Livro
revela como o papa Francisco atuou para fazer de Leão 14 seu sucessor
A
jornalista argentina Elisabetta Piqué tem uma intimidade incomum com os
bastidores do poder no Vaticano que torna muito especial o seu olhar sobre o
pontificado de Leão 14. O papa Francisco, inclusive, batizou os seus filhos e
celebrou o seu casamento.
O mundo
perdeu Francisco há um ano, em 21 de abril de 2025, aos 88 anos. Ele foi o
primeiro papa sul-americano e jesuíta da história da Igreja Católica.
Correspondente
em Roma do jornal argentino La Nación há mais de vinte anos e uma das mais
respeitadas vaticanistas do mundo, Piqué acaba de lançar, em coautoria com o
marido, o jornalista irlandês Gerard O'Connell, correspondente da revista
America Magazine no Vaticano, o livro The Election of Pope Leon XIV - The Last
Surprise of Pope Francis ("A eleição do papa Leão XIV - a última surpresa
do papa Francisco", em tradução literal).
A obra
— lançada na Europa em inglês, francês e espanhol, mas ainda sem previsão de
lançamento no Brasil — reconstitui, com detalhes inéditos, os dias que
separaram a morte de Francisco da eleição de Robert Francis Prevost, o primeiro
papa americano da história, em 8 de maio do ano passado.
O livro
revela que Prevost sabia que era candidato, mas foi para o conclave convicto de
que um americano jamais seria eleito.
Também
aponta que o papa Francisco deixou sinais de que não queria um cardeal da ala
mais conservadora como sucessor e que a candidatura de Prevost foi construída
nos bastidores com inteligência cirúrgica.
O
próprio Francisco, embora nunca pudesse escolher o seu sucessor, criou todas as
condições para que aquela eleição fosse possível, segundo Piqué. Em um livro
recente citado pela vaticanista, Francisco chegou a dizer: "Prevost é um
homem santo".
Mas o
pontificado de Leão 14, prestes a completar seu primeiro ano, já não cabe mais
apenas nos bastidores do conclave. Nas últimas semanas, o papa, visto como mais
sereno e silencioso do que seu antecessor, deu uma demonstração de que
serenidade não significa passividade.
Em
momento em que o governo de Donald Trump intensificava sua retórica sobre
guerras justas e deportações em massa, Leão 14 respondeu com um tom que
surpreendeu analistas: declarou que a guerra em curso não é justa, defendeu os
migrantes venezuelanos — causa que conhece de perto desde os tempos em que era
bispo no Peru — e recusou-se a entrar em confronto direto com Washington, e
também a calar-se.
"Não
vou parar de fazer o que é meu dever como chefe da Igreja Católica",
disse. Foi Trump quem o criticou primeiro. O papa não procurou o embate — mas
não se esquivou.
Para
Piqué, esta postura não é uma novidade nem uma ruptura, mas a continuação de
uma tradição vaticana de soft power para influenciar as decisões e
comportamentos de outros atores do tabuleiro político global.
O que é
novo é o contexto — e o fato de o papa ser americano. Nascido em Chicago, Leão
14 conhece a dinâmica política dos Estados Unidos como nenhum de seus
predecessores. E isso, nota a vaticanista, transformou o que antes era visto
como um obstáculo à sua eleição em uma das suas maiores forças.
Piqué
falou à BBC News Brasil sobre o que o pontificado de Leão 14 já revela — e o
que ainda está por revelar.
LEIA A
ENTREVISTA:
• Quase um ano após o conclave, as
expectativas em torno do papa Leão 14 estão sendo atendidas?
Elisabetta
Piqué - Completamente, sim. E acho que, além de todas as diferenças — claro,
não podemos ter uma fotocópia do papa Francisco, não é um clone. Ele tem o seu
estilo, tem a sua própria mente — ele está seguindo o papa Francisco. E o que
vimos nos últimos dias confirma isso.
• A senhora se refere às declarações
endereçadas a Donald Trump?
Piqué -
Isso mesmo. Nesse tipo de confronto com Donald Trump, não foi o papa que o
procurou. Foi Trump quem o atacou. De uma forma muito tranquila e serena, o
papa disse: "Não quero entrar em conflito com você, mas não vou parar de
fazer o que é meu dever como chefe da Igreja Católica — promover o Evangelho.
