Secretário
de Educação, da gestão Zema, é responsável por contratos de R$ 850 milhões com
empresa suspeita de fraude
Nos
últimos três anos, pastas sob a gestão do atual secretário de Educação de Minas
Gerais, Rossieli Soares, firmaram quatro contratos de compra de livros
didáticos que somam R$ 848,8 milhões. A empresa beneficiada por todas as
contratações é a Fazer Educação, cujo dono foi indiciado por fraude em
licitação e organização criminosa pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul.
A Fazer
Educação, antes chamada Sudu Tecnologia Educacional, é uma velha conhecida de
Rossieli. Antes de assumir a secretaria em Minas, em agosto do ano passado, a
pasta comandada por ele no Pará já havia fechado três contratos com a empresa
durante o governo de Helder Barbalho, do MDB, em 2023 e 2024.
Já sob
a gestão do ex-governador mineiro Romeu Zema, do Novo, que renunciou ao governo
de Minas no fim de março para se candidatar nas próximas eleições, a secretaria
chefiada por Rossieli assinou o maior dos quatro contratos com a empresa: R$
348,4 milhões para a compra de 3,5 milhões de livros de matemática, língua
portuguesa e de conteúdos multidisciplinares para os ensinos fundamental e
médio. A assinatura desse acordo ocorreu em 23 de dezembro passado, antevéspera
de Natal.
A Fazer
Educação pertence ao empresário João Moacir Pereira da Silva Filho. A empresa
já teve vários nomes e foi fundada em 2019 no Amazonas. É o mesmo estado onde
Rossieli ascendeu na sua carreira pública. Ele passou por diferentes cargos no
governo estadual, até assumir a secretaria de Educação do Amazonas entre 2012 e
2016.
A Fazer
Educação, que na época se chamava Sudu, foi alvo da Operação Capa Dura,
deflagrada pela Polícia Civil do Rio Grande do Sul em 2024, e de uma Comissão
Parlamentar de Inquérito, ou CPI, da Câmara Municipal de Porto Alegre em 2023.
Em ambos os casos, a suspeita era de que a empresa teria fraudado um contrato
de material didático no valor de R$ 8,6 milhões com a prefeitura da capital
gaúcha em 2022.
Ao
todo, 34 pessoas, incluindo servidores públicos, foram indiciados pela polícia
por diferentes crimes contra a administração pública, incluindo corrupção. No
caso do dono da Fazer Educação, João Moacir, o indiciamento foi por fraude em
licitação e organização criminosa em abril de 2025.
De
acordo com um relatório policial, a Fazer Educação estava em conluio com outras
empresas para direcionar compras públicas na capital gaúcha. A investigação da
polícia afirma que a cotação de preços foi fraudada por companhias que se
apresentavam como concorrentes, quando na verdade atuavam em parceria.
A
polícia também aponta evidências do direcionamento da contratação a partir de
um documento preparatório da prefeitura, chamado de termo de referência. É
nesse tipo de documento, divulgado ao mercado ainda na fase licitatória, que a
administração pública descreve o que o governo quer comprar. De acordo com as
investigações, o texto teria se baseado em materiais publicitários da Fazer
Educação.
Os
livros fornecidos pela empresa de João Moacir em Porto Alegre são publicações
da editora Inca, empresa de Sérgio Bento de Araújo, que, segundo a polícia,
fazia parte do conluio de empresas que foram investigadas na Operação Capa
Dura.
A
Polícia Civil anunciou a conclusão da operação em fevereiro deste ano. Durante
os mais de dois anos da investigação foram enviados inquéritos ao Ministério
Público do Rio Grande do Sul, que informou ao Intercept Brasil que não vai se
manifestar sobre o andamento do caso para preservar as investigações em curso.
Procurado
pelo Intercept, Sérgio Bento nega as acusações de conluio com a Fazer Educação
ou com o dono dela, João Moacir, para direcionar contratos públicos. Ele diz
que sua empresa mantinha apenas uma relação comercial com a Fazer Educação, que
comprava material da editora Inca e os revendia. Já João Moacir optou por não
conceder entrevista e respondeu os questionamentos da reportagem apenas por
meio de nota oficial da sua empresa, que reforça a “inexistência de vínculos
com as investigações ou terceiros citados”.
A
Secretaria de Educação de Minas Gerais disse por e-mail que, quando contratou a
Fazer Educação, não tinha conhecimento da relação da empresa com as
investigações no Rio Grande do Sul, já que não havia registro de sanção
impeditiva em desfavor da companhia.
Em
março, a deputada estadual Beatriz Cerqueira, do Partido dos Trabalhadores, o
PT, de Minas Gerais, protocolou uma denúncia no Ministério Público Federal, o
MPF, sobre o contrato da secretaria de Educação com a Fazer Educação. Até a
publicação desta reportagem, o caso ainda não havia sido distribuído para
nenhum procurador do órgão, que pode ou não determinar a abertura de um
inquérito.
“O que
a gente está vivendo na educação é essa febre de grupos privados que vêm pegar
dinheiro da educação produzindo livros, sendo que temos o Programa Nacional de
Livro Didático. É muita grana envolvida”, avaliou a parlamentar, em conversa
com o Intercept.
Segundo
a deputada, a compra não fazia parte do planejamento de compras da secretaria
de Educação de Minas, e, durante visitas em escolas, ouviu críticas dos
professores em relação ao conteúdo das apostilas.
“Professores
me mostraram essa apostila e disseram que são conteúdos extremamente rasos, que
não cumprem essa função de recomposição da aprendizagem”.
A
secretaria de Educação de Minas Gerais defendeu que o uso desse material de
reforço é uma estratégia para conseguir avanços em indicadores de aprendizagem,
como já teria acontecido no Pará, e que a participação recorrente das mesmas
empresas em diferentes processos licitatórios tem relação com a pouca
quantidade de fornecedores desse tipo de produto no mercado editorial.
O
professor do Departamento de Administração da Universidade de Brasília, a UnB,
Caio César de Medeiros Costa, explica que há duas maneiras de proibir uma
empresa de participar de contratações públicas. A primeira é chamada de
impedimento de licitar e contratar, que dura no máximo três anos e a punição
fica restrita ao estado ou município em que o caso foi decidido. A outra é
sanção da declaração de idoneidade para licitar ou contratar, com limite de
seis anos e com alcance para toda a administração pública. Em ambos os casos, é
necessário um processo administrativo.
Costa é
líder do grupo de pesquisas em licitações e contratos administrativos e falou
com o Intercept sem analisar especificamente o caso citado na reportagem. Ele
avalia que houve um avanço com a Nova Lei de Licitações e Contratos
Administrativos, aprovada em 2021, mas que ainda há pontos que podem ser
discutidos.
“Talvez
seja necessário pensar em algumas ações que possam ser preventivas a partir do
momento que foi demonstrada a materialidade. Pode ser um elemento que gere
ganho e que diminua prejuízos para a administração pública. Até porque,
enquanto essa empresa não for impedida ou declarada inidônea, ela vai continuar
licitando, vai continuar vencendo certames, vai continuar participando de
contratações e o dano pode continuar em diferentes instâncias”.
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De carona em outras licitações
Os
contratos de Porto Alegre foram feitos a partir de um mecanismo administrativo
chamado de adesão à ata de registro de preço. Esse tipo de contratação é
baseado em uma licitação que já ocorreu em outro órgão público, com o objetivo
de acelerar o processo. É como se a prefeitura de Porto Alegre pegasse carona
em uma licitação já feita em outro estado. Isso é permitido pela legislação,
desde que o órgão cumpra dois requisitos: prove que os valores cobrados são
condizentes com o mercado atual e demonstre a real vantagem do negócio.
Três
contratos sob a chefia de Rossieli assinados com a Fazer Educação foram
realizados por meio da adesão à ata de registro de preço: dois no Pará e um em
Minas Gerais. Com esse modelo de contratação, os dois estados devem pagar R$
661,2 milhões à Fazer Educação.
Duas
compras de material didático feitas pela gestão de Rossieli no Pará pegaram
carona em uma licitação do Consórcio Intermunicipal de Saneamento do Paraná, a
Cispar, em 2022. Essa mesma licitação paranaense foi reaproveitada no contrato
de compra de material didático da prefeitura de Porto Alegre com a Fazer
Educação, investigado na Operação Capa Dura.
Já o
contrato de Minas Gerais pegou carona em uma licitação de 2024 da Fundação para
o Desenvolvimento da Educação, a FDE, vinculada à Secretaria de Educação do
estado de São Paulo. A pasta foi comandada por Rossieli até abril de 2022,
quando ele saiu para ser candidato a deputado federal.
A Fazer
Educação venceu um lote desta licitação da FDE para a compra de 11 milhões de
livros destinados a municípios paulistas.
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Parceiras e concorrentes ao mesmo tempo
Tanto
em Minas Gerais quanto no Pará, os materiais didáticos fornecidos pela Fazer
Educação são produzidos pela Somos Educação. Fundada em 1960 como Abril
Educação, a empresa adotou a marca Somos em 2015 ao ser vendida a um fundo de
investimentos. Três anos depois, a gigante educacional Kroton (atual Cogna)
assumiu o controle do negócio por R$ 4,6 bilhões.
A Somos
também participou daquela licitação da FDE em São Paulo, concorrendo com a
Fazer Educação. A bilionária chegou a ganhar um dos lotes da concorrência, mas
desistiu, alegando falta de capacidade financeira.
