Paulo
Baia: Quando o tempo decide - o poder eleitoral dos idosos no Brasil
contemporâneo
Há uma
transformação silenciosa em curso no Brasil. Não se anuncia com estridência,
não ocupa manchetes diárias, não se converte em espetáculo. Mas avança com a
consistência das marés, com a força inevitável da demografia, com a densidade
histórica de quem acumulou décadas de experiência. O país envelheceu. E, mais
importante, o eleitorado envelheceu.
A
pesquisa que revela esse cenário foi produzida pela Nexus Pesquisa e
Inteligência de Dados, com base em dados oficiais do Tribunal Superior
Eleitoral. Trata-se de um levantamento rigorosamente quantitativo, estruturado
a partir da base do cadastro eleitoral brasileiro, com coleta realizada em 1º
de março de 2026. A própria metodologia registra que os dados de 2026 são
parciais, pois o cadastro segue aberto até 6 de maio. Não há aqui opinião, nem
intenção de voto, nem projeção subjetiva. Há leitura direta da realidade
empírica. Há demografia convertida em política.
Em
2010, o Brasil tinha 135,8 milhões de eleitores. Em 2026, chega a 156,2
milhões. Um crescimento de cerca de 15%. Mas o dado decisivo não está aí. O
dado decisivo está no salto do eleitorado com 60 anos ou mais. Eram 20,8
milhões em 2010. São 36,2 milhões em 2026. Um crescimento de 74%. Uma expansão
quase cinco vezes maior que a do conjunto do eleitorado.
Não se
trata de um detalhe estatístico. Trata-se de uma mutação estrutural. Os idosos
deixaram de ser margem. Tornaram-se centro.
Em
2010, representavam 15,3% do eleitorado. Em 2014, 17,0%. Em 2018, 18,8%. Em
2022, 21,0%. Em 2026, alcançam 23,2%. Quase um em cada quatro eleitores
brasileiros é idoso. Um quarto do país eleitoral carrega o tempo no corpo, na
memória, na linguagem, na forma de perceber o mundo.
Ignorar
isso é mais do que um erro. É uma cegueira política.
Mas há
algo ainda mais sutil. Não existe um único eleitor idoso. Existem dois mundos
dentro dessa mesma categoria. De um lado, 19,7 milhões de pessoas entre 60 e 69
anos, cujo voto é obrigatório. De outro, 16,5 milhões com 70 anos ou mais, cujo
voto é facultativo. Isso significa que 45,5% dos idosos já estão fora da
obrigação formal de comparecer às urnas.
Dois
universos. Duas psicologias. Dois ritmos de participação.
E ainda
assim, um mesmo peso simbólico e político.
A
estatística revela um paradoxo que exige leitura refinada. Em 2022, a abstenção
média do eleitorado brasileiro foi de 20,9%. Entre os idosos, a média foi de
34,5%. Mas essa média esconde um abismo interno. Entre 60 e 69 anos, a
abstenção foi de apenas 14,3%. Entre 70 anos ou mais, chegou a 58,9%.
O mesmo
grupo social abriga, simultaneamente, a disciplina cívica e o afastamento
eleitoral.
O
comparecimento reforça essa clivagem. Em 2022, 79,1% do eleitorado geral
compareceu às urnas. Entre 60 e 69 anos, o índice foi de 85,7%. Um patamar
superior à média nacional em toda a série histórica. Em 2014, 84,2%. Em 2018,
83,8%. Em 2022, 85,7%. Há, nesse segmento, uma ética do voto. Um compromisso
que não se dissolve. Um gesto repetido não por hábito mecânico, mas por
compreensão do valor da escolha.
Já
entre os eleitores com 70 anos ou mais, o comparecimento foi de 41,1%. Em 2014,
36,4%. Em 2018, 37,3%. Em 2022, 41,1%. Cresce, lentamente. Mas permanece baixo.
O
Brasil carrega, portanto, uma reserva eleitoral gigantesca. Não no sentido
ideológico. No sentido da presença possível. Milhões de idosos que podem votar,
mas que nem sempre votam. Que podem decidir eleições, mas que dependem de
estímulos concretos para transformar intenção em gesto.
Em
números absolutos, a força é incontornável. Em 2022, 21,6 milhões de idosos
compareceram às urnas no primeiro turno. Em 2014, eram 15,3 milhões. Em 2018,
17,7 milhões. Um crescimento de mais de 6 milhões de votos em oito anos.
Entre
60 e 69 anos, o número saltou de 11,3 milhões para 15,4 milhões. Entre os com
mais de 70 anos, de 3,9 milhões para 6,1 milhões. Mesmo com menor
comparecimento proporcional, o crescimento demográfico amplia o peso absoluto.
Ao
mesmo tempo, 11,3 milhões de idosos deixaram de votar em 2022. Desses, 2,6
milhões estavam entre 60 e 69 anos. E 8,8 milhões tinham mais de 70 anos.
