quarta-feira, 22 de abril de 2026

As suspeitas de uso de informação privilegiada que atingem a Presidência de Donald Trump

Ao longo do segundo mandato do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, iniciado em janeiro de 2025, operadores do mercado vêm apostando milhões de dólares pouco antes de ele fazer anúncios importantes.

A BBC analisou dados de volume de negociações em diversos mercados financeiros e os cruzou com algumas das declarações mais relevantes de Trump com impacto sobre os mercados (e os valores negociados).

A análise feita pela BBC identificou um padrão consistente de picos de movimentações que ocorrem horas, às vezes minutos, antes de uma publicação em redes sociais ou de uma entrevista à imprensa se tornar pública.

Alguns analistas dizem que isso apresenta características de uso ilegal de informação privilegiada, quando operações são feitas com base em informações que não estão disponíveis para o público em geral.

Outros afirmam que o quadro é mais complexo e que alguns investidores se tornaram mais hábeis em antecipar as intervenções do presidente (sem, portanto, se valer de informações privilegiadas).

A seguir, cinco dos exemplos mais significativos identificados pela BBC.

<><> 9 de março de 2026: 'A guerra [no Irã] está praticamente concluída'

Alguns dos maiores movimentos ocorreram em operações com petróleo no mercado futuro.

Nove dias após o início da guerra entre EUA e Israel contra o Irã, Trump afirmou à CBS News, emissora parceira da BBC nos EUA, em entrevista por telefone, que o conflito estava "praticamente concluído".

Os horários aqui estão de acordo com o fuso do meridiano de Greenwich (GMT, 3 horas à frente do horário de Brasília).

  • 18h29: apostas no petróleo disparam
  • 19h16: Trump diz que a guerra está praticamente concluída
  • 19h17: Cotação do petróleo cai 25%

A primeira vez que o público tomou conhecimento da entrevista foi às 19h16, quando um jornalista publicou sobre o assunto na rede social X (antigo Twitter).

Operadores do mercado reagiram à notícia de que o conflito poderia terminar muito antes do esperado, vendendo contratos, o que fez o preço cair cerca de 25%.

No entanto, dados de mercado mostram que houve um forte aumento nas apostas na queda do preço do petróleo às 18h29, 47 minutos antes da publicação do jornalista.

Os operadores que fizeram essas apostas teriam lucrado milhões de dólares com essa movimentação dos preços do petróleo.

<><> 23 de março de 2026: 'resolução completa e total das nossas hostilidades'

Em 23/3, apenas dois dias depois de ter ameaçado "aniquilar" as usinas de energia do Irã, Trump publicou na rede Truth Social que os EUA havia mantido "CONVERSAS MUITO BOAS E PRODUTIVAS" com o Irã sobre uma "RESOLUÇÃO COMPLETA E TOTAL" das hostilidades.

Foi uma grande surpresa para os especialistas em diplomacia e operadores do mercado.

  • 10h48 – 10h50: apostas em queda do petróleo disparam
  • 11h04: Donald Trump faz um post sobre "resolução total" das hostilidades
  • 11h05: petróleo cai 11%

Imediatamente, as bolsas subiram e o preço de referência do petróleo nos EUA, que vinha em alta, recuou de forma acentuada.

Como a BBC reportou à época, 14 minutos antes da publicação do presidente houve um número incomumente elevado de apostas sobre o preço do petróleo nos EUA.

O mesmo padrão foi observado em operações com contratos de petróleo Brent, o outro principal indicador de referência.

As negociações pareciam "anormais, com certeza", disse um analista de petróleo à BBC na ocasião.

<><> 9 de abril de 2026: pausa do 'Dia da Libertação'

Para além da guerra no Oriente Médio, há outros exemplos de atividade de negociação que levantaram suspeitas.

Em 2 de abril de 2025, Trump anunciou o que chamou de "Dia da Libertação" (Liberation Day, em inglês), um amplo pacote de tarifas sobre produtos de praticamente todos os países do mundo.

As bolsas ao redor do mundo despencaram.

Mas, uma semana depois, quando Trump anunciou uma "pausa" de 90 dias nas tarifas para todos os países, exceto a China, os mercados acionários dispararam.

O índice de referência S&P 500 subiu 9,5%, um dos maiores ganhos em um único dia desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Os horários aqui estão novamente de acordo com o fuso GMT (três horas à frente do horário de Brasília).

