quarta-feira, 22 de abril de 2026

Lula ameça adotar 'reciprocidade' após EUA pedirem saída de delegado da PF envolvido em caso Ramagem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta segunda-feira (21/04) que o Brasil pode adotar medidas de "reciprocidade" após o governo dos Estados Unidos solicitar a saída do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação em Miami.

A decisão americana foi tomada após a atuação do delegado na detenção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), na semana passada, em território americano.

Falando a jornalistas ao deixar Hannover, na Alemanha, onde participou de uma feira de negócios e tecnologia, Lula disse ter sido informado sobre o caso na manhã desta terça-feira (21/4) e criticou a postura das autoridades americanas.

"Eu não sei o que aconteceu, fui informado hoje de manhã. Acho que, se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o deles no Brasil. Não tem conversa. Ou seja, nós queremos que as coisas aconteçam da forma mais correta possível, mas nós não podemos aceitar essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas personalidades americanas querem ter com relação ao Brasil", afirmou.

O pedido para que o delegado deixe os Estados Unidos foi divulgado pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, do Departamento de Estado americano, em uma publicação na rede social X. Sem citar nominalmente Marcelo Ivo, o órgão afirmou:

"Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro em questão deixe nosso país por tentar fazer isso."

Na mensagem, o governo americano classifica a atuação como uma tentativa de "manipular" o sistema de imigração do país.

Marcelo Ivo de Carvalho estava nos Estados Unidos desde agosto de 2023, atuando em Miami, na Flórida, como oficial de ligação da Polícia Federal junto ao Immigration and Customs Enforcement (ICE), agência responsável pela aplicação das leis de imigração e alfândega. Na função, coordenava a cooperação entre Brasil e Estados Unidos em investigações transnacionais e operações migratórias, atuando diretamente dentro das instalações do órgão americano.

Ele era o único delegado federal brasileiro designado para atuar diretamente nas dependências do ICE, o que lhe conferia um papel estratégico na interlocução entre as autoridades dos dois países, especialmente na região da Flórida.

Com mais de duas décadas de carreira, Marcelo Ivo ingressou na Polícia Federal em 2003. Entre 2018 e 2021, foi delegado regional de investigação e combate ao crime organizado em São Paulo. Depois, assumiu a superintendência da PF na Paraíba, cargo que ocupou entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2023, antes de ser designado para a missão nos Estados Unidos.

<><> ENTENDA O CASO

O governo dos Estados Unidos solicitou ao governo do Brasil que o oficial de ligação da Polícia Federal na Flórida, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho, deixe o país após sua atuação na detenção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ) na semana passada.

Em nota divulgada no X (antigo Twitter), o Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, do Departamento de Estado norte-americano, não cita o nome do delegado, mas classifica sua atuação como uma tentativa de "manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos.

"Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração tanto para contornar pedidos de extradições formais quanto para estender caça às bruxas política ao território dos Estados Unidos. Hoje, nós pedimos que o funcionário brasileiro relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso", diz a nota.

A saída de Carvalho dos Estados Unidos havia sido divulgada mais cedo pelo portal Metrópoles e foi confirmada pela BBC News Brasil.

A reportagem questionou a Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores (MRE) sobre o caso, mas ainda não recebeu respostas. Uma fonte da PF ouvida em caráter reservado pela BBC News Brasil disse que a instituição ainda não havia sido formalmente comunicada da decisão sobre o delegado.

Ramagem foi condenado a 16 anos de prisão em setembro de 2025 pelo Supremo Tribunal Federal (STF) na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de direito, tentativa de golpe de Estado e organização criminosa.

Ele foi diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo Bolsonaro e foi eleito deputado em 2022, mas teve seu mandato cassado em dezembro passado após o STF determinar a perda de mandato por sua condenação.

Ramagem vive nos Estados Unidos desde o ano passado e é considerado foragido pela Justiça brasileira. De acordo com a PF, ele fugiu do Brasil pela divisa do país com a Guiana, de onde pegou um voo para os Estados Unidos.

Há uma semana, em 13 de abril, ele foi detido por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE). Segundo a Polícia Federal, a detenção de Ramagem foi resultado de uma cooperação policial internacional.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que o oficial de ligação da PF na Flórida (Carvalho) teria enviado dados sobre o paradeiro de Ramagem a autoridades de imigração norte-americana que resultaram na detenção do ex-deputado.

