quarta-feira, 22 de abril de 2026

Teerã jamais vai ceder o controle do Estreito de Ormuz, afirma alto político iraniano à BBC

"Nunca." É quando um alto parlamentar iraniano afirma que eles estarão prontos para abrir mão do controle do Estreito de Ormuz.

"É nosso direito inalienável", disse Ebrahim Azizi, ex-comandante da Guarda Revolucionária Islâmica do Irã (IRGC), à BBC em Teerã. "O Irã decidirá sobre o direito de passagem, incluindo as permissões para que embarcações atravessem o Estreito."

E ele afirma que isso está prestes a ser consagrado em lei.

"Estamos apresentando um projeto de lei no parlamento, baseado no artigo 110 da Constituição, que abrange meio ambiente, segurança marítima e segurança nacional — e as forças armadas implementarão a lei", diz este parlamentar que preside a Comissão de Segurança Nacional e Política Externa.

À medida que cresce a preocupação com o fechamento desta via navegável estratégica, que causa choques econômicos cada vez maiores em todo o mundo, fica claro que esta não é uma crise de curto prazo que será resolvida em um dia.

A guerra deu a Teerã o que considera uma nova arma — Azizi descreveu o estreito que o Irã conseguiu transformar em arma durante este conflito como "um de nossos trunfos para enfrentar o inimigo".

Ele é uma figura-chave em um parlamento dominado pela mão de ferro. Azizi também reflete o pensamento de alguns dos principais tomadores de decisão que estão surgindo na nova ordem nascida desta guerra.

O conflito se tornou cada vez mais militarizado e dominado pela linha-dura, principalmente por parte da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês), após uma série de assassinatos de personagens de alto nível em ataques israelenses.

Teerã agora vê como vital a sua capacidade de controlar a passagem de tráfego marítimo, incluindo petroleiros e navios-tanque de gás essenciais, não apenas como moeda de troca nas negociações atuais, mas como uma alavanca de longo prazo.

"A primeira prioridade do Irã após a guerra é restaurar a dissuasão, e o Estreito de Ormuz está entre as principais alavancas estratégicas do Irã", explica Mohammad Eslami, pesquisador da Universidade de Teerã.

"Teerã está aberta a discutir como outras nações podem se beneficiar da nova estrutura iraniana para o estreito, mas o controle é o ponto crucial."

Mas esse é um futuro rejeitado por alguns dos vizinhos do Irã, já furiosos com os ataques sofridos por seus países durante as cinco semanas de guerra, que agora está em pausa devido a um frágil cessar-fogo temporário.

"Um ato de pirataria hostil" foi como Anwar Gargash, conselheiro diplomático do presidente dos Emirados Árabes Unidos, descreveu a situação em uma entrevista recente.

Ele alertou que, se o Irã se recusasse a abrir mão do controle dessas águas internacionais, criaria um "precedente perigoso" para outras vias navegáveis estratégicas do mundo.

"Eles são os piratas que venderam nossa região aos americanos", respondeu Azizi, referindo-se às bases militares americanas no Oriente Médio que, juntamente com outras infraestruturas, foram alvos frequentes de drones e mísseis iranianos. Os EUA, acrescentou ele, são "os maiores piratas do mundo".

"Sempre dissemos que precisamos trabalhar juntos para garantir a segurança de nossa região", enfatizou Azizi.

Essa visão foi frustrada para a maioria dos estados do Golfo, com exceção de Omã, um dos aliados mais próximos do Irã na região, que controla a costa sul do estreito. O país havia participado de discussões com Teerã no início deste mês para garantir o trânsito tranquilo e seguro de embarcações.

Também houve sinais de desacordos — cuja intensidade não está clara — dentro da elite militar e política do Irã.

Isso ficou evidente em uma recente e rara crítica, em termos contundentes, ao Ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, quando ele publicou uma declaração nas redes sociais na sexta-feira (17/4), afirmando que o Estreito de Ormuz estava "completamente aberto".

O presidente dos EUA, Donald Trump, respondeu imediatamente com um "OBRIGADO" em letras maiúsculas em uma publicação nas redes sociais.