  • 17h00: operadores começam a fazer grandes apostas na alta do mercado acionário
  • 17h18: Trump anuncia pausa nas tarifas
  • 17h19: mercado de ações começa uma alta histórica

Mais uma vez, um padrão de negociações incomuns aconteceu esses eventos, com um número excepcionalmente alto de apostas antes do anúncio em um fundo que acompanha o S&P 500. O número de contratos negociados saltou para mais de 10 mil por minuto logo após as 17h. Mais cedo naquele dia, esse número estava na casa das centenas.

Alguns operadores apostaram mais de US$ 2 milhões (cerca de R$ 10 milhões) na alta do mercado naquele dia, mesmo após sete dias consecutivos de queda. A forte disparada pode ter gerado um lucro de quase US$ 20 milhões (cerca de R$ 100 milhões).

Mais tarde, naquela semana, vários senadores democratas dos EUA escreveram à Comissão de Valores Mobiliários dos EUA (SEC, na sigla em inglês) pedindo que o órgão regulador investigasse se os anúncios do presidente "beneficiaram pessoas próximas à sua administração e aliados, às custas do público americano".

Questionado pela BBC se havia analisado essas alegações, um porta-voz da SEC se recusou a comentar.

A Casa Branca, por sua vez, não respondeu a um pedido de comentário da BBC sobre qualquer uma das atividades de negociação incomuns analisadas neste relatório.

<><> 3 de janeiro de 2026: Maduro é capturado

  • Dezembro de 2025: conta Burdensome-Mix é criada
  • 2 de janeiro de 2026: conta aposta US$ 32 mil (cerca de R$ 160 mil) na queda de Maduro
  • 3 de janeiro de 2026: Maduro é capturado e Burdensome-Mix ganha US$ 436 mil (cerca de R$ 2,2 milhões)

O crescimento recente dos mercados de previsão online também tem atraído atenção de observadores.

Plataformas baseadas em blockchain — uma espécie de banco de dados descentralizado que usa criptografia para registrar transações —, como Polymarket e Kalshi, oferecem aos usuários a possibilidade de especular sobre temas que vão do clima e do beisebol à política externa dos EUA.

Donald Trump Jr., filho do presidente americano, é investidor da Polymarket e integra seu conselho consultivo. Ele também atua como conselheiro estratégico da Kalshi e foi procurado pela BBC para comentar.

Em dezembro de 2025, um usuário criou na Polymarket uma conta chamada Burdensome-Mix. Em 30 de dezembro de 2025, fez sua primeira aposta de que o então presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, deixaria o cargo até o fim de janeiro de 2026.

Entre 30 de dezembro de 2025 e 2 de janeiro de 2026, a conta apostou em um total de US$ 32,5 mil (cerca de R$ 160 mil).

Quando Maduro foi capturado por forças especiais dos EUA e retirado do poder no dia seguinte, a conta Burdensome-Mix ganhou US$ 436 mil (cerca de R$ 2,2 milhões).

Pouco depois, a conta mudou de nome de usuário e não fez mais apostas.

<><> 28 de fevereiro de 2026: ataques ao Irã

  • Fevereiro de 2026: seis contas são criadas na Polymarket e posteriormente apostam que ataque ao Irã ocorreria até 28 de fevereiro
  • 28 de fevereiro de 2026: EUA e Israel atacam o Irã e contas ganham US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6 milhões)

Segundo o site de análise de blockchain Bubblemaps, seis contas foram criadas na Polymarket em fevereiro.

Todas fizeram apostas de que um ataque dos EUA ao Irã ocorreria até 28 de fevereiro de 2026. Quando os ataques foram confirmados por Trump, nas primeiras horas daquele dia, as contas lucraram, juntas, cerca de US$ 1,2 milhão (cerca de R$ 6 milhões).

Cinco desses seis usuários não fizeram mais apostas desde então, mas a atividade recente de uma das contas indica que ela posteriormente ganhou US$ 163 mil (cerca de R$ 820 mil) ao apostar corretamente em um cessar-fogo entre EUA e Irã até 7 de abril de 2026, anunciado pelos países naquele dia.

A Polymarket afirmou à BBC que "estabelece, mantém e aplica os mais altos padrões de integridade de mercado", acrescentando que trabalha "de forma proativa" com reguladores e autoridades para isso.

Em março deste ano, tanto a Polymarket quanto a Kalshi anunciaram novas regras para combater o uso de informação privilegiada.

Os mercados de previsão estão sob a jurisdição da Comissão de Negociação de Futuros de Commodities dos EUA (CFTC, na sigla em inglês).

A CFTC não respondeu a um pedido de comentário da BBC, mas seu presidente disse recentemente a um comitê do Congresso que a agência tem "tolerância zero" com fraude e uso de informação privilegiada.

Também veio à tona que a Casa Branca enviou um e-mail interno a funcionários no mês passado, alertando para que não utilizem informações privilegiadas para fazer apostas em mercados de previsão.

O porta-voz Davis Ingle disse à BBC, na ocasião, que "qualquer insinuação de que autoridades do governo estejam envolvidas nesse tipo de atividade sem evidências é infundada e irresponsável".

<><> Difícil de provar

O uso de informação privilegiada é ilegal para a maioria dos americanos desde a aprovação da Lei de Valores Mobiliários de 1933.

A legislação foi ampliada em 2012 para incluir autoridades do governo dos EUA, embora até hoje ninguém tenha sido processado com base nessa norma.

Paul Oudin, professor especializado em direito da regulação financeira na ESSEC Business School, na França, afirma que as regras são difíceis de aplicar.

"As autoridades financeiras não levam adiante um processo se não conseguem identificar a fonte da informação", diz Oudin.

Nenhuma das autoridades financeiras dos EUA contactadas pela BBC reconheceu as acusações de uso de informação privilegiada.

"É possível haver grandes operações em um ativo financeiro que indicam claramente que alguém tinha acesso prévio ao que Donald Trump estava prestes a anunciar", afirma Oudin.

"No entanto, há uma grande probabilidade de que ninguém seja processado", acrescenta.

¨      Apostas de milhões de dólares que 'preveem' anúncios de Trump na guerra no Médio Oriente continuam a levantar suspeitas

Na sexta-feira, 20 minutos antes de o Irão anunciar a abertura do estreito de Ormuz na sequência do cessar-fogo acordado com os Estados Unidos, um conjunto de investidores apostou cerca de 760 milhões de dólares na queda do preço do petróleo. Esta foi mais uma a juntar-se às recentes operações de grande volume que têm estado bem sincronizadas com as vésperas de anúncios importantes no contexto da guerra no Médio Oriente e que levantam suspeitas de que poderá estar a acontecer abuso de informação privilegiada.

BBC analisou um conjunto de dados relativos ao volume de transações em vários mercados financeiros. Nas flutuações, o jornal britânico encontrou um denominador comum: os picos de tráfego registados nas ações apenas algumas horas, ou até minutos, antes de uma publicação ou de declarações de Donald Trump.

Alguns especialistas consideram que o cenário apresenta todas as características de abuso de informação privilegiada (conhecido como "insider trading", em inglês), no qual as apostas são feitas tendo por base informações que não são do conhecimento nem estão ao alcance do público em geral.

Porém, há quem advogue que as situações aconteceram, porque os investidores tornaram-se mais hábeis a antecipar as declarações do Presidente norte-americano e a prever as suas repercussões nos mercados.

<><> Aposta mais recente de 760 milhões de dólares na queda do petróleo

Na sexta-feira, registou-se mais uma aposta avultada no petróleo que levantou dúvidas pela antecipação de um facto inesperado.

Entre as 12:24 e as 12:25 GMT (13:24 e 13:25 de Lisboa), os investidores venderam um total de 7.990 lotes de contratos futuros de petróleo Brent no valor de 760 milhões de dólares, de acordo com dados da LSEG, citados pela Reuters.

Cerca de 20 minutos depois, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano anunciou na rede social X que o Irão decidiu abrir totalmente o estreito de Ormuz à navegação comercial durante o período de cessar-fogo.

Minutos depois, o anúncio fez com que o preço do petróleo bruto caísse até 11% nesse mesmo dia.

<><> Momentos em que as apostas anteciparam declarações de Donald Trump

Para além deste, a BBC destacou outros exemplos mais significativos deste padrão.

Trump disse que a guerra estava "praticamente concluída": 47 minutos antes, o disparo nas apostas

A 9 de março, com nove dias de guerra no Médio Oriente até então, Donald Trump declarou à CBS News que considerava que a guerra contra o Irão estava "praticamente concluída" e que a operação norte-americana estava "muito adiantada" tendo em conta o prazo estabelecido inicialmente.

A entrevista foi publicada às 20:16 de Lisboa. Porém, os dados de mercado mostram que houve um grande aumento de apostas na queda do petróleo 47 minutos antes, às 19:29. Depois das declarações, o petróleo caiu cerca de 25% e os investidores somaram vários milhões de dólares graças ao 'palpite' certeiro.

Reação após o anúncio das "conversações produtivas" com o Irão

A 23 de março, dois dias após ter ameaçado "destruir" as centrais elétricas iranianas, Trump anunciou que Washington tinha mantido "conversações muito boas e produtivas" com Teerão em busca de uma resolução completa e total da guerra.

