Lula
ameça adotar 'reciprocidade' após EUA pedirem saída de delegado da PF envolvido
em caso Ramagem
O
presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) afirmou nesta segunda-feira (21/04)
que o Brasil pode adotar medidas de "reciprocidade" após o governo
dos Estados Unidos solicitar a saída do delegado da Polícia Federal Marcelo Ivo
de Carvalho, que atuava como oficial de ligação em Miami.
A
decisão americana foi tomada após a atuação do delegado na detenção do
ex-deputado federal Alexandre Ramagem (PL-RJ), na semana passada, em território
americano.
Falando
a jornalistas ao deixar Hannover, na Alemanha, onde participou de uma feira de
negócios e tecnologia, Lula disse ter sido informado sobre o caso na manhã
desta terça-feira (21/4) e criticou a postura das autoridades americanas.
"Eu
não sei o que aconteceu, fui informado hoje de manhã. Acho que, se houve um
abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade
com o deles no Brasil. Não tem conversa. Ou seja, nós queremos que as coisas
aconteçam da forma mais correta possível, mas nós não podemos aceitar essa
ingerência e esse abuso de autoridade que algumas personalidades americanas
querem ter com relação ao Brasil", afirmou.
O
pedido para que o delegado deixe os Estados Unidos foi divulgado pelo
Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental, do Departamento de Estado
americano, em uma publicação na rede social X. Sem citar nominalmente Marcelo
Ivo, o órgão afirmou:
"Nenhum
estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos
formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos
Estados Unidos. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro em questão deixe
nosso país por tentar fazer isso."
Na
mensagem, o governo americano classifica a atuação como uma tentativa de
"manipular" o sistema de imigração do país.
Marcelo
Ivo de Carvalho estava nos Estados Unidos desde agosto de 2023, atuando em
Miami, na Flórida, como oficial de ligação da Polícia Federal junto ao
Immigration and Customs Enforcement (ICE), agência responsável pela aplicação
das leis de imigração e alfândega. Na função, coordenava a cooperação entre
Brasil e Estados Unidos em investigações transnacionais e operações
migratórias, atuando diretamente dentro das instalações do órgão americano.
Ele era
o único delegado federal brasileiro designado para atuar diretamente nas
dependências do ICE, o que lhe conferia um papel estratégico na interlocução
entre as autoridades dos dois países, especialmente na região da Flórida.
Com
mais de duas décadas de carreira, Marcelo Ivo ingressou na Polícia Federal em
2003. Entre 2018 e 2021, foi delegado regional de investigação e combate ao
crime organizado em São Paulo. Depois, assumiu a superintendência da PF na
Paraíba, cargo que ocupou entre fevereiro de 2022 e janeiro de 2023, antes de
ser designado para a missão nos Estados Unidos.
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ENTENDA O CASO
O
governo dos Estados Unidos solicitou ao governo do Brasil que o oficial de
ligação da Polícia Federal na Flórida, o delegado Marcelo Ivo de Carvalho,
deixe o país após sua atuação na detenção do ex-deputado federal Alexandre
Ramagem (PL-RJ) na semana passada.
Em nota
divulgada no X (antigo Twitter), o Escritório de Assuntos do Hemisfério
Ocidental, do Departamento de Estado norte-americano, não cita o nome do
delegado, mas classifica sua atuação como uma tentativa de
"manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos.
"Nenhum
estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração tanto para contornar
pedidos de extradições formais quanto para estender caça às bruxas política ao
território dos Estados Unidos. Hoje, nós pedimos que o funcionário brasileiro
relevante deixe nossa nação por tentar fazer isso", diz a nota.
A saída
de Carvalho dos Estados Unidos havia sido divulgada mais cedo pelo portal
Metrópoles e foi confirmada pela BBC News Brasil.
A
reportagem questionou a Polícia Federal e o Ministério das Relações Exteriores
(MRE) sobre o caso, mas ainda não recebeu respostas. Uma fonte da PF ouvida em
caráter reservado pela BBC News Brasil disse que a instituição ainda não havia
sido formalmente comunicada da decisão sobre o delegado.
Ramagem
foi condenado a 16 anos de prisão em setembro de 2025 pelo Supremo Tribunal
Federal (STF) na mesma ação penal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro
(PL) por crimes de tentativa de abolição violenta do Estado democrático de
direito, tentativa de golpe de Estado e organização criminosa.
Ele foi
diretor da Agência Brasileira de Inteligência (Abin) durante o governo
Bolsonaro e foi eleito deputado em 2022, mas teve seu mandato cassado em
dezembro passado após o STF determinar a perda de mandato por sua condenação.
Ramagem
vive nos Estados Unidos desde o ano passado e é considerado foragido pela
Justiça brasileira. De acordo com a PF, ele fugiu do Brasil pela divisa do país
com a Guiana, de onde pegou um voo para os Estados Unidos.
Há uma
semana, em 13 de abril, ele foi detido por agentes do Serviço de Imigração e
Controle de Aduanas dos Estados Unidos (ICE). Segundo a Polícia Federal, a
detenção de Ramagem foi resultado de uma cooperação policial internacional.
O
diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, afirmou que o oficial de ligação da PF
na Flórida (Carvalho) teria enviado dados sobre o paradeiro de Ramagem a
autoridades de imigração norte-americana que resultaram na detenção do
ex-deputado.
Dois
dias depois, Ramagem foi solto, após forte pressão de apoiadores do
ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), entre eles o ex-deputado federal Eduardo
Bolsonaro (PL-SP) e o empresário Paulo Figueiredo, ambos radicados nos Estados
Unidos.
Desde
então, autoridades norte-americanas iniciaram um processo de apuração interna
para saber como teria se dado essa cooperação policial.
A
apuração tinha o objetivo de identificar, entre outras coisas, se o objetivo
das autoridades brasileiras ao acionar o ICE para prender Ramagem era uma
tentativa de burlar o processo de extradição do ex-parlamentar, uma vez que a
decisão sobre se ele será ou não extraditado ao Brasil depende do Departamento
do Estado, enquanto a deportação em casos de irregularidades migratórias
depende do Departamento de Segurança Interna.
O
Departamento de Estado é comandado por Marco Rubio, Rubio que mantém uma
relação de proximidade com lideranças do campo bolsonarista e já se manifestou
diversas vezes em tom crítico sobre o julgamento que condenou Bolsonaro e
Ramagem.
Além
disso, há pelo menos cinco anos, autoridades brasileiras vêm enfrentando
dificuldades para obter a extradição de investigados e condenados por atos
contra ministros do STF ou aos atos do 8 de Janeiro que estejam nos Estados
Unidos.
Exemplo
disso é a demora na avaliação ou mesmo a recusa dos Estados Unidos em atender
pedidos de extradição, como os que existem contra Ramagem desde dezembro de
2025 e contra o blogueiro Allan dos Santos, expedido em 2021.
Nessa
suposta estratégia de contornar o Departamento de Estado, conseguir a
deportação de Ramagem por questões migratórias seria a forma mais rápida de
fazer com que o ex-deputado voltasse ao Brasil, uma vez que a deportação é um
procedimento administrativo que não demandaria uma decisão política do
Departamento de Estado.
Um
funcionário do governo norte-americano ouvido pela BBC News Brasil em caráter
reservado disse na semana passada, no entanto, que se o objetivo da ação junto
ao ICE para deter Ramagem era conseguir o envio de Ramagem ao Brasil desviando
do Departamento de Estado, a manobra poderia gerar uma quebra de confiança
entre as autoridades dos dois países.
¨
Quem é o delegado da PF alvo de ordem do governo Trump
para deixar os EUA
O
delegado da Polícia Federal (PF) Marcelo Ivo de
Carvalho, que atuava como oficial de ligação da corporação nos Estados Unidos, tornou-se o centro
de uma tensão diplomática após o governo americano solicitar que ele deixe o país. A medida veio após
sua atuação na detenção do ex-deputado federal
Alexandre Ramagem (PL-RJ),
na semana passada, em território americano.
O
pedido foi confirmado publicamente pelo Escritório de Assuntos do Hemisfério
Ocidental, ligado ao Departamento de Estado dos Estados Unidos, em uma
publicação na rede social X. Sem citar nominalmente Marcelo Ivo, o órgão
afirmou:
"Nenhum
estrangeiro pode manipular nosso sistema de imigração para contornar pedidos
formais de extradição e estender perseguições políticas ao território dos
Estados Unidos. Hoje, solicitamos que o funcionário brasileiro em questão deixe
nosso país por tentar fazer isso."
Na
mensagem, o governo americano classifica a atuação como uma tentativa de
"manipular" o sistema de imigração dos Estados Unidos para contornar
pedidos formais de extradição e estender "perseguições políticas" ao
território americano.
Até o
momento, nem a Polícia Federal nem o Ministério das Relações Exteriores se
manifestaram oficialmente sobre o caso. Uma fonte da PF ouvida sob reserva
disse que a instituição ainda não havia sido formalmente comunicada da decisão.
Marcelo
Ivo de Carvalho estava nos Estados Unidos desde agosto de 2023, baseado em
Miami, na Flórida, como oficial de ligação da Polícia Federal junto ao
Immigration and Customs Enforcement (ICE), agência responsável pela aplicação
das leis de imigração e alfândega no país.
Na
função, ele coordenava a cooperação entre Brasil e Estados Unidos em
investigações transnacionais e operações migratórias, atuando diretamente
dentro das instalações do órgão americano.
Segundo
informações disponíveis, ele era o único delegado federal brasileiro designado
para atuar diretamente nas dependências do ICE, o que lhe conferia um papel
estratégico na interlocução entre as autoridades dos dois países, especialmente
na região da Flórida.
