Jair
de Souza: Mais uma vez, refletindo sobre a questão religiosa
A esta
altura da história, já não me parece fazer nenhum sentido que alguém
posicionado no campo das forças populares se ponha a questionar a validade da
crença religiosa de ninguém. Embora eu pessoalmente esteja convencido da
materialidade do mundo e da não existência de seres criadores e/ou regentes de
tudo e de todos, aprendi que devo aceitar que outros tenham pleno direito de
pensar de modo diferente.
No
entanto, a despeito desta diversidade de entendimentos em relação com a base
material ou espiritual do Universo e dos seres nele presentes, creio que não há
nenhuma incompatibilidade tão conflituosa a ponto de inviabilizar uma
convivência harmoniosa e solidária entre os humanos pertencentes a qualquer
desses dois campos de identificação. Em outras palavras, tanto os que acreditam
na existência de um ou mais seres divinos superiores como os que pensam que a
vida humana depende inteiramente de fatores materiais e sócio-históricos,
alheios à vontade ou determinação de entes espirituais autônomos, podem
confluir no rumo de um destino que satisfaça a ambos grupos.
Mas, se
não existem motivos reais para que haja grandes confrontos em função da crença
ou rejeição de postulados fundamentados em conceitos religiosos, por que é tão
comum que tanta gente, eu inclusive, insista em abordar este tema em suas
reflexões?
Não
obstante ser verdade que ter ou não uma fundamentação religiosa não representa
necessariamente nenhum impedimento sério para que a humanidade conviva de forma
harmoniosa, não podemos dizer o mesmo sobre os propósitos que motivam tanto os
crentes como os não crentes. Por isso, a indagação que sempre deveríamos nos
fazer é: que tipo de sociedade pretende-se alcançar através do recurso à fé
religiosa? E, analogamente, o que o não religioso tem como objetivo a partir de
seu posicionamento desvinculado da religião?
Conforme
já procurei expor em outras oportunidades, qualquer que seja a concepção que
tenhamos de uma divindade superior, que teria criado o Universo e seria
responsável por seu funcionamento, a mesma precisa necessariamente estar
associada a nosso conceito do bem, assim como ao propósito de conduzir-nos em
um rumo no qual as diretrizes vinculadas ao exercício da bondade sejam as
determinantes. Nenhuma orientação que claramente nos indique tratar-se de um
ato de maldade deveria ser aceita por nenhum de nós, mesmo quando nos seja
transmitida como sendo ordem expressa do ser supremo ao que nos propomos
seguir.
Para
amparar a justificativa mencionada no parágrafo anterior, é bom que recordemos
que, desde nossa mais tenra infância, somos educados a respeitar, honrar e
obedecer a nossos pais. Esta é, sem dúvidas, uma recomendação das mais
louváveis e digna de ser acatada e praticada por todos. Porém, com toda
certeza, consideraríamos absolutamente inaceitável e imperdoável que um filho
se dispusesse a executar o assassinato de um de seus irmãos porque seu pai
assim o ordenou.
A razão
para nossa recusa a obedecer uma ordem como a recém mencionada se deve ao fato
de que nossa capacidade de distinguir o bem do mal nos possibilita avaliar que
o assassinato de nosso irmão seria um ato de pura maldade, indigno de ser
cumprido. Nossa obrigação moral de respeitar, honrar e obedecer a nossos pais
não pode valer quando nos está evidente que significa uma horrenda
monstruosidade.
Por
isso, ninguém de boa fé poderia se resignar a considerar aceitável aquela
passagem do Velho Testamento em que Deus exige uma prova de obediência de
Abraão por meio de sua disposição a sacrificar seu primogênito. Parece-me mais
do que evidente que a resposta esperada por um ser que expressa a bondade
absoluta seria uma inequívoca recusa a ser cúmplice daquela macabra
determinação. Quando Abraão lhe demonstrasse não estar disposto a seguir uma
ordem tão monstruosa, ele seguramente se alegraria ao comprovar que estava
diante de alguém digno de fazer parte de seus seguidores, pois havia entendido
o significado de sua causa. Uma exibição tão flagrante de egoísmo e egolatria
jamais deveria ser admitida por alguém que se inspirasse no espírito benigno do
Criador.
Diferentemente
dos outros seres vivos de nosso planeta, os humanos estão dotados da faculdade
de raciocinar, ou seja, contamos com um dispositivo que nos permite refletir
sobre os problemas com os quais nos deparamos e, a partir dessa reflexão,
avaliar quais as melhores maneiras de lidar com os mesmos. Os adeptos de
pensamentos religiosos costumam atribuir esta capacidade ao ser divino que nos
teria criado. Por sua vez, os partidários de interpretações filosóficas de
cunho materialista consideram-na como o produto do desenvolvimento ocorrido ao
longo de milhões de anos de evolução. Entretanto, seja qual for a vertente de
nossa opção, o certo é que a capacidade de raciocinar está presente nos seres
humanos.
Como
sabemos ao estudar a história, e ainda mais ao analisar os dias atuais, é
imperativo que recorramos ao raciocínio para discernir questões de grande
relevância. É que muitos crimes abomináveis já foram e continuam sendo
perpetrados sob a alegação de estarem em consonância com os desígnios
estipulados por Deus, ou seja pelo Ser Criador. Esta é uma prática que tem
caracterizado as forças que tomam os textos bíblicos como documentos que
validam as atrocidades que estão sendo por elas cometidas.
