Operação
Brother Sam: papel dos Estados Unidos no golpe de 1964
Há 62
anos, em 1º de abril de 1964, o presidente João Goulart era deposto por um
golpe de Estado, marcando o início de uma ditadura militar que se estendeu por
mais de duas décadas e resultou em inúmeros retrocessos.
Ocorrido
em meio ao ápice da Guerra Fria, o golpe contou com apoio decisivo dos Estados
Unidos, que enxergavam Goulart como uma ameaça potencial aos seus interesses no
continente. IBAD e IPES, think tanks dirigidos pela CIA, tiveram papel central
na articulação golpista.
Washington
financiou campanhas de desestabilização política, cooptou parlamentares e atuou
ativamente para radicalizar a oposição a Goulart. Quando a mobilização das
tropas teve início, os Estados Unidos lançaram a Operação Brother Sam, enviando
sua frota naval para dar apoio aos militares brasileiros e esmagar a eventual
resistência ao golpe.
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A elite contra Goulart
O golpe
de Estado de 1964 no Brasil resultou da convergência de forças e interesses
diversos aglutinados em reação à ascensão das classes populares e às reformas
de base propostas por João Goulart.
Apoiado
pela esquerda nacionalista, o projeto desenvolvimentista de Goulart preconizava
que o combate à concentração fundiária e de renda e a redução da desigualdade
social eram passos indispensáveis para a modernização do Brasil.
O amplo
apoio popular às reformas de base alarmou os segmentos mais conservadores da
sociedade, ao perceberem que seus privilégios políticos, sociais e econômicos
poderiam estar ameaçados.
Empresariado
nacional, multinacionais, lideranças religiosas e o oficialato militar se
engajaram na condução de uma campanha de desestabilização do governo de João
Goulart, justificando o intento golpista por meio do fantasma da ameaça
comunista, do discurso moralizante de combate à corrupção e de uma alegada
defesa da família e da “liberdade”.
Embora
o contexto nacional criasse as condições necessárias para o golpe, o
encorajamento e o auxílio prestados pelo governo dos Estados Unidos foram
fatores preponderantes para que a ruptura institucional ocorresse de fato.
Desde o início dos anos 60, Washington já buscava interferir na política
brasileira com o objetivo de desestabilizar a esquerda e avançar a agenda
anticomunista.
Por
intermédio da Agência Central de Inteligência (CIA), o governo norte-americano
fomentou a ação de think tanks conservadores, manipulou a opinião pública,
financiou a oposição a Goulart e coordenou a conspiração entre militares e
setores influentes da sociedade, dando garantia, apoio financeiro, material e
militar para o golpe de 1964.
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Alinhamento da política externa
Alçado
ao poder após o fim do Estado Novo, o presidente Eurico Gaspar Dutra havia
estabelecido uma política externa de subordinação e alinhamento automático ao
governo dos Estados Unidos. Por determinação de Truman, Dutra fundou no Brasil
a Escola Superior de Guerra (ESG), inspirada nos “War Colleges”
norte-americanos.
Ao
contrário das instituições congêneres tradicionais, a Escola Superior de Guerra
não tinha como enfoque o estudo de táticas e estratégias militares, mas a
doutrinação política dos quadros das Forças Armadas sob um viés anticomunista e
conservador, focado na defesa dos interesses de Washington.
Quando
Juscelino Kubitschek assumiu o poder e determinou a criação de uma política
externa pragmática aliada ao ideário nacional-desenvolvimentista da Era Vargas,
o governo norte-americano mostrou-se ressabiado e preocupado com o possível
desalinhamento do Brasil.
Após
Kubitschek, Jânio Quadros condecorou Che Guevara e introduziu a Política
Externa Independente, baseada na premissa de que o Brasil manteria relações
comerciais e diplomáticas com todas as nações, independentemente de seus
sistemas políticos e socioeconômicos.
Em
seguida, João Goulart encampou reformas progressistas e mostrou-se disposto a
estreitar laços com países do bloco socialista. Em 1962, após uma série de
nacionalizações de empresas estrangeiras conduzidas por governadores da base
governista, Goulart sancionou a Lei de Remessa de Lucros, vista como
inconveniente pelas multinacionais norte-americanas e europeias.
