literatura econômica moderna.
Com o
título abreviado para A Riqueza das Nações, a obra gera debates acalorados até
hoje e reformulou o comércio global e até os nossos salários.
Políticos
de todas as tendências reivindicaram para si partes do legado de Smith.
A
ex-primeira-ministra britânica Margaret Thatcher (1925-2013), ícone da direita
do país, supostamente levava um exemplar da obra no bolso. Posteriormente,
outro ex-primeiro-ministro, o trabalhista Gordon Brown, também elogiou o livro.
Membros
do governo republicano do ex-presidente americano Ronald Reagan (1911-2004)
usavam gravatas com a imagem de Adam Smith, como uma declaração de princípios.
E, anos depois, ele foi mencionado pelo ex-presidente democrata Barack Obama.
"Foi
Adam Smith, o pai da economia de livre mercado, quem disse em certa ocasião:
'Aqueles que alimentam, vestem e dão moradia a toda a sociedade deveriam
receber uma parte do fruto do seu próprio trabalho, que permita que eles
permaneçam razoavelmente bem alimentados, vestidos e com boa moradia.'"
"E,
para quem não está familiarizado com esse inglês antigo, permitam-me
traduzi-lo: significa que, se você trabalhar duro, deverá poder viver
decentemente."
Talvez
esta seja a marca característica de uma obra clássica. Ela continua sendo
fértil para quem a invoca ao longo do tempo, mesmo com ambientes e pontos de
vista distintos.
Dois
séculos e meio depois da sua publicação, A Riqueza das Nações não foi relegado
às estantes de história. O livro continua sendo lido, citado e, sobretudo,
questionado.
A
pergunta é: Por quê?
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Riqueza
A
Riqueza das Nações é um daqueles clássicos que muitos conhecem e citam, mas que
nem todos leram.
Em suas
páginas, Adam Smith apresentou conceitos que não parecem apenas familiares.
Eles continuam marcando a economia moderna até hoje.
Ele
começa, por exemplo, com a divisão do trabalho e a famosa ilustração de
"uma manufatura muito insignificante", segundo ele: "o ofício de
fabricante de alfinetes".
Smith
observou que "um operário não especializado neste ofício [...]
dificilmente poderia, talvez com máxima diligência, fazer um alfinete por
dia".
"Mas,
na forma em que, agora, se realiza este negócio [...], a importante tarefa de
fabricar um alfinete é dividida em cerca de 18 operações distintas."
Ele
conta ter visto fábricas em que, trabalhando apenas 10 pessoas e ainda com
maquinaria deficiente, era possível fabricar "entre todos, mais de 48 mil
alfinetes por dia".
E
destaca uma observação valiosa: "Grande parte das máquinas empregadas
naquelas indústrias onde o trabalho é mais subdividido foram inventadas
originalmente por operários comuns."
Ou
seja, a inovação, muitas vezes, surge da criatividade das pessoas que estão
diretamente em contato com o problema. E Smith ilustra este fato com um exemplo
que parece ter sido retirado de um conto de ficção.
Quando
surgiram as primeiras máquinas a vapor, um menino era contratado para abrir e
fechar constantemente a válvula que conectava a caldeira ao cilindro. Aquela
era sua única tarefa, o dia inteiro.
Entediado,
ele amarrou uma corda à válvula para que ela abrisse e fechasse sozinha. E foi
brincar com seus amigos.
Smith
considerava este desenvolvimento como um dos maiores avanços da máquina, desde
a sua invenção.
A
divisão do trabalho não é a única ideia que reverbera até hoje. O livro também
fala da importância do livre comércio, embora com limites para proteger a
igualdade.
Smith
não inventou literalmente a expressão "livre comércio", mas foi um
dos primeiros a sistematizar a teoria econômica que a sustenta.
A
frase, enquanto política concreta e termo geral, seria popularizada mais tarde,
especialmente no século 19, com os debates sobre tarifas de importação no Reino
Unido e nos EUA.
Mas, no
seu livro, Smith defendeu a eliminação de restrições comerciais e o benefício
do comércio entre as nações, permitindo que cada país produza o que melhor
souber fazer e tenha acesso àquilo que não produz.
Ele
também alertou sobre os riscos da concentração da riqueza e dos monopólios.
E
deixou uma imagem que cativou gerações: a "mão invisível", a ideia de
que quem busca seu próprio benefício pode, mesmo sem intenção, contribuir para
o bem comum.
Curiosamente,
esta metáfora já foi mencionada inúmeras vezes nos últimos dois séculos e meio.
Mas Smith a usou apenas uma vez e seu contexto original era muito mais sutil do
que hoje em dia.
Ele
defende que os comerciantes, quando preferem investir perto de casa, beneficiam
seu país sem que tenham esta intenção. E, na mesma passagem, deixa entrever seu
ceticismo em relação àqueles que invocam o bem comum como justificativa:
"Nunca
tive conhecimento de que aqueles que dizem fazer comércio pelo bem público
tenham feito isso muito bem." O século 20 tomou esta modesta metáfora e a
transformou em lei.
É claro
que Adam Smith disse muito mais. Sua obra tem quase mil páginas e resumi-la não
é fácil, mas suas principais ideias continuam válidas hoje em dia.
Mas não
podemos deixar de fora uma dessas ideias, que pode parecer simples, mas é
radical.
Para
ele, a riqueza de uma nação não reside no ouro que há nos seus cofres, nem na
fortuna de alguns poucos privilegiados, mas no nível de vida da sua população.
O ano
era 1776. E Adam Smith já articulava o que mundo só tentaria construir um
século depois: o bem-estar social.
