Paulo
Kliass: Tributar os super-ricos!
A
Constituição Federal de 1988 representou um conjunto de medidas importantes
para coroar o processo de transição democrática no Brasil. Caminhando contra a
corrente global no quesito da estruturação da economia, os constituintes
deixaram como legado uma espécie de rascunho de um Estado de Bem-Estar Social.
Enquanto a maior parte dos países do mundo ocidental estava sendo engolida pelo
maremoto do neoliberalismo, por aqui a nova Carta sublinhava o papel do Estado
como fornecedor de serviços públicos universais, além de assegurar o papel
estratégico de empresas estatais em áreas sensíveis.
No
quesito da tributação, o texto reservava um papel de destaque para um
instrumento que poderia contribuir para atenuar o terrível quadro da
desigualdade social, econômica e patrimonial que nos caracteriza há séculos.
Assim, na seção dedicada aos impostos da União, havia um dispositivo
estabelecendo o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF), que deveria ser objeto de
regulamentação posterior, por meio de lei complementar específica para esse
fim. O art. 153 é muito objetivo a esse respeito:
(...)
Seção III
DOS
IMPOSTOS DA UNIÃO
Art.
153. Compete à União instituir impostos sobre:
(...)
VII -
grandes fortunas, nos termos de lei complementar.
(...) [
A
Constituição vai completar 38 anos de vigência no dia 5 de outubro próximo e,
até o momento, nada foi feito a respeito do IGF. Nas poucas tentativas em que
se buscou alterar nossa estrutura de tributação injusta e regressiva, o tema
das grandes fortunas sempre foi deixado de lado. As únicas opções para
tributação de patrimônio são bastante tímidas e inócuas, se o objetivo é
promover algum grau de redução na injustiça de incidência dos impostos em nosso
País. Temos apenas o Imposto Territorial Rural (ITR) federal e o Imposto
Predial e Territorial Urbano (IPTU), de competência dos municípios.
<><>
Brasil propõe imposto sobre super ricos
Mais
recentemente, no entanto, o tema voltou à agenda política e ganhou um pouco
mais de espaço de discussão no interior da sociedade. Na verdade, o Brasil
acabou entrando na onda mais global, que estava sendo capitaneada por alguns
países no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). Assim, em 2025, quando
a Presidência do G20 ficou sob responsabilidade do Itamaraty, fomos compelidos
a incorporar o tema da tributação das grandes fortunas, uma vez que contava com
papel de destaque na agenda do colegiado que reúne os vinte países de maior
importância no globo. Grupos de trabalho foram criados para esse fim e, ao
final da passagem pelo espaço diplomático aqui em Brasília, o G20 definiu seu
apoio à proposta que havia sido elaborada por um coletivo sob a responsabilidade
do economista francês Gabriel Zucman. O governo brasileiro deu amplo apoio à
elaboração da medida, nas palavras do próprio pesquisador:
(...)
Mas isso mudou, graças à liderança do G20. E agora sabemos que a concorrência
fiscal internacional não é uma lei da natureza. É uma escolha política. Podemos
optar por tolerá-la, mas podemos optar por contê-la, e escolher a coordenação
em vez da competição. E essa é uma fonte muito importante de otimismo. (...)
A
declaração final do G20 incluiu, em novembro de 2024, por iniciativa da
diplomacia brasileira, uma menção à proposta de um novo tributo:
(...)
"Com total respeito à soberania tributária, nós procuraremos nos envolver
cooperativamente para garantir que indivíduos de patrimônio líquido ultra-alto
sejam efetivamente tributados" (...)
<><>
Proposta brasileira foi para a ONU, mas ficou escondida no Ministério da
Fazenda
Um ano
mais tarde, em outubro de 2025, o Ministro da Fazenda enviou uma Carta Oficial
do governo brasileiro ao Fundo Monetário Internacional (FMI), onde reafirmava o
compromisso da equipe liderada por Lula com o tema. O documento apresentado por
Haddad era bastante contundente em seus termos:
(...)
“agora é a hora de os super-ricos pagarem sua parte justa de impostos” (...) “O
sistema tributário global continua inadequado, permitindo uma concentração de
riqueza sem precedentes e facilitando a evasão e a elisão fiscais em larga
escala” [GN]
No
entanto, apesar de toda essa movimentação, tudo não pareceu passar de jogo de
cena. Na prática, o governo brasileiro não se envolveu com a agenda e nem
apresentou medidas de política econômica interna para justificar seu empenho
internacional com a proposição. Ocorre que a diplomacia segue um ritmo bastante
distinto das políticas internas dos países. Assim, apesar da passividade e do
boicote brasileiros, deu-se a continuidade das negociações e das encomendas
realizadas ao longo dos anos. Afinal, o tema nunca foi retirado oficialmente
das agendas e manteve sua inércia própria de avanço lento.
Eis que
agora, em pleno ano eleitoral, em meio às dificuldades para Lula encontrar
caminhos e estratégias para enfrentar a oposição no pleito de outubro próximo,
o tema ressurge mais uma vez na agenda pública. O governo e os grandes meios de
comunicação não ofereceram nenhum destaque ou espaço para o retorno do assunto
sobre as grandes fortunas ao debate político. Preferiram deixá-lo ali, bem
escondidinho, pois o compromisso anterior poderia ser um incômodo para o
Presidente da República e a nova equipe da área econômica. Na verdade, uma
dança de cadeiras entre gente que já estava em postos de comando, sempre com o
intuito de viabilizar a candidatura de Haddad ao governo de São Paulo.
