quarta-feira, 22 de abril de 2026

Operação Brother Sam: papel dos Estados Unidos no golpe de 1964

Há 62 anos, em 1º de abril de 1964, o presidente João Goulart era deposto por um golpe de Estado, marcando o início de uma ditadura militar que se estendeu por mais de duas décadas e resultou em inúmeros retrocessos.

Ocorrido em meio ao ápice da Guerra Fria, o golpe contou com apoio decisivo dos Estados Unidos, que enxergavam Goulart como uma ameaça potencial aos seus interesses no continente. IBAD e IPES, think tanks dirigidos pela CIA, tiveram papel central na articulação golpista.

Washington financiou campanhas de desestabilização política, cooptou parlamentares e atuou ativamente para radicalizar a oposição a Goulart. Quando a mobilização das tropas teve início, os Estados Unidos lançaram a Operação Brother Sam, enviando sua frota naval para dar apoio aos militares brasileiros e esmagar a eventual resistência ao golpe.

<><> A elite contra Goulart

O golpe de Estado de 1964 no Brasil resultou da convergência de forças e interesses diversos aglutinados em reação à ascensão das classes populares e às reformas de base propostas por João Goulart.

Apoiado pela esquerda nacionalista, o projeto desenvolvimentista de Goulart preconizava que o combate à concentração fundiária e de renda e a redução da desigualdade social eram passos indispensáveis para a modernização do Brasil.

O amplo apoio popular às reformas de base alarmou os segmentos mais conservadores da sociedade, ao perceberem que seus privilégios políticos, sociais e econômicos poderiam estar ameaçados.

Empresariado nacional, multinacionais, lideranças religiosas e o oficialato militar se engajaram na condução de uma campanha de desestabilização do governo de João Goulart, justificando o intento golpista por meio do fantasma da ameaça comunista, do discurso moralizante de combate à corrupção e de uma alegada defesa da família e da “liberdade”.

Embora o contexto nacional criasse as condições necessárias para o golpe, o encorajamento e o auxílio prestados pelo governo dos Estados Unidos foram fatores preponderantes para que a ruptura institucional ocorresse de fato. Desde o início dos anos 60, Washington já buscava interferir na política brasileira com o objetivo de desestabilizar a esquerda e avançar a agenda anticomunista.

Por intermédio da Agência Central de Inteligência (CIA), o governo norte-americano fomentou a ação de think tanks conservadores, manipulou a opinião pública, financiou a oposição a Goulart e coordenou a conspiração entre militares e setores influentes da sociedade, dando garantia, apoio financeiro, material e militar para o golpe de 1964.

<><> Alinhamento da política externa

Alçado ao poder após o fim do Estado Novo, o presidente Eurico Gaspar Dutra havia estabelecido uma política externa de subordinação e alinhamento automático ao governo dos Estados Unidos. Por determinação de Truman, Dutra fundou no Brasil a Escola Superior de Guerra (ESG), inspirada nos “War Colleges” norte-americanos.

Ao contrário das instituições congêneres tradicionais, a Escola Superior de Guerra não tinha como enfoque o estudo de táticas e estratégias militares, mas a doutrinação política dos quadros das Forças Armadas sob um viés anticomunista e conservador, focado na defesa dos interesses de Washington.

Quando Juscelino Kubitschek assumiu o poder e determinou a criação de uma política externa pragmática aliada ao ideário nacional-desenvolvimentista da Era Vargas, o governo norte-americano mostrou-se ressabiado e preocupado com o possível desalinhamento do Brasil.

Após Kubitschek, Jânio Quadros condecorou Che Guevara e introduziu a Política Externa Independente, baseada na premissa de que o Brasil manteria relações comerciais e diplomáticas com todas as nações, independentemente de seus sistemas políticos e socioeconômicos.

Em seguida, João Goulart encampou reformas progressistas e mostrou-se disposto a estreitar laços com países do bloco socialista. Em 1962, após uma série de nacionalizações de empresas estrangeiras conduzidas por governadores da base governista, Goulart sancionou a Lei de Remessa de Lucros, vista como inconveniente pelas multinacionais norte-americanas e europeias.

