quarta-feira, 22 de abril de 2026


 

Jair de Souza: Mais uma vez, refletindo sobre a questão religiosa

A esta altura da história, já não me parece fazer nenhum sentido que alguém posicionado no campo das forças populares se ponha a questionar a validade da crença religiosa de ninguém. Embora eu pessoalmente esteja convencido da materialidade do mundo e da não existência de seres criadores e/ou regentes de tudo e de todos, aprendi que devo aceitar que outros tenham pleno direito de pensar de modo diferente.

No entanto, a despeito desta diversidade de entendimentos em relação com a base material ou espiritual do Universo e dos seres nele presentes, creio que não há nenhuma incompatibilidade tão conflituosa a ponto de inviabilizar uma convivência harmoniosa e solidária entre os humanos pertencentes a qualquer desses dois campos de identificação. Em outras palavras, tanto os que acreditam na existência de um ou mais seres divinos superiores como os que pensam que a vida humana depende inteiramente de fatores materiais e sócio-históricos, alheios à vontade ou determinação de entes espirituais autônomos, podem confluir no rumo de um destino que satisfaça a ambos grupos.

Mas, se não existem motivos reais para que haja grandes confrontos em função da crença ou rejeição de postulados fundamentados em conceitos religiosos, por que é tão comum que tanta gente, eu inclusive, insista em abordar este tema em suas reflexões?

Não obstante ser verdade que ter ou não uma fundamentação religiosa não representa necessariamente nenhum impedimento sério para que a humanidade conviva de forma harmoniosa, não podemos dizer o mesmo sobre os propósitos que motivam tanto os crentes como os não crentes. Por isso, a indagação que sempre deveríamos nos fazer é: que tipo de sociedade pretende-se alcançar através do recurso à fé religiosa? E, analogamente, o que o não religioso tem como objetivo a partir de seu posicionamento desvinculado da religião?

Conforme já procurei expor em outras oportunidades, qualquer que seja a concepção que tenhamos de uma divindade superior, que teria criado o Universo e seria responsável por seu funcionamento, a mesma precisa necessariamente estar associada a nosso conceito do bem, assim como ao propósito de conduzir-nos em um rumo no qual as diretrizes vinculadas ao exercício da bondade sejam as determinantes. Nenhuma orientação que claramente nos indique tratar-se de um ato de maldade deveria ser aceita por nenhum de nós, mesmo quando nos seja transmitida como sendo ordem expressa do ser supremo ao que nos propomos seguir.

Para amparar a justificativa mencionada no parágrafo anterior, é bom que recordemos que, desde nossa mais tenra infância, somos educados a respeitar, honrar e obedecer a nossos pais. Esta é, sem dúvidas, uma recomendação das mais louváveis e digna de ser acatada e praticada por todos. Porém, com toda certeza, consideraríamos absolutamente inaceitável e imperdoável que um filho se dispusesse a executar o assassinato de um de seus irmãos porque seu pai assim o ordenou.

A razão para nossa recusa a obedecer uma ordem como a recém mencionada se deve ao fato de que nossa capacidade de distinguir o bem do mal nos possibilita avaliar que o assassinato de nosso irmão seria um ato de pura maldade, indigno de ser cumprido. Nossa obrigação moral de respeitar, honrar e obedecer a nossos pais não pode valer quando nos está evidente que significa uma horrenda monstruosidade.

Por isso, ninguém de boa fé poderia se resignar a considerar aceitável aquela passagem do Velho Testamento em que Deus exige uma prova de obediência de Abraão por meio de sua disposição a sacrificar seu primogênito. Parece-me mais do que evidente que a resposta esperada por um ser que expressa a bondade absoluta seria uma inequívoca recusa a ser cúmplice daquela macabra determinação. Quando Abraão lhe demonstrasse não estar disposto a seguir uma ordem tão monstruosa, ele seguramente se alegraria ao comprovar que estava diante de alguém digno de fazer parte de seus seguidores, pois havia entendido o significado de sua causa. Uma exibição tão flagrante de egoísmo e egolatria jamais deveria ser admitida por alguém que se inspirasse no espírito benigno do Criador.

Diferentemente dos outros seres vivos de nosso planeta, os humanos estão dotados da faculdade de raciocinar, ou seja, contamos com um dispositivo que nos permite refletir sobre os problemas com os quais nos deparamos e, a partir dessa reflexão, avaliar quais as melhores maneiras de lidar com os mesmos. Os adeptos de pensamentos religiosos costumam atribuir esta capacidade ao ser divino que nos teria criado. Por sua vez, os partidários de interpretações filosóficas de cunho materialista consideram-na como o produto do desenvolvimento ocorrido ao longo de milhões de anos de evolução. Entretanto, seja qual for a vertente de nossa opção, o certo é que a capacidade de raciocinar está presente nos seres humanos.

Como sabemos ao estudar a história, e ainda mais ao analisar os dias atuais, é imperativo que recorramos ao raciocínio para discernir questões de grande relevância. É que muitos crimes abomináveis já foram e continuam sendo perpetrados sob a alegação de estarem em consonância com os desígnios estipulados por Deus, ou seja pelo Ser Criador. Esta é uma prática que tem caracterizado as forças que tomam os textos bíblicos como documentos que validam as atrocidades que estão sendo por elas cometidas.