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Radical
"Acredito
que suas ideias eram radicais para a época e que ele tinha consciência
disso", afirma o professor de história do pensamento político Craig Smith,
da Universidade de Glasgow, na Escócia — a mesma que contou com Adam Smith como
diretor.
Do
edifício que leva o nome do famoso escocês, o Smith contemporâneo estuda o
Smith clássico há décadas.
"Ele
qualificou o livro como um ataque muito violento a todo o sistema comercial
britânico. E, se você parar para pensar, é mais ou menos o que ele fez",
destacou ele, em conversa com o apresentador Rob Young, no programa de rádio
Business Daily, do Serviço Mundial da BBC.
Ele
explica que a obra criticava as grandes corporações comerciais, como a
Companhia das Índias Orientais, por serem prejudiciais para o Reino Unido.
E
também questionava a expansão imperial e as colônias, quando eram acompanhadas
de monopólios comerciais. Ele atacava a Igreja, as universidades e praticamente
todos os elementos da ordem estabelecida no seu tempo.
Mas por
que, então, ele não é lembrado como um pensador radical?
"Ele
parece ter conseguido algo bastante raro na história das ideias: apresentar uma
série de argumentos muito radicais, de forma tão cuidadosa e respaldada por
evidências empíricas, que, para o leitor, não parece tão radical quanto
realmente é."
Após a
publicação do livro, ele imediatamente se tornou famoso. Muitos políticos
começaram a citá-lo e a se declarar seguidores de Adam Smith.
Mas o
historiador destaca que as políticas relativas a muitos aspectos criticados
duramente por Smith simplesmente continuaram como eram antes.
"Foi
apenas no início do século 19 que o livre comércio começou a ganhar terreno
como agenda política concreta", segundo Craig Smith.
Adam
Smith é frequentemente chamado de pai da economia ou do capitalismo. Mas é
possível atribuir a ele a responsabilidade pela economia globalizada que temos
hoje em dia?
"Esta
é uma pergunta difícil", responde Craig Smith.
Para
ele, Smith forneceu ferramentas analíticas para entendermos como funciona uma
sociedade comercial. E, "quando você tem essas ferramentas, pode
desenvolver melhor os tipos de estratégias para as empresas e as diferentes
políticas para os governos".
"Mas
não acredito que A Riqueza das Nações seja uma espécie de plano para o
capitalismo global."
De
fato, o termo "capitalismo" levaria décadas para surgir e só se
popularizaria no início do século 20.
"Acredito
que Smith esperava que seu livro fornecesse uma compreensão mais clara, uma
compreensão científica de como funciona a economia política", explica o
professor.
"E
que, como resultado, as pessoas não ficassem sujeitas a teorias falsas, nem se
deixassem persuadir por argumentos interesseiros de certos protagonistas
econômicos poderosos."
Esta
esperança, em grande parte, continua sendo uma aspiração.
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Apreciar a leitura
Adam
Smith se autodescrevia como filósofo moral.
Sua
obra foi escrita para um público interessado no assunto, mas não especializado.
Ele não tem jargão incompreensível, mas sim relatos de observações pessoais e
faz constar seus pensamentos e análises sobre o mundo que o rodeava.
Mundo
este que estava em total ebulição.
Como
destaca o economista Robert Reich, a antiga ordem da Igreja e a prerrogativa
real estavam dando espaço para uma noção totalmente nova: de que as sociedades
existem para as pessoas que as integram.
Não por
acaso, o livro foi publicado em 1776, o mesmo ano em que os americanos
declararam sua independência, com direito natural à vida, à liberdade e à busca
da felicidade.
Os
grandes pensadores do Iluminismo tinham como certo que os indivíduos se
esforçariam para melhorar suas vidas, não por egoísmo, mas porque esta é a
motivação fundamental de todo ser humano. A boa sociedade seria, portanto,
aquela que oferecesse esta possibilidade.
As
ideias de Smith se encaixavam perfeitamente nesta nova concepção.
Ele
observou o capitalismo industrial que acabava de nascer e não poderia prever a
magnitude da transformação que aquele sistema sofreria nos séculos seguintes.
Mas o
tempo não o transformou em arquivo morto.
Em
2023, a economista Gita Gopinath, então vice-diretora do Fundo Monetário
Internacional (FMI) (hoje, de volta à Universidade Harvard, nos Estados
Unidos), deu uma conferência na Universidade de Glasgow comparando a
inteligência artificial com a Revolução Industrial, que Smith presenciou em
vida.
Gopinath
destacou que a IA "poderá mudar nossas vidas de formas espetaculares e,
possivelmente, existenciais. Poderá até redefinir o que significa ser
humano."
Ela
afirmou que Smith, considerando seu interesse por uma economia que beneficiasse
a todos, provavelmente também teria tido suas ressalvas.
"A
mão invisível sozinha pode não ser suficiente para garantir benefícios amplos
para a sociedade", segundo a economista.
O
título da conferência, adequadamente, era "O poder e os perigos da mão
artificial".
Um
homem do século 18, que nunca usou a palavra capitalismo, que se considerava
filósofo e não economista, que escreveu sobre fabricantes de alfinetes e um
menino entediado ao lado de uma máquina a vapor, continua sendo referência
obrigatória quando a humanidade enfrenta suas maiores transformações.
Esta
talvez seja a melhor definição de um clássico.
Por
tudo isso, provavelmente vale a pena seguir o conselho de Craig Smith em um
vídeo da Universidade de Glasgow, por motivo do 250° aniversário do livro:
"Pegue
este exemplar empoeirado de A Riqueza das Nações, que você mantém na estante
desde que era estudante universitário... leia... você apreciará a
leitura."
Fonte:
Por Dalia Ventura, em BBC News Mundo

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