Mas as
próprias páginas do Ministério da Fazenda registram uma nova etapa recente de
tramitação do assunto. A Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL) criou
uma Plataforma Regional para tratar do tema e o economista Gabriel Zucman foi
novamente encarregado de coordenar uma equipe e elaborar uma proposta. O
documento final foi apresentado neste mês de abril e a iniciativa recebeu todo
o apoio da parte do governo brasileiro. O material foi elaborado pelo
Observatório Fiscal Internacional e propõe algumas alternativas de
implementação desta nova modalidade de imposto, dirigido a tributar os assim
chamados “ultrarricos”.
<><>
Tributo pode ajudar a arrecadar R$ 30 bi por ano
De
acordo com o posicionamento na página do Ministério da Fazenda, em evento de
apresentação da proposta,
(...)
“Para solucionar essa distorção, o relatório propõe a criação de um imposto
mínimo de 2% sobre patrimônios que excedam US$ 100 milhões. Diferente das
reformas tradicionais que focam na renda declarada, facilmente manipulável por
estruturas societárias, esse mecanismo incide sobre a riqueza total
(patrimônio). As simulações indicam que essa medida teria um impacto imediato
na arrecadação e na progressividade. No caso brasileiro, a taxa efetiva dos
ultrarricos saltaria de 20% para 50%, revertendo a regressividade do sistema.”
(...) [GN]
Chamado
de Imposto Mínimo Efetivo sobre a Riqueza (IMER), a proposta é ainda bastante
tímida, uma vez que apresenta uma alíquota relativamente baixa de apenas 2% e
incidiria somente para os contribuintes com patrimônio superior a R$ 500
milhões. Além disso, seriam deduzidas do imposto a pagar as parcelas de outros
tributos de outras naturezas que já tivessem sido recolhidas pelo mesmo
contribuinte. Assim, o saldo final estimado seria de uma receita anual de R$ 30
bilhões. Algo relevante se comparado ao esforço de superávit fiscal proposto
para 2026 de R$ 34 bi, mas absolutamente incipiente se colocado em perspectiva
ao valor superior a R$ 1 trilhão que vem sendo pago religiosamente a cada 12
meses aos detentores de títulos de dívida pública brasileira.
Porém,
apenas pelo fato de recolocar o debate, podemos elogiar a iniciativa. O caminho
passa por aumentar a alíquota do IMER e reduzir o patamar muito elevado de meio
bilhão de reais como patrimônio a ser tributado. Com a palavra, o Ministro da
Fazenda Dario Durigan, que deve uma explicação à sociedade brasileira a
respeito de qual estratégia o governo brasileiro vai adotar para viabilizar a
implementação desta importante medida inovadora em nossa estrutura tributária.
• Expectativas de inflação se deterioram e
elevam incerteza sobre trajetória dos juros. Por Paulo Gaia
O
relatório Focus divulgado na manhã desta segunda-feira, 20 de abril, trouxe
nova piora nas expectativas de inflação, reforçando um cenário que já vinha
sendo antecipado nas últimas semanas. A projeção para o IPCA de 2026 subiu para
4,80%, enquanto a expectativa para 2027 avançou para 3,99%, aproximando-se
perigosamente do limite superior da meta. Na prática, o mercado já considera
comprometido o cumprimento da meta inflacionária nos dois horizontes
relevantes.
A
deterioração das expectativas ocorre em meio ao choque recente nos preços do
petróleo, que voltou a ganhar força após a escalada de tensões no Oriente
Médio. Os episódios envolvendo o Estreito de Ormuz, com ações militares que
aumentam o risco geopolítico, tendem a prolongar um ambiente de preços elevados
da commodity. O barril, atualmente em torno de US$ 95, permanece distante de
níveis mais confortáveis e sustenta pressões inflacionárias adicionais.
No
Brasil, o impacto desse choque ainda não se disseminou plenamente. Mesmo assim,
os dados recentes já indicam aceleração: o IPCA acumulado em três meses
alcançou cerca de 2%, sinalizando um ritmo incompatível com a convergência para
a meta. A forma como a política de preços da Petrobras irá reagir —
especialmente em relação ao diesel e à gasolina — será determinante para a
magnitude desse repasse.
Diante
desse quadro, cresce a incerteza sobre os próximos passos da política
monetária. A expectativa predominante ainda aponta para um possível corte
residual de 0,25 ponto percentual na próxima reunião do Copom, levando a Selic
de 14,75% para 14,50%. No entanto, a piora das projeções inflacionárias,
especialmente nos horizontes mais longos, abre espaço para uma interrupção do
ciclo de flexibilização antes do previsto.
O
cenário externo também adiciona complexidade. Nos Estados Unidos, a agenda da
semana inclui dados relevantes de atividade, como vendas no varejo, além da
sabatina de Kevin Warsh, que deve assumir posição de destaque no Federal
Reserve. O mercado acompanha esses movimentos em busca de sinais sobre a futura
condução da política monetária americana, em um contexto em que os juros devem
permanecer elevados por mais tempo.
Em
síntese, o ambiente inflacionário tornou-se significativamente mais desafiador.
Com expectativas em alta e novos choques de custos em curso, o espaço para
cortes adicionais de juros no Brasil parece cada vez mais limitado. O Banco
Central, pressionado por um cenário menos benigno, tende a adotar postura mais
cautelosa nas próximas decisões.
Fonte:
Brasil 247

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