No mesmo ano, Goulart se recusou a seguir a orientação de John Kennedy de impor sanções contra Cuba e também se negou a apoiar a expulsão da nação caribenha da Organização dos Estados Americanos (OEA). A insistência em uma política externa autônoma convenceu Washington de que era a hora de uma mudança de regime.

<><> Lincoln Gordon articula o golpe

Um dos primeiros instrumentos acionados pela Casa Branca para desestabilizar o governo de João Goulart foi a Aliança para o Progresso. Criada em 1961, a aliança era apresentada como um programa de ajuda econômica e social dos Estados Unidos para a América Latina, oficialmente destinado a combater a pobreza, promover reformas e impedir o avanço das ideias socialistas, impulsionadas desde o triunfo da Revolução Cubana.

No Brasil, entretanto, a Aliança para o Progresso foi usada de forma seletiva como instrumento de pressão política contra Goulart. Em vez de canalizar recursos para o governo federal, Washington direcionava empréstimos e auxílios diretamente para governos estaduais oposicionistas, criando o que o embaixador norte-americano Lincoln Gordon chamou de “ilhas de sanidade administrativa”.

Estados como Guanabara (governada pelo histriônico Carlos Lacerda), Minas Gerais (Magalhães Pinto) e São Paulo (Carvalho Pinto e Ademar de Barros) receberam financiamentos generosos para obras, propaganda e projetos de impacto, fortalecendo politicamente esses governadores, irrigando suas bases e aumentando sua capacidade de fazer oposição ao presidente.

Os encontros no Salão Oval da Casa Branca revelam o tom da animosidade contra Goulart. Em 30 de julho de 1962, John Kennedy se reuniu com Lincoln Gordon e o assessor Richard Goodwin para discutir a possibilidade de uma intervenção militar no Brasil.

Gordon disse a Kennedy que Goulart estava “entregando a porcaria do país de graça” para os “comunistas” e propôs que os Estados Unidos deveriam “fortalecer a espinha dorsal dos militares”. O embaixador norte-americano elogiou efusivamente os militares brasileiros, descrevendo-os como “muito amigáveis conosco, muito anticomunistas, muito desconfiados de Goulart”.

Kennedy incumbiu Gordon e a CIA de planejarem uma operação de troca de regime no Brasil. Em outubro de 1963, a Casa Branca já dispunha de planos de contingência e aventou a possibilidade de uma intervenção militar direta.

Com o assassinato de Kennedy em novembro de 1963, Lyndon Johnson assumiu a coordenação da conspiração golpista. O novo mandatário incumbiu Thomas Mann, Subsecretário de Estado para Assuntos Interamericanos, de articular as ações no Brasil.

O diplomata seria responsável por cunhar a chamada “Doutrina Mann”, que preconizava que o combate ao comunismo e a proteção dos interesses econômicos dos Estados Unidos deveriam ser priorizados em detrimento do apoio aos valores democráticos.

<><> Think tanks da CIA: o complexo IPES/IBAD

O verdadeiro motor da desestabilização política do governo Goulart era o complexo IPES/IBAD — dois think tanks criados, dirigidos e financiados diretamente pela CIA. Eles foram essenciais para sustentar uma ampla campanha publicitária que mobilizou a classe média contra o governo Goulart, além de agirem no financiamento de organizações e parlamentares da oposição.

O IBAD (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) foi fundado em 1959 por Ivan Hasslocher, um informante da CIA ativo no Brasil, na Bolívia e no Equador. Seu propósito inicial era fomentar a oposição ao governo de Juscelino Kubitschek e às lideranças identificadas com a tradição varguista e com o nacional-desenvolvimentismo. Quando Goulart tomou posse em 1961, o IBAD intensificou suas atividades.

O instituto atuava diretamente na articulação política e na propaganda ideológica. O IBAD possuía sua própria agência de propaganda, responsável por disseminar material anticomunista e antigovernista em jornais, revistas, estações de rádio, canais de televisão e durante a exibição de filmes.

Apenas em 1963, o IBAD custeou 1.706 exibições de filmes no Rio de Janeiro e distribuiu propaganda anticomunista para quase 200 mil militares nos quartéis do Brasil. O IBAD também foi responsável por financiar mais de 800 candidatos de oposição nas eleições parlamentares de 1962, elegendo quase 200 deputados — metade dos assentos da Câmara.