A Fazer
Educação defendeu, em nota, que possui autonomia administrativa e comercial, e
que o contrato de distribuição com a Somos Educação não estabelece
exclusividade.
“A
participação em processos licitatórios ocorre de forma autônoma e em estrito
cumprimento aos princípios da livre concorrência e às normas estabelecidas nos
editais, não havendo qualquer impedimento legal para que distribuidora e
fabricante participem de um mesmo certame”, respondeu a assessoria da Fazer
Educação por e-mail.
A
Secretaria de Educação de São Paulo informou também por e-mail que um eventual
uso de produtos de terceiros na execução do contrato não altera as regras da
licitação e é de responsabilidade do contratado.
Além
disso, a pasta garantiu que o ex-secretário Rossieli não participou da condução
do pregão nem da análise das empresas interessadas. A secretaria paulista
lembrou ainda que a adesão à ata por outros estados é de responsabilidade do
órgão que optou por pegar carona. “Os procedimentos adotados observaram
rigorosamente os princípios da legalidade, isonomia, competitividade e
transparência, não havendo, até o presente momento, qualquer elemento concreto
que indique direcionamento, irregularidade ou prejuízo”, escreveu no
comunicado.
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Rossieli e a doação de campanha
O
contrato de Minas Gerais firmado sob a gestão de Rossieli Soares determina que
os materiais didáticos fornecidos pela Fazer Educação sejam produzidos pela
Somos Educação. A Fazer Educação é representante exclusiva de alguns materiais
da Somos em vendas para a rede estadual de Minas Gerais.
O
ex-presidente da Somos Mario Ghio Jr. doou R$ 20 mil para a campanha de
Rossieli à Câmara dos Deputados pelo PSDB paulista na eleição de 2022. Rossieli
foi ministro da Educação de Michel Temer e comandou a Secretaria Estadual de
Educação de São Paulo no governo de João Doria.
A
atuação conjunta dessas duas empresas já havia ocorrido anteriormente sob a
gestão de Rossieli. Como o Intercept revelou em fevereiro do ano passado, a
Fazer Educação – à época operando sob o nome Sudu – era representante comercial
exclusiva da Somos no Pará. A empresa assinou seus primeiros contratos com o
governo paraense no período em que Rossieli comandava a secretaria de Educação
local.
Mario
Ghio Jr. permaneceu no conselho administrativo da Somos até março do ano
passado. Ele ainda ocupou cargos de chefia dentro do grupo Cogna até 2026.
Depois
da publicação da reportagem do Intercept, o Ministério Público do Pará abriu um
inquérito para investigar o caso, que segue em tramitação.
Em
mensagem enviada pelo WhatsApp para o Intercept, a assessoria de imprensa de
Mario Ghio Jr. disse que ele conhece Rossieli porque exerceu diversos cargos em
diferentes instâncias públicas, mas que nunca trabalharam juntos. Em nota, ele
ressaltou que a doação foi feita na pessoa física, e não na jurídica, sem
qualquer contrapartida.
“Sempre
busquei identificar agentes relevantes para o debate educacional brasileiro,
como era o caso do professor Rossieli, que, na ocasião, almejava o Congresso
Nacional”, afirmou o ex-presidente da Somos. A assessoria de imprensa de Mario
Ghio Jr. informou ainda que ele não tem mais nenhum vínculo com a Cogna.
A
Secretaria de Educação do Pará informou por e-mail que atua com transparência e
dentro da legalidade em todas as suas contratações, e que vem avaliando
providências cabíveis em relação à empresa citada, assegurando o devido
processo legal e a continuidade dos serviços sem prejuízo aos estudantes da
rede estadual.
Rossieli
não atendeu às ligações e não respondeu aos questionamentos do Intercept. Já a
Secretaria de Educação de Minas Gerais enviou um e-mail defendendo que as
doações da campanha eleitoral de 2022 de Rossieli foram regularmente declaradas
e tiveram as contas aprovadas pela Justiça Eleitoral.
A Somos
Educação disse por e-mail que a definição do instrumento licitatório é
exclusiva do ente público. A empresa ainda afirmou que é pautada por códigos de
conduta e política anticorrupção, cujas diretrizes são obrigatórias para todos
os seus fornecedores e parceiros. Além disso, a Somos pontuou que não havia
qualquer decisão definitiva que configurasse impedimento legal à celebração do
contrato com a Fazer Educação.
A Fazer
Educação escreveu em nota que todos os seus contratos seguem a legislação e que
a decisão do modelo de contratação cabe aos órgãos públicos contratantes. “A
presença da empresa em diferentes estados visa a eficiência logística e o
suporte à sua atuação nacional como distribuidora de soluções educacionais,
como as da Somos Educação”.
Fonte:
Por Thalys Alcântara, em The Intercept

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