Por isso vou continuar a falar sobre a paz, sobre a promoção da paz, e todos os
valores do Evangelho".
No
início, alguém poderia dizer: é um papa silencioso. E, hoje, alguns analistas
dizem que o pontificado, na realidade, está começando agora. Além disso, ele é
o primeiro papa nascido nos Estados Unidos. Conhece muito bem o país, conhece a
dinâmica, e sabe muito bem como responder.
• O livro destaca que, antes de ser
eleito, o fato de ser americano era visto como um obstáculo para o cardeal
Prevost. Agora, isso tornou-se uma força, sobretudo por causa da situação com o
governo Trump?
Piqué -
É verdade. Antes do conclave, em muitas entrevistas que tive com cardeais
americanos, eles diziam, realmente convictos: "É impossível. Um papa
americano é impossível". O próprio Robert Prevost estava tranquilo na
noite anterior ao conclave, porque também acreditava que, por ser americano,
seria impossível. Mas o que aconteceu é que ele era o menos americano dos
americanos. Temos essa dupla fase do papa Leão: ele viveu metade da sua vida
sacerdotal no Peru. É também peruano.
A
realidade é que os cardeais não estavam à procura de uma nacionalidade. Estavam
à procura de um pastor. E ele tem essa experiência pastoral, missionária — foi
missionário no Peru, pessoa de liderança, teve dois mandatos como chefe dos
Agostinianos. Procuravam também alguém calmo, que pudesse tranquilizar as águas
após um papa disruptivo como Francisco. E Leão é muito sereno, mas também
pragmático — estudou Matemática, é canonista, é advogado canônico.
O papa
Francisco enviou-o para resolver situações muito difíceis no Peru, e ele ouviu,
ponderou e resolveu. Os cardeais que o conheciam, por serem membros do
dicastério dos bispos, começaram a vê-lo como candidato e fizeram uma campanha
muito inteligente — muito discreta, sem queimar o candidato.
• Essa postura firme diante de Trump
surpreende, ou é algo que se esperaria de um papa?
Piqué -
Ele está seguindo a tradição. Podemos lembrar que, antes da segunda guerra no
Iraque, havia um João Paulo 2º muito determinado, que não queria aquela guerra.
Enviou o cardeal Roger Etchegaray para falar com Saddam Hussein, o cardeal Pio
Laghi para falar com George W. Bush. Não foram ouvidos. Mas João Paulo 2º disse
claramente qual era a posição do Vaticano.
O mesmo
com o papa Francisco, com outro estilo. A realidade é que o Vaticano sempre
teve uma posição de resolver as coisas com negociação e diálogo. Mas defender o
diálogo não quer dizer que o Vaticano apoie o regime ou a teocracia islâmica de
Teerã. Para justificar a guerra, Trump e Vance argumentam que o regime iraniano
matou 42 mil pessoas. Lembremos que o papa Francisco foi o primeiro papa a
dizer que é imoral ter uma bomba nuclear.
O que
estamos a ver agora está em linha com o soft power que o Vaticano sempre teve.
E o papa Leão foi muito claro: nos Estados Unidos, dizem que é uma guerra
justa. Ele disse que não é.
• Há quem diga que ele seria um papa
anti-Trump.
Piqué -
Não é verdade. O papa normalmente não menciona ninguém. O que aconteceu é que
ele está na sua terceira viagem internacional à África, e seja o que for que
diga, todo mundo vai ligar ao Trump. A sua mensagem de paz foi para aquele
lugar, mas também para todos. Ele está falando para todo o mundo. É uma
mensagem global. Ele esteve em Camarões, onde há também uma espécie de guerra
civil — e ninguém fala disso. Temos 50 guerras esquecidas, como no Sudão do
Sul. O alcance do papa é muito mais amplo do que Trump.
• No livro, a senhora e seu marido notam
que, logo após ser eleito, Leão mostrou um espírito livre — pequenas e grandes
atitudes que marcaram o pontificado desde o início.
Piqué -
Cada papa tem seu próprio estilo, seu próprio carisma, e tem de ser assim.
Claro que o mundo quis logo encontrar rótulos: foi viver no Palácio Apostólico?