Dois dias depois, Ramagem foi solto, após forte pressão de apoiadores do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), entre eles o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e o empresário Paulo Figueiredo, ambos radicados nos Estados Unidos.

Desde então, autoridades norte-americanas iniciaram um processo de apuração interna para saber como teria se dado essa cooperação policial.

A apuração tinha o objetivo de identificar, entre outras coisas, se o objetivo das autoridades brasileiras ao acionar o ICE para prender Ramagem era uma tentativa de burlar o processo de extradição do ex-parlamentar, uma vez que a decisão sobre se ele será ou não extraditado ao Brasil depende do Departamento do Estado, enquanto a deportação em casos de irregularidades migratórias depende do Departamento de Segurança Interna.

O Departamento de Estado é comandado por Marco Rubio, Rubio que mantém uma relação de proximidade com lideranças do campo bolsonarista e já se manifestou diversas vezes em tom crítico sobre o julgamento que condenou Bolsonaro e Ramagem.

Além disso, há pelo menos cinco anos, autoridades brasileiras vêm enfrentando dificuldades para obter a extradição de investigados e condenados por atos contra ministros do STF ou aos atos do 8 de Janeiro que estejam nos Estados Unidos.

Exemplo disso é a demora na avaliação ou mesmo a recusa dos Estados Unidos em atender pedidos de extradição, como os que existem contra Ramagem desde dezembro de 2025 e contra o blogueiro Allan dos Santos, expedido em 2021.

Nessa suposta estratégia de contornar o Departamento de Estado, conseguir a deportação de Ramagem por questões migratórias seria a forma mais rápida de fazer com que o ex-deputado voltasse ao Brasil, uma vez que a deportação é um procedimento administrativo que não demandaria uma decisão política do Departamento de Estado.

Um funcionário do governo norte-americano ouvido pela BBC News Brasil em caráter reservado disse na semana passada, no entanto, que se o objetivo da ação junto ao ICE para deter Ramagem era conseguir o envio de Ramagem ao Brasil desviando do Departamento de Estado, a manobra poderia gerar uma quebra de confiança entre as autoridades dos dois países.

¨      Quem é o delegado da PF alvo de ordem do governo Trump para deixar os EUA

O delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de Carvalho, que atuava como oficial de ligação da corporação nos Estados Unidos, tornou-se o centro de uma tensão diplomática após o governo americano solicitar que ele deixe o país. A medida veio após sua atuação na detenção do ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), na semana passada, em território americano.

O pedido foi confirmado publicamente pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, ligado ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, em uma publicação na rede social X. Sem citar nominalmente Marcelo Ivo, o órgão afirmou:

"Nenhum estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos Estados Unidos. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro em questão deixe nosso país por tentar fazer isso."

Na mensagem, o governo americano classifica a atuação como uma tentativa de "manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos para contornar pedidos formais de extradição e estender "perseguições políticas" ao território americano.

Até o momento, nem a Polícia Federal nem o Ministério das Relações Exteriores se manifestaram oficialmente sobre o caso. Uma fonte da PF ouvida sob reserva disse que a instituição ainda não havia sido formalmente comunicada da decisão.

Marcelo Ivo de Carvalho estava nos Estados Unidos desde agosto de 2023, baseado em Miami, na Flórida, como oficial de ligação da Polícia Federal junto ao Immigration and Customs Enforcement (ICE), agência responsável pela aplicação das leis de imigração e alfândega no país.

Na função, ele coordenava a cooperação entre Brasil e Estados Unidos em investigações transnacionais e operações migratórias, atuando diretamente dentro das instalações do órgão americano.

Segundo informações disponíveis, ele era o único delegado federal brasileiro designado para atuar diretamente nas dependências do ICE, o que lhe conferia um papel estratégico na interlocução entre as autoridades dos dois países, especialmente na região da Flórida.

Com mais de duas décadas de carreira na Polícia Federal, Marcelo Ivo ingressou como delegado em 2003 e acumulou cargos de destaque ao longo dos anos. Entre março de 2018 e maio de 2021, foi delegado regional de investigação e combate ao crime organizado em São Paulo. Posteriormente, assumiu a superintendência da Polícia Federal na Paraíba, função que exerceu entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2023, antes de ser designado para a missão internacional nos Estados Unidos.

