Opinião
pública e política externa: a Venezuela em Lula III
Existe
uma relação entre opinião pública e política externa? Se sim, como ela se
manifesta no Brasil? Ainda que essa seja uma agenda de pesquisa consolidada há
décadas em países como os Estados Unidos, no Brasil tem-se notado que temas
como relações bilaterais, internacionalização de empresas brasileiras e
financiamento a exportações brasileiras por
bancos nacionais passaram recentemente a ocupar posição
cativa na lista de preocupações dos brasileiros. Pouco a pouco, tais temas vêm
se tornado parte do debate público, influenciando tanto a mídia
de forma ampla, incluindo veículos da grande imprensa e canais nas redes
sociais, quanto tomadores de decisão e formuladores de política
externa.
Diante
desse fenômeno relativamente novo para o Brasil, buscamos
apresentar reflexões preliminares de uma agenda de pesquisa
que busca compreender as relações Brasil-Venezuela durante o governo Lula.
Há diferenças importantes entre seu mandato atual e os dois primeiros
(2003-2010). Além de um cenário atual mais adverso – seja nas relações
Executivo-Legislativo, na economia global e doméstica ou no cenário político
regional –, observa-se maior atenção do público quanto às relações bilaterais
entre Brasil e Venezuela.
Parte
disso se deve à própria condição da Venezuela enquanto vizinho e player internacional,
que após uma prolongada crise multifatorial se
apresenta como um dos maiores desafios diplomáticos à
liderança brasileira na região.
Na
campanha eleitoral de 2022, Lula deixou claro o desejo de
retomar o ativismo da política externa brasileira e de recolocar
o Brasil como um ator de relevância global, liderando a América
do Sul e promovendo projetos regionais que promovam a autonomia e o
desenvolvimento nacional (Pinheiro; Herz, 2023). A expectativa era
que seu retorno à Presidência da República significasse a
reconstrução de pontes que haviam sido desmanteladas pelo antecessor
Jair Bolsonaro (2019-2022).
Nesse
sentido, o petista ressaltou no discurso de posse o objetivo de
priorizar a região sul-americana por meio do retorno à União de
Nações Sul-Americanas (UNASUL), bem como a normalização da
relação com a Venezuela. Para Maria Regina Soares de Lima (2023), essa
reconstrução da política externa brasileira para a região não
necessariamente significa uma volta ao passado, mas sim um
restabelecimento de formas de agir consolidados na ação diplomática
nacional, equilibrando esse ímpeto com a variável interna de ter
se constituído enquanto um governo de frente ampla.
Mas o
contexto hoje difere muito do que aquele que permitiu o
florescimento de uma diplomacia mais pró-ativa, o que
demanda atualização dos diagnósticos feitos por formuladores de
política externa (Lima, 2023). Por exemplo, hoje o Brasil se vê
mergulhado em intensos debates decorrentes de profunda polarização que,
além de transbordar da esfera política para a sociedade (Somer et
al., 2021), contamina também o debate em torno da política externa.
Tal
polarização, por exemplo, permeia a crise do multilateralismo em meio
à articulação global da extrema direita, cujos reflexos se veem também
no contexto latino-americano de alta fragmentação, baixo engajamento
econômico, pouca concertação (Goncalves et al., 2025).
Tais características remetem
ao chamado “regionalismo líquido”, conceito que trata da
fluidez das estruturas institucionais regionais, em especial a partir da
segunda década dos anos 2000, o que coincide temporalmente com a transição
promovida por Michel Temer após o impeachment de Dilma Rousseff,
em 2016, atingindo um ápice com o bolsonarismo e
a ruptura política que representou (Mariano et al., 2021).
Por
conta dos elementos acima expostos, o retorno de uma política externa “ativa e
altiva” – que marcou os dois primeiros mandatos de Lula – parece
inviável diante de mudança nas condições presentes (Lima, 2023).
Nesse quadro, merece destaque a dificuldade representada pela
Venezuela no cenário sul e latino-americano.
Primeiramente,
as contestadas eleições de 2024 que consagraram o então presidente
Nicolás Maduro vencedor, apesar de o órgão eleitoral não ter
divulgado dados desagregados por centro de votação. O imbróglio
piorou o humor do eleitorado brasileiro em relação à proximidade do Brasil com
a Venezuela e se tornou um obstáculo importante à aprovação da opinião pública
sobre as relações bilaterais. Somou-se a isso a operação dos Estados Unidos na
Venezuela, em janeiro de 2026, que complexificou o desafio brasileiro. Se a
crise e a erosão democrática venezuelanas se mostravam um problema para o
governo brasileiro, de quem a imprensa e a opinião pública cobravam postura
mais firme e condenatória do que a sustentada pelo Brasil, a invasão da
Venezuela seguida pela captura de Maduro passaram a pressionar o governo
brasileiro novamente na direção de condenar abusos, desta vez contra
os Estados Unidos.
O Brasil
não foi o primeiro país a se manifestar sobre a invasão e a captura de
Maduro, em 3 de janeiro de 2026. Essa demora indicou falta de capacidade
de liderança para a coordenação de uma resposta conjunta, em meio
a uma cisma regional, na qual líderes sul-americanos se dividiam entre
um approach mais duro contra o governo Maduro e a busca
por uma transição pela via diplomática.
Assim
como ocorre na região, nos últimos anos tem ficado claro o potencial
polarizador que temas relacionados à Venezuela
carregam também no debate público brasileiro. Além de ter se
mostrado um elemento relevante no debate eleitoral interno, a erosão da
democracia venezuelana passou a ter impactos importantes também
para o incumbente. No caso do presidente Lula, essa relação bilateral
se mostrou uma variável relevante para a imagem de seu governo, ainda
mais marcadamente do que nos governos de
seus antecessores.
Pouco
antes da eleição presidencial de 2024 na Venezuela, a
diplomacia brasileira se viu compelida a mudar não apenas de
posição, como também de estratégia frente ao governo de Maduro, diante da
pressão doméstica e internacional. Se antes da campanha eleitoral daquele
ano o governo Lula era visto de certa forma condescendente com os abusos do
regime de Maduro, as dificuldades para a oposição em conseguir registrar um
nome para a disputa levaram a críticas por parte do Itamaraty, evidenciando uma
ruptura com a posição prévia, considerada acrítica por parte da
opinião pública e membros da oposição (Pedroso; Gombata,
2025).
Tendo
em vista a pressão da opinião pública sobre posições de política externa,
buscamos uma agenda de pesquisa a fim de elucidar o mecanismo pelo
qual a opinião pública sobre a Venezuela influencia a
formulação da política externa de Lula III. Esse é um
tema que divide a sociedade brasileira e as próprias
coalizões do governo que, por ser de frente ampla, é composto
por distintos grupos, com visões político-ideológicas acerca de qual
deve ser a postura do Brasil frente aos desafios que a Venezuela
apresenta. Na nossa avaliação, ambas as variáveis (opinião
pública e formuladores de política externa do governo) seriam mutuamente
influenciadoras e influenciadas pelo debate midiático.
Na
literatura mais consolidada sobre a interação entre opinião pública e
política externa, o marco teórico inicial é caracterizado por uma visão
elitista, na qual a opinião pública é tratada como mal-informada,
inconsistente, volátil e irracional. Por isso, ela tenderia a seguir
a liderança da elite política, em um movimento de cima para
baixo (top-down) (Nkecht,
2006). Correntes revisionistas posteriores contestaram tal visão
e passaram a entender a influência
da opinião pública na política externa como estável,
sensata, estruturada e racional, podendo ser influenciada não só
pela ação e informação advinda da
elite política (top-down), mas também de baixo para cima (bottom-up) (Soroka,
2003; Kertzer; Zeitzoff, 2017).
Uma
outra vertente ainda busca entender o papel
da mídia na formação da opinião pública sobre
a política externa, mas sob a perspectiva
de definição de agenda (“agenda setting”), segundo a
qual a escolha editorial dos temas a serem explorados pelos veículos
de informação tem forte capacidade de moldar não apenas
o que é debatido publicamente, como também o grau
de importância de determinados temas no debate público e na vida dos
eleitores (McCombs; Shaw, 1972; Soroka,
2003; Lustig; Olego, 2016).