No
mesmo ano, Goulart se recusou a seguir a orientação de John Kennedy de impor
sanções contra Cuba e também se negou a apoiar a expulsão da nação caribenha da
Organização dos Estados Americanos (OEA). A insistência em uma política externa
autônoma convenceu Washington de que era a hora de uma mudança de regime.
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Lincoln Gordon articula o golpe
Um dos
primeiros instrumentos acionados pela Casa Branca para desestabilizar o governo
de João Goulart foi a Aliança para o Progresso. Criada em 1961, a aliança era
apresentada como um programa de ajuda econômica e social dos Estados Unidos
para a América Latina, oficialmente destinado a combater a pobreza, promover
reformas e impedir o avanço das ideias socialistas, impulsionadas desde o
triunfo da Revolução Cubana.
No
Brasil, entretanto, a Aliança para o Progresso foi usada de forma seletiva como
instrumento de pressão política contra Goulart. Em vez de canalizar recursos
para o governo federal, Washington direcionava empréstimos e auxílios
diretamente para governos estaduais oposicionistas, criando o que o embaixador
norte-americano Lincoln Gordon chamou de “ilhas de sanidade administrativa”.
Estados
como Guanabara (governada pelo histriônico Carlos Lacerda), Minas Gerais
(Magalhães Pinto) e São Paulo (Carvalho Pinto e Ademar de Barros) receberam
financiamentos generosos para obras, propaganda e projetos de impacto,
fortalecendo politicamente esses governadores, irrigando suas bases e
aumentando sua capacidade de fazer oposição ao presidente.
Os
encontros no Salão Oval da Casa Branca revelam o tom da animosidade contra
Goulart. Em 30 de julho de 1962, John Kennedy se reuniu com Lincoln Gordon e o
assessor Richard Goodwin para discutir a possibilidade de uma intervenção
militar no Brasil.
Gordon
disse a Kennedy que Goulart estava “entregando a porcaria do país de graça”
para os “comunistas” e propôs que os Estados Unidos deveriam “fortalecer a
espinha dorsal dos militares”. O embaixador norte-americano elogiou
efusivamente os militares brasileiros, descrevendo-os como “muito amigáveis
conosco, muito anticomunistas, muito desconfiados de Goulart”.
Kennedy
incumbiu Gordon e a CIA de planejarem uma operação de troca de regime no
Brasil. Em outubro de 1963, a Casa Branca já dispunha de planos de contingência
e aventou a possibilidade de uma intervenção militar direta.
Com o
assassinato de Kennedy em novembro de 1963, Lyndon Johnson assumiu a
coordenação da conspiração golpista. O novo mandatário incumbiu Thomas Mann,
Subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, de articular as ações no
Brasil.
O
diplomata seria responsável por cunhar a chamada “Doutrina Mann”, que
preconizava que o combate ao comunismo e a proteção dos interesses econômicos
dos Estados Unidos deveriam ser priorizados em detrimento do apoio aos valores
democráticos.
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Think tanks da CIA: o complexo IPES/IBAD
O
verdadeiro motor da desestabilização política do governo Goulart era o complexo
IPES/IBAD — dois think tanks criados, dirigidos e financiados diretamente pela
CIA. Eles foram essenciais para sustentar uma ampla campanha publicitária que
mobilizou a classe média contra o governo Goulart, além de agirem no
financiamento de organizações e parlamentares da oposição.
O IBAD
(Instituto Brasileiro de Ação Democrática) foi fundado em 1959 por Ivan
Hasslocher, um informante da CIA ativo no Brasil, na Bolívia e no Equador. Seu
propósito inicial era fomentar a oposição ao governo de Juscelino Kubitschek e
às lideranças identificadas com a tradição varguista e com o
nacional-desenvolvimentismo. Quando Goulart tomou posse em 1961, o IBAD
intensificou suas atividades.
O
instituto atuava diretamente na articulação política e na propaganda
ideológica. O IBAD possuía sua própria agência de propaganda, responsável por
disseminar material anticomunista e antigovernista em jornais, revistas,
estações de rádio, canais de televisão e durante a exibição de filmes.
Apenas
em 1963, o IBAD custeou 1.706 exibições de filmes no Rio de Janeiro e
distribuiu propaganda anticomunista para quase 200 mil militares nos quartéis
do Brasil. O IBAD também foi responsável por financiar mais de 800 candidatos
de oposição nas eleições parlamentares de 1962, elegendo quase 200 deputados —
metade dos assentos da Câmara.
O IBAD
trabalhava em estreita parceria com o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos
Sociais). Fundado em 1961 por um grupo de empresários e dirigido pelo general
Golbery do Couto e Silva, o IPES se apresentava como um centro de estudos e
debates sobre problemas sociais e econômicos do país. Na prática, era outro
centro de propagação ideológica e o principal núcleo de articulação golpista.
O IPES
produzia e distribuía gratuitamente material de propaganda, organizava o lobby
no Congresso para bloquear as reformas de base de Goulart, financiava grupos de
oposição, infiltrava representantes nos movimentos sociais e mantinha estreita
ligação com militares da Escola Superior de Guerra.
O IPES
atuou junto às organizações estudantis através da criação do Movimento
Estudantil Democrático (MSD), Instituto Universitário do Livro e Movimento
Universitário de Desfavelamento. Infiltrou-se nas igrejas por meio da
Confederação Nacional dos Trabalhadores Cristãos. Também ingressou nas
organizações camponesas por intermédio do Serviço de Orientação Rural.
Os dois
institutos eram mantidos por doações de empresários e por verbas ilegais
repassadas pelo governo norte-americano. Entre as corporações que financiaram o
complexo IPES/IBAD estão Coca-Cola, Refinaria União, Texaco, Esso, Souza Cruz e
Banco Itaú.
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A Operação Brother Sam
Em
março de 1964, organizações conservadoras e instituições religiosas deram
início às “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” e os militares começaram
a se sublevar contra o governo Goulart. A imprensa clamava abertamente por uma
quartelada e os governadores do Sudeste e do Sul também declararam apoio à
deposição de Goulart.
Ciente
de que o golpe seria deflagrado em pouco tempo, o governo norte-americano
ofereceu apoio aos conspiradores através da Operação Brother Sam. A operação
consistia em um plano de apoio logístico para garantir o sucesso dos golpistas
caso houvesse resistência dos aliados de Goulart.
O
governo norte-americano se prontificou a enviar uma força naval e apoio aéreo
para o litoral brasileiro, incluindo um porta-aviões, navios petroleiros, uma
esquadrilha caças, um navio de transporte com 50 helicópteros, seis
contratorpedeiros, um encouraçado e 25 aviões C-135 para transporte de carga
bélica.
A
operação foi coordenada pelo Comando Sul dos Estados Unidos, no Panamá, e
comandada pelo general da Força Aérea George Brown. A articulação com os
militares brasileiros ficou a cargo do adido militar Vernon Walters. O general
José Pinheiro de Ulhoa participou da concepção do plano.
Em 31
de março, teve início a “Operação Popeye”, com as tropas do general Olímpio
Mourão Filho se deslocando rumo ao Rio de Janeiro. Em paralelo, o general
Dióscoro Vale marchou com seus homens até Brasília.
O golpe
foi consumado em 1º de abril de 1964, após os militares tomarem o controle das
localidades estratégicas. No dia seguinte, Ranieri Mazzilli, presidente da
Câmara dos Deputados, assumiu interinamente a chefia do poder executivo.
Como o
golpe não encontrou resistência significativa, Castelo Branco informou à
embaixada norte-americana que o apoio logístico não seria necessário e o
deslocamento da frota foi suspenso.
Em 9 de
abril, os chefes das Forças Armadas se autoproclamaram “Comando Supremo da
Revolução” e editaram o Ato Institucional Nº. 1 (AI-1), suspendendo as
garantias constitucionais, suprimindo a independência do legislativo e do
judiciário e reivindicando poderes absolutos para modificar a Constituição.
O apoio
dos Estados Unidos não ficou restrito à quartelada. O governo norte-americano
concedeu empréstimos bilionários, financiou projetos e pressionou pelo completo
alinhamento do novo regime às doutrinas de segurança hemisférica.
Washington
colaborou de perto com a montagem do aparato repressivo da ditadura, fornecendo
treinamento, equipamentos, armas e assessoria para as forças de segurança
brasileiras. Os cursos incluíam desde aulas sobre técnicas de tortura e
interrogatório até subsídios para operações sofisticadas de “combate à
subversão”.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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