A Polícia Federal informou que o delegado estava no país em missão oficial de colaboração com as autoridades americanas. Ainda assim, a saída determinada pelo governo dos EUA ocorreu de forma compulsória, sem que tenham sido detalhados publicamente outros motivos específicos para a medida além das críticas feitas pelo Departamento de Estado.

O caso ocorre em meio a um momento sensível na cooperação entre Brasil e Estados Unidos em temas de segurança e migração, e coloca sob escrutínio os limites da atuação de autoridades estrangeiras dentro do sistema legal americano.

<><> Governo Trump faz apuração interna

A prisão de Alexandre Ramagem (PL-RJ) nesta semana por agentes do Serviço de Imigração e Controle de Aduanas (ICE) levou autoridades americanas a apurar internamente o que levou a agência a prender o ex-deputado, segundo fontes do governo dos Estados Unidos ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado.

A detenção de Ramagem não seria de interesse do alto comando do governo do presidente Donald Trump, do contrário, ele não teria sido solto dois dias depois, após forte pressão da ala bolsonarista junto ao governo americano.

Nesse sentido, segundo uma fonte ouvida pela BBC News Brasil, o governo americano também quer esclarecer em que consistiu a cooperação entre autoridades policiais americanas e a Polícia Federal (PF), como apontou o órgão brasileiro em comunicado no dia da prisão de Ramagem.

Segundo esta fonte, haveria dúvidas sobre se o alto comando do ICE, do Departamento de Segurança Interna e do Departamento de Estado tinham conhecimento da cooperação citada pela PF e a agência de imigração para prender Ramagem.

Ainda de acordo com a fonte, se houve alguma cooperação, ela ocorreu em níveis mais baixos do governo Trump.

A apuração interna do governo americano também busca compreender se a estratégia por trás da atuação brasileira contra Ramagem nos Estados Unidos teria sido uma tentativa de driblar o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio.

Nos Estados Unidos, a extradição precisa ser autorizada pelo Departamento de Estado. Por sua vez, Rubio mantém uma relação de proximidade com lideranças do campo bolsonarista e já criticou o julgamento que deu origem à condenação de Ramagem.

Além disso, há pelo menos cinco anos, autoridades brasileiras vêm enfrentando dificuldades para obter a extradição de investigados e condenados por atos contra ministros do STF ou aos atos do 8 de Janeiro que estejam nos Estados Unidos.

Um exemplo disso é a demora na avaliação ou mesmo a recusa dos Estados Unidos em atender pedidos de extradição, como os que existem contra Ramagem desde dezembro de 2025 e contra o blogueiro Alan dos Santos, expedido em 2021.

Nessa suposta estratégia, conseguir a deportação de Ramagem por questões migratórias seria a forma mais rápida de fazer com que o ex-deputado voltasse ao Brasil, uma vez que a deportação é um procedimento administrativo que não demandaria uma decisão política do Departamento de Estado.

O entendimento é que, se o objetivo da ação junto ao ICE para deter Ramagem era conseguir o envio de Ramagem ao Brasil desviando do Departamento de Estado, a manobra poderia gerar uma quebra de confiança entre as autoridades dos dois países.

Isso ocorre em um contexto já marcado por tensões agravadas pelo tarifaço imposto pelo governo dos Estados Unidos ao Brasil em 2025 e que vinha sendo contornado após a breve aproximação entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Além disso, o cenário em que Ramagem seria deportado sem conhecimento da alta cúpula do governo americano é considerado remoto tanto pela proximidade que a ala bolsonarista tem com parte da administração Trump quanto pela possibilidade de que ele possa exercer algum papel em um eventual governo do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), a partir de 2027, caso ele vença as eleições presidenciais deste ano.

Procurada pela BBC News Brasil, a PF disse em nota que "a cooperação policial internacional relacionada ao caso ocorreu entre a instituição e interlocutores policiais dos Estados Unidos, com o objetivo de localizar e prender foragido da Justiça brasileira com pedido ativo de extradição".

A PF afirmou ainda que não foi informada oficialmente sobre os motivos que levaram à soltura de Ramagem.

O jornalista e empresário Paulo Figueiredo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que Ramagem foi solto sem pagar fiança, porque sua situação no país foi considerada regular por aguardar julgamento de pedido de asilo nos EUA.

A defesa de Ramagem foi procurada pela BBC News Brasil, mas não se manifestou até a publicação desta reportagem.

 

Fonte: BBC News Brasil

 

Nenhum comentário: