Massacre
de Ludlow: Rockefeller ordena a matança de trabalhadores do Colorado
Há 112
anos, em 20 de abril de 1914, dezenas de mineiros em greve e seus familiares
eram assassinados por soldados da Guarda Nacional do Colorado e por milícias
particulares a serviço da família Rockefeller.
Empregados
pela Colorado Fuel and Iron Company, os mineiros protestavam contra os salários
baixos, as jornadas abusivas e as condições de trabalho perigosas. Incomodado
com o movimento, John Davison Rockefeller ordenou que a Guarda Nacional
atacasse o acampamento onde os mineiros viviam com suas famílias.
O
Massacre de Ludlow foi um dos mais sangrentos conflitos trabalhistas da
história dos Estados Unidos. A matança indignou os trabalhadores, que se
insurgiram em rebelião armada, violentamente esmagada pelos militares
norte-americanos.
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A greve dos mineiros
O
Massacre de Ludlow foi o ápice da chamada “Guerra Carbonífera do Colorado”, um
levante operário motivado pelas péssimas condições de vida a que eram
submetidos os trabalhadores das minas de ferro e carvão no oeste estadunidense.
A
revolta foi liderada por trabalhadores da Colorado Fuel and Iron Company
(CF&I), empresa de mineração de ferro e de produção de combustíveis
pertencente a John Davison Rockefeller, magnata do petróleo e herdeiro de uma
das famílias mais ricas e influentes do país.
A
CF&I dominava completamente as operações no sul do Colorado. Os
trabalhadores da empresa enfrentavam condições brutais, com jornadas de 10 a 14
horas diárias, salários baixos e ausência de protocolos mínimos de segurança.
Eram forçados a viver em alojamentos da companhia, sob estrito controle dos
patrões. Os mineiros sindicalizados eram perseguidos, expulsos dos alojamentos
e demitidos.
Em
setembro de 1913, respondendo à convocatória da United Mine Workers of America
— UMWA, sindicato dos trabalhadores de minas que congregava 11 mil funcionários
da Colorado Fuel and Iron Company — os mineiros iniciaram uma campanha por
melhores condições de trabalho e salários dignos.
Diante
da recusa da empresa em ouvir as queixas, os trabalhadores deflagraram uma
greve, paralisando parte substancial da atividade mineira do estado. Os
mineiros reivindicavam reajuste salarial de 10%, limitação da jornada de
trabalho a 8 horas diárias, cumprimento da legislação trabalhista em vigor e a
melhoria das condições sanitárias dos alojamentos.
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O acampamento de Ludlow
Como
retaliação à greve, a empresa ordenou que os funcionários fossem despejados de
seus alojamentos. Os mineiros montaram então uma série de acampamentos com
barracas improvisadas, erguidos no entorno das minas de ferro e carvão.
Ludlow,
o maior desses acampamentos, reunia cerca de 1.200 mineiros e suas famílias. A
maioria dos trabalhadores era composta por imigrantes italianos, gregos,
sérvios e mexicanos, contratados para substituir outros mineiros que haviam
sido demitidos por participarem de uma mobilização grevista na década anterior.
Para
intimidar os trabalhadores, os Rockefeller contrataram milicianos que atacavam
regularmente os acampamentos com disparos de rifle e espingarda. Os mineiros
também passaram a ser assediados e agredidos pelos membros da Guarda Nacional
do Colorado, que era financiada pela família Rockefeller.
Resistindo
ao assédio e às ameaças, os mineiros prosseguiram com a greve ao longo de
vários meses, causando prejuízos e indisfarçada irritação em John Davison
Rockefeller. Em abril de 1914, durante uma audiência no Congresso dos Estados
Unidos, Rockefeller afirmou que acabar com a greve era “uma questão nacional”.
O
oligarca advertiu os parlamentares norte-americanos sobre o “grave precedente”
que seria “permitir aos trabalhadores escolherem as condições em que desejam
trabalhar” e criticou severamente a presença dos sindicatos nas mobilizações
trabalhistas.
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O massacre
No dia
20 de abril de 1914, um dia após a celebração da Páscoa Ortodoxa, a Guarda
Nacional do Colorado cercou o acampamento de Ludlow e iniciou uma repressão
brutal contra os trabalhadores.
Uma
milícia antigrevista contratada pela família Rockefeller ingressou no
acampamento armada com metralhadoras e abriu fogo contra os mineiros e suas
famílias.
Os três
principais líderes da greve, incluindo o sindicalista Louis Tikas, foram
capturados e assassinados pela Guarda Nacional. Os trabalhadores ainda tentaram
reagir ao massacre, mas logo foram subjugados.
Tentando
fugir da violência, mulheres e crianças se esconderam em cavas usadas como
depósitos no interior das tendas. Os soldados da Guarda Nacional, entretanto,
jogaram querosene sobre as barracas e atearam fogo, incendiando todo o
acampamento e matando dezenas de pessoas.
Ao
menos 13 trabalhadores que tentaram escapar do incêndio foram baleados e mortos
pelos soldados. Julia May Courtney, uma sobrevivente do massacre, afirmou ter
presenciado os militares espancando e atirando propositalmente as crianças nas
chamas.
Em uma
única cava, foram encontrados os corpos de 11 crianças e quatro mulheres, uma
das quais gestante. A vítima mais jovem era um bebê com quatro meses de vida.
A
quantidade exata de vítimas do massacre não é conhecida, variando entre 25 e 55
pessoas conforme as fontes. Outras 66 pessoas morreriam nos dez dias seguintes,
quando os mineiros sobreviventes, indignados com a chacina, se armaram e
iniciaram o ataque às instalações da Colorado Fuel and Iron Company e aos
postos da Guarda Nacional do Colorado.
Os
trabalhadores atacaram minas e organizaram uma série de escaramuças contra os
soldados na região entre Las Animas e Walsenburg. Receando uma escalada da
violência e pressionado a proteger as propriedades dos Rockefeller, o
presidente Woodrow Wilson despachou tropas federais até o Colorado para debelar
a revolta operária.
O
massacre foi abafado pela imprensa para evitar danos à imagem da família
Rockefeller. O Congresso dos Estados Unidos chegou a realizar audiências, mas
nenhuma medida concreta foi tomada e os proprietários e gestores da empresa
sequer foram convocados a depor.
Determinado
a minar os sindicatos independentes, John Davison Rockefeller investiu na
criação de um novo sistema de representação sindical, composto por associações
cooptadas e subordinadas aos interesses patronais, até hoje bastante difundido.
O
Massacre de Ludlow permanece como um dos mais sangrentos conflitos trabalhistas
da história dos Estados Unidos, bem como um símbolo do autoritarismo e da
violência patronal e das consequências nefastas do poder ilimitado e desregrado
concedido às corporações.
Fonte:
Por Estevam Silva, em Opera Mundi

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