O IBAD trabalhava em estreita parceria com o IPES (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Fundado em 1961 por um grupo de empresários e dirigido pelo general Golbery do Couto e Silva, o IPES se apresentava como um centro de estudos e debates sobre problemas sociais e econômicos do país. Na prática, era outro centro de propagação ideológica e o principal núcleo de articulação golpista.

O IPES produzia e distribuía gratuitamente material de propaganda, organizava o lobby no Congresso para bloquear as reformas de base de Goulart, financiava grupos de oposição, infiltrava representantes nos movimentos sociais e mantinha estreita ligação com militares da Escola Superior de Guerra.

O IPES atuou junto às organizações estudantis através da criação do Movimento Estudantil Democrático (MSD), Instituto Universitário do Livro e Movimento Universitário de Desfavelamento. Infiltrou-se nas igrejas por meio da Confederação Nacional dos Trabalhadores Cristãos. Também ingressou nas organizações camponesas por intermédio do Serviço de Orientação Rural.

Os dois institutos eram mantidos por doações de empresários e por verbas ilegais repassadas pelo governo norte-americano. Entre as corporações que financiaram o complexo IPES/IBAD estão Coca-Cola, Refinaria União, Texaco, Esso, Souza Cruz e Banco Itaú.

<><> A Operação Brother Sam

Em março de 1964, organizações conservadoras e instituições religiosas deram início às “Marchas da Família com Deus pela Liberdade” e os militares começaram a se sublevar contra o governo Goulart. A imprensa clamava abertamente por uma quartelada e os governadores do Sudeste e do Sul também declararam apoio à deposição de Goulart.

Ciente de que o golpe seria deflagrado em pouco tempo, o governo norte-americano ofereceu apoio aos conspiradores através da Operação Brother Sam. A operação consistia em um plano de apoio logístico para garantir o sucesso dos golpistas caso houvesse resistência dos aliados de Goulart.

O governo norte-americano se prontificou a enviar uma força naval e apoio aéreo para o litoral brasileiro, incluindo um porta-aviões, navios petroleiros, uma esquadrilha caças, um navio de transporte com 50 helicópteros, seis contratorpedeiros, um encouraçado e 25 aviões C-135 para transporte de carga bélica.

A operação foi coordenada pelo Comando Sul dos Estados Unidos, no Panamá, e comandada pelo general da Força Aérea George Brown. A articulação com os militares brasileiros ficou a cargo do adido militar Vernon Walters. O general José Pinheiro de Ulhoa participou da concepção do plano.

Em 31 de março, teve início a “Operação Popeye”, com as tropas do general Olímpio Mourão Filho se deslocando rumo ao Rio de Janeiro. Em paralelo, o general Dióscoro Vale marchou com seus homens até Brasília.

O golpe foi consumado em 1º de abril de 1964, após os militares tomarem o controle das localidades estratégicas. No dia seguinte, Ranieri Mazzilli, presidente da Câmara dos Deputados, assumiu interinamente a chefia do poder executivo.

Como o golpe não encontrou resistência significativa, Castelo Branco informou à embaixada norte-americana que o apoio logístico não seria necessário e o deslocamento da frota foi suspenso.

Em 9 de abril, os chefes das Forças Armadas se autoproclamaram “Comando Supremo da Revolução” e editaram o Ato Institucional Nº. 1 (AI-1), suspendendo as garantias constitucionais, suprimindo a independência do legislativo e do judiciário e reivindicando poderes absolutos para modificar a Constituição.

O apoio dos Estados Unidos não ficou restrito à quartelada. O governo norte-americano concedeu empréstimos bilionários, financiou projetos e pressionou pelo completo alinhamento do novo regime às doutrinas de segurança hemisférica.

Washington colaborou de perto com a montagem do aparato repressivo da ditadura, fornecendo treinamento, equipamentos, armas e assessoria para as forças de segurança brasileiras. Os cursos incluíam desde aulas sobre técnicas de tortura e interrogatório até subsídios para operações sofisticadas de “combate à subversão”.

 

Fonte: Por Estevam Silva, em Opera Mundi

 

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