É um papa conservador como Bento. Colocou a mozeta (capa curta que cobre os
ombros) vermelha? Idem. Mas a realidade é que Leão é ele mesmo. Escolheu um
nome muito importante — lembremos de Leão 13, o papa da Rerum Novarum, a
primeira encíclica social, escrita quando surgiam as indústrias e o trabalho.
Agora temos a inteligência artificial.
Ele
conhece muito bem o mundo, e era missionário, como Francisco queria ser. Este é
um papa missionário. Falando de migração: sendo bispo no Peru, viu a onda de
imigrantes da Venezuela, ficou chocado, e imediatamente — muito pragmático —
construiu abrigos. Viveu também o fenômeno do El Niño, as alterações climáticas
que Trump nega. Há também o fato de ser de Chicago — é uma cidade muito
política, com o movimento laboral forte, uma política dura. E falar inglês é
uma grande vantagem neste momento do mundo.
• Como a ala mais conservadora da Igreja
reagiu a este primeiro ano do pontificado de Leão?
Piqué -
Este papa é jovem — em termos de Igreja, 70 anos é jovem. E, neste primeiro
ano, houve muita expectativa. Ele fez nomeações importantes: aceitou
imediatamente a renúncia de Timothy Dolan, o arcebispo de Nova York, que Trump
gostaria que fosse o novo papa, um prelado muito conservador. E nomeou um
arcebispo muito jovem, Ronald Hicks. Mas ainda há muitos lugares em aberto no
Vaticano. Ninguém sabe o que ele vai fazer.
Os mais
conservadores estão decepcionados: esperavam que ele mudasse a constituição da
Cúria Romana, não gostavam de ver mulheres ou leigos chefiando dicastérios. Mas
continuamos com mulheres e leigos à frente de dicastérios importantes. No
consistório [assembleia de cardeais] de janeiro, e no próximo em junho, a linha
principal é o Evangelii Gaudium — o documento programático de Francisco. Quem
esperava algo diferente vê que ele está no mesmo caminho.
• Ele foi o candidato do papa Francisco?
Piqué -
Um papa nunca vai dizer: quero este como meu sucessor. Nunca. Mas foi o papa
Francisco quem o nomeou bispo. Viu como ele geria situações muito difíceis no
Peru — com um episcopado conservador, o Opus Dei muito forte, o Sodalicio de
Vida Cristiana muito forte. E viu Prevost gerindo tão bem as coisas que o
chamou a Roma para chefiar o dicastério dos bispos, um dos postos mais
importantes.
Depois,
fez dele cardeal. E, em fevereiro, antes de ir para o hospital, nomeou-o ao
mais alto escalão entre os cardeais: cardeal bispo. Era um sinal silencioso.
Reuniam-se todos os sábados. E, em livro recente, soube-se que o papa Francisco
disse sobre ele: "Prevost é um santo. É um homem santo".
• O papa tem o enorme desafio de
modernizar a Igreja e frear a redução do número de fiéis. Ele está em condições
de enfrentar esse desafio?
Piqué -
Na última Páscoa, muitos prelados nos Estados Unidos ficaram surpreendidos:
igrejas católicas cheias como nunca. No Jubileu dos jovens aqui em Roma, em
agosto, ele conseguiu conectar. E, agora, teremos a viagem a Espanha. É um
grande desafio, não sabemos o resultado. Talvez alguns digam que tem menos
carisma que o papa Francisco, mas isso não significa que não encontre o seu
caminho. Vamos ver.
• Como ele lida com as redes sociais?
Piqué -
Muito bem. Como contamos no livro, ele tinha Twitter [atualmente X], era alguém
ligado a isso. É uma grande diferença em relação ao papa Francisco, que dizia:
"Sou um primitivo". Davam-lhe um telefone celular, mas ele não o
queria.
Outra
coisa importante: há algumas semanas, o papa Leão pediu que todos os
presidentes das conferências episcopais do mundo viessem a Roma em outubro
deste ano para aprofundar o Amoris Laetitia — o documento sobre a família,
muito criticado pelos conservadores. Foi uma surpresa para essa ala. Acho que é
cedo demais para fazer balanços, porque ele avança devagar, é muito reflexivo,
ouve muito. Mas acho que tem ideias muito claras.
Fonte:
Por João Caminoto, para a BBC News Brasil

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