Quando nos encontramos com pessoas que tentam justificar a ocupação da Palestina por colonos provenientes da Europa, o extermínio e a expulsão da população nativa com base em argumentos de que Deus teria prometido aquela terra aos judeus, alguém que deseje sinceramente servir as causas do Ser Supremo deveria se perguntar: Poderia ele ser um racista tão empedernido e discriminador a ponto de preferir um povo em detrimento de outros? Um verdadeiro expoente da justiça e do amor ficaria insensível à matança impiedosa de dezenas de milhares de crianças palestinas cometida pelas forças militares do sionista Estado de Israel?

É lógico que esses crimes horripilantes não têm nada a ver com Deus. Se tivessem de fato a sua concordância, seria um indício de que ele não se diferenciaria em nada do diabo e, portanto, não mereceria nenhum respeito nem acatamento. Qualquer um que decida fazer uso de seu raciocínio concluirá que a invocação de seu nome está sendo feita por pessoas inescrupulosas, tão somente como uma manipulação com vista a favorecer seus interesses perversos e diabólicos.

Se a reflexão que venho tratando de expor pode ser considerada aplicável a todas as pessoas que se sentem religiosas, muito maior aplicabilidade ela terá no caso dos que se sentem identificados com a figura de Jesus. Basta que nos dediquemos a estudar seu comportamento relatado nos textos dos Evangelhos para comprovar que ele nunca se propôs a atuar em contrariedade com os sentimentos de justiça, solidariedade e fraternidade que costumava pregar com veemência. Em todas as ocasiões em que foi interpelado por suas práticas não se ajustarem ao que estava estipulado nos escritos tidos por sagrados, a opção do Nazareno foi sempre por fazer valer a coerência da lógica de seu humanismo.

Assim, nestes dias turbulentos pelos quais passamos no Brasil, é chegado o momento de aqueles que desejam ser fiéis aos verdadeiros ensinamentos de Jesus darem um basta a todos os aproveitadores que insistem em arvorar-se como os campeões do cristianismo, enquanto que, de fato, atuam como os principais expoentes dos interesses do grande capital neoliberal, do imperialismo estadunidense e do sionismo israelense. Não por casualidade eles se tornaram aliados incondicionais e preferenciais do bolsonarismo em nosso país.

Sem necessidade de renegar de sua fé, os religiosos de coração devem fazer uma profunda reflexão, que possa impedir que os bons sentimentos que os motivam em sua religiosidade sejam desvirtuados e postos a serviço de interesses malignos contrários à concepção benigna que deve constituir a essência das religiões. É simplesmente inadmissível que aqueles que pretendem ser fiéis ao legado de Jesus compactuem com os promotores do imperialismo, do racismo e do neoliberalismo que espolia a classe trabalhadora. O principal instrumento para ajudar-nos a não ser manipulados por aproveitadores da fé é a nossa capacidade de raciocinar.

Em conclusão, religiosos e não religiosos podem confluir em sua luta pelo bem de todos por meio do humanismo e pela prática da solidariedade. É impossível imaginar que Deus se oponha a que sigamos por tal caminho.

        Grandes líderes pregam a paz. Por Mauro Passos

No mesmo dia em que o presidente Lula se encontrava em Madri com o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, para tratar da paz num mundo em guerra, da soberania dos países e do fortalecimento da democracia, duas boas notícias são anunciadas: a abertura do Estreito de Ormuz e o cessar-fogo no Líbano. A agenda do presidente do Brasil na Europa é extensa e oportuna: fortalecer o Mercosul e tratar de uma paz duradoura. Para os que não conseguem ver o protagonismo de Lula, vão alegar que o presidente é um homem de sorte.

A sorte não tem nada de errado, faz bem para qualquer um. Quando a causa é do bem comum, ela é muito bem-vinda. Duas lideranças que brilham no cenário internacional, uma latina e outra europeia, que sempre se posicionaram contra as guerras em curso e pela paz, marcaram um encontro para conversar, que caiu bem no dia do cessar-fogo. Para alguns, uma simples coincidência; já outros acham que nada é por acaso.

Os acordos anunciados vieram em boa hora. Se vão ser duradouros ou não, só o tempo vai dizer. Muita destruição, milhares de civis mortos, trilhões de dólares gastos que vão impactar por muito tempo os países diretamente envolvidos e boa parte da economia global. A matança que provocaram, criando uma guerra motivada por interesses obscuros, vai trazer consequências aos envolvidos. Sem dúvida, o que fizeram vai ter cobrança.

As recentes e duríssimas declarações do Papa Leão XIV tiveram endereço: sua terra natal. Com a guerra, os EUA ficaram sem o apoio de antigos parceiros, vivem um brutal descrédito interno e assistem a crescentes protestos com milhões de pessoas nas ruas. Diante dessa insustentável realidade, as ameaças e bravatas de Trump já não fazem o mesmo efeito. A história mostra que, até hoje, as grandes lideranças mundiais que nos vêm à mente foram pacifistas. Homens e mulheres que, com dignidade, determinação e uma boa causa, são aqueles cujo legado a história reconheceu e cujas memórias preservou.

 

Fonte: Brasil 247


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