Os
'defeitos' evolutivos que questionam ideia do 'design inteligente' do corpo
humano
O corpo
humano é frequentemente descrito como uma maravilha de "design
perfeito": elegante, eficiente e finamente ajustado à sua função.
No
entanto, ao observá-lo mais atentamente, surge um quadro bem diferente.
Longe
de ser uma máquina impecável, o corpo se assemelha mais a um mosaico moldado
por milhões de anos de experimentação evolutiva.
O
trade-off evolutivo, ou custo evolutivo, é um ganho que vem acompanhado de uma
perda ou limitação.
Ou
seja, a evolução não cria estruturas do zero; ela modifica o que já existe. E
consequentemente, muitos aspectos da anatomia humana são simplesmente soluções
"boas o suficiente": funcionais, mas longe da perfeição.
Alguns
dos problemas e doenças mais comuns surgem diretamente dessas limitações
herdadas.
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A coluna vertebral
A
coluna vertebral humana é o melhor exemplo disso.
Nossa
coluna evoluiu pouco desde nossos ancestrais quadrúpedes e arborícolas, onde
funcionava principalmente como uma viga flexível para movimentos suaves de
galho em galho, além de proteger a medula espinhal.
Quando
os humanos adotaram o bipedalismo, a coluna manteve essas funções.
Mas
também se adaptou à necessidade adicional de sustentar o peso do nosso corpo
verticalmente e manter nosso centro de gravidade, permitindo, ao mesmo tempo,
que tenhamos a flexibilidade necessária para nos movermos.
Essas
demandas opostas criam tensão.
As
curvaturas características da coluna humana ajudam a distribuir o peso, mas
também nos predispõem a dores lombares, hérnias de disco e alterações
degenerativas que afetam sua função mais importante: proteger a medula espinhal
e os nervos ao redor.
Essas
condições são extraordinariamente comuns, não porque a coluna seja
inerentemente defeituosa, mas porque desempenha uma função diferente da
atribuída originalmente.
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O pescoço
Outro
argumento claro contra um projeto divino é o nervo laríngeo recorrente, que
segue um trajeto que simplesmente não faz sentido ter sido inventado assim.
Esse
nervo, um ramo do nervo vago, controla principalmente as funções de repouso e
digestão de nossos órgãos (como a redução da frequência cardíaca e
respiratória).
O nervo
laríngeo também conecta o cérebro à laringe, ajudando a controlar a fala e a
deglutição.
Logicamente,
seria de se esperar que ele utilizasse a rota mais direta para conectar o
cérebro à laringe. Em vez disso, ele desce do cérebro para o tórax, contorna
uma artéria importante e então retorna à laringe.
Esse
desvio não é um projeto engenhoso, mas um vestígio histórico de nossos
ancestrais semelhantes a peixes, quando o nervo seguia um caminho direto ao
redor dos arcos branquiais.
À
medida que os pescoços se alongaram ao longo do tempo evolutivo, o nervo se
esticou em vez de ser redirecionado.
Essa
ineficiência pode aumentar nossa vulnerabilidade a lesões durante cirurgias.
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Os olhos
Até
mesmo nossos olhos refletem um custo evolutivo.
Em
humanos e outros vertebrados, a retina (a camada sensível à luz na parte
posterior do globo ocular) é conectada "de cabeça para baixo".
Isso
significa que a luz precisa passar por camadas de fibras nervosas antes de
chegar aos fotorreceptores, células especializadas responsáveis por detectar a
luz e convertê-la em um impulso nervoso que é enviado ao cérebro.
O nervo
óptico sai pela parte posterior da retina, criando um ponto cego logo abaixo da
linha horizontal do olho, onde a visão não é possível.
O
cérebro compensa essa deficiência perfeitamente, de modo que raramente a
percebemos.
Portanto,
embora tenhamos desenvolvido uma visão e células fotorreceptoras incríveis,
isso teve como custo uma lacuna em nosso campo visual.