Em poucos minutos, veículos de imprensa ligados à Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) repreenderam Araghchi.

A agência de notícias estatal Mehr afirmou que a publicação do ministro das Relações Exteriores "proporcionou a melhor oportunidade para Trump ir além da realidade, se declarar o vencedor da guerra e celebrar a vitória".

Outra agência de notícias, a Tasnim, descreveu a publicação como um "tweet ruim e incompleto que criou uma ambiguidade enganosa sobre a reabertura do Estreito de Ormuz".

Araghchi enfatizou que a hidrovia estava aberta apenas para navios autorizados pela Marinha da IRGC e por meio de rotas designadas que exigiam o pagamento de pedágios.

Azizi descartou qualquer impressão de desavenças dentro do regime. "Quando se trata de segurança nacional, não existem abordagens moderadas ou radicais."

O destino deste estreito será decidido nos escalões mais altos do Estado. É uma das questões centrais nas negociações de alto nível que, segundo relatos, devem ser retomadas em Islamabad, na terça-feira (21/4), após uma primeira rodada de negociações presenciais históricas que também ocorreu na capital paquistanesa no último fim de semana.

Trump disse que enviaria uma delegação que, segundo informou à BBC um funcionário da Casa Branca, será novamente chefiada pelo vice-presidente dos EUA, J.D. Vance.

As autoridades iranianas ainda não se pronunciaram sobre se sua própria equipe, liderada pelo presidente do parlamento, Mohammad Bagher Ghalibaf, retornará ao Paquistão. A mídia local relata que o Irã não participará enquanto o bloqueio americano aos portos iranianos permanecer em vigor.

Trump ordenou repetidamente ao Irã que abrisse esse corredor marítimo, inclusive em uma postagem repleta de palavrões nas redes sociais em 5 de abril, na qual alertou que o Irã "viveria no inferno" se não cumprisse sua ordem.

Ele agora acusa Teerã de tentar "chantagear" os EUA.

"Não espero muito de um homem que distorce a verdade", debocha Azizi. "Estamos apenas defendendo nossos direitos diante da chantagem americana."

Como muitos iranianos de alto escalão, ele frequentemente rebate Trump com postagens sarcásticas nas redes sociais. Suas provocações evidenciam como eles desfrutam de acesso à internet internacional, que é negado à grande maioria dos iranianos no quase total apagão digital em vigor há várias semanas.

Azizi, cuja pasta parlamentar também inclui segurança nacional, não quis dizer quando esse bloqueio digital seria suspenso, apenas enfatizou: "Quando for seguro, suspenderemos para que o inimigo não se aproveite".

Também o questionei sobre as recentes ondas de prisões e o que grupos de direitos humanos, incluindo a Anistia Internacional, consideram dezenas de sentenças de morte proferidas contra manifestantes detidos durante os protestos nacionais de janeiro, que foram reprimidos com força letal e mataram milhares de pessoas. Diversas execuções, inclusive de jovens, foram realizadas recentemente.

Azizi reiterou a alegação do governo de que as agências de espionagem dos EUA e de Israel (a CIA e o Mossad, respectivamente) estiveram envolvidas nos distúrbios.

Ele descartou a crescente preocupação entre alguns iranianos de que a segurança interna se tornará ainda mais rigorosa.

"Na guerra, mesmo em um cessar-fogo, existem regras", afirmou.

¨      Teerã ameaça retaliações após ter navio interceptado pelo EUA

Os Estados Unidos interceptaram um navio cargueiro de bandeira iraniana no Golfo Pérsico como parte do seu bloqueio naval, afirmou Donald Trump neste domingo (19/4).

O presidente americano escreveu em sua plataforma Truth Social que o Touska foi apreendido pela Marinha dos EUA após não atender a uma ordem de parada.

O anúncio veio depois que a Casa Branca confirmou que o vice-presidente dos EUA, JD Vance, lideraria outra delegação para uma nova rodada de negociações com o Irã no Paquistão sobre o fim da guerra.

Teerã ainda não confirmou sua presença. A mídia estatal iraniana informou que autoridades não participarão enquanto o bloqueio dos EUA permanecer em vigor.

"Hoje, um navio cargueiro de bandeira iraniana chamado TOUSKA, com quase 275 metros de comprimento e pesando quase o mesmo que um porta-aviões, tentou ultrapassar nosso bloqueio naval, e não deu certo para eles", escreveu Trump.

O alto comando militar iraniano declarou em um comunicado que os Estados Unidos violaram o cessar-fogo ao atirar contra navios mercantes iranianos nas águas do Golfo de Omã, desativando seus sistemas de navegação e abordando as embarcações com o envio de fuzileiros navais.

"As Forças Armadas da República Islâmica do Irã responderão prontamente e retaliarão contra este ato de pirataria armada da Marinha dos EUA", acrescentou o comunicado.

Nas redes sociais, Trump disse que os EUA haviam dado ao navio um aviso claro para parar, que foi ignorado. "Então nosso navio da Marinha os deteve imediatamente, abrindo um buraco na casa de máquinas."

"O TOUSKA está sob sanções do Departamento do Tesouro dos EUA devido ao seu histórico de atividades ilegais. Temos a custódia total do navio e estamos verificando o que há a bordo!"

O Comando Central dos EUA divulgou posteriormente imagens que, segundo eles, mostram um navio da Marinha interceptando um cargueiro. Nas imagens, é possível ver um canhão disparando na direção do cargueiro.

Na sexta-feira, Trump havia afirmado que o bloqueio naval aos portos iranianos continuará até que um acordo seja firmado entre os dois países.

Trump anunciou o bloqueio naval após a primeira rodada de negociações, no início deste mês, ter terminado sem acordo. Questões-chave, incluindo o programa nuclear iraniano e o controle do Estreito de Ormuz – uma importante rota de transporte de petróleo – permanecem em disputa.

No início do domingo, Trump afirmou que seus representantes chegariam ao Paquistão, que tem mediado as negociações entre os dois países, nesta segunda-feira. O cessar-fogo expira dois dias depois, na quarta-feira.

Um funcionário da Casa Branca disse à BBC que, além de Vance, a delegação incluiria os assessores de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, que também estiveram presentes nas negociações anteriores.

Mas a agência de notícias estatal iraniana IRNA afirmou que as notícias sobre uma segunda rodada de negociações com os EUA eram "falsas".

Acrescentou que o bloqueio americano, juntamente com as exigências "excessivas" e a retórica ameaçadora de Washington, "até agora dificultaram o progresso das negociações".

No entanto, os preparativos para novas discussões já começaram na capital paquistanesa, Islamabad.

Os hóspedes do hotel onde ocorreram as negociações entre as delegações dos EUA e do Irã no último fim de semana foram informados de que precisavam deixar o local, relatou o correspondente da BBC no Paquistão.

O primeiro-ministro do Paquistão, Shehbaz Sharif, conversou com o presidente do Irã, Masoud Pezeshkian, na noite de domingo, de acordo com um comunicado divulgado por seu gabinete. O comunicado não mencionou novas negociações entre o Irã e os EUA.

<><> Reviravolta

Durante a escalada da crise, o líder supremo do Irã, Mojtaba Khamenei, afirmou que as forças navais iranianas estão prontas para fazerem "os inimigos provarem o gosto de novas derrotas".

A mensagem foi divulgada no sábado por veículos estatais, por ocasião do Dia do Exército, mas não fez menção direta nem ao Estreito de Ormuz, nem às negociações com os Estados Unidos.

O Estreito de Ormuz permaneceu fechado no domingo, um dia depois de a Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) ter anunciado o fim da reabertura temporária em resposta ao bloqueio dos EUA, que, segundo a IRGC, violava os termos do acordo de cessar-fogo. O Irã afirmou que o estreito permanecerá fechado até que os EUA encerrem o bloqueio naval.