A declaração, considerada inesperada por vários especialistas, não foi assim tão imprevisível para alguns investidores, tendo em conta que 14 minutos antes da publicação do Presidente norte-americano, registou-se um número elevado de apostas sobre o preço do petróleo nos EUA e também sobre os contratos futuros de Brent. Cerca de 500 milhões de dólares foram vendidos em futuros de petróleo e o preço do crude caiu 15%.

Mais recentemente, a Reuters avançou que, a 7 de abril, foram realizadas apostas no valor de cerca de 950 milhões de dólares poucas horas antes de os EUA e o Irão anunciarem um cessar-fogo de duas semanas.

<><> Houve quem 'adivinhasse' início da guerra e cessar-fogo no Irão

Antes, em fevereiro, foram criadas seis contas na plataforma de jogo digital Polymarket, de acordo com o site de análise de blockchain Bubblemaps.

As seis contas apostaram em uníssono que um ataque dos EUA ao Irão iria acontecer até 28 de fevereiro, dia em que, precisamente, os ataques de Israel e dos EUA foram confirmados por Trump. Graças a isto, as contas ganharam, no total, 1,2 milhões de dólares.

Desde então, cinco desses seis utilizadores não fizeram mais apostas, mas a atividade recente de uma das contas mostra que esta ganhou 163 mil dólares ao apostar corretamente num cessar-fogo entre os EUA e o Irão até 7 de abril, anunciado por Washington e Teerão nesse dia.

De acordo com a Reuters, a Comissão de Negociação de Futuros de Mercadorias dos EUA está a investigar uma série de transações em contratos de futuros de petróleo, incluindo as realizadas a 23 de março e a 7 de abril, que foram efetuadas pouco antes de importantes mudanças políticas por parte de Trump relacionadas com a guerra no Irão, afirmou na quarta-feira uma fonte a par do assunto.

<><> Previsões aconteciam antes da guerra

Para além destes investimentos, determinadas operações nos mercados financeiros foram realizadas antes do início da guerra no Médio Oriente e partilham o mesmo padrão.

A 2 de abril de 2025, Trump anunciou uma série de tarifas aduaneiras sobre os principais parceiros comerciais dos Estados Unidos. Os mercados financeiros e as bolsas de todo o mundo entraram em queda.

Uma semana depois, quando Trump anunciou uma "pausa" de 90 dias nas tarifas para todos os países, exceto para a China, os mercados voltaram a disparar. Mais uma vez, um padrão de negociação invulgar precedeu os eventos, com um número elevado de apostas realizadas antes do anúncio.

A mesma coisa aconteceu ainda antes, nesse mesmo ano, em dezembro. Um utilizador criou uma conta chamada "Burdensome-Mixna" na plataforma Polymarket. A 30 de dezembro, fez a primeira aposta: a de que o presidente da Venezuela, Nicolás

Entre 30 de dezembro e 2 de janeiro, a conta apostou um total de 32.500 dólares nessa posição. A 3 de janeiro, quando Maduro foi detido pelas forças especiais dos EUA e destituído no dia seguinte, o utilizador ganhou 436 mil dólares. Pouco tempo depois, a conta alterou o nome de utilizador e não realizou mais nenhuma aposta desde então.

<><> Abuso de informação privilegiada

Desde a aprovação da Lei dos Valores Mobiliários, em 1933, o abuso de informação privilegiada é ilegal para a maioria dos norte-americanos. Em 2012, a lei foi alargada aos funcionários do Governo.

À BBC, o professor especializado em direito da regulamentação financeira na ESSEC Business School, Paul Oudin, afirma que as regras são difíceis de aplicar e que "há uma forte probabilidade" de que ninguém seja processado.

"As autoridades financeiras não irão instaurar um processo se não conseguirem identificar quem é a fonte da informação", diz o especialista.

Sabe-se que a Casa Branca enviou recentemente aos funcionários um memorando interno, datado de 24 de março, avisando-os de que estão proibidos de jogar em aplicações de apostas ou mercados financeiros para lucrar com a guerra no Irão, utilizando informação privilegiada.

Em resposta à publicação do memorando no Wall Street Journal e na agência Bloomberg, o porta-voz da Casa Branca Davis Ingle insistiu que o Presidente Trump "deixou muito claro" que nem os membros do Congresso, nem os funcionários da Casa Branca podem usar informação privilegiada para seu benefício financeiro.

 

Fonte: Por Nick Marsh, da BBC News/SIC Notícias

 

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