Soma-se
a essa perspectiva o peso da internet e das redes sociais, que,
apoiadas em algoritmos, tem levado a um quadro de hiper
fragmentação e polarização, no qual as pessoas escolhem nichos
ideologicamente amigáveis, se blindando de opiniões concorrentes,
essenciais para o fortalecimento da esfera pública e a democracia (Habermas,
2023b). O aumento na velocidade e no volume de informação tem
gerado maior polarização política e social, recaindo também sobre o campo
da política exterior (Baum; Potter, 2008).
No caso
brasileiro, a política externa era tradicionalmente percebida como
um domínio de relativa autonomia e
“insulamento” burocrático do Ministério das Relações Exteriores
(Itamaraty) e da Presidência da República. Mas essa visão de
descolamento da arena doméstica da internacional tem sido questionada pela
ampliação de atores e agendas na política exterior. Vide o
aumento do pluralismo no processo de tomada de decisão, que tem envolvido
cada vez mais entidades subnacionais, empresas, organizações da
sociedade civil e outros ministérios e agências do governo federal,
desafiando o suposto monopólio e isolamento do
Itamaraty (Milani; Pinheiro, 2017). Isso leva a
uma concepção de política exterior mais próxima da
de política pública e, portanto, mais porosa às
dinâmicas domésticas e da própria opinião pública.
Para explorar
as relações entre opinião pública e política externa no caso da
relação Brasil-Venezuela, consideramos a existência da triangulação entre
três eixos principais: o papel exercido pela grande imprensa, a opinião pública
em si e as distintas visões dos formuladores de decisão em política
externa do governo Lula. Buscaremos entender de que maneira a mídia e
a opinião pública impactam lideranças políticas na condução da política
externa brasileira.
Para
compreender a interação entre os três eixos explicitados, nossa pesquisa
buscará analisar o material publicado na imprensa sobre relações políticas
e econômicas entre Brasil e Venezuela nos jornais Folha de S. Paulo, Valor
Econômico e O Globo, consumidos prioritariamente pelas
classes A e B e por formuladores de política externa, além de
pesquisas de opinião de institutos como Atlas Intel.
Buscaremos também fazer
entrevistas semiestruturadas com membros do conselho
editorial e editores executivos nesses três principais veículos,
além de entrevistas em profundidade com burocratas do Itamaraty e
formuladores de política externa no governo Lula III.
Os
resultados da nossa agenda de pesquisa pretendem expor as problemáticas
que envolvem o desafio diplomático que a Venezuela constitui para o
governo brasileiro, doméstica e regionalmente, uma vez que o
caso venezuelano divide até mesmo os líderes progressistas entre os mais e
menos críticos ao regime chavista-madurista.
Hoje a
pressão sofrida pelo governo brasileiro por parte da oposição e
da opinião pública, seja por uma postura mais rígida contra
abusos cometidos anteriormente pelo governo chavista ou pela
condenação à pressão internacional sobre a Venezuela, é um elemento adicional
na equação de tentativa de retomada da liderança brasileira na
América Latina, especialmente na América do Sul.
Essa
agenda de pesquisa, relativamente nova no Brasil, se justifica por duas
razões. Primeiramente, vemos que a literatura avança até determinado
ponto, em geral explicitando a influência que a opinião pública exerce,
mas não necessariamente as razões por trás disso,
ou por que o público em geral tem uma determinada opinião sobre
o tema, ou mesmo como se dá essa influência, isto é, o mecanismo por trás
dela. Em segundo lugar, o presente trabalho pode contribuir para a literatura
já existente sobre política externa enquanto política pública (Garcez
Targa et al., 2024), e sua relação com opinião pública5, atualizando-a com elementos
advindos do caso brasileiro.
Esperamos,
por fim, poder oferecer um panorama não apenas complementar aos estudos de
política externa e opinião pública (Brewer et al., 2024; Baum;
Potter, 2008; Netcht, 2006; Rosenau, 1961), como também buscar
entender o impacto que a Venezuela tem na opinião pública e,
por consequência, na formulação de política externa no
Brasil.
Fonte: Por
Marsílea Gombata e Carolina Silva Pedroso, no Blog da Boitempo

Nenhum comentário:
Postar um comentário