Cerca de 20% do petróleo e do gás natural liquefeito (GNL) do mundo são normalmente transportados pelo estreito. O número de navios que fazem a travessia diminuiu drasticamente durante o recente conflito, que provocou a disparada dos preços globais da energia.

Trump afirmou que o Irã não pode "chantagear" os EUA com ameaças relacionadas à hidrovia.

Ele ameaçou destruir todas as pontes e usinas de energia do Irã se Teerã não concordasse com um acordo de paz.

O fechamento do Estreito de Ormuz, ocorrido na manhã do sábado, foi realizado segundo autoridades iranianas, porque os EUA "não cumpriram sua parte" no entendimento mais recente, ao manter o bloqueio de navios com destino ou origem em portos iranianos.

Em comunicado, as autoridades classificaram o bloqueio americano como "pirataria" e "roubo marítimo".

A medida representa uma reviravolta em relação ao que havia sido anunciado poucas horas antes. Na sexta-feira, o ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi, afirmou que o estreito permaneceria "completamente aberto" para navios comerciais durante o período de cessar-fogo.

Minutos depois, Trump agradeceu a declaração, mas deixou claro que o bloqueio americano continuaria "até que um acordo com o Irã esteja 100% concluído".

A situação atual contrasta diretamente com o discurso da Casa Branca, que havia indicado uma normalização rápida do tráfego marítimo na região, e a troca de mensagens marcou o início de uma sequência de declarações desencontradas entre Washington e Teerã.

Na sexta-feira, o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, acusou Trump de fazer "sete afirmações falsas em uma hora" e indicou que, com a continuidade do bloqueio, o estreito não permaneceria aberto.

Dados do site de monitoramento MarineTraffic indicam que alguns petroleiros chegaram a cruzar o estreito nas primeiras horas do sábado. No entanto, após os novos anúncios, várias embarcações parecem ter alterado suas rotas. Um dos casos é o do petroleiro Minerva Evropi, de bandeira grega, que teria feito um retorno em direção ao porto de origem.

O Estreito de Ormuz é uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo, por onde passa uma parcela significativa do petróleo global. Qualquer interrupção no fluxo de navios na região tende a gerar volatilidade nos mercados internacionais.

A escalada ocorre em meio a negociações frágeis entre EUA e Irã. Trump afirmou recentemente que Teerã teria "concordado com tudo", incluindo a remoção de urânio enriquecido do país — alegação negada por autoridades iranianas.

O presidente americano também sugeriu que um acordo histórico com Teerã poderia estar próximo — avaliação que não se confirma com a nova decisão iraniana.

Para a correspondente internacional da BBC, Lyse Doucet, o cenário atual é marcado por uma "avalanche de declarações contraditórias", refletindo negociações ainda longe de um consenso.

Apesar da retórica intensa, não há, até o momento, sinais de confronto direto na região. Um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah no Líbano parece estar sendo mantido, o que pode ajudar a evitar uma escalada maior — embora incidentes isolados ainda tenham sido registrados.

No terreno, a situação interna do Irã também chama atenção.

Um apagão digital imposto pelo governo já dura 50 dias, segundo a organização NetBlocks, isolando o país da internet global. O acesso alternativo, via sistemas como o Starlink, tem custo elevado — cerca de US$ 6 por gigabyte — em um país onde o salário médio mensal gira entre US$ 200 e US$ 300. O uso dessas conexões pode levar a penas de até dois anos de prisão.

Ao mesmo tempo, o Irã começou a reabrir parcialmente seu espaço aéreo, com a retomada gradual de voos internacionais em partes do território, após semanas de fechamento devido aos ataques envolvendo forças americanas e israelenses.

O Conselho Supremo de Segurança Nacional do Irã afirmou que o país está "determinado a monitorar e controlar" o trânsito no Estreito de Ormuz até o fim definitivo da guerra e o estabelecimento de uma paz duradoura na região.

Segundo o órgão, isso incluirá a coleta de informações das embarcações, a emissão de certificados de trânsito e a cobrança de taxas.

 

Fonte: Por Lyse Doucet, da BBC News/ BBC Persa e equipes em todo o Oriente Médio

 

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