Quando
nos encontramos com pessoas que tentam justificar a ocupação da Palestina por
colonos provenientes da Europa, o extermínio e a expulsão da população nativa
com base em argumentos de que Deus teria prometido aquela terra aos judeus,
alguém que deseje sinceramente servir as causas do Ser Supremo deveria se
perguntar: Poderia ele ser um racista tão empedernido e discriminador a ponto
de preferir um povo em detrimento de outros? Um verdadeiro expoente da justiça
e do amor ficaria insensível à matança impiedosa de dezenas de milhares de
crianças palestinas cometida pelas forças militares do sionista Estado de
Israel?
É
lógico que esses crimes horripilantes não têm nada a ver com Deus. Se tivessem
de fato a sua concordância, seria um indício de que ele não se diferenciaria em
nada do diabo e, portanto, não mereceria nenhum respeito nem acatamento.
Qualquer um que decida fazer uso de seu raciocínio concluirá que a invocação de
seu nome está sendo feita por pessoas inescrupulosas, tão somente como uma
manipulação com vista a favorecer seus interesses perversos e diabólicos.
Se a
reflexão que venho tratando de expor pode ser considerada aplicável a todas as
pessoas que se sentem religiosas, muito maior aplicabilidade ela terá no caso
dos que se sentem identificados com a figura de Jesus. Basta que nos dediquemos
a estudar seu comportamento relatado nos textos dos Evangelhos para comprovar
que ele nunca se propôs a atuar em contrariedade com os sentimentos de justiça,
solidariedade e fraternidade que costumava pregar com veemência. Em todas as
ocasiões em que foi interpelado por suas práticas não se ajustarem ao que
estava estipulado nos escritos tidos por sagrados, a opção do Nazareno foi
sempre por fazer valer a coerência da lógica de seu humanismo.
Assim,
nestes dias turbulentos pelos quais passamos no Brasil, é chegado o momento de
aqueles que desejam ser fiéis aos verdadeiros ensinamentos de Jesus darem um
basta a todos os aproveitadores que insistem em arvorar-se como os campeões do
cristianismo, enquanto que, de fato, atuam como os principais expoentes dos
interesses do grande capital neoliberal, do imperialismo estadunidense e do
sionismo israelense. Não por casualidade eles se tornaram aliados
incondicionais e preferenciais do bolsonarismo em nosso país.
Sem
necessidade de renegar de sua fé, os religiosos de coração devem fazer uma
profunda reflexão, que possa impedir que os bons sentimentos que os motivam em
sua religiosidade sejam desvirtuados e postos a serviço de interesses malignos
contrários à concepção benigna que deve constituir a essência das religiões. É
simplesmente inadmissível que aqueles que pretendem ser fiéis ao legado de
Jesus compactuem com os promotores do imperialismo, do racismo e do
neoliberalismo que espolia a classe trabalhadora. O principal instrumento para
ajudar-nos a não ser manipulados por aproveitadores da fé é a nossa capacidade
de raciocinar.
Em
conclusão, religiosos e não religiosos podem confluir em sua luta pelo bem de
todos por meio do humanismo e pela prática da solidariedade. É impossível
imaginar que Deus se oponha a que sigamos por tal caminho.
• Grandes líderes pregam a paz. Por Mauro
Passos
No
mesmo dia em que o presidente Lula se encontrava em Madri com o
primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, para tratar da paz num mundo em
guerra, da soberania dos países e do fortalecimento da democracia, duas boas
notícias são anunciadas: a abertura do Estreito de Ormuz e o cessar-fogo no
Líbano. A agenda do presidente do Brasil na Europa é extensa e oportuna:
fortalecer o Mercosul e tratar de uma paz duradoura. Para os que não conseguem
ver o protagonismo de Lula, vão alegar que o presidente é um homem de sorte.
A sorte
não tem nada de errado, faz bem para qualquer um. Quando a causa é do bem
comum, ela é muito bem-vinda. Duas lideranças que brilham no cenário
internacional, uma latina e outra europeia, que sempre se posicionaram contra
as guerras em curso e pela paz, marcaram um encontro para conversar, que caiu
bem no dia do cessar-fogo. Para alguns, uma simples coincidência; já outros
acham que nada é por acaso.
Os
acordos anunciados vieram em boa hora. Se vão ser duradouros ou não, só o tempo
vai dizer. Muita destruição, milhares de civis mortos, trilhões de dólares
gastos que vão impactar por muito tempo os países diretamente envolvidos e boa
parte da economia global. A matança que provocaram, criando uma guerra motivada
por interesses obscuros, vai trazer consequências aos envolvidos. Sem dúvida, o
que fizeram vai ter cobrança.
As
recentes e duríssimas declarações do Papa Leão XIV tiveram endereço: sua terra
natal. Com a guerra, os EUA ficaram sem o apoio de antigos parceiros, vivem um
brutal descrédito interno e assistem a crescentes protestos com milhões de
pessoas nas ruas. Diante dessa insustentável realidade, as ameaças e bravatas
de Trump já não fazem o mesmo efeito. A história mostra que, até hoje, as
grandes lideranças mundiais que nos vêm à mente foram pacifistas. Homens e
mulheres que, com dignidade, determinação e uma boa causa, são aqueles cujo
legado a história reconheceu e cujas memórias preservou.
Fonte:
Brasil 247

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