Há,
nesse silêncio eleitoral, uma energia latente. Uma potência que não se realiza
automaticamente. Uma ausência que pode se transformar em presença.
Geograficamente,
o envelhecimento também redesenha o mapa político. Rio Grande do Sul lidera com
29% de eleitores idosos. Rio de Janeiro aparece com 28%. Minas Gerais, 26%. São
Paulo, 25%. Paraná, Espírito Santo e Santa Catarina, todos com 24%.
No
outro extremo, Amapá, Amazonas e Roraima têm 15%. Acre, 16%. Pará, 17%.
O país
envelhece de forma desigual.
O Sul e
o Sudeste concentram não apenas mais idosos, mas também o crescimento mais
acelerado. Rio Grande do Sul avançou 11,2 pontos percentuais desde 2010.
Espírito Santo, 10,2. Minas Gerais, 9,8. Rio de Janeiro, 9,5. São Paulo, 9,1.
Santa Catarina, 9,1.
Nos
estados mais populosos, esse fenômeno ganha densidade política. Cerca de 16
milhões de idosos estão concentrados nos três maiores colégios eleitorais do
país. Ali, onde eleições se decidem por margens estreitas, o voto idoso deixa
de ser apenas relevante. Torna-se decisivo.
E, no
entanto, há uma incompreensão persistente no debate público contemporâneo. Uma
incompreensão quase arrogante.
Desprezar
o Facebook como “rede de velhos” é um erro estratégico. Um erro analítico. Um
erro sociológico.
Os
idosos estão mais presentes nas redes sociais do que os jovens quando se
observa o tempo de permanência diante das telas. Não apenas estão. Permanecem
mais tempo. Leem mais. Interagem mais. Compartilham mais. Têm mais
disponibilidade temporal para habitar esse espaço.
Enquanto
a juventude fragmenta sua atenção em múltiplas plataformas, em estímulos
rápidos, em linguagens breves, os idosos ocupam o tempo digital com outra
cadência. Com outra respiração. Com outro ritmo cognitivo.
Desprezar
textos longos é repetir o mesmo equívoco.
Os
idosos leem.
Leem
com atenção.
Leem
com memória.
Leem
com comparação histórica.
Leem
não apenas para consumir, mas para compreender.
Há,
nesse comportamento, uma dimensão antropológica. O tempo vivido produz outra
relação com a palavra. A leitura deixa de ser apenas informação. Torna-se
interpretação da experiência, reconstrução da memória, elaboração do vivido.
Do
ponto de vista psicológico, o envelhecimento reorganiza a percepção. Não
elimina a capacidade crítica. Em muitos casos, a aprofunda. Há mais prudência,
mais cautela, mais resistência a simplificações.
Politicamente,
isso se traduz em uma relação mais exigente com narrativas. O idoso não
responde apenas a slogans. Ele responde a coerência. A trajetória. A
consistência.
Sociologicamente,
estamos diante de um grupo que acumula capital simbólico. Experiência. Memória.
Vivência institucional. Capacidade de comparação entre ciclos históricos.
Esse
capital pesa. E pesa cada vez mais.
O erro
das campanhas está em subestimar essa densidade. Em tratar o idoso como
previsível. Como homogêneo. Como passivo. Nada disso se sustenta diante dos
dados.
O
eleitor idoso é múltiplo.
É
contraditório.
É
exigente.
É
decisivo.
Há,
nesse conjunto, presença contínua no tempo.
O jovem
entra e sai do sistema eleitoral. O idoso permanece.
Ele
acumula eleições.
Acumula
escolhas.
Acumula
decepções e aprendizados.
E
transforma tudo isso em voto.
Em
eleições decididas por menos de 2 milhões de votos, um contingente de 36,2
milhões de eleitores, com 21,6 milhões de votantes efetivos, não pode ser
tratado como detalhe.
É eixo.
É
estrutura.
É
fundamento.
O
Brasil de 2026 será atravessado por essa realidade. Os idosos não são apenas
uma categoria etária.]São uma força política em expansão.
São uma
chave interpretativa.
Ignorá-los
é abdicar de entender o país.
Subestimá-los
é abrir mão de disputar o futuro.
E há
algo mais. Há uma dimensão ética.
Valorizar
o voto dos idosos é reconhecer o tempo como elemento político. É reconhecer que
a democracia também é construída por quem permanece, por quem insiste, por quem
continua.
O voto
idoso carrega o tempo.
E o
tempo, quando entra na urna, pesa.
Pesa na
escolha.
Pesa na
decisão.
Pesa no
destino coletivo.
O
Brasil mudou.
Os
números mostram.
A
metodologia confirma.
A
realidade impõe.
E o
tempo, agora, vota.
Fonte:
IHU

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