Com
mais de duas décadas de carreira na Polícia Federal, Marcelo Ivo ingressou como
delegado em 2003 e acumulou cargos de destaque ao longo dos anos. Entre março
de 2018 e maio de 2021, foi delegado regional de investigação e combate ao
crime organizado em São Paulo. Posteriormente, assumiu a superintendência da
Polícia Federal na Paraíba, função que exerceu entre fevereiro de 2022 e
janeiro de 2023, antes de ser designado para a missão internacional nos Estados
Unidos.
A
Polícia Federal informou que o delegado estava no país em missão oficial de
colaboração com as autoridades americanas. Ainda assim, a saída determinada
pelo governo dos EUA ocorreu de forma compulsória, sem que tenham sido
detalhados publicamente outros motivos específicos para a medida além das
críticas feitas pelo Departamento de Estado.
O caso
ocorre em meio a um momento sensível na cooperação entre Brasil e Estados
Unidos em temas de segurança e migração, e coloca sob escrutínio os limites da
atuação de autoridades estrangeiras dentro do sistema legal americano.
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Governo Trump faz apuração interna
A
prisão de Alexandre Ramagem (PL-RJ) nesta semana por agentes do Serviço de
Imigração e Controle de Aduanas (ICE) levou autoridades americanas a apurar
internamente o que levou a agência a prender o ex-deputado, segundo fontes do
governo dos Estados Unidos ouvidas pela BBC News Brasil em caráter reservado.
A
detenção de Ramagem não seria de interesse do alto comando do governo do
presidente Donald Trump, do contrário, ele não teria sido solto dois dias
depois, após forte pressão da ala bolsonarista junto ao governo americano.
Nesse
sentido, segundo uma fonte ouvida pela BBC News Brasil, o governo americano
também quer esclarecer em que consistiu a cooperação entre autoridades
policiais americanas e a Polícia Federal (PF), como apontou o órgão brasileiro
em comunicado no dia da prisão de Ramagem.
Segundo
esta fonte, haveria dúvidas sobre se o alto comando do ICE, do Departamento de
Segurança Interna e do Departamento de Estado tinham conhecimento da cooperação
citada pela PF e a agência de imigração para prender Ramagem.
Ainda
de acordo com a fonte, se houve alguma cooperação, ela ocorreu em níveis mais
baixos do governo Trump.
A
apuração interna do governo americano também busca compreender se a estratégia
por trás da atuação brasileira contra Ramagem nos Estados Unidos teria sido uma
tentativa de driblar o Departamento de Estado, comandado por Marco Rubio.
Nos
Estados Unidos, a extradição precisa ser autorizada pelo Departamento de
Estado. Por sua vez, Rubio mantém uma relação de proximidade com lideranças do
campo bolsonarista e já criticou o julgamento que deu origem à condenação de
Ramagem.
Além
disso, há pelo menos cinco anos, autoridades brasileiras vêm enfrentando
dificuldades para obter a extradição de investigados e condenados por atos
contra ministros do STF ou aos atos do 8 de Janeiro que estejam nos Estados
Unidos.
Um
exemplo disso é a demora na avaliação ou mesmo a recusa dos Estados Unidos em
atender pedidos de extradição, como os que existem contra Ramagem desde
dezembro de 2025 e contra o blogueiro Alan dos Santos, expedido em 2021.
Nessa
suposta estratégia, conseguir a deportação de Ramagem por questões migratórias
seria a forma mais rápida de fazer com que o ex-deputado voltasse ao Brasil,
uma vez que a deportação é um procedimento administrativo que não demandaria
uma decisão política do Departamento de Estado.
O
entendimento é que, se o objetivo da ação junto ao ICE para deter Ramagem era
conseguir o envio de Ramagem ao Brasil desviando do Departamento de Estado, a
manobra poderia gerar uma quebra de confiança entre as autoridades dos dois
países.
Isso
ocorre em um contexto já marcado por tensões agravadas pelo tarifaço imposto
pelo governo dos Estados Unidos ao Brasil em 2025 e que vinha sendo contornado
após a breve aproximação entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva
(PT).
Além
disso, o cenário em que Ramagem seria deportado sem conhecimento da alta cúpula
do governo americano é considerado remoto tanto pela proximidade que a ala
bolsonarista tem com parte da administração Trump quanto pela possibilidade de
que ele possa exercer algum papel em um eventual governo do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ), a partir de 2027, caso ele vença as eleições presidenciais
deste ano.
Procurada
pela BBC News Brasil, a PF disse em nota que "a cooperação policial
internacional relacionada ao caso ocorreu entre a instituição e interlocutores
policiais dos Estados Unidos, com o objetivo de localizar e prender foragido da
Justiça brasileira com pedido ativo de extradição".
A PF
afirmou ainda que não foi informada oficialmente sobre os motivos que levaram à
soltura de Ramagem.
O
jornalista e empresário Paulo Figueiredo afirmou ao jornal Folha de S.Paulo que
Ramagem foi solto sem pagar fiança, porque sua situação no país foi considerada
regular por aguardar julgamento de pedido de asilo nos EUA.
A
defesa de Ramagem foi procurada pela BBC News Brasil, mas não se manifestou até
a publicação desta reportagem.
Fonte:
BBC News Brasil

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