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Os dentes
Nossos
dentes nos lembram mais uma vez que a evolução prioriza a aptidão em detrimento
da durabilidade.
Os
humanos desenvolvem duas dentições: dentes de leite e dentes permanentes, e só.
Uma vez perdidos, os dentes permanentes não são substituídos, ao contrário dos
tubarões, que regeneram seus dentes continuamente ao longo da vida.
Nos
mamíferos, o desenvolvimento dentário é rigorosamente regulado e está ligado ao
crescimento complexo da mandíbula e às estratégias de alimentação. Esse sistema
funcionou bem para nossos ancestrais, mas torna os humanos modernos vulneráveis
a cáries e à perda dentária.
Os
dentes do siso são outro exemplo de atraso evolutivo. Nossos ancestrais tinham
mandíbulas maiores, adaptadas a dietas mais duras que exigiam mastigação
intensa.
Com o
tempo, a dieta humana se tornou mais macia e o tamanho da mandíbula diminuiu.
No entanto, o número de dentes não mudou tão rapidamente. Muitas pessoas não
têm mais espaço suficiente para os dentes do siso, o que leva à impactação, ao
apinhamento e, muitas vezes, à necessidade de extração cirúrgica.
Os
dentes do siso não são inerentemente inúteis, mas não se encaixam mais
confortavelmente nos crânios modernos.
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A pélvis
O parto
representa um dos custos evolutivos mais profundos.
Assim
como a coluna vertebral, a pelve humana precisa equilibrar duas demandas
opostas: a locomoção bípede eficiente e o nascimento de bebês com cérebros
grandes.
Uma
pelve estreita facilita a locomoção, mas limita o tamanho do canal vaginal.
Por
outro lado, os bebês humanos têm cabeças excepcionalmente grandes em relação ao
tamanho do corpo, o que resulta em partos difíceis e, às vezes, perigosos, que
frequentemente exigem assistência externa.
Essa
tensão entre mobilidade e tamanho do cérebro moldou não apenas a anatomia, mas
também o comportamento social, fomentando o cuidado cooperativo e adaptações
culturais em torno do parto.
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Persistência evolutiva
A
evolução não elimina necessariamente estruturas, a menos que elas imponham uma
grande desvantagem. Portanto, algumas características anatômicas persistem
apesar de oferecerem benefícios limitados.
O
apêndice, antes considerado um vestígio evolutivo completamente inútil, agora
acredita-se que tenha funções imunológicas menores. No entanto, ele pode
inflamar e causar apendicite, uma condição potencialmente fatal.
Da
mesma forma, os seios da face têm funções que ainda não são totalmente claras.
Eles podem aliviar o peso do crânio ou influenciar a ressonância da voz, e
podemos até usar seu tamanho e variabilidade para identificação forense.
No
entanto, as vias de drenagem dos seios da face desembocam diretamente no nariz,
tornando-os propensos a bloqueios e infecções frequentes — um efeito colateral
do desenvolvimento, e não uma adaptação deliberada.
Até
mesmo os minúsculos músculos ao redor das orelhas oferecem pistas sobre nosso
passado evolutivo.
Em
muitos mamíferos, esses pequenos músculos permitem que a aurícula gire,
melhorando a audição direcional. Os humanos também têm esses músculos, mas a
maioria de nós não consegue usá-los de forma eficaz.
Nossos
corpos não são projetados para a perfeição; em vez disso, são um arquivo vivo
da evolução. A anatomia revela um registro histórico de adaptação, custo
evolutivo e contingência. A evolução não busca a perfeição; ela trabalha com o
que tem, modificando as estruturas passo a passo.
Compreender
a anatomia a partir dessa perspectiva evolutiva também pode nos ajudar a
repensar nossa visão sobre problemas médicos comuns.
Dor nas
costas, partos difíceis, dentes apinhados e sinusites não são infortúnios
aleatórios. São, em parte, consequências de nossa história evolutiva.
Fonte:
Por Lucy E. Hyde, para The Conversation

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